Última atualização: 04/08/2019

Prólogo

- Vamos Luke, por favor.
- Já disse que não, .
- Você sabe que eu não vou desistir.
- É, mas vou continuar negando.
- E eu insistindo.
- Você é um saco.
- Você me ama do mesmo jeito.
- Tudo bem, podemos ir juntos.
- Obrigadaaaaa!
E eu abracei meu primo com toda força que pude.
Você não está entendendo nada, não é?
Não se preocupe, vou lhe explicar.
Meu nome é , e esse com quem converso é o meu primo dois anos mais velho, e eu tenho 11 anos. Posso parecer uma menina normal, mas não, eu não sou nada normal, a começar por ser bruxa e esse ano iria para Hogwarts, uma escola de magia e bruxaria.
Meu primo vai pro seu terceiro ano na Lufa-Lufa e eu estava convencendo ele a me deixar andar com ele e seus amigos até arranjar os meus próprios amigos e bem, eu sempre consigo.
Meus pais, Samantha e Adam, também foram para Hogwarts, minha mãe foi da Cornival e meu pai da Lufa-Lufa e eles apostaram - isso mesmo, apostaram - em qual casa eu irei ficar e é claro que o Luke participou, então se nenhum deles ganhar o lucro é todo meu.
Meu pai apostou na Lufa-Lufa. É obvio.
Minha mãe na Cornival. É claro.
Luke apostou na Grifinória só pra não apostar na Sonserina.
Eu estava torcendo para não lucrar.
Você sabe, todos os bruxos das trevas foram da Sonserina. Apesar dos meus pais falarem que não tinha problema eu ficar lá, eu não queria, não mesmo.
Agora estávamos eu e meu primo no meu quarto, ele me ajudava a arrumar minhas coisas, as dele já estavam prontas. Iríamos amanhã para Hogwarts.
Dá pra imaginar quão nervosa eu estou? Finalmente eu iria para a escola dos meus sonhos.
Fui acordada por meus pais e Luke batendo panelas na porta do meu quarto. Sim, meus pais não tiveram infância e aproveitam a minha, vai entender.
Fui resmungando até o banheiro para fazer minha higiene matinal, quando voltei para o quarto só Luke estava lá, esse menino é um grude. Tudo bem que eu também sou, mas nada se compara a ele.
Ele arrastou minha mala até o carro do meu pai, que só parou de buzinar quando todos estavam sentados e com os cintos colocados.
As vezes me pergunto se meus pais são realmente os adultos da familia.
No caminho escutamos uma música qualquer enquanto meus pais e meu primo insistiam em falar da aposta boba que fizeram, enquanto eu ria descontroladamente das brincadeiras idiotas deles.
Quando chegamos na estação, corremos até a famosa parede 9 3/4 que nos transportou direto para a plataforma do meu trem favorito, como estávamos atrasados - como sempre -, Luke e eu nos despedimos rapidamente dos meus pais e corremos até o trem que já apitava, anunciando a partida.
Logo encontramos os amigos dele e uma cabine vazia. Só havia eu de garota e eles estavam com certeza me ignorando, mas eu não estava nem ai, estava ocupada demais lendo um dos meus muitos livros trouxas que pesavam ainda mais meu malão.
Claro que uma hora a gente cansa de ficar só ouvindo a conversa alheia e foi por isso que me levantei e sai da cabine, sem avisar nem nada.
Normalmente o Luke é legal e atencioso, nunca desde que ele se mudou para nossa casa, depois da morte do pai, me deixou de lado, não importava o quão longe ele estava. No primeiro ano dele em Hogwarts eu chorei muito e ele até pensou em desistir de ir, mas eu o abracei e disse que iria sentir sua falta, mas ele não poderia desistir de ir, aquele era nosso sonho, ele só estava realizando primeiro.
Andei um pouco atrás de uma cabine vazia, mas acabei entrando em uma que só tinha uma menina, levemente conhecida, que parecia ser um ou dois anos mais velha que eu. Sentei-me na sua frente.
- Sou .
- Sou Heloisa Oliver.
Eu olhei para ela por um instante e então eu percebi porque ela é levemente conhecida, ela vivia brincando com Luke quando éramos crianças, eu sempre fui mais nova por isso eram raras as vezes que eu ia brincar com eles.
- Helo? Por Merlin que surpresa, sou eu, , prima do Luke Brown. Não acredito que ele não falou pra mim que você estuda aqui.
Bem, e a coisa que nunca imaginei que aconteceria, aconteceu, ela fechou a cara e quando falou sua voz estava carregada de ódio.
- Eu não acredito, vocês só podem estar brincando! Primeiro eu me livro de um e agora você vem e aparece? Nunca gostei de você quando éramos menores e então eu cresço, me mudo e vocês reaparecem? - nesse ponto ela estava em pé e gritava comigo, e eu estava encolhida num canto, me segurando para nã chorar. - Ele nunca falou de mim, porque não queria contar para prima mais nova, que tanto o admira, o quanto ele foi um cachorro que fez minha melhor amiga ficar com ele por causa de uma aposta, você não imagina o quanto ela ficou mal, e então você aparece tentando ser legal comigo. Quer saber? Vá a merda também.
Ela se levantou e saiu, e eu? Bom, eu fiquei ali, encolhida, chorando baixinho tentado entender o que acabou de acontecer. Meu primo nunca faria mal a alguém.
Eu fiquei alguns minutos parada, tentando digerir o que havia acabado de acontecer. Uma hora eu estou feliz da vida porque encontrei uma velha conhecida e de repente essa mesma garota esta xingando a mim e ao meu primo.
Eu continuei na mesma posição por algum tempo até uma garota loira entrar na cabine, ela tinha um sorriso simpático e falava com alguém que estava ao seu lado esquerdo, mas quando ela se virou para mim, seu sorriso sumiu.
- Meu Merlin, o que aconteceu com você?
Eu rapidamente limpei meu rosto e olhei para ela com a maior cara de desentendida que eu consegui fazer, mas eu acho que não melhorou muito minha situação, pois ela falou alguma coisa para a pessoa com quem conversava antes e se sentou ao meu lado.
- Eu sou ! - ela disse com um sorriso parecido com o que dava segundos atrás, só que um pouco menor.
- ! - eu tentei sorrir, mas eu acho que saiu mais como uma careta, pois a garota soltou uma risada que me fez rir também.
- Você é novata?
- Está tão na cara assim?
- Não é isso - ela soltou um risinho tímido -, é só porque eu nunca tinha te visto antes..
Nessa hora ela foi interrompida pela porta que foi aberta brutalmente por uma garoto loiro, parecido com ela, que tinha cara de apavorado.
- Você não vai acreditar no que eu acabei de descobrir, .
- Você parece uma menina fofoqueira, .
- Cala a boca, .
- Não me chame assim, .
- Ou o que?
Eu pigarreei, porque estava meio desconfortável com aquela cena e foi só então que o garoto pareceu me notar, seu rosto emburrado se transformou em um sorriso que talvez ele achasse ser sexy - e aqui, só entre a gente, não era nada sexy.
- Quem é a gata?
- Cai fora, , ela não é pro seu bico. Agora você vai contar ou não o que descobriu?
- Quem é fofoqueira, hum? - ela lhe lançou um olhar feio e ele fez uma careta. – Tá, tá. Você sabia que Harry Potter está nesse trem?
Eu meio que fiz cara de bunda, claro que eu sabia quem era o Harry Potter e da sua história, mas eu só não entendi o porquê daquele entusiasmo todo, eu duvido que o garoto se lembre de algo daquela noite, eu mesma não me lembro de nada do que aconteceu na minha vida até mais ou menos os meus cinco anos.
Luke sempre dizia que eu não era normal (olha aí mais um motivo para minha anormalidade), pois enquanto todas as crianças do mundo bruxo queriam ouvir a história de Harry Potter, eu queria ler ou ouvir alguma história trouxa, a única história bruxa que eu realmente gosto é a do Conto Dos Três Irmãos.
Falando no Luke, o que será que está acontecendo na cabine dele?
Voltando a minha cara de bunda, eu acho que os dois perceberam porque me olharam e perguntaram ao mesmo tempo:
- Nascida trouxa?
- Não, sangue puro, eu só não gosto dessa história.
- Você se importa se eu for lá, dá uma espiadela? – ela perguntou, com a mão já na maçaneta.
- Não, mas aposto que ele sim.
Mas ela não me escutou, já tinha saído. voltou alguns minutos depois com dois meninos, um deles era o . Ainda me perguntava o que ele era dela.
- Oi... de novo - disse o tal se jogando no banco da frente.
- Oi?! - respondi.
- , posso te chamar assim, né? Enfim, esse é o meu namorado, , mas ele é um chato que não fala muito, mas apesar disso ele é bem legal - ela disse isso muito rápido e eu acabei soltando um risinho fraco que acabou virando uma gargalhada e fui acompanhada pelos outros, fomos parando de rir aos poucos e quando isso aconteceu cumprimentei, sem fôlego, o .
- Oi, prazer.
E então a conversa fluiu tão a vontade que nem percebemos que estávamos chegando até uma voz feminina dizer que faltavam cinco minutos, trocamos nossas roupas trouxas pelo uniforme de Hogwarts.
Eu descobri que e eram irmãos, sendo - sim, já estamos íntimas - a mais velha. e se conhecem desde que entraram na escola, mas só começaram a namorar no segundo ano deles, ou seja, ano passado. Sim, - estou íntima dele também, shiu - está no segundo, eu fiquei impressionada. Ele me explicou tudo do primeiro ano e até me explicou como era Hogwarts, não que eu não tivesse perguntado aos meus pais, mas ele explicava tudo com um brilho diferente nos olhos, como se sua casa fosse aquele castelo.
Quando chegamos a plataforma tivemos que nos separar, eles iam de carruagem e eu de barquinho - eu achei ele meio sujinho, mas decidi não falar nada -, com um cara gigante que me disse se chamar Hagrid, até que eu gostei dele.
Dividi o barquinho com três garotos, Dino, Simas e outro que não falou nada o caminho todo.
Quem abriu as enormes portas do castelo foi a Professora Minerva e, bem, ela me deu um pouco de medo. Seguimos para uma sala do lado do Salão Principal onde ela explicou sobre as casas, mas como eu já sabia não prestei atenção, fiquei olhando os outros alunos. Havia dois garotos juntos, algumas vezes falando aos sussurros e um deles, o ruivo, parecia muitíssimo assustado enquanto o outro tinha uma expressão de medo, confusão e admiração e em uma de suas muitas olhadas, eu vi sua cicatriz.
É, Potter está mesmo aqui.
- Agora façam uma fila e me sigam - disse a Professora Minerva aparecendo do nada. Ela tinha saído?
Minhas pernas ficaram bambas de repente e pensei que fosse desmaiar ali mesmo, mas tudo isso era por dentro, por fora eu sorria confiante e entrei na fila na frente de Simas. Saímos da sala, tornamos a atravessar o saguão e as portas duplas que levavam ao Grande Salão. Era iluminado por milhares de velas que flutuavam no ar sobre quatro mesas compridas, onde os demais estudantes já se encontravam sentados. Vi meus três novos amigos na mesa deles e acenou pra mim, eu só sorri como resposta, procurei Luke, mas não o achei. As mesas estavam postas com pratos e taças douradas. No outro extremo do salão havia mais uma mesa comprida em que se sentavam os professores. A Professora Minerva nos levou até ali de modo que parássemos enfileirados diante dos outros, tendo os professores as nossas costas. As centenas de rostos que nos contemplavam pareciam lanternas fracas à luz tremula das velas. Misturados aqui e ai aos estudantes, os fantasmas brilhavam como prata envolta em névoa. Principalmente para evitar os olhares fixos em mim, olhei para cima e vi um teto aveludado e negro salpicado de estrelas. Notei que muitos também observavam o céu e eu escutei alguém sussurrando:
- É enfeitiçado para parecer o céu lá fora, li em Hogwarts, Uma História.
A Professoa Minerva colocou silenciosamente um banquinho de quatro pernas diante da gente. Em cima do banquinho ela pôs um chapéu pontudo de bruxo. O chapéu era remendado, esfiapado e sujíssimo.
Por alguns segundos fez-se um silencio total. Então o chapéu se mexeu. Um rasgo junto à aba se abriu como uma boca – e o chapéu começou a cantar.

Ah, vocês podem me achar pouco atraente,
mas não me julguem pela aparência
Engulo a mim mesmo se puderem encontrar
Um chapéu mais inteligente do que o papai aqui.
Podem guardar seus chapéus-coco bem pretos,
suas cartolas altas de cetim brilhoso
porque eu sou o Chapéu Seletor de Hogwarts
E dou de dez a zero em qualquer outro chapéu.
Não há nada escondido em sua cabeça
que o Chapéu Seletor não consiga ver,
por isso é só me porem na cabeça que vou dizer
em que casa de Hogwarts deverão ficar.
Quem sabe sua morada é a Grifinória,
casa onde habitam os corações indômitos.
Ousadia e sangue frio e nobreza
destacam os alunos da Grifinória dos demais;
Quem sabe é na Lufa-Lufa que você vai morar,
onde seus moradores são justos e leais
pacientes, sinceros, sem medo da dor;
ou será a velha e sábia Corvinal,
A casa dos que tem a mente sempre alerta,
onde os homens de grande espírito e saber
sempre encontrarão companheiros seus iguais;
ou quem sabe a Sonserina será a sua casa
E ali fará seus verdadeiros amigos,
homens de astúcia que usam quaisquer meios
para atingir os fins que antes colimaram.
Vamos, me experimentem! Não deverão temer!
Nem se atrapalhar! Estarão em boas mãos!
(Mesmo que os chapéus não tenham pés nem mãos)
porque sou o único, sou um Chapéu Pensador!


O salão inteiro prorrompeu em aplausos quando o chapéu acabou de cantar. Ele fez um reverência para cada uma das mesas e em seguida ficou muito quieto outra vez.
- Então só precisamos experimentar o chapéu! – cochichou o ruivo para Harry. – Vou matar o Fred, ele não parou de falar numa luta contra um trasgo.
Vi Harry Potter dar um sorriso sem graça. É, experimentar um chapéu com todo mundo olhando não deixava só a mim nervosa. Eu não me sentia corajosa, nem inteligente, nem quaisquer outras coisas naquele instante além de medrosa.
A Professora Minerva então se adiantou, segurando um longo rolo de pergaminho.
- Quando eu chamar seus nomes, vocês colocarão o chapéu e se sentarão no banquinho para a seleção. Ana Abbott!
Uma garotinha de rosto rosado e marias-chiquinhas louras saiu aos tropeços da fila, pôs o chapéu na cabeça que lhe afundou até os olhos e se sentou. Uma pausa momentânea...
- Lufa-Lufa! – anunciou o chapéu.
A mesa à direita deu viva e bateu palmas quando Ana foi se sentar à mesa da Lufa-Lufa.
- Susana Bones!
- Lufa-Lufa! – anunciou o chapéu outra vez, e Susana saiu depressa e foi se sentar ao lado de Ana.
- Terêncio Boot!
- Cornival!
Desta vez foi a segunda mesa à esquerda que aplaudiu; vários alunos da Cornival se levantaram para apertar a mão de Terêncio quando o menino se reuniu a eles.
Mádi Brocklehurst foi para a Cornival também, mas Lilá Brown foi a primeira a ser escolhida para Grifinoria e a mesa na extrema esquerda explodiu em vivas.
Mila Bulstrode se tornou uma Sonserina. Justino Finch-Fletchley foi para a Lufa-Lufa.
Simas Finnigan, o menino de cabelos cor de palha ao meu lado na fila, passou sentado no banquinho quase um minuto, antes do chapéu anunciar que iria para a Grifinoria.
- Hermione Granger!
Hermione Granger saiu quase correndo até o banquinho e enfiou o chapéu, ansiosa.
- Grifinoria! – anunciou o chapéu.
Draco Malfoy se adiantou, gingando quando chamaram seu nome e o chapéu mal tocara sua cabeça quando anunciou:
- Sonserina!
Faltava pouca gente agora.
Moon... Nott...
- Harry Potter!
Quando ele se adiantou, correu um burburinho por todo o salão como um fogo de rastilho.
- Potter, foi o que ela disse?
- O Harry Potter?
Tão previsíveis!
Alguns segundos depois o chapéu anunciou:
- Grifinoria!
Tirou o chapéu da cabeça e se encaminhou trêmulo para a mesa da Grifinoria. Um garoto ruivo, que eu adivinhei ser parente do amigo do menino, se levantou e apertou sua mão, enquanto dois gêmeos também ruivos gritavam “Ganhamos Potter! Ganhamos Potter!”. Harry sentou-se defronte do fantasma com gola de rufos.
- Mabel Smith!
E a última coisa que eu vi antes do chapéu cobrir meus olhos foi um par de olhos verdes me encarando da mesa da Grifinória.
- Realmente difícil. Você tem uma mente fantástica, garota. Você é determinada e sabe o que quer e como quer, luta pelos seus direitos e tem uma coragem invejável, além de um futuro brilhante. Você ficará em ótimas mãos na Grifinória!
Ouvi o chapéu anunciar a última palavra em voz alta para todos do salão ouvir. Caminhei até a mesa na extrema esquerda que explodia em vivas e aplausos. Ouvi e gritarem meu nome.
Lisa Turpin virou uma Cornival e depois foi a vez de Ronald Weasley - o ruivo, amigo de Harry Potter - e o chapéu anunciou que ele ia para a Grifinória!
Me juntei a alguns colegas da casa nas palmas enquanto dava gritinhos felizes quando Ronald se largou numa cadeira ao lado de Harry.
- Muito bem, Rony, excelente – disse o ruivo, que devia ser seu parente, pomposamente por cima de Harry, na mesma hora em que Blásio Zabini era mandado para a Sonserina.
A Professora Minerva enrolou o pergaminho e recolheu o Chapéu Seletor.
Dumbledore se levantou. Sorria radiante para nós, os braços bem abertos, como se nada no mundo pudesse ter-lhe agradado mais do que ver todos reunidos aqui.
- Sejam bem-vindos! – disse. – Sejam bem-vindos para um novo ano em Hogwarts! Antes de começarmos nosso banquete, eu gostaria de dizer umas palavrinhas: Pateta! Chorão! Destocado! Beliscão! Obrigado.
E sentou-se. Todos bateram palmas e deram vivas. Olhei para e tinha certeza que estava com a mesma dúvida que eu: Rir ou não?
Quando o banquete foi finalizado, tivemos que cantar o hino da escola, e bem, eu só conseguia rir.

Hogwarts, Hogwarts, Hoggy Warty Hogwarts,
Ensina-nos algo, por favor,
Quer sejamos velhos e calvos
Quer moços de pernas raladas,
Temos as cabeças precisadas
De ideias interessantes
Pois estão ocas e cheias de ar,
Moscas mortas e fios de cotão,
Nos ensine o que vale a pena,
Faça lembrar o que já esquecemos
Faça o melhor, faremos o resto,
Estudaremos até o cérebro se desmanchar.


Seguimos o ruivo parente do amigo de Harry - que eu descobri se chamar Percy - por entre os grupos que conversavam, saímos do Salão Principal e eu procurava Luke por todos os lados.
Subimos as escadarias de mármore. Estava cansada demais então desisti de procurar meu primo e continuei a seguir o garoto. Subimos outras tantas escadas, bocejando e arrastando os pés, já estava começando a me perguntar quando chegaríamos quando subitamente paramos de andar. Havíamos chegado ao fim de um corredor onde tinha um quadro de uma mulher muito gorda vestida de rosa.
- Senha? – indagou ela.
- Cabeça de Dragão – disse Percy e o retrato se inclinou para frente revelando um buraco redondo para onde dava para uma sala com aparência de ser confortável, mas como estava muito cansada subi a escada e abri a porta do dormitório que Percy indicou como sendo o feminino, não vi muita coisa. Achei minha cama, coloquei o pijama e dormi, simples como a água.


Capítulo 1

4 anos depois...

Não importava o quanto tentasse não conseguia voltar a dormir, não depois daquele pesadelo terrível.
Era diferente do que tivera no ano anterior, mas o medo era tão parecido ou até mesmo maior, pois sabia que esse seria tão real como o outro.
Nunca conversou por mais de cinco minutos com Cedrico Diggory, mas só parou de chorar dias depois. Nunca conversou mais que o necessário com Harry Potter, mas não se deixou levar pelo Ministério, tanto ela quanto Harry e Dumbledore sabiam da verdade sobre o que aconteceu no final do ano anterior.
Ela só não entendia o porquê desses pesadelos terem começado, nunca passou de uma colega de casa para o trio de ouro e nem queria, estava feliz assim, com e e como melhores amigos, e apesar de não falar com seu primo, Luke Brown, desde que descobriu como ele era realmente, estava feliz, conseguiu diminuir o vazio que inexplicavelmente sentia antigamente.
Passou os três primeiros anos de Hogwarts com algumas detenções e notas ótimas, o seu quarto ano foi perturbador, o lance do Torneio Tribruxo, os pesadelos e a morte do Diggory, e já começou o quinto ano suspeitando que seria tão surpreendente quanto o anterior.
bufou mais uma vez e se levantou, se era para ficar acordada que fosse fazendo algo útil, pegou sua pena e alguns pergaminhos e desceu para o Salão Comunal, talvez escrevesse para os seus pais ou até mesmo para Olívio Wood, o seu melhor amigo que sairá do colégio e, apesar de tê-lo visto no começo e final das férias, sentia sua falta, e foi com esse pensamento que ela começou a escrever.

Caro Olívio,
Como anda os treinos com o Puddlemere United? Gostaria muito de ver seus treinos, mas, infelizmente, estamos longe um do outro.
Minha primeira noite em Hogwarts está sendo um fiasco, meu jantar foi uma piada e perdi o sono por causa de um pesadelo. Não foi igual ao anterior, mas parecia tão real quanto e Potter apareceu de novo, será que ele está envolvido em tudo o que acontece nesse mundo? Só que agora o Prof. Lupin e Sirius Black também apareceram. Você acha que eles são amigos?
Você acredita no Potter sobre Voldemort ter voltado, não é? Eu acredito, mas estou com medo, queria você aqui para me dizer o que sempre dizia:
"Não tenha medo, nada vai lhe acontecer enquanto eu estiver com você".
Mas você não está aqui e eu tenho medo de que algo me aconteça. Não quero parecer uma garotinha frágil, mas estamos falando sobre Voldemort e seus seguidores.
Mudando de assunto, tenho uma novidade nada boa, aparentemente o Ministério está começando a interferir aqui. É, o ano vai ser longo, me deseje sorte.
Acho que é só isso, não foi lá grande coisa. Mande lembranças para Chad e venha me visitar quando puder, mas antes mande uma coruja, você sabe o quanto eu odeio surpresas, mesmo se for você, e traga o Chad, também estou com saudades dele.

Afetuosamente,
.


Só quando terminou de escrever percebeu que já amanhecera, subiu para se trocar e quando voltou ao Salão Comunal, ele estava cheio.
Encontrou que lhe disse que só está a esperando para ir ao Salão Principal, os garotos tinham ido à frente. Com a carta de Olívio no bolso, entrelaçou seu braço com o da amiga e juntas passaram pela Mulher Gorda e foram para o Salão Principal.

Não tenho certeza se o dia vai ser bom, mas eu tinha que enfrentar, nenhum dos três sentados junto de mim sabiam dos pesadelos, porque não quero deixá-los preocupados.
- Como eu amo essa escola – falou depois de uma mordida gigantesca na sua torrada.
- Não fale de boca cheia – reclamei. – , dê mais educação ao seu namorado.
- Ele é meu namorado, não meu filho.
Eu fiz uma careta e olhei para o meu lado, no intuito de mandar o me defender, mas ele comia tão rápido que eu vi à hora dele se engasgar.
- Você tem que comer mais devagar, , assim vai acabar se...
Fui interrompida por uma crise de tosse do garoto ao meu lado e não consegui segurar a gargalhada logo sendo acompanhada pelo meu casal de amigos.
Ficamos tirando onda com ele e rindo até a Profa. Minerva se aproximar, entregando nossos respectivos horários.
Fiz uma careta assim que vi minhas aulas.
- Quem faz esse horário mesmo? Quero encher essa pessoa de porrada – perguntou já recuperado da recente crise de tosse e de riso.
- Acho que é a própria McGonagall – respondeu, o repreendendo com o olhar.
Eu e rimos da careta do .
- Eu até que gostei – disse enquanto sorria sem graça.
Nos quatro rimos altos, chamando a atenção de algumas pessoas.
Depois de um tempo nos levantamos e fomos pegar nossas coisas e seguimos para nossas respectivas aulas.
Minha primeira aula seria de Defesa Contra as Artes das Trevas e cara, como uma mulher consegue ser tão rosa? Eu fico enjoada só de olhar e ela ainda parece uma sapa.
Sentei-me ao lado da Hermione Granger, atrás do Weasley e Potter, já que não tinha outro lugar vago. A sala estava em completo silêncio, ninguém conhecia aquela professora, era uma incógnita.
- Boa tarde, classe! – disse finalmente a coisa rosa (como é o nome dela mesmo?) quando todos estavam sentados.
Alguns murmuraram “boa tarde”, eu fui uma das que ficou calada.
- Tss- tss – muxoxou a professora. – Assim não vai dar, concordam? Eu gostaria que os senhores, por favor, respondessem: “Boa tarde, Profa. Umbridge.” Mais uma vez, por favor. Boa tarde classe!
- Boa tarde Profa. Umbridge – dissemos monotonamente. Agora eu sei o nome dela, mas prefiro coisa rosa, combina mais, não acham?
- Agora sim – disse com meiguice. Eu e Hermione nos olhamos com nojo, sorrimos uma para a outra para não rir. – Não foi muito difícil, foi? Guardem as varinhas e apanhem as penas.
Troquei um olhar assustado com a Granger e vi que alguns outros fizeram o mesmo; nunca à ordem “guardem as varinhas” se seguia uma aula interessante. Enfiei a minha na mochila e peguei a pena, tinta e pergaminho enquanto a sapa rosa abria a bolsa e tirava sua própria varinha, que era excepcionalmente curta –acho que para combinar com seu tamanho-, e com ela deu uma pancada forte no quadro-negro; imediatamente apareceu ali escrito:

Defesa Contra as Artes das Trevas
Um retorno aos Princípios Básicos


- Bom, o ensino que receberam desta disciplina foi um tanto interrompida e fragmentária, não é mesmo? – afirmou a Umbridge, virando-se para nós, com as mãos perfeitamente cruzadas diante do corpo, seus olhos em mim. – A mudança constante de professores, muitos dos quais não pareciam ter seguido nenhum currículo aprovado pelo Ministério, infelizmente teve como consequência os senhores estarem muito abaixo dos padrões que esperaríamos ver no ano dos N.O.M.s.
“Os senhores ficarão satisfeitos de saber, porém, que tais problemas agora serão corrigidos. Este ano iremos seguir um curso de magia defensiva, aprovado pelo Ministério e cuidadosamente estruturado em torno da teoria. Copiem o seguinte, por favor.”
Como assim em “torno da teoria”?
Ela tornou a bater no quadro; a primeira mensagem sumiu e foi substituída por “Objetivos do Curso”.

1. Compreender os princípios que fundamentam a magia defensiva.
2. Aprender a reconhecer as situações em que a magia defensiva pode legalmente ser usada.
3. Inserir o uso da magia defensiva em contexto de uso.


Por alguns minutos o único som ouvido era o de penas arranhando pergaminhos. Depois que todos terminaram, ela perguntou:
- Todos têm um exemplar de Teoria da magia defensiva de Wilbert Slinkhard?
Alguns murmuraram baixo em concordância.
- Acho que vou tentar outra vez - disse ela. - Quando eu fizer uma pergunta, gostaria que os senhores respondessem: "Sim, senhora, Profa. Umbridge" ou "Não, senhora, Profa. Umbridge". Então: Todos têm um exemplar de Teoria da magia defensiva de Wilbert Slinkhard?
Ir à merda ninguém gostaria, não é Profa. Umbridge?
- Sim, senhora, Profa. Umbridge.
- Ótimo. Eu gostaria que os senhores abrissem na página cinco e lessem o capítulo um, "Elementos Básicos para Principiantes". Não precisam falar.
- Nem pensar - falei para mim e Hermione me olhou como se concordasse, eu quase ri. Quase.
Umbridge deu as costas ao quadro e se acomodou na cadeira, à escrivaninha, nos observando, com aqueles olhos empapuçados de sapo, abri meu livro, mas não me dei ao trabalho de ler, fiquei olhando Granger que nem abrira o livro e mantinha uma mão levantada.
Vários minutos depois e eu já não era mais a única que olhava Hermione. O capítulo devia ser tão tedioso que tinha um número cada vez maior de alunos preferindo observar a muda tentativa da garota ser notada pela professora a continuar penando para ler os "Elementos Básicos para Principiantes".
Quando mais da metade da classe estava olhando para Hermione e não para os livros, a coisa pareceu decidir que não podia continuar a ignorar a situação.
- Queria me perguntar alguma coisa sobre o capítulo, querida? - perguntou ela a Hermione, como se tivesse acabado de reparar nela. Falsa.
- Não, não é sobre o capítulo - respondeu.
- Bem, é o que estamos lendo agora - disse a sapa, mostrando seus dentes estranhos. - Se a senhorita tem outras perguntas, podemos tratar delas no final da aula.
- Tenho uma pergunta sobre os objetivos do curso - disse Hermione.
Umbridge ergueu as sobrancelhas.
- E como é o seu nome?
- Hermione Granger.
- Muito bem, Srta. Granger, acho que os objetivos do curso são perfeitamente claros se lidos com atenção - respondeu em um tom de intencional meiguice. Como eu já disse antes, falsa.
- Bem, eu não acho que estejam - concluiu Hermione secamente, eu quase ri. Quase. - Não há nada escrito no quadro sobre o uso de feitiços defensivos.
Houve um breve silêncio em que muitos viravam a cabeça para reler. Pelo menos alguém notou logo de cara como eu.
- O uso de feitiços defensivos? - repetiu Umbridge, dando uma risadinha. – Ora, não consigo imaginar nenhuma situação que possa surgir nesta aula que exija o uso de um feitiço, Srta. Granger. Com certeza não está esperando ser atacada durante a aula, está?
Na verdade, estou!
- Não vamos usar magia? – perguntou Weasley, em voz alta.
- Os alunos levantam a mão quando querem falar na minha aula, Sr...?
- Weasley – respondeu Ronald, erguendo a mão no ar.
A coisa, ampliando o seu sorriso, virou as costas para nos. Harry, Hermione e eu imediatamente erguemos as mãos também. Os olhos empapuçados da professora se detiveram por um momento em Harry, antes de se dirigir a Hermione.
- Sim, Srta. Granger? Quer me perguntar mais alguma coisa?
- Quero. Certamente a questão central de Defesa Contra as Artes das Trevas é a prática de feitiços defensivos.
- A senhorita é uma especialista do Ministério da Magia, Srta. Granger?
- Não, mas...
- Bem, então, receio que não esteja qualificada para decidir qual é a “questão central” em nenhuma disciplina. Bruxos mais velhos e mais inteligentes que a senhorita prepararam o nosso novo programa de estudos. A senhorita irá aprender a respeito dos feitiços defensivos de um modo seguro e livre de riscos...
- Para que servirá isso? – perguntou Harry, em voz alta. – Se formos atacados, não será em um...
- Mão, Sr. Potter! – entoou a Profa. Umbridge.
Harry empunhou o dedo no ar. Mais uma vez, a professora prontamente lhe deu as coisas, mas agora vários outros alunos tinham erguido as mãos.
- E o seu nome é? – perguntou a professora a Dino.
- Dino Thomas.
- Diga, Sr. Thomas.
- Bem, é como disse o Harry, não é? Se vamos ser atacados, então não será livre de riscos.
- Repito – disse a professora, sorrindo para Dino de modo muito irritante -, o senhor esperar ser atacado durante as minhas aulas?
- Não, mas...
A Profa. Umbridge interrompeu-o.
- Não quero criticar o modo como as coisas têm sido conduzidas nesta escola – disse ela, um sorriso pouco convincente distendendo sua boca rasgada -, mas os senhores foram expostos a alguns bruxos muito irresponsáveis nesta disciplina, de fato muito irresponsáveis, isto para não falar – ela deu uma risadinha desagradável – em mestiços extremamente perigosos.
- Se a senhora está se referindo ao Prof. Lupin – disse, zangada, esganiçando a voz -, ele foi o melhor que já...
- Mão, Srta...?
- Smith – respondi num resmungo.
- Como eu ia dizendo: os senhores foram apresentados a feitiços muito complexos, impróprios para a sua faixa etária e potencialmente letais. Alguém os amedrontou, fazendo-os acreditar na probabilidade de depararem com ataques das trevas com frequência...
- Não, isso não aconteceu – protestei –, só que...
- Sua mão não está erguida, Srta. Smith!
Eu ergui a mão, mas a coisa virou-me as costas. Vadia.
- Pelo que entendi o meu antecessor não somente realizou maldições ilegais em sua presença, como chegou a aplicá-las nos senhores.
- Ora, no fim ficou provado que ele era um maníaco, não foi? – respondeu Dino, acalorado. – E veja bem, ainda assim aprendemos um bocado.
- Sua mão não está erguida, Sr. Thomas! – gorjeou a professora. Juro que se ela falar isso de novo eu pulo no pescoço dela. – Agora o Ministério acredita que um estudo teórico será mais do que suficiente para prepará-los para enfrentar os exames, que, afinal, é para o que existe a escola. E o seu nome é? – acrescentou ela, fixando seu olhar numa garota que, se eu não me engano, dividia o dormitório comigo, que acabara de ergue a mão.
- Parvati Patil, e não tem uma pequena parte prática no nosso N.O.M. de Defesa Contra as Artes das Trevas? Não temos de demonstrar que somos capazes de realizar contrafeitiços e coisas assim?
- Desde que tenho estudado a teoria com muita atenção, não há razão para não serem capazes de realizar feitiços sob condições de exame cuidadosamente controladas – respondeu a coisa, encerrando o assunto, mas como eu sou teimosa.
- Sem nunca ter praticado os feitiços antes? – perguntei incrédula. – A senhora está nos dizendo que a primeira vez que poderemos realizar feitiços será durante o exame?
- Repito, desde que tenham estudado a teoria com muita atenção...
- E para que vai servir a teoria no mundo real? – perguntou Harry em voz alta, seu punho mais uma vez no ar.
A Profa. Umbridge ergueu a cabeça.
- Isto é uma escola, Sr. Potter, não é o mundo real – disse mansamente.
- Então não devemos nos preparar para o que está nos aguardando lá fora?
- Não há nada aguardando lá fora, Sr. Potter.
- Ah, é? – a raiva de Harry, que parecia borbulhando sob a superfície o dia todo, agora começou a atingir o ponto de ebulição.
- Quem é que o senhor imagina que queira atacar crianças de sua idade? – perguntou a professora, num tom horrivelmente meloso.
- Humm, vejamos... – disse Harry e dava para perceber sua voz fingidamente pensativa. – Talvez... Lorde Voldemort?
Rony ofegou. Lilá Brown soltou um gritinho. Neville escorregou pelo lateral do banco. A Profa. Umbridge, porém, nem sequer piscou. Estava encarando Harry com uma expressão de sinistra satisfação no rosto.
- Dez pontos perdidos para a Grifinória, Sr. Potter.
A sala ficou parada e em silêncio. Todos olhavam para Umbridge ou para Harry.
- Agora gostaria de deixar algumas coisas muito claras.
A Profa. Umbridge ficou em pé e se curvou para a turma, suas mãos de dedos grossos e curtos abertas sobre a escrivaninha.
- Os senhores foram informados de que um certo bruxo das trevas retornou do além...
- Ele não estava morto – protestou Harry zangado -, mas, sim senhora, ele retornou!
- Sr-Potter-o-senhor-já-fez-sua-casa-perder-dez-pontos-não-piore-as-coisas-para-si-mesmo – disse a professora sem parar para respirar e sem olhar para ele. – Como eu ia dizendo, os senhores foram informados de que um certo bruxo das trevas está novamente solto. Isso é mentira.
- NÃO é mentira! – disse Harry. – Eu o vi, lutei com ele.
- Detenção, Sr. Potter! – disse a Profa. Umbridge, em tom de triunfo. – Amanhã à tarde. Cinco horas. Na minha sala. Repito isso é uma mentira. O Ministério da Magia garante que não estamos ameaçados por nenhum bruxo das trevas. Se os senhores continuam preocupados, não se acanhem, venham me ver quando estiverem livres. Se alguém está alarmando os senhores com lorotas sobre bruxos das trevas renascidos, eu gostaria de ser informada. Estou aqui para ajudar. Sou uma amiga. E agora, por favor, continuem sua leitura. Página cinco. “Elementos Básicos para Principiantes”.
A Profa. Umbridge sentou-se à escrivaninha. Harry, no entanto, se levantou. Todos o olhavam; Simas parecia meio apavorado, meio fascinado.
- Harry, não! – sussurrou Hermione, em tom de alerta, mas eu não prestei muita atenção, num impulso fiquei em pé, alguns olharam para mim.
- Então, segunda a senhora, Cedrico Diggory caiu morto porque quis, foi? – perguntei e me assustei, não pareci ser a única, não era a minha intenção falar aquilo, mas aquela mulher estava me dando nos nervos.
A turma prendeu coletivamente a respiração, porque ninguém desconfiava que eu o conhecesse muito menos que eu sabia de algo. Hermione, Harry e Ronald me olharam como se nunca tivessem me visto. Alguns olhavam avidamente para Harry, outros me olhavam curiosamente, a professora ergueu os olhos e encarava tanto a mim como a ele sem o menor vestígio do falso sorriso no rosto.
- A morte de Cedrico Diggory foi um trágico acidente – disse ela, com frieza.
- Foi assassinato – disse Harry. Olhei para ele atentamente, nunca o ouvi falar nada sobre esse assunto. – Voldemort o matou, e a senhora sabe disso.
O rosto da Profa. Umbridge estava inexpressivo. Por um momento, eu pensei que ela fosse berrar. Então ela falou, com a sua voz mais macia, mais meiga e mais infantil:
- Venha cá, Sr. Potter, querido.
Ele chutou sua cadeira para o lado enquanto eu me sentava, contornou a mim, Hermione e Ronald e foi à escrivaninha da professora. Toda a sala prendia a respiração.
A Profa. Umbridge puxou um pequeno rolo de pergaminho cor-de-rosa da bolsa, esticou-o sobre a escrivaninha, molhou a pena no tinteiro e começou a escrever curvada sobre o pergaminho. Ninguém falava. Passado um minuto e pouco, ela enrolou o pergaminho e lhe deu um toque com a varinha; ele se selou, sem emendas.
- Leve isto à Profa. McGonagall, querido – disse estendendo a ele o bilhete.
Harry apanhou-o sem dizer uma palavra e saiu da sala, sem olhar para ninguém, batendo a porta ao passar.
- Acho que o Sr. Potter precisa ir visitar o St. Mungus - comentou Umbridge como quem não que nada.
Senti Hermione ficar tensa ao meu lado e escrevi em um pedaço de pergaminho: "Pode parecer meio obvio, mas eu acredito nele". Ela sorriu de lado.
- Voltem a leitura - mandou a coisa rosa e ouvi resmungo de protesto da sala toda, mas voltaram a ler. Nem eu nem Hermione fizemos o que ela mandou, ficamos conversando pelo pergaminho até a sineta tocar.


