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A Whisper and a Blast


Última atualização: 31/01/2017

Capítulo 1

Música do capítulo


O dia estava ensolarado. Ah, como eu sentia falta de dias assim, com o sol ardente e o calor que o acorda pela manhã. Ou não, caso seu ar-condicionado seja muito bom. Enfim.
Minhas melhores amigas e eu estávamos no melhor bar da cidade conversando sobre um monte de coisas. Eu estava com a minha câmera nova, que havia adquirido muito recentemente, tirando fotos aleatórias com seu zoom maravilhoso, esperando que a qualidade das imagens fosse realmente tão boa quanto haviam prometido que seria. Acendi um cigarro antes de voltar a me divertir com meu novo “brinquedo”.
Mirei minhas melhores amigas, pedindo um sorriso que foi concedido. Elas se juntaram um pouco mais para que todas coubessem no campo de visão da lente e deram sorrisos alegres e divertidos, um tanto jocosos até.
– Então? Como saímos? – Anne perguntou.
– Maravilhosas – falei, tirando o cigarro da boca, segurando-o entre os dedos indicador e médio e liberando a fumaça, enquanto colocava a imagem no visualizador e mostrava para elas. – O que acham?
– Só não poste no Instagram – Kelly pediu de brincadeira.
Uma música totalmente diferente da anterior começou a tocar no bar. Aquela era When The Sun Goes Down do Arctic Monkeys e eu simplesmente adorava aquela música. O ambiente foi tomado por um clima agradável no começo da música – certa serenidade nostálgica inexplicável que lembrava os anos 90 ou quaisquer anos tranquilos que a humanidade já houvesse presenciado. Ao longo da música, a animação começou a tomar conta dos frequentadores do lugar. Alguns se moviam ao som, rindo e conversando com sorrisos espontâneos nos lábios.
Logo, uma visão incrivelmente interessante entrou no meu campo de visão. A pessoa que havia escolhido a música era ela. Bonita, misteriosa, ela carregava um quê de Audrey Hepburn, o que era extremamente atraente. Vestia um shortinho jeans e uma camisa branca, além de coturnos sem salto e uma meia-calça preta. Um casaco verde-militar por cima e uma gargantilha preta. Além de tudo, tinha um excelente gosto musical, pelo menos na minha humilde opinião. Minha atenção se voltou totalmente à desconhecida e minhas amigas notaram, mas não fizeram alarde sobre isso e permaneceram conversando entre si. Elas sabiam bem que, quando eu estava em um estado de contemplação, detestava ser interrompida.
Comecei a observá-la discretamente, desviando o olhar ao ver que seria percebida por ela. Peguei minha câmera e tirei uma foto do bar em que, “por sorte”, a garota aparecia ao fundo. Tirei mais algumas, mirando seu pequeno canto em que bebia pacificamente, sem se importar com o resto do mundo. Sua postura no banco, a bebida em sua mão. Tudo ganhava um tom interessante que misturava preto-e-branco e sépia, mas que, ao mesmo tempo, ganhava cores vivas.
Havia algo de estranho naquela cena toda. Mesmo que ela se encaixasse perfeitamente à cena, era como se faltasse algo. Provavelmente mais iluminação natural, que logo foi provida pela pessoa que afastou as cortinas. Todos pareciam extremamente absortos naquele clima daquela música que se repetia pela segunda vez. Provavelmente, a jovem que a escolhera pagara por duas vezes pelo prazer de apreciar aquele som.
O fio de todo o meu raciocínio e pensamento foi brutalmente cortado pela voz suave de Leanne, que perguntou:
– Por que você não vai até ela?
Eu ri, prendendo o cigarro entre os dedos e o retirando dos lábios, soltando a fumaça e o apagando no cinzeiro sobre a mesa.
– Você sabe bem. Eu não faço dessa forma – respondi.
Leanne revirou os olhos, balançando a cabeça negativamente.
– Você complica até seu modo de se relacionar com as pessoas – ela disse. – Mas, porque sou sua amiga, eu vou ajudá-la – ela fez certo suspense, ou estava realmente se preparando para falar, não sei, antes de começar a falar novamente. – Sabe a sua garota? Ela estava com outra garota algumas semanas atrás. E depois outra totalmente diferente na semana passada. Então eu presumo que você tem duas sortes nas mãos: ela gosta de mulher e não é chegada a relacionamentos sérios.
Aquela era uma informação e tanto, o que me fez encostar melhor à cadeira e fazer a expressão de quem acaba de saber algo bombástico demais para ter uma reação mais histérica.
– Uau, sério? – perguntei entre interesse e desinteresse forçado. – Acho que essa é a minha deixa, meninas.
