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Última atualização: 12/11/2020

I - Darling.

A noite estava quente, no entanto, de uma brisa ironicamente fria. Lua acesa. Estrelas cintilantes.
Essa noite só estava começando.
Mais uma data comemorativa, a mais importante de todas. Meu aniversário. Ah! Obrigada, obrigada!
Minha querida Manhattan poderia me dar tudo que sonhei, e realmente me deu, mas nesta noite, tudo o que pedia eram os loucos que me acompanhavam, uns bons drinks para comemorar e boas fotos.

— Quero que saiba que não me esqueceria do seu aniversário e deixei um presentinho no seu apê - ouvi sua voz soar sombria, próximo a mim. Depois de alguns shots, eu poderia confundir a voz, porém o arrepio que me causava, era um feito unicamente dele.
, , ... Meu querido! Você não cansa de surpreender.
— Minha especialidade. Você sabe bem.

Assim como eu, Cox, meu co-worker, havia boas histórias para contar sobre as noites enquanto amante das luzes que brilhavam e acendiam nossas íris, tão quanto os shots, música alta e fascínios de uma noite só.

— Um dia de sorte sempre cai com seu aniversário e eu desisto de acreditar que isso seja apenas sorte... Querida - ele me saudou com sua gim-tônica, junto de um sorriso que transbordava o delicado e sedutor na medida certa.
— Digamos que você só alcançou a sorte, depois que cruzei seu caminho - sorri convencida, fazendo o possível para ignorar o apelido que ele insiste há anos; Hoje, me causando as mesmas vibrações de anos atrás. Me virei para o bar, lançando a piscadela significativa para o barman, Donan saberia o que me trazer.
— Eu já vivi a plena realização de sorte, e você foi fundamental - senti seu hálito quente gritar a centímetros dos meus lábios. Sua boca me tirava a atenção de todos os outros lugares, assim como boa parte da sanidade, e eu, sem via de dúvidas, não queria me afastar.

mantinha seu corpo alerta, afável e esperto demais para deixar qualquer mínimo sinal passar em branco. Sádico por mais e apreciador assíduo de rapidinhas, suas mãos espertas me guiaram por um caminho desconhecido. Minhas pernas abraçaram sua cintura no momento que senti a parede chocar-se com as minhas costas. As mãos ávidas desenhavam todo seu tronco, e seu peitoral muito satisfatório, por sinal. Meu cérebro precisava agir, mas era demasiadamente difícil com um mergulhado em meu pescoço.

— A chave, garotão - mal o vi se mexer, e a vi pousar em minha mão em dois segundos, se for realmente possível.

Capaz ser tão esperto? Uma suíte havia ali, nada mal, devo acrescentar. As paredes brancas estavam pintadas pelo rubi das luzes do cômodo. Não era grande, contudo, era espaço suficiente pra concretizar o plano que tinha em mente.
O puxei pela gola da camisa social parcialmente aberta e entretida pelo ritmo da música, mexi meu corpo em sintonia com o som que vinha porta afora. Seus olhos eram famintos e suas mãos não estavam diferentes quando o assisti abrir de sua camisa os botões insistentes que faltavam.
era a personificação de luxúria, como poucas vezes o vira.

— Algum desejo? - murmurei desafiante.
— Tire a roupa. Po... por... por favor.
— Gaguejando, honey? - sorri travessa, movendo-me para sentar em seu colo. — Não se preocupe amor, eu vou resolver isso - aproximei de seu rosto e beijei seus lábios lentamente, sem pressa alguma, porque queria vê-lo sofrer imerso em sua tensão sexual. Quem eu queria enganar? Eu amava assistir cada segundo dele assim!

Como parte do meu presente de aniversário, eu ainda poderia desfrutar do gosto doce que ele tinha, como da última vez que o beijei.
Não poderia ter tido ideia melhor.
Em um móvel discreto dali, havia uma garrafa de Perrier Jouet Rosé mergulhado em um balde de gelo e eu praticamente pude sentir o quão doce e refrescante aquilo poderia descer por minha garganta. Nossas respirações descompassadas se cruzavam e obedecendo a esse ritmo, agarrei a garrafa como se minha vida dependesse dela, até que derramasse o líquido pelo tronco nu de , ouvindo-o gemer baixo.

— Mais calmo?

Entornei por todo seu peitoral, despejando beijos tortuosos na sua pele quente que contrastava com o frio da bebida. Os carinhos tomaram um novo rumo, em direção ao seu membro, onde fiz questão de angustiá-lo um pouquinho mais. Suas mãos trêmulas me buscaram em uma tentativa falha de alcançar meus cabelos para que conseguisse controlar alguns movimentos.
Me aproximei do cós da sua calça, deslizando as unhas longas até que a ameaçasse abrir, até ouvi-lo balbuciar o que não me atentei em atender, pois sabia que era mais uma de suas súplicas. Levantei meu olhar para encarar suas íris dilatadas e soube que mais um golinho não faria tanto mal assim, sentindo a bebida adocicar minha boca, segui os rastros do champanhe até que chegasse à sua boxer úmida e um bocado apertada.

— A ansiedade é inimiga número um da perfeição, senhor Cox - sua ereção já latejante tremeu assim em meus dedos quando os deslizei por ela. O que restou de álcool na garrafa me serviu uma golada generosa entornado de uma só vez. Dei uma última piscadela para o meu tentador companheiro na diretoria da Magic! Magazine para me levantar e sair da suíte girando a chave entre meus dedos. Algo que eu jamais esqueceria. E ele também não.

E eu me sentia ótima!
A flor da idade não é eterna, meu prestígio na empresa não é eterno, meu corpo não é eterno, assim como a cara de tacho de talvez– não fosse também. A música alta, as bebidas piscantes e tudo que envolvia esta noite já não me era novidade alguma, então não me causavam aquela excitação de ansiedade e a forma como me despedi de Cox, quem sabe, fosse a melhor forma de cessar as noites com as melhores histórias já contadas.
Aproveitaria as últimas horas daquele dia até seu último segundo, mesmo que a data me deixasse um ano mais velha. Valia a pena!
Me embrenhava novamente pelas pessoas, ao som de um J Balvin com Anitta, resultando em uma Downtown que não poderia descrever melhor o momento.
Sentia que meus olhos estavam pesados, mas não o suficiente para que substituísse as atenções para os xingamentos que exprimi quando levantei da cama. A cabeça que ainda rodopiava, tinha um “Quê” de perguntas sem resposta que pairavam me deixando ainda mais tonta.
Me permiti ser preguiçosa o bastante para não planejar nada para as poucas horas que me restaram no dia, minha única atual preocupação era conseguir me arrastar até o banheiro, sedenta pela comodidade que a água quente em minha banheira oferecia. Fazer uma junção dos sais que gastava uma fortuna e sequer usara, diziam que eles curavam qualquer coisa, até mesmo os erros do passado. Ou não era pra tanto?
Não me lembrava da última vez que me permiti passar tanto tempo em casa sem estar rodeada de pastas, cálculos, recibos, briefings, photoshoots, balanços empresariais e etc.
Meia hora nestes sais e precisava dar o braço a torcer: eu era outra pessoa, ainda que alguns flashs da noite passada me fizessem rir, as gargalhadas ficavam por conta do meu querido . Espero fortemente que alguém com intenções piores que as minhas tenha dado a ele o belo trato que merece –e seja lá o que isso signifique.
Nem ao menos pretendia me vestir tão cedo, hipnotizada como o roupão se tornou tão confortável após o banho e de quebra, como ficava encantada sempre que via uma Nova Iorque ao seu anoitecer fazendo milhares de pequenas luzes refletirem ao observá-las da grande parede de vidro que se fundia a varanda do apartamento. Saí do meu transe quando o celular apitou ao meu lado.

“Poderia te deixar sem presente depois de ontem, mas eu te perdoo! P.S.: Logo eles chegam aí, seja receptiva!” — .

adorava joguinhos e ele era ágil com suas jogadas, precisava admitir, mas estava em um campo minado agora. O meu campo minado. Como diretora geral da Magic! Magazine, tinha 51% do poderio em minhas mãos, desde a época em que Cox foi apresentado, alguns dias depois de mim, assumindo os outros 49%. Parece pouco, mas essa margem magra de 2% me dava o maior poder de palavras, e de quebra, a parte que eu mais gostava: a última palavra. Em casos de emergência acionávamos uma Assembleia Geral, onde os acionistas tinham o poder do voto também. De qualquer forma, tinha minha carreira como meu maior prêmio, construída com meu único esforço. Não precisei puxar o tapete de ninguém, nem enganar e muito menos roubar. Me formei na própria Magic! Magazine desde o primeiro dia do estágio, então mais do que nunca concordava com o cargo que ocupava e era plenamente realizada com ele.
A camisola que vesti era igualmente confortável como o roupão, tanto que demorei para me livrar dele sem que tivesse muito tempo para elogiá-los, ouvi a campainha tocar. Se existisse alguém no céu que tivesse piedade de mim, colocaria Blair Mitch à minha porta agora mesmo e com os donuts que minha melhor amiga prometera em seu bilhete colado no abajur do quarto. Enquanto laçava meu robe, abri a porta e uma cantoria se iniciou de imediato. Que porra está acontecendo? Haviam uns sombreiros, um sotaque forte e instrumentos enormes que eu não sabia nem o nome. Encarei com furor o quinteto que não se abalou e continuou o que parecia uma serenata mexicana!
EU SEQUER ENTENDIA UMA PALAVRA!
Pouco satisfeitos, andaram calmos e sorridentes até minha sala, alguns deles, esbarrando instrumentos em meu ombro quando não lhes dei permissão para passagem, tornando o cômodo como seu palco de qualquer fucking maneira.
Estava tão incrédula que meus braços não se descruzavam, minhas pernas não mexiam e minhas veias sentiam o sangue ferver. Aquele quinteto mexicano tinha uma audácia que me torrava a paciência, tão insistentes quanto...

— Teimosa, huh? Pedi que fosse receptiva! Espero que tenha gostado, os escolhi a dedo e deu um trabalho danado, mas seu sorriso fez o trabalho valer a pena! Feliz Cumpleaños mí amor!

Seu sorriso era cínico e seu corpo descansava casual no batente da porta do meu apartamento, lhe dando um ar de superioridade, que eu acreditaria cegamente se não tivesse visto da forma que o deixei na noite passada.

— VOCÊ ENLOUQUECEU?!

Ele riu e riu. Meu sangue com certeza já estava em estado de ebulição.

— Não se preocupe, não tem pressa pra acabar. Ah, sim! Quase me esqueci - de trás de si revelou um buquê de rosas vermelhas, colombianas se não me falha a memória, e talvez pra combinar com o clima latino. — Meu grand finale, senhorita.

Filho da puta descarado.

— Engula essas rosas e tire esses músicos daqui agora, Cox.
— Não mesmo - negou com a cabeça. — Você me deixou quarenta minutos naquela suíte até que eu pudesse me... Acalmar - finalizou após demorar-se um pouco na escolha das palavras. — Aproveite seus quarenta minutos de serenata.

Ele se virou em direção ao elevador.

, volte aqui! Não vai deixá-los aqui... Vai? - entrou no elevador calmamente, sorrindo. — Me ouça. Se deixá-los... E-EU. MATO. VOCÊ! - Ameacei-o pausadamente, assistindo as portas do elevador se fecharem, quase que em câmera lenta.

¡Mi Dios de los infiernos!
O resto da noite pareceu se arrastar. O tal quinteto não tocou por trinta e nove minutos e nem quarenta e um, mas exatamente os quarenta que citou. Eu estava cega de ódio e minha cabeça parecia que ia explodir a qualquer minuto, ainda mais quando ouvia o reverberar daquela maldita serenata que aparentemente me assombraria por um bom tempo. Ele ultrapassou todos os limites!
O Sol, que raramente aparecia para alaranjar as ruas do Upper East Side, me acordou bem cedo e não me demorei em meio as cobertas, apenas para que desse tempo de desfrutar da academia do condomínio, ficando por mais ou menos uma hora e não mais que isso, enquanto recebia alguns olhares tortos. Sabia que o coque que fiz não era dos melhores, mas também não chegava a tanto. Assim que tive o prazer de retornar pra casa fui direto para o banho, dessa vez sem tempo para sais porque um novo dia de trabalho vinha por aí com toda a glória que os corredores da Magic! Magazine exalavam. Estava faminta, no entanto a cidade dos sonhos também castigava, e na maioria das vezes tinha em seu trânsito a pretensão de nunca colaborar.

— Bom dia, senhorita Jones - disse Nicole, minha secretária. Loira, de olhos meigos, a moça tinha seus vinte e um anos e estava aqui desde seus dezoito, muito eficiente.
— Bom dia Nikki, me atualize.
— Os acionistas já chegaram - disse de uma só vez, como quem revela um segredo. — Foram recepcionados pelo senhor Cox que deixou pastas em sua mesa para a reunião de hoje, enquanto visitam outros departamentos.
— Tudo bem, obrigada. Deixe um alerta com Anna para quando Cox terminar, vir imediatamente para a minha sala, sim?

Aparentemente o dia começou doze horas antes de mim.
Haviam cinco pastas em minha mesa. Boa coisa não podia ser. Como se não bastasse, ao lado das pastas havia uma caixa delicada de uma cafeteria que eu já conhecia, ou melhor, nós conhecíamos. Tudo bem, de longe, não foi tão ruim assim. Um pedaço generoso de red velvet me aguardava deliciosamente posicionado ao lado de um muffin de chocolate, de longe meus doces preferidos.
Ele ainda me conhecia bem demais.
Depois de tamanho estresse como o de ontem espero que ele não tenha acordado achando que colocar veneno nos meus doces preferidos seja uma boa ideia. Me deliciei com o red velvet que há tempos não comia. O Le Cirque Cafe era um dos melhores do mundo e com a minha bênção. O GPS me indicava que do prédio da revista para o café eram cerca de quinze minutos, mas o multiplique por três: porque é isso que o trânsito na megalópole faz de melhor.
Os doces pareceram amenizar a tensão que as pastas traziam, ou era apenas fome, nunca vou saber. Mas funcionou.
Ao abrir uma das pastas, de imediato percebi que haviam comparações com o público-alvo que a Magic! Magazine atingiu nos últimos seis meses e seus almejados lucros.
Esses acionistas não vieram para turistar na Big Apple, afinal.

— Creio que esse bolo estava mais gostoso do que eu me lembrava - como sempre, entrou sorridente esbanjando um belo terno azul marinho que moldava seu corpo.
— Não estava ruim, mas minha boca já provou de gostos piores. Tudo normal por aqui - o encarei irônica, cruzando os braços e como resposta, ele gargalhou, coçando sua barba por fazer e seu movimento fez seu perfume dançar espaçoso pela minha sala. — Ei! Não precisa se sentar ok? Só vou te fazer uma pergunta.
— Céus, eu adoro quando se faz de rogada... Esse seu narizinho arrebitado me deixa louco, !
— O que os acionistas querem aqui tão cedo? - seu sorriso se desfez e ele se pôs sério como pouquíssimas vi naquele rosto cafajeste.
— Acredite ou não, eu também não sei. Me entregaram as pastas, folheei e as deixei com você. Eles vão mexer algumas peças desse quebra-cabeças.
— Vamos matar essa curiosidade e adiantar a reunião. Pra agora.

Na Sala de Conferências todos já estavam acomodados nos seus assentos prontos para começar. Haviam ali, os cinco acionistas, eu e . Um ou outro representava a revista por outros países buscando por resultados insinuantes de capital de giro, por exemplo, coisa que a distinção entre idades ali oferecia abrangentemente.
Gareth ParenthWood, por exemplo, um galês muito charmoso de olhos claros e um sotaque arrastado que não reclamaria ter que ouvi-lo durante uma noite inteira, tinha por seus trinta anos e definitivamente significava uma grande revelação para os sonhadores de um país tão pequeno. Hideke Choi, um japonês que falava pelos cotovelos em seus plenos quarente e nove anos provavelmente sua primeira palavra foi “ações”, visto que o mesmo acompanha a revista desde os primórdios com a bênção de seu pai que deixara o patrimônio bilionário em nome de seu único filho. Antonella Montanari, a italiana que fazia tremer o interior de cada um, a cada som que seu salto agulha cantava, não deixava uma tendência sequer passar em branco e sempre com um ar superior de síndrome de Miranda Priestly¹ fazendo com que seus cinquenta e oito anos não deixassem vestígios por parte alguma. Antoine Blanché o francês que fazia de qualquer reunião, suportável. Talvez fossem seus músculos que parecia sofrer naquele terno que lhe caía tão bem, sem contar os óculos que usava apenas para leitura –não que eu houvesse parado para notar isso, porque realmente não tinha– ou então, o sorriso que vez ou outra deixava escapar para amenizar o clima, iluminando toda a sala e fazendo com que sua pele negra brilhasse muito mais do que qualquer outra pessoa em seus quarenta e dois anos jamais conseguiria. Por último e não menos importante, Jim Phillips o americano de meia-idade que não era de falar muito, colocava seu terno preto e gravatas que iam das lisas às listradas para não chamar a atenção, genuinamente se mantinha ali para desempatar o que quer que acabasse em votação.

— Bom dia a todos - iniciei cortês com uma simpatia que não sabia que fazia parte de mim. — Espero que tenham sido muito bem recepcionados nos setores e constatado o óbvio: essa revista é um exército incansável. Cada um com suas guerras diárias, e é das piores guerras de onde conhecemos a força para continuarmos com o que fazemos de melhor. Bem-vindos!

Aplausos encheram meus ouvidos assim como massageavam de forma deliciosa meu ego, e eu amava essa sensação! ao meu lado direito, se levantou pronto para receber a palavra.

— Dito as palavras da senhorita Jones, faço delas as minhas. Nessa revista somos família, amigos. E no final, somos um só pelo mesmo propósito. Mais uma vez, sejam muito bem-vindos! - um sorriso gentil e confiante despontava em seus lábios perfeitamente desenhados para aquele rosto.
— Se me permitem eu gostaria de iniciar - Gareth tomou a frente, recebendo acenos de cabeça em concordância enquanto se levantava da cadeira fechando seu paletó. — Vocês devem estar se perguntando por que viemos tão cedo hoje, não é? E eu respondo, sem via de dúvidas. Entregamos a vocês cinco pastas, correto? Todas elas com informações da própria revista que demandam um pouco mais de atenção e há uma sexta pasta: que está conosco. Contendo o que Hideke Choi ficaria honrado em compartilhar. Por favor - cortês como seu habitual, Gareth mencionou o japonês que afoito tomou a frente de bom grado.
— Senhoras e senhores, sem delongas apresento a vocês a Hideaky. A única revista que visa métodos cem por cento naturais e orientais disponibilizando de uma clínica específica sediada no Japão! - sorriu orgulhoso enquanto seus olhos que já não pareciam ser puxados o suficiente, se fecharam um pouco mais tamanha satisfação. Para mim e o mesmo entregou uma pasta semelhante as outras cinco, mas com um número maior de páginas. — Como podem reparar há informações com as principais características de benchmarking.
— Desculpe Choi, não quero soar rude, mas essas são coisas que poderíamos procurar na internet. Não teríamos os números exatos, claro, mas um telefonema resolveria - disse , receoso.
— Calma senhor Cox, nós vamos chegar lá. Trouxemos os números exatos com o propósito de adotar o benchmarking interno² da Magic na própria Hideaky. Atitudes de grande impacto da Magic que podem revolucionar a Hideaky - concluiu, sorrindo.
— Mas isso influenciaria no nosso benchmarking funcional - expôs .
— E futuramente no ‘bench’ competitivo³ - completei o raciocínio de . — O que não vai deixar uma impressão boa para a Magic, Choi.
— E estão certos, não tiro a razão de vocês de forma alguma. Isso não aconteceria se Hideaky e Magic se tornassem uma só, concordam? Duas em uma. Benchmarking duplo. Entretenimento e medicina oriental. Me digam, não é perfeito?

Me limitei a sorrir para seu entusiasmo que não me fazia cócegas. Mas, acionistas poderiam atuar em outras mil companhias de ramos diversos que continuariam podres de influentes e aqui, os mesmos tinham um espaço relativamente grande para suas participações e se expressarem da forma que achavam digno ao patamar da revista.

— É realmente revolucionário. Mas a Magic está, como sempre, acima de suas expectativas em sua forma original e é exatamente isso que o nosso feedback com os benchmarkings mostra - moldei em meu rosto um sorriso ridículo de tão maternal, ainda que esse ‘Made in China’ estivesse tentando roubar a essência da revista. E havia algo que eu prezava além do imaculado nome do meu trabalho, era a sua essência.
— Os tempos mudaram senhorita Jones. Investimos neste segmento no Japão antes mesmo de pensar em se tornar tendência, da forma em que assistimos à valorização de cento e trinta e sete por cento em um único ano.
— A Magic também obteve suas exorbitantes porcentagens nos segmentos que lhe dizem respeito e foram incríveis, posso lhe garantir senhor Choi, mas não acho conveniente ter que engolir método oriental goela abaixo por serem inferiores.
— Senhorita, assim fico ofendido - Hideke Choi sorriu irônico, pois sabia que sua carta na manga era o poder que tinha por ser um dos acionistas mais influentes.
— O que ela quis dizer foi que esse momento não é propício pra uma mudança tão drástica na Magic, que apesar de nova já bateu recordes inacreditáveis e este, é resultado do marketing milionário que investimos - sobrepôs.
— Não , eu quis dizer exatamente o que já disse - ao contrário do que o momento pedia, minha voz permanecera serena.
— Bom, dessa forma vejo que a proposta não agradou, talvez precisem de mais tempo para absorver. Qualquer dúvida estou à disposição, por enquanto é só.

A reunião finalizou após alguns murmúrios aqui e ali e assisti os acionistas se dissiparem calmamente, inclusive os que fizeram questão de não abrir o bico por um segundo sequer, em vista que daqui a dois dias nos reuniríamos novamente aproveitando que durante esta semana todos estariam na cidade.
Voltando para a minha sala, aconchegada na cadeira a girei para a grande parede de vidro encarando uma Nova Iorque que nos enganou mais cedo com o sol que nascera e agora nada mais tinha do que um céu cinzento, fazendo-me perder em pensamentos. Uma cidade que me abrira tantas portas e janelas que nem eu mesma acreditava que era possível tantas chances assim. Perigos, agradeço por não ter vivido tantos e aos que temi, prefiro acreditar que apenas me fortaleceram. Vi meu sorriso refletir em alguns cubos de gelo em doses baratas de uísque por aí, antes de me dar conta da mulher que poderia ser, e sou. Uma cidade em que amei demais e parcialmente fui amada de volta. Tinha deixado alguns amores para trás sim, e algumas vezes da forma mais difícil precisei seguir em frente.
Apesar de aparentemente ter tudo sobre controle, não conseguia manter meus pensamentos longe da nostalgia.
Detestava.
E detestava ainda mais a sensação de egoísmo que queria me enfraquecer a qualquer custo e que fazia minha mente trabalhar a mil por hora sem descanso. Sempre me cobrei demais e passei a cobrar mais depois que me vi perdida na trilha em que eu mesma havia milimetricamente traçado ao sucesso, desde meu primeiro estágio na Magic e encontrei-me perdidamente apaixonada. Intensamente apaixonada como o primeiro amor de uma adolescente. Me lembro como se fosse ontem. Adiando planos que não havia pensado duas vezes antes de programar, faltando á palestras e workshops complementares a grade curricular do curso, armando desculpas nos trabalhos em grupo e reuniões em família. Vivendo em pró de uma pessoa só, que na primeira oportunidade que teve de estudar em Londres, foi. Me deixando de forma empáfia para trás, despedaçada e com sonhos pela metade. Houveram consequências que poucos souberam o quão grandioso fora o impacto e que na época aprendi horrores ao precisar lidar. Algumas decisões ainda me assombravam vez ou outra e feridas que se fecharam, mas deixaram cicatrizes grossas demais pra se esconder. Essas, me lembravam o quanto me machuquei pra sustentar sozinha um fardo que não deveria e não podia, e por essas e outras me vi obrigada a depender unicamente da força que me restava, sendo minha resiliência o curativo das feridas que sangravam. Bate e volta minha cabeça doía ao lembrar de tempos tão injustos, mas que me amadureceram tanto, da forma que grito nenhum de minha mãe jamais fizeram em tão pouco tempo.
Minhas unhas longas pararam de batucar a mesa assim que uma Blair irrompeu pela porta.

— Almoço? No Balthazar? Eu dirijo! - abriu um sorriso de orelha a orelha, nem parecia que estava trabalhando na época corrida em que estávamos.
— Ver você ultrapassar faróis e xingar meio mundo por motivo nenhum é um dos meus passatempos favoritos, mas esses acionistas causaram alguns estragos por aqui, então... - sorri para sua proposta tentadora.
— Tudo bem, vamos pedir o quê? - a encarei confusa.
— Não vou permitir que fique trancafiada aqui, B. Você queria conhecer aquele restaurante esquisito... Grand Banks há tempos!
— Em minha defesa, ele é muito bem avaliado e é um charme.
— Blair, ele é no meio do rio Hudson! - exclamei óbvia. — Quando menos se espera uma gaivota rouba a lagosta do seu prato. Apenas vá, quero rir das suas histórias depois.
— Eu vou te arrastar pra lá e você vai se arrepender pelas palavras rudes. Thomas me mostrou parte do cardápio de lá e... - disparou a falar, como uma metralhadora. — Ops...
— Thomas, huh? - mordi a tampa da caneta a encarando. — Deus, desembuche de uma vez, estou curiosa!
— Ele é o chef do Grand Banks, ok? - cruzou os braços, fingindo pouco caso.
— Entendi o interesse. Agora, sem Thomas, admita, o restaurante é um horror de esquisito! - gargalhamos. — Vamos pedir algo de uma vez, e me conte os detalhes desse tal chef.

Sem tempo para responder, Blair já abria o aplicativo em seu smartphone, me passando as opções para que entrássemos em acordo. Blair, era deveras a minha pessoa preferida no mundo inteiro e nada, muito menos ninguém mudaria isso e ela sabia muito bem disso, pois era mútuo. Ainda que sejamos milimetricamente diferentes, nos damos muito bem há alguns milhares de anos e assim brincamos que fomos amigas em outra vida e só assim para explicar a parceria que temos hoje.
A tese que descrevia, dava alguns pequenos passos em meio ao horário de almoço e quase perdeu espaço de vez para nossas fofocas.

— Ei, ouvi o combinando algo pro seu endereço ontem. O que houve?
— Nem me lembre - rolei os olhos. — Ele simplesmente contratou um quinteto mexicano, com direito a sombrero e tudo.
— Mentira?! - minha melhor amiga exasperou. — Eu trocaria tudo só para ver sua cara na hora! Meu Deus! Eu preciso parabenizá-lo, isso foi épico! - após algumas risadas exageradas, limpou algumas lágrimas que brotavam no canto de seus olhos.
— Me parabenize, foi meu aniversário - me fingi de ultrajada. — Cada vez que encontro alguém pelos corredores do condomínio, eles me apunhalam com olhares, está insuportável!
— Não é pra tanto! Você fez por merecer.
— De que lado você está, afinal?!
— Não está mais aqui quem falou! - fez um sinal como se fechasse um zíper em seus lábios. — Mas, sinceramente, você o deixou pelado em pleno Marquee!

Agora fora a minha vez de cruzar os braços e fingir pouco caso, encarando-a.

— Já terminou de defendê-lo? - arqueei a sobrancelha, aguardando sua resposta, enquanto ouvia meu créme-brulée se despedaçar na superfície.
, cá entre nós, não sente mais nada pelo sedutor dono dos outros 49%? As mulheres caem nos corredores da revista a cada passo dele, e tenho que concordar... - minha melhor amiga deixou a frase no ar, enquanto também aproveitava da primeira colherada de sua sobremesa francesa.
— Sinta-se livre pra chamar uma ambulância para elas ou para você. Não há nada que eu possa fazer.
— Essas brincadeiras e provocações entre vocês dois... , estou falando sério. Há coisas que você não gosta, mas precisa conversar, sabia?
— Blair Alexandra Mitch, há coisas inconvenientes demais que detesto e definitivamente não vou falar, sabia?
— Deus! Como foge do assunto, ! Oh, e você sabe que eu detesto meu nome do meio, está jogando sujo!
— Fale de uma vez por todas o que quer dizer, Blair - a encarei.
— Deixe de ser covarde e o perdoe de uma vez! Esse muro de proteção que está construindo ao seu redor, já o vi destruir uma vez e não vai hesitar em fazê-lo de novo - a loira a minha frente com um tom acusador que sequer combinava com seu biotipo de Barbie parecia estar convicta do que dizia, e talvez, apenas talvez, tenha me desconcertado por alguns instantes. Não por suas palavras, mas pela veracidade com que defendia um fato que não se repetiria e todos os envolvidos estavam plenamente cientes.
— Blair, você está se ouvindo? Porque, sinceramente, eu acho que não.
— Ele está nos seus joguinhos porque gosta deles, e mais, gosta de quem provoca eles. , por favor, acorde! Por mais que irrite, cada gesto dele há algo que sabe que você ama... está arrependido - disse por fim, com apenas um fio de voz. — Isso não é suficiente?
— Não chega nem perto de ser suficiente. Não quando ele fez, o que fez, sem pensar duas vezes, Blair - respirei fundo. — Você, mais do que ninguém, sabe dos mais sórdidos detalhes - sem que ao menos reparasse, minha voz se tornara um bocado mais alta. — E eu espero, fortemente, que não voltemos nesse assunto.

Não queria ser grossa com alguém tão essencial para mim e que esteve em momentos cruciais, mas estava muito bem do jeito que me encontrava e de quebra, tinha tudo o que precisava, obrigada!

— Desculpe B, não queria falar assim com você. Mas não entendo, você sabe de tudo, viu e esteve lá quando tudo desmoronou, realmente não entendo.
— Não se culpe, vou controlar minha língua antes que você fure os pneus do meu carro! - sorriu leve, aliviando o clima.
— Não se esqueça que sempre que dá, está me usando como babá para seu Shih-tzu dependente químico!
— Ele não é dependente químico, my poor baby - dramatizou, enquanto apertava em seu colar o pingente de patinhas, como quem sentia saudades.
— Normal ele não é, ou sinceramente me odeia.
— Não é difícil te odiar! - sussurrou, marota.

Enquanto ria das palhaçadas que Blair fazia, ouvi batidinhas na porta que logo minha amiga se encarregou de autorizar a entrada.

— Com licença - Nikki revelou-se. — Senhorita Mitch, Jaden Löw está aqui e quer saber sobre o ensaio de hoje.
— Ok. . Me demita - sussurrou.
— O quê?
— Me demita, ou pague a minha fiança porque eu vou matar esse cara!
— Não dentro da minha empresa, tudo bem? Isso dá um processo danado! - ri alto, controlando-me rápido quando percebi sua carranca. — Qual o problema com o coitado?
— Ele está me enlouquecendo! Ontem ele foi até meu apartamento pra conversar sobre paleta de cores, acredita?
— Senhorita Mitch, o que digo a ele? - Nicole insistiu.

— Diga que ele está demitido e sem direitos, Nikki - Blair sorriu casual enquanto assistíamos à feição da secretária se contorcer em confusão. — Mentira, estou indo! - Rrvirou os olhos, pegando sua bolsa e celular.

