Última atualização: 07/05/2018

Capítulo 1

Quarta-feira era um dos dias nos quais eu enxergava o sol quadrado durante todo o entardecer. Eram quatro horas da tarde e já estava aos gritos no corredor da nossa casa, implorando para que, dessa vez, eu colocasse um vestido que não apresentasse manchas de molho. Toda quarta-feira, as dondocas — incluindo minha mãe — organizavam um chá das 17h no Salão Real da cidade. Na minha mente, eu repetia inúmeras vezes que aquilo era uma babaquice, mas minha mãe pensava diferente; aquelas reuniões contínuas com damas da alta sociedade eram meu passaporte para uma vida de princesa. O que era irônico, considerando que nosso país ainda vivia numa monarquia absolutista, onde a única maneira de eu ter uma vida de princesa seria casando com o forte, destemido e encantador príncipe de Ógea, Segundo. Tudo que eu gostaria, óbvia e ironicamente falando. Antes que um sorriso sarcástico pudesse ser formado no meu rosto, em consequência ao pensamento relacionado ao príncipe, um grito ecoou no meu quarto.
— OH! — Minha mãe levou as mãos à boca, me encarando perplexa.
— Pode ir parando, nenhuma mancha de molho dessa vez — cortei-a, analisando meu vestido para checar a veracidade da afirmação.
— Fico feliz que esteja aprendendo a ser uma dama, minha filha — falou, cruzando as mãos em frente ao corpo.
Forcei o melhor sorriso possível e esperei que ela saísse para que pudesse voltar a respirar e destapar minhas canelas, antes que o calor me matasse. Passados dez minutos, os gritos voltaram a surgir, mas dessa vez eram meus irmãos, Amélia e Henri. Apesar de ser quatro anos mais nova, Amélia tinha o comportamento que minha mãe sempre sonhou em mim.
Logo, ela apareceu na porta do meu quarto, segurando a saia do vestido de modo que não houvesse risco de pisá-la. Caminhou até mim e, com toda a delicadeza e calma do mundo, ajeitou meus cabelos.
— Tente não discutir com a mamãe em frente às Damas hoje. Você sabe que ela se sente constrangida — pediu, sorrindo simpática.
— Eu que sou a irmã mais velha.
— Eu que sou a dama. — retrucou, soltando um riso e me deixando sozinha no quarto.
O Salão Real era uma junção de cozinha e sala. Localizado em cada uma das cidades, fora criado para que, sempre que a família Real nos visitasse, tivessem um lugar à altura para permanecerem. Se eles já vieram? Nunca. Desde que me entendo por gente, aquele lugar é usado pelas mulheres ricas para tomar chá e inferiorizar as pessoas cuja classe não é aceita no ambiente.
— ATACAAAAR. — Ouvi, antes de desviar de uma espada que voou por cima da minha cabeça.
— Henri! — chamei a atenção, cruzando os braços com o intuito de parecer uma irmã brava.
— Me desculpa, ... — pediu, abraçando minhas pernas.
Assim que ele me soltou, corri os olhos pelo quarto à procura da espada e, quando a achei, empunhei-a, despertando nele um olhar alegre e curioso. Entreguei-lhe a espada, deixando a ponta da lâmina apontada para mim.
— Firme — exclamei, segurando a mão dele em volta do punho da espada.
— É muito difícil. Eu não consigo... — lamentou, soltando a mesma e sentando na cama com uma expressão triste.
O Henri tinha seis anos e uma das maiores alegrias da vida dele era aprender a lutar com espadas. Nosso pai era Chefe da Guarda e, antes que fosse nomeado este, usava horas do fim do dia para nos ensinar novos golpes. Depois que o trabalho aumentou, o Henri ficou mais sozinho e dependente de mim, por ser a única que não passa o dia treinando como andar sem olhar para o chão.
— Você sabe desenhar? — perguntei, sentando ao seu lado.
— Claro! É muito fácil — respondeu sorrindo.
— E você gosta?
— Não, é chato.
— Está vendo? As coisas mais legais são as mais difíceis. As fáceis se tornam entediantes.
Ele olhou para mim hesitante, mas não demorou a empunhar a espada e a levantar, apontando-a para mim como um convite para lutar. Me agachei e tirei a minha de debaixo da cama. Antes de dar o primeiro golpe, tranquei a porta. Se minha mãe visse, eu estaria mais do que encrencada. Imagine só, uma dama empunhando uma espada de verdade, que horror!
! — ela gritou, antes que eu pudesse sequer levantar a espada.
— A gente continua quando eu chegar — avisei, jogando-a de volta para o lugar de antes.
Espanei o vestido, respirei fundo, coloquei meu chapéu e abri a porta, dando de cara com a minha mãe de braços dados a minha irmã. Eu não podia ter o mesmo sangue dessas duas. Dei-lhe meu braço e me coloquei ao seu lado, esperando que ela olhasse para outro lugar e acenando para o Henri.
— Mais devagar, . — repreendeu, controlando minha mão.
Eu achava que não podia piorar, mas, infelizmente, as outras cinco damas do chá estavam lá para me lembrar de que sempre pode ficar pior. Ambas as mulheres sentaram em uma mesa, após cumprimentar as Damas, e eu fui checar a mesa do buffet. Meu estômago havia colado nas costas para entrar naquele vestido, então, quando vi os petiscos servidos na minha frente, ele deu um pulo e começou a roncar. Não que a comida em casa tivesse em falta, entretanto, para minha mãe, as refeições tinham hora certa, nem um grão fora elas.
