Última atualização: 18/08/2018

Capítulo 1

She told me in the morning
She don't feel the same about us in her bones


2011 / Harry


– Conseguimos! – minhas mãos ainda tremiam enquanto seguravam o celular – Primeiro show que lotamos! Eu não consigo acreditar, tanto trabalho, mas valeu à pena...
Eu ouvi seu respirar fundo do outro lado da linha. Não era como se ela estivesse tão feliz quanto eu. Demorou um pouco, gaguejou no começo, mas respondeu com uma animação não muito convincente na voz.
– É, Harry, parabéns... Parabéns, é incrível.
? – respirei fundo. Ela nunca havia falado comigo daquela maneira – Eu te amo.
Mais silêncio.
– Quando você volta mesmo pra casa?
– Eu não ia voltar até depois o show da semana que vem, mas se você quiser eu dou um jeito, eu fujo e passo o domingo com você.
– Eu não quero atrapalhar a agenda, mesmo, eu só queria…
– Não vai atrapalhar. – a cortei de novo – Domingo, ok? Logo cedo eu tô ai.
– Tudo bem.
A conversa terminou ali, com uma despedida desconfortável e desengonçada. Eu e não nos víamos há exatos vinte e cinco dias. Desde a final do programa e o início de uma agenda lotada, regras rigorosas e uma vida pública, o nosso namoro de quase dois anos pareceu afetado pela primeira vez. Assim que desliguei a ligação e bufei, Louis se dirigiu até mim, notando minha inquietude.
– O que houve, mate? Brigaram? – sentou num sofá próximo a nós e fez menção para que eu me sentasse também – Nunca vi vocês brigando.
– Não sei se foi bem uma briga, ela só estava estranha, quieta…
– É, então alguma coisa aconteceu, porque pra estar quieta, tem que ter algo de errado. – concluiu, me fazendo rir – Sinto falta dela também, de quando não nos largávamos.
– Se você sente falta, imagina eu…
*

O dia estava bem nublado em Holmes Chapel. Eram oito e trinta e sete e eu já estava estacionado em frente ao nosso apartamento. Ajeitei meu cabelo no retrovisor, respirei fundo, peguei as flores que estavam no banco do passageiro e saí do carro.
Passei pela portaria, cumprimentei Joe e logo entrei no elevador, apertando o número sete. Apalpei os bolsos enquanto subia e percebi que tinha esquecido as chaves. Para não ter que voltar, assim que cheguei, dei três batidas na porta. Sem muita demora ouvi o barulho da tranca e a porta se abrir.
Lá estava ela só com uma camiseta, que inclusive era minha, o cabelo todo bagunçado, descalça e esfregando os olhos. Não a dei muito tempo, logo fui entrando, abraçando-a e fechando a porta com o pé. O fechar fez um barulho maior do que o pretendido e provavelmente faria algum vizinho reclamar mais tarde.
– Saudades, saudades, saudades! – assim que parti o abraço e abri os olhos, pude ver três malas no chão da sala próximas ao sofá. Nosso cachorro veio pulando e abanando o rabo logo depois – , você vai viajar? – fiquei atordoado, com o coração murcho, esquecendo de lhe entregar as flores.
– Harry… – tirou o buque da minha mão, segurando a mesma e me guiando até o sofá, deixando as flores de lado – A gente precisa conversar.
Oscar pulou em meu colo e se encolheu, demonstrando saudades. Eu nem consegui lhe dar atenção, meu corpo estava funcionando de um jeito diferente, meu estômago praticamente gritava e eu suava frio, como se pressentisse o que estava por vir.
– Você quer viajar? Deveria ter me dito antes, quer dizer, você quer mesmo viajar? – repeti nervoso – A turnê logo acaba, por que não viaja com a gente?
– Harry! – interrompeu num tom sério e um pouco mais elevado – Como é que vou pensar em viajar, cheia de provas na faculdade pra fazer?
– Então por que essas malas? – perguntei confuso.
– Não somos os mesmos de dois anos atrás. Nem queria que fossemos, na realidade. Você tá vivendo seu sonho, eu consegui a bolsa de estudos, mas digo, a gente… – baixou o olhar e diminuiu o tom de voz – O que existe entre a gente… eu não sinto mais o mesmo sobre nós.
Oscar latiu como se tivesse entendido o que acabara de ouvir, saindo de meu colo em seguida. Era como se meu coração tivesse parado, como se continuando a bater não fizesse a mínima diferença.
– Não sente o mesmo sobre nós? – minha voz saiu fraca e falha, então pigarreei e aumentei o tom – Você ta indo embora da nossa casa?
– Nossa casa? – voltou o seu olhar para mim, seus olhos eram como bolsas d'água e sua voz estava trêmula – Harry, a partir do momento que eu fico sozinha aqui sete dias na semana, esse lugar não é nosso.
– Por favor, não… não chora… – enxuguei uma lágrima que escapara – Eu achei que já tínhamos passado dessa fase, que você tinha entendido como seria a nossa rotina, que seria um pouco complicado, que…
– Eu tinha entendido! – levantou de repente, nervosa, praticamente gritando – Ninguém foi mais compreensível que eu nessa história toda, ninguém te apoiou mais que eu!
– Então por quê? Eu simplesmente não consigo entender! – levantei em seguida, igualmente agitado.
– Se pelo menos você tivesse feito o MÍNIMO, Harry Styles, o MÍNIMO! – caminhou até o calendário pendurado na parede da cozinha conjugada com a sala e apontou o número circulado por um coração em vermelho, fungando e enxugando mais uma lágrima.
Eu havia esquecido. Havia esquecido nosso aniversário de dois anos de namoro. Nem eu me perdoaria por ter deixado aquela data escapar. Prometi que iria vê-la, que iriamos passar pelo menos a noite juntos. Lembro de estar indeciso em relação ao que fazer por conta das inúmeras ideias, mas nem lembrar eu havia lembrado. Meus joelhos vacilaram, fazendo com que eu caísse sentado no sofá, apoiando os cotovelos nos joelhos e tampando o rosto com as mãos. Eu não conseguia e nem queria segurar o choro.
Assim que escutei um barulho e abri os olhos ensopados, vi sentada no chão, encostada na parede logo embaixo do calendário, com a cabeça entre os joelhos, chorando. Levantei e fui até ela, sentando ao seu lado e a abraçando. Ficamos naquela posição por um bom tempo em silêncio.
Flashback
– Eu ainda tô tentando entender como te aguentei esse tempo todo! – disse enquanto se livrava de seu vestido preto, deitando-se em minha cama em seguida – Um ano... eu mereço um prêmio.
Um ano de namoro e mais alguns outros meses de uma relação informal durante os anos de escola e meu coração não havia se acostumado em vê-la daquela maneira. Seu corpo tão característico e tão convidativo. Aquela manchinha de nascença logo abaixo de seu seio direito, suas coxas fartas, a maneira com que seus cabelos caíam sobre seus ombros e a preferência por calcinhas pretas. Era perfeito pra mim. Parecia um tolo a encarando mesmo depois de um ano, mesmo depois de tê-la visto naquela mesma situação tantas vezes.
– Styles? – despertou-me de meus pensamentos – Eu te amo.
Tirei minha camiseta e calça e logo em seguida pus meu corpo sobre o seu, aproximando nossos rostos. começou a brincar com meu lábio inferior com seus dentes, então fechei os olhos em seguida e deixei com que desse início a um beijo. Era como se fosse o primeiro. Todos eram tão bons quanto o primeiro. Uma de suas mãos acariciava meus cabelos, as vezes os puxando, e a outra permanecia em meu peito, como se quisesse certificar de que eu realmente estava ali. Assim que o beijo fora finalizado e nossos olhos voltaram a se encontrar, não consegui conter o sorriso. Era tão bom tê-la por perto.
Ainda com os sorrisos bobos nos lábios, ajeitei uma mecha de seu cabelo atrás da orelha e comecei a espalhar beijos por todo seu rosto, pescoço e colo.
– Eu te amo. – eu dizia entre cada beijo – Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo.
Segurei seu rosto com ambas as mãos e acariciei as maçãs de seu rosto com os polegares. fechou os olhos e sorriu, sem mostrar os dentes. Eu amava vê-la daquela maneira, tão doce, vulnerável entre minhas mãos, tão minha.
Senti o seu suspirar e então seus olhos abriram novamente. Analisava todo o meu rosto em silêncio e seu sorriso passou a mostrar os dentes.
– Você é lindo demais. – beijou uma das minhas mãos que acariciava seu rosto – Cada pedacinho... – agora dedilhava meus ombros, pescoço, deslizando até meu peito – Como eu tenho sorte...
riu de sua própria conclusão e me abraçou, puxando meu corpo para si.
– Ah! Já ia me esquecendo... – sorri malicioso – Você merece sim um prêmio. – então tive o prazer de ouvir mais uma de suas risadas gostosas.”
Fim do flashback

Com o tempo o choro de ambos cessou. encostou sua cabeça em meu ombro e permaneceu em silêncio. Não tínhamos nada para falar, ou simplesmente não conseguíamos. Minha mão procurou pela sua e entrelaçou nossos dedos. não protestou, mas parecia não ter prestado atenção no toque.
– Você tem certeza? – quebrei o silêncio, despertando-a de seus devaneios e direcionando seu olhar a mim.
– Não torne as coisas mais difíceis do que já estão sendo.
– Você não me ama mais? – engoliu seco e fechou os olhos por alguns segundos, como se lutasse para não voltar a chorar. Se pôs de pé e soltou minha mão, indo em direção ao quarto. Não demorei a levantar e a seguir, assim como Oscar, que vinha logo atrás. – Responde! – insisti – Você não me ama mais?
– Amor nem sempre é o suficiente, Harry. – respondeu ríspida – Não é só de amor que se constrói um relacionamento e eu não consigo mais, ok? Eu consegui passar por todos os problemas, por toda a distância, mas por isso... pelo esquecimento... eu não consigo.
Escutar aquilo, daquela maneira, foi como um soco no estômago. poderia esperar diversas atitudes de mim, mas nunca o esquecimento da nossa data. Eu me sentia um lixo, imprestável, mas nada nunca pareceu tão errado quanto deixá-la ir. Comecei a sentir raiva e se tem um sentimento o qual eu não consigo lidar é esse. Não é de meu costume e posso contar nos dedos quantas vezes já perdi o controle por sentir raiva. Sempre procuro um meio tranquilo e simples de resolver os problemas, mas estar diante daquilo, algo que parecia não ter solução, uma situação a qual nenhuma atitude ponderada e racional resolveria, fez com que o pior dos sentimentos me invadisse.
Minha mão se fechou num punho e socou um dos porta-retratos que estava na cômoda. Ele foi arremessado no chão e senti minha mão latejar, havia feito alguns cortes por conta do vidro. deu passos para trás, assustada e assim que notou que o sangue escorria e pingava no chão, demonstrou preocupação em seu olhar, mas antes que se aproximasse, discursei irritado.
– Não é o suficiente? – falei alto, deixando aquele sentimento transparecer – Todo o sacrifício não é o suficiente?
– Ah, claro, porque manter um relacionamento comigo é um sacrifício! – falou tão alto quanto e pude ver seus olhos ficarem vermelhos, cheios d’água novamente.
– Cala a boca! – gritei, completamente fora de mim.
Oscar latia muito, como se ordenasse que parássemos de brigar. Nunca havia mandado calar a boca ou qualquer outro xingamento, ela estava visivelmente assustada com a minha atitude.
– Você sabe o quanto eu te amo e o quanto te quero perto de mim, eu nunca, nunca deixei brechas ou dúvidas em relação a isso, nunca. Mas sim, é um sacrifício ficar noites em claro com saudades, imaginando você deitada no meu peito... – senti meus olhos queimarem, coloquei uma de minhas mãos em meu rosto, tentando impedir que as lágrimas surgissem – É um sacrifício ter que lembrar todas as noites que você dorme sozinha em nossa cama. É um sacrifício ter que viajar para lugares incríveis e não poder compartilhar os momentos contigo, sentir que nada faz tanto sentido quanto como você está por perto...
– É, porque ficar aqui, em nosso apartamento numa cidade do interior, sozinha, estudando feito louca para as provas da faculdade não é um sacrifício, é um prazer. Ver você viajar o mundo, cheio de garotas ao seu redor, e tentar não se importar não é um sacrifício, é tranquilo. – minha namorada nunca soara tão sarcástica antes e já não se importava mais em deixar as lágrimas rolarem – É fácil. É fácil sentir o coração sangrar de saudades todos os dias, ficar encarando a porta e olhando para o telefone ansiosa durante o dia inteiro do nosso aniversário de dois anos de namoro e receber um “caramba, hoje o dia foi longo, tô tão cansado, o que tá fazendo?” – ao repetir exatamente o que estava na mensagem que recebera no dia que era para estamos juntos comemorando, ela desmoronou. soluçava e seu rosto estava completamente vermelho – Co-como vo-você pode fa-falar em sacri-sacrifício? CÍNICO!
estava vulnerável, mas não da forma a qual eu gostava que ficasse. Vê-la tão triste e assustada fez com que a raiva se esvaísse aos poucos e desse lugar ao sentimento de culpa. Ela se sentou na cama e nosso cachorro foi até ela, como se quisesse consolá-la. colocou as mãos no rosto e respirou fundo na tentativa de se acalmar e eu, tudo que sabia fazer era ficar parado, encarando o nada, não sabendo como agir ou o que falar. Eu não ousaria contestar.
Assim que alcançou a calma, voltou a me encarar e arregalou os olhos em seguida. Notei que olhava para minha mão e quando direcionei minha atenção para ela, percebi o porquê parecia tão assustada. Havia uma poça em meus pés e minha mão estava completamente coberta de sangue.
– Vamos no pronto socorro. – levantou, procurando por peças de roupa – Acho que o corte foi muito profundo, talvez precise de pontos.
Fiz uma careta assim que ela mencionou os pontos e balancei a cabeça negativamente. Eu estava pouco me importando para os cortes ou para o sangue. A angustia dominava cada centímetro do meu corpo e eu não queria nada no mundo além de sentir o corpo da minha garota junto do meu. Eu não queria mais brigar, não queria ter que gritar e pensar no amanhã ou em qual atitude seria tomada.
– Eu não vou a lugar nenhum. – disse me aproximando. deu alguns passos para trás.
– Harry, olha para a sua mão, precisamos sim ir ao hospital! – pus o indicador da mão limpa em sua boca, pedindo que ficasse em silêncio – O que você está fazendo?
tentou se esquivar da minha primeira tentativa de lhe beijar, mas ela não poderia me negar isso, ela não conseguiria me negar isso. Quando nossos rostos ficaram próximos o suficiente, fechei meus olhos e pedi passagem para um beijo. Ela cedeu, mesmo não tendo certeza do que estava fazendo e estando confusa. Fazia quase um mês que meus lábios não encontravam os dela. Tenho certeza que durante aquele momento, nada, nem briga recente ou as palavras ditas, nada importava. Nada se fazia mais relevante do que o nosso toque, do que o nosso beijo, que a cada segundo se tornava mais intenso.
Suas mãos puxaram meu corpo para mais perto de si e minha mão envolveu seu pescoço, ignorando o fato de estar completamente vermelha de sangue. também não pareceu perceber ou se importar. Com a outra mão, segurei sua cintura e pressionei mais o seu corpo contra o meu, guiando-a em seguida até a cama. Eu estava por cima e suas pernas agora se entrelaçavam com as minhas. Suas mãos alcançaram a barra da minha blusa, puxando para cima. O beijo foi rompido para que tirasse a peça de roupa e então nos encaramos pela primeira vez depois do beijo. Nossas feições eram sérias, não possuía um riso ou sorriso por mais tímido que fosse, apenas precisávamos um do outro, de corpo, indiferente das circunstâncias.
Sem muita paciência, tirei a única peça que ela vestia, sujando-a de sangue, e joguei para longe. Encarei a pintinha roxa logo abaixo de seu seio direito e então sorri internamente, mas não deixou que eu me demorasse na análise de seu corpo e me puxou para o nosso segundo beijo. Nossos corpos se chocavam com harmonia e gritavam um pelo outro. Minha calça já aparentava estar mais apertada que o normal e minha impaciência não deixou que eu aguardasse um segundo sequer para retirar aquele pedaço de pano junto da peça íntima que eu vestia.
Ver por cima do meu corpo, movimentando-se com rapidez, gemendo sem quaisquer restrições e com rastros de sangue por praticamente todo o seu corpo por conta do meu toque me deixava com cada vez mais vontade de tê-la. Pode soar estranho, mas toda aquela situação fez com que nossa libido triplicasse. A queria cada vez mais perto, até que ocupássemos o mesmo lugar no espaço, então fiz com que mudasse de posição, me deixando por cima e afastando as suas pernas o suficiente para que pudesse aplicar o máximo de velocidade em meus movimentos. Meu corpo era puro suor e as costas de estavam arqueadas, sua cabeça posta para trás e sua boca entreaberta, pedindo por mais.
De repente, em análise as suas feições, nada parecia fazer mais muito sentido. Toda a informação do que ocorrera mais cedo invadiu minha cabeça de uma forma arrebatadora e lembrar que o corpo diante de mim já não seria mais meu, fez com que todo desejo se esvaísse, mas parecia não sentir o que eu sentia e continuava a movimentar o seu corpo contra o meu. Eu não queria me sentir daquela maneira, eu queria senti-la pela última vez. Era a última vez.
Eu estava tomado pelo pior sentimento que senti em toda a minha vida. Meus olhos ardiam e deixei com que algumas lágrimas escapassem, fazendo com que eu escondesse o rosto em seu pescoço para que não notasse. Estoquei com todas as minhas forças restantes, pedindo mentalmente para voltar a sentir algo, mas não conseguia sentir nada. Fechei os olhos com força e aos poucos diminui meus movimentos até que parassem completamente. Eu não conseguiria continuar com aquilo. Deslizei o meu corpo para seu lado e não tirei o meu rosto de seu pescoço, não queria que visse meu rosto. apenas puxou o edredom para cima de nós e não falou absolutamente nada. Ambos cansados e eu, ainda muito confuso e atordoado, me permiti dormir.
Ao acordar, estava sozinho na cama. Meu coração batia em apertos. Levantei ainda bastante desnorteado, fui até o banheiro e tomei uma ducha gelada para que acordasse completamente. Eu estava um misto de suor, lágrimas e sangue e nada nunca soou tão melancólico em minha cabeça quanto aquela situação.
Me aprontei e fui até a sala. estava sentada no sofá, mexendo no celular e Oscar estava ao seu lado, usando a guia.
– Pode me levar em casa? – pediu sem olhar em meus olhos e se pôs de pé.
– Claro, eu levo. – disse com a chave do carro já em mãos.
A ajudei com as malas e dirigi até a casa da sua mãe. Já era noite e estava bastante frio. Assim que estacionei, tirei meu moletom e entreguei para ela, que vestiu e agradeceu muito baixinho. Ao sair do carro, senti todo meu corpo se arrepiar por conta do vento gelado. Levei as malas até a porta de sua casa e paramos frente a frente, em silêncio. Não nos olhávamos nos olhos, minhas mãos estavam nos bolsos da calça e ela brincava com os próprios dedos, como se eu estivesse a deixando em casa depois do primeiro encontro, como se mal nos conhecêssemos.
Dei um passo à frente e beijei o topo de sua cabeça. Pude ouvi-la suspirar. Em seguida, me agachei em frente ao Oscar e acariciei sua cabeça.
– Cuida dela, campeão.
Oscar deu um latido assim que eu me afastei. Quando entrei no carro e procurei por eles, já não estavam mais lá.
Eu dirigi a noite toda até Londres.

Capítulo 2

You might have moved on, but boy, you should know
That I know you're still the one


2015 /


Eu nunca achei que me sentiria uma adolescente de quatorze anos ao ver Harry Styles novamente. Foi como reviver o primeiro dia de escola no ano de 2008. Eu estava saindo da sala, indo para o intervalo e Harry distribuía panfletos da próxima apresentação de sua banda. Ele entregou o papel para mim e disse que ficaria muito feliz em me ver naquela noite.
Eu não fui, fiquei em casa.
Depois de diversas apresentações da banda as quais compareci e já bastante amigos, nos beijamos pela primeira vez numa festa de despedida as aulas na casa do Noah Harrison, em mais uma das muitas viagens que os seus pais faziam durante o ano. Ficávamos as vezes, assim como ele ficava com mais uma ou duas garotas ao mesmo tempo, mas em 2009 as coisas começaram a ficar mais sérias. Harry estava preocupado com as notas e isso fez com que se aproximasse de mim por conta do grupo de estudos, só que de um jeito diferente. No baile de formatura anual, sua banda tocou e entre uma música e outra ele me pediu em namoro. Eu não sabia onde me esconder, todo o colégio estava lá. O clichê dos clichês, aqueles que acontecem só em filmes, e eu me senti como se realmente fizesse parte de um. Harry era perito em clichês românticos.
Logo após o pedido de namoro, nossas famílias criaram laços muito rápido. Minha mãe amava Harry, sempre fazia seus pratos favoritos e insistia para que dormisse lá em casa. Já meu pai não perdia a oportunidade de jogar qualquer jogo de tabuleiro ou cartas com ele. Eu e Gemma, irmã de Harry, éramos bastante amigas e Anne, sua mãe, me paparicava muito, sempre atenciosa, cuidava muito de mim.
Em 2010 aconteceu a audição e a formação da banda, mas continuamos firmes e assim que o dinheiro começou a surgir, comprou um apartamento. Por mais que eu tivesse dito milhares de vezes sobre não ser necessário e sermos jovens demais, ele prometeu que não seria nada muito extravagante e insistia no fato de que idade não significava nada. Ajeitamos tudo relativamente rápido para começarmos a morar juntos. Adotamos um cachorro também, um pastor de shetland, já com quatro anos. Tratávamos Oscar como um filho e ele foi sempre muito apegado a Harry, sofria muito com os primeiros dias de viagem. Complicado mesmo foi quando percebeu que não retornaria, adoeceu e chegou a ficar internado, achei que não resistiria. Oscar se recuperou, mas as vezes se mostrava abatido sem motivo aparente, talvez ainda sentia falta.
E então chegou 2011. Ano complicado. Fama, imprensa, regras, agenda lotada. Esquecimento. Término. Foi o pior ano da minha vida. Quando tomei a decisão de que terminaríamos, achei que fosse a coisa mais sensata a se fazer. Bastou uma semana para que eu tivesse me arrependido. Eu estava simplesmente imprestável, até porque é praticamente impossível não escutar sobre Harry Styles em sua cidade natal. Seu rosto sempre estava na televisão e sua voz nas rádios. Achei que nunca o esqueceria.
Passados quatro anos do término, com Anne e Gemma longe de Holmes Chapel, assim como Harry, não achei que algum dia voltaria a enfrentar todas as lembranças. Há tempos que já não notava mais os pôsteres com seu rosto estampado e as músicas que agora tocavam na rádio, eu não conhecia as letras, mas algumas coisas não podem ser simplesmente ignoradas.
! – sua voz era bastante conhecida e não pude deixar de notar o entusiasmo – Quanto tempo, eu estava com tantas saudades!
Era uma quinta-feira à noite, num dos corredores do supermercado próximo a sua antiga casa. Anne veio até mim e me abraçou forte. Todas as vezes que este momento passou pela minha cabeça, o momento que a reencontraria, achei que teria de forçar meu melhor sorriso e bolar um plano o mais rápido possível para que pudesse escapar, mas a verdade é que eu também sentia sua falta e o sorriso saiu frouxo ao vê-la.
– Anne! É tão bom te ver também... – a abracei com força – O que faz em Holmes Chapel? Faz tempo que não te vejo por aqui.
– Os garotos farão um show em Manchester esse sábado, então resolvi passar uns dias com a família. – começou a falar assim que partimos o abraço – Você deveria aparecer, aposto que estão todos com muitas saudades.
Bom, aposto que nem todos sentiam tantas saudades assim.
– Ah, Anne... – fiquei completamente sem jeito – Não sei se é uma boa ideia.
, eu entendo, do fundo do coração, se você não quiser ir. – segurou minha mão – Mas acho que de uma vez por todas, com ambos seguindo seus caminhos, bem crescidos e já bastante resolvidos, poderiam conversar. Antes de qualquer outra coisa vocês sempre foram muito amigos. Você faz parte da história dele, tenho certeza que ele adoraria te ver sábado!
Suspirei, abrindo a boca e não sabendo que palavras usar. Não achava nem um pouco sensata toda aquela conversa e estava prestes a recusar, mas então Anne voltou a falar.
– Ele não quer voltar para cá, . – senti uma pontada de tristeza no tom de sua voz – A família tem sempre que viajar para vê-lo, mesmo que seja até Manchester. – voltou a encarar as prateleiras, mas continuou falando – Sinto que ainda tem muito medo de te encontrar e não saber como você vai reagir e eu queria muito que ele pudesse retornar para casa, poder conversar e sair com seus amigos sem medo de esbarrar com você por ai, sabe? – então voltou sua atenção para mim – Sei que não tenho o direito de te pedir isso e você, obviamente, pode recusar, mas eu sei que é tolice da parte dele ter esse pensamento e é por isso que eu queria que você fosse, pra mostrar pra ele que isso tudo não tem um porquê.
Senti meu coração afundar no peito. Todas as vezes que ansiei por vê-lo nas ruas esperando que nos esbarrássemos, nunca aconteceria, pois ele nunca retornara e por minha culpa. Não era minha obrigação ter que conversar com ele para que pudesse voltar sem receio e a possibilidade de vê-lo novamente já não fazia parte dos meus desejos há um bom tempo, mas o jeito com que Anne veio até mim e me pediu por aquilo, fez com que meu coração parasse em minhas mãos. Ela, que sempre fora tão discreta e nada inconveniente, mesmo depois de anos sem me ver, não hesitou em me pedir por algo tão delicado. Naquele momento, ver Harry Styles já não parecia uma má ideia e parte de mim já ansiava pelo momento que fossemos nos encontrar novamente.
– Os ingressos já não esgotaram? – perguntei num tom de brincadeira e vi um sorriso surgir no rosto de Anne, que me abraçou novamente.
– Obrigada , mesmo! Só não esquece de levar um documento com foto, ok?
Anne fez questão de me deixar em casa e conversar comigo por mais alguns minutos. Eu realmente senti falta de ter esses momentos com ela, pois sempre fora mais que uma relação de “sogra” e “nora”, sempre tratávamos uma a outra como amigas. Já minha mãe ficou muito surpresa, tanto com o pedido de Anne quanto eu ter aceitado.
De sexta para sábado eu mal consegui dormir e ainda que estivesse passado o dia inteiro com o estômago embrulhado por conta da ansiedade, tive a capacidade de conseguir me atrasar.
Assim que estacionei próximo a Manchester Arena, pude escutar os gritos de milhares de garotas e cinco vozes cantando. Meu estômago praticamente gritou e eu fiquei num dilema de dez minutos, ponderando sobre entrar ou não. Estava um passo de desistir, mas lembrei o quão feliz Anne ficou por eu ter aceitado o convite e isso fez com que eu tomasse coragem. Mostrei meu documento com foto, assim como Anne pediu e fui direcionada sem demora para dentro do local. Um dos seguranças me guiava entre corredores e notei que a cada passo o som aumentava. Não estávamos indo para a área privativa nas arquibancadas, estávamos indo para as grades ao lado do palco.
How you felling, Manchester?
Por um segundo eu pensei em fugir, sair correndo e dizer a Anne que havia sido atropelada, ficado doente ou qualquer coisa extrema que me impedisse de ir ao show, mas já não havia mais escapatória, eu estava ali, ao lado de uma grande passarela, com uma credencial pendurada em meu pescoço. Assim que prestei atenção na proporção que tudo aquilo tomara, minha boca caíra e eu mal conseguia assimilar.
O palco era gigante e o espaço estava abarrotado de fãs histéricas. Estava tão distraída com a grandiosidade de tudo aquilo que nem percebi Gemma se aproximar. Veio até mim correndo e me abraçou com força.
– Eu não acredito que você realmente veio! Que saudades, garota. – a irmã de Harry me deu um beijo na bochecha e pegou em minha mão, me levando até Anne e algumas outras pessoas da família – Mãe, olha quem chegou!
– Ah, você veio! – foi a vez de Anne me abraçar – Eu já tinha desistido e já estava pronta para te ligar dando uma bronca depois do show. – riu logo em seguida.
Bom, esse foi o momento o qual eu me senti uma adolescente de quatorze anos ao ver Harry Styles novamente. Meu ex namorado estava absurdamente lindo. Seus cabelos agora estavam cumpridos e estranhamente atraentes, fazendo meu coração bater tão forte que tive medo de que alguém pudesse escutá-lo mesmo com tanto barulho ao redor.
Better Than Words tocava e apesar de eu não a conhecer naquele tempo, achei bastante divertida, mas não mais divertida do que o momento o qual Harry simplesmente levantou sua perna e agarrou sua intimidade, fazendo com que Gemma gargalhasse ao notar minha expressão ao ver aquela cena.
– Olha, eu não sei nem o que falar. – cruzei os braços, ainda o olhando dançar animado – Eu acabei de chegar e tenho que encarar uma coisa dessas!
– Ele é muito exibido. – Gemma riu e revirou os olhos – Mas se soubesse que você viria hoje, provavelmente não teria feito.
– O que? – praticamente gritei – Eu não acredito que vocês não o avisaram!
– Perderia a graça. – dizia debochada enquanto dançava – Eu mal posso esperar para ver a cara dele!
Passaram-se duas músicas e Harry ainda não tinha notado minha presença, mas Niall o fez enquanto eu conversava com Gemma. Ele olhou em minha direção e assim que eu notei seu olhar em mim, eu sorri de volta, acenando em seguida. Niall levou a mão até a boca, parecendo não acreditar e soltou uma risada exagerada em seguida. Correu na direção de Harry e falou algo em seu ouvido enquanto ele dançava e fazia palhaçadas esperando por sua vez de cantar. Assim que escutou Niall atentamente, mudou sua feição no mesmo segundo, ficando sério, e olhou na direção a qual o amigo apontava.
Nossos olhares se cruzaram e eu senti meu coração na boca. Sorri timidamente e Harry continuou com a mesma cara, até Liam o chamar, pois era sua vez de cantar e tinha perdido o primeiro verso. Harry direcionou sua atenção para a música, quebrando o contato visual, voltando a cantar, ainda um pouco encabulado, como se não conseguisse acreditar no que tinha acabado de ver.
Não demorou muito para que os cinco garotos estivessem cientes da minha presença, fazendo com que Louis descesse do palco e viesse me dar um abraço.
– Eu não acredito que você tá aqui , que saudades! – Louis me tirou do chão – Não vai embora sem antes me ver, ok?
Louis deu uma piscadela e com ajuda do segurança retornou ao palco. Isso foi o suficiente para que todas as fãs dentro daquela arena surtassem, afinal, não sabiam quem estava causando tudo aquilo.
– Tá tudo bem, ok? Elas são assim mesmo, só aproveita o show. – Anne me abraçou de lado e voltou a sua atenção ao palco, permanecendo nessa posição comigo – Eu adoro essa música.

Going out tonight
Changes into something red
Her mother doesn't like that kind of dress
Everything she never had she's showing off


Zayn deu início a próxima música. Eu nunca havia ouvido antes, então, ainda abraçada a Anne, escutava atenta cada verso. Ela cantava junto, com um sorriso no rosto e vê-la tão alegre fez com que eu sorrisse e me deixasse embalar no ritmo junto dela.

Driving too fast
Moon is breaking through her hair
She said it was something that she won't forget
Having no regrets is all that she really wants


Era a vez de Liam e todas fãs cantavam junto, em uníssono. Era maluco parar para pensar que aqueles cinco garotos imaturos haviam crescido tanto, tanto em relação a banda quanto engrandecimento pessoal. Estavam todos muito diferentes, as vozes mais firmes, técnicas, já não podiam encarar como uma brincadeira. Era coisa de gente grande.

We're only getting older baby
And I've been thinking about it lately
Does it ever drive you crazy
Just how fast the night changes?
Everything that you've ever dreamed of
Disappearing when you wake up
But there's nothing to be afraid of
Even when the night changes
It will never change me and you


Eu queria não ter ficado tão tensa quando Harry começou a cantar aqueles versos. Estava quieto, olhando num ponto fixo entre a multidão. Sua voz rouca fez com que cada pelo do meu corpo se eriçasse e que involuntariamente eu apertasse o braço de Anne que estava enroscado ao meu, tendo certeza de que ela notara, mas não dissera nada para que não me deixasse sem graça.

Chasing it tonight,
Doubts are running ‘round her head
He's waiting, hides behind a cigarette
Heart is beating loud, she doesn't want it to stop


Louis era o mais descontraído no momento e eu não podia negar, estava feliz com a sua atitude. Era o garoto entre os cinco o qual eu sentia mais falta e o único que lembrava do meu aniversário, desejava feliz natal e me mandava algumas mensagens esporadicamente. Éramos muito amigos, eu, Harry e Louis, o trio inseparável. Bom, não tão inseparável assim.

Moving too fast
Moon is lighting up her skin
She's falling, doesn't even know it yet
Having no regrets is all that she really wants


Niall cantava olhando e acenando para algumas fãs, fazendo com que ficassem loucas. Ele sempre foi o mais atencioso, desde o programa adorava a ideia de estar participando de uma boy band, era incrível presenciar o quanto tinha amadurecido.

We're only getting older baby
And I've been thinking about it lately
Does it ever drive you crazy
Just how fast the night changes?
Everything that you've ever dreamed of
Disappearing when you wake up
But there's nothing to be afraid of
Even when the night changes
It will never change me and you


Gemma agora se aproximara e, droga, não importava o tanto de tempo que havíamos passado uma distante da outra, ela me conhecia como a palma de sua mão. Notou o quanto eu estava tensa e começou a rir de forma debochada da minha cara.
– Você acha que é a única? – ergueu uma das sobrancelhar e cruzou os braços – Olha bem a cara dele! Não sei de quem eu dou mais risadas.

Going out tonight
Changes into something red
Her mother doesn't like that kind of dress
Reminds her of a missing piece of innocence she lost


Anne, que havia escutado o que sua filha dissera, não se aguentou e soltou algumas risadas também, me deixando ainda mais sem graça. Voltei minha total atenção para Harry e ele permanecia no mesmo lugar desde o início da canção, um tanto quanto alheio, como se não tivesse assimilado o fato de eu estar ali, entre a multidão.

We're only getting older baby
And I've been thinking about it lately
Does it ever drive you crazy
Just how fast the night changes?
Everything that you've ever dreamed of
Disappearing when you wake up
But there's nothing to be afraid of
Even when the night changes
It will never change, baby
It will never change, baby


E foi então no último verso da última estrofe daquela música o momento o qual eu tive praticamente certeza de que a qualquer segundo o meu coração pararia de bater. Meus olhos continuavam fixos em seu rosto e pela primeira vez durante a música, Harry desviou o seu olhar. Seus olhos se conectaram aos meus e seus lábios formaram um sorriso tímido, e mesmo tendo sido tudo muito rápido, senti que tive de unir cada força restante em meu corpo para que não desarmasse ali mesmo.

