Capítulo 1
Aeroportos conhecidos pelo o frio dos corredores, pela correria, malas indo e voltando, despedidas, reencontros, lágrimas, medos e solidão. Nesses últimos anos, eles se tornaram comuns para mim, foram em diversas conexões que conseguia falar com minha família e matar a saudade que sentia de casa, dos abraços da minha mãe, da alegria do meu cachorro, até das intermináveis brigas com meu irmão, eram naqueles momentos que percebia o quanto era bom estar com as pessoas que amamos. Sentada nesta poltrona, presenciei várias representações sobre os sentimentos que estava pensando, ao ver uma mãe correr até seu filho que voltava de um intercâmbio, lágrimas desciam pelo o rosto daquela mulher e levada a emoção, meus olhos lacrimejaram. Quando criança, achava que ser famosa era a profissão mais incrível que podia existir, ser reconhecida pelo seu trabalho, ser amada por tantas pessoas, ver olhos brilhando ao receber um abraço era incrível, mas não sabia que haveria um preço a se pagar e ele seria tão alto.
Sempre sonhei com o momento que me tornaria uma artista. Gravava vídeos no quintal da minha casa em São Paulo, todos os dias ensaiava o meu discurso para quando fosse a uma premiação e se alguém me contasse que todos os meus sonhos iam se realizar, eu não acreditaria. Quando fui chamada para a seleção de “Um amor adolescente”, nem acreditei que meu sonho estava prestes a se realizar. Embarquei para Buenos Aires tendo certeza que não voltaria, minha mãe nunca aceitou a minha profissão e não permitiria que sua filha de quinze anos deixasse de estar debaixo de suas asas para morar com o seu pai em outro país.
No dia cantei lindamente e conquistei meu espaço no mundo. Sempre fui conhecida pela minha delicadeza e simpatia, sempre tratava meus fãs com muito amor e carinho, mas ao passar dos anos aquela rotina monótona foi deixando todos os integrantes desgastados. Foram anos de trabalho árduo, nunca achei que meu sonho iria se tornar um pesadelo, dias sem dormir, turnês intermináveis, brigas, choros e principalmente a solidão. Para todos, o elenco era conhecido pela amizade, cumplicidade e união, mas com o passar dos anos começamos a nos estranhar, e não aguentávamos as diferenças um do outro e assim começaram as mentiras e as falsidades. Todos os dias nos bastidores brigávamos pelas coisas mais fúteis e sabíamos que não duraríamos muito tempo.
Na última temporada desenvolvi a depressão, que tirou toda a minha alegria. Já não conseguia passar emoção nas minhas falas, não tinha mais vontade de cantar, e, por ser protagonista, os produtores me cobravam muito. Eu não poderia falhar, tinha que ser exemplo para dezenas de crianças e adolescentes. O meu primeiro erro foi aos dezesseis anos ao fazer uma tatuagem no pulso direito com a frase que sempre me acompanhou: “All you need is love” (Tudo o que necessita é amor). Assim que divulguei em meu Instagram, os produtores da série me ligaram e me criticaram. Eu já imaginava o bombeamento que levaria, porque a filosofia deles era exibir jovens “perfeitos” e prontos para listarem “as coisas boas da vida”, e para não ser desligada da série tive que apagar a foto e comunicar a meus fãs que aquilo era somente uma brincadeira. Em todas as gravações eu tinha que parar para retocar a maquiagem que cobria a tattoo, meus colegas de trabalho já estavam cansados das interrupções e isso estava causando um desconforto. Para eles, eu tinha privilégios por ser a principal e começaram a se afastar, os únicos que sempre me entenderam foram Carol e Jorge, que se tornaram meus melhores amigos e estamos juntos até o momento.
Fui despertada dos meus pensamentos com diversas crianças ao meu redor com celulares pedindo fotos, achei que estava com meu melhor disfarce e tinha falhado. Não estava nos meus melhores dias e ter que fingir sobre estar bem era um saco. Tirei fotos, abracei, fui simpática e reparei que tinha uma menina ao meu lado me olhando e conversando com sua amiga, me aproximei achando que ela queria um abraço e acabei ouvindo o que elas estavam falando:
- Deve ser frustrante para ela ver seus colegas de elenco em outros trabalhos e ela que era a principal jogada de escanteio — Esse sempre foi meu medo, ser reconhecida para sempre como a menina que fez a tal personagem. Agora entendo o que diversas atrizes se sentiam. Eu juro que tentei trazer conteúdo aos meus fãs e, talvez, colocar na cabeça deles que meu nome era Marina. Entrei em contato com diversas gravadoras e nenhuma estava interessada no meu trabalho, e isso foi me deixando mal. Todos os integrantes já estavam com contratos assinados, participando de programas de tv e sempre me perguntava o que havia de errado comigo. E automaticamente meus pensamentos foram transferidos para o último show da turnê de despedida do elenco, que também pode ser chamado de: o pior dia da minha vida.
1 de novembro de 2015. Nice, França
“ — Mãe, acabamos de chegar no hotel. Vou fazer o check-in e já te retorno, pode ser? — a minha mãe não parava de tagarelar, dizendo que faltava pouco para nos vermos e eu mal sabia como contar que ainda ficaria mais um ano em Buenos Aires para ver se receberia alguma proposta. Ela estava tão animada com a minha volta e não queria decepcionar — Dona Silvia, a senhora é muito desconfiada. Eu não estou te escondendo nada, eu realmente preciso desligar. Eu juro que te ligo assim que tirar um cochilo, eu não dormi nada no voo. Também te amo. Tchau.
Minha mãe conseguia me decifrar como ninguém, sabia quando as coisas não estavam bem ou quando eu inventava de mentir. Sempre achei que ela tinha uma bola de cristal em casa, mas depois entendi que é intuição de mãe. Sempre foi muito cuidadosa com os filhos e por isso não aceitou o fato de eu ir morar em outro país, conhecer outras pessoas, e principalmente compartilhar momentos com meu pai. Ela nunca aceitou a minha aproximação com ele, sempre dizia que estava a traindo, mas eu não tinha culpa de amar meu pai, mesmo que os dois não estavam juntos. Depois de muita insistência, ela me deixou voar e hoje ela diz que agradece ao meu pai por ter aberto seus olhos.
Com muita felicidade, entro no meu quarto e descanso o meu corpo, mas me assusto ao ouvir batidas desesperadas direcionadas à minha porta. Corri e do outro lado encontro Carol ofegante parecendo que tinha corrido uma maratona.
— Menina, o que aconteceu? Por que está tão ofegante? – E o olhar de pena estava ali. Seus olhos já estavam marejados e logo me abraçou — Carol, você está me assustando!
Ela entrou no meu quarto e pediu para escutar tudo que ela tinha a dizer, para me acalmar e que tudo iria melhorar. Reforçou que eu era forte, mas na altura do momento eu já estava nervosa e com uma sensação ruim no meu coração. Aos poucos ela foi recuperando o fôlego e começou a falar:
— Mari, você chegou a abrir seu Instagram nos últimos quarenta minutos?
— Claro que não, Carol. Estou sem carga. Assim que falei com a minha mãe, ele descarregou e fiquei com preguiça. Mas, o que aconteceu para você vir correndo desse jeito e com essas palavras? Parece que alguém morreu.
— Marina, é difícil falar isso… Mas, o Pablo foi visto aos beijos com a Danielle, no Maison de La Truffe* — minha cabeça começou a doer, minha respiração começou a ficar pesada e já não estava mais segurando o choro. — Fica calma, pelo amor de Deus! Eu achava que você já sabia, por isso vim correndo para te ver.
— Carol, por favor, me deixe ver essa maldita foto!!! Eu não acredito que esse filho da puta fez isso comigo! Três anos juntos, TRÊS ANOS! — Carol abriu o Instagram e a foto estava em todos os perfis de fofoca, e eu só reparei nos olhares apaixonados, da forma que ele a olhava, como se tivesse conquistando o seu amor de anos. — Você está vendo essas trocas de olhares? Ele sempre disse que eu era louca de imaginar coisas entre os dois, as minhas crises de ciúmes não eram em vão. Eu não estava maluca coisa nenhuma.
Neste momento, o celular de Carol tocou e vi no visor o nome de Jorge. Ela atendeu e coloquei o meu para carregar. Eu já imaginava como estariam minhas redes sociais, milhares de mensagens, menções no twitter, comentários em minhas fotos, ligações de todos os meus amigos. Quando decidi me entregar para Pablo, ele prometeu que nunca me magoaria e quando as coisas começassem a ficarem frias, iriamos sentar e tentar resolver a situação, mas, pelo o jeito, ele decidiu continuar a relação e engatar um novo romance escondido. Carol me avisou que teria que ir resolver algumas coisas e pediu para que eu ficasse bem, me abraçou e saiu olhando pra trás. O aparelho que estava em minhas mãos já tinha dado sinal de vida, e não parava de chegar notificações. Tinha ligações da minha família e várias perdidas de Pablo. A última coisa que queria era ouvir a voz dele. Resolvi não responder a ninguém e insisti em abrir o twitter, mesmo sabendo que meu nome deveria estar nos assuntos mais falados do momento. Li alguns tweets que foram como facadas em meu coração, mas o que me chamou atenção foi uma matéria de uma revista local da argentina contando com todos os detalhes o envolvimento deles. Parecia que eu gostava de me machucar, poderia deixar passar, mas já era tarde, minha curiosidade foi maior.
TUDO AQUI NA SUA CENTRAL DE NOTICIAS
Durante alguns meses pudemos ver o distanciamento de Marina e Pablo, eles não estavam tão conectados nos stories como antes, e havia pouco envolvimento em praticamente em todas as redes sociais. O casal queridinho da américa do sul estava se desfazendo aos poucos e com certeza venho com a foto bombástica de Pablo e Danielle, companheira de elenco de Marina, aos beijos hoje em um dos restaurantes mais influentes da França. Os olhares apaixonados desse quase novo casal eram mui calientes e pareciam que estavam se curtindo muito.
Quem não deve estar curtindo muito é Marina que, para quem não sabe, protagonizou várias brigas com Danielle nos bastidores pelo seu ciúme excessivo, e já foi ameaçada de ser desligada das gravações e parece que a princesinha ciumenta de Buenos Aires estava certa.
Nosso público tem várias perguntas: há quanto tempo eles estão juntos? Como Marina se sente sendo trocada pela sua maior inimiga? Já tentaram imaginar como estará o clima hoje nos bastidores do último show? Pegando fogo!!!
*A coluna tentou contato com as assessorias de ambas as partes e não houve respostas.
Minha vontade era de tacar o celular na parede, gritar, arrancar meus cabelos. Não me conformava com isso. Por que ele não acabou com a droga desse relacionamento, já que ele não estava feliz? Eu não imaginei passar por algo parecido e a dor é tão forte. Liguei para minha mãe para avisar que tudo estava bem e resolvi dormir. Dali algumas horas teria que encarar uma arena lotada de fãs.
O anúncio de um voo me tira dos meus pensamentos e ainda estou focada na conversa daquelas meninas. Não sei se algum dia estaria liberta desse pesadelo. Já fazia meses que tentava me recuperar daquele mal e ver que ainda não tinha superado machucava muito.
— Amiga, eu até entendo ela — a menina ruiva começou a falar — Não deve ser nada fácil encarar uma situação dessa. Ela foi traída pelo namorado no dia mais importante da vida dela. Era o encerramento de um ciclo e o babaca faz isso? A gente só vai entender quando passarmos por algo parecido e não cabe a nós julgar.
Lembro como se fosse hoje a pressão que foi para entrar naquele show. Recebi ligações em todo o momento da imprensa, querendo marcar entrevistas; directs de milhares de fãs pedindo para eu não desistir da música e outros com palavras tão baixas desejando o meu sofrimento.
Seja forte, respire, você consegue...
Essas eram as palavras que estavam na minha cabeça durante todo o caminho para o show. Entrei pela porta dos fundos, para não ser reconhecida, e dei de cara com Danielle, com um sorrisinho cínico nos lábios, esperando que eu falasse alguma coisa. Simplesmente virei a cara e passei reto. O que mais odiava era olhares de pena para mim, não precisava disso. Eu estava a todo o momento tentando ser forte e não borrar a maquiagem. Eu recebi a opção de não fazer o show e recusei, isso daria mais repercussão e não queria. Engoli e entrei no palco como se nada tivesse acontecido comigo. Aliás, ali não era eu e sim, a Isabella.
A música de encerramento era a abertura da série, mas a produção fez diferente, deixou que eu cantasse alguma música autoral e eu, por um momento, achei que não seria justo com os outros integrantes, que daria mais motivos para eles me odiarem. Só que eu não estava mais ligando, era meu último show, última vez vestida como a minha personagem, última vez que esconderia seus sentimentos, minhas vontades e não hesitei em passar por cima de todas aquelas pessoas e fazer o que foi me passado.
