Brooklyn

Última atualização: 30/12/2025

Prólogo

Red Hook, Brooklyn, NY
7 de dezembro de 2013

Lucy não conseguia segurar as lágrimas. Havia escondido a verdade por tanto tempo que, por um momento parecia mais fácil deixar tudo como estava. Já não podia alimentar a mentira, não mais. Tinha chegado ao limite. Assim como ele. O homem a sua frente era apenas uma sombra de quem costumava ser, e ela sabia que não podia culpá-lo por isso. Afinal sua própria covardia havia ajudado a moldar aquela versão sombria dele. Agora, estava prestes a pagar o preço por ter mentido por tanto tempo. O medo estava estampado em seus olhos, sua respiração entrecortada fazia eco no galpão vazio. A verdade não deveria doer tanto certo, certo? Mas parecia correr cada pedaço do seu ser, como se cada palavra não dita fosse uma faca cravada em seu peito.
Ele, por outro lado, estava no auge da sua alienação, convencido de que o que estava prestes a fazer era justo, talvez até libertador. O olhar de Lucy se arregalou ao ver a arma apontada em sua direção, o cano frio refletindo a pouca luz que atravessava as janelas quebradas.
- Não... por favor! - Suplicou, a voz quase um sussurro.
Ele não vacilou.
- Eu vou acabar com a sua vida... Assim como você fez com a minha.
O som do disparo ecoou pelo galpão, silenciando qualquer resquício de esperança. No instante seguinte, Lucy era apenas um corpo frio e imóvel no chão.
E ele, parado ali, com o peso do revólver na mão e o vazio preenchendo o seu peito, finalmente entendeu que vingança não se parecia nem um pouco com o alívio.


Capítulo 1 - O Início

Brooklyn’s POV:


Green-Wodd Cemetery 500, 25th Stree. Brooklyn, NY.

Agachei-me com cuidado, depositando as flores preferidas dela na lápide. Sem ao menos perceber, uma lágrima caiu junto, depois outra e então eu já não conseguia mais contá-las. Sempre que vinha visitá-la, parecia inevitável chorar, como se cada lágrima fosse uma tentativa frustrada de aliviar o vazio que ela deixou. O peito doía e eu sentia como se o peso de mil lembranças estivessem me esmagando. Limpei algumas lágrimas com a palma da mão e, com o mesmo gesto trêmulo, passei os dedos por cima do nome gravado com delicadeza: “Lucy Bennette”. Só de pronunciar o nome, um soluço escapou, quebrando o silêncio ao meu redor. Não consegui me manter firme, então me sentei no chão duro e úmido, sem me importar com a sujeira ou com vento gelado que fazia minhas mãos tremerem mais ainda.
- Oi, mamãe... – murmurei, tentando segurar o choro. - Como a senhora está? - Minha voz oscilou, como se minha garganta estivesse presa por um nó. - Se serve de consolo... não estou melhor do que você. - Acariciei a foto preta e branca, tentando ignorar o aperto no peito. Um sorriso tímido escapou quando lembrei que nem tudo foi só dor. Era bom poder me agarrar a essas memórias nos momentos mais difíceis.
- Eu só queria que soubesse que venceu. – continuei, sentindo uma pontada de orgulho misturada com tristeza. - Estou indo para Manhattan para recomeçar. O John me matriculou em uma dessas escolas para esnobes que eu sempre detestei. - Um riso fraco e amargo escapou. – Daqui alguns anos, vou estar morando em uma república e ir para a faculdade... como a gente sempre sonhou.
Fechei os olhos por um instante, tentando visualizar a nossa vida, longe daquele lugar que chamávamos de lar. Ela sempre dizia que eu merecia mais, que um dia seria livre, mas liberdade parecia tão amarga sem ela por perto.
- Também quero que saiba que isso não é uma despedida. - Acrescentei, respirando fundo. - Onde eu estiver, você estará comigo. Sempre!
Eu sabia que aquilo era verdade, mas a sensação de estar sozinha minha esmagava. Era a primeira vez que eu ficava tão longe dela... tão longe de alguém que realmente me entendia. A dor de não poder compartilhar cada detalhe da mudança, cada insegurança sobre o futuro, me consumia como fogo lento. De repente, um vento forte passou por mim, espalhando algumas pétalas e trazendo folhas secas que dançavam ao redor da lápide. Olhei para a foto dela, que sorria para mim, e por um breve instante, senti como se ela estivesse ali, me dando coragem para seguir.
- Eu também te amo. - Sussurrei, deixando as lágrimas correrem livremente. De alguma forma, eu sabia que ela estava feliz por me ver partir, por me ver tentar. Mas isso não tornava saudade menos dolorosa.
O vento cessou e o cemitério voltou ao seu silêncio habitual. Fiquei ali, sentada no chão frio, deixando que a presença dela me envolvesse mais uma vez. Mesmo que só na minha imaginação.

2 anos depois:
The Elsinore – Upper East Side
05/09/2015

- Brooke?
John me chamou ao entrar na sala. Ele estava um charme, todo engomadinho e descabelado. Coloquei meu livro sobre a mesa e me levantei, tentando esconder o sorriso.
- Está tentando impressionar mais alguém além dos seus sócios hoje? – Perguntei, ajeitando a gravata dele. Ele riu para mim, meio desconcertado. - Preciso mesmo ir? - Fiz minha melhor expressão de cansaço.
- Você sabe que vou fechar um contrato importante hoje e preciso passar a melhor impressão possível.
Suspirei derrotada e coloquei as mãos na cintura. Ele ficou me encarando com uma expressão curiosa.
- O que foi?
- Você estava muito distraída quando eu cheguei. Tive que te chamar umas três vezes. - E foi até o armário e tirou de lá um vinho branco, servindo um pouco para si mesmo.
Inspirei profundamente antes de responder:
- Estava pensando no James e na Lucy.
John se engasgou levemente com o gole que acabara de dar. Era sempre assim quando eu mencionava os meus pais. Ele limpou a garganta e colocou o copo sobre a bancada, visivelmente desconfortável.
- Só queria entender por que eles brigavam tanto...
- É realmente um assunto complicado. - Ele virou de costas para mim, mexendo distraidamente na garrafa de vinho.
- Tem certeza de que não consegue se lembrar de mais nada? – insisti, seguindo os seus passos.
Ele ficou um tempo em silêncio antes de responder, como se escolhesse as palavras com cuidado.
- Brooklyn, por mais próximo que eu fosse dos seus pais, eles nunca foram muito abertos sobre os problemas pessoais. Fiquei surpreso quando soube que James tinha ido embora de casa. Tentei falar com ele, mas não tive sucesso; e sua mãe... - ele se virou, os olhos carregados de uma tristeza silenciosa.
- Minha mãe...? – incentivei, esperando que ele finalmente dissesse algo que fizesse sentido.
John balançou a cabeça, como se afastasse um pensamento incômodo.
- Você se parece tanto com ela.
Abaixei o olhar, tentando esconder a decepção. Aquela frase sempre vinha acompanhada de um silêncio pesado, como se fosse a única coisa que ele realmente soubesse dizer. Eu queria mais, queria detalhes, lembranças, qualquer coisa que me ajudasse a montar o quebra-cabeça dos meus pais.
- O que importa agora é que tudo isso já passou e você precisa seguir em frente. - Ele me puxou para um abraço apertado e reconfortante.
- Eu sei. - Me desvencilhei do abraço, forçando um sorriso. - Preciso me arrumar.
- Como assim? Não vai de calça jeans e camiseta? Estou chocado. - Ele riu, tentando aliviar o clima.
- Infelizmente nem tudo é do jeito que queremos, né?
- Encontro você lá? – perguntou, jogando blazer por cima da camisa social.
- Claro.
John me lançou um último olhar preocupado antes de sair, e eu fiquei ali, tentando não pensar no que ele não dizia. Por mais que eu quisesse respostas, talvez a verdade fosse que ninguém realmente sabia por que tudo desmoronou tão de repente.

***

Lincoln Square – West 67th Street

O carro preto deslizava pelas ruas do Upper West Side, e por um instante o mundo parecia menos simétrico. As calçadas estavam cheias, o ar cheirava café e pão de verdade e havia pessoas correndo com mochilas nas costas em vez de maletas de couro italiano. Aqui tudo é menos... engomado. Encostei a testa no vidro e pensei na minha casa. No The Elsinore, tudo tem um brilho sutil. Até o silêncio parece bem treinado. E eu gosto disso, na verdade. Depois que minha mãe morreu, foi ali que eu entendi o que era a estabilidade. John não é um cara fácil, mas ele me deu o que ninguém mais quis: um lar. E, sinceramente, depois dos meus pais, eu não o trocaria por ninguém nesse planeta; nem Nana e nem Simon, que fazia piadas ruins e me chamava de “senhorita B” desde o dia em que cheguei. Mas aqui no bairro da Emma, as coisas têm outro tipo de vida. Mais soltas. Mais bagunçadas. Mais... reais, talvez. O carro parou em frente ao The Beaumont Residences, prédio onde Emma mora com os pais. Sem manobristas com luvas brancas, sem fontes dançantes na entrada, só um porteiro lendo o jornal e uma senhora regando plantas na varanda do primeiro andar. Subi até o 12º e bati na porta. Ouvi passos apressados, um grito abafado da mãe dela, pedindo para alguém devolver o livro da Virgínia Woolf ao lugar certo, e então a porta se abriu.
- Quem é você e o que fez com a minha amiga Brooklyn. - Emma arregalou os olhos ao abrir a porta, mas logo seu olhar desceu até os meus pés. – Ah, aí está você.
Ela se referiu aos meus clássicos all stars.
- Tudo na vida tem um limite. - Sorri enquanto passava pela porta.
- Você chegou cedo. - olhou para o relógio em seu pulso, ainda de meia e camiseta.
- Cheguei no horário. Você quem vive em um universo alternativo onde os minutos têm outro valor. - Andamos até o seu quarto.
O apartamento dela parecia uma versão intelectual do caos. Tem livros em todas as superfícies planas possíveis, quadros tortos na parede e um cheiro constante de incenso com café. Gosto daqui. Parecia que tudo estava vivo e opinando sobre algo.
- Você está animada para evento do John? - ela perguntou, pegando um colar de cima da escrivaninha.
- Animada? Super. Mal posso esperar para fingir que me importo com o discurso do banqueiro alemão sobre investimento sustentável. – falei, irradiando ironia.
Ela riu.
- Você adora isso. - Me viu sentar na cama.
- Eu aprecio. Principalmente quando tem canapé de salmão. E o Jonh tentando sorrir, o que é basicamente um milagre de Natal fora de época.
Ela sumiu no closet e voltou já vestida, elegante e clássica como sempre. Emma tem esse jeito de parecer pronta mesmo quando não está. Ela prendeu o cabelo com grampo dourado e me observou por um segundo, com um olhar meio calculado, meio hesitante. Reconheço esse olhar. Ele sempre vem antes de alguma pergunta que ela ensaiou três vezes antes de realmente perguntar.
- Brooke... - começou ela, casualmente. - Você lembra do Brian?
Arqueei a sobrancelha.
- Cabelos perfeitos, ego inflado e memória muscular zero. – disse, sem nem pensar muito.
Emma tentou não rir, mas falhou. Depois baixou o olhar como se estivesse sentindo culpa por algo.
- Então... Eu esbarrei com ele na aula de inglês antes das férias. A gente tem conversado. E... Ele me chamou para sair.
Silêncio. Não dramático. Só longo o suficiente para ela perceber que eu ainda estava viva e respirando.
- Emma, eu namorei esse garoto por um mês. Que, no tempo emocional de uma jovem adolescente, é o equivalente a um jantar ruim.
- Então você não se importa?
- Você tem minha benção. - Fui direta, antes que ela começasse a lista de prós e contras.
No segundo seguinte, Emma praticamente pulou em cima de mim os olhos brilhando, como os de um gato pidão.
- Tem certeza? -ela estava um fio de começar a ronronar.
Brian era meu ex. Porque, nas palavras do Ed: “Qualquer coisa que dure mais do que uma semana com Brooklyn Bennette já é um compromisso vitalício.”
Mas Brian e eu éramos um desastre ambulante. Tipo aqueles filmes em que o casal principal claramente nunca devia ter saído da fase do trailer. Eu estava tentando ser a nerd focada nas notas da Trinity, enquanto ele era o cara popular que achava que Shakespeare era o nome de uma banda indie.
- Tenho certeza. Só estou curiosa para saber porque, de repente, ele quis se aproximar de você. - Fui até o espelho para ajeitar o cabelo, enquanto Emma me lançava um olhar de suspeita.
- Você acha que ele está me usando para te atingir?
- Eu acho que ele está te usando para ver se ainda sabe usar o cérebro. - Dei de ombros. – Mas, sinceramente, se alguém precisa de um mapa para encontrar o próprio QI, já perdeu o direito de me atingir faz tempo.
- Você o acha um idiota. - Emma suspirou.
- Não acho. Tenho certeza - me virei para ela
Ema bufou e colocou as mãos na cintura.
- Brooke, você é a pessoa mais reservada que eu conheço. Mesmo que estivesse ofendida, nunca diria. Tem medo do que eu posso pensar.
Eu sabia que ela estava certa. Eu tinha esse talento especial para engolir as coisas e fazer de conta que estava tudo bem. Uma péssima combinação com meu talento para atrair encrenca.
- Emma... - comecei, mas ela me interrompeu, já de pé.
- Relaxa! Eu não estou apaixonada por ele. Só estou curiosa para saber como alguém consegue ter tanto músculo e tão pouca substância.
- Ok, ponto válido. – ri, cruzando braços.
- E nem vamos namorar ou algo assim. Vamos só sair por uma noite e depois fingir que nunca nos conhecemos.
- Aí está um conceito que ele domina. - brinquei.
- E ainda podemos colocar em prática o plano do Ed de te arranjar um namorado rico. Segundo ele, não tem lugar melhor do que os eventos do John.
Eu a encarei, incrédula.
- Não estou procurando um namorado. Principalmente se ele tiver a idade do John e frequentar eventos em que discutem quantas ilhas particulares são aceitáveis para ser um ser humano decente.
- Você precisa conhecer alguém e seguir em frente.
- Quer saber, se vocês parassem de falar tanto sobre isso, eu já tinha seguido em frente.
- Deixa eu te ver. - ela deu um passo para trás e abriu um sorriso orgulhoso. - Está linda, Brooklyn. Tenho certeza de que vai chamar a atenção de alguém hoje.
Revirei os olhos.
- Vocês nunca vão desistir de me verem com alguém, não é? - perguntei, enquanto saímos do quarto?
- Meu objetivo de vida. - ela piscou.
Eu suspirei, tentando ignorar o pressentimento de que essa noite iria ser mais longa do que eu esperava.

***

The Quin – 101 West 57th Street, at Sixth Avenue, New York, NY 10019, EUA

O The Quin é, sem dúvidas, um dos hotéis mais bem localizados de New York. Por isso, figurões como John sempre realizam seus eventos aqui. Manter as aparências nessa cidade não é apenas um capricho, mas uma necessidade. Basta passar pelo saguão para entender o motivo: você sempre vê famosos circulando e as pessoas mais importantes, como presidente ou os donos da Madison Square Garden, parecem estar sempre por perto, embora eu não saiba dizer quem são, já que raramente vou a shows. Emma adora esse lugar porque simplesmente podemos caminhar até a quinta avenida e voltar sem sermos notadas, de tão perto que fica. O lobby é um espetáculo à parte: lustres de cristal pendem do teto alto, lançando reflexos cintilantes no chão de mármore impecavelmente polido. Quadros coloridos adornam as paredes, exibindo retratos icônicos de figuras históricas e culturais.
Chegamos ao The Quin com 10 minutos de antecedência, o que para John significava atraso, e para o resto do mundo significava pontualidade exemplar. O saguão do hotel estava impecável como sempre. Um tapete persa que parece não conhecer sapato sujo, garçons alinhados com bandejas cheias de taças que nunca esvaziam e um piano tocando alguma peça clássica que me fazia lembrar comerciais de perfumes francês. Emma segurava a bolsa com as duas mãos, como se estivesse entrando num tribunal. Já eu... estou fingindo que não estou reparando em quantas pessoas medem o vestido dela ou o batom que escolhi. A elite de Manhattan é sutil como interrogatório da CIA. O salão principal já estava cheio. Homens de terno com nomes de três sílabas e mulheres com cabelos que claramente custaram mais que minha bolsa favorita. Spot de luz quente, som abafados de conversa e pratos de entrada com nomes que exigem dicionário.
E lá estava ele. John.
Alto, elegante, terno escuro feita sob medida, aquele olhar de: “estou ocupado mesmo quando estou parado”, cumprimentando alguém do conselho de investidores do Queens Museum, ou algo assim. Quando ele me viu, o semblante mudou quase imperceptivelmente.
Quase.
- Brooklyn. – usou um tom neutro que ele só reserva para mim e para reuniões sobre patrimônio.
- John. - respondi no mesmo tom, e então ele me olhou com uma expressão que seria ternura, se ele fosse capaz de demonstrar ternura sem parecer um CEO pedindo desculpas por demitir alguém.
- Você está linda. – disse, finalmente. Sincero, mas econômico.
- Obrigada. Emma também. Embora não pareça, mas ela demorou apenas duas horas para decidir o colar.
Ela me beliscou de leve.
- Emma, sempre bom ver você. – ele a cumprimentou, e até sorriu um pouco.
- Obrigada por nos convidar. O lugar está maravilhoso. - ela respondeu, sempre educada, sempre elegante. Emma é o tipo de pessoa que até agradece ao garçom em francês, mesmo que ele seja de New Jersey.
- Vou precisar conversar com alguns convidados, mas fiquem à vontade. Ah, e evitem um senador com um lenço no bolso, ele gosta de contar histórias de quando jogava golfe com ex-presidentes.
Ele se afastou com a mesma precisão com quem chegou. Eu olhei para Emma.
- Lembrete: Se eu algum dia disser que quero virar adulta funcional, me bata.
- Você já é. Só que disfarça com sarcasmo.

