PROLOGUE
— Camila, a Lauren chegou! — ouço Sofia gritar do andar de baixo.
Levanto de um pulo, pego minha mochila e a jogo em apenas um dos ombros. Saio do quarto em direção à sala, no andar de baixo, passando pela cozinha para dar um beijo breve em minha mãe e outro em Sofia, que faz cara de nojo, limpa o local e volta a atenção para o celular em suas mãos em seguida.
Respiro fundo antes de abrir a porta de casa e, assim que o faço, meu coração dispara, como acontece todas as vezes em que vejo Lauren desde a primeira vez. Sua caminhonete azul está estacionada bem em frente ao meu jardim, e ela relaxa o corpo na lataria.
Seus cabelos negros estão crescidos, e ela os joga para trás de tempos em tempos, bagunçando os fios e ganhando aquele ar de "não estou nem aí" que ela exala a maior parte do tempo. A camisa cavada nas laterais deixa o sutiã rendado exposto, o que faz minha pele queimar, e meu corpo inteiro fica quente.
Porque é essa a sensação que Lauren Jauregui me causa.
A calça jeans preta, surrada e com cortes nos joelhos, beija as curvas dela com perfeição, e o par de All Star surrado completa o look.
O cigarro que ela traga é jogado no chão e apagado com a ponta do tênis assim que me vê. Seus lábios rosados, na intensidade certa, soltam o resto da fumaça no ar e se curvam em um sorriso perfeito. Meu coração volta a dançar em meu peito, e algo parece criar vida em meu estômago.
Eu a amo.
Amo muito.
Lauren não faz ideia de todas as sensações diferentes que consegue me causar com um único sorriso — ou talvez saiba, e por isso o faça sempre que estou por perto.
— Oi, meu bem — diz, vindo até mim.
Seus lábios tocam os meus, e o gosto de fumaça e menta que sua boca tem me invade. Se me perguntassem como é o paraíso, eu diria que os lábios de Lauren Jauregui resumem muito bem.
Ela pega minha mochila e abre a porta da caminhonete para mim. Assim que tomo meu assento, ela fecha a porta e, parada do lado de fora, me encara.
Céus, aquilo com certeza é a visão do paraíso. Do meu paraíso.
Seus lábios novamente se curvam em um sorriso mínimo e, sem conseguir me conter, me curvo pela janela e junto novamente nossos lábios. Eu posso fazer isso por incontáveis horas e nunca me canso.
Nos últimos meses, minha vida se transformou em algo que nunca imaginei. Logo eu, que sempre tenho tudo planejado, todos os mínimos detalhes da minha vida sob controle, me vejo perdida quando ela aparece e leva tudo abaixo.
Lauren é a representação de tudo o que eu não consigo premeditar. É o total oposto de mim. Dos pés à cabeça, somos completamente diferentes, e talvez isso seja o que me faz querer tanto entendê-la. A maior bagunça que já vejo na vida: é marrenta, idiota, grossa, boca suja, briguenta, cabeça dura — e muitas outras coisas que eu posso listar — mas o irônico de tudo isso é que, apesar de todos os defeitos, de toda a incompatibilidade e toda a bagunça, estou completamente, indiscutivelmente, irremediavelmente apaixonada por ela.
FIRST DAY
SE NESSE MOMENTO ME PERGUNTASSEM QUE SUPER PODER EU GOSTARIA DE TER, A RESPOSTA SERIA SIMPLES E BREVE: Eu gostaria de ler mentes.
Assim poderia encarar cada olhar curioso sobre mim e saber exatamente o que estavam pensando enquanto me olhavam.
— Tem certeza de que não quer que eu entre com você? — A voz da minha mãe soa preocupada e me arranca instantaneamente do meu subconsciente. Pisco, controlando o turbilhão de pensamentos que me envolve naquele instante. Quando ela não recebe resposta, retira o cinto de segurança. — Tudo bem, vou entrar com você.
Desliga o carro e faz menção de sair.
— Não, mãe! — Empurro a porta, fechando-a novamente. Ela se apoia na janela. — Estou bem. — Sorrio. Ao menos, esperando ser convincente.
— Tem certeza?
Não, eu não tenho. Mas sei que não quero minha mãe me levando até a sala no primeiro dia após as férias de verão, na minha nova escola.
Assinto e observo enquanto ela ainda parece ponderar.
— Preciso entrar, senão vou me atrasar.
Não consigo evitar quando ela sai do carro e me envolve num abraço apertado.
— Mãe, é apenas o primeiro dia de aula numa nova escola, não é como se eu não fosse voltar pra casa no fim do dia.
Ouço minha mãe fungar?
— Mãe? — Céus, ela está chorando… — Mãe, por favor!
Ela me solta, e peço mentalmente aos céus que sua maquiagem antes perfeita não tenha borrado minha camisa branca.
— Boa sorte, querida. Me ligue se precisar de algo.
Concordo e dou um beijo de despedida em sua bochecha úmida.
— Tchau, mãe.
Aceno enquanto observo a Land Rover 2003 grafite da minha mãe dobrar a esquina e sumir do meu campo de visão.
Então é isso. Estou sozinha agora. Primeiro dia de aula, em uma nova escola. Isso soava tão mais simples quando eu tinha cinco anos e, dez minutos depois de entrar, já fazia amigos inseparáveis.
Encaro meus tênis e meu estômago se revira. Sinto saudades de casa, das minhas amigas que sempre me esperavam no portão, pontualmente às sete e meia. Sinto saudades do Shawn, do sorriso dele ao me ver e dos lábios macios nos meus em um beijo de bom dia.
Bem, tudo isso agora se resume a lembranças. Agora, eu sou Camila Cabello, a novata, sem amigos.
Caminho seguindo o fluxo de alunos que entra pelos portões principais. Os olhares se voltam para mim, o que me incomoda, já que odeio chamar atenção.
O movimento é constante, mesmo sendo apenas sete e quinze da manhã. Ninguém parece exatamente preocupado com o fato de que as aulas começam em quinze minutos. Estão todos muito ocupados matando a saudade e contando como foram as férias de verão.
