Última atualização: 03/06/2018

Capítulo Um

Fogo. Para todos os lados. Explosões ensurdecedoras eram a trilha sonora enquanto eu via tudo vermelho. Se era culpa do sangue ou do ódio, já não importava. Sangue de aliados e inimigos, e ódio daqueles que destruíam tudo aquilo que um dia eu pude chamar de lar.
Vi um de meus irmãos caído, sangrando enquanto gemia pela lança que havia atravessado sua perna direita na altura da coxa. Embora tentasse, Alvis nunca tinha sido bom com armas, era muito desastrado. Tentava em vão arrancar o metal da perna, desestimulado pela dor. Mas para sua sorte, hoje eu estava ali para salvá-lo.
Atirei minha espada com força, acertando a garganta do agressor, logo abaixo do pomo de adão. Um golpe de sorte, já que eu estava mirando no peito. Vi o sangue esguichando violentamente para todos os lados, praticamente cobrindo Alvis, enquanto o corpo caía em convulsões silenciosas. Contemplei os cabelos loiro escuros do meu irmão cobertos de sangue e suor.
- Alvis! Eu disse que não era uma boa ideia! - Ralhei com ele, que assistia o corpo à nossa frente. - Sabe que não é bom em batalhas. - Olhei ao redor, procurando possíveis agressores. - Vou pedir pra alguém te escoltar pra casa. Isso pode infeccionar!
- O que não é uma boa ideia é você, que recém virou uma adulta, correr por esses campos cheios de gente morta e tentando matar, !
Retirei minha espada do corpo que jazia logo abaixo dos meus pés, limpando a parte ensangüentada na barra da minha veste de batalha, não dando atenção a meu irmão mais velho. Sempre fui ágil com armas e tive apreço por estas, e ele não me impediria de lutar para proteger meu reino.
Minha terra, Alfheim, costumava ser um lugar calmo e sem muitos conflitos com os outros oito reinos. Em todo o tempo que estive viva, essa era a terceira guerra, mas claramente a de maiores proporções. Provavelmente foi nossa passividade que tingiu o desejo de Muspelheim por dominação. Éramos vistos como presa fácil por evitarmos guerras, mas sempre acreditei que nosso potencial bélico era grande. Ou pelo menos devia ser. Diplomacia nem sempre funciona.
Chamei dois soldados e ordenei que levassem meu irmão para casa, sob protestos dele. Minha mãe era mestra na arte médica, e aquilo seria tarefa fácil para ela. Dei-lhe as costas enquanto a escolta tentava levá-lo são. A cabeça de um príncipe seria um prêmio glorioso demais para que fosse deixada exposta.
- ! É Alvis que estão carregando? - Meu outro irmão, Eric, apontava uma flecha para alguém atrás de mim. Pude ouvir o som da linha estalando obediente enquanto ele disparava certeiro, entre os olhos do meu inimigo.
Eric, também meu irmão mais velho, e primeiro na linha de sucessão, provavelmente será rei, já que é ótimo guerreiro e bem intencionado. Alvis não se importa muito com isso, prefere levar uma vida tranqüila com todos os benefícios de ser príncipe, e eu, bem, não nego que por vezes desejei estar no lugar de Eric. Tinha medo de ser corrompida pelo poder, mas todos estamos sujeitos a essa chance.
- Sim, acertaram uma lança na perna dele. - Dei de ombros, procurando inimigos em potencial com a espada em punho. De nossa parte, a guerra era tanto estratégia como batalha. Posicionar-se em lugares sem movimento ajudava a acertar inimigos desavisados e diminuir o número para um confronto direto.
Eric dava tanta atenção ao fato quanto eu. Provavelmente quando chegássemos em casa Alvis não teria nem uma cicatriz no lugar onde havia sido atingido. Procurei por meus próprios cortes, os quais não eram tão fundos, mas latejavam intensamente, em especial no meu ombro esquerdo, que tingia a roupa de um vermelho escuro brilhante. Colei minhas costas às de Eric para aumentar o alcance da nossa visão.
O campo de batalha acalmava-se, mas ainda podiam ser ouvidos gritos agoniados de feridos, e provenientes de ataques surpresa. A noite chegava, e os soldados precisavam de uma trégua.
Ter uma princesa em confrontos diretos no campo de batalha é tão comum em nossa história quanto criar um pato como animal de estimação, mas isso não me impedia de tentar. Claro que os nervos do meu pai ficavam em frangalhos, e fui proibida, mas fugi várias vezes, incluindo algumas sem armadura, até que meu pai me tornasse parte do exército e guerreira de Alfheim. Hoje que presenciei o real efeito da guerra, me arrependo desses atos de irresponsabilidade.
Parecia pretensioso, mas já tinha a experiência de inúmeros anos de aula com minha espada, e não poderia assistir da janela sem agir. Dentro de casa eu era inútil, no campo poderia ser de alguma serventia. O que era bem melhor do que a outra função conhecida para as princesas: Casamento com fins de formar alianças políticas.
Com a trégua que normalmente se dava nos fins de tarde para que ambos os exércitos pudessem recolher seus mortos e feridos, observamos a destruição sendo escoltados para casa, com fins de evitar um ataque surpresa à monarquia. A desolação pairava quase que palpável pelo ar, sendo o choro do luto um hino de dor entoado por todo o caminho, nos lembrando o custo daquele circo.
O palácio permanecia, em sua grande parte, intacto, e quando chegamos ao salão principal Alvis já estava sentado em uma poltrona próxima à lareira, lendo um livro tranquilamente. Meus pais sentavam lado a lado no sofá oposto, discutindo possibilidades de forma alterada. Estratégias de guerra, provavelmente. Entreouvi que hoje perdemos um de nossos principais generais, e senti uma dor aguda no peito.
- Sabe que eles não nos negariam ajuda. E não acho que estejamos mostrando alguma fraqueza, só queremos acabar com essa guerra e sofrimento mais cedo. - Minha mãe usava aquele tom de voz suave de quando queria convencer meu pai a alguma coisa. - Eles sabem que ganharemos, só estamos tentando abreviar as coisas. E de que serve o pacto afinal, se não podemos contar com ele?
Mesmo que não contasse com a voz feminina, saberia que era minha mãe falando só pelas palavras escolhidas. Antes de casar-se ela era asgardiana, da alta nobreza, o que nos garantira uma aliança poderosa. A qual ela tentava desesperadamente convencer meu pai a invocar há alguns meses, sem sucesso.
- Querida, não quero abusar dos favores de seu reino. Vamos vencer, nossa estratégia é muito evoluída quando comparada à deles.
- É mesmo? E quantos de nós vão morrer no processo? Esse é meu reino.
Já fazia mais de ano que a guerra perdurava. Um tempo pequeno para deuses, claro, mas que estava atrasando meus estudos e minha formação como princesa. Meus pais mostravam-se constantemente preocupados com isso, afinal, sem a criação adequada, eu não teria um bom marido. A sociedade patriarcal me irritava.
- Está bem. - Meu pai cedia, exasperado, depois de alguns minutos de silêncio. Sabia que já perdemos soldados demais, e prezava pelo bem de seu povo acima mesmo do seu orgulho como rei. - Vou chamar a Heimdall.
Saiu da sala, o olhar derrotista. Sentei onde antes ele estava.
- Ele vai superar, querida. Vamos fazer com que tudo fique bem. - Minha mãe afagava minha mão procurando cortes e hematomas em meu rosto. O olhar em seu rosto empolgado por saber que a situação estava decidida a partir de agora.
Sorri para ela, mas demoraria até que tudo ficasse bem. Alvis fazia projetos de reconstrução da cidade, que sempre fora bem moldada, mas cada vez mais eles aumentavam de tamanho, e o orçamento crescia em progressão geométrica. Era visível que Muspelheim preocupava-se mais em destruir o reino todo do que em matar soldados e vencer a guerra, como uma estratégia de desestabilização. Eu não conseguia entender qual a utilidade em dominar um reino destruído.
Meus irmãos conversavam, ajustando o projeto de Alvis, enquanto tudo o que eu queria era um prato de comida quente e uma banheira cheia para eu submergir e só sair quando a guerra estivesse acabada. Aquilo era exaustivo, física e psicologicamente.
- Está feito, Eira. - Meu pai voltava à sala. - Asgard está enviando tropas agora mesmo via Bifrost. Odin parecia satisfeito em oferecer ajuda, e disse que já sabia da guerra há algum tempo, e estava acompanhando os progressos.
- Eles jamais iriam interferir sem que você pedisse, Sveinn. - Tentava esconder o orgulho de casa, sem sucesso.
Um dos mordomos do palácio interrompeu, avisando que a janta estava servida. Seguimos em silêncio, enquanto eu sentia meu estômago protestando.
A janta estava deliciosa, mas acho que diria a mesma coisa se me servissem serragem. A guerra deixava-me faminta, embora embrulhasse meu estômago constantemente. Após comer o suficiente, subi para um banho, deixando minha família lá e dispensando a presença de criadas. Etiqueta não era questionada em período bélico.
Minha cabeça fervilhava com a ideia de ter tropas de outro reino lutando conosco. Assim como meu pai, sentia o orgulho ferido, como se fôssemos crianças incompetentes e estivéssemos pedindo ajuda a um adulto. Em especial a ajuda de Odin, pai de todos.
Tínhamos relações estreitas com Asgard graças à família da minha mãe, a qual visitamos constantemente, principalmente quando eu e meus irmãos éramos menores. Minha mãe cresceu em meio a realeza, e mesmo depois da morte dos meus avós, continuamos visitando o reino para que ela pudesse falar com suas amigas. Meu pai aproveitava a oportunidade para manter os laços de diplomacia com Odin.
