Finalizada Em: 27/05/2018
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Capítulo Único

Era engraçado. Todo dia de manhã ela entrava no ônibus com seus fones pendurados em seus ouvidos. Dava um singelo bom dia pro motorista e se sentava ao lado da janela. Hoje eu sentei no banco de trás do dela, seu cabelo tem cheiro doce. Fez meu nariz coçar um pouco, mas eu gostei. Mas hoje foi diferente.
Ela não estava no ponto esperando o ônibus, o motorista foi passando devagarzinho esperando por ela. Já estávamos chegando no próximo ponto quando olhei para trás e a vi correndo acenando para o ônibus. Gritei pro motorista parar e a vi entrar no ônibus toda ofegante. Ela não estava maquiada, e apenas deu um aceno de cabeça para o motorista; também não estava com os fones e tinha olhos vermelhos.
Minha garganta se fechou ao ver que ela se sentou ao meu lado. Ela encostou a cabeça na janela e suspirou alto. Olhei de lado e a vi enxugando os olhos e eu não podia fazer nada. Foram três meses a vendo entrar pelo ônibus e sair. Sempre entrando pela manhã meio sonolenta e depois voltando pra casa já de noite com um olhar diferente.
Ela é toda diferente. Tem sardas no rosto, pude perceber hoje. Mas ela passa algo para tampar, deve ser base. Não sei e não entendo. As sardinhas na ponta do seu nariz são tão fofas. Logo lembrei que minha mãe sempre deixa um pacote de lenço dentro da minha mochila, a abri rapidamente e estendi um lenço para ela. Ela me olhou envergonhada, mas não rejeitou.
Fomos o caminho inteiro em silêncio, até que ela se levantou e me agradeceu. E lá se foi ela embora novamente. Pelo que já descobri, ela trabalha como vendedora em uma loja de brinquedos infantis. E hoje eu tive uma ideia, ela não seria mais só a menina do ônibus. Corri até o shopping mais próximo e comprei o maior urso de pelúcia que vi. Ele era vermelho como as sardinhas em seu rosto. E com apenas um cartão mandei entregar em seu serviço.

“É quando eu olho pro seu rosto e vejo suas sardas que consigo ver sentido em algo.
Elas são tão lindas e verdadeiras, assim como o seu olhar.
Não deixe algo tirar o brilho de seus olhos.”

À noite só a vi entrar com o maior sorriso do mundo. O motorista da noite começou a rir quando a viu, ela não conseguia segurar o urso e sua bolsa. Estava completamente desajeitada presa na catraca, tentando entrar. Eu fui até ela e a auxiliei. Segurei sua bolsa preta enquanto ela dava a volta e entrava pela porta para deficientes. Todos no ônibus a olhavam e ela sorria timidamente para todos. Quando uma senhora a olhou e começou a rir.
Ela jogou a cabeça para trás e começou a gargalhar alto, se sentando no mesmo lugar de hoje de manhã, eu sentei do seu lado. Fiquei sentado a vendo rir, sua gargalhada era estridente e muito engraçada. Quando vi estava rindo com ela. Ela novamente me agradeceu e foi o caminho inteira abraçada com o mega urso quase o enforcando.
Ela tem ruguinhas nos olhos e isso é a coisa mais linda que eu já vi. Ela não tem vergonha de ser ela mesma, com seu velho all star rasgado e sua música alta. Ela é única e eu sou um bobo que a olha todo dia tentando criar coragem para lhe dizer um simples bom dia. Hoje eu tinha uma coisa diferente preparada para ela, não sei sentei no banco de ontem. Ela se sentou sozinha.
Tinha uma mulher com um menininho de seis anos no fundo do ônibus. Eu pedi para a mulher me “emprestar” seu filho. Então lhe entreguei uma rosa vermelha, com um papelzinho amarrado em seu caule. A rosa não era de um vermelho intenso, tinha algumas pétalas manchadas de rosa claro. O menino foi todo tímido até ela, a cutucou na perna e entregou a rosa. Ela o olhou intrigada e ele voltou correndo pro fundo do ônibus e pro colo de sua mãe.

