Última atualização: 02/10/2017

Prólogo

A mulher loira dos olhos verdes como o campo observava a mesa que havia preparado para o marido com um sorriso nos lábios. Já tinha um prato na mesa com um cloche, não havia comida escondida, porém, dois sapatinhos de bebê na cor branca. A mulher tinha chegado há pouco tempo da obstetra, onde buscava uma confirmação para o cansaço excessivo, e tudo se confirmou com o teste e o ultrassom. Seis semanas. Essa era a idade do bebê. A mulher contava as horas para que o marido chegasse em casa e soubesse da novidade. Ela poderia imaginar como ele ficaria exultante de alegria.
A mulher foi até a janela da sala e observou o sol se pôr. Contudo, sua atenção foi desviada para duas vans que estavam estacionadas em frente à sua casa. Ela franziu a testa confusa, geralmente esses veículos eram usados para espionagem, mas essas eram pretas ao invés de brancas, as brancas sempre passam despercebidas, porém as pretas davam a impressão de algo perigoso.
A mulher se afastou da janela e seguiu em direção à cozinha, uma sensação de estar sendo observada se apoderou dela e, pela primeira vez, temeu pela própria vida, até porque não era apenas ela agora.
Ela abriu o armário que ficava no alto da pia com dificuldade, por causa da pouca estatura, e analisou a brecha que havia na janela da cozinha. Tinha dois homens em sua visão periférica, ela sentiu seu sangue gelar com a possibilidade de alguém querer atacá-la. A mulher retirou uma tigela do armário e levou para a sala de jantar, logo depois seguiu para a porta da garagem que ficava na cozinha.
Assim que chegou à garagem, suas mãos começaram a suar e o nervosismo começou a tomar forma. Foi em direção à parede que ficava pendurada a chave do carro e logo em seguida para a gaveta de armas, pegando uma pistola semiautomática e a recarregando. Entrou no carro e respirou fundo, precisava se acalmar, pois, naquele momento, tudo dependeria dela, a calma iria lhe ajudar a fugir de todos aqueles homens e seu bebê ficaria a salvo. Ela colocou a chave na ignição, parou e se lembrou do cinto de segurança, depois de colocá-lo, se preparou para virar a chave.
Ligou o carro, passou a mão para a marcha e acelerou. A porta da garagem amassou a frente do carro, mas não foi um dano muito ruim. A mulher colocou ainda mais velocidade no veículo quando virou à esquerda, pelo retrovisor pôde ver os homens correndo até as vans pretas, e o começo de uma perseguição.
Ela não conhecia muito bem o lugar onde morava, só sabia que teria que correr e encontrar um local que poderia ser seguro. Talvez o trabalho do marido. Para sua sorte, ela conseguiu adentrar as ruas que não tinham muito movimento, ou seja, nenhum carro atrapalhando a sua passagem.
Pisou ainda mais no acelerador, olhou pelo retrovisor e notou que as vans estavam ficando para trás. Sorriu. Talvez eles tivessem desistido de tentar pegá-la agora. Instantaneamente resolveu que tomaria o caminho até o trabalho do marido, apesar de não saber onde estava. Sua atenção se desviou do espelho e seus olhos se arregalaram ao fitar a sua frente. Uma van preta vinha velozmente em sua direção e não parecia que ia desviar, fazendo com que ela apertasse com força o volante em suas mãos. Os nós dos seus dedos ficaram brancos e a mulher preparava-se para girar o carro, na tentativa de salvar a sua vida e garantir um futuro.
A mulher girou o volante, os pneus gritaram e deslizaram como loucos na pista, fazendo-a sorrir quando notou ter conseguido, o alívio tomou seu rosto. Mas durou pouco tempo. Havia uma rampa logo à frente indicando que a rua estava recebendo reparos. Foi, então, que ela percebeu, nada adiantaria, ela e seu bebê estavam perdidos.



Capítulo 01

Até ontem me perguntava por que tive a ideia estúpida de seguir a carreira do meu pai. É um saco viver sempre à sombra de alguém. Ser sempre comparado a esse alguém. Ainda mais quando você tem que viver à sombra do grande Henry , o melhor agente que já existiu no FBI. Meu pai teve longos anos de carreira até ficar enjoado de ser tão bom. Fala sério. Até duas semanas atrás ele se gabava e dizia que eu nunca chegaria aos seus pés. Como se eu ligasse. Gosto do meu trabalho e tenho dom para tudo isso, mas não quero ser o perfeito Henry e ser comparado com ele o resto da minha vida, o cara era bom, mas não precisa forçar a barra.
Sim, ele era bom. Meu pai morreu há exatamente vinte quatro horas e já foi enterrado. De que ele morreu? Câncer, ele não era tão inabalável assim. Para completar, fiquei sabendo que ele estava morrendo há dois dias porque ele não se deu o trabalho de me informar. Então você se pergunta, por que, não fui visitá-lo. Ele morava do outro lado da cidade e eu trabalhava até de noite, acordava cedo e ia para o trabalho. Final de semana? Missões. Vida de agente não é fácil, trabalho por cima de trabalho.
Nunca tive um bom relacionamento com o meu pai. Ele não se importava se eu arranjava confusão na escola e nem se minhas notas estavam boas, na maioria das vezes a babá se interessava mais por mim do que ele. Nem depois de velho tentou compensar a falta que me fez na infância, a única que coisa que ele sempre soube fazer bem era me criticar, e pode ter certeza, não eram críticas construtivas.
Bato o copo sobre o balcão mais uma vez. Já bebi dois duplos de Whisky, acho que aguento mais um, mas não tenho certeza se Suzi me servirá mais dois duplos, talvez se Erik jogasse um charme para cima dela... Mentira, ela não quer Erik e muito menos a mim, ela não curte federais, pelo menos foi o que ela disse.

— Vamos lá, Suzi, mais um duplo. — Faço cara de choro.
— Não faça ele chorar. — Erik fala com a voz enrolada, ele tem capacidade de beber mais do que eu e também em alta velocidade.

Erik é meu amigo de infância. Estudamos e nos tornamos agentes juntos, sempre dividimos o sonho de trabalharmos no FBI e, de certo modo, a bendita influência do meu pai nos ajudou. Pelo menos isso.

— Vai ser a última. — Suzi olha para nós, séria, enquanto colocava outro duplo para mim. — Vai querer outro, Scott?
— Não, estou tranquilo. — Erik dá um sorriso de gato de Alice para Suzi.
— Vocês não têm que trabalhar amanhã? — Pergunta como quem não quer nada, Suzi sabe que somos agentes federais somente pela nossa postura, ela disse que andamos de um jeito diferente. Acho que isso não é nada bom, já que precisamos fazer missões secretas.
— Sim — respondemos juntos.
— Mas eu tinha que comemorar... Desculpa, é... Qual é a palavra mesmo, Erik? — pergunto confuso.
— Tributo? — pergunta um pouco incerto.
— Isso. — Bato palmas, enquanto Suzi observa como posso ser retardado bêbado. — Tenho que fazer um tributo ao meu "querido" pai.
— Seu pai morreu? — Suzi parece preocupada com a possibilidade de eu estar sozinho no mundo, os seus olhos estão arregalados, ela poderia me consolar no meu apartamento se eu fosse o tipo de cara que pega qualquer uma.

Não sou o Erik.

— Sim. Câncer — digo, revirando os olhos. — O desgraçado morreu de câncer, dá para acreditar? — Dou uma risada amarga.

Depois disso, Suzi nos deixou sozinhos. Erik observa as mulheres que passam no bar. Está caçando. Meu amigo quando bebe precisa curar a ressaca com sexo, então, a busca por um rabo de saia é sempre constante. A única que ele nunca conseguiu levar para a cama foi Suzi e ele não se agrada disso. Peço mais um duplo para Suzi e ela não reclama. Que ótimo, está com pena.

— Então, já achou alguma? — pergunto a Erik depois de terminar meu quarto copo.
— Não — bufa frustrado. — Parece que amanhã seremos dois com uma tremenda dor de cabeça.

Pego minha carteira, mas Erik me impede de tirar o dinheiro e paga nossa conta. Acho que o único que pode entender minha dor é Erik, ele conviveu com todas as merdas que meu pai fez comigo e que apesar de tudo, eu amava, mesmo que o amor não fosse recíproco. Estou sofrendo com a morte do velho, ele era a única família que me restava.
Assim que saímos do bar, a noite fria nos embala e nem o paletó que estou vestindo é capaz de me aquecer, decido ignorar o frio e seguir até o ponto de táxi. Após caminharmos uns dez passos, damos de cara com uma garota que parece ter uns dezesseis anos, vestida com um top, uma saia que mais parece vários panos grudados uns nos outros e um troço na cabeça que parece diversos colares juntos. Mas que merda, ela não está sentindo frio? Olho para o seu rosto e acabo percebendo que está me encarando, quando nos aproximamos, seu olhar parece mais firme e não me sinto seguro em relação à sua idade. Seus olhos se desviam para Erik e ela diz:

— Você será engolido pelo fogo.
— Quê? — Erik dá um pulo com as palavras repentinas, os olhos da garota se voltam para mim e parecem duas ameixas secas.
— Dor, muita dor, mas a campina virá e acalmará o seu coração. — Não sei se meu corpo se arrepiou com suas palavras ou com o frio. A garota se afasta sem olhar para trás, observo o lugar que ela estava sem saber o que pensar ou dizer.
— Mas o que foi isso? — Erik resmunga. — Essa garota é maluca?
— Parece que sim. — Resolvo ignorar as palavras da estranha. Seguimos para o ponto de táxi e pegamos o primeiro que parte.
— Amanhã será um dia longo — Erik diz antes que acabe dormindo sobre estofado quente do carro.

O ruído do relógio que fica na parede próxima à minha mesa não para de martelar no meu ouvido. Não entendi até agora porque bebi tanto a noite passada e nem porque vim trabalhar hoje. Meu pai morreu há pouco mais de um dia e já estou aqui, dentro de um escritório federal fingindo que estou trabalhando porque com essa maldita ressaca é impossível. Uma caixa cai sobre a mesa ao lado e salto na cadeira, olho para o sorriso debochado de Erik e juro que estou há milímetros de enfiar uma bala na cabeça dele. Quando nos encontramos hoje de manhã no elevador, ele estava todo animado e não parecia nem um pouco com o cara ao seu lado ainda fedendo a whisky, mesmo depois de três banhos com água fria.

— Por que você está tão animado? — perguntei enquanto ele assobiava todo animado para uma segunda de manhã.
— A vizinha de baixo é deliciosa. — Ele deu um sorriso malicioso, dei uma risada da sua cara e me arrependi amargamente.

Agora tenho que ficar encarando sua expressão de deboche porque não ficou de ressaca. Para piorar, fui lembrando que ele vai se mudar. O filho da mãe pode não ser filho de um grande agente, mas é o melhor de São Francisco, tanto que ele vai ter que abandonar um caso de tráfico e se mandar para Nova York. Fiquei muito puto quando ele me contou, e agora que meu pai fez o favor de bater as botas, estou ultrapassando o limite de puto.

— Parece a sua nova parceira chegou — ele diz como se fosse algo muito simples.
— Vai ser uma mulher mesmo? — pergunto já odiando a ideia, não é uma questão de machismo, e sim de medo, mulheres que entram nesse ramo de trabalho são muito boas e perigosas. Não ligo de ser o segundo em comparação a Erik, mas qualquer um que não seja ele, não me dou muito bem.
— Sim, se prepara. Disseram que ela é muito boa no que faz. — Ele dá um sorriso malicioso. — Se você tiver sorte, pode ser gostosa. — Reviro os olhos.
— Cara, você só pensa em sexo?
— Não. Penso no trabalho também, mas muito mais em sexo. — Uma gargalhada explode de sua garganta.
, não deveria estar em casa? — O agente Donald chegou, nos interrompendo.
— Não me sinto à vontade ficando em casa, prefiro trabalhar.
— Tudo bem. — Ele nos observa por alguns segundos e continua. — Agente White acabou de chegar, é bom vocês irem se apresentar. Saiu logo em seguida.

Erik dá uma risada e me indica a porta do escritório do chefe. Bebo um gole do café puro que peguei na cafeteria e levanto desanimado com a troca de parceiros. Por que Erik tinha que ser tão bom?
Assim que entramos na sala, sinto meu corpo inteiro ser sacudido, uma dormência toma conta de mim e meu coração salta no peito, enquanto vejo uma cabeça loira se virar. Seus olhos verdes parecem enxergar o fundo da minha alma, além de possuir uma boca carnuda que gostaria de beijar até ficarem vermelhos. Puta merda.

— Agente Scott — Erik se apresenta. — Você ficará no meu lugar. E esse é o meu parceiro. — Engulo em seco quando percebo que chegou o meu momento.
. — Estendo a mão e não fico nem um pouco constrangido quando não tiro os olhos de seu rosto, ela parece me encarar com a mesma intensidade, mas é mais discreta que eu.
— Annie White. — Sinto meu corpo vacilar quando ela abre um sorriso nos lábios de tirar o fôlego. — Acho que agora seremos parceiros. — Suas palavras me pegam desprevenido e no fundo sinto que há algo mais ali, porém não consigo decifrar o que ela está querendo me dizer.

Minha pele parece queimar sob seu olhar. Ela se mexe, parece incomodada e sei que está sentindo a mesma coisa que eu. O ar condicionado não parece funcionar para nós dois. Agente White mexe os ombros, um reflexo de quando a roupa gruda no corpo. Sua língua passa por seus lábios rapidamente e meu olhar é atraído por esse movimento mínimo. É tudo muito intenso.

— Bom. — Donald me tira do devaneio que os olhos da Agente White me colocaram. — Scott explicará como está o desenvolvimento do caso e acredito que conseguirá pegar tudo até o final de semana.
— Sem dúvidas.

Todas as palavras que saem da sua boca parecem ter outra interpretação e já estou começando a ficar incomodado com a forma que essa mulher está mexendo com a minha cabeça. Não sou um cara que fica pegando várias por aí, entretanto, também não sou homem para ficar correndo atrás de mulher e muito menos para ter relacionamentos. Não posso está desejando minha parceira de trabalho. Não posso.



Capítulo 02

Hoje o sol parece ter nascido mais animado que o normal. Aquecendo os meus ossos. Não costumo gostar de um calor de matar, mas ultimamente os dias têm sido mais nublados que o normal. A neblina parece dominar São Francisco.
Não é esse o ponto que quero chegar. Não gosto nem de frio e nem de calor. Sempre fico no meio termo. Provavelmente não existe um lugar no mundo em que todo o ano seja assim. Fresco. Mas caso alguém próximo tenha conhecido tal lugar, tem que me apresentar, de alguma forma vou dar um jeito e me mandar.
As aulas hoje passaram rapidamente. E ter aula de economia doméstica ajudou ainda mais. Por mim – todos os dias – as aulas se resumiriam a isso. Poder estar em contato com uma cozinha sempre me acalma e me faz sentir especial.
Seria maravilhoso poder ir para casa e ter uma cozinha à disposição.
Claro. Se eu tivesse uma casa.
Pode parecer esquisito no primeiro momento, mas órfã é a única coisa que sei realmente sobre mim. Não sei dos meus pais e hoje em dia, não sinto a mínima vontade de descobrir. Óbvio que tive uma fase em que gostaria de saber das minhas origens, mas foi passageira.
Viver no Orfanato São Francisco era insuportável. Muitas garotas querendo se exibir a todo momento, buscando atenção que nunca tiveram. Mas a firmeza das Irmãs me deixava mais calma.
O orfanato tem um acordo com a escola da região para que todas as meninas estudem lá. Já dá para imaginar quanta menina tem no mesmo lugar. Todas loucas por atenção masculina. Até porque depois dos quinze, todas pararam de pensar em "pais" e passaram a buscar por caras.
Posso ser considerada idiota ou até mesmo tradicional. Ou talvez por causa dos malditos filmes. Tenho uma inclinação para o romantismo. Se for para me envolver com alguém, tem que rolar algum sentimento. Não pode ser apenas carnal.
Nesses momentos em que estou no meio de milhares de garotas que não tem cérebro suficiente para resolver um problema simples de matemática, penso em Rachel. Minha irmã. Minha única família. Não somos exatamente "família". Mas acho que amar uma a outra já é o suficiente. Rachel não foi abandonada como eu. Ela teve uma mãe. Mas a coitada ficou doente e a entregou para Irmã Glória cuidar. Rachel só tinha dois anos. A mãe morreu logo em seguida. Nunca soubemos quem era o pai e Rachel nunca ficou interessada em descobrir. Até dá para entender. O cara deixou a mãe dela sozinha, para cuidar de uma criança. Uma mulher que era sozinha no mundo.
Rachel depois que terminou o colégio resolveu se mudar para Nova York. É uma grande mudança. E cara. Mas ela trabalhou cinco anos de garçonete para poder conseguir o dinheiro. Ninguém sabia disso. Apenas eu. Queria poder ter ido com ela, mas ainda sou de menor, mas quem sabe quando terminar o colegial.
Saio do colégio, animada. Um dia com o sol descoberto é para ser aproveitado. Meus pés travam no chão. Ao longe vejo um Audi azul com um cara loiro, de camisa e calça preta sentado no capô. Não sou do tipo de garota que baba os homens quando passam, mas havia um que invadia meus sonhos durante a noite. Claro, não os idiotas da escola. Mas um cara mais velho, bem mais velho. Não sei uma idade exata, mas talvez uns vinte e quatro anos. A única coisa que sabia, era que as poucas garotas que tinham cérebro na escola, eram a fim dele.
Jayden Smith. Transpirando a verdadeira masculinidade. O cara que tira o senso de raciocínio de qualquer garota. Ouvi comentários que ele era dono de uma agência de modelos e que todas as garotas se davam muito bem. Ele manda todas elas para a Europa, e é lógico que nenhuma delas ia voltar. Só se for pra desfilar na Golden Gate Bridge.
Nos últimos seis meses, Jayden não para de me encarar. E eu, que sempre o encarei, não parei. Sempre me pergunto se ele está interessado em mim ou simplesmente olha para mim pensando como sou bizarra. Não que eu me vista mal. Só não tenho dinheiro para comprar roupas que estão na moda. Não me visto como todas as meninas que ele convida para desfilar.
Sei que potencial para modelo ele não vê e muito menos – eu – iria querer. Para mim, vou passar a minha vida toda dentro de uma cozinha, quem sabe não fique conhecida como uma grande chefe de cozinha. Não é que deseje isso, a única coisa que quero é trabalhar cozinhando e poder me sustentar.
Hoje tinha tudo para ser igual como todos os outros dias, mas parece que o sol chegou para me informar que seria tudo diferente.
Jayden sai do capô do carro e começa a caminhar. Na minha direção. Talvez esteja ficando maluca ou então ainda estou deitada no meu beliche do orfanato sonhando. Não penso em olhar para trás porque eu sei que vai ser um baita mico, só continuo encarando o cara maravilhoso que se aproxima cada vez mais. Quando ele para na minha frente, estou completamente paralisada e tenho absoluta certeza que sem voz, apesar de não ter tentado falar.

— Você é a ? — Pergunta dando um sorriso torto.
— Si-Sim — gaguejo.

É só um cara, . Pensa nele como os caras da escola.

— Mas... Depende da . Tem várias 's na escola — falo quase normal, mesmo que pareça que engoli uma bola de tênis.
— Na verdade. — Seu sorriso aumenta e tento não olhar demais ou não babar. — É com você mesmo que quero conversar. Tenho observado você por uns meses. Você realmente me chamou atenção.

Meu coração dá um salto no peito. Quando na face da terra Jayden Smith iria olhar para mim? As meninas devem ter colocado drogas no café da manhã de novo. Acredite, isso já aconteceu. Há uns dois anos atrás as Irmãs estavam todas alegres depois do jantar, um grupo de garotas pediu para ir a uma festa, elas permitiram e começaram a rir como se tudo a sua volta fosse hilário.

— Chamei? — Pergunto franzindo a testa.

Ele coloca as mãos nos bolsos. Sua expressão muda e ele parece... Envergonhado. Suas bochechas ficam coradas.

Meus Deus! Jayden Smith envergonhado.

— Claro, você é muito linda — responde.

Ele acabou de me chamar de linda?

É, sem dúvidas ainda estou dormindo ou absolutamente drogada. Nunca na vida Jayden me chamaria de linda. Não sou feia, mas é evidente que existem muitas garotas muito mais bonitas do que eu. Em momento algum saltaria aos olhos de um cara como esse. A única conclusão que chega minha mente é que ele e as garotas do orfanato estão armando alguma para mim. Desde o dia que Rachel botou os pés para fora daquele lugar, sou alvo das palhaçadas daquelas retardadas.

— Você está brincando comigo? — Pergunto incrédula dando uma risada amarga. — Deve ser alguma brincadeira das meninas e você resolveu ajudar.

Seu rosto vira uma máscara de confusão, mas não dou importância. Não acredito que ele, um homem feito, se juntou com aquelas idiotas para me zoar.

— O que? — Seus olhos se enchem de compreensão e se arregalam. — Claro que não. Não conheço ninguém dessa escola.

Olho-o desconfiada, mas resolvo dar um voto de confiança.

— E como sabe meu nome?
— Aah, saí perguntando por aí — fala um pouco aliviado. — Por falar nisso, num é muita gente que conhece você.
— Não gosto muito de me misturar — falo.

Observo em volta para ver se realmente não é uma brincadeira. Porque se for, eu mato essas garotas. Jayden pega em meus braços e paro de respirar.
— Fica fria. — Ele sorri. — Só queria saber se você esta a fim de sair no final de semana.

Fico olhando para ele e dá para ver que o desgraçado sabe o efeito que tem sobre mim. Como vou escapar dessa? Não posso dizer que não vou. Tenho que ir. E quero ir. Como não querer?

— Podemos jantar em qualquer lugar que você quiser.

Uaau! Jantar. Ele não tá brincando mesmo. Acho que não vai fazer mal sair com um cara lindo desses, o único cara que fiquei a fim até hoje. Tenho certeza que se a Rachel estivesse aqui, iria me dar a maior força.

— Tudo bem.

Minha voz sai tão natural que chega a ser estranho.

— Okay. — Ele dá um sorriso malicioso. — Até sábado.
— Até.

Jayden vai em direção ao carro, entra e dá um aceno antes de dá a partida.

— O que foi que você fez? — ouço uma voz esganiçada ao meu lado.

É Lexi. A família dela é dona de uma fábrica de sapatos e fatura uma grana com butiques, toda semana Lexi vem com pelo menos três sapatos de salto diferentes, ou estão fazendo ela de garota propagando ou ela tem algum problema nos pés para não poder usar um tênis. É engraçado, quando chega à educação física ela inventa que esta com problemas de mulher. Sorte a dela que o professor Garry é um tarado, se fosse a substituta, a faria correr de salto. Seria uma cena interessante. Lexi é a única garota que não se encaixa nas sem cérebros, apesar de ser rica e só andar de salto, ela tinha ótimas notas e era a fim de Jayden.

— Não faço a mínima ideia.

Saio de perto dela, já tentando imaginar que roupa vou usar nesse encontro e quase entrando em desespero, sabendo que sou dotada de "muitas" roupas.



Capítulo 03

As roupas que temos para sair são bem poucas, até porque vivemos de doações. Quando fui falar com Irmã Glória que teria um encontro no final de semana, ela negou três vezes a permissão, mas na quarta tentativa consegui amolecer seu coração. Até porque nunca saio desse lugar, vivo enfurnada vinte quatro horas por dia e só saio para ir à escola, além de ser uma boa menina.
Depois de segunda, Jayden não apareceu na escola, até ontem. Ele veio me dizer que já havia escolhido o lugar – apesar de ter dito que eu poderia escolher. Não ligo para onde vamos, até porque não conheço nenhum lugar para jantar ou coisas do tipo. As raras vezes que sai do orfanato foi em grupos formados pelas Irmãs e para assistir filmes no cinema.
Coloco um vestido verde água que me chamou atenção. Ele é feito de tecido, tem uma gola um pouco alta e sem mangas, fica quase colado ao corpo e no meio da coxa, mas como sou muito esguia, fica ótimo. Calço uma sapatilha preta e pronto. Agora é só esperar.

— Já sabe que não pode demorar muito. — Irmã Glória entra no quarto já me advertindo.
— Sei. — Me aproximo e coloco as mãos em seus ombros para acalmá-la um pouco. — Sabe que sou responsável.

Ela acena. Saímos do quarto e nos deparamos com um punhado de garotas de pé tapando a passagem para a saída, elas parecem chateadas ou até furiosas. Megan se destaca no grupo com seus cabelos loiros e olhos pretos.

— Por que ela pode sair e nós não? — Megan pergunta.
— Porque ela já tem dezoito anos. — Irmã Glória responde e franzo a testa. Certo, hoje é meu aniversário, estou completando dezoito anos. Sei que esqueci esse detalhe durante todos esses dias porque simplesmente não comemoro. Aniversário são festas para serem feitas com a família presente e não tenho família, então não vale muito a pena pensar nessa data. Okay, estou fazendo dezoito anos, data importante, um grito de liberdade. Mas pensar no encontro com Jayden era mais importante do que a maioridade.

As meninas, sabendo que não tem como discutir com algo assim, dão passagem para que eu saia. Assim que abro a porta vejo Jayden estacionando o carro em frente o orfanato. Ele abaixa o vidro e dá um sorriso esmagador. Ele desse do carro, dá a volta e abre a porta do passageiro para que eu entre.

— Boa noite, . — sua voz parece aquecer meus ossos.
— Boa noite, Jayden. — sorrio.

Ele torna entrar no carro e logo dá partida. Quando o para o carro novamente, estamos de frente para um prédio residencial. Fico confusa, ele disse que me levaria a um restaurante e agora estamos aqui. Como um flash minha mente se ilumina. Ele disse que poderia confiar nele, não gosto da possibilidade dele me fazer mal em local privado, onde não tem ninguém para pedir ajudar se algo der errado.

— Por que estamos aqui? — pergunto.
— Imaginei que seria melhor virmos para o apartamento. — diz enquanto desliga o carro. — Será mais aconchegante que um restaurante.
— Acho que não é uma boa ideia. — Me sinto desconfortável. Jayden olha para mim e me analisa. Parece um pouco preocupado com a possibilidade deu ir embora, mas ao mesmo tempo curioso com minha atitude.
— Qualquer garota ficaria ansiosa para vir aqui.
— Não sou qualquer garota — rebato no mesmo instante, porque é verdade. Não sou como todas as meninas da escola que já abre as pernas para o primeiro que aparecer.
— É, você não é. — Seu olhar curioso continua ali, mas se torna mais suave. — Pedi que confiasse em mim, não vou te forçar a nada. Gosto muito de você para te fazer mal.

Puta merda. Ele acabou de dizer que gosta muito de mim. Jayden ergue a mão e coloca meu cabelo atrás da orelha, seu polegar passeia por minha bochecha até chegar ao meu lábio inferior. Ele aproxima o rosto do meu e espera que eu recue, quando percebe que não farei isso, pressiona os lábios contra os meus em um selinho. Ele se afasta e sorri.

— Vamos? — Não consigo resistir a esse sorriso, então aceno em concordância.

O apartamento de Jayden fica no quinto andar do prédio. As paredes brancas e o piso de maneira deixam o local com um ar calmo. Quando entramos, noto que não é nem um pouco diferente do corredor. A cozinha fica logo ao lado da porta com um balcão que dá espaço para que duas pessoas sentem de cada lado, os armários ficam do lado oposto juntamente com a pia, lava louças, um fogão e micro-ondas. Damos mais alguns passos e me deparo com uma sala pequena, um sofá marrom cheio de almofadas, dois pufes que mais parecem duas bolas gigantes, uma TV grudada na parede e um DVD. Ainda na sala há cortinas creme com uma fresta para a porta que leva a uma varanda.
Ouço Jayden tirando algo do forno e uma garrafa de vinho. Ele pega os pratos, talheres e duas taças dos armários e os arruma sobre o balcão. Sorrio. Não consigo acreditar que estou aqui na casa de Jayden Smith, parece que a qualquer momento iria acordar de um sonho.

— Não sei o tipo de comida que gosta, mas acredito que todo mundo gosta de massa — ele fala enquanto coloca vinho nas taças.
— Gosto de massa. — Ainda estou de pé, próxima ao balcão, mas ainda distante. Jayden se aproxima com as duas taças e me entrega uma, observo a taça analisando se seria bom tomar álcool, nunca tomei e não sei se sou fraca para isso.
— Só é um pouco de vinho. — Suas palavras saem suaves e fico propensa a aceitar, mas o receio ainda faz parte de mim. — Nunca bebeu? — Ele não parece surpreso quando encaro seus olhos.
— Nunca. — Pego a taça e tomo um gole, o gosto é amargo por causa do álcool, mas posso sentir o sabor que atrai seus admiradores. — Até agora.

Jayden sorri e nos encaminha para os acentos no balcão, ele me serve com cuidado seu raviolli, analiso o que tenho a minha frente e como uma boa amante da culinária, noto que não está nada mal para um cara que vive sozinho, mas também não posso julgá-lo, ele pode ter o dom para a coisa. Quando levo a primeira garfada, vejo que nem sempre a aparência, está bom, realmente bom, mas falta alguma coisa. Talvez o tempero certo.

— Espero que goste, sou péssimo na cozinha, então contratei alguém para cozinhar algo. — Ele fala depois tomar mais um gole de vinho.

Ele não fez a comida, mas um estranho. Poderia ter me levado a um restaurante, mas preferiu o sossego da sua casa. Apesar de seu joguinho no carro, não sinto que devo confiar em alguém que só ouvi histórias. Os homens são como predadores a espera de uma presa, se sou uma para Jayden Smith ele vai se arrepender, posso ter sonhos com esse homem, mas não sou tola.

— Por que não fomos a um restaurante? — digo baixando o garfo.
— Já disse. Aqui é mais confortável. — Ele não me olha nos olhos e parece um pouco tenso. — Não gosto de ficar no meio de muita gente. — Suas palavras parecem uma confissão então resolvo absorvê-las em vez de continuar como uma garotinha assustada. — Me fale um pouco sobre você?
— Sobre mim? — Quase rio com o pedido. — Não tem muito o que dizer, sou órfã.
— Mas deve ter sonhos. — Não foi uma pergunta, mas uma afirmação.
— Tenho sonhos, mas órfãs não podem pensar muito alto. — Ele me observa, seus olhos parecem perfurar minhas roupas e corpo, engulo em seco e continuo. — Sempre senti vontade de fazer faculdade de gastronomia e me tornar a chefe de um restaurante, mas se puder está dentro de uma cozinha, seja qual for, ficarei feliz com a minha sorte. — Dou um sorriso tímido.
— Não parece ganancioso. Se desejasse o próprio restaurante a chamaria de ambiciosa.
— Para ter um restaurante, precisa ficar ligado a finanças e não quero me preocupar com isso, mas com a comida.
— Tem razão. — Ele dá um sorriso torto e volta a comer.

Jayden passa o resto da noite me contando sobre o trabalho que faz há anos. Ele agencia modelos e as manda para o mundo, simples assim. Diz que há muitos talentos escondidos por ai e que eu poderia ser uma delas, apesar de enfatizar não ter nascido para isso, ele diz que compreende.

— Percebo o amor que tem pela culinária apenas na forma como falou, mesmo que tenha sido poucas palavras. — Ele diz após terminarmos o jantar e nos sentarmos no sofá, é aconchegante como imaginava que fosse.
— Acho que sim. — sorrio.
— Qualquer dia desses poderia vir aqui e cozinhar, talvez teste seu potencial, não sou um especialista, mas sou um pouco chato com comida. — Sei que meus olhos brilham quando ele fala essas palavras, um sorriso cobre meus lábios e até sinto meu corpo vibrar com a possibilidade.
— Seria maravilhoso.

Mordo o lábio inferior para impedir que meu sorriso se expanda ainda mais, Jayden toca meu queixo com o polegar e desprende o lábio de meus dentes. A vontade de rir se esvai instantaneamente, minha respiração começa a se alterar, observo seus olhos descerem para meus lábios e meus olhos seguem o mesmo caminho, seus lábios parecem convidativos. Jayden se aproxima e sela nossos lábios da mesma forma que fez no carro, quando nos afastamos, olho em seus olhos e noto que estão mais escuros. Antes que diga alguma coisa, Jayden captura meus lábios com força, sua língua pede passagem e permito, eles são suaves e firmes. Sei que ele é experiente, mas nunca tive a possibilidade de ser beijada assim, seus lábios sabem o que estão fazendo. Meu corpo todo se arrepia quando sua boca toca meu pescoço.

— Jay... — seu nome sai em meio a um gemido, o sinto sorrir próximo ao meu pescoço, ele captura meus lábios mais uma vez, pega em minha cintura, deito sobre as almofadas e Jayden fica em cima de mim ainda saboreando minha boca com destreza.

Arfo quando ele morde o lóbulo da minha orelha, sinto o ponto entre minhas pernas se aquecer.

— Jay. — Nesse momento me esqueço de tudo que Irmã Glória me falou sobre chegar cedo em casa.

Ergo as mãos e as coloco entre seus cabelos loiros, puxo seus lábios até os meus. Finalmente estou no comando, pareço faminta, mas não de comida. Os lábios de Jayden parecem drogas.

— Gosto disso. — Ele diz em meio aos beijos. — E amo que me chame assim.
— Como? — Estou sem capacidade de raciocinar, só quero poder me perder nesses lábios habilidosos e nunca mais me encontrar.
— Jay. — Suas mãos descem até a barra do vestido e sobem pela minha coxa, quando suas mãos tocam minha calcinha meu corpo fica tenso. O que estou fazendo? Abro a boca tantas vezes para falar que todas as garotas são fáceis e aqui estou eu, me entregando de bandeja em meu primeiro encontro. Me afasto de Jayden, ele parece confuso, mas não tenta forçar nada e isso faz surgir um sentimento novo dentro de mim.
— Acho melhor eu ir embora. — Minhas bochechas esquentam de vergonha com o que poderia acontecer se não tivesse um momento de lucidez.
— Passei dos limites? — Quando encaro seu rosto vejo seus olhos arregalados com o possível abuso.
— Na verdade, nós passamos. Não quero ser uma dessas garotas que traz aqui e vão direto para sua cama.
— Você não é como as outras. — Sua voz sai grossa e dou uma risada com a frase clichê, seu semblante fica sério e paro de rir no mesmo instante. — Você não é como as outras.

Jayden se levanta e mais uma vez sinto o sentimento estranho surgir em meu peito. Engulo em seco. Ele pega a chave do carro, estende a mão para que eu a pegue, quando pego, ele me puxa para seus braços e beija minha testa. Seguimos para o elevador e em seguida o carro. Todo o caminho tento analisar tudo que aconteceu. Ele parece atencioso, talvez me iluda e diga a mim mesma que ele me achou especial apesar de provavelmente ter usado tudo que disse e fez hoje com outras. Quando chegamos tiro o cinto, antes que abra a porta, ele segura minha mão, quando o olho parece preocupado, se aproxima e me dá um beijo suave – sem língua – apenas com o movimento dos lábios.

— Boa noite. — ele sorri.
— Boa noite, Jay. — seu sorriso aumenta quando o chamo assim.
— Espero que no próximo final de semana você possa fazer algo para comer no meu apartamento.
— Seria um prazer. — dou um sorriso torto.

Saio do carro e não olho para trás, mas antes de abrir a porta, o vejo me observando. Entro no orfanato e ouço o som do carro dando a partido. Irmã Glória esta corredor do seu quarto e sorri, esta orgulhosa por eu ser uma menina obediente. Sorrio, mas não por agradá-la e sim por ter experimentado os lábios de Jayden Smith.



Capítulo 04

O Aeroporto Internacional de São Francisco estava deserto para uma manhã de domingo. A fila do check-in andou rapidamente e a mala de Erik foi entregue, ele estava parecendo uma garotinha que ganhou a boneca que tanto queria de presente. Todos tinham um fascínio pela Cidade Nova York, e eu não poderia ir contra, a cidade tinha seus encantos e quem sabe não daria as caras por lá em breve. Agora pareço uma menininha que vai sentir falta da amiguinha. Sou patético.

— Ainda bem que não tinha fila. — Erik olha seu relógio de pulso. — Tenho que embarcar.

Agora é o momento difícil. Posso ter acabado de reclamar sobre ser uma "menina", mas não posso negar que sentirei falta desse cara. Erik foi a única pessoa que nunca saiu de perto de mim, sempre fomos inseparáveis, o máximo que ficamos separados, foram singelos dois meses e por causa da cabeça dura do meu pai que me impediu de viajar de férias com Erik e a família. Resultado: fiquei em casa observando a parede azul escuro do meu quarto enquanto meu pai trabalhava dia e noite.

— Melhor não agirmos como duas garotinhas — Erik diz dando uma risada sem graça.
— Estava pensando nisso agora há pouco.

Nos abraçamos sem um pingo de vergonha. Sentirei muita falta desse cara.

— Não deixe White acabar com você.

A menção de seu nome faz com que meu coração dê um salto no peito. Passei a semana inteira tendo sonhos estranhos com olhos verdes como a campina, não conseguia ver o rosto ou os as cabelos, porém tinha certeza que era Annie White perturbando minhas noites.

— Vou fazer o possível. — Batemos nas costas um do outro e nos afastamos, Erik corre para o local de embarque que fiz questão de não acompanhá-lo.

O caminho de volta para casa é tranquilo, apesar de ser um final de semana, quando chego à portaria do meu prédio cumprimento Frank, o porteiro, pego o elevador que acabou de abrir com uma família saindo preparada para ir à praia. Assim que abro a porta do apartamento, me jogo em cima do sofá. Após uma semana cansativa ajudando Erik com os arquivos do caso que eu e agente White iríamos trabalhar, ainda fui obrigado a ir para uma boate na noite anterior curtir uma noite ao lado do meu melhor amigo. Não pude recusar. No final das contas, Erik voltou para casa com duas mulheres, enquanto não tirava os lábios da senhorita White da minha cabeça. Estava começando a achar que isso estava se tornando uma obsessão.
Quando estava quase cochilando, o ruído da maldita campainha soou em meus ouvidos me fazendo rugir. Quem, em sã consciência, oito horas da manhã de um domingo, estaria tocando a maldita campainha? Não havia ninguém além de Erik para me importunar, qualquer dia ou qualquer hora do dia, mas meu amigo havia acabado de entrar em um avião para o outro lado do país.
Assim que abri a porta, engasguei com minha própria saliva. Annie White estava bem a minha frente com uma bolsa nas costas e um sorriso profissional. O que diabos ela estava fazendo aqui? Antes de pronunciar a pergunta, White entrou no apartamento sem ao menos pedir licença. Já não gostei disso. Ela pode ter um rostinho bonito que acabou me perturbando, mas quando invade minha privacidade, a coisa muda de figura.

