Última atualização: 05/11/2018

Capítulo 16

Cause life's not easy I'm not made out of steel.
- I'll show you, Justin Bieber.


Uma casa de boneca. Era como eu definiria o imóvel a minha frente, a começar pelo jardim. Uma curta cerca florida delimitava a frente da casa para a rua; o jardim parecia ter saído um filme onde as diversas flores davam um toque de cor a mais na paisagem. O caminho de pedras dava ligação a entrada da casa, onde uma enorme porta vermelha definia sua entrada, dando destaque entre o branco das paredes externas. A casa não era nem tão grande, porém nem tão pequena, era mediana em si, possuindo dois andares e pelo que pude perceber, provavelmente um sótão. As duas laterais davam ligação aos fundos que comparando as outas casas, tinha um bom terreno. terminava de retirar as malas do porta mala do carro, enquanto eu ainda admirava todo aquele local. A rua era tomada por árvores e a vizinhança parecia ser bem agradável. A brisa era intensa e o balançar das folhas dava uma leve calmaria.
– Eu aceito uma ajuda sim, . Obrigada por vir me ajudar. – ouvi a ironia de atrás de mim e logo me virei, o vendo me encarar com um de seus cotovelos apoiado no fundo da caminhonete, enquanto me lançava seu melhor olhar de escarnio.
– Que bom que você aprendeu a ler mentes, pena que sua leitura foi um pouco errada. – me aproximei dele, vendo-o revirar os olhos. Após retirar todas as malas e trancar o carro, parei novamente em frente à casa sentindo um pequeno incomodo em meu estômago. Eu não gostava de mudanças, já havia me acostumado com a Casa Branca e ter que me mudar novamente era como enfrentar o primeiro dia de aula, mas pelo menos, daquela vez, eu tinha meu melhor amigo ao meu lado.
– Adeus banheira, cama de casal extra grande, travesseiros de seda, internet rápida, banquete no café da manhã, almoço e jantar... E até os lanches da madrugada. – resmungava em um tom de choro misturado com drama, parado ao meu lado e observando a casa igual a mim. – Acho que vou me candidatar à presidência para viver naquele paraíso que eles chamam de casa.
– Lembre-me de não votar em você.
– Por que? Está duvidando da minha capacidade de governar? – ele perguntou, indignado.
– Você mal governa sua vida, quanto mais vai ter capacidade de governar um país! – vi abrir e fechar a boca algumas vezes, tentando formular alguma frase que colocasse o meu comentário no chão, mas logo ele se deu por vencido e resolveu ficar calado, demonstrando ainda sim sua indignação.
O carro preto não demorou muito de chegar e parar um pouco atrás do nosso ao longo da calçada. Assim que estacionou, saiu de um lado, enquanto saiu do outro, trajando o mesmo estilo de roupa, com óculos escuro, porém tendo a única diferença as cores do boné e das blusas. Se ambos tinham personalidade diferentes, o modo de sair do carro era igual.
– Espera que dei meu cérebro deu um bug aqui... – comentou, os encarando de longe. – Desde quando eles usam a mesma roupa e a pergunta que não quer calar: Quem é quem? – olhei novamente, vendo-os de costa e pegando a mala que Jax, o motorista, retirava e entregava a ambos.
é o da esquerda e é o da direita. – comentei, mas fez um barulho de negação com a boca, e apontou na cara dura para eles.
é o da esquerda e é o da direita. – disse convicto.
– Não, eu tenho... Espera, não sei... Mas... – bem, estava realmente complicado, principalmente pelo fato de não ter raspado muito o cabelo como ele fazia antes.
– Ainda bem que são dois, imagine se fossem três? – disse por fim, e ri do seu comentário.
– Será que eles estão tentando fazer igual aquele filme com a Lindsay Lohan, que eram gêmeas e uma troca de lugar com a outra?
– Aquele filme que toda vez que iriamos fazer maratona, você insistia em assistir dizendo que seria a última vez que assistíamos?
– Esse mesmo, operação cúpido!
– Espero que não, mas se estiverem, vamos saber logo, logo quem é quem. O que vier falar com você educadamente é o , e o que te encarar com um olhar mortal, é o . Quer apostar? Um lanche completo no In-N-Out.
– Tudo bem... da esquerda e da direita. – respondi confiante, observando dar uma risada bem sarcástica como se ele fosse ganhar.
Qual é, eu tinha mais tempo convivendo com os dois, sabia muito bem diferenciá-los. queria apostar algo que com certeza sabia que iria perder.
– Que a sorte esteja ao seu favor, gata. – quando percebemos que os mesmos estavam se virando em nossa direção, voltamos a atenção rapidamente a casa, iniciando uma conversa nada a ver não passar a impressão de que estávamos falando deles.
Os dois caminharam em lados diferentes do carro, se aproximando de nós. e eu dávamos algumas olhadas de soslaio, observando a movimentação.
– Retiraram tudo da mala? – o que estava à direita questionou, parando um pouco próximo a mim, enquanto o outro mantinha a atenção na casa, com as mãos no bolso.
Assenti com a cabeça, recebendo em troca um sorriso singelo em troca. Disfarçadamente, dei uma cutucada em , indicando de que eu havia ganhado, mas o mesmo, sem querer acreditar, resolveu descobrir logo quem era quem.
. – chamou do nada, vendo o que estava mais próximo a casa virar em sua direção, tornando minha feição de vencedora para uma bem confusa e pasma. Então se era o que estava observando a casa, quem estava ao meu lado era ? Como assim? O olhei rapidamente, desviando logo em seguida para meu amigo que exibia seu melhor sorriso vitorioso. – Vai se mudar para cá também? – continuou.
– Não, só aproveitei para fazer uma visita. – respondeu curtamente e iniciando sua caminhada até a casa. ajeitou a postura e seguiu o irmão.
– Três conclusões e uma suposição: estou muito confuso com o que acabou de acontecer, eu odeio gêmeos, estou muito feliz porque terei um lanche completo na minha lanchonete favorita, e acho que estamos em um mundo paralelo. – meu amigo disse, antes de pegar as malas e seguir os dois.
Dei uma forte fungada e indignada, peguei minhas malas e sai puxando-as para dentro da casa. Como assim eu havia errado? Não era possível, eles estavam me enganado, com certeza estavam. E por que não havia falado comigo? Desde o dia do ocorrido no corredor ele havia mudado comigo, não sabia se ele estava chateado ou minhas palavras tinham o magoado, entretanto, eu não havia feito por mal. Quando surgisse uma chance, o puxaria para ter uma rápida conversa e esclarecer as coisas. , que estava na frente, tocou a campainha e se afastou um pouco da porta, não demorou muito para uma linda moça atender e esbanjar um belo sorriso de surpresa. Ela lembrava muito os meninos, os traços, o sorriso... Seu cabelo estava em um rabo de cavalo baixo com alguns fios sobre seu rosto, como se estivesse acabado de arrumar a casa. Suas vestimentas eram simples, comparadas ao que eu era acostumada a ver na Casa Branca. Apenas uma blusa simples rosa, moletom marrom escuro e uma calça, que não chegava a ser jeans e que batia abaixo dos seus joelhos, da mesma tonalidade que o casaco. Uma pantufa nos pés lhe dava conforto. Sua expressão ao ver os dois filhos foi encantadora e parecia que havia a pegado de surpresa.
– Meninos! – ela exclamou contente, partindo para abraça-los ao mesmo tempo. – Que saudade de vocês... – sua estatura era um pouco baixa do que as deles, deixando-a um pouco sem jeito para abraçar. Após o longo abraço, seu olhar logo foi de encontro a e eu, que esbanjávamos um sorriso tímido. Afastando-se um pouco deles e mantendo o sorriso no rosto, ela tinha um jeito simpático de ser, bem diferente do que já havia visto na TV, onde a mesma tinha sempre uma postura séria. – Entrem.
O interior da casa era amplo e aconchegante. Uma sala com uma lareira, cozinha, uma escada que dava para o andar de cima e uma porta que levava aos fundos. Alguns brinquedos se encontravam espalhados pelo chão e estavam por toda casa. A mãe dos meninos recolhia para que pudessem passar sem se esbarrar neles, enquanto pedia desculpas pela bagunça. Eu ainda olhava admirada pela pequena casa organizada que ela tinha, mas toda minha atenção se voltou quando ouvi uma fina voz sair de um dos cantos da sala em forma de alegria, chamando o nome de .
! – a pequena garotinha que ainda falava com um pouco de dificuldade foi correndo em direção a ele, que não hesitou em abaixar e aconchegá-la em um abraço.
– Oi, Cookie. Estava com saudades de mim? – a pequena menina assentiu sem jeito, quando percebeu que havia mais pessoas no local. Sua atenção se voltou para , que sem jeito, se aproximou.
– Não recebo um abraço? – ele questionou.
A garotinha ainda parecia estar indecisa se iria até ele ou não, mas logo se aproximou, dando-lhe um abraço sem jeito. Ao se afastar, seus olhos pairaram sobre mim e , mas logo eles se fixaram no meu amigo que tentava demonstrar simpatia com um leve sorriso.
– Que falta de educação minha, nem me apresentei. Helena Tate. – a mulher ergueu a mão em forma de cumprimento e a retribui.
, e esse é . É um prazer em conhecê-la, ouvimos falar bem sobre sua pessoa.
– O prazer é meu. Elliot me avisou que vocês viriam, então preparei um quarto lá em cima, espero que não se importem com a casa, é pequena, mas tento deixa-la o mais aconchegante.
– Agradecemos pela hospedagem, e não se importe com isso, a casa é muito bonita. – o sorriso de Helena era algo tímido, mas ao mesmo tempo demonstrava uma gratidão. Ela era com certeza o oposto que via na TV, quer dizer, até aquele momento ela estava sendo. Simpática, gentil e com uma leve timidez, sua postura séria realmente havia ficado somente em frente às câmeras.
– Bem, preparei alguns biscoitos...
– Eba!! – a pequena deu um grito de felicidade, erguendo as mãos para cima, chamando a atenção de todos que riam em meio a sua atitude. Percebendo o olhar de todos sobre si, ela encolheu-se um pouco perto de que apenas pôs uma das mãos sobre a cabeça dela.
– Enquanto isso. – continuou Helena. – Podem subir com as malas e se acomodar, se precisarem de qualquer coisa, basta me gritar. Luna, poderia mostrar a e o quarto deles? – rapidamente ela seguiu caminho até a escada, subindo os degraus cuidadosamente, apoiando suas mãos no corredor.
O andar superior era apenas tomado por portas. Umas cinco ao total. seguiu caminho a uma no final do corredor, enquanto e eu seguíamos Luna que entrou no segundo à esquerda. Maior do que meu antigo ele não era, mas seu tamanho era relativamente bem para ser bem aconchegante. O marrom claro dava cor as paredes onde o branco do teto de sobressaia. A frente, um pouco longe, uma janela dava vista a vizinhança, e a sua direita havia uma porta, assim como a sua esquerda. Uma delas com certeza era o banheiro e a outra o closet, bastava agora descobrir qual. Um pouco mais para perto da porta de entrada, a esquerda, se encontrava uma cama de casal bem espaçosa com um lençol floral, e a sua frente, pregada na parede, havia a tão sonhada TV que admirava pelo tamanho.
– Por que não temos algo desse tipo em sua casa? – ele perguntou, se jogando na cama.
– Porque não tenho dinheiro a ponto de comprar algo desse tamanho e seria desnecessário, já que ninguém lá em casa assiste tanta televisão.
– Eu assisto.
– Você não mora lá.
– Sua mãe sempre me mandava me sentir em casa.
– Você se sentia até demais, .
– Como se você não gostasse... – revirei os olhos e olhei para Luna, que observava quietamente nosso bate boca.
– Obrigada por nos mostrar o quarto, Luna. Diga a sua mãe que em poucos minutos descemos, ok? – ela assentiu, e pela minha surpresa, suas palavras soaram sem tanta timidez.
– N-não demora, por-porque eu co-omo muito bisc-coito. – não consegui segurar meu sorriso em meio ao seu aviso.
Ela era fofa, seus olhos eram mais claros do que os dos meninos, o que lembrava muito o olhar de Elliot, seu pai. O cabelo era mais claro e estava preso em dois coques, onde suas presilhas e fita de cabelo combinavam com seu pijama de bolinhas vermelho. Suas bochechas eram bem cheias e dava vontade de apertar.
– Pode deixar, agora vou te dar uma dica. – me aproximei dela, agachando-me em seguida. – Toma cuidado com , ele é um monstro de biscoitos. – disse em um breve sussurro fazendo-a rir e olhar para que soltou um “ei” de reprovação. Quando Luna saiu, fechei a porta do quarto e me permitir me jogar na cama, especificamente em cima de .
– Eu odeio quando você faz isso... – disse ele, retirando minhas mãos de seu corpo. – Temos um problema.
– Qual?
– Essa cama não dá para nós dois.
– Claro que dá, olha o tamanho disso, foi feito para duas pessoas e olha lá se não cabe três.
– Duas pessoas sim, mas pessoas que dormem civilizadamente e que não empurram o outro para fora da cama.
– Está insinuando que eu não durmo civilizadamente?
– Estou, da última vez que dormimos juntos eu acordei no chão, no frio, quase tendo uma hipotermia.
– Isso foi há cinco anos atrás, , eu com certeza melhorei.
– Não quero arriscar...
– Mas vai ter, a não ser que você durma no sofá, sem sua televisão. – intercalou o olhar sobre mim e a TV por alguns segundos, até retornar à atenção pra mim, semicerrando seu olhar.
– Praga... – disse rosnando.
– Eu sei que você me ama. – soltei um beijo no ar para ele. – Temos que enviar um relatório ao meu pai informando da mudança com as localizações corretas e de como iremos agir nessa nova fase.
– Eu melhorei o sistema de envio, depois das mensagens que você recebeu com as localizações falsas do naquela festa, fiquei com receio do que esse ou essa hacker pode fazer. Sobre a proteção do outro lá, como a casa é pequena, provavelmente iremos encontrar com ele a cada minuto, a não ser que ele resolva morar eternamente no quarto dele. Antes de vir, solicitei a Firefly alguns equipamentos de segurança e irei conversar com Helena para ver se ela permite a instalação.
– Não são equipamentos chamativos, né?
– Não, são micro câmeras. – ele abriu sua maleta, retirando pequena caixa onde possuía pequenos discos com um ponto vermelho no meio. – Elas emitem um sinal quando alguém se aproxima da casa, mandando todas as informações para esse pequeno tablet onde daqui, eu consigo ter uma noção do que está acontecendo. – assenti com a cabeça, mas não demonstrei muito entusiasmo, pelo contrário, estava um pouco mais preocupada do que o normal. Tecnologia não estava sendo um meio útil de proteção e a ação do hacker ainda me preocupava. Se ele ou ela foi capaz de burlar celulares e ainda o celular do , imaginava o que esse ser poderia fazer com aqueles aparelhos. – Que cara é essa de que comeu algo e não gostou?
– Não sei, ... Estou meio que... Sei lá. – deitei-me novamente na cama, acertando minha posição e dando espaço para que ele deitasse ao meu lado, pondo a maleta do lado da cama.
– Explique o “sei lá”.
– Eu já estava tensa com tudo isso, principalmente lá na Casa Branca, que é enorme. Tinha segurança? Tinha, mas me senti muito responsável por tudo. Quando vi as coisas acontecendo, como da vez em que o caiu do cavalo, fiquei meio em choque, como se a realidade estivesse voltando. Tentei não me desesperar... Quando você chegou, fiquei mais aliviada porque sabia que tinha meu braço direito ao meu lado, estávamos indo bem, mas depois do dia da audiência, quando estive presa no quarto de limpeza com , eu quase tive um ataque de pânico. Naquele momento, eu só queria ir para casa, tirar tudo isso de cima de mim, toda essa responsabilidade, mas depois comecei a pensar que antes de tudo, eu precisava resolver aquela situação, então fui acalmando o meu eu interior. Quando o presidente nos contou sobre a mudança, eu achei até boa, pensei que seria mais fácil por conta do tamanho da casa, vizinhança... Mas depois que cheguei aqui, comecei a pensar: não estaremos mais cuidando só do e sim da mãe dele e da irmã. Pensa se alguém descobre onde ele está e resolve fazer algum mal a eles? Eu só tenho vinte anos, nem vivi minha vida e estou tendo que viver para proteger os outros, isso é uma merda! – botar aquelas palavras para fora havia me aliviado um pouco, mas não tanto, o que eu precisava mesmo era de ouvir umas boas palavras, mas deixou um silêncio se instalar entre nós. Não poderia o culpar se ele não tivesse o conselho certo, era um desabafo, ninguém era obrigado a comentar. Dei um forte suspiro, fechando meus olhos e tentando fazer daquele momento, um momento de paz e sossego, não saberia quando o teria novamente.
deu um forte suspiro, e se ajeitou na cama, encarando o teto.
– Sabe por que eu decidi não enfrentar meus pais depois da decisão de me inscreverem para a Firefly? – abri os olhos e o encarei, negando com a cabeça em seguida. – Porque eu sabia que ali, eu iria aprender alguma coisa, um algo mais que as pessoas não teriam a chance de aprender, e também porque eu sabia que teria você ao meu lado, então comecei a pensar nas diversas aventuras que teríamos. Claro que nenhuma se resume a essa que estamos tendo, todas envolviam mais tiros, ação, perseguição... – comecei a rir com suas palavras, assim como ele. – Por mais que tudo isso não tenha acontecido tanto, e agora eu desejo que não aconteça, porque não estou em forma, acabei aprendendo muitas outras coisas, como computação, autodefesa... E assim como eu, você também aprendeu... Se seu pai te colocou aqui, é porque ele sabe que você é capaz, se eu aceitei essa missão, é porque eu sei que você é capaz, não quero te colocar pressão, o que eu quero te dizer é que você precisa acreditar mais em si mesmo e dar o seu melhor. Sei que gostaria de ter uma vida mais leve, um dia você terá isso, mas agora, aproveita isso aqui, sua vida é diferente, e se for pra ter que proteger três, faremos isso juntos, como uma equipe. – se tinha uma coisa que eu amava nele, eram suas palavras. sabia como me acalmar, sabia o que falar, o que fazer, tudo bem, o que fazer nem sempre, mas era bom tê-lo ao meu lado. Virei-me para o encarar, e logo o abracei pela barriga, enquanto ele me envolveu em um abraço e descansei minha cabeça em seu peitoral.
– Eu te amo tanto. – falei, o apertando mais.
– Também te amo, mas não sou seu urso de pelúcia para você ficar me apertando! – seus dedos começaram a caminhar em minha barriga e logo uma sensação de cocegas iniciou, fazendo-me afastar dele.
– Idiota! Vamos descer, estou com fome. – ele assentiu, entretanto, ao levantarmos, seu celular fez um bip de mensagem, o que me fez estremecer por dentro. Ok, não podia pegar trauma de bip’s. Mas aliviei-me quando vi seu sorriso se alargar com seus olhos ainda fixos na tela.
Por que ele estava sorriso?
Por que... Ah, não.
, o que foi?
– Pode indo na frente, vou só responder uma pessoa... – revirei os olhos já sabendo de qual pessoa se tratava.
Melissa.
Melissa...
Por que as pessoas tinham que ressurgir bem nos momentos complicados? Se fosse para resolver os problemas, que fosse um de vez e não tudo ao mesmo tempo.
Apenas me retirei do quarto, batendo a porta atrás de mim. Eu não poderia impedir de que ele não falasse com ela, já havia o avisado da situação, se não queria me ouvir, não podia fazer nada. Quando desci as escadas, minha primeira vista foi de , ainda sentado no sofá, mexendo em seu celular. Por conta do piso de madeira das escadas, o rangido fez com que ele despertasse sua atenção e voltasse-a sobre mim. Apenas dei um sorriso amigável, sem mostrar os dentes, na tentativa de passar por ele, mas o mesmo já havia levantado e ido em minha direção.
– Posso falar com você? – ele questionou e sem alternativas, assenti. E ali se iniciava mais um problema.
Problemas 3 x 0.
Fomos caminhando através do jardim da frente para o quintal da casa, onde uma grande área verde dava uma sensação de calmaria. O vento estava gélido, o que me fez pôr minhas mãos no bolso do moletom que eu usava, já , não demonstrava se preocupar com o frio, também, aquela jaqueta deveria esquentar bastante. Ele não havia dito nada, apenas continuava andando ao meu lado para um caminho que sei lá onde iria parar, sendo assim, aproveitei a brecha e iniciei aquela conversa.
– Você veio por saudades, porque quis ou foi forçado?
– Os três.
– Três? – seu forte suspiro deu a entender que a coisa não era tão simples quanto imaginava. Ele parou em um instante, indicando com a cabeça um pequeno banco que havia ali. Nos aproximamos e sentamos, e só ali ele se deu ao luxo de retirar os óculos de sol.
– Estava com saudades delas, eu quis vir por isso, mas fui forçado pelo meu pai, pois de última hora estava quase desistindo.
– Por quê?
– Não sei se você percebeu, mas Luna não é tão chegada a mim, sinto-me como um estranho aqui.
– Você já tentou fazer algo para se aproximar dela? Como visitá-la sempre que dá ou até mesmo ligar? – ele negou com a cabeça.
, minha mãe e eu nos afastamos, o tempo que você esteve lá em cima, ela entrou na cozinha e não saiu mais de lá. Luna passou por mim, mas não falou nada, por essas e outras prefiro não vir.
– Se você continuar pensando assim, ai sim que não irá conseguir nada delas. Você tem que vencer essa barreira, saber perdoar, tentar...
– Ela não nos apoiou.
– Claro que apoiou! Eu sempre via sua mãe ao lado do seu pai, principalmente na candidatura dele.
– Você não sabe das coisas...
– Sei das coisas que eu vejo, mas ficaria grata se me contasse.
– É uma longa história...
– Tenho todo tempo do mundo. – o encarei, cruzando os braços e as pernas. – Estou ouvindo.
... É complicado.
– Complicado foi ter que ouvir o debate que você teve com seu pai e seu irmão. – rapidamente ergueu a sobrancelha como se não tivesse entendido e em momento, me arrependi amargamente de ter falado aquilo. Merda, teria que explicar a situação.
Merda, , merda!
Controla a boca!
Controla os pensamentos!
– Qual foi seu real motivo para ter me chamado aqui? – questionei na mesma pose e rezando para que ele mudasse de assunto. parecia se sentir incomodado, ajeitou-se no banco, e esticou as pernas.
– Senti que nos afastamos.
– Como assim? – me fiz de desentendida, mas sim, havíamos nos afastado, mas queria saber se ele falaria os reais motivos dele ter se afastado.
– Não nos falamos mais, não saímos mais, não tivemos nenhum outro encontro... – ele me encarou e logo saquei a dele. O beijo.
– Você não parava em casa e eu tinha que fazer o meu trabalho.
– Ficar de olho no . – ele revirou os olhos após dizer aquilo. Pronto, iria começar novamente.
– Você sabe que é o meu trabalho, não posso sair disso, mas eu tive tempo livre na semana antes da mudança.
– Você estava chateada comigo, o modo de como você falou comigo após o debate que tive com meu pai e meu irmão. – senti a indireta sim. – Também me chateei, mas decidi não levar a sério. Gosto de você, acho que sabe disso. – por um minuto, senti minha garganta ficar seca, e meu corpo se enrijecer.
Gostar? Como assim gostava de mim? Que modo esse gostar significava? Qual dos significados ele pertencia?
– Gosta? Como assim? – falei, tentando não falhar a voz.
– Gosto... Te acho legal, interessante, atrativa... Te vejo como amiga, mas gostaria de te conhecer melhor, como já te disse, sair mais, voltar a marcar algumas coisas... – a verdade era que eu sentia uma pequena saudade de sair com ele.
Sim, eu sentia, das vezes que saímos foi divertido, foi uma experiência boa, mas depois comecei a não ter mais tempo, ele também, e quando voltamos a nos ver, foi através de uma situação desagradável. O fato era que eu me sentia confusa, sabia que eu tinha uma atração por ele, como qualquer garota costumava ter quando via aquele cara maravilhoso na rua e logo ele se tornava um “crush”, uma pessoa na qual a pessoa gostaria de conhecer mais, beijar, porém não sentia muita coisa. Fiquei com medo no início dele passar a gostar mais de mim, mas depois acabei esquecendo daquela ideia, porém ela havia voltado. Acabei me despertando dos meus pensamentos, quando senti seu leve toque em meu rosto e percebi que o mesmo colocava uma mecha do meu cabelo para atrás da minha orelha. Sua aproximação foi lenta, mas o roncar da minha barriga acabou me despertando e quando me dei por mim, pus minha mão em seu peitoral e me afastei sem jeito.
– Podemos marcar um dia sim, me diz o melhor dia e a gente marca. Peço para ficar de olho no seu irmão. – ele riu, se afastando.
– Não sei se seu amigo irá ficar contente, mas tudo bem.
– Ele não ficará, porém dou meu jeito. Mas agora vamos entrar antes que minha fome ataque meu estômago de tão forte que está.
Assim que adentramos, já estava posicionado a mesa conversando com Helena sobre um assunto que não entendi muito bem, enquanto Luna comia os biscoitos fazendo uma falha proteção com o braço esquerdo e encarando . Acho que ela avia levado a sério quando eu disse sobre ser monstros de biscoitos. Uma cesta cheia do alimento estava posicionada no centro da mesa e alguns pratos estavam espalhados sobre o local. Helena assim que nos viu, fez um movimento com as mãos para que nos sentássemos. No mesmo instante, entrou na cozinha mexendo em seu celular, entretanto, antes de se sentar ao lado de Luna, o mesmo deu uma breve lançada de olhar em mim e , que estávamos próximos, e logo após se aconchegou ao lado da irmã, roubando um dos seus biscoitos e recebendo um tapa dela. Podia dizer com toda certeza de que aquela tarde foi uma das mais tranquilas que tive durante o tempo que estava naquela missão. Helena e eu iniciamos um papo onde ela me contava mais sobre sua vida, sem muitos detalhes. Explicou-me um pouco de como estava indo com o trabalho e arquiteta e como fazia para conciliar o trabalho e Luna. e divertia com Luna, brincando com os biscoitos em forma de animais. , por incrível que parecesse, às vezes se juntava a ambos, já que a pequena garotinha tudo queria mostrar a ele. tentava fazer o mesmo, só que com sua mãe. Opinava em certos momentos em nossa conversa, realmente era um dia para se glorificar. Quando avisou que teria que ir, Helena o acompanhou até a porta, porém educadamente, ele lançou um aceno de mão para e , que retribuíram do mesmo modo, depositou um beijo sereno na cabeça de Luna e deu-me um abraço, já que eu estava em pé, seguido de um beijo na testa.
– Obrigada pela conversa. – ele sussurrou em meus ouvidos.
– Sempre que precisar, estarei aqui. – o respondi no mesmo tom antes dele se afastar e seguir em direção a porta junto a Helena.
Quando meus olhos retornaram à cozinha, pude perceber um par de olhos me encarando inexpressivamente, porém sua atenção logo se fixou no celular após um bip, assim como ocorreu com meu celular. Um temor se iniciou em mim e cuidadosamente, peguei o aparelho em mãos checando a nova mensagem e instantaneamente, olhei para que também me encarava com seu celular em mãos.

“Uma emoção após a outra. Preparados para a próxima?”



Capítulo 17

Aprendi há muito tempo, que quando você acha algo pelo qual vale à pena lutar, você nunca desiste.
- Once Upon A Time.


Quando recebi a missão de que teria que proteger , logo a imagem do garoto rebelde e sem lei veio em minha mente. As notícias mostrando suas atitudes diante a sociedade demonstrava a de um garoto que realmente não se importava com nada e que possuía um gelo no lugar do coração. Quando o conheci, diante de sua atitude rude e grotesca, logo imaginei o quanto a mídia estava certa, mas com o tempo, fui entendendo o significado da frase “Ninguém se acostuma a morar no inferno, muito menos conviver nele.”; no início não havia levado a sério, mas com o tempo, fui percebendo o quanto problemático sua vida havia se tornado e que ele era só mais uma peça perdida em um jogo chamado consequência. Ainda não sabia se estava enganada sobre quem realmente ele era e qual ato causou sua consequência, entretanto, eu teria muitos dias para desvendar, porém a primeira pista de que sim, eu poderia estar enganada, foi quando vi preocupação no seu olhar.
Preocupação era um modo de amar e claramente demonstrou o amor.
Sete minutos, para ser exato, que eu estava em seu quarto, com a cortina e porta fechada, o encarando sentado na cama, com suas mãos grudadas e seu olhar cabisbaixo. O balançar dos seus pés já estava me dando agonia, mas eu sabia que se eu falasse algo, em seu estado, ele poderia ser mais rude do que já era, e eu não estava com paciência para aturar mais nada. Estava encostada na parede de frente para ele com os meus braços cruzados e esperando o exato momento em que ele explicaria o porquê havia me chamado em plena sete da manhã para seu cômodo. Minha curiosidade me consumia, mas tentava não demonstrar, entretanto, minha paciência não era de ferro.
– A pessoa sabe que estamos aqui, não sabe? – ele questionou sem tirar o olhar do chão.
– Não, chegamos aqui sem deixar rastros.
– Nós recebemos a mensagem, ! – sua voz já estava um pouco pesada, mas ele tentava manter a calma. – Claro que sabe.
– Se souber, não terá como ele ou ela fazer nada. conversou com sua mãe ontem e já instalou as câmeras de segurança por toda casa, você está mais seguro do que seu pai.
– Eu não me importo com minha segurança e sim com a segurança delas! – certamente ele estava falando de Helena e Luna. Ajeitei-me melhor, ainda o encarando e prestando atenção em suas palavras. Era a primeira vez que via se preocupando de verdade com alguém. – Eu não queria vir para cá, não quero coloca-las nessa situação...
, não vai acontecer nada. Eu digo e repito, e eu estamos aqui, somos preparados para isso e coisas piores... – seu olhar preocupado pesou sobre mim. – Não que eu esteja falando que irá ocorrer algo pior. – tratei de explicar, não queria enfartar o garoto logo ali. – O que estou falando é para você ter um pingo de confiança.
– E depois vocês fugirem?
– Quem disse que irei fugir, garoto?
– É o que todos falam... – balançou a cabeça negando. Afastei-me da parede e pisei forte no chão, o chamando a atenção.
– Como diz minha mãe, eu não sou todo mundo... – com um sorriso sarcástico no rosto, senti o olhar de percorrer por todo meu corpo e em seguida, o vi levantar, ficando próximo a mim.
– Se é assim... Me ensine a atirar. – ok, no primeiro momento minha feição foi de total surpresa. Arqueei a sobrancelha me questionando se realmente havia ouvido aquilo, e quando percebi sua feição ainda séria, não me contive e comecei a rir. – Ah, ótimo, você está rindo. – disse ele, revirando os olhos.
– Não estou... – fechei a boca para conter o riso, mas foi em vão. Merda, aquilo soava engraçado. , querendo aprender a atirar?
– Você fala para eu ter confiança em você, te peço um favor que precisa de confiança e recebo risos como resposta, muito profissional você. – e em um modo totalmente irritado e irado, ele se dirigiu a porta, mas fui mais rápida e o segurei pelo braço.
– Espera, desculpa, é que vendo você me pedindo um favor soa como algo muito novo, mas por que isso?
– Não quero me sentir indefeso, principalmente aqui. – ele se aproximou, soltando um suspiro pesado e deixando sua voz sair como um sussurro. – , se algo acontecer com minha mãe, principalmente com Luna, eu não sei o que faço. Se essa pessoa fizer algo com elas, eu juro que faço a justiça com minhas próprias mãos e aí sim o governo terá razões para me prender.

[...]

– Olha só quem resolveu aparecer, se não é a famosa Lilica. – avistei Daniel há poucos metros de onde havia estacionado o carro, caminhando em nossa direção. Apressei os passos indo ao seu encontro e lhe dando um forte abraço. E como era de se esperar, Daniel me tirou do chão me apertando mais ainda. – Nossa, você cresceu, nem dá mais para te tirar direito do chão.
– E você continua o mesmo, até mesmo nos abraços. – falei um pouco com dificuldade. – Ok, pode me pôr no chão, também estava com saudades, mas preciso respirar para continuar viva. – e dando sua bela risada alta, ele me pôs no chão, bagunçando meu cabelo logo em seguida. – Quanto tempo, hein?
– Pois é, pensei que tivesse separado de sua tia e não de vocês. Seu pai só fala por telefone comigo, não sei por que aquele velho não toma vergonha na cara e compra uma passagem de avião para vir me visitar.
– Ele só vive pelo trabalho, Dan... Sabe como ele é. Mas e você, como está?
– Estou bem, cuidando das coisas por aqui, vivendo a cada dia... Estou noivo novamente, sabia? – ele disse, mostrando o belo anel de prata em seu dedo. Esbanjei um sorriso largo, o abraçando novamente e desejando felicidades. Mal acreditava que após 5 anos ele estaria se casando novamente. – Seu pai não te disse sobre o noivado? – neguei com a cabeça. – Ah, aquele velho... Eu ainda disse que era para contar a você e seu irmão... E que por falar nele, como Alex está?
– Creio que bem, tem um bom tempo que não entro em contato com ele, infelizmente. Nossas agendas andam ocupadas e sem tempo para telefonemas.
– Sendo agora uma de nós, tempo é o que você menos terá, Lilica. – revirei os olhos, fazendo cara feia para ele. Não acreditava que ele ainda lembrava daquele maldito apelido, tantas coisas para que ele pudesse recordar, mas era sempre o apelido.
– E Rachel e Vicky, como reagiram ao casamento? – vi seu longo suspiro e um olhar de preocupação surgir em seus olhos. Coisa boa ali não tinha.
– Rachel ficou contente, disse que está feliz por eu ter me permitido encontrar um novo alguém, já Vicky... Não te garanto a melhor felicidade, mas aceitou... Ela virá aqui semana que vem.
– Filhos acabam sendo mais difíceis de aceitar que os pais encontrem um novo amor, mas com o tempo, ela vai aceitando e percebendo que não é nada disso do que pensa. – dei um sorriso amigo, recebendo como resposta o sorriso dele.
– Mas então, o que te traz aqui? – questionou ele, focando o olhar em , que surpreendentemente estava ao meu lado, observando toda cena. Estava tão entretida na conversa, que mal havia percebido que ele estava ao meu lado, trajando como sempre, sua jaqueta de couro preta, calça jeans escura e uma blusa simples verde. E ah, com seu velho e bom amigo: óculos escuros.
– Dan, acho que meu pai já deve ter contado a você sobre minha nova jornada e com certeza, você deve conhecer . – olhei rapidamente para que esbanjava um sorriso amigável, e retornei a atenção a Dan. – , esse é meu tio Dan, ele já comandou a Firefly ao lado de meu pai e era um dos professores de tiros. – e em uma surpreendente educação, se aproximou esticando a mão, cumprimentando Dan.
– Famoso ... Jamais pensei que iria tê-lo aqui. Gosto do seu pai, é um bom político, só avisa a ele para diminuir o valor das bebidas, estão muito caras. – Dan disse rindo, contagiando, por incrível que pareça, , que ria junto com ele.
– Concordo com você, pode deixar que avisarei aos responsáveis, acho que meu pai não tem muito o que fazer. – respondeu , ainda rindo. Ok, aquela cena acabou sendo um pouco nova para mim.
Tio Dan odiava políticos, não era muito comum de acompanhar eleições e muito menos de votar. Lembro-me de que ele só havia ido na eleição passada porque meu pai havia insistido, mas vê-lo daquela maneira, rindo, e ainda falando que gosta do presidente, e ainda por cima com ? E outra, aceitando tranquilamente o comentário sem fechar a cara?
Talvez eu estivesse com a pior demonstração de surpresa na minha cara, pois ambos olharam para mim se questionando possivelmente do que eu estava pensando. Se aquilo fosse um mundo paralelo, gostaria de saber até onde iria chegar. Com sua simpatia de sempre, Dan nos chamou para dentro da base. Antigamente, aquele lugar era um campo de treino para agentes da Firefly que viviam no estado, porém, outra base havia sido construída mais próxima da capital, o que levou a um abandono dali. Entretanto, na mesma época, tio Dan estava em processo de separação com minha tia e de aposentadoria a Firefly, ele não tinha mais condições de continuar lá. Havia desenvolvido um problema sério na mão direita por conta dos exaustivos treinos, não conseguia segurar direito uma arma sem exclamar de dor. Sendo assim, meu pai lhe propôs um acordo para que fosse cuidar da ex base abandonada e com isso, ele criou um centro de treino de tiros. Não era todos que podiam frequentar ali, somente quem tivesse a permissão da Firefly, ou seja, novos agentes em andamento, e velhos soldados que não queriam perder a habilidade de mira.
– Bem, , acho que você já conhece o processo, não é mesmo? – afirmei com a cabeça quando paramos em frente a uma sala. – Trouxe a licença?
– Sempre ando com ela. – entreguei a carteira do curso de tiro, que me permitia ensinar.
– Ok, divirtam-se e meu amigo, toma cuidado. A mira dessa garota é algo de outro mundo! Espero que aprenda com ela.
– Há, Há, Há, menos, Dan... – quando Dan se retirou, encaminhei até o final da sala onde possuía alguns armários.
– Então, Lilica, bem legal esse seu tio... – disse com um sorriso sacana no rosto. Pronto, mais um para me infernizar com o maldito apelido. Revirei os olhos, abrindo os dois armários na nossa frente.
– Sim, ele é legal. Fiquei mal quando soube que ele iria se separar de minha tia e se mudar. – retirei meu casaco jeans, assim como alguns acessórios, e fui colocando-os no armário.
– Sua tia é Rachel?
– Sim, e Vicky é minha prima, filha do relacionamento deles e trabalha na área de distribuição de informações na Firefly.
– Como assim? – assim como eu, retirava seus óculos escuros, jaqueta jeans e alguns pertences como relógio e anéis de si. Entretanto, no ato da pergunta, ele parou, e me encarou esperando minha resposta.
– É uma longa explicação, mas resumindo: Vicky sempre fica em contato com equipes ou agentes que estão em missão para saber o andamento do trabalho. Caso ela saiba de algo que possa ajudar ou o agente reporta alguma informação, era é responsável por passar isso tanto pro agente quanto para o computador de informações, para que internamente, também possamos ajudar. No meu caos, meu informante é meu pai.
– Você e ele trocam informações, correto?
– Isso. – peguei o colete a prova de balas, um óculos especial, e os vesti. – Tem um colete igual ao meu no seu armário, pode vesti-lo por cima da blusa e colocar os óculos assim como fiz. – mostrei a que rapidamente tentou fazer o mesmo e em menos de segundos, já estava preparado assim como eu. – Ok, antes de mais nada, você tem certeza de que quer fazer isso?
– Tenho.
– Isso pode dar merda, não sabe? E eu acho que vai dar...
– Não vai dar porque eu sei o que estou fazendo.
– Ah, nossa, esqueci do seu forte ego, senhor . Mas acho que deveria diminuí-lo um pouco. Que tal criarmos uma lista de 10 coisas que precisa melhorar? – falei e o vi rir, fechando o armário em seguida e encostando-se na porta, com os braços cruzados.
– E se eu aceitasse, qual seria a primeira na lista? – questionou ele com um sorriso convencido no rosto. Fechei a porta do meu armário e virei para o mesmo, que ainda mantinha a mesma posição.
– Parar de ser convencido. – se eu tivesse o poder de ler mentes, com certeza o que estaria pensando seria “sério que você disse isso?”, pois sua feição já dizia tudo por si, principalmente sua sobrancelha arqueada e seu olhar desafiador.
– Tudo bem... Se eu aceitar criar isso, teremos que criar um para você também. 10 coisas que precisa melhorar. – arqueei a sobrancelha, do mesmo modo que ele havia feito, cruzando meu braço. Ele se aproximou um pouco, mas ainda continuou me encarando com aquele olhar desafiador. – O que acha?
– E qual seria o primeiro da lista?
– Parar de ser mandona. – revirei os olhos.
Ah, fala sério que ele havia falado aquilo. Era brincadeira, só podia ser. Do mesmo modo que ele fez, me afastei do armário, me aproximando mais ainda. Estávamos bem próximos, mas não muito, talvez uma boa distância para causar aquele leve desconforto, caso não estivéssemos desafiando um ao outro.
– Eu não sou mandona. – falei pausadamente. – Só falo o que penso. – ele riu, novamente. Já estava quase perguntando o que ele tanto via ali de engraçado.
– Eu não sou convencido. – disse do mesmo modo. – Só faço o que penso.
, assume que você é convencido e mimado, vai.
– E você, assuma que é mandona.
– Ah, claro, uma mandona que te deixa louca, não é? – strike!
Dei uma piscadela em forma de vitória, me retirando do local, caminhando em direção a porta, onde um segurança já segurava nossas pistolas carregadas. O agradeci e entramos na sala onde vários balcões um ligado ao outro separavam do restante da sala. Direcionei a cabine 05, e coloquei as armas no balcão.
– Você sabe que é desnecessário falar esse tipo de coisa, não sabe, Lilica?
– Ok, da próxima vez que você me chamar desse apelido inútil, ai sim vou te mostrar o que é necessário. – o ameacei, o vendo dar uma leve risada cínica e revirar os olhos. – Vou te passar algumas informações antes de iniciarmos. – o expliquei um pouco sobre como funcionava o manuseamento da arma e como ocorreria. Era como se fosse um jogo de dardos, mas ao invés dos pinos que lançávamos contra o alvo, usávamos o armamento. Após uma breve explicação, se posicionou em frente ao balcão, pegando a pistola e a mirando de uma forma um pouco desajeitada. – Lembre-se, mantenha a arma nesta posição. – cheguei por trás dele, posicionando seu braço na posição correta. Peguei suas mãos que seguravam firmemente o objeto e pus seu dedo no gatilho. – Tome cuidado com o recuo da arma. Como é uma pistola e é de pequeno porte, seu recuo é menor, mas é sempre bom manter distância. Nesse primeiro tiro, faremos nós dois juntos, os demais, deixo por sua conta. – falei próxima a seu ouvido, vendo-o afirmar com a cabeça. Tendo o controle de suas mãos, direcionei seu dedo para o gatilho. – Lembre-se da mira, concentre-se. – demos o primeiro tiro que foi bem na lateral do alvo. – Nada mal. Agora você sozinho. – me afastei, vendo-o me acompanhar com os olhos e logo em seguida encarar seu objetivo. – Lembre-se , concentração.
Foram 10 tentativas, cinco falhas e cinco ao redor do centro, mas nenhuma no centro do alvo. Quando as balas acabaram, ele se afastou, tirando os óculos de proteção, mas com uma cara nada feliz.
– Cinquenta por cento, nada mal. – falei tocando em seus ombros.
– Foi totalmente mal. Eu não vou saber me defender, !
, saber se defender não é saber atirar. Em um campo de batalha, a primeira coisa que se deve fazer é procurar uma proteção antes de atacar. Você pode se defender com pedras, tijolos, faca ou até mesmo com golpes.
– Mas eu não sei nada disso! – exibia claramente uma frustação em sua fala. Eu entendia seu medo, mas ele tinha que tirar da cabeça que não era porque ele não havia ido tão bem na primeira tentativa que ele não conseguiria.
– Vem, ainda tenho outra coisa para te ensinar. – recolhi os objetos, já me preparando para sair da sala, quando ele falou:
– Espera. Quero ver você atirando. – o quê? Virei-me rapidamente, o encarando com um semblante confuso. Por que ele queria aquilo? Por que o interesse?
– Você o quê?
– Quero que ver você atirando, não posso? Já que estamos aqui...
, melhor...
– Isso não vai me frustrar mais do que já estou, ou você está com medo? – ok, com certeza aquilo soou como um desafio, e eu odiava ser desafiada. Maldita mania daquele garoto, eu não podia cair em mais um dos seus joguinhos. Dei um forte suspiro, retirando mais uma carga e recarregando a arma.
– Tudo bem, se eu acertar pelo menos seis, você me deve um favor.
– Não vou apostar.
– Por que? Está com medo?
– Não, porque eu sei que vai conseguir... – minha boca se formou um “O”. Ele estava falando aquilo em forma de encorajamento ou... Tentei formular frases em minha mente, mas nada saia, a única opção que me restou foi virar para o balcão e apertar o botão onde um novo alvo foi colocado em minha frente.
Ok, , você sempre treinou com esse tipo de arma, você consegue... Dei uma forte inspirada, erguendo meu corpo e meus braços. O alvo estava a minha frente, precisava mirar no centro dele, mas não podia colocar a arma tão focada por conta do recuo. Vamos lá... Assim que soltei o ar, pressionei o gatilho dando uma sequência de dez tiros certeiros no meio. Quando vi a proeza que havia feito, comemorei internamente, mas não demonstrei por fora.
estava estático, como se tivesse visto pela primeira vez algo totalmente fora do normal. Também não era para exagerar, eu tinha pratica com aquilo. Retirei os óculos, passando o encarar. Girei a arma no meu dedo, me aproximando dele.
– Agora espero que confie em mim.
[...]

