Attraction's Theory Chronicles

Última atualização: Julho/2025

Prólogo

Em filmes de romance em que dois personagens se encontram depois de longos anos sem contato, existem alguns cortes de cena muito especiais. Jogos de luz em que um personagem está iluminado em uma cor fria e outro quente. Cortes de câmera com foco nas expressões. A lenta mudança de ângulo onde o todo vira somente os dois protagonistas para representar o quão presos estão na atmosfera um do outro.
É lindo. Romântico. E absurdamente falso.
Quando vi Tanaka pela primeira vez após três anos sem contato algum, eu quis me jogar na frente de um caminhão e mudar para sempre o curso de vida dele. Simples assim.
Essa é a parte engraçada sobre guardar rancor: você pode passar uma vida toda sem dar a mínima para aquilo que te magoou. Mas, basta uma gota. Um simples sorriso. E todas as lembranças retornam como um maldito tsunami, pronto para te levar por completo e deixar somente restos que levarão anos para retornar ao seu estado normal.
Eu era apaixonado por ele, sabia? Anos e anos dedicados à uma fantasia alimentada por livros e mais livros, acreditando que em algum momento ele me veria como algo além. Tentando compreender sinais que nunca de fato existiram. Sempre colocando ele em primeiro lugar em qualquer aspecto da minha vida.
Acho que isso era o esperado, de qualquer forma. Duas crianças que haviam sido criadas juntas como consequência da proximidade de seus pais. Nós éramos uma tragédia. E eu estava fadado a viver uma vida inteira me lembrando de cada um dos erros que resultaram no nosso fim. Mas, para que minhas palavras façam sentido, eu preciso voltar alguns anos no tempo.
Senhoras e senhores, minha história com Tanaka começou assim:



Capítulo Um



I call you up when I know he's at home
I jump out of my skin
When he picks up the phone
(Eu te ligo quando sei que ele está em casa
Eu fico nervoso
Quando ele atende o telefone)
Best Friends Brother, Victoria Justice

Nova York, NY
Antes



As primeiras notas de alguma música do Ne-Yo invadiram meus ouvidos, me fazendo dar um pequeno pulinho de susto. Sebastian estava viciado na música e, quando estava junto com seus amigos, fazia questão de explodir os tímpanos de qualquer pessoa na casa junto com ele. Revirei os olhos, colocando meus fones com isolamento de ruído, voltando minha atenção para a tela do computador novamente.
Eu estava focado em resolver um bug que estava impedindo que meu personagem fosse capaz de atacar um maldito mob sem flutuar pela tela pelas últimas três semanas e tinha quase certeza de que, a qualquer momento, eu iria ter um ataque de raiva e atravessar minha mão em meu próprio monitor. Senti meu celular vibrar em minha mesa, respirando fundo antes de pegá-lo e ler a mensagem que aparecia na tela.

Summer: Ei, seu irmão está em casa?
Sabe se está com ele?


Franzi o cenho, encarando a tela por vários segundos. Que Sebastian estava em casa, isso não era dúvida. Agora, se o acompanhava, isso era algo que merecia a minha atenção. Tanaka . Ou , como eu costumava chamá-lo, era o irmão de Summer e, como consequência, o melhor amigo do meu irmão. E, diferente dele, era uma visão. Um dos garotos mais bonitos e inteligentes que eu já conheci.
Com seus quase um e oitenta de altura, cabelos pretos que escorriam até pouco acima das orelhas em uma franjinha adorável e um sorriso ridiculamente alinhado, ele havia capturado meu coração desde que eu aprendi a diferenciar o que eram sentimentos.
E esses sentimentos também eram completamente unilaterais, já que era dois anos mais velho que eu e dificilmente me olharia de uma forma diferente de amor fraternal, principalmente quando crescemos juntos.
Mesmo assim, eu ainda me lembrava de cada pequena coisa que ele já havia feito em todos estes anos. Como quando eu menstruei pela primeira vez e ele fez questão de me emprestar roupas dele para que eu não ficasse com as machadas. Ou quando ele me apoiou logo que me assumi quanto não binário, ou quando ele me levou, junto com Sebastian, para renovar meu guarda-roupas para algo menos feminino do que eu sempre tive.
Ponderei por alguns segundos antes de tirar os fones de ouvido e me levantar, colocando meu celular no bolso da bermuda antes de prender meus cabelos no topo de minha cabeça e ajustar a camiseta larga que usava. Sai do quarto, fechando a porta atrás de mim antes de andar pelo corredor até o quarto de Seb. Bati na porta duas vezes, sabendo que ele não iria escutar antes de abrir e colocar somente minha cabeça para dentro de seu quarto.

— Ei, Seb. - gritei, chamando sua atenção - SEBASTIAN!
— Jesus! - ele murmurou, pegando o celular e abaixando o volume da música - Que foi?
— Summer quer saber se o tá aqui. - eu justifiquei, tirando o celular do bolso e mostrando a mensagem - Não sei o porquê, ela não disse mais nada.
— Estou. - a voz de invadiu meus ouvidos - Acabei me distraindo e não vi a mensagem dela. - ele se levantou da cadeira, parando ao lado da porta de braços cruzados com um sorriso de canto, que não mostrava uma unidade dos dentes ridiculamente alinhados - Você não sabe cumprimentar as visitas?
— Nós dois sabemos que você deixou de ser uma visita e se tornou um hospedeiro nessa casa. - franzi uma das sobrancelhas, cruzando os braços assim como ele.
— Justo. - ele deu de ombros - Mas, acho que mereço um abraço pelo menos, não? - ele sorriu com todos os dentes à mostra e foi como se uma corrente elétrica passasse por cada centímetro do meu corpo. Merda.
— Claro. - eu sorri, andando até ele para abraçá-lo. Ele retribuiu de imediato, me tirando do chão por alguns segundos antes de bagunçar meus cabelos. O cheiro do seu perfume invadiu meu olfato e eu resisti ao impulso de fechar os olhos e esconder meu rosto contra a curva de seu pescoço. Por Deus, ele era ridiculamente bonito. - Okay, okay, já chega. - eu ri, me afastando o suficiente para voltar a arrumar meus cabelos - Só vim pra confirmar se você estava aqui. Vou voltar para minha caverna.
Eu balancei a cabeça, desbloqueando o telefone e saindo do quarto de Sebastian enquanto digitava a resposta para Summer.

Romero:
Os dois estão.
Acho que estão estudando.


A resposta de Summer veio poucos depois de eu fechar a porta atrás de mim.

Summer:
Ok, mamãe queria saber se ele viria para o jantar, mas acho que não.

Summer:
Aliás, posso ir até aí? Posso voltar com ou levar roupas para passar a noite.
Preciso de ajuda com alguns termos para o exame de espanhol.


Ponderei por alguns segundos. Eu estava tentando focar no meu pequeno projeto, mas algo me dizia que ele não seria muito produtivo. E também não seria realmente uma prioridade, se eu considerasse que ainda teria mais dois ou três anos para finalizá-lo. Me sentei em minha cadeira, encostando-me contra o estofado da cadeira quando duas batidas na porta chamaram minha atenção. Me apressei em responder Summer.

Romero:
Sim, pode vir.
Traz roupas e comida, a gente pode assistir algo.
E traz as coisas de cabelo, preciso de você pra fazer algo nele.


— Pode entrar. - murmurei, antes de colocar o celular na mesa e voltar a focar em achar o erro nas linhas de código.
— Ainda está tentando achar o erro? - se aproximou, apoiando-se entre a minha mesa e o encosto da minha cadeira. Os dedos longos com as veias saltadas no topo de sua mão me deixando desconcentrado por alguns segundos. Puberdade maldita.
— Sim. - cruzei as pernas em cima da cadeira, passando as mãos pelo meu rosto. - Eu juro que a qualquer momento eu vou atravessar minha mão nesse monitor e nunca mais mexer com design de jogos novamente. Eu vou mudar minha carreira e desistir dessa bosta.
— Estamos sendo um pouco dramáticos hoje, não estamos? - ele soltou um risinho, me encarando sem que o sorriso deixasse seus lábios. - Vamos lá, boy wonder, qual é o problema? - ele se levantou, puxando minha cadeira para o lado e pegando o banquinho ao lado da minha mesa para sentar ao meu lado.
— Você não tinha que estar estudando com Sebastian?
— Ele disse que você estava estressado com os códigos há algum tempo e que todo o tempo que você tem livre, você está preso no quarto tentando resolver. - ele justificou - E que ele já não aguenta mais te ver estressado e a ponto de cometer um assassinato. Seb me pediu para dar uma olhada e te dizer o que está errado.
— E você aceitou?
— Claro, eu gosto. - ele deu de ombros - e você tem uma curva melhor de aprendizagem que a porta do seu irmão, mas não conta pra ele.
— EU OUVI ISSO, SEU BABACA. - Sebastian gritou do outro lado do corredor.
— ERA A INTENÇÃO. - ele gritou de volta, me encarando - Voltando ao ponto, pode me mostrar o erro?
— Certo. - eu concordei - Summer está vindo pra cá, aliás. Você vai passar a noite aqui?
— Não tinha planos de fazer isso, mas quem sabe. - ele deu de ombros, enquanto observava o personagem flutuar pela tela com a falta de gravidade.
— Nem fodendo. - ele começou a rir - Essa merda está parecendo um balão de hélio, puta merda. - ele jogou a cabeça para trás, fechando os olhos em meio ao processo e eu o observei. O maxilar marcado, a sobrancelha falhada graças à uma queda de skate quando ele tinha quatorze anos, os cabelos escorrendo para trás e a veia levemente saltada em seu pescoço. E o seu maldito perfume invadindo meus sentidos. Por favor, Deus, me deixe beijar este garoto e eu juro nunca mais cometer qualquer pecado. Por favorzinho.
— É, eu tenho plena noção que está ridículo - eu forcei um suspiro, sabendo que era mais por ele ser tão bonito quando ria do que por cansaço - Por favor, não faça piadas.
— Okay, okay. - ele balançou a cabeça - Já cometi um erro semelhante. Geralmente deve ter faltado algo de pontuação ou uma linha de comando que você esqueceu de adicionar, fica tranquilo. Posso? - ele apontou para o computador.
— Fique à vontade.
Ele assentiu, pegando o mouse e o teclado para revisar os comandos. Não levou mais que alguns minutos para que ele identificasse o erro e escrevesse uma linha de comando extra antes de colocar o script para rodar novamente. Simples assim, o jogo voltou a ser funcional e com gravidade enquanto o personagem conseguia pular de um ponto a outro sem flutuar para o meio da tela. Eu encarei, sem palavras.
— Eu poderia te beijar agora em agradecimento. - eu murmurei, testando os controles do personagem, que estavam perfeitamente funcionais. - Obrigado, . - eu o encarei enquanto ele sorria orgulhoso, como se tivesse acabado de descobrir a cura para o câncer.
— Sem beijos, ia ser meio esquisito. - ele me soltou uma piscadela, bagunçando meus cabelos - Agora, você pode focar em desenvolver ele e tentar aplicar para o programa de verão da UCLA no próximo ano ou no seu último ano. As vagas são acirradas, mas eu passei nele esse ano e consigo te ajudar com os requisitos, se precisar.
— Você passou pro programa da UCLA? - eu pausei o jogo, o encarando - Quando ficou sabendo?
— Faz uns dois dias, eu acabei esquecendo de comentar e só lembrei agora. - ele deu de ombros, como se aquilo fosse um mero inconveniente e não como se fosse um dos seus maiores sonhos, depois de entrar na MSU. Como se eu não tivesse escutado ele falar sobre isso pelos últimos três anos.
— Você precisa começar a deixar as coisas anotadas em um quadro em algum lugar visível para começar a se lembrar das coisas, .
— Eu funciono bem assim.
— Você esquece até de ir ao banheiro quando está focado em programar alguma coisa, eu sei porque já vi acontecer. Você precisa disso.
— Já te disseram que às vezes você parece mais velho que o seu irmão? - ele cutucou minhas costelas, me fazendo rir. - Vou lembrar disso.
— Não vai, não. Mas, fica tranquilo porque seu aniversário está chegando e vou arrumar um pra você. - eu sorri, batendo em seu ombro. - Vou ajudar Summer a estudar para o exame de espanhol que temos na segunda. Você vai ficar pra ajudar?
— Vou voltar pro meu projeto. - ele bocejou - Preciso terminar isso antes de dormir.
— Então, você vai dormir aqui.
— Não sei, depende do quão cansado vou ficar depois de acabar. Seu pai disse que ia ficar no trabalho até mais tarde hoje resolvendo algumas entregas que eles precisam fazer para um cliente estrangeiro, então, acho que vou acabar ficando pra evitar que vocês comam qualquer coisa esquisita que Bash possa tentar cozinhar.
— Certo. Se precisar de algo, me avise. - eu sorri de canto e ele apenas assentiu, se levantando do banquinho antes de bagunçar meu cabelo mais uma vez.
— O mesmo vale pra você.
Ele me mandou um sorriso de canto, saindo do quarto no exato momento em que Summer me avisou que havia chegado. Eu me levantei da cadeira, saindo do quarto e descendo as escadas do apartamento para abrir a porta de entrada para a caçula dos s.
Summer estava mexendo no celular quando eu abri a porta e ela me abraçou. Seus cabelos estavam soltos e caiam sobre seus ombros com as pontas pintadas em rosa.
Ela carregava uma mochila em suas costas e algumas sacolas cheias de comida e coisas de cabelo.
— Minha mãe disse que está a ponto de comprar um apartamento no seu prédio porque nós ficamos mais aqui do que em casa.
— Seria uma boa ideia.
— Não é? Mas, acho que ela está evitando fazer isso porque em três anos vamos estar em Michigan.
Ela entrou, encostando a porta atrás de si antes de me acompanhar até meu quarto enquanto tagarelava sobre odiar ter uma dificuldade tão grande com o espanhol quando sua segunda mãe era argentina. Eu soltei uma risada sincera enquanto entrávamos em meu quarto.
— Calma, você vai aprender. Você lembra da dificuldade que foi quando eu comecei a aprender japonês, não lembra?
— E hoje você só não fala melhor que eu porque eu viajo todo o ano pra lá. - bufou, jogando as coisas em cima da minha cama. - Eu trouxe sneakers, milky way, algumas balas de goma e salgadinhos. O que você tem aqui?
— Depende… - eu sorri enviesado antes de fechar a porta atrás de mim - Meu pai comprou algumas bebidas novas para o bar, podemos furtar uma garrafa. A menos que você queira ficar tomando suco.
— Olha bem pra minha cara, , você acha mesmo que eu quero beber suco na sexta-feira? - ela me pegou pelos ombros, me chacoalhando.
— Amanhã temos a festa de aniversário da Daisy, de qualquer forma. Vamos beber de qualquer jeito. - murmurei, pegando as coisas de cima de casa e tirando-as da sacola, organizando tudo no centro da cama.
— Justo.
Ela sorriu, sentando-se no chão e tirando o iPad, canetas e um caderno de dentro da bolsa. Summer digitou algo no iPad antes de abrir a folha de exercícios e me passar.
— Essas são as coisas que vão cair no exame de espanhol.
— Okay. - eu peguei o aparelho, estudando as questões. Em teoria, eram coisas simples. Artigos definidos e indefinidos, artigo neutro Lo e contração de artigo. Eu compreendia a dificuldade de Summer. Eram temas complicados quando não havia equivalências nas línguas maternas de Summer.
— Se eu falar em espanhol, você vai me entender?
— Sim. - ela assentiu - Consigo falar e compreender, só não consigo entender a lógica por trás desses pontos.
— Certo. Bueno, vamos a empezar con los artículos definidos e indefinidos, ¿eh?
— Vale.

Summer murmurou e eu peguei minhas anotações digitais para explicar com mais facilidade. Me sentei ao lado dela e comecei a explicar, tentando ao máximo dar exemplos ridículos porque eu sabia que assim, as chances de Summer memorizar as pequenas regrinhas eram maiores que apenas explicar a definição.
Após longas três horas, Summer foi capaz de diferenciar cada um dos pontos e fazer os exercícios de revisão com facilidade, sorrindo orgulhosa quando eu corrigi todos os exercícios, a parabenizando por acertar todos eles após algumas tentativas.
Puedes decir lo que quieras, pero aunque tome un poco de tiempo, tengo un flujo de aprendizaje buenísimo, eh? - ela se gabou, jogando os cabelos rosa-choque no ar. - Aliás, o que você tá querendo fazer no cabelo?
— Claro que tem, Sum. - eu sorri - Estava pensando em pintar a nuca de azul. O que acha?
— Eu acho uma boa, ficaria bonito. - ela se levantou, depois de organizar os materiais da escola em sua mochila - Eu tenho um azul índigo aqui que sobrou da primeira vez que pintei. O que acha? - ela pegou a caixinha levemente manchada, me mostrando. - Mas, ainda acho que deveríamos marcar de fazer isso em um salão.
— Não, fazer no banheiro da minha casa me parece mais confortável. - dei de ombros, pegando a caixinha de sua mão e a analisando com atenção. - Aceito esse. Podemos pintar a nuca e fazer uns fios na laterais, o que acha?
— Oh, meu bem, depois que você passar por essas mãos, este cabelo nunca mais vai ser o mesmo.
Summer deu pulinhos de alegria, pegando a sacola e me arrastando até o banheiro com uma alegria que somente ela seria capaz de oferecer.











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¹ Bom, vamos começar com os artigos definidos e indefinidos, sim?
² Pode falar o que quiser, mas ainda que leve tempo, eu tenho um fluxo de aprendizagem bem bom, né?


Capítulo Dois



“It’s all about the “he says, she says” bullshit’”

(É tudo sobre essa merda de “diz que me diz”)
— Break Stuff, Limp Bizkit


Nova York, NY
Antes



— E então, ela me puxou para um dos armários de limpeza e me deu o melhor boquete que já recebi em toda a minha vida. O. Melhor. Boquete. - Sebastian sussurrou, gesticulando animadamente contra a superfície de metal enquanto eu procurava o livro de álgebra III em meu armário.
Sebastian estava saindo com alguma garota da turma dos seniores que eu não havia feito questão de pegar o nome e, pelas palavras de animação e detalhes que eu tampouco fazia questão de me inteirar, eu estava certo em ignorar boa parte das palavras que saiam da boca de Sebastian Romero .
— Quer um cartão de “parabéns” ou algo assim? - o encarei, colocando o livro em minha bolsa antes de fechar o armário e trancar a porta - Honestamente, você deveria tomar um pouco mais de cuidado com as palavras, não é como se as fofocas nesses corredores não tomassem proporções estrondosas a troco de nada, né?
Eu murmurei, deixando a mochila cair contra minhas costas enquanto andávamos pelos corredores até a sala que teríamos o próximo horário. Eu brincava com o amarrador de cabelos como se minha vida dependesse disso. O corredor lotado e barulhento me deixava ansioso ao ponto de me fazer sentir dores físicas com o som de metal sendo batido contra si mesmo diversas vezes. Ainda assim, isso não impediu Sebastian de soltar uma risadinha. Me limitei a balançar a cabeça negativamente. Não precisei dar mais detalhes quando a história ainda estava fresca.
Rumores na Horace Mann tomavam proporções gigantescas desde que havíamos entrado no colégio, ainda crianças. Nos primeiros anos de fundamental, já haviam rumores de alunos do penúltimo ano saindo do estado para ter abortos legalizados em segredo quando, na realidade, haviam tido uma cirurgia de remoção de apêndice. v No ano anterior, havia sido alvo de um rumor que envolvia a professora da eletiva de música e toques que nem de longe seriam considerados aceitáveis considerando a idade dos envolvidos. O rumor tomou proporções absurdas depois de um aluno ter alegado que havia visto ambos se abraçando e a professora em questão dar um beijo na bochecha de durante o recesso de verão em um shopping.
O que, de fato, seria uma interação suspeita se a mulher não fosse a tia de e Sebastian e eles não estivessem em um almoço de família.
As consequências do rumor acabaram em uma suspensão de três dias. Tudo porque Sebastian caçou o responsável por espalhar o rumor como uma caça às bruxas e, quando descobriu, fez questão de resolver isso de forma muito madura. Ele provocou uma fratura exposta na perna de Joshua Miller durante uma partida de futebol no interclasse.
— Se eu não contar pra alguém, vou explodir. - ele riu - Não consigo guardar segredos, . Eu conto pra você porque assim eu não preciso sair contando pra qualquer outra pessoa.
— Uma cruz que eu não tenho a mínima vontade de carregar. - eu balancei a cabeça negativamente, vendo Summer e do outro lado do corredor conversando animadamente.
havia pintado seus cabelos de azul na noite passada e ainda tinha algumas manchinhas de cor em sua nuca. Ele ria animadamente sobre algo que Summer havia dito antes de fechar o rosto completamente quando a imagem de Braeden Smith se materializou há poucos metros dos dois.
Braeden Smith era um babaca e havia ficado pior após perder o posto de capitão do time de futebol da Horace para Sebastian. Ele era absolutamente todos os estereótipos de atleta escolar, do bullying até a forma como ele se parecia. Eu nutria uma piada interna com Sebastian de que ele provavelmente batia punheta para o hino nacional dos Estados Unidos e ficava de pau duro sempre que via uma águia-de-cabeça-branca. Ele era um merda e havia nutrido um interesse especial em Summer e eu nos últimos meses. As provocações começaram leves, uma bolinha de papel ou bilhetes jogados em minha cabeça durante as aulas. Uma marcação agressiva e carrinhos nos treinos.
E nas últimas semanas, haviam escalado para empurrões e xingamentos, quando ele finalmente percebeu que as provocações leves não eram o suficiente para me tirar a paciência. Logo depois, ele resolveu que Summer seria uma boa forma de me desestabilizar e começou a fazer da vida dela um inferno.
Observei a interação, colocando o braço em frente a Sebastian e impedindo-o de andar, somente para apontar para o grupinho que estava ao fim do corredor.
— Se ele chegar perto dos dois, eu vou dar fim nisso. - Seb ralhou, encarando.
— Não. Vai dar merda se o capitão do time estiver socando o vice-capitão.
— Que se foda, . Braeden está enchendo minha paciência faz meses. Você não quer lidar com isso na base da violência? Beleza, direito seu. Mas, ele já cruzou limites quando começou a fazer isso com Summer. E se ele sonhar em falar qualquer merda para o , eu vou trucidar as chances dele conseguir uma bolsa de atleta em qualquer universidade, assim como fiz com Joshua.
Sebastian me encarou e eu respirei fundo. Eu poderia ter acabado com essa merda na primeira vez em que ele havia me provocado, mas prometi a mim mesmo que seria alguém melhor esse ano e não iria voltar para a pessoa que era logo que as coisas com Danielle acabaram.
— Ele sabe que está fora dos limites, ele não é estupido, Sebastian.
— Acho que é, porque nessa altura do campeonato Summer e são a mesma pessoa.
Sebastian apontou com a cabeça para o irmão, que rolava os olhos e fechava o punho com força contra a alça de sua mochila, como se aquilo fosse a única coisa o impedindo de pular em cima de Braeden. E Braeden não foi inteligente o suficiente para entender o recado implícito em . As coisas após isso escalaram em níveis estratosféricos segundos depois.
Braeden disse algo para Summer assim que se aproximou dela, apoiando-se com a mão espalmada contra a cabeça de minha irmã de forma em que ela se encolheu contra o armário, mas não sem antes me encarar com um sorriso cínico. No momento seguinte, eu larguei minha mochila no chão e corri em direção a Summer, ao menos avisando Sebastian e apenas sentindo meu coração palpitando de adrenalina e mandando para o inferno toda a paciência que eu havia construído.
, entretanto, tinha um fio de paciência muito menor que o meu. E antes mesmo que eu pudesse alcançá-los, ele tomou as rédeas da situação e deu o primeiro empurrão em Braeden, afastando-o de Summer antes de jogar sua mochila no chão e avançar em direção à Braeden.
Quem caralhos você pensa que é?
A voz estridente de invadiu meus ouvidos junto com o barulho de corpos batendo contra armários. havia pego Braeden pelo colarinho e o jogado com força contra a superfície de metal. tinha apenas cinco centímetros de diferença na altura de Braeden, mas a fúria em seus olhos denunciavam que ele estava próximo de ter um ataque de raiva.
— Tira as mãos de mim, spic. - Braeden cuspiu, empurrando .
deixou um sorriso brincar em seus lábios antes de dar o primeiro soco no nariz de Braeden, que começou a jorrar sangue instantaneamente.
E BRAEDEN SMITH ESTÃO BRIGANDO! - um dos calouros gritou e um círculo começou a se formar ao redor do corredor enquanto os alunos gritavam como animais em favor da briga.
Braeden tirou a mão do rosto e avançou para cima de , acertando um soco em seu supercílio direito e um outro em seu olho. O sangue começou a jorrar, escorrendo pelo rosto de , que revidou com um chute no joelho lesionado de Braeden. Ele caiu no chão e ao menos teve tempo de reagir quando chutou sua costela e subiu em cima dele, desferindo socos em seu rosto.
Decidi que já havia visto demais quando empurrei as pessoas que estavam à minha frente e puxei um furioso pela cintura.
— ME SOLTA, EU VOU ACABAR COM ESSE ESCROTO. ME LARGA. - se debatia contra meu peito, gritando com a voz rouca.
, sou eu. Se acalma, você vai matar o Braeden se continuar assim, se acalma, caralho.
Ele continuou se debatendo por alguns segundos, finalmente se dando conta de quem havia o segurado ao parar de se mexer e finalmente me deixar tirá-lo de perto de Smith. Seu rosto estava coberto com o sangue do corte em sua sobrancelha e suas roupas estavam com respingos.
— O que está acontecendo aqui? - uma das professoras, Sra. Bower, cortou entre os alunos, vendo Smith se levantando com dificuldade no chão antes de ver a imagem ensanguentada de contra meu corpo. - Smith, Tanaka e Romero, vocês vão para a enfermaria imediatamente e depois diretamente para a sala do Sr. Coleman.

