Como Enganar o (Famoso) Amor da Sua Vida

Última atualização: 04/02/2019

Capítulo 1

❝Borboleta parece flor que o vento tirou pra dançar.❞

Alguns anos atrás:

O teatro estava lotado. Não era para menos, afinal a companhia Ballet mais famosa da capital, Ophelia, estava prestes a iniciar suas apresentações. Enquanto os espectadores esperavam pacientemente em suas poltronas confortáveis, os bailarinos não conseguiam fincar suas sapatilhas no chão por conta do nervosismo, treinando cada passo que mostrariam ao público em menos de 10 minutos.
A academia iniciaria as apresentações pela baby class, conhecidas como estrelas mirins, seguidas por um solo do destaque de 17 anos daquela época: Adaline Bloom. Depois, outra apresentação fofa grupal das pequenas dançarinas, contudo, desta vez, reunidas com os adultos e adolescentes. Logo após, a coreografia em conjunto do grupo juvenil. A penúltima expressão artística da noite seria feita pelos adultos. E as luzes finais do espetáculo estariam iluminando os saltos dançantes de Peróla Packman, a joia de 22 anos do estúdio de balé.
Dentre as pequenas bailarinas que abriam o concerto, se destacava . Tão adorável quanto suas companheiras dançantes, seu visual estava encantador: uma rede fina e discreta da cor dos seus cabelos, meia calça seguindo a cor da pele, sapatilha de cetim azul, a cor se repetia tanto para o seu collant de manga longa de renda quanto para o tutu glamourosamente brilhante. Havia glitter espalhado no seu cabelo, na verdade, por todo o seu corpo, assim como algumas pequenas estrelas turquesas.
A garotinha respirou fundo. Todo o seu corpo estava cintilante – obrigada, glitter. – , mas parecia que o seu coração estava sem qualquer brilho. Não entenda mal, ela amava ballet, todavia, toda a animação daquelas pessoas parecia um tanto... Espalhafatosa. Imprudente, até. E se elas errassem um passo? Ou caíssem? Todos iriam rir delas! Existiam muitas preocupações para serem tomadas, aquela excitação despreocupada e as risadinhas não ajudariam em nada.
Assim ela pensava. Fora ansiosa, controladora, planejadora desde o útero – saindo exatamente no dia estipulado. Tinha uma mania de pensar demais nas coisas, nas consequências, nas probabilidades. Mesmo quando só possuía menos de uma década de vida. Aquilo prosseguiu como parte de sua personalidade, acompanhando-a á medida que os anos passavam.
Entretanto, naquele momento específico, a cabeça da uma menina de seis anos não foi tão difícil de decifrar pelo pai de , homem que sempre foi um observador atento. Ele notou o comportamento incomum da sua filha desde que eles haviam saído de casa, o qual se agravou ao encarar suas amigas.
Todavia, ele não devia estar nos bastidores – apenas quem iria se apresentar, professores, costureiras de emergência, maquiadores e as pessoas que trabalhavam no teatro. Ainda assim, lá estava . Prestes a realizar um truque para tornar a noite memorável de um jeito bom, não apenas um evento iluminado e divertido, mas uma daquelas lembranças que te mudam por dentro.
- Papai! – sorriu ao ver seu progenitor. Ele replicou o gesto com carinho, se ajoelhado no chão para ficar ao lado da filha. – O que é isso? – A mais jovem questionou, sua testinha franzida demonstrando confusão. – Aí. – Murmurou. Até mesmo um gesto simples como franzir a testa puxava o cabelo do seu coque apertado.
- É um buquê de uma espécie rara de flor.
- O que significa rara, papai? – ficou de ponto de pé, estranhando aquelas flores bizarras demais aos seus olhos infantis. – Não parece uma flor.
- Rara é algo que não é comum. – tocou o queixo da filha levemente. – Igual a você, minha pequena Jade Vine. Uma flor tão bela que quase não parece uma.
- Meu nome é , papai. – Retrucou em um tom zombeteiro, sempre fora esperta e dona de um raciocino deverás rápido para uma criança da sua idade, igual a mãe.
- Jade Vine é o nome dessa flor, pequena. Elas vieram lá das florestas de Filipinas, bem de longe. Ela é bonita mesmo fora do período de florescência, principalmente pelo formato estranho e a cor forte. – Em especial, aquele tom de azul turquesa, deve-se acrescentar. – Toda flor tem um significado. Como a Margarida, que significam inocência e o Alecrim, que significava coragem e felicidade.
- Todas as flores significam algo mesmo? – A dúvida de sumiu tão rápido quanto apareceu quando seu pai assentiu. Confiava nele de olhos fechados. – O que significa a Jade Vine? – Perguntou curiosa, a excitação por aprender algo novo óbvia na sua voz.
- Esse tipo de flor é bem difícil de ser morta por acidente. Ela é resistente, bela e forte. – entregou o pequeno buquê para o Girassol da sua vida. – Ao meu ver, ela significa . Vai dar tudo certo, querida. Confie no seu potencial.
Ela sorriu amplamente, mostrando todos os seus dentes brancos ao agarrar o buquê, encantada por uma coisa banal como flores terem um significado tão profundo, cada uma delas. E existiam tantas!
A bailarina em ascensão abaixou sua cabeça, mergulhando seu rosto com cuidado no presente, suas narinas inalando aquele cheiro peculiar para qualquer coisa que não fosse comestível.
- Tem cheiro de feijão.
Seu pai riu. E o seu coração parecia tão brilhante quanto o resto do seu corpo. Agora sim, ela estava pronta para dançar.

