Última atualização: 31/08/2019

Capítulo um.

– Eu recebi o convite mãe, sim tá lindo, um castelo? Bem original.. no inverno..com neve.. no natal..mais alguma coisa? - andava de um lado para o outro dentro do estúdio segurando o celular com o ombro enquanto rabiscava na prancheta o que já havia feito e escutava minha mãe tagarelar do outro lado da linha. - um par? Pra que? - parei os passos de imediato. - meu Deus. - soltei todo o ar que reprimia no pulmão e senti os olhos da minha melhor amiga saírem da tela que pintava. - não! Eu tenho alguém. Oh, surpresa! Não achei que fosse importante. Mãe, conversamos em três dias pode ser, porque se minha presença é tão importante eu preciso me organizar no estúdio. Ok, amo você.
Desliguei o celular e o joguei no sofá confortável do estúdio caindo logo após de olhos fechados, era meu pior pesadelo acontecendo em pouco tempo de possibilidades de fuga. Minha mãe, uma mulher incrível e bem sucedida decidiu a cinco anos atrás que seria legal ter um namorado, depois de tanto tempo sem alguém, e que não seria um problema ele ter filhas, até porque éramos grandes o suficiente para não brigarmos como crianças. E de fato, no começo havia sido uma ótima idéia, a cinco anos atrás quando minha mãe passou a sorrir mais e voltou a se apaixonar pela vida, Greg era um homem incrível e fazia bem para ela, e o único problema realmente foi as duas meia irmãs que ganhei com toda aquela ideia.. Ashley e Anny eram mulheres lindas, uma com uma família maravilhosa e perfeita, a outra caminhando para isso. E esse era o grande problema, as garotas sempre sonharam com uma vida comum de mulher comum e mostravam para minha mãe o quanto isso era o certo, é bom, eu nunca liguei para nada além de meus objetivos profissionais e meu amor próprio. O contrário das duas, e o errado na visão da família tradicional e com isso as datas comemorativas se tornaram uma tortura onde elas me esfregavam a vida perfeita, sem me dar tempo de contrapor. Agora Anny iria se casar, em menos de uma semana e teve a perfeita ideia de fazer de seu casamento o evento mais esperado dos últimos tempos. Greg era dono de um império de hotéis e devia comprar pão com notas de mil dólares, que nem existem, e o noivo da garota era simplesmente um piloto de fórmula1 famoso e podre de rico, dando a chance dela realizar o sonho de se casar em um castelo na puta que pariu, no inverno e ainda levar toda a família para passar o Natal também, que aconteceria dias antes da data tão especial para ela. Até então era o sonho de qualquer garota normal, o problema era eu não ser uma garota normal e não queria presenciar toda a encenação e felicidade da família, iria ao casamento, era claro, mas agora minha mãe via a necessidade de ter toda a família unida desde o começo.
Só lembrei onde estava e que não poderia viver para sempre em meus pensamentos quando foquei os olhos na garota em pé na minha frente, o cabelo cacheado estava mal preso e uma mecha caia sobre seu rosto sujo de tinta óleo.
– Estou aqui por muito tempo? - perguntei com uma careta, ela deu de ombros voltando para sua tela.
– Uns cinco minutos. - falou um pouco mais alto para que eu escutasse.
– Esse casamento está me deixando louca. - choraminguei.
– Eu percebi. - a encarei confusa. - criou até um namorado falso.
– Eu o que? - me ajeitei no sofá ficando mais próxima da garota.
– Escutou o que disse para sua mãe?
– Oh meu Deus. - arregalei os olhos notando o que havia acabado de fazer.
Minha mãe insistia que era uma boa ideia levar um acompanhante, que as garotas de Greg já estavam falando e que se não encontrasse alguém ligaria para James, e foi num ato de puro desespero eu disse que tinha alguém, e eu não tinha. Mira deu uma última pincelada para jogar o pincel de lado e caminhar de volta para próxima de mim.
– Eu tenho alguém. - ela repetiu. - oh, surpresa pra você também. - tirou sarro me fazendo grunir. - você está tão saturada que nem se escuta mais. Acho que precisa mesmo de férias Ali.
– Mira, eu preciso de um namorado. - surtei. - em três dias.
– Posso ir com você. Você não especificou o sexo.
– Choque demais para aquela família. - descartei a ideia. - e minha mãe te conhece.
– Eu tenho um irmão. - respirei um pouco mais aliviada ao ver que ela entendia o que estava acontecendo, era por essas e outras que ela era minha melhor amiga, irmã, sócia e tudo o que eu podia dizer.
– De 15 anos. - revirei os olhos e ela pensou mais um pouco.
– Joe?
– Eca, ele é seu namorado.
– Se vocês não transarem, eu não me importo.
– Sem chance. - descartei a ideia, além de namorado da minha melhor amiga, Joe era meu melhor amigo, pe seria no mínimo nojento.
– Você pode pedir para algum de seus amigos.
– Eu preciso de um milagre. - joguei as mãos para o alto.
– Alguém me chamou?
A voz conhecida do rapaz soou reconfortante no cômodo grande, Joe entrou no estúdio carregando três copos e um saco kraft nas mãos, meio desengonçado mas tomando todo o cuidado para não deixar que o néctar dos deuses, ou os cafés, que carregava fossem ao chão. Eu está prestes a soltar um gemido de prazer em saber que pelo menos algo bom aconteceria naquele dia se atrás dele não estivesse alguém que gostava de tornar a minha vida um pouco mais difícil do que já estava, nos encarou com um sorriso torto e eu consegui desviar meus olhos imediatamente quando notei em sua mão uma guia de cachorro azul e um dálmata enrolado entre suas pernas.
– Lupin! - exclamei alto o vendo parar o que fazia e me olhar animado, antes que pudesse causar algum estrago o rapaz soltou a guia libertando o cão que correu em minha direção. - tinha me esquecido de buscar você. - acariciei a cabeça do animal feliz.
– Mira me avisou, e também pediu..
– Café! - comemorou correndo até o namorado selando os lábios nos dele e depois saindo com seu copo.
– Chocolate gelado pra você. - ele me esticou o outro copo. - e rosquinhas. - anunciou colocando o saco na mesa de reunião. - além de trazer o responsável pelas melhores bebidas de NY. qual é a boa?
precisa de um namorado. - a morena comentou entre um gole do café.
– Não é uma novidade. - Joel deu de ombros enquanto o amigo sorria divertido pela situação.
– Em três dias. - completou a fala fazendo o rapaz arquear a sobrancelha.
Dediquei aqueles segundos de explicação que Mira teve o prazer em dar aos dois novos membros do cômodo para acariciar mais uma vez o cachorro que roía um osso de brinquedo, só voltei a prestar atenção quando ela terminou a história. Encarei os três por cima do copo esperando pelos comentários.