💻💻💻💻💻


encarava o teto com um saco de gelo contra sua têmpora enquanto sentávamos na sala de espera do diretor Coleman. Ele balançava os pés ansiosamente contra o piso, mordendo o lábio enquanto ouvíamos as vozes abafadas dentro da sala do diretor. Nossos pais haviam sido chamados graças à briga. Agora os senhores Smith, e discutiam calorosamente.
Isso é um absurdo! - a voz de minha mãe invadiu meus ouvidos - Meus filhos estavam sendo vítimas de bullying há meses! MESES, JORDAN. - minha mãe se referiu ao Sr. Coleman. Era estranho vê-la se referir a ele com tanta informalidade, mesmo sabendo que eles haviam se conhecido durante a faculdade. Mas, novamente, era realmente uma surpresa quando o mesmo acontecia com a maioria dos pais dos alunos da Horace?
Eu compreendo, Connie. Entretanto, a Horace Mann tem um código de conduta contra violência que eu não posso simplesmente ignorar.
Certo. E bullying não entra neste código? Nossos filhos têm sido vítimas do senhor Smith por alguns meses e, até agora, nada foi feito para resolver o problema. Meu filho voltou pra casa com um olho roxo no mês passado. O que é exatamente você fez para evitar que isso acontecesse?
— Isso aconteceu? - o encarei.
— Sim. - ele enrubesceu - Foi no último dia das aulas de verão e você já estava no Japão para passar as férias.
— Por isso você não quis aceitar minhas chamadas de vídeo? - eu franzi minhas sobrancelhas - Por que você escondeu isso de mim?
— Eu consigo resolver meus problemas, . Viu? - ele piscou em minha direção e apontou para o olho que começava a tomar uma tonalidade roxa e eu apenas rolei os olhos.
Aconteceu fora dos limites escolares, não havia nada que eu pudesse fazer.
Ah, compreendo. Muito bom, Jordan. Muito bom mesmo. - Liam riu, amargo - Ele estava apenas se defendendo. Todos os alunos que você interrogou disseram que não deu o primeiro soco. Como exatamente você justifica que ele pegue uma suspensão maior que o responsável por ter começado a briga?
A sua filha quebrou duas costelas e deslocou o joelho do meu filho. Isso parece como um comportamento de uma vítima para você? - Sr. Smith ironizou e eu tive que juntar toda a minha força de vontade para não invadir a sala e fazer com que Ferdinand Smith saísse pelos portões da Horace em uma ambulância da mesma forma que seu filho.
Não confunda a reação de com violência gratuita quando ele está há meses reclamando dos episódios de agressão verbal que o seu filho provocou. E eu sugiro que escolha muito bem suas palavras, Ferdinand, porque eu tenho dois FILHOS. não é uma garota e isso já deveria ter sido esclarecido há muito tempo. Mas, creio que eu não deveria esperar muito de você, visto a criação que deu ao seu filho, certo?
— Ele realmente disse ‘’Direitos Trans’’, huh? - sussurrei em direção à , empurrando-o levemente com o cotovelo. Ele soltou uma risadinha.
— E se o pai do Braeden continuar, meu pai vai sair daqui com pelo menos três processos abertos contra ele. - riu - Me desculpa.
— Por?
— Por isso. - ele apontou ao redor - Meio que poderia ter sido evitado se eu não tivesse sido impulsivo. Você nem fez nada e agora está correndo risco de ser suspenso também.
— Relaxa, . - eu o tranquilizei, apertando levemente seu ombro - Se você não tivesse agido antes de mim, eu estaria aqui de qualquer forma. Eu estava atravessando o corredor pra acabar com isso de uma vez quando você acertou o primeiro soco.
— Mesmo assim - ele se encostou contra a parede - Eu me sinto mal. Você não deveria ser penalizado pelas minhas ações e vou me certificar de deixar claro caso eles tentem te suspender.
— Eu não te mereço, sabia? - eu escorreguei minhas mãos por cima da dele, tomando cuidado para não tocar os nós machucados de seus dedos - E eu definitivamente não preciso que você lute minhas batalhas por mim, idiota.
— E o que mais eu faria? Seus bracinhos de macarrão não conseguiriam dar um bom soco nem se sua vida dependesse disso. - sorriu, me cutucando com seu cotovelo.
Mesmo quando ele estava completamente machucado depois da briga, ainda sorria como se tudo não passasse de um mero inconveniente. Eu senti meu peito errar algumas batidas quando o sol passou pelas janelas e atingiu seus rosto, transformando seus olhos âmbar em uma cor muito semelhante à um pote de mel. Ele era lindo. E a porra de uma ameaça, ao mesmo tempo.
— Eles estão começando a crescer, olha. - eu flexionei meus músculos contra a manga da camisa social branca - Ficarei maior que você logo, logo.
— Assim espero, é sua obrigação moral visto que seu corpo produz algo que o meu não produz. - ele respondeu, rolando os olhos antes de encarar o teto novamente - Minha mãe vai me matar quando ela descobrir.
— Não acho que vá. Paola é bem compreensiva e, como seu pai costuma dizer…
— Legítima defesa é legítima defesa, então nunca dê o primeiro soco. - repetiu, sorrindo momentaneamente - Advogados.
— Advogados de merda.
Eu concordei ao entrelaçar meu mindinho contra o dele. Um pequeno hábito que havia surgido entre nós desde que éramos crianças. quem havia começado. A primeira vez que tive que me despedir do meu pai antes que ele se mudasse para o Japão graças ao trabalho dele como CEO de uma marca de cosméticos, entrelaçou seus dedos contra os meus enquanto eu chorava e ele me dizia que tudo ficaria bem. E que poderia ver meu pai durante as férias e feriados prolongados.
A segunda vez que fizemos isso, foi quando ele decidiu que era hora de contar aos pais dele que na realidade, ele era trans. Seus pais não levaram isso da melhor forma possível de início e ele passou uma semana na minha casa enquanto evitava falar com seus pais. Sebastian, Summer, e eu passamos todo o tempo dormindo juntos até que Paola e Liam entendessem que ele não estava passando por uma fase rebelde. Ou que ele era jovem demais para saber o que identidade de gênero era.
Eu escutei o barulho da porta finalmente sendo aberta e virei minha cabeça para ver minha mãe, Liam e Ferdinand Smith saindo da sala com Sr. Coleman em seu encalço. O pai de se abaixou, analisando seu rosto para ter certeza de que somente o tratamento da enfermaria do colégio seria o suficiente para os machucados em seu rosto, ao mesmo tempo em que minha mãe se sentava ao meu lado.
— Oi, mãe. - eu sorri quando ela passou seus braços ao meu redor em um abraço apertado - O que foi isso?
— Eu só estou feliz que você está bem. - ela sorriu, antes de se inclinar em direção a - Mas, nós vamos conversar sobre isso mais tarde, tudo bem? Nós quatro.
— Tudo bem, tia. - olhava para baixo como se estivesse completamente envergonhado de suas ações. Mas, eu o conhecia o suficiente para não confiar em suas habilidades de atuação. O mesmo acontecia com a expressão irritada que tomava conta do rosto de minha mãe.
— Já que estamos todos aqui, Braeden Smith será suspenso de suas atividades escolares durante a semana e terá que participar da detenção por duas. Ele também perderá seu posto como Vice-Capitão do time de futebol da Horace para servir de exemplo aos outros estudantes de que o bullying não será tolerado no perímetro escolar. - Sr. Coleman encarou o Sr. Smith - Quanto a Sr. e Sr. , vocês serão liberados das aulas de hoje, visto que não estão em condições para participar delas sem que isso cause um alvoroço nos demais alunos e mais uma semana de detenção a partir de amanhã. Esse prazo pode ser estendido de acordo com seu comportamento, mas visto que vocês são alunos exemplares e essa foi a primeira violação do código de conduta escolar, creio que não vamos ter mais problemas, certo?
— Não, senhor. - e eu concordamos em uníssono.
— Ótimo, vocês estão dispensados.
O Diretor Coleman nos deu as costas e voltou para a sua sala. Ferdinand Smith ao menos se importou em olhar para trás enquanto pisoteava com força para longe da sala do diretor.
Nós seguimos o mesmo caminho logo após para o interior do carro dos , em completo silêncio pela viagem toda até a casa de . Eu permaneci com meu mindinho entrelaçado no dele, esperando que a bomba estourasse no mesmo segundo em que sentamos contra o sofá e nossos pais pararam em nossa frente, nos encarando.
— Eu poderia dizer que estou muito desapontada com as ações de vocês dois hoje. - Minha mãe começou, mas um pequeno sorriso foi aos poucos se formando em seus lábios - Mas, eu estaria mentindo. E eu me conheço bem o suficiente para saber que eu tive minha quantidade de brigas escolares na idade de vocês e que seria uma questão de tempo até que vocês trouxessem isso para a discussão, caso eu comentasse algo. Então, eu vou deixar isso para Paola.
— Exatamente. - Liam concordou - Mas, ainda assim, eu preciso dizer que fiquei preocupado. Quando a secretária do colégio entrou em contato com a gente dizendo que um dos alunos havia sido encaminhado para o hospital, nós esperamos o pior. E, como vocês bem sabem, quando chegamos vocês ainda estavam na enfermaria então ficamos bem apreensivos. Eu estava preparado para ligar para os meus sócios para começar a juntar evidências para o processo contra Smith.
— Meu deus, pai. - murmurou - Você é muito dramático.
— Um dia, quando você tiver filhos, vai saber do que estou falando. - Liam rebateu.
— Então, vocês não estão bravos? - eu encarei minha mãe.
— Não. - ela sorriu - Um pouco preocupados em como isso pode influenciar em seu histórico acadêmico? Sim. Mas, não estamos bravos. Só precisamos que vocês não arrumem mais brigas daqui pra frente.
— Exato, conseguimos tirar vocês de uma suspensão por ser a primeira infração de vocês, mas vai ser complicado repetir o feito se isso virar um hábito. - Liam cruzou os braços.
— Nós não iremos. - se certificou em tranquilizá-los - Me desculpa, tia. Não queria que tivesse sido penalizado por isso, ele só separou a briga.
— Não precisa se desculpar. - minha mãe sorriu - Eu hoje em dia não aprovo condutas violentas, mas Deus sabe o quanto aquele garoto mereceu os bons socos que você deu nele.
— E ainda que eu também não ache que isso tenha sido a melhor forma de lidar com a situação, eu estou orgulhoso que você defendeu seus amigos dessa forma, tenho certeza que Connie compartilha do mesmo sentimento. - o pai de concordou.
— Isso. - minha mãe sentou ao lado de - Agora, quanto a Paola e seu pai. - ela me encarou.
— Eu sabia que isso iria chegar nesse ponto. - murmurou - Ela vai me matar.
— Nós conversamos sobre isso no caminho até a Horace e decidimos que estamos de acordo em não comentar isso com Paola e Daizen se vocês prometerem que isso não vai se repetir. Foi apenas uma infração menor que pode nem entrar no histórico escolar de vocês, então é possível que eles não tenham acessos a esses registros se não contarmos. - Liam se sentou ao meu lado.
— Não vai se repetir. - eu me certifiquei em dizer - Prometo não deixar as coisas escalarem nesse nível caso algo similar volte a acontecer.
— Duvido muito que alguém vá tentar algo depois do que aconteceu com Braeden. - concordou - Ele virou um exemplo, as coisas na Horace não são esquecidas tão facilmente.
— Eu quem o diga.
Liam concordou. Não era segredo que ele havia sido um aluno da Horace há bons anos atrás. Havia um mural com todas as conquistas dos alunos através dos anos e Liam estava em pelo menos cinco fotos emolduradas como atleta olímpico de futebol, assim como Sebastian.
Mas, antes esse fosse o único feito de Liam durante seus anos estudantis. Como consequência da maioria dos alunos do colégio serem legados de estudantes, não era difícil saber dos rumores relacionados à época de ouro da Horace. Daizen e Liam haviam sido responsáveis por criar a lista dos seniores que era repetida ano após ano no colégio. Uma lista que envolvia desde boquetes nos armários de limpeza até menáges com garotas da faculdade.
Era um acordo silencioso entre Sebastian e eu nunca de fato deixarmos claro para nossos pais o quanto sabíamos do histórico deles. Entretanto, isso não impedia que Sebastian tivesse acesso a lista e começasse a trabalhar para que ela fosse completada até o fim daquele ano letivo, quando iríamos para Michigan.
— Com isso resolvido, vou até a galeria. Tenho algumas exposições para organizar com minha agente e eu saí no meio de uma reunião para ir até a Horace. - minha mãe se levantou - Você se importaria de ficar de olho neles, Liam? Acho que ambos sabemos que Summer e Sebastian ficarão ansiosos se chegarem e não estiver aqui.
— Pode ir. Mas, não garanto que ficarei o dia todo, preciso voltar para o escritório para resolver alguns trâmites relacionados à vinda da MSFT para os Estados Unidos.
A MSFT ou MISFIT, era a empresa de cosméticos em que papai e Paola dividiam sociedade. A mãe de era a principal engenheira de produtos da marca e meu pai, era seu CEO. Como consequência, ambos haviam se mudado para o Japão e desde então haviam começado a tramitação para trazer a marca para os Estados Unidos, assim eles finalmente poderiam voltar para as suas famílias e nós poderíamos deixar de vê-los somente duas vezes ao ano.
— Quer uma carona? É caminho, tenho certeza que eles vão se comportar enquanto estiverem aqui. - minha mãe pegou a bolsa, alisando seu vestido.
— Provavelmente vamos voltar para o projeto de programação de . - eu confirmei.
— Então, irei aceitar a carona. - Liam sorriu, pegando a maleta em cima da mesa de centro antes de depositar um beijo no topo da cabeça de . Minha mãe fez o mesmo comigo - Até mais tarde, se comportem.
— Nós vamos. Até mais, pai.
se despediu e eles saíram do apartamento. Ele permaneceu por alguns segundos, como se estivesse considerando um mundo de opções antes de me encarar.
Mario Kart?
— Eu vou te trucidar.
Eu respondi, antes de me levantar com e irmos diretamente para a sala de jogos. Eu me apressei em arrumar tudo enquanto enchia algumas tigelas com salgadinhos e pegava duas latas de refrigerante na geladeira para deixar próximos dos puffs.
Nos sentamos e eu passei o controle para ele ao mesmo tempo em que pegava a lata de Coca-Cola e a deixava ao meu lado. Eu selecionei o Bowser como meu personagem enquanto escolheu Yoshi.
— Então - puxei assunto enquanto o jogo iniciava e esperávamos a largada -, o que Braeden disse pra vocês?
— Nada demais, não vale a pena repetir. - ele deu de ombros, acelerando quando foi dada a largada.
.
.
— Eu tô falando sério. - murmurei, focando em pegar o primeiro item disponível na tela. Eu sorri satisfeito quando o item de bomba de tinta apareceu em meu inventário.
— Não foi nada, é sério.
— Você não teria aquela reação se tivesse sido nada. - eu pausei o jogo, forçando sua atenção para mim - Qual é, achei que contássemos tudo um para o outro.
— Ele disse que poderíamos fazer um a três. E que eu só era esquisito daquele jeito porque não tinha provado um pau ainda. - me encarou e eu senti a raiva voltar a se acumular em meu corpo.
— Eu vou matar aquele desgraçado.
— Não vai, não. Fizemos uma promessa de não criar problemas de novo e eu não quero ter que lidar com o esporro da minha mãe.
— Eu prometi não criar problemas no ambiente escolar. Fora dele, já é outra história. Sr. Coleman disse que ele não pode fazer nada fora do perímetro escolar.
— Eu juro por deus que vou me matar na sua frente, . - disse com seriedade - Esquece isso, eu já resolvi o problema, tá tudo bem.
Ele voltou a encarar a tela, esperando silenciosamente para que eu tirasse a pausa do jogo. tinha só quinze anos, a mesma idade de Summer. E Braeden tinha dezoito. Uma diferença não muito grande, mas incômoda suficiente para que os alarmes soassem em minha cabeça. Por que caralhos nós éramos cercados por esse tipo de gente?
— Olha, , o que ele fez merece bem mais do que só uma surra. Ele assediou vocês, isso é sério pra caralho, Braeden precisa ser expulso.
— Eu sei. - bufou - Eu sei de tudo isso, . Mas, não é como se eu pudesse falar muita coisa, né? Quase fui suspenso por bater nele, se eu disser que foi porque ele me assediou, vão dizer que estou perseguindo ele e que passei dos limites. Nós dois sabemos como as pessoas me veem naquele lugar, eu não estou afim de jogar mais palha na fogueira. Não conta nada pro Sebastian, tá legal?
— Não posso prometer isso, . - eu o encarei - Ele merece o mesmo tratamento de Joshua. E eu não vou passar pano pra uma merda dessas de novo.
— Como foi com Danielle?
Eu pausei. Danielle era um assunto complicado desde o último ano e raramente conversávamos sobre ela. não sabia metade das coisas que ela havia feito, apenas pequenos rumores aqui e ali. Ele havia me visto ficar completamente apaixonado e depois me viu completamente destroçado por ela.
Eu evitava citar seu nome ou até mesmo pensar nela, porque isso me levava a lugares em que eu não gostaria de lembrar ou estar. Era uma espiral de merda que eu ainda estava lutando para sair. E que havia sido esfregada na minha cara no exato momento em que as palavras saíram da boca de .
— É, exatamente como foi com ela. - eu murmurei, voltando minha atenção para a tela. suspirou, tirando o controle de minhas mãos para chamar minha atenção.
.
— O que foi?
— Olha pra mim. - ele pediu e eu obedeci - Passei dos limites aqui, me desculpa. O que eu queria dizer é que eu não quero que vocês se metam mais do que já estão nessa história. Eu não sou você e ele não é Danielle. Vou me certificar de que ele não saia sem consequências disso, tá? A história com a Danielle não vai se repetir, mesmo que eu não saiba de tudo. Isso eu posso prometer.
— Você é só uma criança.
— Temos dois anos de diferença e os mesmos contatos. - ele sorriu de canto -, Não queima a cabeça com isso. Você precisa garantir que vai estar na MSU no próximo ano e eu também. E pra isso acontecer, precisamos ficar longe de problemas.
— Okay. - eu assenti, me dando por vencido - Mas, tem que me prometer que isso não vai te afetar.
— Prometo. - ele me garantiu - Mas, você sabia que o Braeden fuma maconha embaixo das arquibancadas durante os intervalos das aulas? Seria uma pena se alguém tivesse contado isso para o Sr. Coleman.
Três semanas depois, a notícia de que Braeden Smith tinha sido transferido para um colégio na Inglaterra tomou os corredores. Ninguém sabia ao certo o que havia acontecido e algumas teorias diziam que ele tinha sido expulso depois de ser pego em condutas sexuais com uma professora do corpo docente.
Entretanto, quando passei por e ele me deu uma piscadela, eu sabia que ele tinha cumprido com sua promessa de não deixar com que mais uma Danielle andasse pelos corredores de uma Universidade com seu histórico e futuro intactos.
E, por um segundo, eu me senti um pouco melhor do que já havia me sentido no último ano.



Capítulo Três



“Favorite friend
And nothing’s wrong when nothing’s true
I live in a hologram with you”
(Amigo favorito
E nada está errado quando nada é verdade
Eu vivo em um holograma com você)
— Buzzcut Season, Lorde


Nova York, NY
Antes



Após o inferno das semanas anteriores e da expulsão de Braeden, eu me sentia como se pudesse finalmente respirar novamente e voltar aos meus hábitos.
Acordar de manhã, revisar os conteúdos das aulas e voltar a programar o jogo que seria responsável por me colocar no programa de verão da UCLA. Eu estava ansioso, de certa forma. A cada dia que passava, era um a menos até que eu finalmente pudesse ir para a Universidade Estadual do Michigan e deixar todo o inferno do ensino médio para trás. Começar minha vida do zero, como uma folha em branco.
— Ei, ouviu a novidade?
Summer parou ao meu lado no armário enquanto eu pegava meu livro de biologia e checava minhas anotações para a prova que aconteceria ao fim do período. Eu iria aproveitar para fazer uma revisão durante meu horário de almoço, mas algo dizia que Summer estava animada demais para alguém que planejava estudar.
— Não realmente, o que aconteceu?
— Temos uma aluna nova, começou hoje e estamos dividindo algumas disciplinas.
— Acho que vou me arrepender da pergunta, mas como isso está relacionado comigo? - a encarei.
— Ela é a filha do Peter Jones. - Summer sorriu, animada - O Peter Jones.
— O marido da Savannah Carter?
Summer conseguiu capturar minha atenção e pareceu bastante satisfeita com isso. Savannah Carter e Peter Jones foram nossas obsessões por toda a sexta série. Eu havia descoberto Savannah em uma playlist aleatória e entrei em uma toca de coelho para saber tudo sobre ela. Foi uma surpresa agradável quando, alguns anos depois, eles assumiram seu relacionamento de forma pública com uma demonstração de amor que subiu meus parâmetros de relacionamento de forma irreversível. Eles tinham talento, química e beleza. E, enquanto eu era completamente obcecado por Savannah, minha melhor amiga mantinha o mesmo nível de obsessão por Peter e sua banda, a Rowdy.
, precisamos ser amigos dela. - Summer murmurou, enquanto andávamos em direção ao refeitório - Tipo, sério. Nós seríamos um trio incrível e eu divido algumas cadeiras com ela, então temos coisas em comum.
— Você acha mesmo que metade da escola não pensou a mesma coisa? Eles são famosos pra caralho, não é como se ninguém quisesse ser amigo dela também.
Entrei na fila da cantina para comprar meu almoço e após avaliar as opções, decidi ir na opção de pizza de brócolis e suco de morango. Fizemos nosso caminho em direção a nossa mesa e nos sentamos.
— Ela parece meio perdida, na real.
Summer mexeu com a cabeça em direção à Cassandra Jones, que estava parada no meio da cantina decidindo onde iria se sentar. Ela parecia perdida e isso foi o suficiente para que Summer levantasse seu braço para chamar sua atenção em um convite para que ela se sentasse conosco. A novata lhe deu um sorriso de canto e começou a se dirigir em nossa direção, mas não sem antes ser parada por Daisy Moreau.
— Acho que você perdeu essa, Sum. - eu ri, dando uma mordiscada na pizza.
— Ou não.
Poucos segundos depois, Cassandra estava se sentando ao lado de Summer na mesa com sua bandeja que trazia uma maçã, duas fatias de pizza de brócolis e uma garrafa de suco de abacaxi.
— Obrigado por isso, eu estava meio perdida. - Cassandra agradeceu, timidamente.
— Relaxa, já tive meu primeiro ano de aulas em um lugar novo também. - Summer a tranquilizou - Esse é , a pessoa que comentei com você hoje mais cedo na aula de artes.
— Oi, eu sou Cassandra Jones. Mas, pode me chamar de Cassie, todo mundo me chama assim. - ela riu fraco, estendendo sua mão em minha direção. Eu retribui o cumprimento.
, é um prazer conhecer você. - eu sorri em sua direção. De perto, Cassie parecia incerta em como exatamente prosseguir com uma interação - Só por curiosidade, você realmente é a filha do Peter?
— Sim. - ela riu fraco - Mas, por favor, não precisa me tratar como se meu pai fosse aparecer aqui e surtar caso você faça uma brincadeira. Eu juro que tive pelo menos quatro pessoas me perguntando se meu pai colocou algum segurança para me acompanhar.
— Ele colocou? - eu provoquei e ela abriu um sorriso divertido.
— Talvez ele esteja me esperando na sala do diretor caso as coisas fiquem tumultuadas. - Cassie me respondeu - Vocês são fãs?
é mais fã de Savannah do que da banda. - Summer explicou e eu concordei - E eu espero que você nunca visite o meu quarto porque senão eu vou ter que tirar os posteres da Rowdy da parede.
— Relaxa - Cassie riu, balançando a cabeça - Eu não vou usar isso contra vocês, meus pais são bem fodões mesmo. Aliás, quais matérias vocês fazem? Seria bom ter um rosto conhecido aqui.
— Além das disciplinas que compartilhamos, acho que você vai ter aulas com o .
— Você faz álgebra III, Biologia II e Literatura? - questionei. — Sim. Mas, também tenho História Mundial II, Espanhol III e Japonês I. — Vamos compartilhar boa parte das disciplinas, menos Japonês I. - eu concordei - História Mundial e Espanhol você vai ter com o meu irmão. - expliquei - Ele deve aparecer aqui daqui a pouco, geralmente almoçamos juntos. Posso te apresentar pra ele, assim você não fica sozinha. Álgebra III nós estamos juntos com o irmão da Summer. Geralmente escolhemos as mesmas cadeiras porque assim é mais fácil quando estudamos.
— Vocês estão salvando minha vida, sério. - Cassie sorriu, mordiscando sua pizza - Você está na eletiva de música? Summer comentou sobre e eu estava pensando em adicionar na minha grade, tenho até o fim da semana para informar a secretária.
— Sim, podemos fazer juntos.
— Perfeito, obrigado. - agradeceu.
— Eu juro que eu estou próximo de me matar na frente do treinador. - Sebastian se sentou ao meu lado e fez o mesmo. - Ele atrasou meu almoço de novo.
— Bom dia, Sebastian. - eu o encarei - Você poderia não assustar a novata com seu drama?
Sebastian encarou Cassie com um sorriso envergonhado antes de roubar um pedaço da minha pizza.
— Eu sou Sebastian, irmão do e aquele ali é o . - ele apontou - E você é?
— Cassandra Jones, pode chamar de Cassie. - ela sorriu - Acho que vamos dividir algumas disciplinas.
— Seu nome é familiar. E seu rosto também. - comentou, abrindo seu suco de morango.
— É, eu sou a filha do vocalista da Rowdy. - Cassie murmurou.
— Legal, a empresa do meu pai fez uma colaboração com a Rowdy uns dois anos atrás. - fez o seu melhor para que Cassie não se sentisse tão desconfortável.
— Qual delas? Meu pai fez algumas colaborações nos últimos anos. - Cassie franziu o cenho.
— UN/DN, a linha de esmaltes e maquiagens.
— Eu me lembro dessa! É a MSFT, né? A marca japonesa.
— Exato. - concordou - Summer e ficaram malucos e completaram a coleção dos esmaltes.
— E ainda estamos esperando pelas novas cores. - Summer concordou.
— Meu pai estava decidindo a nova paleta junto com o tio Donnie essa semana. Ele me pediu algumas opiniões.
— Você já está em casa, então. - Sebastian sorriu - Se qualquer um te encher o saco, me avise que eu cuido disso pra você, tá? - meu irmão lhe deu uma piscadela e eu pude jurar que vi Cassie começar a corar.
— Vou me lembrar disso. - ela sorriu - Então, o que exatamente eu perdi nesse semestre?
— Oh, meu bem. - Summer sorriu, enviesada - Vamos precisar de horas para te atualizar em todas as fofocas desse lugar. Então, o que exatamente você tem planejado depois do horário da detenção?

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Estar em uma casa de músicos não era novidade para mim. Estar na casa de Savannah Carter e Peter Jones, entretanto, era.
A decoração da casa dos Carter-Jones era muito melhor do que eu havia sonhado nos meus sonhos mais distantes. Logo que entramos na cobertura, fui recebido pelos prêmios de ambos, categorizadamente organizados no topo de uma estante com diversos livros. Uma estatueta de Oscar marcava o nome de Melhor Soundtrack Original do ano de 2021 por Judas e o Messias Negro, com guitarras penduradas em ambas as paredes ao redor da estante e um enorme piano de calda branco no centro da sala.
— Se eu estiver vivendo um sonho, por favor, não me acorde. - eu murmurei e Cassie soltou uma risadinha.
— Você vai desmaiar se eu chamar minha mãe para conhecer vocês? - ela me encarou.
— Eu não prometo nada.
Eu fui honesto enquanto Sebastian, Summer e analisavam cada aspecto da decoração junto comigo. Eu ainda me lembrava de sofrer ao som de Hard Place como se fosse ontem.
Cassie balançou a cabeça, rindo ao deixar a mochila em cima do sofá e adentrar algum cômodo que não fiz questão de acompanhar. Minha atenção estava completamente desviada para a Stratocaster customizada com vitrais da Fender que havia sido utilizada por Savannah na adaptação musical de Bela e a Fera.
— Mãe, pai, gostaria de apresentar meus novos amigos. - eu ouvi Cassie falar e minha atenção foi carregada para a presença imponente do casal mais ridiculamente bonito que eu já havia visto.
Savannah Carter e Peter Jones estavam ao lado de Cassie e sorriam alegres ao nos encarar. Ele usava uma regata branca, calças de moletom pretas e um converse da mesma cor. Os cabelos loiros caiam por seu rosto junto com a barba por fazer. E Savannah Carter tão bonita pessoalmente quanto das vezes em que havia ido em seus shows. Mais bonita, até. Seus cabelos estavam soltos e ela trazia óculos de grau arredondados em seu rosto. Ela usava um conjunto de moletom cinza e um par de jordans clássicos. E, eu sentia que estava próximo de ter um ataque quando meu coração batia descontrolado contra o meu peito.
— Esses são e Sebastian - Cassie apontou em nossa direção - E esses são e Summer Tanaka.
— É um prazer conhecê-los. - Savannah sorriu, se aproximando o suficiente para nos dar um abraço. Quando ela me envolveu em seus braços, eu senti como se tivesse morrido e alcançado os céus. - É bom saber que Cassie já fez novas amizades, era um medo nosso.
— Uma dúvida, vocês são filhos do Daizen? - Peter questionou, encarando Summer e .
— Isso. - Summer concordou.
— Imaginei, ele tem fotos de vocês quatro espalhadas pelo escritório dele em Tóquio. Foi ele quem me recomendou a Horace quando decidimos vir para Nova Iorque e disse que Cassie estaria menos sozinha se vocês estivessem lá. - Peter comentou - Ele também disse que os eram ótimas pessoas e que minha filha iria se dar bem com , algo como vocês terem gostos semelhantes.
— Nós temos. - Cassie concordou - Estamos dividindo boa parte das aulas.
— Isso é ótimo, filha. - Pete sorriu, tão amavelmente que eu não conseguia imaginar como metade das coisas que os sites de fofoca diziam eram reais.
— Mãe, gosta muito do seu trabalho. - Cassie me denunciou e eu repentinamente me senti como se estivesse próximo de uma síncope - Ele faz a eletiva de música comigo.
— Sério? - Savannah sorriu - Você toca?
— Um pouco. - eu finalmente consegui responder - É mais um hobby que qualquer outra coisa, pretendo seguir na carreira de desenvolvedor.
— Sério? Acredita que considerei isso antes de ir estudar música na Julliard? - ela pareceu animada.
— Nós perdemos esse. - Summer brincou.
— Não é? - Cassie riu - , você pode nos encontrar no estúdio depois, se quiser.
— Não, eu não quero incomodar. - eu neguei.
— Não incomoda, eu adoro falar sobre. - Savannah riu - Vou fazer algo para vocês comerem enquanto ficam confortáveis e levo quando for levar as comidas, se estiver tudo bem por ele.
— Posso te ajudar. - eu concordei e meus amigos simplesmente acompanharam Cassie até o estúdio com Peter logo atrás.
— É por aqui.
Savannah liderou o caminho e eu apenas a segui, ainda observando cada aspecto da decoração até o caminho para a cozinha.
— Você comentou que toca, é guitarra ou algum outro instrumento?
— Eu toco alguns, mas eu sou melhor no baixo. É o que eu comecei e estudo com mais frequência. - eu expliquei.
— Eu comecei com o piano por conta da minha mãe. - disse - Podemos tocar algo se você estiver com tempo. Pode sentar.
— Obrigado - eu obedeci - Eu juro que não sou um fã maluco, tá?
— Relaxa - ela riu -, se te fizer sentir melhor, eu tive essa mesma reação quando a Halsey disse que poderíamos trabalhar em algo juntas e ainda fico assim quando conheço artistas que sou fã.
— Me sinto menos pior.
— É normal, sério. - Savannah me tranquilizou, pegando um bolo e cortando algumas fatias para colocar em um prato. - Então, você não pretende seguir carreira na música?
— Não - balancei a cabeça - Eu gosto de música, mas sempre tive mais afinidade com programação. Eu produzo algumas coisas, mas só Summer sabe. e Sebastian são muito emocionados e acho que fariam um tumulto. E eu gosto de poder ter um hobby sem compromissos.
— Eu te entendo bem. - Savannah pausou - Eu já tinha alguns anos trabalhando como roadie quando comecei a trabalhar como performer, mas acho que você já sabia disso.
— Pode me contar como se eu não soubesse, eu realmente não me importo. - eu ri e Savannah retribuiu.
— Bom, eu costumava compor uma coisa ou outra, mas isso tudo começou mesmo por um hábito que eu tinha com a Cassie. Vira e mexe, antes de eu começar a me relacionar com o Pete, eu era a pessoa que cuidava dela. Então, eu ajudava ela a praticar no piano quando o pai dela estava trabalhando. E aqui é a parte onde as coisas ficam interessantes. - ela sorriu, pegando algumas frutas na geladeira e cortando contra a tábua - Eu tinha medo de palco e não cantava com frequência para outras pessoas por alguns motivos. Mas, quando Cassie me pedia? Eu corria para agradá-la, porque eu sempre fui completamente manipulável por aqueles grandes olhos e sorriso fofo. - Savannah riu, separando as frutas em algumas tigelas - De começo eu fazia isso porque tinha medo de ser demitida, não vou mentir. Mas, acabei gostando.
— Ela é realmente muito legal, nós a conhecemos hoje e eu sinto como se já nos conhecêssemos há anos. - eu disse.
— Cassie tem esse poder sobre as pessoas. E ela é tão ridiculamente inteligente. - Savie suspirou -, Enfim, em uma das vezes em que eu cantei pra ela, Peter acabou vendo e eu juro, esse homem fez da minha vida um inferno por meses. Meses! - Savannah encostou contra a bancada - Pete não é conhecido por ser uma pessoa que desiste fácil das coisas e ele encheu tanto meu saco para ajudar no Bloom que em determinado momento, eu só cansei de negar. Ele me ganhou pelo cansaço.
— Esse é um dos meus álbuns preferidos da Rowdy, só perde para o Hotel Diablo. O que vocês fizeram nesse álbum foi histórico, de verdade.
— Obrigada - Savannah sorriu - Eu tenho um puta orgulho desse álbum, nós fizemos ele durante a pandemia e tivemos que nos isolar juntos para que ele saísse. Eu fiquei com medo de acabar brigando com todos eles na época, mas eu saí dele uma pessoa diferente e três anos depois eu e Peter nos casamos, então acho que isso foi algo bom.
— Sim, foi - eu concordei, sorrindo -, mas eu acho que teria medo disso também. Sebastian e eu brigávamos feito gato e rato nessa época. - eu balancei a cabeça, me lembrando das brigas -, foi bem difícil para o papai.
— Eu imagino. - Savannah sorriu -, Sebastian é o mais alto, certo? Desculpa, ainda não me adequei com os nomes, Peter teve mais contato com seus pais do que eu.
— Isso, ele é o careca alto. Ele é meu irmão mais velho.
— Vocês não tem uma diferença muito grande, né?
— Não. Sebastian e são do mesmo ano. Sebastian faz dezoito no começo de novembro e faz em setembro. São dois anos e alguns meses de diferença, eu faço dezesseis em dezembro, junto com Summer. Nós nascemos no mesmo dia.
— Isso é legal. Eu sou a segunda mais velha entre a Rowdy, perdendo para o Tommy por seis meses.
— Como é ser a irmã mais velha?
— Irmã? Por Deus, eu quase pareço mãe daqueles cavalos. - Savannah riu - Eu tive que dar banhos neles mais vezes do que eu poderia contar, em ambas as mãos, quando ainda trabalhava como roadie. E isso inclui Peter também.
— Eu te deixo cinco minutos sozinha e você começa a me expor para o novo amiguinho de Cassie? - Peter entrou na cozinha, depositando um beijo na bochecha de Savannah, que abriu o sorriso mais brilhante do universo - Precisa de ajuda?
— Você fala como se eu não soubesse que você fez o mesmo. - ela riu - Pega o suco pra mim, por favor.
— Fui pego no pulo. - ele balançou a cabeça, puxando andando até a geladeira - Então, , Savannah já te traumatizou o suficiente?
— Não, de maneira alguma - eu ri -, ela me contou como foi o processo de produção de Hotel Diablo e como foi estar em isolamento para a produção dele.
— Oh, essa época foi complicadinha. - Peter concordou, pausando por um tempo - Vocês têm preferência de suco?
— Sem preferências, mas é alérgico à abacaxi.
— Okay, então o de abacaxi vai para a Cassie. - Peter pegou o de abacaxi e mais três de cores diferentes - Aqui, estrelinha.
— Obrigado, Raio de Sol - Savannah agradeceu -, voltando ao ponto. É bom que você tenha o apoio deles, fez uma diferença imensa pra mim ter os meninos e Sabrina quando eu comecei. Se você achar que é uma boa, tenho certeza que eles vão te apoiar, mesmo que insistam como Peter fez.
— Não sei exatamente qual era o assunto, mas concordo com Savie. Ela geralmente sabe do que tá falando.
— Obrigado. - eu sorri - Eu ainda sou bem novo, então pode ser que as coisas mudem daqui pra frente. Mas, por agora, vou continuar estudando para entrar na MSU no meu último ano.
— Você vai sozinho? - Peter puxou a cadeira para se sentar ao meu lado.
— Sebastian e estarão lá, eles receberam as cartas de admissão para o semestre de outono. Nós sempre quisemos ir para a MSU porque foi onde nossos pais conheceram nossas mães. Somos alunos legados. - expliquei - Mas, vamos todos para cursos diferentes, com exceção de e eu.
— O que planejam estudar? - ele questionou.
— Eu e vamos para design de jogos e mídias visuais, Summer vai Bioquímica e Sebastian vai seguir os passos do meu pai e ir para Direito. Ele quer abrir uma firma junto com Gianna, a irmã mais velha dos . Acho que você chegou a conhecer ela, ela é a advogada responsável pelos contratos das colaborações da MSFT.
— Alta, ruiva e com olhos verdes?
— Ela mesmo. - concordei - Ela puxou mais a mãe do que o tio Daizen.
— Acho que eles vão fazer uma boa dupla. Sebastian estava discutindo com Summer sobre como ele achava que a professora de química estava dando em cima de algum colega de turma e ele teve argumentos bem convincentes.
— Meu deus. - eu ri, balançando a cabeça - Por favor, ignorem o meu irmão. Ele tem dessas de criar teorias malucas que não fazem o mínimo sentido e fica defendendo a ideia até alguém provar que ele está errado.
— E ele geralmente está? - Savannah arqueou uma sobrancelha.
— Vocês não têm nem ideia do quanto.
Eu ri e eles me acompanharam. Depois de conversar um pouco com ambos, eu pude notar que eles eram tão normais quanto qualquer casal na faixa dos trinta e poucos anos. Era visível o quanto eles gostavam um do outro, quase como se eles vivessem em um mundo só deles, mesmo quando estavam cercados por outras pessoas. E eu me peguei invejando cada segundo da relação deles, secretamente rezando para poder ter exatamente o que eles tinham.
— Eu acho que já tomei tempo o suficiente. - eu ri, me levantando - Quer que eu leve as coisas?
— Fica tranquilo, posso levar e Peter me ajuda, você é uma visita, afinal.
Eu assenti, deixando que o casal me guiasse pela cobertura enorme até o estúdio. Não levou muito tempo e, quando cheguei, Cassie chorava de rir com algo que Summer dizia. apenas balançava a cabeça negativamente, observando tudo como se estivesse presenciando um podcast ao vivo.
— Nós trouxemos algumas coisinhas para vocês. - Savannah sorriu, colocando uma bandeja com frutas, bolo e alguns salgadinhos em cima da mesa de centro do estúdio enquanto Peter colocava os sucos em cima do porta-copos.
— Obrigado, mãe. - Cassie sorriu em agradecimento e se esticou para pegar o suco de abacaxi.
— Nos avisem se precisar de mais alguma coisa.
Peter sorriu, entrelaçando seus dedos nos de Savannah enquanto eles saiam para fora do estúdio, fechando a porta atrás de si. Eu desenhei meu caminho até , pegando duas garrafas do que pareciam ser suco de morango e entregando uma para ele quando me sentei ao seu lado.
— Pode me falar sobre o que eles estão conversando? - murmurei.
— Summer estava contando de quando nós tomamos aquela chuva durante um dos jogos do time e você voltou pra casa parecendo um monstro de filme de terror. - ele sorriu, abrindo a garrafa.
— Obrigado.
— E então, como foi com Savannah?
— Foi incrível. - eu sorri, me sentando de frente para para encará-lo - Ela é muito legal e nós conversamos sobre música, sobre irmãos e um pouco sobre o processo de gravação do Hotel Diablo. Foi realmente bem legal. Como foi com o Peter?
— Eu acho que eu posso estar apaixonado pelo cara, honestamente. - riu - Ele é super divertido e deu algumas risadinhas com os absurdos que o Sebastian estava falando. Ele genuinamente é o adulto mais legal que já conheci.
— Sim. - concordei.
— Então, Mitch - Cassie chamou minha atenção e eu a encarei - Qual é a história por trás de Braeden Smith? Summer disse que preferia que você contasse.
— Essa é uma longa história, mas tudo começou há uns dois meses, depois que o Sebastian pegou o posto de capitão do time de futebol.



Capítulo Quatro



”Oh, you make me feel
Like I’m alive again”

(Oh, você me faz sentir
Como se eu estivesse vivo de novo)

- Adventure of a Lifetime, Coldplay


Nova York, NY
Antes



A gravata fina e preta caía nos dois lados do meu ombro enquanto eu avaliava no espelho. A calça de alfaiataria servia perfeitamente e combinava com os Converses brancos. Eu suspirei, aceitando que havia perdido a guerra contra o nó de gravata. Puxei o celular do meu bolso, digitando uma mensagem rápida para que Summer me ajudasse com essa tarefa impossível.
Não demorou para que ela batesse duas vezes na porta do quarto, esperando por minha permissão antes de entrar. Summer me olhou dos pés à cabeça, sorrindo orgulhosa antes de andar até mim.
— Você precisa aprender a fazer isso sozinho, ano que vem você vai para a MSU, como pretende usar gravatas se não sabe dar nós?
— Não pretendo usar. - dei de ombros quando ela me deu um tapa fraco contra meu peito. Summer pegou as duas pontas da gravata, ajustando-as antes de seguir dando o nó com uma destreza que escapava da minha compreensão. - Prontinho, .
— Obrigado, pirralha. - sorri em agradecimento, me encarando no espelho uma vez mais antes de virar em direção à ela com ambos os braços repousando ao lado de meu corpo. - E então? O que acha?
— Acho que você está bonito. - ela sorriu, sincera - Me pergunto como não arrumou uma namorada ainda. Ou um namorado.
— Estou focando em meus estudos e você deveria fazer o mesmo. - tirei o celular do bolso, digitando uma mensagem para Sebastian.

