Centineo

Última atualização: 25/01/2019

1. Um conto de Natal

Passar o Natal nos Estados Unidos era um dos meus maiores sonhos. Dançar sob a neve, decorar os pinheiros com luzes amarelas e enfeites de vidro, sentir o cheiro de canela das guirlandas penduradas nas portas das casas, tomar chocolate quente e comer biscoito de gengibre em frente a uma lareira enquanto espero meu presente se revelar dentro da meia pendurada... Pensei que poderia ter tudo isso assim que chegasse no país, mas em Miami essa realidade estava longe de se concretizar - na Flórida, se os invernos não são suficientes para tirar as botas do armário, quem dirá cair neve! Terminando meu período na livraria, recolhi o último pagamento, e soltei o cabelo. A semana da véspera de Natal costuma ser a mais movimentada, mas hoje pude sair mais cedo devido o horário especial de feriados, afinal, ninguém tem a audácia de comprar presentes com cinco horas restando até segunda virada mais importante do ano. De frente para o mar, saí da livraria com minha bicicleta em mãos e aproveitei o silêncio da cidade. A praia estava vazia e o céu uma mistura de azul e laranja, minha visão favorita, com certeza. Pedalando pelo calçadão, já um pouco mais distante, um Jeep mal estacionado tinha o pisca alerta ligado, como se fosse uma boa desculpa para atrapalhar a passagem. Reduzindo a velocidade, notei que o carro não tinha placa nem motorista.
- Isso é Miami - sussurrei indignada, assim que passei do lado da janela –, quem é idiota de deixar um carro desses dando mole?
Me aproximando da janela parcialmente escura, coloquei as mãos sob o rosto para servir de apoio e me inclinei, tentando enxergar melhor. Como eu suspeitava: a chave ainda na ignição.
- Pensando em levar o carro?
Soltei as mãos do vidro e me virei rapidamente para olhar o homem, provavelmente o dono do carro. Sorrindo para mim, estava um garoto com um rosto familiar, estatura alta e... Cabelos molhados e sem camisa? Será que eu estava delirando?
- Está atrapalhando a via – disse com a voz falha e apontei para a calçada, vazia, além da minha bicicleta verde-água. O homem riu e bagunçou os cabelos, respingando algumas gotas em meu braço. – Se eu fosse você não abandonaria o carro assim, principalmente nessa cidade. Na verdade, não deixaria ele assim em lugar algum!
- Eu só fui ver como estava o mar – ele fez careta, um misto de dúvida e deboche. Abrindo a porta do motorista, se esticou para alcançar algo dentro e deixou suas costas expostas em minha direção. Desviei o olhar em respeito a ele, apesar de querer analisar por mais tempo seu corpo forte. – Não é como se tivessem muitas pessoas para me preocupar, além de você... Uma possível ladra de bicicleta? – Me analisou com interesse, mas, percebendo que fiquei envergonhada, parou e colocou a camisa de manga longa agilmente. - O que está fazendo sozinha na véspera de Natal.
Ele se sentou no banco e deixou as pernas para fora, sem fechar a porta. Me apoiei na porta aberta, segurando-o por mais tempo. Não era habitual de minha parte ser tão atrevida, mas ele tinha um sorriso amigável que me fez agir sem pensar. Onde vi esse rosto antes?
- Acabei de sair do trabalho e estava voltando para casa – assim que disse a palavra “trabalho” ele estreitou os olhos e me observou de maneira engraçada. – Sou nova por aqui, por isso estou... Que foi? Tem alguma coisa errada em mim?
- Como algo poderia estar errado em uma garota tão linda como você? – ele disfarçou a careta que fazia anteriormente e me olhou fascinado, como se estivesse intrigado comigo. – É só o seu jeito de falar, puxando o som de uma maneira engraçada. Trabalho. – Tentou me imitar.
Mordi o lábio para não rir, mas não adiantou. Esse garoto era muito fofo e ele sabia disso.
- Meu sotaque está tão evidente assim?
- Tanto como seu pensamento. – Arregalei os olhos e tombei de leve a cabeça, fazendo-o rir descaradamente. – Você provavelmente está pensando “Esse rosto me é familiar” ou “Será que é o Mark Ruffalo?”, essa última é minha favorita, porque toda mulher com mais de trinta anos pensa nisso! E sim, seu sotaque parece com o das minhas primas italianas, mas sua beleza é mais exótica, deve ser de outro país latino. Acertei alguma dessas informações?
Estreitei os olhos enquanto ele sorria. Era sua intenção flertar tão descaradamente?
- Sim, estou tentando reconhecê-lo – ao ouvir isso, ele se animou. – Brasil. Sou brasileira, mas não tenho relação alguma com italianos. Sua vez. Qual seu segredo?
- Me chamo Noah – ele estendeu a mão alegremente. Franzi o cenho, mas fiz o mesmo. Pelo que parecia, ele estava feliz por não ser reconhecido. – Eu também estou sozinho na cidade hoje. A família toda foi para Bahamas enquanto eu não posso sair do país – Suspirou, mas logo levantou o olhar animado como se tivesse uma brilhante ideia. - O que você acha de passar o Natal com um completo desconhecido?
Agora quem ria era eu. Eu mal sabia sobre esse homem além de seu primeiro nome e ele já queria me sequestrar? Olhei ao redor, as lojas se fechando aos poucos e o fluxo de carros reduzindo. Eu não tinha planos para a noite, apenas chegar em casa e esperar os fogos de artifício. Joguei o peso para outra perna e o encarei. Ele susteve o sorriso, como se quisesse muito uma companhia para a virada. Caminhei até minha bicicleta ainda em dúvida e ele seguiu, parando de frente para mim.
- Se quiser eu te dou meus documentos para provar que não sou criminoso! – levantou as mãos ao ar – Só queria uma companhia para o Natal e você parece ser a melhor candidata. Nunca passei sozinho, nem pretendo – falou apressado e com um olhar perdido. – Por favor.
Girei o relógio em meu pulso, incerta se deveria aceitar o convite. Eu era nova na cidade e ainda não conhecia muito bem o lugar nem feito amizades. Talvez essa seria uma oportunidade para nós dois, além disso, ele definitivamente estava flertando comigo! Mas ainda havia algo que escondia e essa era a principal razão para eu aceitar o convite. Passei para Noah minha bicicleta para que ele a colocasse no porta malas e devolvi o sorriso. Minhas bochechas esquentaram ao perceber como ele era bonito.
- Não quer saber meu nome antes de tudo? – perguntei para desviar sua atenção. Os olhos de Noah brilharam quando me viu indo em direção ao banco de passageiro. Ainda parado no mesmo lugar, ele abriu o sorriso mais lindo que já vi e apenas assentiu. – , me chamo .