It will never change, me and you

– Essa cena poderia fazer parte de um filme de comédia romântica bem trash, como 10 coisas que eu odeio em você, e repetir sem parar na televisão aberta. É tão a cara de vocês... – Gemma fingiu enjoo, como se fosse vomitar, me fazendo rir.
– Eu juro que vou embora se você não parar com isso. – ameacei num tom de brincadeira.
– Eu duvido que você consiga deixar essa arena agora. – desafiou.
– Não pague pra ver. – ergui uma das sobrancelhas como forma de desafio.
Harry ficava cada vez mais à vontade com a situação, não mais confuso como início, e de acordo com Gemma, vivia olhando em nossa direção. Às vezes nossos olhares se encontravam e não pude deixar de notar que o pequeno sorriso não saía do canto de sua boca, pois sua covinha estava a mostra toda vez que direcionava sua atenção a mim.
Certo momento ele parou na passarela exatamente em nossa frente, com as mãos na cintura, me encarando.
– O que você está fazendo aqui? – apenas movimentou os lábios, sem emitir qualquer som.
Encolhi os ombros e levantei as mãos, como se também não soubesse o porquê de eu estar ali, fazendo com que ele soltasse uma gargalhada. Em seguida, aproximou o microfone da boca e disse:
– Essa você conhece.
As primeiras notas de What Makes You Beautiful soaram alto e eu fiquei bastante empolgada, fazendo com que eu e Gemma soltássemos gritinhos agudos. Harry sorriu por conta de nossa reação, afastando-se e caminhando em direção aos outros garotos logo após.
You’re insecure. – cantei com uma das mãos na cintura, olhando para Gem.
Don’t know what for. – continuou com a mão fechada em frente a sua boca, fingindo ser um microfone.
You're turning heads when you walk through the door. – cantamos juntas.
Don't need make-up. – imitei seu gesto com a mão, como se fosse um microfone.
– To cover up. – Gemma completou.
Being the way that you are is enough! – gritávamos em uníssono, parecendo duas fãs histéricas, fazendo Anne gargalhar – Everyone else in the room can see it... everyone else but you! – apontamos uma para a outra.
A arena explodia com as fãs gritando o refrão em êxtase e os garotos pulavam e cantavam pelo palco com um sorriso enorme no rosto. Aquela música fez com que um sentimento de nostalgia muito gostoso tomasse conta do meu corpo, era como se o tempo não tivesse passado, como se estivéssemos num show em 2011. Dançávamos e curtíamos a música e eu senti como se tivesse dezessete anos novamente.
Baby you light up my world like nobody else. – os cinco estavam parados lado a lado e Harry estava no meio, com uma luz branca de um holofote sobre si. Eu senti meu coração bater como na primeira vez que o vi no corredor do colégio e no momento em que direcionou seu olhar para mim com um largo sorriso no rosto, tive certeza de que aquele órgão pulsante pularia para fora do peito – The way that you flip your hair gets me overwhelmed, but when you smile at the ground it ain't hard to tell... you don’t know, oh, oh... – sorri de volta de forma involuntária e balancei a cabeça negativamente, como se não aprovasse o que estava acontecendo, o fazendo rir por conta do ato – You don’t know you’re beautiful!
– Não parece que voltamos no tempo? Há quatro anos? – Gemma perguntara, fazendo com que eu voltasse minha atenção a ela.
– Eu tive a mesma sensação e tenho que admitir... é muito bom. – a abracei de lado –Senti sua falta, Gem.
– Eu já vi isso tantas vezes, mas admito que vou sentir falta. – me abraçou de volta – Eu também senti sua falta e acho melhor voltarmos a nos falar.
– Sentir falta? Vai parar de vir aos shows? – separei nosso abraço e voltei minha atenção a ela.
– Você não sabe? – me olhou surpresa, com a boca aberta num perfeito ‘O’ – Você mora numa caverna, ?
– O que eu deveria saber? – dei de ombros – Não, não moro numa caverna, mas também não fico procurando sobre a banda do meu ex namorado na internet.
– Eles vão parar, a banda anunciou um hiato. – suspirou e fez um bico – É estranho saber que... sei lá quando eu vou ver eles juntos num palco de novo.
Então olhei para o palco e não consegui assimilar a informação muito bem. Uma dor estranha invadiu meu peito e eu não queria acreditar que era verdade. Havia os acompanhado desde o início, os vi evoluir, os vi conquistar o mundo, mas principalmente, vi Harry se tornar um artista incrível.

Flashback

Um Harry antes choroso voltou sorridente ao lado de outros quatro garotos da mesma faixa etária me deixando bastante confusa. Meu namorado correu em minha direção e me abraçou com força, tirando meus pés do chão.
– Nós conseguimos! – disse com o rosto afundado em meu pescoço – Nos colocaram como um grupo, nós conseguimos!
O meu coração que antes sangrava por ver Harry tão abatido, batia forte no peito, fazendo com que a alegria transbordasse através de lágrimas.
– Eu sabia que você conseguiria... – separei nosso abraço e segurei seu rosto com ambas as mãos – Eu tô tão orgulhosa.
– Obrigado por sempre estar ao meu lado, por sempre me incentivar e nunca deixar de acreditar em mim. – Harry sorriu e enxugou minhas lágrimas, unindo nossos lábios num selinho em seguida – ... – virou seu corpo para os quatro garotos que estavam logo atrás de nós – Esses são Louis, Niall, Liam e Zayn.

End of flashback


Só consegui me desvencilhar daquela memória ao perceber que Harry vinha em nossa direção bastante animado, mas logo minhas expressões se fecharam pois cuspiu água para cima como uma baleia.
– E eu odeio o seu irmão. – soltei simplesmente, mas acabei rindo da situação em seguida.
– Eu disse, ele é muito exibido. – Gemma mostrou o dedo do meio para ele, que mostrou a língua para ela, se afastando logo em seguida.
– Vocês não mudaram nada.
*

Gemma andava de mãos dadas comigo entre os corredores, contando algumas situações engraçadas pelas quais tinha passado nos últimos tempos. Caminhávamos em direção a porta do cômodo o qual Harry e Louis estavam e assim que ela notou que conversavam, colocou o braço na frente do meu corpo, fazendo com que eu parasse e o dedo indicador em sua própria boca, pedindo para que eu ficasse em silêncio.
– Anne deve ter a convidado! – Louis exclamou – Mas ela deveria ter te avisado.
– Eu não sei no que pensar. – reconheci a voz de Harry – Ela estando ali, por um segundo era como se... era como se o tempo não tivesse passado, como se nada tivesse mudado.
– Eu estou rezando para que alguém tenha filmado a sua cara, mate. – Louis zombou – Foi ridícula.
– Cala a boca. – ouvimos um barulho, provavelmente Harry havia atirado algo contra Louis, e em seguida risadas de ambos – O que você esperava? A última vez que a vi pessoalmente foi quando terminamos.
– Ainda bem que Nadine não estava, se não...
Sua irmã não deixou com que a conversa prosseguisse e soltou uma risada, entrando logo em seguida, como se tivesse acabado de chegar. Provavelmente estava receosa com o rumo que a conversa tomaria e como aquilo poderia me atingir, mas o que eu ouvi tinha sido o suficiente para que meu coração batesse feito uma orquestra no peito.
Forcei meu melhor sorriso ao vê-lo, pois não queria parecer idiota ao encarar seu abdômen exposto e suado, agora completamente coberto por tatuagens, seus cabelos longos e rebeldes, a camiseta apoiada no ombro e uma das mãos na cintura. Ele já não era aquele garoto magrelo de quinze anos e meu cérebro não conseguia processar tanta informação, mas pelo menos eu não sabia dizer quem parecia mais nervoso com a situação. Era perceptível o clima que se instalou no local.
– Oi Harry.
Acenei, mesmo estando em sua frente e tomei iniciativa para cumprimentá-lo. Queria poder ter visto esse momento de fora, deve ter sido engraçado. Fui com a intenção de abraçá-lo e ele estendeu a mão, vendo sua atitude, estendi a mão e no mesmo momento ele veio para um abraço e acabamos nos esbarrando, rindo em seguida. Então segurei seus braços para que parássemos a confusão e beijei sua bochecha, rezando mentalmente para que não tivesse notado todos os meus pelos se eriçarem por conta da proximidade.
– Oi . – disse próximo ao meu ouvido enquanto me cumprimentava.
Louis não deixou que eu tivesse tempo para processar qualquer coisa a se dizer, me abraçando logo depois.
– Eu não acredito que você está aqui... – plantou um beijo em meu rosto e me soltou em seguida – Calma, tem alguma coisa diferente. – ponderou, pensativo – AHÁ! Colocou silicone... senti no abraço. – soltou uma gargalhada, fazendo com que os outros também rissem.
– Bem observado, Louis. Eu teria me esquecido de contar as novidades. – revirei os olhos e soltei uma risada, ainda sem jeito.
Olhei para Harry, notando que me fitava com um sorriso nos lábios.
– Foi um ótimo show, sério, eu me senti exatamente como uma fã quando what makes you beautiful começou a tocar. – ao dizer aquilo, Harry riu e deu bons goles numa garrafa d’água, sem tirar os olhos de mim – E o palco é enorme, as telas, tudo muito bonito.
¬– É, hoje foi incrível, casa cheia. – Harry colocou uma das mãos na nuca, a coçando – Vários amigos vieram, foi divertido.
– Gemma me contou sobre o hiato. – disparei de repente – Eu... eu não sei o que falar. – respirei fundo e rezei para que não saíssem lágrimas dos meus olhos – Meu Deus, não posso chorar na frente de vocês agora! – os dois riram e Louis voltou a me abraçar – Fico feliz em ter feito parte disso.
– Obrigado por tudo , não teria sido a mesma coisa se você não estivesse lá. – Louis fez um carinho desengonçado em meu cabelo e pude ver Harry concordando com a cabeça, enquanto nos encarava abraçados.
– Oun, vocês são tão fofos. – Gemma sorriu de modo forçado, soando um tanto quanto sarcástica – Louis, você precisa ver as fotos de hoje, ficaram incríveis.
– Ah, eu posso ver depois. – assim que Louis notara o modo com que Gemma o encarava, entendeu o recado – Mas acho que o lanche chegou, tá com fome Gemma?
– Morrendo de fome! Tchau , me liga, ok? – acenou e carregou Louis para fora do camarim e nos deixado sozinhos.
– Okay... – Harry soltou uma risada e voltou a vestir a camisa, sentando-se no sofá em seguida.
Não existiam motivos para odiar Harry Styles. Exceto sua boa postura e educação. Seus olhos expressivos e vívidos. O tom rouco de sua voz. O seu maldito sorriso perfeito. Suas mãos firmes e convidativas. Seus traços bem desenhados e sua língua que insistia em umedecer seu lábio inferior a cada dois minutos.
– Quer se sentar? – apontou para o espaço vago ao seu lado no sofá e assenti, sentando em seguida – Que bom que gostou de hoje à noite, as coisas estão bem maiores do que costumavam ser há quatro anos atrás.
– É, com certeza, e você também mudou bastante, digo, não o rosto, mas... todo o resto. – disse apontando para o seu corpo, fazendo com que Harry risse sem graça.
– E você tá igual... – me analisou da cabeça aos pés – Exceto pelo silicone, é claro, como Louis fez questão de apontar. – riu do meu rosto que ficara completamente vermelho – Mas, mudando de assunto, como vai a faculdade?
– Cansativa, mas está tudo muito... – o toque de seu celular soou alto, antes que eu pudesse finalizar – tudo muito bem.
Harry pediu licença, se levantou e foi até o corredor, atendendo a chamada em seguida. Eu sei que qualquer coisa relacionada a vida de Harry Styles não me dizia mais respeito, mas não pude evitar em inclinar meu corpo para que pudesse escutar melhor o que dizia.
– Eu sei que tinha prometido te buscar. Eu sei, mas... – suspirou pesadamente – Tudo bem, vou me apressar, ok? Eu também.
Tratei de me ajeitar novamente no sofá assim que a ligação foi finalizada e fingi estar concentrada em qualquer coisa no celular, lutando para simplesmente ignorar ou esquecer o que eu havia acabado de escutar. “Eu não me importo ”, repetia mentalmente, até Harry voltar a se sentar.
– Não quero ocupar seu tempo, sei que é tudo muito corrido. – ele abriu a boca na tentativa de protestar, mas prossegui – Queria me desculpar por ter aparecido assim, achei que você sabia que eu viria, mas tem um motivo.
– Você não tem o que se desculpar, ok? – o tom de sua voz se tornara sério – A banda não se resume só a mim e... bom, somos amigos, não?
– Sim, claro, somos amigos. – sorri sem mostrar os dentes.
Talvez se prometesse a paz mundial teria soado mais realista do que forçar uma amizade entre nós dois.
– Mas qual o motivo? – percebi certa curiosidade no perguntar.
– Harry... – me aproximei, ainda sentada no sofá, e coloquei minha mão sobre a sua, fazendo com que fitasse nossas mãos juntas por um tempo – Não tem por que você deixar de visitar sua família e amigos em Holmes Chapel por minha causa. Não somos mais crianças. – Harry suspirou, desviando o olhar em seguida – Não existe nada mais relevante do que aqueles que te amam e prezam pela sua presença, muito menos um término de quatro atrás.
Suas íris voltaram a me encarar e aquele curto período de tempo em silêncio o qual ficamos simplesmente nos olhando pareceu eterno. Nossas mãos ainda juntas agora emanavam calor e uma inquietude dominava meus dedos, pois queriam se entrelaçar aos seus. Nossos corpos, lenta e involuntariamente, inclinavam-se para frente e pude sentir seu dedão se movimentar sutilmente, acariciando minha mão, mas assim que passos fortes ecoaram pelo corredor, levantei imediatamente num pulo e separei nossas mãos.
– Eu tô bem, você tá bem. – meu coração batia forte por conta do susto – Tá tudo bem e Anne ficará muito feliz se você for.
Harry levantou em seguida, passando a mão em seus cabelos, visivelmente nervoso e assentindo positivamente com a cabeça.
– Obrigado por vir até aqui me dizer isso.
O telefone de Harry voltou a tocar e pude ver na tela brilhante sua foto junto de uma garota. Meu coração parou e senti meus pulmões gritarem por ar. Logo que notara meu olhar sobre a tela, tratou de pegar o aparelho. Notei que iria ignorar a ligação, mas o impedi, segurando seu braço.
– Eu já tô indo. – soltei seu braço e me aproximei, ficando na ponta dos pés para poder lhe abraçar – Bom te ver.
– Bom te ver também. – pude sentir o abraço apertar e em seguida se desfazer.

Capítulo 3

If we could only have this life for one more day

If we could only turn back time




A semana seguinte ao show foi um inferno, é como se eu estivesse revivendo os piores dias da minha vida.
– Eu não acredito que virei manchete! – encarava a tela do computador, praticamente gritando. Cliquei na matéria e li em voz alta o corpo da notícia, para que minha mãe também escutasse, me torturando a cada palavra.

Harry Styles estaria relembrando os bons e velhos tempos?

Até onde sabíamos, um dos cinco membros da boy band mais querida, não só da Europa como do mundo, estaria em um relacionamento com a modelo Nadine Leopold, nos fazendo acreditar que dessa vez era para valer (clique aqui para ver Harry Styles e Nadine Leopold em jantar romântico). Contudo, uma certa aparição na última apresentação da banda no domingo (4) fez com que o mundo inteiro se perguntasse: Harry Styles estaria relembrando os bons e velhos tempos?
Os flashes capturaram o momento o qual Anne, mãe de Harry, e , sua ex-namorada, estavam abraçadas curtindo o show bem ao lado do palco. As fãs presentes relataram que o ex-casal não poupou olhares cúmplices durante todo o show e que Nadine não estava presente.
(foto anexa de Anne e durante o show)
Você não lembra de ? Então refrescaremos sua memória. Harry e mantiveram um relacionamento antes mesmo da banda ser formada. Segundo o mesmo, durante uma entrevista , desde os tempos de colégio. O namoro durou cerca de dois anos, chegando ao fim um pouco depois da banda ter completado um ano. “Foi um término amigável”, disse Harry para nós em 2011, “uma decisão difícil a ser tomada, tenho profundo respeito por ela e acredito que continuaremos a ser bons amigos” (leia a entrevista na íntegra).
(fotos anexas de Harry e durante o namoro)

Seria este encontro a confirmação da contínua amizade ou o renascer das chamas de um velho amor? Bom, ainda não sabemos a resposta, mas Harry pareceu passar trabalho para convencer sua atual namorada de que não passou de um encontro entre amigos. Na mesma noite o cantor buscou Nadine no aeroporto e o casal não parecia estar tendo um bom momento. Os flashes capturaram o descontentamento da modelo.
(fotos anexas de Harry e Nadine no aeroporto)
, não esqueceremos de você... estaremos todos bem atentos.


Relembre:
As 10 namoradas de Harry Styles
Os melhores looks de Nadine Leopold
Como conquistar o coração de Harry Styles? O cantor explica em 5 passos


– “Uma decisão difícil a ser tomada”. – repeti debochada, numa voz afetada – “Acredito que continuaremos a ser bons amigos”. – encarei a nossa foto e senti uma lágrima escorrer.
Por um momento tudo pareceu girar e meu estômago gritava, embrulhado. Aquilo não poderia acontecer. Meu nome não poderia estar em uma manchete após quatro anos.
– Isso não pode estar acontecendo. – então todas as outras lágrimas vieram – Não, não, não.
Oscar rondava a cama preocupado, como se soubesse qual o tema do assunto, deitando em meus pés logo em seguida.
– Filha, eu não suporto ter que te ver assim… sinto muito por ele estar com outra garota.
– NÃO! Não fala sobre isso, eu não quero falar sobre isso. É óbvio que ele arranjaria alguém, só não precisava ter visto, eu não queria ter visto. – fechei a tela do notebook com força – Esse é o menor dos meus problemas, na realidade, pouco me interessa se ele namora ou não, eu só não queria estar nessa posição, eu não queria estar nessa situação. – pus as mãos no rosto tentando fazer com que as lágrimas parassem, sem sucesso. Eu queria esquecer a foto dos dois brilhando na tela de seu telefone – Eu não queria lembrar de tudo o que senti por ele, lembrar que tudo isso ainda existe dentro de mim. Porque isso ainda tá dentro de mim? Mãe, por favor, faz parar. – disse manhosa, fazendo com que ela viesse até mim e me abraçasse.
– Filha, tenho certeza que Harry também não está lidando bem com essa situação. – acariciou meus cabelos enquanto.
– Mas e que diferença isso faz? Nenhuma. Nada mais importa. Meu rosto tá estampado em todos os sites de fofoca e isso era a última coisa que eu precisava. – falava entre soluços – , não esqueceremos de você. – repeti a última frase da matéria, fazendo com que o medo tomasse conta de todo meu corpo, me encolhendo no abraço de minha mãe – Isso é o inferno na terra.
– Claro que importa. – minha mãe fez com que eu olhasse em seus olhos – Filha, você não come direito desde o dia desse maldito show, faltou mais aulas essa semana do que na graduação inteira e é a terceira vez que você acorda chorando no meio da noite. – desfez o abraço e ajeitou o edredom por cima do meu corpo – Você nunca deve ter notado, mas toda essa história fez com que doesse muito em mim e em seu pai também, achávamos que vocês casariam!
– Não tá ajudando, mãe… – falei baixinho e funguei, segurando sua mão e entrelaçando nossos dedos.
– Mas também vimos você passar por tudo isso e aprender a seguir em frente, ser feliz de novo, nos fazendo acreditar que o Harry não era a pessoa certa pra você.
Fechei meus olhos com força, querendo afastar a dor de escutar a pior das verdades. Harry não era o cara certo pra mim. Eu já não era alguém importante para ele. Eu carregava aquela dor sozinha e pensar nisso fez com que eu me sentisse ainda mais patética. Eu terminei, eu tomei aquela decisão que um dia pareceu tão sensata, eu bloqueei o número do seu telefone, eu não abri a porta para que ele entrasse, eu joguei fora todas as flores, foi eu quem decidiu esquecer primeiro.

Flashbacks

– Harry… – minha cabeça estava encostada em seu ombro, voltávamos do local do show para o hotel – Você promete que isso tudo… isso tudo nunca vai fazer com que a gente se separe?
– Isso tudo o que? – bocejou cansado – Nada no mundo inteiro vai fazer mudar o que eu sinto aqui dentro. Nada.
Harry pegou em meu queixo e fez com que nos olhássemos
– Você nunca pode duvidar de mim em relação a isso, ok? Jura? – balancei a cabeça positivamente e ele sorriu, beijando minha testa – Momentos difíceis aparecerão, não vou prometer que tudo vai ser fácil porque é algo que não depende só de mim, mas você precisa ficar ao meu lado e procurar entender essa oportunidade que foi dada a mim… Até porque nada disso teria graça se você não estivesse do meu lado.
*

– Então, agora o que todos, ou melhor, todas essas garotas realmente querem saber… – o entrevistador intercalou o olhar entre os meninos e a plateia – Como vai o coração dos garotos mais cobiçados da Inglaterra?
As garotas ao meu redor soltaram gritinhos e percebi o olhar de Harry sobre mim, sorrindo sem graça.
– Harry Styles! – o homem muito bem-vestido num terno cor grafite o chamou, fazendo com que o meu namorado voltasse a sua atenção para ele – Como vai esse coraçãozinho? Você namora, não namora?
– Muito bem, obrigado. – soltou uma risada e ajeitou seus cachos – Sim, ela está aqui, inclusive.
As garotas ao meu redor procuravam inquietas por mim e eu queria estrangular Harry naquele momento.
– Ah, é mesmo? Onde? – olhava atento para a plateia.
– Bem ali… – apontou para mim e pude sentir meu rosto queimar, mas por educação, acenei para o apresentador do programa – Não é a coisa mais linda?
Eu queria sair correndo e esconder o meu rosto no primeiro buraco que aparecesse em minha frente. Harry percebera o quão desconfortável eu me sentia, mas, mesmo assim, ria da situação.
Assim que a pergunta fora direcionada para os outros garotos, voltou a olhar em minha direção e pude ler seus lábios, que diziam sem emitir qualquer som.
– Eu te amo.
*

Meu coração latejava de tantas saudades que sentia de Harry. Eu não conseguia dormir, Oscar estava deitado em seu lugar ao meu lado na cama e minha cabeça doía por conta das horas a fio chorando.
Eram três e vinte e sete da manhã quando meu celular começou a vibrar em cima do criado-mudo, nosso cachorro deu um latido bastante alto e meu coração deu um pulo ao perceber que se tratava de uma ligação de vídeo de Harry. Enxuguei os olhos, mas estes ainda brilhavam por conta das lágrimas e meu rosto permanecia bastante vermelho.
Assim que a ligação se estabeleceu, pude ver Harry fungando do outro lado da tela, com o rosto bastante vermelho também. Eu simplesmente não consegui. Não consegui segurar. Ver o seu rosto visivelmente choroso, assim como o meu, fez com que eu voltasse a chorar descontroladamente. Harry não disse nada e também voltou a chorar. Eu queria poder me teletransportar, queria abraçá-lo, queria beijá-lo, queria segurar sua mão e gritar para todo o mundo o quanto eu o amava.
Não falávamos nada, apenas olhávamos um ao outro através da tela. Eu não lembro quanto tempo ficamos assim, mas aos poucos nos acalmamos. Nos encarávamos em silêncio e, de repente, Harry levou uma das mãos à cabeça, como se não acreditasse em todo o sentimento que carregava, como se não soubesse como lidar. Então voltou a olhar para a tela do celular e fungou novamente em seguida.
– Eu te amo.
– Eu te amo, Harry.
*

, por favor, abre a porta. Por favor, por favor…
Harry falava do outro lado da porta do meu quarto, com uma voz chorosa. Seus punhos batiam à madeira, cada vez mais forte e eu não conseguia proferir uma palavra ou me mover. Permaneci sentada na cama, em silêncio, vendo a porta vibrar com os socos.
abre a porta agora! – gritou e bateu de maneira tão forte que fez com que eu levasse um susto e arregalasse os olhos.
Os latidos de Oscar, também do outro lado, ficaram mais altos e logo ouvi a voz da minha mãe, calma, mas também assustada.
– Harry, querido, por favor, não torne as coisas mais difíceis…
Os socos pararam, minha mãe segurara as suas mãos.
, por favor… – falava baixinho dessa vez, encostando a cabeça na porta – Me perdoa, eu não queria ter esquecido… não me faz ter que nos esquecer também… abre a porta. Eu preciso te ver.
Não consegui segurar o soluço e as lágrimas que vieram em seguida, fazendo com que ele escutasse e também começasse a chorar.
– Eu, eu não consigo entender como você realmente acredita que a gente vai conseguir ser feliz um sem o outro… A gente não vai conseguir… Amor, abre essa porta.
Levantei, com a mão ainda na boca, abafando os soluços. Encostei minha cabeça na porta, fechei os olhos e suspirei.
– Harry… eu já consegui.

End of flashbacks


Olhei para a porta fechada por um instante, mas logo voltei a atenção para a minha mãe.
– E você também tem o Matthew...
– Matty não está aqui, – a olhei emburrada – está?
– Só não quero ter que vir aqui outra noite e ver você desse jeito. – finalizou, beijando minha testa e levantando da cama – Você é muito melhor que isso, filha.
– Mãe, não vai… – involuntariamente, minhas expressões de choro retornaram e algumas lágrimas ameaçaram voltar.
Ela fez o caminho de volta para a cama e permaneceu ao meu lado até que eu dormisse. Eu só não queria ter que acordar, eu só não queria ter que lembrar que eu não o tinha mais ao meu lado. Não queria me culpar tanto, lembrar tanto, eu só queria voltar a acreditar de que foi a decisão certa a se tomar, de que tudo passaria e era exatamente daquele jeito que era para ser.

*

Harry

– Promete que vai se cuidar? – minha namorada perguntou enquanto ajeitava suas malas.
– Não sei porque se preocupa tanto. Vou ficar com a minha família, assim como você. – voltei minha atenção para ela.
– É, não tem o porquê me preocupar, a não ser que uma namoradinha do colégio resolva lhe fazer uma visita. – disse amarga.
Nadine fez com que eu lembrasse da possibilidade de trombar com durante meu período de férias em casa. Durante esses quatro anos, era a segunda vez que voltava para Holmes Chapel depois do término e o primeiro contato de minha atual namorada com a minha família.
Eu simplesmente não consegui tirar de minha cabeça por sequer um dia desde o show em Manchester, fazendo com que me desligasse um pouco do meu relacionamento com Nadine e, consequentemente, deixando-a cada vez mais frustrada e triste, o que fazia com que eu me sentisse cada vez mais culpado. Nunca quis magoar Nadine, estava bastante satisfeito com o nosso relacionamento até então, mas não pude evitar a avalanche de sentimentos que o encontro com proporcionara. Eu queria seguir em frente, eu queria esquecê-la, mas os dias se arrastavam cada vez mais dolorosos, atrelados a lembrança de como dançava, cantava e olhava para mim durante o show e da proximidade dos nossos corpos antes que deixasse o camarim. Seria engraçado se não fosse trágico todos os reflexos de um simples contato físico com . O jeito como nossas mãos se dispuseram e o quanto eu queria que aquele contato tivesse se aprofundado me assombravam cada vez mais.
A verdade é que naquela mesma tarde em Manchester, assim como em todos os outros shows naquela arena, durante os últimos quatro anos, eu projetava diversas vezes em minha cabeça a possibilidade de sua aparição e estar diante da concretização de meus devaneios foi um choque e tanto.
Vê-la encarando a ligação de Nadine em meu celular fez doer em mim. Vê-la deixando o camarim às pressas doeu muito mais, mas i nsistir naquilo era loucura e eu estava completamente ciente daquilo, por isso eu não havia desistido de Nadine. Eu queria conseguir tentar mais, eu estava disposto a tentar mais, na esperança de que tudo aquilo fosse passageiro, de que um dia eu acordaria completamente bem, tendo esquecido de tudo aquilo que me atordoava.
– Ei… – abracei Nadine por trás e plantei alguns beijos em sua nuca – Eu já te expliquei, ok? Foi tudo um mal-entendido, você sabe como a mídia distorce as coisas. – fiz com que virasse de frente para mim – Nem fui eu quem a convidei.
– Mas sua mãe a convidou! – insistiu no assunto, com uma voz manhosa – Ela não gosta de mim?
– Claro que gosta. – ajeitei uma mecha de seu cabelo atrás de sua orelha – Mas já disse pra deixar isso pra lá, passou e… – olho no relógio – Vamos nos apressar, seu trem parte daqui a pouco.
– Eu te amo, Harry… – Nadine disse assim que me virei para alcançar as chaves do carro em cima da cômoda. Respirei pesadamente e me senti péssimo por ter que enfrentar aquela situação.
– Eu também. – voltei a lhe fitar e sorri sem mostrar os dentes, beijando o topo da sua cabeça em seguida.
Nadine sorriu sem graça e pude notar que minhas palavras não mais lhe convenciam. Senti meu coração apertar por conta disso. Não queria lhe fazer sofrer. Não queria que ambos tivessem que passar por aquilo. O percurso até a estação foi silencioso e nos despedimos com sorrisos tímidos e um selinho demorado de Nadine, fazendo parecer que aquela despedida seria definitiva.
O retorno para a casa de minha mãe foi tão melancólico quanto o percurso até a estação e eu não estava preparado para passar por aquela porta e receber o bombardeio de informações que estavam guardadas no peito de Anne. Minha mãe me conhecia mais do que a si própria, provavelmente. Tentei passar despercebido pela cozinha, já que minha mãe estava de costas, preparando algo no balcão, mas falhei.
– Não adianta Harry, uma hora ou outra a gente vai ter que conversar e eu preferia que fosse agora. – se virou para mim, apoiando-se no balcão – Eu não aguento mais te ver assim.
– Assim como, mãe? – me sentei em uma das cadeiras da cozinha, me rendendo àquela conversa que eu não conseguiria mais evitar – Tô aqui como você queria, como você pediu, como a minha ex namorada pediu porque você pediu! – p areci uma criança mimada e triste recitando a última frase, fazendo com que minha mãe soltasse uma risada.
– Eu não sabia que isso mexeria tanto com você, meu amor. – veio até mim e acariciou meu rosto, fazendo com que eu fechasse meus olhos por um momento – Eu queria conseguir me desculpar, mas não posso.
– Por que não pode? – abri meus olhos e a fitei intrigado.
– Porque nada acontece por acaso, não acha? – ergueu uma de suas sobrancelhas –Eu não encontrei naquele supermercado por acaso e tenho certeza que ela não foi até aquele show simplesmente porque pedi.
– O que você acha, então? – apoiei meu queixo em uma de minhas mãos, interessado com o rumo da conversa.
– Eu acho que desde que a vi passar pela primeira vez por aquela porta, eu tive certeza do que significaria na sua vida, Harry. – sorri involuntariamente ao ouvir suas palavras – Você não tem noção o quanto quis brigar com você por ter esquecido aquela data, mas simplesmente não conseguia! Eu seria a pior pessoa do mundo se ralhasse com você por aquilo, como o faria depois de ver você sofrendo tanto? Sabendo que tudo não passou de um mal-entendido, que não foi por querer... Você tem o mundo nos ombros e eu, mais do que ninguém, sei disso, mas também não a culpo por não entender. – senti uma lágrima teimosa escorrer enquanto escutava minha mãe falar, não conseguindo mais lhe encarar – Harry, você é um menino tão bom e não é só porque sou sua mãe que tô falando. Não existe uma pessoa no mundo que te conheça e não goste de você e, meu amor, não é exceção.
– Eu não quero me sentir esperançoso e ser rejeitado de novo, mãe. – enxuguei aquela mesma lágrima – E estamos esquecendo de um ponto bem importante: Nadine. Ela é minha namorada agora e gosta de mim, não vou desrespeitá-la.
– Não estou sugerindo que traia a confiança de Nadine, Harry. – disse ofendida – Mas não posso evitar sentir que esse encontro foi o início de um recomeço.
– Eu não vou me apegar em possibilidades! – levantei um pouco alterado – Nem eu, nem você, nem ninguém sabe o que se passa pela cabeça de e eu não posso me deixar abater de novo, mãe.
– Eu não sei o que se passa na cabeça dela, filho, mas o que meus olhos veem e o que eu sinto, ninguém me convence do contrário.
– E o que você viu, afinal? – perguntei frustrado.
– Só um completo sem noção não notou a forma com que ela te olhou durante todo o show! Se aquilo não é amor Harry, eu não entendo nada de amor.
Anne voltou a sua atenção para o balcão devido ao meu silêncio e respirou pesadamente. Encarou o porta chaves e ponderou, pegando a etiquetada com “apto. 703” e colocando em cima da mesa. Sem dizer mais nada, rumou até o seu quarto no interior da casa.
– Golpe baixo! – falei antes que saísse do meu campo de visão, fazendo com que antes de sumir entre os corredores, lançasse um sorriso cumplice para mim.
Encarei a chave por um tempo, enquanto minha mente travava uma batalha entre tomar coragem e ir até lá ou me convencer de que não era uma boa ideia. Acabei optando por ir, repetindo para mim mesmo que não demoraria, seria só uma passadinha, apenas para ver se tinha deixado algo de interessante. Peguei a chave diante de mim e decidi que iria caminhando, eu sentia falta daquelas ruas.
Cumprimentei dois ou três conhecidos pelo caminho, mas nenhum ficou tão surpreso quanto Joe, o porteiro, quando me viu se aproximar do prédio.
– Eu não acredito... Harry! Você por aqui, mate. – assim que me aproximei com um sorriso no rosto, Joe me abraçou.
– Vim visitar minha família, já fazia um bom tempo... – suspirei ao encarar a fachada, colocando as mãos nos bolsos da calça enquanto a admirava – Tenho saudades daqui.
– Da cidade ou do apartamento? Aposto que você tem um bem maior agora! – soltou uma risada simpático.
– Dos dois, Joe, dos dois. – fui andando em direção ao elevador, apertando o botão em seguida – Nem tudo o dinheiro compra.
Notei que Joe forçou seu melhor sorriso após minha última constatação, como se soubesse exatamente do que se tratava. Na realidade, tenho certeza de que sabia. Acenei de volta antes que entrasse no elevador, apertando o número sete logo depois.
Meu estômago deu um nó e pude escutá-lo se revirar dentro de mim. Eu estava nervoso. Mesmo sabendo que ela não estaria lá. Mesmo sabendo que ela não abriria a porta e que não receberia os abraços de Oscar. Mesmo sabendo que era só um apartamento empoeirado e alguma mobília. Mas era o nosso apartamento. Era a nossa história. O girar da chave na tranca parece ter demorado muito tempo, assim como o abrir da porta e por um tempo eu desejava não ter aberto. Estava tudo exatamente como antes e nada empoeirado, para minha surpresa. Então pensei na possibilidade de minha mãe ter contratado alguém para que mantivesse limpo e sorri sozinho por isso.
O sentimento de nostalgia invadiu cada molécula do meu corpo e eu simplesmente não conseguia parar de analisar cada detalhe daquele cômodo. Fechei a porta e caminhei lentamente até o meio da sala, encarando o sofá e durante alguns minutos senti raiva de mim mesmo por sentir vontade de chorar por estar diante de um simples sofá.

Flashback

– Amor, acho que o sofá poderia ficar um pouco mais pra frente… – disse com uma das mãos na cintura e a outra enxugando algumas gotículas de suor na testa, enquanto encarava a disposição da mobília na sala. Estávamos no segundo dia de mudança e não parava um segundo.
– E eu acho – me joguei no sofá – que deveríamos descansar um pouquinho… – chamei-a com o dedo e ela sorriu marota, deitando-se sobre mim.
Passei as mãos pelo seu tronco, abraçando-a e dei início a um beijo calmo, curtindo o momento no nosso sofá, no nosso apartamento. Assim que os carinhos tomaram um rumo mais quente e o beijo já não era tão mais calmo, pude sentir um peso sobre nossos corpos e uma língua que também queria fazer parte do beijo.
– Oscar! Saí de cima, agora! – praguejei assim que separamos nossos lábios, recebendo outra lambida do nosso cachorro e risadas histéricas de – Não tem graça, eu não queria um beijo seu agora… – reclamei para Oscar que notou o tom de voz e se aquietou, deitando em nosso meio.
– Vocês são os amores da minha vida, sabia? – seus olhos brilhavam enquanto nos olhava e logo nos abraçou – Eu não trocaria isso por nada.

