Certain Things

Última atualização: 20/01/2019

Un


Cadeiras de avião são sempre desconfortáveis. Isso é um fato universal, exceto se você tem dinheiro suficiente para andar na classe executiva. Mas vamos ser sinceros: andar de avião não é uma experiência muito confortável, não é mesmo? Você entra em um negócio gigante de metal com mais não sei quantas outras pessoas, com uma comida ruim, aeromoças mal-educadas, pessoas que roncam e ocupam todo o braço que separa uma poltrona da outra. Ainda proporciona aquele famoso frio na barriga toda vez que decola e pousa, além daquela apreensão (para não dizer medo) de ele não ter forças suficientes para ficar aqui em cima e cair, porque aí, meu amigo, lascou tudo.
Não que minha vida esteja 100%, porque ela está totalmente o contrário disso. E nem olhar pela janela e ver a calmaria, as nuvens abaixo de mim, conseguiu acalmar o meu coração.
Como se acalma um coração que está em pedaços?
Mas o pior de tudo é relembrar o tempo que perdi em Paris. Uma cidade mais que maravilhosa, por sinal, mas que, desde semana passada, já não me traz boas recordações. E, garanto para vocês, se a fama de todos os cidadãos parisienses dependesse de uma única pessoa chamada Thierry Vicent, seriam todos escrotos ao máximo nível.
Só para esclarecer, Thierry é meu ex-namorado. Eu o conheci quando visitei minha melhor amiga, Nina García, há dois anos. Ele é amigo do namorado dela, Pierre Legrand, e é o típico francês charmoso e galanteador. Eu, toda abestada que sou, caí em seu charme e papo fácil. Saí com ele alguns dias nesse curto período que estive na cidade. Quando voltei para Barcelona, minha cidade natal, trocamos algumas mensagens e, certo dia, ele resolveu que queria me visitar. Só que apenas soube disso quando o maldito já estava batendo em minha porta.
Obviamente, agradeci as lindas flores que ele me entregou assim que dei passagem para que entrasse em meu pequeno apartamento no centro da cidade.
Dei teto, comida e outras coisinhas mais. Passeamos pelos principais pontos turísticos de Barcelona e, então, no final de sua viagem, alguns dias antes de ele retornar para Paris, me pediu em namoro. Eu, totalmente encantada com os dias que passamos juntos, aceitei.
Entramos em um relacionamento à distância, baseado em conversas pelo facetime e várias passagens de Barcelona para Paris, ou vice-versa. Quando completamos um ano juntos ele decidiu que já era hora de noivarmos, pois tinha certeza que eu era o amor da sua vida. Eu, com as minhas certezas todas erradas de que ele era o amor da minha vida, aceitei.
Posteriormente, ele me convenceu a vender meu pequeno apartamento e dar o valor recebido de entrada em um novo para nós dois, em Paris. Portanto, comecei a minha saga de mudança e consegui levar parte das coisas para minha nova casa. E, em meio a tantas loucuras, eu já começava a sonhar com cada detalhe do nosso casamento.
Os primeiros meses foram felizes. Estávamos nos adaptando um ao outro e aquela seria a nossa vida dali em diante. Claro que, vez ou outra, entrávamos em algumas discussões bestas e ele passava horas fora de casa. Para mim, aquilo estava normal. Que tola que eu sou.
Apenas passei a desconfiar de que alguma coisa não estava indo bem quando tudo que eu falava sobre o casamento era motivo de estresse ou desinteresse da parte dele. Pensei que era um comportamento normal de um homem prestes a se casar. A minha mente, por um momento machista, me traiu e relevei todas as atitudes do maldito.
Quando as coisas já estavam metade encaminhadas, tudo mudou.
Em nosso aniversário de dois anos de namoro, eu preparei um jantar à luz de velas super especial em nossa casa e cheguei até a me atrever na cozinha. E eu nunca cozinho, apesar de saber alguns pratos coringas como a macarronada desse dia.
Estava tudo preparado. O vinho em cima da mesa, eu em um vestido preto tubinho que cobria a linda lingerie que estava por baixo, a macarronada no forno e o tempo passando.