— Boa tarde, Srta. — o garçom saudou, preenchendo o vazio do prato com biscoitos.
— James. A Estela está na cozinha? — perguntei, tendo uma ideia.
A Estela era minha amiga e trabalhava na cozinha do Salão Real. Nós conhecemos em uma das tardes aqui, assim que ela começou o serviço. Ela derrubou uma bandeja no meio do Salão e foi atacada por murmúrios preconceituosos, que apontavam como causa daquele acidente a classe dela. Eu levantei e a ajudei a limpar tudo, o que rendeu uma das piores brigas com minha mãe. Desde então, somos amigas.
— Me dê um desses antes que eu desmaie — resmunguei ao entrar na cozinha, apontando para os petiscos.
! — Ela abriu um sorriso e veio me abraçar.
Passei a meia hora seguinte na cozinha, mais pondo conversa fora com a Estela do que comendo. Quando o relógio bateu cinco e meia, corri para o Salão para não perder os comunicados das Damas. Sentei-me ao lado da minha mãe e senti o olhar repreendedor sob mim.
— Onde você estava? — perguntou, sem desviar o olhar do palanque.
— No banheiro. Ajeitando os cabelos — respondi, retribuindo o ato.
Ela não falou, não gesticulou, nem sequer suspirou; absorveu aquela resposta como nunca havia acontecido. No fim da tarde, sumiu. Fui me despedir da Estela e, quando voltei, ela não estava em lugar algum do Salão, e nem Amélia. Fui encontrá-las na rua, conversando com uma das Damas que estava acompanhada de um rapaz razoavelmente bonito. Ele era normal, mas um normal bonito.
Quando me aproximei, minha mãe abriu um sorriso e o rapaz se pôs em uma postura rígida.
, esse é , filho da Dama Claire — apresentou-o.
Como esperado, ele fez aquele cumprimento formal e eu retribuí da mesma forma, antes que a mulher ao meu lado me forçasse, usando violência. As mais velhas continuaram conversando, enquanto um silêncio constrangedor reinava entre mim e o tal .
, não é? — Assenti. — Quantos anos você tem?
— Dezesseis. E você? — retribui a pergunta.
— Dezenove — respondeu.
O silêncio dominou novamente e, poucos minutos depois, peguei-o me encarando com uma expressão séria. Ele estava parecendo um daqueles protestantes republicanos que invadia o palácio a cada mês, dava a entender que era o leão e eu a presa prestes a ser atacada. E, ainda, por um desconhecido.
— Com licença — pedi, me distanciando caminhando até minha irmã.
Ela abriu um sorriso discreto, olhando para onde eu estava. Ele não era meu tipo, mas com certeza parecia ser o tipo de Amélia, que o acompanhava com os olhos, quando o rapaz voltara ao Salão. Não demorou muito para que nós duas dirigíssemos o olhar para nossa mãe, que nos encarava contente por algum motivo que preferiu manter para si mesma. As 19h, ao chegar a nossa casa, fui puxada imediatamente — por pequenas mãozinhas — ao quarto. Eu tinha que acabar o que comecei antes do chá.
Novamente me agachei e tirei minha espada debaixo da cama, sem demorar a empunhar a mesma. O Henri segurava a dele ansioso, contudo, assim que levantamos nossas armas, a porta se abriu. Eu, com certeza, estava mais do que encrencada.
Potter, quantas vezes vou ter que repetir para que entenda que eu abomino essa coisa? — minha mãe gritou, arrancando a espada da minha mão.
— Não foi culpa dela, mamãe. Eu que insisti — Henri interferiu, parando na minha frente.
— Não tente defender sua irmã, Henri, ela é um caso perdido. Mesmo quando acredito que está tomando jeito, faz algo para estragar. — Puxou ele de perto de mim.
— Eu me comportei hoje! A senhora não pode dizer que sempre estrago tudo! — Deixei as palavras saírem.
— Francamente, ! Ajeitar os cabelos? — Segurou meus pulsos no ar. — Você estava na cozinha! — Soltou-os bruscamente.
Olhei para meus pulsos e as mangas estavam sujas de geleia, recheio de um dos biscoitos que a Estela havia me dado. Eu podia ter me safado dessa se fosse um pouco mais detalhista e atenta. Minha mãe massageava as têmporas e suspirava como se quisesse evitar um assassinato.
— Vá para o seu quarto, Henri. — Apontou para a porta.
Ele me abraçou forte e, quando sentiu o olhar da nossa mãe sob ele, me soltou, correndo porta a fora. Naquele momento, não sabia o que esperar, porque, para uma pessoa normal, aquilo era uma bobagem. Mas uma brincadeira de luta para a minha mãe era como se aquele ato enterrasse minha classe social e eu me tornasse pobre. Eu não entendia tamanho preconceito.
— Quero a espada, os livros, as calças e as blusas que deixam seus braços de fora — mandou, estendendo a mão.
— Mãe, não, por favor. Eu vou ser uma dama, eu juro! — implorei.
— Você vai sim. E eu vou fazer com que isso aconteça sem interrupções. — retrucou a mulher.
Não acreditei no que estava acontecendo. Ela abriu meu armário, pegando minhas calças de montaria, blusas de fins de semana e meus livros de histórias. Eu estava sem nada agora, apenas com vestidos extravagantes, sapatos altos e muita maquiagem. Estava presa em outro mundo.