No banco do passageiro, dei uma última olhada na praia, já tomada pela escuridão e esperei Noah entrar no carro. Visivelmente animado, ele fechou a porta atrás de si e prontamente ligou o rádio.
- Tenho muitas ideias do que a gente pode fazer! – percebi que ele era bem energético, já que batucava o ritmo da música no volante enquanto dirigia e ainda me olhava de relance, tudo em questão de segundos. – Há algo em especial que você queira fazer? Ou vai deixar na mão do destino?
- Por destino eu vou entender que quis dizer você mesmo – ele mandou uma piscada em resposta, confirmando o que disse. – Então, me surpreenda.
Parando no farol vermelho, ele se virou para mim. Perto demais para dois estranhos, mas suficiente para me sentir confortável. Inconscientemente, arrumei um fio de franja que caia em sua testa e ele observou abismado. Era engraçado estudar suas reações. Noah fazia questão de não esconder sua atração por mim. Ao voltar sua atenção para o trânsito, perguntei:
- Por que você não diz quem é? – Seus músculos se contraíram ao ouvir a pergunta. Pelo visto ele realmente não queria tocar no assunto. – Desculpe.
Ao notar o ato involuntário de seu corpo, Noah relaxou os braços, mas manteve o olhar na estrada.
- Você quer mesmo estragar a magia do nosso encontro? – Sua voz soou triste, como se ele antecipasse o que aconteceria. - Se eu te contar quem sou, toda essa situação pode mudar. Talvez você me enxergue com outros olhos e eu não quero isso.
No silêncio, ponderei suas palavras. Não iria insistir no assunto se isso o fizesse perder seu bom humor, eu nem tinha o direito de me intrometer em sua vida.
Para quebrar o gelo, disse:
- Sempre soube quem você era, todos os sinais estão claros agora – ele passou a língua pelos lábios, preocupado com o que ouviria em seguida. – Um homem belo como você, sem camisa no inverno, andando sozinho na praia ao entardecer, despreocupado com possíveis ladrões de carro... Só poderia ser um vampiro!
Noah soltou a respiração, aliviado, e me encarou com seu ar alegre de volta.
- Eu precisava de um mergulho. Esfriar a cabeça – mordeu o lábio de forma sedutora e me observou lentamente. - Mas você não está totalmente errada, . Eu adoraria dar uma mordida nesse pescoço.
Ele passou a mão delicadamente em volta de meu pescoço, fazendo choques elétricos percorrerem minha pele. Eu estava gostando desse jogo – flertar abertamente era muito mais divertido!