Capítulo 2

Quando a sineta tocou, Hermione me esperou em frente a porta e me acompanhou até o Salão Principal em silêncio, mas quando eu fiz menção de ir até onde meus amigos estavam, a garota me puxou para onde Potter, Ronald e seus irmãos gêmeos conversavam.
- O que você acha que está fazendo? - perguntei me soltando dela. Nunca nos falamos e só porque odiamos a mesma professora ela acha que somos melhores amigas? Por Merlin, essa garota só pode estar tendo alucinações.
- Achei que você podia passar o almoço com a gente.
- Me desculpe lhe decepcionar, mas estou muito bem com meus amigos e sem esses olhares horrorizados direcionados para mim - eu disse, apontando descaradamente para as pessoas que me olhavam horrorizados, como se estar com eles não fosse algo para mim. - Posso acreditar no que Potter diz, apoiar vocês contra a Coisa ou até mesmo forma um grupo contra ela com vocês, mas não quer dizer que somos amigos.
Virei-me e sai de perto dela.
A maioria das pessoas olhava para mim com os olhos arregalados e a boca aberta num perfeito 'O' enquanto eu passava indo na direção dos meus amigos, e se eu não estivesse com raiva teria rindo.
Sentei-me ao lado de e coloquei um pouco de tudo que tinha ao meu redor no meu prato, coloquei meio copo de suco de abóbora e quando levantei a cabeça para beber um pouco percebi que meus amigos ainda me olhavam, e por trás deles vi o trio de ouro conversando entre sussurros e o Potter me olhando com as suas sobrancelhas arqueadas, como se tentasse me desvendar com o olhar. Boa sorte!
- O que aconteceu ali? - quebrou o silêncio me fazendo acorda do meu pequeno transe.
- Nada.
Ninguém falou nada e aos poucos voltaram a se concentrar nas suas respectivas comidas. Ficamos assim, calados, até dar a hora de irmos de volta para nossas respectivas aulas.
O jantar no Salão Principal àquela noite não foi uma experiência agradável. A notícia sobre a minha discussão com Hermione se espalhara com excepcional velocidade, mesmo para os padrões de Hogwarts. Eu ouvia cochichos a toda volta enquanto comia sentada entre e . Apesar de muito mais pessoas cochicharem a respeito do torneio de gritos de Potter com a Umbridge e não pareciam se importar que ele ouvisse o que diziam a seu respeito. Muito ao contrário, pareciam esperar que ele se zangasse e recomeçasse a gritar, para poderem ouvir a história em primeira mão.
Esse era apenas mais um dos motivos para eu não conversar com ele, apesar de ser completamente inapropriado já que eu também estou sendo alvo de críticas e fofocas.
- Srta. !
Olhei para cima para poder ver quem me chamava e dei se cara com a Coisa. Merlin, isso já é perseguição de menor, no mundo trouxa isso dá cadeia, cadê a justiça?
- Sim?
- Poderia me acompanhar, por favor? - ela falou com a voz falsamente meiga, concordei com um gesto de cabeça e ela saiu andando na frente.
Antes de ir, fingi vomitar para meus amigos que riram.
Fui seguindo ela pelo Salão Principal enquanto olhavam para mim, vi Luna Lovegood, entretida, comendo um pedaço do pudim, dei um sorriso pequeno. Vi Malfoy rindo com Goyle e Crabbe enquanto olhavam para mim. Vi Dino e Simas fazendo cara de assustados para mim e rindo logo depois, tive que me segurar para não rir. Então eu vi o trio de ouro, Granger me olhava confusa, Weasley segurava um pedaço da coxa da galinha na frente da sua boca e Potter me fitava do mesmo jeito que fez no almoço.
Sinceramente, eu estava adorando ser o centro das atenção, apesar de saber que assim que eu passar pelas grandes portas, eles vão se virar um para o outro e fofocar, se perguntado o porquê de eu estar seguindo a Coisa.
Assim que passei pela porta do escritório da Coisa eu senti vontade de vomitar. Pense num quarto pintado de rosa, agora em objetos de quarto rosa, agora junte os dois e multiplique por mil, pronto? Não vai chegar nem na metade do que era aquele lugar.
As superfícies tinham sido protegidas por capas de rendas e tecidos. Havia vários vasos de flores secas, cada um sobre um paninho, e, em uma parede, havia uma coleção de pratos decorativos, estampados com enormes gatos em tecnicolor, cada um com um laço diferente ao pescoço. Eram tão hediondos que fiquei mirando-os enquanto me sentava até a Profa. Umbridge tornar a falar.
- Você tem algo contra mim, querida?
Além do fato de você ser incrivelmente falsa, querer acabar com tudo de bom que DCADT tem, me irritar profundamente e ter a terrível mania de se vestir completamente de rosa? Não, acho não. Mas isso foi só o que eu queria falar, na verdade, o que eu falei foi algo como:
- Não conheço a senhora direito, como posso ter algo contra?
- Ah, querida. Alguns alunos vieram ao meu encontro para contar algo que eles ouviram você dizer, tem certeza que você não tentaria formar um grupo contra o Ministério?
Cara, juro que mato cada fofoqueiro que eu ver pela frente, sem me importa se foi ele ou não que falou para essa coisa rosa o que eu disse.
- Sim, senhora, Profa. Umbridge - falei fazendo minha melhor cara de inocente.
- Tem certeza?
Não.
- Sim.
Ela me olhou por um instante como se tentasse me desvendar e, por algum motivo, lembrei do Potter. Então ela desviou o olhar para uma xícara que estava em cima da sua mesa, na minha frente.
- Gostaria de uma xícara de chá, Srta. ?
- Desculpe professora, mas vou ter que recusar, estou bastante cansada e tenho que terminar alguns deveres incompletos - me levantei e caminhei até a porta. - Tenha uma boa noite.
Fui para a Sala Comunal e depois para meu dormitório, dormi assim que me joguei na cama.
Esse foi o primeiro dia em Hogwarts mais devagar da história.
O dia seguinte amanheceu tão escuro e chuvoso quanto o anterior. Fui correndo no Corujal, precisava mandar a carta para Olívio antes do café da manhã ou então esqueceria de novo.
- Onde você estava? - me perguntou quando nos encontramos em um dos muitos corredores que levam até o Salão Principal. – Não me diga que já pegou uma detenção com a Profa. Umbridge ontem à noite.
- Você tem uma imagem muito ruim minha – disse enquanto o olhava, ele riu. Riu! – E eu estava no Corujal.
- Me deixe adivinha, Olívio?
Eu simplesmente corei e concordei com a cabeça, tentando esconder meu rosto, mas ele acabou vendo e riu, mas como esse garoto está abusado.
Entramos no Salão Principal e ainda ria da minha cara. e estavam sentados no lugar mais afastado possível. Assim que nos sentamos – ao lado de e eu, do irmão dela- eles perguntaram por que da risada.
- Olívio!
Então os três estavam rindo e tirando onda da minha cara, fingi um bocejo e me servi um pouco de suco de abobora, sou viciada nesse suco. Não falei mais com eles o resto do café, mas eles só pararam de rir de mim quando finalmente fomos para nossas aulas.
Aos dois tempos de Feitiços, seguiram-se outros dois de Transfiguração. O Prof. Flitwick e a Profa. McGonagall passaram os primeiros quinze minutos de suas aulas falando à turma sobre a importância dos N.O.M.s.
- O que vocês precisam lembrar - disse o pequeno Prof. Flitwick, com sua voz de ratinho, encarrapitado como sempre em uma pilha de livros para poder ver por cima do tampo da mesa - é que esses exames podem influenciar o seu futuro durante muitos anos! Se vocês ainda não pensaram seriamente em suas carreiras, agora é o momento de o fazerem. Entrementes, receio que iremos trabalhar com mais afinco que nunca, para garantir que vocês possam provar o que valem!
Depois dessa introdução, ele passou mais de uma hora recordando os Feitiços Convocatórios, que, segundo o Prof. Flitwick, cairiam com certeza nos exames, e ele arrematou a aula passando a maior quantidade de deveres de Feitiços que eu já havia recebido.
Em Transfiguração, foi igual, se não pior.
- Vocês não podem passar nos exames - disse a Profª McGonagall muito séria - sem se aplicarem seriamente ao estudo e à prática. Não vejo razão alguma para alguém nesta classe deixar de passar no N.O.M. de Transfiguração, se trabalhar como deve. - Neville fez um muxoxinho de descrença. - E você também, Longbottom. Não há nenhum problema com o seu trabalho a não ser sua falta de confiança. Então... hoje vamos começar a estudar os Feitiços de Desaparição. São mais fáceis do que os Conjuratórios, que normalmente vocês não experimentariam até os N.I.E.M.s, mas estão incluídos entre as mágicas mais difíceis que serão exigidas nos N.O.M.s.
McGonagall tinha razão; achei os Feitiços de Desaparição difíceis, mas não impossível. No final do segundo tempo de aula, eu havia conseguido fazer a minha lesma desaparecer um pouco depois de Hermione conseguir fazer a dela desaparecer, com êxito, na terceira tentativa, ganhando, da professora, dez pontos para Grifinória. Fomos às únicas pessoas que não receberam dever de casa; todos os outros receberam ordem de praticar o feitiço e se preparar para uma nova tentativa com as lesmas na tarde seguinte.
O dia se tornara frio e ventoso, e quando descia o gramado em direção a cabana de Hagrid, depois do almoço para a aula de Trato das Criaturas Mágicas, na orla da floresta proibida, senti pingos de chuva no rosto. A Profa. Grubbly-Plank aguardava a turma a uns dez metros da porta da porta de entrada de Hagrid, em pé diante de uma longa mesa de cavalete cheio de... Tronquilhos?
Fui acordada dos meus pensamentos por grandes gargalhadas; ao me virar, vi Malfoy, que vinha na minha direção, cercado pela gangue de sempre de colegas da Sonserina. Obviamente, disse algo muito engraçado, porque Crabbe, Goyle, Parkinson e os demais continuaram a rir gostosamente ao se reunirem em torno da mesa, e como eu sou sortuda, ele ficou bem ao meu lado. Eu não precisava seguir seu olhar para saber para quem olhava, afinal, o que seria de Malfoy sem o Potter para sofrer suas brincadeiras?
- Todos presentes? – perguntou em tom seco a Profa. Grubbly-Plank, quando os alunos da Sonserina e Grifinória finalmente chegaram. – Vamos começar logo, então. Quem é capaz de me dizer o nome dessas coisas?
A professora indicou o montinho de Tronquilhos sobre a mesa. A mão da Granger se ergueu. Ao meu lado, Malfoy fez uma imitação dentuça dela dando pulinhos de ansiedade para responder as perguntas. Pansy teve um acesso de riso que se transformou quase num grito, quando os Tronquilhos sobre a mesa saltaram no ar e revelaram se parecer com minúsculos diabretes de madeira, cada um com nodosos braços e pernas marrom, dois dedos de graveto na ponta das mãos e uma cara gaiata e achatada que me lembrava cortiça, em que brilhavam dois olhinhos de besouro.
- Uhhhhh! - exclamaram Parvati e Lilá, me irritando completamente. Parecia que nunca haviam colocado os olhos em outro animal mágico.
- Por favor, falem baixo, meninas! - disse a Profª Grubbly-Plank energicamente, espalhando um punhado de algo parecido com arroz integral entre os bichos-gravetos, que imediatamente atacaram a comida. - Então... alguém sabe o nome desse bichos? Srta. Granger?
- Tronquilhos - respondeu Hermione. - São guardiões de árvores, em geral vivem em árvores próprias para varinhas.
- Cinco pontos para a Grifinória - disse a Profª Grubbly-Plank. - São tronquilhos, como disse corretamente a Srta. Granger, em geral vivem em árvores que fornecem material de qualidade para varinhas. Alguém sabe o que eles comem?
- Bichos-de-conta – respondeu prontamente Hermione. – E também ovos de fada, quando conseguem encontrá-los.
- Muito bem, garota. Fique com mais cinco pontos. Portanto, sempre que precisarem da madeira de uma árvore em há tronquilhos alojado, é bom levar um presente de bichos-de-contas á mão para distrair ou aplacar sua guardião. Eles podem não parecer perigosos, mas, se forem irritados, tentarão arrancar os olhos da pessoa com os dedos, que, como vocês veem, são muito afiados e nem um pouco desejáveis perto dos olhos. Então, se vocês querem se aproximar um pouco mais, apanhem uns bichos-de-contas e um tronquilhos. Tenho aqui o suficiente para dividi-los por grupos de três, vocês podem estudá-los com mais atenção. Quero que façam individualmente um esboço com todas as partes do corpo identificadas, até o final da aula.
Dividimos-nos em trios e eu fiz de tudo para poder sentar longe de qualquer outro grupo, Simas e Dino, que eram da minha equipe, concordaram.
O resto da aula foi normal, pra minha equipe pelo menos. Quando a sineta tocou, ecoando pelos terrenos da escola, eu enrolei meu lindo desenho, entreguei a professora junto com Simas e Dino e seguimos para a aula de Herbologia.
Fomos conversando e andando pelos canteiros de hortaliças, bem atrás do trio. O céu continuava incapaz de decidir se queria chover ou não chover.
A porta da estufa mais próxima se abriu e alguns alunos do quarto ano saíram, inclusive Gina Weasley.
- Oi – disse ela, alegremente, ao passar. Alguns segundos depois, saiu Luna, atrás do resto da turma, o nariz sujo de terra e os cabelos loiros amarrados em um nó no alto da cabeça. Quando viu Potter, seus olhos salientes pareceram se arregalar de excitação, e ela traçou uma reta até ele. Algumas pessoas da minha turma a olhavam com expressões curiosas. Luna inspirou profundamente e anunciou, sem sequer dar um alô preliminar:
- Acredito que Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado retornou, e acredito que você lutou com ele e conseguiu fugir.
- Hum... certo – disse Harry e eu achei que ele não deveria só falar aquilo, afinal, poucas pessoas acreditavam nele, então ele devia se sentir realmente agradecido quando alguém confessava, para quem quisesse ouvir, que não achava ele um mentiroso sem tamanho.
Luna estava usando brincos que pareciam rabanetes cor de laranja, algo que Parvati e Lilá pareciam ter notado, porque davam risadinhas e apontavam para as orelhas dela. Tive que morder a língua para não xingá-las de nomes feios.
Então eu simplesmente entrei na estufa, sem deixar, é claro, de esbarrar nas duas idiotas.
Não foi surpresa para ninguém que a Profa. Sprout começasse a aula fazendo um discurso sobre a importância dos N.O.M.s. Eu podia ser do tipo estudiosa, mas gostaria muito que todos os professores parassem com aquilo; estava começando a ter ataques de ansiedade cada vez que me lembrava da quantidade de deveres que ainda tinha que fazer e essa sensação piorou drasticamente quando a professora de Herbologia passou mais um trabalho no final da aula. E quando, cansados e exalando um forte cheiro de bosta de dragão, marchamos de volta ao castelo, sem querer muita conversa; fora mais um longo dia.
Apesar de estar esfomeada, fui me encontrar com meus amigos no Salão Comunal da Grifinória para irmos juntos.
Quando cheguei lá, eles quase pularam em cima de mim, e eu aposto que eles realmente fariam isso se eu não estivesse fedendo a bosta. Eles me deixaram tomar banho antes de irmos comer e quando eu estava cheirosa e linda novamente, saímos.
Nós sentamos no lugar de sempre e comemos muito -como sempre-, algumas meninas tentaram dar em cima do , mas a as expulsou, o que foi bastante engraçado.
Voltamos para o Salão Comunal, conversamos um pouco e então eu fui a primeira a ceder ao sono, fui dormir.
Eu acabei não fazendo as atividades de Runas, Aritmância ou Estudo dos Trouxas, tampouco o de Herbologia.
Dispensei o café da manhã no dia seguinte para poder terminar todos os trabalhos já que eu teria a primeira aula vaga. me fez companhia na aula vaga, porque ele não perderia seu maravilhoso café da manhã por causa de estudos.
O meu dia foi como os do ano anterior, tão calmos e produtivos como qualquer outro, apesar de ter ganhado mais deveres eu, obviamente, terminaria naquela mesma noite enquanto conversava com , e .
A quinta-feira transcorreu em um atordoamento de cansaço, voltei até os pesadelos do verão, mas -para a felicidade da nação- Olívio respondeu minha carta, disse que eu devesse contar a ele quando fosse o próximo passeio por Hogsmeade, pois ele tentaria passar por aqui, chamaria Chad, mas eu não deveria esperar muito daquele garoto, ele anda treinando tanto que mal come ou dorme. Você deve imaginar que eu fiquei extremamente feliz pelo resto do dia, certo?
Mas não se engane, minha felicidade durou até ver aquela maligna, pervertida, louco e velha Umbridge andando livremente pelos corredores do castelo.
Jamais considerei antes a possibilidade de que poderia haver um professor pior no mundo que eu odiasse mais do que eu odiei Gilderoy, mas enquanto ia para a Torre da Grifinória tive que admitir que encontrei um ser tão desprezível quanto o professor do segundo ano.
A sexta-feira amanheceu sombria e encharcada como o resto da semana. Apesar de adorar Hogwarts e magia, eu agradeci mil vezes a Merlin por já ser sexta, nunca tive uma primeira semana tão ruim nessa escola.
Não fui para o Salão Principal naquela noite, voltei para a Torre da Grifinória, mesmo sabendo que teria que escutar com seus sermões sobre minha alimentação, mas eu tinha que colocar meus estudos em dia, não podia me dar ao luxo de ficar desorganizada e tirar péssimos N.O.M.s.
Eu sabia que hoje seria o teste para o time, Angelina havia me comunicado, mas eu não iria participar de nenhum grupo extracurricular, mesmo tendo feito muito sucesso no ano anterior -o único que eu participei.
Mas foi uma surpresa enorme quando alguns garotos com cabeças baixas entraram e logo depois garotos pulando, para fechar a 'fila', três garotos ruivos entravam comemorando.
Começaram uma gritaria sem tamanho, então eu decidi subir e descansar um pouco, pois eu sabia que logo meus amigos iriam passar pelo retrato da Mulher Gorda e eu não estava com saco para ouvi-los conversando.
Fiz minha higiene e fui me deitar, dormi assim que encostei minha cabeça no travesseiro.
Fui a primeira a acorda do meu dormitório na manhã seguinte. Continuei deitada até o tédio realmente bater e eu ter certeza que não iria voltar a dormir, apesar de continuar com preguiça. A primeira semana do trimestre parecia ter se arrastado numa eternidade, como uma gigantesca aula de História da Magia.
A julgar pelo silêncio modorrento e o frescor do raio do sol, devia ter acabado de amanhecer, fiquei me questionando o porque de ter acordado tão cedo até minha velha amiga, ou, se preferir, a fome veio me visitar e eu finalmente decide levantar.
Me troquei e desci para o Salão Comunal, encontrando lá o Potter.
- Bom dia! - cumprimentei e ele olhou na minha direção com o cenho franzido.
- Bom dia!
Ele olhou para o pergaminho que segurava e depois voltou a olhar para mim. Nem preciso dizer que não entendi nada, certo?
- Eu sei que você não gosta de mim, mas poderia me fazer um favor?
Juro que pensei em responder não, mas eu cometi o erro de olhar em seus olhos, aqueles olhos puros que davam para ver o tão inocente e ao mesmo tempo perigoso aquele ato podia ser. Quem disse que eu consegui negar a ele aquele pedido.
Simplesmente concordei com a cabeça e fui até ele que me entregou uma carta. Li e não entendi nada.
- Era pra fazer algum sentido para mim? - perguntei seca.
- Então você não entendeu nada?
- Não sei se isso é bom, mas não, não entendi absolutamente nada.
- Ótimo! - ele suspirou e me deu um pequeno sorriso antes de se levantar. - Tenho que despachar a Edwiges para Sir... Snuffles.
Juro que eu tentei, mas não consegui, era engraçado então soltei uma risada e o Potter riu também. Quando eu percebi estávamos ofegantes por causa de uma crise de risos.
Eu posso não ser uma fã do Potter, mas que ele é fofo e eu não posso negar.
- Tudo bem.
- Você vai ficar aí? - perguntou ele.
- Sim, meus amigos vão demorar a acorda e eu não estou com sono.
Eu suspirei e olhei a lareira, ainda apagada.
- Porque não vem comigo? Depois podemos ir tomar café da manhã - ele perguntou, brincando com a borda do pergaminho. Eu olhei para ele com a sobrancelha levantada.
- Pode ser.
Levantei-me ainda pensando nos prós e contras da minha escolha, mas assim que passamos pelo quadro da Mulher Gorda, Harry começou um assunto qualquer e eu devo confessar que não era de todo mal.
O sol já ia alto quando entramos no Corujal, e a falta de vidros nas janelas ofuscou minha visão; grossos raios prateados de sol cortavam em todos os sentidos o recinto circular, em que centenas de corujas se aninhavam nas traves, um tanto incomodadas com a luz matinal, algumas visivelmente recém-chegadas da caça. O chão coberto de palha produzia um ruído de trituração enquanto Harry caminhava sobre pequenos ossos de animais, à procura de sua coruja.
— Ah, aí está você — exclamou ao localizá-la perto do teto abobadado. — Desça, tenho uma carta para você.
Com um pio suave, ela abriu as grandes asas brancas e voou para o ombro dele. Ela é realmente muito bonita.
Ele cochichou algo para a coruja enquanto amarrava a carta em sua pata. A coruja piscou os olhos cor de âmbar uma vez.
— Faça um vôo seguro, então — desejou-lhe Harry, e levou-a até uma das janelas; fazendo uma pressão momentânea em seu braço, a coruja levantou vôo para o céu excepcionalmente claro. Observamos a ave até ela se transformar num pontinho negro e desaparecer, mas continuei olhando para o céu azul.
As copas das árvores da Floresta Proibida balançavam a brisa suave, saboreando o ar fresco que batia em meu rosto pensei em como minha família deveria estar e em Olívio.
A porta do Corujal se abriu às nossas costas. Ele pulou assustado e nos viramos depressa, vi Cho Chang segurando uma carta e um embrulho nas mãos.>br> — Oi — disse Harry automaticamente.
— Ah... oi — respondeu ela ofegante. — Não achei que houvesse alguém aqui em cima tão cedo... Só me lembrei há cinco minutos que é aniversário da minha mãe.
Ela mostrou o embrulho.
— Certo — comentei. Nunca gostei dela, para mim ela é metida e sem graça, mas com o acontecimento do ano anterior nós conversamos um pouco, tudo bem que isso só me fez confirma minhas expectativas sobre ela, mas meu desgosto por ela diminuiu um pouco. Bem pouquinho mesmo.
— Dia bonito — disse Harry, fazendo um gesto abrangendo as janelas. E aí eu soube que ele gosta dela.
— É — concordou Cho, procurando uma coruja adequada. — Boas condições para o Quadribol. Não saí a semana toda, e vocês?
— Também não — disse Harry, enquanto eu negava com a cabeça.
Cho escolheu uma das corujas-de-igreja. Induziu-a a descer e pousar em seu braço, onde a ave esticou a perna de boa vontade para ela poder prender o embrulho.
— Ah, Grifinória já tem um novo goleiro?
— Tem. É o meu amigo Rony Weasley, você o conhece?
— Aquele que odeia torcedores dos Tornados? — perguntou Cho, sem se alterar. — Ele é bom?
— É, acho que é. Mas não vi o teste dele, estava cumprindo uma detenção.
Cho ergueu a cabeça, ainda sem terminar de prender o embrulho à perna da coruja.
— Aquela tal Umbridge não presta — disse, baixando a voz. — Lhe dar uma detenção só porque você disse a verdade sobre... sobre a morte dele. Todo o mundo soube, a escola inteira comentou. Você foi realmente corajoso ao enfrentá-la daquele jeito.
Acho que eu consegui ouvir o coração de Harry de onde eu estava, mas eu fiquei em dúvida, já que eu já estava do lado de fora do Corujal e ouvia a conversa em um tom mais baixo do que antes. Achei melhor sair antes que a situação ficasse mais constrangedora, e era uma ótima oportunidade para fugir do garoto e não precisar comer junto com ele.
Vi Filch passar correndo para o Corujal quando eu já estava mais longe.


Capítulo 3

Harry chegou uns dez minutos depois de mim no Salão Principal e foi direto se sentar com seus amigos, assim que se sentou olhou para mim e lançou um sorriso de lado, retribui.
Quando percebi o que fiz arregalei os olhos e ele riu, O DESGRAÇADO RIU!
- Porque você e o Potter trocaram sorrisos? - perguntou no meu ouvido e eu pulei de susto.
- Aí meu Merlin, você não pode assustar as pessoas desse jeito, - falei enquanto os meus três amigos riam. - Vocês são incrivelmente chatos.
- Mas você nos ama do mesmo jeito - falou me abraçando de lado enquanto mordia minha bochecha, eu soltei um gritinho que foi escondido pela chegada do correio.
Como sempre, o Profeta Diário veio voando na direção de no bico de uma coruja-das-torres, que pousou perigosamente próxima do meu suco, e estendeu a perna. Colocou um nuque na bolsinha de couro, apanhou o jornal e esquadrinhou a primeira página, criticamente, enquanto a coruja levantava vôo.
- Alguma coisa interessante? — perguntei. riu, sabendo que eu estava mais interessada em impedir que ele voltasse a me perguntar sobre o Potter.
- Não — suspirou ela —, só uma bobagem sobre o baixista da banda As Esquisitonas que vai casar.
abriu o jornal e desapareceu atrás de suas páginas. concentrou-se em se servir de uma nova porção de ovos com bacon. examinava as janelas superiores do salão, parecendo ligeiramente preocupado, provavelmente com algum dever atrasado.
Eu continuei a comer meu delicioso café da manhã.
- Espere um instante — disse de repente. — Ah, não... Black!
- Que aconteceu? — eu disse, puxando o jornal da sua mão. Por algum motivo inexplicável eu acreditava que Black não é um traidor e assassino. Como sempre, eu acredito no Potter.
- "O Ministério da Magia recebeu uma informação de fonte fidedigna que Sirius Black, notório assassino de massa... blablablá... está presentemente escondido em Londres!" — li em um sussurro angustiado.
- Como assim em Londres? - perguntou , saindo do seu mundinho.
- Shiu! - disse que por algum motivo me apoiava.
- "... o Ministério da Magia alerta a comunidade bruxa que Black é muito perigoso... matou treze pessoas... evadiu-se de Azkaban..." as bobagens de sempre — conclui, pousando o jornal e olhando para os outros.
foi o primeiro que fez algo, ele se levantou de cara fechada e saiu do Salão. Não sei o porque, mas ele odeia falar sobre o Black.
Eu e fomos juntos para a biblioteca, foi atrás do assim que ele se levantou.
- Você sabe porque do agir assim toda vez que falamos algo do Black? - perguntei ao assim que sentamos numa mesa no canto.
- Eu ia lhe fazer a mesma pergunta.
Ficamos em silêncio por algum tempo, fazendo os deveres. Por mais assustador que possa parecer, eu não estava conseguindo me concentrar, meu pensamento estava sempre indo para os belos olhos verdes de um dos garotos que eu menos gostava naquele colégio.
Suspirei e levantei, ficar ali não ia melhorar nada meu humor.
- Já vai?
- Vou caminhar um pouco, não estou conseguindo me concentrar direito.
Ele concordou e voltou a fazer o que quer que ele estivesse fazendo antes. É por isso que eu gosto tanto do , porque ele não quer explicações o tempo inteiro, sobre tudo.
Sai da biblioteca segurando minhas coisas e correndo na direção do Salão Comunal, quando entrei e não vi ninguém, fui até meu dormitório, guardei meu material e peguei minha vassoura. Não vou morrer por voar um pouco, certo?
Obviamente senti uma pontadinha de remorso ao pensar na pilha de deveres que me aguardava, mas o céu estava claro, estimulantemente azul, e eu não montava na minha Firebolt havia um tempo...
Ao me aproximar do Campo de Quadribol, olhei para as árvores da Floresta Proibida que balançavam sombriamente. O céu estava vazio, exceto por umas poucas corujas distantes esvoaçando em torno da Torre do Corujal.
Assim que pisei no campo vi Ronald guardando as três altas balizas, Harry ocupando a posição de artilheiro e tentando fazer a goles passar pelo Weasley. Harry notou minha presença assim que eu dei um passo para trás e me chamou para ajudá-lo com seu amigo. Só aceitei porque queria muito voar. Depois de umas duas horas, nos voltamos ao castelo para o almoço, durante o qual não me deixou em paz, tentando saber onde eu estava aquele tempo todo, em seguida voltei ao Campo de Quadribol para assistir ao treino da equipe.
Eu tive uma surpresa quando vi a equipe da Sonserina mais alguns desconhecidos na arquibancada, prontos para verem o treino.
Quando os grifinórios saíram do vestiário para a claridade do campo, começou uma tempestade de vaias e assobios dos sonserinos agrupados no meio das arquibancadas vazias, exceto por mim; suas vozes ecoavam ruidosamente pelo estádio.
- Que é aquilo que o Weasley está montando? — berrou Malfoy, debochando com o seu jeito arrastado de falar. — Por que alguém lançaria um feitiço de vôo num pedaço de pau velho e mofado como aquele?
Crabbe, Goyle e Pansy davam escandalosas gargalhadas. Rony montou sua vassoura, com as orelhas vermelhas, e deu impulso do chão, e Harry o seguiu.
O time se juntou no ar e conversaram por alguns segundos.
- Ei, Johnson, afinal que penteado é esse? — esganiçou-se Pansy da arquibancada. — Por que alguém iria querer parecer que tem minhocas saindo do crânio?
Angelina afastou suas longas tranças do rosto e continuou calmamente o que falava.
Harry deu meia-volta e se afastou dos outros em direção à extremidade do campo. Rony recuou para o gol oposto. Angelina ergueu a goles com uma das mãos e atirou-a com força para um dos gêmeos, que a passou para o outro, que passou para Harry, que passou a Rony, que a deixou cair.
Os garotos da Sonserina, liderados por Malfoy, urraram de tanto rir. Rony, que mergulhara em direção ao solo para apanhar a goles antes que ela tocasse o chão, saiu mal do mergulho e escorregou pelo lado da vassoura, em seguida voltou à altura normal de jogo, corando.
- Passe adiante, Rony — gritou Angelina, como se nada tivesse acontecido. Rony atirou a goles para Alicia, que a passou a Harry, que a passou ao gêmeo dois...
- Ei, Potter, como está sua cicatriz? — gritou Malfoy. — Tem certeza de que não precisa se deitar um pouco? Já deve fazer, o quê, uma semana que você esteve na ala hospitalar, isso é um recorde para você, não é, não?
O gêmeo dois passou a bola para Angelina; ela inverteu o passe para Harry, pegando-o desprevenido, mas ele apanhou a bola nas pontinhas dos dedos e emendou rapidamente o passe para Rony, que mergulhou para apanhar a bola, mas perdeu-a por pouco.
- Assim não dá, Rony — disse Angelina, aborrecida, quando ele tornou a mergulhar em direção ao solo atrás da goles. — Se liga!
Seria difícil dizer o que estava mais escarlate; se a goles ou a cara de Rony, quando ele mais uma vez recuperou a altura normal. Malfoy e o resto dos colegas da Sonserina uivaram de tanto rir.
Na terceira tentativa, Rony apanhou a goles; talvez por alívio, ele a passou com tanto entusiasmo para Katie que a bola vazou pelas mãos estendidas da jogadora e bateu com força em seu rosto.
Rony precipitando-se para a frente para ver se a machucara.
- Volte à sua posição, ela está ótima — vociferou Angelina. — Mas, quando estiver passando a bola para uma companheira de equipe, tente não derrubá-la da vassoura, tá? Deixa isso para os balaços!
O nariz de Katie estava sangrando. Do outro lado das arquibancadas, os garotos da Sonserina batiam os pés e caçoavam. Os gêmeos correram para Katie.
Um dos gêmeos entregou à jogadora alguma coisa pequena e roxa que tirara do bolso.
- Tudo bem — gritou Angelina. — Fred e Jorge, vão buscar seus bastões e um balaço. Rony vá para as balizas. Harry, solte o pomo quando eu mandar. Vamos visar o gol do Rony, é óbvio.
Harry disparou atrás dos gêmeos.
Eles voltaram ao ar. Quando Angelina apitou, Harry parou o pomo, e Fred e Jorge deixaram o balaço voar. Harry acelerou, descrevendo círculos, indo ao encontro dos artilheiros e se desviando deles, o ar cálido do outono fustigando seu rosto... mas, cedo demais, o toque do apito o fez parar.
- Para... para... PARA! — berrou Angelina. — Rony... você não está cobrindo a baliza do meio!
Virei-me para olhar Rony, que estava planando diante do aro da esquerda, deixando os outros dois completamente descobertos.
- Ah... desculpe...
- Você não pode ficar parado, observando os artilheiros! — disse Angelina. — Ou fica na posição central até que precise se mexer para defender um aro, ou então fica circulando os aros, não sai vagando para o lado, foi assim que você deixou passar os últimos três gols!
- Desculpe... — repetiu Rony, seu rosto vermelho brilhando como um farol contra o azul-claro do céu.
- E Katie, será que você não pode dar um jeito no sangramento desse nariz?
- Está piorando! — disse a garota com a voz embargada, tentando estancar o sangue com a manga do uniforme.
Olhei para o gêmeo que parecia ansioso, verificando os bolsos. Vi-o tirar uma coisa roxa, examiná-la por um segundo e então procurar Katie com o olhar, evidentemente horrorizado.
- Bom, vamos experimentar outra vez. — disse Angelina.
O pessoal da Sonserina agora inventara uma cantilena de "Grifinória é freguês, Grifinória é freguês."
Desta vez, a equipe não chegara a completar três minutos de vôo quando o apito de Angelina tornou a soar.
Vir-me-ei e vi Angelina, os gêmeos voando a toda velocidade em direção a Katie. Todos correram até ela, até eu fiquei em pé para ver melhor a situação, realmente tinha ficado preocupada. Era claro que Angelina parara o treino bem em tempo; Katie estava branco-gesso e coberta de sangue.
- Bem, não adianta continuar sem dois batedores e uma artilheira — anunciou Angelina, mal-humorada, quando os gêmeos dispararam para o castelo, amparando Katie. — Anda gente, vamos trocar de roupa.
A turma da Sonserina continuou a cantilena enquanto eu me dirigia ao castelo.
- Onde esteve? — perguntou , concentrada num livro, alguns minutos mais tarde quando me sentei ao seu lado na cama.
- No Campo de Quadribol — respondi.
- Fazendo o que? — perguntou ela erguendo as sobrancelhas para mim.
- Vendo o treino — disse lentamente, estava morta de cansaço.
- O treino ou alguém?
- Na verdade, eu estava me lembrando dos anos anteriores, quando tudo era mais fácil — respondi e ela me olhou espantada.
- Pensei...
- Você pensou que eu estava de olho no Potter, eu sei.
- Não, é claro que não! Olhe, você diz que odeia ele, não é? Eu acredito.
- Digo - respondi me deitando. - Vou dormir aqui. Boa noite.
E puf, dormi.
Passei o domingo inteiro enterrada nos livros na biblioteca. Fazia mais um belo dia de sol, e a maioria dos meus colegas de casa passou o tempo nos terrenos da escola, aproveitando o que bem poderia ser a última aparição do sol daquele ano.
Quando anoiteceu, eu, milagrosamente, acabei todos os deveres, mas tinha a impressão de que alguém andara malhando o meu cérebro contra minha caixa craniana.
- Eu provavelmente devia tentar adiantar os deveres durante a semana — murmurei para mim mesma, quando finalizei o último exercício.
Eu pensei que na manhã seguinte não teria nenhuma novidade que pudesse piorar meu humor no Profeta Diário da . No entanto, a coruja-entregadora mal levantara vôo da jarra de leite em que pousara quando minha amiga já deixava escapar uma enorme exclamação e abria o jornal todo para mostrar uma grande foto de Dolores Umbridge com um enorme sorriso, piscando lentamente para nós sob a manchete.

MINISTÉRIO QUER REFORMA NA EDUCAÇÃO.
DOLORES UMBRIDGE NOMEADA PRIMEIRA ALTA INQUISIDORA DA HISTÓRIA.

- Umbridge... Alta Inquisidora? — foi o questionamento sombrio de , que abaixou o garfo que estava a caminho da boca. — Que é que eles querem dizer com isso?
leu em voz alta:
- Ontem à noite, o Ministério da Magia surpreendeu a todos aprovando uma lei que concede ao próprio órgão um nível de controle sem precedentes sobre a Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts.
"Já há algum tempo, o ministro tem se mostrado apreensivo com o que acontece em Hogwarts", comentou seu assistente-júnior, Percy Weasley. "O decreto é uma resposta às preocupações expressadas por pais ansiosos que sentem que a escola está trilhando um caminho que desaprovam."
Não é a primeira vez nas últimas semanas que o ministro Cornélio Fudge tem usado novas leis para realizar aperfeiçoamentos na escola de magia. Em 30 de agosto recente, foi aprovado o Decreto de Educação n.º 22, para assegurar que, na eventualidade do atual diretor não conseguir apresentar um candidato a uma vaga de professor, o Ministério selecione uma pessoa habilitada.
"Foi assim que Dolores Umbridge acabou sendo indicada para o corpo docente de Hogwarts", disse Weasley ontem à noite. "Dumbledore não conseguiu encontrar ninguém, então o Ministério nomeou Umbridge e, naturalmente, ela alcançou imediato sucesso..."

- Ela o QUE? — exclamei em voz alta.
- Espere, ainda tem mais — disse a minha amiga séria: — "... imediato sucesso, revolucionando inteiramente o ensino da Defesa Contra as Artes das Trevas e informando em primeira mão ao ministro o que está realmente ocorrendo em Hogwarts."
É esta função que o Ministério está formalizando agora ao aprovar o Decreto de Educação n° 23, que cria o cargo de Alta Inquisidora de Hogwarts. "Inicia-se assim uma nova fase no plano ministerial para enfrentar o que alguns têm chamado de queda nos padrões de Hogwarts", diz Weasley. "A Inquisidora terá poderes para inspecionar seus colegas educadores e se assegurar de que estejam satisfazendo os padrões desejados. O cargo foi oferecido à Profª Umbridge, que aceitou a nova incumbência e a irá acumular com o cargo docente que ora exerce."
As novas medidas do Ministério receberam o apoio entusiástico dos pais dos alunos de Hogwarts.
"Eu me sinto muito mais tranqüilo agora que sei que Dumbledore está sujeito a avaliações justas e objetivas", declarou o Sr. Lúcio Malfoy, 41, à noite passada de sua mansão de Wiltshire. "Muitos de nós, que no fundo queremos que nossos filhos sejam felizes e bem-sucedidos, estávamos preocupados com algumas decisões excêntricas que Dumbledore andou tomando nos últimos anos, e ficamos contentes de saber que o Ministério está atento a situação."
Sem dúvida, entre as decisões excêntricas mencionadas encontram-se as nomeações controversas apontadas pelo nosso jornal, entre as quais se incluem a contratação do lobisomem Remo Lupin, do meio-gigante Rúbeo Hagrid e do ex-auror delirante Olho-Tonto Moody.
Naturalmente, correm muitos boatos de que Alvo Dumbledore, que no passado foi o Chefe Supremo da Confederação Internacional de Bruxos e Bruxo-presidente da Suprema Corte, não está mais à altura de administrar a prestigiosa Escola de Hogwarts.
"Acho que a nomeação da Inquisidora é o primeiro passo para assegurar que Hogwarts tenha um diretor em quem possamos depositar nossa confiança", declarou uma fonte do Ministério à noite passada.
Os juizes da Suprema Corte, Griselda Marchbanks e Tibério Ogden, renunciaram aos seus mandatos, em protesto à criação do cargo de Inquisidora de Hogwarts.
"Hogwarts é uma escola e não um posto avançado do gabinete de Cornélio Fudge", declarou Madame Marchbanks. "Trata-se de mais uma tentativa repugnante de desacreditar Alvo Dumbledore."
(Leiam a história completa das supostas ligações de Madame Marchbanks com grupos de duendes subversivos na p. 17.)