Capítulo 2

Depois daquela briga, eu vivia como um passarinho enjaulado. Estudava em casa, portanto os únicos momentos de liberdade que eu tinha eram nas quartas-feiras, no Chá. Passadas duas semanas desde aquele dia, minha mãe surgiu com uma ideia maluca de começar a fazer reuniões das damas em nossa casa, e não sei por que raios ela incluiu o na lista de convidados. A Amélia amou isso e, em todas as tardes durante as reuniões, ficava puxando assunto com o rapaz, sendo cortada por minha mãe que me perguntava se não queria levá-lo para passear. Em todas às vezes, respondi que não estava passando muito bem, então iria permanecer em meu quarto. Contudo, certo dia, ela pareceu perceber que era apenas uma desculpa.
— Exatamente por isso você deveria ir, um pouco de ar fresco vai lhe fazer bem, filha — falou, dando um sorriso vitorioso ao me ver levantando.
me deu o braço e seguiu para o jardim, em silêncio. O lugar era razoavelmente grande; tínhamos um grande gramado e, recostadas nos muros, estavam as enormes bromélias da minha mãe, eram as queridinhas dela. No meio, havia uma área com cadeiras e uma mesinha, cobertas por algo que se semelhava a um guarda-sol. Eu adorava o jardim.
— Então, — quebrou o silêncio. — O que você gosta de fazer?
— Bom, eu gosto de ler, de cavalgar, de treinar golpes novos às vezes, com meu irmão — respondi.
— Golpes novos? Você diz... Golpes de espada? — questionou perplexo.
— Sim. Meu pai me ensinou vários e, hoje, eu o ensino ao Henri — falei.
— Mas você é uma dama. Isso é totalmente incabível. — ele retrucou, sem crer no que ouvira.
— Pois eu discordo plenamente. Muitas mulheres são capazes de fazer o que querem, mesmo que seja coisa de homens. — Parei em frente a ele, com os braços cruzados.
— Lamento, , mas isso é desrespeitoso. Vocês são frágeis e jamais poderiam se comparar a nós. — Massageou as têmporas.
— Ah, quer saber, ? Vá se danar — disse, levantando levemente a saia para poder sair rápido dali.
Em nenhum momento da minha vida eu havia pronunciado aquelas palavras na frente de alguém, somente em meus pensamentos. Pus a mão na boca, percebendo o que havia feito, e corri para dentro de casa, subindo diretamente para o meu quarto. Meu Deus, , o que foi que você fez?
— O que foi aquilo? — Amélia perguntou, entrando no meu quarto.
— Eu senti um forte enjoo — menti.
— Recomponha-se e desça. As Damas não precisam ver suas fraquezas ressaltadas — repreendeu, saindo e batendo a porta.
As Damas que esperassem sentadas então, porque eu não ia descer tão cedo. Tranquei a porta do quarto e tirei a blusa, em seguida soltando as fitas do espartilho. Céus, sortudos são os homens, que não precisam ter seus intestinos introduzidos na caixa torácica ao usar aquele pedaço de couro. Vesti minha camisola e sentei-me na beira da cama. Sem livros, sem espadas, sem nada. Então, uma luz acendeu em minha cabeça. Fui até a janela e corri meus olhos pela frente da casa. Tudo vazio. Abri a porta e sussurrei o nome do Henri, esperando que ele aparecesse num passe de mágica, como na maioria das vezes, o que não demorou a acontecer.
— Tenho uma missão para você, soldado Potter — anunciei.
Isso precisava dar certo. Depois de passar as instruções, voltei ao quarto e prendi o cabelo em um rabo de cavalo. Vasculhei meu armário atrás de uma pequena bolsa e a encontrei, pouco antes de meu irmão entrar no quarto com o que eu havia lhe pedido.
— Você é a única menina que eu conheço que pede para usar calças — ele falou.
— Você também pediria, se precisasse usar vestidos que tem quase o seu peso — respondi.
— Eu acho que você fica bonita dos dois jeitos. — Sorriu.
— Eu amo você. — Beijei-lhe na cabeça. — Mas, agora, volta pra lá, antes que sintam sua falta.
— Tome cuidado, . Não quero ter só a Amélia como irmã — pediu, correndo porta a fora.
Com certeza eu estava maluca. Maluca não, insana. Coloquei as calças e a blusa que Henri pegara no quarto da nossa mãe, calcei as sapatilhas e pendurei a bolsa no meu ombro. Tranquei a porta do quarto, levantando o vidro da janela cuidadosamente.