As lembranças corriam por minha mente agora, em um fluxo rápido e doloroso. Asgard era um lugar lindo, e tanto eu quanto meus irmãos adorávamos passear por lá. Nossos avós eram pessoas influentes, e sempre recebemos tratamento digno da realeza, principalmente por nosso sangue ser metade asgardiano. Fomos, inúmeras vezes, recebidos no palácio de Odin por ele e Frigga.
Lembrava perfeitamente da primeira vez em que pisei lá. Ainda criança, correndo pelo jardim, distanciei-me de Alvis, que tentava insistentemente manter-me parada ao seu lado. Ordens de nossa mãe, provavelmente. Em uma tentativa de esconder-me dele, escalei um apoio de folhagens e parei em uma sacada. Colei minhas costas à parede e me aproximei da porta para ver o que se passava dentro do cômodo.
Uma mulher alta, de cabelos loiros presos em um coque, que posteriormente descobri ser Frigga, abaixava-se até ficar da altura de um garoto de cabelos negros lisos. Parecia ter aproximadamente a minha idade, talvez um pouco mais velho, perto da idade de Alvis.
- Mas filho, você precisa descer. Sei que está chateado com seu pai, mas você sabe como ele é. Vai passar, meu querido.
- Não sinto a mínima vontade de ver visitas. - Ele falava como um adulto, o que me fez arregalar os olhos e chegar mais perto.
- Eu sei, mas se você for, e se comportar, prometo que lhe ensino uma nova magia. - Segurou os ombros da criança, sorrindo terna.
Pude ver o garoto suspirar e levantar-se da cama, saindo pela porta com a mãe, logo antes de ser pega por Eric. Alvis jamais conseguiria escalar aquilo sozinho. Levei uma bronca descomunal naquela descida arrastada.
Entramos como uma família normal naquele saguão, apesar da minha cara emburrada em meu vestidinho azul de laços e babados, combinando com meus cabelos acobreados. Sempre gostei de usar saias e vestidos, faziam-me sentir feminina. Meus irmãos portavam-se adequadamente, como os príncipes que eram, e eu os acompanhava em uma reverência à família, a qual foi retribuída.
A opulência do Palácio de Asgard era algo sem igual, então eu lembro de precisar manter meus olhos focados na família real para não parecer deslumbrada.
Fui apresentada oficialmente ao garotinho, o qual chamava-se Loki, e era dono de uma atitude arrogante. Timidez, como meus pais preferiam chamar. E logo ao lado de Odin, estava um garoto loiro que fez meu queixo deslizar alguns centímetros.
Trajava uma capa vermelha e tinha olhos infinitamente azuis. Sorriu para mim e eu me vi corando, o garoto de cabelos negros prestando atenção em meu semblante despreocupadamente, as sobrancelhas levantadas em um tom entre o deboche e a desaprovação.
Devolvi o sorriso ao garoto loiro, o qual posteriormente apresentou-se como Thor, príncipe herdeiro do trono de Asgard. Comparei-o com Eric e um arrepio perpassou minha espinha. Como Eric podia ser tão nojento em comparação ao asgardiano, que parecia enviado de um conto de fadas?
Os príncipes asgardianos eram diferentes em quase tudo. Aparência e atitudes os colocavam a certa distância. Eric permaneceu com meu pai, enquanto eu e Alvis fomos levados por Thor e sua personalidade expansiva para conhecer o palácio. Loki foi convidado, mas Odin pediu para que ficasse, o que fez com uma cara emburrada, mas sem contestar a ordem do pai.
Lembro-me de que não sabia como sorrir para Thor sem parecer uma idiota, e foi assim pelas próximas vezes em que visitei o palácio. Loki mantinha uma atitude distante, e só se pronunciava quando necessário, enquanto Thor era um ótimo anfitrião, zeloso com seu sorriso impecável.
Inevitavelmente, alguns anos mais tarde, me vi apaixonada por Thor, sorrindo como boba quando ele passava, e foi nesse contexto também que tive meu primeiro contato com Loki. O diálogo ainda era claro em minha mente, ecoando sempre em momentos impróprios para me deixar constrangida.
- Está gostando dele? - Loki me encarava. Estava escondida atrás de uma das grandes pilastras do palácio, enquanto observava Thor, já adolescente, manejando Mjölnir contra um amigo.
Tentei evitar o sobressalto ante a pergunta, sentindo o calor subir até a raiz de meus cabelos enquanto tentava ignorá-lo, observando a sobrancelha esquerda de Loki levantar-se como quem me analisava. A boca fina curvou-se em um sorriso, e ele tornou a falar.
- Com essa atitude, não preciso de uma resposta. - Deu-me as costas, enquanto eu alisava a barra de meu vestido verde insistentemente, tentando esconder minha timidez enquanto odiava a cor que me cobria.
Desde que conheci Thor queria usar um vestido vermelho, que combinasse com sua capa, mas minha mãe insistia que a cor não combinaria com meus cabelos.
- Thor não gosta de garotas fracas. - Tornou a andar para longe, deixando meu queixo no chão por alguns segundos.
Novamente escondi meu corpo atrás da grande pilastra, agora que Loki estava afastado, e girei meu rosto bem em tempo de perceber uma coisinha pequena correndo na direção de Thor. Era na verdade uma garota, em um vestido rosa bufante, que esvoaçava junto com seus cabelos loiro-platinados.
- Thor, por que fez isso? - Dava um tapa no ombro do loiro. Estufei o peito, sentindo-o encher-se de algo novo. Ciúmes de atenção, talvez?
- O que foi, Tyra? - Sorria docemente para ela, apoiando a mão grande em sua cabeça pequena.
- Esse vestido rosa. Frigga disse que foi você quem escolheu.
- Mas você fica bonitinha, irmãzinha.
Me vi suspirando aliviada, quando Loki espremeu-se do meu lado, atrás da pilastra.
- O que você tanto olha afinal? - Senti seu ombro colar-se ao meu enquanto esticava a cabeça para observar. - Pra mim, parece que eles estão fazendo a mesma coisa há horas. Já devia estar cavalgando, mas assistir seu sofrimento me diverte.
A garotinha loira protestava avidamente enquanto Thor ria, seu amigo sentado no chão descansando, como se a cena se repetisse todos os dias.
- Vocês tem uma irmã? - Olhava para Loki chocada. Já devia ser mais do que a vigésima vez que visitávamos Asgard, e eu nunca tinha conhecido a irmã deles.
- É complicado, mas não é nossa irmã de verdade. Chegou aqui há pouco menos de um ano, e Thor a adotou completamente. - E essa foi, provavelmente, a vez que Loki foi mais educado comigo em todas as visitas.
Suspirei outra vez, sorrindo. Loki demorou-se um tempo observando-me, mas eu não esperava um tratamento carinhoso da parte dele. Era sempre frio e distante, ácido quando havia insistência.
Naquela noite conheci Tyra, uma garota de personalidade forte que havia perdido os pais, soldados de Asgard. Como a mãe de Tyra era próxima de Frigga, e o pai da garota um general de muitas honras, ela estava sendo criada no castelo. Não tinha o título de princesa, e nem título algum na verdade, fora as condecorações de seu pai, mas Thor parecia nutrir um carinho enorme por ela.
Adormeci em meio a esses pensamentos e lembranças, sentindo vontade de ter uma irmã com quem pudesse dividir minhas coisas de menina. Às vezes era difícil ter dois irmãos mais velhos, então eu e Tyra dividimos algumas experiências em minhas visitas posteriores. A admiração que ela demonstrava por Thor era enorme.
Acordei com uma explosão, e levantei ainda cansada das batalhas que não acabavam nunca, sabendo que o alvoroço que se dava no andar abaixo era devido à chegada dos soldados asgardianos. Vesti minha armadura e prendi meus cabelos em um rabo de cavalo, preparada para ver o sangue de Muspelheim escorrer em minha terra.
Ao descer as escadas e caminhar até a mesa com o café da manhã, vi aquela figura de costas. Loiro com o cabelo na altura dos ombros, trajando uma capa vermelha que eu jamais deixaria de reconhecer. Odin havia mandado seu próprio filho à batalha?
- ? - Thor virou-se ao ouvir os passos, e abriu o costumeiro sorriso ao me ver, o qual eu retribuí de imediato, involuntariamente. Era como se o sol do verão iluminasse o aposento em cada aspecto.
Não nutria mais aquele amor infantil por ele, mas ainda o via como alguém muito querido. Seu sorriso fez meu peito aquecer rapidamente.
- Thor! Quanto tempo não te via! - Caminhei até ele e trocamos um longo abraço. Ainda não conseguia parar de sorrir bobamente. - Veio para apresentar as tropas? - Duvidava um pouco que Odin mandaria seu filho ainda tão jovem sozinho à uma batalha como a que estávamos vivendo em meu reino.
- Não, . Vim para lutar ao lado de vocês. - Abriu um novo sorriso. - Espero honrar-te. E obrigada por me receber em sua casa. - Segurava meus ombros com afinco.
Thor era infinitamente educado, mas não formal em excesso, o que as vezes me deixava meio sem jeito.
- É um príncipe, o mínimo que podíamos fazer é receber-te aqui em casa. Espero que tenha o melhor tratamento possível. - Ofereci a mesa do café.
Comemos e saímos juntos, Thor um pouco assustado ao saber que eu lutava ao lado dos soldados. Já havia me visto treinar, mas apenas quando era criança ou adolescente e obviamente desastrada. Sempre fui muito ágil, mas aprender a manusear armas pesadas levou algum tempo. Como era apaixonada por ele, nunca o chamei para uma batalha. Tinha medo de perder e passar vergonha, ou de vencer e ele acabar me odiando. Ri sozinha com a lembrança.
