Bedroom on Fire

Última atualização: 14/07/2019

Prefácio


Paige, minha irmã mais velha, sempre foi meu exemplo de vida.
No auge dos meus quatorze anos de idade, enquanto eu entrava na adolescência e tinha meu primeiro namorado, Paige me ensinou tudo o que precisava saber sobre ser adolescente e garotos. Ela dizia que ser adolescente e ter um namorado era mais complexo que os livros de romances nos mostravam. Ela estava certa. Terminei com Elliot duas semanas depois do pedido de namoro, porque ele era um garoto complicado e queria mais do que eu poderia dar.
Brian, o noivo de Paige, era um homem legal e nossos pais o amavam. Ele tinha sua própria padaria no final da rua e Paige o ajudava com pães e bolos todos os dias, enquanto eu me aterrava cada vez mais em seus livros viciantes de romances.
Em um dia monótono, alguns meses antes de Paige falecer, ela me disse alto e claro, enquanto amassava a massa do pão na cozinha da padaria:
. – Pausou a fala alguns segundos, no momento em que eu desviava minha atenção do livro para seu rosto fino. – Amar vai além do soterrar de corpos e mentes vazias ao anoitecer.
Quando seu noivo fugiu com sua melhor amiga, Paige se aterrou em corpos e mentes vazias dia após dia. Eu assisti minha irmã se transformar em outra pessoa gradualmente. Uma pessoa que começou a repugnar romances e clichês, quando ela tinha sido a principal pessoa a me ensinar a amá-los.
Paige foi uma pessoa desconhecida durante um longa e árdua caminhada até o dia em que seu carro bateu contra o poste, após uma noite em que ela se aterrou em mais um corpo e mente vazia, mas ela tinha morrido antes do carro bater. Paige morreu no dia em que se transformou em outro alguém para esconder a tristeza que assolava no fundo mais sombrio do seu peito.


