Última atualização: 25/01/2018

Prólogo

Frederer e Drundstein, duas crianças com oito anos, são melhores amigos desde sempre. Seus pais, Harold Frederer, um ator renomado e Louis Drundstein, o guitarrista de uma das maiores bandas da Inglaterra e do mundo, a The Moonies, eram também melhores amigos e vizinhos e decidiram que criariam seus filhos lado a lado. A amizade entre os dois pequenos dava tão certo quanto a de seus pais, talvez ainda mais. Entretanto, não eram apenas eles dois; a irmã mais nova de , , o irmão mais novo de , , e a prima dos dois, , também faziam parte de um grupinho de amigos que já mostrava sinais de que seria permanente. São cinco crianças com tanta energia, tanta vida pela frente, com famílias ricas, boa educação, com o mundo inteiro ainda a ser conquistado.
A brincadeira não parava. e patinavam com seus rollers pela rua segura de suas casas, enquanto lia no quintal e e brincavam com sabres de luzes. Foi quando os dois primeiros quase foram atropelados por um carro nunca antes visto na vizinhança e um caminhão de mudança atrás que a vida deles começaria a mudar.
- O que você acha que deve ser? ― perguntou para a amiga, que deu de ombros.
- Que tal descobrirmos? ― sugeriu com seu sorriso sapeca e aventureiro, e ele aceitou.
Os dois foram patinando atrás dos veículos, até que pararam numa mansão nova e enorme. Do caminhão, alguns móveis eram descarregados, enquanto a família que estava no carro descia para conhecer seu novo lar. Entre eles, estava um menininho baixinho, loiro e com uma aparência um tanto tímida, com uma idade provavelmente aproximada dos dois curiosos. Ele parecia tão assustado e tão por fora de tudo, que sentiu pena. Agachada atrás de um arbusto junto a , ela olhou para o amigo.
- Vamos falar com ele, dar boas-vindas à vizinhança. O que acha? ― ela sussurrou.
- Eu não sei , ele não parece estar muito bem. ― respondeu com o mesmo tom de voz.
- Mas talvez possamos fazer ele se sentir melhor. ― insistiu, e ele sabia que ela continuaria insistindo se ele recusasse. Já conhecia a melhor amiga muito bem.
- Tudo bem, vamos lá. ― ele cedeu. Como agradecimento, beijou a bochecha dele, deixando o amigo com o rosto mais vermelho do que um pimentão, de tão envergonhado.
A menina foi saltitando até o garotinho loiro, que se assustou com a espontaneidade dela. sorriu para ele e começou a tagarelar.
- Oi, eu sou a e esse é o meu amigo , nós vimos o carro de vocês e decidimos vir até aqui e ver o que era. Daí vimos você aí e eu queria muito te conhecer, então vim até aqui. Qual o seu nome?
O garotinho soltou um risinho tímido com a falta de fôlego da menina louquinha em sua frente depois que ela falou seu pausar nem uma hora.
- . ― ele respondeu a pergunta dela.
- Quer brincar conosco, ?
Ele deu um sorrisinho e assentiu.
A partir daquele momento, havia um sexto amigo no grupo de crianças que cresceriam entre os holofotes, que tinham um futuro tão tranquilo e brilhante pela frente, que preservariam essa amizade para sempre, sem nenhum conflito. Pelo menos era o que todos esperavam.
Até que a adolescência deles chegou.



Capítulo 1

Hoje

encarava seu armário, completamente confusa. Ela perdera a tabela do seu horário há algumas semanas, e nem tinha o decorado.
- Você tem aula de Geografia comigo agora. ― chegou, salvando o mundo dela. pegou o livro da matéria e virou para o garoto, sorrindo.
- Você é um anjo, sabia? ― ela o elogiou e se aproximou para beijá-lo. ― Bom dia.
- Bom dia, amor. ― ele retribuiu o beijo da namorada.
A história de e começou logo naquele dia, dez anos atrás, quando se conheceram. O garoto desenvolveu uma quedinha por ela, e vice-versa. Com o passar do tempo, esse sentimento só foi aumentando, e foi logo no começo da adolescência que eles decidiram namorar. Eram considerado o casal perfeito e modelo na escola em que estudavam.
Mas, bem, aparências enganam. Certo?
- Eu. Vou. Vomitar. ― apareceu ao lado deles como um fantasma, fazendo os dois se assustarem e se separarem.
- Alguém está em um excelente humor, hein. ― zombou da boa vontade da amiga, que substituiu a cara amarrada por tristeza.
- A tia Taylor foi para o hospital... ― essas palavras de foram o suficiente para chocar .
Taylor Drundstein era a mãe de e e, consequentemente, a tia de . Ela tinha sido diagnosticada com leucemia há poucos meses, mas a doença já estava em estágio avançado. Esses meses foram resumidos em um completamente perdido e frágil, bebendo toda hora e em um que fingia que estava tudo bem e sob controle, mas todos conseguiam ver o medo de perder a mãe em seus olhos.
- Ai, meu Deus, não acredito nisso! ― chegou a até gaguejar um pouco. ― Como estão os garotos?
- Na última vez que eu vi eles na casa deles antes de ir pra aula, estava trancado no quarto e estava deitado no sofá encarando o teto com o olhar mais vazio que eu já vi. ― respondeu.
- Eles não ficaram no hospital? ― perguntou por curiosidade e balançou a cabeça negativamente.
- O tio Louis mandou eles para casa.
ficou abalada pelo resto do dia por causa das notícias de . Taylor era como uma mãe para , já que a sua original se divorciou do seu pai quando ela tinha treze anos e quase nunca ligava ou fazia contato. Ela era divertida, pé no chão, tranquila e uma ótima mãe para os garotos, que sempre ganhavam conselhos valiosos dela. Ela tratava , e como as filhas que ela nunca teve e era uma mentora incrível. Por que as coisas ruins sempre acontecem com os bons?
A garota não conseguia parar de pensar nos seus melhores amigos e como eles deveriam estar. Devastados, com certeza, mas ela queria ajudar, e ficar naquele buraco de escola não ajudava em nada. Ouvir aquele professor falar sobre a globalização quebrava ela por dentro por não estar junto dos garotos.
- Acalme-se, . A casa deles vai estar no mesmo lugar quando você for. ― tentou acalmar a namorada que encarava o relógio do refeitório com um toque de bom humor, mas aquilo só piorou a situação.
- Você viu como eles ficaram quando descobriram a doença, imagina como eles devem estar agora! Eu preciso ajudar! Não é hora para brincadeiras. ― ela se irritou.
- É, eu sei muito bem como eles ficaram. ― resmungou, recebendo um olhar torto da namorada.
Desde que Taylor tinha sido diagnosticada, tentava ao máximo ajudar os garotos, principalmente , que era o que mais demonstrava a dor. Ela passava muito tempo com ele. Dormia na casa dele, dava caronas para a escola, passava boa parte de seus dias com ele. E isso, é claro, enciumou em um nível inimaginável. Antes disso, já circulavam boatos de que era muito apaixonado por , mas escondia isso com seu lado mulherengo, além de que muitos do que convivem perto dos dois sempre acharam que eles tinham um tipo de “tensão sexual” acontecendo. Nada disso era confirmado como verdadeiro, mas era o suficiente para atiçar a ira do namorado da garota ― o que não era muito difícil, já que era de conhecimento popular que ele possuía certos problemas com raiva.
- Não comece com seu ciúme ridículo, . Estamos no meio do almoço. ― cortou as asinhas dele, que bufou.
- Tudo bem. Não é hora para falar disso, de qualquer jeito. ― ele respondeu.
e , que também estavam na mesa, apenas se entreolhavam e ficavam quietas. Elas nunca se metiam nas brigas dos dois, embora tivessem muita vontade.
- Ei, posso ir com vocês na casa dos garotos depois da aula? ― olhou para e sua irmã.
- Claro. Já te levaríamos de qualquer jeito, você é a única que consegue falar com o sobre isso. Nem consigo imaginar o porquê... ― disse com um tom sugestivo, sorrindo de canto, fazendo a mais nova da mesa atirar uma batatinha nela.
- Eles estão num momento de dor, não é hora para as suas malícias sem sentido. ― a repreendeu, mas com uma pequenina vontade de rir.
Enquanto um possível sentimento entre e parecia nunca sair dos rumores, era quase confirmado que seus irmãozinhos mais novos, e , eram completamente apaixonados um pelo outro. Eles eram grudados; sempre foi um garoto muito fechado acerca de seus sentimentos e sempre foi a única a conseguir entrar em sua pele e ajudá-lo. Eles sabiam segredos um do outro que mais ninguém sabia e se conheciam como ninguém. Entretanto, era tímida demais para demonstrar qualquer tipo de amor, então a acompanhava nisso. Contudo, todos sabem que algum dia um namoro vai acontecer.
- Ainda bem que tenho o teste para aquele comercial, não estava afim de ficar sozinho a tarde inteira. ― disse, fazendo as três garotas revirarem os olhos.
- Você pode viver sem a gente por algumas horas. ― disse.
- Não, acho que vou morrer. ― O garoto disse em um tom dramático, que as fez rir.
- Você é horrível, . ― falou, e ele deu de ombros.
- Pelo menos consegui distrair vocês por um segundo. ― ele abriu seu típico sorriso torto.

