BoundByBlood
Finalizada em: 21/04/2018

Capítulo Único

- Encare os fatos, , eu já venci. – Falei para enquanto circulávamos um ao outro em nosso modo ataque. Ele girava sua adaga de treino habilmente, transbordando sua experiência e meticulosidade.
Eu esperava que ele viesse com mais uma de suas lições de vida Zen, sobre como não devo me gabar em uma luta antes da hora certa. Talvez nem mesmo falar durante uma luta. Não é como se um Strigoi fosse “confraternizar com o inimigo”. Na verdade só serviria para irritá-lo, ainda mais sendo eu o lado falante da conversa. Porém, para minha surpresa, o homem manteve-se calado em concentração, somente abrindo um meio sorriso presunçoso. Após anos convivendo com , você esperaria que eu já fosse capaz de prever suas reações. Porém, ele era o homem mais incoerente do mundo. Provavelmente eu era da mesma forma, por isso nós deixávamos um ao outro loucos.
Apesar da faixada controlada, eu havia descoberto tempos atrás, ainda em nosso tempo na St.Vladmir, que era exatamente como eu. Ele tinha que controlar seus impulsos a todo o momento e tentara me ensinar um pouco desse controle. Porém, acredito que fora ele que acabara aprendendo a arte do descontrole a qual eu era perita.
Impulsiva. Alguns me apelidariam disso. Contudo, em uma batalha contra um Vampiro Strigoi descontrolado, a agilidade de agir segundo meus instintos era algo que me deixava em vantagem. A única coisa que realmente conseguira me passar era como aperfeiçoar meus instintos e a ser um pouco mais paciente. Bem... Isso além de como decapitar, atear fogo ou empalar uma criatura sedenta pelo sangue Moroi. Ah, e também tinham todas as outras coisas que ele me ensinava, mas em um ambiente mais privado, fora do nosso horário de trabalho.
Estávamos de folga da guarda por dois dias e naquele momento passávamos pelo terceiro estágio de ócio. O primeiro fora um dia inteiro passado na cama, não no conceito divertido da palavra, mas se referindo ao bom e igualmente prazeroso (ou quase) descanso. O segundo dia fora passado no segundo sentido, saciamos nossa fome carnal. Primeiro como animais e nas vezes seguintes mais pacientemente explorando cada centímetro do corpo alheio.
Após uma pausa para um lanche que envolvesse realmente comida, entramos no terceiro estágio, o de treino, no ginásio da Corte. Agora, a luz da lua já penetrava pelas amplas janelas de vidro, iluminando naturalmente o tatame. Frequentemente, mesmo após minha formatura na St. Vladmir e meu novo cargo oficial como guardiã de Lissa, ainda atuava como meu instrutor. Mesmo tendo travado minhas próprias batalhas, inclusive à que há alguns anos havia me levado à Rússia para livrá-lo da condição de Strigoi, eu respeitava sua experiência e somente questionava suas instruções para irritá-lo. Afinal, como Mason costumava dizer, é um Deus com suas habilidades de guardião.
Balancei minha cabeça ao lembrar-me de meu amigo, que fora assassinado por um Strigoi. O estalo de sua cabeça sendo torcida, seus olhos perdendo a vida que costumavam ter... Culpei a mim mesma por muito tempo já que eu havia lhe dado a dica sobre Spokane. Em um esconderijo estavam Elena e Isaiah. Só de pensar no nome do assassino meu sangue começava a ferver. Mesmo com tudo que eu agora sabia sobre a alma remanescente desse tipo de vampiro – antes acreditávamos tratar-se de uma casca vazia de onde já existira uma pessoa, mas a descoberta da transformação de volta para Dampiro mudou um pouco essa concepção – não conseguiria perdoar nunca aquele maldito sanguessuga que no fim, pereceu por minhas próprias mãos. Foi assim que tive minhas primeiras marcas molnija – uma por Isaiah e outra por Elena – antes mesmo de ter tatuada a minha marca do juramento.
- Por que estamos no escuro mesmo, ?
- , concentre-se. – Suplicou, finalmente decidindo quebrar o silêncio e parando de andar abruptamente, me dando uma oportunidade de avançar pela primeira vez no que pareciam ter sido trinta minutos frustrantes de puro tédio. Eu ficara aguardando o momento certo para uma investida, mas sabia o suficiente para não deixar nenhum flanco vulnerável.