01


As nuvens negras carregadas cobrem todo o céu azulado, fazendo alguns estrondos assombrosos de trovões soarem por toda cidade. A rua pouco arborizada está escura, com aparência noturna, embora não passa das quatro da tarde.
Carros correm nas ruas asfaltadas irrefreavelmente, jorrando água por todo lado, enquanto o cheiro familiar de terra molhada paira no ar quase congelante da mediana cidade universitária de Cambridge.
As primeiras gotas finas da chuva começam a cair, fazendo algumas pessoas andarem mais rápido e me ultrapassarem, mas eu continuo no meu ritmo. O clima chuvoso é o meu favorito, então eu sinto como se estivesse sendo bem recebida em meu primeiro dia em Cambridge.
As ondas de ansiedade rondam por cada célula do meu corpo, fazendo-me ficar mais nervosa que já estava. Está sendo martirizante o sentimento de saudade habitado em meu peito. As lágrimas insistem em querer rolar pelo meu rosto, mas eu me contenho. Embora minha aparência física demonstra felicidade, dentro de mim está um completo caos; uma mistura dolorosa de sentimentos indescritíveis.
O prédio enorme à frente me deixa desconfortável, porque não é nada parecido com a casa pequena e aconchegante que morei até agora. Confiro o papel com o endereço em minha mão novamente, para garantir que é o prédio certo e perder mais um pouco do tempo que ainda me resta. É incogitável a ideia de voltar para casa e continuar minha vida pacata de antes.
A mala de rodas está extremamente pesada, mas Freddie, meu irmão mais velho, não pôde sair da faculdade tão cedo para me ajudar e seu melhor amigo não atende o celular. Então, no momento, tenho que me virar para puxá-la desajeitadamente até a entrada.
– Boa tarde! – Digo ao porteiro. O bigode farto e pouco branco, a aparência cansada, corpo corpulento e a falta dos cabelos são as coisas mais marcantes em sua aparência. – Sou , a irmã do Freddie. – Sua expressão suaviza ao ouvir o nome do meu irmão e um meio sorriso singelo surge em seus lábios franzidos.
– Seja bem-vinda, ! – Responde de forma sutil. – Seu irmão me avisou mais cedo que viria e deixou as chaves. – Ouço as chaves tilintarem quando ele as pega e se levanta da cadeira para me entregá-las. – Sou Ian, um dos porteiros e síndico do prédio. – Me entrega as chaves do apartamento pela brecha do portão.
– Obrigada, Ian! – Respondo e ele abre o portão da entrada para que eu possa entrar, fazendo um barulho alto de metal enferrujado. – É um prazer te conhecer.
– Parabéns pela admissão em Cambridge. Ouvi dizer que é a melhor universidade do Reino Unido. – Ele passa as mãos nos bolsos frontais da calça preta, depois de fechar o portão. – Minha filha mais velha passou em advocacia semestre passado. Estou tão orgulhoso dela. – Consigo ver seus olhos brilharem na menção da filha. –Tenho dado tão duro no trabalho nos últimos anos para ajudar em tudo o que ela precisar.
– Você é um pai de sorte! – Afirmo sorrindo docemente.
– Obrigada. – Seu sorriso se alarga, antes dele voltar a se sentar
Desvio minha atenção dele para o apartamento à minha frente. A aparência da fachada é surpreendente. A cor alaranjada misturada a um marrom caramelado dos tijolos de fora é marcante e viva de forma antiquada e maravilhosa. As janelas têm as bordas de madeira pintadas em branco e o meio é coberto por vidro, combinando com a cor da parede. Há, no máximo, quinze andares. Freddie disse por mensagem que o nosso é o último.
Caminho com dificuldade pelo caminho estreito de cimento entre o gramado esverdeado e molhado da entrada até o saguão vazio. O som da minha sapatilha ecoa por todo saguão à medida em que caminho até o elevador de metal. Aperto o botão para chamá-lo e aguardo ansiosamente.
Quando o elevador abre as portas, eu entro e coloco minha mala no canto. Levanto minha mão vaga para apertar o botão do décimo quinto andar.
– Espere! – Alguém fala alto do lado de fora do elevador e eu aperto o botão antes das portas se fecharem.
Um homem alto e forte entra, mas não consigo ver seu rosto de imediato, porque ele vira de costas para mim no momento em que eu solto o botão. Uma de suas mãos escora na parede de metal do elevador e suas costas se curvam para frente, tentando acalmar sua respiração alta e descompassada.
– Está tudo bem? – Pergunto e toco em seu ombro, por cima do moletom preto. Ele se assusta com meu toque e instantaneamente eu me afasto um pouco para trás, na mesma proporção que o elevador fecha as portas e começa a subir.
– Sim. Está tudo bem. – Ele responde com a voz grave e firme, virando em minha direção lentamente. – Você pode apertar o botão do décimo quinto andar?
Se perfeição houvesse descrição, eu, sem dúvidas, descreveria esse cara; maçãs do rosto proeminentes, maxilar perfeitamente marcado e olhos azuis como céu limpo no verão.
Ele começa a me encarar intensamente e um sorriso de lado começa a surgir em seus lábios pouco finos e rosados. Seu cabelo castanho claro e curto está bagunçado propositalmente e algumas mechas estão caídas sob seus olhos. Uma de suas mãos sobe até os fios rebeldes dos seus cabelos e os joga para trás, afim de tirar as mechas teimosas dos olhos, dando-me a visão dos dois anéis em seus dedos esguios.
Suas bochechas estão pouco rosadas devido ao frio e provavelmente a sua corrida longa até o prédio e sua respiração está entrecortada como se tivesse corrido uma maratona antes de entrar no elevador.
Ele tira lentamente o moletom por cima dos braços, como se quisesse me torturar, fazendo sua camiseta cinza, que abraça sua barriga perfeitamente desenhada, aparecer. Algumas tatuagens cobrem os braços e se perdem nas mangas da sua camisa. Há um pouco de suor lambendo seu corpo torneado e contornando cada músculo visível e coberto, onde eu começo a desejar passar as mãos em cada curva ou dobra.
Seus lábios rosados se curvam em um sorriso sexy e encantador quando percebe que eu o observo milimetricamente, fazendo minhas bochechas enrubescerem subitamente por ser pega em flagrante.
O elevador para bruscamente e eu espero as portas se abrirem para sair, mas as luzes começam a piscar repetidamente por alguns minutos, dando-me a impressão de que as portas não irão se abrir tão cedo.
– Isso não pode estar acontecendo! – Resmungo impaciente e cruzo os braços abaixo do peito.
A viagem de Lavenham até Cambridge foi exaustiva e tivemos mais de três horas de atraso devido ao temporal intenso e ao ônibus quebrado. Um elevador parado com um cara perfeitamente esculpido não vai me ajudar em nada.
Aperto o botão do décimo quinto andar várias vezes, na esperança de que ele volte a subir, mas ele continua estático, deixando-me cada vez mais frustrada e fazendo uma descarga carregada de ansiedade me invadir imoderadamente.
– Está tudo bem. – Ele afirma e eu paro de apertar o botão, abaixando a mão. – Não é de costume o elevador parar dessa forma, mas tenho certeza que em alguns minutos ele voltará ao normal.
– Acho que preciso de um pouco d’água. – Ele me entrega sua garrafa de água térmica acinzentada quase vazia sem hesitar.
– Obrigada. Levo a garrafa aos lábios, tentando acalmar meus nervos.
Quando acabo de beber a água, devolvo a garrafa a ele, tangenciando nossos dedos de forma acidental. Levanto minha cabeça para poder observá-lo de perto e seus olhos parecem levemente mais bonitos que de longe. Nós sustentamos os olhares silenciosamente por alguns segundos, mas sinto como se tivesse sido por mais tempo.
