Prólogo
7 de dezembro de 2013
Lucy não conseguia segurar as lágrimas. Havia escondido a verdade por tanto tempo que, por um momento parecia mais fácil deixar tudo como estava. Já não podia alimentar a mentira, não mais. Tinha chegado ao limite. Assim como ele. O homem a sua frente era apenas uma sombra de quem costumava ser, e ela sabia que não podia culpá-lo por isso. Afinal sua própria covardia havia ajudado a moldar aquela versão sombria dele. Agora, estava prestes a pagar o preço por ter mentido por tanto tempo. O medo estava estampado em seus olhos, sua respiração entrecortada fazia eco no galpão vazio. A verdade não deveria doer tanto certo, certo? Mas parecia correr cada pedaço do seu ser, como se cada palavra não dita fosse uma faca cravada em seu peito.
Ele, por outro lado, estava no auge da sua alienação, convencido de que o que estava prestes a fazer era justo, talvez até libertador. O olhar de Lucy se arregalou ao ver a arma apontada em sua direção, o cano frio refletindo a pouca luz que atravessava as janelas quebradas.
- Não... por favor! - Suplicou, a voz quase um sussurro.
Ele não vacilou.
- Eu vou acabar com a sua vida... Assim como você fez com a minha.
O som do disparo ecoou pelo galpão, silenciando qualquer resquício de esperança. No instante seguinte, Lucy era apenas um corpo frio e imóvel no chão.
E ele, parado ali, com o peso do revólver na mão e o vazio preenchendo o seu peito, finalmente entendeu que vingança não se parecia nem um pouco com o alívio.
Capítulo 1 - O Início
Brooklyn’s POV:
Green-Wodd Cemetery 500, 25th Stree. Brooklyn, NY.
Agachei-me com cuidado, depositando as flores preferidas dela na lápide. Sem ao menos perceber, uma lágrima caiu junto, depois outra e então eu já não conseguia mais contá-las. Sempre que vinha visitá-la, parecia inevitável chorar, como se cada lágrima fosse uma tentativa frustrada de aliviar o vazio que ela deixou. O peito doía e eu sentia como se o peso de mil lembranças estivessem me esmagando. Limpei algumas lágrimas com a palma da mão e, com o mesmo gesto trêmulo, passei os dedos por cima do nome gravado com delicadeza: “Lucy Bennette”. Só de pronunciar o nome, um soluço escapou, quebrando o silêncio ao meu redor. Não consegui me manter firme, então me sentei no chão duro e úmido, sem me importar com a sujeira ou com vento gelado que fazia minhas mãos tremerem mais ainda.
- Oi, mamãe... – murmurei, tentando segurar o choro. - Como a senhora está? - Minha voz oscilou, como se minha garganta estivesse presa por um nó. - Se serve de consolo... não estou melhor do que você. - Acariciei a foto preta e branca, tentando ignorar o aperto no peito. Um sorriso tímido escapou quando lembrei que nem tudo foi só dor. Era bom poder me agarrar a essas memórias nos momentos mais difíceis.
- Eu só queria que soubesse que venceu. – continuei, sentindo uma pontada de orgulho misturada com tristeza. - Estou indo para Manhattan para recomeçar. O John me matriculou em uma dessas escolas para esnobes que eu sempre detestei. - Um riso fraco e amargo escapou. – Daqui alguns anos, vou estar morando em uma república e ir para a faculdade... como a gente sempre sonhou.
Fechei os olhos por um instante, tentando visualizar a nossa vida, longe daquele lugar que chamávamos de lar. Ela sempre dizia que eu merecia mais, que um dia seria livre, mas liberdade parecia tão amarga sem ela por perto.
- Também quero que saiba que isso não é uma despedida. - Acrescentei, respirando fundo. - Onde eu estiver, você estará comigo. Sempre!
Eu sabia que aquilo era verdade, mas a sensação de estar sozinha minha esmagava. Era a primeira vez que eu ficava tão longe dela... tão longe de alguém que realmente me entendia. A dor de não poder compartilhar cada detalhe da mudança, cada insegurança sobre o futuro, me consumia como fogo lento. De repente, um vento forte passou por mim, espalhando algumas pétalas e trazendo folhas secas que dançavam ao redor da lápide. Olhei para a foto dela, que sorria para mim, e por um breve instante, senti como se ela estivesse ali, me dando coragem para seguir.
- Eu também te amo. - Sussurrei, deixando as lágrimas correrem livremente. De alguma forma, eu sabia que ela estava feliz por me ver partir, por me ver tentar. Mas isso não tornava saudade menos dolorosa.
O vento cessou e o cemitério voltou ao seu silêncio habitual. Fiquei ali, sentada no chão frio, deixando que a presença dela me envolvesse mais uma vez. Mesmo que só na minha imaginação.
2 anos depois:
The Elsinore – Upper East Side
05/09/2015
- Brooke?
John me chamou ao entrar na sala. Ele estava um charme, todo engomadinho e descabelado. Coloquei meu livro sobre a mesa e me levantei, tentando esconder o sorriso.
- Está tentando impressionar mais alguém além dos seus sócios hoje? – Perguntei, ajeitando a gravata dele. Ele riu para mim, meio desconcertado. - Preciso mesmo ir? - Fiz minha melhor expressão de cansaço.
- Você sabe que vou fechar um contrato importante hoje e preciso passar a melhor impressão possível.
Suspirei derrotada e coloquei as mãos na cintura. Ele ficou me encarando com uma expressão curiosa.
- O que foi?
- Você estava muito distraída quando eu cheguei. Tive que te chamar umas três vezes. - E foi até o armário e tirou de lá um vinho branco, servindo um pouco para si mesmo.
Inspirei profundamente antes de responder:
- Estava pensando no James e na Lucy.
John se engasgou levemente com o gole que acabara de dar. Era sempre assim quando eu mencionava os meus pais. Ele limpou a garganta e colocou o copo sobre a bancada, visivelmente desconfortável.
- Só queria entender por que eles brigavam tanto...
- É realmente um assunto complicado. - Ele virou de costas para mim, mexendo distraidamente na garrafa de vinho.
- Tem certeza de que não consegue se lembrar de mais nada? – insisti, seguindo os seus passos.
Ele ficou um tempo em silêncio antes de responder, como se escolhesse as palavras com cuidado.
- Brooklyn, por mais próximo que eu fosse dos seus pais, eles nunca foram muito abertos sobre os problemas pessoais. Fiquei surpreso quando soube que James tinha ido embora de casa. Tentei falar com ele, mas não tive sucesso; e sua mãe... - ele se virou, os olhos carregados de uma tristeza silenciosa.
- Minha mãe...? – incentivei, esperando que ele finalmente dissesse algo que fizesse sentido.
John balançou a cabeça, como se afastasse um pensamento incômodo.
- Você se parece tanto com ela.
Abaixei o olhar, tentando esconder a decepção. Aquela frase sempre vinha acompanhada de um silêncio pesado, como se fosse a única coisa que ele realmente soubesse dizer. Eu queria mais, queria detalhes, lembranças, qualquer coisa que me ajudasse a montar o quebra-cabeça dos meus pais.
- O que importa agora é que tudo isso já passou e você precisa seguir em frente. - Ele me puxou para um abraço apertado e reconfortante.
- Eu sei. - Me desvencilhei do abraço, forçando um sorriso. - Preciso me arrumar.
- Como assim? Não vai de calça jeans e camiseta? Estou chocado. - Ele riu, tentando aliviar o clima.
- Infelizmente nem tudo é do jeito que queremos, né?
- Encontro você lá? – perguntou, jogando blazer por cima da camisa social.
- Claro.
John me lançou um último olhar preocupado antes de sair, e eu fiquei ali, tentando não pensar no que ele não dizia. Por mais que eu quisesse respostas, talvez a verdade fosse que ninguém realmente sabia por que tudo desmoronou tão de repente.
***
Lincoln Square – West 67th Street
O carro preto deslizava pelas ruas do Upper West Side, e por um instante o mundo parecia menos simétrico. As calçadas estavam cheias, o ar cheirava café e pão de verdade e havia pessoas correndo com mochilas nas costas em vez de maletas de couro italiano. Aqui tudo é menos... engomado. Encostei a testa no vidro e pensei na minha casa. No The Elsinore, tudo tem um brilho sutil. Até o silêncio parece bem treinado. E eu gosto disso, na verdade. Depois que minha mãe morreu, foi ali que eu entendi o que era a estabilidade. John não é um cara fácil, mas ele me deu o que ninguém mais quis: um lar. E, sinceramente, depois dos meus pais, eu não o trocaria por ninguém nesse planeta; nem Nana e nem Simon, que fazia piadas ruins e me chamava de “senhorita B” desde o dia em que cheguei. Mas aqui no bairro da Emma, as coisas têm outro tipo de vida. Mais soltas. Mais bagunçadas. Mais... reais, talvez. O carro parou em frente ao The Beaumont Residences, prédio onde Emma mora com os pais. Sem manobristas com luvas brancas, sem fontes dançantes na entrada, só um porteiro lendo o jornal e uma senhora regando plantas na varanda do primeiro andar. Subi até o 12º e bati na porta. Ouvi passos apressados, um grito abafado da mãe dela, pedindo para alguém devolver o livro da Virgínia Woolf ao lugar certo, e então a porta se abriu.
- Quem é você e o que fez com a minha amiga Brooklyn. - Emma arregalou os olhos ao abrir a porta, mas logo seu olhar desceu até os meus pés. – Ah, aí está você.
Ela se referiu aos meus clássicos all stars.
- Tudo na vida tem um limite. - Sorri enquanto passava pela porta.
- Você chegou cedo. - olhou para o relógio em seu pulso, ainda de meia e camiseta.
- Cheguei no horário. Você quem vive em um universo alternativo onde os minutos têm outro valor. - Andamos até o seu quarto.
O apartamento dela parecia uma versão intelectual do caos. Tem livros em todas as superfícies planas possíveis, quadros tortos na parede e um cheiro constante de incenso com café. Gosto daqui. Parecia que tudo estava vivo e opinando sobre algo.
- Você está animada para evento do John? - ela perguntou, pegando um colar de cima da escrivaninha.
- Animada? Super. Mal posso esperar para fingir que me importo com o discurso do banqueiro alemão sobre investimento sustentável. – falei, irradiando ironia.
Ela riu.
- Você adora isso. - Me viu sentar na cama.
- Eu aprecio. Principalmente quando tem canapé de salmão. E o Jonh tentando sorrir, o que é basicamente um milagre de Natal fora de época.
Ela sumiu no closet e voltou já vestida, elegante e clássica como sempre. Emma tem esse jeito de parecer pronta mesmo quando não está. Ela prendeu o cabelo com grampo dourado e me observou por um segundo, com um olhar meio calculado, meio hesitante. Reconheço esse olhar. Ele sempre vem antes de alguma pergunta que ela ensaiou três vezes antes de realmente perguntar.
- Brooke... - começou ela, casualmente. - Você lembra do Brian?
Arqueei a sobrancelha.
- Cabelos perfeitos, ego inflado e memória muscular zero. – disse, sem nem pensar muito.
Emma tentou não rir, mas falhou. Depois baixou o olhar como se estivesse sentindo culpa por algo.
- Então... Eu esbarrei com ele na aula de inglês antes das férias. A gente tem conversado. E... Ele me chamou para sair.
Silêncio. Não dramático. Só longo o suficiente para ela perceber que eu ainda estava viva e respirando.
- Emma, eu namorei esse garoto por um mês. Que, no tempo emocional de uma jovem adolescente, é o equivalente a um jantar ruim.
- Então você não se importa?
- Você tem minha benção. - Fui direta, antes que ela começasse a lista de prós e contras.
No segundo seguinte, Emma praticamente pulou em cima de mim os olhos brilhando, como os de um gato pidão.
- Tem certeza? -ela estava um fio de começar a ronronar.
Brian era meu ex. Porque, nas palavras do Ed: “Qualquer coisa que dure mais do que uma semana com Brooklyn Bennette já é um compromisso vitalício.”
Mas Brian e eu éramos um desastre ambulante. Tipo aqueles filmes em que o casal principal claramente nunca devia ter saído da fase do trailer. Eu estava tentando ser a nerd focada nas notas da Trinity, enquanto ele era o cara popular que achava que Shakespeare era o nome de uma banda indie.
- Tenho certeza. Só estou curiosa para saber porque, de repente, ele quis se aproximar de você. - Fui até o espelho para ajeitar o cabelo, enquanto Emma me lançava um olhar de suspeita.
- Você acha que ele está me usando para te atingir?
- Eu acho que ele está te usando para ver se ainda sabe usar o cérebro. - Dei de ombros. – Mas, sinceramente, se alguém precisa de um mapa para encontrar o próprio QI, já perdeu o direito de me atingir faz tempo.
- Você o acha um idiota. - Emma suspirou.
- Não acho. Tenho certeza - me virei para ela
Ema bufou e colocou as mãos na cintura.
- Brooke, você é a pessoa mais reservada que eu conheço. Mesmo que estivesse ofendida, nunca diria. Tem medo do que eu posso pensar.
Eu sabia que ela estava certa. Eu tinha esse talento especial para engolir as coisas e fazer de conta que estava tudo bem. Uma péssima combinação com meu talento para atrair encrenca.
- Emma... - comecei, mas ela me interrompeu, já de pé.
- Relaxa! Eu não estou apaixonada por ele. Só estou curiosa para saber como alguém consegue ter tanto músculo e tão pouca substância.
- Ok, ponto válido. – ri, cruzando braços.
- E nem vamos namorar ou algo assim. Vamos só sair por uma noite e depois fingir que nunca nos conhecemos.
- Aí está um conceito que ele domina. - brinquei.
- E ainda podemos colocar em prática o plano do Ed de te arranjar um namorado rico. Segundo ele, não tem lugar melhor do que os eventos do John.
Eu a encarei, incrédula.
- Não estou procurando um namorado. Principalmente se ele tiver a idade do John e frequentar eventos em que discutem quantas ilhas particulares são aceitáveis para ser um ser humano decente.
- Você precisa conhecer alguém e seguir em frente.
- Quer saber, se vocês parassem de falar tanto sobre isso, eu já tinha seguido em frente.
- Deixa eu te ver. - ela deu um passo para trás e abriu um sorriso orgulhoso. - Está linda, Brooklyn. Tenho certeza de que vai chamar a atenção de alguém hoje.
Revirei os olhos.
- Vocês nunca vão desistir de me verem com alguém, não é? - perguntei, enquanto saímos do quarto?
- Meu objetivo de vida. - ela piscou.
Eu suspirei, tentando ignorar o pressentimento de que essa noite iria ser mais longa do que eu esperava.
***
The Quin – 101 West 57th Street, at Sixth Avenue, New York, NY 10019, EUA
O The Quin é, sem dúvidas, um dos hotéis mais bem localizados de New York. Por isso, figurões como John sempre realizam seus eventos aqui. Manter as aparências nessa cidade não é apenas um capricho, mas uma necessidade. Basta passar pelo saguão para entender o motivo: você sempre vê famosos circulando e as pessoas mais importantes, como presidente ou os donos da Madison Square Garden, parecem estar sempre por perto, embora eu não saiba dizer quem são, já que raramente vou a shows. Emma adora esse lugar porque simplesmente podemos caminhar até a quinta avenida e voltar sem sermos notadas, de tão perto que fica. O lobby é um espetáculo à parte: lustres de cristal pendem do teto alto, lançando reflexos cintilantes no chão de mármore impecavelmente polido. Quadros coloridos adornam as paredes, exibindo retratos icônicos de figuras históricas e culturais.
Chegamos ao The Quin com 10 minutos de antecedência, o que para John significava atraso, e para o resto do mundo significava pontualidade exemplar. O saguão do hotel estava impecável como sempre. Um tapete persa que parece não conhecer sapato sujo, garçons alinhados com bandejas cheias de taças que nunca esvaziam e um piano tocando alguma peça clássica que me fazia lembrar comerciais de perfumes francês. Emma segurava a bolsa com as duas mãos, como se estivesse entrando num tribunal. Já eu... estou fingindo que não estou reparando em quantas pessoas medem o vestido dela ou o batom que escolhi. A elite de Manhattan é sutil como interrogatório da CIA. O salão principal já estava cheio. Homens de terno com nomes de três sílabas e mulheres com cabelos que claramente custaram mais que minha bolsa favorita. Spot de luz quente, som abafados de conversa e pratos de entrada com nomes que exigem dicionário.
E lá estava ele. John.
Alto, elegante, terno escuro feita sob medida, aquele olhar de: “estou ocupado mesmo quando estou parado”, cumprimentando alguém do conselho de investidores do Queens Museum, ou algo assim. Quando ele me viu, o semblante mudou quase imperceptivelmente.
Quase.
- Brooklyn. – usou um tom neutro que ele só reserva para mim e para reuniões sobre patrimônio.
- John. - respondi no mesmo tom, e então ele me olhou com uma expressão que seria ternura, se ele fosse capaz de demonstrar ternura sem parecer um CEO pedindo desculpas por demitir alguém.
- Você está linda. – disse, finalmente. Sincero, mas econômico.
- Obrigada. Emma também. Embora não pareça, mas ela demorou apenas duas horas para decidir o colar.
Ela me beliscou de leve.
- Emma, sempre bom ver você. – ele a cumprimentou, e até sorriu um pouco.
- Obrigada por nos convidar. O lugar está maravilhoso. - ela respondeu, sempre educada, sempre elegante. Emma é o tipo de pessoa que até agradece ao garçom em francês, mesmo que ele seja de New Jersey.
- Vou precisar conversar com alguns convidados, mas fiquem à vontade. Ah, e evitem um senador com um lenço no bolso, ele gosta de contar histórias de quando jogava golfe com ex-presidentes.
Ele se afastou com a mesma precisão com quem chegou. Eu olhei para Emma.
- Lembrete: Se eu algum dia disser que quero virar adulta funcional, me bata.
- Você já é. Só que disfarça com sarcasmo.
***
O lounge, com seus sofás de veludo e mesas de madeira escura, estava lotado de adolescentes tentando conseguir bebida alcoólica com identidades falsas, incluindo alguns dos meus amigos que se espremiam no balcão sob os olhares atentos dos bartenders. Peguei uma limonada gourmet quando vi Ed tentando convencer a bartender com seu francês falso.
- Senhorita, pour moi e meus camaradas, um... champagne brut. Très lègér. Très alcoolisè. - ele recitou, me fazendo sentir vergonha por ele.
- Brutt nem é doce, idiota.
- Mas parece chique! - Ed rebateu, ajeitando a gola como se isso ajudasse.
Josh, de terno azul-marinho e gravata mal colocada, parece o mais nervoso dos três. É o mais engraçado, também.
- Alguém aqui tem certeza de que vocês não estão infringindo um tipo de lei federal? - Emma os questionou.
- Várias. – respondi, cruzando os braços e interrompendo a performance.
Os três se viraram ao mesmo tempo e me olharam incrédulos, como se eu tivesse estragado o disfarce deles.
Dei de ombros.
- Estão ansiosos para as aulas? - perguntou Nathan, enfim com o seu copo de Cuba Libre sem rum, parecendo relutante em tomar um gole.
- Não me importaria em prolongar as férias por mais algumas semanas.
- Falou a nerd que não via a hora de fazer os simulados para faculdade. - provocou Ed, rolando os olhos de maneira dramática. - Você terminou a redação de história antes do professor terminar de explicar a proposta. - ele rebateu, erguendo uma sobrancelha. - A gente ainda estava escolhendo a cor da caneta.
- Você sabe que a professora Harper já desistiu de tentar te pegar desprevenida, né? Ela agora só finge surpresa quando você responde tudo. - Josh se juntou ao grupo para implicar comigo.
- Ela piscou 3 vezes na última aula quando a Brooklyn corrigiu o livro didático. – disse Nathan. – Foi um pedido de socorro em código Morse. - completou com um sorrisinho cúmplice, enquanto tomava um gole do seu refrigerante disfarçado de coquetel, depois me abraçou de lado, parando as provocações. – Josh e eu vamos tentar conseguir uma bebida que preste. Vocês vêm?
- Não posso, John vai notar se eu sumir. – respondi, tentando parecer despreocupada, mas com um leve toque de inveja por ele.
- Eu topo. Não dá para aguentar muito tempo aqui sóbrio. - comentou Ed, se levantando para acompanhar os meninos.
- Vão na frente. - o olhar de Emma desviou. Foi rápido. Rápido o suficiente para tentar esconder, mas devagar o bastante para eu perceber. Aquele tipo de movimento que se aprendi a decifrar quando se conhece alguém tão bem.
Segui o olhar dela antes mesmo de pensar se deveria.
Brian.
Ele estava a poucos metros de nós, no centro do saguão, encostado casualmente no piano de cauda. Camisa social aberta nos dois primeiros botões, aquele sorriso torto que sempre usou como escudo e charme, mas que agora parecia ligeiramente mais artificial do que eu lembrava.
Emma se virou para mim devagar, o olhar brilhante.
- Eu já volto.
Assenti, mantendo o sorriso no rosto, mas não me sentindo confortável com aquela situação.
***
- Encantado. - disse um senhor de cabelo grisalho e gravata borboleta, apertando minha mão como se eu fosse uma medalha de honra. - Você quer seguir os passos do John, jovenzinha?
Sorri, tentando-o fazer parecer engraçado.
- Ah! Ainda estou decidindo se vou dominar o mundo, ou só o Upper East Side.
Todos riram. A piada funcionou. Ponto para mim
John colocou a mão carinhosamente nas minhas costas.
- Ela tem um pensamento crítico fora do comum. Redige textos que fariam muito colunista de jornal repensar a carreira.
- É impressionante. - outro empresário, esse com sotaque britânico, ergueu a taça de vinho, como se estivesse me brindando. - E só dezessete anos?
- Dezessete e meio. – corrigi, antes que o orgulho do John me afogasse ali mesmo, no tapete caríssimo do salão.
Respirei fundo, sentindo o ar denso, saturado de conversa adulta, elogios que pareciam troféus falsos e olhares tortos que me analisavam como um projeto de sucesso, e não como alguém que só queria ficar uns cinco minutos longe da vitrine.
- Com licença. – pedi, erguendo minha clutch, como quem levanta a bandeira branca. - Meus amigos aguardam por mim.
Vi o olhar de John me encarar, sabendo que eu estava apenas inventando uma desculpa para não permanecer, mas o seu sorriso escondido entregava que ele não se importava, só que já esperava a minha reação.
Parei em frente alguns quadros, fingindo que entendia alguma coisa de arte, quando senti uma lufada quente no meu ouvido:
- Nossa, que perfume maravilhoso. - o cheiro forte do álcool vinha acompanhado de um sotaque que eu não fazia ideia de onde era.
Revirei os olhos.
- Pois é, me disseram que era repelente contra cantadas cafajestes, mas pelo visto não funciona.
Ele soltou uma risada baixa, claramente não captando que isso era um: “não, obrigada” com letras garrafais.
- Seu namorado não deveria deixar uma garota linda como você sozinha por aí.
Ri de leve, não me dano o trabalho de olhar para ele.
- Essa é uma daquelas táticas para descobrir se eu estou namorando ou uma tentativa de me convencer de que alguém realmente me acha irresistível?
- Talvez um pouco dos dois. - respondeu ele, sem perder o ritmo.
Virei-me para encará-lo, pronta para soltar outra resposta atravessada, mas parei por um segundo, surpresa ao notar que ele era jovem, talvez um ano mais velho do que eu, e tinha aquele visual meio: “sou bonito e sei disso”. Alto, pele clara, cabelos escuros que se enrolavam nas pontas e olhos claros que brilhavam com uma confiança quase irritante. A boca rosada se curvava em um meio sorriso que dizia: “Eu sempre ganho.”
- Ou talvez eu só queira saber algo sobre você. Seu nome, por exemplo.
- Fala sério... - disse em meio a um sorriso irritado.
- Mora em Manhattan?
Fiz cara de paisagem.
- Estuda? Trabalha...
Agora eu encarei de verdade, arqueando a sobrancelha.
- Por que não me fala algo sobre você? - Ele perguntou, cruzando os braços, como se tivesse genuinamente interessado em me conhecer.
- Porque eu não sou da sua conta! - Disse de maneira óbvia.
Ele piscou algumas vezes, meio surpreso, antes de abrir um sorriso ainda maior.
- Tá... Acho que você não vai cair no meu charme.
Dei um meio sorriso de volta.
- E você realmente acha que alguém já caiu?
Ele semicerrou os olhos, mas parecia mais intrigado do que ofendido. Depois de alguns segundos deu de ombros, rindo de leve.
- Você é interessante. Vou te deixar me odiar em paz. - disse ele, saindo com aquele andar meio debochado, como se ser dispensado fosse uma vitória pessoal.
Observei se afastar e soltei um suspiro de alívio. Pelo menos alguém desse evento sabia a hora de desistir.
***
Josh havia voltado há uns 10 minutos e estava sozinho, me fazendo companhia enquanto debatíamos sobre a volta às aulas. Seria interessante, já que era o nosso último ano na Trinity. Depois disso, cada um de nós seguiria caminhos diferentes. Enquanto todos já tinham certeza do que iriam cursar na faculdade, eu transitava entre a vontade do John de me transformar na próxima filantropa publicitária e o meu sonho de ser escritora. Talvez eu pudesse ser ambos, mas ainda tinha um ano letivo para decidir.
Estávamos no meio dessa conversa, quando vi Emmalyn e Brian ao fundo, rindo e flertando. Arregalei os olhos ao vê-lo se aproximar e beijá-la bem no meio de todo mundo. E Emma não parecia se importar nenhum pouco. Uma pontada desconfortável atravessou meu peito. Mas o que era aquilo? Ciúmes do meu ex? Impossível! Esperar consideração da minha melhor amiga? Eu fui a primeira a dar o incentivo... Então, por que aquilo estava me incomodando?
- Tudo bem? - Josh perguntou, franzindo a testa?
- Preciso ir ao banheiro. - Respondi rapidamente, levantando antes que ele pudesse dizer qualquer coisa.
Caminhei até o banheiro, tentando organizar a confusão na minha cabeça. Brian e eu nunca fomos nada sério, só um “teste”. Eu não estava pronta para um relacionamento, então por que eu me importaria agora? Olhei para o espelho, vendo meus olhos marejados, quando o som de passos interrompera meus pensamentos.
O mesmo rapaz da cantada furada saiu de dentro de uma cabine, segurando uma bolsa.
- Noite difícil? - Perguntou, com um sorrisinho que eu já sabia que não prestava. - Agora estou curioso para saber quem foi que conseguiu apertar o botão de “emoção” da garota fria.
- O que quer dizer? – Perguntei, semicerrando os olhos.
- Antes, seus olhos estavam frios, tipo: “nada me abala”, mas agora... parecem de um panda carente.
- Foi apenas um cisco. - respondi, limpando os olhos rapidamente.
- Ah, claro, um cisco emocional. Acontece.
- Isso não é um banheiro feminino? - Apontei para a placa na porta.
- Ótima observação. - ele disse, sem nem disfarçar o sarcasmo.
- , eu...- uma garota saiu de outra cabine e parou ao me ver. - Quem é?
- Uma amiga. - respondeu simplesmente.
- Amiga? - ela perguntou, desconfiada.
- Amiga? - Repeti, com um tom abismado.
- Então você tem namorado, afinal? - ele perguntou, ignorando completamente o questionamento da garota. - Não consigo imaginar outro motivo para alguém vir chorar no banheiro no meio de uma festa tão chata. A não ser que estejam te matando de tédio, é claro.
Revirei os olhos, tentando manter a compostura.
- Não. - Respondi imediatamente.
- Então por que parece que você quer chorar? - O tal cruzou os braços, ajeitando a bolsa no ombro, como se estivesse prestes a assistir um drama intrigante.
- Eu não tenho namorado. - esclareci, com um tom firme.
Os dois me olharam como se eu tivesse acabado de revelar um segredo chocante.
- Hoje é seu dia de sorte. - disse , com um sorriso irônico. - Helena é a melhor conselheira amorosa que você vai conhecer.
- Ele tem razão! - A garota sorriu animada. - Falar sobre o que incomoda ajuda. Além do mais... Quais as chances de nos vermos de novo?
Olhei para os dois, que me encaravam com se eu fosse uma protagonista de novela, e suspirei. Talvez falar com completos estranhos não fosse a pior ideia.
- Talvez... Eu tenha dado carta branca para minha melhor amiga sair com meu ex, mas senti algo estranho quando vi os dois juntos.
