Anjos de Nova Iorque

Última atualização: 13/09/2020

Prólogo

As gotas de chuva escorriam pelo vidro formando caminhos pela porta fechada da varanda. As cortinas de seda pendiam até o chão, leves e brancas e o abajur iluminava o meu quarto espaçoso. A cama grande demais para mim estava perfeitamente arrumada com meus travesseiros e almofadas preferidos e os criados mudos ao lado da mesma um tanto bagunçados com pulseiras, meu celular e fotografias. O tapete felpudo era aconchegante e Pandora – uma grande bola de pelo canina – dormia como uma lady sobre ele.
Me aconcheguei na poltrona e virei a página do livro que estava lendo havia algumas horas, pois, precisava de algo para distrair minha mente da ansiedade. Pensar que meu melhor amigo estava voltando depois de passar as férias de verão na casa dos primos no Canadá me fazia olhar para fora a cada minuto. A vista do meu quarto dava para o jardim da frente da enorme casa que minha mãe construiu perto das mansões de outras figuras da alta sociedade e ela também mandou plantarem rosas brancas – as favoritas dela.
Por falar em minha adoravelmente insuportável mãe, Mia Collins, ela é o típico exemplo de que a fama se sobe à cabeça. Nossa família teve origens humildes até que um dia, ela decidiu que estava farta de ter apenas o mínimo para sobreviver sendo que tinha um talento incrível para a moda. Com o tempo e muito investimento de patrocinadores, minha mãe construiu um império com seu ateliê em Paris e suas diversas lojas por toda a américa. Agora, somos parte da Elite e francamente, os mimos e regalias que recebemos quase compensa a ausência e a frieza dela. Às vezes, penso que Mia se importa mais com os vestidos dela do que com a própria filha, nesse caso, eu. Sem falar, que ela vive na França e perdeu várias das datas importantes que pais normais comemoram com os filhos.
Os portões se abrem e reconheço a Range Rover preta subindo e contornando a fonte na entrada parando em frente as escadas da porta da frente. Jogo o cobertor rosa de flanela que me aquecia deixando o livro na poltrona e desço os degraus para o primeiro piso mais rápido do que nunca. Não sei como consegui chegar à sala de estar sem tropeçar e rolar escada a baixo. A campainha ecoa abafada pelo som de um trovão e a sala é iluminada por um raio no céu.
— Eu abro, Regina!
Regina. Minha segunda mãe para todos os momentos bons e ruins da minha breve vida de dezesseis anos. Quando minha verdadeira mãe ficou ocupada demais para mim – eu tinha dois anos – ela contratou uma governanta e desde então, Regina é a pessoa que eu mais confio nesse mundo e a amo como família, pois, é o que ela é. Além de cuidar de mim, ela também toma conta da casa, da comida e de todos os problemas que surgem.
Abri a porta e ele estava lá. Alto e sorridente como sempre. Retribui seu sorriso e recebi um abraço molhado e apertado que me deixou ensopada. A chuva não deu trégua aparentemente e agora, o chão de mármore branco minuciosamente limpo continha uma poça ao nosso redor.
— Oi. – Falei próximo a orelha dele enquanto sentia meus pés saírem do chão para ser girada ainda no abraço.
— Oi, Cecy. – A respiração suave e morna fez cocegas em minhas bochechas e Nate finalmente me soltou. Nos afastamos sorrindo feitos dois idiotas. — Senti saudade.
— Como acha que eu me senti? – Eu disse dando um tapinha no braço dele. Poderia estar enganada, mas, Nate estava mais forte do que eu me lembrava. — Eu tive que fazer as tardes de filme com as meninas. Abby detesta terror, então nos fez assistir romance e Jess, sempre dormia na metade dos filmes!
— Bom saber que eu sou útil apenas para ver filmes com você. – Ele lamentou com aquela expressão de compaixão e revirei os olhos.
— Nada disso. Sabe que não. – Respondi ajeitando os fios castanhos claros bagunçados dele. Gotas pingaram do cabelo e escorreram por meu braço e me lembrei que precisávamos de toalhas.
Como sempre, Regina leu minha mente aparecendo com duas delas, brancas e macias. Ela atravessou a sala passando por debaixo do arco que dividia esse cômodo da sala de jantar. As roupas pretas familiares e o avental branco. O cabelo escuro preso em uma trança destacando a pele clara e os olhos negros.
— Obrigada. – Agradeci pegando as toalhas e entregando uma a Nate que já tirava seu casaco e o estendia para Regina.
— Como está senhor Sartore? – Ela sorriu.
— Bem, obrigado Regina. – Nate retribuiu simpaticamente. — E já combinamos, se lembra? Sem formalidades.
— Claro. – Ela indicou o casaco dele. — Vou secar para você.
Eles trocaram um último sorriso e Nate se voltou para mim. Como eu senti falta daqueles olhos verdes – que mais pareciam duas esmeraldas gigantes de tanto que brilhavam - e do perfume cítrico e amadeirado.
— Então, o que teremos? – Ele perguntou enquanto caminhávamos até a escada semicircular esculpida e mármore e madeira escura.
— Eu pensei em filmes e obviamente – Parei antes de subir os degraus e me virei. — Seu chocolate quente! Mas, primeiro, preciso trocar de roupa.
Eu tinha prazeres na vida, mas o melhor deles era o chocolate quente do meu melhor amigo. Nathaniel realmente fazia um dos melhores que já provei e era nossa tradição, todos os sábados fazíamos a tarde de filmes e nunca perdíamos um dia sequer. Estabelecemos isso na quinta série.
— Como quiser, senhorita Collins.
Sorri e o puxei comigo pela mão escada a cima.

