Broken Boys Meets Broken Girls

Última atualização: 21/04/2018

Prólogo

observou cair de joelhos no chão vendo os paramédicos colocarem a maca coberta por um pano branco dentro da ambulância. O choque que ela sentia era tão grande que nem mesmo chorava. Apenas largou as mãos ensanguentadas no colo e observou a ambulância seguir caminho sem ela. Eles não podiam fazer mais nada para tentar salvá-lo, de qualquer maneira.
Ele se aproximou da garota, a culpa o consumindo rapidamente. Não havia sido ele a puxar o gatilho, mas não sentia como se fosse muito diferente. Tudo aquilo era culpa dele.

? – Ele chamou, mas não recebeu uma resposta. – , por favor, fala comigo.

A garota continuou em silêncio, mas ele podia ouvir a respiração pesada dela. Não via seu rosto.

– Eu te amo. Você sabe disso, não sabe?

E então a garota o olhou. automaticamente a abraçou ao ver sua expressão perdida e arrasada, mas ela o afastou no mesmo segundo. Ele sabia que algo do tipo iria acontecer. Ela poderia ignorar ele o quanto fosse, mas ele não ia desistir.

– Tem algo que eu possa fazer?

Ela balançou a cabeça para os lados discretamente.

– Eu sinto tanto. É tudo culpa minha.

não discordou, mas ele não se surpreendeu. Seria estúpida se pensasse o contrário e West pode ser qualquer coisa, menos estúpida.

– Eu sempre vou estar do seu lado. – Ele se abaixou do lado dela. – Se você não quiser voltar pra casa, pode ficar no meu apartamento. Eu não vou te deixar nem por um segundo, .

Quando ela não disse nada, ele a fez olhar pra ele com um leve toque no queixo. Naquele momento, lágrimas grossas começaram a descer pelo rosto da garota. Era sempre assim: ela guardava todos os sentimentos dentro de si, mas era só alguém tocá-la que era como se um botão fosse ativado e ela desabava.

– Hey, eu prometo.

Ela ficou mais alguns instantes em silêncio, mas em um momento seu rosto se transformou em puro hesito. Era como se ela estivesse arrumando coragem para dizer algo. E então ela disse.

– Eu também amo você. – Ela disse em um sussurro tão baixo que só teve certeza de que entendeu pelo movimento dos lábios. – Mas eu não acho que você é a melhor pessoa para ficar perto de mim agora.

Ele sentiu um déjà vu. O mesmo olhar decepcionado e arrasado que viu nos rostos de seus pais em uma delegacia de Londres. Era o que sempre acontecia: ele destruía tudo que tocava.

...
– Por favor, . – Ela implorou. Começava a chorar de novo e sua voz falhava em mais sílabas do que o normal. – Toda vez que eu olho pra você...
– Tudo bem. – Ele interrompeu antes que ela terminasse. Sabia exatamente o que ela ia dizer, mas não queria ouvir da boca dela. Então apenas aceitou, sem nem mesmo tentar discutir. – Eu entendo. Quando você estiver pronta pra falar sobre isso, sabe o que fazer.

Ela assentiu com a cabeça.

– Eu espero que você fique bem. E que consiga me perdoar. – Ele lhe deu um beijo na bochecha e levantou, virando as costas logo em seguida.

Se sentiu quebrado ao deixar ela ali sozinha, no meio daquele estacionamento abandonado, sofrendo por perder a única família que lhe restava, sem ninguém pra lhe dizer que ia ficar tudo bem. Mas sabia que era melhor do que ficar com ela. Quer dizer, como superar a morte de alguém tendo o culpado bem ao lado?



1- Thank You For Put Faith In Me

Londres/UK – 11 de julho de 2012

Era um dia lindo. saiu pela porta da frente e caminhou até o gramado, onde parou ao lado do carro, vendo sentada no banco da frente se olhando no espelho. Ela tinha cabelos tão escuros quanto os dele, mas seus olhos eram verdes como os de sua mãe. Se aproximou devagar e quando estava prestes a assustá-la, ela se virou e sorriu para ele.

– Nem vem, hoje é minha vez de ir na frente. – Ela disse.

fez um esforço mental, tentando se lembrar da última vez em que os dois saíram juntos. Se recordou clarnte de ela ter sido a última, o que significava que era vez dele. Mas não disse nada, apenas assentiu com a cabeça e se sentou no banco de trás.

– O Noah vai estar lá? – Ele levantou uma sobrancelha vendo que ela continuava a ajeitar sua pequena franja na testa. olhou para ele pelo reflexo do espelho e suspirou. – Eu vou apresentar ele para os nossos pais. Mas você é o único que sabe sobre ele, então fica de boca fechada.
– Deixa eu adivinhar: vocês vão se encontrar lá, vão fingir que é uma incrível coincidência e aí, vão contar tudo. Papai vai surtar por dentro, mas vai tentar se manter calmo, mamãe vai ser toda sorrisos e perguntas... E eu vou ser o responsável por te fazer passar vergonha. – Ele sorriu zombeteiro.

Ela arregalou os olhos.

– Eu não acredito que tô fazendo isso de novo! – Ela choramingou. se divertiu com a situação, mas não disse nada. Não queria magoar a irmã. – Vou desmarcar, talvez ele possa vir aqui em casa no sábado. Ou quem sabe podemos marcar de jantar fora? Vou contar para nossos pais hoje, e tudo fica certo.
. – chamou sem conseguir esconder seu divertimento. – Relaxa, um jantar está bom. Você pode fazer aquele frango que eu gosto, o que acha?
– Você sempre se aproveita da situação. – Ela revirou os olhos rindo.
– Eu chamo de dom. – riu e viu seu pai abrir a porta do lado do motorista. – Já tá tudo certo?
– Tá sim, sua mãe só vai terminar uma ligação e já vem. Vocês têm certeza de que estão levando tudo?
– É um piquenique em família, mamãe nunca nos deixaria esquecer alguma coisa. – riu.
– Disso eu não posso discordar. – O pai deles sorriu.

Liz, a mãe, se aproximou do carro e bufou ao ver que estava sentada no banco da frente. Abriu a porta e no mesmo instante foi para o lado, desocupando o lugar da janela. Todos olharam para ela enquanto ela se sentava.

– Por que eu sinto que vocês estavam falando sobre mim?

Todos se mexeram nos bancos e disfarçaram o riso.

– Não sei do que você está falando, querida. – Harrison disse ligando o carro. Ele saiu da garagem e começou a dirigir para o parque.

– Estávamos falando sobre o tempo. É um lindo dia, não acha? – comentou olhando para o céu.
– Comentei que é bom estar aproveitando um dia como esse...
– Vocês são péssimos mentirosos – a mãe riu. – Me lembro de quando a nos apresentou o Josh no parque. Ela achou que não sabíamos! - riu, sem graça. – Por falar nisso...
– Me diga que não tem outro cara esperando pra encontrar a gente lá. – Harrison disse sem conseguir esconder a careta que se formou em seu rosto.
– Era o plano inicial. – entregou com um sorriso.
! – suspirou irritada. – Certo, era mesmo o plano. Mas eu... Mudei de ideia. Vou convidar ele pra jantar lá em casa no sábado.
– Ele provavelmente já está lá, porque ele não fica para o piquenique com a gente? – Liz perguntou e pôde ver clarnte Harrison fazer outra careta enquanto virava em uma avenida lotada.
– Por que meu querido Jay aqui fez o favor de me lembrar de que foi assim mesmo que vocês conheceram o Josh. Namorado novo, método novo, não?
– Pare com isso, aposto que ele é adorável. Podemos ignorar esse fato, se quiser.

pareceu pensar por um momento, mas por fim se virou para trás, olhando para a mãe.

– Tudo bem, mas me prometa que não vai sufocar ele.
– Eu não prometo nada... – O pai murmurou, recebendo um olhar repreensivo de sua esposa. – Brincadeira.
– Prometo que vou me comportar. E você também, não é, querido?
– Eu? Ah, claro, como não poderia?

riu do nervosismo do pai.

– Muito obrigada. Nem mesmo vou pedir para o Jay, ele não vai cumprir.
– Eu sou seu irmão mais novo, é, tipo assim, minha obrigação fazer você passar vergonha.
– Você já tem 14 anos, não tá na hora de amadurecer?
– Você fala como se fosse muito mais velha.
– Eu te segurei no colo quando você era pequeno.
– Temos uma anciã na família.
– Liz, é impressão minha ou eles vão discutir? – Harrisson disse com uma expressão engraçada.
– Refresque a minha memória: é a primeira vez?
– Que eu me lembre, eles não são amigos?
– Eu me lembro disso. Se lembra que algumas noites eles até dormem juntos?
– Viu que eles dormem abraçados?

gargalhou.
– Me desculpa, , meu amor. E vocês dois podem parar.
– Mas e aquele...
– Pai... – O garoto riu.
– Tá bem, tá bem.
– Ei, . – chamou. – Coloque alguma música.
– Continua com a mania de música, né? – Ela ligou o rádio.
– Só me dando orgulho. – Harrison falou.
– Você tá querendo trabalhar com o seu pai, ? – Sua mãe perguntou.
– Nah, vocês sabem o que eu quero fazer.

Liz e disseram ao mesmo tempo:

– Desenhar.
– Fotografar.

riu.

– Os dois.
– E você pode conseguir tudo o que quiser. – piscou para ele.
– Sua irmã está certa. Mesmo que você com certeza vá mudar de idéia, mais ou menos mil vezes, como todo mundo.....
– Não, mamãe. Tenho certeza de que é isso que vai fazer. Ele tem talento e com certeza é apaixonado. Pra mim, isso é suficiente.
– Obrigado por botar fé em mim, . – sorriu e logo depois mostrou a língua para sua mãe, que riu.
– Sempre que precisar. É pra isso que as irmãs servem, né?
– Servem pra encher o saco, mas, é, isso também. – Quando viu revirando os olhos, riu e continuou. – Eu tô só brincando. Mas essa cena tá fofinha demais para o meu gosto. Que tal falarmos de como eu vou começar a fazer a pagar mico na frente do namoradinho? Eu pensei em começ...



2- Welcome To Michigan West High School

"I know they're thinking
You're too mean, I don't like you
Fuck you, anyway" – Afraid (The Neighbourhood)

(Eu sei que eles estão pensando
"Você é muito rude, eu não gosto de você"
De qualquer maneira, vá se foder)


Welcome to Michigan West High School, leu em um arco na entrada do local. Suspirou pesadamente e seguiu caminho, vendo um imenso jardim cheio de árvores e com grama perfeitamente aparada. Dezenas de grupos de amigos se reuniam debaixo de uma sombra, alguns fazendo piqueniques, outros apenas conversando. se sentiu deslocado, como se aquilo tudo fosse um sonho em segunda pessoa. Simplesmente não parecia que ele estava ali. Alguns meses antes, nem pensava em sair de sua cidade, muito menos do país. Achou que estaria bem àquela altura, mas as coisas não aconteceram como queria.
Ele estacionou em uma das vagas em uma área coberta do estacionamento e parou ao lado do carro, observando o colégio. Era composto basicamente por cinco prédios largos distribuídos – de forma estranha, constatou – no centro do jardim. Eles eram interligados por corredores cobertos por um teto de vidro que não permitia sombras de maneira alguma. Um deles, o que estava no meio, era o maior, com seis andares; os outros tinham apenas três. Bem ao fundo, perto de um pequeno bosque, havia um campo de futebol americano com arquibancadas vermelhas e brancas, provavelmente cores da escola. Na outra extremidade do campo, ele pôde ver uma área com piscinas. Dois ginásios e o estacionamento era o que restava. Em outras circunstâncias – mais precisamente: o antigo – teria adorado aquele lugar. Mas só havia uma bagunça impossível de ser arrumada dentro de sua mente, o que não lhe permitia gostar da experiência. Resistiu à tentação de acender um cigarro e, tentando expulsar aqueles pensamentos, entrou no prédio principal. Suas mãos tremiam, mas ele as escondeu nos bolsos de sua calça e caminhou pelos corredores procurando seu destino.

– Bom dia. – Um homem vestindo uma camisa social branca e blazer azul marinho o cumprimentou com um ar sério quando ele entrou na sala da diretoria. – Seja bem-vindo! – Ele disse e lhe estendendo a mão.

Ele estendeu a mão hesitantemente e o cumprimentou.

.
– Nervoso? – Ele perguntou olhando para a mão de , que a afastou rapidamente e a colocou de volta no bolso.
– Primeiro dia. – Ele forçou um sorriso tímido.
– Não se preocupe com isso, hoje é o primeiro dia de aula de mais alunos, assim como você. É muito comum chegarem alunos novos depois das férias de verão. – Ele sorriu. – Sou o diretor do colégio. Me chame de senhor West.
– Certo, senhor West. – disse assentindo com a cabeça.
– Aqui está seu horário de aulas e um mapa da escola. O seu armário e a senha estão junto com o horário. – Ele disse lhe entregando os papéis. – Não acho que seja preciso falar, mas eu dou muito duro para educar meus alunos, por isso não aceito que alguém quebre as regras ou saia da linha. Então, se você descumprir alguma regra, terá que arcar com as consequências. Sem segundas chances, entendido?
– Sim, senhor. – Ele disse.
– Ótimo. – Senhor West sorriu de novo. – Siga pelo corredor até chegar à sala de estar e verá escadas e elevadores; os dormitórios dos garotos ficam do lado esquerdo em todos os andares, acredito que vá ser fácil de encontrar o seu. Você vai ficar no dormitório 117 no terceiro andar, com Nicholas Schneider e Andrew Collins. Não são permitidos garotos nos dormitórios de garotas e nem o contrário.
– Certo.

seguiu o caminho que o diretor indicou. Ele entrou em um dos elevadores e apertou o botão para o terceiro andar. Uma voz feminina falava pelos autos-falantes dando recados e lembretes da escola. Ao sair do elevador, ele virou à esquerda como indicado e andou pelos corredores verificando cada porta em busca de seu nome. O encontrou quando já quase desistia de procurar, no fim de um corredor iluminado por grandes janelas que davam para o estacionamento. parou à porta e olhou para os nomes escritos nas plaquinhas de metal. Depois de um instante, abriu a porta e estava prestes a fazer uma longa análise do local quando viu um garoto de pele escura, cabelos molhados e vestindo nada mais, nada menos que uma toalha pendurada na cintura. Ele pigarreou, chamando a atenção do garoto.

– Ah, olá. Você deve ser o . Me chamo Andrew. – Ele estendeu a mão para cumprimentar o garoto. observou a mão dele com um olhar estranho até que ele percebeu o que se passava.
– Ah, me desculpe. – E correu para o banheiro.

balançou a cabeça e colocou sua mala sobre uma das camas desocupadas, que ficava perto da porta. O quarto era simples, mas grande, com três camas distribuídas em triângulo – a de de frente para a de Andrew e a outra de frente para as duas. Cada uma era acompanhada de um criado-mudo em cada lado. Além disso, havia três armários pequenos e uma mesa de estudos em frente à janela com persianas acinzentadas.
O garoto saiu do banheiro depois de alguns minutos acompanhados de um barulho irritante de secador usando uma calça justa e uma blusa de hóquei que era duas vezes maior que ele.

– Agora posso me apresentar direito. – Disse e estendeu a mão. o cumprimentou e viu que suas mãos paravam de tremer aos poucos. Se Andrew notou, não demonstrou. – Você não é daqui, é? – Andrew perguntou se jogando na cama.
– Como é que adivinhou? – perguntou sem interesse.
– Instinto. E você é branco demais, com certeza não é da Califórnia. Aposto que é de algum lugar da Europa. Hum... Irlanda?

o olhou como se ele fosse louco

– Inglaterra.
– Ah, eu gosto de lá.
– Já conheceu?
– Pra falar a verdade, não.
– Então, como gosta?
– Só tentei ser simpático.
– Que coisa.

Um silêncio desconfortável se instalou no lugar enquanto desfazia suas malas, mas ele foi quebrado quando uma coisa no fundo da bolsa chamou a atenção do outro garoto.

– O que é isso? – Andrew perguntou se aproximando.
– Nada que lhe interesse. – disse com a voz rouca e fechou a mala rapidamente, antes que Andrew conseguisse ver o que estava dentro. – E só pra constar: se você mexer nas minhas coisas, eu vou descobrir. E eu te faço se arrepender.

Dessa vez foi Andrew quem o olhou como se fosse louco.

– Qual seu problema?
– Ah, eu tenho muitos.
– Dá pra notar. – Ele cerrou os olhos. – Eu espero que você não seja assim o tempo todo, que só esteja chateado por mudar para outro continente e tudo mais.
– É, quem sabe eu não bata minha cabeça e vire um cara bacana?
– Você é realmente assim, ou só tá fazendo um papel pra tentar impressionar as pessoas?
– Você é chato assim, ou só tá tentando me encher?

Andrew o olhou inconformado e abriu a boca para falar algo, mas desistiu e suspirou impaciente, se jogando em sua cama.

– E o outro garoto? – perguntou apontando de relance para a cama que sobrava.
– Ah, ele já deve estar chegando. Estava na Suíça passando as férias.
– Nada como uma viagem de mauricinho para um garoto rico.
– Você é bolsista?
– Não.
– Então também é um garoto rico, deixa de ser mala.
– A diferença é que eu não me acho dono do mundo como os garotos ricos por aí.
– Claro, você se acha o bad boy todo poderoso.
– Cala a boca.

Andrew riu.

– Parece que esse ano vai ser uma bela merda.

suspirou. Eu não poderia concordar mais.
Alguns minutos se passaram e terminou de guardar suas coisas. Tomou muito cuidado para guardar aquela pequena caixa em um lugar bem escondido e longe dos olhos de Andrew. A porta se abriu e um garoto de pele clara e cabelos loiros – tão escuros que pareciam castanhos – entrou falando e rindo ao telefone. Ele puxava uma mala grande e que parecia ser bem cara. Assim que fechou a porta, ele desligou o telefone e o guardou no bolso da frente da calça.

– Andy, sai da minha cama.
– Oi pra você também. – Ele revirou os olhos e se levantou da cama.

Os dois se abraçaram brevemente e o garoto bagunçou o cabelo de Andrew.

– Como foi o feriado sem mim? – Ele colocou a mala em cima da cama sem nem perceber que estava sentado na cama logo atrás dele.
– Qualquer coisa sem você, é o paraíso.
– Outch. Ah, olá. – Ele finalmente disse se virando para .
– Olá. – Ele disse seco.
– Nem tenta. Aparentemente ele não gosta muito de pessoas. – Andrew disse.

revirou os olhos e se levantou da cama com um pulo.

– Ah, que isso? Eu sou Nick. – Ele estendeu a mão. O garoto olhou para a mão dele, inseguro, mas acabou a apertando.
. E para economizar papo furado: eu sou da Inglaterra e não, não achei a cidade interessante, afinal, eu estou aqui preso e não tive a chance de conhecer. Agora, se me dão licença, vou dar uma volta por aí. Se for pra ficar trancado nesse lugar, que eu pelo menos conheça ele. – Ele falou e viu que os dois garotos o olhavam atônito.
– Eu ainda vou descobrir que merda tem na sua cabeça. Porque é só o que deve ter aí dentro, pra você ser tão arrogante. – Andrew comentou.
– Talvez eu apenas seja louco. – Ele disse com um sorrisinho irônico e saiu do quarto.

caminhou pela escola e, depois dos primeiros cinco minutos, soube que nunca conseguiria ver tudo o que tinha a ser visto em apenas alguns minutos, como havia planejado. O lugar era gigantesco. A primeira coisa que ele fez foi entrar em uma sala de aula aleatória, para rever o ambiente em que estivera durante muito tempo, mas como se não estivesse mesmo presente lá.
As salas de aula eram todas iguais, exceto as como as de geografia, onde haviam pequenos mapas e gráficos básicos da matéria pendurados nas paredes, além de um tipo de vaso de madeira com mapas enormes enrolados dentro dele e um globo terrestre grande em cima do armário no fundo da sala. Os laboratórios, como eram indicados em suas portas, eram as salas fixas de química e biologia. Havia também uma sala de informática dividida em duas partes por uma parede e porta de vidro para conseguir suportar duas turmas de uma vez só. Deviam ter pelo menos 60 computadores ali e todos aparentavam ser novos. E, por fim, uma sala de música, onde haviam vários instrumentos variados e cadeiras com suporte para partituras.
No corredor que dava para o lado de trás da escola, viu a enfermaria, a secretaria e as salas do diretor, dos professores e da psicóloga. Mais à frente, ele abriu uma porta dupla, vendo um pedaço do jardim. Vários grupos de alunos – e alguns solitários como – andavam pelos caminhos de pedra que ele logo descobriu serem apenas pisos com textura. Todos pareciam agitados e ansiosos. Ele supôs que fosse por ser o primeiro dia de aula depois das férias. Bem afastada, à esquerda, havia uma estufa tão pequena que ele duvidava que uma sala inteira conseguisse ficar naquele ambiente ao mesmo tempo. O campo de futebol que ele vira um pouco mais cedo estava na sua frente, mas bem afastado da escola. Ele se aproximou dos ginásios, descobrindo que um deles era para natação. Então as piscinas do lado de fora são apenas pra lazer, ele pensou. Anotado.

Ele voltou para dentro do prédio principal e, ao andar cada vez mais para dentro, deu de cara com um refeitório enorme, com dezenas de mesas distribuídas pelo salão, algumas televisões penduradas nas paredes, e um balcão onde se via bandejas, pratos, copos e recipientes para colocar a comida. Não havia comida nenhuma ali, mas pelo cheiro que se alastrava pelo local, estava sendo preparada.

Em seu bolso, o celular começou a vibrar insistentemente. Após ver que na maior parte dos colégios internos era proibido o uso de aparelhos eletrônicos que não fossem disponibilizados pela escola, só havia aceitado entrar em um com a condição de poder ter seu celular e computador, ou nada feito.

Mom, ele leu na tela ao pegar o aparelho. Seu primeiro instinto foi ignorar a ligação, mas uma fração dele se sentiu culpado por ter ignorado ela desde dois dias atrás, quando chegou à San Diego.

Quando sua mãe lhe perguntou o porquê de San Diego, ele apenas disse: “Escolhi a dedo”, o que por um lado não deixava de ser verdade. Sua mãe pensou que tinha alguma coisa a ver com o fato de eles terem morado lá quando ainda era criança, mas ele nem se lembrava de ter conhecido a cidade. Tudo o que ele queria era um lugar onde pudesse ir para a praia. O que também foi uma condição quando seus pais perguntaram que apartamento ele queria. “Qualquer lugar pequeno que seja perto da praia”, foi a resposta dele.

Ele andou de volta para o jardim e se sentou em um daqueles bancos de madeira.

Finalmente. – Ela disse assim que ele atendeu.
– Me desculpe, eu estava ocupado com tudo e não tive tempo de pegar o celular. – Ele mentiu, sem querer dizer que estava ignorando de propósito, por não ter interesse algum em ouvir todo aquele papo furado de uma mãe que voltou a tratar o filho como bebê quando descobriu que ele é problemático. Você não precisa se sentir culpada por eu ser um babaca, ele tinha vontade de dizer.
Você chegou bem? Já está no colégio?
– Cheguei às 17h.
O fuso-horário é completamente diferente, então não sei que horas seriam aqui. – Ela riu. Quando não disse nada, ela continuou: – E como é? Você gostou? É do jeito que você pediu, sem nada faltando? Podemos te ajudar a escolher outro, se você quiser.
– O colégio é incrível, pra falar a verdade. – Ele admitiu.
Sério? – Ela perguntou surpresa com o fato de ele ter gostado de algo contra o qual havia relutado insistentemente. – Isso é ótimo, . Você já conheceu alguém?
– Não são do meu interesse.
Isso já é mais a sua cara. – Ela concordou tímida. – Mas fico feliz por você ter gostado. Talvez as coisas comecem a dar certo, e fique tudo bem.
– Para com isso. – Ele disse soando mais rude do que planejara.
Parar com o quê?
– Com esse otimismo.
Se eu parar com o otimismo não vai me sobrar mais nada. Porque aí eu vou parar de me importar e não é como se uma mãe conseguisse fazer isso com um filho. – Ela falou com um tom de voz mais baixo.
– Você recebeu alguma notícia? – Ele perguntou ignorando tudo o que ela falou alguns segundos antes. - Ela fez uma pausa.
Não, acho que está tudo bem, por enquanto.
– Certo.
Bom, eu só liguei pra saber como você estava. Agora tenho que ir.
– Tchau, mãe.
Me liga amanhã? – Ela disse, mas desligou no mesmo segundo.

Ele guardou o celular de volta no bolso de sua calça e entrou no colégio, seguindo caminho para o seu quarto.
Ao entrar novamente no quarto, Nick estava acompanhado de um garoto que não conhecia. Ele tinha os mesmos olhos e cabelos de Nick, mas era mais baixo e tinha feições mais leves. Nick segurava algo em suas mãos que o garoto tentava desesperadamente pegar, sem sucesso. Quando viram , apenas acenaram com a cabeça e continuaram com o joguinho.

– Aluno novo? – O garoto perguntou para Nick, como se não estivesse ali.
– É, o nome dele é . Não é muito de conversar. – Ele respondeu jogando o objeto para o alto quando o garoto foi para cima dele. Pegou de volta no segundo seguinte, recebendo um olhar atônito. – Ei, . – Nick chamou.
– Meu nome é .
, esse é o Derek. – Ele continuou, ignorando o que o outro disse. – Ele é o meu irmão mais novo, tá no primeiro ano. Derek esse... Ah, quer saber? Toma seu celular de volta. – Ele entregou. – Já cansei.
– Cansou ou tá indo encontrar a ? – Derek sorriu.
– É, isso também. – Nick riu. – Tenho que ir antes que ela comece a se preparar e não queira mais ver minha cara. – E então se virou para . – Espero que tenha roupas apropriadas, , todo mundo leva a parte de "gala" muito a sério.
– Não sei do que está falando, mas, o que quer que seja, não me interessa.
– Pois saiba que é um evento obrigatório para toda a escola.
– E que evento é esse? – Ele perguntou irritado, já que a última coisa que queria era ser obrigado a ir para qualquer evento.
– O show de talentos pra comemorar a volta das férias de verão. Depois dele tem um baile, com dança lenta e tudo mais. Mas não é permitido bebidas, por isso damos uma festa no sábado à noite pra compensar. Esse ano vai ser na minha casa, se quiser aparecer...
– Acho que eu passo.
– Como quiser. Mas, ?
– O quê?
– Não sei como costumava ser onde você estudava, mas você não vai conseguir nada aqui com essa atitude. Nós somos muito... Unidos, por assim dizer.
– Você tá me pedindo pra deixar de ser babaca?
– Exatamente.
– Não vai dar. Há coisas que não podem ser revertidas.
– Você fala como se tivesse crescido em uma prisão. – Nick franziu o cenho.

balançou a cabeça para os lados fingindo ponderar a questão.

– Mais ou menos isso.

Os dois o encaravam, como se esperassem que ele lhes contasse.