Xxx


sempre amou flores.
Era um fato. Ela podia passar o dia todo tagarelando sobre flores, pesquisando sobre elas ou até mesmo estudando-as. Sabia mais de 20 espécies só de cabeça e conseguia fazer o reconhecimento delas a olho nu. Essa paixão começou quando ela era ainda nova, no teatro municipal como fora supracitado – numa apresentação, tachada, anos mais tarde, pela protagonista como boba de ballet.
Enfim, ela amava flores desde que podia se lembrar.
Mas agora, sua mente estava flutuando pela lembrança de quando ela havia descoberto essa obsessão inofensiva. O gatilho positivo que desencadeou isso estava bem ali, do outro lado da rua. Mesmo há alguns metros de distância, tinha certeza absoluta do que era aquilo: uma muda de Jane Vine.
Pensou que aquilo era praticamente impossível. Ela não estava no habitat originário, porém, quantas coisas, até mesmo pessoas, saiam dos seus lugares de origem todos os dias por motivos diversos? Claramente, uma flor podia realizar tal façanha.
A garota de olhos castanhos deu uma olhada rápida para o lado esquerdo da rua e atravessou a mesma, hipnotizada pela beleza exótica. Era tão incrível quanto uma flor brotando entre o cimento da calçada, desafiando toda comodidade, chance e sentido. Ali, bem na frente dela! Como poderia deixar tal oportunidade passar?
Seu pai, que vinha sofrendo tanto com contas, teria um alivio como ela ao ver essas flores, estava convicta disso.
Talvez tenha sido a animação crescente, as memórias dos tempos simplistas, a necessidade de fazer o pai se distrair do problema monetário, o afoitamento dela, um fator climático ou tudo junto, mas não olhou para direita ao atravessar a rua.
- MOÇA, CUIDADO! – Ouvi um pedestre desconhecido gritar. A ex bailarina virou-se e tudo que pode ver foi um carro cinza vindo em sua direção.
Numa bola de medo, desespero e surpresa, a menina ainda conseguiu pegar um vislumbre do rosto do motorista. Aquele era o ? Fala sério. Provavelmente era a adrenalina sendo produzida em excesso pela situação de stress.
Aí, veio o impacto.


Capítulo 2

❝Eu tirei a maldade do meu jardim como uma erva daninha e acabou que ela renasceu. E eu decidi mantê-la por lá.❞