“Não importa o valor, pague a fiança!” sussurrou pela última vez antes de bater a porta, dando um ‘tchauzinho’ por último.


Miranda Priestly¹: Personagem fictício (e muito temido) interpretado por Meryl Streep no filme “O Diabo Veste Prada”;
Benchmarking interno²: O benchmarking interno é praticado por empresas que visam identificar as melhores práticas internas da organização e disseminar sobre essas práticas para outros setores da organização.
Benchmarking competitivo³: O benchmarking competitivo foca em medir funções, métodos e características básicas de produção em relação aos seus concorrentes diretos, e melhorá-los de forma que a empresa possa inicialmente alcançar os seus concorrentes, e depois ultrapassá-los, tornando-a melhor do ramo, ou no mínimo melhor que seus concorrentes.


II - Secrets Everywhere.

Não finalizara a tese, então em tão pouco tempo logo precisei me voltar a ela, pois os acionistas permaneceriam na cidade por alguns dias e esta seria a resposta que carecia de dar aos impasses que haviam em alguns dos números da revista. Precipitada? Um pouco. Mas essa era a minha maneira de manter o controle e demonstrá-lo.
O dia pareceu durar quarenta e oito horas, na melhor das hipóteses.
Com modelos para ensaio aqui, revisões ali, nova capa, matérias, reuniões, revisões, tese... Céus! Eu poderia dizer que estava a um minuto de enlouquecer se não fosse o cenário dos sonhos pra uma workaholic.
As dezenas de xícaras de café me deixaram atenta para todo o dia, mas ao final dele, minha vista já se embaçava quando os óculos de grau não ajudavam e para completar, minhas costas reclamavam, tensas desde cedo. Talvez o silêncio que fazia ali àquela hora da noite fosse minha recompensa, ainda que vez ou outra a voz de Blair reverberasse em minha cabeça com as besteiras que dizia.

— Ainda aqui, senhorita Jones? Algum problema? - Gareth ParenthWood questionou, me surpreendendo por vê-lo por aqui tão tarde.
— Só finalizando algumas coisas - sorri sem muito ânimo. — Confesso que não esperava ver mais alguém aqui.
— Apenas vim buscar pastas com as relações gerais deste semestre, achei que seria bom revisá-las - levantou as pastas em suas mãos, mostrando-as. Gareth ainda estava com suas roupas sociais usuais, mas com um toque tanto informal, de gravata frouxa e camisa dobrada até os cotovelos, os primeiros botões abertos que com certeza não passaram despercebidos por mim.
— Há algo em que possa ajudar?
— Só quero me preparar para a reunião - sorriu simples, sem mostrar os dentes. Um silêncio constrangedor se instalou entre nós quando não tivemos mais assunto para preenchê-lo, aliás, não somos os mais chegados, vez ou outra desfrutávamos de cafézinho na companhia do outro, mas nada que ultrapassasse tal.

Seu sorriso se alargou um bocado enquanto ele encarava o chão.

— Mais alguma coisa, Gareth? - perguntei mais uma vez, cautelosa, estudando suas poucas feições.
— Me chame pelo apelido, , fica muito melhor na sua voz.

Oh, então era isso?

— Se quer saber, eu concordo - abri um sorriso simpático. — Então... - comecei como se houvesse algum assunto pra iniciar e esperava do fundo do meu coração que ele puxasse algum.
— Ah sim! Desculpe, estou todo perdido - murmurou afobado, passando a mão livre pelos cabelos loiros. Jurava ter assistido isso em câmera lenta. Onde fica o replay? — Aceita uma carona pra casa? - questionou incerto, dando de ombros.
— Primeiramente, homem se acalme. Segundo, agradeço a gentileza, mas vim de carro.
— Tudo bem então, fica pra próxima - deu de ombros. — Bom descanso, senhorita Jones.
— Você está aqui há, no mínimo, três anos Gary, não precisa de tanta formalidade! - exclamei óbvia. Ele riu nasalado, limitando-se a isso, parecia tenso. — Sente-se, vamos conversar! Se puder, é claro.
— Agradeço, realmente gostaria de sanar algumas dúvidas - o galês se sentou de frente para mim, depositando as pastas na cadeira vazia ao lado para que prosseguisse. — Após as declarações com as novas propostas de Hideke Choi, me vieram algumas ideias. Haveria a possibilidade da Magic se abrir para uma parceria com algum dos maiores nomes do streaming, por exemplo?
— Bom, não posso garantir nada. Há muito o que fazer antes de confirmar algo desse porte, inclusive o tempo estimado e os custos, desculpe.
— Sim, sim. Claro! Não queria colocá-la em uma posição ruim. Mas imagine a Magic com conteúdos exclusivos dos seriados mais populares do mundo. As entrevistas, photoshoots, companhas publicitárias, tudo! Exatamente tudo!
— De fato, me parece tentador. Querendo ou não, sairíamos da zona de conforto da Magic! Magazine e teríamos o melhor do conteúdo durante uma larga margem de tempo - suspirei, cruzando minhas mãos encima da mesa. — Consegue apresentá-la na próxima reunião?
— Claro! - se adiantou exasperado. — Desculpe tomar seu tempo, o senhor Cox estava pra cima e pra baixo com Choi e...
— Perdão, ele o quê?
— Eles... Eles estão adiantando a iniciativa que o Choi apresentou.
— Mas sequer foi votado! - exclamei mais alto que meu tom habitual.
— Exato, por isso questionei primeiro a senhorita. Mil perdões , não era minha intenção exaltá-la.
— Não, de forma alguma. Apenas cuide da sua proposta incrível para a apresentação, está bem? Agradeço a sugestão, definitivamente precisamos organizar algumas coisas por aqui.
— Mil perdões novamente, e obrigado. Boa noite, - assenti, assistindo-o retomar o bolo de pastas para o braço e se virar para sair.
— Hm, Gareth? - ele assentiu assim que atravessara a porta. — Se importa de aguardar um instante? Assim descemos juntos.

O galês sorriu e se aconchegou no charmoso sofá que havia ali até que eu organizasse minhas coisas. Mas que inferno estava pensando pra fazer promessas com propostas a cada passo que dava? Não era primeira vez, e eu não estava com tempo para facilitar as coisas. Não mesmo.
Chegando em casa me limitei apenas às coisas em que vim sonhando durante o percurso: comer, tomar banho e dormir. A cama abraçava tão bem meu corpo que implorava para que eu finalmente testasse o homeoffice, ainda que a ideia me causasse uma ruguinha de dúvidas. Não me parece muito participativo, e talvez meus amados 51% perdessem um pouco de seus holofotes. Mas era algo a se pensar.
A manhã chegou, o sol se abriu e mais um dia se iniciou. Dessa vez a ideia da academia não me parecia tão atrativa e me contentei com um banho para despertar de vez e um café da manhã caprichado, daqueles que não via há tempos. Uma ligação fora suficiente pra que Blair já se encontrasse na metade do caminho até aqui, apenas para que fossemos juntas. “Eu dirijo” a alertei, e essa era a forma de falar que ama alguém no melhor jeito nova-iorquino.
Não cansaria de repetir que tinha a melhor amiga dos sonhos. Porém não estava sendo o bastante pra ela, e sabia disso. De tudo o que ela já fez por mim, de todas as formas que ela me apoiou e os momentos em que ela esteve comigo. Aguentou os dramas pessoais e profissionais sem hesitar uma única vez.

— Bom dia American Goddess! - disse Blair, tão perfeitamente arrumada como sempre. Ah sim! E sempre feliz ao raiar do sol.
— Bom dia babe! Já tomou café? - perguntei enquanto íamos em direção ao meu carro, sendo surpreendida pelo silêncio da mulher ao meu lado que encarava o chão.
— Você era uma vadia insensível há oito horas atrás! O que aconteceu? - dramatizou. É claro que ela iria dramatizar! — Ah! E não, eu não tomei café - sorriu como se segundos atrás não houvesse me ofendido. Vadia tudo bem, agora insensível? Céus, isso era muito pior!
— De onde você tirou insensível? Sou super empática, vou até pagar seu café da manhã - disse com ar convincente.
— O que está acontecendo aqui, ? - entramos no carro e B insistia em sua sobrancelha arqueada.
— Nada demais! Em pequenos gestos estou tentando te recompensar por ser uma ótima amiga. Baby steps... - pisquei.
— Tem falado com a sua mãe?
— Sim. Ontem - confessei rapidamente.
— Eu sabia! E como estão as coisas por lá?
— Você sabe, B. Ela quer que eu me mude pra lá, mas estou aqui justamente buscando uma vida confortável pra elas.

Enquanto dirigia meu coração se apertou, obrigando minha memória a fazer um pequeno flashback de momentos ruins e difíceis. Blair estava do meu lado em todos.

— O que sua mãe tem dito a ela? - seu tom de voz era preocupado e cauteloso, pois sabia que o coração que estava comigo ali, perambulando em Manhattan, não estava sequer completo.
— Mamãe disse que ela está bem, só insiste nas mesmas perguntas.
— Você sabe o que fazer, - ela tocou meu ombro em um gesto de cumplicidade.
— Sim, eu sei B. Só não posso! Não agora.
— Você só está fazendo piorar com a distância e os maus entendidos. Tudo se resolve com uma conversa e uma passagem pra Inglaterra, . Ela precisa de você, principalmente agora.

Engoli em seco e firmei as mãos no volante. Permaneci quieta porque eu sabia pela milésima vez Blair estava certa, mas não poderia jogar tudo para o alto. Não ainda.

— Chegamos - tentei mudar de assunto.
— Você estava falando sério em me recompensar, babe! - sorriu ao adentrar o salão do Asiate. Seguimos para a mesa reservada, mais à esquerda, com vista para o jardim do restaurante.
— Me conte sobre o Thomas e quando vou dar minha bênção a vocês.

Introduzi o assunto com a loira que logo se empolgou e a cada segundo, era como se recarregasse sua munição para a metralhadora de elogios que carregava. E dessa vez nem estava tão exagerada, era apenas mais um dia comum, sendo a melhor amiga de Blair Mitch. Eu apreciava mais um cafezinho apenas para acompanhá-la e gostava do jeito que a via. Seu sorriso parecia mais jovial e até seu cabelo recebia maiores cuidados. Antes, seus cabelos que haviam –adoráveis– cachinhos nas pontas eram injustamente sempre presos em um rabo-de-cavalo. Agora raramente os via sequer com uma trancinha ou outra.

— Você está diferente, B - cruzei meus braços como se realmente a analisasse.
— O quê? Como? São as sobrancelhas? Ah, eu mudei de salão, mas fiz uma ordem expressa para que não mudassem o formato e...
— Não B, relaxe! Diferente de forma boa.
— Ah, é?!
— Você está mais linda do que nunca! Radiante, espontânea... Sem contar que parece até mais responsável.
— Eu sempre fui responsável! - refutou de voz afetada.
— Mas uma workaholic responsável. E estava te deixando maluca!
— Logo você falando sobre workaholic? - sorriu irônica.
— Não me venha com essa. Eu estava te elogiando aqui, remember?
— Inclusive belas palavras, chefa! - riu. — Me sinto melhor quando vejo que as pessoas ao meu redor perceberam uma mudança quando essa nem era a intenção. Me sinto mais segura, sabe? E grande parte disso foi por largar meu lado workaholic de vez e cuidar melhor de mim, . Você deveria tentar.
— Ainda estamos falando de você - disse encarando a xícara a minha frente.
— Eu sei, mas...
— Mas, nada! Está vendo alguma ruga? - perguntei óbvia, apontando para o meu rosto. — Não? Tudo bem, então eu consigo me cuidar. Podemos?

Puxei o guardanapo que descansava nas minhas coxas e sinalizei para trazerem a conta, finalizando e seguindo para o escritório.

— Então... Elogios pela manhã, huh? - comentou como quem não queria nada, enquanto íamos em direção ao carro novamente.
— Você sabe, está chegando a minha época preferida na empresa - pisquei.
— As demissões! - concordei e adentramos o veículo. — Eu sabia que você nunca ia deixar de ser uma vadia insensível! - trocamos um olhar cúmplice, gargalhando.

Fazíamos o caminho para a revista enquanto alguma coisa das The Pussycat Dolls tocava pelo veículo e eu amava profundamente a girlband, fazendo o tempo passar sem que sequer fosse percebido e deixando a atmosfera mais leve para aquela manhã. Aproveitando o celular pareado com o carro liguei para Nikki, deixando que a chamada ecoasse para que Blair tivesse a chance de acrescentar algum recado à secretária.

— Bom dia, senhorita Jones - saudou, em tom simpático.
— Bom dia Nicole. Só pra avisar que estou presa com Blair no trânsito da 68th com a 72th Street ok? Algo com uma ultrapassagem que deu errado - bufei, relembrando de outras cinquenta vezes que me vi presa no trânsito pelo mesmo motivo. — Me informe se algo aparecer.
— Tudo bem. Gareth ParenthWood passou para deixar três pastas e um pen-drive. O senhor Rui Angelo ligou e quer uma vídeo-conferência para hoje e o senhor Cox deixou um post-it com os seguintes dizeres “WTF?” - soletrou um tanto embaraçada e Blair deixou uma gargalhada alta escapar.
— Nada urgente Nikki, obrigada.

Após exata uma hora e vinte e cinco minutos chegamos salvas no prédio da revista, e sim, apenas salvas porque sãs nem tanto.
Minha mesa estava da mesma forma que Nicole descrevera mais cedo quando pude me sentar de frente a ela e sim, Gareth definitivamente havia conseguido escrever a proposta em tão pouco tempo, o que deveria ter lhe custado boas horas de sono. E era incrível! A princípio, confesso, me parecia um pouco previsível, mas ele desdobrou da melhor forma imaginável qualquer mínimo detalhe. Era perfeito! Exatamente o que a Magic precisava!
Meu sorriso era tão grande quanto o que aquele projeto representava para a empresa.
Ladies and Gentlemen, A Magic! Magazine estava inovadora como sempre e crescendo como nunca viram antes.
Quanto a Rui Angelo, este é o homem que fundou a majestosa Magic! Magazine que em primeira instância era um projeto escolar de seu oitavo ano, tornando-se um sonho e agora, a mais bela das realidades. O português era um dos homens mais humildes e justos que eu tive a chance de conhecer, o que tornava a Magic muito mais do que apenas meu ‘ganha pão’ quando era quase uma escola pra mim e meu sonho que se tornou realidade.

— Nikki, vou até a sala do Cox, enquanto isso contate Gareth ParenthWood e peça que aguarde na minha sala, sim? - a vi concordar enquanto me dirigia à sala do maior cafajeste que Manhattan já viu. — Por Deus Anna, não precisa me anunciar.
— Mas ele está em... - ouvi a voz da secretária dele sumir gradativamente para ter o prazer de abrir a porta de supetão fazendo os dois homens ali me encararem. e... Hideke Choi, é claro!
— Interrompo? - sorri e pude sentir os pares de olhos efervescentes em mim.
, o que quer que seja precisa esperar - disse em descaso.
— Pois bem, então diga isso ao Rui e quem sabe meus 51% não aumentam? - segui até sua mesa, me aconchegando na cadeira ao lado de Choi que permanecia calado, no entanto sua veia na testa começava a me preocupar.

Me enojava ver que fazia projetos pelas minhas costas. Tudo bem que eu não contava tudo a ele de primeira como melhores amigas contam fofocas, mas contava pouco tempo depois, de qualquer forma.

— Choi, por favor. Conversamos depois - indicou a direção da porta com as mãos, antes cruzadas em cima da mesa. — , o que quer?
— Rui ligou hoje e eu sequer estava aqui, mas ele quer algo com uma videoconferência.
— Essa época? Geralmente ele liga para as edições especiais.
— Eu sei, acha que ele vai encurtar alguns prazos? Já comecei a lista de demissões caso seja o que peça.
— Não faço a mínima ideia, foi pra você quem ele ligou! Mas sim, me parece fazer sentido que seja pelas demissões.
— Não fique enciumado, querido. Cá entre nós, eu sempre fui a preferida dele! - pisquei marota.
— Foi pra isso que veio? - perguntou amargo e fazendo-me arquear as sobrancelhas.
— Mais alguém te deixou pelado no Marquee? Que humor é esse?
, você está protegendo o galês engomadinho e isso é mais ridículo do que eu poderia imaginar - disse por vez, para por fim, dar sua caraterística risada irônica e massagear sua barba por fazer.
— Pois bem, isso explica o post-it grosseiro de bom dia! - ironizei. — , se quer saber você está muito pior que eu. Protegendo o Choi? Sério? Eu esperava até que se insinuasse pra Antonella. Mas sério, Choi?

O homem a minha frente passou as mãos inquietas e agoniadas pelo rosto, suspirando para soltar mais uma de suas risadas irônicas que me dava nos nervos.

— Abra os olhos, .
— Gareth até procurou por você, mas aparentemente estava ocupado demais com seu atual goldenboy. De qualquer forma, cada um de nós está com um dos acionistas mais influentes do comitê - ele concordou.
— E antes que eu me esqueça, que porra você descontou do meu cartão que me custou dez mil e quinhentos dólares?
— Ah, sim! Essa foi a multa do condomínio.
— Finalmente aceitou que morássemos juntos? Adorável, e só demorou nove anos! Right on time...
— Esse foi o preço que custou o seu belo quinteto mexicano, babe e jamais que eu pagaria do meu bolso pela sua ideia estúpida.
— Eles reclamaram? Não acredito! Eu definitivamente amei aqueles caras, mandam muito bem! Díos mio! - ironizou sorrindo e eu só pude rolar os olhos.
— Às quatro horas da tarde na minha sala, vamos ligar para o Rui.

Na volta para o escritório, conversei com alguns supervisores de setores que encontrei em meio ao caminho para pegar os exemplares que precisavam ser autorizados.

— Ele já está a aguardando, senhorita Jones - avisou Nikki, quando cruzei seu campo de visão em seu tom cordial habitual. Assentiu e não me demorei em abrir a porta para cumprimentá-lo.
— Vejam se não é o meu acionista favorito! - abri meu melhor sorriso para saudá-lo, coisa que raramente acontecia, mas era com ele que revolucionaria a Magic. — Fiquei muito feliz que realmente tenha conseguido escrever a proposta em tão pouco tempo, fiquei preocupada com suas horas de sono - confessei, enquanto ia em direção a minha mesa para sentar à sua frente.
— Já tinha algumas coisas encaminhadas, confesso, mas precisei acrescentar muito. Essa é uma chance única!
— E está incrível, Gareth! Meus parabéns, eu estou sem palavras!
— Fico lisonjeado , de verdade. Estava receoso, achei que não fosse impressionar.
— Não seja modesto, vamos lá! É incrível, ainda que precisemos colocar alguns pingos nos ís. Está com tempo?
— Sim, claro! O que achou do pen drive?
— Primeiramente Gary, quando digo colocar os pingos nos ís, digo estar atento a qualquer detalhe - pigarreei. — Não só por termos um concorrente direto ou até mais na votação, porque pior que eles nós somos os nossos maiores concorrentes. Qualquer detalhe é primordial, dessa forma podemos rever os documentos e corrigi-los com outro prisma.
— Não tenha dúvidas , seremos imbatíveis.

Pelas próximas duas horas e meia, Gareth foi minha companhia e a melhor que poderia ter! Ele era fantástico! Habilidoso, ágil, cuidadoso e compenetrado. Não se distraiu por um segundo e era um encanto para os olhos vê-lo daquela forma, diria que até um tanto workaholic, mas quem sou eu para falar algo, não é? Sem via de dúvidas, meu acionista favorito!
O acompanhei com o olhar ao sair da sala, após um suspiro que puxou um sorriso de canto que brotou em nossos lábios. Estávamos confiantes e isso deixava meu dia muito melhor. A sensação de competência que rondava os ares por ali me causava ondas de ambição cada vez maiores.

— Nicole, contate Anna e peça os exemplares com a primeira avaliação para já - desliguei do telefone sem dar-lhe chance de resposta, certamente não carecia de seus murmúrios reverberando na minha cabeça pelo dia de hoje.

Hoje a videoconferência com Rui, que se tornara uma grande surpresa e amanhã, a reunião, que era um tremendo desafio. Não me permitiria parar por um segundo sequer, as edições especiais que Rui tanto amava não estavam cem por cento avaliadas por haver tempo demais até que chegasse a época da próxima publicação. Comecei com os exemplares mais rápidos, de entrevistas e colunas de moda que precisavam de uma pequena revisão e a autorização final para que fossem finalmente distribuídos, estampando em todos os lugares físicos e on-line.
Gostava de ver o resultado, gostava da repercussão, gostava das tendências ousadas que lançávamos, os relatos sobre matéria X ou Y que fulana viu sua vida melhorar em cem por cento após lê-la e as críticas, que eram cada vez menores e eu não descansaria até que fossem aniquiladas de qualquer forma da Magic! Magazine.

— Com licença, senhorita Jones aqui estão o restante dos exemplares da próxima edição, versão on-line e física - deixou em minha mesa um tablet e as pastas para a versão física.
— Nikki, avise direta e estritamente ao Cox para priorizar as edições especiais. Vou mostrá-las ao Rui hoje mesmo - ordenei sem ao menos olhá-la, mas Nikki sabia que gostava de manter a excelência que Rui Angelo prezava e entendia que os segundos que perderia ali poderiam ser cruciais mais cedo ou mais tarde até que terminasse todas as avaliações

Na próxima edição especial que lançaremos tem Lupita Nyong’o como capa e traz sua trajetória até aqui e seu Oscar. Suas filantropias e como era ser embaixadora de causas como a luta contra a extinção dos elefantes pela WildAid e representar o nome da grande marca francesa Lancôme da melhor forma, até mesmo o suposto affair com Michael B. Jordan junto da reviravolta que sua vida deu e o quanto pôde engrandecer a mulher exuberante que era em uma matéria exclusivíssima e com declarações mais do que inéditas da atriz.
Sem via de dúvidas mandaria uma edição sem cortes para mamãe. Céus! Ela vai enlouquecer! Estava pra nascer maior admiradora de Lupita e vê-la pelos corredores da revista para os photoshoots me fazia lembrar de mamãe a cada segundo.
Mamãe.
Eu sequer conseguia pensar nela sem que minha boca secasse e meu coração quase pulasse do peito. Sabia tudo que ela havia deixado para trás por mim, e agora, mais do que nunca. Não era a primeira vez que tínhamos que segurar o mundo com uma mão para que pudéssemos enlaçar a outra e estava longe de ser a última, eu sabia. Poderiam vir outras vinte batalhas que nós ganharíamos todas, simplesmente porque estávamos juntas. Eu, mamãe e Blair, as forças que eu precisava e exatamente as que eu tinha.
As batidinhas tímidas na porta já denunciavam Nicole quando a mesma apareceu para entregar as próximas edições especiais, as mesmas que faríamos um ano inteirinho delas. Vi minha secretária ainda permanecer à frente da minha mesa.

— Sim Nikki, vá almoçar e faça o horário completo, ok? - a orientei, automaticamente.
— Hideke Choi a aguarda e está um tanto... Ansioso, eu acho - disse receosa.
— Avise-o que amanhã antes da reunião conversamos. Antes disso, sem condições alguma - levantei meu rosto para encará-la. — E não permita que ninguém me interrompa novamente, estamos entendidas?
— Ele disse que não aceita um ‘não’ como resposta - completou.
— Então vamos decepcioná-lo porque a resposta continua ‘não’.
— Senhorita Jones, desculpe insistir, mas é que ele deixou explícito que deseja conversar agora e...
— Recapitulando Nicole, deixo explícito que hoje não há condições - proferi pausadamente.

Haviam doze pastas. Uma para cada das próximas edições especiais que tanto investíamos e as mesmas que eram minha grande paixão e dessa vez inovaríamos longe dos lançamentos apenas para datas comemorativas, quando nos deixavam mais emotivos e etc. Mas também era sinônimo de frisson. As melhores matérias e as únicas do mundo, em uma espécie de crossover de celebridades que ninguém nunca imaginou.

— COMO VOCÊ PODE NÃO TER TEMPO PARA O ACIONISTA MAIS INFLUENTE DO COMITÊ? - a porta da minha sala se chocou com a parede, fazendo um estrondo, que apenas perdeu os holofotes para o oriental furioso que andava em minha direção, me fazendo pensar melhor sobre a audácia desse filho da puta. Cruzei os braços, ainda sentada em minha cadeira, assistindo o que eu jurava ser faíscas sair de suas narinas.


III - Trust Me.

— O que posso fazer por Vossa Majestade?
— Guarde seu tom irônico para os seus amigos, senhorita Jones. Sou o mais influente. Isso é o suficiente para entender que tenho poder pra mudar muito aqui - seu tom de voz era alto e parecia aumentar alguns decibéis a cada segundo. Os ombros da minha secretária se encolheram um bocado assistindo à cena, então em passos rápidos ela se retirou.
— Primeiramente abaixe seu tom, Choi. Não está falando com qualquer um e sabe disso - suspirei. — Não sei o que lhe faz pensar que é tão especial a ponto de passar por cima de ordens expressas - travei a mandíbula, mantendo o tom firme.
— Talvez você não queira medir influências, . Uma garota mimada e incoerente, comandar não é apenas sobre dar ordens - riu nasalado, meneando com a cabeça. — O senhor Cox merece a maior parte da porcentagem e você mesma sabe disso - ele colocou as duas mãos espalmadas na minha mesa, me encarando e talvez esse fosse seu jeito de tentar me intimidar.
— Aceite se quiser, mas eu tenho os 51% e eles vão continuar meus - forcei-lhe um sorriso. — Agora se não se importa... - apontei gentilmente a porta.
— Talvez eu não tenha sido claro o bastante, porque eu me importo e muito! - proferiu pausadamente, entre os dentes que rangiam. — Você não vai ganhar aquela votação amanhã e esse vai ser o meu primeiro passo ao lado do senhor Cox para conquistarmos a Magic!
— Não tente me intimidar, Hideke. Se aceitar meu conselho: vá trabalhar, você não vai tomar o meu lugar apenas me ameaçando. Ah! E não me falte com respeito, próxima vez o senhor será suspenso.
— Você não teria coragem...
— Me teste - me levantei, ficando na mesma altura que ele, podendo encará-lo na mesma intensidade que o fazia, alinhando nossos olhares.
— O jeito que fala, o jeito que acha que comanda, o jeito que você entra na sala do senhor Cox... Tudo isso precisa mudar - ajeitou o nó de sua gravata, mesmo que não precisasse. — Isso pode até manchar o nome da Magic! Magazine.
— Lembre-se que os maiores números alcançados pela Magic foram no meu comando, e do Cox, também, é claro. Forbes Under 30 pode te explicar melhor - cruzei meus braços, aguardando sua resposta.
— Isso não vai ficar assim.
— Então sugiro que aja logo, porque os 51% ainda são meus - me aconcheguei em minha cadeira novamente, cruzando as mãos, plena e certeira sobre onde afetá-lo. Olhei em seus olhos para presenteá-lo com o melhor sorriso que poderia dar e fui presenteada de volta com sua saída triunfal batendo os pés como uma criança que não consegue o brinquedo que quer. Hideke Choi é influente? É. Mas também é um filho da puta egocêntrico e desacostumado a trabalhar. Podre de rico, herdou tudo de seu pai, inclusive a porcentagem de ações na Magic.

Mergulhei novamente nas edições especiais, havia muita coisa na minha mesa que provaria facilmente o porquê do poder da última palavra ser meu.
No final, reuniria em relação, capa e resumo do conteúdo de todas, recapitulando as informações mais importantes para ter certeza de que não ficaria nenhuma dúvida pelo caminho. Sempre da forma elegante que era a marca registrada da Magic. Rui vai amá-las! Ainda haviam tiragens para serem detalhadamente avaliadas, revisadas e resumidas. A maioria delas já haviam passado pelas mãos de , seguindo o esquema que obedecemos à risca: duas avaliações por cada edição. A maratona era difícil, mas para Cleveland-Jones, estava no meu DNA de workaholic enxergá-la como se estivesse em um parque de diversões.
Ouvi batidinhas e autorizei que entrassem, para logo ver um de rosto sereno. Inédito, por assim dizer, já que sempre estava com aquele maldito sorriso cafajeste e um pouco –bem pouco– galante.

— Oi. Vamos ligar pro Rui aqui mesmo ou na sala de conferência? E não demita a Nicole, ela me avisou que não queria receber ninguém, mas cá entre nós, sou bem mais do que isso, não é? - piscou e aí está! O sorriso cafajeste que falei!
— Na verdade, estou um pouco ocupada. Mais tarde decidimos, ok?
— Vou pedir para prepararem a sala de conferências, então.
— Apressadinho, huh? Isso não vai aumentar seus 49%, ... - ri nasalado, estreitando meus olhos durante os poucos segundos que o encarei.
— Isso nunca me incomodou, - deu de ombros. — Qual o problema?
— Seu querido China In Box me fez perder raros minutos logo hoje, a ponto de me insultar dizendo que meus 51% não me cabem e que você, meu querido, merecia o poder absoluto - disse por vez e poderia jurar que senti meu sangue correr mais rápido apenas de me lembrar da audácia desse sem noção. Meu <>co-worker se sentou à minha frente e percebi um finco entre suas sobrancelhas, confuso.
— Eu não tenho nada a ver com isso! Se ele veio aqui despejar absurdos foi porque quis, sequer comentei algo com ele que não fosse profissional.
— Reforce seu cercadinho de hashis porque seu bebê está fugindo das regras da empresa, e o deixei avisado, se chegar a pensar em levantar o tom mais uma vez está suspenso.
— Você sequer se abalou! - cruzou os braços, analisando-me e riu em puro divertimento.
— Claro que não. Preciso manter a ordem, e sinceramente? Ele ficou puto! - gargalhamos. — Ei, eu conheço essa embalagem.
— Trouxe pra você, sabia que não tinha parado um segundo - Cox abriu a sacola para se exibir da posse de uma fatia de torta holandesa que não era apenas generosa, mas sim um milagre inteiro! E isso sem contar o Gingerbread todo decorado e colorido, ao lado dos muffins que saíam da sacola também. — Um muffin é meu e não me olhe assim, é de mirtilos.
— Por favor, fique com o muffin. Se houver uma padaria do céu, os anjos choram toda vez que veem você comprando muffin de mirtilos!
— Não reclame, apenas coma! Vou buscar um café pra nós.

Não estava entendendo sua bondade repentina e sequer lembrava que existia alguma bondade ali. Para mim, era composto de 70% água e os outros 30% pura luxúria. Blair queria ver uma trégua, então parece que alguns passos estão sendo dados por aqui. Em segundos ele estava de volta com o café da máquina no corredor, para ocupar da mesma forma seu lugar a minha frente.

— Expresso e doces: a melhor combinação para não pregar o olho a noite.
— Jura? Durmo como um bebê - soltou um muxoxo. — Isso é bom, no final das contas, estava mesmo pensando em te chamar para um jantar hoje - ele sequer me olhou tamanho descaramento. Estava ocupado demais retalhando seu muffin ridículo, aparentemente.

E estávamos empatados: enquanto ele se recusava me olhar, eu me recusava fortemente a aceitar mais uma fase dos seus jogos. Essa poderia ser a cartada final, mas pra mim isso aconteceu anos antes e vinha enfrentando um vilão a cara dia por isso.