— O que faz aqui? — Não consigo controlar a irritação em minha voz.
— Trabalho — diz como se fosse algo normal.
— Trabalho? — Pergunto incrédulo. — Em um domingo? Você bebeu?
— Não, . — Ela está fazendo uma carranca para mim, porém, quem deveria esta com raiva era eu. — Só quero que fiquemos a par de tudo e troquemos ideias, esse caso precisa ser resolvido o mais rápido possível, ele já ficou tempo demais na sua mesa e do Scott.

Suas palavras são duras e consigo sentir o ar de julgamento em suas palavras, mas prefiro ignorar. Aponto a mesa que fica logo atrás do sofá, White se direciona até ela, pega sua mochila e coloca sobre, de dentro é retirado um laptop e uma pasta.
Passamos horas comparando os arquivos tentando achar algo que pudesse nos levar ao chefe do tráfico de mulheres no país. Esse caso havia sido pego pela Interpol e logo foi interceptado pelo FBI, há seis meses, eu e Erik pegamos o caso tentando achar uma forma de descobrir quem era o infeliz que enganava as mulheres. Quatro meses atrás conseguimos pegar uma garota na Espanha que estava completamente drogada e tendo overdose de heroína, ela não resistiu, até agora não conseguimos encontrar mais nenhuma pista.
White desconfiava que conseguiríamos descobrir algo quando analisássemos as datas de envio de garotas. Não via qual era a ligação, mas não queria discutir, ela era considerada uma das melhores profissionais e parecia focada no caso.

— Por que trabalhar em um domingo? — pergunto curioso.
— O que? — White levantou os olhos do laptop e me encarou como se fosse louco. — Já disse que quero...
— Não — interrompo. — Você parece muito focada nisso tudo, tem algum motivo especial?

White engoliu em seco e notei que seus olhos ficaram embargados. Havia acontecido algo de grave para deixá-la assim, talvez a história de uma amiga envolvida com algo parecido, uma parente, ou simplesmente uma conhecida. Seus olhos não enganam, posso ver que há algo mais.

Ela baixou os olhos para o laptop e os arregalou.

— Céus! São duas da tarde. Passamos esse tempo todo analisando tudo isso? — Suas palavras foram seguidas por meu estômago rugindo.

Peguei o telefone da mesinha ao lado do sofá e acabei pedindo comida tailandesa. Assim que chegou, White quis pagar, mas a impedi dizendo que estava na minha casa e seguiria as regras apesar de ter interrompido meu domingo de hibernação. Coloquei a comida no balcão da cozinha e peguei uma garrafa de vinho que deixava preparada para os fins de semana, os olhos de White brilharam quando viram a garrafa, peguei duas taças, dois pratos e talheres no armário acima da pia. Despejei a comida no prato e ela se aproximou. Depois de colocar o vinho nas taças e dar a primeira garfada ela disse:

— Minha irmã. — Vi-a engolir em seco. — Chegou um dia da escola dizendo que um cara de uma agência de modelos havia a convidado para passar por um teste de três meses na França, meus pais permitiram mesmo com meus incessantes pedidos para não deixarem. Três meses depois, não tivemos mais notícias dela, pedi ao meu supervisor para ir atrás dela. Vasculhei a França como louca, a encontrei em um quarto de hotel abandonado, morta. — White fechou os olhos, provavelmente tentando impedir que as lágrimas rolassem por seu rosto, mas foi em vão. — Os legistas disseram que ela havia sofrido overdose uma semana antes, sem dúvidas, sozinha. Eles a mataram, foi proposital. Desde aquele dia jurei que pegaria todos os miseráveis que ousasse se aproximar de garotas para enganá-las.

O almoço se seguiu em silêncio. Não podia imaginar a dor que ela sentiu com a perda da irmã sabendo que tinha poder para impedir tudo, também não sentia pena. Foi uma fatalidade e burrice dos pais delas terem permitido algo tão imprudente, poderia ter uma ideia da culpa que estão sentindo até hoje. Annie fazia sua parte, ela sentia uma divida com a irmã e para pagar, ela teria de salvar todas as garotas que caísse nas lábias desses desgraçados e eu a ajudaria.
Depois do almoço, voltamos à papelada. O transporte de garotas no ano de 2010 parecia escasso, em 2009 parecia irregular, mas a maioria dos voos ia para a Holanda, o centro da prostituição na Europa. Um mercado tão extenso precisaria de alguém comandando de perto e logo no começo o chefe deveria está presente, talvez, até esteja lá ainda. Em casos assim o que está no comando nunca fica a frente de negociações, mas manda seus lacaios.

— Holanda. As viagens para a Holanda foram frequentes, sei que a prostituição é muito comum por lá, mas seria um ótimo lugar para o Chefe se esconder e perfeito para comandar tudo, até porque, ele jamais ficaria a frente de tudo.

White me encarou com os olhos brilhando e uma pitada de sorriso tocou seus olhos.

— É uma pista.

Imediatamente Annie ligou para Donald pedindo autorização para uma investigação na Holanda, ele reclamou por ser um domingo, mas ela não lhe deu ouvidos. Enquanto isso, observava seu modo de falar e suas expressões, quando mordeu o lábio tive que engolir em seco e acabei me assustando quando meu amigo se mexeu. Puta que pariu. Estava perdendo o controle e não fazia ideia de como recuperá-lo. Como uma semana com essa mulher me fez cair de "amores" por ela? Meu coração dava pulsações diferentes, minha garganta ficava seca quando observava seus lábios se mexendo e ficava nervoso quando ela aparecia na minha frente, estava parecendo um maldito adolescente entrando na puberdade. Só que sem a parte da adolescência. Para completar, me peguei observando suas curvas e seu corpo dotado de carne, estava completamente perdido, como poderia trabalhar com ela nessas condições? Me afastei dela, sentei no sofá e coloquei uma almofada sobre meu colo.
White desligou o telefone, colocou na base e deu um sorriso estonteante. Sentou-se ao meu lado me fazendo gemer por dentro.

— Não temos uma autorização do país ainda, mas Donald já permitiu que nos preparássemos — disse suspirando.
— Nós?
— Claro, você é meu parceiro. — Ela tocou minha perna como se fosse algo natural entre nós e senti endurecer completamente.

Puta merda.

White seguiu até a mesa, guardou toda a papelada e o laptop na mochila e seguiu até a porta para sair, antes de fechá-la novamente, virou-se.

— Obrigada pelo almoço. — Um sorriso malicioso se formou em seus lábios. — Um banho frio irá te ajudar com seu problema.

E fechou a porta. Abri a boca estupefato e sem entender o que tinha acabado de escutar. Droga. Ela percebeu tudo. Não me restou outra alternativa, a não ser tomar o tal banho gelado.



Capítulo 05

A semana passou lentamente e sem notícias de Jayden. Talvez ele tenha desistido de investir em mim por não ter aberto as pernas para ele logo de cara. Se for isso, adeus, é uma pena porque ele realmente mexeu comigo, mas é melhor que acabe antes de uma decepção. Passei a semana inteira cochiando entre dois pensamentos, porque as aulas de literatura eram tão chatas e porque Jayden não apareceu mais. Certo, deu para perceber que não estou bem com isso. Mas, por favor, é Jayden Smith, não são os garotos palermas da escola.
Encaro minha sopa com um olhar triste, porém ainda não decidi se é pelo gosto da sopa ou por causa de Jayden.

— Adivinha quem vai sair hoje à noite? — Megan solta à voz em meio ao refeitório.

A parte ruim de chegar o final de semana é ter que aturar todas essas garotas desesperadas. Megan estava em seu grupinho de seis meninas, mas elevou a voz só para chamar atenção das outras garotas para todas soubessem que ela sairia por conta própria após o aniversário de dezoito anos. Ontem ouvi ela e as amigas com um bolo pequeno cantando parabéns, o sorriso nos lábios de Megan logo denunciou o que estava acontecendo.

— Drake me chamou para sair. — As sombras dela começaram a dar gritinhos me fazendo revirar os olhos. — E ninguém pode me impedir, porque agora tenho dezoito anos. — Ela olha para mim com a sobrancelha erguida em sinal de deboche.

Volto a observar minha sopa sem tempero. Tenho esperança de um dia sair de toda essa situação, meninas egoístas, comidas sem tempero, caras idiotas, quartos compartilhados, banheiros compartilhado, tudo acabaria quando conseguir um emprego assim que terminar a escola. Não existe faculdade para alguém sem destaque numa instituição, o resto dos meus dias seria condenado a uma cozinha de lanchonete cafona em algum buraco de São Francisco.
Depois de não comer, segui para o "meu" quarto e deitei na cama inconsolável. Estava com raiva de mim por ser tão estúpida, mas daria uma semana de luto para toda a situação, depois ergueria a cabeça e seguiria em frente.

. — Levanto da cama imediatamente.
— O quê? — Irmão Glória esta a minha frente sorrindo.
— Um rapaz trouxe esse bilhete para você. — Ela ergue o papel até o meu rosto e quando tento pegar, o ergue, pulo uma vez e pego com um sorriso bobo no rosto. — Ele é bem bonito.

Irmão Glória sai do quarto para me dá privacidade, algo raro por aqui. Abro o bilhete e observo os garranchos por um tempo, quando começo a ler minhas pernas viram gelatinas fazendo com que acabe voltando à cama.

Poderia fazer meu almoço amanhã? Passo aí às 10hrs. Jay

Sem dúvidas, Jay!
Estou com vergonha de admitir que acordei cedo em pleno domingo, mas é a verdade. Aproveitei que as meninas estavam dormindo e fui tomar um banho longo, procurei algo simples para vestir – como se tivesse muita roupa – uma blusa verde com a manga soltinha e uma calça jeans, calcei o tênis da escola, porque ficarei de pé fazendo a comida, então tenho que me sentir confortável. Segui para o hall do orfanato e deitei no sofá da entrada. A porta começou a se abrir, levantei e entrei em pânico, ninguém estaria acordado uma hora dessas e ter saído logo em seguida, procurei a minha volta algo que pudesse bater em quem quer que seja, mas não encontrei nada, então comecei a suplicar misericórdia a Deus. Quando a porta se abriu, dei de cara com uma Megan apavorada.

— Por favor, não conte a ninguém — ela suplicou.

Senti meu coração apertar por ela. Seria expulsa. Todas tinham que ter senso de responsabilidade quando completassem a maioridade e ela simplesmente resolveu ignorar. Mesmo se eu ficar calada, não adiantará, as Irmãs sempre fazem inspeção antes de dormir.

— Não adianta pedir ajuda, Megan. — Irmã Dolores aparece a minhas costas impondo a voz — Pegue suas coisas e pode sair.
— Por favor! — Megan se ajoelha, meus olhos se enchem de lágrimas quando vejo seu rosto molhado. — Não tenho para onde ir.
— Não podemos fazer nada. Temos regras aqui, se queria continuar, que as cumprisse. Há casas de abrigos no subúrbio, consiga um emprego e talvez consiga alguma coisa na vida.
— Por favor. — Megan grita.

Para minha surpresa, há uma mala ao lado de Irmã Dolores, ela pega e entrega a garota em pratos. Megan sai de cabeça baixa pela porta sem rumo algum.

— Que isso sirva de aviso. — Olho para uma Irmã Dolores carrancuda.

Sento-me no sofá mais uma vez. Ver sua vida jogada a própria sorte era uma das piores coisas que poderia acontecer com alguém que não tem nenhuma família. Meus olhos estão presos à porta de madeira escura coberta com verniz, queria não me preocupar com Megan, mas é involuntário, poderia ser eu no lugar dela.
A buzina do carro de Jayden me desperta. Sorrio. Não vou pensar em Megan, apenas me concentrar no almoço e no homem que terei de alimentar.

Jayden já sabia o que queria para o almoço e até tinha comprado os ingredientes baseando-se em receitas na internet. Tacos de frango e torta de morango. Nada complicado para se fazer uma primeira vez. Minha desenvoltura com a cozinha foi perfeita, parecia até que sempre vivi aqui. Jayden deixou tudo a minhas mãos, se algo não estivesse a minha frente, ele ia atrás, estava me sentindo em casa.
Tiro a torta do forno e coloco sobre o balcão da pia, sigo para a panela com o frango e começo a colocar no taco, preencho quatro e ponho em dois pratos.

— Pronto — digo com um sorriso nos lábios, Jayden esfrega as mãos uma na outra em sinal de expectativa. — A torta precisa esfriar, então teremos que comer mais tarde.

Teremos? Quanto tempo vou ficar aqui?

Jayden sai do banco e vai pegar uma garrafa de vinho na geladeira. Ignoro o fato dele sempre querer álcool entre nós, é de conhecimento geral que álcool nas veias de alguém pode acabar removendo qualquer pudor, não gosto muito disso, mas resolvo não discutir.
A comida estava boa e me surpreendi, essa é a primeira vez que faço algo sem ser na escola e as receitas que costumo fazer são mais simples, devo concordar que tenho um dom.
Bebo o restante de vinho da taça enquanto Jayden prepara mais um taco, ele acabou devorando os dois que preparei. Ele volta para o seu lugar e sorri.

— Isso está maravilhoso — diz com a boca cheia.
— Obrigada. — Sorrio. — Para falar a verdade, não estava muito segura em fazer tudo isso porque nunca estive a frente de uma receita tão complicada.
— Complicada? — ele ergue a sobrancelha — Acho que não tem nada complicado para você na cozinha.
— Você só comeu os tacos — digo sem graça. — Quando a torta esfriar, poderá fazer uma analise melhor.

Jayden se levanta, vira o banco que estou sentada de frente para ele e se coloca entre minhas pernas. Encaro seus olhos azuis cheios de desejo e fico imaginando o que ele faria comigo se fosse uma garota que cedesse rápido, sem dúvidas já estaria em sua cama e ele estaria me proporcionando muito prazer, porém, não sou assim.

— Você faz uma comida maravilhosa. — Suas palavras são firmes e causam arrepios em meu corpo. — Você é maravilhosa. — Ele aproxima seu rosto do meu decidindo se deve ou não me beijar, meu corpo parece implorar que seus lábios toquem em cada centímetro do meu corpo, mesmo quando tento resistir a esses pensamentos.

Beijo. Jayden sabe perfeitamente a definição dessa palavra e ainda mais como torná-la uma ação. Quando seus lábios colam nos meus, as sensações parecem explodir, formigamento, arrepios, desejo, cada pedaço do meu corpo se aquece com a proximidade. Jayden passa as mãos por minha cintura, deslizando para o meu quadril, a região entre minhas pernas parecem está gritando de dor quando tento fechar as pernas, sinto-o duro e gememos ao mesmo tempo. As mãos de Jayden descem para minha bunda, ele me ergue e me põe sentada sobre o balcão enquanto sua boca desce para meu pescoço. Estou arfando, perdendo completamente o controle. Ele pega a barra da minha blusa e começa a erguê-la, é nesse momento que a lucidez chega a minha mente e paro, ele para.

— O que foi? — pergunta confuso.
— Acho que está muito cedo. — Mordo o lábio.

A linha do seu maxilar fica tensa, ele parece chateado, mas, caso não tenha paciência, não posso fazer nada. Não sou carne exposta no açougue, que vai ser comprada e comida por qualquer um.

— Tudo bem — diz tentando, parecer, ser compreensivo. — Vamos assistir alguma coisa.

Ele sai de perto de mim e mexe no controle da TV.

— O que você gosta de assistir? — Pergunta sem olhar em meus olhos, fico furiosa com sua atitude.

Gosto de assistir qualquer tipo de filme, mas só para ser implicante e infantil, vou pedir algo que ele não vai curtir.

— Romance — digo.

Consigo ver as engrenagens no seu cérebro se movimentarem e as palavras fluírem em sua mente: "Claro que sim". Se ele quer me tratar como todas as mulheres que aparecem na vida dele, vou-me "tornar" uma delas.
Acabamos assistindo o filme Simplesmente Acontece, ele saiu há pouco tempo no cinema, mas já tinha para alugar na TV a cabo. O filme foi bem triste e em alguns momentos senti vontade de chorar, mas ele também foi recheado de risos. Jayden não prestou muita atenção porque não parou de me beijar, seus lábios sempre estavam colados em minha pele apesar de não lhe dar confiança para me tocar, no final, acabei gostando de seu gesto e vi que só queria está em contato com a minha pele, já que não permiti mais do que beijos.
Assim que o filme acabou, pedi para que me deixasse em casa, já era final da tarde e não gostaria de ficar mais tempo e colocar minha sanidade à prova. Acabei não comendo nenhum pedacinho de torta, mas Jayden garantiu que no futuro teria outras vezes. Quase enlouqueci internamente com essas palavras. Até porque, isso significava que ele queria me ver mais vezes, estava torcendo para que isso acontecesse sempre.



Capítulo 06

A permissão da viagem para a Holanda foi a jato, duas semanas depois da minha suposição do centro do tráfico. White estava discutindo com a recepcionista por causa de quarto, pelo que parece, o turismo por aqui é pesado, então deveríamos ter reservado um quarto antes de viajar.
White sai bufando do balcão, mas logo dá um sorriso de gato quando olha para mim. Após o meu momento constrangedor, White se soltou mais, ela não se importava de falar sobre seu ódio por cafetões e que por ela, todos eles teriam uma morte longa, porém, como uma boa profissional, só poderia capturá-los.

— Consegui. — Sorrio — Mas apenas um quarto.

Meu sorriso se desmancha logo de imediato, mas seu sorriso continua intacto.

— Vamos lá, . — Ela pega minha mão, puxa pelo hall do hotel até os elevadores — Não fique desanimado, podemos revezar a cama.

Claro.

Já fazia dois dias que estávamos analisando plantas e mais plantas do local que iríamos invadir, de acordo com alguns agentes, que vieram na manhã anterior, o local tinha o comércio ativo de prostituição, mas não havia nenhuma informação sobre o chefe.

— Annie — chamei-a. — Sabe que o chefe pode não estar lá, ele pode ter ido embora, eles não podem ficar no mesmo lugar, se não daria muito na vista.
— Eu sei — Disse tranquilamente enquanto fechava seu laptop e tomava uma xícara de chocolate quente.
— Então, por que essa vontade insana de vir até aqui?
— Há garotas sendo obrigadas a se prostituir, garotas como a minha irmã. Elas vieram até aqui por uma vida melhor, mas tudo que tiveram? Desgraça, humilhação. Quero salvar todas elas, não importa quem é o chefe, sei que quando pegarmos eles, uma grande parcela desse mercado vai acabar, mas quantas meninas podermos salvar, melhor ainda.

Eu a entendia. Para Annie, todas as garotas salvas seriam como a sua irmã, mesmo que no final não fosse ela verdadeiramente, mas a essência estaria ali. Garotas que foram enganadas e usadas até que não suportassem mais, elas seriam salvas por causa do senso de justiça e a força de vontade de Annie.
Pego meu copo de whisky e observo o líquido âmbar. Meu coração está saltando em meu peito, a bebida me fazendo compreender o que estava acontecendo, a cada palavra que saia da boca de Annie White, mais me encantava pela mulher que ela é. Eu sei que estou correndo o grande risco de acabar me apaixonando por minha parceira, mas é involuntário.
Passamos o dia inteiro planejando como seria a invasão no dia seguinte e tudo parecia em ordem, colocaríamos todos a par do plano logo pela manhã e a tarde começaria o trabalho pesado. Hoje era meu dia de dormir no chão, porém, tudo que queria era está ao lado de Annie. Revirei não sei quantas vezes até encontrar uma boa posição, dez minutos depois escutei um choro. Meu primeiro pensamente era que estava sonhando ou tendo um pesadelo com crianças assassinas, mas tudo era real, Annie estava chorando.
Ergui o corpo e encarei o indivíduo em posição fetal sobre a cama, levantei devagar e segui para o lado oposto da cama, me deitei ao seu lado enquanto ela dava um salto.

— Pensei que estava dormindo — sussurrou, no momento em que secava as lágrimas de seu rosto.
— Não consegui dormir. — Encarei seus olhos vermelhos e rosto inchado, ela devia estar chorando há horas — Por que está chorando?

Annie levantou os olhos até o meu rosto e pude ler toda a dor em seu ser. Eu não entendia porque ela estava sofrendo. Aparentemente não havia motivo algum, porém, a dor estava ali, explícita em cada célula do seu corpo, fazendo com que surgisse uma dor imensa em meu peito, a ponto de me sentir sufocado.

— Preciso da sua ajuda amanhã — diz com a voz embargada. — Costumo ter pequenos surtos quando encontro garotas...
— Mortas? — Minha voz sai seca e me arrependo imediatamente, apesar de ter sido involuntário.
— Sim. — Ela cutuca uma linha solta no travesseiro, parece envergonhada por ter que falar sobre o assunto. — Sempre que vejo os corpos sem vida, a cena da minha irmã largada naquela cama me vem à mente e simplesmente não posso controlar. Meu antigo supervisor me enviou para cá, a fim de me fazer desligar de tudo que envolvia Aria.

É a primeira vez que escuto o nome de sua irmã, posso ver o quanto sente falta dela apenas com o soar de cada letra que sai de seus lábios.

— Mas, querendo ou não, você está envolvida com algo que tem ligação com Aria. — Digo lentamente, buscando alguma alteração em seu humor. — Por que seu supervisou a enviou para um caso como esse?
— Porque ele sabe que sou boa nisso. Pode parecer estúpido, mas é como se conseguisse ler a mente desses desgraçados, consigo supor o que eles pretendem fazer, além de ser uma boa formadora de caráter. — Sua última fala transborda autoconfiança e goste de ver isso.
— Certo — digo, até porque não sei mais o que dizer. Se ela surtar no dia seguinte assim que encontrarmos alguma garota morta não será fácil explicar para Donald que minha parceira tem problemas psicológicos. — Só é necessário que fiquemos juntos o tempo todo, caso encontremos alguém... Você sabe, estarei lá para ampará-la e Donald nem vai ficar sabendo.
— Obrigada. — A gratidão transborda em suas palavras.

Agora que venho perceber, estamos muito próximos, tanto que posso sentir o aroma de seu hálito – pasta de dente de hortelã –, pego sua mão e a aperto demonstrando meu consolo.
Acabamos dormindo juntos na cama, quando acordei, Annie estava com a cabeça deitada em meu peito e imediatamente me senti como um adolescente que recebe atenção da garota mais bonita da escola. Meu coração batia como uma marreta, minhas mãos suavam e o nervosismo era aparente. Não queria que saíssemos dessa posição, porém, seria constrangedor ela acordar e está em meus braços. Me movo um pouco tentando sair de debaixo dela, Annie se move e vira para o outro lado, aproveito para me levantar e seguir para o banheiro.
Assim que saio do banheiro, Annie já esta de pé vestida com um robe, ela sorri para mim sonolenta e segue para o banheiro. Peço nosso café da manhã, quando ele chega, minha companheira de quarto aparece vestida.
Tomamos o café da manhã e logo começamos a trabalhar novamente em nossas táticas de entrada na casa de prostituição, não demora muito e nossos auxiliares chegam e repassamos o plano. Havia um grande número de pessoas, não teria como algo sair errado. Além dos vigias dos últimos dias que estavam distribuídos por todo o perímetro, também havíamos enviado cinco "clientes" a fim de ajudar no reconhecimento do lugar.
Tudo daria certo.

Foi ridículo. Sim, nunca vi algo tão fácil como foi invadir essa maldita casa de prostituição. Fizemos tudo direito, não deixamos nada à mostra, nada óbvio. Nos escondemos em um caminhão de entrega de papel higiênico em frente a um mercado, nossos homens estavam camuflados. Mas quando invadimos, não havia resistência e nem um homem comandando a casa, vasculhamos todos os quartos e nada. Certo, ainda não havíamos terminado a revista, mas só o fato de não termos encontrado ninguém despercebido pelo local foi entranho.
Então, escutei um grito no andar que estou vasculhando. Corro até o local de onde veio o som, assim que adentro o quarto que ficava na ala oposta a que estava me deparo com Annie próxima ao corpo de uma garota morena e pele bronzeada, seus olhos estão abertos e vidrados, há algo seco no canto de sua boca. Uma overdose.

— Aria! Aria! Irmãzinha, acorde, por favor. — A voz de Annie sai angustiada. — Aria! Aria, nós vamos para casa.

Posso não ter visto fotos de Aria, mas tenho certeza que ela não se parece nem um pouco com essa garota. Quando Annie me contou sobre as visões que tinha com a irmã, realmente acreditei, porém, não imaginava que àquela cena iria acontecer e que iria presenciá-la.

— Annie — sussurro me aproximando de Annie, puxo-a de perto do corpo e a puxo para meus braços, ela começa a se debater e agradeço por não gritar. — Annie. Annie. Não é a sua irmã. Não é Aria.

Nada parece surtir efeito, é como se ela estivesse passando por um pesadelo e não pudesse ser acordada. Então algo que me vem à lembrança, e no mesmo instante que esse pensamento martela em minha cabeça, ponho-o em prática. Pressiono meus lábios contra os de Annie e ela paralisa, a pressão de seus braços que empurravam e batiam em meu peito se vão. É apenas um toque de lábios, não consideraria um beijo, contudo, apenas esse tocar de bocas faz coisas estranhas com meu sistema nervoso, meu corpo parece vibrar, e ao mesmo tempo se aquece.
Quando nos distanciamos, observo o rosto de Annie, seus olhos estão arregalados e um pouco vermelho por causa do choro. Percebo que ainda estou segurando-a com firmeza, no mesmo instante a solto. Abaixo a cabeça e coço a nuca, um pouco envergonhado.

— Agente e White. — Lewis nos chama no batente da porta. — Achamos nossos homens que ficaram encarregados da infiltração.

Saímos da presença do corpo da garota e do último acontecimento. Seguimos Lewis até o último andar do prédio, assim que entramos, nos deparamos com nossos cinco homens estirados no chão, todos estão com ferimentos graves, mas ainda respirando.

— Era uma armadilha — um deles diz, ele tem o cabelo castanho e está com rosto machucado. — Eles já sabiam que viríamos.
— O quê? — Annie quase grita a pergunta, sinto a raiva borbulhar do corpo dela. — Eles disseram alguma coisa?
— Apenas que já sabiam que viríamos. — O homem reclama de dor e peço para que ele descanse.

Me afasto dos nossos homens, eu e Annie saímos do quarto. A carranca no rosto de Annie se esvai quando vê várias meninas serem levadas para fora do prédio.

— Como eles poderiam saber que estávamos aqui? — Indago.
— Não sei — Annie responde pensativa. — A não ser que tenhamos algum espião.
— Acho que não. Devem ter vazado alguma coisa, só não sei como.

O desconforto entre mim e Annie se formou assim que entramos em nosso quarto. Deixei que ela tomasse seu banho primeiro enquanto tentava refletir sobre o que aconteceu naquele quarto. Senti uma coisa estranha acontecer dentro de mim, é estúpido dizer isso, mas fiquei bastante assustado. Se apenas um tocar de lábios poderia fazer isso comigo, imagina se realmente tivesse algo com ela. Antes que possa me aprofundar no assunto, Annie sai do banheiro. Não tenho coragem de olhar em seus olhos e sei que estou agindo como um menino do colegial, mas não me importo.
A água leva embora toda a sujeira de um trabalho quase frustrado. Havia muitas meninas naquele lugar, vivas, acho que esse foi o único ponto positivo de tudo isso. Elas seriam interrogadas, mas era difícil conseguir algo de concreto ou que possa nos ajudar nas investigações. Após um bom tempo debaixo da água quente saio do chuveiro, escovo os dentes e me visto.
Como tivemos que cuidar da retirada das garotas, o trabalho só acabou no inicio da noite. Chegamos ao hotel às oito, estávamos mortos de tanto cansaço, então, quando abri a porta do banheiro não me surpreendi em encontrar Annie dormindo. Foi então que me vi ao seu lado, sentado na ponta da cama que ela está deitada. Pego sua mão e por algum motivo esse toque faz minha pele se arrepiar. Penso na maneira que ela reagiu quando viu a garota, imaginando ser Aria, havia dor dentro dela, havia dor dentro de mim. Eu quero acabar com sua dor e ignorar a minha, ou talvez, ajudando ela, possa me ajudar também, acabar com essa angustia.

— Você pode não saber — sussurro. — Mas vou cuidar de você.

Beijei sua mão e me levantei para deitar ao seu lado. Nada de chão. Nunca mais.



Capítulo 07

A cama está tremendo. Talvez um terremoto. Terremoto? Puxo o travesseiro sobre minha cabeça para tentar impedir o terremoto de me acordar, como se fosse tão simples assim. Bufo quando vejo que minha tentativa de me manter dormindo é inútil.

— uma voz feminina sussurra meu nome. — , por favor, acorde, preciso de sua ajuda.

Abro os olhos. Demoro um pouco para poder me acostumar ao fato de ter acordado, olho para a pessoa ao meu lado que estava causando o "terremoto”. Irmão Glória. Seus olhos estão arregalados como se tivesse visto alguma assombração. Levanto-me lentamente, não funciono muito bem assim que acordo, nem mesmo o desespero nos olhos de Irmã Glória me ajudam a despertar por completo. Coloco as pernas para fora da cama, as meias em meus pés impedem o choque térmico ao tocar o chão, esfrego os olhos e bocejo.

— O que houve? — Minha voz sai mais parecida com o resmungo de um bêbado.
— Há uma menina no hall. — Ela o vinco entre as sobrancelhas — Parece que a avó morreu há poucas horas e o único lugar que pensou em vir foi aqui.
— O quê? — Essas palavras são como uma injeção de adrenalina em meu corpo, me levanto às pressas e sigo para os corredores. Assim que chego ao hall, há uma menina encolhida no banco que há alguns dias estava deitada esperando por Jayden. Apesar de está escuro, seu cabelo escuro e curto é perceptível, seu rosto arredondado está manchado de lágrimas pretas por causa do rímel, seus lábios grossos estão avermelhados, assim como seus olhos. Há uma manta sobre o corpo da garota, quando me aproximo mais, observo que seus cabelos estão molhados, assim como suas roupas. Olho para a janela, um mundo está caindo lá fora.
Sento-me ao lado da garota um pouco receosa. Ela olha para mim enquanto morde o lábio, talvez tentando impedir que soluços saiam.

— Oi? — Falo meio incerta.
— Oi. — Sua voz embargada quase parte meu coração em dois. Ela perdeu alguém importante. Mas não consigo entender porque veio parar aqui no meio da noite.
— Meu nome é , moro aqui. — Espero que ela se apresente, contudo, não acontece. — Qual seu nome?
— Holly.

Olho para Irmã Glória, ela está mais perdida que eu. Penso na melhor forma de perguntar o que essa garota faz aqui. Holly parece ter a minha idade, ou talvez mais velha. Como nada me vem à mente decido ser direta.

— Holly, por que veio até aqui?
— Minha avó...
— Entendo, mas por que aqui? — Interrompo-a, minhas palavras parecem um pouco secas então resolvo suavizá-las. — Por que não foi para casa?
— Porque não posso. — Holly cospe.

Pisco algumas vezes surpresa.

— Faltam apenas três dias para o meu aniversário de dezoito anos, não quero que me enviem para a casa da minha tia. — Holly diz enquanto alisa o cobertor.
— Mas e seus pais? — Indago.
— Morreram há quatro anos. — Sua voz está amarga. — Acidente de carro. Fora minha tia, só tinha minha avó como parente. Meus pais me deixaram um dinheiro no banco, para a faculdade. Vovó fez questão de ficar comigo, ela não confiava na minha tia, sempre achou que fosse ambiciosa. Então vovó ficou doente e tenho certeza que Rebekah estava ansiando pela morte dela. Aconteceu.
— Então você resolveu vir para cá, como um refúgio? — Passo a mão em suas costas para poder confortá-la.
— Sim. O que são três dias? — Os olhos arregalados de Holly faz meu corpo tremer. — Para Rebekah será o suficiente. Ficando aqui poderei ter um tempo e acabar salvando o dinheiro que meus pais deixaram.

Meus olhos caem em Irmã Glória, tento passar minha suplica a ela. Holly tem algo para se manter, três dias podem acabar com tudo ou ser a salvação. Pela graça divina, Irmã Glória tem um coração de manteiga e acaba concordando.
Puxo Holly para os meus braços e digo que ela ficará em meu quarto. Seguimos pelos corredores, deixo Holly em minha cama e subo para o beliche de cima. Demoro a dormir, o ruído dos soluços da garota na cama de baixo parecem me destruir por dentro. Tento ignorar e me concentrar no som da chuva caindo no telhado e parece funcionar.

— Ninguém vai achar estranho uma garota nova aparecer do nada? — Holly pergunta enquanto molha o pão no café.
— Não, acho que nem todas se conhecem ainda. — Bebo o café amargo que instantaneamente aquece meus ossos.

O dia amanheceu um pouco frio, além do permitido para a época. Acabei emprestando algumas roupas "minhas" para Holly, ficaram um pouco apertadas no quadril, mas a menina a minha frente não pareceu se incomodar.

— Estava pensando em conseguir algum emprego. Não quero gastar o dinheiro dos meus pais com qualquer coisa. — Holly fica pensativa e seus olhos castanhos se arregalam. — A casa da vovó, ela deixou no meu nome. Quando completar dezoito, vou procurar vendê-la.
— E vai morar aonde? — Dou uma risada sem graça.
— Não quero ficar em São Francisco. — Sua expressão fica séria. — Esse lugar só trouxe desgraça para minha vida.

Reflito com suas palavras. Perder os pais em um acidente não deve ser algo agradável, ainda mais com menos de quatorze anos. Perder a avó logo em seguida não parece algo bom. Ter uma tia ambiciosa é ainda pior.
Se tivesse condições, no lugar de Holly, já teria ido embora há muito tempo.
Meus pensamentos vagam para um certo homem que me deixou à deriva há exato duas semanas. Jayden veio até o orfanato avisar que teria de viajar a trabalho e não tinha um dia para voltar. Foi impossível não demonstrar meu descontentamento. Obvio que logo em seguida recebi um beijo de tirar o fôlego antes dele partir. Ele me entregou seu cartão, nele tinha seu número pessoal e contatos com a agência. Porém, Jayden não pensou no fato de não ter um celular em meu poder, então acabei não entrando em contato.
Então, de repente, uma ideia passa pela minha cabeça. Tudo parece se encaixar.

— Holly.
— Sim? — Holly ergue a cabeça de seu café e me observa com cara de tédio.
— Já pensou em ser modelo? — pergunto tentando conter um sorriso.
— Não. — Ela franze o cenho.
— É algo que poderia fazer e de quebra, sairia daqui — digo de cabeça baixa fazendo círculos imaginários sobre a mesa. — Conheço uma pessoa que trabalha agenciando modelos, talvez, se você ligasse para marcar uma entrevista ou teste, sei lá. Acredito que você teria chance.

Holly dá uma gargalhada no mesmo instante que paro de falar. As garotas a nossa volta parecem se interessar, por seja lá qual piada acabei de contar. Escoro minhas costas no encosto da cadeira e começo afundar nela, sinto minhas bochechas queimarem de vergonha. Geralmente, não costumo me envergonhar com facilidade, mas ser motivo de piada não estava na minha lista de coisas que queria na minha vida. Escondo o rosto no emaranhado de cabelos soltos e abaixo a cabeça.
Me aproximo da mesa para poder chamar atenção de Holly. Puxo seu braço o apertando com força. A garota olha para mim e imediatamente para de rir. Sei que estou com a melhor carranca, a que sempre usei quando as meninas do orfanato queriam arrumar confusão comigo.

— Pare de rir. Não é uma piada — digo rangendo os dentes.
— Desculpa, . — Ela engole em seco e continua. — Você já olhou bem para mim? Sou baixinha. Esses caras têm critérios.
— Eu sei. — Largo a mão de Holly e ergo a minha para colocar um pouco de cabelo atrás da orelha. — Mas quem sabe, modelo fotográfica. Você é bonita, olhos grandes e marcantes, lábios grossos. Sempre que vejo as modelos nas revistas elas são assim.
— É, mas mesmo assim, são altas — sua voz sai desanimada.
— Você poderia tentar. Não adianta ficarmos repetindo que não vai dar certo, só tentando que tiraremos a prova. — Dou um sorriso para tentar animá-la e acabo conseguindo um sorriso apenas de lábios.
— Tudo bem, me passe o número.

Holly ergue a mão em expectativa e acabo travando na cadeira.

— Só tem um problema. — Ela ergue a sobrancelha de modo questionador. — Não tem como ligar dos telefones daqui. É o número de um celular.

Holly sorri mostrando seus dentes impecáveis.

— Não tem problema, . Tenho celular.

Levanto-me, dou a volta na mesa e puxo Holly pela mão. Seguimos até "nosso" quarto. Assim que adentramos no local, corro até o guarda roupa para pegar o pequeno cartão que não tirei da minha mochila. Quando o acho, ergo a minha frente para conferir, viro-me para Holly em expectativa.
Holly puxa o cartão da minha mão apressadamente, o celular que mais parece um mini retângulo já está em sua mão, ela começa a digitar o número e não demora para colocar o aparelho na orelha.

— Não diga que me conhece — sussurro.

Antes que ela pergunte o porquê, sua chamada é atendida. Minhas mãos começam a suar enquanto Holly conversa com Jayden.
Sei que é ele.
Parece até que posso sentir, como se sua voz tivesse algum tipo de ligação com meu subconsciente. O desejo de vê-lo parece se reacender em meu corpo. Não o vejo há dias e já pareço uma viciada em cocaína. Respiro fundo e tento pensar em coisas que amo. Uma lasanha de espinafre com bastante queijo e um molho branco entupido de parmesão parece algo ótimo, se tivesse uma cozinha, faria isso agora mesmo. Meu estômago ronca, mesmo tendo acabado de comer.
Quando percebo, Holly já está se despedindo do cara que tem perturbado meus dias por não estar por perto.