- Isso não se chama ciúmes? - Helena olhou para , que deu de ombros.
- Eu não tenho sentimentos por ele. - respondi rapidamente.
- Então... Orgulho? - O garoto arqueou uma sobrancelha.
- Orgulho? Não sou egoísta. Quero que ele seja feliz.
- Mas não com a sua melhor amiga. - Ele rebateu, cravando os olhos dos meus. - Você ficaria com algum ex-namorado dela?
- Claro que não! - Respondi me sentindo ofendida.
- Por quê?
- Porque seria uma... - minha voz falhou.
- Traição? - Ele completou, como se estivesse decifrado o enigma óbvio. - É assim que você está se sentindo agora?
- Eu sabia de tudo. – murmurei.
- Mas não sabia que se sentiria dessa forma.
- Foi um risco que eu assumi. - dei de ombros.
O tal soltou um suspiro teatral.
- Pode ser o álcool falando, mas acho que todo mundo precisa ser um pouco egoísta de vez em quando. Não dá para viver realizando as vontades dos outros, enquanto eles talvez não façam o mesmo por você.
Helena sorriu, claramente impressionada.
- , estou surpresa! - E se virou para mim. - A propósito, eu sou Helena.
- Brooklyn. – respondi, esboçando um sorriso sem graça.
me lançou um último olhar, como se quisesse dizer que eu ainda não tinha entendido metade do que eu estava sentindo e saiu, jogando a bolsa no ombro como se fosse um troféu.
Green-Wodd Cemetery 500, 25th Stree. Brooklyn, NY.
Agachei-me com cuidado, depositando as flores preferidas dela na lápide. Sem ao menos perceber, uma lágrima caiu junto, depois outra e então eu já não conseguia mais contá-las. Sempre que vinha visitá-la, parecia inevitável chorar, como se cada lágrima fosse uma tentativa frustrada de aliviar o vazio que ela deixou. O peito doía e eu sentia como se o peso de mil lembranças estivessem me esmagando. Limpei algumas lágrimas com a palma da mão e, com o mesmo gesto trêmulo, passei os dedos por cima do nome gravado com delicadeza: “Lucy Bennette”. Só de pronunciar o nome, um soluço escapou, quebrando o silêncio ao meu redor. Não consegui me manter firme, então me sentei no chão duro e úmido, sem me importar com a sujeira ou com vento gelado que fazia minhas mãos tremerem mais ainda.
- Oi, mamãe... – murmurei, tentando segurar o choro. - Como a senhora está? - Minha voz oscilou, como se minha garganta estivesse presa por um nó. - Se serve de consolo... não estou melhor do que você. - Acariciei a foto preta e branca, tentando ignorar o aperto no peito. Um sorriso tímido escapou quando lembrei que nem tudo foi só dor. Era bom poder me agarrar a essas memórias nos momentos mais difíceis.
- Eu só queria que soubesse que venceu. – continuei, sentindo uma pontada de orgulho misturada com tristeza. - Estou indo para Manhattan para recomeçar. O John me matriculou em uma dessas escolas para esnobes que eu sempre detestei. - Um riso fraco e amargo escapou. – Daqui alguns anos, vou estar morando em uma república e ir para a faculdade... como a gente sempre sonhou.
Fechei os olhos por um instante, tentando visualizar a nossa vida, longe daquele lugar que chamávamos de lar. Ela sempre dizia que eu merecia mais, que um dia seria livre, mas liberdade parecia tão amarga sem ela por perto.
- Também quero que saiba que isso não é uma despedida. - Acrescentei, respirando fundo. - Onde eu estiver, você estará comigo. Sempre!
Eu sabia que aquilo era verdade, mas a sensação de estar sozinha minha esmagava. Era a primeira vez que eu ficava tão longe dela... tão longe de alguém que realmente me entendia. A dor de não poder compartilhar cada detalhe da mudança, cada insegurança sobre o futuro, me consumia como fogo lento. De repente, um vento forte passou por mim, espalhando algumas pétalas e trazendo folhas secas que dançavam ao redor da lápide. Olhei para a foto dela, que sorria para mim, e por um breve instante, senti como se ela estivesse ali, me dando coragem para seguir.
- Eu também te amo. - Sussurrei, deixando as lágrimas correrem livremente. De alguma forma, eu sabia que ela estava feliz por me ver partir, por me ver tentar. Mas isso não tornava saudade menos dolorosa.
O vento cessou e o cemitério voltou ao seu silêncio habitual. Fiquei ali, sentada no chão frio, deixando que a presença dela me envolvesse mais uma vez. Mesmo que só na minha imaginação.
The Elsinore – Upper East Side
05/09/2015
- Brooke?
John me chamou ao entrar na sala. Ele estava um charme, todo engomadinho e descabelado. Coloquei meu livro sobre a mesa e me levantei, tentando esconder o sorriso.
- Está tentando impressionar mais alguém além dos seus sócios hoje? – Perguntei, ajeitando a gravata dele. Ele riu para mim, meio desconcertado. - Preciso mesmo ir? - Fiz minha melhor expressão de cansaço.
- Você sabe que vou fechar um contrato importante hoje e preciso passar a melhor impressão possível.
Suspirei derrotada e coloquei as mãos na cintura. Ele ficou me encarando com uma expressão curiosa.
- O que foi?
- Você estava muito distraída quando eu cheguei. Tive que te chamar umas três vezes. - E foi até o armário e tirou de lá um vinho branco, servindo um pouco para si mesmo.
Inspirei profundamente antes de responder:
- Estava pensando no James e na Lucy.
John se engasgou levemente com o gole que acabara de dar. Era sempre assim quando eu mencionava os meus pais. Ele limpou a garganta e colocou o copo sobre a bancada, visivelmente desconfortável.
- Só queria entender por que eles brigavam tanto...
- É realmente um assunto complicado. - Ele virou de costas para mim, mexendo distraidamente na garrafa de vinho.
- Tem certeza de que não consegue se lembrar de mais nada? – insisti, seguindo os seus passos.
Ele ficou um tempo em silêncio antes de responder, como se escolhesse as palavras com cuidado.
- Brooklyn, por mais próximo que eu fosse dos seus pais, eles nunca foram muito abertos sobre os problemas pessoais. Fiquei surpreso quando soube que James tinha ido embora de casa. Tentei falar com ele, mas não tive sucesso; e sua mãe... - ele se virou, os olhos carregados de uma tristeza silenciosa.
- Minha mãe...? – incentivei, esperando que ele finalmente dissesse algo que fizesse sentido.
John balançou a cabeça, como se afastasse um pensamento incômodo.
- Você se parece tanto com ela.
Abaixei o olhar, tentando esconder a decepção. Aquela frase sempre vinha acompanhada de um silêncio pesado, como se fosse a única coisa que ele realmente soubesse dizer. Eu queria mais, queria detalhes, lembranças, qualquer coisa que me ajudasse a montar o quebra-cabeça dos meus pais.
- O que importa agora é que tudo isso já passou e você precisa seguir em frente. - Ele me puxou para um abraço apertado e reconfortante.
- Eu sei. - Me desvencilhei do abraço, forçando um sorriso. - Preciso me arrumar.
- Como assim? Não vai de calça jeans e camiseta? Estou chocado. - Ele riu, tentando aliviar o clima.
- Infelizmente nem tudo é do jeito que queremos, né?
- Encontro você lá? – perguntou, jogando blazer por cima da camisa social.
- Claro.
John me lançou um último olhar preocupado antes de sair, e eu fiquei ali, tentando não pensar no que ele não dizia. Por mais que eu quisesse respostas, talvez a verdade fosse que ninguém realmente sabia por que tudo desmoronou tão de repente.
Lincoln Square – West 67th Street
O carro preto deslizava pelas ruas do Upper West Side, e por um instante o mundo parecia menos simétrico. As calçadas estavam cheias, o ar cheirava café e pão de verdade e havia pessoas correndo com mochilas nas costas em vez de maletas de couro italiano. Aqui tudo é menos... engomado. Encostei a testa no vidro e pensei na minha casa. No The Elsinore, tudo tem um brilho sutil. Até o silêncio parece bem treinado. E eu gosto disso, na verdade. Depois que minha mãe morreu, foi ali que eu entendi o que era a estabilidade. John não é um cara fácil, mas ele me deu o que ninguém mais quis: um lar. E, sinceramente, depois dos meus pais, eu não o trocaria por ninguém nesse planeta; nem Nana e nem Simon, que fazia piadas ruins e me chamava de “senhorita B” desde o dia em que cheguei. Mas aqui no bairro da Emma, as coisas têm outro tipo de vida. Mais soltas. Mais bagunçadas. Mais... reais, talvez. O carro parou em frente ao The Beaumont Residences, prédio onde Emma mora com os pais. Sem manobristas com luvas brancas, sem fontes dançantes na entrada, só um porteiro lendo o jornal e uma senhora regando plantas na varanda do primeiro andar. Subi até o 12º e bati na porta. Ouvi passos apressados, um grito abafado da mãe dela, pedindo para alguém devolver o livro da Virgínia Woolf ao lugar certo, e então a porta se abriu.
- Quem é você e o que fez com a minha amiga Brooklyn. - Emma arregalou os olhos ao abrir a porta, mas logo seu olhar desceu até os meus pés. – Ah, aí está você.
Ela se referiu aos meus clássicos all stars.
- Tudo na vida tem um limite. - Sorri enquanto passava pela porta.
- Você chegou cedo. - olhou para o relógio em seu pulso, ainda de meia e camiseta.
- Cheguei no horário. Você quem vive em um universo alternativo onde os minutos têm outro valor. - Andamos até o seu quarto.
O apartamento dela parecia uma versão intelectual do caos. Tem livros em todas as superfícies planas possíveis, quadros tortos na parede e um cheiro constante de incenso com café. Gosto daqui. Parecia que tudo estava vivo e opinando sobre algo.
- Você está animada para evento do John? - ela perguntou, pegando um colar de cima da escrivaninha.
- Animada? Super. Mal posso esperar para fingir que me importo com o discurso do banqueiro alemão sobre investimento sustentável. – falei, irradiando ironia.
Ela riu.
- Você adora isso. - Me viu sentar na cama.
- Eu aprecio. Principalmente quando tem canapé de salmão. E o Jonh tentando sorrir, o que é basicamente um milagre de Natal fora de época.
Ela sumiu no closet e voltou já vestida, elegante e clássica como sempre. Emma tem esse jeito de parecer pronta mesmo quando não está. Ela prendeu o cabelo com grampo dourado e me observou por um segundo, com um olhar meio calculado, meio hesitante. Reconheço esse olhar. Ele sempre vem antes de alguma pergunta que ela ensaiou três vezes antes de realmente perguntar.
- Brooke... - começou ela, casualmente. - Você lembra do Brian?
Arqueei a sobrancelha.
- Cabelos perfeitos, ego inflado e memória muscular zero. – disse, sem nem pensar muito.
Emma tentou não rir, mas falhou. Depois baixou o olhar como se estivesse sentindo culpa por algo.
- Então... Eu esbarrei com ele na aula de inglês antes das férias. A gente tem conversado. E... Ele me chamou para sair.
Silêncio. Não dramático. Só longo o suficiente para ela perceber que eu ainda estava viva e respirando.
- Emma, eu namorei esse garoto por um mês. Que, no tempo emocional de uma jovem adolescente, é o equivalente a um jantar ruim.
- Então você não se importa?
- Você tem minha benção. - Fui direta, antes que ela começasse a lista de prós e contras.
No segundo seguinte, Emma praticamente pulou em cima de mim os olhos brilhando, como os de um gato pidão.
- Tem certeza? -ela estava um fio de começar a ronronar.
Brian era meu ex. Porque, nas palavras do Ed: “Qualquer coisa que dure mais do que uma semana com Brooklyn Bennette já é um compromisso vitalício.”
Mas Brian e eu éramos um desastre ambulante. Tipo aqueles filmes em que o casal principal claramente nunca devia ter saído da fase do trailer. Eu estava tentando ser a nerd focada nas notas da Trinity, enquanto ele era o cara popular que achava que Shakespeare era o nome de uma banda indie.
- Tenho certeza. Só estou curiosa para saber porque, de repente, ele quis se aproximar de você. - Fui até o espelho para ajeitar o cabelo, enquanto Emma me lançava um olhar de suspeita.
- Você acha que ele está me usando para te atingir?
- Eu acho que ele está te usando para ver se ainda sabe usar o cérebro. - Dei de ombros. – Mas, sinceramente, se alguém precisa de um mapa para encontrar o próprio QI, já perdeu o direito de me atingir faz tempo.
- Você o acha um idiota. - Emma suspirou.
- Não acho. Tenho certeza - me virei para ela
Ema bufou e colocou as mãos na cintura.
- Brooke, você é a pessoa mais reservada que eu conheço. Mesmo que estivesse ofendida, nunca diria. Tem medo do que eu posso pensar.
Eu sabia que ela estava certa. Eu tinha esse talento especial para engolir as coisas e fazer de conta que estava tudo bem. Uma péssima combinação com meu talento para atrair encrenca.
- Emma... - comecei, mas ela me interrompeu, já de pé.
- Relaxa! Eu não estou apaixonada por ele. Só estou curiosa para saber como alguém consegue ter tanto músculo e tão pouca substância.
- Ok, ponto válido. – ri, cruzando braços.
- E nem vamos namorar ou algo assim. Vamos só sair por uma noite e depois fingir que nunca nos conhecemos.
- Aí está um conceito que ele domina. - brinquei.
- E ainda podemos colocar em prática o plano do Ed de te arranjar um namorado rico. Segundo ele, não tem lugar melhor do que os eventos do John.
Eu a encarei, incrédula.
- Não estou procurando um namorado. Principalmente se ele tiver a idade do John e frequentar eventos em que discutem quantas ilhas particulares são aceitáveis para ser um ser humano decente.
- Você precisa conhecer alguém e seguir em frente.
- Quer saber, se vocês parassem de falar tanto sobre isso, eu já tinha seguido em frente.
- Deixa eu te ver. - ela deu um passo para trás e abriu um sorriso orgulhoso. - Está linda, Brooklyn. Tenho certeza de que vai chamar a atenção de alguém hoje.
Revirei os olhos.
- Vocês nunca vão desistir de me verem com alguém, não é? - perguntei, enquanto saímos do quarto?
- Meu objetivo de vida. - ela piscou.
Eu suspirei, tentando ignorar o pressentimento de que essa noite iria ser mais longa do que eu esperava.
The Quin – 101 West 57th Street, at Sixth Avenue, New York, NY 10019, EUA
O The Quin é, sem dúvidas, um dos hotéis mais bem localizados de New York. Por isso, figurões como John sempre realizam seus eventos aqui. Manter as aparências nessa cidade não é apenas um capricho, mas uma necessidade. Basta passar pelo saguão para entender o motivo: você sempre vê famosos circulando e as pessoas mais importantes, como presidente ou os donos da Madison Square Garden, parecem estar sempre por perto, embora eu não saiba dizer quem são, já que raramente vou a shows. Emma adora esse lugar porque simplesmente podemos caminhar até a quinta avenida e voltar sem sermos notadas, de tão perto que fica. O lobby é um espetáculo à parte: lustres de cristal pendem do teto alto, lançando reflexos cintilantes no chão de mármore impecavelmente polido. Quadros coloridos adornam as paredes, exibindo retratos icônicos de figuras históricas e culturais.
Chegamos ao The Quin com 10 minutos de antecedência, o que para John significava atraso, e para o resto do mundo significava pontualidade exemplar. O saguão do hotel estava impecável como sempre. Um tapete persa que parece não conhecer sapato sujo, garçons alinhados com bandejas cheias de taças que nunca esvaziam e um piano tocando alguma peça clássica que me fazia lembrar comerciais de perfumes francês. Emma segurava a bolsa com as duas mãos, como se estivesse entrando num tribunal. Já eu... estou fingindo que não estou reparando em quantas pessoas medem o vestido dela ou o batom que escolhi. A elite de Manhattan é sutil como interrogatório da CIA. O salão principal já estava cheio. Homens de terno com nomes de três sílabas e mulheres com cabelos que claramente custaram mais que minha bolsa favorita. Spot de luz quente, som abafados de conversa e pratos de entrada com nomes que exigem dicionário.
E lá estava ele. John.
Alto, elegante, terno escuro feita sob medida, aquele olhar de: “estou ocupado mesmo quando estou parado”, cumprimentando alguém do conselho de investidores do Queens Museum, ou algo assim. Quando ele me viu, o semblante mudou quase imperceptivelmente.
Quase.
- Brooklyn. – usou um tom neutro que ele só reserva para mim e para reuniões sobre patrimônio.
- John. - respondi no mesmo tom, e então ele me olhou com uma expressão que seria ternura, se ele fosse capaz de demonstrar ternura sem parecer um CEO pedindo desculpas por demitir alguém.
- Você está linda. – disse, finalmente. Sincero, mas econômico.
- Obrigada. Emma também. Embora não pareça, mas ela demorou apenas duas horas para decidir o colar.
Ela me beliscou de leve.
- Emma, sempre bom ver você. – ele a cumprimentou, e até sorriu um pouco.
- Obrigada por nos convidar. O lugar está maravilhoso. - ela respondeu, sempre educada, sempre elegante. Emma é o tipo de pessoa que até agradece ao garçom em francês, mesmo que ele seja de New Jersey.
- Vou precisar conversar com alguns convidados, mas fiquem à vontade. Ah, e evitem um senador com um lenço no bolso, ele gosta de contar histórias de quando jogava golfe com ex-presidentes.
Ele se afastou com a mesma precisão com quem chegou. Eu olhei para Emma.
- Lembrete: Se eu algum dia disser que quero virar adulta funcional, me bata.
- Você já é. Só que disfarça com sarcasmo.
O lounge, com seus sofás de veludo e mesas de madeira escura, estava lotado de adolescentes tentando conseguir bebida alcoólica com identidades falsas, incluindo alguns dos meus amigos que se espremiam no balcão sob os olhares atentos dos bartenders. Peguei uma limonada gourmet quando vi Ed tentando convencer a bartender com seu francês falso.
- Senhorita, pour moi e meus camaradas, um... champagne brut. Très lègér. Très alcoolisè. - ele recitou, me fazendo sentir vergonha por ele.
- Brutt nem é doce, idiota.
- Mas parece chique! - Ed rebateu, ajeitando a gola como se isso ajudasse.
Josh, de terno azul-marinho e gravata mal colocada, parece o mais nervoso dos três. É o mais engraçado, também.
- Alguém aqui tem certeza de que vocês não estão infringindo um tipo de lei federal? - Emma os questionou.
- Várias. – respondi, cruzando os braços e interrompendo a performance.
Os três se viraram ao mesmo tempo e me olharam incrédulos, como se eu tivesse estragado o disfarce deles.
Dei de ombros.
- Estão ansiosos para as aulas? - perguntou Nathan, enfim com o seu copo de Cuba Libre sem rum, parecendo relutante em tomar um gole.
- Não me importaria em prolongar as férias por mais algumas semanas.
- Falou a nerd que não via a hora de fazer os simulados para faculdade. - provocou Ed, rolando os olhos de maneira dramática. - Você terminou a redação de história antes do professor terminar de explicar a proposta. - ele rebateu, erguendo uma sobrancelha. - A gente ainda estava escolhendo a cor da caneta.
- Você sabe que a professora Harper já desistiu de tentar te pegar desprevenida, né? Ela agora só finge surpresa quando você responde tudo. - Josh se juntou ao grupo para implicar comigo.
- Ela piscou 3 vezes na última aula quando a Brooklyn corrigiu o livro didático. – disse Nathan. – Foi um pedido de socorro em código Morse. - completou com um sorrisinho cúmplice, enquanto tomava um gole do seu refrigerante disfarçado de coquetel, depois me abraçou de lado, parando as provocações. – Josh e eu vamos tentar conseguir uma bebida que preste. Vocês vêm?
- Não posso, John vai notar se eu sumir. – respondi, tentando parecer despreocupada, mas com um leve toque de inveja por ele.
- Eu topo. Não dá para aguentar muito tempo aqui sóbrio. - comentou Ed, se levantando para acompanhar os meninos.
- Vão na frente. - o olhar de Emma desviou. Foi rápido. Rápido o suficiente para tentar esconder, mas devagar o bastante para eu perceber. Aquele tipo de movimento que se aprendi a decifrar quando se conhece alguém tão bem.
Segui o olhar dela antes mesmo de pensar se deveria.
Brian.
Ele estava a poucos metros de nós, no centro do saguão, encostado casualmente no piano de cauda. Camisa social aberta nos dois primeiros botões, aquele sorriso torto que sempre usou como escudo e charme, mas que agora parecia ligeiramente mais artificial do que eu lembrava.
Emma se virou para mim devagar, o olhar brilhante.
- Eu já volto.
Assenti, mantendo o sorriso no rosto, mas não me sentindo confortável com aquela situação.
- Encantado. - disse um senhor de cabelo grisalho e gravata borboleta, apertando minha mão como se eu fosse uma medalha de honra. - Você quer seguir os passos do John, jovenzinha?
Sorri, tentando-o fazer parecer engraçado.
- Ah! Ainda estou decidindo se vou dominar o mundo, ou só o Upper East Side.
Todos riram. A piada funcionou. Ponto para mim
John colocou a mão carinhosamente nas minhas costas.
- Ela tem um pensamento crítico fora do comum. Redige textos que fariam muito colunista de jornal repensar a carreira.
- É impressionante. - outro empresário, esse com sotaque britânico, ergueu a taça de vinho, como se estivesse me brindando. - E só dezessete anos?
- Dezessete e meio. – corrigi, antes que o orgulho do John me afogasse ali mesmo, no tapete caríssimo do salão.
Respirei fundo, sentindo o ar denso, saturado de conversa adulta, elogios que pareciam troféus falsos e olhares tortos que me analisavam como um projeto de sucesso, e não como alguém que só queria ficar uns cinco minutos longe da vitrine.
- Com licença. – pedi, erguendo minha clutch, como quem levanta a bandeira branca. - Meus amigos aguardam por mim.
Vi o olhar de John me encarar, sabendo que eu estava apenas inventando uma desculpa para não permanecer, mas o seu sorriso escondido entregava que ele não se importava, só que já esperava a minha reação.
Parei em frente alguns quadros, fingindo que entendia alguma coisa de arte, quando senti uma lufada quente no meu ouvido:
- Nossa, que perfume maravilhoso. - o cheiro forte do álcool vinha acompanhado de um sotaque que eu não fazia ideia de onde era.
Revirei os olhos.
- Pois é, me disseram que era repelente contra cantadas cafajestes, mas pelo visto não funciona.
Ele soltou uma risada baixa, claramente não captando que isso era um: “não, obrigada” com letras garrafais.
- Seu namorado não deveria deixar uma garota linda como você sozinha por aí.
Ri de leve, não me dano o trabalho de olhar para ele.
- Essa é uma daquelas táticas para descobrir se eu estou namorando ou uma tentativa de me convencer de que alguém realmente me acha irresistível?
- Talvez um pouco dos dois. - respondeu ele, sem perder o ritmo.
Virei-me para encará-lo, pronta para soltar outra resposta atravessada, mas parei por um segundo, surpresa ao notar que ele era jovem, talvez um ano mais velho do que eu, e tinha aquele visual meio: “sou bonito e sei disso”. Alto, pele clara, cabelos escuros que se enrolavam nas pontas e olhos claros que brilhavam com uma confiança quase irritante. A boca rosada se curvava em um meio sorriso que dizia: “Eu sempre ganho.”
- Ou talvez eu só queira saber algo sobre você. Seu nome, por exemplo.
- Fala sério... - disse em meio a um sorriso irritado.
- Mora em Manhattan?
Fiz cara de paisagem.
- Estuda? Trabalha...
Agora eu encarei de verdade, arqueando a sobrancelha.
- Por que não me fala algo sobre você? - Ele perguntou, cruzando os braços, como se tivesse genuinamente interessado em me conhecer.
- Porque eu não sou da sua conta! - Disse de maneira óbvia.
Ele piscou algumas vezes, meio surpreso, antes de abrir um sorriso ainda maior.
- Tá... Acho que você não vai cair no meu charme.
Dei um meio sorriso de volta.
- E você realmente acha que alguém já caiu?
Ele semicerrou os olhos, mas parecia mais intrigado do que ofendido. Depois de alguns segundos deu de ombros, rindo de leve.
- Você é interessante. Vou te deixar me odiar em paz. - disse ele, saindo com aquele andar meio debochado, como se ser dispensado fosse uma vitória pessoal.
Observei se afastar e soltei um suspiro de alívio. Pelo menos alguém desse evento sabia a hora de desistir.
Josh havia voltado há uns 10 minutos e estava sozinho, me fazendo companhia enquanto debatíamos sobre a volta às aulas. Seria interessante, já que era o nosso último ano na Trinity. Depois disso, cada um de nós seguiria caminhos diferentes. Enquanto todos já tinham certeza do que iriam cursar na faculdade, eu transitava entre a vontade do John de me transformar na próxima filantropa publicitária e o meu sonho de ser escritora. Talvez eu pudesse ser ambos, mas ainda tinha um ano letivo para decidir.
Estávamos no meio dessa conversa, quando vi Emmalyn e Brian ao fundo, rindo e flertando. Arregalei os olhos ao vê-lo se aproximar e beijá-la bem no meio de todo mundo. E Emma não parecia se importar nenhum pouco. Uma pontada desconfortável atravessou meu peito. Mas o que era aquilo? Ciúmes do meu ex? Impossível! Esperar consideração da minha melhor amiga? Eu fui a primeira a dar o incentivo... Então, por que aquilo estava me incomodando?
- Tudo bem? - Josh perguntou, franzindo a testa?
- Preciso ir ao banheiro. - Respondi rapidamente, levantando antes que ele pudesse dizer qualquer coisa.
Caminhei até o banheiro, tentando organizar a confusão na minha cabeça. Brian e eu nunca fomos nada sério, só um “teste”. Eu não estava pronta para um relacionamento, então por que eu me importaria agora? Olhei para o espelho, vendo meus olhos marejados, quando o som de passos interrompera meus pensamentos.
O mesmo rapaz da cantada furada saiu de dentro de uma cabine, segurando uma bolsa.
- Noite difícil? - Perguntou, com um sorrisinho que eu já sabia que não prestava. - Agora estou curioso para saber quem foi que conseguiu apertar o botão de “emoção” da garota fria.
- O que quer dizer? – Perguntei, semicerrando os olhos.
- Antes, seus olhos estavam frios, tipo: “nada me abala”, mas agora... parecem de um panda carente.
- Foi apenas um cisco. - respondi, limpando os olhos rapidamente.
- Ah, claro, um cisco emocional. Acontece.
- Isso não é um banheiro feminino? - Apontei para a placa na porta.
- Ótima observação. - ele disse, sem nem disfarçar o sarcasmo.
- , eu...- uma garota saiu de outra cabine e parou ao me ver. - Quem é?
- Uma amiga. - respondeu simplesmente.
- Amiga? - ela perguntou, desconfiada.
- Amiga? - Repeti, com um tom abismado.
- Então você tem namorado, afinal? - ele perguntou, ignorando completamente o questionamento da garota. - Não consigo imaginar outro motivo para alguém vir chorar no banheiro no meio de uma festa tão chata. A não ser que estejam te matando de tédio, é claro.
Revirei os olhos, tentando manter a compostura.
- Não. - Respondi imediatamente.
- Então por que parece que você quer chorar? - O tal cruzou os braços, ajeitando a bolsa no ombro, como se estivesse prestes a assistir um drama intrigante.
- Eu não tenho namorado. - esclareci, com um tom firme.
Os dois me olharam como se eu tivesse acabado de revelar um segredo chocante.
- Hoje é seu dia de sorte. - disse , com um sorriso irônico. - Helena é a melhor conselheira amorosa que você vai conhecer.
- Ele tem razão! - A garota sorriu animada. - Falar sobre o que incomoda ajuda. Além do mais... Quais as chances de nos vermos de novo?
Olhei para os dois, que me encaravam com se eu fosse uma protagonista de novela, e suspirei. Talvez falar com completos estranhos não fosse a pior ideia.
- Talvez... Eu tenha dado carta branca para minha melhor amiga sair com meu ex, mas senti algo estranho quando vi os dois juntos.
- Isso não se chama ciúmes? - Helena olhou para , que deu de ombros.
- Eu não tenho sentimentos por ele. - respondi rapidamente.
- Então... Orgulho? - O garoto arqueou uma sobrancelha.
- Orgulho? Não sou egoísta. Quero que ele seja feliz.