— Gotta let it happen, so let it happen… — Cantarolo junto com Hayley, que canta Last Hope em alto e bom som nos meus fones de ouvido. Essa é minha única alternativa: deixar acontecer.
Cruzo a porta dupla de madeira da entrada do prédio principal. O barulho é uma mistura de risadas, conversas, gritos. E posso jurar ouvir som de rodas como um carrinho?! Todos parecem ter decidido falar ao mesmo tempo, criando um grande burburinho onde nada é realmente compreendido, a não ser que você esteja envolvido na conversa.
Suspiro, tentando conter a pilha de nervos dentro de mim.
Caminho por entre a multidão de alunos, seguindo o pequeno mapa improvisado que alguém da secretaria entregou à minha mãe para me ajudar.
O som alto do sinal ecoa, e todos os que estavam espalhados pelo pátio se apressam em direção às salas. Preciso de muita força de vontade para me esgueirar por entre todos até alcançar meu destino inicial.
Mordo o lábio nervosamente quando finalmente encontro a secretaria. Ajeito a mochila no ombro e encaro a parede de vidro que separa o corredor da parte interna da sala.
Consigo ver o extenso balcão onde uma mulher, aparentando quarenta e poucos anos, apoia os cotovelos na madeira enquanto encara outra pessoa por cima dos óculos.
A figura de costas para mim tem cabelos longos e pretos e uma postura relaxada. Meus olhos seguem horrorizados pela quantidade exagerada de tatuagens que cobrem seus braços, expostos por uma blusa preta. A tinta escura se destaca na pele clara.
Ela parece discutir com a mulher do balcão, que apenas balança a cabeça negativamente.
Decido entrar de uma vez. No exato momento em que cruzo a porta giratória, a garota tatuada se vira para sair.
Sabe aquele momento em que você encara algo ou alguém e sua mente diz para parar, mas seus olhos ignoram o aviso? É exatamente assim que me sinto quando os olhos incrivelmente azuis da garota encontram os meus.
Entramos e saímos pela mesma porta. Meus olhos analisam seu rosto, indo do piercing metálico preso ao lábio até voltar para os olhos. A porta gira devagar demais.
— Posso ajudá-la? — Minha mente retorna rapidamente à sanidade após o episódio estranho.
Encaro a mulher atrás do balcão, que exibe um sorriso discreto nos lábios vermelhos. Me sinto estranhamente tonta.
Minha mão vai até a testa, tentando acalmar a confusão. O que acabou de acontecer?!
— Eu… hã… Eu sou Camila… Camila Cabello. Fui transferida de Miami.
A senhora espera pacientemente eu terminar, depois assente.
— Ah, sim. Estava à sua espera, senhorita Cabello.
Sorri novamente e pega uma pasta azul, me fazendo lembrar da garota tatuada. Eu nunca vi olhos azuis naquele tom, com um brilho tão único.
— Senhorita?
Quando volto a encará-la, vejo no crachá abaixo da foto o nome: Lucie. Ela está parada perto da porta. Franzo a testa, confusa.
O que há com você, Camila?!
— Pode me acompanhar? — Aponta com a pasta para a porta. Assinto e a sigo.
Os corredores agora estão mais vazios. Apenas alguns alunos passam, provavelmente atrasados.
Caminho em silêncio ao lado de Lucie, ouvindo apenas o som dos saltos dela contra o piso. Paramos diante dos armários. Ela procura algo e, por fim, encontra.
— Bom… certo, número 118. Esse é seu amigo até o fim, senhorita Cabello.
— Camila… — Ela arqueia uma das sobrancelhas pintadas. — Pode me chamar apenas de Camila.
— Ok, Camila. Esta é a combinação do seu cadeado. E aqui… — Ela puxa uma folha da pasta. — Estão seus horários.
Me entrega uma pequena palheta com números e a folha.
Apenas balanço a cabeça afirmativamente. Certo. Tenho meus horários e um armário. Nada mal para um primeiro dia, não é?
Ouço atentamente Lucie falar sobre as regras da escola: atrasos, bebidas, drogas, relações extremamente afetivas nos corredores… tudo o que não é tolerado.
— Aqui, sala 28, sua primeira aula: Literatura. Seu professor é o senhor Sherman.
Olho pela janelinha da porta e meu coração acelera ao ver a sala lotada. Lucie bate levemente e entra. Minhas bochechas queimam quando todos se viram para olhar.
Ela explica ao professor, um homem de cabelos grisalhos e óculos finos apoiados na ponta do nariz. Ele sorri cordialmente e aperta minha mão.
Quando me dá espaço para entrar, respiro fundo. Meus pés parecem pesar toneladas.
A porta se fecha atrás de mim. Meu olhar percorre os rostos à minha frente e se prende à figura sentada na última fileira. A garota ri com outras colegas, ignorando minha chegada. Eu gostaria que todos estivessem como ela.
Depois de encará-la tempo demais, uma loira ao lado cutuca a morena tatuada, que finalmente me olha.
Ela apoia o lápis nos lábios, o sorriso desaparece e dá lugar a uma expressão quase hostil.
— Ok, finjam ser educados e deem boas-vindas à nossa nova aluna. Ela se chama Camila e veio de Miami. — o professor diz em tom descontraído.
— Achei que a galera de Miami fossem meio que… bronzeadas?! — Uma voz feminina provoca, me fazendo encarar novamente o fundo da sala.
Dessa vez, vejo a garota alta sentada ao lado oposto da loira. Ela exibe um sorriso debochado, como se sua piada fosse inédita.
— Preferia que tivesse se mantido calada senhorita Jenner! — Sr. Sherman alerta arrancando um "uh" coletivo dos demais da sala. — Pode se acomodar onde achar melhor Camila, vou providenciar um exemplar pra você do livro que estamos analisando — Usa um tom amigável quando se refere a mim. — Mas agora, preciso de alguém que possa ajudar Camila a se situar um pouco e deixá-la acompanhar a leitura. — Vira-se para a turma. Uma mão se levanta e encaro o garoto de cabelos levemente crescidos e cacheados. — Obrigada, Harry.
Caminho até o ele e sento na cadeira ao lado. Coloco minha mochila no chão tirando de lá apenas meu caderno e canetas.