Certo, agora era morrer ou ser um samurai.

Sentei no telhado e fui deslizando, horizontalmente, até chegar ao final dele, onde tinham trepadeiras. Desci por elas, rezando para que minha sorte não ficasse contra mim e eu caísse. Felizmente, ela me ajudou e consegui sair correndo o mais rápido que pude, ficando a uma distância boa da minha casa.
Depois de mais ou menos uns 10 minutos de caminhada, uns 20 olhares diferentes e uns 15 murmúrios como “O que uma moça dessa idade está fazendo desacompanhada na rua a essa hora?”, cheguei ao meu destino. Abri o portão e parei em frente a aquela casa de madeira, minúscula, pintada de um azul bem clarinho. Quando bati na porta, ela soltou poeira e eu temi que ela caísse na minha frente. Ao vê-la mover, meu coração disparou e eu pensei “Oh céus, eu estraguei a porta”, mas não, ela se abriu, e uma menininha da idade do meu irmão surgiu, com a boca formando um perfeito 'O'.
— MÃE, TEM UMA DAMA AQUI! — saiu gritando.
Certo, isso é mais constrangedor do que quebrar a porta. Graças a deus a Estela apareceu, me puxando pra dentro de casa e verificando se ninguém havia me visto ali. Eu já havia estado em sua casa, mas nunca a adentrei. Era extremamente simples, tinha um tapete e um sofá, com um abajur posto em uma mesinha ao lado deste. Do outro lado, uma cortina aberta nos dava a visão de três camas em um cômodo, sendo uma de casal. A cozinha era basicamente um fogão, uma mesa, um armário e uma pequena geladeira.
— Você ficou louca?! O que está fazendo aqui?! — ela perguntou, me segurando pelos ombros.
— Estela, sua irmã disse que... — Uma mulher saiu das cortinas e paralisou ao me olhar.
— Mãe, essa é a...
— Ela não pode vir aqui! As Damas vão nos matar! — falou, me encarando desesperada.
A mãe dela começou a dar um discurso, e eu apenas apontei para os livros no chão, no canto da sala. A Estela, discretamente pegou minha bolsa e foi até eles, enquanto o pai da garota tentava entender o que a esposa estava dizendo. Ela colocou os livros dentro da bolsa e me entregou.
— Bom, obrigada pela gentileza , estou indo — anunciei.
Eu saí correndo na mesma hora, só parando ao chegar na rua da minha casa. Eu estava me aproximando das trepadeiras quando ouvi a porta se abrindo e um grupo de pessoas saindo, entre elas, e a minha mãe. Encostei-me a parede e prendi a respiração, torcendo para que nenhum deles me visse. A Dama deu a mão para a filha e o braço para o rapaz e, assim, eles seguiram pela rua. Fechei os olhos e, ao abri-los de novo, o já não andava ao lado da mãe.
— Você está realmente ficando maluca, . — Pensei alto.
— Concordo — uma voz respondeu.
Olhei pro lado e, de braços cruzados me encarando, estavam aqueles enormes olhos azuis, em contraste com seus cabelos — quase — muito bem penteados. Se não fosse tão insuportável, quem sabe eu admitisse que ele era um galã. Mas, agora, a única coisa que podia admitir, era: eu estou encrencada.
Por um segundo, pensei que o garoto fosse me arrastar pelo braço até a porta da minha casa, para que minha família visse mais uma vez que eu não sou uma dama. Porém, ele pôs um braço para trás e, com um sorriso no canto da boca, deu um aceno.
— Tome cuidado, senhorita — sussurrou antes de seguir seu caminho. Certo, esse rapaz é estranho.
Quando ele sumiu na rua, voltei a escalar a trepadeira, caindo em seguida no chão do meu quarto. Escondi a bolsa dentro de um baú e tranquei, garantindo que só eu teria acesso. Fui para o banheiro e mergulhei meu corpo na banheira, junto aos pensamentos que se baseavam em qual motivo teria levado a não me entregar, mesmo depois do que eu falei. O relógio marcava 22h, e isso queria dizer que já era hora de dormir e parar de encher minha cabeça com minhocas.



