Castelo de Inverno

Última atualização: 04/07/2019

Capítulo um.

– Eu recebi o convite mãe, sim tá lindo, um castelo? Bem original.. no inverno..com neve.. no natal..mais alguma coisa? - andava de um lado para o outro dentro do estúdio segurando o celular com o ombro enquanto rabiscava na prancheta o que já havia feito e escutava minha mãe tagarelar do outro lado da linha. - um par? Pra que? - parei os passos de imediato. - meu Deus. - soltei todo o ar que reprimia no pulmão e senti os olhos da minha melhor amiga saírem da tela que pintava. - não! Eu tenho alguém. Oh, surpresa! Não achei que fosse importante. Mãe, conversamos em três dias pode ser, porque se minha presença é tão importante eu preciso me organizar no estúdio. Ok, amo você.
Desliguei o celular e o joguei no sofá confortável do estúdio caindo logo após de olhos fechados, era meu pior pesadelo acontecendo em pouco tempo de possibilidades de fuga. Minha mãe, uma mulher incrível e bem sucedida decidiu a cinco anos atrás que seria legal ter um namorado, depois de tanto tempo sem alguém, e que não seria um problema ele ter filhas, até porque éramos grandes o suficiente para não brigarmos como crianças. E de fato, no começo havia sido uma ótima idéia, a cinco anos atrás quando minha mãe passou a sorrir mais e voltou a se apaixonar pela vida, Greg era um homem incrível e fazia bem para ela, e o único problema realmente foi as duas meia irmãs que ganhei com toda aquela ideia.. Ashley e Anny eram mulheres lindas, uma com uma família maravilhosa e perfeita, a outra caminhando para isso. E esse era o grande problema, as garotas sempre sonharam com uma vida comum de mulher comum e mostravam para minha mãe o quanto isso era o certo, é bom, eu nunca liguei para nada além de meus objetivos profissionais e meu amor próprio. O contrário das duas, e o errado na visão da família tradicional e com isso as datas comemorativas se tornaram uma tortura onde elas me esfregavam a vida perfeita, sem me dar tempo de contrapor. Agora Anny iria se casar, em menos de uma semana e teve a perfeita ideia de fazer de seu casamento o evento mais esperado dos últimos tempos. Greg era dono de um império de hotéis e devia comprar pão com notas de mil dólares, que nem existem, e o noivo da garota era simplesmente um piloto de fórmula1 famoso e podre de rico, dando a chance dela realizar o sonho de se casar em um castelo na puta que pariu, no inverno e ainda levar toda a família para passar o Natal também, que aconteceria dias antes da data tão especial para ela. Até então era o sonho de qualquer garota normal, o problema era eu não ser uma garota normal e não queria presenciar toda a encenação e felicidade da família, iria ao casamento, era claro, mas agora minha mãe via a necessidade de ter toda a família unida desde o começo.
Só lembrei onde estava e que não poderia viver para sempre em meus pensamentos quando foquei os olhos na garota em pé na minha frente, o cabelo cacheado estava mal preso e uma mecha caia sobre seu rosto sujo de tinta óleo.
– Estou aqui por muito tempo? - perguntei com uma careta, ela deu de ombros voltando para sua tela.
– Uns cinco minutos. - falou um pouco mais alto para que eu escutasse.
– Esse casamento está me deixando louca. - choraminguei.
– Eu percebi. - a encarei confusa. - criou até um namorado falso.
– Eu o que? - me ajeitei no sofá ficando mais próxima da garota.
– Escutou o que disse para sua mãe?
– Oh meu Deus. - arregalei os olhos notando o que havia acabado de fazer.
Minha mãe insistia que era uma boa ideia levar um acompanhante, que as garotas de Greg já estavam falando e que se não encontrasse alguém ligaria para James, e foi num ato de puro desespero eu disse que tinha alguém, e eu não tinha. Mira deu uma última pincelada para jogar o pincel de lado e caminhar de volta para próxima de mim.
– Eu tenho alguém. - ela repetiu. - oh, surpresa pra você também. - tirou sarro me fazendo grunir. - você está tão saturada que nem se escuta mais. Acho que precisa mesmo de férias Ali.
– Mira, eu preciso de um namorado. - surtei. - em três dias.
– Posso ir com você. Você não especificou o sexo.
– Choque demais para aquela família. - descartei a ideia. - e minha mãe te conhece.
– Eu tenho um irmão. - respirei um pouco mais aliviada ao ver que ela entendia o que estava acontecendo, era por essas e outras que ela era minha melhor amiga, irmã, sócia e tudo o que eu podia dizer.