(...)

Quando o sinal para ir embora tocou, uma sensação de alívio tomou conta do corpo de , pois a aula parecia ter se arrastado de tanto que ela esperou. Um muito contrariado deu carona para ela e as outras garotas até a casa dos garotos ― que era, de qualquer maneira, ao lado da casa dela e de .
- Não perca o contato, ok? ― o namorado pediu, quase que suplicando.
- Eu juro que vou falar com você por mensagem enquanto estiver lá, mas preciso dar atenção para os meninos. ― explicou, mas pareceu apenas frustrar o loiro.
- Bem, tchau, então. ― abriu a porta para ela, mas sequer lhe deu um selinho. suspirou e revirou os olhos, mas decidiu não confrontá-lo.
- Nos vemos depois. ― foi tudo que ela disse em sua despedida.
gostava muito do . O garoto era atencioso, fofo, romântico... quando não se tratava de . Desde que se conheceram, mesmo sendo crianças, os dois garotos nunca se deram bem; porque acha que possui sentimentos por , e porque acha que é um péssimo namorado para . Antes eles tentavam ter uma relação no mínimo cordial para o bem da garota, mas desde o adoecimento da mãe de o garoto não vem sendo exatamente um exemplo em seus convívios humanos.
- Não ligue pra ele, . Você sabe como ele é ciumento. ― a irmã mais nova tentou acalmá-la enquanto elas se dirigiam até a entrada da casa.
- É, mas ele é ciumento nos momentos mais inadequados possível. ― reclamou, bufando, mas passou a tentar deixar essa raiva de lado à medida que se aproximava do portão.
- Esqueça isso por um tempo, vamos focar nos garotos. ― pediu, logo tocando o interfone que levou um tempo para ser atendido.
- Quem é? ― podia se ouvir a voz embargada de pelo aparelho.
- A , a e a . ― anunciou a si e as outras garotas.
Um suspiro foi ouvido pelo interfone e uma demora até que o portão fosse aberto foi percebida; ele provavelmente estava pensando se deixava a prima e as amigas entrarem para falarem sobre sua mãe, até que o portão foi destrancado e a entrada das três permitida.
Foi um longo caminho dos jardins da casa até a porta de entrada e, quando chegaram, já havia aberto e estava usando apenas um pijama, com os cabelos negros despenteados e olheiras enormes embaixo dos olhos.
- Oi, ... ― as três o cumprimentaram em um coro.
- Oi. ― ele nunca pareceu tão desanimado quanto naquele dia.
Como se lessem as mentes uma das outras, , e todas o abraçaram ao mesmo tempo. Por alguns momentos, ele não retribuiu, até que o fez e começou a chorar.
Aquela era, possivelmente, a primeira vez que Drundstein chorava na frente de outras pessoas. Ele já se irritou, já jogou coisas na parede, já quebrou copos e pratos, mas nunca chorou.
- Só... só não quero perdê-la, sabem? ― ele disse, fungando.
- Sabemos disso, . Ela é uma mãe incrível. ― mexia no cabelo dele enquanto falava, como uma tentativa de relaxá-lo.
- E você é forte, vai superar isso, priminho. ― abriu um sorrisinho fraco para tentar animá-lo, e conseguiu um pouco.
- está trancado no quarto dele e não sai de lá desde de madrugada, estou começando me preocupar. ― ele disse e virou o rosto para imediatamente após.
- Vou ver como ele está. ― abriu um sorrisinho, acenou com a cabeça e subiu às escadas.
e conduziram até o sofá, uma fazendo carinho nas costas dele e a outra no cabelo.
- Sabe, a última vez que fiquei no meio entre duas garotas que me acariciavam foi duas semanas atrás. ― ele tentou melhorar o clima com seu humor ácido, e conseguiu.
- Você não tem salvação, não é? ― riu fraco, e logo sentiu o olhar de no seu.
- Nah, só às vezes. ― ele continuou a olhando fixamente com seus olhos verdes e seu sorrisinho maroto.