Thor era um lutador exímio, o que eu pude ver apenas em cenas cortadas, já que os soldados estavam atacando com força essa manhã. Um vilarejo foi incendiado, e era lá que estávamos. Mães corriam assustadas com seus filhos no colo, sendo guiadas por soldados de Alfheim até um lugar seguro. Defendi as que pude, mas algumas acabaram sendo mortas, o que juntava ainda mais ódio em meu peito, e algumas lágrimas em meus olhos. Vidas civis não podiam ser perdidas, doía o jeito com que se esvaiam, apenas por pura maldade dos soldados.
Meses dessa rotina seguiram, e eu e Thor criamos uma afinidade imensa em batalha. Trabalhávamos bem juntos, muito melhor do que eu havia trabalhado com Eric. Tínhamos estilos de luta diferentes, mas não competíamos. Eric, por sua vez, tentava me resguardar atrás de si o tempo todo, gritando ordens em proteção. Particularmente, via isso como falta de confiança em minhas habilidades.
Quando a guerra já tinha duração de dois anos e nove meses, a população de Muspelheim estava quase dizimada. Eram insistentes nos ataques, mas não tinham uma boa estratégia. Mandavam soldados despreparados, e não curavam os feridos. Faziam treze meses que Thor morava conosco, e ajudou meu pai e Eric a fazerem um acordo de fim de guerra usando o peso do nome de Asgard.
Pelo menos agora os outros seis reinos viam que nosso potencial bélico era de fato invejável, e que tínhamos uma aliança forte com Asgard. Eu ouvia constantemente os comentários de que Odin havia mandado até seu primogênito para lutar, por mais de um ano.
Levamos algumas semanas para reestruturar o regime, mas ainda assim o choque e terror eram constantes na rotina. O pós guerra podia ser tão aterrorizante quanto o próprio período.
- À vitória! - Disse Thor, trazendo-me uma caneca de bebida alcoólica ainda não identificada. - Agarrei-a com minha mão esquerda, usando a direita para acostar a espada em sua bainha.
- À vitória, meu querido Thor. - Brindamos, animados. Nossa relação de proximidade era intensa, muito mais do que a que nutria com Eric ou Alvis. Thor era o irmão que eu havia desejado nos dois, que não me subestimava e me ensinava táticas de guerra sem se preocupar se eu gostaria de testá-las mais tarde. Também tinha o fato de que eu não concorria com ele pelo trono.
Sabia que não havia maldade nas atitudes de meus irmãos, apenas superproteção. Afinal, além de tudo, eu ainda era a grande chance de aliança política bem sucedida para quando a guerra acabasse.
Brindamos mais algumas vezes, e eu já me sentia tonta pelo álcool fluindo em meu corpo quando sentamos para a refeição.
- Aposto que eu consigo comer essa coxa de faisão mais rápido que você. - Thor bateu o ombro contra o meu, sorrindo.
- Não tenha tanta certeza, príncipe!
Agarramos cada um uma das coxas do faisão e começamos a morder rapidamente. Senti meu rosto gorduroso em todos os lados, enquanto engolia a comida inteira para tentar vencer. Os soldados à nossa volta gritavam em incentivo, mas minha mãe não viu a coisa da mesma maneira.
- Cadê sua educação, ? Que modos horrorosos.
Baixei a coxa em um sorriso constrangido por estar levando um esporro na frente dos outros. Notei que até o momento tinha comido mais que Thor, então possivelmente iria ganhar.
- Precisamos resolver esse problema da sua educação! Não vejo nenhum príncipe se interessando por uma princesa que come desse jeito, e essa quantidade! - Andou para longe pisando irritada, as mangas bufantes do vestido esvoaçando.
- Eu me casaria com você. - Thor tentou amenizar a situação, fazendo minha mãe estacar onde estava por um ou dois segundos, antes de voltar a andar com uma leveza que eu não via há algum tempo.
- É o mínimo que esperaríamos, Thor, depois de incentivar esse tipo de atitude horrenda. - Ouvi a voz distante de minha mãe, já no corredor, e em seguida gritos e risos dos soldados nos soterraram.
Quando saímos para o desfile real, eu ainda estava envergonhada o suficiente para não conseguir olhar nem para Thor, nem para minha mãe. Fui cumprimentada por muitas pessoas do reino, agradecidas. Recebi flores, presentes, e elogios com reverências.
- Princesa, quero lutar como você um dia! - Dizia uma garotinha de uns oito anos. Não era a primeira vez que eu ouvia aquilo naquele dia, e minha resposta foi a mesma das outras vezes.
- Se tivermos sorte, nunca mais precisaremos lutar. - E um sorriso bondoso. As mães adoravam.
Desde criança aprendi a manter as boas relações com o povo, e isso me fazia feliz. As pessoas respeitavam a monarquia que as tratava bem, e buscavam sua felicidade. Cumprimentei mais algumas pessoas na volta, com muita vontade de entrar e tomar um longo banho.
- Acho que ainda tem gordura de faisão no meu cabelo. - Sussurrei para Thor, que já estava pronto para entrar no palácio.
- ! - Minha mãe chamava. Assim que os civis a viram, trataram de a ovacionar. Ela sorria e acenava, emocionada, enquanto agradecia. - , Thor. - Tornou a chamar.
Caminhamos lado a lado até ela, batendo nossos ombros em tentativas falhas de nos empurrar para fora do caminho. Falhas para mim, ao menos.
- Com o acordo selado, teremos uma festa essa noite. Sugiro que vocês se arrumem. - Sorria bondosa, porém fixando os olhos no lugar onde eu achava ter gordura em meu cabelo. - A realeza de Asgard virá, bem como alguns nobres.
Vi o sorriso de Thor alargar-se ante a possibilidade de ver seus iguais. Entendo que esteja morrendo de saudades, em sua situação, eu não estaria diferente. Quando fiz menção de mover meu corpo, segurou-me pelo ombro.
- Você honra o sangue asgardiano que carrega. Estou muito agradecido por ter me dado a oportunidade de lutar ao seu lado, .
Sorri em resposta. Ele sabia que eu sentia o mesmo, mas estava cansada demais para criar uma frase, de modo de acenei veementemente com a cabeça. Subi até meu quarto, e após entrar demorei-me um pouco na janela. Senti meu sorriso sumindo pouco a pouco. O cenário era desolador. Destruição em massa era um apelido carinhoso para o que havia acontecido em Alfheim. Prédios públicos eram ruínas, e a última biblioteca ainda ardia em chamas incontroláveis. Casas populares restaram, porém não intactas. Grande parte do povo estava em abrigos seguros, e alguns nobres residiam agora no palácio. Suspirei longamente prevendo o tempo que aquilo levaria até ser reconstruído, e a vida voltasse à normalidade.
Tomei um banho demorado, tomando um cuidado especial com meus cabelos que andaram tão abandonados. Eram bonitos, ondulados e com volume, e eu já não detestava tanto a cor de cobre por não combinar bem com vermelho. Estava distraída e relaxada na água quente, mas não deixei de notar três breves batidas na porta.
- Senhorita? - Reconheci a voz como sendo de Auda, minha dama de companhia. - Posso lhe ajudar com as vestes?
- Claro, Auda. Só um minuto.
Eu ainda não havia escolhido nada para vestir, ou como arrumar meus cabelos, mas Auda fazia isso com perfeição desde quando eu era criança. Ela era de família nobre, como todos os servidores da família real.
Quando sai do banheiro notei um vestido verde água, em tom muito claro sobre a cama. Era bonito, com um corset trançado na cintura e esmeraldas pequenas e grandes, bem lapidadas adornando o busto. O tecido era leve, quase transparente, demandando várias camadas, com arabescos bordados em fio dourado champagne, e solto na saia longa, com algumas aberturas que favoreciam minhas pernas bem torneadas pelos exercícios diários.
- Foi escolha de sua mãe, senhorita. Devo trocar?
- Não, Auda. - Lancei-lhe o que intencionei ser um sorriso doce. - É lindo.
Ela sorriu em resposta, empolgada, e me ajudou a vestir e apertar o corset até que minha cintura parecesse minúscula. Estava magra, devido às batalhas intensas, e precisaria ganhar algum peso para que voltasse a ter o corpo curvilíneo de sempre. O vestido servia como uma luva, revelando um pouco do busto farto. Herança de família, eu acho.
Sentei-me na cadeira em frente ao espelho para que Auda pudesse arrumar meus cabelos. Passou algumas misturas hidratantes a fim de tentar recuperar os fios, e cortou as pontas que cresciam disformes. Por fim a ondulação de que eu tanto gostava voltou, e a cor parecia renascida. Sentia-me linda ao encarar o espelho. Pode ser futilidade, mas gostava muito de vestir coisas bonitas e parecer bem arrumada.
- Obrigada, Auda. Está tudo maravilhoso.
- Tudo para a princesa. - Fez uma reverência, carinhosa.
Desci as escadas silenciosamente, ainda feliz por poder vestir-me como uma garota novamente, e não apenas com as armaduras. Ouvi as vozes de meu pai e Odin na sala ao lado, trocando felicitações acaloradas.
- Eu que agradeço por deixar Thor lutar. Sempre foi inconseqüente com os males que uma guerra pode causar. Estar em um campo de batalha certamente trouxe amadurecimento à ele. - Parecia uma resposta pronta, mas para ele ter mandado o filho para outro reino por quase um ano deve ser verdade.
Sorri sozinha. Thor tinha uma empolgação enorme para as batalhas, e notei que havia realmente amadurecido. Ver o terror estampado no rosto dos civis e não só dos inimigos tem esse tipo de poder. Fora a destruição do meu reino, um preço caro demais para se pagar por mera inconsequência.
