All The Love, H.

Última atualização: 26/11/2018
Contador:

One

She told me in the morning
She don't feel the same about us in her bones


– Conseguimos! – minhas mãos ainda tremiam enquanto seguravam o celular – Primeiro show que lotamos! Eu não consigo acreditar, tanto trabalho, mas valeu à pena. 

Pude ouvi seu respirar fundo do outro lado da linha. Não era como se ela estivesse tão feliz quanto eu. Demorou um pouco, gaguejou no começo, mas respondeu com uma animação não muito convincente na voz. 

– É Harry, parabéns... é incrível. 

? – respirei fundo. Ela nunca havia falado comigo daquela maneira – Eu te amo. 

Mais silêncio. 

– Quando você volta mesmo pra casa? 

– Eu não ia voltar até depois o show da semana que vem, mas se você quiser eu dou um jeito, eu fujo e passo o domingo com você. 

– Eu não quero atrapalhar a agenda, mesmo, eu só queria… 

– Não vai atrapalhar. Domingo, ok? Logo cedo eu tô ai. 

– Tudo bem. 

A conversa terminou ali, com uma despedida desconfortável e desengonçada. Eu e não nos víamos há exatos vinte e cinco dias. Desde a final do programa e o início de uma agenda lotada, regras rigorosas e uma vida pública, o nosso namoro de quase dois anos pareceu afetado pela primeira vez. Assim que desliguei a ligação e bufei, Louis se dirigiu até mim notando minha inquietude. 

– O que houve, mate? Brigaram? – sentou num sofá próximo a nós e fez menção para que eu me sentasse também – Nunca vi vocês brigando. 

– Não sei se foi bem uma briga, ela só estava estranha, quieta… 

– É, então alguma coisa aconteceu, porque pra  estar quieta tem que ter algo de errado. – concluiu, me fazendo rir – Sinto falta dela também, de quando não nos largávamos. 

– Se você sente falta, imagina eu…  

*
 

O dia estava nublado em Holmes Chapel. Eram oito e trinta e sete e eu já estava estacionado em frente ao nosso apartamento. Ajeitei meu cabelo no retrovisor, respirei fundo, peguei as flores que estavam no banco do passageiro e saí do carro.  

Passei pela portaria, cumprimentei Joe e logo entrei no elevador, apertando o número sete. Apalpei os bolsos enquanto subia e percebi que tinha esquecido as chaves. Para não ter que voltar, dei três batidas na porta e sem muita demora ouvi o barulho da tranca e da porta se abrir.  

Lá estava ela só com uma camiseta, que inclusive era minha, com cabelo todo bagunçado, descalça e esfregando os olhos. Não dei a  muito tempo, logo fui entrando, abraçando-a e fechando a porta com o pé. O fechar fez um barulho maior do que o pretendido e provavelmente faria algum vizinho reclamar mais tarde. 

– Saudades, saudades, saudades! – assim que parti o abraço e abri os olhos, pude ver três malas no chão da sala próximas ao sofá. Nosso cachorro veio pulando e abanando o rabo logo depois – , você vai viajar? – questionei atordoado, com o coração murcho, esquecendo de lhe entregar as flores. 

– Harry… – tirou o buque da minha mão, segurando a mesma e me guiando até o sofá, deixando as flores de lado em seguida – a gente precisa conversar. 

Oscar pulou em meu colo e se encolheu, demonstrando saudades. Eu nem consegui lhe dar atenção, meu corpo estava funcionando de um jeito diferente, meu estômago praticamente gritava e eu suava frio, como se pressentisse o que estava por vir. 

– Você quer viajar? Deveria ter me dito antes, quer dizer, você quer mesmo viajar? – repeti nervoso – A turnê logo acaba, por que não viaja com a gente? 

– Harry! – interrompeu num tom sério e um pouco mais elevado – Como é que vou pensar em viajar cheia de provas na faculdade pra fazer? 

– Então por que essas malas? – perguntei confuso.  

– Não somos os mesmos de dois anos atrás. Nem queria que fossemos, na realidade. Você tá vivendo seu sonho, eu consegui a bolsa de estudos, mas digo, a gente… – baixou o olhar e diminuiu o tom de voz – O que existe entre a gente… eu não sinto mais o mesmo sobre nós.  

Oscar latiu como se tivesse entendido o que acabara de ouvir, saindo de meu colo em seguida. Era como se meu coração tivesse parado, como se continuando a bater não fizesse a mínima diferença.  

– Não sente o mesmo sobre nós? – minha voz saiu fraca e falha, então pigarreei e aumentei o tom – Você ta indo embora da nossa casa? 

– Nossa casa? – voltou o seu olhar para mim, seus olhos eram como bolsas d'água e sua voz estava trêmula – Harry, a partir do momento que eu fico sozinha aqui sete dias na semana, esse lugar não é nosso. 

– Por favor, não… não chora… – enxuguei uma lágrima que escapara – Eu achei que já tínhamos passado dessa fase, que você tinha entendido como seria a nossa rotina, que seria um pouco complicado, que… 

– Eu tinha entendido! – levantou de repente, nervosa, praticamente gritando – Ninguém foi mais compreensível que eu nessa história toda, ninguém te apoiou mais que eu!  

– Então por quê? Eu simplesmente não consigo entender! – levantei em seguida, igualmente agitado. 

– Se pelo menos você tivesse feito o MÍNIMO, Harry Styles, o MÍNIMO! – caminhou até o calendário pendurado na parede da cozinha conjugada com a sala e apontou o número circulado por um coração em vermelho, fungando e enxugando mais uma lágrima. 

Eu havia esquecido. Havia esquecido nosso aniversário de dois anos de namoro. Nem eu me perdoaria por ter deixado aquela data escapar. Prometi que iria vê-la, que iriamos passar pelo menos a noite juntos. Lembro de estar indeciso em relação ao que fazer por conta das inúmeras ideias, mas nem lembrar eu havia lembrado. Meus joelhos vacilaram, fazendo com que eu caísse sentado no sofá, apoiando os cotovelos nos joelhos e tampando o rosto com as mãos. Eu não conseguia e nem queria segurar o choro.  

Assim que escutei um barulho e abri os olhos ensopados, vi  sentada no chão, encostada na parede logo embaixo do calendário, com a cabeça entre os joelhos, chorando.  

Flashback 

– Eu ainda  tentando entender como te aguentei esse tempo todo! – disse enquanto se livrava de seu vestido preto, deitando-se em minha cama em seguida  Um ano juntos... eu mereço um prêmio. 

Um ano de namoro e mais alguns outros meses de uma relação informal durante os anos de escola e meu coração não havia se acostumado em vê-la daquela maneira. Seu corpo tão característico e tão convidativo. Aquela manchinha de nascença logo abaixo de seu seio direito, suas coxas fartas, a maneira com que seus cabelos caíam sobre seus ombros e a preferência por calcinhas pretas. Era perfeito pra mim. Parecia um tolo a encarando mesmo depois de um ano, mesmo depois de tê-la visto naquela mesma situação tantas vezes. 

–  Styles? – despertou-me de meus pensamentos – Eu te amo. 

Tirei minha camiseta e calça e logo em seguida pus meu corpo sobre o seu, aproximando nossos rostos. começou a brincar com meu lábio inferior com seus dentes, então fechei os olhos em seguida e deixei com que desse início a um beijo. Era como se fosse o primeiro. Todos eram tão bons quanto o primeiro. Uma de suas mãos acariciava meus cabelos, as vezes os puxando, e a outra permanecia em meu peito, como se quisesse certificar de que eu realmente estava ali. Assim que o beijo fora finalizado e nossos olhos voltaram a se encontrar, não consegui conter o sorriso. Era tão bom tê-la por perto.  

Ainda com os sorrisos bobos nos lábios, ajeitei uma mecha de seu cabelo atrás da orelha e comecei a espalhar beijos por todo seu rosto, pescoço e colo. 

– Eu te amo. – eu dizia entre cada beijo – Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. 

Segurei seu rosto com ambas as mãos e acariciei as maçãs de seu rosto com os polegares. fechou os olhos e sorriu, sem mostrar os dentes. Eu amava vê-la daquela maneira, tão doce, vulnerável entre minhas mãos, tão minha.  

– Você é lindo demais. – beijou uma das minhas mãos que acariciava seu rosto – Cada pedacinho... – agora dedilhava meus ombros, pescoço, deslizando até meu peito – Como eu tenho sorte... 

riu de sua própria conclusão e me abraçou, puxando meu corpo para si.  

– Ah! Já ia me esquecendo... – sorri malicioso e ergueu uma de suas sobrancelhas – Você merece sim um prêmio: eu. 

Então tive o prazer de ouvir mais uma de suas risadas gostosas.” 

End of flashback 

Com o tempo o choro de ambos cessou. Sentei ao lado de , que encostou sua cabeça em meu ombro e permaneceu em silêncio. Não tínhamos nada para falar, ou simplesmente não conseguíamos. Minha mão procurou pela sua e entrelaçou nossos dedos.  não protestou, mas parecia não ter prestado atenção no toque.  

– Você tem certeza? – quebrei o silêncio, despertando-a de seus pensamentos, fazendo com que direcionasse seu olhar a mim. 

– Não torne as coisas mais difíceis do que estão sendo.  

– Você não me ama mais? – perguntei visivelmente angustiado e  engoliu seco, fechando os olhos por alguns segundos como se lutasse para não voltar a chorar. Se pôs de pé e soltou minha mão, indo em direção ao quarto. Não demorei a levantar e a seguir, assim como Oscar, que vinha logo atrás – Responde! – insisti – Você não me ama mais? 

– Amor nem sempre é o suficiente, Harry. – respondeu ríspida – Não é só de amor que se constrói um relacionamento e eu não consigo mais, ok? Eu consegui passar por todos os problemas, por toda a distância, mas por isso... pelo esquecimento... eu não consigo.  

Escutar aquilo, daquela maneira, foi como um soco no estômago. poderia esperar diversas atitudes de mim, mas nunca o esquecimento da nossa data. Eu me sentia imprestável, mas nada nunca pareceu tão errado quanto deixá-la ir. 

O sentimento de raiva começou a tomar conta de mim e este é um sentimento o qual eu não consigo lidar. Não é da minha natureza sentir raiva e posso contar nos dedos quantas vezes perdi o controle por isso. Sempre procuro um meio tranquilo e simples de resolver os problemas, mas estar diante daquilo, algo que parecia não ter solução, uma situação a qual nenhuma atitude ponderada e racional resolveria, fez com que eu perdesse o resquício de sanidade em mim.  

Minha mão se fechou num punho e socou um dos porta-retratos que estava na cômoda. Ele foi arremessado no chão e senti minha mão latejar, havia feito alguns cortes por conta do vidro.  deu passos para trás, assustada, e assim que notou que o sangue escorria e pingava no chão, demonstrou preocupação em seu olhar, mas antes que se aproximasse, discursei irritado. 

– Não é o suficiente? – falei alto, deixando aquele sentimento transparecer – Todo o sacrifício não é o suficiente?  

– Ah, claro, porque manter um relacionamento comigo é um sacrifício! – falou tão alto quanto e pude ver seus olhos ficarem vermelhos, cheios d’água novamente. 

– Cala a boca! – respondi completamente fora de mim. 

Oscar latia muito, como se ordenasse que parássemos de brigar. Nunca havia mandado calar a boca ou qualquer outro xingamento, ela estava visivelmente assustada com a minha atitude.  

– Você sabe o quanto eu te amo e o quanto te quero perto de mim, eu nunca, nunca deixei brechas ou dúvidas em relação a isso, nunca. Mas sim, é um sacrifício ficar noites em claro com saudades imaginando você deitada no meu peito... – senti meus olhos queimarem, coloquei uma de minhas mãos em meu rosto, tentando impedir que as lágrimas surgissem – É um sacrifício ter que lembrar todas as noites que você dorme sozinha em nossa cama, é um sacrifício ter que viajar para lugares incríveis e não poder compartilhar os momentos com você, sentir que nada faz tanto sentido quando como você está por perto... 

– É, porque ficar aqui, em nosso apartamento numa vila no interior, sozinha, estudando feito louca para as provas da faculdade não é um sacrifício, é um prazer. Ver você viajar o mundo, cheio de garotas ao seu redor e tentar não se importar, não é um sacrifício, é tranquilo. – minha namorada nunca soara tão sarcástica antes e já não se importava mais em deixar as lágrimas rolarem – É fácil. É fácil sentir o coração sangrar de saudades todos os dias, ficar encarando a porta e olhando para o telefone ansiosa durante o dia inteiro do nosso aniversário de dois anos de namoro e receber um “caramba, tô tão cansado, o que tá fazendo?” – repetiu exatamente o que estava na mensagem que recebera no dia que era para estamos comemorando juntos e então desmoronou.  soluçava e seu rosto estava completamente vermelho – Co-como vo-você pode fa-falar em sacri-sacrifício?  

estava vulnerável, mas não da forma a qual eu gostava que ficasse. Vê-la tão triste e assustada fez com que a raiva se esvaísse aos poucos e desse lugar ao sentimento de culpa. Ela sentou na cama e nosso cachorro foi até ela, como se quisesse consolá-la. colocou as mãos no rosto e respirou fundo na tentativa de se acalmar e eu, tudo que sabia fazer era ficar parado, encarando o nada, não sabendo como agir ou o que falar. Eu não ousaria contestar. 

Assim que alcançou a calma, voltou a me encarar e arregalou os olhos em seguida. Notei que olhava para minha mão e quando direcionei minha atenção para ela, percebi o porquê parecia tão assustada. Havia uma poça em meus pés e minha mão estava completamente coberta de sangue.  

– Vamos no pronto socorro. – levantou, procurando por peças de roupa – Acho que o corte foi muito profundo, talvez precise de pontos.  

Fiz uma careta assim que ela mencionou os pontos e balancei a cabeça negativamente. Eu estava pouco me importando para os cortes ou para o sangue. A angustia dominava cada centímetro do meu corpo e eu não queria nada no mundo além de sentir o corpo da minha garota junto do meu. Eu não queria mais brigar, não queria ter que gritar e pensar no amanhã ou em qual atitude seria tomada.  

– Eu não vou a lugar nenhum. – disse me aproximando. deu alguns passos para trás. 

– Harry, olha para a sua mão, precisamos sim ir ao hospital! – pus o indicador da mão limpa em sua boca, pedindo que ficasse em silêncio – O que você está fazendo? 

tentou se esquivar da minha primeira tentativa de lhe beijar, mas ela não poderia me negar isso, ela não conseguiria me negar isso. Quando nossos rostos ficaram próximos o suficiente, fechei meus olhos e pedi passagem para um beijo. Ela cedeu, mesmo não tendo certeza do que estava fazendo e estando confusa. Fazia quase um mês que meus lábios não encontravam os dela. Eu sabia que durante aquele momento, nada, nem a briga recente ou as palavras ditas, nada importava. Nada se fazia mais relevante do que o nosso toque, do que o nosso beijo, que a cada segundo se tornava mais intenso.  

Suas mãos puxaram meu corpo para mais perto de si e minha mão envolveu seu pescoço, ignorando o fato de estar completamente vermelha de sangue. também não pareceu perceber ou se importar. Com a outra mão, segurei sua cintura e pressionei mais o seu corpo contra o meu, guiando-a até a cama. Eu estava por cima e suas pernas agora se entrelaçavam com as minhas. Suas mãos alcançaram a barra da minha blusa, puxando-a. O beijo foi rompido para que tirasse a peça de roupa e então nos encaramos pela primeira vez depois do beijo. Nossas feições eram sérias, não possuía um riso ou sorriso por mais tímido que fosse, apenas precisávamos um do outro, de corpo, independente das circunstâncias. 

Sem muita paciência, tirei a única peça que ela vestia, sujando-a de sangue, e joguei para longe. Encarei a pintinha roxa logo abaixo de seu seio direito e então sorri internamente, mas  não deixou que eu me demorasse na análise de seu corpo e me puxou para o nosso segundo beijo. Nossos corpos se chocavam com harmonia e gritavam um pelo outro. Minha calça já aparentava estar mais apertada que o normal e minha impaciência não deixou que eu aguardasse um segundo sequer para retirar aquele pedaço de pano junto da peça íntima que eu vestia.  

Ver  por cima do meu corpo, movimentando-se com rapidez, gemendo sem quaisquer restrições e com rastros de sangue por praticamente todo o seu corpo por conta do meu toque me deixava com cada vez mais vontade de tê-la. Pode soar estranho, mas toda aquela situação fez com que nossa libido triplicasse. A queria cada vez mais perto, até que ocupássemos o mesmo lugar no espaço, então fiz com que mudasse de posição, me deixando por cima e afastando as suas pernas o suficiente para que pudesse aplicar o máximo de velocidade em meus movimentos. Meu corpo era puro suor e as costas de  estavam arqueadas, sua cabeça posta para trás e sua boca entreaberta, pedindo por mais.  

Depois de um tempo, analisando suas feições, nada parecia fazer mais muito sentido. Toda a informação do que ocorrera mais cedo invadiu minha cabeça de uma forma arrebatadora e lembrar que o corpo diante de mim já não seria mais meu, fez com que todo desejo se esvaísse.  parecia não sentir o que eu sentia e continuava a movimentar o seu corpo contra o meu. Eu não queria me sentir daquela maneira, eu queria senti-la pela última vez.  

Era a última vez.  

Fui tomado pelo pior sentimento que senti em toda a minha vida. Meus olhos ardiam e deixei com que algumas lágrimas escapassem, fazendo com que eu escondesse o rosto em seu pescoço para que não notasse. Estoquei com todas as minhas forças restantes, pedindo mentalmente para voltar a sentir algo, mas não conseguia sentir nada. Fechei os olhos com força e, aos poucos, diminui meus movimentos até que parassem completamente. Eu não conseguiria continuar com aquilo, então deslizei o meu corpo para seu lado e não tirei o meu rosto de seu pescoço, não queria que me visse daquela maneira.  

 apenas puxou o edredom para cima de nós e não falou absolutamente nada. Com ambos cansados e sem coragem para dizer uma palavra sequer, me permiti dormir. 

Ao acordar, notei estar sozinho na cama e meu coração bateu em apertos. Levantei ainda bastante desnorteado, fui até o banheiro e tomei uma ducha gelada para que acordasse completamente. Eu estava um misto de suor, lágrimas e sangue e nada nunca soou tão melancólico em minha cabeça quanto aquela situação.  

De banho tomado e devidamente vestido, fui até a sala. estava sentada no sofá, mexendo no celular e Oscar estava ao seu lado, usando a guia. 

– Pode me levar em casa? – pediu sem olhar em meus olhos e se pôs de pé. 

– Claro, eu levo. – disse com a chave do carro já em mãos. 

A ajudei com as malas e dirigi até a casa da sua mãe. Já era noite e estava bastante frio. Assim que estacionei, tirei meu moletom e entreguei para ela, que vestiu e agradeceu muito baixinho. Ao sair do carro, senti todo meu corpo se arrepiar por conta do vento gelado e levei as malas até a porta de sua casa. Paramos frente a frente, em silêncio. Não nos olhávamos nos olhos, minhas mãos estavam nos bolsos da calça e ela brincava com os próprios dedos, como se eu estivesse a deixando em casa depois do primeiro encontro, como se mal nos conhecêssemos.  

Dei um passo à frente e beijei o topo de sua cabeça e pude ouvi-la suspirar por conta do ato. Em seguida, me agachei em frente ao Oscar e acariciei sua cabeça. 

– Cuida dela, campeão. 

Oscar deu um latido assim que eu me afastei. Quando entrei no carro e procurei por eles, já não estavam mais lá.  

Eu dirigi a noite toda até Londres. 


Two

You might have moved on, but boy, you should know
That I know you're still the one


2015 / Michaelly



Eu nunca achei que me sentiria uma adolescente de quatorze anos ao ver Harry Styles novamente. Foi como reviver o primeiro dia de escola no ano de 2008. Eu estava saindo da sala, indo para o intervalo e Harry distribuía panfletos da próxima apresentação de sua banda. Ele entregou o papel para mim e disse que ficaria muito feliz em me ver naquela noite, mas eu não fui, fiquei em casa.  

Depois de diversas apresentações da banda as quais compareci e já bastante amigos, nos beijamos pela primeira vez numa festa de despedida as aulas na casa do Noah Harrison em mais uma das muitas viagens que os seus pais faziam durante o ano. Ficávamos as vezes, assim como ele ficava com mais uma ou duas garotas ao mesmo tempo, mas em 2009 as coisas começaram a ficar mais sérias. Harry estava preocupado com as notas e isso fez com que nos aproximássemos por conta do grupo de estudos, só que de um jeito diferente. No baile de formatura anual sua banda tocou e entre uma música e outra ele me pediu em namoro. Eu não sabia onde me esconder, todo o colégio estava lá. O clichê dos clichês, aqueles que acontecem só em filmes, e eu me senti como se realmente fizesse parte de um. Harry era perito em clichês românticos.  

Logo após o pedido de namoro, nossas famílias criaram laços muito rápido. Minha mãe amava Harry, sempre fazia seus pratos favoritos e insistia para que dormisse lá em casa, já meu pai não perdia a oportunidade de jogar qualquer jogo de tabuleiro ou cartas com ele. Eu e Gemma, irmã de Harry, éramos bastante amigas e Anne, sua mãe, me paparicava muito, sempre atenciosa, cuidava muito de mim.  

Em 2010 aconteceu a audição e a formação da banda, mas continuamos firmes e assim que o dinheiro começou a surgir, Harry comprou um apartamento. Por mais que eu tivesse dito milhares de vezes sobre não ser necessário e sermos jovens demais, ele prometeu que não seria nada muito extravagante e insistia no fato de que idade não significava nada.

Ajeitamos tudo relativamente rápido para começarmos a morar juntos e adotamos um cachorro também, um pastor de shetland, já com seus quatro anos. Tratávamos Oscar como um filho e ele foi sempre muito apegado à Harry, sofria muito com os primeiros dias de viagem. Complicado mesmo foi quando percebeu que não retornaria, adoeceu e chegou a ficar internado, achei que não resistiria. Oscar se recuperou, mas as vezes se mostrava abatido sem motivo aparente, talvez ainda sentia falta.  

E então chegou 2011. Ano complicado. Fama, imprensa, regras, agenda lotada. Esquecimento. Término. Foi o pior ano da minha vida. Quando tomei a decisão de que terminaríamos, achei que fosse a coisa mais sensata a se fazer. Bastou uma semana para que eu tivesse me arrependido. Eu estava simplesmente imprestável, até porque é praticamente impossível não escutar sobre Harry Styles em sua cidade natal. Seu rosto sempre estava na televisão e sua voz nas rádios. Achei que nunca o esqueceria. 

Passados quatro anos do término, com Anne e Gemma longe de Holmes Chapel, assim como Harry, não achei que algum dia voltaria a enfrentar todas as lembranças. Há tempos que já não notava mais os pôsteres com seu rosto estampado e as músicas que agora tocavam na rádio eu não conhecia as letras, mas algumas coisas não podem ser simplesmente ignoradas. 

! – sua voz era bastante conhecida e não pude deixar de notar o entusiasmo – Quanto tempo, eu estava com tantas saudades! 

Era uma quinta-feira à noite, num dos corredores do supermercado próximo a sua antiga casa, que Anne veio até mim e me abraçou forte. Todas as vezes que este momento passou pela minha cabeça, o momento que a reencontraria, achei que teria de forçar meu melhor sorriso e bolar um plano o mais rápido possível para que pudesse escapar, mas a verdade é que eu também sentia sua falta e o sorriso saiu frouxo ao vê-la.  

– Anne! É tão bom te ver também... – a abracei com força – O que faz em Holmes Chapel? Faz tempo que não te vejo por aqui.  

– Os garotos farão um show em Manchester esse sábado, então resolvi passar uns dias com a família. – começou a falar assim que partimos o abraço – Você deveria aparecer, aposto que estão todos com muitas saudades. 

Bom, aposto que nem todos sentiam tantas saudades assim. 

– Ah, Anne... – fiquei completamente sem jeito – Não sei se é uma boa ideia.  

, eu entendo, do fundo do coração, se você não quiser ir. – segurou minha mão – Mas acho que de uma vez por todas, com ambos seguindo seus caminhos, bem crescidos e já bastante resolvidos, poderiam conversar. Antes de qualquer outra coisa vocês sempre foram muito amigos. Você faz parte da história dele, tenho certeza que ele adoraria te ver sábado! 

Suspirei, abrindo a boca e não sabendo que palavras usar. Não achava nem um pouco sensata toda aquela conversa e estava prestes a recusar, mas então Anne voltou a falar. 

– Ele não quer voltar para cá, . – senti uma pontada de tristeza no tom de sua voz – A família tem sempre que viajar para vê-lo, mesmo que seja até Manchester. – voltou a encarar as prateleiras, mas continuou falando – Sinto que ainda tem muito medo de te encontrar e não saber como você vai reagir e eu queria muito que ele pudesse retornar para casa, poder conversar e sair com seus amigos sem medo de esbarrar com você por ai, sabe? – então voltou sua atenção para mim – Sei que não tenho o direito de te pedir isso e você, obviamente, pode recusar, mas eu sei que é tolice da parte dele ter esse pensamento e é por isso que eu queria que você fosse, pra mostrar a ele que isso tudo não tem um porquê.  

Senti meu coração afundar no peito. Todas as vezes que ansiei por vê-lo nas ruas esperando que nos esbarrássemos, nunca aconteceria, pois ele nunca retornara e por minha culpa. Não era minha obrigação ter que conversar com ele para que pudesse voltar sem receio e a possibilidade de vê-lo novamente já não fazia parte dos meus desejos há um bom tempo, mas o jeito com que Anne veio até mim e me pediu por aquilo fez com que meu coração parasse em minhas mãos. Ela, que sempre fora tão discreta e nada inconveniente, mesmo depois de anos sem me ver, não hesitou em me pedir por algo tão delicado e isso de certa forma me tocou. 

Naquele momento, ver Harry Styles já não parecia uma má ideia e parte de mim já ansiava pelo momento que fossemos nos encontrar novamente.  

– Os ingressos já não esgotaram? – perguntei num tom de brincadeira e vi um sorriso surgir no rosto de Anne, que me abraçou novamente.  

– Obrigada , mesmo! Só não esquece de levar um documento com foto, ok?  

Anne fez questão de me deixar em casa e conversar comigo por mais alguns minutos. Eu realmente senti falta de ter esses momentos com ela, pois sempre fora mais que uma relação de “sogra” e “nora”, sempre tratávamos uma a outra como amigas. Já minha mãe ficou muito surpresa, tanto com o pedido de Anne quanto eu ter aceitado.   

De sexta para sábado eu mal consegui dormir e ainda que estivesse passado o dia inteiro com o estômago embrulhado por conta da ansiedade, tive a capacidade de conseguir me atrasar.  

Assim que estacionei próximo a Manchester Arena, pude escutar os gritos de milhares de garotas e vozes bastante conhecidas por mim cantando. Meu estômago praticamente gritou e eu fiquei num dilema de dez minutos, ponderando sobre entrar ou não. Estava a um passo de desistir, mas lembrei o quão feliz Anne ficou por eu ter aceitado o convite e isso fez com que eu tomasse coragem. Mostrei meu documento com foto, assim como Anne pediu, e fui direcionada sem demora para dentro do local. Um dos seguranças me guiava entre corredores e notei que a cada passo o som aumentava. Não estávamos indo para a área privativa nas arquibancadas, estávamos indo para as grades ao lado do palco. 

– How you feeling, Manchester?  

Por um segundo eu pensei em fugir, sair correndo e dizer a Anne que havia sido atropelada, ficado doente ou qualquer coisa extrema que me impedisse de ir ao show, mas já não havia mais escapatória, eu estava ali, ao lado de uma grande passarela, com uma credencial pendurada em meu pescoço. Assim que prestei atenção na proporção que tudo aquilo tomara, minha boca caíra e eu mal conseguia assimilar. 

O palco era gigante e o espaço estava abarrotado de fãs histéricas. Estava tão distraída com a grandiosidade de tudo aquilo que nem percebi Gemma se aproximar. Veio até mim correndo e me abraçou com força. 

– Eu não acredito que você realmente veio! Que saudades, garota. – a irmã de Harry me deu um beijo na bochecha e pegou em minha mão, me levando até Anne e algumas outras pessoas da família – Mãe, olha quem chegou! 

– Ah, você veio! – foi a vez de Anne me abraçar – Eu já tinha desistido e já estava pronta para te ligar dando uma bronca depois do show. – riu logo em seguida.  

Bom, esse foi o momento o qual eu me senti uma adolescente de quatorze anos ao ver Harry Styles novamente. Meu ex namorado estava absurdamente lindo. Seus cabelos agora estavam cumpridos e estranhamente atraentes, fazendo meu coração bater tão forte que tive medo de que alguém pudesse escutá-lo mesmo com tanto barulho ao redor.  

Better Than Words tocava e apesar de eu não a conhecer naquele tempo, achei bastante divertida, mas não mais divertida que o momento o qual Harry simplesmente levantou sua perna e agarrou sua intimidade, fazendo com que Gemma gargalhasse ao notar minha expressão ao ver aquela cena. 

– Olha, eu não sei nem o que falar. – cruzei os braços, ainda o olhando dançar animado – Eu acabei de chegar e tenho que encarar uma coisa dessas!  

– Ele é muito exibido. – Gemma riu e revirou os olhos – Mas se soubesse que você viria hoje provavelmente não teria feito. 

– O que? – praticamente gritei – Eu não acredito que vocês não o avisaram! 

– Perderia a graça. – Gemma disse debochada enquanto dançava – Eu mal posso esperar para ver a cara dele! 

Passaram-se duas músicas e Harry ainda não tinha notado minha presença, mas Niall o fez enquanto eu conversava com Gemma. Ele olhou em minha direção e assim que eu notei seu olhar em mim, eu sorri de volta, acenando em seguida. Niall levou a mão até a boca, parecendo não acreditar, soltando uma risada exagerada em seguida. Correu na direção de Harry e falou algo em seu ouvido enquanto ele dançava e fazia palhaçadas esperando por sua vez de cantar. Assim que escutou Niall atentamente, mudou sua feição no mesmo segundo, ficando sério, e olhou na direção a qual o amigo apontava.  

Nossos olhares se cruzaram e eu senti meu coração na boca. Sorri timidamente e Harry continuou com a mesma cara até Liam o chamar, pois era sua vez de cantar e tinha perdido o primeiro verso. Harry direcionou sua atenção para a música, quebrando o contato visual, voltando a cantar ainda um pouco encabulado, como se não conseguisse acreditar no que tinha acabado de ver.  

Não demorou muito para que os garotos estivessem cientes da minha presença, fazendo com que Louis descesse do palco e viesse me dar um abraço. 

– Eu não acredito que você tá aqui , que saudades! – Louis me tirou do chão – Não vai embora sem antes me ver, ok? 

Louis deu uma piscadela e com ajuda do segurança retornou ao palco. Isso foi o suficiente para que todas as fãs dentro daquela arena surtassem, afinal, não sabiam quem estava causando tudo aquilo.   

– Tá tudo bem, ok? Elas são assim mesmo, só aproveita o show. – Anne me abraçou de lado e voltou a sua atenção ao palco, permanecendo nessa posição comigo – Eu adoro essa música. 

 

Going out tonight 
Changes into something red 
Her mother doesn't like that kind of dress 
Everything she never had she's showing off

 

Somente naquele momento, voltando minha total atenção para o palco, percebi que algo estava faltando. Zayn não estava lá.

– O que houve com o Zayn? – quis saber e Anne pareceu surpresa com a minha falta de conhecimento dos fatos.

– Você não soube? – sorriu torto – Ele deixou o grupo há alguns meses.

           Sempre soubemos que aquele não era o lugar de Zayn e que não queria estar ali, mas isso não fez com que o espanto diminuísse. Muita coisa havia mudado.

 

Driving too fast 
Moon is breaking through her hair 
She said it was something that she won't forget 
Having no regrets is all that she really wants

 

Era a vez de Liam e todas fãs cantavam junto, em uníssono. Era engraçado parar para pensar que aqueles cinco garotos imaturos haviam crescido tanto, tanto em relação a banda quanto como pessoas. Estavam todos muito diferentes, as vozes mais firmes, técnicas, já não podiam encarar como uma brincadeira. Era coisa de gente grande. 

 

We're only getting older baby 
And I've been thinking about it lately 
Does it ever drive you crazy 
Just how fast the night changes? 
Everything that you've ever dreamed of 
Disappearing when you wake up 
But there's nothing to be afraid of 
Even when the night changes 
It will never change me and you

 

Eu queria não ter ficado tão tensa quando Harry começou a cantar aqueles versos. Estava quieto, olhando num ponto fixo entre a multidão. Sua voz rouca fez com que cada pelo do meu corpo se eriçasse e que involuntariamente eu apertasse o braço de Anne que estava enroscado ao meu, tendo certeza de que ela notara, mas não disse nada para que não me deixasse sem graça.  

 

Chasing it tonight, 
Doubts are running ‘round her head 
He's waiting, hides behind a cigarette 
Heart is beating loud, she doesn't want it to stop

 

Louis era o mais descontraído no momento e eu não podia negar que estava feliz com a sua atitude. Era o garoto entre os cinco o qual eu sentia mais falta e o único que lembrava do meu aniversário, desejava feliz natal e me mandava algumas mensagens esporadicamente. Éramos muito amigos, eu, Harry e Louis, o trio inseparável. Bom, não tão inseparável assim. 

 

Moving too fast 
Moon is lighting up her skin 
She's falling, doesn't even know it yet 
Having no regrets is all that she really wants

 

Niall cantava olhando e acenando para algumas fãs, fazendo com que ficassem loucas. Ele sempre foi o mais atencioso, desde o programa adorava a ideia de estar participando de uma boy band, era incrível presenciar o quão tinha amadurecido.  

 

We're only getting older baby 
And I've been thinking about it lately 
Does it ever drive you crazy 
Just how fast the night changes? 
Everything that you've ever dreamed of 
Disappearing when you wake up 
But there's nothing to be afraid of 
Even when the night changes 
It will never change me and you

 

Gemma agora se aproximara e não importava o tanto de tempo que havíamos passado uma distante da outra, ela me conhecia como a palma de sua mão. Notou o quanto eu estava tensa e começou a rir de forma debochada da minha cara. 

– Você acha que é a única? – ergueu uma das sobrancelhas e cruzou os braços – Olha bem a cara dele! Não sei de quem eu dou mais risadas. 

 

Going out tonight 
Changes into something red 
Her mother doesn't like that kind of dress 
Reminds her of a missing piece of innocence she lost

 

Anne, que havia escutado o que sua filha dissera, não se aguentou e soltou algumas risadas também, me deixando ainda mais sem graça. Voltei minha total atenção para Harry e ele permanecia no mesmo lugar desde o início da canção, um tanto quanto alheio, como se não tivesse assimilado o fato de eu estar ali, entre a multidão. 

 

We're only getting older baby 
And I've been thinking about it lately 
Does it ever drive you crazy 
Just how fast the night changes? 
Everything that you've ever dreamed of 
Disappearing when you wake up 
But there's nothing to be afraid of 
Even when the night changes 
It will never change, baby 
It will never change, baby

 

E foi então no último verso da última estrofe daquela música o momento o qual eu tive praticamente certeza de que a qualquer segundo o meu coração pararia de bater. Meus olhos continuavam fixos em seu rosto e pela primeira vez durante a música, Harry desviou o seu olhar. Seus olhos se conectaram aos meus e seus lábios formaram um sorriso tímido, e mesmo tendo sido tudo muito rápido, senti que tive de unir cada força restante em meu corpo para que não desarmasse ali mesmo.  

 

It will never change, me and you

 

– Essa cena poderia fazer parte de um filme de comédia romântica bem trash, como 10 coisas que eu odeio em você, e repetir sem parar na televisão aberta. É tão a cara de vocês. – Gemma fingiu enjoo, como se fosse vomitar, me fazendo rir. 

– Eu juro que vou embora se você não parar com isso. – ameacei num tom de brincadeira.  

– Eu duvido que você consiga deixar essa arena agora. – desafiou. 

– Não pague pra ver. – ergui uma das sobrancelhas como forma de desafio. 

Harry ficava cada vez mais à vontade com a situação, não mais confuso como início, e de acordo com Gemma, vivia olhando em nossa direção. Às vezes nossos olhares se encontravam e não pude deixar de notar que o pequeno sorriso não saía do canto de sua boca, pois sua covinha estava a mostra toda vez que direcionava sua atenção a mim.  

Certo momento ele parou na passarela exatamente em nossa frente, com as mãos na cintura, me encarando.  

– O que você está fazendo aqui? – apenas movimentou os lábios, sem emitir qualquer som. 

Encolhi os ombros e levantei as mãos, como se também não soubesse o porquê de eu estar ali, fazendo com que ele soltasse uma gargalhada. Em seguida, aproximou o microfone da boca e disse: 

– Essa você conhece.  

As primeiras notas de What Makes You Beautiful soaram alto e eu fiquei bastante empolgada, fazendo com que eu e Gemma soltássemos gritinhos agudos. Harry sorriu por conta de nossa reação, afastando-se e caminhando em direção aos outros garotos logo após. 

– You’re insecure. – cantei com uma das mãos na cintura, olhando para Gem. 

– Don’t know what for. – continuou com a mão fechada em frente à sua boca, fingindo ser um microfone. 

– You're turning heads when you walk through the door. – cantamos juntas. 

– Don't need make-up. – imitei seu gesto com a mão, como se fosse um microfone. 

– To cover up. – Gemma completou. 

– Being the way that you are is enough! – gritávamos em uníssono, parecendo duas fãs histéricas, fazendo Anne gargalhar – Everyone else in the room can see it... everyone else but you! – apontamos uma para a outra. 

A arena explodia com as fãs gritando o refrão em êxtase e os garotos pulavam e cantavam pelo palco com um sorriso enorme no rosto. Aquela música fez com que um sentimento de nostalgia muito gostoso tomasse conta do meu corpo, era como se o tempo não tivesse passado, como se estivéssemos num show em 2011. Dançávamos e curtíamos a música e eu senti como se tivesse dezessete anos novamente. 

– Baby you light up my world like nobody else. – os quatro estavam parados lado a lado durante a última estrofe da música e Harry estava no meio com uma luz branca de um holofote sobre si. Eu senti meu coração bater como na primeira vez que o vi no corredor do colégio e no momento em que direcionou seu olhar para mim com um largo sorriso no rosto, tive certeza de que aquele órgão pulsante pularia para fora do peito – The way that you flip your hair gets me overwhelmed, but when you smile at the ground it ain't hard to tell... you don’t know, oh, oh... – sorri de volta de forma involuntária e balancei a cabeça negativamente, como se não aprovasse o que estava acontecendo, o fazendo rir por conta do ato – You don’t know you’re beautiful! 

– Não parece que voltamos no tempo? Há quatro anos? – Gemma perguntou, fazendo com que eu voltasse minha atenção a ela. 

– Eu tive a mesma sensação e tenho que admitir... é muito bom. – a abracei de lado –Senti sua falta, Gem. 

– Eu já vi isso tantas vezes, mas admito que vou sentir falta. – me abraçou de volta – Eu também senti sua falta e acho melhor voltarmos a nos falar. 

– Sentir falta? Vai parar de vir aos shows? – separei nosso abraço e voltei minha atenção a ela. 

 – Você não sabe? – me olhou surpresa, com a boca aberta num perfeito ‘O’ – Você mora numa caverna,  )? 

– O que eu deveria saber? – dei de ombros – Não, não moro numa caverna, mas também não fico procurando sobre a banda do meu ex namorado na internet. 

– Eles vão parar, a banda vai anunciar um hiato. – suspirou e fez um bico – É estranho saber que... sei lá quando eu vou ver eles juntos de novo. 

Então olhei para o palco e não consegui assimilar a informação muito bem. Uma dor estranha invadiu meu peito e eu não queria acreditar que era verdade. Havia os acompanhado desde o início, os vi evoluir, os vi conquistar o mundo, mas principalmente, vi Harry se tornar um artista incrível. 

Flashback 

Um Harry antes choroso voltou sorridente ao lado de outros quatro garotos da mesma faixa etária me deixando bastante confusa. Meu namorado correu em minha direção e me abraçou com força, tirando meus pés do chão. 

– Nós conseguimos! – disse com o rosto afundado em meu pescoço – Nos colocaram como um grupo, nós conseguimos!  

O meu coração que antes sangrava por ver Harry tão abatido, batia forte no peito, fazendo com que a alegria transbordasse através de lágrimas. 

– Eu sabia que você conseguiria... – separei nosso abraço e segurei seu rosto com ambas as mãos – Eu tô tão orgulhosa. 

– Obrigado por sempre estar ao meu lado, por sempre me incentivar e nunca deixar de acreditar em mim. – Harry sorriu e enxugou minhas lágrimas, unindo nossos lábios num selinho em seguida – ... – virou seu corpo para os quatro garotos que estavam logo atrás de nós – Esses são Louis, Niall, Liam e Zayn.  

End of flashback 

 Só consegui me desvencilhar daquela memória ao perceber que Harry vinha em nossa direção bastante animado, mas logo minhas expressões se fecharam pois cuspiu água para cima como uma baleia. 

– E eu odeio o seu irmão. – soltei simplesmente, mas acabei rindo da situação em seguida. 

– Eu disse, ele é muito exibido. – Gemma mostrou o dedo do meio para ele, que mostrou a língua para ela, se afastando logo em seguida. 

– Vocês não mudaram nada.  

*
 

Gemma andava de mãos dadas comigo entre os corredores, contando algumas situações engraçadas pelas quais tinha passado nos últimos tempos. Caminhávamos em direção a porta do cômodo o qual Harry e Louis estavam e assim que ela notou que conversavam, colocou o braço na frente do meu corpo, fazendo com que eu parasse, e o dedo indicador em sua própria boca, pedindo para que eu ficasse em silêncio. 

– Anne deve ter a convidado! – Louis exclamou – Mas ela deveria ter te avisado...  

– Eu não sei no que pensar. – reconheci a voz de Harry – Ela estando ali, por um segundo era como se... era como se o tempo não tivesse passado, como se nada tivesse mudado. 

– Eu estou rezando para que alguém tenha filmado a sua cara, mate. – Louis zombou – Foi ridícula. 

– Cala a boca. – ouvimos um barulho, provavelmente Harry havia atirado algo contra Louis, e em seguida risadas de ambos – O que você esperava? A última vez que a vi pessoalmente foi quando terminamos.  

– Ainda bem que Nadine não estava, se não... 

Sua irmã não deixou com que a conversa prosseguisse e soltou uma risada, entrando logo em seguida, como se tivesse acabado de chegar. Provavelmente estava receosa com o rumo que a conversa tomaria e como aquilo poderia me atingir, mas o que eu ouvi tinha sido o suficiente para que meu coração batesse feito uma orquestra no peito. 

Forcei meu melhor sorriso ao vê-lo, pois não queria parecer idiota ao encarar seu abdômen exposto e suado, agora coberto por tatuagens, seus cabelos longos e rebeldes, a camiseta apoiada no ombro e uma das mãos na cintura. Ele já não era aquele garoto magrelo de quinze anos e meu cérebro não conseguia processar tanta informação, mas pelo menos eu não sabia dizer quem parecia mais nervoso com a situação. Era perceptível o clima que se instalou no local. 

– Oi Harry.  

Acenei, mesmo estando em sua frente e tomei iniciativa para cumprimentá-lo. Queria poder ter visto esse momento de fora, deve ter sido engraçado. Fui com a intenção de abraçá-lo e ele estendeu a mão, vendo sua atitude, estendi a mão e no mesmo momento ele veio para um abraço e acabamos nos esbarrando, rindo em seguida. Então segurei seus braços para que parássemos a confusão e beijei sua bochecha, rezando mentalmente para que não tivesse notado todos os meus pelos se eriçarem por conta da proximidade.  

– Oi . – disse próximo ao meu ouvido enquanto me cumprimentava.  

 Louis não deixou que eu tivesse tempo para processar qualquer coisa a se dizer, me abraçando logo depois.  

– Eu não acredito que você está aqui... – plantou um beijo em meu rosto e me soltou em seguida – Calma, tem alguma coisa diferente. – apoiou o queixo em uma das mãos, pensativo – Ahá! Colocou silicone... senti no abraço. – soltou uma gargalhada, fazendo com que os outros também rissem. 

– Bem observado Louis, eu teria esquecido de contar a novidade. – revirei os olhos e soltei uma risada. 

Olhei para Harry, notando que me fitava com um sorriso nos lábios. 

– Foi um ótimo show, eu me senti exatamente como uma fã quando what makes you beautiful começou a tocar. – ao dizer aquilo, Harry riu e deu bons goles numa garrafa d’água, sem tirar os olhos de mim – E o palco é enorme, as telas, tudo muito bonito. 

– É, hoje foi incrível, casa cheia. – Harry colocou uma das mãos na nuca, a coçando – Vários amigos vieram, foi divertido. 

– Gemma me contou sobre o hiato. – disparei de repente – Eu... eu nem sei o que falar... – respirei fundo e rezei para que não saíssem lágrimas dos meus olhos – Meu Deus, não posso chorar na frente de vocês agora! – os dois riram e Louis voltou a me abraçar – Fico feliz em ter feito parte disso. 

– Obrigado por tudo , não teria sido a mesma coisa se você não estivesse lá. – Louis fez um carinho desengonçado em meu cabelo e pude ver Harry concordando com a cabeça enquanto nos encarava abraçados. 

– Oun, vocês são tão fofos. – Gemma sorriu de modo forçado, soando um tanto quanto sarcástica – Louis, você precisa ver as fotos de hoje, ficaram incríveis. 

– Ah, eu posso ver depois... – assim que Louis notara o modo com que Gemma o encarava, entendeu o recado – mas acho que o lanche chegou, tá com fome Gemma? 

– Morrendo de fome! Tchau , me liga, ok? – acenou e carregou Louis para fora do camarim e nos deixado sozinhos. 

– Okay... – Harry soltou uma risada e voltou a vestir a camisa, sentando-se no sofá em seguida. 

Não existiam motivos para odiar Harry Styles, exceto sua boa postura e educação, seus olhos expressivos e vívidos, o tom rouco de sua voz, o seu maldito sorriso perfeito, suas mãos firmes e convidativas, seus traços bem desenhados e sua língua que insistia em umedecer seu lábio inferior a cada dois minutos.   

– Quer sentar? – apontou para o espaço vago ao seu lado no sofá e assenti, sentando em seguida – Que bom que gostou do show, as coisas estão bem maiores do que costumavam ser há quatro anos atrás. 

– É, com certeza, e você também mudou bastante, digo, não o rosto, mas... todo o resto. – disse apontando para o seu corpo, fazendo com que Harry risse sem graça. 

– E você tá igual... – me analisou da cabeça aos pés – Exceto pelo silicone, é claro, como Louis fez questão de apontar. – riu do meu rosto que ficara completamente vermelho – Mas, mudando de assunto, como vai a faculdade? 

– Cansativa, mas está tudo muito... – o toque de seu celular soou alto, antes que eu pudesse finalizar – tudo muito bem. 

Harry pediu licença, se levantou, e foi até o corredor atender a chamada. Eu sei que qualquer coisa relacionada a vida de Harry Styles não me dizia mais respeito, mas não pude evitar em inclinar meu corpo para que pudesse escutar melhor o que dizia.  

– Eu sei que tinha prometido te buscar. Eu sei, mas... – suspirou pesadamente – Tudo bem, vou me apressar, ok? Eu também.  

Tratei de me ajeitar novamente no sofá assim que a ligação foi finalizada e fingi estar concentrada em qualquer coisa no celular, lutando para simplesmente ignorar ou esquecer o que eu havia acabado de escutar. “Eu não me importo”, repetia mentalmente. 

– Não quero ocupar seu tempo, sei que é tudo muito corrido. – ele abriu a boca na tentativa de protestar, mas prossegui – Queria me desculpar por ter aparecido assim, achei que você sabia que eu viria, mas tem um motivo. 

– Você não tem o que se desculpar, ok? – o tom de sua voz se tornara sério – A banda não se resume só a mim e... bom, somos amigos, não? 

– Sim, claro, somos amigos. – sorri sem mostrar os dentes. 

Talvez se prometesse a paz mundial teria soado mais realista do que forçar uma amizade entre nós dois.  

– Mas qual o motivo? – percebi certa curiosidade no perguntar.  

– Harry... – me aproximei, ainda sentada no sofá, e coloquei minha mão sobre a sua, fazendo com que fitasse nossas mãos juntas por um tempo – Não tem por que você deixar de visitar sua família e amigos em Holmes Chapel por minha causa, não somos mais crianças. – Harry suspirou, desviando o olhar em seguida – Não existe nada mais relevante do que aqueles que te amam e prezam pela sua presença, muito menos um término de quatro atrás.  

Suas íris voltaram a me encarar e aquele curto período de tempo em silêncio o qual ficamos simplesmente nos olhando pareceu eterno. Nossas mãos ainda juntas agora emanavam calor e uma inquietude dominava meus dedos, pois queriam se entrelaçar aos seus. Nossos corpos, lenta e involuntariamente, inclinavam-se para frente e pude sentir seu dedão se movimentar sutilmente, acariciando minha mão, mas assim que passos fortes ecoaram pelo corredor, levantei imediatamente num pulo e separei nossas mãos.  

– Eu tô bem, você tá bem... – meu coração batia forte por conta do susto – tá tudo bem e Anne ficará muito feliz se você for.  

Harry levantou em seguida, passando a mão em seus cabelos, visivelmente nervoso e assentindo positivamente com a cabeça.  

– Obrigado por vir até aqui me dizer isso.  

O telefone de Harry voltou a tocar e pude ver na tela brilhante sua foto junto de uma garota. Meu coração parou e senti meus pulmões gritarem por ar. Logo que notara meu olhar sobre a tela, tratou de pegar o aparelho. Notei que iria ignorar a ligação, mas o impedi, segurando seu braço. 

– Eu já tô indo. – soltei seu braço e me aproximei, ficando na ponta dos pés para poder lhe abraçar – Bom te ver.  

– Bom te ver também. – pude sentir o abraço apertar e em seguida se desfazer.  


Three

If we could only have this life for one more day
If we could only turn back time


A semana seguinte ao show foi um inferno, era como se eu estivesse revivendo os piores dias da minha vida. 

– Eu não acredito que virei manchete! – encarava a tela do computador desesperada. 

Cliquei na matéria e li em voz alta o corpo da notícia, para que minha mãe também escutasse, me torturando a cada palavra. 

 

Harry Styles estaria relembrando os bons e velhos tempos? 

 

Até onde sabíamos, um dos cinco membros da boy band mais querida, não só da Europa como do mundo, estaria em um relacionamento com a modelo Nadine Leopold, nos fazendo acreditar que dessa vez era para valer. Contudo, uma certa aparição na última apresentação da banda no domingo (4) fez com que o mundo inteiro se perguntasse: Harry Styles estaria relembrando os bons e velhos tempos? 

Os flashes capturaram o momento o qual Anne, mãe de Harry, e , sua ex-namorada, estavam abraçadas curtindo o show bem ao lado do palco. As fãs presentes relataram que o ex-casal não poupou olhares cúmplices durante todo o show e que Nadine não estava presente.  

(foto anexa de Anne e durante o show)
 

Você não lembra de ? Então refrescaremos sua memória. Harry e  mantiveram um relacionamento antes mesmo da banda ser formada. Segundo o mesmo, durante uma entrevista, desde os tempos de colégio. O namoro durou cerca de dois anos, chegando ao fim um pouco depois da banda ter completado um ano. “Foi um término amigável”, disse Harry para nós em 2011, “uma decisão difícil a ser tomada, tenho profundo respeito por ela e acredito que continuaremos a ser bons amigos” (leia a entrevista na íntegra).  

(fotos anexas de Harry e durante o namoro)
 

Seria este encontro a confirmação da contínua amizade ou o renascer das chamas de um velho amor? Bom, ainda não sabemos a resposta, mas Harry pareceu passar trabalho para convencer sua atual namorada de que não passou de um encontro entre amigos. Na mesma noite o cantor buscou Nadine no aeroporto e o casal não parecia estar tendo um bom momento. Os flashes capturaram o descontentamento da modelo. 

(fotos anexas de Harry e Nadine no aeroporto)
 

, não esqueceremos de você... estaremos todos bem atentos. 

 

Relembre: 

As 10 namoradas de Harry Styles 

Os melhores looks de Nadine Leopold 

Como conquistar o coração de Harry Styles? O cantor explica em 5 passos 

 

– Uma decisão difícil a ser tomada. – repeti debochada, numa voz afetada – Acredito que continuaremos a ser bons amigos. – encarei a nossa foto e senti uma lágrima escorrer. 