— Sou Harry Styles. — O rapaz sorri gentilmente e só então percebo a cor profunda do verde de seus olhos esmeralda.
— Sou Camila. — Ao me ouvir ele maneia a cabeça fazendo seus cachos balançarem.
— Eu sei, o professor disse, acho que agora todos da sala sabem. Então, se não queria passar despercebida, seu plano falhou. — Ele sorri e senti o peso no meu peito se esvair um pouco, haviam covinhas adoráveis em suas bochechas.
A leitura que estava sendo feita era do livro Romeu e Julieta. Por sorte, eu já havia lido no mínimo umas quinze vezes o que me deixou um pouco melhor durante a aula.
Harry, o garoto dos cachos, me contou algumas coisas sobre a aula e o que já havia sido dito até o momento de minha chegada.
As duas aulas de literatura foram menos pavorosas do que eu pensei. A terceira aula, biologia, foi boa, levando em conta que eu era péssima na matéria. Harry me convidou para passar o intervalo com ele e sua turma e eu claro, não tinha milhares de opções para recusar a oferta.
— Preferimos comer no jardim, tipo, ao ar livre e tal… — explica enquanto caminhamos para fora do prédio e vamos até a área coberta de grama na frente da escola. Paramos a alguns metros de um grupo formado por três garotas e um garoto que estão sentados na grama. — Bem, vamos lá, aquela, é Allyson Brooke — Aponta para a menor vestida com um uniforme de líder de torcida. — Ela é do tipo religiosa-virgem-liberal — diz e acompanho ele em uma risada.
— Religiosa-virgem-liberal?! — Repito, e ele controla o riso.
— Os pais dela são religiosos roxos e tentam fazer com que Ally siga o caminho da luz já que o pai dela é pastor. — Meus olhos se arregalam um pouco com as informações. — Mas, lá dentro ela quer liberar algo, sabe como é, os hormônios falam mais alto na nossa idade, e Ally, não é lá a santa que os pais querem, mas se esforça pra isso.— Rimos mais uma vez — Ao lado dela está Dinah Jane, é a nossa artista, segundo o que ela diz um dia vai ganhar um Oscar e nos levar a premiação como seus empregados!
— Uau! — falo realmente impressionada. — ela deve ser boa então.
— Sim ela é, vai ter a chance de vê-la atuando já que faz parte do grupo de teatro da escola! — assinto e ele continua. — Ao lado dela está Normani Kordei a CDF! Ela é um gênio, não há nada que Mani não saiba, incluído as fofocas mais quentes! — A última parte é dita em um tom um pouco mais baixo como se para ninguém mais ouvir.
Concordo positivamente analisando cada uma e meu olhar para no garoto rindo junto delas.
— E ele quem é? — Aponto para o rapaz de topete e óculos escuros que tem um cigarro aceso entre os dedos.
— Ah, aquele gato maravilhoso ali é Louis Tomlinson, meu namorado! — Harry diz parecendo muito orgulhoso de suas palavras e um sorriso tímido surge em seus lábios fazendo pequenos furinhos surgirem de cada lado.
— Oh! — É tudo o que consigo dizer quando voltamos a caminhar em direção a eles.
Examinei Harry por alguns instantes enquanto nos aproximávamos do grupo. O garoto era tímido, porém sabia interagir muito bem, e parecia meio fechado a seu pequeno grupo de amigos. Exatamente como eu costumava ser com meus amigos.
— Hazz! — O garoto de óculos sorriu ao ver o namorado. Harry parou para cumprimentar os quatro ali sentados e me senti um pouco invasiva, o que me levou a ficar de pé a uma distância razoável deles.
— Camila, vai ficar aí de pé? — diz o de cabelos cacheados, já acomodado entre as pernas do menor.
— Faltamos uma única aula e você arruma uma nova amiga? — diz a garota negra, me encarando através de seus óculos de gatinho.
— Permitam-me apresentar Camila Cabello, a transferida! — diz Harry, em um tom cômico, e os cinco começaram a bater palmas como se ele tivesse acabado de apresentar alguém famoso. Meus lábios se permitiram curvar-se em um breve sorriso e me aproximei me sentando ao lado deles.
— Nossa garota você é linda! — diz Dinah, me olhando e tocou eu rosto com a ponta dos dedos. — Olhem essa pele!
Com um sorriso fraco nos lábios encarei o chão e a grama crescida.
— Porque exatamente me deixaram três aulas? — Harry questiona.
— Desculpe anjo, mas eu estava no ensaio das cheers! — A tal Ally diz fazendo bico.
— Eu estava na biblioteca, havia esquecido de devolver um livro e quando entrei lá… bem você sabe é difícil largar tudo pra ir a uma aula. — Normani disse soltando um suspiro.
— Eu estava de ressaca e dormindo. — O namorado de Harry diz agora revelando os olhos magnificamente azuis.
Estava começando a pensar que essa cor estava me perseguindo hoje.
— Então Camila, por que foi transferida? — Ao ouvir meu nome ser pronunciado e sou trazida a realidade.
— Minha mãe, precisamos nos mudar por causa do trabalho dela. — Resumo.
— Com o que exatamente ela trabalha? — Encaro Normani que tinha um sorriso simpático.
— Ela é bióloga. — Respondi breve.
— Lou quer ser biólogo! — Harry aponta para o namorado.
— E de onde vocês se mudaram? — Agora Ally a líder de torcida-religiosa-virgem-liberal questiona. Eu tive que segurar um sorriso quando a encarei e lembrei da explicação sobre ela que Harry havia dado.
— Uh, bem, nós nos mudamos provisoriamente durante as férias para o Havaí, porém morávamos em Miami, e do Havaí viemos para Londres. — Falando em alto e bom som foi estranho porque senti mais falta de casa e de todos. E quando olhei para aquele grupo de amigos senti ainda mais falta dos meus.
— Uau, quantas mudanças! — Louis parece tocado com minha situação momentânea.
— Mani! — A voz vinda de fora do grupo chamou a atenção de todos ali. Olhando na mesma direção que os outros, meus olhos avançaram novamente até a garota tatuada acenando em nossa direção. Ela estava sozinha agora e um cigarro estava aceso entre seus dedos.