End of flashback


Sentei no sofá, apoiando os cotovelos nos joelhos e a cabeça em minhas mãos e ri de mim mesmo. Achava engraçado como eu era apegado em pequenos momentos e fazia questão de guardá-los muito bem em minha memória. As coisas mais corriqueiras, os tiques e manias que passariam despercebidos por qualquer um, eu fazia questão de guardar. Um dos meus maiores prazeres era analisá-la enquanto estudava, cozinhava ou assistia televisão. Eu era feliz em estudar os seus movimentos e conhecer cada centímetro de seu corpo, simplesmente por saber que só eu a conheceria tão bem no mundo e que tudo aquilo que fazia a ser a também era meu, porque ela era minha. Era um universo inteirinho ali, diante de mim, e acessível a mim como a nenhuma outra pessoa.
E de achar toda aquela situação engraçada, de repente eu fiquei triste. Triste por saber que tinha lhe perdido. Triste por não conseguir dimensionar quanta coisa eu perdi em sua vida e todas as novas manias e tiques que se desenvolveram ao longo do tempo que eu não conhecia. Triste, chorando, desesperado, ao encarar aquele calendário na parede e lembrar que aquele universo que uma vez foi meu e só meu, deixou ser descoberta por outras pessoas. Triste, chorando, cambaleando até chegar a porta do quarto, encarar a nossa cama vazia e lembrar que não estava muito longe dali, implorando baixinho para que por qualquer motivo divino ela aparecesse em nosso antigo apartamento e me permitisse saber se ainda escuta as mesmas músicas e se ainda dança na frente do espelho depois do banho com a toalha na cabeça, se ela ainda tinha aquele óculos way farer preto que a deixava irresistível ou se guardou seu tênis favorito rasgado. Eu queria saber quais os filmes tinha assistido e quais comidas diferentes tinha provado. Eu queria tanto saber. Triste, chorando, sozinho, até pegar no sono, querendo acordar tendo certeza de que não passou de uma noite mal dormida e um pesadelo desgostoso.
Na manhã seguinte acordei com minha mãe preparando alguns ovos na cozinha. Disse que as toalhas estavam limpas e guardadas no banheiro, que havia trazido minha mala com todas as minhas roupas e que poderíamos ir juntos ao mercado comprar o que fosse necessário para que eu conseguisse me virar no tempo que decidisse passar lá.
– Eu sabia que você não voltaria na mesma noite. – tinha um sorriso no rosto vitorioso, como quem dizia “eu já sabia, eu te avisei” – Ah, tem algumas cobertas nas cômodas também, você estava congelando quando cheguei aqui pela manhã.
– Desde quando você mantém isso tudo limpo e organizado? – perguntei com a boca cheia de ovos que Anne preparara, fazendo com que minha mãe soltasse uma risada – Desculpe. – disse após engolir e ri junto dela.
– Desde sempre, pelo menos uma vez a cada três meses, mas assim que aceitou ir ao show, eu pedi que limpassem e ajeitassem imediatamente. – minha mãe tinha um sorriso maroto no rosto – Eu sabia que ela te convenceria em voltar pra casa e que muito provavelmente você gostaria de visitar, eu sei o quanto você gosta desse lugar. Ainda bem que tive essa ideia!
– É por isso que eu te amo mãe, obrigado.
Minha mãe sorriu cúmplice para mim, beijando o topo da minha cabeça enquanto eu ainda comia.
– Mas se precisar chorar... – encarou meus olhos inchados – Você corre lá pra casa, ok?

Capítulo 4

Somehow it feels like nothing has changed
Right now, my heart is beating the same



Uma semana passou rápido demais desde que Nadine fora embora de Holmes Chapel e o nosso contato era mínimo. Eu sabia que o nosso relacionamento estava fadado ao término, eu só não queria ter que tomar a decisão e dizer as palavras.
E há uma semana eu dormia em meu antigo apartamento, revezando entre composições, recaídas e companhia de alguns dos meus antigos amigos do colégio.
– Amanhã é o aniversário de Nicholas. – disse Noah jogado em meu sofá onde dormira aquela noite, enquanto passava os canais da televisão – Vamos fazer uma festa pra ele lá em casa, todo mundo do colégio vai, você tem que ir, mate.
– Todo mundo? – tentei soar despretensioso, mas pude ouvir a risada fraca de Noah.
– Ela foi convidada, mas acho que não vai aparecer. – levantou do sofá e foi até mim – Ela se afastou de todo mundo depois do término, mas mate, por favor, deixa isso pra lá, já faz quatro anos, você tem uma namorada gostosa... – lhe lancei um olhar de reprovação que o fez rir – Ok, desculpa, mas enfim, você tem uma namorada e ponto. Você tá em outra, ela ta em outra, esquece e aparece lá, ok?
– Tudo bem, eu vou pensar.
– Pensar? – Noah revirou os olhos – Nem vem com essa, Harry! – dirigiu-se até a porta, abrindo-a em seguida – Você vai sim, nem que eu tenha que te buscar!
Meu amigo passou pela porta e me deixou sozinho mais uma vez, deixando com que aquela frase não parasse de ecoar em minha cabeça: ela ta em outra. Esse tempo todo me martirizei pela minha culpa em nosso término, pensando que esse, junto do meu relacionamento, eram os únicos motivos que nos impedia de estar juntos, mas nunca tinha passado pela minha cabeça que ela poderia estar namorando também. Eu estava exausto. Não aguentava mais toda aquela angustia e os dias se arrastando da forma mais dolorosa possível. Tudo me remetia a ela e ao mesmo tempo que eu queria me desvencilhar de tudo que me assombrava, eu queria ir até ela e roubá-la pra mim, pondo um fim naquela dor.
Fazendo com que eu me distraísse em relação aos meus pensamentos, escutei meu celular tocar. Minha irmã estava me ligando.
– Bom dia depressão! – minha irmã falou num tom de brincadeira e pude escutar minha mãe ralhar com ela por isso – Tudo bem, desculpe, é só uma brincadeira.
– Bom dia Gemma... – respondi tranquilamente – Aconteceu alguma coisa?
– Mamãe está fazendo um almoço e pediu para que você viesse comer com a gente, você vem?
– Claro, já tô pronto, logo mais eu tô aí!
– Tudo bem, beijos cabeção!
– Beijos velhota. – pude escutar sua risada antes que finalizasse a ligação.
Vesti o sobretudo que estava apoiado a cadeira, peguei a chave do apartamento e ponderei ao pegar a do carro, optando por ir a pé. Ao descer, cumprimentei Joe despreocupadamente que oferecera uma xícara de café preto e puxou um papo sobre o time de futebol da cidade.
– Bom dia Joe! – uma voz feminina o cumprimentou e assim que virei para ver de quem se tratava, senti meu corpo enrijecer.
– Bom dia, senhorita. – Joe falou sem jeito, não sabendo como agir, talvez estivesse tanto em pânico quanto eu.
É. Talvez nem tanto quanto eu.
estava há alguns metros de mim, brincando com Oscar no jardim do prédio. Vestia o suéter marrom com bolinhas verdes e meu coração apertou. Aquela era a peça que sempre usava quando estava triste, pois dizia que era confortável e acolhedor, então me perguntei o porquê de ela estar usando aquela peça e por qual motivo estaria triste, mas antes que eu pudesse ao menos a cumprimentar, já estava praticamente deitado no chão. Oscar havia pulado em cima de mim, me derrubando.
Nunca tinha visto nosso cachorro daquele jeito. Oscar latia tão alto e de um jeito tão diferente que não parecia estar se comunicando, mas chorando. Pulava em cima de mim e lambia meu rosto sem parar. Quando consegui me sentar a abraçá-lo, parou de lamber, mas de forma alguma parava de latir. Pude notar que não tinha saído do lugar e nos encarava de pé, esfregando os olhos.
Não sei exatamente quanto tempo aquilo durou, mas tenho certeza de que não foi menos que dez ou quinze minutos. Então, só depois de todo esse tempo, quando finalmente se aproximou, agachando-se próxima a nós, que seus latidos cessaram completamente. Oscar saiu dos meus braços e se colocou em nosso meio, intercalando seu olhar entre e eu. Mas não sabíamos o que fazer ou o que falar, Joe não se fazia mais presente, e por aquela situação de silêncio ter se estendido tanto, Oscar soltou um único e alto latido.
– Ele sentiu sua falta. – respondeu rapidamente, logo após o latido, sorrindo sem jeito.
– É, eu também senti falta dele. – Oscar voltou aos meus braços, abanando o rabo, fazendo com que aquela lágrima que ficou tanto tempo ali, teimosa presa em meus olhos, deslizasse pelo rosto.
Vê-la ao meu lado, tê-lo em meu colo, fez com que aquela sensação de que nada mudara me invadisse novamente. Como se meu coração nunca tivesse saído de casa. Estávamos nós dois, lado a lado, em frente ao nosso apartamento, com o nosso cachorro. Eu torcia mentalmente para que o ano fosse 2011.
Seus dedos brincavam impaciente uns com os outros, significando que não sabia lidar com a situação. Seus olhos passeavam por todos os cantos, mas não ousavam pousar em mim, pensando em todas as frases que poderia falar para que o clima não pesasse tanto.
– Achei que tivesse vendido o apartamento. – disse baixinho e percebi através de suas feições que se martirizava por ter tocado naquele assunto.
– Não, não vendi. – respondi imediatamente, enquanto acariciava Oscar – Eu tô passando um tempo aqui, graças a você... – notei um sorriso brotar no canto da boca de e me toquei do que tinha acabado de dizer – Digo, não porque você tá aqui ou porque era nosso apartamento, mas na cidade, sabe? Pelo o que você disse na arena aquele dia que minha mãe lhe pediu para que eu visitasse a minha família e que era besteira não voltar pra casa por conta do que a gente teve um dia e... – respirei fundo, após falar aquilo tudo tão rápido e nervoso – Desculpe. – ri sem graça em seguida, sentindo meu rosto ferver de vergonha, mesmo com o frio que estava na rua, fazendo-a soltar uma risada gostosa.
– Tudo bem Harry, eu entendi. – levantou-se em seguida, colocando a guia em Oscar que reclamou na forma de latidos – Bem, tenho que ir...
– É, eu também tenho. – levantei com ajuda de que estendera a mão e aproveitei para abraçá-la em forma de despedida.
pareceu não se dar conta do que estava acontecendo, pois demorou um pouco para que retribuísse o abraço, mas quando o fez, pude sentir os nossos corpos totalmente colados. Meu rosto, pelo curto período do abraço, estava perigosamente próximo ao seu pescoço que emanava um cheirinho tão bom que a última coisa que eu queria fazer era ter que me despedir.
– Se cuida. – ainda de olhos fechados, disse baixinho próximo ao seu ouvido, antes de quebrar o ato.
Pude sentir suas mãos apertarem o meu casaco assim que escutara aquelas palavras, afastando-se em seguida.
– Você também, Harry. – sorriu sem mostrar os dentes.
Oscar se fez muito relutante e latia muito, tanto quanto no momento o qual me viu, não querendo se afastar. puxava a guia com força, mas nosso cachorro olhava em minha direção como quem dizia que não sairia de lá sem mim. Fui em sua direção, me agachando em seguida e recebendo uma lambida como recompensa pela aproximação.
– Vai para casa, campeão. – acariciava sua cabeça – Eu prometo que vou te visitar, ok?
Levantei assim que notei as expressões de Oscar transparecerem serenas e sorri para antes que me afastasse em passos largos em direção a casa de minha mãe. Seus latidos estavam cada vez mais distantes.
Eu não pude evitar caminhar com um sorriso largo e besta no rosto. levava Oscar no jardim de nosso apartamento para brincar e minha mãe tinha razão, aquilo cheirava a início de um recomeço.
*



Depois de rever Harry em frente ao nosso antigo apartamento, Oscar adoeceu novamente, pois apesar de prometer que visitaria, não é como se o nosso cachorro fosse entender. Mas eu entendi, e pensar na possibilidade de Harry vir com certa frequência a minha casa fazia com que eu ficasse mais receosa ainda.
Achei que nada poderia fazer com que tudo piorasse depois de pensar na possibilidade de Harry estar morando com sua atual namorada em nosso antigo apartamento, até receber as notas das últimas provas do semestre. Com o fechamento das notas e do período, nada se fez interessante o suficiente para que eu me levantasse da cama. Oscar e eu só saíamos do quarto para ir ao banheiro, não sabia dizer qual dos dois estava mais abatido.
Independente de quantos remédios para dormir eu tomasse, Harry insistia em aparecer até mesmo em meus sonhos, fazendo com que eu despertasse angustiada praticamente todas as noites. Apesar de toda a cordialidade e simpatia durante nosso encontro, eu tinha que ser realista: não existia mais nós. Existia Harry Styles e Nadine Leopold nos cômodos que uma vez fora nosso. Eu tinha ânsias de vômito ao imaginar.
Detestava ver minha mãe tão aflita com a minha reação aos últimos acontecimentos, dizendo que se não houvesse melhoras, conversaria com Anne. Claro que ela não o faria, mas ameaçava na esperança de que eu demonstrasse melhora.
Fazia uma semana que eu estava de recesso e, consequentemente, uma semana que eu estava de cama. Oscar estava deitado em meus pés, ainda muito quieto, enquanto eu lia um dos livros recomendados pelo professor de Contextos Internacionais do Direito Penal. Aliás, eu estava no último ano de Direito na Universidade de Manchester. Meu pai era delegado, aposentado há alguns anos e sempre tive grande admiração pelo seu trabalho, assim como minha mãe, que sempre me incentivava a seguir a carreira jurídica. Vários colegas meus também achavam o máximo durante o período de colégio, inclusive Harry, que antes da banda, sempre teve muita vontade de seguir a carreira jurídica, mas assim que comecei a cursar e o tempo se tornou curto, já não parecia gostar tanto da ideia.
Ao contrário de Harry, o meu melhor amigo e, mais tarde, meu segundo namorado, Matthew sempre me apoiou muito. Nossos pais eram colegas de trabalho e vizinhos, por isso desde muito pequenos andávamos juntos. Com o tempo, Matty levou embora toda a tristeza, era um ótimo companheiro e em momento algum deixou de ser um grande amigo, sempre muito compreensível. Eu aprendi a ser feliz de novo e o nome de Harry quase nunca surgia. Claro, procurávamos evitar, até porque os dois também eram amigos.
Apesar de Matthew nunca pensar em seguir a carreira de policial, sempre teve muito orgulho. O dia da morte de George, seu pai, foi um dos mais tristes. Nunca o vi tão arrasado. George estava numa perseguição policial e acabara perdendo o controle do carro, batendo de frente com um poste. Então, o meu melhor amigo e naquele tempo, também namorado, teve que partir. Cardiff, em Gales, não era tão longe, quatro horas de viagem eram o suficiente. Continuamos o namoro por mais três meses depois da mudança, mas com ambos estudando e ele tendo que trabalhar para ajudar a sua avó a pagar as mensalidades da Universidade, as passagens semanais pesavam no orçamento. Com certeza foi, também, um dos piores momentos da minha vida. Mas, independentemente da distância, nunca paramos de nos falar ou deixamos de sentir o carinho que tínhamos um pelo outro. Nas últimas semanas, por conta de tudo que acontecera, o contato foi se tornando raro até praticamente acabar. As últimas mensagens dele, como de qualquer outro amigo, eu não respondia.
Pensar em Matthew naquele momento não fez com que as coisas melhorassem, então, frustrada com meus pensamentos, deixei o livro de lado.
– Mãããããe! – gritei do meu quarto, manhosa, fungando em seguida – Tá na hora do chá...
Ela não respondeu. Chamei mais duas vezes. Nada.
Emburrada, levantei da minha cama cambaleando, pois me sentia fraca, já que há dias que não comia direito. Assim que pus a mão na maçaneta, senti a porta ser empurrada para trás, revelando minha mãe com o chá em mãos.
– Desculpa a demora meu amor, estava servindo primeiro a visita. – entregou a xícara em minhas mãos, com um sorriso insistente nos lábios.
– Visita? Que visita? – arrumei meus cabelos rapidamente na tentativa de melhorar o estado imprestável no qual eu me encontrava. Me olhei no espelho em seguida e percebi que não havia adiantado, ficando emburrada e fazendo com que minha mãe soltasse risadas por conta da situação. Minhas olheiras eram notáveis e minha cara estava bastante amassada. Coloquei a xícara em cima da cômoda e procurei por uma escova de cabelo – Deveria ter me avisado que receberíamos visitas! – escovava apressada meus cabelos em frente ao espelho.
– Mas ele não avisou, simplesmente apareceu. – continuava rindo de mim.
– Ele? – parei e voltei a fitar minha mãe – Ele quem?
Por um momento, a possibilidade de Harry estar na sala da minha casa tomando chá com a minha mãe enquanto eu estava naquele estado fez com que eu ficasse tonta.
– Ah, não interessa, diz que não estou bem, que estou indisposta, com sono, doença contagiosa, sei lá! – sentei na lateral da cama, derrotada – Não sou obrigada a falar com todas as visitas...
– Eu já te vi em estados piores...
Eu não queria acreditar na voz a qual eu estava escutando.
Minha mãe não falou nada, simplesmente saiu do quarto e logo em seguida escutei a porta se fechar.
Eu simplesmente não tinha coragem para virar, eu simplesmente não conseguia acreditar que ele realmente estava ali. Respirei fundo, permanecendo imóvel, até que ouvi seus passos em minha direção e senti o colchão afundar, pois havia sentado ao meu lado.
– Você não tá com uma doença contagiosa mesmo, né? – Matty perguntou, me fazendo soltar uma risada.
Ele riu logo em seguida, puxou meu corpo para perto e me abraçou. Antes de partirmos o abraço, beijou o topo da minha cabeça e acariciou meus cabelos. Era como se eu estivesse em mais um dos meus sonhos, era como se aquilo fosse bom demais para estar acontecendo naquele momento tão desagradável da minha vida.
Ele não disse nada por um tempo. Fez com que eu deitasse em seu peito e com uma das mãos me fazia um carinho na cabeça e com a outra em Oscar, que parecia um pouquinho mais contente.
– Eu vou te matar, sabia? – quebrei o silêncio, fazendo com que Matty soltasse uma gargalhada – Eu não te vejo há três meses, olha bem o meu estado! Você poderia ter ao menos avisado.
– Calma, eu acabei de chegar. Deixa eu te curtir só um pouquinho, aí pelo menos vou morrer feliz. – soltou uma risada nasalada – E não é como se eu não tivesse tentado avisar...
Eu senti meu rosto esquentar por conta da vergonha. Eu havia ignorado todas as mensagens, ligações e tentativas de comunicação de Matthew.
– Matthew, desculpa, eu não... eu não tô me sentindo bem ultimamente, eu só queria ficar um pouco sozinha.
– Eu sei. – disse simplesmente, me deixando confusa.
– Você sabe? – perguntei com certo receio na voz.
– Bom, quando eu vi o seu nome em uma manchete, eu...
– Você viu aquela notícia? – lhe interrompi, sentando no mesmo momento – Matty, não é nada daquilo...
– Posso continuar? – me interrompeu de maneira tranquila, porém séria.
– Pode, desculpe.
– Então eu liguei para sua mãe e ela parecia bastante preocupada. – suspirou – A princípio não queria me contar e então eu já deduzi do que se tratava, insisti no assunto e ela me contou o que estava acontecendo.
Matthew esperava que eu falasse algo, mas eu simplesmente não conseguia. Eu não tinha coragem, eu sentia vergonha. Era como se tivéssemos voltado no tempo, há quatro anos.

Flashback

Eu estava sentada na varanda, com o meu chá em mãos, encarando as estradas desocupadas e os postes de luz acesos. Já era noite e o vento gelado, mas não era como se eu conseguisse sentir algo ou me importar. Fazia um mês e meio do término. Os surtos já haviam passado, eu já não chorava durante a noite e não precisava de remédios para que conseguisse dormir. O vazio tomou o lugar da dor estridente. Quase não falava, na realidade, eu mal pensava, era como um período de aceitação. Eu precisava digerir o que havia acontecido e a minha nova realidade e pra isso eu só precisava de espaço.
Eu olhava fixamente para os arbustos do vizinho, até que Matthew tomou o meu campo de visão, caminhando em minha direção.
Meu melhor amigo sentou ao meu lado, com as mãos no bolso do casaco, pois fazia bastante frio. Permanecemos em silêncio por um bom tempo, até que Matty tirou a xícara de chá vazia em minha mão e entrelaçou nossos dedos. Encarei nossas mãos e o seu rosto em seguida.
– Eu sempre estive aqui e sempre vou estar. – quebrou e silêncio – Mas isso tem que parar.
– Matthew, por favor, eu só quero... – minha voz saiu fraca, mas antes que eu prosseguisse, meu amigo me interrompeu.
– Ficar sozinha, eu sei, mas te ver sofrer me faz sofrer também, ou você acha que é fácil ver alguém que você ama se martirizar assim? – ajeitou atrás da orelha uma mecha de cabelo que cobria meu rosto – , acabou e você quem quis assim.
Eu senti uma lágrima quente e solitária escorrer pelo meu rosto, então fechei os olhos em seguida, mas dessa vez Matty não a enxugou. Segurou meu rosto com suas duas mãos e pude sentir sua aproximação, pois sua respiração quente batia em meu rosto. Beijou meus dois olhos, ainda fechados, enquanto acariciava minhas bochechas com seus polegares e encostou sua testa na minha em seguida.
– Eu te amo. – disse baixinho – E tá me matando por dentro te ver assim. Eu sei o quanto ele significou e significa na sua vida e sempre vou entender, mas deixa eu te ajudar. Eu não vou te deixar sozinha, nem que você implore por isso.

End of flashback


– Desculpe por ser tão injusta. – disse repente, fazendo com que Matty voltasse sua atenção para o meu rosto.
– Injusta?
– Depois de tudo que você fez por mim, depois de tudo que tivemos e passamos juntos... eu... me desculpe, Matthew.
Meu também ex namorado respirou fundo. Matthew sempre foi muito forte e racional, apesar de bastante carinhoso e sensível, mas ele já não conseguia mais esconder o fato de que não era indiferente aquilo. Ele se importava e também sofria.
– Eu disse que te ajudaria. – olhava fixamente para um ponto aleatório no quarto – Disse que não te deixaria e te deixei.
– Matthew...
– Mas também disse que sempre entenderia e... eu juro que eu tento. Eu não entendo, mas eu juro que sempre que eu fico diante dessa situação, eu tento me convencer de que eu entendo e que sempre vou entender, porque eu te amo... eu te amo tanto , tanto... Eu nunca deveria ter ido embora.
Pus as mãos na frente da boca para que os soluços não soassem tão alto. Eu não conseguia parar de chorar e soluçar desesperadamente. Estava péssima por ainda pensar no Harry, por também não entender o porquê de ele mexer tanto comigo e me sentindo pior ainda por submeter Matthew àquela posição.
– Ma-matty, me-me des-desculpe. – gaguejei ante os soluços, sentindo seus braços me envolverem e sua boca tocar o topo de minha cabeça – Eu so-sou uma idi-diota, você-cê não tem cul-culpa.
– Eu prometi que não te deixaria... eu nunca quis te deixar e é por isso que eu tô voltando.
Separei o nosso abraço e esfreguei meus olhos, encarando-o.
– Você tá-tá voltando?
– Sim, mas só eu. – enxugava algumas lágrimas de meu rosto – Claro, eu insisti bastante, principalmente depois que conversei com a sua mãe. Você sabe como a vó é muito protetora, mas ela percebeu que... eu não estava feliz em Cardiff e que como minha faculdade está praticamente no fim, nada mais me prende lá.
– Você voltou pra mim... – o abracei com força.
– Mas você tem que me prometer uma coisa.
– Qualquer coisa. – disse num tom ainda choroso.
– Você é minha e só minha. – separou o nosso abraço e olhou fundo nos meus olhos – Pra sempre.
– Pra sempre?
– Casa comigo.

Capítulo 5

But now I see your heart's been taken
And nothing could be worst

Harry


Era sexta-feira à noite, eu estava jogado no sofá da minha mãe, sem perspectiva alguma de sair de lá para ir à festa de aniversário do Nicholas. Noah me mataria, mas assistir the notebook pela milésima vez me parecia uma ideia muito melhor. Minha mãe preparava pipoca e Gemma não parava de perguntar sobre meu encontro com a no dia anterior.
– E então eu prometi que visitaria Oscar. – disse despreocupado, olhando para a televisão.
Gemma soltou uma gargalhada.
– Claro, visitar Oscar. Você é ótimo Harry, precisa me ensinar.
Ri do comentário de Gemma sem desviar atenção do superinteressante comercial de pasta de dentes que passava.
– Cabeção, seu celular tá vibrando. – minha irmã pegou o celular em cima da mesa de centro da sala.
– Deve ser o Noah, ignora.
– Não é não, é a sua doce e incrível namorada. – estendeu o aparelho – Nadine.
Peguei o celular de sua mão com certa urgência e rumei até os fundos da casa, atendendo em seguida. Antes mesmo que eu abrisse a boca para lhe dizer qualquer coisa, pude escutar um barulho de música alta ao fundo e sua voz estridente praticamente aos berros. Estava bêbada.
– Boa noite Harry Styles. – seu tom era de deboche – Você tem um tempo pra mim ou aquela vagabunda já tá na sua cama?
– O que? – perguntei perplexo.
– É o seguinte, acabou. O... como é o seu nome mesmo? Ah, sim, o George aqui dará conta de mim como você nunca deu antes. Eu quero que você vá pro INFERNO! – Nadine começou a chorar – Eu te amava Harry, eu te amava e tudo que você fez foi me trocar por aquela... garota medíocre.
– Nadine, você tá bêbada, quer ajuda? – respirei fundo, tentando manter a calma.
– Tá vendo! Você não tá bravo, não tá contestando! É porque sabe que é verdade. – fungou do outro lado da linha – Vai se foder.
E simplesmente desligou.
Parte de mim estava realmente preocupado com a situação e sem saber o que fazer, outra parte estava aliviada por aquele momento finalmente ter chego sem ter sido eu que tivesse tomado a iniciativa e ainda outra parte se sentia completamente culpada por conta da segunda parte.
– Tá tudo bem? – Gemma perguntou assim que entrei – Que cara é essa?
– Não quero falar sobre isso agora. – peguei as chaves do carro em cima da mesa de centro – Vou na festa de aniversário do Nicholas e durmo em casa, não precisam me esperar.
– Achei que fossemos ver filme. – apareceu Anne na sala, com uma tigela de pipoca em mãos.
– Eu vejo com você mãe, deixa o Harry ir, sair com os amigos.
– É, você tá certa. – minha mãe veio até mim e ajeitou meus cabelos, beijando meu rosto em seguida – Se cuida, filho.
– Pode deixar mãe. – beijei seu rosto também – Te amo.
– Me liga qualquer coisa! – pude escutar sua voz num tom mais alto, enquanto eu já entrava no carro.
Durante a trajetória até a casa de Noah, me senti o pior dos cafajestes. Minha namorada me liga completamente bêbada, termina comigo e tudo que eu faço é pegar o carro para ir numa festa procurar pela minha ex.
Tive que estacionar um pouco longe da casa por conta da quantidade de carros que ocupavam as ruas, mas já conseguia ouvir o som alto e os gritos advindos dela. Enquanto caminhava até a casa, eu bolava as melhores frases para quando encontrasse com . Se ela estivesse lá. Se estivesse sozinha lá. A possibilidade de ela não estar naquela casa ou estar acompanhada fazia com que meu coração doesse, principalmente a segunda opção.
Caminhei até os fundos, para o quintal, e não demorou muito para que Noah me avistasse e viesse até mim, já completamente bêbado, com um sorriso largo na cara.
– Eu sabia que você viria! – passou o braço pelos meus ombros – Vem, vamos ver o Nicholas.
Nicholas estava virando uma sequência de cinco shots de tequila. Eu teria ficado preocupado se não soubesse que ele aguentava muito mais. Assim que meu amigo percebera minha presença, veio pulando até mim e quase tropeçando nos próprios pés, me abraçou.
– Harry Styles! Na minha festa! – falou alto, fazendo com que todos ao redor notassem a minha presença e que um sorriso sem graça surgisse em meu rosto – Que bom que veio mate, relembrar os bons tempos. Tequila? – apontou para a garrafa em cima da mesa próxima a nós.
– Feliz aniversário, Nic. Essa semana entrego o seu presente, ok? – meu amigo abriu um sorriso – E não, tequila não, obrigado.
– Espero que seja algo muito bom, agora que você é mais rico que Holmes Chapel inteira. – riu logo depois – Tudo bem então, você sempre foi meio fraco pra tequila mesmo, mas lá tem cerveja e lá tem vodka e whisky. – disse enquanto apontava para os locais onde estava a bebida e saiu caminhando e cambaleando até um sofá com várias garotas, o que me fez rir.
Graças ao meu amigo aniversariante, depois de toda aquela atenção que chamou para mim, foram pelo menos duas horas cumprimentando e conversando com amigos e colegas da época do colégio que, sempre que notavam que meu copo estava quase vazio, tornavam a enchê-lo. Minha visão já estava turva, eu estava completamente bêbado.
Sentei em um sofá na sala, onde agora estava a maior concentração de pessoas e olhava ao redor na esperança de encontrá-la. Apesar de não ter a visto até agora, não pude deixar de ouvir seu nome diversas vezes em rodas de conversa pela festa. Era como se fosse de propósito, como se quisessem que eu escutasse.
– Ela não veio, mate. – Nicholas sentou ao meu lado, junto de Noah.
– Quem? – tentei fingir não entender a afirmação, mas só fez com que meus amigos rissem da minha cara – Ok, tudo bem, tudo bem. Eu tô procurando ela.
– Ele só veio por causa disso, Nic. Ele não tá nem ai pra você. – Noah zombou.
– Mas porque acham que ela não veio? – arrisquei.
– Ela desapareceu mate, mal fala com a gente. – Nicholas começou – E você sabe o quanto ela era apegada ao nosso pessoal, nos víamos toda a semana, mas ela simplesmente sumiu, até que…
– Até que o que? – minhas expressões fecharam.
– Até que ela apareceu com o Matty. – Noah falou de uma vez, olhando para Nicholas em seguida, como se tivesse receio da minha reação. Eu permaneci em silêncio, esperando o restante da história – A gente notava que ela não se sentia à vontade quando tava todo mundo no mesmo lugar, mas Matty era nosso amigo, estávamos quase sempre juntos.
– Era? – perguntei curioso – Como assim era?
Já havia notado que Matthew era um dos poucos que não tinha aparecido na festa. Éramos um grupo de cinco no colégio, e ele era um de nós, mas mais do que meu amigo, ele era de . Desde muito pequenos eram muito grudados, melhores amigos. Nunca tive nenhum motivo para desconfiar de ambos, mas confesso que sabendo daquilo, comecei a reviver alguns momentos em minha cabeça e um certo ciúme brotara.
– Ainda é, claro, mas… o pai dele faleceu, sabe? Acidente de carro. – Noah pareceu abatido ao lembrar e em seguida bebeu um bom gole, como se quisesse esquecer – Então ele se mudou pra Gales com a avó.
Eu sabia que era errado, mas não pude deixar de me sentir aliviado por saber que os dois não estavam mais juntos, ainda que por conta de um acidente que matara o pai de Matthew, o que, simultaneamente, me fez sentir culpado por tanto egoísmo.
– E a ? – repeti o ato de Noah e bebi um bom gole de whisky no meu copo – Quer dizer, como ela ficou?
– Gostosa? – ouvi a voz de Charlie atrás de mim, o outro membro do nosso grupo, fazendo Noah e Nicholas rirem. Impulsivamente, derrubei seu copo no chão, fazendo com que todo o líquido derramasse, gerando mais risadas.
– Mais respeito. – disse antes de finalizar o copo, bebendo o restante.
– Não te devo respeito em relação a isso, Styles. – Charlie dizia sério, enquanto pegava outro copo – Até porque não sou hipócrita, boa parte do colégio queria estar no lugar do Matty. – com o copo na mão, meu amigo apontou para Noah e Nicholas, que se fizeram de desentendidos.
– É, você tem razão, eu não tenho mais nada a ver com isso.
– Aha! Então quer dizer que a catraca tá livre? – Noah perguntou e riu logo depois. Assim que notou que eu não gostara do que tinha dito, parou de rir – É brincadeira, não me olha assim.
– Não, vai em frente. – eu disse debochado, com os sentidos confusos – Só não sei se o estilo retardado faz o tipo dela. – meus amigos gargalharam, inclusive Noah.
– Ah, se não fosse o tipo dela, com certeza ela não teria namorado dois anos com Harry Styles. – rebateu.
Larguei o copo agora vazio na mesa e fechei os olhos com força, querendo que todo aquele álcool saísse de meu corpo imediatamente, assim como a imagem de da minha cabeça.
– Ah, chega! Por favor chega desse assunto. – pedi com um certo cansaço.
– E a sua namorada? Nadine, não é? – Nicholas perguntou – É pra valer?
– Era. – suspirei pesadamente – Ela terminou comigo hoje.
– Então toma. – Charlie estendeu mais um copo cheio de um líquido que eu não sabia dizer o que era.
E eu aceitei.
Nunca achei que dançaria Abba em cima de uma mesa, que cantaria o hino da Inglaterra com pessoas desconhecidas, que choraria abraçando um pilar e fosse carregado até a cama dos pais de um amigo, tudo isso em menos de dez minutos. Eram quase três horas da manhã quando Noah e Charlie me carregaram até o andar de cima da casa.
– Acho que você exagerou, mate. – Charlie deu tapinhas em meu ombro – Precisa de alguma coisa?
– Eu tô bem. Eu to ótimo... – funguei, ficando de bruços, abraçando um dos travesseiros – Acho que eu só preciso descansar os...
– Descansar os olhos, é, nós sabemos... – Noah completou, soltando uma risada – Algumas coisas nunca mudam. Você deu um show hoje, huh?
– Dei? – perguntei confuso, já com os olhos fechados – Mas eu tô de férias... – bocejei em seguida.
Juro que tentei escutar o que diziam, mas tudo agora estava muito confuso e distante.
– Charlie? – chamei meu amigo, esfregando meus olhos, enxugando as últimas lágrimas – Você acha que ela também pensa em mim?
Mas ninguém respondeu e só então percebi que estava sozinho
Fazia tempos que não bebia tanto, estava completamente fora de mim. Depois do copo que Charlie me oferecera, virei dois ou três shots de tequila e eu realmente não sabia como tinha aguentado tanto tempo em pé depois de beber tanto. Eu só não queria pensar o quão irresponsável e injusto eu fora em relação a Nadine, não queria sentir tanta raiva de Matthew por ter tomado o meu lugar e, principalmente, não queria sentir tantas saudades de .
Assim como a euforia que o álcool proporciona chegara arrebatadora, fazendo com que eu dançasse Dancing Queen em cima de uma mesa e cantasse o hino da Inglaterra a todo pulmões, ela também foi embora muito rápido e tudo que eu soube fazer foi chorar, foi chorar feito criança na frente de parte da festa que, por estarem tão loucos quanto eu, provavelmente não entenderam o que estava acontecendo. Eu chorava por me sentir tão sozinho, por perceber que nada daquilo ocuparia o vazio que eu estava sentindo, e então abracei a primeira coisa que vi em minha frente: um pilar. Nic não sabia decidir entre rir muito ou estar muito preocupado, foi quando então chamou Noah e Charlie para me carregarem para um quarto. Não demorou muito para que eu apagasse naquela cama.
Depois de um tempo, abri meus olhos com certa dificuldade ao sentir algo se movimentar ao meu lado. Era Nicholas, que também dormia, só que um tanto quanto agitado. Apalpei os bolsos da minha calça na procura do meu celular e ao achá-lo, achei que o brilho me cegaria. Eram cinco e quarenta e dois da manhã.
Levantei com certa dificuldade e tendo plena certeza de que ainda estava bêbado. Demorei, pelo menos, cinco minutos descendo as escadas e sai da casa de fininho, sem me despedir de ninguém.
Encarei meu carro estacionado e decidi que, definitivamente, aquela não seria uma boa ideia. Senti meu estômago reclamar por um instante e decidi sentar na calçada, antes de ir caminhando até meu apartamento.