- perdeu tanto tempo... - Ouvia meu pai falando. - Nas batalhas, eu digo. Não estudou adequadamente, não aprendeu nada que não fosse como melhor empunhar uma espada. Descuidou-se de seu rosto e corpo, e não parece mais tão feminina.
Olhei-me dos pés a cabeça, preocupada que estivesse parecendo algo estranho que não eu mesma. Lembrei da imagem do espelho e neguei com a cabeça, tornando a sentir-me normal. Meu pai retomou a conversa, o mesmo tom dramático presente.
- E agora, com o reino destruído, provavelmente levará ainda mais tempo para que ela possa voltar à sua vida. Não temos professores, ou bibliotecas. Nem ao menos poderei instruí-la a batalhar melhor, ou a aprender a tocar algum tipo de música, porque estarei ocupado em missões de restauração do poder e diplomacia.
- Nunca arrumará um marido. - Minha mãe completava, a voz pesarosa. - Até os modos dos soldados está tomando.
Senti meu rosto contorcer-se em uma careta, enquanto Thor juntava-se a mim na escada. Quem disse que eu ao menos queria arrumar um marido? Na verdade até queria, mas não agora, e muito menos desse jeito.
- Ora, temos uma dívida com vocês por toda a educação dada a Thor. Por quê não a deixam estudar em Asgard, por um período? - Odin sempre diplomático. Eu podia sentir em seu tom de voz que o rei sabia ter feito um favor a Alfheim, mas insistia em dizer o contrário. - Até que consigam reconstruir seu reino, ao menos. Frigga é ótima instrutora, e além dela o corpo docente real é de extrema qualidade.
Thor sorria pra mim ao ouvir a proposta, que não consegui esboçar uma reação digna. Estava preparada para ajudar na reconstrução do meu reino, coisa que devia ser tarefa de Eric, para garantir sua popularidade, mas eu tinha esperança de virar o jogo. Ele que procurasse o casamento por aliança política.
- E digo mais, acho a proximidade dela e Thor muito conveniente. - Ouvia-se a voz de Odin, seguida de largos risos dele e de meu pai. - O garoto tem uma tendência a cair pelas plebéias, algumas até mesmo mortais, fico feliz que não o faça dessa vez.
Senti meu rosto corar violentamente, o calor emanando pelo meu pescoço e mãos, e quando olhei para Thor, parecia estar na mesma situação, mas podia ser reflexo de sua capa.
- Se é assim, está feito. morará em Asgard pelo tempo que lhes for conveniente. - Era a sentença final de meu pai. Como de costume, sem me consultar por acreditar que fazia o bem a quem não podia se defender sozinha. Uma guerra não mudara o pensamento arcaico. - Mais uma vez, agradeço por estarem nos oferecendo essa oportunidade, e cito que acho a proximidade deveras conveniente, também. - Houve uma pequena pausa. - Agora vamos às comemorações! Mais uma taça de hidromel, Odin?


Capítulo Dois

Assim, sem nem ao menos me consultar? A hipótese era boa, claro, mas não queria ter minha opinião menosprezada. E se eu preferisse ficar, e não quisesse arrumar um marido nunca? Ou ainda, se não me importasse em aprender a tocar algum instrumento, ou batalhar melhor? Já me achava boa o suficiente nisso, e aposto que muitos habitantes (ou ex-habitantes) de Muspelheim concordavam.
Fui impedida por Thor de descer as escadas ferozmente. Sabia que ele percebeu minha expressão furiosa, e não me deixaria fazer nenhuma besteira.
- Não é ruim, sabe. Asgard é um bom lugar para se viver. - Mostrava um olhar compreensivo. - Entendo que queira ficar e ajudar seu povo, mas o fará melhor depois que for qualificada para isso. - Acariciava meu ombro carinhosamente, como Alvis ou Eric faziam quando eu era criança e não conseguia o que queria.
Sorri para ele sem mostrar os dentes, resignada, sabendo que desejava o melhor pra mim. Thor era íntegro, isso era palpável cada vez que olhava pra ele. A raiva porém permanecia enroscada em minhas entranhas, queimando para sair por minha garganta.
Ecoaram risadinhas femininas de minha mãe e Frigga, que estavam paradas ao pé da escada. Esgueiraram-se sem que nós tivéssemos tempo para perceber, e pareciam muito animadas. Loki, o irmão de Thor, estava encostado displicentemente no portal que levava à sala de jantar principal, mirando os olhos verde brilhantes para nós, a expressão emburrada e as sobrancelhas arqueadas em uma clara imagem de quem era. Eu e Thor sabíamos que todos eles estavam entendendo tudo errado. Trocamos um olhar de cumplicidade pensando na melhor maneira de explicar tudo a todos.
Preparamo-nos, porém, antes que pudéssemos tomar qualquer atitude, uma coisa pequena entrou correndo, esvoaçando pela porta, subiu as escadas em um grito, e jogou-se contra Thor, apertando seu pescoço com força. Eu não precisava ver o sorriso que o loiro me lançava para saber de quem se tratava: Tyra.
A garota trajava um vestido rosa bebê, acentuando na cintura. Tyra havia crescido muito bem. Da última vez que a tinha visto, ela não passava de uma criança muito magra, louca para empunhar uma lança. Claro que Thor não a deixava chegar perto de nada que tivesse uma ponta afiada.
- Olha só, escolhi a cor pra você. - Corava, mostrando o pano da saia do vestido.
- Senti saudades, Tyra.
Trocaram um novo abraço, apertado, carinhoso. Thor sorria pleno, e acho que conseguia ver todos os dentes de Tyra. Sorri involuntariamente ao ver a cena.
- Se tivesse que passar mais um dia com Loki ia morrer, Thor, você tem ideia disso? - Dizia em uma voz chorosa. O príncipe mais novo voltou seus olhos para o chão, soltando um suspiro indignado. Cruzou os braços e tornou a exibir seu olhar sério, arrogante, de quem esperava que a casa pegasse fogo à qualquer momento.
Thor deu uma gargalhada gostosa, voltando os olhos para Loki.
- Senti sua falta, irmão. - A voz era suave, quase cautelosa.
- Eu não. - Resposta ríspida. Jogada para fora da boca sem cerimônias, e uma nova expressão superior. - Preferia que ficasse mais. - Sorriu de lado. - Ou nunca mais voltasse.
- Loki! - Frigga intervinha na situação. - Thor querido, todos sentimos sua falta. Todos. - Olhava especialmente para Loki, que suspirava, resignado, quase como se não fôssemos dignos de suas palavras.
O respeito que Loki nutria por Frigga era imenso. Ela era a única pessoa que eu havia visto receber um sorriso sincero dele, e havia pouco atrito naquela relação. Contrariamente a Odin.
- E aí, cuidou bem dele? - Tyra sorria pra mim, as mãos ainda agarradas ao braço direito de Thor. - Acho que ele está mais magro. - Disse cutucando displicentemente suas costelas.
Sempre tivemos uma relação boa, trocando algumas cartas e tudo mais. Tinha poucas amigas, mas sabia que podia considerar Tyra uma delas, apesar da nossa diferença de idade.
- Não se preocupe, acho que ele comeu até demais.
Rimos juntas, seguidas por Thor, que aparentemente não queria discutir. Eu tinha certeza de que se fosse Loki ali, ele nos lançaria um olhar arrogante e desceria as escadas sozinho depois de uma resposta mal educada.
Segurei no braço livre de Thor e descemos as escadas, os três. Cumprimentei devidamente Odin e Frigga quando desci, e caminhei até Loki, não sabendo muito bem como me portar perto dele. Lançava-me um olhar intimidador, como quem dizia que eu era insolente só por existir. Porém, inversamente ao que eu esperava, curvou seu corpo, sem abaixar a cabeça ou tirar o olhar do meu, e depositou um beijo delicado nas costas da minha mão.
- É um prazer rever-te, Princesa.
- O prazer é meu, Loki de Asgard.
Como a atitude fora totalmente inesperada, eu não tinha ação alguma. Nem ao menos chamei-o de príncipe, como merecia. Curvou os lábios finos em um sorriso, sem tirar os olhos infinitamente verdes dos meus, de igual cor, mas nem de longe tão marcantes. Ao parar para observar tão de perto, podia notar a beleza daqueles olhos, misteriosos, e daquele sorriso que era como uma barreira para o que quer que se passasse dentro daquela cabeça.
- Venha, alteza. - Um dos soldados que fazia a guarda no palácio interrompia com um tom de delicadeza. - Odin a espera, e acredito que sabe que está falando com um criminoso condenado, não?
Olhei do soldado para Loki crente de minha expressão chocada.
- Tome cuidado com suas palavras, é do príncipe de Asgard que está falando, soldado! - Outro militar, porém, este sendo parte da guarda real de Asgard, repreendeu o primeiro.
- Sabe que ele devia estar trancado naquela prisão, não sabe?
Pensei sozinha que tipo de erro merecia a prisão asgardiana.
A mera menção ao erro de Loki fez com que o casal real asgardiano iniciasse uma discussão sussurrada, mas cheia de raiva e mágoa, a qual Loki assistia com um meio sorriso no rosto. Era visível que estava preparado para defender a mãe caso necessário, mas apreciava o caos que causou.
Meus pais interromperam educadamente, chamando-os para o jantar. Pareceram voltar ao foco, enquanto eu não conseguia tirar os olhos de Loki. A atitude misteriosa e quieta dele parecia justificada, mas arrependimento não podia ser visto em lugar nenhum.
Comemos em meio a uma conversa animada, quando fui informada oficialmente daquilo que já sabia: Passaria uma temporada em Asgard. Comemorei com Thor e Tyra, temendo exalar um ar falso porque sentia um grande peso na consciência por não poder ajudar meu reino agora que ele mais precisava. Lembrei da expressão das mães e pais correndo com seus filhos nos braços, ávidos para dar sua vida no lugar da das crias e instantaneamente tentei tirar aquilo da cabeça, com pouco sucesso.
