Última atualização: 15/02/2019

Capítulo 1

Quarta-feira era um dos dias nos quais eu enxergava o sol quadrado durante todo o entardecer. Eram quatro horas da tarde e já estava aos gritos no corredor da nossa casa, implorando para que, dessa vez, eu colocasse um vestido que não apresentasse manchas de molho. Toda quarta-feira, as dondocas — incluindo minha mãe — organizavam um chá das 17h no Salão Real da cidade. Na minha mente, eu repetia inúmeras vezes que aquilo era uma babaquice, mas minha mãe pensava diferente; aquelas reuniões contínuas com damas da alta sociedade eram meu passaporte para uma vida de princesa. O que era irônico, considerando que nosso país ainda vivia numa monarquia absolutista, onde a única maneira de eu ter uma vida de princesa seria casando com o forte, destemido e encantador príncipe de Ógea, Segundo. Tudo que eu gostaria, óbvia e ironicamente falando. Antes que um sorriso sarcástico pudesse ser formado no meu rosto, em consequência ao pensamento relacionado ao príncipe, um grito ecoou no meu quarto.
— OH! — Minha mãe levou as mãos à boca, me encarando perplexa.
— Pode ir parando, nenhuma mancha de molho dessa vez — cortei-a, analisando meu vestido para checar a veracidade da afirmação.
— Fico feliz que esteja aprendendo a ser uma dama, minha filha — falou, cruzando as mãos em frente ao corpo.
Forcei o melhor sorriso possível e esperei que ela saísse para que pudesse voltar a respirar e destapar minhas canelas, antes que o calor me matasse. Passados dez minutos, os gritos voltaram a surgir, mas dessa vez eram meus irmãos, Amélia e Henri. Apesar de ser quatro anos mais nova, Amélia tinha o comportamento que minha mãe sempre sonhou em mim.
Logo, ela apareceu na porta do meu quarto, segurando a saia do vestido de modo que não houvesse risco de pisá-la. Caminhou até mim e, com toda a delicadeza e calma do mundo, ajeitou meus cabelos.
— Tente não discutir com a mamãe em frente às Damas hoje. Você sabe que ela se sente constrangida — pediu, sorrindo simpática.
— Eu que sou a irmã mais velha.
— Eu que sou a dama. — retrucou, soltando um riso e me deixando sozinha no quarto.
O Salão Real era uma junção de cozinha e sala. Localizado em cada uma das cidades, fora criado para que, sempre que a família Real nos visitasse, tivessem um lugar à altura para permanecerem. Se eles já vieram? Nunca. Desde que me entendo por gente, aquele lugar é usado pelas mulheres ricas para tomar chá e inferiorizar as pessoas cuja classe não é aceita no ambiente.
— ATACAAAAR. — Ouvi, antes de desviar de uma espada que voou por cima da minha cabeça.
— Henri! — chamei a atenção, cruzando os braços com o intuito de parecer uma irmã brava.
— Me desculpa, ... — pediu, abraçando minhas pernas.
Assim que ele me soltou, corri os olhos pelo quarto à procura da espada e, quando a achei, empunhei-a, despertando nele um olhar alegre e curioso. Entreguei-lhe a espada, deixando a ponta da lâmina apontada para mim.
— Firme — exclamei, segurando a mão dele em volta do punho da espada.
— É muito difícil. Eu não consigo... — lamentou, soltando a mesma e sentando na cama com uma expressão triste.
O Henri tinha seis anos e uma das maiores alegrias da vida dele era aprender a lutar com espadas. Nosso pai era Chefe da Guarda e, antes que fosse nomeado este, usava horas do fim do dia para nos ensinar novos golpes. Depois que o trabalho aumentou, o Henri ficou mais sozinho e dependente de mim, por ser a única que não passa o dia treinando como andar sem olhar para o chão.
— Você sabe desenhar? — perguntei, sentando ao seu lado.
— Claro! É muito fácil — respondeu sorrindo.
— E você gosta?
— Não, é chato.
— Está vendo? As coisas mais legais são as mais difíceis. As fáceis se tornam entediantes.
Ele olhou para mim hesitante, mas não demorou a empunhar a espada e a levantar, apontando-a para mim como um convite para lutar. Me agachei e tirei a minha de debaixo da cama. Antes de dar o primeiro golpe, tranquei a porta. Se minha mãe visse, eu estaria mais do que encrencada. Imagine só, uma dama empunhando uma espada de verdade, que horror!
! — ela gritou, antes que eu pudesse sequer levantar a espada.
— A gente continua quando eu chegar — avisei, jogando-a de volta para o lugar de antes.
Espanei o vestido, respirei fundo, coloquei meu chapéu e abri a porta, dando de cara com a minha mãe de braços dados a minha irmã. Eu não podia ter o mesmo sangue dessas duas. Dei-lhe meu braço e me coloquei ao seu lado, esperando que ela olhasse para outro lugar e acenando para o Henri.
— Mais devagar, . — repreendeu, controlando minha mão.
Eu achava que não podia piorar, mas, infelizmente, as outras cinco damas do chá estavam lá para me lembrar de que sempre pode ficar pior. Ambas as mulheres sentaram em uma mesa, após cumprimentar as Damas, e eu fui checar a mesa do buffet. Meu estômago havia colado nas costas para entrar naquele vestido, então, quando vi os petiscos servidos na minha frente, ele deu um pulo e começou a roncar. Não que a comida em casa tivesse em falta, entretanto, para minha mãe, as refeições tinham hora certa, nem um grão fora elas.
— Boa tarde, Srta. — o garçom saudou, preenchendo o vazio do prato com biscoitos.
— James. A Estela está na cozinha? — perguntei, tendo uma ideia.
A Estela era minha amiga e trabalhava na cozinha do Salão Real. Nós conhecemos em uma das tardes aqui, assim que ela começou o serviço. Ela derrubou uma bandeja no meio do Salão e foi atacada por murmúrios preconceituosos, que apontavam como causa daquele acidente a classe dela. Eu levantei e a ajudei a limpar tudo, o que rendeu uma das piores brigas com minha mãe. Desde então, somos amigas.
— Me dê um desses antes que eu desmaie — resmunguei ao entrar na cozinha, apontando para os petiscos.
! — Ela abriu um sorriso e veio me abraçar.
Passei a meia hora seguinte na cozinha, mais pondo conversa fora com a Estela do que comendo. Quando o relógio bateu cinco e meia, corri para o Salão para não perder os comunicados das Damas. Sentei-me ao lado da minha mãe e senti o olhar repreendedor sob mim.
— Onde você estava? — perguntou, sem desviar o olhar do palanque.
— No banheiro. Ajeitando os cabelos — respondi, retribuindo o ato.
Ela não falou, não gesticulou, nem sequer suspirou; absorveu aquela resposta como nunca havia acontecido. No fim da tarde, sumiu. Fui me despedir da Estela e, quando voltei, ela não estava em lugar algum do Salão, e nem Amélia. Fui encontrá-las na rua, conversando com uma das Damas que estava acompanhada de um rapaz razoavelmente bonito. Ele era normal, mas um normal bonito.
Quando me aproximei, minha mãe abriu um sorriso e o rapaz se pôs em uma postura rígida.
, esse é , filho da Dama Claire — apresentou-o.
Como esperado, ele fez aquele cumprimento formal e eu retribuí da mesma forma, antes que a mulher ao meu lado me forçasse, usando violência. As mais velhas continuaram conversando, enquanto um silêncio constrangedor reinava entre mim e o tal .
, não é? — Assenti. — Quantos anos você tem?
— Dezesseis. E você? — retribui a pergunta.
— Dezenove — respondeu.
O silêncio dominou novamente e, poucos minutos depois, peguei-o me encarando com uma expressão séria. Ele estava parecendo um daqueles protestantes republicanos que invadia o palácio a cada mês, dava a entender que era o leão e eu a presa prestes a ser atacada. E, ainda, por um desconhecido.
— Com licença — pedi, me distanciando caminhando até minha irmã.
Ela abriu um sorriso discreto, olhando para onde eu estava. Ele não era meu tipo, mas com certeza parecia ser o tipo de Amélia, que o acompanhava com os olhos, quando o rapaz voltara ao Salão. Não demorou muito para que nós duas dirigíssemos o olhar para nossa mãe, que nos encarava contente por algum motivo que preferiu manter para si mesma. As 19h, ao chegar a nossa casa, fui puxada imediatamente — por pequenas mãozinhas — ao quarto. Eu tinha que acabar o que comecei antes do chá.
Novamente me agachei e tirei minha espada debaixo da cama, sem demorar a empunhar a mesma. O Henri segurava a dele ansioso, contudo, assim que levantamos nossas armas, a porta se abriu. Eu, com certeza, estava mais do que encrencada.
Potter, quantas vezes vou ter que repetir para que entenda que eu abomino essa coisa? — minha mãe gritou, arrancando a espada da minha mão.
— Não foi culpa dela, mamãe. Eu que insisti — Henri interferiu, parando na minha frente.
— Não tente defender sua irmã, Henri, ela é um caso perdido. Mesmo quando acredito que está tomando jeito, faz algo para estragar. — Puxou ele de perto de mim.
— Eu me comportei hoje! A senhora não pode dizer que sempre estrago tudo! — Deixei as palavras saírem.
— Francamente, ! Ajeitar os cabelos? — Segurou meus pulsos no ar. — Você estava na cozinha! — Soltou-os bruscamente.
Olhei para meus pulsos e as mangas estavam sujas de geleia, recheio de um dos biscoitos que a Estela havia me dado. Eu podia ter me safado dessa se fosse um pouco mais detalhista e atenta. Minha mãe massageava as têmporas e suspirava como se quisesse evitar um assassinato.
— Vá para o seu quarto, Henri. — Apontou para a porta.
Ele me abraçou forte e, quando sentiu o olhar da nossa mãe sob ele, me soltou, correndo porta a fora. Naquele momento, não sabia o que esperar, porque, para uma pessoa normal, aquilo era uma bobagem. Mas uma brincadeira de luta para a minha mãe era como se aquele ato enterrasse minha classe social e eu me tornasse pobre. Eu não entendia tamanho preconceito.
— Quero a espada, os livros, as calças e as blusas que deixam seus braços de fora — mandou, estendendo a mão.
— Mãe, não, por favor. Eu vou ser uma dama, eu juro! — implorei.
— Você vai sim. E eu vou fazer com que isso aconteça sem interrupções. — retrucou a mulher.
Não acreditei no que estava acontecendo. Ela abriu meu armário, pegando minhas calças de montaria, blusas de fins de semana e meus livros de histórias. Eu estava sem nada agora, apenas com vestidos extravagantes, sapatos altos e muita maquiagem. Estava presa em outro mundo.



Capítulo 2

Depois daquela briga, eu vivia como um passarinho enjaulado. Estudava em casa, portanto os únicos momentos de liberdade que eu tinha eram nas quartas-feiras, no Chá. Passadas duas semanas desde aquele dia, minha mãe surgiu com uma ideia maluca de começar a fazer reuniões das damas em nossa casa, e não sei por que raios ela incluiu o na lista de convidados. A Amélia amou isso e, em todas as tardes durante as reuniões, ficava puxando assunto com o rapaz, sendo cortada por minha mãe que me perguntava se não queria levá-lo para passear. Em todas às vezes, respondi que não estava passando muito bem, então iria permanecer em meu quarto. Contudo, certo dia, ela pareceu perceber que era apenas uma desculpa.
— Exatamente por isso você deveria ir, um pouco de ar fresco vai lhe fazer bem, filha — falou, dando um sorriso vitorioso ao me ver levantando.
me deu o braço e seguiu para o jardim, em silêncio. O lugar era razoavelmente grande; tínhamos um grande gramado e, recostadas nos muros, estavam as enormes bromélias da minha mãe, eram as queridinhas dela. No meio, havia uma área com cadeiras e uma mesinha, cobertas por algo que se semelhava a um guarda-sol. Eu adorava o jardim.
— Então, — quebrou o silêncio. — O que você gosta de fazer?
— Bom, eu gosto de ler, de cavalgar, de treinar golpes novos às vezes, com meu irmão — respondi.
— Golpes novos? Você diz... Golpes de espada? — questionou perplexo.
— Sim. Meu pai me ensinou vários e, hoje, eu o ensino ao Henri — falei.
— Mas você é uma dama. Isso é totalmente incabível. — ele retrucou, sem crer no que ouvira.
— Pois eu discordo plenamente. Muitas mulheres são capazes de fazer o que querem, mesmo que seja coisa de homens. — Parei em frente a ele, com os braços cruzados.
— Lamento, , mas isso é desrespeitoso. Vocês são frágeis e jamais poderiam se comparar a nós. — Massageou as têmporas.
— Ah, quer saber, ? Vá se danar — disse, levantando levemente a saia para poder sair rápido dali.
Em nenhum momento da minha vida eu havia pronunciado aquelas palavras na frente de alguém, somente em meus pensamentos. Pus a mão na boca, percebendo o que havia feito, e corri para dentro de casa, subindo diretamente para o meu quarto. Meu Deus, , o que foi que você fez?
— O que foi aquilo? — Amélia perguntou, entrando no meu quarto.
— Eu senti um forte enjoo — menti.
— Recomponha-se e desça. As Damas não precisam ver suas fraquezas ressaltadas — repreendeu, saindo e batendo a porta.
As Damas que esperassem sentadas então, porque eu não ia descer tão cedo. Tranquei a porta do quarto e tirei a blusa, em seguida soltando as fitas do espartilho. Céus, sortudos são os homens, que não precisam ter seus intestinos introduzidos na caixa torácica ao usar aquele pedaço de couro. Vesti minha camisola e sentei-me na beira da cama. Sem livros, sem espadas, sem nada. Então, uma luz acendeu em minha cabeça. Fui até a janela e corri meus olhos pela frente da casa. Tudo vazio. Abri a porta e sussurrei o nome do Henri, esperando que ele aparecesse num passe de mágica, como na maioria das vezes, o que não demorou a acontecer.
— Tenho uma missão para você, soldado Potter — anunciei.
Isso precisava dar certo. Depois de passar as instruções, voltei ao quarto e prendi o cabelo em um rabo de cavalo. Vasculhei meu armário atrás de uma pequena bolsa e a encontrei, pouco antes de meu irmão entrar no quarto com o que eu havia lhe pedido.
— Você é a única menina que eu conheço que pede para usar calças — ele falou.
— Você também pediria, se precisasse usar vestidos que tem quase o seu peso — respondi.
— Eu acho que você fica bonita dos dois jeitos. — Sorriu.
— Eu amo você. — Beijei-lhe na cabeça. — Mas, agora, volta pra lá, antes que sintam sua falta.
— Tome cuidado, . Não quero ter só a Amélia como irmã — pediu, correndo porta a fora.
Com certeza eu estava maluca. Maluca não, insana. Coloquei as calças e a blusa que Henri pegara no quarto da nossa mãe, calcei as sapatilhas e pendurei a bolsa no meu ombro. Tranquei a porta do quarto, levantando o vidro da janela cuidadosamente.

Certo, agora era morrer ou ser um samurai.

Sentei no telhado e fui deslizando, horizontalmente, até chegar ao final dele, onde tinham trepadeiras. Desci por elas, rezando para que minha sorte não ficasse contra mim e eu caísse. Felizmente, ela me ajudou e consegui sair correndo o mais rápido que pude, ficando a uma distância boa da minha casa.
Depois de mais ou menos uns 10 minutos de caminhada, uns 20 olhares diferentes e uns 15 murmúrios como “O que uma moça dessa idade está fazendo desacompanhada na rua a essa hora?”, cheguei ao meu destino. Abri o portão e parei em frente a aquela casa de madeira, minúscula, pintada de um azul bem clarinho. Quando bati na porta, ela soltou poeira e eu temi que ela caísse na minha frente. Ao vê-la mover, meu coração disparou e eu pensei “Oh céus, eu estraguei a porta”, mas não, ela se abriu, e uma menininha da idade do meu irmão surgiu, com a boca formando um perfeito 'O'.
— MÃE, TEM UMA DAMA AQUI! — saiu gritando.
Certo, isso é mais constrangedor do que quebrar a porta. Graças a deus a Estela apareceu, me puxando pra dentro de casa e verificando se ninguém havia me visto ali. Eu já havia estado em sua casa, mas nunca a adentrei. Era extremamente simples, tinha um tapete e um sofá, com um abajur posto em uma mesinha ao lado deste. Do outro lado, uma cortina aberta nos dava a visão de três camas em um cômodo, sendo uma de casal. A cozinha era basicamente um fogão, uma mesa, um armário e uma pequena geladeira.
— Você ficou louca?! O que está fazendo aqui?! — ela perguntou, me segurando pelos ombros.
— Estela, sua irmã disse que... — Uma mulher saiu das cortinas e paralisou ao me olhar.
— Mãe, essa é a...
— Ela não pode vir aqui! As Damas vão nos matar! — falou, me encarando desesperada.
A mãe dela começou a dar um discurso, e eu apenas apontei para os livros no chão, no canto da sala. A Estela, discretamente pegou minha bolsa e foi até eles, enquanto o pai da garota tentava entender o que a esposa estava dizendo. Ela colocou os livros dentro da bolsa e me entregou.
— Bom, obrigada pela gentileza , estou indo — anunciei.
Eu saí correndo na mesma hora, só parando ao chegar na rua da minha casa. Eu estava me aproximando das trepadeiras quando ouvi a porta se abrindo e um grupo de pessoas saindo, entre elas, e a minha mãe. Encostei-me a parede e prendi a respiração, torcendo para que nenhum deles me visse. A Dama deu a mão para a filha e o braço para o rapaz e, assim, eles seguiram pela rua. Fechei os olhos e, ao abri-los de novo, o já não andava ao lado da mãe.
— Você está realmente ficando maluca, . — Pensei alto.
— Concordo — uma voz respondeu.
Olhei pro lado e, de braços cruzados me encarando, estavam aqueles enormes olhos azuis, em contraste com seus cabelos — quase — muito bem penteados. Se não fosse tão insuportável, quem sabe eu admitisse que ele era um galã. Mas, agora, a única coisa que podia admitir, era: eu estou encrencada.
Por um segundo, pensei que o garoto fosse me arrastar pelo braço até a porta da minha casa, para que minha família visse mais uma vez que eu não sou uma dama. Porém, ele pôs um braço para trás e, com um sorriso no canto da boca, deu um aceno.
— Tome cuidado, senhorita — sussurrou antes de seguir seu caminho. Certo, esse rapaz é estranho.
Quando ele sumiu na rua, voltei a escalar a trepadeira, caindo em seguida no chão do meu quarto. Escondi a bolsa dentro de um baú e tranquei, garantindo que só eu teria acesso. Fui para o banheiro e mergulhei meu corpo na banheira, junto aos pensamentos que se baseavam em qual motivo teria levado a não me entregar, mesmo depois do que eu falei. O relógio marcava 22h, e isso queria dizer que já era hora de dormir e parar de encher minha cabeça com minhocas.