– Achei que você ia encontrar sua namorada.
– Certo, eu vou. – Nick disse lhe dirigindo um olhar estranho. – Derek, acho melhor ir encontrar seus amigos. não quer companhia.
– Acertou. – Ele pegou seu notebook dentro da gaveta ao lado da cama.

Nick esperou Derek sair e se virou para .

– Te vejo mais tarde, Grinch. – Ele sorriu e fechou a porta atrás de si.


O dia passou super rápido. se manteve no quarto o tempo todo, assistindo filmes na Netflix apenas para passar o tempo. Quando à noite começava a chegar, começou a ouvir murmurinhos no corredor, garotas chamando as amigas e risadas audíveis. Aparentemente, a festa era realmente um dia importante pra todos. Ele não sabia se tinha roupa apropriada para a ocasião. Não que se importasse em fazer parte daquela cena, mas era melhor isso do que chamar atenção por estar usando um moletom com touca. Por isso, assim que viu Andrew entrar para se arrumar, guardou o computador, se levantou da cama e foi até seu armário, começando a procurar por algo para usar naquela noite. Vendo que a única coisa que tinha era uma calça escura e uma blusa de botões branca, foi até o banheiro e tomou um banho rápido. Vestiu as roupas, dobrou as mangas até os cotovelos e tirou os cabelos dos olhos, que eram de um castanho escuro quase preto. Suas olheiras pareciam estar mais profundas do que nunca e seu maxilar, antes firme, agora era anguloso e magro.
Ao sair do banheiro, caminhou até seu armário e pegou um par de tênis que podiam se passar por formais, os calçando logo em seguida.

– Se quiser, posso te emprestar um blazer. – Andrew disse ajeitando a gravata em frente ao espelho. – Acho que usamos o mesmo tamanho.

Quando não disse nada, o garoto caminhou até seu próprio armário e tirou de lá um blazer escuro, perfeitamente passado. Ele colocou o cabide em cima da cama de .

– Não precisa agradecer.

observou o blazer por um momento, seus lábios formando uma linha fina por conta do sentimento de orgulho. Depois de um instante, pegou a peça de roupa e a vestiu, ajustando a manga na altura dos cotovelos assim como a blusa. Depois de fechar alguns botões, percebeu o que estava faltando. Foi até uma das gavetas da parte de baixo de seu armário e pegou uma gravata prateada – presente que ganhou de sua irmã quando estava para se formar no ensino fundamental. Ele observou a gravata por alguns instantes, imerso em lembranças.

– Você sabe dar nó? – Virou-se para Andrew.
– É uma das únicas coisas que meu pai me ensinou. – Ele caminhou até o garoto. – Bela gravata.

Quando Andrew terminou de dar o nó, se virou para o espelho. Aceitável, pensou.

– Valeu. – Ele disse vendo que Andrew ainda estava parado no mesmo lugar. – Pelo blazer e pelo nó.

– Mas olha só, ele sabe falar obrigado! – Andrew caçoou, fazendo revirar os olhos. – Brincadeira, brincadeira.

A porta se abriu com um solavanco e a figura de Nick entrou ofegante.

– O que diabos você tem?
– Tô atrasado. A ... – Ele parou para respirar. – Quer que eu encontre ela em 20 minutos.
Tic tac, tic tac...
– Andy, você é um péssimo amigo.
– Larga de ser chato. Enquanto você tá falando comigo, poderia estar tomando banho, não acha?

Nick olhou para a porta do banheiro e depois para Andrew.

– Certo. Você por acaso sabe passar roupa?
– Você vai ficar me devendo uma.
– Eu te amo. – Ele falou pausadamente e correu para o banheiro.
– Tudo isso por causa de uma garota? – script>document.write(Jayden) perguntou vendo Andrew abrir o armário de Nick e pegar algumas peças.
– Nick é louco por ela. Mas, pra falar a verdade, não acho que vá pra frente. – deu de ombros desinteressado, mas Andrew continuou assim mesmo. – Ele fica que nem um filhotinho correndo atrás dela, mas ela não dá a mínima pra ele. Eu nem culpo, afinal, é um pouco difícil aguentar o Nick. – Então pegou um ferro de passar, ligou na tomada e começou a esticar as peças em cima de sua cama. – Se quer saber, acho que ele é muito burro de namorar a filha do diretor.

Andrew finalmente terminou de tagarelar e colocou as roupas de Nick em cima de sua cama.

– Se me der licença, vou dar uma olhada no local da festa. – abriu a boca para dizer que ia sair dali, quando ele balançou a cabeça. – Acho melhor ficar de olho no Nick até ele sair, com certeza vai dar algum problema.
– E isso é problema meu desde quando? Você é a babá dele, não eu.
– A babá dele tá de folga por essa noite. – Andrew disse já saindo e fechando a porta atrás de si.

Um segundo depois a cabeça de Nick apareceu pelo vão da porta, com água pingando de seus cabelos.

– Por acaso você tem um barbeador?
– Que se foda. – murmurou e saiu do quarto, sem saber muito bem para onde deveria ir.

Não queria perguntar para alguém onde seria a festa, afinal, ficaria na cara que ele era aluno novo. Ele só queria ser invisível o tempo todo naquele lugar. Por essa razão, desceu pelas escadas – já que os elevadores estavam praticamente com fila de espera – e seguiu a onda de pessoas que passava naquela hora. Ele observava o caminho enquanto andava. Passou pelo refeitório, onde varias pessoas pareciam pegar pequenos lanches. Passou também pela sala do diretor, que estava trancada e com as luzes apagadas, e logo saiu pela saída do lado de trás do prédio. Alguns metros à frente, ele parou confuso, achando que tinha seguido as pessoas erradas. Foi quando ele viu que a onda de pessoas seguia para os ginásios. Ele caminhou até lá, vendo vários casais pelo caminho.
A primeira coisa que viu quando entrou foi um palco de pelo menos 1 metro de altura, coberto por uma cortina de veludo vermelha. À sua frente, centenas de cadeiras almofadadas estavam enfileiradas deixando apenas um corredor em seu meio. Dezenas de pessoas já se encontravam acomodadas espalhadas pelas cadeiras, um ou dois solitários e o resto em grupos de amigos, que conversavam e riam audivelmente.

– Poderia me dar licença? Você tá no caminho. – Ele ouviu uma voz feminina dizer atrás de si. Ele continuou parado no lugar, a analisando mesmo sem intenção. Ela ergueu uma sobrancelha depois de um instante. Ele deu um passo para o lado e ela seguiu caminho pelo corredor no meio das cadeiras.

ficou de pé durante alguns minutos apenas observando o movimento ou mexendo no celular. Depois de algum tempo, aparentemente todos haviam chegado, o que fez com que ele caminhasse ao lado das fileiras procurando um lugar para se sentar. Quando estava prestes a se sentar na arquibancada em algum lugar perto do palco por não encontrar, viu uma mão balançando ao alto na segunda fileira. Quando viu que era Andrew com Nick e Derek ao seu lado, quase escolheu ficar de pé, mas decidiu ir.
Recebeu olhares tortos quando quase pisou em alguns pés durante o caminho, mas finalmente chegou no lugar que os garotos reservaram.

– Achamos que você já estava sentado, por que não avisou? – Nick perguntou.
– Por que eu não estava procurando vocês. – Ele falou olhando fixamente para um ponto da cortina à sua frente.
– Parece que o "obrigado" do qual você nos contou é só uma lenda, Andy.

revirou os olhos, já se cansando das provocações deles. Ao perceberem que ele realmente não estava para brincadeiras, passaram a ignorar a presença dele ali, o que para foi um tremendo alívio. Depois de todos aqueles anos convivendo com pessoas completamente desagradáveis, para ele não era familiar ser cercado de gente querendo amizade, ou até mesmo apenas ser educado.
Não costumava ser tão rude com as pessoas, era mais paciente. Muitos diriam que tinha sido pela convivência, mas ele apenas descobriu porque os outros eram assim: era mais fácil.
Ele não podia contar a verdade para seus pais ou seus amigos, nem mesmo se quisesse.
Também não queria correr o risco de perder eles por culpa dele, então a solução mais simples foi afastá-los, fazer com que o odiassem. Era simplesmente mais fácil.
Saiu do transe subitamente quando ouviu uma voz saindo das caixas de som espalhadas pelo local. Levantou o olhar para o palco, onde viu o Sr. West vestindo um smoking e segurando um papel em sua mão. Quando todos ficaram em silêncio, ele aproximou o microfone dos lábios.

– Sejam muito bem vindos! Espero que todos tenham tido ótimas férias, que tenham aproveitado o tempo para fazer o que bem entendessem. Ficarei muito feliz se alguém tiver usado esse tempo pra estudar. – Ele sorriu brincalhão e risadas puderam ser ouvidas, acompanhadas de comentários como "Nem pensar!". – Certo, acho que não. – Ele riu. – Mas, ainda assim, espero que estejam prontos para continuar seguindo o caminho, afinal, muitos de vocês estão muito próximos da formatura. Nada de apenas aprovar, quero notas altas!
– Com esse discurso eu tô só desanimando. Ele tem mesmo que fazer isso todo ano? – Ele ouviu Nick dizer para Andrew.
– Mas chega de enrolação, vamos iniciar a festa. A primeira apresentação é de Lana Walters!

Ele saiu do palco e alguns segundos depois uma garota de pele morena e cabelos encaracolados entrou sorridente, mas evidentemente nervosa. Se posicionou no centro do palco e colocou o microfone no pedestal, esperando que a música começasse. reconheceu na hora, era uma música da Adele que tocava nas rádios o tempo todo, mas ele não se recordava do nome. Ela cantava em tom mais baixo e mais suave.
Todos aplaudiram enquanto ela saía do palco, ao passo que o diretor entrou e anunciou outro participante.
Aquilo seguiu por vários minutos e todos já começavam a ficar mais animados, torcendo ou esperando por alguém. As cortinas se fecharam e ficaram assim por alguns instantes, até que elas se abriram e o diretor subiu novamente ao palco e pediu que todos se acalmassem.

– A próxima apresentação é de uma garota talentosíssima. Sem favoritismo pela minha filha, é claro. – Ele sorriu. – West!

Uma garota pequena entrou no palco e cumprimentou silenciosamente a platéia antes de se sentar ao piano que fora colocado ali. Ela vestia um vestido preto de tule, saltos altos, batom vermelho e cabelos tingidos de loiro. Alguns instantes se passaram enquanto ela se preparava para tocar. Ele não reconheceu a melodia, mas de uma coisa tinha certeza: era absolutamente incrível. Estava tão concentrado a assistindo que quase não percebeu: era a mesma garota que vira na entrada, pedindo licença para passar.

– Essa é minha garota. – Ele ouviu Nick dizer, provavelmente para Andrew. Foi então que se lembrou do que Andrew falou no quarto. "Se quer saber, acho que ele é muito burro de namorar a filha do diretor."

Ela tocou a última nota e pareceu respirar fundo antes de levantar a cabeça e olhar para todos. Deu um largo sorriso que era claramente falso e saiu do palco.
Várias apresentações foram feitas, desde musicais até stand up. Mesmo que alguns fossem realmente talentosos, podia ouvir que era a favorita de grande parte das pessoas ao seu redor. O diretor subiu mais uma vez ao palco – pela última vez – e esperou até que todos fizessem silêncio.

– Muito obrigado por todas as apresentações, vocês se superam a cada ano. Será que posso ouvir uma salva de palmas? – Ele disse e todos aplaudiram, alguns até mesmo assobiaram. – Bom, todos foram incríveis, mas um ganhador tem que ser escolhido. Os jurados tomaram uma decisão. Quem venceu foi... – Ele abriu um envelope branco que segurava em mãos. Abriu um grande sorriso e voltou a olhar para a platéia. – West!

A garota entrou parecendo estupefata, mas sorria. Uma mulher de cabelos loiros lhe entregou um pequeno troféu e acenou feliz para todos. Aquela cena já começava a chatear , quando o diretor se inclinou para o microfone.

– Que comece a festa!

Quase que automaticamente todos se levantaram e esperaram que os funcionários retirassem as cadeiras. achou que seria muito mais prático ter feito o show no auditório e o baile no ginásio, mas não questionou. Começou a caminhar até a saída, mas parou quando ouviu Andrew gritando seu nome por cima da música que começava a tocar. Se virou e viu ele se aproximando com Nick em seu encalço.

– Onde pensa que vai? A festa acabou de começar!
– Não sou fã de festas. – Ele disse, embora tenha ido em muitas.

Nick abriu a boca para dizer algo, mas parou quando sua namorada parou ao seu lado parecendo radiante.

– Parabéns! – Ele exclamou enquanto a abraçava.
– Obrigada! – Ela sorriu.
– Aquilo foi incrível, West – Andrew disse apertando as bochechas da garota.
– Não faxa ixo. – Ela reclamou atrapalhada. Andrew soltou rindo. – E não me chame de West, Campbell.
– Tudo bem, West.

Ela revirou os olhos.

, esse é o . – Nick apresentou.
– Ah, o garoto que estava atrapalhando a entrada. – Ela sorriu amigável e estendeu a mão para o cumprimentar. repetiu o gesto e foi quando percebeu que tremia. Abaixou a mão no mesmo segundo. pareceu chateada, mas o olhar que dirigiu à foi de curiosidade.
– Olá. – Ele disse e fez um aceno de cabeça. Seu olhar ia todo momento para a saída.

Andrew percebeu a direção de seu olhar e logo se manifestou.

– Não, não, não. Você não vai sair enquanto não dançar um pouco.
– Não tenho interesse algum em dançar com alguém.

colocou a mão no coração teatralmente, fingindo estar ofendida.

– Nem comigo?
– Tá aí! – Nick exclamou. – Se essa garota aqui não for capaz de amolecer seu coração, ninguém é. Só não amolece muito.

riu.

– Para com isso.

A garota caminhou até o amontoado de casais dançando. Quando parou e viu que não a acompanhava, se virou e levantou uma sobrancelha.

– Você não vem?

Ele pensou em várias desculpas idiotas ou constrangedoras; pensou até mesmo em dizer um simples "não" e sair, mas na hora de realmente falar, ele deu a pior desculpa que poderia naquele momento.

– Eu não sei dançar.

Era mentira. Ele aprendeu a dançar música lenta com sua irmã, que queria muito ter uma dança com ele em sua formatura do ensino fundamental. Ele não era bom, mas pelo menos não passava vergonha.
abriu um sorriso zombeteiro.

– Você tem medo de garotas, ?

O garoto suspirou, sem ânimo para continuar dizendo que não. Caminhou até ela e se aproximou, colocando a mão esquerda em sua cintura e posicionando a outra no ar, assim como sua irmã lhe ensinou.
assentiu com um pequeno sorriso fechado e colocou a mão esquerda no ombro de . Quando ela segurou a mão dele que estava no ar, os dois começaram a girar lentamente.

– Não sabe dançar, né? – Ela sorriu. – Como aprendeu?
– Com a minha irmã mais velha. – Ele respondeu monótono, olhando por cima da cabeça dela para nada específico.
– Então diga para ela que ela fez um ótimo trabalho.

Aquela frase fez o coração de apertar. Ele nunca poderia dizer aquilo para , nem se quisesse. Mas não deixou seu abalo transparecer.

– Vou dizer.

Ela se afastou ainda segurando a mão dele e demorou um instante para que ele entendesse o que ela queira. Então a girou, fazendo com que os cabelos dela balançassem. Ela sorriu e voltou à posição em que estavam antes.

– Eu sou o tipo de pessoa que fala sem parar, então, pra mim é estranho você ser tão quieto. – Ela disse. – Você é anti-social ou só está tímido por ter acabado de me conhecer?
– A primeira opção, pode-se dizer.
– Ah, certo. Posso saber por quê?
– Você faz perguntas demais.
– E você vai responder alguma?

Foi então que ele a olhou. Os olhos cor de mel dela brilhavam sob o reflexo das luzes coloridas que se agitavam pelo ginásio.

– Não, não vou.
– Pois então esse é o meu novo objetivo: te fazer responder alguma pergunta significativa. Ou então, te fazer sorrir. – Ela fingiu ponderar.
– Não vai rolar.
– Ah, qual é? – Ela sorriu. – Me diga algo que goste.

suspirou.

– Minha série favorita é How I Met Your Mother.

Os olhos dela brilharam mais ainda.

– Você com certeza não tem cara de que assiste How I Met Your Mother. Qual é o seu... wait for it... – Ela fez uma pausa. – Personagem favorito?

quase sorriu. Quase.

– Você acabou de citar ele.
– Barney também é meu personagem favorito. Claro, o Ted também. Ele é todo romântico e desesperado por compromisso. Meu tipo de cara...
– Nick? – Ele perguntou automaticamente fazendo uma cara de confusão.
– Você não me deixou terminar. – Wla riu. – Meu tipo de cara, se eu não namorasse o Nick.
– Agora faz mais sentido.
– Conheceu ele hoje e já está assim? – Ela riu de novo. – Boa sorte pra você no resto do ano. O Nick é meio difícil de...

continuou falando, mas não ouvia. A voz dela parecia distante, como se estivesse sendo ouvida de outro cômodo. A mente dele girava, era como se seus pés não estivessem no chão. Ele se afastou bruscamente e provavelmente recebeu um olhar surpreso de , mas se esse foi o caso, ele não sabia. Antes que ela conseguisse alcançá-lo, ele caminhou em passos largos até a saída. Do lado de fora, esbarrou em alguém que o segurou antes que caísse.

– Ei, cara, você tá bem? – O garoto perguntou.
– Tô. – Ele disse simplesmente.

Caminhou até uma árvore, e apoiou sua mão nela, respirando fundo até se acalmar. Quando finalmente voltou ao normal e ia té o prédio, ouviu a voz de lhe chamando.

! Você tá bem? Me deixou preocupada.

Ele olhou para ela por um segundo, mas logo em seguida se virou e começou a andar até o prédio.

! – Ela tentou de novo, mas ele continuou caminhando.

No elevador, se encontrou com um casal que havia claramente dado uns amassados antes de entrar. Ele fixou o olhar em um dos botões do painel até que chegasse ao terceiro andar. Saiu e deixou os dois lá dentro, para fazerem o que quer que fosse.
Seu quarto estava escuro quando entrou, mas ele não acendeu a luz. Simplesmente se sentou na cama e olhou para o armário, como se pudesse ver através dele uma pequena caixa onde estava o motivo de a vida dele ter sido destruída de maneira tão violenta e tão cedo. A sua vontade era ir até lá e acabar com o esforço que estivera fazendo há pouco menos de duas semanas. Mas era orgulhoso demais pra isso, não ia desistir tão fácil.
Se levantou da cama, colocou o blazer emprestado na cama de Andrew e entrou no banheiro, tomando uma ducha fria logo em seguida. Relaxou o suficiente para se deitar em sua cama e dormir fingindo que nada tinha acontecido.



3-

Londres/UK – 11 de julho de 2012

abriu os olhos devagar, se acostumando com a claridade do lugar. Quando finalmente conseguiu, percebeu que estava deitado em uma cama de hospital. Sem entender o que estava acontecendo, ele tentou se sentar, mas foi surpreendido com uma dor no lado direito de sua barriga. Foi então que se lembrou. O acidente. Lembrava-se perfeitamente do momento em que um caminhão veio na direção deles. Harrison tentou desviar, mas a batida era inevitável. Lembrava-se de sentir uma dor insuportável. Quando olhou, viu um pedaço de vidro cravado em sua barriga. Ele olhou para o lado pronto para pedir ajuda para sua irmã, e então a viu ensanguentada com a cabeça caída para o lado. Aquela visão o fez parar de respirar. Era como se o caminhão tivesse passado completamente por cima dele. Depois de tê-la visto naquele estado, não teve coragem de olhar para sua mãe, nem seu pai. Mas conseguiu ouvir a respiração desesperada de Harrison, tentando se soltar do cinto de segurança. Nem assim a olhou. Não teve coragem.
Antes que pudesse terminar sua linha de pensamento, a porta se abriu, revelando um homem alto e calvo, que vestia um jaleco branco. Ele se aproximou da cama e observou , talvez percebendo a expressão de preocupação dele.

– Você acordou antes do que eu esperava. É bem forte pra um garoto de 14 anos – ele sorriu gentil. – Como está se sentindo, ?
– Eu quero ver minha família – ele falou.
– Falaremos disso daqui a pouco. Primeiro preciso saber se você está bem – quando viu que abriu a boca para falar, logo se apressou em acrescentar: – Fisicamente, eu quero dizer.
O garoto fechou os olhos, tentando não pensar no pior. – Estou com dor.
– Entendo. Bom, o corte foi profundo, mas não atingiu nenhum órgão vital, então você ficará completamente bom em algumas semanas. Você só está aqui porque tivemos que fazer alguns exames para conferir, preferi te deixar em repouso enquanto isso. Você só levou 7 pontos.

Curioso, colocou o cobertor na altura da cintura e levantou a roupa hospitalar que usava. Prendeu a respiração por um segundo ao ver as linhas escuras saindo de sua pele. Abaixou a roupa devagar e se cobriu novamente.

– Você vai ter que voltar aqui para tirar os pontos e também terá que tomar alguns remédios, mas nada de extraordinário.

assentiu, sem saber muito bem o que falar. O médico percebeu sua ansiedade em saber sobre sua família, já que caminhou até uma poltrona cinza que estava encostada na parede e a puxou até o lado da cama do garoto.

– Seu pai está bem. Ele só teve alguns ferimentos leves, nem mesmo está em um quarto como você. Ele está com a sua mãe.
– Ela está bem? – ele perguntou no mesmo segundo.

O médico suspirou levemente antes de falar.

– O caso de Elizabeth é um pouco mais complicado, as lesões dela foram mais graves. Ela está na UTI. Mas eu acredito que ela vai conseguir se recuperar.

fechou os olhos, engolindo o nó que se formou em sua garganta.

– E a minha irmã? – ele perguntou em voz baixa.

Dessa vez o médico não suspirou. Ele olhou para suas próprias mãos e depois olhou diretamente para . Parecia ansioso.

, eu sinto muito. não sobreviveu.

Ele não acreditou. Cerrou os olhos para o médico, incrédulo. Se ofendeu verdadeiramente. Como ele poderia dizer uma coisa dessas? Tinha certeza de que estava viva, ali, naquele hospital. Quem sabe até mesmo estivesse acordada conversando com sua enfermeira. Sem todo aquele sangue. Saudável e sorridente como sempre.

– É uma brincadeira, não é? – perguntou, percebendo que sua voz tremia. Não, não, não.
O doutor lhe dirigiu um olhar triste. – Não, . É a completa e pura verdade. Ela já estava morta quando a tiraram do carro.

sentiu vontade de vomitar ao ouvir a palavra morta. Seu corpo pareceu pesar uma tonelada naquele momento. Ela está morta, pensou. E, então, não conseguiu se segurar. Lágrimas pesadas começaram a descer pelo seu rosto. Ele só queria gritar o mais alto que conseguisse, mas, naquele momento, não era capaz de falar uma sílaba sequer.
O médico lhe dirigiu um olhar triste e colocou a poltrona de volta no lugar. Disse algo sobre voltar depois, mas não poderia dizer com certeza. Não ouvia nada. Só conseguia pensar em .
Morta.



4-

"The loser hides behind
A mask of my disguise – Message Man (Twenty One Pilots)"
(O perdedor se esconde atrás
De uma máscara do meu disfarce)

– Você não desiste mesmo – Morgan riu parado à porta, apenas observando tentando soltar as cordas que prendiam suas mãos atrás de si. O garoto lhe dirigiu um olhar furioso.
– Por que está demorando tanto? Eles recusaram? – ele perguntou, mentalmente torcendo pra a resposta de Morgan ser ‘não’. Seus pais não o abandonariam daquela maneira, certo?
– Na verdade, pequeno , nós vamos te dar uma chance de resolver tudo. E eu realmente espero que você faça exatamente o que mandarmos, ou vai se arrepender. Estamos combinados?
pensou em dizer não ao ver o homem se abaixando no chão para conseguir olhar o rosto dele. Pensou até mesmo em cuspir em seu rosto e lhe mandar para o inferno. Mas ele não era burro, sabia que um garoto magrelo de 16 anos nunca conseguiria ganhar uma briga contra alguém como Morgan. Então ele apenas assentiu com a cabeça. – Estamos – ele murmurou.
– Estamos combinados? – ele gritou.
– Estamos! – gritou de volta.
– Ótimo. Nos vemos amanhã.

O dia amanheceu ensolarado, assim como o dia anterior e a maioria dos dias antes dele. Era a Califórnia, afinal. acordou assustado ao sentir seu corpo balançando sob as mãos de alguém acima dele. Ele abriu os olhos devagar e deu de cara com Nick, que tinha um sorriso zombeteiro nos lábios. Ele já estava vestido e de cabelo arrumado com todo aquele gel, como na noite anterior.

– Você não vai querer se atrasar pra nenhuma aula, vá por mim – ele falou dando tapinhas no rosto de .

Ele suspirou, ainda com o sonho – ou melhor, lembrança – na cabeça, e se levantou da cama coçando os olhos. Ele sentia seu corpo pesado, como se não tivesse dormido durante dias. Era um sentimento não familiar para ele, pelo menos não mais. Se levantou da cama e esfregou os olhos sonolento.

– Ei, cara, o que aconteceu ontem? – Nick perguntou parecendo hesitante.

não respondeu. Pegou algumas peças de roupa e atravessou o quarto em passos largos. Entrou no banheiro, fazendo sua higiene matinal e tomando uma ducha logo em seguida. Saiu já vestido, passando as mãos pelos cabelos para tentar fazê-los ficarem no lugar.

– Sabe, nós só usamos uniforme em dias de excursões – Andrew comentou ao ver .
– Eu não estou vestindo uniforme – ele disse sem nem mesmo saber que havia um.

Nick deu uma risadinha, o que fez o olhar feio.

– Você estava usando roupas pretas ontem quando chegou, está vestindo agora... Você não tem senso de humor, tem? – Andrew falou. – Bom, eu já vou indo. Você tem 15 minutos pra não se encrencar por chegar atrasado – e saiu do quarto. Nick continuou lá.
– Sabe, eu só estou perguntando porque a ficou preocupada. Disse que você chegou a empurrar ela. Eu até ia tirar satisfações sobre isso, mas pelo jeito você tava alterado...
– Não aconteceu nada, será que você pode deixar isso pra lá?
– Eu disse que era a primeira vez que você chegava tão perto de uma garota – Nick riu.
– Que original – ele disse já saindo do quarto. Nick veio em seu encalço.
– Qual sua primeira aula, senhor fobia-de-garotas?
– Espero que não a mesma que a sua – ele entrou no elevador e quando as portas começaram a se fechar não as segurou para o outro garoto.

Quando chegou ao térreo, caminhou até a porta lateral que dava para um dos corredores com teto de vidro, que ligava o prédio principal até um dos menores. Seguia calmamente olhando a foto em seu celular do mapa da escola que recebeu do diretor. Não seria idiota de sair por aí com aquela coisa enfiada na cara.
Entrou em um corredor largo com centenas de armários vermelhos; vários alunos ainda pegavam seus livros. caminhou discretamente ao lado deles procurando pelo seu. Quando finalmente achou, desejou que não tivesse o feito.