Após a janta nos foi orientado que deveríamos nos dirigir até o salão onde a grande comemoração aconteceria, mas estava tão confusa e cansada que esgueirei-me até uma das varandas, observando o vasto jardim real, com pedaços de grama faltando e a água do lago já negra pela noite.
- Não tem chance alguma de ascensão, não é? - Ouvi uma voz levemente arrastada atrás de mim. - Por isso concordou em ir para Asgard.
Virei meu corpo em um salto, observando Loki parado a alguns poucos centímetros de mim. Instintivamente colei meu corpo ao balaústre atrás de mim. Sua presença me intimidava, mas eu jamais admitiria, portanto tratei de colocar uma expressão forçadamente relaxada em meus ombros.
- O que quer dizer? - Na verdade, eu sabia exatamente as intenções de Loki com aquela frase, mas precisava ganhar algum tempo para raciocinar devidamente.
- Com dois irmãos à sua frente, sua chance de governar é nula. A não ser que se case com um príncipe. - Lançava-me um sorriso de canto. - Parece ainda melhor se ele for loiro, forte, e de olhos azuis, não?
Sentia o calor característico em minhas bochechas, indicando que estava ficando corada.
- Está entendendo tudo errado. - Respondi apenas, colando meus braços ao balaústre como se pudesse ser parte dele.
- É claro que estou, princesa. - Seu tom era irônico e ameaçador ao mesmo tempo. - É amor puro, não é? Inocente, nascido logo após a guerra. Imagino quantas pessoas não descobriram que se amavam em Midgard, aquela raça inútil. - Lançava um sorriso ácido para o chão, seguido de uma expressão de raiva.
- Midgard? - Repeti. - Houve uma guerra em Midgard?
Levantou uma sobrancelha e riu, incrédulo, sua expressão acentuada à meia luz do ambiente.
- Não notou a falta de seu amado Thor por alguns dias durante a guerra? Creio que não é um amor tão forte quanto eu havia pensado...
Levei um segundo ou dois, para ligar a ausência de Thor à possível guerra em Midgard. Sempre achei que estava em Asgard, resolvendo questões políticas ou visitando Tyra. Acho que não conversávamos tanto assim, ou eu era egoísta, jogando meus problemas acima de todos os outros.
- E então, o que houve? - Sabia que a única chance de ganhar seu respeito era falando de igual pra igual com ele, então levantei meu queixo e minha voz.
- Decidi viajar à Midgard e dar um pouco de diversão àquela raça. - Deu de ombros, consciente de suas ações mas não se sentindo culpado. - Algumas pessoas entenderam que isso era um crime, apesar de eu afirmar que seria um rei bondoso às criaturas. - Abriu um sorriso venenoso, o qual não pude deixar de encarar por um ou dois segundos. - Humanos precisam ser governados.
O deus era lindo. Não era dotado de uma beleza comum, costumeira. Podia-se ver o mistério nos olhos verdes e no sorriso ácido. Trajava uma armadura verde e dourada, provavelmente destinada às festas de guerra asgardianas, como era aquela comemoração. Retomei a consciência em um segundo ou dois, evitando que ele percebesse meu deslize.
- E como a guerra acabou? - Respondi simplesmente, em um meio de continuar a conversa. Por um motivo ou outro, apesar de ser quem tomou a iniciativa, o deus parecia arredio em conversar comigo.
- Fui capturado por criaturas inúteis. - Deu de ombros. - Odin não acha interessante que eu tenha um trono, onde quer que seja.
- Odin, quer dizer seu pai?
- É, ou isso. - Tornou a sorrir, sarcástico. - Raciocínio bom o seu, não?
Por fim havia entendido o início de nossa conversa. Loki tinha tanta chance de ascensão quanto eu. Sorri com a ideia, sentindo-me menos mal por cobiçar aquilo que não podia ter.
- Estão procurando por vocês! - Tyra entrava em um salto na pequena sacada. Ela falava tão alto que tive um sobressalto, levando a mão ao lugar onde normalmente ficava minha espada. - O baile já começou faz algum tempo, e precisam de você para a dança de honra, . - Soava contrariada em trazer a informação.
- Uh, então a pequena Tyra vai perder a chance de dançar com seu irmão preferido. - Loki abria um sorriso enorme para a garota, que tinha as bochechas rubras de maneira disforme. Olhei de um para o outro, tentando entender o contexto da conversa.
- Thor não é meu irmão! E nem você!
- Por sorte. Minha, é claro.
A personalidade dele era cativante de uma maneira ainda nova para mim. Era arrogante e indefeso como um leão ferido, que queria destruir a manada que fizera aquilo com ele. O olhar trazia súplica, mas não hesitaria em cravar uma adaga afiada no meu pescoço naquele instante se o momento pedisse tal ação.
- Tyra, não me importo que dance com Thor. - Disse já no caminho. A garota voltou seus grandes olhos claros para mim, e pude notar que mil coisas passavam por sua mente naquele momento. - Você deve estar sentindo falta dele, e eu já enjoei. - Completei com um sorriso.
Ela riu nervosamente, quase que um guincho tímido, agarrando um pouco do tecido da manga de seu vestido como uma forma de conter uma reação involuntária.
- Mas vocês precisam abrir a comemoração. Muitas pessoas estão esperando por isso. - Repetiu a frase em uma voz que identifiquei como uma imitação debochada de Frigga.
Loki acertou um tapa forte em sua nuca, fazendo os longos cachos loiros da garota esvoaçarem para frente, e a franja cobrir seus olhos. Ele não permitiria que ela falasse mal da mãe. Levantou o queixo lançando um olhar de desprezo para ela.
- Não desrespeite sua rainha, plebéia.
Poucos segundos depois, Tyra pendurava-se em Loki em uma tentativa de vingança. Não parecia ter pudor ou respeito algum pelos príncipes.
Ele, não esperando a reação da menor, que acariciava sua própria nuca com uma mão e usava a outra para tentar golpeá-lo, apenas arregalou os olhos, indeciso entre bater novamente ou apenas contê-la. A decisão foi rápida.
- Insolente! - Gritou recobrando sua consciência. - Ajoelhe! - Apontava para o chão, empurrando-a para longe, usando mais força do que a necessária para uma briga de irmãos. Arregalei os olhos com a situação. - Ajoelhe e preste respeito ao seu príncipe!
- Não! - Cruzou os braços, emburrando-se, a boca em um bico. - Eu faço o que eu quero. - Claramente imitava a voz de Loki agora.
- Você realmente tem coragem, não é? Sua criaturazinha arrogante. - O deus crescia conforme pronunciava as palavras, avançando para Tyra, a mão fechando-se em sua garganta.
- Estamos atrasados, não? - Sugeri, não sabendo bem como lidar com a situação. Acho que se não fizesse nada Loki tentaria arrancar os cabelos da garota fio a fio.
Os grandes olhos de Tyra arregalaram-se. A garota tinha uma beleza inocente, cativante.
- Estamos, e você - Apontava para Loki. - não vai querer irritar Odin!
- Thor protegeu você demais. Criou um monstro. - Alfinetava a garota, que estava pronta para iniciar outra briga.
Puxei-a pelo braço antes que tivesse a chance, entrando no salão seguida por Loki, que parecia forçosamente arrastado até ali. Quase posso garantir que preferia estar na prisão em Asgard do que fazendo política com seu pai. Afinal, as atitudes dele haviam sido assim tão graves para merecer a prisão? Pelo que eu soube, quando Thor desafiou Jotunheim foi banido para Midgard por algum tempo, e nada de prisão perpétua.
Observei ainda da porta enquanto Tyra corria até Thor, um sorriso doce nos lábios. Quase não parecia a mesma garota de antes. Olhei para Loki, que ainda demonstrava desgosto, os lábios torcidos em uma expressão estranha. De alguma maneira, ele aguçava um lado protetor em mim. Suspirei. Espero que ele não estrague meus planos e me faça passar vergonha.
Peguei em sua mão, e senti quando ele tentou puxá-la de volta, a expressão indignada aparecendo em seu rosto, como se eu o tivesse queimado. Não deixei que a levasse, e o forcei a caminhar à frente comigo.
- O que pensa que está fazendo? - Tentou novamente tirar a mão da minha, a raiva visível em seu rosto como não esteve antes naquele dia. - Não preciso da sua pena!
- Não é pena! Só quero ajeitar as coisas entre Thor e Tyra.
- Não tenho interesse algum em ajudar aquela criatura insolente a ficar perto do seu amado!
Refleti enquanto caminhava até Odin, Frigga e meus pais. Amado? Faltava a palavra "irmão" naquela frase, mas agora já estávamos parados em frente aos principais anfitriões, e até mesmo Loki calou-se.
- Podem iniciar a música, desculpem-nos pelo atraso. - Lancei um sorriso, como se estivesse seguindo o protocolo.
- Querida, você deveria abrir a noite com Thor. - Meu pai tentava explicar sem ofender a Loki, que mantinha a boca fechada em um risco, mas apertou minha mão e abriu um sorriso enorme quando percebeu que estaria afrontando a vontade de Odin.
- Ora, Tyra o fará. Um príncipe asgardiano é tão bom quanto o outro, não é?
Não aguardei a resposta, mas pude perceber a expressão rígida de Odin em direção à Loki enquanto nos distanciávamos em direção ao centro do salão, como se ele fosse culpado de algo. A alegria de Tyra era visível, e posso afirmar que a de Thor também quando juntavam-se a nós. A garota era tão pequena que parecia sumir nos braços do deus.