— Então? — indago juntando as mãos a frente do corpo como se estivesse me preparando para fazer uma oração.
— Ele disse que poderia ir ao endereço do cartão daqui a dois dias. O cara falou algo sobre está viajando e não poderia ser antes. — Holly suspira aliviada. — O bom desse atraso é que será no dia do meu aniversário, caso consiga o trabalho, não precisarei de ninguém para assinar porcaria nenhuma.

Coloco a mão na boca quando ouço a palavra porcaria. Se uma das Irmãs ouvissem isso, não aprovariam.

— Mas me conta. — A garota de cabelos pretos olha para mim com um sorriso malicioso nos lábios. — Por que pediu para não falar que conhecia você?

Mordo o lábio. Holly parece uma boa pessoa e não seria nada de mais conversar com ela sobre os momentos entre mim e Jayden. Dou uma risada sem graça e me sento na cama, a garota me acompanha sustentando seu sorriso malicioso.

— Quem atendeu ao telefone?
— Jayden Smith. Conhece?
— Sim. Nós saímos algumas vezes, na verdade, duas. — Holly abre a boca surpresa. — Não foi exatamente sair. Ele me levou para a casa dele, comemos alguma coisa, assistimos um filme, conversamos, nada demais.

Holly me encara incrédula.

— Nos beijamos — falo as duas últimas palavras bem baixinho. Não sei por que diabos estou tão envergonhada com algo tão natural e tão bobo, mas estou.
— Mais nada?
— Mais nada. Bem que ele quis mais, acabei impedindo. Não sou como essas garotas que abrem as pernas para qualquer um.

Olho para Holly e ela está firmando um rosto sem expressão, contudo posso afirmar que está analisando até meu último fio de cabelo.

— Você é virgem. — Não é uma pergunta.
— Sim.
— Entendo. Garanto, se apressar não traz nada de bom. Experiência própria.

Ela me olha séria, mas logo depois caí na gargalhada e acabo a acompanhando.



Capítulo 08

Você está me dizendo que fui substituída? — O tom de ironia na voz de Rachel não sai despercebido aos meus ouvidos. Torço o fio do telefone vermelho que fica preso à parede do corredor da secretaria.

Nas raras vezes que consigo falar com Rachel, fico em média de uma hora em pé conversando sobre assuntos banais do nosso dia a dia. A conversa da vez é sobre minha nova colega de quarto, Holly.

— Você não foi substituída — suspiro, tentando demonstrar uma falsa exasperação. — Somos colegas de quarto, estou quase a considerando minha amiga. Você é minha irmã, ninguém vai roubar seu lugar.
Sei... Você só fala dela desde que atendeu o telefone, já escutei o nome Holly umas dez vezes.
— Pare com essa bobeira, Rachel. — Encosto a cabeça na parede e consequentemente os ombros — Não há muito que dizer sobre a minha vida. Quando tem algo de diferente quero contar logo. Holly é a novidade.
Chega de Holly! — Suspira exasperada — Me conte sobre Jayden.

Minhas bochechas esquentam com a pergunta. Na última ligação de Rachel tive a infeliz ideia de falar sobre Jayden. Esse era um dos castigos por contar tudo a ela. Minha irmã postiça me encheu de perguntas sobre o tão desejado agenciador de modelos, contudo, acabei escapando de suas indagações indevidas. Porém, sabia que ela não esqueceria e acabei agradecendo o atraso da ligação seguinte. Tive a doce ilusão que o assunto Holly, a desviaria da conversa, mas com Rachel nada funciona assim, sua curiosidade sempre vai estar intacta. Assim como sua memória.

— Já que estamos falando em Jayden, Holly foi fazer uma entrevista e um teste para conseguir ser modelo. — Há um sorriso inocente em meus lábios. Uma nova distração.

Mais uma vez, Rachel mostra que não pode ser enrolada por ninguém.

Holly de novo? Depois diz que não fui substituída. Mas, como conheço você, sei que está tentando desviar do assunto. A última vez que nos falamos, você estava animada para um primeiro encontro, como foi tudo?

Mordo o lábio nervosamente.

— Saiu tudo perfeitamente bem. Nada de extraordinário — minha voz me trai quando se eleva uma oitava. Xingo internamente.
Estou esperando.
— Nos beijamos. — Respiro fundo antes de continuar. — Fomos comer na casa dele, conversamos e nos pegamos no sofá. Ele me convidou para ir a casa dele de novo, acabei cozinhando. — Rachel tenta me interromper, porém, a impeço — Sim, contei a ele que gosto de cozinhar. No segundo encontro as coisas quase saíram do controle, mas fui bastante forte no final das contas.
Uau.— Rachel suspira alegremente do outro lado e espero seu formulário sobre o acontecimento.

Antes que ela abra a boca novamente, Holly aparece no fim do corredor com um sorriso nos lábios. Decido desligar.

— Rach, preciso desligar. Em breve nos falamos.
Tudo bem. Se estiver se esquivando, é em vão.
— Não estou. Te amo.
Também te amo, .

Coloco o telefone no gancho e me afasto da parede. Holly vem em minha direção sustentando um sorriso.

— Então? — Indago, quase morrendo de ansiedade.
— Fiz um teste. — A encarei em expectativa. Pelo sorriso em seus lábios era óbvio que havia conseguido, mas as palavras são necessárias para uma confirmação. — Não consegui.

Juntei as sobrancelhas, confusa.
Qualquer ser humano comum, caso não conseguisse um emprego, ficaria com o semblante apagado pela derrota, mas Holly consegue ser algo de outro mundo. O sorriso em seus lábios parecia ser mais brilhante do que uma manhã de verão. Algo muito confuso para a situação.

— E qual é do sorriso? — Pergunto, cruzando os braços a frente do corpo.
. — Holly dá um sorriso torto e me puxa para o banco de madeira que fica há um metro do telefone — Nunca desejei ser uma modelo. Se conseguisse o emprego bem, se não, bem também. Não é algo tão grande assim. Posso conseguir um emprego de garçonete em qualquer lugar. E agora que tenho dezoito anos, tenho acesso ao dinheiro que meus pais deixaram. Posso recomeçar em qualquer lugar do país.
— Mas se você tivesse conseguido...
— Não importa.

Holly se levanta e me puxa junto. Ela segue em direção ao corredor amontoado de quartos. Quando entramos em nosso quarto, ela começa a revirar meu guarda roupa. Ela retira alguns vestidos, jogando-os sobre a cama, após ter certeza que todos estão dispostos, ela começou analisá-los. A observo como que se fosse algum experimento científico.

— O que está fazendo? — indago.
— Procurando uma roupa. — Seus olhos continuam firmes sobre os vestidos.
— Para? — Estou de pé no meio do aposento, como uma pateta, sem entender o que está acontecendo.
— Vamos sair. — Meus olhos se arregalam, isso parece chamar a sua atenção. — Já falei com Irmã Glória. Avisei que voltaríamos no máximo às duas da manhã.
— E ela deixou? — Meu espanto é notório.
— Claro que sim, é meu aniversário.

Resolvi não discutir mais, apenas seguir as ordens da aniversariante.


Estou eu aqui, de frente para uma boate, usando um vestido vermelho de lantejoulas que não me pertence. Depois de revirar meu guarda roupa, Holly não encontrou algo digno de uma boate, então, resolveu revirar sua mala. O vestido era solto no corpo e curto demais para o meu gosto. Holly passou camadas e camadas de maquiagem no meu rosto, com direito a cílios postiços e batom vermelho. Quando chegamos ao quesito sapato, houve uma pequena briga, contudo, consegui vencê-la e estou usando minhas velhas sapatilhas pretas.
Há uma fila enorme em frente ao lugar e não faço ideia se vamos conseguir entrar hoje. Me coloco atrás de um grupo de garotas escandalosas e Holly olha para mim como se fosse um E.T., ela me puxa do lugar e começa a me arrastar por fora da fila. Ela só pode estar maluca, a idade já deve estar a afetando, se não entrarmos na maldita fila logo, sabe lá que horas vamos entrar nesse lugar.
Assim que chegamos à entrada do local, Holly sorri para o segurança loiro de olhos castanhos, quando o homem percebe, ela dá um sorriso largo. Ótimo! Ela se aproxima e abraça o armário à minha frente. Fico calada, enquanto minha amiga maluca conversa com o seu segurança gato.

— Vamos! — Ela me arrasta mais uma vez depois de conversar com o homem. Não mostramos as identidades, o que me faz notar que Holly é frequentadora assídua do lugar.

Quando adentramos o lugar mal iluminado, o meu corpo começa a pulsar, não como um tipo de dança, todavia, como se a música estivesse fazendo parte do meu ser. Como se eu e ela habitássemos o mesmo corpo.
Há muitas pessoas se apertando no lugar, não tenho muito o que dizer, o que vejo são apenas corpos se esfregando um no outro e uma grande tensão sexual. Depois de atravessarmos o grande mar de gente, chegamos ao bar, Holly pede algo ao barman, porém, acabo não escutando, por causa do barulho ensurdecedor da música.

— Não temos vinte e um anos — grito para Holly.
— Mas tenho uma carteira falsa — diz, com um sorriso malicioso nos lábios.
— Mas, eu não tenho.
— É uma pena, você iria gostar. — Ela dá de ombros e volta para o bar assim que o barman chega com um liquido transparente em um copo pequeno.
— Dê uma gin tônica para a garota — A voz que soa ao meu lado faz os pelos do meu braço se arrepiarem e o meu corpo estremecer.

Viro-me rapidamente para encarar o homem de olhos azuis com um sorriso no canto dos lábios, é instantâneo que eu retribua com um sorriso tímido. No entanto, uma conversa que tivemos inunda a minha mente e franzo a testa.

— Pensei que tivesse dito que não gosta de lugares com muita gente? — indago, unindo os lábios em uma linha — Ou era só conversa para me levar até sua casa?

Jayden dá uma gargalhada sem graça. Quando volta a me encarar, há um pouco de medo em seus olhos e posso ver uma gota de suor em sua testa.

— Não, não menti. Estou aqui a trabalho, precisamos de garotas e não estamos achando o necessário.

Noto que há sinceridade em suas palavras assim como em seus olhos, entretanto, nem tudo parece ser verdade, porém, prefiro ignorar.

— Vocês?
— Sim, apesar da agência ser minha, todos trabalhamos em conjunto. Geralmente, meus funcionários fazem esse tipo de trabalho, mas acabei os enviando para fora do país e voltei com urgência para São Francisco.
— Urgência? — Ele ergue a sobrancelha e me sinto envergonhada na mesma hora, pareço uma namorada pegajosa — Desculpa, só estava curiosa, você não fala muito de si.

Seu sorriso de lado volta à ativa, prendendo meus olhos em seu rosto encantador.

— Não tem muito que falar. Vivo para o trabalho! Ultimamente, tenho pensado um pouco em mim e no que me faz bem. — Ele me direciona um olhar, intenso, engulo em seco — Você me faz bem.

Uma mão fria toca o meu braço me fazendo dar um pulo, quando me viro para ver quem é, olho para uma Holly alegre. Acabamos de chegar e ela já está bêbada? Ela aponta para a pista de dança e faz uma dancinha antes de se afastar.

— Essa era a Senhorita Moore? — Jayden indaga.
— Senhorita Moore? — Ergo as sobrancelhas com um sorriso sarcástico nos lábios.
— Nos conhecemos no trabalho, para mim, é Senhorita Moore. — Ele pisca para mim e olha para a pista, depois seus olhos se voltam para mim com um brilho diferente. — Vamos dançar?
— Pensei que não gostasse de muita gente a sua volta...

Viro-me de costas para o bar e descanso os cotovelos na bancada, Jayden vem para a minha frente e fica muito próximo do meu corpo. Quase arfo com a proximidade, contudo, consigo me controlar. Ele ergue a mão até meu rosto e desliza as costas da mão pela minha bochecha, mordo o lábio tentando controlar o sorriso que deseja explodir na minha boca.

— Posso fazer alguns sacrifícios por você. — Sua mão desaparece e logo entra em contato com meu cotovelo direito.

Jayden me arrasta para a pista de dança. Fico parada, enquanto ele se movimenta com destreza, seus movimentos leves e hipnotizantes me fazem desconfiar que ele foi feito para isso. Não para dançar, entretanto, para enfeitiçar as mulheres a sua volta. Não conseguia enxergar defeitos nele para que a população feminina corresse com medo ou enojada. Tudo em Jayden parecia atrair todas nós, assim como peixe é atraído pela isca no anzol. Todas nós desconfiamos que há perigo ali, seja para o coração ou para sua alma, porém, não nos importamos, só queremos estar em contato com esse perigo independente das consequências.
Quando começo a me movimentar, Jayden aproxima seu corpo do meu, a sua mão direita desliza pela minha cintura, fazendo com que nossos corpos destruam qualquer certeza da física que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar. A sua mão esquerda sobe para o meu cabelo e então, o impacto de nossos lábios quase me faz perder o controle das minhas pernas. A sua língua parece dançar no ritmo da batida eletrônica, levando a minha no mesmo compasso. A mão que Jayden sustentava em meu cabelo desce para minha cintura e, logo em seguida, as duas mãos estão me apertando ainda mais contra o seu corpo. Já estou quase sem fôlego e o beijo não parece ter um fim, os meus pulmões precisam de ar, mas eu preciso ainda mais da boca de Jayden colada na minha.
Nos afastamos quando nossos pulmões já não suportam a luta pela sobrevivência. Ainda estamos dançando com os corpos colados. Há um sorriso malicioso nos lábios de Jayden enquanto tentamos recuperar o fôlego, não estou preparada para mais um beijo desses, contudo, o meu acompanhante não parece se importar com o sofrimento que nosso sistema respiratório está vivenciando. Nossos lábios se colam novamente, mas por pouco tempo. Jayden afasta o seu rosto do meu, tira as mãos da minha cintura e segura a minha mão, antes que eu possa lhe perguntar o que está acontecendo, ele me puxa para longe do mar de pessoas que parece ter aumentado. Olho em volta, em busca da garota de cabelos pretos e vestido branco, encontro-a se enroscando em um cara alto de cabelos cor de mel, dois segundos depois eles estão se beijando como se o mundo fosse acabar. Divirta-se, Holly!
Jayden e eu entramos em um corredor que leva à portas desconhecidas. Estou prestes a perguntar onde estamos indo quando ele me prende contra a parede do corredor. A sua boca entra em contato com o meu pescoço me fazendo esquecer qual era a pergunta que iria entoar, as minhas mãos envolvem seu pescoço com força, as mãos de Jayden deslizam pela minha cintura, bunda e coxas, as minhas pernas são erguidas e envolvo-as no quadril de Jayden. Quando nossas intimidades se tocam, é involuntário o gemido que escapa de nossas gargantas. Então, nossas bocas necessitadas se enroscam.
Passaria o resto da vida, sem reclamar, beijando esses lábios viciantes, porém, sendo apenas meu. Não posso ser estúpida e pensar, como uma garotinha romântica, que o homem a minha frente só estava se envolvendo comigo. Quem olharia para ele e diria tal coisa? Jayden é o sinônimo do pecado dos pés a cabeça, é óbvio que ele não seguraria seu brinquedinho para mim.
Nos afastamos mais uma vez em busca de ar. Os lábios de Jayden estão vermelhos e inchados por causa da intensidade do beijo, e tenho certeza que o estado dos meus se espelha ao dele. A sua mão continua a deslizar pela minha coxa e os nossos sexos continuam em contato. Meu corpo está tão quente que qualquer um poderia me dizer que estou com uma febre de quarenta graus, mas não, isso tudo é efeito Jayden Smith.

— Preciso de você — Jayden sussurra me encarando com os olhos escuros de desejo.
— Eu também. — Um sorriso de orelha a orelha se forma em seus lábios e me sinto culpada por ser forçada a destruí-lo. — Mas não estou preparada.

E acontece, o seu sorriso murcha. Entretanto, um sorriso tímido se forma e ele solta uma risada, em seguida toca sua testa na minha.

— Eu sabia que você falaria isso. Não estou querendo te forçar a nada, só estou ficando maluco com essa espera.
— Você sempre terá opções a sua volta.

Jayden se afasta com uma carranca.

— O que você quer dizer? Que eu posso ir para a cama com qualquer uma? — Desenrolo minhas pernas do seu quadril e retiro os meus braços do seu pescoço, dando uma certa distância para os nossos corpos. — Você tem razão! Posso ir para a cama com qualquer uma, mas nenhuma delas é você.

As últimas palavras são gritadas na minha cara. O meu rosto esquenta de raiva pela forma como ele foi rude comigo. Aperto os punhos com força, tentando transferir a fúria que se aloja no meu corpo.

— Então você está esperando que eu ceda para que possa provar um pouco do difícil? Para mostrar que conseguiu levar a órfã para a sua cama? — Ainda estamos próximos, gritando um na cara do outro.
— Você não esta entendo — grita com o rosto colado ao meu e aos poucos se afasta, passa as mãos pelo rosto e bufa. — Acha mesmo que se fosse só por isso eu estaria investindo tanto do meu tempo em você. Entenda uma coisa, , não costumo pensar em uma mulher durante seis meses, quando ela não esta acessível, me distancio, mas você... o que diabos tem em você para me encantar tanto? Parece um feitiço que foi lançado, e posso garantir, um dos fortes.

Engulo em seco. Ele tem pensado em mim todo esse tempo e sempre tento arranjar desculpas para o desejo dele. Certo, Jayden é impaciente, mas nunca forçou nada comigo. Qual o meu problema? Um cara maravilhoso está a fim de mim e fico fazendo doce. Não sou uma menina romântica que deseja resguardar a virgindade. Eu quero viver, quero experimentar sensações. Jayden pode me dar essas sensações, basta eu querer. Ele está bem aqui, ao meu bel prazer.

— Desculpa — sussurro envergonhada. — Acho que estou falando besteiras, mas você tem que entender. Alguém como eu, que vive sozinha, cresceu sozinha, precisa desconfiar de todo mundo.
— Preciso de um voto de confiança. — Ele se aproxima e toca a sua testa mais uma vez na minha.
— Prometo que vou lhe dar.

Jayden dá um sorriso e cola os seus lábios nos meus em um selinho.

— Posso te levar para casa? — indaga.
— Claro! — Pego sua mão, porém, assim que saímos do corredor, desisto de arrastá-lo e olho para ele timidamente. Não faço ideia onde é a saída.

Jayden percebe e toma o caminho para fora do lugar. Quando vejo Holly no bar, peço para que ele espere e sigo em direção a minha amiga bêbada.

— Estou cansada — Holly diz assim que me aproximo. — Quero ir embora.
— Então vamos, Jayden vai nos levar.
— Opa... Senhor Smith estava pegando você? — Ela dá uma risada, enquanto a arrasto até Jayden. — Espero que tenham se divertido.

Holly está gargalhando assim que chegamos perto de Jayden, dou de ombros quando ele une a sobrancelhas para minha amiga histérica. Saímos da boate barulhenta e ouço um grito de alívio dos meus ouvidos. Esperamos o manobrista trazer o carro de Jayden, o meu queixo quase cai quando dou de cara com uma Ferrari na cor chumbo. Jayden abre a porta de trás para que eu possa colocar Holly que assim que bate no banco, se deita e começa a roncar. Jayden dá a volta e abre a porta do carro para mim.

— Onde consegue tanto dinheiro? — pergunto, assim que ele se senta no banco do motorista.
— Trabalhando. — Ele dá uma risada amarga.
— Agenciar modelos dá tanto dinheiro assim? — a pergunta é inocente, mas parece deixar Jayden aborrecido, então resolvo contornar a situação. — Devia ter me tornado modelo.

Ele se vira rapidamente em minha direção com uma expressão séria, até parece assustado.

— Nunca, . — Ele engole em seco — Nunca queira essa vida.
— Por quê? — Franzo o cenho.
— Não quero ver vários homens olhando para você — diz ainda sério.

Dou uma risada.

— Tudo bem, não quero fazer isso mesmo... Já disse, meu negócio é cozinha.

Jayden suspira aliviado e se volta para o volante. Continuo encarando ele e sorrio. Seu ataque de ciúmes repentino me mostra que não sou apenas mais uma para ele, mas única.



Capítulo 09


Desde às oito da manhã observo a tela do meu computador à procura de algo importante para mim. Li a notícia do resgate do gato de uma velhinha pelo corpo de bombeiros; pelo o que parece a Senhora passou a manhã inteira gritando que o seu bebê estava sendo esmagado pelo tronco da árvore.
Tudo um mal entendido.
Assisti o vídeo de um cara tentando quebrar o copo com a voz, que acabou não dando certo. Olhei o catálogo do cinema para ver se estava passando algo que me interessasse, entretanto, não encontrei nada.
Por fim, acabei relendo os arquivos sobre os últimos casos de garotas em prostituição fora do país, especialmente as que pensavam ser apenas um pacote de viagem de férias e as que eram enganadas por uma vida cheia de glamour; que era como as revistas mostravam a vida nas passarelas.
Como nos últimos meses, não encontrei nada. Tudo parecia um quadro em branco. Meu dia estava tão entediante que quase fui servir cafezinho para os meus colegas de trabalho.
Olhei para a mesa do lado, Annie estava com a testa sobre um livro que estava posto na mesa, as suas mãos estavam esticadas acima de sua cabeça e suas pernas estavam enroscadas sobre sua cadeira de rodinhas.
Era uma posição estranha e parecia bastante desconfortável.
Olhei para o relógio de parede e constatei que eram duas da tarde. Resolvi observar a posição maluca que a minha parceira estava enquanto divagava sobre os acontecimentos de algumas semanas atrás.
Apesar do nosso fracasso na Holanda, havíamos conseguido salvar muitas garotas, contudo, voltado a estaca zero mais uma vez. Outro ponto positivo de tudo isso – pelo menos eu achava – foi quando senti os lábios de Annie colados nos meus, mesmo tendo sido por poucos segundos, a maciez e a doçura deles têm perturbado as minhas noites.
Meus sonhos tinham se transformado em olhos da cor da campina. Em todos eles eu poderia admirar esses lindos olhos me enviando mensagens, como se eles pudessem expressar qualquer tipo de sentimento; e tudo que eu via era desejo.

— Só pode ser isso! — Annie exclama em alta voz, chamando a atenção de nossos colegas. Todavia, ela não presta atenção, os seus olhos estão voltados para amontoado de papéis que estão espalhados pela sua mesa, Annie começa a juntá-los em um bolo desorganizado.
— Annie?

Os olhos dela estão arregalados, entretanto, não há pavor, mas animação, como uma criança que acabou de receber uma bala.

— Como somos tolos! — Exclama mais uma vez, porém em um tom normal.

Ergo a sobrancelha direita, intrigado.

— Annie, do que está falando?

Ela junta todos os papéis e coloca sobre o colo, arrasta a sua cadeira de rodinhas até a minha mesa e para apenas quando está ao meu lado com um sorriso de orelha a orelha.

— Por que estamos procurando por algo tão distante? — Ela para tentando formular uma nova pergunta. — Por que nos dignamos a viajar para tão longe?

Cruzo os braços contra o peito.

— Porque era a única pista que tínhamos. E ela era bem óbvia.
— Sim, você tem toda razão, ela era óbvia demais. Atravessamos o oceano e não usamos os nossos cérebros para filtrar que tudo estava fácil demais. Analisamos os papéis por uma tarde e conseguimos isso. Faz ideia de como foi simples?

Sua cara poderia ser comparada a de uma louca. Seus cabelos estão arrepiados e descabelados, por causa da posição que se encontrava anteriormente, os seus olhos arregalados e alegres também não ajudavam em um diagnóstico. Se tivesse algum conhecimento de psiquiatria, internaria a minha parceira na mesma hora.

— Annie...
— Escute! — Annie coloca as mãos no ar em sinal para me impedir de falar, calo-me na mesma hora, até porque não custa nada ouvi-la. — Acho que consigo entender o funcionamento do trabalho do Scott, ele achava que estava muito simples, então ignorou. Agora, depois de refletir, percebi que fomos dois idiotas. Tudo estava na nossa cara. Números grandes são evidentes. Esses caras trabalham muito bem para deixarem pistas.

Ela tem um ponto.
— Se você estiver certa, ótimo. Mas o que isso representa para nós?

Uma expressão de sarcasmo se forma em meu rosto, contudo, isso não parece impedir o raciocínio de White.

— Estamos investigando garotas que são levadas daqui, dos Estados Unidos, para um país estranho. — Annie coloca as folhas sobre a mesa e aponta o dedo para elas, continuo olhando para o seu rosto enlouquecido — A chave está aqui, . O chefe está no nosso país. Qual a melhor forma de cuidar de um negócio desses? Estando por perto a todo o momento, deixar nas mãos de capachos pode ser perigoso.
Mais um ponto.

— Certo. Finalmente temos um, talvez, ponto de partida. Porém, você já olhou para o mapa dos Estados Unidos?

Annie revira os olhos divertidamente.

— Claro! Fiquei duas horas passando os números para um. — Ela ergue um mapa até o meu rosto em seguida o expõe na minha mesa. — Agora me diga, o que você vê?
— Números?
, por favor! — Exclama pela terceira vez, todavia, agora está impaciente.

Olho para o mapa simples, como os utilizados nas aulas de Geografia para aprendermos o nome dos estados do país e cidades mais importantes. Há várias setas seguindo para o canto do mapa com o nome da cidade e, o que acredito serem, os números de garotas traficadas em cada uma delas. Os dados são de um ano atrás.

— Os números em São Francisco são menores...

Annie bate palmas para mim sem fazer barulho.

— Exatamente! Para não deixar pistas eles precisariam diminuir o número de garotas traficadas no local em que eles estão. Em que o Chefe está.
— Mas você acabou de dizer que o Chefe precisaria estar por perto...
— Sim, contudo, quis dizer no mesmo país. Ele não precisa ficar apenas em uma cidade, passagens de avião estão livres para a população, basta ter dinheiro. E isso ele tem de sobra. — A última frase sai amarga.

Olho para o mapa e tento refletir um pouco sobre as informações; todas elas têm fundamentos, no entanto, ainda não temos como saber quem está por trás de tudo isso e, muito menos, sabemos onde procurar algo desse porte.

— Temos dois pontos fortes, entretanto, ainda estamos cegos quanto ao "quem".

Annie morde o lábio e desvio o olhar no mesmo instante.

— Eu sei, mas não é um problema difícil de ser resolvido. Podemos nos infiltrar, eles costumam ficar na porta de escolas, sei que não tenho mais cara de garota de dezoito anos... — Lhe dou meu melhor olhar sarcástico, ela bufa frustrada arrancando uma risada do fundo da minha garganta. — Esquece, escola não vai rolar. Festas? Eles devem ir a festas também, não sei como funciona a cabeça desses doentes, porém... Oh meu Deus! Boates! Como não pensei nisso antes?
— Boates?

Eu tinha a nítida impressão que eu era muito lento para esse tipo de trabalho.

— Sim. — Ela engole em seco e continua. — Analise de forma fria. Uma garota de programa precisa saber de tudo, não apenas na hora do sexo. Sexo todo mundo faz, elas precisam encantar os seus clientes e qual a melhor forma? Dançando.

Mais um ponto.
Infiltrar? Essa seria a melhor atitude? Acredito que não, pelo menos não assim de imediato. Não sem saber se esses dados e essas teorias estavam certas. Uma investigação cautelosa era a melhor opção, conseguir algo da fonte traria maiores benefícios para desmanchar esse crime organizado.

— Então você quer se infiltrar? Não seria melhor se capturássemos um deles? Eles não devem ser leais até a morte, uma ameaça seria perfeita para fazer eles falarem. Podemos capturar um dos funcionários do Chefe e arrancar informações, assim adentramos mais afundo e pegamos a quadrilha toda.

Annie me encara surpresa.

— É uma ótima ideia — diz lentamente, um sorriso estonteante se forma em seus lábios. — Muito bom, . Vou lhe dá uma estrelinha no meu relatório — zomba de mim.

Empurro o ombro de White e ela começa a gargalhar chamando a atenção dos nossos colegas mais uma vez; dessa vez ela percebe e as suas bochechas acabam corando.

— Temos que pedir permissão para sair mais cedo — ela diz, enquanto ajeita os papéis novamente para poder levá-los até a sua mesa. — Entretanto, é melhor não contarmos o que vamos fazer, sei que Donald é nosso supervisor, no entanto, não me sinto segura para falar com qualquer um daqui.
— Você acha que Donald pode ser um informante da máfia? — sussurro indignado.

Conheço Donald desde sempre, nunca duvidei do seu caráter.

.

É a primeira vez que Annie fala meu sobrenome de forma tão séria após dias de convivência. Um tremor nada bom tocou a minha espinha, mas resolvi ignorar.

— Eu não confio em ninguém. — Ela olha em volta com o rosto sério. — Todos sabiam sobre nossa missão, todos são suspeitos. — Seus olhos caem em mim novamente — Até mesmo você.

Me sinto ofendido. Eu que estive ao lado dela esse tempo todo, não deveria receber suspeitas. Tenho trabalhado nesse caso dia e noite porque quero que a justiça seja feita em prol dela e da irmã que nunca conheci e nunca vou conhecer. Aqui estou eu, com meu cérebro lento, forçando-o ao máximo, tentando encher de combustível para poder trabalhar a todo o vapor.

— Eu? Você está maluca? — digo indignado. — E você não pode ser suspeita?
— Claro que não. Estou muito envolvida com isso, é algo pessoal. Você, não.
— Era só o que me faltava — suspiro furioso.
, você terá de conquistar a minha confiança. — Ela se afasta e segue para sua mesa juntamente com o amontoado de papéis. — Agora vá falar com Donald.

Levanto-me da minha cadeira com os meus ouvidos saindo fumaça. Ela pode ser a comandante dessa parceria, entretanto, não sou seu capacho. Além do mais, ainda não engoli essa história de Donald ser do lado escuro da força.
Meu pai trabalhou anos com o cara, eu poderia questionar a postura de Henry dentro de casa, contudo, passando da porta, tudo mudava de figura. Ele sempre foi o melhor e por incrível que pareça nunca precisou pisar em ninguém para subir nesse ramo. Henry nasceu para ser um agente. Eu sei que havia muitos colegas espalhados por aí que não eram dignos do distintivo, mas ainda assim existiam aqueles que mereciam o título de Agente.
Não entrava na minha cabeça que Donald poderia ser o olho da cobra. Mesmo acreditando nisso, preferi manter o plano de White. Ela havia descoberto tudo e estava por trás dos planos, eu só dei um empurram depois de ter todas informações.

— Donald, eu e White podemos ir? — pergunto assim que abro a porta do escritório, coloco a cabeça em uma brecha na porta para mostrar que estou com pressa.
— Já acabou o trabalho de vocês? — indaga olhando para o seu relógio de pulso. — Ainda faltam duas horas para o fim do expediente.
— Não temos nada para fazer, é melhor irmos para casa descansar e pensar na melhor forma de trabalhar.

Ele semicerra os olhos.

— Você tem razão. — Donald me despensa com a mão e volta seu olhar para a grossa papelada que possui a sua frente. — Bom descanso, se não tiverem nada para amanhã, não precisa vir. Caso apareça uma emergência, ligo para vocês.
— Obrigado, Donald.

Fecho a porta do escritório e sigo para a minha mesa. White já está me esperando com um sorriso presunçoso. Pego meu celular e alguns arquivos que pretendo estudar em casa e logo seguimos para os elevadores. Quando alcançamos à recepção, peço que Anabelle, a recepcionista, me entregue o meu capacete e peço um reserva.

— O que é isso? — Annie pergunta de olhos arregalados.
— Um capacete? — digo sarcasticamente.

Lhe entrego o capacete extra e ela o encara como se fosse um bicho de sete cabeças.

— Você não tem um carro? — ela indaga.
— Não.
— Mas, e-eu...
— White, tenho apenas uma Harley — pronuncio as palavras cheio de orgulho.

Caminho em direção à garagem sem olhar para trás. Sei que ela está me seguindo. Assim que dou de cara com minha moto, subo e continuo concentrado nela, até o momento que Annie senta. Não foi uma boa ideia. Teria sido melhor vir com o carro do Erik, ele estava lá na garagem a minha disposição. Porém, a vontade de enfrentar o trânsito não me alegrava nem um pouco.
O contato do corpo de Annie acabou me proporcionando calafrios, meu coração parecia martelar em meu peito e tudo que eu mais queria era agarrá-la em pleno estacionamento. Respirei fundo e liguei a moto, acelerei e soltei a embreagem devagar.

— Vamos até minha casa — Annie grita enquanto o vento nos chicoteia.
— E onde ela fica?
— No seu prédio.

Escuto uma risada fraca vindo das minhas costas, contudo, resolvo ficar calado para não arranjar mais desculpas para discutirmos.
Quando chegamos perto do nosso prédio, entro na garagem sem cerimônia. Annie desce da moto assim que a paro na minha vaga, vejo pelo retrovisor que ela fica um pouco tonta assim que fica de pé, contudo, se recupera rápido. Coloco à moto em ponto morto e desligo-a.

— Então, como foi? — pergunto fingindo desinteresse.
— Interessante.

Minha parceira segue para os elevadores e aperta o botão do segundo andar assim que adentro o local, em seguida aperta do meu andar.

— Vou pegar algumas roupas e sigo para a sua casa, preciso do seu olhar de homem para poder me vestir.

Ergo a sobrancelha de forma divertida, porém, prefiro ficar calado.
Annie me deixa e não demora que eu chegue no meu apartamento. Me jogo sobre o sofá cinza e confortável, desejando que esse fosse o final do meu dia. Estou quase arrependido de ter sugerido esse tipo de ação, uma infiltração seria mais simples para mim. Entretanto, a parte de mim que deseja cuidar de Annie é mais forte do que todo o meu cansaço.
Nos últimos dias tenho tentado buscar em minha mente o porquê de tanta preocupação com alguém que mal conheço. Sei que tenho atração pela Senhorita White, todavia, isso não significa que devo me preocupar com o seu bem estar; somos agentes do FBI, corremos riscos cuidando dos interesses do país. Claro, precisamos ajudar nossos parceiros de trabalho, contudo, ter medo pela vida do outro a ponto de doer, era demais.
Foi assim que me senti quando ouvi a palavra infiltração, me senti sufocado só pelo fato de imaginar a minha colega em perigo.
Eu havia feito uma promessa na Holanda. Cuidaria de Annie, mesmo que ela não soubesse, e acredito que finalmente estou conseguindo fazer algo direito.

Quando a campainha toca, estou terminando de passar perfume. Estou usando uma blusa azul e calça jeans. Assim que abro a porta, dou de cara com uma mulher com cabelos estirados usando um roupão e segurando um amontoado de roupas misturado com um par de sapatos, além de uma maleta que ao que tudo indica é de maquiagem.

— Me indique o seu banheiro — Annie diz entrando como se a casa fosse dela.
— Depende de qual você quer.

Cruzo os braços a frente do corpo com cara de tédio.

— O maior.
— Só seguir direto. — Aponto para a porta que está a nossa frente — É o meu quarto, a porta à direita é o banheiro.

White se aproxima da porta e a desliza, sem nem uma cerimônia adentra o espaço e logo parte para o banheiro. Invés de segui-la, deito-me em minha cama e espero pelo desfile.
Sento-me quando a invasora volta ao meu quarto usando um vestido bege cheio de detalhes brilhantes. Ele é colado ao corpo, permitindo que veja cada curva do seu corpo; olho rapidamente e desvio os meus olhos para o teto branco.

— Bege não é uma cor que chame a atenção.
— Isso não é bege, é salmão — ela bufa. — Pelo amor de Deus, . Você precisa estudar um pouco de moda.
— Não sou mulher.
— Não é, mas é um agente federal, precisa ter conhecimento de tudo.
— Tanto faz...
— Tudo bem, nada de salmão.

Cinco minutos depois ela volta com um vestido vermelho cheio de lantejoulas – isso eu sei o nome – ele fica solto no corpo apesar de ficar apertado na região dos seios – que procurei não olhar tanto – não tem decote, sua gola cobre a clavícula quase toda e não tem mangas.

— Acho que precisamos de algo colado e que chame a atenção em um ambiente escuro. — Penso um pouco e tento imaginar como funciona a mente de Erik, talvez assim eu consiga fazer meu trabalho. — Tem algo azul e colado?

Annie morde o lábio. Um hábito que percebi se repetir sempre que estava pensando. Assim que liberta, o seu lábio ele está avermelhado, porém, não fico muito tempo admirando, pois ela adentra o banheiro mais uma vez.
Dez minutos depois Annie volta usando um vestido azul escuro colado ao corpo, uma tira da mesma cor do vestido envolve o pescoço, há uma cava longa ligada a tira fazendo uma curva por baixo do braço e formando um linha reta nas costas. Além disso, tem um pedaço de tecido cortado em forma de gota mostrando a linha entre os seios.
Engulo em seco.

— Pela a sua cara, está ótimo — diz orgulhosa, ela se aproxima da cama, coloca os braços de cada lado do meu corpo. Seu rosto está a centímetros do meu, posso sentir seu hálito queimar o meu rosto. — É melhor fechar a boca para não entrar mosca.

Fecho a boca imediatamente. Annie se afasta com um sorriso vitorioso.

— Você acha que batom vermelho está bom? — pergunta, depois de morder os lábios de propósito.
— Ótimo — murmuro.

Annie segue para o banheiro mais uma vez para que possa finalizar a arrumação. Se já estou sofrendo com o meu amigo, imagina quando ela estiver toda produzida?
Será uma noite longa.