– De 15 anos. - revirei os olhos e ela pensou mais um pouco.
– Joe?
– Eca, ele é seu namorado.
– Se vocês não transarem, eu não me importo.
– Sem chance. - descartei a ideia, além de namorado da minha melhor amiga, Joe era meu melhor amigo, pe seria no mínimo nojento.
– Você pode pedir para algum de seus amigos.
– Eu preciso de um milagre. - joguei as mãos para o alto.
– Alguém me chamou?
A voz conhecida do rapaz soou reconfortante no cômodo grande, Joe entrou no estúdio carregando três copos e um saco kraft nas mãos, meio desengonçado mas tomando todo o cuidado para não deixar que o néctar dos deuses, ou os cafés, que carregava fossem ao chão. Eu está prestes a soltar um gemido de prazer em saber que pelo menos algo bom aconteceria naquele dia se atrás dele não estivesse alguém que gostava de tornar a minha vida um pouco mais difícil do que já estava, nos encarou com um sorriso torto e eu consegui desviar meus olhos imediatamente quando notei em sua mão uma guia de cachorro azul e um dálmata enrolado entre suas pernas.
– Lupin! - exclamei alto o vendo parar o que fazia e me olhar animado, antes que pudesse causar algum estrago o rapaz soltou a guia libertando o cão que correu em minha direção. - tinha me esquecido de buscar você. - acariciei a cabeça do animal feliz.
– Mira me avisou, e também pediu..
– Café! - comemorou correndo até o namorado selando os lábios nos dele e depois saindo com seu copo.
– Chocolate gelado pra você. - ele me esticou o outro copo. - e rosquinhas. - anunciou colocando o saco na mesa de reunião. - além de trazer o responsável pelas melhores bebidas de NY. qual é a boa?
precisa de um namorado. - a morena comentou entre um gole do café.
– Não é uma novidade. - Joel deu de ombros enquanto o amigo sorria divertido pela situação.
– Em três dias. - completou a fala fazendo o rapaz arquear a sobrancelha.
Dediquei aqueles segundos de explicação que Mira teve o prazer em dar aos dois novos membros do cômodo para acariciar mais uma vez o cachorro que roía um osso de brinquedo, só voltei a prestar atenção quando ela terminou a história. Encarei os três por cima do copo esperando pelos comentários.
– Não era mais simples falar pra sua mãe que você não namora de verdade?
– Ela vai chamar James se eu não levar ninguém.
– Isso é um problema. - ele me apontou, ponderando seus pensamentos. - então precisamos de um homem para você.
– De preferência que seja perfeito nos olhos da Sra. Foster. - Mira complementou com a boca cheia de rosquinha.
– Ou melhor, das filhas de Greg.
Ficamos em silêncio por um tempo, cada um em seu próprio pensamento tentando encontrar um caminho seguro a seguir, levar qualquer pessoa seria arriscado e eu poderia ser desmascarada, levar Joe estava fora dos planos, era pouco tempo para contratar alguém e o lugar só voltou a ter som, na verdade um grito de Joe quando Lupin cruzou a sala e se deitou aos pés de seu amigo.
– Tenho a solução dos seus problemas. - ele falou animado, todos o encararam curiosos.
– Eu tenho medo. - disse baixo e ele sorriu ainda mais abertamente.
– Está na frente de nossos narizes. - abriu as mãos realmente contente com o que provavelmente pensou.
– Já disse que você está fora dos planos. - neguei com a cabeça e ele arregalou os olhos.
– Credo! - exclamou fazendo cara de nojo, quis olhar para minha amiga e soltar aquele velho olhar de "eu disse", mas estava curiosa demais para que ela começasse a se explicar pela ideia. - seria nojento.
– Eu sei. - concordei, Mira fez um barulhinho com a boca que foi ignorado.
– Vai lá gênio, qual sua ideia? - a namorada perguntou se arrumando na mesa para minutos depois quase cair com a ideia do namorado.
- apontou para o amigo que passava a mão no cachorro e congelou no mesmo momento.
– Eu o que? - ele arregalou os olhos.
– Vai fazer o que semana que vem?
– Qualquer coisa que não seja ir a um castelo.
Eu estava estática, sem saber o que pensar ou fazer, de uma hora para outra parecia a única solução imediata, ele era melhor amigo de Joe e consequentemente frequentador nato do nosso estúdio, ou qualquer lugar que íamos. Desde que me mudei para NY foram poucas as vezes em que ele não estava por perto, ou que nós não estávamos em seu café. Mas isso não impedia nos dois de reciprocamente escolhermos um ao outro para ter um ódio gratuito. Não que realmente não gostasse dele, era um cara legal em algumas vezes, ligado a cultura e eventos bacanas e se encaixava perfeitamente no grupo, mas algo sempre acontecia para que começássemos uma discussão ou algo do tipo. Encarei o homem a minha frente, agora sem dar atenção ao cachorro e sim mantendo os olhos sérios e o maxilar trincado, ele não podia ser a única solução.
