Última atualização: 05/10/2019

Prólogo

Encarava a câmera diante de mim como se encarasse meu reflexo no espelho. Naquele momento, não era uma situação muito diferente, na verdade. Estava me despindo, me expondo de forma que nunca fizera antes, mas que era extremamente necessário no momento.
Não era perfeita, sabia que tinha errado e faria o que fosse possível para ao menos tentar reparar esse erro. Também sabia que certas consequências não teriam volta, que eu teria que conviver com estas diariamente, assim como que não fazer nada seria pior.
Nunca tivera problemas em assumir meus erros, sempre havia procurado ser coerente comigo mesma, com as minhas escolhas, e admitir minhas falhas – afinal, que pessoa não as tem? Porém, se dissesse que não estava apreensiva naquele momento, estaria mentindo.
Respirei fundo, fechando os olhos por um longo instante, lembrando de Valentina, , e de todas as pessoas que, mesmo de forma indireta e não intencional, eu havia enfiado no meio de toda aquela confusão, e tudo por um motivo que agora eu via ser pequeno, incoerente. Não havia sido justo com eles, nem comigo, mas ainda não era tarde demais.
Não podia ser tarde demais.
Reunindo toda coragem que tinha em mim, apertei o botão de gravar da câmera e então abri um sorriso fechado, levemente tenso, e então dei início à transmissão da live no meu canal.
Agora não tinha mais volta.


Capítulo 1: O Plano

- Não se esqueça de deixar seu like no vídeo e se inscrever no canal! Até a próxima!
Respirei fundo ao desligar a câmera e me encostei completamente relaxada na cadeira em que estava sentada, encarando o teto após passar alguns segundos com os olhos fechados. A edição do novo vídeo teria mais cortes que o normal, já que eu havia me superado na quantidade de erros.
Era de se esperar, afinal, como podia uma virgem gravar um vídeo dando dicas e falando sobre suas – inexistentes – experiências sexuais?
Esta era eu: , 21 anos, estudante da Escola de Comunicação da UFRJ¹, com cinco histórias publicadas online – entre elas, Babilônia, que estava prestes a virar um livro publicado e distribuído nacionalmente –, um canal sobre variedades de não muita relevância no YouTube e virgem. Apesar de admitir que realmente havia conquistado coisas significantes ao longo dos meus poucos anos de vida, o item que mais parecia gritar era o último.
Virgem.
Virgem, virgem, virgem.
Eu já tinha até criado certo desgosto em relação à palavra.
O pior de tudo era que ninguém além da minha melhor amiga, Valentina, sabia sobre a minha “condição”, nem mesmo minha mãe. Nunca havia sentido necessidade de discutir sobre minha vida sexual com ninguém, porém, depois que eu comecei a escrever romances eróticos na internet e estes ganharam certa repercussão, ganhando público inclusive na universidade onde eu estudava, acabei ficando marcada por isso – tanto positiva quanto negativamente.
Arrependia-me até hoje de não ter criado um pseudônimo.
A questão era que, fosse para falar bem ou falar mal, eu era vista como uma espécie de expert em sexo, enquanto todo meu vasto conhecimento se resumia apenas às experiências de Valentina, ao que eu lia na internet e em livros, e os poucos vídeos pornográficos que chegara a assistir, já que não era muito fã deste tipo de material explícito. Não foi à toa que, quando eu anunciei que minha história de maior repercussão – que havia tido mais de um milhão de leituras – seria publicada por uma editora, as pessoas que acompanhavam meu canal começaram a sugerir que eu fizesse vídeos falando sobre onde eu tirava inspiração para escrever e sobre algumas das minhas experiências pessoais, dando dicas com base nestas.
Foi então que eu pensei: Como explicar de onde vinha tanto conteúdo erótico sem nunca ter tocado no órgão genital de outra pessoa antes? Bing, bing, bing: acertou quem disse mentir e incorporar a própria Bruna Surfistinha. Ok, não seria tão dramático assim. Seria apenas mentir e fingir que eu era uma mulher de 21 anos que já tinha transado, assim como todas as mulheres de 21 anos que eu conhecia.
Não que eu sentisse orgulho de mentir sobre isso, porém, no momento, contar a verdade não era uma opção, não na minha cabeça. Eu nunca havia desmentido nada que disseram sobre mim, sempre havia escolhido ignorar e, ao meu ver, era tarde demais para chegar e dizer “ops, galera, foi mal, mas acontece que meu hímen continua intacto”. E era por isso mesmo que eu havia traçado a seguinte meta: eu perderia a virgindade antes da data final de envio do texto revisado do meu livro para a editora.

***


Bocejei disfarçadamente enquanto o professor de Comunicação e Marketing, do qual eu não recordava o nome no momento, discursava como o surgimento da televisão no país na década de 50 havia impactado nosso segmento de atuação. Apesar de gostar de estudar sobre a História da Comunicação de forma geral, me sentia um tanto sobrecarregada e só conseguia manter o foco em disciplinas com propósitos mais práticos, como era o caso de Linguagem Audiovisual, onde eu podia trazer meu canal para o meio acadêmico.
Quando me perguntavam qual era o objetivo que eu tinha em mente ao criar o Diário da Princesa – cujo nome havia sido inspirado no título da biografia de Carrie Fisher, atriz que interpretara a princesa Leia Organa² em Star Wars, apesar de muitos pensarem que havia sido inspirado pelos livros da Meg Cabot – eu não sabia responder muito bem. A ideia havia surgido no grupo que eu criara para interagir com minhas leitoras no Facebook, onde, em meio ao tédio e procrastinação, eu criava inúmeros posts sobre diferentes assuntos para discussão, o que culminou na sugestão para que eu criasse um canal no YouTube onde eu pudesse falar meu ponto de vista sobre esses variados tópicos em vídeo, além de responder e comentar os comentários deixados pelas leitoras que me acompanhavam – desafio que eu, como estudante de comunicação, decidi topar.
Infelizmente, meus vídeos ainda não tinham relevância o suficiente para eu ganhar patrocínios e poder pagar de blogueirinha que recebe mimos no Instagram, mas um dia eu chegaria lá. Talvez esse fosse meu objetivo, afinal.
Fui trazida de volta à realidade quando o professor encerrou a aula, sentindo meu estômago roncar desesperadamente em seguida. Peguei minha bolsa, a qual sequer tinha aberto naquele dia, e segui para o pátio para encontrar Valentina para que pudéssemos almoçar no Rio Sul, shopping que havia ali perto.

- E aí, ruiva. – falei ao avistar minha melhor amiga, que veio ao meu encontro com um sorriso e me cumprimentando com um abraço.
- Oi, . Como foi a aula?
- Não sei. Dormi de olho aberto a maior parte do tempo. – brinquei, apesar de aquilo ser quase uma verdade – E você? Quando vai me dar meu atestado de loucura? – falei divertida, me referindo ao fato da menina cursar psicologia.
- Em breve. – respondeu risonha enquanto cruzávamos os portões da universidade, começando o conhecido caminho até o shopping – Mas te contar: a professora Silvia me convidou para fazer parte de um projeto social lá na Rocinha. A gente vai passar por uma preparação e vamos começar a trabalhar em um mês. Não é demais? – falou animada e eu sorri, verdadeiramente feliz com a novidade.
Valentina Rodrigues era minha melhor amiga desde que eu me entendia por gente. A menina era quase uma segunda mãe, tamanho era seu cuidado e companheirismo, apesar de já termos tido diversas brigas ao longo da nossa amizade, principalmente devido aos seus ciúmes e superproteção, e à minha impulsividade e teimosia. Outro ponto também conflitante em nossa relação – embora ela não tivesse conhecimento – era a minha insegurança.
Enquanto Valentina era a própria personificação da beleza com seus cabelos ruivos e sedosos, 1,70m de altura, corpo bem definido e distribuído, eu tinha cabelos que precisavam ser lavados quase diariamente devido a tanta oleosidade, era baixa, estava um pouco acima do peso, tinha coxas e bunda maiores do que eu gostaria e uma pequena coleção de estrias em diferentes partes do meu corpo. Não que eu me achasse feia, eu era apenas normal, mas quando você passa toda sua adolescência ao lado de alguém que parecia beirar a perfeição, é um tanto difícil atrair um pouco de atenção para si.
Eu tinha certa dificuldade para construir relacionamentos, mesmo de amizade, e o fato de Valentina ser sempre o centro das atenções quando saíamos não ajudava muito nisso. Os garotos quase sempre chegavam nela e, quando isso não acontecia, os que chegavam em mim normalmente eram os que não tinham autoconfiança o suficiente para tentarem algo com ela ou tinham chegado tarde demais para tal.
Não me importava muito com isso, sendo sincera. Era bom ter alguém com quem trocar uns beijos de vez em quando, mas era difícil fazer o papo fluir e uma ficada se tornar algo a mais quando a pessoa com quem você está secretamente preferiria estar com a língua na boca da sua melhor amiga.
Apesar de não admitir, também acreditava que esse era um motivo que contribuía para o fato de eu ainda ser virgem – juntamente com minha insegurança – mas jamais falaria sobre isso com Valentina. Ao invés disso, estava decidida a enfrentar meus receios e conquistar um cara por conta própria, mesmo que por uma noite só – e a ruiva me ajudaria nessa missão.
- Você sabe que fez por merecer, não sabe? – falei feliz, a abraçando de lado enquanto caminhávamos – Tenho certeza que você vai se sair muito bem.
- Sim, mas… - mordeu o lábio hesitante - É tudo o que eu sempre quis se tornando realidade, entende? Eu tenho muito medo de estragar tudo. - confessou aflita.
Apesar de extremamente estudiosa, competente, comprometida e responsável com tudo o que envolvia sua formação e futura profissão, Valentina tinha a necessidade de ficar se provando a todo o momento. Isso era bom por um lado, mas problemático por outro – fato que eu sentia na pele.
- É como minha mãe sempre diz: você só vai saber se tentar. E mesmo que você estrague tudo, o que é extremamente improvável de acontecer, - frisei – isso só seria prova de que você se arriscou e fez o melhor que podia com o que tinha em mãos, certo?
- Certo... – concordou, apesar de soar meio incerta.
- E é justamente porque eu confio na sua capacidade, que vou precisar dos seus conselhos. – abri um sorriso sugestivo, que a fez me olhar em desconfiança.
- O que você tá aprontando, ?
- Você já, já, irá saber. – garanti.

***


- Você o quê?
Revirei os olhos e respirei fundo, tentando controlar meu gênio diante da reação de Valentina. - Eu quero perder a virgindade até a data de entrega do texto pra editora. Transar, foder, fazer sexo, amor, nheco nheco, o termo que você preferir. – falei simplesmente e percebi o rosto da menina ficar no tom do seu cabelo, o que me fez rir enquanto bebia um gole do meu chá gelado.
Apesar da considerável experiência sexual, a ruiva – pelo menos naquele momento - parecia mais recatada que eu.
- E por que isso do nada?
- Porque eu já cansei de ser virgem, ué. – dei de ombros, como se fosse simples – Sem falar que, se eu realmente quero investir nesse negócio de escrever romances eróticos, eu preciso ter alguma vivência no assunto para me inspirar melhor, né?
- Então, você quer transar pra poder escrever sobre?
- Não só isso... Eu só desisti da ideia de esperar pelo cara especial que não vai vir. – confessei – Daqui a pouco vão precisar de uma cavadeira pra achar algum buraco aqui. – insinuei um gesto com o dedo para minha vagina, o que fez Valentina esconder o rosto com a mão enquanto ria.
- Bem, conseguir sexo na nossa universidade é a coisa mais fácil do mundo, então...
- Problema número um: não quero que seja com ninguém de lá.
- Por que não?
- Porque basicamente todo mundo sabe sobre o que eu escrevo. – falei como se fosse óbvio – Por mais que a gente ignore, não é como se eu não tivesse ganhado uma reputação tosca por causa disso... E eu não quero correr o risco de ficar com um cara escroto, dar errado e ele criar todo um boato em cima de mim no campus.
Valentina suspirou e assentiu, concordando.
- Ok. Então, sua ideia é transar com o primeiro desconhecido que encontrar?- perguntou num tom irônico, arqueando uma sobrancelha.
- Quase isso. – ri fraco com o misto de choque e reprovação que tomou conta do seu rosto – Na verdade, eu estava pensando se você não poderia me apresentar alguém ou sei lá... Pelo menos para começar.
A ruiva pareceu pensativa por um instante, porém, quando um sorriso apareceu no seu rosto, eu soube que ela havia tido uma ideia.
- Lembra do Diego?
- Diego? Seu primo?
- Ele mesmo! Ele vai passar o feriadão aqui no Rio. Chega quinta de manhã... E eu acho que ele tinha uma quedinha por você quando éramos mais novas. – falou sugestiva.
Franzi o cenho, sem acreditar muito naquilo. Afinal, como eu poderia não ter percebido nada? De qualquer forma, não era isso o que me importava no momento. Pelo o que eu lembrava, Diego era bem bonitinho, apesar de branquelo demais para o meu gosto.
Além disso, eu tinha que considerar dois pontos positivos: ele morava em outra cidade e já era um conhecido, o que reduzia os riscos da tentativa acabar sendo um desastre. A possibilidade de já ter tido uma quedinha por mim era um ponto bônus.
- Hm... É uma boa ideia. – concordei ainda pensativa.
- Ótimo! – falou animada – Meus pais vão fazer um churrasco na sexta de tarde. Eu já ia te chamar de qualquer jeito, mas agora que tem motivo, é bem melhor.
- Obrigada pela consideração pela minha amizade. – dramatizei, rindo quando ela revirou os olhos - E eu achando que você ia me julgar, dizer que eu não tinha que apressar meu ritmo por um motivo tão pequeno, transar com qualquer um e blá, blá, blá...
- Primeiro, - começou, erguendo um dos dedos da mão direita – eu sei que você não mudaria de ideia mesmo se eu dissesse algo para te repreender. Segundo, - ergueu mais um - o importante é você se sentir pronta pra fazer, seja com quem for, e você tem sempre a opção de mudar de ideia, se for o caso. Terceiro, - repetiu o gesto - essa coisa de perder a virgindade é algo muito superestimado... Claro que você transar por alguém só para perder o status de virgem não é muito legal, mas, bem ou mal, você tem um propósito com isso e, se você se sente confortável assim, é o que importa. – concluiu e então acrescentou:
- Sem falar que o Diego não é um completo estranho.
Refleti sobre a fala de Valentina enquanto o garçom se aproximava com os nossos pratos. Agradeci com um sorriso e mordi o lábio enquanto enrolava um pouco da massa no garfo, comendo em seguida.
- É... Eu acho que vai dar certo. – falei a frase pela primeira vez em voz alta, um pequeno sorriso tomando conta de meu rosto.
- Vai, sim. – concordou, mas eu mal escutei, a cabeça longe dali.
Eu tinha pouco mais de dois meses para completar minha pequena missão e, naquele meio tempo, teria capítulos para revisar, trabalhos acadêmicos para entregar, uma viagem para fazer junto com a universidade e sabem-se lá quantas coisas que apareceriam no caminho. Quanto antes eu atingisse meu objetivo, melhor.
Sabia que era meio patético o fato de encarar minha virgindade como um obstáculo a ser vencido. Porém, eu iria postar o vídeo que tinha gravado até o fim do mês e já tinha que pensar no que falar no do próximo, que seria sobre de onde tinha vindo a inspiração para as histórias que havia escrito até então.
Patético ou não, eu estava determinada, e não iria desistir até conseguir.