- Mas não com a sua melhor amiga. - Ele rebateu, cravando os olhos dos meus. - Você ficaria com algum ex-namorado dela?
- Claro que não! - Respondi me sentindo ofendida.
- Por quê?
- Porque seria uma... - minha voz falhou.
- Traição? - Ele completou, como se estivesse decifrado o enigma óbvio. - É assim que você está se sentindo agora?
- Eu sabia de tudo. – murmurei.
- Mas não sabia que se sentiria dessa forma.
- Foi um risco que eu assumi. - dei de ombros.
O tal soltou um suspiro teatral.
- Pode ser o álcool falando, mas acho que todo mundo precisa ser um pouco egoísta de vez em quando. Não dá para viver realizando as vontades dos outros, enquanto eles talvez não façam o mesmo por você.
Helena sorriu, claramente impressionada.
- , estou surpresa! - E se virou para mim. - A propósito, eu sou Helena.
- Brooklyn. – respondi, esboçando um sorriso sem graça.
me lançou um último olhar, como se quisesse dizer que eu ainda não tinha entendido metade do que eu estava sentindo e saiu, jogando a bolsa no ombro como se fosse um troféu.
Capítulo 2 - O Canadense
08 de setembro de 2015
- Brooke, verdade ou consequência? - A voz de Ed me pegou de surpresa, assim que me sentei ao lado dele. A garrafa estrategicamente apontada na minha direção já me dizia que aquilo não iria acabar bem.
- Não, obrigada. - Recusei no mesmo instante, como se estivesse fugindo de um interrogatório.
- Verdade ou consequência? - Emma repetiu, cruzando os braços e levantando a sobrancelha.
Soltei um suspiro derrotado, sabendo que aqueles dois não me deixariam em paz até que eu cedesse.
- Verdade. - Respondi com a sensação de que acabava de cair na armadilha deles.
Ed e Emma trocaram um olhar cúmplice e malicioso antes que ele abrisse um sorriso satisfeito.
- Você ainda tem sentimentos pelo Bryan?
Ah, claro... Eu sabia. Aquele joguinho repentino não tinha nada de inocente. Na noite passada, Emma e eu discutimos por causa do Bryan, mas conversamos e nos resolvemos, pelo menos era o que eu pensava até agora.
- Eu não acredito que você contou para ele. - Cruzei os braços e me levantei num pulo.
Emma tentou disfarçar o sorriso enquanto Ed fingia estar atrasado para algum compromisso imaginário.
- Nossa, está tarde. Preciso ir. - Ele olhou o celular, como se o horário tivesse mudado só para ajudá-lo a fugir. - Vejo vocês amanhã! - E sumiu em três passos rápidos.
- Covarde! - Gritei, mas ele já estava longe.
Emma começou a rir, e eu não resisti em revirar os olhos.
- Acha isso engraçado?
-Ah, Brooke, você sabe como ele é. - Ela disse, tentando disfarçar o riso.
Antes que eu pudesse responder, ela me puxou para um abraço de lado quase me esmagando.
- Sério, está tudo bem entre a gente? - Perguntou, agora com um olhar mais preocupado. Suspirei, ainda tentando entender por que aquilo me incomodava tanto. O problema não era Bryan e nunca foi. Nosso relacionamento tinha sido tão marcante quanto um post it amassado no fundo da mochila. O que me pegava era outra coisa.
- Não tem nada a ver com Bryan. - Falei, quebrando o silêncio.
Emma arqueou a sobrancelha.
- Então por que você ficou tão estranha quando viu a gente juntos?
- Porque... - Hesitei escolhendo as palavras. - Sei lá, você é minha melhor amiga e... eu só pensei que talvez você se preocupasse um pouco com o que eu iria sentir, sabe? Tipo, em vez de agir como se não se importasse.
Ela piscou algumas vezes, parecendo pensar nisso.
- Achei que você realmente não ligava.
-Não ligo! - Enfatizei, quase rindo do quão absurdo aquilo soava. - Mas, sei lá, é estranho ver vocês juntos e você agir como se não significasse nada.
Ela franziu o cenho, finalmente entendendo.
- Você queria que eu perguntasse antes?
Dei de ombros.
- Não sei. Talvez só um aviso? Tipo, um: “Ei, vou beijar seu ex no meio da festa, está bom para você?”
Emma riu, balançando a cabeça.
- Desculpa. Eu só... fiquei tão empolgada que nem pensei nisso.
- Tudo bem. - Forcei um sorriso e abracei de volta. - Só tenta lembrar que mesmo quando eu digo que não me importo, não quer dizer que eu esteja totalmente preparada para ver coisas acontecerem assim do nada.
Ela me deu um sorriso sincero.
- Prometo ser mais cuidadosa.
- Obrigada.
Emma se afastou e olhou para o relógio.
- Está mesmo tarde. Te vejo amanhã?
- Com certeza.
E assim, ela saiu com um aceno, me deixando sozinha para processar tudo. Não era sobre o Bryan, nunca foi. Era só o choque de ver a Emma agindo de um jeito que me fez sentir que talvez ela não levasse a nossa amizade tão a sério quanto eu achava.
Por mais que a gente tivesse se resolvido, ainda havia um restinho de mágoa ali. Eu só precisava de tempo para aceitar que às vezes as pessoas não enxergam as coisas da mesma forma que a gente.
Memórias ON:
- Sebastian, para! Você está machucando ela! - Supliquei, tentando desesperadamente puxar o braço dele para longe de Lucy.
- Você é uma vadia, sabia disso? - A voz de Sebastian saiu fria e calculada, enquanto suas mãos apertavam o pescoço dela com uma força desumana.
O pânico tomou conta de mim. Eu tentei empurrá-lo, socá-lo, gritar, mas nada parecia quebrar aquela bolha de ódio em que ele estava preso.
- Eu vou chamar a polícia se você não soltá-la! - Gritei, com a voz trêmula, às lágrimas escorrendo pelo meu rosto. – SOLTA ELA!
Desesperada, bati em todos os pontos possíveis do corpo dele, tentando chamar sua atenção, mas era como se eu não existisse.
- Você está machucando a minha mãe! - Berrei, sentindo meu peito queimar de medo.
Os olhos de Lucy estavam ficando vidrados, perdendo o brilho, e algo dentro de mim se partiu. Foi quando eu vi um pedaço de vidro no chão, resultado da garrafada que Sebastian deu, ao empurrá-la contra a mesa. Peguei o com toda força, sentindo a ponta afiada cortar a minha mão. Sem pensar, craveiro no braço de Sebastian. Ele gritou de dor ao soltar Lucy, e no mesmo instante minha mãe caiu no chão, tossindo desesperadamente, enquanto tentava recuperar o ar.
- Vamos! - Ela me puxou pelo braço com o pouco de força que tinha e corremos. Meu coração parecia prestes a explodir e tudo o que eu conseguia ouvir eram os passos pesado dele nos seguindo.
Com um sobressalto, acordei, sentindo o suor escorrer pela minha nuca. Meu peito subia e descia rapidamente, enquanto tentava distinguir realidade de sonho. Minha cabeça latejava, e minha respiração saía em arfadas curtas e desesperadas.
Que merda foi aquela?
Fazia tanto tempo que eu não sonhava com Lucy e Sebastian... no começo, era como um pesadelo recorrente, todas as noites eu via aquela cena, como um filme de terror, se repetindo na minha cabeça. Foram semana em claro, temendo que fechar os olhos me fizesse voltar para aquele inferno.
Depois daquela noite, me mandaram para a Inglaterra por 6 meses. Era para ser um recomeço, mas o que eu senti foi puro exílio. Uma tentativa desesperada de apagar o passado, que continuava me perseguindo. Receber a notícia da morte da minha mãe enquanto eu ainda estava lá foi como ser atingida por um caminhão. Tudo o que consegui pensar foi: “Eu não estava lá. Eu não pude protegê-la”.
Aquele dia, Sebastian tinha chegado mais cedo do trabalho e estava furioso, mais do que o normal. Ficava repetindo que havia descoberto todas as mentiras de Lucy, mas não dizia nada específico, que justificasse tamanha brutalidade. Eu não entendi o que ele queria dizer. Tudo parecia tão confuso. Tão caótico.
- Meu Deus, você está horrível. - Jonh soltou assim que me viu passar pela porta, fazendo Nana ri.
- Um pouco de descrição não faz mal, John. - Ela o repreendeu com o olhar divertido.
- Se o diretor da Trinity escuta falar o nome de Deus em vão... – Resmunguei, sarcástica, enquanto me jogava na cadeira da cozinha.
Nana não conseguiu segurar outra risada e me olhou com aquele olhar compreensivo de sempre.
- Café? – Perguntou, já se adiantando para a cafeteira.
- Por favor! - Apoiei a cabeça nas mãos e comecei a massagear as têmporas, tentando afastar a dor de cabeça que insistia em permanecer.
- Enfim, o último ano. - Ela depositou um beijo leve no topo da minha cabeça. - Acabe com eles, querida.
- Espero que não, literalmente. – Murmurei, vendo-a sair da cozinha com um sorriso de canto.
John se sentou ao meu lado e me olhou com a testa franzida.
- Noite ruim? Está com uma cara de quem não dormiu bem.
Suspirei fundo, tentando aliviar o peso que parecia ter se acumulado no meu peito.
- Tive outro pesadelo com Sebastian e Lucy.
John ficou imóvel por um segundo, a xícara paralisada no ar, a caminho da boca. Eu sabia que ele nunca reagia bem quando eu tocava nesse assunto, mas também não podia simplesmente fingir que estava tudo bem.
- É mesmo? - A expressão dele ficou séria, cautelosa.
- Sim.
- E como foi? – Perguntou, a voz meio vacilante.
Engoli em seco e passei os dedos pelos cabelos, sentindo que qualquer explicação parecia absurda.
- Foi um pouco antes de me mandarem para a Inglaterra. - Abaixei o olhar para a mesa. - Sebastian estava enforcando a minha mãe, e eu... Eu furei o braço dele com um pedaço de vidro, para que ele a soltasse.
O choque estampa o rosto de John, os olhos arregalados e a xícara, finalmente pousada na mesa.
- Você nunca me disse isso.
Dei de ombros, tentando não deixar transparecer a culpa que sempre me sufocava quando aquele episódio vinha à tona.
- Achei que já soubesse. - Levantei-me e joguei a mochila nos ombros, querendo fugir daquele ambiente sufocante. - Preciso ir.
- Tudo bem. - John também se levantou, claramente ainda processando o que eu havia dito. - Quer que eu fale com Mariah?
- Não, estou bem. - Comprimi os lábios, tentando passar firmeza.
- Tem certeza? - A voz dele estava carregada de preocupação, isso só tornava tudo mais difícil.
Concordei silenciosamente, tentando evitar seu olhar, sabendo que ele não iria engolir essa tão fácil. Sai rápido, abandonando a preocupação papável de John.
Assim que deixei o apartamento, Simon já estava de pé na portaria, com um jornal debaixo do braço e aquele sorriso de canto que ele reservava só para mim. Era quase paternal, discreto, afetuoso e sempre acompanhado de um comentário atravessado.
- Dormiu ou apenas fechou os olhos por educação? - Ele perguntou, enquanto a porta giratória fazia seu último giro. Pelo visto, eu realmente não estava com uma boa aparência.
- Um cochilo existencial entre as 3 e as 6. Sonhei que Aristóteles reprovava a minha apresentação. – Retruquei, tentando ajeitar o cachecol. Ele não precisava saber da minha crise existencial uma hora dessa do dia.
Simon deu uma risadinha abafada e abriu a porta do carro. O SUV preto me esperava com o motor ligado e o silêncio acolhedor. Anderson, meu motorista, se mantinha impecável no banco da frente: terno alinhado, rosto sereno e olhos atentos aos movimentos na calçada. - Bom dia, senhorita Bennette. - disse ele, com a formalidade de quem trata todos os dias como uma segunda-feira.
- Bom dia, Anderson. Se eu apagar no banco de trás, finja que fui convocada pela ONU. Assuntos urgentes, salvação mundial, talvez um discurso sobre ética e contemporânea.
- Registrado. Com direito aos aplausos, imagino.
O carro deslizou pelas ruas de Upper East Side com uma precisão de um relógio suíço. As avenidas começavam a encher de gente apressada, cafeterias abrindo suas vitrines e mães empurrando carrinhos como se competissem uma maratona silenciosa. Ao cruzarmos a 79th Street em direção ao central Park, o cenário se transformou. As árvores em tons âmbar, folhas secas girando no ar, um violonista solitário tocando Vivaldi perto da entrada. Por um momento, Manhattan parecia menos urgente.
09 de setembro de 2015
O carro desacelerou suavemente ao dobrar a esquina da 91st com a Amsterdam. A Trinity surgia como sempre, altiva, limpa e com aquele charme silencioso de prédio que carrega mais histórias do que alunos por metro quadrado. A fachada de tijolos vermelhos parecia ter sido polida durante a madrugada. Suas janelas cumpridas e alinhadas davam a sensação de que o colégio observava a cidade com desdenho acadêmico. O letreiro metálico com o nome da escola não precisava brilhar, ele já era lido com respeito até por quem passava sem olhar diretamente. Anderson estacionou como se estivesse coreografando uma cena de filme europeu.
- Chegamos, senhorita Bennette.
- Obrigada. – Respondi, abrindo porta antes que ele corresse para fazer isso por mim.
O ar da manhã tinha aquele cheiro de cidade prestes a ferver: café caro, gasolina e folhas de outono acumuladas na beirada da calçada. Ajustei meu casaco enquanto olhava em volta. Na entrada, o fluxo de alunos era constante. Alguns pareciam ter saído diretamente de campanhas publicitárias da Ralph Lauren; outros, como se tivessem acordado em meio à discussão filosófica. A calçada estava cheia, mas havia um grupo que se destacava: Ed com seu blazer fora do uniforme - por que ele “não queria parecer genérico”, Nathan arrumadinho demais para alguém que alegava não se importar com a escola, e Josh, equilibrando 3 cadernos e um copo de suco verde sem derramar uma gota.
- Até que enfim você chegou! – Ed disse, me puxou para o canto Parecia alegre mais do que o normal.
- Bom dia para você também, Edward. – Respondi, com meio sorriso. - Tentando ser espirituoso antes das oito da manhã? Isso devia ser ilegal.
- Então... - Ele começou, e eu já sabia que vinha encrenca. - Você já considerou, sei lá, dar uma chance para o Josh?
Disse enquanto me arrastava para dentro.
Olhei para ele com quem olha para uma piada sem graça. Aquelas que a gente respeita o esforço, mas ainda assim quer ignorar.
- Como assim, “dar uma chance?”
- Não, é sério, Brooke. O cara é legal, inteligente, gentil... E ele te idolatra em silêncio. Quase religioso, eu diria. Se ele começar a escrever salmos sobre você, eu não vou me surpreender.
Revirei os olhos.
- Ele é meu amigo, Ed. Um ótimo amigo. Isso não te parece suficiente?
- Só estou dizendo que, às vezes, as melhores histórias de amor começam com a amizade. - Ele olhou para um ponto atrás de mim. – Emma, fala para ela sobre o Josh.
- Sério que você ainda não notou que ele gosta de você? - Emma disse, enquanto destrancava o armário.
- Somos apenas amigos. - Revirei os olhos novamente.
- Amigo que beijaria você, né? – Ed completou, sorrindo malicioso.
- Além do mais, não existe amizade entre homem e mulher. - Emma disse, parecendo anunciar um fato científico.
- Mas você é meu amigo. - Constatei, apontando para Ed.
- Eu sou praticamente uma mulher. - Ele dê uma voltinha dramática.
- Se não fosse pelo seu amiguinho entre as pernas... - Emma provocou.
- Detalhe técnico. - Ed rebateu, estreitando os olhos.
Eu estava prestes a rir da cena quando avistei um garoto parado no final do corredor, perdido entre cadernos e folhas. Tentei reconhecê-lo.
- Quem é? - Ed sussurrou no meu ouvido, mirando na mesma direção que eu.
- Não sei!
- É um gato. - Eu conhecia aquele olhar. Ai não!
- Senhorita Bennette, estava te procurando. - A coordenadora Murphy surgiu, parecendo um fantasma inconveniente.
- Estava? - Franzi o senho, sem entender nada.
- A Trinity está recebendo hoje um aluno da lista de espera do terceiro ano. E como nossa melhor aluna, gostaria que o apresentasse à escola.
Melhor aluna?
- Por aqui. - Pediu, fazendo um gesto para que eu a seguisse.
Olhei para os meus amigos que estavam claramente se segurando para não rir do título de “melhor aluna”. É óbvio que a senhora Murphy só queria empurrar o serviço para alguém.
- Senhor , quero te apresentar a senhorita Bennette. Ela irá te guiar pela escola e você pode tirar quaisquer dúvidas com ela.
- Perfeito. - disse o garoto com sotaque marcante.
- Está nas suas mãos. - A coordenadora me deu um sorriso falso e se retirou.
Assim que ela saiu, finalmente reconheci quem era. O tal bêbado e talvez gay do Quin. E pela expressão surpresa dele, ele também me reconheceu.
- Brooklyn? - Perguntou.
- Achei que estivesse bêbado demais para se lembrar.
- Não tem como esquecer o primeiro fora da vida. - Ele sorriu, como se aquilo fosse algum tipo de Conquista.
- , certo?
- Exatamente. - Ele me encarou de uma forma hipnotizante. Olho no olho nunca foi o meu forte. - Você sumiu depois da nossa conversa.
- Eu esperava que você fizesse o mesmo, mas... - Vi seu cenho franzir. - Bem, parece que eu estou encarregada de lhe mostrar a Trinity School.
- Parece que sim. - Ele apontou para o corredor, se colocando no comando da situação.
- E sua amiga? - Perguntei.
- Quem?
- Aquela que estava com você no banheiro... – Esclareci.
- Ah, a Helena? Não, ela não vai estudar aqui. - Ele deu de ombros. - Ela precisou voltar para a banda dela.
- Ela tem uma banda?
- Tem. - Ele falou em um tom óbvio, tipo “o céu é azul” ou “adolescentes são dramáticos”.
Subimos as escadas enquanto tentava ignorar o fato de que ele continuava a me encarar. Parecia curioso. Ou tentando descobrir se eu era mesmo real.
- Bem... A Trinity tem um currículo impecável e regras bem rigorosas. Apesar de não termos uniforme escolar oficial, o dress code é indispensável e a escola é meio que religiosa, mas ninguém liga. A hipocrisia está no pacote.
- Religiosa? - Fiquei surpresa por ele não saber.
- Ela foi fundada por uma igreja em 1709. A ideia era formar missionários, mas hoje o que mais tem aqui é adolescente rico com crise de identidade.
- Estou começando a me sentir em casa. – Disse, modesto.
- Ótimo. - Sorri para ele. - Isso significa que você vai adorar os professores com mestrado em Harvard que acha que estamos na Ivy League.
- Ivy o quê? - Franziu a testa, genuinamente confuso.
Parei de andar por um segundo e o encarei.
- Você não sabe o que é a Ivy League?
- Deveria?
- Só se você pretende viver neste país. - Revirei os olhos com teatralidade. - É tipo clube dos sonhos molhados das universidades: Harvard, Yale, Princeton, Colúmbia... O Paraíso dos geniais e dos milionários. Ou dos geniais filhos dos milionários, o que é mais comum.
- Ah... Então é tipo um grupo de escolas top?
- Mais que top, é quase um culto. O pessoal aqui vive como se estivessem em um campo de treinamento para entrar em alguma. Faltam só os uniformes de guerra e as lágrimas engarrafadas.
- E você? - Ele me lançou aquele olhar curioso de novo. - Vai tentar alguma?
- Talvez. Se eu decidir que quero uma úlcera antes dos vinte.
Ele riu baixinho, e eu continuei andando pelo corredor com ele ao lado, ainda com aquele ar de quem está tentando absorver tudo como um turista no metrô pela primeira vez.
- Ali é a sala de literatura. - Apontei com o queixo. - A professora fala como se tivesse saído direto de um audiobook da Jane Austen e nos força a analisar poemas de gente que claramente odiava a própria vida.
- Então é tipo terapia em grupo disfarçada?
- Com nota no final. - Dei um meio sorriso. - E zero resolução emocional.
Passamos por outra porta de madeira escura, com uma plaquinha dourada que dizia: “ciências”.
- Aqui é onde aprendemos a fazer experimentos que jamais faremos fora de uma aula. Tipo dissecar sapos, mesmo que a maioria aqui não sabe fritar um ovo.
- E você gosta?
- Dissecar sapos? Só emocionalmente. – Respondi, antes de seguir para a próxima. - Essa é a sala de história. Ou, como eu gosto de chamar o lugar onde decoramos eventos que homens brancos cometeram e fingimos que aprendemos alguma lição com isso.
- Nossa. Deve ser por isso me mandaram para cá. – Murmurou , com uma cara de riso contido.
- Bem-vindo à elite educacional Americana. - Ergui as mãos como se fosse uma apresentadora de game show. - Aqui também temos matemática, onde aprendemos funções que não servem para pagar boletos, e física, onde a maior experiência é ver o seu cérebro derreter.
Passamos por um grupo de alunos estudando em círculo, cada um com o seu Mac book aberto em uma página, com uma cara de quem já desistiu da vida, aos dezessete.
- Esse é o clube de debate. – Sussurrei. - Ou como gosto de chamar: guerra civil intelectual com café gratuito.
- E você faz parte?
- Não. Tenho trauma de gente que fala como se tivesse no Senado.
Ele soltou uma risada e me seguiu até o final do corredor, onde a luz do sol batia em uma porta dupla de vidro.
- E aqui temos o melhor lugar da escola: a saída
parou meu lado, ainda rindo.
- Porque não tenta gravar isso e transformar em um tour virtual. Iria viralizar.
- Já pensei nisso. Mas ainda estou decidindo se quero ser famosa ou apenas ir embora. - Fiquei encarando a saída, até ouvir a voz dele novamente.
- Eu mal pisei aqui e já estou em dívida com você por esse tour informativo.
A voz de deboche não parecia ter um tom “grato”.
- Não se empolga. Ainda tem a cantina gourmet e o teatro que parece a Broadway.
- Parece um lugar que respira a pressão.
- Respira, engole e digere pressão. A Trinity vive aparecendo no topo do ranking de escolas mais exigentes de Nova Iorque. Você tropeça aqui e alguém já te pergunta em qual universidade da Ivy você pretende ir.
- Sei...
- E você, já tem alguma faculdade em mente?
- Meu pai quer que eu faça direito, mas eu acho que prefiro me afogar em um poço de tédio. - Bufou baixo. - Não que ele se interesse exatamente pelo que eu quero. - disse a última frase mais para ele do que para mim.
- Direito não combina com você. Talvez moda. Ou música. Ou sei lá, um curso sobre como ser teimoso. - Tentei parecer amigável.
- Moda? Música? - Ele me olhou como se eu fosse um enigma.
- Você se veste bem e pelo tom da sua ironia, parece não saber como dizer ao seu pai que não quer fazer o que ele quer. Isso grita “problema de artista”.
- Está me julgando pela aparência?
- Julgando? Não, só estou lendo as entrelinhas. É um hobby.
Ele riu. E não riso forçado, mas um riso genuíno, daqueles que escapam antes que a pessoa perceba.
- E você? Vai fazer o quê?
- Literatura inglesa. Vou me formar para criticar pessoas em forma de poesia.
- Acho que é melhor do que direito.
- Ah, pode apostar que sim!
Ele soltou um risinho baixo e percebi que ele estava mais à vontade. Só eu que ainda parecia estar em um episódio ruim de “como constranger alguém em 5 passos”.
- Você acha que eu sou gay? - Ele soltou de repente.
Quase me engasguei.
- Bem... Você deu em cima de mim bêbado, depois ficou todo introspectivo segurando uma bolsa em um banheiro feminino. A equação não bate.
- Suspeito. - Ele riu abertamente.
- Não quis ofender.
- Não ofendeu. Só é engraçado ver você tentando decifrar tudo isso.
Eu definitivamente queria um buraco para me enfiar.
- Aqui é a biblioteca. Meu lugar favorito. - Apontei para a porta de madeira clara, na esperança de mudar o foco.
- Biblioteca? - Ele arqueou a sobrancelha, parando por um segundo.
- Você sempre vai me achar aqui. Quero dizer... Quando não estiver na sala ou evitando socializar... Ou qualquer coisa que envolva pessoas de mais.
Ele espiou por cima do meu ombro, curioso. Lá dentro, a luz suave das janelas altas caía sobre as estantes como se até o sol tivesse respeito por aquele lugar. Alguns alunos estavam espalhados, mergulhados em livros ou fingindo com maestria.
- Parece tranquilo. – Comentou.
- Ninguém tenta impressionar ninguém aqui. Nem mesmo os livros. Só existem. E isso já é mais do que eu posso dizer de muita gente.
Ele ainda sorria, e de repente eu estava preocupada com o fato de estar gostando desse sorriso.
- De onde você é? Esse sotaque não é daqui.
- Canadá.
- Ah... Está um pouco longe de casa.
- Agora aqui é minha casa.
Havia uma pontada de mágoa na voz dele, mas não perguntei mais nada. Não sou exatamente a terapeuta escolar. Só dei um leve aceno e desviamos da porta, voltando para o corredor. O sinal tocou e eu não sabia se sentia alívio ou um pouco de decepção.
- Bom, veteranos não esperam, né? - Ele deu um meio sorriso.
- Bem-vindo ao show de horrores.
Ele riu de novo e se afastou. Eu fiquei ali, meio perplexa, meio intrigada e, principalmente, meio irritada por não conseguir parar de pensar no sorriso dele.
A lousa digital fazia um som de morte lenta, um chiado agudo, tipo uma barata de laboratório sendo frita em tempo real. O Sr Dunham encarava a tela preta com a mesma frustração existencial de quem apertou “concordo” nos termos do Wi-Fi e acabou perdendo a alma.
- Mais uma tecnologia que promete revolução e entrega frustração. Bem-vindos ao capitalismo. - Ele soltou, com o olhar vazio e uma gravata estampada com o rosto de Abraham Lincoln sangrando.
Ed se virou discretamente para Josh e Nathan, que estavam ocupados demais rabiscando um desenho suspeito no caderno.
- Isso foi sobre a lousa... Ou sobre a vida amorosa dele?
- Acho que sobre o cabelo. Está claramente entrando em rebelião. – Nathan respondeu sem levantar os olhos.
- Silêncio, irônicos no fundo. – Disse Dunham, com aquele tom de professor que já perdeu a fé na humanidade, mas ainda tem esperança num bom escândalo político. - Hoje falaremos sobre Watergate. Mas vamos além do “presidente grampeando salas”. Quero que pensem: o que você esconderia se fosse presidente?
Ele mirou Ed com aquele olhar de quem tem certeza de que vai se arrepender de ouvir a resposta.
- Sr. Roettinhger?
- Provavelmente a existência do meu boletim.
A sala inteira não evitou uma risada.
Dunham nem piscou.
- E você, Sr. Hunter?
Josh suspirou, e eu acho que foi só para manter o drama no nível necessário.
- Me esconderia. Ser presidente parece péssimo para ele.
Ele deu um risinho curto, quase imperceptível.
- Vocês admitem que o poder corrompe? - Os olhos voaram por toda a sala.
- Não. Eu admito que a Câmara do Senado mostra todos os ângulos errados. Principalmente aquele de cima para baixo com luz fluorescente. - Josh o respondeu com tom de ironia.
- Isso seria um ótimo motivo para o impeachment do senador do Arizona. Aquela iluminação foi um crime de guerra. – Ed completou, fazendo todos rirem mais ainda.
Dunham se animou. Tipo, o nível de animação de alguém que coleciona canecas temáticas de escândalos.
- Exatamente! Política. Poder. Imagem. Todos os escândalos começam com uma boa mentira... Ou um péssimo corte de cabelo. - Ele olhou diretamente para mim. – Srta. Bennette, o que você esconderia?
- Esconderia a verdade. Sempre. Ninguém sobrevive na política sendo honesto. Só na ficção ruim.
Ele arqueou a sobrancelha, intrigado.
- Então, você acredita que todo o escândalo nasce de uma mentira?
- Não. Escândalo nasce do ego. A mentira é só o perfume que disfarça o estrago. Mas eventualmente o cheiro real aparece. E aí vem a coletiva de imprensa, a lágrima falsa e o discurso escrito por um estagiário com crise existencial.
Ed riu baixinho do meu lado. Eu vi o Sr. Dunham sorrir, quase com orgulho. Quase.