— Você nem quer esse muffin... Você veio aqui exatamente pra isso. O quão cara-de-pau você pode ser, ? - soltei o riso nasalado, um tanto irônico. — Eu sabia que não daria ponto sem nó.
, não é o que você está pensando eu só...
— Você é ridículo! E eu estou farta dos seus joguinhos, simples e puramente farta.
— Me ouça, mulher. Estou cansado dessas provocações, apenas me ouça - seus olhos eram quase suplicantes e eu precisava confessar que estou tentada a dar o braço a torcer. Nikki bateu à porta e entrou em seguida.
— Senhorita Jones, faltam 10 minutos para a videoconferência com Rui e a sala está pronta. Algo mais? - isso foi o suficiente que eu saísse do transe e colocasse minha cabeça no lugar.
— Nicole, se desfaça das coisas na minha mesa, quero apenas as pastas. Em seguida, te aguardo na sala de conferências. Esteja pronta para fazer a ata, sim?

Busquei pela pasta com os resumos das edições especiais junto à de Gareth e joguei minha bolsa no ombro, seguindo em direção ao banheiro, sem muito tempo para um Cox que ficara para trás. Precisava retocar alguns pontos da maquiagem em meu rosto, mas mais importante que isso, era ter ao menos dois minutos de silêncio. Coisa que achava essencial para pensar em paz e pôr as coisas momentaneamente no lugar.
Retoquei o batom carmim e o iluminador que dava vida em pontos específicos do meu rosto. Respirei fundo, me encostando na pia e fechando os olhos, calmamente, –ou ao menos tentando– para repassar mentalmente as pautas principais que careciam ser citadas, deixando qualquer aleatoriedade para trás.
Mesmo após um bom tempo, Rui me veria exatamente da forma que estava acostumado: focada, decidida e inabalável. Fazendo jus aos 51% da Magic! Magazine, uma das queridinhas da cidade de Nova Iorque. Encarei meu reflexo no espelho para mais um suspiro, endireitei a postura e juntei minhas coisas fazendo meus saltos gritarem contra o piso no caminho até a sala de conferência.
Nicole estava a postos mais ao fundo e na primeira cadeira de um lado da grande mesa de reuniões, meu querido colega. Ocupei o lugar ao seu lado com a chamada em espera, que em segundos se desfez para revelar o rosto sorridente de Rui.

Minha dupla dinâmica! - saudou. — Sou mesmo um filho da puta sortudo, huh? Como vão as coisas? Vamos, me contem tudo!
— Mais perfeitas do que nunca, Rui - o cumprimentei com um largo sorriso e dessa vez espontâneo, que ele mesmo me causava. — Nosso exército fashion continua na mais harmoniosa conexão, sem dúvidas!
Vocês nunca decepcionam! Alguma novidade? - meu chefe se exibia enrolado em um roupão branco e felpudo que pareia tão confortável quanto um pedaço de nuvem. Aparentemente deitado, Rui estava diferente do que estávamos acostumados e consequentemente do que esperávamos.
— Bom, amanhã teremos uma Assembleia se não for exagero chamá-la assim, onde eu apresento uma proposta com Gareth e com Choi - suspirei, tomando fôlego. — Hoje mesmo separamos as avaliações e resumos das nossas amadas edições especiais e as demissões estão em andamento, caso precise.
Peguei vocês, não é? Aparecendo antes da hora e deixando vocês loucos! - riu um tanto maquiavélico. — Céus! Eu amo esse suspense que sei fazer como ninguém! Gareth? You go girl! - meu chefe disse com animação e bebericou algo em uma taça.
— Não acredito que você está bebendo, Rui! Por Deus, você não existe! - gargalhei e ele me acompanhou. — E só para constar, isso é maldade pura!
Nunca os impedi de beberem, inclusive incentivo. E em minha defesa, não é maldade se logo, logo chegar um uísque dos bons para enfeitar a mesa de cada um! - Angelo se exibiu com sua taça, mais uma vez, insinuando um brinde.
— Então digo que está com a razão, chefe e nem em outra vida vou reclamar do presente! Obrigada - pisquei cúmplice.
, seja sincera, o que fez com meu galã desta vez?
— Estarei apresentando com ele na Assembleia amanhã, já lhe disse - respondi simplesmente, mesmo sabendo sobre quem ele se referia.
Não seja tão ruim, garota! Sabe que estou falando do bonitão do seu lado. Então me diga o que essa megera fez com você, meu bem. Sabe que posso demiti-la! - dramatizou um bocado para sussurrar a última parte que me causou risos, assim como no homem ao meu lado. Desgraçado.
— Se quer mesmo saber Rui, ela tem partido meu coração constantemente - disse, , teatralmente.
, como pode deixar esse homem escapar duas vezes? Olhe estes braços! Me coço para não te dar um aumento para continuar malhando.
— Angelo, achei que havia ligado para saber da empresa - o tom de obviedade era marcante em minha voz.
Também. Tenho alguns comunicados a fazer, inclusive - suspirou. — Primeiramente, podem guardar as edições especiais porque eu voltarei assim que chegar a data certa, e dessa vez, não foi por elas que apareci.
— Está acontecendo alguma coisa? - Cox perguntou, ajeitando-se na cadeira.
Sim, mas vocês vão conseguir lidar perfeitamente. Hoje vocês terão um jantar black-tie, será uma confraternização entre as maiores revistas de Manhattan. E espero uma foto sua, Cox - comunicou por fim.
— Fazia tempo que não tínhamos que lidar com estes jantares - comentei.
— Sim, Manhattan parecia ter parado de vez com eles - completou. — Algo em especial?
Nah! - abanou a mão demonstrando descaso. — Apenas vão e representem a revista. Bom, por hoje é só, algo a acrescentar? Falem agora ou calem-se para sempre.
— Por enquanto não, mas obrigado, Angelo - Cox sorriu.
Se sorrir pra mim assim de novo, é oficial, te dou um aumento! Obrigado pelo que, afinal de contas?
— Ela recusou um convite meu para jantar minutos atrás - rolei os olhos.
What. A. Gentleman! Bom, tenho que ir, aproveitem sua noite. E em segundo lugar: estou em Nova Iorque - e desligou.
— O quê?! - dissemos juntos.

Assim é o meu querido chefe. Bem humorado do tipo que raramente algo o tira do sério. Aos seus cinquenta e oito anos, tinha aparência de quarenta e sua alma era de vinte, se não menos. Vivia intensa e imprevisivelmente, para cada semana estar em um lugar diferente, rodando o mundo inteiro. Rui Angelo é daquelas pessoas que tem o dom de distribuir risadas por onde passa com seu espírito leve e aventureiro, além do seu dom pela moda que estava sempre on fire. Rui também era o pai que eu nunca havia tido, ele sabia e dizia se orgulhar do quanto significava para mim.

— Não acredito que ele está finalmente aqui. Isso é tão Rui! - ri mais pouco, me levantando em seguida pronta rumar para a minha sala.
— Nicole, se importa de nos dar licença um minuto? - se direcionou a secretária na outra extremidade da mesa.
— Está tudo bem Nikki, junte suas coisas e vá pra casa. Já estou indo também – ela acenou com a cabeça e encostou a porta ao sair. — Pois não? - com a sobrancelha arqueada me dirigi ao homem a minha frente.
, você me entendeu mal, mas também não tiro sua razão. Só não queria que você espelhasse todas as minhas ações em decisões que tomei uma década atrás! É um tanto injusto, até.
— Não é justo pra você que não arca com as consequências até hoje.
— Por Deus! O que isso quer dizer? - fechou os olhos com força, como quem se lembrara de uma lembrança ruim e tentava se desfazer dela. — Eu era um moleque, mal sabia o que fazia e se hoje te convidei para jantar tentando tirar essa imagem horrível que construiu de mim.
— Deve ser porque não me faltaram motivos - cruzei os braços.
— Eu sei, você está certa e eu estou tentando me redimir. O que me diz? Passo pra te buscar hoje à noite? - seus olhos buscaram pelos meus e insatisfeitos, caçavam por uma resposta. Os mesmos olhos que me fizeram viajar por tanto tempo com o verde que parecia ter sido pintado à mão com aquelas pintinhas cor-de-mel.
— Não estava afim de dirigir, de qualquer forma - me dei por vencida.
— Confie em mim, .

Saímos da sala de conferência para que cada um seguisse seu rumo, ainda que minha mente seguisse uma rota contrária, permanecendo com o rosto de me rondando pelos pensamentos e eu não queria controlá-los.
Encontrei Nikki organizando as últimas coisas que estavam fora do lugar em sua mesa.

— E Nicole - a vi se virar para mim, assentindo. — Não se preocupe com o Choi mais cedo, não foi culpa sua e ele tem umas atitudes duvidosas mesmo - pisquei e segui meu curso, ainda aproveitando sua presença pedi que colocasse Blair na linha.
— B, consegue sair mais cedo hoje? Mais cedo, tipo agora.
Na verdade não, mas como você é minha chefe imagino que de uma forma ou de outra isso seja uma ordem, não é?
— Como se precisasse perguntar! Te espero no estacionamento.

Saindo da minha sala, segui o corredor que dava acesso ao elevador e sequer vi mais nenhuma sombra de Nikki ou de qualquer outro funcionário. O elevador chegou e eu entrei, para encarar meu reflexo nos espelhos pela segunda vez em pouco tempo e sendo invadida por pensamentos vaidosos de penteados para a noite de gala que me aguardava, assim como a joia em qual apostar já que meu tempo era um bocado curto.
Tirada dos devaneios pelo tilintar ao abrir as portas do elevador, irrompi em direção a uma das minhas maiores extravagâncias, meu BMW Concept 8, adentrando o veículo para jogar as pastas para trás como estava acostumada. Os dez minutos que Blair demorou para aparecer –que me pareceram trinta– pude usufruir da chance de mais uma vez, tentar organizar as ideias, mesmo que sobressaísse a outra e até podia ouvir mamãe falando que eu precisava de férias. Finalmente a boneca apareceu e aparentemente trazia todos os registros desde o nascimento da Magic, tamanha era sua pilha de pastas.

— Certeza que está tudo bem sair agora? Não tem que colocar estagiários nos eixos ou algo do tipo? - tentei soar cômica para diminuir sua carranca, mas falhei miseravelmente.
— Nah! Está tudo bem, só vou precisar de mais um pouco de prazo pra entregar as aesthetics pros photoshoots. Vamos? - ela se aconchegou no banco do passageiro e percebi que estava até um pouco ofegante.

Liguei o carro e já vi minha melhor amiga se adiantar procurando algo na playlist que em um combinado silencioso, ambas sabíamos que era sempre responsabilidade dela.

— E como foi hoje com o Rui? O que ele achou das edições especiais?
— Ah B, ele sequer ligou pra elas, foi mais para comunicar um jantar de gala com as melhores revistas de Manhattan com direito a The Plaza e tudo!
— Eu podia jurar que haviam desistido de vez desses jantares.
— Pois é, e agora temos a missão de achar um vestido em trinta minutos.

Entramos em algumas lojas torcendo o nariz para alguns e se apaixonando perdidamente por outros totalmente fora de contexto para a ocasião, como a jaqueta de couro da nova coleção de Carolina Herrera e realmente, essa era a montanha russa de sensações que a Madison Avenue proporcionava. Na mesma loja que o encontramos: vestido perfeito. Perfeito para mim, e nascido para aquela noite.
Braid Detail Silk by Carolina Herrera.
Ousado, elegante e vermelho.
Ainda encantadas pela Madison Ave, Blair passou pelas portas duplas da Giuseppe Zanotti Design. A loira dizia saber que ali, em algum lugar de todo o acervo fashion do designer italiano de luxo, haveria a combinação perfeita.
E em poucos segundos provou que não poderia estar mais certa.
O par de Three-Strap vermelho tal qual o vestido, me serviram como o sapatinho de cristal. A diferença é que Giuseppe Zanotti tinha o dom de ler os pensamentos que ao menos concluí ao apresentar aqueles belos doze centímetros e alguns mil dólares que me calcariam hoje.
Infringimos poucas e boas leis de trânsito ultrapassando alguns sinais vermelhos para corrermos até em casa e o horário de pico não ajudava.
Ao adentrar o apê, tinha exatas uma hora e meia para me arrumar. Tempo este que era o mesmo gasto na manhã antes de ir trabalhar.
Correria –e gritos apressados da Blair– a parte, quando pude me ver no espelho, gostei do resultado e digo isso porque era penas quando a General Mitch permitia, e sinceramente, com seus olhos atentos, cada piscada era um acerto para a conta da minha melhor amiga girly e perfeccionista. Os cabelos presos em um coque banana tinha alguns fios soltos para desconstrui-lo. Para a maquiagem, nada exagerado, mas uma pele perfeita e cílios de dar inveja. Blair Mitch era minha fada madrinha e eu nem sequer sonhava em discordar!
Meu celular tocou para me desligar dos devaneios. Era .

Sua carruagem te espera Cinderela. Está pronta? - disse brincalhão.
— Mas ainda faltam 20 minutos!
Imagino que isso seja um ‘não’.
— Ainda faltam alguns detalhes, se importa de subir?

Ouvi meu co-worker concordar e desligamos, para que então eu pudesse correr pelo apê procurando por uma Blair que parecia gostar mais de usufruir do seu tempo maratonando “O Diabo Veste Prada” pela milésima vez esparramada no sofá da minha sala.
Não a julgo, é um excelente filme!

— B, está subindo.
— E o que ele está fazendo aqui? - disse mordendo sua fatia de pizza que... Por Deus, Blair, eu a estava guardando!
— Me ofereceu carona.
— Por que não me falou que ia acompanhada? Poderia ter opinado em um vestido mais curto!
— É melhor dessa forma, assim já sei que da próxima vez não direi nada sobre ir acompanhada.
— Você vai sair com ele, de novo? - a loira de um pulo do sofá, encarando-me.
— Pode servir vinho branco, é o preferido dele - a ignorei, dando-lhe as costas para que voltasse a me arrumar.

Corri de volta para o quarto a fim de escolher uma clutch sobre a qual não me lembrei mais cedo. O closet parecia menor a cada nova temporada de inverno, e pareceu ainda menor quando ouvi o reverberar da campainha e comecei a me atrapalhar, apressada dentro dele. Puxei a gaveta para tirar de lá o conjunto composto por anel e colar, da coleção Tiffany Soleste com joia esmeralda rondada em diamantes, presente que recebi de Rui algumas semanas antes do meu aniversário.
No final das contas, estar perto dos trinta anos se tornava uma coisa boa: os presentes eram mais sofisticados.
O vestido esticado na cama estava pronto para ser estreado e assim o fiz, sentindo o tecido macio deslizar pela minha pele por toda sua extensão. Calcei as sandálias e pude conferir no que tanta correria resultou.
O look predominantemente vermelho era incrivelmente poderoso e eu só podia ouvir Blair: “Você está matadora!”.
Com clutch finalmente em mãos segui para a sala, encontrei a melhor amiga deitada em um sofá e aconchegado em outro, muito bem em seu smoking por sinal.

— Eu nem saí e você já se apossou de cem por cento das minhas coisas! - brinquei, percebendo e não sabendo como reagir ao olhar de Cox. — Vai ficar por aqui?
— Não sei, na verdade. E sim , eu lembro das regras: Um: nada de mais de um boy; Dois: Respeitar a adega de vinhos; Três: Pia limpa - Blair enumerava nos dedos de uma mão e sua voz era puro tédio, me fazendo rir.
— Esqueceu a mais importante: não pedir...
— Não pedir farinha para o vizinho porque você sempre tem farinha! - rolou os olhos e cruzou os braços como uma adolescente emburrada.
— Que orgulho - pisquei para ela, fazendo com que seu bico de emburrada apenas aumentasse. — Vamos, Cox? - me virei para o homem que tinha as mãos nos bolsos dianteiros da calça e para o meu azar, estava terrivelmente deslumbrante. Seu perfume de sempre me rodeava tornando difícil a tarefa de manter-se sã perto dele.
— Claro, claro. Vamos! E se me permite, você... Céus! Me faltam palavras, - se as palavras realmente lhe faltaram, seus olhos, no entanto, me disseram o bastante.

Era uma trégua, after all.

— Obrigada. Você também não está nada mal.
— E não iria me esquecer - e como no meu aniversário, revelou mais um buquê de rosas colombianas, que pouco a pouco começavam a se tornar meu mais novo vício, quando percebi que mesmo sem querer, elas fundiam-se com a cor do vestido.
— Confesso que a última vez que as recebi não é das minhas memórias favoritas... Obrigada! Blair vai colocá-las na água, não é Blair?
— Lembre-se: estou tentando me redimir! - o co-worker sussurrou, para piscar em seguida.
, vá de uma vez! - pela milésima vez em cinco minutos, Blair revirou os olhos. — Sim mamãe, as colocarei na água.
— Não me expulse da minha própria casa!
— Não estou. Só estou sendo esmagada entre meu próprio peso, o de vocês e da tensão sexual, então por favor! - abanou a mão no ar como não se importasse, e não tivesse visto que a fuzilava com o olhar. Pigarreei, seguindo até Cox, e gostava de pensar que nenhum de nós concordava com Blair.

ofereceu seu braço para que eu o enlaçasse e não desapontei, assim o fiz para seguirmos em direção ao elevador.

— Última vez que estive aqui pensei que fosse me estrangular - rimos para preencher o vazio silencioso do elevador. — Obrigado por aceitar o convite, .

Tinha uma resposta na ponta da língua, mas esta foi calada por um bando de crianças barulhentas que seriam nossa companhia até o térreo, e eu só pude sorrir para sua gentileza. Era estranho no final das contas: a trégua. Estava acostumada com outra realidade e acredito piamente que ele também, talvez a trégua fosse algo que eu teria que aprender, mesmo depois de tanta coisa.
O caminho foi tranquilo e pudemos conversar e dar algumas risadas enquanto ouvíamos sua playlist horrorosa vinda direto da nossa adolescência, no último ano do colégio para ser mais precisa, e o início da fase adulta, com a faculdade e o começo de estágio na Magic inclusos nas memórias que as músicas traziam.
Não somos celebridades, mas era até irônico como cada um ali, no salão do The Plaza o grande pai dos eventos glamurosos de NYC, tinha uma carta na manga. Era como um ninho de cobras onde todas vestiam Versace. Claro, haviam algumas exceções, um e outro que se safava sem o rabo preso com ninguém e eu não estava absolutamente certa sobre estar entre eles.

— Pronta para beber taças e taças de champanhe com combinações esquisitas de frutas e ser simpática por horas? - disse o homem ao meu lado, assim que estacionou, revezando o olhar entre mim e o frisson mais à frente.
— Para sua informação, sei muito bem ser simpática. Mesmo por horas! Você não estava tentando se redimir? - suspirei para dramatizar um pouquinho. — Anyway, focar em me embriagar o máximo possível antes de Melanie Vaughn vir me contar sobre a festa que fez no iate para seus poodles. Sinceramente, isso me custa muita paciência! - nossas risadas tomaram conta do carro e de presente para a nossa sanidade mental, demos mais um longo suspiro. Haja paciência para o que estava por vir.
— Não é por nada, mas ouvi boatos que o sonho da Melanie é chegar à Magic. Ela já entregou o currículo? - proferiu irônico e saiu do veículo rindo, contornando-o pela frente, parando ao meu lado e abrindo a porta como um legítimo cavalheiro de algumas décadas atrás. Ele entregou a chave para que manobrassem o carro e enlaçamos nossos braços novamente, não era de todo ruim, tenho que dizer. Mas, infelizmente, era fácil demais de se acostumar.
— Ah! Só um segundo - me virei para estar de frente a ele. — Sua gravata está torta, deixe-me arrumar - puxei as extremidades do laço para ajustar seu tamanho e endireitá-la em seu colarinho. Sua gravata borboleta marsala que caía tão bem com a lapela da mesma cor em seu smoking. God have mercy! — Agora sim! - dei dois tapinhas em seu ombro como se precisasse deles para dispersar os meus próprios pensamentos anteriores.

Adentramos o grande hotel sendo devorados pelos flashs dos atuais responsáveis pela grande cobertura do evento. Era até engraçado provar do próprio veneno quando já havia feito o mesmo para conseguir as melhores notas no estágio.

— Senhorita Jones, por favor, uma pergunta: A Magic! Magazine está entre o atual “Top 5’ de Manhattan: vocês estão conformados com isso? - um garoto mirrado e, creio que, em seu melhor terno perguntou, usando seu celular como gravador.
— Por Deus, meu jovem! - dei uma risada irônica. — Folheie a Magic mais uma vez e veja que não estamos conformados com nada. E convenhamos, o 1º lugar está aí para ser conquistado e te digo uma coisa: esteja atento ao próximo nome a ocupá-lo, porque será o da Magic. Obrigada - o garoto recolheu sua gravação para dar espaço a uma jovem ansiosa ao lado de .
— Senhor Cox, por gentileza: como parte do cérebro da ‘Tríplice de Ouro’ da Magic! Magazine, o senhor acha que é um bom momento para a Magic diversificar sua forma como dizem os boatos?
— Primeiramente, obrigado pelo ‘Tríplice de Ouro’ é sempre renovador de ouvir, como se fosse a primeira vez! - riu simpático. — Quanto aos boatos: sou contra spoilers!
— Senhor Cox, aqui! - uma garota irrompeu.
— Mil perdões pessoal, preciso ir. Seria uma lástima deixar uma mulher dessas esperando! Obrigado! - demos um aceno para o último rajar de flashs que nos perseguiram e seguimos para o salão.

Sendo verdadeira, gostava de ver a forma que lidava com as perguntas e com quem as fazia porque era muito diferente da forma havíamos sido tratados na época em que precisamos correr atrás do que esses jovens correm hoje. Assim como a dificuldade que tínhamos com os materiais e artefatos necessários de baixa qualidade para conquistássemos o melhor que pudéssemos. Era uma caça por leões todos os dias.
Uma música ambiente tocava ao fundo quando nos servimos de taças de champanhe e decidimos nos separar para melhor socializar.
O local me parecia mais elegante do que me lembrava desde a última vez que estive ali, há dois anos. Banhado por conhecidos do ramo e devo acrescentar, alguns concorrentes os quais já havia trocado boas farpas. Vi quem me ajudou com conteúdos essenciais e não, necessariamente, exclusivos quando ainda era uma estagiária. Uma entrevista esclarecedora, bastidores de peças de teatro até photoshoots já me bastavam naquela época. Vi também quem esnobou e jogou o nome da –até então– pequena e recém nascida Magic na lama, e havia espaço da mesma forma para quem mantinha apenas as relações estritamente profissionais. Cumprimentei a todos igualmente, e aos que tentaram nos pisotear o meu mais sincero sorriso da atual ‘Tríplice de Ouro’ da Magic! Magazine.
Dito e feito.
Em pouco tempo pude ver Melanie Vaughn oferecer-me uma taça de champanhe ao meu lado. Com toda sua loirice exagerada em um quase cosplay de Paris Hilton.

— Amada! Nem preciso dizer que está divina, não é? - sorriu forçada junto de sua voz estridente e nasalada que poderia partir em pedaços mínimos nossas taças. — Caroline Herrera?
— Claro. A própria! - respondi-lhe sobre a grife do vestido, soando o mais simpática possível. — E, nossa! O que foi aquela festa para poodles, huh, Mellie?! - emendei em seu assunto favorito, assim a mesma não faria questão e poderia esbanjar seu bronzeado ¾ alaranjado em qualquer outro metro quadrado deste salão.
— Foi divino! Me emociono apenas de lembrar. Uma pena que não pôde ir, o que não fazemos pelas nossas empresas, não é? - forçou um desânimo referindo-se a desculpa que inventei para fugir do seu convite. — Mas cá entre nós, esse assunto já não é o único do momento - se aproximou de mim, abaixando seu tom quase num sussurro.
— Como não? Aquela festa é tudo o que temos falado.
— Na verdade, queria falar de - Melanie segurou o que pôde do seu sorriso mordendo o lábio inferior.
— O Cox?! Jura? O que ele fez desta vez?
— Ah... O que eu gostaria que ele fizesse, não é mesmo? - Vaughn puxou meus ombros, mostrando-me a direção em que meu co-worker estava, no fundo do salão. Ele bebericava sua taça de champanhe vez ou outra, e ria casualmente com o pequeno grupo de mulheres de meia idade que pareciam compartilhar do mesmo sentimento de Melanie. — Por favor, me diga que ele está solteiro, e eu juro que posso descabelá-lo agora mesmo! - a loira platinada o encarou e fez uma espécie de garras com as mãos, e que assemelharam bastante devido tamanho de suas unhas cor-de-rosa. Senti meus olhos se arregalarem de imediato, assim que o grupo que ele conversava se dispersou, nos flagrando de imediato levantando sua taça como quem propunha um brinde e em resposta, entornei o restante de champanhe, colocando a taça vazia na bandeja de um garçom que passava e substituindo por uma cheia.

Precisava saciar a sede que me cercou. Eu não estava ouvindo aquilo.

— N-Nã.. Não que eu esteja fofocando, longe de mim, é claro, mas o vi confirmar umas rosas vermelhas, aquelas colombianas, lindíssimas, para alguém esses dias - a respondi rapidamente. — Talvez seja um affair ou algum caso de uma noite só. não dá ponto sem nó! - senti o cítrico da bebida em meus lábios novamente, me dando conta do que diabos havia dito.

Ah, não!

— Não o vejo com ninguém há tempos, . Acha que é sério mesmo? - colocou as mãos na cintura, estreitando a vista e me analisando. Talvez não percebesse minha mentira. Sinceramente, não era tão esperta assim. E outra, não era das piores mentiras, diante a trégua só queria protegê-lo. Apenas.
— Você deveria tê-lo visto. Cheio de sorrisinhos para cá e para lá, deve ser sério sim.
— Já estava sonhando com aqueles ombros largos, os olhos verdes e aquelas mãos... Ah, , como se concentra com um homem desses pelos corredores?

Não saberia o que lhe responder: minha boca estava cheia de mentiras, mas também nem precisei fazê-lo, sorrimos e nos viramos em direção ao palco, onde havia uma breve movimentação.
Samantha Barry, editora-chefe da Glamour se aproximou do microfone em frente aos músicos para chamar a atenção.

— Boa noite. Sejam todos muito bem-vindos ao The Plaza e á noite de premiação a Vogue - aplausos acalorados preencheram todo o local e vi se posicionar ao meu lado. — Agradeço a presença de todos e antes do jantar, vamos ver um vídeo promocional sobre a premiada da noite.

O vídeo se iniciou e nele havia a campanha entre Vogue e Glamour em suas plataformas de comunicação que tinham como prioridade avançar e explorar mundialmente as vertentes de Marketing de Luxo. Marketing do Luxo, com curadoria da redação da Vogue, e Marketing Digital para Moda, com curadoria da Glamour. Os veículos se uniram com o objetivo de disponibilizar conteúdo nas áreas de moda e luxo com o selo de títulos que são referência nesses segmentos.
A hostess nos acompanhou à mesa com nossos nomes a leste do salão. Um local reservado que nos permitia ter o prazer de observar a Big Apple ganhando pontos de luz conforme a noitada se abria em uma forma aconchegante ainda que o local estivesse farto.

— Fiz o máximo que pude para ficarmos um pouco reservados, mas queria aquela mesa que uma vez você comentou e...
! Não se preocupe, está ótimo. Obrigada! - sorri terna, mas ainda um pouco acanhada. — Mas me diga, como está a sua proposta com o Choi? - perguntei enquanto abria o Menu a minha frente para analisá-lo.
— Não mesmo. Não vamos falar de trabalho aqui.
— Irônico. É exatamente isso que estamos fazendo! – exclamei óbvia.
— Não estamos rodeados de pastas - ele evidenciou o lógico, piscando maroto. — Espero que não se importe, pedi um Dom Périgon e se bem me lembro: vintage rosé.
— Mas você ama vinho branco - tentei argumentar, vendo-o segurar um risinho que brotava no canto de seus lábios. — E quando você pediu? Estávamos juntos quase o tempo inteiro.
— Se acalme mulher! Tenho tudo sobre controle - sinalizou para o garçom algo que não fazia ideia. — E Dona Valerie, como vai?
— Jura? Minha mãe? - o encarei entediada e ele afirmou com a cabeça para que prosseguisse. — Ela está ótima. Uma versão menos louca do Rui, acredita? Vive viajando!
, eu devo um pedido de desculpas a ela. Não vai mudar tudo o que aconteceu, mas cá estou - o garçom chegou para nos servir o champanhe rosé.
— Vamos com calma, garotão. Temos todo o tempo do mundo - ergui minha taça, propondo-lhe um brinde ao qual ele atendeu, então levei a taça aos lábios sentindo o adocicado explodir até o céu da minha boca.

Durante o jantar pôde contar suas histórias da temporada em que morou na Inglaterra, oportunidade que teve na faculdade e que nos afastou um bocado –pra não dizer –completamente. Conseguimos dar boas risadas apesar de tantos ressentimentos que marcaram a época, tornando o jantar agradável como há tempos não apreciava.
Retornando ao salão principal, haveríamos de lidar, consecutivamente com a premiação, um segundo vídeo promocional para, enfim abrirem a balada fechando a noite. Não sentia exatamente saudade das luzes piscantes, porém estava claro que elas fariam parte do ponto alto dessa noite.

— Celebramos nesta noite em homenagem a grande campanha revolucionária com iniciativa da Vogue – Samantha retornou a falar em sua posição de anfitriã num tom de voz gentil. — E peço uma salva de palmas para que Eugenia de la Torriente possa receber sua merecida estatueta!

Recebendo a estatueta das mãos de Samantha Barry, uma sorridente e deslumbrante Eugenia de la Torriente ouviu o repercutir das palmas em sua homenagem. Senti meu sorriso se abrir junto ao de tantos ali presentes, que mulher! Que personalidade exuberante!
Segurou o mundo com uma mão, driblando tantos estereótipos e conquistou a estatueta com outra e me parecia a coisa mais certa do mundo.

— Me parece até um sonho! E quantas vezes sonhei com isso! - Eugenia iniciou com suas palavras. — Digo a vocês: não cheguei aqui sozinha e também não ganhei sozinha. Ajudem quem está ao seu lado e vocês verão sobre o que é empatia. Muito, muito obrigada e boa noite - ela levantou sua estatueta e alguns sorrisos se alongaram ainda mais, mesmo que o seu próprio fosse capaz de iluminar toda a cidade.
— Acho que caiu um cisco no meu olho - brincou Samantha ao regressar. —Obrigada a todos por esta noite e espero que possamos nos encontrar logo mais na London Eye, felizardos! Agradeço-lhes novamente e aproveitem a noite!

O último vídeo promocional se iniciou tão bem trabalhado quanto o anterior e repetidamente frisava um encontro em... Londres?!

— Não, não, não e não. Ele não fez isso - me dirigi á , exasperada.
— Ele enlouqueceu de vez. Não pode ser - Cox completou, encarando o telão com os dizeres:

‘’See you all soon.
London, 2020.”


IV - Darkest cloud.

Irrompi pelo salão de gala e por cima da música alta que começou tocar, era como se pudesse ouvir meus dentes rangendo em fúria e não duvidava.