Estacionando o carro, percebi que o tempo tinha passado rápido demais. Noah tirou as chaves e antes de sair tocou meu rosto carinhosamente.
- Vou fazer o jantar, depois nós assistimos alguma coisa até dar o horário da virada e então vamos assistir aos fogos. Depois tenho um plano surpresa... Ah! Antes, podemos jogar um quiz.
- Um o que?
- Perguntas rápidas para nos conhecermos melhor! – ele riu – Não tem isso no Brasil?
- Não que eu conheça.
Noah sorriu e saiu primeiro. Contornando a parte frontal do carro, ele abriu minha porta e estendeu a mão.
- Madame.
- O cavalheirismo realmente não está morto! – Lancei um olhar fascinado que fez ele dar os ombros. – Obrigada.
Ao observar onde estávamos, notei o estacionamento vazio do complexo de lojas. Ao nosso redor, apenas um estabelecimento estava aberto: o mercado. Me virei para Noah em dúvida, mas seus olhos varriam o local, checando se não havia mais ninguém ali. Quando teve certeza que estávamos sozinhos, segurou minha mão e me observou carinhosamente.
- Precisamos de suprimentos para o jantar – caminhando, guiou-me até o mercado. – Prefere comida italiana ou japonesa?
- Você sabe fazer sushi? – eu ri, não acreditando naquele homem.
Assim que pisamos no mercado, duas mulheres que conversavam no único guichê aberto olharam para nós. Noah acenou, fazendo uma delas suspirar, e ele me encarou envergonhado. Me fiz de desentendida e apenas o puxei para o corredor de condimentos. A mulher era velha demais para ser sua antiga namorada, talvez fosse uma antiga conhecida. Ou uma fã.
- Não, mas eles vendem sushi pronto – Noah emendou, como se nada tivesse acontecido. Eu apenas assenti. – Pelo visto vamos ter macarrão – olhou o pacote de molho de tomate em minhas mãos.
- Se importa?
- De maneira alguma! Sei fazer massa caseira - ele bagunçou os cabelos, retomando seu ar divertido –, aprendi com minha mãe. A melhor forma de conquistar alguém é através da comida...
Noah passou a mão em minha cintura sem hesitar, aproximando nossos corpos. Eu mal o conhecia, mas sentia a necessidade de estar perto dele. Uma onda de calor percorreu meu corpo e inevitavelmente encarei sua boca, tão perto, mas tão longe.
Respirando fundo, sussurrei.
- Então você está no caminho certo.
Com um brilho no olhar, Noah pressionou os dedos em minha pele e começou a se inclinar em minha direção. Parecia que o tempo havia parado, mas como se muitas ideias passassem por sua cabeça naquela fração de segundos, ele mordeu o lábio marotamente e, em um movimento rápido, se virou e puxou meu corpo para me carregar em suas costas. Recuperando a respiração, passei meus braços por seus ombros e ele segurou minhas pernas, dando maior estabilidade.
- Nosso primeiro beijo não pode ser no corredor de condimentos! – tentou olhar para mim, como se explicasse o motivo de estar me carregando.
Senti meu corpo escorregar e, no mesmo instante, apertei seu corpo contra o meu. Noah riu e caminhou para outra sessão do mercado. Além da música de fundo, só nossas vozes se faziam audíveis. Meu coração bateu mais forte ao escutá-lo dizer aquilo sem dúvida alguma em sua voz. Ele realmente queria que tudo fosse perfeito nessa noite. Pressionei minhas coxas contra seu corpo e, sem pensar duas vezes, me aproximei de sua orelha, traçando um caminho de beijos até alcançar seu pescoço – se eu ainda não podia beijar sua boca, faria em sua pele. Percebi que os músculos de Noah se contraíram com a sensação e sorri vitoriosa.
- Assim é golpe baixo, .
- Vai ser na parte de doces então? – observei o corredor em que paramos.
- Desse jeito, vai ser na minha cama – Noah se virou para ver minha reação, provavelmente eu estava com um sorriso bobo no rosto. – Quer levar algo para a sobremesa? – desviou o assunto ao apontar para a prateleira de chocolates.
- Eu posso fazer uma sobremesa – procurei pelo chocolate em pó e quando encontrei, me estiquei para pegá-lo sem machucar Noah. – Também tenho uma receita secreta.
- Brasileira?
- Com certeza!
- Como você apareceu na minha vida? – fascinado, falou baixo, mais como uma pergunta retórica.
- Acho que valeu a pena você estacionar seu carro tão mal.
- Definitivamente, foi a melhor coisa que fiz no ano inteiro.
Descendo de suas costas, arrumei sua camisa e o observei colocar as compras na esteira do caixa. A mulher encarava Noah atentamente e parecia em dúvida se deveria perguntar quem ele era. Como Noah estava ocupado demais me analisando para perceber a mulher, decidi agir por impulso: tirei uma nota de vinte dólares do bolso de trás da calça.
- Eu pago! Afinal, não é todo dia que se encontra o Mark Ruffalo em Miami! – ele arregalou os olhos confuso e eu devolvi com um balançar de ombros.
- Eu sabia que era ele! – a mulher do caixa se virou rapidamente para a outra, que observava tudo no balcão ao lado. – Você parece mais velho nos filmes.
- É a maquiagem – o homem riu enquanto pegava a sacola. – Feliz Natal para vocês!
Rapidamente, ele segurou minha mão e guiou para fora do lugar antes que a mulher pedisse para tirar uma foto.
- Sua identidade está segura comigo – falei assim que Noah abriu a porta para que eu entrasse no Jeep. – Apesar de você ser bem mais novo que o Hulk.
- Convenhamos que tenho um corpo parecido. – Assim que me sentei, ele flexionou os braços, mostrando seus músculos.
- Não exagera! – eu ri e puxei a porta para fechá-la.