***

O lounge, com seus sofás de veludo e mesas de madeira escura, estava lotado de adolescentes tentando conseguir bebida alcoólica com identidades falsas, incluindo alguns dos meus amigos que se espremiam no balcão sob os olhares atentos dos bartenders. Peguei uma limonada gourmet quando vi Ed tentando convencer a bartender com seu francês falso.
- Senhorita, pour moi e meus camaradas, um... champagne brut. Très lègér. Très alcoolisè. - ele recitou, me fazendo sentir vergonha por ele.
- Brutt nem é doce, idiota.
- Mas parece chique! - Ed rebateu, ajeitando a gola como se isso ajudasse.
Josh, de terno azul-marinho e gravata mal colocada, parece o mais nervoso dos três. É o mais engraçado, também.
- Alguém aqui tem certeza de que vocês não estão infringindo um tipo de lei federal? - Emma os questionou.
- Várias. – respondi, cruzando os braços e interrompendo a performance.
Os três se viraram ao mesmo tempo e me olharam incrédulos, como se eu tivesse estragado o disfarce deles.
Dei de ombros.
- Estão ansiosos para as aulas? - perguntou Nathan, enfim com o seu copo de Cuba Libre sem rum, parecendo relutante em tomar um gole.
- Não me importaria em prolongar as férias por mais algumas semanas.
- Falou a nerd que não via a hora de fazer os simulados para faculdade. - provocou Ed, rolando os olhos de maneira dramática. - Você terminou a redação de história antes do professor terminar de explicar a proposta. - ele rebateu, erguendo uma sobrancelha. - A gente ainda estava escolhendo a cor da caneta.
- Você sabe que a professora Harper já desistiu de tentar te pegar desprevenida, né? Ela agora só finge surpresa quando você responde tudo. - Josh se juntou ao grupo para implicar comigo.
- Ela piscou 3 vezes na última aula quando a Brooklyn corrigiu o livro didático. – disse Nathan. – Foi um pedido de socorro em código Morse. - completou com um sorrisinho cúmplice, enquanto tomava um gole do seu refrigerante disfarçado de coquetel, depois me abraçou de lado, parando as provocações. – Josh e eu vamos tentar conseguir uma bebida que preste. Vocês vêm?
- Não posso, John vai notar se eu sumir. – respondi, tentando parecer despreocupada, mas com um leve toque de inveja por ele.
- Eu topo. Não dá para aguentar muito tempo aqui sóbrio. - comentou Ed, se levantando para acompanhar os meninos.
- Vão na frente. - o olhar de Emma desviou. Foi rápido. Rápido o suficiente para tentar esconder, mas devagar o bastante para eu perceber. Aquele tipo de movimento que se aprendi a decifrar quando se conhece alguém tão bem.
Segui o olhar dela antes mesmo de pensar se deveria.
Brian.
Ele estava a poucos metros de nós, no centro do saguão, encostado casualmente no piano de cauda. Camisa social aberta nos dois primeiros botões, aquele sorriso torto que sempre usou como escudo e charme, mas que agora parecia ligeiramente mais artificial do que eu lembrava.
Emma se virou para mim devagar, o olhar brilhante.
- Eu já volto.
Assenti, mantendo o sorriso no rosto, mas não me sentindo confortável com aquela situação.

***

- Encantado. - disse um senhor de cabelo grisalho e gravata borboleta, apertando minha mão como se eu fosse uma medalha de honra. - Você quer seguir os passos do John, jovenzinha?
Sorri, tentando-o fazer parecer engraçado.
- Ah! Ainda estou decidindo se vou dominar o mundo, ou só o Upper East Side.
Todos riram. A piada funcionou. Ponto para mim
John colocou a mão carinhosamente nas minhas costas.
- Ela tem um pensamento crítico fora do comum. Redige textos que fariam muito colunista de jornal repensar a carreira.
- É impressionante. - outro empresário, esse com sotaque britânico, ergueu a taça de vinho, como se estivesse me brindando. - E só dezessete anos?
- Dezessete e meio. – corrigi, antes que o orgulho do John me afogasse ali mesmo, no tapete caríssimo do salão.
Respirei fundo, sentindo o ar denso, saturado de conversa adulta, elogios que pareciam troféus falsos e olhares tortos que me analisavam como um projeto de sucesso, e não como alguém que só queria ficar uns cinco minutos longe da vitrine.
- Com licença. – pedi, erguendo minha clutch, como quem levanta a bandeira branca. - Meus amigos aguardam por mim.
Vi o olhar de John me encarar, sabendo que eu estava apenas inventando uma desculpa para não permanecer, mas o seu sorriso escondido entregava que ele não se importava, só que já esperava a minha reação.
Parei em frente alguns quadros, fingindo que entendia alguma coisa de arte, quando senti uma lufada quente no meu ouvido:
- Nossa, que perfume maravilhoso. - o cheiro forte do álcool vinha acompanhado de um sotaque que eu não fazia ideia de onde era.
Revirei os olhos.
- Pois é, me disseram que era repelente contra cantadas cafajestes, mas pelo visto não funciona.
Ele soltou uma risada baixa, claramente não captando que isso era um: “não, obrigada” com letras garrafais.
- Seu namorado não deveria deixar uma garota linda como você sozinha por aí.
Ri de leve, não me dano o trabalho de olhar para ele.
- Essa é uma daquelas táticas para descobrir se eu estou namorando ou uma tentativa de me convencer de que alguém realmente me acha irresistível?
- Talvez um pouco dos dois. - respondeu ele, sem perder o ritmo.
Virei-me para encará-lo, pronta para soltar outra resposta atravessada, mas parei por um segundo, surpresa ao notar que ele era jovem, talvez um ano mais velho do que eu, e tinha aquele visual meio: “sou bonito e sei disso”. Alto, pele clara, cabelos escuros que se enrolavam nas pontas e olhos claros que brilhavam com uma confiança quase irritante. A boca rosada se curvava em um meio sorriso que dizia: “Eu sempre ganho.
- Ou talvez eu só queira saber algo sobre você. Seu nome, por exemplo.
- Fala sério... - disse em meio a um sorriso irritado.
- Mora em Manhattan?
Fiz cara de paisagem.
- Estuda? Trabalha...
Agora eu encarei de verdade, arqueando a sobrancelha.
- Por que não me fala algo sobre você? - Ele perguntou, cruzando os braços, como se tivesse genuinamente interessado em me conhecer.
- Porque eu não sou da sua conta! - Disse de maneira óbvia.
Ele piscou algumas vezes, meio surpreso, antes de abrir um sorriso ainda maior.
- Tá... Acho que você não vai cair no meu charme.
Dei um meio sorriso de volta.
- E você realmente acha que alguém já caiu?
Ele semicerrou os olhos, mas parecia mais intrigado do que ofendido. Depois de alguns segundos deu de ombros, rindo de leve.
- Você é interessante. Vou te deixar me odiar em paz. - disse ele, saindo com aquele andar meio debochado, como se ser dispensado fosse uma vitória pessoal.
Observei se afastar e soltei um suspiro de alívio. Pelo menos alguém desse evento sabia a hora de desistir.

***

Josh havia voltado há uns 10 minutos e estava sozinho, me fazendo companhia enquanto debatíamos sobre a volta às aulas. Seria interessante, já que era o nosso último ano na Trinity. Depois disso, cada um de nós seguiria caminhos diferentes. Enquanto todos já tinham certeza do que iriam cursar na faculdade, eu transitava entre a vontade do John de me transformar na próxima filantropa publicitária e o meu sonho de ser escritora. Talvez eu pudesse ser ambos, mas ainda tinha um ano letivo para decidir.
Estávamos no meio dessa conversa, quando vi Emmalyn e Brian ao fundo, rindo e flertando. Arregalei os olhos ao vê-lo se aproximar e beijá-la bem no meio de todo mundo. E Emma não parecia se importar nenhum pouco. Uma pontada desconfortável atravessou meu peito. Mas o que era aquilo? Ciúmes do meu ex? Impossível! Esperar consideração da minha melhor amiga? Eu fui a primeira a dar o incentivo... Então, por que aquilo estava me incomodando?
- Tudo bem? - Josh perguntou, franzindo a testa?
- Preciso ir ao banheiro. - Respondi rapidamente, levantando antes que ele pudesse dizer qualquer coisa.
Caminhei até o banheiro, tentando organizar a confusão na minha cabeça. Brian e eu nunca fomos nada sério, só um “teste”. Eu não estava pronta para um relacionamento, então por que eu me importaria agora? Olhei para o espelho, vendo meus olhos marejados, quando o som de passos interrompera meus pensamentos.
O mesmo rapaz da cantada furada saiu de dentro de uma cabine, segurando uma bolsa.
- Noite difícil? - Perguntou, com um sorrisinho que eu já sabia que não prestava. - Agora estou curioso para saber quem foi que conseguiu apertar o botão de “emoção” da garota fria.
- O que quer dizer? – Perguntei, semicerrando os olhos.
- Antes, seus olhos estavam frios, tipo: “nada me abala”, mas agora... parecem de um panda carente.
- Foi apenas um cisco. - respondi, limpando os olhos rapidamente.
- Ah, claro, um cisco emocional. Acontece.
- Isso não é um banheiro feminino? - Apontei para a placa na porta.
- Ótima observação. - ele disse, sem nem disfarçar o sarcasmo.
- , eu...- uma garota saiu de outra cabine e parou ao me ver. - Quem é?
- Uma amiga. - respondeu simplesmente.
- Amiga? - ela perguntou, desconfiada.
- Amiga? - Repeti, com um tom abismado.
- Então você tem namorado, afinal? - ele perguntou, ignorando completamente o questionamento da garota. - Não consigo imaginar outro motivo para alguém vir chorar no banheiro no meio de uma festa tão chata. A não ser que estejam te matando de tédio, é claro.
Revirei os olhos, tentando manter a compostura.
- Não. - Respondi imediatamente.
- Então por que parece que você quer chorar? - O tal cruzou os braços, ajeitando a bolsa no ombro, como se estivesse prestes a assistir um drama intrigante.
- Eu não tenho namorado. - esclareci, com um tom firme.
Os dois me olharam como se eu tivesse acabado de revelar um segredo chocante.
- Hoje é seu dia de sorte. - disse , com um sorriso irônico. - Helena é a melhor conselheira amorosa que você vai conhecer.
- Ele tem razão! - A garota sorriu animada. - Falar sobre o que incomoda ajuda. Além do mais... Quais as chances de nos vermos de novo?
Olhei para os dois, que me encaravam com se eu fosse uma protagonista de novela, e suspirei. Talvez falar com completos estranhos não fosse a pior ideia.
- Talvez... Eu tenha dado carta branca para minha melhor amiga sair com meu ex, mas senti algo estranho quando vi os dois juntos.
- Isso não se chama ciúmes? - Helena olhou para , que deu de ombros.
- Eu não tenho sentimentos por ele. - respondi rapidamente.
- Então... Orgulho? - O garoto arqueou uma sobrancelha.
- Orgulho? Não sou egoísta. Quero que ele seja feliz.
- Mas não com a sua melhor amiga. - Ele rebateu, cravando os olhos dos meus. - Você ficaria com algum ex-namorado dela?
- Claro que não! - Respondi me sentindo ofendida.
- Por quê?
- Porque seria uma... - minha voz falhou.
- Traição? - Ele completou, como se estivesse decifrado o enigma óbvio. - É assim que você está se sentindo agora?
- Eu sabia de tudo. – murmurei.
- Mas não sabia que se sentiria dessa forma.
- Foi um risco que eu assumi. - dei de ombros.
O tal soltou um suspiro teatral.
- Pode ser o álcool falando, mas acho que todo mundo precisa ser um pouco egoísta de vez em quando. Não dá para viver realizando as vontades dos outros, enquanto eles talvez não façam o mesmo por você.
Helena sorriu, claramente impressionada.
- , estou surpresa! - E se virou para mim. - A propósito, eu sou Helena.
- Brooklyn. – respondi, esboçando um sorriso sem graça.
me lançou um último olhar, como se quisesse dizer que eu ainda não tinha entendido metade do que eu estava sentindo e saiu, jogando a bolsa no ombro como se fosse um troféu.


Capítulo 2 - O Canadense

The Elsinore – Upper East Side
08 de setembro de 2015

- Brooke, verdade ou consequência? - A voz de Ed me pegou de surpresa, assim que me sentei ao lado dele. A garrafa estrategicamente apontada na minha direção já me dizia que aquilo não iria acabar bem.
- Não, obrigada. - Recusei no mesmo instante, como se estivesse fugindo de um interrogatório.
- Verdade ou consequência? - Emma repetiu, cruzando os braços e levantando a sobrancelha.
Soltei um suspiro derrotado, sabendo que aqueles dois não me deixariam em paz até que eu cedesse.
- Verdade. - Respondi com a sensação de que acabava de cair na armadilha deles.
Ed e Emma trocaram um olhar cúmplice e malicioso antes que ele abrisse um sorriso satisfeito.
- Você ainda tem sentimentos pelo Bryan?
Ah, claro... Eu sabia. Aquele joguinho repentino não tinha nada de inocente. Na noite passada, Emma e eu discutimos por causa do Bryan, mas conversamos e nos resolvemos, pelo menos era o que eu pensava até agora.
- Eu não acredito que você contou para ele. - Cruzei os braços e me levantei num pulo.
Emma tentou disfarçar o sorriso enquanto Ed fingia estar atrasado para algum compromisso imaginário.
- Nossa, está tarde. Preciso ir. - Ele olhou o celular, como se o horário tivesse mudado só para ajudá-lo a fugir. - Vejo vocês amanhã! - E sumiu em três passos rápidos.
- Covarde! - Gritei, mas ele já estava longe.
Emma começou a rir, e eu não resisti em revirar os olhos.
- Acha isso engraçado?
-Ah, Brooke, você sabe como ele é. - Ela disse, tentando disfarçar o riso.
Antes que eu pudesse responder, ela me puxou para um abraço de lado quase me esmagando.
- Sério, está tudo bem entre a gente? - Perguntou, agora com um olhar mais preocupado. Suspirei, ainda tentando entender por que aquilo me incomodava tanto. O problema não era Bryan e nunca foi. Nosso relacionamento tinha sido tão marcante quanto um post it amassado no fundo da mochila. O que me pegava era outra coisa.
- Não tem nada a ver com Bryan. - Falei, quebrando o silêncio.
Emma arqueou a sobrancelha.
- Então por que você ficou tão estranha quando viu a gente juntos?
- Porque... - Hesitei escolhendo as palavras. - Sei lá, você é minha melhor amiga e... eu só pensei que talvez você se preocupasse um pouco com o que eu iria sentir, sabe? Tipo, em vez de agir como se não se importasse.
Ela piscou algumas vezes, parecendo pensar nisso.
- Achei que você realmente não ligava.
-Não ligo! - Enfatizei, quase rindo do quão absurdo aquilo soava. - Mas, sei lá, é estranho ver vocês juntos e você agir como se não significasse nada.
Ela franziu o cenho, finalmente entendendo.
- Você queria que eu perguntasse antes?
Dei de ombros.
- Não sei. Talvez só um aviso? Tipo, um: “Ei, vou beijar seu ex no meio da festa, está bom para você?
Emma riu, balançando a cabeça.
- Desculpa. Eu só... fiquei tão empolgada que nem pensei nisso.
- Tudo bem. - Forcei um sorriso e abracei de volta. - Só tenta lembrar que mesmo quando eu digo que não me importo, não quer dizer que eu esteja totalmente preparada para ver coisas acontecerem assim do nada.
Ela me deu um sorriso sincero.
- Prometo ser mais cuidadosa.
- Obrigada.
Emma se afastou e olhou para o relógio.
- Está mesmo tarde. Te vejo amanhã?
- Com certeza.
E assim, ela saiu com um aceno, me deixando sozinha para processar tudo. Não era sobre o Bryan, nunca foi. Era só o choque de ver a Emma agindo de um jeito que me fez sentir que talvez ela não levasse a nossa amizade tão a sério quanto eu achava.
Por mais que a gente tivesse se resolvido, ainda havia um restinho de mágoa ali. Eu só precisava de tempo para aceitar que às vezes as pessoas não enxergam as coisas da mesma forma que a gente.