¹ UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro.

² Leia Organa – O nome “original” da personagem principal é Leia e, por isso, ela se inspirou no título da autobiografia da atriz que interpretou a personagem para nomear o seu canal.


Capítulo 2: Lapa.

Nota mental: Nunca mais sair para correr.
Nunca.
Minha respiração estava extremamente ofegante, quando enfim parei para me sentar num dos bancos que haviam ao longo da orla da praia da Barra da Tijuca. Tirei os fones do ouvido e enrolei o fio ao redor do meu celular, fitando as inúmeras pessoas que aproveitavam o dia de sol para se bronzear e tomar um banho de mar.
Fazia certo tempo que eu não dedicava um pouco deste para mim e, por isso mesmo, tinha aproveitado o fato de que o professor da disciplina que eu tinha aula hoje iria faltar e decidido fazer algo para mim mesma. Porém, na próxima oportunidade, decidiria ficar em casa deitada assistindo Netflix e comendo besteira.
Sorri ao ver um cachorro carregando um côco com a boca, enquanto seguia seu dono e decidi comprar um para mim, seguindo para o quiosque mais próximo e sentando em uma das mesas que ficavam numa sacada com vista para o mar. Pedi por uma água de coco quando uma moça veio me atender e relaxei sobre a cadeira enquanto esperava, fechando os olhos por um instante e me concentrando apenas no barulho provocado pelas ondas ali perto.
Apesar de estar determinada quanto à meta que havia traçado, era inevitável sentir certa ansiedade e hesitação ao pensar no assunto. Para começar, eu teria que ter mais iniciativa e ser mais relaxada ao ficar alguém do que de costume, o que era quase nada. Por mais que gostasse de ficar casualmente com alguém numa saída ou outra, não era sempre e era só o cara começar com umas mãos bobas mais apelativas que eu ficava tensa.
Eu estava bem ferrada.
Agradeci quando um menino trouxe o côco que eu havia pedido e tomei um gole da água, quase dando graças aos céus com o fato desta estar docinha e bem gelada. Também, era o mínimo que se esperava ao ter que se pagar R$6,00 numa água de coco. Os preços naquela cidade ficavam cada dia mais absurdos.
Percebi meu celular vibrar na mesa e desenrolei o fio do aparelho para poder ler a notificação, que era uma mensagem de Valentina.

Valentina Rodrigues: Uma galera da faculdade tá combinando de se encontrar na Lapa. Vamos?

Estava pronta para enviar uma resposta negativa, com preguiça só de pensar em ter que pegar o metrô até o centro da cidade, quando uma segunda mensagem chegou:

Valentina Rodrigues: Eu pago suas cervejas, se você for.

: Pode preparar a carteira, ruivinha, que hoje eu vou dar PT.

Ri fraco ao enviar a mensagem, não demorando a perceber o celular vibrar novamente.

Valentina Rodrigues: Se vomitar em mim, eu vou exigir reembolso.

: Assim você me quebra, mas prometo me esforçar para vomitar em outra direção.

Eu e Valentina tínhamos um longo histórico em relação a bebidas, o qual se resumia em eu beber demais e acabar vomitando na ruiva enquanto ela cuidava de mim, salvo raras exceções. A última vez que isso tinha acontecido havia sido na festa de aniversário de uma colega nossa, Angelina, onde – diziam as más línguas, já que eu não me lembrava de nada – eu começara a chorar do nada no meio de uma conversa sobre filmes já indicados ao Oscar e dito que La La Land só não era mais triste do que a minha vida.
Pois é, tinha que admitir que eu realmente sabia como me superar no drama de vez em quando. Eu culpava a existência dos hormônios e da TPM por isso.

Valentina Rodrigues: Acho bom! Tô cansada de perder roupa por sua causa hehe.
Posso dormir na sua casa hoje?

: Mi casa, su casa, bebê.

Valentina Rodrigues: Yay! Chego às 18h, então. Beijo, gostosa!

Sorri com a resposta e saí do aplicativo, decidindo colocar alguma playlist para tocar enquanto voltava para casa. Dessa vez caminhando, é claro, já que meus pulmões não tinham condição de aguentar outra tentativa de corrida.
Fui até o balcão do quiosque para pagar o côco e suspirei ao perceber que levaria algum tempo andando até chegar em casa. A vida fitness, definitivamente, não era para mim.

***


As Meninas Superpoderosas passava na televisão quando a campainha tocou, faltando exatamente um minuto para às 18h00. Não era muito fã da versão nova do desenho, mas, diante do tédio que eu estava e sem muita alternativa do que assistir, era a melhor opção.
Após chegar em casa da minha tentativa de corrida, preparei um macarrão no alho e óleo para almoçar – que era uma das poucas coisas que eu sabia fazer na cozinha – e aproveitei a tarde livre para ler alguns textos atrasados da universidade. Quando terminei, me plantei em frente à televisão e me permiti fazer vários “nadas” o resto do dia, apesar da minha consciência dizer que eu deveria revisar o livro. Isso sem falar da edição do vídeo, que eu acabaria atrasando e postando apenas no mês que vem.
Um viva à procrastinação.
Outro ponto que pesava quanto à edição do vídeo, porém, era minha consciência. Eu sabia que nada do que eu falava ali era real e sentia certa culpa ao pensar em publicá-lo, o que me levava a enrolar mais que o comum na finalização dele. Porém, eu procurava colocar em mente que, logo, tudo ali – ou uma parte – seria verdade e não tinha razão para me preocupar.
Levantei-me do sofá, me espreguiçando, e fui atender a porta, encontrando uma Valentina sorridente atrás da mesma.
- Você é tão pontual que serviria para ser nora da Rainha. – brinquei ao cumprimentá -la com um abraço.
- Bem... Nora não, mas eu realmente acho uma pena que não tenha sobrado nenhum neto solteiro. – fingiu suspirar e riu ao entrar, seguindo ao meu lado para meu quarto para deixar suas coisas lá.
- Pontual ou não, vou ter que conversar com o seu Zé. Você já é tão agregada daqui que ele já te deixa subir sem avisar... Isso vai ser um problema quando eu quiser me livrar de você. – me referi ao porteiro do prédio com um ar risonho, me jogando sobre minha cama ao mesmo tempo em que era atacada pela bolsa da ruiva, que havia acabado de jogá-la em mim.
- Que violência! – acusei.
- Isso é pra você aprender a ter um pouco mais de respeito, amorzinho. – retrucou, passando o olhar pelo meu quarto, como se procurasse algo diferente da costumeira bagunça.
- Você não separou a roupa que vai vestir? – perguntou.
- Pra que, se no final você ia arranjar algum defeito e escolher você mesma? – rebati – Resolvi deixar o trabalho todo pra minha personal stylist. – sorri esperta e a menina revirou os olhos, rindo em seguida.
- Tá bom, folgada. Vamos ver o que você tem aqui. – murmurou, enquanto abria meu armário e eu bocejei, observando-a mexer nos cabides.
Achava engraçada a maneira de Valentina agir, apesar de às vezes ela conseguir ser meio irritante com sua mania de perfeição. Lembro que até numa viagem a Petrópolis, quando tudo o que eu queria era ficar confortavelmente vestida no meu pijama, ela me obrigou a trocar de roupa por uma calça de moletom, em suas palavras, mais composta e um suéter. No fim, dava no mesmo, mas não na cabeça ruiva da minha melhor amiga.
Depois de alguns minutos revirando minhas roupas, a menina escolheu uma calça jeans preta de cintura alta e uma blusa branca de botões com gola, mas sem mangas, para eu vestir junto com um par de Oxford da mesma cor. Em minha defesa, não era nada muito diferente do que eu escolheria; talvez eu só trocasse a blusa por uma camisa de super-herói.
- Simples, mas elegante. Como você. – sorriu.
- Obrigada... – falei meio incerta quanto ao elogio – Até que eu gostei, na verdade. Minha mãe que me obrigou a comprar essa blusa. – confessei com um riso, escutando o som de uma porta se abrindo não muito longe dali.
- Falando na dita cuja... – murmurei, sabendo que ela costumava chegar naquela hora em casa.
Morava com minha mãe desde que eu me entendia por gente, já que ela e meu pai haviam se divorciado quando eu estava começando a aprender a ler e escrever. Não tinha problema nenhum com meu pai, porém, apesar de nunca ter tido realmente um convívio frequente com ele desde que ele se mudara para São Paulo a trabalho anos atrás. Ele era presente na medida do possível e eu sabia que, caso precisasse, poderia contar com ele, o que me bastava.
O barulho de salto alto aumentou gradativamente, anunciando a presença de dona Helaine, que deu duas breves batidas na porta antes de entrar no quarto.
- Olá, meninas. – falou alegre e foi até Valentina a cumprimentando com um beijo e um abraço – Linda como sempre.
- Oi, tia. – a ruiva respondeu, sorrindo com o elogio – Preciso nem falar nada de você, né? Um mulherão desses. – rimos e minha mãe veio até mim em seguida, me dando um beijo na testa.
- Tudo bem, filha? Vão sair? – perguntou e eu assenti.
- Vamos encontrar um pessoal da faculdade na Lapa... Aí a Val vai dormir aqui, tudo bem?
- Claro que sim. A Valentina é sempre bem vinda, você sabe. – falou sincera – Bem, vou deixar vocês em paz. Tenho um monte de casos para estudar. – falou com uma careta, mas riu em seguida. Minha mãe era advogada especializada na área familiar e era apaixonada por seu trabalho.
- Vou pro meu quarto. Divirtam-se e me avisem quando forem sair, ok? - concordamos antes da porta bater, voltando a ficarmos sós.
Ainda faltava algum tempo até que precisássemos sair de casa, então decidimos assistir a alguns episódios de Friends na Netflix antes de começarmos a nos arrumar. Sendo sincera, eu não me importaria de passar a noite inteira apenas daquele jeito: deitada na minha cama com minha melhor amiga assistindo à nossa comfort series¹ favorita. Porém, se eu queria mesmo vencer minhas inseguranças, eu precisava começar a sair da minha zona de conforto.

***


Quando chegamos ao bar, já passavam das 23h00 e os amigos de Valentina já pareciam estar bem alegres, apesar de não terem chegado muito antes da gente. Não conhecia realmente ninguém ali, apenas reconhecia um rosto ou outro de vista, já que não era sempre que eu me misturava com os amigos de faculdade da ruiva.
- Oi, gente! – Valentina falou animada enquanto cumprimentava um por um da grande mesa, que tinha pelo menos umas 20 pessoas, sem contar com a gente. – Essa é a . – me apresentou – Ela estuda lá na ECO².
E então a ruiva começou a apresentar cada uma das pessoas que estavam ali, cujos nomes eu esqueci no instante seguinte que ela os falou. Não era por mal ou falta de interesse, eu só realmente era ruim com nomes.
Pedimos por uma cerveja assim que nos sentamos e Valentina logo engatou numa conversa com as pessoas que estavam sentadas ao seu lado e à sua frente, falando, pelo o que eu pude entender, sobre o projeto social no qual começariam a trabalhar em breve. Bebi minha cerveja em silêncio, sem realmente saber como me encaixar no assunto, quando escutei alguém falar próximo a mim e, aparentemente, comigo.
- Eu sei que você está se esforçando para não parecer que quer morrer, mas me sinto na obrigação de dizer que não tá dando muito certo. – falou num tom leve e divertido que, não sei por que, me fez corar.
- Hm... Desculpa? – falei um tanto incerta, o que o fez rir.
- Certo, eu desculpo... Se você lembrar meu nome. – ele arqueou uma sobrancelha de maneira esperta e, pela risada que ele deu em seguida, o desespero deve ter ficado evidente em meu rosto – Eu sou . E você é a , certo? A famosa amiga escritora de Valentina.
Mais uma vez senti meu rosto corar, sabendo que haviam palavras implícitas na frase que havia acabado de dizer: a famosa amiga escritora de romances eróticos de Valentina.
- Pois é... Culpada. – sorri sem graça, tomando mais um gole da minha cerveja.
parecia me olhar com curiosidade, seus olhos me deixando um tanto intrigada. Ele tinha uma aparência divertida e bem charmosa com seus cabelos arrepiados e tatuagens espalhadas pelos braços, e, se eu o fosse julgar pela aparência, jamais diria que ele era um estudante de psicologia. Na verdade, se eu o visse pela rua, poderia apostar que ele fazia parte de alguma banda que deixariam meninas com as calcinhas em chamas num futuro próximo.
- Certo... E você poderia me dizer o porquê da senhorita estar com essa cara de enterro quando, supostamente, deveria estar bebendo e se divertindo entre amigos?
- Em minha defesa, eu estou bebendo. – falei, aproveitando para servir o resto da cerveja que tinha na garrafa que eu pedira em meu copo. – E bom, tecnicamente, minha única amiga aqui é a Valentina, que tá ocupada no momento, então... – dei de ombros, voltando a beber no mesmo instante que o o fez.
- Obrigado por desconsiderar meus esforços em ser uma boa companhia. – falou como se estivesse ofendido, o que me fez rir. – Mas, sério... – ele pareceu hesitar por um momento, pensando no que dizer – Quer dar uma volta? - sugeriu, o que me fez congelar por um instante.
Quero dizer, eu havia acabado de conhecê-lo e todos os sinais de alerta contra homens estranhos pareciam soar em alto e bom som na minha mente. Por outro lado, ele era colega de classe de Valentina e, por mais que isso não fosse um selo de certificado de segurança, que mal fazia arriscar?
Saia da sua zona de conforto, repeti mentalmente, procurando coragem para responder.
- Olha, tudo bem se não quiser. – ele falou antes que eu tivesse tempo de dizer algo, parecendo sem graça diante do meu silêncio. – É só que você não parece estar se divertindo muito e eu vejo a cara dessa gente quase todo dia, então...
- Eu quero. – falei subitamente, abrindo um sorriso que ele logo retribuiu – Só vamos pedir mais uma cerveja, que aí a gente vai bebendo. Que tal? – sugeri e ele concordou, já fazendo o sinal para que o garçom viesse nos atender.