Ele esquivou-se facilmente de minha falha tentativa, porém não contava com minha agilidade de rolar no chão e golpear suas pernas com as minhas o bastante para desequilibrá-lo com uma rasteira. Porém, sendo meu , ele recuperou-se rapidamente e girou movendo sua estaca em um movimento fluido que quase atingiu a marca do coração em meu uniforme de treino.
Esperando que ele avançasse novamente, deixei que caíssemos no tatame, preparando-me para girar e ficar por cima assim que atingíssemos o solo. Porém, ele também estava esperando por essa e prendeu meus pulsos firmemente como algemas. Manteve meus braços acima do meu corpo e como costumava acontecer em nossos treinos privados, o foco letal em seus olhos foi transmutando-se em algo mais primal, agressivo.
Olhando-lhe de volta com a mesma fome levantei a parte inferior de meu corpo arqueando em desejo. O gemido gutural que ele deu em resposta combinado com o volume que senti em suas calças me disse tudo o que tinha que saber. Eu amava fazê-lo perder o controle. Aparentemente o treino tinha acabado. Aproveitando que ele afrouxou as amarras de ferro em que mantinha meus braços, eu puxei seu rosto para mim, sem precisar fazer muito esforço.
- ... – Rosnou ele quando paramos para recuperar o fôlego.
Seu cabelo, que antes estava preso em um rabo de cavalo baixo, agora se estendia como uma cortina cobrindo nossos rostos colados. À meia luz do recinto, nossas mãos começaram a viajar em suas próprias explorações. Suas costas, seu peito amplo e malhado. Suas cicatrizes de luta e suas nádegas musculosas. Todo o corpo dele gritava sensualidade.
Mesmo presa em minhas próprias expedições, não pude deixar de sentir seu puxão em meu elástico, para soltar meu cabelo que ele tanto desfrutava tocar. Fui levada por minhas recordações até a época de nossa fuga desenfreada quando acreditavam que eu havia assassinado a Rainha Tatiana. Sidney, e eu fomos fazer nossas próprias investigações enquanto meus amigos e família permaneciam na corte tentando limpar meu nome. Em uma dessas buscas, nós lutamos com alguns Strigoi. Fora a primeira luta de desde sua transformação de volta em Dampiro. Ele ainda estava muito instável e ao fim da luta naquele beco, a forma como parecia tomado pela culpa de tudo o que fizera enquanto ainda era um Strigoi, inclusive a mim, ficara marcada em minha mente. Ele estava tão belo e tão perdido que meu coração havia se quebrado em minúsculos pedacinhos assim que eu percebera sua expressão desolada e desesperançosa. precisou buscar algo que o fizesse esquecer toda a morte que nos cercava. Para minha surpresa, o que ele escolheu se focar fora meu cabelo. Sua fascinação por ele nunca fora apagada, então eu nunca o cortara ou mudara drasticamente.
Agora que éramos oficialmente um casal, mesmo que não fosse afeito a muitas demonstrações de afeto em público, não resistia mais a meus avanços. Seus meios sorrisos especiais direcionados só a mim tinham a capacidade de iluminar-me como uma árvore de natal. Eu não precisava de mãos dadas e carícias melosas como Christian e Lissa insistiam em fazer, principalmente agora que voltáramos à corte após o terceiro semestre de estudo dela na Universidade de Lehigh.
Como era guardião do Christian e eu de minha melhor amiga e agora Rainha dos Moroi (o que ainda era surreal para nós duas), nós vivenciávamos os amassos do casal em primeira mão. Eu divertia-me muito observando o quanto isso deixava meu namorado desconfortável, sendo ele todo tímido e contido. Após algum tempo juntos, talvez por ambos termos observado a quase morte um do outro tantas vezes, acabamos entrando em um delicioso período de carpe diem. Aproveitávamos cada dia juntos como uma dádiva, sem intenção alguma de desperdiçar o tempo, tendo em vista tudo o que já fora tirado de nós.
Enquanto me pegava com aquele homem glorioso que eu ainda não acreditava ser meu, divaguei sobre nossa história, o quanto era repleta de dificuldades que haviam sido vencidas. Tudo pelo nosso amor. Fomos deixando-nos levar até ouvirmos uma risadinha feminina e um grunhido masculino.
Se dependesse de mim, continuaria agarrada a meu deus grego ignorando quem quer que fosse. Porém, tinha outros planos e afastou-se de mim como se eu estivesse pegando fogo. Só faltava ele corar e fiz uma nota mental dessa ser minha próxima missão. levantou-se em um só movimento estendendo sua mão para levantar-me, mas depois manteve certa distância. Parecíamos até adolescentes pegos no flagra. Teria que atormentá-lo sobre isso mais tarde.
