Capítulo 1 - Juntos novamente?
Eu me preparei para tudo.
Para reencontrar rostos conhecidos da academia. Para debater currículo. Para apresentar um plano de aula enxuto, objetivo, brilhante.
O que eu não me preparei foi para encontrar na mesma sala que eu, ocupando a última cadeira com a postura relaxada de quem nunca levou a sério os protocolos acadêmicos — ou os próprios sentimentos.
Meu cérebro quis dar reboot.
Ignorei o arrepio. Ignorei a forma como ele me olhou — aquele meio sorriso quase debochado, como se tivéssemos apenas nos esbarrado no café da pós ontem e não... Há seis anos, depois do desencontro mais doloroso da minha vida.
Fiz o que faço de melhor: Controlei. Respirei. Sentei. Profissional.
A coordenadora do programa, professora Madalena, começou a falar sobre os objetivos do curso de verão. Enquanto isso, eu mantinha os olhos no papel, mas sentia os olhos dele em mim. Como se ele estivesse testando os limites do meu autocontrole.
Spoiler: funcionava.
E então veio o golpe.
— Agora, sobre o curso de neurociência cognitiva aplicada — disse Madalena, sorrindo com entusiasmo. — Tivemos uma ideia maravilhosa este ano. Ao invés de módulos separados, decidimos unir duas grandes mentes da área em um só curso: uma abordagem integrada, dinâmica, com perspectivas complementares.
Minha atenção voltou totalmente para ela.
Complementares?
— Professora e professor , vocês serão os co-responsáveis pelo módulo “Tomada de Decisão, Emoção e Cognição”.
Silêncio.
Um segundo. Dois. Três.
Eu virei a cabeça. Ele também.
Nossos olhares se cruzaram como se alguém tivesse jogado ácido num campo de pólvora.
Ele arqueou uma sobrancelha. Um sinal claro de isso é sério?
Eu arregalei os olhos por uma fração de segundo antes de me recompor.
— Desculpe — comecei, forçando a polidez — mas achei que cada professor ficaria com um módulo. Foi o que constava no edital enviado.
pigarreou.
— Eu também entendi isso. Mas, veja bem, que bom que estamos alinhados no mal-entendido.
Madalena acenou com a cabeça, como quem já esperava resistência.
— Sabemos que essa colaboração pode parecer inesperada, mas acreditamos que suas áreas se complementam. E, claro, a reputação de ambos como debatedores é lendária.
Lendária. Traduzindo: “vocês brigam bem e vai ser divertido assistir”.
— Vai ser uma experiência… interessante — disse, sorrindo. Mas havia um brilho nos olhos dele. Um interessante que soava como “explosivo”.
Eu mantive meu rosto neutro. Mas por dentro?
Caos.
Porque trabalhar ao lado dele por dois meses significava abrir portas que eu mantive trancadas com cadeado duplo por seis anos.
E eu não tinha certeza se estava pronta para o que sairia de lá.
A sala estava montada para cinquenta alunos. Eram quarenta e três. Todos atentos, inquietos, com aquele brilho de pós-doc nos olhos — ambição, sono, e uma boa dose de vaidade intelectual.
Eu estava acostumada a esse tipo de turma. O desafio era manter o respeito sem se mostrar inacessível. Mostrar domínio sem parecer arrogante.
E então entrou na sala.
Com três minutos de atraso, claro.
Usando uma camiseta preta básica, blazer desabotoado, e aquele maldito carisma silencioso que fazia todo mundo relaxar à primeira piada dele.
— Bom dia — ele disse, passando por entre as fileiras como se fosse só mais um. — Espero que estejam prontos pra discordar de tudo que a disser.
Alguns riram. Outros olharam pra mim, talvez esperando uma resposta à altura.
Eu não dei. Apenas respirei fundo e escrevi no quadro:
"Tomada de Decisão: Processos Cognitivos e Ruído Emocional"
— A ideia do curso — comecei, ignorando o comentário dele — é analisar como fatores emocionais influenciam decisões racionais, tanto no nível neural quanto no comportamental.
— Ou seja, como o cérebro tenta ser lógico e falha miseravelmente — completou, se apoiando na mesa ao meu lado.
— ...ou como ele evoluiu para balancear emoção e lógica de forma adaptativa — corrigi, sem olhar para ele. — Apesar de algumas exceções notáveis.
Ele sorriu. Eu ouvi o sorriso.
— Eu sou a exceção?
— Eu ia dizer “você é o exemplo prático”. Mas obrigada por se oferecer.
Mais risadas. Alguém até anotou.
O pior não era a tensão entre nós. Era o fato de que funcionava. A sala estava engajada. Eles gostavam. Era impossível ignorar que, academicamente, nós éramos absurdamente bons juntos.
Droga.
Durante a atividade em dupla — uma análise de caso sobre decisões morais em situações de risco — observei circulando entre os grupos, fazendo perguntas provocativas, rindo com os alunos. Era natural demais. Leve demais. O tipo de professor que os alunos adoram e que os colegas invejam, mesmo que não admitam.
Ele passou atrás de mim e sussurrou, num tom quase casual:
— Você está mesmo brava comigo ou só mantendo a mística?
Virei-me devagar.
— Isso aqui é trabalho, . Não pessoal. Nunca foi.
Ele me olhou por um segundo a mais do que deveria.
— Claro. Nunca foi — repetiu, com aquela entonação que dizia tudo o que as palavras não diziam.
Voltei minha atenção para os alunos. Mas a respiração estava errada. A coluna, tensa. A lembrança da mensagem, da estufa, da noite que poderia ter mudado tudo... ainda latejava.
E o pior?
Parte de mim queria discutir com ele.
A outra parte queria perguntar por que ele nunca insistiu.
Três semanas depois
A primeira coisa que aprendi nesses últimos vinte dias foi que ainda é um especialista em duas coisas: neurociência comportamental e provocar minha sanidade até o limite.
A segunda coisa?
O limite já não está onde costumava estar.
— , posso te roubar por um segundo? — ele disse hoje, com aquele tom cortês de quem sabe que não está pedindo nada. Está exigindo. Mas sorrindo enquanto faz isso.
— Pode tentar — respondi, sem levantar os olhos do computador.
Estávamos na sala de reuniões do bloco D, onde geralmente corrigíamos trabalhos ou planejávamos os seminários. Havia um silêncio confortável — até ele chegar, claro.
sentou na beirada da mesa, café em mãos, como se não tivéssemos histórico, mágoas ou tensão sexual acumulada o bastante pra gerar um pequeno campo eletromagnético entre nós.
— Estava pensando no nosso seminário de terça. Que tal invertermos os papéis? Eu apresento a parte sobre pré-frontal dorsolateral e você pega a amígdala.
— Estranho — falei, encarando finalmente. — Achei que você gostasse de falar da amígdala. É uma área pequena, mas cheia de reatividade. Soa... familiar.
Ele riu. Baixo. Aquela risada rouca de quem não se ofende.
Porque ele sabe jogar. E joga muito bem.
— Estou tentando não monopolizar o palco. Te dar espaço. Você merece brilhar.
— Engraçado. Achei que você tivesse esquecido como é trabalhar em equipe.
Ele me encarou por um segundo. A brincadeira nos olhos deu lugar a algo mais denso.