:
Já estão vindo?

Não levou mais que trinta segundos para que a resposta chegasse.

:
Eu sim
:
ainda está se arrumando com a Cass, os pais dela vão trazer os dois.



Eu respirei fundo, tentando esconder minha frustração diante de Summer. Não que eu estivesse triste com tendo mais amigos, longe disso. Mas ele e Cassie haviam se tornado tão próximos nos últimos tempos que ele ao menos parecia se lembrar de minha existência.
Era frustrante. Principalmente quando eu iria me mudar para o Japão pelo resto do ano letivo e ainda não havia reunido coragem o suficiente para contar à pessoa que mais sofreria com minha ausência.
Girei o elástico de cabelo contra meu pulso, preso demais em meus pensamentos que sequer me lembrei que Summer estava ao meu lado, me observando com atenção.
— O que foi? - ela franziu o cenho, se sentando ao meu lado.
— Vou te dizer algo e eu preciso que não me julgue, tá? - encarei Summer.
— Okay? - minha irmã franziu o cenho.
— Eu estou me sentindo como se estivesse me deixando de lado e isso é uma merda, porque na próxima semana eu vou estar do outro lado do mundo e queria passar esses dias com meus melhores amigos.
— Seus melhores amigos ou ? - Summer tombou a cabeça para o lado.
— Você disse que não ia me julgar.
— Não estou te julgando, . - ela garantiu - Eu só estou perguntando porque Sebastian já sabe que você vai para o Japão faz um tempo. E você fez questão que todos nós não contássemos nada a porque você queria fazer isso. E logo você tá indo e nada de ter contado isso pra ele.
— Eu vou contar isso pra ele hoje. - justifiquei.
— Acho meio escroto da sua parte saber disso por meses e decidir contar logo quando você está embora, mas tudo bem. - ela deu de ombros - Eu acho que você poderia ter só conversado com ele se o fato dele estar tão próximo de Cassie te incomodou tanto, não é como se ele pudesse adivinhar.
— Eu não queria que ele achasse que eu estava com ciúmes da nova amiga dele.
— E você não está? - Summer arqueou uma sobrancelha.
— Esse não é o ponto. - eu bufei.
— Então qual é? Isso tá soando como se você estivesse com ciúmes dos dois.
— Você é outra que fica junto com ela o tempo todo. - rolei os olhos.
— Aí, , eu cansei de tentar te entender. Use as palavras e me explica direito o que tá acontecendo antes que eu comece a tirar conclusões sozinha e te julgar.
— Eu acho que está me evitando desde que conversamos sobre o que Braeden realmente fez, tá? E eu não queria ficar em cima dele, revivendo o assunto.
— Ben… - ela suspirou - Você é a pessoa mais burra que eu já conheci em toda a minha vida.
— Precisava descer o nível? - eu me senti atacado.
— É a verdade. - Summer rebateu - Sei lá, já pensou na possibilidade de que e Cassie estão próximos por algum motivo além de amizade?
— O que quer dizer? - tombei a cabeça.
— Eles estão se pegando, jamin).
— Nem fodendo, é uma criança.
— Oh, é mesmo?
Summer ironizou, digitando algo na tela antes de virar em minha direção. Era uma foto de com Cassie sentada em seu colo. As mãos dela envolviam o rosto dele enquanto ela o beijava.
— Quando foi isso?
— Semana passada, quando nos juntamos para ensaiar o tema da apresentação de inverno.
Summer explicou e eu franzi o cenho. não havia me contado nada sobre estar com Cassie e eu não pude deixar de me sentir levemente traído por ser o último a saber de toda a situação.
— Eu só não entendo o porquê dele não ter me dito isso, sabe? Achei que nós contássemos tudo um para o outro.
— Eu não sei, - Summer suspirou -, mas você pode realmente exigir isso dele quando ele teve que descobrir tudo sobre Danielle através de rumores porque você nunca chegou a contar pra ele tudo o que tava acontecendo?
— São casos diferentes.
— São mesmo? - minha irmã arqueou uma sobrancelha - Não é como se ele ou qualquer um de nós pudesse falar qualquer coisa sobre, você nunca contou pra gente o que aconteceu entre vocês. Um dia você estava super feliz e logo depois, você mudou da água pro vinho e se tornou uma pessoa completamente diferente. E sempre que a gente perguntava sobre, você fechava a cara e mudava de assunto. Até hoje é assim.
— Sebastian sabe o que aconteceu.
— E desde quando ele é o ?
Eu permaneci em silêncio, me recusando a sequer responder aos comentários de Summer. Principalmente quando ela estava certa e eu não tinha coragem suficiente para contar para ela o que realmente aconteceu entre Danielle Wilson e eu. Ainda me sentia como se essa fosse uma ferida recente demais e que jorrava sangue se eu a ousasse tocá-la novamente.
— Você tá certa.
— Eu sei disso. - ela sorriu de canto - De qualquer forma, acho que você deveria conversar com ele. - minha irmã se levantou - não tem como adivinhar o que te incomoda se você não for sincero com seus sentimentos.
— Vou tentar, tá?
— Okay. - Summer sorriu, dando batidinhas em meu ombro antes de sair do quarto e me deixar com meus próprios pensamentos.
Alguns minutos depois, senti meu celular começar a vibrar com uma notificação de Facetime de Paola tomando conta de toda a minha tela. Eu sorri, arrastando o dedo pela tela para conseguir atender a chamada.
Feliz aniversário, . - Paola sorriu, deixando o celular apoiado em algum lugar da mesa do que eu só poderia considerar como sendo seu escritório. - Como você está?
— Obrigado, tia. - eu sorri - Estou bem, um pouco ansioso mas fora isso, tudo bem. E você, como está?
Estou bem. - ela assentiu - Contando os dias para que você venha pra cá. Faz muito tempo desde a última vez que nos vimos. Como estão as coisas?
— Corridas, na verdade. Estou arrumando tudo para ir nos próximos dias e parece que as coisas que preciso levar nunca acabam. - eu sorri.
Como está? - Paola parecia preocupada.
— Ele está bem, pelo menos desde a última vez que conversamos. - estranhei a pergunta, franzindo o cenho - Por que? Aconteceu algo com ele?
Ele estava meio para baixo quando conversamos da última vez, mas sabe como é. Ele nunca realmente me conta as coisas até estar fugindo de seu controle. - ela tentou me acalmar - Pode ser só algo relacionado a escola ou aos projetos dele. Acredito que não é nada demais.
— Certo. Então eu vou descer e ver se eles estão aqui ou não. - eu suspirei, sorrindo de canto para a mulher do outro lado da tela.
? Antes de você desligar, queria te dizer algo.
— Claro, pode dizer.
Isso não é algo que eu deveria te dizer, mas acho que talvez esteja lidando com sentimentos em relação a alguém. Ele não me contou nada, mas sabe como nós, mães, somos.
— Sei, sim. - eu ri fraco, lembrando de como minha mãe tinha a capacidade de saber o quão apaixonado eu estava há alguns anos atrás, antes de todas as coisas caírem por terra e eu ficar com um coração quebrado e tantos temas para terapia que eu poderia facilmente escrever um livro.
Não quero tomar conclusões, mas converse com ele, sim? pode se abrir melhor com você do que com qualquer outra pessoa. E, caso você seja o alvo desses sentimentos e eles não forem recíprocos, o rejeite com delicadeza, sim?
As palavras de Paola me deixaram estático por vários segundos. era somente um adolescente, tínhamos quase três anos de diferença. Não era possível que eu fosse o responsável por seus sentimentos, era? Principalmente quando eu só o enxergava como um irmãozinho e o tratava como tal. Em um ano, eu já não estaria mais em Nova York. Dali uma semana, eu estaria no outro lado do mundo. E, apesar de tudo, ainda tinha toda a situação com Cassie.
— Eu não acho que sou eu, mas tentarei descobrir - eu assenti positivamente -, te aviso se souber de algo.
Sem problemas. - Paola sorriu - Mais uma vez, feliz aniversário, .
— Obrigado, tia. - sorri, clicando na opção de desligar.
Guardei meu celular no bolso lateral da calça, me encarando uma vez mais no espelho e mexendo em meu cabelo antes de sair do quarto. As palavras de Paola ainda estavam reverberando em minha cabeça. Se sentia algo por mim, ele me diria, certo? Certo?
Eu respirei fundo, deixando o pensamento no fundo de minha cabeça enquanto descia as escadas somente para ver uma quantidade ridícula de rostos conhecidos e desconhecidos, que me paravam para me desejar feliz aniversário. E nenhum dos rostos era o que eu procurava.
Andei até o bar, pedindo ao barman por uma cerveja e ele imediatamente me passou uma longneck aberta. Agradeci com um menear de cabeça, passando por diversas pessoas até atravessar a porta que dava em direção à parte externa da cobertura de meus pais. A brisa refrescante da noite me fez sorrir e fechar os olhos por um momento, sentindo a paz de escutar a música abafada dentro da cobertura, longe dos meus ouvidos.
Andei um pouco mais, tomando distância o suficiente da porta e vendo um conhecido par de Doc Martens envernizados com cadarços rosa neon de .
Ele estava sentado em uma das cadeiras, com os pés apoiados no parapeito, dando goles em uma latinha de Coca-Cola. Ao seu lado, dois pacotes de presente descansavam em cima da mesa.
— Achei que estava se arrumando com Cassie e demoraria mais pra chegar. - eu tombei minha cabeça para o lado fingindo confusão.
— Ficamos prontos pouco tempo depois de Sebastian avisar que já estava vindo. - ele sorriu de lado, encarando o relógio em seu pulso antes de me encarar - Dez minutos de festa e você já foi se esconder, foi um recorde dessa vez.
— Odeio o barulho, sabe disso. E eu ainda não estou bêbado o suficiente para interagir tanto. - dei de ombros, passando por trás de e me sentando na cadeira ao seu lado.
— Comprei duas coisas porque já havia dado uma prévia do que te daria um tempo atrás, espero que goste. - ele sorriu, dando mais um gole em sua Coca-Cola antes de empurrar os dois pacotes cuidadosamente embrulhados em minha direção.
— Vou gostar. - o tranquilizei, deixando minha garrafa de cerveja de lado para abrir a caixinha menor.
Usei as chaves em meu bolso para descolar as fitas cuidadosamente, tirando a caixa de dentro do embrulho. Li as letras da caixinha. Era um pedal Fender de reverb e delay que deveria custar, no mínimo, 300 doláres. Eu havia falado sobre precisar de um novo na semana anterior. E o maldito havia guardado a informação de formas ridiculamente específicas.
— Sabia que você ia comprar de qualquer forma, só acelerei o processo. - só sorriu de canto.
— Obrigado, boy wonder, eu gostei muito.
Eu não consegui evitar sorrir, deixando a caixa de lado para focar no segundo presente. Eu já sabia do que se tratava antes mesmo de terminar de abrir. não estava brincando quando disse que iria me arrumar um quadro para que eu pudesse anotar todas as coisas importantes.
Era um quadro magnético e haviam alguns imãs em um saquinho separado do quadro. Eu ri quando notei as palavras escritas em japonês, com um pequeno desenho que parecia muito comigo, tombando a cabeça com alguns pontos de interrogação ao lado. O título levava os dizeres “quadro de memórias importantes de ”.
— Você é inacreditável. - sorriu mais ainda, orgulhoso. Mas eu ainda conseguia dizer que algo o incomodava - O que foi, boy wonder?
— Nada. - ele deu de ombros - Estou feliz por você. Feliz aniversário, .
— Ei, você parece meio triste. - tombei minha cabeça, confuso. Agora eu entendia o que Paola queria dizer com estando esquisito nos últimos tempos - Vamos lá, me diga o que anda acontecendo.
— Eu só estou cansado, fiquei estudando e lendo até tarde, só isso. - ele justificou - Relaxa, .
— Eu estou relaxado, só conversei com sua mãe e ela parecia preocupada. Disse que você estava diferente da última vez que conversaram. O que aconteceu?
— Deus do céu. - ele reclamou, se levantando - Está tudo bem, . Eu só estou lidando com disforia e ficar em casa só focando em projetos não ajuda, tá legal? Não sei o que minha mãe te disse, mas é isso que aconteceu.
— Ela disse que achava que você estava passando por alguma desilusão amorosa e me pediu para conversar contigo.
— Claro, porque eu realmente vou falar sobre quem quero beijar pra você, .
— Você poderia, quero dizer - tentei me justificar, gaguejando em meio ao processo - digo, eu tenho mais experiência, caso não queira falar com seu irmão sobre. Eu não sei o quão confortável vocês estão pra conversar sobre isso. Tem a questão dos preservativos também e…
Mexi no elástico de cabelo em meu braço, me atrapalhando em minhas próprias palavras. era um adolescente de quinze anos e em alguns meses faria dezesseis. Era uma questão de tempo até que eventualmente ele quisesse experimentar coisas. Principalmente dali alguns meses, quando ele poderia começar com a transição hormonal, algo que já havia sido estabelecido por seus pais no último ano. A situação com Cassie era só a ponta do iceberg se considerássemos tudo que poderia estar por trás disso.
— Sem ofensas, , mas eu não vou ter a conversa dos preservativos com você. - ele bufou, dando uma golada em seu refrigerante - E, definitivamente, não vou falar sobre quem ando querendo beijar.
Eu o encarei, incrédulo demais para formar qualquer pensamento coerente para defender a ideia de que estava tudo bem ele ter interesse em outras pessoas. Que era comum na adolescência e que ele não deveria ter vergonha de sentir as coisas quando a voz de Sebastian invadiu meus ouvidos.
! - Seb riu, vindo em minha direção e me abraçando de lado - Daisy deu a ideia de jogar o jogo da garrafa. Aliás, feliz aniversário, garanhão. - ele bateu contra meu peito.
— Valeu. - eu ri fraco - Vim pegar os presentes do .
— Já terminou ou precisa de mais tempo antes de ir jogar?
— Pode ir na frente. Vou ter que levar os presentes do lá pra cima antes. - eu expliquei, tomando cuidado para pegar os presentes sem deixar qualquer um deles cair no chão.
— Beleza. Vou voltar lá pra dentro e ir acertando com a galera. Mas não demora, tem algumas universitárias da NYU que estão doidas para conhecer o Big .
Sebastian deixou um sorriso gigantesco, apontando em minha direção antes de sair correndo em direção ao lado de dentro. Eu balancei a cabeça negativamente em meio a um riso descrente, só então voltando minha atenção para , que havia travado os dentes olhando para frente.
Ele respirou fundo, dando um último gole em seu refrigerante antes de bufar frustrado por ter acabado. Tombei a cabeça para o lado, confuso com a reação repentina.
?
— Vou pegar outro. - ele me direcionou um sorriso forçado, balançando a latinha vazia ao girar em seus próprios calcanhares e começar a fazer o mesmo caminho que seu irmão.
!
O chamei uma vez mais, o que foi inútil já que ele acelerou os passos em direção ao interior da cobertura. Mordi o lábio em frustração, suspirando antes de pegar os presentes em cima da mesa e tentar o meu melhor para subir até o meu quarto e deixá-los em cima da minha cama.

💻💻💻💻💻


Os gritos animados e visivelmente alterados encheram o ambiente, me fazendo fechar os olhos com força e fazer uma careta com o incômodo causado pelas vozes estridentes. Algum dos calouros da NYU que Sebastian havia comentado tinha dado um beijo um tanto quanto quente em uma de suas colegas, levando a sala inteira à loucura em meio ao Jogo da Garrafa que acontecia há pouco mais de trinta minutos.
Sebastian havia beijado pouco mais de três pessoas no curto espaço de tempo em que eu levei para subir até meu quarto, deixar os presentes de seu irmão, passar no bar para pegar uma bebida e me incluir no círculo para participar do jogo.
Summer estava sentada em um dos sofás, conversando algo com um Cassie e que parecia estar perdido em seus próprios pensamentos enquanto bebericava sua latinha de Coca-Cola. Ela apontou para a roda, dando um sorriso cheio de segundas intenções. Algo pareceu instantaneamente se iluminar nos olhos de , que retribui o sorriso antes de se levantar e parar entre Daisy e Elliot Moreau, que também participavam da brincadeira.
— Vamos jogar também. - ele finalmente se pronunciou, me fazendo franzir o cenho.
— Não vão, não. - me apressei em dizer e Sebastian deu uma risada ao meu lado - Eu e Sebastian estamos jogando e vocês são jovens demais, corta essa.
— Cale a boca, . - Summer rolou os olhos, o que despertou provocações dos demais participantes - Se meter esse papo de idade pra cima de mim, eu vou contar as coisas que você fez com a minha idade e tenha certeza que foram muito piores que um jogo da garrafa. Agora, abre a roda porque eu vou sentar.
Summer fez um gesto com as mãos, pedindo para que a roda abrisse um pouco mais enquanto atravessava a roda para se sentar entre mim e Sebastian. , entretanto, não seguiu Summer. Ele sussurrou algo no ouvido de Daisy, que o respondeu com um menear de cabeça após ponderar por alguns segundos qualquer fosse as coisas que ele havia dito em seu ouvido. Ela abriu espaço ao seu lado e se sentou, passando o braço através de seus ombros e depositando um beijo estalado em sua bochecha. Cassie, diferente dos outros dois, se limitou a sentar-se atrás de , sem realmente integrar a roda para participar do jogo.
— Aniversariante, é sua vez. - Sebastian sorriu, apontando para a garrafa - Gira a garrafa.
— Você realmente está de boa com essa ideia? - eu apontei para e Summer.
— Fizemos pior na idade deles. - ele deu de ombros - É só jogo da garrafa, se fosse verdade ou consequência a história seria outra. - justificou. - Gira a garrafa.
— Seb…
— Deus pai todo poderoso, . Gira. A. Porra. Da. Garrafa. - passou a mão por seu próprio rosto, rolando os olhos.
Eu respondi com um bufar, me deixando levar por vencido ao me inclinar em direção ao centro do círculo, girando a garrafa vazia no chão, que rodou várias vezes antes de parar com a parte do bocal em uma das calouras da NYU.
Ela tinha olhos esverdeados, pintados com um esfumado carregado em preto e cabelos escuros com um sidecut platinado na lateral direita. Algumas mechas azuis estavam escondidas entre o escuro dos cabelos e, se eu espremesse os olhos o suficiente, conseguiria enxergar um rosto familiar de um certo alguém que parecia estar puto comigo. Eu levantei uma sobrancelha, questionando silenciosamente se poderia ir até ela e ela apenas assentiu.
Eu me levantei da roda, andando em direção à ela enquanto berros e o tamborilar de mãos animadas contra o piso invadiam meus ouvidos. Eu sorri enviesado, esquecendo por alguns momentos os olhos de todos em mim ao me agachar em frente a ela, que não tardou em pegar a gravata que pendia no ar e me puxar em sua direção, como se eu fosse um maldito cachorrinho em uma coleira. Com o canto do olho, eu consegui ver trincando seus dentes antes de ocupar sua boca com um gole longo de refrigerante.
A desconhecida me puxou uma vez mais e eu encaixei uma de minhas mãos na curva de seu pescoço, puxando-a pra mim para encostar meus lábios nos seus. O beijo começou contido, mas logo escalou para algo um pouco mais quente quando minhas mãos envolveram sua nuca e bochechas, ao mesmo tempo em que as dela me puxaram mais para perto pela gola da camisa social. Abri meus olhos pouco antes de finalizar o beijo, dividindo minha atenção para encarar , que ria de algo que Elliot havia sussurrado para ele e Daisy. Voltei minha atenção para a caloura contra meus lábios, mordiscando seus lábios antes de me afastar com os gritos e um incômodo crescente entre minhas pernas. Eu me tornava um imbecil por pessoas como ela.
— Certo, quem é o próximo? - eu sorri, me levantando e voltando ao meu lugar.
— Summer.
Sebastian apontou para minha irmã, que assentiu positivamente e engatinhou até o centro da roda, girando a garrafa, que deu três voltas completas antes de parar apontada para , que sorriu como a criança endiabrada que era.
— Você pode girar novamente se for estranho. - Elliot explicou para Summer, sorrindo gentilmente.
— Tá brincando? Eu não vou perder a chance de saber se ele beija bem.
Summer deu de ombros, se levantando em meio às risadas e berros da roda para ir até . Eu massageei minhas têmporas, sentindo o desgosto tomar conta de mim a medida em que a ideia de ver minha irmã se pegando com qualquer pessoa se tornava cada vez mais real.
esticou suas pernas, em um convite silencioso para que Summer se sentasse. Claro que ele faria isso. E assim Summer o fez, sentando-se em suas coxas antes de passar as mãos por seus cabelos e colocá-los para o lado. Ela disse algo direcionado a Cassie, que eu chutei como sendo um pedido de desculpas antes de colocar uma de suas mãos contra a bochecha de , que sorriu a encarando ao murmurar algo que não fui capaz de decifrar antes de minha irmã acabar com o espaço entre eles. E eu sentia que estava próximo de vomitar a qualquer momento.
Principalmente quando a mão com a tala no pulso de repousou contra a cintura de minha irmã, puxando-a em sua direção depois de enlaçar a mão livre na nuca de Summer. O beijo parecia interminável e então abriu os olhos, me encarando pouco antes de separar seus lábios dos de Summer. Ele a encarou com um sorriso ladino que logo foi substituído por uma risadinha quando ela deu um beijo estalado em sua bochecha.
— Você tem muita sorte que eu gosto de mulheres, porque eu definitivamente ficaria rendida com um beijo desses. - Summer brincou, usando os ombros de como apoio para se levantar de seu colo em meio a euforia da roda.
— Obrigado, linda. - ele respondeu - Sempre as ordens.
Summer deu-lhe o dedo do meio, voltando para seu lugar ao meu lado ao mesmo tempo em que limpava o gloss que inevitavelmente havia se espalhado por sua boca. Ela se sentou ao meu lado, me fazendo sentir mais náuseas. E eu sinceramente não sabia como Sebastian conseguia lidar com a imagem de beijando alguém na sua frente sem sentir o mesmo.
E assim o jogo seguiu, comigo vendo Sebastian mudar o foco de sua atenção sempre que estava próximo de beijar alguém. Acabei fazendo o mesmo para evitar a imagem nojenta de minha irmã beijando qualquer pessoa no meio do processo.
Após pouco mais de duas horas e muitos beijos, o jogo terminou e todos seguiram para o lado de fora da cobertura onde uma pista de dança havia sido montada. Summer dançava alguma música de Selena Gomez alegremente com Elliot Moreau, que a girava e a abraçava vez ou outra. Sebastian se dividia entre duas universitárias e dançava com Cassie de uma maneira bem diferente que a maioria.
Era quase como se eles estivessem dançando em um ritmo de tango. puxava Cassie contra seu corpo pela cintura enquanto ela se inclinava para trás, confiante entre os braços dele antes de se levantar e escorregar sua perna pela dele, deixando-a levantada na altura de sua coxa. Ele tinha um sorriso ladino pendendo nos seus próprios lábios quando as últimas notas da música terminaram.
Ambos estavam ofegantes e eu conseguia ver uma pequena gota de suor escorregar pelo rosto de Cassie quando ela prendeu seus cabelos em um coque desajeitado no topo de sua cabeça, deixando algumas tranças soltas emoldurando seu rosto, o que fez com que ela ficasse ainda mais parecida com Savannah. Ela murmurou algo para , que assentiu positivamente antes de soltá-la e depositar um beijo casto no canto de sua boca. A atitude fez Cassie sorrir ainda mais abertamente, pegando o rosto dele entre sua mão para um selinho rápido em seus lábios, saindo de perto dele e se afastando em direção a Sebastian.
passou a mão por seus cabelos, jogando-os para trás ao sair da pista de dança e andar em minha direção.
— Vai ficar parado só observando?
— Eu não danço. - dei de ombros.
— É um ótimo momento pra tentar, vamos lá, eu te ensino.
Ele estendeu a mão sem a tala em minha direção quando as notas de guitarra de uma música do Coldplay começaram a tocar. Eu aceitei, me deixando ser levado para energia elétrica de até o centro da pista de dança. Ele começou a balançar de um lado a outro, me fazendo rir ao mesmo tempo em que imitava seus movimentos.
Em algum momento no processo, ele passou por trás de mim, me empurrando para o lado oposto ao que ele deslizava. Levou algum tempo para que eu acertasse os passos, finalmente rindo quando ele ia para um lado e eu acertava, indo para o lado oposto. Eu me sentia completamente feliz, nem mesmo a música alta me incomodava quando Sebastian e Summer se juntaram a nós, repetindo nossos movimentos.
Permanecemos dançando juntos por um bom tempo, até a pista ir se esvaziando, com a maioria das pessoas se despedindo e indo para suas casas, até que somente eu e ficássemos juntos na pista de dança.
Uma música lenta começou a tocar e ele fez uma careta, se preparando para sair de perto de mim. O segurei pelo braço, em um convite silencioso para que ele continuasse dançando comigo. aceitou e eu passei as mãos por sua cintura. Ele apoiou seus braços em meus ombros, enlaçando suas mãos contra minha nuca. Só ficamos ali, em silêncio, nos movendo de um lado a outro lentamente. E, naquele momento, nada no mundo era mais bonito que .
— Você e Summer? - indaguei, sorrindo de canto - Isso foi inesperado.
— Já te disse que não vou falar sobre quem quero ou não beijar. - ele riu.
— Minha irmã? - franzi o cenho.
— Não, meu deus. - fez uma careta - Só melhores amigos. O que aconteceu foi só um jogo.
— Vou acreditar na sua palavra.
— Com todo o respeito, se eu pudesse escolher beijar algum dos irmãos , Summer estaria em segundo na minha lista.
Uma luz se acendeu em minha cabeça. Se Summer era uma segunda opção, isso tornava as possibilidades um tanto quanto escassas. Eu ou Gianna. E Gianna era doze anos mais velha que , logo…
— Eu? - tombei a cabeça para o lado.
. - ele me encarou, como se estivesse implorando para que eu deixasse passar.
.
suspirou, fechando os olhos antes de soltar os dedos enlaçados de minha nuca. Eu segurei a mão imobilizada contra a minha nuca com delicadeza, em uma súplica para que ele não se afastasse.
— Precisamos conversar. Fica. - franziu o cenho, assentindo antes de voltar a posição que estávamos antes - Isso meio que foi uma festa de despedida.
— Mas você só vai para a MSU no próximo ano.
, eu tô indo pro Japão. - ele parou, me encarando como se estivesse esperando por uma pegadinha - Meu pai quer passar o ano comigo antes que eu vá para a faculdade.
— Mas… - ele murmurou - E o programa de férias na UCLA?
— Começa pouco antes do ano letivo na MSU, volto para o programa e depois vou para Michigan.
— Desde quando você sabe disso?
— Há algum tempo. Eu só adiei contar porque não queria deixar você triste antes do tempo. Sebastian já sabe e eu pedi para que ele não dissesse nada.
— Eu me sinto traído. - murmurou, encostando sua testa contra o meu peito. O senti começar a tremer e tinha quase certeza de que ele conseguiria ouvir o barulho do meu coração começando a estilhaçar caso se esforçasse o suficiente. - Eu estou feliz por você, mas tô cansado de perder as pessoas que amo porque elas resolvem ir para um país na casa do caralho.
— Você já ficaria longe de mim e de Sebastian ano que vem, não faria diferença.
— Um estado é diferente de um hemisfério inteiro, , eu esperava mais dos seus conhecimentos de geografia. - ele murmurou, deixando seus braços caírem até minha cintura, me abraçando.
— Vamos conversar sempre, não vai nem sentir a diferença. E podemos nos ver nas suas férias.
— Eu sei. - ele me encarou, os olhos avermelhados e as bochechas levemente molhadas - Só vai ser estranho não ter você em casa.
— Mas isso não vai ser pra sempre. Logo você e Summer estarão em Michigan também e eu prometo visitar vocês com mais frequência do que aqui.
— Eu espero que sim. - ele sorriu de canto - Mas isso não torna as coisas mais fáceis, . Quem vai me ajudar com meus códigos? Com minha aplicação para o programa de férias da UCLA?
Os olhos de se encheram de lágrimas de novo e dessa vez ele não foi capaz de impedi-las de escorrer por suas bochechas. Eu me sentia incapaz e completamente culpado por ser o motivo de suas lágrimas.
Eu havia visto chorar muitas vezes durante os últimos anos. Essa era a primeira vez que eu era o motivo de suas lágrimas. E a sensação era algo que eu nunca gostaria de repetir.
— Ei, ei. - eu levei minhas mãos até seu rosto, o segurando pelas bochechas e limpando as lágrimas que caiam com meus polegares - Eu não vou te abandonar, . Eu prometo virar a noite para te ajudar sempre que precisar. Você vai passar no programa da UCLA nem que eu tenha que mover montanhas para isso, tá legal? É uma promessa, . Sabe como sou com minhas promessas.
— Vou acreditar em você.
Ele riu fraco, passando os braços por minha cintura em um abraço apertado, afundando seu rosto contra meu peito enquanto se debulhava em lágrimas.
Eu apenas retribui, acariciando seus cabelos como se isso fosse capaz de livrá-lo de toda a tristeza que ele sentia. Algo em meu peito implorava para que me olhasse nos olhos e me pedisse para ficar. Para que eu desistisse da ideia de ir para o Japão e ficasse em Nova York.
E algo em meu coração tinha certeza que se me pedisse, eu desistiria de tudo e ficaria ali, abraçado com ele. Se ele me pedisse, eu tentaria curar cada pequena ferida em seu peito até que ele se sentisse melhor, porque pela primeira vez em dezoito anos, eu me sentia mais em casa estando em seus braços que em qualquer lugar em Nova York.