Não demorou muito para chegarmos ao condomínio fechado de Noah, ficamos o caminho inteiro conversando e cantarolando junto ao rádio. Sua casa ficava na beira de uma praia reservada aos moradores, em uma rua calma e com as palmeiras decoradas. Ao estacionar o Jeep na frente, observei a entrada daquela pequena mansão. A casa era moderna e tinha dois andares com paredes de vidro. Na lateral, ao lado da churrasqueira, uma piscina brilhava convidativa. Noah, ao abrir a porta do carro, bagunçou os cabelos, levemente envergonhado com tamanha pujança.
- Espero que não se importe com tudo isso – gesticulou indicando a casa.
- De maneira alguma! – ao sair do carro, passei a mão em seu rosto para reafirmar que nada disso mudaria a situação entre nós. – Eu não vim até aqui pela casa ou por sua profissão. Estou aqui porque você é cativante e gentil. Eu respeito seu espaço, Noah. Quando quiser se abrir comigo estarei pronta e prometo que nada vai mudar. Você pode ser o super-homem ou realmente um vampiro, não importa, eu estarei aqui porque sinto que é o certo.
Noah enlaçou seus braços ao redor da minha cintura e afundou seu rosto em meu pescoço. Passei a mão por entre seus cabelos e fechei os olhos aproveitando o momento. Eu já tinha uma ideia de onde tinha o visto antes, mas não queria que isso o fizesse mudar de humor. Senti o vento quente de seu suspiro em minha pele, como se seu segredo estivesse sendo entregue naquele exato momento. Me virei para beijar sua bochecha e em seguida ele se afastou, mas ainda com as mãos repousadas em meu corpo.
- Obrigado – seus olhos continuavam brilhantes. – Vem, vamos entrar!
Retirando as chaves do bolso da calça, Noah abriu a porta, revelando um interior mais bonito ainda. Na sala principal, a decoração era caseira e reconfortante. O sofá de couro escuro e a televisão enorme indicavam que a família passava muito tempo assistindo filme e, no outro canto do local, pranchas de surfe coloridas esperavam para ser utilizadas. Do outro lado das paredes de vidro, um deque extenso de madeira convidava os visitantes a observarem a praia. Noah abriu as paredes de vidro, deixando a brisa entrar por toda a casa. Ele observava o mar, aproveitando o som tranquilizante das ondas.
- É uma praia bem vazia. Os moradores daqui só aparecem no verão – ele passou os dedos por meu cabelo, chamando minha atenção. – A cozinha fica por ali. Noah segurava a sacola de compras em uma mão e a minha na outra. Parecia que estávamos juntos há tanto tempo... Acendendo as luzes com o cotovelo, ele sorriu, como se pensasse o mesmo, e colocou as compras em cima da mesa.
- Está na hora de colocar a mão na massa! – esfregou uma palma contra a outra e deu uma piscada para mim. – Literalmente.
Sorri de volta, animada, e lavei as mãos na pia. Antes que eu pudesse me virar, Noah colocou seu corpo atrás do meu, me prendendo contra a bancada, e esticou seus braços para fazer o mesmo.
- Você podia me beijar nesse exato momento, sabia? – eu sussurrei, sem me virar. Noah secou as mãos e passou os braços por minha cintura, em um abraço confortável.
- Dentre as várias maneiras que eu imaginei o momento em que nos beijamos, esse ainda não é um deles.
Antes que eu pudesse reagir, ele segurou minha mão e fez meu corpo girar, como se estivéssemos dançando. Com um sorriso bobo, beijei a ponta de seu nariz, e esperei seu próximo movimento.
Noah arregalou os olhos, tendo uma ideia, e ligou o rádio que repousava no canto da bancada.
- Me concede essa dança? – estendendo o braço, esperei reconhecer a música que tocava. Ele era tão perfeito que parecia ter saído de um livro. Passei uma mecha de cabelo para trás da orelha e em seguida coloquei minha mão sob a sua.
- Sempre.
Seguindo o ritmo da música, observei o rosto de Noah. Ele mantinha o olhar concentrado no meu e um sorriso de canto singelo. Sua mão direita repousava em minhas costas e seu toque quente me fazia desejar mais.
