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Última atualização: 04/06/2017

Capítulo 01

Tudo se iniciou, quando na manhã de um sábado , voltei à consciência. Meus olhos ainda estavam um pouco pesados, e aquela sala onde me encontrava estava fria, um frio incomum. Sim, eu tinha noção de onde estava e também me lembrava de como fui parar ali. Tentei me movimentar mais meu corpo se recusou a me ajudar, sem falar que ao tentar senti meu corpo todo doer. Eu estava na U.T.I. de um hospital sendo monitorada por alguns aparelhos. Olhei para os lados e vi que estava absolutamente sozinha e que ouvia apenas os “bips” dos aparelhos.
Comecei a orar para aparecer logo um enfermeiro ou um medico, ou qualquer pessoa que pudesse me dar noticia de e . Fechei novamente meus olhos, como se suplicasse a Deus que alguém viesse me dar notícias e, que elas fossem boas.
- Como se sente? – Ouvi uma voz rouca dizer e despertei de meu devaneio, um pouco assustada, confesso.
Como ele tinha entrado lá sem eu perceber?
- Meu corpo esta um pouco dolorido, mas creio eu que estou bem, você como médico poderia me dar um diagnóstico, e até mesmo me tirar daqui não é, ?
- Eu não estou de plantão, nem com cabeça para trabalhos. E antes de te dar um diagnóstico eu teria que ver seu prontuário e conversar com o médico que esta te acompanhando.
- Como está, e ? – Perguntei logo sem mais delongas. – Eles estão bem?
respirou fundo e soltou o ar lentamente, seus olhos me diziam que algo errado estava acontecendo e aquela demora só fazia com que eu ficasse mais preocupada e nervosa. Comecei a orar novamente em pensamento para que a notícia não fosse ruim. Mas algo dentro de mim já me preparava pro pior.
- , infelizmente, eles não resistiram aos ferimentos e faleceram poucas horas depois de terem sido trazidos para cá. Haley, a médica que os atendeu, disse que estava consciente e pediu para você cuidar do Frederico. – Ele riu levemente enquanto contava os pedidos de minha melhor amiga. – Te pediu para tomar juízo e não aprontar muito porque ela não estaria aqui para te socorrer.
Agora eu compreendia a frase “mesmo sabendo que a vida acaba; a gente nunca esta preparado para perder alguém”. Não estava preparada para perder minha melhor amiga, quem esteve comigo em todas as fases de minha vida. Como eu poderia voltar para casa e saber que ela não estaria lá e que nem se quer retornaria para lá. Como eu iria ter forças para prosseguir depois disso? Meu coração estava doendo, e não era uma dor normal, era uma dor de perda. Comecei a chorar, como se as lágrimas que escorriam em meu rosto fossem aliviar minha dor; mas era tolice pensar isso.
Senti me abraçar e chorar comigo. Nunca fomos próximos, ele era apenas o melhor amigo/ irmão de , namorado de minha melhor amiga, então só nos víamos e tínhamos algum contato quando eles nos reuniam. Foi um abraço desajeitado, pois eu estava inclinada e, não literalmente sentada, nem deitada. Eu estava no meio termo, se é que da para entender. Retribui o abraço, o apertando como se aquele abraço fosse me aliviar. sabia o que eu sentia, e eu sabia que estava sendo doloroso para ele tanto quanto para mim.
- Eu sei que está doendo, porque está doendo em mim também. E essa dor não vai passar, mas com o tempo aprenderemos a lidar com ela. – disse quando me soltou.
- Não tive tempo de vê-la e nem de cumprir nossa promessa. –
Chorei ao me lembrar de que quando éramos adolescentes prometemos que quando uma de nós morresse primeiro iríamos de dona morte no velório.
- Você não cumpriu porque teve motivos maiores. E tenho certeza que iria compreender.
Vi uma mulher entrar na sala, e essa deveria ser a médica, sorriu para que retribuiu com um sorriso pequeno.
- E como está se sentindo, ? – Disse a mulher.
- Nada bem. – Falei limpando minhas lagrimas. – Eu preferia não ter acordado.
- Não diga isso, querida. A vida é o nosso bem maior, e devemos aproveitá-la enquanto podemos. Iremos acompanhar você por mais essa noite e se tudo ocorrer bem, já pode ir para o quarto.
- Quando terei alta? – perguntei.
- Quando você estiver recuperada. , Lizzie esta te chamando na sala dela.
- Tudo bem, eu já vou. – Ele a respondeu e ela concordou com a cabeça.
Fez mais algumas perguntas e analisou tudo em minha volta, anotando tudo como se fosse crucial. Depois de um tempo ela se despediu e disse que voltaria mais tarde.
já não estava mais na sala e me encontrava sozinha, então tudo veio à tona novamente, era inevitável e impossível de segurar as lágrimas e nem fazia questão. Não tinha noção nenhuma de como voltaria para casa, como cuidaria do Fred, da onde tiraria tanta força? Durante toda a tarde chorei, dando intervalos, quando conseguia me distrair conseguia me controlar, mas quando caía à ficha novamente, não aguentava. Dormi logo no começo da noite e só acordei no dia seguinte.
- Você precisa comer. – falou pela terceira vez.
- Você também não comeu e eu não estou te enchendo o saco por isso. – retruquei.
- , ao contrario do que pensa, eu comi. Pouco, mas me alimentei. Você deveria deixar de ser chata e comer nem que seja uma banana. O pouco que te conheço você deve estar se perguntando “por que não eu? Por que eu não morri junto?”, mas se você está viva é porque sua jornada aqui na terra não terminou.
- Como que pode a jornada dela ter terminado, se mal tinha começado? Parece que você não entende. Eu voltarei para minha casa em alguns dias e como eu viverei lá sem ela, ? Eu não posso. Sinceramente, acho que não consigo.
- Acha que está sendo fácil para mim? Pois saiba, que não está. Não consigo me esquecer do que aconteceu, e nem acreditar. Estou detonado e acabado por dentro e por fora. Mas preciso reunir o resto da força que ainda me resta, e tentar sair dessa.
- Sei muito bem quais serão suas artimanhas para esquecer eles em menos de um mês, .
- Você é insuportável, né garota? Eu até cogitei a ideia de que poderíamos nos dar bem, mas acabei de lembrar quais são os seus pensamentos sobre mim, e o porquê de nunca conversarmos.
- Acertou. Se não nos demos bem quando eles eram vivos, não nos daremos bem, depois da morte deles.
Antes de retrucar, seu celular começou a tocar e ele saiu para atender. Talvez não devesse julgar ele, ou até mesmo discutir, porque apesar de nossas diferenças, ele esteve comigo todos os dias. Quando ele voltou, ele me olhou, e pude ver através de seus olhos que ele não estava bem, sei que eu também não estava, mas sabia que conseguiria controlar meus sentimentos com o tempo, ao contrario dele, que segundo , nunca soube como lidar com o que sentia.
- Eu vou precisar ficar de plantão hoje, então não vou vir te ver esta noite. – Ele disse calmo. – Se cuide, e, por favor, coma alguma coisa, nem que seja uma fruta.
- Eu sempre me cuido, . – Falei – Bom plantão e se precisar; sabe onde me encontrar.
Vi ele apenas concordar com a cabeça e sair. Novamente estava sozinha e, não sabia o que fazer para ocupar minha mente, fechei os olhos, como se fosse possível chamar o sono, mas nada. Ouvi passos ecoarem pelo quarto, mas não me dei ao trabalho de abrir meus olhos.
- Olá, . – Ouvi uma voz feminina ressoar. Ao ouvir se referiria a mim, abri meus olhos para ver quem era. Era a mesma mulher de ontem. – Como se sente?
- Estou melhor.
- Vou liberar você para ir para o quarto, ok? Ontem acabei me esquecendo de me apresentar. Sou Becky, estou acompanhando você desde o dia em que chegou.
- Prazer, Backy.- Tentei sorrir. – É quando eu receberei alta?
- Logo, . – Ela disse. – Eu preciso ter plena certeza de sua recuperação. – Milagre não encontrar o doutor por aqui.
- Ele deve estar de plantão. – Respondi.
- Ah sim, ele está aqui desde que recebeu alta.
Parei para pensar por um instante, estava conosco naquele carro, ele poderia estar morto também, porém quando acordei, nem se quer me lembrei dele, ao contrario dele que esteve aqui, desde que recebeu alta.
- É, ele foi muito atencioso mesmo.
- Pedirei para te transferir para o quarto, e visitarei você amanhã. – Ela disse, já se preparando para sair. – E procure comer, , se deseja sair daqui. – piscou para mim, e depois olhou para a bandeja que estava do lado de minha cama.
E apenas assenti para ela.

**


Os dias tinham se passado, digamos que até rápidos. Já estava em casa. E para ser sincera, era uma sensação horrível. Não via há uns três dias. Estava completamente sozinha. E a dor estava bem ali, cravada em meu coração, não tinha vontade de sair, nem de comer, nem de nada. Ficava em meu quarto com o Fred, o cachorrinho que deu para . Sabia que na semana seguinte precisaria voltar ao meu trabalho. Mas eu sentia que não tinha condições. Cogitei ate mesmo a ideia de me mudar de casa, tudo ali lembrava eles e não ter eles era como se tivesse um abismo em casa.
Naquela tarde quando eu dormi, tive um sonho diferente, mas confortante ao mesmo tempo.

“ Eu estava na sacada de meu quarto, olhando o pôr do sol, e a sensação era tão nostálgica e gostosa que não tinha vontade de sair dali.
- É bom sentir a brisa de leve e ver o pôr do sol, não é? – Ouvi uma voz vinda atrás de mim, sabia de quem era.
- ? – Sorri ao vê-lo.
- Você esta um caco. – Ele disse sorrindo. – Você não costumava ser assim, excelentíssima juíza.
- Eu não costumava viver sem vocês. – respondi. – Não acredito ainda que vocês se foram. – Senti algumas lágrimas caírem
- Estamos em um lugar melhor. , eu não tenho muito tempo. Eu preciso te pedir uma coisa. Preciso que ajude , na verdade, preciso que se ajudem.
- Você sabe que não nos damos muito bem, .
- Por favor, ; faça esse favor por mim, ajude , porque ele esta se afundando. E se ajude! Ver vocês assim está acabando com a gente. Façam esse esforço por mim e pela , não queremos ver vocês se definharem. Amamos vocês.
- Eu vou tentar. Prometo. – Eu disse.
“O vi sorrir e piscar para mim e retribui o sorriso. Balbuciei que também os amava.”


Acordei com Fred lambendo meu rosto sem parar.
- Freed! – disse com a voz arrastada. – Para com isso.
Meu celular vibrou e vi o Frederico ficar encabulado, olhando para o aparelho. Ri com aquele ato e peguei o celular.
“Como se sente? Xx
“Estou na mesma, está sendo horrível viver aqui sem eles. E você como está? Xx
“Pior que antes. Quer tomar um café?”
‘Só se for em casa”
“Prefiro ir a uma cafeteria, vai ser bom para você também. Passo te pegar em 20min, é o tempo que levo do hospital até ai. Xx






Capítulo 02

tinha escolhido a cafeteria e particularmente fazia muito tempo que não ia ao Starbucks, geralmente eu pegava café no Monmouth que em minha opinião era onde tinha o melhor café para se levar para casa, ou no meu caso, para o trabalho. Costumava ir ao Starbucks quando era mais nova, adorava aquele lugar, então pelo uma vez na semana íamos lá.
Quando nos sentamos ficamos por um bom tempo em silêncio, mas por incrível que pareça não era um silêncio que gerava desconforto, pelo contrário, era até que bom. Estar na presença de era bom e nunca tinha percebido isso antes, ou talvez seja porque ele me lembrasse eles; era até cômico lembrar, mas só nos víamos quando éramos convocados por e .
- Eles não iam acreditar nisso agora. – falou quebrando o silêncio.
- Isso o quê?
- Nós dois aqui sozinhos, sem discutir.
Quando ele me respondeu, rimos. Ele tinha razão, isso nunca acontecia porque sempre discutíamos, nossos pensamentos eram diferentes e quase nunca concordávamos, por conta disto, não nos falávamos, então estar tomando café sozinhos sem brigar era um progresso, porém, era triste. Sabíamos com exatidão porque de não estarmos discutindo, sabíamos o porquê de estarmos juntos, e isso doía. Quando a gente perde alguém que conhecíamos, mas era distante, dá a impressão que a dor da perda logo passa. Mas quando perdemos alguém que não sabemos viver sem, cada minuto que se passa é como o fim.
- Até que você não é tão insuportável de boca fechada. – Repliquei.
Ele apenas me olhou com um olhar sarcástico, como se o olhar que lançou pudesse me responder.
- Como você está? – Ele perguntou, mudando de assunto.
Entortei a cabeça como se estivesse pensando no que responder, mas na verdade sabia como estava, não olhei para ele, mas respondi.
- Minha cabeça dói. Meu corpo está todo roxo e eu não consigo esquecer tudo o que... – Minha voz tinha saído mais baixa que o esperado.
Não consegui concluir o que falava, parei no final do diálogo e coloquei as mãos no rosto. Veio uma súbita vontade de chorar, e confesso que chorei, mas tentei o máximo segurar o choro. Sabia que tinha sofrido um acidente e que esse acidente tinha causado a morte de meus amigos e que apenas eu e tínhamos saído vivos dele. Mas não lembrava como aquilo tinha acontecido, é como se uma parte de minha memória tivesse sido apagada.
pegou minhas mãos e as entrelaçou nas dele. Um ato um tanto que estranho, mas ao olhar para ele, pude entender sua atitude, era como se ele dissesse que tudo iria ficar bem e que estaria ali comigo. Podia ver que tudo aquilo doía e o fazia sofrer também, mas também senti conforto.
- , você não precisa fazer isso sozinha. Sei que algo não dava certo entre nós, mas talvez pudéssemos nos ajudar.
- Preciso me livrar daquilo e não consigo porque ela amava tudo ali, ! Ela ia me matar se eu jogasse os sapatos dela fora e, quando digo matar, estou falando sério.
riu, pode ser que estivesse imaginando atrás de mim querendo me matar por me desfazer de suas coisas.
- Posso te ajudar, vamos colocar tudo em um depósito, assim não terá que se desfazer de nada.
- Eu não consigo.
Ficamos mais um tempo em silêncio, até retomar a conversa.
- Tenho tido uns sonhos...
- Com o ? – Perguntei.
- Não, por mais estranho que pareça, sonho com a .
Era estranho ele sonhar com minha amiga e não com que era mais chegado que ela. Entortei a cabeça, cogitando várias possibilidades, até mesmo de ter um amor secreto por .
- Nããão, não gostava dela, quer dizer, como amiga, mas não... - Ele tratou logo de se explicar.
Respirei fundo e disse:
- Deve ser nossa mente! Sonhei com o também.
- Mas, isso não é estranho?
- Estamos abalados, e nossa mente está produzindo certos sonhos como se isso fosse trazer paz a nós.
Seu celular começou a tocar e ele se levantou para atender. Só nesse momento percebi que estávamos todo aquele tempo ainda com as mãos entrelaçadas. Voltou minutos depois, e me informou que era uma emergência e precisava voltar ao hospital; se ofereceu para me levar para casa, mas recusei, disse que iria ficar ali por mais um tempo e apenas concordou.
- Vamos marcar para resolver tudo.
Assenti com o que ele disse e antes de sair me deu um beijo longo na testa, sorri com o ato. estava sendo carinhoso e prestativo comigo, o que destruía um pouco da imagem ruim que tinha dele. Pensava que alguém como ele jamais poderia agir assim com outra pessoa, ainda mais quando essa pessoa era eu.
- Não acredito que você está fazendo isso comigo, . – Murmurei baixinho quando o vi atravessar a rua e entrar em seu carro.





Capítulo 03

Tinha sido afastada do meu cargo como juíza por um mês, eles perceberam como meu psicológico estava abalado e por isso me afastaram. Pediram para que procurasse um psicólogo e foi isso que fiz. Fazia apenas três semanas desde a morte de e e me encontrava sozinha. tinha sumido por uns dias e fiquei com receio de procurá-lo. Meus sonhos com ficavam cada vez mais frequentes, e isso me deixava maluca.
- Fred! – Chamei. – Fred! –
Procurei-o por meu quarto, pela cozinha, banheiro, sala e nada de encontrá-lo. Parei na frente do quarto de e o chamei novamente, mais uma vez nenhuma resposta obtida. Afastei a porta e lá estava ele, deitado na cama dormindo. Frederico quando dormia não há quem o acordasse. Fui pegá-lo, mas a campainha começou a tocar, então resolvi deixá-lo ali até eu abrir a porta e ver quem era.
- ? –
Ele não disse nada apenas me abraçou.
- Eu senti falta de conversar com você. –
Han? sentiu falta de conversar comigo? Isso sim era um milagre, e dos grandes! Eu estava tão surpresa que nem dei conta que o abraçava com força e carinho. Sempre o tive por perto, mas era incrível nunca ter nos aproximado tanto assim, nem nos falávamos direito e agora temos prazer da companhia um do outro.
- Isso está ficando cada dia pior. – Brinquei.
- Eu devo ter passado por uma lavagem cerebral para poder começar gostar de você.
Fiquei em silêncio sem retribuir o comentário, apenas fiz um sinal para que ele entrasse.
- Tenho um convite. – falou se sentando no sofá.
- Diga.
- Vossa excelência aceitaria ir ao cinema comigo? – Pediu sorrindo e mostrando os ingressos. – Estava passando por perto e pensei que seria uma boa ideia para nos distrairmos um pouco.
- Pare de me chamar de vossa excelência, babaca. – O xinguei, mas ele riu, mostrando não ter se afetado com o que eu disse. – Para s...
- Não aceito não como resposta. Por favor, .
- Você vai me deixar em paz depois?
- Talvez. –
- Você merece companhia melhor que a minha, .
- Sua companhia por esta noite me basta. Sem falar que Lizzie, minha segunda opção está de plantão e, ela voltou com o namorado louco dela.
- Sabemos que na verdade a segunda opção sou eu. Mas finjo não me importar. – Pisquei. –
- Você se importa?
- Nem um pouco. Até porque você deve gostar dela, e eu sou sua... – Eu não sabia como terminar a frase, afinal, eu era amiga? Colega? Conhecida.
- Não importa. Vamos logo que pretendo assistir o filme e se demorarmos não vamos conseguir entrar.