— Pessoal, chegamos ao fim do show e quero agradecer vocês por nos acompanhar durante todos esses anos, por crescer juntamente conosco, foram momentos incríveis que serão guardados em nossos corações. E como todo fim de show cantamos a abertura da série, hoje iremos mudar um pouco o roteiro, vou apresentar a minha primeira música autoral e ela se chama illicit affairs. Espero que gostem.
Ao ouvir os acordes, os meus olhos lacrimejarem. Aquela música havia sido composta em umas das minhas discussões com Pablo e, em todas elas, o motivo era a Danielle. Eu nunca aceitei a aproximação deles, ele dizia que o sentimento entre eles era de irmãos, que se davam muito bem. Neste dia ele saiu chutando a porta do nosso apartamento, dizendo que não dava mais para aguentar os meus surtos, que eu era muito insegura e chegaria o dia que eu iria perdê-lo.
Hood over your head, keep your eyes down/ Capuz sobre a cabeça, mantenha os olhos baixos
Tell your friends you’re out for a run/ Diga a seus amigos que você saiu para correr
You’ll be flushed when you return/ Você vai estar corada quando voltar
Take the road less traveled by/ Pegue a estrada menos movimentada
Tell yourself you can always stop/ Diga a si mesma que você pode parar quando quiser
What started in beautiful rooms/ O que começou em quartos bonitos
Ends with meetings in parking lots/ Termina com encontros em estacionamentos
Eu ainda estava segurando as minhas lágrimas. Não queria me sentir tão vulnerável, eu não queria chorar na frente dos meus fãs e muito menos na frente das pessoas responsáveis por isso. Olhava para aquela multidão e parecia que elas estavam me entendendo. Era tão difícil me sentir forte naquele momento, encarar tudo com a maior naturalidade.
And clandestine meetings and longing stares/E em reuniões clandestinas e olhares ansiosos
It's born from just one single glance/Eles nascem de apenas um olhar
But it dies and it dies and it dies/Mas morrem e morrem e morrem
A million little times/Um milhão de pequenas vezes
Quando chegou na parte mais forte da música, olhei para o backstage, lá estava o principal motivo dessa canção, o cara que foi meu primeiro namorado, meu primeiro beijo, minha primeira transa, só que nunca imaginei que seria ele o primeiro a me destruir.
You showed me colors you know I can't see with anyone else/Você me mostrou cores que você sabe que não posso ver com mais ninguém
Don't call me kid, don't call me baby/Não me chame de criança, não me chame de bebê
Look at this idiotic fool that you made me/ Olhe para essa patética imbecil em que você me transformou
You taught me a secret language I can't speak with anyone else/Você me ensinou uma linguagem secreta que não consigo conversar com mais ninguém
And you know damn well/E você sabe muito bem
For you, I would ruin myself/Que por você, eu me arruinaria
A million little times/Um milhão de pequenas vezes
Me permiti chorar tudo que não havia chorado durante esses anos, ali naquele palco. Era a última vez, a última vez que eu deixaria de ser quem sou, estava livre para cantar a minha música, usar minhas roupas, pintar meu cabelo, mostrar minhas tatuagens e principalmente livre de um relacionamento que não me agregava em nada.”
Ao abrir meus olhos, as crianças e aquelas meninas já não estavam lá e meu voo já estava sendo anunciado. Precisava deixar aquele país e me reencontrar, entender o que eu queria e principalmente cuidar da minha carreira. À caminho do embarque, meu celular começa a vibrar e um número desconhecido aparece em minha tela e, sem hesitar, atendo:
- Marina?
Capítulo 2
Eu amava sobrevoar entre as nuvens, encostar a cabeça na janela e deixar a mente viajar, imaginando o que acontecia lá embaixo: o que as pessoas pensavam, se estavam felizes. Costumava fazer isso com Carol em nossas viagens; ela sempre foi meu refúgio ao longo desses anos, e eu tinha muito medo de perdê-la. Quando fui escolhida para interpretar Isabella na série, receei não fazer amizades, mas logo no primeiro encontro com o elenco, nos aproximamos – e, de quebra, ainda ganhei a companhia de Jorge.
Sempre fomos unidos, compartilhamos muitos momentos, desde a nossa primeira cena até a compra do apartamento. Eles se tornaram a minha família. Mas, com a chegada de Pablo, tudo mudou e acabamos nos distanciando. Eu estava tão envolvida no relacionamento que ele conseguiu manipular minha mente, me fazendo esquecer todos os momentos incríveis que vivi ao lado dos meus amigos.
Ainda estava pensando na ligação que recebi antes de embarcar. Senti um certo medo ao atender, sem saber quem estava do outro lado. Ao ouvir a voz de um homem que se identificou como Rafael, diretor da grande gravadora Music Fest, meu coração disparou. Parecia obra do destino. Ele me informou que tinha uma proposta para mim. Expliquei que estava prestes a embarcar e prometi retornar assim que chegasse ao destino.
Perdida em meus pensamentos, fui surpreendida pela voz da aeromoça, avisando que havíamos pousado em São Paulo. Meu coração se encheu de alegria e esperança. Finalmente, eu estaria com minha família. Sentia que tudo iria melhorar e que, de algum modo, eu me reencontraria.
Conversei com minha família sobre manter minha chegada em sigilo, sem anúncios ou notícias em sites. Queria chegar em paz, sem perguntas ou fotos que capturassem meu verdadeiro estado. Faz cinco meses que desativei as minhas redes sociais e, nesse turbilhão, acabei perdendo alguns traços que eram tão meus. Estava bastante diferente e não queria que essa imagem se espalhasse.
Mas, como nem tudo é simples, assim que passei pela porta principal do aeroporto de Guarulhos, fui recebida por uma explosão de flashes e perguntas. Os fotógrafos hesitaram por um instante, capturando minha imagem como se não acreditassem no que viam. Ouvi murmúrios entre os fãs – alguns de surpresa, outros de preocupação. Olhares de espanto se cruzavam, me analisando em silêncio, quase me despindo com a curiosidade no olhar. A sensação de vulnerabilidade cresceu dentro de mim, e tudo o que eu queria era atravessar aquela multidão e desaparecer dali.
— Você está bem? — perguntou uma repórter, com o microfone empurrado perto demais do meu rosto, como se quisesse registrar qualquer expressão.
— O que aconteceu com você nesse tempo fora? — gritou outro jornalista, a voz carregada de uma curiosidade quase invasiva.
Um fotógrafo deu um passo à frente, examinando-me com olhos curiosos, enquanto mais uma voz surgia por trás:
— É verdade que você estava em uma clínica de reabilitação?
— Ainda está assim por causa do Pablo? Isso explica seu sumiço? — provocou alguém do meio da multidão, com um olhar malicioso.
Eu tentava desviar e me manter firme, mas as perguntas continuavam, se intensificando com cada resposta que eu deixava sem dar.
— Perdeu peso de propósito? É alguma preparação para um papel?
— Os fãs estão preocupados! Você vai se pronunciar sobre o que está acontecendo?
— Quando volta para as redes sociais? Tem gente achando que você está escondendo alguma coisa!
Cada pergunta parecia mais direta, mais incisiva. Sentia o peso dos olhares curiosos e dos flashes, cada um deles capturando essa minha versão mais vulnerável. Meu coração acelerava, e eu sentia o calor subir ao rosto. Tudo o que eu queria naquele momento era que se abrissem caminho e eu pudesse escapar dali.
Senti alguém puxar meu braço, e o medo tomou conta de mim. Mas, ao reconhecer o rosto da mulher por quem eu morria de saudades, relaxei. Minha mãe me envolveu num abraço, e eu não me sentia tão acolhida há tempos. Saímos em direção ao táxi que nos levaria para casa.
— Mãe, como eles souberam que eu estava aqui? — perguntei, ainda confusa e frustrada. Eu tinha sido tão cuidadosa… Só queria chegar em paz.
Minha mãe olhou pela janela, mas o aperto no queixo mostrava que ela segurava as palavras — até que não aguentou mais.
— Marina, você se expôs demais. Se não tivesse feito questão de ser atriz, se não tivesse insistido em ir para Buenos Aires… — Ela suspirou, passando a mão pelos cabelos. — Sabe, as coisas não precisavam estar assim.
Eu respirei fundo, sentindo a raiva subir. Era sempre a mesma conversa, sempre a mesma implicância com as minhas escolhas.
— Mãe, eu não “insisti.” Era a minha carreira, minha chance. Você acha que tudo isso foi fácil pra mim? — murmurei, tentando conter as lágrimas e a frustração.
Ela balançou a cabeça, sem olhar para mim, como se estivesse buscando paciência.
— Eu sei que não foi fácil, mas olha onde estamos agora. Você voltou… Sozinha, sem empresário, com toda essa exposição e sem ninguém para te apoiar. Eu só queria que tivesse me escutado, Marina. — Sua voz falhava, mas eu sabia que não era tristeza — era desapontamento, e aquilo doía mais que qualquer coisa.
— Escutado o quê? Que eu devia ter desistido? Que devia ter ficado aqui, feito o que você queria? — Minha voz era quase um sussurro, carregada de amargura.
Ela me olhou finalmente, os olhos sérios e cansados.
— Só queria que tivesse pensado nas consequências, que tivesse sido mais realista, só isso.
Ficamos em silêncio novamente, cada uma com o peso das próprias mágoas, enquanto o táxi avançava pela cidade que agora parecia tão estranha.
Minha mãe respirou fundo e virou-se para mim, suavizando a expressão. Havia algo calculado na mudança de tom, como se quisesse ajustar a narrativa para si mesma.
— Marina, eu… eu só quero o seu bem, sempre quis. É que às vezes você age como se eu fosse contra você, como se eu não te amasse. Isso não é justo. — Ela estendeu a mão para segurar a minha, mas eu hesitei.
— Mãe, eu sei que você se preocupa, mas… — comecei, buscando as palavras.
— Não, deixa eu falar. — Ela apertou minha mão com um toque mais firme do que confortável. — Você não entende o que eu senti quando você foi embora. Você me deixou aqui, sozinha, para ir atrás do seu pai, para viver essa “carreira” que você mal conhecia. Eu só queria que pensasse um pouco em mim também, sabe? Afinal, quem sempre esteve aqui fui eu, não ele.
Eu queria me afastar, mas ela parecia me prender com o olhar.
— Eu… eu sinto muito, tá? Talvez eu tenha falado demais agora há pouco. Mas, Marina, é só que… eu não aguentaria ver você se machucando desse jeito, como se fosse um erro. Eu sempre amei você, mais do que tudo. E, talvez, eu tenha o direito de sentir que você deveria ter pensado mais em como eu ficaria, aqui. — Ela suspirou, suavizando a voz num tom quase arrependido. — Me desculpe, eu sei que às vezes posso parecer dura. Mas, tudo isso é por amor, entende?
As palavras ecoavam estranhamente vazias, como uma desculpa que não chegava realmente a lugar algum, e eu não sabia ao certo se era culpa ou arrependimento verdadeiro. Senti um aperto no peito, uma mistura de afeto e exaustão.
— Mãe… — sussurrei, sem saber ao certo o que dizer.
Ela deu um leve sorriso e afagou minha mão, mas seu toque parecia mais um lembrete silencioso do controle que sempre tentava manter.
— Viu? Eu só queria que você entendesse que sempre estive do seu lado, mesmo quando você não vê. Eu sempre vou querer o melhor pra você.
Ficamos ali, presas no que parecia ser o mesmo jogo de sempre: desculpas meio-ditas, um pedido de compreensão que só ela nunca oferecia em troca.
Permaneci calada o caminho inteiro; é difícil debater com minha mãe. Sei que errei ao tirar aquelas fotos. Sempre fui ativa nas redes sociais, adorava compartilhar minhas histórias com meus fãs, mas depois que tudo virou de ponta cabeça, decidi dar um tempo e desativei tudo. Esses meses foram desafiadores demais; estar sem apoio emocional foi o pior para mim. Meus amigos seguiram seus próprios caminhos, e fiquei sozinha. Meu pai tentou ser o mais próximo possível, sempre ao meu lado, me dando conselhos, dizendo que eu era forte. Quando decidi voltar ao Brasil, ele ficou chateado, mas entendeu que estar perto da minha mãe e de Noah era o melhor para mim.
Olhei pela janela e avistei a avenida do condomínio onde morávamos. Nunca fui fã de cidades grandes, e meu caso com São Paulo era complicado. O trânsito intenso, que me fazia chegar atrasada a todos os compromissos, sempre me deixava maluca. Nosso bairro já estava próximo, então pedi que minha mãe informasse ao taxista que não precisaria entrar no condomínio pois queria dar uma pequena volta.
Ao sair do carro, senti o vento frio nas bochechas e vi o céu cinzento que já anunciava a chegada da chuva. Depois de uma breve caminhada, paramos em frente ao portão do condomínio e fomos recebidas pelo nosso querido porteiro, João. Ele perguntou como foi a viagem e me desejou boas-vindas. Agradeci pelo carinho e continuei andando pelo pequeno jardim, ansiosa para ver Noah e meu cachorro, a ponto de quase esquecer o quanto nossa casa era longe.
Quando chegamos à fachada da nossa casa, minha mãe foi à frente para abrir a porta. Assim que passei por ela, tomei um susto.