Por um momento tudo pareceu girar e meu estômago gritava, embrulhado. Aquilo não poderia acontecer. Meu nome não poderia estampar manchetes após quatro anos. 

– Isso não pode estar acontecendo. – então todas as outras lágrimas vieram – Não, não, não.  

Oscar rondava a cama preocupado, como se soubesse qual o tema do assunto, deitando em meus pés logo em seguida. 

– Filha, eu não suporto ter que te ver assim, sinto muito por ele estar com outra garota. 

– Não! Essa não é a questão! É óbvio que ele arranjaria alguém, eu só não precisava ter visto, eu não queria ter visto. – fechei a tela do notebook com força – Esse é o menor dos meus problemas, na realidade. Pouco me interessa se ele namora ou não, eu só não queria estar nessa posição, eu não queria estar nessa situação. – pus as mãos no rosto tentando fazer com que as lágrimas parassem, sem sucesso. Eu queria esquecer a foto dos dois brilhando na tela de seu telefone – Eu não queria lembrar de tudo o que senti por ele, lembrar que tudo isso ainda existe dentro de mim. Por que isso ainda tá dentro de mim? Mãe, por favor, faz parar. – disse manhosa, fazendo com que ela viesse até mim e me abraçasse. 

– Filha, tenho certeza que Harry também não está lidando bem com essa situação. – acariciou meus cabelos enquanto. 

– Mas e que diferença isso faz? Nenhuma. Nada mais importa. Meu rosto tá estampado em todos os sites de fofoca e isso era a última coisa que eu precisava. – falava entre soluços – , não esqueceremos de você. – repeti a última frase da matéria, fazendo com que o medo tomasse conta de todo meu corpo, me encolhendo no abraço de minha mãe – Isso é o inferno na terra.  

– Claro que importa. – minha mãe fez com que eu olhasse em seus olhos – Filha, você não come direito desde o dia desse bendito show, faltou mais aulas essa semana do que na graduação inteira e é a terceira vez que te pego chorando no meio da noite. – desfez o abraço e ajeitou o edredom por cima do meu corpo – Você nunca deve ter notado, mas toda essa história fez com que doesse muito em mim e em seu pai também, achávamos que vocês casariam!  

– Não tá ajudando, mãe… – falei baixinho e funguei, segurando sua mão e entrelaçando nossos dedos.  

– Mas também vimos você passar por tudo isso e aprender a seguir em frente, ser feliz de novo, nos fazendo acreditar que o Harry não era a pessoa certa pra você.  

Fechei meus olhos com força, querendo afastar a dor de escutar a pior das verdades. Harry não era o cara certo pra mim. Eu já não era alguém importante para ele. Eu carregava aquela dor sozinha e pensar nisso fez com que eu me sentisse ainda mais patética. Eu terminei, eu tomei aquela decisão que um dia pareceu tão sensata, eu bloqueei o número do seu telefone, eu não abri a porta para que ele entrasse, foi eu quem decidiu esquecer primeiro. 

 Flashbacks  

 – Harry… – minha cabeça estava encostada em seu ombro, voltávamos do local do show para o hotel – Você promete que isso tudo… isso tudo nunca vai fazer com que a gente se separe? 

– Isso tudo o que? – bocejou cansado – Nada no mundo inteiro vai fazer mudar o que eu sinto aqui dentro. Nada.  

Harry pegou em meu queixo e fez com que nos olhássemos  

– Você nunca pode duvidar de mim em relação a isso, ok? Jura? – balancei a cabeça positivamente e ele sorriu, beijando minha testa – Momentos difíceis aparecerão, não vou prometer que tudo vai ser fácil porque é algo que não depende só de mim, mas você precisa ficar ao meu lado e procurar entender essa oportunidade que foi dada a mim… até porque nada disso teria graça se você não estivesse do meu lado. 

*
 

– Então, agora o que todos, ou melhor, todas essas garotas realmente querem saber… – o entrevistador intercalou o olhar entre os meninos e a plateia – Como vai o coração dos garotos mais cobiçados da Inglaterra? 

As garotas ao meu redor soltaram gritinhos e percebi o olhar de Harry sobre mim, sorrindo sem graça.  

– Harry Styles! – o homem muito bem-vestido num terno cor grafite o chamou, fazendo com que o meu namorado voltasse a sua atenção para ele – Como vai esse coraçãozinho? Você namora, não namora? 

– Muito bem, obrigado. – soltou uma risada e ajeitou seus cachos – Sim, ela está aqui inclusive. 

As garotas ao meu redor procuravam inquietas por mim e eu queria estrangular Harry naquele momento.  

– Ah, é mesmo? Onde? – olhava atento para a plateia. 

– Bem ali… – apontou para mim e pude sentir meu rosto queimar, mas por educação, acenei para o apresentador do programa – Não é a coisa mais linda?  

Eu queria sair correndo e esconder o meu rosto no primeiro buraco que aparecesse em minha frente. Harry percebera o quão desconfortável eu me sentia, mas, mesmo assim, ria da situação.  

Assim que a pergunta fora direcionada para um dos outros garotos, voltou a olhar em minha direção e pude ler seus lábios, que diziam sem emitir qualquer som. 

– Eu te amo.  

*
 

Meu coração latejava de tantas saudades que sentia de Harry. Eu não conseguia dormir, Oscar estava deitado em seu lugar ao meu lado na cama e minha cabeça doía por conta das horas a fio chorando. 

Eram três e vinte e sete da manhã quando meu celular começou a vibrar em cima do criado-mudo, nosso cachorro deu um latido bastante alto e meu coração deu um pulo ao perceber que se tratava de uma ligação de vídeo de Harry. Enxuguei os olhos, mas estes ainda brilhavam por conta das lágrimas e meu rosto permanecia bastante vermelho. 

Assim que a ligação se estabeleceu, pude ver Harry fungando do outro lado da tela, com o rosto bastante vermelho também. Eu simplesmente não consegui. Não consegui segurar. Ver o seu rosto visivelmente choroso, assim como o meu, fez com que eu voltasse a chorar descontroladamente. Harry não disse nada e também voltou a chorar. Eu queria poder me teletransportar, queria abraçá-lo, queria beijá-lo, queria segurar sua mão e gritar para todo o mundo o quanto eu o amava.  

Não falávamos nada, apenas olhávamos um ao outro através da tela. Eu não lembro quanto tempo ficamos assim, mas aos poucos nos acalmamos. Nos encarávamos em silêncio e, de repente, Harry levou uma das mãos à cabeça, como se não acreditasse em todo o sentimento que carregava, como se não soubesse como lidar. Então voltou a olhar para a tela do celular e fungou novamente em seguida. 

– Eu te amo. 

– Eu te amo, Harry.  

*
 

, por favor, abre a porta. Por favor, por favor… 

Harry falava do outro lado da porta do meu quarto, com uma voz chorosa. Seus punhos batiam na madeira cada vez mais forte e eu não conseguia proferir uma palavra ou me mover. Permaneci sentada na cama, em silêncio, vendo a porta vibrar com os socos. 

–  abre a porta agora! – gritou e bateu tão forte que fez com que eu levasse um susto e arregalasse os olhos. 

Os latidos de Oscar, também do outro lado, ficaram mais altos e logo ouvi a voz da minha mãe, calma, mas também assustada. 

– Harry, querido, por favor, não torne as coisas mais difíceis… 

Os socos pararam.  

, por favor… – falava baixinho dessa vez, encostando a cabeça na porta – Me perdoa, eu não queria ter esquecido… não me faz ter que nos esquecer também… abre a porta, eu preciso te ver. 

Não consegui segurar o soluço e as lágrimas que vieram em seguida, fazendo com que ele escutasse e também começasse a chorar. Se eu abrisse a porta eu sabia que não conseguiria resistir, acabaria cedendo, mas eu precisava ser forte.  

– Eu, eu não consigo entender como você realmente acredita que a gente vai conseguir ser feliz um sem o outro… a gente não vai conseguir… amor, abre essa porta. 

Levantei, com a mão ainda na boca, abafando os soluços. Encostei minha cabeça na porta, fechei os olhos e suspirei. 

– Harry… eu já consegui.  

 End of flashbacks 

Olhei para a porta fechada por um instante, mas logo voltei a atenção para a minha mãe. 

– E você também tem o Matthew... 

– Matty não está aqui, – a olhei emburrada – está? 

– Só não quero ter que vir aqui outra noite e ver você desse jeito. – finalizou, beijando minha testa e levantando da cama – Você é muito melhor que isso, filha.  

– Mãe, não vai… – involuntariamente, minhas expressões de choro retornaram e algumas lágrimas ameaçaram voltar.   

Ela fez o caminho de volta para a cama e permaneceu ao meu lado até que eu dormisse. Eu só não queria ter que acordar, eu só não queria ter que lembrar que eu não o tinha mais ao meu lado. Não queria me culpar tanto, lembrar tanto, eu só queria voltar a acreditar de que foi a decisão certa a se tomar, de que tudo passaria e era exatamente daquele jeito que era para ser.  

 

Harry

 

 

– Promete que vai se cuidar? – minha namorada perguntou enquanto ajeitava suas malas. 

– Não sei porque se preocupa tanto, vou ficar com a minha família, assim como você. – voltei minha atenção para ela. 

– É, não tem o porquê me preocupar, a não ser que uma namoradinha do colégio resolva lhe fazer uma visita. – disse amarga.  

Nadine fez com que eu lembrasse da possibilidade de trombar com  durante meu período de férias em casa. Durante esses quatro anos, era a segunda vez que voltava para Holmes Chapel depois do término e o primeiro contato de minha atual namorada com a minha família.  

Eu simplesmente não consegui tirar  de minha cabeça por sequer um dia desde o show em Manchester, fazendo com que me desligasse um pouco do meu relacionamento com Nadine e, consequentemente, deixando-a cada vez mais frustrada e triste, o que fazia com que eu me sentisse cada vez mais culpado. Nunca quis magoar Nadine, estava bastante satisfeito com o nosso relacionamento até então, mas não pude evitar a avalanche de sentimentos que o encontro com  proporcionara. Eu queria seguir em frente, eu queria esquecê-la, mas os dias se arrastavam cada vez mais dolorosos, atrelados a lembrança de como dançava, cantava e olhava para mim durante o show e da proximidade dos nossos corpos antes que deixasse o camarim. Seria engraçado se não fosse trágico todos os reflexos de um simples contato físico com . O jeito como nossas mãos se dispusera e o quanto eu queria que aquele contato tivesse se aprofundado me assombravam cada vez mais.  

A verdade é que naquela mesma tarde em Manchester, assim como em todos os outros shows naquela arena, durante os últimos quatro anos, eu projetava diversas vezes em minha cabeça a possibilidade de sua aparição e estar diante da concretização de meus devaneios foi um choque e tanto.  

Vê-la encarando a ligação de Nadine em meu celular fez doer em mim. Vê-la deixando o camarim às pressas doeu muito mais, mas insistir naquilo era loucura e eu estava completamente ciente daquilo, por isso eu não havia desistido de Nadine. Eu queria conseguir tentar mais, eu estava disposto a tentar mais, na esperança de que tudo aquilo fosse passageiro, de que um dia eu acordaria completamente bem, tendo esquecido de tudo aquilo que me atordoava. 

– Ei… – abracei Nadine por trás e plantei alguns beijos em sua nuca – Eu já te expliquei, ok? Foi tudo um mal-entendido, você sabe como a mídia distorce as coisas. – fiz com que virasse de frente para mim – Nem fui eu quem a convidei. 

– Mas sua mãe a convidou! – insistiu no assunto, com uma voz manhosa – Ela não gosta de mim? 

– Claro que gosta. – ajeitei uma mecha de seu cabelo atrás de sua orelha – Mas já disse pra deixar isso pra lá, passou e… – olhei no relógio – vamos nos apressar, seu trem parte daqui a pouco. 

 Eu te amo, Harry…  Nadine disse assim que me virei para alcançar as chaves do carro em cima da cômoda. Respirei pesadamente e me senti péssimo por ter que enfrentar aquela situação. 

– Eu também.  voltei a lhe fitar e sorri sem mostrar os dentes, beijando o topo da sua cabeça em seguida. 

Nadine sorriu sem graça e pude notar que minhas palavras não mais lhe convenciam. Senti meu coração apertar por conta disso. Não queria lhe fazer sofrer. Não queria que ambos tivessem que passar por aquilo. O percurso até a estação foi silencioso e nos despedimos com sorrisos tímidos e um selinho demorado de Nadine, fazendo parecer que aquela despedida seria definitiva.  

O retorno para a casa de minha mãe foi tão melancólico quanto o percurso até a estação e eu não estava preparado para passar por aquela porta e receber o bombardeio de informações que estavam guardadas no peito de Anne. Minha mãe me conhecia mais do que a si própria, provavelmente. Tentei passar despercebido pela cozinha, já que minha mãe estava de costas, preparando algo no balcão, mas falhei. 

– Não adianta Harry, uma hora ou outra a gente vai ter que conversar e eu preferia que fosse agora. – se virou para mim, apoiando-se no balcão – Eu não aguento mais te ver assim. 

– Assim como, mãe? – me sentei em uma das cadeiras da cozinha, me rendendo àquela conversa a qual não conseguiria mais evitar – Tô aqui como você queria, como você pediu, como a minha ex namorada pediu porque você pediu! – pareci uma criança mimada recitando a última frase, fazendo com que minha mãe soltasse uma risada. 

– Eu não sabia que isso mexeria tanto com você, meu amor. – veio até mim e acariciou meu rosto, fazendo com que eu fechasse meus olhos por um momento – Eu queria conseguir me desculpar, mas não posso. 

– Por que não pode? – abri meus olhos e a fitei intrigado. 

– Porque nada acontece por acaso, não acha? – ergueu uma de suas sobrancelhas – Eu não encontrei  naquele supermercado por acaso e tenho certeza que ela não foi até aquele show simplesmente porque pedi. 

– O que você acha, então? – apoiei meu queixo em uma de minhas mãos, interessado com o rumo da conversa. 

– Eu acho que desde que a vi passar pela primeira vez por aquela porta, eu tive certeza do que significaria na sua vida, Harry. – sorri involuntariamente ao ouvir suas palavras – Você não tem noção o quanto quis brigar com você por ter esquecido aquela data, mas simplesmente não conseguia! Eu seria a pior pessoa do mundo se ralhasse com você por aquilo, como o faria depois de ver você sofrendo tanto? Sabendo que tudo não passou de um mal-entendido, que não foi por querer... Você tem o mundo nos ombros e eu, mais do que ninguém, sei disso, mas também não a culpo por não entender. – senti uma lágrima teimosa escorrer enquanto escutava minha mãe falar, não conseguindo mais lhe encarar – Harry, você é um menino tão bom e não é só porque sou sua mãe que estou falando. Não existe uma pessoa no mundo que te conheça e não goste de você e, meu amor, não é exceção.  

– Eu não quero me sentir esperançoso e ser rejeitado de novo, mãe. – enxuguei aquela mesma lágrima – E estamos esquecendo de um ponto bem importante: Nadine. Ela é minha namorada agora e gosta de mim, não vou desrespeitá-la.  

– Não estou sugerindo que traia a confiança de Nadine, Harry. – disse ofendida – Mas não posso evitar sentir que esse encontro foi o início de um recomeço.  

– Eu não vou me apegar em possibilidades! – levantei um pouco alterado – Nem eu, nem você, nem ninguém sabe o que se passa pela cabeça de e eu não posso me deixar abater de novo, mãe.  

– Eu não sei o que se passa na cabeça dela filho, mas o que meus olhos veem... ninguém me convence do contrário.  

– E o que você viu, afinal?  

– Só um completo sem noção não notaria a forma com que ela te olhou durante todo o show! Se aquilo não é amor Harry, eu não entendo nada de amor.  

Anne voltou a sua atenção para o balcão devido ao meu silêncio e respirou pesadamente. Encarou o porta chaves e ponderou, pegando a etiquetada com “apto. 703” e colocando em cima da mesa. Sem dizer mais nada, rumou até o seu quarto no interior da casa. 

– Golpe baixo! – falei antes que saísse do meu campo de visão, fazendo com que antes de sumir entre os corredores, lançasse um sorriso cumplice para mim. 

  Encarei a chave por um tempo enquanto minha mente travava uma batalha entre tomar coragem e ir até lá ou me convencer de que não era uma boa ideia. Acabei optando por ir até lá, repetindo para mim mesmo que não demoraria, seria só uma passadinha, apenas para ver se tinha deixado algo de interessante. Peguei a chave diante de mim e decidi que iria caminhando, eu sentia falta daquelas ruas. 

Cumprimentei dois ou três conhecidos pelo caminho, mas nenhum ficou tão surpreso quanto Joe, o porteiro, quando me viu se aproximar do prédio. 

– Eu não acredito... Harry! Você por aqui, mate. – assim que me aproximei com um sorriso no rosto, Joe me abraçou. 

– Vim visitar minha família, já fazia um bom tempo... – suspirei ao encarar a fachada, colocando as mãos nos bolsos da calça enquanto a admirava – Tenho saudades daqui. 

– Da cidade ou do apartamento? Aposto que você tem um bem maior agora! – soltou uma risada simpático. 

– Dos dois, Joe, dos dois. – fui andando em direção ao elevador, apertando o botão em seguida – Nem tudo o dinheiro compra. 

Notei que Joe forçou seu melhor sorriso após minha última constatação, como se soubesse exatamente do que se tratava. Na realidade, tenho certeza de que sabia. Acenei de volta antes que entrasse no elevador, apertando o número sete logo depois.  

Meu estômago deu um nó e pude escutá-lo se revirar dentro de mim. Eu estava nervoso. Mesmo sabendo que ela não estaria lá. Mesmo sabendo que ela não abriria a porta e que não receberia os abraços de Oscar. Mesmo sabendo que era só um apartamento empoeirado e alguma mobília. Mas era o nosso apartamento. Era a nossa história. O girar da chave na tranca pareceu ter demorado muito tempo, assim como o abrir da porta.  

Por um tempo eu desejei não ter aberto.  

Estava tudo exatamente como antes e nada empoeirado, para minha surpresa. Então pensei na possibilidade de minha mãe ter contratado alguém para que mantivesse limpo e sorri sozinho por isso.  

O sentimento de nostalgia invadiu cada molécula do meu corpo e eu simplesmente não conseguia parar de analisar cada detalhe daquele cômodo. Fechei a porta e caminhei lentamente até o meio da sala, encarando o sofá e ficando frustrado comigo mesmo por sentir vontade de chorar por estar diante de um simples sofá.   

Flashback 

– Amor, acho que o sofá poderia ficar um pouco mais pra frente… – disse com uma das mãos na cintura e a outra enxugando algumas gotículas de suor na testa, enquanto encarava a disposição da mobília na sala. Estávamos no segundo dia de mudança e não parava um segundo. 

– E eu acho – me joguei no sofá – que deveríamos descansar um pouquinho… – chamei-a com o dedo e ela sorriu marota, deitando-se sobre mim. 

Passei as mãos pelo seu tronco, abraçando-a e dei início a um beijo calmo, curtindo o momento no nosso sofá, no nosso apartamento. Assim que os carinhos tomaram um rumo mais quente e o beijo já não era tão mais calmo, pude sentir um peso sobre nossos corpos e uma língua que também queria fazer parte do beijo. 

– Oscar! Saí de cima, agora! – praguejei assim que separamos nossos lábios, recebendo outra lambida do nosso cachorro e risadas histéricas de  – Não tem graça, eu não queria um beijo seu agora… – reclamei para Oscar que notou o tom de voz e se aquietou, deitando em nosso meio. 

– Vocês são os amores da minha vida, sabia? – seus olhos brilhavam enquanto nos olhava e logo nos abraçou – Eu não trocaria isso por nada. 

End of flashback 

Sentei no sofá, apoiando os cotovelos nos joelhos e a cabeça em minhas mãos e ri de mim mesmo. Achava engraçado como eu era apegado em pequenos momentos e fazia questão de guardá-los muito bem em minha memória. As coisas mais corriqueiras, os tiques e manias que passariam despercebidos por qualquer um eu fazia questão de guardar. Um dos meus maiores prazeres era analisá-la enquanto estudava, cozinhava ou assistia televisão. Eu era feliz em estudar os seus movimentos e conhecer cada centímetro de seu corpo, simplesmente por saber que só eu a conheceria tão bem no mundo e que tudo aquilo que fazia a ser a  também era meu, porque ela era minha. Era um universo inteirinho ali, diante de mim, e acessível a mim como a nenhuma outra pessoa.  

E de achar toda aquela situação engraçada, de repente eu fiquei triste. Triste por saber que tinha lhe perdido. Triste por não conseguir dimensionar quanta coisa eu perdi em sua vida e todas as novas manias e tiques que se desenvolveram ao longo do tempo que eu não conhecia. Triste, chorando, ao encarar aquele calendário na parede e lembrar que aquele universo que uma vez foi meu e só meu, deixou ser descoberta por outras pessoas. Triste, chorando, cambaleando até chegar a porta do quarto, encarar a nossa cama vazia e lembrar que  não estava muito longe dali, implorando baixinho para que por qualquer motivo divino ela aparecesse em nosso antigo apartamento e me permitisse saber se ainda escuta as mesmas músicas e se ainda dança na frente do espelho depois do banho com a toalha na cabeça, se ela ainda tem aquele óculos way farer preto que a deixa irresistível ou se guardou seu tênis favorito rasgado. Eu queria saber quais filmes tinha assistido e quais comidas diferentes tinha provado. Eu queria tanto saber. Triste, chorando, sozinho até pegar no sono, querendo acordar tendo certeza de que não passou de uma noite mal dormida e um pesadelo desgostoso. 

Acordei com minha mãe preparando alguns ovos na cozinha. Disse que as toalhas estavam limpas e guardadas no banheiro, que havia trazido minha mala com todas as minhas roupas e que poderíamos ir juntos ao mercado comprar o que fosse necessário para que eu conseguisse me virar no tempo que decidisse passar lá.  

– Eu sabia que você não voltaria na mesma noite. – tinha um sorriso no rosto vitorioso, como quem dizia “eu já sabia, eu te avisei” – Ah, tem algumas cobertas na cômoda também, você estava congelando quando cheguei aqui pela manhã.  

– Desde quando você mantém isso tudo limpo e organizado? – perguntei com a boca cheia de ovos que Anne preparara, fazendo com que minha mãe soltasse uma risada – Desculpe. – disse após engolir e ri junto dela.  

– Desde sempre, pelo menos uma vez a cada três meses, mas assim que aceitou ir ao show, eu pedi que limpassem e ajeitassem imediatamente. – minha mãe tinha um sorriso maroto no rosto – Eu sabia que ela te convenceria em voltar pra casa e que muito provavelmente você gostaria de visitar, eu sei o quanto você gosta desse lugar. Ainda bem que tive essa ideia! 

– É por isso que eu te amo mãe, obrigado.  

Minha mãe sorriu cúmplice para mim, beijando o topo da minha cabeça enquanto eu ainda comia.  

– Mas se precisar chorar... – encarou meus olhos inchados – Você corre lá pra casa, ok? 


Four

Somehow it feels like nothing has changed
Right now, my heart is beating the same


Uma semana passou rápido demais desde que Nadine fora embora de Holmes Chapel e o nosso contato era mínimo. Eu sabia que o nosso relacionamento estava fadado ao término, eu só não queria ter que tomar a decisão e dizer as palavras. E há uma semana eu dormia em meu antigo apartamento, revezando entre composições, recaídas e companhia de alguns dos meus antigos amigos do colégio. 

 – Amanhã é o aniversário de Nicholas. – disse Noah jogado em meu sofá onde dormira aquela noite, enquanto passava os canais da televisão – Vamos fazer uma festa pra ele lá em casa, todo mundo do colégio vai, você tem que ir, mate.  

 – Todo mundo? – tentei soar despretensioso, mas pude ouvir a risada fraca de Noah. 

– Ela foi convidada, mas acho que não vai aparecer. – levantou do sofá e foi até mim – Ela se afastou de todo mundo depois do término, mas mate, por favor, deixa isso pra lá, já faz quatro anos, você tem uma namorada gostosa... – lhe lancei um olhar de reprovação que o fez rir – Ok, desculpa, mas enfim, você tem uma namorada e ponto. Você tá em outra, ela ta em outra, esquece e aparece lá, ok? 

– Tudo bem, eu vou pensar.  

– Pensar? – Noah revirou os olhos – Nem vem com essa, Harry! – dirigiu-se até a porta, abrindo-a em seguida – Você vai sim, nem que eu tenha que te buscar!  

Meu amigo passou pela porta e me deixou sozinho mais uma vez, deixando com que aquela frase não parasse de ecoar em minha cabeça: ela ta em outra. Esse tempo todo me martirizei pela minha culpa em nosso término, pensando que esse, junto do meu relacionamento, eram os únicos motivos que me impediam de reconquistá-la, mas nunca tinha passado pela minha cabeça que ela poderia estar namorando também.  

Eu estava exausto. Não aguentava mais toda aquela angustia e os dias se arrastando da forma mais dolorosa possível. Tudo me remetia a ela e ao mesmo tempo que eu queria me desvencilhar de tudo que me assombrava, eu queria ir até ela e roubá-la pra mim, pondo um fim naquela dor.  

Fazendo com que eu me distraísse em relação aos meus pensamentos, escutei meu celular tocar. Minha irmã estava me ligando. 

– Bom dia depressão! – minha irmã falou num tom de brincadeira e pude escutar minha mãe ralhar com ela por isso – Tudo bem, desculpe, é só uma brincadeira. 

– Bom dia Gemma... – respondi tranquilamente – Aconteceu alguma coisa? 

– Mamãe está fazendo um almoço e pediu para que você viesse comer com a gente, você vem? 

– Claro, já tô pronto, logo mais eu tô aí!  

– Tudo bem, beijos cabeção! 

– Beijos velhota. – pude escutar sua risada antes que finalizasse a ligação.  

Vesti o sobretudo que estava apoiado na cadeira, peguei a chave do apartamento e ponderei ao pegar a do carro, optando por ir a pé. Ao descer, cumprimentei Joe, que ofereceu uma xícara de café preto e puxou um papo sobre o time de futebol da cidade.  

– Bom dia Joe! – uma voz feminina o cumprimentou e assim que virei para ver de quem se tratava, senti meu corpo enrijecer. 

– Bom dia, senhorita. – Joe falou sem jeito, não sabendo como agir, talvez estivesse tanto em pânico quanto eu. 

É. Talvez nem tanto quanto eu. 

estava há alguns metros de mim, brincando com Oscar no jardim do prédio. Vestia o suéter marrom com bolinhas verdes e meu coração apertou. Aquela era a peça que sempre usava quando estava triste, pois dizia que era confortável e acolhedor, então me perguntei o porquê de ela estar usando aquela peça e por qual motivo estaria triste, mas antes que eu pudesse ao menos a cumprimentar, já estava praticamente deitado no chão. Oscar havia pulado em cima de mim, me derrubando.  

Nunca tinha visto nosso cachorro daquele jeito. Oscar latia tão alto e de um jeito tão diferente que não parecia estar se comunicando, mas chorando. Pulava em cima de mim e lambia meu rosto sem parar. Quando consegui me sentar para abraçá-lo, parou de lamber, mas de forma alguma parava de latir. Pude notar que não tinha saído do lugar e nos encarava de pé, esfregando os olhos.  

Não sei exatamente quanto tempo aquilo durou, mas tenho certeza de que não foi menos que dez minutos. Então, só depois de todo esse tempo, quando  finalmente se aproximou, agachando-se próxima a nós, que seus latidos cessaram completamente. Oscar saiu dos meus braços e se colocou em nosso meio, intercalando seu olhar entre e eu, mas não sabíamos o que fazer ou o que falar. Joe não se fazia mais presente e por aquela situação de silêncio ter se estendido, Oscar soltou um único e alto latido. 

– Ele sentiu sua falta. – respondeu rapidamente, logo após o latido, sorrindo sem jeito. 

– É, eu também senti falta dele. – Oscar voltou aos meus braços, abanando o rabo, fazendo com que aquela lágrima que ficou tanto tempo ali, teimosa presa em meus olhos, deslizasse pelo rosto. 

Vê-la ao meu lado, tê-lo em meu colo, fez com que aquela sensação de que nada mudara me invadisse novamente. Como se meu coração nunca tivesse saído de casa. Estávamos nós dois, lado a lado, em frente ao nosso apartamento, com o nosso cachorro. Eu torcia mentalmente para que o ano fosse 2011.  

Seus dedos brincavam impaciente uns com os outros, significando que não sabia lidar com a situação e seus olhos passeavam por todos os cantos, mas não ousavam pousar em mim, pensando em todas as frases que poderia falar para que o clima não pesasse tanto.  

– Achei que tivesse vendido o apartamento. – disse baixinho e percebi através de suas feições que se martirizava por ter tocado naquele assunto. 

– Não, não vendi. – respondi imediatamente, enquanto acariciava Oscar – Eu tô passando um tempo aqui, graças a você... – notei um sorriso brotar no canto da boca de  e me toquei do que havia dito – Digo, não porque você tá aqui ou porque era nosso apartamento, mas na cidade, sabe? Pelo o que você disse na arena aquele dia que minha mãe lhe pediu para que eu visitasse a minha família e que era besteira não voltar pra casa por conta do que a gente teve um dia e... – respirei fundo, após falar aquilo tudo tão rápido e nervoso – Desculpe. – ri sem graça em seguida, sentindo meu rosto ferver de vergonha, mesmo com o frio que estava na rua, fazendo-a soltar uma risada gostosa. 

– Tudo bem Harry, eu entendi. – levantou-se em seguida, colocando a guia em Oscar que reclamou na forma de latidos – Bem, tenho que ir... 

– É, eu também tenho. – levantei com ajuda de  que estendera a mão, então aproveitei para abraçá-la em forma de despedida. 

pareceu não se dar conta do que estava acontecendo, pois demorou um pouco para que retribuísse o abraço, mas quando o fez, pude sentir os nossos corpos totalmente colados. Meu rosto, pelo curto período do abraço, estava perigosamente próximo ao seu pescoço que emanava um cheirinho tão bom que a última coisa que eu queria fazer era ter que me despedir.  

– Se cuida. 

Pude sentir suas mãos apertarem o meu casaco assim que escutara aquelas palavras, afastando-se em seguida.  

– Você também, Harry. – sorriu sem mostrar os dentes. 

 Oscar se fez muito relutante e latia muito, tanto quanto no momento o qual me viu, não querendo se afastar.  puxava a guia com força, mas nosso cachorro olhava em minha direção como quem dizia que não sairia de lá sem mim. Fui em sua direção, me agachando em seguida e recebendo uma lambida como recompensa pela aproximação. 

– Vai para casa campeão. – acariciava sua cabeça – Eu prometo que vou te visitar, ok?   

Levantei assim que notei as expressões de Oscar transparecerem serenas e sorri para  antes que me afastasse em passos largos em direção à casa de minha mãe.  

Seus latidos estavam cada vez mais distantes. 

Eu não pude evitar caminhar com um sorriso largo e besta no rosto. levava Oscar no jardim de nosso apartamento para brincar e minha mãe tinha razão, aquilo cheirava a início de um recomeço. 

 

 

Depois de rever Harry em frente ao nosso antigo apartamento, Oscar adoeceu novamente, pois apesar de prometer que visitaria, não é como se o nosso cachorro fosse entender. Mas eu entendi, e pensar na possibilidade de Harry vir com certa frequência a minha casa fazia com que eu ficasse mais receosa ainda. 

Achei que nada poderia fazer com que tudo piorasse depois de pensar na possibilidade de Harry estar morando com sua atual namorada em nosso antigo apartamento, até receber as notas das últimas provas do semestre. Com o fechamento das notas e do período, nada se fez interessante o suficiente para que eu me levantasse da cama. Oscar e eu só saíamos do quarto para ir ao banheiro, não sabia dizer qual dos dois estava mais abatido.   

Independente de quantos remédios para dormir eu tomasse, Harry insistia em aparecer até mesmo em meus sonhos, fazendo com que eu despertasse angustiada praticamente todas as noites. Apesar de toda a cordialidade e simpatia durante nosso encontro, eu tinha que ser realista: não existia mais nós. Existia Harry Styles e Nadine Leopold nos cômodos que uma vez foram nossos. Eu tinha ânsias de vômito só de imaginar.

Fazia uma semana que eu estava de recesso e, consequentemente, uma semana que eu estava de cama. Oscar estava deitado em meus pés, ainda muito quieto, enquanto eu lia um dos livros recomendados pelo professor de Contextos Internacionais do Direito Penal. 

Eu estava no último ano de Direito na Universidade de Manchester. Meu pai era delegado e sempre tive grande admiração pelo seu trabalho, assim como minha mãe, que sempre me incentivava a seguir a carreira jurídica. Vários colegas meus também achavam o máximo quando conversávamos sobre isso nos tempos do colégio, inclusive Harry, que antes da banda, sempre teve muita vontade de seguir a carreira jurídica. Contudo, assim que comecei a cursar e o tempo se tornou curto, já não parecia gostar tanto da ideia.  

Ao contrário de Harry, o meu melhor amigo e, mais tarde, meu segundo namorado, Matthew sempre me apoiou muito. Nossos pais eram colegas de trabalho e vizinhos, por isso desde muito pequenos andávamos juntos. Com o tempo, Matty levou embora toda a tristeza. Era um ótimo companheiro e em momento algum deixou de ser um grande amigo, sempre muito compreensível. Eu aprendi a ser feliz de novo e o nome de Harry quase nunca surgia. Claro, procurávamos evitar, até porque os dois também eram amigos. 

Apesar de Matthew nunca pensar em seguir a carreira de policial, sempre teve muito orgulho. O dia da morte de George, seu pai, foi um dos mais tristes. Nunca o vi tão arrasado. George estava numa perseguição policial e acabara perdendo o controle do carro, batendo de frente com um poste. Então, o meu melhor amigo e naquele tempo, também namorado, teve que partir.

Cardiff, em Gales, não fica tão longe, quatro horas de viagem eram o suficiente. Continuamos o namoro por mais três meses depois da mudança, mas com ambos estudando e ele tendo que trabalhar para ajudar a sua avó a pagar as mensalidades da Universidade, as passagens semanais pesavam no orçamento. Esse, com certeza, também foi um dos piores momentos da minha vida.

Independentemente da distância, nunca paramos de nos falar ou deixamos de sentir o carinho que tínhamos um pelo outro. Entretanto, nas últimas semanas, por conta de tudo que acontecera, o contato foi se tornando raro, até acabar. As últimas mensagens de Matthew, como de qualquer outro amigo, eu não respondi.  

Pensar em Matty naquele momento não fez com que as coisas melhorassem, então, frustrada com meus pensamentos, deixei o livro de lado. 

– Mãããããe! – gritei do meu quarto, manhosa, fungando em seguida – Tá na hora do chá...  

Ela não respondeu. Chamei mais duas vezes. Nada.  

Emburrada, levantei da minha cama cambaleando, pois me sentia fraca, já que há dias que não comia direito. Assim que pus a mão na maçaneta, senti a porta ser empurrada para trás, revelando minha mãe com o chá em mãos. 

– Desculpe a demora meu amor, estava servindo primeiro a visita. – entregou a xícara em minhas mãos, com um sorriso insistente nos lábios. 

– Visita? Que visita? – arrumei meus cabelos rapidamente na tentativa de melhorar o estado imprestável no qual eu me encontrava. Me olhei no espelho em seguida e percebi que não havia adiantado, fazendo com que minha mãe soltasse risadas por conta da situação. Minhas olheiras eram notáveis e minha cara estava bastante amassada. Coloquei a xícara em cima do criado mudo e procurei por uma escova de cabelo – Deveria ter me avisado que receberíamos visitas! – escovava apressada meus cabelos em frente ao espelho. 

– Mas ele não avisou, simplesmente apareceu. – continuava rindo de mim. 

– Ele? – parei e voltei a fitar minha mãe – Ele quem?  

Por um momento, a possibilidade de Harry estar na sala da minha casa tomando chá com a minha mãe enquanto eu estava naquele estado fez com que eu ficasse tonta. 

– Ah, não interessa, diz que não estou bem, que estou indisposta, com sono, doença contagiosa, sei lá! – sentei na lateral da cama, derrotada – Não sou obrigada a falar com todas as visitas... 

– Eu já te vi em estados piores...  

Eu não queria acreditar na voz a qual eu estava escutando.  

Minha mãe não falou mais nada, simplesmente saiu do quarto e logo depois escutei a porta se fechar. 

Eu simplesmente não tinha coragem para virar, eu simplesmente não conseguia acreditar que ele realmente estava ali. Respirei fundo, permanecendo imóvel, até que ouvi seus passos em minha direção e senti o colchão afundar, pois havia sentado ao meu lado.  

– Você não tá com uma doença contagiosa mesmo, né? – Matty perguntou, me fazendo soltar uma risada. 

Ele riu logo em seguida, puxando meu corpo para perto e me abraçando. Antes de partirmos o abraço, beijou o topo da minha cabeça e acariciou meus cabelos. Era como se eu estivesse em mais um dos meus sonhos, era como se aquilo fosse bom demais para estar acontecendo naquele momento tão desagradável da minha vida.  

Matthew não disse nada por um tempo. Fez com que eu deitasse em seu peito, com uma das mãos fazia um carinho em minha cabeça e com a outra em Oscar, que parecia um pouquinho mais contente.  

– Eu vou te matar, sabia? – quebrei o silêncio, fazendo com que Matty soltasse uma gargalhada – Eu não te vejo há três meses, olha bem o meu estado! Você poderia ter ao menos avisado. 

– Calma, eu acabei de chegar! Deixa eu te curtir só um pouquinho, aí pelo menos vou morrer feliz. – soltou uma risada nasalada – E não é como se eu não tivesse tentado avisar... 

Eu senti meu rosto esquentar por conta da vergonha. Eu havia ignorado todas as mensagens, ligações e tentativas de comunicação de Matthew.  

– Matthew, desculpa, eu não... eu não tô me sentindo bem ultimamente, eu só queria ficar um pouco sozinha. 

– Eu sei. – disse simplesmente, me deixando confusa. 

– Você sabe? – perguntei com certo receio na voz.  

– Bom, quando eu vi o seu nome em uma manchete, eu... 

– Você viu aquela notícia? – lhe interrompi, sentando no mesmo momento – Matty, não é nada daquilo... 

– Posso continuar? – me interrompeu de maneira tranquila, porém séria.  

– Pode, desculpe. 

– Então eu liguei para sua mãe e ela parecia bastante preocupada. – suspirou – A princípio não queria me contar e então eu já deduzi do que se tratava, insisti no assunto e ela me contou o que estava acontecendo. 

Matthew esperava que eu falasse algo, mas eu simplesmente não conseguia. Eu não tinha coragem, eu sentia vergonha. Era como se tivéssemos voltado no tempo, há quatro anos. 

Flashback 

Eu estava sentada na varanda com o meu chá em mãos, encarando as estradas desocupadas e os postes de luz acesos. Já era noite e o vento gelado, mas não era como se eu conseguisse sentir algo ou me importar. Fazia um mês e meio do término. Os surtos já haviam passado, eu já não chorava durante a noite e não precisava de remédios para que conseguisse dormir. O vazio tomou o lugar da dor estridente. Quase não falava, na realidade, eu mal pensava, era como um período de aceitação. Eu precisava digerir o que havia acontecido e a minha nova realidade e pra isso eu só precisava de espaço.  

Eu olhava fixamente para os arbustos do vizinho, até que Matthew tomou o meu campo de visão, caminhando em minha direção. 

Meu melhor amigo sentou ao meu lado com as mãos no bolso do casaco pois fazia bastante frio. Permanecemos em silêncio por um bom tempo, até que Matty tirou a xícara de chá vazia em minha mão e entrelaçou nossos dedos. Encarei nossas mãos e o seu rosto em seguida. 

– Eu sempre estive aqui e sempre vou estar. – quebrou e silêncio –  Mas isso tem que parar. 

– Matthew, por favor, eu só quero... – minha voz saiu fraca, mas antes que eu prosseguisse, meu amigo me interrompeu. 

– Ficar sozinha, eu sei, mas te ver sofrer me faz sofrer também, ou você acha que é fácil ver alguém que você ama se martirizar assim? – ajeitou atrás da orelha uma mecha de cabelo que cobria meu rosto – , acabou e você quem quis assim. 

Eu senti uma lágrima quente e solitária escorrer pelo meu rosto, então fechei os olhos em seguida, mas dessa vez Matty não a enxugou. Segurou meu rosto com suas duas mãos e pude sentir sua aproximação, pois sua respiração quente batia em meu rosto. Beijou meus dois olhos, ainda fechados, enquanto acariciava minhas bochechas com seus polegares e encostou sua testa na minha em seguida. 

– Eu te amo. – disse baixinho – E tá me matando por dentro te ver assim. Eu sei o quanto ele significou e significa na sua vida e sempre vou entender, mas deixa eu te ajudar. Eu não vou te deixar sozinha, nem que você implore por isso. 

 End of flashback   

– Desculpe por ser tão injusta. – disse repente, fazendo com que Matty voltasse sua atenção para o meu rosto. 

– Injusta?  

– Depois de tudo que você fez por mim, depois de tudo que tivemos e passamos juntos... eu... me desculpe, Matthew. 

Meu também ex namorado respirou fundo. Matthew sempre foi muito forte e racional, apesar de bastante carinhoso e sensível, mas ele já não conseguia mais esconder o fato de que não era indiferente aquilo. Ele se importava e também sofria. 

– Eu disse que te ajudaria. – olhava fixamente para um ponto aleatório no quarto – Disse que não te deixaria e te deixei. 

– Matthew... 

– Mas também disse que sempre entenderia e... eu juro que eu tento. Eu não entendo, mas eu juro que sempre que fico diante dessa situação, eu tento me convencer de que eu entendo e que sempre vou entender, porque eu te amo... eu te amo tanto , tanto... Eu nunca deveria ter ido embora.  

Pus as mãos na frente da boca para que os soluços não soassem tão alto. Eu chorava e soluçava desesperadamente. Estava péssima por ainda pensar no Harry, por também não entender o porquê de ele mexer tanto comigo e me sentindo pior ainda por submeter Matthew àquela posição.  

– Ma-matty, me-me des-desculpe. – gaguejei ante os soluços, sentindo seus braços me envolverem e sua boca tocar o topo de minha cabeça – Eu so-sou uma idi-diota, você-cê não tem cul-culpa. 

– Eu prometi que não te deixaria... eu nunca quis te deixar e é por isso que eu tô voltando. 

Separei o nosso abraço e esfreguei meus olhos, encarando-o. 

– Você tá-tá voltando?  

– Sim. – enxugava algumas lágrimas de meu rosto – Claro, tive que insistir bastante, você sabe como a vó é muito protetora, mas ela percebeu que eu não estava feliz em Cardiff e que como minha faculdade está praticamente no fim, nada mais me prende lá. 

– Você voltou pra mim... – soltei as palavras num sussurro. 

– Mas você tem que me prometer uma coisa. 

– Qualquer coisa. – disse num tom ainda choroso. 

– Você é minha e só minha. – separou o nosso abraço e olhou fundo nos meus olhos – Pra sempre. 

– Pra sempre?  

– Casa comigo.  


Five

But now I see your heart's been taken
And nothing could be worst


Harry 


Era sexta-feira à noite, eu estava jogado no sofá da minha mãe, sem perspectiva alguma de sair de lá para ir à festa de aniversário do Nicholas. Noah me mataria, mas assistir the notebook pela milésima vez me parecia uma ideia muito melhor. Minha mãe preparava a pipoca e Gemma não parava de perguntar sobre meu encontro com a  no dia anterior. 

– E então eu prometi que visitaria Oscar. – disse despreocupado, olhando para a televisão. 

Gemma soltou uma gargalhada. 

– Claro, visitar Oscar. Você é ótimo Harry, precisa me ensinar. 

Ri do comentário de Gemma sem desviar atenção do superinteressante comercial de pasta de dentes que passava. 

– Cabeção, seu celular tá vibrando. – minha irmã pegou o celular em cima da mesa de centro da sala. 

– Deve ser o Noah, ignora. 

– Não é não, é a sua doce e incrível namorada. – estendeu o aparelho – Nadine. 

Peguei o celular de sua mão com certa urgência e rumei até os fundos da casa, atendendo em seguida. Antes mesmo que eu abrisse a boca para lhe dizer qualquer coisa, pude escutar um barulho de música alta ao fundo e sua voz estridente praticamente aos berros. Estava bêbada. 

Boa noite Harry Styles. – seu tom era de deboche – Você tem um tempo pra mim ou aquela vagabunda já tá na sua cama? 

– O que? – perguntei perplexo. 

É o seguinte, acabou. O... como é o seu nome mesmo? Ah, sim, o Paul aqui dará conta de mim como você nunca deu antes. Eu quero que você vá pro INFERNO! – Nadine começou a chorar – Eu te amava Harry, eu te amava e tudo que você fez foi me trocar por aquela... garota medíocre.  

– Nadine, você tá bêbada, quer ajuda? – respirei fundo, tentando manter a calma. 

Tá vendo! Você não tá bravo, não tá contestando! É porque sabe que é verdade. – fungou do outro lado da linha – Vai se foder.  

E simplesmente desligou.  

Parte de mim estava realmente preocupado com a situação e sem saber o que fazer, outra parte estava aliviada por aquele momento finalmente ter chego sem ter sido eu que tivesse tomado a iniciativa, e ainda havia uma terceira parte, que se sentia completamente culpada por conta da segunda.   

– Tá tudo bem? – Gemma perguntou assim que entrei – Que cara é essa? 

– Não quero falar sobre isso agora. – peguei as chaves do carro em cima da mesa de centro – Vou na festa de aniversário do Nicholas e durmo no apartamento, não precisam me esperar. 

– Achei que fossemos ver filme. – apareceu Anne na sala, com a tigela de pipoca em mãos. 

– Eu vejo com você mãe, deixa o Harry ir, sair com os amigos. 

– É, você tá certa. – minha mãe veio até mim e ajeitou meus cabelos, beijando meu rosto em seguida – Se cuida filho. 

– Pode deixar mãe. – beijei seu rosto também – Te amo. 

– Me liga qualquer coisa! – pude escutar sua voz num tom mais alto, enquanto eu já entrava no carro. 

Durante a trajetória até a casa de Noah me senti o pior dos cafajestes. Minha namorada me liga completamente bêbada, termina comigo, e tudo que eu faço é pegar o carro para ir numa festa procurar pela minha ex.  

Tive que estacionar um pouco longe da casa por conta da quantidade de carros que ocupavam as ruas, mas já conseguia ouvir o som alto e os gritos advindos dela. Enquanto caminhava até em direção a festa, eu bolava as melhores frases para quando encontrasse com . Se ela estivesse lá. Se estivesse sozinha. 

A possibilidade de ela não estar naquela casa ou estar acompanhada fazia com que meu coração doesse, mas principalmente a segunda opção. 

Caminhei até os fundos, para o quintal, e não demorou muito para que Noah me avistasse e viesse até mim, já completamente bêbado, com um sorriso largo na cara. 

– Eu sabia que você viria! – passou o braço pelos meus ombros – Vem, vamos ver o Nicholas. 

Nicholas estava virando uma sequência de cinco shots de tequila e eu teria ficado preocupado se não soubesse que ele aguentava muito mais. Assim que meu amigo percebera minha presença, veio pulando até mim e quase tropeçando nos próprios pés, me abraçou. 

– Harry Styles! Na minha festa! – falou alto, fazendo com que todos ao redor notassem a minha presença e que um sorriso sem graça surgisse em meu rosto – Que bom que veio mate, relembrar os bons tempos. Tequila? – apontou para a garrafa em cima da mesa próxima a nós. 

– Feliz aniversário, Nic. Essa semana entrego o seu presente, ok? – meu amigo abriu um sorriso – E não, tequila não, obrigado. 

– Espero que seja algo muito bom, agora que você é mais rico que Holmes Chapel inteira. – riu logo depois – Tudo bem então, você sempre foi meio fraco pra tequila mesmo, mas lá tem cerveja e lá tem vodka e whisky. – disse enquanto apontava para os locais onde estava a bebida e saiu caminhando e cambaleando até um sofá com várias garotas, o que me fez rir. 

Graças ao meu amigo aniversariante, depois de toda aquela atenção que chamou para mim, foram pelo menos duas horas cumprimentando e conversando com amigos e colegas da época do colégio que, sempre que notavam que meu copo estava vazio, tornavam a enchê-lo. 

Minha visão já estava turva, eu estava completamente bêbado. 

Sentei em um sofá na sala, onde agora estava a maior concentração de pessoas, e olhava ao redor na esperança de encontrá-la. Apesar de não ter a visto até aquele momento, não pude deixar de ouvir seu nome diversas vezes em rodas de conversa pela festa. Era como se fosse de propósito, como se quisessem que eu escutasse.  

– Ela não veio, mate. – Nicholas sentou ao meu lado, junto de Noah.  

– Quem? – tentei fingir não entender a afirmação, mas só fez com que meus amigos rissem da minha cara – Ok, tudo bem, tudo bem. Eu tô procurando ela. 

– Ele só veio por causa disso, Nic. Ele não tá nem aí pra você. – Noah zombou. 

– Mas por que acham que ela não veio? – arrisquei.  

– Ela desapareceu mate, mal fala com a gente. – Nicholas começou – E você sabe o quanto ela era apegada ao nosso pessoal, nos víamos toda a semana, mas ela simplesmente sumiu, até que…  

– Até que o que? – minhas expressões fecharam.  

– Até que ela apareceu com o Matty. – Noah falou de uma vez, olhando para Nicholas em seguida, como se tivesse receio da minha reação. Eu permaneci em silêncio, esperando o restante da história – A gente notava que ela não se sentia à vontade quando estavam todo mundo no mesmo lugar, mas Matty era nosso amigo, estávamos quase sempre juntos. 

– Era? – perguntei curioso – Como assim era?  

Já havia notado que Matthew era um dos poucos que não tinha aparecido na festa. Éramos um grupo de cinco no colégio, e ele era um de nós, mas mais do que meu amigo, ele era de . Desde muito pequenos eram muito grudados, melhores amigos. Nunca tive nenhum motivo para desconfiar de ambos, mas confesso que sabendo daquilo comecei a reviver alguns momentos em minha cabeça e um certo ciúme brotara.  

– Ainda é, claro, mas… o pai dele faleceu, sabe? Acidente de carro. – Noah pareceu abatido ao lembrar e em seguida bebeu um bom gole, como se quisesse esquecer – Então ele mudou pra Gales com a avó. 

Eu sabia que era errado, mas não pude deixar de me sentir aliviado por saber que os dois não estavam mais juntos, ainda que por conta de um acidente que matara o pai de Matthew, o que, simultaneamente, me fez sentir culpado por tanto egoísmo. 

– E a ? – repeti o ato de Noah e bebi um bom gole de whisky no meu copo – Quer dizer, como ela ficou? 

– Gostosa? – ouvi a voz de Charlie atrás de mim, o outro membro do nosso grupo, fazendo Noah e Nicholas rirem. Impulsivamente, derrubei seu copo no chão, fazendo com que todo o líquido derramasse, gerando mais risadas. 

– Mais respeito. – disse antes de finalizar o copo, bebendo o restante. 

– Não te devo respeito em relação a isso, Styles. – Charlie dizia sério, enquanto pegava outro copo – Até porque não sou hipócrita, boa parte do colégio queria estar no lugar do Matty. – com o copo na mão, meu amigo apontou para Noah e Nicholas, que se fizeram de desentendidos.  

– É, você tem razão, eu não tenho mais nada a ver com isso.  

– Ahá! Então quer dizer que a catraca tá livre? – Noah perguntou e riu logo depois. Assim que notou que eu não gostara do que tinha dito, parou de rir – É brincadeira, não me olha assim. 

– Não, vai em frente.  – eu disse debochado, com os sentidos confusos – Só não sei se o estilo retardado faz o tipo dela. – meus amigos gargalharam, inclusive Noah. 

– Ah, se não fosse o tipo dela, com certeza ela não teria namorado dois anos com Harry Styles. – rebateu. 

Larguei o copo agora vazio na mesa e fechei os olhos com força, querendo que todo aquele álcool saísse de meu corpo imediatamente, assim como a imagem de da minha cabeça. 

– Ah, chega! Por favor chega desse assunto. – pedi com um certo cansaço.  

– E a sua namorada? Nadine, não é? – Nicholas perguntou – É pra valer? 

– Era. – suspirei pesadamente – Ela terminou comigo hoje. 

– Então toma. – Charlie estendeu mais um copo cheio de um líquido que eu não sabia dizer o que era. 

E eu aceitei. 

Nunca achei que dançaria Abba em cima de uma mesa, que cantaria o hino da Inglaterra com pessoas desconhecidas, que choraria abraçando um pilar e fosse carregado até a cama dos pais de um amigo, tudo isso em menos de dez minutos. 