Quase melancólico.
— Eu não esqueci, . Só... me falta prática com algumas pessoas.
Virei o rosto antes que ele percebesse o impacto.
Ele sempre teve esse talento de, no meio de uma piada, deixar escapar uma verdade.
E eu sempre fui boa em fingir que não ouvi.
Os alunos, por outro lado, não fingem nada.
Hoje, um deles me parou no fim da aula:
— Professora, posso perguntar uma coisa pessoal?
Levantei uma sobrancelha. Ele ficou nervoso, mas insistiu:
— Você e o professor já... tipo... trabalharam juntos antes?
Sorri com a polidez mais educadamente assassina que consegui.
— Sim. Na pós-graduação. Por que a pergunta?
— Ah, é que... vocês têm uma dinâmica muito... intensa. Quase parece atuação. Sabe, tipo filme. Aquela coisa de rivalidade com tensão romântica no ar.
Ele riu, envergonhado.
Eu não.
— Obrigada pela observação. Agora vai ler o artigo da Kahneman, por favor.
Naquela noite, fiquei olhando para o plano de aula aberto na tela.
Fazia frio. E por algum motivo, eu pensei na estufa.
Não na estufa da universidade atual.
Na outra.
A antiga.
Com cheiro de orquídeas, vidro embaçado e o banco de madeira onde ele disse que me esperaria.
E onde eu achei que ele nunca apareceu.
não tocou no assunto. Nem uma vez.
Mas hoje, quando ele passou por mim no corredor, seu ombro roçou de leve no meu.
Foi rápido. Podia ter sido sem querer.
Mas eu sei.
Não foi.
Capítulo 2 – A verdade
A maior parte das pessoas já tinha ido embora. O vinho barato virou água morna nas taças. A iluminação do jardim agora parecia íntima demais, um convite pra conversas que ninguém teve coragem de ter quando havia plateia.
ainda estava ali.
E eu também.
Não sei quem sugeriu sentar no banco de madeira sob a figueira. Talvez tenha sido ele. Talvez tenha sido meu corpo decidindo por mim, cansado de carregar o peso de tudo isso em pé.
— Estranho pensar que já faz seis anos — ele disse, olhando pro céu, como se o tempo estivesse escrito lá.
— Eu sei. Às vezes parece que foi ontem. Às vezes parece que... foi com outra pessoa.
Ele sorriu de lado. Um daqueles sorrisos com sabor de arrependimento.
— Você namorou nesse tempo? — ele perguntou, depois de um silêncio confortável demais.
Não hesitei. Já havíamos cruzado a linha da superficialidade. Não fazia sentido mentir.
— Dois anos. Um engenheiro biomédico. Francês. Trabalhamos juntos em um projeto na Bélgica.
— E...?
— E nada. Ele era gentil. Inteligente. Mas... — fiz um gesto vago com a mão — ...não tinha faísca. Eu me convencia de que estabilidade era o bastante. Até perceber que eu passava mais tempo pensando em como ele organizava a geladeira do que em como ele me olhava.
riu, baixo.
— Geladeira é um ótimo indicativo de compatibilidade emocional.
— Você?
Ele hesitou por um segundo. E então, baixou os olhos.
— Por ironia do destino... namorei a Camila.
O nome caiu como uma descarga elétrica no meu sistema.
— Camila...?
— Camila. Do laboratório. Camila, “estou sempre por perto se precisar de ajuda com a metodologia”. Aquela Camila.
— Você... — minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia. — Você namorou a Camila?
— Por quase um ano.
Não soube o que dizer. Não sabia nem o que sentir. Era uma coincidência cruel demais pra ser ignorada.
— Engraçado — falei, tentando manter a voz firme. — A vida tem um senso de humor peculiar.
Ele riu sem graça. Mas havia amargura nos olhos.
— Achei que talvez fosse o destino me forçando a seguir em frente. E ela... bom, ela dizia tudo certo. Ela sabia me ler. Talvez demais.
— Vocês terminaram?
— Faz mais de dois anos. Eu... nunca estive realmente lá. Ela sabia. Acho que sempre soube.
Silêncio.
— Você ainda pensa naquela noite? — perguntei, baixinho. Nem sei por que perguntei. Talvez porque o vinho me anestesiava. Talvez porque eu já sabia a resposta.
— ... eu fui. Eu esperei. Você disse que não ia.
A voz dele era grave, mas frágil. Como se falasse por cima de algo que ainda doía.
A noite tinha se esvaziado, mas o peso no ar entre nós só aumentava.
Sentados no banco da figueira, com a taça quase vazia na mão e os ombros mais próximos do que eu gostaria de admitir, e eu respirávamos a mesma pausa carregada de passado mal resolvido.
— Sabe — ele disse, com a voz rouca, como se estivesse prestes a tirar um peso do peito —, por anos eu fiquei me perguntando por que você mandou aquela mensagem.
Meu coração parou por um segundo.
— Que mensagem?
Ele me olhou, confuso. Depois, devagar, como se não acreditasse que eu estava perguntando aquilo de verdade:
— A que você mandou no dia da estufa. "Melhor não. Acho que não faria bem pra nenhum dos dois."
O sangue sumiu do meu rosto. A garganta fechou.
— ... eu nunca mandei essa mensagem.
Ele franziu o cenho.
— Como assim? Eu li. Era do seu número. Eu esperei mesmo assim, mas... depois de ler aquilo, eu...
— É impossível. Eu nem estava com o meu celular — interrompi. Minha voz saiu mais aguda do que eu queria. — Eu tava nervosa, o pen drive travou antes da minha apresentação. Pedi pra alguém mandar um e-mail pro Renato. Dei o celular destravado pra...
Parei. O nome veio com um gosto amargo na boca.
já estava me olhando. O rosto endurecendo. A expressão mudando de dúvida pra algo mais próximo de uma confirmação que ele não queria ter.
— Camila? — ele disse. Baixo. Quase um sussurro.
Eu assenti.
E aí, foi como se uma chave girasse dentro dele.
— Foi ela — ele disse, com uma certeza que arrepiou minha pele. — Claro que foi ela.
— Você... tem certeza?
Ele riu. Um riso seco, sem nenhuma graça.
— , eu namorei a Camila. Uns meses depois. Eu devia ter percebido. Ela sempre falava de você como se fosse uma rival. Sempre tentava minimizar tudo que você dizia. Sempre perguntava o que eu achava de você — mesmo anos depois.
— Meu Deus...
— Aquilo foi ela. Foi ela que mandou a mensagem, e eu... eu caí.
Ele passou a mão no rosto, como se pudesse apagar a lembrança da mensagem da própria memória.
— Eu achei que você tivesse desistido de mim.
— E eu achei que você tivesse me enganado, ou desistido de mim… não sei.
Por um instante, ficamos calados. E tudo ao redor pareceu parar. Não havia mais música. Nem vozes. Só a ideia absurda de que seis anos se perderam por uma mentira de sete palavras.
quebrou o silêncio:
— Isso muda tudo.
Olhei pra ele. E vi nos olhos dele algo que não via desde a pós.
Esperança.
O dia seguinte
Acordei com a boca seca, o cérebro lento e a sensação de que havia algo flutuando no meu estômago.
A princípio, culpei o vinho. O vinho, e talvez aquele brigadeiro de colher que peguei direto da travessa na hora em que já não tinha mais dignidade social.