Levantei-me da mesa, pegando um cigarro do maço, acendendo e soltando a fumaça, antes de guardar o maço e o isqueiro no bolso de trás e pegar a câmera.
– Senhoras – fiz uma curta reverência, colocando a mão sobre a boina na minha cabeça.
Dei alguns passos em direção a ela. Eu estava presa em um misto de querer ser vista e querer aparecer de surpresa, mas ela fez questão de resolver isso para mim, olhando na minha direção e notando minha aproximação.
– Olá – falei no meu melhor tom de conquistadora que consegui.
– Olá – a jovem respondeu de volta, sorrindo de lado, virando-se para frente e bebendo um pouco da sua bebida, antes de se virar para mim novamente. – Eu vi que não está sozinha – lançou sua isca.
Dei uma risada breve.
– São todas minhas amigas – respondi, entendendo o que ela quis dizer. – Posso lhe pagar outra bebida?
O copo dela estava quase vazio, então ela me olhou com interesse.
– Você pode?
Sorri torto como ela.
– Ei, amigo, por favor, traga… – virei-me na direção dela e a deixei falar.
– O drinque de sempre – ela pediu.
– Dois drinques “de sempre” – falei.
Olhei para aquela bela jovem, cujo rosto era diferente de qualquer aparência que já cruzou meus olhos ou minha câmera antiga. Peguei-me tentando decifrar algo nela.
– Posso saber o seu nome? – minha acompanhante perguntou antes que eu conseguisse fazer o mesmo.
– eu disse de modo arrastado. O barman chegou com os dois drinques. Levei uns segundos bebendo um pouco e apreciando o sabor. Era deliciosamente doce, o que era quase estranho. Eu realmente esperava algo mais amargo. – E eu posso saber o seu?
Ela riu, brincando com seu copo.
– Não quer tentar adivinhar?
Bebi mais um pouco antes de responder:
– Sou péssima com adivinhações.
– Que pena – ela lamentou sem emoção alguma. – Eu me chamo .
– Prazer, – falei, encarando-a profundamente.
– O prazer é meu – ela respondeu, pegando um amendoim do potinho que estava ao lado dela e colocando na boca. Era uma cena e tanto.
Eu realmente quis perguntar sua idade. Ela era daquele tipo de pessoa que você não sabe se tem vinte e quatro ou dezesseis anos. O seu rosto tinha características tanto de um quanto de outro. Seu jeito por vezes infantilizado contrastava com suas expressões de mulher que sabe exatamente o que está fazendo.
notou que eu a olhava, então riu novamente quase em deboche, balançando os ombros.
– Não entendo o que você tanto olha… Mas eu gosto de como faz isso – ela disse. – Você quer me perguntar alguma coisa?
Falei um “não” sem som, negando rapidamente com a cabeça e voltando a beber. Na verdade, havia muitas coisas que eu gostaria de perguntar, mas aquele não era o momento. Não que eu soubesse quando seria o momento. Talvez fosse nunca, mas eu sabia que não era agora.
– Você é fotógrafa profissional? – ela perguntou.
– Não – respondi. – Apenas uma curiosa mesmo. Gosto de ver as coisas através de outras perspectivas que não a dos meus olhos.
Ela deu um riso anasalado.
– Entendo… – ela falou, aproximando seu rosto do meu. – Você não está bêbada, está?
– Não estou, criança – gargalhei. – Você está?
– Nem um pouco. Quer ir até o meu apartamento?
Impressionei-me. Ela era realmente rápida no que queria, mas eu não tinha certeza de que era a mim que queria. Então resolvi jogar mais um pouco.
– Hoje não posso. Tenho uns problemas para resolver daqui a pouco – falei e eu não estava mentindo. Realmente tinha coisas a fazer naquele dia inteiro.
– Então eu a espero aqui à noite – ela disse, ficando de pé e se aproximando mais, beijando o meu rosto demoradamente, enquanto apertava levemente meu ombro. – Podemos nos divertir mais tarde – ela sussurrou no meu ouvido antes de se afastar.
andou pelo bar, cumprimentando pessoas aqui e ali — a maioria eram mulheres. Então, colocando as mãos no bolso do casaco, ela se retirou de lá.
Fiquei sentada no bar e olhei para minhas amigas que comemoravam como se eu tivesse feito alguma coisa incrível. Elas acenavam para que eu me aproximasse, o que fiz.
– Então? – Tina perguntou. – O que vocês fizeram? Como foi lá com a sua nova garota?
– Ela é menor de idade? – Kelly perguntou, fazendo-nos gargalhar.
– Foi ótimo. Ela me convidou para o apartamento dela hoje à noite – respondi. – E eu não acho que seja, porque ela tem um apartamento – brinquei.
– Olhe só quem vai fazer sexo hoje – Cassie zombou. – Use camisinha.