•••♕•••

— Errou. De novo. Suspirei recuperando o meu equilíbrio após perder o tempo dos passos. As sapatilhas começaram a machucar os meus pés há meia hora e fiz o que pude para me manter firme. Mas, infelizmente, eu não sou de ferro. Contudo, minha tia acha que sou.
— Desculpe. – Eu disse com as mãos nos quadris e cabisbaixa. Encarei minha saia preta de Ballet e as sapatilhas rosas. Segui os olhos para o espelho que cobria a sala toda e vi meu reflexo. Minha tia se aproximou e me segurou pelos ombros parando ao meu lado.
— Sabe o que eu vejo, Abigail? – Ela falou com a voz baixa me causando arrepios.
Tia Tessa, minha guardiã legal. Ela cuida de mim desde os cinco meses e me criou para ser a melhor no universo da dança clássica. Não existe um dia que passe sem que ela me lembre dos ensaios, de como minha postura ainda está imperfeita e de como meu eu preciso aprender mais e treinar mais compulsivamente por horas. Eu a amo, claro, mas tenho vontade de sumir de vez em quando.
Analisei o reflexo dela. Alta, cintura fina, o corpo magro e os cabelos ruivos como os meus. A diferença eram os olhos azuis, duros, frios e impacientes.
— O que, tia Tessa?
— Eu vejo uma jovem completamente... – Eu esperava um elogio, mas minhas pernas tremeram com a palavra que saiu da boca dela. — Incompetente! Precisa se esforçar mais! – As mãos dela apertaram meus braços. — Você engordou?
— Eu perdi um quilo na última semana. – Sussurrei receosa e engoli em seco o olhar reprovador dela.
— Acabamos por hoje. – Tia Tessa se afastou. — Vá para casa. Chegarei quando terminar com a turma das sete.
Concordei com a cabeça e parti para o vestiário me trocando o mais rápido que consegui. Eu só queria sair daquele lugar para poder respirar de novo. Tia Tessa sugava toda a minha energia e bom humor e provavelmente, fazia aquilo com todas as alunas dela, o que nunca anulou o fato de ela depositar toda a sua decepção com as outras dançarinas em mim.
Desci o elevador sozinha e a cada andar que me afastava da cobertura mais ventilados meus pulmões ficavam. A dança me acalmava, mas minha tia me sufocava. Sorri para o porteiro do prédio e sai na avenida movimentada ouvindo buzinas e sons urbanos. Eu amo Nova Iorque com todo o seu esplendor luminoso e vibrante. Acenei para um taxi e logo um parou para que eu entrasse. Seria melhor eu caminhar de volta para casa, assim, talvez, perderia mais algumas gramas.
— Esquece, eu vou andando. – Falei para o motorista e o carro partiu quando o sinal ficou verde.
Meu endereço era perto dali e em algumas quadras estaria na cobertura que meus pais deixaram para mim e tia Tessa. Apesar de ser minha, ela faz questão de ressaltar que ela dava as ordens por ali e se eu quisesse viver com todo aquele luxo, deveria seguir as regras ridiculamente rígidas dela.
Virei à direita entrando em uma rua sem muito movimento, um tanto isolada – algo estranho para as noites de Manhantan – e aumentei a música nos fones de ouvido enquanto lia as mensagens. Mesmo com o volume nas alturas, as vozes vindas da esquina pouco iluminada chamaram minha atenção e tirei um dos fones da orelha prosseguindo com certa cautela. Por que eu não peguei o maldito taxi?
Me escondi atrás de um poste quando reconheci uma das vozes.
— O chefe quer o dinheiro! Se não pagar, Liam, vamos achar outra forma de compensar. Entendeu?
— Eu vou pagar! Mas, preciso de tempo.
Espiei disfarçadamente. Dois garotos vestidos com couro preto – um de cabelos loiros e o outro escuro – cercavam Liam, um garoto do colégio e sim, me recuso a dizer meu amigo, apesar de ele fazer parte do nosso grupinho e almoçar com a gente todos os dias. Nós não nos suportávamos, nunca. Ele também vestia as roupas escuras que faziam jus ao estilo bad boy dele e o cabelo penteado em um topete charmoso. Liam Alvord era um cafajeste, o que não impedia todas as garotas da escola de caírem aos seus pés.
Senti dedos fortes se fecharem em meu braço direito e gritei ao ser arrastada do meu péssimo esconderijo para perto dos três. Todos me encararam confusos e irritados por ter alguém os espionando no que deveria ser uma conversa particular.
— Abby? – Liam franziu a testa processando o que acontecia.
— Então, quem é essa ruivinha linda? – O garoto que me segurava perguntou com um sorriso malicioso ao passar os olhos por mim. Meu estômago revirou de nojo.
— Me larga! – Mandei tentando me soltar.
— Abby, cala a boca. – Liam murmurou com o olhar fixo em mim.
— Não me manda calar a boca, seu idiota! – Retruquei e ouvi risadas dos três garotos desconhecidos e ameaçadores.
Um deles se aproximou e tocou meus cabelos cheirando os fios e sorrindo da mesma forma que o outro. Depois, ele se voltou para Liam, imóvel.
— Sua namorada é demais para você.
— Namorada? Que nojo!
Eu e o insuportável do Liam dissemos juntos, o que fez com que os caras mal encarados trocassem olhares se divertindo com a situação.
— Soltem, ela não tem nada com isso.
Por meio segundo, pensei que eles apenas ririam mais ainda. Porém, o brutamontes soltou meu braço e como um ato instintivo, estapeei a cara dele. O silêncio se seguiu e o clima ficou ainda mais tenso. Olhei para Liam boquiaberto e logo o garoto que me segurava antes avançou contra mim e agradeci quando o líder deles o deteve.
— Ignore, Erik. A vadia está nervosinha. – Os olhos escuros dele pararam sobre mim junto ao sorriso malicioso e sádico. Eu queria ter dado mais que um tapa na cara daquele imbecil. — Vamos, tenho certeza que nosso amiguinho entendeu o recado.
Eles e Liam se encararam por alguns segundos e depois os três desapareceram ao virar a esquina.
— Mas o que você estava pensando?! – Liam gritou se mexendo pela primeira vez desde que cheguei ali. Recuei um passo chocada com a atitude e cruzei os braços.
— O que eu estava pensando? O que você estava pensando?! – Eu disse e ele levou as mãos a cabeça andando em círculos. — No que se meteu, Alvord?
— Não é da sua conta! – Liam se aproximou e ficou perto o suficiente para que eu pudesse sentir sua respiração em meu rosto. Seu olhar estava tenso e irritado, mas havia uma gotinha de medo ali. — Nunca diga uma palavra sobre o que viu hoje. Finja que não aconteceu.
Segurei seus olhos castanhos, profundos e hipnotizantes e concordei com a cabeça notando que minha respiração estava entrecortada.
— Ótimo. Vou te levar para a sua casa. – Liam me empurrou para o estacionamento de um dos estabelecimentos e protestei parando e batendo contra ele.
— Não preciso que me leve, posso voltar sozinha. – Falei acenando para o primeiro taxi que vi. Esse eu pegaria.
— Abby.
Liam chamou meu nome mas ignorei abrindo a porta de trás do carro e entrando. Indiquei minha rua ao motorista e algo me fez olhar para o cafajeste charmoso e que, naquela noite, me fizera sentir medo e curiosidade ao mesmo tempo. O sinal abriu e Liam ficou para trás. Aquele dia foi longo demais para mim e a única coisa de que eu precisava era um banho bem quente.


Episódio 1

— Você parece uma criança.
Foi o que Nate disse ao me ver rodando e rodando na banqueta da ilha da cozinha, um dos meus cômodos preferidos da casa, já que tenho minhas melhores lembranças feitas aqui. Quando eu era pequena, Regina costumava fazer biscoitos e bolo de chocolate todos os fins de semana – não sei exatamente como consegui manter meu peso sem virar uma bola – e é claro, nos dias de ação de graças, fazemos a torta de limão como tradição.
— Por que eu não posso ajudar? – Fiz um bico enorme, pois, segundo meu melhor amigo, eu era uma criança.
Observei Nate tirar as coisas dos armários brancos e colocar os ingredientes separados na bancada de pedra negra da ilha. Ele estava misturando o chocolate com mais algumas coisas, que eu nem sabia como ficava bom, quando sorriu levantando uma sobrancelha para mim.
— Da última vez que você ajudou colocou sal em vez do açúcar. – Nathaniel respondeu e eu revirei os olhos pulando da banqueta para a bancada ao lado dele. Meus pés não tocavam o chão então, comecei a balançar minhas pernas involuntariamente.
— Foi só uma vez e já fiquei marcada! – Peguei um pouco do pó de chocolate e toquei o nariz dele. — Você é do mal, Nathaniel Sartore.
— O estereótipo de menina malvada aqui é você, Cecily Collins. – Nate limpou o nariz e despejou o leite quente junto ao resto dentro de duas xícaras. As xícaras de porcelana de minha mãe, se eu quebrasse uma estaria morta.
Mesmo com uma frase que poderia me ofender, ele me fez rir, porque eu sabia e ele também sabia que a intenção era o extremo contrário da ofensa. Nós conhecíamos tão bem um ao outro que tínhamos consciência do limite e do que machucaria cada um.
Terminamos de confeitar as bebidas com canela e marshmellows, fomos para a sala e ligamos a televisão. Escolhemos mais um filme qualquer sobre os clichês de terror e passamos a tarde aconchegados no sofá confortável debaixo de cobertores macios e peludinhos. Eu e Nate amávamos filmes de terror e essa era mais uma tradição que eu tinha na minha vida. Amávamos principalmente aqueles que nos faz querer gritar com o protagonista por ser idiota demais e entrar onde obviamente o assassino ou o fantasma está. Clichês... Uma relação de amor e ódio.
— Meus pais convidaram mais gente para o brunch anual da empresa. – Nate disse quando o filme acabou e os créditos estavam passando.
Para pessoas normais, os domingos são como todos os outros dias com um café da manhã comum, mas, para nós da alta sociedade é diferente. Nós temos o que chamamos de “brunch” uma espécie de café junto ao almoço onde servimos bebidas alcoólicas bem ao lado de sucos e bebidas quentes, da mesma forma que temos caviar ao lado de frutas e croissants.
Os Sartore são donos de uma empresa que comanda vários hospitais pela cidade e fora de Nova Iorque e todo ano eles dão uma festa para comemorar novos contratos, vidas salvas e outras coisas.
— Verdade? Quem? – Perguntei olhando tristemente para a minha xícara vazia. Era gula querer mais do melhor chocolate quente do mundo?
— Meus tios. Eles vieram do Canadá para o brunch e talvez fiquem um tempo na cidade.
— Espera, você acabou de voltar de lá. – Falei tentando descobrir o porquê de eu estar começando a me chatear. — Por que não me disse que eles estão aqui?
— Porque eu conheço você e sabia que iria ficar assim. – Nate respondeu suspirando e jogando a cabeça para trás apoiando-a no sofá e fechando os olhos.
— Assim? — Questionei mudando a posição e ficando sobre meus joelhos. Ele me olhou.
— Irritada. Você fica irritada quando mudam a sua rotina. – Nate percebeu a minha cara quando se apressou em continuar antes que eu falasse qualquer coisa. — Mas, eu quase nunca vejo meus tios e é por isso que você vai ser legal com eles e ter paciência comigo.
Cruzei meus braços e o encarei. Okay, talvez eu seja um pouco mimada. Só um pouco. Contudo, não é errado querer que as coisas funcionem como planejamos e quando elas saem do controle também ficamos irritados, então parem de me julgar. Eu apenas prefiro minha metódica rotina e as atenções que vem com ela.
— Promete que sempre que eu precisar você virá? Que os nossos sábados serão os nossos sábados?
— Cecy, meu Deus! – Ele riu levando as mãos à cabeça e as deslizando pelos cabelos. — São só alguns dias! Pare de ser dramática!
— Eu não sou dramática! Promete! – Insisti e ele se sentou à minha frente desencostando do sofá.
— Está bem! Eu prometo que nada vai mudar drama queen!
Nate me abraçou. Como eu me sentia segura naquele abraço e como parecia que eu era uma criança de verdade, tão pequena e protegida por ele. Nathaniel era um dos meus pilares e se o perdesse, eu desmoronaria e levaria todos os meus outros pilares comigo.