***

Memórias ON:

- Sebastian, para! Você está machucando ela! - Supliquei, tentando desesperadamente puxar o braço dele para longe de Lucy.
- Você é uma vadia, sabia disso? - A voz de Sebastian saiu fria e calculada, enquanto suas mãos apertavam o pescoço dela com uma força desumana.
O pânico tomou conta de mim. Eu tentei empurrá-lo, socá-lo, gritar, mas nada parecia quebrar aquela bolha de ódio em que ele estava preso.
- Eu vou chamar a polícia se você não soltá-la! - Gritei, com a voz trêmula, às lágrimas escorrendo pelo meu rosto. – SOLTA ELA!
Desesperada, bati em todos os pontos possíveis do corpo dele, tentando chamar sua atenção, mas era como se eu não existisse.
- Você está machucando a minha mãe! - Berrei, sentindo meu peito queimar de medo.
Os olhos de Lucy estavam ficando vidrados, perdendo o brilho, e algo dentro de mim se partiu. Foi quando eu vi um pedaço de vidro no chão, resultado da garrafada que Sebastian deu, ao empurrá-la contra a mesa. Peguei o com toda força, sentindo a ponta afiada cortar a minha mão. Sem pensar, craveiro no braço de Sebastian. Ele gritou de dor ao soltar Lucy, e no mesmo instante minha mãe caiu no chão, tossindo desesperadamente, enquanto tentava recuperar o ar.
- Vamos! - Ela me puxou pelo braço com o pouco de força que tinha e corremos. Meu coração parecia prestes a explodir e tudo o que eu conseguia ouvir eram os passos pesado dele nos seguindo.

Memórias OFF:

Com um sobressalto, acordei, sentindo o suor escorrer pela minha nuca. Meu peito subia e descia rapidamente, enquanto tentava distinguir realidade de sonho. Minha cabeça latejava, e minha respiração saía em arfadas curtas e desesperadas.
Que merda foi aquela?
Fazia tanto tempo que eu não sonhava com Lucy e Sebastian... no começo, era como um pesadelo recorrente, todas as noites eu via aquela cena, como um filme de terror, se repetindo na minha cabeça. Foram semana em claro, temendo que fechar os olhos me fizesse voltar para aquele inferno.
Depois daquela noite, me mandaram para a Inglaterra por 6 meses. Era para ser um recomeço, mas o que eu senti foi puro exílio. Uma tentativa desesperada de apagar o passado, que continuava me perseguindo. Receber a notícia da morte da minha mãe enquanto eu ainda estava lá foi como ser atingida por um caminhão. Tudo o que consegui pensar foi: “Eu não estava lá. Eu não pude protegê-la”.
Aquele dia, Sebastian tinha chegado mais cedo do trabalho e estava furioso, mais do que o normal. Ficava repetindo que havia descoberto todas as mentiras de Lucy, mas não dizia nada específico, que justificasse tamanha brutalidade. Eu não entendi o que ele queria dizer. Tudo parecia tão confuso. Tão caótico.

***

- Meu Deus, você está horrível. - Jonh soltou assim que me viu passar pela porta, fazendo Nana ri.
- Um pouco de descrição não faz mal, John. - Ela o repreendeu com o olhar divertido.
- Se o diretor da Trinity escuta falar o nome de Deus em vão... – Resmunguei, sarcástica, enquanto me jogava na cadeira da cozinha.
Nana não conseguiu segurar outra risada e me olhou com aquele olhar compreensivo de sempre.
- Café? – Perguntou, já se adiantando para a cafeteira.
- Por favor! - Apoiei a cabeça nas mãos e comecei a massagear as têmporas, tentando afastar a dor de cabeça que insistia em permanecer.
- Enfim, o último ano. - Ela depositou um beijo leve no topo da minha cabeça. - Acabe com eles, querida.
- Espero que não, literalmente. – Murmurei, vendo-a sair da cozinha com um sorriso de canto.
John se sentou ao meu lado e me olhou com a testa franzida.
- Noite ruim? Está com uma cara de quem não dormiu bem.
Suspirei fundo, tentando aliviar o peso que parecia ter se acumulado no meu peito.
- Tive outro pesadelo com Sebastian e Lucy.
John ficou imóvel por um segundo, a xícara paralisada no ar, a caminho da boca. Eu sabia que ele nunca reagia bem quando eu tocava nesse assunto, mas também não podia simplesmente fingir que estava tudo bem.
- É mesmo? - A expressão dele ficou séria, cautelosa.
- Sim.
- E como foi? – Perguntou, a voz meio vacilante.
Engoli em seco e passei os dedos pelos cabelos, sentindo que qualquer explicação parecia absurda.
- Foi um pouco antes de me mandarem para a Inglaterra. - Abaixei o olhar para a mesa. - Sebastian estava enforcando a minha mãe, e eu... Eu furei o braço dele com um pedaço de vidro, para que ele a soltasse.
O choque estampa o rosto de John, os olhos arregalados e a xícara, finalmente pousada na mesa.
- Você nunca me disse isso.
Dei de ombros, tentando não deixar transparecer a culpa que sempre me sufocava quando aquele episódio vinha à tona.
- Achei que já soubesse. - Levantei-me e joguei a mochila nos ombros, querendo fugir daquele ambiente sufocante. - Preciso ir.
- Tudo bem. - John também se levantou, claramente ainda processando o que eu havia dito. - Quer que eu fale com Mariah?
- Não, estou bem. - Comprimi os lábios, tentando passar firmeza.
- Tem certeza? - A voz dele estava carregada de preocupação, isso só tornava tudo mais difícil.
Concordei silenciosamente, tentando evitar seu olhar, sabendo que ele não iria engolir essa tão fácil. Sai rápido, abandonando a preocupação papável de John.
Assim que deixei o apartamento, Simon já estava de pé na portaria, com um jornal debaixo do braço e aquele sorriso de canto que ele reservava só para mim. Era quase paternal, discreto, afetuoso e sempre acompanhado de um comentário atravessado.
- Dormiu ou apenas fechou os olhos por educação? - Ele perguntou, enquanto a porta giratória fazia seu último giro. Pelo visto, eu realmente não estava com uma boa aparência.
- Um cochilo existencial entre as 3 e as 6. Sonhei que Aristóteles reprovava a minha apresentação. – Retruquei, tentando ajeitar o cachecol. Ele não precisava saber da minha crise existencial uma hora dessa do dia.
Simon deu uma risadinha abafada e abriu a porta do carro. O SUV preto me esperava com o motor ligado e o silêncio acolhedor. Anderson, meu motorista, se mantinha impecável no banco da frente: terno alinhado, rosto sereno e olhos atentos aos movimentos na calçada. - Bom dia, senhorita Bennette. - disse ele, com a formalidade de quem trata todos os dias como uma segunda-feira.
- Bom dia, Anderson. Se eu apagar no banco de trás, finja que fui convocada pela ONU. Assuntos urgentes, salvação mundial, talvez um discurso sobre ética e contemporânea.
- Registrado. Com direito aos aplausos, imagino.
O carro deslizou pelas ruas de Upper East Side com uma precisão de um relógio suíço. As avenidas começavam a encher de gente apressada, cafeterias abrindo suas vitrines e mães empurrando carrinhos como se competissem uma maratona silenciosa. Ao cruzarmos a 79th Street em direção ao central Park, o cenário se transformou. As árvores em tons âmbar, folhas secas girando no ar, um violonista solitário tocando Vivaldi perto da entrada. Por um momento, Manhattan parecia menos urgente.

Trinity School – 139 West 91st Street, New York, NY.
09 de setembro de 2015

O carro desacelerou suavemente ao dobrar a esquina da 91st com a Amsterdam. A Trinity surgia como sempre, altiva, limpa e com aquele charme silencioso de prédio que carrega mais histórias do que alunos por metro quadrado. A fachada de tijolos vermelhos parecia ter sido polida durante a madrugada. Suas janelas cumpridas e alinhadas davam a sensação de que o colégio observava a cidade com desdenho acadêmico. O letreiro metálico com o nome da escola não precisava brilhar, ele já era lido com respeito até por quem passava sem olhar diretamente. Anderson estacionou como se estivesse coreografando uma cena de filme europeu.
- Chegamos, senhorita Bennette.
- Obrigada. – Respondi, abrindo porta antes que ele corresse para fazer isso por mim.
O ar da manhã tinha aquele cheiro de cidade prestes a ferver: café caro, gasolina e folhas de outono acumuladas na beirada da calçada. Ajustei meu casaco enquanto olhava em volta. Na entrada, o fluxo de alunos era constante. Alguns pareciam ter saído diretamente de campanhas publicitárias da Ralph Lauren; outros, como se tivessem acordado em meio à discussão filosófica. A calçada estava cheia, mas havia um grupo que se destacava: Ed com seu blazer fora do uniforme - por que ele “não queria parecer genérico”, Nathan arrumadinho demais para alguém que alegava não se importar com a escola, e Josh, equilibrando 3 cadernos e um copo de suco verde sem derramar uma gota.
- Até que enfim você chegou! – Ed disse, me puxou para o canto Parecia alegre mais do que o normal.
- Bom dia para você também, Edward. – Respondi, com meio sorriso. - Tentando ser espirituoso antes das oito da manhã? Isso devia ser ilegal.
- Então... - Ele começou, e eu já sabia que vinha encrenca. - Você já considerou, sei lá, dar uma chance para o Josh?
Disse enquanto me arrastava para dentro.
Olhei para ele com quem olha para uma piada sem graça. Aquelas que a gente respeita o esforço, mas ainda assim quer ignorar.
- Como assim, “dar uma chance?”
- Não, é sério, Brooke. O cara é legal, inteligente, gentil... E ele te idolatra em silêncio. Quase religioso, eu diria. Se ele começar a escrever salmos sobre você, eu não vou me surpreender.
Revirei os olhos.
- Ele é meu amigo, Ed. Um ótimo amigo. Isso não te parece suficiente?
- Só estou dizendo que, às vezes, as melhores histórias de amor começam com a amizade. - Ele olhou para um ponto atrás de mim. – Emma, fala para ela sobre o Josh.
- Sério que você ainda não notou que ele gosta de você? - Emma disse, enquanto destrancava o armário.
- Somos apenas amigos. - Revirei os olhos novamente.
- Amigo que beijaria você, né? – Ed completou, sorrindo malicioso.
- Além do mais, não existe amizade entre homem e mulher. - Emma disse, parecendo anunciar um fato científico.
- Mas você é meu amigo. - Constatei, apontando para Ed.
- Eu sou praticamente uma mulher. - Ele dê uma voltinha dramática.
- Se não fosse pelo seu amiguinho entre as pernas... - Emma provocou.
- Detalhe técnico. - Ed rebateu, estreitando os olhos.
Eu estava prestes a rir da cena quando avistei um garoto parado no final do corredor, perdido entre cadernos e folhas. Tentei reconhecê-lo.
- Quem é? - Ed sussurrou no meu ouvido, mirando na mesma direção que eu.
- Não sei!
- É um gato. - Eu conhecia aquele olhar. Ai não!
- Senhorita Bennette, estava te procurando. - A coordenadora Murphy surgiu, parecendo um fantasma inconveniente.
- Estava? - Franzi o senho, sem entender nada.
- A Trinity está recebendo hoje um aluno da lista de espera do terceiro ano. E como nossa melhor aluna, gostaria que o apresentasse à escola.
Melhor aluna?
- Por aqui. - Pediu, fazendo um gesto para que eu a seguisse.
Olhei para os meus amigos que estavam claramente se segurando para não rir do título de “melhor aluna”. É óbvio que a senhora Murphy só queria empurrar o serviço para alguém.
- Senhor , quero te apresentar a senhorita Bennette. Ela irá te guiar pela escola e você pode tirar quaisquer dúvidas com ela.
- Perfeito. - disse o garoto com sotaque marcante.
- Está nas suas mãos. - A coordenadora me deu um sorriso falso e se retirou.
Assim que ela saiu, finalmente reconheci quem era. O tal bêbado e talvez gay do Quin. E pela expressão surpresa dele, ele também me reconheceu.
- Brooklyn? - Perguntou.
- Achei que estivesse bêbado demais para se lembrar.
- Não tem como esquecer o primeiro fora da vida. - Ele sorriu, como se aquilo fosse algum tipo de Conquista.
- , certo?
- Exatamente. - Ele me encarou de uma forma hipnotizante. Olho no olho nunca foi o meu forte. - Você sumiu depois da nossa conversa.
- Eu esperava que você fizesse o mesmo, mas... - Vi seu cenho franzir. - Bem, parece que eu estou encarregada de lhe mostrar a Trinity School.
- Parece que sim. - Ele apontou para o corredor, se colocando no comando da situação.
- E sua amiga? - Perguntei.
- Quem?
- Aquela que estava com você no banheiro... – Esclareci.
- Ah, a Helena? Não, ela não vai estudar aqui. - Ele deu de ombros. - Ela precisou voltar para a banda dela.
- Ela tem uma banda?
- Tem. - Ele falou em um tom óbvio, tipo “o céu é azul” ou “adolescentes são dramáticos”.
Subimos as escadas enquanto tentava ignorar o fato de que ele continuava a me encarar. Parecia curioso. Ou tentando descobrir se eu era mesmo real.
- Bem... A Trinity tem um currículo impecável e regras bem rigorosas. Apesar de não termos uniforme escolar oficial, o dress code é indispensável e a escola é meio que religiosa, mas ninguém liga. A hipocrisia está no pacote.
- Religiosa? - Fiquei surpresa por ele não saber.
- Ela foi fundada por uma igreja em 1709. A ideia era formar missionários, mas hoje o que mais tem aqui é adolescente rico com crise de identidade.
- Estou começando a me sentir em casa. – Disse, modesto.
- Ótimo. - Sorri para ele. - Isso significa que você vai adorar os professores com mestrado em Harvard que acha que estamos na Ivy League.
- Ivy o quê? - Franziu a testa, genuinamente confuso.
Parei de andar por um segundo e o encarei.
- Você não sabe o que é a Ivy League?
- Deveria?
- Só se você pretende viver neste país. - Revirei os olhos com teatralidade. - É tipo clube dos sonhos molhados das universidades: Harvard, Yale, Princeton, Colúmbia... O Paraíso dos geniais e dos milionários. Ou dos geniais filhos dos milionários, o que é mais comum.
- Ah... Então é tipo um grupo de escolas top?
- Mais que top, é quase um culto. O pessoal aqui vive como se estivessem em um campo de treinamento para entrar em alguma. Faltam só os uniformes de guerra e as lágrimas engarrafadas.
- E você? - Ele me lançou aquele olhar curioso de novo. - Vai tentar alguma?
- Talvez. Se eu decidir que quero uma úlcera antes dos vinte.
Ele riu baixinho, e eu continuei andando pelo corredor com ele ao lado, ainda com aquele ar de quem está tentando absorver tudo como um turista no metrô pela primeira vez.
- Ali é a sala de literatura. - Apontei com o queixo. - A professora fala como se tivesse saído direto de um audiobook da Jane Austen e nos força a analisar poemas de gente que claramente odiava a própria vida.
- Então é tipo terapia em grupo disfarçada?
- Com nota no final. - Dei um meio sorriso. - E zero resolução emocional.
Passamos por outra porta de madeira escura, com uma plaquinha dourada que dizia: “ciências”.
- Aqui é onde aprendemos a fazer experimentos que jamais faremos fora de uma aula. Tipo dissecar sapos, mesmo que a maioria aqui não sabe fritar um ovo.
- E você gosta?
- Dissecar sapos? Só emocionalmente. – Respondi, antes de seguir para a próxima. - Essa é a sala de história. Ou, como eu gosto de chamar o lugar onde decoramos eventos que homens brancos cometeram e fingimos que aprendemos alguma lição com isso.
- Nossa. Deve ser por isso me mandaram para cá. – Murmurou , com uma cara de riso contido.
- Bem-vindo à elite educacional Americana. - Ergui as mãos como se fosse uma apresentadora de game show. - Aqui também temos matemática, onde aprendemos funções que não servem para pagar boletos, e física, onde a maior experiência é ver o seu cérebro derreter.
Passamos por um grupo de alunos estudando em círculo, cada um com o seu Mac book aberto em uma página, com uma cara de quem já desistiu da vida, aos dezessete.
- Esse é o clube de debate. – Sussurrei. - Ou como gosto de chamar: guerra civil intelectual com café gratuito.
- E você faz parte?
- Não. Tenho trauma de gente que fala como se tivesse no Senado.
Ele soltou uma risada e me seguiu até o final do corredor, onde a luz do sol batia em uma porta dupla de vidro.
- E aqui temos o melhor lugar da escola: a saída
parou meu lado, ainda rindo.
- Porque não tenta gravar isso e transformar em um tour virtual. Iria viralizar.
- Já pensei nisso. Mas ainda estou decidindo se quero ser famosa ou apenas ir embora. - Fiquei encarando a saída, até ouvir a voz dele novamente.
- Eu mal pisei aqui e já estou em dívida com você por esse tour informativo.
A voz de deboche não parecia ter um tom “grato”.
- Não se empolga. Ainda tem a cantina gourmet e o teatro que parece a Broadway.
- Parece um lugar que respira a pressão.
- Respira, engole e digere pressão. A Trinity vive aparecendo no topo do ranking de escolas mais exigentes de Nova Iorque. Você tropeça aqui e alguém já te pergunta em qual universidade da Ivy você pretende ir.
- Sei...
- E você, já tem alguma faculdade em mente?
- Meu pai quer que eu faça direito, mas eu acho que prefiro me afogar em um poço de tédio. - Bufou baixo. - Não que ele se interesse exatamente pelo que eu quero. - disse a última frase mais para ele do que para mim.
- Direito não combina com você. Talvez moda. Ou música. Ou sei lá, um curso sobre como ser teimoso. - Tentei parecer amigável.
- Moda? Música? - Ele me olhou como se eu fosse um enigma.
- Você se veste bem e pelo tom da sua ironia, parece não saber como dizer ao seu pai que não quer fazer o que ele quer. Isso grita “problema de artista”.
- Está me julgando pela aparência?
- Julgando? Não, só estou lendo as entrelinhas. É um hobby.
Ele riu. E não riso forçado, mas um riso genuíno, daqueles que escapam antes que a pessoa perceba.
- E você? Vai fazer o quê?
- Literatura inglesa. Vou me formar para criticar pessoas em forma de poesia.
- Acho que é melhor do que direito.
- Ah, pode apostar que sim!
Ele soltou um risinho baixo e percebi que ele estava mais à vontade. Só eu que ainda parecia estar em um episódio ruim de “como constranger alguém em 5 passos”.
- Você acha que eu sou gay? - Ele soltou de repente.
Quase me engasguei.
- Bem... Você deu em cima de mim bêbado, depois ficou todo introspectivo segurando uma bolsa em um banheiro feminino. A equação não bate.
- Suspeito. - Ele riu abertamente.
- Não quis ofender.
- Não ofendeu. Só é engraçado ver você tentando decifrar tudo isso.
Eu definitivamente queria um buraco para me enfiar.
- Aqui é a biblioteca. Meu lugar favorito. - Apontei para a porta de madeira clara, na esperança de mudar o foco.
- Biblioteca? - Ele arqueou a sobrancelha, parando por um segundo.
- Você sempre vai me achar aqui. Quero dizer... Quando não estiver na sala ou evitando socializar... Ou qualquer coisa que envolva pessoas de mais.
Ele espiou por cima do meu ombro, curioso. Lá dentro, a luz suave das janelas altas caía sobre as estantes como se até o sol tivesse respeito por aquele lugar. Alguns alunos estavam espalhados, mergulhados em livros ou fingindo com maestria.
- Parece tranquilo. – Comentou.
- Ninguém tenta impressionar ninguém aqui. Nem mesmo os livros. Só existem. E isso já é mais do que eu posso dizer de muita gente.
Ele ainda sorria, e de repente eu estava preocupada com o fato de estar gostando desse sorriso.
- De onde você é? Esse sotaque não é daqui.
- Canadá.
- Ah... Está um pouco longe de casa.
- Agora aqui é minha casa.
Havia uma pontada de mágoa na voz dele, mas não perguntei mais nada. Não sou exatamente a terapeuta escolar. Só dei um leve aceno e desviamos da porta, voltando para o corredor. O sinal tocou e eu não sabia se sentia alívio ou um pouco de decepção.
- Bom, veteranos não esperam, né? - Ele deu um meio sorriso.
- Bem-vindo ao show de horrores.
Ele riu de novo e se afastou. Eu fiquei ali, meio perplexa, meio intrigada e, principalmente, meio irritada por não conseguir parar de pensar no sorriso dele.