Puxei o maço do bolso e acendi um cigarro, tragando profundamente, enquanto pensava em como as coisas aconteceram rápido. Eu não deveria acreditar em uma estranha assim. Precisava tomar cuidado. Mas ela era interessante e eu queria conhecê-la. Hoje à noite, nesse bar, tentaria saber mais sobre ela. Eu estava um pouco ansiosa, mas a garota não era a primeira desconhecida que me interessava assim do nada.
Todavia, ela definitivamente era alguém indecifrável e misteriosa e eu queria conhecê-la.



Música do capítulo

A rua estava tranquila. Era por volta das duas horas da tarde e parecia que todos estavam em suas casas almoçando e conversando, sem se importar com o que acontecia lá fora. Quase não se via viva alma caminhando. Era apenas eu ali e um carro ou outro que passava de vez em quando.
Cheguei ao parque central, sentando-me no banco e observando os brinquedos vazios. Eu quase podia visualizar as crianças que poderiam estar ali brincando como estavam no dia anterior. Ultimamente, as coisas andavam meio estranhas. Não havia nada de violento, mas essa sensação estranha acompanhava cada um a todo momento. A floresta ao lado da cidade era o que mais nos deixava apreensivos. Era como se uma “aura mágica”, segundo os mais supersticiosos, a circundasse. Fora os sons de belas vozes líricas cantando músicas na madrugada que muitos juravam ouvir e diziam ser as mais belas músicas já ouvidas por eles. Era lenda, é claro.
Peguei minha câmera, apontando para os brinquedos do parque. Tirei algumas fotos da paisagem local. Mesmo vazio, tudo conseguia ser belo por ali. Nunca parecia sem vida. Não conferi as fotos porque eram todas das mesmas coisas, então nem fazia sentido. Olhei apenas a primeira para ver como ficaria aquele lugar angelical visto pela minha lente. Então apontei a câmera novamente para a paisagem quando ouvi alguém se aproximar.
, o que faz aqui sozinha?
Eu reconheci a voz imediatamente, virando-me para a pessoa só para constatar que estava certa.
– Ah, olá, – abaixei a câmera. – Pensei que ainda estivesse fora...
– E eu estava, mas voltei há alguns dias... Senti sua falta, sabia? – ela falou, sentando-se ao meu lado.
Dei um sorriso, voltando a mirar a câmera para qualquer objeto à frente.
– Ainda obcecada por essa câmera? – comentou gentilmente, então sorriu. – Por que não tira uma foto de mim?
Fitei-a com um misto visível de surpresa e alegria.
– Mesmo? – perguntei para confirmar. – Você raramente me deixava tirar fotos suas antes!
– Eu sei e eu fiquei me sentindo mal por isso – seu rosto estava próximo ao meu. – Porque assim você não tinha nenhuma lembrança minha com você.
Seus olhos estavam se fechando conforme ela chegava mais perto, então eu a interrompi com minhas palavras.
– Você está enganada – puxei o cordão de dentro da camisa. – Eu ainda tinha isso.
ficou surpresa ao pegar em suas mãos o pingente do colar, sorrindo incrédula, olhando-me em seguida.
– Você guardou! – ela falou, abrindo-o para exibir a fotografia de um templo budista que havíamos visitado assim que entramos para a faculdade, nas primeiras férias. – Todo esse tempo... Eu jamais pensei que fosse ver isso outra vez!
Fiz uma expressão convencida de quem realiza um grande feito.
– E eu pensei que jamais fosse ver seu rosto outra vez... Por isso guardei – deixei escapar.
Ela sorriu com uma expressão de piedade que me desagradou, mas que eu deixei passar. Então nos abraçamos novamente, enquanto ela sussurrava coisas nostálgicas no meu ouvido.
– Mas já faz tanto tempo... Eu... Perdoe-me, ... Eu fui tão insensível e egoísta...
– Tudo bem, – separamo-nos do abraço e ela sorriu, deixando uma lágrima escorrer lentamente pelo rosto. – Você apenas estava seguindo os seus sonhos. Não há nada de mal nisso. Nossa amizade sempre estaria de pé.
Eu fingi não notar seu sorriso se desfazer ao ouvir a palavra “amizade”, então peguei minha câmera e voltei a mirar qualquer coisa à frente.
– Suas amigas me disseram que você está namorando... – falou.
– É? E por que elas diriam isso? – questionei.
– Não sei. Talvez porque seja verdade...
– Se você quer me perguntar algo, seja direta, por favor, . Já passamos dessa fase.
Ouvi-a suspirar pesadamente ao meu lado. Eu mesma havia criado aquela situação estranha entre nós, mas simplesmente não conseguiria disfarçar ou fingir que estava tudo totalmente bem, pois não dava mais para engolir sorrindo situações que me desagradam e forçar um sorriso compreensivo. Eu não tenho mais dezoito anos.