- E o que destrói uma carreira?
- A tentativa de parecer impecável. Perfeição gera expectativa. Expectativa gera decepção. Decepção gera trending topic. E aí... Bem-vindo ao inferno.
Dunham assentiu lentamente.
- Muito bem. Trabalho para casa: criem um escândalo fictício que abalaria a Trinity. Culpado improvável. Uma tragédia elegante. E uma coletiva de imprensa onde todo mundo nega tudo com carisma.
O sinal tocou. O som da Liberdade... Ou da próxima armadilha.
Fechei o caderno.
- Posso escrever sobre a vez que alguém usou a lousa digital sem pedir ajuda espiritual antes. – Nathan resmungou.
Durante o caminho até biblioteca, esbarrei com alguém. A dor no meu ombro denunciou que aquele alguém não era nada leve.
- Fala sério... – murmurou, massageando o local.
Mesmo sem olhar, reconhecia o sotaque.
- Desculpa, Canadá. Não te vi. - O nome dele simplesmente me escapou.
- Tudo bem. - O olhar dele suavizou a notar que era eu. - Se machucou?
- Estou bem, preciso ir. – Respondi apressada, já tentando me afastar.
Mas ele segurou meu braço antes que eu pudesse dar meia volta.
- Espera. - Ele parou no corredor, meio perdido, meio bonitinho. - Acho que estou rodando em círculos. Sabe onde fica a sala de informática?
Levantei uma sobrancelha e dei uma olhada dramática por cima do ombro dele.
- Você quer dizer... Aquela sala com uma placa gigante escrito “informática” bem atrás de você?
Ele se virou devagar, encarando a porta como se ela tivesse surgido ali por feitiçaria. A risada dele veio meio sem graça, meio “me julgue, eu mereço”.
- Ah... Certo. Aquela sala.
- Como eu disse. - Puxei meu braço e tentei me afastar novamente.
- Só que eu... - sua voz me fez parar no meio do caminho.
- Você o quê?
- Pode me ajudar com o computador?
- Não sabe mexer em um computador? - Perguntei, incrédula, tentando não rir na cara dele.
Ele revirou os olhos, claramente incomodado.
- Claro que eu sei. - Respondeu, fazendo aquela cara de quem acabou de tropeçar no próprio ego. - Só não quero ser “o aluno novo que derrubou o sistema da escola no primeiro dia”.
Revirei os olhos também, mas acabei entrando na sala com ele.
- Ok, gênio da era digital. Presta atenção: botãozinho aqui atrás. Aperta. Espera. E... Voilá. Luz mágica.
A tela piscou e acendeu.
- Você é demais, obrigado.
- Não tem de quê, Canadá. - Falei, já me afastando.
Ele se sentou na cadeira e começou a navegar na internet, mas não perdi a chance de jogar mais uma piadinha:
- Só não pesquisa nada constrangedor, tá? Esses computadores são monitorados. O pessoal da TI aqui é mais fofoqueiro que os alunos.
- Eu só vou mandar um e-mail para minha família. Meu celular descarregou. Mas obrigado pelo aviso.
- Quer ajuda para escrever o e-mail também? - Provoquei, cruzando os braços.
- Muito engraçada, hein? - ele respondeu, dando um sorrisinho irritantemente charmoso. Seus olhos permaneceram fixos nos meus por um segundo a mais do que o necessário.
Senti um calor incômodo no rosto e tratei de sair dali antes que ele percebesse.
- Até mais, Canadá. Não quebra nada.
- Vou tentar não quebrar meu coração, já que você é claramente boa nisso.
Rolei os olhos, mas não conseguia esconder um sorriso enquanto saía da sala.
- Aí está você. – Emma, Josh, Ed e Nathan invadiram biblioteca como um furacão.
- Onde mais a Brooke estaria? - Josh murmurou, arqueando a sobrancelha.
- Acho que vou precisar trocar o meu esconderijo secreto. - Suspirei, enquanto recolhi os cadernos da mesa.
- Muito secreto mesmo. - Emma debochou.
- Podemos ir para outro lugar? – Nathan Fez uma careta ao olhar para as estantes. - Já passo metade do meu dia aqui. Não quero passar meu tempo livre também.
- Vamos? - Josh já estava pegando minhas coisas, como se fosse meu assistente pessoal.
- Vocês são muito chatos. - Declarei saindo atrás deles. - E feios.
- O quê? – Ed parou no meio do caminho, ultrajado. – Ah, olha só quem fala!
- Brooklyn! - Uma voz já um pouco familiar surgiu atrás de mim, me fazendo esbarrar em outro corpo pela segunda vez no mesmo dia.
Olhei para cima e dei de cara com , que, por algum motivo, tinha aquele sorriso irritante nos lábios.
- Oi. – Respondi, tentando não parecer deslocada enquanto os olhos dele praticamente me escaneavam.
Senti a mão de Ed apertar meu braço.
- Canadá, esses são meus amigos: Emma, Josh, Ed e Nathan. Pessoal, esse é o ... Do Canadá.
- Canadá é com certeza o meu país favorito... Depois dos Estados Unidos, é claro. - Ed deu um passo à frente, estendendo a mão com um sorriso que beirava o desespero.
- É um prazer conhecer os amigos da Brooklyn. - acenou com a cabeça, simpático.
- Me chama de Brooke. – Corrigi, tentando não parecer incomodada com o jeito que ele pronunciava meu nome inteiro.
- Brooke. - Ele repetiu, saboreando o som do meu apelido. - Legal. Ei, não estamos na mesma turma de ciência? - Perguntou para Emma.
- Estamos sim. – Emma deu um sorriso que eu só via quando um garoto bonito estava por perto. Aparentemente, já tinha conquistado um fã clube.
Então Josh passou o braço pelos meus ombros, de um jeito tão casual que parecia coreografado, enquanto Nathan se posicionava ao lado de Emma, como se estivessem prontos para me escoltar.
- Prazer, cara, mas estamos atrasados para a próxima aula. Seja bem-vindo. - Josh falou com um sorriso, mas senti a leve tensão na voz.
- Sério? Pensei que estivéssemos no intervalo do almoço. - olhou para o relógio confuso.
- É que a gente gosta de chegar adiantado na aula. – Nathan Respondeu, quase automaticamente, como se aquilo fizesse algum sentido.
Olhei para ele, tentando entender de onde veio essa tradição de “pontualidade espontânea”.
- Mas ainda nem almoçam... – Emma foi impedida de terminar sua frase por Nathan.
- Ah. – Ed finalmente pareceu se lembrar de algo importante. – Vamos no Joe & The Juice mais tarde. Está convidado. - Deu uma piscadela e eu quase bati na testa.
sorriu, claramente se divertindo como caos minha vida social era.
- Parece bom. - Concordou e eu percebi que ele não parecia nem um pouco incomodado com a súbita mudança de planos.
Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, meus amigos me arrastaram para longe, discutindo ao mesmo tempo sobre o Ed ter convidado alguém novo para o nosso ponto de encontro sagrado.
O pátio lateral da Trinity parecia o feed do Instagram antes dos algoritmos. Espontâneo, levemente posado e com filtros naturais de luz dourada do outono.
Os alunos saíam da fila de refeitório equilibrando bandejas com wraps, sucos de caixinha da Honest Tea e, claro, seus iPhones 5s com capinhas estampadas. O Wi-Fi oscilava, o que gerava expressões de leve desespero: metade das mesas estavam tentando subir selfies no Snapchat com a legenda #Lunchtime e a outra metade dizia que ninguém mais usava o Facebook, enquanto ainda usavam o Facebook. Ed estava deitado em um dos bancos de pedra, como se tivesse sido escalado para um editorial da de GQ High School Editions. Seu blazer descombinado era vintage, de propósito, e ele mordia um sanduíche de mozzarella e manjericão, comprado no café da Amsterdam, ignorando o fato de ter almoço de graça no refeitório. Josh, mais sério do que o necessário, estava concentrado em uma edição impressa do The Atlantic, “Porque jornal de verdade, ainda é no papel”, embora tivesse um iPad mini ao lado dele. Nathan chegou equilibrando 3 cadernos Moleskine, um suco verde e um iPod touch com a playlist “Chill Study Vibes2015”.
- A comida está menos experimental hoje? – Perguntei, me sentando ao lado de Ed.
- Menos? Eles reinventaram a salada César. Agora tem grão de bico e culpa. – Ed respondeu, mordendo com ironia o próprio almoço gourmetizado.
O ambiente parecia um comercial da Urban Outfitters. Grupos se espalhavam como hashtags: os atletas em moletom cinza do time, falando do jogo de sábado contra Horace Mann; as artistas com lápis de cor espalhados sobre suas agendas personalizadas; os músicos, no canto, tentando reproduzir Take Me to Church em um teclado portátil. Na mesa do comitê estudantil, a conversa era sobre o baile de outono: o tema estava entre “Masquerad com neon” ou “Outubro Parisiense”. Os argumentos eram acalorados com os debates políticos, mas o tom lembrava mais um episódio de Gossip girl. Mais perto da entrada principal, dois veteranos discutiam se a Vitória do Trudeau no Canadá significava que o “carisma voltou à política”. Eu, por minha vez, só queria comer meu wrap e dar uma última lida no resumo de história sobre a guerra fria. Mas era difícil me concentrar; ali, até o intervalo parecia dirigido pelo Noah Baumbach.
- Tá, mas... – Ed apoiou o queixo em uma das mãos enquanto comia, com um olhar de quem tinha descoberto um segredo que ninguém mais viu. - Por que parecia que você já conhecia o gringo?
A pergunta caiu com mais peso do que eu esperava.
Emma levantou as sobrancelhas, interessada de imediato. Josh parou no meio da frase sobre como “gente nova deveria passar por um período probatório social” e olhou para mim. Nathan fingiu que não estava ouvindo, mas claramente estava.
- Conhecer? – repeti, tentando dar uma risada. - Não conheço. A gente só... Se esbarrou. No fim de semana.
- Se esbarrou, onde? - Emma perguntou, já sorrindo.
- No The Quin... - disse, arrastando as palavras.
- Ele também estava lá? - Ed perguntou, provavelmente se martirizando por não tê-lo notado naquela noite.
- Sim. A gente conversou um pouco. – Respondi, tentando manter o tom casual, mas sabia que o blush estava subindo.
Jorge apertou os olhos.
- “Conversou um pouco”? Porque ele te olhou como quem tinha anotado o teu signo e tua data de nascimento.
- Bom... – suspirei, olhando para o meu suco, como se ele fosse responder por mim. - Ele deu em cima de mim.
- O QUÊ? – Ed e Emma falaram mesmo tempo, Emma com brilho nos olhos, Ed batendo palmas em câmera lenta.
- Calma. - Levantei a mão. – Eu dei um fora nele. Na minha maneira tradicional.
- Sarcástica e elegante? – Emma perguntou.
- Irônica e desconfortável. – Corrigi.
Ed estava cantando.
- Isso é cinematográfico. Ele chega na cidade, primeira semana, evento chique, conhece nossa protagonista... E leva um fora com um sotaque novaiorquino. Eu estou apaixonado.
- Que ótimo para você. - disse Josh, nada impressionado. - Porque eu não entendi por que esse cara já está ganhando o convite para sair com a gente.
Emma respirou fundo.
- Josh, ele só vai tomar um suco, ele não vai ser batizado no grupo. Não vai escolher a música da playlist. Vai só... Sentar, beber alguma coisa, e talvez contar uma história canadense.
- E se ele for estranho? – Josh insistiu. - Ou pior: foi o tipo que usa termos como “vibe” com seriedade?
- Você usa “vibe” o tempo todo, Joshua. – Disse Nathan, finalmente entrando na conversa, mas em um tom leve.
- Sim, mas eu uso com ironia. - Josh rebateu.
- Brooklyn, você se importa? – Emma perguntou.
Todos olharam para mim de novo, como se minha opinião fosse o carimbo final no passaporte do .
- Eu não o convidei. Mas também não acho que ele vai causar uma revolução. – disse, meio neutra, meio cansada.
Ed sorriu.
- O que significa: “eu não quero lidar com isso, mas também não quero parecer a vilã da história”. Entendido.
O sinal tocou.
Todos começaram a se levantar, recolhendo o resto de almoço e opiniões mal digeridas. Eu ainda ouvia Emma rindo com Ed sobre o sotaque do , e Josh resmungando algo sobre “limites sociais”. Nathan seguiu atrás dele, fiel ao papel de amigo escudeiro. E eu só pensava que, mesmo que não tivesse mudado a dinâmica ainda... Ele já tinha mudado o foco.
The Elsinore – Upper East Side
- Cheguei!
Anunciei ao entrar em casa e fui direto para a cozinha, largando a mochila na primeira cadeira que encontrei.
- Oi, querida. Como foi seu primeiro dia de aula? - Nana perguntou enquanto mexia em uma panela no fogão.
- Chato. - Peguei uma maçã na fruteira. - Eles adoram fingir que se importam com nossas férias.
- Ué, não fizeram vocês se ajoelharem em um canto da sala para pedir perdão pelos pecados?
Eu encarei com um olhar sério, mas logo soltei uma risada curta.
- Ainda não, mas com certeza estão planejando alguma viagem para o Vaticano.
- Ah! - ela suspirou, divertida. - As piadas infinitas que podemos fazer com a sua escola.
- Por que será que, de todas as escolas possíveis, o John escolheu justamente a Trinity? – questionei, mordendo a maçã.
- Provavelmente porque é uma das melhores escolas de Nova Iorque. - Ela me lançou um olhar compreensivo. - E porque é a única escola onde a teologia é uma matéria obrigatória.
Eu ri, quase engasgando.
- Honestamente? Cada dia que passa eu acredito menos em Deus.
O clima mudou um pouco. A risada sumiu dos lábios de Nana, mas ela manteve o olhar carinhoso.
- Por causa do que aconteceu com seus pais? - perguntou com cuidado.
Senti aquele incômodo conhecido apertar meu peito. Odiava quando alguém me olhava com pena.
- Sim e não. Não penso só em mim, sabe? Mas tem tanta gente sofrendo enquanto outras vivem felizes da vida. Parece injusto.
Nana respirou fundo e me observou em silêncio.
- Quer saber? Se eu tivesse criado um mundo, todo mundo seria feliz. Ou, pelo menos, todo mundo seria triste. Nada desse meio termo frustrante.
Ela sorriu, parecendo entender mais do que eu estava disposta a admitir.
- Acho que isso se chama livre arbítrio. Deus fez o mundo e deu às pessoas a escolha de serem boas ou ruins. Infelizmente, nem todo mundo escolhe o lado certo. E, às vezes, você vai perceber que algumas perguntas simplesmente não têm respostas.
Suspirei, refletindo. Não era o que eu queria ouvir, mas... Fazia algum sentido.
- Que tal tomar um banho enquanto eu preparo algo para você comer? - ela sugeriu, dando um tapinha de leve no meu ombro.
- Tudo bem. – Concordei, deixando a maçã pela metade e seguindo para o quarto.
67 Spring Street, New York, NY.
Assim que saí do táxi, meus olhos se encontraram com os de Bryan. Ótimo. Claro que ele também estaria aqui. Fingi que não o vi e andei em direção à entrada, mas nem precisei olhar para saber que ele estava logo atrás de mim.
- Brooke. – Me chamou.
Suspirei fundo antes de me virar para ele.
- Como foram as suas férias?
- Bem, eu...
Eu não sabia o que dizer. Não queria que ele achasse que eu senti ciúmes por ele ter dado em cima da minha melhor amiga, porque eu não estava com ciúmes. Mas também não conseguia pensar em uma desculpa boa o suficiente para dispensá-lo de uma vez sem tocar no assunto.
- Brooke? - De repente, apareceu ao meu lado e eu mentalmente agradeci ao universo por isso.
- Canadá! Vamos entrar?
O puxei pelo braço, sem nem dar a chance para Bryan continuar.
- Quem era? - Perguntou genuinamente curioso.
- Meu ex, Bryan.
- Ah, o cara que ficou com a sua melhor amiga?
- Esse mesmo.
Sem precisar procurar muito, nos sentamos na primeira mesa vazia que encontramos. Infelizmente, Bryan sentou-se na mesa ao lado, o que não ajudava muito.
- Ele não para de olhar para você. - constatou, tentando disfarçar um sorriso.
- Ótimo. – Suspirei.
- Qual é o lance, afinal?
- Já disse, ele ficou com a Emma.
- Emma... Sua melhor amiga? - ele arqueou uma sobrancelha, intrigado.
- Exatamente.
- E você está chateada com ele, mas não com ela?
O encarei, tentando entender onde ele queria chegar.
- Não estou chateada. Só estou evitando o Bryan, para o caso de ele achar que ainda existe alguma possibilidade de reconciliação.
- É engraçado. Pelo jeito que ele te olha, parece que acha que ainda tem uma chance.
- Acha que é um olhar de “quero você de volta”? Para mim parece mais “não quero sair perdendo.”
deu um riso provocador
- Tem medo de escutar o que ele tem a dizer?
- Por que eu deveria ouvir uma explicação?
- Não seria justo? Afinal, você fez o mesmo com a Emma.
Bufei, impaciente.
- Eu nunca perderia a amizade da Emma por causa de um idiota como ele.
- Bem observado. - sorrio, balançando a cabeça.
- Você também é um idiota. - Constatei.
- Mas sou um idiota com uma intuição aguçada.
- E o que a sua intuição diz agora? – Perguntei, tentando não parecer interessada.
Ele me olhou com um brilho divertido nos olhos.
- Que você nunca quis estar em um relacionamento com ele, para começo de conversa. E agora está perdida sobre como encerrar essa história sem ele entender errado.
Fiquei sem saber o que responder. Como ele conseguia me ler tão facilmente? Era como se eu fosse completamente transparente diante dele.
- Você deveria parar de me fazer parecer uma garota mimada.
se inclinou levemente para frente, olhando direto dos meus olhos.
- E você deveria parar de me olhar como se eu fosse só um amigo colorido. Talvez eu queira mais do que te dar conselhos.
Lhe dei um olhar um tanto descrente.
- Você não está a fim de mim. – Afirmei, rolando os olhos.
- E o que te faz pensar isso? - ele continuou me encarando, mas o canto da boca formava um sorriso provocador.
- Ah, qual é.
- Você é inteligente, bonita e aparentemente cai fácil na minha lábia. Por que eu não estaria interessado?
Soltei uma gargalhada.
- Acho que você não lembra bem da noite que nos conhecemos. Devo refrescar sua memória?
- Não, obrigado. - Ele riu junto comigo. - Só queria garantir que você saiba que minha lábia melhorou desde então.
Eu revirei os olhos novamente, mas desta vez com um sorriso.
- Aí está você! - Josh apareceu ao meu lado, parecendo aliviado por me ver. Mas assim que notou ao meu lado, sua expressão mudou para algo que beirava o desgosto.
- Cheguei há pouco. – expliquei, tentando ignorar o clima que se instalou.
- Vieram juntos? - ele perguntou, notavelmente curioso.
- Não, me encontrou na entrada e me salvou do Bryan. – Murmurei, apontando discretamente para a mesa ao lado digo onde Bryan fazia cara de quem estava prestes a lançar um manifesto sobre corações partidos.
- Babaca. - Josh resmungou entre os dentes, lançando um olhar fulminante para Bryan.
Antes que qualquer um pudesse continuar, Ed surgiu do nada, quase colidindo com a gente como um furacão social.
- Brooke, ! - ele gritou, acenando com os braços como se estivéssemos no meio de um show e ele fosse vocalista chamando para o bis, - Venham, hoje é dia de karaokê!
Sem esperar resposta, Ed agarrou minha mão e começou a me arrastar.
- Espera! – protestei, parando abruptamente ao notar que havia ficado para trás. Algo no fundo da minha mente sugeriu que ele estava prestes a se juntar a nós, mas, antes que eu pudesse perguntar, vi April deslizar para o lado dele com a familiaridade de quem já estava há tempos planejando essa aproximação.
Ela lançou um sorriso ensaiado que poderia até iluminar um apagão, e respondeu com um sorriso de canto de boca, o tipo de sorriso que parecia reservado para situações que envolviam flerte leve e histórias interessantes. Ótimo. Nada como ver o garoto novo e extremamente irritante sendo fisgado pela garota que achava que podia conquistar qualquer um. Senti um pequeno nó formar no meu estômago, mas balancei a cabeça, tentando afastar a sensação de que eu tinha acabado de ser substituída.
- Vamos? – Ed chamou, interrompendo meus pensamentos com seu tom exageradamente animado.
- Claro. – Murmurei, tentando afastar a sensação estranha que pairou sobre mim.
The Elsinore – Upper East Side
Assim que pisei no prédio, não consegui segurar o riso ao ver John, Nana e o senhor Peterson sentados na recepção, jogando Uno com uma seriedade digna de uma mesa de pôquer em Las Vegas. As cartas formavam pilhas desorganizadas sobre a mesa do centro, e cada um tinha uma quantidade tão estratégica de cartas escondidas que parece até que jogavam por dinheiro.
- Chegou cedo. - John olhou para o relógio no pulso, desconfiando da minha presença. - Não são nem oito horas ainda.
- Estou um pouco cansada.
- Quer que eu prepare alguma coisa para você comer? - Nana já se levantava, o baralho meio que jogado sobre a mesa, pronta para bancar a chef que nunca descansa.
- Não, tô bem.
- Então quer jogar com a gente, querida? - Peterson me ofereceu uma carta, como se fosse um convite exclusivo, sem perceber que estava violando uma das regras sagradas do Uno: não se distribui carta fora da vez.
- Pode ser. - Me sentei entre eles, tentando entender por que diabos uma partida de Uno parecia tão intensa. John mantinha a mão fechada, ninguém revelava nada. Juro que, se alguém tivesse colocado óculos escuros, eu teria acreditado que estavam jogando pôquer mesmo.
- Nos conte como foi seu primeiro dia de aula. - Peterson pediu, empilhando um “compre duas” no monte, sem nem piscar.
- Ah, o de sempre. Fui coroada melhor aluna da Trinity. - Disse enquanto puxava duas cartas da pilha, amaldiçoando Peterson em silêncio.
John soltou uma risadinha sarcástica e jogou um “inverter” na minha direção, mudando o sentido da rodada.
- Não! Isso é sério? Porque, olha, eu acreditaria se você dissesse que foi expulsa.
- Não teve nenhuma novidade na sua escola? - Nana perguntou ao jogar um “pular” em cima do John. - Porque suas notas são tão previsíveis quanto uma novela mexicana.
- Vocês não me deixaram terminar. - Joguei um oito azul em cima do oito amarelo. - Como eu ia dizendo, a Trinity acha que sou a melhor aluna e me pediu para apresentar à escola para um aluno novo do terceiro ano.
- Hum, então você fez uma nova amizade? - Peterson ergueu as sobrancelhas, curioso, enquanto embaralhava suas cartas. Eu conseguia sentir a provocação pairando no ar.
- Digamos que a amizade é uma palavra muito forte.
John franziu a testa.
- Estranho, a Trinity não aceita alunos no último ano. - Ele cruzou os braços ao me encarar. - A formação académica não estaria completa, conforme o currículo próprio da escola.
E ele estava certo. A Trinity School, tradicional e elitista, raramente, quase nunca, aceitava transferências para o último ano. A justificativa oficial era proteger a “integridade do percurso académico”. Um jeito chique de dizer que não queriam alguém que não tivesse passado pelos anos de doutrinação escolar deles.
- Talvez ele estivesse há muito tempo na fila de espera. - Dei de ombros, enquanto o Peterson lançava um “Coringa” e mudava a cor para vermelho, claramente só para me sacanear.
- Ou ele quer ser padre. - Peterson soltou uma gargalhada tão alta que até o barulho da rua ficou tímido.
- Pode ser também. - John manteve a expressão séria, mas o canto da boca o traía.
- Ele veio transferido do Canadá. Talvez não tivesse muita opção. - Joguei um “compre quatro” e todos gritaram, indignados.
- E ele é bonito? - Nana estava visivelmente curiosa.
Revirei os olhos.
- Sei lá. Normal. Bonito, mas não do tipo que você vê e decide fazer um outdoor humano para ele.
- E vocês se deram bem? - Continuava na investigação, implacáveis.
- Por que não nos daríamos bem? - Arqueei e a sobrancelha, jogando de volta à provocação.
- Você não tem muita... Paciência pra gente nova. Ou velhas. Ou gente em geral. - John rebateu, e Nana soltou um risinho cúmplice.
- Relaxa, eu só mostrei a escola, não o levei para um encontro.
- Só amigos, então? - Nana não parecia convencida. Nem um pouco.
- Olha, se vocês estão querendo um genro canadense, talvez seja cedo demais para escolher o enxoval. - Joguei minha última carta, batendo na mesa e soltando: - Uno!
Me levantei.
- Eu vou subir, estou exausta de tanto ser interrogada. - Sai triunfante, antes que começassem a discutir teorias sobre minha vida amorosa.
- É aqui que eu moro. - A garota com quem passei boa parte da noite apontou para um prédio elegante no lado leste da ilha de Manhattan. Ela se virou para mim com um sorriso travesso. - Quer subir? Meus pais não estão em casa...
- Eu adoraria, Alice...
- April! - ela corrigiu com um riso contido, e eu concordei como se nada tivesse acontecido.
- Isso! Eu adoraria, April, mas... Está meio tarde.
- Tem certeza? - Ela inclinou a cabeça, seus olhos brilhando com malícia, e eu quase me senti culpado por hesitar.
Sob seus cílios pesados, seus olhos me queimavam de desejo. A boca entreaberta e as pernas se roçando nas minhas, deixavam bem claro que a proposta era séria. Tentei lembrar que não estava em Nova Iorque há tempo suficiente para ficar fora de casa sem minha mãe ligar feito uma central de emergência.
- Infelizmente, eu tenho. - Dei um sorriso um tanto arrependido, o que pareceu só aumentar seu interesse.
April ficou em silêncio por alguns segundos, e então, em um movimento ágil, tirou o cinto e escalou o meu colo. Meu cérebro deu tela azul por um instante. No reflexo, empurrei o banco para trás para ela se acomodar melhor, enquanto suas mãos exploravam meu corpo como se tivesse um mapa. Sua boca encontrou a minha com uma urgência provocante, e eu não pude evitar segurar firme sua cintura, a trazendo ainda mais para mim. Ela mexia os quadris contra os meus de um jeito que estava longe de ser inocente. O beijo era intenso, nossas línguas se movendo em perfeita sintonia. Minhas mãos subiram para os seus seios, mas ela se afastou com um sorriso provocador.
- Isso é só para você saber o que está perdendo. - Ela sussurrou contra os meus lábios, dando um selinho antes de pegar a bolsa no banco de trás.
Antes que eu pudesse reagir, April já estava saindo do carro.
- Até amanhã, . - Ela piscou e fechou a porta.
Eu fiquei ali, no meio da noite, tentando lembrar como se respirava. Me joguei contra o encosto do banco e fechei os olhos, soltando um sorriso incrédulo.
- Que garota... – Murmurei para mim mesmo, me perguntando se estava mais impressionado ou frustrado.
Abri os olhos de repente. O quarto estava envolto em uma penumbra silenciosa. Meu coração batia forte contra o peito, mas algo estava errado. Eu podia ver tudo ao meu redor: a luz fraca da rua entrando pela fresta da cortina, os móveis imóveis, o relógio piscando 3 e 17 da manhã, mas meu corpo não respondia. Um formigamento começou na ponta dos meus dedos, como se agulhas fincassem minha pele. Tentei mexer as mãos, nada. A sensação de peso aumentou, como se meu corpo estivesse preso por correntes invisíveis. Foi então que senti algo rastejar sobre minhas pernas, arrastando-se lentamente para cima, pressionando meu peito. Queria gritar, mas minha garganta parecia fechada, sufocada por uma força invisível. Um arrepio gelado percorreu minha espinha quando a pressão alcançou meu pescoço, apertando cada vez mais. Meu olhar estava fixo no teto, mas senti como se alguém me observasse, tão perto que podia sentir seu hálito frio contra o meu rosto. De repente, o peso desapareceu e o controle do meu corpo voltou de uma só vez. Sentei-me na cama com um pulo. Ofegante, liguei o abajur num gesto desesperado. A luz laranja revelou apenas meu quarto, intacto, mas ainda assim, eu não conseguia me livrar da sensação de que algo havia acabado de sair correndo para a escuridão. Meus olhos varreram o cômodo, enquanto eu lutava para desacelerar minha respiração. Fechei a porta da sacada com um movimento brusco, trancando-a. Então, o barulho da porta do quarto se abrindo fez meu coração disparar novamente.
