Última atualização: 26/10/2018

Capítulo 1 - Em um piscar de olhos

O sol batia forte na janela ofuscando a visão de Francesca. Ela cobriu os olhos verdes com uma das mãos, enquanto procurava o neto no jardim. Voltou os olhos novamente para os ingredientes à sua frente na bancada da cozinha, teriam melanzane alla parmegiana para o almoço, era o prato favorito de Giulia, sua neta mais velha. Ao pensar nos netos, Francesca notou pela primeira vez quão silenciosa a casa estava. Giulia havia ido ao mercado com o nonno, comprar os ingredientes que faltava para receita, mas onde estava ? Seu neto mais novo havia ficado em casa brincando, entretanto, ela já não ouvia o barulho da bola com que brincava. Ele não estava no jardim e nem em lugar algum à vista.
. — chamou. Sem resposta, chamou mais uma vez, um pouco mais alto — !
Pela janela viu a bola de futebol, grande demais para uma criança de dois anos, cair da sacada em construção do andar de cima. Francesca sabia que a reação natural de seria a de seguir a bola, na tentativa de pegá-la. Sabia também que já era tarde demais para tentar qualquer coisa que não correr para fora de casa, pegando o telefone sem fio no caminho e ligando para a emergência.
* * *

São Paulo, Brasil – 18 anos depois.
Quando o discurso finalmente terminou, e os outros formandos levantaram, jogando seus capelos para o alto em uma sincronia quase que ensaiada. Depois de longos e exaustivos cinco anos, durante os quais pensara inúmeras vezes em desistir e largar tudo, havia, enfim, terminado a faculdade de letras. Optara pelo bacharelado em letras clássicas, latim mais especificamente e, apesar dos olhares e respostas de desdém que recebia toda vez que dizia estar cursando letras, o curso não eram tão fácil quanto todos deduziam. Nem um pouco. Ela bem sabia, estudara tanto nos últimos anos que não só deixava a faculdade mais inteligente do que entrara, mas também com alguns fios brancos a mais no meio de sua cabeleira castanha.
Tudo aquilo era passado agora. As provas, os trabalhos, o despertador tocando às quatro e meia da manhã de segunda à sexta. Só que não. Aquele era apenas o fim de uma etapa. Agora ela tinha o mestrado pela frente. Todo seu esforço e noites em claro estudando haviam sido recompensados, tinha conseguido uma bolsa para cursar o mestrado em Nápoles. Passaria um ano na cidade do litoral da Itália estudando autores e obras latinas, o seu favorito em especial, Virgílio. Já tinha tudo planejado, seria o paraíso.
Com a correria de deixar tudo preparado para viagem somada à correria das festas de fim de ano, os dias se passaram mais rápido do que ela gostaria. Queria aproveitar ao máximo a companhia dos pais, da melhor amiga e dos amigos mais próximos antes da mudança, mas quando deu por si, o grande dia já havia chegado.
Despedir-se dos pais foi mais difícil do que imaginou que seria e, enquanto os abraçava no aeroporto, sentiu um leve desespero. Era tarde demais, não tinha volta. Não que não tivesse pensado em voltar atrás, pelo contrário, desistir da viagem era a única coisa que passava pela sua cabeça nos últimos dias. Depois de tanto entusiasmo e planejamento, a realidade da situação a atingira em cheio. Estaria sozinha em um lugar completamente desconhecido, sem ninguém a quem recorrer ou pedir ajuda caso algo desse errado. Estaria longe de tudo e de todos que lhe eram queridos. Teria que suportar a saudade, a solidão e a insegurança por um ano inteiro. Um ano. Aquele era seu único consolo, em um ano estaria de volta. Um ano passava rápido, certo? Era isso o que todo mundo sempre dizia, reclamavam de como o ano passara em um piscar de olhos, sem que sequer tivessem começado a cumprir suas resoluções de ano novo. Não tinha por que aquele ano ser diferente.
Como se já não bastassem todas suas angústias e a tristeza da recém-despedida dos pais, a viagem não foi das mais tranquilas. Nunca gostara de viajar de avião, sempre ficava tonta e terminava a viagem com uma terrível dor de cabeça. Daquela vez não foi diferente. O céu estava com nuvens demais, fazendo com que o avião chacoalhasse cada vez que atravessava uma delas. No fim da viagem, sua dor de cabeça era tamanha que já não conseguia se concentrar nas coisas que a afligiam antes, tudo o que queria era que aquele avião pousasse o mais rápido possível. Um alívio percorreu seu corpo quando o piloto finalmente anunciou que estavam se preparando para o pouso.
Caminhou por entre as pessoas, segurando firme a mala de rodinhas, o coração acelerado e um frio no estômago. Estava em Nápoles. Uma brisa agradável bateu em seu rosto assim que passou pelas portas do aeroporto, bagunçando seus cabelos. Estava em Nápoles. Por um segundo permaneceu ali, em pé, sentindo a brisa e tentando se acostumar com a sensação de estar sozinha em um lugar completamente novo. Uma buzina a despertou e ela seguiu até um dos táxis que estavam ali. Disse o endereço ao motorista no melhor italiano possível e aconchegou-se no banco, contemplando a vista noturna da cidade. Estava em Nápoles. E à primeira vista Nápoles era incrível. Tão imensamente diferente de São Paulo, mas incrível mesmo assim.
Tirou os olhos da janela, quando a voz do taxista ecoou pelo carro em um italiano carregado.
— Primeira vez em Napoli? — perguntou ele, vendo a atenção e curiosidade com que ela observava tudo através da janela.
concordou com cabeça.
— Então toma cuidado com a bolsa. — ele avisou.
— Tem muito assalto? — perguntou preocupada, se esquecendo da paisagem que lhe chamava tanto a atenção há alguns instantes. Onde é que havia se metido?
— Talvez não roubem a sua bolsa, mas Napoli com certeza vai roubar o seu coração. — o motorista respondeu com um sorriso amável no rosto, tranquilizando-a.
Já era tarde da noite quando entrou em um dos edifícios da Piazza Amedeo, onde iria morar. Seus passos eram cautelosos, hesitantes. Aquele lugar seria sua casa pelo próximo ano, mas, apesar de parecer aconchegante, ainda lhe era desconhecido. Parou em frente ao apartamento que chamaria de seu, olhando o número na porta, 14. Uma música alta tocava ao fundo, vinda do apartamento em frente ao seu. Ótimo, estava em uma cidade onde muito provavelmente roubariam não só as suas coisas, mas também os seus órgãos e ainda por cima teria que lidar com noites em claro. Suspirou, ao menos seria ouvindo boa música. Seu vizinho podia ser meio surdo, mas, a julgar pela música que tocava, tinha bom gosto musical. Talvez fosse por isso que ninguém parecia incomodar-se com o barulho. Ou isso ou todos os outros eram tão surdos quanto ele.
Abria a porta de sua nova casa, quando ouviu uma voz abafada pela música.
Ciao.
se virou, sobressaltada, dando de cara com uma jovem um pouco mais velha do que ela. A italiana estava de pijama e tinha os cabelos cor de chocolate em um coque bagunçado no alto da cabeça.
— Você é a nova moradora? Eu sou Giulia, sua vizinha. — disse em um italiano quase cantado, com um sorriso bastante simpático no rosto.
. — ela respondeu um pouco sem graça, sem saber como agir. Era tarde e o cansaço lhe impedia de tentar causar uma melhor impressão.
— Se a música te incomodar, eu posso abaixar.
— Não, não tem problema. Eu gosto dessa banda. — sorriu.
O sorriso de Giulia aumentou e ela se aproximou, observando o apartamento onde sua nova vizinha iria morar, fazendo uma careta em seguida.
— Acho que você vai precisar fazer umas mudanças. O senhor Belisario não era muito fã de cores. — falou.
olhou o próprio apartamento. De fato, o lugar era todo bege. Um tom de bege que denunciava a idade avançada do morador anterior.
— É, acho que uma pintura nova é uma boa ideia.
— Eu posso te ajudar, se você quiser. — ofereceu Giulia.
concordou com cabeça, surpresa por sua nova vizinha ser tão amigável. Talvez tivesse dado sorte. Ou talvez estivesse prestes a descobrir, de um jeito bastante literal, o que o taxista quis dizer quando lhe disse que Nápoles roubaria seu coração.
— Combinado, no final de semana nós fazemos isso. — disse a italiana, antes de entrar em seu próprio apartamento, deixando sozinha para finalmente conhecer aquela que seria sua casa pelo próximo ano.
Deu o primeiro passo meio tímida, como se alguém a estivesse observando. Colocou a mala próxima à parede e fechou a porta atrás de si. Era isso, estava em Nápoles, não tinha volta. Tudo o que lhe restava era aproveitar ao máximo os 12 meses que tinha pela frente.
Estava em Nápoles.


Capítulo 2 - Algo de Especial

aproveitou a semana antes das aulas começarem para visitar as bibliotecas e museus da cidade, sabia que seriam os lugares que mais frequentaria durante seu tempo em Nápoles. Esperava ficar emocionada ao ver pessoalmente as obras que estudava, no entanto, não esperava que a emoção fosse grande a ponto de seus olhos se encherem de lágrimas. Por vezes, durante seus estudos, perdia-se em meio a datas que voltavam no tempo quase dois milênios; era mais tempo do que seu cérebro conseguia racionalizar, de modo que todas aquelas pessoas perdiam-se em sua mente como uma lenda que sobrevivera aos anos, mas que nunca existira de fato. Ver aquelas de perto, tê-las ao alcance de seus dedos, tornava tudo real. Era como uma cápsula do tempo, podia sentir a presença de todos os seus autores favoritos ali. Como se passado e presente se fundissem em um só.
Fez uma nota mental para acrescentar à sua lista — inexiste — de resoluções para o ano novo ‘visitar o maior número de locais históricos da Itália possível’. Já previa a choradeira que iria acontecer quando fosse ao coliseu.
Sua segunda parada foi à loja de tintas que Giulia havia lhe recomendado, perto de casa. Optou por cores claras e neutras, mas que trariam um pouco mais de vida ao apartamento. Não queria nada muito exagerado e também não queria nada elaborado demais, afinal aquela era apenas uma residência temporária. Além disso, algo simples e prático combinava mais com seu estilo.
As batidas à sua porta no sábado de manhã a surpreenderam, não pensou que Giulia estivesse falando sério quando disse que estaria lá as seis para começarem a pintura. Às seis horas da manhã, porém, lá estava Giulia, preparada e equipada para colocar as mãos à obra.
Certificaram-se de que todo o chão estava bem coberto com jornal e então começaram a pintar a sala, embaladas pela música empolgante que saía das caixas de som. Começar o trabalho cedo foi uma ótima ideia, ao meio dia já tinham passado a primeira mão de tinta no apartamento inteiro.
descansou o rolo com que estava pintando, agradecida por ter que esperar a tinta secar antes de começar a segunda e última mão, já estava bastante cansada. Pintar paredes sempre parecia mais fácil e divertido nos filmes, na vida real era exaustivo e a tinta fedia um bocado.
— Nós podemos almoçar enquanto esperamos a tintar secar um pouco. — sugeriu, além de cansada, estava faminta.
— Perfeito. — sorriu a napolitana — Nós podemos almoçar na minha casa, o cheiro aqui está meio forte.
Giulia preparou uma macarronada rápida para o almoço, um grande clichê italiano, mas não tinha como fugir do bom e velho spaghetti quando se precisava de uma refeição rápida, apetitosa e que satisfizesse a fome, que no momento estava gigantesca.
Sentou-se à mesa com e sorriu, feliz por finalmente ter uma vizinha que fosse da sua idade. A brasileira parecia tímida e acuada, quase como um filhote assustado. Como Bambi perdido na floresta. Apesar de seu italiano perfeito, era perceptível que ainda se sentia deslocada em Nápoles, provavelmente por não conhecer ninguém na cidade. Giulia pretendia mudar aquilo.
— Obrigada por me ajudar com a pintura. — disse , dando a primeira garfada na macarronada — Hum. A comida está uma delícia.
— Magina. O que você está achando de Nápoles até agora?
— Eu não entendo nada que vocês falam. — a brasileira disse com uma careta e Giulia riu. — Fora isso... As coisas aqui são um pouco diferentes do que estou acostumada. Nápoles é diferente. Meio maluca, mas... Eu acho que gosto.
Giulia concordou com a cabeça, sorrindo. Nápoles era uma cidade um tanto particular, não agradava a todos que vinham de fora, mesmo que viessem da Itália. A cidade tinha um ritmo próprio e os napolitanos um jeito único de viver, de ver e de fazer as coisas, o dialeto era prova disso.
— Aos poucos você se acostuma. Nápoles tem um jeito especial de ser. Nem todo mundo entende, mas eu vejo um quê de napolitana em você.
franziu o cenho e sorriu, surpresa por ouvir aquilo
— É engraçado você falar isso porque na verdade o meus bisavós eram napolitanos. — falou.
Giulia arregalou os olhos e abriu um grande sorriso.
— Eu não disse? Um napolitano reconhece o outro. Você está voltando para casa.
sabia que Giulia só estava sendo simpática ao dizer aquelas palavras, mas naquele momento soou como algo a mais. Soou como se voltar a Nápoles fosse algo que ela tivesse que fazer, como se houvesse um motivo maior para ela estar ali. Como se houvesse algo esperando por ela em Nápoles, como se ela estivesse de fato voltando para casa.
Quando retomaram a pintura, já não era a música que embalava o trabalho das duas (apesar de ainda tocar ao fundo), mas sim uma conversa interminável sobre coisas pequenas do dia a dia. Giulia explicava à nova vizinha coisas banais sobre a cidade, como os dias da coleta de lixo (que graças a Camorra era algo muito mais complicado do que deveria ser), os piores horários para pegar a Circumvesuviana e as expressões mais usadas do dialeto.
Demoraram mais do que teriam demorado se não estivessem tão imersas na conversa, mas não se importaram. O sol se punha do lado de fora, quando pararam para admirar o resultado final, a luz dourada que entrava pela janela dava ao apartamento recém-pintado um charme digno de cinema. O lugar agora tinha uma cara nova, assim como uma nova moradora.
— Amanhã é o aniversário do meu noivo, vai ter uma festa pequena, pouca gente, na casa dele. Você quer vir? — convidou Giulia, antes de voltar para o próprio apartamento.
hesitou por um segundo, então concordou com a cabeça.
— Vai ser bom conhecer algumas pessoas, eu só conheço você e a minha orientadora até agora. — disse.
A napolitana sorriu, tinha certeza que seriam boa amigas.
— Então até amanhã.
— Até amanhã.
observou a vizinha entrar em casa, depois fechou a porta e se jogou no sofá, assistindo pela janela os últimos raios de sol desaparecerem no horizonte. Tivera sorte de ter Giulia como vizinha. Riu com o pensamento de que talvez a napolitana fosse uma espécie de fada madrinha. Só talvez, porque ainda não havia descartado completamente a possibilidade de tráfico de órgãos.
*