Eu gostava da . Gostava realmente dela. Entretanto, tanta coisa havia mudado desde a viagem dela que eu já não estava mais interessada em perder meu tempo. Nós fomos muito amigas, e poderíamos ter sido o que ela quisesse, mas foi ela quem escolheu aquele caminho. E onde estava Caitlyn agora? A pessoa por quem a garota deu tudo o que era. Engraçado como era típico de voltar para mim em suas situações menos favoráveis. Uma pena para mim eu não ter percebido isso antes. Uma pena para ela eu realmente não ser mais uma adolescente.
– Olhe... Você não quer sair hoje à noite? A gente pode andar por aí, você pode fotografar umas coisas... Podemos nos divertir, .
Pensei por uns instantes, mesmo que eu quisesse, e eu até diria sim, mas eu já havia combinado com , a garota misteriosa do bar, e não desmarcaria por .
– Foi mal. Eu já tenho um compromisso.
Ela me olhou confusa.
– Então você está mesmo namor...
– Não. Mas eu não quero falar sobre isso.
– Certo. Sobre o que você quer falar, então?
Eu fiquei em silêncio, porque eu não queria falar sobre nada. Queria apenas ficar em paz, tirar fotografias e aproveitar os momentos de calmaria daquela cidade. Apontei a lente para algum lugar, ignorando-a. notou que eu estava evitando longos momentos ou longas conversas com ela, mas não desistiria facilmente.
– Por que não tomamos um café amanhã de manhã? Isso você não pode me negar, não é? – ela insistiu.
Suspirei vencida.
– Por mim tudo bem. Pode ser às nove? – perguntei, repousando a câmera no banco, pegando meu maço, que já estava pela metade, e puxando um cigarro.
– Claro. A hora que você decidir, princesa – ela respondeu, puxando seu isqueiro diante de mim antes que eu encontrasse o meu na minha bolsa.
Aceitei a ajuda e acendi meu cigarro no fogo que queimava no isqueiro que ela segurava, encarando-a bem nos olhos, e ela fez o mesmo. Traguei sem quebrar o contato visual, esperando que ela dissesse algo, qualquer coisa. A garota sabia o quanto o silêncio me angustiava, embora eu não demonstrasse isso.
– Vejo você às nove – foi tudo o que ela falou, levantando-se e me deixando um beijo na testa.
se afastava e eu me senti estranha novamente por estar perto dela. Há alguns meses, eu juraria não sentir mais nada, então ela aparece para me mostrar que ainda é capaz de me afetar e isso me irritou.
Saí dali, andando pelos caminhos mais desertos do parque, mas que eram os mais bonitos. Parecia um cenário saído de um filme de terror quando vazio, porém era tranquilo e eu gostava do lugar. A brisa balançava as folhas das árvores de modo suave.
Então ouvi passos atrás de mim. Virei-me e vi aquela jovem novamente.
– Está me seguindo, ?
Ela sorriu travessa.
– Não mesmo, . Mas eu a vi com aquela outra mulher bonita... Ela é bem bonita – ela comentou com interesse, o que me incomodou um pouco, mas eu não disse nada sobre.
– Pensei que só a veria outra vez à noite.
– Pois é.
Ela meio que andava saltitando ao meu lado.
– Quantos anos você disse que tinha? – perguntei.
– Não disse. Vinte e um – respondeu prontamente. – E você?
– Vinte e cinco. Você parece bem mais jovem, sabia?
– É. Dizem-me isso às vezes – falou.
– Você está sempre sozinha? Digo, não tem amigos ou, não sei, família? – insisti.
– Minha mãe e minha irmã mais nova moram bem longe daqui. Não sou muito de ter amigos.
– Entendo.
– Pare de sentir pena de mim nesse momento, por favor. Eu me mudei e tenho poucos amigos porque quero. E, além disso, eu não disse que estou sempre sozinha. Companhia nunca me falta.
Dei um sorriso de canto, impressionada. Eu não tinha mais argumentos. “Ela era mesmo sagaz”, pensei, rindo comigo mesma do pensamento.
– Mas você... – ela fez uma pausa para me encarar. – Não é muito diferente. Notei que está sempre muito bem acompanhada, não é?
– Bons amigos aquecem a alma.
– E boas amigas principalmente – comentou maliciosa.
Seriam suas conversas sempre um jogo? Eu me sentia sugada para dentro da arena que ela controlava. Era como estar sempre aprisionada. Mas como eu gostava disso.
– Você disse que tinha algo para fazer. Esse “algo” era aquela mulher? – perguntou.