– O que você está fazendo aqui? – Ele perguntou para , que estava encostada no armário do garoto. Ela tinha os cabelos presos em um rabo de cavalo alto e usava um uniforme de líder de torcida.
Ela levantou o olhar para ele. – Oi pra você também.

Ele levantou uma sobrancelha apontando para o armário. Ela assentiu e se afastou, dando espaço para o abrir e conferir seu horário. Ele pegou as apostilas e o fechou novamente.

– Eu só queria saber se você está bem.

Ele se virou para ela cerrando os olhos.

– Como você sabe qual o meu armário?
Ela mordeu o lábio inferior insegura. – Ser filha do diretor tem suas vantagens.
– Vou ignorar o fato de você achar que tem o direito de bisbilhotar minha ficha se me disser o que quer.

Os lábios dela formaram uma linha fina. Ela sabia que tinha cruzado a linha quando olhou a ficha dele.

– Eu já disse.
– Bom, então você é muito insistente.
– O que quer dizer?
– Achei que sua missão já tinha acabado quando mandou o Nick falar comigo.

Ela pareceu confusa.

– Eu não mandei ele falar com você. O que ele disse?
– Eu tô atrasado, West – ele disse já começando a caminhar. Quando percebeu que estava seguindo, desistiu de pegar o celular para conferir o mapa. Apenas continuou andando como se soubesse para onde estava indo.
– Só me diz.
a olhou pelo canto do olho. – Disse que só não tirou satisfações por eu ter te empurrado porque eu estava "alterado" – ele fez aspas com a mão desocupada.
– Ah. Você tá desculpado, não se preocupe com isso.
– Acredite em mim: a última coisa com que estou preocupado, é isso.
– Hm, certo. E por que está preocupado?
– Como eu já te disse ontem: não vou responder suas perguntas.
– Como eu já te disse ontem: esse é o meu objetivo.
– Parece que vai falhar.

O sinal para o início das aulas soou, fazendo com que parasse de caminhar.

– É o que vamos ver.
– Por que você se importa tanto?

Ela ficou em silêncio por alguns segundos. não a conhecia, mas ela parecia estranha naquela manhã. Ansiosa, talvez?

– Porque você parece tão quebrado quanto eu – ela disse por fim, sem olhar para ele, e saiu caminhando na direção oposta.

Por um momento ficou olhando ela, imaginando o que diabos teria acontecido com a típica princesinha do papai para ela se sentir quebrada. O que quer que fosse, tinha certeza de que era drama adolescente. Afinal, que adolescente não pensa que seus problemas são os maiores do mundo? Somos todos patéticos e isso inclui você, .
Saiu do transe quando sentiu seu celular vibrar no bolso. Mom, ele leu na tela. Era uma mensagem de texto. "Estou na aula, te ligo depois", ele digitou sem nem mesmo ler a mensagem que recebeu. Não planejava ligar, de qualquer maneira. Abriu a imagem do mapa e buscou a sala com os olhos. Por sorte, estava perto. Subiu as escadas e virou à esquerda, dando de cara com o seu destino.
Ele se dirigiu ao fundo da sala e tomou assento em uma carteira ao lado da parede. Alguns instantes depois, Nick entrou na sala com um grupo de garotos, todos rindo e apontando para um deles, que revirava os olhos claramente segurando o riso.

– Ah, olhe só quem está na minha classe de literatura! – Nick disse se sentando na carteira ao lado dele. Os outros se sentaram próximos, formando um grupo do qual parecia que era membro. Mas nem pensar.

ignorou a vontade de fazer uma careta por ter acontecido exatamente o que ele estava torcendo para não acontecer: ter alguma aula com Nick.

– Bom dia, classe – um homem atrapalhado que não aparentava ter mais de 30 anos, com barba para fazer e cabelos castanhos que iam até os ombros disse entrando na sala e se dirigindo à frente da turma. – Me desculpem pelo atraso. Espero que tenham tido ótimas férias.
– Não devem ter sido tão boas quanto as suas, professor, por que não nos conta? – Nick perguntou com um sorriso nos lábios. O professor o olhou.
– Ah, claro, o nosso palhaço particular – ele disse com um ar brincalhão. – Brincadeira.
– Disso eu entendo – Nick piscou.
– Todos sabemos, Nick. Agora me digam, quem leu o livro que eu pedi? – Ele correu os olhos pela sala, mas não precisava de muita análise para ver apenas três mãos levantadas. O professor abriu a boca para falar algo, mas parou assim que viu . – Ah, temos um aluno novo? Me perdoe por minha falta de atenção. Poderia ficar de pé e se apresentar para a turma?
– ele disse sem se levantar. Todos da sala, sem nenhuma exceção, olharam para ele.
– E de onde você veio, ?
– Inglaterra.
– Ah, um país maravilhoso. O cenário de muitas obras literárias e também o lar de... Robert Langdon, conhece? – ele abriu um sorriso desafiador.
– O professor dos livros de Dan Brown?

O pai de , além de produtor, era um completo apaixonado por livros. A primeira coisa que fez quando comprou a casa foi derrubar algumas paredes e construir uma biblioteca enorme com centenas de livros. Ele chamava o lugar de “A biblioteca da minha vida”. Seu objetivo era ler todos aqueles livros antes de morrer e, sinceramente, acreditava que ele conseguiria. Se lembrava perfeitamente de quando era pequeno, quando seu pai o levava para lá e os dois liam juntos em completo silêncio até a mãe entrar, tarde da noite, e dar uma bronca por terem desperdiçado mais um dia trancados em casa. A lista de era muito menor do que a do pai, mas ele havia lido mais livros do que muitas pessoas já leram tendo 80 anos.

– Certo! – o professor estalou os dedos no ar com um sorriso nos lábios, o que fez deduzir que ele não tinha muitos alunos realmente interessados em livros, mas sim em preencher a grade curricular.
– Ah, não. Temos outra Courtney?
– Fica quieto, Nick – uma garota disse. se inclinou discretamente para procurar a dona da voz e a encontrou sentada na primeira carteira bem à frente da mesa do professor.
– Vem fazer – Nick rebateu, com um sorriso malicioso nos lábios.
– OK, deixe para flertar lá fora, pode ser, Nick?

O garoto riu como resposta. Logo depois dirigiu para um olhar que ele soube exatamente o que significava: "Fica de boca fechada". Bom, era o que ele pretendia fazer. Não era da conta dele, afinal.

– Agora abram as apostilas na página 86. Quero todos os exercícios respondidos até o final da aula. , poderia vir até minha mesa?

O garoto levantou o olhar para o professor que tomava assento em sua mesa, na frente da turma. Se levantou e caminhou até lá desviando das bolsas e mochilas no caminho.

– Sim? – ele disse assim que se aproximou.
– Gostaria de saber o que estava estudando no seu antigo colégio. Sei que os conteúdos são muito diferentes e quero ter certeza de que você vai conseguir acompanhar a turma.

Ele pensou em mentir que estava estudando algo a ver com a época renascentista – já que nem mesmo sabia o que estava sendo passado em sua antiga escola –, mas se teria a oportunidade de acompanhar a turma, se distrair com os estudos e o que quer que fosse, aproveitaria.

– Na verdade, professor, tenho muita familiaridade com livros. Então, o que quer que seja, acho que dou conta.
– Fico muito feliz de ouvir isso. Vou começar a falar sobre literatura inglesa. Juro que é uma coincidência! – ele sorriu. – Vamos começar com Charles Dickens. Pode começar a ler algum de seus livros se for te fazer acompanhar melhor.
– Certo, professor...
– Oliver.
– Professor Oliver, ok.

O professor assentiu e fez sinal com a mão para que ele voltasse para seu lugar.

– ... E não se esqueçam de começar a ler o livro! Já quero comentários na próxima aula! – o professor Oliver falava alto enquanto os alunos saíam da sala ao som do sinal.

Os corredores estavam cheios de adolescentes muito diferentes uns dos outros. A grande maioria era composta por mauricinhos e patricinhas, com suas roupas caras, cabelos perfeitos e ar de superioridade. O resto era apenas um grupo cheio de diversidade, desde estilos completamente monótonos, até geeks e góticos. Todos caminhavam conversando até suas aulas. checou seu horário e começou a caminhar até a sala.
O resto das aulas seguiram da mesma maneira da primeira: ele se apresentando para a turma e depois ficando quieto prestando atenção na aula simplesmente por não ter mais nada pra fazer. Não viu Andrew, Nick ou até aquele momento, mas todos estavam lá no horário do almoço, os três juntos em uma mesa acompanhados de um grupo de amigos. passou direto por eles e seguiu para a fila, onde pegou seu almoço – um hambúrguer e um refrigerante. Parado na frente daquele lugar enorme, ele tentou localizar um lugar para se sentar. Havia apenas uma mesa vazia e foi a que ele escolheu. Por um momento pensou que algum mauricinho dono do pedaço – como Nick, por exemplo – colocaria o pé na frente dele para fazê-lo cair e derrubar a comida em sua bandeja como nos filmes, mas era apenas uma escola com pessoas normais e, talvez, civilizadas. Pelo menos ele esperava que fossem assim. Tudo o que mais queria era normalidade pelo menos uma vez na vida. Duvidava que conseguiria aquilo um dia.
Quando passou pela mesa onde eles estavam, sentiu o olhar da garota em suas costas.

– ela chamou delicadamente. – Onde está indo?

Ele a olhou como se ela fosse idiota. A resposta era óbvia, não?

– Ok, deixe eu reformular. Por que está indo pra outra mesa?

olhou para os outros presentes na mesa. Eles lhe dirigiam um olhar estranho, como se ele fosse algum tipo de inseto. Como se fossem melhores que ele e que qualquer um naquele lugar.
Ela o olhou.

– Tem um lugar aqui – ela apontou para a ponta da mesa, ao lado de uma garota loira de olhos claros.

Ele se sentou, mesmo sabendo que iria se arrepender.

– E aí, cara? – Andrew o cumprimentou. apenas acenou com a cabeça.

Nick, com a boca cheia de comida, não falou nada, mas fingiu ser uma garota dando oi sensualmente. Todos da mesa gargalharam.

, essa é a minha melhor amiga, Claire – apresentou a garota ao lado de . – Esse é o Josh. Esse é o Adam. E essa é a Beatrice.

Todos os apresentados lhe deram oi, sem tirar a expressão estranha do rosto. Aquilo incomodou mais do que deveria. Quem eles pensavam que eram?

– Então, , você sempre fala tanto assim? – um dos garotos perguntou, mas ele não se lembrava se ele era o Josh ou o Adam.
– É melhor quando ele tá quieto, acredite em mim – Nick riu.
– Eu sei responder sozinho – disse o fuzilando com os olhos.
– Viu só?
– Parem – reclamou. – Não sei se você sabe, Nick, mas isso se resolveria se você fosse um pouco mais legal.

Não, , não resolveria.

– Você consegue conversar com todos se tiver a atitude certa.

Você está enganada.

– Olá, , meu amor. Como você está no dia de hoje? – Nick disse sorrindo. – Está bom pra você, ?

suspirou audivelmente, o que fez com que o olhasse. Completamente inexpressiva.

– Acho que sei o que tá faltando, Nick – Andrew falou colocando as mãos em concha no tórax como se fossem seios.

E, então, foi a vez de Nick o olhar. Mas ele tinha uma expressão, e era de desconfiança.

– Vocês poderiam ser um pouco menos idiotas? – se levantou.
– Aonde você vai? – Claire perguntou.
– Terminar de almoçar, é claro. Vem, .
– Não vou fugir de uns caras que acham que conseguem me intimidar – disse sem desviar o olhar dos dois garotos.
– Não é fugir, é apenas almoçar em paz.

Isso aconteceria se eu comesse sozinho.

Vai lá – Nick abriu um sorriso. – Não perde a oportunidade. - Ele se aproximou e cochichou tão baixo que quase não ouviu: – Aproveita que ela é fácil. Não é como se você fosse conseguir se não fosse assim.
? – chamou. Nick se afastou sorrindo para ele.

ignorou o que ele disse. Sabia que ele estava apenas tentando mexer com a cabeça de dele. A boa notícia é que ele não conseguiria. Não se importava se ele dava em cima de outras garotas na aula. Não se importava se ela era fácil ou difícil. A única coisa com que se importava estava fora daquele colégio, em algum lugar. Talvez atrás dele, talvez não. Mas estava lá.
Se levantou e seguiu até a mesma mesa vazia que ele havia avistado. Ela ficou em silêncio por alguns instantes, parecendo temerosa de perguntar.

– Você quer saber o que ele disse – supôs, a observando.
– É tão óbvio? – ela riu fraco. – O que ele disse?

Ele pensou se deveria contar, mas a questão de não se importar se estendia a não se intrometer, não interferir. E foi o que ele fez.

– Não importa – ele deu de ombros e começou a comer seu hambúrguer.
Ela levantou uma sobrancelha. – Pra mim, importa. Eu sou a namorada dele.
– Por quê?
Ela pareceu ter sido pega de surpresa. Estalou a língua antes de falar. – Pensei que só eu fizesse perguntas pessoais.

Ele deu de ombros de novo.

– Não preciso que responda. Só acho que ou o que ele disse é verdade, ou você não respeita a si mesma, o que é triste.

Ela se ofendeu profundamente com aquilo. Sabia que era o que todos pensavam e só se sentia pior ao ver os olhares quando estava junto de Nick. Eles a julgavam e ela sabia disso.

– Você é tão babaca quanto eles.
– Me diga se eu estiver mentindo – ele disse calmamente.
o fuzilou com os olhos antes de se levantar e pegar sua bandeja. Quando fez menção de sair, mudou de ideia e se abaixou. Olhou diretamente nos olhos de . – Vá se foder.

Foi então que ela saiu e a perdeu de vista. Depois daquilo, só falou com ela no sábado. Na festa de Nick. Céus, como ela chorava naquela noite.
Soube que tinha atingido um ponto fraco naquele momento, mas não se arrependeu. Ele fez de propósito. Queria que ela o odiasse. Ele não se permitia ter gente se importando com ele, mesmo que apenas um pouco. ? Bom, era óbvio que ela se importava com todo mundo e ela sabia muito bem que ele era quebrado. Má notícia, princesa. Não se concerta um vaso despedaçado com fita adesiva. Você apenas joga ele fora e compra um novo.
demorou o máximo possível para terminar seu almoço, aguardando o sinal para as aulas. Foi apenas quando ouviu ele soando pela escola que se levantou e se juntou ao grupo de pessoas que seguia para fora do prédio. Nem mesmo precisou olhar em seu horário para saber que tinha que se dirigir ao ginásio. Era a aula que ele menos queria ter. Era bom com livros, arte, fotografia, mas quando se tratava de esportes, ele era uma negação. Bom, precisava preencher sua grade curricular de qualquer maneira.
Quando entrou lá, viu que alguns alunos já estavam prontos, apenas esperando o professor. Por isso caminhou em passos largos até o vestiário. Foi então que se lembrou de que não sabia qual era seu armário. Ótimo, o primeiro dia de aula sempre tem que ter algo de errado.

– O professor tem o número dos armários do vestiário – um garoto de cabelos escuros falou se aproximando. Ele segurava um par de óculos de grau na mão direita. – Ninguém te falou?
– Não – ele respondeu.
– Bom, agora você sabe. Me chamo Eliot – ele estendeu a mão.
Ele o cumprimentou. – .
– Seja bem vindo, .
– Valeu – ele disse indiferente.

Quando o professor chegou, finalmente soube qual era seu armário e trocou de roupa a tempo para a aula. Quando correu para a quadra, os alunos já estavam se dividindo em times. Ele se juntou ao grupo de gente que ainda estava esperando ser escolhido e fingiu estar muito interessado em um ponto no chão um pouco mais à frente.

– ele ouviu uma voz dizer. Quando levantou o olhar, viu que era um dos garotos que estava escolhendo o time. Estranhou que ele soubesse seu nome, mas então viu Eliot logo atrás dele.

Caminhou até o grupo e esperou em silêncio até que todos os alunos foram escolhidos. Quando se perguntou o que iriam jogar, o professor – com a ajuda de um aluno – colocou a rede de vôlei na quadra.

– Você sabe jogar? – Eliot disse se aproximando de .
– Sou péssimo.
– Porque não nos avisou, cara? A gente deixaria você pro outro time, pra eles perderem.

Antes que pudesse dar alguma resposta sarcástica, o professor se encaminhou para o lado da quadra e assoprou o apito.

– Se posicionem! – ele gritou.
– Vem, você pode ficar na rede. É mais fácil de tocar.

Todos se posicionaram e logo perceberam a vergonha que estava passando por não conseguir marcar ponto algum, mas ainda assim passavam a bola para ele, gritando coisas como "Vai, !" e "No chão!". E então ele conseguiu marcar um ponto antes do jogo acabar, fazendo com que o time ganhasse a partida. Os outros garotos foram para cima dele comemorando e riu fraco dando um empurrão em Eliot, que bagunçava seu cabelo.

– Tô querendo dar mais estilo pra esse cabelinho – Eliot riu.

Todos caminharam até o vestiário e tomaram banho antes de trocar de roupa. Quando estava em frente ao seu armário, Eliot apareceu novamente. percebeu que seus óculos estavam tortos, mas não comentou.

– Qual sua próxima aula?
verificou no celular. – Física.
– Infelizmente para você, não é a minha aula – ele riu. – Vai ter que se virar sozinho.

Ele cerrou os olhos levemente antes de responder.

– Tenho certeza de que consigo.
– Tá certo. Nos vemos por aí, .

O garoto saiu em passos largos e se juntou novamente ao grupo de amigos. Saíram conversando até que os perdeu de vista e trancou seu armário. Saiu devagar, ignorando o pouco tempo que tinha para chegar até a sala. De qualquer maneira, não era como se ele fosse aprender alguma coisa daquela matéria.

Na manhã seguinte, repetiu o dia anterior: se arrumou pela manhã ignorando as falhas tentativas de Nick e Andrew de fazer ele se irritar; caminhou até sua primeira aula acompanhando o mapa e ignorando o que acontecia ao seu redor; se sentou na última carteira e prestou atenção na aula. Na hora do almoço, passou pela mesma mesa do dia anterior, ocupada pelas mesmas pessoas, e pegou seu almoço. Quando teve que escolher um lugar para se sentar, correu os olhos pelo lugar procurando Eliot, mesmo sem saber o motivo. Não era como se eles fossem amigos, mas ele ficou aliviado quando o garoto viu que ele estava ali e logo se levantou para ir até ele.

– Ei, ! – Um dos amigos de que ainda não conseguia lembrar o nome, o chamou. Ele achou estranho, mas logo percebeu que tinha sido Nick quem pediu que ele o chamasse. estava ao lado dele, mas nem mesmo levantou o olhar. – Senta aqui com a gente.
– Desculpa, caras – Eliot disse, parando ao lado da mesa –, mas ele vai sentar com a gente hoje. Sabe como é, alguém tem que livrar os novatos das garras de vocês.

Nick cerrou os olhos, mas antes que ele conseguisse responder, Andrew o impediu.

– Deixa pra lá, cara, ele não é importante assim.

não sabia de quem exatamente ele estava falando, mas não ficou lá muito tempo para descobrir. Logo que Eliot lhes dirigiu um sorriso irônico, os dois caminharam até a mesa onde ele estava com um pequeno grupo de amigos.

– De nada, aliás – Eliot disse se sentando.
– Valeu – colocou sua bandeja na mesa e se sentou.
– Galera, esse é o . Esses são Jake, Sarah e Jordan.

Todos eles acenaram e Sarah até mesmo sorriu. apenas esboçou um meio sorriso e começou a comer.

– Então você é o discípulo que Eliot resolveu salvar – Jordan brincou.
– Discípulo?
Eliot balançou a cabeça rindo. – Toda vez que algum aluno novo entra na escola, esse grupinho tenta ganhar um novo membro. Você deu sorte de eu ser bastante prestativo.
– É, mas eu ainda sou do mesmo dormitório que eles, então não é como se eu fosse me livrar por completo.
– Você é o novo colega de quarto deles? – Jake riu. – Bem, veja pelo lado bom, você vai ter várias garotas se jogando pra você.
– Ah, então eles são esse tipo de grupo.
– Os populares, você quer dizer? Sim, eles são. Meio que comandam a escola.
– Acho isso muito cena de filme de adolescente, se você quer saber – Sarah comentou. – Como em Garotas Malvadas.
– Comandam a escola? – perguntou, ignorando o que Sarah disse.
– Conhece a ? – Jordan perguntou.

apenas balançou a cabeça em afirmativo.

– Por ela ser filha do diretor, não preciso nem dizer que todos tem medo dela. O sr. West é muito rígido e se algum aluno quebra alguma regra, tem punição. E se ela diz que você quebrou alguma regra, bom, não tem nada que você possa fazer que vai te livrar. A palavra dela pra ele é absoluta.

olhou para ela por cima do ombro. Ela ria de alguma piada que contaram, mas não parecia que ela realmente tinha achado graça. Parecia forçado, mesmo que ele não conseguisse ouvir. Apenas ver. Desviou o olhar quando viu que ela olhava na direção em que ele estava.
Quis dizer que ela lhe pareceu diferente dos outros do grupo e que até mesmo se perguntou porque ela estaria ali, mas não se deu ao trabalho. Sabia que tipo de comentários viriam se fizesse isso.

– Mas então, , de que lugar da Inglaterra você veio? – Sarah perguntou.
– Você fala como os meus tios que moram em Oxford – Jake comentou.
– Nasci lá.
– Nunca conheci, sempre preferi os lugares mais quentes. Falando nisso, o que levou um britânico a se aventurar na Califórnia?

deu de ombros, como se não soubesse a resposta.

– Já morei aqui quando era pequeno.
– Não deixaria San Diego por nada – Sarah sorriu.
– As praias... – Jake começou.
– As garotas... – Eliot continuou.
– Os garotos... – Jordan acrescentou rindo.
– Ah não, Jordan, você tem um péssimo gosto para os garotos daqui.
– Ainda não acredito que você namorou o Andrew.

ficou surpreso ao ouvir aquilo, mas não da maneira como os outros imaginaram ao ver a sua expressão.

– Pelo menos não foi o Nick – ele tentou consertar.
Eliot concordou. – Isso eu jamais perdoaria.

O sinal soou estridente pelos autofalantes e logo várias pessoas começaram a levantar apressadas.

– Faz três dias que estamos aqui e já tá todo mundo desesperado pra ir embora, céus – Sarah comentou observando toda a movimentação.

tinha se esquecido completamente de que já era sexta, ou seja, o dia de irem para casa. Quando leu as instruções do colégio que era dada para os alunos novos, viu que havia a opção de ir embora apenas no sábado, ou até mesmo passar o fim de semana todo ali. Mas tudo que ele queria era ter aqueles dias, sozinho.

– Eu também tô desesperado pra ir pra casa, então... – disse se levantando. – Até mais.

jogava as roupas de qualquer jeito dentro da mala. Se sua mãe estivesse vendo, lhe daria uma bronca e, claro, lhe mostraria como é que se fazia – o que basicamente significa que ela faria as malas para ele. Por um momento se permitiu sentir saudade, mesmo que não sentisse que tinha esse direito depois da maneira que tratou seus pais. Muito menos depois de ter feito eles sofrerem tanto.
Saiu bruscamente do transe quando a porta de seu quarto abriu. Pensou que um dos dois companheiros de quarto tivesse esquecido alguma coisa, mas viu que era apenas Eliot puxando sua própria mala.

– Você ainda não terminou? Cara, todo mundo já foi embora.
– Não sou todo mundo.
– Deve ter ouvido muito isso da sua mãe quando queria ir em alguma festa. E por falar nisso...
– Nem vem – balançou a cabeça sutilmente.
– É só dizer sim ou não – ele disse impaciente.
– Não.
– Mas, cara...
– Olha, eu estou completamente aliviado de finalmente poder ir pra casa e ir pra festa ver a cara de todo mundo de novo não é algo que eu planejo fazer.
– Eu entendo que você não vai com a cara do Nick, mas pensa nas garotas que vão ter lá. Tem cada uma... – ele colocou a mão em concha na frente do peito para insinuar seios grandes. Nem mesmo precisou finalizar a frase.
– Por mais que pareça ótimo... – ele fez careta, olhando as mãos de Eliot – Eu passo.
– Faça o que quiser. Mas não diga que eu não avisei.
– Muito obrigado pelo conselho, querido amigo – ele fechou a mala. – Agora eu vou indo, com certeza vou pegar trânsito.
– Quem mandou morar do outro lado da cidade?
– Parece até que nunca conheceu a praia.

colocou a mala no chão e puxou sua alça. Eliot abriu a porta e saiu puxando a sua própria.

– Tenho que confessar, um apartamento na praia seria legal – o outro respondeu enquanto os dois caminhavam até o elevador. apertou o botão para o primeiro andar. – É uma pena, entretanto, que não dá pra levar garotas para lá. Seus pais não gostariam nadinha.

não quis contar que morava sozinho. Tinha certeza de que Eliot ia querer se aproveitar disso qualquer dia desses.

– O apartamento é o de menos.
– Mas olha só, temos um rico humilde aqui mesmo, pessoal.

revirou os olhos. Não gostava de ser classificado por classe monetária.

– Tá, o problema não é comigo, já você trata todo mundo com indiferença. Qual é o problema?

o olhou, se segurando para não revirar os olhos de novo. Ele saiu do elevador e caminhou até a entrada do prédio.

– Ok, ok. Se você quer ficar quieto, que seja.
– Pelo menos você sabe quando passou os limites. Os outros não sabem o que é isso.
– Bom, eu não culpo eles... É difícil não ficar curioso, ainda mais quando você se recusa a responder qualquer coisa.

o olhou feio.

– É, ok. Dessa vez eu cruzei a linha de propósito.
– O único motivo de eu não mandar você ficar longe de mim é o fato de você não me perguntar nada. Você tá me fazendo mudar de ideia – ele caminhou até seu carro, que se lembrava exatamente onde estava.
Eliot suspirou. – Foi mal, cara.

deu de ombros e destravou as portas do carro.

– Até segunda.
– Ou até hoje à noite...
– Até segunda – ele repetiu firme.

Dessa vez quem revirou os olhos foi Eliot.

– Qualquer que seja o motivo que você tenha pra não ligar pra nada, você devia parar e viver a sua vida. O mundo tá cheio de garotas, ou garotos, se é o que você prefere. Cheio de festas, bebida, diversão. Não faça a merda de ficar parado odiando todo mundo, isso só te faz ser um imbecil.

Aquilo atingiu de uma maneira que não deveria. Ele queria tudo aquilo. Queria ser um adolescente normal, apenas isso. Queria poder ir para festas beber, ficar várias com garotas das quais nem se lembraria do nome, se divertir com amigos. Mas não era a realidade dele. Era uma realidade distante. A realidade de era ter criminosos atrás dele. Como você deixou que sua vida chegasse à esse ponto?, ele pensou.

abriu o porta-malas e colocou sua mala lá dentro. O fechou devagar. – Vou pensar – ele disse simplesmente e entrou no carro.