Capítulo Cinco



“Yes, I know that he's my ex
But can't two people reconnect?
I only see him as a friend
The biggest lie I ever said”

(Sim, eu sei que ele é meu ex
Mas duas pessoas não podem se reconectar?
Eu vejo ele apenas como amigo
A maior mentira que já contei)

— bad idea right?, Olivia Rodrigo


Nova York, NY
Antes



Tomar decisões puramente baseadas em carência e fantasias completamente descoladas da realidade eram, oficialmente, a pior coisa que eu já havia feito. Mas, quem poderia me julgar, não?
Quem poderia me julgar quando cabelos escuros, olhos grandes e castanhos, com um sorriso carregado de segundas intenções me olhava como se eu fosse um maldito pedaço de carne? Certamente ninguém que estivesse na sala no momento.
Por isso eu me deixei levar até o andar de cima da casa dos Wayne. Em meio à uma festa que já havia passado dos limites, para ter os dedos habilidosos de Dezmond Walker adentrando minhas calças, enquanto eu ridiculamente fantasiava com a imagem de um cara que estava há 6,726 milhas de mim.
Era fácil fingir que Dez era . E essa era uma das principais razões pela qual eu havia o namorado por pouco menos de um ano. E também a principal razão para eu ter terminado com ele.
A realidade era que, apesar de eu ser completamente obcecado com , eu ainda tinha um pouco de caráter e bom senso o suficiente para compreender que estar com uma pessoa pensando em outra não era o que seria considerado saudável. E eles definitivamente não eram a mesma pessoa.
Dez era mais alto, mais forte. E sua personalidade era tão nociva quanto estar em uma sala fechada com uma bomba de gás lacrimogêneo. Dezmond não era gentil como , não entendia meus limites e tão pouco era um bom suporte emocional quando minhas crises de disforia ficavam insuportáveis o suficiente para que eu ao menos me sentisse confortável em usar algo diferente de moletons que tinham o dobro do meu tamanho. Ele era irônico e hostil em todos os pontos em que era adorável e gentil.
Mas o sexo? Era razoável o suficiente para que eu seguisse repetindo as mesmas escolhas ruins. Quando Dez se colocava entre minhas pernas e me chupava como se sua vida dependesse disso, eu me permitia sentir algo além de tédio. Quando ele puxava meus cabelos ao me foder por trás, eram meus momentos favoritos. Porque eram em momentos como esse que eu me permitia imaginar . Entretanto, isso sumia com facilidade quando ele resolvia abrir a boca para fazer comentários que não eram minimamente excitantes.
— Porra, , você é apertada pra caralho.
Dezmond murmurou ao me colocar de quatro e colocar seu pau contra a minha boceta e eu não consegui segurar o pequeno gemido que escapou pelos meus lábios. E, então, eu me reservei a apenas ignorar qualquer palavra que sairia de seus lábios pelos próximos dez minutos pelo bem do meu próprio prazer.
Esse era mais um dos problemas de Dezmond. A sua incapacidade de me ver como algo diferente de uma mulher, apenas pelo que existia entre minhas pernas. E a sua necessidade escrota de ressaltar o quão apertado eu era. Primeiro porque seu pau era pequeno e fino demais para que isso fosse algo possível. Segundo porque Dezmond, além da personalidade insuportável, era tão interessante como a porta do banheiro do meu quarto: branca, sem personalidade e que só servia para uma única função.
— Dezmond, cala a porra da boca e só me fode, não tô com paciência pra suas observações sobre minha boceta agora.
Eu me virei o suficiente para que ele conseguisse perceber que o desdém não era algo que estava presente somente em minha voz. Ele apenas obedeceu e eu me prendi na fantasia com .
Em minha fantasia ridícula, eu diria a que queria beijá-lo na sua festa de despedida. E ele aceitaria de bom grado, me beijando até que eu ficasse sem ar. Em minha fantasia, ele me levaria até seu quarto e me foderia do mesmo jeito que Dez estava fazendo agora. Ele me foderia delicadamente no começo, somente para me colocar de quatro e puxar meu cabelo enquanto ele metia com força o suficiente para reorganizar cada maldito orgão em meu corpo.
Eu levei uma de minhas mãos até meu clitóris, massageando a parte sensível enquanto Dez estocava com força. Eu fechei meus olhos, sentindo o suor descer por minha testa ao mesmo tempo em que a temperatura do quarto subia cada vez mais.
Eu mordi meus lábios, sentindo o orgasmo aos poucos se aproximando da base do meu ventre. Me segurei com mais força contra o lençol da cama, empinando mais a bunda ao encostar o rosto contra o colchão quando o orgasmo me preencheu por completo, me fazendo tremer até a ponta dos dedos. Dezmond gozou logo após, saindo de mim e tirando a camisinha de seu pau antes de amarrá-la para descarte. Me deixei cair contra a cama, tentando normalizar minha respiração.
— Foi bom? - escutei a voz de Dez invadir meus ouvidos e eu tive que me segurar para não rolar os olhos, entediado.
— Foi o suficiente. - eu me virei em sua direção e ele bufou, como se estivesse frustrado.
— Você pareceu bem satisfeito trinta segundos atrás.
— Disse que foi o suficiente, não que foi ruim. - eu me levantei, subindo a cueca junto com a bermuda que usava. Eu fechei os botões de minha camisa, ajeitando a gravata para que ficasse um pouco menos solta.
— Suficiente é o mesmo que ruim, . - Dez me encarou e eu conseguia sentir a raiva em seu tom de voz - Se vai me usar pra sexo, poderia ter ao menos a decência de ser menos babaca.
— Se você acha. - eu ri fraco, terminando de abotoar minha camisa - Não vou mentir para massagear seu ego, Walker. Nunca fiz isso antes, não vou fazer agora. Isso é o que tenho a oferecer. Vai de você aceitar ou não.
— Sabe que ninguém vai te tratar como eu te trato, .
As palavras doeram mais do que eu poderia admitir. Há alguns meses atrás, logo no começo, eu acreditaria nas palavras de Dez. Acreditaria que dificilmente alguém me trataria melhor que ele, que ninguém me enxergaria como algo além do meu corpo e que ele era a melhor opção. Mas, eu sabia quem me trataria melhor. me trataria melhor que isso. E se era capaz de fazê-lo, alguém no mundo também o faria.
— Que bom, Walker. - eu o encarei, inexpressivo e sem qualquer reação. Ele estava tentando me atingir? Ótimo. Eu conseguiria jogar mais baixo - É o que eu espero, alguém que não me trate como você e consiga me fazer gozar sem que eu precise me esforçar. - eu me virei, me preparando para sair do quarto quando sua voz invadiu meus ouvidos uma vez mais.
— Vadia do caralho.
— Obrigado. - eu murmurei - É, só pra constar: seu melhor amigo tem um pau maior do que o seu.
Eu sorri em sua direção quando seu semblante caiu e ele me encarou, puto e sem qualquer capacidade de reação antes que eu saísse do quarto.
Desviei das pessoas paradas no corredor, descendo as escadas calmamente enquanto procurava pelos fios rosa de Summer. Não levou muito tempo para que eu a identificasse, conversando animadamente com Cassie Jones e Jeremy Coleman. Desenhei meu caminho até eles, abraçando Summer pela cintura ao chegar até ela.
— Transou? - Summer me encarou, tombando a cabeça para o lado. - Está com cara de quem transou.
— E isso é relevante? - arqueei uma de minhas sobrancelhas.
— Muito. - Cassie sorriu, seus cabelos cacheados envolvendo seu rosto de uma forma tão etérea quanto uma fada.
— Sem comentários.
— Alguém está descendo as escadas bem puto - Jeremy apontou com um menear de cabeça e eu ao menos virei para trás para confirmar a cara de Dezmond -, Você precisa variar seus brinquedinhos, . Transar com o ex não é uma boa quando ainda rola sentimentos em um dos lados.
— Ele pode enfiar os sentimentos no rabo dele e girar. - dei de ombros - Ele veio com o mesmo papo de ninguém me tratar como ele me trata e me chamou de vadia. Deve estar frustrado porque retribui dizendo que o pau do melhor amigo dele é maior.
— Você realmente sabe como acabar com a autoestima de um homem, você é maligno para um caralho, . - Jer riu, bebericando de seu copo.
— Ele mereceu.
— Ele merecia um soco como o que você deu em Braeden, isso sim. - Summer passou um dos braços por meus ombros.
— Tô tentando ser uma pessoa melhor e correr riscos de suspensão não está na minha lista de afazeres para esse ano.
— Enfim, estava falando para Cassie e Jer que deveríamos fazer uma viagem para os Hamptons antes de eu ir para o Japão. Queria um dia só nosso, nada de festas.
Summer sorriu e eu senti uma pontada de tristeza se fazer presente em meu peito. Ainda faltavam alguns meses para que ela fosse para o Japão, mas isso não tornava as coisas mais fáceis. Dez meses atrás, meu melhor amigo havia ido e não havia um dia sequer em que eu não sentisse sua falta. Mais alguns meses e Summer seguiria o mesmo destino. Ainda que fosse somente um ano, a ideia de passar meu último ano longe de minha melhor amiga me deixava apreensivo.
— Eu disse que toparia completamente a ideia. Preciso de praia e sol. Eu nasci para isso, sabe? - Cassie suspirou.
Cassandra Jones amava tudo o que envolvia o litoral. Não era por acaso que sua primeira escolha era a UCLA. Ela sonhava em voltar para o sol californiano com tanta intensidade que eu suspeitava que ela nem ao menos tivesse mais opções de universidades. Ela era uma Bruin até o fim. Da mesma forma que eu e Summer éramos Espartanos. Cassie amava Los Angeles com todo o seu coração e, mesmo que ela gostasse de Nova Iorque desde que havia se mudado no nosso segundo ano de ensino médio, ela ainda sentia falta do cheiro de maresia e das praias. Por isso, fazia questão de sempre passar as férias na casa que seus pais mantinham na cidade.
— Por mais que eu odeie praia, tenho que admitir que eu ando precisando disso. - eu concordei, sentindo meu celular vibrar em meu bolso.
— Então podemos ir, certo? - Summer sorriu.
— Por mim, definitivamente. - Jeremy concordou.
— Por mim também.
— Eu nem preciso responder. - Jones sorriu.
— Ótimo. Vou falar com meus pais para incluir vocês, - Summer riu - vai estar junto com a gente. Papai vem para os Estados Unidos e vem junto para o programa da UCLA.
— Porra, finalmente vou conhecer o lendário Foster.
— Ele estudou com a gente, Jeremy. - eu franzi o cenho.
— Eu nunca conversei direito com o cara, . - Jeremy riu - Eu só o via andando nos corredores e falando com vocês às vezes nas festas. E, caso você não se recorde, nós não éramos exatamente amigos até pouco tempo atrás. Sempre achei que você fosse me quebrar no soco.
— Oh, você é tão adorável. - eu ri, saindo dos braços de Summer para segurar as bochechas de Jeremy entre minhas mãos - Como eu poderia te quebrar no soco? Você parece um cachorrinho peludo e cacheado.
— Vai se foder. - Jeremy rolou os olhos.
— Vocês precisam parar de endeusar o , ele vai ficar com o ego do tamanho desse prédio. - Summer ralhou - E ele já tem um ego grande o suficiente.
— E ele não é nem metade do que dizem. - me afastei de Jeremy - ji) é quase um golden retriever. Grande e desajeitado.
— Ele tá mais pra um São Bernardo com aquele tamanho e aquela aparência. - Cassie riu.
— Não é? - eu concordei, rindo - Total a energia dele.
Eu tirei o celular do bolso da bermuda, iluminando a tela somente para ver o nome de na barra de notificações. Desbloqueei meu celular, abrindo o aplicativo de mensagens. Era uma hora da manhã, o que significava que já deveria ter passado do meio-dia em Tóquio.
— E eu ainda me pergunto como ele nunca percebeu que você tinha uma queda por ele. - Summer sussurrou em meu ouvido, encarando a tela de meu celular.
— Pare de bisbilhotar.
— É meu irmão, tenho direitos como a apoiadora número um dessa relação. Você deveria tomar uma atitude quando formos para os Hamptons. Aproveitar que vamos passar a semana.
— Pelo amor de deus, toma uma atitude, . - Cassie me encarou - Você tem tanta atitude pra tanta coisa, mas chegar no que é bom…
— Ele nem me vê assim, gente. Prefiro manter as coisas como estão do que ter que lidar com ele me falando o quanto eu sou novo demais para ele e toda essa merda.
pegou pelo menos três pessoas do nosso ano. E você não está longe do tipo dele.
não tem um tipo.
— Oh, ele tem. - Summer riu - E você se encaixa perfeitamente. Dito isso, tome uma atitude para que eu possa finalmente fazer nossa família se juntar. Como eu gosto de mulheres, cabe à você a missão de juntar as duas famílias.
— Estamos na era medieval? Você basicamente descreveu um casamento por tática de guerra agora.
— Tenho uma tática e ela se chama fazer de você meu irmão por meios legais. - Summer riu.
— Certo, certo.
Eu ri fraco, voltando minha atenção para a mensagem de no aplicativo de mensagens. Era uma foto de um biscoito da sorte e o papel com a frase estava desdobrado logo ao lado.

‘’Todos os dias organiza os seus cabelos, por que não faz o mesmo com o coração?’’


Tanaka:
Esses biscoitos da sorte estão ficando certeiros demais. Não gosto disso.



Balancei minha cabeça negativamente, soltando uma risadinha que foi alvo de olhares suspeitos de meus três amigos. Eu apenas rolei os olhos.

Romero:
É um sinal divino para você começar uma terapia.

Tanaka:
Você se acha muito engraçadinho, né?


Romero:
O mais engraçado de todos.

Tanaka:
Sinto sua falta.



— Ele disse que sente sua falta. - Cassie sorriu, bisbilhotando a tela do meu celular - Sério, , toma uma atitude.
— Nós sempre fomos amigos, isso é normal.
— Pelo amor de deus, . - Summer bufou - Toma uma atitude. O não você já tem, o máximo que pode acontecer é o dizer que não está afim. Ele não vai te humilhar ou algo do tipo. É melhor você falar o que sente, pelo menos se você for rejeitado, você supera os sentimentos por ele e segue em frente. O melhor jeito de superar sentimentos não retribuídos é dizer o que sente e seguir em frente.
— Por que isso funcionou bem para você, né?
— Funcionou muito bem, Cassie e eu somos melhores amigas agora. - Summer deu de ombros.
— Ela não mentiu, os sentimentos passaram e só ficou a amizade.

Tanaka:
Vai mesmo me deixar falando sozinho? ):
Achei que significasse mais pra você.



A tela do meu celular se iluminou com sua mensagem e eu o amaldiçoei mentalmente, porque algo me dizia que ele fazia biquinho ao encarar a notificação de mensagem lida. era ridículo. E eu beijaria cada centímetro do rosto dele se pudesse.
— Ele está flertando. - Jeremy riu.
— Não está.
, eu sou homem. Eu sei como a nossa cabeça funciona, ele definitivamente está flertando. - Jer encarou Summer como se buscasse por uma confirmação.
— Deixa eu ver. - Summer encarou a tela do meu celular - definitivamente está flertando. Ele flerta sendo manhoso e pedindo por atenção.
— Vocês são um inferno. - rolei os olhos, digitando a resposta para .

Romero:
Está tão desesperado por minha atenção que não consegue esperar alguns minutos?

— Ele tá flertando de volta, meu garoto. - Jeremy sorriu, bagunçando meus cabelos.
— Se fode.
— Ele está digitando.
Voltei minha atenção para a tela enquanto os três pontinhos apareciam na parte inferior. Mais alguns segundos depois e sua resposta chegou, seguindo por mais uma.

Tanaka:
Sabe que você é a melhor parte dos meus dias, .
Tanaka:
Mas você parece estar pior. Acabei de enviar a mensagem e você já visualizou.



— O homem é uma máquina de flerte e vocês ainda têm a coragem de me dizer que os rumores não são reais? Até eu estou considerando dar pro cara. - Jeremy franziu o cenho - E eu sou completamente hetero.
— Eu tenho a quem puxar, por favor. - Summer rolou os olhos.
— Sem ofensas, mas eu não quero vocês olhando minhas mensagens de texto. Vou lá fora fumar, já volto.
— Você é um puta estraga-prazeres. - Cassie ralhou.
Desliguei a tela do meu celular, desenhando meu caminho até o lado de fora da cobertura para me sentar em uma das mesas. Tirei a carteira de cigarros de couro do bolso de minha camisa, pegando um dos cigarros de maconha e prendendo-o entre meus dentes para acendê-lo. Dei uma longa tragada, sentindo a sensação relaxante tomar conta de meu corpo. Voltei a desbloquear a tela do meu celular, abrindo a mensagem de para cogitar o que eu responderia.

Romero:
Estamos cheios de si hoje, não estamos?

Eu deixei meu celular descansando contra a minha coxa ao apoiar meus pés contra a cadeira que descansava vazia a minha frente. Traguei novamente o cigarro, sentindo o celular vibrar.

Tanaka:
É meu melhor traço de personalidade, sabe disso.



Eu respirei fundo, lendo a mensagem pela barra de notificação, rindo com o convencimento de . Eu conseguia visualizar o sorriso bobo tomando conta de seus lábios. Típico .

Romero:
Se você acha.
Boa tentativa, entretanto.

Tanaka:
Você ficou malvado de um tempo pra cá.
Combina com você.

Tanaka:
Vai para os Hamptons com a gente?


Romero:
Por que?

Tanaka:
Queria te dar um abraço antes de ir para Los Angeles.



Eu avaliei a mensagem por um bom tempo, encarando a tela do celular como se a qualquer momento, pudesse sair de dentro do aparelho e se materializar na minha frente. Fazia quase um ano que havia se mudado para o Japão e eu sentia tanta falta de sua presença que a saudade beirava a dor física.
Apertei meus lábios, abrindo o facetime e conectando meus fones no celular antes de apertar o nome de contato de . A tela permaneceu refletindo meu rosto por alguns segundos antes de aparecer. Sem camisa e com os cabelos molhados caindo por seu rosto.
— Oi, . - encarei a tela quando seu rosto apareceu com um sorriso gigantesco em seu rosto.
Um minuto, vou te colocar encostado no banco.
Ele murmurou e eu consegui escutar o barulho do celular sendo movido antes de ser apoiado contra alguma coisa que não pude identificar, me dando uma visão completa de seu corpo ridiculamente definido enquanto ele fazia exercícios com halteres. O maldito estava treinando.
Pode falar.
— Você disse que estava com saudades, então aqui estou.
Por um segundo, achei que você me deixaria sem resposta alguma - ele tombou a cabeça para o lado - Você mudou, . Nem parece que éramos inseparáveis, já achou alguém pra me substituir?
— Cala a boca, - eu ri, encarando a tela -, você é insubstituível. Mas eu estou em uma festa, é falta de educação ficar no celular toda a hora.
Tão substituível - dramatizou, fazendo uma careta -, vou descontar a dor da perda em cinco horas de esteira.
Ele apoiou os halteres no chão, andando até o banco e puxando o celular até mais próximo de seu rosto. Sua sobrancelha estava franzida e algumas gotas de suor escorriam por seu cabelo. Ele jogou os cabelos para trás, voltando a me encarar.
— Sinto sua falta também.
Por um segundo eu fiquei muito preocupado, fico feliz de não ser o único. - ele colocou a mão em seu peito, sorrindo em seguida. - Isso é maconha?
— Uhum.
Seu irmão sabe disso?
— Quem você acha que me ensinou a bolar um beck? Fumamos juntos vez ou outra.
Seu irmão tá sendo um exemplo de bosta, huh?
— Por favor, você fala como se vocês não fizessem a mesma coisa. - eu ri - A primeira coisa que Seb me disse quando fumamos juntos foi que ele sentia falta de fazer isso contigo.
Fui pego no pulo sendo hipócrita, merda. - ele riu, se levantando - Vou subir pra casa.
— Tudo bem. Aliás, eu vou para os Hamptons com seus pais, Summer disse que não queria uma festa de despedida, apenas algo tranquilo com amigos.
Ótimo, assim podemos fumar um na beira da praia durante a noite. É incrível. - ele sorriu, vestindo a camiseta antes de prender os cabelos em um coque no topo da cabeça.
— Achei que você estivesse desapontado demais pra isso.
Está me zoando? Você tá entrando na vida adulta, precisa aprender a ter boas experiências pra não acabar se sentindo deslocado na faculdade. Antes comigo e com Sebastian que com alguém desconhecido.
— Você soou muito como um pai agora. - eu ri fraco, sentindo meu peito apertar. Deus, como eu sentia falta dele.
Alguém precisa se certificar que você não vai fazer merda. - ele apertou o botão do elevador.
— Você é péssimo.
Pelo menos assim você vai se lembrar da minha cara de desgosto e pensar duas vezes antes de fazer algo inconsequente. - riu fraco, saindo do elevador para entrar no apartamento que dividia com Gianna, sua irmã mais velha.
— Não sou inconsequente.
Nem você acredita nisso, . Preciso te lembrar da briga com Braeden ou você esqueceu?
— Eu sou uma pessoa diferente agora. - me defendi -, estou ocupado demais tentando a bolsa programa da UCLA.
Já terminou seu projeto? - se jogou contra algo que parecia uma cama, me encarando.
— Já sim. Com sorte, consigo passar para o programa no próximo semestre e colocar isso na minha aplicação para a MSU.
Mais um ano e estaremos todos juntos em Michigan de novo, huh?
— Sinto que passou rápido ao mesmo tempo que demorou pra caralho. - suspirei - Parece que faz uma eternidade que você se mudou pro Japão. Mas ao mesmo tempo é como se você nunca tivesse ido embora.
Me sinto assim o tempo inteiro. Eu vou fazer dezenove daqui dois meses e parece que nada mudou. É muito esquisito. - ele suspirou - Eu perdi coisa pra caralho nesse meio tempo.
— Quase nada, eu juro. Quando a gente for pros Hamptons, te atualizo. Mas acho que eu te contei tudo que tinha pra contar. - menos a parte em que eu namorei Dezmond Walker, pensei.
Espero que sim. - ele suspirou - Enfim, vou deixar você aproveitar a festa. Se quiser conversar, me liga mais tarde, vou estar acordado muito provavelmente.
— Pode deixar - eu sorri de canto, sentindo meu peito murchar.
Até mais, Boy wonder.
— Até.
encerrou a chamada de vídeo com um sorriso no rosto. Eu rolei meus olhos, fazendo meu melhor para não suspirar sozinho como o adolescente apaixonado que era.


Capítulo Seis



“Better enjoy the calm before the storm
Can’t say that I don’t want it”
(Melhor aproveitar a calmaria antes da tempestade
Não posso dizer que não quero isso)

- Cardigan, New New Girlfriend


East Hampton, NY
Antes



Estar novamente nos Estados Unidos, depois de um ano no Japão, foi uma experiência um tanto quanto peculiar. Primeiro, porque era confuso demais para que minha cabeça deixasse de compreender que agora as pessoas ao meu redor não falavam japonês.
Segundo, porque eu ainda não tinha me ligado de quanto tempo tinha passado até colocar meus olhos em Summer perceber o quanto ela havia mudado.
Minha irmã tinha crescido alguns centímetros, a fase da puberdade em que ela usava maquiagens carregadas para esconder espinhas havia passado, agora ela só seguia com os olhos pintados em preto. E ela havia cortado o cabelo, que ainda seguia com as pontas pintadas de rosa, mas que agora chegavam até a altura de seu pescoço em camadas desconexas.
Summer sorriu, alegre, antes de correr em minha direção e me envolver em seu braços em um abraço apertado que foi o suficiente para que eu me sentisse ridiculamente velho.
— Eu senti tanta saudade - ela murmurou, se afastando para encarar meu rosto -, você não tá mais de franjinha.
— Eu senti saudades também - eu ri -, achei que uma mudança faria bem, o que achou?
— Ficou ótimo, mas cuidado com a escolha de roupas ou vão acabar achando que você é um e-boy.
— Vai se foder. - eu dei com o dedo em sua direção - E a mamãe?
— Ela está cozinhando. Mas não acho que essa é a pergunta que você quer fazer.
— Acho que não entendi. - tombei minha cabeça para o lado, confuso.
.
— Oh. - eu sorri, finalmente compreendendo - Ele tá aqui também, né?
— Não se faz de bobo, sei bem que vocês andam conversando bastante nos últimos tempos. - Summer me encarou - Mas Sebastian veio também, então se você tiver planos de se pegar com , sugiro que tome o dobro de cuidado.
Eu engasguei em minha própria saliva com as palavras de Summer, pego de surpresa demais para expressar qualquer reação diferente. Ela, em contrapartida, riu da minha cara como se isso fosse a coisa mais divertida que já havia visto na vida.
— O que exatamente você acha que estamos conversando?
— Eu te conheço e li algumas coisas, você tem um jeito bem específico de flerte, Ben.
— Tenho, é? - eu ri, puxando minhas malas para subir até os quartos e Summer me acompanhou.
— Você fica carente de atenção.
— Fico?
— Admite logo que você quer beijar o e para de se fazer de tonto. - ela parou ao meu lado com ambos os braços cruzados - Tá escrito na sua cara, .
— Summer - eu respirei fundo, entrando em meu quarto com minha irmã em meu encalço - Eu gosto muito do , mas eu acho que você tá vendo coisas demais. - eu deixei minha mala ao lado da cama, me sentando nela em seguida. - é um dos meus melhores amigos e é irmão do meu melhor amigo. Ele é como um irmão mais novo.
— Corta esse papo de irmão mais novo porque eu sou sua irmã mais nova e em momento algum você me tratou do jeito que trata ele. - ela fechou a porta atrás de si -, eu vi como vocês estavam na sua festa de despedida e a cara de bosta que você ficou quando o beijou outras pessoas. Olhe no fundo dos meus olhos e me diga que por um segundo você não cogitou algo além de amizade com ele e eu paro de te encher com isso.
— Aí, caralho.
Respirei fundo, juntando toda a minha paciência para tentar tirar Summer do meu pé. era dois anos mais novo que eu, nossas famílias eram quase que uma só. Qualquer envolvimento com envolvia trezentos outros problemas, ainda que nossa diferença de idade fosse o menor deles.
A maior parte deles girava em torno da ideia de que eu não me via me envolvendo em um relacionamento com alguém tão cedo, principalmente quando um namoro pedia mais do que eu era capaz de dar, ainda mais depois de Danielle.
Ela havia me estragado para qualquer tipo de relacionamento que exigisse mais que uma foda de uma noite. E não era o tipo de pessoa que transaria com alguém por uma noite e então as coisas acabariam ali. Eu nunca colocaria ele em uma situação como essas. Não depois que somente a ideia de eu me mudar pro Japão por um ano já havia sido o suficiente para que ele se debulhasse em lágrimas.
— Eu nunca pensei nele dessa forma, Sum. - encarei minha irmã nos olhos.
— Certo. - ela balançou a cabeça - Vou estar na piscina com o resto do pessoal, vai lá quando terminar aí.
— Beleza.
Summer sorriu de canto, me deixando sozinho em meu quarto enquanto eu suspirava e massageava minhas têmporas, me perguntando o que havia acontecido durante meu ano longe para que eles misteriosamente tivessem tanto interesse em mim.
Eu bufei, colocando minha mochila em cima da cama e tirando uma bermuda, sunga e uma camisa larga. Tomei meu tempo para ir até o banheiro e tomar um banho, tirando toda a sensação horrível de ficar por horas em um avião.
Não levou mais que dez minutos para que eu finalmente me sentisse renovado novamente. Desci as escadas até a cozinha, somente para sentir o cheiro de torta de maçã invadindo meus sentidos.
Minha mãe estava com os cabelos ruivos amarrados em um coque bagunçado e usava um avental de cozinha enquanto checava o forno para ver se a torta estava no ponto. O sorriso que invadiu seus lábios quando ela finalmente me viu foi o suficiente para que eu me sentisse o cara mais amado do mundo.
Connie tinha esse poder sobre todas as pessoas que a cercavam. Ela era como um raio de sol, iluminando tudo e todos. Minha mãe era carinhosa e calorosa em todos os pontos em que meu pai era mais rígido e nem mesmo ele era capaz de resistir aos seus encantos e sorrir abertamente sempre que ela estava no ambiente.
Mamãe abriu os braços ao vir em minha direção, me envolvendo em um abraço apertado ao acariciar meus cabelos. Eu a retribuí, levantando ela no ar em meio a risadas.
— Você está tão diferente, . - mamãe envolveu meu rosto com suas mãos, acariciando minhas bochechas com seus polegares - E está forte, você não era tão musculoso quando foi para o Japão. Cortou o cabelo. Está lindo.
— Obrigado, mãe. - eu ri, sem graça - Eu senti saudades.
— Nem me fale, eu queria bater no seu pai quando ele disse que seria uma boa ideia vocês irem para o Japão. - ela riu - Mas você mudou bastante, fico feliz que tenha sido uma boa experiência. Aliás, eu fiz uma torta de maçã pra você, sei que gosta.
— Obrigado. - eu sorri - Pelo menos agora fico mais perto, posso voltar pra cá nos finais de semana enquanto Summer está com o papai, assim você não fica tão sozinha.
— Eu não quero te atrapalhar, filho. Sei que a faculdade é uma experiência desgastante, odiaria que você perdesse as festas. É a melhor parte.
— Sebastian gosta mais de festas que eu.
— Ás vezes acho que eu e Paola trocamos de filhos. - Connie riu - Paola era mais como você quando estávamos na faculdade. Perdi as contas de quantas vezes eu tive que implorar para que ela fosse comigo nas festas.
— Você sente saudades dela, né?
— Muito. O suficiente para cogitar me mudar para o Japão quando vocês forem pra faculdade. Eu vou ficar boa parte do tempo sozinha, então seria uma boa ideia me mudar pra lá. Conversei com Liam e ele está cogitando o mesmo. Paola e Daizen estão planejando expandir a empresa para as Américas, dessa forma eles podem voltar. Mas esse é um movimento que vai levar ao menos um ou dois anos para ser consolidado e eu sinto muita falta disso.
Minha mãe apontou ao seu redor e eu compreendi o que ela quis dizer. Ela sentia falta quando estávamos todos juntos. De quando ela conseguia ver a família e a rede de apoio que ela havia construído. Longe disso, ela se sentia triste, assim como era logo que chegou nos Estados Unidos.
Minha mãe saiu da Austrália para estudar aos vinte e cinco, depois de muito trabalhar para conseguir o mínimo de suporte financeiro. Ela nunca havia tido um bom relacionamento com sua própria família, então quando ela decidiu que deixaria seu país, todo o contato com meus avós e o restante da família foi cortado de vez. Eu me lembrava de perguntar a ela o porquê de nunca termos ido para a Austrália e ela sempre me respondia com um sorriso triste, dizendo que não havia nada para ela lá. E então ela conheceu Paola.
Paola, assim como ela, era uma aluna de intercâmbio. E diferentemente da minha mãe, ela tinha uma família muito apoiadora e acolhedora, com condições financeiras muito boas na Argentina. Não era à toa que minha mãe havia feito questão de aprender o espanhol, porque em todos os recessos de fim de ano, Paola comprava passagens de avião para elas passarem as festividades juntas.
A família Romero se tornou a família de minha mãe. Depois disso, ela conheceu meu pai. E então os anos se passaram e nos tornamos uma grande família. A família que minha mãe tinha muito orgulho de ter formado.
E isso acabou refletindo em mim. Mesmo que eu amasse estar com meu pai e Gianna, estar longe de Summer, Bash e me deixava triste até demais. Eles foram parte do meu dia-a-dia nos últimos dezoito anos, ficar um ano longe já havia sido difícil. Eu não consigo imaginar como Connie havia aguentado quase cinco.
— Eu acho que seria uma boa ideia. - eu sorri, a acompanhando até o balcão e me sentando em um dos bancos - Você e Paola voltariam a se ver sempre, papai estaria lá e Gianna também. Nós podemos ir para o Japão todo o ano ou vocês podem vir pra cá.
— Você não ficaria bravo?
— Nunca, mãe. - eu ri - Você quis ficar aqui porque não queria que a gente se sentisse deslocado. Tá na hora de se priorizar, você tem todo o apoio do mundo pra ir.
— Obrigado, filho. - minha mãe sorriu - Agora vai lá pra piscina, os meninos estão lá. Paola saiu para comprar vinho com Liam e devem estar voltando já já. Pode ir, acho que e Sebastian estão ansiosos para te ver.
— Certeza que não quer ajuda?
— Absoluta. Pode ir, sentiu muito sua falta.
Minha mãe me encarou com uma expressão que eu fui incapaz de definir. Eu apenas a respondi com um menear de cabeça, dando um beijo estalado em sua bochecha antes de sair pela porta em direção à piscina.
Sebastian e estavam sentados nas cadeiras de sol enquanto Summer, Cass e uma pessoa que eu não conhecia as acompanhava. Eu passei a mão por meus cabelos molhados, jogando eles para trás antes de encarar .
Ele usava uma bermuda que ia até a metade de suas coxas e estava sem camisa usando um binder de fita. Seus cabelos estavam maiores que a última vez que havíamos nos visto. Ele estava de olhos fechados, sentindo o sol do verão contra sua pele bronzeada.
, porra! - Bash chamou minha atenção, se levantando da cadeira para me receber com um abraço. - Puta merda, você tá gigante.
— Você também. - eu ri, batendo em suas costas quando ele se afastou.
— Ansioso para Michigan?
— Porra, pra caralho. - eu sorri e então se apoiou em seus ombros, descendo os óculos para me olhar. Eu tirei meu foco dele por alguns segundos, encarando os dois desconhecidos na piscina.
, esse é Jeremy. Cassie você já conhece, então… - Seb murmurou.
— Prazer em te conhecer. - eu sorri de canto.
— Ouvi tanto sobre você que é quase como se nos conhecêssemos há anos. - Jeremy sorriu - Pode me chamar de Jer.
— Beleza - eu assenti, desenhando meu caminho em direção à -, tá tão magoado que ao menos mereço um abraço?
— Você foi quem me abandonou, tire suas próprias conclusões. - eu ri, incrédulo demais.
— Pare de ser tão rancoroso, tá machucando meus sentimentos. - levei minha mão até o peito, fingindo drama.
riu, se levantando da cadeira e envolvendo meu pescoço em um abraço apertado que quase me tirou o ar. Eu o retribui, passando o braço por sua cintura e tirando ele do chão para girar em meio a risadas. O coloquei no chão novamente e ele levantou os óculos, apoiando-os no topo de sua cabeça.
Suas feições estavam mais marcadas e sua voz estava um pouco mais grave graças às injeções de testosterona. Eu agora entendia ainda mais o quanto um ano era o suficiente para que mudanças significativas acontecessem. E isso me deixou mais incomodado do que eu gostaria de admitir.
— Senti sua falta, .
Ali estava. O apelido que havia sido monopolizado por e que soava ridiculamente fofo saindo por seus lábios.
— Eu também senti, boy wonder.
— Pega uma cerveja e senta aí.
apontou para a cadeira livre ao seu lado e voltou a se sentar na cadeira, colocando os óculos antes de puxar o celular e voltar a ler algo.
— Conta aí como foi o ano com seu pai. - Sebastian disse e eu me sentei ao lado de , tirando minha camisa e deixando em cima do encosto.
— Nada demais, eu fiquei estudando sem parar boa parte do tempo e não tinha muitos amigos lá. , posso usar o seu protetor solar? - encarei .
— Claro, à vontade. Precisa de ajuda para as costas?
— Uhum.
Ele assentiu positivamente, me estendendo o protetor solar. Eu peguei de sua mão, passando por todas as partes que eu alcançava antes de voltar a dar o frasco para , que saiu da própria cadeira para ficar em pé atrás de mim.
— Você já foi melhor, . - Bash riu - Mas não te julgo, eu fui em algumas festas no último ano mas acabei tirando um tempo para focar nos SATs também.
— Nenhuma namorada? Isso é novidade. - eu ri, sentindo os dedos de passarem por minhas costas.
— Vamos estar em Michigan em duas semanas, eu não quero compromisso nenhum. Meu mantra para esse ano é aproveitar ao máximo.
— Estão indo para Michigan para estudar ou fazer uma lista de garotas para transar? - indagou.
— Os dois. Quero ir na maior quantidade de festas que puder e ainda pegar o top 3 de melhores alunos do curso.
— Você é nojento. - eu quase conseguia ver a careta de se formando em seu rosto.
— Cala a boca, você fez pior que eu esse ano. - Bash riu e eu me virei para encarar .
— Ah, é?
— Minha vida amorosa virou assunto desde quando? é o foco, não eu. - ralhou - Pronto, terminei. Quando precisar retocar, me avisa.
— Valeu, boy wonder.
— Você não ouse desviar o assunto. - Bash apontou para - Esse fodido passou o rodo no colégio e namorou com o Walker. A porra do Walker.
— Qual deles? Gordon ou Dezmond?
— Quem você acha? - Bash franziu uma sobrancelha.
— Porra, . - eu o encarei e eu pude vê-lo rolar os olhos por baixo dos óculos de sol - Tanta gente e você foi logo pro Dezmond?
— Ciúmes? - ele levantou os óculos para me encarar, franzindo uma das sobrancelhas - Foi um momento em que eu estava fora de mim.
— Um momento que durou oito meses? - Bash riu.
— Eu estava muito desequilibrado. - ele deu de ombros, voltando a se encostar na cadeira. - Foi um momento de fraqueza, admito. Mas eu já apaguei ele da minha vida e estou ótimo assim.
— A festa dos Wayne discorda.
— O que rolou na festa dos Wayne? - eu indaguei, curioso demais para o meu próprio bem.
Eu ainda estava um tanto quanto incrédulo com toda a história envolvendo Dezmond Walker. O cara não era conhecido por ser a pessoa mais liberal do mundo. Se eu fosse sincero, Dezmond Walker era um puta de um escroto do caralho. E, como Sebastian gostava de chamá-lo, uma cópia mal feita de mim.
— Ele fodeu com o Dez. - Jeremy se intrometeu no assunto, rindo. - E foi o suficiente pro Dez tentar arrumar confusão com umas duas ou três pessoas depois disso, tudo porque o comeu o fígado dele.
— Que porra você fez, ? - o encarei.
— Ele foi escroto e eu chamei ele de pau pequeno. Vou pegar bebida, não quero ficar falando sobre isso.
se levantou e desenhou seu caminho em direção à cozinha. Eu considerei ir atrás dele para tentar saber um pouco mais. Nós havíamos conversado por todos os dias durante meu ano fora, mas ele em momento algum comentou sobre Dezmond. Eu franzi os lábios, encarando Bash quando ele apenas acenou em direção à cozinha em um sinal silencioso para que eu fosse atrás de .
— Ele tende a ficar arisco sempre que o assunto é o Dez. A história toda foi complicada pra cacete e ele não fala muito sobre. Não leva pro coração se ele acabar sendo um escrotinho. - Bash explicou, bebericando sua cerveja.
— Certo, obrigado pelo aviso.
Eu me levantei, repetindo o caminho que havia feito. Ele estava enchendo um copo com vodka quando eu adentrei a cozinha. Nossos pais não estavam em nenhum lugar próximo dali.
— Um pouco demais para as dez da manhã, não? - ele me encarou, rolando os olhos antes de deixar a garrafa em cima do balcão.
— Vocês são demais para as dez da manhã. - ele deu um gole no copo.
— O que aconteceu? - tombei minha cabeça para o lado - Você nunca me falou que tinha ficado com Dez.
— Não tinha o que ser dito. - ele deu de ombros, se sentando no balcão e eu me aproximei -, Eu nem queria, só carreguei o namoro por pura carência. Ele foi o cara que tirou minha virgindade, então eu acho que me forcei no relacionamento pra me sentir menos pior. E você estava longe e atolado até o pescoço com outras questões, não valia a pena te encher com essa merda.
— Pensei que eu tinha deixado claro que você poderia me contar coisas nesses, sei lá, quase dezessete anos de vida? - soltou uma risadinha.
— Não significa que eu vou te contar tudo.
— Isso me parecia algo relevante.
— Sempre soube que vocês não eram os maiores fãs dele, então não vi motivos. Eu tinha muita coisa pra lidar e ter que escutar vocês dizendo que ele era um babaca não estava na lista de prioridades. - bebericou o copo mais uma vez - E ele de fato era um babaca, por isso não durou.
— Você está omitindo as coisas. Sabe que pode me contar o que realmente aconteceu, né?
— Você acabou de chegar, não vou monopolizar seu tempo com conversas sobre minha vida amorosa falida.
— Vou ter tempo o suficiente pros outros, minha prioridade nesse momento é certificar que você está bem. - justifiquei, dando de ombros.
— Não quero falar sobre isso perto dos meus pais. Não quero correr o risco deles aparecerem aqui. - ele mordeu o próprio lábio, encarando a porta da cozinha antes de soltar um suspiro - Podemos falar disso outra hora.
— Quer ir até a praia? Talvez esteja um pouco lotada, mas podemos sentar e conversar sobre com um pouco mais de privacidade, se preferir.
Cruzei meus braços, tombando a cabeça para o lado para encará-lo. ficou em silêncio por algum tempo, apenas ponderando a ideia enquanto balançava os pés. Era estranho vê-lo assim. Eu costumava pensar em como uma criança encapetada. Vê-lo com o rosto fechado, apoiando-se contra a mesa como se ponderasse se devia ou não confiar em mim fez com que eu me sentisse uma merda. Um ano havia feito ele mudar tanto ao ponto de não lembrar que éramos melhores amigos?
— Podemos ir.
assentiu, pulando de cima da cadeira antes de pegar o copo e virar o que deveria ser o equivalente a um shot de vodka sem ao menos fazer uma careta. Eu respirei fundo, me segurando para não repreendê-lo.
— Certo, só preciso pegar minha camisa.
— Vai lá.
Eu balancei a cabeça, saindo de dentro da cozinha e soltando para a área da piscina. Sebastian me olhou como se buscasse alguma explicação, mas eu apenas peguei minha camisa e a camisa de em cima da cadeira antes de avisá-lo.
— Vou até a praia com o , volto logo.
— Beleza, se precisar de alguma coisa me avisa.
— Certo.
Concordei com a cabeça, vestindo minha camisa antes de dar a volta pela área externa e encontrar amarrando os cabelos úmidos em um coque que deixava algumas mechas azuis soltas contra a sua nuca. Estendi a camisa em sua direção e ele agradeceu com um menear de cabeça antes de liderar o caminho em direção a praia.
— Não sei por onde começar. - admitiu.
— Pelo começo, talvez?
— Não foi nada muito fora do comum - ele deu ombros -, Gordon é amigo do Seb, então era de se esperar que com a sua ausência, eu acabasse tendo mais contato com os outros amigos dele. Gordon brincou dizendo que o Dez tinha interesse em mim e tal, a gente também tem idades próximas, esse tipo de merda.
— Me surpreende ele ter dito isso e você ter acreditado, - eu disse, só me dando conta de como aquilo poderia soar quando me encarou com uma sobrancelha arqueada - Não foi isso que eu quis dizer. Eu estava me referindo a como ele é uma pessoa com umas ideias bem babacas no geral. Não queria dizer que você não é uma pessoa atraente. Digo, bonito. - me embolei em minhas próprias palavras - Você me entendeu.
— Fica tranquilo, . - ele soltou a primeira risada sincera do dia em minha direção e eu me senti menos pior - Enfim. Ele realmente é patético. Meu ponto é: Dezmond fingia bem e era a primeira vez que alguém fora do nosso ciclo me tratava como e não como…- ele fez uma pausa.
— O nome na sua certidão de nascimento.
— Exatamente. - suspirou - Enfim, ele foi uma pessoa boa até o terceiro mês, aí as coisas começaram a desandar. A gente transou, pouco tempo depois eu comecei a tomar a testosterona e tudo ficou um inferno. Estava tudo bem eu usar outro nome e pedir pra pessoas me tratarem no masculino, mas isso virou um problema quando minha voz e meu corpo começaram a mudar, entende?
— Entendo.
— Dezmond começou a me tratar como mulher, coisa que nunca tinha feito antes. Ele só não me chamava pelo nome de registro porque isso não era algo que ele tinha acesso, mas era o tempo todo me tratando como mulher. Até mesmo no sexo ele falava coisas que me faziam sentir como se eu só fosse uma boceta.
Eu o encarei quando ele parou, sentando-se contra a areia quando finalmente achou um lugar distante e isolado o suficiente para que pudéssemos apenas conversar. Me sentei ao lado dele, brincando com o elástico de cabelo em meu pulso para tentar lidar com a raiva que aos poucos ia se acumulado em mim.
— E então eu só fiquei de saco cheio - riu seco -, eu merecia mais que um cara que me tratava como se eu fosse um objeto. Porra, vocês me trataram melhor que isso, sabe? Você literalmente me levou pra comprar roupas novas quando eu disse que não era mulher. Sebastian pesquisou tudo sobre transição hormonal e social para convencer meus pais de que era seguro. Gianna moveu montanhas para que eu conseguisse usar meu nome nos registros da escola. E porra, eu faço terapia o suficiente pra entender que eu posso ter algo melhor que isso. Então eu só dei um pé na bunda dele.
— Você podia ter falado comigo sobre isso. - eu suspirei - não precisava ter sofrido sozinho, boy wonder.
— Você estava há milhas daqui, não tinha nada pra ser feito. E outra, você e Sebastian não vão estar aqui pra sempre. Não posso correr pra vocês sempre que não puder lidar com alguma coisa.
— Mas é mais fácil se você tiver alguém pra conversar, pelo menos. - eu sorri de canto, bagunçando seus cabelos e recebendo uma careta em retorno - Ainda assim, fico feliz que tenha saído dessa.
— Chamar um cara de pau pequeno pós-sexo sempre ajuda. - ele me deu uma piscadela, me empurrando levemente com os ombros.
— Senti falta disso. - admiti, encarando o mar onde algumas pessoas corriam à distância -, parece que muita coisa mudou nesse ano.
— Elabora um pouco mais, por favor. - só então notei a pochete que carregava. Ele abriu, tirando um cigarro que parecia ser de maconha e um isqueiro antes de me encarar. - Que foi? Você disse que íamos fazer isso juntos, que momento melhor para isso que agora?
— Você tem um ponto. Enfim - suspirei -, eu senti falta de estar com vocês. De poder sentar e conversar com você por horas, de ver Summer me pedindo pra trançar os cabelos dela, até mesmo das histórias absurdas do Sebastian. Meu pai ficava fora com frequência, então na maior parte do tempo eu estava sozinho. Bash estava dormindo quando eu estava acordado, Summer também. Você é meio que o único que eu conversava com mais frequência. Às vezes eu almoçava com a Paola também.
— Você não foi o único - sorriu de canto, acendendo o cigarro de maconha e dando uma longa tragada - Foi um saco não ter você aqui pra ter companhia pra ver algum filme ruim. Você fez falta, . - ele me estendeu o cigarro e eu aceitei, dando uma longa tragada e sentindo a tranquilidade da maconha tomar conta do meu corpo aos poucos.
— No próximo ano, vou visitar você sempre que puder, assim você não fica sozinho durante a ausência da Summer.
— Obrigado, .
sorriu, se deitando contra a areia e encarando o céu completamente azul. Ele fechou os olhos e eu o acompanhei, sentindo o cheiro da maresia e o barulho do mar.
Ficamos ali por um bom tempo, em um silêncio confortável, apenas aproveitando a presença um do outro depois de um ano separados.
E eu sentia algo que não saberia identificar crescendo em meu peito.