- Brooklyn, ainda está acordada? - A cabeça de John apareceu pela fresta, o olhar curioso.
- Acabei de... Acordar. – Respondi, tentando não parecer tão apavorada enquanto apoiava as mãos nos joelhos para me recompor.
Ele entrou no quarto, aproximando-se com cautela.
- Aconteceu alguma coisa?
Me sentei na cama, tentando parecer menos vulnerável.
- Acho que só tive outro pesadelo.
John se sentou ao meu lado, atento.
- Com seus pais?
Balancei a cabeça.
- Não... Desta vez foi diferente.
Ele ergueu as sobrancelhas.
- Diferente, como?
Desviei o olhar, sem saber como colocar aquilo em palavras.
- Não me lembro. – Mentira. Cada detalhe ainda pulsava na minha mente.
- E por que você acha que foi um pesadelo?
Minha mão foi instintivamente para o pescoço, ainda sentindo a pressão.
- Porque a sensação ainda está aqui... Como se realmente tivesse acontecido.
John soltou um suspiro profundo, passando a mão no meu ombro.
- Talvez só tenha sido um sonho muito real.
Olhei para o reflexo da janela, esperando que o meu próprio olhar me convencesse disso. Mas, no fundo, uma voz sussurrava que não era só um sonho.
Capítulo 3 - O Bem e o Mal
Manhattan, 2015
A chuva caía incessante sobre as ruas de Manhattan, e a ideia de sair do quarto parecia mais distante a cada trovão. Ainda me sentia abalada pelo pesadelo que tive semanas atrás e que, para meu azar, resolvera se repetir em outras noites. As horas de sono perdidas começavam a cobrar seu preço, minando meu rendimento na escola e alimentando uma irritação constante.
Depois de muito hesitar, finalmente me levantei e fui até a sacada. Ali, fiquei observando a água escorrer pela cidade, como se Manhattan, assim como eu, tentasse lavar suas próprias mágoas.
- Está atrasada. - Nana entrou no quarto com uma bandeja, a depositando na cama. - Fiz o seu favorito. – A vi se enfiar no meu closet. Sorri ao me sentar na cama e tomar um gole do suco de laranja, ainda fresco, azedinho na medida certa. Nana sempre acertava. Pouco depois, John apareceu no quarto e se escorou na penteadeira, pegando um porta-retrato que continha uma foto minha e Lucy. Ele sempre olhava aquela foto.
- Por que ainda não se levantou?
- Vocês não estão vendo toda aquela água caindo do céu? - Apontei para a janela. - Isso é um sinal claro de que devo ficar na cama o dia inteiro. Aliás, você deveria dar folga para a Nana.
- Só porque nos meus dias de folga eu gosto de aproveitar ao ar livre? - Nana retrucou lá de dentro, com um tom que misturava deboche e afeto. - Você é muito boa para mim.
- Desde quando você acredita em sinais? - John largou o porta-retrato e se sentou na cama. - Todos sabemos do seu ceticismo.
- Eu sei, eu sei. Cética, racional, lógica… Mas, honestamente, eu adoraria saber quem coloca água dentro do coco.
John não evitou um sorriso, enquanto eu sorria satisfeita com a minha piada.
- E como vivemos numa bola flutuante suspensa no nada? — Nana completou, ainda do closet. - Eu levantei o copo, em um brinde imaginário.
- É um ótimo tema para o seu trabalho anual, o que acha? - Ele sugeriu, cruzando os braços.
- Se a Trinity descobrir que eu tenho dúvidas sobre a existência de um ser supremo, eles me expulsam e alegam justa causa. - Me arrastei em direção ao banheiro. - Vou tomar um banho, talvez a água quente resolva essa crise existencial.
- A crise existencial é sua, não da água. — Murmurou Nana. — Só para deixar claro.
- Espera aí... - John me olhou com cautela. - Você realmente tem dúvidas sobre a existência de um Deus?
Parei no meio do caminho, bem surpresa com a pergunta.
- Eu… às vezes acho que não, que é tudo invenção para consolar quando nada mais faz sentido. Mas em outros momentos, penso que... acreditar ajudaria. Como se colocar a culpa em alguém, mesmo invisível, aliviasse um pouco.
Ele assentiu, processando as minhas palavras.
- Acho que estou tentando entender se é uma convicção... ou só uma forma de não me entregar.
John deu um sorriso suave e caminhou até a mim, me puxando para um abraço apertado.
- Talvez ainda haja esperança para você.
- Ótimo, mais uma coisa para colocar na minha lista de dúvidas existenciais.
Um sorriso escapou. Traiçoeiro, mas sincero.
Talvez ele estivesse certo, talvez houvesse esperança.
Só que naquele momento, tudo que eu queria era conseguir acreditar nisso.
- Não olha agora, mas o seu gato não para de olhar para você.
Emma tinha o dom de começar conversas como quem solta spoilers no meio de um filme.
Fiz uma careta. Como assim “não olha agora”? Isso anula completamente o “não olha”.
Me encolhi na cadeira, fingindo desinteresse e espiei por cima do ombro. E lá estava ele. Josh. E de fato, me encarava. Tentei disfarçar, lhe dando um breve sorriso quando nossos olhos se encontraram.
- Ele não é meu gato. - Apressei em corrigi-la.
- Só porque você não quer.
- Ele é meu amigo.
- E daí? A maioria dos casais começa assim. Primeiro os olhares, depois a tensão constrangedora, e por fim, o famoso “nossa, não sei como isso aconteceu”, enquanto estão no meio de um beijo.
- Tipo você e o Nathan? - perguntei com um sorriso irônico.
Ela abriu a boca, pronta pra rebater, mas travou no meio do caminho. O silêncio dela durou uns bons três segundos. Eu contei.
- Ok, ponto pra você.
- Vocês dois não são mais amigos por causa daquele romance de verão que ele esqueceu de avisar que era só na estação, lembra?
- A culpa não é minha se ele só funciona no modo solteiro perpétuo. – Retrucou, agora com menos sarcasmo e mais resignação.
Antes que eu pudesse provocar mais, passou por nós. Foi automático. Nossos olhares se cruzaram, e por algum motivo que nem Freud explica, eu não desviei. Ele também não. O momento durou mais do que o aceitável socialmente.
- Nossa, por que vocês não procuram um quarto? – Emma zombou, tentando manter a expressão séria.
- Do que você está falando?
- Dessa troca de olhares com o canadense.
- Foi só... um olhar. – expliquei, me sentindo sem graça.
- É. Mas ninguém pisca devagar para desconhecidos. Por que não admite que você gostou dele?
- Não é nada disso! – Deixei claro. - Além disso, ele está saindo com a April.
- Sério? – Emma olhou para a mesa onde os dois estavam. - O que ela tem que você não tem?
- Hm... Talvez o título de garota mais bonita da escola? – resmunguei, revirando os olhos.
- Ah, por favor! Você é mais bonita. E todo mundo sabe que ela não tem uma boa reputação, logo eles terminam.
- Que honra saber que eu posso ser a segunda opção de alguém. – Murmurei com sarcasmo.
- Para de drama, Shakespeare. Vai lá e pergunta se ele quer sair com você.
- E por que eu faria isso?
- Porque ele é o primeiro garoto com quem você conversou mais de cinco minutos desde o Brian.
- Emma, a gente trocou meia dúzia de palavras. Isso não é aproximação, é... educação básica.
- Sabe qual é o seu problema? - ela continuou. - Você é boa em observar. Você lê pessoas com precisão cirúrgica. Mas quando o assunto é você, vira um enigma que nem tenta resolver.
- Isso foi poético.
- E verdade. Vai lá e fala com ele.
- Emma…
- Não precisa se declarar. Só conversa. Troca duas frases sem pensar em todas as possíveis consequências antes. Um passo. É só isso.
- Eu só não sou a pessoa mais... Social do planeta.
- Brooke, nem uma formiga entra no seu ciclo social sem preencher um formulário em três vias.
- Qual a parte do “ele está saindo com a April” você não entendeu?
Emma fez um gesto dramático com as mãos.
- Isso nunca impediu ninguém de ser honesta sobre o que sente. Você está com medo.
- De que?
- De gostar dele.
- Que besteira!
- Eu tô dizendo isso porque te conheço. Você vive num modo contido, sempre pensando antes de sentir. Sempre ensaiando respostas pra perguntas que ninguém fez.
- Isso se chama maturidade.
- Não, isso se chama controle patológico. E, spoiler: não te protege de nada. Só atrasa.
Fiquei quieta por um momento. Olhei de novo pra , que agora ria de algo que a April dizia. Mesmo assim, tinha uma expressão... Ausente. Como se risse mais por reflexo do que por conexão.
- Você só precisa ser menos certinha.
- Certinha? Eu? - ergui uma sobrancelha, ultrajada.
- Você não fuma, não bebe, nunca briga com John, não tira nota baixa, não mente para ir em festas, e só vai quando a gente te arrasta. - Ela se inclinou para cochichar com um sorriso travesso. - E você é virgem.
- Você não precisava fazer essa última parte parecer uma acusação.
- Não tô julgando. Só acho que você vive com tanta cautela que esqueceu como é simplesmente... deixar as coisas acontecerem.
Dei de ombros.
- Você devia mesmo ir falar com ele.
Trinity School – Biblioteca
Upper West Side, Manhattan. Tarde chuvosa
- Vai uma ajuda? - A voz surgiu do nada, enquanto ele se esticava para alcançar o livro na prateleira mais alta da biblioteca.
- Um pouco alto demais - admiti, aceitando o livro. - Mas obrigada.
- Então você sabe agradecer. Isso é novo. - Ele caminhou ao meu lado enquanto eu tentava, discretamente, me afastar.
- O que isso quer dizer? - Arqueei uma sobrancelha, sem desacelerar o passo
- Que você é, às vezes, um tanto... arrogante comigo. Outras vezes, só quase.
- Bem-vindo ao maravilhoso e incompreendido mundo feminino - dei de ombros. - Em breve você recebe um mapa, se sobreviver.
Ele soltou um riso curto, com aquela confiança irritantemente natural de quem nunca precisou tentar muito na vida.
- Você fala como se eu não estivesse tentando entender.
- Está tentando decifrar. Tem diferença. - Continuei andando, determinada a alcançar a secretaria e deixar ele para trás.
- Por que a pressa? - continuou ao meu lado, claramente sem intenção de me deixar em paz.
- Preciso pegar as apostilas de álgebra na secretaria.
- Quer companhia?
- Por que eu precisaria da sua companhia até secretaria? Você acabou de me chamar de arrogante. – Cruzei os braços, tentando parecer irritada.
- Já que perguntou... - ele sorriu, enquanto me induzia a andar com ele. - Eu diria que as razões para um convite seriam porque eu sou gente boa, bacana, simpático e que apesar da sua arrogância e antipatia eu sempre lhe tratei bem. Independente de tudo.
Fiquei em choque. Não sabia que era possível alguém montar um currículo inteiro com elogios próprio com apenas cinco segundos.
- Direto e sem filtro, do jeito que você acha que impressiona. – Soltei um suspiro, arqueando a sobrancelha. – Aliás, obrigada pelo “antipática”. Já tenho uma lista de defeitos atualizadas graças a você.
- Viu só? Estou aqui para ajudar. – Sorriu. – Mas, se quer saber, talvez isso nem seja um defeito completo. Só um mecanismo de defesa que, por acaso, eu acho... interessante.
me achava interessante? Certeza de que ele não estava tentando me provocar? Ele notou meu silêncio repentino e minha confusão interna, e aí deixou um sorriso cafajeste escapar dos lábios. Ele era muito convencido.
- Falei demais? - Perguntou, inclinado levemente a cabeça, com olhos que diziam sei exatamente o que estou fazendo.
- Não, tudo bem. Gosto de palavras, principalmente as que são usadas para me definir. - O deixei para trás novamente. - Agora eu sou uma pessoa arrogante, antipática, porém interessante? Sua mudança de humor está me confundindo!
- Não teria muito mistério, se apenas me tratasse como todo mundo.
Ele passou seus dedos longos por seus cabelos brilhosos. E eu queria que fosse eu a fazer isso.
Me recompus.
- Ah, entendi. Então eu sou interessante porque não caio no seu papo, como todas as outras. – Retruquei, fingindo desdém.
- Exatamente! - ele não hesitou. - Nada mais intrigante do que alguém que me desafia.
Bufei, me recusando a deixar transparecer minha impaciência.
- Você está falando sério?
- Raramente. Mas hoje, por algum motivo, estou me sentindo inspirado.
- Deve ser o tédio. – concluí.
- E sabe o que mais? Você também me faz rir, o que é bem raro, considerando o meu gosto seletivo para piadas.
- Acho que é porque você tem uma queda por mim. – Respondi antes que pudesse me censurar. - Torna minha presença mais irresistível. - Eu tinha falado aquilo mesmo?
Seus olhos escureceram em tempo recorde.
- Não coloque palavras em minha boca, Bennette. Não sou tão fácil quanto aparento. - Deu um breve sorriso. – Porém, acredito fielmente que flertes são sempre bem-vindos. - Escorou na parede e continuou me olhar daquele jeito.
- Então eu me precipitei?
- Depende do ponto de vista. Geralmente flerte são indicações de interesse, mas eu acho que você só está fingindo que não entendeu o que eu quis dizer. - Lhe dei um sorriso sapeca antes de me virar novamente, mas logo em seguida senti seu braço me puxar, fazendo com que meu corpo se voltasse para ele. - Creio que está querendo jogar. Um motivo para se sair bem na conversa. Esperta, porém, previsível.
- E você acha que seu charme barato vai me convencer?
- Não sei. Mas, honestamente, o barato aqui está na sua resistência. - Ele sorriu de lado. - Quanto mais você tenta escapar, mais divertido fica.
- Talvez porque eu só esteja dando um empurrãozinho no seu ego inflado.
- Eu adoro quando você tenta me desestabilizar. É quase fofo.
- Fofo? - fingir indignação. - Se acha que vou aceitar esse elogio, está redondamente enganado.
- E o que acha de aceitar sair comigo. Não sei... talvez um café, depois da aula. - Parecia cheio de coragem.
- Não! - Fui tão direta quanto possível. Uma palavra, sílaba única, certeira.
- E eu posso saber por que eu estou sendo rejeitado tão friamente? – Claro que ele não iria desistir fácil.
- Você não faz o meu tipo. – Tentei passar confiança nas minhas palavras.
Ele me olhou de um jeito desconfiado, com a total confiança de que fazia o meu tipo. Assim como fazia de todo mundo.
- Você sabe quantas garotas adorariam estar no seu lugar?
Nossa, como ele era convencido.
- Ótimo. Então você não precisa de mim. - Passei por ele, sem olhar para trás. Mas com certeza de que o sorriso dele estava maior do que nunca.
Trinity School – 139 West, 91st Street. Manhattan.
“Você se recusou a sair com ?” - A foto de Ed surgiu na tela do chat.
Revirei os olhos e voltei para as abas do navegador. Pesquisa de história da arte: mais útil do que alimentar o ego do Ed.
“Qual é o seu problema?” - Ele insistiu. – “Ele é o garoto mais popular da escola no momento, e está caidinho por você, e você o rejeita?”
“Você leu a parte em que eu disse que ele está saindo com a April?” – respondi.
“April? Esquece, ele deve estar só se divertindo”
“Bem... Comigo que ele não vai se divertir.”
“Autocontrole gata, sempre admirei isso em você. Mas libera logo para você saber o que é diversão de verdade.”
Corei imediatamente, cruzando o meu olhar até os fundos da sala. Concluí a conversa do chat, encerrando a conversa antes que ele dissesse algo ainda mais ridículo.
Assim que a aula terminou, caminhei até o corredor dos armários, mas algo no mural de notícias chamou a minha atenção. Um cartaz enorme, impresso em papel colorido e com fontes ousadas, anunciava o Minimester, mais conhecido como a semana de oficinas. Aquele momento do ano em que todo mundo largava os livros para explorar paixões escondidas ou tentar algo completamente fora da zona de conforto.
“Escolha sua oficina. Inscreva se até sexta-feira!”
Dizia o título, rodeado de pequenas imagens: uma câmera fotográfica vintage, pincéis, fones de ouvido, uma máscara de teatro e até uma miniatura de avião, aludindo na oficina de simulação de voo.
- Já sabe em qual vai se inscrever? – Nathan apareceu ao meu lado, mastigando distraidamente uma barrinha de proteína, enquanto analisava as opções coladas com fita adesiva no mural.
- Fotografia. - Tirei a caneta do estojo e, sem hesitar, escrevi meu nome na lista. - Não sou tão boa com as outras opções.
Ele soltou um assobio baixo.
- Brooklyn Bennette admitindo que não é boa em algo? Alguém anota essa data. - O sarcasmo dele era tão natural que quase soava como um elogio disfarçado.
Lhe dei um empurrão de leve.
Nesse momento, senti uma presença se aproximando. O cheiro familiar de desodorante amadeirado e o inevitável som do tênis arrastando.
- Inscrições para as oficinas? - Josh apareceu, se espremendo entre nós para espiar o cartaz. - O que acham de me inscrever em música de novo?
- Não faz isso, cara, ninguém aguenta mais te ouvir desafinar. – Nathan o provocou.
Josh riu, mas balançou a cabeça indignado, os olhos ainda correndo pela lista de oficinas.
- Pelo menos o Ed vai gostar de uma das opções - Falei, desviando o olhar, tentando ignorar os dois idiotas competindo pelo posto de quem solta a piada mais cretina.
- Finalmente vamos descobrir se ele realmente tem talento para Juilliard. - Josh comentou, se inscrevendo impulsivamente na oficina de artes visuais.
Fiquei surpresa.
- Artes? Você não sabe desenhar um boneco de palitinho.
- E você acha que “andar e respirar” é um talento? Porque é só isso que o Nathan faz bem. - Retrucou Josh, rápido, enquanto Nathan fingia uma expressão ofendida.
Os dois estavam prestes a começar mais uma rodada de provocações quando Ed chegou, ajeitando a alça da mochila, curioso com aglomeração.
- O que estão fazendo? - Perguntou, inclinando-se para ver o cartaz.
- Inscrições para o Minimester! Olha só o que tem esse ano! - apontei para a lista, destacando com o dedo a linha que dizia: “artes cênicas: performance e teatro musical”.
Os olhos dele praticamente saltaram.
- Não acredito! Será que vai vir algum olheiro? – perguntou, a voz cheia de animação e uma pontada de nervosismo, típica de quem sonha com os palcos da Broadway.
Nathan se encostou preguiçosamente na parede de tijolos expostos, cruzando os braços.
- Espero que não.
Ed franziu a testa.
- Por quê?
Nathan ergue uma sobrancelha, sarcástico.
- Porque você não sabe cantar e nem dançar. Que talento vai usar para impressionar os olheiros? Seu topete?
Ed soltou uma risada forçada e passou a mão pelo cabelo, como se aquilo fosse o suficiente para provar algum tipo de superioridade estética.
- Meu talento é natural, tá? Qualquer um que me olhe percebe isso.
- O único talento que todo mundo nota em você é a habilidade de irritar os outros. – falei, me afastando e ouvindo ao fundo os risos abafados dos dois.
- O quê?! – Ed me seguiu, indignado, os passos ecoando no corredor de tacos antigos.
- E fazer fofoca.
- O que está acontecendo? - apontei para as pessoas aglomeradas no mural da escola, os corredores mais parecendo o saguão de uma estação de metrô na hora do rush.
April, segurando meu braço com aquele sorriso elétrico que sempre exibia quando algo parecia empolgante demais pro meu nível de energia, respondeu prontamente:
- Abriram as inscrições para a semana de oficinas.
O burburinho dos alunos se misturava ao barulho metálico dos armários sendo fechados às pressas e ao som abafado de alguma música vazando de um fone de ouvido esquecido. Me aproximei um pouco, espiando por cima de alguns ombros e mochilas enormes.
- E como isso funciona, exatamente? – perguntei, tentando parecer um pouco mais interessado do que realmente estava. Embora a minha voz saísse mais apática do que eu gostaria.
Ela soltou aquele suspiro que sempre parecia misturar paciência e leve impaciência comigo, enquanto analisava as opções com atenção.
- Você escolhe uma categoria e pratica em grupo. A escola diz que melhora o nosso percentual em atividades extracurriculares para a faculdade. - Ela virou-se rapidamente, com uma expressão que dizia: “como assim você não sabe disso?”
Suspirei, enfiando as mãos no bolso da jaqueta. Claro que tudo naquela escola contava como ponto acadêmico. Ela inclinou a cabeça, avaliando o cartaz como se estivesse escolhendo ações na bolsa. Depois, assinou o nome em artes visuais, o que fazia total sentido pra alguém que vivia vendo o mundo em cores pastéis e ângulos perfeitos pro Instagram.
Enquanto ela escrevia, meus olhos correram pela lista ao lado: culinária experimental, produção musical, simulação de voo... e fotografia.
E foi aí que eu vi.
Brooklyn Bennette.
O nome parecia brilhar ali, como um aviso ou uma provocação silenciosa. Antes que pudesse pensar duas vezes, peguei a caneta presa por uma correntinha meio enferrujada e assinei meu nome logo abaixo do dela. A caneta pendurada na corrente parecia um desafio por si só, como se o ato de escrever ali já fosse um teste de coragem. E ego. Mas logo senti o olhar de reprovação de April, queimando minha nuca como um holofote.
- Fotografia? - ela me encarou, sua voz misturava ceticismo e puro deboche. - Pelo menos sabe o que é uma foto panorâmica? - perguntou como se eu fosse um ignorante.
Dei de ombros, tentando não parecer tão óbvio quanto me sentia.
- Gosto de desafios. – Respondi, sem deixar óbvio que a verdadeira motivação tinha cabelos escuros e um olhar desafiador.
Aquilo provavelmente era uma péssima ideia. Mas, honestamente? Já fiz coisa pior por muito menos.
Central Park – New York, NY. USA.
O Central Park estava tomado pelos tons queimados do outono: folhas avermelhadas e douradas cobriam o gramado úmido, espalhadas como confetes esquecidos pelo chão. O céu era de um cinza homogêneo, pesado, e a luz filtrada pelas nuvens deixava tudo com uma coloração fria, quase opaca. O vento soprava constante, arrancando folhas das árvores já despidas e as lançando num balé silencioso ao nosso redor. Não era um dia particularmente alegre, mas havia uma estranha paz naquele fim de tarde nublado, quando decidimos esticar o tempo juntos depois das aulas. Nos sentamos sobre uma toalha estendida, no meio daquele tapete de folhas e começamos a jogar banco imobiliário. As peças de plástico colorido e as notas de papel destoavam do cenário sóbrio, quase como uma resistência teimosa à melancolia do outono. Eu me encolhi sob meu casaco, puxando as mangas até esconder as mãos, e me deixei levar pelo som abafado das risadas, pelo crepitar das folhas secas sob nossos movimentos e pela calmaria rara daquele momento. Não sei exatamente quando ou como, mas acabei adormecendo ali, ao lado deles, cercada por vozes queridas e pelo cheiro de terra molhada e folhas recém caídas. Quando acordei, senti cócegas discretas na bochecha, na coxa e no braço. Abri os olhos com dificuldade, vendo o céu cinza ainda parado acima de nós e as árvores nuas se balançando suavemente ao longe. Eles estavam desenhando em mim. Não tive forças nem vontade de protestar. O ar gelado fazia meu rosto arder levemente, mas meu corpo parecia pesado demais para qualquer reação.
- Ela acordou e não parece brava... OK, estou preocupado. – Ed segurava a caneta no ar, interrompendo o coração que desenhava pela metade e me olhava com um meio sorriso, meio apreensivo.
- Você está bem? – Emma se inclinou, sua expressão suavizada pela preocupação. O vento bagunçava seus cabelos soltos.
- Eu estou bem... Só não tenho dormido muito bem esses dias. – Confessei, minha voz soando mais frágil do que eu gostaria.
- O que houve? – Nathan me encarou, assim como Josh.
Eles se ajeitaram ao meu redor, cruzando os braços para se proteger do vento frio. O parque não estava cheio como costumava ser em dias ensolarados; apenas alguns casais caminhando de mãos dadas e algumas famílias se despedindo do outono antes, que o inverno tomasse conta da cidade. Então falei dos pesadelos, da sensação de me ver dormindo, do formigamento que prenunciava algo pior. Era a primeira vez que eu falava sobre aquilo em voz alta, e as palavras pareciam ganhar mais peso a cada confissão.
- Por quanto tempo você fica sem se mexer? – Nathan perguntou, ao juntar as pernas e cruzar os braços em volta dela.
- Não tenho noção do tempo, mas parece que dura uma eternidade.
- E acontece com que frequência? - tornou a perguntar.
- Já é a quarta vez, dentro de um mês. Mas às vezes acontece mais de uma vez na mesma noite.
- Estranho... - pareceu sussurrar para ele mesmo.
- Você sabe de alguma coisa sobre isso? - fiquei intrigada e de repente a atenção era toda de Nathan.
- Isso se chama paralisia do sono. - Ele explicou, tirando o celular do bolso e começou a pesquisar algo, enquanto o vento fazia com que as folhas acumulassem aos nossos pés, como se também quisessem ouvir a explicação. – Olha, é uma coisa muito comum de se acontecer, mas não com frequência. - me entregou o celular com uma pesquisa aberta. - Geralmente quando estamos pegando no sono ou já em um sono profundo, nossa mente meio que se desliga do nosso corpo, pra que não aconteça algo enquanto estivermos dormindo, como nos debater e essas coisas... Costuma durar por volta de alguns minutos e como eu disse, não acontece com frequência. Embora aconteça com 99,99% da população em geral. Mas... Sentir uma sensação de enforcamento é novidade para mim. Acredito que seja apenas uma ilusão da sua mente.
- Você deve achar que tudo tem que ter uma explicação científica, não é? - Ed se intrometeu na conversa.
- O que quer dizer?
- Quero dizer que deveríamos fazer uma sessão espírita. – O olhar dele estava vivo e provocador, então se levantou com um estalo de folhas secas.
O parque, que até então parecia silencioso e acolhedor, ganhou de repente um ar mais sombrio, com névoa fina começando a subir do lago ali perto. O vento aumentava, fazendo as árvores rangerem o ar gelado.
- Você está dizendo que ela está sendo assombrada? - Os três também se levantaram e encararam Ed com descrença.
- Não sejam bobos, não existe essa coisa de fantasma. No máximo almas que não encontraram seu caminho e vagam entre o mundo dos mortos e dos vivos.
- Então o que é? - me levantei, encarando-o.
- Já ouviu falar em demônios? - arqueou a sobrancelha.
- O quê? – franzi o cenho, descrente.
- E qual seria a diferença entre fantasmas e demônios? – Josh quis saber e eu também.
- Sério que vocês nunca assistiram filmes de terror? - depositou a mão na cintura. – Olha, “fantasmas” são pessoas que já viveram no nosso mundo e morreram. Eles não têm intuito de fazer mal a alguém, no máximo entrar em contato com algum ente querido. Não que seja possível, é só uma teoria. Mas um demônio é algo que nunca foi humano, que tem poderes sobrenaturais e podem fazer mal através dos nossos medos.
Fiquei encarando Ed e pensando na possibilidade de ser a minha mãe. Ela poderia estar tentando se comunicar comigo? Mas por que agora? Depois de dois anos...
- Fantasmas podem ser uma teoria e demônios não? – Nathan perguntou.
- Vocês não leem a bíblia? - ele rolou os olhos. - Me admira que a Trinity aceite vocês lá.
- Pensei que estava se baseando em filmes.
- E no que vocês acham que os filmes são baseados? - disse com muita convicção.
Ouvi Emma bufar bem alto ao meu lado, mas não consegui tirar os olhos de Edward.
- Não de ouvidos a ele, não vê que só está apenas tentando te assustar?
- Acontece que eu já estou assustada, Emma. Eu não durmo há semanas. - Estava me sentindo frustrada.
- Eu só quero ajudar. Ou alguém tem uma ideia melhor?
- Invocar um demônio é sua ideia melhor? – Josh parecia incrédulo.
- Não vamos chegar tão longe, ok? Podemos jogar aquele Tabuleiro de ouija e saber se tem algo no seu quarto e o que quer de você. Ou você pode continuar tendo os seus pesadelos e descobrir sozinha.
- E se não der certo? – sussurrei.
- E se der? – rebateu.
- Esse é o problema. - Josh pendurou a mochila nas costas. - Se der certo.