Capítulo 3

Por incrível que pareça, quando acordei o silêncio reinava pela casa. Depois de uma eternidade colocando as milhares de saias e o nada prático vestido, desci para a sala e não encontrei nem um formiga. Isso é de certo modo completamente impossível.
— Bom dia, senhorita — falou, escorado na porta da cozinha.
— Oh céus! — Pus a mão no peito ao me assustar. — Não me livro nunca de você.
— Nem irá conseguir — ele retrucou, caminhando até mim.
— Deixe-me adivinhar, você está aqui para se vingar de mim pelo o que eu lhe disse. Matou toda minha família e estava esperando a oportunidade para me matar — disse, de braços cruzados.
— Isso faria de mim com certeza um homem com dignidade. Porém... Estou aqui com outro fim. — afirmou, me oferecendo o braço.
Ele continuou sorrindo para mim com aqueles dentes que pareciam porcelana e aqueles olhos que pareciam o céu em um perfeito dia ensolarado. Mesmo hesitante, passei meu braço pelo o dele e deixei que ele caminhasse ao meu lado na rua, sem saber onde pararíamos.
— Então... — interrompeu o silêncio. — O que você estava fazendo fora de casa? — perguntou.
— Fui tomar um ar. Não estava me sentindo bem — menti.
— E não queria que sua mãe soubesse para não se preocupar.
— Exatamente.
— Você mente muito bem, senhorita falou, tirando o chapéu imaginário e pondo-o de volta.
— E você finge muito bem, senhor — revidei.
— Você nem imagina o quanto — murmurou.
— Como? — questionei.
Paramos na parada para o bonde e, antes que ele pudesse responder, o mesmo chegou. Eu nunca havia andando de bonde, era de extremo mau comportamento uma mulher andar sozinha em um transporte público. Assim que sentamos, esqueci sobre o que estávamos falando e passei a me concentrar em como era divertido fazer um passeio naquele... automóvel.
— Você nunca andou de bonde? — o rapaz perguntou.
— Minha mãe nunca deixou — lamentei.
Olhei para o lado e ele me encarava com uma expressão curiosa, como se tentasse desvendar algum mistério em mim. Desviei o olhar e continuei a admirar a rua até chegarmos no último ponto da cidade. A partir dali, só havia o caminho para a floresta.
— Certo, você realmente está pensando em me matar — brinquei, nervosa.
Ele deu uma breve risada e, com o meu braço dado ao seu, caminhou até o meio da floresta. Eu acreditava que ele era louco e não sabia onde estava indo, mas então ele parou e virou de frente para mim. Fiquei o olhando, esperando que ele falasse alguma coisa, contudo, ele só fechou os olhos, respirando fundo.
. — Estalei meus dedos na frente de seu rosto.
— Você não é a única que foge da sua realidade — contou, me virando de costas para ele.
Assim que fui posta naquela posição, enxerguei uma casa de dois andares não muito grande. Era feita de madeira e tinha uma enorme sacada no andar de cima. Enquanto eu reparava nos detalhes, o garoto já estava abrindo a porta e esperando que eu passasse. Quando entrei, pensei o quanto meu irmão amaria aquele lugar; havia alguns alvos para jogar dardo, espadas postas na parede e um mural com inúmeros desenhos.
— Eu vim me danar aqui ontem quando você mandou — falou, parando ao meu lado.
— Você é um idiota. — Dei as costas e saí da casa.
! Espera! — Ele puxou meu braço, fazendo com que eu encarasse ele.
— Você se passa por um riquinho metido e depois quer fugir da realidade que você mesmo constrói? — indaguei.
— Eu só quero ser aceito. Você quer que eu seja como você e me torne a decepção da família?
Naquele momento o legal que estava comigo sumiu. O rapaz criado para a sociedade veio à tona e eu percebi que, mesmo que no início aquele comportamento fosse uma farsa, agora estava se tornando parte dele.
— Eu prefiro ser a decepção da família do que ser um frangote feito você, que precisa da aceitação alheia para ser quem é.
Dessa vez, o garoto não impediu que eu fosse embora, ao contrário, deu meia volta e entrou na casa. Eu segui caminhando até em casa, onde cheguei no horário do almoço. Eu poderia pegar minha espada no quarto da minha mãe, porém, não queria fazer nada que pudesse piorar tudo, então apenas subi para o quarto e me pus a ler um livro. Quando virei a quarta página, pedrinhas atingiram a janela e, por pouco, não acertaram minha testa.
— Eu estou correndo risco de vida por estar aqui, mas preciso contar uma coisa! — Estela gritou lá de baixo.
Desci correndo — da maneira que o vestido permitia —, e a puxei para dentro de casa. Ela estava arrumada, não como uma Dama, mas arrumada para quem só usava uniforme. Ela usava um vestido lilás leve e pouco abaixo do joelho, o cabelo ruivo estava preso com uma fita branca e os pés escondidos por uma sapatilha marrom.
— Eu vou para o palácio! — contou, pulando.
Admito que pensei que ela estivesse brincando, mas não. Quando ela viu que eu não estava entendendo nada, parou de pular e me explicou que havia tido uma seleção na cidade para enviar criadas ao palácio, com o objetivo de facilitar o trabalho, uma vez que a família real estaria recebendo a noiva do Príncipe .
— Espera aí... Noiva? — questionei.
— Sim, ! O Príncipe vai se casar com a Princesa Erin, de um reino próximo daqui de Ógea, cujo nome não lembro agora. — respondeu pensativa.
Então, aquele sem cérebro ia se casar... Com certeza Ógea entraria numa festa de meses por conta desse acontecimento e, sem dúvida alguma, minha mãe enlouqueceria, pois a cidade estaria cheia de rapazes dos outros países que viriam para a comemoração. A Estela partiria em uma semana, a partir daí eu estaria completamente perdida no mundo burguês.
! — Ouvi gritos vindo do corredor.
Era minha mãe. Se ela visse a Estela aqui me deserdaria e ainda me denunciaria para as Damas, para que a cidade inteira soubesse que eu era um desgosto. Ouvi a batida do salto no parquet e meu coração acelerou. Onde eu ia esconder a Estela? Abri o baú e joguei tudo que tinha dentro para baixo da cama.
— Entra aqui. — falei apontando para o mesmo.
O baú era grande e por sorte cabia ela. Assim que minha mãe abriu a porta eu sentei em cima do mesmo e abri o maior sorriso. Ela colocou a caixa que segurava em cima da cama e com os olhos cerrados olhou ao redor.
— A Dama Claire e sua família virão jantar conosco esta noite. Comprei este vestido para que você não me envergonhe com suas escolhas — comunicou, abrindo a caixa.
Continuei sorrindo e agradeci. Ainda passeando com os olhos pelo quarto, ela foi saindo. Assim que bateu a porta, a tranquei e abri o baú, vendo uma Estela quase roxa sem ar. Ajudei-a a sair e ela avisou que ia embora. Obviamente, não poderia emprestar a porta da frente para ela sair, então ensinei-a meu truque de descer usando as trepadeiras. Esperamos até que não houvesse ninguém passando na rua.
— Te vejo em uma semana! — falou, antes de sumir na rua.