Flashback

– Harry, decididamente, não foi feito pra beber. – escutei Nicholas dizer, enquanto eu estava com as mãos no rosto, sentado na calçada, após um show da White Eskimo e do meu primeiro porre.
– Como você tá, mate? – Matty sentou ao meu lado, deu tapinhas em minhas costas e estendeu uma garrafinha – Pega, um pouco de água.
Agradeci com um sorriso e dei bons goles, me sentindo bem melhor.
– Eu tô melhor, obrigado. – deixei a garrafinha de lado – A já foi embora? Ela não viu o que aconteceu, né?
– Não, acho que não. Ela te procurou pra se despedir, mas eu disse que você tava ocupado recebendo o cachê.
– Eu não queria que ela me visse nesse estado, eu devo estar péssimo.
– Você tá. – ouvi a voz de Charlie, que acabara de sair de dentro do pub, seguida de uma risada – Tá gostanto dela? Da ?
– Eu prefiro a Abigail... – Noah se meteu.
– Mas você não tem que preferir nada, Noah. – levantei com certa dificuldade e voltei minha atenção para Matty que parecia alheio – Você pode me dar uma carona?
– Claro.
Matthew e eu nos despedimos de todos nossos amigos e andamos em direção ao carro do seu pai que pegava para dirigir as vezes. Ele morava há quatro quadras de mim, assim como , que era sua vizinha.
– Você tá gostando dela, não tá? E me pediu carona pra saber se ela gosta de você também. – Matty disparou enquanto ligava o carro.
– Matty, eu...
– Eu espero que você realmente goste, porque não cansa de falar de você e eu não aguento mais. – soltou uma risada sem graça, fazendo com que um sorriso involuntário surgisse em meu rosto – Cansei de ouvir sobre o jeito que você pegou na mão dela depois do beijo e bla bla bla e não posso imaginar o que eu teria que ouvir se você quebrasse o coração dela.
– Eu gosto dela, de verdade. – suspirei pesadamente.
– Você tem quem decidir, Harry. – olhou sério para mim, enquanto parou o carro na sinaleira – tem sentimentos e eu não quero ver ela sofrer, ela nunca se envolveu com alguém antes.
– Eu quero fazer isso certo, Matty. Ela é alguém especial, eu só não tinha certeza se ela queria tanto quanto eu...
– Ela quer. – assim que o sinal abriu, voltou a atenção para o volante e seguiu em frente – Mas você deveria ter descoberto isso sozinho, tomando coragem e dizendo pra ela o que sente, e não perguntando pra mim.
– Eu sei, eu sou um idiota... – murchei ante o discurso de Matty.
– Só não seja um idiota com ela, ok? – parou em frente à minha casa – Acho que vocês formariam um casal legal.
– Brigado, mate.

End of flashback


Levantei da calçada mesmo que com o estômago péssimo, pernas vacilando e a cabeça doendo. Lembrar de Matthew fazia com que tudo ficasse mais difícil. Tudo que conseguia pensar era como ele se tornara um traidor e porque diabos cedera àquilo. De repente, tudo pareceu uma mentira. Todo o apoio ao nosso namoro, todo aquele papo de melhores amigos, era tudo uma grande mentira. Matthew sempre gostou dela e nunca teve coragem o suficiente para admitir, claro, até terminarmos o nosso relacionamento.
Meu consolo era que já não existia mais Matthew e , eles também tinham terminado e essa era a pontinha de esperanças que permanecia viva dentro de mim. Apesar de a querer tanto, uma tristeza crescia dentro de mim ao imaginar os dois dividindo a mesma cama ou... fazendo outras coisas as quais eu preferia evitar pensar. Enquanto andava, gradecia mentalmente por Matthew estar em Cardiff e a possibilidade de eu cruzar com ele em Holmes Chapel ser nula, pois eu provavelmente não saberia como lidar em sua presença.
Depois de um bom tempo caminhando, perdido em meus pensamentos, com a escuridão da noite sendo tomada pelos primeiros raios de sol, finalmente cheguei onde eu queria.
Eu só precisava de coragem.



A campainha soava alto e repetidamente. Nem Matthew ou minha mãe e meu pai pareceram escutar. Olhei no relógio e eram seis e dezessete e eu não fazia ideia quem poderia ser aquele horário num sábado de manhã. Levantei contra minha vontade, esfregando os olhos e me arrastando até a porta da frente. Ao abri-la, senti cada parte do meu corpo estremecer e não era por conta do vento frio que entrara. Harry estava em minha frente, com os olhos vermelhos e a cara amassada. Estava bêbado e, mesmo assim, incrivelmente lindo.
Ficamos em silêncio por uns instantes, vi que abria a boca na tentativa de iniciar uma conversa, mas sempre acabava desistindo.
– Harry, eu posso ajudar?
Harry não respondeu. Seus braços envolveram meu tronco num abraço e seus lábios se procuraram pelos meus com certa urgência. Eu não conseguia pensar em nada, não consegui evitar, não consegui não corresponder aquele beijo ou me convencer de que não queria àquilo. Meu corpo já não tinha forças diante a situação e Harry praticamente me segurava durante. Suas mãos espalmadas em minhas costas faziam com que ficássemos cada vez mais próximos e as minhas buscavam desesperadamente pelos seus cabelos, até encontrá-los e puxá-los. Tudo lá fora não parecia ter a mínima importância. Eu queria viver dentro daquele beijo, mas ao mesmo tempo doía tanto. Doeu por ser tão errado e tão bom ao mesmo tempo, doeu sentir a lágrima que escorrera dos olhos de Harry enquanto me beijava, doeu por saber que aquilo significava que sentia tantas saudades quanto eu, doeu por saber que havia sido tarde demais, por saber que Matthew estava logo ali, deitado em minha cama, e que nos casaríamos em breve.
Eu havia aceitado o pedido.
E eu havia cedido ao beijo de Styles.
, quem é? – a voz sonolenta de Matty ecoara na sala.
Me afastei de Harry no mesmo momento em que ouvi a voz de Matthew, mas não fora rápido o suficiente. Matty caminhou em passos largos até a porta e acertou o rosto de Harry em cheio com o punho fechado, fazendo com que o mesmo caísse de costas no chão. Meu coração saltou num peito e segurei o grito de pavor que estava prestes a sair de minha garganta pondo as mãos na boca.
– Sai daqui. SAI DAQUI AGORA! – Matthew gritava – Ou eu não vou hesitar em quebrar essa sua carinha de merda.
– MATTY, NÃO! – coloquei a mão em seu peito, afastando-o, sentindo o medo tomar conta de mim.
– Vem! – Harry, ainda visivelmente alterado por conta do álcool, e com a boca agora cortada, levantava com dificuldade – Você pode quebrar a minha cara inteira, mas isso nunca vai mudar o fato de que ela sempre vai me preferir do que você!
Outro soco, bem no olho esquerdo.
– Pelo amor de Deus, PAREM! – não contive as lágrimas e simplesmente não sabia qual posição tomar ou quem ajudar.
– Aé? – Matty riu sarcástico – Então porque diabos ela aceitou casar comigo?
– Casar? – Harry engoliu seco e voltou sua atenção para mim, seus olhos se encheram d'água – Vocês vão casar?
– Eu não sei porque motivo você voltou para Holmes Chapel, Harry, mas é hora de você ir embora. – os punhos de Matthew permaneciam cerrados.
– Deve ser porque a sua esposa pediu para que eu voltasse. – cuspiu as palavras.
Matthew me encarou por um segundo, mas voltou sua atenção para Harry.
– Não me interessa o que aconteceu antes que eu retornasse, mas eu tô aqui agora e é isso que importa. Vamos nos casar Styles, esquece, acabou. Eu não vou tolerar que você apareça do nada e estrague tudo que construímos. – Matty se aproximou de Harry, colocando o dedo indicador em seu peito – Você pode ser o ícone pop star e conseguir o que quiser em qualquer outro lugar do mundo, mas aqui é só o Harry e adivinha? Não tem nada pra você aqui.
Harry fechou os olhos com força e permaneceu assim por um curto período de tempo. Virou de costas e respirou fundo, colocando as mãos na cabeça. Achei que finalmente iria embora, não queria presenciar mais um segundo sequer daquela briga, até que voltou sua atenção para Matthew.
– Como é ter a sensação de casar com alguém que pensa em outro?
– Como é ter a sensação de ver a mulher que você ama casando com outro? – Matty deu as costas e disse enquanto caminhava em direção ao quarto – Cresce, Styles.
Eu não consegui me mover. Meus braços abraçavam meu próprio corpo e eu encarava o rosto machucado de Harry, sentindo meu coração sangrar. Eu largaria tudo por ele, mas eu não podia. Eu não podia machucar Matthew daquela maneira, não podia trocar o certo pelo duvidoso, não podia abrir mão da minha vida pra viver em função da de Harry. Apesar de parecer tão errado não estar ao seu lado, eu não tinha coragem o suficiente.
Harry deu alguns passos à frente, ficando muito próximo a mim. Seus lábios tocaram o topo da minha cabeça e sua mão ajeitou meus cabelos atrás da orelha.
– Eu te amo e nada vai mudar isso. Eu vou embora, você vai casar, você vai viver a sua vida, eu vou passar anos sem te olhar nos olhos e nada vai mudar isso. Quando voltarmos a nos ver, vamos sentir exatamente a mesma coisa, exatamente o que estamos sentindo agora. – soltou uma risada nasalada, em seguida engoliu seco – Eu entendo o seu medo , mas eu sei que ele nunca terá você como eu tenho, eu sei que ele nunca vai te conhecer do jeitinho que eu conheço porque... – suspirou pesadamente – cada detalhe teu foi feito pra mim e eu sei que uma parte tua ainda é minha. Eu não posso te pedir para não se casar com Matthew, não posso pedir para desistir de tudo por mim, eu não seria egoísta a esse ponto. – se afastou e olhou em meus olhos – Espero que você saiba o que está fazendo.
Eu não sei quanto tempo fiquei em frente a porta repetindo tudo o que ele dissera em minha cabeça, até que Matthew retornou à sala e perguntou se estava tudo bem. Eu estava brava com ele, mas não poderia simplesmente descontar no meu namorado, ou melhor, noivo. Eu quem tomei a decisão, eu aceitei o pedido. Eu optei por deixar Harry ir.
– Eu vou fingir que não notei que você queria aquele beijo tanto quanto o Harry. – Matty soara ríspido, enquanto se dirigia ao quarto.
– Matthew. – respirei fundo e cruzei os braços, mantendo o tom de voz tranquilo – Eu estou com Styles agora? É com ele que vou me casar? Eu estou aqui, não estou? Então, por favor... – caminhei em direção ao quarto – não faça com que o nosso casamento comece da maneira errada.
– O seu ex namorado bate na sua porta completamente bêbado as seis horas da manhã, te agarra, você não faz nada e eu que estou fazendo com que o nosso casamento comece da maneira errada? – gargalhou sarcasticamente em seguida – Piada.
– Eu tô aqui e eu quero fazer dar certo. – parei no batente da porta e suspirei pesadamente, voltando a fitá-lo – Desculpe, ok? Desculpe por não ter evitado, mas eu realmente quero tentar... nós.
, ninguém no mundo te ama como eu amo e é por isso que voltei, é por isso que te pedi em casamento, porque eu quero que isso funcione, eu quero a gente juntos. Harry nunca poderá te dar metade da atenção e carinho que eu posso, vocês passaram anos sem se ver, nem se conhecem mais e eu sei... – caminhou até mim e segurou meu rosto com as duas mãos – que eu te conheço como ninguém. Nosso namoro foi fantástico, do início ao fim e agora, no recomeço, tem tudo pra ser melhor ainda.
– Eu te amo Matty. – envolvi seu tronco com meus braços e afundei meu rosto em seu pescoço.
– Eu te amo mais.

Capítulo 6

Now that you can't have me
You suddenly want me


2016


A data do meu casamento estava marcada para o dia 13 de fevereiro. Estávamos no início de janeiro e os preparativos tomavam bastante meu tempo, além da mudança, o que estava me deixando louca. Matthew e eu haviamos juntado nossas economias e com a ajudinha de nossas famílias compramos um apartamento em Manchester, mas ainda dormíamos na casa dos meus pais em Holmes Chapel, esperando a data do casamento, até que tudo ficasse pronto.
Eu estava sentada a mesa junto a minha mãe, enquanto meu pai e Matthew assistiam um jogo de futebol na sala. Revisávamos a lista de convidados para que os convites fossem finalmente feitos.
– Eu não sei se quero convidar a tia Betty... – encarei a lista de cara feia – Ela sempre escreve meu nome errado e nunca me liga no meu aniversário.
– Não seja boba , é irmã do seu pai! – minha mãe marcou com um 'ok' ao lado do nome de minha tia – Apesar de eu também não gostar daquela mulher.
– Bom... – minha mãe respirou pesadamente, com a lista em mãos – Anne Twist e família.
– Mãe, socorro! – pus as mãos no rosto – Eu não sei o que fazer...
– Eu sei que você tem evitado isso , mas os convites precisam ser enviados.
– Eu não quero ter que encarar ele no meu casamento. Na realidade, duvido muito que daria as caras mesmo que enviasse um convite com apenas seu nome escrito, mas eu seria muito imatura se pusesse só o nome de Anne, Robin e Gemma. O que eu faço?
– Mantém assim. 'Anne Twist e família' é o mais sensato, apesar de eu não achar nada sensato você convidar qualquer um deles.
– Gemma é minha amiga, mãe, independentemente de ser irmã dele. Se eu convidar Gemma e não convidar Anne... soa tão infantil quanto. O máximo que vai acontecer é Anne e Robin não aparecerem, mas o meu papel eu vou ter feito.
– A questão é... você já falou pro Matthew?
– Socorro, DE NOVO! – bufei estressada – Como eu vou fazer isso? Não sei como Matty vai reagir.
– Reagir ao que? – falou despreocupado enquanto caminhava até a geladeira para pegar mais duas latinhas de cerveja.
colocou Anne 'e família' na lista de convidados. – minha mãe disparou, dando ênfase no família, e eu agradeci mentalmente por ela ter o feito, pois eu havia congelado ao notar a presença de Matthew na cozinha.
– Anne e... família? – com as duas latinhas em mão, parou em pé ao nosso lado – Ok. E qual o problema?
Silêncio.
– Eu duvido muito que Harry vá. – abriu uma das latinhas – Na pior das hipóteses, ele vai chorar durante a cerimônia.
– Matthew! – falei num tom de reprovação.
– O que foi? Eu não quero que ele vá, você sabe, por mim eu nunca mais o veria na vida, mas sei o quanto você gosta da Gemma e que soaria infantil convidar só ela.
– É, é exatamente isso. – suspirei aliviada – Como você sabe?
– Eu escutei a conversa. – ergueu uma das sobrancelhas e soltou uma risada enquanto se dirigia a sala.
– Às vezes tenho vontade de matar o Matthew... – assinalei com 'ok' ao lado do nome de Anne – Mas não posso negar que ele encara as coisas com muita maturidade.
– Não sei se ele vai conseguir manter essa postura se Harry for...
A possibilidade de Harry aparecer no casamento me apavorava, apesar de ter praticamente certeza de que não se prestaria àquilo, mas eu tinha tantas outras coisas para me preocupar, como o vestido, ambiente, decoração, comida, que essa questão acabou sendo deixada de lado por um tempo.
Assim que os convites foram entregues, meus colegas do tempo de colégio, incluindo Gemma, não pareciam acreditar que eu realmente casaria com Matthew. A maioria se mostrava animada pela possibilidade de reunir todos os amigos, ainda mais numa ocasião como aquela. Durante o mês recebi diversas confirmações. Poucas pessoas disseram que não poderiam comparecer.
Os dias passavam rápidos, as vinte quatro horas de um dia eram pouco, o fim do mês de Janeiro se aproximava, e Gemma ainda não havia confirmado ou negado o convite. Na data da última prova do vestido, saindo da loja, senti meu celular vibrar. Era ela.
– Ei Gem, saudades!
– Oi garota, quanto tempo! Também sinto sua falta... mas me conta, tá em Manchester?
– Sim, você tá por aqui?
– Sim, sim, sim! Vamos nos ver, quero te dar a resposta do convite pessoalmente. Na nossa cafeteria favorita, em meia hora, tudo bem?
– Claro! Tô indo pra lá agora.
– Até logo, beijinhos. – antes que desligasse, pude ouvir o barulho de beijos estalados.
Cheguei em vinte minutos na cafeteria que costumávamos ir juntas quando íamos a Manchester nos tempos do colégio e sentei na mesma mesa que sentávamos, era um ritual a qual sempre fomos fiéis. Fiz o nosso pedido e aguardei vendo as fotos as quais eu usava o vestido completamente finalizado.
O garçom deixara o pedido na mesa no momento em que Gemma passava pela porta.
– Na mesa de sempre, o pedido de sempre... eu te amo! – me abraçou com força e sentou logo em seguida – E então, como vão os preparativos?
– Tá praticamente tudo resolvido, só resta a ansiedade e... olha isso... – mostrei as fotos as quais admirava antes de sua chegada.
– Ai meu Deus, ta muito lindo ! – dizia com meu celular em mãos, analisando os detalhes – Tenho certeza que a mãe vai chorar na cerimônia...
– Ela vai então! – tentei transparecer o mais natural possível quanto a confirmação de Anne – Que bom, fico feliz, mesmo.
– Sim, todos vamos. – por um segundo, senti meu coração bater feito louco por conta de ter confirmado a presença de todos, então Gemma prosseguiu – Quer dizer, Harry não sabe ainda sobre o convite, ele tá chegando hoje, em algumas horas, vai passar um tempo com a família.
– Você acha que... – engoli seco – Que ele pode aparecer?
– Não , ele não vai... – Gemma deu o primeiro gole em seu café – Ele ficou bastante arrasado quando ficou sabendo do casamento.
– Ele contou sobre como ficou sabendo? – beberiquei meu café, imitando seu gesto.
– Sim, mas só pra mim e depois de semanas. – suspirou – Mamãe acha que ele não faz ideia e anda muito preocupada com a reação dele, tá pensando há dias em como contar, porque apesar de não ter falado sobre o que aconteceu depois da festa, ele ficou muito mais abatido do que antes.
Gemma percebera o quanto saber sobre aquilo me afetava. Eu estava com um nó no peito e era impossível esconder o quanto falar sobre Harry me deixava triste. Depois de ele ter ido a minha casa e ela ter recebido o convite, demonstrando o espanto, nosso contato havia diminuído, o que doía muito em mim. Gemma sempre apoiou muito nosso relacionamento e sempre deixou explícito como tinha certeza de que voltaríamos um dia. Apesar de saber que ela queria minha felicidade, não conseguia esconder completamente sua insatisfação quanto ao meu casamento com Matthew.
– Desculpe, nós não devíamos estar falando sobre isso. Você vai casar com o Matty e eu tô sendo uma péssima amiga.
– Você não é uma péssima amiga, Gemma. É a melhor, inclusive. – funguei, segurando o choro.
– Ah, não faz assim... – me abraçou com força por um bom tempo – Eu tô sendo uma péssima amiga sim, mal tiro tempo pra gente se ver e eu sinto muito sua falta, você sabe, não é a mesma coisa por mensagem.
– E eu sinto muito por você ter que ver o Harry daquela maneira, eu sei o quanto te machuca também. – disse assim que nos separamos do abraço – Mas eu não podia simplesmente...
– Eu sei, eu sei. – respirou fundo, apoiou um dos cotovelos na mesa e descansou a cabeça em sua mão – Eu confesso que fiquei meio brava com você, mas Harry agiu como uma criança. É óbvio que você teria seguido em frente e arranjado outra pessoa, assim como ele fez, mas sabe, o cabeção ficou sabendo tudo de uma vez só e durante uma festa, bêbado, logo depois de a Nadine ter terminado com ele.
– Ah, eles terminaram naquele dia... – balançava a cabeça positivamente enquanto falava, na tentativa de digerir aquela informação.
– É, na realidade, desde depois do show aqui em Manchester o namoro ficou comprometido, sabe? Harry estava completamente alheio ao relacionamento. Rever você daquele jeito também mexeu muito com ele e com todas aquelas manchetes, Nadine ficou louca.
– Eu... eu sinto muito por ele...
, no fundo nós duas sabemos que você não sente. Eu não sei quantas vezes ouvi "ela correspondeu o beijo, ela queria tanto quanto eu". – engrossou a voz na tentativa de imitar a de Harry – E eu sei que ele não estava enlouquecendo ou mentindo sobre. O que vocês tiveram foi muito intenso, mas eu procuro te entender. Seria loucura simplesmente voltar com ele, vocês estavam há quatro anos sem se falar ou se ver... e se a rotina e o assédio eram complicados em 2011... amiga, hoje é insano.
– É, é exatamente isso... – concordei instantaneamente, mesmo que sentindo um incomodo no fundo do peito.
– Nem deveríamos estar falando do seu ex namorado pouco antes do seu casamento! Vai que da azar. – soltou uma risada descontraída – Inclusive, sobre a cerimônia, achei legal terem escolhido a capela de Holmes Chapel, vai ficar lindo, bastante charmoso.
O celular de Gemma vibrou em cima da mesa, mostrando a terceira chamada perdida. Ela checou as notificações e terminou o café num gole.
– Mudança de planos. Meu irmão chegou mais cedo, já tá desembarcando. – levantou da mesa – Desculpe, queria poder passar mais tempo com você.
– Não, tudo bem, vai lá! Ele deve estar cansado. – levantei logo após – Obrigada por ter aceitado o convite, é muito importante que você vá.
– Apesar de sempre achar que seria sua cunhada e provavelmente madrinha do seu casamento, to feliz por você. – sorriu torto e me puxou para um abraço.
Se tivesse me perfurado com uma faca bem no estômago, talvez não tivesse doído tanto quanto o que tinha acabado de escutar. Eu e Gemma, durante todo meu namoro com seu irmão falávamos que depois do nosso casamento seríamos mais que amigas, mas irmãs. Éramos jovens demais, mas Harry nunca hesitou em me falar o quanto queria que formássemos uma família e Gem sempre foi a fã número um de nós dois.
Sai da cafeteria com o coração murcho, faltavam dezesseis dias para o meu casamento e dois para o aniversário de Harry. Ele estaria em Holmes Chapel, saberia sobre o casamento e o convite e eu já não sabia o que fazer com tanto nervosismo.

*

Harry

– Ah que saudades do meu filho! – minha mãe me abraçava na porta de casa – Vai passar o aniversário em casa... não sabes o quanto me deixa feliz.
– Sei sim, por isso eu vim! – beijei sua testa – Cadê o Robin? Vou acabar com ele nas damas.
– Bem que ele falou que estava louco pra fazer uma aposta com você, – Gemma apareceu e segurava uma das malas, deixando no canto da sala e se jogando no sofá – Agora você leva cabeção, não sou sua criada.
– Assim que a mãe me soltar eu levo.
Carreguei as duas malas para o meu quarto e me estiquei na cama por um tempo. Era bom estar em casa, mas impossível não recordar o que aconteceu na última vez que estive ali. Me peguei pensando na possibilidade de o casamento já ter acontecido, mas provavelmente Gemma teria sido convidada, postando alguma foto em sua conta. Eu só queria conseguir não pensar sobre isso. Minha mãe não sabia do que havia acontecido entre mim e Matthew e eu estava rezando para não ter que cruzar com ele na rua, não queria estragar o tempo com a minha família e nem arranjar outro roxo no olho.
– Filho! – ouvi a voz de Anne num tom mais elevado – Vem jantar, depois você descansa.
Levantei mesmo que contra minha vontade, pois não estava com tanta fome, mas sabia que minha mãe tinha preparado o jantar especialmente para mim. Fui até a sala de jantar e antes de sentar, me pus diante do espelho para ajeitar meu cabelo, notando um envelope branco em cima do balcão próximo dali.
"Anne Twist e família".
Peguei o envelope e fui até a mesa, mostrando o que possuía em mãos.
– Quando ia me contar?
– Gemma! Eu pedi para guardar na gaveta do meu criado mudo.
– Mãe, você vai nesse casamento? Vocês todos vão?
– Harry, é preciso separar as coisas... – Anne falou cautelosa.
– Como separar as coisas? É impossível separar as coisas! – larguei o envelope na mesa – Ir nesse casamento é como se vocês estivessem... compactuando com isso.
– Compactuar? Harry, não fala besteira. – minha mãe pegou o convite – Não há nada que a gente possa fazer. Indo ou não, eles vão se casar.
– Mas porque ir? Eu não sei nem como ela teve coragem de convidar vocês! Isso é ridículo.
– Acho que por educação, pra ser sincera. – foi a vez de Gemma falar – Acredito que ela achou que recusaríamos.
– Você não me disse isso, Gemma! Eu teria recusado.
– Vocês já aceitaram? – perguntei visivelmente frustrado – Sem antes falar comigo?
– Harry, chega! – foi a vez de Robin falar – O que está acontecendo com você? Você não é assim e nunca falou dessa maneira com a sua mãe, está agindo feito uma criança. Anne não precisa te consultar ou de sua permissão para absolutamente nada. Nós vamos ao casamento e...
– Robin, não. – minha mãe com um semblante chateado interrompera seu marido – Harry está certo, não faz o menor sentido comparecermos a esse casamento. – respirou fundo, derrotada, e encarou Gemma – Querida, avise a que eu e Robin não iremos mais, tudo bem?
Gemma assentiu em silêncio.
O restante do jantar se passou em silêncio. Minha mãe parecia triste com a discussão e eu não queria ter ocasionado aquilo logo na minha chegada. Eu odiava discutir com minha família, mas não tinha como simplesmente ignorar o fato de que se tratava do casamento da minha ex. Talvez se soubessem que Matthew tinha acertado uns socos na minha cara nunca chegariam a aceitar, mas eu também não queria retornar a esse assunto e nem causar maiores problemas.
Ajudei minha mãe com a louça na cozinha e quando enxugava a última panela, senti um de seus braços envolver meu tronco.
– Eu sinto muito, Harry. Queria que as coisas entre vocês pudessem se ajeitar, eu achei que...
– Eu também achei, mãe. – suspirei, deixando a panela de lado – Mas não posso fazer mais nada, eu a perdi.
– Eu sei que dói agora filho, mas tudo acontece por um motivo. Talvez as coisas tivessem que ser assim. Quantas garotas aí no mundo inteiro fariam de tudo pra ter você?
– Mas nenhuma delas é ela. – apoiei minhas duas mãos a pia, encarando o nada.
– Exatamente, nenhuma delas é, podem ser melhores e você nunca vai saber se continuar preso a isso. Ela é uma menina incrível, mas não posso mais te ver sofrendo assim. – sua mão fez um carinho gostoso em meus cabelos, então voltei a a lhe olhar – Se ela não te quer mais, ela não te merece. Eu amo a , mas eu te amo muito mais. Ela tomou uma decisão e o que nos resta é respeitar.
Minha mãe ficou na ponta dos pés para beijar meu rosto e, antes de ir para o seu quarto, disse que tinha feito meu chá favorito para que eu tomasse antes de dormir.
Apesar de ter dito tudo àquilo a na última vez que nos vimos e saber que aquele casamento era pura loucura, eu não poderia ignorar o fato de que minha mãe estava certa. Loucura mesmo era eu ter me colocado naquela situação pelo simples fato de achar que ela largaria tudo por mim. Talvez eu estivesse enganado. Talvez ela realmente amasse Matthew e não sentia mais nada em relação a nós, mas aquele beijo... aquele beijo era o que mantinha a esperança da possibilidade de que ela voltaria para mim. O jeito com que tudo se encaixou perfeitamente e o fato de ela não ter hesitado nem por um segundo, faziam com que aquele momento não me deixasse em paz.
Nos dias que se passaram, consegui não pensar tanto em e no casamento por conta do meu aniversário estar próximo e todos estarem muito em cima por isso. Na manhã do dia primeiro de fevereiro eu recebi muitas mensagens, um café da manhã na cama, um almoço impecável em família e uma festa surpresa dos meus amigos do colégio na casa do Noah, como de costume.
Foi divertido do início ao fim, ganhei muitos presentes e durante praticamente o dia inteiro eu consegui não pensar nela. De vez em quando olhava meu celular para checar as mensagens e por um momento pensei na possibilidade de receber uma de , mas sabia que provavelmente não tinha o meu número, pois mudara diversas vezes desde o término. Em uma das vezes as quais eu checava as mensagens, Gemma se aproximara com um copo com vodka em mãos.
– Harry! Vem dançar comigo, larga esse celular, a gente ama essa música!
– Dançar? Acho que não tô bêbado o suficiente...
– Então toma. – entregou o copo em minhas mãos e me puxou pelo braço para onde as pessoas estavam dançando.
Ri de sua atitude e dei bons goles até que o copo terminasse.
– Ok, então vamos dançar... – ri de meus próprios passos de dança, assim como os e Gemma, mas estava divertido.
– Recebeu muitas mensagens de aniversário? – minha irmã perguntou enquanto ainda dançava.
– Acho que só vou conseguir terminar de responder todas no aniversário do ano que vem! – fiz Gemma rir – Nadine me mandou uma mensagem, inclusive.
– Uau! – fez cada de deboche – E como você se sente sobre?
– Bem, pelo menos o clima não fica tão pesado...
– Falei com a hoje. – disparou de repente – E ela te desejou um feliz aniversário.
– Desejou? – tentei soar o mais despreocupado possível – Legal, agradeça por mim.
– Pode deixar. – soltou um risinho – Acho que você deveria aparecer naquele casamento e acabar com tudo.
– Eu acho que você tá muito bêbada e são só onze e meia da noite.
– Não tenho culpa se a festa começou as cinco da tarde! – pegou o copo de vodka da minha mão e deu um bom gole, devolvendo em seguida – E eu sinto muito.
– Tudo bem mana, eu vou ficar bem.
Recebi um abraço apertado de Gemma.
– Eu te amo e te admiro demais, Harry. Não deixe que toda essa situação mude quem você realmente é, ok? – separou o abraço e sorriu de maneira cumplice – Feliz aniversário.
– Também te amo, obrigado por tudo. – plantei um beijo em sua testa.
– Agora... vou procurar pelo Charlie, apostamos quem bebe três shots mais rápido!
E sumiu. Vi Gemma poucas vezes durante a festa, mas em apenas uma aparição ela fez questão de bagunçar a minha cabeça, pelo menos por um tempo. O pensamento em não durara muito, meus amigos faziam questão de não me deixar sozinho um segundo sequer, impossibilitando que minha cabeça divagasse em qualquer outro senão o meu aniversário.
A festa que começou as cinco da tarde foi até a uma da tarde do outro dia. Nicholas contabilizou o total de sete garotas, atrás de Noah, que beijou onze. Tive também o desprazer de ver minha irmã entrar no carro de Charlie aos beijos e dizer que apareceria em casa mais tarde, implorando para que não contasse para a nossa mãe. E, para a surpresa de todos, eu beijei dezessete garotas, segundo Nicholas, pois eu só lembrava de treze.
– Para a minha defesa... eu estava completamente fora de mim. – disse deitado na esteira na beira da piscina, usando óculos escuros.
Mate, você ainda tá fora de si. – Noah disse enquanto catava algumas latinhas espalhadas pelo quintal.
– Eu tô ótimo, só to descansando os olhos.
– Ok, então porque a sua calça está aqui na piscina? – Nicholas balançava o pedaço de pano completamente molhado dentro d’água.
Olhei assustado para baixo e notei que vestia apenas uma samba-canção.
– Droga, esqueci de botar depois que o Charlie puxou ela.
– Isso não foi as duas da manhã? – Nic saiu da piscina e sentou na esteira ao meu lado.
– Justamente. – respondi, rindo junto dos meus amigos em seguida.
– Vamos comemorar... – Noah pegou três latinhas de cervejas num isopor próximo a nós – A superação de Styles!
– Superação? – sentei na esteira, pegando a latinha em seguida.
– É, Harry Styles finalmente superou , passando eu e o Nic nos números, o que nunca tinha acontecido antes, fale frisar. – debochou – Da maior florzinha para o maior galinha.
– Vai se ferrar, Noah. – joguei a cerveja em seu colo – Eu vou embora, esse sol tá fervendo meus miolos, acho que minha cabeça vai explodir.
– Não sabia que você tinha miolos. – Nic disparou, rindo e me abraçou em seguida – Bom descanso mate, a gente te ama.
– Eu, infelizmente, também amo vocês, obrigado pela festa. – caminhei até a frente da casa me concentrando para não cair.
Minha mãe me buscou e me deu a maior bronca por estar sem as calças, mas acabou achando graça. Chegando em casa, depois de tomar um bom banho, não sai da cama para nada, não falei nada, não comi nada. Eu só queria dormir, pois parecia que uma manada de rinocerontes tinha passado por cima de mim. Levantei apenas na manhã seguinte às onze e quarenta da manhã, com o almoço posto a mesa.
– Bom dia! – abracei minha mãe e beijei sua testa – Que cheirinho gostoso...
– Bom dia filho. – falou num tom diferente do usual – O almoço tá quase pronto, fiz batatas assadas.
– Eu adoro suas batatas assadas. – sentei na cadeira em frente ao balcão – Fez peixe também? – continuei puxando papo, fingindo que não notara a estranheza em sua voz e postura.
– Sim, eu... – então de repente largou o pano de prato na pia – ah Harry você me conhece, eu não vou conseguir segurar por nem mais um minuto. – sua voz agora estava chorosa.
– O que aconteceu? – perguntei preocupado.
– Eu deveria ter te contado antes, mas não queria estragar seu aniversário. Desculpe filho. – começou a chorar – Desculpe, desculpe...
– O que houve? – levantei imediatamente e me pus a sua frente – Pelo amor de Deus, mãe!
ligou... no dia do seu aniversário.
– O que ela queria? – meu coração batia desesperado em meu peito ao escutar aquela informação.
– Harry... por favor, mantenha a calma, ok? – fungou, enxugando suas lágrimas em seguida.
– O que aconteceu? – perguntei novamente, tentando manter a calma e não perder a cabeça.
– Oscar ficou doente e foi internado. – assim que minha mãe começara a falar, voltei a sentar na cadeira, colocando uma das mãos na cabeça – O quadro dele era instável, mas eu pensei que... eu pensei que tudo ficaria bem e que poderia te contar depois do aniversário, não queria que ficasse triste no dia da festa, mas...
– Mas? – minha mãe me encarava em silêncio com os olhos cheios d'água – Mas o que mãe?
ligou essa manhã e... – Anne pegou em minha mão – Sinto muito querido, mas o Oscar não resistiu.
Eu não sabia o que pensar. Eu não conseguia acreditar no que acabara de ouvir, eu não queria acreditar. Eu estava a ponto de explodir e acabaria sendo grosseiro com a minha mãe, mas do que adiantaria? Ela só queria meu bem, não queria me ver triste no dia do meu aniversário e fazer com que eu cancelasse todos meus planos, pois ela saberia que se eu soubesse eu o faria, além de acreditar que Oscar melhoraria, mas agora não poderia vê-lo vivo novamente e meu coração sangrava.
Fui para meu quarto e vesti a primeira roupa que vi em minha frente. Minhas mãos tremiam, fazendo que o simples ato de calçar um tênis se tornasse complicado. Assim que fiquei pronto, peguei a chave do carro e saí sem dizer mais nada.
Chegando em frente à casa dos pais de , sai do carro com pressa e toquei a campainha nervoso. Uma, duas, três vezes. Ninguém atendeu. Quando estava prestes a dar a volta e entrar pelos fundos, a porta se abriu, mostrando uma completamente derrotada. Seu rosto estava vermelho e levemente inchado, fungava baixinho e suas expressões nunca estiveram tão tristes. Assim que notou que era eu, me abraçou e voltou a chorar. Chorava muito, soluçava e eu não consegui segurar, eu não queria segurar. Nem me importei, ou melhor, nem me toquei da possibilidade de Matthew estar ou aparecer ali, eu só queria e precisava abraçá-la.
– Ah Harry... – disse entre soluços, com o rosto afundado em meu peito – Eu não se-sei o que vai ser de-de mim.
– Desculpe não vir antes. – disse assim de partir o abraço, enxugando suas lágrimas com o polegar em seguida – Só fiquei sabendo agora.
– Eu entendo. – respirou fundo e enxugou os olhos – Vou enterrá-lo no quintal. Você quer...
– Por favor.
me levou até o corpo de Oscar que estava sobre a mesa da estufa de seu pai no quintal. Foi uma das coisas mais difíceis que fiz na vida. Fiquei mais um tempo ao seu lado e do de , fazendo um carinho em seu focinho cumprido e seus pelos longos. Era mais difícil do que eu pensava conseguir enterrar Oscar e dizer adeus. Quando não aguentava mais encará-lo naquele estado, o enrolamos num lençol e sepultamos próximo a uma árvore. Após o buraco estar completamente coberto de terra, pegou algumas flores amarelas de seu pai e pôs sobre o local. Logo depois, sentamos no banco próximo a estufa e ficamos encarando o lugar por um tempo em silêncio.
– Eu sinto muito. – quebrei o silêncio e passei a fitá-la – Você convivia com ele todos os dias e se dói em mim dessa maneira, não consigo imaginar como você tá se sentindo. – pus minha mão sobre a sua, fazendo com que voltasse sua atenção para mim.
– Pelo menos você tá aqui. – fungou e sorriu torto, sem mostrar os dentes – Ele gostava muito de você Harry, não estaria certo se você não estivesse aqui.
– Queria ter visitado ele como tinha prometido. – voltei a olhar para o "túmulo" – Droga. – pus as ambas mãos no rosto.
Depois de um tempo naquela posição, senti um dos braços de envolver meu tronco e sua cabeça se apoiar em meu ombro. Permanecemos assim por um bom tempo. Seus dedos desenhavam algo em minhas costas, fazendo um carinho delicado, e eu não queria ter que sair dali.
– Você não facilita as coisas desse jeito. – disse baixinho, com o rosto ainda escondido entre as mãos e assim que notei que pararia com o carinho, protestei – Ei, continua.
– Não é como se tudo fosse muito fácil pra mim. – ignorou o meu pedido e tirou seu braço – Nunca foi fácil Harry, o caminho certo a se seguir nunca é o mais fácil.
– E quem disse que esse é o caminho certo? – recompus minha postura e a encarei – Até porque ficar comigo nunca foi o caminho mais fácil, nunca disse que seria fácil.
– Não é justo. Não é justo você vir até aqui e voltar nesse assunto. Eu queria simplesmente seguir em frente e não deixar nossa história no passado influenciar no presente, mas é praticamente impossível. – desabafou frustrada – Harry Styles sempre dá um jeito de aparecer e me assombrar novamente.
– Eu sou um fantasma, então?
– Agora, aqui, somos dois fantasmas.
– Eu não queria ser um fantasma, eu queria...
– Harry, não. Eu não conseguiria lidar com tudo o que vem junto 'no pacote' desse relacionamento. Não insiste nesse assunto, acabou. Doeu não poder te ter, mas dói mais ainda pensar na possibilidade de sentir tudo aquilo de novo. – sua voz era firme e me encarava séria – Eu preciso tentar viver sem você e eu escolhi assim.
– E se você se arrepender? E se você se arrepender e for tarde demais?
– Se eu me arrepender, se for tarde demais... – suspirou pesadamente – Harry, eu não posso viver através de possibilidades. Eu preciso viver o agora e preciso encarar as consequências das minhas decisões. Eu escolhi assim e eu quero que você respeite a minha escolha.
– Diz pra mim. – levantei, ficando de frente para ela – Diz olhando nos meus olhos que não sente mais nada por mim, que me quer longe, que não quer mais me ver. Diz pra mim que não sente falta, que quer que eu vá embora, que quer que eu te deixe em paz.
– Harry, para. – encarava o chão, pude ver seus olhos brilharem por conta das lágrimas que se formavam.
– Diz pra mim que ele te conhece como ninguém, que ele te toca como ninguém, que ele é o amor da tua vida. Diz.
– Você quer ouvir? – fixou seus olhos nos meus.
– Quero, por favor. – cruzei os braços, esperando pela resposta.
– Eu te odeio. – voltou a me olhar nos olhos – Eu te odeio por ter me feito sofrer no passado e por estar me fazendo sofrer agora. Eu te odeio por achar que tudo se resume a você. Matthew tem razão, você pode ser o Harry Styles famoso e querido pelo mundo inteiro, mas aqui, na minha casa, você é só o Harry e não há mais nada pra você aqui. Você não foi capaz de separar as coisas! Oscar morreu, se foi para sempre e, você se aproveitou dessa situação! Quando foi que você deixou de ser aquele garoto cauteloso e educado e ficou assim? Desde quando você pressiona as pessoas pra conseguir o que quer? O Harry que eu conheci não era egoísta, era generoso, respeitoso e compreensível e nunca agiria dessa maneira. Tudo que eu vejo agora é um garoto mimado e egocêntrico e eu nunca, nunca me relacionaria com alguém assim!
Eu não sabia que palavras poderiam doer tanto, ainda mais da maneira como foram ditas. manteve um tom firme, alto e cada palavra foi como um soco. Por um segundo eu parei e pensei em todas minhas atitudes perante a situação e senti raiva de mim mesmo. Robin, minha irmã e meus amigos estavam certos, eu estava me comportando de maneira diferente e só eu não pude notar. Estava agindo feito um idiota, algo que o verdadeiro Harry nunca faria. Eu nunca a desrespeitaria suas decisões ou pressionaria a fazer algo contra sua vontade, assim como qualquer outra mulher. Nunca havia ultrapassado os limites impostos a mim como naquela situação e perante àquilo eu me sentia nada mais, nada menos, que um lixo.
, eu... me desculpe. – soltei os braços e suspirei derrotado – Isso não sou eu.
– Não, não é você. – enxugou as lágrimas e deu alguns passos para trás.
– Saiu totalmente de controle, eu não queria... eu não queria que nada disso tivesse acontecido, não queria te fazer sentir dessa maneira ou me sentir dessa maneira.
– O que mais dói... é que eu esperava essa postura de qualquer um, inclusive do Matthew... mas não de você.
Minha boca abrira algumas vezes, mas por um tempo eu fui incapaz de dizer qualquer coisa. Encarei mais uma vez o túmulo de Oscar e, em seguida, me aproximei de .
– Eu vou embora, mas antes quero que me prometa uma coisa se puder. – assentiu e eu prossegui. – Promete que sempre que pensar de mim, vai lembrar do garoto que sempre te respeitou e cuidou com muito carinho, e não... desse Harry. – ela pôs uma de suas mãos na frente de sua boca, como se impedisse um soluço de sair e fechou os olhos com força – Tudo bem?
– Tudo bem. – respondeu baixinho, abrindo os olhos em seguida.
veio até mim e me abraçou.
– Isso soa muito mais como o Harry que eu conheço. – disse baixinho enquanto me abraçava – Obrigada.
Virei as costas e deixei a casa de me sentindo pela primeira vez em um tempo muito mais leve, mas ainda bastante triste. Era o certo a ser feito e isso fez com que a dor não viesse com tanta força, mas não é como se eu fosse simplesmente esquecê-la de uma hora para outra.