Enquanto se arrumava para a festa, sentiu um desconfortável frio na barriga. Estava indo a uma festa onde não conhecia ninguém. Seu estômago embrulhou e ela pensou em não ir, mas de que adiantaria? Indo pelo menos tinha a chance de fazer alguns amigos. Qualquer coisa era só dizer que precisava ir embora.
A casa de Luca — noivo de Giulia, a quem ela havia sido apresentada logo que chegaram ao local — não era muito grande, mas tinha um jardim com uma bela vista e era lá onde as pessoas estavam, apesar do clima frio de janeiro. Alguns segundos na presença do casal bastaram para que percebesse que os dois haviam sido feitos um para o outro e aquilo de alguma forma a tranquilizou, mesmo assim, certificou-se de procurar todas as saídas da casa e possíveis rotas de fuga, só por precaução. Só para o caso de a festa na verdade ser uma emboscada e eles serem uma divisão secreta da máfia italiana responsável por sequestrar estrangeiras para vender como escravas sexuais no mercado negro. É, só por precaução.
***

estava encostado na porta que dava para o jardim, conversando com o aniversariante. Havia acabado de chegar, trabalhar aos domingos era uma das desvantagens de sua profissão. O rosto desconhecido que conversava com Giulia chamou sua atenção e, sem conseguir desviar os olhos da mulher, quando ela riu, ele acabou sorrindo também.
— É a nova vizinha da sua irmã. — disse Luca, acompanhando o olhar do cunhado.
— O que aconteceu com o senhor Belisario? — perguntou, finalmente desviando o olhar. O vizinho da irmã era um torcedor assíduo do SSC Napoli, o time de futebol da cidade, mas era o típico torcedor insatisfeito. Se o time ganhava, reclamava; se o time perdia, reclamava mais ainda. E era sempre ele quem tinha que ouvir suas infinitas reclamações, apesar disso, gostava do Sr. Belisario. Havia poucas coisas sobre as quais o velho resmungão não se queixava e suspeitava que aquelas eram as coisas que realmente o incomodavam.
— Parece que casou com uma mulher uns 40 anos mais nova. — respondeu Luca.
— Você está brincando? Ele vivia falando mal dos amigos que casaram com mulheres mais novas, dizendo que elas só queriam a herança. — riu.
— Pois é. — disse Luca — Eu vou pegar mais uma bebida, você quer?
negou com a cabeça e o cunhado entrou. Então, ele olhou novamente para a vizinha de Giulia, que já não conversava com ninguém. Estava sentada em um dos bancos do jardim, contemplando o céu estrelado tão atentamente que ele se perguntou em quê ela estaria pensando. Ou em quem. Antes que pudesse se dar conta do que estava fazendo, seus pés o guiaram até ela e ele se sentou ao seu lado no banco.
, irmão da Giulia. Prazer. — disse, atraindo a atenção dela para si.
A primeira coisa que notou ao encarar o homem ao seu lado foram os olhos incrivelmente verdes, sem dúvida eram os olhos mais verdes que já tinha visto. Contrastavam perfeitamente com o tom de pele oliva e o cabelo cor de chocolate do homem, e eram quase tão fascinantes quanto o céu que ela observava momentos antes.
, vizinha da Giulia. Prazer.
— Eu gostava do senhor Belisario, mas você parece menos rabugenta. — ele sorriu e o quadro perfeito estava completo.
— As aparências enganam. — falou ela.
— Acredite, é impossível ser mais rabugento do que o senhor Belisario. — o sorriso dele aumentou e ela sorriu também.
lamentou quando os olhos dela deixaram os seus e voltaram a observar o céu. Olhos castanhos eram completamente subestimados e os dela eram a prova disso. Notou como os cabelos da mulher emolduravam seu rosto e resistiu ao impulso de arrumar um cacho que saía do lugar de forma encantadora.
— É lindo, né? — perguntou, antes que parecesse um psicopata, sentado ali a encarando sem dizer nada — O céu.
— É. — ela concordou com a cabeça, os olhos ainda fixos na imensidão azul.
— Ele está particularmente estrelado hoje. — desviou os olhos dela e os voltou para cima — Acho que se eu fosse morar em qualquer outro lugar as duas coisas de que mais sentiria falta seriam o céu e o mar de Nápoles. Não há nada como o céu e o mar de Nápoles. Nada. Em lugar nenhum do mundo.
Quando ele olhou para a mulher ao seu lado outra vez, ela tinha um leve sorriso no rosto e seus olhos castanhos o observavam docemente. Ele esqueceu o que ia dizer e um silêncio confortável caiu sobre eles. Perdidos nos olhos um do outro, sequer perceberam a estrela cadente que riscava o céu.


Capítulo 3 -

andou por seu apartamento com o laptop nas mãos, mostrando para os pais a sua nova casa.
— Ficou bonito, né? — disse.
— Ficou, o apartamento parece bem confortável. — respondeu seu pai.
— Eu gostei da cor. E é de um tamanho bom. — completou sua mãe.
— É, é bem confortável. E é um tamanho ótimo. A minha vizinha Giulia me ajudou a pintar no sábado.
Conversou com os pais por mais um tempo, contando-lhes sobre a cidade e quais haviam sido suas primeiras impressões. Logo tiveram que se despedir e ela se encontrou sozinha mais uma vez. Não havia nem uma semana que estava em Nápoles e a saudade de casa já era imensa. Aquele era um dos problemas de , era muito apegada às coisas e às pessoas. Não tinha muitos amigos, pelo contrário, só aqueles cuja amizade ela sabia que seria para a vida inteira. De que adiantava se apegar às pessoas só para sofrer mais tarde, quando o tempo e a distância as afastassem? Achava tão triste olhar fotos antigas e perceber que alguém que fizera parte do seu presente agora pertencia a seu passado.
Com todos aqueles pensamentos em mente, aproximou-se da janela, fechando os olhos ao sentir uma brisa gostosa bater em seu rosto. Mesmo não morando exatamente perto do mar, dava para sentir um pouco da maresia no vento. Abriu os olhos, lembrando o que o irmão de Giulia lhe dissera sobre o mar de Nápoles, sobre não haver nada igual em lugar nenhum do mundo. Ainda não havia ido à praia desde que chegara, esteve tão preocupada em evitar um possível encontro com Jack, o estripador, que acabou esquecendo algo essencial. O mar! Calçou os sapatos, amaldiçoando-se por ter se esquecido de uma das coisas mais marcantes de Nápoles, e saiu de casa determinada a conferir com os próprios olhos quão incrível era o mar da cidade e se era mesmo tudo aquilo havia lhe dito.
Enquanto saía de casa, notou pela primeira vez a beleza da Piazza Amedeo. Parecia ridículo notar aquilo somente dias depois de ter chegado à cidade, mas era como se o medo e a insegurança tivessem nublado seus olhos, impedindo-lhe de apreciar a realidade e a beleza dos fatos. Estava em Nápoles. Estava na cidade que tanto havia sonhado visitar. Contemplou a beleza da piazza onde morava por mais alguns segundos e então seguiu rumo à praia, não conseguindo conter o sorriso que nasceu em seus lábios. Pela primeira vez desde que chegara podia sentir que aquela cidade de fato roubaria seu coração.
Não foi preciso mais do que alguns segundos para comprovar que o irmão de Giulia estava certo. Havia mesmo algo de diferente no mar de Nápoles. Algo em como era completamente azul, mas parecia adquirir um tom verde por breves instantes antes de voltar à sua cor original. Observou a onda bater próximo a seus pés, quase molhando seu sapato e desejou que não estivessem no inverno, para poder descalçar os sapatos e sentir a água bater contra sua pele. Sempre fora fascinada pelo mar, a ideia de uma quantidade de água tão grande que se estendia quase que infinitamente lhe parecia tão mágica e surreal. Parecia-lhe incrível pensar que se seguisse aquele mundaréu de água poderia chegar mais longe do que jamais fora. Era exatamente o mesmo motivo por que era tão apaixonada pelo céu. O conceito de infinito, do quase infinito e de tudo que parecia maior do que seu humilde cérebro podia assimilar lhe maravilhava.
É, Nápoles roubaria seu coração.
***

Correr à beira da praia fazia parte da rotina de . A brisa fria contra sua pele quente, o impacto de seus pés no solo conforme ganhava velocidade, o sol colorindo o céu enquanto se punha. Então, desacelerava o passo, sentindo a endorfina em suas veias e resistia ao impulso de continuar correndo para, em vez disso, dar um mergulho no mar. Aquele tinha sido um dia particularmente preguiçoso, caminhara ao invés de correr e substituiria o mergulho por apenas assistir às ondas se quebrando. Caminhava calmamente em direção àquela imensidão azul que tanto amava, quando algo chamou a sua atenção. Um sorriso involuntário surgiu em seus lábios ao ver a vizinha de Giulia tentando tirar do rosto as mechas de cabelo que o vento insistia em bagunçar.
. — a garota se virou ao ouvir seu nome, os olhos castanhos surpresos em vê-lo.
— Oi. — ela sorriu.
— O que você está fazendo? — perguntou, segurando um sorriso, já sabendo a resposta.
— Eu vim ver o mar. Agora eu entendo o que você disse, sobre não ter nada igual em lugar nenhum do mundo. É tão... Azul.
Ele sorriu e concordou.
— E você, o que está fazendo? — ela devolveu a pergunta.
— Nada. Só caminhando.
Um silêncio confortável se instalou entre eles, o som das ondas misturando-se ao barulho da cidade que os cercava.
— Fã do Barcelona? — perguntou , observando o moletom que ela usava e que trazia o símbolo do time bem grande na frente.
o olhou sem entender. Estava tão perdida em pensamentos que por um momento não fez ideia do que o rapaz ao seu lado queria dizer, até que ele apontou para sua roupa.
— Ah! Sim. — ela sorriu. — São Paulo e Barcelona.
— Nenhum time na Itália?
— Não... — ela encolheu os ombros — Eu não acompanho muito futebol italiano. Às vezes eu até torço pela seleção italiana, mas só.
— Às vezes? — ele ergueu uma sobrancelha, mas estava sorrindo.
— É, quando vocês não jogam contra o Brasil. — ela sorriu — Na Eurocopa, por exemplo, ou na final de 2006 contra a França.
— Justo.
Ficaram em silêncio novamente, aquilo parecia acontecer com frequência durante suas conversas. Talvez não tivessem muito em comum, talvez não tivessem sobre o que conversar, ou talvez, mesmo se conhecendo tão pouco, se sentissem confortáveis um com o outro o suficiente para não precisarem preencher cada pequeno momento com palavras desnecessárias.
Só então um fato chamou a atenção de . — Você não torce pelo Madrid, né? — perguntou séria, tão séria que riu.
— Não. — ele balançou a cabeça.
— Ufa. ¬— ela respirou aliviada. Apesar de não ser catalã, se considerava uma verdadeira culé. Entendia que a rivalidade entre Barcelona e Real Madrid ia muito além dos campos e, justamente por isso, durante uma de suas aulas de história, escolhera o time azul-grená. — Ia ser horrível ser sua amiga se você fosse madridista. Já foi decepção suficiente quando Cannavaro foi para o Madrid. Ele era um dos meus jogadores favoritos.
— Sei como é, eu senti a mesma coisa quando ele foi para a Juventus. Ainda bem existe o Maradona.
— Maradona? — ela perguntou com um sorriso brincalhão no rosto e ele a olhou sério. — Nada contra, tirando o fato de ele ser argentino. E aquele gol de mão também, claro. Mas ele jogou no Barcelona, já é um ponto positivo.
concordou com a cabeça, mas achou melhor retomar o assunto anterior, antes que ela falasse mal de Maradona e acabasse com qualquer possibilidade de amizade entre eles.
— Já que o Cannavaro foi deposto, quem tomou o lugar dele? — Puyol. Na verdade, eles sempre estiveram ali, meio que empatados como meus jogadores favoritos, mas agora é definitivamente o Puyol.
A resposta o surpreendeu, quando se tratava de futebol e, principalmente de Barcelona, as pessoas costumavam responder Messi sem nem pensar duas vezes. Xavi e Iniesta eram a segunda resposta mais frequente, mas Puyol? Ninguém respondia Puyol a menos que realmente entendessem a importância de Carles Puyol para o time, dentro e fora de campo. Sorriu, Puyol estava entre seus jogadores favoritos também.
— Você gosta mesmo dos capitães. — brincou.
— Nah, eu gosto mesmo é dos defensores.
— Sério? — perguntou incrédulo, quase esperando que ela risse e dissesse que não.
— Aham. — ela respondeu simplesmente e um sorriso repentino e sem motivo aparente surgiu no rosto dele — O quê?
— Nada. — encolheu os ombros, colocando as mãos nos bolsos.
— E você? Por qual time você torce?
— Napoli. — ele sorriu.
— Eles são bons?
— Eu diria que o time melhorou bastante nos últimos anos. — ele desviou os olhos dos dela, focando no horizonte.
— Isso significa que o time é ruim? — ela sorriu, brincando, e ele jogou a cabeça para trás em uma risada gostosa de ouvir.
— Não! Só que o time já passou por muita coisa e recomeçar do zero leva tempo.
— Muita coisa? Tipo o quê?
— Tipo ter que fechar as porta por falência e...
— Falência?! — ela arregalou os olhos, quando ele disse que o time já tinha passado por muita coisa, o máximo que imaginou foi a segunda divisão.
— Falência. — continuou , sério apesar do tom ameno em sua voz. Aquelas não eram memórias que ele gostava de reviver — Depois, teve todo o tempo na série C e B até voltar para a série A. Isso e o fato de que nós não vencemos nada desde 91, quando o Maradona ainda jogava no time.
— Caramba! De fato, vocês passaram por muita coisa, mas... O seu time é péssimo! — ela falou exageradamente, arrancando dele outra gargalhada alta.
— Não, não é. — ele respondeu com um sorriso — Apesar de tudo isso, nós continuamos lutando, com mais força e mais vontade do que nunca. Tudo bem que nós não temos o dinheiro do Real Madrid ou um sheik árabe, mas nós temos uma coisa que dinheiro não compra. Nós temos coração e é com ele que nós jogamos. Chistu core.
Ele apontou para o próprio coração e sorriu. Nunca tinha visto o Napoli jogar, mas, se eles jogassem com tanta paixão quanto fizera aquele pequeno discurso, já podiam contar com uma nova torcedora. Os dois se entreolharam, sorrindo, e ficaram em silêncio mais uma vez, cientes de que palavras às vezes eram superestimadas.
***