Normani prontamente levanta ajeitando o vestido e caminha em direção a quem a chamou.
— Quem é ela?— Minha boca pronuncia as palavras antes que conseguisse pensar em mantê-las para mim. Foi estranho e percebi isso depois que os olhares do grupo estavam sobre mim.
— Aquela é Lauren Jauregui, o tipo de pessoa nas quais pessoas normais como nós não gostaremos de nos relacionar. — Ally responde como se aquilo fosse simples e meus olhos foram até a garota. As tatuagens estavam mais visíveis agora por causa da luz do sol contra sua pele clara deixando os riscos pretos em destaque.
— Por quê? — Minha boca mais uma vez se antecipou e me amaldiçoei mentalmente por isso. Desde quando eu era do tipo que falava coisas sem pensar?!
— Porque ela é do tipo que todos acham legal, mas, na verdade, tudo o que ela quer é chamar atenção. — Ally revira os olhos, enquanto os meus vão até a garota tatuada, que agora tem um nome, sobrenome e as duas amigas abraçadas em seu pescoço.
— Espero que não esteja falando mal da Lauren de novo, Ellie! — Só então percebo que Normani volta ao seu lugar na roda.
— Lauren é a melhor amiga da Normani. — Dinah murmura pra mim com certeza notando a confusão que deveria estar estampada no meu rosto.
Harry e Louis apenas riem da situação.
— Lauren avisou que as Jenner vão dar uma festa. — Normani avisa comendo algo de um pacote em suas mãos.
— Kendall havia comentado, mas achei irrelevante, porém preciso beber. — Louis recoloca os óculos de sol e começa a brincar com os cachos de Harry.
— Nós vamos, claro! — Dinah diz por fim.
Observo enquanto uma pequena discussão sobre eles iriam ou não a festa se forma. Foi engraçado em alguns momentos, inclusive quando Harry comentou que da última vez, Allyson havia experimentado pela tequila a primeira vez, o que resultou em uma garota bêbada dançando em cima de uma mesa, tentando tirar a roupa.
Nas duas últimas aulas de química, todos fomos para o laboratório. Ao entrar na sala, alguns alunos já estavam lá acomodados nas bancadas. Senti-me presa em meio a dúvida entre sentar ou não perto deles, até que Normani me arrasta para junto e sentamos todos em uma mesma bancada.
A professora entra, e aguarda estarem todos em seus devidos lugares, então começa:
— Bem-vindos de volta. Espero que tenham usado as férias para limpar a mente pois este ano não será fácil. Vocês terão muitos trabalhos pela frente! — Caminha até a frente de sua mesa e apoia-se na superfície. — As regras são as mesmas de sempre, sabem que não tolero atrasos, odeio ser atrapalhada e nã… — Antes que ela terminasse sua fala, a porta da sala foi aberta e Lauren Jauregui apareceu ofegante na porta e logo atrás suas amigas.
— Foi mal aí, professora. — A voz da garota tatuada soou muito diferente do que eu imaginava. Mais doce do que parecia, Lauren parecia grosseira demais para ter aquela voz.
— Senhoritas Jauregui, Delavigne e Jenner, permitam-me saber, onde estavam? — A professora cruza os braços sobre o peito.
— Acho que a senhora não vai querer saber… — A loira amiga de Lauren diz comicamente arrancando risadas de alguns.
A professora revirou os olhos quase da mesma forma que eu.
— É o primeiro dia de volta às aulas, então darei um desconto, mas espero que não se repita — diz a mais velha, e duas das três garotas assentem.
A aula não foi mais que o esperado. Por ser o primeiro dia de aula, a professora Smith, preferiu detalhar o cronograma do que aconteceria no decorrer do ano.
Depois de passar em meu armário, Harry, Louis, Normani, Dinah e eu fomos até a saída, onde encontramos com Ally.
— Vamos ao Starbucks? — A sugestão de Allyson pareceu ser bem-aceita por todos.
Então viraram-se para mim.
— Vamos, Camila? — Harry me encara.
— Bem eu… — Olho para o pequeno relógio em meu pulso. — É que eu preciso ir pegar minha irmã na escola, mas ainda tenho algum tempo. Acho que tudo bem.
Normani e Louis são os únicos que têm habilitação e um carro, então nos dividimos. Harry e Ally foram no carro com Louis, enquanto Dinah e eu nos acomodamos no pequeno, mas confortável, fusca conversível de Normani.
O caminho foi cheio de perguntas. Era claro que elas viriam — o que eu esperava? Entrar em um grupo de amigos que estudavam juntos desde o sétimo ano e achar que não iam querer saber mais sobre mim?
A verdade é que sim, eu preferia que não perguntassem. Sempre me senti mais confortável observando do que falando sobre mim. Chegamos ao local cerca de cinco minutos depois dos outros, já que Normani precisou parar para abastecer.
Entramos no Starbucks e os três já haviam escolhido uma mesa que até onde entendi era "a mesa de sempre" deles.
Depois de uma breve conversa sobre a demora, fomos fazer nossos pedidos. Enquanto aguardávamos, me permiti olhar ao redor e ver alguns rostos "conhecidos" da escola.
— Vai à festa com a gente, não é? — Normani questiona aleatoriamente e todos me olham. Quase me engasgo com meu frappuccino de morango pela pergunta inesperada.
— Bem eu… não sei… — Eu realmente não sabia, já que não estava esperando ser convidada a ir para uma festa no primeiro dia de aula. Mas também não esperava estar em um grupinho.
— É claro que ela vai! — Harry parece decidido, como se aquela resposta colocasse um ponto final no assunto.
— Amanhã tem aula, essas festas não deviam acontecer no final de semana? — Ao perguntar, me sinto meio envergonhada quando eles compartilham uma risada.
— Se tem uma coisa que você precisa aprender agora, Mila, é que não existe dia ruim para festejar. — disse Dinah calmamente, e sou pega de surpresa pelo apelido.
Assinto para o que foi dito, e enquanto falávamos sobre eu ir ou não à festa, olho brevemente o relógio no pulso de Normani, sentada à minha frente. Em um pulo desajeitado, me pondo de pé e encaro meu próprio relógio.