— SURPRESAAAAAAA! — Eu não consegui assimilar nada. Toda a minha família estava lá, e meus olhos se encheram de lágrimas. Corri para abraçá-los. Consegui ouvir os latidos desesperados de Dexter e fui ao seu encontro. Ele não sabia se lambia meu rosto ou pulava de alegria. Meu irmão estava logo atrás de mim, ansioso para me abraçar, e eu mal podia esperar para agarrá-lo.
Noah e eu brigávamos muito antes da minha partida para a Argentina. Sempre disse que não sentiria sua falta, que estaria livre das chatices dele. Mas, agora, aquele momento me fazia perceber o quanto eu realmente sentia falta dele.
— Noah, como estão as coisas? Nunca pensei que morreria de saudades de você. Quebrei a cara assim que pisei em solo argentino e me arrependi de não ter te levado comigo.
— Marina, eu sei que sou maravilhoso e incrível — ele respondeu, com aquele tom convencido que eu tinha esquecido. — Mas, também senti sua falta todos os dias. Não sei como consegui ficar sem minha companheira de filmes e risadas.
O abracei com força, meu coração se aquecendo. Eu sentia uma conexão única com ele, e suas palavras sempre me faziam sorrir.
— Você parece diferente — ele comentou, a preocupação evidente em seus olhos. — O caminho do aeroporto até aqui foi tranquilo?
— Nada é melhor do que estar com você — respondi, a sinceridade transparecendo em minha voz. — O que aconteceu antes ficou no passado. Estou pronta para recomeçar, e quero fazer isso ao seu lado.
Ele sorriu, aliviado, e eu soube que, com ele ao meu lado, eu poderia enfrentar qualquer desafio. Noah sempre foi meu porto seguro, o que me lembrava de quem eu realmente era, mesmo nas tempestades da vida.
A tarde foi muito agradável; ri bastante com minha família. Minhas tias comentaram sobre minhas turnês e meu talento, e relembramos diversos acontecimentos da infância — meu amor por cantar, minhas travessuras. Era muito bom estar em casa, cercada pelo calor familiar e pelas lembranças nostálgicas que aqueciam meu coração.
No entanto, à medida que as horas passavam e as pessoas foram se dispersando, uma leve inquietação começou a me incomodar. Quando percebi que só estávamos eu e Noah, a ausência da minha mãe se fez mais presente. A falta dela no ambiente, que antes parecia vibrante, me deixou encucada. O que teria acontecido? Eu sabia que nossa relação estava delicada, mas gostaria que ela estivesse ali, compartilhando aqueles momentos.
Decidimos preparar um jantar, apenas nós três: eu, Noah e Dexter. Fiquei encarregada de fazer uma massa incrível que aprendi na Itália, enquanto Noah foi em busca do melhor vinho na nossa adega. A cozinha, com seu aroma de alho e manjericão, começou a criar um clima acolhedor que aos poucos me acalmava.
Assim que finalizei o prato, sentamos à mesa e, enquanto Noah começava a gravar um storie do Dexter, que estava sentado à mesa com seu olhar curioso, eu apareci na cena e fiz uma graça. Imediatamente, seu olhar se voltou para mim, e aquela conexão espontânea me fez sorrir.
Naquele momento, percebi que, apesar das incertezas e da ausência da minha mãe, ali, com Noah e Dexter, eu tinha um pedaço da felicidade que tanto buscava. A risada e a leveza do momento ajudaram a suavizar a preocupação que pesava em meu peito, mesmo que por um breve instante.
— Marina, posso postar? — Noah sorrindo perguntou e logo comecei a suar. Talvez este fosse o momento de me expor, abraçando uma nova fase; eu precisava lidar com as críticas e recuperar minha liberdade.
— Claro! Pensei muito sobre isso e é a hora de florescer novamente. Não sei quais serão as consequências, mas estou pronta para enfrentá-las.
— Já que você vai aparecer, por que não ativa seu Instagram e volta a postar seus vídeos? Pode ser que uma grande gravadora se interesse pelo seu trabalho e queira te contratar.
Com a chegada ao Brasil, acabei me esquecendo da ligação do diretor da gravadora. Estava tão entretida com a surpresa da minha família e o jantar com Noah que deixei isso passar.
— A propósito, onde está a mamãe? — perguntei, olhando ao redor.
Noah hesitou, baixando um pouco a cabeça, como se estivesse relutante em responder.
— Ela… está namorando.
— Namorando? — minha voz saiu mais alta do que eu pretendia. — Por que você está tão nervoso em dizer isso?
— É complicado, Marina. Logo, logo você vai entender — ele respondeu, com um olhar que misturava medo e anseio.
— Sobre a gravadora — comecei a dizer para mudar de assunto —, antes de embarcar, recebi uma ligação do diretor da Music Fest querendo marcar uma reunião comigo para falar sobre uma proposta. E sabe o que eu achei mais incrível? Minutos antes da ligação, eu disse que precisava me reencontrar e focar na minha carreira, e de repente veio esse sinal.
— Sabe, Marina, eu nunca acreditei quando a mamãe disse que você tinha desistido da sua música. Não aceitava que seu sonho estivesse sendo destruído por um cara. Naquele dia, eu ia atrás de você, mas fui impedido. A minha vontade era socar ele para mostrar o quanto ele foi idiota em te magoar. E, porra, você foi tão forte! Aguentou cada minuto naquele palco como se nada tivesse te abalado; você sorria como uma criança e se entregava em todas as performances. Ter você aqui agora é muito importante. Ver esse sorriso no seu rosto… Eu te amo tanto, maninha, e sempre estarei aqui para te proteger.
— Eu te amo muito, Noah, e fico tão feliz de ter um irmão tão especial como você. E eu juro que ficaria aqui elevando o seu ego, mas preciso muito dormir e colocar minhas ideias no lugar. — Antes de sair da sala de jantar, virei-me e disse — Avise ao mundo que Marina Castillo voltou para o Instagram.
Ele apenas piscou, e eu fui para o quarto.
Com o barulho do liquidificador, eu acordei e olho para o relógio: eram onze e meia da manhã. Eu me impressionava com minha capacidade de acordar com o mínimo de barulho. Tentei me virar de lado e me deparei com Dexter dormindo tranquilamente. Ri baixinho e tirei uma foto dele. Levantei, calcei minhas pantufas e fui até a varanda. Um caderno estava empoleirado na minha mesa de composição, e eu percebi que havia esquecido como aquele lugar me inspirou a compor músicas.
Sentei na cadeira e comecei a observar o cenário ao meu redor: o céu azul, o sol brilhando intensamente e o barulho dos carros na rua. A lembrança da ligação da gravadora voltou à minha mente, e um nó se formou em meu estômago. Não conseguia entender por que sentia tanto medo. Tudo o que eu desejava era cantar novamente, compartilhar meu trabalho com o mundo. Por que deixava aquela oportunidade passar diante dos meus olhos? Seria o medo de levar outra rasteira ou a apreensão de que não gostassem da minha música que estava se sobrepondo à minha fé?
Visualizei o número de Rafael diversas vezes, mas não conseguia fazer a chamada. Após muita insistência, finalmente apertei o botão. No primeiro toque, arrepender-me já parecia inevitável. A ligação estava prestes a cair na caixa postal quando ouvi um “alô” do outro lado.
— Bom dia! Falo com Rafael? — perguntei, ansiosa.
— Oi, Marina! Tudo bem? — a voz dele confirmou minha identidade. — Achei que você não iria me retornar. Estava preparando argumentos para convencê-la a não abandonar essa carreira incrível. Mas, hoje entrei nas minhas redes sociais e vi que você está em todos os sites. Finalmente, Marina Castillo voltou ao show business!
Suas palavras me surpreenderam. Meu nome estava em todos os lugares só porque havia ativado meu Instagram? Não imaginava que isso me traria tanta visibilidade. Fiquei animada ao saber que havia pessoas interessadas na minha volta, mas, ao mesmo tempo, um receio me invadiu: e se tudo não passasse de zombarias sobre meu estado?
Continuei a conversa com Rafael, que me disse que os diretores estavam empolgados com a possibilidade de me ter no time. Ele me propôs um almoço ainda hoje para discutirmos alguns detalhes, e eu aceitei, ainda um pouco insegura, mas animada com a ideia.
Assim que finalizamos a conversa, impulsivamente entrei no meu Instagram e me deparei com inúmeras menções e fotos do aeroporto, além de registros do meu estado atual. A decisão veio rápida: eu precisava fazer uma live para esclarecer a situação. Em menos de cinco minutos, milhares de fãs e haters já estavam conectados, prontos para ouvir meu pronunciamento.
— Queridos fãs — eu pausei, respirando fundo, sentindo a pressão no peito enquanto as lágrimas começavam a escorregar pelo meu rosto. — Durante esses meses, me privei de compartilhar tantos momentos com vocês… Não pensem que fui egoísta. Não, eu nunca quis fazer isso. É só que, como todos sabem, levei uma rasteira muito grande. — Engoli em seco, tentando controlar o choro. A traição do meu ex-namorado me feriu de uma maneira que eu nunca poderia imaginar. Eu fiquei tão perdida, tão confusa, e isso me afetou profundamente.
Senti o apoio de alguns fãs nos comentários, e isso me deu coragem para continuar.
— Deixei de cantar. Deixei de ser eu mesma. A mudança não foi apenas uma fase; foi uma necessidade dolorosa. Eu mudei tanto… e amadureci, mas não da forma que eu queria. Aprendi com muitos dos meus erros, e mesmo assim, a dor da traição me consumiu. Perdi o apetite, e emagreci mais do que deveria. Meus dias se tornaram cinzas e, muitas vezes, eu mal conseguia sair da cama. — As lágrimas começaram a escorregar pelo meu rosto, mas continuei.
— Mas, hoje… hoje eu voltei, sem medo das críticas. Estou pronta para mostrar a vocês a minha música. Eu amo vocês infinitamente! Obrigada por não desistirem de mim, mesmo quando eu mesma perdi a fé em mim. Temos tantas novidades pela frente… e, sinceramente, é tão bom estar de volta.
Beijos!
Encerrei a live e bloqueei meu celular. Fui ao banheiro para fazer minha higiene matinal e, ao olhar para o espelho, percebi o quanto eu estava diferente. Estava magra demais, com olheiras profundas… Era estranho me ver assim. Durante semanas, me culpei pela traição de Pablo, acreditando que não fui o suficiente para ele, que poderia ter mudado algumas atitudes, ter sido mais amorosa ou ter estado ao seu lado em momentos em que me sentia desconfortável. Com o tempo, fui entendendo que, na verdade, ele nunca me amou. Tanto que assumiu o namoro com Danielle no dia seguinte àquele trágico dia.
A raiva que senti ao vê-los dando entrevistas como um casal apaixonado era insuportável. Nunca entendi como não percebi isso antes; durante todos aqueles anos, fui usada. Quando ele não achou mais necessário, simplesmente me deixou.
Foi então que ouvi batidas na porta do banheiro. Ao abrir, encontrei minha mãe com um sorriso largo.
— Bom dia, filha! — Ela me abraçou, cobrindo meu rosto de beijos. — Você não imagina o quanto estou feliz por estar no seu quarto e te ver aqui. Durante todos esses anos, eu entrava aqui e sonhava com o dia em que teria minha princesa de volta.
— Dona Silvia, você fez algum complô com o Noah? — perguntei, tentando aliviar a tensão, mas o sorriso dela se desmanchou um pouco.
— É porque desde que pisei em casa, vocês me fazem chorar com essas lindas declarações. Eu senti muito a sua falta, mamãe. Nos primeiros meses que me mudei, tinha uma vontade enorme de voltar para os seus braços, de receber esse abraço apertado e esses beijos cheios de amor. Mas tudo isso foi bom para meu amadurecimento. Cresci muito e consegui lidar com meus problemas.
— Olha, eu realmente acho que você precisa se cuidar mais. — O tom dela mudou, e eu sabia que algo desconfortável estava vindo. — Percebi que você está muito magra e… diferente. Quando você estava aqui no Brasil, não era assim. Você se descuidou muito durante esse tempo em Buenos Aires, não foi?
Senti meu rosto esquentar. Eu estava ali, tentando me reconectar com minha mãe, e ela trazia à tona o que eu mais temia.
— É, talvez eu tenha mudado um pouco… — tentei responder, mas as palavras ficaram presas na garganta.
— Olha, não estou aqui para te criticar, meu amor — disse ela, a voz ainda cheia de preocupação. — Só estou preocupada, porque quando você voltou, não parecia a mesma. Eu quero que você se sinta bem com você mesma.
— Tudo bem, mamãe. Mas, e você? Está namorando mesmo? — perguntei, com o coração acelerado.
Ela hesitou por um momento, a expressão mudou sutilmente.
— Ah, bem… — começou, desviando o olhar. — Sabe, vamos tomar um café reforçado? O Noah disse que se demorássemos muito, ele ia devorar a mesa.
Enquanto ela mudava de assunto, percebi que não queria falar sobre isso. O desconforto pairava entre nós, como se houvesse mais coisas não ditas.