Duas e meia da tarde. Após nos despedirmos de tio Dan, e sua longa conversa contando sobre a vida, seguimos caminho para casa. Em mais ou menos trinta minutos chegaríamos em casa se o trânsito ajudasse e mal via a hora de me deliciar com os cookies que dona Helena sabia fazer muito bem, não somente isso, mas qualquer tipo de comida. Aquela mulher possuía uma mão excelente na cozinha que eu desejaria ter por toda minha vida. Por essas e outras era que meus pais não me deixavam comandar a cozinha na nossa Pizzaria. Não depois de ter conseguido queimar três pizzas na nossa noite da pizza. Mas não tive culpa, o fogão era à lenha e quanto mais eu tentava pegar a pizza mais ela ia caminhando para o final do fogão. Após esse “acidente”, passei a comandar os atendimentos.
Diante a tantos pensamentos, me peguei sorrindo. Por mais caótico que minha família fosse às vezes, eu sentia falta.
Sentia falta das reclamações do meu pai quando eu chegava atrasada para os treinamentos, dos surtos de minha mãe quando eu não arrumava a casa, das noites em que saia com para beber usando uma carteira falsa, já que com vinte anos não é permitido beber em bares... Ah, álcool, quanto tempo não sentia seu efeito em meu corpo. Não sabia mais o que era sair e se divertir. A última festa na qual eu havia ido, havia sido um reencontro da minha antiga turma da escola, onde aproveitamos a noite do jeito que ela era.
– Me dá medo quando vejo alguém sorrindo pro nada. – despeitei-me dos pensamentos com a voz de . Ele mexia no celular enquanto falava.
– Por quê?
– Nunca se sabe o que a pessoa está pensando. Por exemplo: estou aqui de carona, vai que você esteja pensando em um jeito de acabar com minha vida e achou a maneira perfeita nesse exato momento? Eu não posso fazer nada para me salvar.
– Que pensamento mais tenebroso. – ele deu de ombros.
– Fazer o que, existe cada tipo de maluco no mundo... Mas enfim, quando você aprendeu a atirar?
– Não tem muito tempo, acho que foi após eu completar dezoito. Antes disso, treinava mais golpes, modo de defesa, como desarmar uma pessoa e muitas outras coisas.
– Então você sabe lutar? – sério mesmo que ele havia me perguntado aquilo? Dei uma rápida olhada para ele e através da minha expressão ele entendeu a resposta. – Ué, você pode ter feito aula de luta, mas pode não ter aprendido nada.
– Então no dia da festa, o golpe que eu te dei foi o quê?
– Um único golpe que você aprendeu? – respondeu em um tom de ironia, fazendo-me revirar os olhos.
– E no dia que te prensei no sofá do seu quarto?
– Ok, talvez você saiba alguns...
– Conta outra, ...
– Então digamos que você saiba lutar... – ele continuou, não se importando com meu interrompendo. – Você me ensinaria alguns golpes? – graças ao sinal fechado, pude parar por um momento e encará-lo melhor. Já estava quase me perguntando se aquele era realmente o .
A pessoa que assim que cheguei já foi me cumprimentando em um tom de ameaça, dizendo que eu desistiria do meu trabalho, estava me pedindo ajuda?
Mais difícil do que entender a série Pretty Little Liars, era entender a mente de . Como alguém conseguiria ser tão diferente em vários momentos? Eu poderia numerar diversos momentos e motivos nas quais me tirou do sério e a única vontade que tive no momento foi de esganá-lo, e provavelmente, por conta disso minha confiança com ele havia diminuído. Ok, estava receosa, mas resolvi novamente arriscar. Assim que o sinal abri, dei partida novamente no carro, já estávamos perto de casa.
– Ok, , seja lá o que for que você esteja aprontando, eu ensino. – seu sorriso foi a certeza da sua satisfação.
Estacionei o carro ao longo da calçada, como de costume, e antes de sair chequei o perímetro casa e da rua. Estava tudo tranquilo, somente com algumas pessoas caminhando tranquilamente. Firmei minha arma de choque contra meu corpo e sai do carro, vendo fazer o mesmo.
– Antes que eu esqueça, por que ele te chama de Lilica? – ele tinha que lembrar daquilo?
– Quando eu tinha três anos, ganhei um ursinho de pelúcia que era meu xodó e o nome era Lilica. Aos seis anos eu acabei o perdendo, passei uma semana chorando e querendo a Lilica de volta. Após isso, esse meu tio passou a me chamar assim, meu pai às vezes e meu irmão, quando queria me pirraçar. – expliquei. – Agora vamos esquecer isso, porque é um fato do passado que não desejo no meu presente.
Entramos em casa, e a cena que estava vendo foi de longe a mais hilariante possível. Enquanto Luna dançava em frente à TV ao som de Camp Rock - filme na qual eu havia assistido mais de três vezes com os irmãos de - o mesmo, , demonstrava sua pior cara de tédio, misturado com uma falsa alegria toda vez que Luna o encarava.
– Vamos, ... Dança! – ela dizia pulando e puxando o braço dele para que ambos dançassem. Não me contive, comecei a rir, percebendo que segurava o riso a todo custo. e Luna logo olharam para nós, e a pequena foi correndo em direção aos braços dos irmãos, enquanto meu melhor amigo me encarava com um olhar mortal. – ... – Luna pôs suas duas mãozinhas no rosto do irmão, fazendo com que ele a encarasse. – Hoje eu... eu assisti os dois... E dançamos, e cantamos e de novo... – ela explicava com um pouco de dificuldade, o que acabava sendo muito fofo. Nunca tive a sensação de ter um irmão mais novo, já que eu era a caçula da família.
– Assistiram filmes hoje, foi? – perguntei, e se aproximou.
– Sim... Camp Rock um, depois o dois... Depois o um de novo, e o dois... Acho que se tivesse o três iriamos assistir também... – explicou. – Enquanto vocês...
– Longa história, depois te conto. – o interrompi.
– Cadê minha mãe? – questionou.
– Saiu algumas horas atrás, disse que iria ao mercado e resolver algumas coisas, ai como só tinha eu nessa casa. – indireta recebida com sucesso. – Fui babá por um dia, assistindo filmes. Mas como vocês...
– Assistiram High School Musical também? – o interrompi, e assim que Luna gritou o nome do filme, de uma forma fofa, erguendo as mãos, saindo dos braços de e puxando para a sala, sabia que minha sentença de morte já estava feita e quem iria cumpri-la, seria nada mais, nada menos do que meu melhor amigo, .
Senti meu celular vibrar, checando uma mensagem do meu pai pedindo para que eu retornasse à ligação.
O que ele queria?
Sendo assim, resolvi ir para meu quarto para falar melhor com ele, mas antes de pisar no primeiro degrau, ouvi alguém me chamar.
. – se aproximou sem jeito, parando próximo a escada. – Obrigado.


Capítulo 18

We were victims of the night, the chemical, physical, kryptonite… –
Shut up and Dance, Walk the Moon.


– Você vai ficar linda, mais do que já é. – sentia as pequenas mãos tentando, de uma forma desajeitada, prender todo aquele cabelo que eu tinha.
Enquanto na TV, a minha frente, passava algum desenho animado que nunca vi em toda minha vida, Luna dizia que estava cuidando do meu cabelo. Pela janela ao meu lado esquerdo, dava para ver a noite chegando, deveria ser umas seis ou seis e meia da tarde.
Havia passado o dia praticamente montando os relatórios para enviar ao meu pai ao lado de , só que o cansaço logo me bateu por conta das noites mal dormidas que estava enfrentando. Não sabia bem o porquê, mas ultimamente não estava conseguindo pegar no sono tão facilmente e quando finalmente conseguia, acordava no meio da madrugada. Aquilo estava sendo a pior coisa que poderia ter ocorrido comigo, eu precisava descansar, dormir, recuperar energias, mas simplesmente minha mente começava a trabalhar mais do que o normal e os pensamentos começavam a ressurgir. Talvez eu não quisesse negar o fato de que ainda estava receosa com tudo o que estava ocorrendo, como havia desabafado com . Era muita coisa ocorrendo ao mesmo tempo, muita tensão para uma garota só e em sua primeira missão.
Após sair do quarto que estava com , havia descido e encontrado Helena no jardim cuidando das plantas ao lado de Luna, que gentilmente ajudava sua mãe carregando um pequeno regador próprio para seu tamanho. Ter presenciado aquela cena só havia despertado em mim uma enorme vontade de ter uma irmã mais nova, alguém que eu pudesse cuidar e ensinar; e assim me bateu também uma saudade dos irmãos de . Entre conversas com Helena, a mesma acabou me pedindo para que eu desse um banho em Luna, onde a mesma estava praticamente suja de terra da cabeça aos pés. Percebi que não havia passado muito tempo com ela, então aproveitei aquele momento para conhecê-la melhor. Dei banho, preparei pipoca, sentamos em seu quarto e assistimos a um filme de curta duração. Logo em seguida, ela encasquetou dizendo que queria arrumar meu cabelo então, a mesma prontamente correu em direção a um baú, retirando de lá um kit com presilhas, fitas, escovas, pentes… Prontamente se sentou em sua pequena cama, pedindo para que eu sentasse no chão, a sua frente.
– Nossa, você tem muito cabelo, sabia? – vi seu pequeno rosto curvado em meu lado, com um sorriso fofo.
– Eu sei, tenho que cortar ele. O que acha? – respondi no seu mesmo tom. Havia séculos que não metia uma tesoura naquele cabelo, nem mesmo para tirar as pontas, na qual presumia que estavam em um estado de calamidade.
– Não sei… – senti ela soltá-lo. – Ele é bonito grande. Menos grande ficaria bonito também. – ela pegou as pontas do cabelo, levantando em uma tentativa de vê-lo como ficaria menor. – disse que meu cabelo é bonito menos grande, mas que grandão... – ela abriu os braços, mostrando a intensidade do grandão. – Fica bonito também. – não pude deixar de rir com sua demonstração. – Deixa eu terminar, você vai ficar LINDA! – em sua última palavra, ouvi seu fino gritinho animado ecoar, o que me fez rir novamente da situação e me virar para frente. Enquanto Luna colocava presilhas e tentava amarrar algumas partes do meu cabelo, embolando todo em suas mãos - iria dar trabalho para desembaraçar -, vi um vulto passar em frente a porta, mas logo seguida recuou, parando em frente ao cômodo com uma feição confusa.
!!!! – Luna deu novamente outro gritinho. – Olha como a está linda. – ela virou meu rosto em direção a ele, e dei um sorriso forçado, mas que ao mesmo tempo pedia socorro. Creio que ele havia entendido o meu recado, já que tentava prender seu riso a todo custo.
– Maravilhosa! – fez um sinal de legal. – Luna, se eu fosse você, eu colocava aquele negócio brilhante que você gosta… Qual o nome mesmo. – ele pôs a mão no queixo como se tentasse lembrar o nome e logo em seguida levantou o dedo, como se houvesse lembrado. – Glitter. – o que? Glitter? Aquilo iria ficar séculos em meu cabelo!
Desgraçado.
Filho da mãe!
começou a rir mais e com certeza havia sido pela minha feição irritada. Aquele traste iria se ver comigo, e como iria.
– Sim!! – Luna gritou de felicidade. – Cadê?
– Deixe-me pegar. – não, não, não… Aquele garoto não iria se atrever a fazer aquilo. Lancei meu melhor olhar ameaçador para ele, enquanto o vi caminhar até o local, mas o mesmo parecia não se importar. Ah, claro, porque ali a diversão estava garantida. Abriu o armário da menina e em um pequeno baú, tirou quatro frascos. Rosa, azul, verde e cinza. – Boa diversão, meninas. – ele deu uma piscadela antes de sair.
Des-gra-ça-do!
[...]

Helena poderia ser considerada uma heroína por diversos motivos, mas seu ato heroico poderia ter me ajudado se ela chamasse Luna para comer antes de ela aplicar aquelas purpurinas, glitter, sei lá o quê, em mim. Minhas mãos brilhavam, meus pés, minha blusa e creio que até meus cílios, já que comecei a ver pontinhos em minha visão. Até na minha boca consegui encontrar. A única coisa que eu queria era tomar um banho e tirar aquilo de mim. Mas antes, claro, não iria gastar todo meu shampoo na tentativa de desfazer o estrago, sendo assim, cheguei no quarto de , o avisando que sua mãe estava lhe chamando. Tive que ouvir alguns segundos de sua gargalhada, por conta da minha aparência, me segurando para não avançar naquele maldito e acabar com ele ali mesmo. Mas existia aquele ditado de quem ria por último, ria melhor, então durante sua saída, entrei em seu quarto, especificamente em seu banheiro, e peguei seu shampoo. Ele poderia ter cabelo curto, não tanto, já que parecia que o mesmo estava deixando crescer, mas homem gostavam de produtos bons, e pela marca, parecia ser importado.
Ótimo, meu cabelo iria conhecer uma marca importada.
Quando retornei ao meu quarto que dividia com , um forte cheiro de perfume me atingiu em cheio, fazendo-me cambalear um pouco.
Puta merda, aquilo mataria um.
– Misericórdia, quer morrer asfixiado aqui, garoto? – questionei abanando o vento e quando me dei conta, percebi que ajeitava a gola de sua camisa social em frente ao espelho. Blazer, camisa social, jeans escuro e seu All Star preto que havíamos comprado no natal passado. Da última vez que o vi tão arrumado, foi na formatura de ensino médio seu irmão do meio. Seu cabelo estava totalmente alinhado em um topete e até a barba ele tinha feito um pouco. O quê?
– Como estou? – ele se virou, dando uma voltinha e segurando o blazer. Eu estava boquiaberta. O que aquele garoto estava aprontando. Para onde ele iria em plena sete horas da noite?
– Arrumado? – respondi meio obvio. – Pra que tudo isso?
– Vou sair e… – assim que ele me viu, começou a rir que nem tinha feito. Fechei a cara e cruzei os braços. Poderia incluir na minha lista da vingança.
– Desde quando seu sonho era se tornar um unicórnio? – ele se referia ao bolo de cabelo que estava na parte frontal. – Deixa eu adivinhar. Luna? – assenti sem esbanjar nenhum sorriso e ele continuou a rir.
– Continue assim que sua saída será por essa janela, sendo arremessado. Idiota.
– Ah, qual é, até que você está estilosinha… Se for pra uma balada, vai brilhar mais do que o globo de luzes.
– Se estou estilosa, vem cá me abraçar.
– Não, obrigado. Tenho horário e preciso estar assim, do jeito que estou.
– Vai para onde?
– Sair. – pra que resposta mais interessante e completa do que aquela?
– Jura? Achava que você iria dormir! – joguei meu escarnio, mas ele não ligou. Ele estava focado demais em sua imagem no espelho. Mas algo estava estranho, ele não era de sair assim, sem falar que nos últimos dias, havíamos ficado em casa e o máximo que fizemos foi ter ido ao mercado comprar algumas coisas que Helena havia pedido. Então, se ele não havia conhecido nenhuma menina pessoalmente, e virtualmente seria algo complicado, já que o mesmo tinha trauma por conta de uma garota que o deixou plantado no cinema durante três horas que ele havia conhecido pelo Tinder, só podia significar que... – , você vai sair com quem? – me aproximei, cruzando os braços e já tendo uma pequena noção de quem se referia. Mas o outro desgraçado não respondia. As pessoas deveriam ter tirado aquele dia para testar minha paciência. –
– Ninguém, sweetheart. – virou-se em minha direção, se aproximando. – Só vou sair, curtir a noite, ter um tempo só para mim e… – sua explicação foi interrompida pelo toque do seu celular que vinha da cama.
Olhei para o local e lá estava o aparelho, lindamente vibrando com um nome que não consegui ler direito por conta da luminosidade. Tudo ocorreu muito rápido; e eu nos olhamos e no mesmo momento, nos jogamos na cama, iniciando uma batalha para ver quem pegaria o celular primeiro. Havia conseguido pegar o aparelho, mas ele logo se jogou em cima de mim, esticando sua mão para alcançar a minha. Tendo meu cotovelo livre, comecei a dar cotovelada nele, mas o mesmo conseguiu prender, então, a única saída foi tentar me virar, e quando consegui, meti minha mão em sua cara, tentando o afastar. Parecíamos dois irmãos brigando pelo controle da TV, ou melhor, parecia eu e meu irmão quando costumávamos a brigar pelo controle.
Foi difícil, mas consegui o afastar e me soltar, o derrubando no chão. Tendo essa vitória, tratei de sair da cama rapidamente, me jogando no chão e levantando em seguida, o ameaçando a sacudir meu cabelo de glitter.
, não… – ele pedia.
– Se você chegar perto, eu sacudo meu cabelo! – o ameacei. Arrastei a parte de atender na tela, vendo o nome Melissa em cor e claro. – Alô? Oi, Melissa! Tudo bem, querida? – forcei uma simpatia, ainda encarando que arfava. – Estou muito bem. O ? Está aqui se arrumando, soube que irão sair… Ah, sim, fez uma reserva no restaurante? Sério? Soube que lá é um dos melhores restaurantes a luzes de velas, bem romântico, não acha? Aposto que faz muito isso com seu namorado, noivo, não acha? – arregalou os olhos. – Manda um oi para ele e faça um bom proveito com , assim como você fazia com meu pai! – sem ouvir sua resposta, lancei o celular dele na cama, saindo em seguida para o banheiro.
Poucos minutos depois ouvi bater na porta, chamando pelo meu nome, mas estava com a cabeça quente e mergulhada na água que caía do chuveiro. Ele não demorou muito ali, ao perceber que eu não iria responder e provavelmente por conta do seu encontro com a dita cuja, ele se retirou. Senti uma pequena lágrima escorrer em minha pele e a limpei rapidamente. Melissa não merecia minhas lágrimas, eu não deveria me importar, o que doía era ver meu melhor amigo acreditando nela do que em mim e ainda por cima, escondendo as coisas de mim. Mas tudo bem, as pessoas tinham que aprender a lição a partir dos seus erros. Peguei o frasco do shampoo de e despejei uma quantidade do produto em mãos, usaria o necessário para retirar todo aquele glitter do meu cabelo, nem que eu tivesse que usar o shampoo todo que por sinal, havia um cheiro maravilhoso. Pelo menos para algo ele tinha bom gosto.
Após o banho, me arrumei e me joguei na cama. Eu precisava esvaziar minha mente daqueles problemas e focar na missão. Sentia falta de uma ida ao parque, uma noite no bar com os amigos ou até mesmo do meu trabalho na pizzaria, onde minha preocupação só era não errar os pedidos dos clientes.
Sentia falta de ter uma vida “normal”.
E brigar com não estava me ajudado em nada.
Talvez encarar o teto não estivesse me ajudando tanto a limpar a mente, talvez ficar parada não fosse uma das melhores opções, sendo assim, aproveitei para checar o que estava fazendo.
Passei em frente ao seu quarto encontrando a porta fechada.
Normal.
Dei duas batidas e nada.
Novamente duas batidas e nada.
? – silêncio. Ok, de acordo com a lei da Firefly, quando eram dadas quatro batidas na porta e não houvesse resposta, forçar a entrada era a solução. Sendo assim, girei a maçaneta e por minha surpresa, estava aberta. Abri uma pequena fresta, tendo uma pequena visão do local e chequei se não havia nada de estranho. Como estava tudo calmo, apenas entrei encontrando o quarto vazio, porém com a janela aberta.
Puta merda, ele havia fugido ou alguém havia o sequestrado pela janela.
Corri até lá com o coração na mão, mas o encontrei sentado no telhado, encostado na parede da casa. Nossa, nem tinha percebido aquele local ali.
– O que você tá fazendo aí? – perguntei, me debruçando no batente da janela, sentindo a boa brisa que fazia.
– Nada, por quê?
– Nada. – houve um silêncio. possuía o que parecia ser uma pequena pedra em mãos e a jogava para cima, a pegando quando a mesma caía. Isso demorou segundos, até o mesmo dar a voz.
– Pensou que eu tinha fugido? – senti um pequeno tom brincalhão em sua fala.
– Não. – menti, vendo o mesmo me encarar como se soubesse da verdade.
– Mentir é feio, . Principalmente quando diz que a mãe de uma pessoa está chamando, sendo que na verdade, ela estava vendo filme. – tuchê. Rolei os olhos, dando de ombros. Analisei melhor a estrutura de telhado abaixo. Eram meio inclinados, mas não muitos. Realmente, dava para ficar ali tranquilo, principalmente pela enorme árvore que tapava uma boa parte dela. Talvez tivesse sido por aquele motivo que acabei não enxergando o local quando cheguei. – Pelo canto é mais fácil de caminhar. – o olhei novamente e ele virou o rosto, ainda jogando a pedra para cima. Merda, aquele garoto estava lendo minha mente?
Apoiei minhas mãos no batente da janela, passando cuidadosamente minhas pernas para o outro lado. Fui caminhando pelo canto, como o mesmo disse, chegando até o local onde ele estava e sentei ao seu lado, esticando as pernas.
O vento que fazia ali era maravilhoso, dava para ver bem a rua deserta, apenas iluminada pelos postes e tendo somente os carros estacionados ao longo da rua. O céu estava limpo, dando para enxergar bem as estrelas que brilhavam intensamente. Com isso, dei um breve suspiro, chamando a atenção de .
– Problemas no paraíso? – senti seu olhar pesar em mim, mas não o olhei. Fiquei procurando algo por ali para que pudesse me distrair por algum momento.
– Faz tempo que não sei o significado de paraíso.
– Cadê o ?
– Saiu.
– Sem você? – poderia no momento não estar o encarando, mas percebi sua reação de espanto com minha resposta através de sua voz.
– Não nascemos grudados, . tem a vida dele e eu a minha, ele faz o que bem ele entender com a vida dele. – achei um graveto, o comecei a parti-lo ao meio.
– Ok, não está mais aqui quem perguntou. – e novamente o silêncio reinou, mas para minha infelicidade, um peso na consciência caiu em mim. não tinha culpa dos meus problemas com , ele só havia feito uma pergunta e por mais que ele tenha tido algumas atitudes rudes comigo, eu não poderia dar na mesma moeda.
– Ei, me desculpe. Eu só…
– Brigou com ele. – me interrompeu, fazendo com que eu o olhasse incrédula após sua fala. Será que ele havia ouvido minha discussão com ? Eu ainda o continuava encarando, quando o mesmo olhou para mim, demonstrando uma expressão como se achasse graça daquilo. – Qual é, . Acha mesmo que você estaria aqui se não tivesse tido alguma briga ou discussão com ele? Você não é de simplesmente vir checar como estou e demorar. – mais um ponto para . Aquele garoto estava me surpreendendo, desde quando ele era tão esperto? Mas ele tinha razão. Que merda, havia deixado muito na cara. Me ajeitei novamente no telhado, fitando a árvore a minha frente, mas antes de começar a pensar em algo, percebi que ainda continuava me olhando.
– O que foi? – franzi o cenho.
– Estou esperando.
– O quê?
– Você me contar o que aconteceu para eu poder falar o quanto idiota ele está sendo. Não é assim que as meninas fazem? – ele sorriu novamente, mostrando graça. Por que ele estava agindo daquela maneira? Algo estava estranho, não era daquele jeito, talvez se fosse o , ai tudo bem, mas ? Nunca, jamais, never!
– Tem certeza que você não é o ? – cerrei os olhos, me aproximando mais dele. O problema era que ele também estava deixando o cabelo crescer um pouco, então a única coisa que eu tinha que diferenciava eles estavam sumindo, tirando seus sarcasmos. O suposto apenas revirou os olhos, negando com a cabeça.
– Ser politicamente correto não é o meu forte, sweet. – sweet?
– Por que está me ajudando?
– É noite. Você está ai e eu estou aqui. Silêncio é uma merda. E não tenho nada para fazer, Lilica. – ah, chamou de Lilica, era ele sim. Fiz uma cara de desgosto, soltando o ar em seguida em modo de reprovação.
– Sinto que tem escondido algumas coisas de mim. Eu não fazia a mínima ideia de que ele iria sair com a víbora da Melissa hoje. Quando cheguei no quarto, ele já estava lá, todo arrumado, sorrindo de uma ponta a outra como se tivesse ganhado na loteria. Fiquei perguntando para onde ele iria, ele não me disse, então a megera ligou e…
– Quantos apelidos você tem para ela? – com suas sobrancelhas arqueadas, perguntou com uma feição espantosa.
– Muitos, não queira saber. Enfim, eu não sei o que deu em mim, só senti uma raiva crescer em mim e aquela mesma sensação que eu sentia quando ela chegava perto do meu pai e…
– Ciúmes. – ele me interrompeu.
– O que? – perguntei incredulamente. Por mais que eu tivesse ouvido bem a palavra “ciúmes”, tive que pedir para que ele repetisse para ver se realmente eu havia ouvido certo.
– Ci-úmes. – silabou pausadamente. – Você tinha ciúmes do seu pai com ela, e agora que ela está chamando ele para sair sem a sua pessoa, você começou a pensar que futuramente, ele possa te deixar um pouco de lado.
– O que? – questionei novamente. – Não estou com ciúmes, que ela se foda por ter chamado dele sem mim. E também, se ela me chamasse, receberia um belo não como resposta. – com um riso convencido, esticou as pernas sobre o telhado, inclinando a cabeça para trás e a apoiando na parede.
– Todos nós sentimos uma pontinha de ciúmes, . É involuntário. Ou pode ser um receio também.
– Tanto faz. – resmunguei. Um pequeno silêncio se instalou novamente, o que me deu chances de pensar que realmente eu pudesse estar sentindo um pouco de ciúmes dele, ou receio ou decepção, ou tudo junto, por conta dele não ter me escutado.
– Por que não gosta dela? – quebrou o silêncio, mantendo seu foco na enorme árvore a nossa frente.
– Ela dava em cima de meu pai.
– Como tem tanta certeza?
– Porque não é normal uma funcionária levar todo santo dia café da manhã para o chefe quando ela estava em treinamento. Não é normal uma pessoa sempre se disponibilizar para fazer algo quando o chefe precisava. Porque não é normal uma pessoa ficar sempre tocando no ombro das pessoas, massageando e ainda ficar elogiando a cada segundo o quanto o chefe está lindo de barba, sendo que nem uma barba uniforme meu pai tem! É barba branca, que pinicam quando ele abraça alguém!
– Vai ver que ela tinha fetiche por barbas não uniformes… – ele, de longe, era a pior pessoa para dar conselhos. Semicerrei os olhos, lançando lhe uma olhada mortal sem acreditar no que ele havia dito. Fetiche? Quem tinha algo desse tipo por barbas mal feitas? parecia estar se divertindo com a minha impaciência, em seus lábios, sempre se formavam um sorriso convencido quando eu fechava a cara. – Você pelo menos já a viu tentar beijá-lo ou coisa do tipo?
– Ela não é nem doida de tentar fazer isso.
– Ué, e quem disse que ela nunca fez? Você não estava vinte e quatro horas com…
, você não está ajudando. Se for para ficar colocando coisa na minha cabeça, desista, porque eu mesmo posso fazer isso. – quando fiz menção para levantar, já irritada com suas palavras, senti sua mão envolver meu pulso e me puxar para baixo novamente.
– Volta aqui, porque não perdi parte do meu tempo para nada e isso aqui ainda não acabou. – disse risonhamente. – Só por isso que você não gosta dela?
– Ah, sei lá. Não me desce. Eu não vou com a cara dela, algo nela não me agrada, toda vez que ela está por perto eu sinto que tem algo de errado, e outra, eu pedi ao meu pai para que ninguém interferisse na missão, por que ela ainda continua aqui? Sendo que o trabalho dela era somente no tribunal? – deu de ombros.
Era muita pressão, muita coisa para se pensar ao mesmo tempo, coisas nas quais eu não estava conseguindo colocar em ordem. Eram muitas perguntas a serem entendidas, muitas ações para serem feitas. Assim que eu tivesse tempo, iria ter uma séria conversa com meu pai. Algo estava errado ali e com certeza iria descobrir.
Foquei meu olhar para frente, abraçando minhas pernas, sentindo a leve brisa bater em meu rosto, ouvindo o som das folhas da árvore. Quanto tempo eu não sentia uma leve calmaria como aquela? Fechei os olhos, absorvendo todo aquele momento, mas no meu caso, tudo que era bom demorava pouco.
– Pensando bem, Melissa é gata. – sem mexer meu corpo, apenas movi minha cabeça que estava apoiada no meu joelho, encarando o culpado por estragar meu momento de paz. Percebendo meu olhar sobre ele, o mesmo se virou com aquele maldito sorriso de deboche, se preparando para me tirar a paciência. – Reparei bem nela...
– Cala a boca, .
– Não posso elogiar a mulher?
– Só preciso que você cale a boca. Pode ser?
– E se eu não quiser? – provocou, aproximando um pouco seu rosto. Respirei fundo tentando não sair do meu ponto de paz. Comecei a contar até dez, mas ele continuou: – Talvez o cabelo dela...

– … os olhos...
– Cala a boca...
– Venha calar… – ele cantarolou.
O encarei por alguns segundos e em um ato impulsivo, aproximei meu rosto do seu, selando nossos lábios. O que era para ser um selinho, acabou se tornando um beijo quando o senti abrindo a boca e encaixando a minha.
Pus minha mão em seu peitoral logo em seguida, quebrando o que havíamos iniciado.
Mas o que eu tinha feito? Eu estava louca, só podia.
Com minha respiração um pouco descontrolada, o encarei, incrédula.
– Me… – não tive tempo de me explicar e logo o senti me puxar pela cintura, aproximando-me mais de si e me beijando novamente.
De início, não tive outra reação a não ser me entregar pela excitação que o momento havia proporcionado. Sem me dar conta, nosso beijo já começava a ganhar força e intensidade, suas mãos continuavam firmes em minha cintura, enquanto as minhas, que antes acariciavam seus cabelos, começaram a arranhar sua nuca. Em um impulso e sem quebrar o nosso contato, passei uma de minhas pernas sobre a sua, sentando em seu colo. O calor aumentava ao mesmo tempo que sentia seus dedos passarem por debaixo de minha blusa, tocando minha pele. O vento ali não estava tendo mais a função de esfriar, mal sentia sua intensidade. Havia esquecido de tudo, de , de Melissa, de onde estávamos, apenas me entreguei completamente. O beijo foi perdendo força e por falta de fôlego, nos afastamos um pouco, mas ao contrário do que pensei, pôs sua face em meu pescoço, iniciando uma sessão de beijos que me fizeram suspirar a cada toque. Minhas mãos caminharam até suas costas e minhas unhas começavam a fazer o rastro de suas marcas. Aos poucos fui sentindo seus dedos descendo, apertando-me a cada movimento, voltando a minha cintura, onde sem dó, o mesmo a pressionava e puxava mais para si.
Mordi meu lábio inferior desejando mais pelo seu beijo e obedecendo meu desejo, segurei em seu rosto iniciando mais uma vez outro contato, entretanto, mais calmo do que era antes, apenas deixando com que nossas línguas, assim como nós, aproveitassem cada toque, cada desejo.
Fui diminuindo com leves beijos em seus lábios, até parar completamente e perceber que ambos, nos encarávamos se perguntando o que havia ocorrido, entretanto, vi a expressão de mudar completamente para uma de espanto.
– O que… – antes mesmo de eu continuar a falar, com minha respiração um pouco falha devido ao momento, ele pôs o dedo na minha boca, como se pedisse silêncio. Seu olhar ainda estava fixo no meu, mas percebi que sua atenção estava para outra coisa, sendo assim, tentei focar no barulho externo, apenas ouvindo um barulho de um carro.
– Vem comigo. – ele sussurrou, levantando-se em seguida, assim como eu, e me puxando para um pouco mais para a beira do telhado, onde nos aproximamos da árvore.
O olhar de seguia o carro preto que percorria lentamente a rua, como se procurasse por alguém. Parou um pouco à frente da nossa casa, não dava para enxergar o interior do veículo por conta das suas janelas fechadas e a forte proteção preta que havia nela. Segundo depois, o veículo deu partida, seguindo seu rumo em uma velocidade baixa.
– Por que você…
– Vamos entrar que eu te explico. – ele se virou, voltando para a janela com cuidado. Por que ele sempre tinha que me interromper?
Assim que entramos em seu quarto, o mesmo sentou-se em sua cama, apoiando as mãos nos joelhos, e tendo em sua face, uma expressão totalmente preocupante.
Bem, pelo menos não teríamos o papo pós beijo, assunto na qual eu agradecia por não tocar.
– Vai me explicar agora? – cruzei os braços, me apoiando na escrivaninha atrás de mim.
– Teve uma noite que eu estava aqui no quarto terminando meu projeto da faculdade. Não estava com cabeça, então vim até a janela e fiquei observando a rua, até que percebi esse carro passando. Seria normal se ele não andasse a uma velocidade tão baixa, sendo que essa via é de quarenta quilômetros. Tudo bem. No dia seguinte, apenas fiquei aqui observando a rua novamente, no mesmo horário e o vi passar novamente. Comecei a estranhar, mas não levei muito a sério. No dia seguinte, apenas fui checar, e lá estava ele passando novamente. – ergueu seu olhar, me encarando. – , o mesmo carro passar por aqui três vezes, no mesmo horário e em uma velocidade baixa? Isso não é normal. – e realmente não era. Pelo que eu tinha visto, parecia que ele procurava algo ou alguém. Senti um calafrio percorrer em meu corpo só de imaginar que talvez, tivessem descoberto nosso “esconderijo”.
– Mas como você sabe que é o mesmo carro? É impossível ler uma placa daqui.
– Não sei se você percebeu, mas perto da lanterna traseira esquerda do carro, tem um pequeno adesivo verde, como se fosse um logotipo. E se... – eu já sabia da sua suposição, mas resolvi não arriscar em acreditá-lo, pelo menos não naquele momento.
Estava bom demais para tudo voltar ao ser que era antes, e não desejava novamente. Queria acreditar que a segurança que havia instalado na casa iria servir, porém, um temor sempre iniciava quando pensava na possibilidade de terem nos descoberto.
– Estamos seguros aqui, a casa é protegida, mas em todo caso, vamos descobrir.
– Como? Não podemos simplesmente arriscar. E se for ele ou ela?
– Iremos descobrir da melhor maneira possível, criando uma armadilha. – ergueu-se um pouco com uma feição preocupada.
– Não sou bom com planos.
– Percebi no primeiro momento em que você tentou armar para mim no dia do galpão, mas no final, quem se ferrou foi você. – ele bufou e eu apenas ri, me virando para encarar os papéis que estavam em cima de sua mesa. – Mas conheço alguém que é bom com esse tipo de coisa, só falto voltar a falar com ele. – separando as enormes folhas A4 expostas sobre a mesa, fui observando os desenhos que fazia. Plantas baixas, fachadas… Tudo em perfeito estado sem nenhuma rasura ou borrões. – Sente falta da faculdade?
– Um pouco. – ele se aproximou, parando do outro lado, tendo apenas uma cadeira nos separando. – Fazer curso a distância não é a mesma coisa de estar presente. Sinto falta do pessoal, do meu momento de paz na sala de química… – quando ele citou a sala, foi impossível não lembrar do dia em que quase morremos lá. Ainda não entendia o que ele estava fazendo ali.
– Quando recebi a mensagem anônima nesse dia, e a primeira coisa que me veio à cabeça foi uma sala de química, fiquei meio com receio de ter sido enganada, porque posso não entender muito de arquitetura, mas... sala de química? – ele riu abafado, organizando os papéis a sua frente.
– A pessoa deve me conhecer bem a ponto de saber que eu gostava de estudar na sala de química.
– Por que uma sala que não tem a ver com sua matéria?
– Quem disse que não podemos envolver química com arquitetura, ? Mas também pelo fato das mesas lá serem maiores e para meu projeto final, quanto mais espaço e silêncio, melhor.
– Hum… Então só toma cuidado para não acabar morrendo da próxima vez. – dei uma piscadela, afastando-me um pouco. – Bem, vou tentar descansar um pouco, não quero olhar para a cara de quando ele chegar.
– Boa sorte com seu marido. Vê se não quebram o quarto. – disse com seu famoso tom de zombaria e apenas revirei os olhos, abrindo a porta em seguida.
– Ele seria um companheiro melhor do que você. – rebati em seu mesmo tom.
– Duvido que você tenha essa atração por ele como você tem por mim. – bufei, revirando os olhos e saindo do local. Convencido.
Fui até a cozinha, preparando um chá de camomila para ver se me relaxava e com isso, me dava sono. Após uma boa leitura na companhia daquela bebida, fui me preparar para dormir. A maciez da cama não se comparava com a da Casa Branca, mas ainda continuava um local aconchegante. Quando senti os sintomas do sono chegar, ouvi a maçaneta da porta girar.
Merda, quem seria? Não estava com vontade de conversar com ninguém, de ver ninguém e muito menos aturar alguém. Fechei os olhos, fingindo que estava dormindo, mas perdendo para minha curiosidade, apenas abri um pouco meus olhos vendo a figura de fechar a porta cuidadosamente como se evitasse de me acordar. Assim que percebi o caminhando até a mim, fechei novamente os olhos, encarnando a minha personagem adormecida, mas uma coisa eu era péssima: atuar e ele sabia disso. Como de costume, o mesmo se aproximou e ficou me encarando, pois senti sua respiração próxima a mim. Ele sabia que se eu estivesse acordada, eu não aguentaria por muito tempo e começaria a rir. Não, não naquele momento, eu iria me forçar a não rir.
… – ele sussurrou. – … – um cutuque, dois cutuques no braço. – … – senti seu dedo em minhas pálpebras, na intenção de levantá-las, mas antes mesmo do seu ato, lancei minha mão contra sua face, realizando um tapa bem sucedido. – Ai! Você…
– Isso é por você ter mentido para mim e por ter saído com aquela víbora. – virei de costas para ele, me ajeitando melhor na cama.
– Eu preciso falar com você…
– Não quero ouvir o quanto foi incrível seu jantar romântico, .
– Mas não teve jantar romântico. – quando me dei conta, o mesmo já estava do lado desocupado da cama, me encarando.
– Piorou! Não quero saber como foi sua noite de núpcias. Me poupe dos detalhes.
, será que dá para parar de infantilidade e me ouvir?! – em um tom forte e rígido, ele espalmou com força a mão na cama, a fazendo balançar um pouco e me assustar. Poucas das vezes vi tão sério e mantendo sua voz elevada. Elevei meu corpo, apoiando-me de lado na cama. – Precisamos investigar a Melissa.


Capítulo 19 - Parte I

And we know that sometimes it all gets a little too much.
- A Little Too Much, Shawn Mendes.


Agente: #00146
Nome: Melissa Patton Myers.
Data de Nascimento: 18 de Novembro.
Idade: 27 anos.
Cargo: Agente especial, co-líder de missões de espionagem de tipo 02.
Missões já realizadas:...

Melissa havia virado co-líder e ainda subido para o tipo 02. Seria estranho se isso não me chamasse a atenção, até porque, existiam muitos níveis para se subir até chegar ao tipo em que a mesma estava e ao tipo 01, onde ali, você poderia liderar uma missão – o que basicamente eu estava fazendo – e era por essas e outras que ainda me perguntava o real motivo pelo meu pai ter me escalado para aquela missão. Ainda estava no tipo 07, o que ainda tinha um longo caminho pela frente, mas voltando a Melissa; tudo bem que ela sempre demonstrou ser uma boa agente, cumprindo seus deveres e obtendo missões de sucesso, e claramente, por conta dessa “vitória”, ela foi escalada para ajudar no dia do tribunal, entretanto, era para ser somente no dia do tribunal e não levar décadas naquela cidade como se fizesse parte da minha missão.
Não fazia a mínima ideia de quantas horas e eu estávamos ali, vasculhando centenas de fichas e relatórios feito por Melissa em suas diversas missões. Não estávamos procurando por algum crime ou coisa do tipo, longe disso, até porque, não poderíamos matar sem haver um propósito, propósito esse que somente se encaixava caso estivéssemos sob grande ameaça – com uma arma mirada para nós e vendo que o suposto atirador não estava para brincadeira, para dar um bom exemplo – tentávamos manter nossos inimigos vivos na hora da captura, pois todo tipo de informação era crucial, mas como havia dito, nem sempre esse tipo de ação era possível. Por essas e outras que eu preferia andar com minha arma de choque. Não era letal e o choque produzido nela era capaz de imobilizar o suspeito, tendo tempo de acertá-lo qualquer golpe que o fizesse desmaiar ou até mesmo lançar um dardo sonífero. Mas claro que todo agente que se prezasse tinha que ter uma arma e a minha se resumia a uma antiga pistola semiautomática vinda de meu avô.
– Ok, nada aqui também. – disse em um tom frustrado, deitando-se na cama ao meu lado. Eu ainda continuava sentada, com o notebook no colo, vasculhando alguma informação que mostrasse um lado diferente de Melissa, mas sem resultados. – Talvez ela seja boa em disfarce mesmo.
– Tão boa que deixou cair com você.
– É que eu tenho o mel. – revirei os olhos, pegando o travesseiro ao meu lado e jogando nele, mas ele foi capaz de ter um reflexo tão bom, ou pelo menos ter adivinhado minha tal ação, eu conseguiu pegar o travesseiro antes que se chocasse com sua face. Convencido até demais. – Mas falando sério, não sei se tudo aquilo que ela fez foi algo para, sei lá, me enganar...
– Ou pensar que você é tão apaixonado por ela a ponto de liberar informações da nossa missão. – conclui. – Que pilantra.
– Talvez… – ele deu um suspiro e continuou mantendo seu olhar no teto. Naquele momento, sabia que além de ter seu coração partido, também sentia frustração.
Eu podia falar tanta coisa de Melissa, mas no fundo, sabia que realmente ele sentia uma atração por ela, ou até mesmo um pingo de amor e carinho, misturado com uma pequena ilusão e esperança. Afastei o notebook do meu colo e me permiti deitar ao seu lado, pondo minha cabeça em seu peitoral e vendo seu braço me envolver em um abraço.
– Magoado?
– Triste, talvez… Ou com raiva, não sei.
– Pelo quê?
– Ser enganado dói. Descobrir a verdadeira face das pessoas dói. – ouvi seu suspiro. – Sabe, eu pensei que a noite seria boa. Seria um jeito de conhecê-la melhor e que, bem, dela mudar os pensamentos sobre mim e largar aquele namorado dela, mas claro, respeitando que ela era comprometida. Só que o problema foi que tudo isso partiu dela. Ela ficava tocando em minha mão, fazendo carícias e entre uma hora e outra, ela me enchia de perguntas sobre a missão. – seu peitoral se elevou, inspirando o máximo de ar possível e saindo, novamente, em um deprimido suspiro. – Quando recebi a mensagem dela, era para apenas e somente um jantar, mas me senti como um inocente sendo interrogado.
– Você contou algo? – por mais que eu confiasse nele, não podia deixar de sentir uma pequena aflição, afinal, amor tinha o poder de cegar também. Ele apenas abaixou o olhar, encarando-me com seu sorriso debochado de uma maneira cômica, o que me fez rir.
– Você acha que sou o tipo de pessoa que mistura trabalho e lazer? – neguei, e então ele riu, negando com a cabeça e fitando o teto novamente. – Não sou louco de fazer isso, tenho uma regra a seguir na Firefly e uma amizade com você. Seria como quebrar sua confiança. – me desencostei dele, ajoelhando-me em seguida, mas mantendo meu melhor olhar de sarcasmo para ele.
– Você quebrou minha confiança, idiota. – peguei o travesseiro ao seu lado, e a cada palavra que eu dizia, era um tapa que dava nele, e que no momento, ele não conseguiu desviar. – Quando. Escondeu. Esse. Jantarzinho. De. Mim. – apenas se encolhia na tentativa de proteção, mas sua risada já deixava claro que seu espírito alegre já havia voltado, ou pelo menos parecia ter voltado.
– Se eu contasse a você, com certeza você surtaria mais do que surtou e também, queria te poupar de estresse. Mas convenhamos, você é muito má. Deixou a garota trêmula quando disse aquelas coisas relacionada ao seu pai…
– Ela falou algo a respeito?
– Me perguntou o que aquilo significava e que não entendia o porquê que você mudou tanto com ela.
– Eu nunca fui amiga dela.
– Para ela, você era… Mas enfim, ainda ficarei de olho, mas nosso foco não pode mudar. Então, quais as novidades enquanto estive fora? – com seus braços abaixo da cabeça, em uma pose totalmente relaxada, ele fez a pior pergunta que aquela noite poderia ter.
Poderia contar a verdade? Sim.
Poderia contar nada? Também.
Poderia resumir? Era o certo.
Poderia omitir? Com certeza era o certo para aquele momento.
Não que eu não confiasse nele, longe disso, mas tudo ainda estava recente para mim, meus sentimentos estavam confusos, minha cabeça estava perdida, então se falasse algo, poderia de um modo, afetar em minhas decisões também. E o que eu só queria era tentar pôr minhas ideias no lugar através de mim mesma.
– N-nada demais. – merda, gaguejar, não! Cocei a garganta, tentando me recompor, assim como minha postura. – Só que resolveu aprontar aquela comigo. Para me vingar, roubei um shampoo dele que parecia ser importado.
– Ainda tem? – perguntou em um tom um tanto quanto animado.
– Acho que sim… – em um pulo, que acabou me assustando, caminhou em direção ao banheiro, retirando sua blusa social e a jogando quase na minha cara. Oh, ódio.
– Vocês se amam feito cão e gato. – ele fez o favor de falar, antes de fechar a porta do banheiro e terminar com o famoso shampoo. Eu ia protestar, mas resolvi me calar. Não nos amávamos, não possuíamos nenhum tipo de sentimento… Creio eu.

[...]


