Última atualização: 18/03/2019

Capítulo 1 - Em um piscar de olhos

O sol batia forte na janela ofuscando a visão de Francesca. Ela cobriu os olhos verdes com uma das mãos, enquanto procurava o neto no jardim. Voltou os olhos novamente para os ingredientes à sua frente na bancada da cozinha, teriam melanzane alla parmegiana para o almoço, era o prato favorito de Giulia, sua neta mais velha. Ao pensar nos netos, Francesca notou pela primeira vez quão silenciosa a casa estava. Giulia havia ido ao mercado com o nonno, comprar os ingredientes que faltava para receita, mas onde estava ? Seu neto mais novo havia ficado em casa brincando, entretanto, ela já não ouvia o barulho da bola com que brincava. Ele não estava no jardim e nem em lugar algum à vista.
. — chamou. Sem resposta, chamou mais uma vez, um pouco mais alto — !
Pela janela viu a bola de futebol, grande demais para uma criança de dois anos, cair da sacada em construção do andar de cima. Francesca sabia que a reação natural de seria a de seguir a bola, na tentativa de pegá-la. Sabia também que já era tarde demais para tentar qualquer coisa que não correr para fora de casa, pegando o telefone sem fio no caminho e ligando para a emergência.
* * *

São Paulo, Brasil – 18 anos depois.
Quando o discurso finalmente terminou, e os outros formandos levantaram, jogando seus capelos para o alto em uma sincronia quase que ensaiada. Depois de longos e exaustivos cinco anos, durante os quais pensara inúmeras vezes em desistir e largar tudo, havia, enfim, terminado a faculdade de letras. Optara pelo bacharelado em letras clássicas, latim mais especificamente e, apesar dos olhares e respostas de desdém que recebia toda vez que dizia estar cursando letras, o curso não eram tão fácil quanto todos deduziam. Nem um pouco. Ela bem sabia, estudara tanto nos últimos anos que não só deixava a faculdade mais inteligente do que entrara, mas também com alguns fios brancos a mais no meio de sua cabeleira castanha.
Tudo aquilo era passado agora. As provas, os trabalhos, o despertador tocando às quatro e meia da manhã de segunda à sexta. Só que não. Aquele era apenas o fim de uma etapa. Agora ela tinha o mestrado pela frente. Todo seu esforço e noites em claro estudando haviam sido recompensados, tinha conseguido uma bolsa para cursar o mestrado em Nápoles. Passaria um ano na cidade do litoral da Itália estudando autores e obras latinas, o seu favorito em especial, Virgílio. Já tinha tudo planejado, seria o paraíso.
Com a correria de deixar tudo preparado para viagem somada à correria das festas de fim de ano, os dias se passaram mais rápido do que ela gostaria. Queria aproveitar ao máximo a companhia dos pais, da melhor amiga e dos amigos mais próximos antes da mudança, mas quando deu por si, o grande dia já havia chegado.
Despedir-se dos pais foi mais difícil do que imaginou que seria e, enquanto os abraçava no aeroporto, sentiu um leve desespero. Era tarde demais, não tinha volta. Não que não tivesse pensado em voltar atrás, pelo contrário, desistir da viagem era a única coisa que passava pela sua cabeça nos últimos dias. Depois de tanto entusiasmo e planejamento, a realidade da situação a atingira em cheio. Estaria sozinha em um lugar completamente desconhecido, sem ninguém a quem recorrer ou pedir ajuda caso algo desse errado. Estaria longe de tudo e de todos que lhe eram queridos. Teria que suportar a saudade, a solidão e a insegurança por um ano inteiro. Um ano. Aquele era seu único consolo, em um ano estaria de volta. Um ano passava rápido, certo? Era isso o que todo mundo sempre dizia, reclamavam de como o ano passara em um piscar de olhos, sem que sequer tivessem começado a cumprir suas resoluções de ano novo. Não tinha por que aquele ano ser diferente.
Como se já não bastassem todas suas angústias e a tristeza da recém-despedida dos pais, a viagem não foi das mais tranquilas. Nunca gostara de viajar de avião, sempre ficava tonta e terminava a viagem com uma terrível dor de cabeça. Daquela vez não foi diferente. O céu estava com nuvens demais, fazendo com que o avião chacoalhasse cada vez que atravessava uma delas. No fim da viagem, sua dor de cabeça era tamanha que já não conseguia se concentrar nas coisas que a afligiam antes, tudo o que queria era que aquele avião pousasse o mais rápido possível. Um alívio percorreu seu corpo quando o piloto finalmente anunciou que estavam se preparando para o pouso.
Caminhou por entre as pessoas, segurando firme a mala de rodinhas, o coração acelerado e um frio no estômago. Estava em Nápoles. Uma brisa agradável bateu em seu rosto assim que passou pelas portas do aeroporto, bagunçando seus cabelos. Estava em Nápoles. Por um segundo permaneceu ali, em pé, sentindo a brisa e tentando se acostumar com a sensação de estar sozinha em um lugar completamente novo. Uma buzina a despertou e ela seguiu até um dos táxis que estavam ali. Disse o endereço ao motorista no melhor italiano possível e aconchegou-se no banco, contemplando a vista noturna da cidade. Estava em Nápoles. E à primeira vista Nápoles era incrível. Tão imensamente diferente de São Paulo, mas incrível mesmo assim.
Tirou os olhos da janela, quando a voz do taxista ecoou pelo carro em um italiano carregado.
— Primeira vez em Napoli? — perguntou ele, vendo a atenção e curiosidade com que ela observava tudo através da janela.
concordou com cabeça.
— Então toma cuidado com a bolsa. — ele avisou.
— Tem muito assalto? — perguntou preocupada, se esquecendo da paisagem que lhe chamava tanto a atenção há alguns instantes. Onde é que havia se metido?
— Talvez não roubem a sua bolsa, mas Napoli com certeza vai roubar o seu coração. — o motorista respondeu com um sorriso amável no rosto, tranquilizando-a.
Já era tarde da noite quando entrou em um dos edifícios da Piazza Amedeo, onde iria morar. Seus passos eram cautelosos, hesitantes. Aquele lugar seria sua casa pelo próximo ano, mas, apesar de parecer aconchegante, ainda lhe era desconhecido. Parou em frente ao apartamento que chamaria de seu, olhando o número na porta, 14. Uma música alta tocava ao fundo, vinda do apartamento em frente ao seu. Ótimo, estava em uma cidade onde muito provavelmente roubariam não só as suas coisas, mas também os seus órgãos e ainda por cima teria que lidar com noites em claro. Suspirou, ao menos seria ouvindo boa música. Seu vizinho podia ser meio surdo, mas, a julgar pela música que tocava, tinha bom gosto musical. Talvez fosse por isso que ninguém parecia incomodar-se com o barulho. Ou isso ou todos os outros eram tão surdos quanto ele.
Abria a porta de sua nova casa, quando ouviu uma voz abafada pela música.
Ciao.
se virou, sobressaltada, dando de cara com uma jovem um pouco mais velha do que ela. A italiana estava de pijama e tinha os cabelos cor de chocolate em um coque bagunçado no alto da cabeça.
— Você é a nova moradora? Eu sou Giulia, sua vizinha. — disse em um italiano quase cantado, com um sorriso bastante simpático no rosto.
. — ela respondeu um pouco sem graça, sem saber como agir. Era tarde e o cansaço lhe impedia de tentar causar uma melhor impressão.
— Se a música te incomodar, eu posso abaixar.
— Não, não tem problema. Eu gosto dessa banda. — sorriu.
O sorriso de Giulia aumentou e ela se aproximou, observando o apartamento onde sua nova vizinha iria morar, fazendo uma careta em seguida.
— Acho que você vai precisar fazer umas mudanças. O senhor Belisario não era muito fã de cores. — falou.
olhou o próprio apartamento. De fato, o lugar era todo bege. Um tom de bege que denunciava a idade avançada do morador anterior.
— É, acho que uma pintura nova é uma boa ideia.
— Eu posso te ajudar, se você quiser. — ofereceu Giulia.
concordou com cabeça, surpresa por sua nova vizinha ser tão amigável. Talvez tivesse dado sorte. Ou talvez estivesse prestes a descobrir, de um jeito bastante literal, o que o taxista quis dizer quando lhe disse que Nápoles roubaria seu coração.
— Combinado, no final de semana nós fazemos isso. — disse a italiana, antes de entrar em seu próprio apartamento, deixando sozinha para finalmente conhecer aquela que seria sua casa pelo próximo ano.
Deu o primeiro passo meio tímida, como se alguém a estivesse observando. Colocou a mala próxima à parede e fechou a porta atrás de si. Era isso, estava em Nápoles, não tinha volta. Tudo o que lhe restava era aproveitar ao máximo os 12 meses que tinha pela frente.
Estava em Nápoles.


Capítulo 2 - Algo de Especial

aproveitou a semana antes das aulas começarem para visitar as bibliotecas e museus da cidade, sabia que seriam os lugares que mais frequentaria durante seu tempo em Nápoles. Esperava ficar emocionada ao ver pessoalmente as obras que estudava, no entanto, não esperava que a emoção fosse grande a ponto de seus olhos se encherem de lágrimas. Por vezes, durante seus estudos, perdia-se em meio a datas que voltavam no tempo quase dois milênios; era mais tempo do que seu cérebro conseguia racionalizar, de modo que todas aquelas pessoas perdiam-se em sua mente como uma lenda que sobrevivera aos anos, mas que nunca existira de fato. Ver aquelas de perto, tê-las ao alcance de seus dedos, tornava tudo real. Era como uma cápsula do tempo, podia sentir a presença de todos os seus autores favoritos ali. Como se passado e presente se fundissem em um só.
Fez uma nota mental para acrescentar à sua lista — inexiste — de resoluções para o ano novo ‘visitar o maior número de locais históricos da Itália possível’. Já previa a choradeira que iria acontecer quando fosse ao coliseu.
Sua segunda parada foi à loja de tintas que Giulia havia lhe recomendado, perto de casa. Optou por cores claras e neutras, mas que trariam um pouco mais de vida ao apartamento. Não queria nada muito exagerado e também não queria nada elaborado demais, afinal aquela era apenas uma residência temporária. Além disso, algo simples e prático combinava mais com seu estilo.
As batidas à sua porta no sábado de manhã a surpreenderam, não pensou que Giulia estivesse falando sério quando disse que estaria lá as seis para começarem a pintura. Às seis horas da manhã, porém, lá estava Giulia, preparada e equipada para colocar as mãos à obra.
Certificaram-se de que todo o chão estava bem coberto com jornal e então começaram a pintar a sala, embaladas pela música empolgante que saía das caixas de som. Começar o trabalho cedo foi uma ótima ideia, ao meio dia já tinham passado a primeira mão de tinta no apartamento inteiro.
descansou o rolo com que estava pintando, agradecida por ter que esperar a tinta secar antes de começar a segunda e última mão, já estava bastante cansada. Pintar paredes sempre parecia mais fácil e divertido nos filmes, na vida real era exaustivo e a tinta fedia um bocado.
— Nós podemos almoçar enquanto esperamos a tintar secar um pouco. — sugeriu, além de cansada, estava faminta.
— Perfeito. — sorriu a napolitana — Nós podemos almoçar na minha casa, o cheiro aqui está meio forte.
Giulia preparou uma macarronada rápida para o almoço, um grande clichê italiano, mas não tinha como fugir do bom e velho spaghetti quando se precisava de uma refeição rápida, apetitosa e que satisfizesse a fome, que no momento estava gigantesca.
Sentou-se à mesa com e sorriu, feliz por finalmente ter uma vizinha que fosse da sua idade. A brasileira parecia tímida e acuada, quase como um filhote assustado. Como Bambi perdido na floresta. Apesar de seu italiano perfeito, era perceptível que ainda se sentia deslocada em Nápoles, provavelmente por não conhecer ninguém na cidade. Giulia pretendia mudar aquilo.
— Obrigada por me ajudar com a pintura. — disse , dando a primeira garfada na macarronada — Hum. A comida está uma delícia.
— Magina. O que você está achando de Nápoles até agora?
— Eu não entendo nada que vocês falam. — a brasileira disse com uma careta e Giulia riu. — Fora isso... As coisas aqui são um pouco diferentes do que estou acostumada. Nápoles é diferente. Meio maluca, mas... Eu acho que gosto.
Giulia concordou com a cabeça, sorrindo. Nápoles era uma cidade um tanto particular, não agradava a todos que vinham de fora, mesmo que viessem da Itália. A cidade tinha um ritmo próprio e os napolitanos um jeito único de viver, de ver e de fazer as coisas, o dialeto era prova disso.
— Aos poucos você se acostuma. Nápoles tem um jeito especial de ser. Nem todo mundo entende, mas eu vejo um quê de napolitana em você.
franziu o cenho e sorriu, surpresa por ouvir aquilo
— É engraçado você falar isso porque na verdade o meus bisavós eram napolitanos. — falou.
Giulia arregalou os olhos e abriu um grande sorriso.
— Eu não disse? Um napolitano reconhece o outro. Você está voltando para casa.
sabia que Giulia só estava sendo simpática ao dizer aquelas palavras, mas naquele momento soou como algo a mais. Soou como se voltar a Nápoles fosse algo que ela tivesse que fazer, como se houvesse um motivo maior para ela estar ali. Como se houvesse algo esperando por ela em Nápoles, como se ela estivesse de fato voltando para casa.
Quando retomaram a pintura, já não era a música que embalava o trabalho das duas (apesar de ainda tocar ao fundo), mas sim uma conversa interminável sobre coisas pequenas do dia a dia. Giulia explicava à nova vizinha coisas banais sobre a cidade, como os dias da coleta de lixo (que graças a Camorra era algo muito mais complicado do que deveria ser), os piores horários para pegar a Circumvesuviana e as expressões mais usadas do dialeto.
Demoraram mais do que teriam demorado se não estivessem tão imersas na conversa, mas não se importaram. O sol se punha do lado de fora, quando pararam para admirar o resultado final, a luz dourada que entrava pela janela dava ao apartamento recém-pintado um charme digno de cinema. O lugar agora tinha uma cara nova, assim como uma nova moradora.
— Amanhã é o aniversário do meu noivo, vai ter uma festa pequena, pouca gente, na casa dele. Você quer vir? — convidou Giulia, antes de voltar para o próprio apartamento.
hesitou por um segundo, então concordou com a cabeça.
— Vai ser bom conhecer algumas pessoas, eu só conheço você e a minha orientadora até agora. — disse.
A napolitana sorriu, tinha certeza que seriam boa amigas.
— Então até amanhã.
— Até amanhã.
observou a vizinha entrar em casa, depois fechou a porta e se jogou no sofá, assistindo pela janela os últimos raios de sol desaparecerem no horizonte. Tivera sorte de ter Giulia como vizinha. Riu com o pensamento de que talvez a napolitana fosse uma espécie de fada madrinha. Só talvez, porque ainda não havia descartado completamente a possibilidade de tráfico de órgãos.
*

Enquanto se arrumava para a festa, sentiu um desconfortável frio na barriga. Estava indo a uma festa onde não conhecia ninguém. Seu estômago embrulhou e ela pensou em não ir, mas de que adiantaria? Indo pelo menos tinha a chance de fazer alguns amigos. Qualquer coisa era só dizer que precisava ir embora.
A casa de Luca — noivo de Giulia, a quem ela havia sido apresentada logo que chegaram ao local — não era muito grande, mas tinha um jardim com uma bela vista e era lá onde as pessoas estavam, apesar do clima frio de janeiro. Alguns segundos na presença do casal bastaram para que percebesse que os dois haviam sido feitos um para o outro e aquilo de alguma forma a tranquilizou, mesmo assim, certificou-se de procurar todas as saídas da casa e possíveis rotas de fuga, só por precaução. Só para o caso de a festa na verdade ser uma emboscada e eles serem uma divisão secreta da máfia italiana responsável por sequestrar estrangeiras para vender como escravas sexuais no mercado negro. É, só por precaução.
***

estava encostado na porta que dava para o jardim, conversando com o aniversariante. Havia acabado de chegar, trabalhar aos domingos era uma das desvantagens de sua profissão. O rosto desconhecido que conversava com Giulia chamou sua atenção e, sem conseguir desviar os olhos da mulher, quando ela riu, ele acabou sorrindo também.
— É a nova vizinha da sua irmã. — disse Luca, acompanhando o olhar do cunhado.
— O que aconteceu com o senhor Belisario? — perguntou, finalmente desviando o olhar. O vizinho da irmã era um torcedor assíduo do SSC Napoli, o time de futebol da cidade, mas era o típico torcedor insatisfeito. Se o time ganhava, reclamava; se o time perdia, reclamava mais ainda. E era sempre ele quem tinha que ouvir suas infinitas reclamações, apesar disso, gostava do Sr. Belisario. Havia poucas coisas sobre as quais o velho resmungão não se queixava e suspeitava que aquelas eram as coisas que realmente o incomodavam.
— Parece que casou com uma mulher uns 40 anos mais nova. — respondeu Luca.
— Você está brincando? Ele vivia falando mal dos amigos que casaram com mulheres mais novas, dizendo que elas só queriam a herança. — riu.
— Pois é. — disse Luca — Eu vou pegar mais uma bebida, você quer?
negou com a cabeça e o cunhado entrou. Então, ele olhou novamente para a vizinha de Giulia, que já não conversava com ninguém. Estava sentada em um dos bancos do jardim, contemplando o céu estrelado tão atentamente que ele se perguntou em quê ela estaria pensando. Ou em quem. Antes que pudesse se dar conta do que estava fazendo, seus pés o guiaram até ela e ele se sentou ao seu lado no banco.
, irmão da Giulia. Prazer. — disse, atraindo a atenção dela para si.
A primeira coisa que notou ao encarar o homem ao seu lado foram os olhos incrivelmente verdes, sem dúvida eram os olhos mais verdes que já tinha visto. Contrastavam perfeitamente com o tom de pele oliva e o cabelo cor de chocolate do homem, e eram quase tão fascinantes quanto o céu que ela observava momentos antes.
, vizinha da Giulia. Prazer.
— Eu gostava do senhor Belisario, mas você parece menos rabugenta. — ele sorriu e o quadro perfeito estava completo.
— As aparências enganam. — falou ela.
— Acredite, é impossível ser mais rabugento do que o senhor Belisario. — o sorriso dele aumentou e ela sorriu também.
lamentou quando os olhos dela deixaram os seus e voltaram a observar o céu. Olhos castanhos eram completamente subestimados e os dela eram a prova disso. Notou como os cabelos da mulher emolduravam seu rosto e resistiu ao impulso de arrumar um cacho que saía do lugar de forma encantadora.
— É lindo, né? — perguntou, antes que parecesse um psicopata, sentado ali a encarando sem dizer nada — O céu.
— É. — ela concordou com a cabeça, os olhos ainda fixos na imensidão azul.
— Ele está particularmente estrelado hoje. — desviou os olhos dela e os voltou para cima — Acho que se eu fosse morar em qualquer outro lugar as duas coisas de que mais sentiria falta seriam o céu e o mar de Nápoles. Não há nada como o céu e o mar de Nápoles. Nada. Em lugar nenhum do mundo.
Quando ele olhou para a mulher ao seu lado outra vez, ela tinha um leve sorriso no rosto e seus olhos castanhos o observavam docemente. Ele esqueceu o que ia dizer e um silêncio confortável caiu sobre eles. Perdidos nos olhos um do outro, sequer perceberam a estrela cadente que riscava o céu.


Capítulo 3 -

andou por seu apartamento com o laptop nas mãos, mostrando para os pais a sua nova casa.
— Ficou bonito, né? — disse.
— Ficou, o apartamento parece bem confortável. — respondeu seu pai.
— Eu gostei da cor. E é de um tamanho bom. — completou sua mãe.
— É, é bem confortável. E é um tamanho ótimo. A minha vizinha Giulia me ajudou a pintar no sábado.
Conversou com os pais por mais um tempo, contando-lhes sobre a cidade e quais haviam sido suas primeiras impressões. Logo tiveram que se despedir e ela se encontrou sozinha mais uma vez. Não havia nem uma semana que estava em Nápoles e a saudade de casa já era imensa. Aquele era um dos problemas de , era muito apegada às coisas e às pessoas. Não tinha muitos amigos, pelo contrário, só aqueles cuja amizade ela sabia que seria para a vida inteira. De que adiantava se apegar às pessoas só para sofrer mais tarde, quando o tempo e a distância as afastassem? Achava tão triste olhar fotos antigas e perceber que alguém que fizera parte do seu presente agora pertencia a seu passado.
Com todos aqueles pensamentos em mente, aproximou-se da janela, fechando os olhos ao sentir uma brisa gostosa bater em seu rosto. Mesmo não morando exatamente perto do mar, dava para sentir um pouco da maresia no vento. Abriu os olhos, lembrando o que o irmão de Giulia lhe dissera sobre o mar de Nápoles, sobre não haver nada igual em lugar nenhum do mundo. Ainda não havia ido à praia desde que chegara, esteve tão preocupada em evitar um possível encontro com Jack, o estripador, que acabou esquecendo algo essencial. O mar! Calçou os sapatos, amaldiçoando-se por ter se esquecido de uma das coisas mais marcantes de Nápoles, e saiu de casa determinada a conferir com os próprios olhos quão incrível era o mar da cidade e se era mesmo tudo aquilo havia lhe dito.
Enquanto saía de casa, notou pela primeira vez a beleza da Piazza Amedeo. Parecia ridículo notar aquilo somente dias depois de ter chegado à cidade, mas era como se o medo e a insegurança tivessem nublado seus olhos, impedindo-lhe de apreciar a realidade e a beleza dos fatos. Estava em Nápoles. Estava na cidade que tanto havia sonhado visitar. Contemplou a beleza da piazza onde morava por mais alguns segundos e então seguiu rumo à praia, não conseguindo conter o sorriso que nasceu em seus lábios. Pela primeira vez desde que chegara podia sentir que aquela cidade de fato roubaria seu coração.
Não foi preciso mais do que alguns segundos para comprovar que o irmão de Giulia estava certo. Havia mesmo algo de diferente no mar de Nápoles. Algo em como era completamente azul, mas parecia adquirir um tom verde por breves instantes antes de voltar à sua cor original. Observou a onda bater próximo a seus pés, quase molhando seu sapato e desejou que não estivessem no inverno, para poder descalçar os sapatos e sentir a água bater contra sua pele. Sempre fora fascinada pelo mar, a ideia de uma quantidade de água tão grande que se estendia quase que infinitamente lhe parecia tão mágica e surreal. Parecia-lhe incrível pensar que se seguisse aquele mundaréu de água poderia chegar mais longe do que jamais fora. Era exatamente o mesmo motivo por que era tão apaixonada pelo céu. O conceito de infinito, do quase infinito e de tudo que parecia maior do que seu humilde cérebro podia assimilar lhe maravilhava.
É, Nápoles roubaria seu coração.
***

Correr à beira da praia fazia parte da rotina de . A brisa fria contra sua pele quente, o impacto de seus pés no solo conforme ganhava velocidade, o sol colorindo o céu enquanto se punha. Então, desacelerava o passo, sentindo a endorfina em suas veias e resistia ao impulso de continuar correndo para, em vez disso, dar um mergulho no mar. Aquele tinha sido um dia particularmente preguiçoso, caminhara ao invés de correr e substituiria o mergulho por apenas assistir às ondas se quebrando. Caminhava calmamente em direção àquela imensidão azul que tanto amava, quando algo chamou a sua atenção. Um sorriso involuntário surgiu em seus lábios ao ver a vizinha de Giulia tentando tirar do rosto as mechas de cabelo que o vento insistia em bagunçar.
. — a garota se virou ao ouvir seu nome, os olhos castanhos surpresos em vê-lo.
— Oi. — ela sorriu.
— O que você está fazendo? — perguntou, segurando um sorriso, já sabendo a resposta.
— Eu vim ver o mar. Agora eu entendo o que você disse, sobre não ter nada igual em lugar nenhum do mundo. É tão... Azul.
Ele sorriu e concordou.
— E você, o que está fazendo? — ela devolveu a pergunta.
— Nada. Só caminhando.
Um silêncio confortável se instalou entre eles, o som das ondas misturando-se ao barulho da cidade que os cercava.
— Fã do Barcelona? — perguntou , observando o moletom que ela usava e que trazia o símbolo do time bem grande na frente.
o olhou sem entender. Estava tão perdida em pensamentos que por um momento não fez ideia do que o rapaz ao seu lado queria dizer, até que ele apontou para sua roupa.
— Ah! Sim. — ela sorriu. — São Paulo e Barcelona.
— Nenhum time na Itália?
— Não... — ela encolheu os ombros — Eu não acompanho muito futebol italiano. Às vezes eu até torço pela seleção italiana, mas só.
— Às vezes? — ele ergueu uma sobrancelha, mas estava sorrindo.
— É, quando vocês não jogam contra o Brasil. — ela sorriu — Na Eurocopa, por exemplo, ou na final de 2006 contra a França.
— Justo.
Ficaram em silêncio novamente, aquilo parecia acontecer com frequência durante suas conversas. Talvez não tivessem muito em comum, talvez não tivessem sobre o que conversar, ou talvez, mesmo se conhecendo tão pouco, se sentissem confortáveis um com o outro o suficiente para não precisarem preencher cada pequeno momento com palavras desnecessárias.
Só então um fato chamou a atenção de . — Você não torce pelo Madrid, né? — perguntou séria, tão séria que riu.
— Não. — ele balançou a cabeça.
— Ufa. ¬— ela respirou aliviada. Apesar de não ser catalã, se considerava uma verdadeira culé. Entendia que a rivalidade entre Barcelona e Real Madrid ia muito além dos campos e, justamente por isso, durante uma de suas aulas de história, escolhera o time azul-grená. — Ia ser horrível ser sua amiga se você fosse madridista. Já foi decepção suficiente quando Cannavaro foi para o Madrid. Ele era um dos meus jogadores favoritos.
— Sei como é, eu senti a mesma coisa quando ele foi para a Juventus. Ainda bem existe o Maradona.
— Maradona? — ela perguntou com um sorriso brincalhão no rosto e ele a olhou sério. — Nada contra, tirando o fato de ele ser argentino. E aquele gol de mão também, claro. Mas ele jogou no Barcelona, já é um ponto positivo.
concordou com a cabeça, mas achou melhor retomar o assunto anterior, antes que ela falasse mal de Maradona e acabasse com qualquer possibilidade de amizade entre eles.
— Já que o Cannavaro foi deposto, quem tomou o lugar dele? — Puyol. Na verdade, eles sempre estiveram ali, meio que empatados como meus jogadores favoritos, mas agora é definitivamente o Puyol.
A resposta o surpreendeu, quando se tratava de futebol e, principalmente de Barcelona, as pessoas costumavam responder Messi sem nem pensar duas vezes. Xavi e Iniesta eram a segunda resposta mais frequente, mas Puyol? Ninguém respondia Puyol a menos que realmente entendessem a importância de Carles Puyol para o time, dentro e fora de campo. Sorriu, Puyol estava entre seus jogadores favoritos também.
— Você gosta mesmo dos capitães. — brincou.
— Nah, eu gosto mesmo é dos defensores.
— Sério? — perguntou incrédulo, quase esperando que ela risse e dissesse que não.
— Aham. — ela respondeu simplesmente e um sorriso repentino e sem motivo aparente surgiu no rosto dele — O quê?
— Nada. — encolheu os ombros, colocando as mãos nos bolsos.
— E você? Por qual time você torce?
— Napoli. — ele sorriu.
— Eles são bons?
— Eu diria que o time melhorou bastante nos últimos anos. — ele desviou os olhos dos dela, focando no horizonte.
— Isso significa que o time é ruim? — ela sorriu, brincando, e ele jogou a cabeça para trás em uma risada gostosa de ouvir.
— Não! Só que o time já passou por muita coisa e recomeçar do zero leva tempo.
— Muita coisa? Tipo o quê?
— Tipo ter que fechar as porta por falência e...
— Falência?! — ela arregalou os olhos, quando ele disse que o time já tinha passado por muita coisa, o máximo que imaginou foi a segunda divisão.
— Falência. — continuou , sério apesar do tom ameno em sua voz. Aquelas não eram memórias que ele gostava de reviver — Depois, teve todo o tempo na série C e B até voltar para a série A. Isso e o fato de que nós não vencemos nada desde 91, quando o Maradona ainda jogava no time.
— Caramba! De fato, vocês passaram por muita coisa, mas... O seu time é péssimo! — ela falou exageradamente, arrancando dele outra gargalhada alta.
— Não, não é. — ele respondeu com um sorriso — Apesar de tudo isso, nós continuamos lutando, com mais força e mais vontade do que nunca. Tudo bem que nós não temos o dinheiro do Real Madrid ou um sheik árabe, mas nós temos uma coisa que dinheiro não compra. Nós temos coração e é com ele que nós jogamos. Chistu core.
Ele apontou para o próprio coração e sorriu. Nunca tinha visto o Napoli jogar, mas, se eles jogassem com tanta paixão quanto fizera aquele pequeno discurso, já podiam contar com uma nova torcedora. Os dois se entreolharam, sorrindo, e ficaram em silêncio mais uma vez, cientes de que palavras às vezes eram superestimadas.
***

caminhava pela Biblioteca Nacional de Nápoles com Fabrizio, um dos bibliotecários, que lhe mostrava os diferentes acervos e como cada um funcionava. O local era imenso e a quantidade de livros, manuscritos e papiros era maior ainda, sentia-se deslumbrada. Era o seu primeiro dia trabalhando para valer em sua tese e mal podia esperar para mergulhar de cabeça nas obras e perder-se no tempo. Os livros sempre funcionavam como um vórtex temporal para ela, as horas passavam em questão de minutos enquanto apreciava as palavras diante de si. Por vezes era bastante paradoxal como o tempo ao seu redor passava tão mais rápido e simultaneamente congelava sempre que se sentava para ler um livro. Foi perdida em um desses buracos de minhoca temporal que ela se encontrou, horas mais tarde, surpresa pelo horário.
Recolheu suas anotações, guardou o material que estava usando e se despediu das pessoas que trabalhavam na biblioteca. Todas as pessoas que conhecera em Nápoles até o momento haviam sido bastante receptivas, o que lhe causava um pouco de remorso por ter pensado que fossem um tipo mais bonito e bronzeado de Freddy Kruger (apesar do remorso, no entanto, ainda havia uma parte de seu cérebro que dizia que era exatamente aquilo o que todos pensavam antes de serem mortos por assassinos em série e que talvez ela não devesse abaixar a guarda tanto assim).
O céu já estava escurecendo quando ela caminhou pelas ruas bem mais vazias do que de costume, voltando para casa. Notou uma comoção em um pequeno restaurante e se aproximou para ver o que era. As pessoas olhavam atentamente para a televisão do local e trocavam comentários empolgados, algumas pareciam até fazer apostas. Ficou nas pontas dos pés, tentando ver por entre a multidão de cabeças o que estava passando no aparelho, mas sua visão foi bloqueada quando parte das pessoas se levantaram e um ‘uh’ coletivo ecoou pelo restaurante. Era uma partida de futebol e o Napoli estava jogando, só faltava descobrir contra quem. Aproximou-se um pouco mais, ficando nas pontas dos pés outra vez, e entendeu o motivo de tanta exaltação. O adversário era a Juventus e, pelo que o irmão de Giulia lhe dissera, havia uma grande rivalidade entre os dois times.
Apressou os passos, o jogo ainda estava no começo do primeiro tempo, com sorte chegaria em casa antes de qualquer um dos times marcar algum gol. Mal podia esperar para sentar no sofá e ver se tudo o que havia lhe dito sobre o time era verdade ou apenas o depoimento totalmente parcial de um torcedor apaixonado.
A primeira coisa que fez ao entrar em seu apartamento foi ligar a televisão. Não havia perdido muita coisa, o jogo continuava zero a zero e estava apenas na metade do primeiro tempo. Antes de se sentar preparou um jantar rápido, ouvindo os comentaristas e virando para olhar a tevê sempre que suas vozes adquiriam um tom empolgado.
Com o prato devidamente preparado, sentou-se no sofá. Tinha que admitir, estava um pouco nervosa pelo jogo. Não sabia por que, mas queria que o Napoli vencesse a partida.
Acaba de chegar aqui a informação de que o Campagnaro não se sente bem e por isso será substituído. — disse um dos comentaristas.
Deu para perceber que tinha alguma coisa errada com ele. Quem vai entrar? — perguntou seu companheiro.
, que é um ótimo zagueiro. Na verdade eu não entendi por que ele começou o jogo no banco. De qualquer forma, essa substituição vai melhorar muito a defesa do Napoli.
Concordo. Eu gosto bastante do . Ele é um ótimo defensor e ainda é bem jovem. Anota o que eu estou te falando, ele vai ser um dos grandes.
O jogador a quem eles se referiam esperava a substituição na beira do gramado, o nome ‘’ e o número cinco estampavam sua camisa. Ele cumprimentou o companheiro que estava de saída e entrou em campo, quando se posicionou, a câmera filmou seu rosto pela primeira vez e quase engasgou com a comida. Ela ergueu os braços, tossindo. O ar voltou a seus pulmões e ela focou os olhos no jogador que aparecia na televisão. Aquilo não fazia o menor sentido.