- Deixa de ser medroso. – Ed caçoou dele. - O que me diz?
Olhei para todos, me sentindo dividida. Se eu não acreditava em Deus, obviamente não acreditava em demônios. Mas, ao mesmo tempo, se eu pudesse ter certeza de que o mal existe, seria um sinal de que o bem também pode existir. E talvez eu tenha uma chance de falar com a minha mãe.
- Na minha casa. Às 23:30hrs em ponto.
Josh soltou um gemido de frustação ao meu lado.
- E o John? - Emma perguntou.
- Com ele eu me viro.
- Você tem certeza disso? – Nathan segurou a minha mão e eu apenas neguei.
The Elsinore – Upper East Side, NY.
Olhei para minha mão entrelaçada a de April, tentando sentir algum tipo de sentimento mais profundo, mas tudo o que eu sentia por ela era... frustrante. Eu não conseguia entender. Eu gostava dela. April era divertida, inteligente, sorria fácil e tinha aquela segurança encantadora que faz qualquer um se sentir um pouco menos perdido. Só que por algum motivo, que eu não conseguia explicar, a química parava ali. Sem frio na barriga. Sem aquela vertigem boa que te faz esquecer onde está. Era mais como... conforto.
- Você não quer mesmo subir? - ela perguntou, balançando nossas mãos com aquele olhar doce que eu sabia que significava problema.
- Você sabe que eu adoraria, mas amanhã temos aula. Se eu subir... dormir vai ser a última coisa que iremos fazer.
Ela deu um sorriso tímido e me beijou. O beijo era bom, encaixava. Mas, se eu fosse honesto, parecia meio... ensaiado. Nos abraçamos e ela sussurrou um “até amanhã” antes de passar pela porta giratória do prédio.
Ao me virar, esbarrei em alguém.
- Wow!
Era Brooklyn, e de alguma forma, meu sorriso foi instantâneo.
- Se machucou? – Olhei para sua mão que tocava seu ombro no qual eu havia esbarrado. – Me desculpe, eu não te vi...
- Não, estou bem. – Ela disse rapidamente. – Tudo bem.
- Aonde vai com tanta pressa? – notei que ela iria me deixar falando sozinho novamente, assim como fez na escola, então me apressei em perguntar, ficando na sua frente. Ela ainda estava com o dress code tradicional que usava hoje cedo na Trinity. Supus que ela não tinha ido para casa depois da escola.
- Bem, eu moro aqui. – Segurou o meu ombro e por algum momento eu achei que ela fosse me abraçar, mas apenas me girou para que eu saísse do caminho dela. Classe A em humilhar expectativas.
April e Brooklyn morando no mesmo prédio, isso não vai dar certo.
Soltei uma risada, meio sem graça, enquanto ela passava por mim, ajeitando a mochila.
- E você? - ela parou em frente à porta giratória e me encarou. - O que está fazendo aqui?
- Só vim deixar a April em casa... nada de mais. - Comprimi os lábios com a sensação estranha de ter sido pego.
- Nada demais... – Repetiu, fazendo um bico pensativo. - Deve ser como você resume todas as suas relações, né?
Levei mão ao peito, ofendido de mentirinha.
- Nossa... bem no estômago. – Me inclinei levemente, usando um tom falso. - E eu achando que você estava começando a me achar irresistível...
Ela soltou um sorriso, embalado num olhar que dizia: você é previsível demais.
- Irresistível? - Cruzou os braços. - Só se for para um estudo de caso sobre excesso de confiança.
- Eu prefiro o termo “carisma mal compreendido” – Retruquei ao soltar uma risada, me perguntando por que eu me divertia tanto com a Brooklyn.
- E então? Já conseguiu visitar todos os pontos turísticos de Nova Iorque? - Perguntou de repente.
- Ainda não. Estamos presos na etapa “mexe em caixa e encontra trauma”. E, sinceramente, tudo que eu queria era uma refeição que não tivesse gosto de ressentimento. Minha mãe cozinha como se estivesse punindo alguém. - Ela concordou em silêncio, depois olhou para o prédio e voltou a me olhar com uma expressão estranha.
- É seu dia de sorte, Nana fez macarrão com queijo. Quer subir?
Eu amo macarrão com queijo, é sério. Mas aceitar aquele convite não tinha nada a ver com a comida. Geralmente, a Brooklyn não faz questão de estar perto de mim, então não posso negar o quão surpreso fiquei por ouvi aquele convite inusitado. Tinha algo no jeito que ela disse ou no olhar rápido que lançou antes de virar as costas. Eu não sabia explicar... Eu só não conseguir dizer não.
- Oi, senhor Peterson, como vai? - Ela parou para cumprimentar o porteiro. Fiquei confuso.
- Com dores nas costas e você?
A tratou informalmente.
- Com fome, Nana fez macarrão com queijo. Que tal uma pausa?
Ela também estava convidando o porteiro?
- Ainda falta um tempo para o meu turno acabar, quem sabe depois. – Lamentou.
Ele sorriu de uma forma carinhosa e só depois foi notar minha presença.
- Quem é seu amigo? - Perguntou, como se eu não estivesse ali.
- Aquele meu colega do Canadá que eu falei outro dia.
Então ela falou de mim para o porteiro? É interessante.
- Ah! - Ele deu uma risadinha e depois dotou uma postura mais rígida. - É um prazer. - Se dirigiu a mim estendendo a mão, a apertei.
- .
- Simon, mas todo mundo me chama de Peterson.
Disse como se tivéssemos intimidade. Dei um sorriso breve para ele.
- Nós vamos subir, até mais tarde.
Ela caminhou até o elevador e eu a segui.
- Convidou o porteiro? Achei que o convite tivesse sido exclusivo para mim.
- O nome dele é Simon e pode ser uma surpresa para você, mas eu trato todo mundo da mesma forma.
- Estou chocado e decepcionando, inclusive. - Ela me olhou com censura. - Então você falou de mim para o Simon? – Perguntei quando as portas do elevador se fecharam com aquele “clanc” seco, selando a gente em um cubículo de aço inox e tensão social. Ela rolou os olhos com a expressão de que não tinha tempo para bobagens.
- Não foi nada importante.
- Nem insinuei que fosse. – Cruzei os braços, encostando a lateral do corpo na parede fria de aço, sentindo o metal gelado que parecia amplificar a tensão ali dentro. – Mas, se por um acaso você reconsiderou a ideia brilhante de sair comigo...
Ela me encarou, seus olhos refletiam no espelho do fundo do elevador, avaliando se eu merecia alguns minutos da vida dela.
- Será que só rola esse tipo de assunto entre nós? - ela questionou.
- Esse tipo de assunto?
- Você tentando jogar seu charme para cima de mim. - Ela cruzou os braços diante o busto.
Então ela estava enfim, admitindo que eu tenho um charme. Interessante.
- Gosto de flertar com você. - Soltei meu melhor sorriso, consciente de que no espaço minúsculo do elevador, cada gesto parecia mais dramático. - Mas também curto uma boa conversa civilizada.
- E você teria algo tão elevado em mente?
- Podemos tentar a boa e velha abordagem social. – Arrisquei.
- Ah, sim. Tipo: Oi, como foi o seu dia? – Fingiu uma falsa animação. – Seguido de um silêncio constrangedor, até alguém comentar sobre o tempo? - Soltou um sorriso, parecendo estar caçoando de mim.
- Ei, não subestime o poder de uma previsão meteorológica bem colocada. Pode salvar relacionamentos.
- Não me surpreende que os seus tenham precisado disso. — disse, sem esconder o desdém, enquanto o elevador subiu os andares com seu barulho mecânico que parecia a trilha sonora da nossa conversa. - Além do mais, ninguém realmente quer saber se você está bem, é só um ritual social cheio de falsidade e curiosidade disfarçada.
- Você é muito reservada. - Olhei para ela refletida no espelho, vendo a expressão firme, enquanto evitava contato. – Dá até vontade de perguntar como foi o seu dia só para te irritar.
A vi rolar os olhos em resposta ao meu comentário, mas não consegui tirar o sorriso do rosto. Por quê?
O número da cobertura ascendeu.
- Você mora na cobertura? – notei, enfim.
- Sim, e é bom se comportar, se não quiser aprender a voar.
A vi digitar um código e tentei disfarçar que eu não estava olhando. Ela também não pareceu se importar. E então, o elevador se abriu, e no mesmo instante eu senti o cheiro do macarrão. Meu estômago embrulhou, me fazendo notar que eu estava morrendo de fome.
- Pode ficar à vontade... Eu vou guardar as minhas coisas. – disse, e sumiu, tão rápida quanto o cheiro da comida me hipnotizou.
O apartamento era enorme, quase intimidante, mas extremamente acolhedor. Como aquela casa de revistas que parecem “simples” só para humilhar quem mora num estúdio apertado. Quadros cuidadosamente posicionados ocupavam as paredes do hall enquanto uma mesa exibicionista sustentava um vaso de rosas vermelhas. Claro, porque flores pálidas não teriam a mesma arrogância. Ao lado, uma sala com uma TV de plasma absurda, um sofá acolhedor demais para ser honesto e, no centro, mais rosas vermelhas sobre uma mesa que parecia ter saído de um catálogo caro. E o toque final: um tapete de pelo preto, onde eu não sabia se deveria sentar ou deitar.
- São as favoritas da mãe da Brooke.
Uma voz surgiu do nada, me pegando desprevenido. Me virei pronto para me defender ou pedi desculpas por respirar. À minha frente, um homem alto, imponente, com aquele tipo de presença que enche o ambiente sem fazer esforço.
- E você é...?
- , do Canadá. - Brooklyn voltou, seja lá onde estava, ainda usando uniforme.
O homem me olhou, com aquela pausa longa e desconfortável, parecendo medir o peso de cada célula minha, e então virou-se para ela com um sorriso enigmático.
- Isso é... muito interessante.
- Não começa. - ela pareceu repreendê-lo. - Vou avisar a Nana para colocar mais um prato na mesa. vai ficar pra jantar.
O homem se aproximou, estendendo a mão com aquele jeito magnético e civilizado.
- John Henson. Todos os amigos da Brooke são bem-vindos à minha casa.
Apertei a mão dele, firme, tentando não parecer que estava em uma cena de interrogatório.
- Então, … Canadá? — John puxou assunto, apoiando o garfo na borda do prato. - É uma mudança e tanto.
- Meu padrasto abriu uma filial da empresa em Nova Iorque e quer ficar à frente nesses primeiros anos. - Deu uma garfada no seu macarrão.
- E com o que o seu padrasto trabalha? - Parecia curioso.
- Ele tem uma empresa que exporta comida do Brasil para vários países.
- Olha, que legal. – John me olhou. – Graças ao padrasto do temos o nosso alimento.
- Pensei que fosse graças a Deus. – Nana não segurou um riso, ao me escutar.
- Seu estoque de piadinhas céticas não acaba nunca, não é?
Dei de ombros.
- É espontâneo.
- Mesmo? - Ele sorriu de canto. - Aposto que você tem um caderninho embaixo do travesseiro com piadas para todas as ocasiões. - Se tivesse, a primeira página seria sobre você. - Viu? - Ele apontou para mim. - Prova viva do que acabei de falar.
- Você é cética? - perguntou e eu o olhei.
- Sou.
Ele piscou uma vez ao continuar a me encarar e depois franziu o cenho.
- Mas e a Trinity?
- O que tem a Trinity?
- Você mesmo disse que é uma escola religiosa.
- Foi ideia do John que eu estudasse lá, não minha. E além do mais, eles não podem me obrigar a seguir alguma religião em específico.
O elevador soou com um ding e se abriu. Logo o senhor Peterson apareceu, ajeitando o boné de porteiro, antes de entrar na sala. Sorri.
- Que bom que conseguiu se juntar a nós. – John o recebeu. – Venha, sente-se. Esse é o , o convidado especial da Brooke.
- Eu pego um prato para você. – Falei, como desculpa para não perceber que fiquei sem graça com o comentário.
- Nós já nos conhecemos no saguão.
- Ele estava dizendo que o padrasto tem uma empresa de exportação de alimentos.
- Ah, é?
- E ele é bem mais bonito do que você tinha falado, Brooke. – Nana soltou quando eu voltei para a mesa.
arqueou uma sobrancelha, meio curioso, meio convencido. Afundei na cadeira, pensando por que, em nome de tudo que é sensato, eu achei que seria uma boa ideia convidá-lo.
- Você está solteiro, ? – Simon perguntou, sem nem disfarçar.
Pronto. Era o caos completo.
- Gente, chega, né. – Pedi ao revezar o olhar entre os três.
- Na verdade... estou conhecendo alguém. – respondeu, com aquele tom casualmente matador. Fez uma pausa dramática, só para ter certeza de que todo mundo estava ouvindo. - Mas só porque a Brooklyn rejeitou todas as minhas tentativas de chamá-la pra sair.
John engasgou com um gole de vinho e me lançou um olhar surpreso.
- , é melhor você ir agora. – levantei, o puxando pelo braço. Ele me seguiu um pouco relutante.
- Mas eu...
- Agora. - o arrastei, ouvindo os 3 rirem atrás da gente.
- Eu posso pelo menos mastigar a comida direito?
- Tenho certeza de que consegue fazer isso enquanto anda.
- Seja bem-vindo para voltar quando quiser, . - John gritou da sala de jantar.
- Acho que eles gostaram de mim. – comentou, presunçoso.
- Não, eles gostam de me deixar sem graça. É diferente.
- Seu pai disse que posso voltar quando eu quiser. – disse ao entrar no elevador, quando a porta se abriu, e sorriu. Por que tão gato e convencido?
- Tchau, .
Apertei o botão para a porta de fechar e logo em seguida eu já não o via mais.
- Eu gostei dele. – Nana apareceu atrás de mim.
- Isso porque você não o conheceu melhor.
- E você já o conheceu melhor?
Não respondi, por que ela sabia a resposta daquela pergunta. Existem poucas pessoas que me conhecem tão bem quando Nana, Simon e John. Então, para eles, ter convidado para jantar foi um progresso e tanto.
Acendi algumas velas e as espalhei pelos cantos do quarto, criando uma atmosfera meio sombria. Arrastei alguns móveis para liberar espaço e retirei o tapete, para que pudéssemos nos sentar no chão. Eu tinha feito algumas pesquisas sobre como esses jogos funcionavam e, confesso, quase desisti. Mas era tarde demais. Recebi uma mensagem de Edward dizendo que estavam na portaria, liberei o acesso do elevador e os esperei, torcendo para que John não acordasse com o barulho.
- Que cheiro de fumaça é esse? - Ed perguntou assim que entrou, franzindo o nariz. - Shhh! - levei o dedo aos lábios. - John está dormindo. - E Nana? — Emma entrou atrás dele, seguida por Josh e Nathan. - Está com o Simon.
- Você tem certeza de que quer fazer isso? - Josh verificou novamente.
- Tarde demais para voltar atrás. – Ed abriu a bolsa e retirou o tabuleiro de Ouija, envolto em um pano gasto.
- Onde você conseguiu isso? Achei que nem fabricavam mais. - Nathan se inclinou para ver melhor.
- Meu tio tem uma loja de antiguidades. - eles me seguiram até o quarto. - Vejo que já estava entrando no clima.
O quarto estava escuro, exceto pelas velas. O cheiro de cera queimada misturava-se ao leve aroma de madeira antiga. Ed colocou o tabuleiro no chão com cuidado, como se fosse um objeto sagrado ou perigoso.
- Façam um círculo - ordenou. - E todos com os celulares desligados.
Colocou seu dedo indicador sobre a letra “G” na prancheta.
- Agora, um de cada vez, coloquem o dedo indicador também. Só encostem levemente… firme, mas sem pressionar. - Fez um movimento lento, circular. - Lembrem-se: se for um espírito, ele pode demorar para responder.
Nathan tentou disfarçar uma risada, mas foi em vão. Recebeu um olhar bravo de Ed.
- E outra coisa… - Ed olhou para todos. - Ninguém tira o dedo sem encerrar com “adeus”. Se deixar o planchette sair do tabuleiro, a gente não sabe o que pode acontecer.
- Você já jogou isso? – Emma perguntou, mas Ed não a respondeu.
- Vamos orar a oração “Pai nosso” duas vezes.
Os outros rezaram em uníssono, a voz quase sussurrada. Eu apenas abaixei o rosto. Cada palavra me fazia pensar que aquilo talvez fosse um erro.
- O que você quer perguntar, Brooke?
Gostaria de saber se era a minha mãe, gostaria de saber agora... Mas eu nem sabia por onde começar.
- Tem algum espírito presente? - perguntei, sentindo meu estômago embrulhar.
- Você precisa falar mais alto. – Ed me censurou.
- Tem algum espírito presente? - disse alto e claro.
Todos ficaram olhando a prancheta, mas ela não se moveu.
- Faça outra pergunta. – Emma me incentivou.
- Você é um espírito bom ou ruim? - perguntei novamente, mas o Tabuleiro não se moveu. - Como é seu nome?
Decidi ser mais direta. Mas novamente, estava sem resposta. Olhei para os meus amigos, me sentindo uma idiota. Era claro que não existia essa coisa de espíritos e eu só estava tendo pesadelos como todo mundo normalmente tem.
- Acho que isso já foi longe demais. - Josh ameaçou se levantar.
- Não! – Ed o interrompeu. - Não pode tirar o dedo sem encerrar.
- Mas isso não está dando certo. – rebateu. – Brooke... - me olhou cauteloso.
- Tem mais uma coisa que eu quero tentar antes de desistir.
Na pesquisa que eu fiz, dizia que se eu quisesse falar com algum ente querido eu deveria deixar algum objeto que tivesse sido dele. Olhei para Josh, que com custo se sentou de volta no seu lugar, sem mover o dedo. Alcancei a escova de cabelo que costumava ser da minha mãe e coloquei sobre o chão.
- O que quer fazer com isso? - Emma perguntou.
Respirei fundo, tentando alcançar todas as boas lembranças que tive com Lucy.
- Tem algum espírito presente? - tornei a perguntar alto e claro.
De repente, senti o planchette se mover. Não era rápido, mas também não parecia acidental. Olhei para os outros: olhos arregalados, dedos imóveis, exceto pelo movimento conjunto.
- Ed, isso não tem graça. – Josh disse, encarando a prancheta que se locou até a palavra “sim”.
Encarei Ed, esperando que ele dissesse algo.
- Não fui eu. – disse apreensivo.
- Continua...
- Qual é o seu nome?
O planchette começou a se mexer indo para as letras “L” “U” “C” “Y”.
- Quem é Lucy? – Nathan perguntou.
Minha respiração falhou no mesmo instante.
Mãe?
- Muito engraçado, Edward. - Josh retirou o dedo e se levantou.
- Josh, não! - mas era tarde demais.
- Você não quer continuar com essa palhaçada, não é?
- Gente, eu fiz o “sim”, mas eu não escrevi Lucy. – Ed se delatou.
Josh bufou.
- Eu sabia que você só queria nos fazer medo.
- Eu estou falando sério! Por que eu escreveria, Lucy? Esse nome nem é bonito.
Todos se levantaram enquanto eu continuava sentada, estática.
- Você sempre faz isso, nem sei por que me dei o trabalho de aceitar fazer papel de bobo novamente.
- Será que vocês podem acreditar em mim?
De repente as velas se apagaram e a Emma soltou um grito alto e agudo devido ao susto. Me levantei estática com tudo aquilo.
- Gente, eu juro que não foi eu. – Ed sussurro.
Nathan andou até a sacada, puxando a cortina.
- Foi apenas o vento.
Todos respiravam aliviados ao notar que eu havia esquecido a porta da sacada aberta. Mas o que não explicava “Lucy”.
A luz do quarto se acendeu e todos deram um pulo de susto até verem o John parada na porta do quarto com uma cara nada boa.
- O que está acontecendo aqui?
Capítulo 4 - Deus não existe!
New York, NY 10024.
A luz fria da manhã entrava preguiçosa pela janela ao meu lado, desenhando faixas pálidas sobre as carteiras antigas de madeira. Eu passava a ponta da caneta-tinteiro no canto do caderno, traçando linhas sem sentido, enquanto meus olhos corriam distraídos pela página aberta da Mrs. Dalloway. A sala tinha aquele cheiro familiar de livro velho misturado ao café que a senhora Callahan sempre trazia numa caneca marrom escura. A caneta parou sobre uma frase que eu já havia sublinhado: “Mrs. Dalloway said she would buy the flowers herself”. Eu gostava daquela simplicidade meio melancólica. Fechei os olhos por um segundo, tentando imaginar Clarissa caminhando pelas ruas de Londres se sentindo solitária, porém decidida. O barulho da cadeira rangendo me fez abrir os olhos. Nathan, claro, se equilibrava nas duas pernas traseiras da cadeira, como sempre fazia. O cabelo desgrenhado, a gravata torta, o blazer semiaberto... e aquele olhar desafiador para o quadro, onde a senhora Callahan, com sua caligrafia meticulosa, acabava de escrever:
Fluxo de consciência: Liberdade ou caos?
Emma estava sentada na fileira do meio, organizando seus lápis em seu estojo de forma impecável, o fichário lotado de folhas rabiscadas, a caneca térmica soltando vapor. Ela me lançou um olhar rápido, meio inquisidor, como quem quer ter certeza de que eu estava ali mesmo, presente não apenas fisicamente, mas mentalmente.
E não estava. Não completamente.
Do lado de fora, através da vidraça, eu via o pátio interno coberto de folhas secas, espalhadas pelo vento típico do outono nova-iorquino. Algumas delas batiam contra o vidro de vez em quando, com um som seco e ritmado, como um lembrete de que o tempo seguia lá fora, indiferente a nossa aula.
- Então... – A voz da senhora Callahan me puxou de volta. – Quais os riscos e benefícios do fluxo de consciência como técnica literária?
Silencio. Por um segundo, só deu para ouvir o folhear de páginas e o arrastar de uma cadeira. Nathan ergueu a mão.
- Liberdade total. – Disse, inclinando ainda mais a cadeira, desafiando a física. – O autor se aproxima do pensamento humano de forma mais honesta... Mas claro que corre o risco de alienar o leitor.
Eu sorri de canto.
Ele sempre pegava no meu pé, me chamando de nerd, mas era sempre um dos primeiros a ter uma resposta na ponta da língua. Emma completou, com aquele tom seguro que me fazia admirá-la, embora nunca confessasse:
- É uma técnica que quebra a linearidade, sim, mas que também exige mais maturidade do leitor. Não é caótica se o leitor estiver disposto a acompanhar a jornada emocional...
A senhora Callahan assentiu antes de se virar para mim.
- Senhorita Bennette?
A encarei por alguns segundos, depois para a janela. Respirei fundo.
- Acho que... – comecei, enquanto passava o dedo sobre a borda do caderno. - Acho que o fluxo de consciência é inevitável. Quero dizer... Ninguém pensa em linha reta o tempo todo. É como... Como o vento lá fora.
Todos olharam na direção da janela, onde uma folha seca se colava a vidraça por um segundo antes de ser levado embora.
- Às vezes parece caos. – Continuei, sem saber bem de onde vinham as palavras. – Mas, no fundo, é só... Liberdade.
A senhora Callahan sorriu, satisfeita. Emma anotou alguma coisa, provavelmente a minha frase. Nathan se inclinou para a frente, finalmente deixando a cadeira assentar no chão com um baque absurdo.
Eu voltei a olhar para o livro, para a frase sublinhada.
Mrs. Dalloway said she would buy the flowers herself.
O sinal tocou, abafado, mas inconfundível, cortando a quietude da sala de literatura avançada. Um coro automático de suspiros e o arrastar apressado de cadeiras ecoou pelo ambiente, enquanto mochilas eram fechadas com pressa e livros enfiados de qualquer jeito nas bolsas. A rotina de sempre da Trinity School: cronogramas apertados, atividades extracurriculares se sobrepondo e uma pressão constante pairando no ar, como o cheiro forte do café da cantina. Enquanto eu me preparava para sair, já com o livro da Virginia Woolf de baixo do braço e a mochila jogada no ombro, a voz suave, mas firme da senhora Callahan me chamou:
- Brooklyn, podemos conversar?
Parei no meio do movimento, sentindo a corrente dos outros alunos fluindo ao meu redor, como folhas levadas pelo vento do outono que entrava pelas janelas abertas do terceiro andar. Olhei para os meninos e dei um aceno rápido.
- Boa sorte. – Murmurou Nathan com aquele sorriso enviesado, antes de seguir com Emma para o corredor, onde o burburinho já tomava conta.
Respirei fundo, ajustando a alça da mochila, e me aproximei da mesa de madeira envelhecida onde a senhora Callahan fechava o livro de anotações com uma expressão gentil.
- Está tudo bem, senhora Callahan? – Me perguntei, aproximando-me da mesa dela.
- Tudo ótimo, na verdade. – Ela sorriu. – Gostaria de saber se pensou melhor sobre Havard.
Ah, claro. Isso de novo.
A mesma conversa que parecia uma espécie de eco persistente nas últimas semanas.
- Senhora Callahan...
Ela erguei a mão antes que eu pudesse continuar:
- Espera, Brooklyn. Eu sei o que vai dizer. Mas preciso que você ouça isso antes: enviei seus últimos trabalhos e atividades para um contato meu no comitê de admissões de Harvard. Eles ficaram muito interessados no seu perfil.
Senti meu estômago dar um giro estranho, como sempre acontecia quando falavam de futuro. Essa palavra era grande demais para quem ainda estava tentando sobreviver ao último ano do ensino médio.
Meu coração parou por um segundo.
“Interessados”? Harvard não “fica interessada” em ninguém assim, do nada.
- Como assim, interess... — Tentei falar, mas ela continuou, empolgada:
- Eles pediram mais informações suas. Isso não é uma oferta ainda, claro, mas é um ótimo sinal. Poucos alunos recebem atenção antecipada. Você tem notas impecáveis, está no top 2% da turma e seu trabalho sobre Woolf foi citado na última conferência de literatura da escola. Isso é impressionante, Brooklyn.
Engoli em seco. Impressionante para ela, talvez. Pra Harvard? Era só o mínimo.
- Mas... Harvard é praticamente impossível, senhora Callahan. Todo mundo aqui tem nota máxima, faz mil atividades, escreve ensaios perfeitos... Eu nem sei por onde começar.
Ela se inclinou um pouco para a frente, com aquele olhar que misturava carinho e ambição emprestada.
- Justamente por isso você precisa se destacar ainda mais. Lá, não é só sobre notas. Eles querem ver quem você é. A sua história, o que te move. Você já tem o acadêmico. Agora precisa mostrar propósito. Algo que conte quem é a Brooklyn por trás das notas.
Suspirei. A cada palavra dela, a ideia de Harvard parecia mais uma montanha.
- Senhora Callahan, e se eu não quiser ser “a garota que Harvard quer”? — Saiu antes que eu conseguisse segurar.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos. Depois, falou num tom mais calmo:
- Você não precisa ser o que Harvard quer. Só precisa descobrir o que você quer, e se isso for Harvard, eu vou fazer de tudo para te ajudar a chegar lá.
- Eu... Nem sei o que dizer.
Ela inclinou a cabeça, com a mesma doçura que exibia em todas as aulas, mesmo quando a turma desafiava com perguntas sobre Joyce ou Faulkner:
- Só me prometa que vai se esforçar. Faça o melhor trabalho da sua vida! Você não precisa decidir agora, mas... Se tudo der certo, Harvard pode te procurar antes do esperado.
Assenti lentamente, tentando absorver aquilo, mas saí da sala meia atordoada, atravessando o corredor movimentado. Ao longe, o som abafado de um grupo do clube de teatro ensaiando para a próxima apresentação no auditório, misturado as batidas secas da bola de basquete no ginásio lá embaixo, compunha a trilha sonora típica da Trinity. Caminhei até meu armário, entre os outros estudantes que corriam para suas atividades; alguns indo para reforço de matemática, outros para reuniões de clubes ou o jornal da escola. O painel de avisos, perto do bebedouro, parecia um mosaico de pressão: prazos para inscrições nas Ivy Leagues, datas do SAT, listas de atividades extracurriculares que “valiam pontos” nos applications. O tipo de coisa que todo mundo fingia não olhar, mas sabia de cor.
Fiquei parada, encarando aquilo tudo. Deveria estar feliz, certo? Harvard era o sonho de praticamente todos aqui. A Trinity praticamente moldava a gente para isso desde o primeiro ano. Olimpíadas de ciências, cartas de recomendação, voluntariados estratégicos, o “perfil ideal”.