Assim que amanheceu, resolvi tirar um tempo para conhecer a vizinhança. Eram seis e meia da manhã, o sol aparecia gentilmente, mas sem deixar seu calor. O clima daquela cidade era maravilhoso fora da época de chuvas, pois pelos meus conhecimentos, Washington DC tinha uma tendência forte para mais dias de chuva do que de sol. Trajando uma roupa de caminhada não muito chamativa e um boné do Canadá, apanhei meus fones de ouvido e celular e dei início a caminhada. Algumas pessoas seguiam no mesmo ritmo que o meu, outras pareciam ter voltado de alguma feira com suas sacolas cheias de frutas. Resolvi não fazer um percurso tão longo, apenas duas quadras dali já bastava. Assim como havia sido minha ida, a volta também foi tranquila ou pelo menos, eu havia pensado. Retornando para casa, prestes a entrar na rua, um carro preto, do mesmo modelo da noite anterior, vinha na mesma via na qual eu seguia, na mesma direção que eu caminhava.
“Será que…”, logo esse pensamento rondou em minha mente. Não pensei duas vezes, peguei meu celular, fingindo estar mexendo em algo e assim que o vidro dianteiro do carro passou ao meu lado, olhei de soslaio tentando enxergar seu interior, mas por conta da forte película preta em seus vidros, a única coisa que consegui ver foi a silhueta não muito bem formada.
“Talvez não seja esse, . Existem tantos outros…”.
A marca verde não estava em sua traseira, até porque, se tivesse, estaria do outro lado, entretanto, sua redução de velocidade ao entrar na rua foi a chave para minhas respostas. Era como se procurasse por alguém, ou por alguém chamado , claro.
Ainda com o telefone em mãos, consegui tirar uma foto da placa antes que ele chegasse no final da rua, e virando à direita, desse uma forte arrancada. Mesmo estando um pouco tremidas, dava para enxergar em si os códigos da placa do carro, e dando um belo zoom, com certeza poderia descobrir algumas pistas que levassem finalmente ao suspeito, se é que ali era alguém que trabalhasse para ele/ela, ou fosse a própria pessoa.
Quando pus o celular no bolso, um forte barulho de arrancada de pneu explodiu em meus ouvidos, fazendo-me com que me virasse, em alerta e um pouco assustada, para o possível local de onde estaria vindo. Foi em questão de segundos que vi o mesmo modelo de carro, acelerando fortemente em minha direção. Em um ato impulsivo, joguei meu corpo em direção para o centro da calçada de onde estava, pondo meus braços em frente ao meu rosto, protegendo-me dos galhos do arbusto onde eu havia caído. O carro passou perto, e ao contrário de antes, a rua a esquerda foi sua saída.
Estava com receio de entrar em casa e o suspeito ainda estivesse lá, vigiando como sempre costumava fazer ou iniciou a fazer. Fiquei uns bons dez minutos sentada na calçada, com minhas mãos sujas de sangue por conta dos arranhões e minha roupa cheia de folhas. Meu coração palpitava forte e minha respiração ainda estava descontrolada. Inspirava e expirava em certos tempos para que tudo voltasse ao normal.
Eu não sentia medo por acontecer algo comigo... Ok, talvez um pouco, mas era aquela preocupação que todos tinham consigo mesmo, entretanto, sentia receio também de fracassar na missão, mas se aquela pessoa pensava que fazendo aquilo comigo estava me afastando dos meus propósitos, estava muito enganada. Eu precisava me recompor.
Assim que cheguei em casa, percebi que assistia algo na TV, aparentemente um canal infantil, e logo relacionei a Luna. Ela deveria ter forçado ele a assistir aquilo ou ele deveria ter proposto, mas logo em seguida se arrependido, pois pela sua posição no sofá, esbanjava o mais puro tédio.
E aí que pensei mais em Luna…
Ela não poderia me ver daquele jeito, o que passaria na cabeça de uma pequena garotinha ao ver uma mulher toda ferida e suja após um passeio na rua?
Eu tinha que subir sem que ela me visse, eu tinha que... Era tarde demais.
Percebi dois pequenos olhos verdes em minha direção.
Droga!
Segurando seu ursinho que tocava um pouco no chão e ainda vestindo seu pijama amarelo, seus olhos estavam arregalados e sua boca meio aberta.
Pronto, eu havia acabado de traumatizar uma garota de dois anos… Ou seria três?
– Luna, seu desenho já está no final, vem logo. – ouvi a voz de , mas o mesmo ainda continuava no seu tédio matinal encarando a TV.
Ele não havia, ainda, percebido a minha presença ali, e nem eu queria que percebesse. Voltei a atenção para Luna e comecei a fazer movimentos para que ela ficasse quieta e não falasse nada, mas ela parecia estar em um transe e assim, disse meu nome em um tom indiferente, uma mistura de tristeza e espanto. Não havia sido tão alto, mas foi o necessário para que ouvisse e rapidamente, virasse para trás, sustentando seu olhar no meu, mas logo em seguida me analisando dos pés à cabeça, franzindo o cenho.
Pronto, mais atenção para mim.
?! O que houve? – ele perguntou com uma voz de espanto, se levantando. Pus a mão no rosto, tentando criar alguma desculpa, mas nada me veio à cabeça.
– Nada… – nada, como assim nada, ? Claro que havia ocorrido algo. Ninguém chegava arrebentada em casa após uma suposta caminhada.
– Como assim, nada? Olha só para você, parece que acabou de sair de um campo de batalha!
, tira a Luna daqui e depois suba. – minha tentativa foi falha ao tentar ir em direção a escada. Quando senti sua mão tocando meu pulso machucado, me fazendo parar no meio do caminho, ao mesmo tempo que senti uma impaciência, senti também ardor. Mordi meu lábio inferior e supostamente ele percebeu a minha dor, pois soltou logo em seguida. – Só tire a Luna daqui e suba. – exigi, seguindo caminho de volta.

[...]

– Ai, isso dói! – senti o produto em contato na minha pele e o ardor se iniciar novamente. Não sabia o que era pior: minha pele em contato com o produto ou com o ar. Novamente, senti o algodão pressionar minha bochecha e aquele ardor seguir seu ciclo. Merda! – , isso dói!
– Olha para minha cara de quem liga. – respondeu com desdém, ignorando totalmente o fato de que quem estava sentindo algo era eu.
– Insensível.
– Dramática.
– Ah, é? Vem sentir minha dor, arrogante.
– Mentirosa.
– Eu não sou uma, somente resolvi não contar os fatos no momento e como disse, não queria traumatizar mais a Luna mais do que já fiz. Daqui a pouco ela vai estar me chamando de monstro do arbusto ou monstro de sangue-lama. – ele pressionou novamente o algodão como se fosse sua resposta de rebate contra a minha. O pano em minhas mãos já estava amarrotado pela força que fazia ao contrair meus dedos de dor.
– Vira. – sua ordem me fez abrir os olhos e sair da minha concentração para não focar na dor. – Vira. – após sua impaciência ser demonstrada com um revirar de olhos, e com tubo de gel em suas mãos, fui perceber que se tratava de passar algo em meus ombros. Virei-me de costas, ainda sentada na ponta da cama. Minha blusa, por ser de manga e ter uma gola um pouco alta, me impossibilitava de abaixar somente a parte ferida, obrigando-me a tirar por completa, ficando de sutiã. Logo senti a frieza da substância pastosa, misturada com o calor das mãos de em contato com minha pele. A delicadeza em cada movimento relaxava-me um pouco das dores que sentia por conta de seu toque. Por mais arrogante e grosseiro que fosse, ainda assim possuía um lado delicado e sensato, demonstrando que tinha técnicas de cuidar de alguém. Aos poucos, fui sentindo seu contato longe de mim e um frescor em meus ombros por conta da pomada. – Pronto. – avisou e acabei me virando, percebendo um pouco de desconforto vindo de sua parte ao ver um pouco do meu colo peitoral exposto. Deu uma leve mordida no lábio inferior passando rapidamente o olhar sobre mim, virando-se para a cômoda onde estava espalhado os remédios. – Tentei espalhar ao máximo para não sujar sua blusa. Caso sinta dor amanhã, é só passar novamente. – finalizou, deixando um silêncio se iniciar. Eu odiava silêncios indesejados.
– Onde aprendeu essas técnicas?
– Técnicas de quê?
– Você sabe… Isso. – vesti minha blusa e ele ainda continuava de costas, como se estivesse organizando as coisas.
– Peguei uma matéria de primeiros socorros na faculdade, já que pretendo ser um arquiteto presente em obras, tenho que estar preparado para qualquer incidente.
– E mesmo assim, quando caiu do cavalo, preferiu ficar sentindo dor. – comentei sobre o dia em que havia ido com ele para assistir seu treino de polo, que por sinal, foi onde tudo começou.
– Preferi não ir porque eu sabia que não havia fraturado, tanto que melhorei rápido. – ainda de costas, ele virou somente o rosto um pouco para o lado, me olhando de soslaio com um sorriso convencido nos lábios. – Eu sei o que eu faço, .
– OK! – a porta se abriu brutalmente, causando um pequeno susto tanto em mim quanto em , esbanjando a figura do meu melhor amigo com seu fiel escudeiro: notebook. – Chequei suas imagens com a gravação que consegui das câmeras da casa e cheguei à conclusão de que sim, eram os mesmos carros, porém, dirigido por pessoas diferentes. – e assim, pela primeira vez na vida, pude concluir que ter assistido, forçada, Pretty Little Liars me deixaria um tanto quanto assustada, pois a cada explicação que falava sobre o veículo preto e seus ocupantes, eu acabava me sentindo uma perseguida de “-A”. – As cores batem, vidraçaria, modelo… Contudo, quando fui pesquisar sobre a placa, deu não localizada. – arregalei os olhos diante da surpresa de sua fala. O que? Placa não encontrada?
– PLACA NÃO ENCONTRADA? – elevei a voz, levantando-me em seguida, mas me xingando por ter feito o movimento tão brutalmente. – Eu não fui quase atropelada para ter essa resposta. Procura isso direito.
– Eu já procurei, mas não tem nenhum registro desse código de placa. Ou falsificaram ou compraram uma, mas não registraram.
– Mas isso é crime, não é?
– Tecnicamente sim. Sem isso, a única coisa que nos ajudaria seria o número do chassi do carro para que a gente possa fazer a identificação do carro, ver o comprador e todo aquele processo, mas não temos isso, ou seja, de volta à estaca zero. – bufei, já perdendo a minha paciência com tudo e todos. Então me arrisquei para nada? Absolutamente nada? E de troca, havia ganhado arranhões nas mãos e no rosto? Me joguei na cama, e novamente me xinguei por aquele ato que custou um gemido de dor.
Eu não servia para estar machucada.
– Podemos não ter informações concretas, mas temos situações concretas. – deu a voz, chamando nossa atenção. Virei o rosto para encará-lo, e percebi que fazia o mesmo. – Pensem bem, a única coisa que não temos são nomes e números, mas temos hora, local, objeto e sequência. Não foi hoje que o carro começou a vagar por aqui, era sempre durante um determinado horário em um mesmo local, logo, isso se constrói uma situação rotineira que nos faz criar um momento perfeito para emboscada. – uma emboscada… Até que não era nada mal. Era uma maneira perfeita de se chegar a um inimigo sem ao menos levantar suspeitas. Claro que tinha seu “porém”, do tipo o carro não passar mais por ali, ou ser uma pessoa que não tinha nada a ver com a história, mas se quiséssemos avançar, teríamos que nos arriscar nas tentativas, mas do que havia me arriscado mais cedo.
– Até que enfim o senhor “terror da América” usou o que ele chama de mente… Parabéns, . – apenas revirou os olhos em meio ao comentário feito por , e retornou a guardar os medicamentos e curativos na caixa de remédios. Fiquei observando por um tempo as ações de ambos, onde ainda mexia no computador e caminhava em direção a janela, fazendo-a de encosto e me encarando com um olhar um tanto pensativo.
Ser observada estava em segundo lugar na minha lista de incômodos; o primeiro era quando minha mãe, no meu aniversário, insistia em me botar para falar com meus familiares no telefone e eu tinha que ouvir, por horas, todas aquelas falas ensaiadas de felicitações e de como eu estava sumida e metida por não ter tempo de ir visitá-los.
Como se fosse uma escolha minha… Às vezes era.
Mas o fato era que aquele incômodo não se resumia somente em ter seu par de olhos em minha pessoa, mas sim, saber que por trás daquilo tudo, havia uma razão.
E eu odiava não conseguir decifrar as feições.
Ok, aquilo já estava se tornando um tanto quanto estranho, mais estranho do que minhas pequenas faíscas atração.
Levantei com cuidado dessa vez, pondo a mão esquerda em meu ombro direito e pigarreando, chamei a atenção deles.
– O que temos então?


Capítulo 19 - Parte II

Sempre há mais do que as pessoas pensam.
- Pretty Little Liars.


Dei um último suspiro, por fim, abrindo a porta a minha frente e caminhando em largos e rápidos passos atrás de , que sem se importar com a possível dor que sentiria no pé no dia seguinte por conta da força que fazia pisando no chão, seguia em direção ao carro de sua mãe, estacionado ao lado da casa em uma garagem aberta. Por conta do padrão das casas daquela vizinhança e a segurança local, os muros eram baixos, apenas feito de cercado e em alguns, continham uma barreira de moita em frente, isso era o que diferenciava um pouco uma das outras. Mas Helena, com sua paixão e admiração por flores, preferiu apenas plantar algum tipo de planta onde suas ramificações e flores roxas, tomavam conta da madeira branca do cercado, dando um toque a mais. Em consequência de toda beleza e delicadeza das casas, vinha a falta de privacidade, e com certeza, os vizinhos deveriam ter se perguntado de onde era toda aquela “gritaria” e discussão que eu estava gerando ao tentar chamar a atenção do garoto a minha frente que mesmo em tantas tentativas, não dava a mínima, apenas continuava andando, girando a chave do carro em seu dedo.
! Você está louco? Me escuta! – quando consegui o alcançar, toquei em seus braços, tentando pará-lo, mas o mesmo apenas desviou brutalmente dos meus toques, olhando-me como se aquilo fosse um desacato a si.
– Droga, ! O que você quer? – questionou ele em seu tom arrogante diário.
– Que você entre na porra daquela casa e entenda de uma vez por todas que enquanto sua vida estiver desse jeito, suas “noitadas”, – fiz um gesto de aspas no ar. – não serão possíveis de ser realizadas. – ele riu, da pior maneira possível para irritar uma pessoa que odiava escárnios. Chegava a ser humilhante o modo de como eu implorava para que ele não fizesse aquilo, mas ele apenas demonstrava que não se importava. Sua única atitude foi cessar bruscamente o riso, me encarando de um modo onde me senti uma pobre coitada, e seguir seu caminho até o carro, onde o mesmo não se importou de dar uma forte arrancada de ré, cantando pneu logo em seguida.
Minhas mãos já estavam em forma de punho e meus olhos semicerrados encaravam toda a cena. Derrotada, apenas girei meus calcanhares, caminhando em direção a casa e pela segunda vez, ouvindo outra arrancada de carro.
Uma perseguição começaria ali.
Não me importei de tirar minha calça moletom e meu casaco ali na sala. Helena já dormia, assim como Luna. Fiz questão de checar mais uma vez antes de seguir caminho novamente para fora da casa, mais precisamente para a caminhonete estacionada ao longo da calçada. Minhas botas estavam bem presas, minha legging e camisa longa térmica me deixavam aquecidas para a fria noite da cidade. Tudo estava tão diferente em relação ao dia, onde pude fazer finalmente, com calma, meus relatórios e enviar a Firefly. Claro que havia omitido algumas coisas, não queria, ao certo, que meu pai soubesse de toda situação, com certeza ele mandaria reforços e estragaria minha futura diversão. Com o coldre afivelado em minha perna direita, suportando o peso da arma de choque, também levava comigo a pistola semiautomática que ganhei de meu avô quando finalmente fui recrutada para a equipe.
Em meio a rua movimentada, consegui pegar um atalho, como previsto, chegando mais rápido ao local onde supostamente iria. Para não chamar tanta atenção, estacionei o carro uma rua antes da boate, jogando por cima da minha vestimenta um sobretudo bege que cobria parte do meu joelho.
Eu amava o frio. Amava como os disfarces combinavam em tempos não calorentos.
O mais engraçado das boates daquela pequena cidade, era o fato de sempre receberem pessoas importantes, como famosos ou da alta sociedade. Talvez fosse pelo motivo de ser uma cidade pequena, poucas pessoas frequentariam ali ou quase ninguém reconheceria. Entretanto, aquela prática já estava sendo pouco usada, já que fãs costumavam trabalhar melhor do que a própria FBI quando se tratava de descobrir locais onde seus ídolos frequentavam. Para criar uma “segurança” melhor – em outras palavras – despistar paparazzis e todo esse tipo de gente, foram criadas duas entradas: uma logo no início, de frente para a rua principal, e outra no beco, onde normalmente aquelas pessoas entravam. Seguindo aquele caminho, ao longe avistei se aproximar da porta onde dois seguranças três vezes maiores do que ele, vigiavam o local. Ele apenas mostrou um cartão, que logo sugeri ser sua identidade, apertou as mãos dos rapazes e adentrou ao local. Dei uma reduzida nos passos quando avistei o mesmo carro das noites anteriores estacionando um pouco próximo do local. Joguei meu olhar para o chão e pus minhas mãos descobertas nos longos bolsos do sobretudo, mas ainda dando meus olhares de soslaios, observando toda aquela movimentação. Duas pessoas de diferentes estaturas saíram do veículo, trajando roupas simples como jeans, bota, blusa e uma jaqueta e para o melhor disfarce, usando boné. Não tiveram dificuldade para entrar e seguir o mesmo caminho de .
A brincadeira só estava começando.
– Tudo pronto? – falei em direção ao meu relógio quando fingi coçar minha nuca.
Afirmativo. – ouvi a foz grossa e segura do meu melhor amigo do outro lado. Nada melhor do que ouvir uma frase tão certa e segura para acalmar os ânimos. Assim como meus “colegas” da frente, não tive dificuldade quando apresentei minha carteira de polícia internacional, ou melhor, da Firefly. Vi os dois homens olharem entre si de uma forma tensa, mas ao mesmo tempo curiosa.
– Peço aos rapazes que caso ouçam qualquer coisa, não é para se intrometerem, caso contrário, vocês virarão um problema em minha vida. E com problemas, eu lido de uma maneira rápida, pratica e um pouco dolorosa, dependendo de como seu corpo reage a um projetil. – dei um breve aviso. – Entendidos? – não obtive resposta, apenas a mesma posição tensa de ambos. Homens... – Entendidos? – forcei mais a voz, vendo-os assenti. Deixei um sorriso vitorioso e satisfatório preencher meus lábios. – Ótimo, agora esqueçam que a cabine B10 existe e usem o significado daquela famosa frase ‘o que acontece em Vegas, permanece em Vegas’. – apenas os vi assentirem com a cabeça e satisfeita, entrei no local.
Quanto tempo que eu não ia a uma boate? Talvez seis meses ou mais... A música alta, jogos de luzes preenchendo o local, o calor humano tão presente que frio ali não existia. O efeito da bebida em ambos corpos deixando apenas o momento tomar conta de si e o álcool fazer efeito. Os beijos tão escandalosos e tão intensos nos cantos e nos banheiros. As cabines numeradas tomadas pelo cheiro de sexo. Tempos para apenas aqueles que podiam desfrutar de um momento livre e fora de problemas. Parei um pouco no centro, concentrando-me apenas em achar três corpos em movimentos diferentes do que o do pessoal. Não tive tanta dificuldade em achá-los, quer dizer, achá-lo, pois, seu companheiro ou companheira havia sumido. Fazia o mesmo que eu: procurava .
– Cabine. – falei novamente para meu relógio e rapidamente vi um corpo ir em direção as cabines. Claro que aquele ser também percebeu, e não perdeu seu precioso tempo. Caminhou despreocupadamente, não tentando chamar atenção.
Patético.
Segui seus passos um pouco mais atrás, chegando no corredor B e seguindo até a última cabine. Deixei o mesmo fazer as honras, passando pela porta já aberta e olhando atentamente o local, já com a mão em sua cintura, onde percebi algo tão brilhante e metálico quanto uma pequena faca de combate.
Interessante...
Quando percebeu a figura a sua frente, de costas, ergueu as costas saindo de sua posição defensiva e relaxando um pouco mais o corpo. Sem mais delongas, retirou sua faca e cuidadosamente foi a aproximando do pescoço da sua vítima, chegando por trás.
– Se eu fosse você, não mexeria nenhum musculo. – através de sua voz, pude perceber que se tratava de alguém do sexo masculino e de alguém na qual eu reconhecia a voz. Peguei com cuidado minha semiautomática e me aproximei, deixando o cano bem próximo ao seu pescoço.
– Eu não teria tanta certeza, gatinho. – o informei, e pelo visto, ele parecia um pouco surpreso e tenso. – Se eu fosse você, soltaria essa faca logo, afinal, não tenho muito a perder aqui, apenas mais uma bala que recuperaria facilmente em sua cabeça. – se havia algo mais prazeroso em arruinar planos das pessoas? Não, acho que não... A não ser um bom sexo e ouvir as belas frases vinda da minha mãe “você não precisa trabalhar hoje”, mas fora isso, aquilo estava em primeiro lugar da minha lista.
Aproximei mais a arma nele, o intimidando... Seus braços logo se afrouxaram, sendo levantados calmamente. Observava todo seu movimento, não queria que nada saísse fora do plano, entretanto, sem ter me tocado que a porta ainda continuava aberta e, que meu querido amigo possuía ainda sim outro parceiro ou parceira, a única coisa que ouvi foram passos rápidos e um vulto atrás de mim. Sem pensar duas vezes, me esquivei um pouco, vendo a pessoa atacar o ar e ao mesmo momento, percebi que havia conseguido se desvencilhar do rapaz da faca, pegando em seu pulso e o girando, mantendo seu pescoço em seu braço direito, enquanto com o esquerdo, tentava tomar a faca.
sabia se virar, meu único problema se resumia mesmo no meu problema número dois que insatisfeita, voltava em minha direção. Por conta da má iluminação e das mesclagens de cores das luzes, não conseguia enxergar muito bem seus rostos. Possuindo também uma faca em mãos, seu corpo veio com tudo em minha direção. Eu poderia atirar, mas seria perda de tempo e de informação, sendo assim, apenas me desviei novamente, conseguindo segurar em seu pulso, girando seu corpo e arremessando contra a parede. Sua faca voou longe, e por conta daquilo, me atrevi a chegar mais perto, tentando conter a pessoa, mas assim como nos filmes, a realidade podia era a mesma coisa e me pegando desprevenida, senti seus pés passarem por debaixo dos meus, me dando uma rasteira que me fez senti a dor de um choque com o chão e vi minha arma voar para o outro canto da sala. Minhas costas doíam, parecia que havia quebrado todos os ossos da minha coluna, mas tentei me manter o mínimo de tempo lá, porém, com seus movimentos ágeis, a pessoa retirou outra faca e veio para cima de mim. Tendo seu corpo em cima do meu e uma faca prestes a perfurar meu rosto, eu fazia força contrária em suas mãos para que aquela tragédia em meu rosto não ocorresse. Não tive muito tempo para pensar se era homem ou mulher, mas com certeza seu corpo se encaixava perfeitamente na segunda opção. Ela era forte, e meus braços já estava doendo por conta da má posição e do “acidente” que havia sofrido na noite anterior. Consegui então girar meu corpo para o lado direito, vendo sua faca passar centímetros do meu rosto pelo lado esquerdo, mas mesmo assim, senti algo quente escorrer pela minha face.
Puta merda, que inveja era aquela que as pessoas tinham com meu rosto? Já era a segunda vez que teria de gastar milhares de maquiagens só para esconder aquilo. A empurrei, levantando-me em seguida. Ok, aquilo já estava fora de controle.
Dando uma rápida vasculhada no local, não consegui enxergar minha arma o que provavelmente deveria ter caído debaixo do sofá.
Sem me importar com faca ou não, apenas a peguei pelas costas quando a mesma tentava se levantar, e a imobilizei. Virei-a de barriga para cima e acertei um soco em seu rosto, queria que a mesma tivesse um desmaio, mas foi impossível ao sentir um par de mãos me arrancando dela e me apertando com toda força. Já estava ficando sem fôlego e me debatia constantemente.
!
Se aquele cara estava comigo, onde estaria meu melhor amigo? Agradecendo aos céus por ainda manter minha elasticidade, consegui dar um chute na qual acertou em cheio seu rosto, e sai de seu “caloroso” abraço. já estava de pé, aparentemente cansado, mas dei graças a deus por ele pelo menos estar vivo. A garota, até então, resolveu o atacar, mas foi mais rápido e a conteve, já o rapaz, ainda não havia desistido de mim e não sabendo de onde ele havia retirado mais outra faca, o mesmo iniciou uma série de socos, na qual eu tentava a todo custo esquivar.
Onde eles haviam aprendido tão bem o combate?
Gemi de dor ao sentir a lâmina raspar em meu braço direito e cortar tanto meu sobretudo, minha blusa por baixo e parte de minha pele. Eu já estava cansada, dolorida e só queria acabar com aquilo, foi quando então me agachei para lhe dar uma rasteira, mas o vi cair, gemendo de dor em minha frente. Olhei para trás rapidamente, vendo outro um novo corpo surgir. sacudia sua mão direita tentando aliviar a dor do soco que dera no rapaz.
– Se eu fosse você, iria checar logo quem é ele. Minha mão não aguenta outro soco. – ele avisou.
O mesmo caminhou até o disjuntor perto da porta, e acendeu as luzes de emergência, clareando melhor o local, que estava destruído. Aproximei-me do rapaz que ainda gemia de dor no chão, mas não estava desacordado. Meus olhos se arregalaram quando tive uma visão melhor de ambos... Aqueles olhos tão azuis e o outro, cheio de fúria.
– Conrad? – deixei escapar seu nome, e assim que olhei para a garota nas mãos de , senti um ódio percorrer meu corpo. – ...
– Hello, amorzinho. – ele respondeu, em puro sarcasmo. – Bonitão... – se referiu a .

Após toda aquela luta, colocamos dos dois sentados em duas cadeiras que sobraram de uma sala parcialmente destruída. estava ao meu lado, enquanto olhava, incrédulo, em um canto da sala. Até então, nosso plano havia sido realizado com sucesso, mas não contávamos com aquela surpresa.
– Até que para dois iniciantes, vocês são bons com planos. – jogou seu sarcasmo. – Quem diria que seria bom em se esconder ou melhor, trocar de lugar.
– Que porra vocês pensam que estão fazendo?! – esbravejou, ignorando totalmente as falas da garota.
– Nós estamos te protegendo e é assim que somos recebidos? Bela recepção... – Conrad revirou os olhos, divertindo-se da situação.
E só de pensar que eu havia o crushado quando cheguei. Ainda me lembrava de quando fui pedir informação sobre a secretária no primeiro dia naquela faculdade e ele foi o mais educado para me responder, sem falar que o mesmo havia me “salvado” das mãos de ... Ou teria sido tudo um plano? Minhas mãos coçavam para que eu não desse um tapa naquela cara, mas meu braço ainda doía demais por conta do corte, e um torniquete improvisado foi feito com um pedaço da minha blusa.
– Será que vocês podem parar com as piadinhas e explicar o que é tudo isso? – questionei. – Quem são vocês de verdade? Porque pelo que estou vendo, não são apenas dois estudantes de uma mera faculdade.
– Não é da sua conta, ... – respondeu e me atrevi a partir para cima dela, mas me impediu. – Que lindo, como é o amor, não é? Eu deveria ter acabado com você naquele dia mesmo, sorte que Conrad me impediu. – não pude deixar de rir com aquele comentário, quem ela pensava que era?
– Você não conseguiu nem aqui, quanto mais lá na faculdade. Poupe-me suas palavras, . No início, apenas achava que você tinha algum problema, mas agora tenho cem por cento de certeza de que tudo o que você tem aí é ciúmes e inveja de um amor não correspondido, acha mesmo que não sei que sente aquele famoso amor pelo ? – minha mãe sempre me dizia para nunca tocarmos na ferida de uma pessoa caso não quiséssemos conhecer realmente o outro lado dela, mas estava tão atônita e com uma raiva tão extrema que não me importei de liberar aquelas palavras e ver seu ódio por mim só crescer. abriu a boca em um perfeito “O” e insinuou a avançar em mim, mas Conrad foi mais rápido e a impediu, assim como , que ainda continuava me segurando para que algo pior não ocorresse.
– Você nem me conhece, garota! – ela rebateu.
– Que bom que sabe disso, pois deveria ter pensado nisso antes de quase matar a gente! – gritei.
– PARA! – esbravejou, assustando não só a mim, como a todos ali. Passando a mão no rosto, ele se aproximou aos poucos e pelo que parecia, com certeza sua paciência já estava no limite. – Não vamos entrar em uma discussão idiota agora, o mais importante aqui é esclarecer as coisas.
– O gatão aí tem razão. – Conrad deu a voz, assustando por conta da sua concordância com . – Fomos contratados, ok? Não vamos dizer por quem, mas a ordem foi que protegêssemos .
– Colocando uma faca no pescoço dele? – questionei. – Desde quando isso é proteção?
– Queridinha, se você não sabe, o seu amiguinho ai, ou sei lá que porra ele é para você, é mais cabeça dura do que uma própria pedra. Você acha mesmo que se eu chegasse e falasse ‘você precisa vir conosco’, ele viria? – Conrad explicou. – Se não quer ir por bem, iria ser por mal... – ele cruzou as pernas e os braços, empinando assim seu nariz.
– E depois disso tudo, o que vocês iriam fazer com ele? – questionou.
– Ai já são outros quinhentos que não conhecemos. O fato é que sim, nós somos estudantes, mas passamos tempo livre aprendendo combate por prazer. – Conrad complementou. – Podemos ir?
– Então eram vocês o tempo todo me espionando com aquele carro? – questionou e Conrad assentiu.
– Intercalávamos os dias.
– Quem estava ontem dirigindo? – perguntei e vi Conrad apontar com o olhar para . – Ah, agora faz sentido o porquê ter jogado o carro contra mim.
– Seria mais divertido se eu tivesse te atingido. – ela rebateu. Aquela garota estava me tirando do sério... Mas assim como eu, parecia estar tão confuso, mas ao mesmo tempo tão irritado, que sua atitude inesperada foi segurar Conrad pela gola da camisa, e o intimidar com o olhar.
– Eu quero nomes! – disse em um forte tom. – NOMES, ENTENDEU?! VOCÊS ESTÃO BRINCANDO COM A PORRA DA MINHA VIDA, ENTENDEU?
– Queridinho, primeiro... – Conrad retirou calmamente as mãos de de si. – Estamos aqui para te proteger, então abaixa essa bola toda que você não tem. E segundo, já disse que nomes não podemos dar, mas nada impede de umas informações.
– Não queremos nada. Se vocês foram contratados para isso, esqueçam. e eu já estamos no caso e vamos seguir isso a frente. Então voltem para suas cidades e sigam com suas vidas.
– Lindinha, vocês precisam de nós. Temos informações nas quais vocês não têm, poderíamos muito bem compartilhar, mas com um propósito.
– E qual seria? – perguntei com uma certa desconfiança.
– Deixar a gente participar dessa investigação toda.


Capítulo 20

When I was down, when I was hurt, you came to lift me up.
- Hymm For The Weekend, Coldplay.


Deixar ou não deixar, eis a questão.
Os olhos tão vivos e intensos que Conrad transpareciam que a curiosidade o matava internamente para saber minha resposta, entretanto, senti um pequeno interesse a mais quando seus lábios, fechados, se formaram em um sorriso intimidador. Um calafrio percorreu meu corpo e quando percebi, não só Conrad, mas todos me olhavam demonstrando a mais pura curiosidade.
Pressão, era isso que estava sentindo e se tinha uma coisa que eu odiava – uma das – era pressão. Foi como no dia onde meu pai me questionou sobre entrar na Firefly ou não, mesmo sabendo que meu destino já estava traçado a entrar naquela corporação. Encarei , que tinha a mesma feição questionadora e indecisa. Sabia que ele também estava curioso para saber quais informações eles tinham, assim , que mantinha o olhar em mim.
– Queremos nomes, Conrad. Nomes. – respondeu por mim com seu tom sério e Conrad riu, se esbaldando em seu velho sarcasmo.
– Já disse que nomes vocês não terão... Talvez em breve. – ele se ajeitou na cadeira, cruzando uma das pernas e apoiando seu cotovelo nele. – Então? – aquele cara estava de deboche com minha cara e minha paciência já não existia mais.
O meu método de contar até dez já não funcionava mais e a minha única vontade era de pegar aquele lindo rosto de deixar belas marcas, assim como a amiga dele vivia fazendo comigo. Não obtivemos respostas e nem demos mais um “piu” sequer, apenas o mais puro silêncio havia se instalado e quando percebeu que não sairia nada de nós, Conrad de ajeitou novamente na cadeira, tendo um sorriso vitorioso em seu rosto. Não aguentei, juro que não aguentei. Em um rápido passo, me aproximei dele, segurando sua camisa e o jogando-o para trás, fazendo com que os dois pés dianteiros da cadeira saíssem do chão e a mesma inclinasse um pouco para trás. O equilíbrio perfeito dos dois pés traseiros da cadeira deixava a tensão no ar, principalmente nele que após sentir meu olhar de fúria em si, consegui perceber um pequeno temor que o mesmo sentiu com minha atitude repentina.
– O silêncio pode ser a melhor maneira de intimidar, mas não será dessa maneira aqui. Não são vocês que ditam as regras, e com todas as provas que tenho aqui, posso muito bem pegar a linda ficha de vocês e enviar diretamente ao meu pai e botá-los como cúmplices ou apenas indicá-los por omissão de dados em uma investigação. – segurei mais forte sua gola, o puxando mais para mim. Ele tentava a todo custo se manter calmo e respira com a pequena brecha que deixei em sua gola. – Então vou dar mais uma chance, gatinho. Ou você abre a boca e fala logo para quem trabalha, ou vocês passarão o resto de suas vidas em dívida com a justiça. – Conrad ofegava bastante, e seus olhos já estavam em chamas de tanta raiva que sentia.
Do jeito que estava, parecia que ele não iria falar mesmo, entretanto, quando o vi mover a boca e uma parte de sua voz sair, deu um pulo da cadeira quase avançando em mim, se não fosse por tê-la segurado. Soltei então o garoto a minha frente na total brutalidade, e por pouco sua cadeira não virou. Ele ficou um tempo com a cabeça baixa, recuperando o ar.
. – ele coçou a garganta, recuperando o timbre de sua voz. – , infelizmente eu não posso contar. Mas te digo que não somos os vilões dessa história.
– Como posso ter certeza? Você veio com uma faca praticamente apontando pro pescoço de , que você pensou que fosse o ! É assim que você diz que está protegendo alguém? Apontando uma arma como se fosse sequestrar a pessoa?
– E essa era a intenção... – murmurou.
– Sequestrar ele? E depois fazer o que? Entregá-lo para seu chefe? – questionei.
– O resto já não é da sua conta. – rebateu.
Meu sangue já estava subindo, aqueles dois estavam me dando mais dores de cabeça do que a própria Melissa tinha me dado por esse tempo todo. Era impossível tirar algo deles, já estava quase pegando minha arma e os ameaçando a força, por mais que fosse errado pela conduta da Firefly, entretanto, o baque da porta atrás de mim, nos chamou a atenção e logo percebi que havia se retirado da sala. Fiz menção com a cabeça para que fosse atrás dele. Quando vi meu amigo sair pela porta, encarei os dois a minha frente, que me observavam com uma tranquilidade absurdamente irritante.
– Eu não sei quem são vocês, não sei de onde vieram e nem sei para quem trabalham, mas se cruzarem nosso caminho novamente, vocês vão desejar nunca terem me conhecido. E caso decidam cooperar realmente, sabem onde me procurar.
Assim que saí do local e entrei no carro, pude respirar tranquilamente e relaxar meu corpo. O sangue do meu ombro já havia estancado, mas o ardor ainda persistia devido ao contato com o pano nele. O carro de não estava mais no local, logo supus de que havia ido com ele. O que eu mais precisava era de um banho e cama, hibernar por um mês não me faria mal, só queria esquecer tantos problemas. Se eu soubesse que trabalhar na Firefly era algo tão mais complexo do que imaginava, teria ido morar com meu irmão na primeira oportunidade, mas a maldita mania de tentar agradar a família e levar seu status a frente me dominava. Girei a chave dando partida no carro, entretanto, o vibrar do meu celular me chamou atenção. Ótimo, e os problemas não paravam de surgir.

“Agora sim você está me mostrando quem realmente você é. Mal posso esperar para descobrir mais sobre você, querida”


[...]


Por mais que eu virasse de um lado para o outro, meus olhos pareciam ter vontade própria, assim como minha mente. Não havia conseguido relaxar muito, no máximo tirei poucas horas ou minutos de cochilos durante o resto da noite. Sentia total inveja de , que ao meu lado, parecia estar em seu décimo sono. As cenas dos acontecimentos passavam em minha mente como um flashback, as mensagens haviam voltado, só que com uma incógnita maior: por que elas sumiam?
Era como se fosse um aproveitador de momentos, onde elas só apareciam nas piores situações para ser o acompanhamento do prato principal. Mas quem as enviavam? Já havia passado tantas pessoas em minha mente e a última que permanecia era Conrad e .
Eu tinha que investigar aquilo, entretanto, era tanta coisa que não conseguia organizar em minha mente.
A claridade solar já surgia sutilmente na janela e quando olhei o relógio, marcava quatro e quarenta da manhã. Preguiçosamente, levantei com cautela da cama para não acordar , já era um bom horário para se tomar café. Caminhei até o banheiro tentando obter forças em minhas pernas. O espelho demonstrava o cansaço da minha aparência e alguns sinais de olheiras já eram perceptíveis abaixo do meu olho. Joguei uma água no rosto e logo após, encarei meu ombro machucado coberto por um curativo mal feito por . Fui retirando com cuidado, vendo o ferimento surgir no reflexo do espelho. Estava avermelhado, a pele já parecia querer se recuperar, mas ainda precisava de uma limpeza melhor. Coloquei de volta o curativo, pegando meu casaco quando voltei para o quarto e segui caminho até a cozinha. Pelo silêncio da casa, imaginei que não houvesse ninguém acordado, principalmente devido a hora e os acontecimentos; mas me enganei quando vi parado, encarando a pequena janela na cozinha que dava para os fundos, com uma xícara em uma das mãos, enquanto mexia a colher com a outra. Seu cabelo crescia gradativamente, já começando a dar a forma do corte de seu irmão. Já que ele odiava tanto se parecer com - que ironia -, me perguntava quando ele iria cortar novamente o cabelo. Subitamente ele se virou, vendo-me o encarar.
– Sem sono? – indagou ele, caminhando para perto da mesa que estava entre nós, soprando o líquido dentro da xícara.
– Meus olhos têm controle sobre mim. – respondi descontraidamente e ele riu, bebericando com cautela o que quer que fosse que estivesse no recipiente em mãos. – E você?
– Minha mente é noturna às vezes, culpa dos projetos arquitetônicos. – respondeu da mesma maneira que a minha, e eu sorri. Um silêncio se instalou em seguida e o foco de estava para o café que exalava um forte cheiro.
– Você gosta do que faz? – apenas vi sua feição mudar-se para uma confusa, como se me questionasse sobre o que eu estava falando. – Você gosta de arquitetura?
– Ah, sim, com certeza. – sua resposta por mais simples que fosse, transparecia o amor pelo curso. – Me vejo trabalhando na área. Por mais trabalhosa que seja, me faz bem. – dei um sorriso como resposta e me já me preparava para ir em direção a mesa, quando ele continuou: – E você? Gosta do que faz? – era difícil encarar uma situação onde nem ao menos uma resposta concreta você tinha. Não chegava a um não, mas também não chegava a um sim, era como se fosse meio termo, mas nem o mais ou menos se caracterizava.
– É interessante. – apenas disse.
– Mas você não respondeu a minha pergunta. Você gosta? – se havia outra coisa que estava em minha lista de “coisas que eu odeio”, uma delas era o rebatimento das perguntas. Não era de meu agrado quando alguém fazia a mesma pergunta para mim. Se eu havia formulado algo para perguntar a pessoa, logo isso não me pertencia mais, e falar da Firefly era complicado para mim, já que não tive escolhas. não tive oportunidades de experimentar novas experiências para falar “é isso que eu quero”. Então, por um lado, o meu “gostar” era algo muito preso, muito do que já vivi e sim, eu fui aprendendo a gostar, mas sem ter noção de outras experiências que o mundo me reservava. – ? – acabei ficando tão perdida em meus pensamentos, que mal percebi que encarava o nada.
– Ah, sim, eu gosto… – minha resposta não pareceu tão convincente a ele, mas o mesmo não resolveu insistir. Deu de ombros, pegando a chaleira perto do fogão.
– Café? – assenti e logo o mesmo retornou a mesa com mais uma xícara, derramando o líquido preto no recipiente e me entregando.
Afastou com cautela a cadeira, sentando-se em seguida, e com um movimento com a cabeça, fez menção para que eu fizesse o mesmo. Sentei, ficando frente a frente com ele. Mesmo quente, me atrevi a beber um pouco do café, onde logo senti a começar me aquecer.
havia me mostrado outra habilidade dele: fazer café.
– Já pensou no que vai fazer? – ele me tirou a atenção de meu momento saboroso.
– Sobre?
– Os dois… – torci o lábio, sentindo novamente a aflição se iniciar.
– É complicado…
– É engraçado. – ele disse, rindo um pouco, mas logo percebi uma ponta de sarcasmo, ou era nervosismo? Arqueei a sobrancelha, dando espaço para que ele desse início a sua explicação. – Como nunca os percebi na faculdade? Digo, eles eram tão… normais.
– Os segredos mais sombrios sempre estão com aqueles que menos esperamos. Mas eu já sabia sobre … Agora Conrad… – fiz um movimento de negação com a cabeça. – E pensar que eu tive uma queda por ele no…
– Você teve uma queda por ele? – indagou com uma sobrancelha arqueada e um sorriso sacana nos lábios. Joguei meu corpo para trás, encostando-me melhor na cadeira, lançando meu melhor olhar desafiador.
– Vai dizer que você não o acha bonito? – pensou por um tempo, coçou a nuca, remexeu no café…
– Tem uma beleza, digamos assim… Mas, – ele logo retornou a fala. – ainda não confio nele, e muito menos nela. Porém… – ele se esticou um pouco, aproximando mais o corpo em direção a mesa, apoiando seu cotovelo nela. Seu suspense me matava aos poucos, e quando percebeu minha curiosidade extrema, riu, negando com a cabeça. – Não acredito que irei dizer isso, mas independentemente do que você decida, confio em você.
Se meu queixo não fosse preso a minha mandíbula, do chão ele não passava, mas ficaria por lá. Mas nada me impediu para que eu deixasse uma pequena abertura em minha boca a mostra. Estava surpresa, e me perguntando se aquilo era realmente verdade. Como tudo havia mudado tão… rápido?
Me recompus na cadeira, saindo daquele transe de surpresa. Não havia o que falar, apenas uma única palavra saiu da minha boca.
– Obrigada. – mas por dentro, já começava a sentir mais a responsabilidade que meu pai havia implantado em minha vida.

[...]

, pipoca! – sentada nos ombros de , Luna apontou para o pipoqueiro do outro lado da rua, com sua alegria única matinal que ainda me questionava de onde ela tirava aquela felicidade. – Eu quero!
– Luna, você já está com um chocolate em mãos, não acha que está comendo muito não? – ele a questionou, e a garota fez uma cara totalmente emburrada, mas logo jogou um pouco seu corpo para o lado, tentando encará-lo, mas sua outra mãos, que estava totalmente suja de chocolate, foi direto no rosto do irmão, o que me fez rir um pouco, enquanto seguia ao lado deles.
– Eu não quero mais chocolate. Quero pipoca. – respondeu como se fosse óbvio. Por mais que fosse nova, Luna em diversos momentos agia como se já soubesse o que fazia e parecia entender o que fazer para conquistar algo.
– Luna, não! Você tem que ter estômago para almoçar. – irritada, ela fechou ainda mais a cara, o que a deixou mais fofa ainda. Percebendo minha presença ali, logo a mesma direcionou o olhar para mim. Algo dizia que aquela situação iria acabar sobrando para minha pessoa.
Dito e certo.
Sua feição logo se transformou como se fosse um cãozinho que tivesse saído do caminhão de mudanças. Fazendo beicinho, ela apenas disse meu nome em uma voz totalmente manhosa.
– Não olha para mim. – apenas respondi, virando a cara.
Mas a garota sabia realmente o que fazia, ela tinha algum poder de persuadir a pessoa apenas com um simples olhar, e se tinha uma coisa que sempre amolecia meu coração, eram crianças. Eu tinha a mania de me colocar no lugar da criança, sentindo seu desejo. Quando percebi, já estava puxando para o outro lado da rua, indo em direção ao pipoqueiro. Logo estávamos nós três de volta a praça, sentados em um banco, olhando a movimentação da feira que ocorria em todos os domingos. Helena estava em algum lugar por ali, fazendo as compras de sempre. Havíamos resolvido ir com ela de última hora, também para esfriar a cabeça e relaxar a mente. Precisávamos de algo mais calmo depois de tanta turbulência, sem falar que Luna havia pedido tanto para sair, que foi impossível dizer um não.
– Não acredito que você passou por cima das minhas ordens e comprou uma pipoca para ela.
– Hoje é domingo, , que mal tem? Ela é uma criança, é normal ter tanta fome.
– Ela não vai almoçar comendo tanta coisa. – ele rebateu, e eu revirei os olhos. E depois diziam que mulheres tinham a mania de reclamar.
– Relaxa, garoto. Uma vez na vida não mata. – ele bufou indignado, passando a mão na bochecha que estava ainda melado de chocolate. Percebi sua tentativa falha de limpar o local, então peguei os guardanapos que havia pedido ao pipoqueiro para limpar as mãos de Luna e me aproximei dele um pouco desajeitada, pois sua irmã estava entre nós. Meu toque em sua pele lhe causou um susto, mas logo segurei seu rosto, limpando o local. – Pronto, pessoa emburrada. Você tem que aprender a ser menos tenso e a curtir o momento. Parece um velho de sessenta e poucos anos, frustrado da vida, cruzes.
– Eu sei curtir o momento, só que meus dias não estão sendo lá bons… E também, não acho que minha mãe irá aprovar a Luna comendo a essa hora.
– Bem, nesse caso o problema vai ser comigo e não com você, então relaxa, ok? – não falou nada, apenas virou o rosto para o outro lado, olhando o local em si. Aproveitei para fazer o mesmo, mas logo depois senti seu olhar cair sobre mim rapidamente. Tentei ao máximo não olhar, pois era constrangedor quando seu olhar ia de encontro com o de outra pessoa, e logo em seguida vocês não sabiam o que fazer nem ao menos o que falar. Por sorte, Helena se aproximava carregando suas sacolas de compras, com um sorriso sereno estampado no rosto. – Fez boas compras? – ela abriu o sorriso mais ainda, assentindo com a cabeça.
– Essas feiras são ótimas para conseguir desconto. Essa é minha dica para quando morar sozinha, vá a feiras. – se um dia eu chegasse a ter uma vida normal, tentaria lembrar daquela dica.
– Ah, Luna havia pedido tanto pipoca que não resisti e comprei para ela. Espero que não tenha problema.
– Sem problema, minha querida. Imaginei que ela fosse ficar com fome.
– Mãe, ela não vai almoçar. – tratou logo de comentar, como se estivesse duelando entre um irmão para ver quem iria ser o errado da história. Porém, o humor de Helena estava tão radiante, que a mesma apenas deu de ombros, ajeitando as sacolas em mãos.
– Uma vez na vida não tem problema, filho. Luna precisa se distrair um pouco. Agora vamos, ainda preciso preparar o almoço. – virei-me para o mesmo, que com sua cara de derrotado, parecia digerir as palavras da mãe. Ele tornou seu olhar para mim, e no momento, a única coisa que fiz foi silabar a palavra “bingo”, sem emitir nenhum som, vendo sua indignação só aumentar.