– Nem pensar. - consegui dizer depois de um tempo. Recebi o olhar do casal em censura. - não daria certo.
– Porque não? - Mira parecia ouvir os pensamentos do namorado. - vocês se conhecem, vivem juntos.
– Podem usar o dia em que se conheceram como o começo de tudo.
– É inventa um pedido de namoro bonito, numa exposição de fotos que ela curte, no central park. É fácil.
– Não é tão simples.
– Vocês só precisam se abraçar as vezes, trocar alguns beijos, e tentar não brigar. - Mira contou nos dedos me fazendo bufar e negar com a cabeça.
– Cara a é uma gata, você também não fica pra trás. Até combinam.
– Cala a boca Jota. - revirou os olhos.
– Então quem? - a pergunta ficou no ar.
Não havia outra pessoa ou tempo o suficiente para acha-la, e eu estava ainda mais ferrada. Respirei fundo e encarei o homem em silêncio enquanto meus amigos continuavam em apontar pontos que tornaria aceitável a ideia, me encarou também, no começo houve um olhar cúmplice, ele via o quanto eu precisava de sua ajuda e foi aí que seus lábios se tornaram uma linha fina e maliciosa, os olhos azuis brilharam em desafio.
– O que eu ganho? - ele soltou de repente. Quase engasguei. - se eu aceitar ir, o que ganho com tudo isso?
– Cara você vai passar duas semanas num castelo, sei lá com mordomos massageando seus pés.
– Pouco. - ele sorriu. - não é trabalhoso pra .
Soltei uma risada falsa, não era trabalhoso? Só ir até lá era um trabalho e tanto. Mas era claro que aquilo ia acontecer senão não seria Cooper e antes de responder eu fiz questão de bufar alto e revirar os olhos.
– O que você quiser. - soltei vencida e ele riu.
– Te pego que horas? - ele brincou enquanto se levantava.
– Estou realizando um sonho. - Joe comemorou e Mira apenas riu de leve enquanto eu me remoia no sofá e era acalmada pelas patinhas que subiam ao meu lado.

Capitulo dois

As malas prontas no quarto diziam que o tempo tinha passado rápido demais e aquilo apenas me fazia apertar a alça da caneca com o café já frio, estava ansiosa e insegura, mesmo que Mira dissesse umas quatro vezes que não tinha como dar errado e que Joe havia tido uma conversa com , em segundos seria apenas nós dois e eu estaria lidando com o inesperado. Eu não sabia como seria quando minha mãe o conhecesse, como seria a reação dele quando chegasse no castelo, nem mesmo se Anne e Ashley que costumavam ser tão observadoras cairiam naquela mentira.
- você esta com medo de James. - Mira soltou de repente me fazendo a encarar incrédula.
- o que? - o nome me fez estremecer.
- é o motivo da mentira não é? - ela me encarou firme e parou o carinho que fazia na barriga do dálmata. - você não contaria essa mentira atoa, nunca o fez.
- eu só não queria o encontrar. - suspirei cansada. Mira me conhecia tão bem que mesmo sem eu tocar no assunto ela sabia que um dos reais motivos da minha incrivel ideia de arrumar um namorado era pelo fato de que ele estaria lá.
- já tentou falar com sua mãe sobre isso?
- algumas mil vezes. - bufei tomando um gole do café. - mas ele é primo das meninas, é como evitar de que esse café esfriasse. - filosofei numa careta irritada indo até a pia. - queria o poder jogar pela pia assim também. - observei o liquido preto escorrer pelo ralo.
- vai dar certo. - Mira se aproximou. - além de tudo é seu amigo, mesmo do jeito dele, acho que vocês vão terminar melhor do que esta esperando.
- se isso quer dizer vivos e inteiros, eu espero que sim.
A conversa terminou quando meu celular tocou e o nome da minha mãe apareceu na tela, Mira se despediu rápido e subiu para o estúdio me deixando sozinha no quarto, atendi a ligação e a deixei no viva voz.
- oi mãe. - respirei fundo terminando de arrumar a mala de mão.
- já estão a caminho? - a voz chiou do outro lado.
- quase, estou esperando .
- estou ansiosa para conhece-lo. - a voz parecia sorrir, não consegui sorrir com ela. - acho até que já comentou sobre ele, não?