Eram quase três horas da manhã quando Noah e Charlie me carregaram até o andar de cima da casa.  

– Acho que você exagerou, mate. – Charlie deu tapinhas em meu ombro – Precisa de alguma coisa? 

– Eu tô bem. Eu to ótimo... – funguei, ficando de bruços, abraçando um dos travesseiros – Acho que eu só preciso descansar os... 

– Descansar os olhos, é, nós sabemos... – Noah completou, soltando uma risada – Algumas coisas nunca mudam. Você deu um show hoje, huh? 

– Dei? – perguntei confuso, já com os olhos fechados – Mas eu tô de férias... – bocejei em seguida. 

Juro que tentei escutar o que diziam, mas tudo agora estava muito confuso e distante. 

– Charlie? – chamei meu amigo, esfregando meus olhos, enxugando as últimas lágrimas – Você acha que ela também pensa em mim? 

Mas ninguém respondeu e só então percebi que estava sozinho  

Fazia tempos que não bebia tanto, estava completamente fora de mim. Depois do copo que Charlie me oferecera, virei dois ou três shots de tequila e eu realmente não sabia como tinha aguentado tanto tempo em pé depois de beber tanto. Eu só não queria pensar o quão irresponsável e injusto eu fora em relação a Nadine, não queria sentir tanta raiva de Matthew por ter tomado o meu lugar e, principalmente, não queria sentir tantas saudades de .  

Assim como a euforia que o álcool proporciona chegara arrebatadora, fazendo com que eu dançasse Dancing Queen em cima de uma mesa e cantasse o hino da Inglaterra a todo pulmões, ela também foi embora muito rápido e tudo que eu soube fazer foi chorar, foi chorar feito criança na frente de parte da festa que, por estarem tão loucos quanto eu, provavelmente não entenderam o que estava acontecendo. Eu chorava por me sentir tão sozinho, por perceber que nada daquilo ocuparia o vazio que eu estava sentindo, e então abracei a primeira coisa que vi em minha frente: um pilar. Nic não sabia decidir entre rir ou ficar muito preocupado, foi quando então chamou Noah e Charlie para me carregarem para um quarto. Não demorou muito para que eu apagasse naquela cama.  

Depois de um tempo, abri meus olhos com certa dificuldade ao sentir algo se movimentar ao meu lado. Era Nicholas, que também dormia, só que um tanto quanto agitado. Apalpei os bolsos da minha calça a procura do meu celular e ao achá-lo, o brilho da tela quase me cegou. Eram cinco e quarenta e dois da manhã. Levantei com certa dificuldade e tendo plena certeza de que ainda estava bêbado. Demorei pelo menos cinco minutos descendo as escadas e sai da casa de fininho, sem me despedir de ninguém.  

Encarei meu carro estacionado e decidi que, definitivamente, aquela não seria uma boa ideia. Senti meu estômago reclamar por um instante e decidi sentar na calçada, antes de ir caminhando até meu apartamento. 

 Flashback 

 – Harry definitivamente não foi feito pra beber. – escutei Nicholas dizer enquanto eu estava com as mãos no rosto, sentado na calçada, após um show da White Eskimo e do meu primeiro porre. 

– Como você tá, mate? – Matty sentou ao meu lado, deu tapinhas em minhas costas e estendeu uma garrafinha – Pega, um pouco de água. 

Agradeci com um sorriso e dei bons goles, me sentindo bem melhor.  

– Eu  melhor, obrigado. – deixei a garrafinha de lado – A já foi embora? Ela não viu o que aconteceu, né? 

– Não, acho que não. Ela te procurou pra se despedir, mas eu disse que você estava ocupado recebendo o cachê.  

– Eu não queria que ela me visse nesse estado, eu devo estar péssimo.  

– Você tá. – ouvi a voz de Charlie, que acabara de sair de dentro do pub, seguida de uma risada – Tá gostanto dela? Da ? 

– Eu prefiro a Abigail... – Noah se meteu. 

– Mas você não tem que preferir nada, Noah. – levantei com certa dificuldade e voltei minha atenção para Matty que parecia alheio – Você pode me dar uma carona? 

– Claro.  

Matthew e eu nos despedimos de todos nossos amigos e andamos em direção ao carro do seu pai que pegava para dirigir as vezes. Ele morava há quatro quadras de mim, assim como , que era sua vizinha.  

– Você tá gostando dela, não tá? E me pediu carona pra saber se ela gosta de você também. – Matty disparou enquanto ligava o carro. 

– Matty, eu... 

– Eu espero que você realmente goste, porque  não cansa de falar de você e eu não aguento mais. – soltou uma risada sem graça, fazendo com que um sorriso involuntário surgisse em meu rosto – Cansei de ouvir sobre o jeito que você pegou na mão dela depois do beijo e blá blá blá e não posso imaginar o que eu teria que ouvir se você quebrasse o coração dela.  

– Eu gosto dela, de verdade. – suspirei pesadamente. 

– Você tem quem decidir, Harry. – olhou sério para mim, enquanto parou o carro na sinaleira –  tem sentimentos e eu não quero ver ela sofrer, ela nunca se envolveu com alguém antes.  

– Eu quero fazer isso certo, Matty. Ela é alguém especial, eu só não tinha certeza se ela queria tanto quanto eu... 

– Ela quer. – assim que o sinal abriu, voltou a atenção para o volante e seguiu em frente – Mas você deveria ter descoberto isso sozinho, tomando coragem e dizendo pra ela o que sente, e não perguntando pra mim. 

– Eu sei, eu sou um idiota... – murchei ante o discurso de Matty. 

– Só não seja um idiota com ela, ok? – parou em frente à minha casa – Acho que vocês formariam um casal legal. 

– Brigado, mate. 

 End of flashback 

            Levantei da calçada mesmo que com o estômago péssimo, pernas vacilando e cabeça doendo. Lembrar de Matthew fazia com que tudo ficasse mais difícil. Tudo que eu conseguia pensar era como ele se tornara um traidor e porque diabos cedera àquilo. De repente, tudo pareceu uma mentira. Todo o apoio ao nosso namoro, todo aquele papo de melhores amigos, era tudo uma grande mentira. Matthew sempre gostou dela e nunca teve coragem o suficiente para admitir, claro, até terminarmos o nosso relacionamento.  

Meu consolo era que já não existia mais Matthew e , eles também haviam terminado, e essa era a pontinha de esperanças que permanecia viva dentro de mim. Apesar de a querer tanto, uma tristeza crescia dentro de mim ao imaginar os dois dividindo a mesma cama ou fazendo outras coisas as quais eu preferia evitar pensar.

Enquanto andava, agradecia mentalmente por Matthew estar em Cardiff e a possibilidade de cruzar com ele em Holmes Chapel ser nula, pois eu provavelmente não saberia como lidar em sua presença.  

Depois de um bom tempo caminhando, perdido em meus pensamentos, com a escuridão da noite sendo tomada pelos primeiros raios de sol, finalmente cheguei onde eu queria.  

Eu só precisava de coragem. 

 


 A campainha soava alto e repetidamente. Nem Matthew ou minha mãe e meu pai pareceram escutar. Olhei no relógio e eram seis e dezessete e eu não fazia ideia quem poderia ser aquele horário num sábado de manhã. Levantei contra minha vontade, esfregando os olhos e me arrastando até a porta da frente. Ao abri-la, senti cada parte do meu corpo estremecer e não era por conta do vento frio que entrara. Harry estava em minha frente, com os olhos vermelhos e a cara amassada. Estava bêbado e, mesmo assim, incrivelmente lindo.  

Ficamos em silêncio por uns instantes, vi que abria a boca na tentativa de iniciar uma conversa, mas sempre acabava desistindo.  

– Harry, eu posso ajudar? 

Ele não respondeu. Seus braços envolveram meu tronco num abraço e seus lábios procuraram pelos meus com certa urgência. Eu não consegui pensar em nada, não consegui evitar, não consegui não corresponder aquele beijo ou me convencer de que não queria aquilo. Meu corpo já não tinha forças diante a situação, mas Harry me sustentava em seus braços. Suas mãos espalmadas em minhas costas faziam com que ficássemos cada vez mais próximos e as minhas buscavam desesperadamente pelos seus cabelos, até encontrá-los e puxá-los. Tudo lá fora não parecia ter a mínima importância. Eu queria viver dentro daquele beijo, mas ao mesmo tempo doía tanto. Doeu por ser tão errado e tão bom ao mesmo tempo, doeu sentir a lágrima que escorrera dos olhos de Harry enquanto me beijava, por saber que aquilo significava que sentia tantas saudades quanto eu, doeu por saber que havia sido tarde demais, por saber que Matthew estava logo ali, deitado em minha cama, e que nos casaríamos em breve.  

Eu havia aceitado o pedido. 

E eu havia cedido ao beijo de Styles. 

– , quem é? – a voz sonolenta de Matty ecoara na sala. 

Me afastei de Harry no mesmo instante em que ouvi a voz de Matthew, mas não fora rápido o suficiente. Matty caminhou em passos largos até a porta e acertou o rosto de Harry em cheio com o punho fechado, fazendo com que o mesmo caísse de costas no chão. Meu coração saltou no peito e não consegui segurar o grito de pavor que que se formara em minha garganta. 

– Sai daqui. SAI DAQUI AGORA! – Matthew gritava – Ou eu não vou hesitar em quebrar essa sua carinha de merda.  

– MATTY, NÃO! – coloquei a mão em seu peito, afastando-o.

– Vem! – Harry, ainda visivelmente alterado por conta do álcool, e com a boca agora cortada, levantava com dificuldade – Você pode quebrar a minha cara inteira, mas isso nunca vai mudar o fato de que ela sempre vai me preferir do que você! 

Outro soco, bem no olho esquerdo.  

– Pelo amor de Deus, PARA! – não contive as lágrimas e simplesmente não sabia qual posição tomar ou quem ajudar.  

– Ah é? – Matty riu sarcástico – Então por que diabos ela aceitou casar comigo? 

– Casar? – Harry engoliu seco e voltou sua atenção para mim, seus olhos se encheram d'água – Vocês vão casar? 

– Eu não sei porque motivo você voltou para Holmes Chapel Harry, mas é hora de você ir embora. – os punhos de Matthew permaneciam cerrados. 

– Deve ser porque a sua esposa pediu para que eu voltasse. – cuspiu as palavras. 

Matthew me encarou por um segundo, mas voltou sua atenção para Harry. 

– Não me interessa o que aconteceu antes que eu retornasse, mas eu estou aqui agora e é isso que importa. Vamos nos casar Styles, esquece, acabou. Eu não vou tolerar que você apareça do nada e estrague tudo que construímos. – Matty se aproximou de Harry, colocando o dedo indicador em seu peito – Você pode ser o ícone pop star e conseguir o que quiser em qualquer outro lugar do mundo, mas aqui você é só o Harry e adivinha? Não tem nada pra você aqui. 

Harry fechou os olhos com força e permaneceu assim por um curto período de tempo. Virou de costas e respirou fundo, colocando as mãos na cabeça. Achei que finalmente iria embora, não queria presenciar mais um segundo sequer daquela briga, até que voltou sua atenção para Matthew. 

– Como é ter a sensação de casar com alguém que pensa em outro? 

– Como é ter a sensação de ver a mulher que você ama casando com outro? – foi a vez de Matty dar as costas, caminhando em direção ao quarto – Cresce, Styles. 

Eu não consegui me mover. Meus braços abraçavam meu próprio corpo e eu encarava o rosto machucado de Harry, sentindo meu coração sangrar. Eu largaria tudo por ele, mas eu não podia. Eu não podia machucar Matthew daquela maneira, não podia trocar o certo pelo duvidoso, não podia abrir mão da minha vida pra viver em função do Harry. Apesar de parecer tão errado não estar ao seu lado, eu não tinha coragem o suficiente. 

Harry deu alguns passos à frente, ficando muito próximo a mim. Seus lábios tocaram o topo da minha cabeça e sua mão ajeitou meus cabelos atrás da orelha. 

– Eu te amo e nada vai mudar isso. Eu vou embora, você vai casar, você vai viver a sua vida, eu vou passar anos sem te olhar nos olhos e nada vai mudar isso. Quando voltarmos a nos ver, vamos sentir exatamente a mesma coisa, exatamente o que estamos sentindo agora. – soltou uma risada nasalada, em seguida engoliu seco – Eu entendo o seu medo , mas eu sei que ele nunca terá você como eu tenho, eu sei que ele nunca vai te conhecer do jeitinho que eu conheço, porque... – suspirou pesadamente – cada detalhe teu foi feito pra mim e eu sei que uma parte tua ainda é minha. Eu não posso te pedir para não se casar com Matthew, não posso pedir para desistir de tudo por mim, eu não seria egoísta a esse ponto, mas eu sei que estou certo. – se afastou e olhou em meus olhos – Espero que você saiba o que está fazendo.  

Eu não sei quanto tempo fiquei em frente à porta repetindo tudo o que ele dissera em minha cabeça, mas foi até Matthew retornar à sala e perguntar se estava tudo bem. Eu estava brava com ele, mas não poderia simplesmente descontar no meu namorado, ou melhor, noivo. Eu quem tomei a decisão, eu aceitei o pedido. Eu optei por deixar Harry ir. 

– Eu vou fingir que não notei que você queria aquele beijo tanto quanto ele. – Matty soara ríspido, ao passo que retornava ao quarto. 

 – Matthew. – respirei fundo e cruzei os braços, mantendo o tom de voz tranquilo – Eu estou com Styles agora? É com ele que vou me casar? Eu estou aqui, não estou? Então, por favor... não faça com que o nosso casamento comece da maneira errada.  

– O seu ex namorado bate na sua porta completamente bêbado as seis horas da manhã, te agarra, você não faz nada e eu que estou fazendo com que o nosso casamento comece da maneira errada? – gargalhou sarcasticamente em seguida – Piada.  

– Eu estou aqui e eu quero fazer dar certo. – parei no batente da porta e suspirei pesadamente, voltando a fitá-lo – Desculpe, ok? Desculpe por não ter evitado, mas eu realmente quero tentar... nós.  

– , ninguém no mundo te ama como eu amo e é por isso que voltei, é por isso que te pedi em casamento, porque eu quero que isso funcione, eu quero a gente juntos. Harry nunca poderá te dar metade da atenção e carinho que eu posso, vocês passaram anos sem se ver, nem se conhecem mais e eu sei... – caminhou até mim e segurou meu rosto com as duas mãos – que eu te conheço como ninguém. Nosso namoro foi fantástico do início ao fim e agora, no recomeço, tem tudo pra ser melhor ainda. 

– Eu te amo Matty. – envolvi seu tronco com meus braços e afundei meu rosto em seu pescoço. 

– Eu te amo mais.  


Six

Now that you can't have me
You suddenly want me


2016 

 

A data do meu casamento estava marcada para o dia 13 de fevereiro. Estávamos no início de janeiro e os preparativos tomavam bastante meu tempo, além da mudança, o que estava me deixando louca. Matthew e eu havíamos juntado nossas economias e, com uma ajudinha de nossas famílias, compramos um apartamento em Manchester, mas ainda dormíamos na casa dos meus pais em Holmes Chapel, esperando a data do casamento, até que tudo ficasse pronto.  

Eu estava sentada a mesa junto a minha mãe enquanto meu pai e Matthew assistiam um jogo de futebol na sala. Revisávamos a lista de convidados para que os convites fossem finalmente enviados. 

– Eu não sei se quero convidar a tia Betty... – encarei a lista de cara feia – Ela sempre escreve meu nome errado e nunca me liga no meu aniversário. 

– Não seja boba , é irmã do seu pai! – minha mãe marcou com um 'ok' ao lado do nome de minha tia – Apesar de eu também não gostar daquela mulher. 

– Bom... – minha mãe respirou pesadamente, com a lista em mãos – Anne Twist e família. 

– Mãe, socorro! – pus as mãos no rosto – Eu não sei o que fazer...  

– Eu sei que você tem evitado isso , mas os convites precisam ser enviados.  

– Eu não quero ter que encarar ele no meu casamento. Na realidade, duvido muito que daria as caras mesmo que enviasse um convite com apenas seu nome escrito, mas eu seria muito imatura se pusesse só o nome de Gemma. O que eu faço? 

– Mantém assim. 'Anne Twist e família' é o mais sensato, apesar de eu não achar nada sensato você convidar qualquer um deles. 

– Gemma é minha amiga, mãe, independentemente de ser irmã dele. Se eu convidar Gemma e não convidar Anne... soa tão infantil quanto. O máximo que vai acontecer é Anne e Robin não aparecerem, mas o meu papel eu vou ter feito.  

– A questão é... você já falou pro Matthew? 

– Socorro DE NOVO! – bufei estressada – Como eu vou fazer isso? Não sei como Matty vai reagir. 

– Reagir ao que? – falou despreocupado enquanto caminhava até a geladeira para pegar mais duas latinhas de cerveja. 

 colocou Anne 'e família' na lista de convidados. – minha mãe disparou, dando ênfase no ‘família’, e eu agradeci mentalmente por ela ter o feito, pois eu havia congelado ao notar a presença de Matthew na cozinha.  

– Anne e... família? – com as duas latinhas em mão, parou em pé ao nosso lado – Ok. E qual o problema? Eu duvido muito que Harry vá. – abriu uma das latinhas – Na pior das hipóteses, ele vai chorar durante a cerimônia.  

– Matthew! – falei num tom de reprovação. 

– O que foi? Eu não quero que ele vá, você sabe, por mim eu nunca mais o veria na vida, mas sei o quanto você gosta da Gemma e que soaria infantil convidar só ela. 

– É, é exatamente isso. – suspirei aliviada – Como você sabe? 

– Eu escutei a conversa. – ergueu uma das sobrancelhas e soltou uma risada enquanto se dirigia a sala. 

– Às vezes tenho vontade de matar o Matthew... – assinalei 'ok' ao lado do nome de Anne – mas não posso negar que ele encara as coisas com muita maturidade. 

– Não sei se ele vai conseguir manter a postura se Harry for... 

A possibilidade de Harry aparecer no casamento me apavorava, apesar de ter praticamente certeza de que não se prestaria àquilo, mas eu tinha tantas outras coisas para me preocupar, como o vestido, ambiente, decoração, comida, que essa questão acabou sendo deixada de lado por um tempo. 

Assim que os convites foram entregues, meus colegas do tempo de colégio, incluindo Gemma, não pareciam acreditar que eu realmente casaria com Matthew. A maioria se mostrava animada pela possibilidade de reunir todos os amigos, ainda mais numa ocasião como aquela. Durante o mês recebi diversas confirmações. Poucas pessoas disseram que não poderiam comparecer.  

Os dias passavam rápidos, as vinte quatro horas de um dia eram poucas, o fim do mês de Janeiro se aproximava e Gemma ainda não havia confirmado ou negado o convite. Na data da última prova do vestido, saindo da loja, senti meu celular vibrar. Era ela.  

– Ei Gem, saudades! 

Oi garota! Também sinto sua falta, mas me conta, tá em Manchester? 

– Sim, você tá por aqui? 

Sim, sim, sim! Vamos nos ver, quero te dar a resposta do convite pessoalmente na nossa cafeteria favorita, em meia hora, tudo bem? 

– Claro! Estou indo pra lá agora mesmo. 

Até logo. – antes que desligasse, pude ouvir o barulho de beijos estalados. 

Cheguei em vinte minutos na cafeteria que costumávamos ir juntas quando íamos a Manchester nos tempos do colégio e sentei na mesma mesa que sentávamos, era um ritual ao qual sempre fomos fiéis. Fiz o nosso pedido e aguardei vendo as fotos as quais eu usava o vestido completamente finalizado. 

O garçom deixara o pedido na mesa no momento em que Gemma passava pela porta. 

– Na mesa de sempre, o pedido de sempre... eu te amo! – me abraçou com força e sentou logo em seguida – E então, como vão os preparativos? 

– Tá praticamente tudo resolvido, só resta a ansiedade e... olha isso... – mostrei as fotos as quais admirava antes de sua chegada. 

– Ai meu Deus, tá muito lindo ! – dizia com meu celular em mãos, analisando os detalhes – Tenho certeza que a mãe vai chorar na cerimônia...  

– Ela vai! – tentei transparecer o mais natural possível quanto a confirmação de Anne – Que bom, fico feliz, mesmo.  

– Sim, todos vamos. – por um segundo, senti meu coração bater feito louco por conta de ter confirmado a presença de todos, então Gemma prosseguiu – Quer dizer, Harry não sabe ainda sobre o convite, ele tá chegando hoje, em algumas horas na realidade, vai passar um tempo com a família.  

– Você acha que... – engoli seco – Que ele pode aparecer? 

– Não , ele não vai... – Gemma deu o primeiro gole em seu café – Ele ficou bastante arrasado quando ficou sabendo do casamento. 

– Ele contou sobre como ficou sabendo? – beberiquei meu café, imitando seu gesto. 

– Sim, mas só pra mim e depois de semanas. – suspirou – Mamãe acha que ele não faz ideia e anda muito preocupada com a reação dele, tá pensando há dias em como contar, porque apesar de não ter falado sobre o que aconteceu depois da festa, ele ficou muito mais abatido do que antes. 

Gemma percebera o quanto saber sobre aquilo me afetava. Eu estava com um nó no peito e era impossível esconder o quanto falar sobre Harry me deixava triste. Depois de ele ter ido à minha casa e ela ter recebido o convite, demonstrando espanto, nosso contato havia diminuído, o que doía muito em mim. 

Gemma sempre apoiou muito nosso relacionamento e sempre deixou explícito como tinha certeza de que voltaríamos um dia. Apesar de saber que ela queria minha felicidade, não conseguia esconder completamente sua insatisfação quanto ao meu casamento com Matthew.  

– Desculpe, nós não devíamos estar falando sobre isso. Você vai casar com o Matty e eu estou sendo uma péssima amiga. 

– Você não é uma péssima amiga, Gemma. É a melhor, inclusive. – funguei, segurando o choro – Não queria que estivéssemos tão distantes. 

– Ah, não faz assim... – me abraçou com força por um bom tempo – Eu estou sendo uma péssima amiga sim, mal tiro tempo pra gente se ver e eu sinto muito sua falta, você sabe, não é a mesma coisa por mensagem. 

– E eu sinto muito por você ter que ver o Harry daquela maneira, eu sei o quanto te machuca também. – disse assim que nos separamos do abraço – Mas eu não podia simplesmente... 

– Eu sei, eu sei. – respirou fundo, apoiou um dos cotovelos na mesa e descansou a cabeça em sua mão – Eu confesso que fiquei meio brava com você, mas Harry agiu como uma criança. É óbvio que você teria seguido em frente e arranjado outra pessoa, assim como ele fez, mas o cabeção ficou sabendo tudo de uma vez só, bêbado, logo depois de a Nadine ter terminado com ele, sabe?  

– Ah, eles terminaram naquele dia... – balancei a cabeça positivamente enquanto falava, na tentativa de digerir aquela informação. 

– É, na realidade, desde depois do show aqui em Manchester o namoro ficou comprometido. Harry estava completamente alheio ao relacionamento. Rever você daquele jeito também mexeu muito com ele e com todas aquelas manchetes, Nadine ficou louca.  

– Eu... eu sinto muito por ele...  

– Amiga, no fundo nós duas sabemos que você não sente. – Gemma me encarava séria – Eu não sei quantas vezes ouvi "ela correspondeu o beijo, ela queria tanto quanto eu". – engrossou a voz na tentativa de imitar a de Harry – E eu sei que ele não estava enlouquecendo ou mentindo sobre. O que vocês tiveram foi muito intenso, mas eu procuro te entender. Seria loucura simplesmente voltar com ele, vocês estavam há quatro anos sem se falar ou se ver e se a rotina e o assédio eram complicados, hoje é insano. 

– É, é exatamente isso... – concordei instantaneamente, mesmo que sentindo um incomodo.  

– Nem deveríamos estar falando do seu ex namorado pouco antes do seu casamento! Vai que dá azar. – soltou uma risada descontraída – Inclusive, sobre a cerimônia, achei legal terem escolhido a capela de Holmes Chapel, vai ficar lindo, bastante charmoso. 

O celular de Gemma vibrou em cima da mesa, mostrando a terceira chamada perdida. Ela checou as notificações e terminou o café num gole. 

– Mudança de planos. Harry chegou mais cedo, já tá desembarcando. – levantou da mesa – Desculpe, queria poder passar mais tempo com você. 

– Não, tudo bem, vai lá! Ele deve estar cansado. – levantei logo após – Obrigada por ter aceito o convite, é muito importante que você vá. 

– Apesar de sempre achar que seria sua cunhada e provavelmente madrinha do seu casamento, estou feliz por você. – sorriu torto e me puxou para um abraço. 

Se tivesse me perfurado com uma faca bem no estômago, talvez não tivesse doído tanto quanto o que tinha acabado de escutar.

Eu e Gemma, durante todo meu namoro com seu irmão, falávamos que depois do casamento seríamos mais que amigas, mas irmãs. Éramos jovens demais, mas Harry nunca hesitou em me falar o quanto queria que formássemos uma família e Gem sempre foi nossa fã número um. 

Sai da cafeteria com o coração murcho, faltavam dezesseis dias para o meu casamento e dois para o aniversário de Harry. Ele estaria em Holmes Chapel, saberia sobre o casamento e o convite, e eu já não sabia o que fazer com tanto nervosismo. 

 

Harry

 

 

– Ah que saudades do meu filho! – minha mãe me abraçava na porta de casa – Vai passar o aniversário em casa... não sabes o quanto me deixa feliz. 

– Sei sim, por isso eu vim! – beijei sua testa – Cadê o Robin? Vou acabar com ele nas damas. 

– Bem que ele falou que estava louco pra fazer uma aposta com você. – Gemma apareceu e segurava uma das malas, deixando no canto da sala e se jogando no sofá – Agora você leva cabeção, não sou sua criada. 

– Assim que a mãe me soltar eu levo! 

Carreguei as duas malas para o meu quarto e me estiquei na cama por um tempo. Era bom estar em casa, mas impossível não recordar o que aconteceu na última vez que estive ali. Me peguei pensando na possibilidade de o casamento já ter acontecido, mas provavelmente Gemma teria sido convidada, postando alguma foto em sua conta. Eu só queria conseguir não pensar sobre. 

Minha mãe não sabia do que havia acontecido entre mim e Matthew e eu estava rezando para não ter que cruzar com ele na rua, não queria estragar o tempo com a minha família e nem arranjar outro roxo no olho.  

– Filho! – ouvi a voz de Anne num tom mais elevado – Vem jantar, depois você descansa. 

Levantei mesmo que contra minha vontade, pois não estava com tanta fome, mas sabia que minha mãe tinha preparado o jantar especialmente para mim. Fui até a sala de jantar e, antes de sentar, me pus diante do espelho para ajeitar meu cabelo, notando um envelope branco em cima do balcão próximo dali. 

"Anne Twist e família". 

Peguei o envelope e fui até a mesa, mostrando o que possuía em mãos. 

– Quando ia me contar? 

– Gemma! Eu pedi para guardar na gaveta do meu criado mudo. 

– Mãe, você vai nesse casamento? Vocês todos vão? 

– Harry, é preciso separar as coisas... – Anne falou cautelosa. 

– Como separar as coisas? É impossível separar as coisas! – larguei o envelope na mesa – Ir nesse casamento é como se vocês estivessem... compactuando com isso. 

– Compactuar? Harry, não fala besteira. – minha mãe pegou o convite – Não há nada que a gente possa fazer. Indo ou não, eles vão casar! 

– Mas por que ir? Eu não sei nem como ela teve coragem de convidar vocês! – cruzei os braços – Isso é ridículo.  

– Acho que por educação, pra ser sincera. – foi a vez de Gemma falar – Acredito que ela achou que recusariam.  

– Você não me disse isso Gemma! Eu não teria aceitado... 

– Vocês já aceitaram? – perguntei visivelmente frustrado – Sem antes falar comigo? 

– Harry, chega! – foi a vez de Robin falar – O que está acontecendo com você? Você não é assim e nunca falou dessa maneira com a sua mãe, está agindo feito uma criança. Anne não precisa te consultar ou de sua permissão para absolutamente nada. Nós vamos ao casamento e... 

– Robin, não. – minha mãe, com um semblante chateado, interrompera seu marido – Harry está certo, não faz o menor sentido comparecermos a esse casamento. – respirou fundo, derrotada, e encarou Gemma – Querida, avise a que eu e Robin não iremos mais, tudo bem?  

Gemma assentiu em silêncio. 

O restante do jantar se passou sem mais conversas. Minha mãe parecia triste com a discussão e eu não queria ter ocasionado aquilo logo na minha chegada. Eu odiava discutir com minha família, mas não tinha como simplesmente ignorar o fato de que se tratava do casamento da minha ex. Talvez, se soubessem que Matthew tinha acertado uns socos na minha cara, nunca chegariam a aceitar, provavelmente nem Gemma aceitaria, mas eu também não queria retornar a esse assunto ou causar maiores problemas.  

Ajudei minha mãe com a louça na cozinha e quando enxugava a última panela, senti um de seus braços envolver meu tronco. 

– Eu sinto muito, Harry. Queria que as coisas entre vocês pudessem se ajeitar, eu achei que... 

– Eu também achei, mãe. – suspirei, deixando a panela de lado – Mas não posso fazer mais nada, eu a perdi. 

– Eu sei que dói agora filho, mas tudo acontece por um motivo. Talvez as coisas tivessem que ser assim. Quantas garotas aí no mundo inteiro fariam de tudo pra ter você?  

– Mas nenhuma delas é ela. – apoiei minhas duas mãos a pia, encarando o nada. 

– Exatamente, nenhuma delas é, podem ser melhores e você nunca vai saber se continuar preso a isso. Ela é uma menina incrível, mas não posso mais te ver sofrendo assim. – sua mão fez um carinho gostoso em meus cabelos, então voltei a lhe olhar – Se ela não te quer mais, ela não te merece. Eu amo a , mas eu te amo muito mais. Ela tomou uma decisão e o que nos resta é respeitar.  

Minha mãe ficou na ponta dos pés para beijar meu rosto e, antes de ir para o seu quarto, disse que tinha feito meu chá favorito para que eu tomasse antes de dormir. 

Apesar de ter dito tudo àquilo a  na última vez que nos vimos e saber que aquele casamento era pura loucura, eu não poderia ignorar o fato de que minha mãe estava certa. Loucura mesmo era eu ter me colocado naquela situação pelo simples fato de achar que ela largaria tudo por mim. Talvez eu estivesse enganado. Talvez ela realmente amasse Matthew e não sentia mais nada em relação a nós, mas aquele beijo... aquele beijo era o que mantinha a esperança viva dentro de mim. O jeito com que tudo se encaixou perfeitamente e o fato de ela não ter hesitado nem por um segundo faziam com que aquele momento não me deixasse em paz. 

Nos dias que se passaram consegui não pensar tanto em  e no casamento por conta do meu aniversário estar próximo e todos estarem muito em cima por isso.

Na manhã do dia primeiro de fevereiro eu recebi muitas mensagens, um café da manhã na cama, um almoço impecável em família e uma festa surpresa dos meus amigos do colégio na casa do Noah, como de costume.  

Foi divertido do início ao fim, ganhei muitos presentes e durante praticamente o dia inteiro eu consegui não pensar nela. De vez em quando olhava meu celular para checar as mensagens e por um momento pensei na possibilidade de receber uma de , mas sabia que provavelmente não tinha o meu número, pois mudara diversas vezes desde o término. Em uma das vezes as quais eu checava as mensagens, Gemma se aproximou com um copo com vodka em mãos. 

– Harry! Vem dançar comigo, larga esse celular, a gente ama essa música! 

– Dançar? Acho que não tô bêbado o suficiente... 

– Desde quando você precisa ficar bêbado pra dançar? – entregou o copo em minhas mãos e me puxou pelo braço para onde as pessoas estavam dançando.  

Ri de sua atitude e dei bons goles. 

– Ok, então vamos dançar... – ri de meus próprios passos de dança, assim como os e Gemma, mas estava divertido. 

– Recebeu muitas mensagens de aniversário? – minha irmã perguntou enquanto ainda dançava. 

– Acho que só vou conseguir terminar de responder todas no aniversário do ano que vem! – fiz Gemma rir – Nadine me mandou uma mensagem, inclusive. 

– Uau! – fez cada de deboche – E como você se sente sobre? 

– Bom, pelo menos o clima não fica tão pesado... 

– Falei com a  hoje. – disparou de repente – E ela te desejou um feliz aniversário. 

– Desejou? – tentei soar o mais despreocupado possível – Legal, agradeça por mim. 

– Pode deixar. – soltou um risinho – Acho que você deveria aparecer naquele casamento e acabar com tudo. 

– Eu acho que você tá muito bêbada e são só onze e meia da noite. 

– Não tenho culpa se a festa começou as cinco da tarde! – pegou o copo de vodka da minha mão e deu um gole – E eu sinto muito. 

– Tudo bem mana, eu vou ficar bem.  

Recebi um abraço apertado de Gemma. 

– Eu te amo e te admiro demais, Harry. Não deixa essa situação mudar quem você realmente é, ok? Promete? – separou o abraço e sorriu de maneira cumplice – Feliz aniversário.  

– Também te amo, obrigado por tudo. – plantei um beijo em sua testa. 

– Cadê o Charlie? Apostamos quem bebe três shots mais rápido! 

E sumiu. Vi Gemma poucas vezes durante a festa, mas em apenas uma aparição ela fez questão de bagunçar a minha cabeça, pelo menos por um tempo. O pensamento em  não durara muito, meus amigos faziam questão de não me deixar sozinho um segundo sequer, impossibilitando que minha cabeça divagasse em qualquer outro assunto que não o meu aniversário. 

A festa que começou as cinco da tarde foi até a uma do outro dia. Nicholas contabilizou o total de sete garotas, atrás de Noah, que beijou onze. Tive também o desprazer de ver minha irmã entrar no carro de Charlie aos beijos e dizer que apareceria em casa mais tarde, implorando para que não contasse para a nossa mãe. E, para a surpresa de todos, eu beijei dezessete garotas, segundo Nicholas, pois eu só lembrava de treze.  

– Para a minha defesa... eu estava completamente fora de mim. – disse deitado na esteira na beira da piscina, usando óculos escuros.  

– Mate, você ainda está fora de si. – Noah disse enquanto catava algumas latinhas espalhadas pelo quintal. 

– Eu tô ótimo, só to descansando os olhos. – disse minha frase costumeira e soltei uma risada. 

– Então porque a sua calça tá aqui na piscina? – Nicholas balançava o pedaço de pano completamente molhado dentro d’água. 

Olhei assustado para baixo e notei que vestia apenas uma samba-canção. 

– Droga, esqueci de botar depois que o Charlie puxou ela.  

– Isso não foi as duas da manhã? – Nic saiu da piscina e sentou na esteira ao meu lado. 

– Justamente. – respondi, rindo junto dos meus amigos em seguida. 

– Vamos comemorar, – Noah pegou três latinhas de cervejas num isopor próximo a nós – A superação de Styles! 

– Superação? – sentei na esteira, pegando uma das latinhas em seguida. 

– É, Harry Styles finalmente superou , ultrapassando eu e o Nic nos números, o que nunca havia acontecido antes, vale frisar. – debochou – Passou do posto de maior florzinha para o maior galinha

– Vai se ferrar, Noah. – joguei a cerveja em seu colo – Eu vou embora, esse sol tá fervendo meus miolos, acho que minha cabeça vai explodir. 

– Não sabia que você tinha miolos. – Nic disparou, rindo, me abraçando em seguida – Bom descanso mate, a gente te ama. 

– Eu, infelizmente, também amo vocês, obrigado pela festa. – caminhei até a frente da casa me concentrando para não cair.  

Minha mãe me buscou e me deu a maior bronca por estar sem as calças, mas acabou achando graça.

Chegando em casa, depois de tomar um bom banho, não sai da cama para nada, não falei nada, não comi nada. Eu só queria dormir, pois parecia que uma manada de rinocerontes tinha passado por cima de mim. Levantei apenas na manhã seguinte às onze e quarenta da manhã, com o almoço posto a mesa. 

– Bom dia! – abracei minha mãe e beijei sua testa – Que cheirinho gostoso... 

– Bom dia filho. – falou num tom diferente do usual – O almoço tá quase pronto, fiz batatas assadas. 

– Eu adoro suas batatas assadas. – sentei na cadeira em frente ao balcão – Fez peixe também? – continuei puxando papo, fingindo que não notara a estranheza em sua voz e postura. 

– Sim, eu... – então de repente largou o pano de prato na pia – Ah Harry, você me conhece, eu não vou conseguir segurar por nem mais um minuto. – sua voz agora estava chorosa. 

– O que aconteceu? – perguntei preocupado. 

– Eu deveria ter contado antes, mas não queria estragar seu aniversário. Desculpe filho. – começou a chorar – Desculpe, desculpe... 

– O que houve? – levantei imediatamente e me pus a sua frente – Pelo amor de Deus, mãe! 

ligou ontem, no dia do seu aniversário. 

– O que ela queria? – meu coração batia desesperado em meu peito ao escutar aquela informação. 

– Harry... por favor, mantenha a calma, ok? – fungou, enxugando suas lágrimas em seguida. 

– O que aconteceu? – perguntei novamente, tentando manter a calma.

– Oscar ficou doente e foi internado. – assim que minha mãe começara a falar, voltei a sentar na cadeira, colocando uma das mãos na cabeça – O quadro dele era instável, mas eu pensei que... eu pensei que tudo ficaria bem e que poderia te contar depois do aniversário, não queria que ficasse triste no dia da festa, mas... 

– Mas? – minha mãe me encarava em silêncio com os olhos cheios d'água – Mas o que mãe? 

–  ligou essa manhã e... – Anne pegou em minha mão – Sinto muito querido, mas o Oscar não resistiu. 

Eu não sabia o que pensar. Eu não conseguia acreditar no que acabara de ouvir, eu não queria acreditar. Eu estava a ponto de explodir e acabaria sendo grosseiro com a minha mãe, mas do que adiantaria? Ela só queria meu bem, não queria me ver triste no dia do meu aniversário e fazer com que eu cancelasse todos meus planos, pois ela saberia que se eu soubesse eu o faria, além de acreditar que Oscar melhoraria, mas agora não poderia vê-lo vivo novamente e meu coração sangrava. 

Fui para meu quarto e vesti a primeira roupa que vi em minha frente. Minhas mãos tremiam, fazendo que o simples ato de calçar um tênis se tornasse complicado. Assim que fiquei pronto, peguei a chave do carro e saí sem dizer mais nada.  

Chegando em frente à casa dos pais de , sai do carro com pressa e toquei a campainha nervoso. Uma, duas, três vezes. Ninguém atendeu. Quando estava prestes a dar a volta e entrar pelos fundos, a porta se abriu, mostrando uma  completamente derrotada. Seu rosto estava vermelho e levemente inchado, fungava baixinho e suas expressões nunca estiveram tão tristes. Assim que notou que era eu, me abraçou e voltou a chorar. Chorava muito, soluçava e eu não consegui segurar, eu não queria segurar. Nem me importei, ou melhor, nem me pensei sobre a possibilidade de Matthew estar ou aparecer ali, eu só queria e precisava abraçá-la.  

– Ah Harry... – disse entre soluços, com o rosto afundado em meu peito – Eu não se-sei o que vai ser de-de mim. 

– Desculpe não vir antes. – disse assim de partir o abraço, enxugando suas lágrimas com os polegares – Só fiquei sabendo agora. 

– Eu entendo. – respirou fundo e enxugou os olhos – Vou enterrá-lo no quintal. Você quer... 

– Por favor. 

me levou até o corpo de Oscar que estava sobre a mesa da estufa de seu pai no quintal. Foi uma das coisas mais difíceis que fiz na vida. Fiquei mais um tempo ao seu lado e do de , fazendo um carinho em seu focinho cumprido e seus pelos longos. Foi mais difícil do que eu pensava conseguir enterrar Oscar e dizer adeus.

Quando não aguentávamos mais encará-lo naquele estado, o enrolamos num lençol e sepultamos próximo a uma árvore. Após o buraco estar completamente coberto de terra, pegou algumas flores amarelas de seu pai e pôs sobre o local. Logo depois, sentamos no banco próximo a estufa e ficamos encarando o lugar por um tempo. 

– Eu sinto muito. – quebrei o silêncio e passei a fitá-la – Você convivia com ele todos os dias e se dói em mim dessa maneira... não consigo imaginar como você está se sentindo. – pus minha mão sobre a sua, fazendo com que voltasse sua atenção para mim.  

– Pelo menos você tá aqui. – fungou e sorriu torto, sem mostrar os dentes – Ele gostava muito de você Harry, não estaria certo se você não estivesse aqui. 

– Queria ter visitado ele como tinha prometido que faria. – voltei a olhar para o "túmulo" – Droga. – pus as ambas mãos no rosto. 

Depois de um tempo naquela posição, senti um dos braços de  envolver meu tronco e sua cabeça se apoiar em meu ombro. Seus dedos desenhavam algo em minhas costas, fazendo um carinho delicado, e eu não queria ter que sair dali. 

– Você não facilita as coisas desse jeito. – disse baixinho, com o rosto ainda escondido entre as mãos e assim que notei que pararia com o carinho, protestei – Ei, continua. 

– Não é como se tudo fosse muito fácil pra mim. – ignorou o meu pedido e tirou seu braço – Nunca foi fácil Harry, o caminho certo a se seguir nunca é o mais fácil. 

– E quem disse que esse é o caminho certo? – recompus minha postura e a encarei – Até porque ficar comigo nunca foi o caminho mais fácil, nunca disse que seria fácil. 

– Não é justo. Não é justo você vir até aqui e voltar nesse assunto. Eu queria simplesmente seguir em frente e não deixar nossa história no passado influenciar o presente, mas é praticamente impossível. – desabafou frustrada – Harry Styles sempre dá um jeito de aparecer e me assombrar novamente.  

– Eu sou um fantasma, então? 

– Agora, aqui, somos dois fantasmas.  

– Eu não queria ser um fantasma, eu queria... 

– Harry, não. Eu não conseguiria lidar com tudo o que vem junto no ‘pacote’ desse relacionamento. Não insiste nesse assunto, acabou. Doeu não poder te ter, mas dói mais ainda pensar na possibilidade de sentir tudo aquilo de novo. – sua voz era firme e me encarava séria – Eu preciso tentar viver sem você e eu escolhi assim.  

– E se você se arrepender? E se você se arrepender e for tarde demais? 

– Se eu me arrepender, se for tarde demais... – suspirou pesadamente – Harry, eu não posso viver através de possibilidades. Eu preciso viver o agora e preciso encarar as consequências das minhas decisões. Eu escolhi assim e eu quero que você respeite a minha escolha.  

– Diz pra mim. – levantei, ficando de frente para ela – Diz olhando nos meus olhos que não sente mais nada por mim, que me quer longe, que não quer mais me ver. Diz pra mim que não sente falta, que quer que eu vá embora, que quer que eu te deixe em paz. 

– Harry, para. –  encarava o chão, pude ver seus olhos brilharem por conta das lágrimas que se formavam. 

– Diz pra mim que ele te conhece como ninguém, que ele te toca como ninguém, que ele é o amor da tua vida. Diz.  

– Você quer ouvir? – fixou seus olhos nos meus. 

– Quero, por favor. – cruzei os braços, esperando pela resposta. 

– Eu te odeio. – voltou a me olhar nos olhos – Eu te odeio por ter me feito sofrer no passado e por estar me fazendo sofrer agora. Eu te odeio por achar que tudo se resume a você. Matthew tem razão, você pode ser o Harry Styles famoso e querido pelo mundo inteiro, mas aqui, na minha casa, você é só o Harry, e não há mais nada pra você aqui. Você não foi capaz de separar as coisas! Oscar morreu, se foi para sempre e você se aproveitou dessa situação! Quando foi que você deixou de ser aquele garoto cauteloso e educado e ficou assim? Desde quando você pressiona as pessoas pra conseguir o que quer? O Harry que eu conheci não era egoísta, era generoso, respeitoso e compreensível e nunca agiria dessa maneira. Tudo que eu vejo agora é um garoto mimado e egocêntrico e eu nunca, nunca me relacionaria com alguém assim! 

Eu não sabia que palavras poderiam doer tanto, ainda mais da maneira como foram ditas.  manteve um tom firme, alto e cada palavra foi como um soco. Por um segundo eu parei e pensei em todas minhas atitudes perante a situação e fiquei decepcionado comigo mesmo. Robin, minha irmã e meus amigos estavam certos, eu estava me comportando de maneira diferente e só eu não pude notar. Estava agindo feito um idiota, algo que o verdadeiro Harry nunca faria. Eu nunca a desrespeitaria suas decisões ou pressionaria a fazer algo contra sua vontade, assim como qualquer outra mulher. Nunca havia ultrapassado os limites impostos a mim como naquela situação e perante àquilo eu senti vergonha.  

, eu... me desculpe. – soltei os braços e suspirei derrotado – Isso não sou eu. 

– Não, não é você. – enxugou as lágrimas e deu alguns passos para trás. 

– Saiu totalmente de controle, eu não queria... eu não queria que nada disso tivesse acontecido, não queria te fazer sentir dessa maneira ou me sentir dessa maneira.  

– O que mais dói... é que eu esperava essa postura de qualquer um, inclusive do Matthew, mas nunca de você. 

Minha boca abrira algumas vezes, mas por um tempo eu fui incapaz de dizer qualquer coisa. Encarei mais uma vez o túmulo de Oscar e, em seguida, me aproximei de 

– Eu vou embora, mas antes quero que me prometa uma coisa, se puder, é claro. – assentiu e eu prossegui. – Promete que sempre que pensar em mim vai lembrar do garoto que sempre te respeitou e cuidou com muito carinho e não... desse Harry. –  ela pôs uma de suas mãos na frente de sua boca, como se impedisse um soluço de sair e fechou os olhos com força – Tudo bem? 

– Tudo bem. – respondeu baixinho, abrindo os olhos em seguida – Isso soa muito mais como o Harry que eu conheço. Obrigada. 

Virei as costas e deixei a sua casa me sentindo, pela primeira vez em um tempo, muito mais leve, mas ainda bastante triste. Era o certo a ser feito e isso fez com que a dor não viesse com tanta força, mas não é como se eu fosse simplesmente esquecê-la de uma hora para outra. 


Seven

If tomorrow you won't be mine
Won't you give it to me one last time


  

– Você está gelada. Está tudo bem? – meu pai perguntou ao segurar minha mão, me ajudando a sair do carro em frente à igreja. 

– Nervosa. – sorri sem mostrar os dentes – Eu vou me casar! 

– Você tá... – me analisou dos pés à cabeça e algumas lágrimas ameaçaram escapar de seus olhos – Caramba. 

– Não chora agora, pai! – o abracei com força – Você também tá um gato, sabia? 

– Eu e sua mãe somos o casal mais lindo da festa, depois de você e Matty, claro.  

– Eu tenho certeza que sim, mamãe está deslumbrante! 

Meu pai assentiu e se pôs ao meu lado, em frente a porta. A cerimonialista me entregou o buquê e ajeitou a calda do vestido. 

– Está linda! – sorriu simpática – Em um minuto, ok? 

– Ok... 

Enchi meus pulmões e soltei o ar bem devagar. Eu estava tonta. As mãos do meu pai estavam muito quentes em contraste com a minha que parecia gelo. Quando a porta se abriu, Matthew olhava para o altar, mas assim que a música soara, direcionou sua atenção para mim, assim como de todos presentes. Um sorriso largo surgiu em seu rosto, junto de algumas lágrimas que escorreram e pude ver seus lábios falarem um “você tá linda” sem emitir som algum, fazendo com que eu sorrisse volta. Era engraçado e bonitinho notar o quão feliz e inquieto Matty estava naquele momento, não tirando um segundo sequer os olhos de mim, como se a coisa mais preciosa do mundo caminhasse em sua direção.  

Segundo Matthew, eu era. 

 Flashback 

 – O menino que casar com você têm que ter a minha aprovação. – o pequeno Matthew, de apenas sete anos, dizia – Senão eu juro que pego as algemas do papai e prendo ele na mesma hora! 

– Eu vou casar com quem eu quiser Matty, você não pode escolher pra mim. 

– Mas você não sabe como os garotos são! Eles são bobões demais. – bufou, sentando de braços cruzados em seguida.  

– Você é um garoto.  

– Muito bem observado. – falou debochado. 

– Então quer dizer que é bobão demais? 

– Não! Eu não sou como os outros garotos. 

– Então você vai casar comigo, Matty? 

– Eca, que nojo! – Matthew mostrou a língua – Não podemos nos casar. 

– Ué, por que não? – perguntei com as sobrancelhas erguidas. 

– Porque melhores amigos não beijam na boca, bobinha, e pessoas casadas beijam na boca. 

– É verdade, eu vejo o papai e a mamãe beijarem... e com língua. 

“Ui”, falamos em uníssono.  

– Tudo bem então, eu deixo você me ajudar a escolher. 

*
 

– Alguma vez passou pela sua cabeça que ficaríamos juntos? – Matthew quebrou o silêncio da noite, enquanto tentávamos dormir. 

– O quê? – bocejei, abrindo os olhos – Acho... acho que sim. E você? 

– Sim... e não. – falava enquanto olhava para o teto – Crescemos juntos, te via quase sempre como uma irmã, tinha medo que estragasse nossa amizade. 

– Quase sempre?  

– É, bom... fica complicado quando a sua melhor amiga é a garota mais bonita do colégio e você dorme abraçado com ela. – voltou a olhar para mim e sorriu cúmplice – Agora eu quero mais é que a amizade vá pro inferno. – Matty soltou uma risada e se pôs em cima de mim, me dando um selinho demorado – A minha melhor amiga é a minha namorada, não tem como não dar certo. 

– Eu te amo, sabia? – sussurrei baixinho em seu ouvido enquanto espalhava beijos próximos a sua orelha. 

– Muito ou só um pouquinho?  

– Só um pouquinho... mas bem... – mordi o lóbulo de sua orelha – pouquinho. 

– Você tem certeza que quer dormir? – sorriu malicioso. 

*
 

– Mas você tem que me prometer uma coisa...  

– Qualquer coisa. 

– Você é minha e só minha. – separou o nosso abraço e olhou fundo nos meus olhos – Pra sempre. 

– Pra sempre?  

– Casa comigo.  

– Casar? 

– Casar! Eu sou o único cara na terra que eu aprovo pra casar com você... e você sabe que eu tenho que aprovar. – Matty sorria largamente – E eu ainda tenho as algemas do meu pai se você não aceitar. 

– Matthew eu... eu aceito. 

 End of flashback 

No caminho até o altar, abarrotado de flores brancas em vasos grandes e ornamentados, pude ver parte dos convidados e o quão comovidos todos estavam. Era uma sensação única caminhar aquele trecho e eu não conseguia pensar em outra coisa senão os diversos momentos incríveis que tive ao lado de Matthew. Ele era meu melhor amigo. Lembrar de tudo que passamos, lembrar daquelas memórias em específico, fazia com que um alívio e um sentimento de dever cumprido me invadisse. Aquilo era o certo a se fazer. Eu o amava e ele me amava e a cada passo que eu dava eu tinha mais certeza daquilo.  

Entreguei o buquê para a cerimonialista logo depois que meu pai deu a minha mão a Matthew, soltando um “cuida bem dela”. 

– Boa noite a todos! – o juiz de paz disse em bom tom, dando início a cerimônia –Estamos aqui hoje para celebrar as melhores coisas da vida, a confiança, a esperança, o companheirismo e o amor entre esse casal. Vocês foram convidados para compartilhar este momento com  e com o Matthew porque são pessoas muito importantes para eles. O respeito, a compreensão e o carinho que sustentam o relacionamento deles têm suas raízes no amor que todos vocês deram a este jovem casal. Por isso, é uma honra para os noivos contar com a sua presença, aqui, hoje. 

– Você tá incrível. – Matty sussurrou em meu ouvido, fazendo um carinho em minha mão com seu polegar. 

– Nós estamos.  

– Eles escolheram um ao outro como sua família e hoje estão celebrando o amor que já começou e que vai continuar crescendo ao longo dos anos, pois o casamento é a união, é uma caminhada rumo a um futuro, que envolve abrir mão do que somos, separados, em prol de tudo o que podemos vir a ser, juntos.  e Matthew, vocês já foram muitas coisas um do outro, amigos, melhores amigos inclusive... 

– Você conseguiu mate! – pude escutar a voz de Nic ecoar pela igreja, fazendo com que todos rissem, inclusive o juiz de paz. 