A lua brilhava no céu e, mesmo em meio às luzes da Lapa, não perdia seu destaque. O movimento na rua era intenso, assim como a mistura de sons causada pelas pessoas conversando, rodas de samba e músicas diversificadas. A noite estava quente, porém agradável e, de uma maneira diferente, eu me sentia bem.
Meu corpo já estava sutilmente mais leve depois da segunda cerveja e a conversa com estava realmente gostosa. O garoto não era intimidador – como muitos costumavam ser ao conhecer uma garota, como se precisassem se impor – e nós estávamos realmente nos dando bem.
Como eu havia suposto pela sua aparência, apesar de ser estudante de psicologia, o tinha a música como hobby nas horas vagas. Ele sabia tocar violão e um pouco de piano, e acabava sempre tocando nos churrascos ou reuniões em que participava com seus amigos, apesar de ser meio tímido.
A música o ajudava a lidar com seus demônios, ele havia dito; e eu o compreendia perfeitamente porque a escrita fazia o mesmo por mim.
Da mesma maneira que havia falado sobre si, ele também havia dado espaço e se interessado sobre o que eu tinha a falar sobre mim. Comentei sobre estar no processo de revisão do meu primeiro livro, além de estar atrasada com a edição do próximo vídeo do meu canal – o qual, secretamente, ainda estava relutante em postar. Além disso, também falamos sobre interesses em comum e eu descobri que, assim como eu, o garoto era fã de super-heróis, além de ser fissurado por jogos de videogame, coisa que eu já não era muito o meu lance.
- Da próxima vez que eu te ver, vou cobrar que você toque alguma coisa para mim. – brinquei após me encostar a uma pilastra no meio da rua, a terceira garrafa de cerveja, a qual havia comprado com um ambulante, na mão.
- Quer dizer que vai haver uma próxima vez? – inquiriu com uma sobrancelha arqueada, me fazendo corar e morder o lábio em reação.
- Você não quer? – devolvi a pergunta.
me fitou de baixo a cima, parando seu olhar intensamente sobre o meu, como se pudesse me despir somente com tal ato. E eu não me importaria caso ele o fizesse, pensei, rindo com meu próprio pensamento.
O retribuiu o meu riso, apesar de não ter ideia do que eu havia pensado – pelo menos assim eu achava – e negou com a cabeça, cruzando os braços.
- Impossível não querer. Você é uma garota legal. – sorriu de lado e, ao mesmo tempo, meu sorriso se desmanchou.
Você é uma garota legal.
Basicamente, era isso que eu escutava quando alguém não tinha interesse em mim. Eu era uma garota legal, o que em outras palavras significava que eu era uma companhia boa o suficiente para ser uma amiga, mas não atraente o suficiente para ser mais do que isso.
- É claro. – forcei um sorriso, tomando mais um gole de cerveja em seguida – Bem, vamos voltar pro bar? Daqui a pouco vão achar que a gente tá querendo dar calote na hora da conta. – brinquei.
pareceu estranhar meu pedido, mas deu de ombros, assentindo.
- Vamos lá, escritora. – falou antes de envolver meus ombros com um de seus braços, terminando sua cerveja em seguida e jogando a garrafa em um lixo que havia ali.
Senti um leve nervoso com sua proximidade, mas não demonstrei, continuando a tomar minha cerveja enquanto andávamos. também era um garoto legal e eu sinceramente não me incomodaria de me tornar sua amiga, principalmente levando em conta o fato de que, com ele, eu me sentiria menos deslocada quando resolvesse sair com Valentina e seus amigos do curso outra vez. Além disso, eu já havia decidido que não queria me envolver com ninguém da faculdade – não até perder a virgindade – então ele não era realmente uma opção.
- Se eu fosse você, terminava isso logo, se não vão querer te cobrar de novo no bar. – falou apontando para minha cerveja e eu concordei com um riso, logo terminando o líquido que restava na garrafa e a jogando fora em seguida.
- Problema resolvido. – falei com um sorriso débil, já alta pelo álcool ingerido.
- Essa é minha garota. – piscou um olho e eu me aninhei ao seu peito, usando seu corpo como um suporte para evitar tropeçar e cair na rua.
A lua continuava a brilhar no céu, Nando Reis tocava em algum bar por ali e eu tinha feito um novo amigo.
Aquela havia sido uma noite boa, afinal.



¹ Comfort series – séries que você assiste quando está triste/desanimada e que te ajudam a se sentir bem.

² ECO – Escola de Comunicação.




Capítulo 3: (Des)encaixe.

Acordei me sentindo um tanto mole, apesar de não ter bebido tanto na noite anterior. A primeira coisa que veio a minha mente ao fitar o teto branco do meu quarto foi o rosto de , que me fez suspirar e lembrar em seguida dos olhares significativos que Valentina havia lançado ao nos ver entrando no bar juntos. Eu havia escapado do seu bombardeio de perguntas até então, já que estávamos em grupo e, quando decidimos voltar para casa, ela estava tão cansada que acabou dormindo no metrô, porém sabia que não poderia fugir dos questionamentos da ruiva naquela manhã e o que eu mais ressentia era o fato de que eu não tinha realmente algo para contar.
Levantei após me espreguiçar e percebi que a ruiva ainda dormia no colchão que já estava arrumado no chão quando chegamos, certamente obra de minha mãe. Fui até o banheiro para lavar o rosto, escovar os dentes e fazer xixi, e troquei de roupa ao voltar para o quarto, colocando um short jeans e uma camiseta básica com estampa das mascotes das Olimpíadas de 2016.
Vinicius e Tom haviam sido, de longe, as melhores coisas dos jogos no Rio – e eu ainda não tinha superado o fato do Vinicius ter comparecido à abertura das Paraolimpíadas vestido de Gisele.
Servi-me com um copo de suco de laranja ao chegar à cozinha, que estava vazia, o que significava que minha mãe devia estar em seu quarto. Senti um leve arrepio ao lembrar que Diego, o primo de Valentina, chegava naquela manhã – isso se já não tivesse chegado – e ri com o fato da menina estar no meu quarto. Caso fosse eu no seu lugar, minha mãe me obrigaria estar em casa para recebê-lo, mas, graças a Deus, era raro recebermos visita de parentes.
Não que eu tivesse algo contra eles, mas eu dificilmente gostava de ter que conviver com gente de fora em casa por mais de dois dias. Eu prezava muito meus momentos de isolamento para isso.
O fato era que Diego chegaria ao Rio de Janeiro hoje e, amanhã, aconteceria o churrasco na casa de Valentina. Apesar de ainda faltar um dia, a ansiedade já começava a se manifestar por meu corpo. Eu iria tentar alguma coisa com o ruivo e estava decidida quanto a isso, porém, não havia decidido ainda como iria fazer tal coisa, e sentia que minha cabeça iria explodir caso insistisse em pensar nisso por enquanto.
Procurando me distrair de tais pensamentos, aproveitei que estava sozinha para ler os comentários da atualização que tinha feito de Valentine na semana anterior, história que estava postando online atualmente. A grande maioria me fazia sorrir como uma boba, satisfeita por ver que tanta gente estava gostando de acompanhar o que eu escrevia, porém, vez ou outra, eu me deparava com um comentário machista que fazia eu me sentir na obrigação de tentar ter uma discussão saudável e, quem sabe, fazer a pessoa mudar de opinião – o que, graças aos céus, não aconteceu naquela manhã.
Quando terminei de curtir e responder todos os comentários, resolvi dar uma olhada no Facebook. Porém, ao perceber que as pessoas começavam a perguntar se eu tinha previsão para a postagem do próximo vídeo no meu canal, minha vontade foi deixar o celular de lado.
Respirei fundo, me sentindo um tanto mal, mas acabei por fazer um post explicando que estava atolada com a revisão do livro, com trabalhos acadêmicos e escrevendo a história que estava postando atualmente, e que, por isso, a publicação do próximo vídeo iria demorar, já que estava muito sobrecarregada para me dedicar a sua edição. Não era realmente uma mentira, ainda mais considerando a viagem que faria no próximo mês com a faculdade, mas ainda assim ficava incomodada.
Sabia que uma hora eu teria que tomar uma decisão, mas, enquanto pudesse evitar – por mais que admitir isso me causasse certa vergonha – eu iria fazê-lo. Sempre me diziam que eu era melhor tomando decisões sob pressão, pelo menos.

Já havia passado de 13h00 quando Valentina acordou. Depois de comer ovos mexidos como café da manhã, minha mãe apareceu na sala e ficamos juntas assistindo televisão e conversando até a ruiva dar o ar de sua graça. Aproveitamos para usar sua ajuda para escolher o que pedir para o almoço – o que acabou sendo o mesmo de sempre, apesar dos nossos esforços em tentar optar por algo diferente – e depois decidimos ir para o meu quarto até que a comida chegasse.
Começamos a arrumar as camas – eu dobrando meu cobertor e ajeitando a colcha sobre o colchão enquanto Valentina dobrava os lençóis e cobertor que usara e guardava o colchão sob minha cama – e eu podia sentir o olhar da ruiva pesar sobre mim. Fitei-a de lado enquanto guardava meu cobertor do armário e tive que conter um riso ao perceber certa malícia em seu olhar, negando com a cabeça.
- Eu estou só esperando, viu?
- Esperando o que, exatamente? – me fiz de desentendida enquanto me deitava sobre minha cama, pegando o controle da televisão e ligando o aparelho em um canal qualquer.
Valentina revirou os olhos, se deitando ao meu lado após guardar os lençóis, e se colocou de frente para mim.
- Será que a senhorita poderia me fazer o favor de dizer o que rolou entre você e o ontem? – perguntou num tom levemente debochado, mas não de um jeito maldoso, e com um sorriso malicioso no rosto.
- Nada. – respondi simplesmente.
- Nada?
- Nada. – reafirmei, fingindo prestar atenção no filme que passava na tela da TV.
- Então, você tá me dizendo que você saiu do bar ontem para dar uma volta com um cara gatinho que tinha acabado de conhecer, demorou pra voltar e, quando voltou, veio toda alegrinha e abraçada nele, além do fato de ele ter me mandado uma mensagem hoje pedindo seu telefone, e que não rolou nada?
- Ele pediu meu telefone? – perguntei surpresa, sentindo meu rosto esquentar com o olhar que minha amiga me lançou em seguida.
- Fala logo o que rolou! Não é possível que haja outra justificativa para ele mesmo não ter pedido seu telefone além de estar muito ocupado com a língua na sua boca!
Gargalhei com a fala da menina e, mais uma vez, neguei com a cabeça. Quem me dera, pensei, mas não externei tal sentimento.
- Eu juro pela nossa amizade que não rolou nada além de conversa e cerveja. – falei sincera. – Não acho que ele tenha gostado de mim nesse sentido, na verdade. Mas ele é bem legal.
- Ah, , me poupa! – a ruiva revirou os olhos – Você e essa sua mania de achar que ninguém pode se interessar por você. O é meio tímido, talvez não tenha sabido como chegar em ti... Mas ele seria um ótimo pretendente para sua missão, hm?- falou sugestiva.
- Seria ótimo, caso ele não estudasse no mesmo campus que a gente. – fiz questão de relembrar, o que a fez bufar em desgosto.
- Tá, que seja. – deu de ombros – Ele seria um bom pretendente pós-missão, então? – sugeriu, me fazendo franzir o cenho em reação.
- Como assim?
- Olha, se eu disser que sou próxima do , eu vou estar mentindo, mas... – fez uma pausa dramática – Eu já fiz uns trabalhos com ele, convivo com ele em sala de aula e posso dizer que ele parece um amorzinho de pessoa. Bem seu tipo de cara, sabe?
- E qual é meu tipo de cara mesmo? – arqueei uma sobrancelha.
- Ah, , por mais que você tenha essa postura girlpower, que eu adoro, a propósito, você é mais romântica, sensível... E o é um estudante de psicologia que é músico nas horas vagas, quer coisa melhor?
- Se ele é tão bom assim, por que você não investe?
- Porque minha personalidade não bate com a dele. Não vou negar que até tentei algo ano passado, mas as conversas entre nós não rendiam simplesmente porque a gente é muito diferente, sabe? – explicou – Eu adoro ele, mas não funcionaríamos como casal.
- Certo... Bem, você passou meu número para ele?
Porém, antes que a ruiva respondesse, meu celular apitou sobre a cama. Olhei a notificação na tela bloqueada e não consegui evitar um sorriso, me sentido uma boba por isso.

Número desconhecido: Oi, ! aqui. Peguei seu número com a Val, espero que não se importe. Gostei de ontem e queria manter contato, se você quiser, claro. Bjs.

- Tá ai sua resposta. – ela sorriu maliciosa, me fazendo rir e negar com a cabeça ao mesmo tempo em que desbloqueava a tela para responder a mensagem.
Não é como se houvesse algum mal nisso, né?

***


- Eu não vou mais.
- Por que não?
- Porque não, ué. – respondi Valentina ao telefone enquanto fitava o teto de meu quarto, deitada ao lado das inúmeras peças de roupas que eu havia experimentado até então.
Havia acordado relativamente cedo naquela manhã, a fim de escolher uma roupa legal – porém sem exageros – para ir ao churrasco na casa dos Rodrigues. O problema é que, pelo menos para mim, essa não é uma tarefa muito fácil.
O fato era que eu simplesmente não estava num dia bom e isso, junto com as minhas intenções por trás da ida à casa de Valentina, não facilitava em nada achar uma roupa com que eu me sentisse bem. Já havia experimentado três shorts e duas saias diferentes com pelo menos dez combinações blusas, além de alguns vestidos, e não tinha gostado de absolutamente nada.
E era justamente por isso que eu estava no telefone com minha amiga avisando que havia desistido de ir até sua casa naquela tarde.
- , colabora que você não é mais uma criança de cinco anos pra vir com uma resposta dessas... E mais, eu te conheço. – frisou me fazendo suspirar no outro lado da linha.
- E ai, vai me falar o que houve ou não? – insistiu após eu passar alguns instantes em silêncio.
- Eu não tenho roupa. – respondi finalmente, a contragosto.
- Você tá de sacanagem, né?
- Engraçado que você fala como se nunca tivesse me ligado exatamente com o mesmo problema, né? – retruquei, irritada com seu tom.
- Ok, justo. – suspirou – Mas você lembra que o objetivo hoje é justamente terminar o dia sem roupa, certo? – insinuou com certa malícia e eu podia jurar que meu rosto estava da cor de um tomate maduro naquele momento.
- É. Só que pra isso eu preciso estar com uma aparência que faça alguém querer tirar minha roupa antes, né? – pontuei o óbvio, ainda levemente irritada.
Meu humor realmente estava um lixo. Estava extremamente irritadiça, num nível que poderia mandar alguém para o inferno simplesmente por desejar um “bom dia”. Para melhorar, eu estava com uma leve dor de cabeça e me sentindo um tanto inchada, o que indicava que, provavelmente, minha menstruação estava próxima.
Por mais que eu odiasse justificar meu mau humor com meu ciclo menstrual – o que só abria espaço para que homens fizessem comentários e tirassem conclusões machistas sobre qualquer atitude feminina – tinha que admitir que ele me tirava completamente do eixo.
- Pelo amor de Deus, , não é possível que não tenha uma roupa no seu armário que você não goste. – Valentina protestou – Já experimentou o vestido vermelho de bolinha?
- Já.
- E aquele short de cintura alta preto com aquele cropped branco soltinho?
- Já também.
- Saia jeans com aquela blusa de quadrinhos que você adora?
- Se eu fosse você, já teria desistido.
Escutei a ruiva suspirar e esperei que ela falasse novamente, desejando que ela me desse sua benção para desistir de tudo e ficar em casa.
- Ok... E aquele macacãozinho jeans que você comprou e nunca usou? Ele com uma blusinha listrada e um tênis ficaria ótimo.
Analisei sua sugestão por um instante, sequer me lembrando da existência daquela peça de roupa até então, e respondi antes de desligar:
- Eu te ligo em meia hora. Beijo!