Mas então lembrei.
O banco.
A figueira.
A conversa.
A mensagem.
Me sentei na cama como se tivesse levado um choque. Porque era isso: meu corpo ainda estava tentando entender que o passado, o nosso passado, foi construído sobre uma mentira.
Uma mentira cruel. Pequena. Precisa. Como um bisturi.
soube ontem. Eu também. Mas saber não era o mesmo que processar.
E processar não era o mesmo que agir como se nada tivesse acontecido.
O problema era: hoje a gente dava aula. Juntos.
Com um seminário de análise crítica sobre estudos de decisão moral. E trinta e sete alunos brilhantes e atentos prontos para farejar qualquer coisa fora do eixo.
Ótimo.
Café. Maquiagem. Dois analgésicos. Um penteado improvisado com lápis de cabelo que usei como prendedor.
Tudo isso pra tentar parecer a doutora : confiante, precisa, absolutamente não emocional.
Mas ao atravessar o corredor do bloco de pós-graduação e ver parado na porta da sala, sorrindo pra um aluno com aquele sorriso que mora entre a ironia e o carinho...
Foi como se eu tivesse 27 anos de novo.
Como se eu ainda fosse aquela versão de mim que acreditava que podia, talvez, amar alguém.
Meu estômago virou. Não de medo. De... expectativa.
Ele me viu. E o sorriso mudou. Ficou mais lento. Mais sóbrio. Como se ele também estivesse atravessando os seis anos que nos separaram com o olhar.
— Bom dia, professora — disse, como se fôssemos apenas colegas. Mas o “professora” saiu com um sotaque de riso, e o “bom dia” parecia saber mais do que dizia.
— — respondi, com um leve aceno. — Pronto pra guerra moral?
— Sempre. Mas hoje... tô curioso pra ver se ainda discordamos tanto assim.
Sentei na mesa. Liguei o projetor. Meus dedos tremiam, mas discretamente.
Os alunos entraram. A aula começou. Nós seguimos o plano.
Mas tudo estava diferente.
A forma como ele me ouvia com mais atenção do que o necessário.
O jeito como eu evitava encarar diretamente aqueles olhos castanhos que agora, eu sabia, esperaram por mim naquela noite.
A pequena pausa que ele fazia antes de me passar a palavra — como se estivesse se segurando pra não dizer algo a mais.
Em um momento, enquanto eu falava sobre o famoso experimento do dilema do bonde, percebi que ele me olhava não como quem escuta um argumento.
Mas como quem escuta alguém que não quer perder de novo.
E por um segundo, falhei.
Engasguei com a palavra “desumanização”. Tive que pigarrear.
— Você está bem, professora? — uma aluna perguntou.
— Sim. Claro. Só... Um leve refluxo filosófico.
disfarçou o riso atrás da mão.
No fim da aula, enquanto os alunos se organizavam para sair, ele se aproximou devagar, como se testasse os limites de um novo território.
— Quer um café? — ele perguntou, num tom que parecia normal. Mas não era. Nada era mais.
— Agora?
— Agora. Sem estufas. Sem mensagens. Sem celulares entregues pra terceiros.
Minha garganta fechou por meio segundo. Depois, respondi com o mesmo tom leve que ele usava:
— Desde que seja sem vinho ruim.
Ele sorriu.
E era o sorriso mais próximo da verdade que eu já vi naquele rosto.
Capítulo 3 – Fogo
Três dias depois
Uma coisa que ninguém te ensina na vida acadêmica: o quanto você pode se esconder atrás de termos técnicos.
Você pode estar à beira de um colapso emocional e, ainda assim, discutir “ativação do córtex orbitofrontal” com absoluta frieza.
Ou fingir que não sente absolutamente nada por alguém enquanto analisa uma tabela de respostas emocionais com ele numa sala silenciosa, às 21h13, com um único abajur aceso e café velho no copo térmico.
lia as anotações em silêncio. Eu mexia em um gráfico no notebook, tentando lembrar como se respirava de forma normal.
— Acho que podemos começar o artigo com aquele estudo da Tversky e Kahneman sobre heurísticas — ele disse, finalmente. A voz rouca, baixa. O tipo de tom que, naquela sala escura e vazia, soava mais íntimo do que qualquer elogio.
— Concordo — respondi, sem olhá-lo. — Serve como base pro nosso argumento sobre decisões emocionais disfarçadas de lógicas.
Ele girou levemente a cadeira. Agora me encarava. Eu sentia.
— ...
Fechei o notebook. Devagar. Não suportava mais o som do cursor piscando no Word.
— Fala.
— Desde aquela noite... eu pensei em mil versões de como isso podia ter sido diferente.
Meu coração acelerou. Mas mantive o rosto neutro. Ou tentei.
— Eu também.
Ele se inclinou um pouco, braços apoiados na mesa.
— Eu pensei que você me conhecia. Que você teria entendido se eu... tivesse hesitado. Mas eu não hesitei. Eu fui. E li aquilo. E achei que você...
— Eu confiei em alguém errado. — A frase saiu mais dura do que eu queria. — Achei que dar meu celular pra alguém por dois minutos não fosse assinar uma sentença de seis anos.
Ele ficou em silêncio.
Eu continuei:
— E o pior é que eu não te procurei depois. Eu não fui atrás da resposta. Só... assumi que você não se importava o suficiente pra explicar.
— Eu teria explicado. Se eu soubesse que havia o que explicar.
Nos encaramos. Por segundos longos demais.
Ali, naquela sala silenciosa, entre planilhas e artigos impressos, tudo que eu queria fazer era cruzar a mesa e tocar nele. Só tocar.
Mas em vez disso, disse:
— A gente deveria focar no artigo.
Ele riu. Um riso quase triste.
— Claro. O artigo.
E voltamos ao trabalho.
Pelo menos, fingimos.
Mas entre uma vírgula e outra, entre a escolha de uma referência e outra, cada palavra carregava o subtexto de tudo o que ainda não dissemos.
Era pra ser mais uma manhã de trabalho.
A ideia era finalizar a introdução do artigo até o meio-dia. Estrutura teórica, justificativa metodológica, hipóteses. Básico. Roteiro padrão de dois acadêmicos experientes, acostumados a operar sob pressão.
Mas o que nós tínhamos não era pressão.
Era outra coisa.
Algo mais denso, mais inflamável.
estava na outra ponta da mesa, digitando. Parava a cada três frases pra me perguntar alguma coisa. Até que comentou:
— Essa parte aqui sobre decisões morais extremas... você não acha que está didática demais?
Levantei os olhos do meu caderno.
— Didática?
— Sim. Parece que você está escrevendo pra alunos de graduação, não pra pesquisadores.
— Eu estou contextualizando. Isso se chama tornar o texto acessível, .
— Acessível, sim. Mas raso?
Fechei a caneta com um estalo.
— Se você acha que meu texto está raso, reescreve. Eu não tenho problema com isso.
Ele levantou uma sobrancelha. A mais clássica. A que sempre significou: calma, mas nem tanto.
— Eu só tô dizendo que o artigo precisa manter um certo nível. A gente carrega dois nomes de peso. Não dá pra simplificar demais só porque...
— Porquê o quê?