– Bom, também companheiros, namorados, noivos. Agora, com as palavras que vocês estão prestes a trocar, passarão para a próxima fase.  Com estes votos, vocês estarão dizendo ao mundo: “este é meu esposo”, “esta é minha esposa”.  

Senti meu coração acelerar de modo que praticamente saltasse de meu peito, fazendo com que Matthew notasse meu nervosismo e segurasse minha mão com força enquanto ficávamos um de frente para o outro.  

– Matthew Pritchett, é de livre e espontânea vontade que você aceita   como sua companheira em matrimônio?  

– Claro, eu aceito. – disse sem soltar minhas mãos, com um sorriso no rosto.  

–  , é de livre e espontânea vontade que você aceita Matthew Pritchett como seu companheiro em matrimônio?  

O tempo o qual eu tomei fôlego pareceu uma eternidade e tudo estava mais devagar agora. Eu queria estar naquele altar, eu queria me casar com Matty, eu só precisava dizer as palavras. 

– Aceito.  

Foi como se o mundo estivesse nas minhas costas até aquele momento e depois de ter soltado as palavras, tudo ficou muito mais leve. Estava realmente acontecendo. 

– Assim sendo, preparem-se para dar e receber os votos de amor, que estão entre os maiores presentes da vida. 

O juiz me encarou e entregou o microfone em minhas mãos, as quais tremiam de nervosismo. Eu não carregava nenhum papel comigo, porque passara noites escrevendo e sabia cada palavra, pontuação e entonação, do início ao fim. 

– O difícil é começar né, mas agora também eu já comecei, então... – soltei uma risada nervosa, fazendo com que todos também rissem e que o clima ficasse mais descontraído – Matty, eu sabia que você nunca me deixaria porquê... você sempre esteve lá... e isso tem que significar algo, né?  

Matty percebeu meu nervosismo e como minhas mãos faziam com que o microfone chacoalhasse, então balançou a cabeça positivamente e sorriu de maneira serena, me incentivando a prosseguir. 

– Meu melhor amigo, estava lá na primeira vez que caí de bicicleta e cuidou de mim, também quando tirei minha primeira nota baixa e me consolou, depois de ter ralhado e dizer que eu deveria ter estudado mais, claro. – soltei uma risada, recordando da situação e funguei em seguida, deixando com que a primeira lágrima escapasse – Você sempre esteve lá pra me dizer que eu alcançaria todos os meus objetivos, pra dizer que você sentia orgulho de mim.  

– Eu ainda sinto. – disse baixinho, para que somente eu escutasse.  

– E pra surpresa de todos os nossos amigos do colégio, você também foi o meu primeiro beijo e eu o seu. Não Lizzie, você não foi o primeiro beijo dele! – olhei para ela entre os convidados e ouvi todos nossos colegas gargalharem, inclusive Matthew – Nós não queríamos passar vergonha na primeira vez que fôssemos beijar alguém e decidimos que treinaríamos juntos, jurando guardar segredo... bom, agora não é mais segredo, até porque a gente vai casar, a gente tá casando e eu estou aqui, na sua frente, na frente de todas as pessoas que significam algo em nossas vidas, pra mostrar o quão importante você é pra mim. Obrigada por tudo Matty, eu tenho o privilégio de te amar e ser amada por você e eu sei que ninguém no mundo é capaz de cuidar de mim do jeito que você cuida, porque é você, é o meu melhor amigo e não tem como não dar certo. 

Matty não hesitou em me abraçar, tirando os meus pés do chão e plantando um beijo em minha testa em seguida. Permanecemos assim até que o Juiz de Paz pigarreasse, como um sinal de que deveríamos prosseguir, então entreguei o microfone para o meu marido, que já possuía um rascunho em mãos. 

– Eu confesso que não tava preparado pra revelação do nosso maior segredo. Desculpa Lizzie... – Fiz uma cara feia e Matty soltou uma risada gostosa, fazendo novamente, com que todos soltassem risadas – quer dizer, deixa pra lá... – pigarreou e voltou sua atenção para o papel – Você sempre foi a minha garota , eu só não consegui enxergar antes, mas eu não me preocupo com isso, porque tudo aconteceu para que hoje estivéssemos juntos, aqui, nesse altar. Não me preocupo com o tempo que perdi sendo somente um bom amigo, porque eu sei que tenho o resto da minha vida pra te dar quantos beijos eu quiser. Foi o meu primeiro beijo e será o meu último. 

Matty mordeu o lábio inferior, fazendo uma pausa, demonstrando tensão. Pude ver mais algumas lágrimas se formarem em seus olhos, enquanto eu tinha certeza que teria de retocar a maquiagem por conta das diversas lágrimas que escorriam. 

– Eu não consigo não querer você pra mim, eu não consigo não cuidar de você ou simplesmente não me importar, porque você sempre esteve lá. Você fez com que eu acreditasse que toda aquela tempestade não passava de um tempo ruim, você fez com que o sol voltasse a brilhar e... ele te amava, , você não tem noção o quanto meu pai te amava e eu queria tanto que ele pudesse ver como você tá linda hoje... – Matty fungou, respirando fundo em seguida – Ele sempre dizia, lembra? 

“Vocês ainda vão casar”, falamos juntos. 

– Eu não dava ouvidos, dizia que era coisa da cabeça dele, pra deixar pra lá e... caramba, se eu soubesse que você ficaria tão incrível num vestido branco eu nunca teria o contestado. Muito melhor do que encontrar o amor da sua vida, é saber que ele é o seu melhor amigo. É você , é você quem eu escolhi amar e obrigado por ter escolhido me amar também

Fechei meus olhos por um tempo, para que o choro cessasse e quando os abri, o Juiz já possuía o microfone em mãos. 

– E agora as alianças.  

A dama de honra, prima de Matthew, muito pequenininha e cabelos encaracolados, entrou em passos curtos, timidamente, com a cesta que continha as alianças em mãos. Foi até o Juiz e a entregou. Enquanto pegava as alianças, explicava. 

– As alianças são símbolos físicos do compromisso de um casal e de sua ligação emocional e espiritual. Elas são consideradas um círculo perfeito, sem começo nem fim.  e Matthew, que estes anéis sejam um lembrete visível de seus sentimentos um pelo outro neste momento. Ao olhar para eles, lembrem-se que vocês têm alguém especial com quem compartilhar suas vidas. Lembrem-se de que vocês se encontraram um ao outro e um no outro, e de que nunca mais andarão sozinhos.  

O Juiz entregou primeiramente a Matty. 

– , eu te dou esta aliança como sinal de que escolhi você para ser minha esposa e minha melhor amiga. Receba-a e saiba que eu te amo. – e pôs sem dificuldades o anel em meu dedo. 

– Matthew, eu te dou esta aliança como sinal de que eu escolhi você para ser meu esposo e meu melhor amigo. Receba-a e saiba que eu te amo. – mesmo que ainda tremendo de nervosismo, repeti o ato. 

– “O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”.  e Matthew, ninguém além de vocês mesmos detém o poder de proclamá-los esposo e esposa. Porém, vocês nos escolheram como anunciantes desta boa nova. E assim, tendo testemunhado sua troca de votos diante de todos que estão aqui hoje, é com grande alegria que nós declaramos que vocês estão casados. Pode beijar a noiva.  

E como num filme, Matty fez com que eu praticamente deitasse em seus braços e encostou nossos lábios de maneira delicada, fazendo com que todos aplaudissem de pé. Estávamos oficialmente casados e não houve um segundo o qual Matthew não me olhara sorrindo e com um brilho intenso nos olhos. 

– Se eu tomar um porre, você cuida de mim? – disse enquanto caminhávamos no tapete para fora da igreja. 

– Matty! Ainda estamos na igreja, cuidado com o que fala. – disse em tom de reprovação, mas acabei rindo por conta do bico que seus lábios formaram – Acho que vamos ter que pedir pra alguém cuidar de nós dois... 

– É o dia mais feliz da minha vida, sabia? – me deu um selinho na porta da igreja e pude notar que o fotógrafo capturara aquele exato momento. 

*
 

– Agora eu quero um pouco de atenção... posso roubar ela pra mim? Vocês vão ter a vida inteira pela frente!  

– Sempre tão dramática, Gem. – Matty falou divertido, beijando minha bochecha em seguida – Eu deixo você tirar uma lasquinha dela, ok? 

– Muito obrigada, sir. Matthew. – Gemma fez uma reverência, rindo em seguida, e me puxou pela mão, me levando para outro canto do salão. 

– Ok, ok, sou toda sua agora! – peguei o copo de suas mãos e dei um bom gole – Ficou tudo muito bonito, né?  

Dei uma boa olhada em volta, analisando o salão muito bem decorado, com rosas brancas em vasos altos e lustres com luzes baixas num estilo bastante clássico. Já era uma e meia da manhã e os convidados se divertiam ao som da música dançante que tocava alto.

Parei meu olhar em Matty por um tempo, que agora bebia e conversava com os amigos do colégio, sempre com um sorriso enorme no rosto, dando risadas de qualquer coisa que o diziam. Acho que nunca o vira tão feliz como naquele dia.  

– Ficou, você tem muito bom gosto amiga. – roubou o copo de minha mão, voltando a beber.   

– E você e Charlie, huh? Quem diria... – olhamos juntas para ele que agora se aproximara de Matthew. 

– Ele é demais, mas não é nada sério, sabe? Vou para Londres essa manhã e talvez demore para voltar. É complicado.   

– Já vai embora amanhã? – fiz um bico – Qualquer dia vou te visitar em Londres. 

– Você deve! E isso é uma promessa, não vou esquecer, ok? – o celular de Gemma tocou e ela o guardou rapidamente na bolsa, agindo de maneira um tanto quanto estranha – Vamos comigo no banheiro? Estou muito apurada e preciso de alguém pra segurar minha bolsa. 

– Claro, tudo bem, preciso checar a maquiagem também!  

Gemma e eu seguimos conversando despreocupadamente em direção ao banheiro, mas quando percebi, estávamos à frente da porta que dava para a área externa, me deixando completamente confusa. 

– Achei que você quisesse ir ao banheiro e aqui definitivamente não é o banheiro. Vem vamos, eu te mostro onde é! 

– Não! – Gemma pegou meu braço, impedindo que eu saísse, me deixando mais confusa ainda. Minha amiga olhou para trás, como se averiguasse o local e voltou a me olhar, fazendo com que eu ficasse apreensiva. – Você pode brigar comigo depois, ok? Mas agora eu preciso que você passe por essa porta. 

– Gemma, o que tá acontecendo? 

– Não precisa se preocupar, ok? Confia em mim. 

Gemma disse olhando nos meus olhos e sorriu em seguida, me passando o máximo de segurança. Ela abriu parte da porta e fez sinal com a cabeça para que eu entrasse.

Ao passar pela porta, para uma área parcialmente aberta que dava de frente para um vasto jardim, o vento frio, junto da presença de um homem, fez com que meu corpo se arrepiasse dos pés à cabeça. Ele estava de costas, próximo a um dos vasos abarrotados de flores que compunha a decoração, olhando para o céu. Assim que ouvira os passos do salto batendo contra o chão, se virou para mim.  

Harry vestia um smoking preto, simples, mas com o corte perfeito. A gravata era de um azul marinho muito bonito e seus sapatos de verniz preto eram bastante brilhantes. Seus cachos, agora longos, estavam bagunçados, como o usual, mas conseguiu que ficassem mais ordenados ao passar a mão por eles, na tentativa de ajeitá-los melhor para trás. 

– Você está... – deu alguns passos se aproximando – fantástica. 

Por mais que eu quisesse respondê-lo, por mais que eu quisesse perguntar o que diabos fazia no meu casamento e se havia perdido a noção das coisas, eu não consegui proferir uma palavra. 

– Não deveria ter me convidado. – soltou uma risada – Ou convidado minha irmã e meus melhores amigos. 

Voltei meu olhar para a porta e vi Gemma acenar para mim, com um sorriso amarelo no rosto, então logo lembrei de Charlie se aproximando de Matthew no salão há pouco. Era uma distração. Eles haviam tramado tudo aquilo.  

Harry se aproximou ainda mais, colocando uma das mãos em minha cintura e a outra segurando minha mão, dando início a uma dança de salão, mesmo que a música ao fundo não fosse condizente com a situação. 

– Eu não estou aqui para estragar o seu casamento, sei que é uma noite muito importante e especial. – deu uma pausa em seu discurso e fez com que eu rodopiasse – Vim me despedir.  

O contato visual entre nós era profundo, eu olhava atentamente cada detalhe que compreendia o rosto de Harry, mas principalmente o sorriso que insistia em permanecer no canto de sua boca enquanto me fitava. 

– Acho que esse é um momento oportuno, tanto para mim, quanto para você, que eu deixe de visitar Holmes Chapel por um tempo. – Harry firmou sua mão na minha cintura, fazendo com que nossos corpos ficassem mais próximos – Mas eu não conseguiria partir sabendo que perdi a única oportunidade de te ver assim, num vestido de noiva.  

Harry encostou sua testa na minha e suspirou pesadamente. 

– Você está mais bonita do que eu esperava. – soltou uma risada sem graça, como se estivesse se martirizando – Mas você sempre me surpreende. – Harry parou com a dança, mas manteve nossas testas coladas. Fechei os olhos por um instante e senti seu polegar acariciar a maçã do meu rosto – Por que você está vestindo isso pra sair da minha vida? – respirou fundo, encostando os lábios em minha testa em seguida. 

Flashback 

– Eu adoro Londres, tem sempre muita coisa a se fazer a todo minuto, sempre.  

Caminhávamos lado a lado na Fleet Street em direção a casa dos tios de Harry, que mantinha seu braço ao redor da minha cintura, deixando nossos corpos bastante próximos. Já era tarde e fazia muito frio, era inverno. 

– Devíamos vir mais vezes, sei que você adora e meus tios não se importam.  

– Você sabe que eu odeio incomodar, não sabe? 

– Você sabe que nunca incomoda, não sabe? 

Harry beijou minha bochecha e chamou minha atenção para uma loja no outro lado da rua, fazendo com que atravessássemos e parássemos em frente a ela. 

– Imagina que linda que você ficaria nesse vestido, vindo em minha direção dentro de uma igreja... 

– Não seja bobo, Harry. – soltei uma risada envergonhada enquanto admirava o vestido. Namorávamos há apenas sete meses – Além do mais, custa três mil e quinhentas libras! 

– Eu trabalharia dia e noite durante o tempo que precisasse pra poder te ver usando um desses. Holmes Chapel teria uma sobrecarga de pães! – Harry soltou uma risada, me puxando delicadamente pela cintura, fazendo com que ficássemos frente a frente – E depois compraria o melhor apartamento da Fleet Street com uma área de serviços enorme para podermos adotar um cachorro. 

– Você já planejou tudo, então? – aproximei nossos rostos, lhe dando um selinho bastante demorado. 

– Você só precisa dizer que aceita. 

 End of flashback  

 – Eu odeio ter que interromper, mas estão dando falta da . – Gemma falou pela fresta da porta, fazendo com que eu levasse um susto ao acordar de meus devaneios e me afastasse de Harry rapidamente. 

– Eu espero que você seja feliz. 

– Obrigada Harry. – minha voz saiu fraca, quase que inaudível. 

Gemma então abriu a porta e me puxou para dentro do salão. Tudo que pude ver foi um borrão se afastando, até o perder de vista.  

– Onde vocês estavam? – Matty estava ofegante, provavelmente perambulara todo o ambiente me procurando. 

– No banheiro. – respondi rapidamente – Problemas na hora de fechar o vestido, desculpe a demora e não ter avisado.  

– Ah sim, tudo bem, agora vamos voltar para lá, sua mãe está bêbada e dançando, você não vai acreditar! – disse num tom brincalhão, pegando em minha mão e me guiando até meus pais. 

Quando olhei para trás, enquanto acompanhava Matty, pude ver Charlie se aproximar de Gemma e os dois piscarem e sorrirem para mim. 


Eight

You and me got a whole lot of history
We could be the greatest team that the world has ever seen


Harry 

 

Harry Styles deixa cidade natal visivelmente abatido: “sempre ruim se despedir da família”, disse um dos vocalistas da boy band One Direction.

  

Seria mesmo toda essa angústia por conta da família?

 

 

Como todos nós sabemos, durante a On The Road Again, a primeira e ex namorada do cantor,  Dantas, compareceu ao show em Manchester no Reino Unido. Sua aparição levou as fãs a loucura, estampou seu rosto em revistas pelo mundo inteiro, levantando diversas especulações, como ter sido o pivô do término do relacionamento de Harry com Nadine Leopold e de que estariam juntos novamente.  

A torcida estava grande, queríamos ver os dois juntos outra vez e a expectativa aumentou quando Harry, após quatro anos, retornou a Holmes Chapel, onde  vive até hoje, alguns dias depois do show. Foram muito discretos ou simplesmente não saíram juntos, pois nenhuma foto de um possível encontro foi feita durante seu tempo de férias, mas o astro foi flagrado não só visitando o antigo apartamento o qual moravam juntos, mas passando diversas noites nele. 

Contudo, no fim do mês de Janeiro, Harry voltou a cidade para comemorar seu aniversário junto da família e amigos mais próximos e colocou o apartamento a venda, tendo este sido vendido em menos de dois dias. 

Ao ser abordado por nossa equipe no aeroporto de Manchester, neste domingo 14, e ser questionado pelo semblante de angustia, Harry disse estar “triste por estar deixando minha cidade natal, é sempre ruim se despedir da família, mas feliz por voltar a trabalhar na divulgação do novo álbum”. Assim que tocamos no nome de , Harry optou por não responder mais perguntas, deixando claro que a saudade da família não era o único motivo de sua tristeza.  

(fotos anexas de Harry no aeroporto de Manchester) 

Quando teremos informações do que realmente aconteceu entre esses dois? Não sabemos, as histórias são muitas, mas esperamos que tudo esteja bem.

*
  

– Bom dia todo mundo, é sexta-feira, dia vinte de fevereiro e o nossos convidados estão aqui. Bom dia Harry Styles, bom dia Liam Payne. – disse Nick Grimshaw, locutor da BBC Radio 1, animado. 

– Bom dia! – respondemos conjuntamente. 

– Como você está, Harry? 

– Eu não estou tão ruim, na realidade. – soltei uma risada – Ou estou? 

– Um pouquinho, mas nem tanto. Você acordou bastante cedo. 

– Mas estou bastante animado!  

– E você Liam, você está completamente derrotado. – Nick gargalhou – Foi uma noite difícil? 

– Não consegui dormir durante a viagem, por isso este belo rosto de sono. – Liam acabou bocejando logo em seguida, nos fazendo rir – Desculpe. 

– Tudo bem Liam, nós perdoamos você. – Nick mexeu em suas anotações, achando o papel pelo qual procurava – Bom, ano passado vocês saíram em turnê, on the road again, certo? 

– É, isso mesmo, foi de fevereiro a outubro do ano passado, estivemos na Oceania, Ásia, África, Europa e América do Norte. – Liam tomou a frente. 

– Uau, incrível! Mas estamos bastante chateados com o fato de que não iremos ver vocês performarem em uma nova turnê. O hiato se aproxima, não é mesmo? 

– Ainda estamos focados na divulgação do nosso quinto álbum, que foi um material que produzimos como um presente para as fãs. – respondi – Mas também queremos um pouco de descanso. 

– As turnês são incríveis, é o maior contato que temos com os nossos fãs e é de uma sensação única, mas também são bastante cansativas e esse tempo de descanso é precioso. – Liam complementou – Só temos a agradecer a todo o carinho e apoio de todo mundo que acompanha nosso trabalho, mas agora temos outros planos e... é isso, vamos ver no que vai dar. 

– Imagino que seja bastante cansativo mesmo, mas agora que não tem turnê, como fica a rotina de vocês? 

– Ainda temos alguns eventos e entrevistas, enfim, compromissos no schedule, como estar aqui hoje, por exemplo. – expliquei para Nick – Mas é muito mais tranquilo, com certeza. 

– Temos mais tempo pra ficar com a família, viajar, ou simplesmente fazer nada, o que é ótimo. – Liam soltou uma risada – Mas também temos esse contato, entre nós e as fãs, mesmo que menor. 

– Entendo... – Nick pegou outro papel – Entramos em contato com os quatro para que pudéssemos reunir toda a banda, mas só vocês dois estavam disponíveis. Todos queremos saber: onde está Niall e Louis? Vocês conversam bastante, mesmo quando estão longe um do outro? 

– Eu quero distância de todos quando estou de folga. – eu disse brincando, fazendo com que todos ali soltassem risadas – Bom, a gente se fala as vezes por mensagens, mas como o Liam disse, quando estamos com tempo livre, passamos mais tempo com a família ou amigos que não vemos com tanta frequência, então a gente respeita o espaço um do outro, até porque ficamos bastante tempo juntos. 

– Provavelmente estão apenas evitando nós dois. – Liam também brincou – O último com quem conversei foi Louis, ele me disse que estava em algum lugar com o nome muito estranho passeando com a namorada.  

– Engraçado, não queria nem comentar nada com vocês, mas quando dissemos que vocês dois tinham confirmado, eles inventaram uma desculpa na hora. – Nick ironizou, nos fazendo rir – Mas e você Liam, sem planos para ir em algum lugar de nome muito estranho com a namorada? 

– Ela está aqui comigo em Londres, estamos sempre juntos agora, é bom tê-la por perto, mas temos alguns planos sim.  

– Isso é ótimo, sempre bom ter um tempo a mais com quem se ama, ainda mais depois de um período corrido. – Nick ponderou, olhou para mim e pude notar um sorriso malicioso no canto de sua boca – E você Harry? 

Eu estava rezando internamente para que aquela conversa não chegasse em mim, pois sabia que acabaria se transformando no assunto que estampava diversas manchetes, mas era como se Nick pudesse ler meus pensamentos e quisesse usar aquilo contra mim. Por mais que eu tentasse desviar do assunto, ele acharia um jeito de chegar até lá. Éramos colegas, mas ele queria audiência. Toda a mídia estava louca por algum detalhe não revelado sobre o que aconteceu entre mim e  e isso me consumia, eu estava completamente exausto. Só queria não ter que pensar mais sobre, mas a pressão era tanta que tudo parecia ser mais doloroso e difícil de digerir. Eu definitivamente não queria falar sobre o que houve, não queria expor , mas também não aguentava mais ser questionado a respeito daquilo e ter sempre que simplesmente ignorar as perguntas ou mudar de assunto. Eu queria que, de uma vez por todas, me deixassem em paz, que encontrassem outro assunto mais interessante e esquecessem daquilo. 

– Eu estou solteiro, então... se alguém quiser ir para algum lugar de nome muito estranho comigo, estou livre. – ri, dando uma piscadela para a câmera que transmitia a entrevista ao vivo. 

– Solteiro, é mesmo? – Nick pareceu ou fingiu estar surpreso – Nenhuma garota em Holmes Chapel ficará com o coração partido ao ouvir essa declaração, então? 

– Hm, não... não ficará. – me ajeitei na cadeira, sentindo o desconforto me invadir.  

– Bom, não que eu me interesse por sites de fofoca ou pela vida alheia, mas aparentemente o resto do mundo parece gostar bastante e você sabe, a vontade do povo é a vontade de Deus. – o locutor riu, na tentativa de descontrair – Não sei se você leu algo sobre, mas as pessoas têm comentado bastante sobre a possibilidade de você ter voltado com a sua primeira namorada. 

– Ah, as pessoas têm comentado? – fingi surpresa de forma debochada, fazendo com que Liam e Nick rissem – Não notei. 

– Bom, então vou te deixar por dentro do assunto... 

– Ah não... – deixei escapar baixinho em frente ao microfone, escondendo meu rosto da câmera. 

Enquanto Nick narrava os últimos fatos que a mídia expusera, olhei de canto para , minha agente pessoal, como quem gritava por socorro. Ela escrevia em sua agenda com pressa e não demorou muito para arrancar o papel, mostrando para mim o que escrevera.  

“Não há mais nada que eu possa fazer, sinto muito”.  

Um sentimento de derrota invadira o meu corpo e minhas mãos começaram a suar. Aquele era o momento, o tormento só acabaria quando eu finalmente me pronunciasse sobre e eu já não podia mais fugir ou me esquivar do assunto.  

– O que você tem a dizer sobre? –  Nick perguntou, fazendo com que eu acordasse dos meus pensamentos.   

– Ah, ela é uma garota incrível e somos amigos, assim como os outros garotos. A banda não se resume a mim. Ela acompanhou a formação e o início de tudo, criou vínculo com todo mundo. – Liam que escutava atentamente, concordou com a cabeça – Ela foi ao show como todos os outros amigos que convidamos. Ficamos bastante felizes em vê-la, conversamos depois e foi bem legal, fazia bastante tempo que não nos falávamos, mas não passou disso. 

– Entendo e fico feliz que vocês mantenham esse vínculo. – Nick forçou um sorriso – Sem chance de vermos esse casal novamente, então?  

– Sem chance alguma. –  soltei uma risada nasalada, sorrindo torto, ao lembrar de  usando o vestido branco – Ela casou semana passada, inclusive.  

– Ah meu Deus! E você foi convidado? 

– Sim, minha família também! Minha irmã foi, mas eu não pude ir por conta de um compromisso.  

– Claro, você andou bastante ocupado no ramo imobiliário. – Nick riu, na intenção de descontrair. 

– Pois é, e confesso que levo jeito, vendi com bastante facilidade. – forcei uma risada, tentando demonstrar tranquilidade – Acho que vou me dedicar a essa atividade nas minhas férias. 

– Bom, estamos aqui na BBC Radio 1 com Harry Styles, que está solteiríssimo e Liam Payne, que agora parece um pouco mais acordado. 

– Nem estou mais bocejando! – Liam disse enquanto esfregava os olhos.  

– O que já é uma vitória. – Nick riu enquanto mexia em seus papéis – Agora vamos de Drag Me Down, música do último álbum da banda, Made In The A.M., e já voltamos com mais One Direction! 

Tiramos os fones logo que a música começara a tocar e a câmera foi desligada enquanto fazíamos a pausa. caminhou até mim com pressa e me entregou um copo d’água gelado. 

–  Eu juro que quis avançar no Grimshaw. – bravejou, bufando em seguida, enquanto eu bebia a água – Quanta falta de consideração, achei que fossem amigos! 

– Trabalho é trabalho... – o locutor estava atrás de  – Amizade a parte. 

– Conseguiu a audiência que queria? –  direcionou a atenção a ele, como se fosse atacá-lo, fazendo com que eu levantasse e me pusesse a sua frente. 

– Deixa pra lá, ok? – disse num tom calmo – Tá tudo bem. 

– Consegui, obrigada por perguntar, mas poderia ter sido muito melhor se Harry tivesse dito a verdade. – Nick soltou uma risadinha – Brincadeirinha. 

– Algum problema aqui? – Liam apareceu na roda, parecendo preocupado. 

– Não, nenhum, imagina. – Grimshaw voltou a sua cadeira e colocou o fone – Vamos voltar em quarenta segundos! 

voltou ao seu lugar, assim como eu e Liam, que fingíamos conversar despreocupados ao passo que a câmera voltara a filmar. 

– Estamos de volta, oito e vinte três da manhã, com Harry Styles e Liam Payne da One Direction! 

– Ei todo mundo! – Liam falou de maneira cantada. 

– Olá, olá. – disse em seguida. 

– Bom, estávamos falando de turnê e shows, ouvimos esse hit que simplesmente estourou em todas as paradas ao redor do mundo, Drag Me Down, que foi composta... – Nick checou os papéis – Por você Liam, e pelo Louis, correto? 

– Sim, eu e Louis compomos essa e foi muito gratificante o retorno dos fãs. – Liam explicava – Quebramos o recorde de streaming com esse single e ficamos muito felizes.  

– Tem muito mais de nós nesse álbum do que nos anteriores. – tomei a vez e gesticulava bastante enquanto falava – Julian nos auxiliou muito na composição de Four e aprendemos bastante, ficamos com uma bagagem maior para compor esse álbum. Foi divertido todo o processo, desde compor até gravar, tivemos mais tempo, foi mais tranquilo. 

– Então ele é um álbum mais íntimo, contam histórias e coisas que realmente aconteceram com vocês? 

– É, podemos dizer que sim, como o Harry disse, há muito mais de nós em cada música desse álbum. – Liam olhou para mim – O que você acha? 

– Acho que todo compositor, quando cria um material novo, acaba transcrevendo seus sentimentos e experiências próprias e não seria diferente nesse álbum.  

– Sim, Taylor Switf agrees. – Nick soltou uma gargalhada, fazendo com que todos rissem e eu escondesse meu rosto com as mãos por um tempo. 

– Bom, como eu ia dizendo. – voltei a falar, ainda um pouco sem graça – Nos empenhamos bastante para que alcançássemos o melhor resultado, pedimos ajuda um para o outro, as vezes um alterava algo aqui, outro ali, mas sim, ele é um material que acabou se tornando um pouco mais pessoal do que os anteriores. 

– E qual a música desse álbum que vocês mais gostaram? 

– Eu gosto bastante de What a Feeling. – Liam respondeu primeiro – Definitivamente é a minha favorita do álbum. 

– Eu acho que... – ponderei – Olivia

– A pergunta que não quer calar é: quem é Olivia? – Nick me encarava com um sorrisinho nos lábios. 

– Pergunte ao Harry, foi ele quem escreveu. – Liam me dedurou, me deixando sem graça novamente. 

– Olivia é mesmo uma pessoa? Olivia é uma emoção? Ela é um lugar? Nós não sabemos. – soltei uma risada – Fica aberta a interpretações, cada um pode ter a sua. 

– Ok Harry Styles, só você possui essa licença poética. – Nick sorriu e deixou os papéis de lado – Conversamos com a One Direction, ou pelo menos parte dela e já estamos morrendo de saudades. Obrigado pela presença rapazes, e agora ficamos com Olivia, mesmo sem saber o que diabos ela éaqui na BBC Radio 1!   

Tiramos os fones assim que o sinal de fora do ar ficou vermelho, rindo da piada que Grimshaw havia feito sobre a música. Liam pareceu estar com pressa e se despediu muito rápido, mal conversamos depois da entrevista. Nick tentou manter algum tipo de conversa, mas não queria ter que responder sobre coisas as quais eu não queria falar e pareceu perceber, pois tratou de me tirar o mais rápido possível daquele prédio. 

– Obrigado por hoje. – disse para minha agente enquanto caminhávamos em direção ao carro – Eu sei que tentou de tudo, você tem sido incrível. 

– É o meu trabalho, Harry. – tentou manter a postura profissional, apesar de estarmos cada vez mais próximos – E eu odeio injustiças. 

– Injusto para nós, mas desde quando eles se importam? – abri a porta do carona para que ela entrasse e entrei na parte de trás do carro logo depois. 

– Eu não sei como você aguenta, sério. – bufou, botando o cinto em seguida – Não sei se conseguiria manter a postura no seu lugar. 

– É, a gente acaba aprendendo a deixar passar bastante coisa. – suspirei pesadamente, olhando o movimento pela janela – Mas não quero falar sobre. 

– Você tem uma semana livre em Londres agora. – disse enquanto checava a agenda – Sua viagem para Los Angeles é só dia 28. 

– Então temos que comemorar. – me pus no meio do banco, entre o motorista e minha agente, e sorri brincalhão para ela – Vamos tomar um vinho? 

– Um vinho às... – encarou o relógio de pulso – Nove horas da manhã? 

– Ok, então tomamos um café e no almoço tomamos um vinho. O que acha? 

– Acho que meu chefe vai me matar, não deveríamos misturar as coisas. – fechou a agenda, contrariada.  

– Eu sou seu chefe. – ergui uma das sobrancelhas e notei um sorrisinho se formar em seu rosto antes fechado – Vamos, vai, eu tô te devendo uma. 

– Não vai adiantar se eu falar não, né? – tirou os óculos de grau e esfregou os olhos, os guardando em seguida – Tudo bem, vamos, café e vinho. 

– Yaaay! – comemorei e voltei minha atenção para o motorista – O apartamento da Fleet Street, ok? 

– Sim senhor. – respondeu concentrado no trânsito e muito sério. 

– Sempre que o Robert responde assim eu sinto os anos nas costas. – brinquei, fazendo que ambos rissem. 

O trânsito estava intenso e demorou até que cruzássemos a cidade até a Fleet Street. Ao chegarmos, o motorista parou em frente a portaria do prédio e desligou o carro, sendo o primeiro a sair e abrindo a porta para mim em seguida. 

– Obrigado Robert, mas eu já falei que não precisa, deveria ter aberto a da . – fechei a porta e pude ver minha agente saindo do carro logo em seguida – Bom, você pode tirar o resto do dia de folga, ok? 

– Obrigado... – ponderou e sorriu em seguida – Harry. 

– Muito melhor! – sorri e fiz uma pequena reverência – Obrigado de novo, Robert. 

Eu e paramos lado a lado na calçada, vendo o carro que nos trouxe se afastar aos poucos. Assim que ele sumiu completamente de vista, pousei meus olhos numa loja do outro lado da estrada e senti um aperto no peito. 

– Estamos esperando algo? – perguntou confusa, então olhou na direção a qual eu olhava e pareceu mais confusa ainda. 

– Não, podemos subir. – fitei e sorri, entrando na portaria em seguida. 

Conversávamos distraidamente sobre meus próximos compromissos durante o percurso da portaria até meu flat que ficava na cobertura. estava ao meu lado nessa função há quase um ano e nos dávamos muito bem, ela era muito responsável e sempre me ajudou muito, a melhor profissional que ocupara aquele cargo até o momento.

Ao abrir a porta pude notar a cara de surpresa da ao encarar o interior do apartamento. Era espaçoso e os móveis tinham uma pegada clean e moderna. A sala era bastante ampla, com uma visão incrível de Londres, e ficava conjugada com a cozinha tão grande quanto. 

– Gostou? – sorri de canto, fechando a porta em seguida – Queria passar mais tempo aqui e deixar mais a minha cara, gosto do lugar, mas ainda não tive tempo. 

– Harry, nossa, é incrível. – olhou em volta e deixou a bolsa em cima do sofá, indo até a cozinha em seguida. Parou em frente a uma porta e deu uma olhadinha, me fitando abismada em seguida – Isso é uma área de serviço? É quase maior que meu quarto! 

– Grande, não é? – soltei uma risada, caminhando até a máquina de café e peguei algumas capsulas e duas xícaras – Expresso, capuccino... chocolatto?  

– Ah, sim, seria um bom lugar para morar, mas você passa muito mais tempo em Los Angeles. – ponderou, como se refletisse sobre – E um expresso, por favor. 

– Ok, um expresso saindo. – sorri divertido – Eu adoro Los Angeles, acho que é onde eu realmente considero e me sinto em casa, mas aqui... é um sentimento diferente. – caminhei até , sentando ao seu lado e entregando sua xícara, bebendo um gole do meu café em seguida. 

– Mas... Fleet Street? Eu realmente esperava Egerton Crescent, talvez Parkside, no mínimo na Lancaster Gate. – deu um bom gole em seguida, me fazendo rir.  

– Bom, tenho uma casa na Egerton Crescent... 

– Eu sabia! – exclamou vitoriosa, como se fosse um jogo de acertar onde eu possuía imóveis – Deve ser incrível.  

– Para uma Californiana legítima, você está se saindo uma ótima britânica. – fiz rir e rolar os olhos em seguida. 

– Eu adoro o Londres, mas não mais que a West Coast. – finalizou o café e levantou, se dirigindo até a máquina de café – Posso? 

– Vá em frente. – sorri, dando mais alguns goles em seguida. 

– Harry, me avise se eu estiver sendo intrometida demais, mas pela minha pequena e rápida análise, você tem algo com essa rua, alguma história, não? – apertou o botão e o cheiro de café voltou a se espalhar pelo cômodo – Tudo bem se não quiser falar sobre, sei que nossa relação é apenas profissional... 

– Ei, para com isso! – disse num tom de reprovação – Sei que nos conhecemos por conta de uma relação profissional, mas já te considero uma amiga e podemos falar sobre tudo... – prestei atenção no que acabara de dizer e ponderei, soltando uma risada logo depois – Quase tudo, ok? 

– Ok, conte-me todos seus segredos mais sórdidos e obscuros. – se encostou na pia e ficou me encarando de lá, bebendo seu café. 

– Vou ter que te matar depois. – ergui uma das sobrancelhas sugestivamente e minha agente fingiu sentir medo da forma mais teatral possível, fazendo com que ambos rissem. 

– Na realidade, eu só queria saber sobre o porquê você ter encarado de forma muito estranha uma loja de vestidos de noiva e ter uma cobertura na Fleet Street com uma área de serviços maior do que meu quarto! – pôs a xícara na pedra da pia e cruzou os braços, como se esperasse uma explicação imediata. 

– Você é alguma jornalista investigativa da Cosmopolitan infiltrada? – a encarei assustado e então gargalhou – Eu realmente estou impressionado com a sua observação e a maneira como interligou as coisas. 

– Não precisa ser jornalista investigativa Harry, precisa ser mulher. – pegou minha xícara no balcão e colocou ao lado da sua na pia – Temos um sexto sentido. 

– Depois disso aposto que vocês têm mesmo. – ri pelo nariz e apontei para a sala –Vamos para os sofás, são mais confortáveis. – caminhei até o maior deles, tirei os sapatos e sentei de maneira mais relaxada. aproveitou a deixa e tirou as sandálias também, sentando no sofá ao lado – Bom, antes da banda,  e eu viemos algumas vezes para Londres juntos, meus tios moravam aqui pertinho, ficávamos no apartamento deles e sempre passávamos por essa rua. – minha agente, ou melhor, amiga, me encarava atentamente, ouvindo cada palavra que eu dizia – Ela adorava vir à Londres, nos divertíamos muito, era legal andar nas ruas com ela sem uma multidão em volta. – sorri torto, lembrando de como caminhávamos abraçados na última vez que passamos pela Fleet Street juntos, sem sermos parados por praticamente toda pessoa que cruzasse o nosso caminho – E bom, na última vez que passamos por aqui, eu notei aquela loja de vestidos de noiva, achei eles incríveis e mostrei pra ela, disse que queria que ela usasse um daqueles... – ri de mim mesmo, me achando patético por estar contando aquela história a alguém – Mas eram caros e eu trabalhava numa padaria! – foi a vez de rir – Só que eu prometi que ela usaria um daqueles em nosso casamento e que teríamos um apartamento aqui, nessa rua. 

– Você é tão romântico que eu fiquei enjoada. – me olhava com certa surpresa e confesso que achei graça – Tá ok, e onde a área de serviços entra nessa história? 

– Por Deus, por que a área de serviços teria alguma ligação? 

– Porque homens não se importam com áreas de serviço e, caramba, olha o tamanho daquela ali! – dizia extremamente convicta – Pra ter um espaço daquele você deve ter especificado que você queria uma maior do que o convencional! 

– Eu realmente estou com muito medo, tem certeza que essa história não vai estar no The Sun amanhã?  

– Não era Cosmopolitan? – franziu o cenho e rolou os olhos em seguida – Da pra parar com isso e me contar o resto da história? 

– Tudo bem, tudo bem... – me dei por vencido, encarando qualquer outra parte da sala e falando mais baixinho, com vergonha – Prometi que teríamos uma área de serviços maior para adotarmos um cachorro. 

– AH MEU DEUS! –  deu um pulo no sofá, fazendo com que meu rosto ficasse mais vermelho que o normal – Onde você guarda o seu cavalo branco? 

– Eu vou te matar por estar me fazendo a falar sobre isso. – bufei e cruzei os braços – Não poderia ser depois da primeira garrafa de vinho? Eu me sentiria muito mais confortável. – fiz uma careta e riu. Ela checou o relógio em seu pulso e me olhou de maneira travessa em seguida, me deixando completamente confuso. 

– Você deveria tomar mais cuidado com o que deseja, sabia? – soltou uma risada quase que maléfica propositalmente, fazendo com que eu risse de nervoso – Bom, são quase onze horas da manhã, poderíamos pedir o almoço e começar a beber a primeira garrafa agora, o que acha? 

Passadas uma hora e meia, estávamos bastante bêbados e havíamos simplesmente ignorado a comida chinesa que havíamos pedido e que tinha chego há quarenta minutos. 

– Ela é incrível, .... – deixei a taça em cima da mesa de centro, me sentindo um pouco tonto – Acho que vocês se dariam bem, talvez até fossem amigas. 

– Eu sinto muito que as coisas não tenham dado certo. – encheu nossas taças, fazendo com que chegasse ao fim a segunda garrafa – Mas você não pode ficar nessa para sempre baby, tem um oceano de modelos, atrizes e garotas muito interessantes que fariam de tudo por uma noite com Harry Styles. 

– Tô cansado de one-night stand. – ignorei completamente minha tontura e embriaguez e voltei a beber o vinho – E é difícil conhecer alguém melhor e me envolver a ponto de um namoro. 

– Você é tão chato, Styles. – rolou os olhos e colocou a taça com certa impaciência na mesinha – Presta atenção, nem que eu tenha que reformular toda a sua agenda e cancelar alguns eventos, você precisa conhecer alguém melhor! 

– Sou chato, mas ainda sou seu chefe, então olha bem essa boca aí. – ergui as sobrancelhas e soltei uma risadinha. 

– Você não faria isso comigo. – rebateu, ergueu uma das sobrancelhas também, como se me desafiasse – Sei da minha qualidade. 

– Você tem razão. – falei derrotado e soltei o ar pela boca, fazendo um barulho com os lábios – Mas não me chame de chato de novo, fere o meu ego. – pus a mão no peito e fingir dor no coração. gargalhou mais alto do que o normal por conta do nível de álcool – E eu agradeço a sua tentativa de me fazer encontrar alguém, mas acho que agora só preciso de um tempo pra digerir tudo, sabe?  

– Você foi louco em ir até o casamento, ou muito corajoso. Não sei se no seu lugar conseguiria lidar com o fato de ela estar... – gesticulou com as mãos na tentativa de explicar – você sabe, vestida daquela maneira.  

– Sonhei com isso tantas vezes, sabe? Ver ela usando um vestido daqueles. Eu sei que doeria muito depois, mas acho que doeria muito mais saber que nunca a veria vestida de noiva. – encarava a taça em minhas mãos com o cenho franzido – Eu queria poder dizer que a esqueci durante todo esse tempo e que foi muito estranho sentir tudo àquilo de novo e querer voltar atrás, mas a verdade é que ela quase sempre esteve lá. Quando alguém não me fazia lembrar com uma foto pelas redes sociais, eu sonhava com ela. Quando eu estava bem e já não pensava mais nisso, minha mãe pedia pra eu voltar pra Holmes Chapel e eu lembrava que o motivo de eu não querer ir até lá era ela e tudo voltava a me perturbar. É bizarro e eu fico triste comigo mesmo por isso. – voltei a encarar que me fitava com muita atenção – Eu queria tanto compartilhar isso tudo com ela, sabe? Droga! – bravejei frustrado – Eu tô me sentindo uma adolescente de 17 anos. – ri de mim mesmo e me acompanhou. 

– Acho que deveríamos adiantar o seu retorno pra Los Angeles. – deixou a taça de lado e relaxou no sofá, deitando a cabeça em uma das almofadas e abraçou outra. 

– E por que você acha isso?  

– Acho que Londres mexe muito com você e por isso você mora em Los Angeles, ajuda a desviar um pouco a atenção desse assunto.  

– É, acho que no fundo é isso mesmo, mas vamos ficar até segunda-feira, ok?  

– Tudo bem, saindo daqui já vou adiantar o voo. – pegou o celular para anotar nos lembretes – Marcou algum compromisso pra esse final de semana? 

– Sim, vou jantar com o Niall domingo. Quer vir junto? 

– Com o Niall? – tentou parecer despreocupada, mas o nervosismo era perceptível – Ah, não sei, eu queria passear por Londres antes de ir embora e não queria atrapalhar o encontro de vocês. 

– Mas é só um jantar, não vai te tirar tanto tempo assim. Qual é, ? Tenho certeza que o Niall vai adorar te ver. 

– Você acha? – voltou a me encarar e ajeitou uma mecha atrás da orelha, fazendo com que eu risse de sua reação – Por que está rindo? 

– Eu sabia! – disse ainda rindo – Você gosta do Niall! Eu não acredito... 

– O quê? Você está ficando louco? – seu rosto estava completamente vermelho – De onde você tirou essa ideia? Não tem nada a ver, eu não gosto do Niall!

– Francamente , tudo isso daqui pra você se apaixonar... – passei a mão pelo meu abdômen – e você se apaixona pelo Niall? 

– Você é ridículo. – jogou uma almofada no meu rosto e eu ri ainda mais alto, fazendo com que ela não aguentasse e risse também – E não é como se eu escolhesse por quem eu me apaixono. 

– Que bonitinha... – apertei suas bochechas e minha agente deu um tapa em meu braço – E sabe o que é mais engraçado? 

– O que? – perguntou fingindo desinteresse, então entreguei meu celular a ela e mostrei a última mensagem que Niall havia me enviado. 

“Mate, você tá saindo com a ?”. 

– Ele... – devolveu o celular incrédula, olhando fixamente para um ponto. 

– Sim, ele gosta de você também.

– Ai. Meu. Deus. – colocou as mãos na frente da boca e soltou uma risada abafada –Esse jantar é real? Vai acontecer mesmo? 

– Infelizmente não, eu só inventei pra ter certeza da minha teoria. – me encolhi no canto do sofá – Mas não me bate, ok? 

– Eu te socaria se você não fosse meu chefe! – disse aparentemente frustrada, mas acabou relaxando e sorrindo feito uma tola em seguida – Mas obrigada por me contar. 

– Eu vou dar um jeito nisso, ok? Nunca fui um cupido antes.  

– Espero que você seja um bom cupido, porque o seu tá complicado... – soltou uma risadinha e me fez murchar na mesma hora. 

– Você é uma bela de uma desmancha prazeres, isso sim. – fiz um bico e foi a vez de apertar minhas bochechas. 

 

 

– Não acredito que finalmente estou segurando ele! – dizia com o canudo em mãos – Enfim formada, mal posso acreditar. 

Matthew, minha mãe e meu pai me acompanhavam entre os corredores da universidade após a colação de grau no gabinete do Diretor. Eu havia optado por não fazer festa de formatura por conta das prestações do casamento e do apartamento que compramos. 

– Estamos tão orgulhosos! – minha mãe falava enquanto enxugava as lágrimas com um lencinho. 

– Filha, tenho certeza de que será uma delegada muito melhor do que eu! – meu pai dizia enquanto andava abraçado de lado comigo. 

– Aprendi com o melhor. – o abracei de volta e recebi um beijo na bochecha. 

– Um psicólogo e uma bacharel em direito, somos o casal mais chato do mundo. – Matty soltou uma risada e pegou na minha mão assim que meu pai desvencilhou o nosso meio abraço – Bom, não pudemos fazer uma reserva num restaurante, ainda estamos com várias prestações pesadas, mas compramos uma boa espumante para comemorarmos. – disse diretamente para os meus pais quando paramos em frente ao seu carro estacionado no campus, que estava bem ao lado do nosso – Vocês não precisam voltar para Holmes Chapel hoje, podem ficar no quarto de hóspedes. 

– Adoraríamos meu querido, mas George não folga amanhã, tem que estar cedo na delegacia. – minha mãe sorriu torto, nos abraçando em seguida – Se cuidem, ok? Comemorem por nós. 

– Pode deixar, vamos comemorar a noite toda. – Matty ergueu uma sobrancelha para mim e soltou uma risadinha, fazendo com que meu pai olhasse de forma repreensiva para ele – Desculpe senhor. 

– Parece que foi ontem que vocês estavam brigando por quem sentaria na ponta da mesa e agora estão aí, tão... tão... 

– Casados? – completei a frase de meu pai, abraçando Matthew em seguida. 

– Isso, tão casados. – resmungou, entrando no carro logo depois – Cuida dela, moleque. 

– Deixa comigo. – acenou – Boa viagem de volta. 

– Boa viagem meus amores! – escutei a voz de minha mãe se misturar com o barulho do motor antes de irem embora. 

Matthew tirou a chave do carro do bolso e caminhou em direção ao carro, abrindo a porta para mim, como de costume, e entrando logo em seguida. 

– Agora vamos ter que tomar duas garrafas sozinhos. – colocou o cinto com um sorriso bobo no rosto – Que pena... 

– Aposto que você estava rezando pro pai não conseguir folgar! 

– Você me conhece tão bem, meu amor... –  Matty disse de forma cantada e dei um tapinha em seu braço, fazendo-o rir e dar partida no carro logo em seguida – Você é tão agressiva, meu amor. 

– Você não viu nada, meu amor. – ergui uma das sobrancelhas e sorri travessa, me inclinando para lhe dar um selinho. 

– Pior que eu já vi e pior ainda eu gostar disso. – riu de sua própria conclusão e colocou uma das mãos em minha coxa enquanto dirigia – Temos que aquecer para a lua de mel, quero estar em perfeito condicionamento físico para a nossa viagem. 

– Temos uma semana livre para preenchermos de puro treino intenso e pesado. – fingia estar séria, Matthew ria de minha encenação. 

– Você é patética, sabia? – disse ao parar no semáforo e voltou seu olhar para mim, sorrindo ao me encarar – Pateticamente linda. 

– Obrigada. Você também é patético, mas só patético mesmo. – soltei uma risada e Matty fez um carinho em meu rosto antes de voltar a atenção ao trânsito e dirigir.

Fiquei o encarando enquanto se concentrava no trânsito e simplesmente soltei um gritinho agudo, chamando pelo seu nome em seguida. 

– Meu Deus, o que foi! – olhou para mim assustado e freou de repente, fazendo com que ouvíssemos diversas buzinas em seguida. Matthew colocou a mão no peito por conta do susto e me encarava confuso – , o que foi? 

– Por que você é tão lindo? – um sorrisinho brotara em meus lábios e vi seus olhos rolarem, voltando a atenção para o trânsito novamente – Olha só pra esse rosto! Sério, como você consegue? 

– A gente poderia ter se metido num acidente, sabia? – segurava o volante com as duas mãos. 

– Esse peitoral... – pus a mão em seu peito, descendo pelo seu tronco lentamente – Esse abdômen...  

– ! – disse tentando manter a postura, mas esta foi se desfazendo aos poucos e um sorriso começara a brotar em seu rosto. 

– Mas sabe o que eu mais gosto? – continuei descendo minha mão e Matthew soltou uma risada nasalada enquanto estacionava o carro. 

– O que você mais gosta? – desligou o carro e me encarava, então passei a mão por entre suas pernas, mas não me demorei, deslizando minha mão por sua coxa. 

– Do seu... – mordi meu lábio inferior provocativa – joelho. – pousei minha mão ali e Matthew não sabia se me xingava ou se ria. 

– O que eu fiz pra te merecer? – perguntou antes de abrir a porta do carro e sair, caminhando até o outro lado e abrindo a minha porta. 

– Nasceu. – respondi ao sair do carro e soltei uma risada, lhe dando um selinho que se aprofundaria num beijo se não tivéssemos ouvido um pigarrear. 

– Licença. – uma garota loira, não muito alta, de provavelmente uns dezesseis anos, perguntara timidamente – Desculpe incomodar, mas você é a , não é? 

– Sim, sou eu. – senti minha pele esquentar, pois aquilo não acontecia há um tempo comigo, eu não sabia exatamente como reagir e não sabia como Matthew reagiria, me deixando completamente sem jeito. 

– Eu sei que pode parecer estranho, mas... eu gosto muito de você e de quando acompanhava a banda, poderia bater uma foto comigo? 

– Ah, claro, claro... – escutei Matty bufar enquanto eu me posicionava ao lado da garota que não demorou muito para capturar a foto – Obrigada pelo carinho. 

– Obrigada eu! Adorei a foto... – então me abraçou e eu fiquei completamente sem reação, praticamente imóvel – Você é linda, obrigada mais uma vez, tchau! – e correu até um homem mais velho no outro lado da rua, que provavelmente era seu pai. 

– Bizarro. – Matty disse sem humor, dando as costas em seguida e entrando no prédio.  

Matthew cumprimentou o porteiro com um aceno e apertou o botão do elevador em seguida. Todo o percurso até o apartamento foi um completo silêncio. Ao abrir a porta, Matthew se jogou no sofá com uma cara de poucos amigos. 

– Você vai ficar chateado comigo por algo que eu nem fiz? – parei em sua frente – Não tenho culpa, ok? Não iria destratar a menina. 

– Você tem razão. – respirou pesadamente – É só que... lembrar disso me deixa chateado, ok? Desculpa. 

– Hoje é um dia especial. – sentei em seu colo, com uma perna em cada lado de seu corpo e acariciei seu rosto – Não tem o porquê brigar e estragá-lo por conta disso, ok? Eu também acho estranho, mas quis ser gentil. 