Loki pousou a mão na minha cintura enquanto me fitava com curiosidade, os olhos acesos como fogo. Tinha plena consciência de todos os lugares onde meu corpo tocava o seu.
- Sabe que não deve confiar em mim, não é? - Seu sorriso venenoso já havia me contagiado. - Sou o deus da trapaça afinal. - Vangloriava-se. - Um criminoso condenado. - Não conseguia distinguir se o final era ironia.
- Não vai deixar de colaborar comigo enquanto isso afrontar seu pai. - Disse segura de minhas palavras. Já estava aprendendo a jogar o jogo dele.
A música iniciou lenta, quase melosa, e nos movíamos de acordo. Loki dançava bem, e vez ou outra deslizava o polegar em minhas costelas quando girávamos. O ato me causava arrepios, fazendo-me olhar em seus olhos, buscando algo que não fosse aquela barreira impenetrável.
- Você cresceu bem. - Cortou a tensão. - Lembro-me de você pequena, esgueirando-se atrás das colunas no palácio enquanto buscava coragem para falar com Thor.
- Águas passadas. - Ainda assim sorri com a memória. - Você se divertia com o meu sofrimento.
Loki virou os olhos, claramente entediado com a situação. Giramos mais uma vez, agora de forma brusca.
- Realmente, vejo que tem coragem de muito mais do que apenas falar com ele agora. - Torcia o canto dos lábios. - Imagino o que não aconteceu nesse ano... Tyra ficaria decepcionada.
- Está imaginando coisas. - Disse simplesmente.
Puxei seu corpo mais para perto, por mais que a proximidade de certa forma me incomodasse. Loki não resistiu, apenas colando seu peito ao meu, para mais uma vez, girarmos.
- Se você diz, princesa. Espero que esteja feliz assim.
- É incômodo que me chame dessa maneira. Apenas use meu nome.
Franziu a testa, como quem diz "me obrigue", e tornou a deslizar o polegar por toda a extensão de minha cintura, trazendo arrepios até minha nuca. Sorriu percebendo a reação involuntária, e tive vontade de acertar seu rosto em cheio. Ou de beijá-lo. As alternativas eram igualmente tentadoras.
A música acabou antes que pudesse fazer qualquer uma das opções, e me vi envolvida, esperando um pouco mais daquilo. Curvou-se em uma reverência, novamente sem abaixar a cabeça, e beijou as costas da minha mão, mantendo o contato visual. Ignorei a corrente de adrenalina que percorria meu corpo e sorri para ele, já que o salão todo prestava atenção em nós e Thor, que beijava o rosto de Tyra enquanto segurava sua cabeça com as duas mãos.
Loki deu-me o braço e fez questão de caminhar até Odin, enquanto meu pai fazia o discurso de praxe. O povo aplaudia, aclamando tanto à ele quanto à monarquia de Asgard, mas isso não fez com que Odin tirasse a atenção de Loki.
- Devolvo a princesa, pai. Está inteira. - Segurava minha mão em uma posição um pouco mais alta, como que se exibisse um prêmio.
Odiava a maneira como ele me tratava, mas não queria sair de perto dele. Se fosse outra pessoa, tenho certeza de que já teria esmurrado. Até mesmo se fosse Leigh, meu ex namorado que não era tão ausente assim na minha cabeça.
Cumprimentei algumas pessoas que me felicitavam por tomar partido na guerra, então perdi as palavras que Odin sussurrava irritado para Loki, e que só faziam seu sorriso aumentar. Por fim, afastou-se, recostando o corpo em um dos cantos do enorme salão.
A festa passava morna sem a presença dele. Peguei-me observando-o ao longe várias vezes durante a noite, indecisa entre falar com ele ou perguntar sobre ele a Thor, que dava atenção total a Tyra, como se não existisse nada ao redor.
Por fim, as pessoas foram deixando o salão, um a um. Sempre existia resistência por parte dos convidados para deixar festas da família real, e os primeiros raios da manhã já apareciam quando meu pai disse que eu poderia subir, e deveria preparar minhas malas para aquela noite ainda, para não atrasar a família asgardiana.


Capítulo Três

Não tinha muita coisa para levar, alguns livros, vestidos, sapatos e jóias apenas. Como princesa de Alfheim, provavelmente ganharia várias coisas novas o tempo todo. Portei-me irredutível com minha mãe, e levei a armadura e a espada dourada que já tinha feito calos aparentemente irremediáveis em minhas mãos.
O café da manhã foi um momento um pouco tenso, já que Eric fora contra minha viagem o tempo todo, correndo até mesmo o risco de ser insolente, como Loki gentilmente apontou. Possivelmente porque eu prestava apoio político a ele, sem me importar publicamente em receber algum tipo de agradecimento. Frise-se, publicamente. Ele sabia que eu aumentava sua popularidade com as pessoas, e precisava ser bem quisto para que sua coroação fosse bem sucedida.
O povo em Alfheim era dotado de grande conhecimento político, então a monarquia só seria mantida enquanto favorecesse ambas as partes. Um rei que não supria as necessidades do seu povo seria deposto em pouco tempo, e talvez até banido se governasse em interesse próprio. Ainda assim, concordavam que precisavam ser regidos, e minha família o fazia com maestria, pelo o que eles sempre esperavam ansiosamente pelo sucessor.
- Bem, estamos prontos? - Perguntava Odin à Frigga, carinhoso como eu ainda não o havia visto ser.
Ante a concordância dela, saímos de casa para chamar a Heimdall, o qual nos levaria até a Bifrost. Despedi-me brevemente de meus pais e irmãos, sabendo que me visitariam sempre que possível, bem como eu o faria. Era apenas um tratado de conveniência, e não uma despedida.
A viagem era breve, e tinha a sensação de ser puxada para fora de meu corpo e colocada lá novamente. Fazia muito tempo que não passava por essa experiência, então perdi o fôlego na chegada, e fui amparada de minha tontura por Tyra.
- Sem prática. - Sorri para ela, que retribuiu educadamente, sofrendo um pouco sob o meu peso em seu ombro.
Chegamos ao palácio, imenso e elegante, diga-se de passagem, de Asgard em pouco tempo, e fui guiada até meu quarto pela garota para que pudesse descansar e reconhecer melhor o ambiente.
Era enorme, adornado com flores frescas em abissais vasos dourados. Tinha uma cama de dossel suntuosa com lençóis em tom de lavanda, e abajures de chão e mesa, dando um ar muito delicado a tudo. Olhei para Tyra, ainda sorrindo. Haviam preparado tudo da melhor forma possível, certamente era um tratamento diferenciado para a realeza de Alfheim.
- Espero que se sinta bem recebida, . Estamos todos felizes que tenha concordado com a proposta. - Sorria, as mãos juntas em frente ao corpo curvilíneo pelo corset apertado.
- Sem protocolos, Tyra. Está tudo ótimo, e sou eu quem agradeço a vocês pela hospitalidade.
- Sem protocolos, é? Que resposta ensaiada!
Rimos, deixando todos os frufrus de lado. Logo chegou uma das serviçais do palácio para guardar as roupas e sapatos que trouxe, e levar um dos meus vestidos como molde para preparar meu guarda-roupa.
Rumamos aos jardins, os quais contemplei como não fazia há anos em Alfheim. Provavelmente porque tudo estava destruído e revirado por lá. O cheiro de grama fresca invadiu minhas narinas e me fez sorrir. Fazia um calor agradável, os reflexos dourados do palácio brilhando. Não via a hora de cavalgar por aqueles campos bem aparados.
- Ouvi dizer que lutou bem, . - Tyra pedia de forma implícita detalhes sobre a batalha. Ela sempre fora discreta de início, apesar de geniosa.
- Obrigada. Mas seu irmão lutou melhor. - Sorri, sincera. - E antes que pergunte, não. Não houve nada entre mim e Thor.
Tyra teve o rosto todo tingido de uma cor púrpura, como poucas vezes a havia visto fazer, a pele clara manchada de maneira irregular. Isso trouxe em minha mente a conversa anterior com Loki e o fato de ele ter suprido a palavra "irmão" em uma frase que continha "amado".
- Bem, fico feliz. - Fitava o chão, deixando com que a franja um pouco comprida cobrisse uma parcela dos seus olhos. - Quem não vai gostar da novidade é o Pai de Todos, que já tinha muitos planos políticos em cima disso.
- Pois bem, terá que refazê-los com outra pessoa. - Disse enquanto acertava uma pedrinha no lago. - Não estou aberta para negócios.
- Será que vocês só sabem falar sobre ele? - A voz arrastada aparecia de forma inesperada, com aquele sotaque único. - Bem, pelo menos o coração da pequena Tyra deve estar explodindo de alegria. - Loki sorria com o canto da boca.
A garota pôs-se de pé em um salto, e contrariamente ao que eu esperava, saiu andando em um passo apertado para dentro do palácio, sem nem ao menos responder. Voltei meus olhos para Loki, esperando outra reação de sua parte.
- Insolente como sempre. - Voltou a face para mim. - Aposto que já percebeu, não? - Seu sorriso era enorme, satisfeito.
Continuei fitando seu rosto, até que ele parasse ao meu lado, o ombro quase tocando o meu. Não usava a armadura agora, trajando vestes leves e negras.
- Ainda gostaria que me explicasse.
- E por que eu deveria? - As sobrancelhas arqueadas, como eu já estava tão acostumada.
Rolei os olhos.
- Te ajudei a afrontar Odin na festa. - Não era um bom argumento, mas ainda assim o melhor que me ocorreu.
Franziu a testa, o riso de escárnio ainda presente em seus lábios.
- Me ajudaria a fazer outra vez?
- Possivelmente.