– Está melhor agora? – Assinto com a cabeça e me afasto, prezando minha sanidade mental.
As luzes param de piscar ficando acesas, mas a porta não abre como esperava. O homem ao meu lado escora seu corpo na parede alguns minutos depois de mim e deixa a cabeça cair para trás.
Ele começa a sussurrar alguns trechos de música e eu começo a contar alguns números de maneira lenta; uma tentativa falha de fazer o tempo passar mais rápido, porque sinto como se estivéssemos andando em câmera lenta.
– Você vem sempre aqui? – Pergunta, arqueando a sobrancelha e eu não consigo conter o riso.
– Essa sua tentativa de cantada foi terrível. – Ele começa a rir comigo, fazendo duas covinhas simétricas e quase imperceptíveis aparecerem em cada lado da sua bochecha.
– Tudo bem. – Afirma e me observa sem restrição, como eu estava fazendo minutos atrás. – Admito que essa foi a pior cantada que tive. – Passa as mãos nos cabelos, deixando-os bagunçados propositalmente. – Embora não era para soar como tal.
– E a mais antiga, provavelmente meu avô a tenha usado. – Ele afirma com a cabeça e os cantos dos seus lábios levemente curvados. Seu corpo escorrega lentamente pela parede de metal em suas costas para se sentar no chão do elevador.
“Eu queria saber se você mora no prédio ou está se mudando agora junto com outras pessoas. Essa é a época em que os calouros começam a chegar no prédio, ocupando o lugar das pessoas que saíram recentemente” escora suas mãos no chão e eu me sento ao seu lado.
“Acabei de me mudar” afirmo “Mas já estou pensando na possibilidade de voltar para casa” ele sorri.
“Mal entrou em Cambridge e já está assustada? – Questiona de forma sarcástica ao mesmo tempo em que arqueia as sobrancelhas. – Por que isso não me surpreende?
– Talvez por que você está acostumado? – Arrisco a dizer, arqueando as sobrancelhas.
– Hm… Talvez.
Escuto sua respiração forte ao meu lado no momento em que fecho meus olhos e respiro profundamente. O silêncio invade o elevador durante alguns minutos, enquanto ele batuca os dedos no chão no ritmo de alguma música.
Viro minha cabeça levemente em sua direção e começo a encarar seu corpo esguio e ombros largos. Ele me pega, durante a segunda vez, o encarando sem restrição alguma e então lança mais um sorriso sexy de lado como se estivesse acostumado com isso.
O elevador balança e volta a subir aos poucos. Levanto-me do chão aliviada por não ficar um tempo maior presa dentro do elevador. Limpo a parte de trás da calça, dando algumas batidas com as mãos no momento em que ele começa a se levantar.
– Espero te encontrar novamente. – Pisca um olho e abre lentamente um maldito sorriso de lado.
– Foi bom te conhecer. – Despeço-me sorrindo quando as portas se abrem.
Freddie está parado em frente ao elevador com a expressão completamente preocupada e a testa franzida. Provavelmente preocupado com a demora imensa e a falta de comunicação, porque meu celular descarregou e eu não consegui avisar a ele o atraso do ônibus.
– Fiquei preocupado, . Achei que estaria aqui mais cedo. – Ele diz, tirando o celular do ouvido e me abraça de forma apertada e calorosa.
– Senti sua falta também, Freddie. – Ironizo e passo meus braços em volta do seu pescoço, retribuindo seu abraço.
O cheiro do seu perfume amadeirado e inconfundível ainda exala em si. Freddie nunca o trocou desde que morávamos em Lavenham, deixando-me um pouco mais reconfortada com a ideia de morar longe do conforto dos nossos pais e Lottie, nossa irmã mais nova.
Seus cabelos estão com um novo corte e suas roupas mais despojadas desde a última vez em que ele nos visitou, há alguns meses atrás, mas seu rosto, no entanto, continua o mesmo: idêntico ao de Paige.
– Você deve estar cansada. – Ele diz e eu assinto silenciosamente.
– Você não tem ideia do quanto. – Freddie pega a bolsa pesada das minhas mãos e seu olhar cai para alguém atrás de mim.
– Quero te apresentar , meu melhor amigo e seu novo colega de apartamento. – Ele aponta para o homem atrás de mim e eu congelo, antes de engolir em seco e arregalar os olhos ao mesmo tempo.
– Nós ficamos presos no elevador. – Sua voz faz meu corpo inteiro se arrepiar, principalmente porque estávamos nos flertando no elevador e agora acabo de descobrir que iremos dividir um apartamento por alguns anos.
– Então já se conheceram? – Freddie pergunta, arqueando as sobrancelhas e virando ao mesmo tempo para olhar seu amigo atrás de nós.
Tento não deixar meu desapontamento transparecer, mas ele está praticamente palpável em todo o corredor. Algo dentro de mim se esmaeceu tão rápido que embrulhou o estômago.
– Sim. – Afirmo um pouco decepcionada. – Seu amigo é uma ótima companhia.
– É bom saber que vocês se deram bem antes mesmo de eu os apresentar. – Afirma, guiando-me ao nosso apartamento. – E mamãe, como está?
– Arrasada, porque mais uma filha está indo morar fora, mas orgulhosa ao mesmo tempo. – Freddie sorri – Ela me recomendou mil e uma coisas diferentes, que foi impossível decorar tudo.
– Estranho seria se fosse diferente.
O cheiro forte de produto de limpeza de lavanda invade minhas narinas quando passo pela porta da entrada, após Freddie abrí-la. O interior é tão pomposo e aconchegante quanto eu imaginava ser e provavelmente passou por diversas reformas radicais, pois era moderno demais comparado à fachada atemporal.
Um sofá de canto, uma mesinha de centro, um tapete grande e felpudo e uma estante com uma televisão são suficientes para enfeitar e preencher toda a pequena sala de estar. Por um momento, imaginei uma bagunça imensa como roupas no chão e caixas de pizza em cima da mesa de centro, mas Freddie e são demasiadamente organizados, dispensando futuras frustrações.
Freddie é o primeiro a entrar e deixar minha mala no canto, apenas para poder tirar seu casaco e colocar no cabide ao lado da porta. Tiro meu sobretudo e penduro no cabide como Freddie fez, limpando meus pés no carpete da entrada.
– Você está com fome? – me pergunta, tirando seus sapatos de corrida sujos e deixando-os no tapete.
– Estou bem. – Afirmo. – Comi algumas coisas na viagem.
– Tem certeza? – Freddie pergunta. – Comprei algumas coisas para preparar a janta.
– Eu vou arrumar minhas malas agora e descansar um pouco. Tenho um trabalho e tanto pela frente.
Freddie assente silenciosamente e pega minha mala, guiando-me até um corredor estreito, onde há quatro portas brancas, duas de cada lado. Ele abre a primeira porta à esquerda, deixando minha mala no canto.
O quarto é pequeno e completamente branco, inclusive os móveis. A cama box de solteiro ocupa o canto esquerdo do quarto e o guarda-roupa pequeno ocupa parte do canto direito, ao lado de uma escrivaninha vazia.
– Não arrumei seu quarto, porque achei que você iria querer fazer isso. – Freddie diz, cruzando os braços abaixo do peito.
Caminho até a cama e me jogo, sentindo a maciez do colchão em minhas costas relaxando todos os meus músculos tensos e esgotados e o cheiro doce de amaciante emanando dos lençóis recém lavados.
– Está incrível! Obrigada por ter feito isso por mim. – Freddie assente e anda em direção à porta do quarto.
– Antes de dormir, desça para comer alguma coisa. – Assinto, sentando-me na cama.
– Ok.
– Bem-vinda à Cambridge e ao seu novo lar, ! – Diz, antes de fechar a porta e me deixar sozinha em meio ao meu novo ponto de calmaria.