(...)

bateu na porta do quarto com uma placa de trânsito pelo menos cinco vezes antes de ouvir a voz rouca de .
- Quem é? ― ele perguntou com vontade alguma.
- É a . ― ela respondeu e se escorou na porta. ― , por favor, abra essa porta. Todos estão preocupados com você.
Sem pestanejar, o garoto abriu a porta. Ele estava uma bagunça; seus cabelos castanhos estavam parecendo um ninho de passarinho, sua cara indicava que ele não dormiu por nem um segundo e ele usava um roupão todo amassado. Ao vê-lo assim, se jogou em seus braços, e apertou mais ainda o abraço.
- Eu nem consigo imaginar o que você está passando agora, mas só quero que você saiba que eu estou aqui. ― ela sussurrou enquanto ainda estava com a cabeça apoiada no ombro dele.
- Você promete?
- Prometo. Sempre.



Capítulo 2

estava absorto em seus sonhos ou, pior ainda, seus pesadelos. Entretanto, esses apenas se tornaram normais desde que sua mãe adoeceu. Eles consistiam no mesmo assunto: ela morrendo e ele se sentindo perdido, como se não conseguisse seguir com a vida. Era como se ele estivesse preso em uma caixa e à medida que sua vida passava, a caixa ficava cada vez mais apertada, o sufocando.
No final, quando ele já estava sendo comprimido pela caixa, ele acordou tentando gritar, mas sem ar para tal e com suor por todo seu corpo. Quando ele olhou para o lado, estava ali, abrindo seus olhos cansados aos poucos por ter acordado com seu movimento. Ela sempre tivera sono leve, desde criança.
- O que aconteceu? - ela perguntou esfregando os seus olhos verdes enquanto eles encontravam os de .
- Um pesadelo, só isso. Pode voltar a dormir. - tentou parecer calmo, porém falhou miseravelmente. Por sua voz pouco trêmula, a amiga conseguiu ver a perturbação que aquilo causava nele.
- Não foi só um pesadelo, . Fale comigo. - subiu na cama e ficou ao lado dele, segurando sua mão. De alguma forma, aquilo já era capaz de acalmá-lo.
- Eu os tenho frequentemente. Neles a minha mãe morre e eu não sei como seguir com a minha vida. Depois fico preso numa caixa e enquanto minha vida passa, mais ela se aperta e me sufoca até eu acordar.
Sem perceber, deixou escorrer uma lágrima enquanto recapitulava seu pesadelo. E, realmente, não era algo restrito à hora de dormir. Ele não sabia o que faria se sua mãe morresse, ele não sabia como reagiria e o que faria da vida depois disso. Era um medo real.
prestou atenção em tudo; nas palavras, nas reações aparentes e não tão aparentes. Ela só queria pegar a dor dele e destruí-la para que ele voltasse a ser o garoto alegre e alto astral de antes. Entretanto, se ele já tinha mudado com a doença da mãe, imagina se ela morresse? Ela tinha que sobreviver, não apenas por ela, mas por e também. Aqueles meninos ficariam devastados se isso acontecesse.
Ele estava tão perdido, tão... vazio. Ela conseguia ver isso. Então, depois de minutos encarando os olhos elétricos, porém tristes, dele, ela o abraçou. Mas não foi qualquer abraço. Foi o abraço. Embora apertado, era confortável, pelo menos para ele.
- Eu quero que você saiba que independente do que aconteça, eu estou aqui. Eu estive aqui, estou aqui e sempre estarei aqui. Vou ajudar você a superar qualquer coisa. E tenho certeza que não serei a única. - ela acariciava os fios negros do cabelo dele enquanto o consolava. - , você é cercado de pessoas que te amam, que querem seu bem e que irão pegar sua mão e te ajudar nessa caminhada difícil.
- Mesmo na pior caminhada de todas? - ele perguntou, sussurrando no ouvido da amiga.
- Sim, mesmo assim. - ela se separou do abraço e olhou nos olhos do garoto, tocando na bochecha levemente corada pelo sono.
Quando olhou de volta, foi como se uma chama se acendesse no seu coração. Parecia que, depois de dias, ele só precisava do olhar e das palavras de para sentir-se confortável novamente. Ele chegou até a esboçar um sorriso.
- Obrigado, . Eu precisava disso. - ele agradeceu, sem desviar o olhar por nenhum segundo.
- Fico feliz por poder ajudar. - ela sorriu de volta e também não desviou o olhar, o que fez ela quase perder o ar. Sempre que eles ficavam se olhando daquele jeito, chegava a um ponto que ficava tão intenso que ficava sem fôlego.
não conseguia decifrar o que ele sentia sempre que estava tão perto da amiga. Era algo diferente, algo que sempre existiu, mas que se intensificou à medida que eles cresceram. Ele nunca contou isso para alguém, com medo de qual seria a possível resposta.
Quando ele piscou, suas respirações já se misturavam. Ela estava tão perto, tão perigosamente perto. Ele queria se conter, ele precisava se conter, mas será que conseguiria? Enfim, ele não precisou. Ela fez isso por ele, provavelmente lembrando-se da existência daquele loiro babaca que chamava de namorado, pelo menos foi isso que achou que tinha acontecido.
- Tente dormir mais, está bem? - ela pediu. Mas, ao invés de voltar para o seu colchão, ela apenas se virou e dormiu ali mesmo, na cama de .
Por que ele estava achando isso tão estranho? Eles já tinham dormido na mesma cama muitas vezes através dos anos e, embora ele nem se lembrasse da última vez, costumava ser tão normal. O garoto não sabia o que fazer ou sentir e provavelmente seria indelicadeza perguntar a ela a razão disso, então decidiu que faria a coisa mais certa no momento: dormir.