”Existem várias rosas neste mundo, mas cada uma tem a sua beleza.
Quando você sorri seus olhos brilham e formam pequenos risquinhos de felicidade
em seu rosto. Não os esconda, você é linda. Você é a minha menina do ônibus.”

Ela olhou para trás tentando descobrir quem poderia ter lhe dado a rosa, mas eu continuei sentado nos fundos, escondido por um cara bem grande. Quando ela desceu do ônibus ela não saiu andando, ficou parada olhando pra dentro do mesmo. Eu a olhei e sorri. Ela sorriu de volta. Isso era tudo pra mim.
Hoje eu pedi pro motorista entregar para ela um brigadeiro. Apenas um brigadeiro, dentro de uma caixinha, com uma fita vermelha e mais nada. E hoje ela estava mais sorridente. Seus olhos brilhavam mais e suas pernas não paravam quietas. Continuei sentado no fundo do ônibus e a deixei lá na frente. Ela desceu e se foi.
No quarto dia ela recebeu uma carta em seu serviço.

“Eu preciso descobrir seu nome. Escreva-o aqui e devolva o cartão.”

, seu nome era . Comecei a rir quando recebi de volta o cartão, isso significava que existia uma esperança. Que ela seria minha.
No quinto dia a entreguei uma pulseira de prata com uma única estrela. E um endereço. Era sábado. Eu estava no parque a meia hora, mais suado e nervoso do que tudo. Tinha estendido um tecido vermelho na grama e andava de um lado para o outro.

“Cada um tem sua estrela favorita. Aquela que sempre brilhará mais, você é a minha estrela.
Seus olhos, suas ruguinhas, suas sardas, seu sorriso, seu andar.
Estou apaixonado por todas essas pequenas coisas.”

Ela não apareceria. Deitei no pano e fechei meus olhos. Talvez ela achasse que eu fosse um louco e não iria se arriscar. Aliás eu poderia muito bem ser um serial killer ou um maníaco do parque. Por que não? E ela é uma menina inteligente, não iria se arriscar assim.
- Eu sabia que era você! – Abri os olhos lentamente e a vi sorrindo pra mim. Ela usava um vestido preto bem soltinho, seus cabelos estavam soltos e dançavam com o vento. Ela estava tão linda. O sol batia em seu rosto e dava para ver suas sardas bem intensamente. Me levantei, meio tonto ainda, eu não acreditava que ela tinha vindo.
Fiquei frente a frente com ela e não consegui falar nada. Apenas peguei em sua mão direita e a beijei. Ela riu. Ela riu e me abraçou. E a partir deste dia eu sabia que meu único objetivo era fazê-la feliz. E eu faria isso mesmo que gastasse todas as minhas energias.


****


O diário se encerrava assim. Desci as escadas do sótão lentamente e fui até a sala onde minha avó estava sentada na poltrona ouvindo música.
- Vovó?
- Sim, querida.
- Eu achei isso no sótão. – Estendi o diário velho para ela. – A senhora sabe de quem é? – Ela pegou o diário e respirou fundo.
- “E a partir deste dia eu sabia que meu único objetivo era fazê-la feliz. E eu faria isso mesmo que gastasse todas minhas energias.” – Ela leu a última frase com um sorriso nos lábios. - E ele me fez feliz até os seus últimos dias, minha querida. Hoje ainda sou feliz só de lembrar que o tive em minha vida.
Minha avó se levantou da poltrona. Deu um beijo em minha testa e foi até o seu quarto. E nesta noite ela se uniu a ele. Durante todos os sessenta anos de casados eu nunca vi a minha avó chorar, ela sempre foi a menina da risada engraçada e das ruguinhas nos olhos.



Fim.



Nota da autora: Essa é uma fanfic bem curtinha que eu escrevi em 2013, foi num “passeio” diário de ônibus que eu comecei a me perguntar no que escreveria que me surgiu essa ideia. Eu espero que você tenha gostado e que um dia você possa ser a menina do ônibus para o seu amor. <3





Outras Fanfics:
Shorfics
» Roses [Outros/Finalizada]

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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