A noite chegou mais rápido do que conseguiu acompanhar. Assim que chegou em casa, a primeira coisa que fez foi largar a mala em qualquer lugar e ir direto para a praia. O sol forte fez sua pele arder, mas ele não se importou. Precisava urgentemente relaxar. Depois disso, tratou de ir em um supermercado comprar mantimentos, já que não tinha mais quem fizesse isso por ele. Com isso feito, retornou para casa e simplesmente se jogou no sofá, feliz por não ter nada para fazer e nem ninguém para lhe importunar. Mas logo a noite chegou e essa felicidade se transformou em tédio, o que o fez levantar e tomar uma ducha. Decidiu andar de carro por aí, sem destino.
Antes de sair, viu sua câmera em cima da mesa de centro, parecendo estar sendo usada como decoração. Ela era muito mais que isso. Era a maior paixão da vida dele. Por isso, ele caminhou até lá e a pegou hesitante. Havia muito tempo que ele não fazia aquilo, parecia algo completamente estranho. Até mesmo pensou em deixá-la em Londres, mas não conseguiu se conter.

– Você não está segurando uma arma, – ele falou sozinho ao perceber que analisava a câmera com um olhar estranho.

Saiu do apartamento trancando a porta atrás de si e entrou no elevador, apertando o botão para o andar subterrâneo logo em seguida. Verificou se a câmera estava com cartão de memória e ficou feliz ao constatar que sim.
Ao chegar no estacionamento logo visualizou seu carro estacionado em sua vaga ao lado de uma coluna com a letra C. Entrou nele e colocou a câmera no banco do passageiro. Ficou empolgado por estar indo fotografar. Antes de sair da garagem, ligou o rádio, escolhendo a estação com a música menos barulhenta.
A noite estava linda, mas quanto mais ele se aproximava do centro, mais as estrelas sumiam. Não deixou isso o abalar, apenas continuou dirigindo até uma praça que parecia estar sempre cheia. Era o que queria naquele momento. Fotografar esses momentos em que as pessoas estão com os amigos, com a família. Quando era mais novo costumava tirar fotos do vazio, das paisagens. Ele tinha mais prazer em desenhá-los. Mas tanto já havia mudado até aquele momento, por que não mudar aquilo também?
Estacionou algumas quadras afastadas da praça, já que não encontrou vaga mais perto, e começou a caminhar até lá com a câmera pendurada no pescoço.
Foi então que viu a possibilidade da foto perfeita. Já que era uma criança, se viu obrigado a perguntar para os pais se poderia fotografar. Ele iria usar a imagem dela para desenhar, de qualquer maneira.

– Ei, com licença – ele disse se aproximando da família. – Eu sou fotógrafo, será que poderia tirar algumas fotos dela? – ele apontou para a garota segurando vários balões. Ela sorriu amigável para ele. Crianças.
– Ah... Claro, porque não? – o pai disse. – O nome dela é Ashley.
assentiu e se abaixou ao lado dela. – Oi, Ashley. Meu nome é . Quantos anos você tem?

Sabia que tinha que ganhar a confiança dela, ou as fotos não saíram boas. Aprendeu isso em uma aula de fotografia que teve quando tinha 14 anos. A pessoa que servisse de modelo para as fotos só daria o resultado esperado se simpatizasse com o fotógrafo. Acho que é o único jeito de eu não mandar alguém para o inferno, ele pensou.

Tleis – ela disse lhe mostrando três dedos. sorriu.
– Eu tenho 18, mas pareço ter 3 também, não acha?

Pelo canto do olho, viu a mãe da garota sorrir para o marido.
Ashley balançou a cabeça para os lados.

– Jura? – ele disse. – Bom, tá vendo essa câmera aqui? – ele a levantou. – Eu sou fotógrafo. Você se importa se eu tirar algumas fotos suas?
A garotinha olhou para os pais antes de responder e, quando eles acenaram que sim, ela se virou para . – Tudo bem.
– Muito obrigada. Podem voltar a caminhar e fazer o que quer que vocês queiram fazer. Só vou acompanhar de longe, não se sintam acanhados. Vou avisar quando terminar.
– Certo, – a mãe da garota disse. – Vamos, Ash?

A garota segurou a mão da mulher e os três voltaram a caminhar como estavam fazendo antes de serem abordados pelo garoto.
Ele seguiu os três de longe, captando os momentos que a garota sorria animada para algo, ou quando os balões balançavam ao vento enquanto ela corria. ficou feliz com o resultado, por isso caminhou em passos largos até eles.

– Já terminei.
– Posso ver? – o homem perguntou.
estendeu a câmera. – Claro.

O homem pegou a câmera e sorriu ao passar as fotos.

– Ficaram incríveis. Você tem algum estúdio ou algo assim?

balançou a cabeça.

– Só gosto de fotografar por aí. Gosto de usar as fotos para desenhar.
– Isso é muito legal. Mas se quiser ganhar uma grana extra, ficaríamos felizes se você pudesse fotografar a Ashley.
– Tipo, fazer um álbum?
– Exatamente.
– Bom, eu... Ah, claro. Pode anotar meu número.

passou o número para o homem, que salvou em seu celular.

– Ok, vou entrar em contato e podemos marcar pra essa semana.
– Na verdade... – ele começou, mas parou ao sentir seu celular vibrar em seu bolso. – Desculpe – ele levantou o dedo indicador, pedindo que ele esperasse. O homem respeitou, e esperou parado onde estava.

Eliot, ele leu na tela assim que pegou o aparelho. Com um suspiro irritado ele atendeu a ligação. Assim que atendeu, soube que ele estava na festa de Nick.

Alô? – ele ouviu a voz de Eliot do outro lado da linha. precisou apertar o celular contra a orelha para conseguir entender o que o outro falava. Ele falou alguma coisa, mas não conseguiu entender.
– Eliot, tem muito barulho, não consigo te entender.
Vem pra cá – ele gritou dessa vez. – Preciso de uma carona.
– Você não pode chamar um táxi?
Eu tô sem grana. Ah, eu acho que vou vomitar.
– Eu realmente não precisava saber disso – ele suspirou. – Me manda o endereço por mensagem.
Ok! – ele gritou e desligou.

pendurou a câmera novamente no pescoço.

– Como eu estava dizendo – ele se virou novamente para o homem. – Eu estudo em um colégio interno, então só estou disponível nos fins de semana.
– Ah, bom, não vai ser um problema.

assentiu. Assim que a garotinha se despediu, os três voltaram a caminhar e por um momento o garoto os observou. Mas logo caiu em si e caminhou até o carro. Quando chegou lá, viu que Eliot já havia enviado o endereço. O colocou no GPS e começou a dirigir pelo trânsito que parecia piorar a cada hora que se passava.
Depois de quase 30 minutos ele finalmente se aproximou da casa de Nick. Ficava em uma rua plana em um bairro residencial que com certeza era nobre. As casas eram gigantescas. Ao longe, viu uma casa com todas as luzes acesas e, ao se aproximar mais, ouviu música que tocava no último volume. Como os vizinhos não chamaram a polícia?
Não conseguiu uma vaga perto de lá, já que a rua estava totalmente cheia de carros, por isso dirigiu até a rua de trás e estacionou em frente à um playground.
Quando deu a volta, entrou pela porta da frente, que estava destrancada, e fez uma careta ao se encontrar no meio de todo aquele barulho. Mandou uma mensagem para Eliot dizendo que já tinha chegado e esperou na porta. A casa era tão incrível por dentro quanto era por fora. As paredes eram de cor creme, a mobília era de madeira escura e vários quadros com paisagens estavam espalhados pelas paredes. Sentiu seu celular vibrar e viu que era uma mensagem de Eliot. Tô do lado de fora, ele dizia.
Já querendo ir pra casa, andou até o lado de fora esbarrando em várias pessoas que não lhe davam licença. Acabei de me lembrar porque não vou à festas.

Viu Eliot do outro lado da piscina, com uma cerveja na mão. Quando viu , acenou com os braços ao alto. O garoto caminhou até ele com o cenho franzido.

– Achei que estava passando mal – falou alto perto do ouvido de Eliot, já que a música estava alta demais.
– Nah, minha tolerância é alta – ele disse dando uma risada logo em seguida.
– Então por que diabos me chamou aqui? – ele perguntou irritado.
– Não é óbvio? Cara, eu sei que você não ia vir por vontade própria.

revirou os olhos e se preparou para se virar, quando Eliot o puxou de volta pelo ombro.

– Ok, fica pelo menos vinte minutos. Se você quiser ir embora depois disso, eu prometo que te deixo em paz.
– Caramba, por que quer tanto que eu fique?
– Porque eu sou um bom amigo, seu grande imbecil. Se você não vai viver sua vida por vontade própria, eu vou te obrigar a fazer isso.
– Você é um idiota.
– Posso até ser, mas você é quem vai ser o idiota se não ir ali falar com a Sarah – ele disse apontando para a garota de cabelos castanhos que olhava para com um sorriso. – Ela ficou caidinha por você, mas não diz que eu te contei.
olhou para Eliot e suspirou. – Vinte minutos.
Eliot comemorou. – Toma – ele entregou uma cerveja para ele.

pegou a garrafinha e brindou com ele. Logo depois, tomou um longo gole. O maior motivo de ele andar até a garota foi calar a boca de Eliot, mas não pôde deixar de não ficar interessado quando ela se aproximou vendo que ele ia até ela. Ela tinha cabelos ondulados que iam até a metade das costas e um olhar que mataria qualquer um. Seus lábios não tinham batom como a maioria das garotas ali e ele logo deduziu o motivo.

– E nos vemos novamente – ela disse assim que ele se aproximou. Logo depois, apontou para a bebida de . – Posso?

deu de ombros e lhe entregou a garrafa. Ela tomou um longo gole e a devolveu.

– Gostei do seu cabelo solto.
– Jura? Acho que não seria má ideia deixar ele mais vezes assim.
– Não mesmo – ele bebeu mais um gole de bebida.
– Seu sotaque é sexy – ela sorriu. Ele não pôde deixar de retribuir. Achou engraçado como ela estava tão solta, mas não sabia se ela era tão diferente no dia a dia, já que não havia convivido com ela.
– Fico lisonjeado. Pra falar a verdade, não percebo que tenho tanto sotaque até alguém comentar.
– Sabe, você fica bem mais amigável sem a postura misteriosa.
– Posso ter uma atitude diferente quando tô interessado em algo.
– E no que você tá interessado?
Ele não respondeu, o que fez Sarah rir. Ela olhou em volta para as pessoas que dançavam ao redor da piscina e pareceu ter uma ideia. – Dança comigo.
– Não sei dançar – ele disse.
– Essa desculpa não cola comigo – ela riu e o puxou pela mão.

Quando olhou para trás, viu que Eliot comemorou para ele.
Sarah o puxou para o lado de dentro e parou perto da escada. Pareceu esperar que tomasse a iniciativa, mas ele não o fez. Então ela revirou os olhos rindo e se aproximou dele, colocando as mãos em seu ombro. automaticamente colocou a mão desocupada em sua cintura e ela começou a balançar para os lados no ritmo da música. O garoto riu ao ver como ela estava completamente desengonçada e ainda assim continuava, sem ligar para os que estavam ao redor. Na verdade, ele acreditava que nenhum deles se lembraria de mais de três momentos daquela festa, já que via todos virando bebida atrás de bebida. Por esse exato motivo, decidiu não tirar vantagem de Sarah. Apenas ficaria os 20 minutos que prometera a Eliot e quem sabe iria conversar com ela no colégio – uma área livre de álcool. Mas quando a garota sorriu para ele e jogou a cabeça para trás enquanto dançava, fazendo seus cabelos balançarem, ele soube que seria difícil resistir.

– Você tá fazendo uma cara engraçada – ela disse próximo ao ouvido dele.
– Tô me perguntando o quão bêbada você tá – ele disse e tomou um gole de cerveja logo em seguida.
– A raiz quadrada de 121 é 11.
– Uma nerd? Ok, vamos fazer um teste. A raiz quadrada de 256.
Ela ficou em silêncio por um momento, como se estivesse calculando mentalmente. – 16?
– Eu não faço ideia – ele disse a empurrando levemente para o lado da escada. A encostou na parede fria e a beijou calmamente. Logo ela aprofundou o beijo e arranhou a nuca do garoto. Alguns instantes se passaram até que eles pararam para tomar fôlego e a garota aproximou a boca do ouvido dele.
– Vamos lá pra cima – ela falou e podia sentir a respiração quente dela em seu rosto.

O garoto levantou uma sobrancelha e ela fez uma careta ao entender.

– É preciso muito mais que isso pra transar comigo, lindinho – ela disse prontamente. Ele levantou as mãos na altura do rosto em sinal de rendição.
– Nem mesmo passou pela minha cabeça.
– Ah, claro. Acredito em você – ela riu e segurou a mão dele, o puxando escada acima. Os dois deram de cara com um corredor cheio de portas e, hesitante em entrar em algum quarto ocupado, o garoto seguiu para o final do corredor, que ele descobriu estar ligado a outro corredor. Achou a casa exagerada, mas pelo menos aquela parte estava vazia. Abriu a porta do quarto à esquerda e se preparou para sair quando viu que a luz estava acesa, mas então viu que estava deitada na cama, olhando para o teto e abraçando uma almofada.
? – ele a chamou. A garota se assustou e olhou para a porta rapidamente. Ela tinha os olhos inchados e vermelhos, o rosto molhado em lágrimas. Quando viu que estava acompanhado, pareceu surpresa.
– Ah, me desculpe, será que vocês podem ir pra outro quarto? Eu realmente preciso... – ela não terminou a frase.

Quando fez menção de sair, Sarah lhe dirigiu um olhar. Ela o puxou para fora do quarto e lhe deu um beijo curto.

– Vá falar com ela.
– Mas...
Sarah olhou para trás. – Vou te esperar aqui – ela apontou para outra porta.

mordeu o lábio, indeciso. Sarah percebeu e riu.

– Vai logo – ela o empurrou de leve.
– Hum, certo – ele falou e esperou que ela fosse para o outro quarto antes de tomar coragem para entrar. Não queria nem um pouco conversar com sobre qualquer que fosse o motivo para ela chorar. Especialmente depois de ela mandar ele se foder e ter sumido pelo resto da semana, assim como ele queria.

Ele fechou a porta atrás de si e colocou as mãos nos bolsos.

– O que aconteceu? – ele perguntou. Ela levantou o olhar.
– Não se preocupe. Pode voltar pra lá.
, você estava claramente chorando. E, cá entre nós, ninguém se tranca sozinho em um quarto pra ficar olhando pro teto durante uma festa.

Ela suspirou.

– Peguei o Nick com outra garota. Bem aqui nessa cama. Nós brigamos feio.

deveria ter se sentido surpreso, mas não foi o que aconteceu. Depois de ver ele dando em cima da garota na aula de literatura, mesmo que por brincadeira, soube que ele seria capaz de trair . Com certeza já tinha feito isso antes. Mas ele não disse nada disso pra ela.

– Você não parece surpreso. Bom, eu também não fiquei, se você quer saber.

balançou a cabeça confuso.

– Então por que estava com ele?
– Você já me fez essa pergunta. Vai dizer que eu não tenho respeito próprio de novo?
– Se você não está surpresa por ele ter te traído e ainda assim esteve com ele durante sei lá quanto tempo, quem sabe?

Ela o olhou, irritada.

– Caramba, você é realmente um idiota. Acha que pode chegar na minha frente e achar que sabe tudo da minha vida? Nós não vivemos em um filme, não sou a patricinha perfeitinha que você pensa.
– Você não precisa descontar sua mágoa em mim.
– Ah, você com certeza pode falar algo assim, já que não faz isso. Trata as pessoas assim por felicidade? Droga, , você deixa tudo estampado na sua cara.
– Ah, é? – ele a desafiou. – Fale o que pensa.

o olhou com os olhos frios.

– Você passou por alguma mágoa gigantesca que causou uma ferida que não cura. Isso te deixou fechado, distante. Tem medo de se magoar de novo. Tem medo de se importar. Diria até que tem medo de se importarem com você. É por isso que você me afasta. Acha que eu vou te magoar. Perdeu a fé na humanidade. Mas posso te contar um segredo? Você está no mundo real. Todos vão pisar em você e não é se isolando que você tá impedindo isso.

a olhou irritado. Irritado por ela ter acertado tão em cheio. Ela ter conseguido perceber aquilo em apenas alguns momentos que passou com ele o deixou furioso.

– Você não sabe nada da minha vida – ele disse baixo, sem ter certeza de que ela ouviu. – Eu tava tentando te apoiar aqui. Se quiser ficar sozinha e chorando o problema é completamente seu.

Ele se virou e começou a andar.

– Eu tinha um melhor amigo – disse rapidamente.

parou antes de chegar na porta.

– O quê?
– O nome dele era Darren. Ele tinha a mente tão louca quanto eu e foi o que nos fez virar amigos tão rápido.

Ele se virou novamente para ela. Ela parecia se xingar mentalmente por estar falando.

, eu não sei porque está me contando isso, mas eu...
– Só cala a boca – ela disse entre dentes e respirou fundo antes de começar. Ela olhava para as próprias mãos em cima do colo, parecendo abalada em falar sobre isso. Pois então, por que diabos ela estava falando? – Ele dormia no exato dormitório em que você dorme agora, . Na exata cama. Ele gostava de desenhos animados, era fascinado por música e, por alguma razão que eu ainda não compreendo, ele me entendia perfeitamente. Mesmo sem palavras, ele sabia o que eu estava sentindo. Bastava um olhar para ele saber que precisava me abraçar, ou que precisava rir junto comigo. Para ele, me fazer feliz era fundamental. E eu sentia o mesmo por ele. Não de maneira romântica, nós não passamos por isso. Era apenas uma amizade pura e verdadeira.

cerrou os olhos, sem entender onde ela queria chegar com aquilo.

– Ele era tudo pra mim. Até que um dia, ele e Nick saíram de carro. Nick estava dirigindo, os dois estavam indo para uma festa na casa de um cara do time que eu nem mesmo lembro o nome. E então houve o acidente. Sabe aquela cicatriz que o Nick tem debaixo do nariz? Bom, é daí que vem. Ele deu de cara no volante. O Darren? – ela fez uma pausa antes de continuar. Aquilo parecia torturante para ela.
, você não precisa me contar.
– O outro carro bateu em cheio no banco do passageiro. Ele chegou ao hospital com vida, mas...

ficou em silêncio por um momento, sem saber o que dizer. Sabia exatamente qual era a sensação de perder alguém que significava tudo no mundo. Como se isso não bastasse, sabia qual era a sensação de estar no acidente. De se odiar por não ter morrido. Deveria ter sido ele, não ela.
Ficou inseguro se deveria se sentar ao lado dela ou não. Sentiu que ela precisava de um ombro; parecia tão frágil, tão humana. Mas ele não conseguiu. No momento em que um tijolo de seu muro caiu, ele ergueu mais dois no lugar.

– Eu sinto muito – ele disse por fim, com uma voz baixa. Se surpreendeu por ter escutado, já que a música alta se infiltrava no local.

Um indício de sorriso surgiu no rosto de , mas ele desapareceu tão rápido quanto surgiu.

– Depois do funeral eu finalmente tive coragem de ir até o quarto dele. Deitei em sua cama. Olhei suas fotos. E então Nick entrou. Ele parecia tão arrasado quanto eu, se sentia culpado. Ele nunca se perdoou pelo que aconteceu, mesmo que o outro carro tenha batido no dele, não o contrário. Nós conversamos pela primeira vez. Ele parecia ser o único que entendia a dor que eu estava sentindo, Darren era tão importante pra ele quanto era pra mim. Eu acabei me tornando um apoio para ele; e ele para mim. É por isso, , que eu namoro o Nick. Não por não me dar respeito. Não por eu ser fácil. Não por diversão. Eu estou com ele porque, de maneira quebrada, ele entende.

assentiu com a cabeça levemente, querendo lhe dizer sem palavras que havia entendido. Mas não concordava, de modo algum.

– Eu também perdi alguém importante – ele disse antes mesmo de conseguir se conter. Se xingou mentalmente por isso, mas quando o olhou inexpressiva, ele prosseguiu. – A minha irmã.
– A que te ensinou a dançar? – ela perguntou franzindo o cenho. assentiu. – Mas, eu achei que...
– Foi um acidente de carro também. Eu estava lá. E meus pais também. Minha mãe se recuperou em algumas semanas, mas a ... – ele não conseguiu terminar a frase. Fechou os punhos com força e tentou não deixar a lembrança daquele dia tomar conta de sua mente.
– Eu sinto tanto, .
O garoto balançou a cabeça. – Eu só quero dizer que sei como se sente. Ela era tudo pra mim. Depois disso parece que o mundo...
– Perdeu o sentido? – ela sorriu sem ânimo. – Eu sei.

Os dois ficaram em silêncio, olhando para as próprias mãos. Estavam constrangidos e nem mesmo sabiam exatamente o por que.

– Você respondeu algo significativo – ela disse depois de alguns instantes, com um meio sorriso.
– Você não perguntou – ele disse.
– Você quis me contar.
Ele suspirou. – Não pense que porque te contei uma coisa vamos ser amigos e compartilhar segredos.
– Tudo bem – ela disse erguendo as mãos na altura da cabeça, em sinal de rendição. – Mas se sinta livre quando quiser conversar. Claro, se for civilizadamente.

Ela se levantou ajeitando os cabelos atrás das orelhas e colocou as mãos nos bolsos da saia jeans que vestia.

– Não sei se você percebeu, mas eu não sou do tipo que se abre.
– Você é do tipo que se fecha. Não, você se tranca, com sete cadeados. Mas tudo bem pra mim. Você pode guardar seus segredos, eu não vou perguntar.
Ele levantou uma sobrancelha. – Fácil assim?
– Eu descobri o seu segredo, . Você só se abre quando sente confiança na pessoa. No meu caso foi porque você se identificou com a minha dor. Bom, tem mais de onde essa veio, então sei que você vai acabar me dando as chaves. Não tenho pressa alguma.
mordeu o lábio, se odiando por ter aberto uma brecha. – Não vai rolar, West.

Ela não disse nada, apenas sorriu fechado e saiu caminhando até o corredor. se levantou e saiu do quarto. Quando estava prestes a atravessar o corredor, parou de andar subitamente.

?

Ele a olhou.

– Sim?

Ela andou até ele e parecia envergonhada. franziu o cenho.

– Eu ia passar a noite aqui, mas não dá mais porque... – ela limpou a garganta. – E a Clay foi embora com um cara do segundo ano... Eu iria pra casa, mas estou sem carro e...

suspirou, sabendo exatamente onde aquilo ia parar. Não soube o que fazer.

– Será que eu posso... passar a noite na sua casa?

a olhou, em dúvida. Não queria, não mesmo.

– Eu prometo que de manhã bem cedo peço uma carona para a Clair.

suspirou de novo. Sem nem mesmo responder, ele levantou o indicador para que esperasse e cruzou o corredor, entrando no quarto onde Sarah o esperava. Ao vê-la ali, ele sentiu vontade de deixar plantada, mas sabia qual a coisa certa a fazer. Por isso, foi até a garota. Assim que se aproximou, ela o beijou. Por alguns instantes o garoto retribuiu, mas logo separou o beijo.

– Eu tenho que ir – ele disse. Ela pareceu desapontada. – A tá mal, então vou levar ela pra casa.
– Ah, eu entendo. Mas você volta?
– Acho que não. Mas, hm, será que você pode me passar seu número?

Sarah sorriu desanimada e estendeu a mão. desbloqueou o celular e o entregou.

– Pronto – ela disse lhe estendendo o celular depois de salvar sei número ali.
– Ok, vou indo – ele disse e, antes de se afastar, lhe deu um selinho demorado.
– Tchau, .

O garoto saiu do quarto e viu que continuava no mesmo lugar, olhando o movimento do corredor. Quando viu , logo falou.

– Eu sinto muito por atrapalhar. Se você quiser eu...
– Ela entendeu – ele disse dando de ombros. – Vem.

assentiu com a cabeça e o seguiu pela casa, desviando de várias pessoas pelo caminho. Quando se aproximaram da entrada, viram que Nick estava perto. quis verificar com se estava tudo bem pra ela passar por ali, mas antes que pudesse perguntar algo, a garota empinou o nariz e andou cada vez mais rápido até lá. Quando Nick pareceu prestes a dizer algo, ela passou direto por ele e cruzou a porta. Quando foi a vez de passar, recebeu um olhar inexpressivo, mas ele sabia bem o que se passava na mente dele.
Se eles já tinham problemas por motivo nenhum, não queria nem ver como seria com Nick achando que ele estava com . Não que ele não merecesse, é claro. Mas não era da conta de , preferia ficar longe de confusão. Por isso, simplesmente saiu com e a levou até o apartamento.



5-

Londres/UK – 12 de julho de 2012

parou à porta da UTI, sentindo que era incapaz de entrar, mesmo com a permissão para isso. Viu sua mãe ali, com vários fios ligados ao corpo e não conseguiu imaginar como seria pra ela acordar e descobrir que sua filha havia morrido naquele acidente.
Na manhã seguinte à conversa com o doutor, acordou com uma impulsão de saber todos os detalhes do que tinha acontecido com , mas assim que o homem começou a falar, ele pediu que parasse. Saber só iria piorar a situação, se é que era possível. Por isso, assim que foi liberado, pediu que alguém lhe dissesse onde sua mãe estava. Mas mesmo ali, ele não se sentia melhor. Não se sentia mais aliviado por ver sua mãe, por mais horrível que isso possa parecer. A sua mente girava tanto que ele não conseguia comemorar o fato de sua mãe estar viva. Estava extremamente feliz por isso, só não sabia encontrar esse sentimento no meio da bagunça acontecendo dentro dele.

– Ela vai ficar bem – Harrison disse se aproximando do garoto. Os dois ficaram lado a lado parados na porta, sem se olhar.

ficou alguns segundos em silêncio, sem saber como reagir àquilo. Não é como se ele pudesse ter certeza, de qualquer maneira.
Sem previsão alguma, lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto, fazendo com que ele se virasse e apoiasse as costas na parede fria. Pensou em se debruçar, pois estava começando a sufocar, mas se lembrou dos pontos no momento em que a dor preencheu seu abdômen. Seu pai automaticamente se inclinou – já que ele era pelo menos uma cabeça mais alto que – e abraçou seus ombros.

... – ele tentou começar, mas o garoto interrompeu antes que ele conseguisse.
– Não – ele disse abraçando sua própria barriga. – Nada do que você disser ou fizer vai me fazer sentir melhor.

O pai pareceu sentir dor ao ouvir aquilo. se sentiu mal e abriu a boca para pedir desculpas, mas o homem balançou a cabeça para os lados. Depois de alguns segundos de silêncio ele deitou a cabeça na de e respirou fundo.

– Um pai nunca para de tentar, você sabe disso, não sabe?
– Sei.