- Parece que nos conhecemos a vida inteira – sussurrei, sentindo o coração apertar. Noah ergueu o braço, fazendo meu corpo girar ao som do piano. – Como você consegue?
- Consigo...? – esperava eu completar a frase.
- Ser tão perfeitamente romântico e ao mesmo tempo ousado. Você é um galã, mas ao mesmo tempo é humilde. Como?
Noah limpou a garganta, ponderando na resposta mais apropriada a ser dada. Ele provavelmente tinha compreendido que eu já sabia quem ele era, mas não tinha coragem de dizer em voz alta. Eu sempre imaginei que as estrelas de cinema fossem cheias de si, apesar disso, mesmo conhecendo-o por apenas uma noite, sabia que Noah não era assim.
- Eu tento manter os pés no chão – seus braços me puxaram para mais perto de seu corpo, como se tivesse medo que eu escapasse por seus dedos. – Não é sempre fácil no meio em que eu trabalho, mas eu procuro ser verdadeiramente quem eu sou.
- Você deve ser orgulhar disso, Noah – ele abriu um sorriso fraco em resposta.
- Não tenho medo de me perder, mas de perder aqueles ao meu redor. A fama muda as pessoas, principalmente aquelas com quem me relaciono. Nunca sei quem é verdadeiro e quem só está comigo pelo sucesso – desabafando, ele respirou fundo. – Entende o que eu sinto?
Engoli em seco. Era impossível compreender como ele se sentia sem viver na pele sua realidade, mas de uma coisa eu tinha certeza, tornar-se a estrela do ano por conta de seu filme e ganhar milhares de seguidores na calada da noite não deveria ser uma tarefa simples.
- Nunca tivesse todo esse peso em minhas costas, porque a única experiência de fama que tive foi no fundamental, em uma peça de teatro - arranquei uma risada dele. – Mas entendi o que quer dizer.
- O que mais me intriga é que com você eu não sinto medo.
Arregalei os olhos ao compreender suas palavras. Uma onda quente percorreu meu corpo, deixando-me extasiada.
- Acredita que eu sinto o mesmo em relação a você? – sorri, sentindo minhas bochechas corarem. – Se não, nunca teria aceitado entrar no seu carro em primeiro lugar! – agora ele gargalhava, balançando a cabeça. Suspirei aliviada por vê-lo animado.
- Que sorte ter te encontrado.
- Era destinado...
Escutando a música chegar ao seu fim, passei meus braços ao redor de seu pescoço e fiquei na ponta dos pés para alcançar sua boca. Antes que pudesse sentir seus lábios nos meus, parei a alguns centímetros de distância, segurando a vontade de selar o tão esperado beijo para sentir a eletricidade percorrer por nossos corpos. Noah mantinha o olhar em minha boca, como se desejasse acabar com aquela antecipação. Com a respiração pesada, percebi que ele queria que eu tomasse a iniciativa. Abri um leve sorriso e me inclinei, beijando-o carinhosamente. Seu toque era cuidadoso e Noah tirou as mãos de minha cintura para percorrer meu corpo delicadamente.
Aproveitando o momento, lacei meus dedos em seu cabelo. Parecia que nossos corpos precisavam estar juntos. Senti meus pés desgrudarem do chão e percebi que ele havia me colocado em cima da bancada. Cruzando minhas pernas ao redor de seu corpo, senti seus dedos pressionarem em minhas costas como resposta. Eu precisava senti-lo, mas não queria que passasse mais do que isso. Por incrível que pareça, percebi que ele pensava o mesmo. A fim de terminar o beijo, mordi seu lábio e me afastei, abrindo os olhos para encontrar os dele.
- Isso foi...
- Perfeito – completei sua frase, com um sorriso bobo.
Com um ar mais leve, Noah me abraçou e me colocou de volta no chão. Tudo aquilo parecia tão certo.
- Vamos começar a cozinhar? – Ele riu, tirando as compras da sacola. – A noite ainda é longa!
Mordendo meu lábio, ansiosa pelos planos que estavam por vir, coloquei a mão direita dentro do bolso de trás de sua calça e me posicionei ao seu lado.
- Vamos.