Algumas ligações, macarronada já em cima da mesa, o vinho já aberto por mim e nada do dito cujo mandar notícias. Comecei a ficar desesperada e pensar que tinha acontecido alguma coisa grave. Liguei a televisão e nada de notícias fora do comum.
Mais algumas ligações depois e nada. Resolvi jantar sozinha, engolindo todo o ódio que estava começando a acumular dentro do meu ser. Me larguei no sofá e prometi a mim mesma que não ia chorar. Falhei no segundo seguinte, quando as lágrimas começaram a cair.
Meu coração disparou quando ouvi o farfalhar das chaves. Ele entrou em casa com o maior sorriso do mundo, que logo em seguida desapareceu ao ver minha cara. Provavelmente se assustou com a minha maquiagem borrada.
— Ei, chéri, o que aconteceu? – perguntou enquanto se aproximava de mim.
— Onde é que você estava? – retruquei e me levantei do sofá em um pulo. No segundo seguinte, já estava em frente a ele, analisando cada detalhe do seu rosto.
— Eu estava com o Pierre, fomos para um bar... conversar – ele respondeu e virou-se de costas. Apenas nesse momento, bem nesse instante, a brisa entrou pela janela e trouxe o cheiro para as minhas narinas.
Perfume de mulher.
— Seu mentiroso! – gritei o mais alto que pude e ele se sobressaltou. – Você estava com uma mulher! Eu estou sentindo o teu cheiro daqui! – avancei para cima dele e ameacei dar um tapa bem dado naquela carinha que eu tanto amava, mas, infelizmente, ele me segurou pelo braço.
— Você está ficando louca? – largou meu braço e caminhou até a cozinha. – Eu já disse que estava com o Pi... o que é tudo isso? – questionou ao reparar a mesa da cozinha toda arrumada e as velas quase no seu fim.
— Você sabe que dia é hoje, seu canalha? – cruzei os braços e não esperei ele responder. – É o dia do nosso aniversário. Dois anos, lembra? E você estava com alguma rapariga por aí! E não vem me dizer que estava com Pierre, porque Nina me mandou uma selfie onde ele aparecia ao fundo, bem confortável por sinal. Então é melhor você começar a se explicar.
... Eu sinto muito, mas isso não vai dar certo. Eu me apaixonei por outra pessoa. Não faça esta cara, eu estou sendo sincero com você! – ele me olhou assustado.
— Você está sendo sincero agora que eu te encurralei na parede – apontei o dedo na cara dele – Tudo isso aqui, tudo – falei mostrando ao redor – foi uma mentira. Você me fez sair da minha cidade, largar o meu emprego para ganhar menos aqui em uma clínica de fisioterapia que não me valoriza, me fez deixar minha família para trás, dizendo que eu era o amor da sua vida e que você queria passar o resto dos seus dias comigo. Eu estou me sentindo a maior burra do universo por ter acreditado no seu papo – arranquei a aliança de noivado do meu dedo anelar direito e joguei na cara dele – Neste momento, eu sou otária e você realmente não merece uma burra como eu, mas pode apostar que eu vou voltar para Barcelona e vou dar a volta por cima e não vou lembrar que um lixo como você aconteceu na minha vida – caminhei pelo corredor até a porta do nosso quarto e a abri – Essa semana você dorme no sofá, até eu arrumar minhas coisas para voltar para minha cidade.
Bati a porta com força e sentei na cama. Obviamente, deixei todas as lágrimas possíveis saírem de meus olhos naquela noite e chorei algumas outras vezes naquela semana.
Foi bastante difícil.
Mas agora eu estava sobrevoando Barcelona, a minha querida e amada Barcelona. Não tem nada melhor do que voltar para casa, ainda mais depois de todo o estresse que passei tentando reaver parte do dinheiro que já tinha gasto com o casamento. Fora a casa que estava no nosso nome, problema que ainda não foi resolvido.
Sobrevoar Barcelona era realmente uma sensação incrível. Ver as várias quadras em harmonia, separando as ruas, e a perfeição da organização arquitetônica ainda me tiravam o fôlego. Eu amava aquele lugar. Tirei o celular da bolsa e tirei uma foto da vista área e mandei no grupo da família.