– Eu sei, eu sei, você tá certa e eu fui um babaca. – envolveu minha cintura com seus braços e espalhou alguns beijos pelo meu pescoço, fazendo com que eu jogasse minha cabeça para trás – Não queria ter deixado o clima assim pesado. 

– Tudo bem, já passou... – fechei os olhos por conta do contato contínuo de seus lábios contra meu pescoço e com uma das mãos agarrei seus cabelos da nuca. 

– Eu preciso te contar uma coisa. – disse entre os beijos e de repente parou, fazendo com que eu voltasse a lhe olhar – Temos mais um motivo para comemorarmos hoje. – ajeitou uma mecha do meu cabelo para trás da orelha e sorriu. 

– O que é? – perguntei bastante curiosa – Fala logo! 

– Você tá falando com o mais novo bolsista do curso de Mestrado em Psicologia Forense e Saúde Mental da Universidade de Manchester. – seu sorriso se abriu largamente – Dá pra acreditar? 

– Você tá falando sério? – eu estava com a boca aberta, completamente em choque, ainda em seu colo – Isso é sério? Mesmo? 

– Nunca falei tão sério em minha vida! – respondeu animado e com um sorriso muito largo nos lábios. 

– Matty, eu... – o abracei com força, sentindo os seus braços me apertarem também – Isso é incrível! Eu to tão orgulhosa... demais! – assim que o abraço se desfez, enchi seu rosto de beijos – Você tinha razão, ainda bem que as duas garrafas ficaram só pra nós dois, temos muito o que comemorar! – Matthew gargalhou e me deu um selinho demorado. 

– Eu não poderia estar mais feliz. – levantou do sofá, comigo no colo, caminhando em direção ao quarto – Estar formado, casado, ter conseguido a bolsa, tudo tem dado tão certo... 

– E acabou de começar. – Matty me deitou na cama e me deu um selinho rápido – Você tá preparado? 

– Eu vou pegar a primeira garrafa, você tá preparada? – sorriu malicioso e levantou em seguida, indo em direção a cozinha – Amor, onde tá o balde de gelo que a gente comprou semana passada? – falou alto da cozinha enquanto eu me ajeitava no banheiro – Não tô achando. 

– Na porta de cima no canto direito! – respondi alto também, para que pudesse ouvir – E tem morangos na geladeira, comprei ontem. 

– Eu te amo, sabia? – disse ainda da cozinha. 

– Amor, para de gritar. – respondi gritando e ambos rimos – Mas também te amo! 

Em cinco minutos Matthew apareceu com o balde cheio de gelo e uma garrafa, duas taças e um recipiente com os morangos e colocou no criado mudo em seguida. 

– Nem sei por que julguei a menina. – encarou meu corpo enquanto eu já estava deitada vestindo somente uma lingerie – Se eu te encontrasse na rua também pediria uma foto. – pegou a garrafa e abriu num estouro não muito alto, servindo as duas taças e me entregando uma delas em seguida – A nós. 

– A nós. – disse com a taça erguida e brindamos em seguida – O melhor time que o mundo já viu. 


Nine

Who's gonna be the first one
To start the fight?


Matthew 

 

“One Direction: o hiato está próximo.

 

A decisão sobre o hiato teria sido tomada em uma reunião durante o final do ano passado, em Londres, na qual Harry Styles, Liam Payne, Louis Tomlinson e Niall Horan optaram por não fazer uma turnê de lançamento de seu quinto disco. A banda, porém, deve aparecer até março de 2016 em programas de TV e apresentações especiais para promover o novo disco, que foi lançado em novembro.” 

 

“Harry Styles & Nadine Leopold: o real motivo pelo qual ela terminou.
 

Os rumores são verdadeiros. Nadine foi quem terminou com Harry  e por uma boa razão! Aparentemente, o membro do One Direction estava ‘brincando’ com seu coração, disse uma fonte ao HollywoodLife. 

Quando ouvimos pela primeira vez que Nadine Leopold, havia abandonado Harry Styles, não conseguíamos entender por que, no mundo, ela, ou qualquer mulher, faria tal coisa. Mas a explicação dela realmente faz todo o sentido e nos faz pensar se Harry é realmente um bom namorado, afinal de contas. Aqui está o que sabemos. 

Nadine não terminou com Harry porque ela parou de se importar com ele, na verdade, ela se importava muito! 

"Nadine queria um compromisso mais sério com Harry", disse uma fonte próxima à estonteante modelo. “Ela sentiu que ele precisava fazer mais esforço para vê-la. Ela simplesmente não sentia que ele estava levando o relacionamento deles suficientemente a sério, e basicamente ela não tem tempo para nenhum jogo em sua vida”. 

Uau! É uma pena que as coisas não funcionaram entre os dois porque eles pareciam estar se divertindo muito juntos.  

“Harry está constantemente sendo rodeado por mulheres lindas. Para piorar a situação, Harry é um grande paquerador. Na maioria das vezes, é inofensivo e ele está apenas sendo brincalhão, mas definitivamente afetou Nadine. Ela estava convencida de que ele estava traindo enquanto estava em turnê. Ela não tem provas, a não ser por evidências circunstanciais como a presença da ex namorada em um dos shows e o fato de ele ter o telefone desligado por longos períodos de tempo”, disse uma fonte ao HollywoodLife exclusivamente. 

Relacionamentos de longa distância nunca são fáceis e o fato de Harry ser uma das estrelas pop mais procuradas do mundo só piorou as coisas para ele e Nadine. É uma pena que Nadine e Harry terminaram, mas se ela não estava feliz no relacionamento, então ela tomou a decisão certa.” 

 

“If I Could Fly: behind the lyrics
 

Harry Styles está levando a loucura as fãs da boyband One Direction por conta de suas composições contidas no quinto álbum do grupo, Made In The A.M.. Teria sido a sexta faixa composta para sua primeira namorada? Ao que tudo em indica: sim, ela é dedicada à  Dantas, apesar de o vocalista nunca ter confirmado. Clique no link abaixo e leia as 3 melhores teorias criadas pelos fãs!”. 

*
 

Eu estava obcecado. Não conseguia lidar. Faltava apenas um mês para o recesso de fim de ano, estávamos em novembro, e o mestrado, junto de todas aquelas notícias antigas que eu insistia em procurar diariamente, me consumiam. Eu estava exausto. 

Minha relação com  estava cada vez mais distante e aquilo me matava aos poucos. Eu estava ocupado com a reta final do primeiro ano do mestrado e ela estava completamente focada numa pesquisa jurídica da pós-graduação, mas eu sentia que ela clamava por aproximação e eu simplesmente não conseguia dar abertura.  

– Vai pra casa Matthew... – Charlie disse ao me ver entrar pela porta do pub o qual trabalhava há um tempo após se mudar para Manchester – Você é casado, sabia? 

Como de costume, pelo menos nos últimos meses, ignorei meu colega de escola e segui diretamente ao banheiro do estabelecimento. Entrei em uma das cabines e sentei no vaso, abrindo minha mochila e procurando pelo pequeno saco plástico. 

– Droga. – vasculhei a bolsa e não encontrei o que buscava – Onde eu enfiei aquela merda? Não é possível que já tenha acabado. – bufei e acabei desistindo, jogando a mochila no chão. Pus as mãos no rosto e as levei até a cabeça em seguida, pensando no que fazer – Inferno. 

Peguei a mochila que estava no chão e saí do banheiro às pressas, sem nem escutar o que Charlie tinha dito daquela vez. Embarquei em minha moto – havia comprado uma para que  se locomovesse com o carro – e fui em direção a agência bancária mais próxima. Meus pensamentos se misturavam e confundiam, fazendo com que todos os momentos incríveis que tive com minha esposa se perdessem em meio a todos os outros os momentos dela e de Harry os quais presenciei. 

Eu odiava Harry. Sentia vontade de matá-lo as vezes.  

Eu sabia que  me amava, eu sabia que ela havia me escolhido, ou pelo menos me convencia de que sabia, mas eu simplesmente não conseguia esquecer tudo aquilo. Afinal, quem era Matthew Pritchett comparado ao cobiçado Harry Styles? Por que ela preferiu a mim? 

Todas aquelas memórias me perturbavam o tempo todo e eu sentia que minha cabeça poderia explodir a qualquer momento. Acelerei mais a moto e senti o vento empurrar as lágrimas para a lateral do meu rosto. Eu não sabia como ainda conseguia chorar. Eu não sabia como ainda conseguia sentir algo. 

“É óbvio que você vai ser o padrinho do nosso casamento Matthew! Acha mesmo que teria coragem de não lhe convidar?”. 

Sua doce voz aos dezesseis ecoava em minha cabeça. 

“Ele é o amor da minha vida Matty, eu acho que nunca vou sentir isso por outra pessoa como sinto por ele”. 

Mais lágrimas. De onde vinham tantas lágrimas? 

Matty, eu não sei se vou conseguir, eu não sei se vou conseguir viver sem o Harry. Por que eu fiz isso?”. 

Aquelas malditas lembranças.

Eu queria tanto conseguir esquecer. Eu queria tanto parar de escutá-la repetir aquilo tantas e tantas vezes. E só havia uma maneira.

Estacionei a moto em frente à agência bancária e rumei em passos largos para dentro da mesma. Apertei os botões com certa pressa, eu só queria o dinheiro, eu precisava do dinheiro.  

Saldo insuficiente

– O que? – olhei confuso para a tela do caixa eletrônico e soquei a mesma – Como assim? 

Mudei a operação e fui checar o saldo disponível na conta corrente. Trinta e sete libras. Trinta e sete libras era tudo que eu tinha em minha conta e eu não sabia dizer como todo o dinheiro havia se esvaído tão rápido. Eu estava confuso e estava com raiva, mas não queria perder mais um minuto dentro daquela agência. Saquei os trinta e sete restantes e voltei para a moto. 

“Não está funcionando Matthew, precisamos de mais informações para este processo, você disse que era capaz”. 

A frase que ouvira do meu orientador meses antes se repetiu em minha mente e engoli seco. 

“Minha filha não quer sair da cama! Esse tratamento não está ajudando, o processo não está andando e eu não estou vendo resultados! Eu preciso de ajuda pra a minha filha!”. 

– Por favor, parem de falar. – sussurrei para mim mesmo enquanto rumava em direção ao subúrbio de Manchester – Por favor, por favor. 

“Doutor Matty, eu não quero mais viver”. 

A voz infantil ocupou meus ouvidos e quase me fez soluçar.  

Fechei meus olhos com força, impedindo que as lágrimas continuassem a escorrer e estacionei em frente à casa a qual eu visitava semanalmente. Dei duas buzinadas, como o acordado, e aguardei em pé ao lado da moto. 

Eu odiava aquele lugar, eu sentia medo, como se a qualquer momento alguém fosse me encontrar lá e me julgar por tudo o que eu estava fazendo, como se cada vez que eu pisasse lá fosse a última. 

Não demorou muito para que Cody aparecesse na porta e sorrisse de forma assustadora para mim. O homem estava num estado deplorável, suas olheiras eram fundas e seu rosto tinha um aspecto de muito sujo. 

– De novo aqui, Matthew? É a segunda vez essa semana e ainda é quinta-feira. – ergueu uma das sobrancelhas e se aproximou – O de sempre? 

– Eu só tenho trinta e duas libras. – engoli seco e estendi o dinheiro – Não tive tempo para sacar mais. 

– Ah, claro. – sorriu de maneira maliciosa, como se soubesse que eu mentia – Bom, já é alguma coisa. – arrancou o dinheiro de minha mão e enfiou no bolso, em seguida procurou pelo o que eu buscava no outro bolso, me entregou e deu as costas. 

Me apressei a pôr o pequeno saco no bolso da minha jaqueta, olhei em volta receoso e subi na moto com pressa. Ao mesmo tempo que sentia vergonha de minhas atitudes e de mim como um todo, eu precisava daquilo, não era como se eu simplesmente conseguisse mais viver sem.  

Em cerca de dez minutos eu já estava de volta ao pub e lá estava Charlie, com os braços cruzados olhando em minha direção. Pela primeira vez ele não falou nada, apenas me acompanhou com o seu olhar e eu mantive o meu à altura, apesar de estar tremendo por dentro. Charlie não era burro, ele sabia que havia algo de errado. Quanto tempo demoraria para que falasse com ? Quanto tempo levaria para eu me foder e perder tudo pelo o que eu lutei? 

Entrei no banheiro, na mesma cabine que havia entrado naquele mesmo dia mais cedo, sentei no vaso como antes e tirei o saco do bolso da jaqueta junto do celular. Pus o aparelho em meu colo e senti meus olhos arderem novamente, tornando minha visão turva. 

– Merda. – abri o saco e pus parte do pó branco em cima da tela do meu celular, enxugando as lágrimas em seguida. Procurei pelo meu cartão de crédito dentro da mochila e ajeitei o conteúdo em uma única e cumprida carreira. 

“Eu te amo filho e sempre vou te apoiar no que você decidir fazer”. 

– Desculpa pai. – solucei e voltei a fechar os olhos – Mas eu não consigo. 

“Sua mãe teria tanto orgulho de você se pudesse ver como cresceu”. 

– Para de dizer isso, por favor. – abri os olhos e procurei pela nota de cinco libras restantes, enrolando-a com dificuldade, pois minhas mãos tremiam. 

Aproximei a nota agora em formato de tubo do meu nariz e me inclinei o suficiente para que pudesse cheirar a cocaína perfeitamente enfileirada, mas antes que o fizesse, a tela se acendeu e mostrou uma notificação. Era uma mensagem. Era 

– Caralho. – praguejei irritado e cheirei tudo de uma vez antes que desistisse, jogando a cabeça para trás em seguida, apoiando as costas na parede, sentindo uma lágrima quente e solitária escorrer – Eu te amo tanto. – permiti que meu corpo relaxasse enquanto encara o teto daquele banheiro sujo – Você precisa me perdoar. – murmurei – Ou eu nunca vou me perdoar. 

Eu tenho o privilégio de te amar e ser amada por você e eu sei que ninguém no mundo é capaz de cuidar de mim do jeito que você cuida, porque é você, é o meu melhor amigo e não tem como não dar certo”. 

– Você é minha. – um sorriso se formou em meus lábios – Só minha. 

“Obrigada por ter voltado por mim, Matty”. 

– Ele nunca a terá. – ajeitei minha postura, esticando a nota novamente e colocando em meu bolso junto do restante da droga – Nunca. 

“Eu gosto dela Matty, de verdade”. 

– Ela é minha. – levantei e peguei minha mochila – E eu posso lhe provar. 

“Como é ter a sensação de casar com alguém que pensa em outro?”. 

– Cala a boca. Cala a maldita boca. – abri a porta com um soco, impaciente, e com a mochila em mãos, disparei em direção ao estacionamento do pub e subi em minha moto. 

Eu esperava cada hora lenta e torturante do dia passar para que eu pudesse me sentir daquela maneira, tão confiante. As lembranças se dissipavam aos poucos e já não me incomodavam mais, era como se ninguém pudesse me impedir de nada, era como se ele não existisse para atrapalhar a minha vida. Os dias os quais eu não podia provar daquela sensação passavam num arrasto e eu sentia como se não houvesse um motivo relevante o suficiente para sair da cama. Eu não queria me sentir impotente como antes, eu queria que aquela sensação de poder pudesse ser permanente. 

Pus a moto no estacionamento de nosso apartamento ao lado do carro e me dirigi até o elevador o qual parecia demorar mais do que o habitual para chegar ao térreo. Ao parar em nosso andar, vasculhei o bolso da frente da mochila até encontrar as chaves. Abri a porta com certo anseio e senti meu coração bater mais forte no peito ao ver  vestindo uma camiseta minha, usando seus óculos de grau sentada no sofá, lendo atentamente um livro bastante grosso que estava em seu colo.

Assim que percebera minha presença, pude ver seu sorriso se abrir para mim, fazendo com que ficasse mais linda ainda, se isso fosse possível.  

– Oi amor. – deixou o livro de lado e levantou, vindo em minha direção – Por que não respondeu minhas mensagens? Ando tão preocupada... 

Eu não a respondi, simplesmente a envolvi com meus braços e dei início a um beijo cheio de desejo, não demorando muito para que ficássemos ofegantes deitados em nossa cama. Nada no mundo importava naquele momento além de nós dois. Eu a tinha. Ela estava ali. Eram naqueles momentos que não restavam dúvidas de que ninguém a tiraria de mim. Nenhuma lembrança poderia me dizer o contrário, nenhuma lembrança me confundiria.   

– Eu te amo. – sussurrou em meu ouvido enquanto suas mãos deslizavam pelo meu abdômen até chegar no cós de minha calça, fazendo com que um arrepio percorresse por todo meu corpo. 

– Eu amo mais. – aproximei nossos lábios e olhei fundo em seus olhos – Muito mais. 

 fez com que mais uma noite se tornasse inesquecível e adormeceu aninhada em meus braços, com a respiração calma e as expressões tranquilas. Era incrível como cada toque seu fazia com que eu sentisse infinitas sensações, como somente a ponta de seus dedos possuíam mais poder sobre mim do que qualquer outra pessoa e era inacreditável como tudo aquilo se tornava tão remoto com o passar da noite. 

Minha esposa acordou muito antes de mim e preferiu deixar que eu descansasse mais um pouco, pois era sábado. Próximo ao horário do almoço,  abriu as cortinas do quarto e foi até mim, sentou ao meu lado e plantou um beijo em minha testa. 

– É hora de acordar. – pegou em minha mão e entrelaçou nossos dedos – Vi você falando sobre um teste segunda-feira, melhor acordar para estudar, não? 

– Me deixa em paz. – resmunguei e soltei sua mão, colocando o travesseiro em cima de minha cabeça.  

– Matthew... – senti que já não estava sentada ao meu lado, mas em pé – Precisamos conversar. 

– Tá precisando de um psicólogo? – debochei com a voz ainda abafada pelo travesseiro. 

– O que diabos tá acontecendo? – aumentou o tom, fazendo com que minha cabeça doesse e, consequentemente, que eu me irritasse – Um dia você aparece um amor e eu acho que está tudo bem, mas no outro você mal fala comigo ou me destrata sem eu ter feito absolutamente nada! Não quer sair da cama, só levanta pra comer... então eu tento conversar, você surta, foge e volta depois de um tempo como se nada tivesse acontecido! Eu tô cansada de fingir que tá tudo bem, cansada de deixar pra lá quando eu percebo que você tá de bom humor. Fala comigo, me diz o que houve! 

– Eu só queria dormir. – bufei, me desvencilhando dos lençóis e levantando em seguida preguiçosamente – Eu não posso nem dormir mais.  

– Olha pra mim. – olhava para o meu rosto séria, então estabeleci o contato visual e percebi que estava prestes a chorar, fazendo com que eu rolasse os olhos em seguida – O que está acontecendo? 

– Nada. – fitava um ponto fixo, eu simplesmente não conseguia encará-la, era como se fosse ler todos os meus segredos se olhasse em meus olhos. 

– Você não me ama mais? – senti sua voz embargar e mesmo não a olhando diretamente, percebi que abaixara o rosto.  

– Ah, por favor, sem drama. – passei as mãos pelos meus cabelos, cansado daquela conversa. Meu nível de serotonina estava muito baixo por conta de eu ter cheirado na noite anterior, me deixando completamente de mau humor. Notei que se aproximou e tentou novamente estabelecer contato visual, então voltei a olhá-la nos olhos e me esforcei para permanecer assim – Eu só não quero discutir, eu estou com dor de cabeça e mau humor. – tentei soar da forma mais controlada possível para que a briga não se alongasse. 

 analisava atentamente meu rosto, em silêncio, até que seus olhos foram deslizando por todo meu corpo até meus pés. Minha esposa se agachou e pegou algo próximo a minha jaqueta no chão e então se levantou em seguida, voltando a olhar nos meus olhos. Seu rosto transparecia raiva e era perceptível que lutava para que as lágrimas não escapassem. 

– Como você pôde? – empurrou o saco transparente que continha o pó branco contra o meu peito – COMO VOCÊ PÔDE FAZER ISSO COMIGO? COMO VOCÊ PÔDE FAZER ISSO COM NÓS? 

gritava com as mãos na cabeça e já não conseguia não chorar. Estava desesperada, estava desnorteada e o meu peito nunca doera tanto como naquele momento ao vê-la tão decepcionada comigo. Eu sabia que não conseguiria esconder para sempre, mas ao mesmo tempo, achei que duraria mais.  

– Como eu fui cega! – andava de um lado para o outro, me deixando sem qualquer reação – Eu pensei que o problema era comigo, EU PENSEI QUE A CULPA FOSSE MINHA! Porque eu nunca, NUNCA fui capaz de imaginar que você faria isso Matthew!  

– Amor, eu... 

– CALA A BOCA! – gritou desesperada, soluçando em seguida – Como você pode pensar que essa seria a solução pra alguma coisa? Como? Por que não conversou comigo? Eu sempre estive ao seu lado, sempre Matthew. Você estuda meios de ajudar alguém a não recorrer a isso, faz parte do seu maldito trabalho! O que seu pai acharia disso? – seus olhos brilhantes por conta das lágrimas me encaravam – Meu Deus, meu Deus, meu Deus, eu não posso acreditar, isso não pode estar acontecendo. –  foi em direção banheiro e eu pude ouvir girar a tranca. 

Era como se cada célula do meu corpo, uma por uma, estivesse desistindo de mim. Eu estava em completo estado de choque, como se de repente eu tivesse conseguido retornar à realidade, como se de repente eu tivesse notado como tudo aquilo era pura loucura.  estava certa, o que o meu pai diria se soubesse o que eu havia me tornado? Em que aquilo me ajudaria para consertar as coisas e não perder quem eu amava? Um sentimento de fracasso invadira meu corpo e eu implorava para que aquilo fosse mentira, para que aquilo não passasse de um sonho muito ruim. 

“Deve ser porque a sua esposa pediu para que eu voltasse”. 

– Por favor, não. – falei baixinho, fechando os olhos com força em seguida. 

“Como é ter a sensação de casar com alguém que pensa em outro?”. 

– Não, não, não. – respirei fundo e tentei me acalmar para que aquela lembrança se afastasse, então caminhei até a porta do banheiro e apoiei minha testa na madeira – Eu te amo tanto, tanto... eu não sei onde estava com a cabeça, mas você tem que me escutar. – voltei a pedir mentalmente para que todas aquelas lembranças parassem de me atormentar e senti que agora já estavam mais distantes – Eu tenho tanto medo de te perder, eu não sei o que faria se você saísse da minha vida... nada faria sentido. –funguei e pude escutar o choro baixinho de  – Eu sei que é difícil de acreditar, por Deus, eu estou me sentindo tão estúpido, mas você precisa me perdoar, você precisa saber que eu faria de tudo para que você ficasse... eu vou fazer de tudo para que você fique, por favor...  

 permaneceu muito tempo trancada no banheiro e quando abriu a porta praticamente trinta minutos depois da discussão, eu já estava sentado em silêncio do meu lado da cama. Seu rosto estava completamente inchado e não conseguia olhar para mim. Caminhou até a ponta do lado contrário da cama e sentou, olhando para o movimento da rua através da janela.  

– Eu estou tentando lhe contar há dias, mas você vem me evitando todo esse tempo. – respirou fundo e esfregou os olhos – Fui convidada para apresentar a minha pesquisa em um congresso em Nova Iorque em dois meses. 

– , isso é... 

– Por favor, fica quieto. Só escuta. – me interrompeu ríspida – Você vai procurar ajuda, Matthew. Você precisa de ajuda. –  voltou sua atenção para mim e olhou em meus olhos pela primeira vez desde que saíra do banheiro – Você me machucou de uma maneira que nunca, ninguém, havia me machucado antes, mas eu ainda quero te ajudar. – engoliu seco – Na saúde ou na doença. Foi uma promessa.  

Uma parte de mim queria simplesmente sumir e xingá-la de todos os nomes possíveis por ter que me fazer passar por aquilo, mas a outra parte queria abraçá-la e repetir o quanto a amava por ser aquela pessoa em minha vida. Eu sabia que meu corpo pediria por mais, eu sabia que eu iria querer mais, lembrando de como aquilo me fazia sentir vivo, mas eu também sentia meu corpo arder, tendo certeza de que aquilo não passava de um ciclo insaciável e de que nunca seria o suficiente.  

– Por você.  

– Não. –  levantou e caminhou até a porta, parando no batente – Por você. 

 

 

 

Foi difícil lidar com Matthew, mas mais difícil ainda foi explicar para os meus pais o que estava acontecendo. Eu só tive coragem de contar a eles quando Matty já havia sido internado, porque só assim ele estaria seguro da raiva do meu pai. Richard era doce e maleável, mas também um delegado marrento e inflexível, seguia as regras à risca e conseguir tirar a ideia do divórcio de sua cabeça foi um processo lento e exaustivo.  

Matty ficou internado durante três semanas e meia. Fomos até a clínica no dia seguinte à discussão. Eu o visitava três vezes na semana, apesar de na primeira ele não querer me ver ou conversar comigo. Foi bastante complicado.

Apesar de ainda sentir muita raiva, tristeza e uma porção de outros sentimentos ruins por não entender o porquê de tudo aquilo, não deixei de amá-lo um segundo sequer. 

Na metade da quarta semana recebi uma ligação do psiquiatra que estava encarregado do caso de Matthew e ele pediu para que eu fosse até lá naquela mesma tarde. Disse que precisava conversar comigo e que deveria ser o mais rápido possível.

Eu andava bastante ocupada e ansiosa, faltava apenas um mês para o congresso em Nova Iorque, mas não hesitei em deixar tudo aquilo de lado por se tratarem de notícias sobre Matthew. 

– Você pode se sentar, . – Doutor Carter, ou Lucas, como eu costumava chamar, apontou para uma das poltronas em frente à sua mesa. O psiquiatra, e um dos professores de mestrado de Matthew, costumava transmitir serenidade por conta de suas expressões constantemente tranquilas – Eu queria compartilhar com você o laudo do Matthew depois de quase quatro semanas de acompanhamento integral. – eu não sabia o que falar, então apenar assenti com a cabeça para que prosseguisse – Bom, eu não trabalhei sozinho nisso, na realidade nem conseguiria, porque Matty não é um paciente qualquer, ele é um amigo. – suspirou pesadamente – Bom, já há alguns meses, durante as aulas, eu e todos os outros professores e colegas percebemos que Matty estava estranho, mas nunca deu muita abertura, dizia que estava estressado e isso era uma desculpa plausível, porque tudo tem sido muito puxado no curso. – pigarreou enquanto passava os olhos pelos papeis em sua frente para se orientar – Foi muito difícil conversar com ele durante a primeira semana de internação, acho que você lembra, ele estava no ápice da abstinência, mas o que fez com que a segunda semana se tornasse mais fácil foi o fato de ele não ter feito o uso contínuo por um período de tempo muito longo. De acordo com os diagnósticos e com as conversas, o consumo se tornou mais frequente só no último mês, mas Matty tem um histórico com a cocaína na adolescência... 

– O QUE? – interrompi Lucas, surpresa com o que acabara de ouvir – Espera, como assim? Não, isso não está certo. Eu e Matty nos conhecemos desde sempre, sempre estivemos juntos e ele nunca, nunca se envolveu com isso antes. 

, eu sei que é complicado, não vai ser fácil digerir toda essa informação, mas eu preciso que mantenha calma e me escute, ok? Tudo o que eu vou te contar hoje é porque Matthew quer que você saiba, eu não poderia relatar o que eu sei se ele não tivesse pedido expressamente por isso. – Lucas disse de forma bastante paciente e aguardou pelo meu aceite, voltando a falar em seguida – Ele contou ter usado pela primeira vez logo após o falecimento de sua mãe, em 2010, aos 16 anos. 

Eu nunca poderia imaginar que Matthew teria usado cocaína antes. Eu simplesmente não queria acreditar no que acabara de ouvir, mas descobrir o porquê de ter experimentado e que fora naquele ano em específico, fez com que tudo ganhasse sentido. Aquele foi o ano no qual fiquei mais distante de Matthew por conta da formação da banda e por isso não havia percebido, eu achava que todas aquelas atitudes estranhas eram porque estava triste por conta da morte de sua mãe. 

Respirei fundo, tentando assimilar o que acabara de ouvir, e voltei a prestar atenção no que o psiquiatra dizia.  

– Apesar deles não terem sido tão próximos e ele ter sempre morado com o pai, aquilo mexeu bastante com Matty. – Lucas estendeu uma caixinha com lenços para mim, o que se fez bastante útil – Bom, ele relatou ter sido apenas uma ou duas vezes e que não lembra em ter tido dificuldades para parar de usar, mas quando o pai dele morreu em 2015... 

Senti meu coração se contrair num aperto muito forte e minha visão ficar turva em razão das lágrimas que se agrupavam em meus olhos. Matthew se mudou para Cardiff logo após a morte de seu pai e apesar de conversarmos sempre pelo celular e termos nos encontrado diversas vezes, não era a mesma coisa, não havia um convívio. 

O fato de termos ficado distantes, terminando o relacionamento, sua rotina ter mudado completamente e, obviamente, seu pai ter morrido, fizeram com que aquele período de tempo tivesse sido o mais difícil de todos para Matthew.  

– Ele voltou a fazer o uso em Cardiff e sua avó acabou descobrindo, mas Matthew implorou para que não contasse e disse que tudo se resolveria se pudesse voltar para Holmes Chapel e ficar com você. – Lucas fez uma pausa para que eu me acalmasse e me ofereceu um copo d’água – Posso continuar? 

– Pode, me desculpe, e obrigada. – me referi a água e pus o copo em cima de sua mesa após beber tudo em praticamente um gole.  

– Apesar do contato de Matty ter sido maior com a droga dessa vez, ele contou que não teve grandes problemas para parar, disse que as vezes sentia falta, mas que com o passar do tempo o desejo acabou, só que... – Lucas respirou fundo e ponderou, ajeitando os óculos de grau no rosto. As expressões que antes eram tranquilas, já não pareciam mais tão calmas assim – Matthew sempre gostou de desafios e sempre queria mostrar que ele podia fazer, que ele conseguiria, você sabe, você conhece ele. – balancei a cabeça positivamente, pois sabia o quão competitivo Matthew poderia ser – Ele escolheu o caso mais complexo do estágio, nenhum aluno queria fazer. O processo acabaria sendo deixado para um professor, mas ele insistiu. Não precisou terminar o mês para que ele ficasse completamente desnorteado... não sabia o que fazer. O orientador fazia muita pressão, mas ele não quis abrir mão, ele continuou tentando. A questão é que a cocaína te encoraja, te dá essa falsa sensação de poder e ele recorreu a ela, achou que de alguma maneira ajudaria, mas tiraram o caso dele e ele não conseguiu lidar.

Doutor Lucas respirou pesadamente e ponderou, dando um tempo para que eu digerisse, pelo menos em partes, as informações

 – Sabe, muitas vezes o consumo da droga pode induzir quadros psicóticos que lembram um quadro esquizofrênico. Essa combinação de fatores neurobiológicos, psicológicos e ambientais acabam tornando as pessoas mais vulneráveis ao surgimento de distúrbios, como pensamentos delirantes, alucinações e alterações do comportamento. Esses quadros, apesar de bastante parecidos ao de um surto esquizofrênico, não correspondem exatamente à esquizofrenia.  

– Quadro psicótico? Como assim? – me ajeitei na cadeira, inquieta, com o coração na mão – Matthew desenvolveu esquizofrenia? 

– Calma, eu vou explicar melhor. – tentou voltar a transmitir tranquilidade através do olhar – É que usuários de estimulantes, como o Matthew, têm revelado altas taxas de sintomas psicóticos transitórios que estão relacionados com a dose e a frequência do consumo. O principal fator diferenciador entre um surto e o desencadeamento da doença em si é o tempo de permanência dos sintomas psicóticos na ausência do consumo da droga e é isso que observamos. Matthew disse ter voltado a recorrer a cocaína, mas que desde a primeira vez que voltou a consumir, os dias seguintes ao uso eram insuportáveis, e foi aí que os surtos começaram. Ele relatou não conseguir parar de ouvir vozes, vozes conhecidas, revivendo momentos que ele não queria recordar, que o incomodavam, e que aquilo tudo só parava de perturbá-lo quando voltava a fazer o uso, mas... 

– Ai meu Deus. – interrompi Lucas e levantei com as mãos na cabeça em seguida, perambulando nervosa de um lado para o outro dentro da pequena sala – O que ele ouvia? – voltei minha atenção para o homem em minha frente – Você pode me contar? Quem eram as pessoas? 

, isso não é o que importa agora, por favor me escuta. – Lucas também se levantou e me segurou pelos ombros para que eu parasse de andar em círculos –Analisando o caso de Matty e o período de permanência dos sintomas na ausência do consumo, foram apenas surtos, não houve um desencadeamento de esquizofrenia, ele demostrou uma significativa melhora perante o tratamento. 

– Isso quer dizer que...

– Isso quer dizer que Matthew já pode voltar para casa. – disse com um sorriso singelo em seu rosto, finalizando o discurso. 

– Ai meu Deus, Lucas! – abracei o homem em minha frente com muita força e voltei a chorar, só que dessa vez de felicidade, sentindo o psiquiatra corresponder ao ato logo depois – Obrigada, obrigada, muito obrigada. 

– Fica calma, ok? As coisas também não são tão simples assim. – separou o abraço e fez menção para que eu voltasse a me sentar. Assim que o fiz, ajeitando meus cabelos e tentando normalizar a respiração, Lucas também voltou a se sentar – Há uma série de coisas que precisarão ser observadas e realizadas à risca. Matty está num momento muito delicado e sensível, é preciso tomar cuidado, pois não podemos descartar a possibilidade de um surto, mesmo que o quadro esteja controlado e ele não faça o uso da droga. Apesar de ainda existir essa possibilidade, não podemos mantê-lo para sempre internado, ele precisa voltar com a rotina e tentar se habituar, só assim as coisas voltarão ao normal, por isso estou dando alta a ele. – Lucas começou a procurar por determinados papéis e assim que os encontrou, fez algumas anotações – Aqui estão todos os remédios que ele precisa tomar e os exatos horários, é muito importante que ele faça o uso corretamente. – estendeu os papéis para que eu os pegasse – Te entreguei também uma lista de coisas que ele não deverá fazer e outras que ele deverá evitar ao máximo e sobre a viagem a Nova Iorque... Matthew não poderá ficar sozinho e eu sei que as coisas com os seus pais não têm sido fáceis.  

– Eu vou dar um jeito. – encarava os papéis em minhas mãos. 

– , ele não está em condições de passar por qualquer situação grave de estresse ou emocional, ele precisa de apoio e eu conto com você para que ele esteja em boas mãos durante essa viagem, ok? 

– É claro, sem dúvidas. Essa viagem é muito importante pra mim, mas eu jamais prejudicaria Matthew por conta disso.  

– Eu preciso te falar uma coisa... – o psiquiatra levantou e caminhou até mim, então também levantei, ficando frente a frente a ele – Eu sei que você o ama, mas também sei que essas situações são difíceis e que é inevitável não sentir raiva, só que eu preciso te pedir que tenha calma e paciência. Eu sei que fazer o uso ou não é uma escolha e ele optou por isso, mas nunca vamos saber exatamente o que se passou e o que se passa na cabeça dele. Você não precisa o perdoar, mas você precisa procurar entender a situação na qual ele se encontra.  

Um arrepio percorreu por todo o meu corpo e eu engoli seco. Lucas estava certo. Eu amava Matty, demais, mas também havia sentido muita raiva. Só que esse sentimento não poderia tomar conta de mim, eu precisava ser paciente, eu precisava pôr o amor em primeiro lugar e estar lá para ele no momento o qual ele mais precisava de mim.

Matthew não era um qualquer, era meu melhor amigo, era meu marido, uma das pessoas mais importantes em minha vida e eu não desistiria dele assim.

 – Podemos ir agora. – Lucas foi até a porta e a abriu – Matthew está te esperando.  

Os corredores, os quais eu já conhecia muito bem, pareciam ter infinitos quilômetros e só faziam com que meu coração acelerasse cada vez mais os batimentos.

Ao virar à esquerda pela última vez, finalmente chegando ao destino, senti meu coração se acalmar no peito ao vê-lo caminhando em minha direção. Eu vi Matthew todas as segundas, quartas e sextas durante três semanas dentro daquela clínica, só que em todas aquelas vezes era como se tivessem o substituído, mas ali, naquele momento, eu tinha certeza que haviam o trazido de volta.

Seus braços me envolveram num abraço forte e encaixei meu rosto em seu pescoço para que pudesse preencher meus pulmões com o seu cheiro que eu tanto sentia falta. Eu queria que tivéssemos congelado naquele momento para que eu pudesse viver aquilo pelo máximo de tempo possível.  

– Você voltou para mim. – falei baixinho, ainda dentro do abraço. 

– Eu não deveria ter a deixado... – suspirou pesadamente – de novo. – engoliu seco e acariciou meus cabelos com uma das mãos – Mas eu não vou errar outra vez. 

Eu queria poder dizer que Matthew estava certo. 

Só mais uma semana. Em apenas sete dias eu estaria embarcando para os Estados Unidos e eu não poderia estar mais ansiosa. Meu artigo estava completamente finalizado e na ponta da língua. Meus professores da pós-graduação, assim como meus pais, estavam muito orgulhosos por eu ter sido selecionada para apresentar a minha pesquisa em um congresso de tamanha visibilidade. Era uma oportunidade única e a minha chance de conseguir uma bolsa num dos cursos de mestrado mais concorridos da Universidade de Manchester, além do fato de finalmente poder conhecer Nova Iorque. Eu ficaria hospedada no Hotel Intercontinental em Midtown Manhattan, onde também aconteceriam as palestras, junto dos maiores juristas da atualidade. Eu estava nervosa, mas muito otimista. 

Em relação a Matthew, tudo estava muito bem até então, melhor do que eu esperava, na realidade. Eu notava que estava triste, o que era completamente normal diante da situação, mas ao mesmo tempo se esforçava para que as coisas se ajeitassem. Como passava a maior parte do tempo em casa, Matty tinha mais tempo pra se dedicar a nós e reaver a nossa aproximação, mas não havia pressa, o que me deixava confortável.   

Eu procurava não pensar sobre o que havia acontecido, aliás, nem conversávamos sobre. Esse assunto só era abordado com o Doutor Lucas em seus encontros semanais. Quanto ao meu pai, ele ainda não havia digerido o ocorrido e por mais que minha mãe tentasse convencê-lo de que tudo ficaria bem, ele permanecia inflexível, então não faziam mais visitas.  

Matty estava receoso por conta da viagem, principalmente nos últimos dias, era perceptível, mesmo que tentasse esconder. Ele não saía tanto do quarto, acabava se isolando, falando pouco, visivelmente abatido e chateado, fazendo com que retrocedêssemos um pouco no quesito reaproximação. Seu tio viria de Gales para lhe fazer companhia durante o tempo necessário e por mais que estivesse desconfortável em relação a isso, não reclamou em momento algum, pelo menos não diretamente. 

– Queria poder te acompanhar. – resmungou, sentado no sofá da sala, enquanto eu preparava o jantar – Você trabalhou tanto nisso e eu nem vou poder estar lá para te prestigiar. – bufou, enquanto zapeava os canais da televisão. 

– Eu também queria que você fosse, mas... 

– São recomendações médicas, eu sei. – suspirou pesadamente e largou o controle remoto, deixando num canal de fofocas. 

“Kendall Jenner e Harry Styles estariam supostamente juntos novamente. O ex-membro da One Direction foi flagrado na festa de aniversário de 21 anos da modelo...”. 

– Quem diria... Harry namorando uma Jenner. – soltou uma risada sem humor – Pra quem estava perdidamente apaixonado, ele não perdeu tempo. 

– Ele é solteiro. – disparei, ainda de costas para Matthew – E eu não quero falar sobre isso, poderia mudar de canal? 

– Algum problema em escutar essa notícia? – me desafiou, engrossando o tom.  

– Não, nenhum. – larguei a faca a qual eu cortava os legumes e voltei a minha atenção para ele – Mas sempre que entramos nesse assunto acabamos brigando e a última coisa que eu quero é discutir. Então, por favor, muda de canal. 

– Eu não quero mudar de canal. – disse simplesmente e cruzou os braços, encarando a televisão – Ninguém tá discutindo aqui. 

Caminhei impaciente até o sofá, pegando o controle e desligando a televisão em seguida. Discussões era o tópico número um da lista de “não fazer” e toda a vez que o nome ‘Harry Styles’ aparecia numa conversa, ela se transformava numa briga. Matty nunca foi do tipo ciumento, sempre confiou muito em mim, mas depois do episódio na casa dos meus pais, tudo que fosse relacionado a Harry era motivo de estresse. 

– Qual o seu problema? – praticamente gritou, visivelmente irritado, levantando no mesmo instante em que a televisão foi desligada – Por que você não pode ouvir sobre ele? Ainda gosta dele por acaso? Não quer escutar que ele tá comendo uma modelo multimilionária e você tá aqui com o seu marido fracassado? 

– Matty... o que? Não! – senti meu corpo praticamente tremer, com medo de sua postura e do rumo daquela conversa.  

De repente, num estalo, pensei em seus remédios e caminhei até o quarto, verificando as cartelas na primeira gaveta do seu criado mudo. Enquanto contava os comprimidos, com dificuldade por conta do nervosismo, senti sua mão segurar meu braço com força e me puxar, tirando as cartelas de minha mão em seguida. 

– Por que você parou de tomar os remédios? – senti meus olhos arderem por conta das lágrimas que estavam por vir e esfreguei com uma das mãos a região a qual havia me apertado, pois doía e estava bastante vermelho – Eu confiei em você! 

– Eu esqueci um dia e então... eu percebi que não precisava disso, mas não interessa, você não tem que se meter nisso. – dizia num tom bastante elevado e rude – Para de chorar, eu não aguento mais todo mundo em cima de mim com pena, como se eu fosse anormal, como se eu fosse doente, EU NÃO SOU DOENTE! 

– Matthew, por favor... – dei alguns passos para trás – e eu não quero brigar, não tem porque brigarmos. 

– Eu sei que você ainda ama ele... – engoliu seco, olhando para um ponto fixo, como se revivesse algo em sua cabeça – Claro, como não amaria? Você me disse que o amaria pra sempre... – voltou a me fitar – Você lembra? – apontou para mim – Você me avisou e eu não quis escutar. Eu tentei me convencer de conseguiria ocupar o lugar dele, de que eu seria o suficiente pra você, e então nos casamos e eu te tinha só pra mim, mas ainda não foi o bastante, eu não consegui, eu não consegui ser tão bom quanto ele. – soltou uma risada nasalada, sem humor – Tudo que eu fiz foi te afastar ainda mais, trair a confiança dos seus pais, perder a bolsa do mestrado e foder com o nosso casamento. – Matty engoliu o choro e passou as mãos pelo rosto – Eu não posso competir com ele.    

– Matty, o que você está falando? Por favor, para. Você precisa dos remédios... vamos ligar para o Doutor Lucas.  

– NÃO! – gritou enquanto eu me inclinava para pegar o celular em cima da cama, fazendo com que eu me assustasse – Eu não quero que ligue para o Lucas, eu não quero tomar remédios, eu não preciso de nada disso! 

Matthew apalpou os bolsos da calça e simplesmente rumou para a sala sem falar mais nada. Eu não podia deixar que fizesse isso, eu não podia deixar que todo o tratamento fosse por água abaixo e permitir que saísse. Caminhei em passos largos atrás dele e quando estava prestes a abrir a porta para sair, segurei seu braço e o puxei na tentativa de impedi-lo. 

– MATTY, NÃO

Então o meu mundo desmoronou. Matthew, no momento em que ficou de frente para mim, em um só movimento, deu um tapa em meu rosto com força o suficiente para que eu perdesse o equilíbrio e caísse no chão. Eu não sabia o que pensar ou o que falar. Não conseguia levantar, nem ao menos chorar. Eu estava em completo estado de choque. Meu rosto doía bastante, mas nada comparado ao que meu coração sentia. Nunca, nem em um milhão de anos, passaria pela minha cabeça de que Matthew faria aquilo comigo. O garoto que sempre me protegeu, que sempre zelou por mim, foi quem mais fez doer meu coração e eu simplesmente não queria acreditar que aquilo estava acontecendo, eu queria abrir os olhos e perceber que não passara de um sonho, mas havia acontecido, eu havia sido agredida, e nada mudaria aquilo. 

– , desculpa, eu... – Matthew se agachou em minha frente e fez menção de pegar em minha mão, o que fez com que eu me movesse pela primeira vez. 

– Não encosta em mim. – engoli seco e respirei fundo – Saí daqui. Vai embora. VAI EMBORA MATTHEW! – levantei no ímpeto, caminhando até a porta e a abrindo em seguida – VAI EMBORA AGORA, SAI DA MINHA FRENTE! 

– Eu não queria ter te... – colocou as mãos na cabeça e as lágrimas começaram a rolar quando se deu conta do que acabara de fazer – Me desculpa, por favor. 

– Vai embora. – disse firme, olhando em seus olhos – Agora. 

Eu não queria que Matthew saísse de casa e recorresse a droga, eu não queria receber uma ligação mais tarde naquele dia e saber que ele havia voltado a cheirar ou que teve outro surto. Eu não queria. Mas eu não suportava encará-lo ou estar no mesmo ambiente que ele, eu não suportava o fato de que ele havia feito aquilo comigo e que mesmo assim eu o amava. Eu não conseguia entender e eu não queria entender.

Sem contestar outra vez, Matthew abaixou a cabeça, saindo do nosso apartamento e eu bati a porta com tanta força que podia jurar que as paredes tremeram. 

Acabei sentando ali mesmo, próximo da porta, e chorei como nunca na minha vida. Cada segundo passava lento e doloroso. Eu ainda tentava acordar daquele pesadelo, eu ainda queria me convencer de que nada daquilo tinha acontecido, mas a verdade estava na minha cara, literalmente. 

Com o corpo ainda mole e fraco, depois de certo tempo, criei força e coragem para levantar e ir até a cama. Apesar de exausta, eu não conseguia fechar os olhos e dormir, era informação demais pra mim. Minha cabeça revivia repetidamente cada frase que Matty disparara em relação ao Harry, o seu tom de voz, sua postura e, por último, o tapa, o que fazia com que eu voltasse a chorar.

Apesar de ainda estar irritada com toda a situação, a culpa começara a me invadir por tê-lo mandado embora naquela circunstância e o medo, aos poucos, fora se unindo a raiva.  

Passadas duas horas do ocorrido, meu celular começou a tocar, quebrando o silêncio do apartamento. Procurei o aparelho entre os cobertores e ao achá-lo, vendo o número do Doutor Lucas brilhando em minha tela, senti meu coração acelerar. 

– Alô? – minha voz saiu falha e fraca. 

– Oi , como você está? – sua voz sempre tranquila parecia preocupada. 

– Ah, eu... – ponderei, pensando no que falar, mas eu realmente não sabia como responder aquela pergunta. 

– Que pergunta mais tola para se fazer, me desculpe. – suspirou – Bom, eu liguei para avisar que Matthew está aqui. 

– Está? – senti uma lágrima solitária escapar – Isso é bom.  

– Ele me contou o que houve, eu sinto muito.  

Silêncio. Mais lágrimas. 

– Bom, – prosseguiu ante a falta de resposta – eu liguei para avisar que Matthew está aqui, veio diretamente a mim quando saiu de casa, e que pediu para que fosse internado novamente. Ele já está medicado, a família já foi avisada e ele pediu que você deixasse que a avó buscasse todos os pertences necessários. 

– Tudo bem. – funguei, esfregando os olhos em seguida. 

– Sobre a questão das visitas...  

– Não será necessário, ok? – o interrompi.  

Por mais que de certa forma eu ainda me preocupasse com Matthew, eu não queria ver ou conversar com ele por um tempo. O que aconteceu entre eu e ele fez abrir uma ferida e eu sabia que aquilo deixaria uma cicatriz para sempre. A ferida se fecharia e depois de um tempo não doeria mais, mas a marca estaria para sempre lá, não me deixando esquecer.  

– Até mais, Lucas.  


Ten

Don't look back, live your life,
Even if it's only for tonight


Eu realmente estava em Nova Iorque e mal podia acreditar, cheguei a me beliscar para checar se não estava sonhando. A cidade era incrível e a cada passo que eu dava eu ficava mais maravilhada. Havia tanto o que se fazer e olhar que eu não queria ficar parada um segundo sequer. Meus dois colegas, que também haviam sido selecionados para palestrar em nome da Universidade Manchester, já conheciam a cidade e me davam dicas o tempo todo e eu queria poder ficar o restante da semana para conseguir fazer tudo.   

Chegamos na metade da tarde, deixamos as malas no hotel sem ao menos subir para os quartos, e fomos para a Times Square em seguida. Nunca havia me sentido tão clichê como naquele momento por conta da escolha do que visitar primeiro, mas as vezes as coisas mais clichês são as melhores e eu tive certeza disso quando chegamos lá.  

– Eu vou passar meses endividada, mas eu não poderia ter deixado esse sapato nessa loja... – disse ao sair com a quinta sacola na mão – Ele estava pedindo pra ser comprado por mim. 

– Assim como o primeiro e o terceiro que você comprou? – Helena, minha colega, debochou – Mas são lindos, você pode usar um deles amanhã! 

– Nova Iorque despertou o meu lado consumista, me desculpe ok? – disse enquanto olhava despreocupadamente as outras vitrines ao longo da rua – Mas boa ideia, vou usar um deles amanhã!  

– Despertou? – Helena soltou uma risada – Ele sempre existiu! Não sei como sobra dinheiro pra tanta comida, já que você come feito uma louca. 

– Muito obrigada Helena, você é um amor de pessoa. – ri junto dela. 

– Aí meninas, acho que tô precisando de uma bolsa! – Tom, o outro colega, afinou a voz – E um chá starbucks pra desintoxicar, tô inchada, naqueles dias sabe... 

– Boa ideia Tom! – Helena se pôs em nosso meio, pegou no braço dele e depois no meu – Eu realmente estou precisando de uma bolsa. 

– E eu tô louca por um chá! – entrelacei o meu braço no dela. 

– Ah meu Deus, eu estava brincando... – rolou os olhos e bufou – Socorro. 

Depois de ter dado mais uma boa volta pela rua mais famosa do mundo e ter gasto uma fortuna com guarda volumes por termos decidido visitar o Madame Tussauds, voltamos para o hotel.  

– Acho que prefiro o Madame Tussauds daqui do que o de Londres. – disse ao apertar o botão do elevador – Eu achei que seria a mesma coisa, mas foi bastante divertido, valeu a pena! 

– Claro que prefere! Aqui você não dá de cara com o seu ex namorado de cera. Imagina que péssimo... – Helena zombou e eu fiz cara feia – Desculpe. 

– Quem é o seu ex? – Tom perguntou curioso enquanto entrávamos no elevador livre que de repente pareceu minúsculo por conta da quantidade de sacolas. 

– Harry Styles! – Helena respondeu antes que eu pudesse ao menos abrir a boca – Da pra acreditar? Eu torcia por eles no The X Factor...  

– Aquele da boy band? – meu colega perguntou e eu assenti mesmo que contra a vontade, rolando os olhos em seguida – Ahá! Por isso você tem tantos seguidores e várias meninas estranhas comentando em suas fotos e por isso pediram uma foto com você aquele dia no campus! 

– Esses tempos eu vi a  no site do The Sun! "Harry Styles não consegue esquecer sua primeira namorada", – Helena fez aspas com a mão e mudou a entonação da voz ao repetir a manchete – e uma foto enooorme dos dois juntos! Então ela teve que me dar algumas explicações e só aí eu fiquei sabendo.  

– Eu tô bem aqui, sabia? – tentei cruzar os braços, mas fui impedida pelas sacolas, bufando em seguida pela falta de sucesso – E não gosto de falar sobre isso. 

– Você tem que me mandar esse link depois, Helena! – Tom pareceu achar bastante graça e ignorou completamente o fato de eu não gostar de falar sobre Harry – Mas me diz, Matthew não sente ciúmes? 

Aquela pergunta fez com que eu desanimasse pela primeira vez no dia. Durante a última semana, mas principalmente nos últimos dias, eu me esforcei ao máximo para não pensar em Matthew e no que havia acontecido entre nós. O dia mais complicado foi quando Cordélia, sua avó, foi até o nosso apartamento para pegar suas roupas. Ela pediu milhares de desculpas e chorou muito, foi bastante difícil. Eu não queria ter que pensar nele naquele momento, eu não queria estragar a viagem, tinha decidido deixar aquele assunto para quando voltasse para Manchester, até porque seria inevitável enfrentar todos os problemas.   

– Estamos dando um tempo. – fui a primeira a sair do elevador quando abriu as portas no décimo terceiro andar – Mas eu realmente não quero falar sobre. – voltei minha atenção para os meus colegas que pareciam surpresos e tristes ao mesmo tempo – Bom, vou tomar um banho e me ajeitar, ainda vamos sair hoje à noite, certo? 