Girando meu garfo, observei o macarrão caseiro de Noah. Aquele já era o meu segundo prato e ele tinha razão ao dizer que a receita era infalível. Já estávamos conversando por um bom tempo – jogando o quiz que ele havia comentado mais cedo – por isso nossas perguntas começaram a ficar cada vez mais esquisitas.
- Então quer dizer que você perde mais tempo assistindo vídeos de lontras no Facebook do que lendo seus e-mails? – Noah balançava a cabeça desacreditado. – Queria ter sua vida.
- Eu tenho uma paixão por animais, principalmente aqueles com olhinhos brilhantes – falei envergonhada. – Não posso evitar... Além disso, tenho outro segredo. Noah deixou seu prato em cima da mesa e se virou para mim interessado. Fiz o mesmo e abracei a almofada que estava em meu colo.
- Eu nunca assisti seu filme.
- Nenhum dos três? Nem a série que fiz?
- Você tem mais filmes na Netflix? – ri nervosa.
Estreitando os olhos, ele fez uma cara brava por alguns segundos, antes de ceder a gargalhada que tanto me fazia feliz. Noah colocou as mãos no rosto, chocado, e se levantou para ligar a televisão:
- Como você sobreviveu durante todo esse tempo?
- Eu não cedi à moda – dei de ombros. – Mas é impossível desconhecer seu rosto, Noah Centineo, o galã do ano!
Sorrindo envergonhado, ele entrou em sua conta do Netflix e assim que o programa abriu, lá estava seu filme principal: Para Todos os Garotos que Já Amei. O mais recomendado de todo o site.
- Em minha defesa - ele se sentou ao meu lado, segurando minha mão –, meu personagem é galã. Eu sou apenas um cara de 22 anos.
- Eu acho você perfeito – contornei o dorso de sua mão, tocando-o carinhosamente. – Posso não ter visto o seu trabalho ainda, mas já sei quem prefiro.
- Isso é tudo que eu preciso ouvir! – Noah me beijou mais uma vez. – Está preparada para conhecer Peter Kavinsky?
- Com certeza.
Me estiquei para pegar a panela com brigadeiro e estendi uma colher para Noah. O filme começou a rodar, mas tudo que eu conseguia pensar era como eu tinha parado aqui - assistindo a um dos filmes que mais fez sucesso no ano na casa do próprio ator! Assim que senti o toque de Noah afastei o pensamento. Eu não estava com um famoso, estava com um garoto que me conquistou com o primeiro olhar. Ele assistia atento à cena quando lhe roubei um beijo, doce devido à sobremesa. A sensação de finalmente estar me abrindo com alguém era incrível e eu tinha certeza de que ele sentia o mesmo.