Capítulo 4 – Mi casa es su casa

Era impossível. Seus olhos estavam lhe pregando uma peça, aquela era a única explicação.
já está em campo. — disse o comentarista, confirmando as suas suspeitas.
— Filho da mãe! — exclamou em um misto de surpresa e indignação. — E ele ainda é zagueiro!
Riu incrédula. era jogador de futebol?! E do Napoli! E bastante conhecido, pelos elogios que os comentaristas faziam. Não podia acreditar. Por que ele não tinha lhe contado? Ok, em nenhum momento ela tinha perguntado com o que ele trabalhava, mas, poxa, tinham conversado sobre futebol! Ele podia ter contado, mas não contou.
Sentia-se um tanto ridícula por aquela conversa agora, por tudo o que tinha dito. Era uma coisa conversar sobre futebol com um colega, mas era outra muito diferente conversar sobre o esporte com um jogador profissional. Talvez também entendesse a diferença e por isso escolhera não contar. Contar teria arruinado tudo, ela teria travado e a conversa tranquila e agradável que tiveram teria se transformado em algo mecânico e impessoal. Não seriam mais dois torcedores conversando, seria uma torcedora e um profissional. Contar os teria colocado em patamares diferentes. Voltou à atenção para a tevê, torcendo para que sua teoria estivesse certa, torcendo para que ele a visse de igual para igual.
O Napoli foi perigosamente para o ataque. Maggio cruzou a bola na área e Cavani a cabeceou. Não foi uma cabeceada forte, pelo contrário, o uruguaio cabeceou para baixo, mas foi o suficiente. A bola quicou uma vez, desorientando o goleiro, e foi parar dentro do gol. sorriu. Napoli um, Juventus zero.
Menos de dois minutos depois, o time atacava novamente com Lavezzi, que chutou para o gol. O goleiro defendeu e o argentino aproveitou o rebote, outra vez sem sucesso. A Juventus não deixou barato e partiu para o contra-ataque, Amauri finalizou e o goleiro napolitano espalmou a bola, cedendo um escanteio para os adversários. Os jogadores de ambos os times se reuniram na área, esperando a cobrança. Quando o juiz autorizou, os jogadores pularam, houve uma pequena confusão e, rápido demais para que pudesse compreender o que aconteceu, a bola já estava dentro do gol e o goleiro azzurro caído no chão. Antes que pudesse lamentar o empate, no entanto, o juiz apitou anulando o gol pela falta no ataque.
Ajeitou-se no sofá inconscientemente quando correu para uma disputa de bola, soltando o ar aliviada ao vê-lo concluir a defesa. Após a bela jogada, ele sentou no gramado e ela estava prestes a se preocupar com seu estado físico, mas então percebeu o que tinha acontecido. Riu. Enquanto vencia a disputa de bola, a chuteira saíra de seu pé e agora estava sentado, no meio do campo, tentando calçá-la novamente, tarefa que estava se provando bastante difícil. Ele não conseguia desfazer o nó do cadarço de jeito nenhum. O juiz lhe deu uma bronca e ele riu, mostrando a chuteira e tentando desfazer o nó com a boca.
Pouco tempo depois, era ele quem pegava a bola novamente. Avançou com ela até o meio campo ofensivo e fez o passe para Dossena, na lateral esquerda. Dossena rapidamente levantou a bola para Cavani que, posicionado na pequena área, cabeceou mais uma vez, agora com um bocado a mais de força e, como da primeira vez, a bola balançou a rede. Napoli dois, Juventus zero.

O segundo tempo começou agitado, com um ataque da Juventus que exigiu uma grande defesa do goleiro napolitano, completou a jogada isolando o rebote. Em seguida, o time azzurro aproveitou a oportunidade para sair em velocidade para o ataque. Lavezzi fez o passe para Hamsik, que passava pela sua direita, e Hamsik imediatamente cruzou a bola na pequena área. Cavani mergulhou, repetindo suas ações anteriores, e a bola chocou-se mais uma vez contra sua cabeça, tendo sua trajetória desviada para dentro do gol. Napoli três, Juventus zero.
O jogo já estava no final, quando Paolo Cannavaro deu o combate em um jogador adversário, mandando a bola para escanteio. se posicionou na pequena área junto com os outros jogadores, preparando-se para uma possível defesa. Estava tão concentrado que nem se deu conta de que o goleiro do time gritava o seu nome. Percebendo que seria inútil continuar a chamá-lo, o goleiro foi até ele e o puxou pela camiseta, reposicionando-o. A cobrança foi autorizada, a bola fez sua viagem em direção ao gol e, em meio a todas as pessoas na área tentando cabeceá-la, o zagueiro número cinco napolitano foi o único que conseguiu atingi-la, afastando o perigo.
Em poucos segundos o juiz apitou o fim do jogo, fazendo com que a torcida da casa explodisse em coro, cantando uma música que nunca tinha ouvido, mas que parecia definir perfeitamente o momento. Os jogadores napolitanos se abraçaram, comemorando a vitória, e cumprimentaram os rivais pela partida. O goleiro pulou em cima de e juntos seguiram em direção ao vestiário.
desligou a televisão, ouvindo seus vizinhos e o resto vizinhança comemorar a vitória. estava mais do que certo ao dizer que o time era movido pelo coração, havia um carisma no SSC Napoli capaz de cativar qualquer um com apenas um jogo. Era o mesmo carisma que emanava da cidade inteira e que tornava impossível estar ali e não ser cativado por toda aquela energia magnética e hipnotizante. Era o coração napolitano.
*

acordou na manhã de domingo com repetidas batidas em sua porta, não precisou abri-la para saber que era Giulia, a vizinha era mesmo uma pessoa matutina, matutina até demais.
— Bom dia, ! — disse a italiana assim que a porta foi aberta, ainda estava de pijama, mas, ao contrário de , já estava bem desperta.
— Bom dia. — a outra respondeu bocejando.
— Eu vou almoçar na casa dos meus avós hoje, quer vir comigo? Sabe como é, domingo é dia de família. — sorriu.
— Eu não vou atrapalhar? — perguntou por educação, torcendo para que a resposta fosse ‘não’. Quando seus avós eram vivos, era quase uma tradição familiar almoçar na casa deles aos domingos. Sentia falta do barulho daqueles almoços, quando todos falavam ao mesmo tempo, mas mesmo assim acabavam se entendendo. Já que sua própria família estava tão longe, seria bom sentir-se parte de uma, ainda que apenas pela duração de um almoço de domingo.
— Imagina! — respondeu Giulia — Eu vou me trocar e passo aqui para gente ir, a nonna fica uma fera se alguém chega atrasado para o almoço.
— Você já tomou café? — perguntou, antes que a vizinha voltasse para o seu apartamento.
— Ainda não, estou morrendo de fome. — respondeu a italiana.
— Entra, a gente toma junto.
*

Giulia tinha a chave da casa dos avós, então foi entrando sem nem tocar a campainha. a seguiu, tímida, mais uma vez se encontrava em um ambiente onde não conhecia quase ninguém. O fato de estar na casa da família , porém, deixava-a menos ansiosa. Giulia e não se enquadravam no perfil ‘filhos de assassinos em série’. Assassinos em séries tinham filhos desequilibrados e problemáticos, certo? Não teve tempo para pensar em fugir, pois logo a voz de Giulia ecoou em seus ouvidos.
— Oi, todo mundo! Eu convidei a para o almoço.
Uma jovem senhora, muito parecida com Giulia, mas com os cabelos mais curtos, foi até as duas.
— Ah, você é a famosa ! — disse a mulher — Eu sou Beatrice, mãe da Giulia e do . Como você está, querida?
Antes que pudesse responder, a brasileira foi embalada em um abraço apertado pela mãe de Giulia. Mal havia se recuperado da surpresa, quando outro par de braços rodearem seu corpo.
— Eu sou Francesca, a nonna dos dois. Fique à vontade! Como se estivesse na casa da sua nonna. — disse a senhora que tinha os mesmos olhos verdes do neto, apesar de parecem mais intensos no rapaz.
As quatro mulheres seguiram em direção à cozinha, onde um almoço tipicamente napolitano estava sendo preparado. Tarefas foram delegadas às jovens e todas conversavam animadamente enquanto cozinhavam — e beliscavam — o almoço.
A família se reunia na sala de jantar, sentando-se à mesa, quando a porta da frente foi aberta com urgência.
— Cheguei! Estou atrasado? — disse , juntando-se a eles, um pouco ofegante.
— Na hora. — respondeu sua avó.
Conversas paralelas tomaram o lugar, acompanhadas pelo som dos talheres nos pratos. Gianluca e Giuseppe — respectivamente o pai e o avô de — conversavam empolgados com o rapaz sobre a partida do dia anterior. O nonno estava convencido de que aquele seria o ano do Napoli e sorriu ao ouvi-lo, imaginando que ele falava a mesma coisa a cada nova temporada.
Francesca e Beatrice perguntavam à Giulia detalhes sobre os preparativos para o casamento e com frequência se viam tão envolvidas nas possibilidades que pareciam esquecer-se da noiva. A nonna constantemente divagava, fugindo do assunto inicial e mudando o rumo da conversa. Quando Giulia mencionou que o noivo estava em Roma, a avó começou uma empolgada argumentação sobre Roma e sobre como Bologna era uma cidade muito mais agradável.
apenas os observava, um sentimento aconchegante surgindo dentro de si. Sentia-se em casa. Seus olhos andaram pela mesa e cruzaram com os de . Ele sorriu e ela sorriu em resposta, sua atenção, no entanto, foi desviada quando a nonna do rapaz a surpreendeu, colocando mais comida em seu prato.
— Você comeu pouco! Come mais polpetta. — disse Francesca, tratando de encher o prato da jovem.
assistia à cena e riu, porque parecia encaixar perfeitamente no quebra-cabeça maluco que era a família .
Não a via desde a tarde na praia e aquela era só a terceira vez que a encontrava, mas naquele momento, vendo a nonna encher o prato da recém-chegada, agradeceu mentalmente a esposa do Sr. Belisario, quem quer que ela fosse. Gostava da ideia de ter por perto e gostava ainda mais de tê-la por perto de fato.
*

Depois do almoço, os homens da casa ficaram encarregados da louça e, quando já estava tudo limpo, todos se sentaram na sala, conversando enquanto bebiam um café. Giulia acabou cochilando em uma das poltronas e , percebendo alheia à conversa, gesticulou com a cabeça para que ela o encontrasse na cozinha.
— Você ainda não entende muito bem o napolitano, né? — ele perguntou com um sorriso, pegando o bolo de chocolate com recheio e calda de chocolate que sua avó havia preparado.
— Ficou tão na cara assim que eu não estava entendo nada? — ela fez uma careta.
— Um pouco. — ele riu, servindo um pedaço de bolo para ela e cortando outro pedaço para ele. — Você pega o jeito, não é tão complicado assim.
— Obrigada. — disse , sentando de frente para ele. Houve uma pausa, os dois se olharam em silêncio, então ela desviou os olhos, dando uma garfada no bolo. — Quer dizer que você é jogador de futebol.
Os olhos dela encontraram os dele outra vez e franziu o nariz, sem saber o que dizer.
— E zagueiro. Por que você não me contou?
Ele olhou para o pedaço de bolo em seu prato, fugindo dos olhos castanhos que lhe encaravam docemente. Sabia que ela iria descobrir, mas não esperava que fosse tão cedo. Suspirou. Era diferente quando as pessoas sabiam que ele era jogador profissional. Com ela, pela primeira vez em muito tempo, pôde ser só mais um torcedor apaixonado. Conversar com ela tinha sido tão natural. E então ela disse que era fã dos defensores e primeiro ele achou graça da coincidência, mas depois se sentiu inseguro. Tinha plena consciência de que estava longe dos ídolos que ela havia mencionado e teve medo do que ela iria achar dele como jogador.
— Não sei... Você disse que gostava do Cannavaro e do Puyol... Eu estou bem longe deles. — encolheu os ombros, sem graça — Eu sou só o .
— Você é o . — sorriu.
— O que você achou do jogo? — ele perguntou, ignorando o arrepio que sentiu ao ouvi-la dizer ‘’, o sotaque brasileiro dando uma sonoridade especial ao seu nome.
— Eu gostei! — ela se ajeitou na cadeira, empolgada — Três a zero contra a Juventus! Seu time não é tão ruim quanto eu esperava. — ela brincou e ele riu — Mas eu gostei mesmo foi de quando o goleiro te deu uma bronca e saiu te arrastando pela pequena área.
— Giorgio! — abriu um grande sorriso — Ele é meu melhor amigo desde que nós tínhamos seis anos, é bem comum ele gritar comigo durante os jogos.
— Dá para ver que vocês têm um bom entrosamento em campo. — ela disse, comendo mais um pedaço de bolo — Você já jogou em algum outro time?
Ele balançou a cabeça.
— Não. Eu comecei no Napoli quando ainda era pequeno. Eu fui gandula no San Paolo antes de jogar de verdade pelo time. Posso dizer que eu cresci no Napoli e com o Napoli.
— E torce pelo Napoli! É perfeito. — ela sorriu.
— Perfeito. — ele sorriu também, perdido nos olhos dela.
Caíram em um de seus costumeiros silêncios, até que se lembrou de um detalhe muito importante.
— Você joga com o Paolo Cannavaro! Sabe o que isso significa, né?
— Que você é obcecada pelos Cannavaros? — brincou.
— Não! Quer dizer, um pouco, talvez. — ela riu antes de continuar — Significa que eu vou te encher o saco até você conseguir um autógrafo na minha camisa.
— Você tem uma camisa do Paolo?! — perguntou surpreso — Aquele dia na praia você disse que nunca tinha visto o Napoli jogar.
Era estranho que ele sentisse uma pontada de ciúmes dos irmãos Cannavaro cada vez que ela mencionava um deles? Vai ver não era ciúmes, vai ver era só uma pontada. Vai ver ele devesse ir ao médico com mais frequência.
— Não, não tenho... Mas um dia, se eu comprar uma camisa, eu vou querer um autógrafo. Não só dele. De todo mundo, na verdade.
Ele concordou com a cabeça e o silêncio caiu entre eles outra vez. observava um ponto específico na cozinha e ele seguiu o seu olhar.
— É um forno de pizza. — respondeu mesmo sem que ela tivesse perguntado.
— Sua avó tem um forno de pizza em casa?! — ela o olhou incrédula.
. — disse , olhando em seus olhos, e ela se sentiu hipnotizada, seu nome soava tão melódico na voz dele.
— Oi.
— Você está em Napoli. A terra da pizza. Vai dizer que ainda não comeu nenhuma pizza napolitana?
— Não. — era absurdo, ela sabia, mas estava tão concentrada em criar uma rotina na nova cidade que tinha se esquecido das coisas mais banais. O mar, a pizza. Mas pretendia mudar aquilo o mais rápido possível.
— Como não? — ele perguntou indignado, gesticulando com as mãos. — A minha irmã não te mostrou nada da cidade? Tudo bem, não faz mal. Pode me considerar o seu guia turístico daqui para frente. Eu vou te mostrar Nápoles.
sorriu. Quem sabe suas neuroses valeriam a pena afinal.


Capítulo 5- O mais alto de todos os sons

se ajeitou no sofá e abriu o livro que deveria ler para a próxima aula. Folheava as páginas, mas não fazia ideia do que estava lendo, não conseguia se concentrar. Seus olhos percorriam as palavras, mas seu cérebro não processava nada. Não sabia se a falta de concentração se devia ao tom monótono do texto ou a algum outro fator, mas tentava justificá-la dizendo a si mesma que nunca fora muito fã daquele tema.
Desistiu da leitura depois da sexta página e colocou o livro de lado. Observou o apartamento, examinando quais eram as suas opções: ver televisão, não; trabalhar na sua pesquisa, definitivamente não; dormir, cedo demais; comer, essa era a única opção razoável. Então se lembrou de como costumava passar seu tempo quando estava no Brasil e pegou o computador.
Ouviu os toques semelhantes ao de uma chamada telefônica e logo um rosto familiar apareceu na tela do aparelho.
— Como vão as coisas? Conte-me tudo, não me esconda nada! — disse Duda, empolgada, e riu, sentia falta da amiga.
— Vão bem! Ainda não conheço muito bem a cidade, mas eu estou gostando daqui.
— Como que é Nápoles?
— A cidade é caótica, mas de um jeito aconchegante, sabe? Tem um monte de problemas, mas mesmo assim te cativa. Tem alguma coisa aqui que te faz sentir acolhido. Acho que são as pessoas, não sei.
— Que bom. — Duda sorriu — Mas vamos ao que interessa. Os italianos. — rolou os olhos, mas Duda continuou, imitando uma cartomante. — Eu vejo um italiano alto e sarado em sua vida.
riu
— Não acredito! Tem mesmo! Pode falar!
— Não tem, não. Eu nem conheço nenhum italiano. Quer dizer, eu conheço o , que é alto e parece ser sarado, mas--
— Tem namorada! Casado! É gay! É gay, sabia!
— Não. Não que eu saiba, pelo menos. — franziu o cenho, não tinha cogitado aquela possibilidade. A ideia de que talvez tivesse uma namorada lhe embrulhou o estômago. Se ele tivesse namorada não teria se oferecido para lhe mostrar a cidade, certo? Certo. A menos que fosse um completo idiota, o que ela tinha quase certeza que ele não era.
— Então, qual é o problema?
— O problema é que eu volto para o Brasil em 12 meses.
— Exato! É perfeito. — Duda abriu um grande sorriso e piscou um olho.
Conversaram mais um pouco e, quando se despediram, as palavras da amiga ainda ecoavam na mente de . Não era perfeito. A última coisa que precisava era se apaixonar por alguém ou começar uma relação com prazo de validade. Ainda mais ela, que só iniciava um relacionamento quando a relação tinha algum futuro, caso contrário, por que perderia tempo com algo que não daria em nada? ‘Ter futuro’ para ela não necessariamente significava casamento. Só queria alguém com quem pudesse se imaginar pelos próximos anos. Não queria apenas estar com alguém, queria saber que podia contar com esse alguém.
O pior era que sentia que estava a um passo de se apaixonar por . Teria que se afastar dele e focar no mestrado. Mal tinha chegado a Nápoles, não podia se apaixonar. Aquilo não estava no plano e ela sempre seguia o plano à risca. Estava decidido: quando ligasse para combinar o tour pela cidade, inventaria uma desculpa qualquer e diria que não. Conheceria Nápoles sozinha e pronto.
***

acordou mais cedo do que de costume na quinta-feira. Não teria aula, então planejara passar a manhã na biblioteca adiantando algumas coisas e à tarde iria explorar a cidade. Tinha uma lista com todos os lugares que queria conhecer e um mapa mostrando como chegar a cada um deles.
Repassava seu itinerário mentalmente, quando, ao sair do prédio, deparou-se com algo que não esperava. Alguém, na realidade. Teve a sensação de ter errado o degrau da escada, mesmo que não estivesse descendo escada nenhuma, porque, parado em frente ao edifício, sentado em uma vespa PX azul com um capacete na mão e um sorriso no rosto, estava .
Ela caminhou lentamente até ele, o coração batendo acelerado enquanto aqueles olhos verdes a observavam.
— Bom dia! — ele disse, o sorriso dobrando de tamanho.
— Bom dia. — ela sorriu, hesitante. — Nós combinamos alguma coisa para hoje?
— Eu não acredito que você se esqueceu de mim. — ele riu. Ela franziu o cenho e continuou, um pouco sem graça por perceber que ela estava falando sério. Ela tinha mesmo se esquecido dele. — O almoço na casa dos meus avós? Eu falei que ia ser seu guia turístico, aí perguntei quais dias você tinha livre? Você disse que não tinha aula às quintas e eu falei que naquela semana não dava, mas que na outra eu ia ter a quinta-feira de folga. Aí você sorriu e eu falei ‘te pego às oito’ e, se eu não estou imaginando coisa, você concordou?
— Eu lembro. — ela riu, achando graça por ele acreditar que alguém pudesse de fato se esquecer dele. Bem que ela queria, facilitaria muito todo o negocio de manter o plano. — É só que eu pensei que você fosse me ligar para confirmar. E, como você não ligou, eu achei que você tinha desmarcado.
sorriu.
— Você fez outros planos, né? — seu sorriso amigável disfarçava o desapontamento que sentia. Tinha planejado com cuidado o itinerário, o céu estava limpo e o sol brilhava, apesar de estarem no inverno. Ia ser perfeito. Só que não. Estivera tão focado em organizar tudo, que tinha se esquecido do principal, confirmar o encontro. Mas que droga.
o olhava, dividida entre razão e coração. Sabia que o certo seria se afastar enquanto ainda estava em tempo, mas a verdade era que não queria conhecer a cidade sozinha. Queria conhecer Nápoles com ele. E não parecia justo inventar uma desculpa qualquer quando, por causa dela, ele tinha acordado cedo em seu único dia de folga na semana. Era apenas um dia. Não significava nada. Ela não iria se apaixonar perdidamente por ele naquela tarde. Nem ele por ela. Um dia não faria diferença.
— Não, eu só... — respondeu por fim — Eu ia até a biblioteca adiantar algumas coisas, mas eu posso fazer isso outro dia.
Os olhos dele brilharam, seu sorriso ganhou nova vida e ela soube que estava tomando a decisão certa. Um dia não faria diferença, repetiu para si mesma.
— Eu só vou deixar essas coisas lá em cima e já volto.
Ele concordou e, quando ela voltou minutos depois, lhe estendeu um capacete.
— Pronta para desbravar a cidade? — ele disse de um jeito irrecusável.
— Nisso aí? — ela olhou para a vespa, duvidando que o veículo aguentasse duas pessoas — Nunca.
Ele riu, colocando o próprio capacete, e esperou que ela subisse no veículo.
— Aonde nós vamos? — perguntou ela, subindo na pequena motocicleta.
— Você já vai saber.
— Se eu morrer, a culpa é sua. — ela disse, travando o capacete.
— Eu prometo que você vai sair viva. — sorriu, mas achou melhor acrescentar — Segura firme, só para garantir.
seguiu suas instruções e ele deu a partida. Antes que ela pudesse se preparar psicologicamente para a jornada, a motocicleta já estava em movimento. O vento batia em seu rosto, trazendo-lhe a sensação de liberdade, e corpo de perto do seu lhe trazia a sensação de segurança. Um motorista gritou com outro no engarrafamento e, com o susto, ela apertou um pouco mais os braços em volta dele, sentindo com mais intensidade o perfume agradável de sua loção pós-barba. Andar de vespa até que não era tão ruim assim.
O trajeto da Piazza Amedeo até a Piazzale Vincenzo Tecchio demorou pouco mais de 10 minutos. Logo estacionava a vespa em um estacionamento exclusivo para funcionários. Não era exatamente um funcionário do recinto, mas aquele podia ser considerado o seu escritório.
perdeu o fôlego por um segundo ao ver a enorme construção oval. Sorriu. Não só era o local perfeito para começar seu tour pela cidade, como fazia perfeito sentido que a primeira parada dos dois fosse um estádio de futebol.
— É por aqui. — disse , guiando-a pelo caminho por onde os jogadores entravam em dia de jogo.
Sabia que levá-la ao San Paolo era uma escolha óbvia, mas lhe aparecia o único jeito de começarem o tour por Nápoles e, ao ver o brilho nos olhos de por estarem ali, soube que tinha tomado a decisão certa.
— Eu vou te mostrar o caminho que nós fazemos antes do jogo. — disse e ela concordou.
Andaram por um corredor todo azul e então entraram em uma sala da mesma cor. Normalmente não poderiam estar no local, mas tinha ligado alguns dias antes e deixado tudo programado com os funcionários.
— Esse é o vestiário. — disse, observando a reação dela.
olhava tudo com atenção, querendo guardar cada detalhe. Como torcedora roxa do esporte, estar ali, nos bastidores, era incrível. Mal podia acreditar que estava mesmo dentro do vestiário de um estádio de futebol! Andou até o meio da sala e olhou em volta, era uma sala comum e praticamente vazia. Tinha alguns ganchos na parede, onde as camisas eram penduradas antes das partidas — naquele dia, havia apenas uma —, e um banco que se estendia pelo comprimento do local.
— Cada jogador tem um lugar específico. — caminhou até um dos lugares, um que ficava no centro da sala — Aqui é onde ficam as minhas coisas.
. — ela andou até onde ele estava, observando a camiseta número 5.
— Não conta para ninguém, mas eu quase chorei a primeira vez que vi ela aí. — ele sorriu e se virou para ele, acompanhando o gesto. — É sua, se você quiser. Mas eu entendo se você quiser trocar pela do Cannavaro.
— Quem? — ela franziu o cenho e ele riu.
— É sério, não tem problema se você quiser trocar.
— Eu não sei do que você está falando. — ela disse, pegando a camiseta e a segurando de forma que ele não pudesse tomá-la de volta — O é o meu jogador favorito!
jogou a cabeça para trás em uma gargalhada gostosa de ouvir e naquele momento soube que estava ferrada. Um dia faria diferença. Aquele dia faria toda diferença.
— Certo. — ele respondeu, ainda sorrindo — Vou fingir que acredito. Enfim, isso aqui fica uma bagunça depois do jogo! E você não imagina o fedor!
— Prefiro nem imaginar. — ela fez uma careta.
— Daqui nós vamos para o campo.
Fizeram o caminho pelos corredores azuis em silêncio, recriando a atmosfera antes de uma partida. Mesmo o lugar estando vazio podia sentir a adrenalina, quase dava para ouvir o barulho de uma torcida imaginária. Enquanto subiam os degraus que levavam ao campo, com a mão livre, ela tocou a imagem de San Genaro na parede. Então lá estava, a alguns metros de distância, o gramado. Seu coração disparou e ela segurou a camiseta de com mais força. Estava tão focada e tão presente naquele instante, sentindo cada emoção por completo, que era como se estive prestes a disputar a partida mais importante de sua vida.
a observou durante todo o percurso, não conseguiria desviar os olhos dela nem se quisesse. Amava aquele estádio, mas nada se comparava à beleza dela naquele momento.
— Bem-vinda ao San Paolo. — ele disse, quando os pés de ambos finalmente tocaram a grama.
— Uau. — foi tudo o que conseguiu dizer.
— É, eu sei.
Caminharam lentamente até o centro do campo. girou entorno de si mesma, observando as arquibancadas e tentando assimilar o estádio por completo. O lugar estava vazio, a não ser pelos dois, e aquilo tornava a experiência ainda mais extraordinária.
— É tão grande, mas ao mesmo tempo é menor do que eu imaginava. — disse, contemplando as arquibancadas vazias ao seu redor — Deve ser mágico cheio de gente.
— Eu ainda me arrepio toda vez que entro nesse estádio lotado. — ele disse, desviando os olhos dela pela primeira vez desde que chegaram ali. Lembrava-se perfeitamente do frio na barriga que sentira ao entrar em campo pela primeira vez ali no San Paolo. Ainda se sentia como uma criança realizando um sonho toda vez que ouvia a torcida cantando momentos antes do apito inicial.
— Eu posso tirar o sapato? — perguntou .
concordou com a cabeça e não pensou duas vezes antes de fazer o mesmo, sentindo a grama embaixo de seus pés. Sentou-se no gramado e se acomodou ao seu lado. Ficariam com a roupa cheia de grama, mas não se importavam. O barulho dos carros era a única coisa que lhes recordava que lá fora havia um mundo além dos dois. Um mundo que lhes parecia absurdamente distante.
se deitou, admirando o céu azul, e, quando também o fez, suas mãos por pouco não se esbarraram. Estavam tão próximas que ela sentia o calor que emanava da pele dele mesmo sem tocá-lo.
— Você já jogou pela seleção italiana? — perguntou depois de um longo silêncio, virando para olhá-lo e descobrindo que ele já a observava.
— Uma vez. — ele disse, desviando os olhos dos dela. — Mas não acho que eu vá ser convocado de novo.
— Por quê?
— Eles já têm defensores o suficiente. — deu de ombros.
— Eles não têm você.
— Eles não precisam de mim.
— Precisam de um defensor que seja um cinco de verdade.
— O De Rossi¹ é um bom cinco. — ele disse e, pela primeira vez desde que conhecera , desejou que uma conversa entre eles terminasse.
— O De Rossi nem é zagueiro de verdade.
Ele não respondeu e, quando o silêncio voltou a cair sobre eles, se sentiu aliviado por ela não insistir no assunto. Ficaram daquele jeito, lado a lado, observando o céu pelo que pareceram apenas alguns minutos, mas, ao olhar o relógio, ele se assustou com o horário. Estavam ali há horas, deitados, apreciando a solidão do campo e a presença um do outro.
— Vamos? — perguntou, levantando relutante e oferecendo uma das mãos para ela.
aceitou a ajuda, mas não esperava que ao levantar se encontraria tão perto de . Perto demais ela diria. Tão perto que, mesmo ele sendo razoavelmente mais alto do que ela, ela podia ver os diferentes tons de verde e cada um dos pontinhos dourados em sua íris.
Ele sorriu, notando as quatro pequeninas pintas que ela tinha na bochecha esquerda. A respiração dela batia em sua pele e dessa vez optou por não resistir ao impulso de tocar os cabelos dela, colocando um cacho rebelde de volta em seu lugar. Seu segundo impulso foi o de beijá-la. Meditou por um instante se devia ou não fazê-lo e, antes que pudesse desistir, beijou-a.
Algo nela que fazia com que ele se esquecesse do mundo, dos problemas. Era como se só os dois existissem. E ali, beijando no cenário mais apropriado possível, confirmou algo que já sabia, mas tinha medo de admitir. Estava se apaixonando.
Aquilo definitivamente não estava nos planos, mas já não importava. sabia que era tarde demais, que, se antes ainda tinha alguma chance de não se apaixonar por , aquela chance tinha escapado de suas mãos assim que subira na vespa do rapaz. Não resistiu ao beijo, nem se deixou levar pela voz neurótica que tentava lhe dizer que aquilo era errado. A forma como as mãos dele repousavam em seu rosto provavam o contrário, beijá-lo era mais do que certo. Era ilusão achar que algum dia tivera alguma chance de não se apaixonar por ele. Seu plano tinha ido pelo ralo no instante em que vira aqueles olhos verdes pela primeira vez.
Calçaram os sapatos perdidos em pensamentos, na sensação do beijo ainda presente em seus lábios. Quando terminou, já a esperava com um sorriso no rosto. Entrelaçou seus dedos nos dela e caminharam lado a lado.
— Nós podíamos estar aqui? — ela perguntou enquanto deixavam o campo.
— Não. — ele respondeu tranquilo e ela o olhou surpresa — Conhecer os funcionários tem suas vantagens. Você está com fome?
Fizeram o caminho de volta até a vespa e logo estavam mais uma vez nas ruas de Nápoles. Dessa vez, estacionou em frente a um restaurante que, apesar de pequeno, estava bastante movimentado. Ele cumprimentou o senhor que os recebeu animadamente e se sentaram em uma mesa afastada.
— Prepare-se para comer a melhor pizza de Nápoles. — disse e, em voz baixa, acrescentou — Depois da pizza da família , é claro, mas o senhor Genaro não pode me ouvir falando isso de jeito nenhum. Ele e o nonno são bons amigos, mas todas as discussões entre os dois são sobre qual das duas famílias faz a melhor pizza.
sorriu, não havia nada mais napolitano do que dois senhores discutindo sobre quem fazia a melhor pizza.
— Meu Deus! — ela disse ao dar a primeira mordida. Aquela era de longe a melhor pizza que já tinha comido, capaz até mesmo de fazê-la esquecer todas as regras de etiqueta e falar com a boca cheia na frente de sem nem ao menos se importar.
Bem-vinda a Napoli. — ele sorriu.
Enquanto comiam, lhe contou sobre o mestrado, sobre a pesquisa e sobre sua paixão por literatura clássica. Em geral as pessoas se desinteressavam rápido quando começava a falar sobre autores que elas nunca tinham ouvido falar, mas não . Ele prestava atenção a tudo que ela dizia e até fazia perguntas. Quando percebeu que falava sem parar — e que poderia continuar falando e falando e falando —, temeu que ele se entediasse e voltou ao assunto que era tão recorrente entre os dois.
— Mas me diz, por que você decidiu ser zagueiro? — perguntou e ele abriu um grande sorriso.
— Eu cresci vendo o Maldini e o Cannavaro jogar. Depois de ver esses caras você não pensa em ser outra coisa que não zagueiro. Ainda tem o Puyol! E sem contar Beckenbauer e Franco Baresi. E Daniel Passarela. E Carlos Alberto Torres na lateral. E Gaetano Scirea! Como esquecer o Gaetano, que em toda carreira nunca foi expulso? É impossível não querer ser defensor vendo esses jogadores. Impossível!
Ele tinha um entusiasmo na voz e um brilho no olhar ao falar que fez com que sorrisse. Ele realmente era apaixonado pela zaga e ela entendia por quê. Aqueles mesmos jogadores eram o motivo pelo qual ela própria era apaixonada pela defesa. Parecia-lhe tão estranho que a maioria dos torcedores e da mídia esportiva ignorasse a defesa quase que o tempo todo e só prestasse atenção ao meio-campo e ao ataque.
— Entendo perfeitamente. E outra, no Roberto Baggio² é que você não ia se inspirar, né? — brincou.
— Ha. Ha. Ha. — ele fingiu uma risada — Não é muito gentil fazer piada só porque vocês ganharam em 94. — disse sério, mas na realidade não se importava, nem ao menos torcera pela seleção italiana em 94.
— Desculpa, foi mais forte do que eu. — ela riu, encolhendo os ombros.
— E você? Por que você gosta tanto da zaga? — perguntou ele, curioso.
Era raro encontrar um torcedor que tivesse aquela paixão pela defesa, afinal, em um esporte em que o essencial é marcar gols, aqueles encarregados de evitá-los ficavam categorizados como menos importantes. Ledo engano, o melhor time do mundo poderia marcar 10 gols, mas, se não tivesse uma boa defesa, concederia 11. Não era à toa ou mera coincidência que a maioria dos capitães fosse zagueiros.
— Acho que é porque eu cresci vendo times muito ofensivos, que quase não tinham defesa nenhuma, e inconscientemente eu percebia que tinha alguma coisa faltando. Até que eu vi um esquema defensivo que realmente funcionava e descobri que aquilo era a tal coisa que faltava. Aí eu descobri todos esses jogadores que você mencionou e vi a mágica que é assistir a uma boa defesa. E tem também o Bellini.
— Bellini? O capitão do Brasil em 58? — perguntou sorrindo, Bellini era um de seus grandes ídolos. Era um zagueiro que se impunha como poucos dentro da área, tanto que em 57 tinha sido convocado como reserva e, quando em uma das partidas jogou como titular, não só ganhou a posição, como também a braçadeira.
— Ele mesmo! — abriu um sorriso de orelha a orelha. Bellini tinha um lugar especial em seu coração. Mesmo não sendo nascida na época em que ele jogava, Hilderaldo Luiz Bellini a tinha conquistado. Talvez fosse o fato de ele ter sido o capitão da primeira Copa do Mundo conquistada pelo Brasil, talvez fosse a foto emblemática dele levantando a taça acima da cabeça em um gesto não premeditado, mas que mudaria para sempre a forma como todos os outros capitães segurariam a taça depois dele. Talvez fosse por ele ser zagueiro, talvez fosse por ele ter jogado no São Paulo. Talvez fossem todas aquelas coisas juntas.
— Foi ele quem começou a tradição de erguer a taça acima da cabeça. — comentou .
— Eu sei! E o melhor é que foi completamente por acaso, porque um dos fotógrafos disse que não estava conseguindo ver. — ela completou, adorava aquela história.
— É incrível, né! — ele sorriu. A história de Bellini era incrível e o fato de os dois compartilharem a admiração pelo jogador também.
*