– Certo! – Helena voltou a sorrir. 

– Eu passo. – Tom disse enquanto abria a porta de seu quarto – Vocês me mataram hoje, caminhei demais, tô cansado e eu quero estar inteiro amanhã, mas se divirtam. 

– Você é muito chato, Tom. – minha colega reclamou – Bom, vou entrar logo, estou ansiosa pra ver o quarto.  

– Sou? – ergueu uma das sobrancelhas – Pois bem, eu nunca mais carregarei sacolas para você!  

– Te amo Tom, bons sonhos! – Helena disse num tom manso e mandou um beijo para ele no ar, fazendo com que o homem revirasse os olhos antes de entrar para o seu quarto – Te vejo em uma hora e meia, . – e entrou no cômodo. 

O quarto era simplesmente incrível. A decoração não era extravagante, era simples e moderna, mas muito bonita. A cama bastante grande e muito confortável e o banheiro possuía uma banheira com hidromassagem e um roupão longo e bastante macio, mas essa não era nem de perto a melhor parte. Duas paredes eram praticamente todas em vidro e a vista era simplesmente incrível. Por um momento pensei em desistir do passeio só para que pudesse ficar a noite inteira ali, em pé, analisando cada detalhe possível, como as luzes das janelas ligando e desligando, pessoas que andavam com pressa e aquelas que caminhavam devagar, desfrutando a cidade ou de mãos dadas com quem amavam. Eu perderia dias e mais dias observando todas aquelas vidas passando diante de mim, todas aquelas cores brilhando nas telas, o sol nascendo e se pondo, e não me cansaria. Sentia que o tempo deveria ser gasto mais vezes com observação, mas o tempo estava passando e eu precisava estar pronta em uma hora.  

Depois de ter gasto praticamente vinte minutos admirando a vista, me perdendo em pensamentos, tomei um bom banho quente, no qual acabei me demorando mais do que o previsto. Atrasei alguns minutos, mas Helena não havia dado qualquer sinal de vida, o que me fez pensar que também tinha perdido a hora. Com o casaco e bolsa em mãos, saí do meu quarto e dei duas batidas na porta da minha colega. Helena então abriu vestindo um roupão igual ao meu e com toalha de banhos na cabeça, sorrindo amarelo. 

– Que diabos você está fazendo assim? Já deveria estar pronta!  

– Ah amiga, desculpa, eu achei que você tinha desistido também já que não me mandou nenhuma mensagem. – cruzei os braços e encarei Helena com cara de poucos amigos e então ela fez um bico – Não me mata, ok? Mas a cama está tão boa e tá muito frio lá fora, sem contar que eu sou uma das primeiras a palestrar amanhã, eu não tive a sua sorte de ser uma das últimas. 

– Eu não acredito que você fez isso comigo. – caminhei batendo o pé até o elevador. 

– Você vai sair sozinha? – deu um passo para fora do quarto – Onde você vai? 

– No bar do terraço do hotel tomar drinks o suficiente para ser carregada até o meu quarto já que fui abandonada e ninguém me ama. – disse num tom choroso e fiz um bico para minha amiga numa última tentativa de convencê-la, apertando o botão em seguida.  

– Boa sorte, só não me acorda depois. – antes que Helena fechasse a porta, mostrei o dedo do meio, fazendo-a rir. 

O elevador estava demorando mais do que o normal, me deixando cada vez mais impaciente. Mesmo sabendo que não adiantaria nada, apertei o botão diversas vezes seguidas, na tentativa de alimentar minha ansiedade.  

– O elevador está ocupado, por favor aguarde pelo próximo.  

Um homem muito alto, de semblante bastante sério e vestindo um terno, disse assim que as portas se abriram, obstruindo a passagem. Mas antes que o elevador partisse, um corpo antes escondido atrás do homem se pôs à frente e estendeu o braço, impedindo que as portas fechassem. 

– Não! – os olhos de Harry pousaram nos meus – Deixe ela entrar. 

Harry abriu passagem para que eu entrasse, mas por um segundo eu achei que não conseguiria me mover. Meus pulmões pediam desesperadamente por oxigênio e minhas pernas pareciam ser de papel, como se não fossem suportar meu peso quando eu desse meu primeiro passo, deixando que eu desmoronasse ali mesmo.

De todas as coisas que eu esperava ver em Nova Iorque, Harry com certeza não era uma delas. Era como se de alguma maneira nunca nos deligássemos um do outro de verdade, sendo de certa forma frustrante, mas ao mesmo tempo reconfortante, como retornar para casa depois de uma longa viagem.

A pior parte em reencontrá-lo era quando parava para analisá-lo e percebia o quão estupidamente perfeito Harry conseguia ser. Usava um conjunto de calça e blazer social num xadrez azul escuro junto de uma camisa branca a qual estava aberta pelo menos nos três primeiros botões, fazendo com que eu tivesse certeza de que nenhuma outra pessoa no mundo ficaria tão bem quanto ele vestindo aquelas roupas. Seus cabelos agora estavam curtos, dando maior destaque ao seu maxilar bem desenhado, e esse fato em específico causara minha repentina falta de ar, assim como suas mãos, que chamavam minha atenção mais do que o normal por serem estranhamente atrativas demais com seus anéis de prata. Seu perfume também era marcante, característico, e eu queria poder morar na curva entre seu pescoço e ombro para que pudesse acordar todos os dias sentindo aquele cheiro, mas talvez preferisse morar em sua covinha, pois era bem próxima a sua boca extremamente convidativa e periodicamente umedecida por sua língua. Eu me via completamente perdida em meio aos seus detalhes, mas não era como se quisesse encontrar uma saída. Tudo naquele corpo parecia ser minimamente calculado para me desarmar.  

– Harry... – encolhi meus ombros e balancei minimamente a cabeça, procurando acordar para ter certeza de que estava ali, e caminhei em direção ao interior do elevador – O que você tá fazendo aqui? 

– Oi pra você também. – sorriu largamente e me envolveu num abraço, tornando meu desejo de morar próximo ao seu pescoço cada vez maior. 

– Ah, oi! – soltei uma risada sem graça ao separarmos o abraço – Desculpe, mas é que eu... eu não tô acreditando. 

– Eu também não! – riu junto a mim e passou uma das mãos pelo cabelo – Mas a pergunta correta a ser feita é: o que você tá fazendo aqui?  

Antes que eu pudesse respondê-lo, o elevador chegou na cobertura e nossa conversa foi interrompida por uma mulher que o aguardava na entrada com uma agenda em mãos. 

– Harry, a reunião foi cancelada. – fez uma anotação na agenda – Transferiram para o almoço de amanhã. 

– Ótimo. – olhou para mim de forma cumplice e sorriu sem mostrar os dentes. 

– Ah, tomei a liberdade de mandar seu terno para a lavanderia. – dizia sem tirar os olhos da agenda. 

– ...  

– E que o interior do carro fosse limpo... – seu dedo indicador passava pelos tópicos no papel. 

– ! – pigarreou em seguida. 

– Oi! – direcionou o olhar para Harry e depois para mim, arregalando levemente os olhos. 

– Essa é a . – deu espaço para que nos cumprimentássemos, dando um passo para trás – , essa é a , minha agente pessoal. 

– Desculpe por isso. – sorriu torto e se aproximou, me cumprimentando com um beijo no rosto – É tanta coisa pra resolver que acabo me exaltando, mas é um prazer te conhecer. 

– Tudo bem, imagino que seja bastante coisa mesmo, o prazer é meu. – sorri sem jeito, sentindo meu estômago gritar de nervosismo por conta daquela situação. 

– Bom, ainda temos a reserva da mesa? – Harry voltou a fitar sua agente. 

– Sim, ainda está reservada. –  fechou a agenda e guardou dentro de sua bolsa. 

– Quer jantar comigo? – Harry me perguntou despreocupadamente, como quem oferece um chiclete para o colega na sala de aula – Assim você pode me contar o que você está fazendo aqui. 

– Ah... – olhei ao redor rapidamente, receosa.

A última coisa que eu queria era que meu nome estivesse em outra manchete junto de uma foto de nós dois juntos jantando em Nova Iorque. Eu ainda era casada e Harry, aparentemente, estava em um relacionamento, mas ao mesmo tempo eu queria estar ali e queria aceitar o convite. Por conta de estar tarde e o ambiente tranquilo, assenti com a cabeça

– Sim, acho que podemos jantar. 

– Quer se juntar a nós? – Harry perguntou para que logo negou com a cabeça. 

– Não, não, eu estou bastante cansada e já que a reunião foi cancelada vou aproveitar para dormir, mas obrigada pelo convite. – seus olhos fitavam os de Harry de maneira sugestiva – Bom jantar, aproveitem. – ergueu uma das sobrancelhas e sorriu, fazendo com que Harry soltasse uma risada nasalada. 

– Ela é ótima. – disse num tom divertido enquanto caminhávamos até a tal mesa reservada – Ótima agente e tem se mostrado uma ótima amiga também. – assim que chegamos, Harry puxou a cadeira para que eu sentasse e se sentou logo em seguida na cadeira da frente. 

O restaurante era incrível e o local da reserva provavelmente a melhor parte. A mesa possuía uma vista privilegiada, ainda melhor que a dos quartos, e era um pouco mais afastada das outras. Apesar de haver um lustre enorme bem acima de nós, a luz era baixa, tornando a atmosfera mais tranquila, junto do som ambiente muito bem selecionado.  

O garçom apareceu assim que nos sentamos para confirmar a reserva e fazer os pedidos, os quais eu deixei nas mãos de Harry. Quando o homem se afastara o suficiente, Harry suspirou e sorriu em seguida. 

– Acho que finalmente vamos conseguir conversar agora. – apoiou os braços na mesa e entrelaçou seus dedos, chamando minha atenção para suas mãos novamente mesmo que por um instante – Então, o que faz em Nova Iorque?  

– Minha pesquisa jurídica foi selecionada para um congresso, vou palestrar amanhã, aqui mesmo no hotel. – sorri sem jeito ao notar a surpresa em seu rosto. 

– Caramba, parabéns, isso é incrível , sério! Eu queria poder te abraçar, mas a gente acabou de sentar, então não esquece que eu tenho que te abraçar depois, ok? – riu brincalhão – Nossa, é uma notícia e tanto, fico feliz por você, mesmo. 

– Pode deixar, não vou esquecer. –  disse sem conseguir parar de sorrir – E você? 

– Algumas reuniões importantes, coisas que só poderiam ser resolvidas aqui em Nova Iorque e eu gosto bastante desse hotel, – olhou ao redor e sorriu para si mesmo – gravamos um dos nossos últimos videoclipes aqui. – então voltou a me fitar – O qual eu tenho certeza que você não assistiu. 

– Ah... – ri sem graça – É, eu realmente não assisti, mas boa escolha de local.  

– Obrigado, obrigado, sei que tenho um ótimo gosto, inclusive... – o mesmo garçom apareceu com uma garrafa de vinho e duas taças, nos servindo em seguida – Tenho certeza de que você vai gostar do vinho que eu escolhi. – Harry ergueu sua taça para um brinde – Ao seu sucesso. 

– Ao nosso sucesso. – um sorriso sutil surgiu em seus lábios e brindamos, dando o primeiro gole da noite – Realmente, esse vinho é incrível. 

– É ótimo, não é? – deu mais um gole e pôs a taça na mesa em seguida – Mas eu sei que você prefere aquele de 7 libras que vende no supermercado perto da sua casa.  

– O que torna ele mais gostoso é o fato de ele custar 7 libras. – soltei uma risada e Harry riu junto – Eu não teria descoberto ele se não fosse por você, obrigada por isso. 

– Ah, então você lembra... – sorriu amarelo. Fora o vinho que Harry comprou no nosso primeiro dia dos namorados – Você bebeu a garrafa praticamente inteira sozinha. 

– Que mentira! – abri a boca desacreditada com a acusação e cruzei os braços em seguida – Cada um bebeu a metade, ok? 

– Aham, claro, com certeza. Se eu bebi duas taças foi demais! 

– Como você é cínico, Harry Styles. – falei olhando em seus olhos, tentando segurar o riso, sabendo que ele falava a verdade. Harry gargalhava da minha tentativa de atuação. 

– Já pensou em largar o direito e seguir a carreira artística? – falou sarcástico – Você tem futuro, quase me convenceu aqui, eu acreditaria se não tivesse visto com os meus próprios olhos... 

– É muito gostoso, ok? Eu não pude evitar... – falei derrotada, soltando uma risada e dando um bom gole de vinho em seguida. 

– Tudo bem, acho que aquela noite não teria sido tão divertida se você não tivesse bebido tudo aquilo... – Harry disse enquanto olhava a vista da cidade e sorriu – Já era bem tarde, estávamos indo embora e eu acabei tropeçando na calçada, caí no meio da estrada e você começou a rir muito e não conseguia parar, lembra? – seu olhar estava longe, como se revivesse o momento em sua cabeça – Então eu comecei a rir também, não conseguia arranjar forças pra levantar de tanto que ria, então você deitou do meu lado no chão e disse... 

– “Não consigo te ajudar, então vou me juntar a você”. – repeti o que eu havia dito naquela noite. Seus olhos voltaram a me fitar e então sorriu – Lembro. Ficamos uns quinze minutos deitados na estrada e você quem me ajudou a levantar depois. – soltei uma risada tímida ao lembrar. 

O silêncio se instalou mesmo que contra nossa vontade e ficamos nos encarando por um tempo. Não muito tempo, mas pareceram mais longos que o normal. Foi estranho, mas também... bom. Por um minuto eu tive a sensação de que tentava ler meus pensamentos, mas logo notei que o olhar de Harry sobre mim era completamente despretensioso, apesar de incisivo. Ao contrário de todas as outras vezes a qual me encontrei numa situação como aquela, não me importei com seu olhar sobre mim, não desviei a atenção, não fiquei sem graça, porque também o analisava, exatamente da mesma maneira.  

 – Com licença, o pedido. – o garçom fez com que acordássemos do transe momentâneo, direcionando nossa atenção para ele. Agradecemos praticamente ao mesmo tempo e voltamos a nos encarar assim que o homem deixou a comida e saiu. 

– Ele deve achar que somos loucos. – Harry ria da situação. 

– Ou muito estranhos. – peguei os talheres e comecei a comer. 

– O que não deixa de ser verdade. – completou e eu concordei com a cabeça – Tá gostoso? 

– Uma delícia! Ótima escolha, apesar de eu não saber exatamente o que é. – ri pelo nariz e voltei a comer. 

Assim que terminamos de comer, Harry me levou para o outro lado do restaurante. Era uma área de bar, onde o som era um pouco mais alto e haviam alguns sofás que ficavam de frente para uma parede completamente de vidro, como nos quartos e restaurante, mas bem maior. O lugar não estava abarrotado, mas haviam muito mais pessoas do que nas mesas do restaurante. Sentamos no sofá mais ao fundo e ao terminamos a garrafa de vinho, pedimos nossos primeiros drinks. 

– Acho que dessa vez eu tomei mais. – Harry dizia encarando a garrafa na mesa de centro a nossa frente, segurando o copo em mãos – Mas pelo menos eu não tenho que palestrar amanhã. – então deu um bom gole em seu gin, me encarando em seguida. 

– Mas tem uma reunião pela manhã. – ergui uma das sobrancelhas e repeti seu ato, bebendo um gole do meu copo. 

– Droga... – franziu o cenho e fez um bico – Não queria que tivesse me lembrado. 

– Desculpe... – disse encarando seus lábios – Mas não podemos exagerar, – voltei minha atenção para seus olhos que agora me encaravam de uma maneira divertida por notarem para onde eu estava olhando anteriormente – certo?  

– Certo. Não vamos exagerar. 

Bebemos, ao todo, sete drinks. Éramos os únicos no bar agora, mas não ligávamos para o horário, só queríamos continuar aquela conversa que sempre dava um jeito de se estender. Estávamos completamente bêbados, mas Harry muito mais do que eu. Era engraçado. Seus cabelos estavam bagunçados e seu blazer jogado no canto do sofá. Harry sempre falava com o copo em mãos e sua risada era muito alta.

Ali, naquele momento, nossas versões mais sinceras conversavam e não queriam se despedir. 

– Lembra quando você foi na padaria no dia que eu comecei a trabalhar lá? – Harry estava em pé e eu estava sentada no sofá, não desviando o olhar dele por nada – Você não sabia e era a manhã seguinte do nosso primeiro beijo!

– Lembro! – soltei uma risada e pus uma das mãos na cabeça – Eu queria morrer de tanta vergonha. Você não tirou o sorriso debochado do rosto nem por um segundo, agindo como se nada tivesse acontecido! 

– Não foi proposital, eu juro! – gargalhou – Você estava completamente vermelha, foi tão bonitinho, eu não conseguia parar de sorrir... – Harry voltou a se sentar do meu lado. 

– Lembra quando você foi conhecer meus pais? Foi num almoço e você estava usando uma... 

– Uma camisa salmão de botões fechada até o pescoço! – completou e riu em seguida – Minha mãe me obrigou a usar... – rolou os olhos – Ficou ridículo e suei que nem um louco de tão nervoso. 

– Não ficou ridículo! Eu achei bonitinho... – Harry me encarou com uma expressão que demonstrava não estar nem um pouco convencido, me fazendo rir – Sério! Não achei que ficou feio.  

– O amor é cego. – sua voz rouca falou num tom brincalhão, soltando uma risada nasalada. Harry relaxou completamente no sofá, deitando sua cabeça. Respirou fundo e deu outro gole, fazendo uma careta em seguida pelo gin já estar quente – Lembra da primeira vez que cozinhamos no nosso apartamento? – seu tom era tranquilo, falava mais baixo agora enquanto encarava a vista da cidade – Você deixou o arroz queimar e tivemos que jogar a panela fora...  

– Lembro, a panela fazia parte de um jogo muito bonito, fiquei tão triste... – Harry sorriu sutilmente ao escutar o que eu dissera – só não lembro porque deixei queimar.  

– Não? – virou seu rosto para mim e nossos rostos ficaram bastante próximos. Fiquei um tempo vasculhando em minha mente, tentando lembrar, mas o nível de álcool não cooperava, então balancei a cabeça negativamente – Nós transamos. – disparou e abriu um sorriso malicioso, soltando uma risada gostosa logo depois – E só paramos depois de cinco ligações do vizinho avisando do cheiro de queimado. 

– Ah... foi por isso. – pus uma das minhas mãos em meu rosto, sentindo ele queimar de vergonha, e ri nervosa – Lembrei agora... 

– Meu coração está ferido por você ter esquecido desse momento. – nossos rostos ainda estavam próximos, eu podia sentir sua respiração. 

– Seu coração? – tirei a mão do rosto e senti seu olhar intenso sobre o mim – Ou o seu ego? 

– Os dois. – sorriu sem mostrar os dentes e levantou do sofá de repente, rompendo nossa conexão de forma rápida, fazendo com que eu soltasse um suspiro – Garçom! – chamou pelo rapaz e ele veio sem demora – Mais duas doses de gin-ai-meu-deus! 

As primeiras notas de The Time Of My Life soaram por todo o bar e Harry me lançou um olhar sugestivo, estendendo a mão em seguida.

O garçom anotou o pedido, mas não ousou falar mais nada, apenas assentiu e soltou uma risada, se afastando em seguida. 

– Senhorita, me concede essa dança? – fez uma pequena reverencia com a mão ainda estendida. 

– Mr. Styles... – meus olhos deram uma breve pesquisada no local buscando por um rosto diferente que não dos funcionários e ao confirmar que só havia nós dois ali, sorri e dei minha mão a ele – Com prazer. 

Segurei sua mão assim que a música saiu do ritmo lento para o dançante. Harry me puxou para perto de si no mesmo momento, nossos corpos embalavam no ritmo, mesmo que desajeitados por conta da bebedeira e não conseguíamos parar de sorrir e rir um para o outro. 

– I've been waiting for so long, now I've finally found someone to stand by me...  Harry cantou junto da música na voz de Bill Medley e fez com que eu rodopiasse, soltando minha mão em seguida, afastando nossos corpos.  

– We saw the writing on the wall and we felt this magical fantasy, – continuei cantando nos versos de Jennifer Warnes, agora dançando sozinha – Não acredito que estamos fazendo isso.   

– Now with passion in our eyes, there's no way we could disguise it secretly... – cantamos os versos juntos como os cantores – So we take each others hand, – então seguramos as duas mãos um do outro como a música mandava – 'cause we seem to understand the urgency.  

– Just remember! – Harry cantou alto olhando em meus olhos e soltou uma risada em seguida. 

– You’re the one thing... – me aproximei de Harry, ainda segurando suas mãos, fazendo com que nossos narizes praticamente se encostassem. 

– I can’t get enough of... – fechou os olhos enquanto cantava e sorriu.  

– So I’ll tell you something...  

– This could be love! – cantamos alto e juntos, então Harry soltou uma das minhas mãos, subindo na mesa de centro em frente ao sofá, me puxando para que eu subisse também – Because I’ve had the time of my life, no I never felt this way before! Yes I swear, it’s the truth... – então apontamos um para o outro – And I owe it all to you. 

Soltamos nossas mãos e eu pulei para o sofá. Harry permaneceu em cima da mesa de centro, dançando bastante empolgado. Eu também dançava no ritmo na música, mexendo meus quadris e balançando os cabelos, aproveitando cada segundo daquele momento.  

– Hey baby! – olhava para o movimento do meu corpo com um sorriso no canto dos lábios. 

– With my body and soul – passei a mão por todo meu tronco com os olhos fechados e ao abrir, encarei Harry – I want you more than you’ll ever know.  

– So we’ll just let it go, don’t be afraid to lose control... – umedeceu os lábios mais devagar que o comum e soltou uma risada – No. 

– Yes, I know what’s on your mind – fui agachando até sentar, cruzando as pernas e passando as mãos por elas de baixo para cima. Harry então desceu da mesa e ficou em minha frente – When you say stay with me tonight... 

– Stay with me... – estendeu a mão e eu a segurei – Just remember! – me puxou para que eu levantasse e guiou até próximo ao vidro que dava a visão para a cidade – You’re the one thing... 

– I can’t get enough of... – entrelacei nossos dedos. 

– So I’ll tell you something... – mordeu o lábio inferior.  

– THIS COULD BE LOVE– Harry me abraçou pela cintura e eu envolvi seu pescoço com meus braços. Cantávamos alto, dançando e rindo – Because I’ve had the time of my life, no I never felt this way before, yes I swear, it’s the truth... – aos poucos paramos de nos mover e senti minhas costas entrarem em contato com vidro gelado – And I owe it all to you. 

A música continuou a tocar, mas não cantávamos mais. Suas mãos se apoiavam abertas nos vidros, uma em cada lado de minha cabeça. Nossas bocas possuíam uma distância mínima entre si e soltavam o ar ofegantes por conta da dança. Nossos olhos buscavam respostas uns nos outros e assim que eu fechei os meus, pude sentir os lábios de Harry. Eles encostaram em minha testa de maneira delicada, até que... 

– Senhores. – o garçom pigarreou e Harry se afastou imediatamente, voltando sua direção para o homem e se apoiando no vidro com somente umas das mãos – Precisamos fechar o bar, sinto muito. 

– Tudo bem. – Harry passou a mão pelos cabelos e mordeu seu lábio inferior na tentativa de segurar o riso – Desculpe o incomodo e obrigado pela atenção. 

Harry se afastou, caminhando até o sofá, pegou seu blazer, meu casaco e minha bolsa. Carregava ambas as peças de roupa num braço e minha bolsa apoiada no outro ombro. Andávamos lado a lado em silêncio ao longo do bar, lutando ao máximo para não rirmos na frente dos funcionários. 

– Boa noite, obrigado. – Harry disse cordial ao homem que aguardava na porta, que apenas balançou a cabeça positivamente. 

Apertei o botão do elevador que já aguardava parado no andar da cobertura. Entramos mantendo a postura e pressionei o número que indicava o andar do meu quarto, mas assim que as portas se fecharam, nos entreolhamos e começamos a rir.  

– Realmente, nós tivemos o momento de nossas vidas. – Harry disse enxugando as lágrimas nos cantos dos olhos que se formaram por conta das risadas. 

– Foi realmente incrível. – a porta se abriu e me pus na entrada para que o sensor não deixasse que ela se fechasse – Obrigada por hoje, foi divertido. 

– Foi, não foi? – respirou fundo, como se ainda estivesse se recuperando do cansaço da dança e entregou meu casaco e minha bolsa em seguida – Mas sabe do que eu acabei de lembrar? 

– O que? – apoiei minha bolsa em um dos ombros e segurei o casaco em frente ao meu corpo, me encostando na entrada do elevador enquanto conversávamos. 

– De quando morávamos juntos. Eu estava há algumas semanas fora de casa, foi a primeira vez que fiquei um bom tempo longe... – encarava um ponto aleatório e fixo enquanto contava a história, com o cenho franzido, concentrado, mas com um sorriso no rosto – e eu mandei uma mensagem avisando que chegaria por volta das onze horas da noite, mas acabei chegando uma hora e meia mais cedo. Eu resolvi não te contar, queria fazer uma surpresa. – fez uma pausa, voltando a umedecer os lábios como o de costume – Eu lembro de escutar o som alto já do elevador. – soltou uma risada – Eu entrei em casa e caminhei até o quarto e você estava lá, dançando e cantando what makes you beautiful muito empolgada, com uma toalha na cabeça e vestindo uma das minhas camisetas. – Harry voltou a me fitar com um sorriso no rosto – Quando eu te vi dançando no show ano passado em Manchester não pude evitar lembrar desse momento e desde então não consegui mais esquecer, me pego relembrando as vezes... 

Eu escutei cada palavra que Harry falou atentamente e revivi o momento como se tivesse acontecido naquele mesmo dia. Toda vez que aquela música tocava na rádio ou passava na televisão, quando eu colocava para tocar em casa ou no celular, eu reagia como todas as outras fãs loucas e apaixonadas. Eu era só mais uma delas, mais uma garota perdidamente louca e doente por Harry Styles. Às vezes era difícil de assimilar que eu realmente o tinha, inclusive nos tempos de colégio. Harry é o príncipe encantado que toda garota sonha. É educado, cavalheiro, engraçado, extremamente atraente, sarcástico e abusado na medida certa, carinhoso, atencioso, e todos os melhores adjetivos existentes, fazendo com que eu e todo restante do mundo caísse de amores por ele. Ele realmente era tudo de bom e mais, e por incrível que pareça, isso foi o que tornara tudo tão difícil. A distância, a fama, os compromissos, as garotas. Eu queria ter conseguido suportar por mais tempo, eu queria ter sido mais forte, mas aquela era a nova realidade a qual eu teria que lidar para sempre, nunca voltaria a ser como antes. Isso pode soar egoísta e é, eu sei, mas só tinha dezessete anos. Inconsequente, impulsiva, ignorante. Eu não queria ter que lidar com aquilo, eu não conseguia lidar. Afastá-lo sempre pareceu a solução mais sensata, mas ali, naquele momento, me senti tão estúpida, tão burra, tão fraca. Como pude desistir? Como pude deixá-lo escapar? Agi como uma criança imatura que não ganha a sobremesa na hora que quer e, no final das contas, acaba ficando sem doce algum, acabei ficando com um beijo na testa. 

– Eu nunca deixei de te amar... – engoliu seco e enxugou a lágrima que escorrera solitária pelo meu rosto – mas eu acho que... – permaneceu em silêncio pensativo – que superei? – disse de forma interrogativa, como se perguntasse a si mesmo se aquela era a palavra certa. 

 – Ah... ok. – pisquei os olhos algumas vezes, respirei fundo e sorri da melhor maneira que pude – Boa noite, Harry. Obrigada mais uma vez. 

! – me chamou antes que eu entrasse no quarto, fazendo com que eu o fitasse pela última vez naquela noite – Boa sorte amanhã e parabéns... de novo. 

Eleven

What a feeling to be right here beside you now
Holding you in my arms


Harry 

 

– O QUE? –  praticamente gritou, atraindo diversos olhares furiosos. 

– Fala baixo! – sussurrei com a mão em frente a boca para que não chamassem nossa atenção novamente. 

– Você falou o que? – perguntou novamente, falando baixinho dessa vez. 

– Falei que tinha superado... – respondi de maneira quase inaudível, olhando para frente, fingindo prestar atenção na organização da equipe no palco. 

estava sentada ao meu lado parecendo bastante insatisfeita em meio há centenas de juristas e estudantes. Éramos penetras no Congresso de Direito que estava acontecendo no hotel e esperávamos  terminar de cumprimentar e conversar com as diversas pessoas que elogiavam sua pesquisa.  

Assistimos à apresentação inteira. palestrou com maestria e todos ficaram maravilhados. O título de sua pesquisa era “mulheres na prisão: abordagens no tratamento da nossa população mais invisível” e discorreu tão bem e de forma tão didática sobre o assunto que, apesar de eu não ter conhecimento jurídico aprofundado, consegui compreender praticamente tudo. Eu estava orgulhoso e feliz por ela, feliz por poder ter a visto conquistar algo tão importante.  

– E desde quando você superou? –  voltou a aumentar o tom e a repreendi com o olhar, fazendo com que rolasse os olhos. 

– Desde quando voltei com a Kendall. – respondi como se fosse óbvio. 

– Aé? – ergueu as sobrancelhas e cruzou os braços também. 

– É. – respondi simplesmente. 

– E desde quando você voltou com a Kendall? – insistiu. 

– A gente se vê as vezes e... 

– Transam. – completou minha frase – E é só isso, vocês não passam de friends with benefits. Você mesmo me disse isso há uma semana! Além do mais, isso... – apontou para mim e para o buque em meu colo – não me parecem atitudes de alguém que superou.  

Quem eu estava querendo enganar?  

 talvez, mas não queria puni-la por conta de tudo que havia me feito sentir, mas ao mesmo tempo, ao menos uma vez, eu quis me convencer de que havia superado, como ela demostrou ter superado. Talvez eu estivesse tentando enganar a mim mesmo. 

– Fui um idiota, não fui? – suspirei, esfregando o rosto com as mãos, me sentindo derrotado. 

– Patético. – levantou e ajeitou a bolsa no ombro – Mas ela está vindo, então não faça mais nada estúpido dessa vez. Promete? 

– Prometo. – levantei em seguida, assistindo se afastar com um sorriso no rosto até sumir de vista. 

Quando vi a oportunidade, caminhei até , abordando-a em seu primeiro momento sozinha após a palestra. Ela usava um vestido preto colado ao corpo até um pouco depois dos joelhos, o que realçou suas curvas e roubou um pouco da minha atenção durante a apresentação. Suas sandálias tinham um salto relativamente alto e eu jurava ter as visto numa vitrine ali mesmo em Nova Iorque. Seus cabelos costumeiramente lisos agora possuíam leves ondulações e eu nem havia sentido seu perfume ainda, mas sabia que acabaria com o restante da sensatez que eu guardava em mim. 

– Oi . – parei em sua frente, com o buquê em mãos, o estendendo em seguida.  arregalou levemente os olhos, como se não acreditasse na minha presença, demorando um pouco a processar a situação – Parabéns, você foi incrível. 

– Você... você assistiu a palestra? – franziu o cenho, ainda confusa, e pegou as flores em seguida – Muito obrigada, são lindas... 

– Assisti sim. – sorri de forma simples – É que ontem eu disse que queria te dar um abraço por ter conseguido estar aqui, mas... nos despedimos sem que eu pudesse te abraçar, então...   

, ! – uma voz feminina surgira em nosso meio antes que eu pudesse pensar em me aproximar de . A mulher parou ao seu lado e ao notar minha presença deixou com que o queixo caísse – Desculpe, eu... eu não quis atrapalhar. 

– Tudo bem. –  engoliu seco, aparentando estar muito mais nervosa na presença de sua amiga – Helena, esse é Harry... Harry, essa é Helena, uma amiga. 

– É um prazer Harry! – sua amiga apertou minha mão bastante animada e eu respondi a sua excitação com um sorriso. 

– O prazer é meu, Helena.  

Silêncio. Helena revezava o olhar entre mim,  e as flores com um sorriso enorme no rosto e eu me segurava ao máximo para não rir da situação. estava completamente sem graça, suas bochechas estavam vermelhas, o que fazia crescer a vontade de abraçá-la. 

– Bom, eu só queria falar que você se saiu ótima, mas era só isso, vocês podem voltar a conversar, ok? – Helena se aproximou de para um abraço e sussurrou em seu ouvido, mas não impediu que eu escutasse – Me conta tudo depois! – soltou um riso e voltou a me olhar – Tchauzinho! 

– Você não pode contar tudo a ela depois. – disse assim que Helena se afastou o suficiente, fazendo  soltar uma risada e liberar um pouco da tensão. 

– E porque não? – deixou a cabeça pender levemente para um lado, cruzando os braços e me encarando com um pequeno sorriso no rosto. 

– Não sei, só quis falar uma frase de efeito. –  soltou uma risada e rolou os olhos em seguida, me fazendo rir também – Você precisa ficar aqui até o final? – encarei o palco onde um senhor se preparava para iniciar a próxima palestra. 

– Ah, agora é uma palestra bem interessante sobre Direito Tributário... – voltou sua atenção para o palco por um segundo e tentou aplicar o máximo de excitação na voz, mas não conseguiu, me fazendo rir. 

– Eu sei que não sou tão interessante quanto Direito Tributário, mas... – respirei fundo, tentando eliminar o nervosismo da minha voz e ignorar medo de receber uma resposta negativa – será que poderia te roubar pelo resto da noite? 

Pude notar um sorriso brotar no canto de sua boca, fazendo com que meu coração acelerasse esperançoso. Assim que começaram a anunciar a próxima palestra, segurou minha mão e saiu em passos largos do auditório, não queria ser vista. Nos guiou até o elevador de serviço e apertou o botão. Depois de um tempo, ao notar que ainda estávamos de mãos dadas, quebrou o contato. 

– Espero que não notem minha ausência... – disse encarando o visor que indica os números dos andares, mexendo a perna impaciente – Mas eu estou louca pra tirar esse vestido! 

Eu sabia muito bem que aquela frase era completamente despretensiosa. Ela estava cansada, queria vestir algo mais confortável, mas não pude evitar pensar naquela situação num outro sentido, fazendo surgir um sorriso inevitavelmente malicioso em meus lábios.  

– Quer ajuda? – disparei e  arregalou os olhos, completamente sem graça – Me desculpe , mas não pude evitar. – disse entre risos. 

– Obrigada pela cordialidade costumeira Harry... mas eu não preciso de ajuda. – entrou com certa pressa no elevador e eu entrei logo em seguida – Talvez só precise saber para onde você quer me levar. 

– Não se preocupe. – disse encarando o botão do andar do quarto de  aceso – Só são alguns andares acima. 

A porta do elevador abriu logo em seguida ela caminhou até a porta do seu quarto, parando ali e olhando para trás.  

– Você... gostaria de entrar? – passou o cartão pelo leitor e a porta se entreabriu – Prometo ser rápida. 

– Tudo bem, sem pressa. – andei até , que cedeu espaço para que eu passasse e entrasse em seu quarto.  

Seu quarto era bem menor e mais simples do que o meu, mas o seu cheiro dominava o local e por conta daquilo eu poderia ficar ali pelo resto da noite. fechou a porta atrás de mim e pediu licença, ajeitando as flores em um copo com água e indo em direção ao banheiro em seguida. Enquanto a esperava, me permiti sentar na ponta de sua cama. Analisei todo o local e soltei uma risada nasalada. Apesar de ser mais um quarto de hotel entre todos os outros, era perceptível que estava hospedada nele. Nunca foi uma pessoa muito organizada. Suas coisas estavam espalhadas pelo quarto todo e as roupas emboladas em sua mala. Haviam diversas sacolas num canto no chão e só o seu lado da cama estava com a roupa de cama bagunçada. Mesmo dormindo sozinha ela só ocupa um lado da cama, deixando o outro vago, mas ainda assim nunca gostou de dormir em camas de solteiro. Algumas coisas nunca mudam e saber disso me reconfortou.  

Encarei uma camiseta em cima da cama e supus que era a qual havia usado para dormir, já que nunca dormia de pijamas, mas sempre de camisetas largas. Por um segundo, mesmo parecendo uma atitude completamente maníaca, quis pegar aquela peça e sentir a textura e o cheiro, mas a tranca da porta do banheiro fez com que eu acordasse de meus devaneios, direcionando minha atenção a uma  de roupão. 

– Qual a ocasião? Esqueci de perguntar... – soltou uma risada sem jeito, me fazendo rir junto. 

– Pode vestir algo confortável e simples. – disse simplesmente, enquanto encarava parte do seu ombro descoberto por conta da manga do roupão que deslizara, até notar que poderia estar sendo um pouco inconveniente, voltando a encará-la nos olhos e perceber que reparou minha análise demorada. 

– Tudo bem então... –  foi até a mala no canto do quarto e revirou ainda mais o bolo de roupas, pegando algumas peças e retornando para o banheiro. 

Voltei a encarar a camiseta em cima da cama, mas revirei os olhos em suas órbitas e respirei fundo em seguida. 

– Se controla Harry. – murmurei para mim mesmo e esfreguei o rosto com as mãos, levantando em seguida e esperando  em pé, de frente para porta. 

abriu a porta e sorriu de forma simples ao notar que eu lhe esperava já em pé. Vestia uma calça jeans preta, não tão apertada, não tão solta, e um suéter oversized na cor vinho, que a fez parecer aconchegante e quentinha. Eu gostava de vê-la usando vestidos colados e sandálias altas, toda produzida, porque faziam com que destacasse suas curvas e sensualidade, mas ali, daquele jeito, era como eu via a de verdade, era o jeito como eu amava recordar de sua imagem: numa calça e num suéter, saindo do colégio de mãos dadas comigo, dançando ao longo da calçada, me obrigando a roubar o máximo de beijos possíveis antes de começar o expediente na padaria, porque ninguém ficava tão encantadora vestindo jeans e suéter como ela. 

– Exagerei no confortável e simples? – olhou para baixo, encarando a roupa e os tênis – Levei bastante a sério. – voltou a me encarar e assim que notou a forma como eu a olhava, franziu o cenho – Aconteceu algo? 

– Não, não aconteceu nada. – balancei a cabeça, soltando uma risada sem graça – E a roupa está ótima, vamos? 

– Espera aí! – disse assim que caminhei até a porta, fazendo com que eu parasse – Não vamos sair com você vestindo esse conjunto lindíssimo e eu de jeans e suéter, né?  

– Ah... – pus a mão na nuca, coçando a região, pensando no que responder – Não, não vamos. Eu vou dar um jeito, ok? 

– Eu não deveria confiar em você. – disparou, enquanto saíamos do quarto e chamávamos pelo elevador.  

– Não devia mesmo. – pus as mãos no bolso, me encostando na parede, esperando pelo elevador.  abriu a boca num perfeito ‘O’ e soltou uma risada depois, me fazendo rir de sua expressão. 

– Ah é mesmo? Sabe, ainda consigo fugir, meu quarto é logo ali, você não deveria entregar o jogo assim... – disse com os braços cruzados. 

– Não consegue não! – assim que o elevador abriu as portas, revelando que não havia ninguém, apertei o botão do andar pretendido e puxei  para dentro comigo, abraçando-a por trás, prendendo-a em meus braços até que as portas se fechassem. soltou um gritinho e gargalhou em seguida. O contato repentino do seu corpo contra o meu foi o suficiente para que eu sentisse calor – Pronto, agora você não consegue mais fugir de mim. – falei próximo ao seu ouvido. 

– É, eu realmente não deveria confiar em você. – disse ao se afastar, ainda de costas para mim.  

 me olhou de soslaio por cima dos ombros e sorriu divertida, até finalmente chegamos ao andar indicado. foi a primeira a sair, mas se demonstrou confusa ao notar que não estávamos nem no restaurante e muito menos no saguão. 

– Apertou o botão errado?  

– Não. – respondi simplesmente, caminhando até o fim do corredor, mas  ficou parada e assim que notei, parei também, voltando minha atenção a ela – Você não vem? 

– Achei que fossemos jantar. – disse ainda sem se mover. 

– Nós vamos jantar.  

– Mas não estamos no restaurante... – seu tom era desconfiado e seu olhar buscava por respostas. 

– Eu vou ter que ir aí te buscar? – soltei uma risada, estendendo minha mão em seguida – Vem. 

veio caminhando em minha direção a contragosto e assim que chegou perto o suficiente, segurou minha mão ainda estendida e caminhamos daquele jeito até a última porta do corredor, pegando o cartão que estava em meu bolso e abrindo a porta em seguida. O cômodo no qual eu estava hospedado era pelo menos três vezes maior do que o de . A cama era grande e possuía uma sala conjugada. O banheiro, a banheira e, consequentemente, a parede de vidro com vista para o centro da cidade também eram maiores.   

Naquela mesma tarde, um pouco mais cedo, pedi para que preparassem um jantar e trouxessem uma mesa para por ali mesmo, no espaço compreendido entre a sala e o quarto. Eu não havia conferido o resultado, mas ao abrir a porta fiquei bastante satisfeito. A mesa de dois lugares estava estrategicamente posta entre a cama e a parede de vidro, bem abaixo do lustre que estava em meia luz. Haviam velas bastante vistosas e já acesas em cima da mesa, e um carrinho bem ao lado, com a refeição e as bebidas.  

– Surpresa? – disse ao dar passagem para , que parecia atônita demais para dar os passos suficientes para entrar no quarto. Com as nossas mãos ainda dadas, a puxei para dentro o suficiente para que pudesse fechar a porta. 

– Harry, o que é tudo isso... – falou baixinho, soltando minha mão em seguida e caminhando até a mesa. Passou os dedos delicadamente pela toalha posta, então pelo castiçal, e admirou as velas. 

– Encare como um presente. – caminhei até a poltrona próxima a minha cama, tirei meu blazer e o deixei ali, abrindo os botões da manga em seguida para que pudesse erguê-las até a metade do braço – Por ter conquistado algo tão importante essa noite. – caminhei até a mesa, afastando uma das cadeiras para que ela se sentasse. 

– Você sabe que... que não precisava. – disse completamente sem jeito, sentando-se em seguida.  

– Eu sei que não. – fui até o carrinho e descobri os dois pratos, colocando um à sua frente e o outro onde eu sentaria. Em seguida, peguei um dos vinhos disponíveis no carrinho, nos servindo. Me sentei logo em seguida e peguei a minha taça, erguendo-a – Você é incrível e isso... – fiz menção a mesa de jantar – não é nada perto do que você merece.  

Estava tudo como o planejado. Eu havia conquistado o que pretendia com aquilo: deixá-la sem palavras. apenas sorriu, com as bochechas completamente ruborizadas, e uniu a sua taça a minha num brinde.  

– Mas, por favor, sem mais cerimônias, eu tô morrendo de fome e isso tá com uma cara ótima, não? – questionei após um bom gole no vinho, descansando a taça ao lado do meu prato. 

– E o cheirinho então? – fechou os olhos por um segundo, apreciando o cheiro da comida. O gesto foi tão meigo que senti vontade de apertá-la até que coubesse em uma caixinha de joias. Ao abrir os olhos, notou como eu a encarava feito um tolo e sorriu completamente sem jeito. 

A comida estava deliciosa e na quantidade perfeita para que ficássemos satisfeitos, mas não cheios demais. , ao terminar de comer, descansou ambas as mãos ao lado dos pratos e as encarei, querendo tocá-las, e só então percebi algo que não havia notado antes. Não havia aliança alguma ali. 

Meu coração bateu forte, como uma orquestra no clímax de uma sonata. Tentei buscar na minha mente momentos da noite anterior para recordar se usava ou não o anel de casamento, mas não lembrava e eu não sabia se ficava completamente feliz ou completamente nervoso diante dessa descoberta.  ria da história que contava, tornando-a mais amável do que de costume, mas eu não consegui prender minha atenção em seu rosto, eu não consegui não olhar para a sua mão. Então tomei coragem para que sorrateiramente, por cima da mesa, deslizasse minha mão direita até encontrar a sua, deixando a minha por cima.  

parou de falar de repente e fitou nossas mãos juntas. 

– Harry... 

. – voltou a me encarar – Não precisamos falar sobre se você não quiser. – meus dedos procuraram se entrelaçar nos seus, mas isso a deixou nervosa, fazendo com que se levantasse no ímpeto, separando nossas mãos, então me levantei também, logo em seguida.  

– Eu não quero falar sobre. – falou quase que de maneira inaudível, caminhando até próximo ao vidro e encarando os prédios. 

– Tudo bem, não iremos falar sobre. – tracei passos cautelosos até ela que permanecia de costas para mim – Porque não importa. – ajeitei uma mexa de seu cabelo em seguida – Nada, nada além de nós dois... – sussurrei próximo ao seu ouvido – aqui e agora... – aproximei meu rosto de seu pescoço e soltei o ar preso em meus pulmões numa respiração pesada – importa

 arfou, inclinando sua cabeça levemente para trás, deixando seu pescoço completamente exposto. Terminei com a mínima distância entre nossos corpos, encaixando o seu no meu. Eu estava nervoso, receoso com sua reação a cada atitude que eu tomava, mas eu não consegui evitar querê-la tanto. Então, calmamente, e de olhos fechados, curtindo cada segundo daquele momento, toquei sua pele quente entre o ombro e o pescoço com meus lábios, espalhando beijos delicados pela região. Meus beijos subiram até alcançar o lóbulo de sua orelha, mordendo-o em seguida. Por conta desse ato, arranquei o primeiro gemido de , mesmo que ainda tímido, sendo este o sinal que eu precisava para dar o próximo passo. Minhas mãos envolveram sua cintura e a apertei contra mim, enquanto minha boca permanecia próxima ao seu ouvido, soltando o ar ofegante por conta do contato. Devagar, fiz com que seu corpo girasse, ficando finalmente de frente para mim. possuía um sorriso no canto dos lábios e seu rosto estava levemente rosado por conta do vinho. Seus olhos brilhavam tanto que pareciam ter luz própria e ali, naquele momento, eu tinha certeza de que era a mulher mais adorável e fascinante do mundo inteiro, ou pelo menos do meu mundo, o que já bastava. Seus braços envolveram meu pescoço e ficou na ponta do pé, aproximando minha boca da sua. Ela encarava meus lábios enquanto apenas roçava uns nos outros, brincando, sem pressa alguma, até porque não tínhamos pressa. voltou a me encarar e umedeceu o lábio inferior, sorrindo em seguida. Com uma de suas mãos, fez um carinho gostoso em meu rosto, fazendo com que eu fechasse os olhos por efeito do gesto. Seus lábios voltaram a tocar levemente os meus e essa foi a brecha para que finalmente eu pudesse beijá-la. Sem cerimônia, minha língua procurou pela sua e ao se encontrarem, um sentimento de êxtase se espalhou pelo meu corpo. Minhas mãos que antes estavam pousadas em sua cintura, se espalmaram no fim das suas costas, trazendo seu corpo para mais perto do meu, se é que isso fosse possível. Nossas línguas ansiavam uma pela outra, o beijo transbordava desejo e parte de mim ainda não acreditava que finalmente eu a tinha novamente. Sentir o gosto da sua boca fez com que minha pele esquentasse consideravelmente e com que o oxigênio do cômodo parecesse insuficiente. Aquele momento parecia ser bom demais para ser verdade, mas se eu estivesse sonhando, queria sonhar a noite inteira. separara o beijo pela primeira vez, segurando meu rosto com ambas as mãos, mas ainda assim, mesmo que completamente ofegante, busquei seu lábio inferior para puxá-lo com os dentes, fazendo-a rir e me dar um selinho em seguida.  

– Vem comigo? – desviei minha atenção para a cama e entendeu o recado, assentindo com a cabeça. 

Minhas mãos a seguraram firmemente pelas coxas, trazendo-a para meu colo, tendo seus braços permanecido envoltos ao meu pescoço. Levei  até a cama e deitei seu corpo delicadamente, mas antes que me juntasse a ela, abri pacientemente cada botão da camisa social a qual vestia. , ao notar a demora, apoiou-se nos cotovelos para ver o motivo, e sorriu divertida ao encarar a cena. Ela acompanhava minhas mãos com os olhos a cada botão, mas ao terminar de tirar a peça, os sapatos e as meias e fazer menção de voltar a cama, fez que ‘não’ com o dedo indicador. 

– Não? – perguntei confuso – Por que não? 

– Acho que você esqueceu alguma coisa. – desceu o seu olhar para a minha calça e ergueu uma das sobrancelhas, rindo em seguida.  

– Eu não queria ser tão rápido, mas já que você insiste... – encolhi os ombros e abri o botão e em seguida o zíper da minha calça.  bateu palminhas de aprovação, me fazendo rir.  

Enquanto eu me livrava da calça, deixando-a em cima da poltrona junto ao blazer, aproveitou para tirar os tênis e as meias e voltou a me encarar, mas agora de um jeito diferente.  

– O que houve? – questionei ainda em pé ao lado da cama – No que você tá pensando? 

– É bobeira... – balançou a cabeça e sorriu sem jeito. 

– Me conta. – subi na cama, ficando por cima de , e uni nossos lábios num selinho rápido – Por favor. 

– É que... – com a ponta dos dedos passeava pelos meus braços, ombros e abdômen, fazendo um carinho delicado, com seus olhos acompanhando seus movimentos – as vezes me pego pensando se você é real. – soltou uma risada nasalada e voltou a me olhar nos olhos – É tão... – com a mão que me acariciava tocou meus cabelos e deslizou até o rosto, passando um de seus dedos pelo nariz, bochechas, até chegar em meus lábios, suspirando pesadamente em seguida – perfeito. 

Balancei a cabeça sutilmente e fechei os olhos, sentindo que meu coração explodiria a qualquer segundo por conta do sentimento que o invadia. 

– Por que você faz isso comigo? – perguntei num sussurro e encostei nossas testas, permanecendo de olhos fechados.  

– O que eu fiz? – um de seus dedos ainda brincava com meu lábio inferior e a outra mão acariciava a lateral do meu tronco. 

– Não é o que você fez, é o que você faz, todo o segundo... – beijei o seu dedo e então abri os olhos, estabelecendo uma conexão visual. 

– O que eu faço? – reajustou a pergunta. 

– Faz com que eu te ame cada vez mais.  

 abriu um sorriso largo. 

– Me desculpe. – mordeu o lábio inferior e me lançou um olhar divertido – Mas eu não posso evitar.  

– Engraçadinha. – ri junto dela e dei início a um beijo que começou tranquilo, como quem não queria nada, mas que não demorou a esquentar o suficiente para que a roupa que ela vestia começasse a me incomodar. Separei nossas bocas e  fez uma careta, abrindo os olhos em seguida e resmungando para que voltássemos a nos beijar – Espera aí, eu não vou fugir...  

Segurei  pela cintura com um braço e, num movimento ágil, a puxei para que sentássemos, a ajeitando em meu colo com uma perna em cada lado do meu corpo. Minhas mãos subiram de suas coxas e entraram por debaixo de seu suéter, explorando sua pele quente e macia daquela região. Minha boca voltou sua atenção para seu pescoço e assim que minha mão envolveu seu seio pela primeira vez, deixou escapar o seu segundo gemido, dessa vez mais audível. Em seguida, minhas mãos desceram pelo seu tronco até encontrarem a barra da peça, puxando para cima, para que a tirasse completamente. Me desfiz do suéter o jogando em qualquer canto no quarto, completamente desinteressado com o seu destino, já que minha visão era mais importante de qual parte do chão aquela roupa ocuparia. usava um sutiã de renda preto sem bojo, com apenas o tecido contornando perfeitamente seus seios. Depois de encará-los por um tempo, voltei minha atenção para seus olhos, que me encaravam com um sorriso tímido no canto dos lábios, fazendo com que eu sorrisse também. Voltei a beijá-la, mas não me demorei muito, descendo de sua boca para o queixo, do queixo para o pescoço, até que  jogasse a cabeça para trás para que facilitasse o ato, então do pescoço para os ombros e colo, onde me permiti demorar um pouco, até finalmente descer para os seios. O sutiã não possuía fecho, por ser inteiramente de renda, então resolveu me dar uma mãozinha e o puxou para cima, jogando-o em qualquer canto. Minhas mãos espalmaram em suas costas, servindo de apoio para que, lentamente, voltasse a deitar na cama. Meus beijos agora começaram logo abaixo do umbigo, enquanto voltava a se aconchegar nos lençóis, subindo até seu seio direito, o qual possuía a marquinha pela qual eu sempre tive um certo apreço. Sorri ao enxergá-la, deixando um beijo ali, e ao finalmente chegar em seu mamilo, passei minha língua devagar, o chupando em seguida. Uma de suas mãos agarrou os cabelos da minha nuca, me trazendo para mais perto, fazendo com que eu voltasse a ficar completamente deitado por cima de si. Me apoiei com um dos cotovelos no colchão e com a mão livre acariciava sutilmente seu outro seio. Minha boca revezava entre contornar seu mamilo com a língua e chupa-lo delicadamente, até que, com a sua mão, me guiou até o outro seio que ainda não havia recebido a atenção devida.  