Pelo resto da noite, assistimos ao filme e guardamos as coisas. Assim que o relógio indicava o final do dia, Noah me levou para a praia, onde ficamos esperando as luzes cruzarem o céu e sentindo a água passar por nossos pés. Na areia, estávamos só nós dois. Um paraíso secreto. Ao badalar da meia noite, fogos de artifício voaram alto e as luzes coloridas refletiam em nossos rostos. Noah me observava encantado, como se não acreditasse que eu era real. Segurei sua mão e me estiquei para beijá-lo mais uma vez. Tudo aquilo era perfeito, o melhor presente de Natal que eu poderia ter.


Continua...



Nota da autora: Ah, Centineo... Esse sobrenome tão poderoso e um rostinho tão meigo. Quando eu assisti ao filme Para Todos os Garotos que Já Amei eu me encantei com esse garoto e decidi fazer uma história bem clichê de Fanfic com ele. Ultimamente eu tenho sentido falta de histórias com romance simples, água com açúcar, por isso decidi escrever uma daquelas impossíveis de acontecer na vida real, mas importantes para nossa imaginação. Ainda não sei como essa história vai acabar, mas vou escrever conforme o coração mandar, porque acho que é assim que deve acontecer nos romances. Gostaria de agradecer à todas e aconselhar que nunca entrem no carro de estranhos, mesmo que seja o Noah convidando!



Outras Fanfics:
Black Magic (Outros - Em Andamento)
Satellite (Outros - Shortfics)
04. Why Try (Ficstape Ariana Grande)
02. Spaghetti (Ficstape Emblem3)


Qualquer erro no layout dessa fanfic, notifique-me somente por e-mail.


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