[...]

Estive em contato com o presidente essa semana, parece que o julgamento de ocorrerá em poucas semanas.
– O senhor acha que ele será inocentado ou…
Não sei, filha. O presidente transferiu toda a investigação para nós, e encaminhamos recentemente as imagens à perícia para que fizesse uma análise mais precisa. Em todo caso, por não encontrarem nenhuma digital no copo, está mais claro de que ele será inocentado, porém, caso isso ocorra, a investigação ainda terá que continuar até encontrarmos o assassino. – sentei-me na cama, respirando fundo, enquanto conversava com meu pai. Um alívio súbito surgiu quando soube que a investigação, agora, estava totalmente em nossas mãos. Seria mais fácil assim ter acesso a todo o processo de investigação feita nos últimos meses e juntando com o que tínhamos, sentia que estávamos mais perto do assassino do que nunca. – Como estão as coisas ai?
– Tranquilas. – apenas respondi. – Como estão as coisas na pizzaria? Estão dando conta? – ouvi meu pai dar um forte suspiro.
Acabamos contratando um garoto para nos ajudar na entrega das pizzas, já que teve que nos deixar. Ele até que faz um bom serviço, mas tem reclamado sempre da moto que usava.
– A moto que usava? – acabei dizendo em voz alta no intuito de realmente chamar a atenção do meu amigo, que se encontrava deitado de lado na cama, mexendo em seu computador.
Seu olhar esbugalhado logo pesou em mim. Sabia que internamente se corroía, ele tinha um ciúmes extremo com aquela máquina ambulante, era como um filho ou filha para ele, seja lá o que ele considerasse.
– Que moto? – ele questionou em um sussurro, mas fingi que não ouvi. O desespero dele só aumentou e quando vi, o mesmo já se encontrava praticamente ao meu lado, tentando ouvir a conversa.
– E ele está fazendo um ótimo trabalho? Pensando em contratar? – levantei às pressas, me afastando de , mas o mesmo insistia em me seguir. Começamos então uma caçada, na qual eu tentava me esquivar a todo custo, enquanto ele, com sua curiosidade, tentava conseguir alguma informação da minha conversa com meu pai. – Vou avisar a ele, depois nos falamos, pai. Manda um beijo pra mamãe. – quando estava prestes a tomar meu celular, eu desliguei, o jogando na cama.
– Isso é injusto! – ele exclamou mostrando sua indignação, enquanto o que eu só fazia era rir. – Que história é essa de minha moto?
– Sua mãe fez uma boa ação e emprestou a moto para que meu pai usasse na entrega. – joguei-me na cama. – Meu pai agradeceu pela boa vontade de emprestar a moto, disse que você é um bom garoto. – ele bufou, enfurecido, voltando ao seu lugar de origem. – O que estava fazendo? – ele pigarreou antes de falar.
– Antes de ser interrompido pela sua pessoa, estava novamente tentando rastrear o número na qual você recebeu a mensagem, mas como sempre, não encontrei nada. É incrível isso!
– A pessoa é mais gênio do que você. – seu olhar gélido se voltou para mim, e logo fiz sinal de rendição. A primeira coisa na minha lista de “atividades que me agradam”, com certeza era pirraçar . Toda vez que eu via sua cara emburrada, me dava vontade de apertá-lo. – Ah, você sabe que para mim, o melhor gênio da computação é você. – joguei-me completamente em cima dele, o ouvindo resmungar.
– Outch, sua insensível! Não venha me tapeando agora não! – fingiu um chateamento com a minha pessoa, mas não liguei. Fiquei ali, o abraçando e ouvindo suas exigências para que o soltasse. Já era tarde da noite, tentei fazer companhia para ele durante sua investigação, mas o cansaço foi tanto, que acabei apagando.

[...]

Meu corpo agradeceria se minha mente não despertasse no meio da noite, mas estava sendo impossível de controlar isso, e não era culpa da cama, pois a maciez dela, por mais que não chegasse aos pés da cama da Casa Branca, ainda sim era superior ao meu colchão em minha casa. Era como estar deitada nas nuvens, apenas flutuando e sentindo seu corpo se encaixar corretamente nele, mas o problema não estava ali e sim em mim. Virei de lado vendo totalmente apagado. Seu rosto ainda estava marcado pelos socos que havia levado devido a briga com Conrad. Meu coração logo apertou ao vê-lo daquele estado. Não chegava a ser algo muito perceptível, mas conseguia enxergar alguns pontos roxos. Talvez eu não devesse ter o chamado para aquela missão, seria melhor para ele estar em casa, com meus pais, apenas me ajudando de lá com o que ele sabe fazer de melhor que era computação. Hackear, me mandar localizações, seria mais fácil e eu não estaria me sentindo tão culpada.
Eu tinha tanta sorte em tê-lo ao meu lado.
Quando olhei para o relógio em meu celular, nem três da manhã havia dado, e novamente eu passaria a madrugada em claro. Bufei derrotada, levantando-me com cautela e indo em direção ao banheiro. Talvez uma água quente na cara ajudasse um pouco a relaxar, e aproveitaria para dar uma olhada em meu ferimento. Em frente ao espelho, fui retirando com cuidado o curativo, vendo uma melhora não muito significativa. Estava tendo o máximo de cuidado para mantê-lo limpo e bem coberto, só precisava um novo curativo para substituir aquele. Era comum ter kits em banheiros, nunca se sabia o que era capaz de ocorrer, principalmente em minha casa, quando meu pai ainda era ativo em missões. Cansava inúmeras vezes e acordar no meio da noite e encontrar minha mãe cuidando de seus ferimentos. Sem contar que mamãe sempre foi uma mulher preocupada com suas crias, meu irmão e eu não poderíamos aparecer com um ferimento se quer que ela já chegava com aqueles remédios que fazia nossas almas saírem do nosso corpo e retornarem por causa da dor.
Eu tinha pavor.
Vasculhei por todo banheiro e até no território do quarto, mas não achei nada, o que me levou a procurar pela casa. Talvez em outro cômodo poderia ter.
O corredor estava escuro, somente com a pouca iluminação no final dele vindo da lua. Fui caminhando com cuidado, na esperança de chegar até a escada sem levar nenhuma topada. E não havia levado, porém, em um pequeno momento de distração, quando jurei ter ouvido algum barulho de porta, meu corpo se chocou com algo um pouco maior do que eu. Logo soube que se tratava de uma pessoa, já que suas mãos fizeram o favor de me segurar pelos ombros, e seu abençoado dedo triscou em meu ferimento.
Não sei quantos xingamentos passaram pela minha mente, mas o ardor devido ao toque me levou até o inferno, e meu lábio inferior sofreu, devido a mordida que dei para segurar meu grito. Uma luz instantaneamente veio em meu rosto, me cegando completamente.
? – sussurrou, ainda com seu celular em meu rosto.
– Desliga isso! – pontos brilhantes surgiram em minha vista após ele finalmente ter desligado. Já não bastava estar com o braço lesionado, ainda queriam me tirar a visão. – Ótimo jeito de se esquivar de um ladrão, hein?
– Pelo menos eu teria tempo de agir com ele cego. O que faz acordada a essa hora?
– Minha mente gosta das madrugadas, e também, estou atrás de um curativo para meu ferimento, sabe onde tem um? – novamente a luz do celular foi acesa, só que dessa vez, em direção ao meu ombro.
sabe bem como causar estragos.
– Estaria pior se eu não tivesse esquivado. – suspirei pesadamente.
– Vem comigo. – através dos seus movimentos, o vi adentrando no que supus de ser seu quarto. O segui, e assim que entrei, fui acertada em cheio pela luz forte do cômodo.
– Se minhas vistas forem danificadas, mandarei a conta do oftalmologista para você. – ele não disse nada, apenas me encarou com um pequeno sorriso nos lábios e um riso abafado saiu de seu nariz, enquanto caminhava em direção ao seu banheiro. Meu olhar logo percorreu pelo cômodo e pela bagunça que estava sua pequena escrivaninha, algo me dizia que sua mente também não estava o ajudando no requisito sono. – Problemas para dormir? – questionei quando percebi que ele já havia retornado para o quarto, mas agora, com uma pequena caixa em mãos.
– O silêncio da madrugada é inspirador. Não quero me atrasar mais no meu curso do que já estou, então resolvi terminar uma planta baixa.
– Ouvir música se encaixa em seu modo de silêncio? – apontei para seu celular que tocava alguma melodia conhecida, mas que no momento, não recordava o nome.
– Coldplay é silêncio para mim, ok?
– Não está mais aqui quem falou. – fiz um sinal de rendimento, sentando ao seu lado na cama. examinou um pouco o ferimento, abrindo em seguida a caixa. Colocou um pouco da substância líquida em uma gaze e se aproximou mais. Mordi o lábio inferior, sentindo o ardor do produto. Virei minha cara pro lado contrário tentando pensar em qualquer coisa para amenizar a dor. – Você já foi em algum show deles?
– Em vários. – respondeu com uma certa animação. – Já conheci o Chris também, foi um dos melhores dias da minha vida.
– Ser famoso tem suas vantagens.
– Não sou famoso, apenas usei um direito que foi concedido ao meu pai.
– Ainda sim continua famoso. – o vi revirar os olhos, dando de ombros.
Um silêncio se iniciou e para não tornar a situação mais constrangedora do que poderia ficar, comecei a rondar meus olhos pelo local, esperando que ele finalizasse, entretanto, quando não senti mais a gaze em mim, comecei a estranhar pela demora que ele estava para fazer o curativo. Minha dúvida foi respondida quando vi parado, apenas fitando a ferida em meu braço. Abri a boca para falar, e apenas o som da sua primeira inicial foi dita, antes dele tomar a voz.
, me sinto mal por tudo isso.
– Pelo que? – respondi atônita, sem saber do que ele estava falando.
– Tudo isso que está ocorrendo é minha culpa. Se eu não fosse tão... eu, você não estaria assim, na verdade, nem estaria aqui, mas enfim... – tornou a finalizar o curativo, balançando a cabeça como se quisesse esquecer de algo.
– Isso é apenas meu trabalho, . Eu que escolhi estar aqui, eu que escolhi essa vida, é normal me machucar. Isso ainda vai ocorrer muito em minha vida, porque não sou perfeita como os agentes de filmes. Tenho que me acostumar com a realidade. – falei o vendo terminar meu curativo. Às vezes queria ter o poder de ler mente só para saber o que se passava em sua cabeça quando ele apenas não falava nada.
– Obrigado pelo que tem feito. – com sua mão livre, senti seus dedos passearem pela minha bochecha, dando-me uma sensação estranha no estômago.
Seu toque era suave, gentil, era um carinho que não recebia há muito tempo. Mas com isso, veio a antiga sensação que muitas vezes sentia, e principalmente senti na noite do telhado: atração. Era algo estranho, tentador, e só de lembrar o toque dos lábios de nos meus, uma vontade de reviver um flashback ressurgia. Seu olhar estava tão conectado ao meu, que mal senti sua aproximação. O primeiro toque dos seus lábios foi gentil, como uma entrada para o prato principal. Ele roçou os lábios nos meus, permitindo-me sentir uma vontade maior de dar continuidade, de intensificar, de ter o algo mais. Em seu segundo toque, nossas bocas já estavam em total contato, assim como nossas línguas. Havia me esquecido o quanto bom era beijá-lo. Isso não podia negar.
Era uma sensação boa, gostosa, viciante.
Estávamos apenas curtindo o momento, com um beijo ritmado. Meus braços já estavam ao redor de seu pescoço, e com minhas mãos livres, passava-as entre seus fios castanhos, um pouco já mais longo devido a sua demora de cortá-los e suas costas, onde fazia questão de deixar algumas marcas com minhas unhas. Suas mãos estavam encaixadas em minha cintura, trazendo-me mais para perto dele. O beijo já começava a esquentar mais, seus dedos já caminhavam para a minha blusa, onde a levantava com cuidado para que não perdêssemos tanto o nosso contato. A vi voar longe, parando provavelmente no chão, mas não tive tempo de pensar muito, já que logo retornou a me beijar, deitando-me na cama.
– Acho… – disse entre os beijos. – Injusto… Você ficar de blusa. – ele parou e passou a me encarar com uma sobrancelha arqueada. Ajoelhou-se na cama, abrindo os braços.
– As suas ordens, madame. – dei meu melhor sorriso de lado, ajoelhando-me também e retirando devagar sua blusa. Não diria bombado ou muito malhado, até porque ele mal frequentava a academia, mas o físico de era de ser invejado. – Agora estamos falando a mesma língua. – voltei a aproximar nossas bocas, retornando ao caloroso beijo. Céus, aquilo era tão bom!
A maciez do colchão logo me acolheu, e com seu corpo em cima do meu, logo redirecionou seus lábios ao meu pescoço, enchendo-me de marcas e rastros de beijos que me faziam suspirar prazerosamente. Durante seu trabalho bem-sucedido, senti meu ombro dar sinais de incômodo e ao que era para ser um gemido de satisfação, acabou-se saindo um de dor, o fazendo parar e me encarar.
– Tá doendo? Se quiser podemos… – parar? Naquele momento? Meu ombro que me desculpasse, mas aquilo não iria acontecer.
– Dou para suportar. – voltei a selar nossos lábios.
Suas mãos já estavam na parte debaixo da minha roupa. se afastou, tirando meu short lentamente, enquanto mantinha um contato visual intenso com um sorriso safado no rosto. Eu só desejava que ele continuasse. Voltando para mais perto do meu rosto, iniciou um rastro de beijo: meus lábios, meu pescoço, meu colo, seios, barriga e virilha. A partir dali, não pensei em mais nada a não ser no momento, nele, em nós. Não me importava com o passado, como éramos ou o que poderíamos nos tornar. Existiam momentos em que nossos pensamentos deveriam ser desligados e apenas nos deixar levar, e aquilo estava ocorrendo. Sem culpas, sem “e se”, sem dó nem piedade, apenas continuamos seguindo o prazer em cada um, com a necessidade do algo mais, com a excitação que ambos estavam causando. Havíamos esquecido de toda rixa que um dia existiu, ou de um possível ódio que estava se transformando em algo mais intenso. Apenas deixamos à vontade dominar, nos levando a uma loucura sem fim e um momento único entre beijos, carícias e sexo.

[...]

Quando despertei, a primeira coisa que senti foi um cheiro totalmente agradável e diferente do que estava acostumada. Era suave, não tão forte, mas que se tornaria memorável. Aos poucos, fui abrindo os olhos, me deparando com a imagem de ao meu lado, dormindo tranquilamente como se sua única preocupação fosse aquela: descansar. Era a primeira vez na qual o via com uma feição totalmente angelical e despreocupada, longe de suas arrogâncias e do menino que todos temiam pelo jeito frio de ser. Sua respiração estava leve, serena. Cautelosamente, fui aproximando meu polegar em seu rosto, tocando suavemente em sua bochecha que havia um início de barba mal feita. Um sorriso brotou em seus lábios e no ato, tomei um susto. Ele estava dormindo, não estava?
– Isso faz cócegas. – disse com uma voz totalmente rouca e leve, sem ainda abrir os olhos.
– Que susto, garoto! Quer me matar do coração! – pus a mão em meu peito, o fazendo rir. Ele deu uma mexida como se parecesse desconfortável com algo e logo percebi que eu dormira em cima de um dos seus braços. Com certeza estaria dormente por conta do peso da minha cabeça, sem falar das horas possíveis que estava ali. Afastei-me um pouco para que ele retirasse, onde o mesmo o esticou um pouco. – Acho que acabei de aleijar seu braço.
– Não tem muito tempo que você está o fazendo de travesseiro. Acordei tem pouco tempo e quando fui esticar, você apenas se virou e deitou em cima dele. – virou-se um pouco em minha direção. – Já te falaram que você tem um péssimo mal dormir? – lancei lhe minha melhor cara de poucos amigos. Não acreditava que até ele estava falando daquilo. Não tinha culpa se eu havia acostumado a ter uma cama larga só para mim, não estava acostumada a ter companhias durante a noite, somente quando Aurélio, o gato do meu irmão, resolvia dormir comigo. Logo, eu tinha um espaço de uma cama de casal só para mim, onde meu corpo se apoderava de toda sua extensão. Dei uma revirada de olhos e o mesmo riu diante do meu ato, me puxando mais para si.
– Sai, seu falso. Você deve estar de complô com o para falar do meu jeito único de dormir. Não tenho culpa se eu gosto de espaço e fazer os outros de travesseiro. – ele riu novamente.
– Não me importaria de acordar todos os dias com seu peso em mim. – o olhei de soslaio, semicerrando os olhos.
– Olha que dizem que sou folgada, então toma cuidado, porque senão venho dormir aqui todos os dias.
– Seria uma ótima companhia, mais do que já está sendo nesses dias. – e aquela frase me fez refletir no quanto as coisas estavam mudando.
a cada dia me mostrava seu outro lado, uma face diferente do que a mídia jogava em seus tabloides ou que todos imaginavam saber. Era uma surpresa, claro, mas que fez me questionar se o modo de como ele agiu comigo foi para se proteger ou se realmente ele era daquele jeito mesmo. Havíamos passado por algumas situações juntos que me fizeram, aos poucos, o conhecer melhor, mas não tanto. ainda era uma incógnita para mim. Não sabia o que ele sentia de fato, e pior de tudo, não tinha a menor ideia do que a noite passada havia significado para ele. Sexo casual, talvez? O que quer que tivesse sido, não seria nada sério, até porque, meus dias ali estavam contados.
– Não precisamos ter aquela conversa, certo? – o chamei atenção, vendo-o franzir o cenho.
– Que conversa?
– Aquela conversa sobre o que tudo isso significou e… Enfim, você sabe. – ele entortou os lábios, como se pensasse na resposta.
– Acho que não precisamos. A não ser que você queira. Você quer?
– Eu sempre evitava.
– Bom saber que eu não fui o segundo. – lançou-me um sorriso sacana.
– Nem o segundo, muito menos o terceiro, mas não é hora de falar disso e nem do “assunto”. Vamos deixar em off. – ele deu de ombros, voltando a fechar os olhos. Mas eu queria falar, queria aproveitar o momento acabar com minhas dúvidas em relação ao seu lado rebelde que a mídia tanto caía em cima, e que por falar nelas, até que sua obsessão por ele havia esfriado. – Mas é tão estranho isso. – eu não conseguia controlar minha boca, não mesmo. Ele apenas abriu os olhos, franzindo o cenho.
– Estanho o quê?
– Nós dois, aqui, nessa situação…
– O destino embaralha as cartas e nós a jogamos, não é o que dizem? Tudo pode ocorrer. Por que? Não gostou?
– Não, eu gostei… É só que ainda é estranho para mim o jeito de como estamos levando tudo. Quando cheguei a Washington, você era uma pessoa desprezível para mim, chega que acho que tinha mais chances de rolar algo com seu irmão do que com você. – o vi fechar a cara e se afastar de mim. Meu comentário não havia o agradado, e era o fato. Ele ainda não gostava de falar do irmão, e minha intenção não era acabar com o clima, mas eu precisava falar. Sua postura então foi virar de barriga para cima e cruzar os braços.
– Se era essa a tal conversa, eu preferia ter evitado.
– Eu não disse por mal, só estou sendo sincera a ponto de falar que é estranho, porque você está se mostrando ser uma pessoa que jamais pensei que fosse.
– Você está apenas me conhecendo sem a interferência da mídia ou o meu lado vingativo contra meu pai. – soltou um forte suspiro, como se estivesse farto de algo. – É por isso que eu odeio a mídia, porque ela nunca diz a verdade, nunca procura procurar o outro lado da coisa e é assim que todo mundo me vê.
– Mas você provocava. – ele me olhou de relance, e dei um sorriso sem jeito. – Acha que destruir um quarto de hotel entra no quesito bom garoto?
– Eu estava bêbado, com a galera e tinha discutido com meu pai por ele ter cancelado a nossa ida para assistir ao jogo de baseball. – tornou a se virar, ficando de frente a mim. – Sabe por quantos dias eu estava esperando por aquilo? Ele apenas pensou nele e na merda de carreira dele.
– Mas isso não lhe dá direito de destruir algo que não lhe pertence.
– Pois bem, eu faria novamente. – disse com convicção, parecendo uma criança de cinco anos emburrada por não ter o brinquedo tão sonhado da loja.
! – o repreendi.
– O que?! Eu estou sendo sincero, não estou? – seu sarcasmo havia voltado e era algo que eu não sentia falta. Ele não havia jeito, quando você pensava que tudo estava melhorando, as coisas tinham que voltar ao seu ponto inicial. Percebendo a minha decepção exposta em minha face, o mesmo, delicadamente, pôs um dos fios do meu cabelo para atrás de minha orelha. – Olha, não quero que essa conversa estrague o bom momento que tivemos. Estou sendo sincero com você e peço para que não tente entender a minha relação comigo e com meu pai é algo muito complexo. Mas te digo com todas as palavras e certezas de que agora, você está realmente me conhecendo.
– Bem, ainda não levantamos da cama e temos todo tempo do mundo, então meus ouvidos estão abertos a essa complexidade.
… – falou com a voz arrastada, mas não desmontei minha postura de boa ouvindo. – Sério mesmo? – assenti com firmeza. Sendo assim, o mesmo apenas revirou os olhos, enchendo o peito para mais uma explicação. – Meu pai sempre foi envolvido com política, mas nunca mudou por causa dela. Ele era presente, um bom pai, levava eu e para os jogos, estava lá nos dando apoio quando precisávamos e até conversou comigo quando fui expulso de um acampamento.
– Expulso de um acampamento? – questionei curiosa.
– É… Digamos que a diversão e o prazer levam a casos extremos.
– O que ocorreu? – com aquelas frases, ele não estava colaborando muito para diminuir a minha curiosidade.
– Eu tinha 17 anos na época, tinha terminado com uma garota, fui para o acampamento espairecer a mente, conheci uma garota, ela começou a me desafiar, viramos amigos, aprontamos, na verdade, fizemos o inferno naquele acampamento. – disse rindo. – Mas sim, um vídeo íntimo, nosso, foi espalhado para o acampamento todo e me fodi legal.
sendo um delinquente desde os dezessete? Por que isso não me surpreende?
– Talvez porque você ache que eu já nasci rebelde, mas pode perguntar até a minha mãe, eu era o mais quieto na infância.
– E quando cresce, vira isso. – neguei com a cabeça. – Que decepção.
– Vai dizer que não gosta? – semicerrei os olhos, dando-lhe um tapa, onde o mesmo se encolheu um pouco. – Outch!
– Olha os modos comigo, garoto! – fingi uma repreensão. – Mas sim, continue.
– Bem, voltando ao foco principal… Quando meu pai ganhou a presidência, ficamos muito felizes com sua vitória. Minha mãe sempre fazia do possível para estar ao lado dele, o ajudando. Ela deixava até de realizar alguns trabalhos para ajudá-lo. Mas então, com o passar do tempo, ele foi se tornando uma pessoa irreconhecível, com a mesma ganância que tem até hoje.
– Seu pai não me parece ser ganancioso, quer dizer, pelo que eu via pela TV, ele me parecia ser muito sensato para ocupar o cargo de presente, chega que ele obteve bons votos tanto da população, quanto dos delegados. – suspirou.
Seu estado agora se resumia talvez a uma decepção, e ao mesmo tempo em que minha curiosidade implorasse para que ele continuasse, minha outra parte pedia para que eu encerrasse o assunto, pois estava sendo desconfortante para ele. E realmente parecia o certo, mas quando fiz menção para mudar de assunto, o mesmo tornou a falar.
– A imagem que passamos através dos meios de comunicação, pode ser bem diferente do que realmente somos. Entre essas e outras eu fui aprendendo isso e fui criando uma máscara para mim. A mídia é cruel, . A fama é cruel, é preciso saber realmente lidar com tudo isso, caso contrário, você afunda e ainda leva pessoas com você. – a medida em que ele ia falando, minha mente relembrava o momento em que vi seu pai pela primeira vez na TV.
Meu pai e minha mãe estavam na sala, esperando o momento em que haveria o debate entre os eleitos ao cargo da presidência. Elliot e Rachel Dwight demonstravam total convicção do que estavam fazendo e a cada diálogo era possível ver suas confianças exalando pelas feições. Além deles, Michel Lake e Cassie Cornie, que disputavam pela vaga de vice, marcaram presença. Nunca fui chegada a política, mas aquele debate tinha conseguido prender minha atenção. Após a candidatura de Elliot, sempre que saía alguma notícia referente a ele e sua família, o mesmo demonstrava o mais puro amor e carinho que tinha. Sempre se mostrou um homem simples que não ligava para riqueza. Talvez, no fundo, todos nós estávamos sendo enganados... Ou não.
– Como disse, até meus dezessete, dezoito anos, vivíamos tranquilamente. Minha mãe ajudava meu pai em sua candidatura ao mesmo tempo que trabalhava em seu escritório de arquitetura. e eu possuíamos uma relação boa, mas eu já começava a perceber sua pequena mudança quando ele decidiu seguir na mesma área de meu pai, após começar a ajudá-lo também. Eu nunca gostei disso, sempre preferia acompanhar minha mãe e ficar horas e horas apreciando seus projetos e desenho a mão livre. Até ai tudo bem. Meu pai ainda era um cara presente, mesmo tendo que viajar de vez em quando, só que tudo piorou no seu primeiro ano de governo. Em seis meses vi meu pai se transformar. Minha mãe já havia tido Luna e ela caminhava para os seus primeiros anos quando as brigas se intensificaram. Noite e dia eu via meus pais discutindo e minha mãe reclamando do quanto ele estava se importando mais com o trabalho do que com a família e tudo bem que ele era presidente, mas meu pai parou mesmo de se importar, chega que Luna é totalmente afastada dele, porque ele não tem mais coragem de tentar reatar algum vínculo com ela, pois depois que minha mãe se mudou, ele percebeu o que havia perdido. – ele deu mais outro suspiro forte. – E para mim, saber que não teria minha mãe ali comigo, nem mesmo Luna, que por ironia do destino eu havia me apegado, pois eu não queria que minha mãe tivesse outro filho ou filha, foi destruidor.
– Por que não se mudou com ela?
– Não cairia bem para a mídia saber que a família presidencial perfeita estava em crise. Meu pai teve que inventar que minha mãe precisou viajar pra cuidar de minha avó, sendo que ela nem mora aqui. Foi uma loucura, então comecei a debater com ele e dar razão a minha mãe, só que meu pai não me entendia e começou a defendê-lo. Já não estava aguentando mais aquela vida, a mídia em cima da família quando descobriu a separação dos meus pais, então a única alternativa que tive para sair da minha realidade frustrante foi com meus amigos, com Ryan. Começamos a curtir a vida do jeito que eles achavam que deveria sair. Beber, fumar, não se importar com as regras, causar o caos que eles tanto queriam. Parte de mim não queria continuar, porque não queria dar desgosto a minha mãe, mas só de pensar na ignorância do meu pai, comecei a não me importar. Foi ai que em um certo dia, tudo aconteceu e minha vida está assim, de cabeça pra baixo. – eu estava sem palavras, e sem saber o que fazer, pois eu já havia o julgado e muito. Tudo bem que certas atitudes ele poderia ter evitado e que não era necessário chegar a um extremo, mas cada pessoa tinha seu modo de lidar com os problemas, e de um jeito, havia encontrado com seu grupo.
– Não imaginava a barra que estava passando, mas tudo isso irá acabar. – se eu era péssima com conselhos? Um pouco. Ele deu um sorriso amarelado, como se quisesse acreditar no que eu estava falando, porém, para ele, a realidade era outra.
– Eu sei que tudo isso está longe de acabar, . Você não é a primeira sombra que tive. Muitos outros seguranças me falaram a mesma coisa, mas fugiram ao perceber a gravidade que tudo isso havia se tornado.
– Eles se demitiram? – ele assentiu. – Por quê?
– Nunca soube, o único motivo que meu pai sempre recebia era de que eles não queriam mais, somente isso. E o estranho é que era sempre a mesma desculpa. – pedidos de demissões em sequência e pelo mesmo motivo. Era estranho de ouvir aquilo e principalmente imaginar, com certeza havia algo naquilo e parte de minha intuição estava direcionando a um certo anônimo ou certa anônima.
– Naquela época você já recebia as mensagens? – ele parou um tempo, focando o olhar para cima como se pensasse em algo. Não demorou muito para voltar a me encarar novamente com uma feição totalmente incrédula e com seus olhos arregalados. Vi sua cabeça balançar levemente, afirmando a situação. – Então eles não desistiram porque não queriam mais, e sim, porque foram ameaçados de algum modo. Talvez eles se atreveram a responder e receberam alguma outra mensagem apenas exigindo que eles só dessem essa desculpa.
– Droga! – exclamou, pondo a mão em sua face. – Não deveria ter xingado eles mentalmente e desejado coisas ruins quando me abandonaram. – se ele já fazia isso com aquelas pessoas que mal deveria ter passado um mês se quer com ele, imagine o que ele pensou ao meu respeito?
– O que você pensava sobre mim? – não consegui segurar a pergunta, minha curiosidade estava me matando! O mesmo segurava a risada e o medo diante o meu olhar furioso e ao mesmo tempo curioso diante de da resposta que eu esperava que ele desse.
– É melhor você não saber. – disse um pouco receoso, se encolhendo um pouco.
, se você um dia chegou a desejar minha morte, considere-se um homem morto! – o ameacei, recebendo sua risada como resposta e seus braços me envolvendo e puxando-me para si, fazendo-me com que eu deitasse sobre ele.
– Você sabe que eu já pensei muitas coisas ruins sobre você, mas fui errado e te peço desculpas. – a cada momento, ele me surpreendia mais ainda. Talvez o fora de sua máscara contra o pai não fosse alguém tão mal assim.
– Tem certeza que você é você? – o vi fechar a cara, provavelmente ele deveria estar achando que eu me referia a , mas não foi por querer, era que estava muito estranho. Revirou os olhos em seguida, mas não afrouxou seus braços de mim.
– Se está pensando que eu sou meu irmão, sinto-lhe dizer que você passou a noite com o cara errado. E ao contrário do que pensa, eu só agi daquela maneira com você, pois sabia que não iria adiantar em nada e que provavelmente você seria igual aos outros e em uma semana sumiria do mapa.
– Mas você não foi mudando quando percebeu que eu não desistiria...
– Eu havia apostado com você, querida. Lembra que eu disse que você não conseguiria viver no inferno? E se tem uma coisa que eu jamais perco, é em apostas. – esbanjou seu sorriso vitorioso.
– Mas em todo caso, você perdeu, pois ainda estou aqui.
– Mas ganhei a do xadrez e a primeira aposta não estava valendo nada, sendo assim, não tem graça. – merda, era verdade. Deveria ter apostado alguma coisa. – Mas em todo caso, te agradeço por tudo o que está fazendo por mim. Sei que é sua obrigação, mas você não se deixou levar por tudo o que já ocorreu. – sorri singelamente, estendendo uma de minhas mãos até seu rosto, acariciando levemente.
– Estarei aqui até que tudo se resolva, promessa de campista? – revirou os olhos, rindo, entendendo a referência.
– Só te peço duas coisas: a primeira, que esqueça esse maldito acampamento, e a segunda, que não desista de mim. – disse, selando nossos lábios em um selinho que logo foi se aprofundando em mais um beijo como o da noite anterior.


Capítulo 21

I got a list of names, and yours is in red, underlined.
– Look what you made me do, Taylor Swift.


Eu sempre amei dias calmos. Eram momentos perfeitos para pôr a leitura em dia, ver filmes, ser forçada a assistir séries nas quais você nem sabia da existência pelo seu amigo; apreciar a cidade em uma caminhada ou simplesmente dormir. Eu adorava quando meu pai me liberava em certos dias e minha mãe me dava folga da pizzaria, era como receber um prêmio duplo. Mas existiam casos e casos, e nem sempre o calmo, em certos momentos, era bom. Filmes de terror é o que os digam, depois da tempestade que é a cena, o final possui uma calmaria, onde o espectador acha que está tudo bem e de uma hora para outra, vem o pior susto. Alguns filmes até deixavam claro que por mais que achassem que estava tudo bem, o pior estava por vir.
Fazia exatamente quatorze dias que minha vida havia absorvido uma tranquilidade drástica, sem carros perseguindo, mensagens anônimas ou até mesmo aquelas sensações de estar sendo observada. Era como se nada tivesse ocorrido e nossa rotina seguia como outra qualquer. Helena continuava cuidando do seu jardim, enquanto Luna insistia em ajudá-la; sorte a dela que agora ela tinha , que sempre que podia - quando largava os lápis e borrachas dos seus trabalhos arquitetônicos - tentava enrolar a irmã, a chamando para assistir algo ou fazer qualquer coisa que fosse longe do jardim. Muitas das vezes tomei a coragem de distraí-la. Não era uma garota de se dar bem com crianças, sem evitava carregá-las quando bebês ou fazer qualquer coisa que estivesse ligado a tomar conta. Eu era um desastre e era capaz da criança tomar conta de mim do eu a dela. Tinha que perder essa insegurança e talvez Luna fosse a chave para minha conquista, e fui percebendo que não era um bicho de sete cabeças. Assistíamos TV juntas, brincávamos de chá da tarde ao entardecer ou ela fingia que era médica e eu uma mera paciente. Só tinha que deixar meu cabelo longe daquelas mãozinhas que tudo estava certo. também ajudava, Luna havia pegado um amor por ele, praticamente toda noite lá estava meu melhor amigo lendo um livro qualquer para a garotinha dormir. Cansava de encontrar na porta do quarto, observando com uma feição nada boa, sentimento de ser trocado era foda, e o que eu mais fazia era rir da situação. Não havíamos tido somente uma noite, duas ou três vezes já haviam ocorrido e a cada momento percebia o quanto era realmente diferente da imagem que a mídia passava. Não o intitulava como romântico nato que mudou da água para o vinho, mas as grosserias de antes haviam amenizado e nosso convívio melhorava a cada instante. Claro que muitas vezes me estressava com ele quando o mesmo voltava com sua intolerância, mas pude sentir que sua confiança em mim aumentava gradativamente.
Tudo estava se transformando e se tornando um completo estranho para mim, principalmente pelo fato das visitas constantes de . Ele chegava pela manhã, normalmente com um motorista que voltava para buscá-lo perto das três. Passava mais o tempo com sua mãe, conversando sobre sua vida e seus estudos; dava um mero oi a , que forçadamente respondia na mesma altura, se afastando, e a mim, apenas o básico da educação e olhadas, nas quais eu presumia que algo ele queria falar, só não estava sabendo como me abordar. Com as coisas já eram mais tranquilas, pelo incrível que parecesse, alguns assuntos fluíam tranquilamente. Era estranho, mas logo liguei a situação a Helena. Talvez os dois não quisessem demonstrar uma certa antipatia que possuíam em frente à sua mãe, o que levava a um convívio forçado e um pouco cômico.
– Que tédio! – o timbre estrondoso de me chamou atenção, fazendo-me o encarar, enquanto o mesmo se jogava de costas na cama. Eu estava abraçada as minhas pernas, sentada no batente da janela enquanto olhava a rua, que mostrava sua calmaria diante do balançar sereno das árvores. – Será que não podemos fechar essa missão e ir embora?
– Você acha que tudo acabou?
– Se passaram exatamente duas semanas e nada ocorreu, isso me dá medo, mas prefiro pensar que tudo está bem agora. – suspirei fundo diante de sua resposta. Eu gostaria muito de ter aquele pensamento positivo, mas não estava conseguindo. – Por que esse pessoal não dá logo as caras, prendemos eles e resolvemos o caso? Eles não percebem que de um jeito ou de outro irão se dar mal?
– A esperança para eles é a última que morre, então com certeza eles preferem acreditar que vão se sair dessa. Mas estou com receio dessa calmaria toda.
– As coisas estão diferentes, não estou gostando disso… – ele me encarou. – Pessoas mudando suas personalidades, outras passando por cima de suas palavras… – ele frisava cada palavra e não era difícil de entender a sua intenção. – Deixando certas pessoas dormirem sozinho, não que isso seja ruim, pelo contrário, é maravilhoso, mas temos que ver o porquê… – o olhei com uma cara entediante, revirando os olhos.
, se você quer conversar sobre isso, estou aqui. Você sabe que nossa amizade é aberta e odeio quando você fica escondendo as coisas de mim. Eu fui sincera com você em relação a Melissa.
– E eu fui sincero com você desde o início sobre ele. Não é porque eu não gostava do gêmeo dois que irei gostar do gêmeo um. – ele soltou um suspiro forte, com uma mistura de preocupação. Seus olhos pairavam sobre mim e neles, já era perceptível ver sua aflição. – Não estou dizendo para você não curtir o momento, fico feliz por estar conhecendo novos ares e aproveitando ao máximo o que a situação tem para te dar, sabe que eu sempre te apoiei com seus lovers e até mesmo já lhe dei algumas dicas, só tenho medo de que a coisa fique mais intensa e…
– E eu resolva namorá-lo? – levantei-me do batente, seguindo em sua direção. – , isso não vai acontecer, minha vida infelizmente não me permite isso e também, só estamos curtindo essa boa fase.
– Eu sei, sweetheart, mas não quero que aconteça com você o que aconteceu comigo em relação a Melissa. Eu confio em você, só não confio nele… – sentei-me ao seu lado, pondo uma de minhas mãos em seu rosto, sentindo sua barba mal feita.
– Não se preocupe, prometo tomar cuidado, ok? – ele assentiu, esbanjando um pequeno sorriso.
– Desculpa tudo isso, você é minha irmãzinha e…
– Ah, não! Não me venha com essa! – fingi uma certa indignação, cruzando os braços, mas vendo seu belo sorriso brotar com uma gargalhada contagiante. – Já basta o Alex ter feito isso comigo durante boa parte da minha vida, agora vem você? Vocês sabem que já sou adulta?!
– Jovem adulta!
– Odeio vocês. – bufei, revirando os olhos. Seus braços logo me envolveram e me esmagaram como ele sempre fazia quando queria me perturbar.
– Sabe que eu te amo, parceira! – eu também o amava, e como amava. Ter em minha vida era um presente, um amigo que havia se tornado um irmão e alguém que eu sabia que poderia contar sempre. Sentia muita falta de Alex, dos nossos momentos de irmãos, mas fazia com que a saudades diminuísse um pouco. Mas meu coração se apertava quando lembrava de suas frustrações amorosas. Ele não teve tantos amores, mas eu sabia que Melissa foi um dos mais longos que ele possuiu em sua vida, e saber que o amor não era recíproco, apertava o coração. Eu só desejava que ele encontrasse alguém que o amasse na mesma intensidade de amor que ele tinha para dar. – Mas então… O cara é bom? Faz direitinho? – com o susto que eu tomei devido a sua pergunta totalmente aleatória, com certeza minha feição havia sido uma das piores e hilárias possíveis, pois caiu na gargalhada ao me encarar. Meus olhos se arregalaram e minha boca formou-se em um “O”. Todo aquele momento de ternura e fofura havia ido por água abaixo e eu não deveria me surpreender tanto, afinal, era bem típico de .

[...]


O bom da cozinha de Helena era que em frente a pia possuía uma janela na qual dava-se para o jardim. As folhagens das árvores balançavam sutilmente em contraste com o sol da tarde. Era uma boa vista para apreciar enquanto lavava-se a louça. Costumava fazer esse trabalho quando era menor, até o dia em que meu pai resolveu acabar com minha alegria de gastar quase todo sabão, comprando uma máquina de lavar louças. Eu passei a odiar aquilo, mas quando cresci, meu ódio virou simplesmente um amor devido a facilidade que aquela máquina me proporcionava.
Helena estava sendo bem gentil e acolhedora comigo e com . Cozinhava, limpava a casa, vivia sua rotina tranquilamente, e para não me sentir mais um problema ali, fui aos poucos começando alguns trabalhos na casa. Lavar a louça foi a primeira conquista que obtive, mesmo ainda ouvindo as frases vinda de Helena “vocês são visitas”, “pode deixar que eu lavo, devem estar cansados”, “não precisa fazer isso, querida”. Mas no momento, lavar louça estava me trazendo uma sensação boa: a de estar longe de problemas. Aquilo estava tão bom que acabei tomando um susto quando senti uma mão pousar em minha cintura, enquanto a outra depositava um prato e uma xícara na pia.
Tive que respirar fundo para não perder a santa paciência de estar quase finalizando algo e vem alguém trazendo mais trabalho. Me dei ao luxo de encarar a pessoa com o meu mais puro e tenebroso olhar de congelar a alma. esbanjava um sorriso culpado no rosto, se afastando aos poucos.
– Eu posso explicar… – falou em modo de rendição com as mãos.
– Explicar? Sabe o que é ficar minutos lavando algo para alguém ir lá e colocar mais coisa?
– Ah, mas ninguém mandou você ser tão boazinha e inventar de lavar a louça, sabe que existe algo chamado lava louças? – disse por fim, com uma pitada de ironia em suas palavras. Revirei os olhos, mantendo minha posição de braços cruzados e uma pequena dobrada na cintura, como minha mãe sempre fazia.
– Sua mãe já faz muito por nós, querido! E da próxima vez, eu vou enviar esse prato em sua goela abaixo! – ele riu, se aproximando devagar de mim, pousando suas mãos em minha cintura e depositando um leve beijo em meu pescoço.
– Nossa, cadê a garota das minhas noites? – sussurrou em meu ouvido, causando-me um leve arrepio em meus pelos. Sussurros tão perto era um ponto muito injusto para provocar.
– Só aparece a noite. – tentei manter minha postura de durona, mas seus beijos em meu pescoço não estavam ajudando muito. Quando se afastou um pouco, seus olhos foram de encontro aos meus e logo o mesmo depositou um selinho sereno em meus lábios, brotando um sorriso em minha face. – Terminou o projeto?
– Estou quase, só preciso dos ajustes finais.
– Como você está conseguindo lidar com tanta coisa e ainda com a faculdade? – ele suspirou, mas manteve ainda um sorriso.
– É fácil, foi como te disse, quando estamos fazendo o que gostamos, nada vira um problema. E estou gostando de ter um contato com seus lábios, logo, não vejo como um problema... – não aguentei, posicionei meus braços entre seu pescoço, colando nossas bocas, iniciando um simples beijo, que logo foi se aprofundando.
Nossas línguas foram de encontro e o beijo foi o mais calmo e prazeroso possível. Eu tentava aproveitar cada sensação que o momento estava me proporcionando. Suas mãos passeavam livremente pela minha cintura, fazendo uma força para que continuássemos colados. Logo senti o batente da pia atrás de mim, fazendo-nos parar de caminhar e apenas curtir o momento, porém, tive que interromper o beijo, deparando-me com sua cara de total frustração e desentendimento, o que me fez gargalhar um pouco.
– Mas isso pode ser tornar um problema caso Luna veja, e não estou a fim de receber reclamações de uma mãe. – gargalhou, se afastando, e pude retomar minha atividade, enquanto o mesmo se debruçava na bancada ao lado. Um breve silêncio tomou conta do lugar, mas não me importei, entretanto, seu longo e pesado suspiro chamou minha atenção. Ele havia feito aquilo de propósito. – O que foi?
não veio hoje. – disse entortando os lábios, mantendo seu olhar em um ponto qualquer da parede. Arqueei a sobrancelha estranhando sua fala.
– Saudades do irmão? – indaguei em um tom brincalhão e o mesmo apenas bufou, virando a cara.
– Passei anos longe dele, não será agora que irei sentir falta.
– Mas vocês pareciam estar se entendendo enquanto ele esteve aqui.
, eu fiz aulas de teatro, sabia? É muito fácil forçar uma situação com qualquer pessoa e também, faço isso por minha mãe. Ela sempre quis que e eu fossemos como antes, super melhores amigos, então nada melhor do que mostrar a ela isso, só que falsamente. – ele se ajeitou um pouco, me encarando. – Só estou dizendo que acho estranho o fato dele ter vindo aqui por alguns dias seguidos e depois sumir do nada.
– Vai ver que ele está ocupado…
– Você acha? – questionou com a sobrancelha arqueada e os braços cruzados. Assenti com a cabeça. – Mas em quê?
– Eu também gostaria de saber… – voltei a encará-lo e somente através de sua expressão, pude entender aonde ele realmente queria chegar. – Espera, você acha que seu irmão pode estar envolvido com tudo isso? – ele deu de ombros, cruzando os braços novamente.
– Não sei, me diga você que trabalha nessa parte de investigação. – o fato era que sim, eu já havia suspeitado de . Ele possuía um ar misterioso, intrigante e suas perguntas não ajudavam muito no quesito “ser discreto”. Entendia que o mesmo tinha uma curiosidade no caso do irmão, mas às vezes ele era tão direto com suas atitudes que nem precisavam de palavras para entender.
– Eu já suspeitei dele sim, mas não acho que esteja envolvido. Talvez ele esteja desesperado…
– Mas pelo que? Eu quem deveria estar! Sou eu quem estou na mira de alguém que mal conheço!
– Talvez ele nem saiba das mensagens, . E também, não é porque vocês não têm uma boa relação que ele deseja sua morte. – retornei para mais próximo de si, segurando sua mão. – E eu acho que para o bem de todos, você deva deixar de lado essa hipótese, porque só vai causar mais rancor em você e a relação de ambos nunca vai mudar. Se tiver um dedo nessa história, logo iremos saber. Espera ter provas para tirar suas conclusões. – com um sorriso no rosto, ele me puxou, colando mais nossos corpos.
Nossas respirações estavam próximas, nossos olhares se cruzavam a todo instante e suas mãos se encaixavam perfeitamente em meu quadril. mordeu seu lábio interior, já na intenção de acabar com aquele espaço entre nós, entretanto, quando estávamos quase lá, ouvimos um pigarrear, que nos fez separar imediatamente. Só podia ser , já que Helena e Luna haviam saído.
– Desculpa interromper a cena aí, mas eu alimento um buraco negro no meu estômago e ele não está nada feliz. – disse, já invadindo o local e dirigindo-se a mesa onde metade de um bolo de limão se encontrava.
No mesmo instante, o celular de tocou o fazendo se afastar um pouco para atender. Escorada na bancada, apenas observava atacar o bolo, e agir estranhamente com o telefone em mãos. Senti um aperto repentino no coração; as feições de só pioravam a cada segundo e aquilo já estava me preocupando. Suas mãos já davam indício de uma tremedeira e com a outra livre, ele a passava desesperadamente pelos cabelos. Não demorou muito para desligar e correr até a chave do carro que se encontrava em uma das bancadas da cozinha. Sua respiração estava pesada, parecia que em poucos minutos ele teria um ataque do coração ou passaria mal.
, o que foi? – me aproximei, mas ele estava tão aéreo devido ao nervosismo que nos primeiros momentos não conseguiu formular uma frase compreensível. já estava ao meu lado, tentando entender o que estava ocorrendo.
– Temos que ir ao mercado… Luna foi raptada.