– Não era mais simples falar pra sua mãe que você não namora de verdade?
– Ela vai chamar James se eu não levar ninguém.
– Isso é um problema. - ele me apontou, ponderando seus pensamentos. - então precisamos de um homem para você.
– De preferência que seja perfeito nos olhos da Sra. Foster. - Mira complementou com a boca cheia de rosquinha.
– Ou melhor, das filhas de Greg.
Ficamos em silêncio por um tempo, cada um em seu próprio pensamento tentando encontrar um caminho seguro a seguir, levar qualquer pessoa seria arriscado e eu poderia ser desmascarada, levar Joe estava fora dos planos, era pouco tempo para contratar alguém e o lugar só voltou a ter som, na verdade um grito de Joe quando Lupin cruzou a sala e se deitou aos pés de seu amigo.
– Tenho a solução dos seus problemas. - ele falou animado, todos o encararam curiosos.
– Eu tenho medo. - disse baixo e ele sorriu ainda mais abertamente.
– Está na frente de nossos narizes. - abriu as mãos realmente contente com o que provavelmente pensou.
– Já disse que você está fora dos planos. - neguei com a cabeça e ele arregalou os olhos.
– Credo! - exclamou fazendo cara de nojo, quis olhar para minha amiga e soltar aquele velho olhar de "eu disse", mas estava curiosa demais para que ela começasse a se explicar pela ideia. - seria nojento.
– Eu sei. - concordei, Mira fez um barulhinho com a boca que foi ignorado.
– Vai lá gênio, qual sua ideia? - a namorada perguntou se arrumando na mesa para minutos depois quase cair com a ideia do namorado.
- apontou para o amigo que passava a mão no cachorro e congelou no mesmo momento.
– Eu o que? - ele arregalou os olhos.
– Vai fazer o que semana que vem?
– Qualquer coisa que não seja ir a um castelo.
Eu estava estática, sem saber o que pensar ou fazer, de uma hora para outra parecia a única solução imediata, ele era melhor amigo de Joe e consequentemente frequentador nato do nosso estúdio, ou qualquer lugar que íamos. Desde que me mudei para NY foram poucas as vezes em que ele não estava por perto, ou que nós não estávamos em seu café. Mas isso não impedia nos dois de reciprocamente escolhermos um ao outro para ter um ódio gratuito. Não que realmente não gostasse dele, era um cara legal em algumas vezes, ligado a cultura e eventos bacanas e se encaixava perfeitamente no grupo, mas algo sempre acontecia para que começássemos uma discussão ou algo do tipo. Encarei o homem a minha frente, agora sem dar atenção ao cachorro e sim mantendo os olhos sérios e o maxilar trincado, ele não podia ser a única solução.
– Nem pensar. - consegui dizer depois de um tempo. Recebi o olhar do casal em censura. - não daria certo.
– Porque não? - Mira parecia ouvir os pensamentos do namorado. - vocês se conhecem, vivem juntos.
– Podem usar o dia em que se conheceram como o começo de tudo.
– É inventa um pedido de namoro bonito, numa exposição de fotos que ela curte, no central park. É fácil.
– Não é tão simples.
– Vocês só precisam se abraçar as vezes, trocar alguns beijos, e tentar não brigar. - Mira contou nos dedos me fazendo bufar e negar com a cabeça.
– Cara a é uma gata, você também não fica pra trás. Até combinam.
– Cala a boca Jota. - revirou os olhos.
– Então quem? - a pergunta ficou no ar.
Não havia outra pessoa ou tempo o suficiente para acha-la, e eu estava ainda mais ferrada. Respirei fundo e encarei o homem em silêncio enquanto meus amigos continuavam em apontar pontos que tornaria aceitável a ideia, me encarou também, no começo houve um olhar cúmplice, ele via o quanto eu precisava de sua ajuda e foi aí que seus lábios se tornaram uma linha fina e maliciosa, os olhos azuis brilharam em desafio.
– O que eu ganho? - ele soltou de repente. Quase engasguei. - se eu aceitar ir, o que ganho com tudo isso?
– Cara você vai passar duas semanas num castelo, sei lá com mordomos massageando seus pés.
– Pouco. - ele sorriu. - não é trabalhoso pra .
Soltei uma risada falsa, não era trabalhoso? Só ir até lá era um trabalho e tanto. Mas era claro que aquilo ia acontecer senão não seria Cooper e antes de responder eu fiz questão de bufar alto e revirar os olhos.
– O que você quiser. - soltei vencida e ele riu.
– Te pego que horas? - ele brincou enquanto se levantava.
– Estou realizando um sonho. - Joe comemorou e Mira apenas riu de leve enquanto eu me remoia no sofá e era acalmada pelas patinhas que subiam ao meu lado.

Capitulo dois

As malas prontas no quarto diziam que o tempo tinha passado rápido demais e aquilo apenas me fazia apertar a alça da caneca com o café já frio, estava ansiosa e insegura, mesmo que Mira dissesse umas quatro vezes que não tinha como dar errado e que Joe havia tido uma conversa com , em segundos seria apenas nós dois e eu estaria lidando com o inesperado. Eu não sabia como seria quando minha mãe o conhecesse, como seria a reação dele quando chegasse no castelo, nem mesmo se Anne e Ashley que costumavam ser tão observadoras cairiam naquela mentira.
- você esta com medo de James. - Mira soltou de repente me fazendo a encarar incrédula.
- o que? - o nome me fez estremecer.
- é o motivo da mentira não é? - ela me encarou firme e parou o carinho que fazia na barriga do dálmata. - você não contaria essa mentira atoa, nunca o fez.
- eu só não queria o encontrar. - suspirei cansada. Mira me conhecia tão bem que mesmo sem eu tocar no assunto ela sabia que um dos reais motivos da minha incrivel ideia de arrumar um namorado era pelo fato de que ele estaria lá.
- já tentou falar com sua mãe sobre isso?
- algumas mil vezes. - bufei tomando um gole do café. - mas ele é primo das meninas, é como evitar de que esse café esfriasse. - filosofei numa careta irritada indo até a pia. - queria o poder jogar pela pia assim também. - observei o liquido preto escorrer pelo ralo.
- vai dar certo. - Mira se aproximou. - além de tudo é seu amigo, mesmo do jeito dele, acho que vocês vão terminar melhor do que esta esperando.
- se isso quer dizer vivos e inteiros, eu espero que sim.
A conversa terminou quando meu celular tocou e o nome da minha mãe apareceu na tela, Mira se despediu rápido e subiu para o estúdio me deixando sozinha no quarto, atendi a ligação e a deixei no viva voz.
- oi mãe. - respirei fundo terminando de arrumar a mala de mão.
- já estão a caminho? - a voz chiou do outro lado.
- quase, estou esperando .