- Christopher. Janine... Abe está com você?
Congelei assim que ouvi a quem se dirigira.
- Mãe... – Disse, virando-me enquanto corava.
- Não, – Respondeu ela. – Abe ainda está em Los Angeles à negócios com a Sidney.
Com essa fala percebi os ombros de relaxarem minimamente e contive um sorriso. Zmey sabia como fazer aquela conversa de pai intimidando namorado. Olha que era um Deus. Estremeci imaginando pelo que meu ex-namorado Moroi, Adrian Ivashkov, teve de passar.
- Só se forem negócios da máfia – Resmunguei revirando os olhos, pensando nos tais empreendimentos que Ibrahim devia estava envolvido. Quando se tem um pai gângster, não tem como não pensar algo assim. Só o codinome dele, Zmey, já indicava que o que estava envolvido não devia estar completamente do lado da legalidade.
Para minha surpresa, minha mãe não partiu para a defesa dele como costumava fazer, indicando-me que algo estava errado.
- O que foi, mãe?
Ela olhou para Christian com um silencioso pedido de sigilo. Desviei o olhar para o Moroi que parecia estar prendendo uma gargalhada, com um sorrisinho sarcástico, ainda preso ao estado em que nos haviam encontrado. Estar alheio aos “assuntos de guardião” era algo atípico para ele, então aproveitei para manter o sigilo do que quer que fosse que Janine estava receosa de mencionar em sua frente.
- Hey, Cabeça de Fósforo! Já se cansou da Lissa? Quando os deixamos, vocês pareciam estar ocupados. – Eu repliquei, lançando-lhe um sorriso similar ao que ele estava me direcionando, assim que o vi fechando a cara.
- Ela tinha atribuições reais a atender... – Disse ele revirando os olhos e jogando-se no sofá perto da porta. – Na verdade, vim chamar vocês para uma sessão de treino comigo, a Mia e o Eddie. Mas aí encontrei Janine e ela disse...
- Temos coisas a discutir. – Disse minha mãe com a boca travada em uma linha firme. Algo que após anos de convivência eu sabia significar somente uma coisa: Problemas à vista.
Endireitei-me lançando um olhar de canto de olho para em advertência. Porém, este não parecia muito surpreso, só um pouco mais pálido que o comum. Observei a troca de olhares entre os dois preocupada.
- Vamos, . – Disse ele empurrando levemente minhas costas enquanto caminhávamos em direção à porta do ginásio.
- Tudo bem então – Respondi confusa. – Você vem faísca?
- Não, vou esperá-los aqui mesmo. . – Disse Christian com uma voz zombeteira. Ele sabia que a única pessoa que eu suportava que me chamasse por esse apelido era . Como este só o fazia quando estamos tendo um momento, digamos que mais quente, perguntei-me o quanto exatamente o Ozera vira de nossa pegação. Retesei-me ao lembrar que minha mãe estava com ele. Eca, pensei estremecendo.
Paramos somente para colocar nossas roupas de guardiões que faziam com que parecêssemos pinguins lutadores. Mencionei isso a Janine, porém o ar austero de minha mãe começou a me dar nos nervos. Assim que chegamos à sala de controle, estranhei a quantidade de guardiões que ali se encontravam. Até mesmo Eddie, que havia sido passado para trabalhos com menos ação, após ter matado um Moroi, mesmo que em proteção de outro, estava recostado no canto da sala com uma expressão estoica. Quase imperceptivelmente ele acenou para mim quando entramos no recinto. Encolhi-me com um meio sorriso, mais uma vez culpando-me pela posição em que ele estava.
Após a formatura, Eddie fora cobiçado pela realeza, mas agora realizava basicamente trabalho de escritório tudo porque decidira ajudar-me a provar minha inocência perante a Corte. Mesmo assim, nunca demonstrava guardar rancor, continuando a ser um de meus melhores amigos. Isso não era justo! Pensei incomodada enquanto me sentava. Já havia discutido muitas vezes com Hans, o chefe da segurança sobre isso, mas aquele idiota teimoso parecia nunca me escutar.
- Qual é a situação? – Disse , trazendo-me de volta ao presente e calando os que mantinham conversas paralelas na enorme e abarrotada sala de reuniões.
- É sobre a St. Vladmir... Suspeitamos que as Wards estejam sendo quebradas novamente! – Disse Janine suspirando.