02


Abro os olhos com dificuldade e contragosto. Os filetes de luzes, que escapam das frestas da persiana mal fechada, vão de encontro ao meu rosto e deixam o quarto um pouco mais claro e penumbroso. Resmungo de forma arrastada, virando-me para o lado oposto à claridade e cubro o rosto com o cobertor.
O despertador posto na cômoda ao lado não tarda a soar de forma alta e irritante em um bip contínuo, deixando-me ainda mais desperta. O cansaço toma conta do meu corpo devido à noite mal dormida. Não quero levantar tão cedo, mas há tanta coisa que quero conhecer e fazer nesse final de semana que me levanto da cama em um lampejo.
Caminho até a janela de vidro e levanto as persianas com as mãos. O cheiro de chuva invade todo o quarto quando abro a janela, misturando-se aos resquícios de lavanda do produto de limpeza. Escoro meus braços no parapeito da janela e começo a observar a vista adorável que se estende além das casas pequenas e prédios imensos.
O sol ofuscado pelas densas nuvens não faz menção de aparecer tão cedo. O canto dos pássaros e o clima frio pela manhã são completamente reconfortantes, enquanto a brisa quase congelante insiste em balançar alguns fios soltos do meu cabelo em meu rosto.
Há um homem de cabelos grisalhos aparando a grama na entrada do apartamento e Ian está saindo da cabine para outra pessoa ocupar seu cargo de porteiro. Algumas pessoas caminham pela calçada larga rapidamente e carros jorram água e lama por todo lugar em decorrência da chuva torrencial de ontem.
Saio do parapeito da janela e a fecho. As persianas escorregam deliberadamente das minhas mãos, fazendo o quarto voltar à penumbra. Meu celular vibra insistentemente em cima da escrivaninha, agora cheia de livros, com o nome ‘mãe’ no identificador de chamadas.
– Oi, mãe! – Exclamo um pouco mais animada e pigarreio, aliviando parcialmente a rouquidão da minha voz.
? – Minha mãe pergunta. Sua voz suave me faz sentir saudade de casa e alivia levemente o aperto em meu peito ao mesmo tempo. – Desculpe. O sinal está horrível! – Exclama em protesto.
– Está melhor agora? – Pergunto ligeiramente mais alto e levanto as sobrancelhas, embora ela não consiga me ver através da ligação.
– Sim. – Responde. – Está tudo bem? Não consegui te ligar ontem e Freddie quase me enlouqueceu ligando desenfreadamente perguntando sobre você.
– Está tudo bem. – Afirmo. – O ônibus atrasou e meu celular descarregou. Não consegui avisar a ele. – Consigo escutar os gritinhos finos de Lottie no fundo e meu pai a repreender.
– Nós ficamos muito preocupados com você. – Diz e suspira alto. – Seu pai quase foi à Cambridge de carro naquele temporal intenso.
– Desculpe-me por deixá-los tão preocupados.
– Essas coisas acontecem, mas é melhor evitar sair com a bateria baixa ou vai nos matar do coração.
– Como estão as coisas em casa? – Tento mudar de assunto. Cogitar a ideia de perdê-los faz com que meus olhos se encham de lágrimas e me dilacera como uma faca.
– Estão boas, querida. Lottie hiperativa, seu pai reclamando e eu um desastre na cozinha. – Sorri pelo nariz, fazendo um ruído retinido soar através da chamada.
– Nada fora do comum. – Afirmo rindo.
– O apartamento é como você esperava?
– Nada parecido com nossa casa, mas estou tentando me adaptar.
– É uma ótima notícia!” – Responde. –Daisy veio ontem se despedir, mas você já tinha partido.
Depois que Paige morreu, Daisy se tornou minha única amiga em Lavenham. Queria poder contar para ela como o melhor amigo do meu irmão parece ser algum tipo de deus grego irresistível e a recepção calorosa de Cambridge. Apesar de podermos manter contato virtualmente, sinto que não será a mesma coisa. Daqui alguns dias ela irá para a universidade de Lancaster e eu estarei atordoada com várias coisas para estudar. Não sei se irá sobrar tempo para conversas monótonas.
Kate, o bolo está queimando. – Escuto meu pai gritar no fundo da chamada.
– Desculpe, , tenho que desligar.
– Tudo bem, mãe. Depois eu te ligo e mando mais notícias.
– Amo você
– Te amo. – Respondo antes de desligar a chamada.
Depois de deixar meu celular em cima da escrivaninha, caminho até a porta branca de madeira do meu quarto, abrindo-a. No corredor ecoa sons altos de pessoas conversando, ruídos de panelas e rescende o aroma maravilhoso de café sendo preparado. Reconheço a voz de Freddie e , mas há uma terceira voz masculina no meio que não consigo identificar.
Entro na cozinha quando estou devidamente preparada e apresentável, após um banho quente e relaxante.
– Bom dia! – Exclamo.
Além de Freddie e Reece, há um homem loiro, provavelmente amigo deles e o dono da voz que não consegui identificar mais cedo, na cozinha. Todos eles estão se preparando para tomar o café da manhã e a mesa de vidro cheia está cheia, denunciando que o café da manhã será bem reforçado.