- estou ansiosa para conhece-lo. - a voz parecia sorrir, não consegui sorrir com ela. - acho até que já comentou sobre ele, não?
- algumas vezes, ele é amigo do Joe.
- imaginei. Como ele é? Bonito?
- mãe! - reclamei e me virei para a porta do quarto.
Por um segundo consegui segurar o grito de susto que subiu minha garganta, estava parado na porta, a blusa cinza de linho estava justa na medida certa em seu corpo, ele segurava um casaco preto pesado e no pescoço havia um lenço verde musgo. Travei o maxilar quando a mulher repetiu a perguntar com risadinhas no fundo e ele sorriu de lado apontando para o aparelho, ali estava o sorriso que tanto me acompanhava, era o desafio estampado em seu rosto, seus olhos brilhavam esperando a resposta.
- , qual é? - minha mãe reclamou como uma adolescente. - só quero saber como ele é.
- acredite, ele é. - soltei num suspiro e senti o sorriso de crescer em seu rosto. - preciso ir, até algumas horas.
Encarei o homem mais uma vez enquanto desligava a ligação, ele riu baixo balançando a cabeça e sumiu no corredor do apartamento, sabia que ele não deixaria aquele comentário passar despercebido. Puxei as malas para fora do quarto.
- É tão difícil assim dizer que sou bonito? - ele provocou assim que sentiu minha presença e tirou os olhos do celular.
- Não gosto de trabalhar sobre pressão. - fiz careta ao homem que riu mais uma vez, dessa vez a risada saiu rouca, preferi ignorar o poder que ela teve sobre os pelos do meu corpo.
- você precisa melhorar em suas mentiras Foster. - ele passou por mim e pegou a maior mala saindo do apartamento.
manteve o carro num clima agradável enquanto as ruas avançavam pela janela , a música tocava baixa e eu tentava me distrair o máximo com a voz rouca do vocalista de Kings of Leon. Durante todo aquele caminho senti que ele me analisava e quando notou que pela terceira vez eu mordia o dedo num ato de ansiedade ele perguntou.
- Não quer estar lá? - perguntou de repente o olhei confusa. - você esta nervosa. - apontou.
Não o encarei para responder.
- Não. - suspirei derrotada. - isso tudo é uma grande idiotice. Anny gosta de status, vai casar com um cara pobre de rico e não tinha forma melhor de esfregar na cara de todos como sua vida é perfeita que não fosse nesse casamento estúpido.
- Não me parece confortável com a felicidade de sua irmã. - ele questionou me fazendo rir falsa.
- Oh não, na verdade quero que ela seja bem feliz, o mais longe possível de mim de preferencia.
- Ok, preciso saber o que acontece nessa família?- quis saber mais, acho que nunca havíamos conversado sobre isso.
- Ela não é minha irmã, na verdade elas, Anny e Ashley. As duas são filhas do namorado da minha mãe, e eu não estaria exagerando se as comparasse com as meias irmãs da Cinderela. - ri falsa - Eu até tento fugir dos eventos daquela família, mas é importante para minha mãe que eu participe dessa vez, e é importante para minha sanidade sustentar a ideia estúpida de levar um namorado falso.
- Não era só explicar que você não tem um namorado?
- Não tive essa ideia apenas para fingir ser a garota perfeita como elas. - suspirei irritada. - Na verdade estou enlouquecendo com essa história, tudo isso porque não é suportável ouvir elas falarem mais uma vez o quanto eu sou uma fracassada.
O carro ficou em silêncio de repente, o estacionamento do aeroporto já estava logo em frente e eu nem sequer notei o tempo passar.
Depois da conversa o carro pareceu pesado por um instante, o ar parecia quase me sufocar, foi quando estacionou e voltei a ouvir sua voz que consegui respirar normalmente.
- Não acho que alguém que tenha seu próprio estúdio e seja reconhecida como um dos nomes mais promissores da atualidade em questão de fotografia seja uma fracassada.
Engoli em seco ao ouvir aquelas palavras, em todos esses anos que andamos juntos ele nunca havia falado algo sobre aquilo, sempre elogiou os trabalhos mas daquela maneira era a primeira vez. Notei que estava sozinha no carro e o segui para fora.
- Nunca disse isso sobre mim. - falei quando o encontrei no porta malas descarregando o carro.
- Porque você nunca precisou ouvir isso. - deu de ombros.
- Obrigada. - agradeci pelo reconhecimento. - mas isso não parece o suficiente para aquela família.
- Acho que consigo te entender.
- Tem problemas com a sua família?
- É bem complicado. - terminou a conversa e começou a andar.
Entendi que não era uma área segura para insistir na conversa, e não continuei a perguntar. continuou em silêncio durante uma parte do voo, o copo de whisky dançando entre seus dedos. Era até fácil fazer o assunto fluir com ele, nossos gostos eram parecidos e demos risada quando a aeromoça nos atendeu e não sabíamos fazer o pedido. Naqueles momentos de descontração consegui esquecer o que aconteceria em algumas horas, mas quando dei por mim os Alpes Suíços tomaram conta da paisagem.
Senti minha barriga revirar quando sai do posto de desembarque e avistei minha mãe conversando com Greg, ela parecia animada, minha ansiedade cresceu. Meus pés travaram assim que ela me encontrou. Não daria certo, onde eu estava com a cabeça? E vai ser pior do que se eu tivesse contado a verdade. Não me lembro quando parei de respirar, mas lembro-me bem da sensação estranha que tive quando a mão grande do rapaz ao meu lado contornou minha, ele sorriu enquanto me olhava, sereno e calmo e eu engoli em seco.
- Vai dar certo. - ele sussurrou, próximo demais no meu ouvido como se fosse algo corriqueiro.
Encarei o homem ao meu lado, os olhos azuis brilhavam intensamente, era a primeira vez que eu realmente o encarava, era como estar mergulhando em um oceano tranquilo que me ajudou a respirar melhor, piscou levemente sem quebrar o contato visual mas deixando o momento leve. Teríamos ficado ali por mais alguns segundos se a voz da mulher que eu tanto conhecia não tivesse me puxado para a superfície.
- Eu quase não acreditei. - balancei a cabeça encarando a mulher que vinha sorridente em nossa direção.
Mamãe estava tão bem vestida como costumava ser, amante da moda da velha guarda ela usava um sobretudo bege, com botões escuros e um bom cachecol já denunciando o frio que estava do lado de fora. Arqueei a sobrancelha com o comentário.
- Mas você realmente existe. - ela se virou ao rapaz que sorriu quase tímido. - e é lindo.
- Obrigado Senhora Foster. É um prazer finalmente conhecê-la. - ele pegou as rédeas da conversa e eu agradeci mentalmente por isso.