- algumas vezes, ele é amigo do Joe.
- imaginei. Como ele é? Bonito?
- mãe! - reclamei e me virei para a porta do quarto.
Por um segundo consegui segurar o grito de susto que subiu minha garganta, estava parado na porta, a blusa cinza de linho estava justa na medida certa em seu corpo, ele segurava um casaco preto pesado e no pescoço havia um lenço verde musgo. Travei o maxilar quando a mulher repetiu a perguntar com risadinhas no fundo e ele sorriu de lado apontando para o aparelho, ali estava o sorriso que tanto me acompanhava, era o desafio estampado em seu rosto, seus olhos brilhavam esperando a resposta.
- , qual é? - minha mãe reclamou como uma adolescente. - só quero saber como ele é.
- acredite, ele é. - soltei num suspiro e senti o sorriso de crescer em seu rosto. - preciso ir, até algumas horas.
Encarei o homem mais uma vez enquanto desligava a ligação, ele riu baixo balançando a cabeça e sumiu no corredor do apartamento, sabia que ele não deixaria aquele comentário passar despercebido. Puxei as malas para fora do quarto.
- É tão difícil assim dizer que sou bonito? - ele provocou assim que sentiu minha presença e tirou os olhos do celular.
- Não gosto de trabalhar sobre pressão. - fiz careta ao homem que riu mais uma vez, dessa vez a risada saiu rouca, preferi ignorar o poder que ela teve sobre os pelos do meu corpo.
- você precisa melhorar em suas mentiras Foster. - ele passou por mim e pegou a maior mala saindo do apartamento.
manteve o carro num clima agradável enquanto as ruas avançavam pela janela , a música tocava baixa e eu tentava me distrair o máximo com a voz rouca do vocalista de Kings of Leon. Durante todo aquele caminho senti que ele me analisava e quando notou que pela terceira vez eu mordia o dedo num ato de ansiedade ele perguntou.
- Não quer estar lá? - perguntou de repente o olhei confusa. - você esta nervosa. - apontou.
Não o encarei para responder.
- Não. - suspirei derrotada. - isso tudo é uma grande idiotice. Anny gosta de status, vai casar com um cara pobre de rico e não tinha forma melhor de esfregar na cara de todos como sua vida é perfeita que não fosse nesse casamento estúpido.
- Não me parece confortável com a felicidade de sua irmã. - ele questionou me fazendo rir falsa.
- Oh não, na verdade quero que ela seja bem feliz, o mais longe possível de mim de preferencia.
- Ok, preciso saber o que acontece nessa família?- quis saber mais, acho que nunca havíamos conversado sobre isso.
- Ela não é minha irmã, na verdade elas, Anny e Ashley. As duas são filhas do namorado da minha mãe, e eu não estaria exagerando se as comparasse com as meias irmãs da Cinderela. - ri falsa - Eu até tento fugir dos eventos daquela família, mas é importante para minha mãe que eu participe dessa vez, e é importante para minha sanidade sustentar a ideia estúpida de levar um namorado falso.
- Não era só explicar que você não tem um namorado?
- Não tive essa ideia apenas para fingir ser a garota perfeita como elas. - suspirei irritada. - Na verdade estou enlouquecendo com essa história, tudo isso porque não é suportável ouvir elas falarem mais uma vez o quanto eu sou uma fracassada.
O carro ficou em silêncio de repente, o estacionamento do aeroporto já estava logo em frente e eu nem sequer notei o tempo passar.
Depois da conversa o carro pareceu pesado por um instante, o ar parecia quase me sufocar, foi quando estacionou e voltei a ouvir sua voz que consegui respirar normalmente.
- Não acho que alguém que tenha seu próprio estúdio e seja reconhecida como um dos nomes mais promissores da atualidade em questão de fotografia seja uma fracassada.
Engoli em seco ao ouvir aquelas palavras, em todos esses anos que andamos juntos ele nunca havia falado algo sobre aquilo, sempre elogiou os trabalhos mas daquela maneira era a primeira vez. Notei que estava sozinha no carro e o segui para fora.
- Nunca disse isso sobre mim. - falei quando o encontrei no porta malas descarregando o carro.
- Porque você nunca precisou ouvir isso. - deu de ombros.
- Obrigada. - agradeci pelo reconhecimento. - mas isso não parece o suficiente para aquela família.
- Acho que consigo te entender.
- Tem problemas com a sua família?
- É bem complicado. - terminou a conversa e começou a andar.