– Bom dia!" – Os garotos respondem em uníssono, enquanto Freddie coloca a garrafa de café na mesa.
– Este é o Bruce. – Freddie me apresenta ao seu amigo loiro que está sentado de forma desajeitada na mesa.
Seus cabelos loiros estão jogados em um topete completamente bagunçado, deixando-o mais atraente e seus olhos são azuis, alguns tons mais claros que os de . Ele é tão bonito quanto .
– Oi, Bruce! – Ele se levanta da cadeira e se curva levemente sobre a mesa, apertando minha mão com a sua vaga em um cumprimento quase formal se não fosse as circunstâncias, enquanto a outra segura uma torrada com geléia. O canto esquerdo do seu lábio se curva pequenos centímetros para cima em um sorriso torto.
– É um prazer finalmente te conhecer, !
Bruce solta minha mão alguns segundos depois e segura a xícara cheia de café, levando-a aos lábios. Consigo ver a fumaça moderada emergir sob as bordas e sentir o cheiro de café recém preparado pairando em toda a cozinha mais forte que no corredor.
– Dormiu bem? – pergunta, colocando uma panqueca em seu prato.
Sento-me ereta na cadeira vazia ao lado de , onde há uma xícara de porcelana limpa à frente.
– Há tempos não dormia tão bem dessa forma. – Afirmo, mas não tenho certeza se estou sendo sincera.
Metade da noite eu passei revirando na cama. Tenho insônia quase todas as noites devido à minha ansiedade descomunal e a situação em que me encontro nos últimos dias não ajuda a controlá-la.
Seguro a garrafa de café e encho metade da xícara. Alguns respingos de café caem na mesa e eu limpo antes que eles sequem.
– Pronta para conhecer Cambridge? – Pergunta Bruce, passando as mãos em sua blusa azul para tirar as migalhas do pão.
– Mais do que aparento. – Suspiro alto, pegando uma torrada repleta de geleia. Parece deliciosa.
– Parece que você ainda está na cama, . – Freddie diz em tom de escárnio e com a boca cheia.
– É bom ver que você não perdeu seu senso de humor. – Ironizo.
– Gostou do quarto que preparamos para você? – pergunta, fazendo-me ignorar Freddie.
– Na verdade... o quarto ainda não se parece muito comigo. – Respondo hesitante. – Mas eu pretendo deixá-lo hoje quando as outras caixas chegarem. – Minha animação começa a aumentar gradualmente. – Em compensação, a vista da janela é sensacional!. – Exclamo e mordo um pedaço da torrada.
– Tivemos que pintá-lo de branco semana passada e escolher alguns móveis. Desde que Logan mudou de apartamento, o quarto ficou vago.
– Morar longe dos nossos pais fez muito bem para você, não é, Freddie? – Pergunto rindo.
Freddie em nossa casa era demasiadamente preguiçoso. Não imaginava que ele cuidava muito bem do apartamento e dava um de pintor nas horas vagas.
– Coma, senão iremos atrasar. – Adverte de forma rabugenta como um velho de oitenta anos faria.
– Como se você fosse muito sério, não é? Reviro os olhos, no mesmo momento em e Bruce começam a rir.
– Cara, eu realmente não gostaria de ser sua irmã. – Bruce responde aos risos.
– Vocês estão desfazendo minha postura de irmão responsável. – Resmunga bravo, enquanto começo a rir baixo. Freddie nunca foi muito responsável e está sendo cômico vê-lo tentar reslumbrar isso aos amigos.
Responsabilidade não parece ser do seu feitio, Freddie. – Bruce zomba, condizendo com meus pensamentos.
– Muito engraçado – Ironiza, revirando os olhos.
– Mas, e então, onde você disse que ia me levar hoje? – Questiono a Freddie, colocando os cotovelos em cima da mesa.
Se Paige estivesse aqui, ela estaria me recriminando sobre as boas maneiras que me faltam, mas ela não está e meu peito se aperta fortemente em saudade e a sensação dolorosa que estou sentindo é parecida com várias adagas fincadas no peito.
– Freddie disse que você precisava de coisas novas para o quarto, então resolvemos passar em algumas lojas no centro. – Bruce responde por Freddie, desviando-me dos meus devaneios. Ele parece estar muito animado em ser um dos meus guias turísticos.
– Parece bom.
Por causa de alguns problemas, não pôde ir conosco e eu me sinto um pouco mais aliviada. A cena do elevador ainda está presa e fresca em minha memória e Freddie provavelmente não reagiria bem se soubesse.
Brian era o melhor amigo de Freddie antes e durante o namoro e noivado dele com Paige. Freddie apresentou Brian a ela e, embora não fosse culpa dele Brian fugir com a melhor amiga dela, Freddie se sentia muito culpado. Por isso ele nunca me apresentou seus amigos de Cambridge, porque ele tem medo de acontecer a mesma coisa comigo; de um Brian aparecer e levar tudo de bom que resta em mim. Tudo aquilo que Paige me ajudou a construir antes de se afastar e morrer.