- Mas nem pensar, Eliza para você querido. É um prazer conhecê-lo também, só um evento como esse para que compartilhasse essa novidade.
- Mãe. - reclamei e ela sorriu divertida.
- Só estou comentando. - ela se dirigiu a mim. - estou feliz em vê-la. - me abraçou firme, o abraço que tanto conhecia e gostava. - está tão linda.
- Obrigada. Você também está linda.
- Sua mãe não sai sem uma boa produção. - Greg se pronunciou me fazendo sorrir divertida enquanto o abraçava. Como era possível um homem tão bom ter filhas como aquelas? - sou Greg.
- .
- espero que tenham casacos pesados, está bem frio. - Greg foi quem indicou a saída e puxou o caminho de mãos dadas com a minha mãe.
O carro era alto e preto, Greg estava dirigindo e deixava no rádio uma música clássica, minha mãe balançava a cabeça confortável, sempre que possível me encarava pelo espelho do retrovisor e então descia os olhos para meu colo, onde a mão de descansava entrelaçada a minha. Não me lembrava bem quando foi que aquilo aconteceu mas agradeci mentalmente ao ver os olhos orgulhosos de minha mãe, se ela ao menos suspeitasse.
Em menos de meia hora estávamos subindo uma estrada estreita e escorregadia pela neve, no topo do morro havia apenas uma construção que me fez engolir em seco, o castelo era ridiculamente grande e bonito, a neve parecia um cobertor pelos telhados e árvores altas, Anny realmente era egocêntrica ao ponto daquilo. Senti que também estava surpreso pois sua mão apertou levemente a minha e ele me encarou rápido com os olhos meio arregalados meio debochados, ri baixo entendendo perfeitamente o que queria dizer.
- Vai amar o castelo. - mamãe soltou quando Greg começou a estacionar.
- Eu tenho certeza. - sussurrei.
- Tem ótimos lugares para fotografar. - Greg me surpreendeu com o comentário e eu sorri verdadeira, agora eu conseguia sentir meu estômago revirando de ansiedade.
Aos poucos eu vi que poderia tornar aquela viagem produtiva, estava de férias eu sei, mas não podia perder a oportunidade. Me aproximei levemente da janela, ficando próxima ao corpo do homem ao meu lado para analisar melhor a paisagem e congelei quando o senti respirar próximo ao meu ouvido, eu tinha ido próxima demais e nem havia percebido, ele sorriu quando me viu voltando ao lugar como se tivesse levado um susto.

Capítulo três

Me senti pequena assim que parei na porta do grande castelo, eram séculos de histórias subindo pela parede e eu não consegui segurar o suspiro surpreso quando chegamos no meio do saguão. O pé direito se perdia de vista de tão alto que era, as paredes de pedras davam a impressão que seria frio ali mas a quantidade de lareiras espalhadas pelo salão grande deixava o lugar confortável e quente, os móveis se espalhavam em lugares estratégicos e misturavam linhas antigas com texturas atuais, os quadros nas paredes eram provavelmente de pintores renascentistas e caberiam perfeitamente em museus. Voltei a prestar atenção no que acontecia ao meu redor quando o mordomo parou a alguns metros numa reverência rápida e um sorriso cordial.
– Sejam bem vindos ao castelo de inverno da família Holtz. Preparamos um quarto para que se acomodem e um café simples. Posso acompanhá–los?
Não demonstrei o quão assustada e surpresa fiquei com as boas vindas. Era realmente preciso tudo aquilo? Iríamos viver como histórias de castelos? Teria um vestido longo me esperando em cima da cama? Encarei minha mãe dessa vez sem esconder o quão estranha me senti e ela sorriu.
– Tudo bem Willian, eu acompanho eles. – ela disse cordial. – obrigada pela gentileza.
– O jantar estará pronto às 21h. – anunciou antes de sair.
Segui minha mãe pela escada que ficava ao em torno do saguão, o segundo andar era tão grande quanto o primeiro, havia uma sala grande com poltronas e uma lareira, uma sequência grande de portas fechadas e ao fundo pude notar a biblioteca com uma grande janela para as árvores cheias de neve.
– Meu quarto é o último do corredor. Aqui ficam: Ashley. – ela apontou para uma porta e depois de duas apontou novamente. – e Anny. Como sei o quanto gosta de livros, deixei esse para vocês. – ela apontou para o penúltimo quarto antes da biblioteca. – não é um lugar tão movimentado então terão privacidade, e não vão ouvir o barulho dos gêmeos. – e então ela abriu a porta.
Fui a primeira a entrar olhando ao meu redor enquanto girava em meus pés, o quarto era do tamanho do meu estúdio, pouca coisa menor, as cores azul marinho e cobre eram as que enfeitavam o lugar, havia um sofá grande em frente a lareira, logo atrás uma porta que levava ao banheiro um guarda roupa embutido que caberia minhas roupas as de Mira e talvez de metade das pessoas que eu conhecia, uma cama grande, penteadeira e enfim uma pequena mesa repleta de aperitivos para o café. Era um café simples que o mordomo havia dito, mas ali tinha café o suficiente para que eu passasse a semana inteira.
– Isso é loucura mãe. – exclamei ouvindo fechar a porta. – o maior salão de festas de Londres era o suficiente.
– Para Anny nada é. – ela revirou os olhos. – aproveite a estadia, quando vai poder ter isso novamente?
– Nunca. – respondi rápido, nem se trabalhasse por anos seguidos sem folga e férias teria dinheiro suficiente. – não sei como Greg ainda está rico.
– Contatos. – ela fez uma dancinha. – o castelo é de um amigo, acredite foi um presente.
– Eu dispenso. – joguei minha bolsa no sofá. – o que mais teremos que fazer? dança coreografada para o jantar?
– Não seja tão dura , está com seu namorado aqui, curtam a viagem, tem lugares ótimos pelo castelo, cantinhos românticos. – ela disse divertida me fazendo lembrar da existência do homem que estava parado passos para trás encarando a janela grande. soltou uma risada nasalada me fazendo secar a boca.
– Mãe. – reclamei e ela riu.
– Tudo bem. – se deu por vencida. – amanhã poderá ir até a cidade, precisa escolher seu vestido, Greg fechou com uma loja local. , também poderá escolher seu terno. – se dirigiu ao rapaz que sorriu assentindo. – e quando tiver um tempo estou morta de saudades.
Dizendo isso ela saiu do quarto e deixou um silêncio quase constrangedor no local, andei até a janela parando pouco a frente do homem e encarando a vista maravilhosa. Suspirei alto e o senti fazer o mesmo.
– Agora consegue me entender?
– Estou com medo de conhecer o resto da família e eles acharem que eu respiro demais – ele brincou me fazendo rir baixo. – esse quarto é maior que meu apartamento.
– Me desculpe por isso. – abracei meus braços me virando aos poucos. – devia ter explicado melhor como eles eram.