(…)


- , , acordem!
A voz que parecia ser um misto de choque e de pressa de pegou os dois de surpresa. Quando finalmente acordaram, quase pularam da cama de susto ao perceberem que dormiram abraçados. olhou para a irmã mais nova, que estava de braços cruzados e uma expressão debochada.
- É, há dois minutos eu tive a mesma reação de vocês dois com essa... cena. - ela demonstrou uma careta de novo, mas suspirou e tentou lembrar o que tinha que falar com eles, pois aquele era o motivo de ela estar ali. - Ah, , seu pai está aqui. Disse que tem notícias sobre sua mãe.
No mesmo momento em que ouviu “notícias sobre sua mãe”, o coração disparou e ele nem precisaria de um café para acordar, aquilo foi mais do que suficiente. Precisava saber o que estava acontecendo, afinal seu pai nem se incomodou em ligar durante a madrugada.
apenas lavou o rosto; estava tão tranquila durante a noite anterior que teve preguiça de ir à sua casa - que era literalmente ao lado - para pegar seus pijamas, então dormiu com roupas normais. Quando saiu do banheiro, deu de cara com , chegando a ficar envergonhada ao lembrar que acordou abraçada no peito dele quando o viu. Aquele sentimento de acanhamento era praticamente inédito, mas ela decidiu deixar isso para trás - ou pelo menos tentaria.
Eles três desceram os vários lances de escada presentes naquela casa e encontraram e Louis, o pai dos dois, sentados no sofá da sala. O rosto de , que anteriormente demonstrava certa esperança de que a notícia fosse boa, se fechou ao observar as expressões do pai e do irmão, que pareciam bem desolados.
- Como ela está? - ele perguntou, engolindo seco.
Louis tentou procurar as forças para poder encarar o filho mais velho e falar a pior notícia que ele recebeu na vida, assim como fez com o mais novo.
- , os médicos desistiram. - anunciou.
- Como assim eles “desistiram”? - fez aspas com os dedos, e suas sobrancelhas erguidas demonstravam uma indignação nunca vista antes.
- A doença da sua mãe já está em um estágio muito avançado, nenhum tratamento está tendo resultado e pelo jeito, nunca terá.
Naquele momento, o pai e os filhos já não conseguiam segurar as lágrimas. As três garotas se entreolhavam, não sabendo o que fazer, como reagir, mesmo os conhecendo desde as fraldas. Uma situação daquelas era tão triste e desconfortável.
- Ela vai voltar para casa? - perguntou, sempre enxugando as próprias lágrimas o mais rápido possível, pois não gostava de demonstrar a tristeza.
- Sim, amanhã ela vem para ficar conosco em seus... últimos dias.
Um clima muito pesado pairou por um tempo naquela sala de estar. Eles, com seu luto, elas com a mesma coisa, mas também não sabendo o que fazer, como ajudar. Aquela notícia era horrível. Todos amavam Taylor Drundstein. Ela era muito mais do que a “queridinha da Europa”, que era como a mídia se referia à cantora; ela era uma mãe. Uma esposa. Uma tia. Uma amiga. Uma mulher maravilhosa que não merecia passar pelo que estava passando. Era um acontecimento extremamente infeliz.
- Podemos fazer algo para ajudar? - perguntou, com a voz baixa e demonstrando demasiada tristeza.
- Só... dê as notícias para o seu pai. Está bem? - Louis pediu e assentiu, cabisbaixa. - Vocês podem ir para casa agora, meninas. Se precisarmos, chamaremos vocês.
As três garotas acenaram com a cabeça e pegaram suas coisas mas, antes de irem, abraçaram os meninos.
- Ligue para mim ou me mande uma mensagem se precisar de algo, está bem? - sussurrou no ouvido de .
- Está bem. - ele concordou, mas não pareceu estar muito dentro daquela proposta.
Elas acenaram para eles antes de irem, enquanto caminhavam para fora das grades que protegiam a mansão.
- Quer ficar conosco hoje, ? - ofereceu à melhor amiga.
- Não, obrigada. - a garota recusou, enquanto vestia seu casaco enorme devido ao frio. - É melhor eu ir pra casa e dar as notícias ao papai... nos vemos segunda?
- Está bem, nos vemos. - concordou e abriu um sorrisinho confortante antes de caminhar para o caminho contrário junto à irmã.
Mesmo sendo vizinhos, era preciso caminhar certo caminho até e chegarem à sua própria casa, considerando que as duas são mansões com quintais maiores que cinco casas normais juntas. As garotas usaram esse tempinho de caminhada para pensar no que acontecera na noite passada.
- Então, como estava ? - a mais velha começou a puxar conversa.
- Uma bagunça. E ?
- Ele queria fazer que estava bem, mas não conseguiu. Até teve um pesadelo e eu o acalmei. Por isso que dormi junto com ele. - tentou se explicar diante ao que tinha visto mais cedo, mas a irmã mais nova sorriu.
- Está tudo bem, . Eu sei que nada rolou. - ela a acalmou, fazendo um gesto com as mãos. A mais velha suspirou de alívio.
- Que bom. - ela colocou a mão no peito e começou a rir de nervosismo. - É que todo mundo acha que eu e o temos aquela coisa maluca que chamam de “tensão sexual”. Quer dizer, nós somos apenas amigos, sabe? E estou com o . Eu e o ? Nunca vai acontecer.
Com seus olhos azuis estreitos, lançou um olhar estranho para a irmã, que falou com tanta rapidez e tanto nervosismo, assim como ela agia quando estava escondendo algo na época em que as duas eram crianças. Além disso, embora ela soubesse que nada tinha acontecido naquela noite, era uma das pessoas que acreditavam no amor - ou, pelo menos, atração sexual - reprimido entre os dois.
- Ok, então... - ela sussurrou, mas , que não era burra, percebeu a reação dela.
- Mas e aí, como foi sua noite com , hein? - retribuiu a reação de com uma pequena provocação.
- Ele estava devastado, , como acha que foi? - revirou os olhos. - Nós só ficamos assistindo os filmes de Star Wars, conversando e comendo um monte de porcaria até dormirmos.
- Está tudo bem, . Eu sei que nada rolou. - imitou a voz da irmã com um tom absolutamente ridículo, e começou a rir.
- É um momento completamente triste nas nossas vidas e, de alguma maneira, você acha um jeito de fazer as pessoas rirem. - tentava conter o riso, mas não conseguiu.
- É um dom. - abriu um sorriso, mas logo fechou a cara e suspirou. - Odeio ficar triste ou sentir qualquer coisa negativa, sempre tento achar um jeito de contornar isso.
- Pois é... - sentiu uma onda de frio e tentou se confortar mais ainda nos quinhentos casacos que vestia.
Quando chegaram no portão na frente do seu lar, foi impossível não notar o garoto loiro, com cabelos bagunçados e olheiras enormes encostado nele. olhou com reprovação para a namorada e a cunhada, que olhavam surpresas para ele.
- Por que está aqui? - Perguntou .
- Estou aqui desde ontem à noite. Nós iríamos sair depois que você cuidasse deles e que eu terminasse o teste para o comercial, lembra? Seu pai não estava aqui e vocês aparentemente dispensaram os empregados, então estava preso do lado de fora. - ele resmungou.
- Eu pensei que isso tinha sido cancelado por causa dos garotos... - ela parecia confusa, enquanto conseguia ver que uma briga entre os dois se encaminhava. - Aliás, você mora aqui perto, por que não voltou pra casa?
- Bem, antes de sair do carro você disse “nos vemos depois”, então achei que você só passaria a tarde lá. - disse em um tom como se fosse óbvio, e revirou os olhos. - Então esperei por você por boa parte da noite, mas aí adormeci no chão.
- Eu disse num jeito raivoso, . Ou você ainda não sabe distinguir a diferença entre meus tons de voz mesmo depois de quatro anos de namoro e dez de amizade? - cruzou os braços, e chegou interrompendo os dois.
- Será que vocês não podem deixar essa discussão pra depois, hein? Foi um dia muito tenso para nós duas, . Dá um tempo, por favor. - a mais nova já estava tão cansada da insensibilidade e o ciúme do cunhado quanto a mais velha, mas nunca tinha perdido a paciência daquele jeito. Entretanto, pareceu funcionar, já que o garoto ficou mais calmo.
- Tudo bem. Vamos entrar.
Durante o resto do dia, e tentaram permanecer pacíficos. Não falaram nenhum segundo sobre o que aconteceu quando a garota estava na casa de e , só ficaram assistindo a alguns filmes e se divertindo enquanto cozinhavam brownies e resgatavam seu romantismo.
Ele fazia se sentir tão bem, embora eles houvessem seus momentos de fúria, o amor parecia prevalecer. Entendiam um ao outro, mesmo não tendo quase nada em comum. Era uma relação que, mesmo com seus problemas, era tranquila e confortável.
No momento, eles se encontravam na cama de casal no enorme quarto da garota. Eles estavam quase cochilando, mas não conseguia parar de admirar a namorada vestindo camisola e quase fechando os olhos de tanto sono. Ele começou a fazer um cafuné nela, que abriu um sorriso que demonstrava sua sonolência. Ele estava com tanta vontade de falar algumas coisas para ela, mas tentou se segurar para não ser tão meloso. Entretanto, disse algo um tanto quanto importante para ela:
- Ei, . - ele sussurrou com delicadeza, para que ela não se assustasse.
- Sim? - ela respondeu, tentando abrir um pouco mais os olhos verdes que batalhavam para não fecharem.
- Desculpa se o meu ciúme é exagerado vezes. - ele pediu perdão com uma voz já mais alta, enquanto continuava a mexer nos fios castanhos dela.
- Está tudo bem, amor. - respondeu, abrindo um sorrisinho fraco. - Às vezes é algo que não podemos controlar.
assentiu e continuou olhando para enquanto ela adormecia. Quando ele finalmente percebeu que a garota já estava feito uma pedra, ele deu um beijo na testa dela e foi dormir, também.