— Porque é mais confortável não se aprofundar.
— Isso é sobre o artigo ou sobre a gente?
Ele recuou levemente na cadeira, como se eu tivesse acertado um ponto fraco sem querer.
Ou querendo muito.
— Talvez porque, mesmo depois da verdade, você fala comigo como se eu ainda fosse alguém que te decepcionou. Como se nada tivesse mudado.
— E você age como se tivesse o direito de exigir alguma coisa de mim só porque descobrimos que Camila estragou tudo. Isso não apaga os anos em que você seguiu em frente com ela!
— Eu não segui em frente, . Eu estagnei. E você? Foi viver uma vida perfeita na Europa, com um francês de novela!
— Ele sabia conversar sem transformar tudo em uma disputa. Isso já era um avanço.
— E ainda assim você está aqui. Sozinha. Assim como eu.
Silêncio.
Cruel. Cru. Cortante.
— A gente não tá brigando por causa do artigo, né? — ele disse, mais calmo agora.
Eu respirei fundo. Meus ombros estavam tensos, meu maxilar travado.
Eu podia ter respondido. Parte de mim queria.
Mas outra parte — a que aprendeu a sobreviver ao silêncio dele naquela noite, a que aprendeu a não esperar mais nada — congelou.
E talvez ele tenha interpretado esse silêncio do pior jeito possível.
desviou o olhar primeiro. Voltou a digitar como se nada tivesse acontecido.
Como se aquela conversa tivesse sido só mais uma das nossas pequenas batalhas inúteis.
Eu me levantei devagar.
Peguei meu caderno. Meu copo térmico vazio. E a dignidade — o que restava dela.
Ele percebeu.
— ...
— Termina você. — Minha voz saiu mais fria do que eu me senti. — Você é ótimo em acabar com as coisas, afinal.
Ele ficou imóvel. Sem resposta.
O que, de certa forma, era pior do que qualquer frase mal escolhida.
Caminhei até a porta, sentindo a raiva crescer com cada passo.
Mas não era só raiva dele. Era raiva de mim. Por ter achado, por um instante, que talvez...
Não.
Fechei a porta atrás de mim. Não bati.
Mas o som foi alto o suficiente pra ele entender.
E caminhei pelos corredores da universidade como quem foge de um incêndio invisível.
Se alguém me perguntasse como eu me sentia em relação ao , eu teria uma resposta pronta:
Irritada.
E o pior tipo de irritação: aquela que vinha com cheiro bom, barba bem-feita e olhos que pareciam saber demais.
Não era só o jeito como ele falava. Era o conteúdo.
era questionador. Crítico. Argumentativo até quando não precisava.
E o mais frustrante? Eu era igual.
Talvez esse fosse o problema.
A gente não combinava porque combinava demais.
Dois cérebros programados para debater até sobre a cor do marcador de quadro branco. Dois egos que não aceitavam perder nem no cara ou coroa.
E o bônus cruel? Estávamos na mesma área. Mesmas teorias, mesmos autores favoritos, mesma maldita obsessão por revisão por pares e estatísticas bem calibradas.
Era como tentar amar alguém que fosse seu reflexo — mas com mais charme e um talento natural pra te desestabilizar emocionalmente.
Era insuportável.
Era irresistível.
E ainda por cima, ele era lindo.
Lindo de um jeito que me irritava.
Do tipo que sabia exatamente o efeito que causava, mas usava isso com parcimônia. Como se dissesse: “sim, eu sei que sou gostoso, mas também sei integrar modelos de processamento emocional com base em dados de fMRI.”
E pra piorar, ele era cheiroso.
Ridiculamente cheiroso.
Do tipo que fazia o ar parecer carregado quando ele passava. Como se até as moléculas se organizassem em torno dele com mais elegância.
Eu odiava isso.
Odiava que ele ainda me fizesse sentir alguma coisa. Que bastasse uma fala atravessada — ou uma sobrancelha arqueada — pra me desmontar por dentro.
Era irracional. Cientificamente indefensável.
Mas era real.
E era exaustivo.
Porque não dava pra ter trégua com alguém como .
Mesmo quando ele dizia as coisas certas.
Mesmo quando ele olhava como se me enxergasse de verdade.
Mesmo quando ele me pedia, com o silêncio, pra ficar.
Porque nós dois não sabíamos ficar.
A gente sabia brigar. Argumentar. Rebater.
Nosso instinto era o conflito.
E talvez por isso eu tenha saído daquela sala como se fugisse de um incêndio.
Porque, no fundo, eu sabia:
era fogo.
E eu... sempre fui altamente inflamável.
Capítulo 4 – Six Years
Seis anos e meio atrás – Hotel em San Diego, simpósio internacional
Era o segundo dia do simpósio e eu já estava no meu limite de networking e pessoas que começavam frases como “na minha última publicação em Harvard...”.
Depois de me livrar de um grupo insistente no saguão, subi pro meu quarto pronta pra me trancar com um chá e uma planilha.
Mas antes que pudesse fechar a porta, meu celular vibrou.
.
‘‘Quarto 928. Trouxe vinho e perguntas existenciais. Vem se quiser.’’
Eu demorei três minutos para responder. Dois foram para fingir que estava pensando. O terceiro, pra colocar um moletom.
Quando bati na porta, ele atendeu com cara de quem já sabia que eu apareceria.
— Achei que você fosse mais difícil de convencer. — Ele se afastou, abrindo espaço.
— Eu sou. Mas você usou "vinho" e "existenciais" na mesma frase.
— Duas palavras que nunca falham com você.
O quarto dele era só um pouco maior que o meu. Mas tinha música baixa no celular, um pinot noir aberto e... Meias coloridas no chão. Aparentemente, o gênio da neurociência também tropeçava em cuecas e bagunça.
Nos sentamos no chão, com as costas contra a cama. A luz era baixa. A conversa, leve.
— Já pensou em largar tudo? — ele perguntou, depois de um gole.
— Toda segunda-feira. E você?
— Quase fui fotógrafo. Antes de entrar na neurociência.
— Mentira.
— Verdade. Mas descobri que cérebro humano é mais interessante que paisagens.
— Você só diz isso porque nunca tentou fotografar o Grand Canyon ao nascer do sol.
Ele sorriu. Aquele sorriso de canto, o que fazia parecer que ele sabia algo que ninguém mais sabia.
— E você? Já pensou em fazer outra coisa?
— Professora de yoga em Bali. Ou cuidadora de gatos em Kyoto.
— Gatos são mais previsíveis que alunos de pós-doc.
— Justamente por isso.
Rimos. Ficamos em silêncio. O tipo de silêncio que você só tem com alguém que conhece seus barulhos.
— Você acha que algum dia a gente vai sossegar? — ele perguntou, baixo.
Demorei pra responder.
— Talvez. Mas duvido que seja com alguém que consiga nos vencer num debate sobre neuroplasticidade.
Ele virou o rosto pra mim.
— Então estamos condenados?
— Totalmente.
Ele me olhou por tempo demais.
E por um segundo, achei que ele fosse se inclinar.
Ou que eu fosse.
Mas ele só disse:
— Ainda bem que a condenação é recíproca — ele disse, e depois tomou mais um gole de vinho como se não tivesse acabado de soltar a frase mais significativa da noite.