caminhava pela Biblioteca Nacional de Nápoles com Fabrizio, um dos bibliotecários, que lhe mostrava os diferentes acervos e como cada um funcionava. O local era imenso e a quantidade de livros, manuscritos e papiros era maior ainda, sentia-se deslumbrada. Era o seu primeiro dia trabalhando para valer em sua tese e mal podia esperar para mergulhar de cabeça nas obras e perder-se no tempo. Os livros sempre funcionavam como um vórtex temporal para ela, as horas passavam em questão de minutos enquanto apreciava as palavras diante de si. Por vezes era bastante paradoxal como o tempo ao seu redor passava tão mais rápido e simultaneamente congelava sempre que se sentava para ler um livro. Foi perdida em um desses buracos de minhoca temporal que ela se encontrou, horas mais tarde, surpresa pelo horário.
Recolheu suas anotações, guardou o material que estava usando e se despediu das pessoas que trabalhavam na biblioteca. Todas as pessoas que conhecera em Nápoles até o momento haviam sido bastante receptivas, o que lhe causava um pouco de remorso por ter pensado que fossem um tipo mais bonito e bronzeado de Freddy Kruger (apesar do remorso, no entanto, ainda havia uma parte de seu cérebro que dizia que era exatamente aquilo o que todos pensavam antes de serem mortos por assassinos em série e que talvez ela não devesse abaixar a guarda tanto assim).
O céu já estava escurecendo quando ela caminhou pelas ruas bem mais vazias do que de costume, voltando para casa. Notou uma comoção em um pequeno restaurante e se aproximou para ver o que era. As pessoas olhavam atentamente para a televisão do local e trocavam comentários empolgados, algumas pareciam até fazer apostas. Ficou nas pontas dos pés, tentando ver por entre a multidão de cabeças o que estava passando no aparelho, mas sua visão foi bloqueada quando parte das pessoas se levantaram e um ‘uh’ coletivo ecoou pelo restaurante. Era uma partida de futebol e o Napoli estava jogando, só faltava descobrir contra quem. Aproximou-se um pouco mais, ficando nas pontas dos pés outra vez, e entendeu o motivo de tanta exaltação. O adversário era a Juventus e, pelo que o irmão de Giulia lhe dissera, havia uma grande rivalidade entre os dois times.
Apressou os passos, o jogo ainda estava no começo do primeiro tempo, com sorte chegaria em casa antes de qualquer um dos times marcar algum gol. Mal podia esperar para sentar no sofá e ver se tudo o que havia lhe dito sobre o time era verdade ou apenas o depoimento totalmente parcial de um torcedor apaixonado.
A primeira coisa que fez ao entrar em seu apartamento foi ligar a televisão. Não havia perdido muita coisa, o jogo continuava zero a zero e estava apenas na metade do primeiro tempo. Antes de se sentar preparou um jantar rápido, ouvindo os comentaristas e virando para olhar a tevê sempre que suas vozes adquiriam um tom empolgado.
Com o prato devidamente preparado, sentou-se no sofá. Tinha que admitir, estava um pouco nervosa pelo jogo. Não sabia por que, mas queria que o Napoli vencesse a partida.
Acaba de chegar aqui a informação de que o Campagnaro não se sente bem e por isso será substituído. — disse um dos comentaristas.
Deu para perceber que tinha alguma coisa errada com ele. Quem vai entrar? — perguntou seu companheiro.
, que é um ótimo zagueiro. Na verdade eu não entendi por que ele começou o jogo no banco. De qualquer forma, essa substituição vai melhorar muito a defesa do Napoli.
Concordo. Eu gosto bastante do . Ele é um ótimo defensor e ainda é bem jovem. Anota o que eu estou te falando, ele vai ser um dos grandes.
O jogador a quem eles se referiam esperava a substituição na beira do gramado, o nome ‘’ e o número cinco estampavam sua camisa. Ele cumprimentou o companheiro que estava de saída e entrou em campo, quando se posicionou, a câmera filmou seu rosto pela primeira vez e quase engasgou com a comida. Ela ergueu os braços, tossindo. O ar voltou a seus pulmões e ela focou os olhos no jogador que aparecia na televisão. Aquilo não fazia o menor sentido.


Capítulo 4 – Mi casa es su casa

Era impossível. Seus olhos estavam lhe pregando uma peça, aquela era a única explicação.
já está em campo. — disse o comentarista, confirmando as suas suspeitas.
— Filho da mãe! — exclamou em um misto de surpresa e indignação. — E ele ainda é zagueiro!
Riu incrédula. era jogador de futebol?! E do Napoli! E bastante conhecido, pelos elogios que os comentaristas faziam. Não podia acreditar. Por que ele não tinha lhe contado? Ok, em nenhum momento ela tinha perguntado com o que ele trabalhava, mas, poxa, tinham conversado sobre futebol! Ele podia ter contado, mas não contou.
Sentia-se um tanto ridícula por aquela conversa agora, por tudo o que tinha dito. Era uma coisa conversar sobre futebol com um colega, mas era outra muito diferente conversar sobre o esporte com um jogador profissional. Talvez também entendesse a diferença e por isso escolhera não contar. Contar teria arruinado tudo, ela teria travado e a conversa tranquila e agradável que tiveram teria se transformado em algo mecânico e impessoal. Não seriam mais dois torcedores conversando, seria uma torcedora e um profissional. Contar os teria colocado em patamares diferentes. Voltou à atenção para a tevê, torcendo para que sua teoria estivesse certa, torcendo para que ele a visse de igual para igual.
O Napoli foi perigosamente para o ataque. Maggio cruzou a bola na área e Cavani a cabeceou. Não foi uma cabeceada forte, pelo contrário, o uruguaio cabeceou para baixo, mas foi o suficiente. A bola quicou uma vez, desorientando o goleiro, e foi parar dentro do gol. sorriu. Napoli um, Juventus zero.
Menos de dois minutos depois, o time atacava novamente com Lavezzi, que chutou para o gol. O goleiro defendeu e o argentino aproveitou o rebote, outra vez sem sucesso. A Juventus não deixou barato e partiu para o contra-ataque, Amauri finalizou e o goleiro napolitano espalmou a bola, cedendo um escanteio para os adversários. Os jogadores de ambos os times se reuniram na área, esperando a cobrança. Quando o juiz autorizou, os jogadores pularam, houve uma pequena confusão e, rápido demais para que pudesse compreender o que aconteceu, a bola já estava dentro do gol e o goleiro azzurro caído no chão. Antes que pudesse lamentar o empate, no entanto, o juiz apitou anulando o gol pela falta no ataque.
Ajeitou-se no sofá inconscientemente quando correu para uma disputa de bola, soltando o ar aliviada ao vê-lo concluir a defesa. Após a bela jogada, ele sentou no gramado e ela estava prestes a se preocupar com seu estado físico, mas então percebeu o que tinha acontecido. Riu. Enquanto vencia a disputa de bola, a chuteira saíra de seu pé e agora estava sentado, no meio do campo, tentando calçá-la novamente, tarefa que estava se provando bastante difícil. Ele não conseguia desfazer o nó do cadarço de jeito nenhum. O juiz lhe deu uma bronca e ele riu, mostrando a chuteira e tentando desfazer o nó com a boca.
Pouco tempo depois, era ele quem pegava a bola novamente. Avançou com ela até o meio campo ofensivo e fez o passe para Dossena, na lateral esquerda. Dossena rapidamente levantou a bola para Cavani que, posicionado na pequena área, cabeceou mais uma vez, agora com um bocado a mais de força e, como da primeira vez, a bola balançou a rede. Napoli dois, Juventus zero.

O segundo tempo começou agitado, com um ataque da Juventus que exigiu uma grande defesa do goleiro napolitano, completou a jogada isolando o rebote. Em seguida, o time azzurro aproveitou a oportunidade para sair em velocidade para o ataque. Lavezzi fez o passe para Hamsik, que passava pela sua direita, e Hamsik imediatamente cruzou a bola na pequena área. Cavani mergulhou, repetindo suas ações anteriores, e a bola chocou-se mais uma vez contra sua cabeça, tendo sua trajetória desviada para dentro do gol. Napoli três, Juventus zero.
O jogo já estava no final, quando Paolo Cannavaro deu o combate em um jogador adversário, mandando a bola para escanteio. se posicionou na pequena área junto com os outros jogadores, preparando-se para uma possível defesa. Estava tão concentrado que nem se deu conta de que o goleiro do time gritava o seu nome. Percebendo que seria inútil continuar a chamá-lo, o goleiro foi até ele e o puxou pela camiseta, reposicionando-o. A cobrança foi autorizada, a bola fez sua viagem em direção ao gol e, em meio a todas as pessoas na área tentando cabeceá-la, o zagueiro número cinco napolitano foi o único que conseguiu atingi-la, afastando o perigo.
Em poucos segundos o juiz apitou o fim do jogo, fazendo com que a torcida da casa explodisse em coro, cantando uma música que nunca tinha ouvido, mas que parecia definir perfeitamente o momento. Os jogadores napolitanos se abraçaram, comemorando a vitória, e cumprimentaram os rivais pela partida. O goleiro pulou em cima de e juntos seguiram em direção ao vestiário.
desligou a televisão, ouvindo seus vizinhos e o resto vizinhança comemorar a vitória. estava mais do que certo ao dizer que o time era movido pelo coração, havia um carisma no SSC Napoli capaz de cativar qualquer um com apenas um jogo. Era o mesmo carisma que emanava da cidade inteira e que tornava impossível estar ali e não ser cativado por toda aquela energia magnética e hipnotizante. Era o coração napolitano.
*

acordou na manhã de domingo com repetidas batidas em sua porta, não precisou abri-la para saber que era Giulia, a vizinha era mesmo uma pessoa matutina, matutina até demais.
— Bom dia, ! — disse a italiana assim que a porta foi aberta, ainda estava de pijama, mas, ao contrário de , já estava bem desperta.
— Bom dia. — a outra respondeu bocejando.
— Eu vou almoçar na casa dos meus avós hoje, quer vir comigo? Sabe como é, domingo é dia de família. — sorriu.
— Eu não vou atrapalhar? — perguntou por educação, torcendo para que a resposta fosse ‘não’. Quando seus avós eram vivos, era quase uma tradição familiar almoçar na casa deles aos domingos. Sentia falta do barulho daqueles almoços, quando todos falavam ao mesmo tempo, mas mesmo assim acabavam se entendendo. Já que sua própria família estava tão longe, seria bom sentir-se parte de uma, ainda que apenas pela duração de um almoço de domingo.
— Imagina! — respondeu Giulia — Eu vou me trocar e passo aqui para gente ir, a nonna fica uma fera se alguém chega atrasado para o almoço.
— Você já tomou café? — perguntou, antes que a vizinha voltasse para o seu apartamento.
— Ainda não, estou morrendo de fome. — respondeu a italiana.
— Entra, a gente toma junto.
*

Giulia tinha a chave da casa dos avós, então foi entrando sem nem tocar a campainha. a seguiu, tímida, mais uma vez se encontrava em um ambiente onde não conhecia quase ninguém. O fato de estar na casa da família , porém, deixava-a menos ansiosa. Giulia e não se enquadravam no perfil ‘filhos de assassinos em série’. Assassinos em séries tinham filhos desequilibrados e problemáticos, certo? Não teve tempo para pensar em fugir, pois logo a voz de Giulia ecoou em seus ouvidos.
— Oi, todo mundo! Eu convidei a para o almoço.
Uma jovem senhora, muito parecida com Giulia, mas com os cabelos mais curtos, foi até as duas.
— Ah, você é a famosa ! — disse a mulher — Eu sou Beatrice, mãe da Giulia e do . Como você está, querida?
Antes que pudesse responder, a brasileira foi embalada em um abraço apertado pela mãe de Giulia. Mal havia se recuperado da surpresa, quando outro par de braços rodearem seu corpo.
— Eu sou Francesca, a nonna dos dois. Fique à vontade! Como se estivesse na casa da sua nonna. — disse a senhora que tinha os mesmos olhos verdes do neto, apesar de parecem mais intensos no rapaz.
As quatro mulheres seguiram em direção à cozinha, onde um almoço tipicamente napolitano estava sendo preparado. Tarefas foram delegadas às jovens e todas conversavam animadamente enquanto cozinhavam — e beliscavam — o almoço.
A família se reunia na sala de jantar, sentando-se à mesa, quando a porta da frente foi aberta com urgência.
— Cheguei! Estou atrasado? — disse , juntando-se a eles, um pouco ofegante.
— Na hora. — respondeu sua avó.
Conversas paralelas tomaram o lugar, acompanhadas pelo som dos talheres nos pratos. Gianluca e Giuseppe — respectivamente o pai e o avô de — conversavam empolgados com o rapaz sobre a partida do dia anterior. O nonno estava convencido de que aquele seria o ano do Napoli e sorriu ao ouvi-lo, imaginando que ele falava a mesma coisa a cada nova temporada.
Francesca e Beatrice perguntavam à Giulia detalhes sobre os preparativos para o casamento e com frequência se viam tão envolvidas nas possibilidades que pareciam esquecer-se da noiva. A nonna constantemente divagava, fugindo do assunto inicial e mudando o rumo da conversa. Quando Giulia mencionou que o noivo estava em Roma, a avó começou uma empolgada argumentação sobre Roma e sobre como Bologna era uma cidade muito mais agradável.
apenas os observava, um sentimento aconchegante surgindo dentro de si. Sentia-se em casa. Seus olhos andaram pela mesa e cruzaram com os de . Ele sorriu e ela sorriu em resposta, sua atenção, no entanto, foi desviada quando a nonna do rapaz a surpreendeu, colocando mais comida em seu prato.
— Você comeu pouco! Come mais polpetta. — disse Francesca, tratando de encher o prato da jovem.
assistia à cena e riu, porque parecia encaixar perfeitamente no quebra-cabeça maluco que era a família .
Não a via desde a tarde na praia e aquela era só a terceira vez que a encontrava, mas naquele momento, vendo a nonna encher o prato da recém-chegada, agradeceu mentalmente a esposa do Sr. Belisario, quem quer que ela fosse. Gostava da ideia de ter por perto e gostava ainda mais de tê-la por perto de fato.
*