•••♕•••

— Eu vou te matar! Gwenniver!
Gritei perseguindo a minha irmã escada abaixo. A pequena capetinha de dez anos ria da minha cara achando engraçado o que ela acabara de fazer. Gwen correu para a sala onde meus pais estavam tomando vinho e conversando e se agarrou em minha mãe.
— Mas o que? – Ela exclamou fazendo cara feia para o blazer preto amassado.
— Que gritaria foi essa, Jessica? – Meu pai me olhou feio, mas ignorei, pois, eu estava a ponto de pular no pescoço da irmã que eu não pedi.
— Ela destruiu o meu discurso! – Mostrei os papéis rabiscados de canetinha e giz de cera e o balancei na cara de minha mãe que ajeitou os óculos no nariz se afastando.
— Jess, querida, ela só tem dez anos. Não é necessário tudo isso.
— Mamãe, eu fiquei o verão inteiro planejando esse discurso para a minha candidatura para o grêmio estudantil esse ano! É muito importante para mim e ela destruiu!
— Você não fez uma cópia? Que tipo de presidente será se nem ao menos faz cópias dos documentos importantes? – Papai tomou o resto do vinho de sua taça.
Inacreditável. Meus pais sempre foram próximos de mim, mas tudo mudou quando a peste nasceu. Gwen passou a ser a filha preferida deles, apesar de eles negarem. Olhei para eles e vi o que os clientes que defendiam nos tribunais viam. Duas pessoas sérias, poderosas e frias o suficiente para mandarem inocentes para a cadeia e deixarem assassinos livres. Duas pessoas com roupas caras e cabelos perfeitos e personalidades idênticas.
— Não vão dizer nada? Sério? – Questionei sentindo a adrenalina nas veias.
— Jessica... – Mamãe começou endireitando a postura com Gwen ajoelhada aos seus pés sobre o tapete me encarando com um sorriso sapeca e mal no rosto. Ela sempre me provocou, desde que começou a entender o que me irritava e o que não.
— Quer saber, esqueçam. – A impedi de continuar e rasguei os papeis em pedacinhos deixando que caíssem no chão. — Desde que ela nasceu vocês me tratam como se eu fosse descartável como um dos clientes de vocês. Eu não era boa o bastante, então me deixaram de lado para pegarem um caso melhor! – Fiz aspas em “caso”.
— Está dizendo bobagens, sabe disso. – Meu pai disse com cerca indiferença que me irritou ainda mais.
— Chega disso, já estou com dor de cabeça. – Minha mãe se levantou com os dedos tocando as têmporas. — Peça desculpas para a sua irmã.
— O que? Ela que deveria se desculpar! – Protestei incrédula e boquiaberta.
— Jessica, tivemos um dia longo e temos casos para preparar então, peça desculpa ou ficará de castigo por uma semana! – Mamãe me fuzilou alterando sua voz e senti as facas imaginárias que eram os olhos dela me espetarem.
— Não pode fazer isso... – Abaixei a minha voz e respirei fundo tentando fazer com que meu coração ficasse onde deveria ficar e não subisse pela garganta.
— Ela pode. Nós podemos. – Papai ajeitou o terno preto esticando os braços na parte de cima do sofá e cruzando uma perna sobre a outra.
— Vocês são inacreditáveis! – Terminei balançando a cabeça em negação e sentindo as lágrimas embaçarem meus olhos.
Subi para o segundo andar da cobertura sem me importar com os gritos deles ao chamarem por mim e ouvindo sobre eu estar de castigo antes de bater à porta do meu quarto com todas as minhas forças. Me joguei na cama e encarei o teto. Eu os odeio. Queria que sumissem. Não, eu queria sumir, mesmo sabendo que meus próprios pais mal notariam. Apertei um travesseiro contra o rosto para abafar o grito e as lágrimas molharam minhas bochechas.
O barulho de alguém me chamando para uma ligação no notebook me assustou um pouco. Encarei o objeto nos pés da cama e decidi que seria bom atender. De qualquer forma, sequei as lágrimas enquanto me sentava e puxei o computador para perto aceitando a vídeo chamada de Jordan.
— Oi, nerd. — Falei forçando um sorriso ao ver os cabelos loiros e os olhos escuros dele na tela.
Jordan era o tipo de menino que usava óculos redondo e suéter, o que deixava ele fofo demais para um nerd. O meu nerd.
— Oi... – Ele começou animado, mas se calou. Droga. — Você, estava chorando?
— Não. – Fingi coçar o olho. — É alergia. Sabe como eu sou sensível e a Helena mudou o amaciante das roupas então...
— Jess? – Jordan me encarou pela tela e eu suspirei abaixando os olhos.
— O que?
— Nós dois sabemos que você é uma péssima mentirosa. O que houve?
— Depois. Por favor. – Pedi engolindo o bolo salgado na garganta e voltando a olhar para a câmera.
— Está bem. Mas, eu vou lembrar. – A voz dele esbanjava preocupação e me senti um pouco melhor em saber que alguém se preocupava comigo. — Vai amanhã no brunch dos Sartore?
— Não perderia por nada. – Respondi e sorri retribuindo o sorriso gentil e alegre dele. Jordan é a pessoa mais alegre que eu havia conhecido durante toda a minha vida e isso me cativou desde o primeiro dia em que nos vimos na quinta série, apesar de ter começado a olhar para ele de maneira diferente e mais afetiva apenas no nono ano.
— Eu pego você as onze.
Droga. Meus pais nunca me deixariam ir com Jordan por estar de castigo e comecei a odiar minha irmã de novo naquele segundo. Eu teria que ir com eles para o brunch e isso estragaria o meu dia. Ao menos, eu veria meus amigos amanhã. Entretanto, eu já estava de castigo mesmo, e o senhor e a senhora advogados de defesa Campbell mereciam ser contrariados e eu adoraria ter esse prazer. O que poderia acontecer de pior? Ajeitei o cabelo atrás da orelha e sorri igual uma boba apaixonada.
— Claro. Mal posso esperar.


Episódio 2

Assim que abri os olhos desejei que fosse qualquer dia, menos o domingo do brunch da empresa dos meus pais. Todo ano eles comemoram a evolução dos lucros, conquistas e parcerias e convidam tanta gente que mal chego a decorar todos os nomes e associa-los aos rostos de cada pessoa que frequenta a minha casa a cada brunch. Porém, eu nunca poderia deixar de comparecer a essa manhã, já que, segundo meu pai, ele fazia tudo aquilo para mim e para minha irmã, para que conhecêssemos os grandes nomes e fossemos conhecidos.
Olhei para a porta quando minha mãe espiou e sorriu para mim.
— Hora de acordar.
— Mais cinco minutos! – Pedi me virando e afundando a cabeça no travesseiro. As cortinas deixavam passar luz suficiente para me impedir de voltar a dormir e a preguiça de levantar me impedia de fechá-las. Minha mãe entrou no quarto e se sentou na beirada da cama.
— Por favor, Nate. Hoje não, está bem.
Virei-me de lado e a olhei. Mamãe vestia um roupão de seda branco por cima da camisola e pantufas da Tiffany & Co nos pés. Uma trança caia em seu ombro e alguns fios castanhos escapavam dela.
— Porque a Ronnie pode fazer o que ela quer e eu não? Ela nunca compareceu a esse brunch e o papai nunca reclamou. – Questionei me sentindo injustiçado sobre o fato de que a minha irmã pôde dizer “não” ao papai e ao legado da empresa. — Ela seguiu o sonho dela e agora está em Hollywood fazendo um filme e eu tenho que receber pessoas que eu mal conheço?
— Porque a sua irmã é a sua irmã. E só tivemos dois filhos, então sobrou para você, meu amor. – Minha mãe acariciou minha bochecha com ternura e sorriu. A observei se levantar e ir até a porta para deixar minha caverna pessoal. — Agora, desça em cinco minutos! E tome um banho!
— Valeu, mãe! – Falei me sentando coçando a cabeça e concordando mentalmente que eu precisava de um banho de verdade.
Não me demorei muito embaixo do chuveiro e logo vesti uma calça social preta combinando com o blazer e a camisa branca deixando os primeiros dois botões abertos. Terminei com perfume e arrumei o cabelo, mesmo sabendo que uma das meninas arrumaria “decentemente” assim que chegassem.
Quando desci, vi empregados correndo para lá e para cá com bandejas cheias de comida – desde frutas a caviar e pratos quentes – e bebidas – desde água a um dos mais caros champanhes. Meus pais conversavam com meus tios próximo a uma... Fonte? Eles colocaram uma fonte de água no meio da sala?
— Ai está ele! Meu garoto! – Meu pai sorriu ao me ver e meus tios fizeram igual.
— Está elegante, Nathaniel! – Tia Lilian me elogiou.
— Obrigado. – Agradeci passando os olhos a procura de algum dos meus amigos, mas, infelizmente, encontrei apenas meu primo enchendo uma taça com espumante.
— É claro que ele está! Tudo isso é para ele!
A voz feminina veio de trás de mim e apesar, de sentir o movimento as minhas costas, a ausência do barulho costumeiro de saltos altos não se seguiu. Então, me virei para ter certeza se minha cabeça não estava me enganando. A única garota que eu conhecia que odiava saltos altos era Verônica.
E lá estava ela. Minha irmã mais velha com o mesmo entusiasmo de sempre e o sorriso simpático no rosto.
— Ronnie! – Ela se jogou sobre mim me apertando em um abraço. — Você veio?
— Também senti saudade, irmãozinho! – Ela se afastou e seus olhos verdes brilhavam.
— Verônica! Quanto tempo, querida! – Tio Derek disse e Ronnie me largou para se jogar sobre ele.
A deixei com os cumprimentos de boas-vindas e me afastei antes que o assunto voltasse para mim de novo. Os convidados começaram a chegar em massa e em menos de meia hora minha casa estava cheia de empresários, socialites e diplomatas se embebedando com classe. Não consegui escapar das apresentações e conversas chatas que meu pai me obrigou a ter com alguns dos amigos deles e, assim que finalmente me deixaram em paz, segui para a mesa de bebidas.
— Como você aguenta? – Foi Brad quem falou.
Olhei para o meu primo apoiado em um pilas e bebendo sua terceira, ou quarta taça de champanhe, na verdade, eu perdi as contas há alguns empresários atrás. Éramos completamente diferentes. Enquanto meu cabelo era uma mistura de dourado e areia, o dele tinha nuances de marrons escuros, além, dos olhos verdes como os de Ronnie e não com os meus, azuis claros.
— Eu bebo. – Respondi virando um shot de uísque e começando a encher outro.
— Está cedo para beber. – Brad me olhou com a sobrancelha arqueada e o sorriso pervertido e sarcástico que ele usava sempre.
— Sério? – Retruquei olhando a taça nas mãos dele. Brad ergue a mesma em um brinde imaginário e terminou a bebida. Virei mais um shot e abandonei o copinho.
Brad se aproximou de mim e pousou a mão em meu ombro para manter a conversa entre a gente.
— Se quiser relaxar, sabe, tomar um ar... – Ele imitou o gesto de fumar e eu segurei a risada mordendo a parte interna da bochecha. Eu sabia do que Brad estava falando e não era cigarro ou aqueles charutos caros. — É da boa. Confie em mim, priminho.
— Agora não.
— Mais tarde, então. Sobra mais para mim.
Brad saiu para o jardim de trás da casa onde ficava a piscina e sumiu entre a multidão para procurar um lugar mais sossegado e seguro. Não é como se ninguém ali nunca houvesse usado qualquer coisa – todos usaram e usam – mas, a hipocrisia era um dos pilares da alta sociedade e julgariam meu primo sem pestanejar.
Eu não julgo. Nada. Ninguém. Nunca.