Algo forte em tonalidade batendo violentamente contra orbes dela. Uma luz de invejar a estrela mais brilhante. se moveu na maca, abrindo e fechando seus olhos diversas vezes antes de acordar por completo. O quarto no qual ela se encontrava era totalmente branco, digno de um poema Simbolista.
As lembranças se encontravam tão embaralhadas quanto o seu raciocino naquele momento. Ela tentou falar, mas logo uma coisa dentro da sua garganta impediu que as palavras saíssem, abrindo espaço para um tipo de tosse entupida. A paciente se assustou e os bips nada amigáveis de um aparelho eletrônico não contribuíram para ajudá-la a se situar. Felizmente, seus olhos castanhos fisgaram sua figura paterna em meio ao desespero, fazendo-a se acalmar um pouco.
Tentou chamá-lo, sem sucesso, pois o tubo ainda estava preso entre sua garganta – não era doloroso, embora. Só irritantemente desconfortável. Quis enfiar a própria mão na goela e arrancar aquele cano dali, mas seus braços estavam muito cansados e molengas.
- Filha! – exclamou, feliz pela sua prole estar bem. – Eu estava tão preocupado. – O homem de cabelos grisalhos se aproximou da jovem, suspirando em puro alívio. Os médicos, é claro, haviam dito que a menina aparentava estar em boas condições, o explicado sobre a chance mínima de sequelas e todas as informações necessárias. Contudo, nada se comparava a vê-la, sua garotinha, com seus próprios olhos cansados de tanto ler contas, cheques e recibos. A menina tentou miseravelmente falar mais uma vez; o resultado foi o mesmo de suas tentativas anteriores. notou o problema, apertando o botão vermelho na parede para chamar uma das enfermeiras de prontidão.
A enfermeira adentrou no recinto antes que qualquer palavra ou, no caso de , tosse, pudesse ser proferida. Retirando o tubo de oxigênio enquanto dizia suavemente para como ajudar a empurra-lo para fora. Ao terminar, a mulher mais velha ofereceu a menina na maca, a qual não parava de tossir, um copo de água que foi prontamente aceito.
Após terminar a hidratação, respirou fundo. Os olhos ainda meio marejados por tirar aquilo da sua garganta, contudo, pelo menos, agora se sentia um pouco mais livre, deixando de fora os fios presos ao seu corpo, ainda cansada demais para fazer muitos movimentos, no entanto. A funcionária colocou o copo sobre a escrivaninha ao lado da maca, encarando sua paciente.
- Senhorita , vou fazer algumas perguntas para confirmar se há alguma sequela. Depois, alguns testes e você poderá ser liberada amanhã pela matina. – Informou-lhe, como dizia em seu crachá, Creuza. – É normal estar um pouco desorientada, efeito colateral do resto da morfina presente no seu organismo.
- Os exames vão demorar? É grave? Meu Deus. Eu fui atropelada, não fui? Que tipos de exames são esses? Tem agulhas? Eu odeio agulhas. E injeções. – Palavreou sem filtro, assustada demais para se importar se ela a acharia uma criança medrosa. Para quem estava tecnicamente desorientada, sua mente trabalhou a mil por segundo. – Quanto tempo eu dormi? Entrei em coma? Quem me atropelou? Espere, eu saí de uma sala de cirurgia? Devo informar vocês sobre a minha posição quanto doação de órgãos? Quem me atropelou, está vivo? Eu fiquei com alguma cicatriz? – Arregalou os olhos, seu rosto já estava vermelho e oxigênio fazia certa falta, era provável que fosse uma consequência por falar demais. – Eu assisto Grey’s Anatomy, vocês precisam saber do que eu tenho alergia, não é? Ou eu posso morrer. Ah, meu Deus, cadê aquele tubo de ar? Sabem meu tipo sanguíneo? É...
- Filha, respire. – Interviu senhor , tocando o ombro da sua cria de leve. assentiu, respirando profundamente pela segunda ou terceira vez naquele curto período de tempo. Tinha que focar, escutar e analisar.
- Não se acanhe, senhorita . – Creuza sorriu com educação, sua formalidade chegava a ser um pouco medonha. – É perfeitamente natural que se encontre nesse estado. Afinal, foste atropelada. Entretanto, não há nada com o que se preocupar. Só adormeceste por poucas horas. Quem estava a dirigir o carro passa bem, sem quaisquer cicatrizes. Seu pai nos informou suas alergias e posso oferecer-te um panfleto sobre doação de órgãos, tal nobre e importante ação que enfrenta tantos obstáculos neste país! – Suspirou frustrada, prestes a prosseguir com as respostas que havia começado a dar em ordem reversa. – Os exames são simples: uma pequena luz que a senhorita vai seguir apenas com seus olhos, para que possamos descartar traumatismo craniano, uma lesão no cérebro. O mesmo exercício com a mesma finalidade será executado, substituindo a luz pelo dedo do neurologista de plantão, o doutor Castro. Depois, algumas perguntas de rotina sobre a sua vida, como seu nome e idade. Então, teremos