O garoto também sabia que Harrison estava quebrado. Despedaçado. Perdido. Com uma gigantesca vontade de gritar. Era o mínimo naquela situação. Mas ele escondeu esses sentimentos apenas para estar ali por e ele não sabia como agradecer por isso.

– Eu só não consigo acreditar – ele acrescentou. – Eu nunca vou acreditar.

Harrison não soube o que dizer para o filho que estava ali nos braços dele, completamente arrasado, sem rumo, e se sentiu inútil por isso. Apenas ficou ali, encostado na parede fria do hospital, abraçado com ele e mentalmente pedindo para que os três conseguissem sair dessa.



6-

You're only looking for attention
The only problem is you'll never get enough – Attention (The Weeknd)

(Você apenas está procurando por atenção
O único problema é que você nunca consegue o suficiente)

fechou a porta atrás de si e colocou as chaves em cima de uma mesinha de madeira ao lado da entrada. pareceu tímida ao caminhar até a mesa de centro e olhar em volta. Ela olhou o painel de madeira escura onde a TV estava pendurada e a pequena estante logo embaixo dela, mas não comentou o fato de não ter porta retratos ali, como deveria ter, mesmo claramente tendo notado isso. Olhou o sofá acinzentado com almofadas escuras; a parede da esquerda, ao lado da porta, onde havia um grande quadro com uma pintura de um parque de Londres que ele mesmo fizera; a cozinha do outro lado do balcão que separava os cômodos; e, por fim, seus olhos pousaram no cinzeiro em cima da mesa de centro. Ele não sabia muito bem o que dizer. Não planejava levar ninguém até ali; era como se fosse seu refúgio. E, apenas uma semana depois, havia uma pessoa no meio de sua sala de estar. Não se sentia confortável com isso, mas também não se sentiria confortável deixando ela sozinha, sem opção do que fazer. Conseguia ser um babaca quando queria, mas não era egoísta. Se ela precisava então, bom, ele ajudaria.

– Você fuma?

a olhou como se ela fosse a pessoa mais idiota do mundo.

– Acho que isso é um sim. Seus pais não vão se importar de eu ficar aqui?

Sabia que responder aquilo só traria mais perguntas, mas não pretendia responder nenhuma, então apenas falou a verdade.

– Eles moram em Londres.

Ela pareceu surpresa.

– Ah, interessante.
Ele levantou uma sobrancelha. – Sem perguntas?
– Eu disse que não vou perguntar.
– Hm, ok. Obrigado.

sorriu fechado.

– Se sinta à vontade pra pegar algo na cozinha.
– Certo.

Quando viu a garota se sentando no sofá, ele se virou e foi em direção ao corredor. Entrou no quarto que ainda não tinha decoração – apenas uma cama com lençóis brancos e cobertor cinza –, e abriu seu closet. Não tinha muita coisa lá e, por um momento, quis seu closet de Londres. Era perfeitamente arrumado, já que a família tinha uma pessoa para cuidar disso. Era o quarto dele desde os 7 anos, quando seu pai comprou aquela casa, então, tudo que ele tinha estava lá. Sua primeira câmera profissional. O primeiro desenho do qual se orgulhou, aos 13 anos, que fez quando estava com sua mãe no jardim e a viu olhando para as nuvens com os olhos apertados por conta do sol, pensando que aquela cena daria uma ótima foto. Mas como estava sem câmera, apenas começou a rabiscar em seu caderno, sem ideia de que aquele seria um de seus melhores desenhos. Também tinha lá uma caixa com as fotos que tirou de quando ela decidiu que queria ser modelo. Ela desistiu alguns meses depois, mas ele ainda tinha as fotos. Era um cara de lembranças, afinal.
Mas ali em San Diego ele não tinha nada. Não tinha fotos, família. Ele não se sentia em um lar. Isso o deixava mal, já que durante os dois últimos anos, pouco se importou com qualquer pessoa ao redor dele. Não se surpreendeu quando seus pais passaram a ignorar a presença dele. E, agora, ali naquele apartamento em outro continente, ele se sentia um completo babaca. Como você deixou sua vida chegar a esse ponto?, ele se perguntou novamente, pelo que pareceu ser a centésima vez.
Finalmente caiu em si e pegou um travesseiro e um cobertor no fundo do closet. Quando voltou para a sala, viu que estava segurando a câmera que ele havia acabado de usar. Aquilo o irritou e ele nem mesmo sabia o por que.

– Não mexa nisso – ele disse. A garota se virou para ele com uma expressão confusa.
– Não sabia que você fotografava.
, me dá isso – ele disse colocando as coisas ao lado dela no sofá. A garota pareceu hesitar, sem entender porque ele estava reagindo assim, mas entregou a câmera. – Eu não fiz um quarto de hóspedes, então...
– Tudo bem, muito obrigada.
– Ok – ele disse vendo que ela se levantava. Foi até lá e puxou os acentos do sofá para frente para que eles ficassem maiores e ela tivesse mais espaço para dormir. – ?
Ela se virou para ele. – Sim?
– Por que você não foi pra sua casa?

Ela pareceu surpresa com a pergunta.

– É só que, quando você me pediu para ficar aqui, falou sobre não querer ficar na casa do Nick, sobre a Claire já ter ido embora, mas não disse nada sobre sua casa.

baixou o olhar.

– Eu e o meu pai não temos uma relação muito boa. Depois do que aconteceu com o Nick, eu só... Eu não queria voltar pra casa logo depois. Só ia piorar.

assentiu, sem acrescentar mais nada. Não sentiu que deveria se intrometer nisso.

– Boa noite.

Ela suspirou, parecendo frustrada. Talvez com , talvez com Nick, com o pai. O garoto não fazia ideia. Mas, por fim, ela olhou pra ele.

– Boa noite, .

– Sabe, , essa não ficou tão boa quanto a outra – disse apontando as fotos sobre a mesa da sala de jantar. Vez ou outra ela pegava uma delas para ver mais de perto. – Mas essa, ah! É a minha favorita.
– Só porque seus olhos ficaram mais claros – riu. – Minha favorita é essa – ele apontou para uma em que ela estava sorrindo olhando para baixo, parecia que tinha os olhos fechados.
– Já que é assim, também vou usar ela.
– Agora você aceita conselhos meus? – ele levantou uma sobrancelha.
– Como não poderia aceitar conselhos de alguém que tirou fotos para o meu portfólio completamente de graça? – ela sorriu brincalhona.
– E quem é que disse que eu tô fazendo isso de graça?

O sorriso no rosto de sumiu em um segundo.

– Do que você tá falando?

gargalhou.

– É brincadeira. Mas eu bem que queria uma lente nova – ele sorriu tentando fazer sua expressão mais fofa.

revirou os olhos.

– Vou pensar no seu caso.
– É por isso que você é a minha irmã favorita.
– Eu sou sua única irmã, idiota – ela riu lhe dando um tapa de leve na cabeça.
– E é a favorita – ele insistiu.

O celular da garota vibrou em cima da mesa e o pegou antes que ela pudesse.

– Noah, uh?
, me devolve isso!
"Você tá linda na sua nova foto de perfil, quando vou poder te ver pessoalmente de novo?" – o garoto leu em voz alta, fazendo com que olhasse rapidamente em volta conferindo para ver se alguém estava por perto. Quando constatou que não, voltou a olhar para ele.
– ela lhe dirigiu seu olhar mais irritado. Ele sorriu interessado enquanto entregava o celular.
– Acho que acabei de ganhar um novo meio de te chantagear.
– Você não ousaria.
– Você ainda duvida de mim, não é mesmo? Vou aceitar aquela lente nova. E sorvete.
– Não vou deixar você me chantagear, maninho – ela falou semicerrando os olhos.
– Ô MÃE – ele gritou.
– Eu vou te matar – ela sussurrou. – Escolhe a merda da lente.
– E o sorvete?

Ela suspirou.

– E o sorvete.

– É ótimo fazer negócios com você, . Ainda mais quando a mamãe não tá em casa – ele sorriu vitorioso por ter conseguido enganá-la.

A garota pareceu se tocar.

– Você é tão idiota que chega a ser esperto.
– Prefiro pensar que eu sou um gênio.

acordou por volta das 4h da manhã. Ficou alguns bons minutos tentando adormecer novamente, mas não teve sucesso. Muitas lembranças atormentavam sua mente. Tudo o que conseguia fazer era fechar os olhos e se sentir irritado com aquilo. voltara a ser protagonista em seus pensamentos depois de tanto tempo que conseguiu passar sem nem mesmo pensar em seu nome e ele só desejava poder ver ela pelo menos mais uma vez.
Completamente frustrado, ele decidiu se levantar para ver se conseguia acalmar a mente. Saiu da cama rapidamente, embora estivesse muito cansado, e pegou um maço de cigarros na gaveta. Sabia que aquilo só iria piorar a insônia, mas preferia isso a sonhar com ela. Não encontrou um isqueiro, por isso saiu do quarto e caminhou silenciosamente até a sala. parecia dormir profundamente, por isso ele tentou fazer o mínimo de barulho ao abrir uma das gavetas da estante e pegar um isqueiro. Mas não bastou, já que ele pôde ouvi-la resmungando enquanto acordava.

? – ela disse em um sussurro sonolento.
– Desculpa, foi sem querer – ele se levantou já com o isqueiro na mão.
– Tudo bem – ela se sentou coçando os olhos. – Que horas são?
– Quatro.
– Hum, isso é estranho.
– Eu não consigo dormir, então levantei. Mas volta a dormir, eu fico no meu quarto.
– Não, sem problemas.
– Certo – ele concordou e acendeu a luz.

acendeu o cigarro e guardou o isqueiro novamente na gaveta enquanto via se esticar e pegar o celular na mesa de centro. Mas de repente ela viu a tatuagem que tinha no peito.

– O que é?
– Uma caveira mexicana.
– Por que uma caveira mexicana?

Ele deu de ombros, sem dizer nada.

– É bonita.
– Valeu – ele disse, de repente passando os dedos sobre a tatuagem.

Quando olhou de volta para a garota, a viu franzir o cenho para o celular. Ele quis perguntar, mas antes que ele pudesse, ela colocou o aparelho novamente no lugar onde estava e se levantou.

– Pode me dizer onde fica o banheiro?
Ele apontou para o corredor. – Segunda porta à esquerda.

Ela assentiu e foi na direção indicada. continuou ali, tragando o cigarro. De alguma maneira estranha aquilo lhe fazia ficar calmo. Ele tinha se focado naquilo para esquecer o verdadeiro problema, mas não era como se realmente funcionasse. Além disso, não conseguiria fazer aquilo na escola sem ser percebido e prometera para os pais que não arrumaria encrenca. Então a tortura ficava cada vez maior e ele contava os segundos para sair de lá.
Alguns instantes se passaram e logo saiu do transe ao ver voltar para a sala. Ela soltou um pequeno suspiro ao ver que ele ainda estava lá e então pareceu perceber a expressão curiosa em seu rosto.

– Meu irmão vai voltar pra cá – ela disse de repente.

Isso só traz mais perguntas do que respostas, ele pensou.

– Isso não deveria ser bom? – ele perguntou.
– É maravilhoso, na verdade – a garota se sentou novamente no sofá e abraçou as próprias pernas. – Só não para a minha saúde mental naquela casa.

Quando viu que ele estava mais confuso do que antes, ela suspirou e continuou.

– Eu não tenho uma boa relação com meu pai e o Adam muito menos. Chegou a um nível que ele foi morar com a nossa tia na França com a desculpa de que queria "descobrir o mundo" – ela fez sinal de aspas com as mãos. – Depois de tanto a minha tia insistir, meu pai acabou concordando e ele já está lá há quase 2 anos. Parece que ele cansou de caçar francesas por lá e quer voltar.
– Seu pai é realmente babaca assim? – ele perguntou sendo indelicado sem intenção. Mas não retirou o que disse.
– Vai me dizer que seus pais não são nem um pouquinho chatos?

soltou fumaça pela boca fazendo com que uma careta se formasse no rosto da garota, mas ela não reclamou.

– Você disse que não ia perguntar – ele esticou a mão para o cinzeiro.
– Qual é, foi apenas uma perguntinha de nada. Não é como se eu estivesse perguntando o porquê de eu nem mesmo poder falar a palavra "pais" perto de você. Será que você pode me dizer, , o que aconteceu? – ela perguntou, de repente com uma voz mais alta que o normal.

teve vontade de rir e não conseguiu esconder isso ao falar.

– Você tá gritando.
– Você me deixa louca.

Dessa vez ele realmente riu.

– É engraçado pra você?
– Na verdade, é sim. Você parece uma pessoa tão diferente do dia em que nos conhecemos e ao mesmo tempo parece tão igual. Mas, sabe, a curiosidade ficou mais histérica – ele disse com um sorriso debochado nos lábios. Quando viu ela revirando os olhos, apagou o cigarro no cinzeiro e começou a ir em direção ao quarto.
– Eu sinto muito! – ela falou alto quando ele já estava no corredor. O garoto se virou novamente para ela. – Eu sinto muito por qualquer coisa que tenha feito você se fechar tanto e ter tanto medo de confiar. Se soubesse que pode confiar em mim, talvez não estivesse tão sozinho.

Ele caminhou até ela e chegou tão perto que ela até mesmo se assustou.

– Você não quer me ajudar, só é tão mimada e curiosa que não aceita quando alguém te diz não. Para de tentar, porque eu nunca vou confiar em você. Conseguiu entender?
A garota sorriu ironicamente. – Entendi perfeitamente.
– Ótimo.
– Sabe, você entra tão na defensiva que a situação fica até engraçada. Me faz pensar que o que quer que você tenha passado não é nada demais. Você apenas quer usar como desculpa pra ser um completo idiota.
– Além de irritante agora você julga a dor alheia?
riu. – Acho que foi você quem acabou de fazer isso. Mas pode deixar, vou adicionar isso ao meu currículo.

revirou os olhos impaciente e fez menção de sair.

– Já vai? Posso ficar nisso a noite toda.
– Olha, , eu não me importo com as brigas que você tem com o Nick, com seu pai, ou com quem quer que seja, então para de tentar arrumar discussão comigo só porque você tá acostumada com isso.
– Eu não tô acostumada a nada!
– Não é o que parece. Você diz que não é princesinha do papai, mas nada do que você faz tá me fazendo pensar o contrário.
– Ei, eu...
– É madrugada, eu realmente quero dormir. Tenha uma ótima noite – ele disse com tom de voz sarcástico e caminhou em direção ao seu quarto.

Como já sabia, a sua insônia só tinha piorado, e ele demorou muito pra conseguir pegar no sono. Quando acordou e se lembrou de que tinha passado a noite ali, suspirou cansado se preparando para mais uma discussão. Ela era tão irritante que ele simplesmente não conseguia ficar quieto.
Se levantou e fez sua higiene matinal o mais devagar possível. Quando voltou para o quarto, viu uma ligação perdida em seu celular. Não conhecia o número, mas retornou.

Alô? – uma voz masculina disse do outro lado da linha.
– Alô, quem é?
Sou James, pai da Ashley.
– Ah, certo.
Será que você estaria disponível hoje?

caminhou porta a fora e procurou por . Ela parecia não estar em lugar algum.

– Sim, estarei. Que horário é melhor pra você?
Antes do almoço, de preferência. Estaremos ocupados depois disso.
– Ok. Vocês já sabem onde querem fazer as fotos?
Tem um parque aqui perto de casa, é um dos lugares favoritos dela. Vou te mandar o endereço.
– Certo. Te encontro lá às... – ele olhou a hora. – 10:30?
Combinado.

Quando o homem desligou, calçou um tênis e ajeitou o cabelo rapidamente no espelho da sala. Logo depois, foi até o closet em seu quarto e trocou a lente da câmera e também o cartão de memória. Agora estava pronto.
Tá acordada?, ele mandou para a mãe, enquanto pegava as chaves do carro. Foi quando viu um pedaço de papel em cima da mesa de centro. Ele foi até lá e o pegou.

”Me desculpe por ontem à noite. É errado julgar as pessoas sem nem mesmo saber do que está falando. Mas não se preocupe, não vou insistir mais.
E obrigada por me deixar passar a noite, me ajudou muito.
xx "

franziu o cenho enquanto amassava o papel. Não teve muito tempo pra pensar sobre o assunto, já que sentiu o celular vibrar.

Sim, aconteceu alguma coisa?, ele leu.
Sem nem mesmo responder, ligou para ela. Sabia que esse tipo de ligação custava uma fortuna, mas sua mãe insistiu que ele não mantesse contato só por mensagem. Depois de apenas um toque, ela atendeu com a voz sonolenta.

Oi, .
Oi, mãe – ele disse saindo do apartamento. O elevador chegou rapidamente, já que não havia mais ninguém o usando, então logo ele estava no estacionamento do prédio.
Como você tá? Já faz dias que não dá notícias, fiquei preocupada. Desculpa, ando de cabeça cheia.

Ele caminhou até sua vaga e entrou no carro. Colocou o celular no viva voz e o deixou no seu colo enquanto começava a dirigir.

Aconteceu alguma coisa?
– Não, só parece que eu voltei a viver como um adolescente normal.
Isso é bom, não é? Faz a cabeça ficar mais limpa.
– Somos todos problemáticos.
Ela deu uma risada curta. – Adolescentes e seus problemas gigantescos. O que é? Problema com alguma garota?
– Por incrível que pareça, sim. Mas não é nada de...
Tudo bem, você não precisa me explicar. Mas sabe que seria bom se envolver com as pessoas, não sabe?
– Eu não quero que aconteça de novo – ele falou simplesmente.
O quê?

Ele hesitou por algum tempo. Fazia muito tempo que não conversava de verdade com a mãe, não sabia como se sentia sobre se abrir com ela. Mas, afinal, quem mais ele tinha?

– Eu me lembro da expressão de vocês quando foram me buscar na delegacia – ele disse finalmente. – E também de quando contei tudo. Eu nunca nem mesmo cheguei a pedir perdão.
Eu te perdoei no mesmo segundo, . É isso que pais fazem, amam incondicionalmente seus filhos. Pra mim, você continua sendo aquele mesmo garoto que ria de qualquer coisa e era apaixonado por arte.

O coração de apertou.

– Meu pai não pensa assim.

Liz suspirou.

Tente se colocar no lugar dele. Vocês eram tão próximos, quando ele soube o motivo de você ter se afastado tanto, ficou decepcionado por você não ter confiado nele.
– Eu confio em vocês. Só não confio em...
Eu sei. Só dê tempo para ele.

olhou para a bolsa da câmera em cima do banco ao lado.

– Eu tô indo fazer um ensaio fotográfico – ele falou de repente.
Jura? – ela disse parecendo surpresa. – São ótimas notícias!
sorriu um pouco. – Eu sei. Conheci essa família ontem à noite e eles querem que eu faça um ensaio com a filhinha deles. Acho que é uma boa.
Eu estou muito feliz de ouvir isso. Pode me mandar algumas fotos depois?
– Claro. Mas me diz, como andam as coisas por aí?
Ah, o de sempre. Seu pai trabalhando até tarde, eu sempre tentando matar o tempo. As coisas ficaram muito... Monótonas.

Ele queria estar lá. Conversar de verdade com os pais, acabar com a tensão entre eles. Queria que as coisas voltassem ao normal. Mas não disse nada disso, continuava não se sentindo no direito.

– Sinto muito – ele disse estacionando em frente a um café.
Não se preocupe.

Os dois ficaram em silêncio enquanto ele descia do carro, e o silêncio continuou mesmo quando ele tirou a ligação do viva voz e entrou no estabelecimento. Ele caminhou até o balcão e se sentou. Sem nem mesmo olhar o cardápio, pediu um capuccino e alguns donuts.

Fiquei curiosa sobre seus problemas com garotas.

revirou os olhos, pois sabia que ela tinha tirado conclusões precipitadas.

– Não é nada disso. Mas ela é extremamente curiosa e nós não podemos ficar muito tempo juntos sem discutir. É irritante.
Quem sabe ela não seria uma boa amiga se vocês tentarem conversar?
– Nem pensar.
Bom, eu acho... – ela começou, mas se interrompeu. – Seu pai está aqui. Quer falar com ele?
– Não.
Ah, ok.
– Eu só não acho que nós dois deveríamos ter uma conversa dessas pelo telefone.
Eu entendo. Bom, vou te deixar em paz pra comer. Não se esqueça de dar notícias.
– Ok, tchau.
Tchau, .

desceu do táxi e, depois de pagar, caminhou para dentro do colégio, seguindo o caminho de pedras sobre a grama até o prédio. Como estava praticamente vazio, não teve que parar para cumprimentar alguém, apenas entrou no escritório de seu pai para descobrir que ele não estava ali. Achou estranho, já que ele havia dito que passaria o final de semana resolvendo alguns problemas urgentes.
Com um suspiro cansado, ela saiu do prédio e correu pelo estacionamento até encontrar sua vaga. Entrou no carro e o manobrou para fora do colégio, até uma pequena estrada feita especialmente para chegar até a mansão. Alguns longos minutos depois ela estacionou o carro em frente ao portão e viu o carro do motorista da família no gramado. Franziu o cenho e se apressou a entrar em casa.

– Pai? – ela chamou, logo recebendo uma resposta.
– Oi, filha – ele disse entrando na sala de estar. estava prestes a responder, quando viu Adam surgir atrás dele, com um pequeno sorriso nos lábios. Ele continuava com os mesmos cabelos escuros, mas na altura das orelhas. Via as fotos dele em redes sociais, mas ele parecia muito diferente pessoalmente. Parecia um completo estranho.
– Oi, maninha. Você parece chocada.
– Quando me disse que voltaria, não achei que seria hoje.
– Não gostou da surpresa?
– Claro que gostei – ela sorriu fechado e caminhou até ele. Os dois se abraçaram por alguns instantes, até que o garoto a soltou.
– Onde esteve?
– Dormi na casa da Clay – ela mentiu. – Você tá com sotaque?
– Ah, estou? Eu não percebi – ele riu. – Talvez a viagem tenha me afetado mais do que eu pensava.
– Vamos conversar sobre essa viagem – ela sorriu e estendeu a mão pra ele.
– Certo – ele segurou a mão da garota, que o puxou até seu quarto.

Percebeu que o local havia mudado drasticamente desde a última vez em que se viram. As paredes que antes eram rosa, agora estavam cobertas por um papel de parede estampado com cores mais neutras, menos chamativas. Antes a porta de vidro que dá para a varanda ficava completamente descoberta, já que eles não estavam tão perto de alguém que pudesse espionar. Mas de um tempo pra cá, ela sentiu que era melhor mudar isso, por esse motivo agora era ela coberta por uma cortina florida, tão delicada que nem mesmo parecia dela.
Adam pareceu analisar cada detalhe ali, que ela conhecia como a palma da mão. Não disse nada, entretanto.
fechou a porta devagar e cruzou os braços enquanto ele passava os dedos sobre um porta retrato na cômoda.

– É, eu mudei a decoração do meu quarto – ela soou impaciente, sem intenção.
– Ficou bonito.
– Obrigada.

Ele sorriu.

– Parece que você quer me perguntar alguma coisa.
– Por que voltou?

Ele deu de ombros.

– Senti saudade.
– Eu tô falando sério, Adam.
– O que te leva a pensar que eu não estou? É verdade. Voltei por sua causa.

Ela não acreditou.

– E o papai?
– O que tem ele?
– Aquilo vai se repetir? E eu não me refiro apenas à última briga, eu estou me referindo a tudo.
...
– Eu não tô brincando. Você sabe que eu também discuto com ele o tempo todo, mas você é diferente. É tão duro, tão insensível. Jogou a morte da mamãe na cara dele e ainda quer que eu fique só parada vendo?
– Ele mereceu. Te tratou como lixo.
– E isso é problema meu. Por favor, Adam, não se intrometa mais nisso.
– Como você disse: só quer que eu fique parado vendo?
– Sim, é exatamente o que eu quero que faça.
– Então me diga, , como foi o tempo que eu passei fora? Vocês viraram melhores amigos? Compartilham segredos? Ele passa tempo com você? Dá atenção aos seus problemas?
– Você pode odiar ele o quanto for, mas ele vai ser seu pai pra sempre.
– Ele vai ser meu pai quando agir como um. Como você consegue defender ele é o que mais me surpreende.
– Eu não tô defendendo ele! – ela praticamente gritou. – Eu tô me defendendo. Você justifica as suas ações dizendo que tá me defendendo, mas se lembra como eu ficava depois de cada briga? Sempre tudo caía sobre mim e eu ficava tão mal por isso! Você brigava por mim, mas nunca sequer se importou de perguntar como eu me sentia.

Adam a olhou parecendo dividido. A garota sabia que ele estava dando razão pra ela, mas não acreditava na possibilidade de ele admitir.

– Será que agora as coisas podem ficar um pouco menos tensas? Se não puder ser capaz de ver nele um pai, pelo menos ignore. É o que eu faço na maior parte do tempo.
...
– Por favor, Adam. Eu prometo que não precisa ser tão ruim. Ele continua não dando atenção pra alguma coisa além do colégio, então...
– Assim é bem fácil de ignorar – ele sorriu cínico.
– Eu não disse que é fácil passar por isso.
– Desculpa por ter te deixado sozinha.

Ela ficou surpresa e não conseguiu esconder isso.

– Eu também teria ido pra França se tivesse chance.
– Eu te chamei pra ir comigo.
– Ele continua sendo nosso pai. Não sei como somos tão diferentes quanto a isso, mas eu tenho bem mais compaixão.
– Gêmeos... Sempre roubando as qualidades do outro.
Ela riu. – Roubei toda a beleza também.
– E toda a humildade, como posso ver – ele riu. – Mas saiba que eu me dei muito bem com...
– Eu realmente não quero saber – ela interrompeu.
– Tá certo. Vamos falar de você, então. Uns meses atrás você me contou que tava namorando. Como tá indo?

Ela mordeu o lábio, hesitando. Não tinha falado sobre aquilo com ninguém ainda.

– Eu acho que isso é um não – ele observou. – O que aconteceu?
– Eu prefiro não falar sobre isso. Vou dizer que terminamos ontem e nada mais.
– Ah, ferida recente. Bom, sinto muito. Se quiser conversar...
– Obrigada – ela disse incerta.

olhava as fotos passarem na câmera enquanto James e a esposa estavam pendurados ao lado dele sorrindo ao ver o resultado. Ashley brincava na grama sem preocupações. O garoto tinha simpatizado com ela, com a sua inocência. Achava fascinante como uma criança não fazia ideia das coisas que aconteciam no mundo ao redor e conseguiam ser felizes por isso. Mas então elas cresciam e o mundo real as engoliam. Ninguém era criança para sempre, infelizmente.

– Você é muito bom nisso – a mulher comentou. – Conseguiria fazer carreira facilmente.
– Obrigado – ele disse.

James tirou a carteira do bolso e retirou algumas notas de 20 dólares.