Ela terminou de ler e olhou para nós, sentados à sua frente.
- Uma coisa que eu não entendo é a confiança que Fudge tem nessa mulher, ela é uma cobra. - falei mal humorada.
- Quem sabe ele também não é uma? - fez piada, tentando quebrar a tensão do ar.
- Pelo menos agora sabemos como foi que acabamos alunos da Umbridge! Fudge aprovou o "Decreto de Educação" e forçou a sua contratação! Agora lhe concedeu o poder de inspecionar os outros professores! — falou com raiva, até eu fiquei com medo, e olha que eu não tenho medo dela. — É um absurdo!
- Sabemos disso — disse , tentando acalma-la. E pegou em sua mão direita, girou e lhe deu um beijo singelo ali.
Mas o começou a abrir um sorriso assustadoramente maroto. Esse é o seu melhor sorriso.
- Eu tenho até medo de perguntar, mas o que foi? — perguntou olhando para ele, mas ainda segurando a mão de . Eles são tão fofos que dá vontade de abraçar eles até matar.
- Ah, mal posso esperar para ver a McGonagall ser inspecionada — disse feliz. — A Umbridge não vai saber nem o que foi que a acertou.
- Ah, quer saber? Vamos logo para a aula — eu disse, levantando-me de um salto —, se ela estiver inspecionando a classe de Binns não vou querer chegar atrasada...
Mas a Profª Umbridge não estava inspecionando a aula de História da Magia, que foi tão desinteressante quanto a da segunda-feira anterior, tampouco estava na masmorra de Snape, quando cheguei para os dois tempos de Poções, em que ele entregou meu trabalho sobre a pedra da lua com um enorme "A" no canto superior.
Snape é um mala, tenho que confessar, mas as aulas dele são as melhores e tem também o fato dele ser um idiota com os alunos, menos comigo e com Malfoy... diz que eu nasci com a bunda virada para a lua. Vai entender essa língua brasileira.
- Dei a vocês as notas que teriam recebido se tivessem apresentado esses trabalhos no seu N.O.M. — disse Snape com um sorriso afetado, ao passar pelos alunos devolvendo os deveres. — Isto deverá lhes dar uma ideia realista do que esperar no exame.
Snape foi até a frente da classe e se voltou para a turma.
- O nível geral dos deveres foi absurdo. A maioria de vocês não teria passado se fosse um exame real. Espero observar um esforço bem maior no trabalho desta semana sobre as variedades de antídotos para venenos ou terei de começar a distribuir detenções para os tapados que receberem "D".
O professor riu com afetação quando Malfoy deu uma risadinha e disse num sussurro ressonante:
- Teve gente que recebeu um "D"? Ha!
Percebi que Malfoy escondia a sua prova disfarçadamente enquanto falava. Acho que alguém está mentindo sobre a nota hein?
Obviamente, não fui eu que tirei a nota mais alta, mas um "A" é muito melhor do que um "P" ou "D", e se ele realmente tiver corrigido os trabalhos com base nas correções da N.O.M.s, eu tenho uma pequena chance de tirar uma nota boa nesta matéria. Pelo menos em uma.
Mas eu estou decidida a ser motivo de orgulho para os meus pais e tirar pelo menos quatro "Os" e o resto, no máximo, "E", mesmo que para isso eu tenha que pedir a ajuda da Granger.
Quando Snape colocou as informações sobre a atividade daquele dia no quadro-negro, eu li e reli cada linha pelo menos três vezes. Minha Solução para Fortalecer ficou exatamente um turquesa-claro como a da Hermione, talvez, me arrisco a falar, melhor do que a dela, o que foi um alívio.
- Como que cor ficou a sua?— perguntei a Dino quando subíamos as escadas das masmorras para atravessar o Saguão de Entrada e ir almoçar.
- Azul - ele respondeu e riu.
- Vocês fazem uma dupla perfeita - falei para Thomas e Finnigan -, um sempre tem que explodir alguma coisa na aula e o outro não consegue fazer uma porção. O que seria de vocês sem mim?
- Por isso agradecemos todos os dias por termos conhecido você - Simas falou e me deu um beijo de despedida na minha bochecha, sendo seguido por Dino.
Fui na direção de , que comia afastado dos outros dois.
- O que houve? - perguntei sentando ao seu lado e começando a comer.
- Eu e a ...
- Brigaram de novo? Vocês andam brigando muito.
- Ela fica me cobrando coisas que eu não consigo fazer.
- Você nem tenta, , namorar é se entregar de cabeça e estar disposto a se moldar em alguns aspectos.
- E como você pode entender tanto do assunto? Nunca teve um namorado, e nenhum garoto quer saber de você.
Eu o olhei com raiva. Eu nunca havia namorado, nem mesmo sido beijada, eu não precisava disso para se feliz, mas ele tinha necessidade mesmo de falar aquilo? Eu só estava tentando ajudar.
- Já entendi você não quer ajuda de uma pessoa inexperiente, tudo bem.
Eu não sai dali, mas também não falei mais nada. Eu teria a próxima aula de Aritmância, e estava torcendo para que a Umbridge não fosse supervisionar o professor.
E como se Merlin quisesse me agradar, ela não estava lá. Mas tarde eu descobriria que ela estava na aula de Adivinhação.
Quando entrei na sala de Defesa Contra as Artes das Trevas, dez minutos depois, ela estava nos aguardando.
Ela sorria e cantarolava baixinho quando entramos. Me sentei novamente ao lado de Hermione e, mesmo a contra gosto, ouvi Harry e Rony contaram a Hermione, que estivera na aula de Aritmância comigo, exatamente o que acontecera em Adivinhação, enquanto apanhávamos os nossos exemplares de Teoria da Defesa em Magia, mas, antes que Hermione pudesse fazer alguma pergunta aos garotos, a Profª Umbridge chamara a nossa atenção e todos se calaram.
- Guardem as varinhas — mandou ela com um sorriso, e aqueles que esperançosamente haviam apanhado as varinhas, com tristeza as repuseram nas mochilas. — Como terminamos o capítulo um na aula passada, hoje eu gostaria que abrissem na página dezenove e começassem a ler o capítulo dois de "Teorias de defesa comuns e suas derivações". Não haverá necessidade de conversar.
Ainda sorrindo, aquele sorriso amplo e presunçoso, ela se sentou à escrivaninha. A turma deu um suspiro audível, como se fossemos um só aluno, quando abrimos a página dezenove. Fiquei imaginando, entediada, um modo de impedir essa mulher de dar aulas quando reparei que Hermione erguera novamente a mão no ar.
A professora também reparou e, além disso, parecia ter preparado uma estratégia para essa eventualidade. Em lugar de tentar fingir que não reparara em Hermione, ela se levantou e deu a volta na primeira fila de carteiras até ficar cara a cara com a garota, então se inclinou e murmurou, de modo que o restante da classe não pudesse ouvi-la:
- O que é agora, Srta. Granger?
- Já li o capítulo dois.
- Então passe para o capítulo três.
- Já li também. Já li o livro todo.
A Profª Umbridge piscou os olhos, mas recuperou sua pose quase instantaneamente.
- Bem, então, você deverá poder me dizer o que Slinkhard escreveu sobre as contra-azarações no capítulo quinze.
- Ele escreveu que a denominação contra-azarações é imprópria — respondeu Hermione imediatamente. — E que contra-azaração é apenas o nome que as pessoas dão às suas azarações quando querem fazê-las parecer mais aceitáveis.
A Profª Umbridge, ergueu as sobrancelhas, e percebi que estava impressionada, ainda que a contragosto.
- Mas eu discordo — continuou Hermione.
As sobrancelhas da professora subiram um pouco mais, e seu olhar se tornou visivelmente frio.
- A senhorita discorda?
- É, discordo — confirmou Hermione, que, ao contrário de Umbridge, não murmurava, falava em uma voz alta e clara, que a essa altura já atraíra a atenção do resto da turma. — O Sr. Slinkhard não gosta de azarações, não é? Mas acho que podem ser muito úteis quando são usadas defensivamente.
- Ah, então essa é a sua opinião? — disse a professora, se esquecendo de murmurar e endireitando o corpo. — Bom, receio que seja a opinião do Sr. Slinkhard que conte nesta sala de aula, e não a sua, Srta. Granger.
- Mas... — recomeçou Hermione.
- Agora basta — disse a professora. Voltou, então, para a frente da sala e se postou ali, mas toda a segurança que exibira no início da aula se perdera. — Srta. Granger, vou tirar cinco pontos da Grifinória.
Houve uma eclosão de murmúrios.
- Por quê? — perguntou Harry indignado.
- Não se meta! — cochichou Hermione para ele, ansiosa.
- Por perturbar minha aula com interrupções sem sentido — disse a Profª Umbridge suavemente. — Estou aqui para lhes ensinar, usando um método aprovado pelo Ministério que não inclui convidar alunos a darem suas opiniões sobre assuntos de que pouco entendem. Os professores anteriores desta disciplina podem ter permitido aos senhores maior liberdade, mas como nenhum deles... com a possível exceção do Prof. Quirrell, que pelo menos parece ter se restringido a assuntos apropriados para sua idade... teria passado em uma inspeção do Ministério...
- É, Quirrell foi um grande professor — eu disse em voz alta, tentando impedir que o Potter fizesse uma besteira —, exceto pelo pequeno problema de ter Lord Voldemort saindo pela nuca.
Este pronunciamento foi seguido de um dos mais retumbantes silêncios que já ouvi. Então...
- Acho que uma semana de detenção lhe fará muito bem, Srta. — disse Umbridge com voz sedosa.
- A senhora não pode dar uma detenção por ela está falando a verdade.
- Potter, será que você pode calar a boca? Eu sei o que estou fazendo - falei entredentes para o idiota.
- O senhor está questionando o meu método de ensino, Potter?
- Estou.
- Vejo que também precisa de uma semana de detenção.
Eu nunca fiquei com tanta raiva do Potter como naquele momento. Eu não era uma garotinha indefesa que precisava de um herói para me salvar, muito menos um idiota que ganhava detenção por nada. Eu sabia o que ela ia fazer comigo naquela detenção, tinha visto o estado da mão de uma garota da Cornival depois de uma detenção com aquela sapa que recebeu só porque falou para seus amigos que acreditava naquele idiota.
Eu tento ser uma boa garota, tento ajudar os outros, mas do que adiantar fazer isso se a pessoa é idiota o suficiente para não entender?
Quando o sinal tocou, fui a primeira a sair da sala, mas esperei o Harry na porta e assim que passou eu o puxei comigo, claro que as suas duas sombras nos seguiram. Empurrei ele para dentro na primeira sala vazia que passamos.
- Você tem algum problema na cabeça? - gritei assim que o Weasley e a Granger fecharam a porta.
- Do que você esta falando? - perguntou ele, também aos gritos. Ou ele é realmente burro, ou tem mesmo um problema na cabeça.
- Em você tentando bancar o herói salvando a mocinha à algum tempo atrás.
- Eu estava tentando lhe ajudar, sua mal agradecida.
- Você só pode ter algum problema na cabeça! Eu sabia o que estava fazendo.
- Você não sabe como é a detenção daquela mulher, ! Você nunca passou por aquilo, eu já, sei o quão ruim é - ele falou, agora abaixando o tom de voz.
- Eu sei como é, Potter, e estava tentando impedir que você não passasse por isso de novo, mas pelo que percebi você é um masoquista, e agora ganhei uma detenção por nada. Muito obrigada mesmo.
Passei por ele e pelos seus dois amigos, saindo daquela sala escura.
Fui para o meu dormitório, saindo de lá só para ir a detenção, sendo acompanhada por um Harry calado.
Não me queixei durante a detenção; estava decidida a não dar a Umbridge essa satisfação; repetidamente escrevi "Não devo contar mentiras", e nenhum som escapou de meus lábios, embora o corte se aprofundasse a cada letra. Harry parecia ter o mesmo plano que eu, pois era difícil ouvir até mesmo sua respiração.
Quando saímos da detenção, Harry tirou, não sei de onde, um pedaço de pano branco e enrolou na minha mão.
- Obrigada! - respondi calmamente, a última coisa que eu queria era uma nova briga, já estava cansada demais para isso.
- Me desculpe! - ele falou e eu o olhei sem entender. Eu podia não ser um exemplo de educação, mas eu sabia que quando alguém agradecia o normal era falar 'por nada'. - Pelo que aconteceu mais cedo, eu realmente estava tentando ajudar, mas normalmente as coisas não saem como eu quero.
Eu olhei para o chão, eu também estava errada, estava lhe julgando sem realmente conhecê-lo, e outra, eu havia feito o mesmo, tentei da uma de heroína.
- Me desculpe também! - agora foi a vez dele me olhar confuso. - Eu não deveria ter lhe falado aquelas coisas, eu estava fazendo a mesma coisa.
Ele sorriu de lado e negou com a cabeça, como se dissesse que não tinha sido nada.
- Você é diferente do que dizem - ele disse, agora olhando para a frente.
- Falam de mim?
- Claro que sim. Você deu um soco no seu primo quando estava no primeiro ano.
Eu ri, tive que rir. Ninguém nunca mais falava naquilo, na verdade, nem eu falava. Havia acontecido a tanto tempo, parecia que tinha sido em outra vida.
- O que foi? - ele perguntou quando eu parei de rir.
- Ninguém mais fala disso, e, em minha defesa, eu estava totalmente certa.
- Nunca disse que não estava - ele falou e levantou as mãos como quem diz "eu me rendo". - E todos falam sobre isso depois da nossa discussão com a sapa.
Eu ia lhe responder quando percebi que já estava em frente ao quadro da Mulher Gorda, entramos em silêncio e subimos as escadas, antes de nos separar ele me desejou boa noite e seguiu seu caminho.
- Você também é diferente do que dizem - eu sussurrei, mas sabia que ele havia escutado, não sei como, mas sabia.


Capítulo 4

Eu acordei no dia seguinte com a minha mão esquerda dolorida e ainda enrolada no pano não mais branco da noite anterior.
Como Granger ainda estava se arrumando perguntei se ela podia me esperasse e, surpresa, ela disse que sim. Saímos juntas do dormitório e descemos para o Salão Comunal, onde Harry e Rony a esperavam.
- O que você está fazendo com ela? - perguntou Ronald surpreso para minha colega de dormitório.
- Você é educado como um martelo, Weasley. Bom dia, Harry!
- Como está a mão? - ele perguntou enquanto caminhávamos atrás dos seus amigos em direção ao Salão Principal.
- Dolorida, e a sua?
- Não sei, não a sinto mais.
Ele riu e eu acompanhei. Era bom ter Harry como colega e ele realmente não é como dizem. Passamos pelo corredor da biblioteca e perguntei se ele podia ir comigo até lá, pois precisava devolver um livro.
- Pelo visto você gosta de ler - comentou ele quando eu terminei de contar a história de um livro trouxa que acabará de ler, já estávamos indo para o salão das comidas dos Deuses.
Assim que chegamos na mesa da Grifinória, Angelina encostou Harry contra parede, e gritava tão alto que a Profª McGonagall se levantou da mesa dos professores e correu para nós três. Por algum motivo, Angelina não me deixou sair dali.
- Srta. Johnson, como se atreve a fazer um estardalhaço desses no Salão Principal? Cinco pontos a menos para Grifinória!
- Mas, professora, ele arranjou outra detenção...
- Que história é essa, Potter? — perguntou a professora rispidamente, virando-se para Harry. — Detenção? De quem?
- Da Profª Umbridge — murmurou Harry, sem encarar os olhos penetrantes por trás dos óculos de aros quadrados.
- Você está me dizendo — perguntou ela, baixando a voz para que o grupo de alunos curiosos da Corvinal atrás não pudessem ouvir — que depois do aviso que lhe dei na segunda-feira passada você se descontrolou outra vez na aula da Profª Umbridge?
- Sim, senhora — murmurou Harry, olhando para o chão.
- Potter, você precisa se controlar! Você está caminhando para uma séria encrenca! Menos cinco pontos para Grifinória outra vez!
- Mas... quê... professora, não! — exclamou Harry, indignado com a injustiça. — Já estou sendo castigado por ela, por que a senhora precisa nos tirar pontos também?
- Porque as detenções parecem não produzir o menor efeito em você! — respondeu a professora, azeda. — Não, nem mais uma palavra de reclamação, Potter! E quanto à Srta. Johnson, no futuro restrinja os seus gritos ao Campo de Quadribol ou se arriscará a perder a função de capitã do time!
A Profª McGonagall voltou à mesa dos professores. Angelina lançou a Harry um olhar de profundo descontentamento e foi embora, me deixando sair daquela confusão. Sai quase correndo na direção de , que hoje comia sozinha, mas antes bati fracamente nas costas do Potter.
- Será que você pode me explicar? - perguntou ela me olhando profundamente curiosa. Eu ri.
- Pode ser que eu não sinta ódio pelo Potter - falei como quem não quer nada. Ela insistiu para que eu lhe contasse tudo até eu que fiz isso e assim que eu terminei de contar estava na hora de ir para a aula de Feitiços, que foi bem legal.
Quando entrei na sala de Transfiguração vi que a Profª Umbridge achava-se sentada a um canto, com sua prancheta, e essa visão apagou tudo o que estava na minha mente, a não ser do sorriso maroto do . Me sentei pensando que o iria adorar estar nessa aula, iria contar para ele quando o visse.
A Profª McGonagall entrou decidida na sala, sem dar a menor indicação de que sabia que a Profª Umbridge se achava presente.
- Agora chega — disse ela, e os alunos fizeram imediato silêncio. — Sr. Finnigan, tenha a bondade de vir até aqui e entregar esses deveres aos seus colegas... Srta. Brown, por favor, apanhe esta caixa de ratinhos... não seja tola, menina, eles não vão lhe fazer mal... e dê um a cada aluno...
- Hem, hem — fez a Profª Umbridge, usando a mesma tossezinha boba que usara para interromper Dumbledore na primeira noite do ano letivo. A Profª McGonagall, se ouviu, fingiu que não. Simas me devolveu o meu trabalho, que apanhei fazendo uma careta engraçada que foi retribuída antes dele se sentar do meu lado esquerdo, e vi, para minha alegria, que tinha conseguido um "O".
- Muito bem, ouçam todos com atenção... Dino Thomas, se fizer isto outra vez com o ratinho lhe darei uma detenção... a maioria da turma conseguiu fazer desaparecer as lesmas, e mesmo aqueles que as deixaram com vestígios do caracol entenderam o objetivo do feitiço. Hoje, vamos...
- Hem, hem — fez a Profª Umbridge.
- Sim? — disse a Profª McGonagall se virando, as sobrancelhas tão juntas que pareciam formar uma linha única e severa.
- Eu estava me perguntando, professora, se a senhora teria recebido o meu bilhete avisando a data e a hora da sua insp...
- Obviamente que a recebi, ou teria lhe perguntado o que está fazendo na minha sala de aula — disse ela, dando as costas com firmeza à Profª. Umbridge. Eu troquei olhares de alegria com Dino e Simas. — Como eu ia dizendo: hoje, vamos praticar o Feitiço da Desaparição em ratinhos, que é bem mais difícil. Bem, o Feitiço da Desaparição...
- Hem, hem.
- Eu me pergunto — disse a Profª McGonagall numa fúria gélida, virando-se para a outra — como é que você espera avaliar os meus métodos de ensino habituais se continua a me interromper? Em geral, eu não permito que as pessoas falem quando eu estou falando, entende?
A Profª Umbridge pareceu que tinha levado uma bofetada no rosto. Não falou, mas endireitou o pergaminho em sua prancheta e começou a escrever furiosamente. Parecendo supremamente indiferente, a Profª McGonagall se dirigiu mais uma vez à turma.
- Como eu ia dizendo: o Feitiço da Desaparição se torna mais difícil quanto maior a complexidade do animal a se fazer desaparecer. A lesma, como invertebrado, não apresenta grande desafio; o ratinho, como mamífero, oferece um desafio muito maior. Não é, portanto, um feitiço que se possa realizar com a cabeça no jantar. Vocês já conhecem a fórmula cabalística, então vejamos o que são capazes de fazer...
A Profª Umbridge não acompanhou McGonagall pela sala; talvez tenha percebido que a colega não permitiria. Fez um grande número de anotações, sentada em seu canto, e quando McGonagall finalmente disse aos alunos para guardarem o material e sair, ela se levantou a expressão muito séria no rosto.
Quando nos saíamos enfileirados da sala, vi a Profª Umbridge se aproximar da escrivaninha da McGonagall; eu cutuquei Harry -que estava próximo a mim-, que cutucou Rony, que, por sua vez, cutucou Hermione, e nós quatro intencionalmente ficamos para trás para escutar.
- Há quanto tempo você está ensinando em Hogwarts? — perguntou a Profª Umbridge.
- Trinta e nove anos, agora em dezembro — respondeu McGonagall bruscamente, fechando sua bolsa com um estalo. Umbridge fez uma anotação.
- Muito bem, você receberá o resultado da inspeção dentro de dez dias.
- Mal posso esperar — respondeu McGonagall, com uma voz fria e indiferente, e se encaminhou para a porta. — Andem depressa vocês quatro — acrescentou, nos empurrando à sua frente.
Eu pensei que só tornaria a ver Umbridge à noite, na detenção, mas estava muito enganada. Quando íamos descendo os gramados em direção à Floresta, para assistir à aula de Trato das Criaturas Mágicas, encontramos com ela, com a prancheta, ao lado da Profª Grubbly-Plank.
- Normalmente não é você que ensina esta disciplina, correto? — a ouvi perguntar quando se aproximaram da mesa de cavalete, onde o grupo de tronquilhos capturados se atropelava para apanhar bichos-de-conta como se fossem gravetos vivos.
- Correto — respondeu a Profª Grubbly-Plank, com as mãos nas costas e o corpo balançando sobre a planta dos pés. — Sou uma professora substituta, ocupando o lugar do Prof. Hagrid.
Malfoy estava cochichando com Crabbe e Goyle; ele certamente adoraria essa oportunidade para contar histórias sobre Hagrid a uma funcionária do Ministério.
- Humm — fez a Profª Umbridge, baixando a voz, embora eu ainda pudesse ouvi-la muito claramente. — Eu estive pensando... o diretor me parece estranhamente relutante em fornecer informações: você poderia me dizer o que está causando a prolongada licença de afastamento do Prof. Hagrid?
Eu vi Malfoy erguer a cabeça.
- Creio que não — disse a professora em tom despreocupado. — Sei tanto quanto você. Recebi uma coruja do Dumbledore, gostaria que eu desse aulas durante umas duas semanas. Aceitei. É tudo que sei. Bom... posso começar, então?
- Claro, por favor — disse a Profª Umbridge, escrevendo em sua prancheta. Umbridge adotou uma abordagem diferente nesta aula e caminhou entre os alunos, fazendo perguntas sobre criaturas mágicas. A maioria soube responder bem.
- De um modo geral — perguntou a Profª Umbridge, voltando para perto da Profª Grubbly-Plank depois de interrogar Dino longamente —, o que é que você, como membro temporário do quadro docente, uma observadora externa, suponho que poderíamos dizer, que é que você acha de Hogwarts? Você acha que recebe apoio suficiente da diretoria da escola?
- Ah, sim, Dumbledore é excelente — disse a Profª Grubbly-Plank com entusiasmo. — Estou muito feliz com o modo com que a escola é administrada, realmente muito feliz. Com um ar de educada incredulidade, Umbridge fez uma minúscula anotação na prancheta e continuou:
- E o que é que você está planejando cobrir em suas aulas durante o ano, presumindo é claro, que o Prof. Hagrid não volte?
- Ah, repassarei com os alunos as criaturas que são pedidas com maior freqüência no N.O.M. Não há muito mais a fazer: eles já estudaram os unicórnios e os pelúcios. Pensei em abordar os pocotós e os amassos, me certificar de que são capazes de reconhecer os crupes e os ouriços, entende...
- Bem, em todo o caso você parece saber o que está fazendo — concluiu a Profª Umbridge, escrevendo em seu pergaminho.
Não gostei quando a professora fez a pergunta seguinte a Goyle. — Agora, ouvi dizer que tem havido alunos feridos nesta classe - eu podia não ser amiga do Hagrid, mas gostava das suas aulas, eram as mais divertidas e legais.
Goyle deu um sorriso idiota. Malfoy se apressou a responder.
- Foi comigo. Levei uma lambada de um hipogrifo.
- Hipogrifo? — repetiu a Profª Umbridge, agora escrevendo freneticamente.
- Só porque ele foi burro demais e não deu ouvidos às instruções de Hagrid — comentou Harry, zangado.
Rony, Hermione e eu gememos ao mesmo tempo. O Potter nunca vai entender que ele está caindo no jogo dela? A Profª Umbridge virou a cabeça lentamente na direção de Harry.
- Mais uma noite de detenção, creio eu — disse brandamente. — Bem, muito obrigada, Grubbly-Plank, acho que é tudo que preciso saber. Você receberá o resultado de sua inspeção dentro de dez dias.
- Que bom! — disse a Profª Grubbly-Plank, e a Profª Umbridge começou a subir o gramado para voltar ao castelo.
O único momento em que eu e Harry conversávamos era no caminho para a detenção ou quando saímos dela, mas, naquele dia em especial, meus amigos resolveram fazer programas com seus outros amigos ou em casal, então eu mofei no Salão Comunal até o trio chegar, Hermione foi a primeira a notar minha presença e disse para os outros dois, e assim que me viu, Harry me chamou para perto deles.
Jogamos xadrez de bruxo e eu perdi mais de Rony do que ganhei, mas acabei com o Harry e Hermione.
Eu e Harry saímos juntos para a detenção e só fomos liberados quando o relógio indicava quase meia-noite. Minha mão agora sangrava tanto que manchava o lenço em que o Potter a enfaixara, assim como fez na sua.
Eu achava que a sala comunal estivesse vazia quando voltássemos, mas Rony e Hermione estavam acordados à nossa espera. Fiquei sinceramente feliz em vê-los, principalmente porque Hermione segurava algo que adivinhei que fosse melhorar a dor na minha mão.
- Tomem — disse, ansiosa, estendendo uma tigelinha para cada um de nós com um líquido amarelo —, encharquem as mãos nisso, é uma solução de tentáculos de murtisco em salmoura e depois peneirados, deve ajudar.
Coloquei a mão, que sangrava e doía, na tigela e experimentei uma maravilhosa sensação de alívio. Depois de se enrolar nas pernas de Harry, o gato de Hermione, ronronando alto, saltou para o meu colo e se acomodou.
- Obrigado — disse, agradecida, cocando atrás das orelhas do gato com a mão direita.
- Eu ainda acho que vocês deviam reclamar — disse Rony em voz baixa.
- Não — disse Harry categoricamente.
- McGonagall ia endoidar se soubesse...
- Provavelmente ia. E quanto tempo você acha que levaria para Umbridge aprovar outro decreto dizendo que quem reclamar da Alta Inquisidora será imediatamente despedido? - falei, sensata. Eles não pensavam não? O Ministério estava intervindo em Hogwarts e Umbridge estava aqui para supervisionar como está o andamento do plano, se acontecesse algo de errado, ela tinha total direito de tomar decisões drásticas, mesmo que absurdas. Rony abriu a boca para retorquir, mas não emitiu som algum e, passado um instante, tornou a fechar a boca, derrotado.
- Ela é uma mulher horrível — disse Hermione baixinho. — Horrível. Sabe, eu estava dizendo ao Rony quando vocês entram... temos de fazer alguma coisa a respeito dela.
- Eu sugiro veneno — disse Rony com ferocidade, eu balancei a cabeça, concordando.
- Não... quero dizer, alguma coisa para divulgar que é uma péssima professora, e que não vamos aprender Defesa alguma com ela — explicou Hermione.
- Bom, e o que é que podemos fazer? — perguntou Rony bocejando. — Já é tarde à beça, não é não? Ela foi nomeada e veio para ficar, Fudge vai garantir isso.
- Bom — disse Hermione hesitante. — Sabe, estive pensando hoje... — Lançou um olhar nervoso a Harry, e então prosseguiu: — Estive pensando... talvez tenha chegado a hora de simplesmente... simplesmente nos virarmos sozinhos.
- Nos virarmos sozinhos fazendo o quê? — perguntou Harry, desconfiado, mantendo a mão flutuando na essência de murtisco.
- Bom... aprendendo Defesa Contra as Artes das Trevas sozinhos — concluiu Hermione.
- Ah, corta essa — gemeu Rony. — Você quer que a gente faça trabalho extra? Você tem ideia do quanto Harry e eu estamos outra vez atrasados com os nossos deveres e só estamos na segunda semana de aulas?
- Mas isto é muito mais importante do que os deveres de casa - Harry e Rony arregalaram os olhos para ela, eu apenas balancei a cabeça, concordando com seu plano. Já disse como eu amo ter raciocínio rápido?
- Pensei que não houvesse nada mais importante no universo do que os deveres de casa! — caçoou Rony.
- Não seja bobo, claro que há — rebateu Hermione, e eu notei que o rosto da garota se tornara inesperadamente radioso — Trata-se de nos prepararmos, como disse o Harry na primeira aula da Umbridge, para o que nos aguarda lá fora. Trata-se de garantir que realmente possamos nos defender. Se não aprendermos nada o ano inteiro...
- Não podemos fazer muita coisa sozinhos — disse Rony com um quê de derrota na voz. — Quero dizer, tudo bem, podemos ir procurar azarações na biblioteca e tentar praticá-las, suponho...
- Não, concordo, já passamos da fase em que podemos aprender apenas com livros — disse Hermione. — Precisamos de um professor, de verdade, que possa nos mostrar como usar os feitiços e nos corrigir quando errarmos.
- Se você está falando do Lupin... — começou Harry.
- Não, não, não estou falando de Lupin. Ele está ocupado demais com a Ordem e, de qualquer jeito, o máximo que poderíamos vê-lo seria nos fins de semana em Hogsmeade, e eles não acontecem com tanta freqüência assim.
- Quem, então? — perguntou Harry, franzindo a testa para a amiga. Eu dei um suspiro muito profundo.
- Será que não está óbvio? Ela está falando de você, Harry.
Houve um momento de silêncio. Uma leve brisa noturna sacudiu as vidraças atrás de Rony, e o fogo oscilou.
- Falando de mim, o quê? — perguntou Harry.
- Estou falando de você nos ensinar Defesa Contra as Artes das Trevas.
Harry encarou a mim e a Hermione. Depois se virou para Rony, mas a garota estava com a testa ligeiramente enrugada, em aparente reflexão. Então disse:
- É uma ideia.
- O que é uma ideia? — perguntou Harry.
- Você. Nos ensinar.
- Mas...
Harry estava sorrindo agora, parecendo certo de que estávamos gozando com a cara dele.
- Mas eu não sou professor, não sei...
- Harry, você foi o melhor do ano em Defesa Contra as Artes das Trevas — disse Hermione.
- Eu? — Harry agora estava com um sorriso maior que nunca. — Não, não fui, você me bateu em todos os testes...
- Não é verdade — respondeu Hermione calmamente. — Você me bateu no terceiro ano: o único ano em que nós dois prestamos exames e tivemos um professor que realmente conhecia o assunto. E não estou falando de notas, Harry. Pense no que você já fez!
- Como assim?
- Sabe de uma coisa, não tenho certeza se quero alguém burro assim como professor — disse Rony a nós duas, com um sorriso afetado. Em seguida virou-se para Harry.
- Vamos raciocinar — disse, fazendo uma cara igual à de Goyle quando se concentrava. — Uh... primeiro ano: você salvou a Pedra Filosofal de Você-Sabe-Quem.
- Mas aquilo foi sorte — retrucou Harry. — Não foi habilidade...
- Segundo ano — interrompi — você matou o basilisco e destruiu Riddle.
- É, mas se Fawkes não tivesse aparecido, eu...
- Terceiro ano — disse Rony, ainda mais alto — , você enfrentou e pôs para correr uns cem Dementadores de uma vez só...
- Você sabe que aquilo foi por acaso, se o Vira-tempo não tivesse...
- No ano passado — continuei, agora quase aos gritos — , você tornou a enfrentar Você-Sabe-Quem...
- Escutem aqui! — disse Harry, quase com raiva, e eu aposto que é porque agora nos três, Rony, Hermione e eu, estávamos rindo tolamente. — Querem me escutar um instante? Parece muito legal quando vocês falam, mas foi tudo sorte: metade do tempo eu nem sabia o que estava fazendo, não planejei nada, fiz apenas o que me ocorreu na hora, e quase sempre tive ajuda...
Continuávamos a rir tolamente, e a irritação de Harry pareceu começar a crescer, porque este garoto está com raiva afinal?
- Não fiquem aí sentados com esse sorriso bobo como se soubessem mais do que eu, era eu quem estava lá, ou não? — perguntou, indignado. — Eu sei o que aconteceu, está bem? E não me safei de nada porque era genial em Defesa Contra as Artes das Trevas, me safei porquê... porque recebi ajuda na hora certa ou porque tive um palpite certo... mas fiz tudo às cegas, não tinha a menor ideia do que estava fazendo... E PAREM DE RIR!
A tigela de essência de murtisco caiu no chão e se partiu. Percebi que estava em pé. Bichento disparou para baixo de um sofá. O meu sorriso foi sumindo aos poucos.
- Vocês não sabem como é! Vocês, nenhum dos três, vocês nunca tiveram de encarar Voldemort, não é? Vocês pensam que é só decorar uma pá de feitiços e lançar contra ele, como se estivessem na sala de aula ou coisa parecida? O tempo todo você sabe que não tem nada entre você e a morte a não ser o seu... o seu cérebro ou sua garra ou o que seja... como se alguém pudesse pensar direito quando sabe que está a um nanossegundo de ser morto ou torturado, ou está vendo seus amigos morrerem... nunca nos ensinaram isso nas aulas, como é que se lida com essas coisas... e vocês três ficam aí sentados, achando que sou um garotinho sabido por estar em pé aqui, vivo, como se Diggory fosse burro, como se tivesse feito besteira; vocês não entendem, podia muito bem ter sido eu, e teria sido se Voldemort não precisasse de mim...
- Não estávamos falando nada disso, cara — disse Rony, estupefato. — Não estávamos falando mal do Diggory, não... você entendeu tudo ao contrário... - Ele olhou desamparado para Hermione, cujo rosto exibia uma expressão de choque.
- Harry — disse ela timidamente —, você não está vendo? É por isso... por isso mesmo que precisamos de você... precisamos saber como é realmente... enfrentar ele... enfrentar o V-Voldemort.
Era a primeira vez que ela dizia o nome de Voldemort, estava na cara. Ainda ofegante, ele tornou a se sentar na poltrona.
- Bom... pense no assunto — disse Hermione baixinho. — Por favor?
Concordou com a cabeça. Hermione se levantou.
- Bom, vou me deitar — disse, no tom mais natural que pôde. — Você vem, ? - eu concordei com a cabeça, me levantando. - Hum... noite.
Rony se levantou também.
- Você vem? — perguntou, sem jeito, ao amigo.
- Vou. Num... num minuto. Vou limpar essa sujeira.
Ele indicou a tigela partida no chão. Rony assentiu com a cabeça e foi embora, junto a nós duas.