No final, a roupa que Valentina sugeriu ficou realmente boa.
Tomei um banho e me arrumei em pouco mais de meia hora, já que não era necessário me montar toda. Passei apenas um pouco de rímel e um batom, após me vestir, e me perfumei antes de sair de casa para o terminal do BRT, onde pegaria um ônibus até a estação que ficava quase em frente ao condomínio em que a minha melhor amiga morava.
Durante praticamente todo o caminho eu senti meu coração palpitar levemente em ansiedade, fazendo com o que eu me sentisse uma idiota. Apesar do desafio da roupa ter sido superado, eu sabia que aquele era apenas um detalhe para toda confusão de sentimentos que estava sentindo aquele dia – junto com minha provável TPM.
Eu não estava simplesmente indo até a casa da minha amiga para curtir um churrasco junto com sua família, o que estava longe de ser uma novidade para mim. Em uma situação normal, nem mesmo a presença de seus tios e de seus primos seria um fator para me deixar desconfortável, a questão toda era o fato de eu estar determinada em transar com um deles.
A última vez que eu vira Diego, se eu não estava enganada, eu tinha uns 16 anos. Claro que ele e Valentina haviam se visto nesse meio tempo, mas ou a ruiva tinha ido até São Paulo visitá-lo ou, quando ele vinha para o Rio, coincidia de ser num feriado ou época em que eu não estava na cidade, então acabamos ficando esses anos todos sem nos ver. Éramos amigos no Facebook, apesar de não mantermos realmente um contato direto, e eu tinha que admitir que havia passado os últimos dias fuçando a página do menino com uma frequência 500% maior do que nos últimos cinco anos.
Diego era estudante de Audiovisual na Universidade de São Paulo e iria para Nova York no próximo semestre fazer um intercâmbio durante um ano, o que combinava bem com o que eu conhecia de sua personalidade. Ele havia deixado o cabelo crescer desde que havíamos nos visto pela última vez e agora seus cabelos ruivos batiam na altura de seus ombros, o que o deixava um tanto charmoso, em minha opinião.
A única coisa que eu ainda não entendia era de onde Valentina tinha tirado que o primo já tinha tido uma queda por mim. Bem, verdade ou não, o passado não era realmente importante agora – apesar de que um histórico de interesse pudesse funcionar ao meu favor nos meus planos.
Por Odin, se eu não enlouquecesse até o fim do dia, eu já estava no lucro.

O fim do dia se aproximava e, surpreendentemente, eu estava viva. Bem, não era assim tão surpreendente quando se considerava o fato de eu não ter dado um passo em frente em relação à minha suposta missão naquele dia.
O sol começava se pôr e estávamos todos reunidos na varanda da casa. Os pais e tios de Valentina estavam numa mesa, e ela, eu e seus dois primos, Diego e seu irmão mais novo, Pedro, estávamos em outra. Havíamos passado o dia praticamente assim, comendo e falando sobre nossas vidas e aventuras universitárias – com exceção de Pedro, que falava com entusiasmo sobre os videogames que estava jogando ultimamente e, paralelamente, reclamava sobre suas professoras do Ensino Fundamental. Era fofo, até.
Valentina havia tentado algumas vezes dar espaço para que eu me aproximasse de Diego, mas sem muito sucesso. Quando não era um de seus pais aparecendo e entrando na conversa, era um dos pais do garoto ou até mesmo Pedro, que ficara grudado em nós o dia inteiro, já que sua mãe o proibira de ficar no Playstation durante a tarde.
Sendo honesta, eu estava até um pouco aliviada. O dia havia sido bom, a conversa gostosa e divertida, e minha ansiedade decidira me deixar em paz por um tempo.
Diego estava falando com entusiasmo sobre suas expectativas em relação ao intercâmbio que realizaria na New York Film Academy, uma das mais prestigiadas escolas de cinema do mundo, quando meu celular vibrou sobre a mesa. Peguei o aparelho e não evitei esboçar um sorriso ao ver o nome de na notificação. Tínhamos trocados algumas mensagens no dia anterior e ele se provava cada vez mais ser o cara legal que parecia ser.

: Oi, escritora! Estava pensando aqui... E lembra quando você disse que me faria tocar algo quando me visse de novo?

: Impossível esquecer, caro músico. E pode ter certeza que vou cobrar.

: Pois saiba que vou tocar com um amigo num bar na próxima sexta e você está oficialmente convidada.

: Pode guardar um lugar pra mim na primeira fileira! Só dizer o local e a hora!

Minha atenção foi desviada da tela do celular, porém, ao ouvir Valentina dizer algo que eu não consegui entender.
- Desculpa, Val. Você falou algo?
- Estava pedindo sua ajuda e a do Di para levar as louças para a cozinha. – falou como se fosse algo simples, o que aparentemente era, se não fosse pelo o que seu olhar sugeria de forma sútil: aquela era a brecha que ela havia encontrado para me aproximar do seu primo.
Engoli em seco, subitamente ansiosa, mas esbocei um sorriso.
- Mas é claro. – respondi já me levantando e guardando o celular no bolso do macacão antes de começar a recolher os pratos e talheres que conseguia nos braços.

Terminei de colocar a última pilha de pratos dentro da pia e me encostei no balcão, vendo Diego fazer o mesmo com os copos que havia trazido da área externa.
- Eu vou ver se a gente deixou alguma coisa lá fora e já volto para a gente começar a lavar, ok? – Valentina avisou e saiu da cozinha antes que pudéssemos concordar, me fazendo conter um suspiro.
Fitei Diego de soslaio, mas logo desviei o olhar ao perceber que ele fazia o mesmo, me sentindo uma menininha boba por isso – o que eu não estava muito longe de ser. Mordi o lábio, pensando no que dizer para quebrar aquele silêncio incômodo – pelo menos para mim – quando escutei sua voz hesitante soar ao meu lado.
- Eu gostava de você, sabia?
- Oi?
- Na última vez que a gente se viu. – explicou – Eu lembro que a gente ficou um bom tempo aqui no Rio nas férias e você vivia com a Val. Eu te achava incrível... Ainda acho. Era impossível não ficar com uma quedinha.
- Olha, eu acho bem possível. – respondi com uma risada sem graça, mas me repreendi mentalmente pela mania que eu tinha de me rebaixar – Mas eu te achava bem bonitinho também.
- Achava? Não acha mais? – perguntou arqueando as sobrancelhas de forma sugestiva, o que me fez rir.
- Por que isso agora? – resolvi perguntar, realmente interessada.
- Bem... Eu vou entrar num avião daqui a três meses e só volto em, no mínimo, um ano... E não teve uma vez nos últimos cinco anos que eu não visse uma foto sua no Facebook sem me arrepender de não ter tentado algo da última vez, então... – deu de ombros, deixando que eu mesma chegasse à minha própria conclusão.
Paralisei por um instante, não sabendo como lidar com aquela bomba de informações de forma imediata. Porém, antes de me permitir pensar demais e desistir de tudo por bobeira, falei:
- O que acha de fugirmos da louça e fazermos algo mais divertido?

Saímos da cozinha e, sem que ninguém nos visse, subimos as escadas em direção ao quarto de hóspedes que Diego estava dividindo com o irmão. O ruivo trancou a porta após entrarmos no cômodo e eu o fitei em expectativa, esperando que ele desse o próximo passo.
O menino sorriu e se aproximou com cautela, apesar da ansiedade brilhar em seus olhos. Senti um frio na barriga quando suas mãos se apoiaram em minha cintura e senti um arrepio quando seus lábios tocaram minha clavícula, começando a traçar um caminho por meu pescoço.
Seus cabelos tinham um cheiro cítrico que me agradava e me deixava ainda mais embalada pelo momento, e, por um instante, eu pensei que aquilo seria até fácil. O toque de Diego era gostoso, ele era cuidadoso, me envolvia de um jeito bom, até que enfim ele me beijou.
E foi aí que tudo desandou.
Por mais gentil que Diego fosse, seu beijo era completamente o contrário disso. Era afobado, apressado e molhado demais, e estava me deixando desconfortável. Era a primeira vez na vida que eu entendia o porquê das pessoas usarem o termo “desentupidor de vaso” para descreverem certos beijos.
Abri os olhos, apesar dos lábios do ruivo continuarem entusiasmadamente pressionados contra os meus, e observei ao meu redor, procurando por um meio de sair dali sem tornar aquele momento extremamente constrangedor para nenhum de nós. Por sorte, meu celular começou a tocar naquele exato momento, fazendo eu me afastar de Diego num reflexo, embora ele continuasse com os braços firmes ao redor da minha cintura.
- Deixa esse troço para lá... – pediu enquanto voltava a distribuir beijos pelo meu pescoço, os quais não tinham mais o mesmo efeito agora que eu tinha conhecimento da falta de encaixe entre nossos lábios.
- Não dá, pode ser sério... É minha mãe. – falei quando enfim consegui trazer o visor a altura dos meus olhos, dando um passo para trás e rompendo de vez qualquer contato entre nossos corpos.
- Mãe? – falei assim que atendi ao telefone e, apesar do alívio que sentira há instantes, fiquei levemente preocupada. Era extremamente raro minha mãe me ligar quando sabia que eu estava com Valentina, ainda mais na casa dela.
- Oi, filha. – falou calma, o que fez a sensação de alívio voltar instantaneamente – Desculpa ligar, mas é que eu fui ao mercado e me esqueci de comprar leite, aí queria saber se você podia passar na padaria antes de voltar para casa e trazer umas caixas... Eu ia mandar uma mensagem, mas fiquei com receio de que você acabasse não lendo.
- Sem problemas! Vou agora mesmo. – respondi rápido, dando graças aos céus mentalmente por aquilo.
- Que isso, . Não precisa. Você deve estar se divertindo e...
- Mãe, relaxa, viu? – cortei – Até daqui a pouco. Beijo.
Desliguei o aparelho e o arrependimento quase me atingiu ao ver a expressão de desapontamento no rosto de Diego ao perceber que eu teria que ir.
Quase.
- Di, desculpa, mas eu realmente tenho que ir. Minha mãe tá precisando da minha ajuda... – para comprar leite, completei mentalmente, me sentindo horrível.
- Tudo bem, não é culpa sua. – sorriu fofo – Quem sabe daqui a um ano? – brincou com o rosto risonho.
- É. Quem sabe. – sorri culpada, sabendo que a resposta para aquele questionamento era negativa.
- Boa viagem. Tenho certeza que você vai arrasar em Nova York. – falei ao me despedir do garoto, selando nossos lábios rapidamente antes de sair do cômodo.
A minha primeira tentativa – se é que aquilo podia ser chamado assim – havia sido oficialmente um fracasso. Na verdade, aquilo havia sido pior que um fracasso. Eu sequer tivera a chance de ter uma pequena crise quando ele começasse a tirar minhas roupas! Nem tínhamos chegado tão longe.
Mas também, do jeito que Diego beijava, nem dava vontade de chegar tão longe.
Suspirei longamente enquanto descia as escadas, aceitando a derrota e já imaginando a cara que Valentina faria quando eu dissesse que estava indo embora, certa de que ela não engoliria a desculpa que eu dera para seu primo. Esse era o lado negativo de ter tanta intimidade com alguém: a pessoa sempre percebia quando havia algo de errado, mesmo que não soubesse dizer exatamente o que.
De qualquer forma, não era como se fosse novidade as coisas não darem certo de primeira para mim. Diego não era o único cara do mundo e, bem ou mal, aquilo havia sido um começo.
Agora, mais do que nunca, eu me sentia pronta para ir em frente com meu plano.


Capítulo 4: Parceiro

Parecia que tinha um demônio dançando no meu ventre e a última coisa que eu queria fazer naquela manhã era me levantar. Porém, o diabo em pessoa, conhecido como Professor Henrique Martins, que lecionava Fotografia, não tolerava faltas e havia informado que passaria um trabalho para a turma naquela segunda. Em outras palavras: ou eu ia para faculdade, ou perdia uma boa porcentagem da minha nota – o que eu não estava podendo me dar o luxo de fazer no momento.
Depois de enrolar o máximo possível na cama sem correr o risco de me atrasar, decidi tomar uma ducha morna, rezando para que isso ajudasse meu corpo a relaxar e a dor a ir embora.
Não ajudou.
Vesti-me com uma roupa confortável, optando por um jeans largo e um moletom com um par de tênis velho, já que o dia estava chuvoso e fazia um pouco de frio. Os curitibanos que me perdoem, mas 20ºC é frio sim, e só aceito eles me afirmarem o contrário quando conseguirem enfrentar um calor constante com sensação térmica superior a 50ºC durante o verão. E é isso.
Como minha mãe já havia saído, não me demorei no café. Esquentei uma caneca de leite puro no microondas e tomei o mais rápido possível, pegando minha bolsa e trancando o apartamento ao sair, já colocando os fones de ouvido e escolhendo uma playlist no Spotify para escutar durante a caminhada para o metrô e todo percurso até o campus da Praia Vermelha.
A cólica continuou a me incomodar durante o caminho inteiro. Meu remédio havia acabado e eu não tive tempo de passar em nenhuma drogaria antes de ir para a aula, pois sabia que me atrasaria e, bem, meu adorável professor de fotografia gostava tanto de atrasos quanto de faltas. Esse era um dos motivos de eu estar longe de ser uma de suas alunas favoritas, inclusive.
Tentava ignorar, mas a dor realmente mexia com o meu humor. Eu já não gostava de acordar cedo, o que era um pequeno sacrifício para mim. Agora, a combinação de acordar cedo em um dia de chuva cuja primeira aula do dia era fotografia e, de bônus, menstruada e com cólica, parecia um teste para minha insanidade. Era como se eu tivesse ganhado na loteria do tinhoso.
Meu rosto estava levemente quente e a respiração descompassada quando enfim avistei os portões de entrada da universidade. Fiquei ansiosa quando chequei a hora ao sair da estação de metrô e, com medo de me atrasar, acabei andando em passos mais rápidos que o comum. O resultado? Havia chegado com 15 minutos de antecedência ao campus e, para dizer que superestimar minha lentidão só havia me feito sofrer à toa, decidi aproveitar o tempo ganho para comer algo na cantina e evitar que dores de estômago fizessem companhia às minhas cólicas durante a aula.
Pedi um salgado de frango com um suco de uva e me sentei em um dos bancos, me distraindo com o celular enquanto eu comia. Meu Facebook estava mais tranquilo desde que havia postado o aviso explicando a razão da minha demora para enviar o vídeo para o canal, uma vez que as pessoas haviam compreendido a situação, e como a próxima atualização de Valentine só sairia no próximo domingo, também não haviam muitas mensagens novas na caixa de comentário desta.
A vontade de continuar a revisar o texto de Babilônia me atingiu, a ansiedade de continuar o trabalho feito no fim de semana me consumindo. Havia passado praticamente meus dias de folga inteiros trabalhando na narrativa, uma vez que decidira ficar o tempo todo em casa como consequência da situação desastrosa com Diego na sexta e de meu estado emocional devido à TPM, mergulhando novamente em toda a trama vivida pelos personagens como se não tivesse sido eu quem a tivesse escrito. Fazia tempo que não me sentia tão motivada a trabalhar com algo e esperava que isso não passasse tão cedo. Melhor dizendo: esperava que o projeto que o professor Henrique passaria não me tirasse a vontade de viver.