- Temos certeza. – Ouvi uma voz familiar dizer enquanto saía de um dos cantos da sala junto a um homem alto, outra face familiar.
Sorri para Alberta e Stan em reconhecimento. Parecia que fazia séculos que eu não os via. Sendo encarregados da segurança da escola, não vinham muito à corte, só no passeio escolar anual para aproveitar o inverno na Corte e também fazer uma visitar uma estação de esqui.
Alberta foi para meu lado apertando meu ombro carinhosamente e Stan sempre impassível, lançou-me um meio sorriso que chegou a me deixar emocionada. Fora tão rápido que eu não teria percebido se não estivesse prestando atenção em sua face. Todavia, para alguém como ele e , pequenos gestos eram algo muito significativo.
- Precisamos de reforços. Nosso plano é trazer os estudantes para cá até o problema ser resolvido. – Continuou Alberta.
- Um transporte desse porte seria arriscado. – Disse uma voz na multidão, recebendo alguns acenos de aprovação.
- Sabemos que não é o ideal, mas...
- Não temos como deixar a corte desprotegida, ainda mais com a presença da Rainha aqui. – Disse Hans, porém não com um tom definitivo, mas sim, pensativo.
- Podemos simplesmente pôr em uso nossos Moroi voluntários – Disse eu causando uma onda de olhares reprovadores da maioria dos presentes.
- Que tal se... – Começou uma guardiã dos Ivashkov.
- Não! Ouçam, – Interrompi. – Eles alguma hora têm que ser postos em uso. Não adianta só dizer que vamos integrá-los à guarda. Se a lei passou, alguma hora deve ser posta em prática. Por que não nesse momento que nem temos certeza de que haverá algum ataque real dos Strigoi?!
- tem um ponto. – Observou Stan, arrancando olhares surpresos de muitos presentes que conheciam nossa conturbada relação que datava meus tempos estudando na St. Vladmir. – Faremos uma viagem curta em que parte do tempo estaremos no ar. Não precisamos que os guerreiros Moroi viagem até lá. Só que façam o percurso por terra conosco do aeroporto local até a corte.
- Então mandaríamos guardiões à escola para escoltar os alunos e deixaríamos alguns aqui junto aos Moroi, só para recebê-los... – Disse Hans. – Dessa forma eles estariam próximos à Corte caso houvesse qualquer ataque... Sim, pode funcionar.
Com isso, houve muitos suspiros. Alguns aliviados e outros em desacordo. Percebendo que a discussão se estenderia longamente, despedi-me de e deixei-os discutindo para ir procurar Lissa.
A falta de nossa ligação ainda me era estranha, mas eu não havia perdido a capacidade quase sobrenatural de sentir seu nervosismo. Às vezes suspeitava que ser beijada pelas sombras era algo que deixava efeitos permanentes, a despeito das explicações de Sonya Karp sobre como eu havia quebrado a ligação quando me curara sozinha do tiro que levei, anos atrás. Mesmo estando a quilômetros de sua alteza real, eu conhecia minha amiga o suficiente pra sentir sua agonia.
Chegando à sala do trono estranhei as portas fechadas e a carranca do guardião à sua frente.
- O que está havendo?
- Foi convocada uma votação real.
- Outra? O que querem dessa vez? – Perguntei, prevendo as horas de dor de cabeça que minha amiga teria que passar ouvindo os clamores da realeza.
- Flexibilizar a lei que permite famílias reais morarem fora da Corte. – Disse ele com uma careta.
- De novo?! – Perguntei cansada.
Após a prisão de Tasha Ozera e a morte de Tatiana Ivashkov a Realeza já não estava mais a mesma. A desconfiança que antes já tinham, chegou a níveis exorbitantes que levaram as famílias Moroi quererem fugir da bagunça que agora se encontravam metidos. Famílias como os Ivashkov, os Badica e os Zeklos tinham um quórum de guardiões suficientes para tal feito. Porém, os Conta, Voda, Szelsky e Taurus estavam presos à Corte por se tratarem de famílias menores.
Não era a primeira solicitação de redução de quórum que Lissa tinha que lidar. A última quase havia lhe rendido uma úlcera de tanta reclamação na cabeça da pobrezinha. Ela brincava que seus cabelos loiros estavam ficando grisalhos de tanta polêmica que insistiam em criar. Mesmo reclamando, Lissa, ou agora a Rainha Vasilisa Sabina Rhea Dragomir, como talvez eu devesse me dirigir a ela, havia nascido para governar. Tinha um jeito para diplomacia e de conseguir deixar as famílias reais pelo menos parcialmente satisfeitas que ainda me surpreendia com sua paciência infinita. Até parece que você que passou anos tendo aulas com . Eu frequentemente dizia provocando a ambos. Não sei como conseguiam aturar minha personalidade implicante, mas qualquer que fosse o motivo eu estava muito grata.