**


Tivemos que parar o carro quase há um quarteirão do cinema, pois todas as vagas já estavam ocupadas, o que quer dizer que o cinema estava lotado. Estava muito frio e tentei ao máximo que aninhar em mim mesma, com a esperança de assim me esquentar mais.
Quando estávamos chegando perto do cinema, pude ver os pais do . Jamais me esqueceria do rosto deles, sem falar que se parecia um pouco com os dois, mas sinceramente, mais com a mãe dele, era a cópia dela, quer dizer; um pouco modificada com os traços de seu pai. entrelaçou nossas mãos, olhei-o surpresa e com os olhos arregalados, será que estava se tornando mania dele fazer isso?
- Te explico depois. – Sussurrou em meus ouvidos.
Vi os pais de vir em nossa direção e tentei sorrir, mas acho que não funcionou muito bem.
- ... – Senhor cumprimentou . – . – E logo me cumprimentou também. – Como estão?
- Como o senhor acha senhor, ? – Respondeu .
Tocar na ferida doía, e me fazia sentir vontade de chorar. Era tudo tão recente que ainda estava aprendendo a me controlar. Ao mesmo tempo em que senti tristeza, senti raiva. Sempre soube como os nunca aprovaram o namoro de e , e como podiam eles não gostar dela? Sendo que ela sempre foi maravilhosa em tudo que fazia. me puxou para um abraço de lado e não recusei.
- Eu sempre senti que fosse dar errado sabe, filho?- Senhor disse com uma tristeza notável em sua voz.
- Desculpa, errado? – Perguntei.
Ele me olhou como se estivesse se arrependido de ter dito isso, como se dissesse “Ah, ela é amiga de ”.
- Acho que ninguém esperava isso, e nem nunca vai superar, senhor. – falou e eu dei graças a Deus de ele ter dito algo, estava prestes a meter a boca naquele homem.
- Amar demais pode levar a morte. – Disse o homem.
- Melhor morrer amando do que se afundando numa empresa. – Retruquei.
- Como vão os preparativos do casamento, ? – Senhora mudou depressa de assunto, deve ter previsto que se o assunto continuasse naquele rumo não terminaria nada bem.
Casamento? Qual parte desta história tinha perdido. Não sabia que estava prestes a me casar. Fiquei surpresa, mas não demonstrei. Apenas olhei para e senti-o apertar a minha mão e responder por mim. Agradeci-o mentalmente por isso, porque não saberia o que dizer naquele momento, até porque não sabia da onde essa história de casamento tinha surgido.
- Não estamos pensando nisso.
- Já que é bom morrer amando e como nunca sabemos o amanhã, o correto não seria adiar o casamento. – Ela disse e pude sentir ironia em sua frase.
- Me casando ou não vou continuar amando o .
Respondi. E para falar a verdade, não sabia da onde tinha tirado aquilo, mas já que era para fingir, que pelo menos parecesse real nosso “romance”.
Continuei:
- Até porque e não se casaram, mas se amavam bastante não é mesmo, ?
Ele sorriu, e foi o sorriso mais bonito e sincero que vi naquela noite.
- Disso tenho certeza.
- Vamos, amor, senão vamos perder a sessão e, se tem uma coisa que não devemos perder é tempo, né senhora ? – Sorri falso e foi o sorriso mais forçando que já dei a alguém.
Abracei mais forte por baixo de seu casaco, uma porcentagem para parecer mais convincente e outra porque não estava aguentando de frio e de algum modo consegui me aninhar ali.
- Sim, vamos! – falou sorrindo para mim.
Vi os pais de sorrirem e acenarem nos dando tchau. Seguimos para a entrada do cinema, onde fui me soltar de , afinal, o teatro já tinha acabado, mas ele me segurou nele.
- Pode ficar! – Ele falou baixo. – Assim nos esquentamos!
- Me explica agora. – Pedi.
- inventou tudo isso para não ter que ir mais às reuniões da empresa de seus pais. Você deve imaginar o quanto ele odiava tudo aquilo, então sua única saída foi inventar que estávamos noivos, prestes a nos casar e, sendo assim, ele não poderia frequentar as reuniões, pois estava nos ajudando nos preparativos. – explicou calmamente dando uma pausa para depois continuar. – Ele me pediu para mentir sobre isso caso os pais dele perguntassem, achei que você sabia disso! queria seguir a carreira na área de jornalismo e não cuidar dos negócios do pai dele.
- Não sabia do nosso suposto noivado. – Confessei. – Mas sabia o quanto ele odiava a pressão de ter que seguir com os negócios da empresa quando tudo o que ele queria era cursar jornalismo, ele amava essa área.
Sorri ao lembrar-me das várias vezes que me contara de seu sonho de ser jornalista. Ele amava isso e falava com tanta empolgação que era contagiante. sempre o apoiou e ele estava prestes a realizar seu sonho. Também sabia que tinha saído de casa para ir morar com , que era seu amigo desde a adolescência, então ele o considerava como irmão. Ele tinha largado à empresa, os pais, a família, tudo pela ; pois eles nunca a tinham aceitado, assim como os pais dela não o aceitavam e por isso ela veio morar comigo.
- Lizzieee! – Ouvi a voz de sair empolgada e me virei para ver a mulher a minha frente.
Ela era muito bonita. Tinha cabelos castanhos escuros, seus olhos eram amendoados e sua pele morena. Também era alta, pouca coisa mais alta que eu. E bem magra.
Sabia que ele tinha interesse por ela, e estar abraçada com ele podia fazer com que ela pensasse coisas que não existiam. Por isso, novamente fui me afastar dele, mas ele me puxou para si; assim como antes.
- Essa é . – Ele me apresentou a ela.
Sorri para ela como forma de cumprimento e esperava que ela estivesse entendido.
- Encontro? – Perguntou Lizzie.
- Depende do que ela decidir.
Hã? Era demais por uma noite e esperava que esse filme começasse logo. Estava confusa o suficiente. E isso graças ao .
- Pensei em vir assistir um filme. – Lizzie disse sorrindo para que parecia um bobo olhando para ela.
- Com seu namorado ali? – Perguntei a ela.
Vi a feição de mudar, e pelo que conhecia dele, ele estava puto. E muito puto. Não tinha ideia do que se passava por sua mente, mas fora iludido se caso pensou que ela estava sozinha. Como descobri que era seu namorado? Pude ver os olhares que ele lançava em nossa direção e as alianças idênticas, tanto no dedo dela como no dele.
- Seu namorado? – perguntou incomodado, e isso era nítido.
- Vamos, amor? – O cara se aproximou dela com o pote de pipocas e ela sorriu para ele, respondendo assim, a pergunta feita segundos antes por .
- Ate mais ver, . – Ela se despediu.
Pude ver com raiva. E eu também estava. Agora tinha entendido o joguinho dele. Ele estava me usando para fazer ciúme e isso era tão ridículo. Mas o que mais poderia se esperar dele?
- Seja menos idiota, antes de fazer os outros de idiota, . –
Falei e me soltei dele indo comprar pipoca e refrigerante.
- Me desculpa. – Ele pediu e eu não respondi nada, apenas segui para a sala do cinema.





Capítulo 04

Não estar trabalhando significava que eu tinha mais tempo para pensar e nem sempre isso era bom. Na noite anterior depois do filme, me trouxe para casa, viemos em silêncio, e agradeci por isso.
Peguei meu carro, minhas coisas e segui para o consultório do psiquiatra/psicólogo. Lembro-me de uma única vez em que fui ao um psicólogo, era muito nova, devia ter na faixa de uns seis anos; tinha um terrível medo de bonecas, o que fez minha mãe me levar para ver se parava de perturbá-la de madrugada. A parte boa foi que isso me ajudou e muito, então ir falar com um estranho não me parecia ser tão ruim.
Quando cheguei, fiquei aguardando ser chamada, enquanto isso lia o jornal daquele dia que estava em cima da mesa de canto.
- Boa tarde, ! – Disse o doutor lendo uma ficha.
- Boa tarde, doutor. – O cumprimentei de volta e ele sorriu assentindo.
Não queria dizer nada, mas esse doutor era muito bonito. Poderia vir aqui todos os dias só para vê-lo. Ele tinha os cabelos castanhos claros, olhos bem azuis, e um sorriso impecável. Sem falar que me parecia simpático. Tinha uma terrível queda por homens de branco, e ele vestindo aquele jaleco o deixava ainda mais bonito e atraente. Xingue-me mentalmente e afastei os pensamentos bobos de minha mente. Sentei-me na cadeira confortável ficando de frente para ele.
- Pode me chamar só de , seremos amigos a partir e agora, tudo bem?
Concordei com a cabeça e ele prosseguiu.
- Quer me contar o que está acontecendo? – Disse calmo.
“Na verdade não, doutor.” Pensei comigo. Respirei fundo, organizando meus pensamentos, queria poder saber por onde começar, mas infelizmente, não sabia.
- Er... – Fechei os olhos e disse. – Meus amigos faleceram.
- Isso é terrível, não é? Parece que a dor não vai passar.
- A dor não passa. Fui afastada do meu trabalho por não conseguir executá-lo de maneira correta, meu psicológico está abalado, e arrisco-me a dizer que se é possível, meu psicológico está destruindo, em cinzas praticamente.
- Te entendo perfeitamente. – Ele sorriu de lado. – As maiorias de meus pacientes me perguntam como sou capaz de compreendê-los, e sempre os digo que os entendo porque na maior parte do que estão sentindo, já senti. Então te digo, , também já perdi alguém que eu amava muito.
- E o que fez para superar?
- Eu tentei ao máximo prosseguir, pois sabia que era isso que minha mãe queria que eu fizesse. Tive que ser forte pelas minhas irmãs também. Infelizmente minha mãe faleceu nova, e deixou minhas irmãs gêmeas, e desde então cuido delas. – Sorriu olhando para o porta- retrato em sua mesa.
- Sinto como se não fosse capaz de prosseguir. Sei que e iriam querer muito que eu fosse forte, mas parece que não tenho essa força.
- Você tem sim. – Ele disse me olhando, e falou com tanta convicção. – Eles não iriam gostar de te ver tão triste assim.
Parecia mesmo que ele me entendia, era como se estivesse conversando com alguém que conhecia há tempos. Eu não me sentia constrangida e nem incomodada. estava sendo compreensivo e me dando conselhos maravilhosos; ele tinha uma perspectiva tão diferente que me fazia olhá-la e ver que tinha razão.
Ficamos por mais um bom tempo conversando e só não conversamos mais porque meu horário tinha terminado e ele tinha outros pacientes. Ao sair de sua sala, parecia estar mais leve, conversar com ele foi bom. Tinha a sensação de estar perto de conseguir a prosseguir.

**


Depois de mais algumas sessões com , estávamos bem íntimos, ele até conseguia me fazer rir. Além de ser meu psicólogo/ psiquiatra, ele estava sendo um ótimo amigo. Trocamos o número de nossos celulares, para caso precisássemos conversar um com o outro. Isso era loucura e surreal. Estava sendo precipitada ao ter tanta intimidade com um cara que conheci há tão pouco tempo? Podia até ser, mas o bem que ele me fazia quando conversarmos era tão surreal quanto aceitar a amizade dele assim, do nada!
Meu celular estava tocando e demorei a perceber isso. Quando o peguei, tinha duas chamadas perdidas e já não tocava mais. Não demorou muito para começar a tocar de novo e sendo assim, atendi.
- Alô?
- Oi, . – falou calmo.
Como senti saudade de ouvir a voz dele, me trazia uma paz interior que nem mesmo eu era capaz de explicar o porquê.
- Oi, .
- Então, o que você acha de desocuparmos o quarto deles hoje? Adiar pode ser pior.
- Vou fazer isso, não precisa incomodar-se.
- Tínhamos combinado que íamos fazer isso junto, não tínhamos?
- É, , mas de verdade, acho que não vou precisar da sua ajuda, posso fazer isso sozinha, além do mais, não quero te incomodar com essas coisas.
- , eu acho que você entendeu errado aquele dia.
- Não, acho que entendi muito bem, . E você não me deve nada, você sabe disso.
- É claro que sei que não devo, mas estou querendo conversar.
- Ok, o que você quer falar, ? – Cedi.
- Que não foi o que você pensou.
- E o que pensei?
- Não sei... Algo ruim.
- Está vendo? Quer se explicar por algo que nem sabe o que é? Tchau, , está tudo sob controle.
- Não, não, não. – falou rápido na linha. – , por favor. Como você é complicada, meu Deus!
- , de verdade, preciso resolver algumas coisas, nós nos falamos mais tarde.
Desliguei o telefone e o guardei- o no bolso do meu casaco. Estava um pouco chateada com o pelo que aconteceu outro dia. A sensação de me sentir usada é cruel. E por isso, naquele momento, não o queria por perto.
Estava de frente para o quarto de e , fiquei um bom tempo ali, nunca mais tinha entrado naquele quarto depois da morte deles. A plaquinha que ficava na porta estava ali, do mesmo jeito que ela deixou, e eu poderia começar tirando ela.

Flashback On

- Você é maluca, que plaquinha ridícula é essa? – disse rindo ao ver ela me mostrar.
- Na verdade, era só “ no país das maravilhas”, mas, pediu para a mulher escrever “ faz maravilhas”.
- Vocês são pirados.
- E aí já decidiu se vai viajar com a gente?
- Aquele amigo do seu namorado vai nessa viagem?
- É claro, . vai aproveitar sua folga com a gente. E assim você não fica de vela, pode dar uns pegas nele.
- Cruzes. Acho melhor ficar aqui. Eu e ele temos certas adversidades.
- , deve ter algum motivo para você não gostar dele. Eu sou sua melhor amiga, pode me falar.
- Eu não gosto de caras como ele, simples assim. – Sorri.
- Deixa de besteira, são só uns beijinhos. Deseje-me sorte, porque eu vou precisar, e muito. Que o juiz me conceda a causa ganha!
- Boa sorte, e pare com esse negócio de plaquinhas.
- Tá bom. Você pode buscar meu vestido naquela loja que a gente sempre vai? Tenho um jantar com os pais do , e quero causar boa impressão. Espero que eles gostem de mim mais do que ontem. – Ela sorriu pegando sua bolsa.
- Tudo bem, mas tarde passo lá. – Respondi e a vi jogar beijos no ar antes de sair.
Flashback off.

- ? – Falei ao ouvir a voz dele do outro lado do celular. – Tem um horário?
- Claro, . Consigo te encaixar daqui cinco minutos. Te espero aqui no consultório então.
- Para ser sincera, preferia te ver em outro lugar.
- Tudo bem. Encontre-me na cafeteria aqui perto daqui uns dez minutos.
- Tudo bem. Obrigada.