•••♕•••

Regina me acordou bem cedo e da mesma forma consegui a proeza de me atrasar. Cecily não é Cecily se chegar na hora. Talvez tenha sido o banho de espuma ou os muitos minutos que fiquei conversando com as meninas via chamada de vídeo enquanto nós escolhíamos as roupas. Jess ficou pronta primeiro e desligou quando Jordan chegou para busca-la e Abby precisou ir depois da segunda vez que a Tia Tessa a chamou para partirem para o brunch também. Eu estava quase pronta com meu Burberry xadrez vermelho e preto. Quase.
— Regina, sabe onde está o meu Jimmy Choo? – A governanta saiu apareceu na porta do closet e fez cara de espanto ao ver as roupas jogadas no carpete branco. Ignorei a boca aberta dela e continuei: — Aquele de bico fino e tirinhas pretas?
Ela suspirou e entrou na minha bagunça sabendo exatamente onde encontrar o meu salto da mais nova coleção outonou e inverno de uma das minhas lojas favoritas. Sorri em agradecimento e depois franzi a testa sem saber como eu não o havia encontrado se procurei no mesmo lugar há segundos.
— Obrigada! Você salvou a minha vida! — Sentei no banquinho felpudo e vesti os sapatos.
— Senhorita, está quarenta minutos atrasada. – Regina me lembrou.
— O Nate vai me matar! – Retoquei o batom no espelho da penteadeira com maquiagem espalhada por todos os cantos e ajeitei meus cachos escuros e compridos com poucas mechas presas atrás da cabeça. Regina me estendeu a carteira clássica da Chanel e a abracei. — Volto mais tarde.
— Não faça nada que eu não faria. – Ela aconselhou. Sempre preocupada comigo.
Sorri uma última vez por cima do ombro e enfim, deixei meu quarto descendo as escadas e entrando na limusine que já esperava por mim.

•••♕•••

Eu não estava me sentindo melhor ao acordar e ainda estava irritada com Gwenniver por ter destruído meu discurso sem ter sofrido punições. Me recusei a descer até que Jordan chegasse e eu sabia que não escaparia de uma breve discussão quando saísse. Me arrumei com a ajuda das meninas pelo computador e peguei minha bolsa antes de trocar a paz do meu quarto pelas caras feias e perguntas irritantes dos meus pais.
— Sua mãe ainda está se arrumando, Jessica. Onde pensa que vai? – Papai questionou sem tirar os olhos do jornal estúpido que ele lia todas as manhãs.
— Eu vou com Jordan. – Respondi de cara fechada passando pela sala com certa força em meus passos e apertei o botão do elevador que ficava em um pequeno corredor no hall da cobertura.
— Não, não vai. – A voz de minha mãe surgiu aos fundos e pelo som do salto estalando ela descia as escadas. — Você vai conosco e pode trocar esses sapatos! Está indo para um brunch e não para uma festa noturna.
Fiz questão de ignorar e respirei fundo para me acalmar antes que meu sangue fervesse. O elevador demorava mais do que o normal e aquilo estava me deixando ansiosa e angustiada. Finalmente as portas douradas se abriram e entrei já ouvindo passos em minha direção.
— Jessica? – Mamãe chamou irritada.
Apertei o botão para o térreo e em seguida, as portas começaram a se fechar. Forcei um sorriso amarelo para minha mãe que chegou tarde demais para me impedir de descer e a encarei nos últimos centímetros antes das portas ficarem completamente fechadas.
Pude respirar aliviada assim que avistei o salão em tons de bronze e branco. Uma mulher com avental preto limpava o piso de mármore lustroso e o porteiro sorriu para mim.
— Bom dia, Dário. – Cumprimentei recebendo um aceno e um sorriso amigável. Passei pela porta giratória da entrada e logo encontrei Jordan.
Ele estava encostado na BMW preta com as mãos nos bolsos das calças sociais. O cabelo castanho caindo na testa com o charme de sempre e os óculos sobre o nariz combinando com a camisa e a gravata borboleta. Jordan fazia um nerd parecer sexy e sensual demais e eu o amava por isso, além de muitos outros aspectos.
— Uau! Nada mal, nerd. – Senti as bochechas queimarem e os braços dele ao meu redor, bem apertados.
— Se continuar se vestido assim vou ficar com ciúmes. – Jordan sorriu passando os olhos sobre mim e pegando minha mão livre, a que não segurava a bolsa. — Sapatos legais. São novos?
Segurei o olhar amendoado dele acariciando o dorso de sua mão e sorri igual uma boba apaixonada. Ele tinha esse dom em relação a mim e era mais uma coisa que eu adorava. Jordan me aceitava com todos os prós e contras e tornava meus dias melhores quando minha família os arruinava.
— São sim. – Respondi e o beijei demoradamente. Existiam beijos quentes e beijos como os dele, cheios de ternura e delicadeza, o que nem sempre significava que não podíamos ser quentes. Nós éramos. Às vezes. Em certas ocasiões.
Jordan abriu a porta do carro e a fechou assim que me sentei dando a volta no veículo e tomando seu lugar no banco de motorista. Os Evans tinham chofer, mas ele gostava de dirigir, o que não me incomodava. As ruas de Nova Iorque lotadas como sempre nos fizeram parar mais vezes do que deveríamos nos sinais, dando a chance de ele fazer perguntas sobre ontem à noite.
— Vai me contar?
— Sabia que não esqueceria. – Eu disse suspirando. Ele me olhou sem dizer mais nada, apenas esperando. — Gwen achou que o meu discurso era uma tela para desenhar e meus pais se recusaram a me ouvir, mais uma vez, e deram razão para ela. Ah! É claro, eu estou de castigo por ter causado intriga com a peste da minha irmã!
As palavras fluíram como uma cachoeira de stress e mágoas. Mais do que eu pretendia. Precisei recuperar o fôlego e o fiz enquanto era encarada fixamente. Jordan me olhou por tanto tempo sem dizer nada que o sinal ficou verde e ganhamos uma buzina.
— Eles são horríveis. Que tipo de pais são assim? – Ele acelerou mantendo os olhos no trânsito. — Eu sinto muito, Jess.
— Pelos pais detestáveis ou pelo discurso?
— Os dois. – Ele me olhou novamente com um sorriso de canto me lembrando que eu me sentia bem melhor sempre que estávamos juntos e isso bastou naquele momento.
Quando chegamos na casa dos Sartore, os jardins estavam com mais gente que o normal, até mesmo para um brunch deles e avistei Nate conversando com Abby e Liam perto de uma fonte e percebi que ele mantinha ambos a uma distância segura. Abigail Forbes e Liam Alvord nunca perdiam a chance de começar uma boa discussão desnecessária. Eles divergiam de opiniões e, talvez, convenhamos que ele tinha o dom de irritar quem quisesse com sua atitude convencida e irônica. Nós, os amigos, éramos responsáveis por tentar evitar ao máximo brigas ou palavras feias entre eles. Havia mais um garoto com eles que eu não reconheci e Cecy ainda não chegara.
— Finalmente! – Ouvi Abby dizer quando nos aproximamos. — Por que demorou tanto?
— Desculpe, muito trânsito. Moramos em Nova Iorque, sabia? – Respondi e ela revirou os olhos. — Oi, Nate.
— Jess. Jordan. – Nate sorriu e se voltou para o garoto estranho. — Esse é o Brad, meu primo do Canadá.
— Muito prazer. – Brad beijou minha mão todo cortês e percebi o incomodo de Jordan ao leu lado, o que passou assim que eles se cumprimentaram também.