— Eu tinha outros planos para hoje, mas, como você trabalha com literatura clássica, achei que ia gostar daqui. — disse , horas mais tarde, quando chegaram ao Castel dell’Ovo.
observou a construção com aparência medieval e que se assemelhava a uma península, mas que na verdade era um ilhéu chamado Megáride.
— Esse é o Castel dell’Ovo. Tem esse nome, porque, segundo a lenda, Virgílio escondeu um ovo mágico lá dentro para proteger a fortaleza. Vem, é um museu também.
se arrepiou ao entrar no lugar, era tão diferente de todas as construções que já vira. Seus professores de história estavam certos ao dizer que o Brasil era um país jovem. Estava em um castelo — o que por si só era algo bastante surreal — mais antigo do que seu próprio país e onde um de seus poetas favoritos havia, possivelmente, estado.
a levou até a torre e não poderiam ter chegado ao topo da construção em melhor momento. O céu começava a escurecer e com a vista que tinham era possível ver as luzes se acendendo pela cidade. Lá de cima, pôde notar quão azul o mar de Nápoles realmente era. Fazia perfeito sentido que a cor do time napolitano fosse aquela. Azul. Como o céu, como o mar.
Quando deixaram o local, as luzes da cidade estavam quase todas acessas. sugeriu voltarem para casa, mas insistiu que fossem até o Borgo Marinari, que ficava ao lado da base do castelo. Segundo o rapaz era praticamente um crime ir até lá e não provar a mozzarella di bufala dos restaurantes do Borgo. A mozzarella di bufala era mais uma das comidas tipicamente napolitanas que tinham se espalhado pelo mundo e, ao provar um pedaço, entendeu por que ele insistira em jantar ali.
*


O céu já estava totalmente escuro quando estacionou a vespa de volta na Piazza Amedeo. desceu da pequena motocicleta, retirou o capacete e o devolveu ao rapaz.
— Sã e salva, como prometido. — disse ele, tirando o próprio capacete.
— Obrigada pelo passeio. Você é um ótimo guia turístico.
— Imagina. Foi um prazer.
Ela sorriu e seguiu até o prédio, estava prestes a entrar, mas a voz de fez com que parasse no meio da ação.
. — ela se virou e recebeu um sorriso sincero — Arriverdeci.
Arriverdeci.
Tinha tido um ótimo dia e decidira não pensar em nada. Não pensaria no plano nem nas consequências que se envolver com poderia ter. Não tinha como prever o futuro. De uma coisa, porém, tinha certeza, o universo tendia ao equilíbrio. Não importava o que acontecesse, no final tudo se resolveria. Gostava de , gostava de conversar com ele e de estar com ele. E aproveitaria enquanto pudesse.
***

observou entrar no prédio e, quando ela já se encontrava segura dentro do edifício, colocou o capacete novamente e deu partida na vespa. Tivera um ótimo dia com ela. Melhor do que poderia imaginar. Sorriu, lembrando alguns momentos, coisas simples, como a forma que ela o olhava enquanto falava sobre literatura, o brilho que seus olhos castanhos adquiriam sempre que ela falava sobre um assunto que gostava. Sentiu um frio agradável no estômago por ainda terem a cidade inteira para desbravar. Já pensava nos lugares onde a levaria da próxima vez e fazia planos para que ela provasse a pizza da família . Não se importava se conversariam sobre futebol ou sobre literatura clássica. Não se importava que talvez não tivessem assunto ou que ficassem em silêncio. Pelo contrário, tinha a sensação de que quando estava com ela o silêncio se tornava o mais alto de todos os sons.

¹ volante da seleção italiana, usou a camisa 5 logo que o Cannavaro se aposentou. Atualmente joga com a 16 e o Jorginho com a 5.
² camisa 10 da seleção italiana, perdeu o pênalti decisivo na final de 94 contra o Brasil.


Capítulo 6 - Diego

Giorgio adorava jogar futebol, mas a rotina de treinamento às vezes era um saco. Principalmente porque parte de seu treino era realizada afastada do grupo, junto com os outros goleiros do time. Geralmente se aqueciam com o grupo, depois treinavam separados e mais tarde se juntavam ao grupo outra vez.
Estava aquecendo, quando notou o discreto sorriso no rosto do melhor amigo. Discreto, porém, constante. Os outros jogadores ainda não haviam reparado, caso contrário, as piadas e brincadeiras já teriam começado. Giorgio, no entanto, conhecia bem o suficiente para notar até as menores mudanças no rapaz.
— Quem é ela? — perguntou.
— Ela quem? — o melhor amigo respondeu e ele teve certeza de que havia mesmo uma garota.
— A garota que te deixou com essa cara de tonto.
— Eu não estou com cara de tonto. — disse , sem muita convicção.
— Você tem cara de tonto, mas hoje ela está mais acentuada. — falou, recebendo um chute na canela. — Ai! Pode bater, mas que tem uma garota, isso tem. Eu sei. Eu te conheço desde as fraldas.
achou melhor não responder, Giorgio o conhecia bem demais.
— Quem sabe os papéis não se invertem e ano que vem eu sou o padrinho no seu casamento, hein?
Era exatamente por comentários como aquele que não queria contar sobre . Fariam piadas ou, pior, planos. Gostava de como as coisas estavam evoluindo naturalmente entre eles. Não queria pensar no futuro, queria deixar as coisas acontecerem.
***

passou a semana entre a universidade e a biblioteca, não tinha mais motivos para conhecer a cidade sozinha. O resto do tempo passava com Giulia. Chegavam quase sempre no mesmo horário, então jantavam juntas e aproveitavam para conversar.
— Você não faz ideia a bronca que o meu irmão me deu por não ter te levado para conhecer a cidade. Desculpa. Mas de qualquer jeito, foi até melhor para você. Eu vou aos lugares, mas sempre pelos motivos errados, não seria uma boa influência.
riu, era a cara de Giulia ir aos lugares pelos motivos errados. Podia até vê-la entrando em algum museu só para se esconder da chuva.
— O disse que vocês foram ao Castel Dell’Ovo, o que você achou?
— Incrível! Tem uma vista linda.
— Eu vou lá sempre, mas só pela comida. — a italiana disse, fazendo uma careta.
— Acho um motivo bem justo. — riu .
— Eu sou péssima nesses passeios culturais, mas se você quiser se divertir, comer ou fazer compras, pode contar comigo!
— Eu vou me lembrar disso.
*

Quando deixou o prédio no sábado pela manhã, lá estava , como combinado. Ele e sua vespa azul. Ela não admitiria em voz alta, mas, passado o medo de cair ou ser atropelada por um ônibus (na verdade, por qualquer veículo que possuísse mais do que as duas pequenas rodas da motocicleta), tinha gostado da sensação de liberdade, de sentir o vento no rosto e da proximidade com .
Ela caminhou até ele e parou, hesitante. Seu cérebro começava a entrar em pânico, só então se dando conta de que não fazia ideia de como cumprimentá-lo. Antes que pudesse analisar minuciosamente toda a situação e criar mil e uma neuras diferentes, deu o meio-passo que faltava e selou seus lábios aos dela de um jeito tão natural que sorriu. Ele lhe entregou o capacete e ambos subiram na vespa.
Iam ao parque Villa Comunale. Ele planejara algo mais tranquilo, pois teria jogo no dia seguinte. Havia outros parques em Nápoles — um em especial que ele tinha certeza que ela iria amar —, mas naquele dia optara pela Villa Comunale.
Caminhavam lado a lado, andando pelo local e parando sempre que se aproximavam de uma das várias esculturas dispostas pelo local. as observava com tanta intensidade, apreciando cada mínimo detalhe, que era impossível para admirar algo que não fosse ela.
— Qual é a de todo mundo aqui em Nápoles com o Maradona? — ela perguntou, de repente, virando-se para ele e riu.
— Por quê?
— Porque em todo lugar que eu vou tem uma foto do Maradona. E sempre tem alguém chamado Diego!
respirou fundo, era difícil explicar para alguém que não fosse napolitano o que Diego Armando Maradona representava para aquela cidade. Era ainda mais difícil fazer uma brasileira entender o porquê eles idolatravam um argentino.
— A questão com o Maradona é que ele não era só um jogador do Napoli, ele era de um nós. Ele era napolitano.
entendeu que ele não dizia aquilo literalmente. Entendia bem, porque, mesmo estando há pouco tempo na cidade, a atmosfera de Nápoles era tão única, arrebatadora e cativante que às vezes ela também se sentia um pouco napolitana.
— Ele entendia o jeito napolitano de ser. — continuou enquanto caminhavam — E ele fez mais por nós do que qualquer italiano já tinha feito. Na época só existia um programa de esporte na televisão e o Maradona foi lá e disse em rede nacional, para todo mundo ouvir, que a Itália tinha um grave preconceito contra o pessoal do sul, contra os napolitanos. Foi a primeira vez que alguém falou do problema, até então todo mundo fingia que não estava vendo. Como fazem até hoje. Os torcedores da Juventus e dos outros times continuam cantando aquela música horrível, dizendo para o Vesúvio lavar Nápoles como fogo, e nada acontece. Ninguém liga. Mas o Maradona ligava, ele se importava.
Conhecia bem o preconceito contra os napolitanos, tinha sentido na pele muitas vezes, principalmente quando jogavam contra equipes do norte. Esse mesmo preconceito era um dos motivos por que a seleção italiana era o seu calcanhar de Aquiles.
— Pode parecer pouco, mas para nós foi muito. E o melhor é que depois dessa entrevista o Napoli jogou contra a Juventus e ganhou com um gol do Maradona. Foi como se a gente estivesse dizendo que eles podiam ser do norte, podiam ser todas as coisas que eles se vangloriam tanto de ser, mas que o melhor jogador do mundo era nosso. — ele sorriu, sentindo a emoção e a nostalgia de uma época que não tinha vivido, mas que ainda assim conhecia bem. — Você quer saber o resto da história ou já deu de Maradona por hoje?
— Não, continua.
— A Argentina foi campeã do Mundo, o Napoli finalmente começou a ganhar títulos e então veio a Copa do Mundo na Itália. Semifinal Itália e Argentina, aqui em Nápoles.
— Não! — disse , arregalando os olhos.
— Pois é. — ele riu — Quando perceberam o que ia acontecer, começaram a fazer campanha para os napolitanos irem ao estádio torcer pela seleção italiana. E aí, mais uma vez, o Maradona falou o que estava engasgado na nossa garganta. Agora eles lembravam que nós também somos italianos? Agora era tarde demais. Não deu outra. O estádio ficou dividido, mas a cidade inteira torceu pela Argentina.
— E quem ganhou? — perguntou, ansiosa, os olhos focados em .
— Argentina, nos pênaltis. Quando chegou a final em Roma, o estádio em peso vaiou o hino argentino. Mas eles não estavam vaiando a Argentina, estavam vaiando o Maradona, pelas coisas que ele tinha dito. Estavam vaiando Nápoles. A Argentina perdeu a final e foi aí que tudo desandou, Maradona nunca mais foi o mesmo.
— É aí que entra a cocaína? — tendo nascido no começo da década de 90, a decadência de Maradona era a única parte da história que ela conhecia. Aquilo e o pouco que a imprensa brasileira, completamente parcial quando o assunto era Pelé e Maradona, dizia sobre o atleta.
— É. — concordou — O pessoal do Napoli fez vista grossa, ninguém queria admitir a realidade do que estava acontecendo. É difícil ver alguém que você admira afundar sem poder fazer nada para ajudar. Pouco tempo depois ele foi pego no dopping e no dia seguinte, acredite ou não, o grande ídolo napolitano foi embora. Assim, do nada, no meio da noite. Escondido como um fugitivo.
— Por quê? — ela franziu o cenho e encolheu de ombros. Ninguém sabia ao certo.
— Vergonha? Não sei.
Caminharam alguns metros em silêncio, o peso do declínio de um dos maiores ídolos do futebol mundial sobre eles.
— Eu fiquei meio triste agora. — disse . É claro que ela já sabia como a história terminava, mas, ainda assim, era quase como se esperasse um final diferente. Sentia aquilo sempre que assistia a um filme triste pela segunda vez, sempre tinha esperança de que o final fosse mudar de alguma forma. Era inútil, mas era uma esperança que ela não podia controlar. Uma história com um começo tão incrível merecia um final melhor.
— Não fique, porque, como você já viu, o Maradona foi embora, mas ele nunca deixou Nápoles de verdade. Ele está em todo lugar. É completamente cafona, mas quem ama não esquece.
sorriu. Pensara que a obsessão da cidade pelo Maradona fosse coisa boba, imaginou que estivessem presos ao passado, relembrando eternamente os tempos áureos, mas agora via que não. Era muito mais. Era identificação, companheirismo, gratidão.
— Sabe, eu nunca fui muito fã do Maradona, mas ele ganhou o meu respeito hoje.
Eles se entreolharam, sorrindo, e se lembrou do motivo por que a tinha convidado para ir ao parque.
— Nós vamos jogar contra o Lecce amanhã. — disse — Vai ser no San Paolo e a minha família costuma ir a todos os jogos em casa. Se você quiser, eu tenho uma entrada para você.
— De verdade? — os olhos de brilharam.
— De verdade.
— É claro que eu quero ir! — ela abriu um enorme sorriso.
— Perfeito. Eu vou com time, mas você pode ir com a minha irmã.
— Sem problemas.
Eles pararam em frente a mais uma estátua, mas, dessa vez, focou os olhos na figura de mármore, em vez de focá-los em .
— Eu não posso te dedicar um gol, mas vou tentar fazer uma defesa digna do Cannavaro. — disse, entrelaçando seus dedos aos dela.
— Melhor, faça uma defesa digna do . — ela disse, virando-se para ele, à procura de seus olhos verdes.
se virou para ela, pego de surpresa pelas suas palavras, e um sorriso se desenhou em seu rosto. Era bom poder ser ele mesmo quando estava com , fora e dentro de campo.
***

O jogo ainda não havia começado, mas a família já estava agitada. O nonno não parava de falar, gesticulando com os braços de forma empolgada e fazendo previsões sobre o placar. A nonna comentava, admirada, os cortes de cabelo dos jogadores, rindo dos penteados peculiares. Giulia completava a bagunça assoviando sem parar, um assovio alto e estridente. Os pais de eram os mais normais do grupo, mas não deixaram de parecer duas crianças quando o filho entrou em campo.
olhou em volta, observando as outras famílias nas tribunas. Diferente dos outros familiares, que pareciam saídos da semana de moda de Milão com suas roupas de marcas, óculos escuros, sapatos altos e bolsas caríssimas, todos da família estavam devidamente uniformizados com a camiseta do time, levando o número cinco e o nome nas costas. Inclusive ela. sorriu, sentindo-se estranhamente em casa ali, com aquelas pessoas.
Quando o jogo começou, a bagunça diminuiu. Os olhos estavam todos vidrados no campo à frente. Perto dos 15 minutos de jogo, assistiram a Maggio passar a bola para Hamsik, que, mesmo estando longe da área, viu Dossena, em posição legal, indo em direção ao gol. Hamsik lançou a bola e Dossena se jogou, tentado alcançá-la, mas errou por alguns centímetros, arrancando um lamento da família e de toda torcida.
Menos de um minuto depois, Giorgio defendeu uma cobrança de escanteio e, na jogada seguinte, lá estava , interceptando um contra-ataque perigoso. O nonno levantou, orgulhoso, elogiando o neto para quem quisesse ouvir.
Depois da terceira cobrança de falta sem que o Napoli conseguisse completar a finalização de forma efetiva, Giulia soltou um palavrão, recebendo um olhar pouco amigável de sua mãe. A nonna, por outro lado, pouco se preocupava com o que a neta dizia ou mesmo com o desenvolvimento da partida. Francesca mantinha os olhos em o tempo todo, como se achasse que alguma coisa ruim fosse acontecer no instante em que ela desviasse o olhar, e toda vez que o neto caía ou se chocava com alguém, ela colocava a mão sobre o peito e invocava San Gennaro.
Os 15 minutos de intervalo passaram rápido entre conversas, comidas e risadas. Era impossível manter o rosto sério quando se estava com a família , havia neles uma alegria simples e contagiante.
O pai de ainda tomava sua xícara de expresso quando o jogo voltou e resmungo ao ver mais uma finalização do time terminar nas mãos do goleiro adversário. Por sorte, tomou o último gole antes do ataque seguinte, quando, frustrada com mais uma defesa do goleiro rival, Giulia chacoalhou o pai pelos ombros.
Ela não era a única frustrada, o resto da torcida também começava a ficar impaciente. O time atacava bastante, mas a finalização nunca terminava com a bola na rede. Em um desses ataques, o time napolitano deixou um grande espaço aberto no meio de campo, permitindo ao Lecce um contra-ataque perigoso. O atacante saiu em disparada. o alcançou e tentou o combate, porém, não foi bem-sucedido. O segundo zagueiro também falhou e o goleiro napolitano saiu do gol, indo em direção ao atacante. Faltavam 12 minutos para o fim do jogo, um gol poderia significar a derrota. O jogador adversário chutou e Giorgio se jogou, espalmando a bola com uma das mãos e interrompendo sua trajetória. se encarregou de pegar o rebote e respirou aliviada ao vê-lo devolver a bola para o meio de campo napolitano.
O jogo já estava indo para o segundo minuto do tempo extra, quando um dos jogadores do Lecce fez um ótimo lançamento. A bola chegou ao atacante que estava sozinho na lateral direita e este iniciou a corrida ao gol. estava alguns metros mais atrás, na lateral oposta. Por um instante foi como se visse tudo em câmera lenta, o atacante aproximando-se mais e mais da área, correndo para alcançá-lo e o goleiro tentando prever o próximo passo do rival.
Quando o atacante entrou na grande área, Giorgio saiu do gol, como havia feito antes, deixando a pequena área e indo em direção à bola. O atacante chutou, mas ele não conseguiu fazer a defesa. prendeu a respiração, vendo a bola rolar em direção ao gol. Ao lado dela, o nonno estava quase tendo um infarto, quando uma camisa azul se aproximou a toda velocidade. A bola estava a centímetros da linha, no instante em que se jogou em seu caminho e, com a ponta da chuteira, tirou-a dali.
A família se levantou, comemorando a defesa como comemorariam um gol e, em pé, junto a eles, abriu um sorriso. Era a defesa que ele havia prometido. Não teve muito tempo para pensar no assunto, porque assim que afastou a bola, um dos jogadores do Napoli a recebeu e saiu em disparada para o contra-ataque. Do meio de campo, o jogador fez o passe para Cavani que, mesmo consideravelmente longe da grande área, chutou para o gol.
teve a impressão de que, por um milésimo de segundo, o estádio inteiro ficou em silêncio, antes de explodir em celebração. Levou uma das mãos à boca, incrédula. Parecia mentira, mas era a mais absoluta verdade e era por momentos como aquele — que desafiavam o provável e o possível — que ela amava tanto futebol. Tudo podia acontecer até que o juiz apitasse o fim do jogo. Seu time podia defender o gol da derrota em um segundo e no seguinte marcar o gol da vitória.
O juiz apitou o fim da partida e ela pensou que o estádio fosse vir abaixo. A família comemorava animadamente e o nonno dizia — sorrindo — que o Napoli ainda iria matar todos os torcedores do coração. riu, recebendo um abraço apertado e desajeitado de Giulia, que pulava feito criança. Quando seus olhos se voltaram para o gramado mais uma vez, viu receber um abraço empolgado do técnico, enquanto alguns dos jogadores pulavam em cima dos dois. Um sorriso tomou conta do rosto da brasileira e borboletas voaram em seu estômago. Ele cumprira a promessa, realizara uma defesa digna de ninguém menos que .
***

entrou no vestiário com a adrenalina a mil, aquilo tinha mesmo acontecido nos minutos finais do acréscimo? Era surreal e era por momentos como aquele que era apaixonado por futebol. Mais surreal ainda era ter feito parte daquele momento, era ter realizado aquela defesa. Aquela fora, sem dúvida, uma das defesas mais sensacionais de sua carreira até ali. Pensou em e abriu um sorriso, era a defesa que lhe prometera.
— Você salvou a minha pele ali no fim do jogo. — disse Giorgio, empurrando o amigo.
— Você tinha salvado a minha um pouco antes, então estamos quites.
— O que seria desse time sem nós. — brincou Giorgio, sendo bombardeado por uma enxurrada de camisetas suadas. — Tá, tá. Já entendi.
Depois do banho e das entrevistas pós-jogo, Giorgio alcançou o melhor amigo, que seguia para o estacionamento.
— Ei, ! — chamou e se virou. Estavam os dois frente a frente no estacionamento vazio — Você pode não admitir, mas eu sei que tem uma ‘ela’ na história. Eu vi você procurando alguém nas tribunas quando o jogo acabou. Se você não quiser contar, não precisa, mas se ela for a responsável por te inspirar a fazer defesas como a de hoje, case com ela e você vai ganhar o Ballon D’Or. — Giorgio bateu nas costas do amigo e seguiu o seu caminho. Antes de se distanciar demais, completou — Ela deve ser incrível.
sorriu. É, ela era incrível.


Capítulo 7 — Tenet nunc Parthenope

Publius Vergilius Maro era o motivo pelo qual se encontrava em Partênope ou, como ela costumava responder quando perguntada, Virgílio era a razão pela qual havia ido a Nápoles.
Encantara-se pelo poeta logo no primeiro ano da faculdade de letras, durante as aulas de introdução à literatura clássica e, desde então, não conseguira largá-lo. Mesmo depois de cinco anos estudando sua obra, a cada releitura encontrava novas formas de encantar-se por aqueles versos.
Primeiro tinha lido a Eneida e se perdido nas aventuras de Enéias pelo que seria a fundação de Roma, depois veio as Bucólicas e, por fim, chegara à sua favorita, as Geórgicas. Fora com essa última que iniciara o seu trabalho acerca de Virgílio ainda durante a graduação e, mais tarde, conseguira a bolsa para ir a Nápoles cursar o mestrado e desenvolver melhor sua pesquisa sobre o poeta.
Nunca sabia como responder quando lhe perguntavam o porquê escolhera estudar literatura clássica e, não importava o que respondesse, nunca entendiam seus motivos. Não conseguiam ver a magnitude no que lhes parecia um monte de livros antigos e antiquados. , no entanto, encontrava naquelas obras resquícios de um mundo que ela jamais chegaria a conhecer, retratado em versos cheios de significados e significância. Estar em Nápoles era ter inúmeros tesouros literários e artísticos de Virgílio ao alcance de seus olhos e ao toque de suas mãos, mas nada a fascinava tanto quanto saber que ele estivera ali, naquela mesma cidade e que andara, não pelas mesmas ruas, mas pelos mesmos caminhos que ela andava agora.
Não sabia o que aquela viagem ainda reservava para ela, mas fosse o que fosse, teria sempre Virgílio a agradecer.
***

mal conseguia conter a ansiedade enquanto pilotava sua vespa até o Parco Vergiliano a Piedigrotta. Estava planejando levar ao local desde que ela lhe contara que estudava Virgílio. O poeta era como um protetor da cidade, um mago cujo feitiço acreditava-se ainda pairar sobre Nápoles. Havia traços e vestígios dele e de sua obra por toda a cidade e arredores, mas o parque era especial.
Estacionou a motocicleta, sentindo a ansiedade crescer, e entrelaçou seus dedos aos dela enquanto a guiava pelo lugar. parou para admirar a vista panorâmica de Nápoles, mas ele puxou gentilmente sua mão.
— Tem uma coisa que eu quero te mostrar.
Caminharam de mãos dadas pelos corredores da Crypta Neapolitana e, quando chegaram ao local, soltou delicadamente a mão dela e se afastou alguns passos. Deixou que ela entendesse por si só o que era aquele lugar, ou melhor, o que havia ali.
olhou para a própria mão, agora fria sem a dele. Em seguida olhou para , que sorriu e com a cabeça sinalizou algo à frente dela. Seus olhos seguiram a direção que ele indicava e só então ela o viu. O busto de Virgílio. Aquele busto singelo e com o nariz quebrado era a imagem que primeiro aparecia ao pesquisar o nome do poeta na internet e agora estava ali, à sua frente.
Aproximou-se devagar e, tímida, tocou a pequena escultura. A pedra gelada sob seu toque lhe causou um arrepio, que se intensificou quando seus olhos encontraram, em uma lápide de pedra na parede atrás da imagem, a frase:
HIC.VIRGILIVS.TVMVLVS.EST.
Seu coração perdeu uma batida. Aquela era a tumba de Virgílio. Virou-se para , esperando que ele negasse, mas o sorriso amável no rosto dele lhe dizia que era verdade. Seus olhos se encheram de lágrimas enquanto seu coração batia enlouquecidamente. Se estivesse na companhia de qualquer outra pessoa, teria se preocupado em parecer uma maluca por chorar diante do túmulo de um cara que estava morto há milênios, mas não com . Ele entendia o que estar ali significava para ela.
Estar ali era como voltar no tempo. Podia sentir-se dentro do mundo que tanto estudava e que lhe parecia tão distante. Podia sentir Virgílio por perto. Ali, bem à frente dela, estava o responsável, o ponto de partida e a fagulha inicial de tudo o que estava prestes a viver.
aproximou-se devagar.
— Dizem que ele era meio mágico. — ele falou, a voz quase um sussurro — Faz um pedido.
fechou os olhos e mentalizou seu pedido. Enquanto a observava de olhos fechados, não pôde evitar fazer um pedido também.
*

Caminharam pelo parque e depois se sentaram em um dos bancos do local, admirando a bela vista que tinham do Vesúvio.
— Obrigada. — disse , com um sorriso sincero.
— Que guia turístico eu seria se não trouxesse uma fã de Virgílio à tumba do Virgílio? — encolheu os ombros — Só não é muito romântico, mas...
O resto da frase ficou no ar. As bochechas dele adquiriram um tom levemente rosado e o coração de perdeu mais uma batida, daquela vez por um motivo completamente diferente.
— Para mim é. — ela disse, sentindo borboletas fazerem uma festa em seu estômago e resistindo à vontade de encerrar o espaço entre eles e se aconchegar nos braços de . — Mas, mesmo que não fosse, você me dedicou uma defesa no jogo passado, isso foi bem romântico.
— Eu nem acredito que consegui fazer aquela defesa. — ele balançou a cabeça e riu, desacreditado.
— Eu acredito. — ela olhou nos olhos verdes dele e, quando ficaram intensos demais para ela, piscou, desviando o olhar. — Foi incrível.
tomou a mão dela na sua e ela voltou os olhos para ele outra vez.
— Sabe qual foi a minha parte favorita na sua defesa? — ela perguntou, sorrindo ao se lembrar da jogada.
Ele negou com a cabeça, fazendo um leve carinho na mão dela com o polegar.
— Você não desistiu. Parecia impossível, mas você não desistiu.
Ele abriu um sorriso que fez com que ela se esquecesse do mundo e se aproximou até que seus rostos estivessem a centímetros.
— Eu tinha promessa a cumprir.
tocou os lábios dela com os seus e, mesmo através do beijo, sentiu sorrir. Seu coração bateu mais rápido e os pelos em sua nuca se arrepiaram. Ele não estava se apaixonando, estava completamente apaixonado.
***

Era sexta-feira à noite e comia pipoca enquanto assistia à televisão, ao seu lado, Giulia pintava as unhas. O programa a que assistiam chegou ao fim e ela trocou de canal, procurando algo interessante, até que achou uma partida de futebol.
O jogo já estava no fim, quando o juiz apitou, autorizando a cobrança de escanteio. Chiellini e o goleiro adversário pularam juntos, mirando a bola. Ao invés de disso, no entanto, chocaram-se um contra o outro. O zagueiro apoiou o pé de mau jeito e desabou no chão.
— Meu Deus!
— O que aconteceu? — perguntou Giulia, largando o esmalte para ver o que tinha acontecido.
não precisou responder, o replay da jogada já estampava a tela da televisão em câmera lenta. O choque de Chiellini com o goleiro, o pé apoiado de mau jeito e o tornozelo virado enquanto ele desabava no chão.
— Meu Deus! — Giulia fez uma careta e tampou os olhos quando mostraram mais uma vez a imagem do tornozelo do jogador — Não é à toa que a nonna morre de medo do se machucar.
— Você acha que quebrou?
— O único jeito de não ter quebrado é se o Chiellini for a menina do Exorcista. — disse Giulia.
deixou a pipoca de lado, tinha perdido o apetite, e mudou de canal. Giulia observou a brasileira, debatendo internamente se perguntava ou não aquilo que estava morrendo de curiosidade de saber. O certo seria esperar, deixar que ou seu irmão lhe contassem por conta própria, mas não se aguentava. Precisava saber.
— Você e o meu irmão estão juntos?
levantou a cabeça, os olhos levemente arregalados pela pergunta, e encarou Giulia. Por um lado parecia natural ter aquela conversa com ela, amigas conversavam sobre aquele tipo de coisa o tempo todo. Por outro, no entanto, era um pouco estranho, já que Giulia era irmã do cara em questão. O estranhamento não durou muito, porque logo percebeu que não sabia como responder a pergunta. Ela e estavam juntos?
— Eu... não sei. — disse sincera.
Giulia rolou os olhos.
— Meu irmão é muito lerdo mesmo. — ergueu uma sobrancelha e Giulia encolheu os ombros, de forma semelhante a que fazia quando ficava sem jeito ou sem graça — Vocês ficam fofos juntos. E ele é muito tonto por deixar as coisas no ar ao invés de deixar claro que vocês estão juntos. Que é para valer.
Por um momento se sentiu aterrorizada, não por perceber que estava apaixonada por , mas por se dar conta do quanto queria que aquilo fosse para valer. Seu lado neurótico estava prestes a surtar, mas ela não deu ouvidos aos temores. Lembrou-se da decisão que havia tomado de, pelo menos uma vez na vida, não se preocupar com o futuro, mas, em vez disso, viver o presente. E no presente ela queria estar com . Sua mão parecia mais fria quando não estava entrelaçada à dele e seu coração se aquecia sempre que aqueles olhos verdes olhavam fundo nos dela. Queria muito estar com . Queria demais que fosse para valer. Então outro pensamento a aterrorizou.
— Vai ver ele não quer que seja para valer. — disse mais para si mesma do que para Giulia, sentindo um nó no estômago diante da possibilidade.
Giulia balançou a cabeça e sorriu.
— Não, ele só é meio lerdo mesmo.