***

A lousa digital fazia um som de morte lenta, um chiado agudo, tipo uma barata de laboratório sendo frita em tempo real. O Sr Dunham encarava a tela preta com a mesma frustração existencial de quem apertou “concordo” nos termos do Wi-Fi e acabou perdendo a alma.
- Mais uma tecnologia que promete revolução e entrega frustração. Bem-vindos ao capitalismo. - Ele soltou, com o olhar vazio e uma gravata estampada com o rosto de Abraham Lincoln sangrando.
Ed se virou discretamente para Josh e Nathan, que estavam ocupados demais rabiscando um desenho suspeito no caderno.
- Isso foi sobre a lousa... Ou sobre a vida amorosa dele?
- Acho que sobre o cabelo. Está claramente entrando em rebelião. – Nathan respondeu sem levantar os olhos.
- Silêncio, irônicos no fundo. – Disse Dunham, com aquele tom de professor que já perdeu a fé na humanidade, mas ainda tem esperança num bom escândalo político. - Hoje falaremos sobre Watergate. Mas vamos além do “presidente grampeando salas”. Quero que pensem: o que você esconderia se fosse presidente?
Ele mirou Ed com aquele olhar de quem tem certeza de que vai se arrepender de ouvir a resposta.
- Sr. Roettinhger?
- Provavelmente a existência do meu boletim.
A sala inteira não evitou uma risada.
Dunham nem piscou.
- E você, Sr. Hunter?
Josh suspirou, e eu acho que foi só para manter o drama no nível necessário.
- Me esconderia. Ser presidente parece péssimo para ele.
Ele deu um risinho curto, quase imperceptível.
- Vocês admitem que o poder corrompe? - Os olhos voaram por toda a sala.
- Não. Eu admito que a Câmara do Senado mostra todos os ângulos errados. Principalmente aquele de cima para baixo com luz fluorescente. - Josh o respondeu com tom de ironia.
- Isso seria um ótimo motivo para o impeachment do senador do Arizona. Aquela iluminação foi um crime de guerra. – Ed completou, fazendo todos rirem mais ainda.
Dunham se animou. Tipo, o nível de animação de alguém que coleciona canecas temáticas de escândalos.
- Exatamente! Política. Poder. Imagem. Todos os escândalos começam com uma boa mentira... Ou um péssimo corte de cabelo. - Ele olhou diretamente para mim. – Srta. Bennette, o que você esconderia?
- Esconderia a verdade. Sempre. Ninguém sobrevive na política sendo honesto. Só na ficção ruim.
Ele arqueou a sobrancelha, intrigado.
- Então, você acredita que todo o escândalo nasce de uma mentira?
- Não. Escândalo nasce do ego. A mentira é só o perfume que disfarça o estrago. Mas eventualmente o cheiro real aparece. E aí vem a coletiva de imprensa, a lágrima falsa e o discurso escrito por um estagiário com crise existencial.
Ed riu baixinho do meu lado. Eu vi o Sr. Dunham sorrir, quase com orgulho. Quase.
- E o que destrói uma carreira?
- A tentativa de parecer impecável. Perfeição gera expectativa. Expectativa gera decepção. Decepção gera trending topic. E aí... Bem-vindo ao inferno.
Dunham assentiu lentamente.
- Muito bem. Trabalho para casa: criem um escândalo fictício que abalaria a Trinity. Culpado improvável. Uma tragédia elegante. E uma coletiva de imprensa onde todo mundo nega tudo com carisma.
O sinal tocou. O som da Liberdade... Ou da próxima armadilha.
Fechei o caderno.
- Posso escrever sobre a vez que alguém usou a lousa digital sem pedir ajuda espiritual antes. – Nathan resmungou.

***

Durante o caminho até biblioteca, esbarrei com alguém. A dor no meu ombro denunciou que aquele alguém não era nada leve.
- Fala sério... – murmurou, massageando o local.
Mesmo sem olhar, reconhecia o sotaque.
- Desculpa, Canadá. Não te vi. - O nome dele simplesmente me escapou.
- Tudo bem. - O olhar dele suavizou a notar que era eu. - Se machucou?
- Estou bem, preciso ir. – Respondi apressada, já tentando me afastar.
Mas ele segurou meu braço antes que eu pudesse dar meia volta.
- Espera. - Ele parou no corredor, meio perdido, meio bonitinho. - Acho que estou rodando em círculos. Sabe onde fica a sala de informática?
Levantei uma sobrancelha e dei uma olhada dramática por cima do ombro dele.
- Você quer dizer... Aquela sala com uma placa gigante escrito “informática” bem atrás de você?
Ele se virou devagar, encarando a porta como se ela tivesse surgido ali por feitiçaria. A risada dele veio meio sem graça, meio “me julgue, eu mereço”.
- Ah... Certo. Aquela sala.
- Como eu disse. - Puxei meu braço e tentei me afastar novamente.
- Só que eu... - sua voz me fez parar no meio do caminho.
- Você o quê?
- Pode me ajudar com o computador?
- Não sabe mexer em um computador? - Perguntei, incrédula, tentando não rir na cara dele.
Ele revirou os olhos, claramente incomodado.
- Claro que eu sei. - Respondeu, fazendo aquela cara de quem acabou de tropeçar no próprio ego. - Só não quero ser “o aluno novo que derrubou o sistema da escola no primeiro dia”.
Revirei os olhos também, mas acabei entrando na sala com ele.
- Ok, gênio da era digital. Presta atenção: botãozinho aqui atrás. Aperta. Espera. E... Voilá. Luz mágica.
A tela piscou e acendeu.
- Você é demais, obrigado.
- Não tem de quê, Canadá. - Falei, já me afastando.
Ele se sentou na cadeira e começou a navegar na internet, mas não perdi a chance de jogar mais uma piadinha:
- Só não pesquisa nada constrangedor, tá? Esses computadores são monitorados. O pessoal da TI aqui é mais fofoqueiro que os alunos.
- Eu só vou mandar um e-mail para minha família. Meu celular descarregou. Mas obrigado pelo aviso.
- Quer ajuda para escrever o e-mail também? - Provoquei, cruzando os braços.
- Muito engraçada, hein? - ele respondeu, dando um sorrisinho irritantemente charmoso. Seus olhos permaneceram fixos nos meus por um segundo a mais do que o necessário.
Senti um calor incômodo no rosto e tratei de sair dali antes que ele percebesse.
- Até mais, Canadá. Não quebra nada.
- Vou tentar não quebrar meu coração, já que você é claramente boa nisso.
Rolei os olhos, mas não conseguia esconder um sorriso enquanto saía da sala.

***

- Aí está você. – Emma, Josh, Ed e Nathan invadiram biblioteca como um furacão.
- Onde mais a Brooke estaria? - Josh murmurou, arqueando a sobrancelha.
- Acho que vou precisar trocar o meu esconderijo secreto. - Suspirei, enquanto recolhi os cadernos da mesa.
- Muito secreto mesmo. - Emma debochou.
- Podemos ir para outro lugar? – Nathan Fez uma careta ao olhar para as estantes. - Já passo metade do meu dia aqui. Não quero passar meu tempo livre também.
- Vamos? - Josh já estava pegando minhas coisas, como se fosse meu assistente pessoal.
- Vocês são muito chatos. - Declarei saindo atrás deles. - E feios.
- O quê? – Ed parou no meio do caminho, ultrajado. – Ah, olha só quem fala!
- Brooklyn! - Uma voz já um pouco familiar surgiu atrás de mim, me fazendo esbarrar em outro corpo pela segunda vez no mesmo dia.
Olhei para cima e dei de cara com , que, por algum motivo, tinha aquele sorriso irritante nos lábios.
- Oi. – Respondi, tentando não parecer deslocada enquanto os olhos dele praticamente me escaneavam.
Senti a mão de Ed apertar meu braço.
- Canadá, esses são meus amigos: Emma, Josh, Ed e Nathan. Pessoal, esse é o ... Do Canadá.
- Canadá é com certeza o meu país favorito... Depois dos Estados Unidos, é claro. - Ed deu um passo à frente, estendendo a mão com um sorriso que beirava o desespero.
- É um prazer conhecer os amigos da Brooklyn. - acenou com a cabeça, simpático.
- Me chama de Brooke. – Corrigi, tentando não parecer incomodada com o jeito que ele pronunciava meu nome inteiro.
- Brooke. - Ele repetiu, saboreando o som do meu apelido. - Legal. Ei, não estamos na mesma turma de ciência? - Perguntou para Emma.
- Estamos sim. – Emma deu um sorriso que eu só via quando um garoto bonito estava por perto. Aparentemente, já tinha conquistado um fã clube.
Então Josh passou o braço pelos meus ombros, de um jeito tão casual que parecia coreografado, enquanto Nathan se posicionava ao lado de Emma, como se estivessem prontos para me escoltar.
- Prazer, cara, mas estamos atrasados para a próxima aula. Seja bem-vindo. - Josh falou com um sorriso, mas senti a leve tensão na voz.
- Sério? Pensei que estivéssemos no intervalo do almoço. - olhou para o relógio confuso.
- É que a gente gosta de chegar adiantado na aula. – Nathan Respondeu, quase automaticamente, como se aquilo fizesse algum sentido.
Olhei para ele, tentando entender de onde veio essa tradição de “pontualidade espontânea”.
- Mas ainda nem almoçam... – Emma foi impedida de terminar sua frase por Nathan.
- Ah. – Ed finalmente pareceu se lembrar de algo importante. – Vamos no Joe & The Juice mais tarde. Está convidado. - Deu uma piscadela e eu quase bati na testa.
sorriu, claramente se divertindo como caos minha vida social era.
- Parece bom. - Concordou e eu percebi que ele não parecia nem um pouco incomodado com a súbita mudança de planos.
Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, meus amigos me arrastaram para longe, discutindo ao mesmo tempo sobre o Ed ter convidado alguém novo para o nosso ponto de encontro sagrado.

Hora do almoço – 12h37, outono de 2015

O pátio lateral da Trinity parecia o feed do Instagram antes dos algoritmos. Espontâneo, levemente posado e com filtros naturais de luz dourada do outono.
Os alunos saíam da fila de refeitório equilibrando bandejas com wraps, sucos de caixinha da Honest Tea e, claro, seus iPhones 5s com capinhas estampadas. O Wi-Fi oscilava, o que gerava expressões de leve desespero: metade das mesas estavam tentando subir selfies no Snapchat com a legenda #Lunchtime e a outra metade dizia que ninguém mais usava o Facebook, enquanto ainda usavam o Facebook. Ed estava deitado em um dos bancos de pedra, como se tivesse sido escalado para um editorial da de GQ High School Editions. Seu blazer descombinado era vintage, de propósito, e ele mordia um sanduíche de mozzarella e manjericão, comprado no café da Amsterdam, ignorando o fato de ter almoço de graça no refeitório. Josh, mais sério do que o necessário, estava concentrado em uma edição impressa do The Atlantic, “Porque jornal de verdade, ainda é no papel”, embora tivesse um iPad mini ao lado dele. Nathan chegou equilibrando 3 cadernos Moleskine, um suco verde e um iPod touch com a playlist “Chill Study Vibes2015”.
- A comida está menos experimental hoje? – Perguntei, me sentando ao lado de Ed.
- Menos? Eles reinventaram a salada César. Agora tem grão de bico e culpa. – Ed respondeu, mordendo com ironia o próprio almoço gourmetizado.
O ambiente parecia um comercial da Urban Outfitters. Grupos se espalhavam como hashtags: os atletas em moletom cinza do time, falando do jogo de sábado contra Horace Mann; as artistas com lápis de cor espalhados sobre suas agendas personalizadas; os músicos, no canto, tentando reproduzir Take Me to Church em um teclado portátil. Na mesa do comitê estudantil, a conversa era sobre o baile de outono: o tema estava entre “Masquerad com neon” ou “Outubro Parisiense”. Os argumentos eram acalorados com os debates políticos, mas o tom lembrava mais um episódio de Gossip girl. Mais perto da entrada principal, dois veteranos discutiam se a Vitória do Trudeau no Canadá significava que o “carisma voltou à política”. Eu, por minha vez, só queria comer meu wrap e dar uma última lida no resumo de história sobre a guerra fria. Mas era difícil me concentrar; ali, até o intervalo parecia dirigido pelo Noah Baumbach.
- Tá, mas... – Ed apoiou o queixo em uma das mãos enquanto comia, com um olhar de quem tinha descoberto um segredo que ninguém mais viu. - Por que parecia que você já conhecia o gringo?
A pergunta caiu com mais peso do que eu esperava.
Emma levantou as sobrancelhas, interessada de imediato. Josh parou no meio da frase sobre como “gente nova deveria passar por um período probatório social” e olhou para mim. Nathan fingiu que não estava ouvindo, mas claramente estava.
- Conhecer? – repeti, tentando dar uma risada. - Não conheço. A gente só... Se esbarrou. No fim de semana.
- Se esbarrou, onde? - Emma perguntou, já sorrindo.
- No The Quin... - disse, arrastando as palavras.
- Ele também estava lá? - Ed perguntou, provavelmente se martirizando por não tê-lo notado naquela noite.
- Sim. A gente conversou um pouco. – Respondi, tentando manter o tom casual, mas sabia que o blush estava subindo.
Jorge apertou os olhos.
- “Conversou um pouco”? Porque ele te olhou como quem tinha anotado o teu signo e tua data de nascimento.
- Bom... – suspirei, olhando para o meu suco, como se ele fosse responder por mim. - Ele deu em cima de mim.
- O QUÊ? – Ed e Emma falaram mesmo tempo, Emma com brilho nos olhos, Ed batendo palmas em câmera lenta.
- Calma. - Levantei a mão. – Eu dei um fora nele. Na minha maneira tradicional.
- Sarcástica e elegante? – Emma perguntou.
- Irônica e desconfortável. – Corrigi.
Ed estava cantando.
- Isso é cinematográfico. Ele chega na cidade, primeira semana, evento chique, conhece nossa protagonista... E leva um fora com um sotaque novaiorquino. Eu estou apaixonado.
- Que ótimo para você. - disse Josh, nada impressionado. - Porque eu não entendi por que esse cara já está ganhando o convite para sair com a gente.
Emma respirou fundo.
- Josh, ele só vai tomar um suco, ele não vai ser batizado no grupo. Não vai escolher a música da playlist. Vai só... Sentar, beber alguma coisa, e talvez contar uma história canadense.
- E se ele for estranho? – Josh insistiu. - Ou pior: foi o tipo que usa termos como “vibe” com seriedade?
- Você usa “vibe” o tempo todo, Joshua. – Disse Nathan, finalmente entrando na conversa, mas em um tom leve.
- Sim, mas eu uso com ironia. - Josh rebateu.
- Brooklyn, você se importa? – Emma perguntou.
Todos olharam para mim de novo, como se minha opinião fosse o carimbo final no passaporte do .
- Eu não o convidei. Mas também não acho que ele vai causar uma revolução. – disse, meio neutra, meio cansada.
Ed sorriu.
- O que significa: “eu não quero lidar com isso, mas também não quero parecer a vilã da história”. Entendido.
O sinal tocou.
Todos começaram a se levantar, recolhendo o resto de almoço e opiniões mal digeridas. Eu ainda ouvia Emma rindo com Ed sobre o sotaque do , e Josh resmungando algo sobre “limites sociais”. Nathan seguiu atrás dele, fiel ao papel de amigo escudeiro. E eu só pensava que, mesmo que não tivesse mudado a dinâmica ainda... Ele já tinha mudado o foco.