(…)


A vibração constante do celular na mesa de canto da cama acordou , que ficou um tanto mal-humorada por ter tido o sono interrompido. Enxergando praticamente apenas um borrão, ela pegou o aparelho e, quando conseguiu focar, viu uma notificação que dizia que ela possuía cinco mensagens de voz. Para não atrapalhar o namorado que estava atirado no outro lado da cama e possivelmente no seu 15º sono, ela foi até o banheiro para ouvir as mensagens.
, por favor, eu preciso de você”.
A primeira mensagem era curta assim, mesmo. Ela reconheceu a voz bêbada de e a playlist sempre repetitiva no fundo indicava que ele estava no bar favorito.
“Eu não posso perdê-la, . O que vou fazer quando ela chegar em casa amanhã? Não poderei encarar a minha própria mãe, . Eu vou desabar”.
“Por favor, eu sinto que você é a única que pode me ajudar nesse momento”.
“Eu só... só... não queria passar por isso”.
Nessa quarta mensagem, parecia estar muito abalado, e isso mexeu com o coração de de uma maneira inexplicável.
“Ah, Deus, sinto muito, eu estou incomodando você. Além de ser um merda que não sabe lidar com os problemas, estou ligando para a minha melhor amiga que provavelmente já está dormindo há um bom tempo. Mas, , você não faz ideia, não faz ideia...”.
Depois de ouvir todos os recados, a garota ficou dividida. Não queria abandonar o namorado, na sua própria cama, no meio da madrugada, mas droga. parecia precisar muito dela, e sempre que algo assim acontecia, ela não conseguia evitar ir correndo até ele. De alguma forma, toda vez que o garoto ficava mal daquele jeito, era como um ímã que a atraía até o local onde ele se encontrava para que ela pudesse tomar as dores dele.
Então, mesmo hesitando um pouco, pegou um casaco, as chaves do carro e de casa e saiu de fininho para ir ao resgate de .