Entrei na sala faltando um minuto para começar a aula e, assim que o relógio anunciou ser 07h30 em ponto, Henrique entrou, desejando um bom dia de forma cordial antes de se sentar à sua mesa, colocando sua pasta e notebook sobre esta e conectando o segundo ao projetor em seguida. Minha ansiedade já havia começado a se transformar em irritação e tudo o que eu queria era que ele informasse logo qual seria o bendito trabalho e que a aula terminasse para eu poder voltar para casa e sofrer no conforto da minha cama pelo resto do dia.
Não levou muito mais que um minuto para que o projetor exibisse um slide em branco no quadro, no qual, após o professor apertar uma tecla no teclado do notebook, apareceu o que parecia ser uma mensagem capaz de me levar ao paraíso: Projeto de Fotografia – tema LIVRE.
- Como vocês podem ver no quadro, o trabalho que irei passar para vocês se trata de um projeto fotográfico com tema livre. Vocês vão ter que escolher um tema no qual trabalhar, desenvolver um texto para descrevê-lo e montar uma coletânea com 15 fotos, cada uma delas acompanhada de sua própria descrição. – explicou e, pela primeira vez na vida, eu ficava feliz com algo que saia da boca daquele homem. Eu seria capaz de beijá-lo naquele momento caso não fosse algo completamente inapropriado.
- A universidade irá disponibilizar salas para que vocês possam montar o projeto de vocês como se fosse uma exposição. As salas estarão disponíveis com uma semana de antecedência do dia da apresentação final, que será na semana anterior à avaliação formal de final de semestre, o que acredito que é tempo o suficiente para planejar e montar algo decente. – continuou, usando um tom incisivo para indicar que não aceitaria um trabalho meia boca. Isso não era um problema, de qualquer forma; quanto mais ele falava, mais vontade eu sentia de me dedicar ao novo desafio, me sentindo instigada por este.
- No entanto, - ele acrescentou e o sentimento de “lá vem merda” me atingiu com força – a universidade só irá disponibilizar dez salas para as apresentações, para uma turma com o total de 20 alunos, logo...
O trabalho seria realizado em dupla. Estava realmente bom demais para ser verdade.
Uma menina, da qual eu não lembrava o nome, levantou a mão em seguida e o professor lhe cedeu à fala: - Nós vamos poder escolher nossa dupla? – perguntou e eu percebi que uma pequena chama de esperança ainda permanecia viva em alguns dos alunos, a qual logo foi apagada pela risada discreta de Henrique.
- Qual seria o desafio nisso? – o homem questionou – A facilidade que estou propondo na atividade é dar a liberdade para a escolha do tema do projeto. O desafio, no entanto, será chegar a um consenso com a sua dupla sobre este. Admito que isso já seria difícil com vocês tendo algum tipo de vínculo com o outro, mas comunicação não se trata de se trabalhar apenas com o que gosta, com o que se identifica, mas enfrentar desafios, divergência de opiniões e agir em cima disso... A fotografia costuma ser um trabalho mais pessoal, mas isso não significa que vocês não podem encontrar tais obstáculos nesse âmbito, fora outros mais complexos... – explicou, o que me fez revirar os olhos de forma sutil, já impaciente com tanto blá blá blá.
- De qualquer forma, pode ser que alguns de vocês tenham a dupla que desejam, se tiverem sorte. – frisou antes de tirar um saquinho transparente com pedaços de papel dobrados em seu interior de sua pasta. – As duplas serão decididas por sorteio, o qual eu realizarei agora, para que vocês tenham o máximo de tempo possível para decidirem o que irão fazer. Lembrando que o projeto irá valer 50% da nota final de vocês. Prontos? – perguntou e toda a turma assentiu, o sorteio sendo iniciando logo em seguida.
As duplas começaram a se formar e nada de sair meu nome. Não era como se eu tivesse uma preferência, até mesmo porque não era realmente próxima de ninguém daquela turma, mas as poucas com quem eu conversava já haviam sido sorteadas. Minha última chance seria ser sorteada junto com Caroline, com quem eu já havia cursado uma matéria no período passado. Na verdade, não me importaria de fazer trabalho com ninguém, desde que não fosse uma pessoa em específico.
- Agora a nona dupla será... – o professor continuou, sorteando mais um papelzinho – e... – prestei atenção ao escutar meu nome, sentindo a respiração falhar por um instante ao observar ele sortear o segundo papel – .
Ah, merda.
Olhei para o canto da sala e então meu olhar caiu sobre um garoto de cabelos que me lançou um sorriso e acenou para mim. Merda, merda, merda. Aquele realmente não estava sendo um dia de sorte.
Sendo honesta, não havia problema algum com . Na realidade, eu mal o conhecia, sequer havia trocado mais de uma palavra com ele antes. O problema era que a única vez que eu havia tentado falar com ele, havia acabado com a minha desastrada pessoa derrubando meio litro de café quente em cima do menino.
No período passado, Valentina havia sentido certo interesse por e tudo o que sabia sobre ele até então – além de seu primeiro nome – era que ele cursava comunicação como eu. Dessa forma, ela resolveu me usar como cobaia para tentar descobrir algo a mais sobre ele, usando a desculpa de que tínhamos o curso em comum. O problema foi que, no dia em que decidi abordá-lo no pátio para puxar assunto, acabei tropeçando e derrubando o café que havia acabado de comprar em cima do garoto, manchando não só sua camisa como o livro que ele lia no momento. Depois disso, tudo o que eu consegui fazer foi pedir desculpas de forma desajeitada, sair correndo e, alguns dias depois, deixar um cartão presente de uma livraria sobre sua mesa em compensação pelo livro perdido.
Minha única sorte havia sido que, naquele mesmo dia, Valentina havia conseguido encontrar sua página no Facebook, descoberto que ele namorava e desistido de investir em algo com o garoto. Não sei onde enfiaria minha cara caso eles se envolvessem e eu fosse obrigada a conviver com ele. Digamos que sou do tipo que vez ou outra perde o sono lembrando momentos vergonhosos de dez anos atrás – quem dirá de meses.
- Bem, agora que todas as duplas foram sorteadas, vamos voltar à aula normal. – fui acordada de meus devaneios pela voz do professor Henrique. - Caso precisem de material emprestado para a realização do trabalho, falem comigo ao fim da aula que providenciarei equipamentos emprestados pela universidade. Mas, caso tenham sua própria câmera, peço, por gentileza, que a utilizem.
Procurei me focar na aula, racionalizando que o incidente com não havia sido nada demais e que eu seria capaz de realizar um trabalho com ele sem lembrar deste a cada segundo. Quero dizer, eu certamente estava superestimando toda a situação e certamente o motivo daquilo me incomodar até hoje, era porque eu não havia tido a coragem de me desculpar apropriadamente na época. É, era isso. Daria tudo certo. Eu era capaz.

- Ei, menina do café! – ouvi uma voz chamar atrás de mim ao sair da sala, após o fim da aula, e qual foi a minha surpresa ao ver que se tratava de ? Pois é, nenhuma.
Senti meu rosto esquentar na hora e abri um sorriso forçado, esperando ele dizer o que queria.
- Você nem me esperou para ver se a gente ia precisar de equipamento emprestado pro nosso trabalho. Pra sua sorte, eu tenho uma câmera. – sorriu esperto, parando ao meu lado.
- Ah... É que eu também tenho. Nem pensei nisso, desculpa. – falei sem graça, estalando os dedos.
- Você tem um canal no YouTube, né? Faz sentido. – concluiu, negando com a cabeça, e eu fiquei um tanto surpresa por ele saber daquilo. – Mal pela lerdice... Mas então, temos que conversar sobre o trabalho, pensar sobre o tema e...
- Você se importa se a gente fizer isso outro dia? – o cortei, fazendo-o piscar rápido por um instante e me olhar com um sorriso fechado – É que... Eu tô morrendo de cólica e só queria ir pra casa agora. Sendo sincera, só vim hoje porque o Henrique odeia que a gente falte e fiquei com receio de que o trabalho fosse ser feito em aula ou que ele não permitisse que quem estivesse ausente fizesse ou sei lá. – falei enrolada, levemente nervosa. – E desculpa pelo café. – acrescentei sem pensar, sentindo minhas bochechas arderem veementemente após isso, o que só piorou com a gargalhada que o deu em reação.
- Meu Deus, menina, eu só estava brincando com você... Faz meses que isso aconteceu! – falou risonho. – Eu já superei, acredite. A máquina de lavar deixou minha camisa novinha e o vale presente que você deixou na minha mesa dava pra comprar dois livros do que você estragou. Eu diria que saí no lucro no final. – deu de ombros, dando uma piscadinha. – Mas, bem, pode ir pra casa cuidar da sua... Cólica, certo? Depois a gente fala sobre o trabalho. Salva seu número aqui. – pediu ao entregar seu celular desbloqueado em minha mão.
Digitei os números rapidamente e salvei meu contato como “ UFRJ”, entregando o aparelho de volta no instante seguinte.
- Me manda uma mensagem depois para eu também salvar o seu. – pedi – Bem... Eu já vou. Até. – sorri sem graça e acenei antes de me afastar, recebendo um aceno seu em resposta enquanto seguia em direção à estação do metrô.
Quando já estava a caminho de casa, senti o celular vibrar no meu bolso. Quando vi a notificação na tela bloqueada, vi que a mensagem era de um número desconhecido e o texto não exibia nada além de um emoji de sapo acompanhado de uma de xícara de café.
Aquela foi a primeira vez que a lembrança do incidente com o café me fez rir.

***


Depois de passar boa parte do dia dormindo, não era surpresa nenhuma que eu estivesse tendo uma grande dificuldade para dormir naquela noite. Já passava de meia-noite e a televisão estava conectada à Netflix, exibindo episódios de Brooklyn 99 que eu já havia decorado de tanto assistir.
A cólica já havia passado, mas a preguiça permanecia impregnada no meu corpo, apesar de nenhum sinal de sono habitar neste. Havia passado praticamente o dia inteiro deitada na cama e todo movimento físico que eu havia feito, havia sido me levantar para ir ao banheiro ou cozinha e para mexer no celular.
Peguei meu telefone e desbloqueei a tela, clicando no ícone do whatsapp para reler a pequena conversa que havia tido com durante a tarde. Havíamos tentado pensar em um tema para o projeto, mas nenhuma ideia havia sido boa o suficiente.
Primeiro ele sugeriu que fizéssemos um projeto mostrando o contraste social existente no Rio de Janeiro, fazendo metade das fotografias de locais habitados pela classe alta da cidade, como Leblon e Ipanema, e a outra de locais mais pobres, como as comunidades da Rocinha, Vidigal, entre outras. O problema era que esse era um tema constantemente abordado e certamente seria escolhido por outra dupla, e eu queria apostar não necessariamente em algo mais original, que ninguém pensaria, mas em algo em que pudéssemos dar um toque mais pessoal, que nos envolvesse diretamente, não em paralelo.
O problema era: o quê?
também havia sugerido que fizéssemos o projeto relacionado de alguma forma à cultura pop, que era um assunto que interessava a nós dois, mas a ideia também não havia me agradado. A verdade era que eu era uma chata que mais reclamava do que contribuía com algo, mas pelo menos eu admitia isso.
Felizmente, ele não havia ficado incomodado com as minhas negativas, ou pelo menos não deixava transparecer. Sua última mensagem dizia: “Não se preocupa, temos tempo para decidir. Vamos nos dar um prazo de duas semanas e então começar a trabalhar no projeto, o que acha?”, com o que concordei totalmente, recebendo um emoji de uma carinha piscando como resposta. Ele realmente gostava de usar emojis.
Apesar de tentar relaxar a mente e não me forçar a pensar em nada por enquanto, esta parecia queimar com o assunto. Odiava a sensação de precisar fazer algo e não conseguir, assim como não ficar satisfeita com as ideias que eram propostas. Era como um pequeno inferno particular.
Bufei, deixando o celular de lado e peguei meu notebook, que estava na ponta da cama, decidida a continuar revisando o texto de Babilônia para me distrair até o sono vir. A história se passava majoritariamente em um clube de strip-tease chamado Babilônia e era um misto de romance com drama, suspense e, claro, erotismo, o que eu considerava ser minha especialidade. Divertia-me verdadeiramente criando toda aquela realidade completamente diferente da minha, com personalidades e histórias diversas, que me mantinham entretida e distraída por tempo indefinido, apesar de também serem uma fonte de estresse em meio a bloqueios criativos.
Estava terminando de escrever um parágrafo quando senti meu celular vibrar. Peguei o aparelho e franzi o cenho ao ler a mensagem de Valentina, rindo fraco em seguida com o conteúdo desta.

Valentina Rodrigues: Desde quando você e o são amigos no Facebook???

: Hm... Desde hoje (?)
Vamos fazer um projeto juntos pra disciplina de fotografia.

Valentina Rodrigues: E COMO É QUE VOCÊ NÃO ME FALA ISSO???

: Ah... Aconteceu hoje. E eu dormi o dia inteiro. Mas pra que tanto interesse no meu trabalho acadêmico? Rs.

Valentina Rodrigues: No seu trabalho? Zero. No seu parceiro? TODO!!!
Sabia que ele mudou o status de relacionamento no Facebook pra solteiro há um tempinho?

: Hm... Legal (?)

Valentina Rodrigues: E agora que você vai fazer um trabalho com ele, não tem mais a desculpa do café pra não falar com ele, logo... Pode ajudar sua linda e maravilhosa melhor amiga ;-)

: Misericórdia, Val. Não superou ainda?

Valentina Rodrigues: Aquele rostinho com aquele corpinho e aqueles lindos olhos ? Jamais. Vai, ... Você me deve! Nós poderíamos já estar lindos e juntos hoje, se você não tivesse derramado café nele.

: E se ele não tivesse namorada.

Valentina Rodrigues: Detalhes... Mas e então?

: O que você me pede rindo que eu não faço chorando?

Valentina Rodrigues: EU TE AMO!!!
Me mantenha informada, viu?

: Tá ok, ruiva chata.
Boa noite. Te amo <3

Valentina Rodrigues: Boa noite, linda <3
E só pra lembrar: Não esqueci que a senhorita me deve uma explicação por ter ido embora feito uma doida lá de casa na sexta, viu? A cara de desolado do meu primo tá gravada na minha cabeça até agora.

Suspirei, rindo sozinha, após bloquear novamente o celular e deixá-lo de lado. Como havia me isolado durante o fim de semana, havia acabado por conseguir escapar dos questionamentos de minha melhor amiga sobre o incidente com Diego, mas sabia que mais cedo ou mais tarde teria que acabar explicando para a ruiva o que havia acontecido, e tinha certeza de que seria algo um tanto cômico.
Terminei de revisar o parágrafo no qual estava trabalhando antes de receber a mensagem de Valentina e, já um pouco sonolenta, deixei o notebook de lado, me aninhando à minha cama para poder dormir.
Não fazia ideia de como poderia tentar aproximar e Valentina, mas, considerando o quão bonita e divertida minha amiga era, não deveria ser um desafio muito difícil. Ele também era bonito e, tinha que admitir, caso ficassem juntos, eles formariam aquele tipo de casal pro qual você olha e suspira no meio da rua.
E foi com a imagem de e Valentina juntos em meus pensamentos que eu adormeci.


Capítulo 5: All Star.