Capítulo 10


Já posso afirmar que fiquei extremamente chateado por ter de pegar o carro de Erik para colocarmos o nosso plano em ação. Não fazíamos ideia se tudo daria certo, contudo, tínhamos que estar preparados para tudo.
Para o meu alívio, não havia tráfego, facilitando nossa passagem pelas ruas movimentadas de São Francisco. Quando chegamos aos arredores da boate, segui para a rua de trás, que dava passagem para um beco que ia em direção à fachada. Erik ficaria furioso se soubesse o risco que o seu carro estava correndo, porém, White afirmou que se acontecesse algo, ela repararia o estrago.
Pegamos a fila para a entrada da boate, não houve muita demora, a maioria das pessoas eram menores e as suas entradas acabaram sendo impedidas pelo segurança loiro. Quando adentramos o espaço, a pista de dança estava explodindo de gente, vários corpos estavam enroscados um no outro como se o mundo fosse acabar.

— Vamos dançar — Annie grita em meio ao barulho.

Nos embrenhamos entre as pessoas com certa dificuldade, os corpos suados não parecem se incomodar com o roçar dos outros neles, mas eu me importo. Nunca gostei de estar metido no meio de uma pista de dança, especialmente de uma boate. O amontoado de gente não colabora em nada, só faz piorar o meu desconforto.
Annie se encaixa em mim. Quando digo encaixa é o uso literal da palavra, se não fossem as roupas, estaríamos transando feito loucos nesse exato momento. Posso afirmar que é isso que a Senhorita White deseja, ela tem me provocado dia e noite, e hoje chegou ao ápice da provocação. Lá estava meu corpo respondendo aos seus estímulos. Estava completamente ferrado.

— Ainda lembra do que conversamos no carro? — Annie indaga com a boca próxima ao meu ouvido.
— Sim.
— Ótimo.

Ela se mexe conforme a música, me obrigando a fazer o mesmo. Seu corpo se movimenta de forma leve, como se ela tivesse passado a vida toda fazendo isso. Annie leva as minhas mãos para a sua cintura e solto um arquejo de desespero, puxo-as de volta e sigo em direção ao bar sem olhar para trás.
E então, o plano começa.
Annie vai até o bar e senta-se em um dos bancos. Ela olha tristemente para o balcão, para os lados e volta a se levantar para entrar na pista. Sento-me cinco bancos de distancia de onde ela estava e peço uma dose de tequila, o barman me serve rapidamente. Depois de deixar a tequila me queimar por dentro, viro-me de costas para o bar e começo a observar o movimento como se estivesse com a intenção de caçar alguém. Procuro manter meu rosto neutro para todas as mulheres que encontro o olhar, não quero nem uma delas na minha cama, se fosse para escolher alguém para se enroscar comigo nos meus lençóis, escolheria a minha parceira de trabalho.
Avisto um cara loiro e alto usando uma roupa parecida com a minha, entretanto, ele tem uma jaqueta de couro sobre a blusa. Viro-me novamente para o balcão mostrando para Annie que é a sua deixa para voltar ao bar. Não demora pra que ela entenda meu recado. Ela se senta há cinco bancos de distancia ofegante. Peço outra dose de tequila para mim, mais uma vez o serviço do barman é promissor. O líquido parece rasgar o meu interior, contudo, ignoro.
Levanto do banco e vou direto para o corredor do banheiro, entro, lavo a minha mão e volto para o bar. No entanto, dessa vez escolho o banco do outro lado de Annie e que esta a dois bancos de distancia. O loiro já está no encalço de Annie quando me sento. Peço uma dose whisky, não pretendo bebê-la, mas será uma ótima distração para o cara ao meu lado.
Não posso ver a expressão de Annie, pois o loiro está tapando qualquer visão que possa ter dela. Ele pediu um cosmo para ela, apesar dela não ter tocado nele, parece bastante interessada na bebida. Ouço uma risada e é o meu sinal para ligar a escuta. Aperto o botão do aparelho, o ruído da música atrapalha, contudo, tento focar apenas nas vozes mais importantes.

Você realmente nunca veio aqui? — o cara fala.
Não, morava em Nova Jersey. As boates de lá não são boas como as daqui, e muito menos interessantes.

O cara dá uma risada.

Qual o seu nome mesmo?
— Isabel, você não me disse o seu...
— Ryan.
— É um prazer te conhecer, Ryan.

É incrível como um pouco de FBI e aulas de teatro no ensino médio podem fazer com uma pessoa. A naturalidade de Annie com esse cara é assustadora, nem parece que ela possui um ódio mortal por essa corja.

Estava observando você dançar. Você trabalha no ramo?
— Não.
— Você é incrível!
— Sério? —
A incredulidade da minha parceira me arranca uma risada — Obrigada!
— Já pensou em ser modelo?

Não acredito que esse cara está caindo nessa armação tão facilmente.

Claro que sim, mas olha o meu tamanho. O pouco de altura que você está vendo é por causa do salto, agora imagina o meu tamanho.
— Poderia ser modelo fotográfica.
— Será? —
diz com a voz esperançosa.
Claro, você é maravilhosa.

As duas doses de tequila quase voltam quando ele diz essas palavras.

Poderia participar de desfiles em Milão.

Chegamos ao nosso próximo sinal. O tráfico de mulheres para Itália tinha uma taxa de zero por cento. A polícia italiana estava fazendo vista grossa com todas as viagens de bandos de garotas, as casas de shows estavam sobsupervisão do governo e a fiscalização de "repúblicas" havia aumentado assustadoramente. Com tudo isso era lógico que os contrabandistas não se arriscariam com algo desse porte. Enviar garotas para a Itália é como amarrar a corda no pescoço, e arriscar nunca é bom para o bolso deles.

Eu trabalho em uma agência de modelos. Não estamos enviando meninas para Milão, contudo, Paris, Berlim, Amsterdã estarão sempre a sua disposição.

O nosso cara.

Parece ótimo para mim. — Vejo a cabeça de Annie virar em direção à pista de dança e voltar para Ryan — Não quer dançar? Já estou cansada de ficar sentada.
— Claro.

Eles seguem para a pista de dança e dou continuidade ao plano. Tudo estava saindo como havíamos planejado. É incrível como um par de peitos pode acabar com a concentração de um homem. Saio da boate, vou em direção ao beco, abro o carro e pego tudo que iremos precisar por agora.

— Deveríamos ir para um lugar mais tranquilo — a voz de Annie sai ofegante quando ela fala.
— O que você quiser, linda.

Me escondo atrás de uma coluna e espero. Olho disfarçadamente para que Ryan não me veja na escuridão. Não demora muito e Annie entrar no beco com o cara loiro que não parece estar muito sóbrio, ele está tocando o seu corpo como se a noite fosse terminar com eles debaixo de lençóis e completamente desprovidos de vestimentas. O meu sangue chega a ferver com a imagem que adentra minha mente.

— Não acha melhor irmos para um lugar mais reservado? — Ryan sussurra no ouvido de Annie.

Agora posso escutá-los perfeitamente, então desligo a escuta e aguardo Annie entrar em ação.
Ryan desliza as mãos pela cintura dela até a sua bunda enquanto Annie o envolve com os seus braços, ela finca as unhas nas costas dele e sei que está próximo de eu entrar em ação. Annie puxa as mãos de Ryan para as costas dele e dá um sorriso sedutor o cara se derrete imediatamente, ela aproxima o rosto dele como se fosse beijá-lo. Contudo, antes que isso aconteça, Annie prende as mãos de Ryan com força e o gira, logo em seguida o cara está com o corpo preso contra a parede.

— Que porra é essa?! — Ryan resmunga.

Saio do meu esconderijo enquanto embebo uma toalha com clorofórmio, me aproximo de Ryan e coloco o pano sobre o seu nariz e boca, ele reluta, porém, seu corpo não resiste e acaba perdendo as forças.

— Agora vamos arrastá-lo para o carro — Annie sussurra.

Olho em volta para ver se alguém está nos observando e coloco Ryan em meus ombros, não vou arrastá-lo e acabar sujando o estofado do carro de Erik, ele me mataria.

— Não se dê o trabalho de carregá-lo, vamos pôr ele no porta-malas.

Reflito sobre o assunto, mas mesmo assim é uma parte do carro e não quero Erik reclamando nos meus ouvidos.
Annie abre o porta-malas e faz uma vistoria do local, quando tem certeza que não há ninguém nos observando, dá sinal para que eu leve o infeliz para dentro da mala. Atiro Ryan dentro do carro e Annie fecha o porta-malas em um baque silencioso.
Me encaminho para o carro e começo a dirigir em direção a um dos galpões que meu pai usava para obter informações em suas missões. Era em um desses lugares que ele marcava com espiões e orquestrava os seus planos com a sua equipe. Com a morte do velho, acabei adquirindo todos os seus imóveis, o que acabou me proporcionando uma vida bem confortável. Não diria que sou rico, todavia, não vou passar fome caso fique sem o meu emprego.
O caminho até o galpão é curto graças aos atalhos que analisei com cuidado antes de sair de casa, não poderia correr o risco de pegar ruas movimentadas ou até mesmo locais onde viaturas polícias estavam fazendo a ronda, querendo ou não, isso que estamos fazendo não está dentro da lei, então precisamos nos preservar.
Adentro o terreno do galpão. Ele está localizado em um bairro afastado e abandonado, o que é perfeito para o que queremos fazer. Estaciono o carro ao lado da porta lateral e saímos do carro para continuarmos nosso trabalho. Quando abrimos o porta-malas, Ryan ainda está inconsciente, coloco-o nos ombros mais uma vez e entramos no galpão.
Antes de nos colocar a caminho da boate, tivemos que deixar alguns instrumentos que precisaríamos para mantermos nosso prisioneiro quieto e sem possibilidades de sofremos um ataque repentino na hora de nosso interrogatório.
Havia uma cadeira posta bem no centro do local com uma mesa cheia de ferramentas que usaríamos para intimidar Ryan, além das ferramentas, tinha cordas e algemas postas sobre a mesa para que pudéssemos usar para prendê-lo na cadeira, além te ter duas tiras que usaríamos para vendá-lo e silenciá-lo.
Jogo Ryan sobre a cadeira e Annie aparece já com dois pedaços de corda, ela começa a prender o tronco dele na cadeira e logo depois passa para as mãos. Pego mais dois pedaços de corda e amarro as pernas dele uma na outra e com o pedaço extra, prendo as pernas amarradas na cadeira.
Não há possibilidade de escape.
Annie pega os dois pedaços de tira e os coloca sobre o pescoço. Ela analisa nosso trabalho e dá um sorriso sinistro para si mesma. Volto a avaliá-la. Não é à toa que Ryan caiu na lábia dela, ela está maravilhosa. Na verdade, ela sempre está maravilhosa, no entanto, a roupa deixou suas curvas muito mais apetitosas para qualquer homem, e eu que já sofro com o seu efeito comum estava fazendo muito trabalho com a minha mente para não atacá-la antes de terminarmos o serviço.
Foi com esses pensamentos que não vi passar o tempo, entretanto, acabei saindo do meu paraíso interior – que ansiava por ver Annie esparramada na minha cama – com o ruído de resmungo de Ryan. Ele parece estar acordando de uma noite de ressaca e bastante confuso com tudo que aconteceu há minutos atrás.

— Mas o...
— Ryan! — Annie exclama. — Que bom que você acordou, precisamos conversar.

Ryan olha em volta e começo a ver que ideias mirabolantes passam pela sua mente.

— Não adianta arquitetar algo para fugir, estamos trabalhando para pegar você há dias.

As palavras de Annie me faz sorrir, essa mulher sabe trabalhar no improviso.
Ela se aproxima de Ryan, se abaixa a sua frente e toca na coxa dele como se ainda estivesse no joguinho de seduzi-lo. Suas próximas palavras saem em uma delicadeza que me deixa hipnotizado por dez segundos, contudo, balanço a cabeça para não entrar em mais um feitiço dessa mulher.

— Então, Ryan, sabemos dos seus esquemas e gostaríamos que você nos dissesse para quem trabalha.

Sua voz aveludada deixa Ryan de queixo caído, porém, assim como eu, ele não cai nessa por muito tempo.

— Quem são vocês? São do FBI. — Ele abaixa a cabeça e dá uma risada sarcástica. — Não, se fossem, nós saberíamos de algo.

Annie gira a cabeça e olha para mim de olhos arregalados, antes de se virar, ela recompõe sua face sedutora e torna a olhar para o nosso informante.

— Que interessante, quer dizer que vocês têm um espião dentro da Policia Federal? — Annie se levanta e caminha de um lado para o outro como se estivesse refletindo sobre o assunto. — Como vocês conseguiram colocar alguém lá dentro?
— Linda, você não vai conseguir algo de mim.

Ryan revira os olhos e olha para Annie com um sorriso malicioso nos lábios.

— E você não vai sair daqui até terminar de responder o meu questionário.
— Eu poderia fazer muitas coisas com você e dentre elas não seria ter uma conversa. Poderíamos usar as bocas para algo bem melhor.

Annie dá uma risada, contorna a cadeira e passa a mão pelos ombros de Ryan. Ela abaixa a cabeça e volta com a sua voz aveludada.

— Eu poderia pensar no seu caso se você fosse bonzinho e respondesse tudo que quero saber.
— Linda, não sou idiota.

Annie olha para mim completamente furiosa. Suas táticas não estão mais funcionando e não podemos passar a noite inteira aqui, perder tempo com esse imbecil não irá nos ajudar a ter informações sobre essa maldita quadrilha.
A melhor forma de fazê-lo falar é mantê-lo aqui em cárcere por algumas horas, ele não vai conseguir escapar. Podemos trancá-lo no pequeno aposento de ferro que temos nos fundos do galpão e voltarmos amanhã. Talvez um noite na sujeira o ajude a pensar melhor nas suas prioridades.
Antes que eu possa propor essa ideia a Annie, ela faz uma das coisas mais assustadoras que uma mulher de baixa estatura poderia fazer nesse momento. Ela pega uma chave de fenda pequena e crava na coxa de Ryan. O cara uiva de dor, gritos agonizantes que me deixa paralisado por exatos trinta segundos.
Puxo-a para longe de Ryan e a levo para um distância segura dele, os gritos dele não cessam e há um sorriso diabólico nos lábios dela.

— Você enlouqueceu? — dou um berro sufocado.
— Estou perfeitamente bem.

Ela bate as mãos uma na outra como se estivesse tentando limpar a poeira da mão. Observo-a horrorizado. Não fazia ideia que ela poderia ser uma pessoa tão descontrolada.

— Não está mesmo. — Passo as mãos pelos cabelos tentando eliminar minha frustração — Se você não se controlar, agir como uma pessoa equilibrada, vou chutar a sua bunda daqui, falar com Donald amanhã para tirar você do caso e enviá-la para um hospital psiquiátrico.

Annie pisca várias vezes e a razão começa transparecer em seu rosto. Ela vira-se para onde Ryan geme de dor e coloca a mãos sobre a boca assustada.

— O que eu fiz? — sussurra.
— Isso é falta de um bom psiquiatra.
— Talvez você tenha razão.

Ela abaixa a cabeça desanimada.

— Está tudo bem, vamos para casa. Vou dar um jeito no ferimento dele e me certificar que ele está bem preso, amanhã voltamos para interrogá-lo de novo.

Ela balança a cabeça, me entrega as duas tiras envolta de seu pescoço e segue em direção à saída.
Me aproximo de Ryan, retiro a chave de fenda fazendo com que mais um uivo brote de sua garganta. Pego uma maleta de primeiros socorros que estava no canto da mesa, na qual achei que seria desnecessária, e começo a tirar tudo que vou precisar para fazer o curativo. Rasgo um pedaço da calça, onde está alojado o ferimento, faço um exame visual e resolvo limpar depois suturar, o rasgo foi profundo e sem uma costura não vai cicatrizar. Limpo o ferimento e costuro rapidamente. Ryan não reclama, até porque a dor de ter um objeto não cortante penetrando a sua pele é bem pior.

— Deveria fazer o que ela manda. Não vai querer que ela perca o controle de novo.

Ele permanece calado. Termino a sutura e cubro com um curativo, guardo o que sobrou na maleta e volto para arrastar a cadeira com Ryan para a caixa de ferro. Depois de colocá-lo em seu novo aposento, lhe dou um pouco de água para que não morra desidratado, cubro sua boca e olhos com as tiras de pano, saio e tranco a porta.
Tomo a direção para o carro pensando como terei de lidar com a maluca dentro do carro de Erik.



Capítulo 11

O caminho até nosso prédio é silencioso. Não há nada de desconfortável no ar. Annie perdeu o controle com um cara que trafica adolescentes para se prostituir, se eu for mais além, posso descrever o fato de a irmã ter sido uma vítima desse miseráveis. Tudo isso é compreensivo, todavia, não posso aceitar que uma agente do FBI perca o controle desse jeito na frente de um meliante. Dane-se que ele não sabe quem somos, no entanto, eu sei e isso é o suficiente.
Entramos no estacionamento, saímos do carro e seguimos logo para o elevador, aperto o botão do meu andar e observo uma Annie estática e assustada. Quando chegamos ao meu andar, ela segue ao meu lado ainda em choque, abro a porta do apartamento e ela entra ainda no piloto automático. Assim que fecho a porta, ela se senta no sofá ainda sem entender o que acabou de fazer.
Sigo para a cozinha, coloco água na cafeteira e espero o café ficar pronto. Enquanto isso, observo os cabelos úmidos de Annie, afasto da minha mente o seu ataque assassino de hoje à noite e me concentro na lembrança do seu sorriso na pista de dança. Apesar da dor que assola sua vida, havia muitos sorrisos para dar e vender. Antes de toda essa tragédia acontecer na sua vida ela deveria ser uma mulher muito feliz. É uma pena não tê-la conhecido antes.
Dou um suspiro fraco quando ouço o ruído da cafeteira dando sinal de que o café já está pronto, distribuo em duas canecas e sigo em direção à Annie. Ela pega uma das canecas sem pestanejar. Sento-me na mesa de centro enquanto ela toma um gole da bebida.

— Obrigada.
— Não há de quer.

Sorrio para tranquilizá-la. Bebo o meu café e uma dose de energia toca todo o meu corpo. Esse dia parece não ter fim e não tinha mais energias para enfrentá-lo.

— Por que estou aqui?
— O quê? — Olho para ela confuso.

Ela se levanta do sofá e coloca a caneca sobre mesinha ao lado.

— Eu deveria estar em casa.

Annie se aproxima da porta, porém, antes que ela toque a maçaneta, seguro o seu braço com firmeza.

— O que está fazendo?
— Você não vai a lugar algum — digo num tom sombrio.
— Posso saber por quê?
— Porque não.

Ela semicerra os olhos e pisca algumas vezes surpresa. Annie solta o braço do meu aperto, dá a volta no sofá e fica próxima a porta do meu quarto de costas para mim, quando ela se vira, vejo a surpresa e uma gota de desafio em suas feições.

— Você não confia em mim.

Não é uma pergunta, mas me sinto no direito de responder.

— Não.
— Bom saber. — Minha parceira dá uma risada e olha em volta como se estivesse procurando alguma coisa. — Certo, já que vou passar a noite aqui, você deveria ser mais hospitaleiro e me dar uma toalha, além de me ceder umas roupas suas porque não aguento mais esse sangue seco na minha mão. E preciso me limpar do toque daquele desgraçado.

Suspiro aliviado. Pelo menos ela não vai discutir.

— Tem toalha no armário ao lado da pia do banheiro. Pode ir tomando o seu banho, vou pegar uma roupa para você.

— Obrigada, .

Ela dá um sorriso malicioso e segue o caminho para o banheiro. Entro no meu quarto e procuro uma calça de moletom e uma camisa dentro da cômoda. Pego as primeiras peças que vejo e levo para o banheiro. Dou o meu máximo para não olhar na direção do box. Não teria como eu ver o corpo bem desenhado de Annie através do vidro, contudo, posso ver o contorno das suas curvas e seria o suficiente para me enlouquecer. Ponho a roupa na pia do banheiro e volto para o quarto.
Começo a tirar a colcha da cama, pego mais travesseiros no baú que fica na frente da cama e jogo-os sobre o colchão. Vou em direção ao guarda roupa atrás de cobertores. Pensei em montar uma cama para mim no chão, entretanto, como eu e Annie dormimos na mesma cama na Holanda, não vejo problema algum em dividirmos a cama mais uma vez.
Jogo os cobertores sobre a cama e quando levanto olhar quase caio para trás. Annie está na porta do banheiro vestindo apenas a minha camisa e há um sorriso malicioso em seus lábios. Olho para a sua pele com bronzeado natural e músculos firmes e começo a sentir os efeitos no meu pau.

— Pensava que tinha deixado uma calça — minha voz sai engasgada e me amaldiçoo por isso.
— Você deixou.

Ela se aproxima lentamente. Annie para a minha frente, passa a mão em meu peito e posso sentir o efeito lá embaixo. Fecho os olhos para não atacá-la. Isso não é uma boa ideia. Annie está brincando com fogo. Há meses não levo uma mulher para a cama, ter de conviver com ela tem sido bem difícil para manter minha sanidade. Mas eu sei que ela vai parar, isso só faz parte de uma das suas provocações, que não fazem nenhum bem para a minha saúde mental.
Quando sinto-a se afastar me preparo para soltar um suspiro de alívio, porém, antes que eu possa comemorar, o corpo da minha parceira senta em minhas coxas.
Arfo com o contato. Ela passa o seu pescoço em meu nariz e o seu cheiro me faz pensar como deve ser delicioso saborear a sua pele. Gostaria de me deliciar com cada pedacinho do seu corpo, deixá-la se contorcer sob o meu corpo e ouvi-la gritar o meu nome enquanto levo-a ao êxtase.
Todavia, isso não está certo, somos parceiros de trabalho. É óbvio que a tensão sexual que nos roda desde o primeiro momento que nos vimos tem trabalhado a todo vapor. Annie não estava suportando ela, entretanto, eu teria que ser forte e resistir a isso para o melhor do nosso trabalho.

— sua voz sai ainda mais sensual do que quando conversava com Ryan mais cedo.

Isso me leva a crer o quanto isso é real. As minhas mãos parecem ter vida própria, seguem em direção às coxas dela, mas resisto com todas as minhas forças. Pense em um viciado em álcool que está na reabilitação com uma garrafa de vodka a sua frente. É uma analogia doentia, eu sei, até porque nunca tive Annie, no entanto, me sinto assim. Loucura querer tanto alguém que nunca teve.

, não resista — Os seus lábios molhados tocam meu pescoço e um arrepio percorre o meu corpo — Não resista.
— Tenho que resistir.
— Não tem. — Sua boca se aproxima da minha, ela roça nossos lábios um no outro — Sabemos o que queremos. — Ela lambe meu lábio inferior e um calafrio percorre por toda extensão do meu corpo — Ora, vamos, . Você está tão duro e estou tão molhada para você. Não resista a isso.

Ela me toca e não consigo mais resistir.
Agarro a cintura de Annie, a jogo sobre a cama e observo o sorriso triunfante em seus lábios. Ataco sua boca me deliciando com o seu gosto. Nada se compara com a realidade, tocar os meus lábios nos seus na Holanda não é nada como sentir sua língua se movimentando com a minha.
Desfaço o beijo, começo a beijar e lamber o seu maxilar até a clavícula. A camisa está atrapalhando o meu trabalho, então enfio os dedos nas aberturas da camisa, puxo e botões chicoteiam objetos no quarto.

— Era sua camisa — ela sussurra.
— Posso comprar outra.

Baixo a cabeça para os seus seios, eles são muito melhores do que imaginei. Cheios e firmes. Como seios tão grandes podem ser tão perfeitos. Abocanho o direito, Annie se contorce e quase sorrio. Passo para o esquerdo deslizando a língua sobre o mamilo e chupando-o no final. Desço os lábios pela sua barriga, passo a língua em seu umbigo e Annie não para de se contorcer. Isso está divertido.
Quando estou no seu baixo ventre, vejo que ela está completamente nua. Levanto minha cabeça, me ajoelho na cama ereto e observo a deusa que está esparramada sobre vários travesseiros e lençóis, os seus cabelos molhados estão espalhados de forma tão perfeita que a deixa ainda mais sexy.

— Você está usando muitas roupas — ela diz.

Olho para mim e noto que ainda estou usando as roupas da boate, as únicas peças que me livrei foram os sapatos e as meias.

— Posso cuidar disso.

Annie escancha as pernas no meu quadril, faz com que rolemos na cama e fica por cima de mim. Ela não faz cerimônia e repete a minha ação com a blusa que estava vestindo. Os seus lábios encontram o meu tórax distribuindo beijos molhados até a minha pélvis. Ela levanta a cabeça, aproxima nossos rostos e me dá um beijo intenso. Minhas mãos seguem para sua bunda e puxo-a mais para perto da minha boca. Suas mãos vão em direção a minha calça, ela desabotoa cinto, depois o botão da calça e o zíper. Annie se afasta dos meus lábios para tirar minha calça juntamente com a cueca.

— Será que vai caber? — Ela passa mão pelo meu amigo e quase gozo.
— Se você continuar tocando, vou gozar antes de estar dentro de você.

Ela sorri. Logo depois coloca sua abertura entre o meu pau e desliza. Aperto os punhos para me forçar a aguentar mais um pouco, seria vergonhoso gozar logo de cara. Annie se movimenta e geme o meu nome. Aperto sua bunda com força, ela geme mais alto, agarro o seu quadril para ajudá-la a ir mais rápido. Contudo, após penetrá-la quatro vezes, eu gozo.
Merda.

— Já? — ela une a sobrancelhas.
— Meses de tensão.

Ela abre a boca em um "O" e sorri. Escancha suas pernas nos meus quadris e me coloca por cima mais uma vez. Não estou cansado, mas o gozo foi tão intenso que os meus músculos estão anestesiados. Saio de dentro dela, levo dois dedos para o meio de suas pernas e ela faz uma exclamação de surpresa. Abocanho os seus seios e sugo-os com mais intensidade. Annie geme e ergue o quadril desesperadamente. Tiro os dois dedos e volto com três, ela geme o meu nome e sorrio. Vou para o outro seio e sugo a mamilo com mais força.

— ela grita.

Está quase perto de chegar ao clímax. Aumento os movimentos dos meus dedos e sugo com mais força. Annie grita o meu nome desesperada quando goza. Ainda estou sugando os seus seios quando ela relaxa.

— Isso foi muito bom — murmura.

Estou sorrindo como um idiota. A moleza do meu corpo começa a se esvair e já desejo estar dentro dela mais uma vez, mesmo ainda estando mole. Foi tão rápido, mas delicioso. Preciso mais de Annie, se não vou enlouquecer. Como imaginei, ela é muito pior do que álcool e ainda pior que drogas, quero estar dentro dela toda a madrugada. Começo a me estimular. Preciso de mais dela e é agora.

— O que está fazendo? — Ela está olhando para os meus movimentos — Você quer mais? Era só avisar, com a minha ajuda vai ser bem mais rápido.

Ela me toca e não demora muito para que eu esteja pronto para ela novamente. Viro-a de barriga para baixo, afasto suas pernas e a penetro. Não quero conversas. Quero me concentrar no vai e vem, quero sentir cada extensão dela. Enquanto me movimento lentamente, dou beijos suaves em suas costas. Os gemidos de Annie se perdem juntamente com os meus. É maravilhoso senti-la. Meu corpo já está coberto por uma camada de suor assim como o dela. Passo a língua na sua pele úmida o gosto salgado me leva a loucura, me movimento mais rápido. É maravilhoso sentir o seu calor. Meus movimentos ficam mais urgentes a cada segundo. Chegamos ao clímax juntos e exaustos.
Me jogo ao seu lado ofegante. Observo o teto com um sorriso idiota nos lábios, nada melhor do que sentir toda tensão se esvair do seu corpo. Quando olho para Annie, ela já caiu em um sono profundo, seu peito sobe e desce lentamente, há uma mexa de cabelo cobrindo o seu rosto, afasto-a e admiro seu semblante relaxado. Ela é tão linda e está aqui, na minha cama. Puxo-a para mim, deito sua cabeça em meu peito e ela se movimenta abraçando o meu corpo. A envolvo em meus braços e o meu coração dá um salto.
Engulo em seco.
Isso não deveria ter acontecido. Eu sabia desde o começo que essa mulher só ia me trazer problemas. Me apaixonar não estava em meus planos de vida e aqui estava eu com Annie em meus braços e com o coração saltando no peito como louco. Era inevitável. Eu estava apaixonado.
Ter tido uma noite de sexo descarregando todo o tesão não era o suficiente, eu gostava de ter Annie em meus braços e constatei isso na Holanda, passar a noite com ela só confirmou o que meu coração e minha mente já sabia. Eu já sabia. Agora só me restava esconder esse maldito sentimento, porque em nenhum momento vou abrir a minha boca e dizer isso para a mulher em meus braços. Mesmo que eu queira que ela esteja aqui comigo, noite e dia. Se ela me quiser apenas por sexo, vou me dar por satisfeito, pelo menos vou ter algo dela.

Quando acordo pela manhã estou com os músculos doloridos. Não imaginei que a falta de sexo me deixaria despreparado.
Annie continua nos meus braços, olho para o seu rosto e ela parece serena, beijo sua testa e ela se mexe. Tiro ela de cima de mim para que eu possa ir ao banheiro. Antes de tomar o meu caminho, olho para mulher maravilhosa deitada em minha cama envolta de lençóis e com as costas nuas. Aprecio a vista por alguns minutos e sigo para o banheiro.
Assim que retorno do banheiro, Annie está sentada na cama vestindo uma camisa minha, sorrio para ela.

— Bom dia.
— Bom dia, .

Ela se levanta e se espreguiça, mostrando que está usando uma cueca preta. Meu sorriso aumenta. Annie se aproxima, planta um beijo em meus lábios e segue para o banheiro.
Engulo em seco.
Ontem não estava pensando direito, fui completamente dominado pelo desejo e agora... um novo sentimento que me apavorava. Eu estava apaixonado pela minha parceira de trabalho e isso é uma merda. Nada pior poderia acontecer. Claro que poderia, eu viveria para sufocar essa paixão e teria de Annie o que ela pudesse me dar.
Disparo para a cozinha na tentativa de distrair a minha mente e começo a preparar nosso café da manhã. Eu não era um chefe, porém conseguia me virar um pouco. Café da manhã não era exatamente um problema. Sempre havia tiras de bacon, ovos e waffles congelados dentro da geladeira, o bacon e os ovos ficavam até bons, os waffles não chegaria a tanto, até porque nada se compara a uma receita caseira.
Assim que Annie senta no balcão, já estou distribuindo o bacon e os ovos nos pratos, corro até o forno e retiro a forma com os waffles, separo-os em dois pratos e levo para o balcão. Pego dois copos no armário e uma caixa de suco de laranja.
Começamos a comer em um silêncio confortável.

— Precisamos ver Ryan — Annie diz após alguns minutos.
— Tudo bem — digo ainda concentrado no bacon.
— Depois do café.

Levanto a cabeça ainda mastigando um pedaço de bacon, pego o suco para que possa ajudar a engolir o conteúdo. Observo o semblante sério de Annie quase sem expressão, não há vestígios do que aconteceu noite passada apesar de seus cabelos continuarem bagunçados e ela estar vestindo minha camisa.

— Tudo bem.

Quando terminamos de comer, Annie se prontifica a colocar a louça na máquina e sigo para o banheiro para um banho rápido, assim que volto para o meu quarto pronto para me vestir, ouço a porta da frente sendo fechada com um clique. Há um bilhete na mesa de cabeceira à minha espera.

Vou tomar um banho em casa, volto logo. Bjs

Beijos. Ela escreveu ‘beijos’. Isso deve ter algum tipo de significado, se fosse um bilhete comum não teria algo desse tipo.
Vou em direção ao meu armário e procuro uma roupa. Prefiro não pensar no que as palavras de Annie podem significar, alimentar esperanças não vai ajudar em nada o meu pobre coração. Ainda estou tentando entender como e quando esse sentimento tomou conta de mim, pensei que tudo fosse desejo, todavia, me enganei amargamente.

Saímos de casa às onze horas da manhã, não havia trânsito nas rodovias que fui obrigado a passar e as ruas que nos levaram ao galpão estavam tão desertas como na noite anterior. Passamos em um café para comprar algo para Ryan, um copo de café puro e muffin.
Quando entramos no local, Annie deixa o café de Ryan em cima da mesa e eu me direciono à caixa de metal, abro a porta e encaro o homem desacordado. Me aproximo dele e dou um tapa de leve em seu rosto. O pobre homem já sofreu ontem para pelo menos uma semana. Como ele não acorda, pressiono o seu ferimento, ele desperta resmungando e sorrio com a eficiência. Tiro o pedaço de pano que envolve os seus olhos, Ryan olha para os lados tentando entender onde está quando encontra o meu olhar sua expressão torna desesperada.

— Bom dia, Ryan.

Afasto a tira de sua boca.

— Sede — sua voz sai baixa e falha, contudo, consigo compreender com perfeição.
— Trouxemos café da manhã.

Seus olhos se arregalam e me seguro para não rir de sua expressão de pavor.

— Ela veio também?
— Não se preocupe, ela está mais calma. No entanto, se eu fosse você, responderia as perguntas dela.

Ele engole em seco. Arrasto a cadeira para fora da caixa de metal, assim que paro no mesmo local que Ryan se encontrava, ouço a voz de Annie em um tom sarcástico que eu poderia reconhecer em qualquer lugar.

— Bom dia, Ryan.
— Bo-om dia-a — ele gagueja.

Annie se aproxima com o muffin e o café, ela ajuda Ryan a tomar o café e comer o muffin. Me afasto e observo a mulher revoltada da noite anterior alimentar o cara que trabalha num dos crimes organizados que ela mais abomina, é curioso ver sua calma e olhar para o curativo manchado na perna do homem.
Quando Ryan termina de comer, nota-se uma cor diferente em seu rosto, ele parece vivo.

— Então, Ryan, pensou bastante essa noite? — indago.
— Sim — ele afirma. — Vou contar tudo que puder a vocês e ajudá-los ao máximo.

Annie e eu nos entreolhamos em meio a um sorriso, voltamos nosso olhar para Ryan com rostos ansiosos.

— Antes de tudo, quero que saibam que estou tentando sair dessa vida há dois anos, mas não tive alternativas nos últimos tempos e — ele ergue a cabeça, preocupado — eu preciso saber para quem vocês trabalham.
— Por quê? — Annie se antecipa.
— Porque não posso correr o risco de o Chefe me matar.

Annie pisca confusa.

— Pode confiar em nós — digo.
— Eu não confio em ninguém.
— Ryan...

Começo, entretanto, sou interrompido por Annie.

— Você falou ontem à noite que vocês têm um informante no FBI. Como ele conseguiu entrar e quem é?

Os olhos dela estão grudados no de Ryan e posso vê-lo engolir a bile diante do olhar frenético da mulher que rasgou a sua coxa.

— Ele não conseguiu entrar, ele já era de lá.

Suas palavras chamam minha atenção, uma sensação esquisita passa por meu estomago e quase coloco o café da manhã para fora.

— Estou correndo um grande risco passando essa informação, porém, não tenho muitas opções.
— Diga logo o nome — Annie resmunga.
— Só sei o sobrenome.
— Apenas diga.
— Donald.



Capítulo 12

Vou lhe buscar amanhã às seis.

Era a vigésima vez que lia o bilhete de Jayden, desde o momento que foi entregue para mim, ontem à noite. Talvez eu estivesse me tornando um pouco obsessiva com tudo isso, não tínhamos um relacionamento, tínhamos alguma coisa, no entanto.
Guardo o bilhete na minha mochila, sigo em direção à minha cama e deito para refletir um pouco sobre o que estava acontecendo entre mim e Jayden, entretanto, nada parece entrar em meu cérebro. Toda a minha capacidade de raciocinar estava se esvaindo só pelo fato de Jayden Smith estar na minha mente.
Holly suspirou. Ela está deitada na cama de cima do beliche e andava frustrada com o fato de não ter ideias para ir embora de São Francisco. Começar do zero não é fácil.

— Ir para Nova York seria muito complicado? — questionou.
— Com certeza...

Me interrompo.
O que eu estou falando? Não seria difícil viver em Nova York e ela não começaria do zero. Eu era tão estúpida que não conseguia achar uma solução para Holly porque simplesmente não tirava Jayden da minha cabeça, isso era injusto e egoísta.

— Você pode ter onde ficar.

Holly sentou-se na cama e pulou para a cama de baixo numa habilidade que ela havia adquirido nos últimos dias. Ela veio para o meu lado com os olhos brilhando em expectativa.

— Rachel mora em Nova York.

Ela fez uma careta.

— Sua amiga não gosta de mim.

Isso não era exatamente verdade.

— Rachel só está com ciúmes. — Pego a mão de Holly e aperto — Você está aqui comigo, enquanto ela está à milhas de distância. Não duvido que alguns dias, juntas, vocês se esquecesse de mim.

A expressão de Holly se encheu de um sentimento diferente, não saberia descrever ele, porém, notava-se que o que tinha acabado de falar era a maior idiotice da história. Eu era importante para ela, só não sabia disso até agora.

— Tudo bem, vamos ligar para essa sua amiga — diz ela se levantando.

Coço o alto da cabeça envergonhada.

— Não tenho o número dela. Rachel sempre liga para mim, acredito que ela não tenha telefone em casa e celular sai muito caro para ligação interurbana.
— Entendo. Então, agora é só esperar ela ligar.
— Sim.

Holly se aproxima do nosso armário e começa mexer nas minhas roupas. Nem pergunto o que ela está fazendo porque já tenho uma ideia. Meu encontro com Jayden é dentro de duas horas e ela precisava se encarregar de que eu me vestirei corretamente. Como Jayden não gostava de multidões, acredito que iremos ficar em seu apartamento mais uma vez e não era estúpida de não pensar no que isso levaria. Na boate, quase perdemos o controle, estávamos quase explodindo com tanta tensão sexual, na verdade, eu estava. Não estava com medo do que iria acontecer entre nós, só precisava me certificar de chegar ao orfanato antes do amanhecer, de preferência, no máximo à meia noite.