– É suficiente?
– Hum, sim – ele disse hesitando antes de pegar o dinheiro.
– Estamos indo almoçar, não quer se juntar a nós?
– Eu... – ele começou, prestes a dizer que tinha outro lugar para ir, mas então viu o sorriso amigável nos rostos deles e simplesmente aceitou. – Ah, claro.
– É só seguir a gente – ele apontou para o carro.

assentiu com a cabeça e entrou no seu próprio carro. Colocou o tripé no banco de trás e a câmera de volta em sua bolsa no banco do passageiro. Quando viu James saindo com o carro, saiu logo atrás, na mesma velocidade.
Depois de algum tempo, o carro da frente finalmente fez sinal para estacionar. Como não tinha outra vaga ali em frente ao restaurante, virou e estacionou na outra rua. Apressou o passo para voltar para a outra rua, já que não queria deixar eles esperando.
Os quatro entraram em silêncio e logo uma recepcionista os levou até uma mesa desocupada. Depois de Ashley ser colocada na cadeirinha, todos já estavam sentados. pegou o cardápio e continuou em silêncio, ignorando completamente a conversa deles, até que Marisa se dirigiu a ele.

– Então, , você disse que estuda em um colégio interno. É no Michigan West?
– É sim.
– Temos um filho que estuda lá também, está no segundo ano.
– Não conheço quase ninguém lá.
– Ah, você é novo?

Ele assentiu com a cabeça.

– Você tem sotaque forte, não me surpreende que tenha acabado de chegar à cidade – James comentou. – E seus pais?
– Continuam em Londres – ele respondeu em tom monótono enquanto tentava se decidir entre dois pratos.
– Eu com certeza não teria coragem de fazer isso – Marisa riu. – Quero dizer, deixar meu filho morar sozinho em outro país sendo tão novo como você.
– Foi preciso – ele disse simplesmente.
– O que quer dizer?

deu de ombros e observou um garçom se aproximar da mesa. Todos fizeram seus pedidos e entregaram os cardápios.

– Você é sempre reservado assim? – Marisa perguntou, uma ponta afiada de desconfiança em sua voz. fingiu não perceber e respondeu em um tom sem censura.
– Sim.
– Tenho certeza de que é um bom garoto – James falou, mais para Marisa do que para qualquer um.
– Em momento algum duvidei disso – ela abriu um sorriso.
– Então, – o homem chamou, mudando de assunto –, o que seus pais fazem?
– Meu pai é produtor e minha mãe é arquiteta, mas faz algum tempo desde que ela fechou o escritório.
– Ah, é uma pena. Ela simplesmente desistiu?

quis dizer que a mãe havia parado de trabalhar desde que morreu porque, assim como ele, entrou em depressão. Harrison foi o que mais se conteve. Talvez se sentisse responsável por deixar o filho e a esposa mais confortáveis. Por exemplo, ao ver o estado de , Liz apenas piorou, e vice versa. Foi bom que o pai tenha aparentado estar bem, mas se preocupava por ele nunca ter procurado apoio. Apenas se virou sozinho.

– Acho que sim. Nós nunca questionamos – ele mentiu.
– Bom, se faz ela se sentir melhor – Marisa sorriu amigável de novo. – E ela fica sozinha lá? Ou você tem irmãos?

O garoto já começava a se chatear com tanto questionamento.

– Só eu.
– Oh, okay.

Sabia que ela estava o julgando mentalmente, mas não teve vontade alguma de se justificar para ela. Não importava o que ela ou qualquer pessoa pensava. Se seus pais entendiam, então era o suficiente para ele não morrer de culpa.

– Desculpe, eu não quis ser rude ou algo assim – ela disse. – Só fiquei curiosa sobre ela ter parado de trabalhar tão de repente é você estar em outro país sem...
– Minha irmã morreu alguns anos atrás e a minha família se despedaçou – ele interrompeu em um tom que mostrava que ele estava extremamente desconfortável.
– Oh. Oh, meu Deus, eu não fazia ideia.

ficou em silêncio, torcendo mentalmente para que a comida chegasse no próximo segundo e ele tivesse desculpa para não falar nada.

– Eu sinto muito pela sua irmã – James falou. O garoto havia simpatizado bem mais com ele, já que ele não era indelicado como a esposa.

apenas assentiu com a cabeça, ainda sem querer falar. Estava segurando cada músculo do seu corpo para não levantar e ir embora. Não estava fazendo drama, apenas não achava que valia à pena gastar mais tempo ali.
Um silêncio desconfortável se instalou na mesa e, por sorte, a comida chegou. não se incomodava com o silêncio como a maioria das pessoas, na verdade, ele sempre ficava feliz com ele. Eles começaram a comer e, de vez em quando, um deles parava para ajudar a pequena Ashley.
Quando finalmente terminaram, James se ofereceu para pagar a conta e todos se levantaram para ir embora. Na hora de se despedir, Marisa o encarou como se esperasse que ele se desculpasse por deixar eles desconfortável.

– Valeu pelo almoço – ele disse e acenou para Ashley antes de sair.

Assim que acordou na segunda feira de manhã, a primeira coisa que viu foram as mensagens de Eliot perguntando que horas ele chegaria ao colégio. Bom, se dependesse dele, chegaria tarde, mas não queria perder as aulas, então disse que ia chegar nos próximos 45 minutos. Como já havia feito sua mala na noite anterior, não precisou de muito para sair de casa. Apenas tomou um banho, colocou novas roupas e saiu.
Ao chegar no colégio, se deparou com a mesma cena do primeiro dia e o fato de ainda não ter se habituado ao ambiente não ajudava. Simplesmente estacionou o carro e, quando desceu, viu Eliot se aproximando com Jordan.

Jordan sorriu. – Ouvi falar que você se deu bem com a Sarah na festa.
– Oi pra você também.
– Desculpa, cara, eu tive que contar – Eliot disse e soltou uma risada. – Mas você não vai gostar dos comentários que andam rolando por aí.
– Que comentários? – ele perguntou enquanto os três andavam para dentro do prédio principal.
– Viram você saindo da festa com a .
suspirou. – Não aconteceu nada do que vocês estão pensando. É sério – ele completou ao ver Jordan levantar uma sobrancelha para ele.
– Tudo bem, vou fingir que acredito. Até eu sei que é burrice não tentar nada com West. E eu sou gay, então...

Os três entraram no elevador e apertou o botão para o terceiro andar.

– Se não aconteceu nada, então porque vocês saíram juntos da festa?
– Não vou sair fazendo fofoca, até porque não é da minha conta. Eu só ajudei ela.
– Awn, nosso garoto misterioso fazendo caridade – Eliot disse colocando a mão no peito.

revirou os olhos, já se arrependendo de ter comentado qualquer coisa.

– Foi mal – ele riu. – Mas, sabe, você é do mesmo dormitório que o Nick. Se ele acha que aconteceu alguma coisa, então...
– Não é como se ele precisasse de uma desculpa.

Eles saíram do elevador e ainda assim os garotos continuaram andando com ele. franziu o cenho.

– Vocês vão mesmo me levar até a porta do meu quarto?
– Não temos nada pra fazer, então, sim.
– Que sorte a minha.
– Vou fingir que você realmente quis dizer isso – Jordan disse enquanto o seguia pelos corredores.

Os três andaram até o quarto de e, quando abriram a porta, deram de cara com Andrew desfazendo suas malas. Parecia que era sempre o Nick a chegar atrasado.

– Hey – ele disse quando os viu. Dirigiu um olhar estranho a Jordan, mas logo desviou.
– Oi – Jordan disse.

Antes que Andrew pudesse responder, colocou a mala na cama e se virou para os garotos.

– Vamos ir fazer alguma coisa.
– Mas a gente não ia...
– Vamos – Eliot concordou claramente segurando a risada.
– Tá certo...
– Até mais, Andrew – Eliot mandou um beijo e soltou uma risada antes de sair do quarto junto com os outros e fechar a porta atrás de si.
– Okay, isso foi estranho – Jordan comentou.
– Eu já fico desconfortável normalmente, imagine trancado entre quatro paredes com ex casal.
– Já eu, fiz por você mesmo.
– Vou fingir que as intenções do não eram egoístas – ele riu. – Valeu.
– Tá, o que vocês querem fazer?
– Eu só falei aquilo pra sair de lá – comentou.
– Mas agora é tarde, você vai ter que ter um pouco de diversão.
– Eu digo para irmos comer.
– Tudo que eu mais queria – os acompanhou até o elevador.

Ao entrar, viram um cara de cabelos escuros e olhos cor de mel. Jordan pareceu reconhecer, mas também pareceu não ter certeza. Trocou olhares com Eliot, que assentiu com a cabeça.
O garoto se virou para ele e abriu um sorriso.

– Jordan.
– Você desapareceu.
Ele deu de ombros. – A França estava bem legal.
– Por que voltou? – Eliot disse em tom afiado.

Adam sorriu de novo.

– Senti saudade, sabe como é.
– Claro.
Ele se virou para . – E você, quem é?
– Harry.
– Muito prazer, – ele disse assim que a porta do elevador se abriu. – Vejo vocês por aí – e saiu.
– Não acredito que ele voltou – Eliot comentou irritado enquanto eles saiam em direção ao refeitório.
– Já vi que não gostam dele, posso saber por quê?
– Ele é irmão da...
. Ela me contou que ele ia voltar.
– Tão amiguinhos...
– Cala a boca.
Jordan riu. – Bom, eles são gêmeos. Você pode até achar que eles são igualmente ruins, mas ele é mil vezes pior. Parece que sente prazer em deixar as pessoas pra baixo. Eu realmente não entendo, só sei que não mexo com ele.
– Se já inventou coisas pro pai dela uma vez, pode ter certeza de que ele inventou muitas vezes mais.
– Qual o ponto disso? – ele perguntou ao chegar ao balcão. Pegou algumas panquecas e um suco.
– Vai saber. Talvez ele só seja problemático.
Eu sou problemático. Ele parece ser pior.
Eliot deu de ombros. – Ele tem muita coisa errada na cabeça, disso eu tenho certeza.
– Olha só quem resolveu aparecer – Jordan sorriu largo para alguém atrás dele. O garoto se virou e deu de cara com Sarah.
– Hey – ele sorriu um pouco.
– Hey.
– Ok, eu não quero ficar de vela, então...
– Você é tão delicado, Eli.
– Awn, muito obrigado, Dan.

os olhava estranho.

– O quê?

O garoto balançou a cabeça e se sentou na primeira mesa vazia que encontrou. Os outros o acompanharam e Sarah foi buscar algo para comer.

– Então, você e a Sarah – Eliot disse sorrindo.
– Não começa.
– Acha que vai dar em alguma coisa?

Quando o garoto não respondeu, Jordan se pronunciou.

– A gente não vai contar pra ela.

Ele suspirou, sabendo que os garotos não iam deixar ele escapar da pergunta.

– Eu não sei. Quem sabe.

Quando Eliot ia dizer algo, Jordan se pronunciou antes.

– Ei, Eli, se lembra de quando você tinha uma quedinha por ela?

olhou pra Eliot, levantando uma sobrancelha.

– Não se preocupe cara – ele riu. – Já faz bastante tempo.
– Não é com isso que eu fiquei preocupado.
– Ficou preocupado de ter furado olho? Eu que mandei você ir falar com ela, lembra?
– Lembro.
– Ela tá vindo, acho melhor mudarmos de assunto.
– Só vou mudar porque vocês me livraram de uma conversa estranha com o Andy – Jordan disse. – Mas na próxima eu vou fazer você passar vergonha – ele apontou para Eliot.
– Eu gostaria muito de ver isso – sorriu debochado.
– Por que eu ainda falo com vocês?
– Você tem muito amor no coração – Jordan brincou fazendo coração com as mãos.

O garoto revirou os olhos e então Sarah colocou sua bandeja na mesa, se sentando do lado de . Ele não sabia como conversar com ela, pelo menos não com os garotos ali, então ficou em silêncio, apenas comendo.

– Sobre o que estavam falando?

Jordan revirou os olhos forçadamente. – Sobre o Adam. Ele voltou pro colégio, você viu?

Ela pareceu surpresa.

– Sério? Merda.
– Ele é tão ruim assim? – perguntou e voltou a comer.
– Eu já fui muito próxima dele, uns anos atrás. Mas aí tivemos uma briga feia e não somos amigos desde então.
– Depois da briga ela quase foi expulsa do colégio porque ele inventou para o pai que ela tinha quebrado uma regra bem... Quente, se é que você me entende – Eliot riu.
– Entendi perfeitamente. Mas você não foi expulsa.
– Muito bem observado – ela riu. – Adivinha quem me defendeu? E o diretor ouviu, até porque...
?
– Exato. Foi tão estranho. Não é como se nós fossemos amigas, sabe? Nunca fomos. Mas pelo que me contaram, os dois brigaram feio, depois o pai deles brigou feio com o Adam...
– Aquela família é problemática – Jordan interrompeu. – Eu não chegaria nem perto se fosse você.
– Não tenho a mínima intenção de tentar – ele bebeu o último gole de suco. – As aulas vão começar daqui a pouco, vou ir pegar minhas coisas.
Jordan assentiu com a cabeça. – Vou ficar mais um pouquinho aqui.
– Tem certeza de que quer ficar sozinho aí? – Eliot perguntou se levantando.
– A Sarah vai me fazer companhia, não é mesmo?
– Só se você for buscar pudim pra mim.
– Fechado.
Eliot riu. – Até mais tarde então.

apenas acenou e então foi com o garoto até os corredores onde ficavam os armários. Já que os dois não ficavam na mesma área, eles se despediram e caminhou calmamente até seu armário, sabendo que ainda tinha tempo antes de ir para a aula, e pegou seus livros.
Ao chegar à sala, caminhou para o fundo e se largou na última carteira. Não demorou muito até os alunos começarem a entrar, sentando perto de seus amigos e continuando as conversas altas que incomodavam os ouvidos de .
Nick entrou com o mesmo grupo da última aula de literatura e se sentou no mesmo lugar, ao lado dele.

– Olá – ele disse sem olhar para . Ele batucava os dedos na superfície da mesa e não tinha uma expressão agradável. O garoto não se conteve e riu baixo de toda aquela pose. Nick o olhou franzindo o cenho. – Sou engraçado?
– Bastante.
– Olha aqui, – ele disse se aproximando. – É melhor você...
– Sei porque está agindo assim, então já vou dizer a verdade, pra economizarmos tempo: não aconteceu nada entre a gente. Satisfeito?
– E por que eu deveria acreditar em você?
– Não acho que você tenha se importado com qualquer coisa relacionada à quando a traiu. Então por que se importa agora?
– Como você sabe disso?
– Não faço fofocas, então a única coisa que eu vou te dizer é que eu sei, simples assim.
– Só pare de agir como se você soubesse algo sobre mim, .
– Os fatos que eu estou usando são os que eu conheço.
– Ah, é? E o que você conhece?
– Que você é um completo babaca e que faz as pessoas ao seu redor se sentirem miseráveis. Você parece ter bastante consciência sobre isso.
O garoto cerrou os olhos. – Você percebe como é hipócrita?

deu de ombros.

– Pelo menos eu ajudei ela quando ela me pediu.
– Quer saber? Você pode fazer o que bem quiser com ela. Só toma cuidado, porque a loucura vem junto com todo o pacote.
riu. – Eu não quero nada com ela, mas é bom saber que você permite. Mas, sabe, como uma pessoa experiente na área de afastar as pessoas, te aconselho a abandonar a pose de rei do colégio antes que tudo desabe. Pelo que eu soube, as pessoas não te acham tão legal quanto você pensa.
– O segredo da coisa é não se importar.

O professor Oliver entrou na sala e largou sua pasta sobre a mesa antes de dar bom dia à classe.

– Isso não sai bem na prática e acho que você sabe disso – disse e voltou sua atenção ao professor.

O garoto guardou seus livros depois do sexto período e pegou o livro para a última aula do dia, aliviado de saber que teria o resto do dia livre para fazer o que bem entendesse. Como ainda não tinha tido aula de química, precisou do mapa para se localizar no meio dos corredores, mas mesmo assim demorava a achar os laboratórios. Se lembrava de ter passado por lá no dia em que chegou, mas como estava apenas andando aleatoriamente por lá, não sabia muito bem onde era.

– Você tá com cara de quem tá perdido – ele ouviu uma voz familiar falar ao lado dele. Ele se virou e viu com uma expressão de quem estava segurando a risada.

soltou um suspiro cansado, já que realmente não queria interagir com ela nem naquele momento nem nunca. Sempre acabava com os dois discutindo e ele já não tinha mais paciência.

– Sei exatamente onde estou.
– Qual sua próxima aula?
– Química.
– Os laboratórios ficam na direção oposta de onde você estava indo – ela apontou para a direção certa.

Ele não agradeceu, apenas foi na direção que ela apontou. Olhava todos os corredores no caminho enquanto seguia em seu encalço.

– Tenho a impressão de que você quer me dar um gelo.
– É exatamente o que eu quero. Você podia ajudar.
– Não, obrigada. Acho divertido como você fica irritado com tudo.
Ele olhou para ela pelo canto do olho. – Qual seu problema comigo?
– Viu só? Ficou irritado.
– Eu não tô brincando, . Você tem que parar de agir de forma tão bipolar.
Ela levantou uma sobrancelha debochadamente. – Bipolar?
– É impossível que você não perceba – ele disse finalmente encontrando o corredor com os laboratórios.

Ele entrou e a garota continuou o seguindo. Não acreditou na sua falta de sorte por ter a mesma aula que ela.

– Na verdade, não. Acho que o bipolar é você.
– Eu sempre demonstro que não gosto de você, você é quem age amigavelmente em um momento e no outro age como uma louca por briga.
– Se você não gosta de mim, então porque me ajudou no sábado? Você estava se divertindo com uma garota e a deixou lá só pra me ajudar.
– Eu continuo sendo um ser humano, se você tinha dúvidas. Você precisava, então eu ajudei.
– Bom, só sei que, se você me conhecesse, iria gostar de mim. Mas tudo o que você faz é me julgar uma filhinha de papai.
– A questão, , é que eu não quero te conhecer. Quantas vezes eu vou ter que repetir isso até você finalmente entender?
– Eu entendo completamente. Mas eu sei que você precisa de mim. Ou melhor, você precisa de alguém. Então mesmo você sendo um completo idiota comigo, eu ainda estarei disposta a ser sua amiga quando você precisar.

Ele não sabia como responder àquilo. Por isso, se calou e observou a garota ir se sentar com uma garota na segunda fileira. Ele estava furioso porque, novamente, ela havia acertado em cheio. Ele realmente precisava de alguém. O que ela não sabia é que ele nunca pediria apoio dela, porque qualquer dia desses, ele iria fazer as malas e dar o fora dali e doeria ter que abandonar mais uma pessoa. Ele não conseguia ser tão egoísta assim.



7 – Please Wake Up.

Londres – 16 de julho de 2012


estava jogado na cadeira do quarto da mãe, se concentrando no ruído que o aparelho fazia toda vez que o coração dela batia. Bip, bip, bip.
Foi surpreendido quando a porta se abriu e Harrison entrou silenciosamente. Ele parou ao lado da cama sem dizer nada e observou Liz em seu completo estado de coma. Já faziam 5 dias desde o acidente e ela não dava qualquer sinal de que iria acordar. Os médicos acreditavam que ela sairia bem dessa, mas tinha suas dúvidas.

– Você tem que comer – Harrison se dirigiu ao garoto. – Faz horas que está aqui.
– Não tô com fome – ele disse sem desviar os olhos da mãe.
, eu sei que você está muito preocupado. Eu também estou, não tenha dúvidas. Mas não podemos parar de viver enquanto ela não acorda. Temos que ser fortes pra dar força a ela.

teve vontade de rir de tão absurda que a ideia lhe soava, mas se segurou. Sabia que ele estava certo, mas também sabia que não conseguiria dar apoio para sua mãe porque também estava sem apoio. Seu pai estava se fazendo de forte para acalmar , mas aquilo só piorava a situação. Sentia que não podia desabafar tudo o que estava sentindo naquele momento. Não é como se fosse conseguir, de qualquer maneira.

– Tá – ele se levantou da cadeira e caminhou até a porta, esperando que o pai falasse mais alguma coisa, mas, como ele não o fez, apenas saiu e fechou a porta atrás de si.

Ele caminhou sem pressa pelo hospital, observando as pessoas pelo caminho, mas sem prestar muita atenção. Viu um médico lendo a ficha de um paciente; outro médico conversando com uma mulher em frente à porta de um quarto; um senhor grisalho com uma expressão preocupada no rosto. O garoto sempre odiou hospitais por esse motivo. Você podia estar extremamente feliz antes, mas depois de entrar em um hospital, é como se automaticamente você ficasse pra baixo. A tristeza e preocupação ficavam no ar no local e todos o inalavam.
Ao sair, respirou fundo o ar gelado que se chocou contra seu corpo quente por conta dos aquecedores do local. Colocou as mãos nos bolsos do jeans e atravessou a rua, indo em direção à cafeteria onde ele e o pai sempre buscavam comida, já que os dois se recusavam a ir pra casa por algum motivo além de tomar banho e trocar de roupa. Sabiam que não era preciso passar as noites no hospital, já que receberiam a notícia no segundo em que Liz acordasse, mas não se sentiam bem com isso. Pelo menos não. A casa se tornara vazia de repente, não mais aconchegante.

– Dois cafés pretos, por favor – ele disse para a atendente. – E alguns desses – ele apontou para um biscoito na vitrine do balcão. - Pra viagem.

Ela assentiu com a cabeça e foi fazer os cafés. se sentou em uma das banquetas e pegou seu celular. Viu as 5 ligações perdidas de seu amigo Colin e, se sentindo mal por ter ignorado tantas vezes, ligou para ele.

– Olha só quem apareceu.
– Desculpa, eu...
– Eu sei, cara, foi mal. Eu só soube do acidente porque passou no noticiário. Foi bem feio, vocês estão bem? – ele perguntou soando muito preocupado.
– Eu tô bem. Quer dizer, vou melhorar.
– Você se machucou muito?
– Só levei alguns pontos e tenho bastante dor, mas fora isso, só uns arranhões.
– Teve sorte. Fico feliz que estão bem. Minha mãe tentou ligar pra sua, mas ela não atende. Tá tudo bem?
– Na verdade, não.

A atendente voltou com o pedido de e ele lhe entregou o dinheiro. Colocou o celular entre o ombro e a orelha para conseguir pegar as coisas e saiu do estabelecimento.

– Ah, não. O que aconteceu? - hesitou.
– Eu prefiro não falar sobre isso pelo telefone.
– Assim você me deixa preocupado. Quer que eu vá aí?
– Não, acho melhor não. Eu ainda vou ficar mais uns dias aqui, mas assim que puder, vou aí.
– OK. Espero que fique tudo bem.
– Valeu.

Depois de desligar, ele entrou no hospital e colocou as coisas no balcão para conseguir guardar o celular no bolso novamente. Quando estava prestes a voltar, sentiu uma mão no seu ombro.

?

Se virou e viu Noah, com uma expressão completamente confusa.

– Hey.
– Eu não soube do acidente até hoje de manhã e agora não querem me dar informações sobre vocês. Será que você consegue me fazer visitar ela?
– Noah... – ele começou e apenas ficou em silêncio, porque não queria contar para o garoto. Ainda não tinha dito aquilo em voz alta, achava que tornaria mais real.

O rosto dele foi tomado por uma expressão de preocupação.

– Ela não está bem, não é? É por isso que não querem me deixar vê-la.

caminhou pela recepção e se sentou em uma cadeira. Noah o seguiu, sua expressão ficando cada vez pior. Ele não queria ser a pessoa a dar a notícia pra ele, mas vendo ele ali, completamente perdido, se sentiu na obrigação.

– A não sobreviveu. Eu poderia te dar detalhes sobre isso, mas eu não tive coragem de ouvir, então...
– Ela está morta? – ele gaguejou.
– Sinto muito.

O garoto mais velho se levantou passando as mãos nos cabelos, aparentando estar a beira de um ataque de nervos. gargalhou.

– Do que você tá rindo? – ele perguntou cerrando os olhos.
– Desculpa, desculpa. É que tá tudo tão fodido – ele riu de novo. – Eu sinto que vou explodir.

Noah se sentou novamente, e hesitou antes de falar. Ele estava prestes a chorar, sabia disso.

– Você não conversou com ninguém sobre isso?
– Não. Minha mãe tá em coma, meu pai age como se tudo estivesse bem.
– Pode falar comigo se quiser – ele falou depois de alguns instantes de silêncio.

assentiu com a cabeça e se levantou.

– Vou levar isso pro meu pai – ele apontou pra comida.
– Certo. Você sabe... Quando vai ser o funeral?
– Ainda não. Vamos esperar o máximo possível, para que a minha mãe possa estar lá.
– Entendo.

Um silêncio desconfortável caiu entre eles, já que nenhum dos dois sabia o que dizer. Nada faria ficar mais fácil. Noah simplesmente acenou e saiu porta afora.
caminhou em passos largos até o quarto de Liz, tomando cuidado para não fazer barulho. Seu pai olhou em sua direção assim que ele entrou. O garoto lhe estendeu o café e os biscoitos.

– Obrigado – ele pegou. – Você demorou. - deu um longo gole no café.
– Encontrei com Noah na recepção.
– Quem?
– O namorado da .
– Oh. Ele já sabe?
– Contei pra ele. Deve estar chocado, não reagiu como eu esperava.
– Sei bem como é – ele disse baixinho.
– Então é por isso que você tá assim?
– Assim como?
– Tão... Calmo. - Harrison andou até o garoto.
– Tenho certeza de que você sabe o que eu estou sentindo. Só acho que se todos nós entrarmos em colapso...
– Eu sei – ele interrompeu. – Só não acho que você é responsável por isso. Não precisa esconder sua dor da gente.
– Não me sinto responsável, eu só me importo – ele sorriu fraco e abraçou o garoto de lado. – Não se preocupe comigo, ok?

odiava quando discordava de alguma coisa, mas, ainda assim, dizia o contrário em voz alta, só pra não contrariar ou magoar alguém, mas não queria chatear o pai. Sabia que ele estava se esforçando o máximo possível por . Não ia ignorar isso.

– Ok.

Os dois ficaram mais alguns instantes abraçados, olhando para Liz.

– Pai?
– Sim?
– Posso ficar um pouco sozinho com a minha mãe?

Harrison tentou esconder o olhar triste, mas não conseguiu.

– Vou estar lá fora – ele beijou o topo da cabeça do filho e saiu.

colocou o café sobre a mesinha e se sentou na beirada da cama. Segurou a mão de Liz, onde tinha um aparelho preso ao seu dedo, para monitorar os batimentos cardíacos.

– Aparentemente pessoas em coma tem noção do que tá acontecendo ao redor, então... – ele suspirou. – Eu preciso de você, mãe. Mais do que nunca.

Ele ficou em silêncio por alguns instantes, apenas acariciando a mão dela com o polegar.

– A se foi, mãe. Por favor, acorda. Por favor.



Capítulo 8 – Thanks

Everything's black
And white
No grey
– No Grey (The Neighbourhood)

(Tudo está preto
E branco
Não cinza)


se largou em uma das poltronas do auditório e começou a batucar os dedos em sua perna, assistindo a turma de teatro se alongar. Por ser tão apaixonado por arte, gostava muito de teatro. Não servia para atuar, entretanto. Apenas gostava de ver. As pessoas nunca imaginavam que ele era esse tipo de pessoa; até ele mesmo se surpreendia de vez em quando.
Aparentemente era normal ter alunos assistindo aos ensaios e afins, já que ninguém reclamou de ele estar ali. Ou talvez, por estar muito no alto, ninguém sequer tenha notado.