, ! Espere! O que vai fazer?
— Preciso tirar isso a limpo. Rui não pode simplesmente nos despachar em outro país - a voz antes recatada agora atingia alguns bons decibéis.
— Quer mesmo lidar com isso de cabeça quente?
— O que você quer, afinal? Que eu espere pelo carimbo nos nossos passaportes? -cruzei os braços. — Olhe. Quer ficar? Fique. Chamo um táxi.
— Isso é loucura! Sabemos que Rui está em Manhattan, mas sequer sabemos onde.
Você, não sabe - frisei. — É claro que ele está no Conrad Hotel. Enfim, você vai ou fica? - perguntei um tanto ríspida. Sabia que não era culpa dele, mas precisava se decidir. Em resposta o vi suspirar e balançar a chave do carro nos dedos.

Uma eternidade nos distanciava do Conrad Hotel e precisamos cruzar a ilha de Manhattan, nos custando valiosos trinta minutos. Neste meio tempo minha cabeça dava nós quase cegos e meu coração se contorcia em pura e sincera raiva.
Ir para Londres poderia pôr tudo a perder.

, tem certeza que quer chegar tarde no hotel para xingar seu chefe?
— Até porque não me parece tarde para ele contar que vamos pra outro continente - busquei pelo meu celular, discando o número de Rui. Pareciam intermináveis as vezes que disquei seu número para ouvir os repetitivos toques e finalmente ir parar na caixa postal. — É óbvio que ele não vai atender - murmurei.
— Não é tão ruim assim, o continente está aqui do lado.
— No fim das contas de que lado você está, ? Uma hora ele vai atender. Tem que atender - tentei por mais alguns minutos e enfim, ouvi sua voz.
Me conte tu-do sobre o evento querida! E cobre o Cox a foto que pedi! - coloquei a chamada no alto-falante.
— Angelo foi esplêndido. Eugenia de la Torriente ficou tão emocionada! - forjei uma voz serena. — E se me permite perguntar: O QUE PENSA QUE ESTÁ FAZENDO? - pude ouvir o riso de ambos homens.
Céus, então vocês já sabem! Fantástico, huh? - disse Rui, fazendo pouco caso.
— Sério Rui, o que passou na sua cabeça? - berrando às 7 Maravilhas do Mundo e não pretendia parar tão cedo e o homem na ligação sequer se importara.
O que passou pela minha cabeça é que não adianta você vir até o Conrad Hotel. Apenas deixe seu passaporte em dia.
— Não estava indo ao Conrad Hotel - me olhou para sussurrar um “O quê?!”.
Eu sei que está e que também está fazendo o bonitão de chofer. Conheço seu modus operandi!
— Olá, Rui - o saudou, revelando-se.
I knew it! Apenas não venham. Tchau, tchau! - desligou.
— Mas que inferno de mania de desligar do nada!
— Satisfeita? - o encarei, semicerrando os olhos. — Bom, vou te levar pra casa.

Me contentei em suspirar para recobrar a sanidade e finalmente concordar; Rui Angelo era o dono de todo aquele império. Olhava pela janela, assistindo uma garoa fina começar a cair pela cidade de Nova Iorque e notei que em poucos minutos, Cox já estacionava em frente ao meu prédio.

— Rui é inacreditável - comentei pensativa ainda com a cabeça recostada ao vidro da janela do carro e ouvi a risada nasalada do homem ao meu lado.
— Descanse e coloque a cabeça no lugar. Amanhã conversamos sobre isso com tranquilidade, tudo bem? - percebi sua voz mais suave e calma.
— Bom, obrigada pela noite. Foi incrível apesar de um final conturbado!
— Nessas horas eu sempre acho que você vai acabar estrangulando alguém e infelizmente dessa vez eu era o mais próximo, mas eu tenho um bom seguro! - sua risada tornou a atmosfera mais leve, preenchendo o silêncio do carro que parecia maior como a garoa se intensificava e as pessoas na rua se esvaíam.
— No final das contas não precisei te estrangular. Parece que sua missão de se redimir está indo muito bem, soldado! - sorri encorajadora.
— Este era o meu dever - piscou e simulou uma continência, fazendo-me rir pelo seu pequeno exagero.
— Desculpe, tenho que ir, Blair ainda deve estar esperando por mim. Faz de tudo para ser a primeira a ouvir as fofocas, acredita? - revirei os olhos, rindo leve. — Obrigada , de verdade. Boa noite.

Subi para o apartamento com uma sensação gostosa de serenidade, mesmo que o diabinho no meu ombro sussurrasse que o motivo dessa sensação era , já que o fim da noite tivera uma boa reviravolta.
Haviam poucos sinais da minha melhor amiga por ali. Uma embalagem de biscoitos aqui, uma caixinha de suco ali... Como uma criança. E como dizia minha intuição, ela estava no quarto de hóspedes, esparramada na cama e adormecida como um bebê. Longe de mim acordá-la agora, coisa que ela odiava com todas as forças e automaticamente desperdiçava seu bom humor que tinha pela manhã. A amava demais para castigá-la assim, as fofocas poderiam esperar.

O sol nascia pela cortina que não fechei na noite passada e me arrependi amargamente. O pensamento logo se esvaiu porque: de qualquer forma, o dia da votação chegou! Mal me levantei e já podia ouvir Blair cantarolando Katy Perry em sua plena felicidade matinal junto dum cheiro delicioso fazer meu estômago cantar, quase tão alto quanto ela. Me dei o luxo de um banho demorado e quando saí do mesmo até minha melhor amiga já havia desistido de cantar.

— Bom dia, B! Acordou tão cedo - beijei o topo da cabeça de uma Blair que zapeava os canais para então, me servir de suco de laranja e cookie.
— Bom dia femme fatale! - virou-se para mim. — Ei, fiz ovos com bacon fresquinhos e torradas, não me decepcione com um mero cookie.
— Vou precisar sair uns quarenta minutos antes, hoje. Dia de Assembleia, baby!
— Por nós: Pise no Choi! Ouvi umas palavras altas dele ontem pelos corredores! - reviramos os olhos, reação comum quando esse nome era citado.
— Anda muito estressadinho... Quando não, né?

Blair insistiu em dirigir para que eu pudesse revisar os dados da apresentação para mantê-los frescos na memória e assim o fiz pelos vinte minutos que me foram permitidos antes que chegássemos ao prédio da revista. Trocamos um “te vejo no almoço” ao longo que seguíamos para nossos departamentos.
Entrando no campo de visão de Nikki e passando por sua mesa, logo vendo-a quase a postos em meio ao caminho à minha sala.

— Bom dia, Nicole. Dia cheio, huh? Ligue para Anna e diga que quero que organize a Sala de Conferências. Contate Gareth no mesmo segundo que ele estacionar aqui e diga que preciso vê-lo imediatamente. Mande flores de agradecimento à Carolina Herrera e Giuseppe Zanotti. Ah! Ao ligar pra Anna diga para o Cox passar aqui. Agora. Por enquanto é só, obrigada.

Vi em minha mesa o uísque que Rui prometera, escocês e não poderia ter optado mais certo. De volta ao mergulho com o último lance de dados que precisavam ser estudados, ouvi batidinhas na porta que me interromperam quase em tempo recorde desta vez.

— Bom dia, . Queria me ver? - adentrou a sala ainda com seu café matinal em mãos.
— Bom dia, . Sim, sim, por favor, sente-se - fechei a pasta que folheava, substituindo pela pauta do assunto seguinte. — Aproveitando que chegamos mais cedo para a Assembleia e partindo do princípio que não durará o dia inteiro, ainda há a coluna sobre o jantar de gala e premiação a qual precisamos lidar. Cá está a minha proposta: o que acha de escrevermos juntos, dessa vez? - perguntei direta, cruzando as mãos em cima da mesa.
— Como se fosse na...
— Como se fosse na faculdade! Exatamente! - o completei. — O que me diz?
— Nunca me passou que um dia voltaríamos a escrever juntos, mas acho ótimo! Claro!
— Perfeito! Acha que conseguimos começar a escrever hoje à noite?
— Estarei aqui! - suspirou. — E , sobre o Choi...
, mil perdões, mas preciso rever algumas coisas antes da Assembleia, se não se importa.
— Entendo, claro. Tenho que rever as minhas também. Sem problemas, até mais.
Pelo amor de mim mesmo, criança! Sou o dono desse lugar não preciso ser anunciado! Tchauzinho - aos berros de um tom afetado disse o homem que impulsionava a porta da minha sala.
— RUI?! - eu e Cox dissemos juntos e por Deus! Boquiabertos era elogio!
There you are! Venham cá, deem um abraço no chefinho de vocês! - Angelo abriu os braços e me acolheu para que eu pudesse matar as saudades até mesmo do seu cheiro de lavanda. — Um homem desse tamanho não vai se acanhar, não é? - abraçou da mesma forma e nos saudou com um grande sorriso. — Esses músculos... Como vinho: cada vez melhor, querido! Cada vez melhor...
— Vai de ficar de vez, certo? - perguntei, tentando desviar do atual assunto.
— Pretendo ficar apenas hoje, para me antenar por aqui. Confesso, já gastei alguns mil dólares por aí e agora é a hora certa de sossegar.
— Na verdade, precisamos conversar sobre ontem - Cox disse incerto, colocando as mãos nos bolsos dianteiros da sua calça social.
— Sim, Rui, por favor esclareça tudo isso - sentamos no sofá e Rui se serviu do uísque que me presenteou. Passando uma dose para mim, uma para e outra para si, aproveitando de minha cadeira.
— Desculpe se os assustei, mas Londres é real.
— Angelo, não é justo. E facilmente pode ir apenas um de nós.
, pode ser uma chance para você mesma conhecer também, e é incrível! - comentou meu co-worker.
— Obrigada, mas eu passo.
— Não, , você não passa - a voz de Rui se tornou quase uma sentença de morte e eu nunca o havia visto daquela forma.
— Sabe que não posso, sou parte da direção da redação e alguém precisa ocupar esse cargo - exclamei óbvia.
— Exato! E eu vou ocupar esse cargo. Mais alguma pergunta? - o clima cada vez mais nebuloso na sala não me acanhava, assim como nunca acanhou. — Não via problemas em representar a revista nas demais premiações, assim como fiz por muito tempo, mas como revista inovadora creio que seja hora de mudança de ares.
— Rui, você tem certeza que...
— Sim, , você vai e ponto final. Por favor, aceite de uma vez - após sua voz soltar o veredito, a última dose em nossos copos foi virada por mim e por Rui enquanto exercia seu papel apenas ocupando um lugar ali.
— Você não sabe o que está fazendo Rui, definitivamente não sabe - murmurei.
— Na verdade, pesei todo e qualquer pró e contra. É o melhor momento possível, Jones - seu olhar me encontrou com furor, e eu respondi da mesma forma. — Estou exausto, principalmente das suas picuinhas.
— Rui, você me conhece como a palma da sua mão e sabe que pode ser tudo, menos picuinha - me levantei ao ver meu chefe fazer o mesmo para alinhar nossos olhares, um bocado exaltado.
— Está tudo bem? - perguntou desnorteado ao –real– assunto.
— Tudo ótimo, só um pouco surpresa com essa viagem repentina.
— Parece que estamos tendo problemas no Paraíso garotão... - Rui usou seu melhor tom irônico quando se serviu de mais uma dose de uísque. — Pergunte a ela porque está renegando tanto a Inglaterra. Vamos lá, pergunte.

Eu simplesmente não sentia mais minhas pernas.

— Rui - não percebi quando meus dentes começaram a ranger, mas sentia meu maxilar sofrer e no momento, era o menor dos problemas.
... - iniciou, mas logo se conteve. — Vou deixá-los a sós. Parecem ter muito o que conversar - virou o que sobrou de sua dose e sem tempo para respostas saiu porta afora. E eu pude, enfim, respirar.
— Meu Deus, Rui. O que você estava pensando?
— Eu estou te ajudando com a oportunidade perfeita, já passou da hora. Não lhe pesa a consciência? - suspirou. — E se não pesa, você é muito pior do que imaginei.
— Você não tem o direito de “me forçar” uma verdade apenas porque sabe de toda história - engoli em seco, ouvindo-o suspirar. — Aceito a viagem por trabalho, mas talvez você esteja me cotando para ela pelos motivos errados.
Anyway, passado mais um episódio da novela mexicana da Magic! Magazine vou me inteirar dos outros departamentos.

Rui Angelo. O amava com todas as forças, contudo, sabia me dar nos nervos como ninguém!
Minhas pernas ainda um tanto fraquejadas descansaram no sofá para que eu distribuísse livres suspiros aos quatro cantos, como forma de soltura dos sentimentos calados, os amores injustiçados e as feridas abertas que não cicatrizavam. E a culpa era minha. Porém precisava ser forte e segurar a “máscara” por mais tempo, dessa vez, não só por mim que dia após dia me pegava pensando em castigos por achar que fiz pouco demais e que não era sequer o mínimo. Quando o mínimo já machucara demais. Estava perdida. Perdida em mim mesma. E talvez essa fosse a pior das possibilidades.
Pelas minhas contas, tinha meia hora até que Gareth chegasse e mesmo após perder preciosos minutos, era mais do que suficiente para que eu colocasse as ideias em seus devidos lugares.
Minutos passados, tese em perfeito estado e cada vírgula em seu lugar exceto pelo próprio Gareth que se recusava a chegar. Comecei a anotar as ideias iniciais para a coluna do jantar e premiação de ontem, para que pudesse eliminar um pouco das tarefas mantendo-me ocupada sem encarar o relógio a cada segundo. Iniciando por um roteiro onde indicava os pontos altos da noite, assim como as tendências que lançamos e foram lançadas, podendo testar a popularidade das que entraram em nosso campo de visão durante o evento e sim, os fracassos. Batidinhas gentis na porta e logo pude ver par de olhos azuis me encontrarem.

— Bom dia, , desculpe pelo atraso logo hoje - se apressou. — Você sabe, um imprevisto em NYC e sua vida desanda uma semana inteira - riu acuado.
— Bom dia, sem problemas. Tudo certo para a Assembleia? - perguntei convidando-o para sentar à minha frente.
— No mais perfeito estado! Nós vamos conseguir , e eu estou ansioso por isso.
— Vamos repassar as ideias? Gosto de ter certeza de que tudo está perfeito.
— Não se preocupe, concordo plenamente e acho admirável da sua parte.

Pela próxima hora debatemos uma prévia de tudo que apresentaríamos e era perfeito ver que nossas convicções eram as mesmas, as ambições, o modo de pensar, visões... Gareth com seu charme galês, sua elegância, educação e cavalheirismo era encantador de todas as formas que poderia imaginar. E ainda por cima, workaholic na medida certa!
Nicole bateu à minha porta, para o bem de meus pensamentos.

— Senhorita Jones, desculpe interromper, apenas para avisar que os acionistas já chegaram. Gostaria de recepcioná-los?
— Ah sim, claro! A Sala de Conferências está pronta?
— Sim, sim. Rui pediu para avisá-la que não o aguardem para a Assembleia.
— Já esperava por isso. Tudo bem Nicole, obrigada - de forma sutil a vi sumir pela porta como sempre fazia.
, posso falar com você um segundo? - tomou o lugar que Nicole ocupava anteriormente, irrompendo aflito. Concordei, pedindo licença á Gareth que permaneceu em minha sala, prosseguindo com até a Sala de Conferências que estava vazia.
— Você está uma pilha, o que aconteceu?
— Choi. Não apareceu até agora, simplesmente sumiu, ! - impaciente ele passou a mão pela barba que começava a nascer em seu rosto e afrouxou o nó em sua gravata.
— Vai ver ele só está atrasado, até o Gareth se atrasou hoje.
— Não, ele não atende o celular e nem em casa. Vou precisar que inicie enquanto ele não aparece, se importa? - perguntou inquieto.
— Não, claro que não. Preciso recepcionar os acionistas, mas vou deixar um alerta com Nicole.
— Não se preocupe e obrigado, . Vou verificar com Anna se houve algum progresso, até já - o homem estava perdido e atordoado, e por experiência própria, sabia que essa era a pior forma de tomar decisões, ainda mais na frente de acionistas. Não achava correto que a Assembleia tivesse início sem Choi, se fosse o caso, mas sabia que se chegasse a hora e precisasse tomar uma decisão, ele faria da melhor forma. Cox faria sozinho. Isso mesmo senhoras e senhores, se fosse preciso Jeremy Cox enfrentaria acionistas famintos para defender a sua ideia.
— Nicole, Choi não chegou. Dê um jeito de trazê-lo até aqui nem que tenha que buscá-lo em casa e ele não atende de forma alguma. O quero aqui, e principalmente agora.
— Claire do Design sabe rastrear celulares, vou providenciar.
— Perfeito, avise o Cox assim que conseguir algo - ouvia os berros dos saltos reverberarem no caminho de volta até a minha sala, onde ParenthWood estava. — Gareth perdão, isso está uma loucura hoje e vou precisar me ausentar mais uma vez para recepcionar os acionistas. Ainda há alguma dúvida? - me sentei de frente a ele, atropelando algumas palavras.
— Algum problema, ? Algo em que possa ajudar? - e ainda por cima prestativo!
— Não se preocupe, tudo sob controle. Desculpe novamente, preciso mesmo ir, até já.

Rompi até o elevador, para ir até o Lounge três andares abaixo, onde investimos para que nos tempos de tensão –que eram exatamente cem por cento dos dias– não assistíssemos ninguém arrancando os cabelos e apostamos em um local próprio da revista onde poderíamos aliviar boa parte da tensão no cotidiano. Em uma mesa redonda com arranjo de lírios, vi os três acionistas que conversavam entre si.

— Vejam se não são exatamente quem eu desejava ver hoje! - manifestei bem-humorada. — Bom dia. Desculpem a demora, como vão? - indo em direção à mesa.
— Me parece muito confiante, senhorita Jones - mencionou Antoine, um francês bastante simpático, que amenizava o clima que encontrei entre os três.
— Isso é música para os meus ouvidos, Blanché - fiz sinal para a garçonete que estava ali para me trazer um café, apenas para acompanhá-los.
— Sim, vi ParenthWood pelos corredores e me parecia convicto também! Vocês... Dois workaholics. Dupla perfeita - Antonella se expressou em seu tom usual, que me parecia tédio. Como se houvesse sempre lugares melhores e mais importantes para ir, do que estar ali, conosco, meros mortais.
— Nos esforçamos bastante e sim, estamos preparados - beberiquei meu café assim que posto na mesa, sem esperar que Jim se manifestasse, coisa que raramente acontecia.
— Philips, como vai Gwen e as crianças na nova escola? - perguntei diretamente ao homem de meia idade, minha atual única saída entre os outros dois com quem dividíamos a mesa.
— Estão muito bem. Obrigado - se limitou.

Por mais vinte e cinco –fucking– minutos precisei acompanhá-los e pareciam ter me roubado cinquenta anos. Tamanho eram seus resmungos com reclamações.

— Faltam dez minutos para a Assembleia, o que acham de irmos? - tentava me manter simpática, mas poderia sentir minha paciência se esvair, e restar a profissionalidade que era apenas o que eu precisava. Em resposta não ouvi sequer um murmúrio ou uma reclamação –que era o que estavam mais habituados– mas me acompanharam quando me levantei.

Andares acima, os conduzi até a Sala de Conferências em perfeito estado que nos aguardava, onde já estavam e Gareth a postos. Presenciei um início de conversa entre os três que se cumprimentaram e me retirei em busca dos meus dois minutos de silêncio. Sem mais, nem menos, apenas.

— Senhorita Jones! - Nicole se adiantou quando ultrapassei seu campo de visão antes de chegar à porta do meu repartimento. — Choi: Seu celular foi rastreado pela última vez aqui, ontem, mais precisamente por volta do horário em que conversaram. Em sua casa, recepcionistas do prédio disseram dar informações apenas a membros da família.
— Onde diabos ele se meteu? - sussurrei para mim mesma. — Atualizou o Cox sobre isso?
— Sim, e ele apenas disse que vai fazer da sua melhor forma.
— Ok. Tudo certo para a ata? - Nicole balançou a cabeça em concordância. — Certo, um segundo e já vamos.

Adentrei meu escritório em direção a grande parede de vidro que me presenteava com a Nova Iorque matutina e daquela altura, os carros tão pequenos quanto formigas. Por sorte, dali não se ouvia nada e era assim que me mantinha agora: inerte no silêncio. Essa era uma das chances que teria para diversificar a Magic! Magazine e tudo a sua volta, ver seu nome multiplicar em países que Vogue não conseguia e conquistar a estatueta como a de Eugenia de la Torriente. Esta jornada estava apenas começando. Por fim, respirei fundo e em passos pesados fui em direção a Nicole que estava a minha espera porta afora.

— Vamos, Nikki. It’s time.

Adentrando a Sala de Conferências, todos já devidamente acomodados, Nicole seguiu para seu lugar ao fundo onde permaneceu sozinha já que não convocava Anna para as atas porque dizia achar mais propício fazer por si só, mesmo quando já havíamos demais para lidar.

— Bom dia ao atual comitê da Magic! Magazine - Introduzi. — Como sabem convocamos essa Assembleia que tem como objetivo sanar as falhas na atual dinâmica e apresentar soluções inovadoras para a implementação no ramo da revista. Como de praxe, iniciamos em edições anteriores por ordem alfabética e hoje decidimos alterar a antiga ordem. Assim tendo início por mim e Gareth ParenthWood.

Ouvimos os aplausos cerca de uma hora e meia após o início da reunião, com direito as réplicas e tréplicas de cada integrante do comitê e até vídeo promocional, para ser mais fácil de comprar as ideias. não havia se pronunciado até então, mas vez ou outra o via anotar algo, me parecia compenetrado. Ele ocupava a primeira cadeira da grande mesa ao lado direito, quando eu e Gareth ocupávamos o lado esquerdo. Ao fim de nossa apresentação nos sentamos para dar espaço a , que se levantou para tomar a palavra.

— Bom, sem delongas, comunico que retiro minha candidatura nesta Assembleia. Com a ausência de Hideke Junji Choi acho devidamente antiético dar continuidade em uma candidatura iniciada em conjunto. Obrigado e desculpem - minhas sobrancelhas estavam sendo castigadas da forma que se uniram. — As propostas de e Gareth são avassaladoras e devidamente promissoras para a revista, espero que tomem a decisão correta - o observei juntar suas coisas e sair sem pronunciar mais nenhuma palavra.
— Para não influenciar, vamos nos retirar. Lembrando que a votação tem seu encerramento apenas quando todos os acionistas tiverem seus devidos votos em mãos. Obrigada - como , juntamos nossas coisas, deixando apenas um resumo individual para esclarecimentos.
— Então, o que achou ? Eu achei incrível! Acha que temos chance? A sensação de estar ali na frente é revigorante! - Gareth arremessou suas palavras como uma criança elétrica na loja de brinquedos e eu até ouvia sua voz, mas não identificava as palavras. — ?

Poderia falar com ele depois.
Me dirigi a sala de e poderia ouvir a voz de Gareth às minhas costas buscando por uma resposta. Minha cabeça em um grandessíssimo nó e sem pensar duas vezes invadi pela porta de sua sala. O encontrando com as mãos na cabeça, cotovelos encostados na mesa... Como se lutasse internamente contra um impasse gigantesco.

, o que aconteceu ali? Você tinha tudo para apresentar sozinho - ele mal se mexeu, limitando-se a levantar seu olhar, indicando-me que mais um homem estava ali.
, este é Dominique Burke - o homem muito bem vestido e de cara fechada ofereceu sua mão em cumprimento e o fiz. — Ele é detetive. Precisamos do Rui.
— Não vai se demitir, não é? Desistir por aquela porra de Inglaterra mais uma vez? É apenas uma Assembleia, podemos anulá-la, você sabe!

Sua voz grave me atingiu em cheio como poucas vezes aconteceu com tanto furor, e eu precisei me sentar.

, Choi está morto.


V - Parte I - Trifecta.

— O quê? Isso é impossível! Ele estava aqui ontem. E-Eu... Meu Deus - minha voz se esvaiu no meio da frase como em poucas vezes vi em toda a vida. Minha cabeça doía e eu engolia em seco com a informação que agora repercutia por cada célula do meu corpo.
— Ele foi encontrado morto em seu carro esta manhã. Com um único tiro em seu peito - continuou meu co-worker.
— Acreditamos ter sido alguém que tenha conhecimento de técnicas, então a partir daí estamos procurando por qualquer outro modus operandi semelhante - Sobrepôs Dominique.
— Já comunicaram a família dele? Como estão?
— A perícia está com o carro para buscas de digitais e DNA. Quanto à família, está sendo notificada neste momento, senhorita Jones - revezava seu olhar entre mim e . — Neste meio tempo precisamos coletar as informações sobre onde ambos estavam entre ontem 23h30 e hoje as 7h00. Acreditamos em primeira instância ser algo premeditado - completou o investigador com suas frases de efeito em voz automática.
— Ás 23h30 ainda estávamos no baile de gala no The Plaza, por volta das 1h30 eu a deixei no prédio dela no Upper East Side e nos separamos - esclareceu.
— De acordo, senhorita Jones?
— Sim, sim. Ele me deixou em casa e lá permaneci. Saí apenas hoje de manhã por volta das 7h20 - esclareci, sendo encurralada pelo incisivo par de olhos castanhos de Burke.
— Seu horário usual, senhorita?
— Não. Geralmente saio 8h no máximo, mas hoje tivemos Assembleia então precisei chegar mais cedo.
— Desculpe interrompê-los, mas não tenho certeza se os interrogatórios já começaram - Cox indagou com a voz firme e eu agradeci mentalmente.
— Não, senhor Cox, mas terão início imediato - em sua postura impecável Dominique respondeu automaticamente como um robô. Ouvimos a porta se abrir e mudamos a nossa atenção de direção. Rui chegou. E estava completamente leigo a situação.
— Vi alguns rostinhos duvidosos naquele trio da Sala de Conferências. Como foram? - comentou calmamente depositando sua bolsa no braço do sofá escuro de , em seu imaculado humor usual. — é uma excelente competidora, mas você não está muito atrás Don Juan! Desfaça já esse bico! - Nns três o assistíamos como se houvéssemos perdido o poder de fala, diante todo seu positivismo.
— Rui... - pigarrei, sem saber ao certo por onde começar. — Precisamos conversar e preferimos que sente.
— Não vou desistir sobre a Inglaterra - adiantou-se, ranzinza. — E por que diabos estamos em quatro? - se apressou para buscar por sua bolsa, se entretendo na mesma.
— Não Rui, esqueça isso. Este é Dominique Burke, detetive - o vi desistir de sua bolsa e se dirigir em direção do detetive, cumprimentando-o com um aperto de mãos. Seu rosto denunciava toda a confusão que passeava sua cabeça e eu o entendia perfeitamente, pois foi exatamente assim que me senti. Seus olhos antes vidrados no homem agora me encontraram, e eu não senti o chão abaixo dos meus pés, mas procurei forças para retomar a voz. — Ele está aqui pra os esclarecer sobre o desaparecimento de Choi - podia escutar minha voz, agora terna, ameaçar se perder no meio do caminho, mas dessa vez eu não poderia me dar ao luxo. — Hideke Choi foi encontrado morto esta manhã. Sinto muito.

Era como se eu pudesse ver seus olhos escurecerem e perder a vivacidade gradativamente, tudo na mais cruel câmera lenta. Ele se sentou na cadeira mais próxima e eu segurei em sua mão, sentindo gélida e um pouco trêmula. Não conseguia imaginar o tamanho do choque para Rui, porém sabia que compartilhávamos o vazio que ficava. Rui Angelo vira Choi crescer desde que seu pai comprou algumas ações e se tornou grande amigo de toda a família. Apesar de suas atitudes questionáveis, Rui tinha grande carinho por Hideke e lhe ensinou suas primeiras coisas sobre ações, investimentos e tudo mais, para que após a dolorida morte de seu pai, o então garoto prodígio pudesse seguir o legado da família preparado para o que viesse. E foi assim que Rui viu duas gerações de Choi passarem diante seus olhos e sumirem sem que pudesse fazer nada. Isso estava acima de seu controle, ele não queria aceitar isso, nós sabíamos, víamos sua dor e conseguíamos senti-la. E este não era o pior. O pior era assistir a tudo e não poder amenizar. Me doía ver sua dor.

— E a família dele? - perguntou em um fio de voz.
— Está sendo notificada - pigarreei e abaixei o tom de voz, como em um sussurro, ainda sem coragem suficiente para soltar sua mão. — Ei, não precisa lidar com tudo isso agora. Take your time. Eu e cuidaremos disso.

Fomos encaminhados à delegacia ainda tendo que lidar com os abutres em frente ao prédio da revista, com seus flashs invasivos e perguntas absurdas para o momento impróprio que insistiam em nomear de escândalo. Mediante a tudo que ouvia, este era considerado um dos mais belos elogios. Os interrogatórios primários teriam início e seriam comandados por Dominique em sua forma de robô de trinta e cinco anos com seu melhor terno slim.

— De acordo com o relato do senhor Cox vocês estavam juntos boa parte da noite e início da madrugada, algo que queira acrescentar? - sinalizei com a cabeça negativamente. — Responda, por favor - boa parte de sua voz ecoava pela saleta sem decoração, enquanto suas mãos estavam cruzadas em cima da mesa de metal frio.
— Não, nada a acrescentar.
— Poderia me confirmar horários e locais?
— Foi um jantar de gala no The Plaza e chegamos lá por volta das 21h, saímos de lá cerca de 1h ou 1h30 e fui diretamente para o meu apartamento no Upper East Side de carona com o Cox.
— Perfeito. Me fale sobre a relação com o senhor Choi na empresa.
— Bom, ele ingressou no comitê após a morte do pai que cumpria a mesma função. Um tanto explosivo, no entanto muito responsável e visionário.
— Explosivo? Por que diz isso?
— Não era raro ver dedos sendo apontados na cara de uns e outros quando Choi estava por perto.
— Entendo, senhorita Jones. O último registro de rede no celular de Hideke foi em sua sala. Sabe me dizer o po rquê?
— Como disse, ele era explosivo e adorava apontar o dedo e eu não fui poupada - relatei calmamente.
— Motivo?
— Eu não poderia atendê-lo no momento por conta da Assembleia e outros milhões de coisas, então se achou no direito de entrar aos berros, dizendo que não sou merecedora do meu atual cargo.
— Compreendo. Quero que saiba que entraremos em contato constantemente com a senhorita e o senhor Cox, tendo em vista que estão à frente da empresa atualmente e podem colaborar com os pequenos detalhes - pigarreou. — Por enquanto é só. Com isso já temos uma linha de raciocínio a seguir.

O homem de grande estatura e alguns gatos pingados de fios grisalhos em seus cabelos, me acompanhou até a porta da saleta sem graça que estávamos, se despedindo com um “Até mais”.
Me retirei da saleta, logo encontrando um que parecia ser o próximo. Dito e feito. Dominique com sua voz grave logo anunciou o sobrenome do homem, que ainda estava com um copo de seu inseparável café.

, pode me esperar? - prontamente acenei positivamente com a cabeça e lhe ofereci um meio sorriso, buscando confortá-lo.