Capítulo 05

Após jantarmos juntos, juntei os pratos, talheres e copos e coloquei dentro da maquina de lavar.
- Não estava tão bom, mas foi o melhor que consegui fazer. – ri.
- Estava ótimo, , de verdade. Faz muito tempo que não como comida que não é de restaurante. – disse.
- E como você faz com suas irmãs?
- Dona Celeste cuida delas para mim enquanto trabalho, aquela mulher é um anjo de Deus, uma segunda mãe para nós. Ela é minha vizinha, e nos ajuda muito, até porque ela é sozinha, então somos a família dela.
- Não tenho sobremesa. Só café. E, chá.
- Aceito o café.
Peguei duas xícaras e nos servi. Poderia ser sim precipitado demais, e até loucura no conceito de outras pessoas eu chamar para jantar em minha casa. A questão era que, me sentia confortável em sua presença, ele era sábio com suas palavras, o que me fazia refletir muito e isso me ajudava quanto aceitar a minha existência sem minha amiga. Podia ser precipitado, mas me fazia bem, e era disso que eu precisava. Sentir-me bem.
- Quer me mostrar o quarto? – Ele perguntou me olhando nos olhos.
Fiquei o encarando, estava preparada para entrar lá? Fiquei em silêncio o olhando e ele prosseguiu.
- , isso são só lembranças e é tudo que você vai ter deles daqui pra frente.
- É incômodo saber disso. Pensar que serão só lembranças.
- É algo que ela te deixou e é uma coisa que sempre vamos deixar você não pode evitar. – Ele chegou perto de mim e segurou minha mão. – Você precisa saber lidar com isso.
- Se tem uma coisa que nunca vou saber lidar é com a morte da minha melhor amiga. Porque os dois, ? Por que não eu? Eu não tinha nada poderia ir e sei que ela estaria melhor do que estou.
- Parto do seguinte pressuposto, . Eles concluíram o que tinham aqui, e olha que sou cético com essas coisas do além. – Ele parou para sorrir e ri do que havia escutado. – Se você ainda esta aqui é porque precisa viver e precisa enfrentar isso. Viver é lindo!
Ele sorriu mais uma vez, e me puxou para perto dele e continuou me olhando no fundo dos olhos. Ele era tão paciente e calmo, e também era lindo na minha concepção, embora essa beleza pudesse ser duvidável para outras pessoas, mas isso não vem ao caso. O fato era que ele sabia o que falar na hora e no momento certo; confortava-me e me fazia sentir bem. E isso era tão estranho, que chegava a me assustar.
- Viver com as lembranças e, de quem amamos é melhor ainda. A sensação de saudade sempre vai estar ali, mas vai ser algo que você sempre vai carregar em você, como um pedacinho dos dois.
O abracei. O abracei tão forte e ele retribuiu. Ele cheirava tão bem, era suave, mas marcante, seu abraço era quente e aconchegante, assim como ele. Não queria me soltar, mas o fiz de imediato, um tanto confusa quando me deparei com dando meia volta para sair da cozinha.
- Ei. – O chamei.
- Achei que estava...
Senti o olhar de ir e voltar entre e eu também confuso, voltando a posição anterior.
- O que você quer? – perguntei com as mãos na cintura e estava com o sorriso de canto nos lábios.
- Achei que talvez você estivesse precisando de ajuda.
- Não preciso de ajuda, te falei isso mais cedo.
- Verdade! Vejo que você já arrumou uma ajuda.
Ele parecia tão... Chocado. Pelo pouco de convívio que tive com ele, ele aparentava espanto. Devia estar espantado ao ver ali em casa comigo, ainda mais porque eu estava abraçando –o.
- Preciso ir, . – falou olhando a hora no relógio talvez percebendo a tensão que se formou. – Preciso por as meninas para dormir. – Sorriu e o acompanhei. – Sabe como é; eu dei barda e elas não dormem sem o beijo de boa noite.
- Eu entendo. Agora você sabe onde moro, pode vir mais vezes.
- Com maior prazer, a gente continua nossa conversa outro dia. Tenha uma boa noite. – Ele disse e depois depositou um beijo em minha bochecha.
Vi abrir a porta e sorrir sem mostrar os dentes. passou por ele o cumprimentando apenas com um gesto de cabeça. Quando fechou a porta ele cruzou os braços e ficou me encarando, como se pedisse explicações.
- Quê? – Perguntei.
- Usou preservativo pelo menos?
Revirei os olhos e taquei uma almofada nele.
Idiota.
Ele começou a rir muito, sem parar, para ser mais exata, e sai em direção à cozinha fula da vida por ele estar fazendo essa palhaçada, e para ajudar ele estava vindo atrás de mim. Antes de entrar na cozinha ele me parou me puxando pelo braço. Parou-me tão bruscamente que quando vi estávamos muito perto um do outro.
- Sinto muito se pareceu que eu estava te usando, , a ultima coisa que quis foi isso. Estava lá porque eu realmente gosto de você.
- Uuuh, parece que você lembrou o que fez.
Vi ele dar um sorrisinho de lado, e não resisti, e sorri junto, mas bem pouco, só para constar. Estávamos nos olhando intensamente, como jamais fizemos na vida. Só tive noção do que a falava sobre os olhos dele serem intensos naquele momento. Pensava que era só merchan , naquela tentativa falha de nos juntar, mas não era. E se fosse, ela pelo menos tinha total razão.
- Me desculpa, esposa!
Olhei para ele com cara de “Aff” se é que existe isso, mas foi exatamente essa palavra que pensei ao ouvir o que ele tinha dito.
- Nunca mais me faça mentir de ultima hora.
- Formamos um ótimo time, você não acha? – Ele perguntou e ri lembrando-se da cara dos pais do .
- Eles agem como se o tivesse sido sequestrado...Os dois se amavam.
- É difícil para as pessoas acreditarem que negócios são menos importantes que amor.
- É, e por que você não disse isso?
Ele não me respondeu. Ficamos em silêncio um por tempo até ele retomar a conversa.
- Seja lá o que for, fiz o que tinha que ser feito... – Ele deu de ombros levemente. E depois continuou. - Sério mesmo que você chamou um cara estranho para te ajudar? Só acho que eu seria mais eficiente. – disse em seu tom brincalhão, rindo. – Sem falar que eu beijo melhor. Ate trans...
Tapei a boca dele antes que ele continuasse com as asneiras que ele estava dizendo. Ele começou a gargalhar e não aguentei e comecei a rir muito junto com ele.
- Ele é meu médico psiquiatra.
- Já ouviu dizer que a fama de doutorzinho é ser ruim de cama, né?
- É mito. – Eu disse.
Ele me olhou com uma cara de quem dizia “Transou, né?”, talvez não com essas palavras, mas era quase isso.
- Não que eu tenha. – Continuei minha frase, tentando amenizar as coisas.
- Se quer uma experiência única na sua vida, vem pro pai!
- Nunca ouvi tanta escrotice.
- Ei.
- O quê? – Falei saindo para pegar meu copo de água.
Estava de costas quando senti a respiração dele no meu pescoço, ele depositou alguns beijos ali, de maneira calma, o que me fez sentir arrepios. Virei-me para ele e estávamos ainda mais próximos um do outro do que antes, colocou sua mão na minha nuca gentilmente e com a outra mão ele dedilhou minha cintura, me puxando para juntarmos nossos corpos e por fim, me deu um beijinho singelo que fez involuntariamente de leve.
- Amostra grátis. – Sorriu e se afastou de mim.
Filho de uma puta. Ele sabia provocar, e sabia muito bem por sinal. O vi indo em direção ao balcão onde estava o micro-ondas. Abriu- o e se abaixou ali procurando alguma coisa que minutos depois descobri que era pipoca.
- Posso? – Ele pediu mostrando a pipoca.
Sem dizer uma palavra, apenas concordei e ele sorriu. Enquanto preparava a pipoca ficamos em absoluto silêncio. Quando o micro-ondas apitou, dei graças a Deus. Ele pegou a pipoca e eu os refrigerantes.
- Não tem cerveja? –
- Não costumo beber muito. Então só compro quando vou beber.
- Que chata.
- Não me enche o saco se não quiser que eu te expulse de casa.
Vi Fred pular os degraus do andar de cima e vir todo rebolando para a sala.
- Olá, Fred! – mexeu com ele.
- Agora vai ter que dar muito carinho e brincar com ele a noite toda até ele dormir. – brinquei.
- Ela esta cuidando bem de você ou você esta passando fome?
- Você espera que ele te responda?
- Você pode parar de interromper nossa prosa. Cachorros entendem o que falamos. Eu acho.
- Vou por comida para ele e já volto. – disse me levantando e deixando a pipoca no sofá. – Vem, Freed!
Levei a ração do Fred até a sala onde estávamos e a coloquei perto da poltrona, assim ele ficaria perto de nós.
- Que filme é esse? – Perguntei já me sentando e colocando a pipoca no meu colo.
- Não lembro mais o nome, mas é interessante.
O filme além de interessante, tinha partes de comédia o que nos fazia rir bastante. Quando terminou de comer a pipoca ele deitou em meu colo. E por costume, e por gostar muito, comecei a mexer em seu cabelo. Fred pulou no sofá e se aninhou ali bem perto de mim.
- Parece que você não atrai só as pessoas, mas os animais também.
- Sou tudo o que ele tem, . Ele procura em mim o que ele costumava ter com ou .
- Mas se você não fosse incrível como é, ele não estaria procurando você a todo o momento. Ele é sua sombra, . Ele só não te segue quando esta dormindo. – Riu. E se levantou do meu colo para se ajeitar no sofá, enquanto Fred se ajeitava ainda mais perto de mim, se é que isso era possível.
- Então 50% do dia ele não me segue. – Falei e ri em seguida.
voltou a prestar atenção no filme, assim como eu. Fazia carinho em Fred e ele brincava com minha mão, dando mordidinhas.
- ?
- Hum? – Respondi.
estava sonolento, e seus olhos estavam pequenos.
- Senta aqui do meu lado. – Pediu e assim o fiz.
- Diga.
- Me sinto tão sozinho.
O que poderia dizer a ele? Não sentia pena, sentia o mesmo. Durante toda minha vida, desde adolescência tive por perto. Distanciei-me quando me mudei para Londres, mas logo ela veio morar comigo. Sempre fui dependente da amizade dela. Era como se estivéssemos ligadas por um cordão umbilical e agora esse cordão foi cortado, só que para sempre. E o que poderia ser feito para sentir-me melhor? Não tinha resposta, e não sabia o que dizer a ele.
- era um irmão para mim e hoje eu não tenho nada. – se abria comigo e seu tom era melancólico. – Sou só eu e a casa horrivelmente vazia. É como se eu ouvisse as gargalhadas do ecoarem por cada vácuo, e isso me quebra, porque eu sei que é mentira, porque eu o vi ser enterrado.
Ele fechou os olhos nitidamente lutando para não ceder e assim ficou, esperando por uma resposta, por menor que fosse.
- Você não está sozinho, . Estou aqui.
Dei um beijo na testa dele e ele me abraçou pela cintura ainda deitado. Quando voltei a minha postura, ele tinha um pequeno sorriso no rosto.
- Posso dormir aqui? –
- Claro que pode. Cuidado para não chutar o Fred que ele esta nos seus pés.
- Pode deixar. Você deita aqui comigo, vossa excelência?
- É claro que não, . Tá doido? – Falei fazendo careta. – E para de me chamar assim. – Disse entredentes.
- Para de ser chata. – Falou me puxando e me fazendo deitar. – Só um pouquinho.
era detestável no termo de ser chato e irritante, mas deitei, deitei não só porque ele pediu, mas porque queria. Estava tão cansada e ele estava praticamente dormindo já, e como o sofá era quase uma cama, tinha bastante espaço.
- Eu gosto de você.
- Durma, .
Não precisei dizer mais nada, pelo silêncio que ficou, certeza que tinha pegado no sono. Não queria ficar ouvindo o quanto ele “gosta de mim”, e como ele passou a me considerar e blá, blá, blá. Meu coração poderia confundir gratidão e ajuda com outras coisas e não queria isso. Não mesmo. Senti me abraçar bem forte como se eu fosse um ursinho de pelúcia e me ajeitei em seu abraço e logo dormi.

“Eu estava em um lugar completamente diferente. Era um chalé todo de madeira, na varanda tinha duas cadeiras estofadas, bem confortáveis, aquelas que costumamos ver nossos avôs ou tios – Avôs. Porém quem estava sentado lá, era . Seus olhos estavam ainda mais realçados, e seus cabelos mais claros.
- Credo, você está horrível ! – Ele me disse. – Assim você não vai conquistar o .
- Eu não quero o . Essa cerveja está te fazendo mal.
- Pois eu acho que tem alguém mentindo para si mesma.
- Quem te disse isso?
- Quem você acha? Não quero deixar na cara, mas é alguém que conhece sua vida de trás para frente.
- Ele tem a Lizzie, e ela parece ser uma ótima pessoa, capaz de fazê-lo feliz. – Não disse como se fosse ciúme, disse de uma maneira para que meu amigo parasse de me perturbar com essa historia.
revirou os olhos e tomou mais um gole de sua cerveja.
- Você supera a concorrência. Quem é Lizzie Campbell perto de ? A vossa excelência.
Ri ao ouvir ele me chamar de vossa excelência, lembrei que me chamava assim às vezes.
- Sinto a falta de vocês.
- Sabemos disso. Também sentimos. , vocês precisam ser fortes, se unir, quem sabe vocês não ficam juntos. Mas se não ficarem, você sabe, a união faz força.
- Deus me livre, não sou capaz de aturá-lo. Vou precisar procurar todos os dias para uma consulta.
- ? Quem é ?
- Ele é meu medico psiquiatra. Ele esta me ajudando bastante.
- Ai caralho, há concorrência dos dois lados. Vocês dificultam tanto as coisas.
- Pare de querer me ver com o , o máximo que você vai conseguir é vê-lo casado com Lizzie.
- Lizzie não é mulher para ele, maaas, cuide dele por mim?
- Que gay.
- Eu sei disso. – Ele riu. – Mas é meio pirado, não quero que ele se perca por se sentir sozinho. E se preparem que vem bomba! Ah, e mais uma coisa: Ir ao salão de beleza uma vez por semana não é crime. – Ele riu e eu também.
Antes mesmo de perguntar o que ele quis dizer com o “vem bomba”, eu acordei.






Capítulo 06

- Acordou cedo, ! – Disse quando cheguei à cozinha e ele já estava lá.
- Costumo acordar sempre esse horário. Posso te pedir uma coisa?
- Talvez.
- Faz panqueca?
- Está falando sério?
- É claro! Você fez uma vez quando fomos à praia todos nós juntos, não confessei, mas é a melhor panqueca que já comi. Eu e o comemos tudo o que sobrou do café da manhã, quando chegamos da praia.
- Explicado o porquê que não tinha mais quando fui comer com . E você ainda culpou o .
- É, eu sei. Mas ele aceitou a culpa, talvez porque ele comeu mais da metade.
- Tudo bem, mas que fique claro que é só desta vez que vou fazer sua vontade, mala.
- Obrigado, . – Ele me abraçou tão forte que até tirou meus pés do chão.

**



- Quer tomar sorvete? – sugeriu no fim da tarde.
- , se sairmos lá fora, nós vamos virar sorvete.
- Vai me dizer que vossa senhoria não tem um casaco, ou dois, que aguente o frio? Vamos, por favor!
- Você é sempre esse pé no saco?
- Na maioria das vezes.
me torrou tanta paciência que decidi ir tomar sorvete. Estava bem frio lá fora, então coloquei o casaco mais quente que encontrei e minha bota ugg.

**


- O seu sorvete esta melhor. – Falei com a voz chateada.
- Também você pediu sorvete de paçoca, ninguém pede sorvete de paçoca, .
- Mas eu estava querendo muito experimentar. E paçoca é uma delicia menos como sorvete.
- Estava pensando, podíamos jantar hoje em um restaurante.
- Está querendo marcar um encontro comigo, doutor?
- Não seria um encontro. Seria só um jantar. – Ele deu de ombros.
- Tudo bem, pode ser. Que horas?
- Umas 21hrs passo para te buscar.
- Prefiro ir com meu carro.
- Como quiser... – Antes mesmo de ele continuar, o interrompi.
- Se me chamar de vossa excelência ou senhoria, te esgano.
- É uma ameaça?
- Jamais. – Rimos.
Quando foi 20hrs me enviou por mensagem o nome do restaurante e o endereço. Terminei de me arrumar, e às 21hrs em ponto sai de casa.
Era um restaurante sofisticado, e muito bonito, fui muito bem recepcionada e me direcionaram para a mesa que tinha reservado. Pedi um vinho tinto para tomar enquanto o esperava.
Deu 22hrs e nada dele aparecer.
- A senhorita deseja fazer o pedido? – O garçom me perguntou.
- Não obrigada, estou esperando um amigo – Sorri e ele apenas assentiu se afastando de minha mesa.
”Onde você esta?”
xx

23hrs e nada.
Nenhuma ligação me avisando. Nenhuma mensagem. Ele nem se quer me avisou que não iria. Pedi a conta ao garçom e ele me trouxe, paguei pelo vinho e me retirei do local. Na saída vi o carro dele parando na frente do restaurante.
- ! – Ele me chamou.
Caminhei até ele, tentando manter a pouco calma, aquela que NÃO TINHA.
- , me perdoe, acabei me esquecendo. Na verdade me perdi no horário.
Não respondi nada quando vi que Campbell estava ao seu lado.
- Não é culpa dele, . – Ela se pronunciou. – Liguei para ele me ajudar. Tive problemas com meu namorado e precisava de alguém para conversar.
- Claro. – respondi, tentando parecer o mais compreensiva possível. –Afinal, porque não entram a mesa já esta reservada tenha uma boa noite e façam um bom aproveito.
- ! - me chamou saindo do carro e o ignorei. – Posso explicar. – Ele disse me alcançando.
- Não tem que me explicar nada, .
- , ela me ligou desesperada.
- E não existe um telefone para me avisar? Fiquei te esperado por duas horas. Mandei mensagens e você não respondeu, nem retornou as ligações. Sei que você gosta dela, e que sou apenas a segunda opção da noite, mas não aceito que façam isso comigo. Você tem noção do que acabou de fazer? Eu fiquei plantada como uma idiota naquele restaurante, . Não me importa que troque uma noite comigo para ficar com ela. Só queria que você tivesse me avisado. – Falei e nesse momento minha raiva estava transparecendo, não era nem se quer raiva. Era decepção. Estava chateada e isso era mais que nítido.
- Me perdoe.
- Preciso ir. – Falei entrando no carro. – Tenha uma boa noite, . E procure não me ligar amanhã me pedindo desculpas, como você esta acostumado a fazer.
Além de chateada estava com fome, o que era pior. Fui tão boba de esperar ele por tanto tempo, e de até cogitar a ideia de que ele poderia estar com problemas. Fui deixada plantada em um restaurante e isso era cruel.
Fui direto para casa, onde lá fiz um lanche e terminei minha noite comendo sozinha em uma sala. Subi para meu quarto e peguei no sono.

“- Você deveria perdoá-lo – falou calmo.
- Eu deveria matá-lo – Respondi.
- , ele é um idiota às vezes mesmo. Mas ele precisa muito mais de você do que imagina.
- 99% ele é idiota. , sei que você se preocupa com ele, mas ele é grandinho, sabe se cuidar.
suspirou com um ar de preocupação, largou a cerveja que bebia e se virou para mim.
- foi a única pessoa que me apoiou em tudo, . E não posso ajudar ele a sair do abismo que esta se metendo, e sabe o que é pior? Ele esta nessa por mim. É por isso que eu peço a você. Sei que ele foi um babaca por te deixar sozinha e estar com Lizzie, mas ele se preocupa com você senão não estaria contigo sempre que ele pode.
- Ele esta comigo “sempre que pode” porque sou a segunda opção e Lizzie está ocupada demais pra ele.
- Dá uma chance para ele provar que é diferente. Ou só o ajude. Se não quiser fazer por ele, faz por mim.
- Relaxe, , esta melhor do que você imagina.
- Não. Ele não está.”

Acordei com o despertador. Era tão sinistro sonhar com , não compreendia o porquê de ele me pedir tanto e em todas às vezes para ajudar . Fiquei pensando em várias hipóteses, mas nenhuma tinha sentido, assim como meus sonhos, nenhum deles fazia sentido.
Levantei, coloquei comida para o Fred, arrumei a casa e sentei no sofá.
- Está entediado também, Fred? –
Fred apenas me olhou abanando o rabinho.
- Vamos dar um volta, garoto.
Arrumei-me e arrumei Fred também. Quando abri a porta tinha um cara com um buque de flores.
- Nossa, ia tocar a campainha e nem precisei. – Ele riu. – ?
- Sim, sou eu. – respondi sem entender nada.
- Isso é para você. Tenha um bom dia. – Ele falou me entregando e saiu em direção a um carro.
Entrei de novo com Fred. Procurei por um bilhete ou algo que me informasse quem me enviou. Encontrei um papel pequeno, no meio das flores.

“Você disse para não te ligar então tive que bolar outra coisa para pedir desculpas e me redimir com você. Será que vossa excelência pode me perdoar?
P.s: Tem bombons no meio do buquê. Um ao leite. Outro meio amargo. E um gourmet; não sei qual você prefere, mas sei que ama chocolate.
Xx .”

Em todos os meus 28 anos de vida, foi a primeira vez que no meio de um buque tinha chocolates. Sorri comigo mesma. era um idiota, mas sabia ser fofo às vezes, mas isso não queria dizer que estava tudo bem, “Que nada aconteceu”, ah, querido , eu sou muito mais difícil de lidar do que você possa imaginar. E já tinha perdido um ponto como o “Vossa Excelência”, se ele soubesse como isso me irritava ele pararia imediatamente.





Capítulo 07

- Serio que você ficou sozinha em um restaurante? –
- É serio. Não que me importe muito com isso, mas fiquei mais chateada por não ter me avisado e por ter aparecido lá com outra pessoa, sabe?
- Talvez seja ciúme de ele estar com outra mulher.
- Não é ciúme, . Disso tenho certeza.
- Mudando de assunto, na verdade não sei como te pedir isso... - Ele coçou a nuca sem jeito. – Você quer jantar em casa?
- Como?
- Jantar em casa, só se você quiser, é claro.
- Tudo bem. Estou com fome mesmo. – Ri e ele me acompanhou.
Eu tinha um problema, não sabia dizer “não”, e como no caso estava com fome aceitei sem hesitar.