de colocar-lhe uma agulha no pé! Mas peço-te: não tenhas medo ou grite como tantos outros. Somente uma picada de formiga para confirmar que não perdeste os movimentos. Ficará em observação pelo resto do dia, para que possas ir embora pela manhã. – Aquela mulher baixinha de cabelos preto estava lembrando-a da Ama de Julieta na peça de Shakespeare com aquele linguajar. Ela tinha ido a hospitais tanto quanto uma pessoa saudável precisava ir ao longo dos anos e nunca foi atendida tão formalmente. Talvez a moça fosse nova no emprego e não quisesse perdê-lo. Ainda havia a possibilidade de ela ser portuguesa e estar aprendendo o português brasileiro. Ou aquele era só seu jeito peculiar. De qualquer maneira, a paciente achou aquilo bem interessante. – Terás que falar com a polícia depois, para que seja confirmada a história do homem que atropelou-te contou e que não ocorreu qualquer dano. Caso contrário, o homem que a pôs nessa situação irá pagar-te uma... Como dizem? Indenização. – Finalizou seu monólogo. simplesmente assentiu, absorvendo a situação.
Seu corpo parecia bem, ela estava falando e era capaz de sentir todos os seus membros, só meio mole pelos resquícios de morfina. A cabeça doía um pouco, mas nem chegava perto de ser uma enxaqueca. Então, não tinha motivo para se preocupar, certo? Mesmo assim, as batidas nervosas do seu coração foram, novamente, denunciadas pelos bips escandalosos do monitor.
Creuza se retirou, comunicando aos dois que iria chamar o médico e apanhar os materiais necessários para os exames do protocolo. Naquele espaço de tempo, ela mexia todos os seus membros e tentava ler qualquer palavra que encontrasse para confirmar que estava ótima, já os pensamentos do seu pai viajavam para um lugar distante.
Ele não era exatamente ligado nas ‘’paradas’’ dos jovens, mas , homem o qual se encontrava na sala de espera e havia se oferecido prontamente para pagar todas as despesas, também conhecido como o cara que atropelou sua primogênita, era um rosto bastante conhecido. Podre de rico, como tantos diriam. O carro e a falta de caso com o dinheiro que aquele hospital caro pedia para o atendimento denunciavam isso com facilidade; assim como a imagem dele aparecendo repetidamente na televisão esporadicamente.
- , preciso que faça uma coisa. – disse, seu tom de voz anormal: sério e sombrio, quase como se ele estivesse prestes a pedir algo ilegal.
E estava.
- Hum? O quê? – Perguntou distraída, sorrindo de leve ao conseguir mover os membros inferiores. Realmente, não tinha com o que se preocupar.
- Tem que fingir que não está sentindo as suas pernas. – Soltou de uma vez, sem gaguejar ou alterar o tom de voz, fazendo parecer que aquilo fosse a coisa mais comum do mundo para se fazer dentro de um hospital.
- O quê? – Repetiu, franzindo o cenho, sem convicção de ter ouvido exatamente o que ele disse. Seu olhar caindo em seu pai pela primeira vez desde que iniciaram aquela conversa.
- Confie em mim. – Sua voz finalmente alterou a tonicidade frigida, irreconhecível para uma clara súplica. Ela já tinha escutado aquele timbre antes: quando seu pai, desesperado e com filhos para alimentar, recorreu ao banco a procura de empréstimos.
- Pai, não! Por que eu faria isto? Com certeza, paraplegia ou paralização da cintura pra baixo ou qualquer tipo de deficiência não é algo pra fazer piadas sobre! – O lado certinho de , que estava mais para uns dois terços de todo o seu ser, falou mais alto. Tal ideia era absurda, imoral e infundada. Ela não acreditava que seu pai, o homem mais honesto e gentil que conhecia, estava propondo algo do gênero.
- Esse não é o objetivo, . Apenas faça o que eu mandei, sabe que eu sempre farei o que é melhor para nossa família. – Foi direto, seus braços cruzados e sua postura, reta. Isto era uma ordem. Embora ele não fosse rígido, Lay não costumava desobedecer, quase nunca havia sentido necessidade, honestamente. Ainda assim, aquilo não parecia certo de nenhum ponto de vista.
- Pai, eu não quero fazer isso! Não faz sentido nenhum. – Reclamou novamente, cem por cento confusa com toda aquela situação. Talvez a morfina estivesse deixando-a atordoada de verdade. – Como o senhor quer que eu faça isso? Ela vai enfiar uma agulha em mim! Eu não vou conseguir fingir não sentir isso! Eu não minto bem. E por que eu faria isso?
- , não temos tempo suficiente. Acho que sei como resolver a nossa situação. Faça isso. Por mim. Pelos seus irmãos. – olhou para porta ao ouvir algumas batidas, sua boca seca notar que era a hora do seu plano espontâneo começar. Abaixando a voz, ele sussurrou: – É claro que vai conseguir, minha menina. Você possui a coragem de um alecrim, é uma .
respirou fundo e assentiu.
Afinal, o que mais ela poderia fazer?