Às seis em ponto eu estou pronta. Não estava vestindo nada de especial, apenas uma calça jeans, uma blusa de manga comprida, azul marinho, e minhas sapatilhas pretas. Holly fez cara feia para a minha escolha, entretanto, lhe expliquei que Jayden não gostava de sair de casa, as exceções só acontecia quando era obrigado por causa do trabalho. Ela achou estranho, todavia, não quis discutir.
Quando a buzina do carro de Jayden me despertou, corri para o hall do orfanato mandando beijos para Holly por cima do ombro. Ela riu de mim todo caminho até a porta. Assim que saí para a noite fria, me deparei com um Audi azul, o mesmo que Jayden costuma usar para andar por aí de dia. Ele não saiu do carro, então entrei logo no veículo.

— Jayden, boa...

Antes que eu pudesse completar a sentença, a minha boca foi possuída pela sua num beijo cheio de saudade. Eu podia sentir e podia transmitir isso, era assustador como havia sentido sua falta. No momento que nos separamos, estávamos completamente sem fôlego e com os lábios inchados.

— Não pude evitar.

Ele dá um sorriso malicioso e volta sua atenção para o volante. O caminho até o seu apartamento foi silencioso e eu sustentava um sorriso idiota nos meus lábios, sabia que essa noite seria inesquecível mesmo não tendo ideia de como tudo aconteceria. Quando chegamos ao prédio, Jayden fez questão de abrir a porta para mim e estender a mão para me ajudar a sair do carro. O caminho do elevador até o apartamento foi preenchido por beijos dados em meu pescoço, fazendo com que o meu corpo se aquecesse mesmo a noite estando fria.

— Tenho uma surpresa para você.

Jayden me puxa pela mão até a sala de estar. Sobre o sofá há dúzias de sacolas de lojas de marca, quase tive um mini-infarto de ver que eram de lojas de roupas femininas, ou seja, todas as roupas eram para mim.

— Jayden, o que é isso? — minha voz mostra uma raiva que nem eu sabia que estava se formando dentro de mim.
— Nem adianta vir toda brava para cima de mim — diz dando um suspiro cansado. — Por acaso, é errado dar presente à namorada?

Ele conseguiu. Fez a raiva se esvair com apenas uma palavra. Namorada? Não posso acreditar que ele tinha acabado de me chamar assim. Eu poderia não ter tido relacionamentos até hoje, porém, sabia que um compromisso deveria ter fidelidade e não conseguia acreditar que ele não se deitava com outras mulheres para se aliviar.

— O que você disse? — indago paralisada.
— Eu disse que... — Ele dá um sorriso sem graça — Ahh, você é minha namorada. Pelo menos, eu considero.

Me aproximo dele, toco em seu ombro como se não quisessem nada, passo minhas mãos por ele e envolvo o pescoço com os meus braços. Suas mãos deslizam pela minha cintura e ele me puxa para mais perto dele.

— Você sabe que namoro significa que você é meu, somente meu.
— E que você é somente minha.

Mordo o lábio.

, sou capaz de ficar apenas com você. Se tivesse ideia do turbilhão de sentimentos que se passa dentro de mim só em vê-la, não duvidaria.

Meu coração se aquece com essas palavras. Eu estava perdida. Estava completamente apaixonada por Jayden Smith e ele dizer todas essas coisas não ajudavam em nada na minha luta constante para não me envolver demais. Eu estava com medo de ser apenas uma diversão para ele, antes tudo se tratava de desejo, todavia, tudo se transformou de repente.
Não. Nada mudou de repente, eu estava me apaixonando gradativamente, a cada toque, a cada palavra, a cada respiração. Sabia que meu destino era ser de Jayden Smith e eu era completamente dele sem ao menos me entregar de corpo, porque tinha certeza que minha alma já era dele.
Antes que eu pudesse falar alguma coisa, meu estomago soltou um ruído terrível que me deixou da cor de um tomate. Jayden sorriu e me puxou para o balcão da cozinha, ele me sentou e seguiu em direção à cozinha com um sorriso brilhante nos lábios.

— Comprei comida chinesa, espero que goste — diz enquanto tira os pratos do armário assim como os talheres e duas taças.
— Tenho certeza que vou amar.

E estava certa. Yakisoba era dos deuses. Com o vinho que estava sempre a postos na geladeira de Jayden, ficou ainda mais divino. Quando terminamos de comer, ainda havia espaço no meu estômago para mais, no entanto, não estava querendo me empanturrar de comida e sair decepcionada no final do dia por não ter feito o que vim fazer.

— Quero que você experimente todas as roupas — ele diz depois de tomar um gole de vinho.
— Agora?
— Sim, por favor.

Pego as sacolas sobre o sofá e sigo em direção ao quarto. A cama de dossel me deixa encantada, há uma porta que leva ao closet do lado direito, as paredes gelo e as portas de vidro que dão para a sacada deixam o ambiente com um ar calmo e leve. Coloco as sacolas sobre o baú de couro que fica a frente da cama e começo a vasculhar dentro delas. São muitas sacolas para a sanidade de uma pessoa, até lingerie foi comprado. Minhas bochechas esquentam só de imaginar o que ele comprou. Pego as sacolas com as roupas e as jogo sobre a cama. Meus olhos encontram uma legging que se parece com uma calça jeans preta e uma blusa de alça de um tecido brilhante que deduzo ser cetim. Depois de ter certeza que tranquei a porta, troco de roupa.

— Quero ver você — grita do outro lado da porta.

Mordo o lábio. Agora ele quer que eu faça um desfile com todas as roupas? Se ele pensa que vestirei a lingerie e defilarei com ela, está muito enganado, uma coisa é estar na cama com ele completamente nua, me expor de outra forma não se parece comigo.
Saio do quarto de cabeça baixa. Sinto o olhar de Jayden em mim e minhas bochechas queimam. Maldição. Levanto o olhar mordendo o lábio e observo um Jayden sorridente, esse sorriso é diferente de todos os outros, ele transmite algum tipo de sentimento que nunca havia visto em seu rosto. Parece apaixonante.
Volto para o quarto as pressas e com o corpo tremendo, acho que isso é medo. Não pode ser outra coisa. Estou com medo de alimentar esperanças e estar enganada, contudo, poderia jurar que vi um olhar apaixonado em Jayden. Se isso fosse verdade, acho que aconteceria uma explosão vulcânica comigo.
Pego um macacão verde-água que tem um decote quadrado, aberto nos dois lados da cintura e com as pernas boca de sino. Depois de vesti-lo, volto para a sala com um pouco mais de coragem. Jayden está sentado no braço do sofá com os braços cruzados, o seu sorriso volta à ativa assim que os seus olhos me encontram.

— Parece roupa de festa — digo.
— Coisas mais informais.

Aceno e volto para o quarto. A próxima roupa é uma blusa cinza de botões e uma saia vermelha rodada. É bem fofa e poderia dizer que já é minha roupa favorita. Guardo as outras roupas nas sacolas e sigo para a sala mais uma vez. Jayden sorri novamente quando me vê.

— Eu amei essa — digo timidamente.
— Também gostei.

Ele ergue a mão pedindo a minha. Assim que nossas mãos se tocam ele me puxa para os seus braços apertando o meu tronco contra o seu. Jayden captura os meus lábios em um beijo urgente, transbordando emoções desconhecidas. Minhas mãos deslizam para a barra de sua camisa e coloco-as na sua pele firme e quente, o meu corpo reage ao toque e sinto o meio das minhas pernas se aquecer. Jayden desfaz o beijo e começa a chupar a minha pele do maxilar até o alto do meu pescoço. Os seus dedos começam a desabotoar os botões da minha blusa e os seus lábios deixam um rastro de beijos molhados sobre cada espaço que é descoberto. Ele faz uma trilha até a minha barriga e quando a blusa chega ao seu último botão, ele a tira do meu corpo desesperadamente. As minhas mãos seguem para a barra da sua camisa mais uma vez e puxo-a para cima deixando o seu tórax nu.
Jayden encontra o meu olhar mais uma vez e me devora com os seus olhos azuis. Sei que o meu verde está tão brilhante quanto o sol nesse momento, eu poderia iluminar um planeta apenas com os meus olhos. Eu o quero. Quero-o desde sempre, entretanto, agora é mais forte que antes e eu quero muito mais, profundamente mais.

— Eu preciso de você — Jayden diz.
— Eu também.

Então, os seus olhos se misturam num torrencial de emoções, porém, a mais evidente é a luxúria. Ele esperava por isso há meses e eu tentava segurar, porque queria ter certeza do que estava fazendo. A primeira vez poderia não ser algo tão importante para mim, no entanto, precisava de alguém que tivesse cuidado comigo e sei que Jayden é essa pessoa.
Ele agarra minha cintura com força, sua mão desliza para a minha bunda e elas fazem um impulso para me erguer, envolvo as pernas em seu quadril e seguimos para o quarto de Jayden. Todo o caminho Jayden massageia minha coxa com uma das mãos fazendo o meu corpo se contorcer.
Quando chegamos à cama, ele me deita sobre ela e depois se move para tirar as sacolas do colchão, colocando-as em qualquer canto do quarto. Jayden volta com um sorriso torto. Ele desce o zíper da saia vermelha e retira-a rapidamente. Os seus lábios encontram minha pele mais uma vez e eles parecem cubos de gelo comparados o ardor do meu corpo. Depois de me saborear, ele começa a desabotoar sua calça, quando a tira, engulo em seco observando sua ereção sob a cueca.
Jayden me coloca mais para cima da cama e descansa os joelhos de cada lado do meu corpo, ele se abaixa para me beijar e sinto sua ereção tocar a minha barriga, o gemido que escapa dos meus lábios é involuntário. Nossos lábios se tocam num beijo lento e provocante, uma das mãos de Jayden desliza para as minhas costas e ele abre o fecho do sutiã, antes que ele possa tirar o sutiã dos meus seios, suas mãos seguem para o cós da minha calcinha e ele a remove. Estou – quase – completamente nua e não consigo sentir vergonha disso.
Minhas mãos seguem para o seu cabelo enquanto a sua língua faz um trabalho minucioso na minha boca. Puxo os seus cabelos e ele solta um gemido no fundo da garganta. Liberto os seus cabelos e toco o seu troco duro e delineado.
Assim que Jayden se afasta, não perde tempo e retira sua cueca e engasgo na mesma hora.

— Está tudo bem. Serei gentil.

Aceno. Tiro o sutiã que ainda está grudado a minha pele e no momento Jayden passa a língua sobre os lábios fazendo com que eu sinta um incomodo entre as pernas. Ele pega um pacote quadrado dentro da mesa de cabeceira e aproxima o seu rosto dos meus seios. Ele se apodera deles lambendo-os como se fosse o melhor picolé que já existiu. Não posso controlar os gemidos que escapam dos meus lábios, estou enlouquecida.
Jayden se afasta após uma longa tortura deliciosa, ele abre o pacotinho em mãos e desliza a camisinha sobre o seu membro olhando em meus olhos. Não estou nervosa, só quero tê-lo para mim, provavelmente vai doer, contudo, não me importo. E, então acontece, Jayden desliza por mim lentamente e sinto uma fisgada quase mínima tocar a minha intimidade, é como ser furada por uma agulha grossa, depois fica uma sensação de queimação.
Jayden olha para mim pedindo permissão e a concedo. Ele se movimenta e a queimação parece aumentar e sei que estou fazendo uma careta horrível porque a sensação não é nada agradável.
Após dez minutos de vai e vem, a queimação se esvai e o meu corpo se ergue para receber mais de Jayden, eu quero engoli-lo. Uma camada de suor cobre os nossos corpos e eu me movo para ter mais acesso a ele. Nem ao menos percebo quando estamos gemendo desesperadamente. Jayden aumenta a velocidade a cada minuto e eu quero mais, muito mais.
O meu corpo tenciona a cada milésimo de segundo. Estou em busca da sensação de alívio e eu sei que é nesse momento que acaba, eu a quero e ao mesmo tempo, não. Eu sei que não será apenas uma vez, pelo menos uma parte de mim não quer que seja apenas uma vez. No entanto, não sei o que se passa na mente de Jayden Smith, ele pode querer meu corpo uma vez e saciar seu desejo, em seguida partir para outra. Mas eu quero mais disso e se possível, com ele.
A sensação de alívio chega, ela é como se um elefante saísse de cima de mim trazendo um prazer explosivo para o meu corpo frágil. É arrebatador. Me sinto mole sobre a cama enquanto Jayden estoca mais uma vez e explode em um gemido gutural. Ele se joga o meu lado da cama e quando consigo forças, viro-me para deitar minha cabeça sobre o seu peito, ele me abraça com uma mão assim que a outra puxa os lençóis para nós cobrir.

— Estou completamente apaixonado por você — Jayden diz com a respiração pesada. — Minha .

Tudo que queria ouvir. Tudo.

— Também estou apaixonada por você. — Sorrio. — Meu Jay.



Capítulo 13

Meus olhos estão incapacitados, não consigo abri-los. Respiro fundo. Deslizo as mãos pelo lençol macio e suspiro. O colchão em que estou deitada é tão confortável que a minha vontade é de permanecer deitada aqui o resto da vida. Obrigo os meus olhos a abrirem e quase fico cega com a luz vinda da porta de vidro a minha frente.
Passos se aproximam de mim, no entanto, não tenho forças para olhar quem está se aproximando. Um par de lábios toca a extensão da minha coluna e um suspiro escapa da minha garganta. Cenas da noite anterior perpassam pela minha mente. Jayden tocando o meu corpo, os seus beijos por todo o meu busto, sua boca saboreando a minha, ele dentro de mim. Tudo havia sido muito melhor do que algum dia imaginei.

— Bom dia — murmuro.
— Bom dia, linda.

Viro-me em sua direção mantendo o lençol cobrindo o meu corpo. Ele está com um sorriso estonteante nos lábios e com os cabelos úmidos. Não há um simples vestígio de inchaço em seu rosto, Jayden era ainda mais perfeito ao amanhecer.
Ele se aproxima e toca os seus lábios nos meus num selinho. Logo depois, ergue uma bandeja com vários alimentos.

— Café da manhã? — indago, erguendo o meu corpo da cama e me pondo sentada ao seu lado.
— Sim — responde, encarando a bandeja. — Não sabia o que você gostava de comer, então preparei tudo que estava ao meu alcance.

Meu coração se aquece com a sua preocupação. Olho para a bandeja e analiso tudo que foi posto para o meu bel prazer; torradas, waffles, ovos, bacon, geleia, suco de laranja, café e leite. Era comida demais para apenas duas pessoas.

— Obrigada, mas não precisava de tanta coisa. No orfanato…

Me interrompo quando a lembrança de que eu deveria ter chegado pela madrugada no lugar que chamava de lar me faz entrar em pânico. Dou um pulo da cama e ignoro o lençol que me cobria, começo a catar as minhas roupas que permaneceram espalhadas pelo chão pela madrugada, enquanto sinto o olhar de Jayden sobre mim.

— Aconteceu algo? — pergunta.

Ergo a cabeça para olhá-lo vestindo a calcinha e o sutiã. Ele sustentava uma expressão de desejo no rosto, porém, quando os seus olhos encontraram o meu rosto completamente cheio de pavor, a preocupação ficou palpável.

— Deveria ter ido para o orfanato pela madrugada — digo exasperada. Visto a minha camisa e paro. O que eu estava fazendo? Estava ferrada, não teria como voltar lá. Irá acontecer comigo a mesma coisa que houve com Megan. Agora, havia me tornado uma sem teto. Meus olhos começam a ficar marejados e não demora que lágrimas comecem a rolar pelas minhas bochechas. — Não tenho para onde ir.

Um sentimento de desolação toma conta de mim. O que eu fiz da minha vida? Só porque quis passar a noite com um cara – minha primeira noite –, e isso acontece. A pior consequência. Irmã Glória poderia tentar intervir por mim, contudo, as outras não aceitariam. Eu não tinha um emprego, não tinha amigos e muito menos conhecidos.
As únicas pessoas na minha vida eram Holly, Rachel e Jayden. Holly estava tentando achar um rumo para a sua vida. Rachel não poderia arcar com as despesas de uma viagem para mim. E Jayden... Não poderia pedir abrigo a ele. Seria como dizer que queria me aproveitar dele e prendê-lo comigo o resto da vida, nós tínhamos um relacionamento tão bom que não poderia correr o risco de estragá-lo.
Jayden se aproxima e me puxa para os seus braços. Lágrimas grossas rolam pelas minhas bochechas. Nunca me senti tão perdida como agora.

— Você poderia vir morar comigo — Jayden diz baixinho.

Me afasto dele procurando ver um sorriso de deboche, todavia, só encontro uma ruga entre suas sobrancelhas e o peso da preocupação nos seus olhos.

— Jayden, você está brincando comigo? — Seco as lágrimas do meu rosto e me forço a empurrar as outras que estavam prontas para cair.
— Claro que não. — Ele me puxa para si mais uma vez, entretanto, agora seguimos para o baú de couro próximo a cama e nos sentamos. — Eu sei que nos conhecemos há pouco tempo. Bom... eu conheço você há mais tempo, mas digo com relação ao nosso relacionamento. Sei que estamos juntos há poucas semanas, porém, eu quero estar com você e quando acordei hoje estava tentando pensar numa solução para a noite de hoje. Como dormiria sem você ao meu lado?
— Você está falando sério? — Um novo choro parecia tomar conta de mim, contudo, esse era diferente, estava emocionada por suas palavras. — Mas é muito...
— Cedo — ele me interrompe e aceno em concordância. — Eu sei, no entanto, não me importo. Só quero tê-la comigo todos os dias. E jamais deixaria você sem um lugar para morar.
— Obrigada — digo emocionada.
— Não precisa me agradecer. — Ele se aproxima com um sorriso nos lábios. — Eu sou seu e você é minha.

Dou uma risada fraca.
Ele me envolve com os seus braços e começa distribuir beijos pelo lóbulo da minha orelha.

— Acho que tenho que ir ao orfanato…
— Podemos ir mais tarde.

Ele começa a tirar minhas roupas mais uma vez e a beijar meus lábios de forma urgente. O local entre minhas pernas já clama por ele e meu corpo já está quente por causa de suas investidas. Logo estamos na cama nos entregando um ao outro. Jayden é mais bruto dessa vez. É perceptível o seu desejo por mim, o que faz com que fique mais excitada.
Tê-lo dentro de mim faz com que eu revire os olhos e perca o controle. Os meus gemidos são altos e muitas vezes, tive de ser calada pelos lábios dele. Em algum momento esse homem me levaria à loucura. Mal sabia como funcionavam as coisas entre um homem e uma mulher numa cama. Estava ansiosa e temerosa pelo o que vinha pela frente.
Assim que chegamos ao clímax, Jayden diz que quer testar algo diferente. Ele me coloca deitada de barriga para baixo e começa beijar e morder minhas costas. Ainda nem me recuperei do orgasmo anterior e já estou querendo mais dele. Apesar de não ter forças, pressiono o lençol em meus punhos quando sua língua passeia pela linha da minha coluna vertebral. Quando ele chega à base das minhas costas, afasta as minhas pernas e se coloca entre elas.
No momento que ele entra em mim, minha boca forma um “O”. Não tenho forças para dizer nada e muito menos resmungar. Ele se movimenta enquanto gemidos fracos escapam pela minha garganta. A velocidade dele aumenta e me sinto mais próxima do meu segundo orgasmo.
Chegamos ao êxtase juntos e minhas forças se esvaem por completo. Nunca fui preparada para isso e muito menos para suprir as necessidades desse homem.


Sou despertada por um choro. Está tudo escuro e há um homem chorando. Não sei onde estou, mas a pouca luz que o local me fornece mostra que é um apartamento com paredes cinza. Não posso descrever o ambiente por causa da escuridão, contudo, sei de onde vem o choro.
O homem está sentado próximo a um balcão. Não posso ver seu rosto, apenas suas roupas amassadas. Me aproximo dele para tentar ajudá-lo mesmo estando com medo.

— Oi?
? — ele pergunta.

Quando ouço sua voz, um tornado de sentimentos me atravessam. Compaixão, carinho, apego, apreço. Amor. Em toda a minha vida nunca tinha amado um homem, entretanto, eu sabia que o amava. O meu coração parecia estar sendo esmagado por constatar que ele estava sofrendo e tudo que mais quero é que isso acabe.
Quero ouvir sua risada. Quero ouvi-lo gargalhar. Quero ouvi-lo dizer que tudo está bem e que nada no mundo irá nos separar. No entanto, tudo que escuto é o choro crescente.

— Não chore, meu amor — sussurro quando sento-me ao seu lado.
— Você me perdoa?

Abraço-o a acaricio os seus cachos.

— Sempre vou perdoar você.

Ele me envolve com os seus braços e beija minha bochecha.

— Eu amo você, .
— Eu também amo você.

É verdade, eu o amo. Tento puxar na minha mente o seu nome, porém, não consigo.
Mais uma vez ele beija minha bochecha, contudo, os beijos começam a ser distribuídos por todo o meu rosto. Quando os seus lábios tocam os meus é como uma chama, ela me incendeia. Minhas mãos passeiam pelos seus cabelos. Como amo eles. Como o amo.
Tiramos nossas roupas completamente entregues a esse sentimento. Não é apenas sexo. Nós queremos fazer amor.
Ele me enche de beijos e dou risadas quando ele toca lugares que sinto cócegas. Faço o mesmo com ele. Chego a torturá-lo com tantas cócegas quando toco a parte interna dos seus braços.
Assim que paramos de rir, o desejo toma conta de nós. Nos beijamos lentamente em meio a toques suaves. É bom sentir cada pedacinho da minha pele tocando a sua. No momento que ele entra dentro de mim, nos abraçamos para apreciar esse momento. Ele beija o meu pescoço e o desejo de ver o seu rosto me toma. Puxo sua cabeça para que eu possa encará-lo, entretanto, a escuridão não permite.

— Quero vê-lo.
— Está muito escuro.

Ele volta a se movimentar. Movimentos lentos e suaves. Ele sabe exatamente como gosto. Sempre soube. Eu o amo tanto. Quando chegamos ao orgasmo solto um gemido contido.


Acordo com a respiração pesada e reconhecendo o ambiente a minha volta. Estou no quarto de Jayden e com ele ao meu lado completamente nu. Ele desperta e me observa pensativo.

— Aconteceu algo?
— Não — respondo rápido demais. — Tive um sonho estranho.
— Com quê?
— Não lembro — minto. — Só sei que era estranho.

Ele parece desconfiado, porém, não insiste. Agradeço internamente por isso.

— Vou tomar um banho e podemos ir.

Corro para o banheiro e fecho a porta. Olho para o espelho e observo o meu rosto. Meus olhos estão brilhando e minha pele parece diferente, a noite de ontem foi inesquecível. Penso no toque de Jayden, no entanto, o pensamento é substituído por mãos no escuro e mais suaves que do homem que me espera lá fora. Abro os olhos que divagavam fechados.

— O que está acontecendo com você, ? — sussurro.

A garota de cabelos castanhos e olhos verdes não me responde e me sinto frustrada por isso. Quem era aquele homem do sonho? Por que eu o amava tanto? Perguntas que jamais serão respondidas por que ele é apenas um sonho.
Jayden é real e ele é bom para mim. E o que senti no sonho? O que sentia por Jayden não era tão forte quanto o que senti no sonho.
Dane-se.
É apenas um sonho.
Balanço a cabeça e sigo em direção ao box para tomar um banho frio.


Quando paramos em frente ao orfanato, peço para que Jayden me espere no carro. Corro para a entrada e me sinto estranha quando abro a porta da frente, como se o meu corpo já entendesse que eu era uma intrusa naquele lugar.

? — Irmã Glória está sentada nos bancos do hall com o rosto aflito.
— Eu sei. Não precisa se preocupar, tenho onde ficar.

Ela suspira aliviada.

— Só vim me despedir de você e Holly.
— Ela está no quarto e parece furiosa.

Mordo o lábio.

pIrmã Glória se levanta e me puxa para um abraço. Ela funga e aperto-a em meus braços, sempre era ela quem me defendia de tudo e todos nesse lugar, jamais esqueceria. Talvez, nunca mais nos víssemos, no entanto, ela sempre estaria no meu coração.
Depois da nossa despedida, sigo até o meu antigo quarto para enfrentar Holly. Assim que entro no quarto ela se joga em cima de mim e dou uma risada por causa da sua atitude.

— Por que dormiu fora? —ela se afasta e continua. — Poderia ter tentado me avisar, fiquei preocupada. Pensei que você tinha sido traficada.

Dou uma gargalhada.

— Não diga bobagens. Jayden não é um cafetão.
— Eu não sei. Não conheço o cara.

Reviro os olhos.

— Você vai ter que ir embora? — indaga.
— Sim.
— Para onde você vai?
— Jayden me chamou para morar com ele.

Holly me encarou com os seus olhos escuros e pude ver a desconfiança brotar de suas entranhas. Ela até incentivava meu relacionamento com Jayden, entretanto, tinha sempre um pé atrás com ele. Ela dizia que era porque o mundo era cheio de caras filhos da puta e que eu tinha cara de anjinho, precisava ser protegida de todos.

.
— Eu sei que você não confia nele, mas não pedi abrigo. Foi ele quem ofereceu. Não poderia recusar.
— Sei que parece tentador, mas nós poderíamos ir para Nova York.
— Não tenho como custear uma viagem dessas.
— Eu tenho.

Gemi.

— Eu não posso.
— Por que não?
— Não quero ficar longe de Jayden.

Ela ficou em silêncio por um tempo e suspirou.

— Você o ama?

Penso no homem do sonho, todavia, balanço a cabeça para tirá-lo dos meus pensamentos.

— É muito cedo para isso.

O silêncio volta a reinar enquanto procuramos palavras para uma despedida. Depois de Rachel, Holly é umas das pessoas mais importantes para mim. Apesar do pouco tempo que ficamos juntas, sabia que poderia contar com ela. Sempre.

— Rachel ligou e conversamos.
— Mesmo? — digo radiante.
— Sim — ela morde o lábio. — Viajo em uma semana. Acho que isso é um adeus.

Busco ela para abraçá-la ficamos agarradas uma à outra por minutos.

— Se mudar de ideia, é só entrar em contato comigo, você tem o meu número.
— Tudo bem.

Holly me leva até o hall do orfanato e nos vemos em uma cena às avessas. Ela era a moradora e eu a estranha. Nos abraçamos mais uma vez e nos despedimos. Saio pela porta do lugar onde cresci e não olho para trás.



Capítulo 14

Deslizo o dedo pelas coxas dela apreciando sua pele quente e sedosa. Eu e Annie estamos em mais um final de semana, jogados no chão da minha sala, desprovidos de roupas. Acabamos de ter um orgasmo maravilhoso enquanto assistíamos Guerra Mundial Z. Não é o tipo de filme que te deixa excitado, entretanto, Annie é o tipo de mulher que te deixa excitado.
Após a descoberta que nosso chefe do condado de São Francisco da Bureau era o espião, não tivemos muito o que fazer. A não ser manter Ryan do nosso lado. Acabamos libertando o cara com a promessa de que ele traria informações para nós em breve. Já haviam se passado semanas e não tínhamos recebido ligação alguma do nosso informante.
Enquanto Annie manteve a esperança, eu não me sentia muito confiante com relação ao cara.
A situação tinha ficado difícil para nós dois, até porque nosso chefe estava por trás de todas as informações passadas para o Chefe do tráfico. Nós estávamos tentando manter a conversa mais amigável possível, todavia, às vezes a fúria me dominava e perdia o controle. Annie muitas vezes me arrastava para alguma sala vazia e me ajudava a aliviar a raiva e tensão de sustentar esse segredo.
Fiquei contente com o controle dela diante da situação, era sempre ela que perdia as estribeiras diante de momentos difíceis. Quando perguntei o que a fazia ser tão controlada, ela me confidenciou que tinha começado a fazer terapia. Era ótimo saber disso, as atitudes dela com relação a homens que trabalhavam no tráfico sempre extrapolavam e muitas vezes tinha que ficar preocupada com a missão e com ela.
Como não estávamos tendo nenhum sucesso com as investigações, acabamos entrando em algumas missões mais simples, como roubos de obras de arte ou de objetos de valor de pessoas do poder, eram raras as vezes que conseguíamos algum homicídio. Pelo menos nesse ponto, São Francisco estava a salvo.
Brad Pitty estava tentando descobrir uma forma de chegar a sala cheia de seringas com doenças infecciosas quando resolvi distrair Annie mais uma vez.
Me aproximo do seu pescoço e passo a língua pela a sua pele quente, ela suspira e sorrio. Puxo-a para os meus braços e mordo o lóbulo de sua orelha, ela geme e sinto-me endurecer.

— Vamos terminar o filme.
— Quem liga para esse filme — sussurro em seu ouvido.
— Quero saber o final.
— Passou o filme inteiro gemendo o meu nome, nem sabe o nome dos personagens.

Ela me empurra furiosa. Ou fingindo estar furiosa.

— Você tem razão.

Ela se joga nos meus braços e arranca minha camisa do seu corpo. Minhas mãos saboreiam o seu corpo enquanto me delicio com os seus lábios. Aperto cada centímetro de pele, desço minha boca imediatamente para os seus seios e chupo-os furiosamente. Annie abre o zíper do meu jeans e puxa o meu pau para fora, logo ela está cavalgando em mim.

Como todas as vezes que temos feito isso, gememos e saboreamos tudo um do outro. Queria pensar que isso é apenas sexo, contudo, quando paramos, sempre quero abraçá-la e enchê-la de carinho. Estou apaixonado por essa mulher que falta um parafuso a menos na cabeça, sei que faria tudo por ela. Estou nessa busca constante para saber quem está por trás desse crime bárbaro, o tráfico, não apenas pelo o meu trabalho, mas pela saúde mental dela. Eu sei que quanto mais garotas livrarmos, mais feliz ela ficará. E como adoro ver os sorrisos nos lábios dessa mulher.
Nossas respirações estão pesadas enquanto tentamos nos recuperar de mais um orgasmo. Annie está deitada sob o meu peito e estou acariciando o seu couro cabeludo. O carpete é frio, porém, o calor que emana de nossos corpos nos aquece.

— Acha que Ryan nos enganou? — indaga.
— Talvez.
— Se ele tiver nos enganado, vou arrancar o brinquedinho dele.

Dou uma risada fraca e continuo a acariciá-la. Nos últimos dias tenho sentido uma vontade quase incontrolável de contar para ela sobre os meus sentimentos, no entanto, o medo de ser rejeitado é ainda maior. Não poderia trabalhar com Annie depois de me declarar, a situação ficaria bastante caótica e sem dúvidas iria atrapalhar o nosso trabalho.

— Annie — engulo em seco. — Preciso contar algo.
— Pode falar — diz distraída com os pelos do meu peito.
— Queria falar algo, só que vai parecer bem louco.
— Bom, nossas vidas são bem loucas, nada irá me surpreender.

Me mexo desconfortavelmente debaixo dela e respiro fundo. Estou me sentindo como um adolescente mais uma vez, apavorado com a possibilidade de falar sobre os seus sentimentos. Sei que vai ser difícil depois que essas palavras saírem da minha boca, entretanto, sei que me sentirei mais leve depois que expuser o meu coração.
Annie sai de cima de mim e me observa com curiosidade. Sinto uma gota de suor se formar em minha testa. Sorrio para tentar aliviar a tensão que se forma no ambiente, contudo, é em vão.

— Estou apaixonado por você — sussurro.
— O que? — grita. — Não escutei.
— Esquece.

Levanto do chão em busca das minha roupas, porém, antes que eu saia do lugar Annie agarra a minha perna. Quando volto o olhar para ela um sorriso tímido está firme em seus lábios.

— Eu escutei.

Pisco confuso.

— E por que pediu para que eu repetisse?

Ela se ergue do chão e fica de frente para mim.

— Porque queria ouvir de novo — morde o lábio quando finaliza a sentença.

Talvez estivesse enganado. Annie sentia algo por mim além de desejo, talvez não fosse o único que alimentava essa vontade de amá-la.

— É mesmo? — ironizo.
— Sim.
— E por que você queria ouvir de novo?

Os seus olhos brilham.

— Porque também estou apaixonada por você, .

Minhas mãos tocam sua cintura, faço o caminho até sua bunda e a puxo em minha direção. Annie envolve as pernas no meu quadril enquanto a sustento, sua boca segue para o meu pescoço. Ela lambe a minha pele no momento que me sento no sofá e a deixo descansar em minhas coxas, deslizo minhas mãos pelo o seu corpo e já estou pronto para ela mais uma vez.


Annie está deitada sob minha cama a mercê de um sono pesado. Como todos os nossos finais de semana, passamos a tarde apreciando um ao outro e acabando com atraso. A tensão sexual não parece diminuir um segundo se quer. Quanto mais tenho dela mais a quero. Não tenho dúvidas que Annie é minha mais nova droga.
Além disso, o sentimento que tem percorrido o meu ser é completamente arrebatador e novo. Quero cuidar dela de uma forma inimaginável. Quero acordar todos os dias ao seu lado e dizer o quanto ela está linda, mesmo que esteja toda descabelada e com maquiagem escorrendo. Não me importo, só quero tê-la todos os dias na minha cama, amando-a.
Saio em busca de algo para comer, pois estou morrendo de fome e assim que abro a geladeira o meu telefone toca encima da bancada, quando vejo de quem é o nome no visor, sorrio.

— Erik?
— Claro que sou eu. — Posso sentir o sorriso em sua voz.
— Como vão as coisas em NY?

Pego um pedaço da pizza que pedimos na noite anterior e sigo para o sofá.

— Cansativas. Apesar de não ter um caso fixo como o que tínhamos, tenho trabalhado quase todos os dias em casos de fraude.
— Fiquei cansado só de imaginar.
— Tiveram algum progresso com o caso do tráfico?
— Sim.
— Você pode me falar?

Penso um pouco. Sabemos agora quem está passando as informações do FBI e sempre pude contar com Erik toda a minha vida, ele jamais me decepcionaria. Sei que estou um pouco receoso com as pessoas depois de Donald, no entanto, Erik é de confiança e ele sempre deu o sangue por esse trabalho, era um ótimo profissional por mérito próprio. Assim como o meu pai.
Começo a falar sobre a nossa desconfiança quando fomos para a Holanda e um de nossos homens falaram que os caras já sabiam que iríamos invadir e também quem eram os nossos espiões. Falei sobre o beco sem saída que nos metemos e como estávamos frustrados com a falta de informação. Contei sobre a decisão, minha e de Annie, de não confiar em ninguém e trabalharmos por nós mesmo. Fui bem detalhista com relação ao sequestro de Ryan, a falta de controle de Annie e a cereja do bolo, o traidor.

— Não posso acreditar — Erik resmunga do outro lado da linha. — Não acredito que esse imbecil fez isso tudo. Ainda bem que não estou aí porque não conseguiria me controlar.
— Nem me fale. Tem sido difícil encarar ele todos esses dias.
— E também não sabia que Annie era tão descontrolada. Já ouvi comentários por aqui sobre a falta de paciência dela, porém, não esperava essa falta de controle de uma agente de renome. Porque, apesar dos pesares, todos falam que ela era impecável no trabalho.
— Eu também fiquei surpreso, entretanto, entendo o lado dela.

O telefone fica mudo um tempo e até penso que a ligação caiu, contudo, Erik volta a falar como se estivesse pisando em ovos.

— Está acontecendo alguma coisa que você não me contou?

E estava. Tinha deixado de lado que Annie tem estado na minha casa quase sempre, que ela tem sido minha âncora para não perder o controle diante de Donald e que eu estava completamente apaixonado por ela. Não fazia ideia do porquê de esconder isso de Erik, ele era meu irmão acima de tudo. Nunca tivemos segredos um para o outro.

— Você está transando com ela.
— O quê? — grito e me amaldiçoou por isso. — Quero dizer... Não sei do que você está falando.
— Não sou idiota, . Agora quero saber por que está me escondendo isso.
— Cara, para falar a verdade...
— Antes que você fale qualquer merda, precisa me ouvir — ele suspira. — Isso é só sexo. Faz tempo que você não se envolve com ninguém. Não deixe isso atrapalhar o seu trabalho. Sei que ela mexeu pra caramba com você, mas se controla.
— Erik, eu estou apaixonado.
...
— É sério. No começo pensei que era apenas sexo, entretanto, depois que a conheci tudo mudou e começou a crescer um sentimento dentro no meu peito... — dou uma pausa, respiro fundo e continuo. — Quero cuidar dela, sinto essa necessidade, além de querê-la sempre perto de mim.
— Só toma cuidado!
— Não acho que tenha que ter cuidado com ela, Erik. Você não a conhece, ela é incrível.

Depois disso, conversamos um pouco sobre a vida dele em Nova York. Ele disse que as bolas dele estavam ficando azuis. Fazia semanas que ele não levava ninguém para casa por causa do trabalho excessivo e já estava ficando maluco. Dei muitas risadas do seu desespero. Era bom conversar com o meu amigo de novo e falar um pouco sobre os meus sentimentos. Fui muito marica, contudo, não me importava. Annie era importante para mim e nada mais nada menos que Erik saber disso, a única família que me havia restado.
Volto para o quarto, noto que Annie continua num sono profundo e aproveito para tomar um banho. Já debaixo do chuveiro deixo minha mente navegar para pensamentos longínquos. Um par de olhos verdes navega pela mente e sorrio. Noite passada sonhei com os olhos de Annie, não podia ver o seu rosto e fiquei frustrado, no entanto, quando acordei, o alívio me tomou. Ela estava deitada ao meu lado.
Termino o banho, me seco com uma toalha depois a envolvo em minha cintura. Sigo até o armário, pego a primeira calça de moletom que encontro. Ouço um resmungo, olho para trás e encontro uma Annie desperta e com cara de pós-foda.
Dou uma gargalhada.

— Qual é a graça?
— Não é nada — digo entre risos.
— Pode...

Annie é interrompida pelo ruído do seu telefone, ela captura o celular na mão e arregala os olhos. Logo ela atende a chamada e fica em silêncio ouvindo a pessoa do outro lado. Há um sorriso em seus lábios e me sinto incomodado pelo brilho nos seus olhos.

— Quando? — ela espera a resposta e sorri. — Isso é perfeito, mas ainda não podemos saber o nome? — ela espera resposta e faz uma careta. — Tudo bem, já entendi. Nos encontramos na sexta.

Ela encerra a chamada e morde o lábio. Espero ela falar algo e quase sinto vontade de sacudi-la para que eu possa receber uma explicação sobre essa merda de ligação.