? – estranhei o pensamento de ser minha ocupação. – Não! Ela foi só uma coincidência. Na verdade, estou indo agora para o meu compromisso. É em um escritório bem chato e envolve pessoas ainda mais chatas – brinquei. Claro que era mentira. Eu amava o que fazia.
– Sim, entendo. Mas você não vai se esquecer de que mais tarde... – ela se interrompeu, deixando sua fala no ar.
– Não, eu não vou me esquecer.
– Vejo você mais tarde, – enfatizou outra vez o meu nome, como fizera quando chegou, aproximando-se lentamente.
Senti o calor do corpo dela e aquela estranha falta de noção, sem saber se ela ia me abraçar, se só estava chegando perto para passar por mim, se apenas colocaria a mão no meu ombro. Então segurou o meu queixo e beijou o meu rosto, alcançando levemente o canto da minha boca.
Afastou-se rapidamente, permitindo-me apenas dizer um “vejo você mais tarde, ”, pois ela já seguira seu caminho pelo lado oposto ao que eu seguia.

O dia não foi tão cansativo. Ficamos algumas horas no escritório discutindo algumas coisas necessárias, mas foi bem produtivo e até divertido, por mais estranho que pudesse ser. Se bem que, em se tratando de um trabalho que eu adorava, quase sempre era divertido.
Começava a anoitecer quando eu saí de lá. Estava tudo bem iluminado e as ruas limpas pareciam vivas, apesar da falta de pessoas. Voltei pelo mesmo caminho, notando melhor, agora, a enorme quantidade de árvores e arbustos que havia ali. Entrei no pequeno túnel novamente, saindo pelo outro lado e notando o deserto que estava aquele lugar. Ultimamente, a cidade ficava meio vazia rapidamente muito antes do pôr-do-sol e permanecia dessa forma. Confesso que isso me agradava, mas, ao mesmo tempo, eu gostava de ver as ruas cheias e os parques com mais vida.
Meu apartamento não ficava muito longe dali. Eu só precisava de um banho e descansar um pouco. Além disso, eu estava com sede. Apertei o passo e segui o meu caminho, colocando os fones de ouvido e deixando minha playlist favorita tocar. Às vezes, eu cantarolava as minhas partes favoritas. Eu me sentia parte da música que estava ouvindo quando fazia isso.
Eu já estava fora do parque, prosseguindo o caminho pelas iluminadas ruas da cidade. Após mais alguns passos, notei uma pequena sombra correndo bem longe dali. Eu mal conseguia ver. Não havia nada além disso. Apenas uma pequena sombra se movendo rapidamente. Achei meio esquisito, então apertei o passo, curiosa. Como eu estava passando por um caminho que apresentava certa subida adiante, era difícil ver exatamente o que era. Continuei subindo. Não consegui tirar os olhos do que via ao longe, ainda tentando enxergar o que era.
A cada passo, as coisas tomavam forma, até que consegui subir a rua e ver o que acontecia adiante, bem mais à frente dela. Uma fogueira estava acesa no meio da rua, as pessoas saíram de suas casas e estavam todas diante de seus gramados, conversando e comendo, enquanto as crianças brincavam e se divertiam na rua no clima de segurança.
Eu não via aquilo há tanto tempo, pois aquele era um velho hábito da vizinhança, mas haviam parado alguns meses antes por conta de boatos e outras histórias contadas por alguém, espalhadas de boca em boca até que todos ficassem amedrontados. Finalmente, me parecia, eles haviam se dado conta de que, enquanto estivéssemos todos unidos, iluminando as ruas com fogueiras, risadas, conversas e brincadeiras, não haveria o que temer. Éramos mais fortes do que as tais forças malignas ou qualquer besteira que contassem. Não havia um “lobo mau”. Entretanto, as pessoas circulavam essas coisas. Eu não sabia de nada sobre aquilo. Não era chegada a rodas de conversas mentirosas.
Cruzei a rua, cumprimentando meus conhecidos que acenavam alegremente e faziam breves perguntas. Falei com as crianças, pois conhecia a maioria, e até brinquei rapidamente, jogando a bola por cima da fogueira, lançando-a a Jamie novamente.
– Ei, pequena ! – o senhor Armstrong me chamou de modo simpático, sorrindo ao me ver. – Não a vejo há tanto tempo, mocinha!
Cocei a nuca, rindo meio sem graça.
– Eu ando trabalhando demais... Viajando também... – respondi, tentando ser tão agradável quanto ele, mas era difícil. Por mais que eu me esforçasse, eu não me comparava ao senhor Armstrong no quesito simpatia. Ele era um poço de bondade e amizade.
– Ah, sim... Essas coisas acontecem. É bom viver a vida enquanto se é jovem! – ele falou.