— Caramba, eu esqueci da minha irmã! — Me abaixo para pegar minha mochila.
— Minha nossa, esquecemos disso! — Normani dá um tapa na própria testa.
Sofia era o tipo que odiava atrasos, e eu odiava me atrasar; por isso, sempre nos demos bem. Mas hoje, especialmente, eu havia me esquecido dela, e ela deveria estar uma fera. Pedi mentalmente aos céus que ela não tivesse ligado para mamãe, porque aí sim, teríamos um grande problema.
— Preciso ir! — Apressadamente, jogo minha mochila no ombro enquanto digito uma mensagem para Sofia.
— Hey, Camila, Louis pode te levar de carro! — Harry alerta, e Louis prontamente concorda. Analisei a hipótese por alguns instantes, eu não tinha exatamente muita escolha já que haviam alguns quarteirões entre mim e Sofia.
— Tudo bem! — Louis se levanta dando um beijo rápido de despedida em Harry e saímos do estabelecimento às pressas, dando apenas tempo de ouvir Normani gritar:
— Ligue assim que estiver tudo bem! — Não soube exatamente com quem ela havia falado, mas acenei positivamente para ela, minha mente decidiu que era irrelevante pensar nisso naquele momento.
Mando mais algumas mensagens para Sofia, esperando uma resposta que não veio. Então, disco pela primeira vez para seu número, que cai direto na caixa postal. Meu coração começa a acelerar. Se algo tiver acontecido por conta do meu atraso, nunca vou me perdoar.
— Obrigada mesmo, Louis! — Agradeço enquanto o carro dele para em frente à escola que eu havia informado. Por sorte, ele conhecia uma atalho, já que sua irmã do meio também estuda lá.
— Não precisa agradecer! — Sorri de lado, enquanto desço do carro e vou em direção a entrada da instituição.
Ao chegar me deparo com a entrada vazia — é tarde para os alunos da manhã estarem lá e muito cedo para os da tarde.
— Com licença, sabe informar se há mais algum aluno ainda aí? — Tento olhar o interior do local por cima do ombro do homem de meia idade parado à minha frente
— A última aluna saiu acompanhada a mais ou menos trinta minutos. Não há mais alunos da manhã por aqui! — Meu estômago se revira enquanto agradeço ao homem e tento mais uma vez ligar para Sofia.
Encaro Louis parado a centímetros de seu carro.
— Posso pedir só mais um favor? — Sabia que estava sendo abusada demais em pedir ainda mais dele, porém Louis era minha última esperança antes de ligar para a minha mãe e passar todo o meu desespero pra ela.
Enquanto Louis dirige rumo à minha casa, digito várias outras mensagens e tento ligar para ela novamente. A cada vez que eu ligo e a ligação cai na caixa postal meu desespero se multiplica.
Assim que ele para, disparo para fora do carro, e Louis me acompanha. Abro a porta e a sala está vazia.
— Me dê um minuto, pode ficar à vontade! — Esperei que ele entrasse fechando a porta. Jogo minha mochila no sofá correndo escada acima, em direção aos quartos. As batidas aceleradas do meu coração em desespero foi a zero quando Sofia sai sorrindo de seu quarto junto com uma garota. O sorriso de Sofi sumiu quando ela percebeu minha presença e minha expressão de desespero se dissipando aos poucos.
— Aí, meu Deus, Sofia! Me desculpa mesmo, acabei me atrasando! — A garota de apenas quinze anos era do tipo adolescente que adiava o mundo ao seu redor; por isso, se trancava no seu. Quando a apertei em um abraço, ela bufou, não retribuindo o gesto como o esperado.
— Você demorou. A mãe da Fizzy me ofereceu uma carona até aqui, e como não foi me buscar, subjuguei que não estava em casa. Então ela perguntou se podia ficar comigo até você chegar. — Explicou, apontando a garota parada atrás de si pelo pouco espaço do corredor.
— Muito obrigada, Fizzy. Agradeça à sua mãe por mim. É um prazer conhecê-la, sou Camila!
— Ela é a sua irmã certinha e controladora? — Fizzy diz, e junto as sobrancelhas com suas palavras ditas tão calmamente. Encarei Sofia que explodiu em uma gargalhada.
— Acho que vou ligar para mamãe e pedir pra ela vir me buscar agora — Fizzy saca o celular, e Sofia assente.
— Posso preparar um lanche pra nós enquanto isso.
Assim que a ideia é aceita por ambas, seguimos de volta para a sala. Enquanto descia as escadas vi Louis parado perto da porta, olhando alguns porta-retratos na mesinha de canto.
— Está tudo bem, Louis! — Digo, e ele se vira arregalando os olhos em seguida.
— Félicité? — Inclinou levemente a cabeça para o lado.
— Louis? O que faz aqui? — Giro meus calcanhares para encarar a garota depois que faz seu questionamento.
— Eu vim ajudar Camila a procurar a irmã dela? — soa ainda em tom de dúvida.
— Eu vim esperar a irmã da Sofi com ela. — Por que, de repent,e algo na expressão da garota ali parada me lembrou tanto Louis?!
— Espera... Ele é o seu irmão? — Sofia diz, e finalmente algo fez sentido naquela situação.
Fizzy assente, ainda parecendo tentar organizar a situação em sua mente.
— Bem, parece que não vai mais precisar chamar a sua mãe afinal. — Sofi dá de ombros e, Fizzy concorda.
— Mas ainda vou fazer nosso lanche. — Digo, e enquanto Fizzy sorri simpaticamente, Sofi revira os olhos e seguimos para a cozinha.
Fizzy mostra-se uma garota muito ativa. Enquanto conversamos, ela deixa um pouco da timidez inicial e começa a soltar-se mais. Durante o lanche, Sofi conta como foi seu primeiro dia e como ela e Fizzy acabaram se esbarrando — e, dessa forma, descobriram que partilhavam da mesma leitura do livro Um Dia, então não se desgrudaram desde então.