**


A casa de era minimamente arrumada, tudo em seu perfeito lugar e me perguntava como ele conseguia manter toda essa organização com duas crianças. Pela sala tinha alguns quadros, e o sofá era muito confortável, dava vontade de ficar ali para sempre.
Ele me apresentou dona Celeste, um amor de pessoa, bem mãezona com eles mesmo. Ela devia ter no máximo uns 45 anos, sua estatura era média, tinha cabelos marrons e olhos verdes claros. As gêmeas eram tímidas no começo, mas depois que fizeram amizade comigo, não paravam de falar um minuto. Eram idênticas, loirinhas de olhos azuis assim como a do irmão e eram umas gracinhas.
Depois do jantar que me lembrou da comida de minha avó e que por sinal estava magnífico, fomos para sala, conversar e brincar no meu caso já que as meninas pediram muito.
- Posso fazer uma trança em você? – Phoebe pediu.
- É claro que pode. – Confirmei.
Sentei-me no chão, ficando de costas para ela que começou a mexer no meu cabelo
- Acho que não sei fazer. – Ela falou depois de algumas tentativas. – Parecia tão fácil nas minhas bonecas.
Era até engraçado como ela falava, era de se surpreender ao ver uma garotinha de cinco anos ser tão esperta, mas seria demais mesmo que ela soubesse fazer uma trança. Nem mesmo eu sei.
- Não sei mesmo, me desculpa, você tem mais cabelos que minhas bonecas.
- Eu não queria cortar o momento, mas já é tarde, garotinhas. – Celeste disse calma. – E vocês sabem que amanhã tem aula cedo.
- Aaaaaah, mas não posso faltar? – Pediu.
- Nada disso, vocês já faltaram essa semana.
- Você vai vir mais vezes? – Dayse perguntou saindo do colo do e indo parar na minha frente.
- Com toda certeza. – Pisquei.
- , você vai nos dar o beijinho de boa noite? – Quem disse desta vez foi Phoebe.
- Como eu poderia não dar o beijinho de boa noite? – Ele se levantou pegando na mão de cada uma . – Eu já volto.
Apenas concordei com a cabeça e vi ele e dona Celeste acompanhar as meninas pro quarto.

Quando voltou sentou se ao meu lado.
- Quer chocolate quente? – Ele me ofereceu.
- Irei voltar rolando hoje para minha casa. Mas, aceito.
Fomos para cozinha e enquanto ele preparava o chocolate quente, jogávamos assunto fora.
- Espero que tenha ficado bom. Sou péssimo na cozinha.
- Me deixa experimentar que te dou uma nota final.
Não podia dizer que era o melhor chocolate que já tomei na vida, porque o melhor era feito por , mas era o segundo melhor. O sabor estava estupendo, a temperatura maravilhosa, estava delicioso.
- Está magnânimo! – disse e caiu na gargalhada – Que foi?
- Ninguém costuma usar essa palavra no cotidiano, sem falar que você esta até com bigodinho de chocolate.
Aproximou-se de mim com um papel toalha e pediu licença para limpar minha boca. Estávamos bem próximos e pude vê-lo se aproximar ainda mais, como se estivesse a ponto de me beijar. Desviei- me gentilmente e peguei meu copo que tinha posto na mesa e percebendo se afastou com um sorriso tímido. Não que eu não o quisesse beijá-lo, não era isso, era a pessoa mais beijável, só não queria estragar a nossa relação por conta disso.
- , acho que isso pode afetar nossa relação paciente e doutor. – Falei calma e ele me olhou no fundo dos meus olhos.
- , não acredito que você precisa de um tratamento. Eu acredito que você precisa de alguém ao seu lado.
- Então por que esta me mantendo no tratamento?
- Porque eu quero ser esse “Alguém” e estar ao seu lado.
Ok, fui pega de surpresa e não tinha o que falar. Estava sem palavras e permaneci em silêncio o olhando e o mesmo prosseguiu.
- A relação paciente e doutor escorreu pelas minhas mãos no momento em que você sorriu dentre o choro dizendo que não sabia como seguir em frente. Chega a ser até antiético eu fazer isso, mas meu dia fica muito melhor quando você aparece lá no consultório.
Fechei os olhos me lembrando daquele dia, ele podia estar certo, talvez precisasse de alguém ao meu lado, não que não conseguisse seguir em frente sozinha, mas é que quando se tem em quem apoiar nos momentos difíceis, quando se tem com quem compartilhar a dor tudo parece ser menos intenso. Abracei-o, abracei forte e senti-o afagar meu cabelo. Estava sendo tão bom comigo em tão pouco tempo, o que me provava que ainda existiam pessoas com bons corações dispostas a nos ajudar.
Afastei um pouco do abraço e voltei a ficar tão perto de seu rosto. Ele foi se aproximando devagar e eu fechei meus olhos... E antes de sentir seus lábios nos meus, meu celular começou a tocar o que me fez afastar e olhar quem me ligava.
Atendi a ligação.
- , cadê você? – perguntou exasperado.
- Como assim?
- Responde!! – Pediu.
- Estou na casa de um amigo, está tudo bem, ?
- Preciso te ver.
- ... – Fiquei sem fala por um momento, mas logo retomei a conversa. – Eu estou ocupada, a menos se for algo de extrema importância.
- É. É muito sério. Eu vou te encontrar só me diz onde está.
- Tudo bem, anota aí.
Passei o endereço e desliguei.
- Me desculpa, , não era para terminar assim...
- Ei, está tudo bem. – Ele disse calmo. – Com certeza deve ser algo muito importante, e teremos outras noites como esta, não é?
- Sim. – Sorri e ele me abraçou novamente.
Em menos de meia hora já estava na porta da casa de . Eles apenas se cumprimentaram com um aceno e me despedi de .
- Foi maravilhoso hoje.
- Podemos repetir a dose assim que você quiser.
- Com certeza nós iremos repetir. Até mais, .
Entrei no carro e saiu dali.
- O que foi isso? O que aconteceu?
- Eu precisava te ver.
- Me ver? , não pense que um buque e alguns chocolates mudam o que você fez.
- Se você se refere ao jantar, não foi minha intenção.
- Nunca é sua intenção, .
- , ela me ligou desesperada...Queria ajudá-la, mas acabei me perdendo no horário e magoei você. – Disse parando o carro e se virando para mim.
- O que fez naquela noite comigo foi cruel. Terminei comendo um sanduíche sozinha na sala.
- Me perdoe. Jamais faria isso intencionalmente.
- Não quero ficar prolongando algo que já sei qual é a desculpa.
- Não aprendi a dizer não a Lizzie. Sou um idiota por isso.
- Ah claro, você é o bom samaritano... Devo sentir pena de você.
- Não. Estou apenas explicando porque não gosto de maus entendidos, .
- Então está bom. – Abri a porta do carro para sair dali.
Nunca fui uma garota mimada e podia ser que estivesse passando essa imagem, mas não iria continuar ali ouvindo o quanto ele se arrepende e como Lizzie estava desesperada. A casa de não estava longe dali, chegando lá, pediria um táxi para voltar para casa.
soltou o cinto que o prendia e inclinou-se por cima de mim fechando a porta do carro. Olhei para ele sem entender e franzi a testa dando a entender que queria respostas de seus atos tão repentinos assim.
- Não é só isso que eu quero falar. – Aumentou um pouco seu tom de voz. Mas não de maneira que me assustasse ou algo do tipo.
- Não estou com tempo, , eu estava ocupada com uma pessoa maravilhosa e você me tirou de lá. E pra quê? Pra absolutamente nada.
- Não é pra nada... Teve um motivo pra eu te tirar de lá e não querer que você volte.
- Então me fala qual é o motivo?
Ele não disse absolutamente nada, ficou apenas me encarando por alguns segundos. Estava prestes a mudar de assunto, pensei até mesmo que ele poderia ter ficado irritado, ou magoado, mas não era típico dele. se aproximou com delicadeza e grudou seus lábios no meu.
Sua boca era tão macia e gostosa, sua mão depositada em minha nuca de uma forma tão singela, em meu corpo parecia estar passando uma corrente de choque. O que eu estava fazendo? Estava deixando, me beijar, e estava gostando, eu poderia continuar ali, mas ele se afastou e beijou minha testa antes de voltar à postura correta.
A melhor das sensações era se sentir viva novamente, e isso não sentia a várias semanas. Sorri de leve, mas logo me fechei novamente.
- Esse é motivo para você não voltar lá.
me levou para casa em silêncio e eu me encontrava perdida em pensamentos. Não sabia o que tinha sido aquilo, só sabia que tinha causado algo diferente em mim, algo bom, algo que eu queria e não queria ao mesmo tempo, pois estar com me fazia bem, mas pensar em algo além do que estávamos tendo, fazia com que me sentisse em pânico.
Quando fechei a porta do carro e me virei para seguir em direção à entrada de casa, ouvi-o me chamar.
- ! –
Virei-me e esperei ele continuar.
- Está muito longe de você me perdoar pela noite do restaurante?
- Você costuma ser tão mala assim todos os dias? Porque se for não vou te aguentar.
- Quase todos. Incrível, porque era exatamente isso que a dizia que você falaria para mim.
- Isso quer dizer que vocês falavam de mim?
Desta vez, estava totalmente espantada e incrédula porque nunca comentou isso comigo nenhuma vez, e não foi por falta de oportunidade. Vai ver ela sabia que eu ficaria muito brava ao saber que ela falava sobre mim com ele, e na época não podia vê-lo nem pintado de ouro. sempre fora muito sábia, mas isso não tirava sua culpa por não ter me contado nada.
- Mais do que você pode imaginar. – Sorriu e piscou para mim.
Acenou bem breve a arrancou com o carro dali.
Caminhei sorrindo até a metade da entrada da minha casa. Conhecia aquela silhueta que estava apoiada na porta, e a conheceria em qualquer lugar do mundo. Um de seus braços estava te dando apoio enquanto sua cabeça estava enterrada olhando para o chão.
- Pai? – Falei com a voz trêmula.
Ele se virou calmamente para mim e seus olhos estavam lacrimejados.
- Bati tanto na sua porta que até o vizinho veio ver. – Começou a falar, respirou fundo e continuou. – Eu vi o carro da e pensei que ela estava dormindo, estava pronto para telefonar para ela, tinha até mesmo discado o número quando o vizinho apareceu. Ri e disse a ele “Essas meninas não?” e não entendi quando ele me perguntou “Que meninas?” – Meu pai contava toda á historia e podia sentir um nó na garganta e uma dor no peito. Assim ele prosseguiu:
- Respondi a ele “Como assim que meninas? Minhas filhas” porque você sempre soube que considerei como uma filha minha. O que me espantou foi quando ele disse que agora só tinha uma. Pensei, será que se mudou daqui com o porque ela tinha comentado que queria fazer isso. Mas por via das dúvidas, resolvi perguntar ao cara como assim só tinha uma agora? E ele me disse que vocês tinham sofrido um acidente e um casal tinha falecido.
Nesse momento já estava chorando, não tinha como segurar. Meu pai estava bem ali na minha frente, contando como descobrira a morte de meus amigos, e a dor veio à tona, com a mesma intensidade de sempre.
Meu pai não tinha noção de nada porque depois do acidente mandava algumas mensagens a ele, e como não tinha contato com os pais da ele não fazia ideia. Devia estar doendo para ele também, pois dava para ver em seus olhos.
- Por que você está passando por tudo isso sozinha, filha? – Falou bem pertinho de mim e coloquei minhas mãos no rosto.
Senti os braços dele envolver-me em um abraço carinhoso, chorava como uma criança e meu pai me apertava mais, como se dissesse que estava ali comigo. Aos poucos fui cessando o choro e me acalmando.
- Vamos entrar, vou te contar tudo.
Entrei em casa e Fred veio em minha direção, latiu várias vezes para meu pai, mas logo se entregou ao carinho dele.
- Fred era deles. – Comentei.
- Por que tem feito isso consigo mesma?
- Pensei que conseguiria.
- Volta pra Oxford comigo, filha.
- Não posso, pai. Tenho um emprego aqui, minha vida está aqui, é uma proposta tão tentadora...
- Sei que você tem um ótimo cargo aqui, mas lá tem eu e sua mãe, sua família. Ficar aqui sozinha, nesta casa e com um cachorro que foi deles pode dificultar ainda mais a superação.
Sentei-me no sofá, o que fazer? Não sabia. Eu não sabia que decisão tomar. Poderia voltar com meu pai para Oxford e seguir minha vida lá, superar lá e me esquecer de toda essa tragédia que me rodeava em Londres. Ou, poderia ficar aqui, e enfrentar tudo. Enfrentar as lembranças dos lugares frequentados com eles, enfrentar a dor de viver na casa que um dia eles também habitaram. A diferença era que aqui em Londres, não tinha ninguém, além de , o doutor mais mala e cheio de si que conheço, mas que me mostrou ser uma pessoa diferente ao me ajudar, ao estar comigo todo tempo possível. Ah, tinha o também, o psiquiatra que virou meu amigo em algumas semanas que mostrava sentir afeto além da amizade.
Em Oxford tinha meus pais, meus primos, minha família, tinha uma base toda lá, mas em Londres tinha meu emprego que lutei tanto para conseguir e na minha cidade provavelmente no começo trabalhasse com minha mãe. Aqui era independente e lá me tornaria dependente e não queria isso, mas queria estar com eles.
Estava tão perdida, mas teria alguns dias para decidir entre ir ou não ir.





Capítulo 08

“- A proposta é tão tentadora. – Contava a sobre o que meu pai havia me sugerido.
Estávamos em meu quarto, sentados em minha cama tomando café bem quente e forte.
- E o ? Você me prometeu cuidar dele. Vai abandoná-lo?
- , ele já tem 30 anos, não entendo porque você me pede tanto para cuidar dele, sendo que quem cuida de quem aqui é ele. É quem cuida de mim ao invés de ser ao contrário.
- 33. – corrigiu – Ele tem 33 anos. Olha, se eu pudesse fazer um único pedido, pediria pra poder me despedir dele, porque sei que para ele não ter tido essa oportunidade pesa muito. se sente imensamente sozinho, , mesmo estando rodeado de pessoas e sempre foi assim.
- Mesmo quando ele tinha você?
- Comigo não. Mas agora ele não tem mais a mim. Ele só tem a você, e é por isso que sigo insistindo tanto para não deixá-lo.
- É que não sei se consigo conviver com as lembranças tão fortes que Londres me proporciona, tudo aqui lembra vocês.
- Sei que agora parece tudo ser intenso, como se não fosse passar, mas a superação vai vir um dia, e esse dia pode estar mais perto do que imagina. Se for embora vai deixar tudo para trás. E o que você lutou todos os dias para conseguir, ? E se o seu destino for Londres? Sair daí e desviar o caminho não é uma boa opção.
- Tá. Mas e senão for? É deprimente ficar aqui, isso aqui está me destruindo. Tudo que conquistei aqui posso conquistar lá.
- Se você pode conquistar lá por que não o fez desde começo?
- Porque Londres sempre foi meu sonho.
- Exatamente. Ir embora e voltar para Oxford é enterrar seu sonho, e isso não é justo consigo mesma.
- Mas aqui não tenho ninguém lá pelos tenho minha família.
- Você tem ao . Pode não parecer grande coisa, mas vai por mim, ele é a melhor companhia, meu amigo também precisa superar, mas sinto que sozinho ele não vai a lugar nenhum.
- Você esta subestimando a força dele, .
- Jamais, mas o conheço. precisa de uma força, de alguém que tire ele dessa intensidade de sentimentos negativos.
- Pra isso ele tem a Lizzie. – Falei como se fosse o óbvio mais óbvio do mundo.
- Lizzie não vai mover uma palha para ajudá-lo, porque se fosse já teria feito algo. Ela é uma alma vivente só que esta morta por dentro, ela não tem compaixão dentro si, é impossível não vê-lo se definhar. Ela convive com ele todos os dias e não faz nada. – dizia em seu tom indignado e revoltado ao mesmo tempo.
- Pode ser por que ela tem namorado e ele seja ciumento.
- Foda-se, se Lizzie gostasse mesmo dele ela iria arrumar um jeito. Você é a única salvação daquele cara.
- Você pode estar julgando ela de maneira errada.
- Não, . Você tem a mania de enxergar o bem em todos e de achar que sempre há um porquê, mas as pessoas podem ser vazias e nem sempre isso tem uma explicação.
- Vamos mudar de assunto, é melhor... está bem?
- Melhor do que imagina, ela é pirada. – Ele riu. – Ela te xinga por você não me dar ouvidos quando digo pra cuidar do , mas xinga mais ele quando ele da mancada com você.
- Sinto falta dela.
- Ela também sente muito a sua falta... Não deixe meu cachorro passar fome, viu? E nunca se esqueça de que eu e amamos muito vocês. Ah, e pare de chorar que isso é melancólico, fico em uma depressão intensa quando te vejo chorar, sem falar que suas olheiras ficam piores. – Falou brincando, e rindo.
- Vai começar a falar da olheira mesmo? – Revirei os olhos.
- Se cuide, ! – Ele sorriu singelo.
- ? – O chamei.
- Sim.
- Pode dizer a que amo ela e que sinto falta dela todos os dias?
- É claro.
- Obrigada. – Sorri e ele me retribuiu”.

A cada dia que passava e a cada sonho que tinha, parecia que era real, que toda noite ele realmente vinha conversar comigo. Podia senti-lo, ouvir sua risada, ver seu sorriso, cada detalhe dele era tão vivo.
- Bom dia! - Mike, ou também conhecido como meu pai, falou.
- Bom dia, pai. Que horas são?
- 11hrs30min. Podemos almoçar fora hoje, o que você acha?
- Acho que gostaria de ficar em casa.
- Não. Mudei. Iremos almoçar fora hoje e isso não é uma pergunta e sim uma convocação.
- Tudo bem, pai. – Falei arrastado me levantando da cama e caminhando para o banheiro.
Não estava animada, mas também não poderia negar um almoço com ele, quase nunca vinha me visitar e se eu fizesse esse descaso seria muito decepcionante para ele, sem falar que suas intenções era as melhores possíveis. Tudo que aquele velho homem queria era proporcionar nem que fosse o mínimo de felicidade a sua filha.
Arrumei-me, pondo uma calça preta, uma blusinha e por cima meu cardigan vermelho, nos pés optei por uma sapatilha, passei maquiagem para esconder as olheiras e dar um ar de “está tudo ok”.
- Podemos ir, estou pronta. – Falei assim que cheguei à sala.
- Então vamos, filha.