Capítulo 8 — Calcanhar de Aquiles

escutou um barulho vindo do computador, largou o que estava fazendo e foi até o aparelho. Sorriu ao ver Duda do outro lado da tela.
— Olá! — disse Duda animada — E aí, quais são as novidades sobre o seu italiano?
— Sério mesmo que eu estou do outro lado do oceano e essa é a primeira coisa que você me pergunta?
— Claro, é a mais importante. Você queria que eu perguntasse sobre o tempo?
— É, ué. Ou sobre mim, sobre o mestrado.
Duda rolou os olhos.
, eu adoro você, mas essas coisas que você estuda são um pé no saco. Então, não, obrigada. É muito mais interessante conversar sobre o seu italiano alto, lindo e gostoso. Aliás, você bem que podia me mostrar uma foto dele, né?
— Primeiro, ele não é meu. Segundo, não tem nada de interessante para contar sobre ele. Terceiro, se você quiser ver uma foto é só jogar o nome dele na internet.
— Por que teriam fotos dele na internet? — Duda franziu o cenho, em seguida arregalou os olhos — Ele é famoso?! Eu juro que vou até Nápoles te bater se você estiver namorando um cara famoso e não me contou!
encolheu os ombros, não mencionara porque constantemente se esquecia daquele fato. era um cara tão normal que era fácil esquecer que ele era um jogar de futebol famoso, na verdade sequer conseguia vê-lo daquele jeito. Via como um jogador profissional, não como uma celebridade. Sabia que ele tinha fãs e entendia, ela mesma se via cada dia mais fã dele como zagueiro, mas era estranho pensar que talvez existissem garotas com a foto dele na parede de seus quartos.
— Eu nã--
— Espera aí, espera aí. — Duda a interrompeu, abrindo a página de pesquisa no navegador — Como é mesmo o nome dele? o quê?
. — respondeu, fechando os olhos em uma careta para não ver a reação da amiga quando descobrisse.
Duda digitou o nome e apertou enter, esperando as imagens carregarem. Uma série de fotos de um rapaz de cabelos cor de chocolate, olhos incrivelmente verdes e um tom de pele oliva pareceram. Deduziu que aquele fosse e confirmou suas suspeitas quando viu uma foto em que ele segurava uma camisa de futebol com seu sobrenome. Pensou que, sendo famoso, ele provavelmente tinha ganhado a camisa de um time qualquer, mas, ao continuar olhando as imagens, percebeu que na maioria delas ele vestia o uniforme do tal time e por fim viu uma foto dele em campo.
— Puta merda! Você está brincando, né?! O cara é jogador de futebol! E você não me contou?! — abriu a boca para se justificar, mas Duda não deixou — Ok, acabei de ver uma foto dele sem camisa e benza Deus! — fez um sinal de positivo com o dedão, arrancando uma risada de — Se eu for para a Itália, eu arranjo um namorado desses para mim?
— Ele não é meu namorado.
Duda arqueou uma sobrancelha. não fazia o tipo ‘relacionamento casual’ e vivia pela regra do ‘antes só do que mal acompanhada’. Estava sempre focada demais em coisas como estudos e carreira para perder tempo com casinhos bobos, por isso Duda não acreditou na resposta.
— Você me conhece. — disse — Eu sou neurótica com tudo, mas estou tentando não ser neurótica com isso. Eu odeio essa frase mais que qualquer coisa, mas vou tentar seguir o clichê do ‘deixa acontecer’. Vamos ver no que dá.
— Quem é você e o que você fez com a minha melhor amiga?
— Eu sei! — riu — Acredite, não está sendo fácil, mas...
Ela não chegou a terminar a frase, mesmo assim Duda entendeu e sorriu.
— Você fica uma graça assim toda apaixonadinha.
fez uma careta e jogou a cabeça para trás dramaticamente.
— É horrível! Eu estou tentando muito não pirar porque eu vou embora logo que virar o ano e é o pior momento possível para eu me apaixonar, mas... Ah, Duda. Ele é tão--
— Gato. — Duda a interrompeu, concordando com a cabeça, como se entendesse perfeitamente o dilema da melhor amiga, e sorriu.
— Eu ia falar fofo, mas justo. Ele é bem gato. E você nem viu ele pessoalmente. Ele tem esses olhos verdes como eu nunca vi e quando ele olha para você... Às vezes eu não consigo nem pensar direito. E você sabe que eu penso até dormindo! Mas quando ele me olha, sei lá... Todo o resto, todas as minhas neuras parecem insignificantes.
Duda apoiou o rosto nas mãos, ouvindo a amiga.
— Oun.
— E ele é todo fofo. — continuou — Ele realmente escuta quando eu começo a tagarelar sobre literatura clássica. Ele me levou na tumba do Virgílio, acredita? Sem contar que é bom finalmente ter alguém com quem conversar sobre futebol, só para variar.
— Já estou shippando muito! Porque, se ele consegue apaziguar as suas neuras e ainda gosta de ouvir você falar sobre essas suas chatices classicistas, ele só pode ser sua alma gêmea!
riu e rolou os olhos.
— Menos. Eu nem sei definir o que nós temos e, por mais que eu não queira pensar nisso agora, eu ainda vou embora em um ano.
— Muita coisa pode acontecer em um ano, muita coisa pode mudar — Duda sorriu.
— Exatamente.
— Tá, agora a pergunta que não quer calar. — Duda juntou as mãos, movendo-as em ansiedade. — Ele torce pelo Barça ou pelo Madrid?
— Barça. — abriu um grande sorriso.
! — Duda riu — Trata de pedir esse homem em casamento agora mesmo! Eu não acredito que você foi para a Itália e como se não abastasse arranjar um italiano gato, você arranjou um italiano gato, rico e que ainda torce pelo mesmo time que você! Mas é muita sorte para uma pessoa só!
***

tinha tido uma semana intensa, era sempre assim quando disputavam mais de uma competição ao mesmo tempo. A sequência de jogos aumentava e a rotina de treinamento também. Era exaustivo, mas ele amava aquilo. Amava a adrenalina da partida e o cansaço pós-jogo.
Naquela semana em particular tinha estado tão cansado que, quando não estava trabalhando, estava dormindo. Finalmente tinha um dia de folga, depois de um jogo difícil fora da cidade, e havia planejado dormir até cansar. Não contara, porém, com o fato de que em poucas horas estaria complemente acordado, descansado e entediado.
Desligou a televisão e observou o teto, pensando no que poderia fazer a seguir. Pensou em correr, mas tinha corrido tanto nos últimos dias que a ideia lhe pareceu menos atrativa do que normalmente pareceria. Levantou-se e foi até a cozinha, comer era sempre uma boa ideia. Ao abrir os armários e a geladeira, entretanto, viu que não tinha muita coisa. Sua melhor opção era comer fora. Pegou as chaves e saiu de casa.
Depois do almoço aproveitou que o tempo não estava muito frio para dar uma volta pela praia e observar o porto. Vez ou outra, alguém o abordava pedindo uma foto ou um autógrafo. Nunca iria se acostumar com aquilo. Levava uma vida tão diferente do estilo ‘jogador de futebol famoso’ — regado a carros esporte, namoradas famosas e festas intermináveis — que era fácil para ele mesmo esquecer que não era só mais um rosto na multidão.
Era um cara sossegado que prezava por uma rotina tranquila e, como o atleta bastante dedicado que era, dormia cedo, não fumava e raramente bebia. Estava longe de desfrutar as regalias que sua popularidade lhe trazia. Uma parte dele ainda se recusava a acreditar e até a aceitar que era mesmo famoso. Odiava aquela palavra, mas era o que ele era. Ainda assim, procurava ser atencioso com todos que o paravam na rua, em especial com as crianças.
Geralmente elas o abordavam tímidas, mas abriam um grande sorriso quando ele se abaixava até a altura delas. Algumas diziam que queriam ser jogadores de futebol no futuro, outras diziam que queriam ser zagueiro como ele. Como ele. Aquelas duas palavras sempre lhe arrancavam um sorriso de orelha a orelha, lembrava-se de quando tinha aquela idade e sonhava em ser igual a seus ídolos, era um tanto mágico pensar que agora ele era o ídolo de alguém.
Antes de voltar para casa, passou no supermercado e fez as compras que necessitava. Depois que guardou tudo, sentou-se novamente no sofá. Olhou o relógio, já era fim de tarde. Sorriu e foi tomar um banho, antes de sair de casa mais vez.
***

A primeira coisa que fez ao chegar em casa foi tomar um banho quente e demorado. Tinha tido aula pela manhã, depois tivera uma longa reunião com sua professora orientadora e ainda tinha ido à biblioteca pegar alguns livros. Na volta tivera que encarar o transporte público lotado pelo horário de pico e uma mala pesando como chumbo por causa de todos os livros que pegara na biblioteca. Merecia aquele banho.
Fechou os olhos, sentindo a água quente bater em sua pele, amortecendo o cansaço e relaxando seus músculos. Quando sentiu o corpo mais leve, se deu por satisfeita. Escolheu o pijama mais confortável que tinha, amarrou o cabelo de qualquer jeito em um coque e foi até a cozinha preparar o jantar. Ela e Giulia jantavam juntas quase todos os dias, mas naquele dia a amiga estava jantando com o noivo, então jantaria assistindo a algum filme repetido na televisão.
Tinha acabado de apagar o fogo de uma das panelas, quando escutou batidas à porta. Pensou que talvez tivesse confundido a data do jantar de Giulia e Luca, mas era mais provável que a própria Giulia tivesse confundido as datas. Riu com o pensamento.
— Eu pensei que... — disse ao abrir a porta, mas não chegou a completar a frase.
— Pensou o quê? — perguntou com um sorriso.
— Pensei que fosse a Giulia. — ela respondeu surpresa.
— Sinto muito, errado.
Ela sorriu, abrindo passagem para ele, mas antes de entrar lhe beijou. Um beijo breve e delicado.
— Eu vim te convidar para jantar, mas acho que você estava indo dormir. Desculpa. — ele disse, vendo que já estava de pijama. Devia ter ligado antes de ir até lá, mas não se importava de ter que voltar para casa. Tinha valido a pena só por vê-la. Ela conseguia ficar ainda mais linda e adorável com aquele pijama xadrez e o cabelo levemente despenteado.
olhou para a própria roupa. Seu pijama mais confortável era também o mais velho e seu cabelo estava em um coque desengonçado no alto da cabeça. Estava uma bagunça. Em seguida olhou para . Ele usava uma camisa preta, com as mangas dobradas na altura do cotovelo e uma calça jeans. Seus cabelos estavam penteados de um jeito diferente e ainda um pouco molhados. Estava básico, mas bem arrumado e ela se sentiu péssima por estar tão desleixada enquanto ele estava tão naturalmente lindo.
— Na verdade eu acabei de preparar o jantar. — ela disse e apontou para as panelas — Então, acho que o mais apropriado seria eu convidar você para jantar.
Um belo sorriso se desenhou no rosto de com o convite. Não queria voltar para casa, não ainda, não tendo passado tão pouco tempo com ela.
— O que eu posso fazer para ajudar? — ele perguntou, indo em direção à cozinha.
— Ahn... Já está tudo pronto, mas você pode colocar a mesa enquanto eu me troco.
— Você vai se trocar? — ele perguntou confuso — Por quê?
— Porque eu estou de pijama?! — riu.
— Mas você está em casa, não precisa se trocar só porque eu te atrapalhei.
olhou para a própria roupa outra vez. Ele já a tinha visto toda desleixada mesmo e não ia conseguir ficar muito melhor em poucos minutos, então acabou voltando para a cozinha.
— Você não me atrapalhou. — ela falou.
Ele colocou a mesa de acordo com as instruções de onde estava cada coisa e depois jantaram. Um jantar tranquilo, embalado por uma conversa cotidiana. Se alguém de fora observasse a cena, diria que os dois eram um casal de longa data.
Quando já tinham acabado de comer, se ofereceu para lavar a louça. Ele lavava enquanto secava e guardava. Entre um assunto e outro, não foi surpresa nenhuma quando começaram a conversar sobre futebol.
— Eu nunca vi um tornozelo virar daquele jeito. — ela disse, fazendo uma careta ao lembrar o incidente de jogo envolvendo Chiellini.
— Foi muito azar cair do jeito que ele caiu. Ele só volta na próxima temporada agora.
Ficaram em silêncio, cada um realizando sua tarefa, até que as palavras de sobre o zagueiro juventino voltaram à mente de .
— Se o Chiellini vai ficar tanto tempo fora, então a seleção italiana vai precisar de outro zagueiro. — ela pensou alto, talvez aquela pudesse ser a chance de provar seu talento e lutar por uma vaga como titular do time nacional.
Por alguns segundos, parou de enxaguar o prato que lavava, tenso com a menção à seleção italiana.
— Pode ser você. — disse , guardando um copo e então virando para olhá-lo.
Ele respirou fundo, tentando ao máximo não se incomodar com o assunto.
— Não serei eu. — disse simplesmente.
Ela franziu o cenho.
— Do jeito que você fala, parece que você não quer ser convocado. É por causa da história com os napolitanos?
— Não. É porque não importa o que eu quero, eu não vou ser convocado. — ele terminou de lavar a última louça e secou a mão. Tudo o que queria era sair dali o mais rápido possível, não queria ter aquela conversa com ninguém, muito menos com .
— Você não sabe. — ela disse inocente, oferecendo-lhe um sorriso encorajador.
Em qualquer outro momento ele teria parado para apreciar aquele doce sorriso e se perder em pensamentos sobre como ela ficava linda sempre que sorria, mas não naquele momento. Naquele momento o pequeno comentário foi o suficiente para fazer com que ele passasse uma das mãos pelos cabelos tão bem penteados em sinal de frustração. Ele sabia, quem não sabia era ela.
— Eu sei. — falou.
— Você é um zagueiro incrível, . Você tem potencial para ser o próximo grande zaguei--
— Você me viu jogar o quê? Três ou quatro vezes? — ele perguntou, sem deixá-la terminar e sem conseguir esconder a irritação ¬— Alguns bons jogos não significam nada.
o olhou, sem entender. Surpresa e confusa com aquela reação inesperada.
— Alguns jogos ruins também não. — ela contestou.
riu sarcástico.
— É aí que você se engana. — falou ¬— Ainda mais quando você é zagueiro. Depois de uma grande partida ninguém fala dos zagueiros. Ninguém se importa, ninguém dá a mínima para a zaga. A menos que a gente faça alguma merda, aí ninguém nunca esquece!
Ele não esperava dizer todas aquelas coisas, mas era bom desabafar, mesmo que fosse injusto descontar sua frustração sobre , uma vez que ela não tinha nada a ver com a situação. Era o oposto, ela estava tentando incentivá-lo, estava dizendo que ele era bom, que tinha potencial, mas aquilo também era parte do problema. Ela tinha tanta certeza de que ele era um zagueiro incrível e de que estava no mesmo nível de alguns dos melhores zagueiros da história, que ele se sentiu sufocando com todas aquelas expectativas que jamais conseguiria atingir. Estava fadado a decepcioná-la. Era melhor fazê-lo agora do que esperar até que as expectativas aumentassem, quando a decepção seria ainda pior.
— Eu não sou o próximo grande zagueiro de nada, eu não estou no mesmo nível do Puyol e de todos os outros zagueiros que você admira. Eu sinto te desapontar, , mas eu não sou esse cara que você criou. Eu não sei quem ele é, mas não sou eu, então, por favor, pare de falar como se fosse.
concordou com a cabeça. Talvez tivesse mesmo criado uma pessoa que não existia, porque aquele não era o gentil e atencioso por quem ela tinha se apaixonado. O outro , o da imaginação dela, jamais seria tão grosso e estúpido sem motivo. Era triste perceber que tinha se enganado tanto.
Ela não respondeu, apenas foi até a porta e a abriu, segurando-a aberta para que ele fosse embora.
— Acho melhor você ir. — falou simplesmente.
Ele olhou para os próprios pés e em seguida olhou para ela, desencostou-se da pia e fez o caminho até a porta. Não trocaram mais nenhuma palavra até que ele já estivesse do lado de fora do apartamento.
. — chamou. Ele se virou e aqueles olhos verdes olharam fundo nos dela — Eu me importo com a zaga.
Ele não teve tempo de responder, porque ela já fechava a porta, deixando-o do lado de fora a encarar a madeira escura.


Capítulo 9 - Wag

não estava com o coração partido. Não estava magoada, muito menos triste. Seu lado extremamente racional e pragmático — o mesmo que ela tinha ignorado — insistia em lembrar que ela já sabia que aquilo iria acontecer. Não tinha como ficar magoada, nem triste, muito menos ter o seu coração partido quando já se esperava o fim. Ela queria muito acreditar naquilo, mas não tinha tanta certeza assim. A única certeza que ela tinha era a de que estava decepcionada e decepção parecia muito pior do que um coração partido.
Eu sinto te desapontar, , mas eu não sou esse cara que você criou.
A voz dele lhe dizendo aquelas palavras ecoavam sem fim em sua mente. Ele estava certo, não era a pessoa que ela imaginara. E, se primeiro ela tinha se decepcionado consigo mesma por ter criado uma pessoa que não existia, logo essa decepção passou e foi redirecionada para ele, transformando-se rapidamente em irritação. Nunca se deixava levar por meia dúzia de palavras gentis e olhos brilhantes. Nunca. Nem mesmo com ele. Se tinha acreditado que ele era um cara atencioso foi porque ele a tinha induzido a isso, não com palavras ou com um olhar sedutor, mas com suas ações. Gestos falavam muito mais alto do que palavras e os dele a fizeram acreditar em uma pessoa que não existia. Ele tinha causado aquilo! E ainda tivera o cinismo de falar como se ela tivesse criado tudo com sua imaginação fértil! Era muito desaforo!
Bufou, frustrada e irritada, fechando o livro que fingia ler e caminhando de um lado para o outro do apartamento, dizendo mentalmente todas as coisas que devia ter dito na cara dele. E tinha muito a dizer! A começar pelo que mais a incomodava, o fato de que depois de tudo, de todas as conversas entre eles, ele ter tido a coragem de olhar nos olhos dela e dizer que ninguém se importava com a zaga. bufou outra vez, furiosa. Ela se importava com a zaga! E era um belo de um idiota!
Tinha ainda mais um bocado de coisas para dizer para as paredes, quando o chamado vindo do computador a interrompeu. Era Duda. Seus ombros caíram em derrota, não queria ter que contar para a melhor amiga o que tinha acontecido. Não depois de tudo o que dissera sobre em sua última conversa. A irritação passou e a decepção voltou. Ela era uma bela de uma idiota. Uma idiota com o coração partido.
— Ok, você não vai acreditar! — Duda disse mais empolgada do que nunca, assim que atendeu a chamada.
— O quê?
— Espera, o que aconteceu? — o sorriso de Duda se desfez ao perceber a feição desanimada da amiga.
suspirou e encolheu os ombros, dando um sorriso triste.
— Ai, não. — disse Duda, a animação de momentos antes desaparecendo — O que ele fez?
— Ele foi um idiota, mas mais idiota fui eu por me deixar levar. Eu sabia que isso não era uma boa ideia e mesmo assim eu decidi “deixar acontecer”. — rolou os olhos ao dizer as duas palavras que tanto odiava — Pelo menos já deu no que tinha que dar e eu posso seguir a vida e focar no mestrado. Foi melhor assim.
— Calma. O que aconteceu exatamente?
contou como tudo tinha acontecido, como tinha aparecido de surpresa, como eles tinham tido um jantar agradável e então como, já no fim da noite, tudo desandou de repente.
— Isso está muito estranho. — Duda franziu o cenho. — O não é assim.
— Aparentemente ele é sim. Quem não é assim é o cara fictício que eu criei na minha mente boboca.
— Primeiro, você é muito racional para esse tipo de coisa. Acho que nem se você tentasse você não conseguiria criar expectativas suficientes para inventar um cara que não existe. Era capaz de você entrar em combustão ou algo do tipo. Segundo, o não é assim!
Foi a vez de franzir o cenho.
— Como você sabe? Você nem conhece ele.
— Eu passei os últimos dias lendo fanfic até seis da manhã. Eu conheço melhor do que ninguém, . Melhor até do que ele mesmo, eu diria. E se tem uma coisa que eu sei, é que esse não é ele.
— Espera. Você leu fanfic do ? — perguntou só para garantir que não tinha ouvido errado.
— Li. — Duda deu de ombros, como se fosse a coisa mais normal do mundo.
Por um segundo ficou sem reação, então jogou a cabeça para trás em uma gargalhada.
— É muita ironia da vida ele falar que eu estou inventando um cara que não existe e você aqui defendendo ele com base em fanfic! — disse, ainda rindo — Você sabe que esse cara que você anda lendo de fato não existe, né?
— Sim, mas é impossível tanta gente ter a mesma impressão errada de uma só pessoa. Uma ou duas, vá lá, mas todo mundo?
— Na verdade é bem possível, sim. Mas espera aí, quantas fanfics você leu?
— Menos do que eu gostaria, mais do que você consideraria saudável. — Duda respondeu séria e riu alto outra vez. — Ele tem muitas fãs! Sério, ele é tipo o Tom Hiddleston ou, sei lá, do futebol. A fanbase dele no Tumblr é maior do que a do Piqué! Eu diria até que é maior do que a do Messi. Mas também, bonito daquele jeito, a competição não é nem justa, né.
não fazia ideia do que a amiga estava falando. Claro que sabia quem era Gerard Piqué e Lionel Messi, e sabia quem era Tom Hiddleston porque odiava um de seus filmes, mas não fazia ideia do que aquelas referências significavam naquele contexto. Deduziu apenas que tinha muitas fãs, como já esperava.
— Bom para ele.
— É, acho que não vai ser muito bom é para você. — comentou Duda.
— O que eu tenho a ver com isso? — arregalou os olhos, a última coisa que queria era mais conflitos com .
— Bom, você vai ser uma wag e, quanto maior o número de fãs, maior o número de pessoas que vão te odiar. — explicou Duda — Mas pode ficar tranquila que eu já criei um Tumblr anônimo para xingar todo mundo que falar mal de você.
Wag, conhecia o termo. Era assim que a mídia internacional se referia às esposas e namoradas dos jogadores de futebol. Wives and girlfriends era um jeito mais chique de chamá-las de maria-chuteiras. Não precisaria preocupar-se com aquilo, o que quer que fosse que eles tivessem tido, já não tinham mais.
— Duda, eu acabei de contar que ele foi um idiota. Acabou. Na real nem começou!
Duda rolou os olhos.
— Não acabou nada. Eu não sei o que deu no , mas eu sei que ele vai se redimir.
não aguentou e jogou a cabeça para trás em outra gargalhada.
— Você não existe, Duda. Não dá nem para te levar a sério.
— Pois leve a sério, sim! Eu sei o que eu estou falando. O vai voltar atrás e se desculpar. Eu tenho certeza. — disse Duda, completamente segura — Se não, ele é um idiota, coisa que eu sei que ele não é.
— Baseada nas fanfics que você leu?
— Não. — Duda respondeu séria — Baseada no que você me disse, porque se ele conseguiu ganhar o seu coração, então eu tenho certeza absoluta que ele deve ser um cara incrível, porque você é incrível.
— Duda... — sorriu para a amiga, um sorriso sincero e grato. Duda podia ser meio doida, mas era a melhor amiga que alguém poderia ter.
— É. — Duda sorriu de volta. — Tá, agora me conta como vai o mestrado.
O sorriso de dobrou de tamanho. Passaram tanto tempo conversando sobre tantas coisas que foi como se a distância entre São Paulo e Nápoles tivesse desaparecido. Foi o fuso horário que as lembrou, horas mais tarde, que na verdade estavam a milhares de quilômetros uma da outra.
***

olhou-se no espelho, estavam ridículos com aqueles smokings. Não aguentava mais provar roupas e tirar medidas. Andava sem saco para nada. Nos últimos dias até as menores coisas o estavam irritando, então ter que provar uma pilha interminável de smokings era um verdadeiro teste de paciência.
Giorgio olhou para o melhor amigo pelo espelho. Conhecendo-o como conhecia, sabia que a melhor opção era deixá-lo em paz, mas ele próprio também não aguentava mais vestir e desvestir roupas de festa e a atitude mal-humorada de estava piorando a situação. Quando bufou pelo que pareceu ser a milésima vez, Giorgio não aguentou.
— Qual é o seu problema?
o olhou sem expressão alguma no rosto e deu de ombros.
— Claro. — disse Giorgio, devia ter deduzido antes — É a garota cujo nome eu não sei e cuja existência você nega. Desembucha, o que aconteceu?
Se não queria contar sobre antes, agora menos ainda.
. — falou a contragosto.
! Agora ela tem nome, estamos evoluindo. Você pode me passar o número do telefone dela também? — pediu Giorgio — Preciso avisar que você é um mala e dizer para ela cair fora enquanto ainda tem tempo.
Normalmente Giorgio diria aquilo em um tom divertido e receberia um soco no ombro de brincadeira, mas não foi o caso. Não havia nada de divertido em seu tom nem de brincadeira no olhar sério que recebeu de como resposta.
se virou para o espelho outra vez e observou a imagem de ambos por um instante.
— Pode se poupar do trabalho, ela descobriu sozinha. — disse depois de alguns segundos.
— O que aconteceu? — Giorgio perguntou de novo, mais calmo dessa vez.
suspirou derrotado.
— Ela acha que, com o Chiellini machucado, eu tenho chances de ser convocado pela seleção.
— E o que você disse?
não respondeu, mas Giorgio sabia o que tinha acontecido. Conhecia bem demais, sabia como ele reagia sempre que estava na defensiva e, por mais irônico que fosse, nada o colocava tão na defensiva quanto a seleção italiana.
— Ok, você vai ficar muito bravo comigo, mas eu não estou nem aí. — disse, pegando o amigo pelos ombros para que ficassem frente a frente. — Você precisa superar o que aconteceu com a seleção italiana. — falou sério — Todo mundo erra, acontece. Eu sou goleiro, eu sei disso melhor do que ninguém. Eu sei o que é cometer um erro que custa o jogo, eu sei o que é ter a torcida inteira amaldiçoando a minha existência e xingando a minha mãe. É ruim? É, é péssimo! Mas você engole o sapo e supera! Porque no próximo jogo você faz alguma coisa incrível e todo mundo te ama de novo. Faz parte do futebol, um dia te amam, no outro te odeiam e depois te amam de novo. É a vida. Eu sei que foi uma situação complicada, mas você não pode deixar uns idiotas arrogantes te afetarem desse jeito por tanto tempo. Você não pode deixar os outros terem esse poder sobre você. Você sabe que é um ótimo zagueiro e você sabe que merece a camisa número cinco da seleção, mas quer saber? Problema deles se eles são idiotas o suficiente para não te convocar, quem sai perdendo são eles! Não adianta você brigar com a , porque ela está certa.
permaneceu em silêncio, pensativo, e Giorgio tomou aquilo como um bom sinal. Esperava que ele fosse contra-argumentar e arranjar desculpas; já tinha até uma lista de argumentos preparada e não se opunha a dar uns cascudos no melhor amigo para fazê-lo entender, mas não foi necessário. Olhou-se no espelho, satisfeito e com a sensação de missão cumprida. Até que eles ficavam bem com aquelas roupas. Mexeu-se diante de sua própria imagem, imaginando-se em um filme do James Bond, até que seus olhos se abaixaram e a visão de seu sapato velho e imundo o trouxe de volta à realidade. Olhou para o sapato de , estava um pouco melhor do que o seu, mas não bom o suficiente para um agente secreto inglês.
— Acho que nós precisamos de sapatos novos também.
— É. — respondeu mecanicamente. Seus pensamentos estavam longe dali. Poderia ter explicado ao melhor amigo que o problema não era a seleção italiana, tinha superado aquele fato (na medida do possível). O problema era . Era saber que ele não era o cara que ela pensava e que nunca conseguiria atender suas expectativas. Ele não era o zagueiro de futuro brilhante que ela via e o que tinha acontecido na seleção italiana nada mais era do que a prova daquilo.
Ao pensar em , a imagem dela completamente adorável de pijama e com os cabelos despenteados veio em sua mente. O jantar dos dois estava indo tão bem e ele havia estragado tudo. Sentiu a culpa dentro de si crescer ainda mais; independente de qualquer coisa, de qualquer desfecho romântico, ele lhe devia um pedido de desculpas. Podia não ser o melhor zagueiro do mundo ou o cara perfeito, mas sabia reconhecer seus erros e se desculpar por eles, e era o que iria fazer.
***