Louis e Fizzy, como veteranos nas escolas onde estudamos, começam a falar sobre coisas que aconteceram no decorrer do ano, e eu aproveito para fazer anotações mentais, para não deixar nada acontecer sem que eu esteja preparada.
Ao fim o lanche arrumo as coisas nos seus lugares com ajuda dos outros três.
— Você vai hoje a noite, não é? — Louis questiona do lado de fora da porta e, por cima de seu ombro, consigo ver Sofia falar com Fizzy, que está sentada em seu lugar no banco do carona, dentro do carro do irmão.
— Eu não sei, na verdade… — Ele revira os olhos.
— Camila, você é novata. Não devia estar tipo... louca pra ir a uma festa de veteranos?
— Não sou muito de festas. Sou mais de casa e livros, Louis. — Ele balança a cabeça, e seu celular toca.
— Hey, Mani! — Leva o aparelho ao ouvido. — Acabei de falar isso pra ela, mas parece que temos uma nerd legítima aqui, Normani! — Rio ao ouvir as palavras direcionadas a mim. — Ok, espera…
Peguei o aparelho que Louis estendeu em minha direção.
— Alô?
— Camila Cabello, garota, te achei no Instagram! Aceite meu convite e vamos acertar tudo para nos encontrar hoje à noite!
— Mas…
— Sem mas, Camila, você precisa ir com a gente, vai ser legal e você pode conhecer muita gente!
Passei cerca de três minutos ponderando a ideia de ir ou não à festa, enquanto Normani falava milhares de motivos pelos quais eu deveria ir.
— Certo, eu vou. Assim que desligar, aceito seu convite e decidimos tudo.
— É assim que se fala, garota!
— Agora me deixe devolver o telefone do Louis, que bancou meu empregado a tarde toda!
— Tudo bem. Vou ficar online agora. Beijos!
— Beijos! — Devolvo o celular ao dono. — Muito, muito obrigada por tudo, Louis. Você foi um anjo hoje. Teria levado o triplo do tempo fazendo tudo o que fizemos sozinha!
— Não precisa agradecer. Faz parte da nossa turma agora, a turma mais legal da Barland Upper High School! — Ele coloca seus óculos escuros e levanta a gola da jaqueta.
— Acho que até mais tarde então. Obrigada de novo! — Ele assente, e vejo Sofia voltando, caminhando para a entrada. Espero Louis se afastar e entrar no carro para acenar uma última vez e fechar a porta.
Após passar mais de meia hora com Normani no Instagram, tentando me convencer que eu tinha que ir à festa, e com o assunto enfim encerrado, ela avisou que passaria às oito para me buscar.
Eu não havia aceitado muito bem toda a situação. Na minha cabeça, esse tipo de festa juvenil que todos da minha idade costumavam frequentar não oferecia nada de muito interessante — pelo menos não mais do que ficar em casa trabalhando no meu relatório para a aula de Literatura. No entanto, eu nem sequer me lembrava da última vez em que havia me permitido sair com amigos para uma festa. Geralmente, eu e meu grupo de amigas preferíamos ir ao cinema ou fazer uma festa do pijama. Mesmo sendo consideradas populares, elas evitavam as festas quando estávamos juntas, porque sabiam que eu não me adaptava muito bem.
Abro meu armário e examino algumas roupas. Depois de olhar algumas peças, decidi usar nada mais do que uma calça jeans clara de cintura alta com algumas fendas, um cropped branco e meus tênis. Nada muito simples, nem muito exagerado.
Ouvi o barulho da porta do andar de baixo bater — minha mãe havia chegado. Eu nem sequer tinha pensado em avisá-la sobre a festa, e agora essa ideia me pegou completamente desprevenida.
Minha mãe sempre confiou em mim e nunca a dei motivos para o contrário, porém a senhora Cabello dava muita importância aos estudos e isso poderia complicar o fato de hoje ser segunda feira e eu querer ir a uma festa.
Desci as escadas encontrando minha mãe e Sofia na cozinha.
— Boa noite mãe! — Sento no banco do balcão ao lado de Sofi.
— Boa noite, filha. Como foi hoje? Quer dizer, como foi o primeiro dia das duas? — Sofia e eu contamos como havia sido tudo, omitindo apenas a parte em que eu havia esquecido minha irmã. Já que tudo tinha terminado bem, preferi não dar à minha mãe um motivo para surtar — o que diminuiria as chances de ela me deixar sair.
Mamãe havia encomendado o jantar, que chegou pontualmente às seis e meia. A macarronada estava ótima, e ela aproveitou para nos contar como era o novo local de trabalho, dizendo que gostaria de nos levar para conhecer.
— Hum, mãe, lembra das garotas que mencionei ter conhecido hoje? — Falei, enquanto colocava os pratos na máquina de lavar louça e minha mãe retirava a mesa.
— Sim. Fico feliz por ter se enturmado tão rápido, fiquei com medo de que se trancasse no seu mundinho... — Ela sorriu levemente e colocou uma mecha do meu cabelo atrás da orelha.
— Bem, elas me convidaram para uma festa. Não é nada demais, é só uma festa na casa de uma garota da escola. Se você não me deixar ir, tudo bem, eu entendo, por causa da hora e…
— Você pode ir! — Responde e eu paro de falar.
— Eu.. posso?
— Filha, você tem dezesseis anos, é muito bem-educada e comportada, tem uma ótima cabeça e é muito responsável. por que eu não deixaria você ir?
— Não sei, eu só pensei que… Bem, acho que tem razão. — Sorri de volta para ela. — Então preciso ir me arrumar. Normani vira me buscar às oito.
Dei mais um beijo de despedida em sua bochecha e fui para meu quarto.
Exatamente às sete e cinquenta daquela noite, eu estava dando o último retoque no meu cabelo enquanto aguardava Normani. Meu notebook estava ligado sobre a escrivaninha, com a janela da minha conversa com ela aberta.
Os passos no corredor puderam ser ouvidos, e fiz uma contagem mental até minha porta se abrir.
— Karla, sua amiga chegou! — minha mãe sorri, pego minha bolsa e beijo sua testa antes de sair do quarto em direção às escadas que me levariam à sala.
Normani estava parada, olhando para a tela do celular.