03

A ideia de começar a faculdade amanhã é descomunalmente assustadora.
Antes de deitar, deixei tudo devidamente arrumado para o primeiro dia de aula. A questão é que o fato de que passei na faculdade que almejei durante todo o ensino médio parece irreal. Parte de mim se imagina acordando no quarto de paredes roxas e cheios de ursos de pelúcia, cenário saudoso pela qual passei toda minha infância e adolescência.
A ansiedade ronda as células do meu corpo de maneira brusca nesta madrugada, fazendo meu coração palpitar um pouco mais rápido que o comum. Acabei perdendo a conta de quantas vezes virei na cama a procura de uma posição agradável para dormir, mas todas elas eram desconfortáveis, como se alguém tivesse colocado várias pedras no colchão.
Frustrada, puxo a coberta quente e aconchegante de cima do meu corpo. Caminho silenciosamente e em passos curtos até a cozinha, na esperança de que um pouco d’água faça o sono voltar ou ajude a controlar a ansiedade.
Abro a geladeira e pego a jarra de água e o copo de vidro em cima do balcão. Despejo a água no copo e coloco a jarra de volta na geladeira, antes de fechar a porta.
Sento-me no mármore da bancada da cozinha e deixo o copo ainda cheio de água ao meu lado. Fecho meus olhos fortemente e suspiro alto tentando acalmar os nervos. Minha ansiedade torna tudo tão complexo. Felizmente, Paige sempre esteve comigo para me ajudar a controlá-la. Hoje, no entanto, tenho apenas o aperto incessável no peito.
Paige sempre sabia sempre quando eu não estava bem ainda que ninguém mais imaginava o buraco negro que sugava tudo dentro de mim. Então sentávamos no jardim em silêncio e observavámos o céu até eu me sentir bem para contar a ela tudo o que estava acontecendo. Sinto falta da nossa sintonia. Paige era tão sábia quanto minha avó e tinha os melhores conselhos que alguém poderia dar.
?– Escuto a voz de soar na porta da cozinha, fazendo-me dar um sobressalto na bancada. Não estava esperando companhia a essa hora. – Está tudo bem? – Abro os olhos rapidamente e levo a mão próxima ao peito.
A luz da cozinha continua desligada e parece não se importar em continuar dessa forma. A iluminação precária que provém do lado de fora do apartamento deixa a desejar, porque só consigo ver sua silhueta como uma sombra.
– Sim. – Afirmo e abro um meio sorriso para espantar o desconforto, embora não tenho certeza se ele consegue ver. – Mal entrei na faculdade e ela já consome minhas noites. sorri, soltando uma lufada de ar pelo nariz e abre a geladeira, dando-me o vislumbre rápido do seu corpo quase nu e algumas tatuagens em suas costas definidas. A cueca box colada molda absurdamente bem seu traseiro. A imagem é como colírio para meus olhos e eu não consigo desviar o olhar.
– Você tem que relaxar. – Responde antes de levar o copo aos lábios.
Começo a observar, em câmera lenta, seus lábios entreabrirem ao levar o copo de vidro aos lábios e aproveito que ele não está olhando para observar seu corpo quase sem roupas para dificultar a visão.
Quando coloca o copo na pia, ele se vira para mim de repente, pegando-me desprevenida mais uma vez. Seus lábios curvam-se mais para o lado esquerdo, ainda mais sexy que das últimas vezes, e eu sinto minhas bochechas miseráveis queimarem, sucumbindo ao desejo que estou tentando reprimir desde que Freddie me apresentou a ele como seu melhor amigo.
Se ele soubesse um terço do efeito que causa em mim quando sorri e me olha dessa forma, talvez fizesse com moderação. Minha pele inteira formiga e meu coração está em um ritmo frenético.
Balanço minha cabeça, tentando espantar todos os pensamentos sórdidos que estão me rondando e me forço a concentrar em nossa conversa como se nada tivesse acontecido, mas seu corpo escultural é uma terrível distração e eu estou me sentindo como uma adolescente no auge da puberdade.
– Tenta conversar com minha ansiedade. Talvez ela te compreenda.
fecha a porta da geladeira e logo em seguida caminha até uma das cadeiras vazias, sentando-se nela.
– E então, o que você cursa? – Arqueio as sobrancelhas, tentando ignorar o fato de que ele está com poucas roupas e agradecendo ao fato de agora estar escuro, impedindo-me de ter o vislumbre do seu corpo a poucos metros de distância.
– Medicina. – Responde e eu sinto um leve tom de excitação em sua voz, como se medicina fosse tudo o que ele sempre quis. – Estou cursando o penúltimo semestre, e você?
– Nada tão primordial quanto medicina. Literatura inglesa.
– Não precisa exaltar meu curso e diminuir o seu. Cada curso tem sua importância. – Consigo ver, pela má iluminação do cômodo, os músculos de se moverem, enquanto ele move seu braço na mesa para alcançar seu celular. – Antes fazer o que você ama a ter que viver fadado a um curso que não te interessa.
– Como tem tanta certeza que eu gosto do meu curso? – Arqueio as sobrancelhas.
– Não acho que escolheu Literatura inglesa por acaso. Seus inúmeros livros na imensa prateleira do seu quarto dizem muito mais sobre você do que imagina.
– Boa perspectiva. Hesito, mordendo meu lábio inferior antes de continuar. – Eu amo o curso e nunca me veria em outro, mas às vezes me pego em um um estado de limbo cruel.
– Você não sabe se é o curso certo?
– Eu sabia que era o curso certo desde o ensino médio. – Afirmo, desta vez sem hesitar. – Mas a saudade de casa e da minha família. Talvez se eu ajudasse meu pai no comércio ou…– me interrompe.
– Todos nós estamos longe de casa, . Cada estudante precisou sair das asas dos pais para poder voar livremente. É uma consequência da vida cheia de responsabilidade que temos que arcar.
– Você tem razão. – Suspiro, dando-me por vencida. A ideia de voltar para casa é incogitável – E você, por que está acordado tão tarde? – Troco de assunto, evitando falar sobre minha família.
– Não consigo dormir. – Desbloqueia o celular, iluminando precariamente seu rosto e começo do seu peitoral.
– Tem medo do escuro? – Pergunto com a voz carregada de escárneo e arqueio as sobrancelhas. levanta levemente os lábios em um meio sorriso.
– Não por escolha.
– É muita ousadia minha perguntar o motivo? – Tento encorajá-lo a continuar, mas ele bloqueia a tela do celular e se levanta, fazendo a cadeira arrastar no chão com um barulho mediano e ignorando minha pergunta.
– Acho melhor voltar para cama. – Pigarreia, antes de mudar de assunto. Desço da bancada e caminho em passos curtos até a pia.
Não quero pressioná-lo a falar algo que ele não queira ou não se sinta confortável em compartilhar, por isso não insisto no assunto. Ele também não sabe o motivo da minha insônia e eu não estou aberta para compartilhar tão cedo. Prefiro manter o assunto recluso dentro de mim a ter que compartilhá-lo com alguém, talvez assim a ferida se cicatrize mais rápido.
– Vou tentar dormir também. – Coloco o copo na pia. – Caso contrário, não sei se conseguirei ficar acordada no primeiro dia de aula.
– Você deveria dormir um pouco. Primeiros dias são um pouco exaustivos e longos. – Caminha até a porta da cozinha. – Durma bem, !
– Você também, . – Escuto seus passos soarem no corredor dos quartos e a porta se fechar, antes do silêncio tomar conta do apartamento.
Fico mais alguns minutos na cozinha, antes de ir para o meu quarto.
O relógio em cima do criado mudo mostra que ainda são três horas quando me deito novamente na cama. Grunho alto e completamente irritada e cubro meu rosto com o cobertor, porque não há nenhum indício de sono em meu corpo.
Perdi as contas de quantas vezes eu acabei passando a noite inteira em claro com a ansiedade me corroendo e agora as cenas, não só do elevador, mas da cozinha também se repetem em minha mente como se quisessem me torturar, prolongando ainda mais minha insônia.
Algo me diz que os dias serão longos e eu não sei se estou pronta para tal.