Eu ri, mas por dentro o peito apertou daquele jeito familiar. Aquele jeito de "isso aqui podia ser alguma coisa se a gente não fosse tão bom em fugir."
— Você já pensou que talvez a gente... simplesmente não seja do tipo que encontra alguém? — perguntei, num tom quase casual.
me olhou de lado. O olhar mais atento agora. Mais sóbrio, apesar do vinho.
— Eu penso nisso mais do que admito.
Ele girou a taça na mão.
— A gente exige demais. Mas não de arrogância. É... porque a gente sente demais, talvez. E aí parece que ninguém consegue entrar sem tropeçar.
— Ou sem tentar mexer na mobília.
Completei. Ele riu.
— Exato. Eu odeio quando tentam me "melhorar". Como se eu fosse um projeto em aberto.
— E você não é?
— Talvez. Mas se for, prefiro que quem esteja comigo me leia como um artigo completo — com todos os erros revisados por pares, sabe?
— Você é o artigo com cinquenta notas de rodapé e uma discussão emocional escondida na conclusão.
Ele me olhou daquele jeito de novo.
— E você é a que leu tudo. De verdade.
Silêncio.
Meu coração bateu de um jeito irritante.
Tentei desviar os olhos, mas parei no queixo dele. Depois, no cabelo bagunçado. No jeito como ele segurava a taça com os dedos longos.
Bonito. Claro. Mas bonito de um jeito perigoso.
Do tipo que sabe que é, mas não precisa fazer alarde.
E inteligente. Tão inteligente que era quase injusto.
Foi o vinho?
Talvez.
Ou não.
Porque a verdade é que, mesmo antes do vinho, já fazia parte de todas as listas mentais que eu fingia que não fazia.
— Você nunca achou que a gente combinava demais pra dar certo? — perguntei, baixinho.
Ele riu, sem desviar os olhos.
— Ou que a gente combina tanto que assusta?
Assenti.
— É como... tentar namorar alguém com o mesmo cérebro. Uma parte de mim acha incrível. A outra parte quer sair correndo.
— Bem-vinda ao clube.
— E se a gente só estivesse ferrado por causa disso?
Ele encostou a taça no chão e virou levemente o corpo na minha direção.
— Então, pelo menos, a gente se entende. Já é mais do que a maioria das pessoas consegue.
Aquilo me pegou desprevenida.
Me senti leve. E, ao mesmo tempo, flutuando em algo perigoso.
Tipo... à beira de uma decisão.
Daquelas que você finge que não viu. Mas viu.
Ele estava muito perto agora.
E meu cérebro começou a listar motivos para não beijá-lo.
Não aqui. Não agora.
Mas todos os motivos pareciam ridículos.
Ele era bonito. Inteligente. Desafiador. Gentil. Um espelho e um caos.
E, no fim, talvez...
Talvez fosse ele, sempre tivesse sido ele, o único que realmente entendia o que eu era.
Foi o vinho.
Ou não.
Mas quando ele encostou a mão na minha, devagar, eu não recuei.
Porque, pela primeira vez, não parecia errado.
Parecia... inevitável.
O silêncio entre nós ficou mais denso.
A mão dele ainda encostava na minha — firme, mas sutil.
E eu não me mexi. Não porque não queria. Mas porque qualquer movimento a mais e eu... atravessaria um limite.
se aproximou um pouco. Centímetros. Mas com ele, até milímetros eram cheios de intenção.
— — ele disse, quase num sussurro. — A gente não precisa fazer isso.
— Eu sei.
— Mas se a gente fizer, não vai ser fácil depois.
— Eu sei disso também.
Ele esperou. Porque sempre me deixava decidir.
E eu odeio admitir... mas era por isso que eu confiava nele.
— Só me diz uma coisa — falei, tentando manter a voz firme. — Por que agora?
Ele inclinou a cabeça.
— Porque eu tô cansado de fingir que não penso nisso toda vez que você fala alguma coisa genial. Ou irritante. Ou quando simplesmente entra em uma sala.
A raiva, o sarcasmo, as defesas — tudo caiu em silêncio dentro de mim.
E antes que eu pudesse duvidar, eu me inclinei.
Só um pouco.
Mas foi o suficiente.
se aproximou e me beijou com a calma de quem estava esperando por isso há tempo demais.
Foi um beijo silencioso no começo. Sem pressa.
A boca dele era quente, firme, e, pra minha surpresa, gentil.
Nada de urgência.
Só uma pergunta sussurrada contra meus lábios:
"É isso?"
E minha resposta, no toque, na entrega, foi:
"Sim. Finalmente."
Minhas mãos foram pro pescoço dele, e a dele escorregou pra minha cintura com uma leveza que me fez arrepiar. Não foi só desejo.
Foi alívio.
O tipo de beijo que faz você esquecer que tem relógio, e que amanhã existe.
O tipo de beijo que começa com curiosidade e termina com a certeza de que você vai lembrar desse beijo por muito mais tempo do que deveria.
Quando nos afastamos, os olhos dele estavam fechados.
Ele respirou fundo.
Depois abriu e sorriu, daquele jeito só dele.
— Bom... isso definitivamente complicou as coisas.
— A vida já era complicada.
— Agora tá só mais interessante.
Rimos. Mas por dentro, estávamos tremendo.
Não de medo.
De significado.
E por muito tempo, foi esse beijo — esse momento — que eu carreguei como um ‘‘e se?’’.
Como um quase.
Como um segredo que o tempo não conseguiu apagar.
Capítulo 5 – Fear
Seis anos atrás…
Alguns dias depois do beijo, de volta à universidade.
Eu ainda me lembrava do gosto do vinho.
Do toque suave dos dedos dele na minha cintura.
Do som da respiração dele se misturando à minha.
Mas não falou mais sobre a noite em San Diego.
Nem no voo de volta. Nem no primeiro café na sala dos pós-docs.
Nem depois das reuniões, nem nas aulas.
Ele estava... normal.
O mesmo — irônico, brilhante, impossível.
E talvez tenha sido isso que me irritou.
Porque dentro de mim, nada estava normal.
Na sexta-feira, depois de uma apresentação do laboratório, ele veio até mim como se nada tivesse acontecido.
— Aquele gráfico de correlação ficou ótimo — disse, encostando na mesa.
— Uau, elogio agora é substituto para conversa?
Ele franziu a testa.
— Do que você tá falando?
— Você sabe do que eu tô falando. A gente se beija, a gente se entende, a gente... — fiz um gesto vago com a mão — acontece, e você volta como se tivesse comentado a previsão do tempo?
Ele ficou em silêncio por um segundo longo demais.
— Eu não sou bom nisso, .
— Em quê? Em se importar?
— Em lidar com tudo isso. Com o que aconteceu. Com... você.
— Ótimo. Porque é super fácil pra mim também, . Super confortável gostar de alguém que vive se escondendo atrás de frases bonitas e piadas prontas.
— Eu não tô me escondendo.
— Tá, sim. E pior: tá me afastando com essa sua mania de fingir que sentimento é fraqueza.
Ele passou a mão no rosto. Estava irritado. Comigo. Com ele mesmo.
— Você quer o quê de mim, ? Que eu diga que tô apaixonado? Que eu largue tudo e te peça um rótulo?
— Eu quero que você me leve a sério. Que leve a gente a sério. Só isso.