Capítulo 4

Tudo estava em perfeita ordem: minha mãe e a Dama Claire como melhores amigas, o marido da Dama Claire sobrando, a Amélia encarando o com um sorriso, o me encarando, esperando que eu falasse algo, e eu encarando aquele leitão assado, pronta para atacá-lo com meus próprios dentes.
— Então, Amélia, você já está quase na idade de se comprometer — a Dama Claire puxou o assunto. — O que você espera encontrar em um rapaz?
— Oh, Dama Claire, eu espero ter como esposo um rapaz de presença, cujos olhos sejam tão azuis quanto o oceano que rodeia Ógea — respondeu ela, com um enorme sorriso.
Eu sabia quem era o rapaz de presença que ela tanto desejava. Infelizmente o futuro o qual a mãe dele lhe daria era outro. O decorrer da noite não foi diferente daquilo. Mesmo depois de ter comido as migalhas permitidas, continuei encarando aquela carne que parecia cada vez chamar mais o meu nome.
. — Ouvi chamar.
— Eu estou te ouvindo — avisei, encarando a bandeja.
. — Ouvi novamente, junto com uma mão sobre a minha.
Voltei minha atenção para as pessoas na mesa e todos me encaravam. O principalmente, agora segurando minha mão. Com educação, puxei-a e a repousei em meu colo. Abri um sorriso tentando não parecer uma sonâmbula e, graças a Deus, funcionou.
— Como estávamos dizendo... — Dama Claire começou. — Meu filho tem um pedido a fazer.
— Eu tenho? — perguntou.
— Sim, , recorda-se? — ela questionou com um sorriso tenebroso.
Ele respirou fundo e, de olhos fechados, se levantou. Eu desejei do fundo do meu coração que fosse para ir embora, mas não. Ele deu a volta na mesa, pegou minha mão e pediu que eu me colocasse de pé em sua frente. Não podia ser o que eu estava pensando. Rezei para que não fosse. Tudo em vão. De dentro do paletó, ele tirou uma caixinha aveludada em vermelho e, quando se deixou ser aberta, eu não sabia para onde fugir.
, você aceita se casar comigo?
Mesmo que me houvessem dito, jamais seria possível estar preparada para ouvir aquilo. Sequer poderia imaginar ou pensar em responder tal pergunta em meio aos meus poucos 16 anos.
— Sim! — minha mãe respondeu por mim, levantando vitoriosa.
— Não! — foi a vez da Amélia de responder.
— Muito bem, meu filho — o pai do exclamou, satisfeito.
— Eu... — As palavras não saíam da minha boca.
— Ela aceita. Veja como ela está emocionada. Está claro que ela aceita. — Minha mãe veio até mim e me abraçou.
Tentei protestar, mas, dessa vez, nada saiu da minha boca. Eu estava perplexa com aquilo. Como alguém se casa com 16 anos? Todos (menos Amélia e eu) começaram a comemorar e brindar e, a cada taça, sentia mais vontade de quebrar a garrafa na cabeça do . Todo aquele teatrinho de manhã era para garantir que eu fosse aceitar o pedido, que eu ficaria com pena do pobre rapaz, obrigado pelos pais a viver como um metido.
— Quando será o casamento? — minha mãe perguntou, ainda eufórica.
— Quanto antes melhor. Estarei viajando em 10 dias para resolver negócios no campo e quero ver meu filho casar antes disso — o pai do meu noivo se pronunciou.
— Perfeito! Marcaremos para daqui a uma semana! — a Dama Claire comunicou.
— Não posso crer que você irá casar com minha filha — minha mãe exclamou, abraçando .
Ouvimos a porta bater e, quando nos viramos para olhar quem era, finalmente saí do estado vegetativo. Ele estava igual. Talvez com a barba um pouco maior, mas, ainda assim, igual. A farda perfeitamente alinhada, os cabelos grisalhos assim como o bigode e o sorriso. Ah, o sorriso.
— Quem vai se casar com a minha filha sem meu consentimento? — meu pai perguntou.
Minha mãe mudou sua expressão para uma de impaciência, enquanto eu e meus irmãos corríamos para abraçá-lo. Faziam meses desde que ele havia partido com a Guarda Real e não havia hora melhor para ele ter chegado. A família do meu "noivo" atribuiu um semblante sério; se havia alguém que poderia impedir essa bobagem toda, esse alguém era com certeza meu pai.
— Por que voltou tão cedo, Nicholas? — minha mãe perguntou forçando um sorriso.
— A Guarda irá acompanhar a nova remessa de criados que será levada para o palácio. Estarei partindo novamente em uma semana — explicou.
Ficar tanto tempo sem o meu pai era uma tortura. Eu era igual a ele e o oposto da minha mãe, felizmente. Quando ele estava em casa tudo era mais fácil, principalmente ser eu mesma. Sem vestidos ou regras de etiqueta.
Para minha sorte, meu pai foi contra o casamento, mesmo que minha mãe explicasse inúmeras vezes o quão bom isso seria para minha vida. Ele se mantinha firme na sua opinião de que eu ainda era uma criança. Como sempre, desde que me entendo por gente, terminei mais um dia com o Henri em meu colo, enquanto ao lado de fora do quarto, meus pais brigavam incansavelmente. Nada havia mudado. Minha mãe, a ditadora. Meu pai, o liberal.
— O papai não vai embora, vai, ? — Henri me perguntou.
Dessa vez, eu não sabia responder. Pedi que ele não se preocupasse com isso quando, até mesmo eu, estava começando a me preocupar. Meus pais brigaram desde quando eu era criança, mas dessa vez o assunto era mais sério, a briga parecia mais séria e, pelo visto, a decisão que tomariam também seria séria, já que era o meu futuro que estava em mãos.