Depois do almoço, os homens da casa ficaram encarregados da louça e, quando já estava tudo limpo, todos se sentaram na sala, conversando enquanto bebiam um café. Giulia acabou cochilando em uma das poltronas e , percebendo alheia à conversa, gesticulou com a cabeça para que ela o encontrasse na cozinha.
— Você ainda não entende muito bem o napolitano, né? — ele perguntou com um sorriso, pegando o bolo de chocolate com recheio e calda de chocolate que sua avó havia preparado.
— Ficou tão na cara assim que eu não estava entendo nada? — ela fez uma careta.
— Um pouco. — ele riu, servindo um pedaço de bolo para ela e cortando outro pedaço para ele. — Você pega o jeito, não é tão complicado assim.
— Obrigada. — disse , sentando de frente para ele. Houve uma pausa, os dois se olharam em silêncio, então ela desviou os olhos, dando uma garfada no bolo. — Quer dizer que você é jogador de futebol.
Os olhos dela encontraram os dele outra vez e franziu o nariz, sem saber o que dizer.
— E zagueiro. Por que você não me contou?
Ele olhou para o pedaço de bolo em seu prato, fugindo dos olhos castanhos que lhe encaravam docemente. Sabia que ela iria descobrir, mas não esperava que fosse tão cedo. Suspirou. Era diferente quando as pessoas sabiam que ele era jogador profissional. Com ela, pela primeira vez em muito tempo, pôde ser só mais um torcedor apaixonado. Conversar com ela tinha sido tão natural. E então ela disse que era fã dos defensores e primeiro ele achou graça da coincidência, mas depois se sentiu inseguro. Tinha plena consciência de que estava longe dos ídolos que ela havia mencionado e teve medo do que ela iria achar dele como jogador.
— Não sei... Você disse que gostava do Cannavaro e do Puyol... Eu estou bem longe deles. — encolheu os ombros, sem graça — Eu sou só o .
— Você é o . — sorriu.
— O que você achou do jogo? — ele perguntou, ignorando o arrepio que sentiu ao ouvi-la dizer ‘’, o sotaque brasileiro dando uma sonoridade especial ao seu nome.
— Eu gostei! — ela se ajeitou na cadeira, empolgada — Três a zero contra a Juventus! Seu time não é tão ruim quanto eu esperava. — ela brincou e ele riu — Mas eu gostei mesmo foi de quando o goleiro te deu uma bronca e saiu te arrastando pela pequena área.
— Giorgio! — abriu um grande sorriso — Ele é meu melhor amigo desde que nós tínhamos seis anos, é bem comum ele gritar comigo durante os jogos.
— Dá para ver que vocês têm um bom entrosamento em campo. — ela disse, comendo mais um pedaço de bolo — Você já jogou em algum outro time?
Ele balançou a cabeça.
— Não. Eu comecei no Napoli quando ainda era pequeno. Eu fui gandula no San Paolo antes de jogar de verdade pelo time. Posso dizer que eu cresci no Napoli e com o Napoli.
— E torce pelo Napoli! É perfeito. — ela sorriu.
— Perfeito. — ele sorriu também, perdido nos olhos dela.
Caíram em um de seus costumeiros silêncios, até que se lembrou de um detalhe muito importante.
— Você joga com o Paolo Cannavaro! Sabe o que isso significa, né?
— Que você é obcecada pelos Cannavaros? — brincou.
— Não! Quer dizer, um pouco, talvez. — ela riu antes de continuar — Significa que eu vou te encher o saco até você conseguir um autógrafo na minha camisa.
— Você tem uma camisa do Paolo?! — perguntou surpreso — Aquele dia na praia você disse que nunca tinha visto o Napoli jogar.
Era estranho que ele sentisse uma pontada de ciúmes dos irmãos Cannavaro cada vez que ela mencionava um deles? Vai ver não era ciúmes, vai ver era só uma pontada. Vai ver ele devesse ir ao médico com mais frequência.
— Não, não tenho... Mas um dia, se eu comprar uma camisa, eu vou querer um autógrafo. Não só dele. De todo mundo, na verdade.
Ele concordou com a cabeça e o silêncio caiu entre eles outra vez. observava um ponto específico na cozinha e ele seguiu o seu olhar.
— É um forno de pizza. — respondeu mesmo sem que ela tivesse perguntado.
— Sua avó tem um forno de pizza em casa?! — ela o olhou incrédula.
. — disse , olhando em seus olhos, e ela se sentiu hipnotizada, seu nome soava tão melódico na voz dele.
— Oi.
— Você está em Napoli. A terra da pizza. Vai dizer que ainda não comeu nenhuma pizza napolitana?
— Não. — era absurdo, ela sabia, mas estava tão concentrada em criar uma rotina na nova cidade que tinha se esquecido das coisas mais banais. O mar, a pizza. Mas pretendia mudar aquilo o mais rápido possível.
— Como não? — ele perguntou indignado, gesticulando com as mãos. — A minha irmã não te mostrou nada da cidade? Tudo bem, não faz mal. Pode me considerar o seu guia turístico daqui para frente. Eu vou te mostrar Nápoles.
sorriu. Quem sabe suas neuroses valeriam a pena afinal.


Capítulo 5- O mais alto de todos os sons

se ajeitou no sofá e abriu o livro que deveria ler para a próxima aula. Folheava as páginas, mas não fazia ideia do que estava lendo, não conseguia se concentrar. Seus olhos percorriam as palavras, mas seu cérebro não processava nada. Não sabia se a falta de concentração se devia ao tom monótono do texto ou a algum outro fator, mas tentava justificá-la dizendo a si mesma que nunca fora muito fã daquele tema.
Desistiu da leitura depois da sexta página e colocou o livro de lado. Observou o apartamento, examinando quais eram as suas opções: ver televisão, não; trabalhar na sua pesquisa, definitivamente não; dormir, cedo demais; comer, essa era a única opção razoável. Então se lembrou de como costumava passar seu tempo quando estava no Brasil e pegou o computador.
Ouviu os toques semelhantes ao de uma chamada telefônica e logo um rosto familiar apareceu na tela do aparelho.
— Como vão as coisas? Conte-me tudo, não me esconda nada! — disse Duda, empolgada, e riu, sentia falta da amiga.
— Vão bem! Ainda não conheço muito bem a cidade, mas eu estou gostando daqui.
— Como que é Nápoles?
— A cidade é caótica, mas de um jeito aconchegante, sabe? Tem um monte de problemas, mas mesmo assim te cativa. Tem alguma coisa aqui que te faz sentir acolhido. Acho que são as pessoas, não sei.
— Que bom. — Duda sorriu — Mas vamos ao que interessa. Os italianos. — rolou os olhos, mas Duda continuou, imitando uma cartomante. — Eu vejo um italiano alto e sarado em sua vida.
riu
— Não acredito! Tem mesmo! Pode falar!
— Não tem, não. Eu nem conheço nenhum italiano. Quer dizer, eu conheço o , que é alto e parece ser sarado, mas--
— Tem namorada! Casado! É gay! É gay, sabia!
— Não. Não que eu saiba, pelo menos. — franziu o cenho, não tinha cogitado aquela possibilidade. A ideia de que talvez tivesse uma namorada lhe embrulhou o estômago. Se ele tivesse namorada não teria se oferecido para lhe mostrar a cidade, certo? Certo. A menos que fosse um completo idiota, o que ela tinha quase certeza que ele não era.
— Então, qual é o problema?
— O problema é que eu volto para o Brasil em 12 meses.
— Exato! É perfeito. — Duda abriu um grande sorriso e piscou um olho.
Conversaram mais um pouco e, quando se despediram, as palavras da amiga ainda ecoavam na mente de . Não era perfeito. A última coisa que precisava era se apaixonar por alguém ou começar uma relação com prazo de validade. Ainda mais ela, que só iniciava um relacionamento quando a relação tinha algum futuro, caso contrário, por que perderia tempo com algo que não daria em nada? ‘Ter futuro’ para ela não necessariamente significava casamento. Só queria alguém com quem pudesse se imaginar pelos próximos anos. Não queria apenas estar com alguém, queria saber que podia contar com esse alguém.
O pior era que sentia que estava a um passo de se apaixonar por . Teria que se afastar dele e focar no mestrado. Mal tinha chegado a Nápoles, não podia se apaixonar. Aquilo não estava no plano e ela sempre seguia o plano à risca. Estava decidido: quando ligasse para combinar o tour pela cidade, inventaria uma desculpa qualquer e diria que não. Conheceria Nápoles sozinha e pronto.
***