Estava consideravelmente melhor naquele dia, apesar de ter que acordar cedo já ser motivo o suficiente para me deixar de mau humor. As aulas haviam passado rápido naquela manhã e, como teria uma disciplina à tarde, iria me encontrar com Valentina para almoçar no Restaurante Universitário – o famoso bandejão.
Não demorei a avistar a ruiva ao chegar lá, que já estava sentada e acompanhada de alguns amigos, entre eles , que foi o primeiro a me ver e acenar me cumprimentando. Acenei de volta, sorrindo, e então segui para a fila para que pudesse pegar o meu almoço.
Depois da noite na Lapa, eu e havíamos mantido contato quase todos os dias, fosse por mensagens ou pelo direct do Instagram. O era engraçado e nós tínhamos bastantes coisas em comum, o que fazia com que a conversa fluísse naturalmente, embora não tivéssemos nos encontrado pessoalmente desde então. Não até aquele momento.
Segui para a mesa equilibrando a bandeja em mãos após pegar minha comida, um tanto curiosa sobre o cardápio daquele dia. As opções de prato principal eram moqueca de peixe ou moqueca de banana da terra, para vegetarianos, e eu havia escolhido a segunda por curiosidade. O cheiro estava simplesmente divino, o que já era um ponto positivo.
- E aí, pessoal! – falei animada ao me sentar entre Valentina e , único assento vago na mesa e que eu suspeitava que havia sido guardado para mim.
- Que isso, ? Encarnou a Mc Carol?¹ – a ruiva brincou e eu lhe dei a língua como resposta, rindo em seguida.
- A pessoa pode nem pode acordar animada que leva uma cortada assim. – suspirei. – Depois reclama que eu vivo rabugenta. – acusei, sacudindo minha caixinha de suco antes de furar seu buraco com o canudo.
- Eu sou a favor de equilíbrio, bebê. – retrucou com um sorriso esperto e eu revirei os olhos teatralmente, achando graça.
- Vocês duas tem uma dinâmica invejável. – brincou Natasha, uma amiga de Valentina. Ela era uma das mulheres mais lindas que eu conhecia; sua pele negra não tinha uma imperfeição sequer e seus cabelos curtos se alinhavam de tal forma com os traços de seu rosto que, só de me lembrar do pensamento estúpido de tantos homens sobre “mulheres não deverem cortar o cabelo”, me dava vontade de esfregar uma foto dela na cara de cada um deles.
Não que Natasha ligasse para isso; afinal, ela era lésbica.
- É conexão de berço. – disse – Já falei que é por isso que a gente não dá certo com homem nenhum, nosso destino é morarmos juntas numa casa com pelo menos uns trinta gatos.
- Também tem sempre a possibilidade de tentar outras opções. – Natasha falou sugestiva, o que me fez rir e minha amiga corar, apesar de disfarçar com uma risadinha.
- Quem sabe um dia, né? – brinquei, dando uma garfada em minha comida.
- Mas tenta dar mais uma chance pros homens antes. – falou, se manifestando pela primeira vez desde que eu me sentei à mesa – Somos uns merdas, mas tem uns que se esforçam. – brincou e eu ri sem graça, quase me engasgando com a comida.
Aquilo não era uma insinuação para mim, era?
Não, claro que não.
Era justamente por ficar pensando demais sobre situações que nada significavam que eu só vivia romances na minha cabeça. Aquilo não passava de uma brincadeira entre amigos.
- Ainda não desisti de vocês. – falei, entrando na brincadeira – Ainda.
- É melhor que nada. Pelo menos resta alguma esperança. – falou risonho, me olhando de canto antes de voltar a comer.
A cada instante passado ao lado de , mais certeza eu tinha de que iria enlouquecer.

O resto do almoço correu normalmente, sem mais nenhuma frase com possível duplo sentido vinda de para fazer meus poucos neurônios trabalharem mais do que de costume até entrarem em combustão no meu cérebro. Já havia percebido que o era engraçadinho num geral e que seu tratamento não era específico comigo, mas ainda assim eu ficava inventando singularidades que só existiam na minha cabeça.
Uma vez iludida, sempre iludida.
Ainda faltava meia hora até a próxima aula e, como Valentina queria conversar comigo a sós, deixamos a mesa antes dos outros, nos despedindo com um até logo. Nunca havia me encaixado realmente em um grupo, apesar de já estar há meses estudando na universidade, mas, curiosamente, começava a encontrar meu lugar no meio dos amigos da ruiva.
Por mais que tivesse colegas de curso, fosse à festas com eles e tudo o que uma universitária costuma fazer, não tinha realmente cultivado novas amizades no tempo que estava ali. Agora eu sentia que estava construindo esse laço aos poucos com e talvez também o fizesse com Natasha, até porque ela parecia estar cada vez mais próxima da minha melhor amiga.
- Pode começar a falar. – Valentina deu o ultimato quando estávamos no corredor.
- A falar sobre o que exatamente? – questionei – Sobre seu primo ou sobre meu parceiro de trabalho que você quer pegar?
A ruiva riu e ajeitou a bolsa sobre o ombro, mordendo o lábio antes de falar: - Sobre os dois. Mas sobre o Diego primeiro, daí a gente pode se estender na parte melhor.
Revirei os olhos e ri fraco, negando com a cabeça.
- Você não muda mesmo.
- Como se você quisesse que eu mudasse. – acusou e eu apenas maneei a cabeça, concordando.
Não queria mesmo que ela mudasse, nossas loucuras combinavam uma com a outra.
- Então...? – insistiu, dando a deixa para eu começar a falar.
- Em resumo? Seu primo beija muito mal, Val. Como eu poderia confiar que um cara que parece um dementador² beijando saberia transar? – questionei expressiva, mas num tom de voz baixo. – Eu posso até estar um pouco desesperada, mas não nesse nível.
A resposta imediata da ruiva foi rir. Rir não, gargalhar, num nível que chamou a atenção de todas as pessoas passando por nós.
Suspirei frustrada, fechando os olhos por um instante de vergonha. Tinha que admitir, era realmente uma situação engraçada contando daquela maneira, mas viver aquilo havia sido constrangedor. Sentia meu rosto arder só de lembrar o alívio sentido ao receber a ligação da minha mãe e da maneira como fugi de Diego. Ele era um garoto legal, apesar de tudo, só precisava encontrar alguém com quem sua língua sugadora de alma se encaixasse.
- Meu Deus! – Valentina exclamou enquanto ainda ria – Eu vou zoar o Diego pro resto da vida!
Meus olhos se arregalaram e eu segurei em seu braço, querendo fazê-la prestar atenção em mim.
- Você não pode falar nada! – pedi – Minha mãe me ligou quando a gente estava se beijando e eu usei como desculpa pra ir embora. Você achou o quê? Que eu tinha dito na cara do menino que ele não sabe beijar?
- Pela cara que ele ficou depois que você foi embora, eu não duvidaria. – comentou, parando para se sentar em um dos bancos vagos que havia no corredor e esperando eu sentar ao seu lado.
- Foi ruim assim? – perguntei e ela confirmou com cabeça – Tadinho... Ele é legal, eu gosto dele. A gente só não se encaixou, sabe?
- Sei... Já você e o ...
- Nem começa. – cortei antes que ela pudesse dizer algo.
- Mas por quê?! Ele tá claramente afim de você, nem se esforça pra disfarçar. – retrucou.
- Já te expliquei! Não adianta forçar, Val. – argumentei – Sem falar que eu nem tenho certeza se ele tá afim mesmo. Você tá vendo coisa demais.
- Você é um caso perdido. – afirmou, desistindo.
- Nunca neguei. – dei de ombros.
A verdade era que eu estava dividida entre dois extremos: querer que estivesse afim de mim e ter medo de tentar algo com ele.
Por mais que eu quisesse fugir, era praticamente inegável o quanto eu estava interessada no garoto. Ele era bonito, engraçado, inteligente, músico nas horas vagas e tinha o bônus de parecer retribuir tal sentimento. Ainda assim, o receio da frustração era grande e eu preferia me manter na minha zona de conforto, como uma amiga, principalmente enquanto tivesse o plano de perder a virgindade à minha frente.
- Bem, já que você não tá interessada no seu homem, vamos falar do meu. – a ruiva desviou o assunto, abrindo um sorriso de orelha a orelha – Já falou com o depois que a gente conversou?
- Ainda não, mas eu faço essa próxima aula com ele também. Você quer que eu fale algo em específico? – perguntei – Tipo, que tenho uma amiga afim dele e perguntar se rola?
- Claro que não! – Valentina falou como se eu tivesse dito o maior dos absurdos – Tem que ser algo mais sútil, sabe? Que ele nem sinta acontecendo... Algo natural.
- Então...? – a fitei em dúvida, sem ter ideia de como dar continuidade àquilo.
- Bem... O certamente te convidou para vê-lo se apresentar na sexta, certo? – perguntou e eu assenti com a cabeça – Por que você não chama o pra ir também? Faz sentido. É todo mundo da mesma universidade, vocês estão fazendo um trabalho juntos e você vai mostrar que tá querendo uma amizade. Em consequência, vou ter motivo para puxar algum assunto com ele, já que vamos estar na mesma mesa, e passar de conhecida/amiga de Facebook para algo a mais gradativamente. É perfeito!
Pisquei por um segundo, administrando a enxurrada de informações despejada sobre mim e, por fim, assenti, concordando.
- Ok, vou convidar ele hoje. Mas não posso garantir que ele vai dizer sim. – avisei e a ruiva me abraçou, dando um pequeno gritinho de comemoração.
- Você é a melhor, ! – falou animada – Tenho certeza que vai dar certo!
Retribuí seu abraço, rindo, e então chequei o relógio, vendo que já estava na hora de eu ir para a sala.
- Hora de ir. – anunciei, ajeitando minhas coisas enquanto me levantava – Torça por mim, hein? Se eu conseguir, vai ficar me devendo uma. E eu vou cobrar! – ameacei divertida.
- E eu vou ter prazer de pagar! – falou enquanto eu já me afastava, me despedindo com um aceno e a expressão risonha.

já estava na sala quando entrei, distraído enquanto lia o que parecia ser “Deus ama, o Homem Mata”, que era uma das minhas graphic novels³ favoritas dos X-Men. Gostei de perceber que tínhamos algo em comum além da universidade e do acidente com o café e, como o professor daquela disciplina costumava se atrasar quase sempre, decidi usar aquilo a meu favor para puxar assunto com ele.
- Espero que você não seja o tipo de pessoa que se diz fã de X-Men, mas que defende político homofóbico, racista e machista na internet. – brinquei enquanto sentava na carteira vaga ao seu lado.
- Se um dia você me ver defendendo político na internet, ainda mais desse tipo, por favor, mande me internar. – pediu num tom zombeteiro, fechando o encadernado e o colocando sobre a mesa ao olhar para mim.
- Pode ter certeza que o farei com muita satisfação. – garanti com um sorriso astuto.
Era engraçado me ver conversando com o daquela maneira quando a pouco mais de um dia atrás eu sequer cogitava algo assim acontecendo. O pior era que, agora que eu conseguia analisar a situação racionalmente, não havia sentido naquilo.
Às vezes a gente acaba dando mais importância à um momento do que realmente é necessário, e acabamos por sofrer as consequências do mesmo jeito.
Mas cá estava eu, puxando papo com e prestes a convidá-lo para sair comigo e meus amigos. O mundo dava voltas, não é mesmo?
Mesmo que o objetivo final fosse ajudar Valentina, aquilo dizia muito sobre mim. Estava destruindo as barreiras que havia construído para mim mesma aos poucos.
- Mas me diga, à que devo a honra da sua presença?
- Eu também faço essa matéria.
O garoto riu, negando com a cabeça, e apoiou o rosto sobre a mão, cujo cotovelo estava apoiado sobre a mesa, e eu me peguei o observando por um instante.
Seus olhos eram realmente bonitos. Eram , mas o tom fugia do comum que se vê normalmente; era como se eles possuíssem um brilho próprio. Não era difícil entender o porquê de Valentina ter um abismo por ele.
- Você jura? Nunca te vi por aqui... – falou levemente irônico – Você ficou realmente boa em se esconder desde o dia do café. – acusou divertido e eu ri, apesar de sentir o rosto corar.
- Pensei que você já tivesse superado isso. – lembrei, arqueando uma sobrancelha num olhar falsamente acusatório.
- E superei, mas é engraçado te zoar.
- E foi por isso mesmo que eu fiquei tão boa em me “esconder”. – brinquei, fazendo aspas com os dedos.
- Justo. – se rendeu, risonho – Então vou concluir que você está aqui apenas pelo prazer da minha companhia, hm?
- Quase isso. – entrei na brincadeira – Além de poder desfrutar do prazer da sua companhia hoje, estava pensando se por acaso você estaria livre nessa sexta à noite.
- Você está me chamando pra um encontro? – perguntou surpreso e eu congelei por um instante, só então me dando conta do teor das minhas palavras.
- Não! – respondi o mais rápido que pude – E-eu... Não! – repeti, gaguejando levemente e me amaldiçoando em pensamento por isso - É meu amigo... Ele tocar num bar na sexta, e ele também estuda aqui, e eu pensei que seria legal te chamar, já que a gente tá fazendo o trabalho e se dando bem e... Outros amigos vão também. – falei enrolada, torcendo para que eu não estivesse parecendo tão patética quanto me sentia no momento.
me fitou por um segundo, o qual pareceu durar uma eternidade, e apenas sorriu de lado, seu rosto expressando uma feição de divertimento contido.
- Eu estou livre sexta. – confirmou – E adoraria ir pra apresentação do seu amigo com seus outros amigos. – acrescentou zombeteiro e eu fechei os olhos em reação, tampando o rosto com uma mão enquanto ria de forma refreada.
- Ótimo. – falei ao me recuperar do pequeno acesso de risadas – Vou te passar tudo por mensagem, ok?
- Aguardarei ansiosamente. – piscou com um olho e, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, o professor entrou em sala desejando uma boa tarde para a turma.
Apenas neguei com a cabeça, um sorriso involuntário no rosto enquanto arrumava meu material sobre a mesa, me perguntando qual seria a próxima vergonha que passaria na frente do garoto.

***


Caso eu dissesse que estava satisfeita com o que via no espelho, estaria mentindo.
O short preto de cintura alta deixava as celulites das minhas pernas à mostra, meus seios não formavam um decote muito atraente no body estampado, e, por incrível que pareça, aquela era a roupa que havia feito eu me sentir melhor até então. Mas o melhor nem sempre é realmente bom.
Suspirei e peguei minha bolsa, ajeitando a alça sobre o ombro antes de me olhar no espelho uma última vez e sair do quarto. Valentina já estava à caminho para podermos irmos juntas ao bar e minha mãe desceria comigo até a portaria para pegar sua mochila, já que ela dormiria aqui em casa e faltava pouco para estarmos atrasadas para o horário combinado.
Não era como se eu estivesse realmente animada, no entanto.
Até ontem, estava realmente ansiosa para esse momento chegar e eu poder ver se apresentar. Mas sabe quando você acorda extremamente mal e infeliz consigo mesma e nada consegue melhorar seu humor? Eu estava em um desses dias e só queria poder me enfiar num buraco para nunca mais sair.
Havia feito de tudo para tentar melhorar meu humor: usar uma máscara de limpeza facial, tomar um banho relaxante, hidratar meu corpo, fazer uma maquiagem impecável e procurar pela roupa perfeita no meu guarda-roupas. De nada havia adiantado, mas eu esperava que estar em meio a amigos, música e bebida, mudasse isso.