– Senti sua falta. – sua voz soara num sussurro e aquela frase em particular fez com que o pouco de sanidade que me restava se esvaísse. 

Parei o que estava fazendo em seus seios e fiquei de joelhos na cama, ainda por cima de seu corpo, descendo minhas mãos até os botões e zíper de sua calça, abrindo-a e deslizando por entre suas pernas em seguida, tirando a peça por completo. 

– Você não precisa voltar a sentir. – iniciei uma trilha de beijos desde seus pés, revezando entre uma perna e outra, até a parte interna de sua coxa – Eu não vou deixar que você volte a sentir... – meus beijos se tornavam mais molhados e mais demorados a medida que se aproximavam de sua parte íntima – nunca mais.  

Eu estava posicionado entre suas pernas e a minha demora para agir estava deixando  cada vez mais louca. Eu não estava com pressa, eu queria fazer aquilo direito, queria fazer valer cada segundo e queria que durasse centenas e milhares de segundos.  

Minhas mãos deslizaram até sua bunda e puxaram para mais perto. Não foi preciso tocá-la para perceber que já estava completamente molhada diante de mim, o que me fez sorrir. Espalhei mais alguns poucos beijos pela coxa, chegando na virilha, ouvindo uma interjeição de reprovação sair de sua boca, fazendo com que eu finalmente espalhasse beijos em sua intimidade, mesmo que ainda por cima da calcinha também de renda, como o sutiã. 

– Harry... – meu nome escapou de sua boca em forma de gemido e senti meu membro latejar ao escutar meu nome daquela maneira. 

– O que você quer? – antes que pudesse responder, deixei ali mais alguns beijos. 

– Por favor... – pude ver suas mãos segurarem os lençóis com força. 

Eu sei que sentia vergonha nesses momentos e não queria pressioná-la a responder e fazer com que se sentisse desconfortável, mas era tão bom vê-la daquela maneira, completamente entregue a mim, mas sem mais demoras, as mãos antes pousadas em sua bunda se livraram de sua calcinha, tendo essa o mesmo destino de todas as outras peças. Minha língua deslizou de sua entrada quente e bastante úmida até seu clitóris, onde me demorei mais, contornando-o repetidas vezes com a ponta da língua. Eu tinha praticamente certeza de que ter o seu gosto em minha boca era mais prazeroso do que qualquer sensação que eu estava proporcionando a ela naquele momento, pois se realmente houvesse um paraíso, esse era o corpo de . Seu quadril se movia junto de minha língua para poder ter o máximo de contato possível e seus gemidos agora eram constantes, mesmo que tímidos. Eu olhava para o seu rosto, mesmo que posto para trás, só para poder ver sua boca deixando escapar meu nome a todo momento. Então, como se lesse meus pensamentos, voltou sua atenção para mim, fixando seus olhos nos meus enquanto eu a chupava.  mordia seu lábio inferior enquanto encarava eu me lambuzar entre suas pernas, até as mesmas começaram a vacilar.   

– Eu preciso de você... – voltou a deitar a cabeça, olhando para cima – agora. – e me puxou para si pelos cabelos, unindo nossos lábios num beijo urgente. 

Durante o beijo, suas mãos soltaram meus cabelos e desceram pelas minhas costas até chegar na barra da minha boxer. Quando não conseguia mais empurrar para baixo o suficiente para tirá-la, desfiz o beijo e a retirei por completo, voltando a beijá-la logo em seguida. Uma das mãos de  deslizaram até meu membro e, sem mais resquícios de calma, começou a masturbá-lo. Afastou suas pernas em seguida e posicionou minha glande próxima ao seu clitóris, roçando um no outro. Tivemos que romper o beijo, pois simplesmente não conseguíamos parar de gemer. Meus olhos procuraram pelos seus e assim que estabelecemos conexão visual, sorriu para mim, fazendo com que eu sorrisse de volta. Uma de suas mãos agarrava com força meu ombro e a outra continuava segurando meu membro, agora o guiando até sua entrada. Quando o posicionou corretamente, fiz força para que meu membro a penetrasse.  soltara um gemido sem restrição alguma, fechando os olhos em seguida e subindo com a sua mão agora livre pelas minhas costas, as arranhando com as unhas. Estar dentro dela novamente era uma sensação inexplicável. Não era simplesmente sexo, ia muito além do ato. Era como se nossos corpos tivessem sido projetados especialmente um para o outro e eu queria mais, cada vez mais. começou a mover seu corpo contra o meu, como se pedisse para que aumentasse a velocidade, e assim que o fiz, buscou pela minha boca mordendo meu lábio inferior, dando início a um beijo em seguida.  

Quando rompemos o beijo para que pudéssemos respirar, viu uma brecha e me empurrou para seu lado na cama, posicionando em cima de mim logo depois, voltando a encaixar meu membro em sua intimidade sem dificuldades, dando início aos movimentos.  rebolava em cima de mim e eu segurava sua bunda com ambas as mãos para intensificar o contato. Não paramos de nos olharmos um segundo sequer e só Deus sabe o quanto eu sentia falta de vê-la daquela maneira, em cima de mim, com as gotas de suor escorrendo pelo seu corpo, contornando cada curva, e daquele olhar, pois não nos olhávamos de qualquer forma, transbordava desejo, transbordava amor, e eu tinha certeza de que aquele gesto só acontecia quando estava na cama comigo.  

– Harry... 

quebrou o silêncio depois de um bom tempo, completamente ofegante e ainda em cima de mim. Desacelerou seus movimentos, focando no rebolar e não na velocidade, fazendo com que eu perdesse meus sentidos e fechasse os olhos por um momento. Assim que os abri e voltei a olhá-la, estava com seu lábio inferior entre os dentes e me olhava de um jeito que eu sabia exatamente o que significava, fazendo com que um sorriso brotasse em meus lábios. Minhas mãos trouxeram seu corpo para mais perto do meu, voltando a deitá-la sobre mim, tornando o ritmo de seus movimentos mais lentos e torturantes. Suas bochechas ficaram ainda mais vermelhas e seus olhos não conseguiam encarar os meus, então com uma das mãos, pus as mexas soltas atrás de sua orelha e sussurrei em seu ouvido. 

– Eu sei o que você quer.  

Um suspiro audível escapou entre seus lábios e sem demora fiz com que saísse de cima de mim, posicionando-se ao meu lado em seguida. Eu sentia falta de  de todas maneiras possíveis, mas confesso que a ter de quatro para mim era uma das minhas maiores saudades. Me pus de joelhos na cama e a puxei pelo quadril para mais perto de mim. se apoiava com os cotovelos, mantendo a bunda empinada, e ao penetrá-la não pude impedir o gemido que se formou em minha garganta de escapar. Seu corpo se movimentava contra o meu, intensificando o ato, e vez o outra tirava meu membro praticamente inteiro, estocando com mais força, fazendo com que se contorcesse em minha frente. Uma de minhas mãos deslizou por suas costas até alcançar seus cabelos, os puxando, fazendo com que arqueasse ainda mais as costas, já a sua mão rumou até sua própria intimidade, estimulando-a.  pedia quase que desesperadamente por mais, sua voz pronunciava meu nome constantemente e suas pernas começaram a dar sinais de fraqueza, então fiz com que mudasse de posição novamente. 

Assim que nossos olhares se encontraram, um sorriso se formou em ambos os rostos. Não havia sorriso mais bonito no mundo, eu tinha certeza, pois chegava ser ridículo como cada detalhe seu fazia com que eu a quisesse cada vez mais. Voltei a ficar por cima de seu corpo e logo suas pernas se enroscaram em meu tronco, eliminando a distância entre nós. Minha boca procurou pela sua, unindo-as num beijo relativamente calmo, penetrando-a sem aviso durante o mesmo, fazendo com mordesse meu lábio inferior com certa força.  

– Ouch... – reclamei enquanto retomava o ritmo dos meus movimentos – Doeu! – meus lábios formaram um bico. 

– Desculpe, – beijou delicadamente onde mordera – mas isso é o que você causa em mim.   

– Dor...?  

– Descontrole. 

Inevitavelmente um sorriso surgira em meus lábios. Ela sabia muito bem como usar das palavras para me desarmar, era a sua especialidade, na realidade. Sempre falou o que tinha vontade, impulsiva até demais.  sempre foi uma mulher muito decidida, inteligente, de pulso firme, mas também muito sensível, doce e ouso dizer que, muitas vezes, ingênua. Ela é aquela garota que te faz perder a cabeça, não te deixa parado, sempre bagunça tudo e vira o seu mundo de cabeça pra baixo. Ela é forte, mas aparenta muito mais do que realmente é.  ainda é parte criança, porque na maioria das vezes só precisa um colo e carinho. Adora chamar atenção, quer ser mimada, protegida, mas também te dá espaço, não te sufoca. Ela cultiva o companheirismo, faz a melhores piores piadas do mundo, dança como ninguém e é incrível na cama e eu não queria ter que dividi-la com mais ninguém.  

Meus movimentos voltaram a ser rápidos e ágeis e nossos lábios entreabertos roçavam, mas não se beijavam, pois estavam ocupados demais chamando pelo nome um do outro e vez ou outra buscando por oxigênio. Suas mãos agarravam meu ombro com força e suas unhas cumpridas deixavam marcas, enquanto seu corpo se movia enérgico contra o meu. Sem retirar meu membro por completo, voltei a ficar de joelhos na cama para que pudesse penetrá-la e estimular seu clitóris ao mesmo tempo, até que suas pernas voltassem a fraquejar, assim como o meu corpo que dava sinais de que não aguentaria mais muito tempo. Não demorou muito para que eu sentisse o seu prazer escorrer entre suas pernas, junto do meu, pois não havia retirado o meu membro. Me permiti descansar o meu corpo ao lado do seu, sentindo seus dedos se entrelaçarem aos meus depois do tempo necessário para que a sua respiração normalizasse.  

– Eu te amo.  

– O que? – abri meus olhos instantaneamente e me apoiei em um dos braços, ficando de lado para que pudesse a ver melhor.  

– Eu te amo, Harry. –  abriu os olhos e sorriu sem mostrar os dentes, fazendo um carinho no meu rosto em seguida.  

– Espero que isso não seja só mais um sonho... – deixei escapar em voz alta sem perceber, fazendo com que  soltasse uma risada nasalada e me desse um selinho logo depois. 

– Você é tão bobo. – me puxou para perto de si, unindo nossos corpos num abraço, e ficou fazendo um carinho em meus cabelos. 

– Eu também te amo, você sabe. – puxei o lençol para nos cobrir e voltei a fechar os olhos, apreciando o carinho – E não me leve a mal, mas eu sabia que acabaríamos juntos de novo algum dia.  

– Eu também sabia. – soltou uma risada – Eu só não queria ter que admitir em voz alta.   

– O orgulho sempre foi o teu maior defeito. – ergui meu rosto para que pudesse olhar em seus olhos sem sair de seus braços – Eu sempre te dizia isso. 

– Eu só não quero mais ter que pensar nisso agora. – quebrou o contato visual e suspirou – Eu quero aproveitar o pouco tempo que me resta ao teu lado. Amanhã é o meu último dia aqui em Nova Iorque e eu não sei quando vamos poder nos ver de novo.   

– Não vai embora. – o meu pedido fez com que voltasse a me encarar – Fica aqui comigo. Uma semana. Uma semana é o que eu te peço.  

– Harry, eu... 

– Eu não aceito não como resposta ou qualquer desculpa que você tem pra me dar. Eu dou um jeito, ok? Só diz que sim. 

– Uma semana? 

– Uhum. 

– Com você? 

– Com quem mais seria? 

– Em Nova Iorque? 

– É onde estamos, não? 

– Acho que não pode ser tão ruim assim, não é mesmo? –  falou num tom brincalhão, com uma das sobrancelhas erguidas. 

– Vamos fazer uma enquete – disse enquanto me desvencilhava de seus braços, caminhando até o carrinho ao lado da mesa e abrindo a segunda garrafa de vinho – e perguntar para o restante do mundo sobre o que eles acham de uma semana em Nova Iorque com Harry Styles. 

– Convencido! – rolou os olhos em suas órbitas, rindo – Tenho certeza que o restante do mundo não conhece essa face tão humilde do queridinho Harry. 

– Esse privilégio é exclusivo seu. – preenchi duas taças com o líquido roxo e rumei de volta para a cama, entregando uma delas para 

– Sorte a minha... – disse num tom irônico e soltou uma risada, pegando a taça em seguida – Obrigada.  

– De nada, .  

– Eu assisti o clipe ontem à noite... – disse após dar um gole – Perfect.  

– E o que você achou? – voltei a me deitar ao seu lado, me cobrindo até a altura da cintura em seguida. 

– Muito bonito. – respondeu num tom indiferente – Uma ótima tática de marketing também. – sua voz soara um tanto quanto afetada agora, o que me fez rir. 

– Uma ótima tática de marketing? – eu sabia exatamente a o que estava se referindo e eu não podia deixar aquele momento passar sem provocá-la – Eu não acredito! , você está com ciúmes. 

– Eu estou mesmo! – respondeu tentando manter a seriedade, mas não conseguia segurar os risos, deixando a taça em cima do criado mudo em seguida – And if you’re looking for someone to write your break up songs about? Sério?  

– Você é inacreditável,  . – disse entre risos, repetindo o seu ato de descansar a taça no móvel ao lado da cama e a abraçando em seguida, mesmo que estando relutante – Tudo bem, você me pegou, até pode ser uma jogada de marketing... 

– Até pode ser? – repetiu debochada, desistindo de se desvencilhar dos meus braços. 

– Mas e todas as outras músicas que eu escrevi sobre você, sobre nós, que você nunca escutou?  

– Você vai ter que cantar todas para mim. Temos uma semana. 

– Temos bem mais que uma semana, ... 

Twelve

You should probably stay, probably stay, couple more days
Come on let me change your ticket home


 

 

Era o terceiro dia de sete e eu não queria pensar sobre como seria a nossa despedida. Eu estava vivendo os meus melhores dias dos últimos cinco anos e quando eu achava que não podia melhorar, Harry sempre me surpreendia. Não era como se algo tivesse mudado, como se realmente tivéssemos passado tanto tempo longe um do outro. A intimidade não havia se esvaído por completo, assim como a cumplicidade e todo o carinho que sentíamos um pelo outro. 

– Você pode se esforçar... – Harry disse ajeitando os óculos de sol no rosto – mas nunca será melhor que eu no scrabble. – completando a última palavra do tabuleiro e cruzando os braços em seguida, me encarando de forma convencida.  

Estávamos sentados numa mesa do lado de fora de uma cafeteria que disponibilizava alguns jogos de tabuleiro para os clientes. Harry era fissurado em palavras cruzadas e, segundo ele, aquele lugar possuía o melhor chá gelado de toda a Nova Iorque. Aproveitamos que o tempo havia colaborado, com o sol dando as caras, e aproveitamos para sair do hotel e passear um pouco. Ante a terceira vitória consecutiva de Harry, bufei e dei um bom gole em meu chá gelado de frutas vermelhas. 

– Eu acho que você conhece todas as palavras do scrabble do mundo, não é justo! – fiz um bico. 

– Deixa eu ser bom pelo menos nesse jogo, você ganha de mim em todas as partidas de xadrez!  

Harry levantou rapidamente de sua cadeira para que pudesse me dar um beijo em meu bico, já que eu estava sentada a sua frente, e voltou a se sentar, segurando a minha mão por cima da mesa logo depois. 

– Não fica triste, ok? 

Os raios de sol da manhã iluminavam parte do seu rosto, destacando toda a sua beleza, permitindo também que eu enxergasse melhor parte de uma das suas andorinhas tatuadas. A sua mão, que fazia um carinho delicado na minha, possuía três anéis bastante exagerados que eu adorava. Eu amava cada pedaço do ser que Harry se tornara: seu estilo, sua personalidade e postura. Ninguém era como ele. Ninguém chegava aos pés dele, apesar de continuar, em partes, sendo o meu mesmo Harry de sempre. 

Era tão bom ter aquele tipo de momento com Harry, coisas corriqueiras, do dia a dia, que as vezes eu esquecia de que o mundo inteiro poderia compartilhar daquilo também. Eu havia feito um trato comigo mesma, resolvi que não me preocuparia tanto com as consequências de nossas atitudes, mas também não conseguia simplesmente não me importar. Eu sentia medo, medo de como reagiria as notícias, medo de agir feito covarde e acabarmos brigando de novo, medo porque eu não sabia até quando aquilo duraria, eu não sabia qual seria o rumo após o fim do sétimo dia e isso me assustava. 

Vez ou outra eu analisava nosso redor para ter certeza de que ninguém havia nos encontrado, o que não agradava a Harry, mas que também não contestava, pois entendia o que eu sentia, ou pelo menos tentava entender.  

, se eu tiver que te chamar mais uma vez, eu vou ter que levantar e te encher de cócegas em público. – reclamou – Olha pra mim! 

– Por favor, não faz cócegas em mim! 

– Agora você olha, né? – soltou uma risada – Não vou fazer, não aqui. – ergueu uma das sobrancelhas e sorriu maroto, levantando logo depois – Vamos?  

Harry chamou pela garçonete e pagou junto de uma quantia bem generosa de gorjetas. 

– Vamos aonde? – me pus a caminhar ao seu lado e entrelacei nossos dedos assim que ele buscou pela minha mão. 

– Acredita que eu nunca fiz um daqueles passeios de barco que passam bem pertinho da estátua da liberdade? – Harry soltou minha mão para que pudesse abrir a porta do carro para mim, entrando pelo outro lado logo em seguida – O que você acha? Gostaria de fazer esse passeio comigo? 

– Eu iria até a lua com você, Harry. – pensei alto, fazendo com que ele soltasse uma risada gostosa – Mas tem uma coisa... 

– E o que é? – questionou ao dar a partida no carro, descansando uma de suas mãos em minha coxa em seguida. 

– Você não acha que essas balsas que fazem esses passeios são muito... cheias? 

– Mas eu falei passeio de barco, não de balsa.  

– Mas balsas são barcos! 

– Mas nem todos os barcos são balsas! 

– Mas os passeios para a estátua geralmente são feitos em balsas! 

– Mas eu disse barco e não balsa!  

– Mas balsas são barcos, Harry. 

– Mas nem todos os barcos são balsas, 

No final das contas, Harry havia alugado um barco a velas muito charmoso, mas não entregou o jogo até que chegássemos ao local. O trajeto de carro até a baía do Porto de Nova Iorque demorou um pouco, mas o dia estava lindo, não estava tão frio e não havia uma nuvem no céu, fazendo cada segundo na estrada valer a pena.  

– Se você cair na água eu não vou te buscar não, deve estar congelando. – disse ao estender a mão para me ajudar a entrar no barco. 

– Obrigada amor, – respondi num tom debochado – você é muito gentil. 

– Eu iria até a lua pra te buscar, . – soltou uma risada ao usar minhas palavras de mais cedo, me abraçando assim que eu pisei com os dois pés no barco – Esse mar congelante não é nada pra mim, mas de preferência não cai nele e nem vai pra lua, ok? 

O homem responsável por conduzir o barco era muito simpático e bastante paciente, pois teve de aprender a usar a câmera analógica de Harry, o que era mais difícil do que parecia, e depois tirar uma série de pelo menos quinze fotos nossas em frente à estátua da liberdade. 

– Harry, por favor, me deixa em paz pelo menos na hora de comer! – disse após engolir o pedaço de sanduíche que eu estava mastigando.  

Estávamos sentados na proa fazendo um lanche enquanto o sol se punha, ou melhor, eu estava fazendo um lanche, já que Harry não havia comido o sanduíche, mas engolido de uma vez só de tanta fome, terminando a refeição antes de mim.  

– Mas é tão lindo o rosto... – riu, ainda apontando a câmera para mim.  

– Se você não fosse tão... tão... 

– Tão sexy. – completou, apontando a câmera para outro barco. 

– Isso. Se você não fosse tão sexy eu juro que encheria a sua cara de porrada. 

– Uau, agressiva, gostei, mas já que eu sou tão sexy e você não vai me bater, olha aqui pra câmera e sorria. – então voltou a direcionar a câmera para mim. 

Harry capturou a minha cara de tédio e o meu dedo médio apontado para ele. 

 – Ficou linda. Essa vou revelar e dar de presente para a mãe, ela vai amar. – Harry gargalhou por conta da minha cara de apavoro e deixou a câmera de lado, deitando em meu colo em seguida – Só não deixa cair pedaços de sanduíche em mim. 

– Eu sei comer de boca fechada, ok?  

– Não sei não...  

– Engraçadinho. – mostrei a língua – Agora aguenta o meu beijo de sanduíche. – me inclinei para frente até que conseguir encostar nossos lábios em um selinho. 

– Eu estava preparado para o pior, mas ainda bem que você me poupou dessa prova de amor que seria te beijar com sanduíche na boca. 

– Eca Harry! Eu não seria tão nojenta assim, além do mais, foi você que me fez te beijar com pizza de pepperoni na boca uma vez, lembra? 

– Lembro. Até o Niall, que ama pizza de pepperoni, achou nojento. – fez uma careta ao lembrar, rindo em seguida – A gente já viveu tanta coisa junto... as vezes fico pensando em tudo que poderíamos ter feito se... se nunca tivéssemos nos separado. 

– Não pensa nisso. – ao terminar o sanduíche, limpei minhas mãos e boca com um guardanapo. Com uma das mãos me apoiei na proa, inclinando meu corpo para trás para que captasse o calor dos últimos raios de sol do dia e fechei os olhos ao sentir o vento gostoso vindo do mar batendo contra o meu rosto. Com a outra mão iniciei um carinho em seus cabelos – Pensa no agora. 

– Você tá certa. – Harry beijou minha mão que lhe acariciava. 

– Eu sempre estou certa.  

Me estiquei para que conseguisse alcançar a câmera de Harry e bati uma foto sua deitado em meu colo. Adorávamos registrar nossos momentos, desde o nosso namoro. Tínhamos uma caixa enorme de papelão com diversos álbuns de fotos separados por mês e ano e desde o término eu guardara no sótão e nunca mais havia aberto, mas quando ainda estávamos juntos, volta e meia sentávamos no chão da sala e bebíamos o nosso vinho favorito de 7 libras enquanto recordávamos de todos aqueles momentos.  

Flashback 

– Eu amo essa daqui! – apontei para uma foto que eu mesma havia tirado do Harry no palco em seu primeiro show da White Skimo namorando comigo – Eu estava tão feliz! Me achando o máximo por ser namorada do vocalista da banda... 

– Eu gosto dessa... – Harry estava com outro álbum na mão e apontou para a foto a qual ele havia batido minha dormindo em sua cama perceptivelmente nua, mas com o lençol cobrindo parte do meu corpo – Me achando o máximo por ser namorado da garota mais linda do mundo. 

– Você é tão cafona. – segurei suas bochechas com uma mão e lhe dei um selinho.  

– E você adora. – sorriu e piscou para mim – Eu gosto bastante dessa... foi no backstage do nosso primeiro show.  

Eu amava aquela foto também. Eu estava no meio de Harry e Louis num sofá. Harry estava comendo uma banana e eu e Louis fazíamos caretas horríveis. Aquela imagem resumia bastante a gente.  

– Eu adoro as nossas fotos com o Lou, – ri ao encarar uma foto nossa nos bastidores do programa com o Louis aparecendo no canto direito mostrando o dedo do meio – porque ele nunca deixa elas saírem normais. 

– Ele é um retardado. – Harry disse ao encarar uma foto que Louis me abraçava, lambendo a minha bochecha – Mas não consigo não gostar dele. 

Virei mais algumas páginas de um dos nossos álbuns mais antigos e não tirei o sorriso do rosto um segundo sequer ao relembrar de momentos tão bons não só ao lado de Harry, mas ao lado de todas as pessoas as quais nos importávamos e amávamos.  

Aproveitando-se do meu momento de distração, Harry me puxou para cima de si, fazendo com que deitássemos no tapete da sala. 

– Imagina quando os álbuns começarem a ser preenchidos com fotos dos nossos filhos, ou quando os nossos filhos baterem fotos nossas, ou melhor ainda, imagina os nossos filhos procurando pelos nossos álbuns para mostrar para os seus filhos...  

– Filhos? Vamos ter mais de um? – apoiei meu queixo em seu peito, fitando o seu rosto. 

– Eu pensava em dois, um casal, o que você acha? – Harry deitou sua cabeça em um dos seus braços, para que pudesse me enxergar melhor e com a outra acariciava a lateral do meu tronco. 

– Eu acho que a gente pode ficar só no treino por enquanto. – respondi num tom sincero até demais, fazendo com que ambos rissem. 

– Então eu acho que tá na hora. 

– Na hora do que? 

– Do treino, oras. – e então lançou o seu sorriso mais cafajeste possível. 

– Ah, claro, eu quase havia me esquecido. – ri de sua tática – Mas vamos para o quarto, da última vez que treinamos no tapete da sala eu bati com a cabeça no na mesinha... – fiz uma careta ao relembrar do momento e Harry riu descaradamente na minha cara. 

– Você é muito tonta , deixa que eu te levo pra cama.   

Nos levantamos e logo Harry me pegou no colo, rumando para o corredor em seguida. Ao notar que havia esquecido o celular no chão da sala, retornou e tentou se agachar comigo no colo, esbarrando na garrafa de vinho aberta que estava em cima da mesa de centro. Harry acabou me soltando no chão e fazendo com que eu caísse de bunda de tanto que ríamos. O tapete estava com uma mancha enorme por conta do líquido roxo e não conseguíamos sequer levantar para limpar a sujeira. 

– E você ainda tem a coragem de me chamar de tonta! 

End of flaschback 

Harry abriu os olhos ao escutar o barulho da câmera e sorriu, me obrigando a bater outra foto sua. 

– Você ainda tem as fotos? – deitado em meu colo, contornou meu tronco com os braços, entrelaçando seus dedos um nos outros, me envolvendo em um tipo de abraço.  

– Uhum.  

– Precisamos de um álbum novo, não acha? 

Então me peguei pensando mais uma vez sobre o que aconteceria quando o último dia chegasse. Quando nos veríamos de novo? O que tudo aquilo significava? Curtíamos cada segundo do dia um com o outro e era inegável o quanto amávamos aquilo, mas não tínhamos parado para conversar sobre qual o resultado daqueles sete dias. Harry parecia estar disposto a voltar, mas nada de muito concreto havia sido estabelecido e Matthew esperava por mim em Manchester. Apesar de preferir não pensar em seu nome, o nosso relacionamento era uma questão que eu não poderia simplesmente ignorar quando retornasse para casa.  

Eu ainda era uma mulher casada.  

E o meu estômago embrulhava só de pensar em todos os problemas que eu enfrentaria quando as minhas férias no paraíso terminassem.  

– 

– Sim, eu acho que precisamos sim, me desculpa. 

– Estava pensando em algo?  

– Em nós. 

– É que por um momento... – Harry voltou a se sentar, ficando de frente para mim – por um momento pareceu estar triste. 

– Eu não estou triste, na realidade, completamente o oposto. – deitei ali mesmo, no chão de madeira do barco, e fiquei encarando o céu, agora completamente escuro, dando vez ao brilho das estrelas – Você me faz feliz, Harry. 

– Hey angel, do you know the reasons why we look up to the sky?  

Sua voz rouca cantarolou o verso numa melodia lenta e gostosa, o que fez com que cada pelo do meu corpo, dos pés à cabeça, se eriçassem. Harry deitou ao meu lado logo em seguida, deixando seu corpo bem próximo ao meu e entrelaçando os nossos dedos. 

– Hey angel, do you look at us and laugh when we hold on to the past? 

Voltei minha atenção para o seu rosto e ali, naquele momento, eu tive certeza do quão fodida eu estava. Harry possuía cada célula do meu corpo para si. Eu não conseguiria dizer adeus. Eu não queria ter que dizer adeus. 

– Hey angel... oh I wish I could could be more like you. – dirigiu o seu olhar do céu para o meu rosto, estabelecendo uma conexão visual – Do you wish you could be more like me? 

Eu sabia muito bem o que aquilo significava e por isso mexeu tanto comigo. Aquela não era só mais uma música, mas uma das músicas que havia composto sobre mim, sobre nós, e tê-lo ao meu lado cantando diretamente e somente para mim era como sonhar e não ter o desprazer de acordar e ver tudo aquilo se desfazer diante de si.  

– Hey angel, tell me do you ever try to come to the other side?  

Aproximei meu rosto do seu, colando nossos lábios num selinho demorado, fechando os olhos com força e torcendo para que quando os abrisse, Harry ainda estivesse ali. Não tive tempo parar abri-los para checar se ele realmente estava ali, mas seu corpo garantiu a sua presença ao se pôr em cima de mim, aprofundando o beijo por um curto tempo.  

– Hey angel, – manteve nossas testas coladas e os nossos lábios muito próximos – tell me, do you ever cry when we waste away our lives? 

Harry roçou o seu nariz no meu e sorriu de forma simples, cravando o seu olhar verde vívido no meu. 

– Oh I wish I could be more like you, do you wish you could be more like me?  

Assenti com a cabeça, mesmo sabendo que era apenas mais um verso, mesmo sabendo que não perguntava diretamente, porque eu queria, eu queria poder ser mais como ele. 

– Oh I wish I could be more like you... oh I wish I could be more, I could be more, I could be more.  

Voltei a buscar pela sua boca, pois não conseguiria segurar mais um segundo sequer sem beijá-lo. Minhas mãos seguravam o seu rosto só para ter certeza de que não escaparia de mim. 

– I see you at the bar, at the edge of my bed, – prosseguiu ao romper o beijo – backseat of my car, in the back of my head, I come alive when I hear your voice, it’s a beautiful sound, it’s a beautiful noise. 

– Eu te amo tanto, Harry... – as palavras saíram num sussurro. 

– Hey angel... do you look up to the sky? 

Meus braços envolveram seu pescoço o trazendo para mais perto, abraçando-o com força. De tudo aquilo que Harry expusera, só uma coisa não estava certa: ele era o anjo, não eu. Cada pedacinho de Harry, cada detalhe, o tom de sua voz, a profundidade do seu olhar, sua boa educação, seu cavalheirismo, aquilo tudo não poderia ser humano, ele era sim um anjo. 

– Eu também te amo, muito.  – saiu de cima de mim e descansou seu corpo ao meu lado – Você não sabe o quanto me deixa triste pensar na possibilidade de você duvidar do que eu sinto. – voltou a me observar – Nunca duvide do meu sentimento,

– Harry, eu não... 

– , não adianta, eu sei que você pensa sobre isso. – cortou minha fala sem deixar que eu continuasse – Eu te conheço muito bem. Depois de tudo o que aconteceu, a banda e eu ter me tornado quem eu sou hoje, você sempre achou brechas para pensar na possibilidade de eu não te amar mais por conta de novas pessoas que conheci ou que eu poderia vir conhecer em razão do meu status. Você não para de pensar sobre tudo o tempo todo e isso não te faz bem, faz com que você opte por fugir ou se esquivar de sentimentos, mas a questão é que a banda, a fama, o dinheiro, nada disso fez com que eu parasse de te amar ou te amasse menos. Muito pelo ao contrário, tudo isso me fez te querer mais! – Harry levantou para continuar seu discurso. Gesticulava bastante, estava um pouco exaltado, como se tudo aquilo estivesse guardado há muito tempo e precisasse desabafar, então voltei a me sentar para poder acompanhar melhor o que dizia – Porque eu poderia te oferecer mais conforto, poderia compartilhar e viver experiências diferentes ao teu lado, mas você nunca conseguiu enxergar! Tudo o que você fez foi refletir tanto, aí, dentro da sua cabeça, que acabou inventando uma teoria louca de que eu não queria que você estudasse, que eu queria te impedir de viver o seu sonho, sendo que eu sempre achei o máximo ter uma namorada tão inteligente como você, sempre te apoiei e nunca hesitei em falar o quanto me orgulhava... – Harry suspirou, apoiando uma mão na cintura e com a outra esfregou o rosto – Eu sei dos meus erros, . Você não sabe quantas vezes eu implorei sozinho na minha cama antes de dormir pra poder voltar no tempo, poder voltar no dia do nosso aniversário de dois anos. – eu já não conseguia encarar Harry e escutar tudo aquilo sem sentir o meu coração doer, fazendo com que as lágrimas fossem expulsas involuntariamente dos meus olhos – Eu tinha tudo, eu tinha dinheiro, as melhores roupas, amigos, festas, carros, mas nada daquilo poderia te trazer de volta, então tudo aquilo, por um tempo, perdeu o sentido. Eu tinha tudo, mas não tinha nada, porque você sempre foi tudo pra mim. Quando eu te vi naquela arena, eu... eu entrei num estado de choque, quase enlouqueci! Queria descer daquele palco e te abraçar, falar o quanto estava feliz de te ter ali de novo, mas eu não podia, porque você não era mais a minha ... Então você foi até mim e me falou sobre o desejo da minha mãe de que eu retornasse para casa, mas eu sabia... eu sabia que se aquele não fosse o seu desejo também, você não teria ido até lá aquela noite. Então eu me vi exatamente como você, pensando sobre tudo o tempo todo, pensando em todas as possibilidades de te rever, de te reconquistar, e quando eu tomei coragem para te trazer de volta para a minha vida, você estava prometida para o Matthew! – Harry andava de um lado para o outro, vez ou outra com as mãos na cabeça – Ainda assim, eu... eu deixei de lado tudo o que eu escutei sair da sua boca, eu deixei de lado a dor física de ter apanhado do cara que seria o seu homem e fui atrás de você... no seu casamento... porque eu não conseguiria seguir em frente se não visse aquilo com os meus próprios olhos, porque eu não queria conviver com o fato de que nunca lhe veria vestida do jeito que eu sempre quis te ver... – Harry parou em minha frente e respirou fundo, fechando os olhos por um breve momento, deixando com que algumas lágrimas escapassem pelos cantos – Então, por favor... você precisa acreditar em mim, e se caso em algum momento você voltar a duvidar, eu sempre vou ter uma composição pra te fazer lembrar o quanto eu me importo e penso em nós.  

– Harry, desculpa, eu... – me pus de pé, ficando em sua frente, na ponta dos pés, e enxuguei suas lágrimas – eu nem sei o que dizer. 

– Diz que volta pra mim. – pousou suas mãos em minha cintura e uniu seu corpo ao meu – , você aceita namorar comigo? 

– Você tá falando sério? – perguntei com um sorriso tolo no rosto – Mesmo? 

– Nunca falei tão sério em toda na minha vida! Talvez só quando te pedi em namoro pela primeira vez... 

– Aé? – franzi o cenho – E todas as vezes que você falou que me amava? Não estava falando sério? 

– Aí , dá um tempo! – Harry rolou os olhos e soltou uma risada – Você aceita namorar comigo ou não? 

– Harry Styles, eu aceito namorar com você. 

Eu estava dominada por um sentimento tão bom, me sentindo tão leve após escutar tudo o que o Harry tinha para me dizer, que eu acabei aceitando, sem pensar um segundo sequer nas consequências. Eu resolvi deixar os problemas pra depois, resolvi não deixar a culpa me invadir ou o rosto de Matthew me assombrar.  

Harry estava certo, o meu péssimo costume de pensar demais impedia com que eu fizesse as coisas que eu realmente queria fazer. Eu queria estar com ele e com mais ninguém e só Deus sabe que eu nunca conseguiria negar o pedido de Harry, não com aquele sorriso perfeito nos lábios e aqueles olhos verdes que me analisavam ansiosos pela minha resposta.  

Suas mãos fortes me ergueram fazendo com que os meus pés não tocassem mais o chão e aproveitei a deixa para enroscar as pernas em seu tronco, ficando em seu colo e então sua boca procurou pela minha em um de nossos beijos mais apaixonados. Meus dedos embrenharam-se nos fios de seu cabelo, os puxando como incentivo, e suas mãos faziam um carinho gostoso em minha coxa.  

– Eu sinto como se estivesse vivendo meus quinze anos de novo. – disse ao partir o beijo, puxando meu lábio inferior com os dentes e sorrindo em seguida.  

– Quando tínhamos quinze anos você não conseguia me pegar no colo assim...  

– Por que você sempre corta a minha onda, ?  

Harry fez a sua melhor cara de cachorro que caiu da mudança, fazendo com que eu enchesse todo o seu rosto de beijos. 

– Porque você não gostaria de mim se eu não fosse assim. – respondi ao final das centenas de beijos. 

Thirteen

They don’t know what we do best,
That’s between me and you, our little secret


Harry

 

  

Sua voz ecoando pelo quarto fez com que eu acordasse, mas não consegui me irritar, pois eu sabia que não existia despertador melhor do que as suas risadas.  

sentou em cima de mim, com uma perna em cada lado do meu corpo e, aos poucos, após esfregar os olhos o suficiente para que minha visão desembaçasse, pude ver seu sorriso, fazendo com que eu sorrisse automaticamente de volta. 

– Acordou cedo... – minha voz saiu mais rouca do que o habitual por conta do sono remanescente. 

– Cedo? É uma hora da tarde, Harry. 

– Mas fomos dormir às quatro da manhã! – contestei num resmungo. 

Em suas mãos haviam um cupcake maior do que o normal e, ocupando a mesa ao lado, algumas sacolas da padaria não muito longe dali. 

– Feliz dois dias de namoro! – disse com um sorriso brincalhão no rosto.   

– Dois dias – juntei minhas forças para que pudesse sentar e envolvi seu tronco com meus braços – e eu já não te aguento mais... 

As expressões que se formaram em seu rosto por causa da minha brincadeira eram impagáveis, o que me fez gargalhar, e o que a fez pensar bastante rápido, encarando o cupcake carregado de glace em suas mãos e o esfregando no meu rosto logo em seguida, fazendo com que meu corpo caísse para trás, deitando na cama novamente. 

– Você não fez isso... – disse desacreditado, enquanto as mãos de  tampavam a sua boca que formavam um perfeito ‘O’ encarando o que havia feito. 

Sua risada escapava entre seus dedos e antes que eu pudesse pensar no que fazer, fugiu de meu colo. Levantei no mesmo instante e corri atrás dela que, antes de conseguir se trancar no banheiro, foi presa pelos meus braços. Por mais que relutasse e tentasse se soltar, entre gargalhadas e pedidos de desculpa, esfreguei meu rosto no seu e o sujei por inteiro, procurando pelos seus lábios em seguida, para que todo aquele glace em nossas bocas não fosse desperdiçado.  

– Feliz dois dias de namoro... – disse assim que parti o beijo, buscando pelo seu lábio inferior com os dentes em seguida, o puxando para mais um.  

Eu não me lembrava qual a última vez que havia me sentido tão feliz como naqueles últimos dias. Era como se  possuísse luz própria, porque tudo ficava muito mais claro quando estava por perto. Poder amá-la do jeito que eu queria amá-la tornavam os dias mais leves e simples, nenhum problema era um grande problema de verdade, acordar cedo significava poder aproveitar melhor o dia ao seu lado e a vida parecia mais gostosa de se viver.  

– Harry, você precisa vestir uma roupa! – disse após o fim do segundo beijo, já com as pernas envoltas ao meu tronco, segurando-a em meu colo. 

– Você que tem que tirar a sua, – respondi como se fosse óbvio, caminhando em direção ao banheiro, segurando suas coxas firmemente – até porque precisamos de um banho, olha só o nosso estado!  

– Sujou o seu cabelo... – fez uma careta engraçada, rindo em seguida. 

– O cabelo é o de menos, olha bem pra minha cara! 

– Eu posso dar um jeito nisso... – e deu uma lambida em minha bochecha. 

– Por que não esfregou o cupcake no meu... 

– HARRY! – repreendeu e ambos rimos. 

Procuramos não demorar no banho, mas essa era sempre uma missão um tanto quanto complicada. Como controlar a vontade de agarrá-la se estava ali, diante de mim, completamente despida, com todas aquelas gotas de água contornando e destacando seu corpo? Eu não era tão forte assim... mas  conseguiu escapar, saindo do banho um pouco antes de mim.  

Ao retornar para o quarto com uma das toalhas ao redor do pescoço e a outra na cintura, já estava parcialmente vestida, mas com os cabelos ainda molhados, ajeitando a mesa.   

– Tive que esquentar praticamente tudo... – disse enquanto desembrulhava os croissants – não fica a mesma coisa, mas acho que ainda está bom. 

– Cansou da comida do hotel? – tirei a toalha dos meus ombros e a joguei na poltrona próxima dali, mantendo a da cintura e me sentando a mesa em seguida. 

– Não, a comida daqui é gostosa, mas acordei há algumas horas, perdi o sono e eu sabia que você não acordaria por nada antes do meio-dia, então resolvi trazer o café, que acabou sendo almoço, até você. 

 sentou-se à minha frente e bebericou seu café, sorrindo para mim, e então tudo sobre aquele momento se encaixou, propiciando uma visão perfeita. A luz do sol tocava parte de seu corpo, com toda a vista de Nova Iorque atrás de si, já que havia aberto as cortinas. Seu cabelo meio molhado, meio seco caía pelos seus ombros de maneira acidentalmente artística, pois não era proposital, estavam lindos, e seus olhos me fitavam com ternura, com o copo de papelão cobrindo parte de seu sorriso.  

– Não se mexe, nem um centímetro, ok? – com parte do croissant ainda na boca, minha voz havia soado engraçada.  

Levantei com certa pressa, procurando pela bolsa a qual guardava uma das minhas câmeras e ao encontrá-la, retornei à mesa, ficando em pé logo atrás da cadeira que eu antes sentava. Obtendo o ângulo perfeito, capturei aquele momento pelo qual havia criado tanto apreço, mas não pude prever que minha toalha cairia logo em seguida.  achou bastante graça da situação e a sua risada saiu frouxa, proporcionando outra fotografia incrível. 

– Pelo menos as fotos ficaram ótimas... – encolhi os ombros e me juntei a ela nas risadas, voltando a me sentar em seguida, deixando a câmera por ali mesmo.  

– Teriam ficado melhores se fosse eu quem estivesse com a câmera... – suas mãos estavam em sua barriga de tanto que ria, tornando impossível a missão de não rir também. 

– Isso se chama nu artístico, ok? Mais respeito. – fiz das minhas expressões as mais debochadas possíveis e as suas risadas perduraram por mais um tempo. 

– Ai meu Deus... – respirou fundo, recompondo-se, e voltou a me encarar com um resquício de riso nos lábios – eu te amo demais, sabia? 

– Sabia. – balancei a cabeça positivamente e dei um bom gole em meu café. 

– Só isso?  

– Só isso o que?  

– Sabia. – engrossou a voz na tentativa de me imitar. 

– Sabia o que? – insisti e  bufou, fazendo com que eu me segurasse ao máximo para manter as expressões sérias.  

– Que eu te amo!  

– Sabia.  

– Seu grande idiota! – com o cenho franzido e sua boca formando um bico tão grande que atravessaria a Times Square, eu não consegui mais prender as risadas – Tá rindo, é? Acha engraçado? 

– Acho, – fixei meus olhos nos seus – porque eu adoro quando você incorpora a  carente e mimada, me faz lembrar que pouca coisa mudou e do quanto eu te amo.  

Sua face amarrada foi se desfazendo, como se derretesse, e eu amava essa parte, a parte que a discussão acabava, sabendo que não passava de uma brincadeira. Conhecia muito bem com quem eu estava lidando e sabia dos seus jogos, eram os meus favoritos de jogar. Ela sabia que eu só queria provocar, eu sabia que ela só queria encrencar, e essas discussões de mentirinha eram o mais próximo que conseguíamos chegar de uma briga. Era divertido, porque sabíamos que era como se fosse uma cena, como se estivéssemos vivendo nossa própria comédia romântica e éramos ótimos naquilo, mas só eu sabia o quanto sentia falta de momentos como aquele, porque eu não conseguiria fazê-los com outra pessoa, porque só ela conhecia e só ela possuiria cem porcento do mais puro eu. 

– Então, decidiu o que vamos fazer hoje? – quis saber, mudando de assunto. 

– Ah, sobre isso, eu estive pensando... – seus olhos desviaram dos meus e buscaram por qualquer outro canto do cômodo, indicando que estava apreensiva – eu sei que não podemos ser vistos juntos, mas... 

– Quem disse que não podemos? – questionei sua afirmação e então voltou a me fitar. 

– Eu achei que... 

– Você não quer que sejamos vistos juntos? – senti um incomodo no peito pela primeira vez nos últimos dias. 

– Não, eu não... eu não disse isso! – a aflição em sua voz era nítida.  

– Então eu acho que ser vistos juntos não é mais um problema, já que, tecnicamente, estamos juntos, não acha?  

Eu queria, com todas as minhas forças, acreditar que  não escondia algo de mim. Ela possuía minha total confiança e por essa razão eu tentava me convencer de que todo aquele medo era por conta das notícias maldosas que viriam a surgir, mas toda vez que conversávamos sobre aquilo, por mais que eu tentasse ignorar, meu coração persistia em me avisar que havia alguma coisa errada. 

– Você está certo. – suspirou derrotada, levando uma das mãos à cabeça e trazendo sua franja para trás – Me desculpe, ok? Eu só estou com... medo. 

– Você não precisa estar, vai ficar tudo bem. – sorri de maneira que a tranquilizasse e, aparentemente, surtiu efeitos, pois sorriu de volta – E então, você ainda não me disse o que quer fazer... 

– Lembra o quanto gostávamos de patinar, não lembra? – falava como uma criança, que bolava toda uma história que parecesse convincente o suficiente para que pudesse ganhar o que tanto queria, e então eu assenti com a cabeça para que prosseguisse – E lembra que, toda vez que íamos até Londres, você me levava até o Museu de História Natural para patinarmos?  

– Lembro , eu participei do namoro tanto quanto você, sabe? – Inclusive, esse foi o encontro ideal que eu escolhi para um clipe da banda que você não assistiu porque terminou comigo, mas ela não precisava saber disso, pelo menos não agora.  

– Jura? – fingiu surpresa, colocando a mão no peito – Tinha esquecido desse pequeno detalhe. 

– Ei! Nem tão pequeno assim... – disse olhando para baixo, entre minhas pernas, fazendo com que soltasse uma gargalhada bastante alta e absurdamente gostosa. 

– É, é um baita de um detalhe, diga-se de passagem. 

– Um baita? – fechei os olhos momentaneamente e balancei a cabeça negativamente, tentando não rir, então voltei a encará-la – Um baita de um detalhe? Sério? É isso que você tem a dizer? Nem um imenso detalhe ou um detalhe colossal? Descomunal? Desmesurado detalhe? 

– Eu fui péssima, eu sei, mas você conseguiu superar! – acusou entre risadas. 

– Qual é... um baita? Esse não pode ser o seu melhor adjetivo para o garotão aqui...  

– O garotão aí... – deu uma espiada por cima da mesa ao se levantar, antes que caminhasse até as malas para que terminasse de se vestir – precisa se agasalhar antes que congele. 

– O garotão aqui é um espírito livre, não gosta de estar limitado a um pedaço de pano imposto pela sociedade. 

– Oh, então você vai patinar no gelo com esse... detalhezinho a mostra? – voltou sua atenção para mim, de braços cruzados – Não me deixe esquecer a câmera! 

– Ei, já conversamos sobre isso e entramos num consenso! – contestei num tom um tanto quanto afetado – Sabemos muito bem que ele não é o tipo de detalhe que passa despercebido. 

– Mas no frio que está fazendo lá fora, o seu espírito livre... 

– Ok, você ganhou. – concordei antes que finalizasse sua frase, me dirigindo até a mala, e então sorriu vitoriosa. 

*
 

– Ainda calça 37? – vasculhava as prateleiras a procura dos melhores pares de patins. 

– Não, não, uso 42 agora.  

– Uau, a sua puberdade deve ter sido uma loucura.           

soltou uma gargalhada tão alta que me deu um susto, fazendo com que eu voltasse a minha atenção a ela com os olhos arregalados, rindo também. 

– São os hormônios, sabe? Incontroláveis. 

– Sei sim, conheço bem esses hormônios... 

 esperava sentada em um banquinho e me encarava de forma divertida, com uma das sobrancelhas arqueadas e um sorriso brincalhão no rosto enquanto eu caminhava em sua direção com dois pares de patins em mãos, agachando a sua frente para que pudesse ajudá-la a calçar os seus.  

– Já levou alguma outra garota pra patinar? – seus olhos agora me fitavam sérios e eu pude notar a ansiedade presente, esperando pela resposta. 

– Não. – respondi olhando em seus olhos, então voltei minha atenção para seus pés, dando um laço forte em um de seus patins – E você? Patinou com o... 

– Não. – não deixou com que eu terminasse a frase – A última vez que eu patinei foi com você. 

– Mesmo? – voltei a pousar meus olhos nos seus após dar o laço no outro patins, visivelmente surpreso – Eu patinei algumas vezes, mas não num... encontro. – sentei ao seu lado para que pudesse vestir os meus – Nunca achei que pararia de patinar, sempre gostou tanto. 

– Ah, não teria tanta graça... – encolheu os ombros, sorrindo torto, e então levantou, se abaixando em minha frente para que pudesse me ajudar, como costumávamos fazer.  

– Então hoje vai ser divertido, como nos velhos tempos!  

– Nos velhos tempos eu tinha prática, agora vai ser um desastre... – levantou assim que ambos estávamos calçados e preparados – Vamos? – estendeu a mão para mim. 

O Rockefeller Rink era um dos locais mais procurados pelos turistas em Nova Iorque. Todos queriam patinar no gelo naquele rinque em específico e  não era exceção. Estava tão feliz com a ideia de patinar naquele lugar que não pareceu mais estar preocupada com as centenas de pessoas que estariam ou passariam por lá, ou talvez não tivesse lembrado desse detalhe.  

Mas, inevitavelmente, ela lembrou. 

Dezenas de pares de olhos pousaram em nós assim que encostamos a ponta da lâmina dos patins no gelo, nos seguindo enquanto deslizávamos de um lado para o outro. Uma garota chegou a cair assim que me viu cruzar o seu caminho e, obviamente, lhe ajudei a levantar, posando ao seu lado para uma foto, logo depois.  

– Eu não a culpo, – patinava de costas, com os braços para trás, olhando para mim que patinava em sua direção com a câmera em mãos, apontada para ela – eu também levaria um tombo se te encontrasse num rinque todo lindo desse jeito... 

Me olhava de maneira travessa, fazendo surgir uma vontade imensa de agarrá-la, ali mesmo, até dar meia volta com os patins, tornando a patinar de frente e ficando de costas para mim. Sem conseguir tirar o sorriso besta do rosto por conta de seu comentário, soltei a câmera presa ao pescoço pela alça e imprimi certa velocidade em meus passos para que a alcançasse. 

– Nem parece que ficou cinco anos sem patinar, continua melhor do que eu...  

– Continuo, não é? – sorriu brincalhona e pegou em minha mão, entrelaçando nossos dedos – Achei que fosse ser difícil, mas é como andar de bicicleta, nunca se esquece. 

“Eu não acredito, eles estão juntos de novo!”. 

“É ela mesmo? É a ?”. 

“Mas achei que ela estivesse casada...”. 

– Harry, eu... – parou abruptamente após escutar alguns cochichos e fechou os olhos com força por causa do flash bastante forte que veio em nossa direção. 

– Ei, ei! – parei em sua frente, impedindo a visão do fotógrafo sobre ela – Eu tô aqui, ok? Fica tranquila. 

– Vocês são bons nisso! – a voz masculina falava conosco, e então pude ouvir mais alguns cliques da câmera. 

Inclinei meu corpo para que me aproximasse mais de , deixando minha boca bem próxima ao seu ouvido. 

– Se ele acha que somos bons patinando, é porque nunca nos viu na cama

Assim que as palavras foram sussurradas em seu ouvido, ela ficou tão nervosa que se desequilibrou mesmo estando parada, caindo pela primeira vez e de bunda, com o rosto completamente vermelho. Achei que  fosse me matar, porque eu simplesmente não conseguia parar de rir, mas não simplesmente rir, gargalhar!  

Tratei de ligar a câmera antes que resolvesse levantar e registrei a sua cara nada feliz, mas, o que eu não pude prever, é que passaria um dos pés por trás de um dos meus patins, fazendo com que a minha bunda tivesse o mesmo destino que a sua: o gelo. 

Os flashes foram inevitáveis, assim como as risadas da grande maioria presente. Diferente do que  provavelmente imaginava, ter feito eu cair não me fez ficar bravo ou emburrado, mas rir ainda mais.  