– Na verdade não botei fé na questão do castelo, ou que fosse tão grande. – ele negou inconformado, e então se virou. – mas vamos fazer dar certo, nunca vamos viver isso de novo, e só precisamos de demonstrações carinhosas simples. – ele deu de ombros sem demonstrar importância.
Por um momento, um breve e pequeno momento havia me esquecido o real motivo do homem estar ali, talvez com a proximidade simples que tivemos no carro quase que natural, em minha mente. Tirei o cachecol andando pelo quarto imenso indo até a mesa de café, belisquei algumas coisas enquanto ainda estávamos em silêncio, logo se livrou do casaco grosso e andou distraído.
– Pelo menos o sofá é grande. – ele constatou me fazendo quase engasgar.
Havia me esquecido completamente que ficaríamos no mesmo quarto, como se fosse comum namorados dormirem em quartos separados. Enchi uma caneca com o chocolate quente e joguei alguns marshmallow por cima. Eu estava cansada, mas ainda mais curiosa em questão da biblioteca.
– Quero dar uma olhada na biblioteca. – avisei andando até a porta. – você vem?
– Vou tomar um banho. – ele explicou indo até às malas que já estavam no quarto. – quando voltar eu posso sair para poder tomar um banho também.
– Obrigada.
Tudo estava saindo sob controle, havia deixado o lado cafajeste e irritante em Nova York e eu tinha que agradecer, estava cooperando com a história e eu via grandes possibilidades de voltarmos sem nenhum problema. Deixei o quarto e segui em direção a grande biblioteca, o salto da bota era o único barulho e eu notei todos os cômodos vazios, isso era um ponto positivo, não encontraria com ninguém com facilidade. Assim que entrei na biblioteca apertei as mãos em volta da caneca. Eram livros e mais livros por todos os lados, estante subindo as paredes, poltronas e algumas mesas enchendo o salão, havia também um piano de cauda e então a grande janela, pegando toda extensão da parede deixando a luz forte do dia entrar pela fina camada de cortina transparente que tinha ali, minhas mãos coçaram para pegar a câmera e já começar alguns registros, seria uma viagem proveitosa apesar de tudo.
– Atrapalho? – ouvi a voz masculina as minhas costas e prendi todo ar do pulmão.
Conhecia aquela voz como ninguém, dos meus piores pesadelos e o revirar no estômago me disse que eu poderia vomitar a qualquer momento. Me virei lentamente apenas atrasando de o olhar, cabelos penteados, corpo musculoso e os olhos tão negros quanto sua alma, ele sorriu malicioso assim que prendeu meus olhos.
– James? – perguntei surpresa. Ele se aproximou a passos curtos. – o que faz aqui?
– Anny me convidou para o jantar. – ele deu de ombros e parou a poucos passos. – quanto tempo não?
– Não. – respondi e por impulso dei um passo para trás quando ele se aproximou para me cumprimentar. Ele riu sarcástico.
– Ainda com rancor. – comentou o óbvio, apenas respirei fundo. – achei que te encontrando aqui poderíamos conversar.
– Como sabia que estaria aqui? – questionei e ele me encarou firme.
– Me trocou por livros no primeiro encontro.
Devia ter feito isso em todos os outros quis dizer mas segurei minhas palavras sem querer estender a conversa que aquele simples comentaria daria, James me atrasou por dois anos em um namoro que no fim só me trouxe mais dor de cabeça do que bons momentos, mas tinha que agradecer, depois do rompimento minha vida se transformou no que era hoje.
– Sua mãe comentou que talvez viria sozinha..– ele provocou dando um passo na minha direção.
Mais uma vez apertei a caneca que poderia estourar a qualquer momento pela força que fazia, James despertava a menina indefesa que havia em mim e eu me sentia péssima por isso. Virei o rosto assim que ele aproximou a mão da minha bochecha e a voz que surgiu me fez sentir todo calor que havia perdido voltar ao meu corpo.
? – ali estava uma voz que eu agradeci em escutar.
ainda estava com os cabelos úmidos, o maxilar travado e um olhar sério, deixei que meus olhos transparecessem todo desespero que havia sentido e ele entendeu de prontidão.
. – sai da frente de James indo até o homem que me encarava numa mistura de confusão e seriedade, deixei que um sorriso fraco se formasse em meus lábios. – minha mãe estava enganada James. – expliquei simples. – eu não estou sozinha. Este é , amor este é o James. – apresentei ambos forçando a palavra amor sair mais suave do que eu queria, assentiu relaxando os ombros assim que minhas mãos tocaram seu braço e eu me apoiei levemente, talvez não apenas fisicamente, mas naquele momento emocionalmente também.
O moreno travou o maxilar e arqueou a sobrancelha talvez surpreso ao ver o outro homem ali, apenas o cumprimentou com um aceno de cabeça e foi respondido com uma bufada que devia ter sido disfarçada. Era quase palpável a raiva que ele sentia naquele momento mas eu estava leve, e uma parte da sensação devia pelo rapaz que estava ao meu lado passando a mão levemente pela minha cintura.
– Nos vemos por aí Foster. – o moreno disse antes de sair a passos rápidos deixando para trás o rastro de perfume caro que usava.
A mão do rapaz subiu por minhas costas e eu senti um arrepio tomar meu corpo, James se tornou um borrão quando senti a respiração de bater contra minha orelha e me puxar para mais perto.
– Devo me preocupar? – a voz aveludada do rapaz me tirou do transe. Respirei fundo antes de responder.
– Só não me deixe sozinha com ele. – pedi honestamente apoiando minha testa em seu peito num ato ingênuo, pareceu sorrir e apoiou seu queixo em minha cabeça esperando alguns segundos para voltar a falar.
– Corro o risco de ser traído? – senti o tom de brincadeira e tive que rir da pergunta boba e boa o bastante para quebrar a tensão que tinha me posto. Neguei algumas vezes voltando a o encarar normalmente.
– Sem chances. – garanti. – talvez apenas tenha uma namorada assassina. – fiz uma careta ameaçadora e ele riu.
– É excitante. – ele piscou andando pela biblioteca.
Balancei a cabeça ainda rindo do comentário. O ar estava mais leve agora, e eu me sentia segura o suficiente para voltar a pensar, andar e admirar a biblioteca. A quantidade de livros era inimaginável, o cheiro de papel, o sol batendo de maneira quase melódica pelo chão. Pelo canto dos olhos vi quando o meu companheiro andou a passos bobos até o piano de corda.
– Isso deve ser de épocas atrás. – comentou. – e em ótimo estado.
– como tudo o resto que tem aqui. – fingi deboche e ele concordou.
– chega a ser ridículo. – rimos baixo.– Falta algumas horas para o tal jantar, podemos sei lá dar uma volta. – ele deu de ombros apontando com a cabeça para a janela.