- Se cuidem, meninas. – minha mãe pediu depois que eu entrei no carro, segurando a mochila de Valentina nas mãos – Não deixem a bebida de vocês desacompanhada e, se deixarem, joguem fora depois e comprem uma nova. Caso precisem de algo, meu celular vai estar ligado.
- Pode deixar, tia. – Valentina respondeu prontamente – A gente cuida uma da outra.
- Vai ficar tudo bem, mãe. – garanti, grata por ela sempre ter aquele cuidado com a gente. Ela quase sempre repetia as mesmas coisas quando saíamos, mas, considerando a situação em que nossa cidade se encontrava e o fato de sermos mulheres em uma sociedade machista, tais conselhos nunca eram demais.
Acenamos em despedida antes de fechar a porta do carro e então o motorista partiu, seguindo para a localização do bar, que não ficava muito longe dali.
- Você tá linda, ! – a ruiva elogiou – Adoro quando você se veste assim.
Sorri agradecida e apenas neguei com a cabeça, a lembrança do meu reflexo no espelho ainda causando certo incômodo.
- Você eu nem preciso dizer, né? Parece uma modelo. – falei risonha, porém sincera.
Valentina estava vestida com um vestido amarelo mostarda simples, de alças finas e decote redondo cujo cumprimento batia na altura do joelho, mas que possuía uma bela fenda que valorizava ainda mais suas pernas. Em conjunto, ela usava uma jaqueta jeans preta, uma bolsa tiracolo e um par de rasteirinhas de mesma cor.
Por mais casual que estivesse, só pelo fato de ela ser ela, estava perfeita. A ruiva ficaria linda mesmo se estivesse vestindo um saco de lixo.
- Exagerada! – falou, mas o sorriso em seu rosto denunciava o quão satisfeita estava com o elogio – Estou animada pra hoje. Acredita que nunca vi o tocar? Ele é bem discreto quanto à isso, mas a Natasha falou que ele é ótimo.
- Ela vai hoje?
- Vai sim. Ela e uma menina que ela tá ficando. – comentou – Pelo jeito tá ficando sério, ela nunca apresenta as garotas com quem ela fica.
- Jura? – falei subitamente animada – Não acredito que vou ter essa honra. Estou emocionada. – fingi limpar uma lágrima de emoção e Valentina revirou os olhos, rindo fraco.
- E eu ainda não acredito que o vai realmente hoje. – mudou o assunto, se ajeitando sobre o assento para poder me olhar de frente – Ele confirmou mesmo?
- Sim. – afirmei, achando graça por ela estar perguntando aquilo de novo – Pelo menos ele disse para mim que ia, não posso garantir que não vai mudar de ideia. – falei apenas para zoar com a menina.
- Deixa de ser chata. – reclamou, me empurrando pelo braço de brincadeira.
- É que é engraçado! – me defendi - Quem te vê falando desse jeito, pensa que você tá apaixonada pelo garoto.
- Credo, não. – riu – Mas é que eu sempre tive esse crush platônico nele e é estranho pensar que talvez possa passar disso. É bem louco na verdade.
- Te entendo. Mal posso esperar para poder sentir isso com o Tom Hiddleston. – citei o ator responsável por interpretar o Loki nos filmes da Marvel e a ruiva riu, negando com a cabeça.
- Esse aí até eu quero.
- Você já tem o , sossega o facho.
- Se ele quiser, sossego sem reclamar. – suspirou, relaxando sobre o assento de couro – Que Deus me ajude.
- Amém, irmã. Amém.

Quando chegamos ao bar, e Natasha já estavam nos esperando em uma mesa próxima a um palco improvisado que havia ali, acompanhados por duas pessoas, as quais eu desconhecia e que eu acreditava serem o amigo do músico, e a acompanhante da menina. chegou enquanto éramos apresentados a Pedro e Luna, aproveitando para se juntar a nós nas apresentações e, por fim, sentamos na mesa redonda na seguinte ordem: Eu entre e Valentina, que ficou ao lado de , que estava ao lado de Natasha, seguida por Luna e Pedro.
- Que bom que vocês chegaram agora, já estava achando que estava atrasado. – comentou descontraído, fazendo sinal com a mão para algum garçom vir nos atender.
- Ah, mas nessa cidade, chegar atrasado é quase tradição. – Valentina brincou e o moreno riu, concordando.
- Vocês já vão tocar? – perguntei, ajeitando o decote involuntariamente, ato que já havia repetido consideravelmente apenas no trajeto de minha casa para cá.
- Daqui a pouco. – respondeu – Espero que você não tenha criado expectativas, porque não vai ser nada demais. – falou com um sorriso tímido.
- Pois eu concordo em discordar. – Pedro se intrometeu – Essa vai ser a melhor apresentação acústica que você já viu na sua vida. – disse entusiasmado.
- Héteros egocêntricos. É o pior tipo. – brincou Luna.
- Desde que vocês não toquem Legião Urbana, eu fico de boa. – Natasha falou num tom blasé que fez todo mundo rir.
- Ah, eu gosto de Eduardo e Mônica. – defendi, mas tudo que recebi em resposta foi um olhar de “não” da garota.
- Sem Legião Urbana no repertório hoje, eu prometo. – falou ao mesmo tempo que o garçom chegou a nossa mesa.
- Estava pensando em pedir um balde de cerveja pra gente rachar, o que acham? – sugeriu.
- Por mim tudo bem. – Valentina concordou prontamente, sendo seguida pelo restante na mesa.
- O que acham de dividir uma batata também? – Natasha perguntou e, mais uma vez, a mesa inteira concordou.
- Ok. Vai ser um balde e uma porção de batatas, então. Valeu, cara. – o garçom rapidamente anotou tudo e se retirou dizendo que já traria o pedido.
- Mas então, o que vocês vão tocar? – perguntei curiosa para saber mais sobre o gosto musical do , coisa que, curiosamente, não havíamos conversado muito sobre.
- Logo você verá. – respondeu com um sorriso misterioso e eu consegui apenas sorrir em resposta, a conexão de nossos olhares se quebrando apenas quando o garçom retornou trazendo as cervejas pedidas.

Já havíamos pedido o segundo balde de cervejas e uma porção de pastéis quando e Pedro subiram no palco improvisado, cada um sentando em um banco em frente a um pedestal com microfone e afinando seus violões sobre o colo. O havia brincado que, agora que estava com um pouco de álcool no sangue, estava pronto para cantar, e eu havia achado aquilo fofo, apesar de ele parecer levemente nervoso.
Eu também me sentia levemente mais confortável agora que não estava completamente sóbria, apesar de ainda me pegar ajeitando a roupa vez ou outra num gesto involuntário. Ora arrumava o decote, ora puxava o short para baixo, como se isso fosse realmente mudar algo e eu não fosse repetir a mesma ação minutos depois.
No mais, eu estava feliz por ter saído de casa. Era como se aquele grupo, que havia se reunido pela primeira vez naquela noite, se conhecesse há anos e estivessem destinados a estar ali. Era um sentimento gostoso de pertencimento e, mesmo se não passasse daquele momento, seria uma boa lembrança para ter no futuro.
Quando terminei de me servir o restante da cerveja de uma das garrafas, no entanto, me percebi subitamente sozinha na mesa. Natasha envolvia Luna pelos ombros em um de seus braços, conversando com a parceira aos sussurros, enquanto Valentina e conversavam energicamente ao meu lado, sobre algo que eu não fazia questão de prestar atenção. A mim restava beber e manter os olhos sobre a dupla de músicos amadores – não que eu visse problema algum naquilo.
- Boa noite, galera. – falou após testar uma nota de seu violão, já afinado, e chamando a atenção do público do bar para si – Meu nome é .
- Eu sou o Pedro. – o outro emendou.
- E nós somos dois estudantes desorientados que gostam de pagar de músicos nas horas vagas. – o brincou, fazendo com que todos rissem brevemente.
- Nós fizemos uma seleção especial pro repertório dessa noite - Pedro continuou – e esperamos que vocês curtam essas músicas tanto quanto a gente.
Dito isso, as primeiras notas do violão puderam ser escutadas e logo a voz de soou suave, harmoniosa, cantando as primeiras notas de “All Star” do Nando Reis.
- Estranho seria se eu não me apaixonasse por você... – um arrepio gostoso subiu pela minha espinha e eu me senti transportada para uma nova atmosfera.
O menino era realmente talentoso. Ele não parecia fazer esforço algum para dedilhar as cordas do violão ou para cantar; tudo fluía naturalmente, como se fizesse parte dele, como um dom.
Seu olhar focou em mim quando ele cantou o segundo verso da música e tudo o que eu consegui fazer foi sorrir, acompanhando cada palavra mentalmente.

“Estranho, mas já me sinto como um velho amigo seu;
Seu All star azul combina com o meu preto, de cano alto.
Se o homem já pisou na Lua, como ainda não tenho seu endereço?
O tom que eu canto as minhas músicas, na sua voz parece exato”.


O clima ficou tão gostoso que eu consegui me permitir esquecer tudo ao meu redor durante os minutos seguintes. Acompanhava e cantava cada música, mexendo o corpo conforme os ritmos e sorrindo como se não existisse nenhum problema no mundo. Tudo se resumia àquele momento, àquele sentimento, ao agora.
Os meninos tocaram mais algumas músicas, incluindo artistas como Cássia Eller, Cazuza, Los Hermanos e Supercombo, todos nacionais, até fazerem uma pausa para tomarem um pouco d’água antes de voltarem a se apresentar.
Fui trazida de volta à realidade apenas quando Valentina se levantou, avisando que iria para o banheiro e já voltava.
Mais uma vez me peguei ajeitando minha roupa, que claramente não tinha jeito, quando me assustei ao ouvir a voz de dizendo algo ao meu lado.
- O quê? – pedi para ele repetir, já que não havia entendido da primeira vez.
- Você tá linda. – repetiu e eu podia jurar estar prestes a entrar em erupção de tão quente que meu rosto ficou – Não precisa ficar se ajeitando toda hora... Você é linda. – frisou e eu me vi sem fala, realmente sem saber o que dizer em resposta.
Para começar, só o fato dele ter notado o que eu fazia era desconcertante. Por um lado constrangedor, mas, diante de seu elogio, um pouco reconfortante também.
Após um longo instante apenas o encarando como uma boba, desviei o olhar, sem graça, voltando a olhá-lo de canto no instante seguinte apenas para dizer:
- Obrigada.
O sorriu como se não tivesse dito nada demais e em seguida Valentina voltou, retomando seu lugar entre nós ao mesmo tempo que os meninos voltavam a se apresentar no palco, anunciando que a próxima música seria “Por Você” do Barão Vermelho.
E eu não ajeitei minha roupa mais nenhuma vez naquela noite.



¹ Mc Carol - cantora e compositora de funk brasileiro, cujo um dos bordões é a frase “e ai, pessoal”.

² Dementador - é um espírito mágico das trevas do universo de Harry Potter que se alimenta de felicidade humana e pode consumir a alma de uma pessoa através de um beijo.

³ Graphic Novels - É um tipo de livro que conta uma história longa através de arte sequencial. Esse termo é usado para distinguir esse tipo de publicação da de livros regulares e histórias em quadrinhos, que normalmente são lançadas em edições separadas, e não em volume único.




Capítulo 6: Gringo.

Já fazia certo tempo que eu estava acordada, mas ainda não havia tido a coragem de me levantar da cama. Estava encolhida, abraçada à pelúcia do Homem Aranha que eu tinha, enquanto pensava sobre tudo e ao mesmo tempo sobre nada.
Não sabia dizer exatamente o que estava diferente em mim, mas certamente nada estava igual. A noite anterior havia mexido comigo de alguma forma que eu sequer conseguia entender, quanto mais explicar.
Peguei-me pensando nos olhos de , mas logo refreei tal pensamento, suspirando fundo enquanto escutava o ressonar manso de Valentina no colchão ao lado da minha cama. Era impossível esquecer o quão radiante ela parecera ao lado do moreno, como se ele fosse mais do que ela pudesse esperar.
A mim, ele certamente havia surpreendido.
Desviei meus pensamentos para a voz harmoniosa de e o brilho de seus olhos ao cantar, mais especificamente quando ele cantava olhando para mim. Apesar de ter começado sua apresentação um tanto nervoso, na segunda música ele já havia dominado o espaço como se tivesse nascido para fazer aquilo, do que eu não duvidava.
Ficamos conversando o resto da noite após o fim da apresentação e, apesar da conversa acontecer entre a mesa em geral, eu podia perceber seu foco maior em mim, o que era mútuo. A última coisa que eu lembrava antes de adormecer era de ler a notificação da sua mensagem, a qual eu ainda precisava responder, dizendo “obrigado por tornar essa noite mais especial”.
Honestamente, eu não sabia mais o que pensar. Nem sabia se devia pensar. Talvez a melhor opção fosse simplesmente fugir de tudo enquanto podia.

Depois de enrolar mais alguns minutos na cama, decidi, enfim, me levantar. Primeiro, fui ao banheiro e então peguei meu notebook antes de ir para a sala, querendo dar uma última revisada no capítulo que postaria naquela noite.
Encontrei minha mãe sentada no sofá com uma xícara de café nas mãos, assistindo a algum programa matinal na televisão, tão concentrada no que via que sequer percebeu minha presença.
- Bom dia. – falei, deixando o computador sobre a mesa de centro antes de ir para a cozinha preparar uma xícara de café com leite para tomar.
- Bom dia, filha. Acordou cedo. – falou num tom que eu pudesse escutar do outro cômodo – Como foi ontem? Nem vi vocês chegarem.
- Foi ótimo, mãe. – falei enquanto mexia uma colher de açúcar na minha bebida, voltando para a sala em seguida – Os meninos são realmente talentosos e olha que eu tinha criado certa expectativa.
- Ah, a juventude... Sinto falta dessa época. Seu pai costumava tocar violão, sabe? - lembrou – Ele era péssimo, mas era esforçado.
Ri abertamente, já sentada ao seu lado, feliz com aquela lembrança. Apesar de divorciados, meus pais tinham uma boa relação e não lembravam um do outro com rancor, mas com respeito, gratidão e carinho pela história que tiveram, que agora havia ficado no passado.
- Tá aí uma coisa que eu não consigo imaginar: o papai músico. – falei risonha enquanto ligava o notebook em meu colo, não demorando a abrir o arquivo com o capítulo a ser revisado depois disso.
Normalmente eu evitava escrever perto de minha mãe, não por ela não saber sobre o que eu escrevia, mas por um bloqueio pessoal. No entanto, como aquele capítulo não havia nenhuma cena explícita, me senti confortável ao seu lado. Na verdade, estava sentindo um pouco de falta dela nos últimos dias.
- Pois é. Ele sempre foi uma caixinha de surpresas. – comentou divertida – Assim como você.
- Já eu me acho bem entediante.
- Entediante? – perguntou indignada – Você sabe quantas mães podem dizer que a filha, além de ser uma excelente estudante, vai publicar seu primeiro livro aos 20 e poucos anos de idade e que esse livro é um romance erótico? Posso afirmar que não muitas e, com certeza, nenhuma no meu círculo de amizades. – falou com propriedade, tomando um gole de seu café em seguida.
Ri abertamente, me sentindo agradecida por aquele pequeno momento, e a abracei de lado, descansando a cabeça sobre seu ombro. Às vezes, tudo o que a gente precisa é do colo da pessoa que sempre está ali por você, mesmo que nem sempre você mereça, e sem pedir nada em troca.
- Você também é uma peça única, dona Helaine. – brinquei – Eu amo você.
- E eu amo você. – sorriu ao me dar um beijo na testa, voltando seus olhos para a televisão enquanto os meus voltavam para a tela do computador.
A presença dela ali era o suficiente para silenciar meus conflitos internos, pelo menos naquela manhã.