acordou mais cedo do que de costume na quinta-feira. Não teria aula, então planejara passar a manhã na biblioteca adiantando algumas coisas e à tarde iria explorar a cidade. Tinha uma lista com todos os lugares que queria conhecer e um mapa mostrando como chegar a cada um deles.
Repassava seu itinerário mentalmente, quando, ao sair do prédio, deparou-se com algo que não esperava. Alguém, na realidade. Teve a sensação de ter errado o degrau da escada, mesmo que não estivesse descendo escada nenhuma, porque, parado em frente ao edifício, sentado em uma vespa PX azul com um capacete na mão e um sorriso no rosto, estava .
Ela caminhou lentamente até ele, o coração batendo acelerado enquanto aqueles olhos verdes a observavam.
— Bom dia! — ele disse, o sorriso dobrando de tamanho.
— Bom dia. — ela sorriu, hesitante. — Nós combinamos alguma coisa para hoje?
— Eu não acredito que você se esqueceu de mim. — ele riu. Ela franziu o cenho e continuou, um pouco sem graça por perceber que ela estava falando sério. Ela tinha mesmo se esquecido dele. — O almoço na casa dos meus avós? Eu falei que ia ser seu guia turístico, aí perguntei quais dias você tinha livre? Você disse que não tinha aula às quintas e eu falei que naquela semana não dava, mas que na outra eu ia ter a quinta-feira de folga. Aí você sorriu e eu falei ‘te pego às oito’ e, se eu não estou imaginando coisa, você concordou?
— Eu lembro. — ela riu, achando graça por ele acreditar que alguém pudesse de fato se esquecer dele. Bem que ela queria, facilitaria muito todo o negocio de manter o plano. — É só que eu pensei que você fosse me ligar para confirmar. E, como você não ligou, eu achei que você tinha desmarcado.
sorriu.
— Você fez outros planos, né? — seu sorriso amigável disfarçava o desapontamento que sentia. Tinha planejado com cuidado o itinerário, o céu estava limpo e o sol brilhava, apesar de estarem no inverno. Ia ser perfeito. Só que não. Estivera tão focado em organizar tudo, que tinha se esquecido do principal, confirmar o encontro. Mas que droga.
o olhava, dividida entre razão e coração. Sabia que o certo seria se afastar enquanto ainda estava em tempo, mas a verdade era que não queria conhecer a cidade sozinha. Queria conhecer Nápoles com ele. E não parecia justo inventar uma desculpa qualquer quando, por causa dela, ele tinha acordado cedo em seu único dia de folga na semana. Era apenas um dia. Não significava nada. Ela não iria se apaixonar perdidamente por ele naquela tarde. Nem ele por ela. Um dia não faria diferença.
— Não, eu só... — respondeu por fim — Eu ia até a biblioteca adiantar algumas coisas, mas eu posso fazer isso outro dia.
Os olhos dele brilharam, seu sorriso ganhou nova vida e ela soube que estava tomando a decisão certa. Um dia não faria diferença, repetiu para si mesma.
— Eu só vou deixar essas coisas lá em cima e já volto.
Ele concordou e, quando ela voltou minutos depois, lhe estendeu um capacete.
— Pronta para desbravar a cidade? — ele disse de um jeito irrecusável.
— Nisso aí? — ela olhou para a vespa, duvidando que o veículo aguentasse duas pessoas — Nunca.
Ele riu, colocando o próprio capacete, e esperou que ela subisse no veículo.
— Aonde nós vamos? — perguntou ela, subindo na pequena motocicleta.
— Você já vai saber.
— Se eu morrer, a culpa é sua. — ela disse, travando o capacete.
— Eu prometo que você vai sair viva. — sorriu, mas achou melhor acrescentar — Segura firme, só para garantir.
seguiu suas instruções e ele deu a partida. Antes que ela pudesse se preparar psicologicamente para a jornada, a motocicleta já estava em movimento. O vento batia em seu rosto, trazendo-lhe a sensação de liberdade, e corpo de perto do seu lhe trazia a sensação de segurança. Um motorista gritou com outro no engarrafamento e, com o susto, ela apertou um pouco mais os braços em volta dele, sentindo com mais intensidade o perfume agradável de sua loção pós-barba. Andar de vespa até que não era tão ruim assim.
O trajeto da Piazza Amedeo até a Piazzale Vincenzo Tecchio demorou pouco mais de 10 minutos. Logo estacionava a vespa em um estacionamento exclusivo para funcionários. Não era exatamente um funcionário do recinto, mas aquele podia ser considerado o seu escritório.
perdeu o fôlego por um segundo ao ver a enorme construção oval. Sorriu. Não só era o local perfeito para começar seu tour pela cidade, como fazia perfeito sentido que a primeira parada dos dois fosse um estádio de futebol.
— É por aqui. — disse , guiando-a pelo caminho por onde os jogadores entravam em dia de jogo.
Sabia que levá-la ao San Paolo era uma escolha óbvia, mas lhe aparecia o único jeito de começarem o tour por Nápoles e, ao ver o brilho nos olhos de por estarem ali, soube que tinha tomado a decisão certa.
— Eu vou te mostrar o caminho que nós fazemos antes do jogo. — disse e ela concordou.
Andaram por um corredor todo azul e então entraram em uma sala da mesma cor. Normalmente não poderiam estar no local, mas tinha ligado alguns dias antes e deixado tudo programado com os funcionários.
— Esse é o vestiário. — disse, observando a reação dela.
olhava tudo com atenção, querendo guardar cada detalhe. Como torcedora roxa do esporte, estar ali, nos bastidores, era incrível. Mal podia acreditar que estava mesmo dentro do vestiário de um estádio de futebol! Andou até o meio da sala e olhou em volta, era uma sala comum e praticamente vazia. Tinha alguns ganchos na parede, onde as camisas eram penduradas antes das partidas — naquele dia, havia apenas uma —, e um banco que se estendia pelo comprimento do local.
— Cada jogador tem um lugar específico. — caminhou até um dos lugares, um que ficava no centro da sala — Aqui é onde ficam as minhas coisas.
. — ela andou até onde ele estava, observando a camiseta número 5.
— Não conta para ninguém, mas eu quase chorei a primeira vez que vi ela aí. — ele sorriu e se virou para ele, acompanhando o gesto. — É sua, se você quiser. Mas eu entendo se você quiser trocar pela do Cannavaro.
— Quem? — ela franziu o cenho e ele riu.
— É sério, não tem problema se você quiser trocar.
— Eu não sei do que você está falando. — ela disse, pegando a camiseta e a segurando de forma que ele não pudesse tomá-la de volta — O é o meu jogador favorito!
jogou a cabeça para trás em uma gargalhada gostosa de ouvir e naquele momento soube que estava ferrada. Um dia faria diferença. Aquele dia faria toda diferença.
— Certo. — ele respondeu, ainda sorrindo — Vou fingir que acredito. Enfim, isso aqui fica uma bagunça depois do jogo! E você não imagina o fedor!
— Prefiro nem imaginar. — ela fez uma careta.
— Daqui nós vamos para o campo.
Fizeram o caminho pelos corredores azuis em silêncio, recriando a atmosfera antes de uma partida. Mesmo o lugar estando vazio podia sentir a adrenalina, quase dava para ouvir o barulho de uma torcida imaginária. Enquanto subiam os degraus que levavam ao campo, com a mão livre, ela tocou a imagem de San Genaro na parede. Então lá estava, a alguns metros de distância, o gramado. Seu coração disparou e ela segurou a camiseta de com mais força. Estava tão focada e tão presente naquele instante, sentindo cada emoção por completo, que era como se estive prestes a disputar a partida mais importante de sua vida.
a observou durante todo o percurso, não conseguiria desviar os olhos dela nem se quisesse. Amava aquele estádio, mas nada se comparava à beleza dela naquele momento.
— Bem-vinda ao San Paolo. — ele disse, quando os pés de ambos finalmente tocaram a grama.
— Uau. — foi tudo o que conseguiu dizer.
— É, eu sei.
Caminharam lentamente até o centro do campo. girou entorno de si mesma, observando as arquibancadas e tentando assimilar o estádio por completo. O lugar estava vazio, a não ser pelos dois, e aquilo tornava a experiência ainda mais extraordinária.
— É tão grande, mas ao mesmo tempo é menor do que eu imaginava. — disse, contemplando as arquibancadas vazias ao seu redor — Deve ser mágico cheio de gente.
— Eu ainda me arrepio toda vez que entro nesse estádio lotado. — ele disse, desviando os olhos dela pela primeira vez desde que chegaram ali. Lembrava-se perfeitamente do frio na barriga que sentira ao entrar em campo pela primeira vez ali no San Paolo. Ainda se sentia como uma criança realizando um sonho toda vez que ouvia a torcida cantando momentos antes do apito inicial.
— Eu posso tirar o sapato? — perguntou .
concordou com a cabeça e não pensou duas vezes antes de fazer o mesmo, sentindo a grama embaixo de seus pés. Sentou-se no gramado e se acomodou ao seu lado. Ficariam com a roupa cheia de grama, mas não se importavam. O barulho dos carros era a única coisa que lhes recordava que lá fora havia um mundo além dos dois. Um mundo que lhes parecia absurdamente distante.
se deitou, admirando o céu azul, e, quando também o fez, suas mãos por pouco não se esbarraram. Estavam tão próximas que ela sentia o calor que emanava da pele dele mesmo sem tocá-lo.
— Você já jogou pela seleção italiana? — perguntou depois de um longo silêncio, virando para olhá-lo e descobrindo que ele já a observava.
— Uma vez. — ele disse, desviando os olhos dos dela. — Mas não acho que eu vá ser convocado de novo.
— Por quê?
— Eles já têm defensores o suficiente. — deu de ombros.
— Eles não têm você.
— Eles não precisam de mim.
— Precisam de um defensor que seja um cinco de verdade.
— O De Rossi¹ é um bom cinco. — ele disse e, pela primeira vez desde que conhecera , desejou que uma conversa entre eles terminasse.
— O De Rossi nem é zagueiro de verdade.
Ele não respondeu e, quando o silêncio voltou a cair sobre eles, se sentiu aliviado por ela não insistir no assunto. Ficaram daquele jeito, lado a lado, observando o céu pelo que pareceram apenas alguns minutos, mas, ao olhar o relógio, ele se assustou com o horário. Estavam ali há horas, deitados, apreciando a solidão do campo e a presença um do outro.
— Vamos? — perguntou, levantando relutante e oferecendo uma das mãos para ela.
aceitou a ajuda, mas não esperava que ao levantar se encontraria tão perto de . Perto demais ela diria. Tão perto que, mesmo ele sendo razoavelmente mais alto do que ela, ela podia ver os diferentes tons de verde e cada um dos pontinhos dourados em sua íris.
Ele sorriu, notando as quatro pequeninas pintas que ela tinha na bochecha esquerda. A respiração dela batia em sua pele e dessa vez optou por não resistir ao impulso de tocar os cabelos dela, colocando um cacho rebelde de volta em seu lugar. Seu segundo impulso foi o de beijá-la. Meditou por um instante se devia ou não fazê-lo e, antes que pudesse desistir, beijou-a.
Algo nela que fazia com que ele se esquecesse do mundo, dos problemas. Era como se só os dois existissem. E ali, beijando no cenário mais apropriado possível, confirmou algo que já sabia, mas tinha medo de admitir. Estava se apaixonando.
Aquilo definitivamente não estava nos planos, mas já não importava. sabia que era tarde demais, que, se antes ainda tinha alguma chance de não se apaixonar por , aquela chance tinha escapado de suas mãos assim que subira na vespa do rapaz. Não resistiu ao beijo, nem se deixou levar pela voz neurótica que tentava lhe dizer que aquilo era errado. A forma como as mãos dele repousavam em seu rosto provavam o contrário, beijá-lo era mais do que certo. Era ilusão achar que algum dia tivera alguma chance de não se apaixonar por ele. Seu plano tinha ido pelo ralo no instante em que vira aqueles olhos verdes pela primeira vez.
Calçaram os sapatos perdidos em pensamentos, na sensação do beijo ainda presente em seus lábios. Quando terminou, já a esperava com um sorriso no rosto. Entrelaçou seus dedos nos dela e caminharam lado a lado.
— Nós podíamos estar aqui? — ela perguntou enquanto deixavam o campo.
— Não. — ele respondeu tranquilo e ela o olhou surpresa — Conhecer os funcionários tem suas vantagens. Você está com fome?
Fizeram o caminho de volta até a vespa e logo estavam mais uma vez nas ruas de Nápoles. Dessa vez, estacionou em frente a um restaurante que, apesar de pequeno, estava bastante movimentado. Ele cumprimentou o senhor que os recebeu animadamente e se sentaram em uma mesa afastada.
— Prepare-se para comer a melhor pizza de Nápoles. — disse e, em voz baixa, acrescentou — Depois da pizza da família , é claro, mas o senhor Genaro não pode me ouvir falando isso de jeito nenhum. Ele e o nonno são bons amigos, mas todas as discussões entre os dois são sobre qual das duas famílias faz a melhor pizza.
sorriu, não havia nada mais napolitano do que dois senhores discutindo sobre quem fazia a melhor pizza.
— Meu Deus! — ela disse ao dar a primeira mordida. Aquela era de longe a melhor pizza que já tinha comido, capaz até mesmo de fazê-la esquecer todas as regras de etiqueta e falar com a boca cheia na frente de sem nem ao menos se importar.
Bem-vinda a Napoli. — ele sorriu.
Enquanto comiam, lhe contou sobre o mestrado, sobre a pesquisa e sobre sua paixão por literatura clássica. Em geral as pessoas se desinteressavam rápido quando começava a falar sobre autores que elas nunca tinham ouvido falar, mas não . Ele prestava atenção a tudo que ela dizia e até fazia perguntas. Quando percebeu que falava sem parar — e que poderia continuar falando e falando e falando —, temeu que ele se entediasse e voltou ao assunto que era tão recorrente entre os dois.
— Mas me diz, por que você decidiu ser zagueiro? — perguntou e ele abriu um grande sorriso.
— Eu cresci vendo o Maldini e o Cannavaro jogar. Depois de ver esses caras você não pensa em ser outra coisa que não zagueiro. Ainda tem o Puyol! E sem contar Beckenbauer e Franco Baresi. E Daniel Passarela. E Carlos Alberto Torres na lateral. E Gaetano Scirea! Como esquecer o Gaetano, que em toda carreira nunca foi expulso? É impossível não querer ser defensor vendo esses jogadores. Impossível!
Ele tinha um entusiasmo na voz e um brilho no olhar ao falar que fez com que sorrisse. Ele realmente era apaixonado pela zaga e ela entendia por quê. Aqueles mesmos jogadores eram o motivo pelo qual ela própria era apaixonada pela defesa. Parecia-lhe tão estranho que a maioria dos torcedores e da mídia esportiva ignorasse a defesa quase que o tempo todo e só prestasse atenção ao meio-campo e ao ataque.
— Entendo perfeitamente. E outra, no Roberto Baggio² é que você não ia se inspirar, né? — brincou.
— Ha. Ha. Ha. — ele fingiu uma risada — Não é muito gentil fazer piada só porque vocês ganharam em 94. — disse sério, mas na realidade não se importava, nem ao menos torcera pela seleção italiana em 94.
— Desculpa, foi mais forte do que eu. — ela riu, encolhendo os ombros.
— E você? Por que você gosta tanto da zaga? — perguntou ele, curioso.
Era raro encontrar um torcedor que tivesse aquela paixão pela defesa, afinal, em um esporte em que o essencial é marcar gols, aqueles encarregados de evitá-los ficavam categorizados como menos importantes. Ledo engano, o melhor time do mundo poderia marcar 10 gols, mas, se não tivesse uma boa defesa, concederia 11. Não era à toa ou mera coincidência que a maioria dos capitães fosse zagueiros.
— Acho que é porque eu cresci vendo times muito ofensivos, que quase não tinham defesa nenhuma, e inconscientemente eu percebia que tinha alguma coisa faltando. Até que eu vi um esquema defensivo que realmente funcionava e descobri que aquilo era a tal coisa que faltava. Aí eu descobri todos esses jogadores que você mencionou e vi a mágica que é assistir a uma boa defesa. E tem também o Bellini.
— Bellini? O capitão do Brasil em 58? — perguntou sorrindo, Bellini era um de seus grandes ídolos. Era um zagueiro que se impunha como poucos dentro da área, tanto que em 57 tinha sido convocado como reserva e, quando em uma das partidas jogou como titular, não só ganhou a posição, como também a braçadeira.
— Ele mesmo! — abriu um sorriso de orelha a orelha. Bellini tinha um lugar especial em seu coração. Mesmo não sendo nascida na época em que ele jogava, Hilderaldo Luiz Bellini a tinha conquistado. Talvez fosse o fato de ele ter sido o capitão da primeira Copa do Mundo conquistada pelo Brasil, talvez fosse a foto emblemática dele levantando a taça acima da cabeça em um gesto não premeditado, mas que mudaria para sempre a forma como todos os outros capitães segurariam a taça depois dele. Talvez fosse por ele ser zagueiro, talvez fosse por ele ter jogado no São Paulo. Talvez fossem todas aquelas coisas juntas.
— Foi ele quem começou a tradição de erguer a taça acima da cabeça. — comentou .
— Eu sei! E o melhor é que foi completamente por acaso, porque um dos fotógrafos disse que não estava conseguindo ver. — ela completou, adorava aquela história.
— É incrível, né! — ele sorriu. A história de Bellini era incrível e o fato de os dois compartilharem a admiração pelo jogador também.
*

— Eu tinha outros planos para hoje, mas, como você trabalha com literatura clássica, achei que ia gostar daqui. — disse , horas mais tarde, quando chegaram ao Castel dell’Ovo.
observou a construção com aparência medieval e que se assemelhava a uma península, mas que na verdade era um ilhéu chamado Megáride.
— Esse é o Castel dell’Ovo. Tem esse nome, porque, segundo a lenda, Virgílio escondeu um ovo mágico lá dentro para proteger a fortaleza. Vem, é um museu também.
se arrepiou ao entrar no lugar, era tão diferente de todas as construções que já vira. Seus professores de história estavam certos ao dizer que o Brasil era um país jovem. Estava em um castelo — o que por si só era algo bastante surreal — mais antigo do que seu próprio país e onde um de seus poetas favoritos havia, possivelmente, estado.
a levou até a torre e não poderiam ter chegado ao topo da construção em melhor momento. O céu começava a escurecer e com a vista que tinham era possível ver as luzes se acendendo pela cidade. Lá de cima, pôde notar quão azul o mar de Nápoles realmente era. Fazia perfeito sentido que a cor do time napolitano fosse aquela. Azul. Como o céu, como o mar.
Quando deixaram o local, as luzes da cidade estavam quase todas acessas. sugeriu voltarem para casa, mas insistiu que fossem até o Borgo Marinari, que ficava ao lado da base do castelo. Segundo o rapaz era praticamente um crime ir até lá e não provar a mozzarella di bufala dos restaurantes do Borgo. A mozzarella di bufala era mais uma das comidas tipicamente napolitanas que tinham se espalhado pelo mundo e, ao provar um pedaço, entendeu por que ele insistira em jantar ali.
*


O céu já estava totalmente escuro quando estacionou a vespa de volta na Piazza Amedeo. desceu da pequena motocicleta, retirou o capacete e o devolveu ao rapaz.
— Sã e salva, como prometido. — disse ele, tirando o próprio capacete.
— Obrigada pelo passeio. Você é um ótimo guia turístico.
— Imagina. Foi um prazer.
Ela sorriu e seguiu até o prédio, estava prestes a entrar, mas a voz de fez com que parasse no meio da ação.
. — ela se virou e recebeu um sorriso sincero — Arriverdeci.
Arriverdeci.
Tinha tido um ótimo dia e decidira não pensar em nada. Não pensaria no plano nem nas consequências que se envolver com poderia ter. Não tinha como prever o futuro. De uma coisa, porém, tinha certeza, o universo tendia ao equilíbrio. Não importava o que acontecesse, no final tudo se resolveria. Gostava de , gostava de conversar com ele e de estar com ele. E aproveitaria enquanto pudesse.
***

observou entrar no prédio e, quando ela já se encontrava segura dentro do edifício, colocou o capacete novamente e deu partida na vespa. Tivera um ótimo dia com ela. Melhor do que poderia imaginar. Sorriu, lembrando alguns momentos, coisas simples, como a forma que ela o olhava enquanto falava sobre literatura, o brilho que seus olhos castanhos adquiriam sempre que ela falava sobre um assunto que gostava. Sentiu um frio agradável no estômago por ainda terem a cidade inteira para desbravar. Já pensava nos lugares onde a levaria da próxima vez e fazia planos para que ela provasse a pizza da família . Não se importava se conversariam sobre futebol ou sobre literatura clássica. Não se importava que talvez não tivessem assunto ou que ficassem em silêncio. Pelo contrário, tinha a sensação de que quando estava com ela o silêncio se tornava o mais alto de todos os sons.