**


Após almoçarmos, fomos tomar sorvete, dessa vez peguei um com sabor de avelã, ri ao me lembrar da última vez que estive ali e optei pelo sorvete de paçoca e me disse que ninguém fazia isso.
Sentamos em uma mesa de dois lugares que ficava na parte de fora da sorveteria. Imaginei quantas vezes estive ali com e . Lembrei-me que depois do falecimento deles não fui vê-los, não tive coragem nem se quer para pensar nisso. Estava na hora, podia sentir isso. O que me impedia? Medo. Estava com medo de ir até o cemitério e voltar à estaca zero, não que estivesse conseguido muita coisa, mas ir até lá poderia me abalar imensamente, e era isso que temia; não saber lidar com meus sentimentos.
- ? – Ouvi meu pai me chamar e o olhei um tanto perdida, confesso.
- Sim?
- Está tudo bem? Está tão distante... - Ele parou por um minuto e olhou meu copo de sorvete. – E não tomou nem se quer um pouco do sorvete.
- Me desculpa. – Falei e coloquei uma colher de sorvete na boca. E, meu Deus, estava delicioso.
- Quer me contar alguma coisa, ? Compartilhar algo, não sei, qualquer coisa.
- Pai, estive pensando agora e decidi que vou ao cemitério hoje. – Falei de uma vez.
- Quer que eu a acompanhe?
OK. Achei que meu pai faria alguma objeção, mas pareceu aceitar numa boa, o que significa que ir até lá não é uma péssima ideia.
- Gostaria de ir sozinha. – Respondi.
- Como quiser. , saiba que estarei aqui e caso veja que não dá; não force a barra, a superação é algo que acontece homeopaticamente e apressá-la pode acabar causando regressão em vez de progressão.
- Algo aqui dentro diz que estou preparada. – Falei pondo a mão em meu coração com um pequeno sorriso nos lábios.
- Eu também acho que está. – Piscou para mim sorrindo. – Bom, como você vai lá, vou aproveitar para ir ao supermercado e fazer uma caminhada até sua casa, estou precisando andar.
- Pai, você sai pata caminhar todo dia de manhã, ou pelo menos, fazia isso em Oxford. Posso levá-lo ao supermercado, sem problema algum.
- Eu ainda caminho, mas esses dias aqui não tenho caminhado e você sabe que preciso para controlar o colesterol e o diabete. Alias, andar não faz mal a ninguém.
- É sério, posso levá-lo e não devo demorar. Posso te pegar no supermercado na volta.
- Não precisa se preocupar, de verdade. Agora vá que vou terminar meu sorvete e o seu aqui; depois vou queimar todas essas calorias. - Riu.
- Se cuide, e vê se não abusa do doce, estou de olho, senhor Mike.
- Pode deixar que vou me cuidar.

**


No caminho passei em frente a uma loja de fantasia, que porventura ou não, tinha na vitrina a fantasia de dona morte, me fazendo relembrar da promessa que fiz com anos atrás.

Flashback on

- Olha isso, gente, aqui nessa página. – falou mostrando seu celular para nós que estávamos sentados no sofá.
- O que é isso? – Perguntei já que estava longe e não conseguia ler.
- Aquela promessa que fizemos com 15 anos, se lembram?
- Quem morrer primeiro vai de dona morte no velório?
- Essa mesmo, li nessa página e lembrei-me da promessa.
- Credo, o que vocês tinham na cabeça com essa idade? Coisa boa não era porque olha o assunto de vocês, loucas!. – falou em um tom tão engraçado que começamos a rir.
- É verdade e se um dia acontecer de um morrer antes que o outro?- deu de ombros.
- Isso provavelmente vai acontecer, mas eu espero morrer antes. – comentou.
- Eu também .- Minha amiga disse.
- Viu gente, isso que é amor. – piscou e depois roubou um selinho de .
- Isso é uma boa enquete “Quem vai morrer primeiro?”. – Ri - Mas falando serio isso pode acontecer e como próprio disse, alguém vai antes, resta nos saber quem.- Brinquei.
- Tecnicamente não precisamos saber quem vai antes, quem quer que seja não importa, afinal, se morrer, nós enterramos e problema resolvido.
- Nossa, você só abre a boca para falar merda, ? – Perguntei sarcástica.
- Quem começou com esse assunto não fui eu, linda. – Sorriu cínico. – Viu, , falei que ela tem algum problema comigo, só não enxerga quem não quer.
- Não, claro que não, é assim mesmo.
- Não, eu tenho sim, não suporto esse cara, porque vocês insistem em trazer ele sempre na minha casa. - Rebati em um tom indignado e irritado ao mesmo tempo.
- Por que você não me suporta? O que eu fiz pra ti?- me perguntou olhando diretamente nos meus olhos em busca de respostas.
- Não suporto você inteiro. O fato de ter nascido já é uma tragédia pro mundo.
- Ah, claro, super coerente seu argumento, vossa excelência, é assim que costuma dar suas sentenças?
Revirei os olhos ao ouvir aquele maldito idiota me chamar de “vossa excelência.”
- Nunca te dei motivo nenhum para receber todo esse ódio de graça. – continuou após meu silêncio. – Não é porque você é juíza lá fora que tem o direito de julgar todo mundo assim como você está fazendo comigo.
- , você é o tipo clichê de cara que eu odeio. Quer motivo maior que esse?
- Você está sendo infantil ao meu julgar assim, lembre-se, , você não me conhece.
- Eu já sei o motivo. – nos interrompeu, e vi colocar a mão na frente no rosto como se estivesse pensando “ele vai dizer merda”. – Vocês sabiam que amor e ódio andam de mãos dadas?
- Que coisa ridícula é essa que você disse? Espero não ter interpretado certo. Olha, , você é tão irritante quanto o seu amigo, só é um versão melhorada, sem falar que namora minha melhor amiga o que me faz te suportar.
- Nossa, muito obrigado, isso é uma declaração muito comovente, estou até emocionado. – falou em tom brincalhão pegando sua cerveja que estava na mesa de centro da sala.
- Para, amiga, que você ama o . – falou.
- Eu sou amável, , certeza que se eu não estivesse com a você iria namorar comigo.- Vi e ele rirem. – E ainda digo mais, caso não odiasse esse cara aqui, certeza que namoraria ele. – Apontou para o abraçando de lado.
- Fica em pé, , para poder te apreciar melhor. – falou puxando-o pela mão para ficar em pé.
- Quê? – Perguntou confuso. – Isso é ridículo.
- , olha esse cara, sei que não se importa muito com isso, mas olha essa barriguinha. – disse levantando a blusa de que parecia com vergonha.
- O físico dele não o muda quem ele é. – Comentei.
- Já chega. - disse abaixando a blusa. – Não vou ficar aqui para ouvir as ofensas gratuitas dessa garota.
- Ótimo, quando sair feche a porta.
- . – me repreendeu. – Você nunca foi assim com ninguém, que falta de educação. Esse seu modo mágoa qualquer um.
- Desculpa. – Pedi olhando para .
Ele não respondeu nada, vi pedir para que ele ficasse, mas estava decidido a ir embora, ficou pelo amigo e pela , de tanto insistirem.
- Combinado então? Quando eu morrer você vai vestida de dona morte e vice-versa?
- Combinado. – Falei.
- Promete não esquecer ou quebrar a promessa?
- Prometo.

Flashback off

Estacionei meu carro, e desci. Senti um frio na barriga e uma pontada em meu coração. Engoli seco e caminhei até ao jazigo da família , como eu sabia onde era? Havia ido uma vez ao enterro do tio-avô de com meus amigos que me arrastaram junto. E como eu sabia que eles estavam sepultados ali? e não eram originalmente de Londres, como foi tudo muito inesperado quem deve ter cuidado de todos os trâmites foi , sem contar que os pais de ambos haviam cortado relações, até entrar em contato para fazer tudo acontecer, poderia demorar muito tempo.
Fui egoísta, e só me dei conta disso agora. Pensei que ninguém poderia sentir uma dor maior que a minha mesmo sabendo que eles eram tão importantes para como para mim, pensei por um momento que minha dor era maior que a dele. Não queria desvalorizar os meus sentimentos, mas poderia ter dado conta que além de ter sofrido o acidente junto, além de ferido, viu seus melhores amigos morrerem, estando nessa hora consciente, além de tudo teve que cuidar da cerimônia fúnebre deles. Desvalorizei a dor dele para enaltecer a minha, sendo que o que ele passou eu jamais teria força pra passar.
- Oi. – Falei. – Sei que vocês devem estar em algum lugar me ouvindo. – Suspirei. – Fui egoísta e só notei isso agora, não devem estar orgulhosos disso, mas me arrependo por ter sido assim... Ah, devo contar que beijei ? Ou deve ficar em off? É incrível, mas estamos nos dando bem, e sem discutir muito. – Ri. – E ele beija muito bem, muito bem mesmo, você tinha razão, , é uma boa pessoa, ótima na verdade. Conheci também vocês iriam adorar ele.
Contei os últimos acontecimentos das últimas semanas como se meus amigos realmente estivessem ali, porque era isso que eu sentia que eles estavam ali, me ouvindo. Estava em paz, sentia alívio em minha alma. Ter ido ao cemitério havia sido melhor decisão já tomada, senti naquele momento que conseguia sim seguir em frente, só precisava de um pouco mais de tempo. Fiquei por mais um tempo ali, algumas vezes falava em outras ficava em silêncio apenas sentindo a pequena brisa bater em meu rosto.

**


No caminho para casa disquei o número de e esperei ele atender.
- Tem um horário?
- Tenho meia hora antes da minha próxima paciente.
- Posso ir ai? – Perguntei.
- É claro, estou te esperando.
- Tudo bem, já chego ai. – Disse desligando o celular e caminhando para o consultório de .
Tentei ir o mais rápido possível, e bom, acho que consegui. Cheguei lá e ele estava falando com sua secretaria.
- Oi. – Falei assim que entrei no recinto.
- Oi. – Ele sorriu ao me ver. – Caso a senhorita Cher chegue, peça para aguardar um pouco, não vou demorar.
- Sim, senhor. – Sua secretaria disse e ele a olhou a repreendendo. – Sim, . – Ela consertou e ele sorriu.
- Vamos?
- Claro.
Entremos em sua sala e o vi sentar em sua cadeira, logicamente, sentei na cadeira a sua frente.
- Achei que não iria querer-me ver tão cedo. – Ele comentou.
- Por quê?
- Pelo fato de eu ter tentado te beijar?
- , não deixaria de te ver por isso.
- Um alívio ouvir isso.
- Meu pai está aqui. – Falei. – Me pedindo para voltar para Oxford.
- Quê? – Falou surpreso. – Quero dizer, como isso aconteceu?
- Ele veio me visitar, não sabia de nada, digo da morte da e . Quando ele soube; me sugeriu voltar a Oxford.
- E você?
- Não sei. Não sei se quero ir ou ficar. Fui ao cemitério hoje também.
- E como está se sentindo? – Perguntou preocupado se endireitando na cadeira.
- Bem. – Sorri de leve. – Estou em paz, acredita?
- É claro. Está conseguindo lidar com seus sentimentos e isso é muito bom, estou muito feliz por estar bem. Quanto a Oxford, não falo como doutor e sim como , gostaria que permanecesse aqui, porém, se fosse para te ver bem, concordaria em deixar você ir.
- Não estou cem por cento, sinto como se estivesse cicatrizando a ferida. Estou pensando seriamente em ir, mas sinto que não sei. Acho que estou indecisa mesmo. – Ri e ele me acompanhou.
- Podemos sair. Quem sabe assim eu não consiga te convencer a ficar?
- Meu pai está aqui e eu não queria deixá-lo sozinho.
- Nem um café?
- Não sei, queria realmente aproveitar o tempo com meu pai.
- Se você decidir a ir, deveria passar um tempo comigo.
- Ok, você venceu. Amanhã às 10hrs, pode ser?
- Combinado.
- Preciso ir que você tem que trabalhar. Obrigada por me ouvir.
- Sempre estarei aqui. – Piscou. – Aliás, você está linda.
- Obrigada. – Sorri. – Deve ser a maquiagem.
Vi ele rir balançando a cabeça. Fui até ele e parei em sua frente.
- Mas uma vez muito obrigada, . – Me despedi e dei um beijo em seu rosto.
- Até amanhã, .

**


Ah ,que ótimo, tinha um carro parado bem na frente da minha garagem. Claro que eu sabia de quem era aquele carro, será que não podia ter encostado um pouco mais para cima? Ele adorava me irritar e sabia que era péssima em estacionar direito, sempre odiei fazer baliza, mas era obrigada, afinal, não tinha como chegar a um lugar e deixar o carro de qualquer forma. Estacionei o carro da melhor forma que consegui, e caminhei até a porta de casa.
Quando adentrei, ouvi vozes vindas da cozinha.
- Você trabalha do que mesmo, filho? – Meu pai perguntava.
Há coisas que nunca mudam e chamar as pessoas de filho(a) era uma mania de meu pai e isso nunca mudou e provavelmente nunca vá mudar. Sorri comigo mesma e caminhei até lá em passos lentos.
- Sou médico.
- Ah, sim, fico mais tranquilo em saber que tem alguém para cuidar da porque ela não tem juízo, nem comida ela tinha nessa casa. – Riu.
- Ela é pirada mesmo, por isso trouxe algumas coisas para ela passar a semana.
- Não comprei muita coisa, só o suficiente para o jantar de hoje. – Ouvi meu pai dizendo calmo. – Tenho a esperança de ela voltar comigo para Oxford amanhã de manhã.
Fiquei parada, esperando ouvir dizer alguma coisa, mas o silêncio pairou naquela cozinha, sabia que ao entrar lá teria que dar explicações, não que não quisesse, o problema é que eu não tinha respostas. Não tinha decidido se iria voltar ou se iria ficar. Parte de mim queria que eu fosse, mas a outra parte pedia para que eu ficasse.
- Desculpe-me, mas vai embora? –
Ouvi perguntar e entrei na cozinha antes mesmo de meu pai poder responder.
- Oi. –
- Oi. – Os ouvi responderem.
Foquei na feição de e ele parecia me fazer tantas perguntas só com o olhar; queria poder conversar com ele, mas a sós.
- Eu preciso ir. Foi muito bom conversar com o senhor. – Falou se levantando.
Era estranho demais ele ter que ir embora justo agora que eu tinha acabado de chegar.
- Fique para o jantar. – Meu pai convidou.
- Não, eu comi um lanche, muito obrigado, mas preciso mesmo ir. Espero ver o senhor mais vezes. – Sorriu, apertando a mão do meu pai. – Até mais, .
- Não vá, fique para o jantar. – Pedi.
- Desculpe, realmente tenho que ir.
Vi ele se afastar aos poucos e queria ir atrás, mas algo me barrava, me impedia de ir até ele. Olhei para meu pai pedindo ajuda e ele disse:
- Acho que vocês precisam conversar, por os pontos nos “is”. Vá atrás dele, filha, eu vou lidando com o jantar.
- Não sei se devo ir, pai.
- O que te impede?
- Acho que ele não quer conversar.
- Só vai saber se você tentar, vá falar com ele, .
- Mas, pai...
- Mas nada, pare de arrumar uma desculpa, e vá antes que seja tarde demais.
Meu pai deu uma piscadela e sai correndo. Abri a porta e vi a silhueta de caminhar até seu carro, na verdade, ele já estava parado em frente ao seu carro.
- . - Gritei. – Podemos conversar?
Ele se virou lentamente com uma das sobrancelhas arqueadas, imediatamente me direcionei a ele em passos rápidos. Não havia corrido, mas estava ofegante e como isso era potencialmente estranho! Eu estava nervosa? Por que estava nervosa?
- Esqueci alguma coisa?
- Não, quer dizer... - Murmurei dando uma respirada. – Queria saber se está tudo bem com você? – Sorri sem graça e o vi coçar a cabeça.
- Defina “bem”.
- Você sabe que tipo de “bem” eu quero dizer.
- É bem difícil ficar bem às vezes, mas eu tenho tentado e conseguido até. – Riu. Sorri de leve junto. – Mais especificamente quando estamos juntos.
Apertei os lábios encarando seus olhos, aqueles pequenos olhos, embora profundo dos quais eu nunca tivesse percebido a magnitude do quanto eram imãs até aquele momento. Não sabia o que de fato responder e isso me deixava irritada, mais irritada ainda porque não tinha mais dezesseis anos, não era o primeiro cara do qual eu flertava, beijava ou sentia uma coisinha, mas ainda assim o infeliz me causava sensações incomuns, algo que não conseguia controlar direito; nem preciso dizer o quanto isso é horrível, não é?
- Por incrível que pareça, eu sinto o mesmo. – Murmurei retomando a postura. – Você é um fardo que eu nunca achei que seria suportável, . – Rimos.
- Ah, não por muito tempo, você vai embora e não vai precisar lidar com o fardo, certo? – Ele disse, no tipo humor negro, e acredite, naquele ponto eu já sabia diferenciar quando estava humorado e quando ele fingia estar.
- Oh, meu pai te disse...
- Um homem admirável, , senti inveja. – Riu. – Ouvia a comentar sobre o quanto ele a tinha ajudado e mais o super agradecido por ela ter você e sua família, mas nunca tinha entendido literalmente até conhecê-lo.
- disse isso? – Entortei a cabeça. Meu coração apertou.
- É claro. Quando ia pra lá com você visitar seus pais, ficava comigo para não me deixar sozinho, sempre comentávamos no quão lamentáveis nós éramos por termos somente um ao outro. - Ele riu mais ainda, dessa vez foi a vez da minha garganta fechar. – Sempre nos questionávamos para saber quem ia antes, e isso acabava gerando um briga. – Olhou para o céu, seus olhos ficaram ainda mais realçados pela claridade. – O desgraçado venceu mais uma como sempre! – Voltou seu olhar para mim.
- E seus pais?
- Ah, , eu tenho trinta e três anos, voltar pra casa nessa idade é meio deprimente, você não acha?
- Eu supostamente iria? – Ironizei.
- Você sabe muito bem que é diferente uma filha mulher voltar pra casa, do que um homem.
- Você está sendo machista.
- Estou sendo realista, docinho. – Rolei os olhos. – Pros meus pais eu deveria estar casado e com um filho, e não devastado por ter perdido meu melhor amigo, por mais dolorido que fosse.
- Que insensível pensar assim.
- Foi o que ouvi na última ligação com minha mãe. – Ele me olhou sugestivamente.
Ficamos em silêncio por alguns minutos apenas nos olhando, eu, por minha vez, me atentava a cada detalhe de seu rosto, seus olhos, sua boca, os traços de seu rosto, seu cheiro que vinha toda vez que o vento batia, seu cabelo devidamente arrumado. Lembrei-me do quanto falava de e como sempre ignorei, mas tudo, exatamente tudo que ela contava era verdade, é uma pena que eu só dei ouvidos e percebi isso agora, quando ela já não está mais aqui e não tem com quem comentar sobre esse cara.
- ...
- , eu preciso ir. – Ele ultrapassou minha voz. – Seu pai disse que vai embora amanhã de manhã... E você também, então essa é nossa última conversa. – Falou, seus olhos apertaram e eu? Bom eu quis me bater.
- Não haja como se eu fosse desaparecer também.
- Não te culparia se fizesse isso. – Deu de ombros.
- Ei, eu...
- Não precisa se explicar, relaxa. – Disse se aproximando de mim.
Cautelosamente me puxou pela cintura, tirando de mim um abraço sincero e gostoso, bem apertado, com direito a cheirada no pescoço. Quis ficar ali por mais tempo, tanto que fechei os olhos, agarrando sua nuca em seguida.
- Quais são suas ultimas palavras?
- Se eu pudesse, diria pra você ficar - Ele falou quebrando o abraço, estávamos próximos, quase nariz com nariz. – Mas, não importa o que eu queira, além disso, quero que você fique melhor e essa é a sua chance.
- E você? – Murmurei sentindo meus olhos arderem.
- Eu vou sobreviver. – Finalmente se afastou, dando passos de costas para o carro. – Se eu não morri naquela merda de acidente, não será agora que isso irá acontecer, não é?
Acompanhei-o entrar no carro. Aperte meus braços ao corpo assim que cruzei os braços, tentando estancar aquela coisa estranha no meu coração, aquela sensação de aperto como se estivesse fazendo a coisa mais errada da minha vida. Mas como seria possível se eu estava indo com meu pai? Pra minha casa? Sabe-se lá por que, eu ainda sentia que aquela sensação iria me perturbar por muito mais tempo.
- ! – Gritei antes de ele sair com o carro. – Tenha juízo! – Ele sorriu.
- Até qualquer dia, !
Vi seu carro sumir e entrei em casa, o cheiro estava delicioso, o que me fez ir quase que correndo para cozinha ver o que papai preparava.
- E aí como foi? – Meu pai perguntou assim que me viu entrar.
- Como deveria ter sido?
- Algo bom, esclarecedor, coisas do tipo...
- Foi quase isso. – Falei aproximando-me do fogão. – Já te disse que amo sua comida?
- Você dizia isso quando pequena.
- Então nunca se esqueça disso, pai. – Abracei - o de lado enquanto ele mexia com as panelas.