estava no apartamento de Giulia, conversavam sobre coisas aleatórias quando a italiana mencionou o irmão. não via nem falava com ele desde o fatídico jantar. Ainda não conseguia entender o que tinha acontecido. Quanto mais pensava, mais chegava a conclusão de que realmente não o conhecia. Não conseguia ver naquele o mesmo que a havia levado ao San Paolo e à tumba de Virgílio. Ela não tinha imaginado tudo aquilo — não tinha! —, o que levava a uma única explicação.
— O seu irmão tem algum distúrbio de personalidades múltiplas? — perguntou.
Giulia riu alto, engasgando com a própria saliva pela pergunta.
— Olha, se ele tiver, danou-se tudo, porque ele é a pessoa mais sensata da nossa família. — ela sorriu divertida. — Mas por que você está perguntando?
— A gente discutiu. Brigou, se desentendeu. Sei lá o que foi aquilo. Só sei que estava tudo bem e então não estava mais.
Giulia franziu as sobrancelhas, aquilo não soava em nada como o irmão. Mesmo quando eram crianças e ela o perturbava até ele se irritar, a reação de era sempre a mesma: ele simplesmente se levantava e ia brincar sozinho. Era assim até hoje. não era de conflitos; não perdia a paciência com facilidade, mas, quando acontecia, ele não agia por impulso, saía e procurava ficar um tempo sozinho para colocar os pensamentos em ordem e as coisas em perspectiva.
— Ele foi grosso com você? — perguntou e suspirou.
— Ele foi um idiota. Falou como se eu estive projetando nele um cara que não existe e disse que era para eu parar.
Giulia fez uma careta. Aquilo estava estranho demais.
— Sobre o que vocês estavam conversando?
— Futebol. — respondeu . — Eu mencionei a seleção e acho que ele não gostou do que eu disse. E, ok, eu sei que eu não sou ninguém relevante e que a minha opinião não importa, mas o seu irmão é um zagueiro incrível, ele tem chances de conquistar a vaga titular!
Giulia suspirou, sentindo o coração apertado pelo irmão e por . O jeito como ela falava dele, como disse que ele era um jogador incrível, havia um tom doce na voz dela e Giulia quis gritar com o irmão por ter potencialmente estragado tudo. Mas, ao mesmo tempo, entendia por que tinha dito que ele não era o cara que imaginava.
— Tá, agora tudo faz sentido.
— Como assim? — perguntou .
Giulia respirou fundo, aquela não era a história dela para contar. Se o irmão na tinha contado, ela iria respeitar a vontade dele.
— A seleção italiana é um assunto delicado para ele. Eu não vou entrar em detalhes, porque eu acho que quem tem que te contar é o . Só... Só dá uma chance para ele, quando ele cair na real de quão idiota ele foi, e escuta o que ele tem para te dizer, porque pelo o que eu conheço do meu irmão o xis da questão é que, ao contrário do que você pensa, a sua opinião importa muito.
***

deixou o corpo cair no sofá e esfregou o rosto com as mãos. Tinha dirigido metade do caminho até a Piazza Amedeo, mas lhe faltara coragem. Queria ver e pedir desculpas, mas tinha medo de que as palavras lhe faltassem. Sempre fora uma pessoa muito mais de gestos do que de palavras. Nunca achava as palavras certas para expressar exatamente o que queria dizer e tinha medo de acabar estragando tudo ainda mais.
Sentou-se de forma ereta e respirou fundo, pensando em como poderia se desculpar. Pensou em e em todas as suas conversas. Seu coração apertou, sentia falta de conversar com ela. Sentia falta de sua companhia, de seus silêncios. Passou as mãos sobre o rosto mais uma vez. Ele era um grande idiota.
***

A biblioteca estava mais vazia do que de costume e, como resultado, estava ainda mais silenciosa. podia ouvir seus pensamentos tão claramente que era como se fosse a única pessoa no mundo.
.
Apesar do tom suave, seu nome ecoou alto pelo local, quebrando sua concentração de forma abrupta e fazendo com que ela se assustasse.
— Desculpa. — disse o rapaz, com um sorriso culpado nos lábios. — Eu não quis te assustar.
— Tudo bem. — ela sorriu e ele se aproximou, pegando o lápis que tinha deixado cair.
— Nós estamos combinando de sair amanhã, aproveitar a sexta-feira. — ele lhe devolveu o lápis e ela notou que ele tinha cortado o cabelo. Quando conheceu Fabrizio, o cabelo do rapaz estava tão queimado pelo sol que pensou que ele fosse loiro. Agora que boa parte do comprimento se fora, podia notar que seu cabelo era de um tom castanho que destacava ainda mais seus olhos azuis. — Vem com a gente.
Uma careta surgiu em seu rosto. Sair à noite não era muito a sua praia, preferia mil vezes ficar em casa vendo um bom filme.
— Eu garanto que você vai se divertir! — Fabrizio abriu um belo sorriso — Se você não gostar, é só voltar para casa.
Ela ponderou por um momento. Precisava de amigos além de Giulia.
— Tá bom. — respondeu, sem muita convicção.
O sorriso de Fabrizio aumentou, fazendo com que seus olhos azuis ficassem tão pequenininhos que quase desapareceram.
— Você não vai se arrepender. — disse ele.


Capítulo 10 - Crepi

olhava o celular na esperança de que ele vibrasse com uma nova mensagem. Era sexta-feira à noite e ela estava arrumada para sair com o pessoal da biblioteca, mas ainda tinha esperança de receber uma mensagem cancelando os planos. Estava mais do que preparada para tirar o salto, trocar o vestido pelo pijama e se jogar no sofá com um balde de pipoca amanteigada. Sorriu, pensando em qual filme assistiria. Nada muito sério. Geralmente tendia aos dramas, mas queria alguma coisa leve. Uma comédia. Ou talvez um filme de ação.
Já se encaminhava para a cozinha para preparar a pipoca, quando o celular finalmente tocou. Seu sorriu aumentou, mas logo murchou. Era Fabrizio avisando que em 10 minutos estaria lá.
***

— O que você está fazendo? — perguntou Luca, virando-se no sofá para ver a noiva.
Giulia estava parada na porta, com um dos olhos grudado no olho mágico.
— Estou esperando ele chegar. — disse, sem se mover.
— Ele quem? — Luca perguntou, ainda mais confuso.
— Um amigo da , eles vão sair e eu quero ver como ele é. — respondeu como se fosse óbvio ¬— Que horas são?
— Nove e meia.
— Vamos ver se ele é pontual. O é pontual.
Luca sorriu e voltou sua atenção novamente para a TV.
— Meu Deus! — exclamou Giulia, de forma dramática. — O já era.
— Tão bonito assim?
— O cara parece ter saído de um comercial de perfume masculino. — ela disse, chateada.
Luca se levantou e foi até a porta, empurrando a noiva com cuidado, para que pudesse ver o tal rapaz. Tinha que admitir, ele realmente parecia ter saído de algum outdoor.
— É, o já era. — concordou.
Giulia empurrou o noivo sem nenhuma delicadeza, tomando de volta o seu lugar diante do olho mágico. Observou enquanto Fabrizio tocava a campainha do apartamento em frente e, ao ver abrir a porta, ela decidiu que tinha que fazer alguma coisa.
— Aonde você vai? — perguntou Luca, segurando a maçaneta antes que a noiva pudesse sair.
— Eu vou lá!
— Não vai, não. — ele se colocou na frente da porta, impedindo que ela a abrisse.
— Sai daí antes que eles vão embora, Luca! — falou, empurrando-o com toda a força que tinha, mas não foi suficiente para movê-lo nem mesmo um centímetro. Então notou os braços abertos do noivo e lhe fez cosquinhas.
— Ei! — ele reclamou, abaixando os braços.
Giulia aproveitou o segundo de distração do noivo e abriu a porta bruscamente, chamando a atenção de e Fabrizio, que já estavam de saída.
! Você vai sair? — perguntou, fazendo-se de inocente.
— Vou. Eu te avisei, lembra? — disse .
— Ah, é mesmo, eu tinha esquecido. — falou e se virou para Fabrizio — Giulia.
— Prazer. — ele sorriu, um sorriso estonteante.
O rapaz era ainda mais bonito sem a lente do olho mágico distorcendo seus traços. Giulia sorriu azeda, tentando disfarçar a decepção.
— Bom... Divirtam-se. Mas não muito. — falou, voltando para seu apartamento.
— E aí? — perguntou Luca, no sofá.
— E aí que eu estava errada, ele não parece modelo de perfume. — ela se sentou ao lado do noivo — Parece modelo de cueca. E para piorar, ele ainda é simpático!
Luca sorriu e a trouxe mais para perto, aconchegando-a em seus braços.
— Ugh. Odeio pessoas simpáticas. — disse ele.
***

Quando Fabrizio a chamou para sair, imaginou música alta, luzes piscando e muita gente dançando em uma pista de dança superlotada. Não imaginou uma mistura de bar e restaurante com as paredes cobertas de fotografias e documentos da dinastia Bourbon do reino das Duas Sicílias. Não imaginou lustres, muito menos castiçais e menos ainda retratos reais. Mas foi agradavelmente surpreendida pela atmosfera única e aconchegante — como tudo em Nápoles era — do Archivio Storico e, em pouco tempo, se viu feliz por estar ali.
A risada de Fabrizio ecoou pelo local, misturando-se à música ao vivo e às conversas que os rodeavam. Ele mal conseguia terminar de contar a história para os amigos de tanto que ria, o que tornava tudo ainda mais engraçado. e os outros já nem conseguiam mais entender quem tinha feito ou dito o quê, mas riam mesmo assim.
O assunto parecia não acabar, um comentário levava a outro e a conversa fluía livremente pela mesa. Todos conversavam de forma animada e as horas passavam sem que fossem notadas. Era bom estar entre colegas e conversar despreocupadamente após uma semana inteira de trabalho. Conversavam sobre um filme que tinha estreado aquele dia no cinema, quando Matteo comentou sobre o Napoli — o time teria um jogo difícil no dia seguinte — e imediatamente todos os quatro rapazes da mesa começaram a conversar sobre futebol.
Martina rolou os olhos com a mudança de assunto e se virou para Micaela e , tentando iniciar uma conversa paralela, mas estava focada demais nos cálculos da tabela do campeonato italiano que os rapazes faziam, para prestar atenção nas garotas.
Raoul, que insistia que o time azzurro venceria a partida, argumentava dizendo que a defesa da Udinese não conseguiria segurar o trio formado por Cavani, Lavezzi e Hamsik.
— Hamsik é o do moicano, né? — perguntou , fazendo com que os rapazes se virassem para ela.
Marek Hamsik tinha chamado sua atenção não só pelo penteado, que não o deixava passar desapercebido, mas também pelos passes e assistências que fizera nas poucas partidas a que ela assistira. Ele era realmente bom. De fato, seria difícil para qualquer defesa conter não só ele, mas também Lavezzi, que parecia estar sempre ligado no 220, e Cavani, que não recebera o apelido de ‘El Matador’ à toa.
— O próprio! — respondeu Fabrizio.
— Ele é bom. — afirmou .
— E como! — disse Raoul, gesticulando com as mãos.
— Eu também acho que nós vamos ganhar. — concordou Fabrizio — Não tem a menor chance do Di Natale passar pelo .
— Também acho que ele não passa pelo , mas acho que vai ficar no zero a zero. — opinou Matteo.
— O tem jogado muito, tenho que concordar. — disse Francesco.
sorriu. Mesmo depois dos últimos acontecimentos, era bom saber que outros torcedores napolitanos também viam que era um ótimo zagueiro.
é um alto de olhos verdes? — perguntou Martina, prestando atenção na conversa — Minha irmã mais nova é obcecada por ele.
— Dá para entender o porquê. — riu Micaela.
ignorou o embrulho no estômago e fingiu que nada tinha acontecido. Já não se importava com a briga. Fizera as pazes com o fato de que tinha acabado e de que era melhor daquele jeito. Tinham tido bons momentos juntos e tinha acabado, pronto. A vida seguia sem drama.
Antes que Micaela pudesse fazer mais algum comentário, Raoul mudou de assunto e o agradeceu mentalmente. Estava em paz, mas aquilo não significava que queria ouvir a opinião de Micaela ou Martina a respeito dos atributos físicos de .
A conversa seguiu por mais algumas horas, até que o local começou a esvaziar. Quando finalmente se levantaram para ir embora já passava das duas da manhã. Todos se despediram e e Fabrizio seguiram juntos. Logo estavam na porta do apartamento dela.
— Eu disse que você não ia se arrepender. — Fabrizio falou, sorrindo o sorriso que deixava seus olhos azuis pequenininhos.
— É, eu me diverti bastante. — sorriu também — Obrigada por ter insistido para eu ir e pela carona. Nos vemos segunda?
Ele concordou com a cabeça e a observou por segundos que pareceram horas, então se inclinou e depositou um beijo na bochecha dela.
A presto, .
***

tentava em vão tirar os vestígios do rímel à prova d’água da noite anterior. Tinha tentado de tudo e falhado miseravelmente, o que não seria um problema se o rímel não tivesse se transferido para sua pele enquanto ela dormia. Tratou de jogar fora a embalagem e fez uma nota mental para nunca mais comprar nada à prova d’água. Estava indo ao apartamento de Giulia perguntar se a vizinha tinha algum demaquilante mais forte, quando o som de uma chamada ecoou pela casa.
— Pelo visto a noite foi boa! — riu Duda, ao ver o resquício de maquiagem no rosto da amiga — Quero detalhes! Espera. — fez uma careta — Não, não quero, não. Se bem que não pode ser pior do que algumas das fanfics que eu li.
— Você precisa parar de ler fanfics do .
— Tarde demais, eu já fui sugada para o buraco negro que é o fandom do seu namorado. Mas, conte-me, como foi a reconciliação de vocês?
— Não teve reconciliação. — respondeu simplesmente.
— Então, onde você estava ontem à noi-- ! Com quem você estava? — Duda arregalou os olhos e se aproximou do computador, como que para ouvir melhor a explicação que a amiga tinha para dar.
— Eu saí com o pessoal que trabalha na biblioteca que eu vou sempre.
— Ai, fala sério, até para sair você sai com o ‘pessoal da biblioteca’! — reclamou Duda — Você precisa de amigos que conheçam a luz do dia e não que fiquem enfurnados lendo, como você.
— Não que seja da sua conta, mas todos são muito bonitos e bronzeados, ou seja, eles não ficam só enfurnados lendo, como eu. Aliás, obrigada pela parte que me toca.
— Sinto muito, mas você sabe que é verdade. — disse Duda e rolou os olhos — Por acaso, um cara extremamente gato, com o cabelo meio queimado do sol, que comentou na sua última foto não estaria entre esses amigos, estaria?
— Você acabou de descrever todos os habitantes de Nápoles, seja mais específica.
— Também não precisa jogar na minha cara que você está no paraíso dos homens bonitos, eu já estou com inveja o suficiente!
— Desculpa. — riu — Se você está falando do Fabrizio, então, sim, ele estava entre os amigos com quem eu saí ontem.
— Retiro tudo o que eu disse, eu aprovo plenamente a sua amizade com bibliotecários. — disse Duda, confirmando com a cabeça de forma enfática. — Aprovo ainda mais se o estiver fora da jogada! E por falar no , eu não acredito que ele não foi te pedir desculpas.
— Deixa isso para lá. — sorriu.
— Poxa, mas eu tinha certeza que--
— Duda, não faz mal. Já foi.
Duda suspirou, chateada, mas concordou com a cabeça.
***

Era tarde da noite quando chegou em casa do trabalho. Em geral, depois de um jogo disputado como havia sido, chegava em casa com a adrenalina correndo por suas veias e mal conseguia ficar parado, mas naquela noite a adrenalina do jogo tinha caído drasticamente, deixando em seu lugar um cansaço sem igual.
Caminhou até o quarto, chutando os sapatos em um canto qualquer e tirando a camisa. Jogou-a em uma cadeira perto da cama e em seguida fez o mesmo com as calças, deixando o peso de seu corpo cair sobre o colchão e sentindo o frescor do lençol em sua pele. Fechou os olhos, abrindo-os no segundo seguinte. Ainda sentia a exaustão em seu corpo, mas já não queria mais dormir.
Alguns lances do jogo passaram por sua mente e, quando se lembrou de uma defesa em especial, teve que controlar o impulso de pegar o telefone e ligar para . Quase podia ouvir a voz dela comentando momentos da partida. Ela falaria dos gols, o de Hamsik mais do que o de Cavani, mas comentaria principalmente sobre como a defesa do Napoli tinha conseguido anular o ataque da Udinese. Ela teria ficado empolgada com seu desempenho; aquele era o primeiro jogo depois do retorno do campeonato em que Di Natale — o artilheiro da competição — não tinha marcado nenhum gol e ele era o principal responsável por aquilo.
Tinha pensado bastante em nos últimos dias, mais até do que esperava e muito mais do que admitiria a Giorgio. Era difícil não pensar nela quando a brasileira surgia sem aviso em seus pensamentos o tempo todo. As menores coisas faziam ele se lembrar dela. Um comercial na tevê, o livro que tinha terminado naquela semana, a música tocando no estádio antes do jogo. A vespa, o mar, o céu.
Estava decidido, iria até a casa dela no dia seguinte. E daquela vez não iria desistir na metade do caminho por falta de coragem. Se faltasse coragem, iria sem coragem mesmo. Não podia mais adiar aquele momento. Não queria mais adiar aquele momento. Sentia falta dela. De tudo nela.
De repente, a adrenalina estava de volta em suas veias e o cansaço já não fazia mais parte de seu corpo. Levantou, determinado a colocar em ação o plano que tinha elaborado. Queria se desculpar, mas também queria recuperar o que eles tinham antes de ele agir como um completo idiota. Parte dele (a parte sensata) lhe dizia que aquilo não era justo com nenhum dos dois, que ele não era o cara que ela idealizava e que ambos sairiam machucados, mas a parte dele que queria estar com ela era tão maior. E essa parte tinha medo de que não tivesse mais volta.
***

Giulia tinha tentado conter a curiosidade, mas, como sempre, não teve muito sucesso. não tinha lhe contado nada sobre o tal modelo de cuecas. Provavelmente deveria entender aquilo como um sinal de que não havia nada para contar, mas não ficaria satisfeita enquanto não tivesse certeza. Não sabia se ainda tinha alguma chance, mas, entre ele e o modelo de cuecas, ela torceria pelo irmão.
— Como foi com o seu amigo na sexta? — decidiu perguntar, enquanto terminavam de tomar o café da manhã naquele domingo.
— Foi ótimo, eu me diverti bastante. — sorriu.
— Ele pareceu simpático. — disse como quem não queria nada.
— Ele é, sim.
Giulia tentou ler a expressão da amiga, na esperança de descobrir algo que ela não estivesse contando, mas nunca fora muito boa em ler pessoas, então optou por perguntar de uma vez o que queria saber.
— Tem alguma coisa entre vocês? — sua pergunta pareceu pegar de surpresa, já que ela parou de beber seu suco e olhou Giulia de uma forma engraçada.
— Entre mim e o Fabrizio? Não, por quê? Você está interessada? Eu acho que ele está solteiro. — riu.
— Ótimo, o Luca vai adorar saber! — Giulia respondeu, sorrindo mais despreocupadamente. Talvez não precisasse se preocupar por . Olhou o relógio de pulso e suspirou. — Eu tenho que ir. Você tem certeza que não quer vir almoçar com a gente hoje?
— Tenho. Eu preciso colocar algumas coisas em dia para aula de amanhã. — disse , mas era mentira. Não queria encontrar . Aquela era a única desvantagem do desentendimento entre os dois, seus almoços de domingo com a família ficariam restritos aos dias em que o Napoli jogasse fora de casa.
Giulia concordou com a cabeça e se despediu. Fechou a porta atrás de si e estava prestes a seguir pelo corredor, mas parou ao ver quem vinha em sua direção. Passado o susto de vê-lo ali, caminhou até ele, fazendo com que o rapaz parasse a alguns metros da porta de .
— Já não era sem tempo! Pensei que eu fosse ser obrigada a te arrastar até aqui pela orelha! — disse, dando uma bronca no irmão, mas mantendo a voz baixa para que não a escutasse.
conhecia aquele tom de voz; não era comum da irmã usá-lo, mas, sempre que o fazia, ele se lembrava de que Giulia era a mais velha.
— Está tudo bem com ela? — perguntou, tentando conter a ansiedade. Queria ver , ouvir sua voz. Sentia falta dos olhos castanhos que sempre lhe olhavam tão docemente.
— Não se preocupe, a está ótima. Mas, enquanto você estava sendo um completo idiota, outro cara a chamou para sair. — Giulia falou em um tom ríspido. Por mais que estivesse torcendo por ele, estava irritada com o irmão.
— Por que você não me avisou? — perguntou e Giulia notou algo de diferente na voz dele, algo que ela reconheceu como um misto de derrota e arrependimento. Podia ser péssima em ler qualquer um, mas não . Conseguia decifrar o irmão de olhos fechados ou a quilômetros de distância.
— Porque você tinha que decidir se desculpar sozinho, não por causa de outro cara. — disse em um tom mais ameno.
— Eu ia vir de qualquer jeito. — ele respondeu, balançando a cabeça. — Eu só demorei porque pensei que seria melhor dar um tempo para ela.
— Pelo menos você está aqui agora. — Giulia sorriu e empurrou o irmão em direção à porta de , encorajando-o. — In bocca al lupo¹.
Ela entrou no próprio apartamento e ficou sozinho no corredor, a observar o objeto de madeira à sua frente.
Crepi¹. — disse ele, batendo à porta em seguida.

¹ expressão usada para desejar sorte, literalmente significa ‘na boca do lobo’ ao que a outra pessoa responde ‘crepi’ ou ‘crepi il lupo’, dizendo ‘que ele morra’. Ou seja, quando você estiver na boca do lobo, que ele morra antes de matar você.