— E se eu disser que isso me assusta?
— Eu vou entender. Mas também vou embora.
A frase saiu antes que eu pudesse segurar.
E foi a primeira vez que vi ele... vacilar.
— Você tá indo embora mesmo?
— Não. Ainda tô aqui. Mas por quanto tempo, eu não sei.
Olhei pra ele.
— Porque quando eu olho pra você, , eu vejo tudo que a gente poderia ser. Mas quando você olha pra mim... eu não sei o que você vê.
Ele desviou o olhar.
Foi a pior resposta possível.
— Foi só um beijo, .
Silêncio.
Frio. Cru.
Eu engoli em seco.
— Claro. Então estamos bem resolvidos.
E saí.
Dessa vez, ele não me impediu.
Alguns dias depois…
Se tudo corresse bem naquela sequência de apresentações do mês, eu estaria com um pé no pós-doc fora do país. Talvez Paris. Talvez Copenhague. Ainda era cedo pra escolher a cidade, mas as possibilidades começavam a ganhar nome, fuso horário, idioma.
Naquele dia específico, eu só precisava que o pen drive funcionasse.
Mas não funcionou.
Foi durante uma apresentação interna do laboratório. Nada muito formal, mas com gente demais prestando atenção. O arquivo travou. A tela ficou preta. E meu cérebro entrou em modo emergência.
Camila, sempre na primeira fileira — atenta, disponível, envolvida demais — levantou a mão na mesma hora.
— Quer ajuda? — ela perguntou, já se aproximando com um sorriso de eficiência impecável.
Assenti, aliviada.
— Manda um e-mail pro Renato, por favor. Diz que tive problema com o pen drive e que vou precisar adiar a apresentação até conseguir outro.
Estendi o celular, destravado.
— Ele tá nos contatos fixos.
Camila pegou o aparelho e assentiu com um aceno curto.
— Pode deixar.
Voltei pro computador, tentando parecer calma enquanto o resto da turma comentava em voz baixa. A situação parecia sob controle.
O que eu não sabia — o que nunca passou pela minha cabeça — era que, naquele exato minuto, estava me mandando uma mensagem.
E menos ainda, que ela responderia.
No meu lugar.
Com palavras que eu nunca teria dito.
Com uma frieza que não era minha.
Mas isso...
Isso eu só descobriria depois.
Depois de esperar por uma resposta que nunca chegou.
Depois de ser acusada de não sentir o que eu sentia.
Depois de perder ele.
Porque às vezes, o que destrói tudo não é o grito.
É o silêncio moldado por outra pessoa.
Noite do mesmo dia
Depois da apresentação, eu fiquei mais tempo do que deveria na sala de projeção. Fingi que estava revisando as anotações. Na verdade, estava respirando. Tentando organizar o caos interno que vinha crescendo desde... San Diego. Desde aquele beijo.
tinha me mandado uma mensagem no dia anterior. Uma frase simples, inesperada, quase casual demais para alguém que tinha me beijado como se fosse o fim do mundo.
"Hoje, 21h. Banco da estufa. Preciso te dizer uma coisa."
Eu não respondi.
Porque não sabia o que responder. Porque ainda estava magoada. Porque não sabia o que ele queria dizer. Porque talvez quisesse ouvir demais.
Mas mesmo sem responder... eu fui.
Atravessei o campus com as mãos nos bolsos do casaco e o estômago em pedaços. A noite estava fria. O tipo de frio que faz o coração doer mais fácil.
A estufa era sempre meio escondida — entre o bloco de Biocomportamento e o velho galpão de coleta de dados. Tinha cheiro de terra molhada e o barulho abafado de tubos e ventiladores.
Eu cheguei no banco.
Olhei em volta.
Nada.
Olhei no celular. 21h04.
Esperei.
Fiquei em pé. Sentei. Levantei de novo. Cruzei os braços.
21h15.
"Talvez ele esteja atrasado", pensei.
21h24.
"Talvez tenha desistido."
21h35.
Foi aí que eu comecei a sentir o vazio bater.
Não era só ausência física.
Era ausência de escolha.
De consideração.
"Talvez tenha sido só um jogo", pensei.
"Talvez tenha sido só um beijo."
"Talvez ele tenha se arrependido."
21h42.
E foi quando eu finalmente me levantei.
Com o orgulho arranhado.
Com a garganta fechada.
Com a certeza de que eu tinha sido idiota de novo.
Idiota por acreditar que ele era diferente.
Idiota por pensar que alguém como podia me olhar daquela forma e...
Saí da estufa com passos duros, evitando que qualquer lágrima escapasse.
Naquela noite, eu decidi odiá-lo.
Não por raiva.
Mas porque doía menos do que admitir que ele nunca quis de verdade.
O que eu não sabia...
É que ele tinha ido.
E que leu uma resposta fria.
Que achou que eu não queria.
Que a ausência naquela estufa não foi covardia.
Foi manipulação.
Mas isso...
Isso ainda estava por vir.
Capítulo 6 – Finally, a date
A estufa desta universidade era moderna, silenciosa e impecavelmente organizada. Nada como a versão meio caótica da estufa da universidade antiga, onde e eu quase começamos alguma coisa — e onde, depois, tudo desmoronou.
Eu não vinha aqui com frequência.
Mas naquela tarde, algo me puxou.
Talvez o cansaço. Talvez o peso das últimas semanas. Talvez a vontade de respirar entre o verde e a terra molhada, sem ninguém ao redor.
Entrei sem fazer barulho.
A porta de vidro se fechou com um leve suspiro.
Lá dentro, o ar era úmido e morno. As plantas pareciam mais calmas do que qualquer pessoa que eu conhecia.
Caminhei devagar entre os vasos e as bancadas.
Sentei num banco perto da parede de vidro, e deixei o corpo pesar. Só ali, só por alguns minutos. Sem desempenho. Sem orgulho.
Fechei os olhos.
E foi então que ela voltou.
Camila.
A memória dela apareceu como uma brisa desconfortável — com aquele sorriso gentil demais, aquela presença sempre disponível.
Ela era minha amiga.
Minha confidente.
Eu falava sobre tudo com ela na época da pós. Inclusive... sobre .
Me lembrei de como a gente conversava no café do térreo, rindo de bobagens entre uma apresentação e outra.
De como ela perguntava sobre com uma leveza que, na época, eu achei só curiosidade.
E então veio a lembrança exata.
A frase exata.
“Você acha que ele levaria você a sério? Ele parece gostar desse joguinho com você...”
Na época, eu não pensei muito.
Respondi com alguma piada.
Mas ela sabia.
Ela sabia que eu queria dar uma chance a ele. Que eu estava pronta. Que, mesmo com medo, eu queria tentar.
E ela estava lá.
Com o celular na mão.
Com minha confiança nas mãos.
O frio na barriga não foi só de raiva — foi de clareza.
As peças começaram a se encaixar.
A resposta seca que recebeu.
A ausência dele na estufa.
O silêncio.
A mágoa.
A distância.
Não foi azar.
Não foi mal-entendido.
Foi escolha.
Uma sabotagem calculada.
Por alguém que dizia me conhecer.
Engoli em seco, sentindo uma mistura de nojo e dor.
Não só por .
Mas por mim.
Por não ter visto. Por ter deixado passar. Por ter confiado.