Capítulo 3

Por incrível que pareça, quando acordei o silêncio reinava pela casa. Depois de uma eternidade colocando as milhares de saias e o nada prático vestido, desci para a sala e não encontrei nem um formiga. Isso é de certo modo completamente impossível.
— Bom dia, senhorita — falou, escorado na porta da cozinha.
— Oh céus! — Pus a mão no peito ao me assustar. — Não me livro nunca de você.
— Nem irá conseguir — ele retrucou, caminhando até mim.
— Deixe-me adivinhar, você está aqui para se vingar de mim pelo o que eu lhe disse. Matou toda minha família e estava esperando a oportunidade para me matar — disse, de braços cruzados.
— Isso faria de mim com certeza um homem com dignidade. Porém... Estou aqui com outro fim. — afirmou, me oferecendo o braço.
Ele continuou sorrindo para mim com aqueles dentes que pareciam porcelana e aqueles olhos que pareciam o céu em um perfeito dia ensolarado. Mesmo hesitante, passei meu braço pelo o dele e deixei que ele caminhasse ao meu lado na rua, sem saber onde pararíamos.
— Então... — interrompeu o silêncio. — O que você estava fazendo fora de casa? — perguntou.
— Fui tomar um ar. Não estava me sentindo bem — menti.
— E não queria que sua mãe soubesse para não se preocupar.
— Exatamente.
— Você mente muito bem, senhorita falou, tirando o chapéu imaginário e pondo-o de volta.
— E você finge muito bem, senhor — revidei.
— Você nem imagina o quanto — murmurou.
— Como? — questionei.
Paramos na parada para o bonde e, antes que ele pudesse responder, o mesmo chegou. Eu nunca havia andando de bonde, era de extremo mau comportamento uma mulher andar sozinha em um transporte público. Assim que sentamos, esqueci sobre o que estávamos falando e passei a me concentrar em como era divertido fazer um passeio naquele... automóvel.
— Você nunca andou de bonde? — o rapaz perguntou.
— Minha mãe nunca deixou — lamentei.
Olhei para o lado e ele me encarava com uma expressão curiosa, como se tentasse desvendar algum mistério em mim. Desviei o olhar e continuei a admirar a rua até chegarmos no último ponto da cidade. A partir dali, só havia o caminho para a floresta.
— Certo, você realmente está pensando em me matar — brinquei, nervosa.
Ele deu uma breve risada e, com o meu braço dado ao seu, caminhou até o meio da floresta. Eu acreditava que ele era louco e não sabia onde estava indo, mas então ele parou e virou de frente para mim. Fiquei o olhando, esperando que ele falasse alguma coisa, contudo, ele só fechou os olhos, respirando fundo.
. — Estalei meus dedos na frente de seu rosto.
— Você não é a única que foge da sua realidade — contou, me virando de costas para ele.
Assim que fui posta naquela posição, enxerguei uma casa de dois andares não muito grande. Era feita de madeira e tinha uma enorme sacada no andar de cima. Enquanto eu reparava nos detalhes, o garoto já estava abrindo a porta e esperando que eu passasse. Quando entrei, pensei o quanto meu irmão amaria aquele lugar; havia alguns alvos para jogar dardo, espadas postas na parede e um mural com inúmeros desenhos.
— Eu vim me danar aqui ontem quando você mandou — falou, parando ao meu lado.
— Você é um idiota. — Dei as costas e saí da casa.
! Espera! — Ele puxou meu braço, fazendo com que eu encarasse ele.
— Você se passa por um riquinho metido e depois quer fugir da realidade que você mesmo constrói? — indaguei.
— Eu só quero ser aceito. Você quer que eu seja como você e me torne a decepção da família?
Naquele momento o legal que estava comigo sumiu. O rapaz criado para a sociedade veio à tona e eu percebi que, mesmo que no início aquele comportamento fosse uma farsa, agora estava se tornando parte dele.
— Eu prefiro ser a decepção da família do que ser um frangote feito você, que precisa da aceitação alheia para ser quem é.
Dessa vez, o garoto não impediu que eu fosse embora, ao contrário, deu meia volta e entrou na casa. Eu segui caminhando até em casa, onde cheguei no horário do almoço. Eu poderia pegar minha espada no quarto da minha mãe, porém, não queria fazer nada que pudesse piorar tudo, então apenas subi para o quarto e me pus a ler um livro. Quando virei a quarta página, pedrinhas atingiram a janela e, por pouco, não acertaram minha testa.
— Eu estou correndo risco de vida por estar aqui, mas preciso contar uma coisa! — Estela gritou lá de baixo.
Desci correndo — da maneira que o vestido permitia —, e a puxei para dentro de casa. Ela estava arrumada, não como uma Dama, mas arrumada para quem só usava uniforme. Ela usava um vestido lilás leve e pouco abaixo do joelho, o cabelo ruivo estava preso com uma fita branca e os pés escondidos por uma sapatilha marrom.
— Eu vou para o palácio! — contou, pulando.
Admito que pensei que ela estivesse brincando, mas não. Quando ela viu que eu não estava entendendo nada, parou de pular e me explicou que havia tido uma seleção na cidade para enviar criadas ao palácio, com o objetivo de facilitar o trabalho, uma vez que a família real estaria recebendo a noiva do Príncipe .
— Espera aí... Noiva? — questionei.
— Sim, ! O Príncipe vai se casar com a Princesa Erin, de um reino próximo daqui de Ógea, cujo nome não lembro agora. — respondeu pensativa.
Então, aquele sem cérebro ia se casar... Com certeza Ógea entraria numa festa de meses por conta desse acontecimento e, sem dúvida alguma, minha mãe enlouqueceria, pois a cidade estaria cheia de rapazes dos outros países que viriam para a comemoração. A Estela partiria em uma semana, a partir daí eu estaria completamente perdida no mundo burguês.
! — Ouvi gritos vindo do corredor.
Era minha mãe. Se ela visse a Estela aqui me deserdaria e ainda me denunciaria para as Damas, para que a cidade inteira soubesse que eu era um desgosto. Ouvi a batida do salto no parquet e meu coração acelerou. Onde eu ia esconder a Estela? Abri o baú e joguei tudo que tinha dentro para baixo da cama.
— Entra aqui. — falei apontando para o mesmo.
O baú era grande e por sorte cabia ela. Assim que minha mãe abriu a porta eu sentei em cima do mesmo e abri o maior sorriso. Ela colocou a caixa que segurava em cima da cama e com os olhos cerrados olhou ao redor.
— A Dama Claire e sua família virão jantar conosco esta noite. Comprei este vestido para que você não me envergonhe com suas escolhas — comunicou, abrindo a caixa.
Continuei sorrindo e agradeci. Ainda passeando com os olhos pelo quarto, ela foi saindo. Assim que bateu a porta, a tranquei e abri o baú, vendo uma Estela quase roxa sem ar. Ajudei-a a sair e ela avisou que ia embora. Obviamente, não poderia emprestar a porta da frente para ela sair, então ensinei-a meu truque de descer usando as trepadeiras. Esperamos até que não houvesse ninguém passando na rua.
— Te vejo em uma semana! — falou, antes de sumir na rua.



Capítulo 4

Tudo estava em perfeita ordem: minha mãe e a Dama Claire como melhores amigas, o marido da Dama Claire sobrando, a Amélia encarando o com um sorriso, o me encarando, esperando que eu falasse algo, e eu encarando aquele leitão assado, pronta para atacá-lo com meus próprios dentes.
— Então, Amélia, você já está quase na idade de se comprometer — a Dama Claire puxou o assunto. — O que você espera encontrar em um rapaz?
— Oh, Dama Claire, eu espero ter como esposo um rapaz de presença, cujos olhos sejam tão azuis quanto o oceano que rodeia Ógea — respondeu ela, com um enorme sorriso.
Eu sabia quem era o rapaz de presença que ela tanto desejava. Infelizmente o futuro o qual a mãe dele lhe daria era outro. O decorrer da noite não foi diferente daquilo. Mesmo depois de ter comido as migalhas permitidas, continuei encarando aquela carne que parecia cada vez chamar mais o meu nome.
. — Ouvi chamar.
— Eu estou te ouvindo — avisei, encarando a bandeja.
. — Ouvi novamente, junto com uma mão sobre a minha.
Voltei minha atenção para as pessoas na mesa e todos me encaravam. O principalmente, agora segurando minha mão. Com educação, puxei-a e a repousei em meu colo. Abri um sorriso tentando não parecer uma sonâmbula e, graças a Deus, funcionou.
— Como estávamos dizendo... — Dama Claire começou. — Meu filho tem um pedido a fazer.
— Eu tenho? — perguntou.
— Sim, , recorda-se? — ela questionou com um sorriso tenebroso.
Ele respirou fundo e, de olhos fechados, se levantou. Eu desejei do fundo do meu coração que fosse para ir embora, mas não. Ele deu a volta na mesa, pegou minha mão e pediu que eu me colocasse de pé em sua frente. Não podia ser o que eu estava pensando. Rezei para que não fosse. Tudo em vão. De dentro do paletó, ele tirou uma caixinha aveludada em vermelho e, quando se deixou ser aberta, eu não sabia para onde fugir.
, você aceita se casar comigo?
Mesmo que me houvessem dito, jamais seria possível estar preparada para ouvir aquilo. Sequer poderia imaginar ou pensar em responder tal pergunta em meio aos meus poucos 16 anos.
— Sim! — minha mãe respondeu por mim, levantando vitoriosa.
— Não! — foi a vez da Amélia de responder.
— Muito bem, meu filho — o pai do exclamou, satisfeito.
— Eu... — As palavras não saíam da minha boca.
— Ela aceita. Veja como ela está emocionada. Está claro que ela aceita. — Minha mãe veio até mim e me abraçou.
Tentei protestar, mas, dessa vez, nada saiu da minha boca. Eu estava perplexa com aquilo. Como alguém se casa com 16 anos? Todos (menos Amélia e eu) começaram a comemorar e brindar e, a cada taça, sentia mais vontade de quebrar a garrafa na cabeça do . Todo aquele teatrinho de manhã era para garantir que eu fosse aceitar o pedido, que eu ficaria com pena do pobre rapaz, obrigado pelos pais a viver como um metido.
— Quando será o casamento? — minha mãe perguntou, ainda eufórica.
— Quanto antes melhor. Estarei viajando em 10 dias para resolver negócios no campo e quero ver meu filho casar antes disso — o pai do meu noivo se pronunciou.
— Perfeito! Marcaremos para daqui a uma semana! — a Dama Claire comunicou.
— Não posso crer que você irá casar com minha filha — minha mãe exclamou, abraçando .
Ouvimos a porta bater e, quando nos viramos para olhar quem era, finalmente saí do estado vegetativo. Ele estava igual. Talvez com a barba um pouco maior, mas, ainda assim, igual. A farda perfeitamente alinhada, os cabelos grisalhos assim como o bigode e o sorriso. Ah, o sorriso.
— Quem vai se casar com a minha filha sem meu consentimento? — meu pai perguntou.
Minha mãe mudou sua expressão para uma de impaciência, enquanto eu e meus irmãos corríamos para abraçá-lo. Faziam meses desde que ele havia partido com a Guarda Real e não havia hora melhor para ele ter chegado. A família do meu "noivo" atribuiu um semblante sério; se havia alguém que poderia impedir essa bobagem toda, esse alguém era com certeza meu pai.
— Por que voltou tão cedo, Nicholas? — minha mãe perguntou forçando um sorriso.
— A Guarda irá acompanhar a nova remessa de criados que será levada para o palácio. Estarei partindo novamente em uma semana — explicou.
Ficar tanto tempo sem o meu pai era uma tortura. Eu era igual a ele e o oposto da minha mãe, felizmente. Quando ele estava em casa tudo era mais fácil, principalmente ser eu mesma. Sem vestidos ou regras de etiqueta.
Para minha sorte, meu pai foi contra o casamento, mesmo que minha mãe explicasse inúmeras vezes o quão bom isso seria para minha vida. Ele se mantinha firme na sua opinião de que eu ainda era uma criança. Como sempre, desde que me entendo por gente, terminei mais um dia com o Henri em meu colo, enquanto ao lado de fora do quarto, meus pais brigavam incansavelmente. Nada havia mudado. Minha mãe, a ditadora. Meu pai, o liberal.
— O papai não vai embora, vai, ? — Henri me perguntou.
Dessa vez, eu não sabia responder. Pedi que ele não se preocupasse com isso quando, até mesmo eu, estava começando a me preocupar. Meus pais brigaram desde quando eu era criança, mas dessa vez o assunto era mais sério, a briga parecia mais séria e, pelo visto, a decisão que tomariam também seria séria, já que era o meu futuro que estava em mãos.

Até aqui betada por: Nicole Megale


Capítulo 5

Chorar e implorar não me adiantou de nada. Em menos de uma semana depois, lá estava eu experimentando o vestido que marcaria minha entrada para o Inferno. Meus pais, ao que tudo indicava, estavam realmente se separando. Eles negavam é claro, mas dormiam em quartos separados e se evitavam o máximo possível.
– Você está linda, . – minha mãe falou, sorrindo, com os olhos cheios d'água.
– Posso ficar sozinha? Por favor. – pedi.
Ela beijou minha testa e saiu do quarto com a costureira. Ao olhar no espelho, eu não me enxerguei. Ali estampado estava o reflexo da que havia sido vencida por aqueles que ela sempre prometera não se parecer. O vestido, por mais simples que fosse, não era meu. Aquele casamento não era meu. Aquela vida não era a que eu queria que fosse minha.
– Você está realmente linda. – meu pai elogiou assim que entrou no quarto.
Olhei pra ele e foi inevitável deixar que as lágrimas saíssem em peso. Ele me abraçou e, enquanto afagava minhas costas, repetia que eu jamais seria igual à elas, mesmo que me forçassem, e que, no final, eu resolveria tudo.
Evitei o assunto casamento durante todo o tempo que precedeu o evento. Deixei que a Dama Claire e que minha mãe resolvessem tudo enquanto eu permanecia em meu quarto lendo, tentando de alguma maneira ser transportada para dentro do livro. O clima na minha casa não estava dos melhores, minha irmã Amélia não conversava comigo, ao contrário de Henri, que passava metade do seu dia em meu quarto.
– Você gosta do como a mamãe gosta do papai? – ele me perguntou.
– Não. – respondi.
– Mas as pessoas não se casam só quando gostam de alguém? – ele questionou.
– Às vezes não, Henri.
– Eu queria que você casasse com quem você gosta.
– Eu não gosto de ninguém...
– Então você não casa, ué.
Ele era igual a mim e igual ao meu pai. Graças a Deus. Depois daquela rápida conversa, ele não falou mais nada. O dia estava cada vez mais próximo, e a relação dos meus pais só piorava, até que no dia do casamento, ele entrou no meu quarto e perguntou se podíamos conversar. Eu já esperava aquela notícia, só temia qual seria a reação dos meus irmãos. Depois do casamento, meu pai não voltaria para casa. Assim como eu.
– Pronta? – minha mãe abriu a porta, e eu a ignorei. – Oh, , isso é para o seu bem. Você vai ser feliz, eu tenho certeza.
– Assim como você foi? Não, obrigada.
Deixei-a sozinha no quarto e fui me posicionar ao lado do meu pai no hall de entrada. A porta que dava para o Salão Real estava fechada, mas mesmo assim eu conseguia ouvir os múrmurios das pessoas. A marcha começou a tocar, e, quando as portas se abriram, eu pude ver o no altar com a aparência de um cadáver. Havia pelo menos umas 100 pessoas no salão. Eu só conhecia minha família.
– Podem sentar-se todos. – o padre anunciou.
Depois de todo um discurso sobre como o casamento diante de Deus era importante, ele chegou ao momento do sim ou não. Ele rezou algumas vinte vezes, e enquanto isso meu coração acelerava cada vez mais. Olhei para o relógio no canto do Salão e ele marcava 21h. Olhei para o , e a expressão dele não havia melhorado, ele estava pálido e suando como um porco prestes a ser abatido.
Harrison, você aceita Potter como sua esposa, para amar e respeitar, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, até que a morte os separe? – o padre perguntou.
O respondeu com um desmaio. Assim que o padre terminou a pergunta, ele me olhou, olhou para as pessoas ao nosso redor e caiu duro no chão. Um exemplo de coragem esse rapaz. Todos levantaram e vieram às pressas ver como ele estava, enquanto eu, de braços cruzados, esperava impaciente para que ele acordasse para acabarmos com aquilo. A Dama Claire chorava com a certeza de que o filho estava morto, e as mulheres do salão fofocavam sobre como sempre souberam que o era um frouxo. O que eu estava fazendo ali no meio de todas aquelas mulheres que não tinham nada de parecido comigo? Dei um passo para trás e enxerguei minha irmã. Com o buquê na mão, fui até ela e o entreguei.
– Agora é com você.
Ela me abraçou e, antes que o abraço terminasse, o Henri veio até nós. Apesar das brigas incessantes entre mim e a Amélia, ela era minha irmãzinha e isso nunca ia mudar independente do caminho que eu tomasse. Eu não voltaria para casa, assim como meu pai. Mas, dessa vez, não seria por estar casada e sim por estar livre.
– Escuta, Henri – abaixei para ficar da altura dele –, eu vou fazer uma viagem com o papai.
– Você o quê?! – a Amélia perguntou, incrédula.
– Prestem atenção – pedi aos dois –, vocês precisam me prometer que irão cuidar um do outro.
, você não pode fugir! As Damas não vão te perdoar se te encontrarem! – a Amélia falou.
– Ame, eu preciso que você cuide do Henri. Ele só vai ter você. Você consegue fazer isso? – perguntei.
Ela assentiu, e os dois me abraçaram. Aquilo doía mais que estar casando. Antes que eu pudesse conversar com o meu pai, o acordou e começou o murmurio de onde estava a noiva. Quando os olhares me alcançaram, eu já estava na porta.
, onde você vai? – minha mãe perguntou.
– Isso não é pra mim, mãe. – respondi, tirando os sapatos.
, volte já aqui! – ela chamou, deixando clara a raiva.
– Não, chega. Eu odeio tudo isso, eu me recuso a viver assim. Vocês podem fazer esse aí de brinquedo, mas pra mim chega! – joguei os sapatos no meio do salão.
– Irina, controle sua filha! – a Dama Claire se intrometeu.
– Por Deus, Dama Claire. Pare de tentar dar ordens em todos os momentos. Não é perceptível que ninguém dá a mínima para o que a senhora fala? Eu não preciso ser controlada, precisaria se concordasse em acabar minha vida como uma velha amarga que nem você.
... – minha mãe chamou, agora chorando.
– Eu te amo mãe, mas eu não sou essa Dama que a senhora queria ter.
Meus irmãos a abraçaram, e, com uma única lágrima descendo pelo meu rosto, eu deixei o Salão Real. A rua estava vazia, exceto pelos Guardas que iam e vinham com enormes caixas. Parei um deles e perguntei onde seria o embarque das criadas. Ele hesitou em me responder, mas ao ver meu estado não só falou como me levou até lá.
– O que você está fazendo aqui? – alguém perguntou, me puxando para um canto.
A Estela estava com uma mala na mão e a habitual roupa de empregada. Com um sorriso, contei que havia fugido no meio da minha cerimônia de casamento. Ela riu e falou que aquilo era exatamente o que ela esperava de mim. Apesar de estar tentando parecer feliz, eu queria chorar por precisar fazer tudo isso simplesmente para ser quem eu sou.
– Acho que estou criando uma nova classe: As Damas Da Revolução. – falei.
– E para onde você vai agora, Líder das Damas Da Revolução? – ela questionou.
Foi aí, então, que parei para pensar e perceber que eu não tinha para onde ir. Eu não tinha amigas, exceto a Estela, e se eu fosse para casa de qualquer que fosse o familiar, certamente me entregariam para as Damas sem pensar duas vezes. Eis que surgiu uma ideia ao direcionar minha atenção para o navio prestes a partir. Dei um sorrisinho de canto para a Estela, e ela arregalou os olhos, adivinhando o que eu estava pensando.
– Você não está pensando em...
– Abre essa mala.