Capítulo Sete



“He treats you so bad and I'm so good to you
It's not fair
And when the phonecall finally ends
You'll say I'll call you tomorrow at 10
I'm stuck in the friend zone again and again”

(Ele te trata tão mal e eu sou tão bom pra você
Isso não é justo
E quando a ligação finalmente termina
Você diz ‘te ligo amanhã ás 10’
E eu estou preso na friendzone de novo e de novo)
— Heartbreak Girl, 5 Seconds of Summer


East Hampton, NY
Antes



— Então, estou cogitando me mudar para o Japão. - meu pai disse, acariciando a mão de minha mãe.
— Eu acho que é o que você deveria fazer. - sai do transe que havia me colocado, encarando meus pais. - Eu e Sebastian estaremos em Michigan por pelo menos quatro anos por conta da faculdade. Você e mamãe já ficaram longe um do outro o suficiente, não tem nada que te prenda aqui.
— Eu falei o mesmo pra mamãe. - Gianna sorriu. - Summer vai ficar com a gente no próximo ano e depois volta pra Michigan. Vocês quatro vão estar no mesmo campus. Benji e Sebastian podem cuidar de Summer e sem problema algum, já não tem mais motivos pra ela ficar aqui.
— Eu estou pensando sobre também. - Connie sorriu, encarando Daizen. - Eu não gosto de ficar sozinha o tempo todo e nós vamos nos ver um pouco menos quando vocês começarem com os estágios da faculdade. Acho que vai ser melhor se eu me mudar também.
— Sua rede de apoio está lá. - eu concordei - Se algo acontecer, você vai ter Daizen, Gianna e mamãe. O mesmo pra você, pai. Eu acho que é uma boa ideia.
— Eu também. - concordou, encarando para Connie - Vai, mãe. Podemos nos reunir durante os recessos.
— E eu vou adorar visitar vocês em Tóquio. Eu fui poucas vezes pra lá. - eu admiti - Vou me preocupar menos se você estiver lá, pai. E assim você garante que a mamãe não vai ter um infarto por trabalhar demais.
— Mais respeito, mocinho. - minha mãe riu - Eu aprovo a ideia. Eu amo meu trabalho, mas não quero mais ficar longe. - minha mãe soou triste, enlaçando seus dedos nos de meu pai - Pretendemos expandir a empresa para a América do Norte e Sul, como vocês já sabem. Podemos nos mudar de volta quando isso acontecer. Mas até lá, eu gostaria de ter mais tempo com meu marido e minha melhor amiga.
— Então é uma confirmação? Vocês vão mesmo se mudar? - Summer parecia alegre. Assim como eu, ela também sentia falta de seu pai e de Gianna.
— Depois que vocês estiverem em Michigan. - Connie concordou. - Combinei com que ele vai vir pra Nova York durante os finais de semana enquanto Summer está fora.
— Eu vou fazer o mesmo. - papai concordou - Quero aproveitar o último ano de aqui. Ele já está virando um adulto. - ele riu - Deus, parece que foi ontem que pegamos vocês no colo.
— Lembra como o Bastian ficou feliz quando chegou? - Daizen relembrou, rindo - Ele não saia do lado do berço dele durante a noite, com medo de algo acontecer.
— Por favor, podemos não comentar sobre? - Seb riu, dando uma garfada em sua torta.
— Não é como se o tivesse ficado muito diferente quando a Summer nasceu. - Gianna encarou Seb - Ele ficou animado de finalmente ser o irmão mais velho.
— Vocês podem me culpar? Na minha cabeça, eu finalmente teria alguém para brincar além do Bash. Mas aí o veio e roubou minha irmãzinha de mim.
— Você está agindo como se você e Sebastian não fossem inseparáveis desde sempre. - eu me defendi, rindo - Vocês literalmente faziam tudo juntos. Era ridículo.
— Como se vocês dois também não fossem inseparáveis. - Gianna riu - Não houve um dia que eu não cheguei do trabalho no último ano e não escutei o falando com você.
— Toma, otário. - Seb deu com o dedo em minha direção e meus pais riram - gosta mais de você do que de mim.
— Você pode culpá-lo? Eu sou muito mais legal.
— Fica tranquilo, Seb, eu gosto mais de você do que do . - Summer tentou consolá-lo.
— Finalmente alguém que sabe apreciar a minha presença. - Sebastian sorriu.
— Você é uma traidora. - eu encarei Summer, como se estivesse magoado.
, todo mundo sabe que você gosta mais do . - Summer me encarou e eu conseguia ver o sorriso enviesado se formando em seus lábios.
— Mentirosa.
— Ei. - se pronunciou - Você tá machucando meus sentimentos assim, . - eu o encarei quando ele colocou a mão contra seu próprio peito - Achei que tudo o que passamos significasse mais para você.
— Eu vou bater em você, .
— Você se intrometeu na briga do com o Braeden aquela vez.. - Summer explicou, como se fosse óbvio.
— Ele fazia bullying com vocês dois. - eu me justifiquei.
— Eles parecem um casal com trinta anos de casados brigando por preferência de vinho. - meu pai riu, encarando minha mãe.
— Não é? Eles são adoráveis. - minha mãe concordou.
— Me surpreende eles não serem um casal. - Daizen seguiu com o assunto dos meus pais, balançando a cabeça negativamente.
— Eu aposto em e . - Connie sorriu.
— Oh, quanto a isso eu não tenho dúvidas, eles definitivamente seriam um casal. - minha mãe concordou - Ainda que eu ache que ainda é muito cedo pra isso.
— Estamos aqui, sabia? - Sebastian encarou nossos pais.
— Não é segredo pra ninguém, nós sempre dissemos que algum de vocês inevitavelmente ficaria junto no futuro. - Meu pai explicou - Estamos abrindo as apostas.
— Todo mundo concorda que seria e ? - Gianna arqueou uma sobrancelha - Sou velha demais pro Sebastian e Summer gosta de meninas.
— Eu coloco minhas apostas neles. - Connie concordou e eu senti minhas bochechas queimarem.
— Obrigado pelo respeito. - Summer sorriu - E eu concordo.
— Vocês estão falando disso pra uma criança. - Sebastian soava incrédulo - Dito isso, eu também aposto neles.
— Sebastian! - eu o encarei e ele deu de ombros. - Eu gostaria de sair dessa conversa.
está quieto demais. - Summer provocou, encarando o irmão - Gostaria de se juntar à conversa?
Nope. - ele bebericou o suco em seu copo - Estou muito bem apenas comendo e fingindo que essa conversa não tá acontecendo.
— Defenda sua honra, . - Gianna provocou.
— Não existe honra nenhuma pra ser defendida aqui. - ele riu - e eu somos amigos, nada nunca vai mudar entre a gente.
Eu senti algo afundar no meu estômago. Não era segredo que me via apenas como um irmão mais novo, isso já tinha sido bem estabelecido. Mas escutar sendo tão enfático dizendo que nada nunca aconteceria entre nós? Isso era algo que eu não gostaria que fosse esfregado na minha cara, ainda que fosse a realidade.
— Estou satisfeito, obrigado pela conversa. - eu me levantei, pegando meu prato e copos para ir até a cozinha.
— Vocês estão malucos. - riu, juntando os talheres - Obrigado pela comida, vou acompanhar e me retirar.
— Ui, ui. Ele vai acompanhar o .
Summer brincou e eu rolei os olhos, apressando meus passos em direção a cozinha para evitar mais constrangimento. Parei em frente a pia, colocando os pratos dentro dela antes de abrir o lava-louças. chegou logo depois.
— Pode deixar aí, eu coloco pra lavar. - eu o encarei.
— Certo. - ele assentiu, colocando os pratos e copos dentro da pia - Peço desculpas pelos meus pais, eles são mestres em constrangimento.
— Está tudo bem. - me esforcei para manter a fachada, rezando para que ele não percebesse o quanto a conversa havia me deixado desconfortável - Não posso culpá-los, eu sou muito divertido. O genro dos sonhos. Além disso, eu já estou mais que acostumado.
— Quer ir pra praia mais tarde? Podemos continuar conversando. - ele desconversou, se apoiando contra a borda da pia.
— Você deve estar cansado da viagem, pode ir descansar.
— Não posso. Vou ficar com o sono descompensado se parar pra dormir agora. Preciso ficar acordado até a noite.
— Certo. - balancei a cabeça - Podemos ir, sim.
— Beleza. - ele sorriu, saindo de perto da pia para se sentar contra o balcão.
Eu mantive minha atenção nas louças, confortável com o silêncio ao organizar as peças dentro do lava-louças. Estava quase terminando quando resolveu preencher o silêncio.
— Além de toda a história com o Dez, eu perdi mais alguma coisa?
— Não. Te contei tudo que precisava contar, só omiti a história com o Walker mesmo. - terminei de colocar o último copo dentro da máquina, lavando minhas mãos e secando antes de me encostando na pia para encará-lo - E você?
— Nada que você já não saiba. - ele deu de ombros e então Summer adentrou a cozinha carregando os próprios pratos - Comentei com de irmos para a praia, quer ir?
— Quero sim. Vou chamar Cass e Jer, tem problema?
— Não, pode chamar. Acho que vão fazer uma fogueira na praia, provavelmente. Escutei Sebastian falando mais cedo. - explicou.
— Beleza. Vamos andando? - Summer perguntou.
— Sim, são só uns vinte minutos, então tá tranquilo.
— Estamos combinados então.
— Beleza. - eu concordei e encarei Summer - Preciso de ajuda com o binder, tá muito ocupada?
— Não, vamos lá, eu te ajudo.
Eu acenei para quando Summer me puxou para fora da cozinha, em direção ao meu quarto. Ela fechou a porta atrás de si, me levando para o banheiro e procurando pelo frasco de óleo nas prateleiras.
— Está com as fitas faz quanto tempo? - ela disse, finalmente achando o frasco e parando na minha frente.
— Quatro dias. As pontas já estão descolando. - fiz uma careta.
— Seus pais precisam te mandar fazer a cirurgia para retirar os seios urgentemente. Você não pode continuar se machucando assim. Toda a vez que a gente tira as fitas, mesmo tomando cuidado e usando óleo, sua pele fica em carne viva. - Summer suspirou, segurando as pontas soltas da fita e passando uma quantidade considerável de óleo à medida que ia puxando as bordas.
— Eu sei e eles também. - eu a tranquilizei - Estamos vendo de fazer isso durante o recesso no próximo ano. Eles têm medo de deixar pra fazer antes da gente ir pra faculdade e eu precisar fazer algum esforço.
— Não tem como fazer isso durante o recesso de inverno? - ela tombou a cabeça para o lado, assumindo uma expressão triste quando eu senti um pequeno desconforto - Machucou. Você vai precisar dar uma pausa das fitas até a pele ficar bem de novo.
— Fim de ano geralmente os cirurgiões não pegam para fazer cirurgias, então eu acho que não. - eu a encarei - Eu odeio usar o colete. Aperta muito as minhas costelas e eu fico sem ar.
— Eu sei, . - Summer bufou - Mas não tem como você usar a fita sem piorar o machucado. - Summer já havia tirado boa parte da fita de meu seio esquerdo - É o melhor no momento. É melhor você fazer isso que precisar ficar sem as fitas por mais tempo. Uma semana e você vai estar novo em folha. - Summer tentou me convencer e eu balancei a cabeça positivamente, concordando - Sei que estou soando como uma mãe, mas eu preciso me certificar que quando eu estiver fora, você vai continuar se cuidando.
— Vou me cuidar. - eu a tranquilizei e ela me encarou. Os olhos carregados de tristeza.
— Não quero te deixar sozinho aqui, . - ela se encostou contra a pia do banheiro ao tirar a fita e se estender para jogar no lixo. - Quando o foi, você ficou um caco. E eu ainda estava aqui. Mas agora você vai estar sozinho, sabe? Quem vai garantir que você fique bem?
— Summer, eu consigo me virar. - eu suspirei - Sei que não confia em mim o suficiente, mas eu prometo me cuidar. Isso - eu apontei para os meus seios -, é algo temporário. Em alguns meses, vou ficar bem. Meu pai vai cuidar de mim e vai ser uma coisa a menos pra gente se preocupar em Michigan. - eu peguei em seus ombros, encarando seus olhos - Sei que minha palavra não vale de muita coisa, mas eu prometo que vou me cuidar. - eu soltei uma risadinha e Summer me envolveu em um abraço apertado, escondendo seu rosto na curva de meu pescoço.
— Não quero ir pro Japão. - ela murmurou - Não quero ficar sozinha lá. Não vou conhecer ninguém e nem ter amigos.
— Então fica. Podemos conversar com seus pais e explicar tudo, você pode ficar aqui. - eu retribui seu abraço, acariciando seus cabelos.
— Não quero que meu pai ache que não quero ficar junto com eles. - ela suspirou, se afastando para limpar as lágrimas - Eu entendo o . Ele foi porque não aguentava mais ficar em Nova York, toda a história com Danielle deixou ele completamente traumatizado e as fofocas nos corredores não ajudavam. Ele queria um recomeço antes de ir pra faculdade. - ela riu, seca - Mas eu? Eu tenho literalmente dezessete anos de vida aqui. Meu japonês é equivalente ao de um senhor de idade e eu não tenho uma unidade de amigo lá, minha dislexia vai ser um problema gigantesco e eu não quero passar pelo estresse da adaptação de professores de novo. Já vai ser um inferno na faculdade. - Summer suspirou - Enfim, isso não é sobre mim. Vamos voltar ao binder. - ela se moveu e eu a segurei pelos ombros.
— Sammy… - a chamei pelo apelido carinhoso que sempre usava - conversa com seus pais e explica o que você acabou de me dizer. Sua mãe decidiu ficar nos Estados Unidos quando vocês disseram que não queriam se mudar com Daizen, eles não vão se sentir ofendidos se você optar por não ir. Você só precisa explicar o que acabou de me dizer. Eles vão te deixar ficar.
— Meu pai vai achar que eu odeio ele.
— Claro que não. Seu pai nunca acharia isso de você, Sammy. - eu suspirei, a encarando - Vamos conversar com eles. Eu vou estar com você durante a conversa para que você não fique tão nervosa e vamos tirar isso da nossa frente, tudo bem?
— Obrigada. - ela riu fraco - Vamos tirar o outro lado, sim?
— Sim, senhorita.
Summer esboçou um sorriso, voltando sua atenção para a outra fita ao embeber o tecido com óleo e ir massageando aos poucos até que ela ficasse mole o suficiente para ser puxada. O processo demorou cerca de cinco minutos até a outra fita encontrar o mesmo destino que a anterior.
— Você precisa me falar sobre o que rolou na praia hoje mais cedo. - Summer passava pomada para as assaduras nos lugares onde a pele estava mais lesionada.
— Não foi nada demais.
— Você passou esse tempo todo falando sobre não querer lidar com a rejeição de apenas para estar saindo só com ele depois. - Summer riu - Levanta o braço.
— Não aconteceu nada. - eu obedeci - Nós estávamos conversando na cozinha sobre toda a história com Dezmond. Eu expliquei pra ele que não achava legal falar sobre com meus pais aqui.
— E vocês foram pra praia e só rolou isso? - Summer franziu uma sobrancelha - Pronto.
— Isso e nada mais. - eu garanti - Desculpa acabar com seus planos, meu bem, mas foi apenas isso que aconteceu. - dei de ombros, vestindo novamente minha camiseta. - Agora, vamos descer, temos mais vinte minutos de caminhada até a festa da praia.
— Sim, senhor.

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O verão nos Hamptons era algo que eu aguardava ansiosamente durante o ano. Ainda que eu não fosse o maior fã do litoral nova-iorquino -ou praias, no geral -, existia algo no conceito de estar longe da cidade onde os sonhos eram feitos.
Fosse a brisa salgada que soprava meus cabelos, o sol que bronzeava minha pele ou a sensação dos meus pés afundando na areia. Eu amava cada segundo, principalmente quando eu estava ao lado dos meus melhores amigos.
E então tinha . Com seus braços definidos e a risada mais contagiante que eu já havia escutado em toda a minha vida, conversando animadamente com Sebastian e mais algum outro cara que eu não havia prestado atenção na apresentação.
— Já pensaram como vai ser no próximo ano? - Jer murmurou, tomando um gole do refrigerante em seu copo. Ele observava o mar e seus cabelos caiam em cachos por sua testa - Vamos estar indo pra faculdade, vai ser estranho não ser colegas de vocês.
— Em teoria, temos mais um ano juntos. - eu o encarei - Além disso, podemos nos ver em todos os recessos quando eu não for visitar meus pais.
— Sei lá, é esquisito demais. - Jer deu de ombros - Parece que finalmente pertenço em algum lugar e tudo vai mudar, sabe?
— Acho que isso faz parte. - Cassie murmurou - Gosto de pensar que nós meio que éramos pra acontecer desse jeito, sabe? - ela riu - Que tínhamos que nos aproximar neste ritmo. Acho que não seríamos os mesmos se fossemos amigos desde o início.
— É, eu acho que vocês me odiariam muito. - eu ri.
— Oh, isso com certeza. - Cassie riu - Eu penso com frequência sobre isso, sabiam?
— Como assim? - Summer franziu o cenho.
— Em como seria se a gente tivesse se encontrado antes. - ela explicou - A gente era muito diferente. Antes de vir para a Horace, eu era muito tímida, Jeremy é como se fosse um solzinho, Summer e sempre foram intimidadores. A gente mudou bastante. Ainda vamos mudar. Mas se for pra ser, vamos acabar encontrando nosso caminho de volta.
— Você fala tão bem, gostaria de lamber seu cérebro. - Summer riu, passando os braços pelos ombros de Cassie - Acho que vou acreditar em você.
— É melhor que sim, sou a única que não vai para a MSU, então vocês precisam me incluir nos programas durante os recessos.
— Sei que a UCLA é a faculdade dos seus sonhos, mas você pode tentar para a MSU também. - eu a encarei.
— Ainda temos um ano, pode ser que os espartanos acabem ganhando meu coração e eu tente também. - ela deu de ombros.
— Podíamos dividir um apartamento fora do campus. - Summer sorriu - Eu e já vamos fazer isso.
— E eu vou ficar sozinho? - Jer fez biquinho.
— Incluindo o Jeremy. - corrigi - Apesar de que eu não imagino como a dinâmica de vocês funcionaria.
— Eu fico com Jeremy. - Cassie concordou - E aí poderíamos fazer noites de cinema.
— Isso quando o não levar o pra casa, né? - Summer alfinetou e eu a empurrei com o cotovelo.
— Oh, então rolou algo na cozinha e na praia? - Jer se aproximou como uma velha fofoqueira - Quero saber.
— Não rolou nada. - eu me defendi - Só conversa, nada mais que isso. Eu disse, vocês precisam desistir dessa história, eu mesmo já desisti.
— Odeio quando isso acontece. - Cassie bufou - Eu só queria que ele percebesse que vocês fariam um bom casal.
— Para o , é como se eu fosse um irmãozinho mais novo e nada além disso, acontece - dei de ombros -, além disso, ele está indo pra faculdade, o que ele vai querer com um adolescente que nem saiu do ensino médio?
— É uma observação justa - Jer concordou -, mas você também vai estar nessa daqui um ano.
— Exatamente. — E como foi? - Cassie disse.
— A conversa?
— Isso - assentiu.
— Eu tenho quase certeza que ele bateria no Dez se pudesse, mas acho que não é relevante no momento. - eu apontei com a cabeça em direção a e Sebastian, que voltaram para a roda. - Quando eles não estiverem perto, podemos voltar a falar sobre. Meu irmão não sabe e eu prefiro que continue assim.
— Certo, certo. - Cassie concordou.
E assim seguimos, escutando conversas alheias enquanto falávamos sobre nossas expectativas para o próximo ano. Não levou muito tempo para que alguém aparecesse com um violão ao redor da fogueira. As primeiras notas de Here Comes The Sun dos Beatles invadiu meus ouvidos. Tomei aquilo como um sinal para que eu me retirasse e fosse fumar o mais longe possível da voz desafinada de algum desconhecido podre de bêbado.
Avisei meus amigos, esperando alguns segundos enquanto eles se decidiam entre me acompanhar ou ficar para a tortura que seriam os próximo cinco minutos.
Por fim, eles optaram por ficar e eu apenas assenti, me levantando com meu copo de cerveja para me afastar o mais rápido possível dali. Tirei minha carteira de cigarros do bolso, acendendo um cigarro que pendia entre meus lábios para dar uma longa tragada.
— Como é que você sempre me diz? ‘’Nem cinco minutos e você já deu um jeito de sair de perto das pessoas?’’ - a voz de invadiu meus ouvidos e eu me limitei a rolar os olhos.
— Odeio os Beatles. Mais ainda quando é cantado por um riquinho bêbado. - franzi o cenho, tragando o cigarro e soltando a fumaça para cima, o mais longe possível de .
— Você é um riquinho bêbado, . - ele pontuou, rindo.
— Um riquinho infelizmente sóbrio. - corrigi - E com anos de técnica e estudo. Meu repertório de músicas é melhor também.
— Volte lá e prove seu ponto, então. - ele sorriu, enviesado.
— Oh, definitivamente é algo que vou fazer, só esperar ele acabar de tocar as músicas que batem ponto em qualquer festa de fogueira. - soltei um risinho.
— Espero ansiosamente. - sorriu - Podemos sentar mais próximos das pedras? Estou te devendo um beck a beira mar, o primeiro foi você quem trouxe.
— Claro, vamos lá.
assentiu positivamente, me acompanhando até um conjunto de pedras mais distante. Ele subiu em cima delas como se fizesse isso todos os dias, estendendo sua mão em minha direção para que eu conseguisse subir com menos dificuldade. Nos sentamos um ao lado do outro enquanto ele tirava um cigarro de maconha do bolso de sua camisa para me entregar.
— Valeu.
Eu joguei o cigarro em meu copo de cerveja, deixando-o apoiado em minhas pernas antes de acender o cigarro de maconha. O vento não ajudava com a chama, então se prontificou a cobrir o isqueiro com ambas as mãos, fazendo uma pequena barreira. Acendi o baseado, dando uma tragada longa e segurando a fumaça em meus pulmões por um bom tempo antes de passar o baseado para . Fechei meus olhos, sentindo a típica coceira em minha garganta enquanto os efeitos da maconha acalmava meus nervos e me deixava vendo tudo em câmera lenta.
— Você tinha razão.
— Eu tenho razão sobre muitas coisas, você vai precisar ser mais específico, .
— Sobre fumar um na praia. - o encarei - Não te falei isso mais cedo.
— Claro que tenho. - ele me ofereceu o baseado de novo e eu balancei a cabeça negativamente - Não cheguei a falar sobre isso, mas acho que seria um bom momento para conversar sobre Danielle.
— Por que? - franzi o cenho o encarando.
— Você me contou sobre uma relação conturbada, é justo que eu faça o mesmo, assim ficamos na mesma.
— Você não precisa fazer isso, . - eu sorri de canto - Não é uma moeda de troca.
— Preciso falar disso com alguém em algum momento, eu acho.
— Certo… - eu suspirei -, se é isso que você quer, pode me contar.
— Até onde sabe?
— Honestamente? - eu ponderei por alguns segundos - Acho que quase nada. Apenas que ela era mais velha que você na época.
— Eu tinha quatorze, Danielle tinha dezenove. - ele pigarreou - Nos conhecemos em uma festa da galeria da minha mãe. Não lembro muito sobre esse dia em específico, só que eu vi Danielle e achei ela uma das mulheres mais bonitas do mundo. - a voz dele soava distante - E você me conheceu nessa época, sabe que eu não era lá o cara mais confiante do mundo.
— Mas Danielle achou que o garoto de franjinha era muito bonito, né? - eu o encarei e ele concordou - Sei bem.
— Enfim, ela mostrou interesse e eu era meio otário, achei que ela estava falando sério. Começamos a ter algo, mas era segredo. Na época eu achava legal. Ser o segredo de alguém tão maduro, sabe? Meu ego foi lá em cima, tudo isso porque um cara do ensino médio estava saindo com uma garota da faculdade.
— Porra, . - mordi os lábios, incerto do que dizer, mas como um incentivo para que ele continuasse.
— Foi complicado. - ele riu fraco - Danielle meio que me usou pra tudo. Me dizia que éramos exclusivos, mas eu ficava sabendo que ela ficava com outros caras em festas da NYU pelos irmãos dos meus amigos. Eu pedi explicações quando fiquei de saco cheio de ouvir boatos, mas ela me disse que as pessoas estavam inventando porque eu tinha algo que eles não tinham.
— Babaca do caralho. - murmurei.
— Muito. - ele concordou - Continuamos assim por um bom tempo, até ela se cansar de mim. Danielle vivia me colocando pra baixo, dizendo que eu tinha sorte dela me dar algum tipo de atenção considerando como eu era naquela época. Ela sabia de todas as minhas inseguranças e fez questão de usar todas contra mim. Uma vez eu comprei flores pra ela. Danielle riu da minha cara, jogou no lixo e disse que eu era patético antes de me dar as costas e voltar a se arrumar pra festa que ia naquela noite.
— Ah, . - eu murmurei, sem tirar os olhos dele. Por um segundo, pensei ver lágrimas em seus olhos.
— Enfim, ela acabou pedindo transferência para alguma universidade e eu nunca fui atrás de saber onde. Era melhor assim. - deu de ombros, encarando o mar.
— Sinto muito, você não merecia isso . - eu apertei seu ombro - Abraço?
— Abraço.
assentiu, envolvendo minha cintura quando eu o puxei para um abraço e deitei sua cabeça em meu peito, acariciando seus cabelos.
— Por isso fico feliz que você tenha dado um chute na bunda de Dez. Você percebeu as coisas antes de mim.
— Quanto tempo você ficou com Danielle? - eu o encarei.
— Dois anos, entre idas e vindas.
— Um bom tempo.
— Até demais. - ele sorriu de canto - Mas estou melhor agora. Ainda não me sinto preparado pra um relacionamento de novo, mas estou melhor do que estava logo que acabamos.
— Eventualmente alguém vai fazer isso mudar. - assegurei - Tanto pra você quanto pra mim.
— Vai. - ele concordou - Enfim, vamos voltar?
— Vamos.
se levantou, descendo primeiro e me assegurando de que se eu escorregasse, ele me seguraria. Voltamos para a roda poucos minutos depois. E eu me certifiquei de esfregar em sua cara que eu ainda era mais talentoso que o outro garoto quando peguei o violão.
Os primeiros acordes de Chandelier de Will Paquin invadiram nossos ouvidos e eu cantei os versos como se eles estivessem sido escritos para .