Episódio 3

Assim que abri os olhos, desejei que fosse qualquer dia, menos o domingo do brunch da empresa dos meus pais. Todo ano eles comemoram a evolução dos lucros, conquistas e parcerias e convidam tanta gente que mal chego a decorar todos os nomes e associa-los aos rostos de cada pessoa que frequenta a minha casa a cada brunch. Porém, eu nunca poderia deixar de comparecer a essa manhã, já que, segundo meu pai, ele fazia tudo aquilo para mim e para minha irmã, para que conhecêssemos os grandes nomes e fossemos conhecidos.
Olhei para a porta quando minha mãe espiou e sorriu para mim.
— Hora de acordar.
— Mais cinco minutos! – Pedi, me virando e afundando a cabeça no travesseiro. As cortinas deixavam passar luz suficiente para me impedir de voltar a dormir e a preguiça de levantar me impedia de fechá-las. Minha mãe entrou no quarto e se sentou na beirada da cama.
— Por favor, Nate. Hoje não, está bem?
Virei-me de lado e a olhei. Mamãe vestia um roupão de seda branco por cima da camisola e pantufas da Tiffany & Co nos pés. Uma trança caia em seu ombro e alguns fios castanhos escapavam dela.
— Por que a Ronnie pode fazer o que ela quer e eu não? Ela nunca compareceu a esse brunch e o papai nunca reclamou. – Questionei, me sentindo injustiçado sobre o fato de que a minha irmã pôde dizer “não” ao papai e ao legado da empresa. — Ela seguiu o sonho dela e agora está em Hollywood fazendo um filme e eu tenho que receber pessoas que eu mal conheço?
— Porque a sua irmã é a sua irmã. E só tivemos dois filhos, então sobrou para você, meu amor. – Minha mãe acariciou minha bochecha com ternura e sorriu. A observei se levantar e ir até a porta para deixar minha caverna pessoal. — Agora, desça em cinco minutos! E tome um banho!
— Valeu, mãe! – Falei, me sentando, coçando a cabeça e concordando mentalmente que eu precisava de um banho de verdade.
Não me demorei muito embaixo do chuveiro e logo vesti uma calça social preta combinando com o blazer e a camisa branca deixando os primeiros dois botões abertos. Terminei com perfume e arrumei o cabelo, mesmo sabendo que uma das meninas arrumaria “decentemente” assim que chegassem.
Quando desci, vi empregados correndo para lá e para cá com bandejas cheias de comida – desde frutas a caviar e pratos quentes – e bebidas – desde água a um dos mais caros champanhes. Meus pais conversavam com meus tios próximo a uma... Fonte? Eles colocaram uma fonte de água no meio da sala?
— Ai está ele! Meu garoto! – Meu pai sorriu ao me ver e meus tios fizeram igual.
— Está elegante, Nathaniel! – Tia Lilian me elogiou.
— Obrigado. – Agradeci, passando os olhos a procura de algum dos meus amigos, mas, infelizmente, encontrei apenas meu primo enchendo uma taça com espumante.
— É claro que ele está! Tudo isso é para ele!
A voz feminina veio de trás de mim e apesar, de sentir o movimento as minhas costas, a ausência do barulho costumeiro de saltos altos não se seguiu. Então, me virei para ter certeza se minha cabeça não estava me enganando. A única garota que eu conhecia que odiava saltos altos era Verônica.
E lá estava ela. Minha irmã mais velha com o mesmo entusiasmo de sempre e o sorriso simpático no rosto.
— Ronnie! – Ela se jogou sobre mim me apertando em um abraço. — Você veio?
— Também senti saudade, irmãozinho! – Ela se afastou e seus olhos verdes brilhavam.
— Verônica! Quanto tempo, querida! – Tio Derek disse e Ronnie me largou para se jogar sobre ele.
A deixei com os cumprimentos de boas vindas e me afastei antes que o assunto voltasse para mim de novo. Os convidados começaram a chegar em massa e em menos de meia hora minha casa estava cheia de empresários, socialites e diplomatas se embebedando com classe. Não consegui escapar das apresentações e conversas chatas que meu pai me obrigou a ter com alguns dos amigos deles e, assim que finalmente me deixaram em paz, segui para a mesa de bebidas.
— Como você aguenta? – Foi Brad quem falou.
Olhei para o meu primo apoiado em um pilar e bebendo sua terceira, ou quarta, taça de champanhe. Na verdade, eu perdi as contas há alguns empresários atrás. Éramos completamente diferentes. Enquanto meu cabelo era uma mistura de dourado e areia, o dele tinha nuances de marrons escuros, além, dos olhos verdes como os de Ronnie e não com os meus, azuis claros.
— Eu bebo. – Respondi, virando um shot de uísque e começando a encher outro.
— Está cedo para beber. – Brad me olhou com a sobrancelha arqueada e o sorriso pervertido e sarcástico que ele usava sempre.
— Sério? – Retruquei, olhando a taça nas mãos dele. Brad ergueu a mesma em um brinde imaginário e terminou a bebida. Virei mais um shot e abandonei o copinho.
Brad se aproximou de mim e pousou a mão em meu ombro para manter a conversa entre a gente.
— Se quiser relaxar, sabe, tomar um ar... – Ele imitou o gesto de fumar e eu segurei a risada, mordendo a parte interna da bochecha. Eu sabia do que Brad estava falando e não era cigarro ou aqueles charutos caros. — É da boa. Confie em mim, priminho.
— Agora não.
— Mais tarde, então. Sobra mais para mim.
Brad saiu para o jardim de trás da casa onde ficava a piscina e sumiu entre a multidão para procurar um lugar mais sossegado e seguro. Não é como se ninguém ali nunca houvesse usado qualquer coisa – todos usaram e usam – mas, a hipocrisia era um dos pilares da alta sociedade e julgariam meu primo sem pestanejar.
Eu não julgo. Nada. Ninguém. Nunca.


•••♕•••


Regina me acordou bem cedo e da mesma forma consegui a proeza de me atrasar. Cecily não é Cecily se chegar na hora. Talvez tenha sido o banho de espuma ou os muitos minutos que fiquei conversando com as meninas via chamada de vídeo, enquanto nós escolhíamos as roupas. Jess ficou pronta primeiro e desligou quando Jordan chegou para buscá-la e Abby precisou ir depois da segunda vez que a Tia Tessa a chamou para partirem para o brunch também. Eu estava quase pronta com meu Burberry xadrez vermelho e preto. Quase.
— Regina, sabe onde está o meu Jimmy Choo? – A governanta apareceu na porta do closet e fez cara de espanto ao ver as roupas jogadas no carpete branco. Ignorei a boca aberta dela e continuei: — Aquele de bico fino e tirinhas pretas?
Ela suspirou e entrou na minha bagunça sabendo exatamente onde encontrar o meu salto da mais nova coleção outono e inverno de uma das minhas lojas favoritas. Sorri em agradecimento e depois franzi a testa sem saber como eu não o havia encontrado se procurei no mesmo lugar há segundos.
— Obrigada! Você salvou a minha vida! — Sentei no banquinho felpudo e vesti os sapatos.
— Senhorita, está quarenta minutos atrasada. – Regina me lembrou.
— O Nate vai me matar! – Retoquei o batom no espelho da penteadeira com maquiagem espalhada por todos os cantos e ajeitei meus cachos escuros e compridos com poucas mechas presas atrás da cabeça. Regina me estendeu a carteira clássica da Chanel e a abracei. — Volto mais tarde.
— Não faça nada que eu não faria. – Ela aconselhou. Sempre preocupada comigo.
Sorri uma última vez por cima do ombro e, enfim, deixei meu quarto, descendo as escadas e entrando na limusine que já esperava por mim.