– Pois é...
– Por que não fica um pouco? Estamos nos divertindo tanto por aqui – ele me convidou, dando dois tapinhas no meu ombro, ainda sorrindo.
– Eu adoraria... Mas sabe como é. Tenho que encontrar uma pessoa hoje... – falei, conferindo as horas no meu celular, encolhendo os ombros e me sentindo mal por rejeitar. Até porque eu vi algumas pessoas bem interessantes por ali.
Uma bela garota que eu conhecia do bar me encarava timidamente de longe. Ela estava em uma pequena roda com outras garotas que provavelmente eram suas amigas. Dei um sorriso para ela, que sorriu de volta e logo cobriu os lábios com o copo que tinha nas mãos. Como estavam sentadas no parapeito da varanda de uma das casas, perguntei-me se era ali onde ela morava.
– Entendo, entendo... – senhor Armstrong riu, balançando a cabeça afirmativamente. – Ah, a juventude! Vá lá, . Não vou prendê-la aqui com um velho, menos ainda atrapalhar seu encontro – ele disse, dando uma piscadela.
– De modo nenhum o senhor seria um incômodo, senhor Armstrong! Eu adoraria ficar mesmo, mas eu posso vir amanhã. Que tal? Posso trazer uma sobremesa deliciosa – respondi.
– Seria ótimo! Agora vá para o seu encontro, menina! – ele falou.
Dei um abraço no meu querido amigo e acenei para as outras pessoas, lançando um olhar rápido ao lugar em que estava a garota que me interessava, então segui meu caminho.

Já anoitecera completamente quando eu cheguei a casa, mas ainda era cedo para sair. Tomei um banho morno e me arrumei, enquanto preparava algo para comer. Bebi bastante água, pois era necessário, e depois jantei salada ao molho branco e frango grelhado. Eu estava tentando ser saudável... Até que eu chegasse ao bar e enchesse a cara com todo tipo de álcool que pudessem me vender. Bem, pelo menos eu comeria o suficiente para não beber com o estômago vazio, porque essa, sim, seria uma péssima ideia.
Fiz um olhar fatal sob a maquiagem que usava e deixei meus cabelos soltos, jogando-os de lado, então “desfilei” até a porta. Eu estava me sentindo poderosa e eu queria que as outras pessoas sentissem o mesmo vindo de mim. Aquela seria a minha noite.
As ruas estavam agitadas. Já passava das dez quando eu ainda estava no meu caminho. Não resisti e parei para olhar as estrelas por alguns segundos, sorrindo com a beleza do céu. Na realidade, eu estava era perdida em pensamentos. Eu poderia ir andando, então não me importei em perder aquele tempo. Caminhei pelas ruas calorosas. E aquela mulher voltou à minha mente. havia voltado Deus-sabe-de-onde e eu me lembrei de como eu costumava gostar dela. Há uns anos, eu faria tudo por ela. Suspirei, apreciando a paisagem animada da cidade.
Encontrei com alguns conhecidos no caminho, que elogiaram minha aparência, fazendo-me sentir ainda mais confiante. Imaginei como estaria, entretanto não importava. Ela era linda de qualquer maneira, com qualquer roupa.
Ao chegar ao bar, que havia se transformado em uma espécie de boate, a música me agradou. Tinha uma batida eletrônica, mas era bem gostosa e suave. Mal entrei e já caminhei daquela forma meio dançante, mesmo sem estar bêbada nem nada. Olhei ao redor, procurando por , então fui até o bar, pois ela certamente estaria por lá. Esperei por um tempo, olhando de ponta a ponta, mas ela ainda não havia chegado. Pedi apenas água para beber. Talvez fosse ridículo, mas não queria encontrar com ela já bêbada.
Um homem bonito se aproximou e me ofereceu alguma coisa, mas eu recusei. Ele podia ser bonito, isso era inegável, mas eu gostava de mulheres mesmo, então ele não tinha a menor chance. Conversamos mais um pouco até que eu o dispensasse. Ele era persistente, mas não insistente nem desrespeitoso, então foi embora logo que eu disse que estava esperando uma garota.
Quase uma hora depois de chegar, decidi ir para o outro lado do bar. Eu havia tomado uns drinques e estava cansada de esperar. Pensei que poderia estar me esperando em outro canto. Por isso fui andando e observando atentamente, caso eu conseguisse vê-la. Contudo, dei de cara com . De um modo estranho, ela estava estonteantemente linda. O batom vermelho caía bem nela desde sempre. A cropped verde que ela estava usando com as calças jeans justas de cintura alta, que realçavam suas curvas, evidenciavam sua beleza. Talvez fosse a noite ou minha disposição para tornar aquela noite agradável, ou, ainda, talvez ainda soubesse exatamente como quebrar minhas defesas.