Capítulo 7

If tomorrow you won't be mine
Won't you give it to me one last time




– Você está gelada. Está tudo bem? – meu pai perguntou ao segurar minha mão, me ajudando a sair do carro em frente à igreja.
– Nervosa. – sorri sem mostrar os dentes – Eu vou me casar!
– Você tá... – me analisou dos pés à cabeça e algumas lágrimas ameaçaram escapar de seus olhos – Caramba.
– Não chora agora, pai! – o abracei com força – Você também tá um gato, sabia?
– Eu e sua mãe somos o casal mais lindo da festa, depois de você e Matty, claro.
– Eu tenho certeza que sim, mamãe tá deslumbrante!
Meu pai assentiu e se pôs ao meu lado, em frente a porta. A cerimonialista me entregou o buquê e ajeitou a calda do vestido.
– Está linda! – sorriu simpática – Em um minuto, ok?
– Ok...
Enchi meus pulmões e soltei o ar bem devagar. Eu estava tonta. As mãos do meu pai estavam muito quentes em contraste com a minha que parecia gelo. Quando a porta se abriu, Matthew olhava para o altar, mas assim que a música soara, direcionou sua atenção para mim, assim como de todos presentes. Um sorriso largo surgiu em seu rosto, junto de algumas lágrimas que escorreram e pude ver seus lábios falarem um “você tá linda” sem emitir som algum, fazendo com que eu sorrisse volta. Era engraçado e bonitinho notar o quão feliz e inquieto Matty estava naquele momento, não tirando um segundo sequer os olhos de mim, como se a coisa mais preciosa do mundo caminhasse em sua direção.
Segundo Matthew, eu era.

Flashback

– O menino que casar com você têm que ter a minha aprovação. – o pequeno Matthew de apenas sete anos dizia – Senão eu juro que pego as algemas do papai e prendo ele na mesma hora!
– Eu vou casar com quem eu quiser Matty, você não pode escolher pra mim.
– Mas você não sabe como os garotos são! Eles são bobões demais. – bufou, sentando de braços cruzados em seguida.
– Você é um garoto.
– Muito bem observado. – falou debochado.
– Então quer dizer que é bobão demais?
– Não! Eu não sou como os outros garotos.
– Então você vai casar comigo, Matty?
– Eca, que nojo! – Matthew mostrou a língua – Não podemos nos casar.
– Ué, por que não? – perguntei as sobrancelhas erguidas.
– Porque melhores amigos não beijam na boca, bobinha, e pessoas casadas beijam na boca.
– É verdade, eu vejo o papai e a mamãe beijarem... e com língua.
“Ui”, falamos em uníssono.
– Tudo bem então, eu deixo você me ajudar a escolher.
*

– Alguma vez passou pela sua cabeça que ficaríamos juntos? – Matthew quebrou o silêncio da noite, enquanto tentávamos dormir.
– O quê? – bocejei, abrindo os olhos – Acho... acho que sim. E você?
– Sim... e não. – falava enquanto olhava para o teto – Crescemos juntos, te via quase sempre como uma irmã, tinha medo que estragasse nossa amizade.
– Quase sempre?
– É, bom... fica complicado quando a sua melhor amiga é a garota mais bonita do colégio e você dorme abraçado com ela. – voltou a olhar para mim e sorriu cúmplice – Agora eu quero mais é que a amizade vá pro inferno. – Matty soltou uma risada e se pôs em cima de mim, me dando um selinho demorado – A minha melhor amiga é a minha namorada, não tem como não dar certo.
– Eu te amo, sabia? – sussurrei baixinho em seu ouvido enquanto espalhava beijos próximos a sua orelha.
– Muito ou só um pouquinho?
– Só um pouquinho... mas bem... – mordi o lóbulo de sua orelha – pouquinho.
– Você tem certeza que quer dormir? – sorriu malicioso.
*

– Mas você tem que me prometer uma coisa...
– Qualquer coisa.
– Você é minha e só minha. – separou o nosso abraço e olhou fundo nos meus olhos – Pra sempre.
– Pra sempre?
– Casa comigo.
– Casar?
– Casar! Eu sou o único cara na terra que eu aprovo pra casar com você... e você sabe que eu tenho que aprovar. – Matty sorria largamente – E eu ainda tenho as algemas do meu pai se você não aceitar.
– Matthew eu... eu aceito.

End of flashback


No caminho até o altar, abarrotado de flores brancas em vasos grandes e ornamentados, pude ver parte dos convidados e o quão comovidos todos estavam. Era uma sensação única caminhar aquele trecho e eu não conseguia pensar em outra coisa senão os diversos momentos incríveis que tive ao lado de Matthew. Ele era meu melhor amigo. Lembrar de tudo que passamos, lembrar daquelas memórias em específico, fazia com que um alívio e um sentimento de dever cumprido me invadisse. Aquilo era o certo a se fazer. Eu o amava e ele me amava e a cada passo que eu dava eu tinha mais certeza daquilo.
Entreguei o buquê para a cerimonialista logo depois que meu pai deu a minha mão a Matthew, soltando um “cuida bem dela”.
– Boa noite a todos! – o juiz de paz disse em bom tom, dando início a cerimônia –Estamos aqui hoje para celebrar as melhores coisas da vida, a confiança, a esperança, o companheirismo e o amor entre esse casal. Vocês foram convidados para compartilhar este momento com e com o Matthew porque são pessoas muito importantes para eles. O respeito, a compreensão e o carinho que sustentam o relacionamento deles têm suas raízes no amor que todos vocês deram a este jovem casal. Por isso, é uma honra para os noivos contar com a sua presença, aqui, hoje.
– Você tá incrível. – Matty sussurrou em meu ouvido, fazendo um carinho em minha mão com seu polegar.
– Nós estamos.
– Eles escolheram um ao outro como sua família e hoje estão celebrando o amor que já começou e que vai continuar crescendo ao longo dos anos, pois o casamento é a união, é uma caminhada rumo a um futuro, que envolve abrir mão do que somos, separados, em prol de tudo o que podemos vir a ser, juntos. e Matthew, vocês já foram muitas coisas um do outro, amigos, melhores amigos inclusive...
– Você conseguiu mate! – pude escutar a voz de Nic ecoar pela igreja, fazendo com que todos rissem, inclusive o juiz de paz.
– Bom, também companheiros, namorados, noivos. Agora, com as palavras que vocês estão prestes a trocar, passarão para a próxima fase. Com estes votos, vocês estarão dizendo ao mundo: “este é meu esposo”, “esta é minha esposa”.
Senti meu coração acelerar de modo que praticamente saltasse de meu peito, fazendo com que Matthew notasse meu nervosismo e segurasse minha mão com força enquanto ficávamos um de frente para o outro.
– Matthew Pritchett, é de livre e espontânea vontade que você aceita como sua companheira em matrimônio?
– Claro, eu aceito. – disse sem soltar minhas mãos, com um sorriso no rosto.
, é de livre e espontânea vontade que você aceita Matthew Pritchett como seu companheiro em matrimônio?
O tempo o qual eu tomei fôlego pareceu uma eternidade e tudo estava mais devagar agora. Eu queria estar naquele altar, eu queria me casar com Matty, eu só precisava dizer as palavras.
– Aceito.
Era como se o mundo estivesse nas minhas costas até aquele momento e depois de ter soltado as palavras, tudo pareceu muito mais leve. Estava realmente acontecendo.
– Assim sendo, preparem-se para dar e receber os votos de amor, que estão entre os maiores presentes da vida.
O juiz me encarou e entregou o microfone em minhas mãos, as quais tremiam de nervosismo. Eu não carregava nenhum papel comigo, porque passara noites escrevendo e sabia cada palavra, pontuação e entonação, do início ao fim.
– O difícil é começar né, mas agora também eu já comecei, então... – soltei uma risada nervosa, fazendo com que todos também rissem e que o clima ficasse mais descontraído – Matty, eu sabia que você nunca me deixaria porquê... você sempre esteve lá... e isso tem que significar algo, né?
Matty percebeu meu nervosismo e como minhas mãos faziam com que o microfone chacoalhasse, então balançou a cabeça positivamente e sorriu de maneira serena, me incentivando a prosseguir.
– Meu melhor amigo, estava lá na primeira vez que caí de bicicleta e cuidou de mim, também quando tirei minha primeira nota baixa e me consolou, depois de ter ralhado e dizer que eu deveria ter estudado mais, claro. – soltei uma risada, recordando da situação e funguei em seguida, deixando com que a primeira lágrima escapasse – Você sempre esteve lá pra me dizer que eu alcançaria todos os meus objetivos, pra dizer que você sentia orgulho de mim.
– Eu ainda sinto. – disse baixinho, para que somente eu escutasse.
– E pra surpresa de todos os nossos amigos do colégio, você também foi o meu primeiro beijo e eu o seu. Não Lizzie, você não foi o primeiro beijo dele! – olhei para ela entre os convidados e ouvi todos nossos colegas gargalharem, inclusive Matthew – Nós não queríamos passar vergonha na primeira vez que fôssemos beijar alguém e decidimos que treinaríamos juntos, jurando guardar segredo... bom, agora não é mais segredo, até porque a gente vai casar, a gente tá casando e eu estou aqui, na sua frente, na frente de todas as pessoas que significam algo em nossas vidas, pra mostrar o quão importante você é pra mim. Obrigada por tudo Matty, eu tenho o privilégio de te amar e ser amada por você e eu sei que ninguém no mundo é capaz de cuidar de mim do jeito que você cuida, porque é você, é o meu melhor amigo e não tem como não dar certo.
Matty não hesitou em me abraçar, tirando os meus pés do chão e plantando um beijo em minha testa em seguida. Permanecemos assim até que o Juiz de Paz pigarreasse, como um sinal de que deveríamos prosseguir, então entreguei o microfone para o meu marido, que já possuía um rascunho em mãos.
– Eu confesso que não tava preparado pra revelação do nosso maior segredo. Desculpa Lizzie... – Fiz uma cara feia e Matty soltou uma risada gostosa, fazendo novamente, com que todos soltassem risadas – quer dizer, deixa pra lá... – pigarreou e voltou sua atenção para o papel – Você sempre foi a minha garota , eu só não consegui enxergar antes, mas eu não me preocupo com isso, porque tudo aconteceu para que hoje estivéssemos juntos, aqui, nesse altar. Não me preocupo com o tempo que perdi sendo somente um bom amigo, porque eu sei que tenho o resto da minha vida pra te dar quantos beijos eu quiser. Foi o meu primeiro beijo e será o meu último.
Matty mordeu o lábio inferior, fazendo uma pausa, demonstrando tensão. Pude ver mais algumas lágrimas se formarem em seus olhos, enquanto eu tinha certeza que teria de retocar a maquiagem por conta das diversas lágrimas que escorriam.
– Eu não consigo não querer você pra mim, eu não consigo não cuidar de você ou simplesmente não me importar, porque... você sempre esteve lá. Você fez com que eu acreditasse que toda aquela tempestade não passava de um tempo ruim, você fez com que o sol voltasse a brilhar e... ele te amava, , você não tem noção o quanto meu pai te amava e eu queria tanto que ele pudesse ver como você tá linda hoje... – Matty fungou, respirando fundo em seguida – Ele sempre dizia, lembra?
“Vocês ainda vão casar”, falamos juntos.
– Eu não dava ouvidos, dizia que era coisa da cabeça dele, pra deixar pra lá e... caramba, se eu soubesse que você ficaria tão incrível num vestido branco eu nunca teria o contestado. Muito melhor do que encontrar o amor da sua vida, é saber que ele é o seu melhor amigo. É você , é você quem eu escolhi amar e obrigado por ter escolhido me amar também.
Fechei meus olhos por um tempo, para que o choro cessasse e quando os abri, o Juiz já possuía o microfone em mãos.
– E agora as alianças.
A dama de honra, prima de Matthew, muito pequenininha e cabelos encaracolados, entrou em passos curtos, timidamente, com a cesta que continha as alianças em mãos. Foi até o Juiz e a entregou. Enquanto pegava as alianças, explicava.
– As alianças são símbolos físicos do compromisso de um casal e de sua ligação emocional e espiritual. Elas são consideradas um círculo perfeito, sem começo nem fim. e Matthew, que estes anéis sejam um lembrete visível de seus sentimentos um pelo outro neste momento. Ao olhar para eles, lembrem-se que vocês têm alguém especial com quem compartilhar suas vidas. Lembrem-se de que vocês se encontraram um ao outro e um no outro, e de que nunca mais andarão sozinhos.
O Juiz entregou primeiramente a Matty.
, eu te dou esta aliança como sinal de que escolhi você para ser minha esposa e minha melhor amiga. Receba-a e saiba que eu te amo. – e pôs sem dificuldades o anel em meu dedo.
– Matthew, eu te dou esta aliança como sinal de que eu escolhi você para ser meu esposo e meu melhor amigo. Receba-a e saiba que eu te amo. – mesmo que ainda tremendo de nervosismo, repeti o ato.
– “O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”. e Matthew, ninguém além de vocês mesmos detém o poder de proclamá-los esposo e esposa. Porém, vocês nos escolheram como anunciantes desta boa nova. E assim, tendo testemunhado sua troca de votos diante de todos que estão aqui hoje, é com grande alegria que nós declaramos que vocês estão casados. Pode beijar a noiva.
E como num filme, Matty fez com que eu praticamente deitasse em seus braços e encostou nossos lábios de maneira delicada, fazendo com que todos aplaudissem de pé. Estávamos oficialmente casados e não houve um segundo o qual Matthew não me olhara sorrindo e com um brilho intenso nos olhos.
– Se eu tomar um porre, você cuida de mim? – disse enquanto caminhávamos no tapete para fora da igreja.
– Matty! Ainda estamos na igreja, cuidado com o que fala. – disse em tom de reprovação, mas acabei rindo por conta do bico que seus lábios formaram – Acho que vamos ter que pedir pra alguém cuidar de nós dois...
– É o dia mais feliz da minha vida, sabia? – me deu um selinho na porta da igreja e pude notar que o fotógrafo capturara aquele exato momento.
*

– Agora eu quero um pouco de atenção... posso roubar ela pra mim? Vocês vão ter a vida inteira pela frente!
– Sempre tão dramática Gem... – Matty falou divertido, beijando minha bochecha em seguida – Eu deixo você tirar uma lasquinha dela, ok?
– Muito obrigada, sir. Matthew. – Gemma fez uma reverência, rindo em seguida e me puxou pela mão, me levando para outro canto do salão.
– Ok, ok, sou toda sua agora! – peguei o copo de suas mãos e dei um bom gole – Ficou tudo muito bonito, né?
Dei uma boa olhada em volta, analisando o salão muito bem decorado, com rosas brancas em vasos altos e ornamentados, lustres com luz baixas, num estilo bastante clássico, com todos os meus amigos e família. Já era uma e meia da manhã e os convidados se divertiam ao som da música dançante que tocava alto. Parei meu olhar em Matty por um tempo, que agora bebia e conversava com os amigos do colégio, sempre com um sorriso enorme no rosto, dando risadas de qualquer coisa que o diziam. Acho que nunca o vira tão feliz como naquele dia.
– Ficou, você tem muito bom gosto amiga. – roubou o copo de minha mão, voltando a beber.
– E você e Charlie, hum? Quem diria... – olhamos juntas para ele que agora se aproximara de Matty e conversavam.
– Ele é demais, mas não é nada sério sabe. Retorno para Londres essa manhã e talvez demore para voltar. É complicado.
– Já vai embora amanhã? – fiz um bico – Qualquer dia vou te visitar em Londres.
– Você deve! E isso é uma promessa, não vou esquecer, ok? – o celular de Gemma tocou e ela o guardou rapidamente na bolsa, agindo de maneira um tanto quanto estranha – Vamos comigo no banheiro? Estou muito apurada e preciso de alguém pra segurar minha bolsa.
– Claro, tudo bem, preciso checar a maquiagem também!
Gem e eu seguimos conversando despreocupadamente em direção ao banheiro, mas quando percebi, estávamos a frente da porta que dava para a área externa, me deixando completamente confusa.
– Achei que você quisesse ir ao banheiro... e aqui definitivamente não é o banheiro. Vem vamos, eu te mostro onde é!
– Não! – Gemma pegou meu braço, impedindo que eu saísse, me deixando mais confusa ainda.
Minha amiga olhou para trás, como se averiguasse o local e voltou a me olhar, fazendo com que eu ficasse apreensiva.
– Você pode brigar comigo depois, ok? Mas agora eu preciso que você passe por essa porta.
– Gemma, o que tá acontecendo?
– Não precisa se preocupar, ok? Confia em mim.
Gemma disse olhando nos meus olhos e sorriu em seguida, me passando o máximo de segurança. Ela abriu parte da porta e fez sinal com a cabeça para que eu entrasse. Ao passar pela porta para uma área parcialmente aberta, que dava de frente para um vasto jardim, o vento frio, junto da presença de um homem, fez com que meu corpo se arrepiasse dos pés à cabeça. Ele estava de costas, próximo a um dos vasos abarrotados de flores que compunha a decoração, olhando para o céu. Assim que ouvira os passos do salto batendo contra o chão, se virou para mim.
Harry vestia um smoking preto, simples, mas com o corte perfeito. A gravata era de um azul marinho muito bonito e seus sapatos de verniz preto eram bastante brilhantes. Seus cachos, agora longos, estavam bagunçados, como o usual, mas conseguiu que ficassem mais ordenados ao passar a mão por eles, na tentativa de ajeitá-los melhor para trás.
– Você tá... – deu alguns passos se aproximando – fantástica.
Por mais que eu quisesse respondê-lo, por mais que eu quisesse perguntar o que diabos fazia no meu casamento, se tinha perdido a noção das coisas, eu não consegui proferir uma palavra.
– Não deveria ter me convidado. – soltou uma risada – Ou convidado minha irmã e meus melhores amigos.
Por um momento voltei meu olhar para a porta e vi Gemma acenar para mim, com um sorriso amarelo no rosto, então logo lembrei de Charlie se aproximando de Matthew no salão há pouco. Era uma distração. Eles haviam tramado tudo aquilo.
Harry se aproximou ainda mais, colocando uma das mãos em minha cintura e a outra segurando minha mão, dando início a uma dança de salão, mesmo que a música ao fundo não fosse condizente com a situação.
– Eu não estou aqui para estragar o seu casamento, sei que é uma noite muito importante e especial. – deu uma pausa em seu discurso e fez com que eu rodopiasse – Vim me despedir.
O contato visual entre nós era profundo, eu olhava atentamente cada detalhe que compreendia o rosto de Harry, mas principalmente o sorriso que insistia em permanecer no canto de sua boca enquanto me fitava.
– Acho que esse é um momento oportuno, tanto para mim, quanto para você, que eu deixe de visitar Holmes Chapel por um tempo. – Harry firmou sua mão na minha cintura, fazendo com que nossos corpos ficassem mais próximos – Mas eu não conseguiria partir sabendo que perdi a única oportunidade de te ver assim, num vestido de noiva.
Harry encostou sua testa na minha e suspirou pesadamente.
– Você está mais bonita do que eu esperava. – soltou uma risada sem graça, como se estivesse se martirizando – Mas você sempre me surpreende.
Harry parou com a dança, mas manteve nossas testas coladas. Fechei os olhos por um instante e senti seu polegar acariciar a maçã do meu rosto.
– Por que você está vestindo isso pra sair da minha vida? – encostou os lábios em minha testa e respirou fundo.
Flashback
– Eu adoro Londres, tem sempre muita coisa a se fazer a todo minuto, sempre.
Caminhávamos lado a lado na Fleet Street em direção a casa dos tios de Harry, que mantinha seu braço ao redor da minha cintura, deixando nossos corpos bastante próximos. Já era tarde e fazia muito frio, estávamos durante o inverno.
– Devíamos vir mais vezes, sei que você adora e meus tios não se importam.
– Você sabe que eu odeio incomodar, não sabe?
– Você sabe que nunca incomoda, não sabe?
Harry plantou um beijo em minha bochecha e chamou minha atenção para uma loja no outro lado da rua, fazendo com que atravessássemos e parássemos em frente a ela.
– Imagina que linda que você ficaria nesse vestido, vindo em minha direção dentro de uma igreja...
– Não seja bobo, Harry. – soltei uma risada envergonhada enquanto admirava o vestido, namorávamos há apenas sete meses – Além do mais, custa três mil e quinhentas libras!
– Eu trabalharia dia e noite durante o tempo que precisasse pra poder te ver usando um desses. Holmes Chapel teria uma sobrecarga de pães! – Harry soltou uma risada, me puxando delicadamente pela cintura, fazendo com que ficássemos frente a frente – E depois compraria o melhor apartamento da Fleet Street com uma área de serviços enorme para podermos adotar um cachorro.
– Você já planejou tudo, então? – aproximei nossos rostos, lhe dando um selinho bastante demorado.
– Você só precisa dizer ‘aceito’.
End of flashback

– Eu odeio ter que interromper, mas estão dando falta da . – Gemma falara entre a fresta da porta, fazendo com que eu levasse um susto ao acordar de meus devaneios e me afastasse de Harry rapidamente.
– Eu espero que você seja feliz.
– Obrigada Harry. – falei pela primeira e única vez quase de maneira inaudível.
Gemma então abriu a porta e me puxou para dentro do salão. Tudo que pude ver foi um borrão de Harry se afastando, até o perder de vista.
– Onde vocês estavam? – Matty estava ofegante, provavelmente perambulara todo o ambiente me procurando.
– No banheiro. – respondi rapidamente – Problemas na hora de fechar o vestido, desculpe a demora e não ter avisado.
– Ah sim, tudo bem, agora vamos voltar para lá, sua mãe está bêbada e dançando, você não vai acreditar! – disse num tom brincalhão, pegando em minha mão e me guiando até meus pais.
Quando olhei para trás, enquanto acompanhava Matty, pude ver Charlie se aproximar de Gemma e os dois piscarem e sorrirem para mim.

Capítulo 8

You and me got a whole lot of history
We could be the greatest team that the world has ever seen


Harry


“Harry Styles deixa cidade natal visivelmente abatido: “sempre ruim se despedir da família”, disse um dos vocalistas da boy band One Direction.
Seria mesmo toda essa angústia por conta da família?
Como todos nós sabemos, durante a On The Road Again, a primeira e ex namorada do cantor, , compareceu ao show em Manchester, no Reino Unido. Sua aparição levou as fãs a loucura, estampou seu rosto em revistas pelo mundo inteiro e também levantou diversas especulações, como ter sido o pivô do término do relacionamento de Harry com Nadine Leopold, e de que estariam juntos novamente.
A torcida estava grande, queríamos ver os dois juntos outra vez e a expectativa aumentou quando Harry, após quatro anos, retornou a Holmes Chapel, onde vive até hoje, alguns dias depois do show. Foram muito discretos ou simplesmente não saíram juntos, pois nenhuma foto de um possível encontro foi feita durante seu tempo de férias, mas o astro foi flagrado não somente visitando o antigo apartamento o qual moravam juntos, mas passando diversas noites nele.
Contudo, no fim do mês de Janeiro, Harry voltou a cidade para comemorar seu aniversário junto da família e amigos mais próximos e colocou o apartamento a venda, tendo este sido vendido em menos de dois dias.
Ao ser abordado por nossa equipe no aeroporto de Manchester, neste domingo 14, e ser questionado pelo semblante de angustia, Harry disse estar “triste por estar deixando minha cidade natal, é sempre ruim se despedir da família, mas feliz por voltar a trabalhar na divulgação do novo álbum”. Assim que tocamos no nome de , Harry optou por não responder mais perguntas, deixando claro que a saudade da família não era o único motivo de sua tristeza.
(fotos anexas de Harry no aeroporto de Manchester)
Quando teremos informações do que realmente aconteceu entre esses dois? Não sabemos, as histórias são várias, mas esperamos que tudo esteja bem.”