•••♕•••


Eu não estava me sentindo melhor ao acordar e ainda estava irritada com Gwenniver por ter destruído meu discurso sem ter sofrido punições. Me recusei a descer até que Jordan chegasse e eu sabia que não escaparia de uma breve discussão quando saísse. Me arrumei com a ajuda das meninas pelo computador e peguei minha bolsa antes de trocar a paz do meu quarto pelas caras feias e perguntas irritantes dos meus pais.
— Sua mãe ainda está se arrumando, Jessica. Onde pensa que vai? – Papai questionou, sem tirar os olhos do jornal estúpido que ele lia todas as manhãs.
— Eu vou com Jordan. – Respondi de cara fechada, passando pela sala com certa força em meus passos e apertei o botão do elevador que ficava em um pequeno corredor no hall da cobertura.
— Não, não vai. – A voz de minha mãe surgiu aos fundos e pelo som do salto estalando, ela descia as escadas. — Você vai conosco e pode trocar esses sapatos! Está indo para um brunch e não para uma festa noturna.
Fiz questão de ignorar e respirei fundo para me acalmar antes que meu sangue fervesse. O elevador demorava mais do que o normal e aquilo estava me deixando ansiosa e angustiada. Finalmente as portas douradas se abriram e entrei, já ouvindo passos em minha direção.
— Jessica? – Mamãe chamou irritada.
Apertei o botão para o térreo e, em seguida, as portas começaram a se fechar. Forcei um sorriso amarelo para minha mãe, que chegou tarde demais para me impedir de descer e a encarei nos últimos centímetros antes das portas ficarem completamente fechadas.
Pude respirar aliviada assim que avistei o salão em tons de bronze e branco. Uma mulher com avental preto limpava o piso de mármore lustroso e o porteiro sorriu para mim.
— Bom dia, Dário. – Cumprimentei, recebendo um aceno e um sorriso amigável. Passei pela porta giratória da entrada e logo encontrei Jordan.
Ele estava encostado na BMW preta com as mãos nos bolsos das calças sociais. O cabelo castanho caindo na testa com o charme de sempre e os óculos sobre o nariz combinando com a camisa e a gravata borboleta. Jordan fazia um nerd parecer sexy e sensual demais e eu o amava por isso, além de muitos outros aspectos.
— Uau! Nada mal, nerd. – Senti as bochechas queimarem e os braços dele ao meu redor, bem apertados.
— Se continuar se vestido assim vou ficar com ciúmes. – Jordan sorriu, passando os olhos sobre mim e pegando minha mão livre, a que não segurava a bolsa. — Sapatos legais. São novos?
Segurei o olhar amendoado dele, acariciando o dorso de sua mão e sorri igual uma boba apaixonada. Ele tinha esse dom em relação a mim e era mais uma coisa que eu adorava. Jordan me aceitava com todos os prós e contras e tornava meus dias melhores quando minha família os arruinava.
— São sim. – Respondi e o beijei demoradamente. Existiam beijos quentes e beijos como os dele, cheios de ternura e delicadeza, o que nem sempre significava que não podíamos ser quentes. Nós éramos. Às vezes. Em certas ocasiões.
Jordan abriu a porta do carro e a fechou assim que me sentei, dando a volta no veículo e tomando seu lugar no banco de motorista. Os Evans tinham chofer, mas ele gostava de dirigir, o que não me incomodava. As ruas de Nova Iorque lotadas como sempre nos fizeram parar mais vezes do que deveríamos nos sinais, dando a chance de ele fazer perguntas sobre ontem à noite.
— Vai me contar?
— Sabia que não esqueceria. – Eu disse, suspirando. Ele me olhou sem dizer mais nada, apenas esperando. — Gwen achou que o meu discurso era uma tela para desenhar e meus pais se recusaram a me ouvir, mais uma vez, e deram razão para ela. Ah! É claro, eu estou de castigo por ter causado intriga com a peste da minha irmã!
As palavras fluíram como uma cachoeira de stress e mágoas. Mais do que eu pretendia. Precisei recuperar o fôlego e o fiz enquanto era encarada fixamente. Jordan me olhou por tanto tempo sem dizer nada que o sinal ficou verde e ganhamos uma buzina.
— Eles são horríveis. Que tipo de pais são assim? – Ele acelerou, mantendo os olhos no trânsito. — Eu sinto muito, Jess.
— Pelos pais detestáveis ou pelo discurso?
— Os dois. – Ele me olhou novamente com um sorriso de canto, me lembrando que eu me sentia bem melhor sempre que estávamos juntos e isso bastou naquele momento.
Quando chegamos na casa dos Sartore, os jardins estavam com mais gente que o normal, até mesmo para um brunch deles e avistei Nate conversando com Abby e Liam perto de uma fonte e percebi que ele mantinha ambos a uma distância segura. Abigail Forbes e Liam Alvord nunca perdiam a chance de começar uma boa discussão desnecessária. Eles divergiam de opiniões e, talvez, convenhamos que ele tinha o dom de irritar quem quisesse com sua atitude convencida e irônica. Nós, os amigos, éramos responsáveis por tentar evitar ao máximo brigas ou palavras feias entre eles. Havia mais um garoto com eles que eu não reconheci e Cecy ainda não chegara.
— Finalmente! – Ouvi Abby dizer quando nos aproximamos. — Por que demorou tanto?
— Desculpe, muito trânsito. Moramos em Nova Iorque, sabia? – Respondi e ela revirou os olhos. — Oi, Nate.
— Jess. Jordan. – Nate sorriu e se voltou para o garoto estranho. — Esse é o Brad, meu primo do Canadá.
— Muito prazer. – Brad beijou minha mão todo cortês e percebi o incomodo de Jordan ao leu lado, o que passou, assim que eles se cumprimentaram também.

Episódio 4

A casa dos meus tios era de longe a mais luxuosa que eu havia visto. Somos da mesma família, mas meus pais insistiram na ideia de simplicidade e de viver uma vida mais normal. Por isso, moramos no Canadá desde que eu me entendo por gente em um chalé nas montanhas. Eu gosto da minha vida, mas não vou negar que me acostumaria fácil com a que Nate e os centenas de convidados do brunch levavam.
Levou pouco mais de meia hora para que os amigos dele começassem a chegar. Sou péssimo com nomes, mas os deles fiz questão de guardar. Abby: baixinha, ruivinha e irritada. Ela começou a trocar farpas com Liam, metido a BadBoy que chegou logo depois. A seguir, Jordan e Jess, o casal mais compatível e perfeito. Perfeito o suficiente para me dar enjôos só de pensar nos assuntos tediosos que deveriam ter em comum. Escola? Política? Coisas de nerds? Tanto faz.
— Alguém sabe da Cecy?
Saí dos meus próprios pensamentos ao ouvir um nome que escutei muito nas férias enquanto meu primo esteve comigo. Cecily Collins, vulgo melhor amiga para todas as horas, e percebi que ela ainda não tinha chegado.
— Atrasada, como sempre. – Abby respondeu para Nate com um revirar de olhos. Aparentemente ela estava ansiosa para que a amiga chegasse. — Deveria ter dito que o brunch seria às oito da manhã e não ao meio dia, Nate.
— Vocês se preocupam demais. O trânsito pode estar parado ou algo do tipo. – Liam levou o copo de uísque a boca e tomou tudo o que tinha terminando com uma careta.
— Ninguém falou com você, Liam! – Abby retrucou, cruzando os braços. Os fios cobres caindo sobre o ombro.
— Me erra, Abby. – Ele respondeu, devolvendo o copo na bandeja de um garçom que passou naquele momento.
— Você dois! Não comecem! – Jessica se colocou entre ambos, lançando um olhar de modo a repreendê-los.
Me distanciei da conversa novamente e varri o ambiente com os olhos, procurando alguma coisa mais interessante do que os amigos de Nate. Sinceramente, eu esperava menos infantilidade da parte das pessoas da alta sociedade de Nova Iorque. Foi quando notei algo muito interessante. Alguém atravessando o jardim em um vestido xadrez, obviamente caro, nas cores preto e vermelho – que caiam bem com o tom escuro do cabelo longo e dos lábios carmim. Ela se aproximou de onde nós estávamos e me dei conta de quem aquela garota com o andar confiante era. Confiante e com belas curvas. Desviei os olhos do vestido colado até as coxas antes que um deles notasse.
— Acho que chegou quem faltava. – Eu disse e a pequena discussão que Jess tentava dissipar sem sucesso entre Abby e Liam sessou. Quando todos se viraram para observar Cecy, pensei que ela se deteria um tanto envergonhada, pelo contrário, ela sorriu e acenou.
— Oi, gente.
— Oi, gente? – Nate arqueou uma sobrancelha. — Só isso?
— Eu sei! Eu sei! Me desculpem! – Cecy fez uma careta como se estivesse triste e o beijou na bochecha, enquanto o apertava em um abraço. — Eu prometo que vou tentar não me atrasar mais! É que eu não encontrava um sapato que combinasse, aí eu me lembrei do meu...
— Quer saber, esquece. Perdoada. – Meu primo a interrompeu antes que fossemos obrigados a ouvir sobre moda e esses assuntos femininos. O agradeci mentalmente por isso. Cecy sorriu e alternou o olhar entre mim e ele franzindo a testa como se perguntasse quem eu era e porque estava ali com os outros. — Ah! Cecy esse é o Brad, meu primo.
— Do Canadá, certo? – Ela me estendeu a mão e ficou surpresa quando recebeu um beijo no dorso da mesma ao invés de um simples aperto. — Okay... Cortês.
— Fico feliz em finalmente te conhecer. Nate falou muito de você nesse verão. – Falei, sorrindo e mantendo contato com os incríveis olhos azuis dela. E como eram azuis. Azuis oceano, tão profundos e misteriosos quanto.
— É mesmo? – Cecy olhou para Nate um pouco sem graça. — O que ele falou?
— Não importa! – Abby se meteu entre nós. — Vem! Quero comer um daqueles camafeus antes que acabem!
A ruivinha a puxou pela mão, agarrando Jess em seguida também.
— Abby... – Cecy tentou se soltar, mas apenas sorriu se desculpando. — Eu já volto! Está tudo fantástico!
Por fim, percebi que aquele sorriso não foi para mim e continuei sem entender o porquê de eu ter ficado um tanto decepcionado com o fato. Ela sorrira para Nate, que retribuiu tarde demais, pois, elas já tinham desaparecido na multidão. Refutei a ideia de que meu primo não possuía amizades interessantes. A verdade, é que uma única me interessou e eu iria fazer tudo para saber mais sobre essa garota. Cecily Collins, dona de uma beleza angelicalmente fria – como a dos anjos dos quadros de Alexandre Cabanel – e meu próximo beijo se o universo permitisse.