— Ok, vamos lá. — Eu sorri forçadamente, tentando não deixar a frustração transparecer. — Só… eu só preciso de um tempo para me ajustar.
— Vamos, meu amor — ela disse, já se afastando. — Só quero que você esteja bem.
Ouvindo suas palavras, senti que o amor dela vinha carregado de críticas disfarçadas, e isso me deixava ansiosa. Era um amor que muitas vezes parecia exigir mais do que eu conseguia dar.
Sai correndo em direção à cozinha e me deparei com um banquete enorme no quintal dos fundos, repleto de coisas que eu amava, com lindos girassóis na mesa. Me emocionei ao olhar para a cena e vi os braços de Noah me chamando para um abraço. Fazia apenas um dia que eu tinha voltado, mas já me sentia muito acolhida.
— Vai ficar chorando igual uma boba? — disse Noah, e logo me separei dele, dando-lhe uma cotovelada. — Tá vendo, mãe? Olha como ela retribui o meu carinho! Se soubesse que seria tratado dessa maneira, não teria acordado cedo.
— Noah, não comece com seu drama! Você que começou me chamando de boba! Se não aguenta brincar, não desce pro play. — Ri daquela frase; parecia uma criança de cinco anos falando. — Eu agradeço muito ao senhor maravilha por me dar a honra de tomar café ao seu lado e agradeço também à dona Sílvia pelo amor e dedicação. Amo vocês. Agora, bora tomar café e comer esses belos pãezinhos de queijo!
Enquanto Noah contava sobre seu novo amor, comecei a me sentir privilegiada por estar ali. Minha família sempre foi muito importante para mim; não houve um dia durante esses anos em que não me lembrasse dos momentos únicos que passamos juntos. Mesmo com meu pai ali, me apoiando e me dando carinho, sempre senti que faltava algo. E, apesar de todo o desconforto que minha mãe estava me causando, sentia em seus olhos o brilho por ter seus filhos reunidos.
— Gente, o café está muito bom, mas eu tenho que me arrumar para um almoço. — Minha mãe deu um pulo da cadeira.
— Calma, dona Silvia, quase engasgou com o pão! — brinquei. — Tenho uma reunião marcada com uma gravadora.
Nesse momento, minha mãe se revolta.
— Como assim, Marina? Você realmente acha que pode voltar para a música? Depois de tudo que aconteceu? Você se esqueceu de como foi doloroso para você? — A voz dela tremia, e o tom carregava uma indignação profunda. — Você planejou tudo isso, não é? Sair de Buenos Aires só para voltar com essa história de gravadora? Você não está pensando na sua saúde?
— Mãe, eu só… — tentei intervir, mas as lágrimas começaram a escorregar pelo meu rosto.
— Não me venha com lágrimas, garota! — Ela cruzou os braços, sua expressão era uma mistura de preocupação e frustração. — Você ficou magra demais, se descuidou e agora quer voltar como se nada tivesse acontecido?
— Ei, mãe! — Noah interrompeu, levantando-se da mesa. — Para com isso! A Marina está se reerguendo e fazendo o que ama! Você precisa apoiá-la, não criticá-la. Ninguém planejou essa dor, mas agora ela está tentando seguir em frente. Por que você não consegue ver isso?
— Eu só quero que ela esteja bem! — Minha mãe retrucou, mas Noah não recuou.
— E isso significa deixar de viver os sonhos dela? Você a ama, mas essa forma de se importar está machucando mais do que ajudando!
Eu olhei para Noah, com o coração acelerado, enquanto a tensão pairava no ar. Sentia que ele estava me defendendo, mas o peso das palavras da minha mãe ainda estava presente, me deixando angustiada.
— Se a senhora me deixar falar, né? — Enxuguei as lágrimas. — Faz pouco tempo que estamos conversando. Não sei como ele conseguiu meu número, mas me ligou quando estava embarcando. Hoje, mais cedo, liguei para ele e marquei esse almoço para ouvir a proposta.
— Nossa, que orgulho, minha menina! — Noah disse, aproximando-se de mim e me dando um beijo na testa. — Não sabe o quanto torci por isso. Sabia que sua vinda para cá tinha um propósito.
Retirei-me e minha mãe tentou me seguir. Eu só sabia chorar. Como ela poderia estragar um momento tão incrível como aquele? Já estava enlouquecendo. Tinha acabado de chegar e juro que não imaginava que minha relação com minha mãe era tão complicada. Esses tempos afastaram essa memória dela da minha mente. Enquanto as lágrimas escorriam, comecei a revirar meu guarda-roupa de ponta cabeça, em busca de algo adequado para o almoço. Eu tinha apenas quarenta minutos para estar no Arturito, um dos restaurantes mais chiques de São Paulo.
Depois de muita procura, consegui encontrar uma calça destroyed, um top preto e um coturno. Peguei o carro de Noah emprestado, já que ele estava trabalhando em casa, e segui o GPS para meu destino. Pela primeira vez, o trânsito da cidade não me atrapalhou; cheguei dez minutos adiantada. Fui em direção ao maître, que, com muita educação, me levou à mesa que Rafael havia reservado — um lugar discreto, longe da imprensa e do público, para que não fôssemos interrompidos.
Minhas mãos suavam muito. Eu tive a mesma sensação de quando fiz o teste para a série: meu estômago parecia estar repleto de borboletas. O medo começou a surgir, mas mantive a calma, sabendo que minha mente queria me sabotar. Comecei a digitar uma mensagem para Carol, querendo muito contar a novidade, mas desisti ao ver Rafael chegar.
— Oi, Marina! — nunca imaginei que o diretor fosse tão jovem e bonito. — Me chamo Rafael e sou diretor da Music Fest. Esta é Laís, uma das nossas colaboradoras na empresa e sua futura empresária.
Meus olhos se dirigiram automaticamente para a mulher ao seu lado. Ela tinha cerca de vinte e quatro anos, pele tão clara quanto a neve, olhos verdes e um sorriso que me trouxe uma paz imensa.
— Oi, Rafael! Oi, Laís! Podem se sentar! Como vocês estão? — A ansiedade fazia com que eu falasse de maneira atropelada, como uma gralha.
— Estamos bem — disse Laís, e então continuou: — Marina, você deve estar imaginando o que queremos discutir com você. Esperamos que considere tudo o que temos a dizer antes de tomar qualquer decisão.
Fiquei admirada ao ouvir o que eles propunham. Seria uma volta e tanto aos holofotes, e as condições eram muito boas. Disseram que a gravadora me procurava há muito tempo, mas, com minhas redes sociais desativadas, não conseguiram contato.
— Marina, estamos muito ansiosos para tê-la em nosso time. Acompanhamos todo o seu processo com sua personagem, suas turnês, e você é uma artista completa. Sua voz transmite emoção e adrenalina ao ser ouvida, e é isso que precisamos — Rafael falava com entusiasmo. — Você tem algo a nos dizer ou perguntas sobre nosso plano de carreira?
— Fico lisonjeada pelas palavras gentis e por terem pensado em cada detalhe. Este último ano não foi fácil e pensei muito antes de estar aqui com vocês. Não me sentia preparada para uma volta agora; queria colocar tudo no lugar antes de embarcar novamente nessa loucura que é estar em um palco. Mas, depois de voltar ao Brasil, rever minha família e retornar para meus fãs, percebi que estou pronta para cantar minhas músicas.
Laís prestava atenção nas minhas palavras.
— Meu único questionamento é sobre como devo me portar. Posso mostrar minhas tatuagens, pintar meu cabelo e usar minhas roupas?
Ambos riram da minha cara, e eu não entendia o motivo.
— Claro que você pode, Marina — disse Laís, levantando a manga da sua camisa social para mostrar uma tatuagem de uma linda rosa em seu braço. — Fique tranquila, não iremos te impedir de nada. Porém, teremos que ter cuidado com algumas coisas; não podemos deixar que situações que possam manchar sua imagem ocorram. Então, depois de esclarecermos suas dúvidas e apresentarmos nossas ideias para sua volta, queremos saber se você nos dará o prazer de contar com sua presença em nossa gravadora.
— Eu aceito a proposta! — Eles vibraram, e Rafael pediu o champanhe mais caro da casa. Enquanto Laís me abraçava, dizendo que iríamos dominar o mundo, meu coração estava saltitante. Na empolgação, tirei uma foto com minha empresária, e ali tive a certeza de que viveríamos momentos incríveis juntas.
Já fazia algumas horas que eu tinha chegado em casa. Estava deitada no sofá da sala, tentando assimilar tudo o que tinha acontecido neste dia. Ainda custava a acreditar: agora eu tinha uma gravadora, uma empresária, e estava oficialmente de volta. De repente, senti uma vontade irresistível de mandar uma mensagem para a Carol e compartilhar com ela esse momento incrível que estou vivendo.
Marina: Oi, Carol! Tá ocupada?
Carol: Oi, Mari! Acabei de chegar das gravações. Tá tudo bem?
Marina: Fica tranquila, tá tudo ótimo! Só queria contar uma novidade!!
Carol: Mais novidade? Hoje já tive duas surpresas! Primeiro, seu Instagram reativado, e depois essa foto com uma mulher que eu nunca vi. Vai explicar?
Marina: Olha quem tá com ciúmes haha calma que eu explico! 😆
Marina: O nome dela é Laís... e ela é minha NOVA EMPRESÁRIA!!! 🎉
Mal atendi a chamada de vídeo, e Carol já começou a gritar e correr pelo nosso antigo apartamento. Entre risadas, comecei a contar todos os detalhes – desde a primeira mensagem até o encontro com a gravadora. Quando terminei, vi que os olhos dela estavam cheios de lágrimas.
— Carol, nem começa a chorar! Eu já não tenho mais lágrimas pra gastar! – sabia bem o que ela estava sentindo. Ela ficou ao meu lado nas primeiras semanas de tudo, mesmo se sentindo culpada por ter que seguir seus próprios sonhos.
— Amiga, isso é incrível! Você merece demais esse reconhecimento! Eu tô explodindo de felicidade por ser uma das primeiras a ouvir essa notícia linda! Tava morrendo de saudade da sua voz, e saber que você superou tudo isso... é de arrepiar!
— Ai, eu tô muito ansiosa pra começar esse ciclo novo! Tenho tanta composição guardada na gaveta, só esperando ganhar vida. Hoje é um dos dias mais especiais da minha vida! – Mal terminei de falar, a campainha de casa começou a tocar sem parar. – Amiga, acho que o Noah esqueceu a chave de novo. Vou lá ver e já te ligo de volta! Beijo, te amo demais!
Levantei, já preparada pra xingar o Noah por esquecer a chave e ainda ficar tocando essa campainha sem parar. Por que ele não mandou uma mensagem avisando? Abri a porta pronta para despejar uma lista de xingamentos, mas assim que vi quem estava ali, minhas palavras congelaram. Meu coração disparou, minhas pernas tremeram.
— Sentiu minha falta, bebê? – Minhas mãos começaram a suar. Como ele conseguiu meu endereço? E o que ele estava fazendo na minha porta?
Capítulo 3
Enquanto as meninas da minha idade se aventuravam em beijos e romances, eu me refugiava no meu quarto, onde sonhava em ser uma estrela da música, distante das confusões do amor. Alguns amigos dos meus pais insinuaram que talvez eles devessem se preocupar, que meu isolamento poderia significar uma curiosidade por outras garotas- mas eu sinceramente não via nada de errado nisso.
Quando comecei a atuar, soube que minha personagem se apaixonaria por dois garotos, e ri muito ao ler o roteiro; ela era tudo o que jamais fui. Eu nunca sequer dei uma chance a alguém, e não me sentia obrigada a isso. Em algum ponto do meu coração, eu sabia que, um dia, aconteceria. Sabia que quando o amor chegasse seria como um relâmpago, inesperado e arrebatador.
Ouvi dizer que, no primeiro beijo, sentimos borboletas no estômago, que o corpo treme, as mão ficam frias mas, essas reações nunca me alcançaram. Meu primeiro beijo foi em cena, com meu melhor amigo, Jorge. Uma cena apaixonante para os telespectadores , mas para mim, foi fria e sem magia. Até que ele apareceu. Pablo Dominguez. Um nome que veio para reescrever os meus medos. Com um charme arrebatador, ele foi pouco a pouco quebrando minhas defesas, com um sorriso que escondia promessas perigosas. E, num golpe do destino, numa entre nossos personagens, nossos lábios se encontraram. Mas, desta vez, o beijo não foi técnico, nem frio. Naquele instante meu coração se rendeu. E, finalmente descobri o que era o amor e também, talvez, o que era o verdadeiro medo.
Foram dois anos vividos intensamente. Compartilhamos momentos que pareciam ter saído de um sonho, e eu sentia que minha vida era perfeita ao lado dele. Fui pedida em namoro no topo da London Eye, durante uma pausa na nossa turnê. Pela primeira vez, me senti verdadeiramente amada e tive a certeza que havia feito a escolha certa ao esperar por ele. Mas, como nem tudo são flores, o nosso relacionamento começou a murchar dia após dia.