Eu não queria passar a noite ao lado dela. Ainda tinha uma espécie de raiva ou qualquer sentimento estranho que nos repelia, mas estava me sentindo tão idiota por estar ali procurando por uma estranha cuja única coisa que eu sabia a respeito era seu nome: . E estava inegavelmente linda, e ela estava tentando falar comigo hoje mais cedo. Eu passei o dia com aquilo na cabeça, ponderando se havia sido muito grossa ou se ela estaria com raiva de mim agora. Então decidi que não faria mal. Eu precisava de alguém que me animasse, alguém que me tirasse do tédio, fizesse algo inesperado. era exatamente essa pessoa desde sempre.
! – ela exclamou, parando de tomar a bebida em seu copo. – Então você veio aproveitar essa noite incrível aqui no bar!
Ela fez menção de se levantar, mas eu me sentei ao lado dela antes disso. Ela sorriu, ignorando por completo as pessoas com quem estava conversando pouco antes de eu chegar ali. Pediu ao barman o mesmo que ela estava bebendo e me deu.
– Deixe-me lhe pagar uma bebida em nome dos velhos tempos! – ela falou. – E, permita-me dizer, você está ainda mais linda essa noite...
Suspirei, desviando o olhar, tentando conter um sorriso de canto, porém ela já havia visto minha satisfação com o elogio. Voltei a encará-la.
– Eu estava prestes a dizer o mesmo – respondi.
Aceitei a bebida e continuamos a conversar. Ela sabia quais assuntos iniciar e quando terminar uma conversa. Era isso o que eu gostava nela. Jamais ficava um clima constrangedor de “acabou o assunto”, pois ela sabia evitar isso como ninguém. Perguntei algumas coisas e puxei alguns assuntos genéricos, mas tinha tantas coisas que eu queria perguntar a ela. Achei que não seria adequado naquele momento, portanto não o fiz.
Eu pedi mais um copo daquela bebida. Comecei a me sentir animada com o lugar e as pessoas. Olhei mais uma vez ao redor, mas não estava ali mesmo. Cheguei a dizer que ia ao banheiro como pretexto para procurá-la mais uma vez, entretanto nada de encontrá-la.
Ela pegou o celular, escrevendo qualquer coisa rapidamente, largando-o de lado logo após. Eu não conseguia tirar os olhos dela, que estava bela o bastante para me fazer esquecer de vez em quando que eu estava ali esperando por outra pessoa. Seus cabelos, sua maquiagem, as roupas... Era surpreendente ela ainda não estar beijando uma bela garota àquela altura, pois ela não era do tipo que perde tempo. Nos tempos de faculdade, costumávamos brincar que “o que quer o Universo conspira a favor, então consegue”. Não importava quem. Se gostava da pessoa de alguma forma, a pessoa gostava de de volta. Inclusive garotas que jurávamos de pés juntos serem hétero. Os affairs de eram sempre uma surpresa.
– Então, está aqui sozinha? – ela me perguntou, já sabendo a resposta. Apenas balancei a cabeça afirmativamente. riu. – Eu também. Com uma garota tão bonita como você ao meu lado, é difícil não pensar que seria maravilhoso voltar para casa acompanhada hoje.
Bem, apesar de ela ter uma lábia incrível com os outros, eu acreditava ser imune às suas investidas. Pelo menos tentava.
– Bem, eu...
Fui interrompida ao perceber a música que ouvíamos quando ainda estávamos juntas começar a tocar. Não sou ingênua. Eu sabia que aquilo era um movimento de , que conhecia a administração, organização e todos os funcionários do bar.
– É a nossa música! – ela exclamou. – Por que não dançamos essa?
Dei um sorriso de canto e ela me puxou pela mão, levando-me até o centro do bar, onde todos estavam dançando animadamente a música “We Found Love” da Rihanna.
A princípio, eu não gostei tanto da ideia. Apesar de tudo, ainda havia algo de estranho entre nós, por mais que ela conseguisse quebrar o clima tão facilmente, fingindo que nada havia acontecido. Queria muito conseguir fazer o mesmo, fingir que nada havia acontecido realmente, mas não era assim que as coisas funcionavam para mim. Era difícil fingir que o tempo havia parado anos atrás e agora estávamos retomando daquele ponto. Ainda assim, talvez pela bebida – que era até fraca, mas eu tentei mentalmente culpar algo –, talvez pelo meu desapontamento por meu encontro ter furado comigo, eu estava disposta a me deixar cair nas conversas de novamente.
Dançamos animadamente na pista de dança. Nossos corpos e rostos estavam próximos o bastante e nossas respirações, misturadas. estava na minha mente e eu não queria deixá-la ir. Senti suas mãos na minha cintura enquanto eu continuava a dançar, então coloquei as mãos na nuca dela e a beijei. Foi impulso, foi repentino, mas eu queria muito fazer aquilo.