Ocupei o lugar de Cox nos bancos do gélido corredor e minha cabeça estava abarrotada de perguntas que em busca de respostas começava a doer.
Céus! Hideke Choi ontem estava berrando horrores em minha sala e agora deixava mulher e filho enquanto tinha seu peito aberto em uma mesa de IML. Cruel demais para quem quer que fosse. Não sabia sequer o que sentir. Não havia visto sua família e não havia nada essencial a acrescentar à investigação, em um momento de egoísmo permiti me sentir temerosa e incerta. Temerosa de que não houvesse um fim disso tudo, que não houvessem terminado em Hideke. Incerta por mim, , Blair, Rui, a família de Choi e até mesmo a própria Magic... até mamãe. Para todos os cantos que olhava via que a situação era maior que meu controle e pelo menos até então, não havia nada o que pudesse fazer e isso fazia meus olhos ficarem mais atentos; sinônimo de mais tempo é, também, sinônimo de mais chances. Para nós, e para o assassino. Em um suspiro longo me obriguei a ficar calma, mais uma vez. A chave para o negócio era sempre manter a calma, pois quando todos a perdiam, eu mantinha e agora não seria uma exceção. A vida ditava meu equilíbrio e aprendi desde criança que era exatamente assim que deveria ser. Tinha de ser, oras! Com a família desconstruída que tivera, muito cedo tive de protagonizar o papel de um pai ausente quando mamãe sequer se levantava após a morte de Eleanor, minha avó, que sequer a considerava como tal tamanha era sua distância depois de mamãe ter engravidado jovem.
Nem ao menos sabia como fui devanear em lembranças tão distantes –e desgostosas– dessa forma. Céus! Um tormento por vez.
Senti um toque gentil em meu ombro enquanto, dispersa, encarava minhas unhas compridas em cima das pernas cruzadas, era .

— Está se sentindo bem? - questionou e em seguida me ofereceu um copo com água, que aceitei de bom grado, tendo em vista que vez ou outra se formara nós em minha garganta.
— Sim, estou - respondi automaticamente, quase tão robótica quanto Dominique. — Até que foi rápido. Vamos? - concordou e ofereceu seu braço em um gesto cavalheiro como na noite passada.

Seguimos para o estacionamento, onde estava o carro de , já que eu havia vindo com Burke. Precisávamos voltar para a Magic onde muita coisa nos aguardava e uma delas era o pronunciamento oficial. Podia ouvir o alvoroço e sabia o que esperava por nós do lado de fora. Como há algumas horas atrás, fomos cegados por milhares de flashes famintos, agora com um plus de câmeras ao vivo para telejornais que buscavam o que podiam para um furo de reportagem.
O escândalo deixaria uma bagunça irreparável para alguns, mas para outros era uma oportunidade de vender o que pudesse, da forma que pudesse para ver os números de uma conta bancária subir. Choi estava morto, ninguém sabia como e nem o porquê, e eles queriam vender exatamente isso, não importasse o quê. E este era o jornalismo que me enojava.
Os vidros claros do carro não colaboravam e me restava apenas manter a feição compenetrada à frente, e até isso se tornou uma péssima ideia já que a frente do veículo estava tomada por repórteres que impediam a nossa saída.
Que dia... Mal era 12h.
Ainda no saguão, podia sentir a tensão que rondava o prédio da Magic! Magazine e não era pouca. Ao adentrar o elevador, eu e nos entreolhamos e soltamos um suspiro pesado em resultado a empatia de saber o que enfrentaríamos nos andares acima. As portas do elevador se abriram e de boas-vindas tivemos os toques incessantes de diversos telefones ao mesmo tempo. Uns e outros ainda boquiabertos, talvez sabendo agora através dos telejornais. Alguns olhares tortos se voltaram a nós e seguimos às nossas salas, sentindo os mesmos olhares pesados em nossas costas e buchichos reverberando a cada passo. Isso não me interessava, por incrível que pareça, preferia me preocupar com Rui, que parecia não estar em lugar nenhum e definitivamente, eu o entendia.

— Precisamos fazer os pronunciamentos - disse e enrijeceu sua postura, como se buscasse por –ainda mais– coragem em si mesmo.
— Sim. Vamos falar com os acionistas primeiro, não precisamos de Antonella surtando e nos processando por coisa nenhuma agora.
— Vamos fazer o de imprensa, dos acionistas e em seguida, da empresa. O que acha? - ele enumerou em seus dedos e só então me dei conta da bola de neve que aquilo estava se tornando.
— Meu Deus... - sussurrei mais pra mim mesma do que pra ele, mas ainda assim o ouvi concordar. — Bom, podemos ir pra minha sala? Colocamos as ideias em ordem e enfrentamos os leões - finalizei, seguindo ao fim do corredor e não fora nada diferente sentir o peso dos olhares dos acionistas.
— GRAÇAS Á DEUS, SENHORITA JONES! - Nicole apareceu afoita a nossa frente, embaralhando algumas palavras. — Eu não sei o que fazer! Estão ligando direto, os e-mails não param de chegar, não sei mais que desculpas inventar e...
— NICOLE! - logo a interrompi, ríspida. — Desligue o telefone, inclusive avise que desligaremos todos. E-mails, ignore e se acalme. Logo faremos os pronunciamentos - proferi autoritária, ditando seus passos como faria a uma criança, a vi respirar fundo e seus olhos grandes buscarem por algum equilíbrio. Com ao meu encalço segui até minha sala. — Ah! Procure Anna. As duas, aqui, em vinte minutos.

Dentro da sala, deixei minha bolsa em cima da grande mesa de trabalho, aproveitando para pegar meu notebook que logo usaríamos e fui em busca da garrafa de uísque, que me parecia atraente até demais essa hora. se acomodou no sofá e fiz o mesmo, enquanto nos servia as respectivas doses.
Iniciamos com pronunciamento para a imprensa, que pedia um cuidado maior e na atual conjuntura, qualquer mínimo deslize nos enterrariam vivos. Com o pronunciamento da empresa e acionistas era válido até mesmo que improvisássemos, mas os redigimos mesmo assim para termos a mínima margem de segurança neste momento. pigarreou parecendo desconfortável.

? - ele me chamou em voz baixa, como se pisasse em um campo minado e assenti para que continuasse. — Você acha que ele sabia o que ia acontecer?
— Não, . Ninguém sabe quando vai morrer. - finalizei a resposta mais genérica que poderia dar. Queria o enganar sendo que assim não enganava nem a mim mesma. Entendia sua preocupação porque a sentia da mesma forma.
— Não! Isso eu sei. Digo, se alguém o estava ameaçando.
— Bom, ele pode ter feito alguns inimigos, assim como qualquer um aqui. Por quê? Ouviu algo enquanto depunha? - olhei-o de soslaio enquanto iniciava os documentos.
— Não. É só que... Estávamos há um tempo desenvolvendo a proposta e vez ou outra ele recebia uns telefonemas esquisitos, mensagens a todo minuto. Um dia ele recebeu uma caixa e no outro um envelope. Não sei se continuou a receber, mas foi o que vi.
— Contou tudo isso ao Burke?
— Hoje mesmo. Pediu que ficássemos atentos a qualquer mínimo sinal. Pode ser algo do ramo ou até mesmo da empresa.
— Não é ninguém daqui, Cox! E coloco minha mão no fogo por isso. Ele estava no comitê há anos, margem suficiente para terem agido antes.
— Faz sentido... Enfim, os pronunciamentos?
— Estão prontos - ouvimos as batidinhas delicadas características de Nikki à porta e sibilou um “entre” e a mesma logo apareceu com Anna.
— Gostaria de nos ver, senhorita Jones? - pronunciou-se não muito diferente de Nicole, fisicamente, exceto pelos seus cabelos castanhos e enormes que iam ondulados até o fim de suas costas.
— Por favor, entrem. Vou direto ao assunto - indiquei a elas as cadeiras que ficavam em frente à minha mesa, onde se acomodaram e viraram as mesmas em nossa direção. — Hoje o dia será cheio, acho que já tiveram uma amostra dele e mal passamos da metade - me levantei, dando pequenos passos enquanto falava. — Primeiramente, se não desligaram os telefones, vamos desligar todos, principalmente os que direcionam até aqui. Às 13h faremos o pronunciamento oficial á imprensa e será transmitido por todas as redes sociais da revista.
— Todas? Temos cerca de meia hora - se adiantou, preocupada, a secretária de .
— Tempo suficiente.
— Precisamos que se adiantem e peçam que levem a imprensa ao auditório. Junte todo o setor de Marketing se for preciso, mas o mundo todo precisa saber. Sei que estamos pedindo bastante coisa, porém em uma Força-Tarefa, meia hora basta - completou, Cox.
— Saberão sobre nós apenas o que dissermos e nada além disso. Enquanto revisamos os pronunciamentos, vocês convocam quem precisam. Rui está incomunicável no momento e isso também é indiscutível, certo? Alguma dúvida? - finalizei objetiva. — Por mim, é só. Algo a acrescentar, Cox? - ele negou com a cabeça.

Ambas logo saíram da sala tão esquivas quanto entraram. Ouvi o silêncio dos últimos telefones que restavam e meus neurônios agradeceram, principalmente os que estavam à beira do surto. no entanto, tinha o olhar perdido em sua dose de uísque apoiada na perna que estava cruzada.

— Se precisar de um tempo, sabe que posso ir sozinha. Não me importo - comentei enquanto colocava em ordem os pronunciamentos, agora em mãos.
— Obrigado, está tudo bem, . É só que... - coçou sua barba rala, inquieto, enquanto seus angelicais lábios se formavam em linha reta. — Me custa a acreditar. Todos nós temos um segredo, não é? Mas a ponto de ser morto por um? - engoli em seco quando direcionou seu olhar desolado a mim. Seu olhar me enfraquecia. De qualquer forma. Mas dessa vez, muito mais.

Porque queria dizer que estava tudo sobre controle –como em cem por cento das vezes– e que eu tomaria as rédeas, mas dessa vez eu não conseguia ter certeza de absolutamente nada. Desde os tempos de faculdade não o via assim, e quando aconteceu estávamos juntos, então automaticamente, tudo se modificava e voltava para seu lugar. A nostalgia não me entretinha e procurava abominá-la o máximo que podia, o momento não era dos melhores –pra não falar o pior possível– e eu não pude respondê-lo, me restou apenas lhe oferecer um sorriso reconfortante, que funcionava bem até pra mim mesma.
A vibração da imprensa sedenta reverberava em meus ossos e resultava no impacto pomposo dos meus saltos. O auditório superlotado não nos amedrontava, aliás, sabíamos que este era o propósito de cada um ali. Os trajes escuros em respeito escondiam parte dos olhares ansiosos nas câmeras que queriam um deslize para estampar suas manchetes. Na cidade haviam alguns gatos pingados de representantes internacionais que conseguimos chamar a atenção.

— Boa tarde a todos - iniciei determinante. — Hoje, a Magic! Magazine reúne forças para se manter firme. Hoje, a Magic! Magazine perdeu um de seus pilares mais sólidos. Perdemos uma parte da nossa raiz, da nossa história, da essência e de toda a trajetória dessa revista. Levou consigo sua audácia, ousadia e tudo que enriquecia a sua volta, e não apenas a nós, mas também a sua família, quem tanto honrou - engoli em seco, me dando o luxo de encarar cada rosto ali presente. Acenei com a cabeça, passando a palavra para que finalizaria o comunicado oficial.
— Boa tarde. Não apenas um acionista ou um investidor que multiplicava nossos números. Era um ser humano. Amigo, pai, marido, filho que teve seus últimos suspiros arrancados cruel e injustamente. E é com grande pesar que comunicamos oficialmente o falecimento de Hideke Junji Choi nesta manhã. Sem mais detalhes, confirmamos que as investigações já tiveram início e ao que o momento nos permite, estamos buscando a melhor forma de confortar a família. Agradecemos a atenção. Obrigado - o tom de voz grave de Cox encerrou o pronunciamento da melhor forma que seus sentimentos permitiam e eu sabia que cada segundo ali, para ele, era uma eternidade, uma luta. Interna e externa.

Saímos do auditório diretamente ao elevador, evitando ouvir perguntas. Em cerca de dez minutos teríamos o pronunciamento para os funcionários gerais da empresa e ainda que antes disso sabíamos da guerra que teríamos de enfrentar com os acionistas que batiam os pés ansiosos por atenção. Do elevador direto à Sala de Conferências, onde aproveitavam de xícaras de capuccino e a vista de NYC que o andar proporcionava com cara de poucos amigos a partir dos passos que nos aproximavam.

— Sabemos que demoramos e não faríamos isso se não fosse uma emergência. Então, por gentileza, voltemos à Sala de Conferências. Vamos esclarecer tudo - tomou a frente, determinante.
— É o mínimo, Cox. Essa revista está um caos, e a “Tríplice” –faz aspas com as mãos– não parece nem se importar. - Vociferou uma Antonella em seu tom esnobe habitual, prontamente ignorada por todos na sala, já que suas birras não eram novidade para absolutamente ninguém.
— Bom, em claras palavras de Dominique Burke, um investigador da divisão de Unidade de Vítimas Especiais tivemos a confirmação do desaparecimento de Hideke Choi, nesta manhã - esclareceu , que permaneceu em pé ao meu lado diante as primeiras cadeiras da extensa mesa de reuniões. Pigarreei.
— Choi foi encontrado morto em seu carro, hoje mais cedo. Com um único tiro enquanto, aparentemente, pretendia chegar até a empresa. Até então não sabemos muito, mas a investigação já teve início - fui direta e esclarecedora tendo em resposta alguns pares de olhos arregalados.
— É um momento delicado, no entanto continuaremos com o nosso dever de mantê-los informados e contamos com a mesma dedicação para que não vaze à imprensa - concluiu o homem ao meu lado.
— A família Choi deve desembarcar ainda essa noite aqui na cidade. Estamos tão abalados quanto vocês, mas nada como um dia após o outro. Faremos o pronunciamento aos funcionários e achamos essencial a presença de vocês - investi em um tom de voz quase maternal pois entendia que nenhuma das palavras ali foram fáceis de digerir. — Ah! E sim, a Assembleia de hoje está suspensa até segunda ordem.

Os corredores vazios denunciavam que todos já nos aguardavam no Lounge da revista e me lembrou da última vez que vi todos os funcionários juntos, fora alguns anos atrás, com minha nomeação oficial junto da de Cox. E hoje, uma situação totalmente oposta. Ao fundo vi Blair que sibilou um “Sinto muito” silencioso e tentou um sorriso que me encorajasse.

— Boa tarde a todos da Magic! Magazine. - introduzi. — Sabemos que o dia não está sendo fácil e estamos aqui justamente para esclarecer o que está ao nosso alcance e como Diretores Executivos essa é uma notícia que nos dói.
— Perdemos um imenso aliado na corrida diária da Magic! Magazine. Hideke Junji Choi, um acionista, homem honrado e de grande história entre gerações aqui.
— Em sua homenagem e respeito, a Magic! Magazine fechará as portas amanhã. Logo retornaremos a fazer o que fazemos de melhor para honrar sua memória.
— Agradecemos a atenção de vocês. Gostaria de pedir um minuto silêncio, por favor.
O silêncio começou imediato a partir do pedido de . A quietude fez com que como em nenhum momento até então, eu sentisse toda a angústia que carregava àquele estágio. Tomei as decisões rápidas demais pelo que parecia certo na atual conjuntura e não me dei tempo de sentir o que precisava. E necessitava me sentir mais humana. Não sabia se ele foi apenas o primeiro ou se foi o único, e a dúvida era impiedosa.



Desfrutávamos, desta vez, o uísque de em sua sala, acomodados por seu sofá. Sem saber por onde começar ou se precisávamos terminar algo.

— Não sei se foco nas colunas da edição on-line, se acompanho os photoshoots, analiso novos contratos... Sequer comecei as demissões. - suspirou Cox, pensativo. Os pés em cima da pequena mesa de centro e a gravata com um nó que nem existia mais, os gelos tilintando em ambas as doses. — Não podemos parar - finalizou sua dose e se levantou de supetão, seguindo para sua mesa. Pretendia continuar como se nada estivesse acontecendo, contudo, era ainda mais difícil para ele que tinha se tornado próximo ao homem há pouco tempo.
— Ei - o puxei pelo braço, procurando por seu par de olhos que tanto amava e hoje não tinham seu brilho usual. — Homem, se acalme. Viva seu luto. Quer saber? Vá pra casa, eu cuido das burocracias.
— Não vou te deixar com a faca e o queijo na mão para ser a workaholic que pediu a Deus! - fez-se de afetado.
— E eu não vou permitir que você tenha de escolher entre saias turquesa e tiffany quando seu amigo foi assassinado - coloquei as mãos na cintura, observando-o.
— A última vez que usou esse tom comigo foi no terceiro colegial e você parecia que ia me enforcar.
— Tic-tac honey, tic-tac - o apressei, encenando um relógio em meu pulso. — Vá pra casa, eu cuido de tudo - pisquei cúmplice.
— Obrigado , de verdade. Minha cabeça está explodindo - suspirou, passeando as mãos pelos cabelos castanhos. Pegou seu paletó antes estirado no braço do sofá e seu celular, rapidamente, se voltando até mim. — Até mais, e obrigado. Mesmo - sua mão se juntou a minha e espalhou calor por todo o meu corpo mesmo que fosse só para deixar um de seus gentis beijos nas costas da minha mão. Ele saiu, batendo a porta, porém seu perfume permaneceu quase que estrategicamente em cada fucking canto daquela sala e as lembranças pareciam não me ajudar ali.

Impaciente com a insistência patética do meu próprio cérebro, juntei os contratos, as colunas e tudo mais que precisava. Gostava mesmo era da minha sala, onde conseguia me concentrar da forma que parecia impossível nessa sala que me lembrava cada mínimo detalhe dele. E eu não precisava dessa distração. Na verdade, preferia deixar da forma que fiz por todo esse tempo e simplesmente ignorar, e ser a melhor vadia sem coração que poderia ser –tinha funcionado perfeitamente até então.
A mesa em que trabalhava já acumulava muita coisa finalizada, assim como muitas que sequer havia começado, e todas elas pareciam ter prazo curto. Fui até a máquina de café no corredor e só então me dei conta que já havia escurecido, não gostava nem de pensar no quanto meu carro iria abarrotado de pastas hoje. Voltei a me concentrar nos papeis em minha mesa e pareciam se multiplicar a cada segundo, tão rápido quanto coelhos e era por ver coisas como essas que meu lado workaholic enlouquecia. Ouvi batidinhas mansas em minha porta e como da última vez, os pares de olhos azuis hipnotizantes se apresentaram.

— Você não descansa? - sorriu encantador e também como da última vez, estava encostado no batente da porta com as mangas da camisa social dobradas até o cotovelo e gravata frouxa.
— Não posso e nem quero parar. Você ouviu a Antonella mais cedo, a revista está um caos - suspirei. — Entre, por favor, Gareth.
— Que dia, huh? - comentou o galês, se aconchegando na cadeira de frente a mim.
— Nem me fale, um dia e tanto! Umas setenta e duas horas, no mínimo - tomei um gole do café ao lado de uma das pilhas. — Ah sim! Gareth não tive tempo de falar com você sobre a Assembleia e eu sei que era super importante pra você, mas...
— É um momento delicado, . Sequer pensei nisso.
— Sei que estava empolgado com cada detalhe, mas realmente, era impossível manter aquela Assembleia até por questões éticas.
— Não tenho dúvidas que tenha sido a atitude certa - deixou um meio sorriso pender em seus encantadores lábios.
— Não sou a única workaholic por aqui, huh? - comentei, apenas por querer alongar a conversa.
— Vim devolver os arquivos do semestre passado que peguei na outra noite - esclareceu. — Mas você parece sobrecarregada demais, deixe-me ajudá-la.
— Imagina, já estava pronta pra ir pra casa. Posso resolver isso amanhã. Obrigada Gareth, você sempre prestativo! - sorri e me apressei em juntar as pastas.
— Os arquivos nem eram tão importantes assim, - senti sua mão brecar a minha que estava frenética organizando as papeis.
— Pois, então...? - franzi o cenho, esperando que ele continuasse.
— Gostaria de convidá-la para um jantar, ou um almoço talvez - encarei nossas mãos ainda juntas sobre a mesa e minhas sobrancelhas arquearam-se em surpresa. — Desculpe , não queria faltar com respeito ao momento nem nada. Achei que seria bom pra nós, pra você... Enfim, como distração.
— Não! - disse de imediato. — Só estou surpresa, confesso. Mas a ideia me parece ótima. Jantar?
— O que acha às 20h?
— Perfeito.
— Passo pra te buscar?
— Acho conveniente - sorri. — Te mando mensagem com o endereço. Bom, vamos descer?

Gareth apanhou seu paletó no braço do sofá e se apressou em abrir a porta para que eu passasse, como em filmes de décadas atrás. E eu precisava dizer que se seus gestos tinham o intuito de me fisgar, ele estava no caminho mais do que certo.



Blair deveria estar inspirada, já que um cheiro delicioso de algo doce invadia todo o apartamento. E os doces dela, ninguém superava! Jamais!

— Finalmente! Minha executiva favorita! Que dia, hein?
— Argh! - revirei os olhos. — O que faltava de plot twist na minha vida, aconteceu hoje e tudo de uma vez só - bufei, indo em direção a grande bancada da cozinha
— É por isso que digo: a parte administrativa dali não me atrai nadica, de nada.
— Mas há suas glórias também, por incrível que pareça. Como, por exemplo, os cookies caseiros e maravilhosos, cheios de gotas de chocolate da melhor amiga... -mencionei insinuativa e a vi revirar os olhos em resposta.
— Já estão no forno! Vá logo tomar seu banho e jante, senão nada de cookies para a senhorita! - usou um tom maternal para as suas ordens. Típico Blair! — Rápido! Já vou fazer o chocolate quente!

Segui à risca as ordens da General Mitch para não correr o risco de ser privada da regalia dos melhores cookies que já comi na vida, ainda mais depois de um dia desses. O corpo relaxado após um banho bem quente parecia ser ofuscado pela mente que ainda estava um turbilhão, e aparentemente não pararia tão cedo. A camisola macia e o robe que vestia reforçavam a sensação de descanso que precisava, fiz um coque alto e fui em direção à sala, onde Blair estava, assistindo algum episódio de Friends.

— Hey - me chamou em voz baixa ao me ver adentrar o cômodo. — Friends e cookies? - perguntou com um brilho inocente no olhar de quem já sabia muito bem a resposta.
Curam qualquer coisa! - completamos em uníssono. E tínhamos certeza disso, porque foi algo que fizemos durante toda a nossa adolescência e até os dias atuais, como um ritual.

Agradeci aos céus por fazer com que as poucas horas que restavam da noite, se arrastassem, me proporcionando a melhor terapia após um dia infernal e eu não poderia ter agradecido mais. Agradecido por Blair estar lendo meus pensamentos e não tocar nos assuntos que evitava –e isso significava muito– quando por incrível que pareça, lidaria amanhã junto de todas as pastas que trouxe para casa. E então, adormecemos ali, no sofá da sala e com o Netflix perguntando se ainda havia mais alguém assistindo e eu nem sequer pensava em reclamar, porque senti mais uma das mil faces de Blair Mitch me acolher.



Hoje não iria ao trabalho, mas o trabalho estava logo ali, em casa, esparramado pela mesa do escritório. Blair não acordava tarde e hoje não foi exceção, mas quando se levantou eu já estava enfurnada no escritório de banho tomado, café do lado e com alguns cookies restantes, desnorteada no emaranhado de papeis. Apesar de morar sozinha, investi no escritório porque nos isolava bastante dos barulhos até do próprio prédio e das atividades aleatórias uma da outra.
Iniciei a montanha de papeis pelas demissões. Um corte incisivo. Era a parte mais rápida dali, deixando uma colher de chá para com algumas sugestões de demissão. Em seguida a coluna do jantar de gala e premiação, os contratos temporários de edições X e Y, novas inciativas de marketing, convite para Chanel, agradecimento à Lupita Nyong’o, Carolina Herrera e Giuseppe Zanotti. Sem esquecer da proposta milionária de campanha para Rita Ora. E como no prédio da revista, batidinhas acuadas soaram.

— Bom dia, amada. Já tomou café?
— Bom dia, B. Só roubei uns cookiezinhos porque estava esperando você acordar - ela não respondeu, mas como ontem me lançou seu característico olhar maternal e ninguém, absolutamente ninguém, ousava desobedecê-lo.

Em um café da manhã digno de madames fofoqueiras, –que no fundo sabíamos que ainda éramos– colocamos a maioria dos assuntos em dia, inclusive o jantar no The Plaza que ainda não havia tido tempo de atualizá-la sequer uma palavra.

— Não pense que não reparei na pilha de pastas que trouxe ontem à noite. Workaholic incurável! - sussurrou brincalhona, entre os goles em sua xícara de café.
— Me chame como quiser, mas a Magic está de cabeça pra baixo! estava abalado demais, precisei mandá-lo para casa - abanei a mão no ar, suspirando.
— Uau! Ao que tudo indica, a rainha de gelo tem mesmo um coração! - debochou e eu apenas ignorei seu comentário.
— Bom, o dever me chama. Desculpe B, mas nada que você já não esteja acostumada! - sorri em direção a ela e me servi de mais uma xícara de café.
— Tenho umas coisinhas pra pôr em dia, nada urgente. Logo apareço por lá. Estava pensando em fazer risoto pro almoço, o que acha? Prefere pedir algo?
— Acabamos de tomar café!
— Não ligo. Às vezes vamos fazer algo elaborado e precisamos de tempo, ué! - forjou uma desculpa esfarrapada, e eu sabia de cor seu sorriso incontrolável de quando comia pelas beiradas! E ela estava exatamente assim agora.
— Nós? Fazendo algo elaborado? - gargalhei. — Por acaso, a senhorita pediria no Grand Banks? - cerrei o olhar.
— Não é só pelo Thomas, ok? A comida de lá é realmente divina.
— Divina pra você que fica de papinho com o chef! - comentei risonha.
— Você também fica de papinho com seu chefe!
— Meu chefe é o Rui! - comentei azeda, desfazendo a piada insinuativa dela.
— Você entendeu!
— Peça o que preferir, B e o traga aqui logo, ou eu mesma vou lá - disse saindo da cozinha, em direção ao escritório. — E sem você! - finalizei gritando do corredor, ouvindo a risada da mulher em resposta.

Algumas horas se passaram e o emaranhado de papeis já diminuíra bastante, nesse meio tempo Blair realmente aparecera para resolver o que precisava, em quarenta minutos senão menos, o que me causou uma pontinha de inveja. A melhor amiga aparecia vez ou outra tentando me convencer a ir almoçar, coisa que faria apenas quando aniquilasse até o último post-it naquela mesa e recusei até mesmo suas ofertas de ajuda, não achava certo prendê-la ali. O celular apitou ao meu lado, era uma mensagem.

“Mal posso esperar para vê-la, .” — Gareth.

A mensagem que o celular revelou era uma das poucas coisas que me fariam desconcentrar: o belo par de olhos azuis que pareciam ter sido pintados à mão por Van Gogh.

“Me sinto da mesma forma, Gareth.”



Depois de meia dúzia de ameaças, Blair me tirou do escritório para o almoço e sem novidades, voltamos aos nossos queridos Friends. No episódio, os quatro amigos iam para Londres, onde haveria mais um dos casamentos de Ross.

— Falando em Londres, Rui me pôs contra a parede, pra... Você sabe... Colocar os pingos nos ís - comecei incerta. — Mas eu nunca me vi, de fato, fazendo isso sabe? Pra mim, está ótimo da forma que está - os olhos claros da loira logo desviaram do seriado para mim.
, vai ser a hora certa quando se sentir pronta pra explicar tudo que aconteceu e porque fez o que fez. Não consigo estipular uma data pra dizer quando é certo, ou se é uma boa ideia, mas sei de tudo que há embaixo desse tapete... Na hora certa você vai saber o que fazer, sempre sabe - piscou, consoladora.
— Mas B, eu...
— “Mas” nada! - interrompeu-me, apontando para a televisão, despausando a série. — Se bem que eu tenho uma dúvida... - voltou a pausar e eu sabia que boa coisa não era e murmurei um “lá vem”. — Vocês não “fizeram acontecer” no seu aniversário? - meneei com a cabeça, para que ela prosseguisse. — Foi um remember? Meu OTP está vivo? Fica por isso mesmo? Porque o que eu vi, não foi qualquer beijinho!
— Meu aniversário é o único dia que me permito toda e qualquer coisa, você já deveria saber disso! - ri nasalado. — E preciso admitir, aquele dia ele estava bem... arrumado, quase irresistível. Então uns beijinhos não matariam ninguém! - comentei, desviando meu olhar do seu, mesmo que ela dissesse não me julgar, mas eu sabia que sim.
— Vocês estavam se engolindo em pleno Marquee! - esbravejou.
— Pense, é como se fosse um Halloween fora de época. O nosso Halloween - mordi o lábio inferior. — Doçuras e algumas travessuras...
— Então não significou nada? E ele sabe disso? Porque eu acredito fortemente que não.
— Lógico que sabe! Não temos mais quinze anos, sabemos separar as coisas e outra, foi mais um episódio épico pros nossos joguinhos. E estamos ficando bons nisso! - sorri, sem conseguir conter as risadas dessa vez.
— Não entendo vocês. Realmente, não dá! - se rendeu, dramática.

Terminamos o bendito episódio que tanto pausamos e Mitch logo se mandou para sua corrida diária, que geralmente fazia após o horário de trabalho por não querer perder o pique e eu, precisava me enfurnar mais uma vez no escritório.



Me restavam três boas horas até o jantar com Gareth e até então, já tinha até mesmo respondido os e-mails de Dominique com os dados de Choi que precisavam. Sequer conseguia me sentir segura como Dominique afirmava que poderia estar, contudo minha cabeça insistia nas tentativas de me sentir aliviada, ao menos. Tendo em vista de que a justiça estava trilhando o seu caminho e nesse jogo de xadrez era impossível ver a olho nu quem matou Hideke Choi.
E na Caixa de Entrada havia também e-mails de mamãe, com vídeos compridíssimos –que ela insistia em não mandar por outras redes sociais por não ter paciência de ter que cortá-los– da comemoração do Dia da Árvore e vê-las sorrindo tão levemente me fazia ter certeza de tudo, mesmo com as decisões tortas e que não mudaria absolutamente nada. Os sorrisos delas ultrapassavam a tela cheia do computador e eu nunca senti tanta inveja da Inglaterra e tanta saudade de tudo que via pelos vídeos. Queria poder realmente aproveitar de todos os cheiros que poderia sentir, os abraços quentinhos e os olhinhos cor-de-mel que me encaravam ansiosos por cócegas em toda a sua barriga.
Céus, o coração estava pequeno como uma ervilha. Sabia que ela se questionava e às vezes se enraivecia pelas respostas cruas que tinha, por não entender, mas eu tinha plena certeza de cada passo e todos foram milimetricamente calculados para o seu bem.
Não havia mais o que fazer naquele escritório, agora, as paredes pareciam ter encurtado as distâncias entre si, e me esmagavam junto de tudo que senti durante os minutos preciosos dos vídeos que cansei de dar replay. Os pensamentos estavam indo longe demais e tomaram proporções gigantes em todas as tentativas falhas de tentar controlá-los, todas as mil vezes, e já aprendi o bastante pra saber que era, deveras, impossível.
Me levantei organizando as pastas e tudo que finalizei, deixando de fora apenas a lista não finalizada para as próximas demissões, nomes que precisavam ficar em observação neste meio tempo e fui para o quarto, digitando uma mensagem para mamãe sobre os adoráveis vídeos. A casa continuava um completo silêncio, sem Blair e assim como calculei, havia restado tempo suficiente para me arrumar para o jantar com ele, que arrisco dizer, era o galês mais cobiçado de Manhattan e eu poderia fazer esse esforço!
Caprichei nos sais de banho para me dar este luxo e ficar um bom tempo imersa, apenas com a preocupação de inspirar e expirar, sentindo as pequenas bolhas massagearem todo o meu corpo. Após sentir que boa parte dos nós que tinha nos ombros se desfizeram apenas com este poder, me enrolei no roupão com os cabelos pingando um pouco. Ouvi o girar de chaves e a voz de Blair cantarolando “Wannabe”.