A real resposta era não, mas eu precisava da informação que ele estava prestes a me dar. Loki fitou meus olhos por uns dois segundos, ponderando se devia prosseguir no assunto. Era um tipo de olhar que fazia-me sentir como se estivesse nua, despida de meus segredos e individualidade. Voltou a falar, enquanto eu sentia meu corpo esquentar loucamente sem motivo.
- Pois bem. Tyra chegou aqui porque perdeu os pais, como você sabe. Estava arrasada, não saia do quarto nem sob decreto, até que Thor fez algo que ela considerou digno, e ela se apaixonou. - Contou de maneira trivial. - Garota tola, como todas as outras que se aproximam demais do Deus do Trovão.
- Não acha que vou te ajudar a enganar Odin só por esse pedaço de história, não é? - Tentei sugar algo mais. Apaixonada? Era até meio bonitinho quando se parava para pensar.
Loki suspirou, sentando-se na grama e acenando com a cabeça para que eu me juntasse a ele. Era a primeira vez que eu tinha tal proximidade com o deus sem que ele estivesse tentando me repelir de todas as maneiras possíveis. Aceitei a deixa, dobrando meus joelhos e fitando seu rosto.
- A garota planejou fugir. Queria ir embora de Asgard, sentia que não fazia parte da família, e o reino a trazia más lembranças. Como se houvesse de fato uma família aqui... - Outra vez o tom jocoso. - Mas quando colocou o pé para fora do palácio, foi raptada, ou quase, por um grupo de rebeldes de Vanaheim.
Arregalei os olhos levemente. Tyra fora sequestrada? Como eu nunca soube daquilo? Costumávamos conversar com frequência, e nenhum sequestro foi tema disso.
- Quase? - Interrompi-o, apenas para que explicasse melhor.
- Quase. - Suspirou, parecendo pesaroso. - Thor apareceu, com Mjölnir, e acabou levando uma surra dos homens. Era um garoto, fazia menos de uma semana desde que ganhou o martelo. - Torceu os lábios em um sorriso sincero, de puro deleite. Levantei uma sobrancelha para ele. - Disse para que Tyra fugisse, e ela o fez de bom grado, retornando ao castelo. Depois de levar uma bronca de Frigga, Thor apareceu ainda meio ensangüentado. Estava no quarto de minha mãe, então pude ver quando aquela pirralha praticamente subiu em cima dele chorando, perguntando se ele ia morrer.
Interrompi-o outra vez, agora para rir. Não conseguia imaginar em qual universo alternativo Tyra faria aquilo. A garota tinha uma espécie de tique com parecer elegante, mas acabava se destemperando com facilidade. Agora tudo fazia sentido, ela provavelmente queria parecer uma rainha boa o suficiente para o Deus do Trovão.
- Depois disso foi só somar as coisas. Ela o perseguia, apesar de o evitar constantemente. Só podia estar apaixonada.
Mantive meus lábios colados, impedindo meu queixo de deslizar para baixo. Tyra havia se apaixonado pelo irmão postiço, que é príncipe de Asgard, favorito à sucessão. Eu não gostaria de estar na pele dela.
- Ele sabe? - Loki virava o rosto em direção ao meu. Era como se nossa proximidade me afogasse, mas de um jeito bom. Tentei tirar aquilo da cabeça para que não anuviasse meus pensamentos. - Thor sabe?
- Outra vez, por que eu deveria te dizer isso? - Parecia mais arredio do que antes, apoiando a mão na grama atrás de si e dobrando o joelho em uma pose prepotente.
- Ainda não acabamos nossa conversa, então o motivo é o mesmo de antes. Ajuda com Odin. - Dei de ombros, não demonstrando tanto interesse quanto sentia.
- Se tanto quer saber, nunca tive resposta alguma de meu querido irmão.
- Pobre Tyra. Está em uma situação difícil.
Antes que Loki me respondesse, a voz de uma das criadas nos interrompia, avisando que o almoço estava para ser servido. Sorri, sentindo meu estômago se revirar a menção de comer alguma coisa.
Loki levantou-se, e instintivamente estendi minha mão para ele, esperando que me ajudasse. Recebi um olhar divertido em troca.
- Está mal acostumada, princesa. - Deu-me as costas, andando em direção à porta de entrada do palácio. Eu podia sentir a indignação correndo em minhas veias. - E está ainda mais enganada se acha que me importo.
Bufei irritada, levantando-me de qualquer maneira daquela grama. Quem ele pensa que é? Não tratava-se de um ato de subordinação, mas de uma mera gentileza! Será que ele tinha a mínima ideia de como era fazer gestos que envolvessem mexer a coluna usando um corpete? Caminhei apressadamente, sentindo meu vestido esvoaçar de forma descoordenada, e sentei-me a mesa junto aos demais.
Passei o almoço conversando cordialmente com Odin e Thor, tratando dos detalhes das batalhas, e sem trocar um olhar com Loki. Sentia meu corpo queimando toda vez que ele me olhava, mas coloquei minha melhor expressão de indiferença no rosto e voltei a narrar sobre como havia protegido Alvis em batalha.
Frigga questionava o silêncio anormal de Tyra, e tentei ouvir o que se passava na conversa delas, sem sucesso.
- Tem algo errado com você? - Thor sussurrou em dado momento. - Parece que estou vendo aquela chama de raiva nos seus olhos outra vez.
Tentei sorrir enquanto negava, mas só consegui uma careta. Thor, por sua vez riu alto, parando subitamente quando tornou a encarar meus olhos.
À tarde, tive minha primeira aula de magia com Frigga. Devia ter imaginado que quem ensinaria à princesa seria a rainha. Ela era ótima, e descobri que podia prever o futuro. Ficou empolgada quando deixei que encarasse meus olhos profundamente. Uma sensação de torpor percorreu meu corpo, amolecendo minhas pernas e braços.
- É cansativo, não é? - Disse, ainda me encarando fixamente. - A mente tem uma defesa para impedir que desavisados entrem, mas ela manifesta isso em nosso próprio corpo, o que é irônico, já que assim não podemos nos defender fisicamente do agressor.
Frigga sorriu com o que me aguardava, satisfeita. Quando retomei o controle de meu corpo, tornei a falar com ela.
- Há outras maneiras de invadir a mente de alguém?
- Algumas. Magos com grande poder conseguem.
Ela era didática, dando preferência à prática do que à teoria.
- E existe uma maneira de impedir que façam isso comigo? - A simples ideia de ter alguém violando minha mente me irritava profundamente, fazendo os nós dos meus dedos quererem fechar.
- Existe, mas antes você precisa saber qual é a sensação de ter outra alma em sua cabeça. Está disposta a isso, minha querida?
Ainda me sentia exausta por Frigga ter visto o futuro em meus olhos, mas concordei, prevendo que não poderia haver nada pior. Eu podia aguentar o mesmo torpor por mais alguns minutos.
- Se assim diz, aguarde um momento.
Sorriu bondosa antes de sair da biblioteca onde praticávamos. Deitei em um divã, sentindo a exaustão mental tomar conta de mim. Não havia descansado direito, e se pensar bem, há umas três semanas atrás estava empunhando uma espada e atacando seres vivos. A dor da batalha já não me incomodava, tive tempo para me adequar a ela.
Poucos minutos depois Frigga voltou seguida de outra pessoa, a qual eu soube quem era desde o início. Sua presença era elétrica.
- Veja, mãe. Está exausta após uma mera previsão do futuro.
- O treinamento precisa ser intenso. Devo prepará-la para o que lhe aguarda o mais rápido possível.
- O que faz aqui? - Recuperei minha postura encarando aqueles olhos verdes.
- , pedi à Loki que tomasse sua mente por um momento. Não acho que eu seja a pessoa mais adequada para isso. Ele, por outro lado, vai fazer um ótimo trabalho. Loki é um dos melhores magos de Asgard.
Não teria como recusar a uma ordem da rainha, então concordei, levantando-me do divã. Frigga logo deixou a sala, e a acompanhei com os olhos tentando não demonstrar a vontade que sentia de que ela ficasse. Sabia que Loki não me faria nenhum mal sob o teto de seus pais, mas precaução nunca é demais.
- Pronta para começar? - Chegou mais perto, indicando o divã para que eu voltasse a me sentar e o fazendo em seguida. - Quanto antes começarmos, antes terminamos e eu posso sair da sua presença.
- Sim. - A resposta era seca, em uma tentativa de esconder a apreensão que sentia.
- Minha mãe já me precaveu. Não se preocupe, princesa, serei gentil na sua primeira vez.
- É . - Juntei as mãos sobre minhas pernas.
- Olhe nos meus olhos, Princesa . - Segurava meu queixo com os dedos, deixando meu rosto a centímetros do seu. - E relaxe.
Segui suas instruções, respirando fundo uma ou duas vezes, por mais que aqueles olhos verdes na verdade me deixassem sem ar. Encará-los tão de perto era perturbador, intenso.
E então, em um ou dois segundos, já não estávamos mais naquela sala, e sim no campo de batalha, em Alfheim, próximos ao palácio. Mas eu não tinha nenhuma espada em minhas mãos, e trajava o mesmo vestido de antes. Olhei ao redor preocupada, vendo o sangue escorrer em mãos amigas e inimigas. Loki apareceu, vestindo algo como um sobretudo em tecido preto, verde e dourado, adornado com pedaços de armadura, protegendo-o. Trazia consigo um cetro, o qual o reconheci de seus passeios no castelo. Tinha em sua ponta um pedaço do Tesseract, jóia do infinito poderosa que posteriormente soube que ele havia tentado usar para dominar Midgard.
- Estamos em suas lembranças recentes, . - Parecia sério, enquanto olhava ao redor. - Isso é perturbador, ninguém está ganhando.
- Foi uma guerra acirrada. - Dei de ombros, não muito preocupada com o que estava acontecendo. A imagem era tremendamente real, mas eu tinha plena consciência de que ele estava apenas criando ilusões.