Xxx

A pessoa que inventou a expressão ‘’momento tenso’’, com certeza não tinha a definição dela para essas duas palavrinhas casadas.
Um médico gentil executando exames de rotina, uma enfermeira que parecia ter saído diretamente do século XIX, um pai esperando um pouco demais da sua filha e ela, , a filha, paciente e mentirosa da situação.
Ah, verdade. Também tinha um pequeno fator barulhento que só piorava aquela circunstância: o batimento cardíaco acelerado pela exasperação dela, que era facilmente reconhecido por conta do aparelho de eletrocardiograma de última geração.
O que fez ela pensar em como seu pai pagaria aquele hospital, que com certeza não era público. Hospitais públicos brasileiros não eram, nem de longe, organizados, limpos e rápidos desse jeito. De que maneira pagariam por aquelas regalias? Era um privilegio do qual eles tinham sido excomungados há tempos. O dinheiro não era suficiente nem para um mês inteiro.
E isso a fazia ficar ainda mais agitada.
- Parece nervosa, . – Dr. Castro notou, sorrindo sutilmente para ela. – Não precisa se preocupar, já fizemos a maior parte dos exames. Só falta a agulha. Não vai doer nada, você nem vai notar.
A garota engoliu em seco, assentindo. Desgostava de agulhas, entretanto, essa não era a maior das suas preocupações momentâneas.
Tentou oferecer um sorriso casto ao doutor, todavia, estava certa de que saiu como uma careta.
Ele segurou uma agulha de, no máximo, 10 centímetros, mas que, para ela, pareciam 100 metros. ofegou e olhou para cima, o bip, bip, bip gritando repetidamente como quem canta uma música Heavy Metal, além da sua relação nada amigável com agulhas, aquela furada significava mais que apenas um medo infantil: a mentira estaria selada. Mentira que ela nem sabia porque estava contando.
- Acabou. – Quê? Já acabou? Questionou a si mesma, encarando o médico com a boca semiaberta. Ele, por sua vez, tinha expulsado o sorriso do rosto e ostentava uma feição séria.
- Nossa, eu nem senti nada! – Exclamou ela, surpresa. Não tinha sido ferida por picadinha de formiga ou abelha, seja lá qual fora a comparação que Creuza utilizou. Foi surpreendente.
Doutor Castro suspirou, sabia o que aquilo significava e a fala dela só confirmou seu achismo. Odiava situações como aquela, não foi para perdas que havia se formado em medicina. Senão o oposto, realmente. Planejava salvar vidas, ajudar a oferecer segundas chances. Porém, os ossos do ofício da medicina eram graves, pesados.
- , vou tentar de novo e você me diz se sentiu algo, tudo bem? – Ela apenas acenou em concordância e Castro colocou a ponta da agulha dentro da primeira camada de sua pele novamente. Dessa vez, o eletrocardiograma acelerou tanto pelo terror quanto pela pequena porção de dor que experimentou. Bem, pelo menos ela não possuía sequelas, estava quase se convencendo disso depois da primeira picada indolor. Felizmente, aquela dorzinha era bastante real. O mais provável era ela não ter sentindo por estar preocupada demais com outras coisas, adrenalina, algo assim. – Sentiu alguma coisa?
- N-Não. – Gaguejou, agoniada por ter uma agulha dentro do seu pé. – Doutor, eu não sinto nada! – Aproveitou o desespero pelo objeto aterrorizante e descontou em outra coisa. Bateu nas suas coxas, seus olhos marejados por um motivo completamente diferente do que o médico esperava. A respiração ofegante de completava aquele mini show. Para alguém que se intitulava de má mentirosa, ela sabia bem como enganar alguém. A tática de usar seus sentimentos desagradáveis para algo produtivo, por exemplo, quando ela transformava a ansiedade do vestibular em combustível para estudar. – Doutor?
- , eu sinto muito... – Inspirou profundamente, retirando a agulha da sua paciente. soltou o ar em alívio. Creuza observava a cena penosa e roía as unhas, assustado pelas possibilidades que aquele contexto poderia levar. – Mas acredito que a senhorita perdeu os movimentos dos membros inferiores. Está paraplégica.