Capítulo 11 - Golden Boy

Os segundos que se sucederam até que abrisse a porta lhe pareceram uma eternidade. Tinha ensaiado e planejado seu pedido de desculpas detalhadamente, mas, enquanto encarava a madeira escura, a pouca coragem que tinha reunido se esvaiu e o medo voltou. Mais do que medo de ter estragado tudo e não ter volta, tinha medo de ver nos olhos dela o mesmo que vira da última vez. Decepção e mágoa. Queria estar com ela romanticamente, mas aquilo não era o mais importante. Se ela estivesse feliz com o outro cara ele aceitaria e sairia de cena, só não queria que ficassem ressentimentos entre eles. Não queria que ela o visse apenas como o idiota que ele tinha sido naquele dia. Não queria que ela deixasse de sair com Giulia ou ir aos almoços de domingo na casa dos avós apenas para não encontrá-lo.
Todos os seus pensamentos se desvaneceram no instante em que abriu a porta. O sorriso que estampava o rosto dela fez com que ele se lembrasse do porquê vinha sentindo tanto a sua falta. O sorriso, porém, desfaz-se lentamente quando os olhos dela encontram os dele, fazendo com que voltasse à realidade.
sentiu um frio repentino no estômago, mas não soube dizer se era pela surpresa de vê-lo ali ou pela intensidade com que aqueles olhos verdes a observavam. Sua memória não fazia jus ao tom dos olhos dele. Não importava quão verde ela os visse em suas lembranças, nunca seriam tão vibrantes e intensos quanto eram pessoalmente. Permitiu-se admirá-lo por um momento, notando que ele tinha penteado o cabelo do jeito que ela mais gostava.
— Pensei que fosse a Giulia. — ela disse por fim.
— Isso sempre acontece. — ele respondeu com um pequeno sorriso.
O coração dela se aqueceu e o frio no estômago foi substituído por borboletas. Era tão mais fácil fingir que não sentia nada, que não estava apaixonada, quando ele estava longe. Com ele ali, na sua frente, ela não tinha como fingir. Sentia falta dele. Sentia falta de suas conversas, de seus silêncios, de seus passeios e até de sua vespa azul.
— Você está muito ocupada? — ele perguntou, colocando as mãos nos bolsos, sem jeito.
— Não. — falou .
— Nós podemos conversar?
Ela hesitou por um breve segundo, então concordou com a cabeça e abriu passagem para que ele entrasse no apartamento.
— Eu gostaria de te levar a um lugar. — disse . — Pode ser?
Como sempre, se viu dividida entre razão e coração. Era mais seguro conversar com ele no apartamento. Sabia o que iria acontecer caso saíssem. Ele faria um gesto pequeno, porém, grandioso e derrubaria todas as suas barreiras outra vez. Ao mesmo tempo, no entanto, queria que ele derrubasse aquelas barreira. Queria que ele provasse que era sim o cara atencioso e gentil por quem ela se apaixonara e não o outro, o grosso e idiota.
Ela concordou e sorriu, com o coração acelerado. Era hora de corrigir o erro. Era hora fazer as coisas certas.
Seguiram em silêncio, lado a lado, e conteve um sorriso ao ver a vespa azul estacionada em frente ao prédio. Ele lhe entregou o capacete e, enquanto subia na motocicleta, ela percebeu uma cesta atrelada ao aro para bagagem.
Ela passou os braços em volta da cintura de , sentindo o ritmo da respiração dele, e aproximou seus corpos, fechando os olhos ao inalar o perfume da loção pós-barba que ele usava. Fez um esforço consciente de apreciar cada momento da viagem de motocicleta, pois seria a última. O caminho foi um pouco mais longo do que de costume, mas ela não se importou. Pelo contrário. Admirou a paisagem, sentindo o vento no rosto, nostálgica por um momento que ainda não era passado, mas presente.
Quando estacionou, ela olhou em volta. Não fazia ideia de onde estavam, mas a beleza do local a deixou maravilhada. A grama era de um verde irreal e rodeava um grande lago, parecia o cenário de um livro. O céu estava claro, com raios de sol brilhando através de algumas poucas nuvens. Era a fotografia perfeita. Tentava assimilar todos os detalhes da paisagem, quando a voz de chamou seu nome e apontou a direção para onde eles iam.
Ele teria pegado a mão de e a guiado até o seu local preferido — aparentemente era como todos os outros que cercavam o lago, mas os raios de sol refletiam na água de forma especial dali —, porém, achou melhor não. Em vez disso, segurou com mais força a cesta que trazia consigo. Quem sabe na volta poderia entrelaçar seus dedos aos dela.
— É lindo. — disse , sem tirar os olhos do imenso lago.
colocou a cesta no chão e pegou uma coberta, estendendo-a sobre a grama. Depois se aproximou de .
— É o Lago Averno. — respondeu.
O coração de pulou uma batida, então disparou. Ela se virou para com os olhos arregalados e pelos dos braços arrepiados.
— O da Eneida? — perguntou, a voz falhando pela emoção.
concordou com a cabeça.
Ela voltou os olhos para o lago, sentindo uma vontade enorme de chorar. Era uma bagunça de sentimentos, muito pelo lugar onde estava, mas muito também pelo homem ao seu lado. Aquele era o local onde, no sexto canto da epopeia escrita por Virgílio, o fundador de Roma tinha descido ao Hades para conversar com seu pai morto. Estar ali era como estar dentro da própria história, mas estar ali com significava que ela estava certa. Estivera certa o tempo todo. Não tinha imaginado, muito menos criado, uma versão dele que não existia. Nunca conseguiria criar alguém como ele. Alguém que se importava e que entendia o quanto aqueles livros velhos e antiquados significavam para ela.
Piscou, tentando evitar que as lágrimas caíssem, focando os olhos na paisagem à frente. Parecia irônico que um lugar tão cercado de vida e que emanava tanta calma pudesse ser a entrada para o sombrio mundo dos mortos; mas, por outro lado, também lhe parecia pouco provável que a cratera de um antigo vulcão pudesse transformar-se em algo tão naturalmente lindo.
— Desculpe. — disse .
se virou para ele outra vez, vendo em seus olhos muito mais do que aquela simples palavra era capaz de dizer. Sentiu o coração apertado e a vontade de chorar aumentou.
— Tudo bem. — ela disse, com um sorriso fraco.
— Não, não está tudo bem. — ele balançou a cabeça, passando uma das mãos pela nuca. — Eu fui um completo idiota com você. É só que... — ele suspirou, tentando encontrar as palavras, mas era péssimo naquilo. As palavras nunca pareciam certas ou suficientes, ainda mais naquela situação, quando ele tinha tanto para dizer. Tinha tanto que queria que ela entendesse. Ele riu, chegava a ser engraçado pensar que ele, que nunca achava que as palavras eram suficientes, tivesse se apaixonado por ela, que via magia, encantamento e melodia em cada singela palavra.
— O que foi? — ela perguntou, o sorriso ainda em seus lábios.
— Eu sou péssimo com palavras e você é apaixonada por elas. — ele sorriu abertamente e ela riu. — Tem tanta coisa que eu quero dizer, mas as palavras sempre me faltam. Eu me perco tentando encontrar a palavra perfeita para expressar o que eu quero e nunca acho. E é pior com você, por que a pressão para achar a palavra certa é maior. E não dá para competir com o Catulo¹!
riu, uma risada gostosa de ouvir e que fez com que ele se apaixonasse ainda mais.
— É, de fato, não dá para competir com o Catulo. — ela disse — Mas... Falar e dizer são duas coisas diferentes, . E mesmo quando as palavras te faltam, ainda assim, você consegue dizer muito.
Os olhos dela o olhavam daquele jeito doce e ele soube que não era uma questão de encontrar a palavra perfeita ou fazer um discurso elaborado. Só precisava ser ele mesmo, ser sincero e honesto com ela.
Ele concordou com a cabeça, respirou fundo e continuou.
— Sobre aquele dia... Eu não vou ser convocado pela seleção, porque eu fui uma vez e foi péssimo. Foi a minha pior experiência como jogador e quando você falou... O jeito que você fala de mim como zagueiro... Às vezes é frustrante, porque eu sei que eu não sou esse cara. Eu não sou o jogador incrível que você vê e eu tenho medo de não alcançar as suas expectativas. Eu tenho medo de que quando você perceber que eu sou só um jogador mediano, você se decepcione e isso estrague a forma como você me vê fora de campo. Eu não sou um futuro bola de ouro, nem nada do tipo, eu sou só um garoto de Nápoles que deu sorte de realizar o sonho de jogar futebol.
o olhava com atenção, triste por não perceber que ele era muito mais do que um garoto napolitano como outro qualquer. Ele era muito mais do que mediano, ele era extraordinário. E era triste perceber que ele não via aquilo.
. Você poderia ser o pior zagueiro do mundo e eu não ia ligar. Por mais que eu ache o um zagueiro incrível, foi pelo irmão da minha vizinha que eu me apaixonei. Foi o cara fora de campo que me conquistou. O torcedor apaixonado, o cara que entende o que estar aqui, diante desse lago, significa para mim. É claro que eu quero ver você ir bem dentro de campo, mas isso é porque eu gosto de quem você é fora dele e não o contrário.
Um grande sorriso se desenhou no rosto de , seu coração batia tão rápido que parecia prestes a sair de seu peito. Ela estava apaixonada. Ela tinha dito que estava apaixonada por ele. Sua vontade era a de sair saltitando pelo lago, cantando e rodopiando, mas ainda não era o momento. Ele se aproximou, ajeitando uma mecha do cabelo dela que saía do lugar, sua mão se perdendo em meio aos cachos que emolduravam o rosto que ele tanto amava admirar.
— Me desculpa por ter sido um grosso e me desculpa por não ter contado sobre a seleção. — ele disse, seu rosto a centímetros do dela — Podemos voltar ao que tínhamos antes?
Os olhos dele a olhavam com carinho, o olhar que fazia se sentir segura, que fazia ela se esquecer do mundo e de todas as suas neuroses. Ela precisou de toda a sua força para se afastar.
— É melhor não. — ela disse, sem coragem de encará-lo nos olhos, buscando um ponto qualquer no horizonte em vez disso.
sentiu como se tivesse tropeçado nos próprios pés. Num momento queria sair saltitando de felicidade e no outro parecia ter dado de cara no chão. Tinha tentado se preparar para aquela possibilidade, mas depois do que ela tinha acabado de dizer aquilo não fazia sentido.
— Eu... Eu não entendo. Você acabou de dizer que tinha se apaixonado por mim. E eu... — ele riu, uma risada curta e triste — Se ainda não ficou claro, eu estou completamente apaixonado por você, .
Ela fechou os olhos com força ao ouvir aquelas palavras. A eterna luta entre razão e coração.
— Por quê? — ele perguntou — Por que não podemos ficar juntos?
Ela suspirou, abriu os olhos e encarou .
— Porque vou embora em 10 meses. Eu não quero me envolver ainda mais com você, porque vai ser pior quando eu for embora. Essa semana que nós estávamos brigados foi péssima. Eu senti a sua falta muito mais do que eu deveria. E, se a gente começar qualquer coisa, vai ser ainda pior quando eu voltar para o Brasil.
— Muita coisa pode acontecer em 10 meses, . — ele disse, gesticulando com as mãos, desesperado por fazê-la entender que era melhor estarem juntos do que separados. — Muita coisa pode mudar, você pode decidir fazer o doutorado aqui. Eu posso ser vendido para um time sei lá onde. Mas você não quer nem tentar?
— Eu quero. — ela caminhou de um lado para o outro, inquieta — Eu quero muito. Tanto que às vezes me sufoca, mas eu sei como isso vai terminar.
— Como?
Ela parou de andar e olhou fundo nos olhos verdes que estava aprendendo a amar.
— Comigo com o coração partido.
— Não no que depender de mim. — ele disse com a voz calma, suave, e se aproximou devagar. — Vamos viver, .
Ela não precisaria de mais nada para entender que ele estava citando Catulo, mas, mesmo assim, ele continuou.
— O sol pode morrer e renascer, mas nós, quando a nossa luz se apagar, perpétua noite dormiremos. — ele fechou o espaço entre eles, tocou levemente a bochecha dela e disse, a voz apenas um sussurro. — Dá mil beijos, depois outros cem. Dá muitos mil, depois outros sem fim. Vamos perder a conta, confundir.²
Ele sorriu, um sorriso doce e encantador, e soube que não adiantava lutar. Aquela batalha já estava perdida. Aquela era uma guerra vencida. Ela selou seus lábios aos dele e tentou não pensar no que o futuro lhes resevava. Tentou não pensar em nada além do beijo, além da sensação gostosa e reconfortante que tomava conta de seu corpo quando ele a beijava. Mais que tudo, tinha sentido falta daquilo, de estarem juntos.
se afastou, sorrindo ao olhar aqueles olhos castanhos e ao senti-la tão junto de si. Ela ainda tinha os braços ao redor dele e ele aproveitou para abraçá-la, trazendo-a ainda mais para perto, seu corpo acolhendo o dela em um encaixe perfeito, como sempre que se abraçavam.
— Vem. — ele disse, sentando no cobertor que tinha estendido sobre a grama e abrindo a cesta, para retirar de lá algumas frutas.
Ele estendeu a tigela com uvas para e ambos se aconchegaram, abraçados, admirando a paisagem.
— O que aconteceu com a seleção italiana? — ela perguntou, comendo uma das uvas.
— Eurocopa, oitavas de finais contra França. Meu primeiro jogo como titular da seleção. Três minutos de jogo e o Thierry Henry marcou um gol por um erro meu. — ele abaixou a cabeça, revivendo o momento. O embrulho no estômago e a sensação de fracasso que tomou conta dele quando viu a bola entrar no gol. — A Itália foi eliminada por causa daquele gol e eu virei o inimigo número um de todo o país, menos Nápoles.
apoiou a cabeça no ombro dele e ele sorriu.
— Em três minutos de jogo eu fui de garoto prodígio, vencedor do Golden Boy e futuro da zaga italiana ao moleque napolitano que nunca devia ter sido convocado. A aterrissagem na Itália depois da eliminação foi o pior momento da minha carreira, o tanto de coisa que eu ouvi. Eu tinha 19 anos e nunca tinha sentido o preconceito contra os napolitanos tão de perto, tão especificamente direcionado a mim.
— Eu sinto muito. — ela disse, entrelaçando seus dedos aos dele — Por você ter passado por isso e por eu ter insistido no assunto da seleção.
— Tudo bem. Não tinha como você saber. Eu devia ter contado antes. — ele ficou um momento em silêncio e então continuou — O pior de tudo é que eu nem queria ter sido convocado. Eu nunca sonhei com a seleção. Eu cresci vendo o resto do país tratar a gente como lixo e, por causa disso, eu sempre me senti muito mais napolitano do que italiano. Meu sonho sempre foi o Napoli. E aí me convocaram e eu fui. Mas teria sido melhor não ter ido, porque fizeram questão de esfregar na minha cara que me convocar tinha sido um erro e que nunca mais fariam aquilo de novo.
— Melhor para você, que ganha folga durante os jogos internacionais! — ela disse, dando de ombros, e ele riu, depositando um beijo nos cabelos dela em seguida. — Vamos torcer pela Alemanha na próxima Eurocopa.
— Combinado.
Houve um silêncio tranquilo entre eles, até que falou outra vez.
?
— Hm.
— Não fica bravo. — ela disse, ajeitando-se para olhá-lo de frente — Eu prometo que nunca mais menciono isso, mas... Você é um grande zagueiro.
Ele desviou os olhos, mas tocou o braço dele, para que ele a olhasse.
— Não eu estou falando por falar. Você tem uma visão de jogo como poucos jogadores. Você vê o desenvolvimento do ataque antes de todo mundo, o que significa que você está sempre no lugar certo, na hora certa. Você interrompe o ataque antes que ele se torne perigoso. Você fez isso o tempo todo com o Di Natale no jogo contra a Udinese. O Cannavaro também era assim. E você praticamente não comete falta, você não precisa fazer falta. Você é exato em 99% dos seus cortes. Como o Puyol. E eu sei que você não gosta de ser comparado a eles e eu entendo, mas eu quero que você entenda que defensores como você são o motivo de eu amar a zaga. Você é bom. Você é incrível! E como amante de futebol, eu acho isso maravilhoso, mesmo que não mude em nada o que eu penso de você como pessoa. O que eu sinto por você.
— Você está apaixonada por mim. — ele disse convencido, os olhos verdes brilhando.
riu, empurrando-o e jogando uma uva em sua direção, mas ele abocanhou a fruta ainda no ar. Os raios de sol batiam no rosto dele de um jeito que o deixava ainda mais bonito e ela esqueceu momentaneamente sobre o que estavam conversando.
— Você assistiu ao jogo contra a Udinese? — ele perguntou, o sorriso convencido ainda no rosto.
— Sim. — ela piscou, voltando à realidade — Mas só porque, como torcedora do Napoli, eu preciso acompanhar os jogos do meu time.
O sorriso de dobrou de tamanho e ele passou os braços ao redor do corpo dela em um abraço apertado.
— Eu preciso te ensinar ‘O Surdato ‘Nnammurato!
— A música que vocês cantam no fim do jogo?
Ele concordou com a cabeça.
— A torcida cantando ‘O Surdato ‘Nnammurato é a minha lembrança mais antiga. — ele sorriu nostálgico e ela se virou dentro do abraço para olhá-lo — Eu tinha quatro anos e foi a minha primeira vez no estádio. Foi naquele momento que eu soube que queria ser jogador de futebol.
sorriu, imaginando uma versão em miniatura de ; o menino que tinha se transformado no homem à sua frente.
Passaram toda a manhã e boa parte da tarde ali, conversando sobre tudo o que não tinham conversado na última semana, recuperando o tempo desperdiçado. Quando o assunto acabou, ficaram em silêncio, ouvindo a natureza. Era incrível como se sentiam confortável um com o outro. Estar juntos era algo natural, quase instintivo. Trazia-lhes felicidade e completude. Ali, sentados em silêncio, apreciando a vista, mal podiam imaginar o que o futuro reservava para os dois.
— Vamos, namorada? — perguntou, levantando e estendendo a mão para , quando a brisa começou a ficar gelada.
— Vamos, namorado. — ela disse.
Guardaram tudo e então, enquanto faziam o caminho de volta até a vespa, entrelaçou seus dedos aos dela.
— Sua avó deve estar uma fera por você ter faltado no almoço.
— Eu avisei que não ia. — ele sorriu, apertando a mão dela dentro da sua, sentindo o coração completo, contente. Estavam de mãos dadas, enfim.

¹ poeta da Roma Antiga
² trechos do poema 5 do Livro de Catulo


Capítulo 12 - Destino

Quando se jogou na cama naquele domingo à noite, a cena em nada se assemelhava a vivida no sábado anterior. Seu corpo estava cansado, mas ele estava feliz. Uma felicidade como ele não sentia há muito tempo. Um tipo de felicidade rara aos adultos, mas intrínseca às crianças. Uma felicidade inteira e plena, que habitava cada célula de seu corpo. O sorriso tinha encontrado morada permanente em seu rosto e ele desejou que o dia tivesse mais horas para poder passar todas elas com a namorada. Namorada. Ele e estavam namorando. Era para valer.
Seu celular apitou com uma nova mensagem e ele riu ao ver que era a irmã, querendo saber como tinha sido. Ele se sentou e ligou para Giulia, que atendeu logo na primeira chamada.
— E aí? — Giulia perguntou, antes mesmo de ele falar qualquer coisa.
***

A ligação soou duas vezes antes de Duda aparecer do outro lado da tela. sequer precisou dizer qualquer coisa para que a melhor amiga entendesse o que estava acontecendo, o sorriso bobo e permanente que tinha no rosto desde que a deixara em casa a entregava.
— Ah! Eu sabia! Eu sabia! — Duda comemorou, erguendo os braços e fazendo uma dancinha engraçada. riu, as bochechas ganhando um tom levemente rosado. — Meu ship está vivo! Me conta tudo! Tu-do!
Duda se aproximou do computador, ouvindo cada detalhe com atenção, um sorriso enorme tomando conta de seu rosto. Estava tão feliz pela melhor amiga. raramente se deixava levar pelo coração e Duda estava feliz que ela o tivesse feito daquela vez. Nunca tinha visto daquele jeito, com os olhos brilhando como brilhavam sempre que mencionava , e a possibilidade de que a melhor amiga não vivesse aquela história de amor (por mais brega que soasse) a deixava de coração partido. Só que não mais. Podia comemorar porque e eram oficialmente um casal. E eram oficialmente o casal mais fofo que ela conhecia, mesmo que ainda não conhecesse pessoalmente.
— Eu sabia! — repetiu, as bochechas doendo, tamanho era o seu sorriso. — Eu estou tão feliz por você!
— Agora você só precisa vir me visitar para conhecer o .
— Meu Deus, acho que eu tenho um treco se vejo esse homem na minha frente! — Duda disse exagerada — Sério, depois de tudo o que você me contou e todas as fanfics que eu li, eu estou completamente apaixonada pelo seu namorado!
riu.
— Eu não te culpo. Ele é bem incrível mesmo.
Duda sorriu, apoiando o rosto nas mãos.
— Me conta de novo.
E contou. Contou sobre o lago, sobre o pedido de desculpas, sobre o poema. Seu coração acelerando e as borboletas voltando a seu estômago ao se lembrar da voz de recitando Catulo, como cada palavra soava como música no sotaque dele, deixando aqueles versos ainda mais apaixonantes.
Quando se deitou naquela noite, o sorriso ainda estava em seu rosto e, antes de adormecer, a voz de soou outra vez em sua mente, guiando-a por um sono tranquilo e profundo enquanto dizia ‘vamos perder as contas, confundir.’
***

observava com atenção enquanto separava os ingredientes e preparava a bancada. Estavam na cozinha da casa dele, Giorgio e a noiva viriam para o jantar. Com os ingredientes separados, ele pegou dois aventais, passando um pelo pescoço dela e amarrando em sua cintura, depois ele mesmo tratou de vestir o outro.
Ela olhou para o próprio avental (azul e com um grande logo do Napoli) e depois para o do namorado (igual ao dela, porém, branco) e riu.
— Me espanta você não ter uma tatuagem do Napoli na testa. — disse, rindo.
— Ainda bem que você se apaixonou pelo torcedor roxo, né. — disse com um sorriso cativante, aproximando-se e depositando um beijo nos lábios dela.
— Ainda bem. — ela sorriu. — Por onde a gente começa?
Começaram pelo molho, que era tão importante quanto a massa. Cozinharam os tomates e depois mostrou como espremê-los com as mãos, do jeito que a avó o ensinara quando ainda era pequeno, com cuidado e delicadeza. fez uma careta, sentindo a textura do tomate enquanto ela espremia o molho, e ele riu.
Quando o molho estava quase pronto, começaram a preparar a massa. Ele movia as mãos com agilidade e experiência, já ela fazia uma bagunça, espalhando farinha por todo lado.
— Eu não levo o mínimo jeito para isso. — disse .
— Leva sim. Você só precisa de mais leveza nas mãos.
se posicionou atrás dela, movendo as mãos junto com as da namorada para mostrar como fazer. Então depositou um beijo no pescoço dela e voltou para o seu lugar na bancada.
— Eu acho que isso tudo é só uma desculpa para me seduzir. — sorriu.
— Está funcionando? — ele riu, arqueando uma sobrancelha.
— Ah, pode ter certeza que sim. Você fica extremamente sexy com esse avental e a cara toda borrada de farinha.
riu uma risada alta e se aproximou.
— Somos dois, então. — ele disse, limpando um pouco da farinha na bochecha dela e depois voltando a atenção novamente para a massa que sovava.
levou um susto quando ele jogou a massa para o alto, mas logo em seguida a pegou ainda no ar.
— Uau! Isso foi muito sexy! — disse, rindo e recebendo uma risada de como resposta.
Ele repetiu o movimento, jogando a massa de uma mão para a outra, até que estivesse do tamanho ideal, explicando como ela deveria fazer. jogou a massa para o alto, mas não conseguiu pegá-la a tempo e a massa caiu sobre a bancada, espalhando farinha por toda cozinha. Mais duas tentativas e ela já estava prestes a desistir, quando finalmente conseguiu pegar a massa no ar, recebendo um sorriso orgulhoso do namorado.
Montaram as pizzas e arrumaram a mesa. Então tomaram um banho e colocaram as pizzas no forno, esperando por Giorgio e Antonia. olhou o relógio, nervosa. Sentia como se estivesse prestes a conhecer os pais de , exceto que ela tinha conhecido a família dele antes de começarem a namorar e eles a adoravam. Torcia para que o mesmo acontecesse com Giorgio. Seria desconfortável para todo mundo caso o melhor amigo do namorado não gostasse dela.
A campainha tocou e ela respirou fundo, indo com até a porta.
— Eu já vou me desculpar por todas as asneiras que o Giorgio vai dizer. — ele avisou, sorrindo.
abriu a porta e Giorgio tratou logo de ir entrando.
! Eu sou Giorgio, é um prazer finalmente te conhecer! — ele disse com um grande sorriso no rosto, ignorando completamente o melhor amigo.
sorriu e os braços de Giorgio a envolveram em um abraço.
— Eu sou Antonia. — disse a bela morena que o acompanhava, abraçando-a também. não entendia muito sobre wags, mas imaginou que Duda diria que Antonia era a wag perfeita. Tinha um jeito simpático e uma beleza natural que desbancaria qualquer angel da Victoria’s Secret.
— Prazer. — ela sorriu, sentindo-se menos nervosa pela recepção carinhosa dos dois.
— Eu estou morrendo de fome. — reclamou Giorgio, terminando de entrar na casa — , o seu namorado é um mala, mas ele cozinha que é uma beleza!
resmungou qualquer coisa e riu, era fascinante observar a amizade dos dois. Eles tinham um entrosamento perfeito em campo e agora ela podia comprovar que era o reflexo da amizade de anos que tinham fora dele.
Todos se dirigiram até a sala de jantar e Giorgio tratou de ir até a cozinha, abrindo uma das gavetas sem a menor cerimônia e pegando um abridor de garrafas para abrir o vinho que tinha trazido.
Giorgio serviu uma taça para cada um e se sentou à mesa, enquanto trazia a pizza recém-saída do forno. O jantar foi acompanhado por uma conversa leve, sobre assuntos banais, para que , Giorgio e Antonia pudessem se conhecer melhor. Já tinham bebido algumas taças de vinho, quando Giorgio resolveu contar histórias de infância de , com o puro intuito de envergonhar o melhor amigo.
— Eu não acredito! — disse , segurando o riso.
— É verdade, tem filmagem e tudo. — disse Antonia, confirmando o que o noivo dizia.
— Não foi minha culpa, me empurraram! — defendeu-se . O problema de ter amizades tão antigas era que elas sabiam todos os seus podres e não pensavam duas vezes antes de te fazerem passar vergonha. E ele podia jurar que aquele era o passatempo favorito do melhor amigo.
— E só para variar, foi a Giulia. — concluiu Giorgio.
— A Giulia?! — perguntou .
— Você não sabia?
—Não! — ele respondeu de forma quase desesperada, arrancando uma gargalhada do amigo.
— A minha mãe foi te dar um pedaço do bolo e a Giulia quis pegar primeiro, então ela te empurrou.
— Ou seja, eu caí de cara no bolo porque a minha irmã tem os olhos maiores do a que barriga. Típico. — resmungou.
— O melhor de tudo foi a cara que você fez depois, sem entender o que tinha acontecido. — disse Antonia, fazendo o noivo rir ainda mais ao se lembrar da cena.
— Tudo bem, vingança é um prato que se come frio. — disse .
A conversa entre eles se estendeu mesmo depois que a pizza e o vinho já tinham acabado. Giorgio e Antonia tinham uma personalidade agradável e faziam sentir como se sempre tivesse feito parte do grupo de amigos. Já era alto da madrugada quando se despediram.
— O que você achou do Giorgio e da Antonia? — perguntou , olhando para ela por cima de um dos ombros, enquanto lavava a louça.
— Eles são uns queridos. — ela sorriu, colocando as taças no armário e virando para observar o namorado, que fechava a torneira e secava as mãos.
Ele se virou de frente para ela, apoiando as costas na pia, mas franziu o cenho ao ver a expressão no rosto dela.
— O que foi? Aconteceu alguma coisa? — perguntou com um leve tom de preocupação na voz. Ela parecia perfeitamente bem há alguns segundos.
— Não. — balançou a cabeça — É só que eu estou tendo um déjà vu.
Ela apontou para o modo como estava apoiado na pia logo após ter terminado de lavar a louça e ele imediatamente entendeu que ela se referia ao dia do desentendimento entre os dois.
— Acho que nós precisamos dar um jeito nisso. — ele falou, desencostando da pia e se aproximando dela. — Substituir a lembrança ruim por uma boa, o que você acha?
Ele a abraçou, unindo seus lábios aos dela em um beijo, enquanto suas mãos encontravam o caminho por debaixo da blusa da namorada.
— Acho uma ótima ideia. — ela sorriu.
***

se virou na cama, sentindo um braço sobre sua cintura, e abriu os olhos. ainda estava dormindo, a respiração pesada e o rosto sereno. Ela olhou o relógio no criado-mudo, ainda era cedo, e voltou a dormir. Horas mais tarde, quando acordou novamente, ele não estava mais ao seu lado.
Ela se sentou, observando o quarto dele. Gostava como tudo ali gritava , mesmo as coisas mais simples, como a estampa da roupa de cama. Ela se vestiu sem pressa e seguiu até a cozinha. Parou para observar o namorado, de costas para ela, preparando o café da manhã sem camisa. Ficou ali por um momento, com um sorriso bobo no rosto, assistindo enquanto ele cozinhava e se sentindo extremamente sortuda. Ela tinha ganhado na loteria do destino. Não costumava acreditar naquele tipo de coisa, mas era a única explicação que conseguia encontrar.
A única explicação para o fato de que, dentre todas as pessoas em Nápoles, ela tinha se mudado justamente para o apartamento em frente ao da irmã dele. A única explicação para aquela sensação de que havia um motivo maior para ela estar naquela cidade, a única explicação para o sentimento de que tinha algo esperando por ela ali. Enquanto observava preparar o café, se deu conta de que talvez não fosse algo, mas alguém. Talvez estar em Nápoles realmente significasse estar voltando para casa.
Ela respirou fundo, sendo tomada por emoções e sensações que nunca tinha sentido antes, então se aproximou de . Tocou levemente as costas do namorado, seus dedos percorrendo a cicatriz que ele tinha entre os ombros.
— Bom dia. — ela disse.
— Bom dia. — ele virou o rosto para ela, com um sorriso que a fez se esquecer de respirar.
uniu seu corpo ao dele, em um abraço, e apoiou o rosto nas costas do namorado, os dedos ainda traçando o desenho da cicatriz.
— O que aconteceu aqui? — ela perguntou.
— Eu caí da sacada dos meus avós. — ele respondeu e ela se afastou, os olhos arregalados, enquanto ele colocava o café na mesa.
— Você está brincando? Aquela sacada é alta para caramba! — ela disse, o coração acelerado por pensar no acidente. Uma preocupação que não fazia o menor sentido, já que ele estava ali. estava bem.
— É. Eu tinha uns três anos. Foi bem sério, eu tive que ficar uns dias em coma induzido e tudo.
— Como foi isso? — ela perguntou, sentando à mesa, o coração ainda disparado com a possibilidade do que poderia ter acontecido.
— Eu estava brincando com uma bola, a bola caiu da sacada e eu fui tentar pegar. A nonna se sente culpada até hoje, coitada. Mas está tudo bem, tirando a cicatriz, não ficou nenhuma sequela nem nada. — ele sorriu, colocando uma mecha do cabelo dela atrás da orelha e lhe dando um beijo rápido — Por falar na nonna, hoje nós não podemos perder o almoço de jeito nenhum.
***

já conhecia a família , ainda assim, não sabia que reação esperar quando eles soubessem que ela e estavam namorando. Mas, ao entrarem na casa dos avós dele de mãos dadas naquele domingo, a reação da família dele foi a mesma de sempre. Recebê-la de braços abertos, prontos para um abraço apertado. Já a consideravam parte da família antes mesmo de ela e se tornarem um casal. Nada havia mudado, mas fizeram questão de deixar claro o quanto estavam felizes pelos dois.
O almoço seguiu como sempre, as conversas paralelas, os assuntos que se interpunham, a nonna enchendo o prato dela de comida a cada vez que ele se esvaziava. Depois do almoço, sentaram-se na sala, tocando um café e comendo a sobremesa.
— A me perguntou se você tinha distúrbio de personalidades múltiplas! — comentou Giulia.
riu alto, jogando a cabeça para trás.
— O quê?! Eu sou a pessoa mais sensata da família!
— Foi o que eu disse!
— Foi a única explicação que eu entrei para você ter surtado daquele jeito. — encolheu os ombros.
passou os braços em volta da cintura dela em um abraço, o sorriso um pouco menor.
— Desculpa. — ele sussurrou para que só ela pudesse ouvir e sorriu.
— Vou pensar no seu caso. — ela respondeu, também para que só ele pudesse ouvir.
— Ai, meu Deus! Vocês são muito fofos juntos! Eu não aguento! — Giulia gesticulou com as mãos, empolgada, e todos concordaram, sorrindo.
riu, concordando também, e escondeu o rosto no braço do namorado. Logo o assunto mudou, falavam sobre futebol, sobre o tempo, sobre o trânsito. Um típico domingo com a família . acompanhava a conversava, rindo e dando sua opinião aqui e ali. Volta e meia enlaçava seus dedos aos dela, perdido na conversa com a família, e ali ela teve certeza de ter ganhado na loteria do destino. Nápoles já não era só mais um ponto no mapa — se é que algum dia tinha sido apenas aquilo —, Nápoles era seu segundo lar. Aquela era sua casa.


Capítulo 13 - 3:27

encarava o pen-drive em cima da mesa com o cenho franzido, tentando decidir se queria mesmo fazer aquilo. Não queria, mas sentia que precisava. Precisava confrontar o pior momento da sua carreira, só então poderia deixar aquilo para trás e crescer como jogador, alcançar o potencial que tinha tanta certeza que ele possuía.
Dois anos haviam se passado, mas aquele jogo contra a seleção francesa ainda pairava sobre ele, minando sua autoconfiança. Achava que já tinha superado o acontecido — e até certo ponto tinha mesmo —, mas a briga com tinha lhe aberto os olhos para o quanto aquilo ainda lhe afetava dentro de campo. Nos primeiros dias após a partida tinha revivido a jogada em sua mente de forma quase obsessiva, tentando encontrar onde tinha errado e o que poderia ter feito diferente. Tentava encontrar manobras que teriam evitado o gol, mas não podia voltar no tempo e testar outras alternativas. Por isso, depois de um tempo, decidira não pensar mais naquilo. O problema era que a sombra daquele deslize estava sempre ali. Racionalmente ele sabia que era um ótimo zagueiro, mas aquela partida nunca lhe permitia ter certeza. Havia sempre a dúvida: ele era bom mesmo? A cada defesa que realizava a sensação de satisfação era logo substituída pela insegurança, pela voz insistente que perguntava se não havia sido apenas um golpe de sorte.
Era uma luta interna constante, que se intensificou ainda mais com a chegada de em sua vida. Ela fazia os dois lados, o racional e o hesitante, baterem de frente como nunca. Ela entendia de futebol, entendia de zaga e, portanto, ele acreditava quando ela dizia que ele tinha potencial para um dia estar no mesmo patamar de Puyol e Cannavaro. Mas então surgia a dúvida. A voz de outros tantos “entendedores de futebol” que diziam que ele era um jogador medíocre que às vezes dava sorte de encaixar uma defesa ou outra. E aí a bagunça piorava de vez. A opinião daqueles estranhos não era em nada melhor ou mais relevante do que a de . Pelo contrário, para ele, a opinião dela era mais substancial do que qualquer outra. A opinião dela era a única que importava, porque, ao contrário dos outros, ela queria que ele crescesse e melhorasse. Ela queria vê-lo ser tudo o que ele poderia ser.
Respirou fundo e pegou o pen-drive. Olhou o relógio, confirmando pelo horário que a aula da namorada já tinha acabado e então mandou uma mensagem para ela.
Eii. Como foi a aula?
Vai para a biblioteca agora à tarde?

Ei, você. Foi ótima, mas cansativa.
Não, vou ficar em casa olhando pras paredes. Vou ter um
aneurisma se tiver que ler mais algum texto científico hoje.

O que acha de assistir futebol comigo?

Vou preparar a pipoca!


Ele sorriu e pegou a chave da vespa.