Acabei de conversar com o guardião de plantão e desisti de interrompê-la pensando que só iria aumentar a confusão naquela sala e simplesmente retirei-me para a cafeteria percebendo o quanto ainda estava faminta. Pensei no que Lissa me diria se ainda tivéssemos o laço e comecei a sorrir distraidamente. , como é que chegamos aqui, mesmo?! Ah sim... Voltamos para a St. Vladmir, você começou a ter aulas extras com o , Mason morreu. virou um Strigoi em uma das missões, você foi à Rússia para matá-lo, voltou, terminou a escola, o transformamos de volta em dampiro, você foi acusada de assassinar a Rainha, fugiu da Corte, me fez concorrer pela coroa, foi inocentada e eu venci a corrida para o trono. Isso tudo deixando de fora a meia-irmã que você descobriu que eu tinha para tornar-me elegível.
Fui refletindo sobre todo o percurso que havíamos feito até aquele momento, que entrei na cafeteria. Não havia nada que pudesse me preparar para cumprimentar a pessoa que eu veria tomando um uísque sentado em uma poltrona displicentemente.
Ele ergueu seu olhar para mim assim que me reconheceu, virando sua cabeça de lado como se não soubesse o que sentir.
- Pequena Dhampir...
- Adrian! – Disse eu com um saudosismo explícito em minhas palavras. Havia sentido falta daquele homem mais do que eu podia pensar. Além de ex-namorado, havíamos nos tornado amigos antes que eu quebrasse o coração dele sem piedade.
- Pode sentar... Eu não mordo. – Disse ele após alguns minutos de silêncio.
Peguei o sofá a seu lado, pedindo um Muffin para a atendente, porém sem desviar o olhar de Adrian.
- Você sabe como está Jill? – Perguntei curiosa.
- A Jailbait? – Perguntou ele com o rosto iluminando-se em afeto e alguma emoção indescritível. – Ela ficará bem. Aquela menina é uma lutadora.
- Sim, ela é. – Sorri lembrando-me de todas as brigas que ela havia lutado na Corte, sem ter a mesma paciência, muito menos diplomacia de sua irmã rainha, quando viera visitá-la. – Achei que você e os Ivashkov tivessem se mudado da Corte...
- Sim – Respondeu ele, virando o resto da bebida que ainda restava no copo. – Mas você sabe como sou, , Los Angeles ficou muito entediante para mim.
- Los Angeles? – Perguntei curiosa.
- Sim. Encontrei seu velho lá. A alquimista também. Sage, Sarah, Shonda... – Disse ele brincalhão. Contudo, seus olhos me diziam estar escondendo alguma coisa. Concentrei-me naquele momento em seus gracejos que tanto me faziam falta.
- SIDNEY! – Eu disse animada. Fazia muito tempo que não falava com minha amiga e ouvir falar dela duas vezes no mesmo dia só podia ser um sinal.
- Sim... Ela me pediu para entregar-lhe este envelope. Como eu estava passando por aqui mesmo, eu...
- Obrigada, Adrian. – Disse pegando o envelope, emocionada, sem nem deixá-lo terminar. – Você não me devia isso e eu ... – Engoli em seco antes de continuar. – Senti sua falta. Você era um ótimo amigo.
- Mas não namorado... – Falou, fazendo uma careta de desgosto.
Baixei meu olhar com culpa. Aquele sentimento que consegue dominar a gente em um piscar de olhos, jogando ácido em nossas veias sem piedade. Mesmo com o tempo que havia passado, eu ainda não havia me recuperado do que fiz com ele.
- Ei... Eu estava brincando. – Disse Adrian, levantando-se e beijando o topo de minha cabeça de forma carinhosa. – Também senti sua falta, Pequena Dhampir. Talvez...
Olhei para ele de forma esperançosa, bem a tempo de capturar seu rosto contorcendo-se em dor. O tempo havia passado, mas as feridas abertas com nosso término ainda estavam muito frescas. Isso ficava evidente na forma em que ele me olhava, e no modo em que cada movimento seu parecia berrar – a quem quisesse ver – Eu ainda te amo!