***


The Elsinore – Upper East Side

- Cheguei!
Anunciei ao entrar em casa e fui direto para a cozinha, largando a mochila na primeira cadeira que encontrei.
- Oi, querida. Como foi seu primeiro dia de aula? - Nana perguntou enquanto mexia em uma panela no fogão.
- Chato. - Peguei uma maçã na fruteira. - Eles adoram fingir que se importam com nossas férias.
- Ué, não fizeram vocês se ajoelharem em um canto da sala para pedir perdão pelos pecados?
Eu encarei com um olhar sério, mas logo soltei uma risada curta.
- Ainda não, mas com certeza estão planejando alguma viagem para o Vaticano.
- Ah! - ela suspirou, divertida. - As piadas infinitas que podemos fazer com a sua escola.
- Por que será que, de todas as escolas possíveis, o John escolheu justamente a Trinity? – questionei, mordendo a maçã.
- Provavelmente porque é uma das melhores escolas de Nova Iorque. - Ela me lançou um olhar compreensivo. - E porque é a única escola onde a teologia é uma matéria obrigatória.
Eu ri, quase engasgando.
- Honestamente? Cada dia que passa eu acredito menos em Deus.
O clima mudou um pouco. A risada sumiu dos lábios de Nana, mas ela manteve o olhar carinhoso.
- Por causa do que aconteceu com seus pais? - perguntou com cuidado.
Senti aquele incômodo conhecido apertar meu peito. Odiava quando alguém me olhava com pena.
- Sim e não. Não penso só em mim, sabe? Mas tem tanta gente sofrendo enquanto outras vivem felizes da vida. Parece injusto.
Nana respirou fundo e me observou em silêncio.
- Quer saber? Se eu tivesse criado um mundo, todo mundo seria feliz. Ou, pelo menos, todo mundo seria triste. Nada desse meio termo frustrante.
Ela sorriu, parecendo entender mais do que eu estava disposta a admitir.
- Acho que isso se chama livre arbítrio. Deus fez o mundo e deu às pessoas a escolha de serem boas ou ruins. Infelizmente, nem todo mundo escolhe o lado certo. E, às vezes, você vai perceber que algumas perguntas simplesmente não têm respostas.
Suspirei, refletindo. Não era o que eu queria ouvir, mas... Fazia algum sentido.
- Que tal tomar um banho enquanto eu preparo algo para você comer? - ela sugeriu, dando um tapinha de leve no meu ombro.
- Tudo bem. – Concordei, deixando a maçã pela metade e seguindo para o quarto.

***


67 Spring Street, New York, NY.

Assim que saí do táxi, meus olhos se encontraram com os de Bryan. Ótimo. Claro que ele também estaria aqui. Fingi que não o vi e andei em direção à entrada, mas nem precisei olhar para saber que ele estava logo atrás de mim.
- Brooke. – Me chamou.
Suspirei fundo antes de me virar para ele.
- Como foram as suas férias?
- Bem, eu...
Eu não sabia o que dizer. Não queria que ele achasse que eu senti ciúmes por ele ter dado em cima da minha melhor amiga, porque eu não estava com ciúmes. Mas também não conseguia pensar em uma desculpa boa o suficiente para dispensá-lo de uma vez sem tocar no assunto.
- Brooke? - De repente, apareceu ao meu lado e eu mentalmente agradeci ao universo por isso.
- Canadá! Vamos entrar?
O puxei pelo braço, sem nem dar a chance para Bryan continuar.
- Quem era? - Perguntou genuinamente curioso.
- Meu ex, Bryan.
- Ah, o cara que ficou com a sua melhor amiga?
- Esse mesmo.
Sem precisar procurar muito, nos sentamos na primeira mesa vazia que encontramos. Infelizmente, Bryan sentou-se na mesa ao lado, o que não ajudava muito.
- Ele não para de olhar para você. - constatou, tentando disfarçar um sorriso.
- Ótimo. – Suspirei.
- Qual é o lance, afinal?
- Já disse, ele ficou com a Emma.
- Emma... Sua melhor amiga? - ele arqueou uma sobrancelha, intrigado.
- Exatamente.
- E você está chateada com ele, mas não com ela?
O encarei, tentando entender onde ele queria chegar.
- Não estou chateada. Só estou evitando o Bryan, para o caso de ele achar que ainda existe alguma possibilidade de reconciliação.
- É engraçado. Pelo jeito que ele te olha, parece que acha que ainda tem uma chance.
- Acha que é um olhar de “quero você de volta”? Para mim parece mais “não quero sair perdendo.”
deu um riso provocador
- Tem medo de escutar o que ele tem a dizer?
- Por que eu deveria ouvir uma explicação?
- Não seria justo? Afinal, você fez o mesmo com a Emma.
Bufei, impaciente.
- Eu nunca perderia a amizade da Emma por causa de um idiota como ele.
- Bem observado. - sorrio, balançando a cabeça.
- Você também é um idiota. - Constatei.
- Mas sou um idiota com uma intuição aguçada.
- E o que a sua intuição diz agora? – Perguntei, tentando não parecer interessada.
Ele me olhou com um brilho divertido nos olhos.
- Que você nunca quis estar em um relacionamento com ele, para começo de conversa. E agora está perdida sobre como encerrar essa história sem ele entender errado.
Fiquei sem saber o que responder. Como ele conseguia me ler tão facilmente? Era como se eu fosse completamente transparente diante dele.
- Você deveria parar de me fazer parecer uma garota mimada.
se inclinou levemente para frente, olhando direto dos meus olhos.
- E você deveria parar de me olhar como se eu fosse só um amigo colorido. Talvez eu queira mais do que te dar conselhos.
Lhe dei um olhar um tanto descrente.
- Você não está a fim de mim. – Afirmei, rolando os olhos.
- E o que te faz pensar isso? - ele continuou me encarando, mas o canto da boca formava um sorriso provocador.
- Ah, qual é.
- Você é inteligente, bonita e aparentemente cai fácil na minha lábia. Por que eu não estaria interessado?
Soltei uma gargalhada.
- Acho que você não lembra bem da noite que nos conhecemos. Devo refrescar sua memória?
- Não, obrigado. - Ele riu junto comigo. - Só queria garantir que você saiba que minha lábia melhorou desde então.
Eu revirei os olhos novamente, mas desta vez com um sorriso.
- Aí está você! - Josh apareceu ao meu lado, parecendo aliviado por me ver. Mas assim que notou ao meu lado, sua expressão mudou para algo que beirava o desgosto.
- Cheguei há pouco. – expliquei, tentando ignorar o clima que se instalou.
- Vieram juntos? - ele perguntou, notavelmente curioso.
- Não, me encontrou na entrada e me salvou do Bryan. – Murmurei, apontando discretamente para a mesa ao lado digo onde Bryan fazia cara de quem estava prestes a lançar um manifesto sobre corações partidos.
- Babaca. - Josh resmungou entre os dentes, lançando um olhar fulminante para Bryan.
Antes que qualquer um pudesse continuar, Ed surgiu do nada, quase colidindo com a gente como um furacão social.
- Brooke, ! - ele gritou, acenando com os braços como se estivéssemos no meio de um show e ele fosse vocalista chamando para o bis, - Venham, hoje é dia de karaokê!
Sem esperar resposta, Ed agarrou minha mão e começou a me arrastar.
- Espera! – protestei, parando abruptamente ao notar que havia ficado para trás. Algo no fundo da minha mente sugeriu que ele estava prestes a se juntar a nós, mas, antes que eu pudesse perguntar, vi April deslizar para o lado dele com a familiaridade de quem já estava há tempos planejando essa aproximação.
Ela lançou um sorriso ensaiado que poderia até iluminar um apagão, e respondeu com um sorriso de canto de boca, o tipo de sorriso que parecia reservado para situações que envolviam flerte leve e histórias interessantes. Ótimo. Nada como ver o garoto novo e extremamente irritante sendo fisgado pela garota que achava que podia conquistar qualquer um. Senti um pequeno nó formar no meu estômago, mas balancei a cabeça, tentando afastar a sensação de que eu tinha acabado de ser substituída.
- Vamos? – Ed chamou, interrompendo meus pensamentos com seu tom exageradamente animado.
- Claro. – Murmurei, tentando afastar a sensação estranha que pairou sobre mim.

***


The Elsinore – Upper East Side

Assim que pisei no prédio, não consegui segurar o riso ao ver John, Nana e o senhor Peterson sentados na recepção, jogando Uno com uma seriedade digna de uma mesa de pôquer em Las Vegas. As cartas formavam pilhas desorganizadas sobre a mesa do centro, e cada um tinha uma quantidade tão estratégica de cartas escondidas que parece até que jogavam por dinheiro.
- Chegou cedo. - John olhou para o relógio no pulso, desconfiando da minha presença. - Não são nem oito horas ainda.
- Estou um pouco cansada.
- Quer que eu prepare alguma coisa para você comer? - Nana já se levantava, o baralho meio que jogado sobre a mesa, pronta para bancar a chef que nunca descansa.
- Não, tô bem.
- Então quer jogar com a gente, querida? - Peterson me ofereceu uma carta, como se fosse um convite exclusivo, sem perceber que estava violando uma das regras sagradas do Uno: não se distribui carta fora da vez.
- Pode ser. - Me sentei entre eles, tentando entender por que diabos uma partida de Uno parecia tão intensa. John mantinha a mão fechada, ninguém revelava nada. Juro que, se alguém tivesse colocado óculos escuros, eu teria acreditado que estavam jogando pôquer mesmo.
- Nos conte como foi seu primeiro dia de aula. - Peterson pediu, empilhando um “compre duas” no monte, sem nem piscar.
- Ah, o de sempre. Fui coroada melhor aluna da Trinity. - Disse enquanto puxava duas cartas da pilha, amaldiçoando Peterson em silêncio.
John soltou uma risadinha sarcástica e jogou um “inverter” na minha direção, mudando o sentido da rodada.
- Não! Isso é sério? Porque, olha, eu acreditaria se você dissesse que foi expulsa.
- Não teve nenhuma novidade na sua escola? - Nana perguntou ao jogar um “pular” em cima do John. - Porque suas notas são tão previsíveis quanto uma novela mexicana.
- Vocês não me deixaram terminar. - Joguei um oito azul em cima do oito amarelo. - Como eu ia dizendo, a Trinity acha que sou a melhor aluna e me pediu para apresentar à escola para um aluno novo do terceiro ano.
- Hum, então você fez uma nova amizade? - Peterson ergueu as sobrancelhas, curioso, enquanto embaralhava suas cartas. Eu conseguia sentir a provocação pairando no ar.
- Digamos que a amizade é uma palavra muito forte.
John franziu a testa.
- Estranho, a Trinity não aceita alunos no último ano. - Ele cruzou os braços ao me encarar. - A formação académica não estaria completa, conforme o currículo próprio da escola.
E ele estava certo. A Trinity School, tradicional e elitista, raramente, quase nunca, aceitava transferências para o último ano. A justificativa oficial era proteger a “integridade do percurso académico”. Um jeito chique de dizer que não queriam alguém que não tivesse passado pelos anos de doutrinação escolar deles.
- Talvez ele estivesse há muito tempo na fila de espera. - Dei de ombros, enquanto o Peterson lançava um “Coringa” e mudava a cor para vermelho, claramente só para me sacanear.
- Ou ele quer ser padre. - Peterson soltou uma gargalhada tão alta que até o barulho da rua ficou tímido.
- Pode ser também. - John manteve a expressão séria, mas o canto da boca o traía.
- Ele veio transferido do Canadá. Talvez não tivesse muita opção. - Joguei um “compre quatro” e todos gritaram, indignados.
- E ele é bonito? - Nana estava visivelmente curiosa.
Revirei os olhos.
- Sei lá. Normal. Bonito, mas não do tipo que você vê e decide fazer um outdoor humano para ele.
- E vocês se deram bem? - Continuava na investigação, implacáveis.
- Por que não nos daríamos bem? - Arqueei e a sobrancelha, jogando de volta à provocação.
- Você não tem muita... Paciência pra gente nova. Ou velhas. Ou gente em geral. - John rebateu, e Nana soltou um risinho cúmplice.
- Relaxa, eu só mostrei a escola, não o levei para um encontro.
- Só amigos, então? - Nana não parecia convencida. Nem um pouco.
- Olha, se vocês estão querendo um genro canadense, talvez seja cedo demais para escolher o enxoval. - Joguei minha última carta, batendo na mesa e soltando: - Uno!
Me levantei.
- Eu vou subir, estou exausta de tanto ser interrogada. - Sai triunfante, antes que começassem a discutir teorias sobre minha vida amorosa.

’s POV:

- É aqui que eu moro. - A garota com quem passei boa parte da noite apontou para um prédio elegante no lado leste da ilha de Manhattan. Ela se virou para mim com um sorriso travesso. - Quer subir? Meus pais não estão em casa...
- Eu adoraria, Alice...
- April! - ela corrigiu com um riso contido, e eu concordei como se nada tivesse acontecido.
- Isso! Eu adoraria, April, mas... Está meio tarde.
- Tem certeza? - Ela inclinou a cabeça, seus olhos brilhando com malícia, e eu quase me senti culpado por hesitar.
Sob seus cílios pesados, seus olhos me queimavam de desejo. A boca entreaberta e as pernas se roçando nas minhas, deixavam bem claro que a proposta era séria. Tentei lembrar que não estava em Nova Iorque há tempo suficiente para ficar fora de casa sem minha mãe ligar feito uma central de emergência.
- Infelizmente, eu tenho. - Dei um sorriso um tanto arrependido, o que pareceu só aumentar seu interesse.
April ficou em silêncio por alguns segundos, e então, em um movimento ágil, tirou o cinto e escalou o meu colo. Meu cérebro deu tela azul por um instante. No reflexo, empurrei o banco para trás para ela se acomodar melhor, enquanto suas mãos exploravam meu corpo como se tivesse um mapa. Sua boca encontrou a minha com uma urgência provocante, e eu não pude evitar segurar firme sua cintura, a trazendo ainda mais para mim. Ela mexia os quadris contra os meus de um jeito que estava longe de ser inocente. O beijo era intenso, nossas línguas se movendo em perfeita sintonia. Minhas mãos subiram para os seus seios, mas ela se afastou com um sorriso provocador.
- Isso é só para você saber o que está perdendo. - Ela sussurrou contra os meus lábios, dando um selinho antes de pegar a bolsa no banco de trás.
Antes que eu pudesse reagir, April já estava saindo do carro.
- Até amanhã, . - Ela piscou e fechou a porta.
Eu fiquei ali, no meio da noite, tentando lembrar como se respirava. Me joguei contra o encosto do banco e fechei os olhos, soltando um sorriso incrédulo.
- Que garota... – Murmurei para mim mesmo, me perguntando se estava mais impressionado ou frustrado.