Seus lábios pressionavam um ao outro, na tentativa de segurar os risos, mas não conseguiria censurá-los por muito tempo. Deu um tapa consideravelmente forte em meu braço e então, finalmente, se permitiu rir.  

– Idiota. – resmungou, levantando e estendendo a mão para mim logo depois, falando baixinho assim que nossos corpos tornaram a ficar frente a frente – Eles poderiam ter escutado...  

– Nah... – sorri sem mostrar os dentes, levando minha mão até a sua nuca e trazendo seu rosto para mais perto, deixando um beijo em sua testa – mas se escutassem... não é como se fosse um segredo, é o óbvio. 

 soltou uma risada, enquanto balançava a cabeça negativamente. Dei de ombros e deslizei no gelo, me afastando minimamente, fazendo um movimento com a cabeça, apontando para a saída.  

– Vamos? Acho que a hora está acabando e eu queria que conhecesse um lugar...  

 

Eu não lembrava o quão rápido as notícias poderiam correr, até receber uma ligação de Gemma vinte minutos após deixarmos o Rockefeller Rink. 

– Vocês simplesmente resolveram voltar e não me avisaram?  

Tive de afastar o celular da orelha, Gem falava tão alto que Harry conseguia escuta-la sem dificuldades, mas, ainda assim, pus no vivo-a-voz para que ambos pudessem responde-la.  

– Estivemos bastante ocupados, sabe? – Harry quis provocar – Não é como se tivéssemos tido tempo ou lembrado de te avisar, afinal, são cinco anos perdidos a serem recuperados... 

– Quanta audácia, Harry Styles. Eu não precisava saber da rotina sórdida de vocês, eu só esperava o mínimo de consideração! Eu sou... 

– A nossa fã número um... – falamos juntos e um “isso mesmo” soou do outro lado da linha. 

– Nós sabemos, Gem. – me dispus a falar – Desculpe não ter te avisado antes, mas eu nem saberia como fazer isso, na realidade. 

– Oi amiga, tudo bem? Eu voltei a pegar o seu irmão! – narrou num tom bastante debochado. 

– Pegar não, namorar.  Respeita a nossa história. 

Harry desviara sua atenção da estrada por um segundo e piscou para mim. Um sorriso inevitável surgira no canto dos meus lábios, fazendo com que, por um certo período, eu não desse importância para os surtos de Gemma do outro lado da linha. 

– NAMORAR? – tive de abaixar o volume da ligação por conta do grito que se seguiu – É oficial? Vocês estão namorando? Aí meu Deus! Eu tô tão feliz, vocês não têm ideia... 

– A gente tem sim... – Harry fez uma cara de tédio que me fez rir.   

– Para de ser chato pirralho e vê se agora não esquece a data! Anotou direitinho? 

– Ih... – disse assim que estacionou o carro, coçando a nuca – Que dia era mesmo?  

– Idiota. – foi a vez de Gemma e eu falarmos juntas. Harry pareceu achar bastante graça. 

– É brincadeira, é brincadeira! – pôs as mãos para o alto como se estivesse se rendendo, mesmo que Gemma não pudesse ver – Eu lembro sim a data e nunca mais vou esquecer, prometo.   

– Espero que isso não seja um sonho... isso não é um sonho, né? – pareceu pensar alto – Amo vocês!  

Assim que a ligação foi finalizada, Harry balançava a cabeça de um lado para o outro enquanto ria. 

– Eu achei que a essa altura ela já soubesse há um bom tempo, achei que a mãe teria contado a ela...  

– Anne já sabe? – questionei curiosa. 

– Soube na mesma noite e a reação foi praticamente igual a de Gemma. – o sorriso em seu rosto fazia destacar a sua covinha, o que me fez derreter um pouco por dentro – Ela mandou um beijo, inclusive.  

Harry alcançou a bolsa a qual guardava sua máquina fotográfica no banco de trás e saiu do carro. Abriu a porta para mim, como de costume, e foi até o porta malas, pegando outra bolsa um pouco maior do que a que já carregava.  

Estávamos em frente a um prédio de faixada simples, composta tijolinhos cinzas e um letreiro luminoso na cor vermelha. 

Picturehouse+thesmalldarkroom. 

– Quer ajuda com alguma das bolsas?  

– Não, tudo bem, mas poderia abrir a porta pra mim? 

Girei a maçaneta e segurei a porta para que Harry entrasse, murmurando um ‘obrigado’ ao passar por mim. Entrei logo após e fechei a porta, me permitindo analisar o ambiente onde estávamos. A sala possuía um formato retangular e iluminação um pouco mais fraca que o habitual, era bastante ampla, com todas as paredes pintadas de preto e grande parte coberta por fotografias de diversos tamanhos diferentes. Quatro mesas ocupavam o centro, enfileiradas, cheias de papéis e recipientes lotados de lápis, luminárias, canetas e alguns utensílios os quais eu não conhecia. Possuíam também mais fotografias e algumas câmeras. Já os móveis eram despojados, nada do estilo planejado. Havia um balcão num canto e duas estantes metálicas enormes em outra parede, abarrotadas dos mais diversos tipos de câmeras antigas e, numa delas, na penúltima prateleira, as câmeras dividiam o espaço com alguns CDs. Próximo a essa mesma estante, um aparelho de som – nada moderno, emitindo um ruído estranhamente gostoso junto da música – tocava algo instrumental que eu precisava saber o nome. Também havia um toca-discos acompanhado de uma caixa cheia de vinis em seus estojos e algumas poltronas de formatos, tamanhos e cores diferentes, uma marrom, outra azul-marinho e a terceira num vermelho bordô. Tudo colaborava com a proposta do local, mesmo que despropositadamente, num bagunçado organizado que tornava ambiente acolhedor.  

– Harry! – um homem que aparentava estar em seus quarenta e poucos anos, com os braços repletos de tatuagem os quais apoiavam um casaco pesado, caminhou em nossa direção com um sorriso nos lábios – Que bom que você chegou enquanto eu ainda estava aqui! Mas ainda tem a chave, não? 

            Harry tirou um molho de chaves do bolso da sua calça e o chacoalhou, voltando a guarda-lo em seguida. 

– Ótimo! – exclamou após dar um abraço em Harry e então pousou seu olhar em mim.  

– Anthony, essa é a . – Harry nos introduziu, deixando as bolsas em cima da terceira mesa da esquerda para direita. 

– Oh! – a surpresa estampava seu rosto, dando espaço para sorriso largo um tempo depois – Aquela ? – Anthony voltou sua atenção para Harry, que também sorria com ambas mãos na cintura, olhando em nossa direção.  

– The one and only.  

– É um prazer finalmente te conhecer! – repetiu o ato que fizera com Harry, me abraçando – Sou Anthony, mas você pode me chamar de Tony.  

– O prazer é meu, Tony. – o abraço se partira e o sorriso simpático permanecia em seu rosto – Então quer dizer que o Harry falou sobre mim?  

– Ah, certamente que sim... – Harry escondeu o rosto com uma das mãos e virou de costas para nós no mesmo instante, visivelmente constrangido – Você é a captura favorita das lentes desse garotão aí... 

– Oh, fique quieto Tony, por favor! – Harry voltara a nos encarar. Possuía um sorriso tímido nos lábios e em suas bochechas um leve rubor – Você não sabe o quão presunçoso esse indivíduo aparentemente inofensivo pode ser... – referiu-se a mim e não pude evitar soltar uma risada.  

– Excelente! Isso significa que tornei as coisas mais divertidas para vocês... – seu olhar continha uma certa malicia, mas de forma sutil. Anthony vestiu o casaco que antes segurava enquanto caminhava em direção a porta – Fiquem à vontade, eu já vou indo. 

– Obrigado Tony. – acenou com uma mão enquanto a outra se apoiava na mesa.  

Assim que Anthony saiu, trancando a porta pelo lado de fora, o encarei com um ar de vitória, de braços cruzados. 

– O que foi? – imitou meu gesto, cruzando os braços. 

– Pra quem tinha me superado, andou falando demais por aí... 

– Tony me paga. – revirou os olhos e soltou os braços, me fazendo rir.  

Harry caminhou até uma das estantes e vasculhou entre os CDs, soltando um sonoro “a-há” ao encontrar o que procurava. Abriu a embalagem plástica e retirou o disco de dentro, inserindo-o no aparelho.  

– Eu gosto muito desse CD. – tirava o sobretudo ainda de costas para mim, enquanto analisava algumas câmeras – O próprio Tony gravou as músicas nele e eu só escuto quando venho aqui, é como um ritual.  

– Eu adorei esse lugar, mas... – Harry voltara a me fitar, caminhando em direção a mesa a qual deixara suas bolsas, deixando também o seu sobretudo – não entendi para o que serve exatamente, é um estúdio?  

– Tony é fotógrafo. – Harry soltou uma risada ao se deparar com as minhas expressões que diziam um “ah, jura?” por si só – Mas ele também trata e restaura fotografias antigas e disponibiliza laboratórios para revelação. 

Com a cabeça, Harry apontou para uma porta na qual possuía entalhado na madeira “the small dark room”.  

– E é para isso que viemos aqui. – abriu o zíper da bolsa maior, retirando de lá de dentro diversos filmes – Revelar as fotos desses últimos cinco dias e... – pôs sua mão dentro da bolsa novamente, mas dessa vez pegando algo que parecia com um caderno, de capa de couro preto, grande e vistoso – dar início ao próximo álbum. 

Harry entregou em minhas mãos e a admiração se manifestava através de minhas expressões, maravilhada. O couro era costurado a mão e o acabamento impecável. Na capa estava gravado “November, 2016” numa fonte muito bonita na cor bronze e, na parte de dentro, no verso da capa, um bilhete escrito a mão estava preso por um pedaço de fita adesiva e possuía a caligrafia de Harry.  

“To our new memories. 

May these moments never end,  

just like the two of us. 

All The Love, H.”

 

Seu queixo estava apoiado em meu ombro e seus braços envolviam meu corpo, me abraçando por trás, intercalando seu olhar entre meu rosto e o álbum, enquanto eu relia o bilhete pela sétima vez.   

Ao dirigir minha atenção para o seu rosto, tornando a distância entre nós mínima, seus dentes buscaram pelo meu lábio inferior e o puxara, unindo nossas bocas num beijo ligeiro, sem que o contato visual se quebrasse. 

– Você é mesmo real? – minha pergunta saiu num sopro, baixinho, fazendo com que a cabeça ainda apoiada em meu ombro pendesse levemente para o lado, abrindo um sorrindo em seguida.  

– Mais do que real. – roçou seu nariz no meu, deixando mais um beijo em meus lábios – Eu sou seu. 

– Espero que isso não seja um sonho mesmo... – fiz das palavras de Gemma as minhas e Harry riu pelo nariz, balançando a cabeça negativamente e plantando um beijo em minha testa antes de se afastar. 

– Mas antes de começarmos a revelar... – buscou pela câmera em sua bolsa antes que continuasse a falar – Eu ainda tenho um filme.  

Não houve um canto daquele lugar que passou despercebido pelas lentes da câmera. Ora Harry batia as fotos, ora eu. Cada um posou com o toca-discos e os vinis, com as câmeras antigas e com os filmes que aguardavam ser revelados, assim como caçoando as fotografias de estranhos nas paredes. Harry sentou como um lorde numa de suas fotos na poltrona e todo esparramado como um astro de rap em outra, tirando a câmera de minhas mãos logo depois e pedindo para que eu deitasse nos braços da poltrona que restara sem fotos, tudo ao som do CD que tanto adorava e que realmente era incrível.  

No último frame da última tira de filme disponível, Harry apontou a câmera para nós, estávamos lado a lado, enquanto fazíamos caretas maliciosas em frente a porta do laboratório, dando outro sentido ao dark room ali escrito. 

– Esse vai ser o melhor álbum até agora! – olhava os frames após retirar o rolo da câmera, juntando aos outros filmes em seguida – Enquanto eu começo a preparar as coisas... – pegou o molho de chaves em seu bolso e jogou para mim, seguido da sua carteira – tem um restaurante de comida chinesa do outro lado da rua, o meu yakisoba é de legumes, ok? 

Passado todo o processo químico de revelação das fotografias, o qual Harry visivelmente realizara com muita cautela e paixão, e estando elas todas estendidas no varal no interior do laboratório, sentamos nas poltronas para que pudéssemos jantar.  

– Como vocês se conheceram? Digo, você e o Anthony. – quis saber curiosa, com a tigela de shitake entre as pernas cruzadas como índio.  

– Tony é pai de uma menininha linda... – apontou para uma das fotos na parede de uma menina negra que aparentava ter entre oito e dez anos – Adotou Ashia sozinho durante uma ação voluntária na Somália e assim que veio para cá, ela escutou uma das músicas da banda e virou nossa fã. Coincidentemente, alguns meses depois, Anthony foi chamado pra fotografar um dos nossos shows aqui, em Nova Iorque. – deixou sua tigela, agora vazia, de lado, dando um bom gole em sua água – Mas antes que o show começasse, ele perguntou se poderia levar Ashia no backstage e deixamos que eles entrassem. Ele contou a história dela e eu comentei sobre a ação que realizaríamos na África... – recordava do momento com um brilho diferente nos olhos, o que me enchia de orgulho. Harry sempre fora uma pessoa muito empática e solidária e aquela só era uma, dentre as diversas causas que abraçara – Bom, pegamos o contato um do outro, ele me apresentou a picture house, viramos bons amigos e acabei convidando ele para registrar a experiência da banda na viagem à Gana.  

Harry levantou, caminhou até o balcão e trouxe até mim um quadro, ali antes pendurado, com uma foto dos dois entre diversas crianças numa comunidade visivelmente carente. Havia uma dedicatória de Harry escrita no canto superior esquerdo. 

– Meu Deus, garoto, você tem algum defeito? – questionei num falso tom irritado e Harry riu enquanto andava até o balcão para colocar o quadro de onde retirara.  

– Hm, deixa eu pensar... – ponderou ao caminhar em minha direção, pegando em minha mão e me guiando para o laboratório em seguida. Abriu a porta da pequena sala e fechou assim que eu passei por ela.  – Ah, eu tenho quatro mamilos!  

– Fala sério, isso nem é um defeito. – passei pelas fotos enfileiradas, olhando, e encostei as costas na parede, próxima à mesa onde se fazia a revelação e abaixo da lâmpada vermelha, cruzando os braços – Eu, particularmente, sempre achei um charme.  

Harry pareceu achar engraçado, mas estava tão concentrado em uma foto minha, que não dera tanta atenção assim para o que eu dissera. Passava sutil e delicadamente o dedo indicador por todo o meu corpo estampado no papel fotográfico, sorrindo para si mesmo. 

(play Show Me – Alina Baraz & Galimatias)
 

Uma batida proveniente do aparelho de som na sala vibrava deliciosamente em nossos ouvidos, mesmo que abafada pela porta, pois encontrara brechas pelas frestas. Harry se virou para mim e rearranjou os lábios num sorriso lascivo, permitindo-se demorar em sua análise sobre mim. Eu pude sentir o peso do seu olhar, passeando pelas minhas curvas lenta e meticulosamente, fazendo com que um arrepio se formasse no início da minha espinha e passeasse por todo meu corpo até os meus pés. Era uma sensação gostosa. Harry causava isso em mim. 

  

Rising like the smoke, you linger on me 

(Subindo como fumaça, você permanece em mim) 

You got me so high, I can finally breathe 

(Você me deixou tão alucinada, eu finalmente posso respirar) 

You're walking poetry 

(Você é uma poesia que anda) 

It's what you do to me, it’s what you do to me 

(É o que você faz comigo, é o que você faz comigo)

 

  

Em seu estudo, Harry descobriu muito mais do que traços antes desconhecidos ou despercebidos, mas sensações. Com o seu olhar sob mim, me fazia um carinho gostoso, me abraçava forte, sussurrava diversos versos em meus ouvidos, eu podia escutá-lo, seus olhos me diziam.  

Nos amávamos calados.   

  

Touch me with no hands 

(Me toque sem as mãos) 

Hold me with your eyes 

(Me segure com seus olhos) 

Unwind me with your mind tonight 

(Me relaxe com a sua mente hoje à noite) 

Speak with no words 

(Fale sem palavras) 

Show me and I'm all yours 

(Me mostre e eu sou toda sua) 

Show me and I'm all yours 

(Me mostre e eu sou toda sua)

 

  

Instintivamente, de maneira quase que involuntária, minhas mãos deslizaram até a barra da camiseta  que eu vestia, puxando-a para cima sem pressa, deixando com que escorregasse entre meus dedos e caísse no chão. Uma de suas sobrancelhas se erguera de um modo quase que imperceptível enquanto explorava visualmente a pele exposta do meu tronco. Sua língua umedeceu seu lábio inferior devagar num ato torturante e sua boca soltou o ar que antes ocupavam seus pulmões.  

  

All that you are is all that I need 

(Tudo o que você é, é tudo o que eu preciso) 

Rising like the smoke, you linger on me 

(Subindo como fumaça, você permanece em mim) 

All that you are is all that I need 

(Tudo o que você é, é tudo o que eu preciso) 

Rising like the smoke, you linger on me 

(Subindo como fumaça, você permanece em mim)

 

  

Harry deu dois passos à frente, diminuindo a distância existente entre nós. À medida que meus dedos desciam o zíper da calça que eu vestia, Harry desabotoava sem pressa sua camisa, deixando com que deslizasse pelos seus ombros até encontrar o chão. Eu nunca me acostumaria com a visão de seu corpo, seus músculos suavemente definidos e os desenhos marcados em sua pele, contanto histórias, dizendo tanto sobre si... eu jamais conseguiria controlar a reação que o seu físico provocava em mim. 

  

You got me so high, I can finally breathe 

(Você me deixa tão alucinado, eu finalmente posso respirar) 

Finally breathe, I can finally breathe 

(Finalmente respirar, eu posso finalmente respirar) 

You got me so high, I can finally breathe 

(Você me deixa tão alucinado, eu finalmente posso respirar) 

Finally breathe, I can finally breathe 

(Finalmente respirar, eu posso finalmente respirar) 

And I'm all yours, all yours, and I'm all yours 

(E eu sou toda sua, toda sua, e eu sou toda sua) 

Show me 

(Me mostre) 

I’m all yours, all yours, and I’m all yours 

(Eu sou toda sua, toda sua, e eu sou toda sua)

 

  

Mais um passo. A distância agora era tão pouca que podia sentir o calor que seu corpo emanava, assim como sua respiração que batia em meu rosto, fazendo com que eu pendesse a cabeça para trás, encostando-a na parede. Fechei os olhos por alguns segundos, desfrutando daquela atmosfera criada entre nós e ao abri-los, os seus, num verde que se tornara ardente ao se misturar com os feixes vermelhos da lâmpada acima de nós, me fitavam transbordando desejo, gritando silenciosamente o quanto me queriam.  

Harry, muitas vezes, dizia mais sobre si com seus olhos do que com a própria voz. Expressivos, sinceros, vívidos, seus olhos verdes me diziam tudo o que eu queria saber. Ele nunca conseguiu esconder seus sentimentos, pelo menos não para mim, pois seu olhar sempre deixava escapar o que o seu coração sentia e eu amava desvendar os seus segredos, tendo a certeza de que ninguém o conhecia mais do que eu.  

                         

All that you are is all that I need 

(Tudo o que você é, é tudo o que eu preciso) 

Sunset in your eyes 

(Pôr do sol em seus olhos) 

Light me with your loving 

(Me ilumine com o seu amor) 

I'm searching for the thrill 

(Eu estou procurando pela emoção) 

It's you, you make me feel 

(É você, você me faz sentir) 

You make me feel 

(Você me faz sentir)

 

             

Harry apoiou suas mãos na parede, uma de cada lado da minha cabeça, mas não se permitiu encostar qualquer parte do seu corpo no meu, enquanto as minhas procuraram pelo botão da sua calça. O contato dos meus dedos gelados com a sua pele quente fez com que fechasse os olhos com força e deixasse escapar um gemido baixinho, mantendo-os fechados até que eu a tirasse por completo.  

  

 

Touch me with no hands 

(Me toque sem as mãos) 

Hold me with your eyes 

(Me segure com seus olhos) 

Unwind me with your mind tonight 

(Me relaxe com a sua mente hoje à noite) 

Speak with no words 

(Fale sem palavras) 

Show me and I'm all yours 

(Me mostre e eu sou toda sua) 

Show me and I'm all yours 

(Me mostre e eu sou toda sua)

 

  

– All that you are is all that I need… – sua voz rouca soava cada vez mais próxima, até que nossas testas se encostaram – rising like the smoke, you linger on me.  

Uma de suas mãos se afastou da parede e tocaram delicadamente os meus ombros, traçando uma trilha até o fim das minhas costas, espalmando-a ali, trazendo meu corpo para próximo do seu e eliminando qualquer resquício de distância. 

 

All that you are is all that I need 

(Tudo o que você é, é tudo o que eu preciso) 

Rising like the smoke, you linger on me 

(Subindo como fumaça, você permanece em mim) 

            You got me so high, I can finally breathe 

(Você me deixa tão alucinado, eu finalmente posso respirar) 

Finally breathe, I can finally breathe 

(Finalmente respirar, eu posso finalmente respirar) 

You got me so high, I can finally breathe 

(Você me deixa tão alucinado, eu finalmente posso respirar) 

Finally breathe, I can finally breathe 

(Finalmente respirar, eu posso finalmente respirar) 

 

  

Harry contornou meus lábios com a sua língua e em minha tentativa de unir nossas bocas por completo, se afastou minimamente. O sorriso malicioso que se formara em seu rosto era uma resposta muda a minha visível insatisfação por conta do espaço que criara entre nossos lábios, mas minha mão buscou pela sua nuca, conduzindo seu rosto para perto do meu, unindo nossas bocas, finalmente, num beijo.  

Eu não queria mais brincar. 

Eu pertencia a ele, por completo. Harry já havia me mostrado em todos os minutos desde que nos reencontramos, o quanto me queria e a reciprocidade de cada sentimento que existia dentro de mim em relação a nós.  

             

And I'm all yours, all yours, and I'm all yours 

(E eu sou toda sua, toda sua, e eu sou toda sua) 

Show me 

(Me mostre) 

I’m all yours, all yours, and I’m all yours 

(Eu sou toda sua, toda sua, e eu sou toda sua)

 

 

Durante o beijo fiz com que trocássemos de lugar, colocando Harry contra a parede. Com os dentes, puxei seu lábio inferior, finalizando o beijo, e nossos olhos voltaram a se encontrar, sorrindo um para o outro. A música que havia nos envolvido naquele momento chegou ao fim, dando início a outra que possuía um ritmo agradável e bastante parecido com ao da anterior, nos incentivando a continuar o que havíamos começado. Meus lábios escorregaram de sua boca por todo seu maxilar, pescoço, ombros, deixando ali algumas mordidinhas, rumando para o seu peito. Em seguida, minha língua passeou por toda a extensão de seu tronco, descendo até a altura dos ramos tatuados, enquanto seus dedos se emaranhavam em meus cabelos. Seus olhos mantiveram-se fechados por todo o trajeto, mas ao abri-los, fitando-me de joelhos em sua frente, seus lábios moldaram um sorriso sem que mostrasse os dentes. Harry estava visivelmente animado ante a situação e assim que minhas mãos puxaram sua peça íntima para baixo, retirando-a por completo, as suas agarraram meus cabelos com mais força.  

Envolvi seu membro com uma das mãos, masturbando-o, e um gemido rouco escapou de sua boca que permanecera entreaberta, puxando e soltando o ar pesadamente. Ao envolve-lo com minha boca, auxiliando nos movimentos, Harry inclinou sua cabeça para trás, recostando na parede. Vez ou outra contornava sua glande com a língua, deslizando-a por todo o restante do membro, voltando a chupá-lo por completo, logo em seguida. Nada conseguia ser mais prazeroso do que vê-lo se contorcer de tesão em razão dos meus atos, a não ser, talvez, quando nossos corpos se fundiam num só. Nos saciávamos apenas com a completa satisfação do outro, o que tornava o sexo igualmente incrível para ambos.  

Seus gemidos, agora constantes, excitavam cada célula do meu corpo. Toda vez que chamava pelo meu nome a vontade de tê-lo dentro de mim crescia. Minha intimidade pulsava, precisava dele, mas eu não conseguiria simplesmente parar o que estava fazendo, Harry era viciante e eu amava encará-lo enquanto o chupava, tão entregue a mim. Porém, foi uma questão de tempo, pouquíssimo tempo, aliás, como se soubesse que meu corpo clamava pelo estímulo do seu, me puxou para si pelos cabelos e voltou a unir nossos lábios num beijo exagerado. Com apenas uma das mãos, sem partir o contato de nossos lábios, arrancou minha calcinha e me ergueu pela cintura, fazendo com que eu sentasse na ponta da única mesa do cômodo, ao lado dos materiais de revelação.  

Harry rompeu o beijo e fez com que sua língua traçasse um caminho, entre chupões e mordidas, até meus seios já descobertos, pois não estava usando sutiã, ao passo que sua mão alcançara minha intimidade, friccionando meu clitóris com precisão, fazendo com que meu corpo explodisse em sensações e soltasse um gemido alto, sem restrições.  

Após se deliciar o bastante com meus seios, Harry agachou em minha frente, afastando minhas pernas o suficiente e, sem enrolações, passou a língua por toda a minha intimidade completamente encharcada, revezando entre lamber, chupar e penetrar dois de seus dedos em minha entrada.  

 For fuck’s sake, Harry! – bradei desesperada, enquanto minhas mãos agarravam seus cabelos com força. 

Harry sorriu travesso, ainda entre minhas pernas, com seus olhos fixos nos meus, deixando um beijo onde antes chupava. Num ato ágil, me puxou para fora da mesa, colocando meu corpo de frente para a parede, posicionando-se atrás de mim. Enquanto eu apoiava ambas as mãos na parede, senti o ar quente que escapava de sua boca bater próximo ao meu ouvido, fazendo com que eu me arrepiasse. 

– Preparada?  

Antes que eu pudesse ao menos raciocinar sobre o que responder, senti seu membro me invadir, deixando escapar um gemido agudo.  

Com uma das mãos, Harry segurava minha cintura com firmeza, estocando com o máximo de velocidade que conseguia imprimir em seus movimentos. Em minha testa, as gotículas de suor pingavam, já nas costas, escorriam incansavelmente, como se o inverno de Nova Iorque tivesse dado vez ao verão da Califórnia. Queimávamos sob aquela luz vermelha.  

Eu já não sentia os dedos dos meus pés, os mesmos formigavam, e minhas pernas já davam sinais de fraqueza, mas não havia sensação melhor no mundo do que aquela, do que tê-lo dentro de mim. Sua outra mão, antes desocupada, segurou meus cabelos, e como forma de incentivo, auxiliei seus movimentos, rebolando no ritmo de suas estocadas.  

– Eu preciso te beijar. – ouvi sua voz rouca escapar entre respirações descompassadas e, para que realizássemos o seu desejo, trocamos de posição. 

Harry retirou seu membro por completo e eu voltei a ficar de frente para ele, que encostou sua testa na minha e procurou pela minha boca, mas apenas roçou nossos lábios uns nos outros, estávamos ofegantes demais, precisávamos respirar. Sutilmente, durante nosso ‘descanso’, levantei uma de minhas pernas e envolvi a cintura de Harry, que entendeu o pretendido e ajudou, segurando-a com uma das mãos. Enquanto seus dentes brincavam com os meus lábios, voltou a posicionar seu membro em minha entrada, penetrando, a princípio, devagar. Fiquei na ponta do pé, para que facilitasse seus movimentos, e me permiti fechar os olhos, sentindo sua língua pedir passagem para o beijo desejado logo em seguida.  

Com a evolução do beijo, os atos responderam enérgicos, aumentando o ritmo e a força aplicada. Nossas bocas somente se desgrudaram quando nossos pulmões gritaram por ar, deixando com que minha testa descansasse em seu ombro. Assim que sentira todo meu prazer escorrer entre minhas pernas, meu físico amoleceu quase que por completo, tendo que seus braços sustentarem meu corpo, ao mesmo tempo que o seu ápice estava por chegar.  

– Você não pode parar agora. – sussurrei próximo ao seu ouvido, mordendo seu lóbulo em seguida. 

O incentivo fez com que seus movimentos finais fossem brutos, fazendo com que meu orgasmo prolongasse no tempo e o seu viesse logo depois.  

Permanecemos colados um no outro até que ambos se acalmassem o suficiente e recobrassem as forças.  

– Eu nunca vou te perdoar por ter me deixado cinco anos longe de você...  

– Você já perdoou. – fiz um carinho em seu rosto e uni nossos lábios num selinho – Esquece isso.  

– Te perdoei porque não conseguiria lidar com o fato de que te deixaria escapar de novo por puro orgulho. Eu não sou assim, você sabe. – antes de se afastar, plantou um beijo em minha testa e sorriu de forma singela.  

– E é por isso que eu te amo. 

–  Nah... – Harry procurava pelas peças de roupas jogadas pelo chão – Você me ama porque eu sou lindo.  

 Gostoso. – corrigi.  

– E bom de cama! – completou.  

– Humilde também. – rolei os olhos ao encarar um pedaço de pano destruído no chão – Tinha que ter rasgado a minha calcinha? 

 – Ah, desculpa, mas é que eu sempre quis fazer isso... – disse completamente sem jeito, coçando a nuca, o que me fez gargalhar. 

Fourteen

She know, she knows
That I'm never gonna let another take her love from me now


“Café da tarde, passeio de barco e patinação no gelo: Harry Styles está definitivamente namorando.

 

 

Por mais que tentassem, Harry Styles e   não conseguiram escapar dos cliques durante a semana juntos em Nova Iorque. Ao que tudo indica, o casal reatou o namoro após cinco anos separados. 

Harry Styles, ex membro da boy band britânica One Direction e a mais nova estrela de Hollywood, foi flagrado num agradável passeio de barco ao lado de sua primeira namorada nesta terça-feira, logo após um café da tarde. Com câmera em mãos, não deixou de registrar os momentos junto a . 

(Fotos anexas de Harry e  sentados à mesa da cafeteria e a auxiliando na entrada do no barco) 

Nesta mesma semana, apenas dois dias após os primeiros flashes, The Rockefeller Rink recepcionou o casal numa tarde bastante divertida. Harry Styles e  patinaram em torno de cinquenta minutos e não pouparam os gestos de carinho em público.  

(Fotos anexas de Harry beijando a testa de  e de ambos sentados no gelo, rindo por conta da queda) 

 e Harry namoraram antes mesmo do grupo ser formado, rompendo o relacionamento em 2011.  foi vista em um dos shows da banda em Manchester, no ano de 2015, mas Harry, ao ser questionado por Nick Grimshaw sobre a possibilidade de reatarem, contou não existir chance alguma, pois a mesma havia se casado.  

Bom, pelo visto o casamento já era e Harry Styles agiu rápido, não é? Isso é que é amor! Estamos torcendo pela felicidade do mais velho-novo casal!” 

*
 

 O ambiente ainda estava escuro, apesar de eu ter certeza de que já não era mais noite, pois alguns raios de sol passavam pelas frestas da cortina. Minha cabeça doía, eu não queria ter que levantar, mas assim que constatei que o corpo de Harry não estava ao meu lado, presumi que já passava do meio-dia e me forcei a abrir os olhos.  

Era domingo, o sétimo e último dia.  

Levantei minimamente a cabeça e sua imagem surgiu em meu campo de visão. Harry estava sentado à mesa, vestindo apenas uma samba-canção, concentrado no caderno a sua frente. Ora escrevia, ora ponderava, as vezes apagando algumas linhas antes de voltar a rabiscar. 

 Abracei um dos travesseiros espalhados pela cama, envolvendo-o também com uma das pernas, e permaneci em silêncio, fitando-o em seu momento particular. Não demorou para que Harry notasse meu movimento, direcionando sua atenção para mim. Abriu um sorriso mínimo e largou a lapiseira, relaxando ao recostar seu corpo no apoio da cadeira.  

– Olha só quem resolveu acordar... – a rouquidão de sua voz fez com que um arrepio gostoso percorresse por todo meu corpo.  

– Eu nunca mais vou beber. – fiz uma careta e Harry riu fraco, balançando a cabeça negativamente. 

– Você exagerou mesmo, quer um remédio? – estava a prestes a levantar, mas neguei antes que deixasse a cadeira. 

– Não, tudo bem, estou bem. Vou ficar mais um pouquinho aqui. – soprei uma mecha revolta de cabelo que atrapalhava minha visão de Harry, jogando-a para o lado – Está compondo?  

– Sim, aproveitando a presença da minha musa inspiradora... – seus olhos passearam por toda a parte descoberta de meu corpo e então arqueou uma das sobrancelhas, arrancando risadas de mim em razão de sua análise. 

– Harry...  

– Hm. 

– Eu te amo.  

– Me diga algo que eu não sei. – notei certo deboche em sua voz, ao passo que voltou a encarar as folhas de papéis em sua frente, esperando pela resposta. 

– Como o que?  

– Como... – Harry ponderou pensativo e então voltou a me fitar, demonstrando que suas expressões já não eram mais tão serenas – como o porquê de você ter se separado. 

Meu corpo enrijeceu dos pés a cabeça, tornando difícil o ato de se mover e até de respirar. Harry ainda me encarava, como se tentasse desvendar meus pensamentos e descobrir respostas, ele ansiava por elas.  

Com certa dificuldade ajeitei minha postura, me sentando entre os lençóis, pensando seriamente sobre a possibilidade de fugir entre os corredores, o que provavelmente seria uma alternativa melhor do que continuar com aquela conversa. 

– Acabou, Harry. – suspirei, enquanto fitava minhas mãos, sem coragem de olhá-lo nos olhos – Não importa. 

– Importa pra mim. – o tom de sua voz aumentou, demonstrando sua frustração – Qual o problema de falar sobre isso comigo? – levantou da cadeira, posicionando-se na frente da cama – Toda vez que tocamos nesse assunto você se esquiva, fica diferente, por quê? O que você está escondendo de mim? 

– Eu não estou escondendo nada! – minha resposta soara ainda mais alta que a sua, então me recompus, respirando fundo, na tentativa de me acalmar – Nada importante o suficiente para que seja pauta de uma de nossas conversas. 

– O que? – seus olhos arregalaram, me encarando de maneira quase que desesperada – Você está admitindo que esconde algo de mim? Algo sobre o seu casamento? É isso?  

– Não, não é isso. – senti minha cabeça latejar – É só que... não vale a pena falar sobre isso, Harry. O meu casamento não existe mais, passou. Não precisamos conversar sobre. Eu não quero ter que falar sobre. Matthew não faz mais parte da minha vida e isso é o que você precisa saber. 

– Eu não consigo entender. – suas feições abatidas transpareciam seu nervosismo – Eu não consigo entender qual o problema em você me falar o que houve. 

– Você falou na minha cara que tinha me superado e nem por isso fiquei te enchendo de perguntas sobre a garota. – rebati com o primeiro argumento que aparecera em minha mente, confesso que por falta do que falar, na tentativa de fazer com que aquela discussão acabasse, mas tudo que consegui foi uma risada puramente irônica de Harry. 

– Você quer saber o porquê de eu ter dito aquilo? Porque pelo menos uma vez eu quis estar por cima na situação, pelo menos uma vez eu quis acreditar que o coração que doeria seria o seu e não o meu, mas adivinha? Eu não superei! Eu estou aqui, não estou? E pode ter certeza, eu não teria problema algum em lhe responder qualquer pergunta que você tivesse a me fazer. O que eu tive não passou de um caso, mas o que você teve foi um casamento! – Harry fechou os olhos, passou uma de suas mãos pelo seu cabelo e respirou fundo, voltando a me fitar em seguida – Existe algo sobre o meu caso que você queira saber? – balancei a cabeça negativamente como resposta – E tem alguma coisa sobre o fim desse casamento que você me permita saber? – questionou, colocando as mãos na cintura. 

Eu sempre soube que Harry era bom demais para mim e eu queria conseguir não me sentir tão desmerecedora do seu amor diante daquela situação, mas meu medo de perde-lo superava a coragem necessária para lhe contar tudo o que desejava saber. Eu preferi acreditar que conseguiria, que conseguiria sair ilesa daquele labirinto de problemas que parecia não ter fim.    

– Terminou há um mês e há um mês não nos vemos ou conversamos. – levantei da cama, caminhando em sua direção. Segurei seu rosto com ambas as mãos e olhei fundo nos seus olhos – Você não tem com o que se preocupar, você precisa confiar em mim. 

– Como? – seus olhos brilhavam, pois se encheram d’água – Como eu posso confiar em você numa situação dessas? , por favor... 

– Você pode confiar em mim como sempre confiou.  

– Eu não consigo entender... por que você está fazendo isso comigo? – uma lágrima escapou de seus olhos e algo em meu coração parecia querer sair, pois doía de dentro para fora a cada batida. Não havia nada no mundo que eu odiasse mais do que ver Harry chorar – Não estamos brincando de casinha, estamos num relacionamento, juntos nessa, pra valer! Eu te amo , eu te amo infinitamente, mas eu não sei até quando vou conseguir conviver com essa dúvida dentro de mim.  

– Não é como se fosse fácil, Harry... – dei alguns passos para trás, até que encostasse na cama, sentando em seguida – Algumas coisas não são tão fáceis de se falar em voz alta.  

– Mas sou eu... – agachou em minha frente e com uma das mãos ergueu meu queixo, fazendo com que uma conexão visual se estabelecesse – você sabe que pode falar tudo pra mim.  

Se Harry ao menos soubesse o quanto eu queria poder lhe contar cada detalhe. Se soubesse que ele foi a primeira pessoa a qual invadiu minha cabeça quando Matty saiu pela porta do apartamento pela última vez, se soubesse que ocupava meus pensamentos todos os malditos dias..., mas não sabia. Eu queria que fosse simples, eu queria ter certeza de que tudo ficaria bem assim que soubesse que Matthew me agrediu em razão de um surto decorrente da abstinência do uso de cocaína, que retiraria toda aquela dor que insistia permanecer em meu peito, que apagaria aquela memória que se repetia constantemente na minha cabeça. Eu queria ter certeza de que tudo ficaria bem ao contar que Matthew estava internado e que eu optei pelo divórcio, mas que, na realidade, nada havia sido resolvido, pois não havia conversado com Matty sobre, nem ao menos o visto. Eu queria, eu queria mais do que tudo, mas eu sabia que se acabasse contando, estragaria o nosso recomeço e eu não suportaria vê-lo ir embora de novo. Harry não precisava sentir daquela dor, ele não tinha o dever de entender tudo o que eu passei, tudo que eu fiz e tudo o que eu precisava fazer. Eu não queria que fizesse parte daquela história triste, eu queria apenas poder resolver tudo sozinha, tendo a oportunidade de recomeçar ao seu lado sem o peso de todos aqueles problemas. Se Harry ao menos soubesse que me resgatou do inferno e me levou as alturas em segundos pelo simples fato de aparecer diante de mim, que a paz voltou a habitar o meu coração quando nossos lábios voltaram a se tocar, se Harry ao menos soubesse...  

– Eu não posso. – você não entenderia. 

Harry abaixou a cabeça e a balançou negativamente, suspirando derrotado. Ao reergue-la, deixou um beijo em minha testa, voltando a se pôr de pé e sentando ao meu lado em seguida. 

– Eu confio em você. – descansou sua mão em minha coxa, encarando-a repousada ali – Mas espero não me arrepender por isso. 

– Eu também. – admiti em voz alta uma confissão que deveria ter sido interna e Harry sorriu sem mostrar os dentes, mesmo que contrariado, mesmo que não completamente verdadeiro, mas como forma de demonstrar sua compreensão, ou pelo menos a tentativa dela. 

 

Harry

 

 

Meus braços não queriam permitir que voltasse a Manchester sem mim. Eu havia me deixado acostumar acordar com o seu corpo ao lado do meu, com a sua voz chamando pelo meu nome para um banho juntos e seus dedos passeando pelos meus cabelos antes de dormir.  

– Vai ser difícil ir embora se você não me soltar... – sua voz saiu abafada, pois seu rosto estava contra meu peito durante o abraço que já durava os seus dez minutos. 

“Última chamada para o voo 2807 com destino a Manchester, Inglaterra”. 

Me permiti sentir o cheiro gostoso dos seus cabelos por mais alguns segundos antes de afrouxar os braços e me afastar em um passo para trás, mantendo os nossos corpos interligados apenas por dois dedos que permaneceram enroscados.  

– Me liga quando chegar, tudo bem? 

– A previsão de chegada é as sete da manhã, nem se você quisesse estaria acordado pra me atender. – concluiu entre risadas. 

– Como se eu fosse conseguir dormir essa noite... 

trouxe para perto de sua boca a minha mão unida a sua e encostou os lábios num beijo cuidadoso e demorado, partindo o contato logo depois.  

– Preciso ir. – ajeitou a bolsa em seu ombro e eu assenti, mesmo que contrariado.  

A cada passo que dava, aumentando a distância entre nós, meu coração ficava mais fraco, em batidas lentas e doloridas. Deveria estar acostumado com despedidas, mas aquela em particular pareceu mais difícil. Eu estava com medo. Apavorado, para ser sincero.  

 olhou para trás pela última vez e seus lábios se moveram, formando um ‘eu te amo’ silencioso, fazendo um carinho em meu coração que pareceu doer um pouquinho menos depois do ato. 

Ainda sem coragem de me mover para ir embora, senti meu celular vibrar no bolso do sobretudo que eu vestia. O nome de brilhava na tela.  

 Se não é o meu chefe favorito! – sua voz animada no outro lado da linha me fez sorrir.  

– Mas eu sou o seu único chefe, . – respondi enquanto caminhava em direção ao estacionamento. 

– Essa é a piada, Harry querido. – caçoou e eu ri fraco – Estou a caminho, ainda tá de pé? 

– Sim, estou saindo do John. F. Kennedy agora. – me referi ao aeroporto – E você? 

– Upper West Side, talvez demore um pouquinho, se importa?  

– Tranquilo, eu espero.  

– Harry, tá tudo bem? – sua voz já não soara mais tão animada, estava preocupada. 

– Precisamos conversar. – respondi simplesmente.  

– Então precisamos de álcool. 

– Sunny’s, certo? 

– Sunny’s! – confirmou animada. 

Sunny’s era o nosso bar favorito em Nova Iorque. Conhecemos por acaso após o casamento de um amigo que, por ter começado pela manhã, terminou cedo. Não queríamos ter que acabar a noite ali, estávamos animados demais, então entramos no primeiro bar que encontramos. Fomos os últimos a sair naquela noite e retornamos na seguinte.  

Cheguei em trinta minutos e esperei cerca de quinze numa das mesas externas, bebendo minha primeira dose. 

– Não acredito que não esperou por mim! – estava ofegante, tinha atravessado a rua correndo, o que me fez rir, pois estava de salto. Deixou a bolsa e o celular em cima da mesa e me abraçou, dando um beijo em meu rosto e sentando na cadeira a minha frente em seguida – Mas te perdoo por conta do atraso, o trânsito estava um inferno, desculpe por isso. 

– Tudo bem, não foi por querer... – encolhi os ombros e sorri fraco, fazendo murchar. 

– Que cara de enterro. – chamou pelo garçom, fazendo o seu pedido antes que eu pudesse responder, voltando sua atenção para mim logo depois – Nem parece o mesmo rostinho feliz que estampou as manchetes da semana. O que houve? 

– Eu estou feliz, mas... – dei um bom gole, finalizando meu primeiro copo –  , eu sei que ela está escondendo algo. 

– Escondendo algo? – o garçom deixou uma long neck em sua frente e agradeceu. Aproveitei a deixa para pedir outra dose – Como assim? 

– Toda vez que eu questiono sobre o fim do casamento ela simplesmente se nega a falar sobre. – franziu o cenho, desconfiada – Ela não quer me contar o que houve, o porquê e como terminaram. 

– Okay, isso é estranho, mas... por que você quer saber isso? 

– Medo. – senti doer o peito por ter que admitir em voz alta – Medo de que... – engoli seco ao sentir minha voz embargar – de que ele a tire de mim de novo. Eu não posso perde-la de novo. 

– Harry, eu entendo o seu medo, mas o que um não quer, dois não fazem. – deu bons goles, fazendo com que a garrafa chegasse a metade – Eu realmente acho que essa história precisa ser tirada a limpo, mas cada um tem seu tempo. Talvez ela também esteja com medo, você já parou pra pensar nisso? Casamentos não são fáceis.  

– Mas ela sabe que pode confiar em mim! 

– E por que você não pode confiar nela agora? – uma de suas sobrancelhas estava erguida, me detonando com o olhar, como de costume – Eu não sou o tipo de pessoa que fala o que você quer ouvir, mas o que você precisa ouvir, você sabe disso.  

– Então você acha que eu não tenho com o que me preocupar?  

– Não, não é bem assim. Eu acho que você deve se preocupar, mas eu também acho que você está sofrendo por antecipação. Isso faz com que você pense somente nos motivos pelos quais ela trairia sua confiança, deixando de enxergar todos os motivos pelos quais ela nunca faria isso com você. 

Flashback 

– Minha mãe vai me matar.  fez uma careta antes mesmo de a agulha encostar em sua pele. 

Talvez se estivéssemos sóbrios não teríamos a brilhante ideia de nos tatuarmos de madrugada num estúdio qualquer no Queens. Seria a sua primeira tatuagem e, bom, eu era o tatuador. 

– Essa foi a pior ideia que eu tive em toda a minha vida. – resmungou chorosa, enquanto tentava impedir as lágrimas de escaparem.  

Confesso não ter sido um bom namorado, pois escolhi uma região bem dolorida, mas não teria graça se fosse em outro lugar que não logo abaixo de seu seio, bem ao lado da pintinha que eu tanto amava.   

– Acabou? – perguntou assim que o barulho da máquina cessou. 

– Morreu? – levantei da cadeira, entregando a pistola em sua mão. 

– Eu vi a luz, mas lutei para não ir até ela. – seu tom era extremamente dramático, o que me fez gargalhar enquanto trocávamos de lugar  Mas agora é a minha vez... 

escolheu o mesmo lugar, disse que eu deveria sentir exatamente o que ela sentiu e perguntou sobre a dor de cada tatuagem do meu corpo enquanto traçava a nova.  

– Com certeza é a sua pior tatuagem.  afirmou ao finalizar, soltando uma risada em seguida.  

– Sua caligrafia fica melhor bêbada do que sóbria... – conclui ao encarar ambas as tatuagens em frente ao espelho e  pareceu confusa, não sabendo se ficava brava ou contente por conta do meu comentário – Levando em consideração a circunstância atual, ficaram ótimas. 

Tatuamos ‘All The Love’ bêbados no Queens em nossa última noite juntos em Nova Iorque e nem se quiséssemos muito, não conseguiríamos esquecer.  

End of Flashback 

– Pode falar. – quebrou o silêncio, me despertando, enquanto teclava em seu celular – Vai, fala. 

– Você tá certa... – admiti e então voltou seu olhar para mim – como sempre.  

– Bom, brincadeiras à parte, – deixou o aparelho em cima da mesa – eu acho que se isso te incomoda, uma hora ou outra ela acabará contando, mas é tudo muito recente, espera um pouquinho e não fica assim... – colocou sua mão por cima da minha na mesa e fez um carinho com o polegar – Odeio te ver com essa carinha, você estava tão feliz, – sua voz era infantil, só pra pegar no meu pé, e sua mão, que antes fazia um carinho, apertou uma de minhas bochechas – todo bobinho com a namoradinha, além do mais, você só me falou sobre o pedido de namoro, me conta o resto! 

– Foram uns dos meus melhores dias dos últimos cinco anos. – ao relembrar de alguns momentos, um sorriso inevitável surgira em meu rosto – A gente fez tanta coisa juntos que pareceu bem mais que uma semana, mas ao mesmo tempo, quando nos despedimos hoje mais cedo, tive a sensação de que passou rápido demais... 

– Eu amei as fotos no Rockefeller, gritei igual a uma fã histérica quando vi! – a excitação na voz de me fez rir de sua reação – Vocês são tão lindos juntos...  

– A ficha nem caiu ainda, sabe? – brincava com a borda do copo, contornando-a com o indicador – Tudo aconteceu rápido demais e esse é o meu medo, medo de que termine tão rápido quanto começou.  

– Você já foi mais otimista. – disse simplesmente, um tanto quanto distraída, enquanto respondia mais mensagens com um sorrisinho no rosto. Assim que percebeu que eu a encarava em silêncio, deixou o celular de lado na mesa – Desculpe.  

– Tudo bem, pela sua cara parecia ser alguém... importante. – cruzei os braços – Tem alguma coisa que você queira me contar? 

– Então... – os apitos frenéticos das notificações de seu celular cortaram sua fala. 

Inclinei sutilmente meu corpo para frente para que pudesse enxergar a tela de seu celular e ao visualizar as diversas notificações de mensagens com o nome de Niall, não consegui impedir as risadas de saírem.  

– Finalmente! – pus as mãos para o alto, em sinal de agradecimento – Depois daquele fiasco de jantar eu achei que vocês nunca mais se falariam. 

– Você é um péssimo cupido, aliás. – disse entre risadas, finalizando a sua cerveja em seguida – Voltamos a nos falar essa semana e... – suspirou, com um brilho nos olhos e a paixão estampada no rosto. 

Antes que pudéssemos retornar ao assunto, foi a vez do meu celular. Gemma estava me ligando. Optei por ignorar a ligação, não queria interromper a conversa, mas em poucos segundos seu nome voltou a surgir na tela, através de uma mensagem. 

“Precisamos conversar, me ligue assim que puder”.  

– Parece ser urgente, posso? – perguntei a , que na mesma hora respondeu que não havia problemas. 

Levantei da mesa e caminhei um pouco, me afastando do bar e retornando a ligação de Gemma que não demorou a atender. 

– Ei...  

– Oi Gem, o que houve? – apoiei o corpo no meu carro que estava estacionado bem próximo ao Sunny’s.  

– Ela já voltou para Manchester, certo? – Gemma se referia a 

– Sim, faz algumas horas. Por que? – quis saber, ansioso. 

– Bom, eu estava por Londres e Charlie me mandou uma mensagem perguntando se podíamos nos encontrar e tudo mais... – sempre que falava sobre Charlie, Gemma ficava sem jeito, até porque eu nunca conseguir camuflar muito bem o meu incomodo – Enfim, passamos o final de semana juntos e acabei falando sobre vocês. Apesar de ter saído na mídia, Charlie ainda não tinha visto e... – minha irmã soltou o ar pesadamente – Harry, vocês conversaram sobre o casamento? 

Minha irmã teve que chamar pelo meu nome algumas vezes para que eu pudesse lhe responder que não, que não havíamos conversado sobre o casamento ou sobre o Matthew, pois o medo voltara a me invadir arrebatador, impedindo que eu tivesse uma reação imediata. 

– Eles se separaram, – meu coração batia tão forte que era capaz de escuta-lo – não separaram? – o suspirar de Gemma do outro lado da linha fez com que meus olhos ardessem. 

– Sim e não. – meu silêncio fez com que prosseguisse – Eu conto tudo o que eu sei, mas Harry, por favor, não faça nenhuma besteira, promete? 

Eu prometi que não faria, mas não sabia se conseguiria cumprir.



Continua...



Nota da autora: Depois de dois meses eu volto com a minha primeira atualização e eu to MUITO FELIZ! O feedback tanto aqui nos comentários como no grupo do FFOBS no facebook está sendo incrível e me motiva MUITO! Eu pretendo não demorar tanto a atualizar como dessa vez, mas acabei empacando no capítulo onze, levando aí quase um mês e meio pra escrever. Eu adoro cenas restritas, mas confesso que senti um pouco de dificuldade em escrever pensando no que todos achariam, então tomei bastante cuidado e não me apressei pra poder dar o meu máximo nesse momento tão importante da fic. Acabou que no final fiquei bastante satisfeita (e espero que vocês também). Quanto ao capítulo 12 eu to... apaixonada. Principalmente pelo desabafo do Harry! Foi uma inspiração momentânea e eu escrevi essa fala em, pasmem, 5 minutos. Na realidade, esse capítulo foi bastante rápido, levei 3 dias. Enfim, espero que tenham gostado do resultado e continuem acompanhando. Apesar de eles finalmente terem voltado, não significa que essa história esteja perto do fim, na realidade, muito pelo ao contrário, porque dependendo de mim (e de vocês) essa história vai longe.

Algumas pessoas me pediram pra criar um grupo pra que pudéssemos conversar sobre e acompanhar as atualizações, então aqui lá vai o link para o grupo que eu criei no whatsapp, se sintam a vontade para entrar, estarei lá esperando por vocês: https://chat.whatsapp.com/DxYkXCsjRpp9vCHVXSJYnm.

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


comments powered by Disqus