•••♕•••


— Ele estava te olhando.
Abby sequer ergueu os olhos para mim para começar com sua suspeita favorita: flerte. Ela nunca deixa passar olhares demorados demais, lábios entreabertos que nem precisam falar para demostrar desejo ou sinais que o corpo dá quando se gosta de alguém.
— Quem? – Perguntei indiferente, como se eu não soubesse a quem ela se referiu. Eu sabia, claro, mas não queria dar continuidade ou abertura para qualquer coisa que Abby pensou que viu.
— Dã? Brad Cortês Sartore! – Abby insistiu, imitando o que seria a minha voz, falhando miseravelmente. Coloquei um morango com chocolate em meu prato e dei um passo para o lado decidindo se trocaria aquele doce por uma melancia flambada.
— O quê? Não, ele não estava e essa não é a minha voz! – Respondi, tendo plena certeza de que eu também havia falhado no quesito evitar tal conversa. Agora, terei que ir até o fim, pois, será pior me esquivar do assunto e guardá-lo para mais tarde. Minha amiga ruiva tem uma memória incrível e quando cisma com algo, ela vai até o fundo.
— Qual é, Cecy? Ele estava praticamente te comendo com os olhos. – Jess se juntou a conversa saindo de trás de Abby para ficar ao meu lado pegando a última fatia de melancia. Tarde demais, Cecy! O morango, então.
— Vocês querem parar? – Falei, sentindo meu sangue correr mais rápido nas veias. Tudo o que eu não queria era me aborrecer hoje, mas, minhas amizades tornam isso impossível em quase todas as vezes que estamos juntas. — Querem saber? Vocês duas são ridículas! – Pouso o prato na mão livre de Jessica. — Eu vou agradecer os pais do Nate pelo brunch e podem esquecer isso quando eu voltar!
Deixo-as com passos decididos e pesados e pego uma taça da primeira bandeja que vejo no alto. Sem tempo para agradecer o garçom – como se algum deles se importasse em ser agradecido. Devem estar acostumados a apenas perambular sem serem notados. Era o trabalho deles, afinal de contas. Atravessei o salão a procura do senhor Sartore.

•••♕•••


Jessica e eu observamos até que Cecy desapareceu pela multidão um tanto irritada conosco. Se ela se recusava a enxergar a beldade que era aquele primo dos Sartore o problema não era meu, mas farei de tudo para que ela enxergue ou eu enxergaria.
— Ele estava mesmo secando ela. – Jess ressaltou abandonando o prato de Cecy sobre a mesa.
— Óbvio. – Constatei, me voltando para o banquete e colocando um camafeu em meu prato. Quando notei que estávamos felizes com o que pegamos, nós viramos para voltar a procura de uma mesa. Foi questão de segundos para que alguém se chocasse contra mim, me ensopando por dentro do vestido. O barulho estridente da louça cara se espatifando no chão chamou a atenção de algumas pessoas ao nosso redor, mas elas logo ignoraram. — Ei! Cuidado, garota! – Berrei enfurecida assim que vi quem havia causado o acidente. Descuidada e estúpida como sempre!
— Sempre se metendo onde ninguém a chama, Ruby. Sabemos que seus pais não podem te dar a melhor educação, mas aparecer de penetra em um evento como esse é falta de bom senso! – Jessica a olhou de cima a baixo e arqueou as sobrancelhas, contendo um sorrio debochado ao notar o que eu notei há segundos atrás: o salto de duas coleções atrás e a barra mal feita do vestido de alguma liquidação.
— Abby. – Senti o veneno dela quando ignorou Jess e se voltou para mim. — Ainda tentando subir nas sapatilhas de ballet?
Retribui o sorriso amargo dela e cruzei os braços. Nossa história é longa e desagradável. Quando confiamos em alguém e contamos sobre nossos segredos mais depraváveis e sujos esperamos que fiquem guardados. Contudo, quando ficamos a ponto de uma exposição social percebemos que confiamos em pessoas erradas. Mentirosas e interesseiras. Ruby me usou e revidei, então, declaramos guerra uma a outra desde o nono ano e estamos longe de terminar. Prometi fazer da vida dela um inferno e assim farei.
Como se fosse ontem, me recordei de como fui enganada quando decidi ajudar a pobre menininha excluída e novata a se enturmar nas aulas; quando ela me disse que amava danças clássicas e a levei comigo em uma das aulas de minha tia. Foi ali que começou. Foi ali que minha vida se tornou pior do que já era.
— Engraçadinha. Ainda tentando vomitar tudo o que come? – Retruquei, devolvendo a dose de veneno. Analisei os cabelos pintados de cobre, da cor dos meus, as roupas que se nem com muito esforço se pareceriam com as minhas um dia e que na mente dela eram iguais.
— Aprendi com a melhor. – Ruby piscou um dos olhos mantendo firme o sorriso falso e nos trazendo a lembrança desagradável daquele dia em que ela se trancou no banheiro aos prantos se empanturrando com batata frita depois de meninas malvadas zombarem de seu peso e sua pele imperfeita.
— Sem paciência para pessoas da sua laia, Ruby! – Jessica apoiou a mão na cintura fina e concluiu com a voz seca: — Vaza!
— Até segunda, vadias. – Ela esguichou mais veneno e se embrenhou por entre os realmente convidados daquele brunch.
— Eu simplesmente a odeio! – Suspirei, soltando o ar carregado de dentro de mim. Como eu queria voar para cima daquela garota lotada de inveja.
— Todos nós. – Jess afagou o meu braço como um tipo de consolo. Senti o tecido grudar na minha pele a cada respirada devido ao liquido que me atingiu e praguejei mentalmente. Em breve, os Sartore fariam o brinde daquele domingo e seria inadmissível estar daquele jeito. Se tia Tessa me visse agora, ela me deserdaria, além, é claro, de dizer o alfabeto inteiro em palavras para me diminuir.
— Eu vou ao toilette tentar me limpar. Já volto. – Entreguei meu prato a Jess também e notei a revirada de olho por ter feito o mesmo que Cecy e fiz questão de deixar passar.


Episódio 5

Eu conhecia a casa dos Sartore perfeitamente para encontrar qualquer cômodo de olhos fechados, ou com uma multidão ocupando cada centímetro daquele lugar. Passei por eles e conforme me afastava as vozes se tornavam mais baixas.
Fui arrancada de meus pensamentos quando uma mão agarrou forte meu punho, empurrando-me para dentro de uma sala que notavelmente não era um banheiro. O perfume que invadiu meu nariz serviu para tranquilizar o susto que levei, mas, meu coração ainda disparava. Contudo, o cheiro amadeirado e familiar elevou meu nível de stress.
— Que merda, Liam! – Gritei, me soltando bruscamente dos dedos dele. Dei uns bons passos para trás e bati em algo macio. Olhei por cima do ombro e vi dois sofás, um de frente para o outro guardando uma mesa de centro e um tapete persa. Nas paredes, prateleiras de acrílico repletas de vinhos de todos os tipos e países do mundo.
— Quero falar com você sobre ontem à noite.
A voz dele me roubou a atenção e o fuzilei com todo o aborrecimento que tinha dentro de mim. Acariciei meu pulso junto ao corpo e Liam percebeu o gesto. Imaginei se pediria desculpas, mas quando ele não o fez, sequer fiquei surpresa.
— Uma mensagem já era o bastante. – Respondi irritada. Segurei meus braços e sentei no sofá confortável. A adega dos Sartore era simplesmente a mais divina que já havia visto e ouvi dizer que o senhor Sartore a fez para a esposa. Uma demonstração de amor que espero, um dia, ter em minha vida.
— Eu tentei, mas aparentemente você não ouve os recados! – Liam falou com uma das mãos nos quadris e gesticulando com a outra. O observei andar até uma das prateleiras com vinhos portugueses e esperei, apreciando os segundos de seu silencio, pois, ele voltaria a tagarelar e me encher a paciência. — Então? Contou? – Ele virou-se para me olhar. — Contou para alguém?
— Acha mesmo que me importo o suficiente para falar sobre você com outras pessoas? - Disse, num suspiro indiferente. Me levantei, desejando poder ficar naquele sofá, mas eu tinha um vestido para limpar antes do brinde. Liam parou a minha frente antes que eu pudesse sequer tocar a maçaneta da porta, ficando entre mim e os convidados do outro lado. Inclinei a cabeça para cima lançando um olhar nada feliz ou educado.
— Se contar para qualquer um sobre o que ouviu... – Ele começou e estalei a língua.
— Eu não vou contar! Agora, abra a droga da porta! – O interrompi. Não aguentaria mais um minuto naquela sala.
— Estaremos ferrados se souberem, entendeu?
Suspirei mais uma vez. Por mais que ele fosse insuportável, tinha razão. Eu me meti em um problema que nunca foi meu e que agora era. Meu e dele. A menção da palavra “nós” em minha cabeça causou um arrepio e fez meu estômago revirar. Talvez de fome, talvez de nojo. Pouco importava, porque quando se tratava do que presenciei noite passada, infelizmente, era nós.
— Liam. Abra. A. Porta. – Falei em voz baixa pausadamente. A música estava alta demais e longe demais para que alguém escutasse, a não ser que estivessem com os ouvidos colados na madeira, o que eu duvidava.
Me afastei o suficiente para que ele pudesse abrir as portas duplas para que saíssemos daqui. O ruído soou estranho, madeira contra madeira e metal se arranhando. A maçaneta girou e nada aconteceu. E girou de novo.
— Não está querendo abrir. – Liam disse, ainda segurando a circunferência dourada que era a maçaneta.
— Como assim? Como não está querendo abrir? – Senti meu sangue gelar e meu coração parar por um instante. A ideia de ficar presa com Liam Alvord seria demais para mim. Entretanto, parte de mim dizia que se realizava exatamente o meu pior pesadelo.
— Não abre, apenas está... – Ele forçou a fechadura com ambas as mãos de um lado para o outro e nada. Cruzei os braços e levei os dedos para minhas têmporas fechando os olhos e respirando profundamente. Um último ruído metálico. — O-ou.
O-ou? O-ou não é bom! – Praticamente arregalei os olhos. Liam estava de costas para mim segurando algo. Agarrei seu braço e o virei com certa dificuldade em relação a massa de músculos e minha força ridiculamente inútil. Não sei se descobrir o que tinha acontecido foi uma boa. — Ótimo! Você quebrou a maçaneta!
— A culpa não é minha! – Liam retrucou, levando os braços para o ar e a pontando para a porta. — Deve estar emperrada ou, sei lá.
— Estou presa com Liam Alvord em um armário. – Apertei minha cintura e puxei o ar uma vez mais. Toquei minha testa com as mãos trêmulas e logo segurei forte meus dedos, estalando-os. — Perfeito!
— Pare de reclamar e nos ajude a sair daqui!
A voz elevada me informou que eu não era a única odiando estar ali com companhia indesejada. Tentaria discutir se pudesse falar. As palavras ficaram presa na garganta, assim como o ar. Droga! Agora não! Aqui não!
As cores sumiram por uns segundos e tudo ficou preto. Me forcei a abrir os olhos e obriguei meus pulmões a puxarem o ar. Soube que tinha falhado quando meus joelhos cederam. Esperei o baque e a dor, mas ao invés disso, senti dedos em minhas costas e ombros.
— Abby! – A voz chegou até mim como se eu estivesse debaixo da água com os ouvidos entupidos. — Abby! Que merda...
Agora o tom de Liam me atingiu como trovão.
— Eu tenho que sair daqui. – Forcei as palavras para fora segurando firme os braços dele. — Liam, é sério!
Com mais delicadeza do que eu esperava, ele me sentou sobre o tapete macio e foi até a porta. Mesmo com a visão ainda embaçada e a consciência ameaçando me levar para longe, o vi dar um chute com tanta força que estilhaçou a madeira chique e a arrombou.