A estufa ficou mais silenciosa.
Mas minha mente gritava.
Tudo... fazia sentido agora.
A porta da estufa se abriu com aquele som sutil do vidro contra metal.
Eu não me movi. Não precisei.
.
Claro que era ele.
Porque o universo tinha esse talento específico para aparecer quando eu não queria plateia pra minhas epifanias internas.
Ele parou por um segundo ao me ver sentada no banco.
O olhar surpreso, mas não desconfortável.
— Olha só — disse, com um meio sorriso. — Invadindo meu esconderijo acadêmico?
— O seu? — arqueei uma sobrancelha. — Esse era meu território sagrado.
— Te dou metade, então. Mas só se prometer regar as samambaias do fundo.
— Com o meu choro silencioso durante reuniões pedagógicas?
— Ou com seu sarcasmo. As plantas crescem mais fortes assim.
Sorri. Contra a vontade, claro.
Ele se aproximou e sentou ao meu lado, no mesmo banco. Lado a lado, mas sem encostar.
Como quem já entendeu que, entre nós, espaço é respeito. Mas também convite.
— O que você tá fazendo aqui? — perguntei.
— Vinha dar uma volta. Pensar. Fugir da vida adulta. O básico.
— Coincidentemente, meu objetivo também.
— A gente ainda combina. — Ele olhou pra frente. — Assustador, né?
— Um pouco. Mas hoje em dia eu tenho plano de fuga.
— Ah é?
— Sim. Correr na direção oposta sempre que você começar a filosofar sobre comportamento humano depois das sete da noite.
— Isso é cruel.
— Isso é autodefesa.
Silêncio confortável.
Mas eu sentia.
Sentia o que ele queria dizer.
E sabia que ele também estava sentindo o que eu não estava dizendo.
— Lembra quando a gente era só... dois pós-graduandos irritantemente competitivos? — ele perguntou, com aquele tom leve demais pra não ser carregado.
— Aham. E fingia que não se importava, mas prestava atenção em tudo que o outro fazia?
— Exato. Tipo quando você publicou aquele artigo sobre interferência emocional em processos decisórios e eu fiquei uma semana tentando achar uma crítica inteligente pra disfarçar o quanto tinha gostado.
— Você... Gostou?
— Li três vezes.
O silêncio que veio depois disso não foi constrangido. Foi cheio.
— ... — comecei, sem saber onde queria chegar.
— Eu sei.
A voz dele ficou mais baixa.
— Eu também sinto. O peso do que podia ter sido. Do que... ainda pode ser.
— Você acha que a gente teria dado certo?
Ele virou o rosto. Me olhou.
Com um daqueles olhares que dizem mais do que palavras conseguem suportar.
— A gente deu certo.
— Quando?
— Quando não tinha interferência. Quando éramos só nós dois. Com vinho barato, chão de carpete e perguntas existenciais.
Sorri. Mas dessa vez, foi um sorriso que nasceu no peito.
— E agora?
— Agora... talvez a gente tenha uma segunda chance de errar tudo de um jeito diferente.
— Isso foi bonito. E assustador.
— Então é sinal de que é real.
Nos encaramos. Por tempo demais pra ser casual.
Mas não era o momento de atravessar a linha ainda.
Não porque faltava sentimento.
Mas porque, pela primeira vez, estávamos escolhendo fazer as coisas certo.
Devagar.
Com tudo à vista.
Juntos.
Eu passei o dia inteiro escolhendo não chamar aquilo de “encontro”.
Era só um café. Um reencontro civilizado entre dois colegas. Dois adultos.
Mas quando estacionei perto da livraria-café onde combinamos, e vi já lá dentro, de camisa de linho clara, mangas dobradas, óculos de leitura pendurado na gola — com aquele ar de “pessoa que sabe muito sobre vinho e também sobre seu coração” — percebi que eu estava, sim, indo pra um encontro.
E que ele também sabia disso.
Ele se levantou quando me viu, com um sorriso leve, nada performático.
— Pontual. Tô chocadíssimo.
— Me suborna com café e veja só, eu viro até eficiente.
— Bom saber. Vou usar isso contra você num artigo.
Sentei em frente a ele. A mesa era pequena, a música ambiente suave, e pela primeira vez, percebi o quanto a ausência de contexto acadêmico deixava ... mais leve. Ou talvez só mais real.
— Então — comecei, depois do primeiro gole —, vamos estabelecer regras. Nada de falar de publicações. Nada de pós-doc. Nada de estudantes problemáticos.
— E nada de Camila.
— Nada de Camila — repeti, como um pacto silencioso. Ele assentiu. E a paz do momento se instalou de verdade.
— Eu te imaginei em cafés assim — ele disse, depois de um tempo. — Em outro país. Com livros demais e um casaco caro, ignorando pretendentes intelectualmente inferiores.
— E eu te imaginei como um daqueles caras que conquistam uma cidadezinha universitária inteira e fazem as alunas suspirarem com frases sobre sinapses.
— Injusto. Eu nem dou palestras com PowerPoint animado.
— Isso é porque você odeia se render ao apelo visual. Como se o charme fosse intelectual por padrão.
— Tá dizendo que meu charme não é?
— Tô dizendo que ele é perigoso em ambientes neutros. Tipo esse.
Ele riu. E foi um riso que me desmontou por dentro.
Ficamos em silêncio por alguns segundos. Um silêncio que não pesava. Só... ficava. Acompanhando a gente como se soubesse que essa conversa não era sobre o passado. Nem sobre promessas.
Era sobre estar ali.
Agora.
Do jeito certo.
— Eu tô nervoso — ele confessou, num tom leve demais pra ser mentira.
— Eu também. Mas não vou admitir em voz alta.
— Já admitiu. Tarde demais.
— Droga.
Ele se inclinou sobre a mesa, os braços cruzados, e me olhou de um jeito que atravessava qualquer defesa.
— , eu não sei aonde isso vai dar.
— Nem eu.
— Mas eu quero tentar.
Pausa.
— Com você. Sem pressa. Sem ruído. Sem mentiras.
— Isso é quase romântico, .
— Fico feliz que esteja começando a aceitar.
Sorrimos.
E por um instante, não éramos os dois que se desencontraram.
Éramos os dois que estavam, finalmente, se encontrando.
Depois de dois cafés, um pão de queijo dividido em silêncio cúmplice e mais sarcasmo trocado do que seria socialmente aceitável, pagou a conta sem perguntar.
— Você ainda é um cavaleiro, hein?
— Só quando o objetivo é impressionar mulheres geniais com histórico de me odiar.
— Funciona?
— Ainda tô testando a hipótese. Tenho agora um total de uma experiência.
Saímos do café com um riso leve, e começamos a andar. O dia estava fresco, o fim da tarde já derramava uma luz dourada pelas calçadas da cidade universitária. Tudo parecia suspenso num tempo paralelo, como se ali fora não existissem prazos, planilhas nem expectativas.
— Você já percebeu como os alunos piram quando a gente discorda em aula? — comentei, enquanto passávamos por uma banca fechada.
— Claro. É nosso truque secreto. A gente briga com referência bibliográfica e eles acham que é performance.
— Bom, meio que é. A gente performa o tempo todo.
Parei, olhando pra ele.
— E se isso mudar?