- Talvez possamos retomar nossa amizade... No futuro. – Continuou hesitante.
- Eu amaria isso, Adrian. Assim que você estiver pronto eu estarei aqui. – Eu disse esperançosa. – Quer dizer... Não aqui na cafeteria, ou na Corte, mas... Ah, você me entendeu.
Ele simplesmente assentiu e afastou-se, sumindo pelas portas duplas que davam para o pátio. Encarei o ponto que ele saíra por um tempo, finalmente obrigando-me a comer o Muffin que eu nem vira ter sido posto à minha frente. Nesse ponto, estava tão confusa e curiosa quanto ao conteúdo do envelope que ele me entregara que mal apreciei o sabor do bolinho.
Apressei-me para o quarto que eu e agora dividíamos na Corte. Era espaçoso, porém em nada como a cabana que havíamos comprado perto dali para quando estivéssemos oficialmente fora de serviço. Arrepiei-me só de lembrar o quanto a casa havia sido batizada com nossas relações carnais. Não havia uma superfície imune à nossa Luxúria naquele refúgio que a casa havia se tornado. Longe de todo o agito e a confusão das missões. Amava meu trabalho, mas tinha que admitir que viver para sempre em nosso abrigo isolado com meu guerreiro dampiro seria tudo menos entediante. Aquele calor da batalha, o olhar calculista, aqueles olhos que eu me apegava, não mais de Strigoi escarlate, mas no tom castanho escuro original que eu tanto amava... Tudo isso fazia com que aquele homem Deus do sexo e da batalha me deixasse subindo pelas paredes. era igual ao café, aquele líquido dos deuses: quente, forte e gostoso. Era ele que eu queria provar todas as manhãs e que me mantinha acordada durante as noites.
Meus pensamentos libidinosos foram interrompidos assim que atravessei a porta do quarto e abri o envelope que Sidney me enviara. Nele havia uma carta com uma caligrafia elegante indicando Abe Mazur como remetente e um celular pré-pago. Quando é que Sidney passaria a ser menos paranoica?! Pensei, balançando minha cabeça e sorrindo com minha piada interna.
Decidi abrir a carta primeiro, rasgando o selo cuidadosamente, mas curiosa para o que quer que meu pai fosse me dizer após meses sem dar notícias.

Filha,
Espero que esteja se cuidando. Não gostei nada de ouvir sobre o massacre que foi a expedição a Cape Code. Tenho notícias da família do em Baia. Karolina teve mais um filho, dessa vez com um Zeklos. Olena e Yeva estão bem, só preocupadas com Viktoria. Agora ela trabalha para mim. Pode parar com essa carranca que sei que está fazendo. Não vou colocá-la em perigo de forma alguma, mas a ânsia de luta que essa menina tem ia botá-la em problemas. Você viu o que aconteceu com aquele bastardo do Rolan Kislyak. Agora que ela terminou a St. Basil’s será bom que ela tenha algo em que focar sua mente.
Não é sobre isso que queria falar com você, na verdade. Tenho informações alarmantes sobre os Ivashkovs que você deveria saber. Aquele seu ex-namorado precisa da sua ajuda mais do que imagina. Não sei como ele conseguiu sobreviver àquela família de cobras traiçoeiras. Menos Daniella, é claro. Conheço-a bem o suficiente para saber que não está envolvida com aquela corja. Não me atreveria a explicar mais detalhadamente isso por aqui. Porém, há essa hora, a Sage provavelmente está para te ligar.
Mande um beijo para sua mãe e para Alberta. Não, melhor, transmita meus sentimentos a elas. Eu saberei se não o fizer. Boa sorte com a questão das Wards, a propósito. Sei que a situação não está nada bonita. Agora deve estar se perguntando como eu sei disso... Você me subestima, filha. Não se esqueça de falar àquele seu namorado para ele não se esquecer do que me prometeu e que ainda me deve uma expedição de caça. Eu levo minhas ameaças muito a sério.·.
Fique bem e continue me deixando orgulhoso,
Abe Mazur.”

Encarei a carta estupefata. Sabia que meu velho tinha suas fontes, mas saber sobre a questão das Wards, algo tão recente, ainda mais enquanto estava ocupado em outra missão, era algo surpreendente. Ri de seu pedido insensato. Sempre galanteador... Ele estava muito enganado se achava que eu mandaria o beijo dele para a Alberta! Ugh, ela era como uma segunda mãe para mim. Simplesmente não...