— Camila! — disse, depois de me olhar dos pés à cabeça. — Uau, você está arrasando!
— Me arrumei demais? — Olho para meu corpo.
— Não, não! Você está maravilhosa! — Bateu palminhas e me abraçou. — Adeus, senhora Cabello, adorei conhecê-la!
— Eu digo o mesmo... Normani, não é? — A garota ao meu lado assente — Tenham juízo e lembrem-se de que têm aula amanhã cedo!
Normani e eu assentimos e acenamos para minha mãe enquanto saiamos porta afora, em direção a um carro preto que, na verdade, deveria ser o fusca conversível de Normani, mas, não era.
— Esse carro é do Harry. Os pais dele concordaram em devolvê-lo esta noite — explica quando a olho confusa.
Logo, o garoto de cabelos cacheados coloca a cabeça para o lado de fora da janela e sorri em nossa direção.
— Hey Cami, está linda! — Sorri de lado, meio sem graça, e murmuro um "obrigada" quase inaudível.
Ao ouvir Harry me chamar de "Cami" tão casualmente, meu coração deu um pequeno aperto e lembrei imediatamente de Shawn, que costumava me chamar assim. Por leve impulso, olhei meu celular. Nenhuma ligação, mensagem ou e-mail. De ninguém, até agora.
— Camila?! — Balanço a cabeça tentando arrumar meus pensamentos e encaro Normani parada ao lado do carro. — Vamos?
Concordo e sento ao lado de Normani no banco de trás, só então tive a visão de Louis no banco ao lado de Harry.
— Hey! — Ele sorri se vira para encarar a mim e a outra garota. — Minha nossa, se eu fosse hétero, estaria caidinho por vocês agora!
— Amor! — Senti meu rosto corar quando Harry ri, repreendendo o namorado. — Olha como ela ficou vermelha, vai deixá-la desconfortável!
Uma música toca baixo no interior do carro enquanto Harry dirige. Perguntei sobre Ally e Dinah, e fui informada de que Ally não iria à festa dessa vez, pois seus pais pediram que ela fosse a um culto com eles. Já Dinah teria de "fugir" da mãe, que estava pegando no seu pé por causa de uma nota baixa que tirou recentemente.
Harry entrou em uma rua pouco iluminada, mas com luz suficiente para que as mansões do lugar pudessem ser admiradas. Ele reduziu a velocidade do carro e parou atrás de alguns já estacionados ao longo do meio-fio.
O carro começou a vibrar ao som da música alta que vinha de um dos casarões — era possível ouvir os graves mesmo do lado de fora.
— Bem, vamos lá! — Louis sai do carro, sendo seguido por Harry.
Normani e eu saímos em seguida. Harry trancou o carro, e atravessamos a rua seguindo o lado onde ficavam as casas. Caminhamos por cerca de cinco minutos ao longo de uma cerca-viva que nos levou até grandes portões de ferro.
Através deles, podíamos ver a extensão do jardim até a entrada da casa. Algumas pessoas já estavam espalhadas pelas áreas externas do local.
— Vou ligar pra Lauren! — Normani informa, puxando o celular e o leva ao ouvido segundos depois.
Aproveitei para mandar uma mensagem para minha mãe, avisando que havíamos chegado bem ao local da festa.
— Ela está vindo. — Avisa e em poucos minutos minha visão é preenchida pela garota tatuada que está vindo em nossa direção.
Meus olhos prenderam-se ao seu corpo em movimento. A forma largada que ela jogava as pernas para frente, dando longo passos. A calça rasgada, camiseta com as mangas curtas dobradas de forma desleixada e os mesmos coturnos que usava pela manhã.
— Achei que nem vinha mais! — disse, abrindo o fecho do portão e abraça Normani.
— Ah, você sabe que não recuso bebida e música de graça.
— Hey, Harry! — Ela faz um sinal com a cabeça o cumprimentando. — E aí Louis! — Repete o gesto simples. Entramos pelo portão. Do lado de dentro da cerca-viva, pude ver alguns homens vestidos de preto espalhados pela área externa. Lauren se posicionou à minha esquerda, entre mim e Normani, colocando o braço sobre os ombros da amiga.
Louis e Harry estavam à minha direita enquanto caminhávamos pelo gigantesco jardim em direção à porta da casa. Tudo aquilo que eu sempre imaginei que acontecia nesse tipo de festa se confirmou assim que cruzamos o primeiro cômodo da casa.
Musica alta. Muita gente andando de um lado pra outro. Copos vermelhos nas mãos. Correria e gritaria.
— Bem-vinda a uma party house das Jenner! — Harry diz perto do meu ouvido, para que eu o escute através da música alta. Sorri para ele e voltei a olhar ao redor.
— Dinah chegou! — Nos viramos ao ouvir Louis, e demos de cara com a morena entrando.
Dinah nos cumprimenta e, assim que Lauren se afasta, atravessamos a sala de estar até uma grande porta de correr que estava aberta. Só então chegamos à área externa, onde havia uma piscina gigante. A maioria das pessoas estava concentrada ali: dentro da piscina, sentadas nas bordas, acomodadas pela grama, nas cadeiras e nos quiosques espalhados pelo espaço.
— O pai dela é presidente? — me limito a perguntar para Dinah, ao meu lado.
Ela ri de lado e se inclina em minha direção para responder.
— Eles são empresários. O pai delas é tipo dono de várias empresas da família, e a mãe é do ramo da moda. Mas não se impressione tanto, elas gostam de mostrar mais do que realmente têm.
Concordo com um aceno, absorvendo a informação enquanto continuo observando o ambiente. Tento assimilar tudo o que já havia sido dito desde que cheguei.
As Jenner.
Esse nome já havia sido repetido algumas vezes. Jenner. Foi o mesmo nome que o professor de literatura havia dito a garota morena sentada ao lado da garota tatuada…
Porém, foi mencionado no plural, então ela tinha uma irmã? A loira não seria, pois na aula de química a professora mencionou três sobrenomes, cada um para uma das garotas. Então quem era a outra?!
— Camila? Você ouviu? — Harry estala os dedos a minha frente, e só então percebo que me perdi nos meus próprios pensamentos. — Nossa, você perde fácil a atenção do mundo fora da sua cabeça não?!