Mas, enquanto guardava meus livros e ajeitava o cachecol, senti o peso disso tudo se acumulando nos ombros.
Se Havard era um prêmio tão grandioso... Por que parecia mais um peso do que uma conquista?
Enquanto eu guardava meus livros e trancava o armário, Josh se aproximou com os meninos, misturando-se ao burburinho típico do terceiro ano, quando todos já começavam a falar ou se preocupar com as faculdades.
- O que a senhora Callahan queria? - Josh perguntou, apoiando se ao lado, olhando curioso.
- Idolatrar a melhor aluna dela, óbvio. - Ed respondeu antes mesmo que eu respirasse, como aquele tom clássico de provocação.
Revirei os olhos e puxei a alça da mochila, ajustando-a.
- Não é tão difícil ler um livro, sabia? - Rebati, fechando a porta do armário com um estalo metálico.
- Quem disse que eu não leio? - Ed cruzou os braços, me encarando, fingindo indignação.
- Revistas e sites de fofoca não contam, Ed.
Ele soltou aquele meio sorriso, se dando por vencido.
Comecei a andar pelo corredor, passando pelas vitrines de troféus e as fotos amareladas das antigas turmas da Trinity.
- Ela disse que Harvard está interessada em mim. – Soltei, meio distraída.
Os passos deles apressaram para me acompanhar.
- Como assim Harvard está interessada? - Josh perguntou, confuso.
Nathan apenas balançou a cabeça e murmurou.
- Não acredito que você esteja surpreso.
Josh riu, meio sem jeito.
- Sei lá... Ainda estamos no começo do ano letivo. Nem enviamos oficialmente as aplicações.
Parei e me virei, explicando:
- Ela enviou por conta própria meus trabalhos, as atividades extracurriculares e o histórico acadêmico para um contato dela em Harvard. Tipo aquelas cartas de recomendação proativas que alguns professores mandam antes do processo formal.
Eles ficaram me encarando, então acrescentei:
- Parece que Harvard respondeu dizendo que tem muito interesse no meu perfil... Aquela coisa meio vaga, mas que a gente sabe que é sério.
Nathan sorriu de canto.
- Claro que estão interessado em você, você é praticamente o modelo ideal: notas impecáveis, voluntariado, clube de leitura...
Ed passou o braço pelos meus ombros, num gesto dramático.
- Determinação. - Ele disse, colocando a mão no peito como quem declara algo solene. - Você é meu exemplo de vida. – O empurrei.
Nathan riu.
- Você não cansa nunca?
Ed franziu a testa.
- Do que?
- De ser... Você?
- Vocês não podem me odiar por ser o mais bonito e o mais engraçado.
- Te odiamos por outro motivo, não se preocupe.
Josh deu um abraço em Ed, amenizando a piada. Todos rimos, e eu senti o peso daquela conversa se dissolver um pouco no ar fresco que vinha das janelas abertas.
- Mas falando sério... - Josh insistiu, com o cenho levemente franzido. - Isso quer dizer o quê, exatamente? Eles já te aceitaram?
Suspirei.
- Não, não é uma aceitação oficial. É tipo um Letter of Interest. Eles querem que eu considere Harvard como minha primeira opção.
- Ah, aquelas cartas que eles mandam quando estão de olho em alguém. — Nathan comentou, entendendo.
- Exatamente. Mas a senhora Callahan acha que se eu mantiver o ritmo e fizer um bom Sênior Project, as chances são enormes.
- Porque, claro, a rainha da Trinity não podia só aplicar como todo mundo, né? Havard já quer pular essa parte. - Edward ironizou, mas com carinho.
- Não exagera. – falei, mas sentindo aquela extrema estrutura de orgulho e pressão no peito.
Neste momento, Emma se aproximou, meio hesitante, apertando o caderno contra o peito. O jeito que ela mordia o lábio inferior denunciava preocupação.
- Oi, Brooke... Podemos conversar? – Perguntou, quase num sussurro, como quem não queria interromper.
- É claro que sim. – Respondi, me virando para ela.
Mas antes que dissesse qualquer coisa, o sinal bateu novamente, ecoando alto pelos corredores revestidos de madeira escura.
Emma hesitou.
- Eu... Eu te ligo depois. - E se afastou, sumindo rapidamente na direção da escadaria, fiquei olhando para o vazio por um segundo, confusa.
- Vem! - Josh disse, com um sorriso tranquilo, enquanto os outros já se misturavam ao fluxo de estudantes indo para as próximas aulas.
O som das mochilas sendo arrastadas, das folhas amassadas e do leve bater dos passos enchia o ar, junto com aquele cheiro clássico de livros, café e folhas secas.
A sala ficou em silêncio assim que a coordenadora do Minimester entrou, acompanhada de um homem de semblante sereno e sorriso fácil. O projetor já estava ligado, e o som do ventilador girando lentamente preenchia o ar com aquela atmosfera morna e preguiçosa de fim de manhã. O Minimester era um dos poucos momentos do ano em que a Trinity School parecia respirar. Um programa de duas semanas em que a escola trocava provas, fórmulas e redações por experiências criativas. Os alunos podiam escolher entre dezenas de oficinas, de escrita de roteiro a física aplicada na cozinha e, pela primeira vez, o curso de Fotografia Documental havia lotado em minutos. O homem caminhou até o centro da sala e se apresentou: - Jeremy Lee. Fotógrafo documental. Tenho 43 anos, duas filhas gêmeas que me acordam às seis da manhã e uma esposa que jura que ainda me ama apesar disso. — A turma riu. Ele prosseguiu, com aquele tom leve de quem domina o próprio palco. — Trabalhei dez anos no mercado financeiro até perceber que o que eu realmente queria era ver o mundo, não tabelas do Excel. Larguei tudo e, doze anos depois, aqui estou, com exposições no MoMA, PS1 e no ICP, mas também com muitas fotos horríveis que ninguém nunca vai ver. - Esse detalhe arrancou algumas expressões surpresa dos alunos. A típica virada de vida que parecia tão improvável quanto inspiradora. Ele pediu então que nos apresentássemos rapidamente, e o grupo foi se alternando em respostas tímidas, exageradas ou entediadas. Havia alunos de diferentes séries. Do nono ao último ano e essa mistura deixava tudo um pouco mais imprevisível.
- Certo, agora se dividam em duplas. — Anunciou Jeremy, sorrindo de um jeito quase cúmplice. — Vão trabalhar juntos durante o curso. Escolham alguém com quem vocês acham que conseguiriam passar algumas horas sem querer empurrar da Brooklyn Bridge.
Naturalmente, os grupos começaram a se formar, e quando dei por mim, lá estava parado na minha frente com aquele mesmo sorriso arrogante de sempre.
- Acho que somos uma dupla. - Anunciou como se fosse óbvio.
Olhei ao redor e, de fato, já não havia muitas opções.
- Parece que sim... – respondi, com um sorriso de canto, mais resignado do que simpático, e me sentei novamente.
- Epa, que desânimo é esse? Pensei que já fôssemos amigos, pelo menos o suficiente para fingir empolgação. – Ele se sentou ao meu lado com aquele tom meio provocativo.
- Ainda estou decidindo isso.
Sem esperar réplica, virei para frente, deixando claro que queria prestar atenção na aula.
Jeremy começou a projeção de slides, mostrando fotografias de diferentes ângulos, estilos e técnicas, desde Cartier-Bresson até fotógrafos contemporâneos de street photografy nova-iorquina, como Vivian Maier e Saul Leiter.
- A fotografia é a arte da observação. — Dizia ele, caminhando pela sala. - É sobre capturar o instante, mas também o que está fora do instante. A emoção, o contexto, a verdade escondida.
Ele projetou uma imagem em preto e branco de um garoto correndo numa rua molhada de Paris. - Isso aqui... — Apontou. — Não é técnica, é sensibilidade.
Ele andava pela sala enquanto falava, gesticulando com um entusiasmo contido.
- Então... você é mais do tipo que fotografa pessoas ou o caos urbano? – perguntou de repente.
- Depende. Você se encaixa em qual categoria? — perguntei, sem desviar os olhos do slide.
- Ainda tô decidindo. Acho que flerto com os dois lados.
- Parece convincente. E completamente inútil.
Ele riu, balançando a cabeça. - Você tem um talento impressionante para transformar qualquer frase em um insulto elegante.
- Obrigada, levei anos para aperfeiçoar.
Jeremy então explicou a tarefa: sair pelas ruas, fotografar o que nos chamasse a atenção, e trazer uma única imagem no dia seguinte, a que melhor representasse a experiência. Não seria avaliada por nota, mas pela discussão coletiva. “O olhar é o que importa”, ele reforçou, antes de liberar a turma. Uma aluna levantou a mão.
- A escola vai fornecer as câmeras?
Jeremy sorriu.
- Temos algumas disponíveis na sala de artes, para quem quiser pegar emprestado. Mas sintam-se à vontade para usar o que tiverem: digital, analógica, celular… fotografia é uma linguagem democrática.
Ele bebeu um gole d’água, enquanto alguns alunos já começavam a trocar contatos.
- Quero que escolham uma única foto, aquela que mais representar essa experiência. Revelem ou imprimam, e tragam amanhã para discutirmos em grupo. A ideia é construir um olhar crítico, não só sobre a própria produção, mas também sobre percebermos o mundo.
Peguei minhas coisas rapidamente, mais ansiosa para sair e comprar um muffin de chocolate do que para encarar a minha dupla, quando ouvi, atrás de mim, aquele sotaque inconfundível.
- Que horas posso te buscar?
se apoiava no batente da porta, bloqueando minha passagem com aquele ar presunçoso.
- Como assim? – perguntei, franzindo o cenho.
- Para o trabalho. Você não ouviu o técnico?
- Por que não podemos apenas nos encontrar em algum lugar?
Ele deu um meio sorriso.
- Porque eu tenho um carro, posso te dar uma carona.
Falou como se isso fosse algum tipo de credencial impressionante, como se a maioria dos alunos da Trinity não tivessem motorista particular ou acesso ao Uber a qualquer hora.
- Eu posso pegar um taxi, não se preocupe.
- Por que você é sempre assim?
- Assim como?
- Intencionalmente difícil.
Revirei os olhos e empurrei levemente a mão dele para conseguir passar. Ele perdeu um pouco o equilíbrio, me abrindo caminho, mas claro... me seguiu.
- Então voltamos para a parte em que você me trata com arrogância? – perguntou, divertido.
- Estou te tratando da mesma forma que trato todos, já disse.
- Eu gostaria de acreditar que o seu mau humor não se restringe só a mim, mas já notei que é um problema exclusivo comigo. E eu adoraria saber o porquê.
Me virei para ele e o encarei.
- A essa altura, você ainda não percebeu que eu não sou exatamente uma pessoa fácil de se lidar?
Ele cruzou os braços, relaxado, e tinha um olhar diferente agora... Não aquele típico, autoconfiante e irônico. Havia algo mais sincero, mais curioso.
- Estou me habituando a isso. – Respondeu. - Tem algo em você que não me deixa me afastar, apesar das suas tentativas.
Pronto. Ele tinha dito o que precisava para me deixar desconcertada. Olhei para qualquer coisa que não fosse ele, desde a moldura descascada da porta, aos cartazes da exposição de artes dos alunos na parede.
- Então se acostume comigo agindo assim em qualquer hora inesperada do dia.
Ele sorriu de lado.
- Eu posso lidar com isso.
E o convencido estava de volta, como esperado.
- Já te disseram que tentar entender você é como tentar matar a sede com a água do mar?
Deu uma risada seca.
- Não, mas essa eu vou anotar no meu caderno de reclamações.
- Deve ter bastante anotações aí, né?
- Quase todas suas.
The Elsinore – Upper East Side
Guardei minha mochila no quarto, sem tirar o casaco, e fui direto para a cozinha. O som abafado de vozes cessou assim que eu travessei a porta. Nana e John estavam sentados à mesa, as xícaras ainda soltando vapor, mas o ar entre eles parecia frio, expresso, desconfortável. Por um instante, pensei ter interrompido uma conversa que eu não deveria ouvir, até perceber que o silêncio era sobre mim.
- Eu marquei uma consulta com a senhorita Hale, amanhã. - Disse John, enquanto eu pegava a jarra de água. A voz dele soou controlada, como se tivesse ensaiado aquilo.
A água parou na metade do copo.
- Não acredito que contou para ela. – Murmurei, começando a me sentir nervosa.
O som do vidro batendo na pia ecoou mais alto do que deveria. Joguei a água fora e saí da cozinha. Atrás de mim, ouvi o arrastar de uma cadeira.
- Você precisa conversar com alguém sobre o que aconteceu. - Ele insistiu, vindo em minha direção. - Se não pode ser comigo, que seja com a sua psicóloga.
- Eu não quero falar sobre minha vida pessoal para uma estranha.
- Ela não é uma estranha.
- Talvez não para você. – Respondi, virando o corredor. A voz um pouco exaltada.
Ele respirou fundo, mas continuou.
- Vocês se conhecem há 2 anos.
- E mesmo assim tudo o que ela sabe dizer é: “você precisa seguir em frente”, “você ainda não seguiu em frente.” - Revirei os olhos. - Adivinha só? Disso, eu já sei.
- Brooke...
- Além do mais, o que ela pode me dizer? - Minha voz tremeu, e eu percebi que não era raiva que sentia, era desespero. - Ela sabe por que o James foi embora? Por que o Sebastian matou a minha mãe?
John me encarou em silêncio. A expressão dele era indecifrável, entre culpa e impotência. Aquele silêncio doía mais do que qualquer resposta que ele pudesse me dar.
- Você acha que eu já não deveria saber a resposta dessas perguntas? — perguntei, a voz tão baixa que mal reconheci como minha.
O ar parecia mais pesado, como se o apartamento inteiro estivesse prendendo a respiração.
- Você vai nessa consulta, e isso não está em discussão. – Disse ele, frio, antes de me dar as costas e sair.
Fiquei parada no meio do corredor, ouvindo o som distante dos passos de John que soavam como um ponto final. Odiava o fato de não saber. Odiava ainda mais o modo como todos pareciam andar em círculos ao meu redor, como se houvesse um segredo que ninguém tivesse coragem de dizer em voz alta. Talvez meu pai tivesse se apaixonado por outra mulher e nos deixado. Era o tipo de história que eu conseguiria suportar, mas algo em mim gritava que não era tão simples. E Sebastian... ele nunca foi apenas um nome no noticiário. Ele conhecia a gente, sabia onde ferir. Às vezes eu tinha a impressão de que ele se alimentava da nossa ruína, derrubando cada parede até sobrar só o eco. Quando ele matou minha mãe, talvez tenha levado com ela todas as respostas que o resto do mundo se recusa a me dar. Mas algo continuava me dizendo que a verdade, onde quer que ela esteja, talvez fosse muito pior. E enquanto John tenta me empurrar para a senhorita Hale, achando que algumas seções de terapia vão me curar, eu só conseguia pensar que o que realmente me destrói não é apenas o passado, mas também vazio entre o que me contaram e o que esconderam de mim.
Desliguei o chuveiro e olhei para banheira. Estava mesmo precisando relaxar. Coloquei o roupão, preparei o banho, deixei que a espuma de lavanda tomasse conta do ar. A água morna subia como nuvens leves de vapor, e por um instante, o som do Shawn Mendes tocando no meu iPod pareceu suficiente para silenciar o mundo. Fiz um coque frouxo no cabelo, tirei o roupão e me deitei na banheira. Água abraçou meu corpo e, pela primeira vez em dias, senti algo que me lembrava paz. Aos poucos, meus olhos pesaram e sem querer, adormeci.
Abrir a porta tentando não fazer barulho. Era tarde, estava voltando da casa de uma amiga depois de passar a noite estudando para semanas de provas, a casa estava tomada pela escuridão da noite e mesmo assim, eu o vi.
- Você sabe que horas são, Brooklyn? - Olhei em sua direção, sentindo um frio percorrer a minha espinha. Ele estava sentado na poltrona em frente à lareira, uma de suas mãos segurava um copo e a outra um cigarro.
- Eu... - comecei a dizer.
- Quem disse que poderia sair? - Não consegui terminar de responder, ele já estava de pé vindo em minha direção.
- Eu avisei minha mãe.
Ele agarrou meu braço esquerdo e me puxou em direção ao sótão.
- Me solta. – Puxei o meu braço, mas ele era forte.
- Eu vou te ensinar a não me desobedecer. - Me empurrou escada abaixo, senti minhas costas baterem algo e meus braços ralarem. Ao tentar me levantar, senti seus pés acertarem minhas costas me fazendo cair no chão novamente e gemer de dor. - Você sentiu isso? Ah, que alívio. Sentiu, sim. Agora se levante. - Me puxou pelo braço novamente, sem se importar se eu estava machucada. Várias lágrimas começaram a se formar em meus olhos. - Você sabia que agora sou o seu pai? - Ele endureceu sua voz, me fazendo olhar morbidamente.
- Você nunca vai ser meu pai. – Rangi os dentes, deixando bem claro.
Ele riu de mim.
- No fundo, você tem razão. - Me olhou de cima a baixo. – Se eu fosse seu pai, eu não estaria pensando em fazer uma coisinha... - Arregalei os olhos ao tentar me afastar, mas ele conseguiu me prender na parede. - Você saiu com aquele menino que vivia atrás de você sem me avisar e eu não gostei. Agora, eu vou ter que garantir que isso não se repetirá. - Ele segurou o meu rosto, me obrigando a olhar para ele. - Isso é meu. - Disse, ao colocar sua mão no meu seio direito e apertá-lo.
- Na-ão! – Gaguejei, sentindo dor e repulsa falar mais alto. Ele apertou ainda mais a sua mão, fazendo movimentos circulares.
- Quando aquele seu namoradinho tocar você bem aqui, você vai se lembrar de mim, Brooke?
Eu não conseguia vê-lo através dos meus olhos embaçados pelas lágrimas, mas pelo som da sua risada eu sabia o quanto ele estava se divertindo. Senti a mão dele descer pelo meu corpo, como se estivesse explorando cada parte de mim. Já não aguentando mais aquela tortura, em um movimento rápido, consegui me soltar e em seguida ergui o meu joelho, acertando-o bem no meio de suas pernas, no seu ponto mais fraco. Ele se inclinou para frente e soltou um gemido claramente de dor.
- Sua vadia!
Eu o encarei.
- Você nunca mais vai tocar em mim.
Um barulho começou a zumbir em meus ouvidos. Abri meus olhos, tentando me acostumar com a claridade do banheiro. Estava um pouco sonolenta e minha mente tentava processar onde eu estava. Ah sim, eu adormeci na banheira e tive mais uma lembrança com aquele maldito. O barulho voltou a chamar a minha atenção e vi que era o meu celular. Peguei o meu roupão e saí da banheira, alcançando meu celular, que parou de tocar no mesmo instante. Era um número desconhecido e havia quatro chamadas perdidas. Deve ser importante. Quando pensei em retornar à ligação, o celular voltou a tocar. Atendi na mesma hora.
- Alô...
- Até que enfim!
Não precisei perguntar quem era, para reconhecer aquele sotaque.
- Devo me preocupar em como conseguir o meu número? - Andei de volta ao meu quarto, ainda me sentindo sonolenta.
- Emma esteve aqui te procurando e eu pedi a ela.
Parei no mesmo instante.
- Emma? - Fiquei confusa. – Aqui, onde? - Ouvi a risada dele.
- Você deveria ter me encontrado no central Park a meia hora. E como você não apareceu, achei que tivesse resolvido aceitar a minha carona.
Olhei para o relógio, percebendo o tanto de tempo que eu perdi dentro da banheira.
- Eu acabei dormindo. - Me expliquei.
- Tudo bem, mas desce de uma vez, antes que eu acabe aceitando o convite do Peterson para subir.
- Já vou, fique onde está.
- Você tem 5 minutos. Tic Tac!
Minutos depois, lá estava , encostado do lado de fora do elevador, mãos enfiadas no bolso da calça jeans e um sorriso torto brincando no canto da boca. Parecia esperar por mim de maneira natural, como se fosse comum ele estar ali, em qualquer momento da minha vida. Quando percebi, ele já estava entrando no elevador, encurtando a distância entre nós.
- Meu carro está no estacionamento. - anunciou, enquanto eu franzia o senho. - Cortesia do Peterson.
Olhei para Peterson, que abriu um sorriso cúmplice na minha direção. ainda teve a ousadia de acenar descaradamente para ele.
- Ele gosta de mim. – Disse, convencido.
- Quem não gosta? - Retruquei com sarcasmo, apertando o botão para o térreo.
- Aparentemente, você.
- Eu não tenho nada contra.
As portas se fecharam e ele levantou uma sobrancelha.
- Muito menos a favor. - Completou com aquele tom que me fazia revirar os olhos, mesmo sem querer.
Respirei fundo, tentando manter a compostura enquanto me encarava no reflexo.
- Gosto de ser imparcial.
- Acho que já percebi isso. - Ele deu um passo à frente, ficando bem na minha frente, me forçando a encará-lo.
- O que foi agora? – Perguntei, tentando parecer indiferente.
- Nada. Só... você. - Ele deu um sorriso torto que fazia parecer que sempre sabia mais do que dizia.
Droga. Por que eu sempre ficava sem graça com isso?
Quando chegamos ao estacionamento, meu estado de espírito piorou. O carro dele era a personificação da sua personalidade: chamativo, arrogante e caro. Um Bugatti Veyron Super Sport Preto e laranja, reluzindo sob as luzes do estacionamento.
- Impressionada? – Perguntou, se plantando ao meu lado, parecendo esperar um reconhecimento.
- Claro, era exatamente o que eu imaginava que você teria. Algo discreto e modesto.
Ele riu, abrindo a porta do carona com um floreio exagerado.
- Damas primeiro.
Entrei, tentando ignorar o conforto quase insultante do banco e o cheiro do couro misturado com algo que lembrava a aventura. Cada detalhe parecia um filme, mas de um jeito que me arrancava um sorriso involuntário.
- Você quer saber o que eu acho? – Perguntei, enquanto ele se acomodava no banco do motorista.
- Que eu sou irresistível?
- Que seu carro é o único motivo pelo qual alguém aceitaria carona de você.
- Ai, Brooklyn. Não sabia que inveja fazia parte do seu charme.
Revirei os olhos enquanto ele ligava o motor.
Eu tinha que admitir: o ronco do motor quase fazia valer a pena aturar aquele sorriso convencido.
The High Line, 820 Washington Street. New York, NY
- O que você tem em mente?
perguntou, me seguindo como uma sombra inconveniente enquanto subimos a longa escadaria metálica da rua Gansevoort até o início do High Line. O vento frio de outubro vinha cortando a pele, misturando o cheiro de café vindo de um food truck próximo com o aroma úmido das folhas caídas.
- Pensei em começar pelo deck panorâmico. Tem bastante movimento, artistas de rua e turistas. Podemos fotografá-los sem parecer dois malucos. - Apertei o casaco ao corpo na intenção de me proteger do frio que parecia mais intenso entre os prédios de tijolos e concreto do Meatpacking District.
- Então vamos fotografar turistas? - O tom dele me fez parar e olhá-lo com atenção enquanto o sol poente tingia de dourado os trilhos enferrujados cobertos de grama, refletindo nas janelas espalhadas dos prédios ao redor.
- E o que você sugere, gênio?
soltou um suspiro breve, descendo olhar para a linha infinita dos prédios de tijolos e concreto misturados ao verde outonal do parque suspenso. De repente, tirou o celular do bolso e, sem qualquer aviso, apontou na minha direção e começou a tirar foto.
- O que você está fazendo? - Tampei o rosto com a bolsa, me esquivando enquanto quase esbarrava em uma instalação artística feita de aço retorcido.
- O fotógrafo pediu algo que mostre mais do que realmente estamos vendo. - Ele continuou tirando foto, andando em círculos ao meu redor, os passos ecoando nas tábuas de madeira do passadiço como se eu fosse algum tipo de atração de museu.
- E o que você acha que está vendo em mim com seu celular que não consegue ver com seus olhos?
Ele baixou o celular, apoiando-o na lateral, e me olhou com um sorriso que beirava o desdém, senti uma brisa fria agitar os fios do meu cabelo.
- Eu vejo alguém que se esconde atrás de um sarcasmo bem ensaiado. - Ele deu um passo à frente, parando ao lado de uma das antigas caixas d’água agora cobertas por heras. - Do que você tem medo?
- De pessoas intrometidas com teorias baratas. - Dei de ombro, fingindo indiferença, enquanto ao fundo uma fotógrafa profissional clicava uma modelo sobre os trilhos antigo. - É isso que vai dizer quando mostrar essas fotos?
Ele ergueu a sobrancelha, claramente se sentindo desafiado.
- Está me subestimando?
- Não. Só estou calculando quantas bobagens você consegue dizer por minuto e sarcasmo é ótimo para insultar alguém sem precisar chamá-lo de idiota.
- Não tenta me enrolar. Se você quisesse me chamar de idiota, já teria feito isso. - Ele parecia claramente satisfeito por ter me encurralado.
Fiz uma careta e desisti de continuar com aquela linha de raciocínio.
- Olha, Canadá, tem assuntos que não são da sua conta. – Cruzei os braços, recostando na mureta de aço que dava vista para o Rio Hudson, onde barcos passavam preguiçoso sob a luz alaranjada. - Sem ofensa.
- Você não me ofende. - Se aproximou, quebrando qualquer espaço seguro que eu tinha criado. - Só me deixa mais curioso.
- Sobre o quê? - fiquei confusa.
- Sobre quem você realmente é. Seus amigos podem cair nesse papo de menina introvertida, mas eu já percebi que é só uma maneira de manter as pessoas afastadas.
- Você não sabe nada sobre mim. - Dei um passo para trás, quase esbarrando em um casal.
- Não, eu não sei. Mas eu vou saber. Um dia. - Ele piscou, junto com um sorriso presunçoso e começou a andar pelas tábuas, seguindo em direção à próxima curva.
- Você não tem nada melhor para fazer do que cuidar da vida alheia? – O segui. Bastante irritada.
- E o que você sugere?
- Hm... Que tal o fato de você ser um garoto solitário em uma cidade onde ninguém te conhece?
O sorriso dele ficou um pouco mais amargo, e por um segundo eu quase senti que tinha ido longe demais.
- Sabe o que é mais solitário? – Seus olhos me olharam de uma maneira fria. - Estar em uma cidade onde todo mundo sabe o seu nome, mas ninguém sabe quem você é de verdade.
A frase dele pairou no ar, mais pesada do que qualquer vento frio de outubro que soprava pelo High Line. Por um instante, toda a cidade se transformou numa espécie de eco de mim mesma: imensa, cheia de gente, mas estranhamente silenciosa. Porque ninguém realmente me via. Passei a mão no corrimão do aço frio, buscando algum tipo de ancoragem, me lembrando de cada passo que eu havia dado, cada palavra que me fez erguer barreiras. O sarcasmo, as respostas afiadas, tudo parecia uma armadura que ninguém conseguia atravessar. E ainda assim, ali estava , andando ao meu lado, como se pudesse me ver melhor do que qualquer um jamais conseguiu. Não era uma presença intrusiva, mas era firme e constante. Ele não sabia tudo sobre mim, mas de alguma forma, sabia o suficiente para acertar o ponto sensível, como se quisesse me lembrar de que a solidão não precisava ser sinônimo de abandono total. Suspirei, mas para mim mesma do que para ele, sentindo algo raro: uma mistura de alívio e receio. Alívio porque, finalmente, alguém articulava minhas palavras silenciosas de uma forma que parecia entender; e receio porque essa verdade era perigosa. Admitir que ninguém sabia quem eu era de fato significava abrir uma porta que eu raramente deixava entreaberta.
:1. Brooklyn: 0
The Elsinore – Upper East Side
Subi as escadas e parei no último degrau, surpresa ao encontrar John escorado no batente do meu quarto. Ele descruzou os braços e caminhou em minha direção, me envolvendo em um abraço firme, mas acolhedor. Retribui com todo o carinho que eu tinha por ele. Eu odiava discutir com o John, mesmo que isso quase nunca acontecesse. E, apesar de tudo, sabia que sempre seria grata pelo que ele fez e continua fazendo desde a morte da minha mãe. Ele era minha única família.
- Você me lembra muito a sua mãe. - A voz dele suou suave. Fiquei paralisada ao ouvi-lo. - Ela era uma mulher muito forte e determinada. Sempre correndo atrás dos seus objetivos, sem esperar que alguém estendesse a mão para ela. Ela estaria orgulhosa da mulher que você está se tornando, tão independente e inteligente.