— Aqui no quarto! - a avisei em voz alta, para em segundos ver a loira adentrar o cômodo. — Correu esse tempo todo e não tem uma gota de suor? Conte outra! -comentei em tom brincalhão, percebendo sua carranca.
— Acredite, eu realmente fui.
— E...? - a incentivei a continuar.
— Dominique me parou pra depor no meio do caminho - disparou de uma só vez. — Eu estava correndo, linda e bela, quando olho pro lado e ele também estava! Me mostrou o distintivo e pediu que eu o acompanhasse. Do jeito que foi, me fez pensar que apareceria a S.W.A.T. e que eles iriam me prender ali mesmo! - explicou aflita. — Tirando o susto... Ele é bom! Se continuar assim, esse caso encerra logo - tentou amenizar o clima.
— Ele não falou sobre nenhuma novidade?
— Eu perguntei, mas ele é “robôzão” demais pra cair nos meus encantos - deu de ombros.
— Às vezes me custa a acreditar que isso realmente aconteceu, sabe?
— Será que foi um aviso? - Mitch perguntou incerta, com os olhos um bocado arregalados.
— Cruzes, Blair! Ninguém mais vai morrer! - exasperei. Mas no fim sabia que até eu mesma já tive aquela dúvida, porém não queria aquilo correndo os pensamentos de Blair, ela não merecia esse fardo. — Enfim, preciso me arrumar.
— Uh! Gosto disso! Onde vamos?
— Então... - iniciei um pouco duvidosa. — Gareth me convidou pra jantar, pra me distrair um pouco.
— NÃO ACREDITO!!! Minha Nossa Senhora dos Galeses Engomadinhos, finalmente! Pronta para o primeiro encontro? - provocou, entre risadas maléficas.
— Não é encontro. E eu já até me censurei, umas cem vezes, por pensar assim.
— Ah não? E o que é? - cruzou os braços, me desafiando com sua sobrancelha arqueada.
— Bom, tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo pra nós dois e ele gentilmente ofereceu o jantar como uma espécie de válvula de escape.
— Também queria uma distração dessas! - se abanou, teatralmente, me arrancando risos. — Apenas se divirta, . Se for uma válvula de escape ótimo! Se não for? Ótimo também, mas se permita.
— Obrigada B. Você não existe!
— Não me agradeça, apenas finalmente tire do closet aquele Miu Mil maravilhoso!



O reflexo no espelho me dava em resposta uma das melhores versões de mim e tinha a certeza disso por ver pelo mesmo, uma Blair que dava alguns pulinhos de alegria. E era ela, mais uma vez, minha fada madrinha.
Os cabelos soltos com ondas delicadas por todo o seu comprimento alguns dedos abaixo dos ombros, me fazia querer vê-lo mais dessa forma, mesmo que no dia-a-dia. Nos olhos a dupla por quem eu era obcecada: delineado marcado e cílios perfeitos, para que cada piscada fosse hipnotizante. O celular apitou com uma mensagem, era Gareth avisando que havia chegado e que me aguardava logo em frente ao prédio.
Encostado em uma das portas do carro, os ombros largos do loiro se sobressaíam enquanto seus braços estavam cruzados na altura do peito. Passou a mão pelos cabelos milimetricamente arrumados, talvez procurando arrumá-los ainda mais. O galês se desencostou no carro e abriu um sorriso que o deixava ainda mais encantador, no momento que nossos olhares se encontraram.

— Boa noite, - manteve um sorriso ladino e galante, como de costume. — Sempre deslumbrante.
— Obrigada, Gareth. Você está igualmente divino - o homem envolveu sua mão sobre a minha para me conduzir até o carro, o qual abriu a porta do lado do passageiro. — Agradeço o convite, mas espero que entenda quando digo que é um tormento se arrumar às cegas! - sorri.
— Desculpe. É que prefiro o suspense! - sua risada ecoou um pouco tímida pelo veículo e completamente diferente da forma que se portava na empresa, agora parecia um garotinho, tamanha era a facilidade com que ria e a naturalidade que o fazia. Gareth ParenthWood era um homem que ia de acionista dominante á moleque travesso em segundos e eu estava fascinada por cada detalhe. — E quanto à roupa, se você usasse uma pantufa, viraria tendência até amanhã de manhã, .
— Que exagero. Foi muito gentil da sua parte, e um tremendo carinho no meu ego, mas ainda um baita exagero! - gargalhei, ouvindo-o me acompanhar com sua risada aveludada que poderia facilmente se tornar um dos meus sons favoritos.

Continuamos envolvidos demais no clima leve e sem artifícios que construímos no caminho até chegarmos no The Capital Grille. Um restaurante sofisticado e puramente americano. Conhecido pelas extravagâncias por todo seu salão com obras de arte que eram únicas no mundo inteiro e a engenharia da fachada do prédio que era uma obra de arte por si só.

— Procurei um lugar aconchegante o bastante pra esquecermos os dramas da Magic! Magazine. Espero ter acertado.
— Agradeço, Gareth - iniciei e ele me encarou, para que eu prosseguisse, enquanto andávamos até a entrada do restaurante. — Por se importar, enquanto tanta coisa está acontecendo.
— Pra falar a verdade, fiquei com receio, de... Você sabe, não ter respeitado o seu tempo.
— Você nunca erra - assegurei-o, tocando gentilmente seu ombro.
— Sem assuntos de trabalho, huh? - ParenthWood alertou, brincalhão.
— Sim, claro! Sem assuntos de trabalho! - nos aconchegamos à mesa, um de frente para o outro e o galês se apressou em abrir a carta de vinhos. — Mas então, quando pretende se mudar de vez pra Cidade Que Nunca Dorme?
— Logo, eu espero. Já tenho visitado alguns bairros, mas não defini ainda. Parece ridículo, mas essa indecisão está me matando!
— Mais um indício que você precisa se mudar logo - comentei insinuativa.
— Os indícios de indecisão e as aparições quase nulas na Magic não me convencem tão bem assim - ele entrou no jogo. Nenhum dos dois queria, de fato, falar, mas as entrelinhas se carregavam de esclarecer o que queríamos dizer. Indicou o vinho ao garçom e arqueou a sobrancelha, me encarando os olhos que eram uma ilha.
— Deveria refazer suas contas, Gareth. Há um terceiro motivo.
— Desconheço.
— Você sabe, a Magic é uma metamorfose e você se encaixa perfeitamente bem no gênero da revista e o queremos por perto. É essencial! - sustentei nossos olhares, fixos.
— É um motivo plausível... - disse fingindo distração, assistindo ao garçom que nos servia do vinho que escolhera. — Acho que posso fazer o esforço de me manter por perto - nossos olhares vidrados tinham a capacidade de captar toda e qualquer malícia das entrelinhas e eu não precisava me preocupar com muito, quando o homem à minha frente sabia quais eram minhas intenções e aparentava desfrutar das mesmas.
— Seria excelente, Gareth - fizemos um pequeno brinde e logo beberiquei do vinho, enquanto por alguns segundos nossos olhares se dispersavam e o vi provar da bebida. Nossos olhares se interligaram novamente e era quase impossível se desvencilhar, como se fossem magnéticos, ou dependentes. — Há algo que eu posso descobrir hoje sobre meu acionista favorito?
— Não muito! Não se iluda! - sorriu ladino. — Modéstia à parte sou ótimo na cozinha e prefiro salgados á doces. - Começou, enumerando nos dedos de uma mão. — Sei tocar piano e falar espanhol. Amo vinhos e para mim, Nicolas Cage é o melhor ator de todos os tempos - suspirou ainda com um pequeno sorriso que não despencava dos seus lábios e tragou da bebida em sua taça. — Sua vez.
— Não há nada que você já não saiba!
— Por favor, . Há muito que quero saber - abusou de seu tom de voz grave que fizeram minhas pernas friccionarem entre si. — Não é justo eu saiba apenas o que a Forbes citou.
— Tudo bem, tudo bem - me rendi, risonha. — Atriz favorita, estou entre Meryl Streep e Viola Davis, prefiro mil vezes doce á salgado e tenho uma habilidade incrível de comê-los repetidamente sem enjoar - ri e assim como ele, comecei enumerar nos dedos, dando pequenas pausas para apreciar do vinho. — Sou ótima em francês, porém não fluente, acho lindo italiano, mas não acho que minha cabeça aguenta outro idioma até porque meu espanhol é péssimo! - finalizei sorrindo.
Forbes esqueceu de avisar na capa que a cada palavra, você se torna ainda mais admirável - sorri nasalado quando seu olhar me desconcertou e eu sequer consegui respondê-lo. Como uma adolescente.

Fizemos os pedidos do jantar e a noite seguiu leve e espontânea da mesma forma que começou, e exatamente da forma que deveria ser. Gareth agora estava mais descontraído, de uma forma que eu jamais havia visto e poderia dizer que combinava com ele. O homem que aparentava ter mil faces, quando metade delas eu havia descoberto nessa noite e estava amando cada segundo dessa descoberta. Um cavalheiro nato, príncipe dos dias modernos, nem músculos demais nem de menos delineavam seus braços, sem esquecer do par de olhos em um azul piscina que eu nunca havia visto igual, a boca angelical que proferia um sotaque forte e era um pecado por si só. Este homem poderia ter qualquer mulher que quisesse e a confiança que inspirava me fazia ter certeza disso.
Tinha tanta certeza assim porque era exatamente a forma que me sentia. Eu o queria. E não pretendia passar vontade.



Como um gentleman incurável, insistiu em deixar-me em casa e da forma que aquelas íris me fascinavam, se tornava impossível recusar. O galês estacionou no meio fio em frente ao meu prédio e uma das suas manias que havia aprendido hoje –a mais adorável aliás– era que ele mordia o lábio inferior antes de soltar um de seus sorrisos inocentes de garoto como havia feito no começo da noite, e que, neste momento, repetia.

— Espero que tenha conseguido distraí-la, pelo menos um pouco.
— Pela milésima vez, obrigada. Nem eu sabia que precisava tanto de um momento desses - sorri terna. — Você foi a melhor das distrações, Gareth ParenthWood!
— Fico feliz que tenha gostado, porque pra mim, eu não poderia estar em companhia melhor essa noite - o silêncio pairou por alguns segundos dentro do veículo e era audível apenas a respiração do homem ao meu lado. Gareth enlaçou nossas mãos de forma tão rápida que só percebi quando nossos dedos davam intermináveis nós. — , você é uma mulher incrível e ninguém tem dúvidas disso - riu nasalado. — Corajosa, destemida, imponente...
— Onde quer chegar, Gary? - não quis soar rude e espero não ter soado assim, quando fiz o melhor para demonstrar minha incerteza.
— Como um reles acionista poderia se encantar por uma mulher tão dona de si, que lidera e põe em ordem um exército, e sequer o notou?
— Gareth, eu não estou entenden... - uni minhas sobrancelhas e ele me interrompeu.
— E não lhe culpo. Gosto de ficar na coxia, vendo você florescer. Hoje eu pude, finalmente, ter a sensação de ser enxergado de outra forma por você e acho que estou no caminho certo - o homem fez um pequeno gesto, como um singelo carinho com seu polegar nas costas da minha mão. Seus grandes globos azuis me petrificaram e eu me mantive atenta ao seu discurso. — E se você me permite, senhorita Cleveland-Jones, - iniciou quase em um sussurro. — Eu gostaria de beijá-la - ele se aproximou e eu pude sentir a ponta de seu nariz encostar no meu.
— Não só permito, como incentivo - sorri e delicadamente pousei minha mão em sua nuca. Gareth ainda teve a audácia de me provocar um pouquinho mais com uns beijos no canto da boca e queixo, para então, finalmente, me beijar.

Sua boca parecia ser o encaixe perfeito para a minha em um beijo que iniciou calmo, mas ambos estávamos curiosos demais sobre o outro para mantê-lo dessa maneira. O beijo se intensificou, porém não sem antes a ponta da sua língua, desenhar-se sobre meus lábios em mais uma das suas provocações. O pouco de gosto de vinho que ainda tinha em seus lábios melhorava tudo, mesmo quando uma de suas mãos passeou travessa pela minha coxa, deixando um apertão generoso ali.

— Muito melhor do que eu imaginei nos meus melhores sonhos - sussurrou, ainda de olhos fechados.
— É seguro eu perguntar desde quando imagina isso? - ri nasalado, sem conseguir mover minhas mãos de sua nuca.
— Céus... Faz um bom tempo.
— Gosto de saber que superei suas expectativas - os rostos ainda próximos permitiam que nossas respirações se misturassem e seu perfume me hipnotizasse com toda a força. Gareth me deixava com vontade e sede de mais. Mais de seus lábios, mais do doce do vinho açucarando o beijo, mais de suas mãos em mim e minha vontade para aqui, e principalmente, agora.

Não poderia –e nem queria– deixar passar em branco o que tinha ali. Movi minha mão de sua nuca para o rosto e encostei nossas testas. Um pequeno sorriso sacana brotava nos lábios agora um pouco avermelhados do galês e passei meu polegar por seu lábio inferior, sentindo a maciez dali, provando que toda a delicadeza que sentira pressionada sobre os meus lábios era, deveras, real e tentadora até demais. Encarei por poucos segundos a profundidade dos seus olhos, como se apenas o avisasse sobre o que viria a seguir, e o beijei.
Beijei como se retribuísse o seu próprio ato de segundos atrás, beijei como se o agradecesse, o beijei por desejo, por curiosidade, e principalmente, genuína vontade.
Minhas mãos antes por suas bochechas, procuravam caminhos mais interessantes em seus ombros largos e costas. Já nas costas expostas que meu vestido ofertava, virou palco para o pecado que Gareth ParenthWood exercia em cada centímetro de pele dali, com direito à instigantes arranhões e as mãos grandes que me arrepiavam a cada movimento. Separei o beijo em busca de ar, mas me parecia um pecado separar daqueles lábios, e custava abrir mão deles. E céus! Custava horrores deixá-los longe dos meus.

— Gareth, obrigada pelo jantar, pela gentileza, pela noite. Foi exatamente o que eu precisava. Mas...
— Sem “mas”! E sem despedidas.
— Isso é um convite? - ri de leve.
— Se você aceitar, é. - Gareth riu nasalado e depositou um selinho delicado em meus lábios. — O que acha?
— Melhor não, desculpe. Primeiro, vamos com calma. Segundo, amanhã será um dia cheio.
— Desculpas bem razoáveis, porém aceitas. Desta vez.
— E terá outra vez? - o desafiei, risonha.
— Terá? - rebateu com a pergunta e eu apenas mantive o sorriso.
Touché! Boa noite, Gareth - disse por fim, batendo a porta do seu carro assim que sai. Ainda me virei para dar-lhe um “tchauzinho” que foi respondido por seu sorriso. Segui até a entrada do prédio, buscando por minhas chaves para já separá-las e cumprimentei o porteiro com um ‘boa noite’ automático.
— Jones! - a voz de Gareth soou alto o bastante para me virar e logo encontrá-lo batendo a porta do veículo e completando a distância entre nós com passos largos. — Não me despedi direito. Posso? - ri de sua desculpinha e da cara de inocente que apostou.
— Faço questão - correspondi e o homem enlaçou, em tempo recorde, sua mão na minha e me puxou pela mesma, colando nossos corpos de uma forma que quando em seu carro, não fora possível. Pousou a outra mão em minhas costas nuas e a brisa da noite apenas colaborou com os arrepios que senti.

Um beijo digno de cinema, e nada menos que isso.
Me moldei para acompanhar seu ritmo e se tornava a combinação tão prazerosa quanto a dos beijos anteriores.

— Boa noite – soprei as palavras em seus lábios e me desvencilhei, antes que se tornasse ainda mais difícil de fazê-lo, me despedindo com um belo sorriso sem dar tempo para que o diabinho no meu ombro começasse a considerar fortemente a proposta de Gareth.

Gareth ParenthWood não decepcionava. E de uma vez por todas, meu acionista favorito.


V - Parte II - Headlines.

Chegando em casa e nem sinal de Blair. O que deixava o silêncio dos corredores até um pouco assustador, sem contar a iluminação do apartamento que vinha apenas das luzes da rua através da parede de vidro. Livrei meus pés dos saltos altos e virei a poltrona para a parede transparente que sempre me dava as melhores visões de Nova Iorque. Assim permaneci, imersa no escuro da casa e saboreando os doces flashs desta noite e quão agradável se tornara. Alguns determinados flashs se tornavam ainda melhores quando percebi que ainda sentia o adocicado gosto dele. Sua educação, bom humor, os olhos gentis e a leveza da simplicidade que guiou o jantar, incluso do cavalheirismo encantador. Gareth é, de fato, um homem dos sonhos.



andava ao meu lado enquanto cruzávamos os corredores sem cor da delegacia antes mesmo do nosso horário na Magic. Dominique precisava de documentos com os horários dos funcionários, assim como os números referentes às estatísticas de Choi desde seu patrimônio até as ausências em Assembleias; absolutamente tudo.

— Bom dia. Temos novidades, sentem-se - Burke pegou um amontoado de folhas de papel e logo se sentou à nossa frente, que desta vez, estávamos em sua sala. Assentimos e ele prosseguiu. — Achamos uma pegada parcial. Não é das melhores novidades como uma digital, mas já nos ajuda. Ainda a estamos estudando, pretendemos cruzar com os dados do fabricante, triangular as regiões de fabricação, consequentemente com o de compradores e então, com o de funcionários da empresa, inicialmente.
— Então, até mesmo o gênero do assassino é indefinido? - perguntei um tanto ríspida. Queria não soar de tal forma, no entanto era extremamente difícil quando tudo ao seu redor começava desmoronar, não havendo saída e nem uma forma de segurança à qual poderia se agarrar. Era frustrante. Angustiante.
— Senhorita Jones, entendemos sua insatisfação e não a menosprezamos. Trabalhamos com uma varredura precisa no veículo de Hideke e foi nesse meio tempo que decidimos olhar de outro prisma. Estamos perdendo algo! Para acharmos apenas uma pegada parcial é porque ele conhecia o assassino.
— Era uma reunião de propósito inovador para a revista, sinceramente, algo que nos custaria milhões, mas renderia muito mais - explicou .
— Poderia ser alguém que perderia boa parte desse montante com a inovação de vocês.
— É uma agulha no palheiro - comentei. — Não era um ou outro interessado nessa proposta, pretendíamos atrair todos os olhares do mundo com ela - Burke respirou fundo e estava pensativo demais, seus olhos corriam por toda a sala, inquietos. — No que está pensando, Dominique?
— Bom, é que no carro, não achamos nada além de seu celular. Sem pastas, papeis e nem sequer uma caneta, como se ele estivesse saindo para um passeio no parque.
— Então, isso só reforma a ideia de que ele conhecia o assassino, certo? - Cox perguntou, incerto.
— Também. Mas também pode apontar para uma direção que não cogitamos...
— Ele poderia estar querendo retirar a candidatura. Poderia ter sentido sua primeira ameaça - vociferei, completando o raciocínio.
— Exato, senhorita Jones. Então voltamos ao meio profissional - pigarreou. — Não deveria amedrontá-los com tais teorias e nem criar falsas esperanças, no entanto por apontar o rumo profissional, devo alertá-los. Isso reforça a forte teoria de ser alguém da empresa, ou concorrente, enfim.
— Trabalhando junto de um assassino... - lamentou Cox, ao meu lado, passando as mãos nervosas no rosto.
— Estamos esbarrando nos corredores, dividindo elevadores, assinando folha de pagamento com nome de um criminoso - olhei de relance ao meu co-worker, percebendo Dominique não se abalar, de certo já estava acostumado com o pior e nosso desalento não o fazia cócegas. O telefone na mesa do detetive tocou e ele prontamente atendeu, pelos pouquíssimos segundos que durou, ao final proferiu apenas um “ok” dirigindo sua atenção a nós novamente.
— Me desculpem, preciso ir. Peçam que registrem os documentos que trouxeram como evidência. Alguma dúvida? - assentimos negativamente e ele começou a vestir apressado o paletó que estava no encosto de sua cadeira. — Certo. Vocês continuarão sendo os primeiros a terem as informações sobre o caso, mesmo com a chegada da família. Até mais.

Mais uma vez percorremos os diversos corredores acinzentados do prédio, ouvindo os telefones que não paravam de tocar e começando a lidar com a realidade de ouviríamos aquilo o dia inteiro, por tempo indeterminado.

— Bom dia. Burke requereu estes documentos - Cox tomou a frente, entregando-os ao senhor que tomava conta dos arquivos.
— Pessoais ou evidência? - perguntou com a voz falha por conta da idade avançada, ainda que com um tom grave da melhor forma que podia, no mais famoso curto e grosso.
— Evidência.
— Preencha este formulário e me entregue completo, com os documentos requeridos em mãos - orientou ranzinza e nos sentamos nas cadeiras por ali para preenchê-lo. Aparentemente haviam mais folhas no formulário do que as que entregaríamos. Tenha dó!

Se juntássemos ambos formulários, teríamos cerca de dez folhas e só precisávamos entregar cinco! Alguns bons e vários minutos foram gastos para preenchê-los e logo poderíamos ter a injeção de simpatia do senhor no balcão.

— Aqui estão - empurramos as pranchetas em sua direção e o senhor ajustou seus óculos ao rosto para revisá-las.
— Aparentemente tudo certo... Hum... Cox - o olhou por cima dos óculos ao proferir o nome do homem ao meu lado com certo desprezo. uniu as sobrancelhas, talvez buscando uma explicação plausível e sem tempo para tal, logo seguimos para o elevador afrente.

Enquanto esperávamos o elevador que acabara de descer, vez ou outra ainda ouvíamos o senhor do balcão, mal-humorado demais, vociferar o nome e sobrenome de por repetidas vezes, como quem odiara tal nome e se perguntava audível “Quem chamaria um filho assim?” Ri nasalado com tal pensamento e saquei meu celular da bolsa, enquanto o elevador ainda parecia demorar cerca décadas.

? Cox?
— Ah não! De novo não - o homem comentou baixinho e irritadiço ao meu lado e se virou na direção da voz. Um homem bem mais novo estava em frente ao balcão dos arquivos. — Algo errado?
— Você... Você é Cox? - o homem repetiu. Parecia trabalhar ali apesar de nunca o ter visto e estava com os formulários em mãos.
— Sim, sou eu. Problemas com os formulários? - deu passos pequenos ao homem que folheava os papeis, encarando-o.
¡Hermano! Soy yo!
— Não pode ser...
— Seu melhor e único, rommie! - ele abriu os braços em um tom convencido, dando passos largos até nós.
— Abel! Cacete! Não é possível! - o puxou para um abraço e eu os assistia, um tanto incrédula também, tendo poucas das memórias da faculdade.

Aqueles dois juntos me deram boas dores de cabeça, porém as risadas que compartilhamos eram quase inesquecíveis. Ele havia mudado da água para o vinho, apenas fisicamente, já que seu sorriso era de se reconhecer a quilômetros de distância; sempre o mesmo. Tudo bem que os dreadlocks e ternos ajustados o mudaram muito, mas ainda me parecia o mesmo moleque que odiava as saladas nos lanches do refeitório da faculdade.

— Me largue, seu lunático, tarólogo de humanas! - se desvencilhou de Cox com um sorriso tão grande quanto o de . — E não amasse minhas roupas, minha esposa é ciumenta - bufou, cheio de cena. — Eu que sou o investigador, mas quando se trata disso, ela é melhor que eu!
— VOCÊ SE CASOU?! - os interrompi, espantada demais para abaixar o tom, e alguns pescoços se viraram em nossa direção.
— Aparentemente, meu amigo aqui ainda tem o mesmo mel com as garotas. Hello darling! - comentou insinuativo na tentativa de uma cantada e precisei me policiar na gargalhada que soltei.
— Não interrompa a minha paz, Abel! Você é o pior do mundo em cantadas, como se casou?
— VOCÊ! - apontou o dedo para mim e permaneci no mesmo lugar. — ! Claramente a mesma oradora da turma! Não mudou nada! - revezava o olhar entre mim e Cox. — Aparenta estar rica, isso é claro. Parecia ontem que vocês me enchiam os ouvidos com as melosidades de casal e hoje estão aqui, sendo fichados! É realmente um mundo muito pequeno - arqueou as sobrancelhas, fazendo um muxoxo com a boca.
— Não fomos fichados, tapado - disse , revirando os olhos. — Somos os Editores Executivos da Magic! Magazine.
— O acionista morto? - Abel fez uma careta ao citar o fato e nós o acompanhamos, era impossível disfarçar que se tornara cada vez pior ouvir o que aconteceu. — A perícia está sofrendo. Não há praticamente nada que nos leve ao assassino. Foi realmente muito bem estudado, premeditado.
— Isso parece não ter fim - lamentei. — Mas me conte direito, não acredito que alguém domou o coração geek do gênio de NYU!
— Me respeite. Sou uma autoridade policial e um romântico incurável, by the way. Estava claro que isso iria acontecer!
— Ela deve se arrepender cada dia de sua vida - sussurrou , afim de irritar o antigo colega de quarto. — Os pais dela devem estar tão decepcionados...
— Oh! Me perdoe “Personalidade Fashion do ano”, não compreendo seu sotaque inglês, pode repetir? - Abel ironizou com voz afetada e eu contive minha gargalhada mais uma vez, afinal, poderia não parecer, porém ali ainda era um local de trabalho. — Você também, coração de gelo, não ria! Pelo menos agora você ganha para dar uma de mandona!
— Deus do céu, homem se acalme - o alertei, ainda contendo as risadas. — Você só mudou fisicamente, porque continua falando até pelos cotovelos. E como de costume, não diz nada útil.
Such a bossy... - comentou desdenhando, mesmo que soubéssemos que ele estava segurando sua risada também. — Editores Executivos, huh? Algum de nós ficou com o dinheiro, pois definitivamente não fui eu.
— A grana é boa, só que as preocupações de lá são de deixar de cabelo em pé - Cox disse e checou o relógio em seu pulso.
— Antes que eu me esqueça: você tem o contato da revista que o elegeu como Personalidade Fashion do ano? - assentiu mesmo sem entender onde o amigo queria chegar. — Reclame sobre o photoshop. Você prece mais magro lá.
— Não sei porque eu ainda escuto o que você fala - virou-se para mim. — Inclusive, precisamos ir.
— Vá. Antes que a mande você ir - provocou e meu co-worker riu nasalado, ignorando-o completamente.
— Pegue meu número pessoal no formulário e me ligue, vamos marcar algo o mais rápido possível. Preciso ver com meus próprios olhos que sua primeira dama não é apenas inflável! - chamei o elevador mais uma vez enquanto se despedia de Abel com mais uma de suas chacotas. Eles voltaram, deveras, a ser garotos!
— Quando voltarem aqui, me procurem. Se não tiverem nenhum chá com a Rainha Elizabeth é claro, não quero atrapalhar a agenda de vocês! - nos despedimos com um breve abraço e foi para o elevador, logo o acompanhei e mandei um beijo no ar para Abel, enquanto as portas fechavam.



Alguns fotógrafos insistentes estavam em frente ao prédio da Magic! Magazine quando chegamos, sem contar um ou outro paparazzi que acampava nos prédios do outro lado da rua, abusando de todo o zoom de suas câmeras buscando por alguma novidade do caso Choi, coisa que nem eu mesma tinha.
Nos corredores, tudo parecia estar no mesmo ritmo como se não houvéssemos parado e eu sabia que a Magic tinha esse poder: se refazer. Mantendo seus elementos inigualáveis e essenciais como se nunca se esquecesse de onde surgiu.

— Bom dia, Nicole. Novidades? - a secretária, como sempre, apressadamente buscou sua agenda e me seguiu no trajeto de sua mesa até minha sala.
— Bom dia, senhorita Jones. Sim e não. Os telefones ainda tocam incansavelmente por informações do andamento do caso no mundo inteiro. O senhor Rui Angelo ligou, não pretende aparecer no prédio essa semana e pediu que deixasse claro que a senhorita sabe onde encontrá-lo - a garota colocou uma mecha do cabelo para trás da orelha, voltando-se à sua agenda. — Gareth ParenthWood espera pela senhorita, há algum tempo, e ele disse que passaria no Lounge, mas logo voltaria. Autorizo a entrada dele? - a moça respirou fundo, buscando ar após as mil palavras que despejara de uma só vez.
— Hoje não poderemos desligar os telefones. Há contratos a serem acertados e uma chamada perdida pode custar uma parceria milionária. Quanto ao Gareth, sim claro, autorize. Entregue essas pastas para Anna, tudo está perfeitamente revisado, dadas as assinaturas de , podem ser enviadas - empurrei a pequena torre de pastas em sua direção. — É só, obrigada Nicole.

Em minha mesa haviam os horários para os photoshoots de hoje e pretendia acompanhar a maioria, senão todos. Era a minha maneira de ter certeza de que nada nos abalaria a ponto de degenerar uma das maiores revistas do mundo. O primeiro começaria em vinte minutos e nesse meio tempo eu precisava determinar a paleta de cores para a próxima capa mesmo que ainda não houvéssemos sequer publicado esta. O verdadeiro “um olho no peixe e outro no gato”. As batidinhas na porta desta vez eram fortes demais para serem de Nikki e quando adentrou, vi os olhos que eram apaixonantes demais para serem os dela, também.

— Recebi seu recado. Algo urgente? - o saudei quase automaticamente, ainda dividindo algumas pilhas de papeis, sendo paralisada pelo sorriso do homem que crescia gradativamente.
— Vim lhe agradecer por ter aceitado o meu convite. Sequer consegui pensar nisso ontem - riu acanhado.
— Já agradeci umas vinte vezes e nunca vai ser demais. Obrigada pela atenção, significou muito - parei o que fazia, encarando os gestos meticulosos dele.
— Fico lisonjeado, e é por isso que gostaria de lhe fazer outro convite hoje. Se puder, é claro.
— Só peço que não me deixe mal acostumada, já que dessa forma está no caminho certo.
— Não sei como, mas ajudei Kristaps Porzings com uma cláusula difícil que o New York Knicks queria rescindir depois da sua lesão, e ele quis me agradecer convidando para sua festa de aniversário - xplicou simplesmente.
— Bons drinques e uma companhia como a sua são irrecusáveis. Então, parece que temos outro encontro marcado.
— Sim, parece que sim - sorriu abertamente. — O que acha às 22h? - afirmei com a cabeça, notando que Gareth estava diferente desta vez. Não fisicamente -continuava de tirar o fôlego- entretanto seu olhar... Parecia perdido, talvez cansado, não sei ao certo.

Fechou seu paletó e piscou com um dos olhos, sussurrando um “até mais tarde” e saindo porta afora. Cumprimentou que aparentemente já se preparava para entrar.