Capítulo 09

Flashback on.

- Você acha mesmo que seus pais vão mesmo gostar do ? – me perguntou aflita.
- É claro que vão. Diga-me alguém que meus pais não gostaram? Sem falar que eles querem o seu melhor e o seu melhor está sendo estar ao lado do .
- É, queria que esse jantar estivesse sendo com meus pais, mas minha realidade é outra.
- Uma hora eles vão aceitar, só é difícil que a menininha deles esteja namorando e só para ajudar você fugiu de casa.
- Você sabe o porquê eu fugi. – Disse pegando um vestido. – Esse ou o vinho?
- Esse.
- Mas não fica muito chamativo para um jantar em casa?
- Eu gosto dele. – Dei de ombros.
- Eu te falei que o não vai poder vir?
- Devo fazer uma festa para comemorar?
- Você deveria é parar de ser chata e dar a oportunidade de conhecê-lo melhor.
- Ele não faz o meu tipo.
- Qual sapato? – Ela perguntou me mostrando dois tipos diferentes.
- Acho que o preto.
- Eu também.
Passamos a tarde toda decidindo que roupa usar e que sapato vestir, o que fazer nos cabelos e que maquiagem passar. Conversamos. Rimos das nossas babaquices e até um desfile fizemos, tentei ensinar a andar de salto, acabei escorregando e caindo, o que nos tirou boas gargalhadas. Desci um pouco antes para ver se meus pais precisavam de ajuda com o jantar.
- Nervosos? – Perguntei.
- Um pouco, tenho medo de assustar o rapaz.
- Paai! Não é para assustá-lo, se eu conheço bem ele deve estar nervoso e gago. – Ri.
- Tá, mas vou ter que dar uns alertas a ele.
- Mike! – Minha mãe disse. – Pegue leve.
- Eu sempre pego leve, Ellie.
- Como estou? – apareceu na cozinha.
- Uau! – Todos nos dissemos.
- Ele merece tudo isso? – Meu pai brincou.
Antes que pudesse responder a campainha tocou.
- Ai, meu Deus! – Minha amiga murmurou.
- Eu abro! – Disse. – Vai dar tudo certo. – Murmurei a ela que concordou.
Quando abri a porta encontrei todo arrumado, vestia um sobretudo preto o que me impedia de ver o que estava por baixo, mas aparentava estar muito elegante, ri na minha mente, ele sempre detestou ter que causar boa impressão então deveria estar sendo difícil a ele esse momento.
- Como estou. – Perguntou baixinho.
- Nervoso. – Respondi.
- Digo a aparência.
- Está tentando causar boa impressão?
- Estou! Que ridículo isso, não é?
- Está ótimo, , entre!

**


O jantar foi um sucesso. Meu pai faltou por em um pedestal o tanto que o adorou. estava só sorriso e minha mãe estava perguntando a se ele não tinha um amigo para ver se me desencalhava, que mãe maravilhosa essa, não é? Rolei os olhos com as perguntas e ignorei.
- , é como uma filha pra mim; espero que suas intenções com ela seja as melhores.
- Sei disso, minhas intenções com ela são as melhores, eu amo essa mulher!
- Que gaaaay! – Gritei.
- Eu também acho. – Ele falou rindo.
- Vamos brincar de verdade e desafio? – sugeriu
- Não. – Disse. – Você não sabe desafiar.
- Eu sei sim, você que sempre não quer cumprir.
- Por que vocês não assistem a um filme? – Minha mãe sugeriu.
- Porque essa brincadeira é legal, tia Ellie.
- Não vou brincar de verdade e desafio e pronto.
- Nunca esperei que fosse arregar, .- provocou.
- Pois é, estou arregando!
- Uma nunca se amedronta. – Minha mãe disse.
- Mããe! Pai, por favor, me defenda dessas pessoas.
- É só um jogo, filha.
- Ok. Vocês venceram, mas eu vou me vingar de cada um nos desafios.
- Uhuuul. Que os jogos comecem, ou melhor, desafios. – disse maldosa com olhar malicioso.

Flashback off

Foi lembrando-se de alguns momentos que acabei pegando no sono. No começo era um sono sem sonho algum, como se eu estivesse apenas relaxando. Meu subconsciente ainda estava sendo inundado por grandes ondas de lembranças carregadas de momentos felizes e tristes talvez porque não estivesse pego no sono literalmente.

De repente estava sentada em meu sofá olhando andar para cá e para lá, aflito com alguma coisa, estava inquieto, isso me incomodava porque ver seu nervosismo me deixava tão nervosa quanto ele.
- , o que está acontecendo? Pelo amor de Deus, olha seu estado, parece que alguém está morrendo e você não sabe o que fazer. – Murmurei a ele.
- É exatamente isso. – Falou arregalando os olhos. – , eu preciso que você vá até a casa do .
- Você está louco? Você sabe que horas são? Não irei a casa dele pra nada nesse horário, amanhã eu vou lá caso isso vá te deixar mais tranquilo.
- A questão , é que eu não quero que você vá amanha, preciso que vá hoje. – Sentou se ao meu lado.
- , isso não tem nexo algum. Pra quê eu iria lá? Se você não me explicar não tem como.
- Lógico que tem, é só você pegar a porra do seu carro e ir. - Falou alterado e se pondo logo em seguida de pé.
- Entenda uma coisa, não estou tão intima dele pra ir lá às duas horas da manhã de um sábado.
- Por que você é tão difícil, meu Deus! , preste atenção, está precisando de ajuda, e eu pedi várias vezes para cuidar dele e você não me ouviu, então pelo menos uma vez na sua vida, me ouça, e vá até a casa dele.
- ...
- Você precisa acordar e ir até lá.
- Como assim? Você está louco.
- , você precisa acordar! – Gritou. – Deixe seu orgulho de lado e ajude alguém que está precisando!
- Não estou entendendo nada.
- Porra, ! Só acorde e ajude o pelo amor de Deus. – Ele suplicava.
- , ele está bem posso te garantir isso, eu vi ele hoje.
- O problema, , é que as pessoas são variáveis, podem estar bem agora e estar no fundo do poço logo depois. Será que você não entende? Que caralho, eu preciso da sua ajuda, e preciso dela agora! – Vi ele se alterar mais uma vez e bater com força na mesa de centro, fazendo um barulho estrondoso e assustador.

Despertei-me assustada, e logo bati meus olhos na mesa de centro. Todos os sonhos pareciam reais, mas esse era como se estivesse tido ali, estava aflito e nervoso, como se... Como se ele estivesse desesperado por ajuda e a única ajuda fosse eu. Sentei-me no sofá e apertei meus braços sobre meu corpo, estava confusa sobre distinguir o que havia sido real e o irreal.
Comecei a procurar meu celular por todos os cantos do sofá até achá-lo e quando o achei, imediatamente disquei o número de , não voltaria a dormir sem saber se estava tudo bem com ele. Caixa postal. Liguei mais cinco vezes e chamou até cair na caixa postal novamente. Deveria ir lá ver se estava tudo bem? Ou deveria voltar a dormir e esquecer-me do sonho? Por mais que eu quisesse a segunda opção, optei pela primeira, meu coração dizia pra eu ir, e foi isso que eu fiz.

**


Foi difícil convencer o porteiro de me liberar para subir até o apartamento de , sem que o mesmo permitisse, mas ele liberou, uma porque não o atendia e outra porque eu supliquei muito. Subi o elevador aflita e com medo do que encontrar.
Parei na frente do apartamento de número 22, fiquei tentando relembrar se era esse mesmo o número. Cheguei à conclusão que se não fosse eu pediria desculpas e teria que ir pelas outras opções dispostas em minha mente. Tentei abrir, mas a porta estava trancada. O que fazer quando a porta está trancada e o dono do apartamento não atende ao celular? Sempre vi em séries e filmes que as pessoas costumam deixar uma chave reserva em algum lugar, eu mesma, deixava uma chave reserva no vaso de flores perto da minha porta, quase que enterrada, é claro. Mas não tinha uma porcaria de vaso ali. Olhei embaixo do tapete e nada, cheguei por fim que teria que pedir ao zelador, porteiro ou alguém que tivesse a cópia pra assim eu poder entrar.
Atentei-me novamente aos detalhes antes de ir atrás de alguém e vi que a porta de , tinha embutido uma “fresta” para cartas, correspondências, e essas coisas, só que era um pouco grande essa fresta, não muito, é claro, só um pouco. Pensei que por ventura ele pudesse deixar uma chave reserva ali, enfiei minha mão e nada. Mas quando fui tirar senti algo do lado, então passei minha mão por ali novamente sentindo a chave, ou seja, tinha um pequeno prego ali com uma chave reserva. Muito bem pensado, .
Abri a porta, torcendo muito para que fosse o dele. Ao contrário do que se está acostumado, ao entrar no apartamento não se via diretamente a sala, e sim uma parede, do lado tinha um pequeno corredor que te levava a sala, só tive certeza disso, quando segui por ele. Meus olhos passaram pelo cômodo todo, até fixar-se em uma pessoa totalmente largada no sofá. Quando o vi, revirei ou olhos e pensei “Todo esse alarme pra encontrar ele dormindo”. Larguei minha bolsa em uma poltrona e fui chegando perto dele, foi quando percebi que em sua mão tinha um vidro de remédio.
Corri até a ele e peguei o vidro e vi que nada mais era que calmante e aquela porra de frasco estava vazio. Em sua outra mão havia bebida, logo entrei em pânico.
- ! – Chamei.
Nada daquele desgraçado me responder. Comecei a chacoalhar seu corpo chamando por seu nome e não obtinha respostas, entrei em desespero sem saber o que fazer e lágrimas já escorriam no meu rosto pensando o pior.
- , por favor, não me deixe! – Suplicava, ainda mexendo com ele. – Porra, , que merda você fez. Por favor, não me deixe, mais uma perda eu não aguento!
Chorava de desespero sem conseguir pensar em uma solução. Coloquei meu ouvido na altura do seu coração para ver se eu ouvia algum batimento cardíaco, mas a única coisa que conseguia ouvir era meu próprio coração que batia disparado.
- , me ouça, por favor! Se você se for, o que eu vou fazer? Não queria dizer isso, mas, você é a única pessoa que me faz querer ficar em Londres!
Precisava buscar ajudava. Corri até minha bolsa procurando meu celular, estava trêmula e tão nervosa que a não conseguia achar nada. Quando o encontrei disquei o número da emergência pedindo uma ambulância urgente. poderia estar morto, e eu poderia ter o salvado se não tivesse sido tão negligente e incrédula.
Tentei acordá-lo até a ambulância chegar. Gritava por seu nome e ele não reagia. Não poderia imaginar perdê-lo, não depois de ver nele o auxilio e o amigo que eu precisava. Pude perceber então que o tempo todo esteve pior, escondendo de todos e talvez de si mesmo a dor que sentia, por pura loucura acabou fazendo essa burrada, ele estava se afundando exatamente como me dizia. precisava de ajuda o tempo todo e mais uma vez fui egoísta de enxergar somente a mim mesma, quando ele precisava de um auxilio e um ombro amigo talvez até mais do que eu, se tivesse sido o que ele foi pra mim; se eu o ouvisse mais, o chamasse pra conversar talvez não estivesse passando por isso.

**


Lizzie estava no pronto socorro e foi ela quem deu os primeiros socorros a . Pediram-me para aguardar até ele ser atendido e que logo viriam me informar sobre sua situação.
Como eu poderia aguardar? Se aflição e o medo que sentia não me permitia a tal ato. Estava tremendo ainda, as lágrimas insistam em percorrer por meu rosto. Caminhei até a sala de espera onde me sentei em uma cadeira e pus-me a chorar. Chorar de medo. Aflição. Angústia. Ele sairia vivo daqui? Ou eu teria que enterrar mais um?
Comecei a orar baixinho pedindo para Deus que se possível, deixasse ficar comigo, prometi que cuidaria dele assim como ele fazia comigo. Só queria que ele saísse vivo daqui.
Fiquei horas esperando por notícias e nada. Pensei, se ele estivesse morto, já teriam me avisado, certo? Então o bendito estava vivo!
Vi Lizzie passar pelo corredor, ela me olhou passando direto e indo para sabe se lá onde. Custava ela vir me dar alguma notícia? Não era possível que ela não soubesse de nada. “Não julgue antecipadamente, ”, pensei comigo. Levantei-me e caminhei até o balcão e pedi por informações, e nada! Ninguém tinha uma merda de informação.
- ? – Virei-me.
- Sim?
- Lembra-se de mim?
- Sim, a doutora que me atendeu outra vez. – Respondi.
- Isso. Imaginei que fosse querer alguma notícia de .
- Gloria Deus! Até que enfim uma boa alma apareceu.
- Achei que Lizzie fosse dar a notícia, mas percebi que ela foi direto pra sala dela. Deve estar abalada. – Comentou. – , está bem! Quando chegou fizemos uma lavagem e o medicamos. Precisamos esperar ele acordar.
- Mas ele vai acordar logo, não vai?
- Depende, pode ser que sim como pode ser que não. Resta-nos esperar somente. Você deveria ir para casa descansar, amanhã... – Ela parou e olhou no relógio – Quer dizer, mas tarde você volta para visitá-lo.
- Muito obrigada pelas informações. Vou em casa para se despedir de meu pai que volta para Oxford hoje e depois eu volto.
- Tudo bem. Qualquer coisa pode me procurar.

**


Fui para casa, despedi-me de meu pai, mas preferi não comentar sobre . Prometi que logo lhe faria uma visita e que me cuidaria. Quando ele se foi, coloquei comida e água para Fred e brinquei um pouco com ele. Sentia que devia dar mais atenção ao meu pequeno cachorro. Tomei um banho quente e demorado para relaxar. Ao sair, deitei-me na cama e acabei pegando no sono.
Levantei horas depois, devia estar mesmo muito exausta para pegar no sono daquele jeito. Arrumei-me e voltei ao hospital. Antes como um flash lembrei-me que havia combinado com de ir tomar um café. Sendo assim, devido às circunstancias, mandei uma mensagem.

, gostaria muito de poder ir tomar o café que prometi a você, mas ocorreram algumas coisas e não vou poder ir, podemos remarcar pra outro dia. Me desculpe. Xx .”

Minutos depois ele me respondeu.

“Está tudo bem? Precisa de ajuda ou alguém pra conversar? Sobre o café, não precisa se preocupar; remarcaremos outro dia. Fique bem, . xx.”