Até aqui betada por: Nicole Megale


Capítulo 5

Chorar e implorar não me adiantou de nada. Em menos de uma semana depois, lá estava eu experimentando o vestido que marcaria minha entrada para o Inferno. Meus pais, ao que tudo indicava, estavam realmente se separando. Eles negavam é claro, mas dormiam em quartos separados e se evitavam o máximo possível.
– Você está linda, . – minha mãe falou, sorrindo, com os olhos cheios d'água.
– Posso ficar sozinha? Por favor. – pedi.
Ela beijou minha testa e saiu do quarto com a costureira. Ao olhar no espelho, eu não me enxerguei. Ali estampado estava o reflexo da que havia sido vencida por aqueles que ela sempre prometera não se parecer. O vestido, por mais simples que fosse, não era meu. Aquele casamento não era meu. Aquela vida não era a que eu queria que fosse minha.
– Você está realmente linda. – meu pai elogiou assim que entrou no quarto.
Olhei pra ele e foi inevitável deixar que as lágrimas saíssem em peso. Ele me abraçou e, enquanto afagava minhas costas, repetia que eu jamais seria igual à elas, mesmo que me forçassem, e que, no final, eu resolveria tudo.
Evitei o assunto casamento durante todo o tempo que precedeu o evento. Deixei que a Dama Claire e que minha mãe resolvessem tudo enquanto eu permanecia em meu quarto lendo, tentando de alguma maneira ser transportada para dentro do livro. O clima na minha casa não estava dos melhores, minha irmã Amélia não conversava comigo, ao contrário de Henri, que passava metade do seu dia em meu quarto.
– Você gosta do como a mamãe gosta do papai? – ele me perguntou.
– Não. – respondi.
– Mas as pessoas não se casam só quando gostam de alguém? – ele questionou.
– Às vezes não, Henri.
– Eu queria que você casasse com quem você gosta.
– Eu não gosto de ninguém...
– Então você não casa, ué.
Ele era igual a mim e igual ao meu pai. Graças a Deus. Depois daquela rápida conversa, ele não falou mais nada. O dia estava cada vez mais próximo, e a relação dos meus pais só piorava, até que no dia do casamento, ele entrou no meu quarto e perguntou se podíamos conversar. Eu já esperava aquela notícia, só temia qual seria a reação dos meus irmãos. Depois do casamento, meu pai não voltaria para casa. Assim como eu.
– Pronta? – minha mãe abriu a porta, e eu a ignorei. – Oh, , isso é para o seu bem. Você vai ser feliz, eu tenho certeza.
– Assim como você foi? Não, obrigada.
Deixei-a sozinha no quarto e fui me posicionar ao lado do meu pai no hall de entrada. A porta que dava para o Salão Real estava fechada, mas mesmo assim eu conseguia ouvir os múrmurios das pessoas. A marcha começou a tocar, e, quando as portas se abriram, eu pude ver o no altar com a aparência de um cadáver. Havia pelo menos umas 100 pessoas no salão. Eu só conhecia minha família.
– Podem sentar-se todos. – o padre anunciou.
Depois de todo um discurso sobre como o casamento diante de Deus era importante, ele chegou ao momento do sim ou não. Ele rezou algumas vinte vezes, e enquanto isso meu coração acelerava cada vez mais. Olhei para o relógio no canto do Salão e ele marcava 21h. Olhei para o , e a expressão dele não havia melhorado, ele estava pálido e suando como um porco prestes a ser abatido.
Harrison, você aceita Potter como sua esposa, para amar e respeitar, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, até que a morte os separe? – o padre perguntou.
O respondeu com um desmaio. Assim que o padre terminou a pergunta, ele me olhou, olhou para as pessoas ao nosso redor e caiu duro no chão. Um exemplo de coragem esse rapaz. Todos levantaram e vieram às pressas ver como ele estava, enquanto eu, de braços cruzados, esperava impaciente para que ele acordasse para acabarmos com aquilo. A Dama Claire chorava com a certeza de que o filho estava morto, e as mulheres do salão fofocavam sobre como sempre souberam que o era um frouxo. O que eu estava fazendo ali no meio de todas aquelas mulheres que não tinham nada de parecido comigo? Dei um passo para trás e enxerguei minha irmã. Com o buquê na mão, fui até ela e o entreguei.