Capítulo 3

encarou a fachada do Castle's Bar, um estabelecimento um tanto quanto decadente e com público duvidoso, mas que possuía ótimas bebidas e uma ótima seleção de músicas. Ela, particularmente, não gostava muito daquele lugar, mas sabia que amava e que era o seu refúgio.
Ela respirou fundo, preparando-se para o que estava por vir. Além de voltar para casa com o cabelo fedendo a cigarro, ainda teria que lidar com seu melhor amigo bêbado e devastado, que era algo extremamente difícil de assistir.
Quando entrou, a fumaça já veio a intoxicando e a fazendo tossir como uma louca. Pelo ranger da porta, automaticamente as pessoas curiosas ali presentes viraram seus pescoços para ver quem era. Algumas não se importaram, enquanto outras sussurravam nos ouvidos de suas companhias sobre a filha de Harold Frederer estar ali. deixou isso passar, e foi direto para o balcão de madeira perguntar ao dono do bar ― que já a conhecia de todas as vezes que ela tinha ido naquela espelunca com ― onde seu amigo se encontrava.
― Senhorita Frederer, que bela surpresa! ― o homem de meia-idade a cumprimentou, mostrando seus dentes amarelados.
― Olá, Carl. ― ela cumprimentou de volta, abrindo um sorrisinho. ― Eu recebi algumas ligações do para buscá-lo aqui, mas esse bar é tão grande. Você sabe onde ele está?
Carl apontou para o canto direito do bar, numa distância de cinco metros dali. estava sentado naquele lugar isolado, com a cabeça deitada na mesa, murmurando coisas sem sentido e rodeado de umas sete garrafas de vodka vazias e uma pela metade. Aquela cena quebrou o coração de , que fechou os olhos e suspirou.
― Eu já parei de servi-lo há muito tempo, mas ele aparentemente subornou um dos meus garçons.
A garota agradeceu pela informação e foi lentamente até onde o melhor amigo se encontrava. Ela sentou-se na cadeira ao lado da dele, e delicadamente tocou nas costas do garoto, que levou um susto.
― Shh, calma, , sou eu, a . ― ela sussurrou, e ele olhou nos olhos verdes dela, aliviado ao ver quem era.
... ... É você. ― estava completamente fora de si, com um olhar perdido e o cabelo muito bagunçado, quase um ninho de pássaros. ― Por que você está aqui?
― Você me ligou, lembra? ― ela delicadamente começou a passar os dedos pelos fios negros na cabeça dele, como uma forma de tentar arrumá-los. ― Vim aqui para te buscar e te levar para casa.
― Não, a minha casa não... ― ele lamentou.
― Sinto muito, , mas você não pode ficar aqui, precisa voltar para sua família. ― tentou levantá-lo da cadeira, mas o garoto era surpreendentemente pesado demais.
― N-não... ela não pode me ver desse jeito...
se agachou e ficou na frente dele, pousando as mãos em seus ombros largos. Ela olhou nos olhos dele de tal maneira que ele não conseguiria desviar.
― Você está certo, a tia Taylor não pode te ver desse jeito, mas sabe como resolver isso? Indo para sua casa e tomando um banho relaxante. Aí, você vai dormir e quando acordar, sua mãe vai estar lá e você vai ser forte. Por ela, por seu pai e pelo seu irmão. ― ela tentava encorajá-lo, mas ele não parava de olhar para ela sem dizer nada. Por fim, ela se aproximou ainda mais dele e sussurrou: ― Por mim. Por você mesmo. suspirou e assentiu. Ele levantou da cadeira cambaleando um pouquinho, mas relaxou o próprio corpo para que pudesse ajudá-lo.
― Você não vai contar para as pessoas que eu te liguei chorando... certo? ― ele perguntou, fazendo a amiga rir.
― Vou pensar no seu caso. ― ela brincou e sorriu de canto, logo o levou ele até o carro.
No mesmo segundo que pôs sua cabeça no banco, ele dormiu. Sabendo que o amigo tinha sono pesado, fez um comando no painel do carro para ligar para o celular de , que demorou a atender a chamada.
― Que-quem é? ― ele bocejou enquanto falava.
― Oi, , é a . O me ligou agora no meio da madrugada pedindo ajuda e eu acabei descobrindo que ele estava no Castle's, aí fui até lá e ele estava num lugar isoladão do bar todo caído e bêbado e eu quase chorei... ― , como sempre, estava tagarelando. Entretanto, o amigo sonolento a interrompeu.
―Wow wow wow, , vá mais devagar, por favor. Três e meia da madrugada e você já está falando como aquela mulher louca daquela série que você gosta.
― Ei, não fale assim da Lorelai! Enfim. ― suspirou e começou a pensar em um jeito de resumir a história. ― me ligou bêbado pedindo ajuda. Eu reconheci aquela playlist enjoativa do Castle's e fui até lá. Ele estava desolado. Agora ele está dormindo no meu carro e eu estou o levando para casa, você poderia pegá-lo quando eu chegar?
― Claro, . Vou esperar por vocês. ― disse isso e logo desligou a ligação.
O caminho até a vizinhança deles foi longo e cansativo. Com as ruas calmas no meio da madrugada, dormindo e os únicos barulhos sendo os das rodas do carro, lutava para não dormir na direção. Em certo momento, a menina não sabia qual, ela adormeceu por alguns segundos e, quando percebeu, deu uma freada brusca.
Por pura sorte, não havia carro algum na rua além do dela. respirou fundo e olhou para o lado para ver se estava bem. Sim, ele estava bem, na verdade, ele ainda estava dormindo. Céus, esse carro poderia pegar fogo e ele não acordaria, pensou.
Sentindo-se melhor depois do susto da freada, a garota seguiu até a casa do garoto tranquilamente sem mais algum "quase-acidente". Quando chegou, já estava na frente de sua casa com seu pijama e um roupão.
deu a volta por seu carro preto e abriu a porta do carona, fazendo um esforço enorme para conseguir apoiar o corpo de no dela. A garota chegou a se atrapalhar tanto que ele até acordou.
― O-O que está acontecendo? ― ele perguntou com a sua voz completamente enrolada.
― Você está em casa. ― respondeu.
― Ah. ― isso foi tudo que ele expressou antes de adormecer novamente.
foi até o irmão e o pegou, colocando-o no ombro, sem maiores dificuldades.
― Caralho, você precisa me dizer quem é o seu personal trainer. ― a garota disse, olhando impressionadíssima para o amigo.
― Bem, você já sabe que eu estou acostumado com essa situação. ― apontou para o irmão, referindo-se das inúmeras vezes que já teve que carregar ele, sendo pela bebida ou simplesmente pelo sono pesado.
― É... ― ela assentiu e ficou sem jeito quando olhou nos olhos dele e percebeu a tristeza dentro deles. ― Olha, , eu sei que a única pessoa com quem você consegue conversar ultimamente é a , mas todos nós estamos aqui por você, está bem?
― Estou bem, . ― o garoto colocou essas palavras para fora, mas tanto quanto ele mesmo sabiam que elas não eram verdadeiras.
― Ok, então. ― ela assentiu. ― Bem, meu trabalho aqui foi feito, acho que vou para casa e voltar a dormir.
― Obrigado por ter trazido o . Eu realmente não sei o que ele seria sem você. ― o agradecimento de tocou o coração de em níveis que nem ela reconhecia.
― Eu só fiz o que qualquer boa amiga faria. ― ela sorriu. ― Boa noite, .
― Boa noite, .
Depois de ter cumprido seu papel de melhor amiga, tudo que queria era ir para casa, seu quarto, se jogar na cama e dormir nos braços de . Pois bem, ela foi pra casa, foi até seu quarto e se jogou na cama. Contudo, quando ela virou para o lado, não havia mais ali.
A garota entrou em desespero; ele não tinha deixado bilhete, nenhuma mensagem ou ligação no celular. Ele tinha literalmente sumido.
sabia. É claro que ele sabia, ele sempre sabia. Parecia que ele tinha um sexto sentido em que era possível saber quando a namorada estava com .
apenas deixou uma mensagem no celular e decidiu que lidaria com isso de manhã. Ela estava cansada e esgotada daquele dia, daquela noite. Por fim, ela só virou para o lado dormiu.