[...]


Mandar ameaças, montar uma espionagem, infernizar a vida das pessoas era uma coisa, mas mexer com uma criança já havia passado dos limites. Assim que soubemos, corremos para o carro, onde tomou a direção, já que estava incapaz de dirigir devido a sua raiva. Tratei logo de emitir um sinal ao meu pai, explicando a situação e pedindo para que ele tivesse acesso às câmeras de segurança locais. Não pedi reforços, pois não sabia no que iríamos lidar, se chamássemos tanta atenção, era capaz do pior ocorrer. Em poucos minutos chegamos ao local e logo saltou do carro, correndo em direção a Helena, que se encontrava do lado de fora com alguns policiais. Pior do que seu filho, ela chorava desesperadamente já tendo seu rosto um pouco inchado. Assim que viu , ela a abraçou, tentando se explicar, mas ele não a deixou, apenas a abraçou mais forte falando alguma coisa em seu ouvido.
– Essa pessoa já passou dos limites. – comentou com uma certa raiva na fala, formando um punho em suas mãos.
Caminhava em passos fortes até a entrada do mercado e quando pareceu que ia ser barrado pela polícia, apenas mostrou ferozmente seu distintivo, ultrapassando a barreira. Já estava vendo a hora dele atacar o pobre policial que apenas fazia seu trabalho.
Eu me encontrava em dois estados: ao mesmo tempo que tentava manter uma calma, minha raiva se iniciava. Mas paciência era necessário quando se tinha diversas pessoas em um estado de nervoso. Havia aprendido na Firefly que desespero nunca levava a nada e tínhamos que encarar a situação a mais séria possível, e era aquilo que eu estava fazendo. Iria atrás de pistas, questionaria as pessoas atrás de uma solução. Assim como fez, mostrei meu distintivo discretamente ao policial tendo acesso ao local. A polícia havia colocado uma fita no local e a toda pessoa que saía, eles as questionavam.
– Helena… – a chamei cautelosamente, vendo a aflição em seu rosto. Agora entendia perfeitamente do porquê não queria ir para casa dela, havíamos exposto, de certo modo, a vida dela. – Será que você consegue descrever o que houve?
– E-eu… – ela gaguejava muito, e a cada tentativa chorava mais.
– Eu sei o quanto está doendo, mas para achar Luna, precisamos que você tente o máximo possível me contar o que houve, tudo bem? – ela assentiu, retomando o fôlego e respirando fundo.
– Estávamos na seção de carnes. Luna estava bem ao meu lado, enquanto eu escolhia o produto, só que de repente todas as luzes do mercado se apagaram e por ser todo fechado, ficou muito escuro. Eu tentei segurá-la, mas não a encontrava. Chama pelo seu nome e nada. Segundo depois as luzes voltaram e realmente ela não estava lá. Achei que devido ao apagão, ela tivesse se assustado, fui atrás dela, mas não a encontrei em nenhum lugar… – ela começou a chorar e a envolveu melhor em um abraço. Encarei o chamando para um lugar mais calmo. Precisávamos analisar melhor a situação.
– Precisamos urgentemente ver as câmeras de segurança daqui e saber se as internas têm o modo noturno, com certeza, se tiver, vamos conseguir ver quem e para onde levaram Luna. – expliquei, pegando meu celular.
– Seu pai já te respondeu?
– Ainda não, mas quero que tente entrar em contato com ele e se possível, agilizar todo esse processo. – o vi assentir com a cabeça. – Quanto mais rápido… – fui diminuindo o tom da minha fala ao mesmo tempo em que minha atenção tomava outro rumo.
Espreitei os olhos na cena atrás do meu amigo, que acabou o chamando também a sua atenção. Uma silhueta muito conhecida se aproximava, passando livremente pela barreira policial, indo de encontro a Helena e . Aquele cabelo, aquele jeito de andar, aquela face…
– Não é possível! – rosnei, segurando minha raiva.
– Aquela ali é a…
– Melissa. – complementei a resposta de . Como ela havia ido para lá? Como ela conseguiu informações sendo que o ocorrido foi há pouco tempo? Como ela parecia estar sempre a um passo à frente de nós?
Com seu jeito “meigo”, ela abraçou carinhosamente Helena, e logo em seguida, forçou um abraço em , separando-se, mas mantendo muito contato corporal, tocando levemente em seus braços.
Ah, mas aquilo não ia ficar assim…
– Espera, para onde você vai? – o máximo que pude ouvir foi a voz longe de , enquanto andava seriamente em direção a eles.
– Melissa, quanto tempo, o que faz aqui? – questionei, me posicionando bem entre ela e , quebrando todo aquele contato. Com um sorriso falso, ela levantou os óculos escuros o levando até a sua cabeça.
– Querida , quanto tempo! Sinto muito pelo ocorrido. – aquela cara não ardia, não era possível.
– Também sinto, mas como soube do ocorrido?
– Reforços sempre são bons… Cadê ?
– Está ocupado demais trabalhando, ao invés de estar se preocupando com pessoas. E desculpa falar isso, mas não precisamos de reforços. Achava que seu trabalho já havia finalizado no dia do tribunal. – cruzei os braços, e a mesma riu de leve.
– Oh, minha querida, acho que seu papai não lhe passou a informação toda, não foi? Mas não se preocupe, estou aqui para ser seu braço direito. – suas mãos foram direto em minhas bochechas, as apertando, mas tratei logo de me afastar, as retirando rudemente.
– Não me trate como uma criança, e já tenho um braço direito que não troco por nada. Agora se me der licença… Tenho mais o que fazer.
– Assim como eu. – pondo de volta seus óculos, a mesma se retirou, indo em direção aos policiais parados em frente à entrada principal do mercado.
Ou eu não tinha paciência para as pessoas, ou não tinha paciência para ela. E não acreditava que meu pai tinha passado informações aquela naja, eu havia pedido para que ele não ordenasse reforços! Por essas e outras que evitei muito enviar relatórios, sentia, infelizmente, que meu pai não confiava cem por cento em mim, e a única coisa que não entrava em minha cabeça era: por que então me colocar naquela missão?
– Alguma notícia? – indagou, com os olhos fixos no computador, sentado na calçada.
– Dona Melissa está “ajudando”, – fiz um movimento de aspas com as mãos. – na investigação. Eu não acredito que meu pai contou a ela, inacreditável!
– Acha mesmo que ele contou?
– Como ela iria saber disso, ? Telepatia com o além? Bola de cristal das bruxas? É claro que foi ele! Mas temos que focar em achar Luna primeiro, alguma informação?
– Consegui acessar as câmeras daqui, o momento do apagão aparece, mas há um pulo de dez segundos de uma cena para outra, como se alguém tivesse cortado.
– Então acha que quem pegou Luna conseguiu acesso a central do mercado? – ele respirou fundo, mas de um modo que me preocupou de vez.
– Não digo ele, mas sim, eles.
– Dois? – assentiu, mostrando-me a tela do computador onde a cena se repetia.
– Como é possível o cara pegar Luna e rapidamente excluir o vídeo? Primeiro, se ele agiu sozinho, o cara tinha que ser um flash para pegá-la, levar ela, chegar ao seu esconderijo e apagar a cena sem que percebêssemos. Alguém atuou no mesmo momento em que ele estava aqui. – nervosamente, passei minhas mãos pelos meus fios de cabelo, tentando entender em como aquilo estava ficando pior a cada momento.
Era muita coisa, muitos pensamentos, muita informação mal explicada. Já sentia meu coração palpitar descompassadamente e minha respiração ficar difícil. Não, eu não podia me desesperar ali, eu não podia me entregar ao pânico, eu tinha que fazer o que era necessário.
Luna, tinha que pensar em Luna.
Eu iria conseguir, eu iria…
Respira, , respira...
Comecei a contar até dez, tentando controlar minha respiração. Não havia nada impedindo minhas vias aéreas e tudo aquilo era devido aos meus pensamentos, eu tinha que pensar aquilo. Aos poucos, fui conseguindo me recompor, e quando finalmente abri os olhos, vi dois ao longe. Céus, eu estava bêbada ou coisa do tipo. Mas aí minha mente relacionou a e principalmente, na rapidez em que ele teve ao chegar no local…
– Será que tudo pode piorar? – questionei baixo, sentindo meu celular vibrar logo em seguida.
Ótimo, uma mensagem anônima, era só o que me faltava. Eu e minha boca grande, entretanto, ao contrário do que pensei, era uma ligação. Estava com receio sim, mas depois de tudo o que estávamos passando, temia pelo pior. Mal tive tempo de falar algo, uma voz um pouco conhecia logo disse:
, preciso que vocês venham a sorveteria perto do mercado. Duas quadras a direita. E antes que pergunte, é . – e ela desligou sem ao menos esperar minha resposta.
Educação? Não existia.

Não entendia o porquê dela ter me pedido para ir a sorveteria. Não era um momento certo para sair do local, mas não tive tempo de responder e também, as mensagens constantes vindas do número dela já estavam me dando os nervos. Comigo, estava apenas , já que insisti ao máximo para que ficasse com sua mãe e acompanhasse as investigações. Contando da esquina, a sorveteria se encontrava no segundo prédio. Era colorida e bem chamativa, típica para atrair alguma criança. Assim que fui me aproximando, reconheci e Conrad sentados em um dos bancos na calçada e juntamente a eles, uma pequena figura que tomava tranquilamente um sorvete.
– Luna! – gritou por mim, correndo na direção dela.
Meu coração havia aliviado drasticamente e um peso foi-se libertado, entretanto, uma dúvida foi formada: como eles haviam encontrado Luna? Na mesma empolgação que , a menininha gritou por seu nome, descendo com um pouco de dificuldade do banco e indo de encontro ao meu amigo, sendo carregada pelo mesmo.
– Ok, provavelmente você vai querer saber como a encontramos, não é? – Conrad deu a voz, com seu típico jeito esnobe assim que percebeu minha aproximação. Urgh, e só de pensar que já gostei dele. Apenas assenti, cruzando os braços e tentando passar a mais pura seriedade a eles. – Soubemos do caso e para ajudar, fizemos algumas buscas. A encontramos aqui mesmo, com o dono da sorveteria ali. Fizemos algumas perguntas e ele apenas disse que havia ido na cozinha e quando voltou, a encontrou ali, sozinha. Ele tentou ligar para polícia e como temos a sincronização, conseguimos receber a informação e apenas cancelamos a chama, para que pudéssemos chegar aqui o mais rápido possível e sem intervenção. – se reencontrou no banco, cruzando tanto os braços quanto as pernas. – Eu disse, . Estamos querendo só ajudar… – bufei, com a tamanha ironia que ele passava.
– Ajudar? Sério? Por que me parece estranho vocês conseguirem uma informação tão rápida. Quem te informou?
– Novamente nisso? – foi a vez de dar a voz, revirando os olhos. – Já dissemos que não iremos contar, achar a garotinha não prova a nossa ajuda?
– Talvez um pouco, , mas ainda alimenta nas dúvidas que tenho com vocês. Mas em todo caso, obrigada. – fizemos menção de sair, mas logo Conrad nos chamou, vindo até a nós.
– Espero que vocês ainda estejam pensando sobre a nossa proposta.

[...]


Os olhos de todos brilharam ao ver Luna que estava tão entretida no sorvete, carregada por . Helena correu a pegando nos braços e dando um abraço de tirar o fôlego. Os policiais logo se aproximaram, fazendo uma breve checagem para ver se a menina estava bem. O alívio logo tomou conta de todos, mas um mistério ainda precisava ser solucionado: como Luna havia sido pega e quem a pegou. Ficamos ali por mais alguns bons minutos, resolvendo as questões policiais. Nisso, e eu estávamos novamente sentados na calçada, preparando um relatório para enviar a Firefly, mas junto a isso, eu ainda iria ligar para meu pai e ter uma bela conversa com ele. Minha atenção logo mudou quando percebi que se aproximava com sua irmã no colo. Por mais que tivesse lá seus dois ou três anos, não lembrava muito bem, Luna era inteligente o bastante e talvez, tivesse conseguido identificar a pessoa. Seria complicado de entender, mas não custava nada tentar.
– Tudo bem com ela? – questionei a , recebendo um sorriso de alívio do mesmo.
– Sim, mas ainda não consigo entender por qual motivo a pessoa fez isso. – ele encarou Luna por um instante. – Pelo menos ela não sofreu nenhum arranhão ou coisa pior. – e tornou seu olhar para mim. – Também é estranho o fato de Conrad e terem a encontrado.
– Estamos estudando isso, mas em todo caso… Luna, querida, você lembra da pessoa que te levou até a sorveteria? – sorridente, como sempre, ela assentiu com a cabeça, parando de brincar com a colher do sorvete.
– Foi o amigo de .
– Que amigo? – ele a questionou, assustado. Segurando o rosto do irmão com suas pequenas mãos, ela começou a sacudir como se estivesse fazendo de tudo para que ele entendesse de quem ela estava falando.
– Aquele seu amigo dos olhos roxos! – e por um segundo, ficou totalmente estático e pálido. Seu olhar estava paralisado e já era nítido ver seu nervosismo. Seus olhos então logo vieram de encontro ao meu e sem esperar que eu perguntasse, ele apenas disse:
– O único amigo meu que tinha lentes roxas era… Ryan.


Capítulo 22 - Por ele.

You know who it is when you hear that.
– No More, Pretty Much.


3 anos atrás

Eu tinha um ódio pelas segundas feiras.
Não chegava a abominar durante os períodos de férias ou quando tinha feriado, mas as segundas eram as ressacas dos domingos, era nula a vontade de fazer algo naqueles dias. Era nítido nas faces das pessoas o quão nulo era à vontade se viver; seguindo por esta linha, as escolas deveriam fazer trabalhos mais dinâmicos que estimulassem ao aluno acordar para a vida e seguir o dia, porém, ao contrário do que deveria ser feito, simplesmente inventavam de colocar uma festa de Halloween em pleno domingo, não cancelando a aula do dia seguinte. Convenhamos que não havia necessidade de se comemorar a data justo no dia, um dia antes, um dia depois, ainda sim iríamos festejar, não havia diferença, mas a escola tinha tal pensamento de que o aluno eram robôs e que acostumados com as festas diárias, suportariam mais uma.
Enganados estavam!
Resultado: o pessoal aproveitou as fantasias de zumbis e reutilizaram no dia seguinte. As olheiras eram nítidas, profundas que qualquer um dizia que aquilo era motivo de briga, a vermelhidão nos olhos devido ao sono, álcool e drogas, o cansaço no corpo que nem ao menos os pés conseguiam levantar para andar, iam no rastejar enquanto equilibravam o corpo com alguma força nem descoberta pelo homem. Por mais que as festas escolares se encerassem às dez, sempre haviam casas para terminarmos de festejar, e no dia anterior não havia sido diferente.
Julian, um amigo nosso de longa data e repetente pela segunda vez já tinha sua própria casa, e residência sem pais era sinônimo de baderna. Chegamos às dez e meia e saímos apenas às duas e meia da madrugada, no caso, eu saí devido a um problema. Mas não tínhamos condições e aqueles que demonstravam um desanimo menor, eram os que não foram a nenhum pós-festa.
Meu estado estava tão caótico que mal percebi o tanto de minutos que fiquei encarando o fundo metálico do meu armário, enquanto equilibrava dois livros nos braços e uma alça de mochila no ombro esquerdo.
Só desejava minha cama e nada mais.
Quando me dei por mim, já estava quase indo de cara com o interior do meu armário, consegui um equilíbrio dando um passo para trás para fechar a porta e encarar meu longo dia, talvez conseguisse um bom cochilo na aula de literatura. Entretanto, meu sono teve um remédio de efeito rápido chamado “Ryan encostado no armário segurando o maldito dedo falso de ”. Seu sorriso foi o mais satisfatório possível quando percebeu o tamanho do meu susto e um riso abafado saiu pela sua boca. A única coisa que consegui pensar no quanto maldito ele era, e em alguns xingamentos que minha mente conseguiu raciocinar.
O coração de um sonolento sofria dez vezes mais do que de uma pessoa normal.
– Agradeça ao seu irmão pela engenhosidade de tornar esse dedo tão realista quanto o meu quando cai do cavalo. Foi a melhor diversão que Lucas teve à noite, claro, depois de Allie.
– Não há de quê. – recolhi o objeto o jogando no interior no meu armário, sem me importando se iria danificar ou não, fechando a porta e colocando o cadeado. Depois daria um jeito de dar um fim naquilo, caso caísse nas mãos de novamente, não teria paz em casa.
– Percebi que saiu cedo ontem, teve algum problema?
– Denise não se sentiu bem, me pediu para acompanhá-la até em casa. – o respondi, tendo-o ao meu lado enquanto caminhávamos para o segundo andar do prédio.
– Um mês saindo e já agem como namorados? Rapidez deveria ser seu sobrenome, ! Mas ela está bem? – apenas assenti com a cabeça, estranhando a tal preocupação em que Ryan estava, afinal, a única pessoa com quem ele se preocupava era consigo mesmo.
Egoísmo deveria ser o segundo nome dele, juntamente com vingança, se Ryan começasse a demonstrar compaixão e a questionar de um modo preocupante, algo ali ele queria. Só era amigo dele devido aos nossos anos de convivência e amizade de nossos pais, caso contrário, eu seria mais uma de suas vítimas.
– Só foi um pequeno mal-estar, muita fumaça em um ambiente pequeno, mistura de bebidas... Não podia deixá-la daquele jeito, até porque, foi eu quem a chamei.
– Sendo um bom namorado, ?! – revirei os olhos.
– Como se eu tivesse atrás de um relacionamento.
– E não? Ah, lembrei, é por causa da…
– Não precisa tocar no assunto.
– Qual é, . – deu um toque com seu ombro no meu, fazendo-me cambalear um pouco para a direito a surpresa que foi o tal ato. – Você precisa sair dessa, ficar mal por causa de uma garota com tantas outras mulheres no mundo para se aproveitar? – tive que revirar os olhos novamente.
– É difícil esquecer quando realmente gostamos de uma pessoa, Ryan. Se você nunca amou, não é minha culpa, só peço para que não force a barra.
– Então pra que chamou a Denise? Por que está saindo com ela? Não vá me dizer que está iludindo… – “não sou você que engana só para ter uma noite de sexo”, minha vontade era falar aquilo, mas sabia o quanto complicado ele era e o quanto ele iria infernizar minha vida.
– Denise é uma garota legal, tem bom papo, a chamei pela boa companhia que ela era e também para diverti-la um pouco, mas não é por isso e nem por sairmos às vezes que estamos namorando. Coisas funcionam diferente conosco, ela sabe da minha situação…
– Você contou a ela do seu término?! – com sua voz estridente, ele gritou, chamando a atenção de algumas pessoas que passavam por ali. Fui obrigado a parar e encará-lo. Ryan não se importava com ninguém.
– Acabou? – questionei, vendo-o virar de costas e caminhar me encarando, enquanto rolava os olhos e bufava.
– Você tem que aprender comigo, .
– Não sou sua sombra, Ryan.
– Você é o mais teimoso de todos, . Tem que seguir as ordens…
– Só em seus sonhos… – falei para mim mesmo, dando continuidade em meu caminho, mas com o olhar de Ryan em minha direção.
Seu sorriso de deboche e de vitória ainda estampava seu rosto. Aquela feição apenas mostrava Ryan Lake sendo quem melhor ele poderia ser: Ryan. Já estava vendo a hora daquela sua confiança toda em seu instinto o levar direto a uma escada ou esbarrar em alguém, mas ele não ligava, por mais que o déssemos conselhos ou falássemos algo, entrava por um ouvido e saia por outro. Ryan possuía uma confiança extrema e um ego jamais visto. Não era considerado um garoto tão popular, mas ansiava por isso em nosso quinteto. Claro, ele conhecia as melhores festas, as melhores pessoas, mas tudo isso graças a sua irmã mais velha, Paola, que se encontrava prestes a se formar na universidade, enquanto ele e Lucas, seu irmão mais novo, apenas se beneficiavam-se do que tinham. Observando sua aventura de caminhar de costas que percebi que algo não estava nos trilhos. Tudo estava certo, a tonalidade loira do cabelo recém pintado, a velha mochila desgastada assim como seu All Star preto e a calça que possuía alguns cortes em sua extensão. Talvez não fosse seu estilo e sim sua face, a tonalidade de sua íris não possuía o antigo castanho claro que muitas vezes se tornava um verde e sim, um intenso violeta visto na noite passada. Me perguntei desde quando seus olhos possuíam uma coloração diferente e foi então que me toquei das lentes de contato que Lucas usou em sua fantasia para a festa. Não era novidade Ryan querer inovar em algo tão incomum, ele ansiava por atenção, ele queria ser único.
– Algum problema, ? – indagou em um tom de divertimento.
– Não, é só que… Desde quando você passou a usar as lentes de contato do Lucas? – Ryan riu como se eu tivesse acabado de contar uma piada, parando imediatamente, ajeitando a mochila nos ombros.
Quando percebeu minha aproximação, voltou a andar novamente, só que ao meu lado e com um sorriso confiante que mais me dava calafrio do que me deixava feliz.
– Do Lucas? Não uso nada dele, isso é meu.
– Mas ele usou isso ontem.
– Mas não significa que é dele, ! – pesou sua voz, demonstrando o quanto começara a ficar desconfortável com minhas acusações, mas logo sua voz voltou ao de antes, aumentando seu ego. – Você tem que parar com essa teimosia, se digo que algo é meu, é meu e pronto. Roxo nunca foi a cor de Lucas. Roxo combina comigo, ! Roxo sempre será minha marca... “


Acordei subitamente erguendo meu corpo e com minha respiração descompassada. Era como se algo tivesse obstruindo minha via respiratória e dificultando a passagem do ar. O suor pelo meu corpo já falava por si a minha situação caótica noturna, assim como os batimentos cardíacos que agora, amenizavam aos poucos. A claridade do relógio me chamou atenção mostrando em seu visor perfeitamente os números 3, 2 e 5. Bufei, me jogando de costas na cama, passando a mãos por minha face. Já era a quinta noite que eu acordava no mesmo estado devido aos pesadelos que estavam me rondando e a desordem que estavam se tornando.
E tudo levava a Ryan.
Ele aparecendo ou não, sempre tinha algo dele.
Merda de insônia!
O barulho que a cama fez devido ao contato do meu punho sobre ela foi tão estrondoso que até eu mesmo me assustei com receio de ter quebrado algo. Mas não estava mais dando, minha vida havia virado um completo inferno onde até mesmo eu já estava no limite de vivê-la. Era cansativo, doloroso e complicado ter certas atitudes em sua vida devido a uma só pessoa. Entretanto, o que mais me angustiava era pensar no fato de que aquilo nunca teria fim. Já haviam se passado meses desde o ocorrido, desde que tudo começou a acontecer em minha vida e nenhuma pista da suposta pessoa foi encontrada, nenhum e-mail, endereço de rastreamento, número de celular… Nada! Apenas tínhamos a informação de que os olhos do suposto anônimo eram roxos, de acordo com Luna, mas nada ainda era muito concreto já que não tínhamos ideia se o tal sequestrador era de fato a pessoa por trás do inferno da minha vida. Quer dizer, o novo inferno, porque o antigo havia sido causado pela maldita festa, em uma maldita parte da minha vida, onde tudo já estava mais confuso com a maldita eleição de meu pai.
Arrisquei em um banho morno para relaxar, mesmo sabendo que a partir dali veria o sol nascer como todos os outros dias. Vesti meu conjunto de moletom, devido ao frio da madrugada e caminhei em silêncio em meio ao corredor escuro, parando em frente ao quarto de Luna. Desde o ocorrido, havia se tornado um hábito checá-la sempre que possível; tinha se tornado um pesadelo para mim conviver com as terríveis lembranças do dia. Seu pequeno abajur estava fixo a tomada que iluminava um canto da sua cama, ela tinha os mesmos hábitos que e eu tínhamos quando menores, sentíamos conforto tendo algum ponto de luz no quarto. Passei delicadamente os dedos sobre seu rosto, pegando logo em seguida seu cobertor que, devido ao seu mal dormir, se encontrava praticamente fora da cama, a cobrindo de volta.
Dei um longo suspiro dando meia volta na intenção de ir novamente para meu quarto, mas no mesmo momento, meus olhos captaram uma imagem em frente a porta que fez gelar meu coração momentaneamente, causando-me um tremendo susto e um possível ataque cardíaco.
– Algum problema, ? – a voz conhecia de fez-me acalmar um pouco, pondo a mão no coração e suspirando fundo para não transparecer meu suposto medo.
– Tirando o fato de que você decidiu trabalhar como cardiologista e testar meu coração, acho que não. – ouvi sua forte respiração sair pelo nariz como um bufo ou uma risada anasalada na qual não soube identificar se havia também um pouco de sarcasmo. – O que faz aqui? – mesmo tendo pouca visão dele, foi perceptível seu movimento com a cabeça em direção a Luna.
– O mesmo que você. Mas já aproveitando que está aqui e creio eu que esteja sem sono, preciso bater um papo com você. – a surpresa da conversa não foi o que me incomodou, mas sim sua voz que transparecia nitidamente uma preocupação e angústia.
Sem falar mais nada, apenas seguimos para a cozinha onde lá, separei dois copos de suco para acompanhar o diálogo. Talvez ele quisesse falar de mim e de que, querendo ou não, ainda tinha minhas dúvidas do que ocorria entre nós, ou possivelmente ele falaria de Luna, já que tínhamos os mesmos hábitos.
– Então… – estava encostado na bancada próximo a pia, enquanto ele estava sentado na cadeira, afastado um pouco da mesa com um semblante pensativo.
– Não quero me meter na sua relação com , e Luna nem aprofundar em relação ao ocorrido com a Luna, porém quero que saiba que me preocupo com as duas, e sei um pouco do que você deve estar passando, pois tenho irmãos mais novos. – suspirou. – Eu sempre quis ter uma irmã, mas nasceram todos homens, e Luna me acolheu como se eu fosse um, então farei o máximo que eu puder para deixá-la segura. Você tem minha palavra.
– Aprecio sua preocupação, . Mas qual realmente é o motivo, porque não acho que apenas um esclarecimento tenha te deixado ansioso para me chamar para conversar em plena madrugada. – ele se ajeitou e começou a girar o copo vazio na mesa, como se pensasse em como falar.
– Na Firefly fomos ensinados a como lidar com o psicológico da pessoa e o quanto isso é importante. Já conseguimos resolver casos a base da pressão, ameaça, mas também conseguimos da forma mais simples possível que um diálogo simples. Eu sei que para uma criança de três, quatro anos é complicado relembrar situações complicadas e marcantes porque podem gerar traumas e vir a desencadear pesadelos, mas tenho observado Luna e até agora isso não parece ter a afetado tanto, chega que ela não estava em choque quando a encontramos e precisamos dela.
– Como assim precisamos dela? – cruzei os braços, já não gostando muito do caminho que aquela conversa estava seguindo.
– Luna foi uma das pessoas que supostamente teve um contato mais direto, com quem sabe, o responsável pelos seus problemas. Ela tem informações e assim como irei pedir a Helena, eu preciso que você aceite que eu faça algumas perguntas a ela para ver se conseguimos algo a mais e…
– Calma, Luna pode ter aparentado uma tranquilidade quando a encontramos, mas não sabemos como isso a afetou, não quero causar uma desordem mental nela.
, a Firefly já sabe do caso, se não tivermos nada em mãos durante os próximos dias, eles podem mandar psicólogos para interrogar a sua irmã, e vá por mim, quando se trata de casos, eles não têm piedade com ninguém. Você sabe que eu tenho Luna como uma irmã, eu me preocupo com ela, você mesmo vê, não irei deixar com que nada de ruim ocorra, tenha a minha palavra. – não, não queria colocar minha irmã nessa, não queria causar nenhum transtorno a ela e nem a sua vida, não queria, no futuro, ser o culpado de algo de poderia desencadear… Porém, sabia da importância que era ter aquelas pistas, ter informações concretas, porque finalizando o caso, nada mais afetaria ninguém.
– Posso acompanhar pelo menos?
– Fique à vontade! Temos um trato então? – assenti com a cabeça, meio receoso, mas tinha que passar a confiar nele. Coloquei o copo na pia e quando mencionei em sair da cozinha, logo tratou de indagar com uma certeza incerteza na voz: – Você conhece alguma Denise Schulz? – senti meu coração se apertar e acelerar, assim como no meu sonho.
O nervosismo repentino não foi pelo simples fato de apenas conhece-la, mas sim, por tê-la mencionado diante de um assunto tão complicado. Não queria imaginar o que queria com aquela pergunta, muito menos a envolvendo, eu conhecia Denise e muito bem, ela não era do tipo de garota que participaria de algo assim. Não mesmo.
– Talvez eu conheça uma… – respondi com uma certa incerteza, entretanto, seu suspiro forte com o olhar pesado já me dizia que um novo problema iria surgir.
Com a cabeça, ele pediu para que eu tomasse uma das cadeiras e o acompanhasse em sua explicação. Céus, era muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Era muita informação, muitas pessoas surgindo em tão pouco tempo. Só podia ter jogado pedra na cruz para tudo aquilo estar ocorrendo. Suas mãos caminharam até o bolso de sua calça, onde de lá, um pequeno aparelho, que lembrava um celular, for retirado e posto sob a mesa com algumas informações na tela.
– Fiz algumas tentativas agora a noite de rastreamento com as mensagens que você e receberam, e não sei se foi inteligência minha ou falha deles, mas um dos números está em uso, diferente dos demais que diziam que não existia. Liguei para a operadora, e como tenho permissão policial, eles me passaram o nome da pessoa, então pensei que talvez, você pudesse conhecer… – peguei o aparelho, examinando bem as letras e números expostos no visor. Retirei meu celular do bolso, abrindo na parte das mensagens, procurando algum número na qual batesse com o pesquisado, e para minha surpresa, não havia um e sim, dois.

[...]


Ao contrário do que pensava, retornar a Washington estava sendo mais complicado do que imaginei. O pouco tempo que já estava hospedado na casa de minha mãe já havia me acostumado com cidades menores do que onde eu morava. Cidades grandes ao mesmo tempo que eram agitadas e boas com a vida noturna, eram tenebrosas, com uma ideologia de que eram mais perigosas do que as pequenas cidades de interior. Mas depois do ocorrido com Luna, passei a não acreditar na fama de segurança que alguns lugares possuíam ter.
Enquanto encarava a paisagem da cidade grande se aproximar, meu corpo era tomado por um mix de sentimentos e confusões mentais. Talvez fosse o fato de retornar ao local onde meu pesadelo começou, ou a ansiedade de estar próximo ao culpado do sequestro da minha irmã ou talvez, o simples fato de rever alguém que há anos não tinha notícia e querendo ou não, foi importante na minha vida.
Era terrível se sentir tão baixo e impotente, como se não você não tivesse controle algum em sua vida.
– Dez dólares pelo seu pensamento, . Está tão calado que deve ser algo valioso o que está passando em sua mente. – através do retrovisor interno do carro, pude perceber o olhar de sobre mim que intercalava com a direção
– Não queira gastar seu dinheiro com confusão, se fosse algo tão valioso te dava de graça. – pude perceber seu riso abafado e o bufo de , que se encontrava no banco do carona.
– Mesmo sendo confusão, ainda tenho interesse em saber.
– Difícil de explicar, , apenas foque no destino, melhor conselho que posso te dar.
– Se prefere assim… – comentou em um tom baixo e derrotado. – Só me diz onde devo virar, pois já chegamos na rua principal.
Estava tão desnorteado que mal havia percebido que realmente estávamos perto. Foi inevitável de não lembrar daquele caminho que um dia havia feito parte da minha rotina. Depois da escola, ou pela tardezinha quando falávamos as aulas de educação física, e principalmente o pós-festa, onde na verdade, Denise não havia passado mal, ela só queria um lugar mais reservado para nós dois, e o beco entre sua casa e o imóvel ao lado foi o local perfeito. Estava sendo um tiro no escuro palpitar que ela ainda morava ali, mas algo me dizia que sim, já que seus pais não tinham tanta condição de comprar um novo apartamento ou casa. Aquela moradia havia sido presente de sua avó ao seu pai, tinha um significado.
estacionou ao longo da calçada e quando saímos, pude perceber que nada ali havia mudado. Se eu estivesse certo, nosso destino seria a pequena casa de número 202. Enquanto encarava o local, senti a presença de alguém ao meu lado e logo reparei que era , retirando seus olhos escuros e os pendurando em sua gola da blusa.
– Você ainda não me disse quem era ela, e pelo andar da carruagem, sabe de alguma coisa entre vocês. – e era verdade.
Após a minha conversa com seu amigo, e de minha explicação sobre Denise, seguimos em direção ao quarto de , a acordamos, onde a mesma havia ficado bem puta devido ao horário, e explicamos que havia achado uma pista onde precisaríamos voltar a Washington; mencionamos o nome de Denise, mas não toquei no fato de que eu e ela já tivemos algo.
– Denise é minha ex namorada, se é que eu posso a chamar de ex, mas enfim, romance de colégio.
– Por essa não esperava. – comentou, estralando a língua no céu da boca. – Como devo então me apresentar? Prefere amiga, prima... – deu ênfase em sua última palavra, rindo com uma pitada de sarcasmo, com certeza relembrando de quando a mesma havia chegado aqui.
– Uma possível amiga com benefícios.
– Olha só, temos uma evolução aqui, de inimiga para amiga com benefícios… Quem sabe não viro amante depois desse reencontro. – ri abafado, revirando os olhos, e se aproximando dela.
– Não precisa de ciúmes quando tenho uma amizade exclusiva com você, sunshine. – disse em seu pé de ouvido, dando um beijo em sua nuca antes de seguir caminho até a porta da casa.
, faz o que combinamos, não precisa entrar em muitos detalhes, apenas diga o básico e veremos como ela reage. – alertou e eu assenti como resposta.
Estava rezando para não passar um mico de ter tocado na casa errada, porém, rezava também para não reencontrar Denise, entretanto, por mais que o tempo tivesse influenciado tanto em nossas vidas e principalmente em nossas aparências, era impossível não reconhecê-la, especialmente devido a pinta localizada no canto direito superior dos seus lábios. Uma calça jeans, blusa simples e um blazer preto, ela estava mais social do que já costumava ser com seus vestidos rodados. Suas sobrancelhas se juntaram quando encarou a imagem de e e logo em seguida seus olhos reviraram ao perceber a minha presença.
– O que você quer aqui novamente? – novamente? Mas do que ela estava falando? Havia sido uma luta para encontrar aquele local e ela chegava com um “novamente”?
– Minha última vinda aqui foi há uns anos atrás, quando decidimos terminar. – sua expressão fechada logo transformaram-se em puro pasmo.
? Meu Deus, quanto tempo! – caminhou até a mim, jogando-se em meus abraços em um forte abraço. – O que faz aqui? – disse por fim, quando nos afastamos.
– Precisamos falar com você algo sério, tem um tempo? – ela assentiu, retornando ao interior da casa, dando espaço para que nós entrássemos. Ao contrário de anos atrás, a casa já possuía um ar moderno e bem retro, bem diferente do ar sério que suas roupas transpareciam. Denise sentou-se na poltrona na sala de estar bem de frente a mim e , tendo somente uma mesa de centro entre nós. , se acomodou na poltrona próxima de si. – Cadê sua mãe? – tomei a liberdade de perguntar, já que seria bom somente tê-la sozinha ali e pela educação, já que Lilian sempre me tratava bem com seus famosos biscoitos de aveia e mel.
– Ela se mudou há um ano e meio para Detroit com meu padrasto. Conseguiram um emprego melhor do que aqui. E seus pais, como estão? Quer dizer, seu pai vejo sempre na tv, mas sua mãe nunca mais…
– Estão bem, como sempre… – e minha frase havia morrido ali, eu não tinha noção de como iniciar aquele papo com ela, muito menos de perguntar se ela estava envolvida em algo, já que para mim, era impossível. Por que ela estaria? Como ela havia entrado naquele “mundo”? não fazia o mínimo de noção possível! Ainda estava encucado com toda aquela informação, se fosse alguém mais próximo de mim, seria mais cabível, entretanto, fazia anos que eu não falava com Denise, anos! – Mas então, Dê, gostaria muito de ter vindo para uma simples visita, mas o assunto é um tanto quanto sério. – sua felicidade facial logo se desmanchou, formando-se em pura tensão e confusão. – Acho que você tem um pouco de noção do que está ocorrendo em minha vida, não é?
– Gostaria de saber mais, , mas o pouco que sei é sobre a morte de Ryan e das acusações contra você. – ajeitou-se melhor na cadeira, curvando a coluna e colocando os cotovelos nos joelhos, demonstrando o interesse no assunto. Sua voz soava em pura compaixão, coisa que eu odiava, mas estava tentando controlar a minha arrogância. – Por isso que me surpreendi quando te vi, pensei que estivesse em Washington. Já tem um tempo que não falo com ninguém de lá, nem mesmo seu irmão.
– É uma longa história. – falei por fim, suspirando. – Não quero entrar em detalhes, mas tudo o que eu falar, não pode sair daqui. Entendido?
A vi assentir, meio trêmula. Talvez fosse pelo assunto, ou talvez pelos olhares intensos e firmes que e carregavam, diante de sua postura ereta e de braços cruzados.
… você falando assim me deixa mais nervosa...
– É importante mesmo que nada disso saia daqui, Dê, conto com sua confiança! Além das acusações, comecei a receber algumas mensagens anônimas. Era algo meio óbvio eu receber diante do que costumava fazer na cidade, e como aparecia na mídia. O problema é que isso ficou fora de controle e certas situações começaram a ocorrer.
– Meu Deus! – sua mão logo correu para a boca, tapando, assustada. – E você está bem? Se machucou?
– Vivendo e sobrevivendo a cada dia. – suspirei pesado. – Comecei por mim mesmo a ir atrás de informações com meus amigos... – apontei para os dois que ainda continuavam na mesma posição. Queria dar uma disfarçada para que ela não achasse suspeitasse de nada. – E um dos números era o seu. Estava registrado em seu nome, por isso que viemos aqui para…
– O que? Não! Não é possível! – levantou-se em um sobressalto, começando a andar de um lado para o outro. – Qual foi o número? – retirei do meu casaco o celular, abrindo na foto que havia tirado das informações. A mesma analisou por um tempo, e diante de sua face, parecia estar confusa e incrédula. – , eu não sei como isso foi ocorrer, já tem quase duas, três semanas que pedi para retirarem meu número da linha porque havia perdido meu chip.
– Onde e como exatamente você perdeu? – a pergunta de nos chamou atenção.
– Não lembro muito bem, pois estava bêbada, mas lembro de estar em um bar com uns amigos e eu e uma amiga precisávamos chamar um Uber, só que eu não tinha crédito para ligar minha internet e o celular dessa minha amiga tinha descarregado, então ela pediu o meu para ela colocar o chip e assim chamarmos, só que estava tão cheio o local e eu estava tão desnorteada que quando tirei, ele escapuliu e achar no meio de tantos pés era impossível, então resolvi deixar para lá e ligar para a operadora pedindo o cancelamento do número.
– Por que não pedir apenas a transferência do número? – ele questionou novamente.
– Já tinha um tempo que estava querendo outro número porque o chip é de outro estado. Comprei quando passei um tempo na Califórnia, se perceberem, o número não é daqui. – Denise não mostrava tanto nervosismo, apenas continuava em pé, e falando, passando as mãos pelo cabelo, cruzando os braços… – , eu sinto muito pelo que está acontecendo com você, e sinto muito por usarem algo que um dia foi meu, contra você. Se eu puder fazer algo… – sua voz já estava de choro, apenas me levantei, a abraçando, enquanto ela apoiava a cabeça em meu peito, e me apertava com força.
– Então, já que terminamos por aqui, vamos? – ouvi a voz de soar atrás de mim e logo Denise se afastou de mim, abraçando seus próprios braços. Caminhamos até porta e novamente ela veio até a mim, me apertando com seus braços curtos.
– Obrigada por ter vindo e esclarecido tudo comigo, vou tentar providenciar respostas com a operadora sobre este caso. Foi bom te ver novamente, quando essa poeira abaixar, pois sei que será inocentado, venha passar uma tarde aqui em casa! Morar só às vezes deixa a gente carente. E no que eu puder ajudar, é só avisar.
– Se você souber de alguma informação, entre em contato comigo. Ainda estou com o mesmo e-mail e número, infelizmente. – ela riu abafado e assentiu.
Quando a abracei novamente, meus olhos percorreram mais uma vez aquela sala na qual costumávamos passar as tardes assistindo filme, era uma nostalgia boa, porém meus olhos se fixaram em um objeto que eu conhecia bem, ou melhor, em um casaco na qual eu sabia muito bem a quem pertencia.
Azul marinho, grosso, com um forro produzido especialmente para temperaturas frias como neve e feito exclusivamente, pela NASA, para os filhos do presidente em sua visita ao local. Meu pai só havia usado aquilo uma única vez, o deixando pelos quatro cantos do seu guarda roupa sem se preocupar com o mofo. O meu tinha certeza que estava guardado no closet de minha mãe, pois havia a emprestado quando a mesma precisou viajar a Vancouver. Então, diante dos meus cálculos… O que o casaco de fazia na casa de Denise?


Capítulo 23

Everytime I turn around, something's just not right!
– Paranoid, Jonas Brothers.