*

– Bom dia todo mundo, é sexta-feira, dia vinte de fevereiro, e o nossos convidados estão aqui. Bom dia Harry Styles, bom dia Liam Payne. – disse Nick Grimshaw, locutor da BBC Radio 1, animado.
– Bom dia! – respondemos conjuntamente.
– Como você está, Harry?
– Eu não estou tão ruim, na realidade. – soltei uma risada – Ou estou?
– Um pouquinho, mas nem tanto. Você acordou bastante cedo.
– Mas estou bastante animado, na realidade.
– E você Liam, você está completamente derrotado. – Nick gargalhou – Foi uma noite difícil?
– Harry dormiu a viagem inteira, mas tive dificuldades, por isso este belo rosto de sono. – Liam acabou bocejando logo em seguida, nos fazendo rir – Desculpe.
– Tudo bem Liam, nós perdoamos você. – Nick mexeu em suas anotações, achando o papel pelo qual procurava – Bom, ano passado vocês saíram em turnê, on the road again, certo?
– É, isso mesmo, foi de fevereiro a outubro do ano passado, estivemos na Oceania, Ásia, África, Europa e América do Norte. – Liam tomou a frente.
– Uau, incrível! Mas estamos bastante chateados com o fato de que não iremos ver vocês performarem em uma nova turnê. O hiato se aproxima, não é mesmo?
– Ainda estamos focados na divulgação do nosso quinto álbum, que foi um material que produzimos como um presente para as fãs. – respondi – Mas também queremos um pouco de descanso.
– As turnês são incríveis, é o maior contato que temos com os nossos fãs e é de uma sensação única, mas também são bastante cansativas e esse tempo de descanso é precioso. – Liam complementou – Só temos a agradecer a todo o carinho e apoio de todo mundo que acompanha nosso trabalho, mas agora temos outros planos e... é isso, vamos ver no que vai dar.
– Imagino que seja bastante cansativo mesmo, mas agora que não tem turnê, como fica a rotina de vocês?
– Ainda temos alguns eventos e entrevistas, enfim, compromissos no schedule, como estar aqui hoje, por exemplo. – expliquei para Nick – Mas é muito mais tranquilo, com certeza.
– Temos mais tempo pra ficar com a família, viajar, ou simplesmente fazer nada, o que é ótimo. – Liam soltou uma risada – Mas também temos esse contato, entre nós e as fãs, mesmo que menor.
– Entendo... – Nick pegou outro papel – Entramos em contato com os quatro para que pudéssemos reunir toda a banda, mas só vocês dois estavam disponíveis. Todos queremos saber: onde está Niall e Louis? Vocês conversam bastante, mesmo quando estão longe um do outro?
– Eu quero distância de todos quando estou de folga. – eu disse brincando, fazendo com que todos ali soltassem risadas – Bom, a gente se fala as vezes por mensagens, mas como o Liam disse, quando estamos com tempo livre, passamos mais tempo com a família ou amigos que não vemos com tanta frequência, então a gente respeita o espaço um do outro, até porque ficamos bastante tempo juntos.
– Provavelmente estão apenas evitando nós dois. – Liam também brincou – O último com quem conversei foi Louis, ele me disse que estava em algum lugar com o nome muito estranho passeando com a namorada.
– Engraçado, não queria nem comentar nada com vocês, mas quando dissemos que vocês dois tinham confirmado, eles inventaram uma desculpa na hora. – Nick ironizou, nos fazendo rir – Mas e você Liam, sem planos para ir em algum lugar de nome muito estranho com a namorada?
– Ela está aqui comigo em Londres, estamos sempre juntos agora, é bom tê-la por perto, mas temos alguns planos sim.
– Isso é ótimo, sempre bom ter um tempo a mais com quem se ama, ainda mais depois de um período corrido. – Nick ponderou, olhou para mim e pude notar um sorriso malicioso no canto de sua boca – E você Harry?
Eu estava rezando internamente para que aquela conversa não chegasse em mim e acabasse se transformando no assunto que estampava diversas manchetes, mas era como se Nick pudesse ler meus pensamentos e quisesse usar aquilo contra mim. Por mais que eu tentasse desviar do assunto, ele acharia um jeito de chegar até lá. Éramos colegas, mas ele queria audiência, é óbvio. Toda a mídia estava louca por algum detalhe não revelado sobre o que aconteceu entre mim e e isso me consumia, eu estava completamente exausto. Só queria não ter que pensar mais sobre, mas a pressão era tanta que tudo parecia ser mais doloroso e difícil de digerir. Eu definitivamente não queria falar sobre o que houve, não queria expor , mas também não aguentava mais ser questionado a respeito daquilo e ter sempre que simplesmente ignorar as perguntas ou mudar de assunto. Eu queria que, de uma vez por todas, me deixassem em paz, que encontrassem outro assunto mais interessante e esquecessem daquilo.
– Eu estou solteiro, então... se alguém quiser ir para algum lugar de nome muito estranho comigo, estou livre. – ri, dando uma piscadela para a câmera que transmitia a entrevista ao vivo.
– Solteiro, é mesmo? – Nick pareceu ou fingiu estar surpreso – Nenhuma garota em Holmes Chapel ficará com o coração partido ao ouvir essa declaração, então?
– Hm, não... não ficará. – me ajeitei na cadeira, sentindo o desconforto me invadir.
– Bom, não que eu me interesse por sites de fofoca ou pela vida alheia, mas aparentemente o resto do mundo parece gostar bastante e você sabe, a vontade do povo é a vontade de Deus. – o locutor riu, na tentativa de descontrair – Não sei se você leu algo sobre, mas as pessoas têm comentado bastante sobre a possibilidade de você ter voltado com a sua primeira namorada.
– Ah, as pessoas têm comentado? – fingi surpresa de forma debochada, fazendo com que Liam e Nick rissem – Não notei.
– Bom, então vou te deixar por dentro do assunto...
– Ah não... – deixei escapar baixinho em frente ao microfone, escondendo meu rosto da câmera.
Enquanto Nick narrava os últimos fatos que a mídia expusera, olhei de canto para , minha agente pessoal, como quem gritava por socorro. Ela escrevia em sua agenda com pressa e não demorou muito para arrancar o papel, mostrando para mim o que escrevera.
“Não há mais nada que eu possa fazer, sinto muito.”
Um sentimento de derrota invadira o meu corpo e minhas mãos começaram a suar. Aquele era o momento, o tormento só acabaria quando eu finalmente me pronunciasse sobre e eu já não podia mais fugir ou me esquivar do assunto.
– O que você tem a dizer sobre? – Nick perguntou, fazendo com que eu acordasse dos meus pensamentos.
– Ah, ela é uma garota incrível e somos amigos, assim como os outros garotos. A banda não se resume a mim. Ela acompanhou a formação e o início de tudo, criou vínculo com todo mundo. – Liam que escutava atentamente, concordou com a cabeça – Ela foi ao show como todos os outros amigos que convidamos. Ficamos bastante felizes em vê-la, conversamos depois e foi bem legal, fazia bastante tempo que não nos falávamos, mas não passou disso.
– Entendo e fico feliz que vocês mantenham esse vínculo. – Nick forçou um sorriso – Sem chance de vermos esse casal novamente, então?
– Sem chance alguma. – soltei uma risada nasalada, sorrindo torto, ao lembrar de usando o vestido branco – Ela casou semana passada, inclusive.
– Ah meu Deus! E você foi convidado?
– Sim, minha família também! Minha irmã foi, mas eu não pude ir por conta de um compromisso.
– Claro, você andou bastante ocupado no ramo imobiliário. – Nick riu, na intenção de descontrair.
– Pois é, e confesso que levo jeito, vendi com bastante facilidade. – forcei uma risada, tentando demonstrar tranquilidade – Acho que vou me dedicar a essa atividade nas minhas férias.
– Bom, estamos aqui na BBC Radio 1 com Harry Styles, que está solteiríssimo e Liam Payne, que agora parece um pouco mais acordado.
– Nem estou mais bocejando! – Liam disse enquanto esfregava os olhos.
– O que já é uma vitória. – Nick riu enquanto mexia em seus papéis – Agora vamos de Drag Me Down, música do último álbum da banda, Made In The A.M., e já voltamos com mais One Direction!
Tiramos os fones logo que a música começara a tocar e a câmera foi desligada enquanto fazíamos a pausa. caminhou até mim com pressa e me entregou um copo d’água gelado.
– Eu juro que quis avançar no Grimshaw. – bravejou, bufando em seguida, enquanto eu bebia a água – Quanta falta de consideração, achei que fossem amigos!
– Trabalho é trabalho... – o locutor estava atrás de – Amizade a parte.
– Conseguiu a audiência que queria? – direcionou a atenção a ele, como se fosse atacá-lo, fazendo com que eu levantasse e me pusesse a sua frente.
– Deixa pra lá, ok? – disse num tom calmo – Tá tudo bem.
– Consegui, obrigada por perguntar, mas poderia ter sido muito melhor se Harry falasse a verdade. – Nick soltou uma risadinha – Brincadeirinha.
– Algum problema aqui? – Liam apareceu na roda, parecendo preocupado.
– Não, nenhum, imagina. – Grimshaw voltou a sua cadeira e colocou o fone – Vamos voltar em quarenta segundos!
voltou ao seu lugar assim como eu e Liam, que fingíamos conversar despreocupados quando a câmera voltara a filmar.
– Estamos de volta, oito e vinte três da manhã, com Harry Styles e Liam Payne da One Direction!
– Hey todo mundo! – Liam falou de maneira cantada.
– Olá, olá. – disse em seguida.
– Bom, estávamos falando de turnê e shows, ouvimos esse hit que simplesmente estourou em todas as paradas ao redor do mundo, Drag Me Down, que foi composta... – Nick checou os papéis – Por você Liam e pelo Louis, correto?
– Sim, eu e Louis compomos essa e foi muito gratificante o retorno dos fãs. – Liam explicava – Quebramos o recorde de streaming com esse single e ficamos muito felizes.
– Tem muito mais de nós nesse álbum do que nos anteriores. – tomei a vez e gesticulava bastante enquanto falava – Julian nos auxiliou muito na composição de Four e aprendemos bastante, ficamos com uma bagagem maior para compor esse álbum. Foi divertido todo o processo, desde compor até gravar, tivemos mais tempo, foi mais tranquilo.
– Então ele é um álbum mais íntimo, contam histórias e coisas que realmente aconteceram com vocês?
– É, podemos dizer que sim, como o Harry disse, há muito mais de nós em cada música desse álbum. – Liam olhou para mim – O que você acha?
– Acho que todo compositor, quando cria um material novo, acaba transcrevendo seus sentimentos e experiências próprias e não seria diferente nesse álbum.
– Sim, Taylor Switf agrees. – Nick soltou uma gargalhada, fazendo com que todos rissem e eu escondesse meu rosto com as mãos por um tempo.
– Bom, como eu ia dizendo. – voltei a falar, ainda um pouco sem graça – Nos empenhamos bastante para que alcançássemos o melhor resultado, pedimos ajuda um para o outro, as vezes um alterava algo aqui, outro ali, mas sim, ele é um material que acabou se tornando um pouco mais pessoal do que os anteriores.
– E qual a música desse álbum que vocês mais gostaram?
– Eu gosto bastante de What a Feeling. – Liam respondeu primeiro – Definitivamente é a minha favorita do álbum.
– Eu acho que... – ponderei – Olivia.
– A pergunta que não quer calar é: quem é Olivia? – Nick me encarava com um sorrisinho nos lábios.
– Pergunte ao Harry, foi ele quem escreveu. – Liam me dedurou, me deixando sem graça novamente.
– Olivia é mesmo uma pessoa? Olivia é uma emoção? Ela é um lugar? Nós não sabemos. – soltei uma risada – Fica aberta a interpretações, cada um pode ter a sua.
– Ok Harry Styles, só você possui essa licença poética. – Nick sorriu e deixou os papéis de lado – Conversamos com a One Direction, ou pelo menos parte dela e já estamos morrendo de saudades. Obrigado pela presença rapazes, e agora ficamos com Olivia, mesmo sem saber o que diabos ela é, aqui na BBC Radio 1!
Tiramos os fones assim que o sinal de fora do ar ficou vermelho, rindo da piada que Grimshaw havia feito sobre a música. Liam pareceu estar com pressa e se despediu muito rápido, mal conversamos depois da entrevista. Nick tentou manter algum tipo de conversa, mas não queria ter que responder sobre coisas as quais eu não queria falar sobre e pareceu perceber, pois tratou de me tirar o mais rápido possível daquele prédio.
– Obrigado por hoje. – disse para minha agente enquanto caminhávamos em direção ao carro – Eu sei que tentou de tudo, você tem sido incrível.
– É o meu trabalho, Harry. – tentou manter a postura profissional, apesar de estarmos cada vez mais próximos – E eu odeio injustiças.
– Injusto para nós, mas desde quando eles se importam? – abri a porta do carona para que ela entrasse e entrei na parte de trás do carro logo depois.
– Eu não sei como você aguenta, sério. – bufou, botando o cinto em seguida – Não sei se conseguiria manter tanta postura no seu lugar.
– É, a gente acaba aprendendo a deixar passar bastante coisa. – respirei fundo – Mas não quero falar disso.
– Você tem uma semana livre em Londres agora. – disse enquanto checava a agenda – Sua viagem para Los Angeles é só dia 28.
– Então temos que comemorar. – me pus no meio do banco, entre o motorista e minha agente, e sorri brincalhão para ela – Vamos tomar um vinho?
– Um vinho às... – encarou o relógio de pulso – Nove horas da manhã?
– Ok, então tomamos um café e no almoço tomamos um vinho. O que acha?
– Acho que meu chefe vai me matar, não deveríamos misturar as coisas. – fechou a agenda, contrariada.
– Eu sou seu chefe. – ergui uma das sobrancelhas e notei um sorrisinho se formar em seu rosto antes fechado – Vamos, vai, eu to te devendo uma.
– Não vai adiantar se eu falar não, né? – tirou os óculos de grau e esfregou os olhos, os guardando em seguida – Tudo bem, vamos, café e vinho.
– Yaaay! – comemorei e voltei minha atenção para o motorista – O apartamento da Fleet Street, ok?
– Sim senhor. – respondeu concentrado no trânsito e muito sério.
– Sempre que o Robert responde assim eu sinto os anos nas costas. – brinquei, fazendo que ambos rissem.
O trânsito estava intenso e demorou até que cruzássemos a cidade até a Fleet Street. Ao chegarmos, o motorista parou em frente a portaria do prédio e desligou o carro, sendo o primeiro a sair e abrindo a porta para mim em seguida.
– Obrigado Robert, mas eu já falei que não precisa, deveria ter aberto a da . – fechei a porta em seguida e pude ver minha agente saindo do carro logo em seguida – Bom, você pode tirar o resto do dia de folga, ok?
– Obrigado... – ponderou e sorriu em seguida – Harry.
– Muito melhor! – sorri e fiz uma pequena reverência – Obrigado de novo, Robert.
Eu e paramos lado a lado na calçada, vendo o carro que nos trouxe se afastar aos poucos. Assim que ele sumiu completamente de vista, pousei meus olhos numa loja do outro lado da estrada e senti um aperto no peito.
– Estamos esperando algo? – perguntou confusa e então olhou na direção a qual eu olhava e pareceu mais confusa ainda.
– Não, podemos subir. – fitei e sorri, entrando na portaria em seguida.
Conversávamos distraidamente sobre meus próximos compromissos durante o percurso da portaria até meu flat que ficava na cobertura. estava ao meu lado nessa função há quase um ano e sempre nos demos muito bem, ela era muito responsável e sempre me ajudou muito, a melhor profissional que ocupara aquele cargo até o momento. Ao abrir a porta, pude notar a cara de surpresa da ao encarar o interior do apartamento. Era espaçoso e os móveis tinham uma pegada clean e moderna. A sala era bastante ampla e com uma visão incrível de Londres, e ficava conjugada com a cozinha tão grande quanto.
– Gostou? – sorri de canto, fechando a porta em seguida – Queria passar mais tempo aqui, gosto do lugar e queria deixar mais a minha cara, mas ainda não tive tempo.
– Harry, nossa, é incrível. – olhou em volta e deixou a bolsa em cima do sofá, indo até a cozinha em seguida. Parou em frente a uma porta e deu uma olhadinha, me fitando abismada em seguida – Isso é uma área de serviço? É quase maior que meu quarto!
– Grande, não é? – soltei uma risada, caminhando até a máquina de café e peguei algumas capsulas e duas xícaras – Expresso, capuccino... chocolatto?
– Ah, sim, seria um bom lugar para morar, mas você passa muito mais tempo em Los Angeles. – ponderou, como se refletisse sobre – E um expresso, por favor.
– Ok, um expresso saindo. – sorri divertido – Eu adoro Los Angeles, acho que é onde eu realmente considero e me sinto em casa, mas aqui... é um sentimento diferente. – caminhei até , sentando ao seu lado e entrando sua xícara, bebendo um gole do meu café em seguida.
– Mas Fleet Street? Eu realmente esperava Egerton Crescent, talvez Parkside, no mínimo na Lancaster Gate. – deu um bom gole em seguida, me fazendo rir.
– Bom, tenho uma casa na Egerton Crescent...
– Eu sabia! – exclamou vitoriosa, como se fosse um jogo acertar onde eu possuía imóveis – Deve ser incrível.
– Para uma Californiana legítima, você está se saindo uma ótima britânica. – fiz rir e rolar os olhos em seguida.
– Eu adoro o Londres, mas não mais que a West Coast. – finalizou o café e levantou, se dirigindo até a máquina de café – Posso?
– Vá em frente. – sorri, dando mais alguns goles em seguida.
– Harry, me avise se eu estiver sendo intrometida demais, mas... pela minha pequena e rápida análise, você tem algo com essa rua, alguma história, não? – apertou o botão e o cheiro de café voltou a se espalhar pelo cômodo – Tudo bem se não quiser falar sobre, sei que nossa relação é apenas profissional...
– Ei, para com isso! – disse num tom de reprovação – Sei que nos conhecemos por conta de uma relação profissional, mas já te considero uma amiga e podemos falar sobre tudo... – prestei atenção no que acabara de dizer e ponderei, soltando uma risada logo depois – Quase tudo, ok?
– Ok, conte-me todos seus segredos mais sórdidos e obscuros. – se encostou na pia e ficou me encarando de lá, bebendo seu café.
– Vou ter que te matar depois. – ergui uma das sobrancelhas sugestivamente e minha agente fingiu sentir medo da forma mais teatral possível, fazendo com que ambos rissem.
– Na realidade, eu só queria saber sobre o porquê você ter encarado de forma muito estranha uma loja de vestidos de noiva e ter uma cobertura na Fleet Street com uma área de serviços maior do que meu quarto! – pôs a xícara na pedra da pia e cruzou os braços, como se esperasse uma explicação imediata.
– Você é alguma jornalista investigativa da cosmopolitan infiltrada? – a encarei assustado e então gargalhou – Eu realmente estou impressionado com a sua observação e a maneira como interligou as coisas.
– Não precisa ser jornalista investigativa, Harry, precisa ser mulher. – pegou minha xícara no balcão e colocou ao lado da sua na pia –Temos um sexto sentido.
– Depois disso, aposto que vocês têm mesmo. – ri pelo nariz e apontei para a sala –Vamos pros sofás, são mais confortáveis. – caminhei até o maior deles, tirei os sapatos e sentei de maneira mais relaxada. aproveitou a deixa e tirou as sandálias também, sentando no sofá ao lado – Bom, antes da banda, e eu viemos algumas vezes para Londres juntos, meus tios moravam aqui pertinho, ficávamos no apartamento deles e sempre passávamos por essa rua. – minha agente, ou melhor, amiga, me encarava atentamente, ouvindo cada palavra que eu dizia – Ela adorava vir à Londres, nos divertíamos muito, era legal andar nas ruas com ela sem uma multidão em volta. – sorri torto, lembrando de como caminhávamos abraçados na última vez que passamos pela Fleet Street juntos, sem sermos parados por praticamente toda pessoa que cruzasse o nosso caminho – E bom, na última vez que passamos por aqui eu notei aquela loja de vestidos de noiva e achei eles incríveis e mostrei pra ela, disse que queria que ela usasse um daqueles... – respirei fundo e ri de mim mesmo, me achando patético por estar contando aquela história a alguém – Mas eram caros e eu trabalhava numa padaria! Só que eu prometi a ela que usaria um daqueles em nosso casamento e que teríamos um apartamento aqui, nessa rua.
– Você é tão romântico que eu fiquei enjoada. – me olhava com certa admiração e confesso que achei graça – Tá, ok, e onde a área de serviços entra nessa história?
– Por Deus, por que a área de serviços teria alguma ligação?
– Por que homens não se importam com áreas de serviço e, caramba, olha o tamanho daquela ali! – dizia extremamente convicta – Pra ter um espaço daquele você tem que ter especificado que você queria uma maior do que o convencional!
– Eu realmente estou com muito medo, tem certeza que essa história não vai estar no The Sun amanhã?
– Não era cosmopolitan? – franziu o cenho e rolou os olhos em seguida – Da pra parar com isso e me contar o resto da história?
– Tudo bem, tudo bem... – me dei por vencido, encarando qualquer outra parte da sala e falando mais baixinho, com vergonha – Prometi que teríamos uma área de serviços maior pra podermos adotar um cachorro.
– AH MEU DEUS! – deu um pulo no sofá, fazendo com que meu rosto ficasse mais vermelho que o normal – Onde você guarda o seu cavalo branco?
– Eu vou te matar por estar me fazendo a falar sobre isso. – bufei e cruzei os braços – Não poderia ser depois da primeira garrafa de vinho? Eu me sentiria muito mais confortável. – fiz uma careta e riu. Ela checou o relógio em seu pulso e me olhou de maneira travessa em seguida, me deixando completamente confuso.
– Você deveria tomar mais cuidado com o que deseja, sabia? – soltou uma risada quase que maléfica propositalmente, fazendo com que eu risse de nervoso – Bom, são quase onze horas da manhã, poderíamos pedir o almoço e começar a beber a primeira garrafa agora, o que acha?
Passadas uma hora e meia estávamos bastante bêbados e havíamos simplesmente ignorado a comida chinesa que pedimos e que tinha chego há quarenta minutos.
– Ela é demais, , demais. – deixei a taça em cima da mesa de centro, me sentindo um pouco tonto – Acho que vocês se dariam bem, talvez até fossem amigas.
– Eu sinto muito que as coisas não tenham dado certo. – encheu nossas taças, fazendo com que chegasse ao fim a segunda garrafa – Mas você não pode ficar nessa para sempre baby, tem um oceano de modelos, atrizes e garotas muito interessantes que fariam de tudo por uma noite com Harry Styles.
– Tô cansado de one-night stand. – ignorei completamente minha tontura e embriaguez e voltei a beber o vinho – E é difícil conhecer alguém melhor e me envolver a ponto de um namoro.
– Você é tão chato Harry Styles. – rolou os olhos e colocou a taça com certa impaciência na mesinha – Presta atenção, nem que eu tenha que reformular toda a sua agenda e cancelar alguns eventos, você precisa conhecer alguém melhor!
– Sou chato, mas ainda sou seu chefe, então olha bem essa boca aí. – ergui as sobrancelhas e soltei uma risadinha.
– Você não faria isso comigo. – rebateu, ergueu uma das sobrancelhas também, como se me desafiasse – Sei da minha qualidade.
– Você tem razão. – falei derrotado e soltei o ar pela boca, fazendo um barulho com os lábios – Mas não me chame de chato de novo, fere o meu ego. – pus a mão no peito e fingir dor no coração. gargalhou mais alto do que o normal por conta do nível de álcool – E eu agradeço a sua tentativa de me fazer encontrar alguém, mas acho que agora só preciso de um tempo pra digerir tudo, sabe?
– Você foi louco em ir até o casamento, ou muito corajoso. Não sei se no seu lugar conseguiria lidar com o fato de ela estar... – gesticulou com as mãos na tentativa de explicar – você sabe, vestida daquela maneira.
– Sonhei com isso tantas vezes, sabe? Ver ela usando um vestido daqueles. Eu sei que doeria muito depois, mas acho que doeria muito mais saber que nunca a veria vestida de noiva. – encarava a taça em minhas mãos com o cenho franzido – Eu queria poder dizer que a esqueci durante todo esse tempo e que foi muito estranho sentir tudo àquilo de novo e querer voltar atrás, mas a verdade é que ela quase sempre esteve lá. Quando alguém não me fazia lembrar com uma foto pelas redes sociais, eu sonhava com ela. Quando eu estava bem e já não pensava mais nisso, minha mãe pedia pra eu voltar pra Holmes Chapel e eu lembrava que o motivo de eu não querer ir até lá era ela e tudo voltava a me perturbar. É bizarro e eu fico triste comigo mesmo por isso. – voltei a encarar que me fitava com muita atenção – Eu queria tanto compartilhar isso tudo com ela, sabe? – senti meus olhos arderem e encherem d’água, mas logo esfreguei os olhos – Droga. Eu tô me sentindo uma adolescente de 17 anos. – ri de mim mesmo e me acompanhou.
– Acho que deveríamos adiantar o seu retorno pra Los Angeles. – deixou a taça de lado e relaxou no sofá, deitando a cabeça em uma das almofadas e abraçando outra.
– E por que você acha isso?
– Acho que Londres mexe muito com você e por isso você mora em Los Angeles, ajuda a desviar um pouco a atenção desse assunto.
– É, acho que no fundo é isso mesmo, mas vamos ficar até segunda-feira, ok?
– Tudo bem, saindo daqui já vou adiantar o voo. – pegou o celular para anotar nos lembretes – Marcou algum compromisso pra esse final de semana?
– Sim, vou jantar com o Niall domingo. – disse com um sorriso no canto dos lábios, encarando – Quer vir junto?
– Com o Niall? – tentou parecer despreocupada, mas o nervosismo era perceptível – Ah, não sei, eu queria passear por Londres antes de ir embora e não queria atrapalhar o encontro de vocês.
– Mas é só um jantar, não vai te tirar tanto tempo assim. Qual é, ! Tenho certeza que o Niall vai adorar te ver.
– Você acha? – voltou a me encarar e ajeitou uma mecha atrás da orelha, fazendo com que eu risse de sua reação – Por que está rindo?
– Eu sabia! Eu sabia, eu sabia, eu sabia! – disse ainda rindo – Você gosta do Niall! Eu não acredito...
– O quê? Você tá ficando louco? – seu rosto estava completamente vermelho – Da onde você tirou essa ideia? Não tem nada a ver, eu não gosto do Niall.
– Francamente , tudo isso daqui pra você se apaixonar... – passei a mão pelo meu abdômen – e você se apaixona pelo Niall?
– Você é ridículo. – jogou uma almofada no meu rosto e eu ri ainda mais alto, fazendo com que ela não aguentasse e risse também – E não é como se eu escolhesse por quem eu me apaixono.
– Que bonitinha... – apertei suas bochechas e minha agente deu um tapa em meu braço – E sabe o que é mais engraçado?
– O que? – perguntou fingindo desinteresse, então entreguei meu celular a ela e mostrei a última mensagem que Niall havia me enviado.
“Mate, você tá saindo com a ?”.
– Ele... – devolveu o celular incrédula, olhando fixamente para um ponto.
– SIM! – deitei no sofá, gargalhando com a cabeça para trás – Ele gosta de você também!
– Ai. Meu. Deus. – colocou as mãos na frente da boca e soltou uma risada abafada –Esse jantar é real? Vai acontecer mesmo?
– Infelizmente não, eu só inventei pra ter certeza da minha teoria. – me encolhi no canto do sofá – Mas não me bate, ok?
– Eu te socaria se você não fosse meu chefe! – disse aparentemente frustrada, mas acabou relaxando e sorrindo feito uma tola em seguida – Mas obrigada por me contar.
– Eu vou dar um jeito nisso, ok? Nunca fui um cupido antes, tô animado!
– Espero que você seja um bom cupido, porque o seu tá complicado... – soltou uma risadinha e me fez murchar na mesma hora.
– Você é uma bela de uma desmancha prazeres, isso sim. – fiz um bico e foi a vez de apertar minhas bochechas.
*


– Não acredito que finalmente estou segurando ele! – dizia com o canudo em mãos – Enfim formada, mal posso acreditar.
Matthew, minha mãe e meu pai me acompanhavam entre os corredores da universidade após a colação de grau no gabinete do Diretor. Eu havia optado por não fazer festa de formatura por conta do casamento e apartamento que compramos.
– Estamos tão orgulhosos! – minha mãe falava enquanto enxugava as lágrimas com um lencinho.
– Filha, tenho certeza de que será uma delegada muito melhor do que eu! – meu pai dizia enquanto andava abraçado de lado comigo.
– Aprendi com o melhor. – o abracei de volta e recebi um beijo na bochecha.
– Um psicólogo e uma bacharel em direito, somos o casal mais chato do mundo. – Matty soltou uma risada e pegou na minha mão assim que meu pai desvencilhou o nosso meio abraço – Bom, não pudemos fazer uma reserva num restaurante, ainda estamos com várias prestações pesadas, mas compramos uma boa champagne para comemorarmos. – disse diretamente para os meus pais quando paramos na frente do seu carro estacionado no campus bem ao lado do nosso – Vocês não precisam voltar para Holmes Chapel hoje, podem ficar no quarto de hóspedes.
– Adoraríamos meu querido, mas George não folga amanhã, tem que estar cedo na delegacia. – minha mãe sorriu torto, nos abraçando em seguida – Se cuidem, ok? Comemorem por nós.
– Pode deixar, vamos comemorar a noite toda. – Matty ergueu uma sobrancelha para mim e soltou uma risadinha, fazendo com que meu pai olhasse de forma repreensiva para ele – Desculpe senhor.
– Parece que foi ontem que vocês estavam brigando por quem sentaria na ponta da mesa e agora estão aí, tão... tão...
– Casados? – completei a frase de meu pai, abraçando Matthew em seguida.
– Isso, tão casados. – resmungou, entrando no carro sem seguida – Cuida dela, moleque.
– Deixa comigo George. – acenou – Boa viagem de volta.
– Boa viagem meus amores! – escutei a voz de minha mãe se misturar com o barulho do motor antes de irem embora.
Matthew tirou a chave do carro do bolso e caminhou em direção ao carro, abrindo a porta para mim, como de costume, e entrando logo em seguida.
– Agora vamos ter que tomar duas garrafas sozinhos. – colocou o cinto com um sorriso bobo no rosto – Que pena...
– Aposto que você tava rezando pro pai não ter conseguido folgar!
– Você me conhece tão bem, meu amor... – dei um tapinha em seu braço, fazendo-o rir e dar partida no carro logo em seguida – Você é tão agressiva, meu amor.
– Você não viu nada, meu amor. – ergui uma das sobrancelhas e sorri travessa, me inclinando para lhe dar um selinho.
– Pior que eu já vi e pior ainda eu gostar disso. – riu de sua própria conclusão e colocou uma das mãos em minha coxa enquanto dirigia – Temos que aquecer para a lua de mel, quero estar em perfeito condicionamento físico para a nossa viagem.
– Temos uma semana livre para preenchermos de puro treino intenso e pesado. – fingia estar séria, Matthew ria de minha encenação.
– Você é patética, sabia? – disse ao parar no semáforo e voltou seu olhar para mim, sorrindo ao me encarar – Pateticamente linda.
– Obrigada. Você também é patético, mas só patético mesmo. – soltei uma risada e Matty fez um carinho em meu rosto antes de voltar a atenção ao trânsito e dirigir. Fiquei o encarando enquanto se concentrava no trânsito e simplesmente soltei um gritinho agudo e chamei pelo seu nome em seguida.
– Meu Deus, o que foi! – olhou para mim assustado e freou de repente, fazendo com que ouvíssemos diversas buzinas em seguida. Matthew colocou a mão no peito por conta do susto e me encarava confuso – , o que foi?
– Por que você é tão lindo? – um sorrisinho brotara em meus lábios e vi seus olhos rolarem, voltando a atenção para o trânsito novamente – Olha só pra esse rosto! Sério, como você consegue?
– A gente poderia ter se metido num acidente, sabia? – segurava o volante com as duas mãos.
– Esse peitoral... – pus a mão em seu peito, descendo pelo seu tronco lentamente, fazendo Matthew – Esse abdome...
! – disse tentando manter a postura, mas esta foi se desfazendo aos poucos e um sorriso começara a brotar em seu rosto.
– Mas sabe o que eu mais gosto? – continuei descendo minha mão e Matthew soltou uma risada nasalada enquanto estacionava o carro.
– O que você mais gosta? – desligou o carro e me encarava, então passei a mão por entre suas pernas, mas não me demorei, deslizando minha mão por sua coxa.
– Do seu... – mordi meu lábio inferior provocativa – joelho. – pousei minha mão ali e Matthew não sabia se me xingava ou se ria.
– O que eu fiz pra te merecer? – perguntou antes de abrir a porta do carro e sair, caminhando até o outro lado e abrindo a minha porta.
– Nasceu. – disse ao sair do carro e soltei uma risada, lhe dando um selinho que se aprofundaria num beijo se não tivéssemos ouvido um pigarrear.
– Licença. – uma garota loira, não muito alta, de provavelmente uns dezesseis anos perguntara timidamente – Desculpe incomodar, mas você é a , não é?
– Sim, sou eu. – senti minha pele esquentar, pois aquilo não acontecia há um tempo comigo, eu não sabia exatamente como reagir e não sabia como Matthew reagiria, me deixando completamente sem jeito.
– Eu sei que pode parecer estranho, mas... eu gosto muito de você e de quando acompanhava a banda, poderia bater uma foto comigo?
– Ah, claro, claro... – escutei Matty bufar enquanto eu me posicionava ao lado da garota que não demorou muito para capturar a foto – Obrigada pelo carinho.
– Obrigada eu! Adorei a foto... – então me abraçou e eu fiquei completamente sem reação, praticamente imóvel – Você é linda, obrigada mais uma vez, tchau! – e correu até um homem mais velho no outro lado da rua, que provavelmente era seu pai.
– Bizarro. – Matty disse sem humor, dando as costas em seguida e entrando no prédio.
Matthew cumprimentou o porteiro com um aceno e apertou o botão do elevador em seguida. Todo o percurso até o apartamento foi um completo silêncio. Ao abrir a porta, Matthew se jogou no sofá com uma cara de poucos amigos.
– Você vai ficar chateado comigo por algo que eu nem fiz? – parei em sua frente – Não tenho culpa, ok? Não iria destratar a menina.
– Você tem razão. – respirou pesadamente – É só que... lembrar disso me deixa chateado, ok? Desculpa.
– Hoje é um dia especial. – sentei em seu colo, com uma perna em cada lado de seu corpo e acariciei seu rosto – Não tem o porquê brigar e estragá-lo por conta disso, ok? Eu também acho estranho, mas quis ser gentil.
– Eu sei, eu sei, você tá certa e eu fui um babaca. – envolveu minha cintura com seus braços e espalhou alguns beijos pelo meu pescoço, fazendo com que eu jogasse minha cabeça para trás – Não queria ter deixado o clima assim pesado.
– Tudo bem, já passou... – fechei os olhos por conta do contato contínuo de seus lábios contra meu pescoço e com uma das mãos agarrei seus cabelos da nuca.
– Eu preciso te contar uma coisa. – disse entre os beijos e de repente parou, fazendo com que eu voltasse a lhe olhar – Temos mais um motivo para comemorarmos hoje. – ajeitou uma mecha do meu cabelo para trás da orelha e sorriu.
– O que é? – perguntei bastante curiosa – Fala logo!
– Você tá falando com o mais novo bolsista do curso de Mestrado em Psicologia Forense e Saúde Mental da Universidade de Manchester. – seu sorriso se abriu largamente – Dá pra acreditar?
– Você tá falando sério? – eu estava com a boca aberta, completamente em choque, ainda em seu colo – Isso é sério? Mesmo?
– Nunca falei tão sério em minha vida! – respondeu animado e com um sorriso muito largo nos lábios.
– Matty, eu... – o abracei com força, sentindo os seus braços me apertarem também – Isso é incrível! Eu to tão orgulhosa... demais! – assim que o abraço se desfez, enchi seu rosto de beijos – Você tinha razão, ainda bem que as duas garrafas ficaram só pra nós dois, temos muito o que comemorar! – Matthew gargalhou e me deu um selinho demorado.
– Eu não poderia estar mais feliz. – levantou do sofá, comigo no colo, caminhando em direção ao quarto – Estar formado, casado, ter conseguido a bolsa, tudo tem dado tão certo...
– E acabou de começar. – Matty me deitou na cama e me deu um selinho rápido – Você tá preparado?
– Eu vou pegar a primeira garrafa, você tá preparada? – sorriu malicioso e levantou em seguida, indo em direção a cozinha – Amor, onde tá o balde de gelo que a gente comprou semana passada? – falou alto da cozinha enquanto eu me ajeitava no banheiro – Não to achando.
– Na porta de cima no canto direito! – respondi alto também, para que pudesse ouvir – E tem morangos na geladeira, comprei ontem.
– Eu te amo, sabia? – disse ainda da cozinha.
– Amor, para de gritar. – respondi gritando e ambos rimos – Mas também te amo!
Em cinco minutos Matthew apareceu com o balde cheio de gelo e uma garrafa, duas taças e um recipiente com os morangos e colocou no criado mudo em seguida.
– Na realidade não sei porque julguei a menina. – encarou meu corpo enquanto eu já estava deitada usando somente uma lingerie – Se eu te encontrasse na rua também pediria uma foto. – pegou a garrafa e abriu num estouro não muito alto, servindo as duas taças e me entregando uma delas em seguida – A nós.
– A nós. – disse com a taça erguida e brindamos em seguida – O melhor time que o mundo já viu.

Capítulo 9

Who's gonna be the first one
To start the fight?


Matthew


“One Direction: o hiato está próximo.

A decisão sobre o hiato teria sido tomada em uma reunião durante o final do ano passado, em Londres, na qual Harry Styles, Liam Payne, Louis Tomlinson e Niall Horan optaram por não fazer uma turnê de lançamento de seu quinto disco. A banda, porém, deve aparecer até março de 2016 em programas de TV e apresentações especiais para promover o novo disco, que foi lançado em novembro.”

“Harry Styles & Nadine Leopold: o real motivo pelo qual ela terminou.
Os rumores são verdadeiros. Nadine foi quem terminou com Harry – e por uma boa razão! Aparentemente, o membro do One Direction estava ‘brincando’ com seu coração, disse uma fonte ao HollywoodLife.
Quando ouvimos pela primeira vez que Nadine Leopold, havia abandonado Harry Styles, não conseguíamos entender por que, no mundo, ela, ou qualquer mulher, faria tal coisa. Mas a explicação dela realmente faz todo o sentido e nos faz pensar se Harry é realmente um bom namorado, afinal de contas. Aqui está o que sabemos.
Nadine não terminou com Harry porque ela parou de se importar com ele, na verdade, ela se importava muito!
"Nadine queria um compromisso mais sério com Harry", disse uma fonte próxima à estonteante modelo. “Ela sentiu que ele precisava fazer mais esforço para vê-la. Ela simplesmente não sentia que ele estava levando o relacionamento deles suficientemente a sério, e basicamente ela não tem tempo para nenhum jogo em sua vida”.
Uau! É uma pena que as coisas não funcionaram entre os dois porque eles pareciam estar se divertindo muito juntos.
“Harry está constantemente sendo rodeado por mulheres lindas. Para piorar a situação, Harry é um grande paquerador. Na maioria das vezes, é inofensivo e ele está apenas sendo brincalhão, mas definitivamente afetou Nadine. Ela estava convencida de que ele estava traindo enquanto estava em turnê. Ela não tem provas, a não ser por evidências circunstanciais como a presença da ex namorada em um dos shows e o fato de ele ter o telefone desligado por longos períodos de tempo”, disse uma fonte ao HollywoodLife exclusivamente.
Relacionamentos de longa distância nunca são fáceis e o fato de Harry ser uma das estrelas pop mais procuradas do mundo só piorou as coisas para ele e Nadine. É uma pena que Nadine e Harry terminaram, mas se ela não estava feliz no relacionamento, então ela tomou a decisão certa.”

“If I Could Fly: behind the lyrics
Harry Styles está levando a loucura as fãs da boyband One Direction por conta de suas composições contidas no quinto álbum do grupo, Made In The A.M.. Teria sido a sexta faixa composta para sua primeira namorada? Ao que tudo em indica: sim, ela é dedicada à , apesar de o vocalista nunca ter confirmado. Clique no link abaixo e leia as 3 melhores teorias criadas pelos fãs!”.