Quando Valentina acordou, já estava na hora do almoço. Havia passado toda manhã junto de minha mãe, revisando o que havia escrito e vendo tv, até que ela decidiu – milagrosamente – preparar o almoço, coisa que raramente fazia. Dona Helaine não gostava muito de cozinhar e eu não podia falar nada, pois era exatamente igual.
Também havia respondido a mensagem de , dizendo que havia sido um privilégio poder vê-lo se apresentar, mas ele não tinha visualizado ainda. Provavelmente estava dormindo, assim como minha amiga fizera até agora. Logo eu, que não suportava acordar cedo, havia sido a única a fazê-lo.
- Que cheirinho bom...! – a ruiva falou ao aparecer na sala enquanto se espreguiçava e bocejando em seguida – Vocês pediram comida?
- Não. Dona Helaine tá cozinhando.
- O mundo vai acabar. – afirmou dramática antes de se sentar ao meu lado no sofá e eu ri.
- Pois é. – concordei – Também não tenho ideia do que ela tá fazendo, mas se o gosto for bom como o cheiro tá, eu já fico satisfeita.
- Somos duas. – falou se espreguiçando mais uma vez sobre o sofá antes de relaxar sobre o estofado, sonolenta.
- Meu Deus, quem te vê pensa que nem dormiu. – brinquei, mas ela sequer se incomodou, o olhar perdido na televisão, por mais que não parecesse realmente prestar atenção no que passava.
- É porque enquanto você dormia, eu estava ocupada fazendo outras coisas...
- Não me diga que você fugiu de madrugada e foi transar com o ? – falei fingindo estar chocada, apesar da minha própria brincadeira me causar um incômodo desconhecido.
- Quem me dera! – riu animada – Mas a gente ficou conversando por mensagem durante um bom tempo. Ele é melhor do que eu imaginava.
- E o que você imaginava?
- Eu não sei. – confessou, a sombra de um sorriso no rosto – É que tipo... Sabe quando você sente atração por uma pessoa que você sequer conhece, aí cria toda uma versão dela na sua cabeça? Normalmente, quando você passa a conhecer a pessoa, ela não é bem como você imaginou... Normalmente não é nem melhor, nem pior, só diferente e você tem que se desgarrar da ilusão. Mas o ... Ele parece ser tudo o que eu imaginei e mais, sabe? – falou contemplativa.
- Sei... – falei, sem me estender muito – Fico feliz, Val. Vou torcer pra dar tudo certo.
- Bem... No pior dos cenários, eu vou ter um novo amigo incrível. Então acho que de qualquer forma eu saio no lucro. Mas que eu gostei dele, eu gostei... – suspirou.
Não soube o que responder de imediato, mas, por sorte, minha mãe nos chamou para comer naquele exato momento. Na cozinha, nos deparamos com uma bela travessa de macarronada ao molho branco, o que só aumentou minha fome.
- Desde quando você sabe cozinhar isso? – questionei surpresa enquanto me sentava à mesa, já pegando um prato para me servir.
- Google. – respondeu, segurando o celular com um sorriso esperto – Tecnologia pode ser uma benção quando você usa direito.
- Benção é essa massa. – Valentina falou após experimentar o macarrão, já enrolando outra porção no garfo – Você deveria cozinhar mais, tia.
- É... Não vai acontecer. – garantiu e nós rimos, todas já bem servidas e comendo.
Participei da conversa durante o almoço, mas estava um tanto alheia ao assunto, mais interessada em meus próprios pensamentos. Minha mente vagava entre a atualização da história que faria naquela noite, o bar na noite passada e minha missão de perder a virgindade.
A tentativa com Diego havia sido tão frustrada que havia se passado uma semana e eu sequer havia pensado em qual seria minha próxima atitude. Talvez ir à uma boate fosse uma boa opção, porém só de me imaginar no meio de centenas de pessoas desconhecidas como uma mulher à caça de homem fazia com que eu me sentisse enojada. Mas que opções eu tinha?
Podia começar alguma aula ou curso novo, investir em algum carinha que me interessasse e tentar a sorte. O problema era que isso daria muito trabalho, custaria dinheiro e ocuparia tempo que eu quase não tinha mais, além de não ser garantido que eu fosse conseguir alguma coisa.
Também havia a opção de recorrer a aplicativos de namoro, mas queria que fosse algo mais natural, não forçado como as interações nesse tipo de rede social pareciam ser. Em resumo: eu estava ferrada; mas ainda não havia desistido. Eu conseguiria pensar em alguma coisa mais cedo ou mais tarde.
Acordei de meus pensamentos ao sentir meu celular vibrar sobre a mesa, o nome de brilhando na notificação que dizia: “E será meu privilégio te ter em futuras apresentações. Te manterei informada ;-)”.
Sorri para o celular, mas não respondi de imediato. Quanto menos eu me envolvesse, menos meu interesse se intensificaria; mas era justamente em momentos como aquele que uma voz teimosa na minha cabeça insistia em se perguntar se eu estava fazendo a coisa certa.

***


No final do dia, depois de Valentina já ter ido embora, decidi dar uma volta de bicicleta na orla da praia. Era algo que eu tinha costume de fazer vez ou outra e que me ajudava a esvaziar a mente por alguns minutos; éramos só eu, minha bicicleta, os fones de ouvindo tocando uma playlist pré-definida e o vento batendo no rosto enquanto eu mergulhava em pensamentos sobre realidades paralelas ou sobre o que escrever.
Vez ou outra eu me pegava pensando sobre e seus malditos olhos , mas logo procurava me reprimir. Aquilo só estava acontecendo porque ele havia me pegado desprevenida ao me elogiar em um momento frágil, sem contar que eu estava um tanto bêbada.
Ainda assim, isso me causava certo incômodo. Por mais que eu soubesse – ou pelo menos esperasse – que essa era uma situação passageira, somente o fato de me ver pensando de modo diferente sobre o garoto pelo qual minha melhor amiga tinha interesse fazia com que eu tivesse vontade de me bater. Valentina era minha irmã, mesmo que não fosse do meu sangue, e ela vinha em primeiro lugar.
Era normal eu me sentir encantada por um momento, afinal, era um garoto com quem eu acabara de ter uma aproximação e que havia me tratado bem, diferente, mas nada realmente extraordinário. Além disso, ainda havia com seu talento e postura charmosa, que de fato parecia ter algum interesse em mim. E, mais importante do que ou , existia meu objetivo de perder a virgindade – cuja possibilidade de acontecer com qualquer um dos mencionados era de -1.
De resto, eu só tinha certeza sobre uma coisa: eu era a pessoa mais confusa, indecisa e doida que eu mesma conhecia. Mas isso não era novidade, então, desde que eu mantivesse minhas insanidades sãs e salvas dentro da minha cabeça, seria capaz de superar essa fase mais cedo ou mais tarde.
Distraída com meus próprios pensamentos, não vi quando um pedestre começou a atravessar a faixa da orla em direção à praia e, por estar andando rápido demais e já muito próxima dele, não consegui frear a tempo de evitar uma colisão, que acabou levando nós dois ao chão. Contive um grunhido de dor, arrastando minha perna que estava sob a bicicleta até estar livre do veículo, e então me virei para o homem, cuja pele possuía um tom marrom dourado, que parecia ainda mais atordoado que eu.
- Me desculpa, eu me distraí... É minha culpa, me perdoa. Você tá bem? – perguntei apressada, notando alguns olhares curiosos a nossa volta, apesar de ninguém se dispor a nos ajudar.
- Eu... Eu não falar português. – arriscou falar de um jeito enrolado, deixando claro que não era brasileiro. Ele realmente tinha cara de estrangeiro.
- Você fala inglês? – perguntei já na língua e o homem assentiu – Perdão. Eu estava pedindo desculpas por ter te atropelado. Você está bem, né?
- Eu estou bem, não se preocupe. Só me assustei. – confessou com um sorriso afável, já se levantando sem muitas dificuldades e estendendo a mão para me ajudar em seguida. O que me pegou de surpresa, no entanto, foi seu sotaque aparentemente britânico, que me fez conter um suspiro.
Eu amava aquele sotaque.
- Mas e você? Está tudo bem? – perguntou enquanto eu me levantava, ainda me sentindo um pouco dolorida pela queda.
- Vou sobreviver. – brinquei, levantando a bicicleta em seguida e a segurando ao meu lado – Desculpe perguntar, mas de onde você é?
- Eu sou indiano, mas moro em Londres desde bebê. Já você, acredito que seja brasileira, certo? – perguntou me observando de cima abaixo, de um modo discreto, porém instigante, que me fez corar.
- Sim, sou daqui mesmo. Bem, desculpe novamente. Aproveite sua estadia no Brasil. – desejei com um sorriso e estava me preparando para ir embora quando ele me impediu.
- Por que não fica um pouco? Talvez tenha sido o destino que fez com que eu fosse atropelado pela sua bicicleta. – brincou – Meu nome é Dinesh, a propósito. Dinesh Malik.
Hesitei por um momento, tentando analisar os prós e contras daquela situação, até que disse por fim:
- Seria um prazer, Dinesh. – sorri, já trazendo minha bicicleta ao meu lado para que pudesse segui-lo até um dos quiosques mais próximos – Ah, e meu nome é .
- É um prazer, . – falou com um sorriso cortês e, por Deus, eu não importaria de passar o resto da vida olhando para aquele homem sorrir.
Sabia que estava sendo louca de aceitar passar o tempo com alguém que eu literalmente havia acabado de conhecer, mas estávamos em um local público, então era uma situação relativamente segura. Além disso, Dinesh se encaixava perfeitamente no perfil que eu precisava: era atraente, um desconhecido, sequer morava no Rio e parecia ter se interessado em mim. Afinal, por qual outro motivo ele teria pedido para eu ficar?
Claro, havia a possibilidade de eu acabar contribuindo com a visão de que muitos estrangeiros tinham sobre a mulher brasileira, como se fôssemos promíscuas de berço ou algo do tipo. Mas, honestamente, eu não poderia me importar menos, não caso eu visse que a possibilidade de seguir em frente com meu plano fosse real.
- Então, o que você faz da vida? – perguntou quando nos sentamos a uma das mesas do quiosque mais próximo.
- Sou estudante de comunicação. – respondi, me perguntando qual seria sua idade. Ele não parecia ser muito mais velho do que eu - Ah, e estou prestes a publicar meu primeiro livro. – acrescentei, querendo dar um upgrade a mim mesma – E você? – devolvi a pergunta ao mesmo tempo que uma garçonete veio nos atender, perguntando o que desejávamos em um inglês improvisado quando percebeu a língua em que conversávamos.
- Eu vou querer só uma água de coco, por favor. – pedi.
- E eu uma longneck da sua melhor cerveja. – Dinesh acrescentou antes de voltar seu olhar para mim, dando continuidade à nossa conversa – Eu trabalho como Gerente de Negócios.
Abri um sorriso amarelo, me sentindo uma criancinha boba subitamente, imaginando o quão besta eu deveria parecer aos seus olhos.
- Nossa, você parece... jovem. – falei com um riso frouxo, um tanto sem graça.
- Eu não diria que sou velho. – brincou – Tenho 28 anos. E você...? Não quero ser indelicado, mas já que tocamos nesse assunto...
- Eu tenho 21 anos. – respondi risonha – Não estou nem perto de ser gerente de nada, mas pelo menos posso beber legalmente em qualquer lugar do mundo. – brinquei quando a garçonete se aproximou novamente, deixando nossos pedidos sobre a mesa e se retirando após agradecermos.
- E vai publicar um livro! Isso é incrível. – elogiou sincero – Do que se trata?
Tomei um longo gole d’água de coco antes de responder, avaliando minhas opções. Não era como se eu fosse manter uma relação com Dinesh, então dizer ou omitir a verdade eram ambas boas escolhas. A questão principal era: qual das duas faria com que as chances de ir para a cama com o homem aumentasse?
- É um romance erótico. – respondi por fim e percebi algo no olhar do indiano mudar.
Tinha noção de que a Índia possuía uma cultura mais conservadora, mas, levando em conta de que ele havia sido criado na Inglaterra, acreditava que ele podia não seguir essa regra.
- Uau... Uma mulher de personalidade, eu diria. – falou com um sorriso de canto, molhando os lábios de modo sutil – Poderia saber de onde você tira sua inspiração para tal?
Ah, meu anjo, essa é a pergunta de um milhão de dólares, pensei. Mas a resposta não era nada interessante – eu era apenas mais uma garota interessada por erotismo, que lia, pesquisava e escrevia sobre, mas que, diferente da maioria, tivera a sorte de ter a oportunidade de publicar um livro. Na realidade, por mais que eu fosse uma escritora do gênero erótico, o sexo era apenas parte das histórias que eu contava, fazia parte do enredo, assim como fazia parte da vida.
Não que fizesse parte ativamente da minha, é claro.
- Se eu te dissesse, você não acreditaria. – respondi enigmática antes de tomar mais um gole de minha água de coco e o indiano bebeu um gole de sua cerveja, um sorriso largo e cheio de segundas intenções no rosto.
- ... Foi definitivamente o destino que fez com que nos encontrássemos hoje. – riu e eu acompanhei, negando com a cabeça, quando seu celular lhe chamou a atenção.
Ele franziu o cenho e suspirou, respondendo a mensagem antes de erguer seu olhar para mim novamente.
- Eu tenho que ir agora, mas gostaria de te ver novamente. – falava enquanto sacava a carteira do bolso, tirando uma nota de 50 reais e um cartão desta, deixando a primeira sobre a mesa e estendendo o outro na minha direção.
- Estarei à espera da sua ligação. – sorriu antes de se levantar com sua cerveja e me deixar ali, me dando tempo apenas de murmurar um tchau em resposta, apesar de estar um tanto confusa.
No entanto, logo tratei de deixar tal sentimento de lado. Dinesh parecia ser um importante homem de negócios e era provável que ele tivesse apenas recebido uma mensagem referente a trabalho ou algo do tipo – não duvidava de que essa fosse a razão de ele estar no Brasil, inclusive.
Terminei de tomar minha água de coco sozinha, imaginando diversas coisas enquanto escutava minha playlist favorita. Ao terminar, peguei minha bicicleta e segui de volta para casa, deixando para trás a nota de 50 reais e apenas imaginando a felicidade da garçonete ao se deparar com a gorjeta gorda deixada pelo indiano.
Estava me sentindo renovada. Aquela havia sido a primeira vez no dia que eu havia conseguido deixar toda a confusão causada pela noite passada de lado e ainda havia conseguido dar um passo em frente no meu plano sem sequer me esforçar para tal.
Agora eu chegaria em casa, tomaria um relaxante banho e então atualizaria Valentine antes de jantar com minha mãe para me preparar para ler e responder os comentários que esperava receber. O dia não havia sido de todo ruim, afinal.
Meu sábado havia sido salvo por um gringo.




Continua...



Nota da autora: Quem é vivo sempre aparece, não é mesmo? E cá estou eu novamente!
Não vou me estender muito na nota dessa vez, mas serei honesta com vocês:
O bloqueio continua e meu trabalho não ajuda em nada nisso.
Escrever é algo que me dá muito prazer, mas o fato de eu estar vivendo um “relacionamento tóxico” com meu trabalho tem atrapalhado meu processo criativo. Por isso eu peço mais uma vez: tenham paciência comigo. Não pretendo e não irei abandonar a Fanfic!
Espero que tenham gostado do capítulo e mal posso esperar para ler suas opiniões e palpites nos comentários. Sério! São minha maior fonte de motivação/inspiração para escrever.
Pretendo demorar menos até a próxima atualização e, até lá, vou postando novidades (inclusive mini-spoilers) no Twitter de “A Virgem”. Sigam!!!
Obrigada por não terem desistido e até a próxima! Xx
@AVirgemFanfic.




Outras Fanfics:
17. Outer Space.


Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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