Meus pensamentos foram interrompidos com o toque do celular em minhas mãos. Bem na hora. Atendi na segunda batida, já ansiosa.
- falando. – Cantarolei.
- ! Como está? – Respondeu uma voz bem-humorada mas seca. Sidney parecia sempre estar pronta para fazer negócios.
- Confusa... Responde aí, Sid, como está a cidade dos anjos?
- Da mesma forma de sempre, espero poder sair daqui logo.
- Imaginei, o Zmey não te dá um descanso... Mas como você está?
- Estou bem. Sua confusão significa que leu a carta do Zmey?
- Sim... O que é isso sobre os Ivashkovs?
- Essa família é complicada, , mas esse problema não é o mais urgente. Tem algo que precisamos tratar antes. Está sentada?
- Pode falar. – Respondi, estranhando o suspense que ela estava criando.
- Jill Mastrano precisa de sua ajuda. Eu pedi para Adrian não falar nada, mas... Estou preocupada, . As decisões políticas de Lissa estão deixando alguns Morois irritados. E muito! A ponto de talvez chegarem a machucar a Jailbait.
- Jailbait? Quanto tempo você passou com Adrian, afinal? – Perguntei com um tom provocativo.
- Concentre-se, . – Disse ela fazendo-me bufar e guardar aquela linha de questionamento para um momento mais oportuno.
- Machucar a Jill? Explica isso direito, Sid.
Uma hora depois eu me deparava com mais um problema em meu colo e literalmente sem saber o que fazer. Meu primeiro dever era com Lissa, que não só era a rainha e minha Moroi designada, como também minha melhora amiga. A impopularidade de suas decisões fazia dela uma prioridade integral como minha Moroi designada. Além disso, nunca me esquecia da velha frase que era repetida para nós, dampiros, desde a pré-escola: Eles vêm primeiro. Ao mesmo tempo, porém, a situação com as Wards da St. Vladmir não parecia nada boa e eu mesma já havia praticamente me voluntariado a ajudar meus velhos professores. Agora, ainda havia o misterioso problema com a família de Adrian e as tais ameaças à Jill... Ela era como família e fora arrastada para essa confusão por mim. Eu me sentia responsável por tudo que concernia à segurança da irmã mais nova de minha melhor amiga. Todo esse senso de dever deixou-me simplesmente sobrecarregada. Da forma como eu me sentia, ligada no 220 volts, eu estava prestes a pegar minha estaca, reunir todos que eu amo, trancá-los em uma sala e guardar a porta. Na verdade, isso não seria uma ideia tão ruim...
Quando chegou ao quarto e encontrou-me andando indignada de um lado para o outro, quase cavando um buraco no chão e resmungando meus planos de sequestrar meus amigos e família, a princípio ele parou à porta e suspirou, permanecendo calado. Percebendo que eu mal havia notado sua chegada, andou até onde eu estava e pegou-me no colo, como se eu pesasse como uma pena. Em seus braços musculosos, ele tinha toda a minha atenção. Caminhou para a cama e deitou-me nela, permanecendo a meu lado. Finalmente, nessa posição mais que confortável, ele se permitiu questionar:
- O que aconteceu, ?
Mesmo que sua pergunta houvesse sido entoada com um tom displicente, eu conseguia sentir a preocupação em seu olhar penetrante. Estendi a mão para tirar de seu olho uma mecha de cabelo que havia insistido em rebelar-se. Tentei puxar seu rosto para um selinho, mas ele não permitiu nada mais que isso, aflito com o estado que havia me encontrado. Bufei batendo minha cabeça no travesseiro, frustrada.
- Tenho novidades nada animadoras. Advinha o que são? Problemas. Parece que eles acumulam-se para me atormentar. O universo não parece entender que só tem uma ! Não é possível que eu resolva tudo ao mesmo tempo.
Após uns segundos avaliando-me com seus hipnotizantes olhos castanhos escuros, deu-me outro selinho e virou-me para que eu ficasse de lado na cama encarando-lhe.
- ... Quando é que você não tem um mundo de problemas a enfrentar? Você sai querendo proteger a todos e eu amo isso em você. – Meus olhos brilharam com essa declaração que nunca falhava em me emocionar. Abri a boca para responder, mas seu olhar sério mudou a direção de minha fala.
- Tem um “mas” vindo, não tem? – Ele acenou, forçando meu rosto a encará-lo.
- Mas... para uma mulher tão forte, você é muito cega.