***

— Que jogo é esse? — perguntou , com a boca cheia de pipoca, aconchegando-se ao lado dele no sofá.
— Itália e França. — disse simplesmente.
Ela se afastou, os olhos arregalados.
— Tem certeza?
Ele sorriu, pegando um punhado de pipoca e concordou com a cabeça.
Ela apertou o play no controle remoto e imediatamente sentiu ficar tenso ao seu lado. Encostou a cabeça no ombro dele, tentando aliviar a tensão e ele logo passou o braço sobre os ombros dela.
Os olhos de se alternavam entre observar a bola e olhar o cronômetro, antecipando o instante em que marcaria 3:27. Nunca três minutos e vinte e sete segundos demoraram tanto para passar. Quando chegou o momento, ele prendeu a respiração. Queria com todas as forças fechar os olhos para não ter que assistir o que sabia que viria à seguir. Tinha evitado aquilo por dois anos, mas era chegada a hora de confrontar seus erros.
Assistiu ao goleiro francês lançar a bola para o campo de ataque. Ele e Thierry Henry correram, isolados, disputando quem chegaria à bola primeiro. Ele se lembrava perfeitamente de cada segundo até o gol. Da segurança que sentira ao ver que estava na posição perfeita para tirar a bola da jogada. Tinha tanta certeza de que tinha tudo sob controle. Então, a bola se aproximou do solo e ele ergueu o pé, pronto para lançá-la de volta ao meio-campo. Aquela foi a última vez que se sentira seguro e confiante daquele jeito, tão certo de que nada poderia dar errado, porque, ao contrário do que tinha calculado, ele não conseguiu tocar a bola com precisão suficiente para controlá-la. Em vez disso, o toque com a ponta do pé — o erro estava ali, se ele tivesse corrido um pouco mais, se estivesse um passo à frente, teria conseguido controlar a bola com o peito do pé e efetuado o desvio com precisão — serviu como o passe perfeito para o atacante francês, que, sozinho contra Buffon, colocou a bola no gol sem dificuldade.
A televisão mostrou o replay mais algumas vezes, por todos os ângulos possíveis, então a jogada passou. O cronômetro marcou quatro minutos e ele relaxou, expirando o ar preso em seus pulmões. Ele pausou a imagem, encarando a tevê, depois se virou para a namorada. Apoiou a testa no ombro dela e passou a mão carinhosamente pelos cabelos dele.
— Foi muito ruim, né?
— Sim e não. — ela disse. O olhar nos olhos de partindo o coração dela. Ele nunca tinha lhe parecido tão vulnerável como naquele momento. — Sim, porque sem querer você deu o passe para o Thierry Henry. Mas não porque também não tinha mais nada que você pudesse fazer. Se você não tentasse pegar a bola, ela teria ficado com ele e teria sido gol de qualquer jeito, estavam só vocês dois na jogada. Qualquer outro zagueiro teria feito a mesma coisa e o resultado teria sido o mesmo. Se fosse o Maldini ali, pai ou filho, teria acontecido exatamente a mesma coisa.
— Eu tinha que ter me adiantado um pouco mais. — ele suspirou, balançando a cabeça.
. — ela passou a mão pelos cabelos dele outra vez, um gesto simples, mas que parecia deixar tudo melhor, e ele olhou para ela — Você fez o que você podia fazer. Você correu o que dava para correr, você controlou a bola do melhor jeito possível, mas não deu. Aconteceu. Algumas coisas fogem do nosso controle. Eu sei, porque eu tento controlar tudo o tempo inteiro e não dá.
— Dava para eu ter corrido um pouco mais rápido.
— Não dava. — disse com segurança. — Eu sei disso com a mais absoluta certeza, porque eu conheço você e eu sei que você dá 100 por cento de si sempre. Em tudo. Se você não correu mais, foi porque não dava para você correr mais. E eu nem preciso assistir ao resto do jogo para saber que colocar toda a culpa da eliminação nas suas costas por causa dessa jogada é ridículo. Eles queriam um bode expiatório para explicar a eliminação da seleção campeã do mundo logo nas oitavas de finais e escolheram você porque a corda sempre estoura do lado mais fraco. É muito mais fácil culpar o garoto napolitano que está começando do que admitir que as estrelas não jogaram nada.
— Talvez tenham jogado, a gente só viu três minutos do jogo.
— Se tivessem jogado, as manchetes seriam do tipo ‘Itália luta bravamente, mas é eliminada’ ou qualquer coisa assim. Se o resto do time tivesse jogado bem, não teriam focado em você.
pensou a respeito por um instante, então sorriu. Beijando a bochecha da namorada e pegando mais um punhado de pipoca.
— Vamos ver se a sua teoria está certa. — ele disse, dando play no jogo outra vez.
estava certa. A equipe como um todo tinha feito um jogo apático. O meio de campo não criava, o ataque não levava perigo nenhum à seleção francesa e de todas as finalizações no jogo apenas uma tinha sido no alvo. E em meio àquele time fadado à derrota estava , marcando todo e qualquer avanço francês. Ele estava por todos os lados, dando carrinhos, combates e efetuando cortes com precisão. Ele era o melhor jogador italiano em campo. Ele havia dado tudo de si no jogo e estava furiosa. Não com ele, mas com a seleção. Com tudo pelo que haviam feito passar, sendo que ele tinha sido o único a jogar com garra e coragem. Ele era o único em campo que queria vencer aquele jogo.
Quando o juiz apitou o final da partida, antes que pudessem ver a comemoração adversária, ela desligou a televisão. Não queria ver na TV a reação de à derrota, seu coração não aguentaria ver a decepção nos olhos dele. A sala ficou em silêncio um segundo e então ele falou:
— Você estava certa. — havia determinação e segurança em sua voz.
Ver a partida do lado de fora do campo tinha mudado completamente a percepção que ele tinha daquele jogo. Ele não fora o responsável pela derrota. Dera o seu máximo, mas não era o único em campo, havia outros 10 jogadores no time. Apesar do erro, tinha feito a sua parte. As vozes irritantes em sua mente se calaram e ele soube que não voltariam. Não era sorte. Era esforço, trabalho e competência. Ele se dedicava, dava seu máximo sempre e era o que tinha feito naquele jogo. Talvez aquele tivesse sim sido um jogo medíocre por parte da seleção italiana, mas aquela culpa ele não carregava. Não era um jogador medíocre, era um bom zagueiro.
— Se não fosse você, o jogo teria acabado no mínimo quatro a zero para a França. — disse irritada. — Eles tinham era que ter te agradecido por ter livrado o time de passar uma humilhação.
abriu um grande sorriso. Pouco se importava com a seleção italiana, que falassem o que quisessem. Aquele jogo não iria mais atormentar seus dias. Aquela tinha sido a pior experiência de sua carreira, mas não por culpa dele, por culpa de gente ignorante e preconceituosa e ele não deixaria que estragassem mais nada em sua vida. A seleção italiana que fosse para os infernos, ele não estava nem aí. Ele tinha uma mulher incrível como namorada e era só com aquilo que ele se importava.
O sorriso em seus lábios dobrou de tamanho e ele puxou mais para perto, em um abraço de urso. O abraço desajeitado fez com que eles caíssem deitados no sofá e o balde de pipoca — já quase vazio — foi para o chão.
Ela riu, ajeitando-se sobre o namorado. Aqueles olhos verdes a olhavam cheios de carinho, como se não houvesse nada no mundo tão lindo quando ela. A irritação passou. Quem se importava com a seleção italiana? Não ela.
— Você derrubou minha pipoca e agora vai pagar por isso. — ela disse, fingindo estar brava, mas falhando em segurar a risada que escapava de seus lábios.
Os olhos de brilharam e seu sorriso poderia ter ofuscado o sol. Ele levou uma mão à bochecha da namorada com delicadeza, beijando-a em seguida.
Quem se importava com a seleção italiana? Não ele. Não ela.


Capítulo 14 - Escrito no Mar

riu. O jogo ainda nem tinha começado, mas os rapazes já estavam agitados. Fabrizio a tinha convidado para assistir ao jogo na casa dele com os outros rapazes, sempre que os jogos eram fora da cidade eles se reuniam para assistir na casa de um deles. Enquanto a partida não começava, eles faziam previsões, falavam mal de certos jogadores — a maioria rival — e comentavam jogos passados. Quando o comentarista anunciou que o jogo começaria em poucos minutos, Fabrizio gritou pelos amigos que estavam na cozinha e se sentou ao lado de no sofá.
— Vamos ver se você vai nos dar sorte. — disse ele, sorrindo.
Fabrizio vestia uma camiseta do Napoli com o número ‘17’ e o nome ‘Hamsik’ nas costas e tinha um cachecol azul do time pendurado no pescoço. Todos os rapazes estavam devidamente caracterizados com roupas e acessórios do Napoli. parecia um peixe fora d’água, vestindo apenas a camiseta do time com o nome e o número de nas costas.
O juiz apitou o início do jogo e os outros rapazes rapidamente se acomodaram na sala também. A partida começou tranquila, sem nenhuma jogada de risco para nenhum dos lados. Aos poucos, as oportunidades para ambos os times foram aumentando, mas todas as finalizações foram paradas pelos goleiros. O jogo continuou assim, com as chances de ataque se alternando entre os dois times, até os primeiros minutos do segundo tempo, quando Lavezzi, pelo meio, disparou em direção ao ataque. Em seguida, fez um passe para Hamsik, que já estava posicionado dentro da área. Marek recebeu a bola na esquerda e estava indo em direção à pequena área, quando foi derrubado. Todos na sala, inclusive , levantaram.
Rigore! — gritou Raoul, que já estava preparado para xingar o juiz, quando o mesmo apontou para a pequena área, sinalizando o pênalti.
Fabrizio estendeu a mão no ar e bateu sua mão contra a dele. Francesco e Matteo voltaram a se sentar, concentrados, esperando pela cobrança, mas os outros permaneceram em pé. Raoul correu para pegar um capacete parecido com o de , porém, com o logo do time estampado. Ele colocou o capacete na cabeça e riu.
— É para dar sorte, ele sempre coloca o capacete quando tem cobrança de pênalti. E o pior é que funciona. — explicou Fabrizio, virando-se para ela. Ele a observou por alguns segundos, então tirou o cachecol do pescoço e colocou no pescoço dela. — Você está precisando de mais Napoli.
Cavani colocou a bola na marca e se posicionou. A sala caiu em um silêncio absoluto, um silêncio que misturava tensão e ansiedade. queria fechar os olhos, mas não assistir seria ainda mais angustiante. Para ela, a pior parte das cobranças de pênaltis não era a cobrança em si, era o fato de que, antes mesmo do chute, dava para sentir quando a bola ia entrar ou não.
O juiz autorizou e Cavani bateu. A bola encontrou a trave, mas em seguida atravessou a linha branca, parando no fundo do gol e provocando uma explosão de gritos na casa de Fabrizio. Francesco tocou uma corneta, enquanto Raoul jogava o capacete no sofá e pulava em cima de Matteo. Fabrizio segurou em ambas as pontas do cachecol no pescoço de e a puxou para um abraço.
O jogo continuou e logo interrompeu o desenvolvimento de um ataque perigoso, recebendo um elogio de Matteo. sorriu de orelha a orelha, orgulhosa.
Pouco mais tarde, um gol-contra a favor do Napoli foi anulado e então o próximo ataque veio da Roma, com um chute de fora da área que fez com que todos prendessem a respiração por alguns segundos, soltando o ar apenas quando Giorgio realizou a defesa.
Faltavam 10 minutos de jogo, os minutos tensos de qualquer partida. Aqueles minutos finais representavam o momento decisivo para a virada quando se estava perdendo e o momento de segurar o adversário e garantir a vitória quando se estava ganhando. Qualquer deslize de ali em diante era letal.
estava tensa, a vantagem por um único gol não era o suficiente para dar a vitória como certa. Seus olhos já não viam a bola, em vez disso seguiam em campo. Aquele era o momento em que a defesa não podia se dar ao luxo de cometer nem um erro sequer e acompanhá-lo com os olhos dava a ela a sensação de que o estava ajudando de alguma forma. Como se pudesse por transmissão de pensamento lhe avisar caso qualquer coisa inesperada acontecesse. E enquanto seguia atentamente com o olhar, percebeu o namorado gradativamente se aproximar do campo de ataque. Ele já estava perto da grande área do time rival, quando Lavezzi também o viu posicionado ali e, mais do que rapidamente, ao receber um passe, cabeceou a bola para .
recebeu o passe e se reposicionou na lateral direita, enquanto se reposicionava, viu Cavani aproximando-se da pequena área e, em um passe preciso, mandou-lhe a bola. Cavani a chutou ainda no ar, sem dar ao goleiro chance de defesa.
foi a primeira a levantar do sofá e gritar gol, mas a verdade era que, mais do que o gol, estava comemorando a bela assistência de . Assistia à comemoração de El Matador e do namorado com um sorriso no rosto, quando a voz de Fabrizio chamou sua atenção.
— Você viu aquele passe do ? — ele perguntou e ela sorriu, concordando.
— Joga demais mesmo. — disse Raoul. — Até no ataque!
— Aposto como ele não fica mais duas temporadas no Napoli, logo, logo é vendido para algum time espanhol. — comentou Matteo, enquanto Francesco reclamava que não deveria estar na área — Ele matou o jogo! Do que você está reclamando?
não prestava atenção às reclamações de Francesco. Seus olhos ainda acompanhavam o namorado em campo, mas sua mente estava ocupada com o comentário de Matteo. era tão azzurro que ela não conseguia imaginá-lo em nenhum outro time, mas fazia sentido que ele saísse do Napoli algum dia. E se ele continuasse jogando daquele jeito, esse dia seria em um futuro bem próximo. Era raro para um jogador passar a carreira inteira no mesmo time.
Só conseguia pensar em seis jogadores que tinham vestido uma única camisa durante toda carreira: Rogério Ceni, Francesco Totti, Franco Baresi, Cesare e Paolo Maldini e o próprio Carles Puyol. E exatamente como , não conseguia imaginar nenhum deles jogando em qualquer outro clube, vestindo qualquer outra camisa. Eram jogadores que haviam transcendido o papel de ídolo da torcida e que tinham deixado suas assinaturas na identidade do time. Como pensar em São Paulo e não pensar em Rogério Ceni? Como pensar em Roma e não pensar em Francesco Totti? O time fazia parte da identidade deles e eles da identidade do time. Podia ver aquilo acontecendo com também, porque sabia que, se dependesse exclusivamente dele, ele jamais deixaria de vestir aquela camisa azul.
O juiz apitou o fim do jogo e os rapazes se cumprimentaram, comemorando a vitória.
— Agora, a mangiare! — disse Matteo indo em direção à cozinha.
— Mais? — perguntou . Eles tinham comido durante todos 105 minutos de jogo, o que incluía o intervalo!
, , nós nem começamos a comer. — falou Raoul, passando por ela e indo em direção à cozinha também.
Ela riu e se virou para Fabrizio, que ainda estava ao seu lado.
— O seu cachecol. — disse, começando a tirá-lo do pescoço, mas uma das mãos do rapaz a impediu de continuar a ação.
— Fica para você. Deu sorte. — sorriu ele — Vamos, antes que não sobre nada para nós dois.
***

O jogo contra a Roma tinha mostrado a um lado de como zagueiro que ela ainda não conhecia. O lado ofensivo. A assistência para o gol não saía de sua cabeça. Ela se perguntava se aquele tinha sido um caso isolado ou se vinha negligenciando um talento real, então, como qualquer pessoa sistemática, ela catalogara uma série de jogos do Napoli e estava assistindo a todos eles para sanar aquela dúvida.
Todos aqueles jogos apenas comprovaram o que ela já sabia, era de fato um zagueiro como poucos. Ele era uma muralha defensiva, mas era também muito mais. Ele lia o jogo de um jeito característico aos melhores meio-campistas; tinha a leveza e o controle de bola dos mais habilidosos artilheiros e, claro, a precisão dos grandes defensores. Ele era um jogador completo. Um jogador que combinava tática e garra. Mas tudo aquilo ela já sabia.
O que ela descobriu ao assistir àqueles tantos jogos foi que tinha muito potencial ofensivo. Um potencial que parecia negligenciado, mas que ele colocava em prática sempre que o time estava no sufoco. Se a equipe não conseguia encontrar espaço para sair para o ataque, lá estava ele, carregando a bola até o meio de campo e forçando o time para frente. Se a bola não chegava ao atacante, ele mandava um lançamento milimetricamente preciso lá na outra área. Quando o gol não saía de jeito nenhum e a vitória era decisiva, ele se mandava para frente. Era raro, mas acontecia em momentos pontuais, quando o time precisava, e sempre funcionava.
era um zagueiro que só poderia ser descrito de uma única forma: . Ele era um híbrido dos pontos fortes de todos os melhores zagueiros da história e ainda trazia em si habilidades a mais. Ele era único em campo.
desligou a TV e sorriu, orgulhosa, mesmo que ela não tivesse participação nenhuma no talento do namorado.
Só se deu conta de que tinha passado a tarde inteira no sofá vendo futebol, quando Giulia bateu à sua porta, perguntando o que elas iriam fazer para o jantar naquela noite.
***

Desbravar Nápoles com a namorada ainda era um objetivo de . Naquele dia aproveitaram o clima ameno de fim de inverno e caminharam de mãos dadas pela Pontile di Bagnoli. O grande píer se estendia sobre o mar por quilômetros, deixando os visitantes isolados do mundo e com uma vista sem igual. Chegaram à plataforma final e apoiaram os cotovelos no apoio de segurança, admirando aquela imensidão azul.
Não importava quanto tempo ficasse em Nápoles, jamais se costumaria com a beleza daquela cidade, que por vezes sequer parecia real. Observava o mar, compenetrada, perdida na grandiosidade à frente, sem se dar conta que a olhava com a mesma admiração que ela olhava a paisagem, um sorriso discreto desenhando o rosto dele.
— Você vai ficar bravo se eu falar sobre você no jogo passado? — ela perguntou, os olhos deixando o azul abissal do mar napolitano para encontrar o verde incomparável dos olhos dele.
— Claro que não. — ele disse com a voz suave — , você pode falar comigo sobre o que quiser, sempre que quiser. Sobre mim, sobre o Napoli. Até sobre a seleção. Aquilo passou, eu estava cheio de inseguranças, mas agora é diferente. O que nós temos é diferente.
Ela sorriu e se aproximou, depositando um beijo breve, porém, carinhoso no namorado. Então ela apoiou o corpo no apoio de segurança e se virou totalmente para ele.
— Quem diria que você também tem um lado ofensivo! — ela disse com um grande sorriso e ele riu.
— A gente precisava matar o jogo e tinha um espaço no campo de ataque que ninguém preenchia. — ele encolheu os ombros, como se não tivesse feito nada demais.
— E aí você foi lá e fez um passe lindo. — o sorriso aberto ainda estampava o rosto dela. — Eu descobri que você anda escondendo o ouro.
Ele franziu o cenho sem entender.
— Juro que eu não sou maluca, mas eu passei a tarde inteira ontem vendo jogos passados do Napoli. — ela fez uma careta e ele riu — E eu descobri que você tem um lançamento perfeito e um chute de fora da área mortal! Além de um controle de bola impecável!
— O que você está querendo dizer? — ele sorriu, arqueando uma sobrancelha.
— Que você está privando o mundo de ver todo esse talento! — ela disse de forma exagerada e ele riu. — É sério! Eu sei que, como zagueiro você não tem muitas oportunidades de explorar esse outro lado, mas você devia explorar mais esse outro lado. Não toda hora, não todo jogo, mas sei lá...
— Ter isso como uma opção. — ele sorriu.
— Sim! E aprimorar essas outras habilidades também, não deixá-las de lado e esquecidas, porque elas são importantes. Pode ser a diferença entre ganhar ou perder o jogo.
Ele concordou com a cabeça.
— Sim, senhorita. Pode deixar.
Ela sorriu, virando-se para o mar outra vez, e ele se aproximou, abraçando-a pelas costas e descansando o pescoço no ombro da namorada, enquanto observava a paisagem. O coração contente.
— Quer dizer que você passou a tarde vendo jogo do Napoli só para me ver jogar? — ele disse, o sorriso claro em sua voz.
riu.
— Você? Não, eu estava interessada puramente no . Eu sou a fã número um dele! Tenho até uma camiseta. Pena que não está autografada.
Ele apertou os braços em volta dela e gargalhou, depois deu um beijo estalado na bochecha da namorada e ficaram em silêncio. Isolados do mundo, sobre o mar, assistindo ao sol se pôr.
Com a aproximação da primavera, já não fazia tanto frio depois que o sol se punha e a paisagem ganhava beleza renovada à luz da lua. Então, em vez de irem embora, decidiram ficar ali mais um pouco. Sentaram-se em um dos bancos da Pontile e apreciaram a música que um rapaz tocava no piano comunitário que havia no meio do píer. Aos poucos, os casais ali presentes se renderam à melodia romântica e começaram a dançar.
olhou para , que balançou a cabeça.
— Não. — ela riu.
Ele se levantou e estendeu uma mão para ela, o sorriso irresistível que ela já conhecia tão bem no rosto dele. Era impossível dizer não àquele sorriso e ele sabia.
aceitou a mão do namorado, o corpo dele junto ao dela enquanto dançavam ao ritmo do piano. a olhava nos olhos, um olhar doce, acalentando qualquer timidez que dançar no meio de um píer e cercada por estranhos pudesse lhe causar.
— Você tem planos para o dia 11 de abril? — ele perguntou e ela franziu as sobrancelhas.
— Não que eu saiba. Por quê?
— É o casamento do Giorgio e da Antonia e eu queria que você fosse comigo.
— 11 de abril. Anotado. — ela sorriu — A Antonia me contou que eles se conheceram em uma festa na época da escola e que você emprestou sua bicicleta para o Giorgio poder levar ela para casa.
— Eu tive que voltar para casa à pé. — ele sorriu, lembrando-se do nervosismo de Giorgio e de como o melhor amigo só conseguia falar sobre Antonia no dia seguinte. — Mas valeu a pena.
concordou e então se deu conta de um detalhe.
— Me lembre de agradecer o Giorgio por ter pegado a sua bicicleta aquela noite. — disse ela.
— Por quê? — perguntou confuso.
— Porque senão talvez você tivesse dado carona para alguma garota aquela noite e então nós não estaríamos aqui. Talvez fosse você no altar dia 11 de abril. — ela explicou.
Ele sorriu, mas balançou a cabeça.
— Com bicicleta ou sem bicicleta, eu estaria bem aqui. Com você.
Não gostava de pensar em oportunidades perdidas e possibilidades não vividas, mas tinha certeza de que não importava qual caminho tivesse tomado naquela noite ou em qualquer outra, o desfecho presente seria o mesmo. Ele na Pontile di Bagnoli dançando com . Tinha a mais absoluta certeza; afinal, diante de todas as possibilidades e contra todas as improbabilidades, eles tinham se encontrado.
Ela brasileira, ele napolitano. Ela tinha se mudado para uma cidade estranha à milhares de quilômetros de casa; uma cidade com centenas de milhares de habitantes e ainda assim eles tinham se encontrado. Ela tinha se mudado exatamente para o apartamento em frente ao da irmã dele. Eles tinham vencido a distância e o acaso. Seus caminhos terem se cruzado não era uma mera causalidade; teria sido se tivessem se esbarrado sem querer pelas ruas de Nápoles e então seguido cada um para um lado, mas ser vizinha de Giulia era muito mais do que um simples acaso. Estava traçado na tapeçaria¹ de suas vidas. Desenhado nas estrelas. Escrito no mar.
Era para ser.

¹ na mitologia romana o destino dos mortais era traçado pelas Parcas (Moiras, na mitologia grega) por meio de uma tapeçaria. As três irmãs tecelãs dividiam a tarefa de forma que uma tecia o fio, outra puxava e enrolava o fio já tecido e, por fim, quando a tapeçaria estava completa, a última irmã cortava o fio da vida.


Capítulo 15 - Verde Esmeralda

abriu o armário esperando um milagre. Sabia que não tinha trazido nenhum vestido de festa, mas, mesmo assim, decidiu conferir o guarda-roupa, talvez algum vestido aparecesse ali magicamente. Revirou as roupas, mas não encontrou nada. Não tinha o que usar no casamento de Giorgio e Antonia. Suspirou derrotada, odiava todo o processo de comprar roupas (o tira e põe, ter que vestir a mesma peça várias vezes em tamanhos diferentes), mas não teria escolha.
— O que você vai fazer amanhã? — ela perguntou à Giulia durante o café — Eu preciso de um vestido para o casamento do Giorgio e da Antonia e não tenho ideia de onde comprar.
Os olhos de Giulia brilharam e a italiana abriu um belo sorriso.
— Eu sei exatamente onde te levar! — disse Giulia, empolgada. — Finalmente vou te mostrar a minha Nápoles!
riu, imaginando o que a esperava.
***

Tinha certeza de que aquilo era o purgatório. Não aguentava mais entrar e sair de loja, provar e tirar vestido. Tinha gostado de alguns e, se fosse por ela, teria comprado um dos primeiros que experimentara, mas Giulia estava decidida a encontrar o vestido perfeito. Insistia que tinha que ser a wag mais linda e deslumbrante da festa (depois de Antonia, claro). Então, lá estavam elas, na milésima loja, depois de terem passado a tarde inteira procurando um vestido.
— Não me chame quando você for escolher o seu vestido de noiva. — disse , rindo de Giulia que separava uma pilha de vestidos para ela provar.
— Eu vou usar o da minha mãe. — Giulia sorriu, olhando para ela por cima dos vestidos que tinha nos braços. — É meu sonho desde criança. É simples, mas é lindo. Serviu em mim quase que como uma luva, mas a nonna está fazendo alguns ajustes. Você ainda não estava aqui quando eu provei, senão teria te chamado para ver.
sorriu.
— Eu quero ver depois que ficar pronto. — disse e Giulia concordou — Vocês já têm data?
— 24 de setembro! Do ano que vem. Já pode marcar na sua agenda. — ela disse com um sorriso empolgado, empurrando os vestidos para os braços de — Pronto. Prova esses e me chama para ver! Enquanto isso, eu vou procurando alguma preciosidade perdida pela loja.
suspirou, seguindo para o grande provador. A maioria dos vestidos era tão acinturado que não passava de jeito nenhum pelos quadris, o que significava vestir pela cabeça; e vestir vestidos de festa pela cabeça exigia um contorcionismo ímpar para conseguir passar a peça pelos ombros, além de uma sequência de orações para que nenhuma costura estourasse durante o processo.
! — gritou Giulia do outro lado do provador — Esquece todos esses! Eu encontrei o vestido per-fei-to! Está ouvindo?
— Estou, mas você vai ter que me ajudar aqui, porque eu fiquei entalada. — disse com a voz abafada pelo tecido do vestido que tinha parado na altura dos ombros. Não ia nem para cima e nem para baixo.
Giulia entrou no provador e a ajudou. Já sem o vestido, sentou no banco espaçoso que havia ali e respirou fundo, recuperando o fôlego depois de quase ter sido asfixiada.
— Eu desisto. — disse — Não aguento mais provar vestido.
— Depois desse aqui — Giulia ergueu o vestido verde escuro que tinha em mãos — você não vai precisar provar mais nenhum! Prometo! Se não der certo, eu mesma volto naquela primeira loja que nós fomos e compro aquele outro que você tinha gostado.
olhou o vestido nas mãos de Giulia. Era longo e discreto (como ela gostava) e aparentemente não tinha nada de especial. Provavelmente não valeria o esforço de ter que se contorcer toda para provar.
— Vai, só mais esse! — insistiu Giulia e ela concordou depois de alguns segundos de hesitação.
Para sua surpresa, não precisou de contorcionismo. O vestido passou por sua cabeça e por seus ombros sem qualquer dificuldade, caindo sobre seu corpo como se tivesse sido feito para ela, moldando-se perfeitamente a cada curva. Como um milagre, como mágica. Giulia a ajudou com o zíper lateral e se olhou no espelho.
— Eu sabia. — Giulia sorriu de orelha a orelha, olhando o reflexo da amiga no espelho.
observou sua própria imagem em silêncio, surpresa com o que via. Era ela, porém, era uma versão dela que ela nunca tinha visto. Giulia tinha mesmo encontrado uma preciosidade perdida.
***

O treino já tinha acabado, mas ainda estava em campo. Nos últimos dias, vinha ficando até mais tarde no centro de treinamento. Praticava lançamentos, chutes a gol de fora da área e até cobranças de pênaltis.
— Você vai mudar de posição e não me avisou? — perguntou Giorgio, sentado em um dos cones em campo.
— Cansei de ser zagueiro. — sorriu, virando-se para o amigo.
— Sei. — disse Giorgio, caminhando até o outro lado do campo. — Vai, me manda a bola.
fez um lançamento firme e preciso e Giorgio sorriu, vendo a bola chegar a seus pés. Repetiu o movimento e lançou a bola de volta para o melhor amigo em um passe não tão bonito quanto o anterior.
— Vai, manda de novo. — falou o goleiro — Preciso treinar também. A gente devia aproveitar e ensaiar umas saídas de bola. Preciso praticar mais as jogadas com os pés.
Ficaram em campo, só os dois melhores amigos, até muito depois do final do treino. Praticando e brincando com a bola, divertindo-se como quando ainda eram dois garotos que sonhavam estar ali algum dia, no CT do Napoli, vestindo a camiseta com o logo do time do coração na frente e seus nomes nas costas.
***

— Como foi a semana? — perguntou , passando os braços em volta da namorada na sexta-feira à noite. Tinha buscado na biblioteca no fim de tarde e, depois de prepararem um jantar simples, tinham se acomodado no sofá para assistir a um filme.
— Comprei um vestido para o casamento do Giorgio e da Antonia! — ela disse animada, ajeitando-se dentro do abraço para olhá-lo nos olhos. O sorriso no rosto dela era tão grande que ele não resistiu e a trouxe mais para perto. — A Giulia me deixou maluca, me fez provar uns 20 vestidos, mas no fim valeu a pena. Acho que você vai gostar.
— Eu tenho certeza que eu vou adorar, porque eu adoro a pessoa que vai estar dentro do vestido.
rolou os olhos, mas sorriu.
— Sobre o casamento. — continuou — Vai ser em Sorrento, é pouco menos de uma hora daqui. Nós vamos no sábado pela manhã, vamos ficar no hotel junto com os noivos e a família, e voltamos no domingo. Podemos voltar no fim do dia, para aproveitar um pouco mais a cidade. Tudo bem para você?
— Tudo ótimo. — ela sorriu. — E como foi no CT?
contou sobre o treino, sobre a nova rotina que ele e Giorgio tinham criado de ficar um pouco mais tarde só os dois e como parecia muito mais brincadeira e divertimento do que trabalho. Conversaram sobre os próximos jogos do time, contou sobre um problema que tinha encontrado em sua pesquisa e em meio à conversa nem se lembraram do filme que pretendiam assistir.
***

já tinha estado na casa dos avós de diversas vezes, mas era a primeira vez que se encontrava na casa dos pais dele. A casa era cheia de porta-retratos e tão acolhedora quanto os moradores. Sentada no sofá da sala com Beatrice, que tinha lhe oferecido um par de brincos emprestado para o casamento, ela constantemente se pegava observando as fotos nas paredes e sorrindo.
A mãe de abriu o pequeno porta-joias que tinha nas mãos e retirou de lá os brincos, estendendo-os para , que se viu sem reação. Eram lindos. As pedras de um tom verde escuro brilhavam com intensidade e de um jeito que lembrava os olhos de . Beatrice fez um gesto para que pegasse os brincos e ela o fez. As pedras geladas e pesadas em suas mãos.
— Eram da família do meu pai. — disse a italiana, com um sorriso doce nos lábios. — A mãe dele herdou da nonna que herdou da nonna que herdou da nonna. Vai ficar lindo em você.
— Eu... Eu não posso aceitar. — balançou a cabeça. — Se eu perder...
— Tenho certeza que você não vai perder. Confio em você.
— Beatrice, obrigada, de verdade, mas, se alguma coisa acontecer com esses brincos, eu acho que eu enlouqueço. Eu agradeço, mas é melhor não. São lindos, mas a responsabilidade seria demais para mim. — disse pesarosa. Sentia-se péssima por recusar um gesto como aquele, afinal o fato de Beatrice estar disposta a lhe confiar àqueles brincos era por si só tão valioso quanto às próprias pedras. Mas não podia se permitir sequer a possibilidade de perdê-los. Era mais responsabilidade do que poderia suportar.
— Certo. Vamos fazer assim. Os brincos ficam comigo. Eu os levo comigo, então, na hora da festa, você passa no meu quarto e eu te entrego. Assim que a festa terminar, você me devolve. O que acha?
hesitou. As chances de perdê-los seriam menores, mas ainda existentes.
— Esses brincos foram feitos para serem usados, . — Beatrice sorriu outra vez, o mesmo sorriso doce — De nada valem guardados onde ninguém pode apreciá-los. E, como já disse, confio em você. Afinal, você já está cuidando do meu bem mais precioso. A minha esmeralda mais brilhante. Junto com a Giulia.
sorriu, sentindo um quentinho no coração diante daquele comentário. Ela amava aquela família. Todos eles, cada um deles. Então concordou, vendo o sorriso de Beatrice dobrar de tamanho e recebendo um abraço amoroso da mãe de Giulia e .
— Já que estamos aqui, que tal um café? Ah, vou te mostrar umas fotos do e da Giulia quando pequenos, você vai adorar!
Tomaram o café enquanto viam fotos antigas e conversavam, os brincos sobre a mesinha de centro junto às xícaras de café expresso. Aquelas inúmeras fotos guardavam os marcos mais valiosos da família , a família que tinha o dom de fazê-la se sentir acolhida. A família que ela já considerava um pouquinho sua e sem a qual não conseguia mais se imaginar.
Uma das fotos chamou sua atenção, imediatamente transformando-se em sua favorita. devia ter uns sete anos e vestia uma camiseta do Napoli grande demais para ele. Os cabelos estavam em ondas despenteadas e ele tinha um sorriso sapeca e banguela no rosto enquanto segurava o escudo do time com orgulho. Ele não tinha mudado nada. Os mesmos olhos verdes, o mesmo brilho no olhar de quem sabia todos os segredos do universo, o mesmo cabelo cor de chocolate com vida própria e o mesmo sorriso aberto e sincero. O mesmo escudo na camisa. sorriu, o coração transbordando de um sentimento que era muito maior do que ela, e então se deu conta de que amava aquele garotinho da foto tanto quanto amava o homem que ele havia se tornado.