¹ volante da seleção italiana, usou a camisa 5 logo que o Cannavaro se aposentou. Atualmente joga com a 16 e o Jorginho com a 5.
² camisa 10 da seleção italiana, perdeu o pênalti decisivo na final de 94 contra o Brasil.


Capítulo 6 - Diego

Giorgio adorava jogar futebol, mas a rotina de treinamento às vezes era um saco. Principalmente porque parte de seu treino era realizada afastada do grupo, junto com os outros goleiros do time. Geralmente se aqueciam com o grupo, depois treinavam separados e mais tarde se juntavam ao grupo outra vez.
Estava aquecendo, quando notou o discreto sorriso no rosto do melhor amigo. Discreto, porém, constante. Os outros jogadores ainda não haviam reparado, caso contrário, as piadas e brincadeiras já teriam começado. Giorgio, no entanto, conhecia bem o suficiente para notar até as menores mudanças no rapaz.
— Quem é ela? — perguntou.
— Ela quem? — o melhor amigo respondeu e ele teve certeza de que havia mesmo uma garota.
— A garota que te deixou com essa cara de tonto.
— Eu não estou com cara de tonto. — disse , sem muita convicção.
— Você tem cara de tonto, mas hoje ela está mais acentuada. — falou, recebendo um chute na canela. — Ai! Pode bater, mas que tem uma garota, isso tem. Eu sei. Eu te conheço desde as fraldas.
achou melhor não responder, Giorgio o conhecia bem demais.
— Quem sabe os papéis não se invertem e ano que vem eu sou o padrinho no seu casamento, hein?
Era exatamente por comentários como aquele que não queria contar sobre . Fariam piadas ou, pior, planos. Gostava de como as coisas estavam evoluindo naturalmente entre eles. Não queria pensar no futuro, queria deixar as coisas acontecerem.
***

passou a semana entre a universidade e a biblioteca, não tinha mais motivos para conhecer a cidade sozinha. O resto do tempo passava com Giulia. Chegavam quase sempre no mesmo horário, então jantavam juntas e aproveitavam para conversar.
— Você não faz ideia a bronca que o meu irmão me deu por não ter te levado para conhecer a cidade. Desculpa. Mas de qualquer jeito, foi até melhor para você. Eu vou aos lugares, mas sempre pelos motivos errados, não seria uma boa influência.
riu, era a cara de Giulia ir aos lugares pelos motivos errados. Podia até vê-la entrando em algum museu só para se esconder da chuva.
— O disse que vocês foram ao Castel Dell’Ovo, o que você achou?
— Incrível! Tem uma vista linda.
— Eu vou lá sempre, mas só pela comida. — a italiana disse, fazendo uma careta.
— Acho um motivo bem justo. — riu .
— Eu sou péssima nesses passeios culturais, mas se você quiser se divertir, comer ou fazer compras, pode contar comigo!
— Eu vou me lembrar disso.
*

Quando deixou o prédio no sábado pela manhã, lá estava , como combinado. Ele e sua vespa azul. Ela não admitiria em voz alta, mas, passado o medo de cair ou ser atropelada por um ônibus (na verdade, por qualquer veículo que possuísse mais do que as duas pequenas rodas da motocicleta), tinha gostado da sensação de liberdade, de sentir o vento no rosto e da proximidade com .
Ela caminhou até ele e parou, hesitante. Seu cérebro começava a entrar em pânico, só então se dando conta de que não fazia ideia de como cumprimentá-lo. Antes que pudesse analisar minuciosamente toda a situação e criar mil e uma neuras diferentes, deu o meio-passo que faltava e selou seus lábios aos dela de um jeito tão natural que sorriu. Ele lhe entregou o capacete e ambos subiram na vespa.
Iam ao parque Villa Comunale. Ele planejara algo mais tranquilo, pois teria jogo no dia seguinte. Havia outros parques em Nápoles — um em especial que ele tinha certeza que ela iria amar —, mas naquele dia optara pela Villa Comunale.
Caminhavam lado a lado, andando pelo local e parando sempre que se aproximavam de uma das várias esculturas dispostas pelo local. as observava com tanta intensidade, apreciando cada mínimo detalhe, que era impossível para admirar algo que não fosse ela.
— Qual é a de todo mundo aqui em Nápoles com o Maradona? — ela perguntou, de repente, virando-se para ele e riu.
— Por quê?
— Porque em todo lugar que eu vou tem uma foto do Maradona. E sempre tem alguém chamado Diego!
respirou fundo, era difícil explicar para alguém que não fosse napolitano o que Diego Armando Maradona representava para aquela cidade. Era ainda mais difícil fazer uma brasileira entender o porquê eles idolatravam um argentino.
— A questão com o Maradona é que ele não era só um jogador do Napoli, ele era de um nós. Ele era napolitano.
entendeu que ele não dizia aquilo literalmente. Entendia bem, porque, mesmo estando há pouco tempo na cidade, a atmosfera de Nápoles era tão única, arrebatadora e cativante que às vezes ela também se sentia um pouco napolitana.
— Ele entendia o jeito napolitano de ser. — continuou enquanto caminhavam — E ele fez mais por nós do que qualquer italiano já tinha feito. Na época só existia um programa de esporte na televisão e o Maradona foi lá e disse em rede nacional, para todo mundo ouvir, que a Itália tinha um grave preconceito contra o pessoal do sul, contra os napolitanos. Foi a primeira vez que alguém falou do problema, até então todo mundo fingia que não estava vendo. Como fazem até hoje. Os torcedores da Juventus e dos outros times continuam cantando aquela música horrível, dizendo para o Vesúvio lavar Nápoles como fogo, e nada acontece. Ninguém liga. Mas o Maradona ligava, ele se importava.
Conhecia bem o preconceito contra os napolitanos, tinha sentido na pele muitas vezes, principalmente quando jogavam contra equipes do norte. Esse mesmo preconceito era um dos motivos por que a seleção italiana era o seu calcanhar de Aquiles.
— Pode parecer pouco, mas para nós foi muito. E o melhor é que depois dessa entrevista o Napoli jogou contra a Juventus e ganhou com um gol do Maradona. Foi como se a gente estivesse dizendo que eles podiam ser do norte, podiam ser todas as coisas que eles se vangloriam tanto de ser, mas que o melhor jogador do mundo era nosso. — ele sorriu, sentindo a emoção e a nostalgia de uma época que não tinha vivido, mas que ainda assim conhecia bem. — Você quer saber o resto da história ou já deu de Maradona por hoje?
— Não, continua.
— A Argentina foi campeã do Mundo, o Napoli finalmente começou a ganhar títulos e então veio a Copa do Mundo na Itália. Semifinal Itália e Argentina, aqui em Nápoles.
— Não! — disse , arregalando os olhos.
— Pois é. — ele riu — Quando perceberam o que ia acontecer, começaram a fazer campanha para os napolitanos irem ao estádio torcer pela seleção italiana. E aí, mais uma vez, o Maradona falou o que estava engasgado na nossa garganta. Agora eles lembravam que nós também somos italianos? Agora era tarde demais. Não deu outra. O estádio ficou dividido, mas a cidade inteira torceu pela Argentina.
— E quem ganhou? — perguntou, ansiosa, os olhos focados em .
— Argentina, nos pênaltis. Quando chegou a final em Roma, o estádio em peso vaiou o hino argentino. Mas eles não estavam vaiando a Argentina, estavam vaiando o Maradona, pelas coisas que ele tinha dito. Estavam vaiando Nápoles. A Argentina perdeu a final e foi aí que tudo desandou, Maradona nunca mais foi o mesmo.
— É aí que entra a cocaína? — tendo nascido no começo da década de 90, a decadência de Maradona era a única parte da história que ela conhecia. Aquilo e o pouco que a imprensa brasileira, completamente parcial quando o assunto era Pelé e Maradona, dizia sobre o atleta.
— É. — concordou — O pessoal do Napoli fez vista grossa, ninguém queria admitir a realidade do que estava acontecendo. É difícil ver alguém que você admira afundar sem poder fazer nada para ajudar. Pouco tempo depois ele foi pego no dopping e no dia seguinte, acredite ou não, o grande ídolo napolitano foi embora. Assim, do nada, no meio da noite. Escondido como um fugitivo.
— Por quê? — ela franziu o cenho e encolheu de ombros. Ninguém sabia ao certo.
— Vergonha? Não sei.
Caminharam alguns metros em silêncio, o peso do declínio de um dos maiores ídolos do futebol mundial sobre eles.
— Eu fiquei meio triste agora. — disse . É claro que ela já sabia como a história terminava, mas, ainda assim, era quase como se esperasse um final diferente. Sentia aquilo sempre que assistia a um filme triste pela segunda vez, sempre tinha esperança de que o final fosse mudar de alguma forma. Era inútil, mas era uma esperança que ela não podia controlar. Uma história com um começo tão incrível merecia um final melhor.
— Não fique, porque, como você já viu, o Maradona foi embora, mas ele nunca deixou Nápoles de verdade. Ele está em todo lugar. É completamente cafona, mas quem ama não esquece.
sorriu. Pensara que a obsessão da cidade pelo Maradona fosse coisa boba, imaginou que estivessem presos ao passado, relembrando eternamente os tempos áureos, mas agora via que não. Era muito mais. Era identificação, companheirismo, gratidão.
— Sabe, eu nunca fui muito fã do Maradona, mas ele ganhou o meu respeito hoje.
Eles se entreolharam, sorrindo, e se lembrou do motivo por que a tinha convidado para ir ao parque.
— Nós vamos jogar contra o Lecce amanhã. — disse — Vai ser no San Paolo e a minha família costuma ir a todos os jogos em casa. Se você quiser, eu tenho uma entrada para você.
— De verdade? — os olhos de brilharam.
— De verdade.
— É claro que eu quero ir! — ela abriu um enorme sorriso.
— Perfeito. Eu vou com time, mas você pode ir com a minha irmã.
— Sem problemas.
Eles pararam em frente a mais uma estátua, mas, dessa vez, focou os olhos na figura de mármore, em vez de focá-los em .
— Eu não posso te dedicar um gol, mas vou tentar fazer uma defesa digna do Cannavaro. — disse, entrelaçando seus dedos aos dela.
— Melhor, faça uma defesa digna do . — ela disse, virando-se para ele, à procura de seus olhos verdes.
se virou para ela, pego de surpresa pelas suas palavras, e um sorriso se desenhou em seu rosto. Era bom poder ser ele mesmo quando estava com , fora e dentro de campo.
***

O jogo ainda não havia começado, mas a família já estava agitada. O nonno não parava de falar, gesticulando com os braços de forma empolgada e fazendo previsões sobre o placar. A nonna comentava, admirada, os cortes de cabelo dos jogadores, rindo dos penteados peculiares. Giulia completava a bagunça assoviando sem parar, um assovio alto e estridente. Os pais de eram os mais normais do grupo, mas não deixaram de parecer duas crianças quando o filho entrou em campo.
olhou em volta, observando as outras famílias nas tribunas. Diferente dos outros familiares, que pareciam saídos da semana de moda de Milão com suas roupas de marcas, óculos escuros, sapatos altos e bolsas caríssimas, todos da família estavam devidamente uniformizados com a camiseta do time, levando o número cinco e o nome nas costas. Inclusive ela. sorriu, sentindo-se estranhamente em casa ali, com aquelas pessoas.
Quando o jogo começou, a bagunça diminuiu. Os olhos estavam todos vidrados no campo à frente. Perto dos 15 minutos de jogo, assistiram a Maggio passar a bola para Hamsik, que, mesmo estando longe da área, viu Dossena, em posição legal, indo em direção ao gol. Hamsik lançou a bola e Dossena se jogou, tentado alcançá-la, mas errou por alguns centímetros, arrancando um lamento da família e de toda torcida.
Menos de um minuto depois, Giorgio defendeu uma cobrança de escanteio e, na jogada seguinte, lá estava , interceptando um contra-ataque perigoso. O nonno levantou, orgulhoso, elogiando o neto para quem quisesse ouvir.
Depois da terceira cobrança de falta sem que o Napoli conseguisse completar a finalização de forma efetiva, Giulia soltou um palavrão, recebendo um olhar pouco amigável de sua mãe. A nonna, por outro lado, pouco se preocupava com o que a neta dizia ou mesmo com o desenvolvimento da partida. Francesca mantinha os olhos em o tempo todo, como se achasse que alguma coisa ruim fosse acontecer no instante em que ela desviasse o olhar, e toda vez que o neto caía ou se chocava com alguém, ela colocava a mão sobre o peito e invocava San Gennaro.
Os 15 minutos de intervalo passaram rápido entre conversas, comidas e risadas. Era impossível manter o rosto sério quando se estava com a família , havia neles uma alegria simples e contagiante.
O pai de ainda tomava sua xícara de expresso quando o jogo voltou e resmungo ao ver mais uma finalização do time terminar nas mãos do goleiro adversário. Por sorte, tomou o último gole antes do ataque seguinte, quando, frustrada com mais uma defesa do goleiro rival, Giulia chacoalhou o pai pelos ombros.
Ela não era a única frustrada, o resto da torcida também começava a ficar impaciente. O time atacava bastante, mas a finalização nunca terminava com a bola na rede. Em um desses ataques, o time napolitano deixou um grande espaço aberto no meio de campo, permitindo ao Lecce um contra-ataque perigoso. O atacante saiu em disparada. o alcançou e tentou o combate, porém, não foi bem-sucedido. O segundo zagueiro também falhou e o goleiro napolitano saiu do gol, indo em direção ao atacante. Faltavam 12 minutos para o fim do jogo, um gol poderia significar a derrota. O jogador adversário chutou e Giorgio se jogou, espalmando a bola com uma das mãos e interrompendo sua trajetória. se encarregou de pegar o rebote e respirou aliviada ao vê-lo devolver a bola para o meio de campo napolitano.
O jogo já estava indo para o segundo minuto do tempo extra, quando um dos jogadores do Lecce fez um ótimo lançamento. A bola chegou ao atacante que estava sozinho na lateral direita e este iniciou a corrida ao gol. estava alguns metros mais atrás, na lateral oposta. Por um instante foi como se visse tudo em câmera lenta, o atacante aproximando-se mais e mais da área, correndo para alcançá-lo e o goleiro tentando prever o próximo passo do rival.
Quando o atacante entrou na grande área, Giorgio saiu do gol, como havia feito antes, deixando a pequena área e indo em direção à bola. O atacante chutou, mas ele não conseguiu fazer a defesa. prendeu a respiração, vendo a bola rolar em direção ao gol. Ao lado dela, o nonno estava quase tendo um infarto, quando uma camisa azul se aproximou a toda velocidade. A bola estava a centímetros da linha, no instante em que se jogou em seu caminho e, com a ponta da chuteira, tirou-a dali.
A família se levantou, comemorando a defesa como comemorariam um gol e, em pé, junto a eles, abriu um sorriso. Era a defesa que ele havia prometido. Não teve muito tempo para pensar no assunto, porque assim que afastou a bola, um dos jogadores do Napoli a recebeu e saiu em disparada para o contra-ataque. Do meio de campo, o jogador fez o passe para Cavani que, mesmo consideravelmente longe da grande área, chutou para o gol.
teve a impressão de que, por um milésimo de segundo, o estádio inteiro ficou em silêncio, antes de explodir em celebração. Levou uma das mãos à boca, incrédula. Parecia mentira, mas era a mais absoluta verdade e era por momentos como aquele — que desafiavam o provável e o possível — que ela amava tanto futebol. Tudo podia acontecer até que o juiz apitasse o fim do jogo. Seu time podia defender o gol da derrota em um segundo e no seguinte marcar o gol da vitória.
O juiz apitou o fim da partida e ela pensou que o estádio fosse vir abaixo. A família comemorava animadamente e o nonno dizia — sorrindo — que o Napoli ainda iria matar todos os torcedores do coração. riu, recebendo um abraço apertado e desajeitado de Giulia, que pulava feito criança. Quando seus olhos se voltaram para o gramado mais uma vez, viu receber um abraço empolgado do técnico, enquanto alguns dos jogadores pulavam em cima dos dois. Um sorriso tomou conta do rosto da brasileira e borboletas voaram em seu estômago. Ele cumprira a promessa, realizara uma defesa digna de ninguém menos que .
***