Capítulo 6

Deus é justo, mas as roupas da Estela vestidas em mim eram mais ainda. Lá estava eu, vestida de criada, de pés descalços e com poeira no rosto, que a Estela havia juntado do chão para esfregar em minhas bochechas para fazer com que eu parecesse mais 'pobre'. Talvez tudo aquilo fosse uma loucura e talvez no dia seguinte eu me arrependesse, mas, agora, era a única solução.
– Não acredito que aceitei participar disso. – a Estela murmurou enquanto entrávamos no navio.
Haviam pessoas de todos os tipos em todos os cantos do navio. Quando embarcamos, todos foram se acomodando nos compartimentos abaixo do convés, até mesmo a Estela. Eu permaneci sentada, encostada na parede do barco, admirando o reflexo da lua no oceano. Eu nunca havia estado tão perto daquela imensidão de água como estava agora. Nem tão longe de casa.
Na manhã seguinte, só haviam os guardas no convés e alguns criados circulando com um pedaço de pão. Levantei, espanando o vestido, e meu coração deu um pulo quando um homem de farda parou ao meu lado com um sorriso. Ah, o sorriso.
– Eu disse que você resolveria. – ele falou.
Meu pai me contou como haviam ficado as coisas depois da minha fuga. Minha mãe desatou a chorar, meus irmãos ficaram tentando convencer ela e a cidade inteira estava falando de mim agora. Ele não aprovou, mas achou genial a ideia que eu tive de ir para o palácio fingindo ser criada e também avisou que apareceria toda semana para ver como eu estava indo. Dei um soquinho no braço dele, ele fingiu braveza, e a Estela apareceu desesperada.
– Oh, céus! O senhor me desculpe, ela é nova aqui. – ela falou para o meu pai.
Nós começamos a rir, e ela ficou nos olhando como se fôssemos loucos. Expliquei discretamente que aquele era meu pai e, no início, ela não acreditou, mas, depois, quando percebeu que estávamos falando sério, ficou apavorada.
– Ai, meu Deus, eu estou ajudando a filha de um Guarda a fugir. Eu vou ser presa? – ela perguntou para ele.
Ele continuou rindo e se distanciou assim que outro guarda o chamou. Estamos chegando, ele sussurrou de longe para mim. Olhei para o horizonte e consegui enxergar o reino. Era um vilarejo com um enorme castelo em seu centro. O palácio era visível, mesmo a uma distância considerável.
Quando desembarcamos no porto, quase esqueci de descer de tão deslumbrada que estava com toda aquela gente, aqueles comércios. Era tudo tão alegre, diferente do que eu cresci vendo. Haviam crianças dançando, casais passeando, senhoras de braços dados com suas netas...
– É tudo tão diferente, não é? – a Estela perguntou, parando ao meu lado.
Meu pai pediu que eu ficasse perto dele para que ele incluisse meu nome na lista antes que eu fosse declarada clandestina. Mais tarde, ele me levou ao palácio, dizendo que eu havia me perdido das outras. Quando entrei, ele foi até o gabinete do Rei comunicar que os novos criados haviam sido entregues, e eu fiquei no jardim até que esbarrei em alguém.
– Oh, me desculpe! – pedi.
Eu havia esbarrado em uma mulher pouco mais velha com eu. Ela usava um vestido azul celeste lindo, com a saia e as mangas bordadas em um azul mais claro. O cabelo era loiro, um loiro mais dourado que o meu, e, nas mãos, carregava um livro. Virei a cabeça para ler o título, e ela ficou me encarando.
– Esse livro é ótimo. Recomendo também A Revolta dos Injustiçados. Do mesmo autor. – falei.
– Você lê? – ela perguntou, desconfiada.
– Tanto quanto respiro. – respondi.
Ela ia falar alguma coisa, mas não pude prestar atenção. Na porta da cozinha estava meu pai acenando para que eu fosse até ele. Pedi com licença e corri até ele. Lá, nos despedimos, e a Estela me apresentou para a cozinheira chefe, para o mordomo e para a Acompanhante Real da princesa Erin.
– Você não tem cara de criada. – a acompanhante, Gina, falou segurando meu rosto.
– Com licença. – falei, sorrindo e tirando a mão da mesma do meu queixo.
A Estela segurou o riso e me guiou até onde dormiríamos. Lá, outra criada, das que haviam vindo conosco, me emprestou uma roupa dessa vez do meu tamanho. A cozinheira, Holga, avisou que o jantar iria ser servido nos aposentos de cada membro da família real. Eu e a Estela estávamos indo para o quarto da Rainha, quando eu escorreguei no piso e fui com tudo para o chão. A Estela em vez de me ajudar a levantar, começou a rir, até que de repente adotou uma expressão assustada. Pus-me de pé, já sentindo minhas costas doerem, e dei de cara com ninguém mais ninguém menos que o forte, destemido, corajoso e encantador príncipe de Ógea, Segundo. Ele estava com roupa de montaria e, agora, nos encarando com aqueles enormes olhos totalmente destacados pelo cabelo .
– Boa noite, Alteza. – a Estela fez reverência.
– Vocês devem ser novas aqui para não saberem que eu odeio que meu jantar atrase. – ele falou rudemente.
– Eu sin-sinto mui-muito, Alteza. – A Estela abaixou a cabeça, gaguejando.
– Lamento por informar, Alteza, mas felizmente não seremos nós que serviremos vosso jantar. Estamos nos dirigindo ao quarto dos seus pais para servir a Vossa Majestade Senhora, sua mãe. Com licença. – pedi, empurrando o carrinho.
Eu com certeza errei em usar aquele tom com o príncipe, mas, meu Deus, que rapaz mais arrogante. Se não fosse meu pescoço nas mãos dele, eu com certeza teria pegado um pedaço de pão da bandeja e enfiado na boca dele.
– Eu não quero que você seja enforcada, então se comporta , por favor. – a Estela pediu.
Entramos no quarto da Rainha e meu Deus! O quarto era todo detalhado em dourado, e a cama era maior que minha sala se duvidar. Escutamos uns murmúrios vindos do closet e era a Rainha praguejando alguma coisa. Ela tinha as mãos nas costas e uma expressão de dor no rosto.
– Tem algum chá analgésico aí? – ela perguntou, apontando para o carrinho.
– Não, senhora, mas podemos providenciar. – a Estela respondeu.
– GEORGE! AS CRIADAS TROUXERAM O JANTAR! – ela gritou na janela.
Rei George, um banana. Todos diziam que ele era um doce, porém a Rainha Marisa mandava e desmandava nele, como um cachorrinho, tanto que não demorou para que ele aparecesse no quarto esbaforido, avisando que já havia chegado. A Rainha agradeceu o jantar, e nós os deixamos. Ao chegar na cozinha, lembrei das dores da Rainha e decidi eu mesma fazer e entregar o chá. Talvez incomodar a Rainha sem que ela houvesse pedido me trouxesse consequências. Mas se eu podia ajudá-la, por que não o fazer?
Depois de muito insistir, a Holga aceitou me ensinar a fazer um chá analgésico usando folhas de plantas. Coloquei em uma xícara e, posta sobre uma bandeja, segui o caminho com ela até o aposento da Rainha. Nesse percurso, eu cheguei a conclusão de que sorte não era um dos meus fortes, considerando que no corredor do quarto eu dei de cara com o queridinho de Ógea. De novo.
– Só pode ser brincadeira. – pensei alto.
– Eles desceram muito o nível das criadas trazidas para o palácio. – ele falou.
– Da realeza também... – falei, passando por ele em direção ao quarto da Rainha.
– Quem você pensa que é para ficar falando comigo dessa maneira? – ele alterou o tom.
– A criada que foi ordenada para levar um chá para sua mãe. – respondi, calma.
Sem obter nenhuma resposta, continuei andando até a porta. Olhei pelo ombro e vi que ele estava parado me encarando. Desviei minha atenção e bati na porta, que logo foi aberta pelo Rei. Já deitada, a Rainha lia um livro pequeno, um daqueles de contos, pensei.
– Não lembro de ter pedido nada. – ela falou, fechando o mesmo e pondo-o no colo.
– E não pediu, Majestade. Mas recordo-me que no jantar vossa Majestade estava com dores, então me prontifiquei a trazer um chá que com a ajuda da cozinheira chefe fiz. – expliquei.
Ela olhou para a bandeja e pediu que eu a colocasse sobre a cama. O Rei ficou encarando-a como se estivesse desesperado para saber o que ela faria, e, então, para alívio dele, ela se sentou e tomou um gole do chá. Ele suspirou e abriu um sorriso.
– Qual seu nome, menina? – ela perguntou sem largar a xícara.
. – respondi.
– Boa noite, . – ela falou com um leve sorriso, e eu entendi, me retirando em seguida.
Pelo menos em algum momento da minha vida fiz alguma coisa certa.

Capítulo 7

No meu dedo, agora havia uma aliança dourada, fina e simples. estava parado em minha frente com um enorme sorriso e minha mãe sentada chorando de alegria e orgulho de mim. No canto do Salão, meu pai estava sério, de braços cruzados, assistindo aquilo em silêncio sem demonstrar nenhuma emoção.
— Pode beijar a noiva – o padre falou.
se inclinou e aproximou-se de mim. Num repentino impulso, ao ver ele tão próximo do meu rosto, usei a única arma que tinha em mãos. Meu buquê o acertou em cheio fazendo com que em sua boca houvesse pétalas de rosas. Por conta disso, tentei correr para fugir, mas assim que desci do altar, notei meu tornozelo preso a uma corrente. Ao lado do filho, a Dama Claire via e repetia que eu jamais estaria livre.
– ela chamava.
— Não! Me solta, sua velha amarga! – tentei puxar a corrente.
!
Abri os olhos e ao meu redor estavam Estela e Holga, fitando-me preocupadas. Graças a Deus aquilo havia sido um sonho e eu não estava presa em um casamento indesejado. Muita coisa havia mudado em menos de 24h e eu sentia como se estivesse sem chão, como se o futuro fosse um enigma.
— Eu sonhei que havia me casado – falei sentando na cama.
— Sem acertar o buquê na cara do ? Não acredito – Estela falou rindo.
— Eu acertei – contei.
— Essa é a minha garota! – falou sorrindo.
Holga conseguiu roupas do meu tamanho para mim e isso estava facilitando muito já que eu não precisava mais ficar puxando a saia nem indo no banheiro a cada uma hora para abrir os botões e respirar.
O relógio marcava 9h, então me vesti as pressas para saber qual era a primeira atividade do meu dia. Mary era como se fosse a governanta do Palácio. Ela organizava as tarefas das criadas, os compromissos da família real e tudo que acontecia lá dentro.
, preciso que você vá ao Estábulo Real para selar os cavalos. O príncipe e a princesa irão cavalgar antes do almoço. Você consegue? – ela perguntou.
Assenti e me dirigi até onde me ordenaram. Eu nunca havia ficado tão perto de cavalos, mas isso só serviu para confirmar meu pensamento de que eles eram uma das criaturas mais lindas desse mundo. Me aproximei de um deles com a sela e ele hesitou em deixar. Se afastou e chacoalhou aquela crina enorme. Num ímpeto, abracei a cabeça dele. Quando percebi que ele quieto, soltei-o.
— Eu sei que é um saco sem fundo quando querem fazer com a gente algo que a gente não quer – afaguei seu focinho – Mas nós podemos costurar esse saco e tornar isso uma coisa legal.
Eu podia estar completamente louca mas eu juro que lá no fundo aquele cavalo estava concordando comigo uma vez que na próxima tentativa de por a cela em suas costas, ele permitiu. Com o próximo não foi diferente. Direcionei meu olhar para o gramado que nos rodeava e encontrei um pomar. Bom, de alguma maneira esses cavalos iam ter que gostar de mim.
— Podemos ser amigos agora? – perguntei dando uma maçã para cada um.
— Você não passou por um exame médico antes de vir, não é? – ouvi perguntarem.
Se ele não fosse tão imbecil talvez fosse um príncipe perfeito. Novamente com a roupa de montaria, me encarava escorado em uma das portas do Estábulo. Eu pensei em responder algo mas não valeria a pena. Qualquer xingamento que ele recebesse não faria diferença. Ele seria sempre aquele estúpido de coroa.
— Não, alteza – respondi ajeitando a sela nos cavalos.
Ele cerrou os olhos e me olhou confuso. Talvez porque esperasse algo rude como minha resposta. Sem dizer mais nada, tomou seu caminho para o pátio, onde a rainha e a assistente real da princesa, Gina, estavam se sentando para tomar o café da manhã. Voltei para a cozinha e Holga pediu que eu levasse o bule de café e as servisse. Quando avistei a mesa, enxerguei uma menina loira, a mesma que eu havia encontrado com um dos meus livros favoritos em mãos no dia anterior.
— Obrigada, – a rainha agradeceu quando terminei de servi-la.
Sorri ao ouvi-la pronunciar meu nome. Ela havia se lembrado. A menina loira, que até agora eu não sabia quem era, pegou sua xícara com as duas mãos e num reflexo, derrubou-a soltando um grito. Certamente ela não percebeu que estava quente. Eu poderia simplesmente ter trocado a xícara e saído, mas eu quis ajudar. Servi novamente a xícara e agachei-me ao seu lado.
— Pegue-a assim – falei pegando a xícara delicadamente pela alça – e antes de beber, toque o café nos lábios, assim saberá se a temperatura está boa.
Todos pararam o que estavam fazendo e se colocaram a me encarar. A rainha sorriu dando um gole em seu café. Já o príncipe...
– Como se atreve a insinuar que a princesa não sabe a maneira de se tomar café? – ele se levantou claramente irritado.
... – a rainha falou e foi suficiente para ele se sentar – Novamente, obrigada .
Fiz reverência à ela e saí do ambiente tentando absorver o que eu acabara de descobrir. A menina com quem eu falei ontem, a mesma que eu ajudei hoje... Princesa Erin. Entrei na cozinha sem acreditar no que eu havia acabado de fazer. Eu não iria sobreviver naquele palácio, eu estava fazendo tudo errado e o príncipe ia acabar me matando.
— Eu vi aquilo e por Deus, , não arrume confusões com o príncipe – Estela entrou falando.
É facil falar quando não é você que o príncipe insiste em provocar. Ignorei ela e voltei para o estábulo. Por que? Não sei. Estava penteando os cavalos quando o príncipe e a princesa apareceram para cavalgar. Ele, para exibir seus músculos e parecer o mais atraente possível, sorriu e subiu com a maior facilidade do mundo. A princesa, sem falar nada, ficou encarando o cavalo como se ele fosse uma peça de alguma exposição de arte. Eu e o príncipe ficamos olhando para ela, ambos esperando que ela subisse. Ela virou para mim e como se estivesse pedindo algo muito errado me perguntou se eu podia ajudá-la.
Olhei em volta e encontrei um caixote onde traziam os alimentos dos cavalos. Fui até ele e o posicionei aos pés da princesa como se fosse um grande banquinho. Ela subiu e, enquanto eu segurava sua mão, sentou-se na garupa do cavalo.
— Como eu faço ele... – ela tentava formular a perguntar.
— Para andar, bata com calma seu calcanhar na barriga dele. Se ele for rápido demais você puxa as rédeas – falei colocando a mesma em suas mãos e me afastando.
– ela chamou – Obrigada. Por isso e por aquilo.
Sorri de leve e desejei um bom passeio. Pela primeira vez o príncipe não falou nada. Apenas seguiu a trilha por dentro do pomar ao lado da princesa. Coitada. Era bom ela ser quieta assim mesmo para aguentar aquele poço de grosseria sem matá-lo. Em menos de trinta minutos depois, ouvi os trotes rápidos e avistei o casal Real se aproximando.
– Dê comida para eles – o príncipe falou descendo do seu cavalo.
– Na verdade, você vem comigo – a rainha apareceu e disse.
Por um momento, senti os olhos deles me fuzilarem ao ver que não havia conseguido o que queria. Não pude evitar sorrir e por um momento me senti vitoriosa ao passar por ele. Apesar disso, meu estômago embrulhou e o medo dominou meu corpo. Por que e para a onde a rainha estava me levando?

Capítulo 8

Quando você descobre que tem um escritório no palácio, você imagina que seja do rei por ele ser quem governa seu país, não? Não. O único escritório existente lá era o da rainha. Ela me levou até lá e trancou a porta.
— Eu confio em você, – ela falou quebrando o silêncio – E gostaria que você confiasse em mim também.
— Não compreendo, majestade – falei confusa.
— Venha cá – ela sentou no sofá comigo ao seu lado – Eu quero a história verdadeira. Eu sei que você não é criada. Isso está obvio, e não adianta tentar me enganar.
Se eu contasse a verdade, talvez ela me expulsasse e aí sim eu estaria ferrada. Mas se eu não contasse, perderia a confiança da rainha e aí sim eu estaria encrencada. Por algum motivo, eu me senti segura recebendo o sorriso sincero dela. Minha mãe nunca havia me dado um daqueles.
— Eu não posso ir embora, majestade – falei mais como um pedido.
— E não vai – ela pôs a mão sob a minha.
Então eu contei. Sem pensar duas vezes, despejei a história como se estivesse comunicando que o almoço está servido. Quando terminei, sorri e ela me abraçou levantando em seguida.
— Você pode me trazer outra xícara daquele chá analgésico? Não quero descer para o almoço com esta dor horrenda – ela pediu.
Assenti e me retirei do quarto. Quando estava no corredor, encontrei duas criadas, Jane e Shai, carregando outra que parecia estar quase desmaiando. Quando me aproximei, Jane me contou que estava indo recolher as roupas do príncipe e da princesa quando encontraram aquela criada desmaiada. Lamentei e logo elas perguntaram se eu podia fazer isso. Levar o chá ou recolher as roupas do Senhor Eu Sou Melhor Que Todo Mundo?
Desci rapidamente e pedi para a Holga fazer o chá. Quando Estela entrou na cozinha, perguntei se ela podia entregar o chá e ela concordou. Subi para os aposentos reais e comecei pelo quarto do príncipe. Quanto mais rápido arrancamos um curativo, menos ele dói. Bati na porta e ele permitiu a entrada.
— Ah não, você? Onde está a outra? – ele perguntou vendo que era eu.
— Peço perdão, alteza, trocamos de tarefa – menti.
— Sem enrolação, por favor. As roupas estão no banheiro – ele apontou para a porta atrás de mim.
Abri e encontrei um trilhão de roupas no chão. Ele é um príncipe ou uma princesa? Nem a rainha sujava tanta roupa. Joguei-as em cima da cama e enrolei o lençol formando uma trouxa. Estava terminando de dar um nó na mesma quando escutei o som de uma espada sendo tirada da bainha. Virei e me deparei com o príncipe tentando empunhar a espada. Sem perceber, soltei um riso fraco.
— Do que você está rindo? – ele perguntou bravo.
Soltei a trouxa e fui até ele encarando a espada. Certo, aquela espada era mais linda do que qualquer uma que eu já tive em mãos. Ele continuou me olhando até que eu estendi a mão em direção a espada como um pedido para que ele me entregasse. Ele hesitou, mas a pôs em minha mão.
— Você está segurando muito fraco – falei apertando o punho da espada – Enrijeça seu braço, você não é um boneco de pano.
— Como ousa...
— Tente – o interrompi.
Passei a espada para ele e acho que o que eu falei entrou por um ouvido e saiu pelo outro já que a espada continuava escorregando da mão dele. Bati a mão na testa e respirando fundo fui até ele novamente.
— Isso é ridículo. Você não sabe nada pra estar me ensinando, é só uma criada – ele falou irritado.
— Não sei? – questionei pegando outra espada – Me desarme.
Ele cerrou os olhos e levantou com a espada empunhada. Se meu pai o visse com certeza o consideraria uma mariquinha pois não levou nem cinco minutos para que eu fizesse sua espada ir parar no canto do quarto que por acaso não era pequeno. Dando-se por vencido, ele tentou novamente segurar firme.
— Segure como se fosse a coroa e alguém estivesse tentando tirá-la de você – falei pondo minha mão por cima da dele e apertando.
Por um momento aquilo pareceu algo comum, nada demais. Mas quando percebi o contato que estávamos tendo, ambos tiramos a mão deixando a espada ir para o chão. Senti minhas bochechas ficarem vermelhas e fui em direção a trouxa de roupa.
— É melhor... Eu... Eu vou lá.. Com licença, alteza – falei sem saber o que estava falando.
— É... Você... É... Concordo – ele falou sem me encarar.
Fechei a porta do quarto e parece que o ar voltou para dentro dos pulmões. Estela estava passando com a xícara da rainha então peguei-a e joguei a trouxa nela. Provavelmente por me conhecer, ela não perguntou nada naquele momento e se perguntasse eu não responderia porque o abecedário havia sumido da minha cabeça.
— Você estava com o ? – a rainha perguntou sorrindo chamando minha atenção.
— Recolhendo suas roupas sujas, majestade – respondi pondo o chá em cima da cômoda.
— Ele é difícil. Como a mãe – ela falou.
— Se ele fosse amável como Vossa Majestade talvez fosse bem mais fácil servi-lo.
— É uma armadura, . Ele quer parecer o príncipe forte e destemido que todos esperam que ele seja.
— As vezes o que as pessoas esperam da gente não é quem nós queremos ser.
Com um sorriso, saí do quarto dando de cara com a princesa Erin. Fiz reverência e ela chacoalhou a mão no ar como impedimento para que eu continuasse.
— Não precisa disso – ela falou.
— Sim senhora, alteza – falei pedindo licença.
— Erin – ela falou – Me chame de Erin.
— Sim sen... Erin – me corrigi.
— Você pode vir comigo? – perguntou.
Eu devia aceitar? Ou recusar o convite da princesa? Sem resposta, ela pegou minha mão e saiu puxando-me pelos corredores do palácio enquanto os milhares de guardas nos olhavam sem entender. Subimos até o quarto andar e lá ela parou em frente a uma porta que ia do chão ao teto. Quando ela abriu, meus olhos se encheram com tamanha visão. Todas as paredes da sala, exceto a que continha a janela, eram cobertas por inteiro por estantes com livros.
– Pensei que você gostaria de ler comigo – falou.