— Isso o quê?
— Isso aqui. — Fiz um gesto entre nós dois. — A gente. Se isso... vira outra coisa. Um “nós” mais definido. E se perde a graça? E se perde a faísca? Se os alunos perceberem que estamos... menos elétricos?
riu, mas não daquele jeito debochado.
— Você está com medo que a gente fique... Entediante?
— Eu tô com medo de perder a coisa que faz a gente ser a gente. — Suspirei. — Porque, querendo ou não, essa rivalidade nossa sempre foi parte da fórmula. A provocação, a competição... foi o que nos manteve em órbita um do outro por anos.
Ele assentiu devagar.
— Eu entendo. Mas, …
Parou.
— Você sabe o que também é parte da fórmula?
— O quê?
— O fato de que, mesmo quando a gente se provocava, você sempre me fazia querer ser melhor. Não pra te vencer. Mas pra te alcançar.
Meu peito apertou.
— Eu não sei viver em paz com você, . Nunca soube.
— Talvez a gente não precise de paz. Talvez o que a gente tenha agora seja outra coisa. —
Pausa. — Equilíbrio instável. Tipo física de partículas.
— Olha só, até romântico com analogia acadêmica.
— É o máximo que eu consigo.
— Ainda assim, impressiona.
Continuamos andando. A conversa se acalmou. Mas a tensão boa, a tensão viva, seguia ali — entre nossas mãos que quase se tocavam, entre as palavras que ainda virão.
No fundo, eu ainda tinha medo.
Mas agora... Ele também estava aqui.
Não fugindo.
Não se escondendo.
Tentando. Comigo.
E talvez fosse isso que fizesse tudo diferente.
Epílogo
O convite veio com um tom casual demais pra ser inocente.
— Se a gente continuar andando, vou te deixar na porta do prédio e me arrepender. Quer evitar isso?
Eu ri. Mas assenti.
O prédio dele ficava a duas quadras dali. Pequeno, discreto, com janelas amplas e luz morna vazando pelas frestas. O elevador antigo fez um barulho estranho quando parou no andar dele, e murmurou “isso é parte do charme”.
— Ou do perigo. — comentei, e ele sorriu.
O apartamento era exatamente o que eu imaginava.
Livros empilhados em colunas instáveis, quadros apoiados na parede ao invés de pendurados, uma luminária torta sobre a mesa de jantar. Bagunçado de um jeito acolhedor. Vivido.
Ele me ofereceu uma taça.
— Pinot noir. Em homenagem a San Diego.
Aceitei. E por alguns segundos, só bebemos em silêncio.
Eu andei até a janela, observando a rua lá embaixo. O mundo parecia suspenso.
parou ao meu lado, mas não tocou. Ainda não.
Ele sempre soube esperar o tempo certo.
— Eu pensei em você aqui — ele disse, a voz mais baixa agora. — Muitas vezes.
Me virei devagar.
— E o que você imaginava?
— Você andando pela sala e bagunçando meus livros. Reclamando da falta de cortina. Dormindo no sofá com o computador no colo.
Sorri, meio sem ar.
— Não parece muito romântico.
— Pra mim, era. Ainda é.
A taça esvaziou aos poucos. A conversa desacelerou. E quando ele encostou a mão na minha, foi como se fosse óbvio. Como se todas as camadas entre nós tivessem, finalmente, ficado transparentes.
— A gente tá mesmo fazendo isso, né? — murmurei.
— Tá.
Ele me puxou devagar.
As mãos grandes, quentes, pousaram na minha cintura com um toque firme, mas respeitoso — como quem sabe exatamente o espaço que ocupa e ainda assim pede permissão. Os dedos longos, os mesmos que já seguraram tantas canetas, apontadores e certezas acadêmicas, agora me tocavam com a delicadeza de quem não tinha mais pressa nenhuma.
Seu maxilar estava tenso. O queixo levemente erguido, como se ainda resistisse a algo. A barba por fazer arranhou suavemente minha pele quando ele se inclinou, e por um segundo, só o cheiro dele existia — uma mistura limpa, discreta, mas inconfundível. Um cheiro que, anos atrás, tinha ficado grudado na minha memória.
Os olhos castanho-escuros me encontraram de perto. Penetrantes. Atentos. Carregando a mesma intensidade de sempre, mas agora... sem armadura.
O beijo veio com a calma de quem não precisava provar mais nada.
De quem só queria estar ali.
Comigo.
Naquele momento.
Não houve pressa.
Nem presságio.
Só a confirmação de tudo que já era verdade muito antes de ser dito.
E quando ele me guiou até o sofá — com passos precisos, o corpo esguio movendo-se com aquela elegância casual de sempre —, as mãos ainda entrelaçadas às minhas, o mundo se apagou ao redor.
Ficamos ali.
Dois corpos acostumados à distância, finalmente juntos.
Silêncio.
Respiração.
Presença.
Nenhuma peça faltando.
Só nós dois.
Depois de tudo.
Agora.
As mãos na minha cintura apertaram levemente, com uma firmeza que dizia: estou aqui, mas só se você quiser que eu esteja.
E eu queria.
Queria há anos.
O toque dele era seguro. Quente. A barba bem aparada roçou na minha pele, arrancando um arrepio involuntário da minha espinha. O maxilar tenso, o lábio inferior mais cheio que o de cima, os olhos escuros e intensos... tudo nele parecia feito pra me desmontar sem esforço.
O beijo começou calmo, mas carregado — como se houvesse algo prestes a romper, mas ele ainda estivesse segurando, por nós dois.
Eu levei as mãos até o peito dele, sentindo o calor por cima da camisa leve. O coração batia rápido. Ou era o meu. Ou eram os dois.
se sentou no sofá, me puxando junto com ele — e eu fui. Naturalmente. Sem hesitar.
Me acomodei no colo dele, uma perna de cada lado, o joelho afundando suavemente na almofada, os quadris alinhados, e o corpo encaixado com precisão quase irritante.
O olhar dele subiu devagar, como se memorizasse cada ângulo meu naquele momento. A respiração quente batia no meu rosto.
Ele passou os dedos pela lateral da minha coxa, depois pelas costas, devagar, com aquele tipo de toque que acende sem invadir.
Como quem aprecia, não apressa.
— Você tem certeza disso? — ele murmurou, a voz rouca, baixa demais pra o mundo ouvir.
— Tenho certeza desde San Diego.
O segundo beijo foi mais profundo.
Menos contido.
Mais corpo, mais pele, mais verdade.
Minhas mãos se perderam nos cabelos dele — mais macios do que eu lembrava, com a textura de quem vive correndo os dedos ali por hábito. Ele inclinou o rosto, e a barba arranhou meu pescoço de leve quando desceu com a boca até a curva do maxilar.
Fechei os olhos. Respirei contra o ombro dele.
Ele me abraçou com força, e ainda assim com cuidado. O tipo de abraço que diz: você está segura.
E pela primeira vez em muito tempo, eu me senti exatamente assim.
A tensão entre nós era feita de memória, saudade e fome contida.
Mas nada era apressado.
Tudo era permitido.
Ali, no colo dele, com os corpos colados e os passados suspensos entre o calor das mãos e o silêncio da sala, eu soube que não estávamos só recomeçando.
Estávamos voltando pra casa.