Brooklyn’s POV:

Abri os olhos de repente. O quarto estava envolto em uma penumbra silenciosa. Meu coração batia forte contra o peito, mas algo estava errado. Eu podia ver tudo ao meu redor: a luz fraca da rua entrando pela fresta da cortina, os móveis imóveis, o relógio piscando 3 e 17 da manhã, mas meu corpo não respondia. Um formigamento começou na ponta dos meus dedos, como se agulhas fincassem minha pele. Tentei mexer as mãos, nada. A sensação de peso aumentou, como se meu corpo estivesse preso por correntes invisíveis. Foi então que senti algo rastejar sobre minhas pernas, arrastando-se lentamente para cima, pressionando meu peito. Queria gritar, mas minha garganta parecia fechada, sufocada por uma força invisível. Um arrepio gelado percorreu minha espinha quando a pressão alcançou meu pescoço, apertando cada vez mais. Meu olhar estava fixo no teto, mas senti como se alguém me observasse, tão perto que podia sentir seu hálito frio contra o meu rosto. De repente, o peso desapareceu e o controle do meu corpo voltou de uma só vez. Sentei-me na cama com um pulo. Ofegante, liguei o abajur num gesto desesperado. A luz laranja revelou apenas meu quarto, intacto, mas ainda assim, eu não conseguia me livrar da sensação de que algo havia acabado de sair correndo para a escuridão. Meus olhos varreram o cômodo, enquanto eu lutava para desacelerar minha respiração. Fechei a porta da sacada com um movimento brusco, trancando-a. Então, o barulho da porta do quarto se abrindo fez meu coração disparar novamente.
- Brooklyn, ainda está acordada? - A cabeça de John apareceu pela fresta, o olhar curioso.
- Acabei de... Acordar. – Respondi, tentando não parecer tão apavorada enquanto apoiava as mãos nos joelhos para me recompor.
Ele entrou no quarto, aproximando-se com cautela.
- Aconteceu alguma coisa?
Me sentei na cama, tentando parecer menos vulnerável.
- Acho que só tive outro pesadelo.
John se sentou ao meu lado, atento.
- Com seus pais?
Balancei a cabeça.
- Não... Desta vez foi diferente.
Ele ergueu as sobrancelhas.
- Diferente, como?
Desviei o olhar, sem saber como colocar aquilo em palavras.
- Não me lembro. – Mentira. Cada detalhe ainda pulsava na minha mente.
- E por que você acha que foi um pesadelo?
Minha mão foi instintivamente para o pescoço, ainda sentindo a pressão.
- Porque a sensação ainda está aqui... Como se realmente tivesse acontecido.
John soltou um suspiro profundo, passando a mão no meu ombro.
- Talvez só tenha sido um sonho muito real.
Olhei para o reflexo da janela, esperando que o meu próprio olhar me convencesse disso. Mas, no fundo, uma voz sussurrava que não era só um sonho.

Capítulo 3 - O Bem e o Mal

The Elsinore – Upper East Side
Manhattan, 2015

A chuva caía incessante sobre as ruas de Manhattan, e a ideia de sair do quarto parecia mais distante a cada trovão. Ainda me sentia abalada pelo pesadelo que tive semanas atrás e que, para meu azar, resolvera se repetir em outras noites. As horas de sono perdidas começavam a cobrar seu preço, minando meu rendimento na escola e alimentando uma irritação constante.
Depois de muito hesitar, finalmente me levantei e fui até a sacada. Ali, fiquei observando a água escorrer pela cidade, como se Manhattan, assim como eu, tentasse lavar suas próprias mágoas.
- Está atrasada. - Nana entrou no quarto com uma bandeja, a depositando na cama. - Fiz o seu favorito. – A vi se enfiar no meu closet. Sorri ao me sentar na cama e tomar um gole do suco de laranja, ainda fresco, azedinho na medida certa. Nana sempre acertava. Pouco depois, John apareceu no quarto e se escorou na penteadeira, pegando um porta-retrato que continha uma foto minha e Lucy. Ele sempre olhava aquela foto.
- Por que ainda não se levantou?
- Vocês não estão vendo toda aquela água caindo do céu? - Apontei para a janela. - Isso é um sinal claro de que devo ficar na cama o dia inteiro. Aliás, você deveria dar folga para a Nana.
- Só porque nos meus dias de folga eu gosto de aproveitar ao ar livre? - Nana retrucou lá de dentro, com um tom que misturava deboche e afeto. - Você é muito boa para mim.
- Desde quando você acredita em sinais? - John largou o porta-retrato e se sentou na cama. - Todos sabemos do seu ceticismo.
- Eu sei, eu sei. Cética, racional, lógica… Mas, honestamente, eu adoraria saber quem coloca água dentro do coco.
John não evitou um sorriso, enquanto eu sorria satisfeita com a minha piada.
- E como vivemos numa bola flutuante suspensa no nada? — Nana completou, ainda do closet. - Eu levantei o copo, em um brinde imaginário.
- É um ótimo tema para o seu trabalho anual, o que acha? - Ele sugeriu, cruzando os braços.
- Se a Trinity descobrir que eu tenho dúvidas sobre a existência de um ser supremo, eles me expulsam e alegam justa causa. - Me arrastei em direção ao banheiro. - Vou tomar um banho, talvez a água quente resolva essa crise existencial.
- A crise existencial é sua, não da água. — Murmurou Nana. — Só para deixar claro.
- Espera aí... - John me olhou com cautela. - Você realmente tem dúvidas sobre a existência de um Deus?
Parei no meio do caminho, bem surpresa com a pergunta.
- Eu… às vezes acho que não, que é tudo invenção para consolar quando nada mais faz sentido. Mas em outros momentos, penso que... acreditar ajudaria. Como se colocar a culpa em alguém, mesmo invisível, aliviasse um pouco.
Ele assentiu, processando as minhas palavras.
- Acho que estou tentando entender se é uma convicção... ou só uma forma de não me entregar.
John deu um sorriso suave e caminhou até a mim, me puxando para um abraço apertado.
- Talvez ainda haja esperança para você.
- Ótimo, mais uma coisa para colocar na minha lista de dúvidas existenciais.
Um sorriso escapou. Traiçoeiro, mas sincero.
Talvez ele estivesse certo, talvez houvesse esperança.
Só que naquele momento, tudo que eu queria era conseguir acreditar nisso.

Trinity School – 139 West, 91 Street. New York, NY.

- Não olha agora, mas o seu gato não para de olhar para você.
Emma tinha o dom de começar conversas como quem solta spoilers no meio de um filme.
Fiz uma careta. Como assim “não olha agora”? Isso anula completamente o “não olha”.
Me encolhi na cadeira, fingindo desinteresse e espiei por cima do ombro. E lá estava ele. Josh. E de fato, me encarava. Tentei disfarçar, lhe dando um breve sorriso quando nossos olhos se encontraram.
- Ele não é meu gato. - Apressei em corrigi-la.
- Só porque você não quer.
- Ele é meu amigo.
- E daí? A maioria dos casais começa assim. Primeiro os olhares, depois a tensão constrangedora, e por fim, o famoso “nossa, não sei como isso aconteceu”, enquanto estão no meio de um beijo.
- Tipo você e o Nathan? - perguntei com um sorriso irônico.
Ela abriu a boca, pronta pra rebater, mas travou no meio do caminho. O silêncio dela durou uns bons três segundos. Eu contei.
- Ok, ponto pra você.
- Vocês dois não são mais amigos por causa daquele romance de verão que ele esqueceu de avisar que era só na estação, lembra?
- A culpa não é minha se ele só funciona no modo solteiro perpétuo. – Retrucou, agora com menos sarcasmo e mais resignação.
Antes que eu pudesse provocar mais, passou por nós. Foi automático. Nossos olhares se cruzaram, e por algum motivo que nem Freud explica, eu não desviei. Ele também não. O momento durou mais do que o aceitável socialmente.
- Nossa, por que vocês não procuram um quarto? – Emma zombou, tentando manter a expressão séria.
- Do que você está falando?
- Dessa troca de olhares com o canadense.
- Foi só... um olhar. – expliquei, me sentindo sem graça.
- É. Mas ninguém pisca devagar para desconhecidos. Por que não admite que você gostou dele?
- Não é nada disso! – Deixei claro. - Além disso, ele está saindo com a April.
- Sério? – Emma olhou para a mesa onde os dois estavam. - O que ela tem que você não tem?
- Hm... Talvez o título de garota mais bonita da escola? – resmunguei, revirando os olhos.
- Ah, por favor! Você é mais bonita. E todo mundo sabe que ela não tem uma boa reputação, logo eles terminam.
- Que honra saber que eu posso ser a segunda opção de alguém. – Murmurei com sarcasmo.
- Para de drama, Shakespeare. Vai lá e pergunta se ele quer sair com você.
- E por que eu faria isso?
- Porque ele é o primeiro garoto com quem você conversou mais de cinco minutos desde o Brian.
- Emma, a gente trocou meia dúzia de palavras. Isso não é aproximação, é... educação básica.
- Sabe qual é o seu problema? - ela continuou. - Você é boa em observar. Você lê pessoas com precisão cirúrgica. Mas quando o assunto é você, vira um enigma que nem tenta resolver.
- Isso foi poético.
- E verdade. Vai lá e fala com ele.
- Emma…
- Não precisa se declarar. Só conversa. Troca duas frases sem pensar em todas as possíveis consequências antes. Um passo. É só isso.
- Eu só não sou a pessoa mais... Social do planeta.
- Brooke, nem uma formiga entra no seu ciclo social sem preencher um formulário em três vias.
- Qual a parte do “ele está saindo com a April” você não entendeu?
Emma fez um gesto dramático com as mãos.
- Isso nunca impediu ninguém de ser honesta sobre o que sente. Você está com medo.
- De que?
- De gostar dele.
- Que besteira!
- Eu tô dizendo isso porque te conheço. Você vive num modo contido, sempre pensando antes de sentir. Sempre ensaiando respostas pra perguntas que ninguém fez.
- Isso se chama maturidade.
- Não, isso se chama controle patológico. E, spoiler: não te protege de nada. Só atrasa.
Fiquei quieta por um momento. Olhei de novo pra , que agora ria de algo que a April dizia. Mesmo assim, tinha uma expressão... Ausente. Como se risse mais por reflexo do que por conexão.
- Você só precisa ser menos certinha.
- Certinha? Eu? - ergui uma sobrancelha, ultrajada.
- Você não fuma, não bebe, nunca briga com John, não tira nota baixa, não mente para ir em festas, e só vai quando a gente te arrasta. - Ela se inclinou para cochichar com um sorriso travesso. - E você é virgem.
- Você não precisava fazer essa última parte parecer uma acusação.
- Não tô julgando. Só acho que você vive com tanta cautela que esqueceu como é simplesmente... deixar as coisas acontecerem.
Dei de ombros.
- Você devia mesmo ir falar com ele.

***
Trinity School – Biblioteca
Upper West Side, Manhattan. Tarde chuvosa

- Vai uma ajuda? - A voz surgiu do nada, enquanto ele se esticava para alcançar o livro na prateleira mais alta da biblioteca.
- Um pouco alto demais - admiti, aceitando o livro. - Mas obrigada.
- Então você sabe agradecer. Isso é novo. - Ele caminhou ao meu lado enquanto eu tentava, discretamente, me afastar.
- O que isso quer dizer? - Arqueei uma sobrancelha, sem desacelerar o passo
- Que você é, às vezes, um tanto... arrogante comigo. Outras vezes, só quase.
- Bem-vindo ao maravilhoso e incompreendido mundo feminino - dei de ombros. - Em breve você recebe um mapa, se sobreviver.
Ele soltou um riso curto, com aquela confiança irritantemente natural de quem nunca precisou tentar muito na vida.
- Você fala como se eu não estivesse tentando entender.
- Está tentando decifrar. Tem diferença. - Continuei andando, determinada a alcançar a secretaria e deixar ele para trás.
- Por que a pressa? - continuou ao meu lado, claramente sem intenção de me deixar em paz.
- Preciso pegar as apostilas de álgebra na secretaria.
- Quer companhia?
- Por que eu precisaria da sua companhia até secretaria? Você acabou de me chamar de arrogante. – Cruzei os braços, tentando parecer irritada.
- Já que perguntou... - ele sorriu, enquanto me induzia a andar com ele. - Eu diria que as razões para um convite seriam porque eu sou gente boa, bacana, simpático e que apesar da sua arrogância e antipatia eu sempre lhe tratei bem. Independente de tudo.
Fiquei em choque. Não sabia que era possível alguém montar um currículo inteiro com elogios próprio com apenas cinco segundos.
- Direto e sem filtro, do jeito que você acha que impressiona. – Soltei um suspiro, arqueando a sobrancelha. – Aliás, obrigada pelo “antipática”. Já tenho uma lista de defeitos atualizadas graças a você.
- Viu só? Estou aqui para ajudar. – Sorriu. – Mas, se quer saber, talvez isso nem seja um defeito completo. Só um mecanismo de defesa que, por acaso, eu acho... interessante.
me achava interessante? Certeza de que ele não estava tentando me provocar? Ele notou meu silêncio repentino e minha confusão interna, e aí deixou um sorriso cafajeste escapar dos lábios. Ele era muito convencido.
- Falei demais? - Perguntou, inclinado levemente a cabeça, com olhos que diziam sei exatamente o que estou fazendo.
- Não, tudo bem. Gosto de palavras, principalmente as que são usadas para me definir. - O deixei para trás novamente. - Agora eu sou uma pessoa arrogante, antipática, porém interessante? Sua mudança de humor está me confundindo!
- Não teria muito mistério, se apenas me tratasse como todo mundo.
Ele passou seus dedos longos por seus cabelos brilhosos. E eu queria que fosse eu a fazer isso.
Me recompus.
- Ah, entendi. Então eu sou interessante porque não caio no seu papo, como todas as outras. – Retruquei, fingindo desdém.
- Exatamente! - ele não hesitou. - Nada mais intrigante do que alguém que me desafia.
Bufei, me recusando a deixar transparecer minha impaciência.
- Você está falando sério?
- Raramente. Mas hoje, por algum motivo, estou me sentindo inspirado.
- Deve ser o tédio. – concluí.
- E sabe o que mais? Você também me faz rir, o que é bem raro, considerando o meu gosto seletivo para piadas.
- Acho que é porque você tem uma queda por mim. – Respondi antes que pudesse me censurar. - Torna minha presença mais irresistível. - Eu tinha falado aquilo mesmo?
Seus olhos escureceram em tempo recorde.
- Não coloque palavras em minha boca, Bennette. Não sou tão fácil quanto aparento. - Deu um breve sorriso. – Porém, acredito fielmente que flertes são sempre bem-vindos. - Escorou na parede e continuou me olhar daquele jeito.
- Então eu me precipitei?
- Depende do ponto de vista. Geralmente flerte são indicações de interesse, mas eu acho que você só está fingindo que não entendeu o que eu quis dizer. - Lhe dei um sorriso sapeca antes de me virar novamente, mas logo em seguida senti seu braço me puxar, fazendo com que meu corpo se voltasse para ele. - Creio que está querendo jogar. Um motivo para se sair bem na conversa. Esperta, porém, previsível.
- E você acha que seu charme barato vai me convencer?
- Não sei. Mas, honestamente, o barato aqui está na sua resistência. - Ele sorriu de lado. - Quanto mais você tenta escapar, mais divertido fica.
- Talvez porque eu só esteja dando um empurrãozinho no seu ego inflado.
- Eu adoro quando você tenta me desestabilizar. É quase fofo.
- Fofo? - fingir indignação. - Se acha que vou aceitar esse elogio, está redondamente enganado.
- E o que acha de aceitar sair comigo. Não sei... talvez um café, depois da aula. - Parecia cheio de coragem.
- Não! - Fui tão direta quanto possível. Uma palavra, sílaba única, certeira.
- E eu posso saber por que eu estou sendo rejeitado tão friamente? – Claro que ele não iria desistir fácil.
- Você não faz o meu tipo. – Tentei passar confiança nas minhas palavras.
Ele me olhou de um jeito desconfiado, com a total confiança de que fazia o meu tipo. Assim como fazia de todo mundo.
- Você sabe quantas garotas adorariam estar no seu lugar?
Nossa, como ele era convencido.
- Ótimo. Então você não precisa de mim. - Passei por ele, sem olhar para trás. Mas com certeza de que o sorriso dele estava maior do que nunca.