Xxx


Após meia hora com o médico Castro explicando que nosso corpo lida com traumas de maneiras eficientes para o momento e que, ás vezes, certas partes do organismo humano simplesmente travam ou param de funcionar, mesmo com os exames constando o membro saudável, ele e a enfermeira finalmente deixaram o quarto, alertando que iriam dispensar os policiais por algumas horas até que ela se sentisse minimamente confortável para falar.
- O que foi isso, pai? Preciso que o senhor me diga o que está acontecendo, agora! – exigiu em um grito sussurrado. Estava sentindo um aperto do coração por ludibriar as pessoas que cuidaram dela, especialmente de um modo tão baixo.
- , o homem que te atropelou é um cantar famoso. Ou ator, não sei bem. , o nome. Um desses que sempre aparecem na televisão, ele fez questão de pagar todas as despesas do hospital. Se ele souber que você ficou com sequelas, podemos pagar as nossas dividas, pagar sua faculdade e colocar seus irmãos no colégio! – O pai da paciente sorriu abertamente. Por fim, em meio há escassez de dinheiro e empregos com bom salário, havia encontrado uma solução.– Já imaginou? Seus irmãos estudando em um colégio particular, nada de ficar duas semanas sem aula por causa de uma pingueira!
- Pai, como o senhor pode sequer pensar nisso? É tão... – Sua fala foi interrompida por um rosto se esgueirando pela porta branca daquele quarto de hospital. se calou, sabia quem aquele homem era. apenas o encarou, esperando que o mesmo tivesse errado o quarto e fosse embora para que ela pudesse voltar a discussão com seu pai. Ele não estava vestido como um funcionário, logo, só podia ser um visitante.
- ? – Ela assentiu e o homem ofereceu um sorriso constrangido. – Oi, eu sou . Mais conhecido como o cara que te atropelou. – soltou uma risada anasalada, tentando aliviar a tensão que achava que estava lá por conta dele. A careta dela devia ter oferecido a impressão errada, porque logo ele começou a tagarelar. – Quer dizer, não que isso seja engraçado, eu não quis dizer isso como se fosse engraçado, porque não é engraçado, sabe? Claro que você sabe, você está nessa maca. – Ele mexeu a cabeça. Deus, ele era tão atrapalhado que chegava a ser fofo.
olhou para o seu pai enquanto a sua vítima estava de costas, ainda se enrolando nas palavras ao fechar a porta, enquanto segurava algo em sua mão esquerda. assentiu para filha e esta suspirou. Não tinha escolha. Contudo, não iria fingir ser paraplégica. Teria uma séria conversa com seus pais quando estivessem a sós, teriam que criar outro plano. Ou ela cairia fora, embora seu coração doesse pela sua família.
O garoto de olhos verdes se aproximou dela.
- Eu só queria me desculpar. Foi totalmente minha culpa e eu vou fazer questão de pagar tudo, até os remédios e o tratamento depois daqui, se precisar. – Ele respirou fundo e coçou a nuca, um ato simples para expressar seu nervosismo. – Meu nome é .
- Eu sei, você já me disse. – sorriu tristemente. Ele parecia um cara legal. Ainda mais, era ! O ator em ascensão que estava bombando pelo seu filme e série televisiva. Em outra ocasião, ela estaria pedindo uma foto e um autografo, não mentindo descaradamente a fim de obter dinheiro. Tristemente, não tinha lugar para animação lá. – Sou . .
E foi aí que, oficialmente, o problema começou.