Capítulo 16 - Algumas Coisas Nunca Mudam

ria, entre Duda (do outro lado da tela do computador) e Giulia (saltitando pelo apartamento) enquanto as duas conversavam animadamente sobre como ela deveria usar o cabelo para o casamento. Solto, preso. Meio preso, meio solto. Liso, cacheado. Não fazia ideia de como as duas conseguiam se entender, já que Giulia não falava português e Duda não falava nem italiano muito menos o dialeto napolitano (que era a língua em que Giulia desembestava a falar quando estava empolgada). De qualquer forma, ela apenas ouvia, rindo das duas amigas e se divertindo com o entusiasmo delas.
— Levanta para eu ver o vestido de novo! — pediu Duda, que tinha feito provar o vestido para que ela pudesse ver.
levantou e deu uma voltinha, tampando o rosto com as mãos, morta de vergonha, quando Giulia assoviou.
— Você está muito gata! — disse Duda — Quem é Victoria Beckham no mundo das wags perto de ?!
— Victoria quem? — perguntou Giulia, com as sobrancelhas franzidas em falsa confusão. — Nem sei quem é essa.
— Vocês são muito bestas. — sorriu, balançando a cabeça. — E eu vou é fazer um trança embutida porque é o único penteado que eu sei fazer.
— Vai ficar linda! — falou Duda.
— Porque você já é linda! — completou Giulia, abraçando .
— Ai, meu Deus. Eu não aguento vocês duas juntas. — riu.
— Aguenta sim, mas agora é a sua vez, Giulia. Vai lá provar o seu vestido de madrinha que eu quero ver também!
***

O treino daquela sexta-feira foi mais animado do que de costume. Giorgio foi alvo de brincadeiras de todo o time e ria feliz da vida até mesmo das piadas que faziam com ele. Quando o treinamento acabou, todos se dirigiram ao vestiário, combinando o horário em que se encontrariam mais tarde. fez menção de seguir os companheiros de equipe, mas Giorgio puxou o melhor amigo pela camisa.
— Aonde você vai? — perguntou — Volta aqui.
— Ué, eu pensei que você fosse querer ir embora mais cedo hoje. — disse , pegando a bola e voltando para o campo.
— Nah, a despedida de solteiro é só mais tarde. Tem tempo de sobra para gente treinar mais um pouco. Só vamos pegar mais leve, porque eu não quero estar todo quebrado amanhã no meu casamento. — Giorgio abriu um grande sorriso ao dizer a palavra. — Meu casamento! Cara, eu nem acredito. Eu vou casar. Amanhã. Com a Antonia! Eu estou feliz demais!
riu, passando um dos braços pelos ombros do melhor amigo. Então se afastou, colocou a bola no chão e deu um chapéu em Giorgio.
— Ah, vá à merda, ! Isso não estava valendo. — Giorgio reclamou, empurrando o amigo, que ria alto, e roubando a bola.
Não treinaram nada, mas jogaram bola por horas. Tentavam dribles mirabolantes que quase sempre terminavam com um deles caído de bunda na grama e com ambos rindo até perder o fôlego, exatamente como nos tempos de infância. A única diferença é de não precisarem mais demarcar o gol com os tênis.
***

Dava para ouvir a música e as risadas mesmo do lado de fora da casa. Giulia e tocaram a campainha e logo Antonia apareceu para recebê-las. Usava uma grinalda cor de rosa e tinha em mãos um copo que, pelo sorriso alegre em seu rosto, só podia conter alguma bebida alcoólica. Assim que entraram, uma das amigas de Antonia imediatamente lhes entregou um copo cheio da mesma bebida colorida. A despedida de solteira de Antonia era mais como uma grande festa do pijama. As mulheres conversavam animadas, cantando e dançando alegremente ao som da música enquanto comiam e bebiam.
— Acho que eu não deveria estar bebendo. — comentou Antonia, virando todo o conteúdo da taça de uma vez.
— Você vai casar amanhã, você tem mais é que beber mesmo! — disse uma das amigas dela.
— Como você está se sentindo? — perguntou Giulia.
— Muito bem! — respondeu Antonia com convicção, enchendo o copo novamente. — Eu amo demais aquele goleiro metido à besta! E amanhã ele vai ser meu marido.
sorriu, vendo os olhos da futura noiva brilharem.
— Eu não entendo por que casamento é tão importante para as mulheres. — disse uma amiga de Antonia que vinha da cozinha e Giulia rolou os olhos — Eu particularmente não vejo a menor graça.
— Bem desnecessário esse comentário em uma despedida de solteira, NE? — disse Giulia, olhando feio para amiga de Antonia. — E além do mais, não é o casamento em si. Não é a palavra marido ou esposa, é o significado por trás delas. É encontrar alguém que vai ser o seu companheiro para o resto da vida, que quer ser o seu companheiro para o resto da vida. É a cumplicidade, é saber que você pode contar com aquela pessoa para sempre, mesmo quando tudo estiver uma merda. É saber que o que você sente é recíproco. O casamento, o papel, é só um jeito de tornar esse compromisso um com o outro ainda mais claro e explícito. E a festa é sobre compartilhar esse sentimento com as pessoas que você ama.
A amiga de Antonia não deu muita atenção ao que Giulia disse, claramente se achando superior a tudo aquilo, mas assimilou cada palavra dita pela amiga. Nunca tinha pensado em casamento, nunca tinha imaginado que casar fosse algo que um dia aconteceria com ela. Nunca sonhara com a festa, nem fizera planos para vestidos imaginários. Era pragmática demais para todo aquele conto de fadas. No entanto, sempre desejara a cumplicidade de que Giulia falava. A confiança plena que vinha com a real cumplicidade, a segurança em saber que aquele alguém estava ali, com ela, para o que desse e viesse e que estaria ali mesmo quando tudo desmoronasse e a vida virasse de cabeça para baixo.
Seu celular tocou, indicando uma nova mensagem e um grande sorriso se desenhou em seu rosto ao ler o nome de .
Espero que você esteja se divertindo.
Beijo.
Cem deles. E depois mais mil.


Encarou as palavras por um longo tempo com um sorriso bobo e feliz. Tinha encontrado a cumplicidade que costumava desejar. E com isso, aos poucos, seu jeito pragmático foi dando lugar a uma nova . Uma ainda sistemática, porém, menos neurótica. Menos focada em seguir tudo à risca e mais interessada em se permitir sentir, em seguir sem um caminho previamente traçado, desbravando o desconhecido tal qual, juntos, desbravavam Nápoles.
Imagens surgiram em sua mente. Não imagens de altares e alianças, mas imagens de um futuro tranquilo ao lado de . Imagens dois deitados no sofá vendo uma partida qualquer de futebol, imagens dos dois conversando enquanto preparavam o jantar. Imagens muito parecidas com o presente, mas que pertenciam ao futuro. Conseguia imaginar toda uma vida ao lado dele, conseguia ver detalhes em perfeição.
Um embrulho tomou seu estômago ao se lembrar de um fato até então esquecido. Um fato que em outros tempos rodearia seus pensamentos constantemente, mas que tinha se perdido conforme seu lado hiper-racional cedia espaço àquela nova . O fato de que o relacionamento deles tinha os dias contados. Começara aquele namoro sabendo que tinha data para acabar, mas ao longo do caminho havia se esquecido. Era fácil esquecer, afinal, quando estavam juntos, ela acreditava no inalcançável ‘felizes para sempre’.
O embrulho em seu estômago se intensificou e ela foi tomada por uma tristeza sufocante. Respirou fundo, puxando o ar para seus pulmões na tentativa de se livrar daquela sensação esmagadora, mas não adiantou. Piscou os olhos repetidas vezes, sem dar a eles a chance de lacrimejarem. Devolveu o copo com a bebida colorida na cozinha e tomou um longe gole de água.
— Está tudo bem? — perguntou Antonia, tocando levemente suas costas.
forçou um sorriso e concordou.
— Certeza? — Antonia franziu o cenho.
iria concordar outra vez, mas uma das mãos de Antonia chamou sua atenção. A mão onde o anel de noivado deveria estar. Deveria, mas não estava.
— Cadê o seu anel? — perguntou.
Antonia olhou para a mão onde o anel estava horas antes e arregalou os olhos ao constatar que ele não estava mais ali. Colocou o copo na pia e respirou fundo, tentando não ter um ataque de pânico.
— Eu não sei. — ela respondeu com a voz trêmula.
rapidamente correu os olhos pela cozinha, tentando avistar algum sinal do anel.
— Fica tranquila que ele está aqui em algum lugar. — disse, tocando o ombro de Antonia de um jeito que lhe passasse confiança. — Você estava com ele quando a gente chegou e você não saiu de casa. Ele está aqui em algum lugar. É só a gente procurar.
Ela ofereceu um novo sorriso a Antonia, dessa vez não um sorriso forçado, mas um sorriso confiante. O sorriso de alguém que tinha uma missão e que não falharia ao cumpri-la. Empenhada na missão de encontrar o anel de Antonia, mais uma vez se esqueceu do inevitável coração partido que o futuro lhe reservava.
***

O time napolitano estava em massa no bar. Por sorte o casamento de Giorgio caíra no fim de semana de recesso do campeonato devido a amistosos internacionais, então teriam o fim de semana inteiro para festejar e mais alguns dias para se recuperarem da ressaca, antes do próximo jogo.
Jogavam bilhar, enquanto bebiam cerveja e trocavam histórias embaraçosas sobre Giorgio. , claro, era quem tinha mais histórias para contar e arrancava altas gargalhadas de todos com cada perrengue que contava. Os companheiros de time riram alto quando ele contou sobre a vez em que Giorgio tivera uma crise de diarreia durante um dos jogos do Napoli, quando os dois ainda eram gandulas. Lembrava-se da indecisão do melhor amigo, que não sabia se corria para repor a bola ou se corria para o banheiro, mas Giorgio tinha aguentado firme até o fim do jogo. O que tinha acontecido depois da partida, no entanto, dava outra história.
Entre cervejas e sessões de cantoria em que entoavam o repertório completo de Caruso a plenos pulmões, a noite seguiu com Giorgio tagarelando e se gabando de Antonia para os amigos e mais quem quisesse ouvir.
— Eu não sei o que ela viu em você. — brincou Marek.
— Nem eu. — Giorgio disse sério, de repente parecendo completamente sóbrio — Mas ainda bem que ela viu. Ainda bem que ela viu.
riu do amigo, mas se identificou com o que ele dizia. Sua mente foi até a namorada e o riso em seu rosto foi substituído por um sorriso ao pensar em . Tirou o celular do bolso e digitou uma mensagem simples, sem motivo nenhum além do fato de que ele estava pensando nela.
Quando todos se despediram, e Giorgio seguiram juntos para a casa do zagueiro. Enquanto esperavam a sobriedade voltar por completo e tomavam todo tipo de chá para evitar a ressaca na manhã do grande dia, sentaram no sofá da sala e ligou seu antigo Megadrive na televisão.
— Eu não acredito que esse videogame ainda funciona! — ele falou, impressionado.
Poderiam jogar Mortal Kombat em um aparelho Playstation ou Xbox, mas a graça estava em jogar no mesmo aparelho que usavam quando eram pequenos. não pôde conter o sorriso quando assoprou o cartucho do jogo antes de colocá-lo no console, sentindo-se com sete anos novamente.
— Como nos velhos tempos. — falou.
— Tirando a cerveja. — riu Giorgio.
— Como você está se sentindo? Você vai se casar amanhã.
— Feliz! De verdade. Eu amo a Antonia e não vejo a hora de poder dizer que ela é minha esposa. — falou Giorgio, recebendo como resposta um sorriso do melhor amigo. — E você?
— Eu o quê? — perguntou , confuso.
— Consegue ver um futuro com a ? Casa, família, essas coisas?
desviou os olhos de Giorgio, observando a noite escura através da janela, então sorriu. Concordou com a cabeça, sem jeito, sentindo-se meio bobo. Era muito cedo para pensar em casamento, em formar uma família com , mas a ideia de um futuro com ela lhe trazia uma sensação gostosa. Ele se sentia confiante para desbravar aquele território ainda desconhecido ao lado dela. Ele se sentia confiante para desbravar o que quer que fosse, desde que fosse ao lado dela.
Giorgio abriu um grande sorriso e bateu nas costas do melhor amigo.
— Nós somos dois caras de muita sorte.
— É. — concordou , colocando o controle do videogame de lado por um momento. — Eu não acredito que você vai se casar.
Estava extremamente feliz pelo amigo, mas ao mesmo tempo sentia uma mistura de saudade e melancolia por eles não serem mais dois ragazzini com a vida inteira pela frente. Era estranho pensar que eram adultos com responsabilidades e que em breve teriam famílias e filhos. Aquilo parecia tão distante quando eram pequenos e agora estava bem diante deles. O futuro havia se transformado em presente.
— É...
— Tudo vai mudar. — disse , vociferando o seu maior medo.
— Algumas coisas nunca mudam, . — Giorgio sorriu.
Um sorriso leve se desenhou no rosto de e ele concordou com a cabeça. Poucas coisas em sua vida eram tão seguras quanto sua amizade com Giorgio. Sabia que não importava o que acontecesse, seriam melhores amigos independente do tempo ou da idade. Seriam os velhinhos sentados perto do cais, tomando um expresso enquanto conversavam sobre o time do coração e assistiam aos barcos aportarem com a pesca do dia.
— Sonic? — falou Giorgio, pegando o cartucho que estava em uma caixa ao seu lado — Eu jogo a primeira parte e você mata o Robotnik.
riu, de fato, algumas coisas não mudavam nunca.


Capítulo 17 - Sei Soltanto Incanto

Come quando io te ho visto per la prima volta
(como quando eu te vi pela primeira vez)
Tra milioni di occhi la vita si nascose
(a vida se escondia entre milhões de olhos)


A pequena viagem até Sorrento foi tranquila. O sol começava a ganhar força no céu e o som do mar preenchia o silêncio do carro. Enquanto admirava a paisagem, dirigia concentrado, um dos braços apoiado na janela, aproveitando o vento agradável daquela manhã. A voz dele soou suave, cantando os primeiros versos de uma melodia conhecida, e sorriu.
A tranquilidade da viagem foi substituída pela correria dos últimos preparativos para o casamento assim que estacionaram no hotel. Os funcionários andavam apressados de um lado para o outro, carregando arranjos de flores e ornamentos para o grande jardim onde seria a festa. O casamento ainda estava a horas de acontecer, mas uma atmosfera mágica e empolgante já tomava conta do lugar.
— Eu vejo você mais tarde. — sorriu , despedindo-se da namorada com beijo para ir cumprir sua função como padrinho do noivo.
almoçou com a família e depois fizeram um breve passeio pela cidade. Quando o sol começou a se pôr no horizonte, voltaram para se preparar para a cerimônia.
. — disse Beatrice, antes que entrasse no quarto do hotel. A mãe de lhe entregou a caixa de veludo que tinha nas mãos e abriu um belo sorriso. — Mal posso esperar para vê-los em você.
— Obrigada. — disse , pegando o porta-joias timidamente — Prometo cuidar bem deles.
— Ah, eu tenho certeza. Nos vemos daqui a pouco. — Beatrice se despediu, seguindo pelo corredor.

Desidero sapere dove va a finire il sole
(desejo saber para onde vai o sol quando termina o dia)


O quarto em que estava hospedada com era espaçoso e confortável, a pequena varanda tinha uma bela vista e parou um momento, assistindo ao sol terminar de se pôr no horizonte, sendo contagiada pela paz que a paisagem transmitia. Em geral, sentia-se uma pilha de nervos em situações como aquela, arrumava-se com um olho no relógio, temendo perder a hora. Naquele dia, no entanto, tudo lhe transmitia uma calma sem igual. Demorou no banho, apreciando a sensação gostosa da água caindo sobre sua pele. Sem pressa, passou o creme no corpo e então trançou os cabelos em uma trança francesa, deixando alguns cachos soltos. Depois, sentou-se em frente à penteadeira e fez a própria maquiagem, simples e discreta, apenas para realçar seus traços.
Pegou o vestido que havia pendurado ao lado da cama e o admirou por um segundo. Era lindo. Vestiu-o com facilidade e cuidado, o tecido moldando-se ao seu corpo com perfeição. Não resistiu e se olhou no espelho. Sentia-se linda. Via ali mais do que ela mesma, via a mulher que aspirava ser. Uma mais livre, confiante e segura de si — segura de sua beleza, de suas qualidades. Pensou que fosse algum tipo de magia que emanava do vestido, então se lembrou de algo que havia lhe dito e sorriu. Não era o vestido, era a pessoa dentro dele. Era ela que estava diferente, o vestido apenas refletia aquilo. O vestido apenas colocava aquela nova à mostra, trazendo à superfície a transformação que ocorria por dentro. Sentindo-se feliz consigo mesma, ela calçou os sapatos e, por último, colocou os brincos de esmeraldas.
?
Ela se virou a tempo de ver entrar no quarto. Ele deu alguns passos, então parou onde estava, os olhos verdes presos nela. Um sorriso se desenhou no rosto dele e finalmente ele se aproximou.
— Eu sabia que ia adorar o vestido. — disse ele, buscando palavras para expressar quão deslumbrante ela estava e chegando à conclusão de que palavras jamais seriam suficientes. — Você é linda, sempre.
Três palavras nasceram no peito dele, junto com a imensa vontade de dizê-las. Não as disse. Aquele não era o momento e, mais uma vez, palavras não seriam o suficiente para expressar o que ele sentia.
— Eu não vou te beijar para não estragar o seu batom. — ele sorriu, aproximando-se e depositando um beijo doce e demorado na bochecha da namorada, em seguida, repetiu próximo ao ouvido dela — Você está linda.
se afastou, a vontade de dizer as três palavras tornando-se quase mais forte do que ele. Sentia aquelas três palavras a cada batida de seu coração, que batia com força diante de . Entrelaçou seus dedos aos dela e sorriu.
— Vamos?
Ela concordou, mas nenhum dos dois se moveu, perdidos um no outro.
— Você também está lindo. — ela disse e, abrindo um grande sorriso, completou — E cheiroso.
riu, depositando outro beijo na bochecha da namorada, e então seguiram com o resto da família para a igreja. As flores em uma combinação suave de cores demarcavam o caminho até o altar. O tapete vermelho impecável e a luz que refletia nos vitrais tornavam o ambiente ainda mais majestoso. O som do piano e dos violinos abafava as vozes das pessoas que entravam e se acomodavam em seus lugares.
seguiu para o altar, posicionando-se com a irmã ao lado de Giorgio, que mexia as mãos impacientes. sentou-se em uma das primeiras fileiras com os pais e avós de e observou o namorado abraçar Giorgio, dando tampinhas nas costas do melhor amigo e dizendo algo que fez o goleiro rir. A igreja se encheu aos poucos e então as portas foram fechadas, as conversas paralelas diminuíram, cessando completamente quando as primeiras notas da marcha nupcial tomaram o ambiente.
Todos se levantaram e se viraram em direção às portas, que se abriram para revelar Antonia e o pai. não conteve o grande sorriso que tomou seu rosto, Antonia parecia tão feliz. Desviou os olhos da noiva por um momento, voltando-os para Giorgio, vendo a felicidade de Antonia espelhada nos olhos dele. Seu coração se aqueceu e ela desviou o olhar para o outro homem naquele altar, percebendo que os olhos de já estavam nela. O sorriso que ele tinha no rosto aumentou e ela sentiu o coração explodir pela forma doce como ele a olhava. Cúmplices, ambos desviaram o olhar, voltando a atenção para a noiva.
Foi uma cerimônia tradicional, mas pela primeira vez sentiu a emoção que tanto se falava sobre casamentos. A beleza do momento não estava nas palavras ditas pelo padre, nem nos votos já conhecidos recitados pelos noivos. A beleza do momento estava nos detalhes. A emoção estava na forma delicada como Giorgio movia o polegar sobre a mão de Antonia, dentro da sua, enquanto ouviam o sermão. Estava na forma como os noivos trocavam olhares e sorrisos a todo instante, como se não conseguissem tirar os olhos um do outro. Estava na forma cuidadosa como Giorgio limpou a lágrima que caiu discreta dos olhos de Antonia ao dizer ‘aceito’.
Selaram seu compromisso com um beijo carinhoso e Giorgio sussurrou para a esposa algo que ficaria para sempre apenas entre os dois, e que fez surgir no rosto de Antonia um grande sorriso. Então, de braços dados, os sorrisos tão grandes que mal cabiam em seus rostos, caminharam pela primeira vez como marido e mulher.
estava reunida junto aos outros convidados nos degraus da igreja, rindo de Giorgio, que comemorava a união como se comemorasse um gol, quando sentiu um abraço em sua cintura. A risada de soou perto de seu ouvido e o corpo dela estremeceu. Ele enlaçou seus dedos aos dela e jogaram arroz nos noivos, que se beijavam outra vez.
O grande jardim do hotel estava todo iluminado e as mesas perfeitamente postas com belos arranjos de flores. O céu negro e estrelado completava o ar de encantamento do cenário. Os convidados sentaram em suas mesas e então os noivos entraram ao som da música lenta, dançando sua primeira dança depois de casados. Aos poucos, outros casais se juntaram a eles. guiou pela mão até a pista de dança e passou um dos braços por sua cintura, trazendo-a para perto.

Ho soltanto una vita e la vorrei dividere
(tenho apenas uma vida e quero dividi-la)
Con te che anche nel difetto e nell'imperfezione
(com você que mesmo nos defeitos e nas imperfeições)
Sei soltanto incanto, incanto
(é somente encanto, encanto)


— Você é linda. — ele disse mais uma vez. Tinha sido difícil manter-se concentrado na cerimônia enquanto estivera no altar, seus olhos insistiam em voltar-se para ela a cada instante. Mesmo ali, diante daquela vista incrível e daquele céu estrelado, ele preferia olhar para ela.
— Obrigada. — sorriu, desviando o olhar das estrelas e olhando para o namorado. O smoking feito sob medida marcava o tronco e os ombros de em um caimento sem defeitos, o cabelo estava penteado do jeito que ela mais gostava e a cor da gravata destacava ainda mais o verde intenso dos olhos dele. Ele parecia saído de um sonho. — Às vezes eu me pergunto se você é real.
— Eu me pergunto o mesmo de você.
sorriu e com uma das mãos rodopiou a namorada, em seguida trazendo-a para perto outra vez. Um arrepio percorreu o corpo dos dois quando ele, com a mão que segurava a dela, entrelaçou seus dedos. apoiou a cabeça no ombro dele e fechou os olhos, deixando que guiasse o ritmo.
Ho soltanto una vita e la vorrei rivivere così.(Tenho somente uma vida e gostaria de revivê-la assim). — cantou ele e ela ergueu a cabeça para olhá-lo.
Sorrindo e perdidos um no outro, esqueceram-se de dançar. Permaneceram abraçados, os corações batendo forte, completos. Antes que a música chegasse ao fim, o sorriso de aumentou e ele rodopiou a namorada mais uma vez. Os últimos acordes soavam quando, após o rodopio, ele inclinou levemente, a mão nas costas dela a segurando com cuidado. Ela riu e, ao som da risada que tanto amava, ele não resistiu e selou seus lábios aos dela em um beijo delicado.
Sei soltanto incanto. — ele disse antes de erguê-la. — Incanto.
Dançaram mais uma música ou duas e depois se sentaram com a família de , conversando enquanto aproveitavam a festa. Após o jantar, os convidados, já mais relaxados pelo vinho e pela atmosfera leve, começaram a passear pelas mesas, trocando de lugares para conversar com os amigos e rever conhecidos. apresentou aos companheiros de time e suas respectivas esposas e namoradas. Era tudo tão natural que ela sequer parou para analisar sistematicamente a situação: ela, uma torcedora apaixonada por futebol, estava rodeada por jogadores profissionais. Conversou com Cavani sobre times sul-americanos, riu das piadas de Lavezzi e perguntou para Hamsik qual era o segredo para que o moicano não se desfizesse mesmo nos jogos de chuva. A conversa com as esposas e namoradas também fluía sem o estranhamento inicial comum às primeiras interações entre desconhecidos e logo se viu sendo incluída nos planos de almoçarem juntas durante a semana.
Entre aplausos e assovios, os noivos cortaram o bolo. Ela e voltaram para a mesa onde os avós e os pais dele estavam, com Giulia e Luca. estava tão focada em sua segunda fatia de bolo que não percebeu a comoção de mulheres na pista de dança, até sentir uma cotovelada de Giulia.
— Vai lá, ! — disse Giulia, empurrando-a.
franziu o cenho, confusa, comendo mais uma garfada de bolo.
— O buquê!! Vai logo! — insistiu Giulia.
arregalou os olhos, a boca ainda cheia, e olhou para a pista de dança, percebendo que Antonia acenava para que ela se juntasse à multidão de mulheres.
— Nem pensar, seu irmão vai comer meu bolo se eu sair daqui. — reclamou e Giulia rolou os olhos.
— Vou mesmo. — riu .
— Ai, vai logo, .
Estava prestes a negar outra vez, quando Giulia se levantou e a puxou pela mão, levando-a até onde Antonia estava. Sem ter para onde fugir, ela se afastou da multidão, ficando ao fundo, longe de todo mundo. Antonia fez menção de jogar o buquê e as mulheres pularam, rindo e resmungando ao notarem que a noiva as havia enganado. Aquilo aconteceu mais uma vez e, impaciente, se virou para a mesa onde o namorado e a família estavam. , que olhava para ela, sorriu, comendo uma grande garfada de bolo. abriu a boca, indignada, e ele comeu mais uma garfada. Ela estava prestes a mover os lábios em um resmungo emburrado para o namorado, quando algo atingiu sua cabeça em cheio.
olhou em volta, tentando descobrir o que a atingira e notando que as mulheres a olhavam em antecipação. Seus olhos se voltaram para o chão e ela entendeu o porquê. O buquê repousava aos seus pés. Hesitou por um segundo e então se abaixou para pegá-lo. Os convidados gritaram e aplaudiram e ela sentiu as bochechas corarem. Antonia a abraçou apertado, dizendo o quanto estava feliz por ter sido ela quem pegara o buquê. Ao voltar para a mesa, Giulia comemorou empolgada, enquanto Giorgio — tão entusiasmado quanto Giulia — cumprimentava . sentou, olhando para o namorado que segurava o riso.
— Se eu ficar com um galo na testa, a culpa é sua. — ela disse.
desistiu de segurar o riso e se aproximou da namorada, examinando o local onde ela tinha sido atingida pelo buquê e que estava levemente avermelhado, passou os dedos ali em um carinho.
— Desculpa. — sorriu, beijando a namorada.
— E você ainda comeu meu bolo!
— Comi, mas eu peguei outro pedaço para você. — disse ele, entregando o pedaço para ela. tentou resistir, mas a cara emburrada se desfez e ela abriu um grande sorriso.
A música que tocava deu lugar à uma nova, muito mais dançante, e os convidados seguiram para a pista de dança. tirou os saltos, deixando-os embaixo da mesa, e tratou de tirar a gravata, abrindo o primeiro botão da camisa. Logo os dois se juntaram aos outros, dançando sem preocupações. Cantavam empolgados e riam dos passos inovadores e desajeitados um do outro. Em meio à dança, os pais e os avós de se despediram. Depois foi a vez de Giorgio agradecer ao melhor amigo, dando um abraço apertado em e , e deixar a festa discretamente com Antonia.
A música agitada foi voltando a um ritmo mais ameno e a festa foi se esvaziando. Quando Giulia e Luca se despediram, percebeu que o sol já dava sinais de que iria nascer. Ela e dançaram ainda mais uma música, abraçados, a cabeça dela descansando sobre o peito dele, seus corações batendo ao ritmo da melodia. Então, quando os últimos acordes soaram, pegou os sapatos e a gravata que haviam deixado na mesa. Ele colocou o terno sobre os ombros dela e a guiou por entre o grande jardim, chegando a um local mais afastado. Sentaram em silêncio e assistiram ao sol nascer, encantados com a pintura sem igual que se desenhava diante deles e com a sensação de plenitude que lhes preenchia simplesmente por estarem juntos.

Il sorriso che sconvolge mesi di tormenti
(o sorriso que destrói meses de tormenta)
La bellezza che stringo io geloso del tuo cuore
(a beleza que seguro em meus braços, eu, cuidadoso do seu coração)
Che proteggerò dal male
(que protegerei do mal)


Quando chegaram ao quarto, o sol entrava pelas cortinas grossas apenas o suficiente para deixar o lugar com um tom dourado. Se não tivessem acabado de assistir ao sol nascer, imaginariam, pela cor que tomava o quarto, que ele estaria se pondo. deixou os sapatos em um canto, colocou o terno do namorado e o buquê sobre a grande poltrona que havia ali e tirou os brincos, guardando-os com cuidado no porta-joias. Sentiu os braços de rodearem a sua cintura enquanto ele depositava um beijo em seu pescoço e se virou dentro do abraço.
Seus olhares e seus sorrisos se encontraram. A mão dele repousava em suas costas e o simples toque encheu o coração de por completo. Nunca se sentira tão segura como se sentia na presença de . Suas neuroses se desvaneciam, sentia como se nada pudesse dar errado quando estava com ele. Sentia-se segura, protegida e amada. Sem pressa, ela abriu os botões da camisa do namorado, que a mantinha firme em seu abraço. desceu o zíper do vestido e, com cuidado, deslizou o traje para cima, passando-o pelos ombros dela. Então, com sorrisos cúmplices nos lábios, ele a trouxe para perto outra vez. Suas mãos sobre a pele dela, percorrendo com calma cada centímetro.
A cada toque, a cada nova sensação, seus corações batiam mais forte — plenos e felizes. A cada arrepio, a cada beijo, tinham mais e mais certeza do que sentiam. Do sentimento que jamais poderia ser mensurado em palavras, mas que seria melhor descrito por um único e pequeno substantivo. Quatro letras em português, cinco em italiano. Um só sentimento. Mútuo, extenso.

Quando posi la tua testa su di me il dolore tace
(quando descansa sua cabeça em mim, a dor se cala)
Incanto, incanto
(encanto, encanto)
Semplicemente incanto
(simplesmente encanto)

A trança havia há muito sido desfeita e os cachos de caíam em seu rosto de um jeito despenteado que a deixava ainda mais linda. sorriu, movendo uma mecha do cabelo da namorada, buscando os olhos castanhos mais doces que já vira, e as três palavras mais uma vez explodiram dentro dele, loucas para serem ditas.
Sei soltanto incanto. — cantou ele, baixinho, admirando os olhos que o encaravam com um brilho extra. — Semplicemente incanto.
riu, as bochechas coradas. Ambos sentindo as três palavras que, apesar de não terem sido ditas, estavam presentes em cada movimento, cada olhar, cada entrelaçar de dedos. passou os braços em volta do corpo da namorada e ela descansou a cabeça sobre o peito dele. Sua mão encontrou seu caminho até os cabelos dela, fazendo ali um carinho cheio de ternura. Sem ideia alguma do horário ou das formalidades do mundo lá fora, adormeceram, a mesma frase da canção de mais cedo ecoando nos pensamentos e nos corações de ambos.

Ho soltanto una vita e la vorrei dividere con te.




Continua...



Nota da autora: Não faço ideia se esse capítulo ficou bom, mas eu amei escrever. Amo demais essa música do Tiziano Ferro e agora ela é a música oficial do nosso casal. Espero que vocês tenham gostado, vejo vocês na próxima atualização. <3





Nota da beta: Ah, Tiziano, sempre enchendo nossos corações e nos ajudando em histórias que se passam na Itália (já usei muita música dele também, Paula! Hahaha). Fiquei sentindo falta das tais 3 palavras, hein?! Quero ver a reação deles logo!
Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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