– Um banho rápido e saímos para morrer de frio.
– Te espero aqui.
Assenti saindo em direção ao quarto, os olhos de me observaram por um tempo e então ele se virou. Tentei ignorar a sensação que ainda sentia por onde as mãos do homem haviam percorrido por minhas costas, mesmo que por cima da blusa grossa consegui sentir um calor confortável que eu precisava ignorar. Durante o banho procurei não pensar em nada, mas não obtive sucesso, assim que senti a água quente tocar meu corpo as imagens de James me encarando friamente voltaram de imediato, eu devia imaginar que de qualquer maneira ele estaria ali e se o conhecia realmente sabia que a presença de o faria tornar nossa estadia pior do que ela poderia ser.
A luz fraca do por do sol iluminava a biblioteca quando voltei, procurei pelos corredores e segurei a respiração quando o encontrei folheando um dos livros, seu casaco preto estava aberto e deixava amostra uma parte da blusa de linho azul marinho, o cabelo já estava seco e os fios pretos estavam se enrolando e caindo sobre sua testa, a luz alaranjada banhava seu corpo e o rosto parecia dourado, ele sentiu ser observado e levantou os olhos azuis, o oceano que ele guardava em suas orbes azuis brilharam ainda mais quando ele arqueou uma das sobrancelhas e fechou o livro o voltando para a prateleira.
– Está pronta? – questionou se aproximando.
– Sim.
Quando ele passou por mim senti seu perfume cítrico.

Capítulo quatro

O vento frio do inverno tomou meus cabelos assim que saímos do castelo quentinho, o lado de fora conseguia ser tão sofisticado como dentro, havia um grande jardim bem cuidado com luzes por todos os lados, a neve caia criando uma atmosfera quase fantasiosa.
– Nunca vi algo assim. – suspirei realmente encantada com o que via.
– é surreal. – me acompanhou pelo caminho iluminado.
Mesmo com o casaco pesado e o cachecol sentia todos os pelos do meu corpo arrepiado pela temperatura baixa, observei ao meu redor quando senti o homem se afastar um pouco do caminho, tomou a frente parecendo ansioso para chegar no fim da trilha de cascalhos, sua silhueta era iluminada por uma luz amarelada e a foto que poderia tirar ali ficou ainda mais perfeita quando ele levantou a cabeça e soltou o ar pesado pela boca a fumaça branca subiu pelo ar e eu engoli em seco com a imagem, não era apenas uma boa foto perfeita. Balancei a cabeça ignorando o pensamento tolo que surgiu e apressei o passo me aproximando novamente dele, estava parado a alguns metros de um grande penhasco e todo ar que tinha no pulmão se foi quando eu encarei a escuridão do vazio a minha frente.
– isso é ainda mais surreal. – a voz dele saiu rouca e se perdeu aos poucos.
– caralho. – senti meu corpo entrar em estado de pânico por um momento. – parece que a qualquer momento posso correr pra lá. – o tom que misturava medo e diversão tomou minha voz.
– Estava pensando exatamente nisso. – ele sorriu fraco. – estranho como o corpo funciona diante do perigo. – completou afundando o rosto no cachecol, os olhos azuis brilhavam intensamente enquanto ele encarava o escuro.
– é que não parece perigoso. – suspirei, senti o olhar dele sobre mim. – só convidativo. – soltei uma risada ao me ouvir falar aquilo. – pareço uma suicida.
– excitante. – o encarei surpresa e avistei o sorriso provocativo em seu rosto. – pularia comigo?
– o que? – por um momento me senti embriagada com a conversa sem sentido. – claro que não.
– vamos, pessoas fazem loucura por amor , somos namorados, devíamos..
pegou minha mão e me puxou para mais perto da beira da queda, meu estômago revirou no mesmo instante e eu travei com a ideia do que as pessoas podem realmente fazer por amor, loucura, mas então meus olhos encontraram os azuis dele e a clara brincadeira e malícia estavam ali, era claro que amantes poderia fazer aquilo, o amor faz aquilo, mas não havia amor, não havia nada além de um idiota me fazendo revirar o olho.
– ainda bem que não somos realmente..– não consegui terminar a fala, ele havia me puxado ainda mais forte e agora meus pés escorregaram no chão congelado.
O grito ecoou pelo lugar vazio e eu fechei os olhos quando o som da risada dele tomou conta do lugar, evitou uma queda maior quando grudou seu corpo ao meu num abraço desajeitado e eu me vi segura ainda longe do penhasco.
– você é um idiota. – encarei o rapaz fingindo irritação.
– que você erradamente escolheu como namorado. – provocou mais uma vez, revirei os olhos. – eu sou muito bom em te enganar. Precisa assumir isso.
– você é ótimo em me irritar isso sim. – dei de língua o fazendo rir. – eu to congelando, vamos entrar.
– espera, vamos fazer loucuras de amor.
Era claro que nunca perderia a oportunidade de me irritar, se no quarto achei que poderia ter uma convivência tranquila e adulta com o rapaz, ali eu relembrava de quem estava ao meu lado, e não consegui segurar a risada quando suas mãos contornaram minha cintura quando dei as costas a ele e agora tinha o corpo sendo rodado no ar.
– nós vamos cair . – gritei como uma criança e ele continuou a rir.
A brincadeira infantil seguiu por alguns segundos quando ele me colocou no chão e eu comecei o empurrar, no fim éramos aquilo, dois adultos que agiam como crianças para escapar do mundo real que nos esperava do lado de dentro do castelo, um escape que só nós dois podiamos suprir ao outro. Minha risada diminuiu um tom quando na porta do castelo avistei uma mulher nos observando, se juntou ao meu lado sem entender a mudança repentina de humor e só compreendeu minha postura quando seguiu meu olhar incomodado.
quem é? – perguntou baixo o suficiente para que apenas eu escutasse.
Ashley. – respondi num suspiro. – a mais velha.
Quando percebeu ter sido avistada ela acenou como uma miss, o sorriso amarelo era visto a quilômetros de distância. Ashley usava um casaco rose de alta costura que deixava seu cabelo loiro ainda mais claro, os olhos estavam cansados mas a maquiagem era boa o bastante para esconder qualquer sinal da vida corrida que devia ter por causa dos gêmeos. Procurei a mão de enquanto caminhamos na direção da mulher.
Ashley. – cumprimentei quando me aproximou o suficiente, ela diminuiu um pouco o sorriso e me abraçou demonstrando mais alegria do que parecia sentir.
Quanto tempo caçula. – segurei o revirar de olhos pelo apelido. – atrapalhei algo?
Não. – dei de ombros ignorando o fato de que agora os olhos verdes dela analisavam meu companheiro – este é..