Capítulo 3

❝Os sorrisos mais belos guardam os segredos mais sombrios.❞

- Eu trouxe isso. – Levantou um jarro de vidro com três Jade Vines residindo dentro, finalmente chamando atenção da moça para o objeto que se encontrava em suas mãos. O fato de não ter água no recipiente foi a segunda coisa que notou, a primeira foi o quão adorável aquele gesto era. – Tive que voltar ao local do acidente com os policiais e notei que, donde você estava, provavelmente ficou distraída por essas flores. Não que o acidente tenha ocorrido porque você estava distraída, nada a ver. Eu só pensei que... – estava excessivamente nervoso, estava ciente disso. Todavia, precisava ter alto controle. A única pessoa com direito a surtar, do seu ponto de vista altruísta, se chamava , a mulher linda na sua frente. Mas de certo não era hora para notar este aspecto especifico. – São bem bonitas, eu acho. As flores. Bem diferentes e bonitas. – Suspirou, ele podia ser facilmente comparado com uma confusão ambulante. – Olha, eu sinto muito por... – aproximou-se da maca onde a moça repousava. Parando para respirar e pensar direto, aquela cena foi, de longe, um dos seus piores pesadelos: alguém ferido por culpa dele, de novo. Embora seus primeiros instintos fossem correr para o lado oposto da catástrofe e deixar que pessoais mais racionais, responsáveis, cuidassem do ocorrido, tal como havia feito anos atrás quando não passava de uma criança, permaneceu lá. Sentado na sala de espera, falando com os policiais sem ao menos informar sua agente, ato que renderia alguns gritos. Queria ter certeza de que ela estava bem, viva, imutável pelo acidente. – Isso tudo. Foi tão rápido. Eu olhei para o rádio para mudar a música e quando levantei a cabeça, você tinha surgido do nada. Tentei desviar, todavia não consegui. Eu não estou tentando justificar o que aconteceu, o que eu fiz, mas... – Colocou as flores sobre a escrivaninha, andando um pouco para trás e encostando a mão na perna da garota inconscientemente, num gesto empático.
Ambos, filha e pai, ficaram tensos pelo toque repentino na parte especifica do corpo. O médico tinha dado alguma informação sobre a suposta situação da paciente? Um passo falso e todo o plano voaria pelos ares. Além das explicações que os funcionários e policiais exigiriam. A opção voltar não era mais uma realidade.
pigarreou, disposto a assumir a liderança dentro da mentira criada. Pelo visto, os dotes de enganar de sua prole já tinham sido excedidos pela tarde.
- , a minha filha não pode sentir as pernas. – Tentou manter o tom sério. A tensão no quarto, por motivos totalmente diferentes dos quais foi levado a acreditar, ajudou na pequena atuação.
estava mais branco do que o normal, visualmente, parecia que ele estava prestes a desmaiar. O homem sentia um forte enjoo. O que tinha feito? Como pôde ferrar a vida de uma pessoa assim, por uma música? Pelo amor de Deus! Era tudo sua culpa novamente, novamente, novamente. A mente dele se encontrava presa em um loop de culpa e nojo de ninguém além de si mesmo.
e não se atreveram a interromper o processamento do jovem. De fato, aquela informação era muito drástica para ser absorvida com rapidez, especialmente quando acreditava que ele era o responsável pela desgraça da menina.
Ela não pode evitar o mal-estar que a atingiu ao vê-lo assim. , o cara que entrou lá tão simpático, que pagou todas as despesas sem nem cogitar a ideia de dividir os gastos. Ele parecia um bom homem, uma boa pessoa. Não só pela reação dele – a qual, no momento, se resumia a ele encarando a mão pousada na perna dela e suor transpirando pela sua testa –, contudo, pelas poucas entrevistas que já tinha assistido dele. E os posts no Instagram. Se ela já considerava imoral enganar alguém ruim, imagine um ser humano como . Sem contar que a estava prendendo sua respiração desde o segundo que ele a tocou, por puro medo de acabar movendo a perna. Seu pai continuava de pé, ao lado oposto da maca dela, aguardando pelas próximas palavras que encheriam aquele cômodo – sua insegurança, entretanto, era maior que qualquer resquício de pena. No fundo, considerava aquilo o seu botão do pânico, a última chance de sair da situação desesperadora de sua família.
O ponteiro do clássico relógio marrom grudado na parede viajou três, quatro, cinco vezes até , por fim, voltar a realidade. Parecia que ele era Alice, e ele passara pela toca do coelho mais uma vez, voltando para realidade que era sua casa.
Quem derá ele ainda residisse no País das Maravilhas.
Os olhos verdes dele focaram de imediato na sua própria mão: descansando na perna imóvel da . Seu primeiro instinto foi recolher seu braço e tomar dois passos para três, com medo de machucar ela mais uma vez, de algum jeito. Suas mãos suavam frio. Ele sentiu uma vontade interna de chorar, se ajoelhar na frente deles e implorar por perdão. Mas sabia que, se o fizesse, seria apenas e somente para o seu próprio desejo egoísta de conseguir sentir-se melhor consigo pela situação. Porém, conhecia alguns modos de ajudar a família . Estava disposto a isso. Não era menos do que ele sentia que devia fazer.