*

Eu estava obcecado. Eu estava exausto. Não conseguia lidar. Faltava apenas um mês para o recesso de fim de ano, estávamos em novembro, e o mestrado, junto de todas aquelas notícias antigas que eu insistia em procurar diariamente, me consumiam gradativamente.
Minha relação com estava cada vez mais distante e aquilo me matava aos poucos. Eu estava ocupado com a reta final do primeiro ano do mestrado e ela estava completamente focada numa pesquisa jurídica da pós-graduação, mas eu sentia que ela clamava por aproximação e eu simplesmente não conseguia dar abertura.
– Vai pra casa Matthew. – Charlie disse ao me ver entrar pela porta do pub o qual trabalhava há um tempo após se mudar para Manchester – Você é casado, sabia?
Como de costume, pelo menos nos últimos meses, ignorei meu colega de escola e segui diretamente ao banheiro do estabelecimento. Entrei em uma das cabines e sentei no vaso, abrindo minha mochila e procurando pelo pequeno saco de plástico.
– Droga. – vasculhei a bolsa e não encontrei o que buscava – Onde eu enfiei aquela merda? Não é possível que já tenha acabado. – bufei e acabei desistindo, jogando a mochila no chão. Pus as mãos no rosto e as levei até a cabeça em seguida, pensando no que fazer – Inferno.
Peguei a mochila que estava no chão e saí do banheiro às pressas, sem nem escutar o que Charlie tinha dito. Embarquei em minha moto, havia comprado uma para que se locomovesse com o carro, e fui em direção a agência bancária mais próxima. Meus pensamentos se misturavam e confundiam, fazendo com que todos os momentos incríveis que tive com minha esposa se perdessem em meio a todos os outros os momentos entre ela e Harry os quais presenciei.
Eu odiava Harry. Sentia vontade de matá-lo as vezes.
Eu sabia que me amava, eu sabia que ela havia me escolhido, ou pelo menos me convencia de que sabia, mas eu simplesmente não conseguia esquecer tudo aquilo. Afinal, quem era Matthew Pritchett comparado ao cobiçado Harry Styles? Por que ela preferiu a mim? Todas aquelas memórias me perturbavam o tempo todo e eu sentia que minha cabeça poderia explodir a qualquer momento. Acelerei mais a moto e senti o vento empurrar as lágrimas para a lateral do meu rosto. Eu não sabia como ainda conseguia chorar. Eu não sabia como ainda conseguia sentir algo.
“É óbvio que você vai ser o padrinho do nosso casamento Matthew! Acha mesmo que teria coragem de não lhe convidar?”.
Sua doce voz aos dezesseis ecoava em minha cabeça.
“Ele é o amor da minha vida Matty, eu acho que nunca vou sentir isso por outra pessoa como sinto por ele”.
Mais lágrimas. De onde vinham tantas lágrimas?
“Matty, eu não sei se vou conseguir, eu não sei se vou conseguir viver sem o Harry. Por que eu fiz isso?”.
Aquelas malditas lembranças. Eu queria tanto conseguir esquecer. Eu queria tanto parar de escutá-la repetir aquilo tantas e tantas vezes. E só havia uma maneira. Estacionei a moto em frente a agência bancária e rumei em passos largos para dentro da mesma. Apertei os botões com certa pressa, eu só queria o dinheiro, eu precisava do dinheiro.
Saldo insuficiente.
– O que? – olhei confuso para a tela do caixa eletrônico e soquei a mesma – Como assim?
Mudei a operação e fui checar o saldo disponível na conta corrente. Trinta e sete libras. Trinta e sete libras era tudo que eu tinha em minha conta e eu não sabia dizer como todo o dinheiro havia se esvaído tão rápido. Eu estava confuso e estava com raiva, mas não queria perder mais um minuto dentro daquela agência. Saquei os trinta e sete restantes e voltei para a moto.
“Não está funcionando Matthew, precisamos de mais informações para este processo, você disse que era capaz”.
A frase que ouvira do meu orientador meses antes se repetiu em minha mente e engoli seco.
“Minha filha não quer sair da cama! Esse tratamento não está ajudando, o processo não está andando, eu não estou vendo resultados. Eu preciso de ajuda pra a minha filha!”.
– Por favor, parem de falar. – sussurrei para mim mesmo enquanto rumava em direção ao subúrbio de Manchester – Por favor, por favor.
“Doutor Matty, eu não quero mais viver”.
A voz infantil ocupou meus ouvidos e quase me fez soluçar.
Fechei meus olhos com força, impedindo que as lágrimas continuassem a escorrer e estacionei em frente à casa a qual eu visitava semanalmente. Dei duas buzinadas, como o acordado, e aguardei em pé ao lado da moto. Eu odiava aquele lugar, eu sentia medo, como se a qualquer momento alguém fosse me encontrar lá e me julgar por tudo o que eu estava fazendo, como se cada vez que eu pisasse lá fosse a última. Não demorou muito para que Cody aparecesse na porta e sorrisse de forma assustadora para mim. O homem estava num estado deplorável, suas olheiras eram fundas e seu rosto tinha um aspecto de muito sujo.
– De novo aqui Matty? É a segunda vez essa semana e ainda é quinta-feira. – ergueu uma das sobrancelhas e se aproximou – O de sempre?
– Eu só tenho trinta e duas libras. – engoli seco e estendi o dinheiro – Não tive tempo para sacar mais.
– Ah, claro. – sorriu de maneira maliciosa, como se soubesse que eu mentia – Bom, já é alguma coisa. – arrancou o dinheiro de minha mão e enfiou no bolso, em seguida procurou pelo o que eu buscava no outro bolso, me entregou e deu as costas.
Me apressei a pôr o pequeno saco no bolso da minha jaqueta, olhei em volta receoso e subi na moto com pressa. Ao mesmo tempo que sentia vergonha de minhas atitudes e de mim como um todo, eu precisava daquilo, não era como se eu simplesmente conseguisse mais viver sem.
Em cerca de dez minutos eu já estava de volta ao pub e lá estava Charlie, com os braços cruzados olhando em minha direção. Pela primeira vez ele não falou nada, apenas me acompanhou com o seu olhar e eu mantive o meu à altura, apesar de estar tremendo por dentro. Charlie não era burro, ele sabia que havia algo de errado. Quanto tempo demoraria para que falasse com ? Quanto tempo levaria para eu me foder e perder tudo pelo o que eu lutei?
Entrei no banheiro, na mesma cabine que havia entrado naquele mesmo dia mais cedo, sentei no vaso como antes e tirei o saco do bolso da jaqueta junto do celular. Pus o aparelho em meu colo e senti meus olhos arderem novamente e minha visão ficar turva.
– Merda. – abri o saco e pus parte do pó branco em cima da tela do meu celular, enxugando as lágrimas em seguida. Procurei pelo meu cartão de crédito dentro da mochila e ajeitei o conteúdo em uma única e cumprida carreira.
“Eu te amo filho e sempre vou te apoiar no que você decidir fazer”.
– Desculpe pai. – solucei e voltei a fechar os olhos – Mas eu não consigo.
“Sua mãe teria tanto orgulho de você se pudesse ver como cresceu”.
– Para de dizer isso, por favor. – abri os olhos e procurei pela nota de cinco libras restantes, enrolando-a com dificuldade, minhas mãos tremiam.
Aproximei a nota agora em formato de tubo do meu nariz e me inclinei o suficiente para que pudesse cheirar a cocaína perfeitamente enfileirada, mas antes que o fizesse, a tela se acendeu e mostrou uma notificação. Era uma mensagem. Era .
– Caralho. – praguejei irritado e cheirei tudo de uma vez antes que desistisse, jogando a cabeça para trás em seguida, apoiando as costas na parede, sentindo uma lágrima quente e solitária escorrer – Eu te amo tanto. – permiti que meu corpo relaxasse enquanto encara o teto daquele banheiro sujo – Você precisa me perdoar. – murmurei – Ou eu nunca vou me perdoar.
“Eu tenho o privilégio de te amar e ser amada por você e eu sei que ninguém no mundo é capaz de cuidar de mim do jeito que você cuida, porque é você, é o meu melhor amigo e não tem como não dar certo”.
– Você é minha. – um sorriso se formou em meus lábios – Só minha.
“Obrigada por ter voltado por mim, Matty”.
– Ele nunca a terá. – ajeitei minha postura e desencostei da cadeira, esticando a nota novamente e colocando em meu bolso junto do restante da droga – Nunca.
“Eu gosto dela, de verdade”.
– Ela é minha. – levantei e peguei minha mochila – E eu posso lhe provar.
“Como é ter a sensação de casar com alguém que pensa em outro?”.
– Cala a boca. Cala a maldita boca. – abri a porta com um soco, impaciente, e com a mochila em mãos, disparei em direção ao estacionamento do pub e subi em minha moto.
Eu esperava cada hora lenta e torturante do dia passar para que eu pudesse me sentir daquela maneira, tão confiante. As lembranças se dissipavam aos poucos e já não me incomodavam mais, era como se ninguém pudesse me impedir de nada, era como se ele não existisse para atrapalhar a minha vida. Os dias os quais eu não podia provar daquela sensação passavam num arrasto e eu sentia como se não houvesse um motivo relevante o suficiente para sair da cama. Eu não queria me sentir impotente como antes, eu queria que aquela sensação de poder pudesse ser permanente.
Pus a moto no estacionamento de nosso apartamento ao lado do carro e me dirigi até o elevador o qual parecia demorar mais do que o habitual para chegar ao térreo. Ao parar em nosso andar, vasculhei o bolso da frente da mochila até encontrar as chaves. Abri a porta com certo anseio e senti meu coração bater mais forte no peito ao ver vestindo uma camiseta minha e usando seus óculos de grau sentada no sofá, lendo atentamente um livro bastante grosso que estava em seu colo. Assim que percebera minha presença, pude ver seu sorriso simples se abrir para mim, fazendo com que ficasse mais linda ainda, se isso fosse possível.
– Oi amor. – deixou o livro de lado e levantou, vindo em minha direção – Por que não respondeu minhas mensagens? Ando tão preocupada...
Eu não a respondi, simplesmente a envolvi com meus braços e dei início a um beijo cheio de desejo, não demorando muito para que ficássemos ofegantes deitados em nossa cama. Nada no mundo importava naquele momento além de nós dois. Eu a tinha. Ela estava ali. Era quando não restavam dúvidas de que ninguém a tiraria de mim. Nenhuma lembrança poderia me dizer o contrário, nenhuma lembrança me confundiria.
– Eu te amo. – sussurrou em seu ouvido enquanto suas mãos deslizavam pelo meu abdômen até chegar no cós de minha calça, fazendo com que um arrepio percorresse por todo meu corpo.
– Eu amo mais. – aproximei nossos lábios e olhei fundo em seus olhos – Muito mais.
fez com que mais uma noite se tornasse inesquecível e adormeceu aninhada em meus braços, com a respiração calma e as expressões tranquilas. Era incrível como cada toque seu fazia com que eu sentisse infinitas sensações, como somente a ponta de seus dedos possuíam mais poder sobre mim do que todos os outros corpos juntos espalhados pelo mundo e era incrível como tudo aquilo vinha se tornando tão remoto com o passar da noite.
Minha esposa acordou muito antes de mim e preferiu deixar que eu descansasse mais um pouco, pois era sábado. Próximo ao horário do almoço, abriu as cortinas do quarto e foi até mim, sentou ao meu lado e plantou um beijo em minha testa.
– É hora de acordar. – pegou em minha mão e entrelaçou nossos dedos – Vi você falando sobre um teste segunda-feira, melhor acordar para estudar, não?
– Me deixa em paz. – resmunguei e soltei sua mão, colocando o travesseiro em cima de minha cabeça.
– Matthew... – senti que já não estava sentada ao meu lado, mas em pé – Precisamos conversar.
– Tá precisando de um psicólogo? – debochei com a voz ainda abafada pelo travesseiro.
– O que diabos tá acontecendo? – aumentou o tom, fazendo com que minha cabeça doesse e, consequentemente, que eu me irritasse – Um dia você aparece um amor e eu acho que está tudo bem, mas no outro você mal fala comigo ou me destrata sem eu ter feito absolutamente nada! Não quer sair da cama, só levanta pra comer... então eu tento conversar, você surta, foge e volta depois de um tempo como se nada tivesse acontecido! Eu to cansada de fingir que tá tudo bem, cansada de deixar pra lá quando eu percebo que você tá de bom humor. Fala comigo, me diz o que houve!
– Eu só queria dormir. – bufei, me desvencilhando dos lençóis e levantando em seguida preguiçosamente – Eu não posso nem dormir mais.
– Olha pra mim. – olhava para o meu rosto séria, então estabeleci o contato visual e percebi que estava prestes a chorar, fazendo com que eu rolasse os olhos em seguida – O que tá acontecendo?
– Nada. – fitava um ponto fixo, eu simplesmente não conseguia encará-la, era como se fosse ler todos os meus segredos se olhasse em meus olhos.
– Você não me ama mais? – senti sua voz embargar e mesmo não a olhando diretamente, percebi que abaixara o rosto.
– Ah, por favor, sem drama. – passei as mãos pelos meus cabelos, cansado daquela conversa. Meu nível de serotonina estava muito baixo por conta de eu ter cheirado na noite anterior, me deixando completamente de mau humor. Notei que se aproximou e tentou novamente estabelecer contato visual, então voltei a olhá-la nos olhos e me esforcei para permanecer assim – Eu só não quero discutir, eu estou com dor de cabeça e mau humor. – tentei soar da forma mais controlada possível para que a briga não se alongasse.
analisava atentamente meu rosto, em silêncio, até que seus olhos foram deslizando por todo meu corpo até meus pés. Minha esposa se agachou e pegou algo próximo a minha jaqueta no chão e então se levantou em seguida, voltando a olhar nos meus olhos. Seu rosto transparecia raiva e era perceptível que lutava para que as lágrimas não escapassem.
– Como você pôde? – empurrou o saco transparente que continha o pó branco contra o meu peito – COMO VOCÊ PODE FAZER ISSO COMIGO? COMO VOCÊ PODE FAZER ISSO COM NÓS?
praticamente gritava com as mãos na cabeça e já não conseguia não chorar. Estava desesperada, estava desnorteada e o meu peito nunca doera tanto como naquele momento ao vê-la tão decepcionada comigo. Eu sabia que não conseguiria esconder para sempre, mas ao mesmo tempo achei que duraria mais tempo.
– Como eu fui cega! – andava de um lado para o outro, me deixando sem qualquer reação – Eu pensei que o problema era comigo, EU PENSEI QUE A CULPA FOSSE MINHA! Porque eu nunca, NUNCA fui capaz de imaginar que você faria isso Matthew!
– Amor, eu...
– CALA A BOCA! – gritou desesperada, soluçando em seguida – Como você pode pensar que essa seria a solução? COMO? Eu sempre estive ao seu lado, sempre Matthew. Você estuda meios de ajudar alguém a não recorrer a isso, faz parte do seu maldito trabalho! O que seu pai acharia disso? – seus olhos brilhantes por conta das lágrimas me encaravam – Meu Deus, meu Deus, meu Deus, eu não posso acreditar, isso não pode estar acontecendo. – foi em direção banheiro e eu pude ouvir girar a tranca.
Era como se cada célula do meu corpo, uma por uma, estivesse desistindo de mim. Eu estava em completo estado de choque, como se de repente eu tivesse conseguido retornar à realidade, como se de repente eu tivesse notado como tudo aquilo era pura loucura. estava certa, o que o meu pai diria se soubesse o que eu havia me tornado? Em que aquilo me ajudaria para consertar as coisas e não perder quem eu amava? Um sentimento de fracasso invadira meu corpo e eu implorava para que aquilo fosse mentira, para que aquilo não passasse de um sonho muito ruim.
“Deve ser porque a sua esposa pediu para que eu voltasse”.
– Por favor, não. – falei baixinho, fechando os olhos com força em seguida.
“Como é ter a sensação de casar com alguém que pensa em outro?”.
– Não, não, não. – respirei fundo e tentei me acalmar para que aquela lembrança se afastasse, então caminhei até a porta do banheiro e apoiei minha testa na madeira – Eu te amo tanto, tanto... eu não sei onde estava com a cabeça, mas você tem que me escutar. – voltei a pedir mentalmente para que todas aquelas lembranças parassem de me atormentar e senti que agora já estavam mais distantes – Eu tenho tanto medo de te perder, eu não sei o que faria se você saísse da minha vida... nada faria sentido. –funguei e pude escutar o choro baixinho de – Eu sei que é difícil de acreditar, por Deus, eu estou me sentindo tão estúpido, mas você precisa me perdoar, você precisa saber que eu faria de tudo para que você ficasse... eu vou fazer de tudo para que você fique, por favor...
permaneceu muito tempo trancada no banheiro e quando abriu a porta praticamente trinta minutos depois da discussão, eu já estava sentado em silêncio do meu lado da cama. Seu rosto estava completamente inchado e ela não conseguia olhar para o meu rosto, caminhou até a ponta do lado contrário e se sentou, olhando para o movimento da rua através da janela.
– Eu estou tentando lhe contar há dias, mas você veio me evitando todo esse tempo. – respirou fundo e esfregou os olhos – Fui convidada para apresentar a minha pesquisa em um congresso em Nova Iorque em dois meses.
, isso é...
– Por favor, fica quieto. Só escuta. – me interrompeu ríspida – Você vai procurar ajuda, Matthew. Você precisa de ajuda. – voltou sua atenção para mim e olhou em meus olhos pela primeira vez desde que saíra do banheiro – Você me machucou de uma maneira que nunca, ninguém, havia me machucado antes, mas eu ainda quero te ajudar. – engoliu seco – Na saúde ou na doença. Foi uma promessa.
Uma parte de mim queria simplesmente sumir e xingá-la de todos os nomes possíveis por ter que me fazer passar por aquilo, mas a outra parte queria abraçá-la e repetir o quanto a amava por ser aquela pessoa em minha vida. Eu sabia que meu corpo pediria por mais, eu sabia que eu iria querer mais, lembrando de como aquilo me fazia sentir vivo, mas eu também sentia meu corpo arder, tendo certeza de que aquilo não passava de um ciclo insaciável e de que nunca seria o suficiente.
– Por você.
– Não. – levantou e caminhou até a porta, parando no batente – Por você.

*



Foi difícil lidar com Matthew, mas mais difícil ainda foi explicar para os meus pais o que estava acontecendo. Eu só tive coragem de contar a eles quando Matty já havia sido internado, porque só assim ele estaria seguro da raiva do meu pai. George era doce e maleável, mas era um delegado marrento e inflexível, seguia as regras à risca, e conseguir tirar a ideia do divórcio de sua cabeça foi um processo lento e exaustivo.
Matty ficou internado durante três semanas e meia. Fomos até a clínica no dia seguinte da discussão. Eu o visitava três vezes na semana, apesar de na primeira ele não querer me ver ou conversar comigo. Foi bastante complicado. Apesar de ainda sentir muita raiva, tristeza e uma porção de outros sentimentos ruins por não entender o porquê de tudo aquilo, não deixei de amá-lo um segundo sequer.
Na metade da quarta semana eu recebi uma ligação do psiquiatra que estava encarregado do caso de Matty e ele pediu para que eu fosse até lá naquela mesma tarde. Disse que precisava conversar comigo e que deveria ser o mais rápido possível. Eu andava bastante ocupada e ansiosa, faltava apenas um mês para o congresso em Nova Iorque, mas não hesitei em deixar tudo aquilo de lado por se tratar de notícias sobre o Matty.
– Você pode se sentar . – Doutor Carter, ou Lucas, como eu costumava chamar, apontou para uma das poltronas em frente a sua mesa. O psiquiatra, e um dos professores de mestrado de Matthew, costumava transmitir serenidade por conta de suas expressões constantemente tranquilas – Eu queria compartilhar com você o laudo do Matthew depois de quase quatro semanas de acompanhamento integral. – eu não sabia o que falar, então apenar assenti com a cabeça para que prosseguisse – Bom, eu não trabalhei sozinho nisso, na realidade nem conseguiria, porque Matty não é um paciente qualquer, ele é um amigo. – suspirou pesadamente – Já há alguns meses, durante as aulas, eu e todos os outros professores e colegas percebemos que ele estava estranho, mas ele nunca deu muita abertura, dizia que estava estressado e isso era uma desculpa plausível, porque tudo tem sido muito puxado no curso. – pigarreou enquanto passava os olhos pelos papeis em sua frente para se orientar – Foi muito difícil conversar com ele na primeira semana da internação, acho que você lembra, ele estava no ápice da abstinência, mas o que fez com que a segunda semana se tornasse mais fácil foi o fato de ele não ter feito o uso contínuo por um período de tempo muito longo. De acordo com os diagnósticos e com as conversas, o consumo se tornou mais frequente só no último mês, mas Matty já tem um histórico com a cocaína na adolescência...
– O QUE? – interrompi Lucas, surpresa com o que acabara de ouvir – Espera, como assim? Não, isso não está certo. Eu e Matty nos conhecemos desde sempre, sempre estivemos juntos e ele nunca, nunca se envolveu com isso antes.
, eu sei que é complicado, não vai ser fácil digerir toda essa informação, mas eu preciso que mantenha calma e me escute, ok? Tudo o que eu vou te contar hoje é porque Matthew quer que você saiba, eu não poderia relatar o que eu sei se ele não tivesse pedido expressamente por isso. – Lucas disse de forma bastante paciente e aguardou pelo meu aceite, voltando a falar em seguida – Ele contou ter usado pela primeira vez logo após o falecimento de sua mãe, em 2010, aos 16 anos.
Eu nunca poderia imaginar que Matthew teria cheirado cocaína antes. Eu simplesmente não queria acreditar no que acabara de ouvir, mas descobrir o porquê de ter experimentado e que fora naquele ano em específico, fez com que aquilo ganhasse sentido. Aquele ano foi o qual eu fiquei mais distante de Matthew por conta da formação da banda e por isso não havia percebido, eu achava que todas aquelas atitudes estranhas eram porque estava triste por conta da morte de sua mãe. Respirei fundo, tentando assimilar o que acabara de ouvir, e voltei a prestar atenção no que o psiquiatra dizia.
– Apesar de eles não terem sido tão próximos e ele ter sempre morado com o pai, aquilo mexeu bastante com ele. – Lucas estendeu uma caixinha com lenços para mim, o que se fez bastante útil – Bom, ele relatou ter sido apenas uma ou duas vezes e que não lembra em ter tido dificuldades para parar de usar, mas quando o pai dele morreu em 2015...
Senti meu coração se contrair num aperto muito forte e minha visão ficar turva pelas lágrimas que se agrupavam em meus olhos. Matthew se mudou para Cardiff logo após a morte de seu pai e apesar de conversarmos sempre pelo celular e termos nos encontrado diversas vezes, não era a mesma coisa, não havia um convívio. O fato de termos ficado distantes, acabarmos terminando, sua rotina ter mudado completamente e, obviamente, seu pai ter morrido, fizeram com que aquele período de tempo tivesse sido o mais difícil de todos para Matthew.
– Ele voltou a fazer o uso em Cardiff e sua avó acabou descobrindo, mas implorou para que não te contasse e disse que tudo se resolveria se pudesse voltar para Holmes Chapel e ficar com você. – Lucas fez uma pausa para que eu me acalmasse e me ofereceu um copo d’água – Posso continuar?
– Pode, me desculpe, e obrigada. – me referi a água e pus o copo em cima de sua mesa após beber tudo em praticamente um gole.
– Apesar do contato de Matty ter sido maior com a droga dessa vez, ele contou que não teve grandes problemas para parar, disse que as vezes sentia falta, mas que com o passar do tempo o desejo acabou, só que... – Lucas respirou fundo e ponderou, ajeitando os óculos de grau no rosto. As expressões que antes eram tranquilas, já não pareciam mais tão calmas assim – Matthew sempre gostou de desafios e sempre queria mostrar que ele podia fazer, que ele conseguiria, você sabe, você conhece ele. – balancei a cabeça positivamente, pois sabia o quão competitivo Matthew poderia ser – Ele escolheu o caso mais complexo do estágio, nenhum aluno queria fazer. O processo acabaria sendo deixado para um professor, mas ele insistiu. Não precisou terminar o mês para que ele ficasse completamente desnorteado... não sabia o que fazer. O orientador fazia muita pressão, mas ele não quis abrir mão, ele continuou tentando. A questão é que a cocaína te encoraja, te dá essa falsa sensação de poder e ele recorreu a ela, achou que de alguma maneira ajudaria, mas tiraram o caso dele e ele não conseguiu lidar. – respirou pesadamente e ponderou, dando um tempo para que eu digerisse, pelo menos em partes, as informações – Sabe, muitas vezes o consumo da droga pode induzir quadros psicóticos que lembram um quadro esquizofrênico. Essa combinação de fatores neurobiológicos, psicológicos e ambientais acabam tornando as pessoas mais vulneráveis ao surgimento de distúrbios, como pensamentos delirantes, alucinações e alterações do comportamento. Esses quadros, apesar de bastante parecidos ao de um surto esquizofrênico, não correspondem exatamente à esquizofrenia.
– Quadro psicótico? Como assim? – me ajeitei na cadeira, inquieta, com o coração na mão – Matthew pode acabar desenvolvendo esquizofrenia?
– Calma, eu vou explicar melhor. – tentou transmitir tranquilidade através do olhar –É que usuários de estimulantes, como o Matthew, têm revelado altas taxas de sintomas psicóticos transitórios que estão relacionados com a dose e a frequência do consumo. O principal fator diferenciador entre um surto e o desencadeamento da doença em si é o tempo de permanência dos sintomas psicóticos na ausência do consumo da droga e é isso que observamos. Matthew disse ter voltado a recorrer a cocaína, mas que desde a primeira vez que voltou a consumir, os dias seguintes ao uso eram insuportáveis, e foi aí que os surtos começaram. Ele relatou não conseguir parar de ouvir vozes, vozes conhecidas, revivendo momentos que ele não queria recordar, que o incomodavam, e que aquilo tudo só parava de perturbá-lo quando voltava a fazer o uso, mas...
– Ai meu Deus, ai meu Deus, ai meu Deus. – interrompi Lucas e levantei com as mãos na cabeça em seguida, perambulando nervosa de um lado para o outro dentro da pequena sala – O que ele ouvia? – voltei minha atenção para o homem em minha frente – Você pode me contar? Quem eram as pessoas?
, isso não é o que importa agora, por favor me escuta. – Lucas também se levantou e me segurou pelos ombros para que eu parasse de andar em círculos –Analisando o caso de Matty e o período de permanência dos sintomas na ausência do consumo, foram apenas surtos, não houve um desencadeamento de esquizofrenia, ele demostrou uma significativa melhora perante o tratamento.
Senti meu corpo relaxar tanto por conta do alívio de ouvir aquilo que Lucas teve que me segurar para que eu simplesmente não caísse no chão. Meu coração pulava em meu peito e minhas mãos tremiam de felicidade.
– Matthew pode voltar para casa. – disse simplesmente, finalizando o discurso.
– Ai meu Deus, Lucas! – abracei o homem em minha frente com muita força e voltei a chorar, só que dessa vez de felicidade, sentindo o psiquiatra corresponder ao ato logo depois – Obrigada, obrigada, muito obrigada.
– Fica calma, ok? As coisas também não são tão simples assim. – separou o abraço e fez menção para que eu voltasse a me sentar. Assim que o fiz, ajeitando meus cabelos e tentando normalizar a respiração, Lucas também voltou a se sentar – Há uma série de coisas que precisarão ser observadas e realizadas à risca. Matty está num momento muito delicado e sensível, é preciso tomar cuidado, pois não podemos descartar a possibilidade de um surto, mesmo que o quadro esteja controlado e ele não faça o uso da droga. Apesar de ainda existir essa possibilidade, não podemos mantê-lo para sempre internado, ele precisa voltar com a rotina e tentar se habituar, só assim as coisas voltarão ao normal, por isso estou dando alta a ele. – Lucas começou a procurar por determinados papéis e assim que os encontrou, fez algumas anotações – Aqui estão todos os remédios que ele precisa tomar e os exatos horários, é muito importante que ele faça o uso corretamente. – estendeu os papéis para que eu os pegasse – Te entreguei também uma lista de coisas que ele não deverá fazer e outras que ele deverá evitar ao máximo e sobre a viagem a Nova Iorque... Matty não poderá ficar sozinho e eu sei que as coisas com os seus pais não têm sido fáceis.
– Eu vou dar um jeito. – encarava os papéis em minhas mãos.
, ele não está em condições de passar por qualquer situação grave de estresse ou emocional, ele precisa de apoio e eu conto contigo para que ele esteja em boas mãos durante essa viagem, ok?
– É claro, sem dúvidas. Essa viagem é muito importante pra mim, mas eu jamais prejudicaria Matthew por conta disso.
– Eu preciso te falar uma coisa... – o psiquiatra levantou e caminhou até mim, então também levantei, ficando frente a frente a ele – Eu sei que você ama o Matthew, mas também sei que essas situações são difíceis e que é inevitável não sentir raiva, só que eu preciso te pedir que tenha calma e paciência. Eu sei que fazer o uso ou não é uma escolha e ele optou por isso, mas nunca vamos saber exatamente o que se passou e o que se passa na cabeça dele. Você não precisa o perdoar, mas você precisa procurar entender a situação na qual ele se encontra.
Um arrepio percorreu por todo o meu corpo e eu engoli seco. Lucas estava certo, eu amava Matty, demais, mas também havia sentido muita raiva. Só que esse sentimento não poderia tomar conta de mim, eu precisava ser paciente, eu precisava pôr o amor em primeiro lugar e estar lá para ele no momento o qual ele mais precisava de mim. Matthew não era um qualquer, era meu melhor amigo, era meu marido, uma das pessoas mais importantes em minha vida e eu simplesmente não desistiria dele.
– Podemos ir agora. – Lucas foi até a porta e a abriu – Matty está te esperando.
Os corredores, os quais eu já conhecia muito bem, pareciam ter infinitos quilômetros e só faziam com que meu coração acelerasse cada vez mais os batimentos. Ao virar à esquerda pela última vez, finalmente chegando ao destino, senti meu coração se acalmar no peito ao vê-lo caminhando em minha direção. Eu vi Matthew todas as segundas, quartas e sextas durante três semanas dentro daquela clínica, só que todas aquelas vezes eram como se tivessem o substituído, mas ali, naquele momento, eu tinha praticamente certeza que haviam o trazido de volta. Seus braços me envolveram num abraço forte e encaixei meu rosto em seu pescoço para que pudesse preencher meus pulmões com o seu cheiro que eu tanto sentia falta. Eu queria que tivéssemos congelado naquele momento para que eu pudesse viver aquilo pelo máximo de tempo possível.
– Você voltou para mim. – falei baixinho, ainda dentro do abraço – Senti tanto sua falta.
– Eu não deveria ter a deixado... – suspirou pesadamente – de novo. – engoliu seco e acariciou meus cabelos com uma das mãos – Mas eu não vou errar outra vez.
Eu queria poder dizer que Matthew estava certo.

*

Só mais uma semana. Em apenas sete dias eu estaria embarcando para os Estados Unidos e eu não poderia estar mais ansiosa. Meu artigo estava completamente finalizado e na ponta da língua. Meus professores da pós-graduação, assim como meus pais, estavam muito orgulhosos por eu ter sido selecionada para apresentar a minha pesquisa em um congresso de tamanha visibilidade. Era uma oportunidade única e a minha chance de conseguir uma bolsa num dos cursos de mestrado mais concorridos da Universidade de Manchester, além do fato de finalmente poder conhecer Nova Iorque. Eu ficaria hospedada no Hotel Intercontinental em Midtown Manhattan, onde também aconteceriam as palestras, junto dos maiores juristas da atualidade. Eu estava nervosa, mas muito otimista.
Em relação ao Matthew tudo estava muito bem até então, melhor do que eu esperava, na realidade. Eu notava que estava triste, o que era completamente normal diante da situação, mas ao mesmo tempo se esforçava para que as coisas se ajeitassem. Como passava a maior parte do tempo em casa, ele tinha mais tempo pra se dedicar a nós e reaver a nossa aproximação, mas não havia pressa, o que me deixava confortável.
Eu procurava não pensar sobre o que havia acontecido, aliás, nem conversávamos sobre. Esse assunto só era abordado com o Doutor Lucas em seus encontros semanais. Quanto ao meu pai, ele ainda não havia digerido o ocorrido e por mais que minha mãe tentasse convencê-lo de que tudo ficaria bem, ele permanecia inflexível, então não faziam mais visitas.
Matty estava receoso por conta da viagem, principalmente nos últimos dias, era perceptível, mesmo que tentasse esconder. Ele não saía tanto do quarto, acabava se isolando, falando pouco, visivelmente abatido e chateado, fazendo com que retrocedêssemos um pouco no quesito reaproximação. Seu irmão viria de Gales para ficar com ele durante os dias necessários e por mais que estivesse desconfortável em relação a isso, não reclamou em momento algum, pelo menos não diretamente.
– Queria poder te acompanhar. – resmungou, sentado no sofá da sala, enquanto eu preparava o jantar – Você trabalhou tanto nisso e eu nem vou poder estar lá para te prestigiar. – bufou, enquanto zapeava os canais da televisão.
– Eu também queria que você fosse, mas...
– São recomendações médicas, eu sei... – suspirou pesadamente e largou o controle remoto, deixando num canal de fofocas.
“Kendall Jenner e Harry Styles estariam supostamente juntos novamente. O ex-membro da One Direction foi flagrado na festa de aniversário de 21 anos da modelo...”.
– Quem diria... Harry namorando uma Jenner. – soltou uma risada sem humor – Pra quem estava perdidamente apaixonado, ele não perdeu tempo.
– Ele é solteiro. – disparei, ainda de costas para Matthew – E eu não quero falar sobre isso, poderia mudar de canal?
– Algum problema em escutar essa notícia? – me desafiou, engrossando o tom.
– Não, nenhum. – larguei a faca a qual eu cortava os legumes e voltei a minha atenção para ele – Mas sempre que entramos nesse assunto acabamos brigando e a última coisa que eu quero é discutir. Então, por favor, muda de canal.
– Eu não quero mudar de canal. – disse simplesmente e cruzou os braços, encarando a televisão – Ninguém tá discutindo aqui.
Caminhei impaciente até o sofá, pegando o controle e desligando a televisão em seguida. Discussões era o tópico número um da lista de “não fazer” e toda a vez que o nome ‘Harry Styles’ aparecia numa conversa, ela se transformava numa briga. Matty nunca foi do tipo ciumento, sempre confiou muito em mim, mas depois do episódio na casa dos meus pais, tudo que fosse relacionado a Harry era motivo de estresse.
– QUAL O SEU PROBLEMA? – gritou, visivelmente irritado, levantando no mesmo momento em que a televisão foi desligada – Por que você não pode ouvir sobre ele? Ainda gosta dele por acaso? Não quer escutar que ele tá comendo uma modelo multimilionária e você tá aqui com o seu marido fracassado?
– Matty... o que? Não! – senti meu corpo praticamente tremer, com medo de sua postura e do rumo daquela conversa.
De repente, num estalo, pensei em seus remédios e caminhei até o quarto, verificando as cartelas na primeira gaveta do seu criado mudo. Enquanto contava os comprimidos, com dificuldade por conta do nervosismo, senti sua mão segurar meu braço com força e me puxar, tirando as cartelas de minha mão em seguida.
– Por que você parou de tomar os remédios? – senti meus olhos arderem por conta das lágrimas que estavam por vir e esfreguei com uma das mãos a região a qual havia me apertado, pois doía e estava bastante vermelho – EU CONFIEI EM VOCÊ!
– Eu esqueci um dia e então... eu percebi que não precisava disso, mas não interessa, você não tem que se meter nisso. – dizia num tom bastante elevado e rude – Para de chorar, eu não aguento mais todo mundo em cima de mim com pena, como se eu fosse anormal, como se eu fosse doente, EU NÃO SOU DOENTE!
– Matthew, por favor... – dei alguns passos para trás – e eu não quero brigar, não tem porque brigarmos.
– Eu sei que você ainda ama ele... – engoliu seco, olhando para um ponto fixo, como se revivesse algo em sua cabeça – Claro, como não amaria? Você me disse que o amaria pra sempre... – voltou a me fitar – Você lembra? – apontou para mim – Você me avisou e eu não quis escutar... Eu tentei me convencer de conseguiria ocupar o lugar dele, de que eu seria o suficiente pra você, e então nos casamos e eu te tinha só pra mim, mas ainda não foi o bastante, eu não consegui, eu não consegui ser tão bom quanto ele. – soltou uma risada nasalada, sem humor – Tudo que eu fiz foi te afastar ainda mais, trair a confiança dos seus pais, perder a bolsa do mestrado e foder com o nosso casamento. – Matty engoliu o choro e passou as mãos pelo rosto – Eu não posso competir com ele.
– Matty, o que você está falando? Por favor, para. Você precisa dos remédios... vamos ligar para o Doutor Lucas.
– NÃO! – gritou enquanto eu me inclinava para pegar o celular em cima da cama, fazendo com que eu me assustasse – Eu não quero que ligue pro Lucas, eu não quero tomar remédios, eu não preciso de nada disso!
Matthew apalpou os bolsos da calça e simplesmente rumou para a sala sem falar mais nada. Eu não podia deixar que fizesse isso, eu não podia deixar que todo o tratamento fosse por água abaixo e permitir que saísse. Caminhei em passos largos atrás de Matty e quando estava prestes a abrir a porta para sair, segurei seu braço e o puxei na tentativa de impedi-lo.
– MATTY, NÃO!
Então o meu mundo desmoronou. Matthew, no momento em que ficou de frente para mim, em um só movimento, deu um tapa em meu rosto com força o suficiente para que eu perdesse o equilíbrio e caísse no chão. Eu não sabia o que pensar ou o que falar. Não conseguia levantar, nem ao menos chorar. Eu estava em completo estado de choque. Meu rosto doía bastante, mas nada comparado ao que meu coração sentia. Nunca, nem em um milhão de anos, passaria pela minha cabeça de que Matthew faria aquilo comigo. O garoto que sempre me protegeu, que sempre zelou por mim, foi quem mais fez doer meu coração e eu simplesmente não queria acreditar que aquilo estava acontecendo, eu queria abrir os olhos e perceber que não passara de um sonho, mas havia acontecido, eu havia sido agredida, e nada mudaria aquilo.
, desculpa, eu... – Matthew se agachou em minha frente e fez menção de pegar em minha mão, o que fez com que eu me movesse pela primeira vez.
– Não encosta em mim. – engoli seco e respirei fundo – Saí daqui. Vai embora. VAI EMBORA MATTHEW! – levantei no ímpeto, caminhando até a porta e a abrindo em seguida – VAI EMBORA AGORA, SAI DA MINHA FRENTE!
– Eu não queria ter te... – colocou as mãos na cabeça e as lágrimas começaram a rolar quando se deu conta do que acabara de fazer – Me desculpa, por favor.
– Vai embora. – disse firme, olhando em seus olhos – Agora.
Eu não queria que Matthew saísse de casa e recorresse a droga, eu não queria receber uma ligação mais tarde naquele dia e saber que ele havia voltado a cheirar ou que teve outro surto. Eu não queria. Mas eu não suportava encará-lo ou estar no mesmo ambiente que ele, eu não suportava o fato de que ele havia feito aquilo comigo e que mesmo assim eu o amava. Eu não conseguia entender e eu não queria entender. Sem contestar outra vez, Matthew abaixou a cabeça e saiu do nosso apartamento e eu bati a porta com tanta força que podia jurar que as paredes tremeram. Em seguida, sentei ali mesmo, próximo da porta, e chorei como nunca na minha vida. Cada segundo passava lento e doloroso. Eu ainda tentava acordar daquele pesadelo, eu ainda queria me convencer de que nada daquilo tinha acontecido, mas a verdade estava na minha cara, literalmente. Eu me odiava por não conseguir esquecer, mas me odiava ainda mais por envolver Harry em meus pensamentos, mas como simplesmente não envolver se ele esteve presente em toda a discussão? De qualquer maneira, eu não queria pensar nele, eu não queria pensar sobre como teria sido diferente se eu tivesse o escolhido, pois a escolha já havia sido feita, nada no mundo mudaria aquilo, mas eu não consegui evitar pensar no fato de que, de certa forma, em partes, ele estava certo.
Com o corpo ainda mole e fraco, depois de certo tempo, criei força e coragem para levantar e ir até a cama. Apesar de exausta, eu não conseguia fechar os olhos e dormir, era informação demais pra mim. Minha cabeça revivia repetidamente cada frase que Matty disparara em relação ao Harry, o seu tom de voz, sua postura e, por último, o tapa, o que fazia com que eu voltasse a chorar. Apesar de ainda estar irritada com toda a situação, a culpa começara a me invadir por tê-lo mandado embora naquela circunstância e o medo, aos poucos, fora se unindo a raiva.
Passadas duas horas do ocorrido, meu celular começou a tocar, quebrando o silêncio do apartamento. Procurei o aparelho entre os cobertores e ao achá-lo, vendo o número do Doutor Lucas brilhando em minha tela, senti meu coração acelerar.
– Alô? – minha voz saiu falha e fraca.
– Oi , como você está? – sua voz sempre tranquila parecia preocupada.
– Ah, eu... – ponderei, pensando no que falar, mas eu realmente não sabia como responder aquela pergunta.
– Que pergunta mais tola para se fazer, me desculpe. – suspirou – Bom, eu te liguei para avisar que Matthew está aqui.
– Está? – senti uma lágrima solitária escapar – Isso é bom.
– Ele me contou o que houve, eu sinto muito.
Silêncio. Mais lágrimas.
– Bom, – prosseguiu ante a falta de resposta – eu liguei para avisar que Matthew está aqui, veio diretamente a mim quando saiu de casa, e que pediu para que fosse internado novamente. Ele já está medicado, a família já foi avisada e ele pediu que você deixasse que a avó buscasse todos os pertences necessários.
– Tudo bem. – funguei, esfregando os olhos em seguida.
– Bom, – pigarreou – sobre a questão das visitas...
– Não será necessário, ok? – o interrompi.
Por mais que de certa forma eu ainda me preocupasse com Matthew, eu não queria ver ou conversar com ele por um tempo. O que aconteceu entre eu e Matthew fez abrir uma ferida e eu sabia que aquilo deixaria uma cicatriz para sempre. A ferida se fecharia e depois de um tempo não doeria mais, mas deixou uma marca e continua lá, não me deixando esquecer.
– Até mais, Lucas.