Olhei para ele confusa e com amor transbordando em meu peito. Sempre que ele me elogiava, por mais simples que fosse o elogio, meu coração conseguia encher-se de mais amor pela minha alma gêmea do que eu pensava ser possível.
- Cega? Você é que está ficando velho, . Já começou a vista cansada? Ou isso que estou sentindo é mais uma frase de filosofia Zen que vem por aí? – Fiz mais uma de minhas brincadeiras inapropriadas, ainda bem que ignorou-me solenemente acostumado com meu jeito.
- Você sempre consegue, . Não importa que o mundo diga que é impossível você faz ser possível. Você me resgatou das sombras. Descobriu uma forma de trazer-me de volta de ser um Strigoi. Como conseguiu isso? Tirando um criminoso muito perigoso de Tarasov, uma prisão de segurança máxima, ! Vasilisa não poderia ser rainha, mas você encontrou Jill Mastrano Dragomir tornando isso possível. Às vezes eu acho que não haja nada que você não possa fazer se colocar na sua cabeça que precisa conseguir...
Interrompi sua fala aproximando meu rosto do seu para beijá-lo profundamente. Ele beijou-me de volta com igual intensidade, parando somente para murmurar Olha que eu nem cheguei à parte que você desmascarou a assassina da antiga rainha provando sua inocência, quando todas as evidências apontavam para você. Ah, e também teve aquela vez... Seus sussurros foram interrompidos pelos meus lábios, calando o homem de forma definitiva.
Dessa vez foi a minha vez de ignorá-lo. , como sempre, estava certo. Não importava quantos problemas viessem em nossa direção, sempre dávamos um jeito. Porém uma coisa ele não havia acertado. Não era eu sozinha que era forte. Mas era a fé que meus pais e amigos como Eddie, Mia, Christian, Jill, Sidney, até mesmo Adrian tinham em mim que me dava toda a força que eu precisava para vencer a batalha que fosse. Aliados imprevisíveis como Mikhail, que agora morava feliz com Sonya Karp afastados da Corte. Mesmo Alberta, Stan e Hans, com toda a sua racionalidade e comprometimento. Todos eles que acreditavam em meus planos malucos o suficiente para arriscar tudo, apostando em mim. Eles eram meu clã, minha família e sem eles, eu não teria nem motivos para lutar ou a quem proteger. Principalmente minha melhor amiga e , que em nenhum momento haviam falhado em sua lealdade a mim. Recordei-me do que eu dissera a assim que eu tinha acordado de uma das minhas experiências de quase morte. Tratava-se do dia em que eu fora baleada após em fim provar minha inocência. Sobrevivi ao tiro de Tasha Ozera por ambos. Lutei para voltar para eles, últimas faces que eu vi antes de apagar por completo. Quantas encrencas não se meteriam, sem minhas ideias malucas para desafiar as probabilidades para enfrentá-las?!
Foi aí que constatei algo muito importante. Não era só o amor, a lealdade e as coisas boas que nos ligavam. Porém, também compartilhávamos algo a mais. A perda. Por isso, também tínhamos um tipo de laço mais profundo e significativo. Éramos também ligados pelo sangue. Algo eterno e imanente, quase etéreo, transcendendo os limites do impossível. Éramos Bound By Blood.




Fim.



Nota da autora: Olá pessoal! Espero que tenham gostado de minha espécie de continuação/retrospectiva, em uma adaptação de fã, da saga Vampire Academy escrita pela nossa maravilhosa Richelle Mead – lembrando que os personagens não são de minha autoria, mas sim dela. Afinal, um pouco mais de Romitri – esse casal perfeito – nunca é demais, não é? Tentei incluir o máximo de personagens da saga original e quis fazer tipo um recap de VA que pudesse sanar um pouco nossa saudade do cast. Para quem não leu, recomendo mil vezes e espero que tenha dado para entender algo da estória! Deixei um pouco em aberto o final, mas isso tem um motivo. Além de ter a possibilidade de uma continuação, que eu pretendo escrever, inicialmente ao menos, se prestarem atenção, o livro também deixa algumas coisas em aberto. Creio que isso faz parte da mágica da saga. A Rose sempre terá problemas a enfrentar e sabemos que ela dará um jeitinho maluco para resolvê-las. Não segui a linha do spin-off, então desconsiderem qualquer incoerência, por favor. Enfim... Amarei ler seus comentários seja elogiando seja criticando a fic, que sei que sempre tem espaço pra melhora rs. Beijinhos de luz e até a próxima!
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