O tom alaranjado junto com o rosado e azulado do céu já indicava que a noite chegava, assim como, ao longe, a esfera lunar já brilhava em uma intensidade fraca, porém perceptível ao olho nu. Seria lua cheia, uma das minhas fases lunares favoritas. Era nessa época onde o céu dava um show de beleza; o breu da noite, junto com os pontos luminosos das estrelas e a magia do brilho da lua cheia. Havia uma crença que minha avó sempre me contava quando eu era pequena de que, na lua cheia, deveríamos erguer os braços a ela e fazer ou mentalizar nossos pedidos, isso traria mais chances de eles ocorrerem, assim como nossas preocupações deveriam ser ditas a ela na lua minguante, onde assim como seu nome, os problemas diminuiriam. Era algo meio difícil de se acreditar, mas diante de sua teoria e significado, foi algo que me passou a me encantar, principalmente quando minha avó me convidava em todas as noites de lua cheia para sentar na varanda, e contemplá-la. No silêncio, apenas com a brisa dos ventos, meditando nosso interior, e fazendo nossos pedidos e revigorando a alma.
Talvez, por aquele motivo, eu havia me fissurado em luas cheias, para mim, havia virado sinônimo de paz, de tranquilidade, algo que sentia falta em minha vida, assim como ela.
Mesmo com a atenção na estrada, meu olhar pairava sobre a lua que se intensificava no decorrer da penumbra da noite, mas também, eu não deixava de prestar atenção no retrovisor interno do carro que refletia a uma pequena imagem de . Ao contrário da nossa ida, sua concentração estava muito mais no mediano aparelho telefônico em mãos do que em seus pensamentos. Seus dedos não paravam de digitar um minuto se quer e em diversas vezes, o peguei com um pequeno sorriso no canto da boca e uma risada abafada saindo de suas narinas. Resolvi brincar com aquela situação, afinal, era sempre bom manter uma boa conversa no carro quando se fazia caminhos longos, o tempo passava mais rápido.
– Dez dólares pela imagem que seus olhos estão capturando, . – minhas palavras foram tão repentinas, e surpresas para ele, que o mesmo logo ergueu o rosto, desorientado, como se tivesse acordado para o mundo e em seguida, me encarou através do retrovisor interno, como se tivesse ainda processando o que eu havia dito. – Bem-vindo ao planeta terra, ? – ele bufou, voltando sua atenção novamente ao celular. – Vai perder a chance de ganhar dez dólares? – com seu puro sarcasmo exposta em sua face, ele voltou a me encarar pelo espelho do carro.
– Sua curiosidade vai acabar de te deixando pobre, .
– Tenho reserva no banco, seu pai pagou bem. – foi perceptível ouvir seu bufo de desgosto devido a tal comentário, o que me fez rir baixo, porém notável.
– Por que tem tanto interesse em saber o que estou fazendo?
– Oras, tenho que saber se não está planejando alguma fuga ou algo do tipo. Você pode ter melhorado seu humor, e relação comigo, mas isso não te faz um santo e muito menos condiz com seus pensamentos. Pessoas atuam, , e você conhece muito bem esse meio.
– Se isso te preocupa tanto, só estou conversando com Denise. Ela disse que iria nos manter informados sobre qualquer notícia sobre a operadora e…
– Eu estava lá quando ela disse isso, . – o interrompi, mas ele continuou.
– … e disse que entraria em contato o mais breve possível.
– Ela também disse isso. Nossa, achei que tivesse fazendo algo mais útil. – não queria ter expressado com zombaria ou coisa do tipo, mas foi inevitável.
O assunto “Denise” já começava a me incomodar de um jeito na qual não sabia explicar, só tinha em mente de que aquela garota não me cheirava bem e sua explicação não havia sido a mais coesa, não tinha lógica, estava faltando algo para complementar, algo que ligasse os fatos e mostrasse “Ok, ela está falando a verdade”; e de acordo com minha intuição, eu deveria ficar com os olhos bem abertos.
A garota possuía um ar angelical, tipicamente daquelas que não teriam nunca uma ficha na polícia nem mesmo por ultrapassar a velocidade ou não dar preferência aos pedestres nas faixas; e de complemento, não duvidava de que nem mesmo a uma formiga ela faria mal.
Ela aparentemente era uma santa.
Porém essas eram as piores.
Muito boazinha, perigo na certa.
Eu sempre possuía um pé atrás com aquele tipo de gente, sempre! Assim era com Melissa e que por falar nela, acabei não tendo mais notícias de sua pessoa. Parte de mim tinha esperança de que meu pai tivesse dado a ela outra missão e que naquele momento, a mesma estaria há quilômetros de distância de mim, porém, minha parte pessimista persistia em avisar que dela, eu não me livraria tão cedo.
ia proferir algo, mas por sorte já estávamos na rua da sua casa e a única coisa que fiz foi estacionar o carro, de um jeito não muito sutil, e descer rapidamente sem dar chances de ouvi-lo.
Estava sendo imatura? Talvez, porém não estava com cabeça para ouvir as defesas nas quais ele iria falar.
Não precisei me esforçar para abrir a porta de casa, já que assim que subi os pequenos degraus da entrada, ela se abriu, mostrando logo a imagem de Luna que carregava em mãos um mediano cookie mordido. Seus pequenos braços envolveram, com dificuldade, nas minhas pernas e logo depois a mesma correu em direção aos meninos.
Helena prontamente se aproximou, esbanjando seu confortável sorriso habitual.
– Fiz biscoitos, espero que Luna não tenha atacado todos.
– Então chegamos na hora certa! – o cheiro de biscoito fresco tomava conta de todo ar da cozinha, chegando até uma parte da sala. Estava tão bom que senti logo meu estômago roncar de desejo, mas uma tristeza junto com uma surpresa logo me tomou quando senti meu celular vibrar e ver o nome de meu pai na tela. Nos últimos dias estávamos nos comunicando mais por mensagens, era raro ele ligar, já que o mesmo sempre alegava que para telefonemas, tinha que ter um tempo sobrando, pois tomava muitas horas, e tempo livre era o que ele menos estava tendo.
Atendi a ligação quando cheguei ao quintal, e sentei na pequena escada amadeirada próximo a porta.
Filha?
– Mãe! – dei um grito ao ouvir sua voz. Parecia que havia anos que não falava com ela, que não ouvia sua voz, nem seu jeito carinhoso de falar. Uma saudade começou a preencher meu peito, saudade dos seus abraços, dos seus olhares de ódio quando eu e aprontávamos ou saíamos escondidos, até mesmo das suas constantes reclamações devido ao seu jeito autoritário de ser.
Meu Deus, Cederic , se esqueceu da família? De que tem uma mãe? Você não liga há dias, quer dizer, só ligava para seu pai…
– Mãe…
… mas saber de sua mãe, nada. Olha, eu não criei você e seu irmão para me esquecerem assim não…
– … mãe…
… aturei nove meses na barriga, com um peso que só Deus sabe, para ser esquecida… – estava retirando tudo o que havia dito sobre sentir saudades de suas reclamações. Céus, até mesmo do outro lado do país ela tinha que continuar com aquela mania?
– Estou bem também, mãe! – ironizei quando finalmente ela deu uma pausa.
Está tudo direitinho por ai? Tem se machucado? Fez direito os primeiros socorros que aprendeu nas aulas? Você se lembra dos primeiros socorros, não é? Olha, não mexe muito nas armas não, tudo bem? Não sei pra que seu pai te ensinou a mexer com isso…
Ela é uma agente, precisa saber manusear o máximo de arma possível! – ouvi a voz exausta de meu pai ao longe. Desde de que havia entrado na Firefly, ele tentava explicar a minha mãe a necessidade de se aprender e treinar todo tipo de ataque e defesa, já que por ela, eu ficaria na parte dos atendimentos aos agentes feridos em missões. Entre ser médica e estar na ação, preferia o que fazia mesmo, não tinha estômago para encarar certos tipos de fraturas e feridas.
– Está tudo certo, mãe. E qualquer coisa tenho para me ajudar.
Ah, sim, e por falar no meu terceiro filhote, como ele está? Tá cuidando bem dele, não é?
– Mal estou cuidando de mim, imagine dele! – respondi com meu tom brincalhão, mas rapidamente me arrependi amargamente quando ela repetiu novamente meu nome completo e começou a dar a palestra de sempre. Por sorte, meu pai interferiu, deixando-a apenas se despedir de mim e mandar um oi para o pessoal, e um beijo em , como sempre. – E eu já estava começando a sentir falta até mesmo das reclamações dela…
Não sinta, vá por mim, filha. – meu pai respondeu de um modo baixo, provavelmente evitando que minha mãe ouvisse para não começar mais uma falatório que duraria horas, ou até mesmo dias. Com meu pai ali, no telefone, deixei um suspiro cansado escapar pela minha boca. – Cansada?
– Um pouco…
Se arrepende de ter ido?
– Pai…
A culpa é minha. – ele me interrompeu. – Deveria aceitar que meus filhos não querem seguir a mesma profissão que a minha, talvez fosse melhor você ter ido morar com seu irmão ou cursar alguma universidade por aqui. – confessou com um ar dolente, arrependido.
Eu odiava ver meu pai daquela maneira, sabia do quanto ele ansiava por um de seus filhos seguirem seus passos, principalmente meu irmão, que era avesso a corporação, então tudo havia caído para mim e sem escolhas, eu tive que seguir; não queria criar uma mágoa maior em meu pai. As três primeiras semanas após a mudança de Alex haviam sido dolorosas tanto para ele quanto para minha mãe, e um pouco para mim, já que a conquista pelo maior quarto, que era o dele, diminuiu a minha tristeza. Eles ficaram sem se falar por meses até minha mãe o convencer de que aquilo havia sido o melhor para ele.
– Não quero que se sinta culpado, pai. Não adianta se martirizar por algo que não podemos mudar, e se isso te conforta, estou começando a mudar um pouco meus pensamentos... Mas agora, acho que nosso foco deveria ser o caso, não posso desistir e nem vou, quero ter essa situação solucionada. – ele suspirou, logo em seguida soltando um pigarro de recomposição.
Ok. O que temos até agora?
conseguiu rastrear um número e nos levar até um destinatário, que por sinal, era uma antiga conhecida de . – e muito bem conhecida. – Fomos até lá e a única coisa que conseguimos foi uma história mal contada dada pela garota.
me enviou um relatório sobre isso na qual já arquivei. Ele me enviou o número, endereço e nome da garota. Vamos entrar em contato com a rede telefônica e grampear o número para que ela não suma, essa menina pode saber de algo e não podemos perdê-la de vista. Se realmente for o número dela, isso nos deixa mais próximo de nosso alvo. Temos que ter todos os relatórios prontos para ter provas concretas de tudo o que está acontecendo.
– Claro, pedi a que ficasse encarregado dos relatórios, pois não estou tendo tanto tempo e como ele vive mais no computador do que eu, fica mais fácil.
Sem problemas, . Se precisar de qualquer suporte, é nos avisar.
– Entendido, pai!
Mais alguma coisa? – ele questionou.
E sim. Tinha.
Muitas coisas.
Poderia falar do fato de Luna ter lembrado um pouco sobre seu suposto sequestrador, mas havia me pedido sigilo até que conseguisse mais provas, já que o mesmo iria “interrogá-la”, e ele estava certo. Não iria ser bom para ela ter agentes federais a pressionando para lembrar de algo que nem mesmo sabendo que efeito a causou.
– Não, era somente isso…
Ok, estamos com saudades. Você está fazendo um ótimo trabalho, querida.
– Obrigada, pai. Todos nós estamos. Saudades também. – prestes a desligar, uma vontade súbita e incontrolável se instalou em mim, fazendo com que eu o chamasse novamente e perguntasse: – Pai… Por que a Melissa ainda continua aqui? – e novamente mais um suspiro, um pequeno silêncio e um pressentimento de que algo não ia nada bem. Quando se tratava de Melissa, não possuía um pé atrás, mas sim, meus dois.
Ela pediu para que permanecesse aí para caso alguma coisa desse errado, você já teria uma ajuda. – ah, claro, a famosa desconfiança ou aproveitamento da situação.
Melissa só podia ter problemas e não conhecia bem o local onde trabalhava. Meu pai jamais mandaria alguém a uma missão sem ter cem por cento de certeza de que essa pessoa estava preparada. Ela não mandava em nada ali, absolutamente nada, porém, devido as diversas aberturas de opiniões que meu pai já havia pedido a ela, a bonitinha se achava no direito de se intrometer onde não era chamada, e ainda se achando a superior. Melissa possuía um alto ego que me perguntava de onde saía tanta confiança daquela imagem durona que ela tentava pôr.
Não era porque eu era nova no cargo que eu iria falhar.
Como se eu não fosse capaz de resolver algo com minhas próprias mãos. Eu já tinha ao meu lado, não precisava mais de ninguém e também, como se ela fosse ser útil. Diante de suas palavras, revirei os olhos, sentindo ainda mais repulsa. Se a mesma tentava criar algum laço amigável comigo, estava indo de mal a pior.
– Só que eu não pedi para que ninguém ficasse aqui! Ela age como se eu não tivesse controle da situação! Que ridícula… – a última frase deveria ter sido para mim mesma, mas pelo meu tom, foi audível para meu pai que logo me repreendeu.
O fato é que depois do sequestro de Luna, dias após, perdemos contato com ela.
– Ela está desaparecida? – questionei embasbacada.
Sim. Mandamos uma equipe atrás dela, rastreamos o aparelho telefônico, mas sem sinal. Estamos fazendo o máximo que podemos para achá-la, pois é estranho ela sumir dessa maneira. Algo pode ter acontecido, ela pode estar em perigo…
– Ou simplesmente deve ter fugido para algum canto com as informações que já temos, bolando um plano para ficar à frente de tudo e se vangloriar quando solucionar o caso primeiro no que nós!

– Ah, qual é, pai! Ela só está querendo ser a ‘boazuda’ em tudo para ter o melhor cargo.
Conversaremos isso quando você retornar. Tenho que desligar, preciso ir a uma reunião daqui a pouco. – com o ânimo diferente do início da ligação, desliguei o celular com uma tremenda vontade de arremessá-lo para longe.
Já não bastasse as coisas que estavam surgiam, agora, com toda certeza, Melissa havia virado um grande problema para mim, e meu pai ainda insistia em defendê-la.
Deus, dai-me a santa paciência.
Juntei minhas pernas um pouco mais próxima ao meu corpo, as abraçando, e apoiando meu queixo nelas, fechei os olhos permitindo-me sentir a leve brisa da noite. Eu começava a imaginar como seria o dia em que tudo aquilo acabasse e eu deitaria em minha cama com a certeza de que havia conseguido, de que a missão estava cumprida. Entretanto, deixaria muita coisa de lado, e sentiria muita falta de alguns momentos; e algo me dizia que parte da minha saudade teria um nome: . Por mais complicado e irritante que ele já tivesse sido, e muitas vezes ainda continuava sendo, o mesmo acabou demonstrando com o passar do tempo um lado na qual a mídia nunca mostrou e eu jamais acreditaria que existisse. Se eu havia me deixado levar em nossos momentos, era porque algo especial ele tinha, algo que realmente havia me conquistado, mas eu não queria me entregar por completa. Tudo o que estávamos tendo e iriamos ter só seria por um curto tempo, depois das soluções, nossas vidas seriam separadas por completo. Eu não poderia parar meus planos por ele, e nem ele poderia parar os seus por mim.
Diante de toda situação, estava gostoso sentir o vento gélido em minha face, causando-me uma serenidade extremamente aconchegante.
Entretanto, subitamente senti algo tocar em meus ombros, e com meu reflexo, segurei fortemente o pulso da pessoa, me preparando para um possível ataque, mas logo exclamou de dor, o que me fez perceber a sua pessoa e rapidamente o soltar.
– Ainda não sei por que insisto em te abordar dessa maneira. Da próxima vez, vou dizer seu nome em uma distância de cem metros para não sofrer possíveis ataques. – comentou com seu tom brincalhão.
Eu queria rir, mas toda situação e pensamentos fez com que eu apenas esbanjasse um pequeno sorriso sem mostrar os dentes e voltasse a abraçar minhas pernas. Como a escada era um pouco estreita, passou pelo canto, parando em minha frente, tomando uma postura séria e preocupada, com os braços cruzados na altura do peito.
– Quem foi no telefone? – opa, agora o jogo havia virado? Erguendo minha sobrancelha e com um sorriso de escárnio no rosto, utilizei da sua mesma pergunta:
– Por que tem tanto interesse em saber o que eu estava fazendo? – ele abriu a boca, mas imediatamente a fechou, puxando o ar fortemente cansado e impaciente, e me encarou com desdém.
– Qual o problema, ? Desde quando voltamos da casa de Denise que você está assim. – involuntariamente revirei os olhos, mas não ousei a falar nada. – Qual o problema? – insistiu.
Não estava muito afim de conversar naquela hora, só queria ficar ali parada, encarando o nada e perdida nos pensamentos, porém diante de sua postura autoritária, sabia que ele ficaria ali por um bom tempo até que eu contasse. Então, antes de falar qualquer coisa, apenas respirei fundo tentando controlar minhas emoções e meu tom de voz:
– O problema é que você está depositando muita confiança nela. Não duvido nada de que daqui a alguns dias você já esteja contando todo o plano para ela, se é que já não fez isso. – virei o rosto, apoiando-o em meus joelhos.
– Você acha que eu seria capaz de fazer isso? Sério? De colocar a minha vida mais em risco do que já está?
, não sei, a única coisa que tenho certeza é que não estou com cabeça para esse assunto. – ele não disse mais nada. Por uns segundos, apenas senti um olhar sobre mim, o que me fez estranhar tal atitude. Provavelmente estaria com sua feição séria, como se tivesse tirando conclusões de algo. – O que foi? – retornei meu olhar para o mesmo, na qual ele riu baixo, negando com a cabeça. – Fala!
– Você está com ciúmes? – meu riso saiu de um modo bem ridículo, mas não consegui o segurar diante de tal questionamento.
– Eu, com ciúmes? Por que estaria?
– Pelo simples fato de que suas atitudes mudaram logo após nosso encontro com Denise.
, qual a parte do eu não confio nela que você não entendeu? Não tem nada a ver em relação ao que temos, se bem que não temos nada.
– E por que está descontando as coisas em mim?
– Não estou descontando em você, só não estou com bom humor.
– Mas antes de ir você estava. – abri a boca, mas nada me veio em mente, fazendo com que eu apenas revirasse os olhos.
– Ah, me erra, ! Meus humores variam. – ele ria como se tivesse ganhado algum prêmio ou coisa da mesma linha. Na mesma hora, senti sua leve aproximação, junto com suas mãos que viraram meu rosto em direção ao seu.
– Não precisa ter atitudes assim comigo, não vou te trocar nem nada.
– Quero saber quem é que está elevando tanto seu ego assim, porque irei pedir encarecidamente que pare, pois já chegou a um nível absurdo de achar que temos algo. – sua risada novamente saiu baixa, mas de um jeito, infelizmente, encantador.
– Talvez não algo oficial, mas não negue que praticamos algo chamado sexo casual.
– Nunca neguei, só acho que isso não seja motivo de ficar nos prendendo um ao outro e usar termos do tipo “trocar”. Se você quiser ter algo novamente com Denise, fique à vontade. – e ele riu novamente. Já estava começando a me sentir uma comediante de Stand Up.
– E quem disse que eu vou ter algo com ela?
– Sei lá com quem você quer ficar, . Só estou supondo, e diminuía seu ego, porque não sou obrigada a aturá-lo.
– Não é ego, , é apenas a realidade. Assuma que, por agora, você gostaria de me beijar tanto quanto eu quero. – foi impossível de controlar meus lábios e não morder a parte inferior dele.
Toda vez que eu fazia tal movimento, significava que estava começando a ficar nervosa. Odiava demonstrar nervosismo.
Ah, aquilo era golpe baixo; sussurros, voz serena e sua respiração bem próxima a minha? Eu estava me controlando para não me entregar tão fácil assim, mas era complicado quando se tinha um par de olhos secando seus lábios com o desejo bem a mostra. Minha ação de quebrar toda aquela distância foi rápida, enquanto meus dedos já se emaranhavam em seus cabelos, nossos lábios já se tocavam com urgência, mas mantendo um ritmo bem lento e proveitoso. Suas mãos estavam apoiadas na escada, fazendo-me com que eu ficasse entre elas. Toda vez em que beijava , era uma sensação diferente, gostosa, ardente, porém totalmente desigual ao anterior. Talvez fosse isso que aumentasse mais ainda a vontade de beijá-lo: descobrir seus variados toques e sensações, com seu velho gosto de canela. Antes de separar um pouco, para puxar ar, atrevi-me a morder levemente seu lábio inferior, dando uma leve puxada, o que o fez dar um sorriso bem sacana e voltar a me beijar com mais intensidade.
– Não ache que seu beijo resolve tudo. – comentei em uma pausa.
– E se eu te levar para meu quarto? – o encarei com um riso nos lábios, depositando breves selinhos.
– Suborno não vale…
– E quem disse que é suborno? – ele voltou a me beijar, mas logo foi parando aos poucos, e por um breve segundo me encarou pressionando seus lábios um no outro.
Já era bem notável de que algo indicava que coisa boa não era, e não estava preparada para ter mais outra bomba em minha vida, seja lá qual fosse. Tal atitude fez com que eu franzisse o cenho demonstrando uma certa preocupação.
– O que foi?
– Tenho que te contar de algo que vi na casa de Denise. – fiz menção para que continuasse. – Quando meu pai ganhou as eleições, fomos convidados pela NASA para fazer uma visita no centro espacial e de brinde, cada um ganhou um casaco personalizado. Azul marinho, grosso, muito confortável e novamente falando, feito especialmente para a família do presidente. Quando abracei Denise antes de sair, eu tive a certeza de que vi o mesmo casaco pendurado em uma das cadeiras na sala. – fui ajeitando melhor minha postura, enquanto o ouvia falar. – Quando chegamos, não me preocupei em reparar tanto no casaco, mas do ângulo em que eu estava na porta, deu para ver claramente aquela roupa, e principalmente o brasão da NASA.
– E aonde você quer chegar com isso...?
… – ele respirou fundo, procurando maneiras de falar. – O casaco de minha mãe tem um formato diferente, e ela acabou pegando o do meu pai emprestado quando viajou para Vancouver. Eu sei que ela não devolveu a ele, porque eu já o vi no closet dela. O meu tenho certeza de que está no meu guarda-roupa, sendo que eu nunca fui à casa de Denise, o que sobra…
? – ele assentiu. Muita informação para uma pessoa só. Minha mente começava a borbulhar mil pensamentos e traçar uma linha de como aquilo seria possível. – Calma, espera. Então estaria frequentando a casa de Denise?
– Não é algo que eu gostaria de acreditar, mas é o que parece. Não fomos recebidos com um “Olá” e uma feição de surpresa feliz por ela, e sim, com uma cara totalmente de desgosto e um “O que você quer aqui novamente?” quando a mesma me viu. Fazia séculos que não a via, nosso término foi tranquilo, até onde sei. Para Denise falar aquilo, era necessário que um de nós tivesse algum contato com ela, mas nem você e nem sabiam da existência dela.
era próximo a ela?
– Eles conversavam o básico quando se viam. Denise nunca foi de andar conosco, ela tinha o grupinho dela. – se as coisas estavam indo de mal a pior? Não tinha dúvidas.
Não queria de hipótese alguma chegar a uma conclusão de que poderia estar envolvido de algum modo no caso de . Seria uma tremenda traição e pura sacanagem vinda dele e principalmente com alguém na qual sempre esteve com ele, literalmente. Mas ligando os fatos que já ocorreram, junto com os sucessivos questionamentos que ele já fez a mim, havia acabado de ganhar uma entrada Vip para a lista dos investigados. Apoiei os cotovelos em meus joelhos, cobrindo meu rosto com minha mão. Quando aquilo iria acabar? Quando finalmente as coisas iriam se resolver, facilitar, e não se complicar mais do que já estava? Parecia que todo mundo próximo a tinha um dedo podre na situação, não era possível! Enquanto isso, se mantinha encostado no corrimão à espera da minha resposta.
– Bem, o único jeito de saber é tirando satisfações com ele…
– Não! – exclamou de imediato, recuando um pouco, me interrompendo com sua voz firme. – não pode saber de nada, muito menos de que temos essa informação. Se ele estiver envolvido mesmo, pode acabar contando para Denise e isso pode nos afastar mais ainda do nosso alvo.
, é esperto, se dermos uma de Três Espiãs Demais para ficar o seguindo disfarçadamente, ele irá perceber e será pior. Não irei chegar apontando uma arma em sua cabeça e exigir que o mesmo abra a boca. É apenas saber como persuadi-lo, encurralá-lo de um modo onde a única saída seja a verdade.
– Por favor, , isso é arriscado demais… – era nítido perceber o quão inseguro ele estava.
Sua inquietude e traços faciais já entregava todo seu temor diante daquela informação. Tentava me colocar em seu lugar para compreender o quão difícil estava sendo para ele. Saber que seu irmão possivelmente poderia estar armando contra o mesmo era terrivelmente assustador, mal conseguia imaginar se caso um dia meu irmão fizesse o mesmo comigo. Seria uma tremenda frustração misturado com raiva e desgosto, nem ao menos conseguia pensar se eu teria a capacidade de perdoá-lo; era uma traição tanto de família quanto de irmandade. Já estava começando a me sentir mal por , não queria demonstrar nenhuma feição de piedade ou dó, pois sabia que no fundo só pioraria devido também ao seu jeito de ser. Sendo assim, impulsivamente levantei-me e me joguei em seus braços o embalando em um forte abraço, passando meus braços em sua cintura e afagando meu rosto em seu peito. Ficamos assim por uns bons minutos, apenas no silêncio, com sua respiração um pouco mais calma em meu pescoço. Me afastei um pouco para encará-lo, vendo seus lábios desenhando um meio sorriso, fazendo com que automaticamente eu fizesse o mesmo.
– Se as circunstâncias estão mudando drasticamente, significa que estamos quase lá. Não importa o que aconteça, estarei aqui com você e por você. – seu sorriso logo se alargou, sussurrando um obrigado e de imediato, selei nossos lábios. O que era para ser um beijo rápido foi se tornando algo muito intenso, prazeroso com a calma que o beijo se prolongava. Estávamos desfrutando cada toque, cada sensação, cada desejo que a cada dia me surpreendia.
Estava me entregando a um sentimento na qual não sabia ao certo aonde iria me levar.

[...]


, o rosa ou o verde? – dois vestidos de baile pequenos e bem detalhados foram postos sobre o notebook que estava em meu colo. Por trás da tela, Luna me encarava com seus olhos curiosos e esperançosos pela minha resposta. Mal ela sabia que eu era péssima com escolhas. Os dois eram lindos, extremamente brilhantes e com detalhes dourados muito bem feitos. Se eu fosse uma princesa, com certeza os teria em meu guarda roupa, a única diferença era que o rosa possuía alças finas, enquanto o verde possuía mangas longas, sem falar dos detalhes diferenciados em sua barra.
– Rosa, gostei mais dos detalhes dele do que do outro. – finalizei com um sorriso, porém seus olhos ainda continuavam a me encarar.
– Tem certeza? – assenti, mas logo percebi o que ela queria. Crianças tinham uma pequena mania de pedir ajuda já sabendo do que queriam.
– Você gostou mais de qual? – prontamente ela aprontou para o verde, o que me fez rir. – Então escolhemos o verde. – com um sorriso satisfeito no rosto, Luna retirou os vestidos de cima do notebook, voltando a sentar no chão e vestir suas bonecas.
Com a tela liberada, pude voltar a ler os relatórios que havia enviado a meu pai e assim, tentar traçar uma linha do tempo na esperança de achar algo novo.
Tudo havia começado com mensagens, ameaças nas quais em um tempo começaram a me envolver devido a minha proximidade com , seguindo para acontecimentos estranhos e sem um porquê.
Quem havia deixado o cavalo de bravo para derrubá-lo? Quem havia implantado uma bomba na sala onde estava? Quem havia sabotado a “armadilha” que havia feito para mim no galpão?
Era tudo muito estranho e principalmente sem explicação por não conseguirmos nenhuma pista. Entretanto, um acontecimento já havia sido resolvido: no dia em que quase me acertou com uma flecha e tivemos uma leve luta, com certeza tinha sido ela que havia apertado o alarme de incêndio, sua posição e seus atos foram muito bem premeditados, seria complicado a mesma se aproveitar do momento para me atacar, porque se fosse dessa maneira, então como ela saberia que iriam apertar o botão de alarme? A não ser que ela estivesse trabalhando para alguém… O que me levava a minha segunda dúvida que era como eles haviam encontrado Luna e por que queriam raptar . Sem falar que já tinha dias que nem ela e muito menos Conrad haviam dado as caras… Eu precisava tanto colocá-los contra parede, eles sabiam de algo, com certeza sabiam; e outro que possuía informações importantes era .
Dei um forte suspiro, sentindo minha cabeça começar a latejar diante de tantos pensamentos, estava tão focava que mal percebi a presença de e na sala, próximos a Luna. Meu amigo carregava seu velho notebook, enquanto meu… ficante? Se era que poderia nomeá-lo daquele jeito, segurava algumas fotos nas quais não pude ver.
– Luna, quer brincar de detetive? – questionou, sentando-se a sua frente, chamando a atenção da garota que logo tratou de deixar as bonecas de lado.
– Como é essa brincadeira?
– É assim: você se lembra do dia do menino dos olhos roxos? – ela parou, pensou um pouco e logo em seguida balançou freneticamente a cabeça afirmando. – Perfeito, você será minha ajudante, assim como seu irmão, e o que temos que fazer é lembrar muito daquele dia para descobrir quem é a pessoa dos olhos roxos, o que acha?
– E-eu vou ganhar chocolate depois? – não contive o riso diante daquela pergunta. Luna possuía meu espírito de guloseimas.
– O quanto você quiser!
– Que feio, . Manipulando a menina…
– Cala a boca que você não está brincando. – ele logo retrucou e minha vontade era de mandá-lo tomar bem naquele lugar e mostrar um belo dedo para o mesmo, mas por respeito a Luna, apenas fiz tudo isso mentalmente. – Ok, minha ajudante, vamos lá. – minha vontade era de ficar ali, observando toda aquela tentativa de interrogatório, mas eu tinha que terminar de ler os relatórios e estava com uma linha de pensamentos boa, não podia botar tudo a perder. Acabei subindo para o quarto a procura de um ambiente tranquilo. Confiava em , ele era bom no que fazia e certamente teria as respostas.
Voltei a ler os arquivos no computador, mas o foco que antes tinha, agora estava nas palavras ditas por na noite anterior.
Que diabos fazia na casa de Denise? Seria mesmo ele? E por quê?
Aquilo estava me correndo, matando minha sanidade e eu odiava chegar ao meu limite de curiosidade. Se realmente fosse ele, seria mais uma informação, e se ela tivesse ligada as mensagens, com certeza teríamos algo grandioso em nossas mãos. Talvez, até soubesse quem era a pessoa e por motivos maiores, estaria escondendo.
Eu precisava falar com ele.
Necessitava.
Mas nada daquilo iria agradar a . Não queria colocar sua confiança em jogo, demorou muito para eu conquistá-la e era necessário mantê-la por diversos motivos. Com em nosso lado, as investigações correriam mais fáceis, não precisaria ter a dor de cabeça como estava tendo no início. Me via em um dilema de: ou fazer o que era certo e tirar satisfações de uma vez por todas com coletando novos dados que poderiam ajudar no caso, porém, correndo risco de saber e ai sim, criar uma confusão, ou deixar como estava, tendo a possibilidade das coisas piorarem e ficar sem novos informes.
Que situação...
Minhas mãos caminharam até meu celular, e não hesitei em abrir nos contatos, e seguir até o nome de . Eu poderia fazer tudo às escuras, não saberia, marcaria um horário com seu irmão e daria uma desculpa qualquer, mas com o risco de perder sua confiança.
Era pegar ou largar.

[...]


A família de meu pai tinha uma pequena e terrível mania de sempre marcarem aniversários em restaurante extremamente sofisticados onde um mísero prato já levava todo meu salário do mês da pizzaria e não alimentava nem um quarto do meu estômago. Por isso, eu sempre saía de casa bem alimentada, pois sabia que ali só seria um pequeno petisco noturno. Mas a pior parte passava-se longe de ser sobre a comida e seus preços absurdamente caros, minha frustração e revolta se dirigiam-se às vestimentas, acompanhados dos calçados. Além daquelas roupas possuírem um preço relativamente absurdo que muitas vezes me fazia passar frio, sem falar que andar em um salto era como enfrentar o último vilão de um jogo. Estar em equilíbrio e aturar a dor que eles causavam não eram coisas que eu dominava muito bem, porém acabavam se tornando necessidade em certos momentos.
Mas ainda sim, eu odiava a alta sociedade.
Trocar de roupa no carro foi uma tarefa mais complicada do que tentar fazer uma maquiagem decente em meu rosto. A minha vitória relacionava-se também ao fato de ter conseguido finalizar um delineado perfeitamente reto em meus olhos, e um esfumado não tão exagerado que deu um belo contraste com meu batom vinho. Examinei novamente minha produção facial antes de descer no carro, vendo a barra de ponta do meu vestido preto esvoaçar devido ao vento da noite.
Preto era um clássico.
Estava em um traje confortável, com um vestido de malha leve que acentuava bem no corpo, e um salto não tão grande e que me dava estabilidade. Não possuía nada para me preocupar a não ser pelo momento.
Não havia muitas pessoas na entrada do luxuoso restaurante, apenas um homem engravatado que checava os nomes em uma lista. Observei atentamente o local, olhando para os lados, checando se não estava sendo seguida ou vigiada. Ergui o corpo e fui caminhando com minha pequena bolsa de mão, como as mulheres locais costumavam fazer. Tinha que atiçar meu lado grã-fino.
. – disse ao homem na porta que logo tratou de olhar a prancheta, abrindo caminho em seguida para que eu passasse.
Agradeci, e poucos passos à frente outro rapaz me esperava para guiar-me até uma parte um pouco afastada do salão principal. Enquanto andávamos e a música clássica soava em meus ouvidos, pude analisar mais os detalhes locais e perceber a exuberância que exalava ali. Céus, o que era a pizzaria de minha família comparado àquele lugar? O dono deveria ter gastado uma bela de uma fortuna. Meu guia então parou em frente a uma porta de correr, e gentilmente a abriu para que eu passasse e me desse a visão que eu mais esperava. Em minha frente, na mesa próxima a parede, ele se encontrava entretido em seu celular, enquanto sua outra mão segurava uma taça de água na qual bebericava um pouco. Agradeci novamente ao rapaz que me acompanhou, o vendo fechar a porta atrás de mim, deixando apenas a minha presença e a do meu acompanhante naquela sala mal iluminada. Sua atenção só se voltou a mim quando meus passos firmes no chão fizeram, intencionalmente, o típico barulho do contato do salto com o solo, alto. Seu sorriso logo se ampliou em sua face, e como de costume, o mesmo se levantou com a minha chegada, depositando um delicado beijo nas costas da minha mão.
– Espero que o local não tenha ficado longe para você. – ele disse, após se sentar em minha frente. – Fiquei surpreso por ter recusado o motorista.
– Agradeço a oferta, mas não queria chamar atenção. Foram apenas vinte minutos de Catonsville até aqui em Baltimore, foi tranquilo chegar. Mas para você, creio que ficou mais complicado... – diante da minha resposta, ele soltou um pequeno riso abafado, e esbanjou um sorriso de canto.
– Não se preocupe, ficarei hoje na cidade. – assenti, já sentindo o famoso silêncio chegar, entretanto, um dos garçons se aproximou, deixando um balde de gelo com vinho. – Enquanto estava no caminho, resolvi escolher um vinho para nós. Não sei você, mas sempre preferi os suaves. Esse é francês, meu favorito.
– Bem, não sei se estou muito pra vinho, já que vim dirigindo…
– Um copo não mata ninguém, . – falou, depositando uma quantidade boa do líquido em minha taça. – Um brinde? – erguendo levemente em minha direção, brindamos e logo em seguida senti o doce sabor da bebida descer pela minha garganta. De fato, aquele foi um dos melhores vinhos que havia provado em toda minha vida.
– Até que tem bom gosto.
– Sempre. E antes de mais nada, fico impressionado como a cada dia fica mais linda. – minhas bochechas automaticamente se ruborizaram diante de seu repentino elogio. Eu odiava elogios que me deixassem tão sem graça, era algo incontrolável. – Mas então, o que lhe devo a grande honra? Não minto que fiquei surpreso com seu pedido. – continuou, sem me dar a chance de agradecer ao seu elogio. Diante de sua pergunta, joguei meu corpo mais próximo da mesa, apoiando apenas meu pulso nela, mantendo um intenso contato visual com aqueles olhos que conhecia muito bem.
– Temos assuntos a tratar, e dessa vez, precisamos abrir o jogo da sinceridade, .


Capítulo 24

“Cause we don't say what we really mean."
– Two Ghosts, Harry Styles


Diante de tudo o que eu tinha ouvido a respeito dos filhos do presidente, sempre foi o mais em destaque, principalmente devido a sua vontade de seguir os passos do pai. Educado, e sempre mantendo a boa simpatia diante do público, não tive uma surpresa contrária ao conhecê-lo, pelo contrário, havia ficado surpresa por ver que ele era realmente a pessoa que aparentava ser diante das câmeras. No primeiro contato em que tivemos, principalmente em nossa conversa no café da manhã no jardim em meus primeiros dias em DC, seu jeito galanteador acabou despertando em mim um interesse na qual não esperava; e assim pensei que tivesse ocorrido o oposto – ele havia criado um interesse em mim -, porém cabia a mim mesma entender que tipo de interesse se tratava. Minha ingenuidade no início foi algo na qual aprendi a lidar, havia construído um pensamento de me deixar levar para ver até onde aquilo iria; acabei ficando uma vez com ele, saindo algumas, mas tinha boa lábia e um forte ego de possuir tudo o que desejava. Seu charme era único – diga-se de passagem – e aquilo era algo que não morria nele. Graças a essa característica, era muito difícil imaginá-lo em um posto que não fosse o de inocente. Entretanto, com o passar do tempo, pude notar que seu interesse estava relacionado a algo na qual ainda não fui capaz de descobrir. Suas conversas começaram a tomar um rumo diferente. Não o julgava de estar preocupado com seu irmão mesmo que ambos não tivessem uma boa relação, porém, ele sempre deixava uma incógnita no ar, ele sempre precisava de um algo a mais que ainda não foi possível ter.
O fato era que era tão misterioso quanto ; um baú trancado a sete chaves e totalmente indecifrável a olho nu. Alguém que sempre queria algo em troca, e era por tal motivo que eu ainda o encarava, enquanto o mesmo girava delicadamente a taça de vinho com seu olhar curioso em mim.
Seu pigarro proposital foi algo que me dispensou, e assim pude vê-lo se ajeitar na cadeira vermelha que mais parecia uma poltrona. Encarar alguém com a mesma fisionomia de não me estranhava mais, depois de muito tempo, comecei a perceber os pequenos detalhes que ele e possuíam.
– Vai esperar o jantar chegar para matar minha curiosidade? – indagou erguendo uma de suas sobrancelhas.
A verdade era que eu estava analisando uma maneira de entrar no assunto, questioná-lo sobre Denise, mas sem dar tanta informação. Eu não queria ser tão direta, até porque, não sabia, ao certo, se ele realmente teve contato com ela, sem falar que com o jogo tinha que ser diferente. Ele tinha cartas na manga, e eu tinha que tomar cuidado com aquilo.
– Talvez eu consiga ser mais rápida do que o tempo da comida... Só estou organizando as ideias para um melhor entendimento. – entortando os lábios, o mesmo demonstrou uma feição de surpresa, tomando mais um gole do seu vinho.
– Melhor entendimento... Devo me preocupar? – dei um gole na minha taça, antes de respondê-lo.
– Não sei, você fez algo de errado ultimamente? – indaguei com um sorriso desafiador nos lábios, enquanto ele apenas se ajeitou na cadeira, cruzando as pernas; coçou a cabeça enquanto dava uma risada um tanto cínica.
– Não me chamo , felizmente.
– Mas seu irmão não fez nada de errado ultimamente, . Pelo contrário, estou a cada dia o conhecendo melhor, tanto seus defeitos quanto suas qualidades...
– Tudo bem... – disse com uma voz arrastada. – Eu sempre soube que no final, ganharia.
Franzi o cenho me perguntando do que ele estava falando; havia tantas formas de vitória e tantos prêmios. Mas era esperto, não era necessário muita explicação para ele entender a situação, eu gostava disso nele e esperava que ele usasse tal artimanha em nossa conversa. Diante da minha feição, ele notou o meu desentendimento e logo tratou de responder.
– Você. – continuou.
Aquela resposta acabou aumentando ainda mais minha confusão mental. Eu havia virado um prêmio? Desde quando?
– O que tem eu?
– Ele conseguiu ter você de todas as maneiras.
, seu irmão e eu não estamos...
– Namorando? Eu sei, porque seu trabalho provavelmente não deve permitir e também, você sabe que é contra as regras. Mas tudo o que é proibido é mais gostoso, assim como foi com nós dois.
... – o interrompi, soltando um forte suspiro em seguida, e mal acreditando que entraria em um papo de “relacionamento” na qual nem existiu. – Nós não entramos em nenhum relacionamento sério ou perto disso para termos essa conversa. Se eu soubesse que você levaria nosso beijo tão a sério, teria evitado aquele momento.
– Não estou levando as coisas a sério, . Estou apenas falando como me senti! Ok, tivemos pouco tempo juntos, mas... Foi bom, eu gostei e estava disposto a seguir em frente mesmo sabendo das circunstâncias. – estava sentindo uma sensação estranha, não era algo que sentia sempre, mas ver falando aquelas coisas causou um pequeno remorso em mim.
– Olha, se eu causei alguma confusão em você, peço perdão. Nunca foi minha intenção de construir um sentimento em você por mim. Eu também estava gostando, não minto, mas as circunstâncias foram mudando e...
– E aí você passou a conhecer mais o .
– Você sumiu, . – rebati.
As mãos de , que antes estavam sobre a mesa, se recuaram, assim como seu corpo e seu olhar, que agora, miravam a taça a sua frente.
Eu nunca tive nada contra ele, e nada soava mentira quando eu dizia que havia criado um carinho pelo mesmo, afinal, nunca havia me tratado mal, pelo contrário, sempre foi prestativo e um dos poucos que me distraiu na minha chegada. O que só me deixou com um pé atrás foram suas ações com o caso de seu irmão. Havia chegado a um ponto na qual por mais que eu não quisesse, minhas suspeitas estavam caindo nele. Não desejava interrogá-lo, mas tudo se tornou questão de necessidade. Queria ser direta, ir diretamente ao ponto, mas não queria causar nenhum problema para ele, então decidi iniciar um jogo com indiretas, traçar um caminho indireto e recolher informações sem levantar suspeita; exigia um certo cuidado e delicadeza, coisas que eu não possuía cem por cento.
Senti por um momento minha garganta secar, e milhões de pensamentos surgir em minha mente quando o vi ainda retraído em sua cadeira. Estávamos entrando em um assunto delicado, coisa que estava fora do meu roteiro, mas eu precisava fazer com que seguisse minha trilha até eu conseguir as respostas. Ainda com a voz calma, continuei:
– Logo no começo, estávamos conciliando nossas saídas com o meu trabalho, porém, depois, principalmente após mudança, você tomou chá de sumiço. Prometeu que tentaria ir mais vezes na casa de sua mãe para se aproximar mais dela e de Luna... Porém posso contar nos dedos a quantidade de vezes que isso ocorreu.
– Eu estava ocupado, . A faculdade exige isso, se não demonstra essa seriedade com a universidade, não é minha culpa.
– Ele demonstra, , chega que ele está tentando fazer o curso a distância, ele tem perdido noites terminando projetos. – ele não disse nada, apenas suspirou e tornou o olhar para mim. Eu precisava sair daquele assunto, já estava se tornando algo totalmente sentimental e meu foco naquela saída não se tratava daquilo. Foco , foco! – Mas... tem certeza de que suas ocupações têm a ver com o seu curso? – sua sobrancelha logo se ergueu, assim como seu cenho que havia franzido.
– E por que não teria? Se é a única coisa que faço, além de ajudar meu pai?
– E essa ajuda com seu pai seria relacionado a...
– A candidatura, ! – disse com mais firmeza em sua voz, retomando a postura ereta e séria. – Você não tinha algo para me perguntar? Você pode ser direta e...
– O que você estava fazendo na casa de Denise? – suas palavras morreram com minha interrupção, mas principalmente devido a caixinha de surpresa que tinha sido a minha pergunta.
O vi ter diversas feições no curto tempo: choque, angústia, seriedade e principalmente confusão, na qual ele a manteve.
– Quem? – proliferou com um certo desentendimento, e eu tive que suspirar pesado, liberando toda aquela agonia sentia e impaciência que já surgia.
– Denise, ex namorada de . E não me diga que não a conhece... – ele parou por um tempo, como se analisasse a situação e principalmente as palavras que iria proferir.
não tinha saída. Mesmo que negasse até a morte, eu iria fazer de tudo para conseguir, finalmente, uma resposta para um dos seus mistérios. Não estava aguentando todo aquele modo indireto, não funcionava comigo. Era melhor ter a bomba de uma vez só do que por partes. Poupava tempo.
– Por que está me perguntando isso se eu mal a conheço com ela?
– Mal a conhece? Sério? Estranho então nossa jaqueta aparecer nas casas das pessoas do nada, não é mesmo? – em todo momento tentei ser franca e paciente, porém eu odiava quando mentiam para mim, principalmente quando eu sabia da verdade. Odiava que me fizessem de idiota e não queria mudasse a ideia que eu tinha dele.
– Do que você está falando? – ele insistia.
, por favor, não me faça tomar raiva de você. Se você quer ajudar seu irmão, a hora é essa. Não irei entrar em detalhes, mas eu sei que você teve contato direto com Denise, eu sei das suas ligações para ela e principalmente que a sua visita lá foi indesejável. Se você é realmente esse cara que sempre disse que estaria ao meu lado e quer ajudar seu irmão, essa é a hora de me contar a verdade. – sua inexpressividade era nítida e parecia que eu havia tocado em algo na qual ele não estava preparado.
Sua demora ao me responder não foi tão longa, porém era perceptível ver que o mesmo bolava algo na mente para ir de contra a minha pergunta. Tomando uma postura séria e confiante, ouvi sua voz serena soar em meus ouvidos. – Se você acredita em mim, vai entender que eu não sei o que...
– CHEGA, ! – me exaltei completamente, levantando com força e quase levando a mesa junto.
O susto que ele havia tomado o fez se encolher na cadeira por um certo momento e me encarar com uma feição totalmente incrédula. Não me importava da cena que eu estava fazendo, muito menos do que ele acharia. Minha paciência havia chegado ao limite e ninguém brincava com meu precioso tempo. Não havia ido ali para ser feita de idiota.
Respirei fundo tentando recuperar minha sanidade, mas estava sendo impossível.
– Denise não foi com você para a NASA, muito menos ganhou pelo correio um casaco exclusivo de lá, até porque ela não é filha do presidente. Infelizmente, para seu lado, você acabou deixando esse precioso objeto lá, e Denise não estava nada feliz em rever alguém de mesma aparência que a sua. Então, pela última vez, , eu não estou brincando, o que você estava fazendo lá!
Não obtive resposta.
Ele ainda me encarava, porém boquiaberto, tentando digerir tudo o que estava ocorrendo. Eu tinha que sair dali, o carinho que eu tinha por ele estava diminuindo a cada segundo daquele silêncio e não queria torná-lo um inimigo para mim. Sendo assim, recolhi minha bolsa, ajeitando meu vestido, vendo que o mesmo observava cada ação minha.
– Não tirarei seu direito de permanecer calado, mas suas ações estão superando a infantilidade que possuía. – girei meus calcanhares dando menção de sair, porém, rapidamente, sua mão segurou meu braço quando após o mesmo se levantar subitamente.
– Espera. – disse receoso. Ele olhou de um lado a outro do salão como se procurasse alguém ou analisasse que o ambiente estava vazio, sendo que realmente estava já que os únicos eram nós dois. – Você está certa, eu fui até a casa de Denise.
– Por que? – sem jeito, o mesmo apontou para a cadeira a sua frente, pedindo para que eu sentasse novamente e assim fiz.
Ele parecia nervoso, suas ações estavam semelhantes as minhas quando estava decidido o modo de entrar no assunto. O mesmo certamente estava fazendo a mesma coisa.
não foi o único a receber mensagens, . Eu recebi uma, algumas, pra falar a verdade, e tentei rastrear, mas foi sem sucesso. Até que analisando-as, percebi que havia um padrão, as aspas. Logo lembrei que Denise costumava usá-las quando conversava com pelo celular, nunca entendi, mas ela sempre colocava. Eu atirei no escuro, porque eu nem me lembrava direito dela e não conseguia achar uma ligação, até que lembrei que Denise já foi apaixonada por Ryan.
– Na mesma época que ela estava com ?
– Sim. Para falar a verdade, eu sentia que ela usava para se aproximar de Ryan, só que meu irmão estava tão feliz que mal conseguia enxergar isso.
– Você nunca comentou com ele isso?
– Uma vez, só que ele não acreditou em mim, e só terminaram porque perceberam que eles não estavam se curtindo, eram diferentes demais, nem mesmo aquela frase “os opostos se atraem” definiam eles.
– Eu bem que achei aquela garota estranha.
– Ciúmes? – questionou, erguendo a sobrancelha.
Revirei os olhos já farta daquele mesmo comentário.
– Só a achei estranha, não posso? – grunhi. – Mas me conte o resto. O que ocorreu na casa dela e como a achou?
– Foi fácil, eu lembrava o nome dela completo. Pedi ajuda a um amigo e logo tive o endereço. Não consegui distinguir se ela estava surpresa por me ver ou nervosa, mas juro que cheguei calmo lá, tentei engatar uma conversa, mas ela foi logo questionando muitas coisas, querendo saber como eu havia conseguido o endereço dela, o que eu queria… Denise nunca foi boa de esconder segredos, então resolvi ser direto e… – ele fez uma pausa.
– E…?
– E acabei falando que suspeitava que ela e Lucas estavam por trás disso tudo. – precisei de um tempo para digerir toda aquela explicação e tentar encaixar os fatos.
Mas antes de tudo, precisava lembrar quem era Lucas… Aquele nome não me era estranho, porém não conseguia achar o momento certo na qual havia ouvido aquele nome.
– Lucas?
– Irmão de Ryan. Ele estava no dia da audiência de , no tribunal. E pelo que lembro, foi ele que tirou você e meu irmão daquela sala. – e em um passe de mágica, a feição de Lucas retornou em minha mente.
O garoto na qual não constava nos arquivos de Ryan como irmão dele.
O garoto que havia nos encontrado por causa de Melissa.
O garoto que ficou feliz em rever.
– Mas por que ele?
– É algo que eu gostaria de saber também, , mas somente Lucas pode explicar.
O fato é que no dia da audiência, eu estava no corredor quando ele abriu a porta para vocês. Não quis falar nada para não causar intriga, porém pelo jeito que ele andou e fez toda a cena… parecia que ele realmente sabia o que estava fazendo. Ele sabia que vocês estavam ali.
– Então você acha que ele trancou e eu lá? Mas… Por quê?
. – suspirou, parecendo um pouco impaciente. – Tudo o que eu estou dizendo aqui são teorias que
eu acho. Lucas sempre foi um cara estranho para mim, sempre! Na verdade, aquele grupo era estranho, chega que eu fui me afastando deles porque rolava muita inveja, e o pai de Ryan era político igual a meu pai. Você acha que existe amizade no mundo da política? Sem falar que depois que falei de Lucas à Denise, a garota começou a discutir comigo, dizendo que não sabia de nada, que iria me denunciar e me expulsou para fora da casa dela. Por isso que esqueci meu casaco lá.
Minha mente se encontrava em um turbilhão de pensamentos e hipóteses. Eu tentava encaixar, entretanto, mais questionamentos e interrogações apareciam em minha mente. Eu precisava conhecer mais Lucas, saber de sua vida, sua família, o que ele fez por aqueles anos e principalmente de sua ligação com Denise.
Mas algo ainda me prendia: será que eu poderia confiar em ?
Eu precisava de uma opinião, precisava conversar com e ver o que ele achava daquilo tudo. Ele era perfeito para desvendar incógnitas e fazer caminhos até a solução.
Antes mesmo de conseguir respondê-lo, o jantar chegou. Não queria comer mais angustiada do que já estava, e percebeu isso, mudando de assunto completamente. No final, o mesmo foi me acompanhando até o carro, aproveitando o momento para conversar mais. A noite estava mais fria do que o normal, e a única coisa que eu desejava era encontrar com e iniciar toda aquela investigação.
– Se você souber de mais alguma coisa, por favor, me avise. Toda informação é bem-vinda e crucial para a investigação.
– Pode deixar, vá me mantendo informado também, se puder. – em um ato súbito, senti o calor de contra mim em um abraço inusitado.
Seus braços envolviam meus braços, fechando a mãos em minha cintura, enquanto sua face se posicionava na lateral do meu rosto. Um pouco sem jeito, tentei retribuir, mas logo ele se afastou.
– Você não está sozinha, . – e aos poucos, ele foi recuando, ainda mantendo o olhar em mim, e logo em seguida, prosseguiu até o carro que o aguardava.
. – chamei, vendo-o virar tranquilamente. – Por que escondeu isso de mim?
– Sua barreira me impossibilitou. – disse sereno, em um tom alto devido a nossa distância. – Boa noite, . Dirija com cuidado.