Capítulo 10

Don't look back, live your life,
Even if it's only for tonight


Eu realmente estava em Nova Iorque e mal podia acreditar, cheguei a me beliscar para checar se não estava sonhando. A cidade era incrível e a cada passo que eu dava eu ficava mais maravilhada. Havia tanto o que se fazer e olhar que eu não queria ficar parada um segundo sequer. Meus dois colegas, que também haviam sido selecionados para palestrar em nome da Universidade Manchester, já conheciam a cidade e me davam dicas o tempo todo e eu queria poder ficar o restante da semana para conseguir fazer tudo.
Chegamos na metade da tarde, deixamos as malas no hotel sem ao menos subir para os quartos, e fomos para a Times Square em seguida. Nunca havia me sentido tão clichê como naquele momento por conta da escolha do que visitar primeiro, mas as vezes as coisas mais clichês são as melhores e eu tive certeza disso quando chegamos lá.
– Eu vou passar meses endividada, mas eu não poderia ter deixado esse sapato nessa loja... – disse ao sair com a quinta sacola na mão – Ele estava pedindo pra ser comprado por mim.
– Assim como o primeiro e o terceiro que você comprou? – Helena, minha colega, debochou – Mas são lindos, você pode usar um deles amanhã!
– Nova Iorque despertou o meu lado consumista, me desculpe ok? – disse enquanto olhava despreocupadamente as outras vitrines ao longo da rua – Mas boa ideia, vou usar um deles amanhã!
– Despertou? – Helena soltou uma risada – Ele sempre existiu! Não sei como sobra dinheiro pra tanta comida, já que você come feito uma louca.
– Muito obrigada Helena, você é um amor de pessoa. – ri junto dela.
– Aí meninas, acho que to precisando de uma bolsa! – Tom, o outro colega, afinou a voz – E um chá Starbucks pra desintoxicar, to inchada, naqueles dias sabe...
– Boa ideia Tom! – Helena se pôs em nosso meio, pegou no braço dele e depois no meu – Eu realmente to precisando de uma bolsa.
– E eu to louca por um chá! – entrelacei o meu braço no dela.
– Ah meu Deus, eu estava brincando... – rolou os olhos e bufou – Socorro.
Depois de ter dado mais uma boa volta pela rua mais famosa do mundo e ter gasto uma fortuna com guarda volumes por termos decidido visitar o Madame Tussauds, voltamos para o hotel.
– Acho que prefiro o Madame Tussauds daqui do que o de Londres. – disse ao apertar o botão do elevador – Eu achei que seria a mesma coisa, mas foi bastante divertido, valeu a pena!
– Claro que prefere! Aqui você não dá de cara com o seu ex namorado de cera. Imagina que péssimo... – Helena zombou e eu fiz cara feia – Desculpe.
– Quem é o seu ex? – Tom perguntou curioso enquanto entrávamos no elevador livre que de repente pareceu minúsculo por conta da quantidade de sacolas.
– Harry Styles! – Helena respondeu antes que eu pudesse ao menos abrir a boca – Da pra acreditar? Eu torcia por eles no The X Factor...
– Aquele da boyband? – meu colega perguntou e eu assenti mesmo que contra a vontade, rolando os olhos em seguida – Aha! Por isso você tem tantos seguidores e várias meninas estranhas comentando em suas fotos e por isso pediram uma foto com você aquele dia no campus!
– Esses tempos eu vi a no site do The Sun! "Harry Styles não consegue esquecer sua primeira namorada", – Helena fez aspas com a mão e mudou a entonação da voz ao repetir a manchete – e uma foto enooorme dos dois juntos! Então ela teve que me dar algumas explicações e só aí eu fiquei sabendo.
– Eu to bem aqui, sabia? – tentei cruzar os braços, mas fui impedida pelas sacolas, bufando em seguida pela falta de sucesso – E não gosto de falar sobre isso.
– Você tem que me mandar esse link depois, Helena! – Tom pareceu achar bastante graça e ignorou completamente o fato de eu não gostar de falar sobre Harry – Mas me diz, Matthew não sente ciúmes?
Aquela pergunta fez com que eu desanimasse pela primeira vez no dia. Durante a última semana, mas principalmente nos últimos dias, eu me esforcei ao máximo para não pensar em Matthew e no que havia acontecido entre nós. O dia mais complicado foi quando Cordélia, sua avó, foi até o nosso apartamento para pegar suas roupas. Ela pediu milhares de desculpas e chorou muito, foi bastante difícil. Eu não queria ter que pensar nele naquele momento, eu não queria estragar a viagem, tinha decidido deixar aquele assunto para quando voltasse para Manchester, até porque seria inevitável enfrentar todos os problemas.
– Estamos dando um tempo. – fui a primeira a sair do elevador quando abriu as portas no décimo terceiro andar – Mas eu realmente não quero falar sobre. – voltei minha atenção para os meus colegas que pareciam surpresos e tristes ao mesmo tempo – Bom, vou tomar um banho e me ajeitar, ainda vamos sair hoje à noite, certo?
– Certo! – Helena voltou a sorrir.
– Eu passo. – Tom disse enquanto abria a porta de seu quarto – Vocês me mataram hoje, caminhei demais, to cansado e eu quero estar inteiro amanhã, mas se divirtam.
– Você é muito chato, Tom. – minha colega reclamou – Bom, vou entrar logo, estou ansiosa pra ver o quarto.
– Sou? – ergueu uma das sobrancelhas – Pois bem, eu nunca mais carregarei sacolas para você!
– Te amo Tom, bons sonhos! – Helena disse num tom manso e mandou um beijo para ele no ar, fazendo com que o homem revirasse os olhos antes de entrar para o seu quarto – Te vejo em uma hora e meia, . – e entrou no cômodo.
O quarto era simplesmente incrível. A decoração não era extravagante, era simples e moderna, mas muito bonita. A cama bastante grande e muito confortável e o banheiro possuía uma banheira com hidromassagem e um roupão longo e bastante macio, mas essa não era nem de perto a melhor parte. Duas paredes eram praticamente todas em vidro e a vista era simplesmente incrível. Por um momento pensei em desistir do passeio só para que pudesse ficar a noite inteira ali, em pé, analisando cada detalhe possível, como as luzes das janelas ligando e desligando, pessoas que andavam com pressa e aquelas que caminhavam devagar, desfrutando a cidade ou de mãos dadas com quem amavam. Eu perderia dias e mais dias observando todas aquelas vidas passando diante de mim, todas aquelas cores brilhando nas telas, o sol nascendo e se pondo, e não me cansaria. Queria ter outra vida só pra poder aprender com o movimento do restante do mundo e talvez ainda não fosse o suficiente. Sentia que o tempo deveria ser gasto mais vezes com observação, mas sempre estamos com tanta pressa pra tudo. E eu realmente estava, o tempo estava passando e eu precisava estar pronta em uma hora.
Depois de ter gasto praticamente vinte minutos admirando a vista, me perdendo em pensamentos, tomei um bom banho quente, no qual acabei me demorando mais do que o previsto. Atrasei alguns minutos, mas Helena não havia dado qualquer sinal de vida, o que me fez pensar que também tinha perdido a hora. Com o casaco e bolsa em mãos, saí do meu quarto e dei duas batidas na porta da minha colega. Helena então abriu vestindo um roupão igual ao meu com toalha de banhos na cabeça e sorriu amarelo.
– Que diabos você está fazendo assim? Já deveria estar pronta!
– Ah amiga, desculpa, eu achei que você tinha desistido também já que não me mandou nenhuma mensagem. – cruzei os braços e encarei Helena com cara de poucos amigos e então ela fez um bico – Não me mata, ok? Mas a cama está tão boa e tá muito frio lá fora, sem contar que eu sou uma das primeiras a palestrar amanhã, eu não tive a sua sorte de ser uma das últimas.
– Eu não acredito que você fez isso comigo. – caminhei batendo o pé até o elevador.
– Você vai sair sozinha? – deu um passo para fora do quarto – Onde você vai?
– No bar do terraço do hotel tomar drinks o suficiente para ser carregada até o meu quarto já que fui abandonada e ninguém me ama. – disse num tom choroso e fiz um bico para minha amiga numa última tentativa de convencê-la, apertando o botão em seguida.
– Boa sorte, só não me acorda depois. – antes que Helena fechasse a porta, mostrei o dedo do meio, fazendo-a rir.
O elevador estava demorando mais do que o normal, me deixando cada vez mais impaciente. Mesmo sabendo que não adiantaria nada, apertei o botão diversas vezes seguidas, na tentativa de alimentar minha ansiedade.
– Por favor, o elevador está ocupado, aguarde pelo próximo.
Um homem muito alto, de semblante bastante sério e vestindo um terno, disse assim que as portas se abriram, obstruindo a passagem. Mas antes que o elevador partisse, um corpo antes escondido atrás do homem se pôs a frente e estendeu o braço, impedindo que as portas fechassem.
– Não! – os olhos de Harry pousaram nos meus – Deixe ela entrar.
Harry abriu passagem para que eu entrasse, mas por um segundo eu achei que não conseguiria me mover. Meus pulmões pediam desesperadamente por oxigênio e minhas pernas pareciam ser de papel, como se não fossem suportar meu peso quando eu desse meu primeiro passo, deixando que eu desmoronasse ali mesmo. De todas as coisas que eu esperava ver em Nova Iorque, Harry com certeza não era uma delas. Eu já não acreditava mais em acaso, aquilo não podia ser uma simples coincidência. Era como se, de alguma maneira, nunca nos deligássemos um do outro de verdade, como se não fosse possível instaurar uma realidade a qual os nossos destinos não se cruzassem. Era frustrante, doía, mas ao mesmo tempo reconfortante, como retornar para casa depois de uma longa viagem. A pior parte em reencontrá-lo era quando eu parava para analisá-lo e percebia o quão estupidamente perfeito Harry conseguia ser. Usava um conjunto de calça e blazer social num xadrez azul escuro junto de uma camisa branca a qual estava aberta pelo menos nos três primeiros botões, fazendo com que eu tivesse certeza de que nenhuma outra pessoa no mundo ficaria tão bem quanto ele vestindo aquelas roupas. Seus cabelos agora estavam curtos, dando maior destaque ao seu maxilar bem desenhado, e esse fato em específico causara minha repentina falta de ar. E então suas mãos que chamavam minha atenção mais do que o normal, eram estranhamente atrativas demais e usavam anéis de prata. Seu perfume também era marcante, característico e eu queria poder morar na curva entre seu pescoço e ombro para que pudesse acordar todos os dias sentindo aquele cheiro, mas talvez preferisse morar em sua covinha, pois era bem próxima a sua boca extremamente convidativa e periodicamente umedecida por sua língua. Eu me via completamente perdida em meio aos seus detalhes, mas não era como se quisesse encontrar uma saída. Tudo naquele corpo parecia ser minimamente calculado para me desarmar.
– Harry... – encolhi meus ombros e balancei minimamente a cabeça, procurando acordar para ter certeza de que estava ali, e caminhei em direção ao interior do elevador – O que você tá fazendo aqui?
– Oi pra você também. – sorriu largamente e me envolveu num abraço, tornando meu desejo de morar próximo ao seu pescoço cada vez maior.
– Ah, oi! – soltei uma risada sem graça ao separarmos o abraço – Desculpe, mas é que eu... eu não to acreditando.
– Eu também não! – riu junto a mim e passou uma das mãos pelo cabelo – Mas a pergunta correta a ser feita é: o que você tá fazendo aqui?
Antes que eu pudesse respondê-lo, o elevador chegou na cobertura e nossa conversa foi interrompida por uma mulher que o aguardava na entrada com uma agenda em mãos.
– Harry, a reunião foi cancelada. – fez uma anotação na agenda – Transferiram para o almoço de amanhã.
– Ótimo. – olhou para mim de forma cumplice e sorriu sem mostrar os dentes.
– Ah, tomei a liberdade de mandar seu terno para a lavanderia. – dizia sem tirar os olhos da agenda.
...
– E que o interior do carro fosse limpo... – seu dedo indicador passava pelos tópicos que repassava.
! – pigarreou.
– Oi! – direcionou o olhar para Harry e em seguida para mim, arregalando levemente os olhos em seguida.
– Essa é a . – deu espaço para que nos cumprimentássemos, dando um passo para trás – , essa é a , minha agente pessoal.
– Desculpe por isso. – sorriu torto e se aproximou, me cumprimentando com um beijo no rosto – É tanta coisa pra resolver que acabo me exaltando, mas é um prazer te conhecer.
– Tudo bem, imagino que seja bastante coisa mesmo, o prazer é meu. – sorri sem jeito, sentindo meu estômago gritar de nervosismo por conta daquela situação.
– Bom, ainda temos a reserva da mesa? – Harry voltou a fitar sua agente.
– Sim, ainda está reservada. – fechou a agenda e guardou dentro de sua bolsa.
– Quer jantar comigo? – Harry me perguntou despreocupadamente, como quem oferece um chiclete para o colega na sala de aula – Assim você pode me contar o que você está fazendo aqui.
– Ah... – olhei ao redor rapidamente, receosa. A última coisa que eu queria era que meu nome estivesse em outra manchete junto de uma foto de nós dois juntos jantando em Nova Iorque. Eu ainda era casada e Harry, aparentemente, estava em um relacionamento, mas ao mesmo tempo eu queria estar ali e queria aceitar o convite. Por conta de estar tarde e o ambiente tranquilo, assenti com a cabeça – Sim, acho que podemos jantar.
– Quer se juntar a nós? – Harry perguntou para que logo negou com a cabeça.
– Não, não, eu to bastante cansada e já que a reunião foi cancelada, vou aproveitar para dormir, mas obrigada pelo convite. – seus olhos fitavam os de Harry de maneira sugestiva – Bom jantar, aproveitem. – ergueu uma das sobrancelhas e sorriu, fazendo com que Harry soltasse uma risada nasalada.
– Ela é ótima. – disse num tom divertido enquanto caminhávamos até a tal mesa reservada – Ótima agente e tem se mostrado uma ótima amiga também. – assim que chegamos, Harry puxou a cadeira para que eu sentasse e se sentou logo em seguida na cadeira da frente.
O restaurante era incrível e o local da reserva provavelmente a melhor parte. A mesa possuía uma vista privilegiada, ainda melhor que a dos quartos, e era um pouco mais afastada das outras. Apesar de haver um lustre enorme bem acima de nós, a luz era baixa, tornando a atmosfera mais tranquila, junto do som ambiente muito bem selecionado.
O garçom apareceu assim que nos sentamos para confirmar a reserva e fazer os pedidos, os quais eu deixei nas mãos de Harry. Quando o homem se afastara o suficiente, Harry suspirou e sorriu em seguida.
– Acho que finalmente vamos conseguir conversar agora. – apoiou os braços na mesa e entrelaçou seus dedos, chamando minha atenção para suas mãos por um instante – Então, o que faz em Nova Iorque?
– Minha pesquisa jurídica foi selecionada pra um congresso, vou palestrar amanhã, aqui mesmo no hotel. – sorri sem jeito ao notar a surpresa em seu rosto.
– Caramba, parabéns, isso é incrível , sério! Eu queria poder te abraçar, mas a gente acabou de sentar, então não esquece que eu tenho que te abraçar depois, ok? – riu brincalhão – Nossa, é uma notícia e tanto, fico feliz por você, mesmo.
– Pode deixar, não vou esquecer. – disse sem conseguir parar de sorrir – E você?
– Algumas reuniões importantes, coisas que só poderiam ser resolvidas aqui em Nova Iorque e eu gosto bastante desse hotel, – olhou ao redor e sorriu para si mesmo – gravamos um dos nossos últimos videoclipes aqui. – então voltou a me fitar – O qual eu tenho certeza que você não assistiu.
– Ah... – ri sem graça – É, eu realmente não assisti, mas boa escolha de local.
– Obrigado, obrigado, sei que tenho um ótimo bom gosto, inclusive... – o mesmo garçom apareceu com uma garrafa de vinho e duas taças, nos servindo em seguida –Tenho certeza de que você vai gostar do vinho que eu escolhi. – Harry ergueu sua taça para um brinde – Ao seu sucesso.
– Ao nosso sucesso. – um sorriso sutil surgiu em seus lábios e brindamos, dando o primeiro gole da noite – Realmente, esse vinho é incrível.
– É ótimo, não é? – deu mais um gole e pôs a taça na mesa em seguida – Mas eu sei que você prefere aquele de 7 libras que vende no supermercado perto da sua casa.
– O que torna ele mais gostoso é o fato de ele custar 7 libras. – soltei uma risada e Harry riu junto – Eu não teria descoberto ele se não fosse por você, obrigada por isso.
– Ah, então você lembra... – ergueu uma das sobrancelhas. Foi o vinho que Harry comprou no nosso primeiro dia dos namorados – Você bebeu a garrafa praticamente inteira sozinha.
– Que mentira! – abri a boca desacreditada com a acusação e cruzei os braços em seguida – Cada um bebeu a metade, ok?
– Aham, claro, com certeza. Se eu bebi duas taças foi demais!
– Como você é cínico, Harry Styles. – falei olhando em seus olhos, tentando segurar o riso, sabendo que ele falava a verdade. Harry gargalhava da minha tentativa de atuação.
– Já pensou em largar o direito e seguir a carreira artística? – falou sarcástico – Você tem futuro, quase me convenceu aqui, eu acreditaria se não tivesse visto com os meus próprios olhos...
– É muito gostoso, ok? Eu não pude evitar... – falei derrotada, soltando uma risada e dando um bom gole de vinho em seguida.
– Tudo bem, acho que aquela noite não teria sido tão divertida se você não tivesse bebido tudo aquilo... – Harry disse enquanto olhava a vista da cidade e sorriu – Já era bem tarde, estávamos indo embora e eu acabei tropeçando na calçada, caí no meio da estrada e você começou a rir muito e não conseguia parar, nem me ajudou a levantar, lembra? – seu olhar estava longe, como se revivesse o momento em sua cabeça – Então eu comecei a rir também, não conseguia arranjar forças pra levantar de tanto que ria, então você deitou do meu lado no chão e disse...
– “Não consigo te ajudar, então vou me juntar a você”. – repeti o que eu havia dito naquela noite. Seus olhos voltaram a me fitar e então sorriu – Lembro. Ficamos uns quinze minutos deitados na estrada e você quem me ajudou a levantar depois. – soltei uma risada tímida ao lembrar.
Então o silêncio se instalou e ficamos nos encarando por um tempo. Não muito tempo, mas pelo menos três minutos que pareceram mais longos que o normal. Foi estranho, mas ao mesmo tempo... bom. Por um minuto eu tive a sensação de que tentava ler meus pensamentos, mas logo notei que o olhar de Harry sobre mim era completamente despretensioso, apesar de incisivo. Ao contrário de todas as outras vezes a qual me encontrei numa situação como aquela, não me importei com seu olhar sobre mim, não desviei a atenção, não fiquei sem graça, porque também o analisava, exatamente da mesma maneira.
– Com licença, o pedido. – o garçom fez com que acordássemos do transe momentâneo, direcionando nossa atenção para ele. Agradecemos praticamente ao mesmo tempo e voltamos a nos encarar assim que o homem deixou a comida e saiu.
– Ele deve achar que somos loucos. – Harry ria da situação.
– Ou muito estranhos. – peguei os talheres e comecei a comer.
– O que não deixa de ser verdade. – completou e eu concordei com a cabeça – Tá gostoso?
– Uma delícia! Ótima escolha, apesar de eu não saber exatamente o que é. – ri pelo nariz e voltei a comer.
Assim que terminamos de comer, Harry me levou para o outro lado do restaurante. Era uma área de bar, onde o som era um pouco mais alto e haviam alguns sofás que ficavam de frente para uma parede completamente de vidro, como nos quartos, mas bem maior. O lugar não estava abarrotado, mas haviam muito mais pessoas do que no restaurante. Sentamos no sofá mais ao fundo e ao terminamos a garrafa de vinho, pedimos o primeiro drink.
– Acho que dessa vez eu tomei mais. – Harry dizia encarando a garrafa, com o outro copo em mãos, e me olhou em seguida – Mas pelo menos eu não tenho que palestrar amanhã. – então deu um bom gole em seu copo de gin.
– Mas tem uma reunião pela manhã. – ergui uma das sobrancelhas e repeti seu ato, bebendo um gole do meu copo.
– Droga... – franziu o cenho e fez um bico – Não queria que tivesse me lembrado.
– Desculpe... – disse encarando seus lábios – Mas não podemos exagerar, – voltei minha atenção para seus olhos que agora me encaravam de uma maneira divertida por notarem para onde eu estava olhando – certo? – dei um gole no meu copo tentando disfarçar minha vergonha.
– Certo. Não vamos exagerar.
Bebemos, ao todo, treze drinks. Éramos os únicos no bar agora, mas não ligávamos para o horário, falávamos alto, mas não nos importávamos, só queríamos continuar aquela conversa que sempre dava um jeito de se estender. Estávamos completamente bêbados, mas Harry muito mais do que eu. Era engraçado. Seus cabelos estavam bagunçados e seu blazer jogado no canto do sofá, sempre falava com o copo em mãos e sua risada era muito alta. Ali, naquele momento, nossas versões mais sinceras conversavam e não queriam se despedir.
– Lembra quando você foi na padaria no dia que eu comecei a trabalhar lá? – Harry estava em pé e eu estava sentada no sofá, não desviando o olhar dele por nada – Você não sabia e era a manhã seguinte do nosso primeiro beijo.
– Lembro! – soltei uma risada e pus uma das mãos na cabeça – Eu queria morrer de tanta vergonha. Você não tirou o sorriso debochado do rosto nem por um segundo, agindo como se nada tivesse acontecido!
– Não foi proposital, eu juro! – gargalhou – Você estava completamente vermelha, foi tão bonitinho, eu não conseguia parar de sorrir... – Harry voltou a se sentar do meu lado.
– Lembra quando você foi conhecer meus pais? Foi num almoço e você estava usando uma...
– Uma camisa salmão de botões fechada até o pescoço! – completou e riu em seguida – Minha mãe me obrigou a usar... – rolou os olhos – Ficou ridículo e suei que nem um louco de tão nervoso.
– Não ficou ridículo... eu achei bonitinho! – Harry me encarou e ergueu uma das sobrancelhas, me fazendo rir – Sério! Não achei que ficou feio.
– O amor é cego. – sua voz rouca e inebriante falou num tom brincalhão, soltando uma risada nasalada e voltando a admirar a vista da cidade em seguida. Relaxou completamente no sofá, deitando sua cabeça. Respirou fundo e deu outro gole, fazendo uma careta em seguida pelo uísque já estar quente – Lembra da primeira vez que cozinhamos na nossa casa? – seu tom era tranquilo, falava mais baixo agora – Você deixou o arroz queimar e tivemos que jogar a panela fora...
– Lembro, a panela fazia parte de um jogo muito bonito, fiquei tão triste... – Harry sorriu sutilmente ao escutar o que eu dissera, mas ainda olhava para o movimento da cidade – só não lembro porque deixei queimar.
– Não? – virou seu rosto para mim e nossos rostos ficaram bastante próximos. Fiquei um tempo vasculhando em minha mente, tentando lembrar, mas o nível de álcool não cooperava, então balancei a cabeça negativamente – Nós transamos. – arqueou a sobrancelha e abriu um sorriso malicioso, soltando uma risada gostosa depois – E só paramos depois de cinco ligações do vizinho avisando do cheiro de queimado.
– Ah... foi por isso. – pus uma das minhas mãos em meu rosto, sentindo ele queimar de vergonha, e ri nervosa – Lembrei agora...
– Meu coração está ferido por você ter esquecido desse momento. – nossos rostos ainda estavam próximos, eu podia sentir sua respiração.
– Seu coração? – tirei a mão do rosto e senti seu olhar intenso sobre o mim – Ou o seu ego?
– Os dois. – sorriu sem mostrar os dentes e levantou do sofá de repente, rompendo nossa conexão de forma rápida, fazendo com que eu soltasse um suspiro – Garçom! – chamou pelo rapaz e ele veio sem demora – Mais duas doses de uísqAI MEU DEUS!
As primeiras notas de The Time Of My Life soaram por todo o bar e Harry me lançou um olhar sugestivo, estendendo a mão em seguida. O garçom anotou o pedido, mas não ousou falar mais nada, apenas assentiu e soltou uma risada, se afastando em seguida.
– Senhorita, me concede essa dança? – fez uma pequena reverencia com a mão ainda estendida.
– Mr. Styles... – meus olhos deram uma breve pesquisada no local buscando por um rosto diferente que não dos funcionários e ao confirmar que só havia nós dois ali, sorri e dei minha mão a ele – Com prazer.
Segurei sua mão assim que a música saiu do ritmo lento para o dançante e ele me puxou para perto de si no mesmo momento. Nossos corpos se embalavam no ritmo, mesmo que desajeitados por conta da bebedeira, e não conseguíamos parar de sorrir e rir um para o outro.
I've been waiting for so long, now I've finally found someone to stand by me... – Harry cantou junto da música na voz de Bill Medley e fez com que eu rodopiasse, soltando minha mão em seguida, afastando nossos corpos.
We saw the writing on the wall and we felt this magical fantasy, – continuei cantando nos versos de Jennifer Warnes, agora dançando sozinha – Não acredito que estamos fazendo isso.
Now with passion in our eyes, there's no way we could disguise it secretly... – cantamos os versos juntos como os cantores – So we take each others hand, – então seguramos as duas mãos um do outro como a música mandava – 'cause we seem to understand the urgency.
JUST REMEMBER! – Harry cantou alto olhando em meus olhos e soltou uma risada em seguida.
You’re the one thing... – me aproximei de Harry, ainda segurando suas mãos, fazendo com que nossos narizes praticamente se encostassem.
I can’t get enough of... – fechou os olhos enquanto cantava e sorriu.
So I’ll tell you something...
This could be love! – cantamos alto e juntos, então Harry soltou uma das minhas mãos, subindo na mesa de centro em frente ao sofá e me puxou para que eu subisse também – Because I’ve had the time of my life, no I never fel this way before! Yes I swear, it’s the truth... – então apontamos um para o outro – And I owe it all to you.
Soltamos nossas mãos e eu pulei para o sofá. Harry permaneceu em cima da mesa de centro, dançando bastante empolgado. Eu também dançava no ritmo na música, mexendo meus quadris e balançando os cabelos, aproveitando cada segundo daquele momento.
Hey baby! – olhava para o movimento do meu corpo com um sorriso no canto dos lábios.
With my body and soul – passei a mão por todo meu tronco com os olhos fechados e ao abrir, encarei Harry – I want you more than you’ll ever know.
So we’ll just let it go, don’t me afraid to lose control... – umedeceu os lábios mais devagar que o comum e soltou uma risada – No.
Yes, I know what’s on your mind – fui agachando até sentar, cruzando as pernas e passando as mãos por elas de baixo para cima. Harry então desceu da mesa e ficou em minha frente – When you say stay with me tonight...
Stay with me... – estendeu a mão e eu a segurei – Just remember! – me puxou para que eu levantasse e guiou até próximo ao vidro que dava a visão para a cidade – You’re the one thing...
I can’t get enough of... – entrelacei nossos dedos.
So I’ll tell you something... – mordeu o lábio inferior.
THIS COULD BE LOVE! – Harry me abraçou pela cintura e eu envolvi seu pescoço com meus braços. Cantávamos alto, dançando e rindo – Because I’ve had the time of my life, no I never felt this way before, yes I swear, it’s the truth... – aos poucos paramos de nos mover e senti minhas costas entrarem em contato com vidro gelado – And I owe it all to you.
A música continuou a tocar, mas não cantávamos mais. Suas mãos se apoiavam abertas nos vidros, uma em cada lado de minha cabeça. Nossas bocas possuíam uma distância mínima entre si e soltavam o ar ofegantes por conta da dança. Nossos olhos buscavam respostas uns nos outros e assim que eu fechei os meus pude sentir os lábios de Harry. Eles encostaram em minha testa de maneira delicada, até que...
– Senhores. – o garçom pigarreou e Harry se afastou imediatamente, voltando sua direção para o homem e se apoiando no vidro com somente umas das mãos – Precisamos fechar o bar, sinto muito.
– Tudo bem. – Harry passou a mão pelos cabelos e mordeu seu lábio inferior na tentativa de segurar o riso – Desculpe o incomodo e obrigado pela atenção.
Harry se afastou, caminhando até o sofá, pegou seu blazer, meu casaco e minha bolsa. Carregava ambas as peças de roupa num braço e minha bolsa apoiara no outro ombro. Andávamos lado a lado em silêncio ao longo do bar, lutando ao máximo para não rirmos na frente dos funcionários.
– Boa noite, obrigado. – Harry disse cordial ao homem que aguardava na porta, que apenas balançou a cabeça positivamente.
Apertei o botão do elevador que já aguardava parado no andar da cobertura. Entramos mantendo a postura e pressionei o número que indicava o andar do meu quarto, mas assim que as portas se fecharam, nos entreolhamos e começamos a rir.
– Realmente, nós tivemos o momento de nossas vidas. – Harry disse enxugando as lágrimas nos cantos dos olhos que se formaram por conta das risadas.
– Foi realmente incrível. – a porta se abriu e me pus na entrada para que o sensor não deixasse que ela se fechasse – Obrigada por hoje, foi divertido.
– Foi, não foi? – respirou fundo, como se ainda estivesse se recuperando do cansaço da dança e entregou meu casaco e minha bolsa em seguida – Mas sabe do que eu acabei de lembrar?
– O que? – apoiei minha bolsa em um dos ombros e segurei o casaco em frente ao meu corpo, me encostando na entrada do elevador enquanto conversávamos.
– De quando morávamos juntos... eu estava há algumas semanas fora de casa, foi a primeira vez que fiquei um bom tempo longe... – encarava um ponto aleatório e fixo enquanto contava a história, com o cenho franzido, concentrado, mas com um sorriso no rosto – e eu mandei uma mensagem avisando que chegaria por volta das onze horas da noite, mas acabei chegando uma hora e meia mais cedo. Eu resolvi não te contar, queria fazer uma surpresa. – fez uma pausa, voltando a umedecer os lábios como o de costume – Eu lembro de escutar o som alto já do elevador. – soltou uma risada – Eu entrei em casa e caminhei até o quarto... e você estava lá, dançando e cantando what makes you beautiful muito empolgada, com uma toalha na cabeça e vestindo uma das minhas camisetas. – Harry voltou a me fitar com um sorriso no rosto – Quando eu te vi dançando no show, ano passado em Manchester, não pude evitar lembrar disso e desde então não consegui mais esquecer, me pego relembrando as vezes.
Eu escutei cada palavra que Harry falara atentamente e revivi o momento como se tivesse acontecido naquele mesmo dia. Toda vez que aquela música tocava na rádio ou passasse na televisão, quando eu colocava para tocar em casa ou no celular, eu reagia como todas as outras fãs loucas e apaixonadas. Eu era só mais uma delas, mais uma garota perdidamente louca e doente por Harry Styles. As vezes era difícil de assimilar que eu realmente o tinha, inclusive nos tempos de colégio. Harry é o príncipe encantado que toda garota sonha. É educado, cavalheiro, engraçado, extremamente atraente, sarcástico e abusado na medida certa, carinhoso, atencioso, e todos os melhores adjetivos existentes, fazendo com que eu, e todo restante do mundo, caísse de amores por ele. Ele realmente era tudo de bom e mais, e por incrível que pareça, isso foi o que tornara tudo tão difícil. A distância, a fama, os compromissos, as garotas. Eu queria ter conseguido suportar por mais tempo, eu queria ter sido mais forte, mas aquela era a nova realidade a qual eu teria que lidar para sempre, nunca voltaria a ser como antes. Isso pode soar egoísta e é, eu sei, mas só tinha dezessete anos. Inconsequente, impulsiva, ignorante. Eu não queria ter que lidar com aquilo, eu não conseguia lidar. Afastá-lo sempre pareceu a solução mais sensata, mas ali, naquele momento, me senti tão estúpida, tão burra, tão fraca. Como pude desistir? Como pude deixá-lo escapar? Agi como uma criança imatura que não ganha a sobremesa na hora que quer e, no final das contas, acabei ficando sem doce algum, acabei ficando com um beijo na testa.
– Eu nunca deixei de te amar... – engoliu seco e enxugou a lágrima que escorrera solitária pelo meu rosto – mas eu acho que... – permaneceu em silêncio pensativo –que superei? – disse de forma interrogativa, como se perguntasse a si mesmo se aquela era a palavra certa.
Pisquei os olhos algumas vezes, respirei fundo e sorri da melhor maneira que pude.
– Boa noite, Harry. Obrigada mais uma vez.
! – me chamou antes que eu entrasse no quarto. Uni todas as minhas forças para segurar o choro e voltei a olhá-lo, voltando a forçar o sorriso – Boa sorte amanhã e parabéns... de novo.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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