•••♕•••


Desisti de tentar chegar ao pai do Nate depois das dezenas de tentativas interrompidas por convidados mais rápidos que tomaram a atenção dele antes de mim. Decidi que o encontraria depois para agradecer e fazer a parte formal do relacionamento entre nossas famílias; mesmo ele sendo como um pai desde que me conheço por gente, ainda existia a relação entre os Collins e os Sartore e como minha adorável mãe não estava presente – sempre – eu precisava me certificar de que os negócios e a sociedade iam bem.
Só me toquei de onde estava quando senti a brisa fresca soprando de leve meu cabelo e acariciando minhas bochechas, além, dos raios de sol atingirem meus olhos. Levantei a mão para cobri-los da luz e caminhei para longe dela. A varanda e o jardim estavam repletos de pessoas, assim como dentro da casa. Passei por eles e desci alguns poucos degraus para uma parte mais baixa do terreno com grama verde e bem cuidada, uma quadra de tênis e a piscina. Não havia nenhum dos amigos do senhor Sartore por lá e respirei fundo saindo da minha personagem e tirando a máscara que eu geralmente usava quando não estava sozinha.
Quando posso ser eu mesma, todas as preocupações com a postura, com os gestos, olhares e sorrisos, palavras escolhidas desapareciam. Estou sozinha e posso sentar como eu quiser, onde quiser, respirar normalmente e reclamar dos saltos que machucavam meu pé e dos grampos no cabelo.
— Está perdida, loirinha?
A voz saiu de trás de mim e o susto que levei fez meu coração disparar e subir até a boca. Levei a mão ao peito e me virei aborrecida. Os cabelos castanhos, olhos verdes, o terno, e a camisa ligeiramente aberta nos botões de cima e a postura arrogante. Brad Sartore. Recoloquei a máscara e endireitei a postura.
— Não é educado seguir as pessoas! – Repreendi, cruzando os braços. Senti um cheiro leve de alguma erva obviamente ilícita e olhei para os dedos baixos dele. Um baseado queimando. Pode ter sido a minha expressão ou o nariz torcido que o fez me flagrar. Brad repuxou o canto dos lábios revelando covinhas fofas – a marca da família dele. Impressionante como todos eles tinham – e ergueu os dedos.
— Eu acho que serei precipitado em deduzir que meninas como você não gostam dessas coisas. – Ele balançou o baseado e mais fumaça subiu. — E talvez, eu esteja certo. Vou arriscar e perguntar se te incomoda?
O encarei por alguns segundos com a língua no céu da boca. Mordi os lábios em seguida segurando o sorriso sarcástico e me aproximei uns passos dele.
— Parece que nós dois fomos precipitados com as primeiras impressões. – Tomei o baseado dele e levei aos meus lábios, puxando e sentindo minha boca secar e adormecer. Deixei que Brad me olhasse e analisasse um tanto surpreso com a minha reação nada coerente com a imagem que eu passava aos outros, ou deveria passar. Eu passava, na maior parte do tempo.
— E qual foi sua primeira impressão sobre minha pessoa? – Ele chegou mais perto, ficando a apenas centímetros de distancia de forma que seu perfume me rodeou e sua respiração fez cocegas em meu nariz. Devolvi a erva envolvida em seda a ele e seus dedos tocaram os meus, mornos e levemente ásperos.
— É melhor parar de assustar os convidados, eles pensarão coisas. – Falei, descendo meus olhos para o sorriso arrogante dele. Brad capturou meu olhar mais uma vez e me afastei, deixando-o decepcionado e ansioso por algo mais. — Vamos, está na hora do brinde.
Dei as costas e comecei a caminhar de volta para a casa. Confesso que aquele garoto acordou alguma coisa dentro de mim que eu não tinha o controle. Detesto não controlar tudo ao meu redor, principalmente em mim mesma e por isso, tinha que sair dali naquele exato momento.
— Loirinha! – Brad gritou, mas ficou parado. Olhei por cima do ombro parando nos degraus. — Eu sou cortês! Às vezes!
Minhas bochechas coraram e sem conseguir conter um sorriso, praguejei mentalmente: Droga! Ele é bom! Gosto de pessoas com certo humor e sagacidade e ele era uma dessas pessoas que conhece e sabe fazer bom uso das palavras e do que ouve por aí. Cuidado, Cecy. A concorrência chegou.
E eu amo um jogo. Eu sempre ganho.
As vozes e a música me abraçaram assim que entrei. Tive pouco tempo de aproveitar o calor e o cheiro bom lá de dentro, pois, uma movimentação no corredor a minha direita causou certo alvoroço nos que estavam próximos. Desejei que meus olhos estivessem se enganando ao verem Liam saindo da adega com Abby nos braços.
— Merda. – Murmurei comigo e corri por entre os convidados pedindo desculpas ao passar por cima de alguns deles. Abri caminho e cheguei a eles no corredor. — Liam! Por deus! O que aconteceu?
— Eu não sei! Me ajuda com ela! – Ele respondeu com tanta preocupação que eu só consegui agarrar a maçaneta da porta a minha frente. Minha memória e anos naquela casa me disseram que aquele era um dos banheiros do andar de baixo.
Entramos e tranquei a porta, ninguém mais precisava ver aquilo. Nunca estragaria um brunch como aquele e se vissem minha amiga naquela situação, o domingo iria ralo abaixo.
— Coloque ela ali! – Apontei para o divã encostado na parede e Liam obedeceu. Peguei uma das toalhas brancas sobre a pia e molhei com água gelada, tirei o excesso e o empurrei para o lado, me ajoelhando a frente do pequeno sofá de couro preto.
— O que ela tem? Está branca como leite. – Liam perguntou, me observando passar a toalha úmida na testa, pescoço e pulso de Abby. Além de pálida, estava gelada.
— A pressão dela caiu. – Respondi e o olhei. — O que faziam na adega? Deu alguma coisa para ela?
— Não, só estávamos conversando. – Ele engasgou no final. Conversando não, discutindo. Voltei minha atenção para minha amiga e massageei seu punho para acelerar o fluxo sanguíneo. Liam continuou se explicando: — A porta emperrou e não abria e então, ela caiu. Sabia que ela era claustrofóbica?
— Não tem nada haver com claustrofobia. – Falei, começando a me preocupar de verdade com a demora para Abby acordar. Isso já aconteceu antes e todas as vezes duraram pouco os episódios de crise.
Estava incerta sobre contar o motivo para Liam, porque não sabia se ele sabia. Será que alguém mais, além de mim e da Jess sabiam? Preferi guardar o segredo da minha amiga comigo por mais um tempo, até que ela resolvesse contar. E, se decidisse mantê-lo por debaixo dos panos, então ótimo também. Não seria eu quem revelaria.
— Então o quê? – Ele insistiu e no instante seguinte Abby abriu os olhos e apertou forte minha mão com a toalha.




Continua...


Nota da autora: Sem nota.

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


comments powered by Disqus