entrou no vestiário com a adrenalina a mil, aquilo tinha mesmo acontecido nos minutos finais do acréscimo? Era surreal e era por momentos como aquele que era apaixonado por futebol. Mais surreal ainda era ter feito parte daquele momento, era ter realizado aquela defesa. Aquela fora, sem dúvida, uma das defesas mais sensacionais de sua carreira até ali. Pensou em e abriu um sorriso, era a defesa que lhe prometera.
— Você salvou a minha pele ali no fim do jogo. — disse Giorgio, empurrando o amigo.
— Você tinha salvado a minha um pouco antes, então estamos quites.
— O que seria desse time sem nós. — brincou Giorgio, sendo bombardeado por uma enxurrada de camisetas suadas. — Tá, tá. Já entendi.
Depois do banho e das entrevistas pós-jogo, Giorgio alcançou o melhor amigo, que seguia para o estacionamento.
— Ei, ! — chamou e se virou. Estavam os dois frente a frente no estacionamento vazio — Você pode não admitir, mas eu sei que tem uma ‘ela’ na história. Eu vi você procurando alguém nas tribunas quando o jogo acabou. Se você não quiser contar, não precisa, mas se ela for a responsável por te inspirar a fazer defesas como a de hoje, case com ela e você vai ganhar o Ballon D’Or. — Giorgio bateu nas costas do amigo e seguiu o seu caminho. Antes de se distanciar demais, completou — Ela deve ser incrível.
sorriu. É, ela era incrível.


Capítulo 7 — Tenet nunc Parthenope

Publius Vergilius Maro era o motivo pelo qual se encontrava em Partênope ou, como ela costumava responder quando perguntada, Virgílio era a razão pela qual havia ido a Nápoles.
Encantara-se pelo poeta logo no primeiro ano da faculdade de letras, durante as aulas de introdução à literatura clássica e, desde então, não conseguira largá-lo. Mesmo depois de cinco anos estudando sua obra, a cada releitura encontrava novas formas de encantar-se por aqueles versos.
Primeiro tinha lido a Eneida e se perdido nas aventuras de Enéias pelo que seria a fundação de Roma, depois veio as Bucólicas e, por fim, chegara à sua favorita, as Geórgicas. Fora com essa última que iniciara o seu trabalho acerca de Virgílio ainda durante a graduação e, mais tarde, conseguira a bolsa para ir a Nápoles cursar o mestrado e desenvolver melhor sua pesquisa sobre o poeta.
Nunca sabia como responder quando lhe perguntavam o porquê escolhera estudar literatura clássica e, não importava o que respondesse, nunca entendiam seus motivos. Não conseguiam ver a magnitude no que lhes parecia um monte de livros antigos e antiquados. , no entanto, encontrava naquelas obras resquícios de um mundo que ela jamais chegaria a conhecer, retratado em versos cheios de significados e significância. Estar em Nápoles era ter inúmeros tesouros literários e artísticos de Virgílio ao alcance de seus olhos e ao toque de suas mãos, mas nada a fascinava tanto quanto saber que ele estivera ali, naquela mesma cidade e que andara, não pelas mesmas ruas, mas pelos mesmos caminhos que ela andava agora.
Não sabia o que aquela viagem ainda reservava para ela, mas fosse o que fosse, teria sempre Virgílio a agradecer.
***

mal conseguia conter a ansiedade enquanto pilotava sua vespa até o Parco Vergiliano a Piedigrotta. Estava planejando levar ao local desde que ela lhe contara que estudava Virgílio. O poeta era como um protetor da cidade, um mago cujo feitiço acreditava-se ainda pairar sobre Nápoles. Havia traços e vestígios dele e de sua obra por toda a cidade e arredores, mas o parque era especial.
Estacionou a motocicleta, sentindo a ansiedade crescer, e entrelaçou seus dedos aos dela enquanto a guiava pelo lugar. parou para admirar a vista panorâmica de Nápoles, mas ele puxou gentilmente sua mão.
— Tem uma coisa que eu quero te mostrar.
Caminharam de mãos dadas pelos corredores da Crypta Neapolitana e, quando chegaram ao local, soltou delicadamente a mão dela e se afastou alguns passos. Deixou que ela entendesse por si só o que era aquele lugar, ou melhor, o que havia ali.
olhou para a própria mão, agora fria sem a dele. Em seguida olhou para , que sorriu e com a cabeça sinalizou algo à frente dela. Seus olhos seguiram a direção que ele indicava e só então ela o viu. O busto de Virgílio. Aquele busto singelo e com o nariz quebrado era a imagem que primeiro aparecia ao pesquisar o nome do poeta na internet e agora estava ali, à sua frente.
Aproximou-se devagar e, tímida, tocou a pequena escultura. A pedra gelada sob seu toque lhe causou um arrepio, que se intensificou quando seus olhos encontraram, em uma lápide de pedra na parede atrás da imagem, a frase:
HIC.VIRGILIVS.TVMVLVS.EST.
Seu coração perdeu uma batida. Aquela era a tumba de Virgílio. Virou-se para , esperando que ele negasse, mas o sorriso amável no rosto dele lhe dizia que era verdade. Seus olhos se encheram de lágrimas enquanto seu coração batia enlouquecidamente. Se estivesse na companhia de qualquer outra pessoa, teria se preocupado em parecer uma maluca por chorar diante do túmulo de um cara que estava morto há milênios, mas não com . Ele entendia o que estar ali significava para ela.
Estar ali era como voltar no tempo. Podia sentir-se dentro do mundo que tanto estudava e que lhe parecia tão distante. Podia sentir Virgílio por perto. Ali, bem à frente dela, estava o responsável, o ponto de partida e a fagulha inicial de tudo o que estava prestes a viver.
aproximou-se devagar.
— Dizem que ele era meio mágico. — ele falou, a voz quase um sussurro — Faz um pedido.
fechou os olhos e mentalizou seu pedido. Enquanto a observava de olhos fechados, não pôde evitar fazer um pedido também.
*

Caminharam pelo parque e depois se sentaram em um dos bancos do local, admirando a bela vista que tinham do Vesúvio.
— Obrigada. — disse , com um sorriso sincero.
— Que guia turístico eu seria se não trouxesse uma fã de Virgílio à tumba do Virgílio? — encolheu os ombros — Só não é muito romântico, mas...
O resto da frase ficou no ar. As bochechas dele adquiriram um tom levemente rosado e o coração de perdeu mais uma batida, daquela vez por um motivo completamente diferente.
— Para mim é. — ela disse, sentindo borboletas fazerem uma festa em seu estômago e resistindo à vontade de encerrar o espaço entre eles e se aconchegar nos braços de . — Mas, mesmo que não fosse, você me dedicou uma defesa no jogo passado, isso foi bem romântico.
— Eu nem acredito que consegui fazer aquela defesa. — ele balançou a cabeça e riu, desacreditado.
— Eu acredito. — ela olhou nos olhos verdes dele e, quando ficaram intensos demais para ela, piscou, desviando o olhar. — Foi incrível.
tomou a mão dela na sua e ela voltou os olhos para ele outra vez.
— Sabe qual foi a minha parte favorita na sua defesa? — ela perguntou, sorrindo ao se lembrar da jogada.
Ele negou com a cabeça, fazendo um leve carinho na mão dela com o polegar.
— Você não desistiu. Parecia impossível, mas você não desistiu.
Ele abriu um sorriso que fez com que ela se esquecesse do mundo e se aproximou até que seus rostos estivessem a centímetros.
— Eu tinha promessa a cumprir.
tocou os lábios dela com os seus e, mesmo através do beijo, sentiu sorrir. Seu coração bateu mais rápido e os pelos em sua nuca se arrepiaram. Ele não estava se apaixonando, estava completamente apaixonado.
***

Era sexta-feira à noite e comia pipoca enquanto assistia à televisão, ao seu lado, Giulia pintava as unhas. O programa a que assistiam chegou ao fim e ela trocou de canal, procurando algo interessante, até que achou uma partida de futebol.
O jogo já estava no fim, quando o juiz apitou, autorizando a cobrança de escanteio. Chiellini e o goleiro adversário pularam juntos, mirando a bola. Ao invés de disso, no entanto, chocaram-se um contra o outro. O zagueiro apoiou o pé de mau jeito e desabou no chão.
— Meu Deus!
— O que aconteceu? — perguntou Giulia, largando o esmalte para ver o que tinha acontecido.
não precisou responder, o replay da jogada já estampava a tela da televisão em câmera lenta. O choque de Chiellini com o goleiro, o pé apoiado de mau jeito e o tornozelo virado enquanto ele desabava no chão.
— Meu Deus! — Giulia fez uma careta e tampou os olhos quando mostraram mais uma vez a imagem do tornozelo do jogador — Não é à toa que a nonna morre de medo do se machucar.
— Você acha que quebrou?
— O único jeito de não ter quebrado é se o Chiellini for a menina do Exorcista. — disse Giulia.
deixou a pipoca de lado, tinha perdido o apetite, e mudou de canal. Giulia observou a brasileira, debatendo internamente se perguntava ou não aquilo que estava morrendo de curiosidade de saber. O certo seria esperar, deixar que ou seu irmão lhe contassem por conta própria, mas não se aguentava. Precisava saber.
— Você e o meu irmão estão juntos?
levantou a cabeça, os olhos levemente arregalados pela pergunta, e encarou Giulia. Por um lado parecia natural ter aquela conversa com ela, amigas conversavam sobre aquele tipo de coisa o tempo todo. Por outro, no entanto, era um pouco estranho, já que Giulia era irmã do cara em questão. O estranhamento não durou muito, porque logo percebeu que não sabia como responder a pergunta. Ela e estavam juntos?
— Eu... não sei. — disse sincera.
Giulia rolou os olhos.
— Meu irmão é muito lerdo mesmo. — ergueu uma sobrancelha e Giulia encolheu os ombros, de forma semelhante a que fazia quando ficava sem jeito ou sem graça — Vocês ficam fofos juntos. E ele é muito tonto por deixar as coisas no ar ao invés de deixar claro que vocês estão juntos. Que é para valer.
Por um momento se sentiu aterrorizada, não por perceber que estava apaixonada por , mas por se dar conta do quanto queria que aquilo fosse para valer. Seu lado neurótico estava prestes a surtar, mas ela não deu ouvidos aos temores. Lembrou-se da decisão que havia tomado de, pelo menos uma vez na vida, não se preocupar com o futuro, mas, em vez disso, viver o presente. E no presente ela queria estar com . Sua mão parecia mais fria quando não estava entrelaçada à dele e seu coração se aquecia sempre que aqueles olhos verdes olhavam fundo nos dela. Queria muito estar com . Queria demais que fosse para valer. Então outro pensamento a aterrorizou.
— Vai ver ele não quer que seja para valer. — disse mais para si mesma do que para Giulia, sentindo um nó no estômago diante da possibilidade.
Giulia balançou a cabeça e sorriu.
— Não, ele só é meio lerdo mesmo.