- Eu vou pagar tudo que você precisar, . – Afirmou, sem dar espaço para os presentes intervirem. estava agitado, alternando entre esfregar as mãos pelo rosto e gesticular a medida que falava. – O hospital, os remédios, a fisioterapia. Eu posso chamar o meu advogado para oficializar tudo. E vou estar presente a todo momento da sua... – Recuperação? Negativo. A palavra era outra, sabia disso melhor que ninguém. – adaptação.
- Não é necessário... – tentou negar educadamente os exageros dele, sorrindo sem graça. , o ator que fazia uma série famosa e estreou nos cinemas internacionais há um mês, possuir a conta bancaria bem generosa não era novidade ou inesperado. Ela mesma assistiu o drama no shopping quatro dias após a estreia mundial. Contudo, se já estava se sentindo péssima ao ver todo desalento do rapaz, agora, presenciando-o tentar arduamente concertar o que pensava ter quebrado, de formas econômicas e pessoais... Era demais. Toda aquela situação era demais. Primeiro, quanto mais tempo ele passasse com ela, mais perto estaria da verdade horrenda. Segundo, o pensamento dela magoar ele de algum jeito pela sua mentira a atingiu como cometa. Terceiro, só oferecer o dinheiro, como a maioria das pessoas faria de mal grado, esse era o plano inicial. E agora?
- Eu insisto. – Ao ver o olhar relutante da moça, aproximou-se dela novamente. Não queria, de maneira nenhuma, abandoná-la somente com uns trocados, como se aquele acidente significasse apenas mais um escândalo para ser abafado. No entanto, não iria forçá-la a nada. Era escolha dela e dela só. O ator segurou a mão da garota entre a suas, a pele amorenada da mulher em contraste com seus dedos pálidos, enquanto ele acariciava o dorso desta. – Escute, eu me sinto tão, tão mal pelo que aconteceu. Por causa de uma música que eu nem gostava tanto! Eu sinto muito, de verdade. Tudo isso que eu falei é o mínimo que eu posso fazer por você. Por favor, me deixe ajudar. De todo modo que eu posso.
fitou a filha, os braços do homem mais velho cruzados em frente ao seu peitoral. Aguardava pela resposta da menina, esperando ansiosamente que não amolecesse diante da genuinidade de . A morena foi capaz de sentir os quatro olhos no recinto vidrados nela, se sentia como uma presa, numa floresta onde a verdade era sua sina, a predadora. O toque singelo de também não facilitava o seu remorso interior. Ao contrário, a deixava confortável ali, querendo contar o problema real. Ele estava sendo tão legal. Deu flores para ela, droga! Não românticas como rosas ou coisa parecida, mas flores apenas para agradar uma mulher que era uma estranha para ele. Podia ser considerada um problema, na verdade. simplesmente olhou dentro dos seus olhos, tentando achar forças para ir em frente.
Seu pai tossiu, um aviso disfarçado. Devia parar de ser egoísta. Afinal, não teria sugerido isso se aproveitar do rapaz, mas para ajudar sua família, correto? Então, ela tinha que deixar de agir como um bebê; a vida deixou de ser preto e branco no segundo em que ela largou as fraldas. A família dependia daquilo, ela, seus irmãos, seu pai.
- Tudo bem.
Foram as únicas duas palavras que conseguiu proferir em voz alta, utilizando uma segurança frágil a qual soava verdadeira. Pelo menos, a situação em si permitia que ela agisse de forma hesitante nestes momentos.
sorriu abertamente, aquele mesmo sorriso que tinha dito ser maravilhoso quando assistiu seu filme, a abraçando logo em seguida.
Embora tudo fosse uma bagunça confusa dentro do quarto de hospital, ali, abraçando o homem que estava fadada a enganar, ela se sentiu segura pela primeira vez. Talvez pelo modo que ele a tratou, ou pelo sorriso que podia ser considerado familiar, até mesmo pela insistência em ajudar.
Talvez.
E o aroma singular das formosas Jade Vines infestou o local.




Continua...



Nota da autora: Opa. Que foi isso, PP? Já machucou alguém? Comoassim?
OI, AMORES! Como viram, o casal principal começou a interagir de verdade! Por mais que a nossa PP esteja meio... Conflituosa em relação a isso. Se bem que pra alguém que não gosta de mentir, ela se saiu muito bem, né? Bem, o cap em si foi mais sobre os sentimentos deles do que interações mesmo, MAAAAAAS, don’t worry, próximo cap é 100% tátil.
Espero que tenham gostado! Deixem um comentário, ajuda pacas. <3




Outras Fanfics:
Inimigos com Benefícios - Restritas/Outros/Andamento
Sóbria - Outros/Shortfics/Finalizada
Bandernatch - Outros/Shortfics/Andamento

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


comments powered by Disqus