04

Observo a universidade colossal à minha frente. O gramado extenso e completamente verde me deixa tão extasiada quanto o interior da universidade. As fotos esporádicas que via na internet não chegavam perto da imensidão que está sendo vê-la tão de perto.
– E então, , conseguiu acalmar seus nervos? – Freddie pergunta em tom zombeteiro e eu reviro os olhos.
A universidade fica há uns quinze minutos de carro do nosso apartamento, ou seja, passei quinze minutos trancada no carro com a ansiedade em culminância e não consegui deixar menos explícito para Freddie, porque ele percebeu no momento em que me viu.
Minhas mãos estão suadas e gélidas, apesar de estarem cobertas com as luvas cor de creme. Coloco algumas mechas rebeldes dos meus cabelos, que insistem em chicotear meu rosto, atrás da orelha e suspiro alto antes de entrar na imensa universidade junto a Freddie e .
A conversa ecoa ruidosamente alta pelos largos corredores e as pessoas andam de um lado para o outro com roupas impecáveis, trazendo-me novamente o sentimento de saudade e uma vontade gigantesca de voltar para o conforto da minha pequena e aconchegante casa.
Freddie me guia até a sala onde terei a primeira aula e se despede com um beijo na bochecha, dizendo que voltará para me pegar, mas a aula corre e isso não acontece. Tenho que me apressar nos corredores para chegar à segunda aula e encontrar a sala.
O barulho irritante de minha sapatilha chocando contra o chão ecoa por todo corredor quase vazio, porque a maioria dos alunos já entraram em suas salas e eu ainda estou a procura da minha.
Seguro mais forte em minhas mãos os papéis com anotações e lembretes de tudo que ocorrerá a seguir, começando a caminhar mais rápido. A ideia de chegar atrasada é tão incogitável quanto a ideia de parar os estudos e voltar para Lavenham.
– Está procurando sua sala? – Uma voz grossa soa ao meu lado, fazendo-me assustar e deixar alguns papéis que carrego se esparramarem pelo chão gélido.
– Você me assustou! – Exclamo, tentando normalizar as batidas frenéticas do meu coração. Abaixo-me para recolher todos os papéis que caíram e ele imita o movimento para me ajudar.
– Desculpe-me. Não era minha intenção. – Se desculpa, enquanto começa a pegar alguns papéis que estão próximos a ele.
Levanto meu rosto lentamente para observá-lo com mais cautela. Inicialmente, deparo-me com seus olhos castanhos e a barba rala. Seus cabelos são castanhos, alguns tons mais claros que os olhos, e pouco raspados e seu maxilar perfeitamente marcado.
– Está tudo bem. – Afirmo e volto a recolher os papéis espalhados.
Quando termino de recolher os papéis no chão, levanto-me e coloco todos eles dentro do livro em minhas mãos. Aperto nervosamente o livro em minha mão trêmula e observo-o se levantar e me entregar o papel rosa onde está anotado as próximas aulas.
– Austin Immers. – Estende sua mão em minha direção e eu a aperto com a minha vaga. Um sorriso de lado se estende em seus lábios finos e rosados.
. – Respondo-o.
– Precisa de ajuda, ?
– Sim. – Uma pequena onda de alívio me invade gradualmente, junto a um suspiro quase imperceptível. – Não estou conseguindo encontrar a sala.
Entrego a ele o papel rosa que está nas minhas mãos e ele o observa cautelosamente, tentando entender minhas letras quase ilegíveis.
– Você estava indo na direção contrária. – Explica e eu abaixo a cabeça, encarando meus sapatos timidamente. – Por sorte, estou na sala ao lado da sua. – Coloca a mochila preta nas costas e começa a me guiar na direção contrária a que eu estava indo. – De onde você é? A julgar pelo sotaque, parece da região ou você aprende muito rápido.
– Lavenham. – Respondo, enquanto ele cumprimenta algumas pessoas com leves acenos. – E você?
– Um pouco mais distante. Wolverhampton.
O corredor extenso é idêntico ao último que eu estava e todas as portas são revestidas de madeira maciça. Eu sinto que sou a única aluna perdida, porque as outras pessoas caminham como se conhecessem toda a universidade da mesma forma que conhecem a palma da mão.
Há uma prateleira cheia de troféus e medalhas de todos os tamanhos existentes no meio do corredor. Próximo a eles, está um porta retrato com uma foto antiga de uma turma de medicina e a data em que a foto foi tirada acima; 1957.
– Lavenham é uma cidade bem bonita. – Austin percebe que a minha atenção está nos quadros que ficam dentro da prateleira, então ele para de caminhar e começa a observar a prateleira ao meu lado. – Esse foi o melhor professor da área de medicina. – Aponta para um homem de cabelos brancos que está de jaleco junto à foto. – Depois de velho, se tornou um cara insuportável. – Resmunga, fazendo-me rir da sua careta.
– Ele não ensina mais? – Voltamos a caminhar pelo corredor.
– Infelizmente não. Ele teve algumas complicações semestre passado e desde então não pôde continuar a dar aulas.
– O que ele teve? – Arqueio as sobrancelhas, demonstrando tamanha curiosidade.
– Alzheimer. – Responde, parando em frente à minha sala.
A porta está aberta e a professora ainda não chegou. Por essa razão, algumas pessoas estão conversando animadamente entre si nas cadeiras, fazendo-me soltar um suspiro de alívio. A sala está relativamente cheia e ainda há algumas pessoas chegando junto a mim e entrando na sala.
– Boa sorte! – Segura nas alças da sua mochila.
– Obrigada. – Agradeço e aceno com a mão quando ele começa a caminhar para sua próxima aula.
Entro na sala e me sento na segunda fileira que está quase vazia. A professora de cabelos grisalhos adentra a sala no momento em que eu tiro meu caderno da mochila. Ela carrega consigo uma bolsa enorme de lado e traja um terno feminino formal e bonito. Em sua mão há uma xícara com café quente e eu consigo ver a fumaça emergindo pelas bordas e sumir mais acima. Seus olhos correm por toda sala, observando cada rosto desconhecido.
– Bom dia, alunos! – Diz com a voz carregada. Seus óculos folgados insistem em escorregar pelo nariz, fazendo com que ela coloque de volta ao lugar todo o tempo. – Sou Meredith Adams, a professora de vocês. Quero, inicialmente nesta aula, dar boas vindas e parabenizar a admissão de vocês, calouros. – Pigarreia e senta na ponta da mesa, escorando as mãos nela. –– As regras da universidade são bem claras e eu sou muito rigorosa nesse aspecto!

...