(...)


A cabeça de latejava tanto que parecia até que alguém estava batendo nela com um martelo. À medida que ele abria mais os olhos, mais estranha sua situação ficava. Suas últimas memórias eram do Castle’s Bar e de um whisky barato descendo na sua garganta e, quando ele percebeu, estava deitado em sua cama confortável e vestindo um pijama.
Entre cambaleios, o garoto marchou até o banheiro e surpreendeu a si mesmo quando observou as olheiras fundas e destacadas no seu rosto. Ele tentou deixar isso de lado e lavou o rosto e escovou o cabelo, que não se endireitava de jeito algum.
Já irritado com o começo da sua manhã, decidiu tomar o café da manhã para ver se seu humor melhorava. Enquanto ele descia às escadas, conseguia ouvir a voz doce, angelical e um pouco afetada pela doença da sua mãe. Ele não sabia o que sentir quando a viu sentada em uma cadeira de rodas, com um lenço na sua cabeça e a aparência esquelética; foi um misto de felicidade em vê-la novamente e de tristeza profunda de saber que era um de seus últimos dias de vida.
― Ah, meu garotinho. ― o sorriso no rosto de Taylor Drundstein ao ver o filho mais velho a fazia parecer saudável novamente.
― Oi, mãe. ― ele aproximou-se lentamente dela, até que não conseguiu segurar a vontade de dar-lhe um abraço.
― Você bebeu? ― ela perguntou enquanto farejava o filho, que estava extremamente desconfortável.
― E seu olfato continua intacto... ― ele suspirou. ― Estou bem, mãe.
Ela jogou seus olhos azuis desconfiados para .
― Acho bom. Não quero que você entre para esse mundo só porque eu estou prestes a virar um zumbi. ― Taylor jogou seu humor ácido de sempre, não deixando o filho muito surpreso, já que ele mesmo herdou aquela característica.
― Pra ser justo com você, mãe, o já era assim antes. ― disse do canto da cozinha, um feito que recebeu um olhar atravessado do irmão mais velho como resposta.
Ignorando os dois, pegou um pacote de biscoitos e ficou comendo enquanto escorava o corpo na bancada americana.
― Onde estão suas mochilas? Vocês já estão atrasados para a escola. ― a mãe perguntou, e os irmãos se entreolharam. ― Garotos... eu não quero que vocês parem suas vidas por minha causa.
― Mas, mãe, nós só queremos passar um tempo com você... ― justificou, mas Taylor desaprovou.
― Vocês passaram 17 e 16 anos comigo. E a escola é importante. Aliás, se vocês ficarem aqui, ficarão o tempo inteiro na minha função, e sabem o quanto eu odeio isso. Ficarei mais feliz se vocês forem lá, se distraírem com seus amigos e as matérias. ― ela disse, olhando fixamente para eles, como se implorasse para que eles fossem.
Os irmãos olharam um para o outro e suspiraram, não sabendo mais o que fazer. Embora quisessem ficar com ela, não seria melhor se eles apenas aceitassem suas vontades? Não queriam contrariá-la, pelo contrário, queriam agradá-la.
― Acho que vamos, então. ― deu de ombros e olhou nos olhos azuis da mãe. ― Você tem certeza que não quer que fiquemos?
― Ei, eu tenho minha televisão, meus remédios, meu vaporizador, nossos empregados e a minha enfermeira. Ficarei bem. ― ela tentou amenizar a situação, mas tossiu uma quantidade significativa de sangue no lenço que carregava.
― Olha, nós vamos ficar... ― foi dizendo até que Taylor levantou a mão entre sua tosse para interrompê-lo.
― Como disse, minha enfermeira está aqui. Eu me sentirei melhor se vocês forem. ― ela continuou insistindo, agora com a voz rouca e baixa devido a tosse.
Completamente contrariados, os irmãos vestiram seus uniformes e arrumaram suas mochilas. Entretanto, antes de irem para a escola, fizeram questão de beijarem cada lado das bochechas da mãe e de falarem um “eu te amo”.
Era frustrante para aqueles dois adolescentes verem a mãe lutando por sua vida, sabendo que não teria sucesso. Entretanto, era algo que eles seriam obrigados a aguentar até que acabasse.

(...)