— Olá, querida - irrompeu o maior cafajeste de Manhattan com um bom humor que não havia visto nos últimos dias.
— Ver o Abel te deixou melancólico a ponto de me chamar assim? - retruquei em tom jocoso, já que este era um apelido que me chamava apenas na época da faculdade.
— Eu sempre te chamei assim, querida - piscou, deixando um sorriso devasso em seus lábios e eu arqueei as sobrancelhas.
— De uma vez por todas, o que veio fazer aqui? - vociferei áspera. — Acabamos de nos ver.
— Vim saber como está - disse simplesmente. — E aparentemente muito bem, não é? - insinuou, indicando a porta com a mão, se referindo a Gareth que saíra há pouco.
— Já viu? - cruzei meus braços, observando-o.
— Você adora quando venho te visitar - sentou-se na cadeira em frente à minha mesa.
— Não é bem uma visita, até porque você está do outro lado do corredor - pontuei óbvia. — E outra, eu nunca disse isso.
— Nunca disse com palavras - sobrepôs, como quem corrigia o que eu dissera. — Mas seu corpo diz tudo o que eu precisava saber. E você sabe disso. Não consegue evitar - Cox mordeu o lábio inferior, segurando um sorriso convencido.
— Está te faltando trabalho, por acaso? Acabei de mandar algumas pastas para a sua sala - ele gargalhou e eu cerrei os olhos, desejando não ter ouvido aquela petulância. — De qualquer forma, precisamos de mais um acionista, ou dois, já que o poder do Choi era imenso. Inicialmente pensei em um acionista controlador¹.
— Não acho tão vantajoso, .
— Pois sugiro que reveja seus conceitos. É totalmente vantajoso, porque o teremos à disposição boa parte do tempo. O salário seria maior, o que dá impressão de gasto, em consideração com o que podemos extrair pode gerar até quinze vezes mais.
— Mas se não escolhermos o perfeito, estaremos ferrados quinze vezes mais!
— Não seja pessimista. Jamais escolheríamos alguém errado e sabe disso - comentei confiante e lhe ofereci uma piscadela, apoiando meu rosto em uma mão. — Então, o que acha?
— Não sei, ... Não acho seguro arriscar a Magic dessa forma no momento que estamos. Sem contar que as entrevistas pro cargo serão imensas.
— Não precisaremos de entrevistas - adiantei convicta.
— Você já tem um candidato - concluiu, quase lendo meus pensamentos e concordei com a cabeça. — Como não suspeitei disso?
— Exato. Gareth ParenthWood.
— Não - cortou-me de imediato.
— Você nem cogitou a ideia!
— Não preciso. E nem quero.
— Como não?! - exasperei.
— Não gosto dele. Acho mediano, aprendiz... Cru demais, sabe?
— Você está louco! Viu a proposta na Assembleia, inclusive nas suas próprias palavras era “avassaladora”.
— Era, realmente. Naquele momento. Propor melhorias para a empresa é parte do trabalho dele. Não imaginava que era para se tornar um pilar da revista, pro resto da vida! Repito, mediano.
— Não lhe entendo, de verdade. Vou te dar um tempo para pensar, sei que vai mudar de ideia - suspirei, olhando a hora no visor do celular. — Vou acompanhar um photoshoot e já estou atrasada. Você vem? - me levantei, vestindo apressada meu blazer que estava no encosto da cadeira e Cox apenas murmurou um “mais tarde eu vou” e o deixei ali, ele precisava pensar mais um pouco.



Boa parte do dia se arrastou, com todos os photoshoots que precisavam ser feitos e uma equipe que estava definitivamente dispersa, deixando que muitos detalhes passassem em branco. De todos os photoshoots do dia, sete foram remarcados para o dia seguinte, o que totalizava a metade de todos eles. Precisei rever toda e qualquer característica ali, estávamos deixando escorrer pelos nossos dedos a excelência que a Magic sempre teve, sem contar que gastamos a tarde inteira apenas para isto. Mal tive tempo para o almoço, assim como Blair que acompanhava os shoots, também não e nos contentamos com os salgadinhos das máquinas automáticas nos corredores.
Boa parte da equipe desceu até o Lounge para descansar por um tempo, enquanto prometi que reveria alguns pontos que estávamos seguindo na sessão de fotos de hoje até o horário que voltassem, dali à uma hora.
Ainda nos restávamos três photoshoots para hoje e precisávamos manter a cabeça no lugar. Uma equipe desnorteada é a pior coisa que poderia acontecer agora. Era, realmente, muita coisa para digerir em pouco tempo, mas essa era a tal de resiliência que a vida exigia tanto que tivéssemos. Blair se propôs a ajudar após reservar um tempo para descansar -ela tinha realmente abandonado o movimento workaholic- e tudo se encaixava melhor, diretamente fazendo mais sentido quando tínhamos alguém da área, ou simplesmente quando era a melhor amiga. Após os reajustes artísticos e o descanso, apostei em uma conversa motivacional, parecia uma boa pedida. E Abel iria adorar me ver mandona por todo o prédio -e ganhando por isso, como ele gostava de lembrar.
O primeiro photoshoot teve um andamento mais coerente com a qualidade Magic! Magazine e eu pude deixá-los seguir já que faltava mais alguém me devendo uma resposta e nunca, repito, nunca esqueceria de tal.
A parada pela máquina de café era vital e optei por um expresso, tendo como segunda opção um capuccino, atravessando o corredor na direção contrária à minha sala para adentrar a sala de , de supetão.

— Gareth: temos de promovê-lo, sabe disso.
, não - ele que estava checando algo em seu celular e logo o largou em cima da mesa. Me sentei à sua frente e depositei os copos na mesa.
, ele é tão novo quanto nós e tão notável quanto! É focado, persuasivo e inovador tal como precisamos.
— Discordo. Acho ele previsível. Tão previsível quanto aquele país do tamanho de um ovo que ele vive enfurnado - comentou mal-humorado.
— Suas desculpas são descabidas e sem noção nenhuma, Cox - cruzei meus braços, aguardando que falasse algo e finalmente desse o braço a torcer.
— Se promovermos ele para Acionista Controlador, precisaremos de um outro para ocupar seu antigo lugar. É tampar o Sol com uma peneira, Jones!
— Deixe de ser cabeça dura! E sim, precisaremos de mais alguém e apenas dessa vez podemos investir um pouco mais de tempo, analisando um por um, ainda sim é o de menos.
— Não sei. Continuo achando arriscado demais.
— Então faça um teste com o Gareth.
— O quê?
— Sim. Dê a ele uma tarefa de acordo com o cargo e se ele resolver no tempo ideal, você vai saber que ele é perfeito para o cargo - expliquei, assistindo seu rosto acender com a ideia.
— E se ele não passar? - revirei os olhos.
— Então começamos a caça por dois acionistas, sem promoções. O que acha?
— Parece justo.
Let’s do it! - sorri convencida, finalmente. — Não se acostume, foi apenas uma gentileza - pus o café a sua frente e beberiquei o meu.
— Por que capuccino?
— Você nem gosta de expresso, sem contar que esses dias você está soft demais. Quase optei por apenas água com açúcar - o alfinetei.
— Não me surpreenderia que no seu tivesse uísque.
— Esse eu tomo toda vez que penso em te esganar. Lembro no processo que daria e desisto. Sorte sua! - o olhei de soslaio enquanto tomava mais um gole do café.
— Você não conseguiria me esganar. Perderia as forças assim que olhasse nos meus olhos que eu sei, pois é, eu sei que você ama! - disse convicto e levantou seu copo no ar, como quem propunha um brinde.
— Céus, você está cada vez mais sem-noção, Cox - cerrei os olhos, também levantando meu copo e completando seu brinde.
— Diga que eu estou mentindo - sorriu presunçoso.
— Isso não interessa - finalizei o café expresso de uma vez. — Preciso ir, vai ficar?
— Está cedo para uma workaholic - provocou, brincando com a caneta em seus dedos. — Vou ficar, talvez, acompanhar os shoots que restaram. Boa noite, - dei de ombros e lhe ofereci um breve sorriso em resposta, saindo de sua sala. Retornei para a minha, onde precisava buscar minha bolsa e estava bastante aliviada por não precisar ir para casa com pastas a tiracolo desta vez, até porque havia muito mais com que me preocupar, e este era Gareth ParenthWood em toda a sua elegância e cavalheirismo, ao meu lado, mais uma vez. Não havia do que reclamar.



O vestido preto e ajustado ao corpo exaltava as curvas e exatamente por isso tinha lá sua sensualidade. As alças finas e o decote reto davam notoriedade ao meu colo, somando na sensualidade da peça enquanto a cor cuidava da elegância por si só. Como coadjuvantes, brincos longos que chamavam a atenção para si através do cabelo semi-preso e os inseparáveis Louboutins Raynibo que já eram um evento em sua natural forma, uma clutch minimalista a tira colo e pronto. Ready to go!
Dada a hora que cheguei em casa, em primeira instância parecia uma missão impossível conseguir me arrumar dentro da margem de tempo da pontualidade de Gareth. No final das contas saiu como o planejado, e cronometrado como sempre, o galês avisou por mensagem sobre sua chegada há pouco. Desci e como da última vez, ele me aguardava encostado no carro.
Seu traje all black dava a impressão de generosos músculos em seus braços, realçando sua beleza loura e de olhos azuis safira. Ingenuidade fora minha de cumprimentá-lo com um beijo no rosto até que a mão gentil do homem em minha nuca logo me guiou de encontro com seus lábios em um cumprimento mais propício.

— Boa noite, . Sem questionamentos, a mulher mais bonita da noite - proferiu sobre meus lábios e galante como de costume, segurando suavemente em meu queixo.
— Olá, Gareth - proferi baixo, ainda inebriada pela proximidade. — Você está de tirar o fôlego, as Always - como já era de se esperar, o galês me acompanhou gentilmente até seu carro, abrindo a porta no lado do passageiro.



A luxuosa mansão do jogador revelação desta temporada na NBA não aparentava ser distante, ou simplesmente fora a companhia de Gareth boa o suficiente para não me fazer perceber se realmente era.
Cruzávamos os enormes jardins da casa onde Kristaps Porzingis celebrava mais um ano de vida e já podíamos ouvir a música alta e animada. Pelas janelas escapavam parte das luzes piscantes, exatamente o que eu precisava no momento. Passamos por um corredor completamente cravado por espelhos em cada mínimo centímetro, dando um ar enigmático a cada passo que dávamos, tornando a música mais alta.
Totalmente diferente do jantar e premiação no The Plaza Hotel dias atrás, havia uma galera animada e dançante por todos os lados, assim como uns gatos pingados que arriscavam seus passos ensaiados. Como não pode faltar extravagâncias em festas das estrelas do basquete, o aniversário tinha tema circense com direito a contorcionistas pendurados no ar, alguns palhaços bizarros e até espelhos falantes que não me atreveria a pensar como aquela tecnologia fora executada.
Os convidados não estavam a caráter, porém não havia nada que não pudéssemos resolver ali mesmo. Não quando se tinha um cômodo da mansão exatamente com esse propósito! Gareth logo se apressou e adentrou o cômodo com um sorriso travesso, tateando os excêntricos adereços como quem procurava a peça perfeita. Encarou uma estola de plumas vermelhas e volumosas em um dos cabides, tomando-a em suas mãos. Fitou-me como quem pedia permissão e eu sabia que meu olhar não respondia nada além de um explícito “sim”, andando até mim através das meias-luzes do cômodo Gareth se aproximou, parando atrás de mim. Suas mãos subiram lentamente por meus braços nus chegando até os ombros, onde depositou um beijo demorado em cada um deles enquanto os vestia com a estola, deixando que a mesma deslizasse por eles e parasse rente ao meu quadril e que por ali permaneceria.
Precisávamos cumprimentar o aniversariante, mas não sem antes ver o galês se apossar de uma espécie de cartola em um vermelho tão vivo quanto a minha estola, como se combinássemos e não foi uma má ideia, inclusive.
Retornamos ao salão onde boa parte da socialite de Manhattan e quiçá de toda a Nova Iorque estavam. Minha mão parecia formigar conforme em pequenos gestos, o galês começava a enlaçá-las, para que sem mais enrolações eu as enlaçasse de uma vez, já que era do desejo de ambos.
Desde os fundos do grande salão, palmas se tornavam cada vez mais audíveis a ponto de ofuscar a música que tocava e o responsável por toda a agitação era ninguém mais, ninguém menos que o próprio Kristaps em um esplendor digno de anfitrião aniversariante em uma elegância inegável, de um paletó que fazia jus ao brilho que faltava na festa, já que era inteiramente coberto por glitter prata. Transparecia toda sua jovialidade e ousadia na combinação que fez, apostando na máscara que cobria metade do rosto inspirada em “O Fantasma da Ópera”. Ainda no topo das escadas, de onde aparecera, o jogador agradeceu brevemente os cumprimentos com um sorriso deslumbrante e logo descera os degraus para cumprimentar os convidados individualmente.

— Isso pode demorar um pouco. Vamos no bar? - o acionista disse um tanto perto do meu ouvido e eu queria poder dizer que a proximidade era por conta da música que voltara a soar alto, mas a mão que acariciava minha cintura contrariava totalmente essa teoria. Difícil mesmo era disfarçar que todos os toques deste homem deixavam um rasto de fogo ainda maior. E eu estava para entrar em chamas por conta dos sorrisos que soltava, os beijos solitários e quase inocentes que vez ou outra deixava em meus ombros.

Seguindo as singularidades do tema circense, o bar tinha sua regra própria: para “abrir os trabalhos”, antes da primeira bebida da noite, cada convidado teria o dever de começar com uma simples dose de tequila. Gareth encarando a regra, riu e eu o acompanhei enquanto via que ele continuava um pouco hesitante quanto á ela, precisando ser influenciado pelo meu pontapé inicial. Oras, era uma regra, não havia como fugir!
Deixei um selinho nos lábios de Gary e me dirigi ao bartender que nos serviu prontamente das duas doses mesmo que o acionista continuasse em dúvida.

— Não acredito que Gareth ParenthWood, um acionista cobiçado e o homem com quem estou saindo está com medo de uma única e ingênua dose de tequila! - o provoquei, vendo-o morder os lábios pra conter o riso enquanto colocava as mãos nos bolsos dianteiros da calça, andando até mim.
— Não é medo. É que preferia compartilhar de um Dry-Martini com você - se aproximou mais, o bastante para sentir seu hálito quente. — É mais afrodisíaco.
— Teremos tempo pra provar de tudo que é afrodisíaco - sorri, respondendo à sua frase que, confesso, soara brega e precisei focar no seu legítimo propósito. — Mas não sem antes cumprir a regra - pisquei para ele e virei a dose de uma vez, sentindo o arder gostoso descer pela garganta.
Essa é das minhas! - Bradou Kristaps, abrindo os braços, pomposo. Me virei para ele com um sorriso, vendo que logo ele e Gareth se cumprimentavam risonhos. — Então é você, a chefe que coloca esse garotão na linha, huh? - gargalhou e o galês respondeu com um soco em seu braço. — Você o deixou bobo, parece que tem quinze anos de novo!
— Generosidade sua! Sou Jones e é uma honra conhecê-lo.
, minha querida... - o aniversariante me abraçou pelos ombros. — Cuide deste homem, ele mudou a minha vida. Torço para serem felizes.
— Hey, hey, hey. Vamos com calma Kris - Gareth interrompeu, desconcertado. — E a deixe respirar, amigo.
— Para sua tristeza, não solto sua garota enquanto não virar a tequila, buddy.
— Uh! Gosto disso! - incentivei o jogador e fizemos um hi-five, animados. — Vamos, Gareth.
Vamos, Gareth! - Kristaps me imitou com voz afetada e Gareth –finalmente– virou a dose, como manda o figurino. Vibramos junto do bartender que acompanhava o desenrolar da trama, chamando parte da atenção pra nós.
— Pronto, babe. Dry Martini? - passei meus braços por seus ombros, sorrindo, sentindo suas mãos apossarem da minha cintura. O aniversariante se embrenhou entre as pessoas novamente enquanto a festa seguia animada desde o primeiro minuto, da forma que não via igual há tempos.

Arrisquei algumas músicas com Gareth na pista de dança, mas ele parecia educado demais para arriscar um twerk, o lado bom é que a valsa estava em dia como exigia o manual dos poucos cavalheiros modernos.
Com mais uma extravagância para a conta, o bolo com vários andares adentrou o salão –por pouco não batia a altura do próprio jogador– e o coro de ‘feliz aniversário’ tomou todo o cômodo.

— Vem cá - o acionista me conduziu em meio os convidados para que pudéssemos subir as escadas na maior velocidade que conseguíssemos, quando a única iluminação do local era das velas pirotécnicas no bolo. Apressado e um bocado atrapalhado, o galês contava as portas do extenso corredor do andar superior, sem motivo aparente. — Quatorze! É essa - ele tirou uma chave do bolso interno do paletó e a destrancou. Sem tempo para as banalidades –como acender a luz– ele me prensou entre seu corpo e a porta atrás das minhas costas sem cerimônia alguma. Suas mãos grandes e curiosas desenhavam todo o meu corpo, desde as coxas até a nuca, onde gostava de se demorar um pouco mais. — Estava louco por um tempinho com você.
— E finalmente conseguimos, então vamos falar um pouco menos - murmurei e o beijei. Assim como ele, eu queria aquilo e queria logo. E em mais uma das suas “manias gracinhas”, ele sorriu no meio do beijo e pude sentir que tirou a mão que acariciava a minha coxa e não demorou pra que eu gemesse em descontentamento. Podia sentir seu corpo mexendo para tatear o interruptor com dificuldades nítidas, partimos o beijo e ele soprou um “desculpe” amuado, tirando o celular de seu paletó, acendendo a lanterna. Ri de sua afobação enquanto me juntava a ele para achar o bendito interruptor, quando percebemos que bastava a boa e velha palma para acender as luzes dali.

O cômodo era uma sala de cinema, e nos aguardava muito confortável por sinal, talvez não com os mesmos propósitos que nós, ainda assim, divina. Encarei todo o cômodo e não escondi minha admiração, tudo bem que me custaria mais alguns pares de anos na Magic para que pudesse custear uma daquelas já que não aguentava mais maratonar a saga que era Blair com caixinhas de suco e farelo de cookies no sofá da sala, quando não no meu quarto.

— Desculpe, não queria te assustar apressando as coisas - se apressou, o acionista.
— Não! Não se preocupe, Gareth. Não tem problema de adiantarmos um pouquinho as coisas - levantei meu olhar dos seus lábios até seus olhos e sorri, insinuativa.
— Era exatamente isso que eu queria ouvir - com delicadeza afastou alguns fios de cabelo do meu rosto e com a outra mão, colou nossos corpos com precisão, iniciando mais um beijo.

Desta vez, sabíamos sem dúvida alguma, qual linha cruzar para chegar onde queríamos, e eu estava ansiosa por isso. Gareth tirou a mão do meu rosto e deslizou até meu pescoço, emaranhando-a pelos cabelos dali, puxando alguns sem que pudesse controlar um gemido. Ele deu uma risada sacana e isso apenas contribuiu para que meu desejo aumentasse, respondi passando as mãos por seus ombros impulsionando para que seu paletó caísse pelos braços e os beijos me torturavam ainda mais quando chegaram ao meu colo. Nos guiávamos às cegas até o grande sofá do cômodo e em ironia aos carinhos ardentes e apressados, ele gentilmente me apoiou no braço do sofá, ficando por cima. Cessamos os beijos por um breve momento, nos encarando com respirações ofegantes e lábios vermelhos, de uma forma que eu sequer pensava que Gareth poderia ficar mais tentador. Gareth ParenthWood não tinha noção do que estava fazendo comigo!

— Parece uma crueldade se separar desses lábios, - sussurrou com a voz rouca, brincando com seu dedo em minha bochecha, deslizando-o até meu lábio inferior que formigava.
— Não vejo necessidade deles separados - lhe dei um selinho demorado, transformando-o em uma trilha de beijo desde sua bochecha e maxilar, tendo como rumo o peitoral do galês que ainda estava coberto pela camisa social preta. Enquanto beijava seu pescoço, pude me embriagar de seu perfume que tinha as características perfeitas do homem: era forte e sedutor, ainda que com uma suavidade inimitável.

Comecei a abrir os primeiros botões de sua camisa e uma das mãos do acionista parou em meu cabelo, puxando-os cuidadosamente apenas o suficiente para que retornasse com os carinhos em seu pescoço. Não hesitei e o fiz, ouvindo-o gemer baixinho à medida que obtinha espaço para abusar de seu peitoral. Deixei alguns arranhões leves em suas costas, me deliciando na carne nua do acionista quando a porta foi aberta de supetão. Um casal jovem, quase adolescentes, se atracava selvagem como se não houvesse amanhã –e não estavam errados afinal, exceto pelo local. O rosto do galês era pura confusão mesmo que o rosado de suas bochechas o deixasse uma graça. Pigarreei e o casal pareceu não se abalar, pelo contrário, a moça encarou o pigarro como um incentivo vindo de seu parceiro e cruzou as pernas na cintura do mesmo.
Por Deus... tenha dó!

— Ok, já chega - bradei, assistindo os dois se desvencilharem com o susto. Levantei do sofá, ajeitando o vestido. — É como assistir a maneira de um bebê ser consumado - eles nada responderam, apesar das caras atônitas responderem por si só. Saíram apressados, batendo a porta que eu permaneci encarando, com as mãos na cintura ainda um tanto descrente.

Seria cômico, se não fosse trágico.
Me voltei para ParenthWood no sofá, que já vestia sua camisa.

— Desculpe. Isso acabou com o clima - comentou sem jeito, deslizando a mão pelos cabelos afim de organizá-los.
— Eram quase duas crianças e eu já podia ver mais uma vindo ao mundo! - respondi dramática e ele riu, dispensando o pouco de tensão que restara. Me sentei ao seu lado, ouvindo-o suspirar quando passou um de seus braços por minhas costas e usou o outro para virar meu rosto para si.
— Desculpe, isso foi péssimo.
— Se eu estivesse contando, diria que essa foi a vigésima vez que pediu desculpas só essa noite. Vou passar a não o desculpar mais! - sorri travessa, apoiando a cabeça em seu ombro.
— Pode soar atrevido, mas eu aceito os riscos - enlaçou sua mão à minha. — O que acha de irmos para a minha casa?
— Era exatamente isso que eu queria ouvir - rebati com a mesma frase que usara mais cedo. Ele sorriu e me beijou, segurando-me pela nuca como se me impedisse de fugir, como se eu tivesse coragem para tal, não é?

Nos arrumamos da melhor forma que nos era permitida e pela segunda vez naquela noite, corremos por aquele longo corredor, como adolescentes. Descendo as escadas com pressa e desaceleramos conforme nos aproximávamos do salão, quando me ofereceu seu braço para enlaçar, da mesma forma que chegamos ao local.
Atravessamos o bizarro corredor de espelhos nos dando o luxo de uma última tacinha de champanhe. Era um longo corredor, oras! ParenthWood jogou as chaves nas mãos do manobrista que no tempo perfeito de finalizarmos nossa bebida apareceu com o carro do acionista.



O portão alto se abriu automaticamente para que adentássemos o condomínio gigantesco no Tribeca, um bairro nobre de Manhattan que ia desde o leste do rio Hudson até a Broadway, possibilitando mil e uma vistas diferentes da cidade. Aproveitando as vantagens das altas horas, adentramos o elevador livre e Gareth selecionou o andar, que demoraria um pouco tendo em vista que era o último, um pouco acima do vigésimo terceiro andar. Ele sabia o que isso significava e eu não conseguia me conter sobre tal. Nos entreolhamos e sorrimos travessos, puxando sua mão e o enlaçando em um beijo. Senti seu corpo me pressionar contra as paredes gélidas do elevador enquanto o beijo tomava velocidade, já que aquilo não sanava nossas necessidades.
Nossos corpos imploravam por mais.
Subi uma perna até sua cintura e a fenda do meu vestido permitiu que sua mão passeasse livre na pele nua da minha coxa, onde deixou um apertão generoso. Desvencilhou suas mãos com rapidez para apertar o botão que travou o elevador e em resposta, sorri sobre seus lábios.

— Temos mais um minuto - sussurrou malicioso. Sem prorrogações, retornamos de onde paramos e ele mesmo impulsionou minha perna à sua cintura, desta vez mais atrevido, indo até minha nádega, beliscando. Gemi e mordi seu lábio inferior, priorizando agilizar o processo, abrindo os primeiros botões de sua camisa novamente, sentindo o elevador se movimentar. O puxei pela gola, passeando meus dedos entre seus cabelos loiros, dispersando-os até seus ombros largos que, definitivamente, merecia mais atenção. A porta do elevador se abriu e ouvimos um pigarro, nos separando instantaneamente quando sequer havíamos percebido que após destravado, o elevador foi solicitado e nem nos atentamos à tal. Uma senhora elegante de casaco de peles, ocupou o espaço restante e nos mantemos em silêncio, tentando controlar as respirações aceleradas. A tal senhora desembarcou apenas dois andares após e nos permitimos rir da situação, tão similar à que fomos sujeitos mais cedo.

O elevador tilintou abrindo suas portas no último andar e não demorou pra que sentisse a brisa gelada da noite arrepiando meus braços. Percebendo isso, Gary cobriu meus ombros com seu paletó. As luzes revelaram um apartamento vasto e perfeitamente organizado, com artes diversas por todos os cantos. Sem perder tempo observando os detalhes do local, ele se aproximou, juntando um punhado dos cabelos que caíram pelos meus ombros e segurou-os com força para beijar e mordiscar toda a pele que fora exposta. Minhas pernas friccionaram entre si no momento que mordeu o lóbulo da minha orelha, permitindo que meus cabelos caíssem em cascatas pelos ombros novamente. Um tapa forte e estalado me fez morder o lábio para impedir um gemido e ele se limitou a me encarar, inabalável. Gostava do que via, gostava de me ver desta forma, gostava de me fazer sentir assim e de saber que era ele, que me causava tudo isso.
Desgraçado!

— Vou buscar um vinho pra gente - se desvencilhou ligeiro e desfrutei das vistas que tinha em sua sala: o mar ao fundo, o pouco da luz da Lua refletindo na parede, as obras que faziam do cômodo um museu à parte.

Encarei maravilhada a peça considerada ícone do Impressionismo, “Meules” de Claude Monet pintada em 1890, um dos poucos exemplares da série Almiares do pintor. E Céus! Aquela era obra única no mundo!

— Gostou, huh? - Gareth retornou com duas taças de um vinho tinto nas mãos, entregando uma para mim.
— Esse é realmente, um Meules legítimo?
— O próprio! Meules de Oscar-Claude Monet. Legítimo.
— Mas... Como? Esse é o único no mundo inteiro! - insisti boquiaberta. Deus! Aquela peça era meu sonho desde que me conheço por gente.
— Exato - respondeu calmamente, bebericando em sua taça. — Minha mãe é dona de uma rede de condomínios de luxo, inclusive esse aqui, e precisou vender o do Flatiron District por completo pra suprir o valor do quadro - finalizou claramente sem muito ânimo.
— É ainda mais bonito do que eu imaginei! Tenho uma réplica fiel para ficar admirando, até porque, agora eu já sei quem está com o único do mundo - sorri e o segui até o sofá, me aconchegando ao seu lado. — Tal mãe, tal filho, huh?
— Não é tão simples quanto parece... - busquei por sua mão, fazendo um carinho ali, encorajando-o, para caso quisesse continuar. — Meu pai faleceu quando eu tinha quinze anos e ela assumiu tudo que ele fundou. Desde então, nos afastamos bastante porque ela se tornou fria depois que conheceu o mundo dos negócios e até hoje tenta se reaproximar gastando bilhões de dólares. E não está funcionado - finalizou sua taça de uma vez, colocando-a na mesa de centro.
— Se quer saber, não a culpo. O mundo dos negócios é cruel, principalmente com as mulheres. Demora muito pra que consigamos ser enxergadas com seriedade. Dê uma chance pra ela... Ela só quer ser reconhecida pelo seu esforço.
— É mesmo tão difícil assim?
— Oh! Você não tem ideia do quanto! - suspirei, pensando sobre minhas próximas palavras. — Tive sorte de encontrar o Rui que me apoiou e acreditou desde o meu primeiro dia de estágio. também, está comigo em todas as decisões. Mas quando tive de enfrentar sozinha à frente da Magic... - pendi a cabeça para o lado, lembrando vagamente dos momentos. — Bom, hoje já estou calejada e não comprei o Meules antes de você porque gastei o dinheiro processando uma boa parte do mundo, e demorou, mas aprenderam a me respeitar - pisquei e como ele, finalizei minha taça de vinho.
— Desculpe, eu realmente não fazia ideia. Forbes não mentiu. Você é mesmo uma Dama de Ferro - sussurrou com o olhar cravado ao meu, roçando as pontas dos nossos narizes e encostou nossas testas. Senti seu perfume se confundir com o do vinho que exalava de nós dois e bastou para que um arrepio subisse por todo meu corpo. — , você é incrível. Absolutamente incrível! E eu não poderia estar mais fascinado por você - após um gracioso carinho que fez nas minhas bochechas com os dedos, nos beijamos. E diferente da pressa com que chegamos ali, seus lábios conduziam calmo e atenciosamente, parecendo querer despir nossas almas, fazer delas uma só. Buscou por minhas mãos, pousando-as em seu peitoral e tateando meus dedos até os botões da camisa, ri sobre seus lábios e ele me acompanhou, abrindo mais um botão. O peso do seu corpo fez com que invertêssemos as posições de mais cedo e encostasse minhas costas no braço do sofá, para que o galês ficasse por cima. Mesmo por cima do vestido, ele beijou da minha barriga até os seios e o tecido da roupa não interferiu nas sensações que ele me causou enquanto apertava minha coxa. Fechei os olhos sentindo o calor dos seus lábios na região e os arrepios apenas se multiplicaram, era inútil tentar controlá-los. Passei uma mão por sua nuca, descendo-a pelos ombros com o fim de despi-lo da camisa enquanto ele se posicionava entre as minhas pernas, colando nossos corpos e facilitando para que eu subisse a perna até sua cintura para sentir nossas pélvis se roçarem. As mordiscadas disfarçadas de beijos eram divinos, porém não ao ponto de ofuscar a mão que descia uma das alças finas do vestido. Sorri e posicionei minha mão em cima da sua, como se o ajudasse ali e ele apenas sorriu, presenteando-me com beijos molhados no local onde a alça ocupava anteriormente, quando eu mesma me encarreguei de descer a outra, alargando o sorriso sujo no rosto do galês. Segurou uma alça de cada lado, com firmeza, e as desceu lentamente, observando atento cada centímetro de pele revelado.
Gareth passou a ponta da língua entre meus seios em uma lentidão tortuosa que fez minhas pernas ao redor de sua cintura, se apertarem um pouco mais, a ereção friccionou do meu sexo fazendo ambos pulsarem. O quente de seus lábios tomou um dos seios com suavidade, apenas pela auréola, brincando na região. No outro, sua mão o tomou por completo, apertando e massageando, olhou-me travesso como se quisesse que me preparasse para o que viesse a seguir. Abocanhou um dos seios e não reprimi um gemido desta vez, a língua ágil estimulava por todo o mamilo e revezava com os lábios que sugavam, vez ou outra. Insisti no atrito de nossas intimidades e senti seu hálito quente arfar contra a minha pele, alternou o carinho entre os seios e passou dois de seus dedos sobre meus lábios para que eu chupasse. O sorriso que tomou seus lábios assim que o fiz, era cafajeste e eu amava cada centímetro dele em seu rosto, tirou os dedos da minha boca e usou deles molhados para estimular mais do meu mamilo.
Já não sabia mais por onde arranhar em seus ombros, era pouco demais, eu queria mais. Muito mais.