– Não sabia que você gostava de teatro – ele ouviu uma voz feminina dizer ao seu lado.

Quando se virou, viu Sarah caminhando entre as fileiras e se sentando na poltrona ao lado dele.

– Não sou de falar sobre mim.
– Eu sei – ela ficou um momento em silêncio antes de rir baixinho, como se estivesse constrangida. – Sabe, achei que você iria me mandar mensagem ontem.
– Desculpa, esqueci completamente. Passei o dia fora e...

Ela balançou a cabeça.

– Não, não precisa se justificar. Eu só queria que soubesse que eu teria gostado se você tivesse feito.
– Vou me lembrar disso.
– Você vai fazer alguma coisa agora?
– Tô aqui por tédio. Alguma sugestão?
– Pensei em assistir um filme. Ou só conversar no jardim. Qualquer coisa.
– Acho que topo o filme – ele disse. Queria alguma coisa que distraísse os dois, iria se decepcionar muito se eles começassem a conversar e ela acabasse se revelando ser como a .
– Então um filme será.

Ela se levantou e pegou sua bolsa que estava na poltrona ao lado. a seguiu porta afora e os dois seguiram caminho pelos corredores até saírem do prédio. Atravessaram até o prédio principal e chegaram até o lugar onde ficavam as escadas e elevadores, que era como uma sala de estar, com vários sofás. Mas ele nunca havia percebido que havia televisões ali.

– Ali – ele apontou para um sofá desocupado. – O que vamos assistir? – ele se jogou no sofá e pegou uma das almofadas.
– Posso escolher?
– Claro. Só não me faça assistir algo do Nicholas Sparks.
Ela riu. – Tá certo.

A garota se abaixou para onde estavam os DVDs e olhou cada um até achar algum que lhe agradasse.

– O professor não deixa nada violento ou sexual aqui, como se a gente não assistisse Netflix, então que tal Forrest Gump?
– É muito bom.
– Um dos meus livros favoritos – ela colocou o filme e se sentou ao lado de para assistir.
– Você tem cara de que gosta dos romances mais românticos que a humanidade já viu.
– Mas o que leva você a pensar isso?
– É mentira?
Ela segurou a risada. – Na verdade, não.
– Viu só?
– Minha vez de adivinhar. Você gosta daqueles filmes de ação que são todos iguais?
– Na verdade eu sou do tipo nerd.
Ela riu. – Nem pensar.

Ele a olhou confuso.

– Sério, você não se parece nem um pouco com um nerd.
– Isso é um elogio?
– Bom, era pra ser, embora não tenha sido um elogio para os nerds... Eu tô me complicando aqui, né?
riu baixinho. – Obrigado.
– De nada – ela disse voltando a assistir o filme.

Enquanto ela assistia o filme concentrada, ele olhou para todos os cantos, menos para o filme. Não conseguia se concentrar, ainda mais por já ter assistido ele pelo menos quatro vezes. Já sabia tudo o que ia acontecer, era impossível prestar atenção.

– Você tá agitado. Tá tudo bem?
Ele saiu do transe. – Tá sim.
– Então por que você tá tão disperso? – ela riu.
– Só não consigo me concentrar no filme.
– Se concentra em outra coisa então.
– Tipo o que?

Ela se inclinou em direção a ele e o beijou calmamente. De início o garoto se envolveu, colocando a mão em sua cintura e aprofundando o beijo. Mas logo ele se sentiu obrigado a parar. Ela o olhou confusa por um momento.

– Hoje de manhã me perguntaram se eu achava que isso daria em alguma coisa e eu disse que não sabia, mas era mentira. A verdade é que eu não acho que vá dar em alguma coisa.
– Oh – ela pareceu decepcionada. – Isso é constrangedor – ela disse tímida.
– Desculpa.
– Não, tudo bem. Posso pelo menos saber o por quê?
– Na verdade, não.
– Você tá brincando, né?
– É melhor assim.
– Você acha que vai me magoar?
– Não, eu só não posso contar – ele disse, na verdade querendo dizer que não queria contar.
– Então o problema é com você – ela se levantou.
– Sarah...
– Eu não tô brava, , só tô... Frustrada.

Ele não disse mais nada, porque só ia piorar a situação. Portanto, deixou que ela caminhasse até o elevador e sumisse de vista.

se jogou na cama do seu quarto e olhou Claire enquanto ela conversava com o garoto com quem havia saído da festa. Sentiu vontade de rir. A amiga sempre se apaixonava rápido demais e nunca aprendia a lição. Já que ela não ouvia seus conselhos, o máximo que podia fazer era deixar ela em paz para decidir a própria vida. Não é como se ela pudesse opinar em relacionamentos, de qualquer maneira.
Como não tinha nada melhor para fazer, ela observou o teto de seu quarto com centenas de estrelas pintadas com tinta que apenas aparecia no escuro. Como as cortinas estavam fechadas, era possível ver o mínimo de brilho nelas. Se lembrava perfeitamente do dia em que fizeram aquilo. Ela tinha 7 anos. Tinha acabado de começar a fazer aulas de ballet e vira alguém usando a mesma tinta para fazer algo do cenário. Logo que pediu para o pai, ele chamou um pintor para fazer o trabalho e Adam e ela se apressaram em entrar no quarto para observar a magia sendo feita. Como o sol estava se pondo, de pouco a pouco o quarto começou a brilhar e sorria. Mesmo depois de crescer, ela nunca pensou na possibilidade de cobri-las.

! – Claire chamou alto, o que assustou a garota.
– O que?
– Em que mundo você tá? Te chamei várias vezes.
– Eu tava pensando no dia em que fizemos isso – ele apontou para o teto. – Mas, então, o que queria dizer?
– O Adam perguntou se a gente quer ir pra piscina – ela apontou para a porta por cima do ombro, mas o garoto não estava mais lá.
– Se quiser ir, tudo bem, mas eu prefiro ficar aqui.
– Você continua evitando ele, né?
suspirou. – O que mais eu posso fazer? Esperar até que ele exploda? Prefiro não assistir de camarote quando isso acontecer.
– Ele continua sendo seu irmão, .
– Ele tá... Diferente.
– Mas é claro que tá, ele passou quase dois anos fora!
riu. – Você ainda gosta dele, não gosta?
– Não, não gosto.
– Não é o que parece. Eu não me importo se gostar, mesmo.
– Eu só acho que você tá sendo muito dura com ele.
– Clay, eu convivi com ele a minha vida toda e eu nunca vi ele ser tão estúpido quanto na noite em que ele disse que queria ir embora. Eu também brigo com meu pai, muitas vezes até, mas eu conheço o limite. Adam? Parece que faz de propósito.

Claire abriu a boca para retrucar, mas negou com a cabeça.

– Eu vou tentar fazer as coisas com ele voltarem ao normal, prometo. É só que... Os últimos dias estão sendo péssimos.
– Aconteceu alguma coisa? – ela disse sentando ao lado de na cama.
– Aconteceu. O Nick...
– Ah, não. O que ele fez?
– O que ele fez eu não sei. Só sei que fez com a Courtney – ela sorriu sarcástica.

A garota pareceu chocada, o que apenas chocou . Mas ela não comentou. Sabia que ela não pensava o mesmo de , mas não queria que ela passasse a pensar agora.

– Quem diabos é Courtney?
– Uma de cabelo bem curtinho, faz aula de história com a gente.
– Eu vou acabar com a raça dessa garota.

arregalou os olhos e riu.

– Não banque a louca, Claire Jones.

Ela levantou as mãos na altura do rosto em sinal de rendição.

– Como quiser. Sinto muito por isso, amiga. Eu nem imagino o que você tá sentindo agora.
– Pra ser sincera eu estou me sentindo meio... aliviada – quando viu a expressão no rosto da amiga, ela continuou. – Eu tô muito triste, é claro. Mas eu conheço tão bem o Nick, sabia que algum dia isso ia acontecer.
– O Nick pode ser muito babaca quando quer, mas não com você, .
Ela riu. – Não sabia que você vivia nessa relação também.

Claire revirou os olhos.

– Eu não fui sarcástica nem nada – disse. – Só quero dizer que você conhece o Nick amigo, não o Nick namorado.
– Que seja. Mas... Eu entendo que você precisa desabafar agora, mas ele é meu amigo e...
– Tudo bem – ela forçou um sorriso. – Acho que isso me deixa com... – ela fingiu pensar. – Zero pessoas com quem conversar sobre isso. O que você acha de um fórum online?
– Claire repreendeu.

Dessa vez foi quem levantou as mãos em sinal de rendição.

– Não tô sendo sarcástica.
– Mas conseguiu me fazer sentir péssima.
– Bom, você deveria – ela disse se levantando da cama.
?
– Você é amiga do Nick, mas também é minha amiga. Achei que você teria mais consideração.
– Eu não...

A garota ignorou e entrou em seu closet, para procurar um biquíni. Talvez Adam não fosse a pior companhia do mundo. Claire não terminou de falar o que havia começado.

– Eu acho que vou pra casa – ela ouviu a amiga dizer.
– Okay.
– Até amanhã, .
– Até.

A garota se trocou e pegou uma toalha limpa, seguindo caminho até a piscina. Adam estava lá, nadando de um extremo até o outro. se deitou em uma espreguiçadeira e simplesmente observou o céu.

– Cadê a Claire? – Adam se apoiou na beira da piscina.
– Foi embora.
– Resolveu conversar comigo?
– Na verdade, não. Mas eu poderia usar uma companhia.
Adam deu de ombros. – Se sinta à vontade.
– Ei, me promete uma coisa?
– Claro, o que?
– Não importa o quanto Nick Schneider tentar, você não vai virar amigo dele?

O garoto franziu o cenho.

– Eu posso saber o motivo?
– Ele não merece nada vindo de nós.
– Hum, ok. Prometo. Você tem certeza de que não quer conversar?

Não, eu quero muito conversar, ela pensou. Mas não o fez. Não confiava em Adam como havia confiado um dia. Não conseguia tirar da cabeça que ele estava diferente e ainda não havia decidido se aquilo era bom ou ruim.

– Tenho, mas obrigada.

Adam sorriu e mergulhou novamente na piscina. A garota apenas fitou as nuvens.

se sentou no jardim, embaixo de uma árvore, e abriu o livro que estava lendo. Não demorou muito até que ele estava completamente concentrado, bloqueando qualquer coisa que estivesse acontecendo ao seu redor. Gostava daquilo, o distraía por algumas horas.

! – ele ouviu uma voz dizer ao lado dele. Se virou, vendo parecendo confusa.
– O que?
– Você realmente não estava me ouvindo?

O garoto mostrou o livro.

– Hum, ok. Meu pai tá te chamando na sala dele. Parece que sua mãe ligou aqui e...
– Merda – ele disse pegando o celular. Enquanto ligava para a mãe, fez sinal para que lhe desse licença, mas a garota nem mesmo se mexeu. Ele revirou os olhos. – Alô?
– Oi. Já falou com o diretor?
– Na verdade eu liguei pra saber sobre o que se trata.
– Eu pedi que ele acompanhasse suas consultas com a psicóloga porque eu sei que você não iria por iniciativa própria.

suspirou audivelmente. franziu o cenho, provavelmente se perguntando o que a mulher estava falando.

– Sei que você deve estar pensando que eu sou chata ou algo assim, mas eu só quero seu bem. Vai fazer você se sentir melhor, sabe disso, não sabe?
– Mãe, eu tô bem – ele mentiu.
Ela ignorou o que o garoto disse. , se você não for fazer isso por você, faça por mim. Por favor.
– Mãe...
– Você não tem muita escolha agora, então será que podemos fazer isso do jeito amigável? São apenas alguns minutos do seu dia.

hesitou antes de responder. Falou em voz muito baixa, pra evitar que escutasse.

– Você sabe que eu não vou contar nada sobre...
– Porque está falando tão baixo? Eu não consegui entender.
– Tem uma pessoa bastante curiosa ao meu lado – ele falou em voz alta e se encolheu.
– Você estava falando sobre o que aconteceu, não é? , você está livre, não é como se fossem fazer algo. Nem mesmo é como se pudessem fazer algo. Só converse com ela, não reprima seus sentimentos. Isso só faz piorar.
– Tá bem.
– Promete?
– Prometo.
– OK. Agora vá falar com ele.
– Certo.
– Tchau, .
– Tchau – ele desligou. o encarava sem nem mesmo disfarçar. – Será que você pode parar de me olhar como se eu fosse um alienígena?
– Desculpa.

Ele deu de ombros e se levantou, pegando o livro do chão.

– Hum, ? – ela chamou. – Será que a gente pode conversar depois?
Ele franziu o cenho. – Por quê?
– Eu preciso – ela disse, soando mais como uma pergunta do que como uma resposta.
– Então vá atrás dos seus amigos.
– Eu não tenho nenhum. Bom, eu tenho, só é... Complicado.
– Se você me contar o motivo de uma garota popular como você estar sozinha, quem sabe eu te ajudo.
– Eu não posso contar porque isso envolve muitas pessoas e, embora elas me tratem mal, eu não sou o tipo de pessoa que sai fazendo fofoca – ela suspirou. – O que você precisa saber é que eu não tenho ninguém. Nem mesmo a Claire se interessa em saber de mim, tudo o que ela quer é falar de garotos e festas, como se fosse uma garota de 14 anos. Você foi a única pessoa que me ajudou e não pediu algo em troca.
– Eu só deixei você dormir no meu sofá, .
Ela balançou a cabeça negativamente. – Eu estava quebrada, perdida, finalmente vi que eu não tinha ninguém no mundo em quem eu confiava plenamente e isso me deixou devastada. Você pode achar que foi só me deixar dormir no sofá, mas pra mim foi o que melhorou minha noite.
– Nós discutimos feio. Você agiu como uma criança mimada. Só está embelezando a situação em sua mente.

Ela revirou os olhos impaciente.

– Eu nem mesmo sei como pensei que conseguiria alguma coisa.
– Sabe, tem uma psicóloga no colégio – ele disse e a garota o fuzilou com os olhos.

Ele a olhou, se xingando mentalmente pelo que estava prestes a fazer. Suspirou.

– Me encontra na sala de estar. Vou falar com seu pai e vou pra lá.
– Tem certeza?
– Eu não disse que vou te ajudar. Mas eu tenho ouvidos perfeitamente bons, então...
– Acho que é o suficiente.

Ele lhe dirigiu um aceno de cabeça e se virou, seguindo o caminho de pedras que ia até a entrada do prédio principal. Não demorou muito até chegar à sala do diretor, que falava ao telefone quando o garoto entrou. Fez um sinal para que ele se sentasse e continuou no telefone por mais alguns instantes. começava a ficar impaciente, quando ele finalmente desligou.

– Boa tarde – ele disse amigavelmente. O garoto teve que se segurar para não franzir o cenho, se perguntando como seria a relação dele com os filhos. Agia tão amigável ali, mas como era a realidade em casa?
– Boa tarde.
– Bom, sua mãe fez uma ligação pedindo que eu acompanhasse sua dedicação às consultas com a psicóloga. Você terá uma sessão de 40 minutos todos os dias depois do último período e caso tenha que faltar, terá que vir até aqui se justificar. Alguma dúvida?
– Não. Obrigado, sr. West – ele disse já se levantando.
– Sempre à disposição.

Assim que saiu dali, seguiu caminho até a sala de estar, que não era muito longe. estava sentada no mesmo sofá em que ele estava com Sarah mais cedo. Ele se sentou ao lado dela e os dois ficaram em silêncio por alguns segundos.

– Posso te fazer uma pergunta?
– Acho que sim – ela disse.
– Você disse que não tem uma relação boa com seu pai, mas ele age tão amigavelmente que eu fico me perguntando o que há de errado.
– Acho injusto eu falar de pais e você não fazer o mesmo.
Ele suspirou. – Meu pai se chama Harrison, ele é produtor musical, tem um estúdio em Londres e, sim, eu já conheci alguns artistas. Minha mãe se chama Liz e é arquiteta. Ou costumava ser. Tá bom pra você?
– Por enquanto – ela pegou uma almofada e a colocou sobre o colo. – Minha mãe morreu quando eu tinha 2 anos e a partir desse dia o meu pai prometeu que ia dar tudo pra mim e pro meu irmão. Por isso ele passou a trabalhar sem parar e abriu o colégio. Não era tão grande como é hoje em dia, foi crescendo aos poucos, mas só de ver o tamanho daqui já dá pra saber que a pessoa que administra tudo não para de trabalhar. Ele foi muito ausente e continua sendo até hoje. Nós basicamente fomos criados pela governanta, Isobel. E isso tudo faz com que a gente brigue muito. Quero dizer, dinheiro é bom, mas não é a nossa prioridade.
assentiu, sentindo que não devia se aprofundar mais no assunto. – Sinto muito por sua mãe.
– Obrigada.
– Sobre o que você queria conversar?
– Sobre Nick – ela disse acanhada. – É só que... Eu percebi que todos os amigos que eu achei que tinha na verdade são amigos dele. Então agora que eu não tenho mais relação com o Nick, não tenho com os outros também. Me sinto solitária.

Bem vinda ao meu mundo, ele pensou.

– E aquela sua amiga?
– Claire? Ah, eu não sei. Quero dizer, eu amo ela, muito. Mas parece que estamos amadurecendo de jeitos diferentes. Ela quer sair, festejar, beber, beijar. Eu costumava me animar com essas coisas, mas agora eu só tenho vontade de ficar em um lugar calmo, ler um bom livro, fazer maratona de séries o dia inteiro. Até mesmo me deitar no chão e observar as nuvens.
– Como uma pessoa que experimentou os dois lados, posso afirmar que a segunda opção é melhor.
– Também acho. Mas faz eu me sentir como se a gente estivesse se afastando. O que é horrível, considerando que somos amigas há mais de dois anos.
– Acho que você deveria fazer o possível pra manter mesmo que uma única amizade.
– É um bom conselho, mas é difícil de acreditar em alguém que nem mesmo tenta seguir ele.
– Eu não sou tão coração frio como você pensa.
– Então o que há de errado?

O garoto ficou em silêncio por um momento.

– Achei que estivéssemos aqui pra falar de você.
– É, isso. A verdade é que eu sinto tanta falta do Darren que acho que nunca vou conseguir algo assim de novo. Parece que tudo que eu toco vira pó.

fitou as próprias mãos, se identificando. Odiava ficar perto da garota, porque inconscientemente ela descrevia exatamente quem ele era e o que ele pensava. Odiava que, se continuasse convivendo com ela, acabaria descumprindo a promessa que havia feito a si mesmo de não acabar sendo amigo de alguém enquanto ainda estivesse em problemas. Não como era com Eliot e os garotos, mas uma amizade real. Era tudo o que ele queria e não queria ao mesmo tempo.

– Você tá bem? – ela perguntou. – Parece pensativo.
– Tô bem – ele disse enquanto sentia que suas mãos começavam a tremer. Lentamente, mas perceptível. As escondeu nos bolsos do moletom e olhou a garota, que o observava.
– Suas mãos estão tremendo que nem no baile – ela levantou uma sobrancelha, esperando uma explicação.
– Não sei do que você tá falando.
– Suas mãos estavam tremendo e logo depois você teve um ataque e saiu correndo do ginásio. Se isso for acontecer de novo, me diga e eu...
– ele repreendeu, pois estava ficando mais ansioso do que já estava antes com toda a preocupação dela.

Ela não conseguia esconder a curiosidade e a preocupação. Parecia que queria saber de tudo o que estava acontecendo e ajudar, mas não teve coragem de perguntar, o que apenas deixou o garoto surpreso.

– Quer falar mais alguma coisa? – ele perguntou, como se nada tivesse acontecido. Preferia ignorar suas mãos até que parasse.
– Não, acho que já ajudou o suficiente.
– Na verdade, eu não ajudei em nada.
– Mas me ouviu, o que já é grande ajuda. Valeu – ela se levantou.
– De nada.

Ela hesitou um pouco, parecendo que queria dizer algo, mas desistiu antes mesmo de começar. Apenas acenou para ele e subiu as escadas. Ele não a observou subir as escadas, apenas encarou a TV desligada, perdido em seus pensamentos, o que acontecia com uma frequência maior do que o normal.

Até aqui betada por: Thay Sandes



Capítulo 9 – Yeah, I think so

Londres/UK – 23 de julho de 2012
caminhou sobre a grama fofa e colocou a rosa sobre o caixão. Não sabia se gostava ou não da ideia dele estar fechado, mas não era como se tivessem escolha. Ele precisava ser fechado por conta do acidente. Não parecia .
Ele colocou a mão sobre o caixão e demorou a sair dali, mas ninguém se incomodou. Deram o tempo que ele quisesse para se despedir. Assim que saiu, foi a vez de sua mãe. Ela ainda usava vários curativos pelo corpo e alguns foram cobertos por seu vestido, mas seu rosto ainda estava claramente machucado. Parecia frágil demais, fraca demais.
Harrison pareceu ainda pior ao se aproximar. Seus ombros estavam encolhidos e só havia dor em sua feição. Ver sua família destroçada daquela forma fez ficar pior do que estava. Pior do que sentir sua própria dor era tomar a dor dos outros para si e era isso o que ele fazia desde que morreu.


[...]


Ele se sentou em uma espreguiçadeira perto da piscina, afastado dos outros que estavam na casa. Já havia se cansado de ouvir pessoas que ele nem mesmo conhecia ou se lembrava dizerem que sentiam muito pela sua perda.
– Sua mãe ficou preocupada e me pediu pra ver como você ta. – Colin disse, se sentando de frente para .
– Como você acha?
Colin suspirou.
– Sei como é. Quando minha avó morreu de repente ela era a pessoa mais importante do mundo pra todos. Quero dizer, é claro que se importavam com a morte dela, mas... – ele não terminou de falar, talvez sem encontrar as palavras certas.
– É o que tá acontecendo aqui. Todos agem como se ela fosse a pessoa mais importante da vida deles, como se realmente conhecessem ela.
– Se eu bem te conheço, você saiu de lá porque tava puto e não queria ser rude logo hoje.
– Bingo. O pior é que alguns jornalistas tentaram entrar aqui.
– Sério? – ele soou surpreso.
– Pelo que eu soube, falaram do acidente no jornal e agora queriam "dar notícias sobre a família" – ele fez sinal de aspas com as mãos.
– Babacas insensíveis.
– Babacas insensíveis. – repetiu. – Notícia urgente: garoto de 14 anos expulsa jornalistas da casa e causa alvoroço.
– O que é alvoroço?
– Eu não faço a mínima ideia. – ele deu uma risada curta.
– Viu só? Você riu. Vai ser muito difícil agora, mas um dia a dor alivia.
– É, acho que sim. – ele disse, querendo realmente acreditar naquelas palavras.


Capítulo 10 – Nevertrusting

"Don't you sit in front of me
And wait for me totalk – Baby Came Home 2/Valentines (The Neighbourhood)

(Não se sente na minha frente/E espere que eu fale)

entrou apressada na sala, pedindo desculpas ao professor assim que ele a olhou de forma repreensiva. Se sentou em seu lugar usual e retirou o caderno da mochila. O professor começava a passar algo sobre literatura inglesa e ela escreveu rapidamente para conseguir acompanhar. Quando estava quase conseguindo, sentiu alguém lhe cutucar.
– Tô ocupada. – ela disse sem se virar.
.
Assim que se virou, viu Claire disfarçando para que o professor não percebesse que ela conversava. Ela não estava sentada em seu lugar de sempre, com Beatrice, o que era estranho.
– Sim?
– Preciso falar com você.
A garota a olhou novamente, dessa vez tentando decifrar sobre o que se tratava a conversa. Supondo que ela finalmente pediria desculpas pelo dia anterior, assentiu.
– Olha, eu sei que você já tá chateada comigo o suficiente, mas...
– O que foi agora?
– Era realmente necessário mandar o Adam tirar satisfações com o Nick?
franziu o cenho.
– O quê?
– Garotas? – o professor chamou. – Será que vocês podem fazer silêncio?
– Claro, professor. – disse e se virou novamente para frente, voltando a copiar a matéria.
– Você realmente vai dizer que não sabe? – Claire continuou, dessa vez sussurrando. – Cara, ele tava super estranho, fazendo ameaças. Eu achei que fosse bater nele.
respondeu no mesmo tom de voz:
– Eu nunca mandaria o Adam ir atrás do Nick. Eu quero que ele suma da minha vida, não que se torne mais um problema.
– Já que não é responsabilidade sua, Nick não precisa se segurar.
– Do que você tá falando?
– Meninas. – o professor chamou mais uma vez. – Se eu chamar a atenção de vocês de novo vou pedir que se retirem da sala.
Elas ignoraram e, assim que ele voltou a escrever, Clarie retornou a falar:
– Ele disse que ia "dar o troco". – ela fez sinal de aspas com as mãos. – Mas disseram que provavelmente tinha sido você quem pediu que ele fizesse aquilo e eu pedi que deixassem quieto, pra não te machucar mais.
– Mas agora não importa mais se espancarem meu irmão? – ela cerrou os olhos.
– Eu não disse que eles iam espancar ele.
– E o que você acha que vão fazer? Comprar sorvete? Clay, eu juro, se encostarem um dedo no Adam eu faço a vida deles virar um inferno.
– Isso é realmente necessário?
– Por que você defende tanto eles? – falou um pouco mais alto do que deveria. Se repreendeu mentalmente quando ouviu o professor chamando mais uma vez.
– Eu avisei. – ele disse e apontou para a porta.
Claire ainda tentou insistir em ficar, mas se levantou rapidamente, sem querer enrolar em dar o fora dali. Precisava falar com Adam. Assim que terminou de juntar seu material, atravessou a sala e saiu sem esperar a garota.
!
continuou caminhando. – Eu não quero ouvir, Clay.
– Me desculpa! Eu sei que tô sendo uma amiga horrível ultimamente, mas...
– Vá em frente, quero ouvir sua explicação.
– Como você se sentiria se eu brigasse com algum amigo seu e ele fosse falar mal de mim pra você?
– Eu iria ouvir! Eu não me importo com o que os outros pensam de você porque eu te conheço!
– Pra mim não funciona assim, me desculpa.
– Sabe o que mais me chateia sobre isso? Eu me lembro perfeitamente de reclamar sobre ele com você depois de alguma briga que tivemos e você me apoiou. Só agora que isso começou e...
Ela fez uma pausa, percebendo algo. Claire pareceu confusa ao ver a amiga rir.
– O que foi?
– Você gosta dele, não gosta?
...
– Como eu não percebi antes? – ela riu de novo. – Sendo sua amiga eu te aconselharia a não continuar com isso, mas nós duas sabemos que não importa quanto eu diga, você sempre se joga de cabeça.
Ela franziu o cenho.
– Você não tá brava?
– Eu já disse que não quero mais nada com Nick. Se você quiser se submeter a isso, eu não posso fazer nada. Só me responde uma coisa?
– Hum, claro.
– Vocês já ficaram? Antes de a gente terminar, eu quero dizer.
Claire prontamente disse que não, mas a conhecia bem o suficiente pra saber que ela estava mentindo. Não era ciúmes falando, era a verdade e ela sabia.
– Vocês se merecem – ela se virou para sair.
! Por favor, volta.
– Eu não vou te fazer escolher entre a gente. Mas eu estou tão magoada agora que vou agradecer se você escolher ele.
– Eu sinto muito! – ela já começava a se desesperar. quase se deixou levar. Quase. – Por favor, não vamos deixar um garoto entre a gente.
– Eu não me importo que você ficou com ele porque ainda gosto dele ou algo assim. Você mentiu pra mim! Não só durante o relacionamento, mas aqui também. Teve coragem de olhar nos meus olhos e mentir pra mim. Pra mim você não é a amante do meu ex, você é a melhor amiga que traiu minha confiança.
Claire parecia devastada. queria perdoar ela, dizer que estava tudo bem. Afinal, ela era sua melhor amiga fazia dois anos. Era a pessoa em quem confiou seus maiores segredos, medos, vergonhas, paixões. Mas não conseguia suportar que a única pessoa que realmente era sua amiga, na verdade foi a que mais traiu a confiança dela. O problema não era com Nick. Era com Claire.
– Tchau, Clay.
A amiga não tentou chamar ela de volta novamente, sabia que havia errado e que talvez não conseguisse consertar isso. Ficou ali, vendo caminhar pelo corredor, sem saber para onde ela estava indo.