Minha noite inquieta foi mais uma vez pontuada pelos longos pesadelos com e eu acordei no dia seguinte com a minha cabeça doendo outra vez.
Eu e Hermione acabamos ficando mais próximas nas duas semanas seguintes, não gostou muito da novidade, pois não se dava muito bem com a minha companheira de dormitório, mas logo ela se acostumou. Hermione me falou que não mencionou sua sugestão para Harry ensinar Defesa Contra as Artes das Trevas durante as duas semanas inteiras. Quando, finalmente as minhas detenções com a Umbridge terminaram a cicatriz na minha mão começou a desaparecer, mas na noite anterior eu acabei recebendo mais algumas noites, e quando essas noites de detenção acabarem eu duvidava que minha mão voltasse a ser o que era antes. Rony tivera mais quatro treinos de Quadribol, eu fui assistir a todos, e não levara nenhum grito nos últimos dois, e com a ajuda de Hermione, eu já estava adiantada -assim como ela- e já tentava desaparecer gatinhos, mas na maioria das vezes eu ficava com pena e não fazia nada.
Quando o assunto foi novamente abordado, em uma noite de violenta tempestade, no final de setembro, quando nós estávamos sentados na biblioteca procurando ingredientes de poções para um dever passado por Snape.
- Eu estive me perguntando — disse Hermione, de repente — se você já voltou a pensar na Defesa Contra as Artes das Trevas, Harry.
- Claro que pensei — disse Harry rabugento —, não consigo esquecer, e não daria mesmo, com aquela megera ensinando a gente...
- Estou falando da ideia que Rony e eu tivemos... — Rony lançou a Hermione um olhar assustado e ameaçador. Ela fechou a cara para ele. — Ah, tudo bem então, a ideia que eu tive... de você nos ensinar.
Harry não respondeu imediatamente. Ficou examinando uma página de Contravenenos asiáticos, atrasando ao máximo para responder.
- Bom — disse lentamente depois de um tempo —, é, eu... pensei um pouco.
- E? — perguntei pressurosa.
- Não sei — disse o garoto e olhou para Rony.
- Achei uma boa ideia desde o começo — interveio Rony, que parecia mais interessado em entrar na conversa agora que tinha certeza de que o amigo não ia recomeçar a gritar.
Harry mexeu-se pouco à vontade na cadeira.
- Vocês prestaram atenção quando eu disse que muita coisa foi sorte?
- Prestamos, Harry — confirmou Hermione gentilmente — , mas não adianta fingir que você não é bom em Defesa Contra as Artes das Trevas, porque é. Você foi a única pessoa no ano passado que conseguiu se livrar completamente da Maldição Imperius, você é capaz de produzir um Patrono, você sabe fazer uma quantidade de coisas que bruxos adultos não conseguem, o Vítor sempre disse...
Rony se virou tão depressa para Hermione que pareceu dar um mau jeito no pescoço. Esfregando-o, falou:
- É? Que foi que o Vitinho disse?
- Ho, ho — caçoou Hermione com a voz entediada. — Disse que Harry sabia fazer coisas que nem ele sabia, e olha que estava cursando o último ano de Durmstrang.
Rony ficou olhando Hermione, desconfiado.
- Você continua em contato com ele?
- E se continuar? — perguntou Hermione, calmamente, embora seu rosto estivesse um pouco corado. — Posso ter um correspondente se...
- Ele não queria ser só seu correspondente — Rony a contradisse em tom de acusação. Hermione sacudiu a cabeça exasperada e, ignorando Rony que continuava a observá-la, dirigiu-se a Harry:
- Então, que é que você acha? Vai nos ensinar?
- Só você, e Rony, está bem?
- Bom — disse Hermione, tornando a parecer um tantinho ansiosa. — Bom... agora não vai perder as estribeiras outra vez, Harry, por favor... mas acho realmente que você devia ensinar qualquer um que quisesse aprender. Quero dizer, estamos falando em nos defender de V-Voldemort. Ah, não seja patético, Rony Não parece justo que a gente não ofereça essa oportunidade a outras pessoas.
Harry refletiu por um momento, depois disse:
- Tá, mas duvido que mais alguém além de vocês três me queira como professor. Sou pirado, lembram?
- Bom, acho que você ficaria surpreso com o número de pessoas que estariam interessadas em ouvir o que você tem a dizer — eu falei, séria. — Escute — me curvei para Harry, Hermione me imitou; Rony, que continuava a observa a Granger de cara amarrada, curvou-se para frente também para escutar —, você sabe que o primeiro fim de semana de outubro é o da visita a Hogsmeade? E se dissermos a quem estiver interessado para se encontrar com a gente na vila e discutir o assunto?
- Por que temos de fazer isso fora da escola? — perguntou Rony.
- Porque sim — respondi, voltando a minha atividade incompleta. — Acho que a Umbridge não ficaria muito feliz se descobrisse o que estamos tramando.
Eu aguardava com ansiedade a viagem de fim de semana a Hogsmeade. Olívio disse que poderia ir me ver, mas eu teria de dar um jeito de fugir dele por um tempo, teria de ir à reunião. , e confirmaram no segundo depois que eu terminei de contar a ideia se Hermione.
- Pode por meu nome na lista — disse . — Se aquela mulher não nos dá aula, vamos atrás de alguém que faça isso.
concordou com a cabeça.
- O problema é que — disse — o Olívio vem me ver no mesmo dia da reunião.
- Olíviiiiio, meu doce e amado Olívio, está vindo me visitar e pedir minha mão em casamento - debochou .
- Oh! Olívio, Olívio! Mas porque és tu Olívio? Renega o teu pai, o teu nome; ou, se o não quiseres fazer, jura apenas que me amas e deixarei eu de ser uma - ajudou, citando meu livro favorito.
- Deixem ela em paz - falou com um sorriso sacana nos lábios. Depois acrescentou. - Não ligue , eles estão com inveja, pois você e o Olívio vão ter uma tarde romântica.
- Vocês ainda conseguem me surpreender na chatice. Tchau.
O dia da visita a Hogsmeade amanheceu claro, mas ventoso. Depois do café da manhã, nos enfileiramos perante Filch, que conferiu nossos nomes na longa lista de alunos que tinham permissão dos pais ou guardiões para visitar a vila.
Quando chegou a minha vez, Filch, o zelador, me olhou longamente. Depois fez-lhe um breve aceno com a cabeça e segurou a tremedeira do queixo, e eu fui em frente, desci a escada de pedra e sai para o dia frio e ensolarado.
- Hum... por que o Filch estava olhando para você? — perguntou , quando ele, eu, e saímos pela estrada que levava aos portões.
- Imagino que estivesse admirando minha beleza — disse, fazendo graça.
E o resto do caminho eles me zoaram por estar indo me encontrar com o Olívio.
- Ansiosa? — cochichou , entrelaçando nossos braços.
- Não — respondi, dando de ombros. — Ele é meu amigo, , é como ir me encontrar com o ou .
Nos quatro passamos entre os altos pilares de pedra, encimados pelos javalis alados, e viramos à esquerda, tomando a estrada para a vila, a força do vento fazendo os meus cabelos fustigarem meus olhos.
- Não? — disse ela, surpresa. — Bom... é que... talvez... não sei... eu achasse que você gostasse dele.
Eu neguei e ela me foi roubada por seus pensamentos durante todo o caminho até a periferia de Hogsmeade.
- Aonde é que vocês vão se encontrar, afinal? — perguntou , indo em duração ao Três Vassouras.
- Casa dos gritos.
- Ah... sério? — respondeu -perguntando- despertando do seu devaneio. — Achei que iam ficar conosco. Na verdade, achei que Olívio vinha aqui nos ver também.
Descemos a rua principal, passamos pela Zonko's — Logros e Brincadeiras, onde não me surpreendi de encontrar Fred, Jorge Weasley e Lino Jordan, passamos pelo correio, de onde as corujas saíam em intervalos regulares, e então eu virei para um lado e eles para o outro, pedindo para eu convidar Olívio para uma cerveja amanteigada com eles. Quando cheguei no local combinado, não havia ninguém, me sentei no chão e comecei a observar a casa que todos dizem ser mal assombrada até que alguém cobriu meus olhos.
- Olívio?
A pessoa me soltou e eu virei, dando de cara com um menino de olhos cor de mel, uma cópia pequena do Olívio. Chad.
- Você nunca acerta! - disse ele emburrado e apertei sua bochecha.
- Eu lhe disse, ela é muito burrinha - disse uma voz conhecida atrás de mim, não me dei ao trabalho de reclamar, só virei e pulei em um abraço.
- Como eu estava com saudades - falei e minha voz saiu abafada já que eu estava com o rosto em seu peito.
- Eu também, pequena. Eu também... - ele falou depois de beijar o topo da minha cabeça.
Ficamos conversando e rindo por um tempo até Chad dizer que queria ir na Zonko's.
- Vão vocês - falei e Olívio me olhou. - Tenho que me encontrar com umas pessoas. Podemos nos encontrar no Três Vassouras daqui uma hora?
- Tudo bem - disse Olívio, mas eu sabia que, quando tivesse a chance, ele iria me perguntar sobre aquilo e eu não poderia mentir. - Até daqui a pouco.
Chad me abraçou e seu irmão mais velho beijou minha bochecha e seguiram caminho até a loja enquanto me virava e ia até o lugar marcado.
Um letreiro maltratado de madeira estava pendurado sobre a porta, em um suporte enferrujado, com o desenho da cabeça decepada de um javali, pingando sangue na toalha branca que o envolvia. O letreiro rangia ao vento quando me aproximei rezando para que os outros três já estivessem dentro. E eu agradeci quando os vi sentados em uma mesa.
Não era nada parecido com o Três Vassouras, cujo grande bar dava a impressão de calor e reluzente limpeza. O Cabeça de Javali compreendia uma salinha mal mobiliada e muito suja, e tinha um cheiro forte, talvez de cabras.
As janelas curvas eram tão incrustadas de fuligem que pouquíssima luz solar conseguia chegar à sala, iluminada com tocos de velas postos sobre mesas de madeira tosca. O chão, à primeira vista, parecia ser de terra batida, mas, quando pisei, deu para perceber que havia pedra sob o que concluiu ser uma camada secular de sujeira acumulada. Havia um homem no bar que trazia a cabeça toda envolta em sujas bandagens cinzentas, embora ainda conseguisse engolir incontáveis copos de uma substância ardente e fumegante por uma fenda no lugar da boca; dois vultos encapuzados se achavam sentados a uma mesa junto a uma janela, eu julgaria que fossem Dementadores se não estivessem conversando com um forte sotaque de Yorkshire, e em um canto sombrio junto à lareira havia uma bruxa com um véu negro e espesso que lhe caía até os pés. Só era possível ver a ponta do seu nariz porque seu volume fazia o véu levantar um pouco. Antes de ir até eles, fui ao bar e o barman saiu de um aposento nos fundos e se aproximou. Era um velho de ar rabugento, com uma espessa cabeleira e barbas grisalhas. Era alto e magro, e vagamente familiar.
- Quê? — resmungou ele.
- Uma cerveja amanteigada, por favor — pedi.
O homem meteu a mão sob o balcão e tirou uma garrafa muito empoeirada, muito suja, e bateu-a em cima do bar.
- Obrigada - respondi enquanto lhe dava o dinheiro.
Aproximei-me dele, Rony me comprimentos com um aceno de cabeço, já a Hermione se levantou e me abraçou.
- Oi - disse Harry, me dando um sorriso de lado.
- Oi - retribui. Sentei-me na cadeira que Hermione havia puxado para mim.
Olhei para a bruxa com o pesado véu e me perguntei se aquela poderia ser a Umbridge.
- Não lhe ocorreu que a Umbridge possa estar embaixo daquilo? - perguntei a Hermione que lançou um olhar para a figura velada como se houve acabado de falar daquilo.
- A Umbridge é mais baixa do que aquela mulher — murmurou simplesmente.
Depois disso continuamos sentados, correndo o olhar ao seu redor e sem falar nada. Então, o homem com as bandagens cinzentas e sujas bateu no balcão com os nós dos dedos e recebeu mais uma bebida fumegante do barman.
- Querem saber de uma coisa? — murmurou Rony, olhando para o bar entusiasmado. — Poderíamos pedir qualquer coisa que quiséssemos aqui. Aposto como aquele sujeito nos venderia qualquer coisa, não ia nem ligar. Eu sempre quis experimentar uísque de fogo...
- Você... é... monitor — lembrou Hermione com rispidez.
- Ah — exclamou Rony, o sorriso sumindo do rosto. — É...
- Então, quem foi que você disse que viria encontrar a gente? — perguntou Harry, abrindo a tampa enferrujada da cerveja amanteigada e tomando um gole.
- Meia dúzia de pessoas — repetiu Hermione, verificando o relógio e olhando para a porta, ansiosa. — Pedi para chegarem por volta dessa hora, e tenho certeza de que todos sabem onde fica...
- Vejam, talvez sejam elas agora - falei quando a porta do pub se abrira. Uma faixa larga de poeira e luz dividiu momentaneamente o recinto, e em seguida desapareceu, bloqueada pela chegada de várias pessoas.
Primeiro entrou Neville com Dino e Lilá, seguidos de perto por Parvati e Padma Patil com Cho e uma de suas amigas risonhas, então - sozinha e parecendo tão sonhadora que poderia ter entrado por acaso, e talvez tenha sido realmente isso- Luna Lovegood; depois Katie Bell, Alicia Spinnet e Angelina Johnson, Colin e Dênis Creevey, Ernesto Macmillan, Justino Finch-Fletchley, Ana Abbott, e uma garota da Lufa-Lufa, com uma longa trança descendo pelas costas, que eu nunca tinha visto antes; três garotos da Corvinal que se chamavam Antônio Goldstein, Miguel Corner e Terêncio Boot, Gina, seguida de um garoto louro e magricela de nariz arrebitado, que reconheci com Miguel alguma coisa e, fechando a fila, Fred e Jorge Weasley com o amigo Lino Jordan, todos três carregando grandes sacolas de papel, cheias de artigos da Zonko's.
- Meia dúzia de pessoas? — exclamou Harry, rouco, para Hermione. — Meia dúzia de pessoas?
- É, bom, a ideia pareceu muito popular — respondeu Hermione, feliz. — Rony, quer puxar mais umas cadeiras para cá?
O barman congelara no ato de limpar mais um copo, com um trapo tão imundo que parecia nunca ter sido lavado. Possivelmente nunca vira seu bar tão cheio.
- Oi — disse um dos gêmeos, chegando primeiro ao bar e contando rapidamente os recém-chegados —, pode nos servir... vinte e cinco cervejas amanteigadas, por favor?
O barman o encarou por um momento, então, jogando no chão o seu trapo, irritado, como se tivesse sido interrompido no meio de alguma coisa importante, começou a passar as cervejas amanteigadas cheias de poeira de baixo para cima do balcão.
- Obrigado — disse Fred, distribuindo-as. — Pessoal, pode ir se coçando, não tenho ouro para tudo isso...
Eu observava, entorpecida, enquanto o enorme grupo apanhava as cervejas com o gêmeo e procurava moedas nos bolsos para pagá-las. Eu estava me perguntando se meus amigos vinham quando a porta se abriu de novo e três pessoinhas entraram rindo de algo. Foram até o gêmeo garçom e pegaram três cervejas, pagou a sua e pagou a sua e a de . Então eles fizeram as pazes?
Eu chamei e ela veio na minha direção, se sentando ao meu lado.
- Como foi? - perguntamos uma para a outra no mesmo momento e soltamos uma risadinha. Isso é tão a nossa cara.
Eu contei para ela como tinha sido a minha manhã enquanto pela minha visão periférica eu via os pares e trios dos recém-chegados se acomodaram em volta de nós, alguns parecendo muito excitados, outros curiosos, Luna mirando sonhadoramente o espaço. Quando todos terminaram de puxar cadeiras e se sentar, a conversa morreu. Eu e nós olhamos antes de, com todos, nos concentrar em Harry.
- Hum — começou Hermione, a voz ligeiramente mais alta do que normalmente, nervosa. — Bom... hum... oi.
Transferimos as atenções para ela, embora alguns olhares continuassem a se voltar a intervalos para Harry.
- Bom... hum... bom, vocês sabem por que estão aqui. Hum... bom, Harry, aqui, teve a ideia, quero dizer — (Harry lhe lançara um olhar cortante.) — eu tive a ideia... que seria bom se as pessoas que quisessem estudar Defesa Contra as Artes das Trevas, e quero dizer realmente estudar, sabem, e não as bobagens que a Umbridge está fazendo com a gente... — A voz de Hermione de repente se tornou mais forte e mais confiante. — Porque ninguém pode chamar aquilo de Defesa Contra as Artes das Trevas. (— Apoiado, apoiado — disse Antônio Goldstein, e Hermione pareceu se animar.) — Bom, eu pensei que seria bom se nós, bom, nos encarregássemos de resolver o problema.
Ela parou, olhou de esguelha para Harry e continuou:
- Com isso, eu quero dizer aprender a nos defender direito, não somente em teoria, mas praticando realmente os feitiços...
- Mas acho que você também quer passar no N.O.M. de Defesa Contra as Artes das Trevas, não? — perguntou Miguel Corner.
- Claro que quero — respondeu Hermione imediatamente. — Mas, mais do que isso, quero receber treinamento em defesa adequado porquê... porque... — ela tomou fôlego e concluiu — porque Lord Voldemort retornou.
A reação foi imediata e previsível. A amiga de Cho guinchou e derramou cerveja amanteigada na roupa; Terêncio Boot teve uma contração involuntária; Padma Patil se arrepiou; e Neville deu um ganido estranho, que ele conseguiu transformar em uma tossida; , que estava com a cadeira inclinada, se desequilibrou e quase caiu. Todos, porém, olharam fixamente, e até mesmo pressurosamente, para Harry.
- Bom... pelo menos este é o plano — eu disse, querendo amenizar a situação, mesmo sendo meio impossível. — Se vocês quiserem se juntar a nós, precisamos resolver como vamos...
- E cadê a prova de que Você-Sabe-Quem retornou? — perguntou o jogador louro da Lufa-Lufa, num tom bem agressivo.
- Bom, Dumbledore acredita que sim... — comecei.
- Você quer dizer que Dumbledore acredita nele — interrompeu o garoto louro, indicando Harry com a cabeça.
- Quem é você? — perguntou Rony, sem muita polidez.
- Zacarias , e acho que tenho o direito de saber exatamente o que faz você afirmar que Você-Sabe-Quem retornou.
- Olhe — respondi, intervindo rapidamente —, não foi bem para tratar desse assunto que organizamos a reunião...
- Tudo bem, — disse Harry. — O que me faz afirmar que Você-Sabe-Quem retornou? — ele repetiu a pergunta, encarando Zacarias nos olhos. — Eu o vi. Mas Dumbledore contou a toda a escola o que aconteceu no ano passado, e, se você não acreditou nele, também não vai acreditar em mim, e não vou perder a tarde tentando convencer ninguém.
O grupo inteiro pareceu ter prendido a respiração enquanto Harry falava. Eu tive a impressão de que até o barman estava ouvindo; continuara a limpar o mesmo copo com o trapo imundo, deixando-o cada vez mais sujo. Zacarias falou, mudando de tom:
- Só o que Dumbledore nos contou no ano passado foi que Cedrico Diggory foi morto por Você-Sabe-Quem, e que você trouxe o cadáver de volta a Hogwarts. Ele não nos deu detalhes, não nos contou exatamente como Cedrico foi morto, acho que todos gostariam de ouvir...
- Se você veio ouvir, exatamente, como é que Voldemort mata alguém, eu não vou poder ajudá-lo. — Harry não tirou seus olhos do rosto agressivo de Zacarias . — Não quero falar sobre Cedrico Diggory, está bem? Portanto, se é para isto que você veio, é melhor ir embora.
- Então — recomeçou Hermione, com a voz novamente muito esganiçada. — Então, como ia dizendo... se vocês quiserem aprender alguma defesa, então precisamos resolver como vamos fazer isso, com que freqüência vamos nos encontrar e aonde vamos nos...
- É verdade — interrompeu a garota, com a longa trança nas costas, olhando para Harry — que você é capaz de produzir um Patrono?
Correu um murmúrio de interesse pelo grupo quando ela disse isso.
- Sou — confirmou Harry, ligeiramente na defensiva.
- Um Patrono corpóreo?
- Hum... você conhece Madame Bones? — perguntou ele. A garota sorriu.
- É minha tia. Sou Susana Bones. Ela me contou como foi a sua audiência. Então... é verdade mesmo? Você conjura um Patrono em forma de veado?
- Conjuro.
- Caramba, Harry! — exclamou Lino, parecendo profundamente impressionado. — Eu não sabia disso!
- Mamãe disse a Rony para não espalhar — comentou o gêmeo garçom, sorrindo para Harry. — Disse que Harry já chamava muita atenção sem isso.
- Ela não está errada — murmurei, e algumas pessoas deram risadas. A bruxa de véu, sentada sozinha, mexeu-se ligeiramente na cadeira.
- E você matou um basilisco com aquela espada que fica na sala de Dumbledore? — perguntou Terêncio Boot. — Foi o que um dos quadros na parede me contou quando estive lá no ano passado...
- Hum... é, matei, sim.
Justino Finch-Fletchley assobiou, os irmãos Creevey se entreolharam, assombrados, e Lilá Brown exclamou baixinho: "Uau!".
- E no nosso primeiro ano — contei ao grupo — , ele salvou a Pedra Filosofal das mãos de Você-Sabe-Quem — conclui. Harry me olhou e me lançou seu sorriso de lado -o qual ele só lançava para mim- discretamente. E, assustada, descobri que gostava daquele sorriso. Resolvi parar de pensar naquele assunto e olhei para Ana Abbott, e senti vontade de ri quando vi que seus olhos estavam redondos como dois galeões.
- E isso para não mencionar — disse Cho (já falei que não gosto dela?) — todas as tarefas que ele precisou realizar no Torneio Tribruxo no ano passado: passar por dragões, sereianos e acromântulas e outros seres...
Houve um murmúrio de concordância favorável em torno da mesa.
- Escutem — disse ele e todos silenciaram na mesma hora —, não quero parecer que estou tentando ser modesto nem nada, mas... tive muita ajuda em tudo que fiz...
- Não, com o dragão você não teve — disse Miguel Corner imediatamente. — Aquilo foi um vôo super irado...
- É... bom — concordou Harry, sentindo que seria grosseiro discordar.
- E ninguém ajudou você a se livrar dos Dementadores, agora no verão — disse Susana Bones.
- Não — concordou Harry —, não, o.k., eu sei que fiz algumas coisas sem ajuda, mas o que estou tentando dizer é que...
- Você está tentando fugir do compromisso de nos mostrar tudo isso? — perguntou Zacarias.
- Tenho uma ideia — disse Rony em voz alta, antes que Harry pudesse falar —, por que você não cala a boca?
- Ora, todos viemos para aprender com Harry, e agora ele está dizendo que, no duro, não sabe fazer nada disso.
- Não foi isso que ele disse — reagi.
- Quer que a gente limpe seus ouvidos para você? — perguntou o outro gêmeo, tirando um longo instrumento metálico de aspecto letal, de dentro de uma das sacas da Zonko's. - Ou enfie isso em qualquer outra parte do seu corpo, para falar a verdade, não somos muito luxentos — acrescentou o gêmeo garçom enquanto seu irmão piscava para mim.
- Bom — disse Hermione depressa —, continuando... a questão é: estamos de acordo que queremos tomar aulas com o Harry?
Houve um murmúrio de aprovação geral. Zacarias cruzou os braços e se manteve calado, talvez porque estivesse ocupado demais em prestar atenção ao instrumento na mão do gêmeo garçom.
- Certo — disse Hermione, parecendo aliviada de que alguma coisa tivesse sido finalmente decidida. — Bom, então, a próxima questão é: com que frequência vamos ter essas aulas? Na verdade, eu acho que não adianta nada nos encontrarmos menos de uma vez por semana...
- Calma aí — disse Angelina —, precisamos ter certeza de que não vão se chocar com o nosso treino de Quadribol.
- Não — disse Cho —, nem com o nosso.
- Nem com o nosso — acrescentou Zacarias.
- Tenho certeza de que vamos encontrar uma noite que sirva para todos — disse Hermione, com leve impaciência —, mas, sabem, as aulas são muito importantes, estamos falando de aprender a nos defender dos Comensais da Morte de V-Voldemort...
- Muito bem! — bradou Ernesto Macmillan. — Pessoalmente, eu acho que as aulas são realmente importantes, possivelmente mais importantes do que qualquer outra coisa que vamos fazer este ano, até mesmo os N.O.M.s que vêm aí!
Ernesto olhou para os lados ostensivamente, como se esperasse que os colegas fossem gritar: "Claro que não são!", mas ninguém disse nada, então ele continuou:
- Pessoalmente, não consigo entender por que o Ministério nos impingiu uma professora inútil como essa, em um período tão crítico. É óbvio que se recusam a admitir o retorno de Você-Sabe-Quem, mas daí a nos mandar uma professora que está tentando nos impedir por todos os meios de usar feitiços defensivos...
- Nós achamos que a razão por que Umbridge não quer que treinemos Defesa Contra as Artes das Trevas — disse Hermione — é que ela tem uma ideia alucinada de que Dumbledore pode usar os alunos da escola como um exército particular. Acha que ele poderia fazer uma mobilização contra o Ministério.
Quase todos pareceram perplexos com essa notícia: todos, exceto Luna, que começou a falar:
- Bom, isso faz sentido. Afinal de contas, Cornélio Fudge tem um exército particular.
- Quê? — exclamou Harry, completamente perturbado com a inesperada informação.
- E, ele tem um exército de heliopatas — confirmou ela, solenemente.
- Não, não tem — retorquiu Hermione com rispidez.
- Tem sim.
- E o que são heliopatas? — perguntou Neville, sem entender.
- São espíritos do fogo — explicou Luna, arregalando os olhos saltados e parecendo mais maluca que nunca, e eu adorei — , figuras altas, grandes e flamejantes que galopam pela terra queimando tudo que encontram...
- Isso não existe, Neville — disse Hermione com azedume.
- Ah, existe, existe, sim! — repetiu Luna, zangada.
- Me desculpe, mas onde está a prova de que existe? — retorquiu Hermione.
- Há muitos depoimentos de testemunhas oculares. Só porque você tem a mentalidade tão tacanha que precisa que se enfie as coisas embaixo do seu nariz...
- Hem, hem — fez Gina, numa imitação tão perfeita da Profª Umbridge, que várias pessoas se viraram assustadas, mas em seguida caímos na gargalhada. — Nós não estávamos decidindo quantas vezes vamos nos encontrar para tomar aulas de defesa?
- Estávamos — disse Hermione na mesma hora — , sim, estávamos, você tem razão, Gina.
- Bom, uma vez por semana parece legal — sugeriu Lino.
- Desde que... — começou Angelina.
- Tá, tá, o treino de Quadribol — disse Hermione em tom tenso. — Bom, a outra coisa é decidir onde vamos nos encontrar...
Isso já era mais difícil; o grupo todo se calou.
- Na biblioteca? — sugeriu Katie Bell, após alguns instantes.
- Não consigo imaginar Madame Pince muito satisfeita vendo a gente fazer azarações na biblioteca — eu disse.
- Talvez uma sala fora de uso? — sugeriu Dino.
- É — concordou Rony. — Talvez a McGonagall nos ceda a sala dela, já fez isso quando Harry estava praticando para o Tribruxo.
Mas eu tinha certeza de que, desta vez, McGonagall não seria tão cordata. Apesar de tudo que Hermione dissera sobre a legalidade de estudos e trabalhos em grupo, eu tinha a nítida impressão de que esta atividade poderia ser considerada muito mais rebelde. Ela vasculhou a bolsa e tirou um pergaminho e uma pena, então hesitou, como se estivesse criando coragem para dizer alguma coisa.
- Acho... acho que todos deviam escrever seus nomes para sabermos quem está presente. Mas acho também — e inspirou profundamente — que todos devemos concordar em não sair por aí anunciando o que estamos fazendo. Então, se vocês assinarem estarão concordando em não contar a Umbridge nem a mais ninguém o que pretendemos fazer.
Eu estendi a mão para o pergaminho e o assinei com animação, depois passei para o gêmeo não garçom que me lançou um piscar de olhos e um sorriso encantador, eu retribui sem excitar.
- Hum... — disse Zacarias lentamente, sem receber o pergaminho que o outro gêmeo tentava lhe passar — , bom... tenho certeza de que Ernesto vai me avisar quando souber da reunião.
Mas Ernesto parecia bem hesitante em assinar, também. Hermione ergueu as sobrancelhas para ele.
- Eu... bom, nós somos monitores — desabafou. — E se descobrirem essa lista... bom, quero dizer... você mesma disse, se a Umbridge descobrir...
- Você acabou de dizer ao grupo que era a coisa mais importante que você ia fazer este ano — lembrou-lhe Harry.
- Eu... certo — disse Ernesto — , acredito realmente nisso, só que...
- Ernesto, você realmente acha que eu deixaria essa lista largada por aí? — perguntou Hermione, irritada.
- Não. Não, claro que não — disse Ernesto, perdendo um pouco da ansiedade. — Eu... é claro, vou assinar.
Ninguém mais fez objeções depois de Ernesto, embora eu tenha visto a amiga de -argh!- Cho lançar a ela um olhar de censura, antes de acrescentar o nome à lista. Quando a última pessoa — Zacarias — assinou, Hermione recolheu o pergaminho e guardou-o com cuidado na bolsa. Havia um clima estranho no grupo agora. Era como se tivessem acabado de assinar uma espécie de contrato.
- Bom, o tempo está correndo — disse o gêmeo garçom com vivacidade, ficando em pé. - Jorge, Lino e eu temos uns artigos de natureza delicada para comprar, veremos vocês depois.
Novamente em trios e pares, o restante do grupo também se despediu. Eu, , e seguimos para o Três Vassouras para nos encontrar com Olívio.


Capítulo 5

Eu me senti mais feliz pelo resto do fim de semana, do que me lembrava de ter me sentido desde o começo das aulas. Eu, Hermione e , passamos a maior parte do domingo conversando sobre coisas de garotas no jardim, junto aos meninos, que recuperavam o atraso dos deveres, todos recostados à sombra de uma frondosa faia à margem do lago, para aproveitar a despedida do sol outonal. Nos -garotas-, que estávamos em dia com os deveres, enquanto conversávamos, fazíamos gorros e cachecóis com os novelos de lã que Granger levou, mas em algum momento desistimos então encantamos as agulhas de tricô, que clicavam e brilhavam no ar ao nosso lado, produzindo mais gorros e cachecóis.
Aquele final de semana tinha sido o melhor e mais surpreendente, o Olívio namorar não é um coisa que acontece todo dia, mas fiquei muito feliz por ele. E tinha as aulas de DCAT, que, apesar de tudo o que Hermione falou, todos sabem que é um grupo de resistência contra a Umbridge também.
E foi com um grande sorriso que fui me deitar aquela noite.
Eu e Hermione ainda estávamos conversando na minha cama sobre besteiras, na manhã seguinte, quando ouvimos a buzina alta e triste e que indicava que um menino tentara subir no dormitório feminino, trocamos um olhar e corremos para ver quem tinha tentado.
- Hermione pode ir ao nosso dormitório, como é que não podemos...? - ouvimos Rony falar e soltamos uma risada.
- Bom, é uma regra antiquada — disse Hermione, quando acabamos de escorregar tranquilamente até eles, sentadas em um tapete, e agora nos levantávamos. — Mas Hogwarts: Uma História, conta que os fundadores acharam que os meninos mereciam menos confiança do que as meninas.
- Em todo o caso, por que vocês estavam tentando entrar lá? - encerrei aquele assunto.
- Para falar com vocês... venham ver isso! — disse Rony, nos arrastando até o quadro de avisos.
Assim que eu vi percebi que não era nada bom.

POR ORDEM DA ALTA INQUISIDORA DE HOGWARTS
Todas as organizações, sociedades, times, grupos e clubes estudantis estão doravante dissolvidos.
Uma organização, sociedade, um time, grupo ou clube é aqui definido como uma reunião regular de três ou mais estudantes.
A permissão para reorganizá-los deverá ser solicitada à Alta Inquisidora (Profª Umbridge).
Nenhuma organização, sociedade, nenhum time, grupo ou clube estudantil, poderá existir sem o conhecimento e a aprovação da Alta Inquisidora.
O estudante que tiver organizado ou pertencer a uma organização, sociedade, um time, grupo ou clube não aprovado pela Alta Inquisidora, será expulso.
O acima disposto está em conformidade com o Decreto da Educação Número Vinte e Quatro
Assinado: Dolores Joana Umbridge, Alta Inquisidora.


- Alguém deve ter contado à ela! — disse Rony, zangado.
- Não podem ter feito isso — contestou Hermione, em voz baixa.
- Você é tão ingênua! Acha que só porque é honrada e digna de confiança...
- Não, eles não podem ter feito isso, porque lancei um feitiço no pergaminho que todos assinamos — disse Hermione, séria. — Pode crer, se alguém foi correndo contar a Umbridge, nós saberemos exatamente quem foi, e a pessoa vai realmente se arrepender.
- Que é que vai acontecer? — perguntou Rony, ansioso.
- Bom, vamos dizer que a acne da Heloísa Midgeon vai parecer umas sardas engraçadinhas. Anda, vamos descer para tomar café e ver o que os outros acham... Será que isso foi afixado em todas as casas? - Hermione falou.
Ficou imediatamente óbvio quando entramos no Salão Principal que o aviso de Umbridge não aparecera apenas na Torre da Grifinória. Havia uma intensidade peculiar nas conversas, e uma multiplicação das idas e vindas de alunos correndo às mesas e se consultando sobre o que haviam lido. Nós tínhamos acabado de sentar quando Neville, Dino, os gêmeos - um deles se sentou ao meu lado- e Gina, caíram em cima de nos.
- Vocês viram?
- Acham que ela sabe?
- Que vamos fazer?
Todos olhavam para Harry. Ele passou os olhos pelo salão para ter certeza de que não havia professores por perto.
- Claro que vamos continuar do mesmo jeito — confirmou em voz baixa.
- Eu sabia que você ia dizer isso — disse o gêmeo ao meu lado, abrindo um grande sorriso e dando pancadinhas no braço de Harry, e piscou seu olho direito para mim.
- Os monitores também? — perguntou o outro gêmeo, olhando curioso para Rony e Hermione.
- Claro — disse Hermione, calmamente.
- Aí vêm Ernesto e Ana Abbott — disse Rony, olhando por cima do ombro.
- E aqueles caras da Corvinal e Smith... E nenhum deles parece ter marcas no rosto. - falei.
Hermione teve uma reação de alarme.
- Esqueça as marcas, os idiotas não podem vir aqui agora, vai parecer realmente suspeito; vão sentar! — vociferou Hermione para Ernesto e Ana, fazendo gestos frenéticos para voltarem à mesa da Lufa-Lufa. — Mais tarde! Falaremos... com... vocês... depois!
- Vou dizer ao Miguel — disse Gina, impaciente, deslizando para fora do banco. — O boboca, francamente...
Eu me levantei da mesa no mesmo momento que Gina ia até a mesa da Cornival.
- Tenho que ir. Preciso pegar um livro na biblioteca e tenho certeza que está me esperando lá. Até daqui a pouco.
Rony concordou com a cabeça, Hermione sorriu e os outros acenaram com a cabeça. Harry me lançou seu sorriso de lado e o gêmeo ao meu lado se levantou.
- Posso ir com você? - todos olharam confusos para ele, até mesmo seu irmão. - Tenho... tenho que pegar um livro.
Eu concordei com a cabeça, ainda desconfiava, os gêmeos Weasley nunca pisavam na biblioteca a não ser para fazer alguma piadinha.
Saímos do Salão Principal, acabou que não estava me esperando, então seguimos até a metade do caminho em silêncio, mas aquela situação estava me incomodando um pouco.
- Pegar um livro? Você tinha desculpas melhores.
- Foi tão na cara assim?
Eu ri.
- Foi como se um elefante tivesse aparecido.
Ele fez careta e depois riu. Então puxou um assunto qualquer, mas eu sabia que ele só estava tentando mudar de assunto. Quando chegamos na porta daquele paraíso, me virei para ele.
- Se quiser ir embora, pode ir.
- De verdade? Odeio esse lugar, ele me lembra que eu tenho que - ele parou e me olhou assustado. - Estudar.
Eu ri e neguei com a cabeça.
- Tudo bem, então - falei e fiquei na ponta dos pés para lhe dar um beijo na bochecha. - Tchau.

Quando entrei na sala, Binns estava flutuando alguns centímetros acima de sua cadeira, como sempre, preparando-se para continuar sua monótona lengalenga sobre a guerra dos gigantes e me sentei ao lado de Hermione.
Eu estava prestando atenção na aula, mesmo morrendo de sono, quando vi uma sombra branca passar voando por uma janela e logo depois ouvi um barulho numa janela próxima. Olhei e era Edwiges, a coruja de Harry, eu só não entendia o que ela fazia ali, já que o correio havia passado momentos antes.
Chamei Hermione e mostrei a coruja à ela, com o intuito dela falar ao Harry, e agradeci mentalmente por ela ser tão inteligente, aposto que se fosse o Rony, eu iria ter que explicar duas vezes e no final eu mesma iria chamar o Potter.
- Ah, eu sempre adorei essa coruja, é tão linda — ouvi uma das garotas que divide o dormitório comigo suspirar para uma outra.
Olhei para o Prof. Binns, que continuava a ler suas anotações, serenamente inconsciente de que a atenção da turma estava ainda menos concentrada nele do que o normal. Quando voltei meu olhar a Harry, ele já tinha saído da carteira e percorria a fila até a janela, onde soltou o trinco, e a abriu muito devagarinho. No instante em que a janela abriu o suficiente, ela pulou para dentro, piando triste. Ele fechou a janela lançando um olhar ansioso ao Prof. Binns, tornou a se abaixar e a voltar correndo para sua carteira, com Edwiges ao ombro. Sentou-se de novo, transferiu a coruja para o colo e fez menção de remover a carta amarrada à sua perna.
- Ela está ferida! — sussurrou Harry, curvando-se para a ave. Eu, Rony e Hermione nos inclinamos para mais perto; Hermione chegou até mesmo a descansar a pena. — Olhem... tem alguma coisa errada com a asa dela...
Edwiges estava tremendo; quando Harry fez menção de tocar sua asa, ela se assustou, eriçando as penas como se estivesse se enchendo de ar, e deu ao dono um olhar de censura.
- Prof. Binns — chamou Harry em voz alta, e todos na classe se viraram para olhá-lo. — Não estou me sentindo bem.
O professor ergueu os olhos de seus papéis, parecendo espantado, como sempre, de ver diante dele uma sala cheia de gente.
- Não está se sentindo bem? — repetiu nebulosamente.
- Nada bem — disse Harry com firmeza, levantando-se com Edwiges escondida às costas. — Acho que preciso ir à ala hospitalar.
- Sei — disse o professor, nitidamente muito constrangido. — Sei... sei, ala hospitalar... bem, vá então, Perkins...
Preciso dizer que nós três não prestamos mais atenção num minuto daquela aula?
Quando a aula acabou fomos atrás de Harry e quando o achamos, ele estava no pátio. Paramos em um canto abrigado, nossas golas das capas viradas para cima para nos proteger do vento.
- Edwiges está bem? — perguntei ansiosa, assim que a distância permitiu que ele me ouvisse.
- Aonde foi que você a levou? — perguntou Rony.
- Para a Grubbly-Plank. Encontrei a McGonagall... escutem...
Quando ele começou a contar me afastei, pois, de um modo estranho, me senti uma intrusa, eu não sabia os segredos deles, afinal, porque deveria? Até algum tempo atrás eu nem gostava deles. E eu descobri, ainda assustada, que não gostava do que estava sentido. Corri para o banheiro feminino do segundo andar, onde a Murta-Que-Geme tinha sido morta. Entrei na segunda cabine e chorei.
Não apareci nas aulas seguintes, nem no almoço, nem nas aulas depois do almoço e nem no jantar. E enquanto todos estavam ocupados comendo, corri parar meu quarto, me arrumei e fui me deitar. Chorar me dava sono. Mas minha noite foi inquieta e angustiante.