. — Ela umedece os lábios, me deixando mais ansioso — Era Ryan.

Agora é nos meus lábios que se forma um sorriso. Me aproximo dela e sento na borda cama, ao seu lado.

— O que ele disse?
— Ele vai nos levar até o chefe.



Capítulo 15

Estava ansioso. Pela primeira vez em anos estávamos a horas de descobrir quem era o Chefe do tráfico de mulheres no país. Nem poderia descrever a forma como Annie estava.
Ryan havia passado um SMS para ela explicando o local onde nos encontraríamos e ele nos levaria até a casa do maldito Chefe. Ficamos um pouco receosos com a facilidade, porém, tínhamos que apostar nossas melhores fichas em Ryan. No momento, ele era nossa melhor aposta.
Annie foi para casa se preparar. Acabei ficando em casa me preparando psicologicamente e pegando algumas armas do meu estoque particular. Um canivete em cada bota, uma pistola Bersa calibre 380 na panturrilha e outra no cós da calça, além de colocar um cinto no abdômen que me permite ter duas Magnum calibre 18 a mão e duas recargas extras. Quando começo a colocar a camisa de botões, a porta da frente é aberta.
Eu havia dado uma chave para Annie alguns dias atrás, assim facilitaria o nosso entrosamento.

— Armado? — Annie pergunta assim que adentra o quarto.
— Canivete. — Aponto para as botas e continuo a mostrar os locais onde distribui o armamento — Bersa e Magnum.

Ela dá uma risada.

— Você não confia no Ryan. — Ela tira sua arma das costas — Só estou com uma Walther calibre 22.
— E você confia demais.

Ela se aproxima de mim com um sorriso nos lábios, toca os meus braços e relaxo um pouco a tensão que nem sabia que estava sobre mim.

— É apenas uma missão de reconhecimento. Não vamos entrar em combate corpo a corpo.
— Nunca se sabe. Não confio no Ryan.

Ela sorri.

— Finja confiar nele. Não quero assustá-lo. — Ela morde o lábio, fazendo com que os meus olhos se predam nele. — Ele é nossa única esperança para pegar esses caras e pode ser idiotice, mas acredito nele.
— Sim — digo, sem realmente estar prestando atenção. As palavras dela estão claras, no entanto, os significados não parecem se conectar em meu cérebro. Só queria estar com ela nos braços e fazendo-a gritar o meu nome.
— Você está ao menos prestando atenção no que estou falando? — ela chama minha atenção, porém, continuo com os olhos focados nos lábios dela.

Estou virando a merda de um viciado.
Capturo os seus lábios antes que possa ouvir outra reclamação. Puxo o seu corpo para perto do meu, deslizo os lábios por seu maxilar e volto para a sua boca. Ergo-a e ela envolve as pernas no meu quadril, sigo em direção a minha cama sem desgrudar dela. Deito-a e começo a descer meus lábios pelo o seu maxilar mais uma vez e me frustro quando noto que ela está vestindo uma camisa de botões de cola alta.
Como não percebi isso antes?

— Devíamos parar — diz ofegante.

Encosto a cabeça em sua clavícula sem fôlego.

— Tem razão.
— Talvez, depois da descoberta de hoje. — Ergo a cabeça para observá-la, há um vinco entre suas sobrancelhas e ela está mordendo o lábio. — Talvez pudéssemos fazer uma viagem.
— Outra como a última? Melhor ficar em casa.
— Não. Uma viagem para descansarmos a mente. Um lugar quente. — Faço uma careta de desgosto. Detesto calor. — Se você não gosta de calor, podemos ir para algum lugar frio. Tudo bem.

Ela quer ficar comigo. Annie não gosta de frio, entretanto, ficaria em uma geleira comigo. Não seria uma má ideia tirar umas férias adiantadas, ficar sem olhar para a cara de Donald, poderia fulminar esse ódio que havia nutrido por ele. E passar vinte e quatro horas seguidas com Annie seria a perdição para mim, contudo, não estava me importando com a minha saúde mental no momento. Só queria beber e cheirar da minha droga.

— Um lugar quente está ótimo.

Ela dá um sorriso brilhante e sinto mais vontade de beijá-la. Todavia, me afasto, arrumo minha camisa que acabou ficando desalinhada enquanto a de Annie estava completamente amassada. Ela olha de cara feia para mim e dou um sorriso tímido.
Saímos do meu apartamento, seguimos para o elevador e logo depois entramos no carro de Erik. O telefone de Annie começa a tocar assim que saímos da garagem do prédio, indico a base para o celular que poderá transferir o áudio dele para os autofalantes do carro e ela coloca-o no local.

— ...me seguem — Ryan termina.
— Ryan, poderia repetir, por favor. Colocamos no autofalante — Annie diz.
— Claro — ele faz uma pausa e continua. — Nos encontramos no endereço que passei para vocês, irei passar algumas informações estritamente necessárias e em seguida seguimos para o prédio dele. É óbvio que não irei estacionar lá, entretanto, como estarei em contato com vocês, vou informar quando chegarmos lá.
— Tudo certo, nos encontramos em poucos minutos.

Annie desliga o celular e sinto os olhos dela em mim. O que ela espera? Os parabéns? Pegamos o cara certo naquela boate e estávamos cada vez mais próximos de conseguir tudo o que queremos. No entanto, de prêmio, descobrimos que não poderíamos confiar em ninguém a nossa volta. Não que isso fosse novidade para quem faz nosso trabalho, todavia, o escritório sempre era um terreno neutro. Agora, não era mais.
A ideia de viajar parecia ser mais atraente a cada segundo. Folga era tudo que precisava.
Chegamos a uma rua deserta rodeada de galpões, parecida com a que mantivemos Ryan em cativeiro. Não havia ninguém no local a não ser o nosso informante que estava encostado num Audi R8 na cor preta. Estaciona o carro de Erik logo atrás do dele e saímos.
Observo o local à procura de uma emboscada, contudo, se ele armou para nós, os caras estão bem escondidos.

— Não há ninguém aqui além de nós.
— Por que deveria acreditar em você? — indago, observando o espaço.

Encontro o seu olhar e ele parece achar tudo isso tedioso. Deveria ser tedioso armar para dois federais indefesos e traficar garotas inocentes para todas as partes do mundo. Tudo isso era nojento e quando me permiti refletir sobre toda essa sujeira que esse cara estava metido, sentia vontade de quebrar a cara dele.

— Tudo bem — ele solta um suspiro de cansaço, ganhando minha atenção. — Ele está morando com alguém. Ainda não sei o nome dela, porque ele está mantendo ela guardada a sete chaves.
— Cativeiro? — Annie oferece preocupada.
— Não. A única coisa que sei é que terei de buscá-los em uma clínica dentro de uma hora do outro lado da cidade. Será a primeira vez que a verei.
— Por que irá buscá-lo? — pergunto.
— Problemas no carro dele e ele odeia táxi.
— Mais alguma informação?
— Sim. Não saiam do carro.
— O quê? — eu e Annie quase gritamos.

Ryan bufa frustrado.

— Ele tem a foto de alguns agentes.
— O quê? — A fúria começa a me tomar e a vontade de meter a bala na cabeça de Donald cresce. Preciso bater em algo. Me aproximo da parede de um dos galpões e soco com toda a minha raiva, pedaços da parede se desfazem como poeira.
— Ele tem as fotos de alguns agentes, não são todos.
— Talvez ele não tenha minha — Annie diz tranquilamente. — Acabei de me mudar para São Francisco.
— Talvez — Ryan arrasta a palavra. — No entanto, não vamos arriscar. Permaneçam no carro e façam apenas o reconhecimento.

Ryan se afasta, tira as chaves do bolso e se aproxima da porta do motorista. Antes que ele possa entrar no veículo, seguro o seu braço com força. A mão que soquei a parede está latejando e o movimento piora, porém, ignoro a careta que se forma em meu rosto e encaro o homem a minha frente.

— Por que não diz o nome dele?

Ele dá um sorriso sarcástico.

— Eu direi quando tiver o nome da garota.

Soltando o braço do meu aperto, Ryan entra no carro. Corro para o banco do motorista e não perco tempo, começo a seguir o carro dele sem parecer suspeito.
Deslizamos pelas ruas de São Francisco. Após dez minutos de viagem o celular começa a tocar. Nesse momento estamos rodeados por ruas de prédios residenciais com poucos pontos comerciais, o local parecia bem tranquilo, sem olhos curiosos ou muitas multidões. Na verdade, o lugar parecia completamente desprovido de multidões. Perfeito para um cara que queria passar despercebido.
Annie desliga o celular quase imediatamente depois de atendê-lo.

— Prédio na cor gelo.
— Cor gelo? Não sei o que é isso. Ele usou esse nome com você?
— Sim, e você sabe que cor é essa. Pare de ser bobo.

Estaciono o carro de frente para o prédio de tijolos que fica ao lado do prédio do nosso investigado. Annie pega o binóculo e deixa a postos. Não iremos usá-los, apenas estamos nos preparando para o improvável uso.

— Acha que a garota está metida com ele? — Annie pergunta, após algum tempo de espera.
— Não sei, provavelmente. Eles estão morando juntos, é difícil esconder algo assim por vinte e quatro horas.

Ela fica em silêncio.

— Você está preocupada? — indago.
— Sim. Não posso entender porque uma mulher se aliaria a uma situação dessas.
— Muitas mulheres trabalham como cafetão.
— Eu sei... É só meu pensamento feminista aflorado. Para mim é nojento pensar em mulheres tão infelizes.

O Audi R8 que Ryan estava dirigindo é estacionado logo atrás do carro do meu amigo. Um cara loiro e de porte sai do banco do motorista e segue para o banco do passageiro. Uma cabeça castanha sai de dentro do carro, porém, na hora que ela se vira para o nosso campo de visão, o celular de Annie toca. Apesar do ruído não ter chamado sua atenção, ela tira-o do bolso e estende para mim, ainda com os olhos grudados no casal.
É Ryan.

— Eles já chegaram. Descobriu se a menina sabe de tudo?
— Não. Fiquei surpreso porque ele parece bastante interessado nela — sua voz demonstra o quanto ele se espantou com a descoberta. — Já a conhecia. Ela faria parte da última remessa, no entanto, ele desistiu e agora entendi o motivo. Ele está trepando com ela.
— Tem certeza?
— Acha que ele moraria com alguém que não estivesse comendo?
— Tenho certeza que não.

Desde que descobri o sexo, nunca gostei de abordar ele como se fosse algo qualquer. Era gostoso estar com as mulheres, contudo, sempre abominei as palavras trepar e comer – no sentido sexo. Alguns caras achavam isso normal, inclusive, alguns colegas de trabalho. Eu respeitava a opinião de todos, mesmo achando desrespeitoso.

— Vou enviar os nomes por mensagem. Não consigo confiar inteiramente em ligações.
— Tudo bem.

Desligo o celular no momento que Annie volta sua atenção para a mim.

— Ela parece ser muito nova. Não passa dos dezoito anos.
— Ryan disse que ele parece bastante interessado nela.

O ruído de uma nova mensagem toca os nossos ouvidos. Annie toma o telefone de mim, completamente ansiosa.

— Então?
— Jayden Smith e .
— Nunca ouvi esses nomes.
— Vamos para casa pesquisar um pouco.
— Nada disso, vamos resolver os assuntos da viagem.

Annie ergue a cabeça e me observa como se eu fosse um extraterrestre.

— Não sabia que tinha concordado com essa viagem.
— O quê? — resmungo sarcasticamente. — Você e eu, em qualquer lugar da terra, de preferência como viemos ao mundo? Acha que iria rejeitar isso?

Ela dá uma risada e me vejo sorrindo também.

— Certo. Você ficaria feliz se o deixasse procurando por passagens para o Havaí enquanto pesquiso sobre esses dois.

Reflito um pouco. Isso não é nada romântico. Minha... Namorada? Dane-se! Minha namorada pesquisando sobre um possível casal criminoso enquanto pesquiso passagens para um lugar romântico e tropical. Todavia, nem tudo na vida é como pensamos ou imaginamos. Nada é perfeito.

— Feliz não, mas satisfeito.


Já teve a sensação de alguém sugerir algo para você e no final das contas você ser a pessoa desesperada por aquilo que foi sugerido? Eu sim, nesse momento. Estava rolando o mouse por toda a extensão da página das companhias aéreas e acabei comprando uma passagem para essa noite. Annie ia me matar.
Ela estava na sala fazendo sua pesquisa sobre o casal bandido. Enquanto eu sofria com espera pelo fim dessa maldita pesquisa. Não deveria estar assim, pela primeira vez em anos sabemos quem está por trás disso. Annie só está fazendo o seu trabalho como ela sempre faz, perfeito. Assim como eu estou fazendo o trabalho de cuidar dela.

— Terminei.

Ela entra no quarto sem nada em mãos, porém, com um sorriso satisfeito nos lábios.

— Conte-me o que descobriu.

E ela contou. Tudo.
Jayden Smith era filho de uma prostituta que o abandonou num orfanato do subúrbio de Seattle. Ele e Ryan se conheceram no orfanato e até agora firmavam a “amizade”. Não havia ficha na polícia com relação a Smith, porém, muitas com relação a Ryan – já tínhamos pesquisado sobre isso antes – envolvido em brigas de bar. Smith parecia ser o anjinho da sociedade, no entanto, se qualquer ser inteligente, que estivesse por dentro da investigação e que soubesse do envolvimento de Ryan nisso tudo, acharia bastante suspeito o número de vistos que o passaporte de Smith tinha. Não havia dúvidas. Ele era o nosso cara.
Contudo, sobre tudo estava muito vago. Ela era órfã, dezoito anos e completamente sozinha no mundo. Não havia ninguém ligado a ela de acordo com as pesquisas. A garota era um verdadeiro mistério.

— Precisamos de um plano para saber se ela está no esquema e se ela não estiver temos que avisar sobre o perigo que Smith representa.
— Vamos pensar nisso com calma. — Sorrio — Comprei nossas passagens.
— Já? — diz de olhos arregalados. — , não sei se é uma boa viajarmos agora. Poderíamos pegar eles logo.
— Claro que não. — Coloco o notebook de lado e toco os ombros da loira. — Algo dessa proporção precisa ser pensado e trabalho com calma. Meses de trabalho. Sabemos que temos que ser cautelosos. Não podemos perder Smith de vista, se ficarmos alarmados no trabalho, será ainda pior. Vamos com calma. Viajar vai aliviar a tensão que temos carregado todo esse tempo e nos ajudar a armar um plano melhor para tudo isso.

Ela está mordendo o lábio e quase me distrai com a sua boca carnuda, entretanto, volto os meus olhos para os seus verdes. Ela vai concordar. Sei que vai.

— Tudo bem. Para quando?

Dou um sorriso tímido.

— Hoje.

E começo a ser atacado por uma enxurrada de travesseiros.



Capítulo 16

Quem acredita em contos de fadas? Eu não. Porém, minha vida estava parecendo um.
Jayden era maravilhoso, sempre cuidando de mim e se preocupando com o que queria.
Assim que me mudei oficialmente para o seu apartamento, ele me levou para fazer um checape. Nunca havia entrado em um hospital particular em toda a minha vida e fiquei maravilhada com as paredes na cor branca com azulejos azul marinho fazendo uma linha única na altura dos meus ombros. O doutor que cuida do estômago disse que precisava fazer uma endoscopia e fiquei bem assustada quando ele me explicou com era, no entanto, acabei vendo nada na hora. Sofri à toa.
O último que fomos foi a ginecologista. Jayden não entrou na sala comigo e agradeci por isso. Ela começou a falar sobre minha vida sexual e foi bem constrangedor. No fim, acabamos optando pela pílula anticoncepcional, fiquei um pouco com medo de me esquecer de tomá-la, entretanto, como havia ganhado um iPhone de Jayden, coloquei ele para despertar nos horários certos.
No dia da ginecologista o carro de Jayden deu problema e um amigo dele levou o carro dele para usarmos. Ele era loiro, olhos azuis e a pele branca como a neve, Ryan parecia simpático, no entanto, não conversamos muito. Ele trabalhava com Jayden e pelo o que entendi, se conheciam desde a adolescência ou poderia arriscar e dizer que desde a infância.
Depois que comecei a tomar as pílulas, Jayden ficou insaciável. Esse homem definitivamente era demais para mim. Suas investidas na cama me surpreendiam a cada dia, isso quando conseguia ficar acordada para me surpreender. Na maioria das vezes, desmaiava de exaustão e quando acordava já estava de manhã e tinha que correr para me arrumar e ir para escola.
Poderia dizer que não aguentava mais sexo, contudo, não iria tão longe. Perder a noção do que tem ao seu redor era uma sensação maravilhosa e não poderia reclamar das melhorias no meu corpo. As minhas carnes estavam durinhas por causa do excesso de sexo e quem sou eu para reclamar.
Há um mês terminei o colegial. Até agora não acredito que isso aconteceu. Finalmente estava livre de matérias chatas e preparada para algo novo. Não sabia o que faria daqui para frente, sentia um medo enorme de pedir a Jayden para pagar a minha faculdade. Não queria parecer interesseira, todavia, ficar o dia em casa me deixava maluca. Adquiri o hábito de ler, mas não era muito. Colleen Hoover era salvadora do tédio, entretanto, já tinha lido todos os livros dela e precisava de algo novo. Jayden comprou livros de culinária para mim e comecei a testar coisas diferentes para as refeições. O meu namorado dizia que eu era uma verdadeira chefe. E tudo isso me fazia querer me tornar uma.

— Essas panquecas estão divinas! Você não existe, — Jayden resmunga de boca cheia.

Hoje fiz simples panquecas americanas, coloquei xarope maple por cima da montanha, chantilly e três morangos. Podia ser modesta, no entanto, esse era meu café da manhã preferido.
Pego o meu copo de suco de laranja e bebo transbordando de prazer.
Duas coisas eram certas na vida, existia o prazer na cama e na comida. Os dois eram divinos.

— Estava pensando — Jayden murmura, depois de empurrar uma garfada de panquecas goela abaixo com a ajuda de um gole de suco. — Você poderia fazer faculdade. Deve ter alguma faculdade aqui que tenha gastronomia.

Engulo em seco.
Não podia acreditar que ele estava me falando isso.

— Você está falando sério?
— Claro — responde como se fosse algo óbvio.

Salto do meu banco e me jogo nos braços de Jayden. Nunca fui uma garota de escândalos, contudo, queria muito gritar. Começo a beijar o rosto do loiro em todos os lugares e ele dá risadas gostosas que tocam fundo no meu coração.

— Se eu soubesse que seria atacado assim, teria sugerido isso antes.

Dou uma gargalhada jogando a cabeça para trás.
Jayden desliza a mão, que não me mantém em seu colo, no meu rosto e nos encaramos por alguns segundos quando nossos olhos se encontram. Nossos lábios se chocam e sinto o meu corpo aquecer imediatamente, ele sempre teria esse efeito sobre mim.
Nos afastamos e volto ao meu posto no banco, assim que me sento, sinto uma tontura e quase derrubo o copo de suco que estava segurando.

— Você está bem? — Jayden pergunta preocupado.
— É o anticoncepcional — respondo, com os olhos fechados procurando me recuperar.

Desde que comecei a tomar a pílula, tenho sentido enjoos e tonturas insuportáveis. Nas últimas semanas as tonturas estavam piores, já estava me preocupando. Então resolvi marcar uma consulta com a ginecologista para ver se encontrávamos outra forma contraceptiva.

— Marquei uma consulta com a doutora para resolvermos isso.
— Que horas?
— Duas.
— Eu levo você.

Respiro fundo.

— Não precisa, pego um táxi. Você está cheio de trabalho.

Ele toca a minha mão e leva-a até os lábios.

— Você sempre será minha prioridade.

Sorrio e resolvo não discutir.


Estou na sala de espera da Dra. Allen há vinte minutos, ela está atendendo a paciente que chegou atrasada, ocasionando no atraso de todas as outras consultas. Para a minha sorte, tinha trago um livro, se não teria que recorrer às revistas velhas.
A porta do consultório é aberta, uma mulher de boa aparência e nariz empinado sai da sala, segue para a recepção e logo vai embora.

— ouço o meu nome.

Viro-me para a mulher loira de olhos castanhos, vestida com o jaleco branco. Ela sustenta um sorriso sincero nos lábios.
Levanto-me e sigo para dentro do consultório.

— Boa tarde, .
— Boa tarde, Dra. Allen.

Sento-me na cadeira que fica logo à frente da mesa enquanto a doutora se direciona a dela. As paredes do local são pintadas de marfim, as cortinas e móveis na cor marrom deixavam o local aconchegante.

— Algum problema? — a doutora chama minha atenção.
— Sim. — Dou um sorriso tímido — Tive um pequeno problema com as pílulas.

Ela ergue a sobrancelha.

— Que tipo de problema?

Mordo o lábio.

— Tenho sentido tontura e enjoos desde que comecei a tomar e nas últimas semanas piorou.

Ela me observa com o rosto impassível. Durante algum tempo o silêncio reina no local e só ouvimos os ruídos do ar condicionado ligado. Sorrio timidamente para influenciá-la a dizer algo, pois esse silêncio me incomoda.

— Tudo bem — por fim, ela diz. — Vamos trocar a pílula, porém, terá de começar essa apenas quando terminar a cartela que está usando.
— Ela já acabou.
— Oh! Ótimo. — Dra. Allen abaixa a cabeça e começa a escrever no que acredito ser uma receita — Sua menstruação está em que dia?

Abro a boca, franzo o cenho e fecho a boca.
A pílula tinha acabado há duas semanas e como a menstruação estava atrasada, não me preocupei em começar a próxima cartela, até porque não fazia parte do procedimento.

— Na verdade, ela está atrasada.

Pressionando os lábios numa linha fina, a doutora colocou os braços cruzados no peito.

— Quantos dias?
— Duas semanas.

Ela acena, em seguida abre uma das gavetas de sua mesa e tira uma caixinha, de dentro é retirado algum tipo de termômetro que logo identifico ser um teste de gravidez.
Olho o objeto apavorada.

— Não estou grávida — minha voz transparece o meu pânico.
— Calma, o teste só é para tirarmos a dúvida. É melhor tirar essa dúvida do que se corroer com ela na espera da barriga crescer.

Minha respiração está pesada, meu coração se acelera a cada segundo. Respiro fundo tentando me acalmar, no entanto, não parece ter resultado. A doutora estende o aparelho para mim e o pego com as mãos trêmulas, ela me guia até o banheiro que fica logo no final da sala e fecha a porta assim que entro. Dentro do retângulo espaçoso demais para um banheiro, posso ouvir o meu coração bater nas minhas costelas num ruído ensurdecedor.
Sento no vaso sanitário polido e faço o que tenho de fazer. Fico observando o objeto que pode definir a minha vida por cinco minutos até que duas linhas aparecem. Saio de dentro do banheiro e entrego para a doutora. Sento-me na cadeira me sentindo um pouco tonta e com lágrimas nos olhos. Não sei o que duas linhas significam, contudo, sei que não é bom.

, parabéns, você está grávida.

De imediato, sinto as lágrimas quentes rolarem pelo o meu rosto e desespero tomar conta do meu peito.
Grávida?
O que Jayden iria pensar? O que seria da faculdade? Como iria conseguir levar isso adiante? Como poderia cuidar de uma criança com apenas dezoito anos? As inúmeras perguntas me deixavam ainda mais tonta, a doutora falava das precauções que deveria ter a partir de agora enquanto sentia que poderia desmaiar a qualquer momento.

— ...terá de fazer um exame de sangue apenas para comprovar o que já sabemos...

Levanto a cabeça, seco as lágrimas e sinto um fiapo de esperança se formar dentro de mim.

— Quer dizer que o teste pode estar errado?

Ela levanta a cabeça do papel no qual escrevia e me observa confusa.

— É quase impossível que o teste esteja errado.
— Mas pode estar?
— Quase impossível, . Entretanto, se deseja tirar a dúvida, podemos fazer um ultrassom transvaginal que será muito mais rápido e poderemos saber de quantas semanas está o feto.
— Podemos fazer isso agora?
— Claro — responde com um sorriso simpático.

Nos levantamos e seguimos para uma porta que fica próxima ao banheiro. Entramos em uma sala onde há uma maca e alguns aparelhos nos quais acredito fazerem parte do ultrassom. Ela pede que eu coloque uma bata atrás do biombo e logo depois me deite na maca, eu o faço.
Me preparo para o ultrassom.

— De fato, , você está grávida em torno de cinco a seis semanas.

E a decepção mais uma vez preenche o meu peito. Sabia que criança era uma benção, todavia, o que uma garota de dezoito anos iria fazer com uma. Não poderia nem imaginar o que Jayden faria quando contasse.
Após o ultrassom, a doutora prescreve algumas vitaminas, remédio para enjoo, afirma que devo ter uma alimentação rica em alimentos saudáveis, fico estática enquanto escuto ela me passar todas as informações necessárias. Não consigo absorver nem metade do que ela fala.
Começo a agir no automático. Assim que a consulta termina, saio do hospital e chamo um táxi, quando chego em casa, me sinto perdida. Tudo parece tão normal a minha volta, entretanto, meu mundo estava virando de cabeça para baixo. Não posso ter essa criança, ela só vai me trazer problemas. Contudo, não consigo me ver em uma clínica de aborto e muito menos entregando um bebê para adoção. Essa criança é um erro e não há solução a não ser criá-la.
Ouvi tantas vezes sobre instinto maternal em filmes, livros e revistas, no entanto, não conseguia sentir nada. Será que o problema era eu? Não ter crescido com uma mãe afetou algo em mim? Por que não conseguia aceitar isso? Talvez porque estivesse vendo o meu sonho se despedaçar em migalhas a minha frente. Logo quando Jayden disse que pagaria minha faculdade.
Jayden. E se ele me abandonar quando souber do bebê? Céus, estaria perdida. Se isso acontecesse, ele me mandaria para Nova York? Quem sabe ele pudesse fazer isso, lá teria Rachel e Holly para me ajudar. Sei que elas não me deixariam.
Sigo para o quarto e deito na cama. As lágrimas voltam a cair e as deixo rolar em busca de algum consolo. Nem ao menos tinha família para me ajudar, estava completamente sozinha nesse mundo louco e cruel e agora tendo uma criança no meu ventre que seria minha família, só que eu teria de cuidar dela. Era doloroso pensar no quanto tudo isso seria difícil.

? Você está bem?

Permaneço com o rosto virado para o outro lado, observando a porta de vidro, vendo o sol se pôr. Jayden sobe na cama e me abraça. Minhas lágrimas silenciosas aumentam e não faço ideia de como detê-las.

— Jayden, o que sente por mim? — digo em meio às lágrimas.
— Sou apaixonado por você — sussurra e beija a minha nuca.
— Você me abandonaria?
— O que? — resmunga. — Claro que não. , por que está falando essas coisas?

Ele vira-me e se espanta ao ver meu rosto banhado de lágrimas.

— Por que está chorando? Está doente?
— Não.
— Então, o que aconteceu?
— Eu... — engulo em seco, afasto suas mãos de mim e grito. — Estou grávida.

Enfio o meu rosto entre os travesseiros e deixo os soluços tomarem conta do meu corpo. Ele não tenta me tocar, deixando claro que não há possibilidades dele aceitar essa criança e que logo me mandará embora desse apartamento com uma mão na frente e outra atrás.
Minha blusa é erguida e a mão de Jayden desliza pela minha barriga. Levanto a cabeça e o observo espantada, ele está de frente para a minha barriga e parece sussurrar algo.

— O que está fazendo?
— Conversando com o nosso bebê.
— Quê?

Ele beija a minha barriga, fica de frente para mim e me encara.

— Achou que iria abandoná-la só porque está grávida? — Engulo em seco e baixo os olhos, envergonhada. Depois de tudo que Jayden mostrou sentir por mim, ainda conseguia duvidar dele — Jamais abandonaria a mulher que amo, grávida do meu filho.
— O que você disse?
— Que jamais abandonaria a mulher que amo, grávida do meu filho.

Os meus olhos se enchem de lágrimas, porém, essas são de alegria.

— Jay...
— Eu amo você, , e amo essa criança que carrega no seu ventre. Ele ou ela é fruto do nosso amor. Não poderia ter tido algo melhor na minha vida do que você dois ou duas.

Ele dá uma risada transbordando alegria.
Capturo os lábios dele e me perco no seu toque. Ele me amava e não me abandonaria. Jayden estaria comigo todos os dias e noites. Finalmente me sentia segura para descansar.



Capítulo 17

Jogamos as malas perto da porta e nos arrastamos até o meu quarto. A viagem para o Havaí tinha sido maravilhosa e relaxadora. Sinto o meu corpo mais leve.

— Preciso de um banho — Annie resmunga. — Parece que passei uma semana sem tomar um.
— Não exagere, só foram algumas horas de voo.

Ela se aproxima e funga perto no meu pescoço.

— Você precisa de um banho.

Ergo a sobrancelha.

Fecho a porta do chalé e me jogo na cama. O local que havia reservado para nossa estadia no Havaí era confortável e deserto. Ele fazia parte de um conjunto de chalés que tinham os mesmos serviços de um hotel, a única diferença era que eles eram isolados, eram distribuídos em pedaços da areia a alguns quilômetros um no outro.
— Vamos tomar um banho? — Annie suspira.
Ela ainda está de pé e se nega a deitar sem tomar uma bela chuveirada.
— Estou cansado.
As horas de voo tinham acabado com toda a energia que tinha adquirido no dia anterior.
Uma bela noite de sono aliviaria a dor nos músculos e o peso na cabeça.
— Também estou, mas estamos podres.
Cheiro minha camisa.
— Não estou podre, talvez você esteja mesmo.
Pela segunda vez, em menos de vinte e quatro horas, sou atacado por travesseiro que seria capaz de rachar minha cabeça. Até porque, quem manipula a arma faz toda a diferença.
— Para, estou indo.
Levanto-me e começo a tirar a roupa, jogando-a no chão e me sentindo um pouco emburrado. Invés de uma namorada, ganhei uma mãe. Annie tinha adquirido o hábito de mandar em mim, e se não obedecesse, ela ficava emburrada o dia todo. Claro, sexo curava-a, contudo, tinha os momentos que ela me negava o seu corpo e quem acabava emburrado era eu.
O chalé era sofisticado, apesar de ser tão isolado. As paredes de madeira polida e envernizada, os utensílios delicados e igualmente polidos me deixaram espantado. Quem quer que tivesse trabalhado no local, deveria ter o dom para a coisa.
O Havaí era quente e abafado, então decidi tomar um banho de água fria, pois minha pele parecia queimar. Nunca gostei do calor, muitas vezes me sentia sufocado com o verão de São Francisco, mesmo sabendo que havia lugares piores.
No entanto, aqui estava eu, atendendo às vontades da mulher que preenchia os meus pensamentos.
Quando a banheira já possui água suficiente para que eu possa entrar, deslizo dentro dela e um arrepio percorre o meu corpo. A água está divina. Fecho os olhos e me deleito. Minutos depois a água reclama, quando abro os olhos, dou de cara com uma Annie nua e com um sorriso suspeito nos lábios.
— Com essa água fria como vamos brincar?
Franzo o cenho.
— Ora vamos, . Não se faça de inocente. — Ela senta-se nas minhas coxas e pega o meu pau — Como você pôde achar que havia lhe chamado para o banho sem segundas intenções?

— Você pode ir sem mim. — Sento-me na minha cama e me jogo para trás.

Annie parece pensar um pouco sobre o assunto.

— Tem razão, nada de banhos juntos por hoje.

Dou uma gargalhada.
Ela segue para o banheiro. Estou tão moído da viagem que não demora que o sono me pegue.

O sol está queimando a minha pele e estou quase entrando em desespero. Não sei quantos vidros de protetor solar já passei, acho que essa ardência quer dizer que não foi o suficiente. Estamos há uma semana aqui e fiz o possível para manter Annie dentro do chalé, porém, sabia que uma hora ela me obrigaria a vir para o sol.
Ela está deitada em uma espreguiçadeira usando um mini biquíni azul – muito pequeno para os seus peitos – e óculos escuros com armação de desenhos abstratos. Sua pele está brilhando com óleo que ela disse ser um bronzeador e protetor. Fiquei bastante preocupado com o fato da substância ter os dois agentes, contudo, nunca iria discutir com Annie.
— Por que está com essa cara?
Viro-me para ela, confuso.
— Essa é a minha cara.
— Não, seu bobo. Essa expressão.
— Não tenho uma relação muito boa com o sol.
Ela dá uma risada.
— E por que escolheu o Havaí?
— Por você.
Um sorriso doce se forma nos seus lábios. Ela se levanta da espreguiçadeira e planta um selinho nos meus lábios, puxo-a para os meus braços, sua pele está queimando e cheirando a amêndoas. Uma vontade de deslizar a língua sobre ela, quase é saciada, contudo, Annie se afasta dando uma risada.
— Vamos deixar isso para mais tarde.
Esperei ansioso. Às horas se passavam e sua promessa não se cumpria.
Depois que o sol se pôs e a noite se apoderou do local, me senti exausto. O sol havia drenado todas as minhas energias. Minha cabeça estava caindo a cada dois minutos, o sono queria me dominar, no entanto, a promessa de hoje cedo ainda estava intacta na minha mente. Annie estava no banho há dez minutos, o meu corpo já tinha desistido a tempos de tê-la, entretanto, o meu cérebro era persistente.
Quando ela saiu do banheiro, me encarou com um sorriso nos lábios, coberta apenas por uma toalha branca. Annie se dirigiu a porta da sacada, que tinha acesso à praia, soltou a toalha, que deslizou lentamente pelo o seu corpo, e partiu às pressas para a água do mar.
Fiquei um pouco em pânico por alguns segundos. O medo de alguém acabar vendo ela nua me deixou louco. Contudo, estava escuro e os chalés eram tão distantes que seria improvável que alguém a visse.
Tirei o short que estava usando juntamente com a cueca e corri até a água. Assim que o meu corpo entrou em contato com o pacifico a água morna, começou o processo de aquecimento. Me aproximei de Annie.
— Já disse o quanto é maluca?
— Não — respondeu, e prendeu o lábio inferior entre os dentes.
Puxei-a para os meus braços, precisava tê-la. Estava pronto para deslizar dentro dela e ouvi-la gritar o meu nome.
A pele dela misturada com a água do mar era ainda mais deliciosa. Era diferente fazer isso dentro do oceano, porque não tínhamos onde nos apoiar. No entanto, o desejo que se alojava no meu corpo não se importava com isso, apenas queria possuir Annie naquele momento.

— Terra chamando — a voz de Annie me desperta.
— Tirei um cochilo.
— Percebi.

Annie está vestindo um dos meus moletons, os seus cabelos estão molhados, seus olhos estão baixos e há bolsas sobre eles. Tenho certeza que minha aparência não está nada boa, uma viagem poderia acabar com alguém. Isso já sabíamos.
Me dirijo ao banheiro a passos lentos. Quando tropeço na calcinha de Annie os meus lábios se partem num sorriso. Apesar dela ser um pouco bagunceira, gostava de tê-la ao meu lado sempre, uma sensação calorosa tomava conta de mim e sempre sorria sem um motivo aparente.
Na verdade, desde a morte do meu pai, ou mesmo antes. Annie era o motivo do meu sorriso, tudo que ela fazia – até quando me irritava – o meu coração explodia de gozo. Ela era especial em todos os sentidos. Ela era boa em tudo, menos em cozinhar. Provavelmente, se dependêssemos da comida que ela faz morreríamos rapidamente, aquilo era tóxico. Todavia, isso poderia ser ignorado. Não tinha importância para mim. O meu desejo era tê-la todas as horas, todos os dias ao meu lado. Cuidar dela era uma missão que sentia prazer em cumprir. Fazíamos uma bela dupla e pela primeira vez na vida conseguia ver o que era cumplicidade. O que tínhamos era isso e de forma alguma queria perder.
Queria que ela fosse minha. Annie poderia gritar para o mundo inteiro que era minha, só que não conseguia sentir que era o suficiente. Precisava de mais. Precisava de provas. Um anel no seu dedo e a mudança no seu nome me deixaria tranquilo, mesmo que isso parecesse estúpido e precipitado. A minha alma ansiava por isso e porque não atender a um desejo dela. Não importava se existia a possibilidade de rejeição. Eu a amava. Eu a amava e esse sentimento fazia valer o risco.
Saio do banheiro após um banho refrescante e calmante. O cansaço evaporou. Tudo que quero nesse momento é colocar uma aliança no dedo de Annie e chamá-la de Sra. .
Visto a calça do moletom que Annie está usando e volto os meus olhos para a cama. Minha amada caiu no sono. Fico receoso de acordá-la, porém, se não fizer isso, ficarei louco.

— Annie. — Toco no seu corpo e ela resmunga — Annie, por favor, acorde.
— O que quer, ? Estou cansada — murmura.
— Preciso conversar com você.
— Não pode ser amanhã?
— Não.

Ela bufa, levanta-se com dificuldade e me encara sonolenta.

— O que é tão importante?

Sorrio.

— Casa comigo?

Annie arregala os olhos e se engasga.

— O que? — grita, quando se recupera.
— Casa comigo?

Ela engole em seco.

...
— Casa comigo?
— Pare de fazer essa pergunta — sussurra, tentando evitar o sorriso que insisti em se formar nos seus lábios. — Nos conhecemos há pouco tempo...
— Quero cuidar de você.
— Eu sei, ouvi falar isso na Holanda.

Meu sorriso se amplia.

— Eu amo você.

Annie pisca algumas vezes, suas bochechas ficam vermelhas e um sorriso estonteante se forma nos seus lábios.

— Eu também amo você — sussurra timidamente, como uma adolescente que acaba de receber atenção do cara que sempre foi apaixonada.

Meu coração se aquece com sua declaração.

— Então? Por que não casar? Sim, nos conhecemos há pouco tempo, só que esperei você há tanto tempo — damos uma risada —, que não importa se é cedo. Só quero que você seja minha.
— Já sou sua.
— Mas eu sinto que preciso disso. Claro, não vou forçar você. — Abaixo a cabeça sem saber o que dizer — Eu só...