A chuva está intensa no final das aulas, fazendo com que alguns alunos se abriguem próximos ao saguão da universidade, ao lado do gramado, à espera dela diminuir e alguns deles correrem até o estacionamento.
Corro meus olhos em volta à procura de Freddie para me deixar em casa como combinamos antes das aulas começarem. Devido ao acúmulo de pessoas próximas à saída, fica difícil de encontrá-lo.
Não muito distante de onde estou, encontro andando entre as pessoas em uma pose confiante e de queixo erguido como de quem não quer nada com um homem ao lado, provavelmente seu amigo. Ele tem cabelos pretos, lisos e jogados para trás, mas, por hora, estão um pouco úmidos e olhos castanhos. Sua testa está enrugada e seus braços estão em volta do seu corpo tentando se aquecer.
Escuto alguns murmúrios das duas garotas ao meu lado sobre ser tão bonito que parece irreal. Infelizmente, não consigo discordar.
. – Chamo-o, elevando levemente o tom da voz, quando ele se aproxima de onde estou. Seus olhos azuis desviam do seu amigo para mim em instantes.
– Estava te procurando. – Afirma, passando as mãos nos cabelos desgrenhados e húmidos.
– Pode me dar carona hoje? – Pergunto um pouco receosa. Não quero ser um empecilho se ele tiver algum outro compromisso. – Eu não sei onde Freddie está.
– Ele me pediu para te levar hoje, porque as aulas dele acabaram mais cedo e você não trouxe celular. – Seu amigo me encara por alguns segundos e abre um sorriso de lado.
– Obrigada. – Agradeço, começando a seguir e seu amigo até o estacionamento.
O barulho alto do carro branco e opulento sendo destravado ressoa pelo estacionamento quase vazio quando aperta o botão. abre a porta do motorista e seu amigo entra no banco de carona, restando-me apenas o banco de trás.
Observo as mãos de arrancarem o casaco e a blusa molhada do seu corpo, deixando visível seus músculos definidos e a tatuagem de dois pássaros no peito, fazendo-me prender a respiração ao vê-lo tão de perto e tão tentadoramente tangível que minha imaginação fértil cria imagens das minhas mão correndo por cada dobra suavemente.
A má iluminação de ontem não me permitiu ver muita coisa. Hoje, no entanto, consigo ver cada músculo e curva perfeitamente. As gotículas de água fazem caminho por seus ombros e toda parte desnuda do seu copo. Suas mãos bagunçam seus cabelos, fazendo alguns respingos caírem na janela e no volante, enquanto seu amigo se olha no retrovisor, arrumando seus cabelos desgrenhados.
liga o aquecedor do carro, fazendo-o ficar mais quente e aconchegante gradualmente.
– Como você se chama, baby? – O amigo de pergunta, tirando-me dos meus devaneios.
A imagem de sem camisa insiste em dominar meus devaneios, fazendo-me balançar a cabeça suavemente para espantar todos os pensamentos sórdidos que insistem em rondar novamente. Eu realmente não deveria vê-lo dessa forma.
, e você?
, antes de ligar o carro, se curva ligeiramente em minha direção para deixar sua mochila preta ao meu lado no banco junto com as roupas molhadas e eu seguro a respiração novamente por alguns instantes. Seu braço tangencia minha perna e eu sinto o local formigar. As reações nada premeditadas do meu corpo quando me toca ou simplesmente está por perto estão me surpreendendo cada vez menos.
– É um imenso prazer te conhecer, ! – Sorri abertamente e tenta se livrar da água em seus cabelos, enquanto volta ao seu lugar e eu me obrigo a recobrar minha consciência. – Pode me chamar de Logan.
– Então você é o famoso antigo morador do apartamento dos meninos? – Pergunto e ele assente com a cabeça.
– As notícias correm rápido por aqui. – Sorri, exibindo sua fileira de dentes brancos. – Estamos em desvantagem, porque ainda não sei quem é você. – Logan liga o som, fazendo com que um rock pesado ecoe por todo o carro de uma forma tão alta que posso jurar que meus ouvidos podem explodir a qualquer momento. – Nunca havia te visto na universidade. –Fala alto como consequência da música alta.
– Eu sou caloura.
Sinto minhas bochechas corarem ao perceber o olhar carregado de interesse e segundas intenções de Logan queimar em mim pelo retrovisor. Não tenho oportunidade de mencionar Freddie em nossa conversa e acho que ele ainda não sabe que somos irmãos.
– Oh! – Exclama surpreso. – Então é você que está dormindo no meu quarto agora? – Sinto um leve tom de malícia quando ele fala de forma arrastada e arqueia as sobrancelhas.
me disse que você saiu do apartamento semestre passado. – Tento fingir que não percebi o tom de malícia ostentando em sua voz grossa.
– O velho estava cobrando caro no apartamento. – Afirma. – Precisei sair antes que ficasse totalmente sem grana.
para o carro em frente a um prédio grande e alaranjado idêntico ao nosso e Logan abre a porta do carro, virando-se em minha direção antes de sair.
– Até mais, . – Pisca e eu, com as bochechas recém coradas, aceno com a mão.
Logan fecha a porta do carro e minha respiração acelera quando escuto o baque alto que o atrito faz, porque isso significa que e eu vamos ficar sozinhos dentro do carro todo o percurso.
– Ainda não virei motorista de aplicativo. – Ironiza e eu me levanto do banco traseiro, indo me sentar ao lado dele.
– Aniquilou todas as dúvidas que tinha. – É a minha vez de ironizar, fazendo-o sorrir.
volta a dirigir quando coloco o cinto de segurança e abaixa o volume do som, fazendo-me suspirar aliviada. Seus dedos tamborilam no volante no ritmo da música.
– Você parece um pouco cansado. – suspira, enquanto o observo discretamente de soslaio. – Não conseguiu dormir ontem à noite?
O ar parece ter ficado mais quente, porque sinto que há uma brutal química sexual praticamente palpável em todo o carro, enquanto tento fingir que nada está fora do comum, mas nunca fui uma boa atriz. Pergunto-me se ele consegue sentir também o desejo lascivo que estou emanando, porque está ficando cada vez mais difícil de conter.
– Tive uma madrugada longa e interessante com a música. – Estaciona o carro na garagem do nosso apartamento.
– Você canta? – Não consigo conter a feição de surpresa que acaba de ficar evidenciada em meu rosto.
– Eu toco violão nas noites em que não consigo dormir. – Afirma, aguçando minha curiosidade sobre ele e como é a sua voz ao som de uma música.
– O que mais você esconde, huh? – Arqueio as sobrancelhas e ele sorri, balançando sua cabeça levemente de um lado para o outro.
– Acho que você vai ter que descobrir. – Abre a porta do carro e, antes de sair, ele desliga o som e o aquecedor.
– Você é cheio de mistérios. – Afirmo e saio do carro, escorando um dos meus braços no teto. – Mas temos muito tempo juntos ainda. Estou disposta a desvendá-los.
– Você também parece guardar muitas incógnitas dentro de si. – Coloca as mãos nos bolsos da calça jeans. – Vai ser um prazer desvendá-las.




Continua...



Nota da autora: Nota: Olá, meninxs! Tudo bem com vocês? (me perdoem. Não sou muito boa com notas) Espero muito que gostem dos novos capítulos. Até o próximo. sz





Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


comments powered by Disqus