“Não posso dar detalhes agora, mas te conto assim que puder. Um beijo”

**


Demorou exatamente um dia e meio para a bela adormecida resolver acordar. Se eu queria xingá-lo? Como eu queria, mas controlei-me e fui buscar um café. Na volta vi Lizzie sair do quarto, ela sorriu para mim e eu a retribui.
- Bom dia, bela adormecida. –
- Bom dia, vossa excelência.
Revirei os olhos.
- Por que você fez isso, ?
OK. Não conseguia me controlar, eu precisava saber.
- Isso o quê? – Perguntou confuso.
- Isso de tentar tirar a própria vida. Você foi egoísta ao não pensar em mim, mesmo sabendo que é a única pessoa que tenho aqui.
- Não tentei me matar se é isso que quer saber. E também não fui egoísta, porque a única coisa que eu queria era dormir.
- Dormir? Ah, pelo amor, , você sabe muito bem, até mesmo melhor do que eu que ingerir bebida alcoólica com remédio não é algo que se faça para somente dormir. Você sabia das consequências que isso poderia causar.
- Eu tive meus motivos.
- Ah, que ótimo! Será que posso saber quais foram eles?
- Não.
- O quê?
- Não. – Repetiu.
- Você é mesmo um idiota, prepotente, egoísta. – Gritei irritada.
- Ah, claro! Sou mesmo um egoísta por tentar proteger você da porra da dor que esta me consumindo. - alterou sua voz comigo. - Um idiota só porque te disse não, sendo que esse não te pouparia de muita coisa. E um prepotente, por se preocupar demais com você, .
- Já pensou que não quero que me poupe de nada?
- Não e ponto.
Bufei. Dei-me por vencida, pois percebi que não arrancaria nada dele mesmo. Ficamos um tempo em silêncio, ate ele começar a puxar assunto novamente.
- Não queria ter feito você ficar nervosa, só queria dormir mesmo.
- Mas fez, eu quase tive um ataque cardíaco, .
- Tudo isso por medo de me perder? – Brincou.
- Você acha que é tão importante para mim assim?
- Talvez. Eu não faço ideia do que importa para .
- Nunca mais faça isso.
Sorri de leve para ele que me encarava como se estivesse tentando decifrar alguma coisa. Ao contrário dos outros dias, seus olhos estavam escuros, mas mesmo assim, continuavam bonitos e chamativos.
- Desculpa. – Ouvi uma voz vinda atrás de mim. – Como se sente, ? – Lizzie perguntou.
- Estou ótimo, nem sei por que estou aqui. – Sorriu a ela que retribuiu.
Eca. Era a única coisa que eu pensava.
- Você me deu um grande susto, nunca mais repita isso na sua vida. Aliás, está liberado para ir para casa.
- Obrigado!
- Disponha!
- Que ótimo, então eu te levo! – Falei.
- Aceito a carona apesar de um lado me dizer que posso morrer.
- Pra sua informação eu dirijo muito bem.
- Espero que seu carro não seja aquele preto estacionado torto na frente do hospital – Lizzie comentou.
- Pode ser ele sim, como eu disse, eu dirijo muito bem, já estacionar não é comigo! – Sorri sem mostrar os dentes.
- Claro, isso se percebe de longe. Preciso ver meus outros pacientes, apesar de você ser meu favorito. Cuide-se, . Te ligo mais tarde...
- Tudo bem. – Ele respondeu e ela se retirou do quarto.
- “(...) Apesar de você ser meu favorito. Cuide-se, . Te ligo mais tarde” - Imitei ela. Que nojo!
- Isso é ciúme?
- Não. Isso é nojo mesmo! Vamos embora, doutorzinho!

**


No dia seguinte, passei em uma cafeteria para pegar um café e uns bolinhos para levar para . Isso era uma coisa tão esquisita, pois quando que em sã consciência eu faria isso por ele? Se a resposta foi nunca, você acertou!
- Bom dia... - Falei assim que ele abriu a porta.
- Me chama de tudo, menos bela adormecida porque é gay demais! – Disse ele me interrompendo.
- Tudo bem! Trouxe um café porque logo imaginei que você não faria um.
- Que bom que acertou!
Entreguei os cafés para ele e caminhei até o sofá para deixar minha bolsa por lá; vi que em cima da mesinha de centro continha um papel com o nome “ Martin”, era da minha melhor amiga, o que fazia perdido aqui? Fui pronta para pegar, mas foi mais astuto pegando antes.
- Isso é pessoal!
- Mas eu vi que tem o nome da . – Pontuei.
Ao olhá-lo atentamente o vi engolir seco. Olhava-me sério e no mesmo momento percebi que seus olhos começaram a avermelhar. Sabe quando seu coração dispara e você não tem noção do motivo? Foi exatamente isso que aconteceu. Meu coração disparou mesmo não sabendo o porquê, era como se eu estivesse tão acostumada com más noticias que meu subconsciente achava que tudo era ruim.
- , o que foi? – Perguntei chegando perto dele.
Queria descobrir o porquê de ele estar agindo assim, o porquê de não me deixar ver o que tinha naquele papel. Por que seus olhos estavam avermelhados como se estivesse segurando o choro? Eram tantas perguntas e poucas respostas para cessar meu anseio.
- Desculpa. – Ele pediu se distanciando. – Mas acho melhor você ir embora, . Não sou uma boa companhia nesse exato momento. Sinto-me cansado.
- Cansado? – Ri sarcástica.
Era mais do que óbvio que ele estava mentindo para mim. Sabia que a resposta das minhas perguntas estava naquele envelope nas mãos dele, sendo assim, dei alguns passos em sua direção e tomei-o de sua mão a força. Não era o mais correto a se fazer, e sabia disso, mas se ele não queria me entregar o papel cujo continha o nome da minha amiga; vi-me obrigada a tomar.
- , não lê isso! – Vi-o pedir, mas ignorei.
Quando meus olhos percorreram aquelas palavras eu não sabia o que sentir. Quando li “Comprova-se no exame feito em Martin que a mesma estava grávida de três meses”, não precisava ler mais nada. Isso era mentira! Como pôde ele acreditar em um absurdo desse?
Olhei para ele que estava sentado no sofá com os cotovelos apoiados nas pernas me olhando, esperando uma reação, aquela cujo eu não tinha. Nem voz não saia mesmo querendo dizer a ele que aquilo era mentira, só podia ser mentira. Ficamos uns cinco minutos nos encarando quando finalmente consegui dizer algo.
- Que merda é essa?
- É óbvio, não é?
Comecei a andar de um lado para o outro, nervosa, tentando assimilar aquilo. Apesar de achar que não passava de uma mentira, tinha um laudo ali, em minhas mãos dizendo exatamente o contrário.
- Isso não é possível. – Murmurei. – Ela me contaria. – acrescentei.
- Você é mesmo uma piada, .
Quando o ouvi dizer que eu era mesmo uma piada, meu sangue ferveu. Estava tão irritada, que queria voar no pescoço dele e o matar. Respirei fundo e disse apenas:
- Você acha mesmo que minha melhor amiga iria omitir que estava grávida? Acha que ela não contaria a mim? – Disse com a voz um tanto que alterada.
- Se ela não soubesse, sim! - Respondeu ele.
- Ela estava com três meses! Três meses, – Ressaltei. – Você acha que uma mulher não nota que sua menstruação está atrasada? Devo dizer, que se atrasa um mês, nós já estamos na farmácia procurando um teste. , estava com três meses e você vem me dizer que ela não sabia?
- Não estou dizendo isso. Só cogitei a ideia de que talvez ela não soubesse.
- Com três meses? TRÊS meses!
- Eu sei quanto meses ela estava, merda! – Disse irritado. – Será que agora você entende o porquê não queria que visse isso?
Levantou-se e começou a andar tentando se acalmar.
- Isso não é verdade, . Não pode ser. – Murmurei negando a mim mesmo que era verdade.
- O pior cego, , não é aquele vê, mas sim aquele que finge não enxergar! Aceita a verdade, ela estava grávida, você está com a prova em suas mãos.
- E quem disse que essa prova é verdadeira? Quem comprova que esse laudo está certo? Isso é mentira. – Falei convicta.
- É tão egoísta de sua parte pensar que isso não é verdade pra não sofrer. – Disse com raiva, acho que na verdade, parecia mais desprezo. - Não deveria me surpreender já que isso é bem a sua cara. - Murmurou por fim.
Fiquei em silêncio após ouvir aquelas palavras. Senti uma lágrima escorrer e a limpei. Peguei minhas coisas, respirei fundo juntando o fôlego que não sabia se tinha naquele momento e disse a ele:
- Eu não sei se você tem noção do quanto eu a conhecia... Não é pela minha dor, , é dor por pensar que ela escondeu de mim e não poder perguntar o porquê.
Andei até a porta e o vi me olhar sentido, parecia estar arrependido, mas não sabia ao certo se era mesmo isso que ele sentia. Antes de sair falei:
- Se cuide, !





Capítulo 10

A vida costuma nos pregar algumas peças, a cada dia que passa, reconheço que quando acho que já me aconteceu de tudo, uma nova surpresa aparece. Aprendi da pior forma que a pior surpresa que vida pôde me dar, foi à morte.
Naquele exato momento, não queria saber se estava preparada para entrar no quarto de ou se não estava. Depois de exatamente três semanas que mais pareciam uma eternidade, eu iria entrar lá de qualquer forma.
Subi as escadas pesarosamente, Frederico me seguia abanando seu rabinho e me olhando como se ele soubesse que algo de errado estava acontecendo. Não chorava, não sentia, era como se eu estivesse anestesiada, ou era simplesmente o fato de não acreditar que minha melhor amiga pudesse estar grávida. Respirei fundo com a mão na maçaneta e abri a porta do quarto. Fred foi à frente e se acomodou na poltrona, o “seu” lugar predileto. Estava tudo do mesmo jeito, afinal, eu não entrava lá pra nada. Tinha algumas roupas em cima da cama. Sapatos do no canto perto do criado mudo. Caminhei devagar até a cama, onde me sentei, deparando-me com os portas- retratos. Em todas as fotos o sorriso era o anfitrião, era inacreditável como o amor deles podia ser tão contagiante e tão nítido. Tinha fotos onde eu estava com eles, foto com o , foto de todos nós juntos, tinha até uma minha e da adolescente, ainda bem que a vida foi boa e não nos deixou ser daquele jeito. Eram lembranças tão boas que aqueciam meu peito me fazendo sentir bem.
Levantei-me e caminhei até a cômoda branca que tinha no quarto, onde ficavam os perfumes, as maquiagens, tudo que eles usavam no dia a dia. Ah, e tinha mais uma foto deles lá, porque era a maluca das fotos!
Peguei a foto e ri da pose deles, foi quando percebi que tinha uma pequena caixa que o porta retrato escondia. Peguei-a e abri. Pra minha surpresa, tinha um par de sapatinhos vermelhos, eram tão pequeninhos os sapatinhos, atrás deles um teste de gravidez positivo com um cartãozinho escrito “Parabéns, você vai ser papai!”
Isso quer dizer, que não era um louco, ele tinha razão, ela estava realmente grávida. Teríamos mais um na família se o cara que bateu no carro não estivesse bêbado e não tivesse atrapalhado toda essa nova etapa. Eu podia imaginar a cara do , ele ia enfartar, mas ia ser o homem mais feliz. Podia até mesmo imaginar o fazendo os comentários toscos dele de sempre. Podia imaginar a minha surpresa ao descobrir, e como eu ficaria feliz em saber que teria um bebê para correr atrás e cuidar, a parte ruim era que teria que dividir a atenção do pequeno bebê com , mas eu sobreviveria. Seriamos os tios loucos. Por fim, seriamos uma família.
Sabe a anestesia que eu estava sentido? Pois é, havia passado o efeito anestésico, agora eu sentia, sentia como tudo seria diferente se eles ainda estivessem aqui. Era impossível não chorar ao cogitar toda uma história diferente sendo que ela não poderia ser real. Que droga!
Tinha que mostrar essa caixinha ao mesmo estando magoada com as palavras ditas por ele, tinha certeza que ele gostaria de ver. Limpei minhas lágrimas e sai do quarto. Antes de voltar à casa do , eu precisava comer senão ia desmaiar.

**


- ? – perguntou confuso quando me viu em sua porta novamente.
- Só vim te entregar isso. Achei que talvez fosse querer ver. – Disse seca entregando a pequena caixa.
- O que é? – Indagou receoso.
- Abra e veja! – Apontei para o objeto.
- Será que antes a gente pode conversar?
- Na verdade, não. – Respondi. – Preciso ir, , deixa pra uma próxima.
- Por favor? Só me escuta. Cinco minutos, , é o que te peço.
- Fala, , mas fale rápido.
- Não vai nem entrar? É estranho eu ter que ficar falando no corredor, nunca ouviu dizer que as paredes e portas têm ouvidos? Particularmente, não gosto de expor minha vida assim.
- Você não se cansa de ser chato?
- Você não se cansa de implicante?
- Olha se for pra brigarmos, prefiro ir embora, creio que já ouvi tudo o que você tinha pra dizer e o que pensa sobre mim hoje mais cedo.
- A última coisa que quero, é brigar. É exatamente sobre hoje mais cedo que quero falar.
Acabei que entrando na casa do dito cujo. Ele me fez sentar e me serviu um café. Palhaço.
- Tudo isso é pra me conquistar? Esse cavalheirismo? – Falei sarcástica.
- Está funcionando?
- Não.
- Então não é pra conquistar. – Sorriu, sentando-se na mesinha de centro. – Sinceramente, não sinto como se eu tivesse que te pedir desculpas. Sinto muito pelo que falei, mas sempre prezei pela verdade, e naquele momento era exatamente aquilo que estava pensando.
- Que eu sou uma pessoa egoísta?
- Quero deixar claro que quis me expressar a você como egoísta pelo fato de ficar negando algo que é real, estava sendo sim egoísta por negar aquilo a si mesma pra não sofrer.
- Você não é capaz de entender o que eu estava sentido, . Não foi o que escondeu algo de você, ainda mais algo tão importante.
- Talvez eu não saiba mesmo. Mas, é preciso aceitar as descobertas para se seguir em frente. Faz semanas que eles se foram e eles não vão voltar, e digo isso porque nas primeiras semanas eu esperava por isso. Esperava ser só uma mentira, mas não é. E aceitar a realidade foi à melhor coisa que fiz por mim.
- Aceitou tão bem que quase se matou! – Disse ríspida, me levantando.
- Eu não tentei o suicídio, . Sei que o que fiz foi uma imprudência, mas eu só queria dormir, já que não conseguia fazer isso da maneira natural, optei pelos remédios. Não sei se vai acreditar em mim, mas eu tenho sonhos constantes com a quando durmo, era isso que estava buscando, queria dormir pra poder sonhar com ela, é tão real, como se ela realmente estivesse aqui, me trás um conforto ao meu coração, uma paz, mesmo com ela me xingando o tempo todo e dizendo que não ficaria feliz ao saber que estava me afundando.
- Imprudência é pouco para expressar o que fez.
- Para de ser arrogante por um minuto sei que essa é sua arma, mas não precisa usá-la comigo, , já sei que você é melhor que isso.
Fiquei em silêncio, não tinha palavras pra contradizê-lo. me encarou por alguns instantes fixamente, mas desviou ao lembrar-se da pequena caixa que entreguei hoje mais cedo. Pegou-a em suas mãos; abrindo-a e vendo o par de sapatos vermelhos, colocou seus dedos dentro no sapatinho e tirou os da caixa mexendo-os.
- São tão pequenos. – Murmurou. – Posso imaginar a reação do quando descobrisse.
- Eu também. – Comentei. – Seriamos os padrinhos mais babões do mundo.
- Nisso você tem total razão!
- Preciso ir.
- Se não for pedir demais, pode ficar essa noite comigo? Não queria ter que ficar sozinho.
- Não sei se é uma boa ideia.
- Não tem porque não ser. Só vamos assistir a um filme, que tal fazer maratona? Sei lá. Eu só quero companhia pra essa noite.
- É que talvez...
- Você é a melhor companhia, pode crer nisso! – Falou sobrepondo-se a minha voz.
- Tudo bem. - Sorri de leve

Estourei a pipoca enquanto arrumava seu quarto, tínhamos decidido fazer maratona Harry Potter. Sua casa me parecia tão aconchegante que passar a noite ali não me parecia um problema.
Ao chegar ao quarto vi uma montanha de cobertas na cama, em frente a tevê, digitando “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, as cortinas fechadas deixando o quarto bem escuro. Caminhei até a cama onde tirei minhas botas, e logo me cobri pondo o pote em cima das minhas pernas.
- Trouxe as bebidas? – Perguntou.
- Eita, acho que esqueci. – Sorri sem graça.
- Então a vossa senhoria pode sair debaixo das cobertas e ir buscar, por favor!
- Aaaaaaaaaaah, por favor, nunca te pedi nada, faça isso por mim?
- Só vou fazer porque já estou em pé e fora das cobertas.
- Tudo bem. Muito obrigada. – Falei dando uma piscadinha e mandando um beijinho.
Quando estava tudo pronto, soltou o filme e começamos a assistir, dando inicio a nossa maratona.
Devo confessar que sou uma má companhia quando se trata de fazer maratonas, já que sempre durmo, claro que desta vez não podia ser diferente, acabei que pegando no sono.

Estava sentada na cama do , comendo pipoca e estava do meu lado, fazendo o mesmo.
- Posso te fazer uma pergunta? – Murmurei.
- É claro que pode.
- Por que não me contou que estava grávida?
- Havia descoberto há pouco tempo, pretendia fazer uma surpresa ao e assim podendo depois dar a notícia a você e ao . Estava tudo cronometrado em minha mente, é uma pena não ter dado certo e vocês terem descoberto desta forma.
Fiquei em silêncio sem dizer nada. Só se ouvia o barulho de nós comendo pipoca, até que então ela falou:
- Eu ouvi o que você me disse outro dia.
- O que eu disse? – Perguntei confusa.
- Sobre você e o terem se beijado. –
- Ah, esquece esse beijo, aquilo aconteceu apenas uma vez e por incrível que pareça nunca tocamos nesse assunto.
- Porque a vossa excelência é bem clara em relação ao olhar que lança quando pensa em tocar no assunto.
- Como posso ser “tão clara” se ao menos eu nem sei que ele esta prestes a tocar nesse assunto?
- , vocês estão mais conectados do que imaginam.
- Por um motivo sádico demais, você não acha?
- Não estou falando da nossa... - Parou por um instante. – Morte. – Concluiu.
Quando a olhei finalmente, era como se uma refletor de luz a cobrisse, impedindo-me de vê-la totalmente, apenas uma sombra de si, porém podia sentir sua presença e a ouvir nitidamente. Se contasse isso a alguém me chamariam de louca, mas eu tinha convicção do que podia ver, sentir e ouvir.
- Chega ser tão ingênuo de sua parte pensar que só isso podia juntá-los.
- , pelo amor de Deus, há exatamente um mês atrás eu não suportava o , nem se quer podia vê-lo, tinha repúdio dele, já hoje eu...- Deixei a frase no ar, já que não sabia completá-la.
- Já ouvir dizer que o amor e o ódio andam de mãos dadas?- Falou olhando diretamente para mim e eu para ela. Ok, que ao ouvir fiz uma careta.
- Sim, o já me disse isso uma vez.
- Ah, esse meu namorado, sempre roubando minhas frases de efeito! – Falou se levantando e revirando os olhos, com um sorriso nos lábios.
- Eu sinto falta de vocês. – Murmurei.
- Que bom que sente... E te digo mais, sempre sentiremos falta uma da outra, preocupante seria se parássemos de viver por ela. Vai por mim, amiga, segue seu coração, nunca terá erro nisso. – Piscou para mim, logo após sorrir, saiu do quarto.