O encanto se foi, e nos afastamos lentamente. Nos bastidores, o contato era raro, quase inexistente. Nosso apartamento, que um dia fora um lar, tornou-se um ringue de lutas e disputas amargas. Todos os dias protagonizamos as mais terríveis discussões, que terminavam em copos quebrados e silêncios sufocantes. Ele desaparecia por dias, enquanto eu ficava presa na dor das nossas ruínas.
Quando Danielle entrou em cena, tudo piorou. A aproximação entre eles foi imediata, e as minhas crises de ciúmes não demoraram a aparecer. Ele me chamava de louca, dizia que eu nunca confiava nele e culpava as minhas “inseguranças” por todos os conflitos. E assim continuei vivendo esse inferno – fingindo que não via nada, mantendo-me calada para evitar ainda mais desgastes.
Meu silêncio, no entanto, cobrou seu preço. Todo o esforço em segurar aquele relacionamento me consumiu. Perdi a voz, meu corpo carregava manchas roxas como cicatrizes de batalhas perdidas e, finalmente, ganhei um “par de chifres” que todos pareciam perceber, menos eu. Levantar a cada manhã era uma luta; ver tudo se desmoronar diante dos meus olhos era como assistir alguém pisar no seu castelo de areia.
Decidi, então, voltar para casa. Achei que, ao partir, deixaria para trás todas as lembranças daquele amor destruído. Mas nunca imaginei que, ao chegar, o principal causador do meu sofrimento estaria parado na minha porta, esperando por uma resposta.
— Pablo, posso saber o que você está fazendo aqui? - Minha voz já tremia. Eu estava à beira de um colapso. — Não foi suficiente a humilhação que me fez passar na França?
— Não vai me convidar para entrar? Achei que fosse mais… educada. - Ele sorriu, cínico, e nem esperou. Empurrou-me para o lado e entrou, impondo sua presença. — E, para responder sua pergunta, vim ver como o “ amor da minha vida” está se saindo na nova rotina.
— “Amor da sua vida”? - minha risada saiu amarga. — Não me lembro de ter deixado você entrar na minha casa. Muito menos ter autorizado me chamar de “amor”. Se não recorda, terminamos há exatamente cinco meses - Só de ouvir aquela palavra dita por ele, meu estômago revirou de nojo.
— Cinco meses, e você ainda está remoendo isso? - Ele ergueu as sobrancelhas, com desdém. — Achei que toda aquela raivinha tinha passado quando cantou aquela música patética no último show do grupo. Lembro bem da sua cara, tentando parecer forte. - Ele riu, impiedoso, enquanto mal conseguia respirar. — Marina, eu realmente pensei que você fosse melhor. Mas, agora que penso bem é claro que ia querer se fazer de vítima. - ele começa a passar a mão intensamente pelos cabelos, e sua voz ficou pesada.
— Não acredito que você gastou dinheiro para vir aqui me ofender. Se tem alguém remoendo essa história, esse alguém é você. Porque, se eu quisesse discutir isso, pode ter certeza de que teria batido na porta do seu quarto naquela noite ou respondido às suas mensagens. E agradeço muito ao meu psicólogo por me ensinar a ter controle dos meus sentimentos e não agir como uma desesperada.
Pablo soltou uma risada debochada, cruzando os braços com desdém.
— Ainda bem que não apareceu. - seu olhar era cruel. — Seria ainda mais doloroso para você ouvir os gemidos da Danielle naquele quarto. Enquanto você chorava, eu estava tendo a melhor transa da minha vida. Nunca te contei, né? Ela faz umas coisas que você nunca teria coragem de fazer. Aliás, agora que penso, foi divertido te ensinar a amar enquanto, no fundo, eu só estava brincando.
Sentei-me no sofá, tentando impedir que as lágrimas caíssem, mas ele não parou.
— Eu nunca te amei, e sinceramente? Foi um prazer te enganar. Quando o pessoal do elenco me disse que você nunca tinha se apaixonado, fazer você cair na minha foi quase um experimento social. Um desafio. E eu adoro desafios. Ter você apaixonadinha, acreditando em cada palavra minha, foi hilário. Mas, meu amor, a verdade é que esses três anos foram um verdadeiro inferno pra mim. Ainda bem que eu tinha a Danielle pra aliviar o tédio.
Minha respiração falhou.
— Todos esses anos, eu estive com ela. Quando te beijava, era ela que aparecia na minha mente. E todas as vezes que transamos, eu imaginava que era ela ali, e não você.
Engoli seco, sentindo meu peito arder.
— Meu Deus... como eu pude ser tão tola? Como pude, um dia, entregar meu coração a você? Acreditar em todas aquelas declarações? - Minha voz saiu fraca, quase um sussurro. — E pensar que me culpei todos esses meses por não ter sido mais presente na sua vida... Para, no fim, descobrir que tudo isso não passou de um jogo. Um jogo sujo. Como conseguiu ser tão baixo?
Eu não tinha forças para discutir, mas ainda assim continuei:
— Você fingiu que não sabia o motivo pelo qual eu estava afundando. Se não estava feliz com essa merda de relacionamento, por que simplesmente não colocou um fim nisso? Você não pensou em mim, não pensou na Danielle. E, por mais que tenhamos nossas diferenças, duvido que ela aceitava isso numa boa. Aposto que a maneira dela demonstrar a insatisfação era discutir comigo sem motivo. Porque, mesmo que você não me amasse, eu ainda tinha você todos os dias. E isso a revoltava.
Ele me olhou, confuso.
— Mas quer saber? Eu sinto pena dela.
O sorriso presunçoso dele vacilou.
— Porque, por mais que me assombre, eu sei que você nunca me amou. Nem a ela. Você não tem coração. E nunca vai saber o que é amar.
Levantei-me e fui até a porta, abrindo-a.
— Agora, saia da minha casa antes que eu chame a segurança.
Ele se levantou, caminhando devagar até a saída, ainda com aquele olhar de superioridade irritante. Mas antes de cruzar a porta, virei-me para ele uma última vez e, com um sorriso frio nos lábios, disparei:
— Foi difícil deixar de te amar… mas eu precisei te odiar para me lembrar de quem eu sou. E eu sou muito mais do que você jamais poderia merecer.
O barulho da porta se fechando foi o ponto final que eu precisava. E ali, sozinha, deixei todas as lágrimas caírem. Mas, pela primeira vez, cada lágrima era um passo para longe daquele inferno.
.
Estar no Brasil sem os meninos do Neon Sound era estranho. Lembro da nossa primeira vez aqui — o público gritando incansavelmente, demonstrando amor e dedicação como nunca havíamos sentido antes. Foi, sem dúvidas, um dos nossos melhores shows. Mas, depois da saída do Zach, nunca mais voltamos. Não queríamos mudar a imagem que construímos juntos neste lugar especial.
Sempre fomos muito próximos. Estávamos juntos desde a audição que mudou nossas vidas e vivemos momentos intensos nesses cinco anos de banda. Mas crescer sob os holofotes não era fácil — especialmente sendo tão jovens. Qualquer deslize nosso virava manchete, e as broncas da gravadora eram intermináveis. Muitas vezes, minha vontade era largar tudo e sair correndo, mas lembrava que aquele sonho não era só meu. Eu não podia ser tão egoísta.
Quando Zach anunciou sua saída, no início, eu simplesmente não aceitava. Para mim, ele estava feliz com tudo aquilo. Só mais tarde entendi seus motivos. Me senti culpado por não perceber o que ele estava passando. Continuar sem ele foi difícil. Faltava algo. Mas seguimos em frente, lançamos um álbum e decidimos fazer uma pausa após a última turnê, para focarmos em projetos paralelos e ficarmos mais próximos da família.
Agora, aqui estou eu, de volta ao Brasil — mas em segredo. Fui convidado para uma participação especial no primeiro show da turnê do 5 Seconds of Summer. Esses caras são incríveis e têm tudo para brilhar. O show será amanhã, e eu não posso deixar ninguém saber que estou aqui.
O carro passou pela praia de Copacabana, e a vontade de mergulhar naquele mar foi quase irresistível. Mas eu tinha prometido manter meu paradeiro em sigilo. Assim que cheguei ao hotel, fiz o check-in e subi rapidamente para o quarto, torcendo para que ninguém me reconhecesse — o que era difícil, considerando que eu carregava um violão nas costas.
Assim que entrei no quarto, tirei o violão da case e comecei a dedilhar uma melodia que não saía da minha cabeça há dias. Peguei meu caderno de composições e comecei a escrever. Aos poucos, a música foi tomando forma. Perdi a noção do tempo. Quando percebi, já estava ali há horas, sentado na sacada, observando o pôr do sol, ouvindo o som das ondas e o canto dos pássaros. Meu corpo pedia descanso. Deitei na cama e adormeci quase instantaneamente.
Acordei assustado e olhei para o relógio. Duas e meia da tarde.
Peguei o celular e vi várias mensagens do empresário dos meninos:
Matt [13:30]: Bom dia, Charles. Tudo bem por aí?
Matt [13:45]: Só para avisar, daqui a duas horas uma parte da praia estará liberada para você.
Charles [14:30]: Desculpa, Matt! Acabei de acordar. Estava muito cansado e dormi direto. Beleza, estava louco para um banho de mar.
Matt [14:35]: OK. Só não esquece que o show começa às 19h30. Não se atrase!
Cheguei ao local indicado e sentei na areia, observando o mar e as pessoas passeando pela orla. Às vezes, eu só queria ser um cara comum. Sem paparazzi. Sem perguntas sobre carreira. Sem especulações sobre minha vida amorosa.
A imagem de "garanhão" que criaram para mim começou na época da banda. Eu mal podia chegar perto de uma mulher sem que ela fosse considerada meu novo affair. Era frustrante. Meus relacionamentos nunca eram sobre o que realmente acontecia, mas sim sobre como a imprensa queria contar a história. Um dos meus términos até virou música.
Era irônico: eu compunha músicas extremamente românticas, mas nunca tinha tido um relacionamento sério. Não tinha encontrado alguém que despertasse em mim tudo aquilo que eu escrevia. Meus amigos estavam namorando, casando, tendo filhos... e eu? Eu só queria ser livre. Talvez esse fosse o problema. Talvez fosse por isso que meus relacionamentos davam tão errado.
Uma risada alta me tirou dos meus pensamentos.
Olhei para o lado e vi duas mulheres correndo na água. Automaticamente, me afastei um pouco, indo para as espreguiçadeiras, observando-as de longe. Pelo jeito como falavam, provavelmente eram brasileiras. Mas, por ser um local reservado, não deveriam estar ali.
Elas começaram a brincar com a areia, e meus olhos foram direto para a menina de cabelos curtos, que batiam nos ombros. Seu corpo não era magro, e havia algo hipnotizante na forma como ela se movia — natural, sem pressa, sem se preocupar com quem estava olhando. Usava um maiô branco, realçando suas curvas, e uma saída de praia de seda esvoaçava com uma brisa leve. Sua risada era contagiante. Parecia se sentir livre, como uma borboleta saindo do casulo.
Um sorriso involuntário surgiu no meu rosto. Minhas mãos começaram a suar, e eu não fazia ideia do porquê. Resolvi ignorar essa sensação e fechei os olhos, tentando relaxar.
De repente, ouvi um som familiar.
A garota estava assobiando a melodia da música que eu havia começado a compor no hotel.
Meu coração acelerou. Fiquei tão envolvido naquele momento que não percebi o tempo passando. Quando olhei no relógio, já era 18h30.
— Droga!
Levantei-me apressado e corri de volta ao hotel. Prometi ao Matt que não me atrasaria!
Entrei no quarto, ofegante, tirei a roupa e corri para o banho. Já estava quase pronto quando meus olhos caíram sobre o violão. E, de repente, a imagem da garota assobiando minha melodia invadiu minha mente.
Sentei-me na cama, ainda só de cueca, e comecei a dedilhar a melodia novamente.
E então, as palavras vieram:
But in time our fellings will show/ Mas com tempo nossos sentimentos vão se mostrar
´Cause sooner or later, we’ll wonder why we gave up/ Porque cedo ou tarde, nós vamos nos perguntar por quê desistimos
The truth is,everyone knows/ A verdade é, todos sabem
Meu telefone tocava insistentemente. Matt estava louco atrás de mim.
Olhei para a tela e suspirei, ainda sem acreditar que estava ali, seminu, sentado na cama, pensandonela — a garota da praia.
Ignorei as ligações e, em vez disso, gravei um áudio:
— Já estou saindo do hotel. Chego em alguns minutos.
A resposta veio rápida:
Matt [19:10]: "OK."
Simples e direto. Mas eu sabia que aquilo significava um sermão a caminho.
Levantei num salto e me vesti o mais rápido possível. Camisa, calça, tênis. Passei um perfume e corri para o hall do hotel, onde o motorista já me esperava.
Meia hora depois, eu estava no local do show. Atrasado.
Entrei pelos portões dos fundos e fui recebido por um Matt de cara fechada.