[...]

Não havia conseguido pregar os olhos uma hora sequer durante a noite.
As palavras de trabalhavam em minha mente fazendo com que minhas tentativas de interligar os momentos fossem falhas. Eu tentava entender de onde Lucas tinha ligação naquela história.
Quem era realmente ele, afinal?
Será que estava realmente falando a verdade? Se sim, qual motivo fez Lucas agir de tal maneira conta ? Ele tinha me parecido um rapaz tão sereno quando “ajudou” e eu a saímos do quartinho no tribunal. O jeito na qual ele havia cumprimentado , a felicidade e surpresa que esbanjou quando o viu, sem falar que Lucas mencionou que estava ali para apoiar . Então… Por que logo ele ser o alvo de ?
Havia uma peça faltando naquele quebra-cabeça, certamente sabia de um algo a mais, talvez a informação crucial para desembaralhar toda aquela bola de informações. Mas talvez, poderia saber de algo também, afinal, ele conhecia Lucas tão bem quanto seu irmão, meu problema estava só estava em como explicar a ele que eu havia quebrado a promessa de não falar nada com seu irmão até suas ordens.
Certamente o garoto iria ficar puto, e talvez, parte de sua confiança em relação a mim poderia ir por água baixo, e eu não estava a fim de ouvir seus falatórios do quanto eu fui errada. Não sabia exatamente o quanto confiava em mim, nem ao menos sabia o que estávamos tendo significava para ele. Não havíamos conversado sobre o quesito relacionamento muito bem, pessoas falavam coisas da boca para fora, e por mais que nunca tivesse duvidado de suas palavras e recentes atitudes, eu sabia que ele ainda era uma caixinha de surpresa. Eu precisava conversar com , mas o mesmo havia levado Luna, a pedido de Helena, para uma feirinha que estava ocorrendo há alguns blocos dali, e sem meu melhor amigo por perto e sem saber como agir com , minha única opção foi passar parte da manhã deitada, findo que estava dormindo toda hora que entrava lá.
Pus parte do meu cabelo para trás, aproximando um punhado de água em minha face. Precisava acordar e enfrentar o resto do meu dia, ficar fugindo não iria adiantar em nada, a única coisa que eu tinha que fazer era agir como se nada tivesse ocorrido e na noite passada eu tivesse apenas ido dormir cedo devido a uma enxaqueca.
Dei um pulo quando vi que já eram três e pouca da tarde, minha barriga estava roncando, já que eu não havia comido praticamente nada.
Quando estava fechando a porta atrás de mim, vi se aproximar com uma feição preocupada, me puxando de volta para meu quarto e nos trancando ali.
– O que foi? – questionei, fingindo estar sonolenta e desorientada.
– O que foi? – questionou de volta, mas com um certo sarcasmo. – Eu que te pergunto o que foi. Você dormiu por quase vinte e quatro horas.
– Só foi uma crise de enxaqueca, . Não tenho descansado direito e meu sono deve ter acumulado, só isso. – sentia que ele não havia caído muito naquele meu papo, porém, o suspiro pesado que ele soltou indicou que ele aceitava aquela desculpa, entretanto, seu nervosismo ainda se mostrava aparente. – O que houve?
– Nada… é só que… Deixa pra lá.
– Você estava preocupado? – claramente não sabia esconder certos sentimentos, pois suas bochechas começaram a se ruborizar e suas ações demonstravam que ele estava sem jeito. Aquilo, em milénios, foi uma atitude fofa da parte dele. – Anw, ele estava preocupado com a sombra dele. – eu sabia o quanto odiava aquele tipo de coisa, mas não me aguentei. Apertei com vontade suas bochechas, o vendo revirar os olhos, mas com um sorriso desajeitado nos lábios.
– Ok, , menos…
– Primeira vez que vejo tendo uma atitude extremamente fofa com alguém que não seja a Luna. Devo ficar honrada?
– Você deve conter suas emoções, isso sim. – coloquei, delicadamente, cada palma de minha mão em sua face, o puxando para mais perto, selando nossos lábios.
– Devo conter essa também? – com um sorriso sacana no rosto, ele me puxou mais ainda para si, colando nossos corpos.
– Jamais. – e assim, voltou a me beijar com mais intensidade.
Entretanto, por mais que meu corpo estivesse ali presente, e eu sentisse todo seu desejo, minha mente estava em outro lugar, especificamente nos meus questionamentos no banheiro. Ainda em seus braços, fui quebrando lentamente o beijo, não dando espaço para nenhuma fala sequer dele.
– O que eu significo para você?
– O que? – questionou com um certo desentendimento, e precisei suspirar fundo para dar continuidade.
Não estava acreditando que iria entrar naquele assunto.
– O que eu significo para você. Melhor, tudo isso aqui, nós dois, o que significa para você?
– Por que está me perguntando isso?
– Foi uma dúvida que me surgiu. Não ficamos uma ou duas vezes, agimos como se tivéssemos uma relação, sendo que somos tão incertos.
– Incertos?
– É, você sabe… Não tínhamos uma boa relação no início e agora...
– Eu já te expliquei que…
– Que era por causa que eu trabalho para seu pai e da rixa que vocês têm. Eu sei, e não duvido das coisas boas que já fez para mim, é só que não tivemos ainda essa conversa de relacionamento.
– Pensei que não quisesse ter.
– Eu realmente não curto muito, é só que você é um mistério, . Não me leve a mal, porém é impossível de te decifrar em certos momentos, saber o que você está pensando...
– Você acha que eu estou te usando?
– Não! – apoiei novamente minhas mãos em sua face, já que eu ainda estava em seus braços. – Jamais! Mas você confia em mim, certo? – afirmou com a cabeça, mas de um modo desconfiado.
,o que você aprontou? – “muita coisa na qual você não deseja saber”, pensei.
– Nada. – menti. – É só para ter certeza.
Não sabia ao certo o que estava ocorrendo com ele naquele dia, mas o mesmo estava aceitando minhas palavras sem questionar muito. Firmando mais suas mãos em minha cintura, ele manteve seu olhar nos meus.
– Vou usar a mesma frase que você disse a mim: Não importa o que aconteça, estarei aqui com você e por você. – aquilo criou um sorriso extremamente bobo em minha face na qual não me contive em depositar um longo beijo em seus lábios. – E também eu…
! – foi interrompido drasticamente por Luna, que sem se importar da situação, começou a bater na porta do quarto.
Destrancamos a porta, vendo a pequena garotinha adentrar no quarto já com um pequeno vestido de boneca em mãos. – comprou um vestido para minha boneca.
– Que lindo, Luna! – me abaixei, ficando do seu tamanho. – Foi você que escolheu? – negou freneticamente com a cabeça.
– Foi ele, não é lindo?
– Em minha defesa, ela estava demorando muito para se decidir. – ouvi a voz do meu melhor amigo soar pelo quarto, aparecendo atrás de Luna.
– Isso não tira o fato de que você tem bom gosto para vestidos, . – rebati. – Não sei por que escolhia os piores para mim.
– Isso se chamava vingança. Você me fazia perder muito tempo nas lojas escolhendo roupas, então nada mais justo do que escolher a pior.
– Mas se você já estava lá, não seria melhor escolher algo que valesse seu tempo? É meio sem sentido isso. – disse .
– Já assistiu Friends?
– Alguns episódios...
– Quando Rachel estiver com Joey, você entenderá o significado de ser sem sentido.

Depois de um certo tempo ouvindo Luna contar de como havia sido o dia dela na feirinha, acabei descendo para comer algo e aproveitei a presença de no meu retorno ao quarto para lhe atualizar de toda situação. Meu nervoso e ansiedade estava tão à flor da pele que mal havia percebi que eu andava de um lado para o outro no quarto, enquanto explicava ao mesmo. Esperava que tivesse entendido tudo, pois logo percebi que não havia dado uma brecha para o mesmo falar.
– O que você acha? – questionei, ainda em pé e caminhando.
– Temos... que investigar... Lucas…
– Eu sei, mas nesse caso eu teria que contar a que fui conversar com , sendo que ele me pediu para não o envolver de início!
– Então… temos que… – aos poucos fui ouvindo a voz de ficando mais baixa até que um silêncio se instalou.
Devido ao meu estado, não tinha parado muito para encará-lo, só sabia que o mesmo estava deitado na cama, e pelo que eu esperava, prestando atenção em mim. Mas ao me virar para encará-lo, percebi que o mesmo havia engatado em um sono sereno, sentado, com a cabeça baixa.
– Não acredito! – exclamei para mim mesma.
Eu estava desesperada, atrás de uma rápida solução e havia passado o dia todo esperando ele retornar para quando finalmente o encontrar, ele dormir?
Aquilo não ficaria daquele jeito!
Em um súbito ataque, peguei a almofada da pequena poltrona no quarto e fiz uma jogada certeira em sua face, o fazendo acordar totalmente assustado e desnorteado.
– Eu tô vivo! Tô acordado! Calma...
– Sério? – questionei, pondo minhas mãos na cintura. – E o que você acabou de dizer?
– Que… Ah, não podemos conversar sobre isso mais tarde?
– Não! – me joguei ao seu lado, dando uns tapinhas em sua face, na tentativa de despertá-lo. – Eu preciso de sua ajuda, estou desesperada.
– Ok, ok. – com um movimento, retirou minhas mãos de si, a segurando. – Me dê dez minutos de sono que minha atenção será unicamente sua. – suspirei.
Não havia muita coisa a fazer a não ser concordar. Enquanto meu amigo começava a pegar no sono, me deitei ao seu lado encarando o teto, permitindo que os velhos questionamentos surgissem em minha mente. Meu olhar focou no teto branco, porém alguns minutos depois, minha atenção se voltou a um balburdio de vozes altas que saíam do andar inferior, o que fez acordar, bem irritado.
– Pelo amor de todos os casais shippaveis em séries, será que não tenho a santa paz para tirar um pequeno cochilo?! – resmungou, pondo o travesseiro na cara.
Mas a situação foi começando a ficar mais séria quando ouvi a voz de mais forte do que o normal discutindo com alguém. rapidamente me encarou do mesmo modo que eu havia o encarado e ambos já sabíamos: alguma merda estava ocorrendo.
Nos levantamos em um pulo, descendo as escadas na pressa, nos deparando com uma cena incomum: e seu pai, na sala.
Ao contrário de , que possuía uma fisionomia irritadiça, Elliot e mantinham a calma em pessoa. Logo minha presença e do meu melhor amigo foi perceptível, mas não foi capaz de acalmar os ânimos ali.
– Você não vai levar Luna e eu daqui! – esbravejou . – Que direito você tem?
, só quero passar um tempo com vocês, não posso?
– Passar um tempo? Sabe quanto tempo estou aqui? Sabe quantas vezes você e vieram aqui? Você nunca deu atenção a Luna, e só agora quer reverter isso?
. – disse . – Qual é, pessoas podem consertar erros. Ontem mesmo eu conversei com a… – quando percebi que ele iria citar meu nome, balancei minha cabeça em negação freneticamente, tentando fazer com que apenas percebesse, já que o mesmo estava em minha direção e se encontrava contra mim. – algumas pessoas e com nosso pai e, por que não?
– Querido… – Helena deu a voz. – Por que não se permite tentar? Apenas dessa vez.
– Você concorda?! – perguntou, incrédulo.
– Esse caso de família é melhor do que a minha família. – ouvi cochichar ao meu lado e tive que me prender para não rir ao lembrar das brigas da família .
– Cala a boca, idiota, não posso rir. – rebati no mesmo tom.
– Seu pai e eu não temos nenhuma mágoa, . Ele me ligou mais cedo, conversamos e eu achei uma boa.
– Inacreditável! – sem falar mais nada, apenas deu as costas, indo em direção a parte do fundo da casa.
Estava me sentindo mal por Helena, sentia o quanto ela queria que os filhos não perdessem o contato com o pai, mesmo ele sendo daquele jeito que tanto descrevia. Mas também entendia a raiva de . Acabei puxando para irmos de encontro a . O mesmo estava sentado em um dos bancos, de cabeça baixa, enquanto fitava seus sapatos.
– Por favor, não venham me dar lição de moral.
– Não foi eu quem te pariu, então não é minha obrigação te dar sermões, por mais que você mereça. – disse e logo acertei uma cotovelada no mesmo, que reclamou de dor e me olhar com repreensão. Aquilo não estava ajudando e se fosse para fazer piada, que fosse em outro momento. – Mas só viemos ver como você está. – continuou, enquanto nos aproximamos.
– Eu sei que é complicado, mas… – minha fala foi interrompida pelo toque de mensagem do celular de .
O mesmo logo pegou, e ao ler, levantou-se rapidamente, chamando nossa atenção.
– É Denise. Ela pediu desculpas e disse que queria contar toda a verdade. Pediu para que eu fosse no apartamento dela o mais rápido possível, mas…
– Mas…? – fiz menção de que continuasse, o vendo torcer a boca.
Coisa boa ali não era.
– Mas ela não quer que você vá. – O QUE?! Quem aquela garota estava achando que eu era? Ou melhor, quem ela estava se achando? A rainha da Inglaterra para ditar ordens?
– O QUE? COMO ASSIM?! – exclamei.
– Vai ver que ela se sentiu ameaçada com sua postura. – comentou . Mas quem ele estava achando para falar aquilo? Eu não havia feito nada, estava apenas sendo eu mesma desconfiada das pessoas!
– Ameaçada com minha postura? Agora você está agora defendendo ela? Não posso mais ficar desconfiada das pessoas que agora é motivo para se sentir ameaçada? Mas é agora mesmo que ela vai se sentir!
, calma... – pediu, mas não dei ouvidos.
Denise não iria atrapalhar minha investigação, e ainda era muito estranho ela ter mandado aquela mensagem, no fim de tarde e pedindo para que fosse sem mim. Aquela garota não me cheirava bem, e nunca cheirou. Se ela estivesse mesmo ligada a Lucas, aquilo com certeza poderia ser uma armadilha para .
, não é defender e sim uma hipótese das ações dela quando você estava lá. Se você for, é capaz dela mentir ou até mesmo desistir de se explicar. Isso pode ser importante para nós. Ter uma informação a mais é crucial, não é? – eu já tinha várias.
– Mas…
– Eu vou com ele, , se esse é o caso. – disse. – Até porque, ela não deve ter nada contra mim. Ela pode ter percebido que você e tem um caso, e pelo que sei, graças ao bom Deus, eu nunca beijei esse ser.
– Ei! – protestou .
– Sem ressentimentos, cara. Você não faz meu tipo.
– Eu faço o tipo de todo mundo. – sorriu de canto, me fazendo ser obrigada a franzir a testa.
– Esse assunto está começando a pegar mal para você. – disse, cruzando seus braços e deixando que sua cabeça balançasse negativamente. – Não adianta dar em cima de mim, cara. Não vai rolar.
– Acabaram? Ou as madames querem mais tempo para decidir o relacionamento? – encarei os dois, enquanto dava risada e permanecia sendo ele mesmo.
– Bem, qualquer coisa posso te esperar do lado de fora. – meu amigo trouxe o assunto inicial para a conversa, o que de certa forma foi um alivio. – É bom que terminamos de discutir nossa relação. – dando dois tapinhas no ombro de , se retirou em direção ao interior da casa.
– Como você aguenta ele?
– Com o tempo vamos aprendendo a controlar nossa vontade de matar. É tudo questão de controle. – revirou os olhos, contendo o riso.
– Mas está tudo bem para você?
– Não, né. Mas fazer o que? Se a madame deseja desse jeito, não será exatamente do jeito dela. – comentei referindo aos equipamentos que com certeza iria colocar neles.
Não iria deixa-los ir sem proteção. Minha confiança naquela garota ainda se encontrava abaixo de zero.

[...]

Se eu havia gostado da ideia dos garotos? Não.
Claro que não, era algo totalmente inaceitável terem me deixado de fora depois de tudo o que eu fiz e já passei, mas claro, por parte até entendia: Denise havia aberto o jogo, de certa forma, e por mais que eu ainda estivesse com um pé atrás com aquela mensagem, confiava perfeitamente em . O mesmo sabia como sair de certas situações, ele era mais calmo do que eu e não agia por impulso, então certamente estava em boas mãos. E tudo bem que eu queria ter ido para encarar aquela garota e me vangloriar por desde cedo ter desconfiado dela, mas entendia que minha presença poderia assustá-la, como ocorreu da última vez, e mais importante: se fosse uma armadilha, alguém tinha que ficar de fora para socorrer, coisa que eu esperava que não ocorresse. Meu nervosismo estava oscilando minha respiração e nem mesmo o filme do Madagascar, que Luna havia insistido para que eu assistisse com ela, após e Elliot saírem, estava conseguindo tirar toda atenção, sendo que eu amava de paixão aquele filme!
Perto do final do filme, percebi que Luna já havia adormecido e assim como ela, meu corpo queria fazer o mesmo, apenas relaxar. Minhas pálpebras já estavam lutando para fechar por completo, e o travesseiro no chão já estava sendo um bom apoio para minha cabeça. Entretanto, despertei assustada com o vibrar do celular em meu lado. Com dificuldade, estreitei os olhos e li bem borrado o nome de na tela.
– Dig… – não consegui nem ao menos terminar a frase, meu amigo logo a cortou com sua voz ofegante e trêmula. Algo estava errado, muito errado.
, me escuta. – ouvi seu respirar forte, como se estivesse puxando uma boa quantidade de ar nos pulmões. Nisso eu já estava nervosa e fora do quarto de Luna. – Você vai fazer o que eu mandar nessa mesma sequência, ouviu bem?
, o que…
– Só me escuta, por favor. Liga para ambulância e pede para virem no endereço que irei mandar para você. Depois, você vai se acalmar, porque tudo tem solução e vai vir para cá com reforços, ouviu bem?
, mas o que houve? Você está bem? E ?
, é uma longa história, mas precisamos ser rápidos porque corre perigo.
– O quê?!
– Ele foi sequestrado, .


Capítulo 25

“This is an S.O.S. don't wanna second guess, this is the bottom line”
- SOS, Jonas Brothers.

Eu não era boa em repassar informações críticas com um estado emocionalmente abalado, nem mesmo estando bem minhas informações sairiam tão claras e confortantes; eu seria uma péssima médica avisando aos familiares que eles haviam perdido um ente querido, era provável que no meio disso de toda explicação, os familiares se tornassem meus novos pacientes com sintomas de ataque cardíaco causados por minhas palavras.
Preferia mil vezes fazer uma cirurgia, olhar sangues e órgãos do que passar informações desconfortantes.
Mas foi assim que me senti ao contar a Helena sobre o que havia ocorrido há pouco tempo atrás. Minhas palavras se embolaram nos primeiros minutos, minha boca secou, meu nervosismo tomou conta de mim e o ensaio que havia feito antes no quarto não havia funcionado. Minhas palavras saíram feito foguete diretamente para Helena que devido ao baque, teve que se sentar em sua cama e organizar todas as ideias que havia passado. De primeira instância, achei que a mesma havia entrado em colapso quando vi seu olhar totalmente fixo e arregalado em direção ao nada; mas depois, com suas lágrimas, percebi que tudo o que a atingia naquele momento era angústia, até porque, não era fácil para uma mãe saber que seu filho havia sido raptado, sumido do mapa e antes disso, capotado o carro. Os pensamentos de Helena poderiam estar girando juntamente aos meus, perguntando-se como estava, se estava ferido, vivo, morto ou pior de tudo, ela poderia estar se culpando, assim como eu me culpava por não estar presente no momento. Talvez, se eu estivesse ali, as coisas poderiam ter sido diferentes, eu poderia ter atrasado um minuto, dois, escolhido outro caminho.
Não era fácil raciocinar de que o incerto estava dominando e que a única certeza que tínhamos era que o inferno havia começado.
Bem que o próprio avisou: “ninguém se acostuma a morar no inferno, muito menos conviver nele”, e eu não acreditei, achava que suas meras palavras não passavam de um simples drama na qual o mesmo era expert em fazer. Entretanto, ali, naquele momento, pude perceber o quanto verdadeiras eram suas palavras, e o quanto o mesmo temia que o inferno chegasse às suas pessoas que ele mais amava.
Às lágrimas silenciosas de Helena ainda percorria pelo seu rosto, enquanto suas mãos tremiam apoiadas em seu joelho e seu peito tomava uma respiração um tanto rápida e descompassada, o medo de que no final, fossemos parar no hospital devido ao seu estado ainda predominava. Meu medo também se resumia a mesma não conseguir controlar sua respiração pesada e seus soluços, e acabar soltando o alto choro e acordar Luna, que dormia tranquilamente no quarto ao lado.
Tentei respeitar seu tempo e espaço mantendo uma certa distância, encostando-me em uma das paredes do quarto, enquanto me encontrava na mesma situação que ela, porém não me permiti chorar, mesmo sabendo que minhas lágrimas já estavam chegando ao limite de transbordar. Tinha que me manter forte, ou pelo menos passar essa ideia. Me desesperar com Helena não serviria para nada, só a deixaria mais tensa e sem a sensação de segurança, coisa que eu precisava passar a ela, afinal, aquele era meu trabalho.
Por mais que a sensação de falha me atingisse em cheio, não perdi minha postura firme e segura. Mesmo estando com a cabeça latejando de tanto pensar e enxergar tantos problemas, tentava ao mesmo tempo me disponibilizar para Helena e seus desabafos, caso precisasse, mas não sabia como reagir a ela, vê-la naquele estado estava partindo meu coração e me deixando mais angustiada.
Me mantinha em um dilema de sentar ao seu lado e abraçá-la, dar algum conforto que a mesma não estava tendo e mesmo não sabendo o resultado final, dizer que tudo ficaria bem, ou apenas deixa-la em sua dor, por não saber se minhas atitudes ajudariam ou só piorariam seu estado. Tinha medo de me aproximar ou falar algo e acabar soando como uma mentira. Momentos de perda ou situações críticas eram os piores momentos para se agir e transmitir conforto, era por tal motivo que eu evitava velórios e sempre evitei; até mesmo quando o cachorro de meu irmão morreu, me distanciei um pouco por não saber o que falar exatamente, porém naquele caso, eu tinha que agir.
Respirando fundo, puxando o máximo de ar possível e rezando para que tal atitude resultasse em uma pequena porcentagem de coragem, aos poucos fui me aproximando de seu corpo em estado inerte. Com delicadeza, pousei livremente minha mão esquerda em seu ombro direito. Engoli totalmente seco antes de proliferar seu nome suavemente.
– Helena… – a mesma não se moveu. – Eu tenho que…
– Vá, querida. – dando um forte suspiro, e me causando um alivio por me mostrar que estava viva, permitiu-se relaxar seu corpo, curvando um pouco a coluna e delicadamente, tocando em minha mão. – Não se preocupe, eu vou ficar bem.
– Eu sei que não vai, e gostaria de te dizer o contrário. Me preocupo com você e não quero a deixar neste estado, sozinha.
– Você precisa fazer seu trabalho e não quero atrapalhá-la. e precisam mais de você do que eu preciso. E sabe, , eu fiz de tudo para protegê-los e dá-los do bom e do melhor.
– Eu sei que fez, e eles também sabem disso.
– Mas talvez, se eu fosse mais presente, as coisas poderiam ser diferentes. Se eu ainda estivesse casa com Elliot, os meninos poderiam ter uma característica mais calma. Quando me mudei para cá, não tinha intenção alguma de me afastar deles, só queria criar Luna longe da vida obscura de Elliot. Eu queria paz após muitos anos, mas estou vendo que minha escolha resultou em uma drástica consequência.
– Helena, não se culpe. Pensar em si mesma um pouco e na vida de sua filha não é erro, é atitude. Se ficarmos sempre na dúvida sobre o que fazer, nunca chegaremos a lugar algum, e por trás de toda ação há uma consequência. Mesmo as coisas sendo diferente, poderia ocorrer o mesmo. Nunca sabemos do futuro e se formos viver trancafiados nisso, não iremos a lugar algum. Os meninos nunca te culparam pela separação, e nem irão. Elliot seguiu com a vida dele e você precisava fazer o mesmo.
– Eu sei, é só que… – e novamente suas lágrimas começaram a cair sem dó nem piedade, nem mesmo sua mão foi capaz de capaz de impedir os incessantes soluços.
Meu desespero começou a aumentar assim que percebi que ali, ela não pararia e que assim, poderia acordar Luna, o que seria bem pior, pois eu não saberia explicar a uma pequena garotinha a situação na qual estávamos envolvidos. Acabei, por fim, ignorando qualquer protocolo da Firefly de não se envolver emocionalmente em uma missão, a envolvendo em um abraço e assim ficando por alguns minutos, meu ombro servindo de seu único apoio.
– Prometo que o trarei sã e salvo para casa. – por mais que eu soubesse o quanto era errado mentir, ou falar algo que não era cem por cento verdadeira, eu tive que falar para lhe dar nem que fosse um pouco de conforto, mesmo sabendo que tal atitude era totalmente inadequado e proibido, de acordo com o protocolo da Firefly.
Nunca deveríamos dar esperança a alguém caso não tivéssemos certeza de algo, nem que fosse um por cento; um pouco de esperança poderia acabar com a vida de alguém.
Helena aos poucos foi se afastando de mim, tentando conter, falhamente, as lágrimas que ainda corriam em sua face. Apoiou com dificuldade suas mãos em seus joelhos, erguendo o corpo para se levantar. Em curtos e frágeis passos, foi em direção a cômoda amadeirada próxima a cama, pegando em uma pequena caixinha de veludo aberta, um objeto que notei ser a chave do carro.
– Você vai precisar de um veículo para chegar até seu destino. E também, não quero tomar mais seu tempo, querida.
– Não considero esse momento perda de tempo. Me preocupo com você e Luna, não quero que nada de ruim ocorra com vocês. – fui em sua direção, recebendo a chave. – E obrigada pela ajuda.
Dei uma última olhada para Helena, e seu olhar pesado e inchado, antes de dar meia volta seguir caminho. Mas ao abrir a porta, ouvi sua voz aveludada me chamar, fazendo-me novamente encará-la.
tem sorte em ter você.
Meu coração apertou-se em longos segundos, e um sorriso singelo formou-se em meus lábios. Queria dizer o mesmo, mas não sabia ao certo se eu conseguiria ser essa sorte para ele.

[...]

Já era noite, e de acordo com o relógio do carro, já se passava das seis e meia. Estava sendo complicado manter a direção no trânsito com uma cabeça mergulhada em pensamentos e uma ansiedade de terminar tudo aquilo. Sem falar no receio de enfrentar algo tão sério quanto estava sendo aquele momento. A realidade era bem mais assustadora em comparação aos treinos, ou quando estávamos em uma missão sendo mera ajudante, por mais que eu nunca tenha participado ativamente de um. Mas quando ficamos à frente de qualquer evento, o receio se triplicava. Era o medo de errar que acabava falando mais alto.
Havia posto o endereço que tinha me passado no GPS, o local não era tão longe, eles não haviam nem chegado a metade do caminho, onde seu destino final era a casa de Denise. Consegui cortar um pouco do percurso devido ao atalho que o GPS havia oferecido, soube exatamente que tinha chegado ao local quando vi, ao longe, um pequeno desvio na faixa dos carros sinalizando para ir por outra rua. Não era uma via de cruzamentos, era tudo bem plano e sinalizado. Acabei estacionando o carro ao longo da calçada mesmo não sendo permitido, alguns metros do local. O trânsito fluía mais devagar e ir a pé seria bem mais rápido.
Uma rajada forte de vento gélido me atingiu em cheio ao sair do carro, me forçando a andar abraçada praticamente a mim mesma. A cada passo sentia meu corpo tremer e minhas mãos apertarem fortemente meus braços; nervosismo, frio, eu só sabia que estava instável e toda sensação se triplicou após alcançar a multidão aglomerada em volta da faixa de “não ultrapasse” posto pela polícia. Entre pessoas, empurrões, xingamentos e obstrução de caminho, consegui chegar sã e salva na área cercada, apenas mostrando meu distintivo da Firefly a um homem que de aparência não me era estranho, mas não dei tanto foco, minha atenção foi toda voltada ao carro que estava exatamente com os quatro pneus para cima próximo a uma árvore que logo deduzi ser a “salvadora” por ter feito pará-lo. A cor preta da caminhonete escondia um pouco dos arranhões, mas não disfarçava o tamanho da pancada que havia sofrido em sua lateral. A porta traseira estava praticamente destruída, como se algo tivesse o atingido bem ali, seus faróis apenas um estava intacto e dos quatro pneus, um estava estourado. Meu coração se apertava a cada instante em que meu olhar passeava pelo veículo, era como se tivesse uma corda bem amarrada em meu órgão e uma mão extremamente forte puxando sua extremidade sem dó e nem piedade. Minha mente lutava para formular alguma cena do que possivelmente teria ocorrido.
Por que eu havia permitido eles irem sozinhos?
Por que eu não fui com eles?
Novamente, as coisas poderiam ter ocorrido diferentemente caso eu estivesse ali.
Um pequeno atraso ou adiantamento, talvez nada daquilo tivesse ocorrido.
Era a culpa me consumindo.
Meus olhos logo começavam a vasculhar o local, alguns peritos já analisavam o carro enquanto outros conversavam entre si, e outros entrevistavam algumas pessoas locais. Todos que estavam em serviço tinha-me uma feição em comum, mas não estava conseguindo estabelecer uma certa lógica de reconhecimento, uma vez que meu destino era encontrar meu melhor amigo.
Fui vasculhando incessantemente até encontrá-lo, quase no final da rua e atrás de alguns carros, sentado em uma maca enquanto encarava, fixamente, sua mão enfaixada. A blusa de mal existia, seu tronco estava totalmente exposto com alguns curativos, e o que lhe cobria era apenas seu velho e bom casaco de couro sintético que minha mãe havia o presenteado quando ele entrou na Firefly. Seu cabelo estava uma total bagunça e mesmo de longe, consegui observar algumas escoriações em sua face mal iluminada pelo poste.
Minha reação não foi outra a não ser correr em sua direção e envolver meus braços em sua cintura, o apertando em um abraço. Seu gemido de dor foi audível para mim, mas não me importei, eu só queria estar ali com ele, saber que estava vivo e ao meu lado; saber que estava bem e que o teria por um longo tempo. Imaginar minha vida sem era loucura, pensamento de outro mundo, inexistente, ele era a pessoa que eu mais confiava, alguém que havia me mostrado com todas as letras o significado da palavra amizade e parceria. era quase uma parte de mim, um irmão; era alguém que me fazia sentir em casa, segura, me acalmava, me fazia sentir um bem da porra.
Logo seus braços me envolveram e senti sua cabeça se encostar na minha que estava afundada em seu tronco. Em questão de segundos senti meu rosto começar a molhar, minhas lágrimas escorriam como se tivessem aberto a válvula que havia segurado por todo aquele tempo, minha respiração já era tomada pelos fortes soluços e meus batimentos cardíacos estavam mais acelerados do que o normal. Era meu medo falando mais alto.
Sabia do quanto era capacitado, mas eu que o havia, indiretamente, o colocado na Firefly, e se algo ruim ocorresse com ele, não haveria nada no mundo que me fizesse perdoar tal atitude.
– Você está pior do que eu quando assisti a morte de Agente Coulson nos Vingadores. – sua voz baixa carregava consigo uma boa quantidade de zombaria, o que me fez rir diante de sua comparação.
Realmente, aquele dia havia sido cômico. tinha me chamado para assistir os Vingadores no cinema, não havíamos conseguido ir na estreia, então acabamos indo um dia após e quando aquela cena passou nos telões, havia se transformado em uma criança de cinco anos, porém em um choro mais discreto, onde o mesmo alegava que era um problema nos olhos após sair do cinema.
– Mas ele está vivo. – respondi já me afastando, e rapidamente enxugando meu rosto, com sua ajuda.
– E eu também, e olha, tem até catarro em seu nariz, eca.
! – protestei, acertando-lhe um pequeno tapa em seu braço, sem me preocupar se iria doer ou não.
Não era por que ele estava debilitado que iria sair impune de suas piadas.
– Outch, eu estava brincando, agressiva. Não tem nem compaixão com as pessoas debilitadas.
– Como é que você consegue fazer piadas em momentos como esse?
– Você sabe que sou assim, é meu jeito de sair um pouco da tensão que é a realidade. – e por mais loucas que fossem, era tão bom ouvir aquelas piadas sem graças.
– Eu tive tanto medo de te perder, jamais me perdoaria se algo pior tivesse ocorrido.
– Mas não aconteceu e nem me perdeu. Esqueceu que gatos possuem sete vidas?
– Meu Deus, ! – ele era, sinceramente, a melhor pessoa que eu tinha em minha vida, até mesmo com suas brincadeiras sem graça e seu modo irritante de ser em certos momentos, mas eu amava aquele garoto.
Tornei abraçá-lo novamente, encostando minha cabeça em seu peitoral.
– Isso tudo é preocupação? Se for, me avisa para eu me acidentar mais vezes.
– Você é ridículo! – revirei os olhos, me afastando novamente. – Como se sente?
– Quebrado, como se tivesse sido pisoteado pelo time de futebol americano tendo o Dwayne Johnson como líder. Mas tô bem, não digo o mesmo do carro e nem…
– De .
– É. – suspiramos pesadamente ao mesmo tempo.
Mesmo tendo tantas divergências, sabia que se importava com o bem-estar de . Seus olhos e feições não negavam e mesmo que estivesse ali apenas por ser uma missão, já havia percebido que ambos estavam tentando se entender. E com aquela situação, novamente voltei a pensar em e de como poderia estar. Se estava daquele jeito, ele não estaria na melhor condição, e me perguntava quem estava tratando de suas feridas, se era que estavam tratando ou apenas piorando.
– Olha, , sobre isso…
– Não é sua culpa, . – o interrompi antes que continuasse de falar qualquer baboseira. – Não teríamos como saber, ao certo, de que isso iria ocorrer. E se tem um culpado e culpada nessa história é Denise e esse tal de Lucas, se é que ele realmente é o mandante de tudo.
– Eu sei, mas por que a sensação de culpa não passa?
– Porque sempre que estamos em uma situação fora do nosso controle, achamos que a culpa é nossa por não saber controlá-lo.
– Isso é uma merda.
– Eu sei, por isso que estou seriamente pensando em dar o fora da Firefly depois dessa missão.
– Você o que? – ergueu a sobrancelha, direcionando toda sua atenção em mim. Era como se tivesse ouvido a coisa mais sem noção do mundo. Estava totalmente embasbacado e desentendido. – Isso é sério? – afirmei com a cabeça, tendo receio do que ele pensaria, mas não queria me aprofundar naquele assunto, não ali e muito menos naquele momento.
– Mas temos mais coisas importantes para resolver, temos uma pessoa para resgatar e um chefe para aturar.
logo limpou a garganta, levando seu olhar para as mãos que agora, apertava uma na outra, estranhamente. Sempre que ele agia de tal maneira significava que algo estava errado ou simplesmente ele havia feito alguma merda. Já estava respirando fundo, contando de um até dez para manter a minha paciência e não piorar a situação, enquanto o mesmo procurava algum modo de falar.
– Sobre isso, não sei se percebeu que tem agentes da Firefly aqui, mas eu tive que entrar em contato com seu pai. – arregalei os olhos, quase me engasgando com minha própria saliva. Minha boca tomou um formato de “O” e eu não acreditava de forma alguma no que ele tinha feito.
Ligar para meu pai deveria ser a última coisa a ser feita. A última ação após todas as possíveis tentativas, a última das últimas e em casos extremamente extremos! Por mais que a situação entrasse no quesito “extremo”, ainda tínhamos cartas na manga, não era necessário nenhum contato tão próximo com meu pai, e nem era pelo fato de ter sua ajuda, mas sim, pelo modo de como meu querido e desconfiado pai agiria.
– Você o quê?!
– E-Eu não tive escolhas, . A situação se complicou, comecei a imaginar mil coisas, foi a única solução que achei. Eu sei que havia pedido a você para chamar reforços, porém sabia que você iria demorar, e sabemos mais do que ninguém quais as consequências de um atraso. Eu tive que agir rápido antes que fosse tarde demais.
– Tarde demais? TARDE DEMAIS?! , como é que seria tarde demais se a Firefly não sabe nem da metade das coisas que se passa aqui? Ou a madame esqueceu que não estávamos enviando os relatórios de acordo as regras? – falei baixo, para que ninguém ouvisse, mas com um tom irritadiço.
– Eu não esqueci, ! – me respondeu da mesma maneira.
– Então por que raios de Thor você ligou para ele, caralho?! Se nem a gente sabe onde está, imagine meu pai!
– Eu sei, ta bem?! Não pensei nisso. – passei minhas mãos contra meus cabelos, já imaginando o inferno que seria encarar meu pai naquela situação. Já imaginava as diversas palavras que teria que ouvir, os severos sermões como se eu fosse uma criança e de quebra, uma possível punição por burlar as regras.
Ótimo, mais outro problema havia surgido em minha vida e eu já estava até com medo de perguntar o que de pior poderia ocorrer, porque do jeito que as coisas estavam caminhando, o pior realmente poderia acontecer. – Mas qual o problema de chamar reforços?
– Não é chamar reforços, , e sim é chamar meu pai! Não estávamos mandando todos os relatórios para ele porque caso ele soubesse a verdadeira situação que está passando, com certeza ele acharia demais para nós e botaria pessoas mais “capacitadas” – fiz um movimento de aspas em minha última palavra. – para nos substituir e assim nunca teríamos uma missão completa! O nosso caso aqui nunca foi investigar toda esse caso e sim, proteger , mas aos poucos a situação começou a nos envolver e sinceramente, me arrisquei quando mandei algumas informações para ele, porque meu pai nunca me contou de verdade quem estava investigando esse caso.
– Talvez ele...?
– Duvido, até porque, se fosse realmente ele, o próprio viria aqui para analisar a situação e estaria mais presente. Eu não entendo do por que ele nos mandar para cá, de verdade.
– Você acha que seu pai esconde algo?
– Com certeza! Mas ainda não entendi a jogada dele, não sei ao certo se ele quer que eu me torne uma agente como ele ou está me usando para algo. Sinto que ele acha que sou uma criança, que não tenho tanta capacidade de liderar algo.
– Mas se ele pensar dessa maneira, então por que diacho seu pai te colocou na Firefly, e principalmente, nesta missão?!
– Não sei, , de verdade. Foi como te disse, ele nunca me contou, nunca citou nada. Vai ver que ele achou que a missão era fácil demais e poderia ser tranquila enviar a própria filha para ser segurança de um rebelde sem causa. Só que agora, sabendo de toda essa situação, a essa hora ele deve estar sobrevoando de Savannah para cá, e se ele souber realmente de tudo, estamos praticamente expulsos da Firefly!
– Mas não é algo que a madame agora deseja? Sair da Firefly? – lancei-lhe um olhar sério, desaprovando seu deboche momentâneo.
Ao mesmo tempo que eu estava feliz por ele estar vivo, eu queria arrastar aquela cara no asfalto para ver, se de uma vez por todas, ele parava de fazer brincadeiras fora de hora. Respirei fundo, e expirei tentando manter o máximo de controle e foco possível no que tínhamos que fazer a partir dali.
– Ok. – ele revirou os olhos. – Qual o próximo passo?
– Temos que focar na nossa principal missão que é e tentar resgatá-lo antes que meu pai consiga. – olhei a sua volta, vendo o fio de soro que ligava até sua veia e alguns eletrodos espalhados em seu tórax, monitorando seu batimento cardíaco. – Mas primeiro precisamos te livrar disso.
De imediato o vi puxar com toda força os fios, vendo a agulha sair de sua veia e com ela, um pouco de sangue também. Fiquei perplexa com o modo que havia seguido realmente o que eu disse ao pé da letra, não precisava de toda aquela agressividade, mas com isso, minha perplexidade aumentou, assim como minha euforia, quando duas mulheres da ambulância se aproximaram, vendo toda aquela cena. O único pensamento que me deu na telha foi de puxar meu amigo e sair correndo pelo beco escuro perto dali, na tentativa de chegar ao carro de Helena, porém, subitamente um policial de aproximadamente dois metros apareceu em nossa frente com sua pior cara enfezada, fazendo-me engolir meu próprio grito de pavor devido ao modo de como ele aparecera. Se ele achava que aquela carinha iria me assustar, estava totalmente enganado. Talvez para alguma criança funcionasse, mas para mim, só criou mais raiva por estar empatando o meu caminho.
estava muito debilitado ainda, então eu teria que dar um jeito.
– Onde as crianças pensam que vão? – disse com uma voz carregada de ironia e vitória, o que fez carregar mais minha ira.
Seus olhos claros eram reluzentes na iluminação na rua, e não era por que o bonitinho parecia um Brad Pitt da vida que não poderia levar uma pequena surra. Tentaria não estragar tanto aquela beleza dos anos 90.
Apenas tentaria.
Em um ato rápido, aceitei-lhe um chute em sua parte mais sensível, o vendo se contrair de dor e ficar um pouco em meu tamanho, com isso, elevei meu joelho direito, acertando certeiramente em seu abdômen, o vendo cair de joelhos no chão.
Ele tinha ótimos dias na academia.
Aproveitando sua posição de fraqueza, corri para trás do mesmo, já envolvendo seu pescoço com meu braço direito, e com uma simples jogada, dei-lhe a famosa gravata que em poucos segundos seu corpo ficou mole e caiu no asfalto, desacordado.
Toquei com dois dedos ao lado de sua garganta só para checar se estava vivo.
– Tá respirando, já, já alguém vai sentir falta dele.
– Ótimo, pelo menos sei que não irei te visitar na cadeia.
Revirei os olhos devido ao comentário do senhor humorista, e voltamos a correr em direção ao carro. A rua, por ser a de trás de onde havia ocorrido o acidente, estava deserta, já que o pessoal havia se deslocado para a principal. O vento frio se intensificava e olhando o céu, algumas nuvens carregadas já se formavam indicando uma grande probabilidade de chuva. O veículo não estava tecnicamente longe, mas foi necessária uma pequena andada e boa atenção para ver se não havia realmente alguém nos seguindo. Meu olhar varria todo aquele território e sempre olhava para trás quando alguma folha se balançava. Viramos a rua chegar ao local que havia estacionado e ativei meu modo tranquilo para não causar nenhuma suspeita e sempre de cabeça baixa.
Ao entrar no carro não perdi tempo, o liguei, dando uma rápida ré e seguindo em direção contrária.
– Depois dessa missão, me lembre urgentemente de voltar com minhas caminhadas. Infelizmente séries não ajuda em nosso condicionamento físico. – disse com sua respiração pesada, enquanto esticava suas pernas no pequeno espaço do carro.
– Aproveita então o caminho para descansar, porque será uma longa jornada.