Acordei ao sentir frio em meu pé que estava descoberto. Foi ai então que percebi que adormeci nos braços do , que não devia nem estar sentindo os mesmos. Cobri meus pés e me afastei de , deitando-me no travesseiro, achei melhor virar de costas, e senti ele se mexendo também. Acabou que no fim, ficamos um de costas pro outro. Sabe quando você acorda e faz de tudo para lembrar cada parte do sonho que teve? Era exatamente isso que fazia. Queria lembrar cada detalhe, cada palavra dita, tudo, extremamente tudo.
Senti se mexer novamente só que desta vez ele me abraçou, fungando em meu pescoço. Fiquei espantada com tal ato, será que ao acordar ele lembraria que me abraçou ou nós dois fingiríamos que nada aconteceu? Que nem dormimos na mesma cama.
- Bom dia. – Ele disse baixinho no pé no meu ouvido.
- Bom dia. – Respondi.
Era claro que o “bom dia” dele havia me causado um pequeno arrepio.
- Não acha que está em cima demais? – Indaguei.
- Não, gostei dessa posição. Aliá,s você não deveria nem reclamar, dona , porque você babou no meu braço a noite toda e eu não disse nem uma palavra.
- Por que não me acordou? E não babei no seu braço, mentiroso.
- Babou sim. E você parecia até um anjo dormindo, nem parece o capeta que é acordada. – Riu e o acompanhei.
- Podia ter me empurrado pro travesseiro.
- Até tentei, mas você insistia em ficar colada em mim.
- Isso é mentiraaaaa!
- Tô brincando. – Ele riu, vale ressaltar que foi no meu ouvido. - Acho que peguei no sono e nem senti, deve ser porque meu braço adormeceu. Que tal sairmos para tomar um café?
- Nossa, já acorda no pique de sair da cama.
- É que estou com fome.
- Vamos, só preciso que desgrude.
- Uma pena - Murmurou. – Mas a fome esta falando mais alto.
distanciou- se de mim, e levantou da cama indo para o banheiro, e eu? Ah, fiquei lá toda embolada no monte de coberta esperando ele sair do recinto para eu poder ocupá-lo. Tudo ali cheirava a , será que era por isso que estava com o rosto enterrado no travesseiro? Certeza que havia sofrido uma lavagem cerebral, só assim pra explicar a empatia que havia criado por ele. Lembrei que tinha uma escova reserva na minha bolsa, mas ela estava lá na sala. Levantei com a maior preguiça do universo e fui me arrastando até lá. Peguei então uma pequena nécessaire e fui para o quarto novamente.
Quando , finalmente saiu do banheiro, pude usá-lo. Escovei meus dentes, dei uma arrumada no cabelo, pra ver se controlava o mesmo que parecia ter vida própria. Passei uma maquiagem bem de leve, só pra ver se tirava a cara amassada de quem acabou de acordar.
- Pronta? – perguntou assim que sai do banheiro.
- Pronta, só vou precisar passar em casa pra pegar um casaco mais quente, porque está frio demais.
- Sem problemas, passamos lá!

**


Tinham se passado um mês e uma semana pra ser mais exata. Sabe o que significa? Sim, eu havia retornado ao meu trabalho, só percebi que estava fazendo falta quando o tive de volta. Precisava que assinasse uma carta dizendo que eu tinha plena capacidade psicológica pra voltar ao meu ofício. Iria tomar providencias o mais rápido possível. Minha vida acabou se tornando uma correria novamente, o que me fazia ter pouco tempo pras coisas, já que quando chegava em casa, saia para passear com Fred, na volta limpava a casa e dormia, isso quando não ia lá pra conversar e fazer o Fred ficar no 220 volts.
No horário do meu almoço, aproveitei para ir ao hospital, buscar umas papeladas que eu precisava, na verdade, eram alguns exames somente, mas isso não vinha diretamente ao caso. Havia a intenção de perguntar se não gostaria de almoçar comigo, já que particularmente, achava terrível ter que comer sozinha.
Infelizmente ao sair do balcão pra ir procurar , trombei com Lizzie, sorri brevemente e estava prestes a sair andando quando a mesma disse:
- Será que podemos conversar?
- Desculpa, mas é que estou no meu horário de almoço, fica pra uma próxima. – Respondi.
- Não vou ocupar muito o seu tempo.
- Ok. Tudo bem, pode falar. –
- Venha comigo. – Pediu.
Fomos até um corredor, aonde não passavam muitas pessoas por ali, só alguns funcionários.
- Vou ser bem curta e direta. Quais são exatamente seus sentimentos por ?
Com toda certeza do mundo olhei para ela como se ela fosse um alien, porque, oras bolas, que tipo de pergunta é essa? Quem chama outra pessoa pra conversar pra perguntar sobre a vida pessoal dela? Essa mulher era louca, só podia.
- Acredito que essa pergunta é um tanto pessoal e não diz respeito a você.
- Vamos lá, , não somos mais crianças, somos adultas o suficiente para discutirmos sobre esse assunto. – Falou me olhando obviamente, e com certa ignorância.
- Jura? Pois é isso que esta parecendo aqui. Devo deixar claro que se eu o queremos ficar juntos ou não, não inclui a você saber disso e se você tem algo não resolvido com ele sugiro que o procure pra tratarem disso. – Sorri forçado antes de sair andando, porém Lizzie me parou tocando em meu ombro.
- Algo não resolvido? – Arqueou as sobrancelhas.
- Lizzie, me poupe dessa conversa, não haja como se eu fosse sua inimiga, isso é ridículo até mesmo pra você. Se você quer, lute por ele, pelo amor dele, não tenho nada a ver com isso.
- Ridículo é você negar que gosta dele.
- Como eu te disse isso não diz respeito a você, se estivesse tão segura do sentimento dele por você, não teria porque se preocupar comigo.
- Não haja como se o realmente nutrisse algo por você, , nessa altura do campeonato a única coisa que as pessoas podem sentir é compaixão pela sua dor!
- Se você tentou me afetar com isso, devo dizer que não foi algo bem sucedido. Sinto pena, Lizzie, de você por usar algo como isso pra tentar me ferir.
- Não quero te ferir, querida, pelo contrário, só quero te alertar pra não sofrer no final. – Sorriu sarcástica.
- Sofrer? – Ri. –
- Olha, , só quero deixar mais que claro, que irei lutar pelo , devo acrescentar que sou muito competitiva.
- Pelo amor de Deus, você esta o tratando como se ele fosse um troféu, ele tem sentimentos, é uma pessoa maravilhosa que não deve ser tratado como se fosse um objeto de conquista pra por na prateleira no final.
- Vejo que esta mais apaixonada do que imaginei.
- Eu não estou apaixonada! – Alterei um tanto minha voz, já que estava no limite da minha paciência. – E se estivesse, teria muita sorte por estar por alguém como o ! Agora, se me dá licença eu tenho mais o que fazer.
Sai andando sem esperar respostas em troca, uma porque não queria ter que prolongar aquela discussão idiota e outra porque Lizzie estava totalmente fora de si, não é possível que uma pessoa fosse capaz de tal coisa. Estava tão indignada que nem teria visto se ele não tivesse mexido comigo.
- Olha só quem está por aqui. – Sorriu. – Almoço?
- Isso é um convite ou esta perguntando se estou no meu horário de almoço?
- Isso é um convite.
- Pois é então, não vai dar, preciso passar no consultório do .
- pra cá e pra lá. – Revirou os olhos. – Janta comigo pelo menos?
- Também acho que não vai dar; por hoje não preciso de compaixão.
- Do que você esta falando? – Perguntou parecendo confuso.
- Que eu estou bem, , que não preciso que tenha pena, dó e compaixão por mim só porque não tenho mais ninguém aqui.
- É isso mesmo que você acha? Que tenho pena de você? – Falou parecendo estar sentido com o que acabara de ouvir de mim.
- É, é exatamente isso que eu acho. Como se explica nos darmos tão bem em um mês quando nos odiamos desde sempre?
- Sempre soube que você não tinha uma boa imagem sobre mim, mas a esse ponto...
- Estamos tão vulneráveis que não sabemos mais o que é real ou não.
- As pessoas mudam,, quando elas se conhecem de verdade, mas tenho a impressão que o que pensa sobre mim, seja lá o que for, nunca vai mudar!- Disse olhando no fundo de meus olhos, totalmente sentido.
Saiu andando e isso foi como um soco no meu estômago sabe quando você sabe que fez merda? Era essa a sensação que eu tinha, que o que eu havia dito a ele não era exatamente o que ele sentia, estava receosa em tê-lo magoado. Droga, , da próxima pense antes de falar pra não se arrepender depois e ficar como está. Sai do hospital e voltei ao trabalho, passaria no consultório do mais tarde.

***


Odiava-me pela minha consciência não me deixar em paz quando eu fazia algo errado ou quando pensava isso. Passei no Burguer King e peguei dois lanches, adivinha só, lá estava eu indo me redimir com , isso não era ridículo?
- Acho que é minha vez de tentar me redimir. – Falei sorrindo quando ele abriu a porta.
estava sem camisa, vestia somente uma calça moletom preta, seu cabelo estava totalmente desorganizado e sua cara amassada.
- Quer se redimir me dando comida? – Arqueou as sobrancelhas.
- Achei que fosse funcionar.
- É, isso sempre funciona, ainda mais quando estou com fome. Entre.
Como não ficar reparando muito em um cara sem camisa que estava maravilhoso?
-Você está bonita hoje. – Murmurou.
- Está dizendo isso porque eu te trouxe comida. – Ri.
- Com certeza é isso. – Deu uma piscadinha rindo junto.
- Idiota!
- Você realmente está bonita, .
- Muito obrigada, .
- Ok, agora você me diz que estou atraente e lindo.
- Está implorando por elogios?
- Deve ser porque você nunca diz.
- Por que eu diria?
- Pra ser fofa, mas esqueci de que você não sabe nem o que significa ser fofa.
- Eu sei sim – Falei semicerrando os olhos.
- Você nunca foi.
- Porque você não merece.
- Preciso te pedir um grande favor. – Falou pondo os copos na mesa, e ficando frente a frente comigo.
- Sabia que o elogio não vinha de graça.
- Os pais do me ligaram...
- E? – Perguntei curiosa.
- E eles vão fazer um memorial a ele, na verdade, não é um memorial, é uma cerimônia, sabe?
- Depois de um mês após a morte dele? Não faz muito sentido isso, não é?
- O pai dele disse que a mãe do ficou muito mal depois de sua morte e que ela está melhor agora.
- Mas aquele dia em que a vimos ela parecia estar bem.
- Ela devia estar se recuperando. Ele pediu pra que fossemos, e eu disse que iríamos.
- Você confirmou algo por nós dois? – Perguntei.
- Sim.
- , mas e se eu decidir não ir?
- , eu preciso que vá, você é minha noiva.
- Não sou não.
- Pra eles você é, eu disse que iria, não por eles, mas pelo .
- Que furada você esta me metendo. – Falei tampando meu rosto.
- Eu comprei um anel de mentirinha pra você. – Sorriu fofo. – Só não lave nada com ele, que é falso. – Riu.
- Não acredito que você até comprou uma bijuteria.
- Comprei, achei que eles talvez pudessem olhar na sua mão, e como estamos noivos eu deveria te dar um anel, mas como é mentira, comprei uma bijuteria, pelo menos é bonito.
- Onde está?
- Você vai comigo? – Pediu com cara de cachorro que havia sido abandonado.
- Pelo . – Pontuei.
- Iremos pelo . – Concordou.
- Quando?
- Amanhã.
- Porra, , podia ter me avisado antes.
- Eu fiquei imaginando como iria te dar a notícia, então você apareceu na minha porta e estou te contando.
- Voltamos no mesmo dia?
- Não sei que horas vai acabar lá, então melhor levar uma roupa.
- Tudo bem, já que não tem como voltar atrás.
- Obrigado.
me abraçou de uma maneira tão carinhosa envolvendo-me por completo, senti sua pele e estava tão quentinha, é claro que não fiquei explorando seu corpo, apenas dei uma passadinha de mão na suas costas, nada demais. Gostaria de poder entender de onde estava vindo o carinho que eu sentia pelo , não havia uma explicação lógica, deve ser porque as melhores amizades surgem nos momentos mais inesperados e remotos de nossas vidas. Ele se separou me dando um beijo na testa, logo após, sentamo-nos a mesa pra comermos, vulgo, devorarmos o lanche, já que estava faminta.
Fiquei mais algumas horas conversando com ele e o ajudando a escolher uma roupa já que estava tão indeciso, rimos praticamente o tempo todo e claro que ele não perdia a oportunidade de tirar uma com minha cara sempre que surgia uma brecha.
Quando fui para casa, cheguei à conclusão que estava tão cansada que o que eu mais queria era dormir, deixaria pra arrumar as coisas amanhã de manhã já que sairemos depois das 10hrs. Deitei na cama e meu Deus, que sensação maravilhosa, senti Fred pular na cama e dar uma lambida no meu pé e se aconchegar por ali mesmo. Não demorou nada e peguei no sono.

Acordei as 08hrs00 da manhã, e já tinha uma mensagem do no meu celular.

“Bom dia, vossa excelência, prefere brownie ou cupcake pro café da manhã?”

“Bom dia, doutor; prefiro os dois haha”

“Que prejuízo hahaha; chego ai em 20min.”

“Ok”

Tomei banho, lavei meu cabelo e o sequei, me aprontei, arrumei uma mala pequena pra por uma roupa de dormir caso eu não voltasse no mesmo dia e uma roupa pra voltar. Queria por o Fred na mala, mas se eu o levasse, ele iria ficar lambendo os pés das pessoas lá já que ele estava com essa mania. Coloquei alguns potinhos espalhados pela casa com ração e água, arrumei sua pequena cama, mesmo sabendo que ele não dormiria nela e sim na poltrona que ficava no quarto da .
Quando a campainha tocou, já sabia quem era.
- Oi. – sorriu.
- Oi. – Respondi.
- Trouxe o café!
- Entre, estava arrumando as coisas.
entrou e arrumou a mesa enquanto eu finalizava as últimas coisas da minha mala; depois tomamos café e ficamos pensando senão estávamos esquecendo-se de nada, bom chegamos à conclusão que não.
- Acho que podemos ir. – Falei.
- Antes preciso te entregar uma coisa. – Falou mexendo no bolso do seu sobretudo preto.
Vi-o tirar do bolso um anel pequeno e bem brilhante que nem se quer parecia com bijuteria, olhou-me um tanto tímido e sorriu balançando a cabeça, juro que queria saber o que se passava na mente dele, mas era impossível, era tão misterioso que mesmo conversando com ele todos os dias, mesmo ele me contando o que sente, sentia-me como se nunca fosse saber tudo dele. Peguei-me novamente observando ele minimamente; seu olhar era tão diferente, era cativante, como se pudesse me revelar muitas coisas apenas com aquele olhar; toda vez que ele sorria, sentia uma necessidade de sorrir junto, chegava a ate ser involuntário, e sua risada era tão engraçada que eu ria dela. Estava vendo-o de uma maneira tão dispersa do que costumava a ver antes que chegava a me amedrontar.
pegou delicadamente minha mão direita, pelo que se podia reparar parecia estar desconcertado, na verdade, era como se estivesse com vergonha. Colocou o anel no meu dedo anelar e olhou pra mim sorrindo, é claro, que eu sorri junto que nem uma boba.
- Agora “oficialmente” minha noiva.
- Acho que dá pra enganar. – Falei olhando o anel.
- Espero que dê mesmo, pelo menos por um tempo, depois podemos... - Deixou a frase no ar.
- Terminar?
- É, podemos falar que acabou o noivado, mas que continuamos amigos. – Deu de ombros.
- Boa ideia, ! – Sorri dando uma piscadinha pra ele.
- Vamos? –
- Vamos!
Antes de sair de casa, me despedi de Fred e disse que eu ia matá-lo apertando ele daquele jeito, tranquei toda a casa, estava com dor no coração de deixar Frederico sozinho lá dentro, sentia-me como se estivesse o abandonando e até comentei isso com que me disse que logo voltaríamos que nem se quer daria tempo de Fred sentir minha falta. Entrei no carro, coloquei o cinto e suspirei, pegou nas minhas mãos assim que entrou apertando-as e me olhando firme como se soubesse exatamente o que eu pensava.
- Está tudo bem e irá ficar tudo bem!
Concordei com a cabeça e ele prosseguiu.
- Sei que nossas últimas lembranças de viagem não são tão boas, mas essa vai ser diferente. Eu prometo. – Finalizou dando um beijinho na minha mão. se ajeitou no banco pondo o cinto de segurança.
- Pronta?
- Sim, vamos lá. – Sorri e o vi fazer o mesmo.
E lá estávamos nós a caminho de Cambridge, para uma cerimônia fúnebre da qual eu não queria ter que participar, pois preferia que meus amigos estivessem aqui. Era incrível como tem males que vem para bem, peguei-me pensando que se caso e não estivessem mortos, eu estaria me dando tão bem com ou continuaríamos a viver em guerra? Não sabia a resposta, mas gostava de estar bem com ele e da forma como ele me tratava. O mais engraçado que não importava qual briga nós tivéssemos, sempre estaríamos juntos no final, por mais incrível que podia parecer, o orgulho nesse caso nunca falava mais alto.





Continua...


Nota da autora: (21.05.2017) Oi, musas, venham participar da nossa familia no face. PS: Vou deixar aqui também, o link do trailer de Beyond Life, espero que gostem e beijão.


Nota da Beta: Eu acho maravilhosa a forma como a relação dos dois esta sendo construída, sem pressa passando por todas as etapas... Tu está arrasando, Aninha! Uhuul <3 Sobre essa atualização tripla, como o toma calmante com bebida? Quase entrei na história para bater nele hahahaha. Nossa, eu quase tive um treco quando vi que a estava grávida, que tristeza, gente! Acho tão lindos esses sonhos que os pp’s têm com os amigos, é uma forma de sempre estarem conectados <3 Continue!




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Para saber quando essa fanfic maravilhosa vai atualizar, acompanhe aqui.



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