Capítulo Oito



‘’They know where I've been
I get so friendly with strangers’’

(Eles sabem onde estive
Sou muito amigável com estranhos)

— Peanut Butter & Tears, DPR IAN

East Lansing, MI
Antes


Minha primeira semana na Universidade Estadual do Michigan foi um inferno e eu já contava os dias para o fim de semana, assim eu poderia finalmente decidir se iria para Nova York ou tirar mais um fim de semana para me enfurnar em meu quarto e recarregar todas as minhas energias.
Eu estava em minha primeira aula de Fundamentos de Design Gráfico para Jogos Digitais com o professor Brenner, um cara que tinha um currículo mais extenso do que eu tinha de vida. Ele havia trabalhado na identidade visual de alguns jogos que eu gostava quando mais novo, mas nada me preparou para o choque quando ele comentou despretensiosamente que havia feito parte da equipe que desenvolveu as atualizações de Warcraft.
— Vocês já devem ter ouvido falar sobre a questão dos créditos durante a semana de boas vindas. - Sr. Brenner sorriu - Como sou o primeiro professor de vocês nessa semana, preciso dar alguns avisos além da ementa de conteúdos deste semestre. - ele encostou contra a mesa do auditório - Vocês precisam completar obrigatoriamente 3423 horas nos próximos cinco anos para se formarem. Além disso, vocês precisam cumprir 200 horas em atividades complementares. Essas 200 horas serão divididas entre eventos, disciplinas eletivas e estágios. Alguma dúvida até aqui?
— Eu tenho. - uma garota de cabelos azuis levantou a mão - Sobre as eletivas, precisamos escolher necessariamente algo relacionado ao curso?
— Seu nome, por favor?
— Stacy Rowan.
— Certo, Srta. Rowan. - ele sorriu - Não é necessário que vocês escolham algo relacionado ao curso de vocês. Entretanto, eu recomendo algo relacionado à área em que vocês desejam trabalhar. É bom para que vocês façam uma rede de contatos, muitas oportunidades surgem através deles. Principalmente para os que querem fazer mestrado ou doutorado. Esclareceu sua dúvida?
— Sim, obrigada.
— Por nada. Com isso estabelecido, vamos ao conteúdo programático deste semestre.
Sr. Brenner se levantou, voltando-se para o computador para projetar uma sequência de slides.
Me mantive atento o máximo que consegui, anotando os pontos mais importantes e algumas das indicações de leitura das bibliografias usadas para a construção dos conteúdos.
Após a explicação da ementa, Sr. Brenner seguiu com a explicação das formas avaliativas, que seriam divididas em quatro através do semestre: dois seminários, uma prova escrita e um trabalho em grupo que seria decidido no fim daquela aula.
O trabalho em grupo seria algo um tanto trabalhoso. Teríamos que entregar um moodboard complexo com um todos os principais pontos da criação de jogos: ambientação, jogabilidade, estética e design de pelo menos 4 personagens, o que explicava o porquê do adiantamento na explicação. Aquilo era um trabalho de meses.
O fim da aula introdutória logo chegou e eu arrumava meus cadernos dentro da mochila quando senti um toque em meu ombro.
— Oi, , certo? - eu encarei o estranho que chamou minha atenção, tirando meus fones.
— Isso.
— Sou Kieran Parker, estamos no trabalho do Sr. Brenner juntos. - explicou.
Kieran Parker era muitos centímetros mais baixo que eu. Ele tinha cabeça raspada e platinada. Usava uma camisa regata larga com mangas cortadas, uma calça preta com alguns patches e alargadores. O cara era punk para um caralho.
— Claro, eu me lembro. - eu sorri - Prazer em te conhecer.
— Igualmente. - ele sorriu - Viu, preciso do seu número de telefone, assim consigo criar um grupo pra facilitar.
— Posso te passar.
— Perfeito. - Kieran me ofereceu seu celular e eu anotei meu número nele, me mandando uma mensagem em seguida para salvar o dele em minha agenda. - Prontinho.
— Valeu. - ele guardou o telefone no bolso - Cara, você se importa se ficarmos juntos? Não conheço muita gente por aqui.
— De maneira alguma, eu tô nessa também. - eu ri fraco - Qual a sua próxima aula?
— Introdução aos fundamentos do desenho e a sua?
— O mesmo. Você faz design de jogos também?
— Não. - ele riu, sem graça - Eu sou veterano de Design de Vestuário e Têxteis. Peguei algumas disciplinas do departamento de mídias porque queria ter uma segunda opção de profissão caso a primeira não dê certo.
— E qual é?
— Queria me especializar em figurino e tentar a sorte no audiovisual. Não sou fã da indústria de passarela, mas curto criação de personagem pra caralho. Achei que se não conseguisse, pelo menos poderia me especializar na parte de jogos, que é algo que curto também.
— Isso é legal pra caralho. - eu sorri, em concordância - Eu sou calouro também, ainda tô me decidindo exatamente onde vou, mas gosto bastante de trilha sonora e programação. Design não é muito minha praia, admito.
— Que bom que você tem um modista pra te ajudar nisso, então. - Kieran sorriu - Você é daqui? Seu sotaque não parece ser de Michigan.
— Não, sou de Nova Iorque.
— Está explicado. Você tem o olhar de quem viu horrores além da compreensão humana, algo que somente nova-iorquinos tem.
— Vai se foder. - eu dei com o dedo, gargalhando - Mas realmente, Nova Iorque é uma cidade caótica. Morei em Tóquio por um tempo e prefiro um milhão de vezes.
— Eu imagino. - Kieran concordou - Tóquio? Isso é legal. Sabe falar japonês?
— Sim. E alguns outros idiomas.
— Legal, assim você pode me ajudar com a extracurricular que peguei no departamento de línguas.
— Está estudando?
— Estou. - ele assentiu - Vai me ajudar quando eu estiver pegando artigos para o trabalho final do curso. Tóquio tem uma identidade muito própria, então tem muito material que dá pra usar.
— Legal pra caralho. Posso te ajudar sim, só me falar. Meu pai ainda mora lá e eu geralmente vou uma vez por ano, qualquer coisa posso te ajudar com algo mais autêntico, de certa forma.
Kieran assentiu e entramos na aula de Introdução aos Fundamentos do Desenho. Kieran se sentou na cadeira ao meu lado no auditório, fazendo anotações e vez ou outra comentando sobre o que achava do conteúdo.

💻💻💻💻💻💻💻💻💻


Sebastian encarava a tela do computador em seu colo como se tivesse visto horrores além da compreensão humana. Ele usava fones de ouvido e parecia estar muito concentrado antes de clicar no teclado. Bash tirou um dos fones, subindo seu olhar para me encarar.
— Eu peguei comida italiana para a janta hoje, estava sem saco pra fazer comida depois da aula de hoje.
— Foi ruim? - tombei a cabeça para o lado, trancando a porta antes de pendurar minhas chaves no gancho da parede.
— Uma bela bosta. - Bash passou a mão no rosto - Não porque o conteúdo era ruim, mas porque a gente tá na primeira aula e já tem um imbecil repetindo exatamente o que o professor disse pra pagar de inteligente.
— Foda.
Eu concordei, passando por trás do sofá e desenhando meu caminho até meu quarto, tirando a mochila das costas e colocando-a em cima da minha cama. Tirei meus tênis, deixando eles ao lado do meu closet apenas para trocar pelas minhas pantufas.
— Falou com o hoje? - Seb questionou da sala.
— Nem tive tempo. - sai do quarto, puxando a porta - Estive ocupado anotando os trabalhos que os professores querem passar. Por que? Aconteceu alguma coisa?
— Ele não me respondeu o dia todo hoje, achei que pudesse ter dado notícias pra você. Vou ter que apelar para a instância maior.
— Teu pai?
— Uhum.
Eu soltei um riso nasalado, balançando a cabeça negativamente. Sebastian era muito próximo de e, como consequência, extremamente protetor do irmão mais novo. Desde que nos mudamos para East Lansing no mês anterior, não tivemos um fim de semana livre para visitar nossos pais. Entre festas de boas vindas, arrumar nosso apartamento após a mudança e o início das aulas, ficamos tão cansados que não tínhamos ânimo o suficiente para enfrentar o processo de pegar um avião até Detroit e depois pegar outro até Nova Iorque.
— Espera aí, deixa eu ver se consigo algo.
Tirei meu telefone do bolso, abrindo o aplicativo de mensagens e vendo que Kieran tinha me adicionado no grupo do trabalho. Ignorei, abrindo a conversa com .

Tanaka
Ei.
Está aí?


A resposta veio alguns segundos depois. Uma resposta simples, sem muitos rodeios.

document.write(Mitchell) 2 Estudando.



Eu assenti, sorrindo involuntariamente. Balancei minha cabeça negativamente, mandando mensagem para alguém que eu sabia que me responderia com mais do que apenas uma palavra.

Tanaka
Tá com o ?


Os três pontinhos apareceram quase de imediato e em seguida, a resposta.

Summer
Sim.
Estamos estudando para os SATs.
Para de mandar mensagem, tá me desconcentrando.



Soltei uma risadinha contida olhando para a tela. Diferente de mim, Summer havia pedido aos nossos pais para continuar em Nova Iorque ao invés de ir para o Japão em seu último ano, como eu e Gianna fizemos. Meus pais aceitaram após uma grande quantidade de argumentos de e Summer. E agora eles estavam cumprindo a parte deles da barganha: focando nos estudos e atividades extracurriculares para garantirem suas vagas na MSU no próximo ano junto com a gente.
tá estudando com a Summer. - eu encarei Bash, que fez uma careta ultrajada.
— Ele nunca responde minhas mensagens sem que eu precise recorrer ao pai, mas é só o Tanaka mandar uma que é respondido imediatamente. - Sebastian reclamou, afinando a voz - Moleque do caralho.
— Nem foi lá uma resposta, precisei falar com a Summer para conseguir algo. - eu me defendi, me aproximando para mostrar a conversa com - Literalmente uma unidade de palavra.
— Pelo menos ele te responde. - Bash rolou os olhos - Sério, cara, às vezes eu acho que o é apaixonado por você.
— Do nada?
Eu ri nervoso, andando em direção a cozinha para pegar algo para comer dentro do pacote que estava em cima da ilha. Acabei escolhendo uma lasanha. Me sentei na banqueta de forma em que eu pudesse continuar encarando Sebastian.
— Cara, eu me pergunto como você nunca notou, na real. - Seb abaixou a tampa do notebook e o colocou em cima do sofá. - Ele dá todos os sinais possíveis. Tá escrito na cara dele.
— Nunca notei - dei de ombros, abrindo o potinho para dar uma garfada na lasanha -, sei lá, pra mim ele é só uma criança. Ainda parece que foi ontem que eu vi ele chorando porque menstruou pela primeira vez. Até saber que ele namorou no tempo que fiquei fora foi difícil de processar porque não consigo ver ele assim.
— Nunca notou em como ele te secou quando estávamos nos Hamptons? - Bash arqueou uma sobrancelha - No jeito que ele te olha, parecendo que você acabou de inventar a roda?
— Não?
— Porra, , você consegue pegar gente te comendo com os olhos há milhas de distância, mas nunca reparou no carregando um caminhão de bosta por você?
— Por que eu deveria reparar nisso? - eu franzi o cenho, dando mais uma garfada em minha lasanha - Eu nunca tinha pensado em dessa forma até agora. Não, tô mentindo. Já pensei em como essa dinâmica funcionaria uma vez ou outra, mas sempre achei melhor deixar quieto porque não valia a pena a dor de cabeça.
— Justo. Mas achei que fosse meio que conhecimento geral. Até meus pais notaram isso, sabe? E, ainda que ele seja meu irmão mais novo, não vou mentir, acho que ele faria bem pra você.
— Sei, sua mãe comentou algo comigo quando liguei pra ela na minha festa de despedida - suspirei, me virando para Sebastian -, ela disse que o estava esquisito e que achava que ele estava gostando de alguém. Até perguntei pra ele, mas ele desconversou então eu só considerei que fosse algo relacionado a Cassie, já que eles estavam com um rolo na época. Mas, voltando ao ponto dele me fazer bem, isso é algo que ele já faz. Só que eu não sou um cara que namora, Bash. não é assim.
— E tu acha mesmo que ele ia admitir na sua cara, ? - ele riu - Porra, o moleque sempre se achou insuficiente. As coisas só melhoraram depois do Dezmond, foi a única coisa que aquele lá fez de bom. O que me leva num segundo ponto: o cara era uma versão branca e descompensada de você. Ele claramente tem um tipo. E, genuinamente? Acho que você está considerando a versão dele que você conhecia antes de ir para o Japão. O mudou bastante no ano que você ficou fora, muito mesmo. Se é algo que ele faria sem pensar duas vezes é essa coisa de foda de uma noite só.
Eu parei meu garfo contra o potinho de lasanha, me sentindo tão ofendido com as palavras de Sebastian que precisei processar por alguns segundos. Dezmond era tudo que eu mais desprezava no mundo. E eu não desprezava tantas pessoas assim.
— Vai se foder, Sebastian. Não me ofenda desse jeito, por favor. O cara é um babaca.
— Não tô dizendo que vocês têm personalidades iguais. Mas o cabelo, o tipo de roupa, até a altura é similar, cara.
— Eu vou me matar na sua frente e mudar pra sempre o teu curso de vida, Sebastian.
— Só dizendo - ele levantou as mãos em rendição -, mas voltando ao ponto, agora que você sabe que o sente algo, o que vai fazer com essa informação?
— Absolutamente nada. - dei de ombros - Vou seguir minha vida do mesmo jeito de sempre, foi o que fiz quando tive essa mesma conversa com Paola logo antes de ir para o Japão. Ele é um adolescente, isso aí é platônico. Ele vai conhecer alguém legal e isso vai passar. Não importa como eu me sinto sobre isso ou o quanto a ideia dele me fazer bem é verdade, eu só não sou bom o suficiente pra ele.
— Eu não acho que você não seja bom o suficiente pra ele.- Bash suspirou - Acho que você só precisa entender que o que a Danielle fez contigo não deveria te impedir de explorar algo que claramente faria bem pra você, sabe?
— Claro, claro.
Voltei minha atenção para a minha lasanha, ainda pensando nas coisas que Sebastian havia me dito. Chegava a ser bonitinho, de certa forma. Era fofo como me enxergava como alguém que valia a pena se apaixonar, principalmente quando eu me via longe de ser alguém bom o suficiente para ter um relacionamento.
E logo perceberia isso também.


Capítulo Nove



“Now you’re gone
But I’ll be okay”

(Agora você se foi
Mas eu ficarei bem)

— Miss Missing You, Fall Out Boy


Nova York, NY
Antes



Encarei a carta em meus dedos com apreensão. O endereço e o selo denunciavam que o remetente havia sido a Universidade Estadual de Michigan. Respirei fundo por severos segundos, tirando o celular do meu bolso e abrindo o aplicativo de mensagens para tirar uma foto e enviar para .
Ele havia ido embora há quase dois anos. Simples assim. havia sido o responsável por fazer meu coração bater com tanta força sempre que estava perto que chegava a ser estranho não vê-lo com tanta frequência agora.
, entretanto, não deixou as coisas estranhas entre nós. Ainda conversávamos com frequência, mesmo ele estando em Michigan há dois anos e, ainda que tivéssemos nos visto logo que ele retornou aos Estados Unidos, muitas coisas haviam sido perdidas durante sua ausência.
havia perdido minha primeira dose de testosterona. Também havia perdido minha mastectomia, que me obrigou a ficar um dois meses sem levantar os malditos braços para não afetar os pontos e cicatrizes em meu peito, que agora estava completamente reto.
Eu suspirei, ainda encarando a carta como se fosse minha inimiga mortal. Meu telefone tocou, avisando que estava me ligando via FaceTime. Peguei a carta, me sentando em minha cadeira, apoiando o celular no suporte em cima da mesa pra que ele tivesse uma visão melhor do meu rosto.
Você já abriu?
A voz preocupada de invadiu meus ouvidos. Ele estava em seu quarto, provavelmente programando algo. Um headset estava encaixado em seu pescoço e ele jogou os cabelos para trás. Ele havia furado as orelhas e três brincos com correntinhas prateadas pendiam de sua orelha esquerda.
parou o que estava fazendo, tirando os headsets do pescoço e encarando a tela. Seu quarto estava escuro, como sempre. Havia uma leve iluminação de LED azul refletindo em sua camiseta branca. Ele também estava mais musculoso desde a última vez que nos vimos pessoalmente, o que me fazia fantasiar com a ideia dele me prensando contra a parede e me segurando em seu colo com seus braços ridiculamente definidos mais vezes do que gostaria de admitir.
— Ainda não. - suspirei, ainda observando seu rosto e a forma como ele era ridiculamente bonito - E se eu não passar?
Você vai passar, boy wonder. - tentou me acalmar, mas mesmo que ele estivesse se esforçando para me manter calmo, eu ainda conseguia enxergar a preocupação crescente em seu rosto.
— Uhum.
Assenti, pegando o abridor de cartas para cortar a parte superior do envelope. Eu mordi o lábio, respirando fundo antes de retirar a folha de dentro e colocá-la em minha mesa.
Okay, vai dar tudo certo, você vai ver. - soou como se estivesse tentando convencer mais a si mesmo do que eu.
Peguei a folha, abrindo-a contra a mesa para ler seu conteúdo em voz alta. No topo da folha, os dizeres “MICHIGAN STATE UNIVERSITY” me fizeram tremer. A carta havia sido escrita a cerca de um mês atrás, dia vinte e um de abril.
Prezado . - comecei a ler - Parabéns! Você foi aceito na Universidade Estadual de Michigan. Nós te parabenizamos e reconhecemos todo o esforço, que resultou neste momento. - eu sorri, embasbacado com as palavras, não acreditando - Blá blá blá, não é importante. Aqui, detalhes de admissão. Início: Semestre de Outono; Primeiro ano; Diploma de preferência: Jogos e Mídias Interativas. Puta merda, eu passei.
Eu te disse que iria passar, . - sorria, orgulhoso - Parabéns, boy wonder. Vamos comemorar assim que você chegar aqui, sim? , eu vou sair e voltar pra casa completamente carregado hoje. É o mínimo que mereço depois desses últimos três anos infernais. Puta merda. - eu soltei um riso, me jogando contra o estofado da cadeira enquanto passava minhas mãos pelo meu rosto - Queria que vocês estivessem aqui pra comemorar comigo. Summer disse que vamos em julho pra gente ter tempo de sobra para visitar alguns apartamentos fora do campus.
— Sabe que pode vir mais cedo e ficar com Seb e eu. Temos um sofá cama confortável aqui.
— Prefiro ir com Summer. Ela vai ficar puta se eu não esperar ela para ir até aí.
Summer, no fim, não havia ido para o Japão passar o seu último ano. Tínhamos prometido estudar como loucos para garantir a vaga na MSU durante seu último ano, foi uma das condições para que ela permanecesse nos Estados Unidos, mas isso não a isentou de passar as férias antes do início da faculdade com seu pai. Ela retornaria em julho.
Certo - digitou algo no computador, rolando o mouse por alguns segundos -, tem uma passagem saindo de East Lansing às três. Consigo chegar em Nova Iorque até às oito, se você quiser comemorar.
— Não precisa, vou falar com os gêmeos Moreau.
Quando é sua formatura? E você já tem par pro baile?
— O baile é na semana que vem. A celebração de formatura é na semana seguinte. - dobrei a carta de admissão, deixando-a de lado. - Por que?
Vou reservar a passagem para sua graduação, então. - murmurou, sem olhar para a tela - Você já tem um par para o baile?
— Uhum. - eu sorri - Uma sênior me chamou há algum tempo. Não acho que você vai conhecer, o nome dela é Skyler. Ela entrou quando vocês se graduaram.
Qual o tema deste ano?
— Baile de Máscaras. Eles estavam divididos entre esse e Uma Noite em Las Vegas. Mas a primeira opção acabou ganhando. Estúpido, se quiser saber. A maioria de nós estudou junto a vida inteira. Não é como se uma máscara fosse me fazer mais ou menos misterioso. Tenho características muito específicas para passar despercebido.
Deixa de ser tão ranzinza. É uma boa oportunidade para aproveitar que ninguém vai te conhecer em Michigan e fazer merda. - cruzou os braços, dando de ombros - Não acredito que acabei de falar isso, desconsidere. - ele soltou uma risada nasalada, passando a mão por seu rosto.
— Como você fez no seu último ano?
Arqueei uma sobrancelha, me lembrando dos rumores que corriam pelos corredores da Horace Mann antes de se mudar.
Havia uma pequena aposta entre os juniores e sophomores sobre quantos nomes tinha em sua pequena lista em seu último ano na Horace, quando ele havia decidido completar a lista de afazeres dos formandos antes de sair dos Estados Unidos. A carinha de santo de foi um grande motivo para que as pessoas duvidassem dos rumores. Afinal, quem iria acreditar que Tanaka , dono da maior pontuação de SATs que a escola já havia registrado, fosse um maldito mulherengo?
Se as pessoas não têm provas, então eu não fiz absolutamente nada. - ele levantou suas mãos em defesa.
— Oh, eu tenho provas bem concretas. - eu sorri enviesado - Os gêmeos Moreau tem detalhes bem semelhantes para que eu diga que é mentira.
Eu vou desligar, . Estou te avisando. - ele apontou em direção a tela.
— Certo, certo. - eu sorri de canto.
Por Deus, você já vai completar dezoito anos. Me sinto velho. - ele murmurou, colocando suas mãos em frente ao seu rosto ao bocejar - Parece que foi ontem que eu tive que te levar pra comprar roupas novas e agora você já vai começar a faculdade.
— Sim, o tempo passa rápido demais. - eu concordei - Você parece cansado, pode desligar, se quiser.
Está tudo bem. - ele apoiou o rosto contra sua mão, deixando a cabeça levemente inclinada para o lado. A visão era adorável - Faz um tempo desde a última vez que conversamos.
— Você tem dormido?
Razoavelmente. Mas essa noite eu acabei passando porque estava estudando para os exames da semana que vem e adiantando alguns trabalhos.
— E ainda assim você considerou que seria uma boa ideia vir até aqui hoje. - o encarei, incrédulo.
Summer está com meu pai. Sebastian e eu estamos em Michigan. Os gêmeos Moreau se formaram há um ano e quase não vão pra Nova York.
— Os gêmeos estão em Nova York para o fim de semana. Aniversário do pai deles.
Ainda assim.
— Vocês não eram meus únicos amigos em Nova Iorque, . Pode parecer algo fora da realidade, mas eu tenho outras pessoas que podem me fazer companhia.
Oh. - ele pareceu repentinamente mais interessado - Ainda com a regra de não falar quem pretende ou não beijar?
— Sim. E você não vai tirar essa informação de mim. - lhe dei uma piscadela - Pode ir dormir. Conversamos durante o fim de semana, se não estiver ocupado. Sebastian tem me importunado sobre não ligar para ele o suficiente nos últimos dias, então eu meio que estou sendo intimado a ligar para ele durante o final de semana.
Certeza? Consigo aguentar um pouco mais de tempo sem cair no sono. - ele se levantou, pegando o celular de cima da mesa ao desenhar o caminho em direção a algum lugar que mais tarde, identifiquei como sendo sua cama. bocejou uma vez mais, passando as mãos para colocar seus cabelos para trás.
— Sim. Você já está pescando. Vai lá, tenha um pouco de sono pra variar, conversamos amanhã.
Certo. - ele suspirou, cansado - Conversamos amanhã então, boy wonder.
— Bons sonhos, .
Fique bem, . Parabéns pela admissão.
desligou e eu me levantei da cadeira, pegando o celular antes de sair do quarto e descer as escadarias até o escritório de meu pai.
Bati duas vezes na porta de madeira, escutando papai discutir algo sobre como a identidade visual do novo produto da empresa poderia acarretar acusações de plágio.
— Um minuto, Hobb, meu filho está na porta. - ele murmurou - ?
— Pai? Está muito ocupado? - eu coloquei minha cabeça para dentro do escritório e ele sorriu, marcando as laterais de seus olhos com suas linhas de expressão.
— Nada é mais importante que você, . - ele sorriu.
— Queria te contar algo.
— Um minuto, me deixe só desligar. - ele levantou o indicador, logo mexendo com sua mão em um gesto para que eu entrasse no escritório. -, Hobb, conversamos na segunda-feira. Algo aconteceu com meu filho. Preciso conversar com ele. Certamente sim. Até mais. - ele desligou, deixando o telefone descansando em cima de sua mesa. - Diga, . Algo aconteceu com você ou seu irmão?
— Nada sério. - eu o tranquilizei - A carta de admissão da MSU chegou. - estendi a folha de papel e meu pai pegou.
— É algo bom?
— Você só vai saber se ler.
— Claro.
Papai sorriu, colocando os óculos que pendiam ao redor de seu pescoço na ponta de seu nariz antes de afastar o papel para ler seu conteúdo. Um sorriso orgulhoso foi aos poucos se formando em seus lábios, logo sendo substituído por uma risada de satisfação.
— Eu fui aceito.
— Meu garoto prodígio! - meu pai tirou os óculos, limpando uma lágrima orgulhosa que escorreu por seus olhos antes de abrir seus braços - Venha me dar um abraço.
Eu assenti, me aproximando dele e sendo envolvido por seus braços em um abraço apertado ao mesmo tempo em que ele afagava meus cabelos carinhosamente. Papai depositou um beijo no topo da minha cabeça, segurando os meus ombros para me encarar.
— Sua mãe vai ficar tão orgulhosa de você. Já contou pra ela?
— Não, eu acabei de ter coragem pra ler. - eu sorri - Estava com medo de ter entrado para a lista de espera.
— Com um currículo como o seu, eu duvido que qualquer recrutador fosse recusar sua aplicação. - meu pai deu leves batidinhas em meu ombro - Você tem planos para hoje? Podemos jantar no Per Se, consigo falar com Keller para pegar uma mesa para dois.
— Não tenho planos, mas odiaria atrapalhar os seus.
— Deixe de bobagem, . Sua admissão na MSU é um marco importante que merece ser comemorado. - ele sorriu - Me dê alguns minutos e confirmarei com Keller a possibilidade de irmos até lá. Mas antes disso, temos que ligar para sua mãe e para Sebastian para contarmos a novidade.
— Acho que mamãe está no trabalho agora. Vou mandar uma mensagem para confirmar.
— Certo, enquanto isso eu vou entrar em contato com o restaurante.
Eu sorri, assentindo antes de pedir licença e sair de seu escritório com meu celular em mãos. Digitei uma mensagem, encaminhando para Sebastian e mamãe. Minha mãe não levou muito tempo para responder e eu agradeci por não ter perdido o costume de saber as diferenças de horário no Japão.
Encaminhei também uma mensagem para Summer, que não levou mais que alguns segundos para me dar um retorno, dizendo para que eu a colocasse em meio a chamada de vídeo porque quaisquer fossem as novidades, ela fazia questão de descobrir junto com minha família.
A resposta de Sebastian demorou um pouco mais de tempo, mas logo veio, dizendo que ele estaria em casa em quinze minutos e que se a notícia fosse em relação a faculdade, eu deveria aquietar e esperar ele chegar antes de contar qualquer coisa.
Me sentei no sofá, cruzando as pernas enquanto aguardava meu pai terminar os detalhes sobre o jantar. Alguns minutos se passaram e logo ele se juntou a mim, com seu computador em mãos enquanto ajustava tudo em cima da mesa de centro para ajustar a chamada de vídeo com mamãe, Sebastian e Summer.
Ele mandou os convites para cada um deles. Mamãe foi a primeira a aparecer. Sebastian entrou logo em seguida, destrancando a porta de seu apartamento antes de entrar em casa e trancar a porta novamente. Summer entrou por último, bebericando uma caneca com chá, que vez ou outra embaçava as lentes de seus óculos.
Só um minuto, acho que está dormindo. - Sebastian murmurou, segurando o celular em um ângulo que pouco lhe favorecia - Oi, mãe, pai, .
— Oi, Bash. - eu sorri.
Boa noite, meus tesouros. - mamãe sorriu, orgulhosa.
As pessoas nessa casa me esquecem. - Summer reclamou, rindo.
Também te amamos, Summer. - minha mãe sorriu. - Mi amor, eu sinto sua falta. - mamãe sorriu em direção ao meu pai, que levou a mão até seu peito.
— Sinto saudades de você todos os dias, cariño. - ele sorriu.
. - Bash chamou, invadindo o quarto de sem nem bater. - Olha ali, ele tá babando.
Meu irmão pegou o celular, mudando para a câmera traseira para mostrar um adormecido, abraçado com os cobertores. Ele estava usando calças de moletom pretas com meias da mesma cor. A camiseta branca oversized levemente amassada deixava sua cintura à mostra.
Deixe o menino dormir, Bastian. - mamãe o defendeu.
Se for contar algo sobre a admissão da faculdade e ele não estiver junto, eu vou ter que lidar com ele de cara virada pra mim pelas próximas cinco semanas. Já não basta todo o drama que ele fez quando não contei da mastectomia.
Bash justificou, se abaixando para pegar uma almofada que estava em cima de uma poltrona próximo do closet. Ele rodeou a cama de algumas vezes.
Ele dorme feito uma pedra, olha isso.
Brincou, antes de girar a almofada algumas vezes em sua mão e jogar com toda a força contra o rosto de , que se levantou em um pulo e demorou alguns segundos para processar exatamente o que havia acontecido. Ele passou a mão em seu rosto, piscando algumas vezes antes de se apoiar na cama com ambas as mãos e respirar fundo, como se estivesse em um exercício mental para não bater em Bash.
Puta que pariu, Sebastian. - xingou, massageando as têmporas ao mesmo tempo em que bocejava - Morar com você é um inferno.
— Ei, mais respeito. Minha mãe está na linha, seu pau no cu.
- arregalou os olhos e eu quase consegui vê-lo empalidecer.
, eu disse para Sebastian que ele não deveria ter te acordado. - minha mãe ralhou. - Sebastian, pare de atazanar o garoto, ele estava dormindo. Deixe-o em paz.
— Vocês são um bando de estraga prazeres.
- Bash reclamou, virando a câmera para si mesmo - O pivete recebeu a carta da MSU, vamos saber se ele foi aceito ou não. Levanta a bunda da cama e vem pra sala pra saber também.
disse algo que eu fui incapaz de compreender mas que aparentemente agradou Sebastian, porque ele saiu do quarto e se sentou na sala deixando o celular apoiado em alguma coisa na mesa de centro. logo se juntou a ele, terminando de vestir uma blusa de moletom preta antes de se sentar.
Vai lá, pirralho, lê o que a carta diz. - Bash se inclinou em direção ao celular.
— Ok. - eu peguei a carta de admissão com meu pai - Fui aceito para o programa de graduação de Artes em Videogames e Mídias Interativas para o semestre de outono desse ano.
Ai meu deus! A gente vai pra MSU! - Summer gritou, incrédula.
Oh, meu garotinho bonito, você vai para a universidade. Estou tão orgulhosa de você. - mamãe sorriu, limpando as lágrimas que escorreram por sua bochecha.
Parabéns, pirralho, você merece. Nós vimos o quanto você se esforçou para conseguir a vaga. - Bash sorriu.
Parabéns, e Summer. Vai ser como há três anos atrás.
sorriu com todos os seus dentes ridiculamente alinhados. E eu só conseguia ter pensamentos impuros relacionados às coisas que eu gostaria de fazer com ele. Com suas mãos passando por meu corpo. As marcas que eu deixaria por suas costas. Por deus, eu tinha que sair com alguém urgentemente para apagar os pensamentos de minha cabeça.
— Queria que vocês estivessem aqui para comemorar com a gente. - sorri de canto. E que me fodesse até eu perder os sentidos. Mas esse era um comentário que eu não faria em voz alta.
Vamos fazer isso quando vocês vierem pra cá. - Bash sorriu, orgulhoso - Agora, vou vazar. Preciso tomar um banho porque ainda tenho alguns conteúdos para revisar. Tchau mãe, tchau pai, tchau pirralhos. Dá tchau pra eles, .- ele cutucou a costela de um sonolento, que murmurou um xingamento antes de sorrir.
Parabéns, . Até mais, senhor e senhora . Nos vemos logo, Summer.
Ele acenou com as mãos até a imagem sumir, denunciando que Sebastian havia desligado a chamada. Minha mãe desligou logo após um grande monólogo sobre o quanto ela sentiu nossa falta e o quão orgulhosa ela estava de nós. E isso incluía Summer.
Conversamos por mais alguns minutos e então desligamos para que eu pudesse ter o jantar de comemoração com meu pai, que não conseguia tirar o sorriso orgulhoso de seu rosto.
Entretanto, ainda que eu me sentisse feliz por ter o apoio deles, me peguei desejando que eles pudessem estar ali, jantando ao meu lado.