— Charles, onde diabos você estava? — Sua voz carregava impaciência. — O que eu disse sobre atrasos? Tivemos que atrasar o show em quase uma hora esperando por você!
Ele despejava perguntas sem me dar espaço para responder.
— Foi mal, Matt. — Levantei as mãos em rendição. — Fui à praia, como combinado, mas acabei relaxando demais e perdi a hora. Juro que não foi de propósito.
Fiz minha melhor cara de cachorro abandonado. Ele bufou e, depois de alguns segundos de silêncio, revirou os olhos e soltou um meio sorriso.
— Certo, Charles. O show de abertura vai começar. Quero que preste atenção na artista. Ela é a nova aposta da filial de Los Angeles da Music Fest.
Matt deu um pequeno tapa nas minhas costas e seguiu na direção do palco. Respirei fundo e fui para o backstage, ouvindo a voz dele ecoar no microfone enquanto anunciava a atração.
E então, meu coração disparou.
Era ela.
A garota da praia.
Marina Castillo.
As luzes diminuíram, o som da plateia se acalmou, e os primeiros acordes começaram.
A melodia encheu o espaço. Intensa. Profunda. Como se cada nota carregasse um pedaço de sua alma.
Fiquei imóvel. A garota da praia não era apenas um rosto bonito ou uma lembrança de algumas horas atrás.
Ela era uma artista. E, naquele momento, eu não conseguia desviar o olhar.
(center>Recomendo colocar “Lose You To Lose Me” da Selena Gomez)
Os primeiros acordes do piano ecoaram pela arena, preenchendo o espaço com uma melodia envolvente. Ela estava ali, parada diante do microfone, e por um breve momento, pude ver o medo em seus olhos. Mas então, quando sua voz rompeu o silêncio, tudo mudou.
Sua presença de palco era magnética. O público aclamava seu nome, como se já soubesse que estava diante de algo grandioso. E eu?
Eu não conseguia desviar o olhar.
Set fires to my forest, and you let it burn/Você incendiou minha floresta e a deixou queimar
Sang off-key in my chorus,cause it wasn't yours/Cantou fora do tom no meu refrão,porque não era seu
I saw the signs and I ignored it/Eu vi os sinais e os ignorei
Rose-colored glasses all distorted/Usando óculos com lentes rosas, completamente distorcidas
Set fire to my purpose, and I let it burn/Você incendiou meu propósito e eu o deixei queimar
You got off on the hurtin’ when it wasn’t yours, yeah/ Você curtiu o sofrimento quando não era o seu, sim
Sua voz carregava uma paz indescritível, como se cada nota tivesse o poder de acalmar até a alma mais turbulenta. Seu olhar para o público era cativante, transmitindo uma conexão genuína—dava para sentir o amor dela pela música em cada verso.
O figurino estava impecável, realçando sua presença no palco. Os cabelos, presos em um penteado elegante, deixavam seu rosto ainda mais radiante. Ela estava deslumbrante.
Havia algo nela que me puxava para perto, uma força invisível que eu não conseguia ignorar. Nunca fui do tipo que acreditava em destino ou caminhos traçados...
Mas, naquele momento, eu estava completamente vidrado em cada movimento dela.
I needed to lose you to find me/Eu precisei te perder para me encontrar
This dancing was killing me softly/Esta dança estava me matando suavemente
I needed to hate you to love me, yeah/ Eu precisei te odiar para me amar, sim
To love, love, yeah/Para amar, amar, sim
To love, love, yeah/Para amar, amar, sim
To love,me/Para amar, a mim
I needed to lose you to love me, yeah/Eu precisei te perder para me amar, sim
To love, love, yeah/Para amar, amar, sim
To love, love, yeah/Para amar, amar, sim
To love,me/Para amar, a mim
I needed to lose you to love me/Eu precisei te perder para me amar
De repente, ela desviou o olhar do público. E, como se fosse instinto, seus olhos encontraram os meus.
Meu coração deu um salto.
Ela continuou cantando, mas dessa vez parecia diferente — como se houvesse um significado mais profundo por trás de cada nota. Então, inesperadamente, acenou em minha direção.
Por um segundo, achei que fosse para mim. Mas, ao olhar para trás, vi a garota que estava com ela na praia. Seus olhos estavam marejados, brilhando de orgulho, como se aquela apresentação significasse muito mais do que apenas uma música.
Foi naquele momento, naquele gesto silencioso, que tudo fez sentido.
Agora eu entendia por que Marina cantava com tanta devoção.
You turned me down and now it’s showing/Você me recusou e agora está mostrando
In two months, you replaced us/Em dois meses, você nos substituiu
Like it was easy/Como se fosse fácil
Made me think I deserved it/Me fez pensar que eu merecia
In the thick of healing, yeah/No meio da cura, sim
We'd always go into it blindly/Nós sempre entramos nisso cegamente
I needed to lose you to find me/Eu precisei te perder para me encontrar
This dancing was killing me softly/Esta dança estava me matando suavemente
I needed to hate you to love me, yeah/Eu precisei te odiar para me amar, sim
To love, love, yeah/ Para amar, amar, sim
To love, love, yeah/ Para amar, amar, sim
To love, me Para amar, amar, a mim
And now the chapter is closed and done/ E agora o capítulo está encerrado
To love, love, yeah/ Para amar, amar, sim
To love, love, yeah/ Para amar, amar, sim
To love, me/ Para amar, amar, a mim
And now it's goodbye, it’s goodbye for us/ E agora é adeus, é adeus para nós
Eu me sentia em paz ao vê-la cantar, como se estivéssemos conectados por algum laço invisível. A lembrança de quando a vi cantando a melodia da minha música voltou à minha mente, e, com ela, o nosso encontro na praia—mesmo sem trocarmos palavras.
Naquele momento, me peguei nervoso, sem saber se ela estava me observando, mas, ao mesmo tempo, sentia uma vontade imensa de estar ali, de dividir aquele palco com ela. Algo dentro de mim queria pegar sua mão e, com toda a sinceridade, dizer que estaria ali para sempre.
Era confuso. Não conseguia entender o que estava acontecendo. Por que meu coração reagia dessa forma? O que significava tudo isso?
Mas, no fundo, eu sabia. Aquele não seria o nosso último encontro.
Algo no ar me dizia que o destino havia traçado nossos caminhos e que, de alguma maneira, estávamos destinados a nos cruzar novamente.
Capítulo 4
“A imensidão do mar e a areia sob meus pés me davam uma sensação de liberdade. Eu usava um vestido branco, o vento balançava meus cabelos, inúmeras páginas espalhadas ao meu redor, um violão nas mãos, uma melodia girando na minha mente, e palavras que começavam a se transformar em frases. De repente, o mesmo vento levou todas aquelas folhas. Corri para recuperá-las, mas logo ouvi o som de cascos se aproximando. Um homem apareceu montado em um cavalo — cabelos curtos, olhos verdes intensos e um sorriso encantador. Ele desmontou e, com uma voz doce, perguntou:
— O que houve?
— Minha música... minha nova música saiu voando.
— Eu trago para você!
Sorri. Ele subiu novamente no cavalo e seguiu na direção contrária das folhas. Meu coração acelerou, minha boca secou, meus olhos se encheram de lágrimas e, sem pensar, gritei:
— Por favor, não me deixe sozinha... Charles!!”
Acordei assustada. Olhei ao redor e vi que Laís ainda dormia. Levantei, peguei minha bolsa no bagageiro do avião e procurei meu caderno de anotações. Anotei rapidamente algumas frases que haviam surgido naquele sonho:
I’d like to blame it all on life / Gostaria de culpar a vida por tudo
Maybe we just weren’t right / Talvez não estivéssemos certos
But that’s a lie, that’s a lie / Mas isso é uma mentira, isso é uma mentira
Assim que terminei de escrever, percebi que Laís me observava com o rosto amassado do sono. Ela sorriu ao ver meu caderno , adorava quando eu escrevia, pois geralmente isso significava que uma música nova estava nascendo.
— Bom dia, Mari! Conseguiu descansar?
Olhei para o celular: 6h50. Eu estava exausta. Havíamos acordado muito cedo para terminar de arrumar as malas, ontem foi uma correria para resolver os últimos detalhes da minha apresentação.
— Bom dia... Não o suficiente, mas consegui. — suspirei fundo. — Tive um sonho muito estranho. Só me lembro da melodia... eu estava na areia, compondo, e, de repente, apareceu um homem num cavalo, com cabelos curtos e olhos verdes. Ele disse que iria salvar minha música... mas foi embora. Eu implorava para que não me deixasse.
— Eu acredito muito em sonhos e no poder que eles têm. Vai ver esse cara ainda aparece na sua vida e se torna alguém especial.
Olhei para ela com o rosto confuso. Não queria acreditar nessa possibilidade. Era só um sonho... e, mesmo assim, me senti estranhamente conectada a alguém que nunca vi.
— Mudando de assunto — disse ela, deitando a cabeça no meu ombro —, falei com o Raphael por mensagem. Ele está muito feliz com sua primeira apresentação. Mandou todas as energias positivas pra você!
— Confesso que estou apreensiva. Sei que os produtores me chamaram porque confiam no meu trabalho, mas... tenho medo de não atender às expectativas deles.
— Mari, eu entendo seu nervosismo. É a primeira vez que você sobe num palco sozinha depois de meses, mas nós sabemos o quanto você é incrível. Pensa em quantos fãs vão ficar felizes em ver esse rostinho lindo e essa voz de anjo ao vivo! Eles vão se orgulhar ainda mais de estar ao seu lado.
Depois da confusão causada pelas fotos do Pablo saindo do meu condomínio, minha vida virou um pequeno inferno. Comentários maldosos, suposições de armação... tudo contribuiu para dias difíceis. Antes, eu teria me escondido. Deixaria que pensassem o que quisessem. Mas hoje estou mais preparada. Ter Laís ao meu lado torna tudo mais leve. Me impressiona como ela tem o poder de transformar meus problemas em poesia e me fazer enxergar o lado bom.
Depois da tempestade, o sol voltou a brilhar. E agora estou indo para o Rio de Janeiro abrir o show de uma das maiores bandas do mundo: 5 Seconds of Summer.
O piloto anuncia a nossa chegada na cidade maravilhosa. Meu coração dispara. A minha apresentação não foi divulgada ,apenas os organizadores e os integrantes da banda sabiam. Quando a porta do avião se abre, um vento frio percorre minha pele. Minhas mãos suam. Eu havia prometido que demoraria para voltar ao palco... e aqui estou, em outro estado, a poucas horas de enfrentar milhares de pessoas. Pela primeira vez, estou feliz por quebrar uma promessa.
No caminho para o hotel, damos risada, cantamos. Laís alugou um carro para podermos explorar a cidade com liberdade. Encostada na janela, meus olhos se fecham. Sem forças para brigar com o sono, me permito descansar.
“— Você cantou lindamente essa noite — os olhos verdes brilhavam e arrepiavam meu corpo inteiro. — Desculpa, não me apresentei... meu nome é Charles. E o seu deve ser Marina, certo?”
— Marina, acorda!
Levantei assustada e bati a cabeça no teto do carro.
— Ai!
— Desculpa te acordar assim. Estou te chamando há um tempo... acabamos de chegar. Assim que realizarmos o check-in, prometo que vamos dormir um pouco antes de irmos pra praia.
— Praia? Achei que iríamos direto para a arena ensaiar.
— Íamos. Mas você está muito tensa. Tenho certeza que um banho de mar vai te ajudar.
Não queria discutir. Ela tinha razão. Um banho de mar era tudo que eu precisava antes de pisar naquele palco ,relaxar, colocar a cabeça no lugar, esquecer os sonhos que estavam me deixando inquieta. Se o destino queria brincar comigo, já podia parar. Eu só queria dormir.
Ao sair do carro, me surpreendi com a entrada do hotel. Parecia um castelo: todo branco, detalhes dourados, palmeiras enormes ladeando o caminho. Caminhei até a entrada. O carregador pegou nossas malas, enquanto Laís assinava os papéis do check-in. Mexi no meu celular...Meu celular vibra. Desbloqueio a tela e vejo que chegaram mensagens no grupo de amigos.
Jorge: Oi, meninas. Estou morrendo de saudades. Como estão as coisas por aí?
10:50
Carol: Oi, Jorgelito. As coisas por aqui estão uma loucura. Acabei de sair da reunião de elenco do novo projeto da Nickelodeon e estou indo para um photoshoot de revista.
10:55
Carol: Estou morrendo de saudades dos nossos momentos, das nossas risadas... Mas mudando de assunto, dona Marina decidiu desaparecer durante esses dias.
10:55
Marina: Apareci só para dizer o quanto amo vocês e que hoje é um grande dia para mim. Tenho certeza de que vão amar as novidades, mas por enquanto tudo precisa ficar no sigilo. Quando tudo estiver mais tranquilo, volto e colocamos as conversas em dia.