– Agora é com você.
Ela me abraçou e, antes que o abraço terminasse, o Henri veio até nós. Apesar das brigas incessantes entre mim e a Amélia, ela era minha irmãzinha e isso nunca ia mudar independente do caminho que eu tomasse. Eu não voltaria para casa, assim como meu pai. Mas, dessa vez, não seria por estar casada e sim por estar livre.
– Escuta, Henri – abaixei para ficar da altura dele –, eu vou fazer uma viagem com o papai.
– Você o quê?! – a Amélia perguntou, incrédula.
– Prestem atenção – pedi aos dois –, vocês precisam me prometer que irão cuidar um do outro.
, você não pode fugir! As Damas não vão te perdoar se te encontrarem! – a Amélia falou.
– Ame, eu preciso que você cuide do Henri. Ele só vai ter você. Você consegue fazer isso? – perguntei.
Ela assentiu, e os dois me abraçaram. Aquilo doía mais que estar casando. Antes que eu pudesse conversar com o meu pai, o acordou e começou o murmurio de onde estava a noiva. Quando os olhares me alcançaram, eu já estava na porta.
, onde você vai? – minha mãe perguntou.
– Isso não é pra mim, mãe. – respondi, tirando os sapatos.
, volte já aqui! – ela chamou, deixando clara a raiva.
– Não, chega. Eu odeio tudo isso, eu me recuso a viver assim. Vocês podem fazer esse aí de brinquedo, mas pra mim chega! – joguei os sapatos no meio do salão.
– Irina, controle sua filha! – a Dama Claire se intrometeu.
– Por Deus, Dama Claire. Pare de tentar dar ordens em todos os momentos. Não é perceptível que ninguém dá a mínima para o que a senhora fala? Eu não preciso ser controlada, precisaria se concordasse em acabar minha vida como uma velha amarga que nem você.
... – minha mãe chamou, agora chorando.
– Eu te amo mãe, mas eu não sou essa Dama que a senhora queria ter.
Meus irmãos a abraçaram, e, com uma única lágrima descendo pelo meu rosto, eu deixei o Salão Real. A rua estava vazia, exceto pelos Guardas que iam e vinham com enormes caixas. Parei um deles e perguntei onde seria o embarque das criadas. Ele hesitou em me responder, mas ao ver meu estado não só falou como me levou até lá.
– O que você está fazendo aqui? – alguém perguntou, me puxando para um canto.
A Estela estava com uma mala na mão e a habitual roupa de empregada. Com um sorriso, contei que havia fugido no meio da minha cerimônia de casamento. Ela riu e falou que aquilo era exatamente o que ela esperava de mim. Apesar de estar tentando parecer feliz, eu queria chorar por precisar fazer tudo isso simplesmente para ser quem eu sou.
– Acho que estou criando uma nova classe: As Damas Da Revolução. – falei.
– E para onde você vai agora, Líder das Damas Da Revolução? – ela questionou.
Foi aí, então, que parei para pensar e perceber que eu não tinha para onde ir. Eu não tinha amigas, exceto a Estela, e se eu fosse para casa de qualquer que fosse o familiar, certamente me entregariam para as Damas sem pensar duas vezes. Eis que surgiu uma ideia ao direcionar minha atenção para o navio prestes a partir. Dei um sorrisinho de canto para a Estela, e ela arregalou os olhos, adivinhando o que eu estava pensando.
– Você não está pensando em...
– Abre essa mala.


Continua...



Nota da autora: Meninxssss, eu espero não estar sendo caçada e espero que me desculpem de verdade quem acompanha a história, houveram muitos empecilhos nesses últimos meses, mas tudo resolvido! Continuem me amando e se não tiverem fazendo isso, comecem, e beijos no coração.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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