Capítulo Dez



“Part-time soulmate, full-time problem, yeah
So, hold me like a grudge”

(Almas gêmeas de meio período, problema em tempo integral, yeah
Então me guarde como um rancor)

- Hold Me Like a Grudge, Fall Out Boy


East Lansing, MI
Antes



— Vou te abandonar nessa, Bash. Eu tô com meu sono todo fodido e preciso adiantar coisas do trabalho se quiser ter a próxima semana livre para a formatura do seu irmão.
Me encostei contra a cadeira, girando em direção ao meu melhor amigo, que estava apoiado contra o batente da porta. Sebastian me encarou, franzindo o cenho da mesma forma que fazia quando estava pensando algo.
— Qual é, ! É a festa de iniciação dos novos membros da Delta Kappa. Você realmente quer perder? Sabe como é a fama dos caras. Muita mulher, muita bebida e aparentemente vai rolar alguns jogos também.
— Bash, eu não dou uma foda para o estilo de vida grego da MSU. No que depender de mim, a Delta Kappa pode explodir.
— Certo, faça o que bem entender. - Bash levantou as mãos em defesa - Mas quando você acordar daqui 30 anos, velho e capenga e se lembrar dos seus anos de universidade, eu espero não te ver arrependido da quantidade de mulher ou caras que você poderia ter passado o pau.
— Pelo amor de deus. Você é nojento pra caralho. - fiz uma careta - E daqui trinta anos eu vou estar com 50. Trinta anos é bastante tempo para passar pau em gente. Uma festa a mais ou a menos não vai fazer diferença.
Girei na cadeira, voltando minha atenção à tela do computador para tentar finalizar a produção da OST do projeto Sound Design. O showcase das produções do semestre seria no início de setembro, junto com o começo das aulas, o que me dava um prazo de pouco menos de três meses para entregar a minha parte e evitar que meus colegas fossem prejudicados.
— Porra… é triste pra caralho ir em uma festa sem meu fiel escudeiro. Você mudou muito depois que foi pro Japão, , nem parece o mesmo cara. - Bash dramatizou novamente.
— Você vai se virar.
— E se algo acontecer comigo?
— Não vai.
— E se tentarem me sequestrar
? — Você tem quase dois metros de altura, Sebastian. Não passaria despercebido nem que quisesse. Agora para de torrar minha paciência.
O ignorei novamente, mexendo na configuração de reverb o suficiente para que eu sentisse as notas do piano viajarem de um lado a outro dos meus headphones.
Ainda assim, eu ainda tinha a impressão que algo estava faltando. Algo que fizesse a trilha sonora ficar autêntica e diferente de tudo o que eu já havia jogado antes.
Peguei o teclado de mixagem, testando alguns comandos nos pads antes de sentir algo batendo contra a minha cabeça. Eu respirei fundo, tirando os fones e virando em direção a Sebastian.
— O que foi, Sebastian?
— Duas horas de festa e se você não estiver no pique, podemos voltar para casa. Eu realmente preciso de um motorista, .
— Você poderia apenas me ligar quando terminasse e eu ia te pegar.
— E você ia acordar com seu celular vibrando? Você dorme feito uma pedra, .
— Eu deixaria o modo silencioso desligado.
— Duas horas.
— Uma hora. - corrigi - E se eu não estiver no pique, o que eu já não estou, vou voltar pra casa e você vai ter que pegar um Lyft.
— Você não ousaria. - ele colocou a mão contra o peito como se eu tivesse acabado de proferir a maior blasfêmia que ele já havia escutado.
— Tenta a sorte. - eu me levantei - Você não queria minha companhia? Essas são as condições.
— Tá. - Bash se deu por vencido - Vou esperar na sala.
— Beleza.
Sebastian saiu do quarto, fechando a porta atrás de si. Eu massageei minhas têmporas, me virando em direção ao closet. Eu não estava com a mínima paciência para festas universitárias. Tinha uma quantidade ridícula de preocupações e uma delas era a estadia de Summer em East Lansing. Ela estaria mais segura na mesma cidade que eu? Com certeza. Eu gostava da ideia de ver minha irmãzinha se metendo com as festas universitárias? Definitivamente não.
As festas de Nova York por si só eram problemáticas pra caralho, era um milagre que Summer não tivesse se metido com cocaína ou com coisas piores no meio do processo.
Escolhi uma calça preta larga com alguns bolsos extras e uma camisa de botões branca que era o dobro do meu tamanho e me apressei para me trocar. Peguei um par de meias e coloquei os converses pretos, parando em frente ao espelho somente para abotoar a camisa e colocar a corrente prateada fina que havia ganhado de de presente de formatura.
Olhei o quadro de lembretes para me certificar de que não estava esquecendo de nada. Minhas chaves estavam junto com meu celular e eu rapidamente peguei para colocá-los em meu bolso. Andei até o banheiro, passando uma quantidade considerável de perfume antes de sair do quarto e ver um entediado mexendo em algo no celular.
— Pronto, princesa?
— Se fode. Vamos lá. - balancei minha cabeça em um convite silencioso que foi acatado de imediato por Sebastian.
Saímos do apartamento e pegamos o elevador até o térreo. Tirei as chaves do carro do bolso e desliguei o alarme, entrando no banco do motorista. Esperei até que Bash entrasse e colocasse o cinto antes que eu fizesse o mesmo.
— A Delta Kappa continua na Grand River Ave?
— Sim. Mas a festa vai ser na Phi Kappa Psi, a casa é maior e tem mais espaço para estacionar.
— Beleza.
Liguei o carro, dando ré na vaga antes de fazer o caminho em direção à Burcham Drive pela rota mais rápida até a Phi Kappa. O caminho seria rápido, uma vez que a fraternidade ficava a apenas algumas quadras de distância do nosso apartamento. Bash, entretanto, não levou isso em consideração quando os primeiros beats de alguma música de trap invadiu meus ouvidos. Pouco mais de cinco minutos e eu havia estacionado meu carro no estacionamento ao lado da fraternidade.
A casa dos Phi Kappa era consideravelmente grande. Um enorme pátio de grama se estendia pela frente da casa ladrilhada de três andares. O pátio estava cercado por luzes coloridas e alguns tonéis de cerveja estavam distribuídos ao redor dele. A música alta invadiu meus ouvidos como um soco, me fazendo respirar fundo antes de desistir da ideia em menos de dez minutos. Algumas garotas dançavam entre si, rebolando em saias curtas com copos vermelhos em mãos.
Sebastian sorria como uma criança que foi deixada em um parque de diversões com direito a participar de todos os brinquedos. E eu me sentia como se fosse morrer a qualquer momento.
Entramos dentro da casa dos Phi Kappa com Sebastian cumprimentando alguns colegas de curso no meio do caminho. O acompanhei até a cozinha para pegar um copo e educadamente recusei quando ele me ofereceu a cerveja, me limitando a encher meu copo com ginger ale.
— Eu não consigo acreditar no que os meus olhos estão vendo. Estou alucinando ou este é o tomando ginger ale na minha cozinha?
A voz de Kieran Parker invadiu meus ouvidos e eu deixei um sorriso tomar conta de meus lábios enquanto o abraçava com tapinhas nas costas.
Kieran era um dos poucos amigos que eu havia feito de forma sincera e recíproca desde que havia entrado na faculdade. Ele tinha pouco mais de um metro e sessenta, pele marrom-escura, cabelos crespos que ele orgulhosamente exibia em um black power platinado. Ele agora era um veterano de Design de Vestuário e Têxteis e um dos alunos mais promissores do curso.
— Não é uma alucinação. Estou de motorista hoje. - apontei para Bash, que sorriu alegremente ao servir um copo considerável de vodka para si mesmo.
— E aí, Bash?
— Faz um tempo desde a última vez que tomamos um porre juntos, cara. Está na hora de relembrar os velhos tempos. - Sebastian sorriu, colocando a garrafa no balcão e dando um gole em seu copo apenas para fazer uma careta depois - Papai do céu, isso aqui tá venenoso.
— Como quiser, cara. Podemos jogar uma partida de beer pong pra eu chutar sua bunda. - Parker deu de ombros - E você, ? Ainda sendo um lobo solitário?
— O dia que esse cara tiver um namoro sério eu vou parar de beber. - Bash murmurou - é come quieto, você só sabe quem ele já fodeu se prestar atenção nos sorrisos que lançam na direção dele.
— Ter alguém não é nem de longe uma das minhas prioridades agora. - ri fraco, dando um gole em meu copo.
— Você não sabe o que está perdendo. Estou saindo com uma garota agora, o nome dela é Allison. É uma das alunas de Biologia Molecular e, cara, eu juro que eu nunca vi uma garota tão ridiculamente inteligente em toda a minha vida. - ele gesticulou.
— Nosso garanhão de estimação está pensando em pendurar os patins da putaria? Agora isso é algo que vale a pena falar. - eu o encarei - Podemos ver quem é a garota?
— Claro.
Parker sorriu animado, pegando o celular no bolso. Ele desbloqueou a tela, entrando na galeria para mostrar uma foto em que ele abraçava Allison. Ela era um pouco maior que ele. Sua pele era marrom-escuro e seus cabelos caiam até a cintura em dreadlocks verde-musgo. Ela o encarava apaixonadamente e ele não ficava atrás, parecendo igualmente apaixonado.
— Você está completamente arruinado por ela, Kieran. - eu sorri - Fico feliz pra caralho por você.
— Obrigado, , significa muito. - Parker sorriu, bloqueando a tela do celular e voltando-o no bolso - Vou pedir ela em namoro logo. Não tem mais pra quê ficar adiando isso.
— Parabéns, cara. - Bash sorriu - Vocês fazem um casal muito bonito.
— Demais. Podemos marcar algo pra vocês conhecerem ela depois dos exames finais.
— Não vamos estar aqui no fim do mês, meu irmão vai se formar e precisamos estar lá. - Bash justificou - Mas depois disso, definitivamente vamos marcar algo.
— Caralho, me lembro como se fosse ontem quando você dizia que seu irmão estava dando o sangue pra entrar na MSU. - Parker sorriu - Ele passou?
— Sim. Para desenvolvimento de jogos, ele vai ser calouro do no próximo semestre.
— Isso é bom pra caralho. Sua irmã também? - Parker me encarou.
— Sim. Ela foi aceita em Bioquímica. - eu sorri, orgulhoso - Ela vai dividir um apartamento com o irmão do Bash.
— E isso ainda vai me dar uma dor de cabeça do caralho. - Bash ralhou, dando mais um gole na bebida - E então, podemos ir pro beer pong ou vocês querem ficar conversando feito duas velhas fofoqueiras?
— Podem ir, vou achar algum lugar pra me enfiar.
Parker e Bash assentiram, saindo da cozinha e me deixando sozinho em meus próprios pensamentos. Respirei fundo, saindo da cozinha e procurando algum lugar para sentar, longe de casais se comendo. Sorri quando encontrei uma poltrona vazia, me sentando nela e cruzando minhas pernas enquanto tirava o telefone da mão livre para desbloquear a tela e falar com . Entrei no aplicativo de mensagem, verificando se havia alguma mensagem nova desde a foto da carta de admissão. Nada.


Seu irmão ainda vai ser minha morte, ,
Por favor, não me dê tanto trabalho quando vier pra MSU.


Permaneci encarando a tela do celular, que logo marcou a mensagem como visualizada. Os três pontinhos que indicavam que estava digitando apareceram na tela e sua resposta veio logo em seguida.

2:
O que foi que Sebastian fez agora?




Me arrastou pra uma festa de fraternidade porque precisava de um motorista.

2
Ele não sabe usar o Lyft?
2
Ou Uber, sei lá.



Eu soltei um riso pelo nariz.


Aparentemente não.
Prometi que ficaria uma hora antes de decidir ir pra casa.


2
Você é melhor que eu.
Eu teria mandado ele ir a merda antes mesmo de cogitar ir na festa.



Eu sorri de canto, tirando uma foto do copo de ginger ale enviando para em anexo logo em seguida. Me encostei contra o sofá, encarando o teto completamente entediado enquanto aguardava pela resposta de .
Tomei mais um gole do refrigerante, sentindo o celular vibrar contra minha coxa. Entretanto, não consegui me forçar a pegá-lo quando um rosto familiar invadiu meu campo de visão. Um rosto familiar que eu poderia jurar que não veria pelo resto da minha vida.
Danielle Wilson poderia ter mudado relativamente durante os anos em que eu não havia tido contato com ela, mas o sorriso diabólico que assumiu seus lábios quando ela colocou seus olhos em mim jamais poderia ser confundido com o de qualquer outra pessoa.
Ela jogou os cabelos pretos e ondulados nas pontas para as suas costas, sussurrando algo para duas amigas e apontando em minha direção. Eu engoli em seco, me sentindo imediatamente nauseado.

“Você acha mesmo que eu teria qualquer coisa com você, ? Você é patético.”

“Flores? Me poupe, . Tenho mais o que fazer do que ficar olhando pra sua cara arrependida”

“Eu gosto que você seja tão inocente. Quando eu acabar com você, vai me agradecer.”


As lembranças me atingiram como um soco no estômago e eu comecei a sentir a conhecida sensação de ficar sem ar me envolvendo como uma maldita névoa que, não importa o quanto eu tentasse, eu não conseguiria escapar. Repentinamente, tudo pareceu ainda maior do que era. Eu sentia minhas roupas se arrastando pelo meu corpo, a intensidade das luzes o suficiente para que eu conseguisse ouvir o som da eletricidade. Até mesmo as conversas que pareciam ainda mais altas em conjunto com a música.
. Que adorável surpresa te ver depois de tanto tempo. Você mudou.
A voz convencida de Danielle invadiu meus ouvidos de forma abafada e só então percebi ela parada na minha frente. Ela usava uma saia tão curta como as de anos antes. A camisa social cortada pouco acima da cintura deixava marcado os detalhes do sutiã de renda escuro.
— Não vai me dizer olá? Depois de tanto tempo, achei que você iria ao menos ter a decência.
Eu me levantei, cansado e sobrecarregado demais para lidar com o furacão Danielle. Eu me afastei e suas unhas longas e afiadas grudaram em meu braço, como um demônio em filmes de possessão.
— Mereço mais que isso. - ela se aproximou e seu perfume doce invadiu meus sentidos, me deixando ainda mais nauseado. - Você está bonito, , podíamos relembrar os velhos tempos, não acha?
— Me solta. - eu murmurei, encarando sua mão em meu braço como se seu toque me queimasse. E Deus sabia como ele o fazia.
— Um tanto quanto rancoroso, não?
— Me. Solta.
Eu a encarei, puxando meu braço para longe de suas mãos, sentindo as unhas arranharem minha pele. Não lhe dei tempo para que ela tentasse me tocar novamente, dando as costas para ela e me apressando para fora da fraternidade como o diabo fugindo da cruz.
Eu segurei o celular em minha mão, sentindo minha respiração falhar enquanto eu trombava contra corpos embriagados, tentando sair dali o mais rápido possível antes que o ataque de ansiedade me tomasse por completo.
Minha visão ficou turva e eu tentei dar o meu melhor para não ter uma crise quando estava tão próximo do meu carro, desativando o alarme e entrando no banco do motorista, sabendo muito bem que eu dificilmente teria condições de dirigir até minha casa quando as lágrimas começavam a borrar minha visão e eu já não conseguia respirar. Cinco anos dedicados a superar toda a situação com ela e isso tudo foi para o inferno no momento em que Danielle se materializou em minha frente.
Eu me esforcei para pegar o celular entre meus dedos trêmulos, digitando uma mensagem para Sebastian.


Danielle está aqui.


Capítulo Onze



“What a shame, what a shame we all remain
Such fragile broken things”

(Que vergonha, que vergonha nós todos continuamos
Sendo coisas frágeis e quebradiças)

— Part II, Paramore


Nova York, NY
Antes


Danielle está aqui.



Encarei a mensagem de , engolindo em seco.
Eu respirei fundo, me afastando da pista de dança e da música alta para ir até o pátio externo do salão de festa dos Morrison. Digitei o nome de , clicando na opção de ligação antes de levar meu celular até a orelha e aguardar os toques. Levei meu polegar até a boca, mordendo a ponta em uma tentativa falha de me manter mais calmo. Levaram mais de cinco toques até que a voz falhada e embargada de invadisse meus ouvidos. Ele quase sussurrava.
? - ele sussurrou. Eu consegui escutar sua respiração pesada do outro lado da linha, como se ele estivesse acabado de sair de uma maratona.
, o que aconteceu? Eu recebi sua mensagem dizendo que Danielle estava em Michigan.
O que? Eu não mandei… - ele parou - Caralho, eu mandei para o errado.
— Não importa. O que aconteceu?
Conversa comigo, preciso pensar em algo diferente.
— Controla a respiração. Inspira, segura e solta. Vai ficar tudo bem, . Eu estou aqui. Quer falar sobre seu projeto novo?
Ele ficou em silêncio por severos segundos e eu considerei que ele estivesse desmaiado graças à taquicardia até que sua voz voltou a preencher meus ouvidos.
Eu estou terminando… mas sinto que falta algo. Ainda está genérico demais. - ele murmurou, com dificuldade. - Pensei em alguns efeitos de violino.
— Isso é bom. - eu me forcei sorrir, ainda que ele não pudesse me ver. - Mas você ainda precisa me mostrar. Preciso ter certeza que você não está se cobrando demais em algo que já está bom.
Eu sou meu maior crítico, não sabia? - ele soltou um riso rouco.
— Está fazendo piadinhas demais para alguém que não conseguia respirar direito até cinco minutos atrás. - eu me apoiei no parapeito. - Como você está agora?
Me sentindo uma merda. soltou um riso amargo. — Mas um pouco melhor do que antes. Obrigado, boy wonder.
— Pode continuar me contando sobre a faculdade, se isso te ajudar a se distrair. - encarei o céu - Eu estou entediado e com tempo livre.
Não quero te encher com minhas reclamações ainda, vai deixar você com preconceitos em relação a faculdade.
— Não tem nada que você poderia dizer que me faria mudar de opinião. - eu ri fraco - Talvez só me faça ficar mais ansioso para ir.
Me fale sobre seu baile de formatura.
— Sky não vai mais, então acho que vou acabar indo sozinho. Os pais dela resolveram que ia ser uma boa ir para o Caribe antes dela começar a faculdade.
Isso é uma merda.
— Sim, mas está tudo bem.
Sabe que posso te acompanhar, se quiser.
— Está se convidando pro meu baile de formatura? - eu soltei uma risadinha.
Eu estou te convidando como par.
— Me convidando para o meu próprio baile?
Summer iria com você se estivesse aí. - ele justificou - Se eu tivesse nos Estados Unidos na época, eu teria te convidado para ser o meu par.
— Teria? - uma faísca de esperança queimou em meu peito.
Você é a única pessoa que não reclamaria de ter os pés pisoteados graças a minha incrível falta de habilidade em dançar. - ele riu - E trazer Summer seria estranho.
— Vou levar como um elogio. - suspirei - Mas algo me diz que você mais quer fugir de East Lansing agora do que de fato vir ao meu baile de formatura.
Talvez. - ele respirou fundo - Ou talvez eu só não quero que seu baile de formatura seja um saco. — Vou estar com meus amigos, dificilmente vai ser.
Poderia só fazer isso por mim?
— Okay. - concordei, suspirando - Você pode vir.
Obrigado por isso.
— Não é nada.
Acho que não quero ficar em East Lansing esse fim de semana.
Eu engoli em seco, ficando em completo silêncio. Era de se esperar que toda a história com Danielle provocasse em uma reação assim. Ela havia sido péssima para ele em todos os sentidos possíveis, não me surpreenderia que a simples ideia de acabar trombando com ela uma segunda vez o faria querer sair de lá o mais rápido possível.
— Você bebeu?
Estou dirigindo hoje.
— Certo. - eu suspirei - Acha que consegue pegar um vôo até Detroit?
Eu não sei, provavelmente.
— Tenta. Você pode vir pra Nova Iorque esse fim de semana, pelo menos pra tentar se distrair um pouco, posso te buscar no aeroporto.
Certeza?
— Claro, . - eu ri fraco - Meu pai está em Washington resolvendo algumas coisas, provavelmente vou ficar o fim de semana inteiro sozinho por aqui, pode me fazer companhia se quiser. Podemos assistir alguns filmes e jogar.
Certo. Me dá um minuto, deixa eu ver como estão os horários.
ficou em silêncio por alguns minutos e eu só conseguia escutar o barulho da sua respiração até o momento em que ele cortou o silêncio, voltando a falar.
Tem um voo à meia noite para Detroit, saindo de Lansing. De Detroit até Nova Iorque tem outro que sai às duas, chego por volta das quatro no Aeroporto de La Guardia. Tem certeza que quer me buscar? Posso pegar um Lyft até a casa da minha mãe.
— Você está em condições de explicar pra ela o porquê de ter vindo pra cá no meio da madrugada? - indaguei.
Provavelmente não, minha mãe não sabe sobre a Danielle. - riu seco - Certo, vou comprar as passagens aqui e ir pra casa arrumar minha bolsa. - ele soou distante - Vou só avisar o Bash que estou indo.
— Okay.
Pronto. Minha casa não é muito longe daqui, se quiser continuar aí. - murmurou, barulho de seu celular sendo colocado em algum lugar, seguido pelo barulho da ignição enchendo meus ouvidos. - Você está no viva voz, aliás.
— Eu acho que vou ir pra casa daqui a pouco também.
Não está em casa?
— Casa dos Morrison.
Festa dos admitidos?
— Exatamente.
Me afastei do parapeito para me sentar no chão, apoiando minhas costas contra ele. Dobrei uma de minhas pernas, apoiando meu braço para avaliar minhas unhas que precisavam desesperadamente de um retoque de esmalte.
Bash me disse que é uma festa em tanto.
— Ele mentiu. Eu deveria ter ficado em casa jogando, seria um aproveitamento melhor do meu tempo.
Você precisa parar de ser tão anti-social. - eu o escutei puxar o feio de mão.
— Eu sou perfeitamente social. O problema é que essa festa está uma merda. - brinquei com o cadarço de meus coturnos - E eu também estou dirigindo hoje, logo, não vou beber.
Coitadinho. Um segundo, vou sair do carro.
Escutei o barulho da porta se abrindo e fechando ao fundo, seguido pelos cliques que indicavam que havia ligado o alarme do carro novamente. Ele murmurou algo que não fui capaz de entender antes de voltar a falar.
— <>iPronto. Já estou no elevador, subindo pra casa.
— Eu acho que vou ir pra casa também.
Quer jogar algo quando chegar?Ainda tenho umas duas horas.
— Você não tem um projeto da faculdade pra terminar?
Estou sem cabeça pra isso no momento.
— Eu entendo. - eu me levantei, batendo as mãos em minha calça para tirar qualquer resquício de poeira. - Vou para casa, te aviso quando chegar. Se você não tiver caído no sono, podemos jogar alguma coisa. Mas lembra que você precisa sair mais cedo para fazer o check-in.
Beleza. - escutei o tilintar das chaves ao fundo e o barulho da porta se fechando. - Vou tomar um banho e arrumar minhas coisas enquanto isso.
— Até depois.
Até.
Eu desliguei a chamada, colocando o celular em meu bolso. Fiz o meu caminho entre as pessoas da festa discretamente, me esforçando para passar despercebido ao abandonar a maldita festa. Eu estava cansado demais de Nova Iorque e contava os dias para me mudar para Lansing.
Meus amigos mais próximos estariam na MSU comigo e eu finalmente poderia deixar para trás a reputação de ser o queer problemático do Upper East Side. Reputação essa que eu havia arduamente conquistado depois de me envolver em uma briga ou outra depois de Braeden.
Tirei o molho de chaves de meu bolso, girando-o em meus dedos enquanto esperava pelo elevador. Meus pensamentos giravam em torno da conversa com . Mordi o lábio, saindo do elevador e andando em direção ao meu carro, desativando o alarme para sentar no banco do motorista. Coloquei meu celular no porta-luvas, travando o cinto de segurança antes de dar partida e fazer meu caminho pelas ruas até minha casa.
A viagem até minha casa durou pouco mais de vinte minutos, que mais pareceram horas tamanho o meu cansaço. Peguei o elevador até a cobertura, tamborilando ritmos aleatórios contra minha coxa enquanto algumas linhas de música se formavam em minha mente.
Quando finalmente consegui entrar em casa, fiz meu caminho pelas escadarias até meu quarto, me jogando contra a cadeira ao mesmo tempo em que desfazia o nó da minha gravata e abria os botões da minha camisa.
Entrei no Discord, vendo o ícone de em um dos canais de voz do meu servidor antes de colocar meus headsets e entrar.
— Que jogo você tá afim de jogar? - eu disse, nem mesmo me preocupando em fazer rodeios.
Eu tô na vibe de jogar algum fps, tudo bem pra você?
— Call of Duty?
Perfeito.
— Vamos lá, , desconte toda a sua raiva.
me respondeu com uma risadinha enviesada, me puxando para a partida poucos minutos depois.
Ficamos jogando por uma hora, até seu alarme o avisar de que deveria sair de casa se não quisesse perder o voo para Detroit.
E, como sono era uma das últimas coisas que eu sentia no momento, apenas peguei meu caderno de composições, escondido entre meus livros de Algebra III para escrever as estrofes que tomaram conta de minha mente desde o momento que desligou a chamada.
One mile away from home
(Uma milha de distância de casa)
And I can't leave you on your own
(E eu não consigo te deixar sozinho)
You say you wish that you were dead
(Você diz que queria estar morto)
And that keeps hanging in my head
(E isso continua em minha cabeça)
I've never been so rude, but you had to make it sound so crude?
(Eu nunca fui tão rude, mas você tinha que soar tão bruto?)
So tell me, why can't you see
(Então me diga, você não vê?)
I will love you as I live and breath
(Vou te amar enquanto eu respirar)


Capítulo Doze



“In your city by the lake
The place where you were born”

(Na sua cidade à beira do lago
O lugar onde você nasceu. )

- Tonight, Tonight, The Smashing Pumpkins


Nova York, NY
Antes



Quatro horas.
Levaram quatro horas para que eu finalmente chegasse em Nova Iorque e eu me sentia como se pudesse cair no chão de exaustão a qualquer momento. Eu havia saído pelo portão de desembarque e agora procurava por entre as pessoas no meio do saguão.
Após alguns segundos, finalmente o encontrei. Ele estava usando uma camisa de botões branca com uma gravata que pendia desajeitada contra seu peito, calças rasgadas no joelho e coturnos pesados. Seus cabelos estavam amarrados desajeitadamente no topo de sua cabeça, mostrando as laterais que assumiam um tom de azul vibrante.
A atenção de se prendeu em mim como se ele percebesse que eu o encarava. E, como se absolutamente nada no mundo fosse capaz de deixá-lo com vergonha, atravessou o saguão correndo em minha direção. Deixei minha mochila escorregar por meu braço até encostar no chão, abrindo os braços no mesmo momento em que ele pulou contra mim, abraçando meu pescoço e entrelaçando suas pernas ao meu redor. Eu retribui, passando meus braços por sua cintura.
— Eu senti tanto sua falta. - murmurou contra o meu pescoço.
E eu também senti falta dele. Entre os compromissos da faculdade, estágios obrigatórios, eventos e seminários, eu não tinha tempo o suficiente para voltar para Nova Iorque com tanta frequência. Fazia pouco mais de três meses desde a última vez que tinha vindo.
— Eu também. - eu sorri contra seu ombro.
se afastou levemente para me encarar com olhos brilhantes e eu não consegui evitar que meus pensamentos voltassem para a conversa que tive com Sebastian. Sobre o quanto ele achava que gostava de mim. Eu nunca havia feito nada sobre. Nem mesmo questionado sobre isso nos últimos anos, mas agora eu prestava mais atenção nos pequenos atos dele. Da forma como ele me olhava, de como se comportava quando estávamos juntos. Eu estava dolorosamente consciente de todas as suas ações. E ridiculamente tentado a saber qual seria seu gosto ou como ele reagiria se eu o beijasse quando ele estava tão próximo.
— Você quer comer algo antes de irmos? Tomar um café? Não sei de você dormiu durante o voo.
me encarou, afrouxando as pernas em um sinal silencioso para que eu o soltasse. Eu segurei sua cintura com ambas as mãos, tomando cuidado para colocá-lo no chão antes de pegar minha bolsa e pendurá-la contra o meu ombro.
— Eu dormi um pouco no avião vindo pra cá, mas eu não vou recusar um café da manhã antes de irmos.
— E nem deveria, vamos lá, tem um Dunkin Donuts aqui.
Eu assenti, seguindo até a praça de alimentação. Permanecemos em um silêncio confortável enquanto brincava com as chaves do seu carro, girando-a entre seus dedos como se fosse um brinquedo. Era estranho vê-lo assim, com um carro e dirigindo, se comportando como um mini-adulto.
Em outros tempos, eu e Sebastian levaríamos ele para todos os lugares. A inversão de papéis me fazia sentir como se eu fosse velho e tivesse perdido coisas demais durante minha ausência.
— O que vai querer? - ele me perguntou quando nos aproximávamos da loja.
— Pode deixar, eu pago.
— Cala a boca, . - ele rolou os olhos, tirando a carteira do bolso - O de sempre? Chá de pêssego e bagel de peito de peru?
— Isso - me dei por vencido -, valeu.
— Tá de boa. - deu de ombros, se voltando para a atendente - Oi, bom dia. Eu vou querer um chá de pêssego médio, um americano gelado com adicional de expresso, um bagel de peito de peru e um croissant de três queijos, por favor.
— Claro. - a atendente sorriu interessada demais em , o que me fez segurar uma risadinha - Vai ficar 18,76 dólares. Qual a forma de pagamento?
— Débito. - ele tirou o celular do bolso, aproximando da maquininha até que fizesse o bip de pagamento aprovado -, vou deixar a gorjeta no potinho ali, tudo bem?
— Certo.
tirou algumas notas de vinte da carteira, colocando duas delas dentro do pote antes de se virar em direção à uma mesa que estava mais próxima do Dunkin’. Nos sentamos ali. Ele sorriu enviesado em direção a garota que fazia os cafés.
— Ela tá muito na sua. - eu brinquei.
— Eu sei - estalou a língua na bochecha, como se avaliasse algumas possibilidades em sua cabeça -, quer apostar quanto que ela vai dar um jeito de me passar o número dela sem que eu peça?
— O quão frequente é isso? - eu ri, incrédulo demais.
— Mais frequente desde que fiz a mastectomia e fiquei naturalmente mais passável.
— Isso não te incomoda?
— Não, normalmente eu só ignoro - deu de ombros -, mas ela é bem bonita e tem belas tatuagens.
— Jesus, você tá igual ao seu irmão.
— Ah, que nojeira, - ele ralhou, chutando minha canela levemente -, prefiro morrer que ser igual a ele, por Deus. - disse, se levantando quando a senha dele apareceu no telão.
Eu soltei uma risadinha contida, pegando meu celular e abrindo a tela de mensagens para ver se tinha alguma coisa de Sebastian. Minha mensagem avisando que iria para Nova Iorque e que Danielle estava em Lansing ainda estava pendente de leitura.
— Chá de pêssego e bagel pra você. - tirou o copo e a caixinha da bandeja, colocando eles na minha frente - Café, croissant e o número da barista pra mim.
sorriu, colocando os itens dele em frente ao seu lugar na mesa antes de pegar um pacote de guardanapos de papel com um número de telefone escrito em caneta permanente com o nome ‘Kelsey’ logo em cima.
— Você é inacreditável. - eu ri, descrente quando ele se sentou e tomou um gole do seu café.
— Apenas bonito demais pro meu próprio bem. - ele puxou o celular do bolso, desbloqueando a tela antes de digitar algumas coisas e olhar em direção à loja, dando uma piscadela em direção a garota quando seus olhos subiram da tela de seu próprio celular até .
Balancei minha cabeça negativamente, voltando minha atenção para a comida em minha frente. Eu não tinha percebido o quão faminto estava até dar a primeira mordida no bagel. Fechei os olhos, me jogando contra o encosto da cadeira para saborear cada pedacinho enquanto mexia em seu celular e ria vez ou outra de algo em sua tela.