***

Trinity School – 139 West, 91st Street. Manhattan.

“Você se recusou a sair com ?”
- A foto de Ed surgiu na tela do chat.
Revirei os olhos e voltei para as abas do navegador. Pesquisa de história da arte: mais útil do que alimentar o ego do Ed.
“Qual é o seu problema?” - Ele insistiu. – “Ele é o garoto mais popular da escola no momento, e está caidinho por você, e você o rejeita?”
“Você leu a parte em que eu disse que ele está saindo com a April?” – respondi.
“April? Esquece, ele deve estar só se divertindo”
“Bem... Comigo que ele não vai se divertir.”
“Autocontrole gata, sempre admirei isso em você. Mas libera logo para você saber o que é diversão de verdade.”
Corei imediatamente, cruzando o meu olhar até os fundos da sala. Concluí a conversa do chat, encerrando a conversa antes que ele dissesse algo ainda mais ridículo.
Assim que a aula terminou, caminhei até o corredor dos armários, mas algo no mural de notícias chamou a minha atenção. Um cartaz enorme, impresso em papel colorido e com fontes ousadas, anunciava o Minimester, mais conhecido como a semana de oficinas. Aquele momento do ano em que todo mundo largava os livros para explorar paixões escondidas ou tentar algo completamente fora da zona de conforto.

“Escolha sua oficina. Inscreva se até sexta-feira!”

Dizia o título, rodeado de pequenas imagens: uma câmera fotográfica vintage, pincéis, fones de ouvido, uma máscara de teatro e até uma miniatura de avião, aludindo na oficina de simulação de voo.
- Já sabe em qual vai se inscrever? – Nathan apareceu ao meu lado, mastigando distraidamente uma barrinha de proteína, enquanto analisava as opções coladas com fita adesiva no mural.
- Fotografia. - Tirei a caneta do estojo e, sem hesitar, escrevi meu nome na lista. - Não sou tão boa com as outras opções.
Ele soltou um assobio baixo.
- Brooklyn Bennette admitindo que não é boa em algo? Alguém anota essa data. - O sarcasmo dele era tão natural que quase soava como um elogio disfarçado.
Lhe dei um empurrão de leve.
Nesse momento, senti uma presença se aproximando. O cheiro familiar de desodorante amadeirado e o inevitável som do tênis arrastando.
- Inscrições para as oficinas? - Josh apareceu, se espremendo entre nós para espiar o cartaz. - O que acham de me inscrever em música de novo?
- Não faz isso, cara, ninguém aguenta mais te ouvir desafinar. – Nathan o provocou.
Josh riu, mas balançou a cabeça indignado, os olhos ainda correndo pela lista de oficinas.
- Pelo menos o Ed vai gostar de uma das opções - Falei, desviando o olhar, tentando ignorar os dois idiotas competindo pelo posto de quem solta a piada mais cretina.
- Finalmente vamos descobrir se ele realmente tem talento para Juilliard. - Josh comentou, se inscrevendo impulsivamente na oficina de artes visuais.
Fiquei surpresa.
- Artes? Você não sabe desenhar um boneco de palitinho.
- E você acha que “andar e respirar” é um talento? Porque é só isso que o Nathan faz bem. - Retrucou Josh, rápido, enquanto Nathan fingia uma expressão ofendida.
Os dois estavam prestes a começar mais uma rodada de provocações quando Ed chegou, ajeitando a alça da mochila, curioso com aglomeração.
- O que estão fazendo? - Perguntou, inclinando-se para ver o cartaz.
- Inscrições para o Minimester! Olha só o que tem esse ano! - apontei para a lista, destacando com o dedo a linha que dizia: “artes cênicas: performance e teatro musical”.
Os olhos dele praticamente saltaram.
- Não acredito! Será que vai vir algum olheiro? – perguntou, a voz cheia de animação e uma pontada de nervosismo, típica de quem sonha com os palcos da Broadway.
Nathan se encostou preguiçosamente na parede de tijolos expostos, cruzando os braços.
- Espero que não.
Ed franziu a testa.
- Por quê?
Nathan ergue uma sobrancelha, sarcástico.
- Porque você não sabe cantar e nem dançar. Que talento vai usar para impressionar os olheiros? Seu topete?
Ed soltou uma risada forçada e passou a mão pelo cabelo, como se aquilo fosse o suficiente para provar algum tipo de superioridade estética.
- Meu talento é natural, tá? Qualquer um que me olhe percebe isso.
- O único talento que todo mundo nota em você é a habilidade de irritar os outros. – falei, me afastando e ouvindo ao fundo os risos abafados dos dois.
- O quê?! – Ed me seguiu, indignado, os passos ecoando no corredor de tacos antigos.
- E fazer fofoca.

’s POV:

- O que está acontecendo? - apontei para as pessoas aglomeradas no mural da escola, os corredores mais parecendo o saguão de uma estação de metrô na hora do rush.
April, segurando meu braço com aquele sorriso elétrico que sempre exibia quando algo parecia empolgante demais pro meu nível de energia, respondeu prontamente:
- Abriram as inscrições para a semana de oficinas.
O burburinho dos alunos se misturava ao barulho metálico dos armários sendo fechados às pressas e ao som abafado de alguma música vazando de um fone de ouvido esquecido. Me aproximei um pouco, espiando por cima de alguns ombros e mochilas enormes.
- E como isso funciona, exatamente? – perguntei, tentando parecer um pouco mais interessado do que realmente estava. Embora a minha voz saísse mais apática do que eu gostaria.
Ela soltou aquele suspiro que sempre parecia misturar paciência e leve impaciência comigo, enquanto analisava as opções com atenção.
- Você escolhe uma categoria e pratica em grupo. A escola diz que melhora o nosso percentual em atividades extracurriculares para a faculdade. - Ela virou-se rapidamente, com uma expressão que dizia: “como assim você não sabe disso?”
Suspirei, enfiando as mãos no bolso da jaqueta. Claro que tudo naquela escola contava como ponto acadêmico. Ela inclinou a cabeça, avaliando o cartaz como se estivesse escolhendo ações na bolsa. Depois, assinou o nome em artes visuais, o que fazia total sentido pra alguém que vivia vendo o mundo em cores pastéis e ângulos perfeitos pro Instagram.
Enquanto ela escrevia, meus olhos correram pela lista ao lado: culinária experimental, produção musical, simulação de voo... e fotografia.
E foi aí que eu vi.
Brooklyn Bennette.
O nome parecia brilhar ali, como um aviso ou uma provocação silenciosa. Antes que pudesse pensar duas vezes, peguei a caneta presa por uma correntinha meio enferrujada e assinei meu nome logo abaixo do dela. A caneta pendurada na corrente parecia um desafio por si só, como se o ato de escrever ali já fosse um teste de coragem. E ego. Mas logo senti o olhar de reprovação de April, queimando minha nuca como um holofote.
- Fotografia? - ela me encarou, sua voz misturava ceticismo e puro deboche. - Pelo menos sabe o que é uma foto panorâmica? - perguntou como se eu fosse um ignorante.
Dei de ombros, tentando não parecer tão óbvio quanto me sentia.
- Gosto de desafios. – Respondi, sem deixar óbvio que a verdadeira motivação tinha cabelos escuros e um olhar desafiador.
Aquilo provavelmente era uma péssima ideia. Mas, honestamente? Já fiz coisa pior por muito menos.

Brooklyn’s POV:

Central Park – New York, NY. USA.

O Central Park estava tomado pelos tons queimados do outono: folhas avermelhadas e douradas cobriam o gramado úmido, espalhadas como confetes esquecidos pelo chão. O céu era de um cinza homogêneo, pesado, e a luz filtrada pelas nuvens deixava tudo com uma coloração fria, quase opaca. O vento soprava constante, arrancando folhas das árvores já despidas e as lançando num balé silencioso ao nosso redor. Não era um dia particularmente alegre, mas havia uma estranha paz naquele fim de tarde nublado, quando decidimos esticar o tempo juntos depois das aulas. Nos sentamos sobre uma toalha estendida, no meio daquele tapete de folhas e começamos a jogar banco imobiliário. As peças de plástico colorido e as notas de papel destoavam do cenário sóbrio, quase como uma resistência teimosa à melancolia do outono. Eu me encolhi sob meu casaco, puxando as mangas até esconder as mãos, e me deixei levar pelo som abafado das risadas, pelo crepitar das folhas secas sob nossos movimentos e pela calmaria rara daquele momento. Não sei exatamente quando ou como, mas acabei adormecendo ali, ao lado deles, cercada por vozes queridas e pelo cheiro de terra molhada e folhas recém caídas. Quando acordei, senti cócegas discretas na bochecha, na coxa e no braço. Abri os olhos com dificuldade, vendo o céu cinza ainda parado acima de nós e as árvores nuas se balançando suavemente ao longe. Eles estavam desenhando em mim. Não tive forças nem vontade de protestar. O ar gelado fazia meu rosto arder levemente, mas meu corpo parecia pesado demais para qualquer reação.
- Ela acordou e não parece brava... OK, estou preocupado. – Ed segurava a caneta no ar, interrompendo o coração que desenhava pela metade e me olhava com um meio sorriso, meio apreensivo.
- Você está bem? – Emma se inclinou, sua expressão suavizada pela preocupação. O vento bagunçava seus cabelos soltos.
- Eu estou bem... Só não tenho dormido muito bem esses dias. – Confessei, minha voz soando mais frágil do que eu gostaria.
- O que houve? – Nathan me encarou, assim como Josh.
Eles se ajeitaram ao meu redor, cruzando os braços para se proteger do vento frio. O parque não estava cheio como costumava ser em dias ensolarados; apenas alguns casais caminhando de mãos dadas e algumas famílias se despedindo do outono antes, que o inverno tomasse conta da cidade. Então falei dos pesadelos, da sensação de me ver dormindo, do formigamento que prenunciava algo pior. Era a primeira vez que eu falava sobre aquilo em voz alta, e as palavras pareciam ganhar mais peso a cada confissão.
- Por quanto tempo você fica sem se mexer? – Nathan perguntou, ao juntar as pernas e cruzar os braços em volta dela.
- Não tenho noção do tempo, mas parece que dura uma eternidade.
- E acontece com que frequência? - tornou a perguntar.
- Já é a quarta vez, dentro de um mês. Mas às vezes acontece mais de uma vez na mesma noite.
- Estranho... - pareceu sussurrar para ele mesmo.
- Você sabe de alguma coisa sobre isso? - fiquei intrigada e de repente a atenção era toda de Nathan.
- Isso se chama paralisia do sono. - Ele explicou, tirando o celular do bolso e começou a pesquisar algo, enquanto o vento fazia com que as folhas acumulassem aos nossos pés, como se também quisessem ouvir a explicação. – Olha, é uma coisa muito comum de se acontecer, mas não com frequência. - me entregou o celular com uma pesquisa aberta. - Geralmente quando estamos pegando no sono ou já em um sono profundo, nossa mente meio que se desliga do nosso corpo, pra que não aconteça algo enquanto estivermos dormindo, como nos debater e essas coisas... Costuma durar por volta de alguns minutos e como eu disse, não acontece com frequência. Embora aconteça com 99,99% da população em geral. Mas... Sentir uma sensação de enforcamento é novidade para mim. Acredito que seja apenas uma ilusão da sua mente.
- Você deve achar que tudo tem que ter uma explicação científica, não é? - Ed se intrometeu na conversa.
- O que quer dizer?
- Quero dizer que deveríamos fazer uma sessão espírita. – O olhar dele estava vivo e provocador, então se levantou com um estalo de folhas secas.
O parque, que até então parecia silencioso e acolhedor, ganhou de repente um ar mais sombrio, com névoa fina começando a subir do lago ali perto. O vento aumentava, fazendo as árvores rangerem o ar gelado.
- Você está dizendo que ela está sendo assombrada? - Os três também se levantaram e encararam Ed com descrença.
- Não sejam bobos, não existe essa coisa de fantasma. No máximo almas que não encontraram seu caminho e vagam entre o mundo dos mortos e dos vivos.
- Então o que é? - me levantei, encarando-o.
- Já ouviu falar em demônios? - arqueou a sobrancelha.
- O quê? – franzi o cenho, descrente.
- E qual seria a diferença entre fantasmas e demônios? – Josh quis saber e eu também.
- Sério que vocês nunca assistiram filmes de terror? - depositou a mão na cintura. – Olha, “fantasmas” são pessoas que já viveram no nosso mundo e morreram. Eles não têm intuito de fazer mal a alguém, no máximo entrar em contato com algum ente querido. Não que seja possível, é só uma teoria. Mas um demônio é algo que nunca foi humano, que tem poderes sobrenaturais e podem fazer mal através dos nossos medos.
Fiquei encarando Ed e pensando na possibilidade de ser a minha mãe. Ela poderia estar tentando se comunicar comigo? Mas por que agora? Depois de dois anos...
- Fantasmas podem ser uma teoria e demônios não? – Nathan perguntou.
- Vocês não leem a bíblia? - ele rolou os olhos. - Me admira que a Trinity aceite vocês lá.
- Pensei que estava se baseando em filmes.
- E no que vocês acham que os filmes são baseados? - disse com muita convicção.
Ouvi Emma bufar bem alto ao meu lado, mas não consegui tirar os olhos de Edward.
- Não de ouvidos a ele, não vê que só está apenas tentando te assustar?
- Acontece que eu já estou assustada, Emma. Eu não durmo há semanas. - Estava me sentindo frustrada.
- Eu só quero ajudar. Ou alguém tem uma ideia melhor?
- Invocar um demônio é sua ideia melhor? – Josh parecia incrédulo.
- Não vamos chegar tão longe, ok? Podemos jogar aquele Tabuleiro de ouija e saber se tem algo no seu quarto e o que quer de você. Ou você pode continuar tendo os seus pesadelos e descobrir sozinha.
- E se não der certo? – sussurrei.
- E se der? – rebateu.
- Esse é o problema. - Josh pendurou a mochila nas costas. - Se der certo.
- Deixa de ser medroso. – Ed caçoou dele. - O que me diz?
Olhei para todos, me sentindo dividida. Se eu não acreditava em Deus, obviamente não acreditava em demônios. Mas, ao mesmo tempo, se eu pudesse ter certeza de que o mal existe, seria um sinal de que o bem também pode existir. E talvez eu tenha uma chance de falar com a minha mãe.
- Na minha casa. Às 23:30hrs em ponto.
Josh soltou um gemido de frustação ao meu lado.
- E o John? - Emma perguntou.
- Com ele eu me viro.
- Você tem certeza disso? – Nathan segurou a minha mão e eu apenas neguei.

’s POV:

The Elsinore – Upper East Side, NY.