11:00
Bloqueio o aparelho e volto meu olhar para Laís, que já se aproximava com um sorriso calmo. Caminhamos juntas até o elevador. Eu mal podia esperar para deitar e descansar antes de aproveitar a praia. O sinal indica que chegamos ao nosso andar. Um dos carregadores abre a porta do nosso quarto com gentileza, deixa nossas malas no canto e nos deseja boa estadia. Com a mesma roupa do corpo, me deixo cair sobre a cama e, enfim, fecho os olhos. Permito-me simplesmente existir em silêncio.
O local reservado pelo empresário da banda era distante apenas alguns minutos a pé. Decidimos ir andando, aproveitando o trajeto para rir e explorar a cidade com olhos curiosos. O caminho até a praia foi leve, repleto de bobagens ditas entre uma gargalhada e outra. Assim que mergulhei na água, uma paz absoluta me invadiu. Era como se tudo aquilo que me corroía estivesse sendo levado pelo mar.
Era mais do que liberdade. Era cura.
Fazia tanto tempo que eu não me permitia simplesmente estar ali, sem obrigações, sem controle. Sentei-me na areia ainda com os cabelos pingando e a alma leve. Os flashes do sonho voltavam à minha mente como se quisessem me dizer algo. Aqueles olhos verdes me perseguiam, aquele sorriso, aquela sensação estranha no peito. Sorri sozinha, perdida na possibilidade absurda de que talvez, só talvez, algo assim pudesse existir fora da ficção.
Mas logo me lembrei da vida real. Aqui, a gente se decepciona. As pessoas não são personagens de livros. Elas mentem, nos ferem e nos moldam à sua conveniência. Chega um ponto em que a gente entende: não importa o quanto ofereça amor, carinho ou presença... ainda assim, pode não ser suficiente.
Eu sabia que levaria tempo até confiar novamente. Meu coração não seria entregue com facilidade. E mesmo que o destino viesse me testar, eu não abriria mão da convicção de que meu amor-próprio vinha primeiro agora.
— Mari, precisamos ir.
A voz de Laís me arranca dos pensamentos.
— O que houve? Por que está tão pensativa?
— Nada... — as lágrimas ameaçaram cair — só estava refletindo um pouco. Já passou.
— Você sabe que não me engana. Promete que a gente conversa depois do show?
Assenti em silêncio. Ela me puxou para um abraço apertado.
— Só lembra de uma coisa: você nasceu para brilhar. E nada vai mudar isso. Estou indo na frente resolver umas coisas com o Rafael. Te vejo no hotel. Toma cuidado, tá?
Ela me beijou na bochecha e saiu correndo pela areia. Fiquei observando seu vulto se afastar, com o coração aquecido por tê-la ao meu lado.
Peguei minhas sandálias e comecei a caminhar. À frente, algumas espreguiçadeiras estavam dispostas sob a sombra dos coqueiros. Notei um homem deitado em uma delas. O rosto, parcialmente coberto por um boné, escondia sua expressão. O cabelo, ligeiramente curto, e aquele jeito estrangeiro o faziam se destacar. Havia algo nele que me prendia.
Comecei a assobiar, como quem canta para si mesma — a mesma melodia que não saía da minha cabeça o dia inteiro. Vi que ele se mexeu. Um impulso de proteção tomou conta de mim. Não queria ser reconhecida. Meus pés ganham velocidade. Corri, com o coração acelerado, de volta ao hotel.
O show já estava com uma hora de atraso. No fundo, eu agradecia. Estava ansiosa como nunca, com as mãos trêmulas e o estômago revirado. Minha maquiagem já tinha sido retocada cinco vezes. A cada minuto que passava, o medo de tropeçar no palco e virar meme na internet só crescia.
Ouvi batidas na porta do camarim. Um dos produtores entrou, sério, e avisou que eu precisava estar posicionada no palco. Respirei fundo. Era agora.
Marina Castillo estava de volta.
Subi ao palco. As luzes estavam apagadas. Tudo em silêncio. Fechei os olhos. Senti o peso daquele momento. A partir dali, nada mais seria como antes. O mundo ouviria minha voz novamente — e talvez, com sorte, encontrasse respostas nas entrelinhas da música sobre o fim do meu último relacionamento.
Uma voz ecoou na arena. Eu a conhecia. E bastou isso para meus olhos se encherem de lágrimas.
— Ela é sensível. Solidária. Canta com a alma. Apaixonada pela sua arte. E eu sei disso porque ela esteve entre nós, indagando, procurando sua nova música. Hoje, sinto que veremos o nascimento de uma estrela. Marina, você sempre brilhará.
As luzes explodiram atrás de mim. A multidão rugiu. A melodia começou. Era a minha libertação. A canção da liberdade.
E eu estava, finalmente, livre.
Livre do peso da culpa. Livre da versão de mim que vivia para agradar. Livre da prisão de um relacionamento tóxico que havia me transformado em sombra. Por muito tempo, deixei de me amar, me anulei. Entreguei meu coração como se ele não tivesse valor, por medo de perdê-lo. Mas precisei aprender a odiar para voltar a me amar. E agora, dizer adeus àquilo tudo era como respirar pela primeira vez.
A plateia gritava meu nome. Vi os rostos felizes, emocionados, surpresos. Era ali que eu pertencia. Aquele palco era meu lar. E por mais que a vida me afastasse, eu sempre voltaria. Nasci para isso.
Em um trecho da canção, olhei discretamente para trás. Procurava Laís, mas meus olhos encontraram alguém à frente dela.
Meu coração parou.
Era ele.
O homem do sonho.
A razão daquela melodia existir.
Nossos olhares se cruzaram. Ele me observava, imóvel. Acenei, quase sem querer. E ele não desviou. Voltei a atenção para o público, o coração acelerado, confusa, mas também viva.
A música terminou. Fui ovacionada. Gritavam meu nome. Pela primeira vez em muito tempo, eu me sentia inteira.
Tinha voltado.
E estava pronta para o que viesse.
Agradeço pelo carinho com um sorriso discreto e sigo em direção ao meu camarim, sem olhar para trás. A respiração presa no peito, o coração parecendo bater fora do ritmo. Eu não conseguia acreditar. Era ele. Não havia como negar. Aqueles sonhos não eram só devaneios noturnos, eram sinais. Algo estava acontecendo.
Abro a porta quase tropeçando em mim mesma e começo a procurar meu celular, desesperada. Precisava chamar um carro, desaparecer dali. Só deixaria uma mensagem para a Laís, inventando que não me sentia bem.
— Marina, o que está acontecendo?
A voz de Laís me tira do torpor. Eu não tinha percebido que ela estava atrás de mim, já no camarim.
— Laís... ele... está aqui.
O susto se desenha nos olhos dela, como se tivesse entendido algo além do que eu dizia.
— Calma. Não é quem você está pensando. Estou falando do garoto... aquele do sonho que eu comentei hoje de manhã. Ele estava bem na sua frente. É ele.
— O Charles? Você tem certeza? Marina, você não está se confundindo?
— Eu reconheceria aqueles olhos verdes a quilômetros de distância. O cabelo, o jeito de andar, o sorriso...
— Amiga, recomendo limpar a baba que está escorrendo do canto da sua boca. — ela diz, rindo da minha cara, tentando aliviar meu nervosismo.
— Eu não estou babando! Só estou impressionada com essa coincidência.
— Isso não é coincidência. O nome disso é destino. Agora vamos, o show ainda não acabou.
Ela me puxa pelo braço e corremos juntas pelos bastidores até o backstage. O som vibrava em todo o corpo, e a energia ali era elétrica. Os meninos estavam impecáveis. Dali, eu via meninas chorando quando Luke estendia a mão para elas, outras gritando de alegria enquanto Calum, Michael e Ashton brincavam com seus instrumentos. A última música começa a ecoar e os acordes familiares me fazem sorrir.
Os meninos agradecem ao público e anunciam uma surpresa.
— É com muito prazer que convidamos ao palco o nosso querido amigo... Charles.
O mundo parece parar por um segundo. O ar some. E então, ele entra.
Ali estava o motivo do meu nervosismo. Os cabelos curtos sendo levemente bagunçados pelo vento. O sorriso largo. A roupa despojada. Mas eram os olhos... eram aqueles olhos verdes que me atravessaram. E me viram. Ele olhou diretamente para mim, e mesmo rodeado de luzes e sons, por um segundo parecia que estávamos apenas nós dois naquele lugar Senti minhas bochechas queimarem. Meu coração disparava como se quisesse escapar do peito. A plateia entrou num coro animado de "hey", e Luke começou a cantar. O mundo girava e eu sentia tudo em câmera lenta.
They say we're too young now/Eles dizem que nós somos muito jovens agora
To amount to anything else/Para alcançar qualquer outra coisa
But look around/Mas olhe em volta
We've worked too damn hard for this/Nós trabalhamos duro demais por isso
Just to give it up now/Para desistir agora
If you don't swim, you'll drown/Se você não nadar, você vai se afogar
But don't move, honey/Mas não se mova, querida
You look so perfect standing there/Você parece tão perfeita de pé aí
In my American Apparel underwear/Com a minha cueca da American Apparel
And I know now that i'm so down/E eu sei agora que eu estou tão apaixonado
Your lipstick stain is a work of art/Sua mancha de batom é uma obra de arte
I got your name tattooed in an arrowed heart/Eu tenho seu nome tatuado em um coração flechado
And I know now that I'm so down, hey/E eu sei agora que eu estou tão apaixonado,heybr>
A música explodia em vibração. A letra ressoava fundo. E eu ali, fascinada, presa entre o encanto e a confusão. Não percebi Luke se aproximando, nem quando ele estendeu a mão, me chamando ao palco. Neguei com o rosto, mas ele insistiu, sorrindo, e diante da multidão, acabei cedendo.
Fui recebida com aplausos, gritos, câmeras. O palco era um mar de luzes. Charles começou a cantar sua parte da música... e ele não tirava os olhos de mim.
Cause this deadbeat town's only here just to keep us down/Porque essa cidade desocupada está aqui só para nos deixar para baixo
While I was out/Enquanto eu estava fora
I found myself alone just thinking/Eu me encontrei sozinho só pensando
If I showed up with a plane ticket/E se eu aparecesse com uma passagem de avião
And a shiny diamond ring with your name on it/E um anel de diamante bem brilhante com seu nome nele
Would you wanna run away too? / Será que você iria querer fugir também?
Cause all I really want is you/Porque tudo o que eu realmente quero é você
Tentei ignorá-lo. Era o melhor a fazer naquele momento, mesmo que meu corpo inteiro gritasse o contrário. Não podia ou não queria dar tão na cara o quanto ele mexia comigo. Fui até onde Calum estava, buscando refúgio na música, e numa tentativa de descontração comecei a fingir que tocava uma guitarra imaginária. Para minha surpresa, os meninos entraram na brincadeira, e por um instante, me senti livre. Leve. Nunca estive tão à vontade em um palco.
As luzes dançavam em perfeita harmonia com os acordes, como se também estivessem encantadas. O som preenchia o ar com uma vibração que pulsava no mesmo ritmo do meu coração. Mas então, algo mudou. Percebi que os meninos começaram a se afastar, como se estivessem me cedendo o centro da cena, e eu fiquei ali, sozinha, envolta de luzes, som e expectativa.
Foi quando senti.
Uma mão firme segurou a minha, puxando-me suavemente para trás. O toque não era invasivo, era intenso. Cauteloso, mas cheio de intenção. Virei o rosto, surpresa — e dei de cara com ele.
Charles.
Seus olhos verdes estavam tão próximos que eu pude ver os reflexos das luzes dançando em suas íris. A expressão dele era de algo entre confusão e encantamento. Como se também estivesse tentando entender o que era aquilo que nos envolvia. Tentei me desvencilhar por instinto, mas ele apertou levemente minha mão, como quem pede silêncio ao coração agitado do outro.
O arrepio começou no meu pulso, percorreu meu braço e espalhou-se por todo o corpo como eletricidade líquida. Meus pés pareciam flutuar. Ele levou o microfone à boca, e com a melodia suavizada, quase sussurrada, nossos olhares se encontraram e ficaram ali.
Conectados.
O mundo desapareceu. Tudo ao redor se apagou. Só restava ele... e eu. O som da plateia se dissolveu na distância. A música agora era o som do nosso instante.
In my American Apparel underwear/Com a minha cueca da American Apparel
And I know now that I'm so down/E eu sei agora que eu estou tão apaixonado
Your lipstick stain is a work of art/Sua mancha de batom é uma obra de arte
I got your name tattooed in an arrowed heart/Eu tenho seu nome tatuado em um coração flechado
And I know now that I'm so down, hey/E eu sei agora que eu estou tão apaixonado, hey
Ele cantava para mim.
E eu sentia.
Sentia como se aquelas palavras tivessem sido escritas em alguma vida anterior, só esperando o momento exato para serem cantadas entre nós. Tudo nele a voz, o olhar, a presença dizia o que nenhuma canção seria capaz de traduzir com precisão: ele estava me vendo.
Não com os olhos. Mas com a alma.