Entendi que não era uma área segura para insistir na conversa, e não continuei a perguntar. continuou em silêncio durante uma parte do voo, o copo de whisky dançando entre seus dedos. Era até fácil fazer o assunto fluir com ele, nossos gostos eram parecidos e demos risada quando a aeromoça nos atendeu e não sabíamos fazer o pedido. Naqueles momentos de descontração consegui esquecer o que aconteceria em algumas horas, mas quando dei por mim os Alpes Suíços tomaram conta da paisagem.
Senti minha barriga revirar quando sai do posto de desembarque e avistei minha mãe conversando com Greg, ela parecia animada, minha ansiedade cresceu. Meus pés travaram assim que ela me encontrou. Não daria certo, onde eu estava com a cabeça? E vai ser pior do que se eu tivesse contado a verdade. Não me lembro quando parei de respirar, mas lembro-me bem da sensação estranha que tive quando a mão grande do rapaz ao meu lado contornou minha, ele sorriu enquanto me olhava, sereno e calmo e eu engoli em seco.
- Vai dar certo. - ele sussurrou, próximo demais no meu ouvido como se fosse algo corriqueiro.
Encarei o homem ao meu lado, os olhos azuis brilhavam intensamente, era a primeira vez que eu realmente o encarava, era como estar mergulhando em um oceano tranquilo que me ajudou a respirar melhor, piscou levemente sem quebrar o contato visual mas deixando o momento leve. Teríamos ficado ali por mais alguns segundos se a voz da mulher que eu tanto conhecia não tivesse me puxado para a superfície.
- Eu quase não acreditei. - balancei a cabeça encarando a mulher que vinha sorridente em nossa direção.
Mamãe estava tão bem vestida como costumava ser, amante da moda da velha guarda ela usava um sobretudo bege, com botões escuros e um bom cachecol já denunciando o frio que estava do lado de fora. Arqueei a sobrancelha com o comentário.
- Mas você realmente existe. - ela se virou ao rapaz que sorriu quase tímido. - e é lindo.
- Obrigado Senhora Foster. É um prazer finalmente conhecê-la. - ele pegou as rédeas da conversa e eu agradeci mentalmente por isso.
- Mas nem pensar, Eliza para você querido. É um prazer conhecê-lo também, só um evento como esse para que compartilhasse essa novidade.
- Mãe. - reclamei e ela sorriu divertida.
- Só estou comentando. - ela se dirigiu a mim. - estou feliz em vê-la. - me abraçou firme, o abraço que tanto conhecia e gostava. - está tão linda.
- Obrigada. Você também está linda.
- Sua mãe não sai sem uma boa produção. - Greg se pronunciou me fazendo sorrir divertida enquanto o abraçava. Como era possível um homem tão bom ter filhas como aquelas? - sou Greg.
- .
- espero que tenham casacos pesados, está bem frio. - Greg foi quem indicou a saída e puxou o caminho de mãos dadas com a minha mãe.
O carro era alto e preto, Greg estava dirigindo e deixava no rádio uma música clássica, minha mãe balançava a cabeça confortável, sempre que possível me encarava pelo espelho do retrovisor e então descia os olhos para meu colo, onde a mão de descansava entrelaçada a minha. Não me lembrava bem quando foi que aquilo aconteceu mas agradeci mentalmente ao ver os olhos orgulhosos de minha mãe, se ela ao menos suspeitasse.
Em menos de meia hora estávamos subindo uma estrada estreita e escorregadia pela neve, no topo do morro havia apenas uma construção que me fez engolir em seco, o castelo era ridiculamente grande e bonito, a neve parecia um cobertor pelos telhados e árvores altas, Anny realmente era egocêntrica ao ponto daquilo. Senti que também estava surpreso pois sua mão apertou levemente a minha e ele me encarou rápido com os olhos meio arregalados meio debochados, ri baixo entendendo perfeitamente o que queria dizer.
- Vai amar o castelo. - mamãe soltou quando Greg começou a estacionar.
- Eu tenho certeza. - sussurrei.
- Tem ótimos lugares para fotografar. - Greg me surpreendeu com o comentário e eu sorri verdadeira, agora eu conseguia sentir meu estômago revirando de ansiedade.
Aos poucos eu vi que poderia tornar aquela viagem produtiva, estava de férias eu sei, mas não podia perder a oportunidade. Me aproximei levemente da janela, ficando próxima ao corpo do homem ao meu lado para analisar melhor a paisagem e congelei quando o senti respirar próximo ao meu ouvido, eu tinha ido próxima demais e nem havia percebido, ele sorriu quando me viu voltando ao lugar como se tivesse levado um susto.


Continua...


Nota da autora: Sem nota.





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