saiu do prédio e caminhou pela grama até a entrada do prédio principal. Hesitou um pouco antes de entrar no escritório de seu pai, mas o fez mesmo assim. Ele organizava alguns documentos em sua mesa e parecia concentrado.
– Pai?
Ele a olhou. – Oi, .
A garota se irritou, com a insistente mania do pai de chamá-lo pelo nome. Preferia e sempre preferiu assim.
– Qual a próxima aula do Adam?
– Você não deveria estar na aula?
– Não estou me sentindo muito bem. – ela disse, o que não era inteiramente mentira.
– Não é melhor ir na enfermaria?
– Não, não é mal estar. Posso ver o horário do Adam?
Ele a olhou por mais um momento, mas se levantou e foi até o ficheiro para buscar a ficha do garoto. Demorou um pouco, já que haviam muitos alunos ali, mas logo o estendeu para a garota. Ela abriu a ficha e correu os olhos pelo horário de aulas. A próxima era química, no laboratório 3.
– Obrigada. – ela entregou a pasta para ele e se virou para sair. Ele não perguntou o que havia de errado e ela achou melhor assim. A última coisa que queria era conversar sobre isso com o pai.
Caminhou calmamente até lá, já que ainda faltavam alguns bons minutos para acabar o período e se sentou no chão ao lado da porta. Já que não tinha nada pra fazer, pegou um livro e leu até que ouviu o sinal para troca de aula. Assim que Adam saiu, ela o puxou.
– Que merda? – ele se assustou. – O que você tá fazendo?
– O que você tá fazendo?
Ele franziu o cenho, ainda sem entender.
– Você foi ameaçar o Nick?! Eu te falei que ele não merecia nada vindo da gente.
– Eu não disse nada bom pra ele, então...
– Adam. – ela repreendeu. – Eles não são pessoas pra se mexer. São do tipo que compram briga apenas porque querem. Não faça isso. – ela disse a última frase pausadamente.
– Eu não tenho medo deles. – ele riu e continuou caminhando como se não estivesse ali.
– Adam! – ela o seguiu.
, eu me preocupo demais com você. Se ele te machucou, então...
– Você machuca ele? – ela levantou uma sobrancelha. – Eu não quero que você faça isso, só quero esquecer e seguir em frente. Se você quiser me proteger, só deixa isso pra lá.
Adam suspirou.
– Tá bem. Mas se eles vierem procurar briga comigo eu não vou ficar parado.
– Não te culpo...
– Melhor a gente... – ele começou, mas parou ao ver Nick seguindo na direção deles. – O que você quer?
se virou e, assim que viu o garoto, fez menção de sair. Antes que ela pudesse, ele a puxou de volta.
– A gente pode conversar?
– Não, vocês não podem – Adam disse.
– Adam, pode ir pra aula.
O garoto franziu o cenho.
– Você prometeu.
– Tchau. – Nick sorriu com desdém. Adam o olhou feio antes de dirigir um olhar à e seguir caminho pelo corredor.
Aos poucos o lugar se esvaziava, todos iam para suas devidas classes. Mas os dois continuaram ali, em silêncio, até que apenas havia sobrado eles.
– O que você quer? – ela perguntou se virando para ele.
– Saber como você tá.
Ela riu.
– Não acredito que tô perdendo aula por isso.
– É sério.
– Eu sei que é sério, o que só te torna mais patético. Não se trai uma garota com a melhor amiga dela é com sei lá quantas outras e depois aparece perguntando se ela tá bem como se nada tivesse acontecido.
– Espera, o quê?
– Eu sei sobre você e a Claire. Não adianta negar. Mas, assim como eu disse pra ela, vocês dois se merecem. Só espero que tenha espaço na relação pra todo o egoísmo e ego de vocês.
, para.
– Parar de dizer o quanto você não é confiável, o quanto é babaca e insensível?
– Você é tão hipócrita. – ele riu. – Fala como se não tivesse saído da festa com outro cara assim que terminamos.
– Não que eu te deva alguma satisfação, mas nada aconteceu entre Harry e eu. Eu percebi que... Ah, quer saber? Não vou te dar o gosto de me ver abalada.
– Você acha que é o que eu quero ver?
– Por que mais você viria aqui?
Ele ficou em silêncio, pois não sabia como responder aquela pergunta. Realmente não sabia o que tinha levado ele a fazer aquilo.
– Só esquece que eu existo, ok? Vai ser um grande favor pra ambos. – ela se virou para sair, mas antes de ir se lembrou de algo. – Ah, mais uma coisa. Se você encostar um dedo no Adam eu juro que sua vida vai virar um inferno.
, deixa eu esclarecer pra você: os seus amigos na verdade são meus amigos. A sua popularidade na verdade é minha popularidade. Então, se você acha que consegue fazer alguma coisa pra me derrubar, tá errada. A não ser, é claro, que faça o que fez com a Jess.
o olhou com fúria. Não sabia de onde aquele sentimento havia vindo, mas tudo o que ela queria era acertar o rosto dele. Não teve coragem de fazer isso, entretanto.
– Você não se parece nem um pouco com o cara que eu conheci.
– Você nunca parou pra pensar que ele só existiu quando o Darren morreu?
– Então por que você continuou comigo? – ela praticamente gritou dessa vez. Estava prestes a chorar e sabia que não conseguiria segurar por muito tempo. – Alguma vez eu signifiquei alguma coisa pra você?
– Sim. – ele disse simplesmente.
– Só isso?
– De que vai adiantar eu dizer que você foi tudo pra mim depois do acidente? Eu sei que você nunca vai me perdoar pelo que eu fiz e eu nem quero que perdoe.
– Por que você continuou? Merda, você podia ter terminado comigo no dia seguinte, mas preferiu continuar por 7 meses!
percebeu que ele hesitou em responder, o que só fez com que ela quisesse saber a resposta ainda mais.
– Só me responde.
– Eu sempre percebi que as pessoas se afastavam de você por ser filha do diretor. E ainda tinha o Adam, que, cá entre nós, é insuportável. O Darren era a única pessoa que você tinha e ele se foi. Eu não quis deixar você sozinha.
Ela sentiu como se tivesse levado um soco no estômago.
– Você tinha pena de mim? – ela passou as mãos pelos cabelos.
– Eu...
– Sai da minha vida. É sério, não chegue nem perto de mim novamente.
– Como quiser. – ele disse e deu alguns passos para trás, ainda olhando para ela, antes de se virar e sair porta à fora.

Depois do último período, caminhou até a sala da psicóloga e sentiu os olhos da doutora em si enquanto ele entrava no escritório, mas ignorou. Se sentou em uma das cadeiras de frente para a mesa dela e pousou seus olhos em uma ficha em branco que ela tinha nas mãos. Se perguntou o que ela escreveria sobre ele, embora ainda não tivesse decidido o quanto contaria ali. Não disse nada, até que ela quebrou o silêncio.
– Boa tarde, . Eu sou a Dra. Chelsea Green, mas pode me chamar pelo primeiro nome se isso te fizer mais confortável.
Quando não disse nada, apenas continuou a olhando, ela continuou:
– Sei que essas consultas não estão acontecendo por sua vontade, por isso estou ciente de que pode ser difícil entrarmos em algum assunto profundo. Podemos começar sendo simples, o que acha?
– Tá.
– Quando conversei com a sua mãe ela me disse que você foi diagnosticado com depressão alguns anos atrás, mas parou de tomar os medicamentos há quase um ano. Pode me contar o motivo?
– Eu não sei. – ele disse, sendo completamente sincero. – Acho que eu só odiava depender de remédios pra me sentir bem.
– Você queria ser como seus amigos? Livre de medicamentos?
– Eu não tenho amigos, mas sim, era isso que eu queria.
Ele viu que ela anotou algo em sua ficha, mas não conseguiu ler o que era, o que o frustrou.
– O que te levou ao ponto de dizer que não tem amigos?
– Eu não tenho. Simples assim.
– Mas você não acha que há um motivo pra isso?
– Eu afastei todos eles.
– Porquê? – ele insistiu.
– Tudo que eu toco vira pó. – ele disse, se lembrando do que disse.
Ela fez anotações mais uma vez.
– Pode me descrever uma dessas situações? – perguntou, mas cerrou os olhos para ela. – É um assunto complicado para você?
– Sim.
– Então vou deixar isso pra depois e cumprir o que falei sobre ser simples, pode ser? – quando ele deu de ombros, ela continuou. - – O que você gosta de fazer quando está em seu tempo livre?
– Desenhar, fotografar... Ler, assistir filmes ou séries. Ir ao teatro.
– Gosta de arte? Isso é interessante. Não é tão comum entre as pessoas da sua idade. Disse que gosta de desenhar, será que posso ver algum trabalho?
hesitou, mas acabou se inclinando para o lado e abrindo sua mochila, que estava no chão. Pegou seu portfólio e o entregou para ela. A mulher o abriu e deu um pequeno sorriso ao folhear a pasta.
– São muito bons. Já pensou em seguir carreira?
– Costumava ser meu sonho.
– E qual é agora?
Ele deu de ombros novamente.
– Teve um momento exato na sua vida em que você decidiu que não era mais seu sonho?
estava com a intenção de não contar nada para ela, mas começou a falar antes que conseguisse se impedir.
– Quando a minha irmã morreu. Ela sempre foi a pessoa que mais me apoiou nisso e quando ela se foi... Eu não sei, parecia que não fazia mais sentido. Mas eu voltei a fotografar no último fim de semana.
– Ah, é? E como você se sentiu?
– Quando estava fotografando, bem.
– E nos outros momentos?
se remexeu na cadeira.
– Eu fotografei essa garotinha, Ashley. Os pais dela me chamaram pra almoçar logo depois, mas eu fiquei extremamente desconfortável porque a mãe me fazia perguntas que eu não queria responder.
– Você não gosta que façam perguntas pessoais pra você?
Ele assentiu.
– Sinto muito se estou te deixando desconfortável. Mas é a forma de eu ter ajudar
Você entende, certo?
– Sim.
– E você quer ajuda? – ela pousou a ficha na mesa ainda sem tirar os olhos dele, o analisando. Todos os psicólogos com quem ele havia se consultado faziam aquilo e ele não se sentia bem. Se sentia exposto.
– Eu acho que sim.
– Certo. , você está ciente de que nada das conversas que nós tivermos sai dessa sala?
– Tenho.
– Então não precisa se sentir desconfortável comigo, eu não vou te julgar nem contar o que você me disser para alguém.
– E se, hipoteticamente falando – ele deu uma pausa, ainda incerto –, um paciente seu fosse viciado em drogas? Você teria permissão pra contar?
– A melhor alternativa seria buscar auxílio médico para apoiar o auxílio psicológico. Mas eu estudaria o caso primeiro, antes de fazer qualquer coisa. Afinal, pode não ser um caso de vício. Quando foi que você começou?
Ele a olhou um pouco temeroso. Se arrependeu de ter perguntado qualquer coisa. Ao ver como ele estava ficando ansioso, ela cruzou as mãos sobre a mesa e o olhou.
– Vamos fazer o seguinte: eu te prometo que só vou interferir no seu caso o tanto que você me permitir. Enquanto você não quiser ajuda médica, eu não busco isso pra você. Combinado?
continuou a olhando, sem ter certeza de que poderia confiar nela.
– Eu prefiro não falar sobre isso agora.
– Entendo. A proposta continua de pé, para quando você se sentir pronto. Podemos pelo menos falar de como você chegou à isso?
Ele balançou a cabeça negativamente.
– Podemos falar sobre a sua irmã?
O garoto estava completamente desacostumado a fazer aquilo e o que mais o cansava é que ele havia contado tudo aquilo pra um profissional e de nada adiantou. Porque dessa vez funcionaria?
– Eu posso ir?
Ela pareceu decepcionada, mas assentiu com a cabeça.
– Claro. Nos vemos amanhã.
– Ok. – ele pegou a mochila e se levantou.
? – ela chamou antes que ele chegasse à porta. – Você não precisa passar por isso sozinho. Se não estiver confortável, tente conversar com alguém da sua idade, pode ser mais fácil.
– Obrigado. – ele disse, mesmo sem intenção alguma de seguir o conselho, e saiu.
Levou um susto ao ver parada em frente a porta, de costas, mexendo no celular. Ela usava um vestido branco de alcinhas e seus cabelos estavam presos em um coque. Não parecia ansiosa como alguém prestes a passar por uma consulta psicológica, já que a experiência podia ser desconfortável na maioria das vezes. Parecia relaxada, ou pelo menos era o que ela queria que os outros pensassem.
Antes que pudesse perguntar se ela estava bem, a garota se virou para entrar no consultório, assumindo que quem quer que estava ali já havia saído. Ela pareceu surpresa de ver ele ali.
– Ah, oi.
– Oi. Resolveu seguir o "conselho"? – ele apontou para a porta por cima do ombro.
– O quê? Ah, não. Vim buscar alguns arquivos com a doutora.
Ele franziu o cenho.
– Seu pai tem acesso aos arquivos dos alunos?
– Bom, sim.
– Ótimo. – ele resmungou.
– Não se preocupe, ele não divulga nada pra ninguém. Nem eu sei o que acontece aí dentro.
– Não é essa minha preocupação.
– E qual é?
Ele balançou a cabeça.
– Nada.
– Ok, eu oficialmente desisto.
– O quê?
– Eu sei que parece que eu estou desesperada por amigos, e talvez eu realmente esteja. – ela riu. – Mas tudo está dando tão errado na minha vida ultimamente que eu não vou arriscar insistir mais em algo que sei que não vai dar certo.
abriu a boca pra responder, mas não teve coragem de dizer nada. Quis dizer que ele queria alguém tanto quanto ela; que estava sufocando por estar sozinho; que tinha vontade de gritar tudo o que havia dado errado em sua vida. Mas não conseguiu. Estava tão acostumado a guardar tudo pra si que simplesmente não conseguia mais se abrir. Parecia um sacrifício gigantesco.
– É, acho que você concorda. – ela disse, levando o silêncio dele como uma resposta. – Te vejo por aí.
E ficou ali, vendo ela ir embora, sem conseguir dizer uma única palavra.
Depois de alguns instantes, após sair do transe, ele foi até seu quarto, subindo pelas escadas dessa vez. Não queria ir para o seu quarto e perceber Nick lhe dirigir olhares toda vez que ele respirava, já que a tensão entre eles havia aumentado consideravelmente depois da pequena discussão na sala de aula, mas não tinha nada para fazer, então o fez assim mesmo.
Mas, em vez de Nick, lá estava Andrew acompanhado por Jordan. franziu o cenho, se perguntando o que o garoto fazia ali. Afinal, os dois haviam terminado por algum motivo. Não conseguia enxergar motivo para ex-namorados voltarem a ter contato.
– Foi mal, não sabia que tinha companhia. – ele disse e percebeu Jordan ficar sem graça. Teve vontade de rir.
– Não, tudo bem. – Andrew disse se levantando. – O Jordan tava de saída, não é?
O outro garoto pareceu perdido por alguns segundos, mas logo concordou.
– É, isso aí. Vejo vocês por aí. – ele falou e acenou tímido antes de sair. logo concluiu que Jordan pensou que ele contaria para Eliot ou algo assim, mas ele não tinha intenção nenhuma de fazer isso. Não era da conta dele.
O silêncio se instalou no quarto e Andrew ficou claramente incomodado. Ele abriu a boca para falar algo, mas levantou a mão em sinal para que ele parasse.
– Não precisa me explicar nada.
– Eu sei que não. Vocês são amigos, né?
– Pode se dizer que sim.
Andrew coçou a nuca.
– Ele já falou de mim?
– Não, mas me contaram que vocês namoraram. Você quer saber porque quer voltar com ele ou é só curiosidade?
Andrew não respondeu, parecendo um pouco atordoado por saber daquilo.
– Não quis me intrometer.
– Não, tudo bem. Eu... acho que ainda gosto dele.
– Eu realmente não me sinto no direito de intrometer, então acho que vocês deveriam conversar.
Ele balançou a cabeça em negativa.
– É melhor não.
Ele não parecia confortável em estar falando sobre aquilo e ficou aliviado por ele ter parado, já que também estava desconfortável. Nunca conversou com Andrew e parecia ainda mais estranho do que conversar com seus colegas.
– Você e Nick já se resolveram?
– Não tem o que resolver. Ele acha que eu fiz algo, eu não fiz, ele é um babaca, eu também. Simples.
Andrew riu.
– Dois idiotas, se me permite dizer.
– Já devem dizer isso sobre mim, então...
Andrew não negou. Antes que ele pudesse dizer alguma coisa, foi impedido quando a porta se abriu e Nick entrou no quarto.
– Oi. – ele disse simplesmente e se jogou em sua cama.
– Você tava super animado mais cedo, o que aconteceu? – Andrew perguntou.
.
– Ah, não. O que você fez?
– Por que tem que ter sido eu a ter feito alguma coisa?
Andrew o olhou como se ele fosse a pessoa mais idiota do mundo. não sabia se continuava ali ou não. Afinal, não estava fazendo parte da conversa e nem mesmo queria. Nick revirou os olhos.
– Por algum motivo idiota eu fui falar com ela.
– Cara, para de ser burro.
se levantou, sem querer ouvir a conversa, e abriu a porta. Os outros pareceram perceber, mas não fizeram nada pra impedir. Assim que saiu ficou dividido sobre o que fazer, mas, sem saber muito bem como chegou àquela decisão, ele caminhou até o elevador e desceu até o térreo. Começou a caminhar pelo colégio, sem rumo. Entrou no refeitório, foi para as piscina, sem pressa alguma. Quando finalmente começava a desistir, refletindo sobre como aquela ideia era completamente sem nexo, entrou na biblioteca para se distrair pelo resto do dia com algum livro da lista que o professor Oliver havia passado. Caminhou em meio as prateleiras e as centenas de livros e se lembrou de casa. Da biblioteca. Emergido em lembranças, ele acabou pegando um dos livros favoritos de seu pai. Nunca havia lido, mas sempre ouvia os comentários dele. Principalmente quando era menor e era muito mais interessado em tudo que as outras pessoas faziam.
Assim que se virou para ir se sentar em uma mesa, viu debruçada sobre os livros, fazendo uma lição que parecia ser de química. Ela usava fones de ouvido e parecia concentrada. Aproveitando que ela não fazia ideia do que estava acontecendo ao redor, ele começou a ir em direção ao balcão onde a bibliotecária estava, observando tudo o que acontecia por ali. Assim que registrou o empréstimo do livro, olhou novamente para , pensando se deveria ou não ir até lá.
Lutando contra a parte dele que dizia pra ele sair dali, ele atravessou novamente a biblioteca e se aproximou da mesa onde ela estava. Como ela não ouviria se a chamasse, ele se aproximou e tocou seu braço.
A garota se assustou e, quando o viu, tirou os fones do ouvido franzindo o cenho para ele.
– Oi?
Ele hesitou um pouco. – Eu tava te procurando.
Ela fez sinal para que ele se sentasse na cadeira à frente e assim ele fez.
– Precisa de alguma coisa?
– Não. Eu só queria saber se você tá bem.
Ela franziu o cenho novamente.
– Você foi abduzido?
– Eu sabia que era uma ideia idiota. – ele disse, já se levantando. o puxou de volta.
– Desculpa, desculpa. Posso saber se tem algum motivo específico pra você vir me perguntar isso?
– Soube que você e o Nick conversaram. Saí do quarto antes que ele pudesse terminar, porque...
– Queria ouvir de mim?
– Não, eu só achei que se você precisasse desabafar ou algo assim...
sorriu, parecendo se divertir com a situação. revirou os olhos.
– Você tá deixando tão na cara que se importa. O que é bom, não me leve a mal.
Ele não soube o que dizer. Nada parecia correto. Além de saber que era um sacrifício sequer começar a falar, sabia que não pararia mais uma vez que o fizesse. Não confiava nela, pelo menos não ainda. Mas de uma coisa ele sabia: os dois estavam desesperados por um apoio e apenas parecia disposta a tomar uma iniciativa. Mas até ela desistiu, por isso ele voltou a pensar no quão idiota era ter ido atrás dela para oferecer seu ombro.
– Eu não disse isso.
– Se não se importa, então me diga o motivo de estar aqui.
– É uma biblioteca. – ele mostrou o livro que segurava em suas mãos.
Ela revirou os olhos.
– Você entendeu o que eu quis dizer.
– Eu não sei, ok? Eu só... – ele passou a mão pelos cabelos.
Ao ver como ele estava ficando ansioso, deu uma pequena risada.
– O que você acha de fazermos um trato?
– Um trato?
– É. – ela concordou. – Já que você ofereceu, eu posso usar de um ombro amigo. Tipo assim, bastante. E quando você finalmente abandonar essa pose e se deixar confiar em mim, eu vou ficar feliz em retribuir.
a olhou, incerto. Ainda nem sequer gostava totalmente dela. Achava que ela se intrometia demais, queria brigar por qualquer motivo, mudava de humor em uma velocidade que ele não conseguia acompanhar. Mas ao mesmo tempo...
– Você tá demorando tempo demais pra responder. Isso é um não?
... Se um dia eu te contar tudo o que já aconteceu comigo você vai entender perfeitamente porque eu não me aproximo de você ou de qualquer pessoa.
– Não deve ser tão ruim assim. Eu posso te ajudar.
– Não se trata de drama familiar, ou drama de namoro, ou de escola ou de qualquer coisa do tipo. É sério.
Ela franziu o cenho, percebendo que ele não tinha nem um pingo de hesitação em dizer tudo aquilo.
– Você realmente não vai confiar em mim, né?
Ele não respondeu, mas ela conseguiu captar a mensagem.
– É, ok.
– Mas, como eu já disse, tenho ouvidos perfeitamente bons.
– Certo. Eu vou mesmo parar de tentar.
Ele a olhou inexpressivo.
– Se o que você guarda é tão grave assim e você fica tão incomodado quando eu tento tocar no assunto, eu deveria deixar quieto.
Ele ficou novamente sem saber o que dizer. Depois de alguns instantes fechou os livros que estavam sobre a mesa e o olhou.
– Respondendo a sua pergunta de antes: não, eu não estou bem.
– Quer contar o que aconteceu?
– Você quer ouvir?
Ele deu de ombros.
– Bom, hoje eu descobri que a Claire e o Nick ficaram quando a gente tava namorando e é óbvio que eu não estou mais interessada em qualquer coisa relacionada à ela. E, antes que você me julgue, não é por ele.
– Não julguei.
Ela assentiu e continuou.
– Depois ele veio falar comigo e ele me deixou no meio do corredor praticamente chorando. Eu queria não ser tão sensível.
– Ele te fez chorar?
– Bom... não na frente dele. Ele disse que tem pena de mim por eu ter perdido o único amigo que eu tinha. Que todos os amigos que eu achei que tinha na verdade são dele. Até mesmo Claire. – ela riu ironicamente.
– Eu sei exatamente o que você tem que fazer.
– O quê?
– Mandar eles pro inferno.
riu fraco.
– É sério. Se eles não estão somando nada na sua vida, apenas diminuindo, então eles não servem pra nada. Mande pro inferno.
– Faz sentido. Mas pra mim não é tão fácil assim.
– Não me diga que você é boazinha demais pra isso porque eu me lembro bem das vezes em que a gente brigou e você conseguia ser bem insensível.
– Me desculpe se eu te magoei.
– Na verdade, não magoou. Eu só ficava... Furioso.
– Sério?
– É. Você ficava tentando decifrar o que eu sinto, o que me levou a ser assim.
– Acertei alguma vez?
– Talvez.
Ela pareceu hesitar um pouco.
– Posso te fazer uma última pergunta?
– Acho que pode.
– Por que é tão difícil pra você falar até sobre as coisas mais simples sobre você?
Ele suspirou.
– Eu passei muito tempo me fechando, me afastando das pessoas. Acho que me acostumei tanto que agora é difícil falar qualquer coisa. E isso inclui o que eu tô falando agora.
Ela assentiu.
– É por isso que você tá se consultando com a Dra. Green?
– Na verdade, eu estou sendo obrigado. Mas, é, também.
– E é bom?
Ele deu de ombros.
– Pra mim é desconfortável, mas depende da pessoa. Ela vai te aconselhar melhor que eu. Não vai dizer pra você mandar alguém pro inferno.
– Então ela é bem sem graça.
Ele riu fraco.
– É sim.
– Mas tenho certeza de que não vou ir atrás dela. Meu pai tem acesso à todas as fichas. Eu só ganharia mais um problema.
– E o seu irmão?
– É... Complicado. Eu o amo, juro. Mas, embora ele continue encrenqueiro como sempre, ele parece tão diferente. Costumava ser tão divertido, falava tanto quanto eu. Agora parece que ele odeia todo mundo, menos eu. Acredita que ele foi atrás de Nick pra ameaçá-lo?
franziu o cenho, sem entender porque ele faria algo assim. Quando se tratava de Nick, ou de qualquer pessoa na verdade, apenas ignorava. Era mais fácil, melhor, menos trabalhoso.
– Eu também fiquei confusa. Me faz ter vontade de fazer exatamente o que você faz. Afastar todo mundo e evitar ser machucada. Seremos o Team Hate.
Ele não riu. Não gostou dela tê-lo colocado ele como se fosse seu melhor amigo ou algo assim. Ele estava lutando contra qualquer impulso que tinha para se aproximar dela e ela não estava ajudando.
– Eu preciso ler isso – ele disse, apontando para o livro. Se levantou sob o olhar inexpressivo de . – Vejo você por aí.




Continua...



Nota da autora: Sem nota.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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