Cooper. – ela foi quem respondeu abrindo um sorriso diferente dos que ja havia visto. – sua mãe já espalhou a novidade. É um prazer.
Assisti em silêncio quando ela esticou a mão esperando ser cumprimentada, a segurou sustentando um sorriso cordial nos lábios. Teria sido uma simples apresentação se Ashley não tivesse estreitado os olhos levemente numa expressão um tanto sensual demais e seu dedo não tivesse feito um carinho discreto na mão grande do rapaz, senti congelar ao meu lado com o acontecimento e eu engoli o bolo que se formou em minha garganta. Ashley estava descaradamente flertando com meu falso namorado, na minha frente.
comentou que tem gemêos. – pisquei os olhos voltando a realidade quando ouvi o comentário do homem. – devem ser lindos.
Como se tivesse levado um balde de água fria, Ashley fechou um pouco o sorriso e concordou, não era comum para a mulher não ser correspondida em seus flertes, já havia presenciado mais de uma vez suas trocas de olhares com homens aleatórios mesmo ao lado de seu marido, como também conhecia o poder sobrenatural que tinha em algumas mulheres mas Ashley não precisava ter feito aquilo, pelo menos não tão rápido.
Eles são. – ela falou depois de um tempo. – vim chamá–los para o jantar, estão todos com saudades. – sua voz mudou para um tom mais doce.
Perdemos a hora. – voltei a dizer sentindo o clima pesado para ela.
Eu imagino. – ela sorriu torto. – vejo vocês lá dentro
Não esperou por respostas, Ashley apenas nos deu as costas e praticamente correu para dentro do castelo, esperei alguns segundos para encarar o homem ao meu lado.
Que merda foi essa? – ele perguntou num sussurro. – você viu, certo?
Sim. – revirei os olhos. – acho que Ashley tem algum problema com sua autoestima sexual, e ai temos também o fator Cooper.
Eu sei, ele é irresistível – ele se gabou, bufei em resposta.
Que ele fique aí. – apontei primeiro para a boca dele e depois para a parte de baixo. – ela tem esposo e filhos.
E eu tenho uma namorada. – provocou me puxando para o castelo. – mas caso esse fator precise de ajuda, eu te aviso.
Cooper. – ralhei o fazendo rir.
Entramos de mãos dadas e paralisamos assim que chegamos na sala do jantar, a mesa estava lotada, era mais parecido com uma ceia de natal do que um simples jantar, toda família estavam bem vestidos e sorridentes, a conversa cessou assim que notaram nossa presença, um mordomo brotou do chão assim que todos nos olharam.
– os casacos por favor. – ele pediu cordial.
Bizarro, era a única coisa que conseguia pensar enquanto seguia com até nossos lugares, estrategicamente haviam duas cadeiras ao lado da minha mãe e estranhamente em frente a uma dela James estava sentado sustentando um sorriso presunçoso. Me senti caminhando para a fogueira, todos os olhares medindo meus movimentos, ou do homem que me acompanhava que fez questão de sentar do lado da minha mãe no lugar que ficaria bem de frente com o homem que tanto nos analisava. A conversa só voltou quando o primeiro prato foi servido e o assunto casamento do ano serviu para distrair todos da mesa, Anny estava transbordando de alegria, comentava de segundo em segundo sobre algo da festa, descobri que ela havia convidado alguns artistas e que seu vestido havia sido encomendado para ninguém menos que Elie Saab, o que me fez ter ainda mais certeza do quando Anny era extravagante. Descobri também que as últimas férias de Ashley haviam sido no Caribe e que o sol fez com que um dos gemêos ganhassem ainda mais sardas, tudo aquilo contado em meio a mais conversas paralelas que eu me esforçava para entender pelo menos uma dela. Foi no prato principal que a conversa mudou de rumo e Louis decidiu iniciar o interrogatório.
– O que você faz ? – engoli a comida sem olhar para o homem ao meu lado.
– Tenho um café no Brooklin. – ele disse simples.
– Um café? – Ashley questionou confusa.
– Sim, uma cafeteria alternativa que toca blues e jazz. – ele deu de ombros.
– qual o nome? – mamãe perguntou sorridente.
– Caravela Café.
– Não me parece um nome estranho. – Johnny comentou entrando na conversa. – saiu em alguma revista não saiu?
– Algumas. – sorriu leve. – fomos o destaque do ano em melhores lugares escondidos de NY. quem conseguiu a visibilidade na verdade, foi a exposição de fotos dela que trouxe os críticos.
– Acho que vi algumas fotos, em preto e branco né?
– Mãos em canecas, o nome é bem óbvio mas a ideia era incrível. – ele me olhou por fim, senti meu estômago revirar. – fez ela se tornar a aposta para o novo nome na fotografia. – ressaltou me fazendo corar levemente.
– Estão juntos a quanto tempo? – a pergunta veio de Anny, rápida demais para me dar chance de comentar sobre o projeto ou qualquer outra coisa, me olhou discretamente.
– Dois anos. – disse rápida, ele sorriu.
– Johnny me pediu em noivado durante a última corrida, já sabe como vai ser ?
Engoli em seco com a pergunta, pedido de noivado, onde ela estava com a cabeça? Dois anos de namoro e um pedido de noivado. Mais uma vez a conversa pendia para o assunto família perfeita e eu só relaxei quando ouvi responder seguro das palavras.
– Não temos pressa para um casamento. – ele sorriu em minha direção. – ainda quero abrir algumas filiais do café, e tem muitos projetos em mente. Vocês deveriam escutar, são ótimos. Então não temos necessidade dessas formalidades, vamos só um seguir apoiando o outro.
– Meu deus. – Ashley riu desacreditada. – vocês são perfeitos um para o outro. – encarei a loira surpresa. – até nisso combinam.
me apoiava antes mesmo de ter algo, achei que ele apenas me ajudaria a melhorar. – comentei finalmente, senti o olhar duro de James do outro lado da mesa.
– Eram amigos? – mamãe perguntou pela primeira vez.
– Ele é melhor amigo de Samuel, mais cedo ou mais tarde iria acontecer. – dei de ombros ainda segurando um sorriso satisfeito.
Que bom que aconteceu. – Anny disse. – estava cansada de te ver sozinha nos natais. – ela provocou me fazendo rir sarcástica.
Não era algo que me incomodava Anny. – respondi rispída.
Claro que não. – ela deu de ombros despreocupada.
Estava prestes a responder quando os empregados adentraram a sala de jantar com a sobremesa, Anny fora salva pelo gongo e eu livre de um bom sermão que receberia pela resposta que estava prestes a dar. Em todos os natais que fui obrigada a compartilhar da festa em família eu estava sozinha,e nunca foi algo que me incomodou, enquanto elas levavam os maridos e noivos e terminavam a noite falando sobre futilidades eu e mamãe terminava na mesa de poker com os maridos e noivos, na maioria das vezes ganhando e garantindo um spa no outro dia.