Eu queria ter as palavras certas sobre a noite com Gareth ParenthWood, no entanto todos os adjetivos que eu conhecia me sumiam da mente quando me recordava apenas do seu par de olhos que sempre me encaravam de uma forma diferente. Nossas roupas estavam espalhadas pelo quarto, mas eu sabia que ele havia despido minha alma muito antes disso tudo acontecer.



Meu celular tocava irritante no pequeno móvel ao lado da cama e o tateei da melhor forma possível para desligá-lo, me virando para voltar a dormir. Pareciam ter passado apenas dez míseros minutos desde que dormimos quando ouvi o celular tocar mais uma vez, me despertando para o horário na Magic. Me levantei ainda um pouco desmotivada, observei Gareth dormindo calmamente e sorri com os flashs da noite passada que perambulavam minha mente. Não queria acordá-lo e realmente não o faria, uma mensagem bastava. Me vesti apressada, ouvindo o celular despertar pela terceira vez porque eu sabia que sempre me acordava no último, desliguei-o e me curvei para deixar um beijo carinhoso na bochecha galês, juntando minha bolsa para deixar o quarto.
Fui descalça até a sala na tentativa de fazer menos barulho possível, atravessando o cômodo para me aproveitar do espelho que tinha ali me arrumando da melhor forma que me fora possível.

— Olá, querida. Bom dia! - uma senhora em trajes elegantes e cabelos loiros, milimetricamente arrumados em um coque se manifestou do outro lado da sala, sorrindo simpática, com uma xícara de café em mãos.
— Olá. Bom dia - respondi incerta.
— Desculpe minha indelicadeza, sou Karen ParenthWood, mãe de Gareth - ora, mas é claro que era! Os olhos são exatamente iguais.
— Muito prazer. Jones, trabalho com o Gareth.
— Na Magic! Magazine, certo? - assenti com a cabeça. — Oh! Sinto muito pelo seu acionista, entretanto não posso dizer que não conhecia seu pior lado... Acontece - comentou fria e automática.
— A senhora o conheceu?
— E como! Aquele desgraçado comprou um dos meus prédios e pagou apenas setenta e três por cento simplesmente porque quis. O problema foram as controvérsias que achou no contrato e tomou posse.
— Ele era um filho da puta esperto, não posso negar - dei de ombros.
— Então será um caso difícil de solucionar, ele deve ter colecionado inimigos. Segure a barra, querida - alertou desdenhosa, aumentando o finco que havia entre suas sobrancelhas.
— Bom, Karen, eu adoraria ficar, mas você sabe, aquela empresa não vai se conduzir sozinha, não é? - lhe ofereci um sorriso agradável. — Foi um enorme prazer conhecê-la, até mais - não a ouvi corresponder e sequer esperava que o fizesse, já que sua cara me julgava desde o primeiro segundo juntas no cômodo e ao sair, ainda podia sentir o peso do seu olhar julgador sobre mim.

Da mais rápida maneira, pedi um táxi que me levasse até em casa, sem enrolar para tomar banho e me arrumar, já que mais um dia me aguardava na minha querida –e catastrófica– Magic! Magazine.
Como de costume nos últimos anos, os saltos altos castigavam o chão e a cada passo, via um estagiário ou outro retornar a sua mesa apressados, quietos e focados em fingir que estavam deveras trabalhando.

— Bom dia, Nikki. Me atualize.
— Bom dia, senhorita Jones. Dominique Burke ligou, avisando sobre os e-mails com atualizações do caso para que tenhamos e possamos seguir a linha do tempo que traçaram. O senhor Cox pediu para avisá-la que há seu próprio candidato para acionista e requereu que fosse a sala dele o mais rápido possível.
— Certo. Tudo tranquilo, até então. Obrigada, pode ir - forcei um sorriso, sem mostrar os dentes, abrindo e folheando as pastas que estavam na mesa, na verdade, tentei, mas Nicole parada me encarando começava a me assustar. — Pois não, Nicole?
— Desculpe, senhorita Jones, mas é que no caminho pra cá, todos os dias, procuro me atualizar sobre os acontecimentos - começou incerta, travando em algumas palavras. — E hoje, as capas das primeiras fofocas matinais eram... Eram com a senhorita.
— Mas que porra...? - exaltei, sussurrando para mim mesma. — E o que dizem, Nicole? Quer saber?! Passe pra cá esse tablet. - a loira me entregou receosa e os resultados da pesquisa que mencionara eram imensos.

“Sem sequer deixar um acionista descansar em paz, Cleveland-Jones se anima em noitada.” – US Weekly.
“R.I.P.? Não para ela! Cleveland-Jones tira acionista da cartola após a morte trágica de um.” – Perez Hilton.
“Magic! Magazine vive romance com acionista back-up?” –The Drudge Report.
“Thank U Next? Editora Executiva de Magic! Magazine não quer saber de luto.” – Radar Online.


Fotos estampavam as manchetes sensacionalistas junto de enxurradas de piadas em duplo sentido. A casa de Kristaps parecia ter sido o cenário perfeito para que tanta estupidez pudesse ser disparada dessa forma, fora fácil para eles. E queriam o quê? Likes? Patético. O pior era ver a lista infinita de manchetes desnecessárias e cada vez que atualizávamos a página, elas se multiplicavam.
Eu, geralmente, era quem dava as manchetes. Mas hoje, eu era o motivo delas.

— Não sabia se já havia visto, então achei melhor avisá-la.
— Fez certo. Não há problema, não quando eu tenho minhas cartas na manga -suspirei, recobrando meu ar confiante. — Obrigada Nikki, provou mais uma vez o tamanho da sua lealdade. Vou até o Cox - revirei os olhos. — Ah sim! Ligue no Lounge e peça o B-Fast7, dois muffins: chocolate e mirtilos. Pode dispensar o café, vou pegar da máquina, peça que entreguem na sala de - saquei meu celular e no caminho até meu querido co-worker, digitei uma mensagem de agradecimento a Gareth. — Não toque nesse telefone Anna. Eu não preciso ser anunciada - ordenei ranzinza já girando a maçaneta da sala daquele sem-vergonha. — Céus, , converse com a Anna e essa obsessão de ter que me anunciar, já fazem anos.
— Faz parte do trabalho dela. Não implique com a garota - riu nasalado.
— Fiquei sabendo que tem um acionista na mira - mordi o lábio inferior, contendo um sorriso, sentando-me à sua frente.
— Tudo indica que sim - sorriu presunçoso.
— Você foi rápido dessa vez - estreitei os olhos, encarando-o.
— Por incrível que pareça, querida . Se bem que não sou o único com um acionista no papo, não é? - foi a vez de eu sentir seus olhos sobre mim, estagnados. Não cruéis como em um interrogatório, mas confusos, como se tentassem achar a verdade em algum lugar.
— Você viu.
— Sim, . Eu vi. Então...?
— Então, o quê? - Anna irrompeu pela porta trazendo o pedido de café que ordenei à Nikki há pouco, me dando tempo apenas para ouvir murmurar um “vou buscar seu café” desconversado e automático demais para que conseguisse esconder algo. Tirei o combo da sacola, separando nossas respectivas partes já que não pretendia deixá-lo olhando porque sabia bem que, como eu, ele raramente conseguia tomar café em casa.
— Gareth, huh? - comentou dando de ombros.
— Pois, é - me limitei, sem querer estender as fofocas que eram difíceis de se engolir por si só.
, me diz que essa promoção que quer dar a ele não tem nada a ver com sua vida pessoal.
— Me choca que você tenha coragem de me perguntar algo assim, Cox. Logo você, que mais do que ninguém sabe que eu não misturo as coisas - empurrei o muffin a sua frente, junto do croissant.
— Não me faz sentido algum, essa promoção, logo para ele e logo agora - contrapôs, calmamente.
— Isso se chama ressurgir das cinzas. Você deveria tentar.
— Bom, seguindo esse raciocínio foi que eu cheguei no meu acionista.
— Não espere que eu pergunte, honey.
— Melanie Vaughn.
— É o quê?
— Sim, Melanie Vaughn.
— Você reclama do Gareth, mas prefere a Melanie? - ri sarcástica. — Perdeu o juízo?
— Negativo. Ao meu ver ela é tão promissora quanto o seu imaculado protegido.
— Ela pegou carona no negócio que o próprio pai fundou - suspirei. — Se for pra paparicar o pai dela e tê-lo nas mãos, eu aceito. Ele é dono de metade de Manhattan!
— Aí é que você se engana, porque o pai não vem no pacote.
, ela não vai fazer nada além de babar em você pelos corredores o dia inteiro!
— Isso não é bem um problema - sorriu angelical. Filho da puta. — Á não ser que seja um problema para você, querida - o cerrei os olhos.
— Não é problema algum meu bem, mas caso esteja carente recomendo Tinder ou PornHub em casos mais específicos, ao invés de colocar a empresa em perigo.
— Aceitá-la é o único jeito de que eu aceite o seu protegi... o Gareth - corrigiu-se propositalmente.
— Isso é algum tipo de chantagem? Porque, se for, eu recomendo que não faça debaixo do teto da minha revista - alertei calmamente. — Os efeitos colaterais podem ser terríveis - sussurrei intimidadora, soltando um meio sorriso, quebrando o gelo.
— Eu não ameacei ninguém, mas isso, com certeza, foi uma ameaça - sorriu vitorioso e céus! Eu odeio esse sorriso!
— Pois bem, aproveite seu muffin, porque, essa vadia aqui, tem algumas peças pra mexer nesse tabuleiro - pisquei marota e me levantei, para rumar à minha sala novamente.
— Não remexa demais o tabuleiro, , ou eu invoco os mariachis! - disse por fim, bem humorado e exibindo mais um dos sorrisos que eu odiava me dando a deixa pra sair em passos rápidos e confiantes como de costume.

Virei minha cadeira em direção à visão de NYC que me ajudava a pensar. Cox estava determinado de uma forma que poucas vezes vira antes e aparentemente, algum coelho da cartola eu haveria de tirar ou essa ideia ridícula permaneceria viva demais para que pudéssemos reverter.
Ter Melanie abaixo do mesmo teto era uma ameaça viva e constante. Ela sabia demais e seria como assinar a carteira de trabalho de uma bomba-relógio. Um risco alarmante demais para trabalhar junto de mim e este era o tipo de coisa que não intimidava a mim. Pelo menos não diretamente, porque desta vez, o protagonista era Rui. E tudo o que o afetava, me atingia também. Não porque tenho algo a ver, mas porque faria questão de tomar suas dores independente do quanto custasse.
O estranho era pensar no problema de e aquele sorriso cafajeste surgir na minha mente. O mesmo sorriso que me refugiou durante anos e o mesmo que quase me aniquilou na mesma intensidade. Era a minha cura e minha doença. Veneno e antídoto. E apesar de dizer odiar, em nenhum segundo de todos esses anos, eu amei, sequer um por cento a menos do que no primeiro dia.

— Alguma mulher em chamas por aqui? - Blair irrompeu pela porta, sorridente como em cem por cento das vezes e agradeci por apartar meus pensamentos. — Porque se Gareth ParenthWood passasse a mão em mim, eu ficaria em chamas como uma usina! - abanou-se dramática, se sentando apressada a minha frente.
— É o que dizem as revistas, certo? - comentei sem humor, vendo-a soltar um muxoxo.
— Sim, querida, essa parte é horrível. Mas, se pensar pelo lado positivo, você é uma celebridade que eles seguem. Oh! Em uma delas te chamaram de Nova Anna Wintour! - bateu palmas animadas e eu apenas ri, do seu próprio entusiasmo. — Vou precisar implorar pra conseguir alguns detalhes?
— Não aqui. Você sabe como é... A “rádio corredor”.
— Então não marque nada para hoje, quero saber os detalhes quanto antes!
— Cuidado com o tom porque a última vez que chequei ainda era sua chefe - sorri brincalhona, vendo-a me acompanhar, mostrando o dedo do meio.
— Que bom que estão juntas! - brotou , com o mesmo sorriso que vira há pouco, como se não estivesse tentando afundar a empresa. — Queria mesmo falar com vocês.
— Homem, me dê dois minutos de paz! - revirei os olhos. — E outra, o que virou isso aqui? Clube do livro?
Hey Anakin²! - minha melhor amiga fez uma voz cômica, como quem interpretava o personagem.
Olá, Obi-Wan³! - Cox respondeu como Blair.
— Céus! Quanto tempo faz que não maratonamos nossos filmes? Já estou esquecendo as falas! - levantou-se exclusivamente para dar um soco de leve no braço do meu co-worker.
— Acho que precisamos maratonar o mais rápido possível, tipo, para já!
— Ah! Que saudades do meu parceiro de filmes! - a loira o abraçou pela cintura, que correspondeu, sorridente.
— Querem que eu saia pra ficarem mais à vontade? - encarei-os entediada.
— Calminha, queen bee, já íamos te convidar para a maratona de Star Wars - ele ironizou, cravando seu olhar ao meu.
— Agradeço, querido, mas eu passo. O que quer afinal de contas?
— Abel vai passar lá em casa mais tarde e queria saber se não queriam ir também. Pelos velhos tempos da faculdade.
Aquele Abel? - Blair petrificou.
— Sim, B. Esqueci de te contar, estávamos na delegacia com o Burke e antes de irmos embora, demos de cara com o Abel Benitez. Melhor amigo de e sim, eles continuam exatamente a mesma coisa juntos!
— Um nerd, amava Star Wars também - ajudou-a lembrar. — Ele tinha uma queda terrível por você!
— Não acredito! O esquisito de barba falhada?
O próprio! - dissemos juntos.
— Não acredito que ele tinha uma queda por mim, nunca disse nada.
— Ah! Tinha medo da sua reação, tímido demais e etc, coisa de nerd.
— Você também era nerd e vivia se declarando para a descaradamente, ele poderia ter seguido o seu exemplo.
— Está tão interessada que quer mudar o passado, B? - provoquei-a
— Eu topo muito trombar esse nerd medroso e esquisito depois de tanto tempo! -exclamou determinada criando um finco entre as sobrancelhas.
— Não foi você mesma que me ordenou que não marcasse nada para hoje, há exatos cinco minutos atrás senhorita Mitch? - como um poço de maturidade, a loira limitou sua resposta apenas dando de ombros.
— Bom, eu acho que isso é um ‘sim’. E você, , vai? - perguntou incerto.
— É pelos bons tempos da faculdade, certo? - sorri. — E alguém tem que levar seu amado vinho branco.
— Não leve nada, , não se incomode.
— Faço questão.
— Claramente estou sobrando, então vou voltar para o meu departamento.
— Já estou de saída, Blair - se adiantou o homem. — Vejo vocês duas mais tarde - Disse por fim, se dirigindo a porta enquanto eu inspirava seu perfume que continuava forte e impregnado no local, ouvindo desconexas ao fundo, as coisas que Blair falava, sem prestar atenção me afundando em tudo que ele me fazia sentir, com tão pouco.



Na busca incansável por nos redimirmos, os dias pareciam ainda mais longos na revista e por algum milagre enquanto estávamos em baixa, havíamos em mãos contratos expressivos como os da nova companha inédita e bilionária em parceria com a casa de design de moda de luxo americana Kate Spade. Desta forma, Choi não continuaria como pauta principal da Magic, não quando as contas estavam milimetricamente calculadas e após cairmos, estávamos desvalorizados o bastante para poder dizer que essa era nossa única chance de portar uma campanha de luxo. O contrato na mão de Rita Ora nos dava mais uma esperança e assim que recebêssemos aquela assinatura, poderíamos respirar –um pouco– em paz.
Eram ajustes aqui e ali que vestiriam uma revista inteira, no final das contas ainda haviam as fotos experimentais que eram essenciais, para os ajustes e mudanças antes de que tudo fosse finalizado no próprio ateliê de costura.
Essa foi uma jogada certeira, já que a Marie Claire e TIME estavam com Tessa Thompson na capa, InStyle com Priyanka Chopra, Paper com Kourtney Kardashian e as capas da edição anual da Vanity Fair Hollywood estavam dando o que falar, já que reúne as estrelas mais promissoras: Chadwick Boseman, Saoirse Roman, Timothée Chalamet, Rami Malek, Yalitza Aparicio, Regina King, Nicholas Hoult, Tessa Thompson, Henry Golding, John David Washington e Elizabeth Debicki,
Passei por lugares que há tempos não visitava em Manhattan durante o dia inteiro enquanto testava e aprovava os tecidos das coleções, assim como os books das modelos que demonstrariam as criações. E é por isso que nos custaria tanto dinheiro e seria nada mais, nada menos que a cartada final.
Encostei as costas na parede do elevador enquanto aproveitava os segundos de silêncio e fechei os olhos, suspirando e descansando enquanto me foi possível. A maioria dos funcionários já arrumavam suas coisas à medida que o sol se punha, pintando os corredores de alaranjado e ao passar por Nikki que se organizava, a ouvi já se despedir. Busquei um café na máquina e permaneci no corredor, cada vez mais quieto, observando a grande Nova Iorque ainda mais apressada no horário de pico. Respirei calmamente pela primeira vez no dia, distraindo-me apenas com o silêncio só por alguns momentos que não contei, me dando um momento de paz. Ou pelo menos o que eu pensava.
— Parabéns , é incrível como você mantém essa empresa na ponta do lápis - a voz estridente se anunciou atrás de mim, e eu me virei.
— Melanie. Fico feliz que tenha notado, inclusive que surpresa a ver aqui - forcei um tom simpático que fora estranho até para mim mesma, percebendo que o alaranjado nos corredores não ultrapassava o forçado de sua pele, que era como Donald Trump de megahair.
— Não nos falamos desde o jantar no The Plaza. Tenho tanto pra te contar!
— Melanie, os termos do contrato preci... ! - pigarreou. — Oi! Achei que estaria no ateliê da Kate Spade - Melanie pegou os papéis das mãos de que me encarava como quem queria ler minha mente, quando estava num turbilhão, e um verdadeiro turbilhão de xingamentos. Nunca fui religiosa, mas agora eu rezava vinte Ave Marias para que ele não tivesse feito o que eu achava que tinha.
— Teremos tempo pra falar de tudo agora... Boss! Até amanhã, querida! - deu uma última piscadela para um que continuava mudo e saiu saltitante e alaranjada como de costume, até o elevador. Respirei fundo, arqueando a sobrancelha e me dirigindo a minha sala, sendo o suficiente pra que ele me seguisse.
— Me diga o que você fez - sussurrei entredentes.
— Fiz o que era necessário - respondeu simplesmente.
— Coincidência. Porque eu estava prestes a fazer o mesmo antes de você agir pelas minhas costas!
— Cacete, ! Tento preencher esse cargo desde que essa bomba caiu sobre a empresa e nada até agora. Só ela aceitou. Ela tem o dinheiro e a influência que precisamos.
— Gareth era o candidato perfeito, sabe disso. Conhece exatamente como trabalhamos, é versátil e tem o dinheiro e a influência. Por que caralhos tinha que me esfaquear pelas costas?
— Sei que vai promovê-lo, e ela é um plano B caso seu príncipe vire um sapo.
— Se aquilo já era um contrato como o conseguiu sem minha assinatura?
— Pelo Estatuto de Diretoria Única, onde a cada...
— Cada seis meses, um membro da Diretoria coata alterações sem que careça de outrem - completei-o, cruzando os braços e suspirando, porque pelo que tudo indica, eu precisava levantar bandeira branca. — Parabéns por usar uma lei interna e fez por debaixo dos panos. Você foi sujo.
— Se quer saber, não tenho o remorso que quer que eu sinta e faria tudo de novo. Foi pela empresa e estou farto de ter que acatar tudo o que a “Dama de Ferro” da capa da Forbes tem a dizer. Eu também sou Diretoria, Jones. Aceite! - esbravejou rude e de narinas infladas.
— Fora. Agora.
— O prazer é todo meu - respondeu tão cruel e seguro quanto eu. Os olhares cravados, os ombros tensos e os maxilares travados eram intensos para ambos e nos diziam que aquilo acabava ali. Ele bateu a porta ao sair e eu quis descontar da mesma forma, mas pensei em uma melhor maneira, marcando com Gareth uma reunião o mais rápido possível.

Li algumas vezes a mensagem do galês que confirmava sua passagem pela empresa na manhã seguinte, o mais cedo possível e um sorriso brotou no canto dos meus lábios.
Em um restaurante próximo pedi algo que pudesse comer já que estava faminta enquanto ia aos Arquivos da empresa, esperando que o tempo passasse mais rápido e na esperança de achar algo que competisse à altura do nocaute que Cox me dera. Uma brecha, um contrato de Responsabilidade Única... Não sei o que é, no entanto sei que preciso. Peguei duas caixas de Estatutos, Leis e Constituições da Magic, empilhando-as para levar até minha sala. Iria revisar cada regra de Admissão e Diretoria daquela empresa até achar uma que me favorecesse e isso poderia tomar um bom tempo.
A recepção me avisou sobre o pedido que chegara e eu desci para receber, desta vez, o Buddakan receberia uma gorda gorjeta pela rapidez. O cheiro delicioso da comida se espalhava na sala e abria-me ainda mais o apetite, fazendo do yakissoba o melhor do mundo. Enquanto comia, percebi meus ombros pesados pelo cansaço e as horas que adentraram com a noite apenas contribuíam com isso.

— Achei que jantaríamos juntos - apesar de me sobressair com o susto, não tirei os olhos dos documentos. — Com Abel e Blair, na verdade. Desculpe, não queria te assustar.
— Vou mais tarde, Blair não deu sinal de vida ainda - respondi automaticamente.
— Olhe, , não quer ir, tudo bem. Apenas não impeça Blair de ir.
— Não perderia esse remember por nada! - olhei de relance apenas para lhe lançar uma piscadela, retomando meu foco anterior.
— Não quer ir agora? Já estou de saída.
— Ainda estou trabalhando, mas obrigada - o ouvi suspirar e passar a mão pelos cabelos já nem tão arrumados assim, se dando por vencido, e puxando a cadeira de frente para mim.
— Se quiser promover o Gareth, eu vou assinar. Não precisa procurar por brechas para contratá-lo sem o meu aval - disse simplesmente, totalmente diferente da forma que o vira momentos atrás.
— Por quê?
— Por que, o quê?
— Por que assinaria assim tão facilmente?
— Ainda não confio nele, mas é você quem está pedindo, ... E não há nada que eu consiga negar a você - Cox soltou um sorriso melancólico deixando que seus lábios formassem uma linha reta e eu engoli em seco, tentando –em vão– disfarçar a forma como meu coração disparara com tanta facilidade. Pigarreei, mantendo a postura.
— Dessa forma, só me resta discutir os novos termos com ele - fechei as pastas na tentativa de fugir do olhar do homem a minha frente. — Obrigada. Podemos ir?
— Sim, claro - ele se levantou e tomou a frente, seguindo até a porta para que eu passasse e eu estranhei um bocado, já que não era sempre que Cox me dava essa honra, inclusive, quando o mesmo se repetiu no elevador antes que chegássemos ao seu belíssimo Chevelle 70’.

O bairro de Chelsea estava mais encantador do que me lembrava e tão acolhedor que parecia ter saído de um filme de comédia romântica, sem contar que a paz dali era renovadora, o silêncio nem de longe parecia Manhattan. Uma das maiores vantagens do bairro era estar entre os centros comerciais turísticos e a serenidade dos restaurantes intimistas. Já , continuava exatamente da mesma forma, tanto no gênero indeciso para decoração como nos gêneros de filmes que colecionava junto dos boxes de séries. No entanto, a sua estante repleta de livros, era um festival de suspense e ficção científica, sem explicar de forma alguma como fora terminar na Magic.
Por último e não menos importante, sua casa cheirava a um misto de leite de amêndoas com o seu perfume, que muito provavelmente exalava dele próprio.
Desvencilhado da gravata e dos primeiros botões da camisa social, Cox dobrou as mangas até os cotovelos e eu queria poder dizer que não memorizei cada movimento seu detalhadamente através do reflexo perfeito que tinha dele pelo espelho no corredor.

— Lembro que te prometi um vinho - engoli em seco, chamando minha própria atenção, por mais ridículo que parecesse. — Vou buscar um por aqui mesmo, não me demoro.
— Tenho vinho aqui, se importa de pegar pra nós? - neguei com a cabeça. — Antes da segunda porta à esquerda, tenho uma adega e a maioria é branco, eu sei, mas tenho mais tintos lá em cima, se quiser - ele disse mais alto para que eu pudesse ouvir enquanto me dirigia até o cômodo, estudando os vinhos com suas nacionalidades e as safras, buscando o mais propício pro momento. Optei por um tinto suave e um branco Château Palmer, de 2005 que faria da bebida, definitivamente, pontuada e aveludada na medida certa.
— Ouvi falar muito bem desse Château Palmer, deve ser maravilhoso - comentei simplesmente, ao chegar à cozinha.
— Esse tinto, Rui me deu de aniversário junto de um petit verdot que me fez parar de recusar os tintos de vez.
— Rui quer nos ver alcoólatras! - ri e ele me acompanhou, colocando duas taças sobre a bancada, nos servindo do tinto primeiro. Propôs um brinde que acatei sem pensar duas vezes, sentindo a suavidade e a acidez se misturarem na mesma proporção conforme a bebida tomava minha boca.
— Definitivamente, tenho um tinto favorito. Mas... O vinho não será tão bom sem um jantar, então mãos à obra!
— Dependendo do total de vinho que bebermos nem vamos lembrar de jantar algum! - pisquei brincalhona, olhando-o de soslaio quando beberiquei um pouco mais de vinho.
— Não me dê esse tipo de ideias, ! - respondeu dramático e risonho.
— Não acredito que você vai mesmo cozinhar, Cox! Achei que fossemos pedir algo.
— Gosto de cozinhar, é quase terapêutico. Sem contar, que eu estava levando em consideração que você fizesse aquela sua torta.
— A de maçã?
— A própria!
— Não! De forma alguma! - choraminguei um pouco, logo caindo na gargalhada. — Fazem anos que eu não faço aquela torta!
— Fazem anos que eu não como - ele contrapôs, me servindo de mais um pouco de vinho, continuando a me observar, esperando resposta.
— Tudo bem, tudo bem - me dei por vencida, mais facilmente do que imaginei. O vi fazer uma comemoraçãozinha ridícula, igual à que fazia nos gols dos campeonatos do último ano de escola e não segurei a risada, que contagiou ao homem também.

Cox me ajudou a separar os ingredientes para que eu ficasse na bancada enquanto ele continuava entre o fogão e a pia. Aproveitou para dar play na sua playlist e o primeiro a tocar fora Maroon 5, sua banda favorita de toda a vida com “Sunday Morning” que cantarolamos em alguns momentos. Um cheiro ótimo começava despontar das panelas que ele mexia no meio tempo em que se estabanava entre elas, rendendo gargalhadas entre nós. Depois de preparar a massa da torta, a separei em três partes para que pudessem descansar um pouco na geladeira enquanto preparava o recheio. Uma parte seria para forrar o fundo da assadeira, uma para fazer as tiras verticais e outra para finalizar as tiras horizontais em cima do recheio.

, prove esse molho. Está bom? - perguntou ele, jogando o pano de prato no ombro e direcionando a colher até meus lábios.
— Um pouquinho mais de pimenta, mas está ótimo! - aconselhei e me voltei para a bancada, cortando em fatias uma parte da massa que faria o trançado que cobriria a torta, pronta pra finalizá-la. As taças mantinham-se sempre cheias, ajudando nossas risadas saíssem mais livres do que o normal, até que a melodia soou. Can’t Help Falling In Love. Elvis Presley. Baile de formatura, nossa música.

Nos olhamos de imediato, claramente compartilhando da mesma memória e ele sorriu. Seus movimentos pareciam em câmera lenta quando desligou as bocas do fogão e se aproximando, eu já conseguia ouvir o que me dissera aquela noite.

“Tomei alguns ponches, eu sei, mas tenho apenas uma certeza e essa, é que eu quero dançar com você, .”



— Tomei algumas taças de vinho, eu sei, mas tenho apenas uma certeza e essa, é que eu quero dançar com você, - repetiu, tão galante e significativo quando anos atrás e eu não hesitei antes, então sequer pensaria em fazê-lo agora.

(N/A: Coloquem essa música para tocar).

olhos brilharam da forma que sempre me encantaram e os meus brilhavam da mesma forma, tinha essa certeza, porque, era intrínseco quando se referia a . E era intrínseco que eu me sentiria da mesma forma que me senti na noite do baile cada vez que me tocava. O coração que latejava enamorado desde o primeiro dia, batia tão intensamente a fazer jus de cada palavra que soava por nós.

Wise men say, only fools rush in
(Homens sábios dizem que só os tolos se entregam)
But I can't help, falling in love with you
(Mas eu não consigo evitar de me apaixonar por você)
Shall I stay? Would it be a sin
(Devo ficar? Seria um pecado)
If I can't help, falling in love with you?
(Se eu não consigo evitar de me apaixonar por você)


buscou por minha mão estática ao lado do meu corpo, que covarde demais, não tive coragem de enlaçá-la a dele, que quente demais, distribuiu pequenos choques conforme nos juntávamos. Este homem tem um poder quase sobrenatural e não havia nenhuma célula no meu corpo que ousasse recusar isso, já que cada poro se arrepiava perto dele.
Como todas as vezes.
E nada diferente de agora.
Como um ímã, encostei minha cabeça em seu ombro, sentindo a naturalidade com que nossos corpos, tão conhecidos um do outro, se movimentavam, em uma destreza que era inexplicável, senão, pelos corações que em seu ritmo próprio, gritavam por si só.
Fechei os olhos, sentindo as mil borboletas no estômago dominarem-me quando seu perfume, que ainda era o mesmo, me extasiava como à adolescente que era quando nos declaramos a primeira vez. Sua mão que passeava tranquila em minhas costas, me traziam de volta a sensação de abrigo que sentia com ele.
Deslizei a mão livre até sua nuca, em um carinho lento como a música para nos afundar ainda mais na bolha que o passado e o presente nos prendiam. Não sabia o que estava acontecendo, mas mesmo sem essa certeza, eu não queria parar. Não quando tudo que me fez apaixonar por este homem, estava, mais uma vez, ali na minha frente. Ele mesmo, sem tirar, nem pôr. E não paramos, mesmo quando a música acabou e começou uma bem mais animada, porém não havia nada que nos tirasse dali, simplesmente porque queríamos ficar.

Like a river flows, surely to the sea
(Como um rio que corre certamente para o mar)
Darling, so it goes somethings are meant to be
(Querida, assim algumas coisas estão destinadas a acontecer)
Take my hand, take my whole life too
(Pegue minha mão, pegue minha vida inteira também)
For I can't help, Falling in love with you
(Pois eu não consigo evitar de me apaixonar por você)



Acionista Controlador¹: Ele poderá direcionar com relação as atividades sociais, o funcionamento da empresa e ainda, é capaz de eleger grande parte dos que administrarão a empresa. Além disso, o acionista controlador responde pelos danos causados pelos atos relacionados a abuso de poder.
Anakin Skywalker²: Darth Vader é o protagonista da trilogia prequela e antagonista da trilogia original da série de filmes Star Wars.
Obi-Wan Kenobi³: É um personagem da série Star Wars.




Continua...





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