Annie toca o meu queixo e levanta minha cabeça. Há algumas lágrimas no seu rosto, os seus olhos estão brilhando e um sorriso lindo está colado no seu rosto.

— Eu aceito, . — Pisco surpreso — Eu aceito ser sua esposa.

Levanto-me e puxo Annie para os meus braços. Começo a girá-la enquanto ela grita e ri.
Coloco-a no chão mais uma vez.

— Vamos arrumar as malas.

O sorriso no rosto de Annie se desfaz e um vinco se forma entre suas sobrancelhas.

— Não entendi.
— Vegas.
Sua boca se abre e fica estática.

— começa, quando se recupera do choque.
— Por que acha que te acordei?

Ela pensa um pouco e dá de ombros.

— Bom, as malas já estão prontas. — Ela aponta para as malas que continuam intactas na sala.

Não foi difícil encontrar um voo para Las Vegas em plena segunda à noite. Ficamos bastante elétricos durante todo o voo e não sabemos como não fomos expulsos do avião, até porque já era madrugada e muitos estavam tentando dormir.
Quando o avião pousou finalmente, sentimos o cansaço de duas viagens e quase adormecemos no táxi. Assim que chegamos ao hotel, mal conseguíamos ficar de pé. Abrir a porta do quarto foi uma luta, contudo, quando conseguimos, caímos na cama.
Não fiquei surpreso quando acordei no outro dia e já eram duas da tarde. Annie surtou e me derrubou da cama, fazendo com que caíssemos numa crise de riso. Depois, ela correu para o banheiro e ficou gritando que teria de comprar nossas roupas, que ela queria que fosse bonito, apesar de ser às pressas. Eu ficaria no hotel para agendar nossa hora com o Elvis.
Annie saiu cantarolando do banheiro, e como ela cantava mal. Me beijou e foi se vestir. Assim que ela terminou de vestir uma calça jeans e um top, saiu às pressas do quarto de hotel. Ela estava animada com o casamento, contudo, parando para pensar melhor, não sabia se essa era uma boa ideia. Nunca perguntei a Annie se era do seu desejo se casar na igreja ou até mesmo ter um casamento grande. Será que o pouco que estava oferecendo era o suficiente?
A melhor forma de acabar com as dúvidas que assolam o nosso coração, é conversando com a pessoa. No entanto, não sei se saberia abordar o assunto, então, resolvo ligar para a única pessoa que poderia me ajudar.

?
— Erik, pedi Annie em casamento — solto.
— Uou, tudo bem comigo, ainda bem que perguntou. — Ele suspira — O que te deu na cabeça para pedir tua parceira em casamento?
— Eu a amo.
— Pelo visto estou perdendo muita coisa — sua voz demonstra certo desconforto e não sei se é porque resolvi me casar de uma hora para outra, ou porque ele não está aqui para me encher com os seus conselhos de mãe. — Se você tem certeza dos seus sentimentos, quem sou eu para questionar o que você faz ou deixa de fazer.
— Obrigado.
— Quando será o casório? Já marcaram a data? — indaga alegremente.

Abro a porta de vidro do quarto que me leva a uma pequena varanda com duas poltronas de couro branco, sento-me em uma delas e coloco as pernas sob o encosto da sacada.

— Estamos em Vegas.
— Sim, mas... — A linha fica muda, distancio o telefone do ouvido para saber se a chamada foi encerrada, entretanto ela continua intacta. Quando volto os meus ouvidos para celular quase o derrubo com o susto que levo com os gritos de Erik — Você tá maluco? Perdeu o juízo? Vocês estão no meio de uma investigação.
— Calma, cara. Se eu tivesse mãe, tenho certeza que ela agiria assim.
— Foi mal. Estou parecendo um marica, isso é ressentimento porque não vou ser o seu padrinho.
Dou um gargalhada.

Annie comprou uma camisa de botões e uma calça branca e deixou devidamente postada sob a cama. Tinha saído para resolver em qual capela iríamos receber a benção do Elvis e quando voltei, ela já tinha passado no quarto, deixando as roupas para trás e um bilhete avisando que estaria em outro quarto. A explicação era que demoraríamos muito se nos arrumássemos no mesmo quarto. Não tiro a razão dela.
Tomei um banho quente para relaxar os músculos e refleti um pouco mais no que estava fazendo. No fim das contas, acabei não conversando com Erik sobre as minhas dúvidas e isso estava corroendo o meu peito. Com medo de perguntar a Annie se ela queria mesmo isso, não queria receber uma resposta negativa. Porém, se continuasse com isso martelando na minha cabeça ficaria louco.
Depois do banho vesti a roupa que Annie tinha comprado e fiquei a sua espera.
Uma hora depois de estar pronto, escuto o ruído da fechadura sendo aberta. Assim que a porta se abre, fico embasbacado. Annie está usando um vestido de alças finas, justo nos seios e solto no restante do corpo, ele vai até o meio da coxa. Há uma espécie de xale de linho envolta dos seus ombros, caindo pelos braços delicadamente.

— Pode fechar a boca, Sr. .

Olho para o seu rosto. Os seus lábios estão pintados num rosa claro e sua maquiagem é leve, mostrando a Annie com quem queria me casar. Ela não precisava de nada no seu rosto, Annie era perfeita, contudo, as mulheres se arrumavam para elas e não para os homens.

— Temos um compromisso essa noite, futura Sra. .
— Temo que sim.

Dobro o braço para que ela envolva o seu no meu.
O caminho até o hall do hotel é preenchido pelas minhas dúvidas e medos.
Não tinha muito tempo para pensar no assunto e expô-lo a minha futura esposa.
Um dos empregados do hotel conseguiu um táxi para nós e logo estávamos a caminho da capela escolhida.
Annie observava os prédios coloridos com um sorriso nos lábios.

— Annie. — Ela vira-se para mim, ainda com o sorriso intacto — Algum dia, você desejou um casamento grande?

Engulo em seco.
Ela inclina a cabeça e me observa como se fosse um experimento, o seu rosto demonstra uma expressão angelical que aquece o meu peito.

— Na verdade — ela alisa o vestido que não possui nenhum amassado, todavia sei que é apenas nervosismo —, nunca pensei que iria me casar. Sempre vive intensamente e nunca pensei em construir uma família. Tinha todo o meu futuro construído na minha mente, sendo a melhor no que faço e me esforçando dia e noite para receber o título de “a melhor”. Mas aí você apareceu, acabando com tudo que tinha imaginado e que tinha construído. Me obrigando a fazer novas construções e nelas estão você e quantos filhos tivermos de ter. Não posso mais imaginar um futuro sem você nele e um mini- ou uma mini-Annie.

Dou uma risada e sinto uma lágrima rolar pela minha bochecha, antes que a pegue, Annie a captura com um sorriso doce na face.

— Fico feliz em ouvir isso.



Capítulo 18

Pela segunda vez em menos de uma semana jogo as malas próximo à porta de entrada do meu apartamento. Dessa vez, não me sinto tão cansado. Me sinto renovado, um novo homem.
Agora, tinha uma esposa a quem recorrer e que poderia recorrer a mim a qualquer momento.
Apesar de não estarmos exaustos, acabamos deitando no sofá e nos agarrando como dois adolescentes. Pedimos comida chinesa e comemos tudo – e não foi pouca comida. Depois de empanzinados e completamente sem forças para se agarrar e, muito menos fazer sexo. Chegamos a um território perigoso.
Onde vamos morar?
Isso poderia ser facilmente resolvido se Annie não fizesse questão de ficar no seu apartamento bagunçado. Ela insistia em dizer que não era justo eu ter um apartamento e ele do nada ser dela. Para mim, isso não fazia sentido, porque se esse era o caso, por que iria morar no apartamento dela?

— Ele não é meu.

Bufo sem paciência.

— Pior ainda. Por que vamos ficar num lugar alugado? — Ela faz bico e quase desisto do meu argumento — Não adianta fazer essa cara. Olhe para a lógica, meu amor.

Ela sorri e suas bochechas coram.

— Gosto quando você me chama de meu amor.

Balanço a cabeça sorrindo com os lábios.

— Não me distraia.

Annie respira fundo, se levanta. Ela leva o polegar até a boca e começa a morder a carne ao redor das unhas. Caminhando de um lado para o outro, me deixando um pouco tonto. Começo a sentir um pouco de sono, já se passaram minutos e ela ainda está ziguezagueando pela sala.
Quando estou quase caindo, Annie grita me fazendo dar um pulo, saco a arma que fica embaixo da mesa de centro e aponto para nenhum lugar específico.
Assim que encontro os olhos de Annie, ela está piscando completamente confusa. Seus olhos caem na arma, ela se abaixa e acredito que esteja à procura de mais armas embaixo da mesa de centro. Quando não acha nada, ela se levanta e me observa de forma curiosa.

— Você é sempre preparado?

Relaxo e abaixo a arma.

— Tento.

— Bom saber que o meu marido não é um tonto.

Sorrio.

— Bom ouvir você me chamar de marido.
— Também gosto da sensação dessa palavra na minha língua — murmura pensativa. — Voltando! Tive uma ideia. Podemos alugar uma casa, nada de apartamentos. Sempre quis morar em uma casa com jardim, piscina, garagem. Contudo, em Nova York só morei em apartamentos e quando vim para cá, era a opção mais fácil.

A lembrança dos imóveis do meu pai – na verdade, meus – vem a minha mente e quase dou essa sugestão. Se ela não quer um lugar meu, por que aceitaria uma casa minha? Talvez fosse uma questão de comodidade. Eu já estava acostumado com o apartamento, mesmo que ela passasse as noites aqui nos últimos meses, o local ainda era estranho para ela. Se nos mudássemos para uma casa desconhecida, poderíamos construir um cotidiano e nos sentiríamos talvez, mais confortáveis assim.

— Você sabe que meu pai me deixou muitos imóveis...
— Não, . Continua sendo seu — comenta, negando com a cabeça.

Puxo-a até mim, nos sentamos no sofá e olho no fundo dos seus olhos.

— Amor. — Ela sorri — Se nos mudássemos para qualquer um dos imóveis seria algo novo para nós. Não é importante que o local seja meu, o que importa é que vamos começar uma vida nova em uma casa nova.
— Faz sentido.
— Claro que faz — digo, aliviado.
— Tudo bem, . Você me venceu, amanhã vamos ver a casa nova.

Quando acordamos na manhã seguinte passamos duas horas verificando os imóveis que meu pai havia deixado. Pulamos os apartamentos e galpões, para a minha surpresa, só tinha duas casas, ou seja, poderíamos visitá-las no mesmo dia.
Saímos de casa animados. Annie não parava de falar sobre como seria a organização e quais seriam as cores dos móveis. Acho que é nesse momento que o marido aperta o botão de desligar e, se liga apenas no trânsito a sua frente. Agora tínhamos aderido o carro de Erik como nosso meio de transporte.

— Temos que comprar um carro — Annie murmura. Meus olhos se voltam para ela, surpreso, por estar pensando algo semelhante a mim.
— Não gosto muito de carros.
— É, mas o Senhor é um homem casado e homens casados são mais cuidadosos.

Solto um suspiro.

— Homens casados são chatos.

Ela empurra o meu ombro e dou risada.

— Você que quis casar.
— Eu sei, já estou arrependido.

Levo um soco no braço e começo a gargalhar.
Viro o volante do carro e entramos numa rua residencial. O lugar era tranquilo. Algumas crianças que aproveitavam as férias de verão estavam brincando nos gramados. Uma das casas estava tendo um churrasco com uma grande quantidade de gente – deveria ser um reencontro de amigos ou família.
Estaciono o carro duas casas depois, saímos do automóvel e observamos a casa pintada de branco, uma varanda pequena tanto no térreo como no segundo andar. Caminhamos até a casa, retiro a chave do bolso e coloco na fechadura. Não há nada dentro do lugar, apenas cômodos vazios, paredes na cor gelo – como diria Annie –, a sala é ampla com o piso de madeira polida que toma conta de toda a casa, próximo à passagem para a sala de jantar tem a escada que leva ao segundo andar. Depois de entrar na sala de jantar, a porta à esquerda leva a cozinha que tem um balcão grande feito com mármore preto. Ouço os pés de Annie subindo as escadas enquanto analiso a porta de tela que leva a outro jardim, só que esse possui uma piscina. Resolvo ir atrás da minha esposa. Subo as escadas, há quatro portas no curto corredor, sigo para a porta entreaberta. Era o cômodo no qual levava à varanda que ficava na parte da frente da casa.

— É lindo — Annie sussurra encostada na porta de vidro que leva a sacada.

Me aproximo e esfrego os braços dela em minhas mãos, como se tentasse esquentá-la.

— Vai querer ver a outra?

Ela vira-se para mim com os olhos brilhando. Meu corpo tomba um pouco para trás completamente impactado pelo amontoado de sentimentos que um olhar pôde me causar.
Havia tanto amor e felicidade. Tinha tanta emoção num único olhar, fazendo com que minhas pernas bambeassem, quase me incapacitando de ficar em pé.

— Essa é perfeita, não preciso ver outra. — Ela se move no cômodo, gira como se estivesse dançando — Já posso ver os nossos filhos crescendo aqui.

Sorrio. A felicidade de Annie sempre seria a minha felicidade.
Envolvo os meus braços em sua cintura. Ela está com um sorriso meigo nos lábios, seu rosto chega a brilhar. É tão lindo observá-la, tão jovem e cheia de vida, completamente o oposto da mulher que tive de beijar alguns meses atrás. A mulher que chorava no leito de morte de uma desconhecida, por não conseguir parar de pensar na irmã que se foi de uma forma tão trágica. Contudo, Annie estava se cuidando agora, indo a terapia para que as angústias do passado não a prejudiquem no trabalho e na vida pessoal.

— Já pensou em como eles serão? — indago.
— Oh, sim. — Seus braços enlaçam meu pescoço — Uma garotinha e um garotinho de cabelos louros, correndo pela casa, acabando com minha paciência, derrubando café na sua roupa do trabalho, e gritando um com o outro pelo lanche melhor. Mesmo tudo sendo igual.
— Uau, passou um filme na minha cabeça. — Beijo sua testa, puxo-a para mais perto de mim, até que ela encoste a cabeça no meu pescoço, então descanso o queixo em sua cabeça — Parece uma vida muito boa, Annie.
— Sim, será a nossa vida.



Capítulo 19

Fiz de tudo para impedi-lo, porém foi em vão.
Jayden insistiu que o quarto do bebê ficasse no lugar do seu escritório. Ele afirmou que não precisava do espaço e era óbvio que usaria para ser o quarto da criança que crescia no meu ventre. Como nunca o via trabalhando em casa, resolvi deixar o assunto para lá. Não fazia sentido discutir por algo tão bobo.
Assim, Jayden resolveu que montaria o quarto, meses antes do nascimento, mesmo comigo dizendo que o lugar iria ficar cheio de poeira. A desculpa dele foi o fato de que poderia pagar alguém para limpar cada milímetro de sujeira.
Como discutir com isso?
Ainda me sentia estranha com o fato de ter um ser vivo crescendo dentro de mim e estava ansiosa para o dia que ele se mexesse, pois só assim saberia se era um monstro ou não. Sim, ainda não conseguia sentir aquele afeto estranho que li nos textos que encontrei no Google. Estava começando a me preocupar com a minha capacidade de amar. Será que não saberia como amar alguém algum dia? Preferia não pensar nessa possibilidade.

— Ryan, virá montar o berço.

Olho para Jayden sentindo-me um bicho preguiça. Já era hora do almoço e um sono terrível me assolava. Minha mão desliza para o pequeno inchaço no meu ventre e suspiro.

— Sabe que horas?
— Não, mas não se preocupe. Ele está com a chave. — Solto um bocejo — Você deveria dormir um pouco.
— Você tem razão.

Levanto-me do banco e me direciono até Jayden, dou-lhe um selinho e ele sorri. Depois se ergue, fica de joelhos e beija o meu ventre.

— Durmam bem.

Dou uma risadinha.
Jayden tem andado mais carinhoso que o normal, parece que a paternidade já o tinha afetado.
Sigo para o quarto arrastando os pés, quando deito na cama não demoro para cair em um sono pesado.

Sou despertada por uma batida na minha barriga. Resmungo.

— Para, Jayden.

Mais uma vez sinto a batida, resolvo me levantar e bater o travesseiro em sua cabeça, talvez assim ele me deixe dormir em paz. Estava exausta. No entanto, para a minha surpresa, não havia ninguém ao meu lado. Outra vez sinto a batida na minha barriga, abaixo os olhos para o meu ventre. Mais uma. Engulo em seco, levo uma das mãos até o inchaço e sinto o movimento mais uma vez.
Algo molhado cai de encontro a minha mão que está sobre o meu ventre e só então percebo que são lágrimas. Uma sensação quente toma o meu peito e meu corpo começa a vibrar. Levo minha outra mão até o meu ventre e forjo um abraço contra o meu próprio corpo. Eu o quero. Quero o ser que está dentro de mim nos meus braços, entretanto, também o quero guardado dentro do meu ventre para que ninguém possa machucá-lo.
Lágrimas molham o meu rosto incessantemente, só que entre elas há um sorriso. O sorriso mais sincero que pude dar em toda a minha existência, esse ser dentro de mim é tudo para mim, é a minha vida em um pequeno caroço de feijão que evoluía a cada dia.
Deito-me na cama mais uma vez. É tão injusto não podermos beijar o nosso bebê quando ele ainda está em nosso ventre. Só aqueles, à nossa volta, podem agraciá-los com esse gesto.
Deslizo minha mão suavemente sobre a pele esticada.

— Eu amo você tanto, meu bebezinho. Eu sei que não parecia me importar, mas me importo. Sua mamãe só é estranha e demora a desenvolver sentimentos, especialmente por quem não conhece. Não tive uma mamãe, contudo você terá e vou enchê-lo de amor até dizer chega.
— Ele ou ela tem sorte.

Dou um pulo da cama. Quando os meus olhos encontram o dono da voz, noto que é Ryan.

— Desculpe pelo susto — diz, com um olhar preocupado.
— Está tudo bem, Ryan. — Levanto-me da cama, seco as lágrimas e sorrio — Você trouxe o berço?
— Sim.

Seguimos para o quarto do bebê que está pintado de lilás. Jayden afirmava que era uma menina, enquanto preferia me manter neutra. Fui bem clara e afirmei que só saberíamos o sexo quando nascesse, ou seja, se fosse um menino, ele teria de dar um jeito.
Já havia um armário, uma cômoda e uma cadeira de balanço, nas cores brancas. O berço já estava fora da caixa e pronto para montar, Ryan se abaixou e começou a trabalhar. Perguntei a Jayden porque ele mandava Ryan montar os móveis do bebê, se poderia contratar outra pessoa para fazer isso, ele informou que não confiava em ninguém para um trabalho tão importante e como Ryan já tinha prática, não valia à pena desperdiçá-lo.
Sentei-me na cadeira de balanço, acariciando meu ventre e observando-o montar o berço.

— Já está de quanto tempo? — Ryan pergunta, após algum tempo.
— Dezoito semanas.

Ele franze o cenho.

— E quanto tempo é isso?

Dou uma risada.

— Um pouco mais de quatro meses.

Ele desce os olhos para a minha barriga, confuso.

— Não está muito pequeno?
— Provavelmente será um bebê pequeno — respondo.

Ele continua o seu trabalho, só que com uma nota de preocupação no rosto. Não sei se ele está preocupado com o bebê ou pensando em algo relacionado ao trabalho. Procuro não pensar nisso, até porque a Dra. Allen disse que estava tudo normal e muito bem. Ela tinha passado uma dieta para mim – não que aquilo fosse uma dieta –, que me permitia comer mais do que o meu corpo desejava, ou seja, Jayden vivia me empanturrando de comida. Só não estava acima do peso porque o meu metabolismo sempre foi acelerado.
O bebê estava bem e me sentia muito feliz com isso.
Assim que Jayden apontou na porta do quarto, Ryan encaixou a última peça.

— Ótimo trabalho.

Levanto-me da cadeira, me aproximo do meu namorado e beijo os seus lábios.

— Trouxe comida italiana, sua preferida. — Somente com essas palavras meu estômago parece saltar.
— Então, vamos logo.

Saio marchando enquanto os dois riem de mim.
Sento no banco e Jayden ao meu lado, Ryan segue para a parte de dentro da cozinha e começa a saborear o jantar, de pé.

— Estava pensando, não escolhemos os nomes ainda.

Ergo os olhos da comida.

— Você acredita que seja menina, pode dar opiniões.
— Que tal, Dolly? — Ryan murmura pensativo.

Faço careta enquanto Jayden ri.

— Hester? — Ryan descansa o garfo contra os dentes — Myrna?
—Ryan, cale a boca! Esses nomes são horríveis — Jayden resmunga.

A cozinha fica em silêncio por alguns segundos e ele é quebrado pela a minha gargalhada.
Os dois me observam surpresos e começam a rir, porém, não há a leveza que esperava.

— Esses nomes são horríveis mesmo, mas obrigada pela tentativa — toco na mão dele para enfatizar as minhas palavras. Antes que possa acrescentar alguma coisa ele se afasta repentinamente.

Pisco algumas vezes, completamente surpresa pela sua ação.

— Acho melhor ir embora.

Olho para o seu prato e noto que ainda tem comida.

— Você nem terminou de comer.
— Lembrei que tenho algumas coisas para fazer em casa.

Meus ombros caem.
Nos últimos meses ele tinha se tornado um grande amigo, sempre que vinha resolver assuntos do quarto do bebê, ficávamos conversando sobre diversos assuntos. Ele sempre elogiava minha comida. Enquanto, ficava surpresa com sua destreza com pintura e decoração. Ryan me disse que já tinha trabalhado no ramo de construção e que tinha namorado uma decoradora que acabou lhe ensinando um pouco sobre tudo. Hoje, ele trabalhava com Jayden e era um tipo de faz tudo.
Depois de levar Ryan até a porta, sou agarrada por mãos que deslizam pela minha cintura e tocam o pequeno volume.

— Como minhas meninas estão?
— Estamos bem, apesar de não sabermos se será uma menina.
— Sei que será.

Ele planta um beijo na minha cabeça.

— Temos de escolher o nome.

Mordo o lábio, me afasto dele e o puxo até o sofá. Nos aconchegamos no estofado macio, Jayden se abraça comigo sentada entre suas pernas.

— Pensei em Pearl.
— Por quê? — indago.
— Porque significa “pérola” e ela é minha preciosa.

Viro-me para Jayden, os seus olhos estão marejados. Minha visão começa a ficar embaçada e sei que são lágrimas, e mais uma vez de felicidade.

— Jay.
— Não diga nada, . — Ele respira fundo, seu corpo estremece um pouco — Até o dia que conheci você, não tinha ideia de que poderia ser feliz. No dia que você se entregou para mim, pensei que iria explodir pelo amontoado de sentimentos que tomou o meu ser. Quando você disse que estava grávida, isso... não tem como descrever. Talvez, eu... me senti alguém. Agora sei que sou muito importante nesse mundo, porque preciso criar essa criança e dar tudo que estiver no meu alcance. Eu amo vocês com todas as minhas forças, não sei se suportaria perdê-las.

Meu rosto está transbordando, como uma cachoeira. Também estou sorrindo e posso sentir minha pele um pouco dormente, por causa do sorriso permanente.

— Parece uma vida boa, Jayden.

Ele acena e captura os meus lábios num beijo cheio de sentimentos.



Capítulo 20

Coloco os pés em cima da mesa de centro e relaxo sobre o sofá desconhecido. Afirmei para Annie que essa seria o único móvel da casa que ficaria sob minha supervisão. Um cara precisa se sentir à vontade no seu próprio sofá, até porque assistir televisão é um ótimo exercício para a preguiça.

— Onde está a agenda dos restaurantes?

Viro-me para a mulher loira com um coque no alto da cabeça e com roupas folgadas. Annie estava toda largada, esse era um dos seus hábitos desde que nos mudamos para a nova casa dois meses atrás.
A mudança tinha sido bastante estressante, na verdade, as compras foram estressantes, porque Annie cismou que todos os móveis deveriam ser novos e não quis discutir com ela. A casa era nova assim como a mobília. Acabei alugando o meu apartamento por uma bela grana e só isso me deixava tranquilo, pois tudo dentro dele tinha sido bastante caro.
Agora estava me concentrando mais nos valores que recebia dos alugueis dos apartamentos que eram do meu pai, sendo um homem casado; e que pensa em construir uma família no futuro, era fundamental para manter renda estável. Ainda mais depois que Annie me fez gastar rios de dinheiro com os móveis. Claro, ela ajudou em grande parte, porém eu tinha sido o maior provedor.

— Acho que está no nosso quarto.

Ela coloca a mão na testa e com certeza pensando como não tinha pensado nisso. Vivíamos a base de restaurantes. Eu não sabia cozinhar, podia me virar de vez em quando, contudo Annie era um desastre e não queríamos correr o risco de explodir a casa. Para a nossa sorte, o café da manhã conseguia me virar bem, mesmo que fosse com waffles congelados.
Meu celular começa a tocar e fico surpreso em ver que é Ryan. Annie desce as escadas e me encara com a testa franzida, falo o nome de Ryan apenas com os lábios, ela arregala os olhos e se aproxima. Atendo a chamada.

.
— Olá, velho amigo! — ele saúda animado. — Então, como anda as investigações?

Annie começa a bater no meu braço.

— Coloca no viva voz — ela sussurra.

Afasto o celular do ouvido e aperto o comando de viva voz.

— Pode repetir, Ryan?
— Como anda as investigações?
— Elas não andam — Annie responde com um suspiro. — Precisamos de você para elas andarem. Minha preocupação é com a garota.
— Podemos conversar pessoalmente? — Ryan indaga.
— Não, pare com besteiras.
— Tudo bem, não sei se a garota está no meio disso tudo. Ela não parece saber, no entanto, pode estar com medo de falar. — Ele bufa. — Para falar a verdade, também estou preocupado com ela.

Annie olha para mim com um vinco de preocupação entre as sobrancelhas. Para ela, essa menina era a maior preocupação do caso. O medo de ir atrás de Smith e a garota ser usada como refém. Se isso acontecesse, seria mais uma morte para os pesadelos de Annie.

— Ele fez mal a ela? — pergunta com a voz tremula.
— Não, mas acho que fez coisa pior. Ela está grávida.
— O quê?
— Sim, fiquei surpreso com isso. Tenho montado o quarto do bebê e ele está bastante animado, não estou conseguindo entender qual é a dele.

Isso era realmente preocupante. A menina ia ser usada no esquema de prostituição, entretanto Smith resolveu fazer um teste drive e gostou? Era estranho demais, homens assim não costumavam se apaixonar por qualquer uma. Ou então, essa garota é não um simples caso. Se ele estiver apaixonado, era um problema ainda maior.

— Acha que ela está apaixonada por ele? — indago.
— Sem dúvidas.

Annie olhou para mim, havia dor em seus olhos.

— De quanto tempo ela está?
— Quatro meses, mais ou menos.

Ficamos um tempo em silêncio tentando assimilar as informações. A gravidez estava avançada. Nós sabíamos que Smith era o Chefe, porém não tínhamos informado nossos superiores, até porque um deles era um espião. As únicas pessoas dentro do FBI que sabia sobre isso era eu, Annie e Erik. Não existia outra pessoa que pudéssemos confiar tal informação. Para poder colocar esses caras atrás das grades, precisaria de inúmeros planos detalhados para que não perdêssemos essa chance.
Se conseguíssemos deixar Donald completamente incomunicável durante uma ação de envio de mulheres para o exterior seria a nossa chance. No entanto, era improvável que Smith ficasse a frente de algo assim, os seus capangas existiam para isso.

— Ryan, teria como Smith ficar à frente de um transporte?
— Com ela grávida? Sem chance, o cara não gosta de deixá-la sozinha quando estamos fazendo seleção, imagina para fazer um transporte.

Annie está quieta, mordendo a carne entre os dedos. Sem dúvidas pensando em algo para pegarmos esses crápulas.

— Não podemos fazer isso — ela entoa.
— O quê?

Ela vira-se para mim, cruza as pernas e toca em minha coxa.

, caso esse plano desse certo, o que seria da garota e o bebê? — Abro a boca para responder, porém fecho-a imediatamente. Não poderia assegurar a segurança deles — Estava pensando, poderíamos falar com ela.
— Falar com ela? — eu e Ryan perguntamos, espantados.
— Sim, eu poderia ir falar com ela sobre o bebê. Não sei como, mas precisamos saber se ela tem alguma informação.
— E se ela souber e resolver nos dedurar? Então perderemos a chance de prender esses caras.

Annie sorri.

— Sei dos riscos, contudo, se informarmos que a criança está correndo perigo, tenho certeza que ela resolverá nos ajudar.
— Ou arrancar nossas cabeças.
— Confie em mim, vai dar certo.

O resto da semana foram apenas preparativos para o plano. Tínhamos optado pela descrição, só seríamos diretos se as coisas chegassem ao extremo. Annie nos garantiu que saberia se a garota escondesse algo, minha esposa afirmava que era um verdadeiro detector de mentiras.
Ryan nos informou que Smith ficaria até tarde na agência, deixando o caminho de Annie livre. Estava preocupado com o fato dela ir até o apartamento do maior traficante dos Estados Unidos, entretanto, não poderia ficar reclamando ou resmungando, pois ela era uma agente treinada e muito melhor do que eu.
Para completar a cereja do bolo, Erik tinha me ligado, no dia anterior ao nosso plano, avisando que estava se dirigindo para São Francisco no último voo do dia. Ele afirmou precisar espairecer um pouco, o ar de Nova York estava deixando-o doente.
Com isso, acabei acordando às seis da manhã de uma sexta-feira muito quente e segui para a garagem. Ainda não tínhamos comprado o carro que Annie tanto queria porque estávamos completamente dependentes do automóvel de Erik.
Peguei as chaves no aparador e segui para o carro. Uma sexta-feira sem trânsito era um verdadeiro milagre, o que acabou me deixando bastante agitado e de bom humor. Se o dia tinha começado tão bem, sem dúvidas tudo daria certo com o plano de hoje.
O aeroporto estava lotado, uma fileira de táxis ocupava a frente das portas deixando uma verdadeira confusão. Corri para sessão de desembarque, pois o voo de Erik já tinha pousado há meia hora. Quando cheguei às portas, Erik passou por elas carregando uma mochila nas costas. Ele estava com os olhos baixos, olheiras enormes e cabelos bagunçados.

— Cara, você tá acabado — uivei.
— Obrigado, é um prazer vê-lo.

Começamos a caminhar para fora do aeroporto.

— O que NY está fazendo contigo?
— Sugando as minhas forças — ele suspira. — Estamos com falta de pessoal. Você e Annie poderiam muito bem se mudar para lá, não aguento mais tanto trabalho.
— Acho que ela não vai querer isso, estamos muito bem alojados.
— Imaginei. Agora vamos logo conhecer a casa da família .

Dou uma gargalhada.
Acabamos pegando trânsito na volta, porém, não vimos o tempo passar. Erik me contou que as noites em NY não eram tudo que diziam, no entanto, se você encontrasse os lugares certos, poderia sair no lucro no final do dia.
Annie já estava de pé quando entramos em casa. Para o meu pavor, estava cozinhando. Acabei deixando Erik no meio da sala e corri para a cozinha. O cheiro de ovos queimados já tinha tomado o espaço, além de uma fumaça terrível em todo o cômodo.

— Está querendo incendiar a casa? — perguntei a uma Annie emburrada.
— Não, só estava com vontade de comer ovos com panqueca.

Olho para as cascas de ovos sobre a pia e faço um agradecimento interno por ela não ter tentado fazer as panquecas.

— Pode deixar que eu faço.

Me aproximei da frigideira que possui uma coisa que algum dia foram ovos, me direciono até a lata de lixo e jogo tudo fora. Assim como o que já estava num prato.
Erik entra na cozinha fazendo careta e me seguro para não rir.

— Quem estava queimando papel?
— Não era papel, eram ovos — Annie resmunga. — É um prazer vê-lo, Scott.
— O prazer é meu, Whi... digo, . — Ele coça a nuca, envergonhado — Vou demorar a me acostumar.
— Tudo, você está cansado. Vou levá-lo para o quarto de hóspedes.

Annie levou Erik para cima enquanto perguntava como estava NY, ele respondia com amargura e sabia que ela estava se controlando para não rir do sofrimento do meu amigo. Não demora muito, ela desce e senta-se em um dos bancos da ilha.

— Ele perguntou por que não nos mudamos para NY.
— Sim, ele comentou isso comigo.

Coloco o prato com panquecas e ovos a sua frente, Annie começa atacar como se tivesse passado dias sem comer.

— Não seria uma má ideia — afirma, depois de mastigar uma quantidade preocupante de panquecas. Descanso um prato com panquecas para mim sobre o balcão, pego o maple e derramo sobre as belezuras.
— Mas mobiliamos a casa toda.
— Ah, poderíamos ir até lá e conhecer algumas regiões residências. Caso não encontremos algo do nosso gosto, ficamos aqui.
— Vamos esperar esse caso ser resolvido.
— Concordo.

Comemos em silêncio. Acabei fazendo mais uma remessa de panquecas para mim, pois tinha colocado mais da metade no prato da Annie. Comecei a comê-las e Annie atacou o meu prato dando risadas abafadas pela mão. Assim que terminamos, fui lavar a louça e Annie colocava os utensílios na secadora.

— Não vou trabalhar hoje.
— Por quê? — indaguei. Annie nunca ficava sem ir ao trabalho, mesmo que fosse para olhar o relógio que ficava acima da minha mesa.
— Tenho consulta.

Desligo a torneira e viro-me para a minha esposa.

— Está tudo bem?

Ela sorri.

— Só é rotina.
— Certeza?
— Certeza.

Ela se aproxima e planta um beijo nos meus lábios. Descanso o copo que estava lavando sobre a pia e puxo-a para os meus braços, dando-lhe um beijo de tirar o fôlego. Quando nos afastamos, sorrimos um para o outro. Fico observando o sorriso mais belo que existe até que ela se afasta das minhas vistas.

— Vou pegar o carro e sigo para o apartamento do Smith, depois consulta.
— Tudo bem — minha voz sai tremida.

Estou apavorado com o que possa acontecer com ela, o que me tranquilizava era que Annie estava se tratando, fazendo com que ficasse ainda mais cuidadosa tanto no que falava como no que fazia. Tinha que confiar no poder de persuasão dela.
Me aproximo e beijo os seus lábios com mais intensidade.

— Tome cuidado.
— Sempre tomo.

Ela segue para a porta da garagem que fica na cozinha e logo ouço o ruído do carro dando a partida.



Capítulo 21

Minha pequena pérola gostava de se mexer. Desde a primeira vez que senti os seus movimentos, tive a certeza que nunca estaria sozinha. Mesmo quando Jayden trabalhava até tarde, não sentia a solidão que costumava sentir. Não sabíamos o sexo do bebê, porém, a convicção de Jayden sobre ser uma menina, acabou me induzindo a imaginar nossa garotinha loira de olhos azuis.
Apesar de estar eufórico com a criança que ia demorar um bom tempo para nascer, Jayden estava estressado. Parece que ele tinha de enviar um grupo de garotas para um desfile importante em Dubai. Não fiz perguntas, até porque não queria me intrometer nos assuntos do trabalho.
Com isso, ele não ficava muito tempo em casa. Sempre saia cedo e chegava tarde. No fim do dia, sempre parecia exausto, com os olhos baixos e corpo tenso. Óbvio que ele sempre recorria a mim como válvula de escape e eu amava ser adorada por ele.
Ainda é cedo, contudo, acordei com uma vontade imensa de comer lasanha. Então, como Jayden me orientou, fiz o pedido dos materiais necessários para o mercado e não esperei muito, quando me dei conta, já estava colocando à travessa dentro do forno. Me dirijo para o sofá, pronta para assistir televisão. A campainha toca. Não recebo visitas, pois não conheço ninguém e Ryan tem a chave do apartamento. Então, no mínimo, essa visita é bastante estranha.
Sigo para a porta, assim que abro-a, meus olhos batem numa mulher mais baixa que eu, cabelos loiros, olhos verdes – como os meus –, suas bochechas são cheias, deixando-a com um ar angelical. Ela está trajando um vestido florido, com um decote reto, ele é colado do busto até a cintura e com saia godê até o meio da coxa.

— Em que posso ajudar? — digo, com a testa franzida.
— Desculpa atrapalhar, mas me informaram que aqui no prédio mora um agente de modelos. — Ela olha para dentro da casa, provavelmente procurando Jayden — Posso entrar?
— Oh, claro. Que gafe a minha.

Abro a porta ainda mais e a mulher entra vagarosamente.

— Bom, queria saber se teria como fazer um teste para modelo fotográfica.

Agora faz um pouco de sentido. Sua baixa estatura nunca seria apta para as passarelas, mesmo não sabendo quais são os pré-requisitos para se tornar modelo, todos sabiam que mulheres altas eras algo universal. No entanto, não fazia ideia de quais eram os requisitos para modelos fotográficas.

— Não sei dizer... — ergo a sobrancelha.
— Annie — ela morde os lábios e fecha os olhos, parece frustrada com algo.
— Certo. Sou . — Sorrio e a direciono até o sofá. — Como estava dizendo, Annie. Não sei dizer como é escolhido uma modelo, não costumamos conversar sobre isso.

Sentamos no sofá. Estou usando um vestido longo e largo que me obriga a puxá-lo para cima quando me sento, fazendo com que o formato da barriga fique à vista.

— Você tem um bebê aí — Annie afirma.

Abaixo a cabeça para o pequeno inchaço e deslizo os dedos suavemente.

— Sim, minha menininha.
— Então, já descobriu?
— Não. — Mordo o lábio enquanto Annie franze o cenho — Mas, Jayden acredita que seja uma menina.
— Já escolheram o nome? — pergunta interessada.
— Sim, Pearl.
— É lindo.

Ela parece tocada com o assunto e é esquisito conversar com uma estranha, entretanto, sinto-me bem ao seu lado, como se emanasse uma paz de seu interior. Annie pega uma das almofadas do sofá e põe sobre as coxas, ela cutuca um fiapo solto.