Ele piscou para mim. Foi rápido. Mas o suficiente para me deixar tonta. Senti o calor subir pelas bochechas, e percebi Michael rindo, se divertindo com meu evidente estado de torpor. Tentei retomar o controle, balancei os ombros, entrei no ritmo da música e continuei dançando. A plateia vibrava, as luzes piscavam num ritmo perfeito e, mesmo assim, eu só conseguia ouvir o som do meu coração.
O show chegou ao fim com aplausos ensurdecedores. Fogos de artifício pintaram o céu do lado de fora da arena enquanto os meninos agradeciam ao público e se despediam. As luzes se apagaram, e com elas, tentei me esconder.
Voltei apressada para o lugar onde Laís estava. Ouvi alguns assobios, ignorei. Não podia ser comigo. Caminhei mais rápido, determinada a desaparecer entre as pessoas, mas ele... ele veio atrás de mim. Me alcançou.
— Você cantou lindamente essa noite. — A voz dele era baixa, íntima, como se estivesse me contando um segredo. Aqueles olhos verdes brilhantes roubaram o ar dos meus pulmões. Senti o corpo inteiro arrepiar.
Ele sorriu.
— Desculpe, não me apresentei. Meu nome é Charles. E você... deve ser a Marina, certo?
Minha mente não parava de girar desde o instante em que todos aqueles sinais começaram a se tornar realidade. Do sonho ao nosso encontro no palco, como aquilo pôde acontecer? Eu, que sempre achei toda essa história de destino um tanto brega. Minha mãe costumava dizer que a vida é comandada pelo universo, que cada pensamento e cada passo são calculados. Sempre evitei esse assunto, porque acreditava que tudo o que conquistamos vem do esforço, da luta diária. Mas ali, naquele momento, não consegui mais desacreditar, principalmente quando nossos olhares se conectaram como ímãs.
— Sim, foi um prazer enorme dividir o palco com você esta noite, mas preciso ir. — falei rapidamente, começando a me afastar, sentindo as mãos suarem só de pensar em encará-lo por mais tempo.
— Calma, Marina.
— disse ele, segurando minha mão com uma firmeza tão natural que não consegui esconder a surpresa — Queria pedir desculpas pela cena no palco. Não sei o que estava passando na minha cabeça. Jamais quis constrangê-la. — Aceito suas desculpas. — respondi, firme, controlando cada palavra para que ele não percebesse o quanto estava envolvida — Mas realmente preciso encontrar minha empresária.
Me afastei, sentindo um misto estranho de alívio e inquietação. Não queria deixá-lo naquela situação, mas minha cabeça estava a mil. Segui pelos corredores, tentando mascarar o nervosismo com um sorriso leve, quase automático. No caminho para o camarim, fui parada por várias pessoas pedindo fotos e autógrafos. Só aquilo já enchia meu coração de uma alegria verdadeira, a sensação de estar, finalmente, tocando um dos meus maiores sonhos.
Assim que cheguei, ouvi as risadas incontroláveis de Laís. Entrei e vi que os meninos estavam com ela, todos sorridentes. Sorri de volta, mas precisei me afastar, indo em direção ao banheiro. Queria parecer o mais tranquila possível, sem dar pistas do turbilhão que sentia por dentro.
Joguei água gelada no rosto e me sentei no sofá ali perto. Meu celular estava no bolso. Pensei se deveria me irritar ainda mais, porque estava claro que aquela cena no palco logo estaria em todos os sites. E, mesmo assim, eu não estava feliz. Desbloqueei o aparelho e ativei a internet. Levei um pequeno susto com a quantidade de notificações.
O primeiro aplicativo que abri foi o Instagram, e fui recebida por um feed cheio de fotos do momento exato em que Harry me abraçava. Não havia nada sobre a minha performance — só comentários e publicações falando do possível envolvimento entre nós dois. Aquilo me causou um desconforto profundo. Não queria que minha imagem fosse reduzida a um romance. O que eu buscava, de verdade, era que minha música tivesse relevância, fosse reconhecida.
Entrei no direct e me deparei com uma avalanche de mensagens. Era uma verdadeira bola de neve. Fãs-clubes de Harry me atacando com palavras duras: “vagabunda”, “aproveitadora”, “não vai chegar a lugar nenhum usando o nome dele”. Doía ler tudo aquilo, e era difícil não sentir que tinha falhado. Que, de alguma forma, aquela atenção toda acabaria por me destruir antes mesmo de começar.
Saí do banheiro e percebi que os meninos já tinham ido embora. Laís veio em minha direção com um sorriso largo, pronta para me abraçar, mas afastei seus braços com um gesto seco:
—O que está acontecendo? – ela me olha com uma feição confusa.
— O QUE ESTÁ ACONTECENDO? — Eu quase gritei, meu corpo tremendo, encarando Laís que me olhava com aquela expressão confusa e preocupada. — Eu tô sendo julgada, massacrada, humilhada! Tudo por causa de um momento com o queridinho da América! Como se a minha música, minha voz, meu suor não servissem para nada! Só o que importa é a “gracinha” que ele fez no palco, e minha performance? Jogada no lixo, ignorada, esquecida! Sabe o que é isso? É ser invisível, Laís! Invisível porque sou mulher nessa indústria, porque o mundo prefere um rostinho bonito com cara de celebridade do que uma artista de verdade!
Minhas mãos tremiam e eu me encolhia no sofá, a respiração acelerada, sentindo a raiva e a frustração me sufocarem.
— E o Pablo? — Continuei, a voz falhando — Aquela história das especulações voltou com força. Tudo o que construímos juntos quase desmoronou, e eu tive que segurar tudo, esconder a dor, enquanto a internet despejava ódio e julgamento. Me senti... fracassando, Laís. Como se tudo estivesse escorrendo entre meus dedos. Eu estou cansada demais pra isso. Cansada de ter que provar meu valor o tempo todo, de ser julgada, de me esconder atrás de uma imagem forte quando por dentro eu quero só chorar.
Comecei a chorar, as lágrimas rolando sem controle.
— Eu quero ser forte, juro que quero. — disse entre soluços — Mas às vezes parece que essa força é uma máscara, e eu não sei até quando vou aguentar segurar tudo isso sozinha.
Laís se aproximou, pegou minhas mãos nas dela com firmeza e carinho.
— Marina, olha pra mim. — ela falou com voz calma, mas cheia de autoridade — Você não está sozinha nessa. Ninguém espera que você carregue o mundo nas costas, e ninguém merece esse peso todo. A indústria pode até ser cruel, mas você é mais forte do que ela. Não porque você não sente, mas porque você luta apesar de tudo.
Ela me abraçou, firme, e continuei a chorar, sentindo a tensão aos poucos se desfazer.
— Eu sei que tá difícil, eu sei que dá vontade de desistir. Mas você não pode deixar que a opinião dos outros defina quem você é. Você é muito mais que isso. E eu tô aqui pra te lembrar disso, sempre que precisar.
Eu tentei sorrir, secando as lágrimas.
— Obrigada, Laís... eu precisava ouvir isso.
Ela me deu um sorriso acolhedor.
— Agora escuta: hoje à noite vai ter um after com os meninos da banda. Eu sei que você quer fugir do Harry e de tudo isso, mas às vezes a gente precisa sair dessa bolha, respirar, se divertir, mesmo que só por algumas horas. Você merece um respiro.
Eu respirei fundo, pensando naquele convite, naquela possibilidade de fugir um pouco do caos.
— Eu… não sei se consigo. Preciso evitar o Harry, e…
— Entendo. — ela interrompeu suavemente — Mas não é sobre ele, é sobre você. Sobre se permitir viver um pouco além da pressão, da cobrança, do medo. Você vai ver que pode ser leve. E quando precisar, estarei lá contigo.
Eu sorri, finalmente sentindo que alguém estava do meu lado de verdade.
— Sempre que precisar, estarei aqui. — ela disse, firme — Agora, pensa com carinho nesse convite, porque às vezes a gente precisa deixar o peso de lado, mesmo que por algumas horas.
— Realmente é um convite tentador, mas eu passo, não quero reencontrar o Charles, preciso descansar.
— Sério? — concordo com o pescoço — Tá bom então, só não entendo uma coisa: Você quer fugir do Charles, mas sabe que vai encontrá-lo em seus sonhos.
Mostro a língua para ela, pego a minha bolsa e caminhamos em direção ao portão principal. Laís pede para o motorista me deixar no hotel em segurança. Adentro ao carro e me despeço dela, deito a cabeça na janela e começo a pensar em tudo que ocorreu naquele dia.
Sorrio ao imaginar a reação de Carol e Jorge ao saberem como conheci o astro pop favorito deles. Sou tirada dos meus pensamentos pela música que tocava no carro, uma das minhas favoritas do Coldplay, e nunca pensei que se encaixaria tão perfeitamente em tudo que estava acontecendo.
I think of you/ Eu penso em você
I haven’t slept/ Eu não tenho dormido
I think I do/ Eu acho que consigo
My body moves/Meu corpo se move
Goes Where I will/ Vai para onde eu quiser
But thought I try my heart stays still/ Mas, embora eu tente, meu coração continua parado
It never moves/ Ele nunca se move
Just won’t be led/ Só não sai do lugar
And so my mouth waters to be fed/ E a minha boca saliva para ser satisfeita
Era exatamente assim que me sentia desde o momento em que vi aqueles olhos verdes pela primeira vez no meu sonho. Ainda me custava acreditar que tudo aquilo estava realmente acontecendo que Laís, no fundo, estava certa o tempo todo. Talvez esse encontro não fosse apenas coincidência. Talvez ele fosse, de fato, algo maior... algo escrito, inevitável.
Por mais que eu ainda não concordasse com a forma como ele agiu no palco, havia algo impossível de negar: havia magia. Aquele instante em que nossos olhos se encontraram foi como um colapso no tempo. Um silêncio ensurdecedor entre os gritos da plateia. Como se o universo inteiro tivesse parado para nos observar.
A conexão que senti era forte demais para ser explicada. Só nós dois sabíamos o que se passou dentro dos nossos corações naquele momento, a descarga elétrica que percorreu meu corpo, o calor que tomou meu peito, a sensação absurda de já tê-lo conhecido antes. Era como se duas almas que vagaram por muito tempo tivessem finalmente se reconhecido. Um reencontro, não um começo.
E por mais que eu tentasse racionalizar, fugir, minimizar, já era tarde. Parte de mim já sabia: aquela vontade insaciável de estar perto dele não ia sumir tão fácil.
You’re always in my head/ Você está sempre na minha cabeça
You’re always in my head/ Você está sempre na minha cabeça
Always in my head/ Sempre na minha cabeça
You’re Always in my head/ Você está sempre na minha cabeça
Always in my/ Sempre na minha
You’re Always in my/ Você está sempre na minha
This/ Isso
I guess / Eu acho
Is to tell you you’re chosen / É pra te dizer que te escolhi
Out from the rest / De todo o resto
A música termina suavemente, como se fosse o encerramento simbólico de um capítulo que eu ainda não entendi direito. Percebo que estamos nos aproximando da fachada do hotel. O motorista, gentil, me avisa que chegamos e pergunta se preciso de ajuda para entrar. Apenas balanço a cabeça em sinal de "não", forçando um pequeno sorriso, agradeço pela viagem e me despeço.
Antes de sair, ajeito minha roupa com as mãos trêmulas, preocupada com a possibilidade de ser abordada por algum paparazzi escondido atrás de uma árvore ou refletido nos vidros do hotel. Suspiro fundo e encaro o prédio à minha frente. Luxuoso, silencioso... e sufocante. A simples ideia de me trancar naquele quarto, sozinha, com todos esses pensamentos me consumindo, era desesperadora.
Foi então que olhei para trás.
O mar estava lá, imenso e sereno, como um refúgio que me chamava com voz baixa. As ondas se quebravam ritmadas na areia, como se quisessem me embalar, me acolher, me lembrar de que havia beleza ainda no caos. Senti meus olhos arderem com a emoção contida. Eu precisava de paz, precisava respirar longe do burburinho, longe das manchetes e das especulações, longe até de mim mesma por um instante.
Sem pensar duas vezes, mesmo com o medo de ser reconhecida, virei as costas para o hotel e segui em direção à orla. Os pés firmes, o coração pesado.
Eu só queria um momento em que a Marina artista, a Marina julgada, a Marina envolvida com o “queridinho da América” pudesse simplesmente silenciar. Por um instante, ser só uma mulher tentando entender onde tudo isso iria dar e se, de alguma forma, aquele olhar verde que me assombra desde o sonho, era mesmo o começo de algo que nem a razão consegue impedir.
Continua...
Mas me diz uma coisa...
Será que Marina vai conseguir esquecer a raiva de Charles (ou será que ela só está tentando disfarçar o quanto ele mexe com ela? 👀)
Será que esse passeio à beira-mar vai trazer a paz que ela tanto procura... ou só mais confusão?
Ouvi uns boatos por aí (não fui eu quem espalhou, juro) de que ela pode ter uma surpresa inesperada nessa praia. Alguém vindo? Alguém espiando? Alguém esperando?
Bom... isso só vamos descobrir no próximo capítulo.
Beijos cheios de drama, mistério e uma pitada de sal do mar,
xoxo, Estela 💋"