Depois que os encontros da AD começaram, estive tendo menos pesadelos que nas duas semanas anteriores, um segredo luminoso que me ajudou até mesmo a suportar as aulas de Umbridge. A AD estavam resistindo debaixo do nariz dela, fazendo exatamente o que Umbridge e o Ministério mais temiam, e sempre que devia estar lendo o livro de Wilberto Slinkhard, durante as aulas, eu me pegava lembrando das agradáveis reuniões, revendo como consegui executar um Feitiço Redutor com tanta perfeição, que reduzi a pó a mesa em que estavam os bisbilhoscópios. Estava quase impossível fixar uma noite por semana para as reuniões da AD, porque precisavam acomodar os treinos de três equipes de quadribol diferentes, em geral, remarcadas por causa das más condições do tempo; mas eu não lamentava todas as noites que não tinha reunião, eu ia para a biblioteca e ficava lendo sobre feitiços defensivos ou então levava os livros para meu dormitório e ficava treinando por lá; sentia que estava me saindo muito melhor.
Hermione não tardou a inventar um método muito inteligente de comunicar o dia e a hora da reunião seguinte a todos os membros, caso precisassem mudá-los de um momento para o outro, porque pareceria suspeito se os alunos das diferentes Casas fossem vistos atravessando o Salão Principal para conversar uns com os outros com muita frequência. Ela deu a cada membro da AD um galeão falso (Rony ficou muito excitado quando viu a cesta de moedas e convenceu-se de que Hermione estava realmente distribuindo ouro).
- Vocês estão vendo os números na borda das moedas? — explicou Hermione ao final da quarta reunião, erguendo uma para mostrar. A moeda brilhava maciça e amarela à luz dos archotes. — Nos galeões verdadeiros, este é apenas o número de série referente ao duende que cunhou a moeda. Mas, nas moedas falsas, os números vão ser trocados para informar o dia e a hora da reunião seguinte. As moedas ficarão quentes quando a data mudar, então se vocês as carregarem no bolso, poderão sentir. Cada um vai levar uma, e quando Harry mudar os números na moeda dele, porque eu usei um Feitiço de Proteu, todas mudarão para se igualar a dele.
Um silêncio total acolheu suas palavras, e Hermione olhou desapontada os rostos que a encaravam.
- Bom... achei que era uma boa ideia — disse insegura. — Quero dizer, mesmo que a Umbridge nos mande virar os bolsos pelo avesso, não há nada suspeito em carregar um galeão, há? Mas... bom, se vocês não quiserem usar as moedas...
- Você sabe fazer um Feitiço de Proteu? — admirou-se Terêncio Boot.
- Sei.
- Mas isso... isso é nível de N.I.E.M. — comentou pouco convencido.
- Ah — respondeu Hermione, tentando parecer modesta. — Ah... bom... é, suponho que seja.
- Como é que você não pertence à Corvinal? — perguntou Boot, fixando-a com um olhar próximo ao assombro. — Com uma inteligência dessa?
- Bom, o Chapéu Seletor pensou seriamente em me mandar para Corvinal — contou Hermione animada —, mas acabou se decidindo pela Grifinória. Então, isso quer dizer que vamos usar os galeões?
Houve um murmúrio de concordância e todos se adiantaram para apanhar uma moeda na cesta.
- Sabe o que essas moedas me lembram? - Harry comentou.
- Não, o quê?
- As cicatrizes dos Comensais da Morte. Voldemort toca em uma delas e todas ardem, e seus seguidores sabem que devem se reunir a ele.
- Bom... é — disse Hermione em voz baixa, que eu só pude ouvir por estar perto. — Foi de onde copiei a ideia... mas você vai notar que decidi gravar a data em metal em vez de gravá-la na pele dos nossos colegas.
- É... prefiro do seu jeito — disse Harry, sorrindo ao enfiar a moeda no bolso.
- Imagino que o único perigo é que a gente possa gastar a moeda sem querer - falei.
- Não tem a menor chance — disse Rony, que estava examinando o seu galeão falso com tristeza —, não tenho um galeão verdadeiro para confundir com este.
Quando o primeiro jogo da temporada, Grifinória contra Sonserina, começou a se aproximar, as reuniões da AD foram suspensas por que Angelina insistiu em fazer treinos quase diários. O fato de que a Copa de Quadribol não se realizava havia tanto tempo que, aumentava o interesse e a excitação que cercava o próximo jogo; os alunos da Corvinal e da Lufa-Lufa estavam vivamente interessados no resultado, porque eles, é claro, estariam jogando com as duas equipes no ano seguinte; e os diretores das Casas das equipes competidoras, embora tentassem disfarçar sob um falso espírito esportivo, estavam decididos a ver o seu próprio time vitorioso. Percebi o quanto a Profª McGonagall queria derrotar a Sonserina, quando ela se absteve de passar dever de casa na semana que antecedeu ao jogo e eu a agradeci intensamente por isso.
- Acho que no momento já temos muito com que nos ocupar — disse com altivez. Ninguém quis acreditar no que estava ouvindo até vê-la olhando diretamente para Harry e Rony, e dizer muito séria: — Me acostumei a ver a Taça de Quadribol na minha sala, rapazes, e realmente não quero ser obrigada a entregá-la ao Prof. Snape, então usem o tempo extra para treinar, sim?
Snape não foi um partidário menos óbvio; reservou o campo de Quadribol para a Sonserina com tanta freqüência, que a equipe da Grifinória teve dificuldade em encontrá-lo livre para treinar. Fazia-se também de surdo com relação às muitas queixas de que os alunos da Sonserina estavam tentando azarar os jogadores da Grifinória nos corredores da escola. Quando Alicia Spinnet apareceu na ala hospitalar com as sobrancelhas crescendo tão densa e rapidamente que obscureciam sua visão e tampavam sua boca, Snape insistiu que a garota devia ter experimentado nela mesma um Feitiço para Engrossar os Cabelos, e se recusou a ouvir as catorze testemunhas - onde eu era uma delas - que confirmavam ter visto o goleiro da Sonserina, Milo Bletchley, lançar o feitiço nas costas da garota quando ela estava estudando na biblioteca.
Eu, mesmo entendendo pouco, sabia que a Grifinória tinha uma boa chance de ganhar aquele jogo, a minha única preocupação real era que Rony estava deixando que as táticas da Sonserina o perturbassem mesmo antes de entrarem em campo. Harry, naturalmente, aturava os comentários maldosos deles havia mais de quatro anos, por isso, murmúrios como: "Oi, Potty, ouvi dizer que Warrington jurou derrubar você da vassoura no sábado", em vez de gelar seu sangue, o faziam rir. "A pretensão de Warrington é tão patética, que eu ficaria mais preocupado se ele estivesse mirando na pessoa ao meu lado", retrucava ele, o que fazia com que eu, Rony e Hermione gargalhássemos e apagava o sorriso presunçoso da cara de Pansy Parkinson.
Eu passava boa parte do meu tempo livre na biblioteca, estudando ou fazendo meus deveres, mas parecia que os alunos da Sonserina acreditavam que mexendo comigo, o time da minha casa ficaria abalado, vai entender. Um dia eu estava sozinha na biblioteca quando duas garotas mais velhas apareceram, fazendo gracinhas:
- Ouvi dizer que ela é a nova paixonite do Potter, eu posso até odiá-lo, mas tenho que admitir, ele merecia algo melhor.
Mas eu só as ignorava, não tinha graça brigar com pessoas tão baixas quanto elas.
Outubro terminou numa investida de ventos uivantes e chuvas impiedosas, e novembro chegou, frio como uma barra de ferro congelada, com espessas geadas matinais e correntes de ar cortantes, que queimavam as mãos e os rostos desprotegidos. O céu e o teto do Salão Principal estavam um perolado cinza pálido, os picos das montanhas que cercavam Hogwarts, cobertos de neve, e a temperatura do castelo caíra tanto, que muitos estudantes - como eu - usavam grossas luvas de pele de dragão para se proteger quando saíam para os corredores no intervalo das aulas. E a manhã do jogo alvoreceu clara e fria.
O Salão Principal estava se enchendo depressa quando chegamos, a conversa mais alta e o clima mais exuberante do que o normal. Quando passamos pela mesa da Sonserina, o barulho aumentou. Olhei e vi que, além dos habituais cachecóis e gorros verde-e-prata, cada um deles estava usando um distintivo prateado, que, na forma, lembrava uma coroa. Por alguma razão, muitos deles acenaram para Rony, às gargalhadas. Eu tentei ver o que estava escrito nos distintivos, mas Harry estava tão preocupado em fazer Rony passar rápido pela mesa, que acabou me puxando também.
Os dois foram recebidos entusiasticamente na mesa da Grifinória, onde todos usavam vermelho-e-ouro, mas, em lugar de animar Rony, os vivas pareceram acabar de minar o seu moral; ele se largou no banco mais próximo, parecendo estar diante da última refeição da vida.
- Eu devia estar maluco quando fiz isso — disse num sussurro rouco. — Maluco.
- Não seja tapado — disse Harry com firmeza, passando-lhe uma seleção de cereais —, você vai ficar ótimo. É normal se sentir nervoso.
- Sou uma meleca — crocitou ele em resposta. — Sou um trapalhão. Não sou capaz de jogar nem para salvar a pele. Onde é que eu estava com a cabeça?
- Controle-se — disse Harry com severidade. — Olhe aquela defesa que você fez com o pé ainda outro dia, até o Fred e o Jorge disseram que foi genial.
Rony voltou um rosto torturado para Harry e para mim.
- Aquilo foi por acaso — sussurrou infeliz. — Não era minha intenção, escorreguei da vassoura quando vocês não estavam olhando e, quando tentei me endireitar, chutei acidentalmente a goles.
- Bom — disse Harry recuperando-se rapidamente da desagradável surpresa, enquanto eu ainda estava com os olhos arregalados — mais alguns acasos iguais àquele e o jogo está no papo, não acha?
Hermione e Gina sentaram-se de cada lado do meu corpo usando cachecóis, luvas e rosetas vermelho-e-ouro.
- Como é que você está se sentindo? — Gina perguntou a Rony, que agora contemplava o resto de leite no fundo da tigela vazia de cereal, como se considerasse seriamente a possibilidade de se afogar ali.
- Ele está só nervoso — eu disse.
- Bom, é um bom sinal, acho que a pessoa nunca se sai tão bem nos exames se não estiver um pouco nervosa — disse Hermione com entusiasmo.
- Alô — cumprimentou uma voz vaga e sonhadora às nossas costas.
Eu olhei: Luna Lovegood viera da mesa da Corvinal. Muitos estudantes a seguiam com os olhos, alguns davam gargalhadas e a apontavam sem disfarces; Luna conseguira arranjar um chapéu em forma de cabeça de leão em tamanho natural, e o colocara precariamente na cabeça. E eu o adorei.
- Estou torcendo pela Grifinória — disse, apontando sem necessidade para o chapéu. — Olhe só o que ele faz...
Ela ergueu a mão e deu um toque de varinha no chapéu. O leão escancarou a boca e soltou um rugido extremamente real, que sobressaltou todos que estavam por perto.
- Que demais, Luna - eu falei, sorrindo para ela.
- É ótimo, não é? — disse Luna, feliz. — Eu queria que ele estivesse mastigando uma cobra para representar a Sonserina, entendem, mas o tempo foi pouco. Em todo o caso... boa sorte, Ronald!
Ela se afastou como se flutuasse. Os garotos ainda não tinham se recuperado do choque que fora o chapéu de Luna quando Angelina se aproximou correndo, acompanhada por Katie e Alicia, cujas sobrancelhas tinham sido misericordiosamente restauradas por Madame Pomfrey.
- Quando vocês estiverem prontos — disse ela —, vamos direto para o campo, verificar as condições e trocar de roupa.
- Estaremos lá daqui a pouco — Harry a tranquilizou. — O Rony precisa comer alguma coisa.
Mas, passados dez minutos, ficou claro que Rony não conseguiria comer mais nada, e Harry achou melhor levá-lo para os vestiários. Ao se levantarem da mesa, eu e Hermione os acompanhamos, e ela, segurando o braço de Harry, puxou-o para um lado.
- Não deixe Rony ver o que tem naqueles distintivos do pessoal da Sonserina — cochichou pressurosa.
Eu e Harry a olhamos curiosos, mas ela sacudiu a cabeça num gesto de aviso; Rony vinha em nossa direção, parecendo perdido e desesperado.
- Boa sorte, Rony — disse Hermione, ficando na ponta dos pés e lhe dando um beijo na bochecha. — E para você também, Harry...
- É, boa sorte - dei um beijo na bochecha de cada um.
Saí do Salão Principal primeiro que eles, estava atrás de um certo ruivo, irmão de Rony quando senti alguém tapar minha visão.
- Por que as pessoas gostam de fazer tanto isso em mim? Eu nunca acerto mesmo.
- Calma aí, Srta. Sou Bravinha - disse Jorge - é, eu finalmente aprendi a diferenciar -, tirando sua mãos do meu rosto.
- Desculpe - sorri enquanto falava. - Estava te procurando.
- Encontrou, pode falar.
- Só queria lhe desejar boa sorte, faça um estrago naqueles caras.
- Pode deixar comigo - ele bateu continência e nós rimos.
- Você é um idiota.
- Jorge, vamos, já estamos atrasados - gritou Fred, de longe. - Oi, .
- Oi, Fred.
- Tenho que ir.
- Boa sorte - falei e fiz o mesmo com ele, lhe dando um beijo na bochecha. - Acaba com eles.
Encontrei o e o na descida da escada de pedra, e, juntos, saímos para o ar gelado.
A grama coberta de gelo produzia um ruído de trituração sob meus pés ao caminhar pelos gramados em direção ao estádio. Não havia vento algum e o céu estava um branco perolado uniforme, o que significava que a visibilidade seria boa, sem o transtorno de receber a luz do sol direto nos olhos.
Sentamos em um lugar mais afastados e ouvimos os sonserinos cantando alguma música, apesar de não entender a letra, eu sabia que não era coisa boa.
Quando o time da Grifinória entrou no campo, sobre as vaias e vivas, o time da Sonserina já estava em campo. Os capitães apertaram as mãos, cada um montou em sua vassoura e Madame Hooch soprou o apito.
As bolas foram soltas no ar e os catorze jogadores dispararam para o alto. Vi Rony passar como um raio em direção às balizas. Harry continuou a subir em alta velocidade, se esquivou de um balaço e começou a dar uma grande volta pelo campo; do outro lado do estádio, Draco Malfoy fazia exatamente a mesma coisa.
"E é Johnson — Johnson com a goles, que jogadora é essa garota, é o que venho dizendo há anos, mas ela continua a não querer sair comigo..."
— JORDAN! — berrou a Profª McGonagall perto do microfone.
"... é só uma gracinha, professora, um toque de interesse humano — e ela se livra de Warrington, passa por Montague, ela — ai — foi atingida nas costas por um balaço lançado por Crabbe... Montague apanha a goles, Montague torna a subir pelo campo e — belo balaço agora de Jorge Weasley, um balaço na cabeça de Montague, que larga a goles, quem a apanha é Katie Bell, Katie Bell da Grifinória atrasa a bola para Alicia Spinnet e Spinnet se afasta..."
Os comentários de Lino Jordan ecoavam pelo estádio, e eu fazia esforço para escutá-lo apesar do assobio do vento em meus ouvidos e do vozerio do público, que berra, vaia e canta.
"... foge de Warrington, evita um balaço — esse foi por pouco, Alicia —, e o público está adorando o jogo, ouçam, que é que eles estão cantando?"
E Lino parou para escutar, a cantoria soou alta e clara na seção verde-e-prata da Sonserina nas arquibancadas.

Weasley não pega nada
Não bloqueia aro algum
Ei, Ei, Ei, Ei, Weasley é o nosso rei.
Weasley nasceu no lixo
Sempre deixa a bola entrar
A vitória já é nossa, Weasley é o nosso rei.


"... e Alicia passa outra vez para Angelina!", gritou Lino, minhas entranhas fervendo com o que acabara de ouvir, como alguém consegue ser tão desocupado para criar uma coisa como aquela? Percebi que Lino estava tentando abafar a cantoria.
"Vai Angelina — agora ela só precisa passar pelo goleiro! — ELA CHUTA — ELA — aaah... "
Bletchley, o goleiro de Sonserina, defendeu bem; lançou a goles para Warrington, que saiu em velocidade, ziguezagueando entre Alicia e Katie; a cantoria das arquibancadas se tornava cada vez mais alta, eu estava quase indo até lá, azarar todos.
"Warrington tem a goles, Warrington vai em direção aos aros, está fora do alcance dos balaços e tem apenas o goleiro pela frente..."
Uma grande onda sonora se elevou das arquibancadas da Sonserina:

Weasley não pega nada
Não bloqueia aro algum...


"... é o primeiro teste do novo goleiro da Grifinória, Weasley, irmão dos batedores Fred e Jorge... é um talento que promete — vamos garoto!"
Mas o grito de alegria veio do lado da Sonserina: Rony dera um mergulho às cegas, de braços muito abertos, e a goles passara entre eles, atravessando direto o seu aro central.
"Ponto para Sonserina! — entrou a voz de Lino entre os aplausos e vaias do público embaixo — dez a zero para Sonserina — que pouca sorte, Rony!"
Os alunos de Sonserina cantaram ainda mais alto:

WEASLEY NASCEU NO LIXO EI, EI, EI, EI...


"... e a Grifinória retoma a posse e temos Kátia Bell, atravessando o campo com energia...", gritou Lino se enchendo de coragem, embora a cantoria agora estivesse tão ensurdecedora, que podia apostar que ele mal conseguia se fazer ouvir.

A VITÓRIA JÁ É NOSSA, WEASLEY É O NOSSO REI...
WEASLEY É O NOSSO REI, WEASLEY É O NOSSO REI...
WEASLEY NASCEU NO LIXO...


"... e aí vem Warrington de novo — berrou Lino — que passa para Pucey, Pucey ultrapassa Alicia, vamos Angelina, dá para pegar ele, afinal não deu, mas foi um belo balaço de Fred Weasley, quero dizer, Jorge Weasley, ah, que diferença faz, foi um dos gêmeos, e Warrington larga a goles e Katie Bell... hum... larga também... então a goles sobra para Montague, que sai voando pelo campo, vamos Grifinória, bloqueia ele agora!"

WEASLEY NÃO PEGA NADA...


"... e Pucey se livra mais uma vez de Alicia e ruma diretamente para o gol, segura a bola, Rony!"
Eu que estive com a mão no rosto, não precisei olhar para saber o que aconteceu, ouvi um gemido terrível no lado da Grifinória, acompanhado de novos gritos e aplausos dos alunos da Sonserina.
Olhando para a torcida oposta, vi a buldogue bem na frente da arquibancada, de costas para o campo, regendo a torcida da Sonserina que urrava:

EI, EI, EI, EI
WEASLEY É O NOSSO REI


- Vinte a zero não é problema, ainda tem tempo para a Grifinória igualar o placar ou capturar o pomo. Uns três gols e nos tomamos a dianteira como sempre - tentou me tranquilizar.
Mas Rony deixou entrar mais dois gols. Havia um toque de pânico no meu desejo de Harry encontrar o pomo imediatamente. Se conseguisse capturá-lo logo, terminaria o jogo de uma vez.
"... e Kátia Bell da Grifinória escapa de Pucey, se abaixa para fugir de Montague, bela virada, Katie, e atira para Angelina, que agarra a goles, ultrapassa Warrington, está voando para o gol, vamos, agora Angelina... E É PONTO PARA GRIFINÓRIA! Quarenta a dez, quarenta a dez para Sonserina, e Pucey tem a posse da goles..."
Eu ouvi o chapéu de leão de Luna rugir no meio dos vivas da nossa torcida.
"... Pucey atira para Warrington, Warrington para Montague, Montague devolve a Pucey... Johnson intercepta, Johnson toma a goles, atira para Bell, a coisa parece boa — quero dizer — ruim — Bell é atingida por um balaço de Goyle, da Sonserina, e é Pucey quem retoma a..."

WEASLEY NASCEU NO LIXO
SEMPRE DEIXA A BOLA ENTRAR
A VITÓRIA JÁ É NOSSA...


Finalmente Harry o viu, eu soube assim que o vi mergulhar. Em questão de segundos, Malfoy veio varando o céu à esquerda de Harry.
O pomo contornou a base de uma das balizas e saiu para o outro lado das arquibancadas; sua mudança de direção beneficiou Malfoy, que estava mais próximo; Harry inverteu o rumo da sua Firebolt, e agora ele e Malfoy estavam emparelhados.
A curta distância do chão, Harry ergueu a mão direita da vassoura, esticou-a para o pomo... à direita, o braço estendido de Malfoy também esticou, tateou...
Tudo terminou em dois segundos desesperados, esbaforidos, vertiginosos, Harry empinou a vassoura, apertando na mão a bola que se debatia, e nós, espectadores da Grifinória, gritamos aprovando o lance...
Estávamos salvos, não importava que Rony tivesse deixado entrar aqueles gols, ninguém se lembraria desde que a Grifinória tivesse ganho...
TAPUM.
Um balaço atingiu Harry nos rins e ele foi lançado para fora da vassoura. Por sorte, estava a menos de dois metros do chão, pois mergulhara muito baixo para apanhar o pomo. Ouvi o apito agudo de Madame Hooch, um clamor nas arquibancadas em que se misturavam assobios, berros furiosos e vaias, mas eu já corria em direção ao campo agradecendo mentalmente por ter insistido para ficarmos perto da entrada. Eu consegui chegar em tempo de ver Angelina tentando ajudar Harry.
Madame Hooch voava velozmente em direção a Crabbe.
- Você está bem? - perguntei quando cheguei mais perto.
- Claro que estou - respondeu Harry, carrancudo.
- Foi aquele bandido do Crabbe — disse Angelina, furiosa —, atirou o balaço no momento em que viu que você tinha capturado o pomo... mas nós ganhamos, Harry, nós ganhamos!
Ouvi um bufo às costas e me virou: Draco Malfoy pousara ali perto. O rosto branco de fúria, ainda assim conseguia desdenhar.
- Salvou o pescoço do Weasley, não foi? Nunca vi um goleiro pior... mas também, nasceu no lixo... gostou da minha letra, Potter?
Harry não respondeu. Viramos para nos reunir ao resto da equipe que agora aterrissava, um a um, berrando e dando socos no ar; todos, exceto Rony, que desmontara da vassoura próximo às balizas e parecia estar caminhando lentamente para os vestiários, sozinho.
- Queríamos acrescentar mais uns versos! — gritou Malfoy, enquanto Katie e Alicia abraçavam Harry e eu abraçava Angelina. — Mas não encontramos rimas para gorda e feia, queríamos cantar alguma coisa sobre a mãe dele, sabe...
- Inveja mata — eu disse, lançando a Malfoy um olhar enojado.
-... também não conseguimos encaixar "fracassado inútil"... para o pai dele, sabe...
Fred e Jorge perceberam o que Malfoy estava dizendo. A meio caminho de apertar a mão de Harry, eles se retesaram, encarando Malfoy.
- Deixa para lá! — disse Angelina na mesma hora, segurando o braço de Fred.
- Deixa para lá, Jorge, deixa ele gritar, ele só está frustrado porque perdeu, o metido... - falei.
- ... mas você gosta dos Weasley, não é, Potter? — continuou Malfoy, caçoando. — Passa as férias lá e tudo, não é? Não sei como você aguenta o fedor, mas suponho que para alguém criado por trouxas, até o pardieiro dos Weasley cheira bem...
Harry agarrou Jorge, tentando me ajudar. Entrementes, eram necessários os esforços conjuntos de Angelina, Alicia e Katie para impedir Fred de pular em cima de Malfoy, que ria abertamente. Olhei para os lados procurando Madame Hooch, mas ela ainda estava brigando com Crabbe por seu ataque ilegal com o balaço.
- Ou vai ver — disse Malfoy, recuando com um sorriso debochado — você se lembra como a casa da sua mãe fedia, Potter, e o chiqueiro dos Weasley faz lembrar dela...
Harry largou Jorge, e como eu não tinha força, os dois, um segundo depois, estavam atracados com Malfoy.
- Harry! HARRY! JORGE! NÃO!
Eu e as garotas estávamos gritando, Malfoy berrando, Jorge xingando, um apito tocando e os urros do público, mas ele não deu atenção a nada. Até Madame Hooch lançar o Feitiço Impedimento, e ele ser derrubados de costas no chão por força do feitiço, não desistiu da tentativa de socar cada centímetro de Malfoy ao alcance de sua mão.
- Que é que você acha que está fazendo? — berrou Madame Hooch, quando Harry se levantou de um salto. A juíza segurava o apito em uma das mãos e a varinha na outra; largara a vassoura a alguns passos de distância. Malfoy estava dobrado no chão, choramingando e gemendo, o nariz ensanguentado; Jorge exibia um lábio inchado; Fred ainda estava sendo contido à força pelas três artilheiras, e Crabbe dava gargalhadas mais atrás. — Nunca vi um comportamento igual, já para o castelo, os dois, e direto para a sala da diretora de sua Casa! Vão! Agora!
Harry e Jorge saíram do campo, ofegantes, sem trocar palavra.
Angelina veio até mim.
- Eles estão encrencados, não é? - perguntei quando vi Profa. McGonagall sair e logo atrás a Umbridge.
- Muito - respondeu ela.

- Proibidos — ressoou a voz de Angelina, mais tarde naquela noite na sala comunal. — Proibidos. Sem apanhador e sem batedores... que meleca é que nós vamos fazer?
Nem parecia que haviam ganho o jogo. Para todo o lado que eu olhava havia rostos desolados e enfurecidos; os jogadores da equipe estavam largados em volta da lareira, todos menos Rony, que não era visto desde o final da partida.
- É tão injusto — disse Alicia, atordoada. — Quero dizer, e Crabbe e aquele balaço que ele lançou depois que o apito já tinha tocado? Ela proibiu o Crabbe?
- Não — respondi infeliz; eu estava sentada alisando o cabelo de Jorge que estava deitado no meu colo, com os olhos fechados. — Crabbe recebeu frases para escrever, ouvi Montague contar isso às gargalhadas na hora do jantar.
- E proibir o Fred quando ele nem fez nada! — admirou-se Alicia furiosa, batendo com o punho no joelho.
- Não é minha culpa se não fiz — disse Fred, com uma expressão feroz no rosto —, eu teria quebrado aquele merdinha todo se vocês três não estivessem me segurando.
Eu olhei para Harry que contemplava, infeliz, a vidraça escura. A neve caía. O pomo que ele apanhara mais cedo voava sem parar pela sala comunal; as pessoas acompanhavam sua trajetória como se estivessem hipnotizadas, e Bichento saltava de uma cadeira para outra, tentando apanhá-lo.
- Vou me deitar — disse Angelina, levantando-se devagar. — No final, a gente talvez descubra que tudo isso não passou de um sonho mau... talvez eu acorde amanhã e descubra que ainda não jogamos...
Logo Alicia e Katie a acompanharam. Fred e Jorge subiram algum tempo depois, fechando a cara para todos por quem passavam, e Gina não se demorou muito mais. Somente eu, Harry e Hermione continuamos ao pé da lareira.
- Vocês viram Rony? — perguntou Hermione em voz baixa.
Eu balancei a cabeça.
- Acho que ele está nos evitando. Onde é que você acha que ele...
Mas, neste exato momento, ouvimos um rangido, o retrato da Mulher Gorda girou e Rony atravessou o buraco do retrato. Estava de fato muito pálido e havia neve em seus cabelos. Quando nos viu, ele parou de chofre.
- Onde você esteve? — perguntou Hermione, ansiosa, se erguendo.
- Andando — murmurou. Ele ainda usava o uniforme de Quadribol.
- Você parece congelado — disse Hermione. — Vem sentar aqui com a gente!
Rony veio até a lareira e se largou na poltrona mais distante de Harry, sem olhá-lo. O pomo roubado sobrevoava nossas cabeças.
- Sinto muito — murmurou ele, olhando para os pés.
- Pelo quê? — perguntou Harry.
- Por pensar que sabia jogar Quadribol. Vou pedir demissão logo de manhã.
- Se você pedir demissão — disse Harry irritado —, só sobrarão três jogadores na equipe. — E quando Rony o olhou intrigado, ele informou: — Fui proibido de jogar definitivamente. Fred e Jorge também.
- Quê? — gritou Rony.
Eu contei-lhe a história toda. Eu sabia que Harry não suportaria repeti-la e Hermione não esteve lá o tempo todo. Quando terminei, Rony pareceu mais agoniado que nunca.
- Tudo isso foi minha culpa...
- Você não me fez bater em Malfoy — respondeu Harry, zangado.
- ... se eu não fosse tão ruim em Quadribol...
- Não tem nada a ver.
- ... foi aquela música que me deixou nervoso...
- ... teria deixado qualquer um nervoso.
Hermione se levantou e foi até a janela, para se afastar da discussão, olhar os flocos de neve caírem em rodopios contra a vidraça.
- Olha aqui, para com isso, tá! — explodiu Harry. — Já tá bem ruim sem você se culpar por tudo!
Rony se calou, mas ficou sentado olhando infeliz para a barra molhada das vestes. Passado algum tempo, disse, sem graça:
- Nunca me senti tão mal na vida.
- Entre para o nosso clube — respondeu Harry com amargura.
- Bom — disse Hermione, a voz ligeiramente trêmula: — Sei de uma coisa que pode animar os dois.
- Ah, é? — disse Harry, incrédulo.
- É — respondeu ela se afastando da janela escuríssima, salpicada de flocos, um grande sorriso a iluminar seu rosto: — Hagrid voltou.