Capítulo 9

A princesa Erin era totalmente diferente do príncipe . Ela pediu que eu passasse a tarde com ela e então lemos, passeamos pelo palácio, ela me mostrou o quarto e os vestidos dela... Aliás, isso era algo que nós duas abominávamos: vestidos. A cada vestido que ela mostrava, uma nova careta se formava em seu rosto. Se eu que podia usar calças de vez em quando já odiava vestidos, imagino ela que era princesa e precisava usar todos os dias, 24h.
— Como você aguenta ele? – deixei a pergunta escapar enquanto colocava os vestidos de volta no guarda-roupas e ela assistia sentada na cama.
— Nós não conversamos muito. Na verdade, raramente falamos algo além de ''oi, como vai?'' – ela respondeu passando o dedo no colchão.
— Mas vocês vão se casar. Não acha que deviam tentar pelo menos ser amigos?

Nós somos opostos, , não sei como vou conseguir um casamento com alguém do jeito dele.
Mudamos de assunto e quando percebi já estava quase na hora do jantar. Avisei para a prin... Erin, que precisava ir e voltei para a cozinha. As criadas me encaravam e cochichavam nos cantos. Holga, que até agora não havia aparecido, chegou anunciando que os jantares seriam novamente em seus quartos pois a rainha não estava se sentindo bem. Logo Mary entrou anunciando quem cada uma ia servir.
, você servirá o príncipe – meu corpo gelou.
— Mary, eu preferiria servir a rainha – falei quase inaudível.
— Você não está aqui para preferir, – ela respondeu ríspida.
Estela pegou minha mão como sinal de consolo e eu fui preparar a bandeja do encosto real, ops, quis dizer príncipe. Respirei fundo me vendo ao pé da escada e subi já prevendo a vontade que eu sentiria de bater na cabeça dele com a bandeja. Parei em frente a porta do quarto dele e rezei para que ele não falasse nada assim eu só entraria, largaria a bandeja e sairia correndo. Bati e ele permitiu minha entrada.
— Com licença, alteza – falei entrando e pondo o jantar em cima da escrivaninha.
— Espera – ele falou antes que eu saísse do quarto.
— Sim? – perguntei cruzando os braços nas costas e virando para ele.
Céus, se ele não fosse tão insuportável... Ele estava com uma camisa de pijama e a calça completando o conjunto. Ambos eram azuis celestes com listras finas mais claras que davam um contraste maravilhoso com aqueles malditos e maravilhosos olhos azuis. Se concentra, , foco.
— É não é? – ele perguntou e eu assenti – Como você aprendeu a lutar?
— E-eu... Eu... Sozinha – respondi nervosa – Com licença, alteza.
— Eu não permitirei que saia até falar a verdade – ele falou segurando meu braço e próximo de mim.
Ele virou-me ainda segurando meu braço e eu tirei a mão da maçaneta. Por um momento esqueci o que estava fazendo e fiquei olhando nos olhos dele, que fez o mesmo. Voltei para a realidade quando senti a mão dele apertando meu braço. Olhei para o local e ele entendeu soltando-me em seguida.
— Peço perdão – ele falou se afastando.
— Eu preciso voltar para meus afazeres, alteza – falei.
— Vamos, eu preciso que você faça uma coisa – ele falou pegando meu pulso e saindo do quarto.
— Alteza – chamei-o parando no corredor.
— O que foi? – ele perguntou e eu apontei para seu pijama.
Ele voltou correndo para o quarto e em menos de 10 minutos saiu de lá arrumado pegando meu pulso novamente e me puxando. Hoje as pessoas estavam achando que eu era pano de chão pra ficar sendo arrastada por todo o palácio. Saímos para o pátio e ele me levou até uma cabana pequena. Assim que abriu a porta, dei de cara com uma sala cheia de espadas, escudos, quadros de guardas e soldados e tudo que tinha a ver com guerra. Ele soltou meu pulso e foi até o apoio onde as espadas estavam. Ele pegou uma, me entregou e em seguida pegou outra para ele.
— Eu aceito que você não me responda a verdade – ele falou empunhando sua espada – desde que você me ensine tudo o que sabe.
— Você não pode estar falando sério – falei soltando a espada e revirando os olhos.
— Eu ordeno que me ensine! – ele falou grosseiro.
— Isso só pode ser castigo! – exclamei pegando a espada.
Com um golpe surpresa, o desarmei rapidamente e o mesmo ficou me encarando, sem paciência, como se não estivesse esperando por aquilo e nem gostando.
— Presta atenção! – o repreendi – Você não está jogando xadrez!
— Eu estou prestando! – ele respondeu no mesmo tom que eu.
— Pega de novo – falei apontando para a espada no chão.
— Estou me arrependendo – ele falou juntando a mesma.
Olhei para a maneira que ele segurava a espada com a mão direita por cima da esquerda. Tinha alguma coisa errada ali.
— Com qual mão você escreve? – perguntei.
— Isso é aula de escrita agora? – ele questionou e eu cruzei os braços – Direita.
Agora tudo faz sentido, pensei pondo a mão na testa.
— Você segura o punho da espada com a direita – falei pegando a mão direita dele – E a esquerda em cima apenas para dar apoio – organizei-as.
Ele me olhou de canto de olho e empunhou a espada dessa vez mais firme. Percebi um sorriso surgir no canto da boca dele enquanto ele olhava para as mãos como se estivesse orgulhoso.
— Me desarme – falei me pondo na posição.
Ele deu um... Dois... Três golpes para tentar me desarmar, ele estava quase desistindo até que no quarto golpe, sinto minha testa queimar e ouço o som da espada batendo no chão. O príncipe agora me encarava com os olhos arregalados e o queixo quase no chão. Levei minha mão até onde doía e quando a olhei, estava suja de sangue.
, eu... – ele tentou falar se aproximando.
— Está tudo bem – falei mantendo a calma.
Pude ver uma porta entreaberta e percebi ser o banheiro. Fui até lá ignorando tudo que o príncipe falava sobre saber que isso jamais daria certo e que ele era uma decepção para os homens. Olhei no espelho e o corte não era fundo, havia só pegado de raspão. Ótimo, pelo menos não terei uma cicatriz.
— Tem alguma toalha aqui? – perguntei e ele abriu o armário embaixo da pia.
Assim que me entregou, molhei a ponta em uma garrafa de alcool que encontrei ali também e coloquei sobre o ferimento sentido a ardência passar por todo meu corpo fazendo com que eu fechasse os olhos e espremesse eles e a boca. Apesar da dor, eu não queria que aquilo infeccionasse. Sabe Deus a quanto tempo ele não limpava aquelas espadas.
— Eu vou pegar a caixa de primeiros socorros – ele falou saindo rapidamente da porta.
Ele voltou com uma caixa de madeira branca enquanto remexia nela frustrado quase jogando-a longe. A tirei de suas mãos e coloquei sobre a pia procurando um curativo.
— Podemos repensar o curso de escrita... Assim não tem como te machucar – não pude evitar e sorri.
— Você é capaz de me furar com o lápis – falei e ele riu.
Terminei o curativo e olhei para o relógio na parede. Dez horas.
— É melhor eu ir – falei espanando o vestido.
— Claro, eu... Eu... Te acompanho até lá dentro – ele falou passando a mão pelo cabelo.
Quando estávamos no caminho, encontrei Erin sentada com um livro nas mãos. Assim que ela nos viu abriu um sorriso e veio caminhando lentamente até que mudou sua expressão para preocupada e correu parando com as mãos no meu rosto.
— O que raios aconteceu? – ela perguntou olhando o curativo.
— Foi minha culpa – o príncipe se pronunciou.
– Na verdade, eu estava indo servir vossa alteza quando, sem querer, bati a cabeça em uma porta e ele me ajudou – menti.
— Oh céus... Venha, quero que você jante comigo. Estava esperando você aqui pois sua amiga disse que você tinha saído do palácio – ela falou pegando minha mão.
— Boa noite, alteza – falei fazendo reverência para o príncipe.
Ele sorriu e beijou a mão da Erin nos assistindo ir embora em seguida. Subimos para o quarto dela onde, em cima da mesa de centro, haviam dois pratos e comida para um batalhão.
— Eu não posso, princesa – falei me pondo no meu lugar.
— Entenda isso como uma ordem – ela falou amigável.
Ela tinha um apetite igual ao meu. Logo acabamos com toda a comida ali e nos deitamos no tapete. Ficamos em silêncio até que ela se virou para mim ficando apoiada sobre o cotovelo.
— Isso nunca aconteceu comigo – ela falou.
— Isso o que? – perguntei.
— Isso, de ter uma amiga – ela apontou para nós duas
— Você nunca teve uma amiga? – ela negou.
— Amigas contam tudo uma para a outra não contam? – ela perguntou.
— As de confiança sim – respondi.
— Você não bateu a cabeça na porta – ela falou sorrindo como se dissesse bom dia.
— Eu... – não sabia o que falar.
— Tudo bem, . Eu vi vocês correndo para a cabana – ela falou.
— Eu não quis desobedecer ao príncipe – expliquei.
— E nem poderia. Eu já estive lá... Ele costumava treinar com o irmão mais velho... – falou olhando para o teto.
— Espera, o príncipe tem irmão? – questionei confusa.
— James. Ele e o eram extremamente próximos e James queria fazer parte da guarda real, coisa que o rei e a rainha nunca permitiram. Até que um dia ele fugiu e ninguém nunca mais o viu. As vezes eu acho que esse é o motivo para o ser tão amargo. Ele tinha 14 anos e o irmão 16 – ela contou.
O príncipe tinha um irmão. O príncipe tinha um irmão legal. O príncipe já foi legal quando tinha um irmão legal. Oh céus. Conversamos até meia noite e depois de muitas confissões, veio um comentário.
— Vocês ficam fofos juntos – ela falou.
— Nós nos odiamos – falei sem olhá-la.
— Acho que então você deveria rever seu conceito sobre ódio – ela disse.
Dei boa noite e pedi licença. O palácio estava em um silêncio absurdo, exceto pela porta que havia acabado de ser fechada junto com a do quarto da Erin. Olhei para o corredor e o príncipe estava saindo de seus aposentos. Quando ele me viu, pensei que continuaria seu caminho, mas não. Ele virou para me olhar e eu fui caminhando em direção a escada que, infelizmente, era logo após o quarto dele. Assim que passei por ele, sorri e continuei andando mas então ele segurou meu braço dessa vez com delicadeza.
— Peço desculpa novamente – ele falou olhando para minha testa.
— Está tudo bem, alteza – falei forçando um sorriso.
Ele pegou minha mão e estava a levando até sua boca quando num impulso, eu a puxei. Pedi com licença e no meio da escada, olhei para trás vendo ele parado no mesmo lugar com um sorriso no canto da boca. Talvez a Erin estivesse certa e meu conceito de ódio estivesse errado.

Capítulo 10

No dia seguinte, quando levantei, tive que explicar para todas as criadas que me viam, que eu havia batido a cabeça na porta e cortado. Quando contei para a versão real para Estela, ela deu um surto histérico e começou a dizer que eu e o príncipe formávamos um casal bonito. Mais uma para a coleção de amigas que perderam um parafuso. A única que não havia engolido essa história era Holga, que me fez contar a verdade depois de me prometer que ficaria quieta. O príncipe não havia descido para o café da manhã então eu aproveitei para ensinar Erin a cavalgar já que perto de cavalos ela era uma negação. Paramos na saída do pomar, eu estava de costas para o palácio e ela de frente em cima do cavalo.
— Você está sendo admirada ... – ela falou olhando para o castelo.
Segui seu olhar e dei de cara com o príncipe na sacada de seu quarto. Ele não sorriu, pelo contrário, estampou em seu rosto a pior cara possível e voltou para dentro do aposento. Ou eu estava ferrada ou eu estava ferrada. Erin percebeu a situação e voltou comigo para dentro do palácio, seguindo-me até a cozinha. Quando ela entrou lá, todas as criadas fizeram reverência.
— Gente, ela é normal – falei e todas suspiraram aliviadas.
Aqui na cozinha, tínhamos o hábito de falar que quando um membro real não era um estúpido, imbecil, grosseiro, galã e... Enfim, ele era considerado normal por não ser afetado pela coroa. Ela sorriu e deu oi para todos, sentando-se na mesa em seguida. Comecei a ajudar as meninas a preparar o almoço, que hoje seria no Salão de Jantar, e Erin ficou sentada com o rosto apoiado nas mãos com uma expressão de alegria.
— Me passa as cenouras – pedi para Holga.
— Eu gosto de cenouras – Erin comentou.
Piquei as cenouras e deixei um pedaço para ela. Quando a entreguei, todos pararam para ver como ela comeria. Para a surpresa de todos, sem usar nem guardado nem garfo e faca, ela deu um mordida na cenoura. Quando estava tudo pronto, a acompanhante real da princesa, que eu não havia visto no dia anterior, entrou nos olhando com cara de nojo.
— Algum problema, Gina? – Erin perguntou.
— Senhorita, não acha que pega mal vossa alteza estar no meio de... – ela procurou as palavras – aqui? – se corrigiu.
— Não. Pode tirar o dia de folga. A me ajudará no que eu precisar – Erin falou pegando minha mão.
O olhar da Gina sobre mim pareceu abrir outro corte na minha testa. Com certeza ela estava me odiando muito. Ela sorriu e saiu bufando assim que virou as costas. Eu mostrei a língua e a Erin riu.
— Oh, céus. Preciso me aprontar – ela falou levantando – Você vem comigo?
— Não posso, tenho que..
— Vai lá, – Holga falou.
Subi com Erin e, depois de uma hora, ela conseguiu escolher um vestido. Por mais que ela tentasse se distanciar dessa vida de princesa, aquilo estava no sangue dela e era impossivel não perceber. Era só por ela diante de uma situação em que ela está sendo pressionada. Ela escolheu um vestido laranja escuro, leve, com detalhes dourados. Odiei aquela roupa. Mas se ela estava se sentindo bem... Quando saí no corredor com ela, dei de cara com a rainha saindo de seu quarto.
— Oh, , ainda bem que a encontrei – ela falou vindo até mim – está no escritório dele, você poderia chamá-lo para almoçar?
— Eu... – olhei para Erin esperando que ela me tirasse dessa.
— Vai lá – Erin falou sorrindo. Maldita.
Desci até o escritório, passando por inúmeros guardas. Aliás, quantos guardas será que tinham no palácio? Certamente eu pararia para contar. Parei no corredor e lembrei um fato importante: eu não sabia onde era o escritório do príncipe. Parei na frente de um guarda que ignorou totalmente minha presença e continuou olhando para cima tendo seus olhos quase tapados por aquele chapéuzinho estranho que eles usavam. Inclinei meu corpo e virei a cabeça olhando para cima para enxergar por baixo do chapéu.
— Com licença... Onde é o escritório do príncipe? – perguntei e ele virou a cabeça na direção de uma única porta no fim do corredor.
Se a porta já era gigantesca, eu mal podia imaginar a sala. Bati na porta três vezes e na terceira ela se abriu sozinha como se estivesse apenas encostada. Enfiei a cabeça para dentro a procura do príncipe, mas não havia ninguém lá. Pensei em dar meia volta, mas um quadro me chamou atenção. Eu vou me meter em encrenca, estou sentindo. Mas vou matar minha curiosidade antes. Entrei na sala e encostei a porta. Fui até o quadro que tinha pintado dois meninos de terno. Um era alto, moreno, os cabelos bem curtos e escuros e os olhos azuis como uma piscina. O outro era menor, cabelo loiro e olhos também azuis. Embaixo uma frase curta. "Até o fim". Olhei novamente a pintura como um todo e uma luz iluminou meu cérebro. e James.
— O que você está fazendo aqui? – ouvir aquela voz fez com que eu fechasse os olhos de medo.
Virei lentamente me sentindo uma criminosa pega no flagra. Ele estava sério me encarando até que desviou seu olhar para trás de mim. Foi então que ele percebeu o que eu estava olhando.
— Sua criada intrometida! – ele falou me pegando pelo braço.
— Ah, voltou a ser o troglodita... – murmurei.
— Como ousa falar comigo assim? Como ousa pensar que tem direito de falar com o príncipe assim? – ele questionou me puxando para longe do quadro.
— Sua mãe mandou eu lhe chamar para o almoço! – expliquei.
— Eu não preciso que me chamem para nada! Eu não sou mais uma criança, James! – ele gritou sem se dar conta do que havia dito.
Ele me soltou e sem falar mais nada, saiu porta a fora, deixando-me ali, estarrecida e sem entender o que havia acabado de acontecer. Eu estava confusa tentando achar uma razão para ele ter ficado tão furioso por causa de uma pintura e logo em seguida ter me chamado de James. Saí as pressas fechando a porta e indo para a cozinha. Estela estava sentada mexendo uma colher dentro de uma vasilha. Ela estava fazendo bolo.
— Ué, apareceu a margarida – ela falou assim que viu-me entrar.
— Larga isso e vem comigo agora. – falei.
Puxei-a até o lado de fora do palácio e contei tudo desde o que a Erin havia me dito até o acontecido poucos minutos atrás. Ela estava séria olhando para o nada até que eu estalei meus dedos na frente dela.
— Esse menino – ela apontou para o palácio – não bate bem da cabeça.
— Eu sei – concordei.
— E nem você, sua mula! – ela deu um tapa na minha cabeça – Você está louca de entrar assim no escritório do menino para bisbilhotar? Você não é mais a filha de uma dama, ... Você é apenas uma criada agora.
– Depois do almoço eu me desculparei com ele – falei e ela se deu por vencida.
Voltamos para a cozinha e eu a ajudei a terminar o bolo. Eram duas da tarde quando perguntei para um guarda se o príncipe se encontrava em seu quarto. Subi as escadas engolindo um pouco do meu orgulho a cada degrau. Ok, , isso tem de ser feito. Bati na porta e ele a abriu. Sem falar nada, deu as costas indo para a sacada deixando a entrada livre para mim.
— Alteza – fiz reverência – Venho por meio desta visita, pedir perdão por minha intromissão mais cedo – falei escolhendo cautelosamente as palavras.
— Vamos dar uma volta – ele disse pegando minha mão e me puxando.
— Alteza, eu não...
– me corrigiu – e não foi um pedido.