- Conhece essa pessoa? - Quando voltei novamente meus olhos a ele, vi que segurava Alvis pelo pescoço, o cetro apontado para sua cabeça.
- É meu irmão, você bem sabe.
A imagem de Alvis clamava desesperadamente pelo meu nome, em tons afogados com a garganta apertada. Era tão real que precisei de um segundo para conseguir desviar meus olhos dele. Por pouco tempo.
Ouvi um urro de dor, puxando meus olhos para perto do meu irmão, já perfurado pelo cetro, a voz e os olhos em pura agonia. Vi a ponta ensangüentada rasgando o tecido das costas das suas vestes, enquanto o sangue vertia desesperadamente.
Senti meu queixo escorregar alguns centímetros para baixo e meus olhos se encherem de lágrimas em uma reação involuntária com a cena de sofrimento que presenciava, e precisei repetir o mantra "É só uma ilusão, não deixe ele te pegar tão fácil" mais de uma vez em minha cabeça até finalmente conseguir desviar os olhos novamente. Ele não ouviria uma súplica vinda da minha boca.
- A princesa é forte, não? - Sua voz soava mais arrastada do que de costume, e era seguida de uma risada perversa. Percebi que falava com o corpo inerte de Alvis.
Pude ouvir o som da carne sendo rasgada enquanto ele retirava o cetro do corpo do meu irmão, que ainda gemia agoniado no chão. Dei as costas à cena, tentando me recompor, quando notei que era perfurada pelo mesmo cetro. A dor lancinante se espalhou pelo meu corpo, do meu estômago, onde o cetro estava, até as pontas dos dedos. Tentei reprimir um grito, que saiu em um gemido desajeitado, quando meus joelhos cederam, levando-me de encontro ao chão. Loki puxou a lâmina toda de uma vez, e dessa vez não pude não gritar.
Sentia o sangue derramando para fora do meu corpo, e arregalei os olhos questionando a veracidade daquilo. Era difícil acreditar que era tudo uma ilusão quando meu corpo todo doía daquela maneira. Só então voltei a pensar em Alvis, e me virei imediatamente, procurando-o.
Olhei de seu corpo pálido para Loki, que abria um sorriso enorme, cruel. Ponderei se Alvis também sentia algo, mas neguei com a cabeça, crente que aquilo acontecia apenas em minha mente, portanto não podia afetar quem quer que não estivesse ali. O problema é que eu já não conseguia discernir quem estava e quem não estava.
- Eu prometi que seria gentil, não prometi? - Loki tornou a andar, apoiando seu pé em meu pescoço, colando minha cabeça ao chão. - Mas ainda temos tempo.
Lançou uma adaga, dessa vez em minha coxa direita, rasgando a carne profundamente, até a ponta retinir em meu fêmur, uma vibração horrorosa. A dor me cegava, enquanto eu sentia a pressão em minha nuca, torcendo para que ela se quebrasse e me aliviasse daquilo.
- Posso parar, se você pedir.
Apesar de todos os ferimentos, podia ouvir sua voz com clareza, o que fez a ideia principal retornar à minha mente "é apenas uma ilusão". Em uma guerra real, sua voz estaria abafada, ainda mais com toda aquela dor. Era insuportável. Agora eu podia sentir a outra ponta do cetro batendo com força em minha lombar. Imaginei que pudesse ter quebrado minhas vértebras, mas imagino que se fosse o caso ao menos minha perna teria parado de doer. Era terrivelmente real. Só podia ser real. E então gritei, alto.
Jamais pediria para que parasse. Era como deixar ele ganhar o jogo. E se eu morresse, seria com honra, e não suplicando. A realeza de Alfheim não se curva. Senti seu pé fazendo pressão contra minha nuca, colando meu rosto no chão mais ainda, a pele esmagada contra os detritos. Eu queria desesperadamente revidar. Queria desesperadamente enfiar aquele cetro na garganta dele e tomar banho em seu sangue.
E então ele tirou o pé de cima de mim. Na verdade, não havia mais sangue, dor ou desolação alguma, e estávamos no saguão do palácio. Pude focar novamente no propósito daquilo, uma ilusão sob medida para me desesperar. Inspirei o aroma do jardim que entrava pela porta. Havia alguém acertando um soco no rosto de Loki. Sorri abertamente, até que a pessoa virasse seu corpo para mim.
- Thor? - A palavra saiu da minha boca sem que eu pudesse controlá-la.
O rapaz de loiro caminhava até mim caloroso, um sorriso de canto aparecendo em seus lábios corados. Trajava a armadura e a capa vermelha de sempre, e caminhava displicente, os braços abertos. É claro que seria ele, não tinha outra pessoa.
- Não vou deixar isso acontecer.
Segurou minha cintura, e eu senti minhas pernas amolecerem, o sorriso enorme não podendo ser contido. Agora eu era um misto de sensações e reações indescritíveis.
E então, eu estava nos jardins de Asgard, em frente ao lago, e sem Thor. Loki suspirou em desagrado, e só então percebi sua proximidade. Estava começando a ficar tonta com a mudança de cenário.
- Por que ele? - Perguntava arrogante, poderia até dizer irritado. Ri novamente com a lembrança do soco.
- Quero saber quem ele é para você. O quê ele é pra você.
Dei um passo para trás na defensiva ante a pergunta, pensando se precisava mesmo responder aquilo.
- Precisa sim. - Tornou a falar, e corei ante a hipótese de ele poder ouvir o que se passava dentro da minha cabeça. - Responda antes que eu precise usar meus próprios métodos. Normalmente são dolorosos.
- Nós lutamos muito bem juntos. Nos damos bem para conversar também. É isso. Passar o tempo com ele é fácil.
- Você confia mais no meu irmão do que nos seus? - Divertia-se com a situação, o sorriso enorme, em cólera. - Ele é a defesa da sua mente. - Parecia interessado. - Acho que é hora de fazermos um pequeno passeio. - Como ele conseguia usar aquele tom irônico sempre?
- Pare. - Disse por fim. Não queria que ele soubesse de mais do que aquilo.
E então estávamos na sala do palácio de Asgard, no mesmo divã de antes, ele ainda segurando meu queixo delicadamente. Os olhos verdes eram lindos, nunca cansaria de dizer. Afastei gentilmente sua mão, sentido a exaustão tomar conta de mim.
- É cansativo, não? - Esticava-se no divã, seu ombro tocando o meu.
- Exaustivo define melhor. - Minha cabeça doía.
- E então, Thor é como seu namorado? - Iniciou o assunto, como se fosse algo normal. Bem, de fato era. - Não é como se fosse um amor proibido ou algo assim para se guardar em segredo.
- Não. - Respondi sincera.
- E ainda assim seu subconsciente o invocou como defesa? - Agora parecia realmente curioso, fixando seu olhar no meu. - Gosta dele?
- Não sei porque ele apareceu. - Realmente, era um mistério. Confiava em Thor, mas não cegamente. - Não sinto nada por ele.
- Se está tão confiante de sua resposta, não vai se importar com isso.
Loki chegou mais perto e tornou a segurar meu queixo com os dedos, de forma delicada, virando meu rosto para o seu. Achei que tentaria entrar em minha mente novamente, mas ao invés disso, colou os lábios nos meus, pressionando lentamente meu lábio inferior. Fechei os olhos, sentindo os arrepios que percorriam minha coluna, antes quebrada por ele, e chegavam até as pontas dos meus dedos. Logo Loki aprofundou o beijo, e eu pude sentir sua língua quente na minha. Acho que ainda estava atordoada, então não resisti, acompanhando seu ritmo, que logo se tornou intenso. Aqueles olhos verdes não saiam de minha mente, como se ele ainda estivesse me encarando, os lábios formando o mesmo sorriso cínico de sempre. Sua mão livre acariciava minha cintura com o polegar, como no dia em que dançamos em Alfheim.
Pensei em colocar minhas mãos em seu pescoço e puxá-lo mais para mim, mas então senti algo como uma lufada de ar, e acordei na biblioteca de Asgard, Loki em pé em minha frente, o sorriso irônico e os olhos verdes antes difusos como uma sombra agora me encarando vivamente.
- Acha que te daria essa chance, princesa?


Continua...



Nota da autora: Oi meninas, tudo bem? Espero que tenham gostado do caminho até aqui! Essa é minha primeira fic no FFOBS, mas em breve espero postar outras!
Se vocês gostaram, e quiserem me acompanhar daqui pra frente, posso fazer um grupinho no facebook, pra avisar sobre as atualizações, pegar feedback e passar alguns spoilers (quem nunca? hahaha)
AKWAT teve um longo percurso pra sair da minha cabeça até o papel, mas é quase como se aquela vozinha perversa (que eu acho que é do Deus da Trapaça) tivesse me obrigado a colocar ela em palavras, então aqui estamos! Por favor, se tiverem gostado, comentem, e se não tiverem, critiquem. Sugestões são sempre bem vindas!
Por fim, essa fanfic não viria até vocês se não fosse por três pessoas muito especiais, que me incentivaram e me deram todo o apoio possível para superar a barreira que me fazia guardar tudo o que eu escrevo pra mim mesma: Ana, Karime e Nicolle. Vocês são pessoas incríveis, e eu não tenho nem palavras para expressar o quanto significa para mim ter vocês na minha vida! Aquele show do Simple Plan rendeu não só bons momentos, mas ótimas amizades e a coragem que me faltava! Foi incrível conhecer pessoas tão queridas e com gostos em comum (menos a Ana, que já é parte da minha vida faz um tempinho, uns 25 anos só ❤). Obrigada de verdade, suas lindas!
Nos vemos na próxima atualização!

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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