Capítulo 6

Harry correu ao dormitório dos meninos com Rony e Hermione logo atrás, eu não me movi. Os meninos se aprontaram para sair pelo menos cinco minutos antes de Hermione voltar apressada do dormitório das meninas, usando cachecol, luvas e um dos gorros que fizera para os elfos. Quando já estavam perto pra sair, Hermione olhou para os dois lados.
- Cade a ?
- Estou aqui - respondi, ainda sentado no mesmo lugar de antes.
- Ué, você não vem?
- Não, nem o conheço direito, acho melhor ir dormir - respondi me levantando e indo para as escadas.
- Deixa de ser besta, você vem conosco - ela respondeu, tirando as luvas e me entregando. Eu sorri, mesmo que ainda me sentisse um pouco intrusa ali, no meio daquele trio.
- Tudo bem, tudo bem.
Passamos sorrateiros pelo buraco do retrato, e nos cobrimos depressa com a capa — Rony teve que encolher para impedir que os pés aparecessem —, que eles disseram depois explicar sobre ela, então, andando devagar e cautelosamente, descemos as várias escadas, parando a intervalos para verificar no mapa magico de Harry, sinais de Filch ou de Madame Nor-r-ra. Tivemos sorte; não vimos ninguém exceto Nick Quase Sem Cabeça, que flutuava distraído, cantarolando de boca fechada algo que lembrava horrivelmente "Weasley é nosso rei". Nos esquivamos pelo saguão de entrada e daí para os terrenos nevados e silenciosos da escola. Vi quadradinhos de luz dourados à frente e fumaça saindo em espirais pela chaminé de Hagrid. Harry saiu em passo acelerado, nós nos acotovelando e dando encontrões para acompanhá-lo.
Excitados, esmagamos ao caminhar a neve que se adensava, e finalmente chegamos à porta de madeira da cabana. Quando Harry levantou o punho e bateu três vezes, um cachorro começou a latir excitado dentro da casa.
- Hagrid, somos nós! — disse Harry pelo buraco da fechadura.
- Eu devia saber! — exclamou uma voz rouca.
Os três sorriram um para o outro sob a capa; eu podia não conhecê-lo direito, mas podia adivinhar pela voz de Hagrid que ele estava satisfeito
- Cheguei há três minutos... sai da frente, Canino... sai da frente, cachorro burro...
A tranca foi retirada, a porta se abriu com um rangido e a cabeça de Hagrid apareceu na fresta. Hermione gritou.
- Pelas barbas de Merlim, fale baixo! — disse Hagrid depressa, olhando assustado por cima das nossas cabeças. — Debaixo da capa, é? Vamos, entrem, entrem!
- Desculpe! — exclamou Hermione, enquanto nos espremíamos para entrar na casa de Hagrid e puxamos a capa para ele poder nos ver. — Eu só... ah, Hagrid!
- Não foi nada, não foi nada! — apressou-se Hagrid a dizer, fechando a porta e correndo para fechar todas as cortinas, mas Hermione continuava a contemplá-lo horrorizada.
Os cabelos dele estavam empastados de sangue e o olho esquerdo fora reduzido a uma fenda inchada, no meio de uma massa roxa e preta. Havia muitos cortes em seu rosto e em suas mãos, alguns ainda sangrando, e ele andava desengonçado, me fazendo suspeitar de que tivesse quebrado algumas costelas. Era óbvio que acabara de chegar; uma grossa capa de viagem estava jogada por cima de uma cadeira e uma mochila suficientemente grande para caber várias criancinhas, estava apoiada na parede ao lado da porta. Hagrid, duas vezes o tamanho de um homem normal, agora mancava até a lareira para pendurar nela uma chaleira de cobre.
- Que foi que aconteceu com você? — quis saber Harry, enquanto um cachorro gigante dançava em volta de nós, tentando lamber seus rostos e me cheirar.
- Já disse, nada — respondeu Hagrid com firmeza. — Quer uma xícara?
- Para com isso — disse Rony. — Você está todo arrebentado.
- Estou dizendo, estou bem — insistiu Hagrid, se erguendo e tentando sorrir para os garotos, mas fazendo caretas. — Caramba, como é bom ver vocês três de novo, foram boas as férias, eh?
- Hagrid, você foi atacado! — comentou Rony.
- Pela última vez, não foi nada! — repetiu Hagrid.
- Você diria que não foi nada se um de nós aparecesse com um quilo de carne moída no lugar da cara? — perguntou Rony.
- Você devia procurar Madame Pomfrey — eu disse com ansiedade na voz. — Alguns desses cortes estão bem feios.
- Vou cuidar deles, está bem? — retrucou ele, desencorajando perguntas. - E quem é você?
- Ela é uma amiga. .
Ele me olhou por um tempo e depois tentou sorrir de novo, mas fez careta novamente.
- É um prazer conhecê-la - eu sorri para ele e alisei a cabeça daquele cachorro enorme.
Hagrid foi até a enorme mesa de madeira que ficava no centro da cabana e puxou para o lado uma toalha de chá que a cobria. Embaixo, havia um pedaço de carne crua, sangrenta e levemente esverdeada, um pouco maior que um pneu normal.
- Você não vai comer isso, vai, Hagrid? — perguntou Rony se aproximando da carne para ver melhor. — Parece envenenada.
- É assim que deve parecer, é carne de dragão. E não a trouxe para comer.
Ele apanhou a carne e chapou-a do lado esquerdo do rosto. Sangue esverdeado escorreu para sua barba, e ele deu um gemido de satisfação.
- Assim está melhor. Alivia a dor, sabem.
- Então, vai nos contar o que aconteceu com você? — perguntou Harry.
- Não posso, Harry. Ultraconfidencial. Vai custar mais do que o meu emprego se eu lhe contar.
- Foram os gigantes que o espancaram, Hagrid? — perguntou Hermione baixinho.
Os dedos de Hagrid afrouxaram sobre a carne de dragão, e ela escorregou sumarenta para o seu peito.
- Gigantes? — exclamou ele, segurando o enorme bife antes que chegasse ao cinto e repondo-o no rosto. — Quem foi que falou em gigantes? Com quem vocês andaram conversando? Quem disse a vocês que eu estive... quem disse que eu estive... eh?
- Adivinhamos — disse Hermione em tom de quem se desculpa.
- Ah, foi é, foi é? — tornou Hagrid, fixando-a severamente com o olho que não estava tapado pela carne.
- Foi meio... óbvio — eu disse. Harry e Rony confirmaram com a cabeça.
Hagrid arregalou os olhos para nós, em seguida bufou, atirou a carne de volta à mesa e foi ver a chaleira, que agora assobiava.
- Nunca vi garotos para saberem mais do que devem como vocês — murmurou, derramando água fervendo em quatro dos seus canecões em forma de balde. — E isso não é um elogio, não. Abelhudos, é como chamam. Intrometidos.
Mas sua barba tremeu.
- Então você foi procurar os gigantes? — disse Harry sorridente, sentando-se à mesa.
Hagrid pôs o chá diante de cada um, sentou-se, tornou a apanhar a carne e a chapá-la no rosto.
- Está bem — resmungou. — Fui.
- E encontrou-os? — perguntou Hermione, abafando a voz.
- Bom, eles não são difíceis de encontrar, para ser sincero — disse Hagrid. — Bem grandinhos, sabem.
- Onde é que eles ficam? — perguntou Rony.
- Nas montanhas — disse Hagrid de má vontade.
- Então por que os trouxas não...?
- Encontram, sim — disse Hagrid sombriamente. — Só que as mortes deles sempre são divulgadas como acidentes de montanhismo, não é mesmo?
Ele ajeitou melhor a carne de modo a fazê-la cobrir a parte mais machucada.
- Vamos, Hagrid, conte pra gente o que você andou fazendo! — disse Rony. — Conte pra gente como foi atacado pelos gigantes e Harry pode lhe contar como foi atacado pelos Dementadores...
Hagrid engasgou dentro da caneca e largou a carne, tudo ao mesmo tempo: uma grande quantidade de cuspe, chá e sangue de dragão salpicou a mesa, enquanto o meio-gigante tossia e tentava falar e a carne escorregava devagarinho e batia com suavidade no chão.
- Como assim, atacado por Dementadores? — rosnou Hagrid.
- Você não soube? — perguntei-lhe, arregalando os olhos.
- Não sei nada do que andou acontecendo desde que viajei. Estive em uma missão secreta, e não queria corujas me seguindo por toda parte. Dementadores desgraçados! Você não está falando sério!
- Estou, sim, apareceram em Little Whinging e atacaram a mim e meu primo, e então o Ministério da Magia me expulsou...
- QUÊ?
- ... e tive de comparecer a uma audiência e tudo, mas conte a gente sobre os gigantes, primeiro.
- Você foi expulso?
- Conte as suas férias de verão e lhe contarei as minhas - Hagrid lhe deu um olhar penetrante com o único olho aberto. Harry sustentou esse olhar, com uma expressão de inocente determinação no rosto.
- Ah, tá bem — conformou-se Hagrid.
Ele se abaixou e arrancou a carne de dragão da boca de Canino.
- Ah, Hagrid, não faz isso, não é higiê... — começou Hermione, mas Hagrid já tacara a carne no olho inchado.
Tomou outro gole restaurador de chá, depois contou:
- Bom, viajamos assim que o ano letivo terminou...
- Madame Maxime foi com você, então? — interrompeu Hermione.
- É, foi — confirmou Hagrid, e uma expressão branda apareceu nos poucos centímetros de rosto que não estavam sombreados pela barba ou pela carne verde. — É, fomos só nós dois. E vou dizer uma coisa, ela não tem medo de dureza, a Olímpia. Sabem, é uma mulher fina e bem vestida, e, sabendo aonde íamos, fiquei imaginando como iria se sentir escalando montanhas e dormindo em grutas e tudo, mas ela não reclamou nem uma vez.
- Você sabia aonde estavam indo? — perguntou Harry. — Sabia onde os gigantes estavam?
- Bom, Dumbledore sabia e nos disse.
- Eles ficam escondidos? — perguntou Rony. — É segredo onde eles moram?
- Não, não é — respondeu Hagrid, sacudindo a cabeça peluda. — É só que a maioria dos bruxos não tem interesse em saber, desde que estejam bem longe. Mas o lugar em que eles moram é bem difícil de se alcançar, pelo menos para os humanos, então precisávamos das instruções de Dumbledore. Levamos um mês para chegar lá...
- Um mês? — exclamou Rony, como se nunca tivesse ouvido falar em uma viagem que durasse um tempo tão ridiculamente longo. — Mas por que você não podia simplesmente pegar uma Chave de Portal ou outro transporte qualquer?
Passou uma expressão curiosa pelo olho destampado de Hagrid ao fitar Rony; era quase um olhar de pena.
- Até eu sei que quem é próximo a Dumbledore ou ao Harry estão sendo vigiados, Rony — respondi por ele.
- Como assim?
Eu bufei.
- Você não entende. O Ministério está de olho em Dumbledore e em todo o mundo que acha que é partidário dele, e...
- Nós sabemos disso — Harry apressou-se a dizer, e eu entendi que era para ficar calada pois ele estava interessado em ouvir o resto da história. — Nós sabemos que o Ministério está vigiando Dumbledore.
- Por isso você não podia usar magia para chegar lá? — perguntou Rony, perplexo. — Vocês tiveram de agir como trouxas o caminho todo?
- Bom, não foi bem o caminho todo — explicou Hagrid com ar astuto. — Só precisamos ter cuidado, porque Olímpia e eu damos um pouco na vista...
Rony fez um ruído entre um bufo e uma fungada, e tomou depressa um gole de chá.
- ... então não somos difíceis de seguir. Fingimos que estávamos tirando umas férias juntos, então chegamos à França e agimos como se estivéssemos indo para o lugar onde fica a escola de Olímpia, porque sabíamos que estávamos sendo seguidos por alguém do Ministério. Tivemos de viajar devagar, porque não tenho permissão de usar magia, e sabíamos que o Ministério estava procurando uma desculpa para nos prender. Mas conseguimos enganar a anta que estava nos seguindo nos arredores de Di-Jão...
- Aaaah, Dijon? — exclamou Hermione excitada. — Estive lá nas férias. Você viu...?
Calou-se ao ver a cara de Rony.
- Depois disso, nos arriscamos a usar um pouco de magia e não foi uma viagem ruim. Demos de cara com uns trasgos malucos na fronteira com a Polônia e tive uma ligeira discordância com um vampiro em um pub de Minsk, mas, afora isso, não poderia ter sido mais tranquila.
"Então, chegamos ao lugar e começamos a subir as montanhas procurando sinais deles..."
"Tivemos de abandonar a magia quando nos aproximamos mais. Em parte, porque eles não gostam de bruxos e não queríamos deixá-los irritados muito cedo e, em parte, porque Dumbledore nos prevenira que Você-Sabe-Quem devia estar atrás dos gigantes e tudo. Disse que era quase certo que já tivesse despachado um mensageiro. Disse que tivéssemos muito cuidado para não chamar atenção quando nos aproximássemos, para o caso de haver Comensais da Morte por perto."
Hagrid fez uma pausa para tomar um grande gole de chá.
- Continua! — pediu Harry pressuroso.
- Encontrei eles — disse Hagrid, resumindo. — Passamos por uma crista de montanha uma noite e lá estavam eles, acampados do outro lado. Pequenas fogueiras acesas embaixo e enormes sombras... parecia que estávamos vendo partes da montanha se mexendo.
- Que tamanho eles têm? — perguntou Rony com a voz abafada.
- Uns seis metros — disse Hagrid com displicência. — Alguns dos maiores talvez tivessem uns sete metros.
- E quantos havia? — perguntou Harry.
- Calculo que uns setenta ou oitenta.
- Só? — admirou-se Hermione.
- É — respondeu Hagrid com tristeza. — Restam oitenta e havia muitos mais, devia ter umas cem tribos diferentes em todo o mundo. Mas já faz muito tempo que estão morrendo. Os bruxos mataram alguns, é claro, mas principalmente os gigantes se mataram uns aos outros e agora estão morrendo mais rápido que nunca. Não foram feitos para viver agrupados. Dumbledore diz que a culpa é nossa, foram os bruxos que os forçaram a morar bem longe, e que eles não tiveram escolha senão ficar juntos para a própria proteção.
- Então, você os viu e aí? - perguntei.
- Bom, esperamos até amanhecer, não queríamos nos aproximar no escuro, escondidos, para nossa própria segurança — disse Hagrid. — Lá pelas três horas da manhã, eles dormiram onde estavam sentados mesmo. Não tivemos coragem de dormir. Primeiro porque queríamos ter certeza de que nenhum deles ia acordar e subir até onde estávamos, e segundo porque os roncos eram incríveis. Provocaram uma avalanche pouco antes do dia clarear. Em todo o caso, quando clareou descemos para falar com eles.
- Assim? — perguntou Rony, parecendo assombrado. — Vocês simplesmente entraram em um acampamento de gigantes?
- Bom, Dumbledore disse a gente como fazer. Dar presentes ao Gurgue, apresentar os respeitos, vocês sabem.
- Dar presentes ao quê?
- Ah, ao Gurgue, quer dizer, chefe.
- Como é que você sabia qual era o Gurgue? — perguntou Rony.
- Sem problema. Era o maior, o mais feio e o mais preguiçoso. Sentado ali, esperando que os outros lhe levassem comida. Cabras mortas e coisas do gênero. O nome era Karkus, calculo que tivesse uns vinte e dois, vinte e três anos, e o peso de um elefante macho adulto. A pele feito couro de rinoceronte e tudo.
- E você simplesmente foi até ele? — perguntou Hermione ofegante.
- Bom... desci até ele, até onde estava deitado no vale. Os gigantes acamparam nessa depressão entre quatro montanhas bastante altas, entendem, à margem de um lago, e Karkus estava deitado ali, bradando para os outros alimentarem ele e a mulher. Olímpia e eu descemos a encosta da montanha...
- Mas eles não tentaram matar vocês quando os viram? — perguntou Rony incrédulo.
- Com certeza era o que estava na cabeça de alguns — disse Hagrid, encolhendo os ombros. — Mas fizemos o que Dumbledore nos tinha dito para fazer, erguer o presente bem alto, manter os olhos no Gurgue e não dar atenção aos outros. Então, foi o que fizemos. E eles ficaram quietos, observando a gente passar, chegamos até os pés de Karkus, nos curvamos e colocamos o nosso presente na frente dele.
- Que é que se dá a um gigante? — perguntou Rony curioso. — Comida?
- Nam, ele não tem problema para arranjar comida. Levamos uma coisa mágica. Gigantes gostam de magia, só não gostam quando a usamos contra eles. Em todo o caso, naquele primeiro dia demos um ramo de fogo gubraiciano.
Exclamei baixinho:
— Uau!
Mas Harry e Rony enrugaram a testa intrigados.
- Um ramo de...?
- Fogo perpétuo — disse Hermione irritada. — Vocês já deviam conhecer. O Prof. Flitwick já mencionou esse tal fogo no mínimo duas vezes em aula.
- Bom, em todo o caso — disse Hagrid depressa, intervindo antes que Rony pudesse responder. — Dumbledore enfeitiçou o ramo para arder para sempre, o que não é coisa que qualquer bruxo possa fazer, então eu o depositei na neve aos pés de Karkus e disse: “Um presente para o Gurgue dos gigantes de Alvo Dumbledore, que lhe envia respeitosos cumprimentos...”
- E que foi que Karkus disse? – perguntou Harry ansioso.
- Nada. Não falava inglês.
- Tá brincando!
- Não fez diferença — continuou Hagrid imperturbável. — Dumbledore tinha avisado que isso podia acontecer. Karkus sabia o suficiente para dar um berro e chamar uns gigantes que sabiam a nossa língua, e eles traduziram para nós.
- E ele gostou do presente? — perguntou Rony.
- Ah, sim, fizeram um alvoroço quando entenderam o que era — disse Hagrid, virando o pedaço de carne para pôr o lado mais frio sobre o olho inchado. — Ficou muito satisfeito. Então eu disse: "Alvo Dumbledore pede ao Gurgue para falar com o seu mensageiro quando ele voltar amanhã com outro presente."
- Por que você não podia falar naquele dia mesmo? — perguntou Hermione.
- Dumbledore queria que a gente fosse muito devagar. Deixasse eles verem que cumprimos nossas promessas. Voltaremos amanhã com outro presente, e então voltar com outro presente, dá uma boa impressão, entende? E dá tempo a eles para experimentarem o primeiro presente e descobrir que é bom, e fazer eles quererem mais. Em todo o caso, gigantes como Karkus... se a gente dá informações demais, nos matam só para simplificar as coisas. Então, recuamos com uma reverência e fomos embora, arranjamos uma pequena gruta para passar a noite e, na manhã seguinte, voltamos e desta vez encontramos Karkus sentado esperando por nós e demonstrando ansiedade.
- E você falou com ele?
- Ah, sim. Primeiro lhe demos de presente um bonito elmo de guerra, indestrutível, feito por duendes, sabem, e então sentamos e conversamos.
- Que foi que ele disse?
- Não falou muito. Ouviu a maior parte do tempo. Mas fez sinais positivos. Ele já ouvira falar de Dumbledore, ouvira que ele fora contra matar os últimos gigantes na Inglaterra. Karkus pareceu estar muito interessado no que Dumbledore tinha a dizer. E alguns dos outros, principalmente os que sabiam algum inglês, se reuniram a nossa volta e também escutaram. Estávamos muito esperançosos quando nos despedimos naquele dia. Prometemos voltar no dia seguinte com outro presente. Mas naquela noite tudo desandou.
- Como assim? — perguntou Rony depressa.
- Bom, como eu disse, eles não nasceram para viver juntos, os gigantes — disse Hagrid tristemente. — Não em grupos grandes como aquele. Não conseguem se refrear, quase se matam uns aos outros a intervalos de semanas. Os homens lutam entre eles e as mulheres lutam entre elas; os que sobram das antigas tribos lutam entre si, e isso sem falar nas disputas por comida e melhores fogueiras e lugares para dormir. Seria de se esperar, já que a raça toda está quase desaparecendo, que parassem com isso, mas...
Hagrid deu um profundo suspiro.
- Naquela noite houve uma briga, assistimos da entrada da nossa caverna, de onde se via o vale. Durou horas, você não acreditaria no barulho. E, quando o sol nasceu, a neve estava vermelha e a cabeça dele no fundo do lago.
- A cabeça de quem? — exclamou Hermione.
- De Karkus — disse Hagrid pesaroso. — Havia um novo Gurgue, Golgomate — ele tornou a suspirar. — Bom, não tínhamos contado com um novo Gurgue dois dias depois de fazer contato amigável com o primeiro, e tínhamos a estranha impressão de que Golgomate não estaria tão interessado em nos escutar, mas precisávamos tentar.
- Vocês foram falar com ele? — perguntou Rony incrédulo. — Depois de terem visto ele arrancar a cabeça de outro gigante?
- Claro que fomos — disse Hagrid. — Não tínhamos viajado tão longe para desistir em dois dias! Descemos com o presente que pretendíamos dar a Karkus. Percebi que não ia adiantar antes mesmo de abrir a boca. Ele estava sentado lá com o elmo de Karkus na cabeça, rindo da gente, quando nos aproximamos. Ele é vigoroso, um dos maiores do grupo. Cabelos pretos e dentes da mesma cor e um colar de ossos. Alguns dos ossos me pareceram humanos. Bom, resolvi tentar, entreguei a ele um enorme rolo de couro de dragão, e disse: “Um presente para o Gurgue dos gigantes..” No instante seguinte eu estava pendurado no ar de cabeça para baixo, agarrado por dois companheiros dele.
Hermione levou as duas mãos à boca.
- E como foi que você saiu dessa? — perguntou Harry.
- Não teria saído se Olímpia não estivesse lá – disse Hagrid. — Ela puxou a varinha e executou feitiços com a maior velocidade que já vi alguém executar. Fantástico. Atingiu os dois que estavam me segurando bem no olho, com Feitiços Conjunctivitus, e eles me largaram na mesma hora no chão, mas aí entramos em uma roubada porque tínhamos usado magia contra eles, e isso é o que os gigantes odeiam nos bruxos. Tivemos de dar no pé e sabíamos que depois disso não poderíamos voltar ao acampamento deles.
- Caramba, Hagrid – exclamou Rony baixinho.
- Então como é que você levou tanto tempo para voltar pra casa se só passou três dias lá? — admirou-se Hermione.
- Não partimos três dias depois! — disse Hagrid, indignado. — Dumbledore estava confiando na gente!
- Mas você acabou de dizer que não poderiam voltar lá!
- Não de dia, não poderíamos, não. Tivemos de repensar a coisa toda. Passamos uns dois dias escondidos em uma gruta, observando. E o que vimos não foi nada bom.
- Eles arrancaram mais cabeças? – perguntei com repugnância.
- Não. Gostaria que sim.
- Como assim?
- Não tardamos a descobrir que ele não fazia objeções a todos os bruxos: só a nós.
- Comensais da Morte? — indagou Harry depressa.
- É — disse Hagrid sombriamente. — Uns dois apareciam para visitá-lo todos os dias, levando presentes para o Gurgue, e ele não pendurava essas visitas pelos pés.
- Como é que você sabe que eram Comensais da Morte? — perguntou Rony.
- Porque reconheci um deles — respondeu em voz baixa e zangada. — Macnair, se lembram? O cara que mandaram vir sacrificar o Bicuço? É tarado, ele. Gosta de matar tanto quanto o Golgomate; não admira que estejam se dando tão bem.
- Então Macnair convenceu os gigantes a se unirem a Você-Sabe-Quem? — perguntou Hermione desesperada.
- Calma aí, ainda não terminei minha história! — exclamou Hagrid indignado, e, considerando que não queria contar nada, agora parecia estar gostando. — Eu e Olímpia discutimos o problema e concordamos que só porque o Gurgue parecia estar favorecendo Você-Sabe-Quem não significava que todos iriam segui-lo. Tínhamos de tentar convencer alguns dos outros, os que não tinham querido Golgomate para Gurgue.
- Como é que vocês iam saber quem eram? — perguntou Rony.
- Ora, eram os que estavam sendo espancados, ou não? — disse Hagrid paciente. — Os que tinham juízo estavam saindo do caminho de Golgomate, se escondendo nas grutas em torno da ravina exatamente como nós. Então, resolvemos explorar as grutas à noite, e ver se não conseguiríamos convencer alguns.
- Vocês saíram explorando as grutas à procura de gigantes? — disse Rony, com assombro na voz.
- Bom, não eram os gigantes que nos preocupavam mais. Estávamos mais preocupados com os Comensais da Morte. Dumbledore nos recomendara que não nos metêssemos com eles se pudéssemos evitar, e o problema era que sabiam que andávamos por perto, imagino que Golgomate tenha contado. A noite, quando os gigantes estavam dormindo e queríamos sair rondando as grutas, Macnair e o outro estavam explorando as montanhas à nossa procura. Foi difícil impedir Olímpia de saltar em cima deles — disse Hagrid, os cantos da boca repuxando para cima sua barba desgrenhada. — Ela estava doida para atacá-los... tem uma coisa quando se encrespa, a Olímpia... impetuosa, sabem, imagino que seja o sangue francês dela...
Hagrid contemplou o fogo com os olhos embaçados. Permitimos trinta segundos de reminiscências antes de Harry pigarrear alto.
- Então, que foi que aconteceu? Você chegou a se aproximar de algum dos outros gigantes?
- Quê? Ah... ah, claro que sim. Na terceira noite depois que mataram Karkus, nos esgueiramos para fora da gruta em que estávamos escondidos e voltamos à ravina, mantendo os olhos muito abertos para os Comensais da Morte. Entramos em algumas grutas, mas nada, então, lá pela sexta gruta, encontramos três gigantes escondidos.
- A gruta devia estar apertada — comentou Rony.
- Não tinha lugar nem para um amasso — disse Hagrid.
- Eles não atacaram vocês quando os viram? — perguntou Hermione.
- Provavelmente teriam atacado se tivessem condições, mas estavam muito feridos, os três; o bando de Golgomate deixou-os desacordados de tanta pancada; eles tinham recuperado a consciência e se arrastado até o abrigo mais próximo que encontraram. Em todo o caso, um deles sabia um pouquinho de inglês e traduziu para os outros, e o que tínhamos a dizer parece que não caiu muito mal. Então voltamos várias vezes para visitar os feridos... calculo que em um determinado momento tínhamos convencido uns seis ou sete.
- Seis ou sete? — exclamou Rony ansioso. — Não é nada mal, eles vêm ajudar a gente a lutar contra Você-Sabe-Quem?
Mas Hermione perguntou:
- O que você quis dizer com "em um determinado momento", Hagrid?
Hagrid olhou-a entristecido.
- O grupo de Golgomate tomou a gruta de assalto. Depois disso, os que sobreviveram não quiseram mais nada conosco.
- Então não virá gigante nenhum? — perguntou Rony, parecendo desapontado.
- Não — confirmou Hagrid, soltando um grande suspiro e tornando a virar o pedaço de carne para aplicar o lado mais frio no rosto. — Mas cumprimos o que fomos fazer, levamos a mensagem de Dumbledore, e alguns a ouviram, e espero que um dia se lembrem. Talvez, os que não quiserem ficar perto de Golgomate se mudem das montanhas e é até possível que se lembrem que Dumbledore é a favor deles... talvez eles venham então.
A neve agora cobria a janela.
- Hagrid? — disse Hermione, baixinho, passado algum tempo.
- Humm?
- Você ouviu... viu algum sinal de... descobriu alguma coisa sobre su... sua... mãe enquanto esteve lá?
O olho destampado de Hagrid se fixou nela.
- Desculpe... eu... esquece...
- Morta. Há anos. Eles me contaram.
- Ah... eu... realmente lamento — disse Hermione, com a voz fraquinha.
Hagrid encolheu os ombros enormes.
- Não precisa — disse brusco. — Não me lembro muito dela. Não foi uma boa mãe.
Ficamos em silêncio. Hermione nos olhou nervosa, claramente querendo que disséssemos alguma coisa.
- Mas você ainda não nos explicou como foi que ficou nesse estado, Hagrid — disse Rony, indicando o rosto manchado de sangue de Hagrid.
- Ou por que demorou tanto a voltar — acrescentou Harry. — Sirius falou que Madame Maxime voltou há séculos...
- Quem atacou você? — perguntou Rony.
- Não fui atacado! — respondeu Hagrid enfaticamente. — Eu...
Mas o restante de sua frase foi abafada por uma sucessão de batidas na porta. Hermione prendeu a respiração; sua caneca escorregou por entre os dedos e se espatifou no chão; Canino latiu. Nós cinco nos voltaram para a janela ao lado da porta. A sombra de um vulto pequeno e atarracado se mexeu por trás da cortina fina.
- É ela! — sussurrei.
- Entrem aqui embaixo! — disse Harry depressa; agarrando a Capa da Invisibilidade, ele a rodou no ar para cobrir Hermione, ele e eu enquanto Rony dava a volta na mesa e mergulhava sob a capa também. Agarrados, nós quatro recuamos para um canto. Canino latia nervoso para a porta. Hagrid parecia completamente confuso.
- Hagrid, esconda nossas canecas!
Hagrid apanhou nossas canecas e escondeu-as sob a almofada da cesta de Canino, que agora saltava contra a porta; Hagrid empurrou-o para o lado com o pé e a abriu.
A Profª Umbridge estava parada ali, trajando o seu casaco de tweed verde e o gorro combinando, com abas sobre as orelhas. Os lábios contraídos, ela recuou para olhar o rosto de Hagrid; mal chegava ao seu umbigo.
- Então — disse ela devagar e em voz alta, como se estivesse falando com alguém surdo. — Você é o Hagrid, não é?
Sem esperar pela resposta, ela entrou na sala, os olhos saltados girando em todas as direções.
- Sai para lá — exclamou ela com rispidez, sacudindo a bolsa contra Canino, que saltara em cima dela e tentava lamber seu rosto.
- Hum... não quero ser mal-educado — disse Hagrid, encarando-a. — Mas, diabos, quem é a senhora?
- Meu nome é Dolores Umbridge.
Seus olhos esquadrinhavam a cabana. Duas vezes, olhou diretamente para o canto em que eu, Harry, Rony e Hermione estávamos espremidos
- Dolores Umbridge? — exclamou Hagrid, parecendo inteiramente confuso. — Pensei que a senhora fosse do Ministério, a senhora não trabalha com Fudge?
- Eu era subsecretária sênior do ministro — confirmou ela, agora andando pela cabana e absorvendo cada mínimo detalhe, desde a mochila de viagem encostada a parede até a capa de viagem largada sobre a cadeira. — Agora sou professora de Defesa Contra as Artes das Trevas...
- Tem muita coragem — disse Hagrid. — Não tem mais muita gente que queira aceitar esse cargo.
- ... e Alta Inquisidora de Hogwarts — continuou ela, não demonstrando que o ouvira.
- E o que é isso? – perguntou Hagrid, franzindo a testa.
- É exatamente o que eu ia perguntar — disse Umbridge, apontando para os cacos de louça no chão que restavam da caneca de Hermione.
- Ah — disse Hagrid, com um olhar contrariado para o canto em que estávamos escondidos. — Ah, isso foi... foi o Canino. Ele quebrou a caneca. Então tive de usar esta outra.
Hagrid apontou para a caneca da qual estava bebendo, uma das mãos ainda comprimindo a carne de dragão sobre o olho. Umbridge estava de frente para ele agora, examinando cada detalhe de sua aparência, como fizera com a cabana.
- Ouvi vozes — disse ela em voz baixa.
- Eu estava conversando com o Canino — respondeu Hagrid corajosamente.
- E ele estava conversando com você?
- Bom... de certa maneira — respondeu Hagrid, parecendo pouco à vontade. — Às vezes digo que Canino é quase humano...
- Há quatro pares de pegadas na neve que vêm do castelo à sua cabana — disse Umbridge com astúcia.
Eu ofeguei; Harry tampou a minha boca com a mão. Por sorte, Canino estava farejando alto em volta da barra da saia da Profª Umbridge, e ela não pareceu ter ouvido.
- Bom, eu acabei de voltar — explicou Hagrid, indicando com sua manzorra a mochila. — Talvez alguém tenha vindo me visitar mais cedo e não tenha me encontrado.
- Não há pegadas saindo de sua cabana.
- Bom, eu... eu não sei por que seria... — respondeu Hagrid, puxando nervosamente a barba e tornando a olhar para o canto em que estávamos, como se pedisse ajuda. — Hum...
Umbridge se virou e andou pela cabana estudando tudo atentamente. Abaixou-se para espiar embaixo da cama. Abriu os armários de Hagrid. Passou a cinco centímetros de onde estávamos colados contra a parede; cheguei a encolher a barriga quando ela passou. Depois de espiar dentro do enorme caldeirão que Hagrid usava para cozinhar, ela se virou e disse:
- Que foi que aconteceu com você? Como foi que se feriu dessa maneira?
Hagrid retirou depressa a carne de dragão do rosto, o que foi um erro, porque o hematoma preto e roxo em volta do seu olho agora estava claramente visível, sem falar no sangue recente que congelara em seu rosto.
- Ah... tive um pequeno acidente — disse pouco convincente.
- Que tipo de acidente?
- Aaa... tropecei.
- Tropeçou — repetiu ela calmamente.
- É, foi. Na... na vassoura de um amigo. Eu não vôo. Bom, olhe bem o meu tamanho, acho que não haveria vassoura que aguentasse comigo. Um amigo meu cria cavalos abraxanos. Não sei se a senhora já viu algum, bichos enormes, alados, sabe, eu tinha dado uma volta em um deles e estava...
- Onde é que você esteve? — perguntou Umbridge interrompendo calmamente a tagarelice de Hagrid.
- Onde é que eu...?
- Esteve, isso mesmo. O trimestre começou há dois meses. Outra professora precisou cobrir suas aulas. Nenhum dos seus colegas soube me dar informação alguma sobre o seu paradeiro. Você não deixou endereço. Onde esteve?
Houve uma pausa em que Hagrid encarou Umbridge com o olho que acabara de destampar. Quase dava para ouvir seu cérebro trabalhando furiosamente.
- Estive... estive fora tratando da saúde.
- Tratando da saúde — repetiu a Profª Umbridge. Seus olhos perpassaram o rosto descolorido e inchado de Hagrid; o sangue de dragão pingava lenta e silenciosamente em seu colete. — Entendo.
- É — continuou Hagrid. — Um pouco de ar fresco, a senhora entende...
- Entendo, como guarda-caça deve ser difícil encontrar ar fresco – disse Umbridge meigamente. A pequena área do rosto de Hagrid, que não estava preta ou roxa, corou.
- Bom... mudança de cenário, a senhora sabe...
- Cenário de montanhas? — tornou Umbridge rápida.
- Montanhas? — repetiu Hagrid, claramente pensando rápido. — Não, preferi o sul da França. Um pouco de sol e... e mar.
- Verdade? Você não parece ter se bronzeado muito.
- Não... bom... pele sensível — respondeu Hagrid, tentando sorrir insinuante.
Reparei que ele havia perdido dois dentes. Umbridge olhou-o com frieza; o sorriso dele vacilou. Então ela ergueu a bolsa para abraçá-la contra o corpo e disse:
- Naturalmente, vou informar ao ministro o seu atraso em voltar.
- Certo — respondeu Hagrid, confirmando com um aceno de cabeça.
- Você precisa saber também que, como Alta Inquisidora, tenho o dever espinhoso, mas necessário de inspecionar os meus colegas. Portanto, é provável que muito breve nos vejamos de novo.
Ela se virou bruscamente e se dirigiu à porta.
- A senhora está nos inspecionando? — repetiu Hagrid sem entender, olhando para as costas da bruxa.
- Ah, sim — respondeu Umbridge mansamente, virando-se para olhá-lo, a mão na maçaneta. — O Ministério está resolvido a extirpar os professores incompetentes, Hagrid. Boa noite.
Ela saiu, fechando a porta com um estalo. Harry fez menção de tirar a Capa da Invisibilidade, mas Hermione agarrou seu pulso.
- Ainda não — cochichou em seu ouvido. — Talvez ela ainda não tenha ido embora.
Hagrid parecia estar pensando a mesma coisa; atravessou a sala mancando e abriu uma fresta na cortina.
- Está voltando para o castelo — disse em voz baixa. — Caramba... inspecionando as pessoas, é-é?
- É — confirmou Harry retirando a capa. — Trelawney já está em observação...
- Hum... que tipo de coisa você está planejando fazer com a gente em aula, Hagrid? – perguntou Hermione.
- Ah, não se preocupe, tenho um monte de aulas preparadas — disse Hagrid entusiasmado, recolhendo a carne de dragão da mesa e chapando-a novamente em cima do olho. Tenho uns dois bichos que andei criando para o ano do N.O.M.; esperem para ver, são realmente especiais.
- Hum... especiais de que maneira? — perguntou Hermione sondando.
- Não vou dizer — respondeu ele, feliz. — Não quero estragar a surpresa.
- Escute, Hagrid – disse Hermione com urgência, deixando de lado todo o fingimento. — A Profª Umbridge não vai ficar nada satisfeita se você trouxer para a aula alguma coisa que seja perigosa demais.
- Perigosa? — disse Hagrid jovialmente, sem entender. — Não seja boba, eu não traria para vocês nada que fosse perigoso! Quero dizer, tudo bem, eles sabem se defender...
- Hagrid, você precisa passar na inspeção da Umbridge, e para conseguir isso seria realmente melhor que ela o visse nos ensinando a cuidar de pocotós, como diferenciar ouriços de porcos-espinhos, coisas desse gênero — disse Hermione séria.
- Mas isso não é muito interessante, Mione — replicou Hagrid. — O que eu tenho é muito mais impressionante. Venho criando eles há anos. Calculo que eu tenha o único rebanho domesticado da Grã-Bretanha.
- Hagrid... por favor... — pediu Hermione, com uma nota de verdadeiro desespero na voz. — Umbridge está procurando qualquer desculpa para se livrar de professores que ela acha que são muito próximos de Dumbledore. Por favor, Hagrid, ensine a gente alguma coisa sem graça que vai ser pedida no nosso exame.
Mas Hagrid meramente deu um enorme bocejo e lançou um olhar ansioso de um único olho para a vasta cama a um canto.
- Escute, foi um dia comprido e está tarde — disse ele, dando uma palmadinha carinhosa no ombro de Hermione, que fez os joelhos da garota dobrarem e bater no chão com um ruído surdo. — Ah... desculpe... — E puxou-a para cima pela gola das vestes. — Olhe, pare de se preocupar comigo, juro que tenho material realmente bom programado para as aulas, agora que voltei... é melhor vocês voltarem para o castelo e não se esqueçam de apagar as pegadas por onde vão passar, hein?
- Não sei se Hagrid conseguiu entender o seu recado — comentou Rony um pouco mais tarde quando, depois de verificarmos que a barra estava limpa, voltamos para o castelo pela neve que se acumulava, sem deixar vestígios, graças ao Feitiço que Hermione lançava ao passarmos.
- Então voltarei amanhã — disse Hermione decidida. — Vou planejar as aulas para ele, se for preciso. Não me importo que mande a Trelawney embora, mas ela não vai se livrar de Hagrid, não!
- Se quiser, posso ajudar. Eu que ajudo e a estudar.
- Mas eles são mais velhos que você - Rony falou. - Como você faz isso?
- Bem, eu posso ensinar alguém do sétimo ano, sei toda a matéria. Eu gosto.
Ele me olhou com olhos arregalados e olhou para Harry, que me encarava surpreso.
- Tenho que ir, estou cansada. Boa noite - dei um beijo na bochecha de cada um e me virei para Hermione. - Você vem?
Ela concordou com a cabeça e subimos, mas eu ainda ouvi a última frase Rony:
- Só temos amigas inteligentes, o quão estranho isso é?

Hermione voltou à cabana de Hagrid no domingo pela manhã, avançando com dificuldade pela neve de meio metro de altura. Eu queria acompanhá-la, mas e me puxaram, falando algo como "estamos com saudades, hoje você é nossa", Hermione simplesmente riu e disse que podia fazer aquilo sozinha.
- Qualquer coisa, me grite, vou correndo ajudar - respondi.
- Tudo bem. Até mais tarde.
Harry e Rony ficaram no Salão Comunal, fazendo a montanha de deveres de casa que atingiu uma altura alarmante, por isso, contrariados, eles ficaram.
Eu acabei me divertindo, patinei no lago gelado, andei de tobogã e, o melhor, enfeitiçamos bolas de neve para voar até a Torre da Grifinória e bater com força nas janelas, ideia de Fred e Jorge, obviamente.
- Oi! — berrou Rony, metendo a cabeça, sem paciência, para fora da janela: — Sou monitor, e se mais uma bola de neve bater nesta janela... AI!
Ele recuou com um movimento brusco, com rosto coberto de neve.
Voltamos para o castelo na hora do almoço, tremendo um pouco de frio, as vestes úmidas.
- Então? — perguntei quando me sentei ao lado de Hermione. — Conseguiu planejar todas as aulas com o Hagrid?
- Bom, eu tentei — respondeu ela desanimada. Olhou para mim e puxou a varinha e, com um floreio, fez sair ar quente da ponta; em seguida apontou-a para as minhas vestes, que começaram a desprender vapor à medida que foram secando. — Ele nem estava lá quando cheguei, bati no mínimo meia hora. E quando saiu mancando da Floresta...
Eu a olhei assustada, a Floresta Proibida estava apinhada com o tipo de animais com maior probabilidade de causar a demissão de Hagrid.
- Que é que ele está criando lá? Ele disse?
- Não — respondeu Hermione infeliz. — Disse que quer fazer surpresa. Tentei explicar o papel da Umbridge, mas ele simplesmente não entende. Repetiu o tempo todo que ninguém com o juízo perfeito iria preferir estudar ouriços em vez de quimeras... ah, não acho que ele tenha uma quimera — acrescentou ao ver a expressão de espanto no meu rosto. — Mas não é por falta de tentar, pelo comentário que fez sobre a dificuldade de obter ovos. Não sei quantas vezes eu repeti que ele faria melhor se seguisse o programa da Grubbly-Plank, sinceramente acho que não ouviu nem metade do que eu disse. E está meio estranho, sabe? Continua sem querer dizer onde arranjou aqueles ferimentos.
O reaparecimento de Hagrid à mesa dos professores na manhã do dia seguinte não foi recebido com entusiasmo por todos os alunos. Alguns, como Fred, Jorge e Lino, gritaram de alegria e saíram correndo pelo corredor entre as mesas da Grifinória e Lufa-Lufa para apertar sua mão enorme; outros, como Parvati e Lilá, trocaram olhares sombrios e balançaram a cabeça. Muitos preferiam as aulas da Profª Grubbly-Plank, e o pior é que uma pequena parte minha, imparcial, concordava com eles, para Grubbly-Plank uma aula interessante era aquela em que ninguém corria o risco de ter a cabeça arrancada.
Foi com uma certa apreensão que nos encaminhamos para a aula de Hagrid na terça-feira, bem agasalhados contra o frio. Harry estava preocupado, não somente com o que Hagrid decidira nos ensinar, mas também com o comportamento do restante da turma, particularmente o de Malfoy e seus comparsas, e eu tive que concordar com ele quando compartilhou seu sentimento comigo, Malfoy podia ser bastante desprezível até mesmo sem querer, imagine se Umbridge estivesse observando.
No entanto, a Alta Inquisidora não estava visível enquanto venciamos com dificuldade a neve em direção a Hagrid, que nos esperava na orla da Floresta.
Sua aparência não tranquilizava; os hematomas que estavam roxos no sábado à noite agora estavam matizados de verde e amarelo, e alguns dos seus cortes ainda pareciam sangrar. Eu só esteva com uma dúvida: será que Hagrid fora atacado por alguma criatura cujo veneno impedia os ferimentos de sararem?
E, como para completar sua figura sinistra, Hagrid carregava por cima do ombro uma coisa que parecia a metade de uma vaca morta.
- Vamos trabalhar aqui hoje! — anunciou alegremente enquanto nos aproximávamos, indicando com a cabeça as árvores escuras às suas costas. — Um pouco mais protegidos! De qualquer maneira, eles preferem o escuro.
- Que é que prefere o escuro? — ouvi Malfoy perguntar rispidamente a Crabbe e Goyle, com um indício de pânico na voz. — Que foi que ele disse que prefere o escuro: vocês ouviram?
- Prontos? — perguntou Hagrid animado, nos olhando. — Bom, então, estive guardando uma viagem à Floresta para o seu quinto ano. Pensei em irmos ver os bichos em seu hábitat natural. Agora, o que vamos estudar hoje é bem raro. Calculo que eu seja a única pessoa na Grã-Bretanha que conseguiu domesticá-los.
- Você tem mesmo certeza de que eles estão domesticados? — disse Malfoy, o pânico em sua voz era ainda mais pronunciado. — Não seria a primeira vez que você traz bichos selvagens para a aula, não é?
Os alunos da Sonserina murmuravam concordando, e alguns da Grifinória também pareciam achar que Malfoy tinha uma certa razão.
- Claro que estão domesticados — garantiu Hagrid, fechando a cara e erguendo um pouco a vaca morta para ajeitá-la no ombro.
- Então, que foi que aconteceu com o seu rosto? — quis saber Malfoy.
- Cuide da sua vida! — disse Hagrid, zangado, e eu lancei ao Malfoy um sorriso de deboche. — Agora, se acabaram de fazer perguntas bobas, me sigam!
Ele se virou e entrou na Floresta Proibida. Ninguém parecia muito disposto a segui-lo. Harry olhou para mim, Rony e Hermione, que suspiramos, mas concordamos com a cabeça, e entramos atrás de Hagrid, liderando o resto da turma.
Caminhamos uns dez minutos até chegar a um ponto em que as árvores cresciam tão juntas que era sombrio como ao anoitecer, e não havia neve no chão. Com um gemido, Hagrid depositou a metade da vaca no chão, recuou e se virou para olhar os alunos, a maioria dos quais se esgueirava de árvore em árvore em sua direção, espiando para os lados nervosamente como se esperassem ser atacados a qualquer momento.
- Cheguem mais, cheguem mais — encorajou-os Hagrid. — Agora eles vão ser atraídos pelo cheiro da carne, mas de qualquer maneira vou chamá-los, porque vão gostar de saber que sou eu.
Ele se virou, sacudiu a cabeça desgrenhada para tirar os cabelos do rosto e soltou um grito estranho e agudo que ecoou por entre as árvores escuras como o chamado de uma ave monstruosa. Ninguém riu: a maioria estava apavorada demais para emitir qualquer som.
Hagrid deu novo grito agudo. Passou-se um minuto em que a turma continuou a espiar nervosamente sobre os ombros e por trás das árvores para avistar o que quer que estivesse a caminho. Então, quando Hagrid jogou os cabelos para trás mais uma vez e encheu o enorme peito, eu paralisei.
Dois olhos vidrados, brancos, brilhantes, foram crescendo na penumbra, depois surgiram a cara draconina, o pescoço e, em seguida, o corpo esquelético de um enorme cavalo alado negro emergiu da escuridão. O animal correu os olhos pela turma por alguns segundos, balançando a longa cauda negra, então começou a arrancar pedaços da vaca morta com seus caninos pontiagudos.
Eu nunca havia visto aqueles animais antes, nem ouvido falar. Eles eram assustadoramente calmos e mansos para terem aquela aparência. Mas se Hagrid acredita que eles são verdadeiramente domesticados, o que me resta a não ser acreditar?
- Por que é que Hagrid não chama outra vez? - sussurrou Rony.
A maioria dos outros alunos expressava no rosto uma ansiedade confusa e nervosa, como a de Rony, e continuava a olhar para todos os lados, exceto para o cavalo, a pouco mais de um metro deles. Havia apenas mais três pessoas que pareciam capazes de vê-los: um garoto magricela da Sonserina, parado logo atrás de Goyle, que observava o cavalo comer com uma cara de intenso nojo; Neville, cujo olhar acompanhava o balanço da longa cauda negra; e Harry, que olhava meio espantado, meio aliviado.
- Ah, e aí vem mais um! — anunciou Hagrid orgulhoso, quando viu aparecer do meio das árvores escuras um segundo cavalo, que fechou as asas contra o corpo e mergulhou a cabeça para devorar a carne. - Agora... levantem as mãos... quem consegue vê-los?
Ainda meio confusa, levantei a mão, assim como Neville, o garoto da Sonserina e Harry. Hagrid fez um aceno para o ultimo.
- Sim... sim, eu sabia que você seria capaz de vê-los — disse sério. — E você também, Neville, é? E...
- Com licença — perguntou Malfoy com a voz desdenhosa —, mas que é exatamente que eu devia estar vendo?
Em resposta, Hagrid apontou para a carcaça da vaca no chão. A turma inteira contemplou-a com espanto por alguns segundos, então várias pessoas exclamaram, e Parvati soltou um grito agudo. Eu entendi o por quê: os pedaços de carne se soltando dos ossos e desaparecendo no ar deviam parecer realmente estranhos.
- Que é que está fazendo isso? — perguntou Parvati aterrorizada, recuando para trás da árvore mais próxima. — Que é que está comendo a vaca?
- Testrálios — disse Hagrid, orgulhoso, e Hermione soltou em voz baixa um "Ah!" de compreensão ao ombro de Harry. — Hogwarts tem um rebanho deles aqui na Floresta. Agora, quem sabe...?
- Mas eles realmente trazem má sorte! — interrompeu Parvati, parecendo assustada. — Dizem que dão todo o tipo de azar às pessoas que os vêem. A Profª Trelawney me contou uma vez...
- Não, não, não — contestou Hagrid rindo —, isso é pura superstição, isto é, eles são muito inteligentes e úteis! É claro que esses daqui não trabalham muito, só puxam as carruagens da escola, a não ser que Dumbledore vá fazer uma viagem longa e não queira aparatar... e aí vêm mais dois, olhem...
Eu me perguntei como eu não vi aqueles animais antes. Mais dois cavalos saíram silenciosamente de trás das árvores, um deles passou muito perto de Parvati, que estremeceu e se encostou mais perto da árvore, dizendo:
- Senti alguma coisa, acho que está perto de mim!
- Não se preocupe, ele não vai machucar você — disse Hagrid paciente. — Certo, agora, quem é capaz de me dizer por que alguns de vocês vêem os Testrálios e outros não?
Hermione ergueu a mão.
- Diga, então — pediu Hagrid, sorrindo para a garota.
- Só podem ver os Testrálios — respondeu ela — as pessoas que já viram a morte.
- Exatamente — disse Hagrid, muito solene —, dez pontos para a Grifinória. Agora, os Testrálios...
Mas eu nunca vi ninguém morrer, então porque céus eu podia ver aqueles bichos?
- Hem, hem.
A bruxa - ou deveria ser sapa? - chegara. Estava a alguns passos de Harry, usando novamente a capa e o chapéu verdes, a prancheta à mão. Hagrid, que nunca ouvira o pigarro fingido da Umbridge, olhou com certa preocupação para o Testrálio mais próximo, evidentemente pensando que ele produzira o som.
- Hem, hem.
- Ah, olá! — disse Hagrid sorrindo, ao localizar a origem do ruído.
- Você recebeu o bilhete que mandei à sua cabana hoje pela manhã? — perguntou Umbridge, no mesmo tom alto e pausado que usara com ele anteriormente, como se estivesse se dirigindo a alguém ao mesmo tempo estrangeiro e retardado. — Avisando que eu viria inspecionar sua aula?
- Ah, sim – respondeu Hagrid animado. — Fico satisfeito que tenha encontrado o local sem dificuldade! Bom, como pode ver ou, não sei, será que a senhora pode? Hoje estamos estudando Testrálios...
- Desculpe? — disse a Profª Umbridge em voz alta, levando a mão em concha à orelha e franzindo a testa: — Que foi que você disse?
Hagrid pareceu um pouco confuso.
- Ah... Testrálios! — disse, elevando a voz. — Cavalos alados... hum... grandes, sabe!
Ele agitou os braços gigantescos, esperançoso. A Profª Umbridge ergueu as sobrancelhas para ele e resmungou alguma coisa enquanto anotava na prancheta: Tem... de... recorrer... a... grosseira... gesticulação.
- Bom... em todo o caso... — disse Hagrid voltando-se para a turma e parecendo ligeiramente atrapalhado — hum... que é que eu ia dizendo?
- Parece... esquecer... o... que... estava dizendo — murmurou Umbridge, suficientemente alto para todos ouvirem. Draco Malfoy parecia sentir que o Natal chegara um mês antes; Hermione, por outro lado, ficara escarlate de fúria reprimida.
- Ah, sim — disse Hagrid, lançando um olhar preocupado à prancheta de Umbridge, mas prosseguindo valorosamente. — Eu ia contar a vocês como foi que formamos um rebanho. Então, começamos com um macho e cinco fêmeas. Este — ele deu uma palmadinha carinhosa no primeiro cavalo que aparecera. — De nome Tenebrus, treva, o meu grande favorito, foi o primeiro a nascer na Floresta...
- Você tem ciência — disse Umbridge em voz alta, interrompendo-o. — Que o Ministério da Magia classificou os Testrálios como "perigosos"?
Meu ânimo afundou como uma pedra, mas Hagrid meramente deu uma risadinha.
- Os Testrálios não são perigosos! Tudo bem, são capazes de tirar um pedaço de alguém que realmente os importunar...
- Manifesta... prazer... à... ideia... de... violência — murmurou Umbridge, registrando em sua prancheta.
- Ora... vamos! — exclamou Hagrid, parecendo um pouco ansioso agora. — Quero dizer, um cão morde se a pessoa o açula, não?... mas os Testrálios somente ganharam má reputação por causa dessa história de morte... as pessoas costumavam pensar que traziam mau agouro, não é mesmo? Simplesmente não entendiam, não é?
Umbridge não respondeu; terminou de fazer a última anotação, então olhou para Hagrid e disse, mais uma vez alteando a voz e enunciando as palavras devagar:
— Por favor, continue sua aula como sempre, eu vou andar um pouco – ela imitou uma pessoa andando (Malfoy e Pansy Parkinson tiveram acessos silenciosos de riso) entre os alunos (ela apontou cada integrante da turma) e fazer pergunta (ela apontou para a boca indicando o ato de falar).
Hagrid arregalou os olhos para ela, visivelmente incapaz de compreender por que estava agindo como se não soubesse inglês normal. Eu estava com os olhos arregalados e Hermione agora tinha lágrimas de fúria nos olhos.
- Sua megera, sua megera maligna! — sussurrou ela, enquanto Umbridge andava em direção a Pansy Parkinson. — Eu sei o que você está fazendo, sua bruxa horrível, pervertida, malévola...
- Hum... em todo o caso — disse Hagrid, tentando nitidamente recuperar o fio de sua aula. — Então... os Testrálios. Sim. Bom, há muitas coisas boas sobre eles...
- Você acha — perguntou a Profª Umbridge a Pansy com voz ressonante. — Que é capaz de entender o Prof. Hagrid quando ele fala?
Tal como Hermione, Pansy tinha lágrimas nos olhos, mas eram lágrimas de riso, na verdade, e sua resposta foi quase incoerente na tentativa de conter o riso.
- Não... porque... bom... muitas vezes... parecem grunhidos.
Umbridge registrou a resposta em sua prancheta. As poucas partes sãs do rosto de Hagrid coraram, mas ele tentou agir como se não tivesse ouvido a resposta da aluna.
- Hum... sim... coisas boas sobre os Testrálios. Uma vez que sejam domesticados, como este rebanho, as pessoas nunca mais se perderão. Eles têm um espantoso senso de direção, é só dizer aonde se quer ir...
- Supondo que eles consigam entender você, naturalmente — disse Malfoy alto, e Pansy desatou em um novo acesso de riso. A Profª Umbridge sorriu indulgentemente para os dois e se dirigiu a mim.
- Você consegue ver os Testrálios, , verdade?
Assenti com a cabeça.
- Quem foi que você viu morrer? — perguntou ela, seu tom indiferente.
- Bem, não sei. Nunca vi ninguém morrer - respondi e todos me olharam surpresos e confusos.
- E o que acha deles? — perguntou a professora, indicando com a mão curta e grossa os cavalos, que a essa altura tinham limpado uma boa parte da carcaça até os ossos.
- Hum — disse meio nervosa, lançando um olhar a Hagrid. — Bom... eles... aah... tudo bem.
- Os... alunos... se... sentem... demasiado... intimidados... para... admitir... que... têm... medo — murmurou Umbridge, fazendo mais uma anotação na prancheta.
- Não! — protestei, aborrecida. — Na verdade - caminhei até o mais próximo e o alisei. - Os acho bastante engraçados!
- Está tudo bem — disse Umbridge, me dando palmadinhas no ombro, com o que ela pretendia que fosse um sorriso de compreensão, embora me parecesse mais um esgar maldoso. — Bom, Hagrid — Umbridge tornou a olhar para ele, falando mais uma vez alta e lentamente: — Acho que tenho o suficiente para trabalhar. Você receberá - ela imitou o gesto de apanhar alguma coisa a sua frente. - Os resultados de sua inspeção - ela apontou para a prancheta. - Dentro de dez dias — ergueu os dez dedos curtos das mãos, e, com o sorriso mais largo e bufonídeo que já dera sob aquele gorro verde, ela saiu apressada, deixando Malfoy e Pansy Parkinson tendo acessos de risos, Hermione tremendo de fúria e eu bastante aborrecida.
- Aquela gárgula velha, nojenta, mentirosa, deturpadora! — explodiu Hermione meia hora depois, quando voltávamos ao castelo pelo caminho que haviam aberto na neve mais cedo. — Vocês estão vendo o que ela está tramando? É aquele preconceito contra mestiços outra vez: está tentando pintar Hagrid como uma espécie de trasgo retardado, só porque a mãe dele era giganta, e, ah, não é justo, na realidade nem foi uma aula ruim, quero dizer, tudo bem, se tivessem sido explosivins, mas os Testrálios são bem aceitáveis: de fato, tratando-se de Hagrid, são realmente ótimos!
- A Umbridge disse que eles são perigosos — lembrou Rony.
- Bom, é como disse o Hagrid, eles sabem se cuidar sozinhos — retrucou Hermione impaciente. — E suponho que uma professora como a Grubbly-Plank normalmente não nos apresentaria a eles antes dos N.I.E.M.s, mas, bom, eles são muito interessantes, não acharam? Como tem gente que pode vê-los e gente que não pode! Eu gostaria de poder.
- Gostaria? — perguntou Harry calmamente.
De repente ela fez uma cara de horror.
- Ah, Harry... desculpe... não, claro que não... foi realmente uma burrice dizer isso.
- Tudo bem — disse ele depressa. — Não se preocupe.
- É de surpreender que tanta gente pudesse vê-los — comentou Rony. — Quatro em uma turma...
- É, Weasley, nós estávamos mesmo imaginando — comentou uma voz maliciosa. Sem que fossem pressentidos, Malfoy, Crabbe e Goyle vinham logo atrás, o ruído dos seus passos abafado pela neve. — Você acha que se visse alguém sentindo o cheiro deles você conseguiria ver melhor a goles?
Ele, Crabbe e Goyle deram grandes gargalhadas ao nos ultrapassar a caminho do castelo, depois começaram a cantar "Weasley é o nosso rei". As orelhas de Rony ficaram vermelho vivo.
- Não ligue para eles, não ligue — eu disse, puxando a varinha e executando o feitiço, que aprendi com Hermione, para produzir ar quente e assim poder abrir mais facilmente um caminho pela neve intacta entre nos e as estufas.