Capítulo 11

Ele estava com uma calça preta justa, parecida com a de montaria mas mais formal. Usava uma camisa branca larga e botas pretas que iam quase até o joelho. Não pude evitar rir quando olhei para ele e lembrei dos Três Mosqueteiros. Eu odiava ficar em silêncio, mas, considerando que o príncipe era imprevisível, eu preferia assim. Estávamos bem distantes do palácio, no meio do pomar, caminhando lado a lado somente com o barulho do vento sacudindo os galhos das macieiras.
— Alteza, eu deveria... – tentei quebrar o silêncio.
– ele me interrompeu corrigindo.
. Eu deveria voltar para as minhas tarefas – falei.
— Eu quem decido isso – ele respondeu seco sem me olhar.
Aquilo já estava me irritando. Ele me pede para ensiná-lo a lutar, aí corta minha testa e se preocupa. No dia seguinte me encara de longe como se eu fosse um monstro, quase deixa um roxo no meu braço por um quadro, me chama para passear e decide ser estúpido na única vez que abre a boca.
— Por Deus, menino, qual o seu problema? – explodi – Uma hora você parece ser um cavalheiro e na outra é um ogro sem sentimentos.
— Como ousa..
— Está vendo?! Você não decide qual personalidade quer obter. Se quer ser o cara que todo mundo tem medo de chegar perto, inclusive sua noiva, ou se quer ser o cara que ajudou uma criada quando ela se machucou – o interrompi.
...
— Não! Desde que eu cheguei aqui, eu só recebo alfinetadas, inclusive uma delas me rendeu um corte na testa na noite passada – falei rindo sem querer.
— Posso falar? – ele perguntou gritando.
— Não! – respondi no mesmo tom.
Ele ergueu uma sobrancelha e me encarou como se aquilo fosse uma brincadeira. Me dei conta do que tinha dito e tapei o rosto com as mãos. Eu estava brava, admito, mas devia também lembrar que ele era o príncipe, o herdeiro do trono, o cara que se quisesse poderia me mandar para a prisão. Respirei fundo e me preparei para pela segunda vez no dia pedir desculpas.
— Tudo bem – ele falou assim que eu abri a boca – Eu sei que eu sou insuportável as vezes – foi minha vez de erguer a sobrancelha – Ok, sempre. Mas eu também posso ser legal.
Lembrei da Erin falando que ele deixou de ser legal quando o irmão fugiu. Eu queria perguntar o porque de ele ter ficado bravo por causa do quadro, mas achei que já havia passado muito dos limites então me controlei.
— Fico feliz que você e a princesa estejam se dando bem. Ela estava tão sozinha aqui e... Nossa relação não é a melhor do mundo – ele falou.
— Eu gosto muito dela. Ela não deixa o título influenciar no comportamento dela – deixei escapar.
— Eu senti essa indireta – ele falou sorrindo.
— Assim é bem melhor – pensei alto olhando para ele.
— Assim como? – ele perguntou.
— Sorrindo. Que nem gente – provoquei.
Ele riu baixo olhando para os pés e continuamos andando até que chegamos no fim do pomar onde haviam vários guardas. Provavelmente ali era a saída do palácio.
— Alteza – eles fizeram reverência.
sorriu para eles que arregalaram os olhos como se não acreditassem no que estavam vendo. Então deu meia volta e com a mão nas minhas costas, fez com que eu também desse.
— Quantos anos você tem? – ele perguntou enquanto caminhávamos.
— Dezesseis – respondi – E você?
— Dezessete. Mas farei Dezoito em menos de um mês – respondeu.
— Então teremos uma festa para fazer?! – falei pensando no trabalho que daria.
— Você vai me ajudar? – ele perguntou.
— Não... Quer dizer, não sei. Eu quis dizer nós, criadas, já que trabalharemos duro para que seu aniversário de maioridade seja o melhor. Afinal, depois disso, você será um herdeiro oficial – expliquei.
— É... – ele concordou olhando para o além.
— Você não quer assumir o trono? – perguntei.
— Não se eu precisar me casar para isso – ele respondeu e eu certamente não esperava por isso.
Então ele também não queria se casar. Céus, o que a família real estava fazendo com a vida de seus herdeiros? Eles não conversavam, não se gostavam e eram obrigados a se casar. Eu não sabia o que dizer pra ele já que falar ''não se case então'' não era uma opção pois se ele não se casasse, causaria uma briga e não seria mais o rei. Fomos andando até o palácio onde na porta, encontramos a rainha e a princesa. Meu rosto deve ter ficado roxo já que quando olhei para a Erin, ela segurava o riso.
— Procurei você por toda parte – a rainha falou se aproximando.
— Eu estava no pomar, desculpe mãe – falou.
— Não você, ela – corrigiu apontando para mim.
— Posso ajudar, Majestade? – perguntei.
— Pode. Eu e a princesa vamos sair. Vá se aprontar – ela falou olhando para meu vestido.
— Não entendo, Majestade – falei confusa.
— Você vai com a gente. Vamos, deixei uma roupa em cima da sua cama – Erin falou.
Ah não, voltou a tortura dos vestidos. Sorri e segui andando até meu quarto no fundo da cozinha. Quando entrei, encontrei uma calça preta em cima da cama acompanhada de uma blusa de manga comprida cinza e botas parecidas com as de . Vesti-as e, por um milagre, serviram perfeitamente em mim. Elas estavam me esperando na porta do Palácio e quando eu fui ao seu encontro, ambas sorriram me vendo sorrir também.
— Eu disse que ela adoraria – Erin falou.
— Você está linda! – foi a vez da rainha falar.
Quando entramos no carro, fiquei deslumbrada. Nunca havia estado dentro de um antes. Os bancos eram de um material gelado que parecia couro e o espaço onde estávamos sentadas era enorme. A rainha e Erin começaram a rir da minha cara e só pararam quando o motorista nos perguntou onde queríamos ir.
— Para a cidade, Joe! – a rainha respondeu.

Capítulo 12

Passeamos por toda cidade atraindo olhares curiosos que não tinham certeza se aquela era mesmo a rainha ou uma pessoa muito parecida. Eu achei perigoso andarmos desacompanhadas, não por mim, mas sim pelas duas pessoas ao meu lado que se acontecesse alguma coisa desestabilizariam um país inteiro. Graças a Deus, para minha sorte, não aconteceu nada, no máximo reverências.
A rainha pediu que fosse comprar alguns legumes na feira e sumiu com Erin. Depois que eu comprei tudo, encontrei Joe escorado na porta do carro. Ele guardou as coisas no porta malas. Joe era novo, tinha 20 anos e, digamos que não era de se jogar fora. Ele não era como o príncipe, a pele dele era extremamente clara e os cabelos eram tão pretos quanto os olhos. Ele era bonito, um bonito normal. Nada que fizesse as mulheres se jogarem aos seus pés mas sim direcionar o olhar quando ele passava.
— Eu vim para cá com a sua idade – falou – a rainha me acolheu de braços abertos.
— Entendo – falei lembrando do dia que contei a minha história.
— Eu sei que sim – ele falou piscando.
Como assim ele sabia? Será que ela havia falado algo para ele? Ah meu Deus... Eu abri a boca para perguntar o que ele queria dizer com aquilo mas antes que eu fizesse isso, a rainha e a princesa chegaram com caixas de compras. Ele guardou as embalagens no porta malas e sentou no banco do motorista questionando se a rainha desejava ir para algum outro lugar. Ela pediu que ele nos levasse para o Palácio e assim ele o fez. Quando estávamos saindo da cidade, tive a infelicidade de ver uma cena que fez meu coração se auto esmagar. Um homem numa banca de flores assistindo com um sorriso uma mulher brincar com três crianças. Duas meninas e um bebê. Uma família. Céus, como eu sentia falta deles... Senti meus olhos ameaçarem deixar as lágrimas saírem mas os impedi, tapando-os.
— Está tudo bem, ? – Erin perguntou tempo depois.
Balancei a cabeça afirmando e, para minha sorte, não demoramos para chegar. Assim que desci, pedi licença e corri para o meu quartinho. Assim que fechei a porta, não consegui mais impedir. Chorei mais do que no dia do pedido de casamento. Quando as lágrimas pararam, já haviam se passado uma meia hora.
– Mary chamou minha atenção abrindo a porta.
— Agora não, Mary, por favor – implorei.
— Você não está aqui para chorar. Estão todos no jardim a espera do café – falou – Levante-se e vá servi-los. Agora.
Ela saiu deixando a porta aberta e eu levantei secando o rosto com a manga da blusa. Troquei aquela roupa pelo vestido e o avental e saí dando de cara com todos me olhando na cozinha, inclusive Estela, que assim que me viu, veio abraçar-me. Eu pensei que indo embora, iria ser livre para decidir o que eu quisesse. Mas o fato é que mesmo sendo um pé no saco, aquela era minha família.
— Está tudo bem! – ela falou passando a mão nas minhas costas.
Dei um sorriso para ela e peguei uma bandeja com bule e xícaras. De longe, enxerguei a rainha, o rei, e Erin na mesa, rindo de alguma coisa. Me aproximei e enquanto outra criada colocava biscoitos nos mini pratos, eu servia as xícaras.
— Você está bem, ? – a rainha perguntou chamando a atenção de todos na mesa.
Assenti com um sorriso de canto, forçando meus olhos a não marejarem e coloquei o bule na mesa desejando um bom café. Eu estava bem até agora, por que eu tinha que desabar? Olhei para trás e percebi o olhar do direcionado a mim enquanto todos na mesa continuavam conversando.
! – Estela chamou quando entrei na cozinha.
Olhei para ela e ao lado dela estava um homem alto, de farda, cabelos grisalhos e um sorriso que eu reconhecia de longe. Essa imagem foi o suficiente para que o choro voltasse.
— Eu pedi para chamarem ele. Pensei que você se sentiria melhor – falou.
Ele abriu os braços com um olhar confortador e eu não resisti. Aquele abraço me trazia a sensação de estar em casa mas ao mesmo tempo me lembrava que eu estava longe de lá. Enquanto eu continuava chorando como uma condenada, ele passava a mão nas minhas costas e dizia que tudo iria ficar bem, que ele estava lá e estaria sempre que eu precisasse.
Obviamente depois de receber os olhares curiosos das criadas, nós fomos para o jardim onde estava mais tranquilo. Sentamo-nos em um banco e depois de eu contar como estava tudo desde que eu cheguei, inclusive sobre o corte na testa, ele me falou como estavam as coisas em casa. Minha mãe escondia a tristeza e fingia que estava tudo bem, mas no fim do dia, minha irmã contou que ela se deitava para chorar. O Henri não brincava mais com os coleguinhas e a Amélia estava usando calças como forma de me homenagear.
— Quem diria, Amélia usando calças – falei sorrindo ao pensar na minha irmã, uma perfeita dama, usando calças.
— E o ... – meu pai começou a frase – Pergunta por notícias suas todos os dias..
Aquele idiota. Não respondi ao meu pai então mudamos de assunto. Ele tirou de dentro da farda um grande envelope preso com uma caneta. Eram folhas em branco que ele havia trazido caso eu quisesse escrever alguma carta para alguém. Eu sabia que ele queria que eu escrevesse para minha mãe. E eu sei que no fundo eu também queria. Abracei-o e ele disse que quando eu escrevesse, era para mandar lhe chamar que ele buscaria e as entregaria.
— Boa tarde – ouvimos uma voz.
Meu pai se levantou rapidamente e fez reverência vendo a rainha ali parada na nossa frente. Ela sorriu para mim e olhou para o meu pai esperando que eu confirmasse o que ela pensava.
— Majestade, esse é meu pai, Nicholas – falei e ele arregalou os olhos me olhando – Ela sabe.
— Parece que nossa menina não está bem, não é Capitão... – ela olhou para o nome dele na farda – Potter.
Meu pai avisou que precisava ir pois não podia deixar a Guarda muito tempo sozinha. Despediu-se da rainha e me deu um beijo na testa falando que me amava. Ele correu em direção ao portão e a rainha, ao ver meus olhos encherem d'água novamente, abriu os braços pronta para me abraçar.
— Você é a cara do seu pai – falou abraçando-me de lado.
— Mãe! Procurei você por toda... – parou de falar assim que me viu – O que aconteceu?
— Alergia – respondi fingindo coçar o nariz.
— O que foi, ? – a rainha perguntou sem me soltar.
— Não parece alergia – ele ignorou a rainha e continuou olhando para mim.
— Encontrei você! – Erin veio correndo na nossa direção.
Ela me abraçou e parou assim que viu a rainha e . Sorriu para eles e me puxou pedindo licença. Fomos até o quarto dela e ela entrou na frente me puxando mas assim que eu pus o pé na porta, senti meu braço sendo puxado.
— Eu exijo saber o que aconteceu! – falou sério.
, va.. Oi – Erin falou aparecendo na porta.
Ele soltou meu braço e beijou a mão da Erin que continuou olhando para mim e para ele. Depois de um pequeno silêncio constrangedor, Erin perguntou se ele precisava de alguma coisa.
— Eu queria falar com a sobre... – ele pensou – Sobre.. O jantar!
— Sobre o jantar? – Erin perguntou confusa.
— É – ele confirmou pegando minha mão e discretamente me puxando para fora do quarto.
— Mas eu preciso falar com ela! – Erin gritou enquanto eu era arrastada pelo príncipe.
Olhei para ela desesperada pra que ela me puxasse de volta. Eu não queria conversar com ele nem ter que ouvir ele perguntando por que eu estava assim. Infelizmente, já era tarde demais. Ele abriu a porta de seu quarto e entrou me puxando fechando a porta em seguida.
— Será que agora você pode me responder? – ele perguntou soltando meu braço.
— Eu só estou com saudades de casa. Não posso? – respondi impaciente.
Senti que mais uma vez ia chorar e ficar com mais raiva ainda. Por que eu estava chorando tanto? Eu não devia estar feliz? Funguei e fui até porta pronta para sair dali e ir até o quarto de Erin. Quando pus a mão na maçaneta, senti mãos segurarem meus braços e me virarem. estava me encarando sem expressão até que, de repente, me puxou para si e me abraçou.
— O que você está fazendo? – perguntei sentindo meu rosto encostar na camisa dele.
— Eu não faço a menor ideia – respondeu.
— Ok – passei meus braços ao redor dele.
Ele tinha cheiro de flores, mas não um cheiro forte. Era delicado, mas ao mesmo tempo bom. Sem me dar conta, acabei passando uns 10 minutos ali, abraçada nele, com a cabeça vazia, sem pensar em nada. Será que eu havia enlouquecido?
— Eu... – soltei-o me distanciando – preciso ir.
Por algum motivo eu travei. Depois que falei isso, ao invés de abrir a porta e sair, fiquei encostada nela olhando para ele até que ele começou a se aproximar. Ele parou a uma distância quase inexistente de mim e ficou me analisando.
— Ainda dói? – ele perguntou segurando meu rosto com uma mão e passando a outra no corte na testa.
— Nã-não – gaguejei pondo a mão no local e tocando sem querer na dele.
— Que bom – falou segurando a minha mão que estava no machucado.
— Eu preciso ir – empurrei-o e saí porta a fora.
Entrei sem bater no quarto da Erin e ela estava sentada no chão lendo um livro com as costas apoiadas nos pés da cama. Ela me olhou como se não entendesse o motivo do meu desespero ao entrar mas então sorriu e levantou.
— Eu acho que eu enlouqueci – falei.

Capítulo 13

Nunca, nem nos meus sonhos mais absurdos, pensei que fosse ver uma princesa pulando dando gritos histéricos de alegria. Quando falei pra Erin que o príncipe havia me abraçado, foi essa a reação dela.
— AI MEU DEUS! – ela gritava enquanto pulava com as mãos no rosto.
— Erin! Shh! – fiz pondo a mão na boca dela – o quarto dele é aqui do lado!
— Ele ia te beijar! – ela gritou abafado e depois voltou a pular.
Cruzei os braços e fiquei esperando ela parar de enlouquecer. Sim, enlouquecer porque uma pessoa normal não surta de alegria quando o noivo tenta beijar a amiga. Depois de alguns minutos, ela se jogou no chão ainda rindo.
— Você se esqueceu que vocês vão se casar? – perguntei.
— Não se ele encontrar outra noiva... – ela falou me olhando com um sorriso.
— Vou chamar um médico, você está delirando! – falei andando até a porta.
Eu havia acabado de fugir de casa para não ter que me casar e a Erin achava que eu faria isso aqui. Com o príncipe. Estava quase saindo do quarto, realmente sem vontade de falar daquilo, quando a Erin começou a gritaria que não tocaria mais no assunto.
— O Joe perguntou se nós somos muito amigas... – falou.
— Hmmmm... – murmurei sorrindo desconfiada para ela.
— Ela é uma graça, você não acha? – ela perguntou olhando pro teto com um sorriso.
— Tenho certeza! – falei e nós duas caímos na risada.
— Princesa? – alguém chamou do lado de fora do quarto.
Ela levantou para ver quem era apesar de que aquela voz era impossível não reconhecer. Assim que ela abriu ainda rindo, ele olhou para dentro do quarto me enxergando de cara. Ele sorriu como se estivesse confirmando o que já sabia.
? – Erin chamou a atenção dele.
— Ahn? – ele olhou para ela – Ah sim, gostaria de saber se você deseja dar uma volta comigo?
— Eu? – Erin questionou virando e olhando para mim que dei de ombros como se não se soubesse de nada – Acho que... ok! – respondeu desconfiada.
Ele avisou que esperaria ela no hall de entrada e ela fechou a porta com cara de horror.
— Por que diabos ele quer passear comigo? – ela perguntou abrindo a porta do guarda roupas.
— Porque vocês vão se casar quem sabe? – perguntei rindo e ela riu junto.
Ela colocou um vestido que eu achei simples considerando que ela é da realeza. Nós descemos conversando sobre os guardas bonitos e infelizmente a sorte não estava a meu favor.
— Mas eu prefiro o Joe e sei que você também – falei.
— O motorista? — a voz de soou.
Eu e a Erin nos viramos, acho que ambas com o coração na mão e o resto do corpo congelado. Eu podia falar de outros homens, mas ela não. Mesmo que eles não se gostassem, ela ainda estava comprometida.
— O que? O motorista? Quem falou de motorista? Eu não falei de motorista. Você falou de motorista, ? – Erin começou a tagarelar.
— Eu também não falei de motorista. Mal sabemos quem é o motorista. Por que a gente ia falar do motorista? – fiz o mesmo que ela.
— Alguém falou em motorista? – o Joe perguntou entrando tirando seu cap.
— Isso só pode ser brincadeira – pensei alto.
— Oi, Joe – Erin virou-se sorridente para ele.
— Boa tarde, princesa. Vim perguntar se posso conversar com a – ele falou olhando para mim.
— Não – respondeu e nós três viramos para ele.
— Pode – falei voltando-me para o Joe com um sorriso.
— Eu quem decido. E eu decido que não pode – insistiu.
, por que ela não.. – Erin tentou falar.
— Vá para a cozinha, – ele a interrompeu olhando para mim.
Erin me encarava confusa enquanto tinha seus olhos cravados no pobre Joe. Engoli minha vontade de mandar vossa alteza para o inferno e pedi com licença me direcionando até a cozinha. Estava andando quando ouvi passos de salto e virei para olhar. Como eu sou eu, quando virei para frente, foi só o tempo de enxergar a pilastra e eu senti minha cabeça latejar.
! Cuidado com a... – ouvi a voz da Erin. Tonteei e senti duas mãos seguraram minha cintura. Abri os olhos e a sala toda estava girando. Parecia que alguém tinha enfiado a faca no corte da minha testa e aberto mais ainda. Quando consegui ficar de pé, senti algo escorrer no meu rosto e quando levei a mão, novamente ela estava suja de sangue.
— Isso com certeza é brincadeira – falei ficando em pé sozinha.
, você está bem? – ouvi a voz do Joe.
— Óbvio que ela não está. Você é cego? – respondeu.
— Calem a boca – falei – Minha cabeça está explodindo.
— Eu vou te levar até a cozinha. A Holga vai saber o que fazer – Erin falou passando meu braço pelo ombro dela.
— Deixa que eu levo ela – falou puxando meu outro braço.
— Vossa Alteza já interferiu demais por hoje – ela respondeu tirando meu braço da mão dele.
Minha cabeça doía tanto que eu não conseguia manter os olhos abertos. Erin foi me guiando até que chegamos na cozinha. Reconheci o lugar pelos gritos da Estela e da Holga. Fui sentada e senti o curativo sendo tirado da minha testa.
— Oh Céus, . Isso está infeccionado – Holga falou.
— Vou chamar a rainha – Erin disse.
já fez isso – a voz da rainha ecoou pela cozinha – Chamem um médico.
Meia hora depois, havia um senhor de uns 60 anos olhando o machucado. Ele limpou e me deu um liquido horrível para tomar. Pediu que eu fosse deitar na cama e ele foi atrás tirando da maleta uma agulha e uma linha. Arregalei os olhos e me sentei apressada sentindo minha cabeça doer.
— Você vai me costu... – não vi nem ouvi mais nada.