Olhei para minha mão entrelaçada a de April, tentando sentir algum tipo de sentimento mais profundo, mas tudo o que eu sentia por ela era... frustrante. Eu não conseguia entender. Eu gostava dela. April era divertida, inteligente, sorria fácil e tinha aquela segurança encantadora que faz qualquer um se sentir um pouco menos perdido. Só que por algum motivo, que eu não conseguia explicar, a química parava ali. Sem frio na barriga. Sem aquela vertigem boa que te faz esquecer onde está. Era mais como... conforto.
- Você não quer mesmo subir? - ela perguntou, balançando nossas mãos com aquele olhar doce que eu sabia que significava problema.
- Você sabe que eu adoraria, mas amanhã temos aula. Se eu subir... dormir vai ser a última coisa que iremos fazer.
Ela deu um sorriso tímido e me beijou. O beijo era bom, encaixava. Mas, se eu fosse honesto, parecia meio... ensaiado. Nos abraçamos e ela sussurrou um “até amanhã” antes de passar pela porta giratória do prédio.
Ao me virar, esbarrei em alguém.
- Wow!
Era Brooklyn, e de alguma forma, meu sorriso foi instantâneo.
- Se machucou? – Olhei para sua mão que tocava seu ombro no qual eu havia esbarrado. – Me desculpe, eu não te vi...
- Não, estou bem. – Ela disse rapidamente. – Tudo bem.
- Aonde vai com tanta pressa? – notei que ela iria me deixar falando sozinho novamente, assim como fez na escola, então me apressei em perguntar, ficando na sua frente. Ela ainda estava com o dress code tradicional que usava hoje cedo na Trinity. Supus que ela não tinha ido para casa depois da escola.
- Bem, eu moro aqui. – Segurou o meu ombro e por algum momento eu achei que ela fosse me abraçar, mas apenas me girou para que eu saísse do caminho dela. Classe A em humilhar expectativas.
April e Brooklyn morando no mesmo prédio, isso não vai dar certo.
Soltei uma risada, meio sem graça, enquanto ela passava por mim, ajeitando a mochila.
- E você? - ela parou em frente à porta giratória e me encarou. - O que está fazendo aqui?
- Só vim deixar a April em casa... nada de mais. - Comprimi os lábios com a sensação estranha de ter sido pego.
- Nada demais... – Repetiu, fazendo um bico pensativo. - Deve ser como você resume todas as suas relações, né?
Levei mão ao peito, ofendido de mentirinha.
- Nossa... bem no estômago. – Me inclinei levemente, usando um tom falso. - E eu achando que você estava começando a me achar irresistível...
Ela soltou um sorriso, embalado num olhar que dizia: você é previsível demais.
- Irresistível? - Cruzou os braços. - Só se for para um estudo de caso sobre excesso de confiança.
- Eu prefiro o termo “carisma mal compreendido” – Retruquei ao soltar uma risada, me perguntando por que eu me divertia tanto com a Brooklyn.
- E então? Já conseguiu visitar todos os pontos turísticos de Nova Iorque? - Perguntou de repente.
- Ainda não. Estamos presos na etapa “mexe em caixa e encontra trauma”. E, sinceramente, tudo que eu queria era uma refeição que não tivesse gosto de ressentimento. Minha mãe cozinha como se estivesse punindo alguém. - Ela concordou em silêncio, depois olhou para o prédio e voltou a me olhar com uma expressão estranha.
- É seu dia de sorte, Nana fez macarrão com queijo. Quer subir?
Eu amo macarrão com queijo, é sério. Mas aceitar aquele convite não tinha nada a ver com a comida. Geralmente, a Brooklyn não faz questão de estar perto de mim, então não posso negar o quão surpreso fiquei por ouvi aquele convite inusitado. Tinha algo no jeito que ela disse ou no olhar rápido que lançou antes de virar as costas. Eu não sabia explicar... Eu só não conseguir dizer não.
- Oi, senhor Peterson, como vai? - Ela parou para cumprimentar o porteiro. Fiquei confuso.
- Com dores nas costas e você?
A tratou informalmente.
- Com fome, Nana fez macarrão com queijo. Que tal uma pausa?
Ela também estava convidando o porteiro?
- Ainda falta um tempo para o meu turno acabar, quem sabe depois. – Lamentou.
Ele sorriu de uma forma carinhosa e só depois foi notar minha presença.
- Quem é seu amigo? - Perguntou, como se eu não estivesse ali.
- Aquele meu colega do Canadá que eu falei outro dia.
Então ela falou de mim para o porteiro? É interessante.
- Ah! - Ele deu uma risadinha e depois dotou uma postura mais rígida. - É um prazer. - Se dirigiu a mim estendendo a mão, a apertei.
- .
- Simon, mas todo mundo me chama de Peterson.
Disse como se tivéssemos intimidade. Dei um sorriso breve para ele.
- Nós vamos subir, até mais tarde.
Ela caminhou até o elevador e eu a segui.
- Convidou o porteiro? Achei que o convite tivesse sido exclusivo para mim.
- O nome dele é Simon e pode ser uma surpresa para você, mas eu trato todo mundo da mesma forma.
- Estou chocado e decepcionando, inclusive. - Ela me olhou com censura. - Então você falou de mim para o Simon? – Perguntei quando as portas do elevador se fecharam com aquele “clanc” seco, selando a gente em um cubículo de aço inox e tensão social. Ela rolou os olhos com a expressão de que não tinha tempo para bobagens.
- Não foi nada importante.
- Nem insinuei que fosse. – Cruzei os braços, encostando a lateral do corpo na parede fria de aço, sentindo o metal gelado que parecia amplificar a tensão ali dentro. – Mas, se por um acaso você reconsiderou a ideia brilhante de sair comigo...
Ela me encarou, seus olhos refletiam no espelho do fundo do elevador, avaliando se eu merecia alguns minutos da vida dela.
- Será que só rola esse tipo de assunto entre nós? - ela questionou.
- Esse tipo de assunto?
- Você tentando jogar seu charme para cima de mim. - Ela cruzou os braços diante o busto.
Então ela estava enfim, admitindo que eu tenho um charme. Interessante.
- Gosto de flertar com você. - Soltei meu melhor sorriso, consciente de que no espaço minúsculo do elevador, cada gesto parecia mais dramático. - Mas também curto uma boa conversa civilizada.
- E você teria algo tão elevado em mente?
- Podemos tentar a boa e velha abordagem social. – Arrisquei.
- Ah, sim. Tipo: Oi, como foi o seu dia? – Fingiu uma falsa animação. – Seguido de um silêncio constrangedor, até alguém comentar sobre o tempo? - Soltou um sorriso, parecendo estar caçoando de mim.
- Ei, não subestime o poder de uma previsão meteorológica bem colocada. Pode salvar relacionamentos.
- Não me surpreende que os seus tenham precisado disso. — disse, sem esconder o desdém, enquanto o elevador subiu os andares com seu barulho mecânico que parecia a trilha sonora da nossa conversa. - Além do mais, ninguém realmente quer saber se você está bem, é só um ritual social cheio de falsidade e curiosidade disfarçada.
- Você é muito reservada. - Olhei para ela refletida no espelho, vendo a expressão firme, enquanto evitava contato. – Dá até vontade de perguntar como foi o seu dia só para te irritar.
A vi rolar os olhos em resposta ao meu comentário, mas não consegui tirar o sorriso do rosto. Por quê?
O número da cobertura ascendeu.
- Você mora na cobertura? – notei, enfim.
- Sim, e é bom se comportar, se não quiser aprender a voar.
A vi digitar um código e tentei disfarçar que eu não estava olhando. Ela também não pareceu se importar. E então, o elevador se abriu, e no mesmo instante eu senti o cheiro do macarrão. Meu estômago embrulhou, me fazendo notar que eu estava morrendo de fome.
- Pode ficar à vontade... Eu vou guardar as minhas coisas. – disse, e sumiu, tão rápida quanto o cheiro da comida me hipnotizou.
O apartamento era enorme, quase intimidante, mas extremamente acolhedor. Como aquela casa de revistas que parecem “simples” só para humilhar quem mora num estúdio apertado. Quadros cuidadosamente posicionados ocupavam as paredes do hall enquanto uma mesa exibicionista sustentava um vaso de rosas vermelhas. Claro, porque flores pálidas não teriam a mesma arrogância. Ao lado, uma sala com uma TV de plasma absurda, um sofá acolhedor demais para ser honesto e, no centro, mais rosas vermelhas sobre uma mesa que parecia ter saído de um catálogo caro. E o toque final: um tapete de pelo preto, onde eu não sabia se deveria sentar ou deitar.
- São as favoritas da mãe da Brooke.
Uma voz surgiu do nada, me pegando desprevenido. Me virei pronto para me defender ou pedi desculpas por respirar. À minha frente, um homem alto, imponente, com aquele tipo de presença que enche o ambiente sem fazer esforço.
- E você é...?
- , do Canadá. - Brooklyn voltou, seja lá onde estava, ainda usando uniforme.
O homem me olhou, com aquela pausa longa e desconfortável, parecendo medir o peso de cada célula minha, e então virou-se para ela com um sorriso enigmático.
- Isso é... muito interessante.
- Não começa. - ela pareceu repreendê-lo. - Vou avisar a Nana para colocar mais um prato na mesa. vai ficar pra jantar.
O homem se aproximou, estendendo a mão com aquele jeito magnético e civilizado.
- John Henson. Todos os amigos da Brooke são bem-vindos à minha casa.
Apertei a mão dele, firme, tentando não parecer que estava em uma cena de interrogatório.

Brooklyn’s POV:

- Então, … Canadá? — John puxou assunto, apoiando o garfo na borda do prato. - É uma mudança e tanto.
- Meu padrasto abriu uma filial da empresa em Nova Iorque e quer ficar à frente nesses primeiros anos. - Deu uma garfada no seu macarrão.
- E com o que o seu padrasto trabalha? - Parecia curioso.
- Ele tem uma empresa que exporta comida do Brasil para vários países.
- Olha, que legal. – John me olhou. – Graças ao padrasto do temos o nosso alimento.
- Pensei que fosse graças a Deus. – Nana não segurou um riso, ao me escutar.
- Seu estoque de piadinhas céticas não acaba nunca, não é?
Dei de ombros.
- É espontâneo.
- Mesmo? - Ele sorriu de canto. - Aposto que você tem um caderninho embaixo do travesseiro com piadas para todas as ocasiões. - Se tivesse, a primeira página seria sobre você. - Viu? - Ele apontou para mim. - Prova viva do que acabei de falar.
- Você é cética? - perguntou e eu o olhei.
- Sou.
Ele piscou uma vez ao continuar a me encarar e depois franziu o cenho.
- Mas e a Trinity?
- O que tem a Trinity?
- Você mesmo disse que é uma escola religiosa.
- Foi ideia do John que eu estudasse lá, não minha. E além do mais, eles não podem me obrigar a seguir alguma religião em específico.
O elevador soou com um ding e se abriu. Logo o senhor Peterson apareceu, ajeitando o boné de porteiro, antes de entrar na sala. Sorri.
- Que bom que conseguiu se juntar a nós. – John o recebeu. – Venha, sente-se. Esse é o , o convidado especial da Brooke.
- Eu pego um prato para você. – Falei, como desculpa para não perceber que fiquei sem graça com o comentário.
- Nós já nos conhecemos no saguão.
- Ele estava dizendo que o padrasto tem uma empresa de exportação de alimentos.
- Ah, é?
- E ele é bem mais bonito do que você tinha falado, Brooke. – Nana soltou quando eu voltei para a mesa.
arqueou uma sobrancelha, meio curioso, meio convencido. Afundei na cadeira, pensando por que, em nome de tudo que é sensato, eu achei que seria uma boa ideia convidá-lo.
- Você está solteiro, ? – Simon perguntou, sem nem disfarçar.
Pronto. Era o caos completo.
- Gente, chega, né. – Pedi ao revezar o olhar entre os três.
- Na verdade... estou conhecendo alguém. – respondeu, com aquele tom casualmente matador. Fez uma pausa dramática, só para ter certeza de que todo mundo estava ouvindo. - Mas só porque a Brooklyn rejeitou todas as minhas tentativas de chamá-la pra sair.
John engasgou com um gole de vinho e me lançou um olhar surpreso.
- , é melhor você ir agora. – levantei, o puxando pelo braço. Ele me seguiu um pouco relutante.
- Mas eu...
- Agora. - o arrastei, ouvindo os 3 rirem atrás da gente.
- Eu posso pelo menos mastigar a comida direito?
- Tenho certeza de que consegue fazer isso enquanto anda.
- Seja bem-vindo para voltar quando quiser, . - John gritou da sala de jantar.
- Acho que eles gostaram de mim. – comentou, presunçoso.
- Não, eles gostam de me deixar sem graça. É diferente.
- Seu pai disse que posso voltar quando eu quiser. – disse ao entrar no elevador, quando a porta se abriu, e sorriu. Por que tão gato e convencido?
- Tchau, .
Apertei o botão para a porta de fechar e logo em seguida eu já não o via mais.
- Eu gostei dele. – Nana apareceu atrás de mim.
- Isso porque você não o conheceu melhor.
- E você já o conheceu melhor?
Não respondi, por que ela sabia a resposta daquela pergunta. Existem poucas pessoas que me conhecem tão bem quando Nana, Simon e John. Então, para eles, ter convidado para jantar foi um progresso e tanto.

Acendi algumas velas e as espalhei pelos cantos do quarto, criando uma atmosfera meio sombria. Arrastei alguns móveis para liberar espaço e retirei o tapete, para que pudéssemos nos sentar no chão. Eu tinha feito algumas pesquisas sobre como esses jogos funcionavam e, confesso, quase desisti. Mas era tarde demais. Recebi uma mensagem de Edward dizendo que estavam na portaria, liberei o acesso do elevador e os esperei, torcendo para que John não acordasse com o barulho.
- Que cheiro de fumaça é esse? - Ed perguntou assim que entrou, franzindo o nariz. - Shhh! - levei o dedo aos lábios. - John está dormindo. - E Nana? — Emma entrou atrás dele, seguida por Josh e Nathan. - Está com o Simon.
- Você tem certeza de que quer fazer isso? - Josh verificou novamente.
- Tarde demais para voltar atrás. – Ed abriu a bolsa e retirou o tabuleiro de Ouija, envolto em um pano gasto.
- Onde você conseguiu isso? Achei que nem fabricavam mais. - Nathan se inclinou para ver melhor.
- Meu tio tem uma loja de antiguidades. - eles me seguiram até o quarto. - Vejo que já estava entrando no clima.
O quarto estava escuro, exceto pelas velas. O cheiro de cera queimada misturava-se ao leve aroma de madeira antiga. Ed colocou o tabuleiro no chão com cuidado, como se fosse um objeto sagrado ou perigoso.
- Façam um círculo - ordenou. - E todos com os celulares desligados.
Colocou seu dedo indicador sobre a letra “G” na prancheta.
- Agora, um de cada vez, coloquem o dedo indicador também. Só encostem levemente… firme, mas sem pressionar. - Fez um movimento lento, circular. - Lembrem-se: se for um espírito, ele pode demorar para responder.
Nathan tentou disfarçar uma risada, mas foi em vão. Recebeu um olhar bravo de Ed.
- E outra coisa… - Ed olhou para todos. - Ninguém tira o dedo sem encerrar com “adeus”. Se deixar o planchette sair do tabuleiro, a gente não sabe o que pode acontecer.
- Você já jogou isso? – Emma perguntou, mas Ed não a respondeu.
- Vamos orar a oração “Pai nosso” duas vezes.
Os outros rezaram em uníssono, a voz quase sussurrada. Eu apenas abaixei o rosto. Cada palavra me fazia pensar que aquilo talvez fosse um erro.
- O que você quer perguntar, Brooke?
Gostaria de saber se era a minha mãe, gostaria de saber agora... Mas eu nem sabia por onde começar.
- Tem algum espírito presente? - perguntei, sentindo meu estômago embrulhar.
- Você precisa falar mais alto. – Ed me censurou.
- Tem algum espírito presente? - disse alto e claro.
Todos ficaram olhando a prancheta, mas ela não se moveu.
- Faça outra pergunta. – Emma me incentivou.
- Você é um espírito bom ou ruim? - perguntei novamente, mas o Tabuleiro não se moveu. - Como é seu nome?
Decidi ser mais direta. Mas novamente, estava sem resposta. Olhei para os meus amigos, me sentindo uma idiota. Era claro que não existia essa coisa de espíritos e eu só estava tendo pesadelos como todo mundo normalmente tem.
- Acho que isso já foi longe demais. - Josh ameaçou se levantar.
- Não! – Ed o interrompeu. - Não pode tirar o dedo sem encerrar.
- Mas isso não está dando certo. – rebateu. – Brooke... - me olhou cauteloso.
- Tem mais uma coisa que eu quero tentar antes de desistir.
Na pesquisa que eu fiz, dizia que se eu quisesse falar com algum ente querido eu deveria deixar algum objeto que tivesse sido dele. Olhei para Josh, que com custo se sentou de volta no seu lugar, sem mover o dedo. Alcancei a escova de cabelo que costumava ser da minha mãe e coloquei sobre o chão.
- O que quer fazer com isso? - Emma perguntou.
Respirei fundo, tentando alcançar todas as boas lembranças que tive com Lucy.
- Tem algum espírito presente? - tornei a perguntar alto e claro.
De repente, senti o planchette se mover. Não era rápido, mas também não parecia acidental. Olhei para os outros: olhos arregalados, dedos imóveis, exceto pelo movimento conjunto.
- Ed, isso não tem graça. – Josh disse, encarando a prancheta que se locou até a palavra “sim”.
Encarei Ed, esperando que ele dissesse algo.
- Não fui eu. – disse apreensivo.
- Continua...
- Qual é o seu nome?
O planchette começou a se mexer indo para as letras “L” “U” “C” “Y”.
- Quem é Lucy? – Nathan perguntou.
Minha respiração falhou no mesmo instante.
Mãe?
- Muito engraçado, Edward. - Josh retirou o dedo e se levantou.
- Josh, não! - mas era tarde demais.
- Você não quer continuar com essa palhaçada, não é?
- Gente, eu fiz o “sim”, mas eu não escrevi Lucy. – Ed se delatou.
Josh bufou.
- Eu sabia que você só queria nos fazer medo.
- Eu estou falando sério! Por que eu escreveria, Lucy? Esse nome nem é bonito.
Todos se levantaram enquanto eu continuava sentada, estática.
- Você sempre faz isso, nem sei por que me dei o trabalho de aceitar fazer papel de bobo novamente.
- Será que vocês podem acreditar em mim?
De repente as velas se apagaram e a Emma soltou um grito alto e agudo devido ao susto. Me levantei estática com tudo aquilo.
- Gente, eu juro que não foi eu. – Ed sussurro.
Nathan andou até a sacada, puxando a cortina.
- Foi apenas o vento.
Todos respiravam aliviados ao notar que eu havia esquecido a porta da sacada aberta. Mas o que não explicava “Lucy”.
A luz do quarto se acendeu e todos deram um pulo de susto até verem o John parada na porta do quarto com uma cara nada boa.
- O que está acontecendo aqui?


Continua...



Nota da autora: Sem nota.

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