— Como começou os sintomas da gravidez? — indaga curiosa.
— Tontura e sono, depois vieram os desejos e graças a Deus não tive enjoos.
— Isso é bom.
— Sim. — Sorrio, então me lembro do porque ela está aqui — Voltando ao seu assunto. Você poderia seguir para a agência ou esperar Jayden aqui, não me importo de ter a sua companhia.
— Seria maravilhoso, mas tenho uma consulta mais tarde e é um pouco longe daqui.
— Oh! — enuncio desanimada.

Não fazia ideia de como sentia falta de uma companhia feminina, estou até recorrendo a estranhos.
A lasanha começa a cheirar e Annie parece perceber. Levanto-me e sigo até a cozinha para ver como andam as coisas, olho para o relógio que fica sobre o balcão e me espanto quando noto que já se passaram vinte minutos. Para mim, faziam apenas cinco minutos que Annie tinha aparecido.

— Eu sei que ainda é cedo, no entanto, a lasanha já está quase pronta. Se quiser me fazer companhia.

Um dilema parece se formar. Annie olha para a porta apreensiva, suas mãos trocem-se uma na outra. Me direciono para o outro lado do balcão e sento-me num dos bancos, aponto o outro ao meu lado e por longos segundos, Annie parece passar por uma luta interna, todavia o cheiro da lasanha a vence.
Por incrível que pareça ficamos conversando por um longo tempo, ela me fez perguntas sobre a minha vida e respondi todas, porém, quando indaguei sobre a sua, ela me deu respostas vagas. Contei a ela como minha relação com Jayden começou, sobre o meu amor pela culinária, o bebê e sobre a minha frustração por não começar a faculdade logo. Entre tudo isso, tirei a lasanha do forno e coloquei dois pedaços em pratos diferentes.

— Você tem cara de modelo — Annie afirma, finalizando o seu prato.

Dou uma gargalhada.

— Também acho, mas nunca quis isso para mim. Gosto de ficar fora dos holofotes. — Pego o último pedaço de lasanha do meu prato e levo a boca — Uma vez brinquei com Jayden sobre a possibilidade, no entanto, ele ficou nervoso e até um pouco desesperado.

Ela levanta os olhos e pisca algumas vezes.

— É mesmo? — pergunta surpresa.
— Sim, acho que ele não quer nenhum cara perto de mim e muito menos me observando.
— Ele deve gostar muito de você.
— Acho que sim.

A porta da frente começa a ser destrancada no momento que o celular de Annie recebe uma mensagem. Sinto-a ficar tensa ao meu lado enquanto a porta da frente é aberta revelando um Jayden sorridente.

— grita.

Sorrio e me levanto do banco para recebê-lo. Quando ele me vê, sorri, contudo, assim que Annie aparece em seu campo de vista, franze o cenho.

— Quem é? — indaga, voltando os olhos para mim.

Viro-me para Annie, ela está apreensiva e um pouco assustada.

— Ela veio ver você, algo sobre ser modelo fotográfica.
— Não estamos em busca de modelos no momento, já terminamos todos os testes.
— Pensei que ficaria o dia todo trabalhando hoje.

O sorriso volta a brotar em seus lábios, ele se aproxima e planta um selinho na minha boca.

— Só tínhamos alguns documentos pendentes, consegui arrumar tudo e corri para passar o dia com você e nossa garotinha — informa, se aproximando e tocando meu ventre.

Annie aparece ao meu lado com um sorriso insosso e aponta para a porta. Jayden volta os olhos para ela, fitando o seu corpo e me deixando incomodada. Entretanto, jogo esses pensamentos para trás e enfio na minha cabeça que isso faz parte do seu trabalho.

— Sinto muito, já encerramos os testes.
— Tudo bem. — Annie sorri com os lábios — Tenho um compromisso agora. .

Aceno. Saio de perto de Jayden. Que se direciona a cozinha enquanto levo Annie até a porta da frente. Após abri-la com um sorriso de orelha a orelha, a loira passa pelo portal e antes de se dirigir até o elevador, vira-se para mim com uma expressão apreensiva e com os olhos transbordando um sentimento de culpa incompreensível.

— Tome cuidado com ele — ela sussurra no momento que as portas do elevador se abrem deixando uma senhora no andar, Annie aproveita e entra no elevador.

Fecho a porta com uma careta no meu rosto. Todavia, ela se esvai quando vejo Jayden triturando um pedaço de lasanha.

— Devemos nos deitar depois.
— É uma boa ideia, já me sinto cansada.

Apesar da minha barriga está pequena, as minhas costas já reclamavam do peso.

— E eu preciso recuperar o sono que perdi nos últimos dias.

Sorrio com os lábios e ele pisca para mim.


Estou sentada no sofá da sala. As luzes estão apagadas e a única claridade que tem no apartamento são das luzes dos postes lá fora. Não me lembro do momento que segui para a sala, a última lembrança que tenho é de mim e Jayden suados sobre a cama depois de fazermos sexo.
Levanto-me do sofá em busca do interruptor que fica próximo ao balcão da cozinha. Quando chego até ele, e ergo-o, a luz não acende. Um vinco se forma entre minhas sobrancelhas e resolvo me direcionar ao quarto para ver se é apenas na sala que está ocorrendo esse problema.
Assim que adentro o cômodo, piso em algo molhado. A confusão me toma. Entretanto, continuo o meu caminho até o interruptor, que mais uma vez não funciona.
Bufo frustrada.
Começo a caminhar até a claridade que as portas de vidro apresenta no quarto. Contorno a cama, meus pés ainda úmidos, caminho devagar para não correr o risco de cair. Assim que os meus olhos encontram o chão, ao lado da cama, vejo uma garota caída com o rosto para o chão. Me assusto com a figura imóvel e acabo sentando sobre a cama para tentar chamar atenção da garota. Mexo em seu ombro, no entanto, ela não se mexe. Empurro o seu ombro, tentando colocá-la de frente para mim, quando consigo, a luz acende. Viro-me para o interruptor e vejo Jayden com um sorriso maléfico nos lábios. Fico confusa. Quando volto a fitar a garota largada no chão, sinto o sangue fugir do meu rosto.
Sou eu. Juntamente com rios de sangue em volta.
Dou um grito.


Acordo sobressaltada, empurro os lençóis e me levanto em busca de ar. Os meus pulmões estão queimando e meus olhos arregalados de terror. As palavras de Annie pipocam na minha mente. Tome cuidado com ele. É um aviso muito importante, mas ao mesmo tempo sem sentido. Jayden tinha poder para fazer mal a mim há seis meses e nunca levantou a voz para mim, imagina me fazer mal. Ele me protegia de tudo e de todos. Não fazia sentido. E esse pesadelo, era fruto da minha imaginação assim como o sonho com o homem que parecia amar tanto. Tudo era um sonho, um ruim e outro bom. Nada demais.

— Jayden me chama. — Por que está de pé?

Seu rosto está inchado por ter acordado agora e os seus olhos fechados, quando os abre, me fita assustado. Jayden se levanta rapidamente passando suas mãos pelo o meu rosto, depois pelas minhas omoplatas e me puxando para os seus braços enquanto soluço.

— O que houve?
— Pe-esadelo — gaguejo.

Ele me leva até a cama e sentamos, com os seus braços ainda a minha volta. Paro de chorar após alguns minutos. Jayden me observa preocupado.

— Agora me diga com que sonhou?
— Eu estava no chão, aqui. — Aponto para o chão a nossa frente — E acho que estava morta, tinha tanto sangue, tanto. E você. — Engulo em seco — Você estava na porta dando um sorriso maléfico.

O rosto de Jayden fica duro e me preocupo se ele acha que penso que algum dia ele me faria mal. Não quero que pense assim, porque não é o que acho. Jayden me ama, nós vamos ter um bebê e ele não me abandonou quando soube dessa criança, ele ficou muito mais feliz do que eu. Não fazia sentido ele me fazer mal.

— Mas foi por causa da Annie. Ela colocou isso na minha cabeça.
— Annie? — indaga confuso.
— Aquela mulher de mais cedo.
— O que ela falou para você?
— Nada demais — respondo, abaixando a cabeça completamente envergonhada pelo meu cérebro idiota.
— Fale — ele é firme.

Engulo em seco.

— Ela disse para tomar cuidado com você.

Jayden começa a respirar pesadamente, se levanta e segue para a cozinha. Quando ele volta para o quarto começa a catar suas roupas e depois calça os sapatos.

— Vai em algum lugar?
— Preciso resolver uma coisa sobre as garotas que vão viajar amanhã.

Mas ele disse que tudo tinha se resolvido mais cedo. Olho para a porta de vidro, o sol já se pôs e a noite brilha lá fora. Não vou tentar questioná-lo sobre o que e para onde ele vai. De qualquer maneira, ele voltará para casa logo.

— Durma mais um pouco, voltarei logo.

Sorrio com os lábios. Deito na cama, me embrulho sentindo um frio estranho. Jayden sai do quarto e quando escuto a porta bater, tento com todas as minhas forças apagar o maldito pesadelo da minha cabeça.



Capítulo 22

Já era para eu estar em casa. Annie tinha me ligado mais cedo avisando que a consulta foi completamente monótona e que me esperava em casa com um jantar especial. No entanto, eu estava preso no trabalho por causa de um maldito relatório sobre o caso de falsificação da semana anterior. Para completar a cereja do bolo, Erik estava ao meu lado, fazendo o que ele sabe fazer melhor: acabando com a minha paz.
Enquanto isso, a vontade de voltar para casa só crescia. Passar um dia no trabalho sem Annie na mesa da frente era algo fora do comum e completamente tedioso. Além da minha paciência está no limite. Donald estava na sua sala trabalhando e eu estava sem a minha âncora. Como iria resistir à vontade de dar um soco nesse desgraçado sem Annie aqui?
Me preparo para digitar as últimas palavras do relatório com um frio na barriga. Assim que salvo o arquivo, mando direto para o agente responsável pelo arquivo. Aperto as teclas para desligar o computador e olho para um Erik muito eufórico. Ele passou o dia inteiro dormindo, quando acordou resolveu pegar um táxi e vir perturbar.

— Vocês já pensam em ter filhos?

Franzo o cenho com a pergunta repentina. Viro-me para o meu amigo.

— Sim, mas não acho que seja para logo. Temos que resolver esse caso de tráfico primeiro.
— Tem certeza?

Cerro os olhos. Erik sabe de alguma coisa, só possuindo uma informação o faria abrir um questionamento.

— Por que está dizendo isso?

Ele começa a encarar uma pilha de papéis como se fosse a última maravilha do mundo.

— Posso ter visto um exame de gravidez no banheiro do quarto que estou ficando.

Arregalo os olhos. O meu coração começa a bater contra a minha caixa torácica rapidamente, posso sentir o sangue circular em meus ouvidos e uma sensação quente tomar conta do meu peito.

— Acha que ela está grávida?
— É possível.

Annie foi se consultar logo após a visita até a casa de Smith. Fazia sentido. Ela odiava cozinhar e só se abrigava a tal ato se estivesse muito necessitada. Pela manhã, ela devia estar com desejo, por isso se arriscou com o fogão.
Agora me sentia um estúpido, pois não percebia as diferenças no corpo da minha esposa. Quando uma mulher engravida, é notável as mudanças. Contudo, a gravidez poderia estar no início, por isso não notei indícios.

— Se ela estiver, me dirá hoje.

Não é um bom momento para um filho, no entanto, uma criança gera felicidade num lar. Quero que seja verdade. Quero chegar em casa e ser recebido com a notícia de que minha esposa espera um filho meu. Quero puxá-la para os meus braços, depois de saber que serei pai e rodá-la pela casa gritando que sou o homem mais feliz do mundo.
Ponho o computador para desligar e começo a pegar alguns documentos que analisarei. Assim que me levanto da cadeira, Erik parece despertar e se ergue também, se espreguiçando e fazendo cara de tédio.
Antes que eu saia de perto da mesa, Anabelle caminha apressada olhando para mim com um olhar melancólico. Franzo a testa, completamente confuso com sua expressão.

— Eu sinto muito — murmura como se estivesse com dificuldades para respirar.
— Não entendi. — Olho para Erik em busca de ajuda para compreender essas palavras.

Agora, meu amigo está sério, a expressão de tédio se foi e a preocupação reina em seu rosto.

— Annie. — Um frio toma de conta do meu corpo assim que o nome da mulher que amo com todas as minhas forças é pronunciado — Houve um acidente, o carro subiu uma rampa que levava para uma parte que estava em obra. Acho que ela não viu. A perícia chegou ao local e estão desconfiados que teve alguma perseguição.
— Annie? — minha garganta está seca quando digo o seu nome.
— Sim, ela foi levada para o hospital. Não consegui entrar em contato com eles, não sei como ela está.

Engulo em seco e começo a sentir o desespero bater contra o meu corpo, uma sensação de incapacidade que nunca senti antes. Minha mulher tinha sofrido um acidente e tudo levava a crer que havia sido uma perseguição. Será que o plano de ir à casa do Smith deu errado? Será que Annie estava bem?

— Que horas foi isso? — Erik indaga Anabelle.
— Não faz muito tempo, deve ter uma meia hora.

Olho para a janela mais próxima e noto que já está escuro. Passei muito tempo escrevendo o maldito relatório. Como pude ser tão estúpido? Minha esposa ficou indefesa porque não estava com ela para protegê-la. Onde diabos estava minha cabeça para não cumprir com a única promessa que fiz na minha vida. Era para eu protegê-la de tudo e de todos, inclusive dela mesma, porém aqui estava eu, impotente e estático no meio de prédio do FBI. Eu era um inútil.

— Preciso vê-la.
— Vou com você — Erik diz.
— Ela está no Sutter Health — Anabelle informa, aflita.

O caminho até a garagem do prédio leva uma eternidade. Quando chegamos até a moto, Erik toma as chaves de mim e avisa que irá pilotar, pois estou sem condições. Ele está certo. Não sei nem o que está acontecendo. Tudo está bagunçado na minha mente e sinto que a qualquer momento isso vai explodir. Contudo, a única certeza que tenho, é que quero ver Annie bem. Minha Annie. Ela precisa estar bem. Não posso viver sem ela. Annie é a minha luz a cada manhã, é o meu motivo para sorrir todos os dias. Não acreditava em alma gêmea até conhecê-la. Nunca vou esquecer o momento que os meus olhos encontraram os seus, a campina linda e tranquila. Assim como aquela garota falou para mim no dia que saí daquele bar; encontrei minha campina e ela é tranquila, não posso perdê-la.
Assim que a moto para na frente do hospital, corro às pressas para dentro. Posso ouvir os passos apreçados de Erik atrás de mim. Chego à recepção e encaro uma morena com um sorriso atencioso.

— Pode-me dizer onde fica o quarto de Annie , sou o marido dela?
— Só um minuto, Senhor. — A mulher começa a mexer no computador e quando encontra algo, arregala os olhos. — Senhor , é só seguir para o quarto andar, o Dr. Gilbert irá encontrá-lo lá.
— Por que você não me diz o número do quarto dela?

A mulher se mexe desconfortavelmente.

— Vamos, . — Erik me puxa para longe da recepcionista e me leva para o elevador.

Quando chegamos ao andar, ele está completamente vazio, ando de um lado para o outro em busca de quartos, entretanto só encontro uma placa que me leva a porta do IML.
Bufo frustrado.
Um médico que aparenta ser apenas um pouco mais velho que eu, aparece e se aproxima de nós. Ele está carregando uma ficha e seu olhar é de cansaço.

— Vim saber da minha esposa, Annie .

Ele acena.

— Sua esposa teve fraturas nas costelas, além de um corte fundo na cabeça — informa de modo profissional. — As costelas perfuraram os pulmões, apesar disso, ela, ainda consciente, conseguiu sair do carro, no entanto, perdeu a consciência. Quando chegou aqui, a sra. estava respirando com dificuldade...
— Doutor — enuncio entre dentes. — Só me diga como ela está.
— Sinto muito, sr. , mas sua esposa não resistiu.

Engulo em seco.
É mentira. Annie não está morta, não pode estar. Ainda tínhamos muito para viver, tínhamos filhos para ter e uma vida cheia de alegria com crianças correndo pela casa. Íamos envelhecer um ao lado do outro, enquanto nossos filhos se preparassem para a faculdade e logo depois o casamento. Nós veríamos nossos netos nascerem e darem muito trabalho para os nossos filhos, assim como eles nos deram.
Nossa história não podia acabar assim.

— Quero vê-la.
, tem certeza? — Erik pergunta.
— Tenho. — Ergo os olhos e encaro o médico em suplica — Preciso vê-la.

Dr. Gilbert nos direciona até a porta do IML e mais uma vez sinto o frio percorrer o meu corpo. Nos aproximamos de uma mesa de inox coberta por um pano branco, há um corpo sob o pano. Meu coração grita para que não seja ela, enquanto a minha mente afirma que é ela.
O doutor levanta o pano e descansa-o abaixo do pescoço. Posso ouvir o ruído do meu coração se rasgando, é doloroso, como um papel que não tem mais importância ou uma folha que saiu errado. O meu coração se rasga e dói, é como se minha alma fosse retirada do meu corpo e não houvesse motivos para o corpo respirar ainda, os meus pulmões respiravam sem um propósito.
Annie estava ali, deitada na maca fria, completamente imóvel. Havia um corte em sua testa. Os seus lábios estavam sem vida e sua pele estava pálida, nada do bronzeado natural que ela carregava. Até porque o sangue não circulava mais em suas veias.
Me aproximo mais do corpo que carregava a alma da mulher da minha vida. Os meus dedos deslizam para o rosto e o choque térmico me assusta, está frio. Não posso mais encarar esse rosto pálido.
Fecho os olhos.

— Me dê à chave da moto — digo ainda de olhos fechados.
...
— Me dê à droga da chave.

Quando cinto o metal frio tocar a minha pele, abro os olhos e começo a me mover em direção à porta. Não olho para ninguém, posso ouvir Erik conversando com o médico, porém não consigo discernir as palavras. Saio desembestado, desço pelas escadas e corro para a noite fria.
Que ironia!
O dia tinha começado tão quente e aqui estava eu, sentindo frio.
Subo na moto, coloco o capacete que tinha deixado no guidom e parto pelas ruas de São Francisco. Não consigo pensar e nem sentir. Estou travado. Fora o rasgo que senti no peito, nada me aflige. Não me importava com a notícia que teria que dar aos sogros que nunca conheci, nem com as multas que iria receber e muito menos com a minha vida. O meu íntimo ansiava para ver Annie dentro de casa, tentando fazer algo para comer e falhando miseravelmente ou colocando nossa comida tailandesa no prato e pegando uma caixa de suco de laranja dentro da geladeira. Contudo, sabia que isso era impossível. Tinha visto a sua casca sobre aquela maca. Não era mais a minha linda e sorridente Annie. Sua vida tinha ido embora sem mim e isso era completamente errado. Como posso viver sem a minha metade?
Quando chego em frente a nossa casa, observo o portão da garagem arrancado, completamente amassado e descansando no gramado do vizinho. Coloco a moto na garagem desprotegida e entro em casa. Tudo está intacto. Apenas um prato está descansando sobre a mesa, ele está coberto por clochê. É estranho ver algo assim, então, resolvo levantar o utensílio.
Então, uma enxurrada de sentimentos toma o meu peito. Raiva, frustração, pavor, ódio e dor. Muita dor. Lágrimas quentes inundam os meus olhos e rolam pelo o meu rosto. Meu peito não está mais rasgado, ele está sentado cortado. A cada corte vem outro, e outro, e outro... O meu peito sangra. Eu tinha tanto e agora tenho nada.
Pego o sapatinho de bebê e um soluço escapa. Não apenas um, mas vários soluços se sucedem. Essa dor algum dia vai passar? Creio que não, é forte e parece constante.
O meu celular começa a tocar, penso em ignorar. Porém, tiro-o do bolso e leio o nome de Erik no visor, então, resolvo atender.

, sei que esse momento é difícil — Erik afirma, sem fôlego. — Mas a garota do Smith deu entrada no hospital há dez minutos. A mulher que atendeu ela disse que a menina não parava de dizer que Annie morreu por culpa dela e...

Encerro a chamada. Olho para o telefone como se fosse algo nocivo. Jogo-o no balcão da cozinha. Pego o prato e atiro-o na parede, viro a mesa e começo a pegar todas as cerâmicas que Annie tinha escolhido apenas para enfeitar a cozinha. Para que iria ter esse monte de porcaria se ela não estava aqui?
Sigo para a sala e começo a rasgar tudo. Atiro abajur, mais cerâmicas, vasos. Tudo se espatifa no chão e nas paredes. Para que vou querer tudo isso se ela não está aqui?
Quando pego o porta-retrato com a nossa foto de casamento, paraliso. Meus joelhos perdem as forças e caio sobre o chão cheio de cacos. Observo o sorriso encantador da minha amada e mais lágrimas grossas descem, agora descontroladamente.

— Eu prometo — digo em meio aos soluços. — Prometo que Smith vai pagar, nem que seja a última coisa que eu faça.

Levanto-me. Me direciono até a cozinha, pego uma caixa de fósforo e vou para o jardim atrás da casa. Quebro o porta-retrato, retiro a foto e jogo-a no chão, em seguida os sapatos de bebê.

— Eu prometo, por vocês dois.

Risco um palito e atiro a chama flamejante.



Capítulo 23

Resmungos raivosos perpassam os meus ouvidos. Perturbando o meu sono. Viro-me de um lado para o outro, tentando me livrar. Porém, é muito mais profundo do que esperava. O que parecia um sonho se tornava mais real a cada segundo. O meu corpo despertava e as vozes se tornavam mais claras. Era óbvio que as palavras ditas não eram para ser escutadas, no entanto, a raiva emanada delas tornava impossível serem pronunciadas por sussurros.

— Agora estamos marcados, seus imbecis — Jayden sibila.

Eu poderia diferenciar a voz dele em qualquer lugar. Nunca tinha ouvido sua voz transparecer tanto ódio.

Levanto-me da cama com os meus músculos reclamando do despertar imediato. Começo a caminhar em direção à porta fechada, assim que minha mão toca a maçaneta, o meu corpo trava. Não faço ideia do que está acontecendo, entretanto, é como se de repente não possuísse controle sobre ele. Resolvo clamar por Jayden, todavia, as palavras seguintes fazem com que um peso se forme em meu peito.

— Falei que não era a melhor tática. Com a morte dela, teremos de fugir da cidade — Ryan resmunga e suspira. — Isso nunca aconteceu conosco, você foi impulsivo.
— Sim, eu sei, Ryan. Não preciso que me dê lição de moral. Só que quando falou dessa Annie, tudo pareceu se ligar. E precisava resolver essa situação.
— Causar a morte de uma mulher e ainda federal, não é a melhor forma de resolver os nossos problemas.

Morrer? Federal? Annie? Não!
Era mentira! Annie era uma mulher comum que desejava seguir carreira de modelo fotográfica. Vi tanta verdade nela, não fazia sentido ela ter mentido para mim. Por que diabos alguém mentiria sobre isso? E Jayden, por que ele causaria a morte de alguém? Jayden era maravilhoso para mim, e seria incapaz de machucar uma mosca.
Contudo, porque sua voz transbordava tanta raiva e frustração. Ele parecia fora do controle. Não só de si mesmo, como da situação. Tudo havia saído da forma que ele tinha planejado, os seus planos tinham escorregado pelos seus dedos como a água corrente.
Nada disso fazia sentido para mim, no entanto, precisava saber de mais e sabia que não receberia essas informações por livre espontânea vontade.
Meu peito ardia. Porém, o choque reinava sobre mim, me deixando anestesiada.

— Temos que cancelar o envio das garotas. Se eles descobrirem o centro de prostituição na Espanha, estamos ferrados, essa é nossa maior fonte.

Cambaleio para trás. Pela primeira vez em minutos, o meu corpo começa a reagir. Lágrimas quentes começam a rolar pelo o meu rosto, minhas pernas cedem e quase caio, entretanto, sou amparada pela cama. O meu peito é comprimido por um peso terrível.
Como fui tão estúpida?
Tudo estava na minha cara. Desde o começo. Por que um cara se prontificaria para observar uma garota por tanto tempo? Jayden havia me escolhido para uma nova arremessa, uma mercadoria. Lembro que ele insinuou que poderia ser modelo, mas os meus gostos pela culinária e pavor de chamar atenção, tinha destruído qualquer possibilidade de aceitar a proposta. Logo depois, quando “questionei” o dinheiro que ele possuía e que eu poderia fazer parte do mundo das passarelas, Jayden me fez prometer que não desejaria isso para mim. Na hora, achei estranho, mas acabei atribuindo a ciúmes. Uma coisa era certa, Jayden tinha sentimentos por mim, isso não poderia negar. Só não poderia afirmar que eram saudáveis.
Céus! O pai da minha filha fazia parte de uma quadrilha nojenta, que aliciava jovens sonhadoras para um mundo de prostituição. Me sento suja. De alguma forma, faço parte disso tudo. Eu vivo com um homem sem escrúpulos, carrego um filho dele. Onde tinha me metido? Deveria ter ido embora com Holly.
Holly! Quase a entreguei para os leões. Tudo se encaixava. Cada palavra dita, cada ação. Jayden não aceitou Holly como uma de suas “modelos” porque era minha amiga e eu iria manter contato com ela, independente da distância.
Como esse miserável tinha coragem de se deitar ao meu lado, de formar um quarto para uma filha? Uma menina. Assim como as inúmeras que ele tinha entregado para essa vida.
Preciso fazer alguma coisa.
Se Jayden sente algo por mim, terá de escutar, mesmo que depois eu o deixe. Claro, que não iria compactuar com tudo isso e jamais deixarei minha filha ser criada por um homem desses, independente dele ser o seu pai ou não.
Não sei como, nem de onde, mas força e coragem se apossam do meu corpo. Abro a porta do quarto e saio do espaço às pressas, assustando o amontoado de homens que estão distribuídos pela sala.

— Jayden diz, assustado.
— Sim, eu mesma — minha voz sai tremida, contudo ainda possuo o controle sobre os meus nervos.
— O que faz acordada? — Percebo que sua respiração está pesada, está tentando se controlar na minha frente.
— Uma hora eu teria de acordar. — Ele demora pra entender o verdadeiro sentido da frase, e antes que possa contar mais mentiras, volto a falar — Não precisa se dar ao trabalho de se explicar. A única coisa que quero saber é, por que eu?

Mais lágrimas descem e agora, completamente fora do meu controle. Os meus hormônios gritam juntamente com a dor no peito que cresce a cada instante. Esse homem repetiu diversas vezes que me amava e eu poderia não ter falado, no entanto, nunca senti nada parecido por ninguém. Homem nenhum despertou sentimentos em mim. E olha a enrascada que me meti.

, procure entender. Isso é um trabalho.

Perco todo o controle com essas palavras.

— Entender? — grito em plenos pulmões. — Seu nojento, canalha. Usar garotas inocentes para se entregar a qualquer um que tenha dinheiro para pagar por elas. Não passa pela sua cabeça o quanto isso é desumano? — Os meus olhos encontram o rosto de Ryan, ele parece preocupado, entretanto, não me importo. Ele é outro canalha. Volto os meus olhos para Jayden, minha vista está embaçada, mas continuo me mantendo firme — O que você faria se isso acontece com a nossa filha?

Nojo. É isso que sinto quando digo: nossa filha. Não considero minha menina, filha dele, ela era minha. Apenas minha. Minha garotinha e de mais ninguém.

— Vocês são diferentes.

Dou uma gargalhada, cheia de amargura.

— Diferente? — Descanso as mãos sobre os quadris — Então, seja sincero comigo, Smith.

Ele se encolhe quando o chamo pelo último nome.

— Eu faria parte das suas prostitutas?

O silêncio toma conta do ambiente. Não consigo me surpreender com a afirmação silenciosa, todavia, o meu coração sente o baque. Eu confiei minha vida a esse homem, entreguei o meu corpo para ele. A decepção é palpável até o último fio de cabelo. Preciso sair daqui, fugir para qualquer lugar. Posso pegar o celular, ligar para Holly e implorar por uma solução. Tinha que sair desse apartamento, dessa cidade. Preciso dar uma vida digna para a minha filha.
Jayden se prepara para uma explicação estúpida, porém, o ruído de sirenes parece despertar todo o grupo locado na sala.

— Temos que partir, Jayden — Ryan murmura, alarmado.

Os seus capangas começam a correr para fora do apartamento.
O homem que confiei com todas as minhas forças se aproxima de mim e começa a me arrastar para a porta.

— O que está fazendo?
— Vamos embora.
— Não vou embora com você — digo, fugindo de seu aperto.

Jayden vira-se para mim e pela primeira vez o vejo direcionar o olhar de raiva para mim.

— Vai sim, em hipótese nenhuma vou deixar vocês sozinhas.

Ele pega o meu braço e puxo-o com força para me livrar dele. Se eu for com ele, estarei perdida.

— Jayden, me solta.
— Cala a boca e vem logo.

Mesmo sua força sendo maior que a minha, continuo tentando me afastar, enquanto ele grita comigo dizendo que isso é o melhor, que ele dará tudo para nós, que não precisava ter medo. Entretanto, eu estou apavorada. Conhecia as histórias de mulheres grávidas que eram traficadas. Bebês eram vendidos. Mesmo que acreditasse que os sentimentos de Jayden fossem reais, ainda sendo doentio, não poderia me firmar no fato de estar segura diante de sua guarda. E em momento algum me submeteria a viver com um homem que trata a vida humana como mercadoria.
A mão de Jayden está suada pelo esforço, assim como o meu braço. A força usada por ele para me puxar e a minha de me livrar, entra em atrito com o suor, fazendo com que a pele deslize e que toda a força usada para me libertar seja usada contra mim. O meu braço desliza pela mão de Jayden, perco o equilíbrio e o meu corpo sofre um baque forte contra o sofá.

, você está bem?

Em seguida, uma fisgada, na base do meu ventre. Antes que possa reclamar da dor, vejo o sangue entre as minhas pernas. A camisola fina e branca começa a ganhar o vermelho escarlate.
O desespero me toma, o pânico. O meu bebê.

— Jayden, me leve para o hospital. — Volto os meus olhos para o loiro de olhos arregalados, sua visão está voltada para a tintura escarlate do tecido branco. Quando azuis e verdes se encontram, vejo a sua decisão — Jayden, não me deixe aqui. É sua filha.

Ele caminha de costas para a porta.

— Não mais, ela se foi.

E assim, ele me dá as costas e parte.
Mais uma pontada, e essa me faz gritar. Porém, não por ser forte, mas pelo medo do que isso causara ao meu único bem.

— Socorro — grito, sem forças.

Continuo clamando por ajuda. Sei que temos vizinhos, nos quais nunca me dirigi à palavra e me arrependo amargamente por isso. Às vezes, um bom dia poderia mudar muita coisa.
Estou quase perdendo a consciência, assim como as esperanças, quando uma trupe de policiais adentram o local. Uma mulher se aproxima, faz o pedido de uma ambulância no rádio grudado em seu ombro.
Imediatamente, lembro-me de Annie. Ela estava tentando me proteger e causei a morte dela.

— Annie, me desculpe. Foi minha culpa — anuncio antes de me derramar na escuridão.


Antes de abrir os olhos, deslizo as mãos sobre o inchaço na minha barriga. Está intacto, mas o meu bebê também está? Uma lágrima desliza pelo canto do meu olho direito. As lembranças de algumas horas antes me tomam, fazendo com que um soluço escape por meus lábios. Minhas escolhas me levaram a tudo isso, além da inocência. Tantos filmes e jornais falando sobre o tráfico de mulheres, e mesmo assim cai na conversa de homem desses. Eu sou uma estúpida.
Abro os olhos assim que a porta do quarto é aberta. Um homem de grande estatura, cabelos castanhos encaracolados e olhos azuis esverdeados adentra o local e se surpreende por me ver acordada.

— Desculpe, vou chamar uma enfermeira — diz, se afastando.
— Só preciso saber se o meu bebê está bem — murmuro apressadamente.

Ele volta, piscando repetidas vezes antes de se pronunciar.

— Sim, está tudo bem. Terá de ficar de repouso alguns dias, você teve um princípio de aborto, mas socorreram-na a tempo.

Meu coração se aquece com a informação. Solto um suspiro de alivio, acaricio o meu ventre e volto os meus olhos para o homem ao meu lado.

— Quem é você?
— Oh, me desculpe, não me apresentei. — Ele ergue a mão para me cumprimentar — Sou Erik Scott, policial federal.

Engulo em seco. Erik é colega de trabalho de Annie. Na verdade, era.

— Está aqui por causa da Annie? — indago com um bolo na garganta, a culpa me corroendo.
— Também — afirma, medindo as palavras. — Smith está sendo investigado há anos, quem cuidava do caso era eu, contudo, fui transferido para outro estado e Annie tomou à dianteira.
— Para morrer. Por minha culpa — digo, amargamente.

Erik se aproxima ainda mais, toca minha mão numa forma de me consolar.

— Annie era uma ótima profissional. No nosso trabalho, corremos risco de vida todos os dias, isso tudo foi uma fatalidade. Ainda mais agora — a última frase não parece ser proposital, entretanto chama minha atenção.
— Por quê? O que quer dizer com “agora”?
— Não acho que isso ajudará em algo.

Engulo em seco e o encaro suplicante.

— Tudo bem. — Ele franze o cenho — Fizeram a autopsia há meia hora, Annie estava grávida.

Arregalo os olhos e os meus olhos ficam marejados. Eu sou a causadora da morte de duas pessoas, uma mãe e um bebê.
Doía. Podia sentir na minha alma.

— Sei que esse não é o melhor momento, , mas preciso saber se você tinha conhecimento sobre...
— Não! — interrompo apavorada. É óbvio que pensariam algo assim de mim. Morar com alguém, ter um filho desse alguém deve representar conhecer o outro, todavia, aqui estava eu, numa enrascada sem tamanho — Creio que não seja o pai do bebê.
— Não.
— Ele deve estar desolado.
— Sim.

Resolvo não me aprofundar mais no assunto, a culpa que sentia já era o suficiente para uma vida inteira. Não precisava me afundar ainda mais nisso tudo. Annie se foi, eu estava sozinha com uma criança no meu ventre e havia um pai e namorado ou marido em algum lugar, sofrendo.

— Eu... O que será de mim? — indago, passando as costas da mão pelo o nariz escorrendo.
— Já que não possuí informações sobre os esquemas de Smith, o FBI cuidará de você. Até porque, você é um alvo.

Balanço a cabeça. Aliso o lençol branco, tentando buscar um pouco de raciocínio para a minha mente exausta.

— Como vocês vão cuidar de mim? — Ergo os olhos.

Erik cruza os braços.

— Você tem alguém?
— Não... — Minha mente não está funcionando corretamente. Os rostos de Rachel e Holly tocam o meu consciente e quase sorrio ao lembrar — Quero dizer, sim, amigas.
— Onde elas vivem?
— Nova York.
— Isso é ótimo, fui transferido para lá meses atrás, posso levá-la — anuncia com um sorriso nos lábios.

Será bom viver com pessoas que posso confiar. Sobreviver sozinha é complicado e com uma criança seria ainda mais, no entanto, com as minhas amigas por perto, terei ajuda e forças suficiente para dar o meu melhor.
Erik me passa algumas informações necessárias, como a mudança do meu nome – no qual insisti em manter o primeiro –, pois Jayden poderia vir atrás de mim a qualquer momento, mesmo que fosse a maior burrada da sua vida. Eu duvidava muito que ele corresse esse risco, até porque, se ele se importasse, não teria me abandonado naquele apartamento perdendo o meu bebê.
Após algumas instruções, Erik informou que me deixaria por uma hora, pois iria em busca de um telefone descartável. Os telefones não eram seguros. Jayden poderia estar monitorando tudo a minha volta.
Tentei dormir, porém, as imagens do dia assolavam os meus pensamentos, me deixando inquieta. A enfermeira veio me ver assim que Erik saiu, ela me trouxe comida, no entanto, não aguentava olhar os alimentos nem arrumados na bandeja. Tudo me causava náuseas. Quero tomar um banho e remover os últimos resquícios de Jayden do meu corpo.

— Como você está? — uma voz conhecida faz com que arregale os olhos e leve os dedos até o botão da enfermaria. — Não aperte, só vim saber como está.

Ergo os olhos para Ryan com o coração aos pulos.

— Jayden me mandou aqui, mas vou falar para ele o que você mandar.

Encaro-o com a respiração pesada.

— Canalha.
— Eu sei. Não tem ideia de como tenho nojo disso tudo.
— E por que continua?
— Tem ideia de como é difícil sair de toda essa sujeira? — diz exasperado. — Disse que o que aconteceu com você foi o fim para mim. Não quero mais nada disso, .

Mordo o lábio para evitar todos os nomes que sinto vontade de falar com ele.

— O que digo a ele?
— Diga que perdi o bebê — as palavras fluem automaticamente.

Poderia pedir que dissesse que estava morta, contudo, Jayden é inteligente, iria exigir ver o meu corpo e isso estragaria tudo. Será melhor mantê-lo com uma meia mentira.

— Direi. — Ryan se afasta. Os seus olhos estão vermelhos de cansaço. Antes de sair pela porta, vira-se para mim. — Se cuida, .

Toco o meu ventre e balanço a cabeça em afirmação.


Não sei quanto tempo se passa. O sono me pegou momentos após a saída de Ryan. Quando despertei, vi Erik sentado no pequeno sofá no canto direito do quarto, com a boca aberta e olhos fechados. Ele estava dormindo. Consegui dar uma risada com a cena, ocasionando o seu despertar.

— Bom dia, Erik.
— Bom dia, — responde sem graça. Ele se levanta e ergue um celular para mim — Pode falar à vontade.

Ele me deixa a sós no momento que começo a digitar o número que me forcei a gravar na mente algumas semanas atrás. Coloco o aparelho do ouvido.

— Alô? — uma voz rouca flui do autofalante.
— Holly, preciso de ajuda.



Fim.




Para ler a continuação dessa fanfic, acesse: Depois de Tudo - Outros/Em Andamento, no site Fanfic Obsession.



Nota da autora: Sem nota.



Qualquer erro nessa fanfic e reclamações somente no e-mail.




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