Capítulo 14

Abri os olhos e estava no quarto da Erin, deitada em sua cama. Sentei-me rapidamente e parecia que tinha levado uma panelada na cabeça. Era noite, o quarto estava escuro e aos meus pés dormia uma loira com as pernas encolhidas. Na poltrona ao lado da cama, estava o dormindo de boca aberta. Olhei no relógio que tinha na parede e eram 3h. Por quanto tempo eu dormi??
? – chamou se espreguiçando.
— Você pode por ela na cama? – perguntei apontando para a Erin.
Levantei e ele fez o que eu pedi. Ela já estava de camisola então eu só a tapei enquanto ela suspirava. Olhei para mim e eu estava com a blusa de manga comprida cinza que havia usado no passeio e uma calça de pijama azul marinho. Aquela calça não era minha. E conhecendo a Erin como eu conheço, aquela calça também não era dela. Só sobrava o.. . Não, não pode ser.
— Essa calça é sua? – perguntei ao apontando para a mesma.
— Agora é sua. Soube que gosta de calças – ele falou sorrindo.
Ignorei ele e fui até o banheiro para me olhar no espelho. Meu cabelo estava solto me dando uma visão tenebrosa da situação dele. Ele era pouco mais claro que o de Erin e ia até abaixo dos ombros. Tirei a franja dos olhos e pude ver um curativo no corte. Abri-o e enxerguei quatro pontos. Foi aí que me veio a lembrança do me mandando para a cozinha, da minha testa colidindo com a pilastra e do médico passando a linha na agulha.
— Ele falou que depois que cicatrizar mal vai aparecer. Só precisou costurar porque tinha infeccionado e assim não melhoraria nunca – parou na porta do banheiro.
Tentei forçar um sorriso e dei boa noite indo de encontro a porta. Aquilo era culpa da mão boba dele que não conseguia segurar uma espada com firmeza. Saí do quarto com cuidado e em silêncio até que na beira da escada fui virada bruscamente batendo no corpo de alguém.
, eu... – me encarava segurando meus dois braços.
— Eu vou cair – senti meus pés beirarem a escada.
Ele me puxou para trás e continuou me encarando ainda sem me soltar. Por que ele tinha que ser tão lindo? Aqueles olhos , o cabelo curto e a barba rala da mesma cor. Ele era maravilhoso, fosse de pijama, fosse de roupa de montaria. Ele soltou meus braços e passou as mãos para meu rosto se aproximando cada vez mais.
— Eu queria saber... – encostou a boca no meu ouvido – Se você vai me ajudar com a festa – sussurrou.
Eu não respondi. Nem tive tempo. Ele foi passando a boca pela minha bochecha até que chegasse na minha. Nossos narizes estavam colados e a única coisa que se repetia na minha cabeça era que ele ia me beijar. E ele ia mesmo se não tivéssemos sido atrapalhados.
— Alteza? – olhei para trás dele e enxerguei aquela mulher morena e bem arrumada que me odiava.
— O que é?! – ele se virou furioso.
— Ouvi um barulho e pensei que o senhor precisava de ajuda – Gina falou sem se mover.
— Não eu não precisava e estava muito bem até você chegar – disse, bravo.
Coloquei a mão no braço dele impedindo que ele se movesse porque pelo tom de voz dele, eu não duvidaria de nada. Quando vi Gina me encarando, soube que ela certamente estava planejando minha morte. Foi aí que me dei conta do que eu estava fazendo. Isso era totalmente errado. Ele era um príncipe e ia se casar com a minha amiga. Como eu poderia beijá-lo no meio do corredor sabendo disso?
— Lamento incomodar, alteza. Boa noite – ela falou entrando no quarto de Erin.
Ele suspirou e passou as mãos nos cabelos enquanto eu tirava a minha de seu braço. Eu queria sair dali mas estava estática, sem coragem para sair de perto dele.
— Nós podemos ir para o meu quarto – ele falou sorrindo de canto.
— Eu acho melhor não. Boa noite, – falei.
Me inclinei para dar um beijo na bochecha dele e assim que o fiz, ele virou o rosto fazendo com que nossos lábios se tocassem e eu me assustasse. Pus a mão na boca e ele riu baixo passando o polegar pela minha bochecha obviamente vermelha.
— Boa noite, – falou indo para seu quarto.
Desci as escadas correndo e fui para meu quarto onde Estela já dormia na cama do lado da minha. Sentei-me e quando me dei conta, estava sorrindo feito um boba. Eu não sabia o que era isso que eu estava sentindo mas se era relacionado ao , não teria consequências boas. Na manhã seguinte, quando vi estava contando tudo para a Estela ainda sorrindo.
— Uou, uou, uou, uou – pôs as mãos na cabeça – ele o que?!
— Shh! – tapei a boca dela.
Ela me deu um sermão. Disse que isso tudo era absurdamente errado e que eu me meteria numa encrenca das brabas e aí sim ela ia querer ver pra onde eu ia fugir. Olhei pela janela da cozinha e vi Erin indo em direção ao Jardim com um livro. Eu precisava contar isso para ela.
— Isso, vai lá contar pra noiva dele que ele quase te beijou! – Estela falava enquanto eu saía.
Fui correndo até ela e quando abri a boca para falar, ela disse que já sabia. Olhei pra ela esperando que ela falasse algo então ela largou o livro em um banco, pegou minhas mãos e começamos a gritar e pular igual duas malucas.
— EU TE DISSE! – ela gritava.
— Espera, como você soube? – perguntei parando de pular.
— Gina. Nós brigamos. Ela me chamou de trouxa. Disse que eu estava deixando uma criada roubar meu noivo bem debaixo do meu nariz – ela explicou.
— E o que você disse?
— Mandei ela pro inferno. Já estava cansada dela sempre me dando sermões – falou.
— Sabe quem parece ter vindo do inferno? – perguntei olhando para o pátio.
Ela se virou e deu de cara com o Joe de camisa de manga curta e uma bermuda. Ele estava suado e com uma expressão de cansado que fez com que suspirássemos e o queixo da Erin caísse.
— Alteza – fez reverência ao se aproximar de nós duas – ... – cumprimentou-me.
— Você estava correndo então, Joe? – quebrei o silêncio já que a Erin estava paralisada.
— Estava – respondeu sem tirar os olhos da Erin.
Eles ficaram se encarando enquanto eu olhava para os lados e tentava fingir que não estava sobrando. Aquilo já estava ficando incomodativo até que tive uma ideia.
— Joe, a princesa precisa ir até a cidade comprar um vestido para usar no aniversário de 18 anos do príncipe – comecei a falar.
, o que você... – Erin tentou falar baixinho
— Você poderia levar ela? Eu infelizmente terei que ajudar a rainha – falei.
— Será um prazer – ele disse.

Eu mereço um prêmio.

Capítulo 15

Refeições no salão estavam sendo raras. Erin havia ido até a cidade com Joe para ''comprar um vestido'' e sem ela o palácio ficava em silêncio. O almoço foi servido nos quartos, depois de insistir muito, Estela aceitou levar o almoço do príncipe e eu o da rainha e do rei.
— Com licença – falei entrando assim que o rei George abriu a porta.
... – começou a falar pondo a mão na cabeça.
— Chá analgésico – a interrompi, que sorriu concordando – Já trago.
Coloquei a comida em cima da mesa que havia embaixo da janela e me retirei do quarto. Quando estava no corredor, ouvi uma porta bater e uma Estela impaciente sair do quarto do príncipe com a bandeja na mão.
— Ele só vai almoçar se você levar – ela falou apontando para a porta com a cabeça.
Suspirei e fiz o sinal da cruz. Que Deus me proteja e não me deixe cair em tentação pela primeira vez depois de tanto esforço nessa vida. Peguei a bandeja das mãos dela e fui em direção ao quarto batendo na porta em seguida.
— Eu já falei que só como se a ... – ele parou de falar ao me ver – Oi.
— Com licença, alteza – falei passando por ele e pondo a bandeja em cima da cama.
Limpei as mãos no avental e mirei a porta pronta para sair. Não tive tempo nem me afastar da cama. colocou as duas mãos no meu rosto e ficou olhando para minha boca. Ah não, isso só pode ser brincadeira.
— Eu te devo desculpas – ele falou beijando minha bochecha.
— Alteza... – tentei empurrá-lo, mas em vão.
Ele roçou o rosto no meu e eu desisti de afastá-lo. Aquela sensação de mente vazia havia surgido novamente e se me perguntassem eu não saberia responder nem meu nome. Ele aproximou a boca da minha e eu senti a respiração dele na minha pele. Eu queria beijá-lo, mas eu não podia.
, você vai se casar– — falei em alto e bom tom para que meu cérebro também entendesse isso.
— Você sabe melhor do que eu que nenhum de nós dois queremos – respondeu se afastando.
— E porque vocês não falam isso para os seus pais? – perguntei sentando na cama.
— Porque não é assim, – ele se sentou na poltrona no canto do quarto.
— É claro que é, . Vocês não se gostam. Vocês são totalmente diferentes. Vocês nem conversam!
— Eu não tenho escolha ok? Eu sou um príncipe e preciso me casar com ela para assumir o trono. Você não entende, é só uma criada – falou.
Certo, essa doeu. Senti vontade de levantar e esbofeteá-lo por ter dito isso quando eu entendia mais de casamentos por obrigação do que ele. Afinal, se eu estava lá, era por causa disso. Respirei fundo e levantei, fazendo com que ele se desse conta do que tinha dito.
, eu não quis... – ele se levantou.
— Com licença, alteza – falei saindo do quarto.
, por favor, me desculpa! – ele foi atrás de mim – ! – continuou chamando.
Ignorei. Não olhei para trás. Segui até a cozinha e pedi para uma das criadas levar o chá para rainha. Não demorou muito e eu encontrei Estela. Eu estava disposta a cortar qualquer contato com o príncipe e eu sei que ela me ajudaria.
— Você ficou louca? Você não sabe esquentar nem água! – ela falou.
— Estela, por favor – implorei novamente.
— Eu te odeio – ela falou dando um tapa no meu braço.
Mary entrou no fim da tarde avisando que os jantares também iriam ser servidos nos quartos. Estela ficou encarregada de levar para a rainha e o rei e outra criada amiga nossa, Jane, ia servir o Príncipe. Foi aí que eu reparei que a Erin não havia chego ainda.
— Alguém viu a princesa? – perguntei.
— Boa noiteeeee – Erin apareceu na cozinha sorridente como uma criança que acabou de ganhar doce.
Ela esperou que eu terminasse de ajeitar as bandejas e quando todas as criadas subiram, ela me puxou para o jardim.
— Nós tomamos sorvete e fomos passear pela cidade... Ah, , ele é maravilhoso! – ela falou sentando no banco suspirando.
?! – Jane veio até mim correndo – Ele falou que só vai comer se você levar.
— Pois então ele que morra de fome – falei.
Jane não falou mais nada e voltou para a cozinha. Eu já estava de saco cheio de ele uma hora ser um príncipe e na outra um monstro. Erin estava me encarando com as sobrancelhas arqueadas esperando que eu explicasse.
— "Você não entende, é só uma criada" – terminei de contar repetindo a frase dele.
— Ok, ele é um idiota – falou.
Nós ficamos em silêncio por um bom tempo. Perguntei se ela estava com fome e ela falou que não. Não nos sentíamos mais a vontade em lugares públicos porque precisávamos ser comportadas, mas eu não queria ir para o quarto dela..
— Vamos, por favor! Eu te escolto, ele não vai te ver – ela pediu pela nonagésima quinta vez.
— Tá! – concordei para ela ficar quieta.
Nós subimos em silêncio. Tentamos, pelo menos, já que a Erin estava sem salto e fazendo barulho no piso com os pés suados. Já estava claro que isso não daria certo e só foi confirmado quando ela chegou no andar do quarto e escorregou. Se ela tivesse caído sozinha, tudo bem, mas numa tentativa de se segurar, ela grudou meu vestido e me levou para o chão junto. Nós começamos a rir enlouquecidamente e só paramos quando ouvimos um pigarreado. Olhei para cima e o nos encarava. Pensei que era só isso, mas quando levantamos, a rainha e o rei estavam na porta de seu quarto também nos encarando.
— Escorregamos – Erin falou dando de ombros.
— Peço perdão pelo barulho, majestades – falei.
Eles voltaram para dentro do quarto e eu e Erin voltamos a rir até nos darmos conta de que ainda havia um membro da família real nos assistindo. Ela deu boa noite para ele e me puxou até o seu quarto. Antes que eu pudesse entrar, ele pegou minha mão.
— Vamos conversar, por favor? – pediu.
— Não – falei tentando puxar minha mão.
! – ele segurou mais forte.
— Ei! Ela não quer falar com você seu... seu... – Erin procurou a palavra – Cavalo!
— Cavalo? – olhei para ela.
— Cavalo – ela afirmou – ele te deu um coice.
— Faz sentido – falei.
— Faz né? Podia ser um galo também porque ele é egocêntrico.
— Acho que o cavalo combina mais.
— É eu tam...
— Meninas! – ele nos interrompeu – Eu te peço dois minutos – falou olhando para mim.
— Amanhã, – puxei minha mão.
Assim que entramos no quarto, mudamos de assunto. Não fazia nem uma semana que eu havia chegado e minha cabeça já estava essa confusão.
— Se me dissessem uma semana atrás que eu acabaria gostando do príncipe, eu riria – falei.
— Você admitiu – Erin levantou sorrindo.
— Admiti o que?
— Que gosta do ! Ah meu Deus, vocês se gostam!
— Não fale bobagem, Erin. Não gosto dele.
Ela sorriu e começou a dar pulinhos. Eu não gostava daquele idiota. Claro que não. Ou será que gostava? Isso é completamente insano. Eu com certeza estava ficando louca.

Capítulo 16

Eu dormi no quarto dela aquela noite e acordei de madrugada com um barulho na janela. Levantei e fui até a sacada. Quando abri a porta, uma pedrinha quase me acertou em cheio. Mais um corte na testa não, por favor! Abaixei-me e quando levantei enxerguei ninguém mais ninguém menos que Joe.
— Desculpa ! – ele falou baixo.
— O que você está fazendo a.. Hmmmmmm – sorri para ele – Entendi.
Fui até a cama da Erin e a sacudi. Ela abriu os olhos, assustada, perguntando o que foi.
— Seu motorista está na janela – falei.
Ela deu um pulo da cama e correu para a sacada. Depois de uns dois minutos, vestiu o roupão e saiu correndo do quarto. Oh céus, eu estou criando uma Julieta. Voltei até a janela e vi Erin correndo ao encontro do Joe. Quando chegou nele, parou e ele beijou sua mão. Não demorou muito e os dois saíram de braços dados pelo jardim.
— Onde ela foi? – o perguntou entrando no quarto sem bater.
— Vem cá – o levei até a porta – fecha a mão e da um soquinho – falei.
— Por quê? – ele perguntou fazendo o que eu pedi.
— É assim que se bate na porta para entrar no quarto dos outros – expliquei.
Ele riu ironicamente e mostrou a língua para mim. Assim que ele olhou para a sacada aberta, tentou ir até ela, mas eu fui mais rápida e pus-me em sua frente, impedindo sua passagem.
— O que foi? – perguntou tentando olhar para o jardim
— Nada – falei nervosa – Está muito frio, melhor entrarmos – falei fechando as portas atrás de mim.
, onde Erin foi? – ele repetiu a pergunta ao perceber que eu estava nervosa.
— Foi... Foi... – estou ferrada – até a cozinha!
— Por que Erin iria até a cozinha de madrugada? – ótimo, ele não acreditou.
— Porque ela... Ela... Ela não jantou. E a barriga dela estava roncando então eu pedi que ela, por favor, fosse comer algo para conseguirmos dormir.
— Você está mentindo! – falou saindo do quarto.
Agora a cobra vai fumar. Saí atrás dele tentando impedir a todo custo que ele fosse até o Jardim, mas nada adiantou. Quando já estava pisando na grama, eu puxei ele e por sorte ele não conseguiu ver Erin e Joe sentados no banco. Assim que nos viram, eles levantaram em silêncio e estavam saindo de lá quando Erin chutou um vaso de flores. Assim não tem condições de ajudar.
! – chamei-o antes que ele virasse.
Ele ia descobrir ela e, por mais que eles não se gostassem, ela ia entrar em uma enrascada. Imaginem uma princesa prometida saindo de madrugada com o motorista. Eu não podia deixar isso acontecer então fiz a maior loucura da minha vida. Segurei o rosto do príncipe e em segundos, já estava com a minha boca colada na dele enquanto ele me encarava como se eu fosse louca. Graças a Deus, ele fechou os olhos e pôs as mãos na minha nuca. Consegui enxergar Erin pulando em silêncio e abafando um grito enquanto corria para dentro do palácio, já sem o Joe.
— Ok, boa noite – falei empurrando .
Estava dentro do hall de entrada quando fui puxada e virada para ele. Ele segurou meu rosto e me beijou. Eu nunca tinha beijado um cara na minha vida, no máximo um beijo na cabeça no gatinho da vizinha. Fiquei com a boca fechada até que ele me lambeu.
— Eca, você me lambeu! – o empurrei limpando a boca e ele começou a rir.
— Você nunca beijou, ? – ele perguntou chegando mais perto.
— Não, e se beijasse não ia lamber a pessoa –respondi.
Ele continuou se aproximando até que eu bati as costas na parede. Isso não ia dar certo. Ele passou a mão no meu rosto e beijou minha bochecha demoradamente.
— Agora é minha vez de ensinar você – ele falou.
Eu devia ter dito não. Eram 4h da matina e o príncipe estava tentando me beijar no hall de entrada. Espera um pouco, nós estávamos no hall de entrada! Olhei para os lados e haviam guardas olhando discretamente.
– falei olhando para um guarda.
Ele seguiu meu olhar e suspirou. Pegou minha mão e me puxou pela escada até o terceiro andar, não entendi o que ele estava fazendo até que ele abriu uma porta e nos puxou para dentro. Era o escritório dele, o lugar de onde eu havia sido expulsa por estar olhando um quadro.
— Onde paramos? – ele perguntou pegando meu rosto de novo.
Eu precisava perguntar sobre o James. Minha curiosidade estava me matando. Mas não deu tempo. Ele colou a boca na minha e forçou seus lábios contra os meus pra que eu abrisse. Eu abri o mínimo possível e ele fez o resto usando a língua. Certo, primeiro beijo é estranho e nojento.
— E então? – ele perguntou sorrindo com o nariz colado no meu.
— Isso é nojento – falei fazendo cara de nojo.
— Tem certeza? – ele beijou meu pescoço.
Arrepiei-me e acho que ele percebeu isso já que soltou uma risadinha e voltou a encarar minha boca. Quando eu falei que não queria fazer aquilo de novo, ele fechou os olhos e sorriu.
— A prática leva a perfeição, ! – ele falou e voltou a me beijar.
Ele me chamou de ? Eu ouvi mesmo isso? Dessa vez, ele me beijou bem mais devagar e eu não pude evitar que minhas mãos fossem parar no cabelo dele. O cabelo dele era bom. Tinha cheiro de lavanda. Aquilo podia ser legal. Por mais que eu continuasse achando anti-higiênica aquela troca de saliva excessiva, era bom e depois de um tempo não dava vontade de parar.
— Certo, já chega, melhor irmos pro quarto – só me dei conta do que falei depois que ele abriu um sorrisinho – Eu quis dizer cada um para seu quarto.
— Você não gostou? – ele perguntou distribuindo beijos pelo meu ombro e em seguida pelo pescoço.
, não... – tentei falar.