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— Tenho uma ideia que talvez você não goste muito à princípio, mas acho que seria legal.
disse assim que entramos no quarto de hóspedes do apartamento de seus pais e eu coloquei minha mochila em cima da cama. Ele estava encostado no batente da porta com os braços cruzados.
— Diz aí. - eu me sentei na cama, o encarando.
— Hoje tem uma edição do Basement, queria te levar pra tentar se distrair um pouco.
— Explica um pouco melhor, por favor.
— É uma balada de techno. Os performers de hoje permitem entrada a partir dos 18 anos, acho que podíamos ir. Sei que você não curte lugares barulhentos, mas acho que seria legal pra você tirar da sua cabeça toda a coisa com a Danielle.
— Não sei, - eu suspirei, ponderando a ideia -, eu sou bem chato pra essas coisas, não quero acabar estragando a experiência pra você.
— Você não é chato, só é sensível com música alta - veio até mim, se sentando ao meu lado e tirando algo do bolso -, eu comprei alguns desses recentemente para conseguir estudar em lugares mais barulhentos e me ajudou bastante. Podemos testar, são abafadores de ruído, esses aqui são específicos para eventos.
Ele me entregou o chaveiro redondo e eu o abri, vendo o que seriam os abafadores de ruído. Eles eram bem parecidos com fones sem fio.
— Não usei esses aí ainda, eles estão novos. Você pode testar pelo dia e depois que descansar, pode decidir se vamos ou não.
Ele sorriu com carinho e eu me senti ridiculamente estranho com o ato. Não era segredo que era de longe a pessoa que mais notava detalhes sobre mim nos últimos anos. E claramente havia sido o primeiro a perceber o quanto lugares com muitos estímulos auditivos me deixavam ansioso. Eu arriscava dizer que essa era a principal razão para que ele sempre ficasse comigo do lado de fora das festas que costumávamos ir alguns anos antes.
— Vou pensar sobre.
— Claro, podemos pensar em outra coisa se você quiser.
se levantou, parando em minha frente e hesitando por alguns segundos antes de levar suas mãos até meus cabelos e enlaçar os dedos neles, em um carinho que me faria dormir instantaneamente se eu estivesse deitado na cama.
— Vou te deixar dormir, nos falamos quando você acordar - ele se curvou em minha direção, depositando um beijo no topo de minha cabeça -, amo você, . Se precisar de algo, sabe onde me encontrar. Dorme bem.
se preparou para sair de perto e eu não consegui resistir ao impulso de segurar seu braço, o que fez com que ele se virasse em minha direção com uma das sobrancelhas arqueadas.
— Na real - eu pausei por alguns segundos, pensando de onde aquilo havia saído antes de continuar -, acha que podemos dormir juntos? Como fazíamos quando crianças nas épocas ruins?
— Aqui ou no meu quarto?
— Onde você se sentir confortável.
— Meu quarto então. Pode se trocar e me encontrar lá quando terminar, vou colocar mais alguns travesseiros na cama.
E, como se nada o abalasse, saiu do quarto, fechando a porta e me deixou sozinho para me martirizar com meus próprios pensamentos impulsivos.
Me levantei novamente, pegando minha bolsa e procurando por meus pijamas. Acabei ficando com uma camiseta larga e calças de moletom pretas. Me troquei rapidamente, deixando meus tênis ao lado da cama de hóspedes antes de ir até o banheiro e escovar meus dentes.
Poucos minutos depois, eu fiz meu caminho até o quarto de , batendo na porta duas vezes até ouvir que poderia entrar. Ele já estava deitado na cama, vestindo um conjunto de moletom cinza. Me aproximei silenciosamente quando ele deu dois tapinhas no espaço livre de sua cama, me enfiando debaixo das cobertas e me deitando ao seu lado. se virou em minha direção.
a, apague as luzes. - e imediatamente o quarto ficou completamente escuro - Quer que eu te abrace? - murmurou e eu assenti - Vira a bundinha pra cá, então.
— Vai se foder. - eu soltei um riso divertido, me virando de costas para para que ele me abraçasse.
— Dorme bem, .
— Dorme bem, .
— Amo você, tá?
— Eu também.
E então eu me ajeitei em seus braços um pouco mais, sentindo sua respiração em minhas costas enquanto eu me questionava dos motivos pelos quais eu havia pedido para dormir com ele em primeiro lugar. Mas eu não dei muita atenção para isso. Principalmente quando, em mais um impulso, eu enlacei meus dedos contra os de e deixei que o sono me envolvesse.


Capítulo Treze



‘’Take a look at those red lights green lights blowin my mind
I'll show you something if you show me a good time’’
(Veja só, essas luzes vermelhas, luzes verdes, explodindo minha mente
Vou te mostrar algo, se você mostrar como me divertir)
— Factory Girl, The Pretty Reckless


Nova York, NY
Antes



Quando acordei com um peso em cima do meu corpo e com dificuldades para até mesmo me mexer na minha própria cama, eu entendi que todos os eventos das últimas doze horas não eram um sonho e que Foster estava, de fato, dividindo uma cama comigo depois de tantos anos.
Eu tentei mexer minha cabeça o suficiente para compreender o que exatamente estava pesando tanto em cima de mim, somente para morrer de amores com a visão. abraçava minha cintura e tinha sua cabeça deitada em meu peito, enrolado em mim como um Bicho-Preguiça.
Eu tentei me movimentar, somente o suficiente para que ele não acordasse, levantando o meu pulso para checar as horas. Duas e trinta e cinco da tarde. Além do horário, algumas mensagens de Sebastian tomavam conta da tela de notificações do relógio.
Ignorei qualquer responsabilidade idiota que eu poderia ter, movendo minha mão em direção aos seus cabelos para acariciá-los.
— Não quero levantar, estou confortável. - murmurou com a voz ainda rouca, me abraçando com mais força.
— Tudo bem, mas você deveria responder o Sebastian, ele me mandou algumas mensagens, talvez esteja preocupado com você.
deu um longo suspiro, se arrastando para o lado da cama apenas para deitar-se estirado contra o estofado e encarar o teto em silêncio. Seu cabelo estava bagunçado e seus olhos ainda estavam inchados de sono. Ele se esticou em direção a mesa de cabeceira ao lado dele, tirando o celular do carregador antes de desbloquear a tela.
— Ele disse que viu Danielle na festa em que estávamos. - suspirou, passando a mão pelo rosto - Um ótimo timing, se quer saber - eu o encarei com uma das sobrancelhas arqueadas -, Danielle voltar logo quando eu estou voltando aos trilhos de novo. Sei lá, ela tem vinte e cinco anos, da última vez que comentaram sobre ela, ela estava na costa oeste. O que ela veio fazer na porra do Michigan? Ela deveria ter se formado e sumido.
— Ela pode estar no mestrado ou algo assim - justifiquei -, não estou defendendo, acho ela uma vagabunda aproveitadora, mas é uma possibilidade.
— Ela sempre disse que queria alguma Ivy League, por qual motivo ela iria ir pra MSU?
— Não sei as motivações dela, - o encarei -, mas sei que você não pode deixar de seguir sua vida pela presença dela lá.
— Preciso de terapia - ele admitiu, finalmente tirando a atenção da tela do celular -, e tomar um porre. Preciso ficar completamente desnorteado e talvez tomar decisões questionáveis.
— Okay - eu assenti -, posso providenciar isso. A parte da terapia e o resto, mas acho que eu não conseguiria te carregar se você ficar transtornado.
— Bom ponto - ele sorriu -, vou ligar pro Sebastian, tudo bem?
— Fique à vontade.
Eu peguei meu celular na mesa de cabeceira ao meu lado, desbloqueando a tela enquanto colocava o próprio celular no viva voz contra seu peito. A linha chamou três vezes antes de Sebastian atender.
Finalmente apareceu, caralho - meu irmão soava preocupado -, vi sua mensagem, como você tá?
— Como você acha? - ele riu seco -, ela me causou um ataque de pânico. Não tinha um desses há um tempo.
Vadia do caralho. - Sebastian xingou, respirando fundo - Ela faz algumas aulas com a namorada do Kieran. Aparentemente ela veio para a MSU cursar uma especialização em ciências forenses.
— Claro que veio - ironizou -, porque ela não poderia arrumar jeitos melhores de estragar minha vida que não fosse escolher a mesma universidade que eu, dentre os cinquenta estados do país.
se levantou, deixando o celular cair em seu colo para massagear as têmporas. Eu suspirei, apoiando minha mão em seu ombro e apertando como um lembrete de que eu estaria ali por ele.
Pelo menos ela fica do outro lado do campus, no departamento de química. Acho difícil ela aparecer no de comunicação. Ela não vai chegar perto de você, . Vou falar com Kieran para garantir isso.
— Infelizmente não posso proibir ela de aparecer nas festas, vou ter que engolir isso e evitar ela ou simplesmente parar de ir em festas.
A gente vai resolver isso - Seb garantiu -, fora Danielle, você chegou bem em Nova Iorque? Sua mãe te pegou no aeroporto?
— Cheguei sim. Na verdade, eu tô na sua casa, o seu irmão me buscou no aeroporto. Cheguei às quatro da manhã e eu não estava muito afim de explicar pra minha mãe o porquê de eu ter chego aqui no meio da madrugada.
tá aí?
— Oi, Bastian. - eu murmurei, rindo - virei a noite pra buscar o no aeroporto, desculpa não responder as mensagens.
Tá de boa, sabendo que você tá junto com ele eu fico mais tranquilo. - Bash suspirou -, De qualquer forma, eu vou ir sondando o Kieran para saber mais informações. Vamos manter Wilson longe, .
— Não que eu queira me intrometer, mas daqui dois meses eu vou estar no mesmo centro que o . Vocês só precisam relaxar - me encarou, tombando a cabeça -, posso dar um aviso amigável se ela tentar qualquer coisa, sabe?
De maneira alguma - Sebastian ralhou -, conheço muito bem seus avisos amigáveis. Não estamos mais em Nova Iorque, , não pode sair resolvendo tudo com socos.
— Sebastian tá certo. - concordou - Você não pode pegar minhas brigas, posso lidar com isso.
— Não vou dar socos em ninguém - me defendi -, apenas deixar claro pra que ela não ache que tem algum direito aqui.
Estou falando sério, . Deixa os adultos resolverem isso, tá legal?
— Vocês são péssimos. - ralhei, rolando os olhos antes de me sentar e jogar meu corpo contra a cabeceira da cama.
— Estamos tentando evitar que todo o esforço que você fez no último ano seja jogado no lixo porque você tentou bater em alguém. - disse, me dando um sorriso de lado.
Isso aí, , coloca alguma responsabilidade na cabeça desse adolescente revoltado.
— Se fode, Bash. - rolei os olhos, me levantando da cama - Vou fazer minhas coisas, você sabe se virar.
Pera aí, pera aí. - Sebastian pausou - , tu dormiu no meu quarto ou no de hóspedes?
me encarou, a cor imediatamente deixando o seu rosto como se ele tivesse sido pego em uma tentativa de depredação de espaço público. Ele engoliu em seco, pensando em alguma forma de se defender quando eu me pronunciei.
— Ele dormiu no meu quarto.
Ah, que bom. Fico feliz que meu quarto ainda esteja… - ele parou no meio da frase - Pera aí, o que? Você dormiu ONDE, ?
— No quarto do . - parecia estar envergonhado.
Algo que eu preciso saber?
— Não rolou nada, Bastian. - me apressei em justificar, já que parecia perto de vomitar a qualquer momento - Eu pedi pro dormir aqui pra ficar de olho caso ele tivesse alguma crise de pânico de novo. Relaxa, sem segundas intenções por aqui, apenas preocupação.
Ah, entendi - o tom de voz dele soou como se ele estivesse se divertindo -, fico feliz que você tenha para certificar de que você está bem. O meu irmãozinho é sempre muito prestativo, né? Acho que…
— Tchau, Sebastian. - o interrompeu, pegando o telefone e desligando a chamada logo em seguida.
A rapidez com que ele o fez, entretanto, me deixou curioso o suficiente para que eu tombasse a cabeça para o lado com uma das sobrancelhas arqueadas em um questionamento silencioso.
— Quero saber sobre o que acabou de rolar?
— Nope.
— Ótimo. Fique à vontade, vou tomar um banho.
— Certo.
E então eu dei as costas para , desenhando meu caminho até o closet para pegar uma troca de roupas, mas não sem antes ficar em silêncio, pensando do que se tratava o tom de voz que Sebastian havia implicado e na rapidez de para desligar a chamada.

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Estávamos sentados assistindo um episódio especial de halloween de Brooklyn 99 e jantando lasanha congelada quando teve uma epifania. Era pouco mais de sete e meia da noite e eu estava pronto para mais um fim de semana maratonando séries.
— Podemos ir ao The Basement.
— Do nada? - eu ri.
— Posso testar seu presente e eu preciso me distrair pra não pensar em Danielle. Prometo não te dar trabalho.
— Não espero que você dê trabalho algum, mas okay. Eu tinha comprado dois ingressos semana passada, podemos ir. Precisamos chegar cedo, tem risco de travarem a entrada se o lugar lotar.
— Okay. Alguma roupa especial?
— Não, mas eu adoraria te vestir à caráter.
— Okay.
— Posso usar maquiagem? - eu o encarei, esperando que ele negasse.
— Faça o que quiser, nunca fui em algo assim, então não sei muito o que fazer.
— Ótimo, vem comigo.
Eu me levantei e puxei pela mão escada acima. Ele se sentou na cama enquanto eu procurava em meu guarda-roupas alguma parte superior que coubesse nele. Sorri ao me dar satisfeito, pegando as peças que havia separado dias antes. Voltei para o quarto, parando em frente a ele e entregando as peças.
— Não tenho partes de baixo que serviriam em você, mas essas ficam bem grandes em mim e a de manga longa estica bem. Vai se trocar que eu vou fazer o mesmo e depois fazemos sua maquiagem, tá?
— Beleza. - assentiu, pegando as peças e desenhando seu caminho até o quarto de hóspedes, fechando a porta atrás de si.
Eu foquei em me trocar, aproveitando que já estava de banho tomado. Troquei as calças de moletom por calças de couro de cintura alta e a camiseta larga por um top vazado de manga longa que lembrava muito meias arrastão. Para os pés, escolhi os coturnos Doc Martens surrados que sempre usava. Coloquei um cinto para manter minhas calças no lugar e um blazer preto por cima.
Alguns minutos depois, voltou a bater em minha porta. Eu estava terminando de passar gel em meu cabelo quando ele entrou no quarto e eu tive que parar tudo que estava fazendo para dar a devida atenção.
Ele usava minha regata de gola alta preta que havia ficado apertada o suficiente para que seus músculos ficassem levemente marcados. As mangas transparentes de arrastão escapavam pelas mangas, me deixando salivando. Ele havia escolhido uma calça com vários bolsos e os típicos converses com plataformas o deixavam um pouco mais alto. Ele havia colocado a corrente de prata que eu havia lhe dado de presente de formatura e pequenas argolas de prata pendiam em suas orelhas. Ele estava gostoso. Gostoso para um caralho.
— Ficou legal? - ele girou, me dando uma visão completa de suas roupas e eu tive que me segurar para não babar.
— Ficou perfeito. - eu consegui dizer - Senta aí, vou fazer sua maquiagem e podemos ir.
obedeceu, se sentando na cama quando eu cheguei próximo a ele com sombra preta e meus pincéis. Eu comecei aplicando a sombra pela pálpebra móvel, esfumando o suficiente para que parecesse que ele havia dormido com maquiagem. Pedi para que ele olhasse para cima e assim ele o fez, reclamando vez ou outra quando eu passava o pincel por sua linha d'água. Quando terminei, tive que lidar com o arrependimento de ter que lidar com Foster sendo ainda mais gostoso que o habitual.
— Pronto, quer ver no espelho como ficou?
— Quero.
Ele se levantou, indo em direção ao closet para se avaliar contra o espelho de corpo inteiro. Eu o observei, sorrindo orgulhoso de si mesmo antes de tirar seu celular do bolso e se virar em direção à mim.
— Foto?
— Claro.
Eu sorri, andando em sua direção e parando ao seu lado. Cruzei meus braços, dando um sorriso de lado enquanto ele tirava algumas fotos, vez ou outra fazendo uma gracinha para que eu sorrisse e ele conseguisse fotos minhas distraído. Em uma delas, me puxou para ficar em frente a ele, colocando uma mão em minha cintura enquanto eu fazia uma careta contra o espelho. O toque em minha pele descoberta mandou sinais elétricos para o meu corpo todo, me fazendo ficar levemente desnorteado.
— Podemos ir? - o encarei.
— Podemos.
— Certo. Vamos de Lyft, aliás. Talvez eu beba, então prefiro não cometer o risco de tentar dirigir bêbado, tudo bem pra você?
— Sim, acho até melhor. - concordou, tirando o chaveirinho redondo do bolso e abrindo, pegando os abafadores de ruído para colocá-los em seus ouvidos. - Agora tô pronto.
— Espera aí. - fui até a penteadeira, pegando um lip-tint e indo até ele - Acho que vai ficar bonito.
Eu apontei e apenas se curvou para frente o suficiente para que eu não precisasse ficar na ponta dos pés. Seu rosto estava ridiculamente próximo e eu estava completamente inebriado pelo cheiro de seu perfume. Ele me encarava com olhos escuros e eu me sentia como se pudesse me perder neles. Me apressei em aplicar o produto em seus lábios, forçando um sorriso satisfeito assim que terminei.
— Bonito?
— Lindo.
sorriu orgulhoso com o elogio. Eu guardei o produto de volta em seu lugar e abri o aplicativo para chamar um carro até a The Basement. O motorista que aceitou a corrida estava há 8 minutos de distância.
— Vamos descer.
Em alguns minutos já estávamos na portaria do prédio. Nossa carona chegou logo depois. Pouco menos de trinta e cinco minutos, estávamos na porta da casa noturna, apresentando nossos documentos para os seguranças.
— Como está, ? - Charlie, um dos seguranças, sorriu em minha direção.
— Estou bem, obrigado. E você?
— Estou bem, vejo que trouxe um amigo dessa vez.
— Esse é o . - apontei - , este é Charlie.
— Prazer em conhecê-lo, . - ele riu -
— Igualmente. - sorriu, adorável.
— Acredito que já tenha dito as regras pra ele, certo? - Charlie me encarou.
— Sim, senhor.
— Me poupa o trabalho. - o segurança sorriu - Te darei a cortesia de não precisar de pulseira hoje, use com responsabilidade.
— Pode deixar. - eu agradeci com o menear de cabeça quando ele saiu da frente da porta e nos deixou passar.
— E, ? - eu me virei em direção à ele - Parabéns mais uma vez pela aprovação na MSU.
Eu lhe dei um sorriso sincero e um menear de cabeça em agradecimento antes de voltar a desenhar meu caminho em direção às luzes vermelhas que iluminavam o caminho até a entrada da pista.
A The Basement era uma casa noturna voltada para o techno que ficava do outro lado do East River, na região de Fresh Pond. Era separada por dois ambientes: um espaço aberto onde as músicas eram mais voltadas ao house e outro subterrâneo onde eu costumava dizer que a magia acontecia.
Levei minha atenção até para ter certeza de que ele estava confortável e me surpreendi ao ver um sorriso divertido tomando conta de seus lábios. Eu peguei sua mão, puxando-o em direção a pista de dança. Ele me seguiu, parando no meio quando me virei em sua direção.
Foster se aproximou de mim e eu conseguia sentir o cheiro do seu perfume invadindo minhas narinas, tornando ainda mais difícil resistir à tentação de me mover somente o suficiente para selar seus lábios nos meus.
— Eu não sei dançar, . - ele disse, próximo de minha orelha e eu senti sua respiração bater contra o meu pescoço, me arrepiando por completo. — Olha ao redor, . - eu me aproximei, fazendo o mesmo que ele - Veja o padrão dos movimentos e só repete. Tá tudo bem, só sente a vibe. Ninguém vai te olhar estranho. Se quiser, pode tentar me acompanhar.
assentiu positivamente e eu comecei a me movimentar. Comecei com um movimento simples, mexendo meus ombros para frente e para trás no ritmo da música e ele me acompanhou, inseguro no começo. Após alguns minutos, já arriscava alguns passos com algo além do movimento de seus ombros. Ao fim da música, ele dançava mais livremente, jogando a cabeça para trás, sorrindo e pulando vez ou outra. Ele estava se divertindo genuinamente, até mesmo me acompanhando nos meus passos.
— Isso é bem legal. - ele disse, se aproximando de mim novamente.
— Eu sei, é aqui que venho me enfiando nos últimos tempos. O que acha de pegarmos uma bebida?
— Pode ir na frente.
Eu assenti positivamente, abrindo o caminho com o braço esticado para trás para que o pegasse. Ele se limitou a enlaçar os dedos contra os meus e o mero contato enviou correntes elétricas pelo meu corpo. Me convenci a ignorar o sentimento, finalmente parando contra o caixa para pegar algumas fichas de bebida. Assim que fiz o pagamento, me limitei a parar contra o bar e esperar até que um bartender se aproximasse.
— Tem alguém te encarando bastante ali. - sorriu em minha direção, mexendo a cabeça para algum lugar atrás de mim.
— Ou você. - eu sorri, me virando para encarar o desconhecido.
— Acho que não.
— Por que? - eu franzi o cenho, escorregando contra a banqueta do bar. fez o mesmo na que estava em minha frente.
— Porque você meio que chama a atenção sempre que está em qualquer lugar.
terminou de dizer e eu tive que pausar por alguns segundos enquanto buscava uma resposta. O barman se aproximou, perguntando a opção de bebida e agradeci mentalmente.
— Um tequila sunrise, quatro shots de tequila. O que vai querer?
— Um whisky sour.
— E um whisky sour também. - eu entreguei as fichas e o bartender balançou a cabeça positivamente antes de voltar para a parede de bebidas. - Voltando ao assunto. Acho que você não fica muito atrás nesse quesito.
— Não faço ideia do que você tá falando. - se fez de bobo. - Eu tenho cara de otário.
— As pessoas amam um cara que parece ser meio bobinho. - eu rebati, deixando o sorriso brincar em meus lábios.
— Ah, é? E você diz isso porque você gosta ou só um palpite?
— Eu tenho um tipo específico. - rebati, dando de ombros. - E até onde eu me lembro, tínhamos um acordo sobre eu não falar sobre quem quero beijar, não?
— Não foi bem um acordo. Você disse e eu só não tive direito de escolha. Mas adoraria revisitar o tema. Me diz, qual é o seu tipo, mesmo?
— Você adoraria saber, né? - o bartender colocou o copo contra o balcão, empurrando em minha direção. Eu agradeci com um menear de cabeça, pegando-o antes de dar um gole. O doce do licor de grenadine se misturando com o sabor cítrico do suco de laranja e tequila me deixando mais feliz do que eu gostaria de admitir.
— Na real, eu adoraria saber. Considerando que agora vamos frequentar os mesmos lugares, seria meio esquisito se tívessemos o mesmo tipo. - agradeceu ao bartender quando sua bebida chegou com um menear de cabeça, dando uma golada generosa - Posso experimentar o teu? Sempre peço a mesma coisa quando saio.
— Claro.
Eu estendi meu copo em sua direção e ao menos fez menção de pegar. Ele se limitou a inclinar o corpo em direção ao copo, empurrando a base um pouco mais para cima antes de envolver o canudo entre seus lábios e tomar um gole, sem tirar seus olhos de mim por um segundo sequer. A The Basement pareceu ficar ainda mais quente e eu senti minha boca ficar seca quando me direcionou um sorriso ladino ao voltar à posição anterior.
— Achei bem bom. Quer provar o meu? - ele balançou a cabeça em direção ao próprio copo e eu assenti, antes de me esticar e pegá-lo.
— É uma das minhas bebidas preferidas. - expliquei, dando um gole em seu whisky. Era doce, ainda que levemente cítrico - Isso aqui é uma combinação interessante.
— Não é? - ele concordou, pegando o drink novamente logo que o barman colocou os quatro shots de tequila, um pires com sal e algumas fatias de limão. - Isso é só pra você?
— Nós dois.
Eu deixei meu copo de lado, ainda em meu campo de visão, antes de lamber o topo de minha mão e colocar um pouco de sal somente para lamber logo em seguida e virar meus dois shots de uma vez. A queimação e o gosto amargo desceu pela minha garganta de forma agradável e eu me apressei a morder os dois pedaços de limão, finalmente encarando . Ele mantinha seus olhos atentos em mim com uma expressão que eu não sabia identificar ao certo. Ele se virou em direção aos shots, repetindo os mesmos movimentos que eu antes de voltar a me encarar.
— Voltando ao ponto…
— Não temos o mesmo tipo. - garanti, voltando a pegar o meu drink.
— Como pode ter tanta certeza? - ele tombou a cabeça para o lado. Um sorriso enviesado tomava conta de seus lábios.
— Bom, é só você olhar os nossos históricos. Você parece só gostar de mulher com caráter duvidoso e caras que poderiam te quebrar no meio.
— Já estamos na fase de piadinhas? - ele brincou, rindo. - Bom, não exatamente. Mas a parte de gostar de pessoas que poderiam me quebrar ao meio é um pouco verdade. Ainda que seja meio difícil conseguir isso quando eu sou assim. As pessoas esperam que eu seja um cara machão e tal.
apontou para si mesmo. Claro. Porque toda a altura e os músculos perfeitamente delineados faria com que sua vida fosse extremamente difícil. Eu me reduzi a soltar um riso seco.
— Não sei exatamente como te ajudar nisso, a forma que eu me apresento é exatamente o que as pessoas esperam quando se envolvem comigo. Nunca tive problemas com pessoas esperando algo diferente de mim.
— E o que elas encontram quando se envolvem contigo? - arqueou uma sobrancelha.
— O que você acha? - eu tombei minha cabeça para o lado, dando um gole em meu drink sem tirar meus olhos dele.
me encarou dos pés à cabeça. Como se pudesse me despir de todas as peças de roupa que eu usava. Senti o conhecido calor tomar conta do meu corpo e minhas bochechas esquentarem.
Eu conhecia esse lado de . Conhecia o suficiente para saber quando ele estava próximo de tomar iniciativas para algum flerte. Havia visto aquela expressão com frequência demais. Só nunca direcionada à mim. E somente a possibilidade fez com que eu fechasse minhas pernas com mais força quando ele se aproximou, sem sair de cima do banco.
— Acho que eu adoraria que você me mostrasse, na real. - a voz rouca reverberou por todo o meu corpo e eu não pude evitar fechar os olhos. - Eu aprendo melhor na prática, sabe?
parou com o rosto a centímetros do meu. Os olhos escuros estudando meu rosto e abaixando até meus lábios. Devolver um flerte nunca havia matado ninguém, certo?
— Você me quer tanto que chega a ser patético, . - rebati, sem tirar meus olhos dele por um segundo sequer.
Dois conseguiriam jogar esse jogo. E Deus sabia que eu era competitivo demais para deixar que ganhasse. Principalmente quando ele fechou os olhos como se rezasse por autocontrole e jogou a cabeça para trás.
— Porra, você é bom nisso. - a risada rouca que saiu de seus lábios me causou arrepios. - Você mudou muito.
se afastou, somente o suficiente para que eu continuasse a escutá-lo. E a distância entre nós pareceu longa demais. Longa o suficiente para que eu tivesse que segurar meu copo em uma tentativa de me impedir de me aproximar dele.
— Acho que era o esperado. - eu me forcei a sorrir. - Não dá pra tudo continuar da mesma forma pra sempre, né?
— Eu acho que eu esperava que a gente continuasse da mesma forma. - encarou o próprio copo antes de dar mais um gole. - Mas acho que é bom que não tenha continuado.
— Como assim? - eu arqueei uma sobrancelha.
— Se as coisas tivessem continuado da mesma forma, eu acho que estaria me sentindo culpado de flertar contigo assim.
— E não está?
— Nem um pouco. - admitiu. - Se muito, eu tô tentado a continuar.
— Você pode. Só não garanto que vai gostar de como isso vai terminar se você continuar.
— O que acontece aqui fica aqui? - ele tombou a cabeça novamente e uma de suas mãos escorregou por minha perna, descansando sobre minha coxa.
— Sim.
me devolveu um sorriso enviesado. Eu me reduzi a terminar meu drink, deixando o copo vazio em cima do balcão antes de pular de cima do banco.
Envolvi a mão de contra a minha, abrindo caminho entre os corpos dançantes até o canto mais afastado da pista de dança, onde a visibilidade era quase inexistente. Apoiei minhas costas contra a parede, puxando a mão de e colocando-a contra o meu quadril. Ele devolveu com um aperto que enviou correntes elétricas por todo o meu corpo.
— Então, quer um manual de instruções? - eu tombei a cabeça para o lado e se curvou por cima de mim.
— Você sabe que não. - sussurrou próximo do meu ouvido, envolvendo minha cintura com ambas as mãos.
Apoiei minhas mãos contra seus ombros. me encarava como se eu fosse um prato que ele adoraria saborear.
Eu me aproximei, fechando a distância que havia entre nós. Os lábios de se abriram e uma de suas mãos escorregaram até a lateral do meu pescoço. Eu retribui, enlaçando meus dedos em seu cabelo para puxá-lo.
me beijava como se estivesse faminto. Como se pudesse me devorar por completo. E eu retribuía na mesma intensidade, tirando alguns gemidos baixos por seus lábios a cada vez que puxava seus cabelos. Era química em sua forma mais crua. Da forma em que seus dedos envolveram meu pescoço e até a forma em que sua língua se movia contra a minha.
Eu conseguia sentir sua ereção contra meus quadris. me puxava contra seu corpo como se as roupas fossem incômodas demais para continuar onde estavam.
Escorreguei uma de minhas mãos até que ela estivesse descansando contra seu pau, acariciando contra o tecido fino da calça e tirando um arfar de seus lábios quando ele quebrou o beijo, encostando sua testa contra a minha. Seu hálito cheirava a menta e whisky.
— Animado, huh? - eu brinquei, me afastando o suficiente para vê-lo fechar os olhos quando eu apertei um pouco mais.
— Quando você me beija desse jeito é difícil não ficar. - rebateu.
— Você já deu uma rapidinha no banheiro de uma balada?
me encarou como se estivesse ponderando a ideia. Eu apenas devolvi com um sorriso, puxando-o em direção ao banheiro de funcionários que Daisy Moreau havia me mostrado da primeira vez em que eu havia visitado a casa noturna. Agradeci mentalmente ao vê-lo vazio antes de empurrar para dentro dele e trancar a porta atrás de mim.
ao menos esperou que eu terminasse, me prensando entre seu corpo e a porta antes de atacar meu pescoço com beijos e chupões lânguidos que me faziam pegar fogo.
Tombei a cabeça, dando-lhe mais espaço para que ele pudesse explorar meu pescoço. Com a mão livre, me reduzi a levantar a barra de sua camisa o suficiente para ter acesso ao cós de sua calça e sorrir satisfeito ao me deparar com apenas um elástico.
Puxei o tecido o suficiente para que minha mão invadisse sua cueca. Envolvi seu pau com meus dedos e comecei a movimentá-lo lentamente, tirando um gemido manhoso de seus lábios.
— Vai gemer feito uma vadia fácil assim? - eu murmurei. - Vergonhoso.
soltou uma risadinha e suas mãos pararam contra o cós da minha calça. Ele desabotoou, abrindo o ziper antes de se afastar somente o suficiente para me encarar.
— Sua boca sabe fazer algo além de comentários sarcásticos? - ele tombou a cabeça para o lado, encarando minhas calças. - Não é a escolha de roupa mais indicada para uma rapidinha, não?
— Sim. E se eu soubesse que essa era a sua intenção, eu poderia ter vindo com uma saia para facilitar o seu trabalho.
me encarou por alguns segundos. Seus olhos ainda mais escuros contra a luz vermelha do banheiro.
— Não. - ele balançou a cabeça negativamente. - Prefiro assim.
Ele voltou sua atenção para a minha calça quando não fiz menção de rebater o comentário. levou suas mãos até o cós de minha calça, abaixando-a com dificuldade até que estivesse até o meio das minhas coxas. Eu abri minhas pernas e ele adentrou minha cueca com uma das mãos.
Seus dedos escorregaram por minha boceta encharcada, pressionando meu clitóris o suficiente para tirar um gemido de meus lábios. sorriu satisfeito, lambendo meu lóbulo antes de sussurrar:
Vai gemer feito uma vadia fácil assim? - a rouquidão em sua voz soava como música para os meus ouvidos. - Vergonhoso.
depositou um chupão em meu pescoço antes de voltar a movimentar seus dedos contra meu clitóris de uma forma tão deliciosa que eu ao menos conseguia segurar meus gemidos.
Disposto a não ser o único em uma situação patética, eu acelerei os movimentos contra seu pau, usando minha mão livre para escorregar abaixo de sua blusa e brincar com um de seus mamilos. O gemido que escapou pelos lábios de foi delicioso. O banheiro parecia estar cada vez mais quente e eu sentia as gotas de suor se acumularem em minha testa.
escorregou os dedos um pouco mais abaixo, enfiando um dedo em minha boceta e tirando um gemido longo de meus lábios. Ele enfiou mais um, curvando-os o suficiente até alcançar o ponto que me fazia ver pontinhos pretos. Eu tombei minha cabeça contra seu ombro, mordendo-o para abafar os sons que saiam por minha garganta.
— Você geme muito gostoso, .
A voz de em conjunto com o gemido manhoso quando afundei meus dentes contra seu ombro foram o suficiente para me levar ao espaço. O orgasmo me atingiu como uma onda, me causando tremores.
usou a mão livre para me estabilizar entre seu corpo e a porta.
— Tudo bem aí? - ele brincou quando eu me afastei, tombando a cabeça para trás.
— Sim. - meus olhos estavam pesados e eu conseguia somente arfar por ar. - Me dá uns segundos.
— Sem pressa.
me encarou, escorregando uma de suas mãos até o meu rosto para me forçar a encará-lo enquanto tirava seus dedos de mim lentamente. Ele levou seus dedos até sua boca, lambendo-os. A visão foi suficiente para que eu me excitasse novamente.
— Se não estivéssemos em um banheiro, eu te comeria por inteiro agora. - sorriu.
— Posso fazer isso por você.
Eu sorri, soltando seu pau antes de erguer minhas calças e abotoá-las. Inverti as posições, me ajoelhando no chão antes de abaixar as peças de roupas de até a altura dos joelhos. Seu pau saltou para fora da cueca e a visão foi o suficiente para me dar água na boca.
— Me deixa te mostrar o que minha boca sabe fazer.




Continua...



Nota du autore: NOTICIA URGENTE: Alex Mitchell é apontado como o boqueteiro fantasma por internautas.
Demoramos **checo o arquivo** 227 páginas para o primeiro beijo desses dois PATETAS, mas finalmente veio aí????!?!?!?!?!?!?!?
Aqui a gente consegue ver perfeitamente nosso divo em ação e eu posso dizer: ELE É MUITO ATACANTE. Eu admito que fico enrolando o meu cabelo imaginário sempre que escrevo ele flertando. Me dá vontade de viver, sabe?
Quanto ao Benjamin, vamos apenas dizer que o nosso menino estava passando por MOMENTOS nesses últimos capítulos. Imagina só você reencontrar uma ex maldita, voltar pra cidade natal pra fugir da situação e encontrar seu melhor amigo EXPLODINDO de gostoso? Agindo todo adulto, mostrando que se importa contigo e com o seu bem estar? DORMINDO DE CONCHINHA contigo? Realmente, não é para os fracos. Ele aguentou MUITO.
Acho que agora entramos em uma fase interessante de ATC, que é a fase onde vemos o Benjamin compreendendo que sim, ele se sente atraído pelo Alex e que talvez ele só estivesse em negação esse tempo todo.
Espero que o primeiro beijo deles tenha alcançado suas expectativas e que tudo que aconteceu depois disso tenha dado um pequeno spoiler da dinâmica desses dois.
Obrigado por lerem ATC.
Nos vemos na próxima att. <3

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CADA DIA QUE PASSA ME ENCONTRO MAIS APAIXONADA POR ATC! Obrigada por essa obra-prima incrível, Carter!

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