Ele pousou um beijo em minha testa e colocou as mãos em meu rosto, como se quisesse ancorar cada palavra em mim. O calor do toque dele percorreu meus ossos, e senti meu coração apertar de uma forma estranha, uma mistura de orgulho, nostalgia e saudade que não sabia onde encaixar.
O encarei, sem palavras, absorvendo cada sílaba.
Naquele momento senti algo que ia além de gratidão. Uma mistura de respeito profundo e uma sensação reconfortante de pertencimento. Ele me olhou profundamente, respirando devagar e então se afastou deixando no quarto um silêncio preenchido apenas pelo som da minha própria respiração. Fiquei ali, imóvel, absorvendo cada gesto, cada palavra. Talvez ele tivesse falado mais sobre a Lucy naquele instante do que eu poderia me lembrar de qualquer outra conversa sobre minha mãe. E, de alguma forma, isso fez com que o vazio de algumas memórias parecesse menor, apenas por alguns segundos.
Prince Street. SoHo, Manhatan – New York, NY
‘s POV:
Aos poucos, fui acordando, tentando me recompor da noite que parecia não ter fim. April estava deitada sobre o meu peito, enrolada apenas em um lençol, roncando baixinho, parecendo ter zerado qualquer preocupação da vida, e talvez tivesse mesmo. Com cuidado, puxei o braço que ela prendia com o corpo e me levantei, doido por uma chuveirada quente que lavasse o resto da noite. Cinco minutos depois, já debaixo do jato quente, ela entrou no box completamente nua, com aquele sorriso satisfeito de sempre.
- Por que não me chamou? – Perguntou, se enfiando debaixo da ducha sem a menor cerimônia.
- Não queria te acordar. - Comecei a espalhar o sabão pela pele dela, e não demorou muito para o meu corpo reagir. Automático e previsível.
- Mmm. - Ela sorriu para mim e me deu um selinho. - Podíamos passar o dia deitados na sua cama, o que acha?
- Temos aula. - Beijei de leve a bochecha dela, tentando não esticar muito o assunto. - E minha mãe chega de viagem daqui a algumas horas.
Joguei um último jato d’água no rosto e peguei a toalha, enrolando na cintura enquanto deixava o banheiro. Se eu ficasse mais tempo ali, definitivamente não iria sair tão cedo.
- Quando vai me apresentar para os seus pais? - A pergunta veio como um míssil, me paralisando no meio do quarto.
Por que, exatamente, eu a apresentaria para os meus pais?
- Eles são... muito ocupados. - Mandei a primeira desculpa esfarrapada que me veio à cabeça, enquanto procurava minha camisa.
- Sei... - Voltou para o quarto, cruzando os braços com aquele ar meio provocador. - Podemos chegar atrasados e esperar eles chegaram de viagem.
Que garota insistente.
- Não dá, tenho Minimester de fotografia no primeiro tempo. Não posso deixar a Brooklyn na mão.
- Brooklyn? - começamos a vestir nossas roupas ao mesmo tempo. - Brooklyn Bennette?
- Sim, somos uma dupla. A conhece? - parei para encará-la.
- Claro, fizemos algumas aulas juntas desde que ela começou a estudar na Trinity. Ela é muito inteligente. - Vestiu a sua saia, me tirando o prazer de ver sua lingerie.
- Vocês são amigas, então?
Ela me deu um olhar engraçado e depois vestiu sua meia até o joelho.
- Eu até que gostaria, mas as únicas pessoas que ela deixou se aproximar foram Emma e o trio.
- Trio? - Ajeitei meu suéter.
- Nathan, Josh e Edward. - Começou a pentear os cabelos. - Eles são... O trio. Os garotos mais populares da escola, segundo todo mundo da Trinity.
- Como assim? - Fiquei intrigado.
- Tudo começou quando vazaram umas fotos do Edward beijando um garoto no primeiro ano. Alguns alunos ainda com a mente retrógrada queriam pedir a expulsão deles, mas Nathan e Josh os defenderam na frente de todos e até fizeram um discurso legal sobre como ser diferente não te torna menos humano. - Ela me encarou. - Eles nos fizeram perceber que não havia nada de errado em sermos nós mesmos. Conseguiram convencer os alunos que eles estavam errados e a não dedurarem a diretoria, para não se tornar de fato, um problema. Depois disso se tornaram “as pessoas com quem você definitivamente deve fazer amizade”. Mas... Parece que ninguém é bom o suficiente para isso. A não ser a Brooklyn e a Emmalyn.
Fiquei um tempo em silêncio, absorvendo tudo aquilo. Era interessante, de alguma forma, para uma escola tão conservadora.
- E o que a Brooklyn tem de especial para ter entrado nesse ciclo fechado? - Perguntei, calçando os sapatos.
April pareceu viajar por alguns segundos, como quem remexe uma memória antiga.
- Ela era bem esquisita quando começou a estudar na Trinity. Não falava com ninguém, nem deixava ninguém se aproximar. - Riu sozinha. - Acho que foi justamente isso que chamou a atenção deles.
Deu de ombros, parecendo fingir não se importar por não fazer parte do grupo deles.
- Vamos comer alguma coisa? – Perguntou, já pronta, enquanto eu ainda lutava com o cadarço.
- Já vou indo.
Assim que a porta se fechou, alcancei o celular na cabeceira e comecei a passar pelas fotos da Brooklyn que eu havia tirado na tarde passada. A tela parou numa em particular: ela, encostada na grade enferrujada do High Line, olhando para o horizonte, as mãos segurando a alça da bolsa como se agarrasse alguma coisa invisível. O vento bagunçava um pouco o seu cabelo, e o sol poente pintava o céu atrás dela com aqueles tons meio dourados, meio sujos, típicos de Nova Iorque. Parecia totalmente alheia a mim, a câmera, a qualquer pessoa. Só ela e aquela cidade enorme ao fundo.
Eu tinha certeza de uma coisa: ela escondia algo.
Só não entendia como ninguém mais parecia perceber.
Brooklyn’s POV:
Trinity School – 139, West 91st Street. New York, NY 10024
Eu girava devagar a lente da minha a câmera analógica, só para ter algo entre as mãos, ouvindo ao fundo o fotógrafo convidado começar um discurso clássico, meio encantado consigo mesmo. Enquanto eu observava a luz atravessando as janelas altas e riscando o chão de madeira, iluminando os fios de poeira suspensos no ar. Havia algo poético nisso, ou cansativo, dependendo do humor.
- Antes de qualquer câmera, antes de qualquer botão, havia apenas luz...
Inspirei e encostei o queixo na mão. Já tinha lido aquilo em mil lugares, mas havia algo de curioso na maneira como ele pronunciava cada palavra, parecendo querer devolver a fotografia a poesia que ela havia perdido com os filtros de Instagram e os cliques automáticos.
- Câmara escura. - O fotógrafo prosseguiu, pegando uma caixa de madeira que parecia um artefato de museu. – A avó de todas as câmeras. Um orifício, luz, uma imagem invertida. Simples e absolutamente revolucionário.
Eu observava mais do que ouvia. Os outros da oficina se curvavam sobre os cadernos ou mexiam no celular. Só eu mantinha os olhos atentos, não ao que ele dizia, mas a maneira como a luz se derramava sobre a Câmara escura, projetando um traço de sombra na mesa, como uma fotografia que ninguém vai tirar.
- A fotografia não nasceu para ser arte. - Continuou ele, mais íntimo agora. - Nasceu da curiosidade, da necessidade humana de capturar, preservar... Controlar o tempo.
Minha boca se curvou, quase imperceptível. Aquela frase fazia todo sentido. Talvez fosse por isso que eu tivesse me interessado por fotografia. Não pelo belo, mas pela tentativa poética de congelar o que, de qualquer forma, vai escapar. Olhei de canto para , e ele também me observava, meio perdido, meio intrigado. Não sustentei o olhar. Voltei a mexer na câmera.
- Agora que já ouvimos um pouco da história da tecnologia fotográfica, eu gostaria de ver a foto que vocês tiraram com os celulares de vocês.
Enquanto ele chamava as duplas, eu deslizei o dedo pela galeria até parar na minha fotografia escolhida, eu não sabia se iriam entender exatamente o meu conceito. Mas logo voltei à superfície, e instintivamente, olhei para . Ele estava... longe. Não fisicamente, mas mentalmente. Alheio, desconectado, como esteve desde que entrou na sala hoje. Não trocamos uma palavra sequer, e sinceramente, isso me incomodava mais do que eu queria admitir.
- Senhorita Bennette, senhor ? - a voz do fotógrafo me puxou de volta.
Eu parei e olhei para , esperando que ele tomasse a iniciativa. Ele não tomou. Continuava com aquele ar de quem está em outro planeta, como se nada fosse importante bastante para merecer a sua atenção. Suspirei, começando a me sentir irritada e encarei a sala.
- A minha fotografia... — Comecei, tentando manter a voz estável, mas sentindo o olhar de todos como uma lente apontada direto pra mim. — É de um banco vazio, no High Line. Foi tirada no fim da tarde, quando a luz já começa a desaparecer, mas ainda insistia em tocar o metal frio.
Fiz uma pausa, observando a imagem projetada na tela.
- O que eu gosto nessa foto é que ela parece simples. Um banco. Um parque. Nada demais. Mas, para mim, tem algo ali... — Respirei fundo. — É como se alguém tivesse acabado de ir embora. Como se a ausência também deixasse marcas, do mesmo jeito que a presença.
O silêncio da sala se prolongou mais do que o confortável.
- Acho que... é sobre isso. — finalizei, dando de ombros, como se o assunto não tivesse importância. — Às vezes, o que mais se diz sobre a gente é o que ficou de fora da foto.
O técnico sorriu, parecia satisfeito com minha proposta.
O técnico ajeitou os óculos e cruzou os braços, satisfeito. - Muito bem, senhorita Bennette. Excelente percepção de composição. — disse, com um aceno de aprovação. E então veio o silêncio breve, uma pausa aqui estava anunciando o inevitável. Havia chegado a vez do .
Ele me lançou um olhar indecifrável, parecia desafiador e um pouco curioso, talvez. Não consegui ler. E isso me irritou mais ainda. Com toda a calma do mundo, ele levantou a foto dele. Assim que a imagem apareceu ampliada na tela, sentiu um frio seco atravessar minha espinha.
Era meu rosto.
O meu.
Um close tão íntimo que parecia invadir o espaço entre quem eu era e quem eu deixava o mundo ver. Meu cabelo bagunçado pelo vento, o olhar perdido no horizonte, um pequeno sorriso no canto dos lábios que eu nem sabia que tinha feito. Era o tipo de foto que eu nunca deixaria alguém tirar, porque mostrava mais do que eu estava disposta a mostrar. Eu sabia exatamente de onde vinha aquela expressão, era enquanto fotografava um casal de idosos. Tinha me deixado levar, só por um instante, pela felicidade simples que eles irradiavam. E agora... Ali estava eu, desnudada na frente da turma inteira, através do olhar de alguém que sequer me dirigiu a palavra.
- Senhor , essa seria a senhorita Bennette? - Perguntou técnico, intrigado.
apenas concordou com um aceno tranquilo.
- E pode nos dizer o porquê?
Ele respirou fundo, pregou seus olhos em mim e começou:
- Era o único momento verdadeiro que encontrei. – Disse, tranquilo. - Ela estava completamente entregue à cena. Foi a primeira vez que pareceu esquecer de se esconder.
Fez uma pausa. O olhar ainda gravado no meu, como se dissesse muito mais do que as palavras permitiam.
- A Brooklyn tem esse jeito sarcástico e durão... - Senti meu sangue subir até as orelhas. - Mas é só uma fachada para esconder quem realmente é. Por quê? Isso... É um mistério que eu queria entender.
O silêncio que se seguiu foi avassalador.
Meu coração batia tão forte que parecia querer explodir o peito, me expondo mais do que aquela maldita foto já tinha exposto.
- Você tem algo a dizer, senhorita Bennette? - o fotógrafo perguntou, o tom quase curioso, enquanto todos olhavam atentamente para mim.
Eu só conseguia pensar em como o pode ser tão presunçoso e tão intrometido... Senti uma lágrima escorrer, antes mesmo de perceber que ela estava ali. Em um impulso que nem eu soube de onde veio, arranquei a foto das mãos dele e, sem hesitar rasguei-a em pedaços. O som seco dos pedaços caindo pareceu ecoar muito mais alto do que deveria. Minha respiração ficou ofegante, e quando percebi, todos pareciam estar em choque com minha atitude. Sem olhar para trás, saí da sala o mais rápido que pude, odiando o fato de alguém ter me visto de verdade, porque eu não estava pronta para isso.
No corredor, me escorei no armário, tentando controlar a respiração.
O metal gelado pressionado contra as minhas costas contrastava com o calor que subia pelo meu rosto. O meu peito doía, mas não era só raiva, não era só humilhação. Era aquele tipo de dor que vem quando alguém consegue te atingir num lugar que você nem sabia que era possível.
Como ele fez isso?
Como conseguiu enxergar algo que eu mesmo evitava olhar?
Fechei os olhos por um segundo, forçando o ar entrar e sair de forma ritmada, ignorando a vontade absurda de voltar lá e perguntar na cara dele quem diabos ele achava que era. O sinal soou, estridente e o me agarrei aquilo como uma desculpa para me mover. Matemática. Nada como derivadas para tentar apagar uma crise existencial. Abri o armário com os dedos trêmulos, tentando achar o caderno entre os livros e papéis amassados. Foi então que eu ouvi:
- Pelo visto, eu fui longe demais.
A voz dele.
Fria e direta. Bem atrás de mim.
Meu corpo inteiro ficou tenso. Virei devagar, sabendo que iria encarar algo que eu preferia evitar. estava encostado no armário ao lado, braços cruzados, o corpo relaxado, mas o olhar... Não, o olhar dele era tenso. Carregava uma hesitação que eu nunca tinha visto. Não era arrogância pura dessa vez, era algo mais quieto, mais perigoso.
Que piada.
- Parece que você não conhece a palavra “limite”. – Mantive uma voz afiada, tentando mascarar o tremor.
Ele ergueu uma sobrancelha, estudando meu rosto.
- Se isso te afetou, é porque, no fundo eu tenho razão, não é?
Revirei os olhos.
- Ter razão não de dá o direito de fazer o que fez. – Disparei, trincando os dentes. – Será que você pode por favor, me deixar em paz?
- Um pouco difícil. - Ele soltou, arrastando as palavras com uma tranquilidade irritante. - Já que teremos que nos encontrar mais tarde.
O olhar dele estava preso no meu, desafiador, da forma que ele sabia exatamente o quanto me desestabilizava.
- O fotógrafo quer mais um trabalho em dupla. – Continuou. - Depois do que aconteceu, ele não vai considerar a minha foto, algo a ver com direitos autorais. Nos vemos no High Line? - Ele completou e ainda teve a audácia de piscar, lançando aquele sorriso meio debochado que me irritava mais do que qualquer coisa no mundo. - E vê se não se atrasa.
E então simplesmente virou as costas e se foi.
E eu fiquei ali, parada, com a mão ainda fechando o cadeado do armário, sem acreditar no que tinha acontecido. Eu queria gritar, jogar alguma coisa na cabeça dele. Como ele podia ser tão insuportavelmente convencido... E não se importar nem um pouco em ter me deixado tão exposta? não só mexeu comigo. Ele fez isso de um jeito que ninguém nunca tinha feito antes.
Ele me viu.
E essa era, sem dúvida, a pior parte.
Porque eu passei anos me aperfeiçoando na arte de manter todo mundo a uma distância segura. E agora, com alguém cruzando a linha, eu... eu simplesmente... Não sabia o que fazer.
Chelsea – 224 w 20th St, New York, NY
e eu tínhamos fotografado tudo o que pudesse ter algum significado. Placas antigas, vitrines vazias, sombras curiosas projetadas pelos prédios e duas horas depois, quando o céu já estava começando a dourar, decidimos ir embora. No meio do caminho, sem aviso, ele virou o volante e estacionou o carro em um pátio estreito, cercado por muros de tijolos desgastados e grafites desbotados, a poucos passos do café Grumpy. O toldo vermelho, já meio cansado, contrastava com a fachada industrial. Pela vitrine, o cenário clássico nova-iorquino: mesinhas de madeira, lâmpadas penduradas com fios aparentes e um ou outro cliente mergulhado em um MacBook Air; porque, em 2015, o mundo inteiro parecia ter um.
- O que está fazendo? – O vi dar volta no carro e, com uma formalidade quase cômica, abrir a porta para mim.
- Tentando ser educado.
Soltei uma risada curta e descrente enquanto saía do carro e ajustava o casaco.
- E resolveu começar justo hoje? - Inclinei levemente a cabeça. - Perdeu alguma aposta?
Ele riu.
- Não... Só achei que fosse gostar.
Arqueei a sobrancelha, desconfiada.
- Gostar? Tipo quando um gato traz um rato morto para pressionar o dono?
- Eu não teria definido exatamente dessa forma, mas... - Deu de ombros e fechou a porta com um estalo tranquilo. - Vamos comer alguma coisa?
Começou a caminhar na minha frente, sem nem mesmo esperar uma resposta. Entrei logo atrás dele, sentindo aquele aroma inconfundível de café recém moído misturado ao cheiro de madeira envelhecida, em um leve traço de ansiedade coletiva pairando no ar. Clássico de Nova Iorque.
- Oi, pode me trazer um café? - pediu a barista que usava camisa xadrez e tinha um vinil dos Strokes tocando baixinho atrás dela.
- Achei que os canadenses preferissem... sei lá, xarope de bordo. Ou cerveja.
Ele virou ligeiramente, com aquele sorriso de quem já tinha ouvido coisa pior.
- Estou tentando me encaixar na cultura Americana. Além do mais, aposto que pediriam minha identidade se eu pedisse algo alcoólico.
Aproveitei a deixa, afiada.
- Se quiser mesmo se enturmar, devia começar a usar casacos. Sério, parece que você está desafiando a gripe.
Ele deu uma risada abafada, puxando a manga da camisa.
- No Canadá isso aqui é primavera. - E deu de ombros, naquele tom blasé.
Seguimos até uma mesa de madeira, perto da janela, onde a luz de fim de tarde entrava enviesada, dourando tudo com aquele tom meio irreal. Um cara do outro lado estava digitando furiosamente no seu MacBook e na mesa ao lado duas garotas discutiam qual edição em vinil de 1989 da Taylor Swift era mais autêntica. Uma barista voltou com o café de , e já que eu estava ali...
- Vou querer um x Burger, batata fritas, mas só se for no óleo de amendoim e um suco de laranja. - A barista anotou o pedido, mas quando olhou para parecia ter esquecido como se respirava.
- Só o café, obrigado. - Ele respondeu, completamente alheio ao colapso emocional da garota.
Quando ela finalmente saiu, eu não pude evitar um sorriso irônico.
- Você já considerou abrir um culto ou ainda está curtindo o papel de semideus local?
Ele ergueu a sobrancelha, fingindo ingenuidade.
- Não faço ideia do que está falando.
- A barista. Acho que ela acabou de escrever seu nome com coraçõezinhos mentais.
me olhou, rindo.
- É esse o segredo? Carboidratos e sarcasmo?
Dei de ombros.
- Sempre funcionou para mim.
Ele largou a xícara e, do nada, soltou:
- Por que Brooklyn? - perguntou de repente, mudando a rota da nossa conversa.
O olhei confusa.
- Como assim?
- Porque se chama “Brooklyn?”
Mordi os lábios, não sabendo bem qual era a resposta daquela pergunta.
- Acho que foi porque eu nasci lá. - Dei de ombros. - Meus pais certamente não são fãs de brainstorm.
O vi inclinar o seu corpo para a frente enquanto dava um sorriso.
- É mesmo? Eu nasci em Ottawa... E felizmente, não me chamaram assim.
- Ainda bem. Iria ser péssimo ter que falar seu nome em voz alta.
Ele olhou para fora, como quem testa a ideia e depois de um sorriso breve.
- Não que eu ache que esteja errado, mas... - ele soltou um suspiro longo, meio dramático demais para quem tenta bancar o indiferente. - Acho que talvez eu tenha cruzado um pouco a linha hoje mais cedo.
Arqueei a sobrancelha, mordaz.
- Isso quase soou como um pedido de desculpas.
Ele ergueu a xícara e deu um gole longo, sem nem piscar, sem desviar os olhos. Tão tranquilo que dava raiva.
- Foi mal. - comprimiu os lábios em um sorriso nada convincente de que realmente sentia mal.
- Isso não é um pedido de desculpas. - Usei um tom repreendedor.
- Essa é a sua opinião. – Debateu.
- Não, é a definição de uma desculpa fajuta. Tenta de novo.
Ele pareceu relutante, o que me fez revirar os olhos.
- Você vai acabar vendo seu cérebro, de tanto que revira os olhos.
- Um comentário sarcástico?
- Estou aprendendo com a melhor.
Optei por não responder e ficar em silêncio. Mas óbvio que isso não o impediu de ficar em silêncio também.
- Vamos fazer um acordo.
Estreitei os olhos, desconfiada.
- Geralmente quando alguém fala assim, é algo entre vender a alma ou cair numa pirâmide financeira.
Ele sorriu, achando graça.
- Relaxe... nada tão catastrófico. Eu te conto um pouco da minha vida no Canadá... e você me conta um pouco da sua vida, antes de eu ter chegado aqui.
- ...
- Quando você estiver preparada e quando confiar em mim. - Me interrompeu. - Temos um acordo? - estendeu a mão em minha direção e eu a olhei.
- Por que você iria querer saber sobre minha vida? – questionei.
- Porque eu adoro mistérios e é tudo o que eu vejo quando olho para você. - Me encarou seriamente ao abaixar a sua mão.
- E se não for um mistério? E se for só... Sei lá, uma história deprimente sem graça, igual aqueles relatos gigantes no Facebook que ninguém lê até o final?
Ele deu uma risada curta.
- Então vai ser bom pra você. Pode tirar um pouco desse peso das costas e... Quem sabe, comecei a amolecer um pouco o coração.
- Está me chamando de insensível
ele deu de ombros, tranquilo.
- Talvez, mas geralmente, quem fica insensível tem um motivo bem forte para isso.
Essa frase ficou no ar, pesada e cru. Abaixei o rosto de novo, encarando as minhas mãos como se elas pudessem resolver o que eu não conseguia. Ele se inclinou, estendendo a mão novamente.
- Eu só quero saber quem é a verdadeira Brooklyn Bennette. O que me diz?
Será que isso seria uma boa ideia?
A pergunta surgiu antes mesmo de eu perceber. Ela não vinha da cabeça, vinha de um lugar mais fundo, daquele incômodo onde as coisas que a gente evita guardar acabam ficando. Compartilhar meu passado com alguém… qualquer alguém… já parecia complicado. Com ? Um garoto que eu mal conhecia, que parecia metade tempestade, metade luz da manhã? Pior ainda.
Porque não era só contar, era deixar alguém formar uma opinião baseada em versões de mim que eu mesma detestava lembrar.
Eu não sabia se queria isso.
A verdade é que existe uma parte do meu passado que parece radioativa: tudo o que toca contamina. Ou, pelo menos, é assim que sempre fez eu me sentir. E a última coisa que eu queria era ver nos olhos dele, ou de qualquer pessoa, aquele olhar que eu aprendi a reconhecer de longe: mistura de pena com curiosidade disfarçada. O tipo de olhar que dói mais que qualquer palavra.
Mas estava ali, sentado na minha frente, os dedos ainda estendidos sobre a mesa, a mão meio aberta como quem oferece uma porta, não uma armadilha. E por alguma razão idiota, ou talvez só humana, eu senti algo quieto dentro de mim… se mover.
Talvez fosse esperança.
Talvez fosse medo.
Difícil diferenciar quando os dois se parecem tanto.
- Brooklyn?
Olhei para o lado e avistei Emma parada a poucos metros de mim. Tinha uma expressão estranha.
- Emmalyn? - Levantei e caminhei até ela. - O que você tá fazendo aqui?
- Eu estou tentando falar com você há dias, mas eu... - Olhou para e depois para mim. - Podemos conversar?
Nos afastamos um pouco da lanchonete e durante esse processo eu podia sentir que Emma estava apreensiva, talvez um pouco ansiosa? Ela ficou de frente para mim, parecendo tentar encontrar as palavras para serem ditas.
- Você está começando a me deixar preocupada. – Analisei.
- É sobre o jogo de Ouija, eu... - Parou de falar e começou a beliscar os próprios dedos.
- Emma, tudo bem! Seja lá o que estiver te incomodando você pode me falar. - Tentei tranquilizá-la.
Ela olhava para todo canto daquele local menos para mim, visivelmente inquieta e tinha um semblante carregado.
- É que... - Ela finalmente me encarou. - Fui eu quem escreveu o nome Lucy no Tabuleiro. - disse muito rápido, mas ainda assim eu consegui entender todas as palavras.
A frase caiu entre nós como algo denso demais. Por um segundo, o mundo inteiro pareceu entrar em mudo. Só o som do meu próprio coração ecoava forte, irregular, como se tivesse levado um soco inesperado no peito. Meu corpo congelou. Literalmente congelou. Eu senti o ar se retrair dentro dos meus pulmões, como se tivesse engolido gelo. Meu estômago despencou tão rápido que cheguei a sentir tontura.
- Emma... Você... - senti minha mandíbula travar. - Como você sabe sobre a Lucy? - Minha voz era gélida, sem emoção alguma.
Ela suspirou.
- Teve uma vez em que fomos para a casa do Ed e você adormeceu no meu colo e de repente começou a falar. De início, eu pensei que estava falando comigo, mas depois você começou a falar sobre essa “Lucy” e eu percebi que você estava sonhando. - Prendi minha respiração. - Teve outra vez em que nós ficamos estudando até mais tarde na sua casa e acabamos adormecendo. Eu acordei com você conversando com alguém. Até achei que fosse o John, mas não tinha ninguém ali, além de mim. E novamente você voltou a falar o nome “Lucy”. Eu percebi que não poderia ser apenas alguém da sua imaginação, que essa Lucy realmente deve existir. Eu fiquei semanas, meses até, esperando você me contar quem era, mas você nunca disse. Mas você nunca contou nada sobre seu passado. Nunca. - A voz dela quebrou. - Quando o Ed sugeriu o jogo… eu achei que seria uma chance. Eu pensei que, se fosse importante… você talvez finalmente falasse. - Ela suspirou outra vez. - Mas fora suas reações estranhas, você não tocou no assunto. Me desculpe, Brooke, eu sei que errei em ter escondido isso e que provavelmente eu deixei você pensando muitas coisas, eu só não encontrei outra saída para fazer você falar.
Eu senti algo dentro de mim partir. Não quebrar. Partir. Diferente. Como uma rachadura profunda, antiga, sendo reaberta.
- E por que não me perguntou? - Minha voz sou mais cortante do que eu pretendia. - Por que não, sei lá, conversou comigo ao invés de me enfiar num teatro de terror psicológico?
Emma encolheu os ombros.
- Me desculpa, Brooke... Eu só... Não sabia como.
Eu respirei fundo, lutando contra o impulso de explodir ali mesmo.
- Podemos... conversar outra hora? Estou ocupado agora.
Não esperei uma resposta.
Dei as costas e fui até , que me observava enquanto comia minhas batatas. Quando me aproximei, ele mastigou calmamente e soltou, sem o menor peso na consciência:
- Espero que não se importe. - Se referiu às batatas.
- Tudo bem. Eu perdi a fome. - Puxei minha bolsa e joguei no ombro. - Você pode me levar para casa?
Ele se levantou, franzindo cenho.
- Você está bem?
E aí eu percebi o tamanho do caos dentro de mim. Porque eu queria mentir, queria dizer “sim”, como sempre. Queria colocar uma piada no meio, suavizar tudo, jogar um manto de sarcasmo por cima. Mas minha própria voz me traiu.
- Não – Engoli seco. - Na verdade, não.
De canto de olho, vi um senhor de idade sentado no chão, segurando um cartaz ilegível, talvez um “ajude”. Não importava. Andei até ele, me acompanhando em silêncio, e entreguei meu lanche e uns dólares que tinha guardado. O velho me olhou surpreso e abriu um sorriso enorme.
- Deus te abençoe. – Murmurou, antes de se atirar faminto no lanche.
Fiquei ali parada, observando-o comer, até que num sussurro ácido, quase involuntário, eu falei:
- Deus não existe.
Continua...
Nota da autora: Sem nota.
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