chegara na escola quarenta e cinco minutos antes do começo das aulas, algo que era nada comum para a garota. Contudo, ela tinha um motivo: queria ver se o namorado aparecia depois do sumiço da madrugada. Agora, como ela estava se mantendo acordada, considerando que certo evento interrompeu sua noite de sono? Café. Muito, mas muito café, ao ponto de a garota não conseguir evitar sua perna de tremer como louca.
O tempo passava, os ponteiros do relógio se moviam, e nada de Redwood.
― Ok, já me diga o que está acontecendo. ― se aproximou quando notou que algo estava claramente errado com a melhor amiga, considerando o tremor dela e os cabelos mal escovados.
― Tive uma noite bem agitada. ― respondeu e logo bufou.
― Detalhes, por favor.
― Bem, quando cheguei em casa depois de termos passado a noite e a manhã com os garotos, estava em frente a minha casa, esperando-me voltar. Ele aparentemente achou que nós íamos nos encontrar de noite, e acabou adormecendo enquanto me esperava. Nós discutimos um pouco e depois fizemos as pazes. Depois, no meio da madrugada eu recebi algumas ligações do pedindo ajuda e muito triste por causa da tia Taylor, eu saí de fininho para buscá-lo no Castle’s e quando eu voltei, simplesmente sumiu. ― ela explicou, mas não pareceu entender muito bem, ficando com a testa franzida.
― Ele... sumiu? ― perguntou.
― Yep. Bem assim. Cheguei, ele não estava na cama, não me deixou bilhete, mensagem, ligação, sinal de fumaça, nada. ― chegava a bagunçar ainda mais o seu cabelo e roer as unhas de tão nervosa.
― Talvez ele descobriu que você saiu para ajudar o , explodiu de raiva e você apenas não viu as cinzas dele no chão do seu quarto. ― deu de ombros e olhou para a amiga como se tivesse falado a coisa mais séria do universo.
― Esse é exatamente o meu medo! ― ela apoiou as mãos na testa. ― Sobre ele ter descoberto, é claro, não essa maluquice de explodir de raiva e cinzas no meu quarto.
― Relaxa, . Ele vai aparecer. ― fazia carinho nas costas da amiga para acalmá-la.
apoiou a cabeça no ombro da melhor amiga e se manteve ali por um bom tempo, até sussurrar para ela sair dali e ver quem estava em sua frente. A camisa social branca do uniforme da escola para fora da calça preta e a gravata com um nó malfeito não enganavam; estava bem ali, encarando ela.
― Graças a Deus! ― levantou-se do banco que estava sentada há meia hora e quase pulou nos braços do namorado. O loiro retribuiu o abraço, mas quando se separaram, ele a olhou com uma expressão séria.
― Precisamos conversar. ― disse.
― Ah, claro, vamos para... ― a garota começou a olhar em volta e pegou a mão dele, levando-o para a sala de música, que estava com as luzes desligadas. Ela sentou-se literalmente na mesa do professor. ― Pode falar.
― Você estava com hoje de madrugada, não estava? ― ele perguntou, e a namorada suspirou.
― Por favor, não quero brigar...
― Não vamos brigar. Só estou fazendo uma pergunta... que eu já provavelmente sei a resposta. ― pressionou os seus lábios finos e rosados.
― Sim, eu estava com hoje de madrugada. ― ficou cabisbaixa por alguns segundos mas logo voltou a encará-lo. ― Ele me ligou muitas vezes, ele estava bêbado e precisando de ajuda, então fui até onde ele estava e o levei de volta para casa. Foi só isso, eu juro.
― Eu acredito em você, acredito que foi só isso que aconteceu.
― Então onde você estava? Quando eu cheguei, você tinha sumido. ― foi a vez da menina perguntar.
― Embora agora eu acredite em você, quando você sumiu eu fiquei bem irritado. Eu já tinha uma ideia de onde você tinha ido, afinal é onde você sempre esteve nos últimos meses. Só precisava de um tempo para esfriar a cabeça e fui para casa. ― se justificou, e a namorada conseguiu ver que ele estava sendo honesto.
― Você poderia ter me deixado um bilhete ou algo assim...
― Estou aqui agora. ― ele foi se aproximando de onde a namorada estava e pôs a mão em uma de suas bochechas frias. ― Só preciso saber de uma coisa.
― Fale. ― ela pediu, quase sussurrando. Estava perdida demais no mar de olhos castanhos de seu amor.
― Prometa-me que não há nada acontecendo entre você e ele.
Quando ele disse aquilo, acordou da hipnose que seus olhos causavam e passou a olhar para ele como um ser humano. Um namorado. Alguém que tudo que queria era um pouco mais de atenção da namorada. Alguém frágil, um tanto quanto inseguro, mas que tentava ao máximo ser uma pessoa boa, principalmente quando se tratava dela. Aquele era o que ela conhecia, que ela amava e confiava. Por mais que achasse que nada aconteceria entre ela e , para quem era de fora poderia parecer outra coisa e, se fosse ao contrário, se fosse que consumisse quase todo seu tempo com outra pessoa, ela também não gostaria.
― Eu prometo. Eu sei que é difícil de acreditar, eu sei que todos aqui pensam que eu e o temos alguma conexão que não seja a da amizade, mas eu juro que eu só estou ajudando meu melhor amigo a passar pelo pior momento de sua vida. ― a garota pegou a mão livre de seu namorado e juntou suas testas, misturando suas respirações. ― Eu te amo, .
― Eu também te amo, .
Depois da troca de palavras de amor, eles não conseguiram segurar a vontade de se beijarem. Não um beijo comum, mas um beijo que provavelmente teria uma classificação +14 na televisão. Era impossível resistir aos toques, fosse a mão dele na parte nua das coxas de entre sua meia 3/8 e sua saia xadrez com o símbolo da escola, fosse as unhas vermelhas e afiadas da garota arranhando levemente a nuca de .
Se não tivesse sido pelo sinal altíssimo da escola, aqueles dois com certeza teriam avançado ali mesmo ― afinal, eram poucos casais naquela instituição que nunca transaram em uma sala de aula, ou na biblioteca, escadas e atrás do campo de futebol e do ginásio. e ? Mais de uma vez, em mais de um lugar. Entretanto, o dever chamava.
Eles foram para lados diferentes, já que tinham aulas diferentes. foi para a sala onde teria aula de História Inglesa, um tanto quanto atrasada e não há como imaginar a surpresa da garota ao ver que a única cadeira disponível era ao lado de onde estava sentado. Ele estava na escola logo no dia em que foi dito que sua mãe voltaria para casa? Com certeza não foi uma decisão que ele mesmo tomou.
também achou a situação estranha, mas não porque ela estava lá, e sim porque ela estava com o cabelo muito bagunçado e olheiras claramente escondidas por muita maquiagem.
Então tudo começou a voltar em sua mente. Ela o ajudando a se recuperar, suas palavras de motivação, tentando o levar para a casa e, antes de tudo isso, as ligações. O choro de desespero dele pela ajuda dela. O problema não foi ele ligar para , e sim ligar apenas para . Quando estava bêbado, seu costume era ligar para quase todo mundo; seu irmão, sua prima, , , garotas aleatórias com quem tinha saído, seus colegas de time, seus outros amigos... mas dessa vez foi apenas para ela.
E naquele momento, vendo abrir seu sorriso brilhante enquanto sentava ao seu lado, começou a vê-la com uma face completamente diferente.
Uma face que ele queria fingir que desconhecia, mas ah, ele conhecia muito bem. Era a face que todo mundo o alertava sobre.



Continua...




Nota da autora:Oi gente! Sim, eu sei, eu demorei muito para essa atualização. Eu vou ser honesta com vocês, com toda a loucura de 2017, eu pus essa fanfic para escanteio. Entretanto, quando eu estava mexendo pelos meus documentos, eu achei a fic e tudo começou a voltar para mim. Juro que eu vou continuar escrevendo ela (principalmente agora, que achei um gás), porque a história é um amorzinho e ela representa muito pra mim! ♥ Espero que gostem desse capítulo, e não se esqueçam de me dizer o que acharam!



Qualquer erro nessa fanfic e reclamações somente no e-mail.




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