Greg foi quem anunciou o novo assunto e evitou que o primeiro jantar em família se tornasse a comum discussão que eu e suas filhas entravam sempre que o assunto era meus relacionamentos, agradeci imensamente quando o assunto voltou a ser o casamento de Anny e eu pude aproveitar a deliciosa torta de creme que haviam servido. Aos poucos a mesa foi esvaziando, primeiros as crianças que correram para qualquer lugar e então os casais, fui uma das primeiras a levantar e arrastar que também se prontificou sem nenhuma reluta a sair da sala. Já estávamos no meio do caminho quando Ashley apareceu.
Ali. – ela chamou me fazendo bufar cansada. – Liza disse que vai escolher o vestido amanhã. Quer ajuda?
Arqueei a sobrancelha, Ashley era a última pessoa que esperava me oferecer ajuda, e revisando os vestidos dos natais passados preferi negar.
Obrigada. tem um bom gosto.
Ele não pode ver seu vestido! – ela arregalou os olhos chocada demais.
Não sou a noiva Ash, tudo bem ele me ajudar na escolha.
É que na verdade, estava querendo ir até a cidade, como vão ser os únicos a irem para la, pensei que não seria ruim uma carona. – bingo, sempre tinha algo por trás.
Ah.. – ponderei, a última coisa que queria era ficar mais tempo com a loira.
Na verdade, estava pensando em levar almoçar num lugar especial, vamos demorar a voltar.
Não tem problema, também não tenho pressa.
Claro, vamos sair cedo. – decidi terminar a conversa e arrastei mais uma vez o homem pela mão.
Entramos no quarto como se estivéssemos fugindo de um tiroteio, ambos ofegantes mesmo que não fosse necessário, e com os ombros relaxados finalmente. Encarei o homem antes de qualquer coisa, o quarto havia sido arrumado enquanto a gente andava pelo castelo, as malas desfeitas e as roupas penduradas em perfeita organização, por cor e estilo, a mesa que antes estava o café agora continha uma única jarra, alguns saquinhos de chá e um pote de bolachinhas. O primeiro a gargalhar foi o rapaz, e eu apenas o segui enquanto trancava a porta, a última coisa que queria era alguém entrando durante a noite.
Foi melhor do que imaginei. – ele começou jogando a blusa na cadeira da mesa. – estamos vivos.
Eu pensei em me matar algumas vezes. – brinquei tirando uma das blusas também. – ou matar alguém.
James era o meu escolhido.– ele comentou com a voz levemente irritada. – posso não ser realmente seu namorado, mas o jeito que ele te olha. – encarei surpresa.
Podemos dividir o crédito. – sorri divertida. – estou morta., acho que a conversa do jantar me esgotou. – reclamei andando pelo quarto.
Vou arrumar o sofá. – ele apontou já indo até o armário em busca do que iria precisar.
Observei seus movimentos, os ombros grandes do homem estavam caídos e ele provavelmente estava tão cansado quanto eu, segui o olhar para o tal sofá, mesmo que fosse grande e parecesse confortável não seria uma boa noite de sono para alguém do tamanho do homem, observei a cama grande o bastante para abrigar uma família de quatro pessoas e suspirei vencida com meus próprios pensamentos.
– Não precisa. – ele me olhou surpreso. – a cama é grande o suficiente.
– Não tem medo do que possa acontecer? – ele brincou dei de língua.
– Não me faça me arrepender disso.
– Estou brincando Foster.
Ignorei o rapaz e peguei minhas roupas, precisava lavar o rosto e me trocar, não me surpreendi ao ver todos meus cosméticos bem arrumados no balcão do banheiro. Encarei meu reflexo no espelho e suspirei, eu não devia ter deixado Mira fazer minha mala, o conjunto era simples, preto com as bordas de renda branco, confortável e um dos meus favoritos, mas curto demais para dormir com alguém, sem ter outra opção sai do banheiro encontrando o homem já pronto para dormir, ele pelo menos teve a decência de colocar uma regata branca e estava de calça de moletom. tirou os olhos da tela do celular e observou meu corpo enquanto eu andava até o guarda roupa em busca de uma meia.
– estou surpreso. – ele começou a dizer, o encarei por cima dos ombros. – imaginei que iria usar uma daquelas camisetas gigantes.
– acredite seria uma escolha melhor. – revirei os olhos e sorri ao encontrar a meia rosa. – mas foi Mira quem escolheu essa parte da mala.
– vou agradecê–la depois.
– cale a boca. – joguei a meia em sua cara e ele riu, era claro que estava brincando, não é?
– que nojo. – ele jogou a meia de volta. – unicórnios? – ele notou o desenho na peça de roupa que eu vestia, a meia felpuda ia até um pouco abaixo do joelho. – você acabou de estragar todo o pijama.
– ótimo. – fiz careta indo até a cama. – é um repelente anti Cooper.
– funciona. – ele provocou deitando.
Ficamos alguns minutos em silêncio, ambos encarando o teto que agora percebia ter alguns brilhos espalhados na pintura, por mais impossível que parecesse tínhamos conseguido, pelo menos naquele primeiro dia tudo havia saído como o planejado.
– Obrigada por isso. – soltei sincera. – principalmente pelo jantar.
– Não é um sacrifício. – ele confessou. – o castelo é surreal, a comida boa, posso fazer contatos. – ele me encarou antes de terminar. – e você é suportável, mesmo que eu achasse que ia tacar um pedaço daquele cordeiro em Anny.
Arregalei os olhos e fingi surpresa, ele riu me fazendo observar seus movimentos, quando percebi estava deitada virada em sua direção gravando como seus olhos fechavam levemente quando ele ria, parou de rir quando sentiu ser observado e me encarou, seu corpo virou levemente em minha direção também. Estamos mais próximos agora.
– porque me olha tanto? – sua voz parecia mais rouca com o abdômen pressionado.
– acho que é coisa de fotógrafo. – menti e ele sorriu fingindo acreditar na desculpa horrível que encontrei.
– Você sabe que vai ter que acontecer, não sabe? – ele arqueou uma das sobrancelhas. – vamos nos beijar mais cedo ou mais tarde.
– se eu puder adiar. – disse nervosa de repente. – eu vou. – voltei a posição normal.
apenas riu debochado enquanto me via puxar a coberta até meu pescoço e virava para o lado contrário da cama, um pouco mais de distância era o que eu precisava nesse momento, senti que ele também se arrumava para dormir e forcei meus olhos a se fecharem.
– já disse o quanto você é péssima em mentir? – ele provocou.
– boa noite . – respondi simples, sabia que ele sorria.


Continua...


Nota da autora: Sem nota.





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