Dezembro chegou, trazendo mais neve e uma decidida avalanche de deveres de casa para os quintanistas. As tarefas de monitor de Rony e Hermione também se tornaram mais pesadas com a aproximação do Natal. Eles foram chamados para supervisar a decoração do castelo ("Tenta pendurar festões com o Pirraça segurando a outra ponta e tentando estrangular você com ela", disse Rony), tomar conta dos alunos de primeiro e segundo anos que passam os intervalos das aulas dentro do castelo por causa do frio cortante ("E eles são uns melequentos atrevidos, sabe, decididamente não éramos mal-educados assim quando frequentávamos o primeiro ano", comentou Rony), e patrulhar os corredores dividindo turnos com Argo Filch, que suspeitava que o espírito natalino pudesse se manifestar numa eclosão de duelos de bruxos ("Ele tem bosta nos miolos", disse Rony furioso). Enfim, andavam tão ocupados que, na maioria do tempo, eu e Harry ficávamos sozinhos, não que fosse um problema, mas na maios parte do tempo eu o ajudava com o dever. E Hermione precisou parar de tricotar gorros para elfos e ficou preocupada que só lhe sobrassem três.
- Todos esses elfos, coitados, que eu não pude liberar ainda, terei de passar o Natal aqui porque não há gorros suficientes!
Harry me falou que Dobby, um dos elfos domésticos que conhecia, estava levando tudo. E esse ano foi pela primeira vez em minha carreira escolar que queria muito passar as festas longe de Hogwarts, mas meus pais iriam visitar - argh - Luke e sua tia, e tudo o que eu menos queria e precisava era ver aquele garoto, então Hermione me convidou para esquiar com ela e seus pais, eu aceitei na hora e meus pais aceitaram assim que eu falei de quem se tratava - influenciáveis? Não, imagina. Aquele ano estava sendo um fiasco tanto para mim como para Harry e única coisa que antes gozávamos eram os encontros da AD, e estes teriam de ser interrompidos durante as festas, porque quase toda a turma iria passar as férias com a família. Rony e Harry iam passar o Natal na casa do ruivo.
Eu e Harry chegamos cedo à Sala Precisa para a última reunião antes das festas, e ele pareceu ficar muito contente de termos feito isso, porque quando os archotes se acenderam vimos que, segundo ele, Dobby se encarregara de decorar a sala para o Natal, quando perguntei como ele sabia que fora o elfo, ele só apontou para as cem bolas douradas penduradas no teto, todas com o rosto de Harry Potter e a legenda "HARRY CHRISTMAS!". Eu tive que rir, nem conhecia aquele elfo e já o achava uma graça.
Tínhamos acabado deabaixar a última delas quando a porta se entreabriu e Luna Lovegood entrou, com a cara de sonhadora de sempre.
- Olá — disse distante, olhando para o que restara das decorações.
- Estão bonitas, foram vocês quem as pendurou?
- Não, foi Dobby, o elfo doméstico.
- Visgo — disse ela sonhadoramente, apontando para um cacho de frutinhos brancos pendurados quase em cima das nossas cabeças. Ele saltou para longe dos frutos e eu apenas ri. — Bem pensado — disse Luna muito séria. — Muitas vezes está infestado de Narguilés.
Infelizmente não pude perguntar o que eram Narguilés pois Angelina, Katie e Alicia haviam acabado de chegar. As três estavam sem fôlego e pareciam sentir muito frio.
- Bom — disse Angelina maquinalmente, tirando a capa e atirando-a a um canto. — Finalmente conseguimos substituir você.
- Me substituir? — perguntou Harry sem entender.
- Você e Fred — disse ela impaciente. — Temos um novo apanhador e um batedor. Só precisamos falar com uma pessoa.
- , vi você jogando quando fizemos aquela partida improvisada ano passado e você se saiu muito bem, poderia, por favor, substituir o Jorge?
Eu olhei para elas, eu gostava de quadribol e elas pareciam tão desesperadas. Não faria mal aceitar, certo?
- Tudo bem.
Elas gritaram e correram para me abraçar, eu só fazia rir.
- Quem é o novo apanhador? — perguntou Harry quando elas pararam.
- Gina Weasley — informou Katie.
Harry boquiabriu-se.
- É, eu sei — disse Angelina, puxando a varinha e flexionando o braço. — Mas ela é realmente boa. Não se compara a você, é claro — acrescentou amarrando a cara. — Mas como não podemos ter você...
- E o outro batedor? — perguntei, tentando quebrar o silêncio desconfortável que se instalou.
- Andre Kirke — respondeu Alicia, sem entusiasmo. — Ele não é genial, mas comparados aos outros que apareceram... E então lembramos de você e puf - então elas me abraçaram e eu ri, de novo.
A chegada de Rony, Hermione e Neville encerrou essa conversa. Quando os gêmeos entraram, eu pulei em cima do Jorge gritando: “Eu sou a nova batedora, eu vou te substituir, eu sou melhor que vocêeeee!”, ele riu, e me zoou um pouco, mas foi coisa rápida. Cinco minutos depois a sala já estava cheia.
- O.k. — disse Harry, chamando todos à ordem. — Achei que hoje deveríamos repassar o que já fizemos até agora, porque é a última reunião antes das férias e não tem sentido começar nada novo antes de uma pausa de três semanas...
- Não vamos fazer nada novo? — exclamou Zacarias, resmungando, insatisfeito, suficientemente alto para ser ouvido por toda a sala. — Se eu soubesse nem teria vindo.
- Então todos lamentamos muito que Harry não tenha lhe avisado — retrucou Fred em voz alta.
Várias pessoas abafaram risinhos, enquanto eu e Jorge riamos com gosto.
- ... podemos praticar aos pares — continuou Harry. — Vamos começar com a Azaração de Impedimento durante dez minutos, então podemos apanhar as almofadas e experimentar o Feitiço Estuporante mais uma vez.
Todos se dividiram obedientemente, eu fiz par com o como sempre. Logo a sala se encheu de gritos intermitentes de "Impedimenta!". Eu consegui paralisar mais vezes, por isso pude observar os trabalhos dos outros pares melhor, enquato ele recuperava os movimentos para começarmos de novo.
Transcorridos os dez minutos da Azaração de Impedimento, espalhamos as almofadas pelo chão e começamos a praticar mais uma vez o Estuporante. O espaço era realmente muito limitado para permitir que todos trabalhassem ao mesmo tempo; metade do grupo observava a outra metade por alguns minutos, depois nos revezavamos.
Eu estava impressionada com o processo de cada um. É verdade que Neville estuporou Padma Patil em vez de Dino, a quem estava visando, mas errou por muito menos do que antes, e todos os outros tinham feito enormes progressos, até mesmo eu.
Ao final de uma hora, Harry anunciou o fim da aula.
- Vocês estão ficando ótimos — disse sorrindo. — Quando voltarmos das férias, poderemos começar com os feitiços mais importantes, talvez até com o Patrono.
Ouviram-se murmúrios de excitação, eu não falei nada, estava ansiosa para finalmente aprende-lo. A sala começou a se esvaziar, como sempre aos pares e trios; a maioria desejou a Harry um "Feliz Natal" ao sair.
Sentindo-me bastante ansiosa, ajudei a recolher as almofadas com Harry, Rony e Hermione, e as empilhamos em ordem. Eu, o ruivo e a morena saíramos antes; Harry se demorou mais um pouco, porque Cho ainda não saíra.
Fomos andando em direção ao Salão Comunal e assim que passamos, Jorge me puxou para um canto.
- Oi, Jorginho - ele fez uma careta ao ouvir o apelido que eu havia lhe dado.
- Oi, .
- O que foi?
- Eu só queria lhe contar uma coisa.
- Bem, pode falar - sorri e segurei sua mão.
- Jorge, você pode me ajudar a arrumar essas coisas? - falou Fred, alguns metros distantes.
- Me espera aqui.
Ele correu até o irmão, falou alguma coisa para ele, Fred respondeu e depois levou um tapa na cabeça - nesse momento eu soltei uma leve risada -, Jorge ajudou o irmão e um tempo depois voltou a se sentar a minha frente.
- Agora fala, estou curiosa.
Ele pegou minha mão e enquanto falava, ficou olhando para o chão.
- Eu sei que faz pouco tempo que a gente se conhece...
- Mais de três meses, eu acho muito tempo, não tanto quanto eu...
- Dá para calar a boca? - ele falou e eu o olhei assustada. - Eu decorei e ensaiei isso na frente do espelho por horas, então será que você pode ficar calada e não interromper meu monólogo? - fiz uma careta, mas concordei com a cabeça e ele me lançou um sorriso. - Obrigada. Onde eu estava mesmo? Ah, sim, sei que não é o tanto de tempo que você conhece o Wood, os Oliver e o Clark, mas eu gosto de você.
- Eu também gosto de você, Weasley.
- Talvez você ainda não sinta o mesmo por mim, mas eu estou disposto a... - ele parou, olhou para mim, depois balançou a cabeça e abriu a boca, só para fecha-la de novo e ficar em silêncio por um tempo. - Como é que é?
- Eu também gosto de você, Weasley - repeti calmamente. - Gosto de você de um jeito que nunca gostei do ou do , sempre quero ficar do seu lado... Aaah, eu não sei explicar - conclui colocando as mãos no meu rosto que eu já sentia ficar vermelho.
Senti Jorge sentar ao meu lado e eu já previ o resto, ele iria falar que não era assim que gostava de mim e que na verdade ele só queria ajuda para conquistar outra garota que ele estava afim, mas aí eu senti ele pegar minhas mãos e me puxar para mais perto dele, e quando eu levantei minha cabeça para olhar o que ele estava fazendo, senti seus lábios nos meus.
Bem, eu nunca havia beijado ninguém, nem mesmo meu travesseiro, mas, por algum motivo, eu sabia o que fazer. Coloquei minhas mãos envolta de seu pescoço e fechei meus olhos, me entregando aquele momento único.
Quanto nossos pulmões pediram por ar, ele colou nossas testa e, eu ainda de olhos fechados, ouvi suas próximas palavras.
- Então somos namorados ou você só falou aquilo para me beijar e tchau?
Eu ri e me afastei dele.
- Adoro o modo como você só pensa no meu lado mocinha - por trás dele vi o trio olhando para nós, Hermione sorria, Rony fazia uma careta e Harry nos olhava como se não estivesse realmente olhando para nós. Pude ver Fred rindo e apontado para nós com Lino. - Acho que seu irmão está fazendo piada da gente.
Ele olhou para trás e riu, virou para mim e me deu um selinho.
- Vou para lá e fazer graça dele, afinal, sou eu que estou namorando uma gata.
Eu ri, mas fui interrompida por um beijo, então um selinho e mais um, e outro, mais outro e outro. E depois nós dois estávamos rindo.
- Certo, acho que Hermione e querem saber de tudo. É melhor eu ir antes que você tenha que comunicar aos meus pais minha morte - ele me olhou confuso e riu. Levantei-me e fui em direção do trio, mas antes parei onde os Oliver e me olhavam.
- Daqui a pouco, no meu dormitório - falei para e dei um beijo na bochecha dos três. - Boa noite. Amo vocês.
Sentei-me ao lado de Hermione que tinha acabado de voltar a escrever sua longa carta. Já enchera metade de um pergaminho, que caía pela borda da mesa. Rony estava deitado no tapete da lareira, tentando terminar um dever de Transfiguração. Harry estava sentado numa das cadeiras ao lado de Mione, eu me sentei em outra.
- O que aconteceu lá? — perguntei a Harry quando afundei na cadeira ao seu lado.
Harry não respondeu. Apenas me olhou e suspirou. Eu ri, tive que rir.
- Ele já falou alguma coisa? — perguntei a Hermione enquanto o examinava.
- Estava quase lá.
- Foi a Cho? — perguntei muito objetivamente. — Ela encostou você na parede depois da reunião?
Abobalhado, Harry confirmou com a cabeça. Rony deu risadinhas, só parando quando seu olhar encontrou o de Hermione.
- Então... ah... que é que ela queria? — perguntou ele fingindo displicência.
- Ela... — começou Harry, meio rouco; pigarreou e tentou novamente. — Ela... ah...
- Vocês se beijaram? — perguntou Hermione sem rodeios.
Rony se sentou tão depressa que arremessou o tinteiro pelo tapete. Inteiramente alheio ao que fizera, olhou para Harry com grande interesse.
- Então? — quis saber.
Harry olhou de Rony, cujo rosto expressava um misto de curiosidade e hilaridade, para a testa levemente enrugada de Hermione, depois para mim que o olhava tentando segurar o riso, e confirmou com a cabeça.
- HÁ!
Rony fez um gesto de vitória com o punho e desatou a rir tão estridentemente que sobressaltou algumas pessoas sentadas junto à janela. Um sorriso relutante se espalhou pelo rosto de Harry ao ver Rony rolar pelo tapete. Hermione lançou a Rony um olhar de profundo desgosto, e voltou a sua carta.
- E aí? — perguntou Rony finalmente, encarando Harry. — Como foi?
Harry refletiu por um momento.
- Úmido — disse com sinceridade. Rony emitiu um som que poderia indicar alegria ou nojo, era difícil dizer. - Porque ela estava chorando — continuou Harry pesaroso.
- Ah — exclamou Rony, o sorriso se atenuando em seu rosto. — Você é ruim assim de beijo?
- Não sei — respondeu Harry. — Vai ver sou.
- Claro que não é — disse Hermione distraída, ainda escrevendo a carta, agora eu tentava ler o que ela escrevia, sem sucesso.
- Como é que você sabe? — perguntou Rony rispidamente.
- Porque ultimamente Cho passa metade do tempo chorando — respondi distraidamente. — Chora na hora da comida, no banheiro, por toda parte.
- Mas era de esperar que uns beijinhos a animassem — disse Rony sorrindo. - Olhe só para a .
- Rony — disse Hermione em tom muito solene, molhando a ponta da pena no tinteiro. — Você é o legume mais insensível que já tive a infelicidade de conhecer.
- Que é que você quer dizer com isso? — perguntou Rony indignado. — Que tipo de pessoa chora quando está sendo beijada?
- É — disse Harry. — Que tipo?
Eu e Hermione olhamos para os dois ao mesmo tempo com uma expressão no rosto que beirava a piedade.
- Vocês não compreendem como a Cho está se sentindo neste momento?
- Não! – responderam Harry e Rony juntos.
Eu suspirei e Mione descansou a pena.
- Bom, obviamente ela está se sentindo muito triste, porque Cedrico morreu. Depois, imagino que esteja se sentindo confusa porque gostava do Cedrico e agora gosta do Harry, e não consegue entender de qual dos dois gosta mais... - ela começou.
- Depois, está se sentindo culpada, achando que é um insulto à memória do Cedrico beijar o Harry, e deve estar preocupada com o que as outras pessoas vão dizer quando começar a sair com ele... - acrescentei.
- E provavelmente não consegue entender seus sentimentos com relação a Harry, porque era ele quem estava junto quando Cedrico morreu, então tudo isso é muito confuso e doloroso. Ah, e está com medo de ser expulsa do time de Quadribol da Corvinal porque está voando muito mal - Hermione concluiu.
O fim de sua fala foi recebido com um silêncio de breve aturdimento, então Rony falou:
- Uma pessoa não pode sentir tudo isso ao mesmo tempo, explodiria.
- Só porque você tem a amplitude emocional de uma colher de chá isto não significa que sejamos todos iguais — disse Hermione maldosamente, retomando sua pena. Eu tive que me segurar para não rir, de novo. O que posso fazer? Diferente da Cho eu estou completamente feliz.
- Foi ela quem começou — disse Harry. — Eu não teria... ela meio que me procurou... e no momento seguinte estava derramando lágrimas em cima de mim... eu não sabia o que fazer...
- Não é sua culpa, cara — disse Rony, parecendo assustado só de pensar.
- Você tinha de ser legal com ela — disse Hermione, erguendo os olhos ansiosa. — Você foi, não?
- Bom — respondeu Harry, ficando vermelho. — Eu meio que dei umas palmadinhas nas costas dela.
Eu não consegui controlar e comecei a rir, já Hermione parecia estar se controlando com extrema dificuldade para não olhar para o teto.
- Bom, suponho que poderia ter sido pior. Vai voltar a vê-la?
- Terei, não é? Temos os encontros da AD, não temos?
- Você entendeu — eu disse, porque Hermione parecia muito impaciente.
Harry não respondeu. Acho que ficou imaginando um encontro com a garota.
- Ah, bom – disse Hermione distante, absorta outra vez em sua carta. — Você terá muitas oportunidades para convidá-la.
- E se ele não quiser? — indagou Rony, que estivera observando Harry com uma expressão incomumente perspicaz.
- Não seja bobo — disse Hermione distraída. — Harry gosta dela há séculos, não é, Harry?
Ele não respondeu, mas não podia negar, todo mundo que fosse um pouco observador saberia desse sentimento de Harry por Cho.
- Afinal, para quem é que você está escrevendo, Hermione? — perguntei, perdendo a paciência e tentando ler o pergaminho.
— Vítor.
— Krum? - perguntou Rony.
— Quantos Vítor nós conhecemos?
Rony não respondeu, mas pareceu aborrecido. Ficamos em silêncio os vinte minutos seguintes, Rony terminando o trabalho de Transfiguração dando bufos de impaciência e riscando as frases; Hermione escrevendo sem parar até o fim do pergaminho, enrolando-o e lacrando-o; Harry contemplando o fogo; e eu pensando no beijo e no pedido não oficial de namoro do Jorge, até ver fazendo sinal para subirmos e eu poder lhe contar tudo o que aconteceu, eu só neguei com a cabeça e fui até ela.
- É melhor ficarmos aqui, assim podemos conversar sem nos preocupar em acordar as outras.
Íamos andando em direção ao sofá no canto quando me lembrei da Hermione e chamei-a. Ficamos ali conversando e só subimos depois de meia hora que os meninos foram dormir.
Eu e Mione nos despimos e pusemos os pijamas em silêncio. As garotas que dividiam o dormitório conosco já estavam dormindo. Meti-me na cama e fechei o cortinado.
- Boa noite — resmunguei.
- Boa noite — respondeu Hermione.
Eu dormi e, pela primeira vez em semanas, não tive nenhum pesadelo.

- Eu não estou mentindo e não estou enlouquecendo — acordei assustada, ouvindo Harry gritar. — Estou dizendo que vi acontecer!
Vesti meu roupão ao mesmo tempo que Hermione fazia o mesmo, quando chegamos aos pés das escadas, só nos restava ver Harry, a Profa. McGonagall e Rony passando pelo retrato da Mulher Gorda ao lado de Neville, Dino e Simas.


Capítulo 7

Eu e Hermione nós encaramos, de novo. Fazia mais de meia hora que estávamos ali, esperando Harry e Rony, já preocupadas.
Dino e Neville haviam nos contado o que tinha acontecido - quando perguntamos, Simas fechou a cara e subiu. Jorge, Fred e Lino apareceram, mas os dois últimos voltaram a dormir, já Jorge, sentou ao meu lado e ficou por ali tentando me acalmar.
Quando o retrato da Mulher Gorda se abriu, todos, sem exceção, ficaram em pé, mas quando vimos que era só a Profa. McGonagall, nós sentamos.
- Weasley - falou ela para Jorge e ele a olhou assustado, apertando forte minha mão -, vá chamar seu irmão. E , vá chamar a garota Weasley.
Jorge olhou para mim e eu concordei com a cabeça, entendendo tudo. Corremos escada acima e voltamos com os dois um tempinho depois, e quando eles saíram, todos ficaram em silêncio. Eu acabei dormindo no sofá do Salão Comunal com Hermione para esperá-los, mas quando acordamos, eles ainda não tinham voltado, e eu já estava muito preocupada já que demos de cara um bilhete da Profa. Minerva chamando a mim e a Mione na sua sala.
- Nos chamou, professora? - perguntou Hermione com a cabeça para dentro.
- Sim, entrem.
Entramos e demos de cara com ela e Dumbledore, todos dois em pé, olhando para nós. Eu nunca fiquei tão preocupada, ansiosa e assustada ao mesmo tempo.
- Os Weasley e Harry estão bem - disse a professora, como se lesse meus pensamentos. - Estão seguros na Ordem junto a Sra. Weasley e Sirius.
Obviamente, eu me assustei ainda mais. Tudo bem que eu acreditava em sua inocência, mas não sabiam que eles, tanto acreditavam e sabiam sua localização, como mandavam adolescentes para ficar com ele. E o que é essa tal de Ordem?
- Tenho certeza que a Srta. Granger não vai se importar de lhe contar tudo sobre a Ordem e sobre Sirius - disse Dumbledore, como se também pudesse ler meus pensamentos.
- Não me importo - Hermione respondeu rápido e depois me lançou um sorriso.
Dumbledore nos liberou depois disso e fomos para a biblioteca, com o intuito de ficar num lugar afastado para podermos conversar. Mas, assim que entramos, demos de cara com uma e um olhando para a porta - com certeza me esperando - e um sentado, de cabeça abaixada, escrevendo alguma coisa.
- Olá, como você está? Nunca nos vimos, não é mesmo? Meu nome é e o seu? - falou ele enquanto eu abraçava , depois de lhe dar um beijo na bochecha.
- Deixe de ser dramático - lhe dei uma tapa da cabeça - sei que você está louco para saber de mim e do Jorge.
- Você me conhece tão bem, gatinha.
Eu e Hermione acabamos passando a manhã toda conversando com eles e só paramos para conversar sobre a tal Ordem e Sirius, depois do almoço.
- Vai, me diz, o que é essa tal Ordem? - perguntei quando nós sentamos na sombra de uma árvore.
- É um grupo secreto, formado por Dumbledore, que tem como principal objetivo destruir Voldemort e seus seguidores. Como se fossem o contrário dos Comensais da Morte. Houveram duas Ordens da Fênix, a primeira, que contava principalmente com aurores, durou até a "morte" de Voldemort. E a que foi formada depois que Harry viu Voldemort voltar. O atual local onde a Ordem da Fênix está é a casa de Sirius, cedida por ele. Ela esta com o feitiço Fidelius e o fiel do segredo é Dumbledore, ou seja, só poderão ver a casa a quem ele falar onde está.
- Espera, é tipo uma AD só que maior e mais importante?
- Tipo isso.
- Ah, acho que entendi - falei e ficamos em silêncio, olhando para o lago. - Como será que o Sr. Weasley está?
- Acho que está melhor, se tivesse acontecido algo ruim já estaríamos sabendo.
Voltamos a ficar em silêncio até Hermione quebrá-lo.
- Eu sou péssima em esquiar.
Eu a olhei sem entender nada, mas ela ainda olhava para o lago.
- Você vai ter as férias toda para aprender.
- Você até pode ser inteligente, mas é muito lerda - eu a olhei assustada, pronta para me defender, quando ela continuou. - Vou falar para os meus pais que decidimos ficar para estudar, pois precisamos nos dedicar mais aos estudos já que os exames finais estão chegando.
- Mas eu não quero ficar aqui. Amo Hogwarts, mas não aguento ficar nesse lugar nem mais um segundo por causa da Umbridge.
- Por Merlin, nós não vamos ficar, vamos para a Ordem, onde estão os Weasley e Harry.
Quando eu entendi seu plano, sorri de uma orelha a outra. Poder passar o natal com Jorge, era uma sensação maravilhosa.
- Vamos subir, temos uma carta para escrever.
Corremos em direção ao nosso dormitório e escrevemos uma pequena carta para os pais da Mione, corremos para o Corujal, despachamos Gabe, minha coruja, com a carta e no meio do caminho de volta para o dormitório, passamos pela sala da Umbridge e a ouvimos conversando com alguém lá dentro.
- Não vejo razão para a saída do Potter, já que o Sr. Weasley não é nada do garoto.
- Como já lhe falei, Dolores, Potter é um grande amigo da família e ficou muito preocupado com a situação do mais velho, ele é como um pai para o garoto - ouvimos a voz de Dumbledore e paramos para ouvir.
- Eu ainda não compreendo o motivo dele não poder esperar o ano acabar.
- Me desculpe, mas sugiro que conversemos mais tarde, tenho alguns assuntos a tratar.
Então a porta se abriu do nada e tanto eu como Hermione levamos um susto ao ver Dumbledore sorrir para nós.
- Boa tarde, garotas.
- Boa tarde, diretor.
- Suponho que queiram saber de seus amigos e do Sr. Weasley - concordamos com a cabeça, ainda esperando ele brigar conosco. - Eles estão bem e Arthur já está fora de perigo, mas ainda está internado.
- Obrigada, Prof. Dumbledore - respondemos juntas.
Já estávamos chegando no final do corredor quando Mione virou para trás.
- Professor, será que o senhor pode contar um segredo a ?
Com um aceno de sua varinha, ele levitou um pedaço de pergaminho até mim.
- Sugiro que queime-o depois de decora-lo.
- Sim, senhor.
Quando chegamos no dormitório, Mione foi tomar banho enquanto eu lia o pergaminho onde havia uma caligrafia fina.
A sede da Ordem da Fênix encontra-se no largo Grimmauld, número doze, Londres.
Eu o li até Hermione sair do banheiro e se arrumar.
- E aí? Decorou? - perguntou ela enquanto arrumávamos as nossas malas.
- Sim, vou agora mesmo queimá-lo.
- Certo.
Eu desci, joguei o pergaminho na lareira, o observei virar cinzas e voltei para cima. Hermione ainda arrumava a sua mala, mas minha cama agora estava sendo ocupada por uma espaçosa.
- Você não tem cama não, garota? - perguntei, voltando a arrumar minha mala.
- Ter, eu tenho, mas a sua é mais confortável - falou ela, virando para nos. - Você vai para casa? Achei que seus pais fossem visitar, argh, Luke.
- E vão, vou passar o natal com Mione.
- É, vamos esquiar.
Eu e Mione nós entreolhamos e sorrimos umas para a outra.
- Entendi, você esta me trocando por essa dai, tudo bem, eu posso superar - ela se levantou fingindo chorar e andou até a porta, mas, rindo, pulei em cima dela antes que pudesse sair, acabamos caindo no chão. Gabe chegou nesse momento e levou a resposta dos pais de Mione para ela, que sorriu para mim.
- Tudo certo.
Eu e Hermione arrumamos as nossas malas com a ajuda de , que acabou dividindo a cama comigo, já que decidiu dormir lá também.