Capítulo 17

Eu não conseguia formar uma frase para falar. Aquela sensação de cabeça vazia surgiu novamente e eu esqueci tudo enquanto ele beijava meu pescoço e... O que eu estava falando mesmo?
— Ah, esquece – falei e, dessa vez, quem beijou fui eu.
Ele passou uma mão pelo meio dos meus cabelos segurando-os e a outra colocou na minha cintura enquanto me empurrava até a parede. Depois de um tempo nos beijando, eu virei a cabeça para o lado e empurrei ele delicadamente, somente para que ele afastasse a boca da minha e funcionou. Em compensação, ele aproximou a boca da minha orelha, mordeu e foi fazendo isso até o pescoço.
... Me dá um tempo – pedi tentando me afastar.
Ele apoiou as mãos na parede, uma de cada lado do meu corpo e ficou me encarando. Olhei no relógio e eram quase 5h da manhã. Estava tarde e eu já devia estar dormindo. Ao contrário de vossa alteza, eu teria trabalho na manhã seguinte. Fora que a Erin devia estar preocupada comigo.
— Você tem cheiro de tempero – ele falou tocando o nariz no meu pescoço.
— Eu trabalho na cozinha – o lembrei.
— Eu gosto – ele disse dando um beijo no mesmo lugar.
— Preciso ir – falei passando por baixo do braço dele e indo até a porta.
— Quando faremos isso de novo? – ele perguntou segurando minha mão.
— Não faremos – respondi e saí correndo.
Ele era um príncipe, eu a criada. Ele estava noivo da minha amiga e eu mesmo que eu quisesse e ele também, ficarmos juntos não era uma opção porque eu não sou da realeza e a regra é clara: príncipes só se casam com princesas.
— Vocês estavam se beijando até agora? Sua safadinha! – Erin falou acendendo a luz assim que eu entrei.
— E você, hein? Saindo de madrugada com o Joe – falei.
— Eu te devo minha vida – ela sentou na cama sorrindo.
— Eu beijei o então acho que estamos quites – me encostei na porta lembrando.
— Acho que a gente inverteu os pares – ela falou e começamos a rir.
E era verdade. A princesa estava com o motorista e o príncipe com a criada.
... – Erin chamou depois que nos deitamos.
— O que?
— Você quer ser minha acompanhante real? Já que eu mandei a Gina pro inferno
— Acho que o beijo do me deu sorte.
Depois de rirmos bastante e ela me perguntar detalhadamente sobre como o beijava, fomos dormir. Na manhã seguinte, tratei de ir contar para Holga e Estela que eu seria agora acompanhante real da princesa, mas que eu continuaria indo para lá.
— Eu amo você, não some – Estela falou me abraçando.
Erin pediu que eu fosse para o quarto dela e não levasse nada meu. Achei estranho mas obedeci. Quando entrei lá, dei de cara com a rainha sentada na cama com uma caixa no colo e outras duas no chão. Olhei para os lados e dei de cara com Erin, atrás de mim me empurrando até a cama.
— Isso é pra você – ela falou.
A rainha levantou e abriu a caixa mostrando uma pilha de calças dobradas. Eu olhei para ela esperando que alguém me dissesse o que aquilo mas elas não falaram nada. Então, ela pegou outra caixa do chão e abriu me mostrando uma pilha de blusas coloridas. Erin pegou a última caixa e abriu deixando a vista um par de botas pretas com um cano longo que depois ela me mostrou que dava para dobrar.
— O que...
— Nós sabemos que você não faz o estilo princesa... – Erin me interrompeu.
— Mas que tem as qualidades de uma – a Rainha completou.
— O que vocês...? – fiquei cada vez mais confusa.
— Vem, vou te mostrar seu quarto! – Erin pegou minha mão.
Ela me dirigiu até o closet dela (que era de longe maior que a minha sala) e parou em frente a uma porta cinza que tinha no fundo do mesmo. Ela abriu e tinha um quarto de tamanho médio com uma cama grande no centro, um armário e um pequeno banheiro. Não era o quarto mais chique eu já havia visto, mas era tão aconchegante. As paredes em branco tinham detalhes em dourado, da mesma cor do tecido que cobria a cama.
— A partir de hoje, você dorme aqui – ela falou olhando para o quarto.
— Isso não estava aqui ontem – constatei lembrando nunca ter visto aquela parte do quarto.
— Onde você achou que a Gina dormia? – ela questionou.
— Dentro de um caldeirão. Não é assim que as bruxas dormem? – brinquei.
Escutamos a rainha pigarrear e logo ela parou ao nosso lado com um sorriso singelo no rosto, como se estivesse satisfeita.
— As criadas mudaram a decoração. Tudo está mais simples agora para combinar com a sua personalidade humilde – ela explicou.
— Madames? Espero que estejam vestidas porque estou entran... Mãe? – arregalou os olhos ao ver a Rainha.
, meu filho, isso são modos de entrar no quarto da sua futura esposa?
A palavra ‘esposa’ dava um nó no meu estômago e pela cara que Erin fez também dava no dela.
— Perdão, mamãe. Com licença – ele fez aquele gesto de respeito que os príncipes fazem.
— Não. Fique, já estou de saída. Vá passear com Erin. Tomar sorvete quem sabe? – a rainha falou.
— Sim, mamãe – ele respondeu recebendo um beijo dela em sua cabeça.
Ela saiu do quarto e Erin se jogou na minha cama. Evitei a todo custo encarar por saber que o olhar dele estava concentrado em mim. Erin se sentou e ficou alternando sua visão entre nós dois.
— Vou escolher um vestido para você – falei indo até o closet dela.
— Não, deixa que eu faço isso. Vá até lá embaixo e peça para o Joe preparar o carro – ela pediu piscando.
Não pude evitar soltar um risinho. Nem ela. Era impossível não se lembrar da noite passada.
— Não. Você fica – botou a mão na minha frente me impedindo de passar – Eu faço isso.
— Você não manda mais em mim – sorri vitoriosa.

Capítulo 18

Joe estava fazendo sua corrida matinal e eu tinha certeza de que o estava observando-me pela sacada conforme eu me aproximava. Ele usava uma calça solta preta e uma camiseta básica branca, que já estava transparente graças ao suor e céus... controle-se !, ele é o rapaz da sua amiga.
— Joe! – chamei.
! – ele veio ao meu encontro, me abraçou e, por mais que aquilo fosse nojento por estar suado, eu não reclamei e, inclusive, reparei em como ele é forte.
— Aconteceu alguma coisa? – olhou-me preocupado.
— O príncipe quer passear com a princesa pela cidade e precisa que você prepare o carro – respondi.
— Você vai? – ele perguntou sorrindo.
— Vou – sorri de volta.
Sair com o casal real deve ser um porre. Principalmente se você está afim de um dos dois. Ele pediu licença para ir se arrumar e eu subi até o quarto de Erin para trocar de roupa. Ela estava com um vestido pêssego, abaixo do joelho com detalhes em dourado. O cabelo de Erin era clássico, perfeitamente alinhado e com ondas milimetricamente perfeitas. Ela avisou que eu podia tomar banho e eu não dispensei. Segui até o banheiro e saí de lá pouquíssimo tempo depois, já vestida com uma das calças pretas, as botas e uma blusa azul marinho de mangas curtas.
— Ficaram ótimas em você! – Erin falou.
— Como acertaram meu tamanho? – perguntei.
— Estela – bastou isso para eu entender.
Passei uma escova nos cabelos e peguei o caderno de anotações de Erin, pondo em uma bolsa que a mesma havia me dado há alguns dias. Eu teria que levá-lo sempre que fôssemos sair agora, para ter em mãos os compromissos da Princesa. Nós descemos até o hall de entrada e estava lá. De longe daria para reconhecê-lo como príncipe. Aquela roupa estava tão... oh céus, eu preciso me manter sã.
— Senhoritas – ele beijou minha mão e a de Erin.
— Podemos ir? – ela perguntou.
Joe parou o carro em frente a porta e desceu para abri-la para e Erin. Quando fechou, a cara do príncipe foi a mais engraçada possível ao me ver entrando no banco da frente ao lado de Joe. Aquilo podia ser divertido.
Na cidade, Joe estacionou e Erin deu o braço para . As pessoas logo começaram a passar cochichando entre si e rindo alegres para o príncipe.
— Bom, vamos? – Erin perguntou a .
— Vocês vão ficar sozinhos? – perguntou para mim.
— A cidade está bem movimentada então creio que não – respondi dando o braço para Joe.
— Oh, , você pode comprar uma coisa para mim? – Erin me puxou.
Ela me puxou para longe dos dois e olhou para os lados para garantir que não tinha ninguém escutando.
— Marque um encontro com o Joe para mim hoje. No mesmo horário – ela pediu.
— Sua promíscua! – caímos na risada.
Olhei para o e Joe e ambos estavam se encarando como se fossem se matar a qualquer momento então nós interferimos. Peguei o braço do Joe e sorri para . Erin fez o mesmo com o príncipe, a diferença é que o sorriso que ela deu para Joe era de ternura, de carinho, de quem queria que fosse ele ao seu lado. O meu, era de provocação, para mostrar ao príncipe que eu não era propriedade dele.
— Vamos? – Erin chamou .
Quando se distanciaram, esperei saírem de vista para soltar o braço do Joe. Assim que o fiz, ele me encarou e balançando a cabeça, riu sozinho.
— O que foi? – perguntei cruzando os braços.
— Você e o príncipe... – ele riu novamente.
— Não entendi – o encarei.
— Vocês não sabem disfarçar – falou.
— Nós não temos nada, está bem? Sou só a empregada, não seria aceitável sequer ser amiga dele – expliquei.
— Eu sou só o motorista e ainda assim você apoia a Erin de encontrar-se comigo – tudo bem, agora estou num beco sem saída.
— É diferente – tentei fugir do assunto.
— É mesmo. Você quer a felicidade dela independente de qualquer coisa, mas foge da sua por causa de rótulos.
Eu não soube o que responder. Pela primeira vez em tempos, fiquei sem palavras. Eu não tinha o que dizer. Eu apoiava Erin e Joe e dizia que o que importava era o amor quando eu mesma ignorava isso. Bom, não importa. Fugi de um casamento e não vou entrar em outro.

Capítulo 19

Se eu disser que não fiquei desconfortável quando Erin e voltaram de braços dados, rindo como se se conhecessem há anos, eu estaria mentindo. Não sei o que eu senti, sei que fiquei com muita raiva e com vontade de enfiar a cabeça do príncipe na fonte. Entrei no carro enquanto Joe colocava as sacolas no porta malas e Erin deu a pior ideia do mundo:
— Eu sempre quis andar na frente. Você se importaria ? – ela perguntou sorrindo.
— Não acho que seja seguro, Erin, melhor você ficar aí – respondi.
— Discordo. Por favor, troque de lugar comigo – ela falou já abrindo minha porta.
Olhei para ela, furiosa, e entrei no banco de trás, ao lado do príncipe. Ele estava sentado na porta então fiz questão de ir para o lado contrário e ficar grudada na outra porta. No caminho, fomos todos em silêncio até que senti a mão de alguém em cima da minha no banco. Sem nem hesitar, puxei minha mão e deixei ele com a expressão mais surpresa possível. O que raios é isso que eu estou sentindo?
Os portões do palácio se abriram e assim que Joe estacionou, eu saí do carro pedindo que um dos guardas levasse as sacolas para o quarto da princesa. Não esperei por nenhum deles e fui para a cozinha atrás de Estela.
— Que cara é essa? – Estela perguntou secando as mãos.
— Eu estou sentindo uma coisa muito estranha – falei andando de um lado para o outro. Sentei na mesa e expliquei da maneira que consegui, o que eu estava sentindo. Ela sorriu e sacudiu a cabeça em negação.
— Você está com ciúmes, ! – ela cruzou os braços ainda sorrindo.
— Você está louca. Eu não sinto isso – levantei.
— Você sabe que eu estou certa e que você vai sair daqui e ignorar os dois porque não consegue controlar essa vontade de estapear todos – ela falou erguendo uma sobrancelha.
— Eu odeio você! – falei.
Ela resmungou algo e eu saí da cozinha indo em direção ao estábulo. Humanos estavam me deixando irritada, então eu recorreria aos cavalos. Aquilo estava uma bagunça. Peguei uma fitinha que enfeitava minha blusa e a usei para prender o cabelo. A cada minuto que arrumava algo, pareciam surgir mais coisas fora do lugar.
— Sou muito bom nisso, adivinhei onde você estava – ouvi uma voz. Olhei para onde ela vinha e meus olhos encontraram Joe escorado na porta do estábulo com um sorriso.
— É estranho, não é? Gostar de alguém que vive em um mundo completamente diferente do seu e que vai se casar com outra pessoa – ele falou parando do meu lado e pegando uma escova para passar no cavalo a nossa frente.
— A rainha te contou sobre mim, não contou? – perguntei e ele sorriu.
— Eu também fugi, . Ela pediu que eu te cuidasse por saber como é passar por tudo isso. Toda essa novidade.
Joe vinha de uma família muito pobre. O pai dele era viciado em jogos e apostou tudo, até o que não tinha. Infelizmente perdeu e ficou devendo. A família foi perseguida e cada um fugiu para um lado. Ele não via os pais e a irmã faziam mais de 5 anos.
— Só peço que não conte para ninguém. Eu mesmo quero fazer isso para a Erin. Na hora certa – ele pediu.
— Você pode contar comigo para qualquer coisa – falei pondo a mão em seu ombro.
— Eu sei que sim – ele sorriu tocando a minha mão com a sua.
— Posso saber o que está acontecendo aqui? – ouvi uma voz grave e irritada ecoando. Na porta do estábulo estava, agora, ninguém mais ninguém menos que o príncipe. E acuso dizer que ele não estava com a melhor das expressões.
— Será que podemos conversar, ? – ele perguntou mantendo a rigidez.
— Com licença – Joe se moveu para sair.
— Não – o príncipe o parou – Pode ficar, afinal, aqui é seu lugar.
A raiva que eu estava do príncipe já não era pouca, quando ele falou daquela maneira, só aumentou. Falei para Joe que mais tarde nos falávamos e passei reto pelo príncipe indo em direção ao palácio. Quando estava no hall de entrada, ouvi seus passos pesados atrás de mim. Estava indo para o quarto de Erin quando ele pegou meu braço e puxou-me.
— Respondendo sua pergunta: não, nós não podemos conversar. Foi de extrema grosseria o modo com que falou com Joe e não havia necessidade para aquilo – cruzei os braços.
— Por que está defendendo ele? Por que estavam juntos lá, daquele jeito? Você gosta dele, ? – ele perguntou parando em minha frente.
— Por Deus, . Joe é meu amigo. Eu defendo qualquer pessoa que sofra com as suas grosserias porque eu sei bem como é.
— Por que estava me evitando? – ele perguntou tentando pegar minha mão.
— Não estava claro que eu não queria conversar com você? – questionei.
— Por que está fazendo isso? O que aconteceu? – aproximou-se ainda mais.
— Vou voltar para minhas tarefas – virei-me em direção à porta.
, por favor – ele segurou meu rosto.
, me deixe sair.
— Venha aqui hoje, às oito horas. Estarei te esperando.
Fui para o quarto de Erin e assim que entrei, ela me abraçou. Aquilo me deixou mais leve e eu acabei explicando o que estava acontecendo comigo e a situação anterior.
— Nós não estávamos rindo porque nos gostamos ... Eu não posso te contar agora, mas não se preocupe. gosta de você.
O dia passou rápido e aquela frase gosta de você” foi o que me fez levantar e ir até seu quarto às oito da noite. Na verdade, eu estava curiosa para saber o que ele queria.
— Você vai assim? – Erin perguntou.
— Pretendia – voltei para o banheiro e olhei minha roupa.
— Solta esse cabelo – ela puxou minha fitinha – Está bom.
Ela me deu um abraço, abriu a porta e me empurrou para fora. Andei até o quarto ao lado e bati na porta duas vezes. Esperei e nada aconteceu. Bati mais duas vezes e escutei algo caindo.
— Entra! – ele gritou.
Abri a porta devagar e o quarto estava cheio de velas. Como o quarto era gigante, haviam milhares de velas próximas a parede para iluminar toda aquela imensidão. A mesa do príncipe tinha um vaso com flores no meio e, em cada ponta, um prato. No chão, próximo a mesa, estavam cubos de gelo. E na porta da sacada, estava ele, , escorado com a mão na cintura com uma expressão nervosa.
— Você derrubou o balde de gelo do champanhe, não foi? – perguntei juntando os cubos e os pondo dentro do objeto de metal que ele tentou esconder embaixo da cama.
— Não, por favor – ele segurou minhas mãos e me puxou para cima.
, o que é isso? – perguntei olhando ao redor.
— Quero fazer isso como um cara normal. Sem usar meu título. Então tudo aqui, foi planejado por mim – ele falou.
— Isso é um encontro?
— A luz de velas. Espero que você goste – Ele puxou a cadeira para que eu me sentasse e, em seguida, sentou-se a minha frente. Poucos minutos depois, Estela entrou no quarto com uma vasilha em uma bandeja.
— O que você....
— Bom apetite, senhores – ela sorriu para mim e se retirou. Dentro da vasilha havia risoto de camarão. Ele pegou meu prato e serviu-me, fazendo o mesmo para si, depois.
— Então, , me fale sobre você.
— Eu tenho dezesseis anos, tenho um irmãozinho e uma irmã, espadas e livros são minhas maiores paixões... E você, ?
— Eu tenho dezessete anos. Tenho um irmão que fugiu há anos e espadas também são minha maior paixão
— Principalmente quando atingem testas, não é mesmo? – perguntei e ele riu olhando para sua comida.
, quando demonstrava ser quem realmente era, era um homem admirável. Ele tinha interesses em abrir mais escolas quando fosse rei e que as escolas oferecessem outras aulas como de espada, equitação, luta, pintura... Ele não falou nada sobre o irmão e nem eu perguntei. Preferi não estragar o momento. Quando acabamos de jantar, ele se levantou e foi até o closet, de onde tirou uma caixa fina e comprida. Ela era vermelha com bordados dourados e era fechada por um medalhão. Puxou-me para sentar na cama e colocou a caixa no meu colo. Olhei para o medalhão e tinha “” gravado.
... – olhei para ele.
— Só abra, por favor – pediu.
Quando a abri, meus olhos se deslumbraram com tamanha beleza. Ela era além de perfeita. O punho era folhado a ouro e com desenhos em alto relevo. No meio, gravado também em alto relevo, tinha a inicial de meu nome. A lâmina... Oh céus. Era tão linda. Tudo naquela espada era lindo.
, eu... – nada saía da minha boca.
— Eu não aguento mais – ele falou.
Antes que eu pudesse entender, ele segurou meu rosto e me beijou. Ele parecia desesperado enquanto me beijava e aos poucos foi me empurrando na cama ficando deitado ao meu lado só com o peito em cima do meu para continuar me beijando. Beijar ele era tão bom. Não dava vontade de parar. Passava uma sensação maravilhosa, meu coração disparava e era como se tivessem soltando fogos de artifício dentro da minha cabeça. O ciúme de mais cedo passou e eu admiti para mim mesma: estava apaixonada pelo príncipe.