[...]

Havíamos pegado poucos minutos de estrada até pararmos em um posto de gasolina ainda na pequena cidade de Catonsville. Por prevenção, já que o carro estava perto de acabar a gasolina, demos uma rápida abastecida, seguindo caminho até a capital. Não estava muito me importando com a velocidade, nosso tempo estava correndo e a noite já estava chegando em sua metade. Minha preocupação havia aumentado depois de notar a postura totalmente dispersa em que se encontrava.
– Como está se sentindo?
– Ainda com a sensação de ter sido pisoteado. – respondeu no automático. Por mais teimoso que fosse, ainda pensava em leva-lo a um hospital, mas nossa situação estava tão complicada que não conseguia montar uma lógica em minha mente do que fazer. Não sabia muito bem se seu corpo aguentaria por mais aventuras e tinha medo de piorar toda sua situação. Quando fiz menção para falar, abrindo minha boca, o mesmo retomou sua fala. – E não, eu não preciso ir ao hospital. – respondeu de imediato em um tom irritadiço e forte, fazendo-me encolher um pouco no banco.
estava agindo de um jeito estranho. Seus lábios estavam totalmente selados, seus olhos pesados não mantinham contato visual comigo desde a hora que havia acordado de seu rápido cochilo e suas mãos não paravam de batucar a parte da lateral interna do carro, ao seu lado. Aquilo já estava me dando agonia e me causando uma dúvida cruel por não ter conseguido decifrar seus pensamentos.
– Vai me falar o que está acontecendo ou terei que aprender a ler mentes para saber da verdade? – o encarei de soslaio, mas o mesmo virou a cara, olhando para o horizonte ao lado.
Toquei levemente em sua mão, tentando fazer com que ele me encarasse, mas foi em vão. Deixei minha mão descansar um pouco na sua, tentando passar alguma segurança ou qualquer tipo de sentimento que fosse para que ele entendesse que podia contar comigo. Odiava quando as pessoas faziam tanto suspense por algo, além de me deixar nervosa, acabava ficando frustrada por não poder ajudar.
Expressar sentimento era uma das habilidades que poucas pessoas conheciam, era algo difícil de encontrar as palavras certas e coloca-las em ordem, entretanto, dizer um “deixa para lá” só pioraria toda situação e eu estava rezando para que o mesmo não dissesse aquilo, mas minhas esperanças já estavam diminuindo quando não vi nenhuma atitude dele e mil pensamentos começaram a rondar em minha mente. Quando já estava prestes a deixar para lá, ouvi um suspiro pesado ao meu lado.
– Tudo foi tão rápido... – comentou com uma voz extremamente baixa, me encarando logo após. – Eu deveria ter prestado mais atenção quando saímos de casa.
– Ei, ninguém é capaz de perceber de imediato que está sendo perseguido.
– Mas eu deveria saber, . Eu fui treinado para isso!
– Porém a prática é muito diferente da realidade, . E por mais que sejamos treinados, haverá situações que sempre irá nos surpreender e nos causar... medo, pânico... nos deixará extremamente perdidos.
– Eu sei... mas, argh, sei lá. Eu estava dirigindo tranquilo, havia decidido estar no controle do carro para ir me guiando e também por medo dele usar toda raiva e nos dar umas belas multas. Não trocamos muitas palavras, apenas iniciamos uma pequena briga por causa do volume da música, que por sinal, que péssimo gosto ele tem! – era uma das poucas pessoas que não sabia contar fatos diretamente, ele sempre procurava um meio de dar voltas e voltas e aquilo tirava todo meu raciocínio. – Após isso tudo foi muito rápido. Um carro cinza saiu de uma das ruas e colocou muito no fundo do nosso carro, eu tentei acelerar, mas é impossível se vencer de uma Mercedes! Quando ele nos alcançou não deu para ver direito a parte interna do carro, eu só ouvi dois disparos e o volante começou a trepidar. Eu tentei segurar o carro, mas logo em seguida a Mercedes foi com tudo na parte traseira do carro, o que causou o capotamento. Não sei por quanto tempo fiquei desacordado, mas quando vi, não estava mais do meu lado e tudo estava de cabeça para baixo.
– E você acha que tudo isso foi sua culpa? – ele assentiu. – , céus, pare de pensar assim! Você fez tudo o possível e infelizmente isso ocorreu, mas não significa que você é ruim ou somos ruins. Missões são imprevisíveis, correto?
– Mas temos que evitar as imprevisões.
– Eu sei, mas olha, eu estava com esses pensamentos na casa de Helena, é assustador, mas depois cai em si que de não podemos mudar nada do passado e o nosso foco é o futuro, então já estamos nessa situação e temos que resolver ela. Mas não se culpe, por favor!
– Tentarei... – respondeu em um tom desanimador.
– Não conseguiu pegar nenhuma informação de quem dirigia ou da placa?
– Não, e o mais curioso é isso: não tinha placa e os vidros eram pretos, nem a silhueta consegui enxergar. A pessoa sabia que estaríamos ali naquele momento, ou melhor, que estaria.
– Nossa única suspeita é Denise, foi ela quem mandou a mensagem pedido para ir ao seu encontro. Aquela garota sabe de algo. – mordi o lábio inferior. Denise sabia de algo, eu senti que aquela garota não era gente boa, algo em mim já estava dizendo que ela iria aprontar. – Mas vem cá, o que você disse a meu pai?
– Nada demais. Não entrei em detalhes, só avisei que e eu estávamos indo a um lugar, que capotamos o carro e sumiu. Ele perguntou por você, e eu respondi que havia ficado em casa, pois estava resolvendo outras coisas.
– Ele perguntou para onde vocês estavam indo?
– Sim e quase me senti um bandido de tanto que ele interrogou, mas apenas resumi dizendo que havíamos achado, supostamente, alguma coisa. Quando vi que ele iria continuar perguntando, fingi que deu interferência e desliguei. Por mais que eu tenha pedido reforços, não queria contar tudo sem você. Mas é estranho saber que ele não te ligou. – logo um click fez com que eu lembrasse da existência do meu celular e no quanto eu estava ferrada caso meu pai realmente tivesse me ligado.
Às pressas, tateei pelos meus bolsos, tentando manter o carro também na pista, o encontrando no bolso interno da minha jaqueta de couro. Mantendo uma atenção na direção e no celular, fui apertando vários botões até conseguir clarear a tela. Uma tensão logo subiu pelo meu corpo deixando minha boca amarga, minhas pernas rígidas e meu coração acelerado. Engoli seco, fechando os olhos rapidamente e mordendo a parte interna da minha boca.
Eu estava morta, e quem iria causa-la seria meu pai.
– Deixei no silencioso, merda!
– Ele te ligou?
– Não só ligou como mandou mais de vinte mensagens. Sério, ele deve estar enfartando ou de preocupação ou de raiva. Eu tô muito ferrada, ! O que eu tinha na cabeça de deixar vocês saírem assim? – bati fortemente no volante, tendo um ataque do coração ao ouvir a forte buzina.
– Assim você ofende meu lado agente da vida! Sou treinado, ok? – falou em um tom ofendido. – Mas eu tenho uma parcela de culpa nisso, eu deveria ter te esperado ao invés de pedir logo reforços.
– Não é bem assim, você apenas fez o que nos ensinam na Firefly.
– Não devemos seguir sempre as regras, mas foi como você disse, nosso foco é no presente e com isso, podemos mostrar ao seu pai o quanto eficiente nós somos, só temos que correr contra o tempo, e muito. Pelo que conhecemos de seu pai, mesmo com poucas informações ele pode estar bem à frente de nós mesmo com poucas informações.
– E do que precisamos então?
– De uma fonte tecnológica. – seu sorriso confiante e seu olhar ambicioso se direcionaram para meu aparelho telefônico que se encontrava em minha mão direita. A trouxe rapidamente para mais perto de mim, apertando contra meu corpo.
– Ah, não. Você não vai usar suas engenhocas para modificar meu celular. Ainda estou pagando, sabia? – revirou os olhos, e logo em seguida soltou o ar pela boca em forma de deboche.
– Não vou o transformar em um dispositivo, mortal. Apenas irei desabilitar o rastreador para seu pai não nos encontrar de jeito nenhum, e acessar os arquivos do meu computador. – eu ainda segurava fortemente meu celular contra mim, e meu coração chegava a doer só de imaginar as coisas que poderia fazer com ele.
Ele ainda me encarava, esperando o momento em que eu liberasse o aparelho. Com um suspiro pesado, o entreguei lentamente, e nisso, o mesmo o puxou rapidamente de minhas mãos.
Eu teria que vender meu rim para comprar outro. O mundo era cruel.

Depois de vasculhar de ponta a cabeça o carro de Helena, conseguiu achar uma caneta, e com ela e mais a ajuda de alguns guardanapos que também encontramos lá, começamos a montar um esquema de ação. Graças a sua inteligência, que muitas das vezes suspeitava ser artificial, conseguimos recolher alguns arquivos presentes em seu computador, facilitando mais nossa linha de raciocínio.
– Certo, temos três pessoas que contém informações importantes sobre o caso: Denise, e Lucas. Dentre eles, os mais acessíveis são Denise e . – ele riscou o nome de Lucas do papel. – Até porque, há chances dele estar com , se realmente for o caso dele ser o líder. Eles sempre gostam de ver a cabeça viva antes da morte. – lancei-lhe rapidamente um olhar repreensivo que fez o mesmo rebater com um olhar óbvio. Não estava crendo que aquelas eram suas palavras de conforto. – É o que geralmente acontecem em filmes, gênio! Até porque, se ele quisesse morto, já teria agido há séculos. O que tornam vilões um saco, porque sempre seguem o clichê. Antes matar logo e tomar chá de sumiço, deixar o mocinho da trama vivo por um tempo é sinal de derrota.
! – se ele desse mais uma palavra a respeito daquele assunto, eu que me transformaria na vilã que ele tanto descrevia.
– Certo, sem gracinhas, esqueci que ele é seu namorado, voltando ao foco...
– Ele não é meu...
– Dentre e Denise não creio que ambos sejam boas ajudas, até porque, teve atitudes bem suspeitas e Denise está sendo uma suspeita, e mesmo que não fosse, creio que ela não gostaria muito de trabalhar com você.
– O que nos leva à estaca zero.
– Não exatamente… Mesmo sabendo que tem esse jeito mais individual, ele foi um bom informante para você no restaurante.
– Foi, mas ai te pergunto, meu caro… Podemos confiar?
– Não sei, minha cara, mas entre incertezas e estaca zero, prefiro incertezas. Ir atrás de é uma boa opção, se ele estava investigando por si só, saberá de mais coisas.
– Então nossa próxima parada é a Casa Branca?
– Correto, até porque também, temos que pedir ao presidente que não espalhe nenhuma informação a respeito. Quanto menos pessoas souberem, melhor. Deu trabalho de apagar todas as informações já lançadas.
– Você o quê?!
– Hackeei o sistema de informações e deletei? – respondeu em um tom óbvio, demonstrando como se fosse a coisa mais fácil do mundo. – É por isso que temos uma aula chamada “computação da informação”, , e não uma aula para dormir.
– Você sabe que tecnologia e eu não temos uma boa relação. E nem irei perguntar como fez tudo isso, para não soar mais burra.
– Muito bem, agora arrasta esse caro, porque tempo é vida.



Capítulo 26

“Confusion that never stops, closing walls and ticking clocks”
– Clocks, Coldplay.

Com o carro totalmente abastecido seguimos caminho pela rodovia com destino a Washington DC, se tudo ocorresse bem, em poucas horas estaríamos em frente à Casa Branca. Meu corpo já dava sinais visíveis de cansaço, a cada hora era um singelo bocejo, nem mesmo um café bem expresso faria o efeito desejado. Inveja estava tendo de que se encontrava em seu décimo sono no banco do passageiro, com suas pernas em cima do painel do carro e sua coluna totalmente torta no banco. Eu precisava me distrair para não apagar ali mesmo e causar um acidente pior, principalmente pela rodovia ser reta e ter poucos carros na pista, o que ajudava mais ainda na calmaria local e intensificava meu sono. Liguei o rádio trocando as estações com uma das mãos até parar em uma estação onde Clocks do Coldplay tocava já em seu final.
“Home, home, where I wanted to go”
(Lar, lar, era onde eu queria ir)
Tais palavras me remeteram a minha casa, onde há meses atrás reclamava por ter que trabalhar na pizzaria com minha mãe, desejando algo novo para mim, que não fosse a Firefly, mas foi exatamente ela que havia mudado em minha vida. Agora entendia por que era tão importante ter psicólogos disponíveis lá e por que meu pai sempre ordenava seus agentes estarem em contato com eles. Cada missão, cada momento, por mais frios que fossemos, nos afetava de alguma maneira e era impossível dizer que não. Fosse sentimento, feridas, lembranças, traumas... cada acontecimento em nossas vidas possuíam um grande peso, mesmo sendo as menores possíveis. Ainda lembrava do dia em que assisti Agent of Shield com e passei a observar as ações de cada personagem. Por mais fortes que parecessem, cada um possuía uma fraqueza, um ponto específico que os levava ao fundo do poço.
Ainda não havia descoberto muito bem o meu ponto fraco, mas com certeza estava relacionado a apego e a sentimentos; era algo que eu ainda necessitava controlar, evitar, e sabia que não seria fácil. Com treinos conseguimos ter habilidades em diversas armas, golpes, movimentos... Mas sentimentos eram involuntários.
Estava com saudades de casa, dos meus pais, da minha vida pacata, das irritantes piadas sem graça e insistências de , das ligações de última hora do meu irmão que falava nada com nada no telefone só para me irritar, sabendo que eu odiava ligações, e surpreendentemente estava com saudades de .
Era difícil e complicado de perceber que ele havia causado um sentimento em mim, logo em mim, a pessoa que sempre evitou relacionamentos por medo de sofrer e por saber que minha vida não permitiria nada daquilo.
Mas eu me deixei, ou melhor, meus sentimentos me dominaram, e ainda me causava angustia quando imaginava o que poderia acontecer com ele naquele momento, ou pior, o que poderia ocorrer depois que tudo terminasse. Afinal, é doloroso perder alguém para a morte, você sabe que infelizmente nunca mais iria ver a pessoa e somente as lembranças se permaneceriam, entretanto, outra coisa é saber que tal pessoa está viva, mas não com você, não ao seu lado e sim, com outro alguém, compartilhando a felicidade e momentos com uma nova pessoa.
Egoísta? Um pouco, mas temos esse lado, infelizmente, e não desejava a morte dele, jamais! Preferiria vê-lo vivo e com um outro alguém do que vê-lo morto, mas eu me odiava naquele momento, odiava por não ter conseguido lutar contra meus sentimentos e inibir qualquer tipo de aproximação.
Minha vida jamais se encaixaria na dele.
Ser uma agente deveria ser considerado o pior trabalho que um ser humano com coração poderia ter.
As luzes intensas da cidade apareciam gradativamente conforme íamos nos aproximando de seu centro, em poucos minutos o enorme portão da Casa Branca já dava as caras e com sua segurança em máximo alerta, provavelmente com receio do que poderia ocorrer. Só esperava que eles permitissem ainda nossa entrada, não sabia ao certo quais informações o presidente possuía e quais atitudes havia tomado, afinal, era seu filho e mesmo com problemas, era notável sua preocupação com ele.
Ao me aproximar com o carro, e baixar os vidros, senti meus olhos queimarem devido a maldita lanterninha que os policiais sempre insistiam em usar. Mostrei meu distintivo tendo a liberação logo em seguida. Da próxima vez usaria um óculos escuro para preservar meus olhos, não estava a fim de perder a visão logo na flor da idade.
Desci do carro já sentindo o forte vento gélido bater contra meu corpo, vendo fazer o mesmo, com seu olhar pesado devido a sonolência.
– Desde quando esse lugar se tornou tão frio? – questionou meio grogue, abraçando seu próprio corpo na tentativa falha de se aquecer.
– Desde que saímos do verão e estamos nos aproximando do inverno.
– Cruzes, tenha piedade de mim, Senhor. – murmurou baixo, seguindo ao meu lado. – Da próxima vez manda uma missão na Califórnia, meu corpo agradece.
– Como se lá não fizesse frio no inverno...
– Mas não é o polo norte como é aqui!
Adentramos ao local e logo percebi que nada havia mudado em termo de decoração, somente a movimentação, que agora, era intensa. Em cada canto do corredor havia pelo menos um guarda a postos e atento. Alguns outros circulavam pelos locais checando qualquer atividade incomum.
Não esperei ninguém vir a mim para nos dirigir à sala de Elliot, tomei rumo por mim mesma em passos firmes e largos passando sem me importar com os guardas, entretanto, ao chegar na enorme porta amadeirada, cuja havia me surpreendido no meu primeiro dia devido ao seu tamanho, dois seguranças faziam a proteção local.
e . Queremos falar com o presidente. – falei em voz firme mostrando novamente meu objeto dourado da Firefly. Um dos me olhou de cima abaixo analisando minha postura séria e determinada, puxando os distintivos de nossas mãos e entrando na sala segundos depois. Não demorou muito até Elliot liberara nossa entrada. Meu coração começou a disparar pela boca e senti toda confiança ir embora ao imaginar a possível indignação que Elliot estaria de mim por ter falhado miseravelmente na proteção de seu filho. Era uma sensação estranha voltar ali.
Sua sala ainda possuía os mesmos aspectos desde a minha última visita. Elliot se encontrava sozinho de frente para a enorme janela aos fundos que dava uma ampla visão da parte externa da casa. Seus fios dourados estavam bem aliados sendo tomado por quase um quilo de gel; seus braços estavam cruzados para trás, ajudando na postura ereta e rígida. e eu nos posicionamos no meio de sua sala, com os braços colados na lateral de nossos corpos demonstrando respeito a sua autoridade e prestação de serviço. Já começava a sentir minha garganta secar, e minha saliva se dificultar de descer devido ao nervosismo que eu me encontrava. Dei uma breve olhada para , o vendo totalmente sério e focado na figura de Elliot a nossa frente, e logo em seguida retornei meu olhar para sua mesma direção. Quando a porta atrás de nós bateu, sua face logo foi revelada, expondo suas vastas olheiras e pálpebras caídas, como se não dormisse há dias.
Era me estranho, aquele cansaço não poderia ter sido por conta de , talvez aquela situação tivesse piorado, mas Elliot aparentava estar realmente há dias sem pregar os olhos. Bem, possivelmente seus compromissos estivessem mais complicados do que o normal. Queria perguntar como o mesmo estava, mas não senti abertura para tal pergunta, meu medo falava mais alto, eu não sabia quais seriam suas emoções diante de nós.
Em movimentos lentos, caminhou em nossa direção com sua inexpressividade exposta, ajeitando as algemas de seu terno preto a linho, destacando o azul escuro de sua gravata. Parou de frente a , mantendo uma expressão preocupada.
– Está melhor, meu jovem? – questionou em uma voz baixa e serena.
– Sim, senhor. Obrigada por perguntar. – respondeu ainda com a cabeça erguida,
– Senhor presidente, antes de mais nada, gostaria de me desculpar pela nossa falha ao proteger . – comentei em um tom sério.
– O que?! – questionou de forma surpresa e curiosa.
– Eu deveria…
– Nós… – corrigiu.
– Nós deveríamos ter tido mais cautela com .
A expressão que Elliot carregava na face logo se transformou para uma serena e totalmente longe de raiva ou indignação. Era como se ele demonstrasse preocupação comigo e com , algo que eu ainda não conseguia assimilar.
, a culpa não foi sua, nem sempre nossas missões sairão como desejamos e vejo que vocês têm se esforçado para proteger e manter um bom convívio com ele, imagino as grosserias que ele deve ter feito. – seu tom soava com um pingo de indignação, mas ao mesmo tempo era como se desculpasse conosco pelas atitudes de , entretanto, ele mal sabia da minha relação que eu e havíamos construído...
– Bem, agradeço pelo entendimento, mas precisávamos vir aqui esclarecer as coisas ao senhor.
– Não precisa, seu pai me ligou e me passou todas as informações necessárias.
– M-meu pai? – questionei embasbacada e com uma voz falha. Mas que merda meu pai estava tentando fazer? – E-ele te ligou?
– Sim, disse que está a caminho para ajudar a resgatar . – foi automático meu olhar com o de , mesmo sabendo que tal atitude dele já era de se esperar.
Eu não queria demonstrar raiva, indignação, mas estava sendo impossível. Não acreditava que meu próprio pai não confiava em mim, e não demonstrava um pingo de respeito pelos anos que me dediquei a Firefly. Somente em casos extremamente perigosos e complicados que ele costumava entrar em ação e mesmo assim, antes de tudo, ele sempre partia para os reforços antes de meter diretamente seu dedo nas missões. Entendia que por ser filha dele, talvez sua preocupação tivesse chegado ao limite e principalmente após eu não ter retornado e nem respondido suas mensagens. Ok, talvez eu realmente tivesse piorado o caso, entretanto, sabia que de um jeito ou de outro, mesmo falando que tudo estava sob controle, ele não me ouviria, e isso criaria uma discussão, dores de cabeça piorando muito mais o caso.
Meu pai não tinha ciência do que estava realmente ocorrendo, e isso havia sido algo que aparentemente e eu erramos. Talvez, se tivéssemos aberto o jogo para ele, as coisas poderiam estar diferentes e sua ajuda seria muito bem-vinda; mas meu medo dele controlar toda a missão, não deixando eu realmente viver uma, falou mais alto. O fato era que naquele momento não dava para voltar atrás, eu já tinha feito o que era para ser feito e teria que arcar com as consequências e dar um jeito de organizar toda aquela bagunça.
Aquela era minha missão, seria eu que iria resgatar , eu que iria atrás dele e descobrir o culpado disso tudo, afinal de contas, o ser anônimo havia infernizado minha vida também; seria eu que iria terminar minha primeira e única missão para logo depois, pegar o primeiro avião e ir morar com meu irmão sabe-se lá em qual parte da Europa ele estava. Iria mostrar ao meu pai em quem a filha dele havia se tornado, mas para isso, eu tinha que atrasar seu lado. Se ele estava a caminho da Casa Branca, poderia chegar ali a qualquer minuto, já que os aviões da Firefly eram bem rápidos – e ele bem que poderia ter disponibilizado um para mim – e e eu tínhamos que estar à frente dele, mesmo sabendo que seria difícil.
Meu pai tinha um dom de conseguir informações rapidamente, era como mágica o modo de como obtinha notícias, mas nesse caso havia sido uma exceção, até porque apenas e eu tínhamos o que ele queria.
Sendo assim, eu tinha que atrasá-lo e atrasar as notícias postas para a população. Se parte todo o país soubesse do ocorrido seria mais difícil ainda de encontrar . Repórteres estariam em cima, criando chances do tal suspeito ficar por dentro de todo o plano e acabar piorando a situação.
Ou seja, tínhamos que evitar que o presidente falasse em rede nacional e correr antes que meu pai chegasse.
Olhei novamente para e sua cara já entregava o quão nervoso e perdido ele estava… E talvez, eu poderia usar aquela cara…
Seguindo a mesma feição que meu amigo, e rezando para que minhas aulas de atuação no ensino médio servissem para algo, tratei de demonstrar o puro horror em minha face, causando uma tensão no presidente.
– O que houve? – Elliot perguntou já assustado.
– Senhor… – disse receosa, trazendo minhas mãos a frente do meu corpo e as alisando em modo preocupado. – Temo que tenhamos uma péssima notícia. – tornei a olhar para para checar se o mesmo havia entendido minha tática, mas sua cara confusa só me fez pensar o quanto lerdo ele era. Respirei fundo, retornando a minha personagem. – A missão está em meu nome, logo, de acordo com as regras da Firefly, meu pai só pode entrar diretamente em contato com os agentes envolvidos no caso para passar quaisquer tipos de informações, que no caso somos e eu... E... Eu não recebi nenhuma ligação dele até o momento. Por isso que viemos pessoalmente aqui, tínhamos que deixar o senhor o mais ciente possível.
Elliot parecia mais perdido do que agulha no paliteiro. Me sentia mal por ter mentido tão na cara dura, mas era necessário. Esperava ainda ter meu lugar no céu.
– Porque antes de aplicar o plano de resgate de . – continuou. – É necessário que o senhor não tenha nenhum tipo de contato com mídias, jornalistas ou qualquer meio de comunicação que possa espalhar essa notícia. As poucas que tinham já consegui tirar do ar. Se o senhor entrar em contato com os meios de publicidade, mais pessoas saberão do caso e dificultará mais ainda o nosso resgate.
– Então vocês acham que um impostor ligou para mim se passando por seu pai? Mas era o número dele!
– Entendo, senhor, mas hoje em dia existem muitos programas de Hacker que conseguem se conectar com seu celular, entrar em sua agenda e descobrir seus contatos. – continuou. – Imagino que o pessoal tenha recebido as informações iniciais e tentado um contato maior para obter mais notícias.
– Céus, como isso pode ser possível? – questionou embasbacado, passando as mãos freneticamente pelos cabelos.
– É a globalização, senhor. Mas não se preocupe, estamos com um plano e de acordo com nossos cálculos, pode dar certo. Mas precisamos que nos ajude desta maneira: mantendo-se longe das redes de comunicação e afastando qualquer pessoa que tente entrar aqui…
– Mesmo dizendo que seja da Firefly. – completei.
– Claro, sim, sem problemas! Inacreditável o que fazem hoje em dia, até mesmo em situações complicadas. Vocês precisam de algo?
– Se não for pedir muito, senhor, gostaria de um Notebook. Ajudará muito nas nossas investigações. – finalizou.
Elliot não perdeu tempo, pediu rapidamente para que um dos seus funcionários trouxesse um notebook e em poucos minutos estávamos com o aparelho em mãos, e peso na consciência pela mentira. Nos despedimos logo em seguida, enfatizando a proibição de qualquer pessoa ali e saímos da sala para um local um pouco mais afastado dali.
– Por que não me disse que tinha um plano? – perguntei um pouco animada a .
Era bom saber que pelo menos ele tinha uma ideia em mente, talvez aquela fosse a nossa chance. Ele era bom em criar estratégias, e como havia pedido o notebook, talvez fizesse parte do que ele tinha em mente.
– Porque eu não tenho. – e logo meu sorriso se desmanchou.
– O que? E por que disse a ele que tínhamos um plano?
– Pra ele acreditar mais na gente? – disse em tom óbvio. Revirei os olhos pela tamanha esperança que ele tinha me dado. – E nem vem, você que começou primeiro com essa história de ligações falsas.
– Claro, temos que atrasar meu pai, ou esqueceu disso, senhor “demoro séculos para entender um sinal”?
– Você não comece com seus sarcasmos, senhora “não sei criar um plano, mas quero que você leia minha mente”. – ARGH, se havia alguém que me tirava mais rápido do sério também, era e sua péssima imitação da minha pessoa.
– Tá, vamos focar no que é importante e sair logo daqui antes que eles cheguem e descubram.
– Descobrir o que? – uma terceira voz questionou, fazendo-me virar rapidamente, com o coração quase saindo pela boca. De primeira olhada, meu coração começou a acelerar e uma pequena alegria e tranquilidade se instalou em mim ao ver a figura a minha frente. Já estava prestes a me jogar em seus braços, mas logo lembrei que não usava blazer no dia a dia e muito menos usava um topete tão bem aliado. E o mais importante, ele não fala como se tivesse saído do tempo da realeza. – Posso ajudar?
… – falei para mim mesma, mas o mesmo acabou ouvindo e com isso, chamando sua atenção.
Pela rápida troca de olhar que e eu demos, já conseguia imaginar o que o mesmo estava pensando, e era a mesma coisa que eu: ter ou não ter a ajuda de . Por um lado, ele era um dos responsáveis pela nossa ida a Casa Branca; ele poderia ter informações cruciais que ajudariam muito mais nas investigações e por fim, ser um meio mais fácil de encontrar . Por outro lado, poderia ser mais um problema. Colocá-lo em meio ao fogo poderia piorar mais a situação, sem falar que o mesmo não era preparado. Aquilo, sem dúvidas, era uma decisão que corria contra o tempo e tínhamos que tomar o mais depressa possível.
– Desculpe chegar assim, mas não pude me conter de oferecer ajuda quando vi vocês. Estou preocupado com tudo o que está acontecendo, quero o bem de mais do que vocês imaginam, então se eu puder ajudar de alguma maneira… – cocei a garganta, engolindo seco, já temendo pela escolha que faríamos.
– Agradecemos sua ajuda, , mas tudo o que precisamos agora são de informações. – falei em um modo indireto, rezando para que o mesmo captasse a mensagem.
– Se eu tivesse mais do que já disse em nosso encontro, com certeza falaria. – o olhar pesado de veio logo em minha direção após ter citado a palavra “encontro”, coisa que não havia exatamente ocorrido, fazendo-me morder meu lábio inferior. – Mas posso ajudar nas investigações.
– Não acho uma boa ideia, cara. – tomou a frente. – Colocar você na área de tiro seria mais um risco, acho que o melhor que você pode fazer é ficar com seu pai e ajudá-lo.
– Evitar com que ele entre em contato com imprensa ou qualquer pessoa de fora. Nesse momento, a coisa mais importante a se fazer é se isolar, e esperar tudo se resolver. Se alguém chegar aqui, não permita a entrada, pode ser quem for. – e novamente eu estava me sujeitando a um perigo que enfrentaria caso meu pai descobrisse o que eu estava fazendo.
pareceu hesitar um pouco pela sua feição séria e seu jeito incômodo ao coçar a cabeça, tudo dava a entender que aquela decisão não era a que ele queria. O mesmo ficou por alguns segundos me encarando na expectativa de que eu mudasse minha opinião, mas não me deixei cair em seus caprichos. Era necessário, tanto para ele quanto para o rumo daquela missão. Suspirando pesado, o mesmo se deixou vencer, relaxando os ombros e erguendo as mãos em forma de redenção.
– Ok, ficarei por aqui e caso eu saiba de algo, mando mensagem.
Sorri em forma de agradecimento, dando meia volta com ao meu lado, na intenção de irmos para o carro.
. – ouvi a voz firme de me chamar, fazendo-me virar para o mesmo. Elevando as sobrancelhas de forma preocupada, mantendo suas mãos nos bolsos de seu jeans, continuou: – Toma cuidado, e boa sorte.
Assenti com a cabeça, dando-lhe como resposta apenas um sorriso singelo, voltando ao meu destino.
– Que ignorante, só deseja boa sorte a você e eu tenho que me ferrar? – questionou com voz baixa, indignado.
– Se cuida também, . – ao longe ouvimos gritar e tive que me prender para não soltar uma risada tão alta.
apenas levantou o braço mostrando um “legal” com suas mãos.
– Agora terá boa sorte? – questionei, o vendo revirar os olhos e elevar seu dedo do meio para mim, antes de seguir em minha frente e eu me matar na risada.

[...]

– Certo, agora que nos livramos de alguns empecilhos, qual será nosso próximo passo?
– Ter aliados.
, volta para a realidade, não estamos em nenhuma série de guerra.
– Estou falando sério, . Seria bom termos alguém para nos ajudar.
– E quem seria essas pessoas? – mesmo com a escuridão do carro, tendo as poucas luzes do beco, consegui enxergar o azul dos olhos de me jogando um olhar determinado e seus lábios se puxarem ternamente para a direita, formando um sorriso lateral.
Não, não, não, não... Ele estava louco, maluco da cabeça, o acidente deveria ter causado algum tipo de efeito colateral que o fez esquecer parte de tudo o que havíamos vivido com aquelas pessoas. Claro que não consegui me segurar em mostrar um repúdio, revirando meus olhos, e negando levemente com a cabeça. Me encostei melhor no banco do carro, esticando meu braço até o volante enquanto o letreiro de uma lanchonete brilhava fortemente com suas cores neon chamativas. Estávamos há poucos quilômetros da Casa Branca, e não queríamos nos expor tanto, já que o carro de Helena era prata, o que não ajudava muito em camuflagem. Sendo assim, preferimos estacionar em um beco, deixando o carro bem rente a parede, tentando a mínima visibilidade possível.
, na vida nem tudo sai como a gente quer, e também, já ouviu o ditado “Tenha seus amigos próximos, e os inimigos mais próximos ainda? ”.
– Você se aliaria com a Melissa? – os olhos de tomaram uma forma surpresa, o deixando sem palavras. – Tuchê.
– Ok, isso não nos vem ao caso, até porque não temos contato com ela.
– Eu tenho.
– Cala a boca e manda logo mensagem para eles! – revirei os olhos, relutando para pegar o celular em meu bolso, digitando a mensagem logo em seguida junto com a localização.
Após isso um silêncio se instalou.
Não estava acreditando muito que ambos apareceriam, afinal, depois de tudo o que passamos e tudo o que eu havia dito, era improvável de que ambos ainda tivessem interesse em nos ajudar, porém, para minha surpresa, minutos depois, duas imagens apareceram no final no beco caminhando tranquilamente em direção a nós. Destravamos o carro para que os dois entrassem, já sentindo a aflição que seria toda aquela missão.
– E no final, são vocês que precisam de nossa ajuda. – fez o favor de soltar suas farpas, já começando a retirar a pouca paciência que eu tinha.
Se não fosse por , aquela garota já teria voado longe daquele carro e eu faria questão de ser a responsável por aquilo.
– Para sua informação, eu fui contra essa ideia de vocês dois aqui, porém, eu tenho juízo ao saber que toda ajuda é bem-vinda, então se você não tem maturidade para isso, pode se retirar, porque falta não irá fazer.
– Se você tem tanta maturidade assim, por que me respondeu? – ela rebateu, encarando-me pelo retrovisor do carro.
– Olha aqui, garota…
– Chega vocês duas, tão piores do que maternal! – gritou Conrad. – Vamos focar no importante e deixar essas brigas de lado? Depois vocês se matam, mas agora vamos ao foco.
– Não acredito que irei dizer isso, mas pela primeira vez na vida concordo com você. – comentou.
Dei uma última encarada em , vendo sua face totalmente fechada e irritadiça, antes de me virar e concentrar minha atenção ao meu amigo que estava ao meu lado.
– Então, o que vocês já têm em mente? – perguntou Conrad.
– Não muita coisa. – respondi com um certo desânimo. – Tentamos rastrear o celular de , mas parece que quebrou ou está desligado.
– E não tem como rastrear mesmo com ele desligado?
– Infelizmente, não. – continuei. – O rastreamento se dá com ele ligado, não sabemos o estado do celular também, é necessária uma carga para emitir sinal no satélite e com isso, rastrearmos.
– Então estamos na estaca zero?
– Sim, para nossa infelicidade. – respondeu, apoiando seu cotovelo na porta e assim, apoiando sua cabeça em suas mãos.
– Em todo caso, trouxemos isso. – deu a voz entregando um rádio comunicador a . – Consegui pegar de meu pai antes de sair de casa sem que ele percebesse. Ele faz parte do departamento de investigação da cidade, então toda comunicação entre policiais é possível ser ouvida, então se a polícia tiver alguma notícia, estaremos um passo à frente.
E pela primeira vez na vida, eu havia gostado de uma atitude daquela garota. Só esperava não ter que pagar a língua caso ela fizesse mais boas ações. Mas era engraçado o modo de como nos tratávamos, afinal, ainda não entendia ao certo seu repúdio por mim. Algo em mim dizia ser um certo tipo de ciúmes com , já que naquela faculdade meus olhos só focavam nele, assim como ela. Só que seus olhares demonstravam outras intenções, como um certo tipo de preocupação e cuidado, um amor talvez. Mas não batia, até porque, qual motivo ela teria de ter uma preocupação com ? Ela sabia do que estava acontecendo ou iria acontecer?
Sabíamos que eles trabalhavam para alguém, e esse alguém possuía informações, então logo eles tinham informações. Mas como perguntar sem ser tão... direta?
Se não tivesse me feito a não gostar tanto dela, poderíamos ter sido mais próximas, sendo fácil arrancar qualquer tipo de notícia que tivesse. No fundo ela parecia ser uma garota legal, fisicamente. Seu rosto não era totalmente angelical, mas o traçado do seu olhar meio puxado deixava explícito uma característica serena e intelectual, seguindo a ideologia de que asiáticos possuíam uma mente brilhante.
Ainda gostaria de saber o motivo de sua raiva em relação a mim.
Enquanto estava em meus pensamentos, seu olhar veio de encontro ao meu, e logo a mesma franziu o cenho como se questionasse o que eu tanto encarava. Voltei minha cabeça em minha direção inicial, ouvindo um muxoxo de e logo depois, a voz grossa de Conrad.
– Nada sobre o caso, parece que a polícia ainda não foi informada. – Conrad falou, largando o walk-talk de lado.
E mais uma vez o silêncio dominou.
Não podíamos perder tempo, e talvez, eles soubessem de algo que e eu não sabíamos, então eu tinha que ver algum modo de retirar aquela informação. Eu teria que ser direta, o tempo estava ocorrendo.
– Vocês dois, nunca falaram para quem trabalham. – comentei os vendo ficarem tensos, evitando qualquer tipo de contato visual conosco.
– Não é algo importante nesse momento, . – rebateu. – Estamos aqui por .
– E é por ele mesmo que vocês deveriam revelar logo de uma vez. Não me é estranho, , durante a faculdade, você ter uma proteção extrema em . Até porque é bem normal acertar flechas nas pessoas, não é mesmo?
A mesma então ficou paralisada, encarando-me com um olhar mortífero enquanto rangia os dentes. Abriu a boca algumas vezes, mas nada ali saiu.
e eu fomos mandados ali para ficar de olho em , mas não foi pela pessoa que sequestrou ele. Apenas era uma preocupação devido ao modo que agia, ele começou a ter muitos haters e xingamentos.
– Então vocês são algum tipo de agentes? – questionou.
– Quase. Queremos entrar para o departamento de investigação policial do pai de , mas para isso, precisamos entrar na academia de polícia.
– Mas enquanto isso não ocorre, continuamos trabalhando para essa pessoa. – complementou já com sua voz mais suave. – Mas isso não é importante agora, como já disse.
– Por que não? Por que não nos contar sobre essa pessoa? – insisti.
– Porque essa pessoa não sabe do que está ocorrendo! – por fim, disse elevando totalmente a voz em um tom irritadiço como se quisesse pôr fim naquela conversa. – A pessoa nem sabe que estamos aqui, então não há motivos para contar. Tudo o que passamos para a pessoa é que está bem, ok?! – como uma criança birrenta, a mesma se encostou no banco do carro, cruzando os braços e com uma cara totalmente mal-humorada.
– Ok... – deu a voz, um pouco assustado. – Ficar discutindo ou parados não vai adiantar em nada, o que temos que fazer é colocar os suspeitos na mesa e ir atrás deles.
– A única que sabemos é Denise e Lucas, mas só temos o endereço de Denise. – comentei.
– Denise? Lucas? – Conrad questionou, surpreso. – O que tem eles?
– É uma longa história, mas descobrimos que possivelmente eles podem estar por trás disso tudo. – comentei. – O acidente com e foi causado após ela mandar uma mensagem de texto dizendo que precisava contar algo a . Mas por que essa surpresa? Você os conhece? – vi Conrad afirmar meio incerto com a cabeça, após respirar fundo. – Mas... Calma, você conhece pela faculdade e Denise era da época de colegial dele. me disse que após a separação, não teve muito contato com Denise, então como a conhece?
– Porque eu conheço Lucas, já peguei algumas matérias com ele. É um assunto um pouco longo, mas... resumindo, antes de entrarmos nessa questão proteção, e eu éramos pessoas normais naquele local. Eu curso comunicação e arquitetura, só que eu vivia no prédio de arquitetura por causa... de Lucas. A gente... meio que... ficamos algumas vezes. – foi inevitável não arregalar os olhos juntos com . Se não fosse pelos ossos da minha mandíbula, com certeza meu queixo já estaria jogado no chão. – Isso foi logo no início, mas depois ia lá para ver . Enfim, Lucas andava com Ryan, e às vezes aparecia lá, mas como ele era de outro curso e seu prédio ficava um pouco distante, nem sempre ele ia. Mas não era em toda saída que Lucas estava presente também, Ryan e e alguns garotos gostavam de coisas pesadas, quer dizer, Ryan gostava, e não era muito a praia de Lucas. Até que teve uma festa onde Lucas foi e ele estava com Denise. Ele me a apresentou e ela parecia ser uma pessoa bem tranquila, chega que pensei que ele tivesse tendo algo com ela também, mas depois ela acabou ficando com .
– Pera... encontrou com Denise depois do colegial?
– Não sei muito bem, mas nessa festa eles ficaram... Foi logo quando entramos na faculdade. – não sabia muito bem ao certo o que estava ocorrendo comigo, mas senti uma leve pontada no meu coração só de imaginar que poderia ter se encontrado com Denise depois do colégio e ter omitido isso para mim. Não que fosse importante, mas... era estranho esse sentimento. – É estranho pensar que Denise possa estar por trás de algo tão obscuro.
– Sabe como iremos saber? – deu a voz. – Deixando esse blá, blá, blá de lado e indo atrás dela.
Encerrando o assunto, apertamos os cintos de segurança, enquanto eu dava a partida no carro. Estava na esperança de que nosso início as buscas de estivessem certas e que Denise pudesse nos ajudar em algo. Entretanto, mal tivemos tempo de virar a esquina para sair do beco quando sentimos nossos celulares vibrarem na mesma sintonia, o que causou um certo pânico e tensão entre nós. Dei uma encostada ali mesmo na rua, pegando meu celular do bolso. Através dos olhares presentes, sabia que se tratava da mesma mensagem, talvez uma mensagem que poderia nos levar finalmente ao nosso alvo ou a nossa morte.

“Já tem um tempo que estou esperando a sua visita, quero acabar logo com isso, então se deseja me encontrar, basta apenas seguir o endereço abaixo. Abraços, eu.”




Continua...


Nota da autora: Apareceu a margarida, olê, olê, olá! E olha que nem demorei, mas acho que o motivo dessas minhas demoras são porquê não quero que a história acabe logo, mas claro que muitas aindas esytão por vir. Mas então, o que estão achando?? Estão preparados para a revelação?? No próximo capítulo finalmente saberemos quem pegou nosso maravilhoso personagem e quem está realmente por trás disso tudo! Não esqueçam de entrar no grupo das minhas histórias para ficarem por dentro de tuuuudo! Até lá!
Um beijo no core de vocês, até a próxima e não esqueçam de comentar quais são suas teorias agora!!!
Mandy <3





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15. Young God (Spinoff de American Boy com Best Nanny Ever) {Ficstape Badlands, Halsey}


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