Capítulo 8 — Calcanhar de Aquiles

escutou um barulho vindo do computador, largou o que estava fazendo e foi até o aparelho. Sorriu ao ver Duda do outro lado da tela.
— Olá! — disse Duda animada — E aí, quais são as novidades sobre o seu italiano?
— Sério mesmo que eu estou do outro lado do oceano e essa é a primeira coisa que você me pergunta?
— Claro, é a mais importante. Você queria que eu perguntasse sobre o tempo?
— É, ué. Ou sobre mim, sobre o mestrado.
Duda rolou os olhos.
, eu adoro você, mas essas coisas que você estuda são um pé no saco. Então, não, obrigada. É muito mais interessante conversar sobre o seu italiano alto, lindo e gostoso. Aliás, você bem que podia me mostrar uma foto dele, né?
— Primeiro, ele não é meu. Segundo, não tem nada de interessante para contar sobre ele. Terceiro, se você quiser ver uma foto é só jogar o nome dele na internet.
— Por que teriam fotos dele na internet? — Duda franziu o cenho, em seguida arregalou os olhos — Ele é famoso?! Eu juro que vou até Nápoles te bater se você estiver namorando um cara famoso e não me contou!
encolheu os ombros, não mencionara porque constantemente se esquecia daquele fato. era um cara tão normal que era fácil esquecer que ele era um jogar de futebol famoso, na verdade sequer conseguia vê-lo daquele jeito. Via como um jogador profissional, não como uma celebridade. Sabia que ele tinha fãs e entendia, ela mesma se via cada dia mais fã dele como zagueiro, mas era estranho pensar que talvez existissem garotas com a foto dele na parede de seus quartos.
— Eu nã--
— Espera aí, espera aí. — Duda a interrompeu, abrindo a página de pesquisa no navegador — Como é mesmo o nome dele? o quê?
. — respondeu, fechando os olhos em uma careta para não ver a reação da amiga quando descobrisse.
Duda digitou o nome e apertou enter, esperando as imagens carregarem. Uma série de fotos de um rapaz de cabelos cor de chocolate, olhos incrivelmente verdes e um tom de pele oliva pareceram. Deduziu que aquele fosse e confirmou suas suspeitas quando viu uma foto em que ele segurava uma camisa de futebol com seu sobrenome. Pensou que, sendo famoso, ele provavelmente tinha ganhado a camisa de um time qualquer, mas, ao continuar olhando as imagens, percebeu que na maioria delas ele vestia o uniforme do tal time e por fim viu uma foto dele em campo.
— Puta merda! Você está brincando, né?! O cara é jogador de futebol! E você não me contou?! — abriu a boca para se justificar, mas Duda não deixou — Ok, acabei de ver uma foto dele sem camisa e benza Deus! — fez um sinal de positivo com o dedão, arrancando uma risada de — Se eu for para a Itália, eu arranjo um namorado desses para mim?
— Ele não é meu namorado.
Duda arqueou uma sobrancelha. não fazia o tipo ‘relacionamento casual’ e vivia pela regra do ‘antes só do que mal acompanhada’. Estava sempre focada demais em coisas como estudos e carreira para perder tempo com casinhos bobos, por isso Duda não acreditou na resposta.
— Você me conhece. — disse — Eu sou neurótica com tudo, mas estou tentando não ser neurótica com isso. Eu odeio essa frase mais que qualquer coisa, mas vou tentar seguir o clichê do ‘deixa acontecer’. Vamos ver no que dá.
— Quem é você e o que você fez com a minha melhor amiga?
— Eu sei! — riu — Acredite, não está sendo fácil, mas...
Ela não chegou a terminar a frase, mesmo assim Duda entendeu e sorriu.
— Você fica uma graça assim toda apaixonadinha.
fez uma careta e jogou a cabeça para trás dramaticamente.
— É horrível! Eu estou tentando muito não pirar porque eu vou embora logo que virar o ano e é o pior momento possível para eu me apaixonar, mas... Ah, Duda. Ele é tão--
— Gato. — Duda a interrompeu, concordando com a cabeça, como se entendesse perfeitamente o dilema da melhor amiga, e sorriu.
— Eu ia falar fofo, mas justo. Ele é bem gato. E você nem viu ele pessoalmente. Ele tem esses olhos verdes como eu nunca vi e quando ele olha para você... Às vezes eu não consigo nem pensar direito. E você sabe que eu penso até dormindo! Mas quando ele me olha, sei lá... Todo o resto, todas as minhas neuras parecem insignificantes.
Duda apoiou o rosto nas mãos, ouvindo a amiga.
— Oun.
— E ele é todo fofo. — continuou — Ele realmente escuta quando eu começo a tagarelar sobre literatura clássica. Ele me levou na tumba do Virgílio, acredita? Sem contar que é bom finalmente ter alguém com quem conversar sobre futebol, só para variar.
— Já estou shippando muito! Porque, se ele consegue apaziguar as suas neuras e ainda gosta de ouvir você falar sobre essas suas chatices classicistas, ele só pode ser sua alma gêmea!
riu e rolou os olhos.
— Menos. Eu nem sei definir o que nós temos e, por mais que eu não queira pensar nisso agora, eu ainda vou embora em um ano.
— Muita coisa pode acontecer em um ano, muita coisa pode mudar — Duda sorriu.
— Exatamente.
— Tá, agora a pergunta que não quer calar. — Duda juntou as mãos, movendo-as em ansiedade. — Ele torce pelo Barça ou pelo Madrid?
— Barça. — abriu um grande sorriso.
! — Duda riu — Trata de pedir esse homem em casamento agora mesmo! Eu não acredito que você foi para a Itália e como se não abastasse arranjar um italiano gato, você arranjou um italiano gato, rico e que ainda torce pelo mesmo time que você! Mas é muita sorte para uma pessoa só!
***

tinha tido uma semana intensa, era sempre assim quando disputavam mais de uma competição ao mesmo tempo. A sequência de jogos aumentava e a rotina de treinamento também. Era exaustivo, mas ele amava aquilo. Amava a adrenalina da partida e o cansaço pós-jogo.
Naquela semana em particular tinha estado tão cansado que, quando não estava trabalhando, estava dormindo. Finalmente tinha um dia de folga, depois de um jogo difícil fora da cidade, e havia planejado dormir até cansar. Não contara, porém, com o fato de que em poucas horas estaria complemente acordado, descansado e entediado.
Desligou a televisão e observou o teto, pensando no que poderia fazer a seguir. Pensou em correr, mas tinha corrido tanto nos últimos dias que a ideia lhe pareceu menos atrativa do que normalmente pareceria. Levantou-se e foi até a cozinha, comer era sempre uma boa ideia. Ao abrir os armários e a geladeira, entretanto, viu que não tinha muita coisa. Sua melhor opção era comer fora. Pegou as chaves e saiu de casa.
Depois do almoço aproveitou que o tempo não estava muito frio para dar uma volta pela praia e observar o porto. Vez ou outra, alguém o abordava pedindo uma foto ou um autógrafo. Nunca iria se acostumar com aquilo. Levava uma vida tão diferente do estilo ‘jogador de futebol famoso’ — regado a carros esporte, namoradas famosas e festas intermináveis — que era fácil para ele mesmo esquecer que não era só mais um rosto na multidão.
Era um cara sossegado que prezava por uma rotina tranquila e, como o atleta bastante dedicado que era, dormia cedo, não fumava e raramente bebia. Estava longe de desfrutar as regalias que sua popularidade lhe trazia. Uma parte dele ainda se recusava a acreditar e até a aceitar que era mesmo famoso. Odiava aquela palavra, mas era o que ele era. Ainda assim, procurava ser atencioso com todos que o paravam na rua, em especial com as crianças.
Geralmente elas o abordavam tímidas, mas abriam um grande sorriso quando ele se abaixava até a altura delas. Algumas diziam que queriam ser jogadores de futebol no futuro, outras diziam que queriam ser zagueiro como ele. Como ele. Aquelas duas palavras sempre lhe arrancavam um sorriso de orelha a orelha, lembrava-se de quando tinha aquela idade e sonhava em ser igual a seus ídolos, era um tanto mágico pensar que agora ele era o ídolo de alguém.
Antes de voltar para casa, passou no supermercado e fez as compras que necessitava. Depois que guardou tudo, sentou-se novamente no sofá. Olhou o relógio, já era fim de tarde. Sorriu e foi tomar um banho, antes de sair de casa mais vez.
***

A primeira coisa que fez ao chegar em casa foi tomar um banho quente e demorado. Tinha tido aula pela manhã, depois tivera uma longa reunião com sua professora orientadora e ainda tinha ido à biblioteca pegar alguns livros. Na volta tivera que encarar o transporte público lotado pelo horário de pico e uma mala pesando como chumbo por causa de todos os livros que pegara na biblioteca. Merecia aquele banho.
Fechou os olhos, sentindo a água quente bater em sua pele, amortecendo o cansaço e relaxando seus músculos. Quando sentiu o corpo mais leve, se deu por satisfeita. Escolheu o pijama mais confortável que tinha, amarrou o cabelo de qualquer jeito em um coque e foi até a cozinha preparar o jantar. Ela e Giulia jantavam juntas quase todos os dias, mas naquele dia a amiga estava jantando com o noivo, então jantaria assistindo a algum filme repetido na televisão.
Tinha acabado de apagar o fogo de uma das panelas, quando escutou batidas à porta. Pensou que talvez tivesse confundido a data do jantar de Giulia e Luca, mas era mais provável que a própria Giulia tivesse confundido as datas. Riu com o pensamento.
— Eu pensei que... — disse ao abrir a porta, mas não chegou a completar a frase.
— Pensou o quê? — perguntou com um sorriso.
— Pensei que fosse a Giulia. — ela respondeu surpresa.
— Sinto muito, errado.
Ela sorriu, abrindo passagem para ele, mas antes de entrar lhe beijou. Um beijo breve e delicado.
— Eu vim te convidar para jantar, mas acho que você estava indo dormir. Desculpa. — ele disse, vendo que já estava de pijama. Devia ter ligado antes de ir até lá, mas não se importava de ter que voltar para casa. Tinha valido a pena só por vê-la. Ela conseguia ficar ainda mais linda e adorável com aquele pijama xadrez e o cabelo levemente despenteado.
olhou para a própria roupa. Seu pijama mais confortável era também o mais velho e seu cabelo estava em um coque desengonçado no alto da cabeça. Estava uma bagunça. Em seguida olhou para . Ele usava uma camisa preta, com as mangas dobradas na altura do cotovelo e uma calça jeans. Seus cabelos estavam penteados de um jeito diferente e ainda um pouco molhados. Estava básico, mas bem arrumado e ela se sentiu péssima por estar tão desleixada enquanto ele estava tão naturalmente lindo.
— Na verdade eu acabei de preparar o jantar. — ela disse e apontou para as panelas — Então, acho que o mais apropriado seria eu convidar você para jantar.
Um belo sorriso se desenhou no rosto de com o convite. Não queria voltar para casa, não ainda, não tendo passado tão pouco tempo com ela.
— O que eu posso fazer para ajudar? — ele perguntou, indo em direção à cozinha.
— Ahn... Já está tudo pronto, mas você pode colocar a mesa enquanto eu me troco.
— Você vai se trocar? — ele perguntou confuso — Por quê?
— Porque eu estou de pijama?! — riu.
— Mas você está em casa, não precisa se trocar só porque eu te atrapalhei.
olhou para a própria roupa outra vez. Ele já a tinha visto toda desleixada mesmo e não ia conseguir ficar muito melhor em poucos minutos, então acabou voltando para a cozinha.
— Você não me atrapalhou. — ela falou.
Ele colocou a mesa de acordo com as instruções de onde estava cada coisa e depois jantaram. Um jantar tranquilo, embalado por uma conversa cotidiana. Se alguém de fora observasse a cena, diria que os dois eram um casal de longa data.
Quando já tinham acabado de comer, se ofereceu para lavar a louça. Ele lavava enquanto secava e guardava. Entre um assunto e outro, não foi surpresa nenhuma quando começaram a conversar sobre futebol.
— Eu nunca vi um tornozelo virar daquele jeito. — ela disse, fazendo uma careta ao lembrar o incidente de jogo envolvendo Chiellini.
— Foi muito azar cair do jeito que ele caiu. Ele só volta na próxima temporada agora.
Ficaram em silêncio, cada um realizando sua tarefa, até que as palavras de sobre o zagueiro juventino voltaram à mente de .
— Se o Chiellini vai ficar tanto tempo fora, então a seleção italiana vai precisar de outro zagueiro. — ela pensou alto, talvez aquela pudesse ser a chance de provar seu talento e lutar por uma vaga como titular do time nacional.
Por alguns segundos, parou de enxaguar o prato que lavava, tenso com a menção à seleção italiana.
— Pode ser você. — disse , guardando um copo e então virando para olhá-lo.
Ele respirou fundo, tentando ao máximo não se incomodar com o assunto.
— Não serei eu. — disse simplesmente.
Ela franziu o cenho.
— Do jeito que você fala, parece que você não quer ser convocado. É por causa da história com os napolitanos?
— Não. É porque não importa o que eu quero, eu não vou ser convocado. — ele terminou de lavar a última louça e secou a mão. Tudo o que queria era sair dali o mais rápido possível, não queria ter aquela conversa com ninguém, muito menos com .
— Você não sabe. — ela disse inocente, oferecendo-lhe um sorriso encorajador.
Em qualquer outro momento ele teria parado para apreciar aquele doce sorriso e se perder em pensamentos sobre como ela ficava linda sempre que sorria, mas não naquele momento. Naquele momento o pequeno comentário foi o suficiente para fazer com que ele passasse uma das mãos pelos cabelos tão bem penteados em sinal de frustração. Ele sabia, quem não sabia era ela.
— Eu sei. — falou.
— Você é um zagueiro incrível, . Você tem potencial para ser o próximo grande zaguei--
— Você me viu jogar o quê? Três ou quatro vezes? — ele perguntou, sem deixá-la terminar e sem conseguir esconder a irritação ¬— Alguns bons jogos não significam nada.
o olhou, sem entender. Surpresa e confusa com aquela reação inesperada.
— Alguns jogos ruins também não. — ela contestou.
riu sarcástico.
— É aí que você se engana. — falou ¬— Ainda mais quando você é zagueiro. Depois de uma grande partida ninguém fala dos zagueiros. Ninguém se importa, ninguém dá a mínima para a zaga. A menos que a gente faça alguma merda, aí ninguém nunca esquece!
Ele não esperava dizer todas aquelas coisas, mas era bom desabafar, mesmo que fosse injusto descontar sua frustração sobre , uma vez que ela não tinha nada a ver com a situação. Era o oposto, ela estava tentando incentivá-lo, estava dizendo que ele era bom, que tinha potencial, mas aquilo também era parte do problema. Ela tinha tanta certeza de que ele era um zagueiro incrível e de que estava no mesmo nível de alguns dos melhores zagueiros da história, que ele se sentiu sufocando com todas aquelas expectativas que jamais conseguiria atingir. Estava fadado a decepcioná-la. Era melhor fazê-lo agora do que esperar até que as expectativas aumentassem, quando a decepção seria ainda pior.
— Eu não sou o próximo grande zagueiro de nada, eu não estou no mesmo nível do Puyol e de todos os outros zagueiros que você admira. Eu sinto te desapontar, , mas eu não sou esse cara que você criou. Eu não sei quem ele é, mas não sou eu, então, por favor, pare de falar como se fosse.
concordou com a cabeça. Talvez tivesse mesmo criado uma pessoa que não existia, porque aquele não era o gentil e atencioso por quem ela tinha se apaixonado. O outro , o da imaginação dela, jamais seria tão grosso e estúpido sem motivo. Era triste perceber que tinha se enganado tanto.
Ela não respondeu, apenas foi até a porta e a abriu, segurando-a aberta para que ele fosse embora.
— Acho melhor você ir. — falou simplesmente.
Ele olhou para os próprios pés e em seguida olhou para ela, desencostou-se da pia e fez o caminho até a porta. Não trocaram mais nenhuma palavra até que ele já estivesse do lado de fora do apartamento.
. — chamou. Ele se virou e aqueles olhos verdes olharam fundo nos dela — Eu me importo com a zaga.
Ele não teve tempo de responder, porque ela já fechava a porta, deixando-o do lado de fora a encarar a madeira escura.




Continua...



Nota da autora:: Eita. Não deu nem tempo de esses dois virarem um casal real-oficial. O capítulo acabou meio tenso, mas vocês viram que capa linda a fic tem agora? Estou morrendo de amores, nem sei lidar com tanta lindeza. Obrigada, Flávia. <3 <3 <3
Vejo vocês na próxima atualização. <3


Nota da beta: Eita que o negócio ficou meio tenso e não de um jeito bom! Hahahaha Fico feliz que tenha gostado da capa, e no aguardo de mais capítulos!
Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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