Na manhã do dia seguinte, fomos nós três mais os garotos para o trem e ocupamos uma cabine juntos. Conversamos e rimos o caminho todo, nunca tinha sido tão divertido.
Quando chegamos, vimos Tonks, uma velha amiga da minha família e aparentemente amiga de Hermione, nos esperando para nos acompanhar no Nôitibus Andante até a tal sede da Ordem da Fênix.
Quando enfim chegamos, por volta das seis horas, um quadro de uma mulher - que logo descobri ser a Sra. Black - começou a gritar.
Jorge e Fred estavam começando a subir as escadas e mesmo de longe eu consegui diferenciar os dois e pulei nas costas do meu namorado.
- Surpresa - gritei mais alto do que a mulher do quadro, que, não sei como, logo parou de gritar.
- Não acredito que você está aqui - Jorge falou depois de me dar um beijo, ele só parou porque Fred fez um barulho com a boca como se fosse vomitar.
Enquanto eu ia até meu outro gêmeo favorito, eu respondia:
- Fiquei preocupada com seu pai e com vocês. E Hermione não sabe esquiar, mas não contem para ninguém, aposto que o Rony vai rir dela.
- Fred, querido, será que você pode vir me ajudar com esses pratos? - gritou uma voz do que eu adivinhei ser a cozinha.
- Qual é mãe, estou recebendo a visita.
Eu bati em seu ombro e puxei os dois para a cozinha. Quem já se viu negar um favor a própria mãe.
- Aqui estão os dois para ajudar, Sra. Weasley.
Ela olhou para mim, depois para os filhos, para mim, para a minha mão e a de Jorge - que ainda estavam entrelaçadas - e depois para mim, só para sorrir e vir ao meu encontro. Acho que a essa altura eu já estava mais vermelha que os ruivos.
- Então você é a famosa ? - falou ela depois que me soltou de um abraço muito apertado, mas confortável. - Jorge me falou muito bem de você.
Se eu já estava vermelha antes, imagina agora.
- Molly, você está fazendo a menina ficar envergonhada.
Eu virei na direção da voz e minha respiração falhou. Por mais que eu acreditasse que ele é inocente, era impossível não se assustar com a sua presença, principalmente quando você não havia percebido antes.
- Sr. Black... - comecei, mas fui interrompida por ele.
- Só Sirius, ser chamado de Black me lembra a família horrível que eu pertenço.
- Me desculpe - falei rápido e ele riu.
- Você não está com medo de mim, está?
- Não, mas ainda assim é estranho. Estou na frente de um dos homens mais procurados tanto do mundo trouxa como bruxo. Acho que quero um autografo.
Ele riu, riu de verdade.
- Gostei da sua namorada, Jorge.
- Isso mesmo, minha namorada.
Ele falou e colocou o seu braço sobre os meus ombros de modo possessivo, e todos riram dele.
- Vamos subir - falou Fred -, acho que Hermione conseguiu levar o Harry pro quarto.
- Como assim?
E eles me explicaram pelo resto do caminho o que tinha acontecido. Quando entramos, Gina, Rony e Hermione estavam sentados em uma das camas olhando para Harry, que andava de um lado para outro.
- Oi, Rony, Gina e Harry - perguntei me sentando na outra cama com Jorge e Fred de cada lado.
- Oi - responderam Rony e Gina ao mesmo tempo, mas Harry continuou a andar de um lado para o outro.
Ouvindo Sirius cantando, feliz: "Deus lhes dê a paz, alegres hipogrifos", a plenos pulmões o resto do dia, ele parecia ter resolvido que todos deviam se alegrar tanto quanto ele enquanto trabalhava sem descanso nos preparativos para o Dia de Natal, limpando e decorando a casa com nossa ajuda, de modo que, quando finalmente todos fomos nós deitar na véspera do Natal, a casa estava quase irreconhecível. Os lustres oxidados não tinham mais teias de aranha, mas guirlandas de azevinho e serpentinas douradas e prateadas; neve mágica brilhava em montes sobre os tapetes gastos; uma grande árvore de Natal obtida por um tal de Mundungo, e decorada com fadinhas vivas, ocultava a árvore genealógica da família de Sirius, e até as cabeças empalhadas de elfos na parede do corredor usavam gorros e barbas de Papai Noel.
Eu acordei na manhã de Natal e encontrei uma pilha de presentes ao pé da cama, Hermione já estava abrindo a segunda metade de uma pilha bem maior e Gina estava sentada em sua cama, meio dormindo, meio acordada.
- Feliz Natal! - falaram as duas juntas e eu me perguntei se Gina sabia o que estava fazendo.
- Feliz Natal, meninas!
O primeiro presente que abri era dos meus pais, um calor com o pingente de coração, quando o abri vi uma foto dos dois de um lado e uma foto de nós três do outro, não perdi tempo e o coloquei no pescoço. O segundo foi de Hermione e era um gorro muito mais bonito do que ela fazia para os elfos do castelo.
- Esse eu comprei, quando eu coloquei meus olhos nele, só lembrei-me de você.
Eu me levantei e a abracei:
- Obrigado, Mione, eu adorei.
O terceiro era da Sra. Weasley e Gina, as duas tinham me dado um suéter azul bebê e vários doces que eu adoro e, com certeza, o Jorge falou. O quarto era de e , os dois me deram um belo estojo de couro preto com dizeres em letras prateadas que dizem "Estojo para Manutenção de Vassouras". Como o próprio nome já diz, o estojo incluiu diversos matérias para a manutenção de vassouras, tais como polidor de cabos, tesoura de prata para aparar cerdas, bússola para longas viagens e manual de como realizar a manutenção de uma vassoura, e vinha também um bilhete.
"Feliz natal, queremos saber de tudo quando você voltar. e ."
- Eu dei um igual ao Harry no nosso terceiro ano - falou Hermione, já sentada ao meu lado, me vendo abrir meus presentes. – Não sei se ele ainda o tem.
- Isso é demais.
- E eu adorei o livro - ela falou me mostrando o livro trouxa que eu havia lhe dado -, sempre quis um livro que contasse as histórias de todas as princesas trouxas.
- Não há de que.
O quinto era de Fred e na caixa não havia nada além de um bilhete.
"Entrego-lhe quando você descer, primeiro abra o resto dos presentes. XxxX"
- Até eu fiquei curiosa agora - falou Gina que abria seus presentes e tinha na mão uma pulseira que eu havia lhe dado. - E eu adorei seu presente, é demais. Obrigada.
Eu ri antes de responder:
- Também adorei seu presente, obrigada.
Rony e Harry tinham me dado doces também. E havia tantos outros presentes que eu demorei em abrir todos.
- Jorge não me deu nada - falei para as meninas, já me levantando.
- Talvez ele tenha esquecido - falou Gina e eu a olhei horrorizada.
- Fred se lembrou de me dar alguma coisa, até mesmo um bilhete e o Jorge não?
- Talvez ele queira lhe fazer uma surpresa - disse Hermione. - Já que vocês ainda vão se arrumar, eu vou descendo, estou morrendo de fome.
Eu e Gina nós trocamos e saímos pela porta, mas fomos paradas alguns passos depois pelos gêmeos.
- Você esta com fome, Gina? - perguntou Fred a irmã e, sem esperar resposta, puxou-a escada abaixo.
- Fred com certeza não sabe o que significa descrição - falou Jorge rindo, mas eu não ri.
Juro que eu não queria ser uma daquelas namoradas que cobram presentes, mas eu havia realmente ficado magoada. Poxa, é natal!
- Eu também estou com fome. Se quiser ser direto, eu agradeço.
- Você está brava?
- Não, não estou - falei, cruzando os braços. - Mas estou incrivelmente magoada, e sim, é pela falta de presente. Poxa, é natal! E eu amo o natal e todo esse lance mágico que...
Bom, eu não pude finalizar. E se você está curioso para saber o porquê, só lhe digo uma coisa: Eu adoro beijar o Jorge.
Quando pude respirar, eu tinha um sorriso gigante no rosto. É, acho que posso superar esse probleminha do presente.
- O Fred levou a Gina embora porque eu precisava lhe entregar uma coisa, mas como você não consegue simplesmente calar essa boca...
Ele não continuou, na verdade, nem precisava. Mas abri meus olhos e eu tenho certeza que eles brilhavam de curiosidades.
- O que é?
Ele riu antes de falar:
- Está lá no quarto, mas não podemos ir, o presente que Fred vai lhe dar está lá e ele me fez prometer não contar ou nem mostrar.
- Vocês dois são tãaaao malvados.
Ele riu e me deu um selinho, correu até o quarto e voltou um tempo depois com um embrulho.
- É para dar sorte - e me entregou.
Eu abri com toda velocidade que eu tinha, o que resultou no embrulho todo rasgado. E o que eu encontrei foi um bastão de Quadribol, ele era listrado, nas cores da Grifinória, e havia meu nome onde colocava a mão.
- Jorge, eu... - olhei para ele e, como não tinha palavras, o beijei como forma de agradecimento.
- Acho que vou lhe dar alguns outros presentes - ele falou, com a testa colada na minha.
- Idiota - eu lhe dei um soco fraco no ombro. - Vou guardar lá no quarto, volto num instante.
Saí correndo e coloquei o bastão na minha cama.
Quando chegamos à cozinha, todos já estavam sentados na mesa, prontos para comer.
- Chegaram os atrasados - falou Sirius, nos lançando um olhar malicioso. Eu corei e escondi minha cabeça no peito de Jorge, que riu.
- Eu estava dando o presente dela - respondeu ele e eu pude sentir a malícia na sua voz.
- Jorge! - eu e a sua mãe falamos ao mesmo tempo. Todos ao redor riram.
Quando terminei de comer, Fred me puxou escada acima e eu pude ouvir Sirius falar alguma coisa com: "Você pegou o gêmeo errado, garota." e depois um "outch!”. Acho que alguém apanhou.
- Você vai me dar meu presente, por que eu estou curiosa. Isso deveria ser proibido, sabia? Vocês um dia ainda vão me matar de...
- Alguém, alguma vez, já te disse que você fala demais?
- Eu digo sempre que posso – falou Jorge, me abraçando por trás quando chegamos à porta do quarto. Eu bati no ombro dos dois que riam.
- Certo – falou meu, awn, cunhado quando parou de rir -, você não pode pirar, tudo bem? E a ideia foi do seu namorado, mas fui que a executei, por isso ele também merece agradecimentos, mas se quiser, pode agradecer só para ele, não quero ser agarrado.
Ele levou um tapa na cabeça do irmão e eu ri. Eu ouvi um latido vindo de dentro do quarto e quase pirei. Eu disse quase. Fred abriu a porta e eu dei de cara com o ser mais fofo do mundo. Tinha um Spitz Alemão olhando para mim com o rabo balançando de um lado para o outro numa velocidade descomunal. A gente ficou ali por alguns minutos, eu brincando com aquela coisa fofa e os dois olhando para nós, discutindo comigo o nome que iríamos dar para ele.
- Que tal Buzz? – perguntou Jorge.
- Eu gostei, na verdade, amei.
- Eu também – me apoiou Fred.
Quando decidimos descer encontramos todos programando visitar mais uma vez o Sr. Weasley, acompanhados por Olho-Tonto e o Prof. Lupin. O tal Mundungo apareceu em tempo de provar o pudim de Natal e a sobremesa, enquanto todos brincavam com meu presente de Natal, tendo conseguido pedir um carro "emprestado" para a ocasião, pois o metrô não funcionava no dia de Natal. O carro, que eu duvidava muito que tivesse sido obtido com o consentimento do dono, fora ampliado por dentro com um feitiço. Embora externamente tivesse tamanho normal, dez pessoas, afora Mundungo no lugar do motorista, podiam se acomodar com conforto dentro dele. A Sra. Weasley hesitou antes de entrar, mas, finalmente, o frio que fazia na rua e as súplicas dos filhos venceram, e ela se sentou de boa vontade no banco traseiro, entre Fred e Gui - que é incrivelmente lindo, vale dizer.
A viagem até o St. Mungus foi muito rápida porque quase não havia tráfego nas ruas. Um punhadinho de bruxas e bruxos andava furtivamente pela rua, de outro modo deserta, a caminho do hospital. Descemos do carro e Mundungo virou a esquina para aguardá-los. Fomos displicentemente até a vitrine onde havia o manequim vestido de náilon verde, então, um a um, atravessamos o vidro. Eu já havia ido ali quando minha tia estava tendo o filho.
A recepção havia mudado desde a última vez que estive ali, assumira um ar agradavelmente festivo: os globos de cristal que iluminavam o St. Mungus haviam sido coloridos de vermelho e dourado, transformando-se em gigantescas bolas natalinas iluminadas; ramos de azevinho emolduravam todas as portas; e árvores de Natal brancas cintilavam em todos os cantos, cobertas de neve mágica e pingentes de gelo, e no alto uma estrela dourada. O local estava menos cheio do que da última vez, embora, a meio caminho do quarto, eu me vi empurrada para o lado por uma bruxa com uma laranjinha entalada na narina esquerda.
— Briga de família, eh? — disse a bruxa da recepção dando um sorriso pretensioso. — A senhora é a terceira que vejo hoje... Danos Causados por Feitiços, quarto andar.
Encontramos o Sr. Weasley, quando finalmente entramos no quarto, recostado na cama com os restos do almoço de Natal em uma bandeja sobre o colo e uma expressão acanhada no rosto.
— Tudo bem, Arthur? — perguntou a Sra. Weasley, depois que todos o cumprimentamos e entregamos os presentes. Eu demorei mais, pois, aparentemente, ele ficou fascinado com a namorado do filho, principalmente quando contei que meus pais vivem sendo o mais trouxas possíveis.
— Ótimo, ótimo — respondeu ele, um pouco animado demais. — Você... hum... não viu o Curandeiro Smethwyck, viu?
— Não — respondeu sua mulher desconfiada —, por quê?
— Nada, nada — tornou ele aereamente, começando a desembrulhar a pilha de presentes. – Bom, todos passaram um bom dia? Que foi que vocês ganharam de Natal? Ah, Harry... isto é absolutamente maravilhoso! — Acabara de abrir o presente de chaves de parafuso e fio de solda que o garoto lhe dera.
A Sra. Weasley não parecia inteiramente satisfeita com a resposta do marido. Quando ele se inclinou para apertar a mão de Harry, ela deu uma espiada nas ataduras sob sua camisa.
— Arthur, trocaram suas ataduras! Por que trocaram suas ataduras um dia antes, Arthur? Disseram-me que não precisariam trocá-las até amanhã.
— Quê? — exclamou o Sr. Weasley, parecendo um tanto assustado e puxando as cobertas para cobrir o peito. — Não, não... não é nada... é... eu...
Ele pareceu esvaziar como um balão sob o olhar penetrante da Sra. Weasley.
— Bom... não se aborreça, Molly, mas Augusto Pye teve uma idéia... ele é o Curandeiro Estagiário, sabe, um rapaz ótimo e muito interessado em... hum... medicina complementar... quero dizer, alguns remédios tradicionais dos trouxas... eles chamam de pontos, Molly e dão muito certo nos... nos ferimentos dos trouxas...
A Sra. Weasley deixou escapar um grito agourento, algo entre um grito e um rosnado. Lupin se afastou da cama em direção ao homem do lado, que não tinha visitas e observava tristemente o grupo que rodeava o Sr. Weasley; Gui resmungou alguma coisa, pretextando ir apanhar uma xícara de chá e eu, Fred e Jorge nos levantamos em um pulo para acompanhá-lo, sorrindo.
— Você está querendo me dizer — ela elevava a voz a cada palavra, aparentemente sem se dar conta de que seus acompanhantes estavam procurando um lugar para sumir. — Que anda se metendo com remédios de trouxas?
— Me metendo não, Molly, querida...
Mas o resto eu não consegui ouvir, pois a porta havia se fechado atrás de mim. Eu e Jorge acabamos sentados na sala de espera, namorando um pouco, enquanto Fred ia com Gui para não sei onde.


Capítulo 8

As férias de Natal estavam acabando e meus pais não haviam me mandado uma só coruja, eu estava tão preocupada que todos podiam perceber e, aparentemente, perceberam.
Jorge só me largava para quando íamos dormir ou no banheiro. Fred a mesma coisa, mas normalmente ele levava Buzz para todos os lugares, dizia que o cachorro lhe deixava mais fofo. Gina sempre contava suas piadas e histórias para mim e Hermione na hora de dormir.
Mione parecia disposta a me ajudar em tudo como se eu estivesse com algum tipo de doença perigosa. Até a Sra. Weasley estava tentando me distrair me dando comidas deliciosas - ela até perguntou se eu queria aprender a cozinhar, mas achei que com o meu histórico de desastres, o melhor seria recusar.
Rony e Harry não estavam ajudando em nada, duvido muito que tenham percebido. Numa dessas tardes, o Harry me contou que Monstro estava estranho e quando eu disse que só estava bem humorado, ele disse que era exatamente isso que o preocupava.
- Deixe ser besta, Harry, o elfo só está feliz. Talvez tenha percebido que ninguém quer lhe fazer mal.
A medida que se aproximava o dia da nossa partida a Hogwarts, Sirius foi se tornando mais inclinado ao que a Sra. Weasley chamava de "macambuzice", quando ficava taciturno e resmungão e muitas vezes se retirava para o quarto de Bicuço durante horas. Sua tristeza infiltrava-se na casa, por baixo das portas, como um gás venenoso, e infectando a todos.
Eu estava com a impressão que meu resto de ano não seria dos melhores e, pela primeira vez, não estava contando os dias que faltavam para regressar a Hogwarts, além do mais, voltar à escola significava ficar mais uma vez sob a tirania de Dolores Umbridge, que, sem dúvida, conseguira passar a força mais uma dúzia de decretos na nossa ausência. Ao menos agora havia partidas de quadribol pelas quais ansiar, havia toda a probabilidade de que a carga de deveres de casa aumentasse à medida que os exames se aproximavam e tinha a AD.
Então, no último dia de férias, aconteceu uma coisa que eu tive que me esforça muito para entender e acreditar.
- Harry, querido — disse a Sra. Weasley, metendo a cabeça no quarto que ele ocupava com Rony, onde os dois estavam jogando xadrez de bruxo observados por mim, Hermione, Gina, Buzz e Bichento. — Pode vir à cozinha? O Prof. Snape quer dar uma palavrinha com você.
Harry não registrou imediatamente o que ouvira; uma de suas torres estava travando uma violenta batalha com um peão de Rony, e ele o incentivava com entusiasmo.
- Achata ele... Achata ele, é só um peão, seu idiota. Desculpe, Sra. Weasley, que foi que a senhora disse?
- O Prof. Snape, querido. Na cozinha. Gostaria de lhe falar.
O queixo de Harry caiu de terror. Olhou para mim, Rony, Hermione e Gina, todos nós igualmente boquiabertos para ele. Bichento, a quem Hermione vinha contendo com dificuldade nos últimos quinze minutos, saltou alegremente sobre o tabuleiro fazendo as peças correrem a se proteger, guinchando a plenos pulmões.
- Snape? — repetiu Harry sem entender.
- Professor Snape, querido — corrigiu a Sra. Weasley. — Vamos logo, depressa, ele diz que não pode se demorar.
- Que é que ele quer com você? — indagou Rony, parecendo nervoso quando a Sra. Weasley se retirou do quarto. — Você não fez nada, fez?
- Não! — retrucou Harry indignado.
Quando Harry passou pela porta, os gêmeos aparataram.
- Olá para vocês - falaram juntos e Jorge me beijou e só paramos porque começamos a rir do barulho que os outros três Weasley faziam.
- Vocês são nojentos - falou Gina fazendo careta.
- Como se você nunca tivesse beijado antes, né Ginevra? - perguntei apertando suas bochechas.
- E eu acho bom que ela não tenha... - começou Jorge.
- Você não acha nada, Jorginho - falei de volta a minha posição anterior. - Muito menos vocês dois.
Os três garotos me olharam como se eu fosse uma criminosa procurada pela polícia, ou talvez, Sirius (N/A: Gostaram da piadinha haha? Não? Tudo bem). Mione e Gina riram como se eu tivesse acabado de contar uma piada muitíssimo engraçada.
- Você está namorando uma garota que, às vezes, dá uma de Molly Weasley, Jorge - falou Gina, ainda rindo. Eu lhe mostrei minha língua.
- Vocês são doidos - falou Hermione rindo.
- Falou a normal - disse Fred.
- Pelo menos sou responsável.
- Não, você é uma irritante sabe-tudo.
Hermione se levantou junto comigo, Gina e Rony. Jorge, por algum motivo que só ele compreende, só fazia rir.
- Fred, o que está acontecendo com você? - perguntou Rony indo para o lado de Hermione, que tinha uma cara de quem iria chorar, mas não chorava.
- O que deu em você? Você não é assim - falei, abraçando Mione de lado. - E pare de rir, Jorge, ninguém contou uma piada.
- Desculpe - Fred falou parecendo realmente arrependido, Mione só balançou a cabeça como se falasse "não foi nada", mas eu sabia que tinha sido alguma coisa.
Fui para perto de Jorge e sussurrei para ele:
- Tira seus irmãos daqui, acho que ela vai chorar a qualquer momento.
Jorge arregalou os olhos e olhou para Mione preocupado, depois concordou a cabeça.
- Fred, Rony, acho melhor irmos, vamos levar o Buzz para comer...
E saiu empurrando os dois para a porta, Fred levou Buzz no colo, depois Jorge voltou correndo e me deu um selinho para depois sair correndo dali. Foi instantâneo, assim que a porta se fechou, Mione começou a chorar.
- Qual é, Mione, você vai ouvir o meu irmão idiota?
- Mas ele só disse verdades, eu sou uma irritante sabe tudo. Não sei ser mais nada.
- Verdade, você é uma irritante sabe tudo e não sabe ser mais nada - concordei e as duas me olharam assustadas. - Então você deveria bater no peito com orgulho e dizer que é mesmo, que é a única bruxa da sala que tira nota boa em porções sem precisar ser babada ou babar o Snape, que é a única da nossa sala que faz todos os feitiços de primeira. Eu queria ser assim, Hermione, então bata na porcaria do seu peito e diga: "sou uma irritante sabe-tudo com muito orgulho", e pare de chorar como se estivessem lhe xingando e não lhe elogiando.
Eu sei, não precisa querer me bater, fui meio grossa com ela, mas drama já me incomoda, imagina drama em excesso. Tudo bem, eu sei que faço drama por algumas coisas, mas, cara, olha só para ela, chorando porque falaram uma coisa boba dela.
Acho que ela não levou pro pessoal, ou levou, não sei, mas enfim, acabamos indo para o nosso quarto e sentadas nas nossas camas, rindo de coisas sem noção e nada construtivas.
- NÃO! - ouvimos Harry berrar lá de baixo e nos encaramos, o que será que estava acontecendo lá?
- Você está me chamando de covarde? — berrou Sirius, e, de novo, nós encaramos. Será que eles estavam brigando. Eu me levantei na hora.
- Papai está lá na porta - falou Rony e correu escada abaixo, nós saímos atrás dele.
Quando chegamos lá, o Sr. Weasley recebia o carinho de toda sua família, eu e Hermione ficamos encolhidas num canto e só os acompanhamos até a cozinha, felizes pelo mais velho estar de volta.
- Curado! — anunciou animadamente para todos na cozinha. — Completamente curado!
Nós duas e os Weasley ficamos paralisados à porta, contemplando a cena na cozinha, também suspensa, em que Sirius e Snape olhavam para a porta com as varinhas apontadas uma para a cara do outro e Harry, imóvel entre os dois, tentando separá-los.
- Pelas barbas de Merlim! — exclamou o Sr. Weasley, o sorriso desaparecendo do rosto, assim como o de todos. — Que é que está acontecendo aqui?
Sirius e Snape baixaram as varinhas. Harry olhou de um para outro. Ambos tinham no rosto uma expressão de extremo desprezo, contudo, a entrada repentina de tantas testemunhas pareceu tê-los chamado à razão. Snape embolsou a varinha e atravessou a cozinha, passando por nós sem fazer comentário. À porta, olhou para trás.
- Seis horas da tarde, segunda-feira, Potter.
E foi-se embora. Sirius seguiu-o com um olhar mal-humorado, a varinha segura ao lado do corpo.
- Que é que estava acontecendo? — tornou a indagar o Sr. Weasley.
- Nada, Arthur — respondeu Sirius, ofegante como se tivesse acabado de correr uma longa distância. — Só uma conversa amigável entre dois velhos amigos de escola — aparentemente com imenso esforço, ele sorriu. — Então... Está curado? Ótima notícia, realmente ótima.
- Não é? — disse a Sra. Weasley, conduzindo o marido até uma cadeira. — Enfim o Curandeiro Smethwyck fez sua mágica, encontrou um antídoto para o que quer que fosse que a cobra tinha nas presas, e Arthur aprendeu a lição de não se meter com medicina de trouxas, não foi, querido? — acrescentou ela um tanto ameaçadoramente.
- Foi, Molly, querida — disse o Sr. Weasley, com humildade.
A refeição daquela noite deveria ter sido muito alegre, com a volta do Sr. Weasley. Eu via que Sirius procurava fazer com que assim fosse, mas o padrinho do meu amigo não se esforçava para dar gargalhadas com as piadas de Fred e Jorge nem oferecia aos outros mais comida; seu rosto se fechara numa expressão melancólica e reflexiva. Eu fiquei o tempo todo ao lado de Hermione, com medo que ela voltasse a chorar, mesmo depois de tudo o que eu disse e de ela não dar indício de que ia voltar a fazer tal coisa tão cedo. Depois de um tempo, percebi que eu estava cuidando demais de uma garota que já era bem grandinha e podia se cuidar muito bem sozinha, então fui ficar com meu namorado, até ver Mione me chamando para ouvir o que Harry tinha para cochichar para nós e, bom, foi fácil, adivinha o que era, ele queria falar sobre a ordem que recebera de tomar aulas de Oclumência com Snape.
- Dumbledore quer evitar que você tenha aqueles sonhos com Voldemort — disse Hermione imediatamente. — Bom, você não vai lamentar se não os tiver, vai?
- Aulas particulares com Snape? — exclamou Rony perplexo. — Eu preferia ter os pesadelos!

***


Deveríamos regressar a Hogwarts de Nôitibus no dia seguinte, acompanhados por Tonks e Lupin, que já se achavam tomando café da manhã na cozinha quando desci com Harry, Rony e Mione. Os adultos pareciam estar cochichando quando abrimos a porta; todos olharam depressa e se calaram. Depois de um café da manhã apressado, vestimos os casacos e cachecóis para nos proteger da gélida manhã de janeiro.
Apesar de conhecer pouco Sirius, não queria me despedir dele, tive uma sensação ruim com relação a essa despedida, mas acabei me distraíndo rindo enquanto a Sra. Weasley tentando persuadir os gêmeos a usar luvas de tricô.
- Vamos, então — disse Sirius, dando uma palmada no ombro do afilhado e sorrindo triste, e antes que qualquer um pudesse dizer mais alguma coisa, já havíamos subido e parado à porta da frente, cheia de trancas, cercados pelos Weasley.
- Adeus, Harry, cuide-se — disse a Sra. Weasley abraçando-o. E depois veio até mim.
- Adeus, , querida, cuide dessa cabeça oca do seu namorado ouviu? - eu ri e concordei sentindo Jorge me abraçar por trás.
- Quem tem que cuidar dela sou eu, ela ainda é um bebê.
- Cala a boca, Weasley - respondi dando um beliscão no seu braço e fazendo a Sra. Weasley rir.
- Meu casal favorito - falou o Sr. Weasley chegando mais perto de nós. - , querida, cuide desse garoto, sim?
Eu e a Sra. Weasley rimos e Jorge fez uma careta.
- Quem é o bebê, Jorge? - ele bateu -levemente- na minha cabeça, me fazendo rir e me puxou pela mão até Sirius, que abraçava Harry. - Tchau Sr. e Sra. Weasley.
- A garota que quer meu autografo - falou Sirius e me lançou um sorriso triste.
- É uma pena você ter que ficar aqui e uma pessoa como Umbridge estar à solta - falei quando o abracei, quando nós separamos, ele me lançou um sorriso e, eu tenho certeza, era verdadeiro.
- Eu gosto de você, de verdade.
- Mas você é muito velho para ela - falou Jorge, voltando a me abraçar por trás.
- Sabe, acho que esqueci a ração do Buzz lá dentro, você pode ir buscar pra mim, Jorge? - perguntei e ele concordou, saindo correndo. - Me desculpe por isso, ele é meio sem noção.
- Eu sei como é, já tive essa idade.
- Eu achei que você era pegador.
- Não conte para ninguém, muito menos ao Lupin, mas eu acabei gostando de uma garota quando tinha a sua idade.
Eu arregalei os olhos e fiquei olhando para ele.
- Acho melhor você ir.
Eu lhe dei mais um abraço e dessa vez, um beijo na bochecha também.
- Obrigado por me receber na sua casa.
No momento seguinte, me vi sendo conduzida para o inverno gélido lá fora, com Tonks (hoje disfarçada de mulher alta e magra da aristocracia rural, com cabelos grisalhos) apressando-me a descer os degraus.
A porta do número doze bateu às costas do último a sair e nós acompanhamos Lupin. O número doze foi encolhendo rapidamente ao mesmo tempo em que as casas laterais se ampliavam para o seu lado, fazendo-o desaparecer de vista. Uma piscadela de olhos depois, já não existia.
- Vamos, quanto mais depressa entrarmos no ônibus, melhor — disse Tonks, e eu achei que havia nervosismo no olhar que ela lançou pela praça. Lupin esticou o braço direito.
BANG.
Um ônibus violentamente roxo de três andares materializou-se, tirando um fino do poste de iluminação mais próximo, que saltou para trás para sair do caminho. Um rapaz magro, de orelhas de abano e espinhas, trajando um uniforme também roxo, o mesmo que nos recebeu na outra vez, saltou para a calçada e disse:
- Bem-vindos ao...
- Sei, sei, já sabemos — disse Tonks brevemente. — Subam, subam, subam...
E ela empurrou Harry em direção aos degraus, para além do motorista, que arregalou os olhos quando o garoto passou.
- É... É Arry...!
- Se gritar o nome dele, faço você perder a memória — murmurou Tonks, ameaçando-o e me empurrando para dentro, sendo seguida por Mione e Gina.
- Eu sempre quis andar nesse ônibus — disse Rony alegre, juntando-se a Harry e examinando tudo.
Eu não estava tão feliz, da última vez que eu havia andado naquilo, vomitei duas vezes seguidas. O local estava mobiliado com uma variedade de cadeiras desaparelhadas e dispostas a esmo em torno das janelas. Algumas pareciam ter tombado quando o ônibus parou abruptamente no Largo Grimmauld; uns poucos bruxos e bruxas ainda estavam se levantando, resmungando, e a saca de compras de alguém deslizara por toda a extensão do veículo: uma mistura de ovas de sapo, baratas e cremes de ovos espalharam-se pelo chão.
- Parece que vamos ter de nos separar — disse Tonks brevemente, procurando poltronas vazias. — Fred, Jorge, e Gina, vão para aquelas poltronas lá no fundo... Remo pode ficar com vocês.
- Sim, senhora - bati continência e todos riram, menos ela, que só me lançou um olhar divertido, não saindo de sua pose de segurança.
Ela, Harry, Rony e Hermione subiram para o último andar, Lalau Hunpike, o condutor, os acompanhou pressurosamente até lá.
Depois que o condutor desceu, pagamos onze sicles cada um, o ônibus tornou a partir, balançando sinistramente. Contornou ruidosamente o Largo Grimmauld, subindo e descendo pelas calçadas, depois, com outro BANG estrondoso, fomos atirados para trás; a minha poltrona quase virou, e Gabe reclamou com um pio fino, Buzz, que estava no colo de Fred, latiu alto. Jorge acabou caindo e levando Gina com ele, que ficou muito irritada e ficou de cara amarrada até chegarmos. Parecia que a única coisa que o ônibus fazia era ganhando velocidade até...
BANG.
E estavam rodando por uma Hogsmeade coberta de neve. Pude ver de relance o Cabeça de Javali na rua lateral, o letreiro com a cabeça cortada rangendo ao vento invernoso. Flocos de neve batiam na enorme janela dianteira do ônibus. E finalmente pararam nos portões de Hogwarts.
Lupin e Tonks nos ajudaram a desembarcar com as bagagens, e então desceram também para se despedir.
- Vocês estarão seguros quando entrarem — disse Tonks, lançando um olhar cauteloso para a estrada deserta. — Um bom trimestre, o.k.?
- Cuidem-se bem — recomendou-lhes Lupin, apertando as mãos de todos.
- Escute, - cochichou Tonks quando me abraçou. - Não estou com um bom pressentimento em relação aos seus pais, eles não responderam nenhuma das minhas cartas, eles lhe responderam?
- Não - eu disse já preocupada. Nenhum pressentimento de Tonks, até agora, foi errado. — Será que aconteceu alguma coisa com eles?
- Vá conversar com Dumbledore, talvez eu esteja errada.
- Certo, até mais.
Nós seis subimos penosamente a estrada escorregadia até o castelo, arrastando os malões. Hermione já estava falando em tricotar uns gorros para elfos antes de dormir, mas eu não conseguia pensar em nada que não fosse meus pais e a preocupação que começava a crescer.
A primeira coisa que fiz no dia seguinte foi ir até o Corujal, mandar mais uma coruja para os meus pais e se eles não respondessem até o anoitecer, eu procuraria Dumbledore e perguntaria o que está acontecendo.
Mas o que eu menos esperava aconteceu, eu estava na biblioteca fazendo a atividade de Porções quando Hermione e Rony sentaram-se à mesa que eu dividia com .
- Cadê o Harry? - perguntei distraída.
- Cho - respondeu Mione e nós duas rimos.
- Eu não acredito - falei já largando minha atividade. - Será que ele vai finalmente convidá-la para um encontro?
- Eu espero que...
- Senhorita ? - perguntou a Profa. McGonagall aparecendo do nada.
- Sim?
- Dumbledore está lhe chamando na sala dele.
Eu não sei como, mas eu senti. Senti que algo muito grave tinha acontecido com os meus pais, mas acompanhei a Profa. McGonagall sem hesitar.
- O que foi? - perguntou Jorge, depois que me parou no meio do corredor.
- Dumbledore está me chamando.
- Você fez alguma coisa?
Eu neguei com a cabeça e fiz uma expressão de quem iria chorar.
- Eu vou com você.
- Senhor Weasley, acho que você está atrasado para sua próxima aula - falou Minerva tocando no ombro dele.
- Deixa ele ir comigo, por favor.
Ela suspirou e se virou: - Me acompanhem, por favor.
Jorge segurou minha mão e juntos fomos até o nosso destino. Assim que entramos na sala, vi Tonks sentada na cadeira em frente à mesa do diretor e ela chorava. Talvez eu nunca tenha chorado tanto na minha vida por um motivo ainda desconhecido como naquele momento, mesmo que dentro de mim eu já tivesse a resposta.
- Eu sinto muito, de verdade - falou Dumbledore.
- O q-que acon-conteceu? - perguntei entre soluços.
- Aparentemente, eles encontraram alguns Comensais da Morte.
- Quando?
- Encontramos os corpos na manhã de ontem.
Eu escorreguei pela parede, que eu nem tinha percebido estar encostada, e chorei com a cabeça entre as pernas. Senti Jorge me abraçando e sussurrando palavras de apoio.
- Ao que tudo indica, eles estavam protegendo alguns trouxas - ouvi a voz de Tonks, distante. - Mas eu sinto muito, , gostaria de ter os ajudados.
Não sei como -e não me importo em descobrir-, mas acordei, na manhã seguinte, deitada ao lado de Jorge em sua cama. Ele acariciava meus cabelos e, claramente, éramos os únicos ali.
- Que horas são? - perguntei com a voz rouca.
- Tarde. Já é quase hora do almoço.
- Tive um sono terrível. Dumbledore dizia que meus pais estavam mortos.
Ele ficou todo errado e até parou de alisar meus cabelos.
- Sobre isso...
- Ai meu Deus, não foi um sonho, não é? - ele negou com a cabeça e eu voltei a chorar, com a cabeça no seu peito.
- Minerva falou que você pode ir para o enterro e, se quiser, pode me levar - ainda chorando, eu concordei com cabeça. Eram meus pais, tinha que fazer isso por eles. - Estão todos preocupados com você, mas não sabem o que houve.
- Você conta a eles por mim? Não quero ver ninguém.
- Minerva falou com os outros garotos, essa semana eles vão dormir divididos em alguns quartos. Ela também trouxe seu café.
- Não quero nada.
- Esqueci de te falar, mas o seu primo, Luke, perguntou a , ao Rony e ao Fred sobre você.
- Podemos só ficar calados? - perguntei e a minha voz saiu abafada. - Eu só quero chorar até essa dor diminuir.
Eu sabia que chorar não iria melhorar minha dor e que ele também sabia disso, mas agradeci quando ele só concordou e me abraçou mais forte.
Passamos o dia todo ali, mas a noite, , Fred, e Hermione entraram no quarto juntos.
- O que está acontecendo com você, ? - perguntou chegando próximo da cama, mas Jorge levantou rápido e a impediu de se aproximar mais de mim, pois eu já fazia cara de choro.
- , olha para mim - falou Jorge e eu o encarei. - Fique calma e tente dormir, tudo bem? Vou buscar alguma coisa para você comer e quando voltar lhe acordo.
Eu concordei com a cabeça e voltei a me deitar enquanto ele guiava, sobre protestos, os quatro para fora. Ele fechou a porta, mas eu ainda podia ouvir o que eles falavam, já que ainda estavam encostados nela.
- O que você acha que está fazendo? - perguntou .
- Ela precisa de um tempo, esses dias estão sendo muito difíceis para ela.
- Por isso deveríamos estar lá dentro - ouvi Mione falar.
- Desculpa, mas é nosso pai que é atacado e quase morto, e ela que entra em depressão?
- Pelo menos ele ainda está vivo.
- Como assim? - perguntou .
- Os pais dela estavam defendendo um casal trouxas e seus dois filhos de um ataque dos Comensais quando foram mortos.
- Ai meu Deus! - exclamaram junto.
- Ela só quer ficar sozinha e chorar. Dumbledore nos deixou faltar às aulas de hoje e de amanhã.
- Ela precisa sair desse quarto - ouvi falar. - Os pais dela não vão ressuscitar se ela continuar chorando, vou falar com ela.
- Qual foi a parte do "ela só quer ficar sozinha" que você não entendeu? - ouvi Jorge levantar a voz. - Eu gosto de você, , mas se a minha namorada quiser ficar naquele quarto até o próximo ano, ela vai ficar, não me faça a impedir de vê-la.
Eu levantei da cama meio fraca, lembrando que minha última refeição havia sido o almoço do dia anterior, fui até a porta e a abri, assustando os cinco ali presente.
- Você está certa, - falei com a voz rouca. - E Jorge, muito obrigada, mas ficar deitada naquela cama, chorando, não vai trazê-los de volta, muito menos diminuir minha dor.
- Tudo bem, mas vá se sentar, você não come nada desde ontem.
- Eu estou bem - e como se meu corpo quisesse dizer o contrário, eu fiquei tonta e para não cair me apoiei no meu namorado.
Os segundos seguires foram muito rápidos, todos perguntaram se eu estava bem ao mesmo tempo, Jorge me pegou no colo e me levou de volta a sua cama, e ouvi Fred falando, distante, que iria pegar comida para mim. Mas meus olhos estavam se fechando devagar e as vozes deles iam ficando mais longe, como se eu estivesse em um sonho.
Na manhã seguinte, quando acordei, estava na minha cama. As cortinas nas janelas estavam abertas e o céu estava nublado lá fora, o que me fez lembrar que era hoje o dia do enterro dos meus pais, e apesar de ainda me sentir fraca e confusa, me vesti e desci para o Salão Comunal, encontrando ali e Jorge, aparentemente brigando de novo, juntos com , Mione e , que foi o primeiro a notar minha presença ali.
- Bom dia, - falou, vindo me ajudar a terminar de descer as escadas, os outros dois não tinham parado de brigar e nenhum dos outros notaram minha presença.
- Me acompanha até o Salão Principal? - perguntei e ele confirmou com a cabeça, se virando para falar com os outros. - Não avise a eles, quero ficar distante de brigas por um tempo.
Juntos, andamos em silencio até o Grande Salão e assim que entramos, vi algumas cabeças virarem para nos. Vi, também, a Profa. Minerva e Luke andando em minha direção.
- Bom dia, Srta. - falou a professora assim que chegou perto o bastante. Luke apenas acenou com a cabeça.
- Só para quem não vai ao enterro dos pais - respondi, secamente e a vi lançar um olhar me repreendendo, mas não liguei.
- Depois que você comer, nós saímos.
Ela se virou e saiu, mas Luke ainda ficou ali, me olhando.
- ...
- Não me chame assim, você perdeu todo o direito faz três anos.
- Escute, eu só quero pedir desculpa, tá? Não fiz por mal, eu era uma criança sem noção do que estava fazendo.
Quando fui lhe responder uma garota apareceu entre mim e ele como se tivesse posse sobre ele.
- Como você está? - ele acenou com a cabeça, ainda me olhando. - Quando vamos?
- Por que não vai comer e depois...
- Você não vai, garota! - falei e ela virou para mim, mas eu não olhava mais para ela quando tornei a falar. - Se você acha que vai usar o enterro dos meus pais para ficar com garotas, Brown, está muito enganado.
Nessa hora, os outros quatro que tinham ficado no Salão Comunal apareceram e parecendo notar que estávamos brigando, Jorge correu até mim.
- Tudo bem por aqui? - perguntou ficando ao meu lado e olhando para mim.
- Eu não posso levá-la, mas você pode levar esse daí? - Luke quase gritou.
- Pelo menos eu não vou jogá-lo fora depois, ele é meu namorado - vi a cara de Luke se contorcer numa careta. - E o que essa garota é sua?
- Namorada - eu fiquei surpresa por ter sido ela quem falou e porque parecia ser realmente verdade e que todos ali pareciam saber disso. - Sou namorada dele faz dois anos.
- Isso... - eu estava cansada, com fome, desconfiada e confusa. - Isso não é da minha conta, me desculpem.
Virei-me e senti Jorge me abraçar de lado, como uma vida tão boa pode desmoronar tão rápido como a minha?
- Você está bem? – Jorge me perguntou e eu percebi que não era sobre tudo, pois ele sabia que não.
- Nunca estive tão confusa – respondi me virando para ele. – Não só por causa do Luke, mas também por causa dos meus pais, estou sentido tanta falta deles.
- Eu não sei, mas imagino – ele suspirou e me deu um selinho. – Umbridge está olhando para cá, acho melhor irmos comer.
- Quem é você e o que fez com meu namorado maroto? – perguntei meio risonha, meio tristonha.
- Ah, sabe como é né, às vezes ele tira umas férias e eu assumo – ele fez piada dando de ombros e eu tive que rir, porque ele me fazia bem. – Eu gosto do seu sorriso.
Ele falou quando sentou ao meu lado na mesa.
- Qual é – falou Rony, arrancando algumas risadas fracas dos nossos amigos. - Se vocês não perceberam, eu estou comendo.
Mas eu não liguei, porque naquele momento me dei conta que meus amigos agora eram as coisas mais importante que eu tinha, e olhando para o meu primo, na outra mesa, percebi que apesar de brigar com ele, eu também o amo e sinto sua falta, quem sabe não seja a hora de desculpá-lo, afinal.




Continua...



Nota da autora: Então que dizer que um bom filho a casa torna? hahaha
Estou de volta com esse capítulo que parte meu coração em tantas partes que nem sei, mas a está em boas mãos com o Jorge (que é muito amor, sinceramente).
Como será que nossa bruxinha vai lidar com as coisas agora? Será que finalmente vai fazer as pazes com o primo e teremos mais Luke? Confira nos próximos capítulos!
Ai gente, sou a tia das piadas ruins, me perdoem. Mas prometo que vou voltar mais rápido dessa vez :)
Já sabem, deem um curtir, compartilhem e deixem aquele comentário maroto! (promento que agora parei ? kkkk)

Nota de Beta: Nossa, que triste que a perdeu os pais e ainda por cima ter que ir junto com o Kyle e a namorada nova. Ficou super bem descrito, Gab, adorei como você demonstrou os sentimentos dela tanto com a perda dos pais quanto como foi quando ela estava na casa do Sirius. Por sinal, amei o que ela falou pra Mione, ela precisava ouvir, rsrs. Estou ansiosa aguardando pra saber como vão estar os nervos no velório.

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.
Para saber quando essa fanfic vai atualizar, acompanhe aqui.


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