Déficit de atenção. É o que penso.
— Desculpe… — digo, enquanto olho ao redor e não vejo Louis, Dinah ou Normani. — Onde estão os outros?
Falo e Harry ri.
— Era isso que eu estava dizendo, Cami. Você bebe alguma coisa com álcool? — Franzo o cenho. — Bebidas Camila. Que tipo de bebida alcoólica você bebe?
— Uh, eu não quero beber, obrigada. Quer dizer, será que consegue um refrigerante por aí?
— Vai ser meio difícil, mas acho que não impossível. Vem comigo. — Ele pega minha mão e me guia por entre as pessoas até a cozinha, que era maior que meu quarto.
A primeira coisa que noto ao entrar é um balcão repleto de copos vermelhos cheios até a borda com algum tipo de bebida. No outro balcão, há um barril de algo que prefiro nem tentar identificar. Paramos diante de algumas caixas de isopor, e Harry começa a abri-las uma por uma, até finalmente tirar de uma delas uma lata vermelha de Coca-Cola.
— Parece que teve sorte dessa vez! — Ele sorri me entregando a latinha. Passamos perto de um dos barris e ele me entrega um copo limpo.
— Obrigada! — agradeço, enquanto voltamos pelo meio das pessoas até a parte externa. Encontramos as garotas e Louis do outro lado da piscina, sentados em um dos quiosques com outras pessoas. Nos juntamos a eles.
— Camila, esses são o Zayn, o Niall e o Liam, estudam na Barland também, mas são de outra turma. — Normani apresenta e os rapazes sorriem ao me cumprimentar.
Risadas e a música ao redor preenchiam minha mente.
Depois de algumas latinhas de Coca, acabei aceitando bebericar um pouco das bebidas alheias.
Louis tomava apenas cerveja, Normani e Dinah bebiam algum tipo de bebida de morango, e Harry tinha uma mistura de vodca e refrigerante — que, no fim, só deixava o gosto forte do álcool.
Eu tinha total controle de mim e ciência dos meus limites, porém, não me deixei levar nem perto disso. Estava sóbria, mas me sentia cheia — cheia demais de bebida.
— Preciso muito ir ao banheiro — murmuro para Harry, que está sentado ao meu lado.
— Hum, certo. Deixa eu lembrar… Subindo as escadas, última porta do corredor — indica, e eu tento me concentrar em suas palavras banhadas pelo cheiro forte da sua bebida. Concordo, repassando as informações em minha cabeça, e me levanto.
Caminho sem muita dificuldade por entre as pessoas, que já estavam divididas em: muito bêbadas para qualquer coisa, as que estavam dançando sem se importar o quão ridículos estavam, e os que praticamente estavam transando com roupa.
Ignoro todos e encontro as escadas que Harry havia mencionado. Subo os degraus tentando não atrapalhar os casais espalhados ali e, chegando ao topo, deparei-me com um corredor longo se estendia à frente.
Pelo menos aquela parte da casa parecia vazia, apesar de ainda poder ouvir e sentir o estrondo da música no andar de baixo.
Última porta no fim do corredor.
Obrigada por não dizer de que lado, Harry!
Minha bexiga não aguentaria o ato de descer e subir as escadas de novo, e minha bolsa — com o celular dentro — estava com a Dinah.
Vou até o final do corredor e de lá decido tentar a porta da direita. Giro a maçaneta, empurro a mesma e a cena me paraliza.
— Não grite comigo, Lauren, você está na minha casa, não se esqueça! — Uma garota baixa, com cabelos curtos de pontas pintadas de azul-esverdeado gesticula em direção a tatuada.
— Foda-se essa merda. Eu não ligo, Kylie. Vou embora! — respondeu Lauren, e é nesta hora que seus olhos verdes encontram os meus.
Abro a boca, esperando que algo saísse, mas nada. Nenhuma palavra.
— E-eu estava procurando o banheiro. Me desculpem!
— Então sai! — A garota de cabelos curtos grita, gesticulando para que eu me retire.
Por mais idiota que pareça, tudo o que consegui fazer foi assentir e fechar a porta. Corri para a outra porta, pedindo para que fosse a certa, e entrei sem bater, fechando-a atrás de mim. Aperto meus olhos soltando o ar pela boca, ainda ouvindo, à distância, uma das portas sendo batida com força.
Ao abrir os olhos, a luz do cômodo e o branco forte das paredes do banheiro quase me cegaram. Pisco algumas vezes, tentando acostumar minhas retinas a cor em excesso.
Depois de fazer o que realmente tinha ido fazer, lavo as mãos e encaro meu reflexo no espelho, amaldiçoando mentalmente meu comportamento idiota por ter ficado ali, assistindo Lauren discutir com seja lá quem fosse. Uma pessoa normal teria fechado a porta e saído antes de ser notada. Decidi que me desculparia assim que tivesse uma chance.
Olho o corredor vazio, antes de sair e refaço o caminho até o quiosque onde todos estavam.
— Cami, pedi batida sem álcool pra você! — Harry me entrega o copo cor-de-rosa com um canudinho dobrável e agradeço. Bebo um pouco e gosto do sabor. Sento entre Normani e Louis e, assim que me acomodo, permito dar uma olhada ao redor. Meu corpo se arrepia quando meus olhos encontraram outros, que estão fixos em mim.
A garota tatuada estava sentada em cima da mesa de um quiosque exatamente em frente ao nosso. A expressão brava em seu rosto fez meu estômago revirar. Tentei ser a mais discreta possível e ver se alguém mais tivesse notado aquela situação, mas todos pareciam entretidos demais. Por um instante, pensei que fosse coisa da minha cabeça. Que talvez eu estivesse vendo demais onde não havia nada. Foi aí que cometi mais um erro naquela noite. Encarei novamente o quiosque à frente. Os olhos dela ainda estavam em minha direção, só que antes de raciocinar o que estava acontecendo ali, ela se movimentou, achei ter visto os lábios dela se curvarem e algo como um sorriso surgir, e foi exatamente aí que Lauren Jauregui levantou sua mão e me mostrou o dedo do meio.