Várias músicas vieram após isso e continuamos a dançar algumas. Parando uma vez ou outra para beber, álcool ou água, ou descansar. Beijamo-nos outras vezes e eu quase havia me esquecido de como aquela garota beijava bem. Mais algumas bebidas, uns amassos e músicas, e logo estávamos na saída do lugar, fumando o meu cigarro favorito.
E do bar, estávamos em um táxi. Do taxi, estávamos na minha casa. As luzes estavam todas apagadas, mas não nos importamos. Fazia muito calor lá fora e estava ainda mais quente no meu quarto. Nossos lábios e mãos se misturavam no breu do lugar. Eu não queria mais pensar no passado. Não éramos mais as mesmas pessoas que fomos. E, por isso, eu não queria mais pensar em nada.
– Você tem certeza de que quer fazer isso, princesa? – ela perguntou, dando uma risada.
– Sshh – calei-a antes de nos beijarmos novamente.

A primeira coisa que vi foi o meu quarto iluminado. Fiquei alguns segundos sem me mover até que a noite anterior voltou à minha mente. Dei um sorriso, lembrando-me de e eu no meu quarto, para variar.
Olhei por cima do ombro imediatamente para encará-la, mas me surpreendi ao me deparar com uma cama vazia. não estava mais lá, como ela às vezes fazia.
Suspirei, sem desfazer o sorriso, com aquela garota nos meus pensamentos. Logo depois disso, mentalizei várias vezes que eu não deveria me apaixonar novamente por ela, entretanto seria um esforço e tanto.
Levantei-me e tomei um banho rápido. Fazia calor, então o banho precisava ser frio mesmo. Havia algumas marcas no meu corpo que me lembravam da noite anterior e como eu gostava daquilo.
Então olhei para o meu pulso e me voltou à mente uma cena da noite anterior, pouco depois de tudo, quando nos deitamos na cama e ficamos nos olhando, trocando carinhos. Eu disse a ela que não tinha seu telefone mais, então beijou aquela parte do meu braço, dando uma mordida que deixou uma marca e disse que me daria seu telefone. Entretanto, eu não vi nada no meu quarto. Nenhum papel, nada. O que era bom, pois eu certamente ligaria e estragaria tudo com algumas palavras idiotas. Eu sempre fazia isso.
Ainda assim, dessa vez eu sentia que algo estava diferente. Talvez estivéssemos mais maduras, talvez estivéssemos menos apegadas ao sentimento de relacionamento. Era apenas algo que acontecera em uma noite agradável e que poderia se repetir, e isso era maravilhoso.
Fui até a sala de estar, onde tudo estava exatamente como eu deixara ao sair na noite anterior. Nenhum papel, bilhete, nada. Dei um sorriso novamente. Era bem o estilo dela mesmo. não saía da minha mente e, pela primeira vez em muito tempo, isso era algo bom.
Ela havia deixado um café da manhã delicioso pronto junto de uma maçã, pois ela dizia que eu precisava comer mais frutas nos tempos de faculdade, então me lembrei do seu convite para tomar um café às nove. Bem, não pudemos tomar o café juntas, mas ela não havia quebrado com o convite. Ali estava o cappuccino que ela sabia que eu adorava e que ela fazia muito bem.
Senti meu coração falhar uma batida ao me lembrar do sorriso dela enquanto estávamos deitadas na cama. Seus olhos intensos e doces penetrando os meus.
Talvez e eu novamente juntas não fosse uma má ideia.
Sentei-me e fiquei mexendo no computador enquanto comia a maçã. Eu só precisava trabalhar mais tarde e eu ainda tinha muito tempo. Era bem cedo. Fiquei procurando eventos legais para aproveitar durante a semana. Era a época dos festivais e reuniões de rua entre os vizinhos, como a que acontecera ontem, e as pessoas pareciam bem animadas esse ano. Talvez tivessem deixado as “lendas” de lado.
Minha campainha tocou. Eu tinha certeza de que era Leanne, que ficou de vir para pegar umas fotos que eu havia tirado. Falei um “já vai”, indo até a porta para atendê-la. Ao abrir, no entanto, deparei-me com outra pessoa. Fiquei surpresa com a visita que estava à minha porta.
, e aí?
Eu fiquei parada, boquiaberta.



Continua



Nota da autora: Depois de tanto tempo, aqui está mais um capítulo! Antecipem bastante o próximo, por favor. Eu enviarei sem demora! Meu Twitter é @chansonpourtoi, para conversar comigo, saber como vão os capítulos da fic, etc. Beijinhos!


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