Capítulo 20

O sol estava cegando-me mesmo de olhos fechados. Abri-os devagar e ao olhar em volta, bateu o desespero. Aquele não era o quarto de Erin. Senti um movimento na minha mão e quando olhei, ela estava sob o peito do príncipe. Nós estávamos deitados com as roupas da noite anterior, o que me fez soltar um suspiro aliviado. Não aconteceu nada. Estava com seu braço em minha volta e, cuidadosamente, tentei o tirar sem acordá-lo.
— Onde você vai? – perguntou sem abrir os olhos.
— Tenho que voltar para o quarto, Erin deve estar preocupada – falei.
Erin. Meu Deus, o que eu estava fazendo ali? Ele ia se casar! Por mais que nenhum dos dois quisesse, era o que ia ser feito e eu não podia estar no meio daquilo. O que eu estava achando? Que só por ser filha de uma dama eu poderia casar com o príncipe de Ógea?
— Eu avisei ela que você dormiria aqui – ele me puxou mais ainda para si.
, chega. Precisamos por um ponto final nisso – falei me desvencilhando de seus braços.
— O que? Como assim, ? – ele levantou.
— Você vai se casar. Você é um príncipe. Eu sou a acompanhante da sua noiva. Da sua NOIVA! – levantei também.
— Você sabe que eu não gosto dela – ele passou as mãos pelos cabelos.
— Mas vocês vão se casar, . Eu não quero ser a amante do marido de uma das minhas melhores amigas.
, por favor. Ontem não significou nada? Eu não significo nada? – ele perguntou. Quando abri a boca para responder, Estela bateu na porta, abrindo-a em seguida. Ela tinha uma expressão assustada e estava ofegante.
— O Capitão Potter está aqui – falou – e com uma notícia urgente.
Sem dar explicação a , desci as pressas indo até a cozinha, onde meu pai estava. Ele tinha os olhos marejados e segurava seu cap. Esperei pelo pior e já comecei a chorar.
— O que aconteceu? – perguntei soluçando.
Fomos até o jardim e quando nos sentamos ele contou. Meu irmão estava enfermo. Uma febre transmitida pelo leite de algumas vacas doentes estava atacando todas as crianças sem sorte. O tratamento que poderia ser feito era caríssimo e fora do país. Fora este, ele estava condenado.
— O que eu posso fazer? – perguntei.
— Ele quer vê-la. Pediu que eu a achasse e a levasse para casa – falou.
— Eu vou.
— Vai onde? – ouvi a voz de .
— Para casa – falei puxando meu pai para dentro do palácio.
— O que? , você não pode – ele puxou meu braço.
, agora não – falei.
Deixei-o sozinho no hall de entrada e me despedi de meu pai, que avisou que na manhã seguinte estaria aqui para me buscar. Parti para a cozinha em busca de Estela e quando contei, fiquei um bom tempo com a cabeça em seu colo chorando sem censura, sem pudor. Depois disso, decidi que precisava agilizar as coisas. Eu precisava falar com a rainha imediatamente, não poderia perder mais tempo longe do meu irmão.
— Majestade, posso conversar com a senhora? – bati na porta.
Ela abriu e nos dirigimos até a cama, onde se sentou. Sentei-me ao chão e deitei minha cabeça em seu colo. Ela já sabia, meu pai a havia contado. Desatei a chorar e ela apenas afagava meus cabelos dizendo que ia ficar tudo bem.
— Não se preocupe, , tudo vai se resolver.
Não contei nada para Erin além de que meu irmão estava morrendo e eu precisava ir embora. Em meio a tantas lágrimas, não consegui dizer mais do que isso. Não levei nada do palácio, tinha minhas roupas em casa. Casa. Eu estava voltando.
Saí bem cedo, antes do sol nascer. Eu e meu pai pegamos um navio e a viagem pareceu não acabar nunca. Quando desembarcamos, percebi quanta saudade eu senti daquelas ruas, das crianças correndo, gritando, jogando amarelinha...
— Talvez possamos vender a casa – ouvi a voz da minha mãe ao telefone – por favor, senhora Bank, nós precisamos do dinheiro. Estamos tentando de tudo.
Espanei minha blusa e minha calça, ajeitei o cabelo e entrei na sala de jantar onde ela estava sentada à mesa com papéis em mãos e uma expressão cansada e triste. Quando notou minha presença, sorriu e não evitou que o choro começasse. Não sei quem correu na direção de quem, só sei que eu gostaria de permanecer naquele abraço para sempre.
, você voltou! Minha filha – ela sorria e chorava ao mesmo tempo enquanto me abraçava – Eu rezei tanto para que isso acontecesse.
Eu senti tanto a sua falta, mãe – falei abraçando-a mais forte ainda.
— Seus irmãos precisam vê-la. Suba, estão no quarto do Henri – falou.
Parei na frente da escada e fiquei olhando cada detalhe da casa. Como eu senti saudade daquele lugar. Pus-me a subir os degraus e ouvi a voz de Amélia vindo do quarto do Henri. Abri a porta de fininho e a vi contando uma estória para ele. Nunca pensei que fosse estar viva para ver minha irmã sendo gentil com alguém sem ser por obrigação.
— Era uma vez uma menina chamada – ela começou a contar mas foi interrompida.
– os olhos dele vieram ao encontro dos meus e novamente desatei a chorar.
— Não Henri, Maria. O nome dela é Maria!
Ele, com o maior esforço, segurou o rosto dela com as mãozinhas e o virou para a porta onde eu estava. Ao me ver, arregalou os olhos, piscou várias vezes e então, levou a mão a boca sem acreditar. Após um mínimo espaço de tempo, ela estava agarrada em mim chorando pedindo que eu nunca mais os deixasse. Henri por sua vez, só conseguia sorrir. Os olhos vermelhos e o rosto molhado pelo suor da febre deixavam clara sua tamanha fraqueza em razão da doença. Enxuguei as lágrimas e sentei-me em sua cama, me debruçando para abraçá-lo.
— Eu sabia que você ia voltar – ele me abraçou com toda a força que seu corpo tinha.
— Eu nunca mais vou embora, Henri. Nunca mais quero ficar longe de vocês – puxei Amélia para o abraço.
Olhei para o relógio na parede e o mesmo marcava nove horas da noite. A viagem havia durado o dia inteiro e eu estava exausta, mas não queria deixá-los.
— O jantar está servido, meninas – minha mãe entrou no quarto.
— Mãe – Henri chamou-a.
— Sim, meu anjo?
— Eu gostaria de jantar com vocês – ele pediu. Minha mãe e minha irmã se olharam e eu me senti em casa, sem entender nada que acontecia entre as duas novamente.
— Henri, querido, você está fraco... – ouvi ela dizer.
— A mamãe tem razão, Henri – minha irmã concordou.
— Por favor – ele pediu novamente.
— Eu o desço – falei.
Elas bem que tentaram contrariar, porém, eu era a única ali que sempre foi capaz de entender as vontades dele. Para minha sorte, meu pai entrou no quarto com uma cadeira de rodas para Henri. Pouparia muito de seu esforço.
— Vamos nos lavar para comer? A cuida do Henri – meu pai empurrou-as porta afora.
Relutantes, saíram. Fui até o guarda roupas dele e peguei um roupão quentinho e sapatos. Meu coração foi espremido ao ver a força que ele fazia para ficar sentado na cama. Como algo tão horrível podia acontecer com seres tão pequenos e frágeis?
— Pronto, agora deixe-me por seu roupão – falei pegando com cuidado os bracinhos dele.
Eu sentia uma enorme vontade de chorar ao ver ele naquele estado. Tão quieto, tão quente, tão doente. O rostinho dele já não era mais o mesmo. Olhei para a cadeira ao lado da cama e pensei quando havia sido a última vez que dei colo para o meu irmãozinho. Fazia tanto tempo...
— Venha – passei meu braço por baixo de suas pernas e o outro por trás de suas costas.
— Mas , e a cadeira? – ele perguntou.
— Eu peço para alguém pegar – falei.
Juntei ele ao meu corpo e senti seus pequenos braços abraçarem meu pescoço e seu rosto quente encostar em mim. Saí do quarto sem a menor das pressas e encontrei meu pai no corredor. Pedi a ele que trouxesse a cadeira para baixo e desci com Henri. Minha mãe e minha irmã estavam ajeitando as cadeiras para que a do Henri coubesse. Sentei-o nela e Amélia tapou suas pernas com uma manta azul. Coloquei-me à cadeira ao seu lado, meu pai à cabeceira da mesa e minha mãe e irmã à nossa frente. Aquela cena seria merecedora de uma gargalhada se não estivéssemos na mais triste das situações. Não jantávamos todos juntos desde... Desde que o Henri nasceu e a mamãe não tinha mais tempo para nada além de cuidar dele e de Amélia.
Ninguém soltou sequer uma sílaba durante a refeição. O silêncio estava sendo torturante, apesar de que eu sabia que minha mãe queria falar sobre minha fuga. Porém, com o intuito de manter Henri calmo, ela não tocou em nenhum assunto que pudesse causar tumulto, e eu preferi assim. Quando acabamos, meu pai se dirigiu a cozinha para lavar a louça e eu subi para o quarto com Henri. Ele pediu que eu dormisse ali ao seu lado e assim fizemos. Inevitável foi pensar em ao deitar a cabeça no travesseiro. A maneira como fui embora não havia sido justa, porém, com meu irmão doente, percebi que nada na vida era justa, principalmente quando se trata de sentimentos.

Capítulo 21

Cidade pequena é assim: quando você volta, no dia seguinte todos já sabem. Acordei com o peso e o calor da cabeça de Henri no meu braço. A febre continuava. Levantei com cuidado para não acordá-lo e chamei minha mãe para saber o que fazer.
— Fique com ele, vou encher a banheira – ela falou saindo do quarto.
Fui acordando ele aos poucos até que estivesse atento. Quando nossa mãe voltou para avisar que estava cheia, levei-o no colo até o banheiro e lá o ajudei a tirar a roupa. Ele não conseguia nem levantar os braços sozinho. Vê-lo entrar na banheira, tremendo de frio pela febre e quase chorando de dor no corpo... Vê-lo tão debilitado... Não consegui suportar. Cogitei sair do banheiro para não ver aquilo, mas ao sentir a mão dele segurando a minha percebi que eu tinha que ser forte por ele e pela minha mãe que sentia tanta dor quanto ele, não pela doença e sim pela tristeza de ver um filho tão pequeno partindo.
? – meu pai chamou na porta – você tem visita.
— Pode ir, ... – Henri soltou minha mão e deu um sorriso leve.
Levantei espanando a roupa e dei-me conta de que ainda vestia meus pijamas antigos. Corri para o quarto e sem demora vesti uma das calças que havia trazido do palácio, uma blusa de mangas compridas que havia ganhado de presente da Erin e as rotineiras botas pretas. Não fazia ideia de quem pudesse ser a visita, mas desci mesmo assim. A imagem que tive ao pé da escada me levou de volta ao dia em que tudo isso começou.
! – ele correu até mim e, sem hesitar, me abraçou apertado.
! – afaguei suas costas não sabendo como reagir.
— Como você está? Para onde você foi? – perguntava num monólogo.
— Quem te contou que eu havia voltado? – separei-me dele.
— A cidade toda está comentando. Vim ver se era verídico e seu pai pediu que eu esperasse aqui – segurou minhas mãos.
— Eu não entendo porque você está aqui – me distanciei confusa com aquela cena.
Ele passou a mão pelos cabelos (maravilhosamente penteados) e suspirou. Levou seu corpo até o sofá e sentou-se, batendo na almofada ao lado para que eu também me sentasse.
— Eu sei da situação do seu irmão – falou assim que me sentei – e quero ajudar.
— Ainda não estou entendendo . Se você está fazendo isso só para salvar sua imagem diante do povo, fique sabendo que é patético – me levantei.
— Por favor, , tente não atirar pedras em mim pelo menos uma vez. Eu gosto do seu irmão, gosto de você, gosto da sua família. Quero o melhor para todos – ele seguiu meu ato.
— Como você pode ajudá-lo? Ele não tem... – engoli em seco as palavras que quase saíram da minha boca.
— Escute , eu conheço um médico em Úrica, um país no continente ao lado. Ele tem o tratamento de que seu irmão precisa – falou com um sorriso estampando os lábios.
— É muito caro, . Eu agradeço sua gentileza, mas minha família não tem o dinheiro – a chance estava sendo tirada das nossas mãos por causa de pagamento.
— Eu só preciso que você aceite, . Não se preocupe com mais nada – pegou minha mão.
Meu orgulho queria recusar. Não queria aceitar nada vindo dele. Porém, não podia submeter a vida de meu irmão aos meus caprichos. Não era mais o meu futuro que estava em jogo e sim o de uma das pessoas que eu mais amo nesse mundo. Coloquei minha mão sobre a dele e ele abriu um sorriso aliviado entendendo que eu estava concordando.
— Desculpa interromper – minha mãe estava ao pé da escada – Henri pediu que você deitasse com ele.
— Conte à ela, tudo bem? – pedi a .
Levantamo-nos e, antes que eu saísse, senti vontade pela primeira vez, de agradecer com sinceridade . Dei-lhe um abraço apertado e ele retribuiu numa intensidade maior ainda. Nunca havíamos feito isso e agora posso dizer que não é nada ruim. Ele era alto e forte, conseguia me aconchegar facilmente nos braços dele como se fosse um cobertor. Quando nos separamos, me pus a encarar seu rosto. Ele tinha o nariz igual ao de . Ah ...
— Vou subir, vocês tem muito que conversar – falei sorrindo para minha mãe. Me direcionei às escadas e fui correndo até o quarto do Henri, sem conter a euforia que tomava conta do meu corpo por saber que ele não estava perdido. Chegando lá, não pude evitar abraçá-lo.
— O que aconteceu, ? – ele me perguntou baixinho.
— Me desculpe por ter ido embora – falei dando um beijo na mão pequena dele.
— Você fez o que achou melhor. Confio em você, sei que era preciso.
Ele falava baixo, os olhos mal abriam e a pele estava suando como se estivéssemos no auge no verão, fechados numa bolha de plástico sem aberturas. Ele reclamou de dores no corpo e na cabeça e de repente eu comecei a sentir uma, só que no coração. Abracei-o delicadamente e falei que ele poderia dormir que eu estaria ali protegendo ele, quando na verdade, o abraço era apenas uma tentativa de absorver toda a dor e a domença dele para mim. Sem dúvida alguma, não há casamento arranjado que supere a tristeza de ver alguém que a gente ama sofrendo com medo de não acordar.
— Filha – ouvi a voz do meu pai.
Abri os olhos e o céu já estava escuro. A luz do quarto estava acesa e meu irmão ainda dormia ao meu lado. Olhei para cima e enxerguei meu pai com uma roupa normal e um senhor de idade com uma maleta parado atrás dele.
— Esse é o Dr. Roseb, ele veio dar uma olhada no Henri – explicou.
Levantei e permiti que o Doutor se aproximasse do meu irmão. Henri abriu os olhos com esforço e o médico ajudou-o a se sentar. Abriu a maleta que havia trazido e fez um exame de rotina no Henri.
— A febre está estável numa temperatura boa de controlar. Como está sua respiração, meu filho? – o senhor perguntou ao Henri.
— Quando eu levanto, fica difícil o ar entrar, tudo fica embaralhado e apertado – ele respondeu.
A cara do Doutor foi bem ruim. Senti vontade de começar a chorar ali mesmo, mas me contive. Ele deu outros remédios para o Henri, recomendou muito repouso, passou outra dieta e então pediu para conversar conosco. Meu pai chamou minha mãe e pediu que a Amélia ficasse no quarto cuidando o Henri. Na sala de jantar, o doutor suspirou e se preparou para falar.
— O caso do Henri infelizmente está ficando mais complicado. Pelo que ele descreveu e pelo que eu ouvi com o estetoscópio, ele tem grandes chances de estar com líquido nos pulmões.
— Eu não sei o que significa, mas já estou chorando – minha mãe falou limpando as lágrimas.
— Isso dificulta muito a respiração e impossibilita qualquer chance de melhora sem o tratamento. A febre está estagnada em um número bom onde o cérebro não corre mais risco.
Sentei no sofá tentando digerir e pensar no que o médico estava falando. Assim que ele saiu da nossa casa, eu levantei atônita, precisava fazer algo. Falei para os meus pais que voltava já e com a maior pressa, saí em direção à casa que eu fugi para não precisar morar. Assim que pisei no carpete de entrada em frente a porta, bateu um receio, porém, não tinha tempo para isso. Toquei e a porta se abriu me dando a visão do inferno que frequentou meus pesadelos todos os dias no palácio.
— Que ousadia a sua vir aqui – a dama Claire cruzou os braços.
— Dama Claire, por favor, não estou com meu estoque de paciência presente e não quero brigar com a senhora – mantive a calma.
— Mas é muito abusada. Não sei o que o viu em você. Uma menina tão des...
— Quem é? – ouvi a voz de se aproximando.
! – chamei.
Ele veio até nós e apenas olhou para a dama, que entendeu e pediu licença ainda me olhando com a maior cara de desprezo que poderia ser feita por um ser humano.
— Aconteceu alguma coisa? – ele fechou a porta atrás de si.
— Não deixa meu irmão morrer, , por favor.


Continua...



Nota da autora: xx



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


comments powered by Disqus