"Chegando em casa."

Enquanto o avião ainda esperava a autorização para pousar, decidi que era hora de uma distração, afinal, lembranças do passado, que acabara de deixar para trás, retornavam em minha mente hora ou outra.
Algumas obras de Gaudí estampavam a capa, de forma convidativa ao turista. Folheei e passei os olhos rapidamente nas reportagens sobre os novos restaurantes que estavam fazendo bastante sucesso na cidade e, ao virar a página, dei de cara com uma foto do Camp Nou. Quanto tempo que não ia ao estádio ou assistia um jogo do Barcelona pela televisão, mesmo? Nota mental: assistir o primeiro jogo do Barcelona na temporada da La Liga de 2018/2019. Chega de campeonato francês, pelo amor de Deus!
Ouvi a autorização para o pouso ser anunciada e imediatamente fechei a revista e a coloquei no compartimento que ficava na parte de trás da poltrona da frente. Uns 20 minutos depois, já estava com minha mochila nas costas e me direcionava para a saída do avião.
Finalmente estava em casa. Só de estar ali, naquela cidade, com aquelas pessoas (maioria turista claro, mas quem se importa?), já me sentia melhor e conseguia deixar as preocupações um pouco de lado.
Após ter passado pelo procedimento rápido na chegada do aeroporto, minha mala já estava em mãos e já me dirigia para a saída. Eu me sentia bastante confiante e que aquele era o roteiro do meu filme sendo alterado, dando uma guinada para as coisas darem certo. Até sentia o meu cabelo bater em câmera lenta sobre os meus ombros.
! – um punhado de cabelos pretos, compridos e ondulados pularam em cima de mim e cobriram a minha visão, me desequilibrando momentaneamente – Eu não acredito que você está de volta e que vamos morar juntas! É como passar os finais de semana na casa da Iaia, só que com responsabilidades e contas para pagar e tendo que fazer a nossa própria comida. Enfim... – ela se afastou um pouco de mim e olhou para o meu rosto, pegando no celular logo em seguida – Nossa! Você está acabada! Vou nem fazer stories da sua chegada.
, dá para você me deixar respirar? – minha prima se afastou mais e eu pude ajeitar o meu cabelo, que ficou todo bagunçado com o abraço súbito. – Ah! Inclusive, muito obrigada pelo elogio! E você está proibida de filmar este rostinho aqui sem a minha autorização, está me escutando?
— Ui. Está bem! – segurou o riso — Me desculpe, . Mas sei muito bem qual a sensação de ter levado um belo par de chifres. E você, aparentemente, me parece ok, apesar das bolsas que você carrega debaixo dos olhos e dessa cara de sono horrorosa – ela disse e riu no final, provavelmente ao perceber a minha cara de poucos amigos olhando para ela – Fica assim não, priminha. Você vai redescobrir que não há ninguém melhor do que os catalães.
— Minha querida, minha prioridade agora é parar de chorar a noite antes de dormir sentindo falta daquele maldito, depois dar um jeito nessas olheiras ridículas que você acabou de apontar e, logo em seguida, arranjar um emprego para não ficar dependendo dessa digital influencer que vive apenas de eventos e recebidos e que é uma louquinha. Ou seja, de você! – suspirei e rolei os olhos ao lembrar deste último detalhe em minha vida: o desemprego. – Homem é a última coisa que eu quero no momento.
— Me fale de novo isso daqui um mês, quando você estiver subindo pelas paredes – tagarelou ela, pegando a minha mala e finalmente começando a andar em direção a saída do aeroporto.
— É para isso que tenho outros meios – levantei os meus óculos e dei uma piscadela para ela, enquanto ela gargalhava alto.
— Sua tarada! – anunciou para a meia dúzia de pessoas que estava ao nosso redor, que me olhou no mínimo com uma cara questionadora. Senti minhas bochechas ruborizarem e dei de ombros, envergonhada.
— Cala essa boca! – disse, por fim, encerrando o assunto.
O meu coração deu um pulo assustado quando várias pessoas começaram a correr em direção ao mesmo ponto. Olhei em direção ao movimento e alguns seguranças fizeram uma barreira para que aquele pessoal não ultrapassasse.
— Mas que diabos? É a Shakira que está desembarcando? – perguntei, já ficando animada só de imaginar encontrar a Shakira e ganhar uma foto com aquela musa.
— Que nada! É o time do Barcelona que está chegando de viagem. Quando cheguei no aeroporto, o ônibus já estava aí na porta esperando por eles – ela disse como se aquilo não afetasse a torcedora culé dentro de mim.
— Não brinca! Vou lá tentar tirar uma foto com o Lio – falei determinada e já a caminho do furdunço.
— Quem é Lio? – perguntou, avoada, me seguindo de perto.
— Me recuso a responder essa pergunta, . Você que é uma pessoa relativamente famosa deveria saber – rolei os olhos, entediada.
— Você sabe que eu não entendo nada de futebol! Por isso nunca fui convidada para eventos esportivos e, nos que fui, jogadores de futebol não marcaram presença. Acho – ela parou para pensar – Vou falar para minha assessora providenciar isto!
Não dei muita bola para o que ela estava falando, aproveitei para correr mais um pouco. Quando me aproximei, consegui entrar ao lado de uma criancinha muito fofa que estampava o número 14 e o nome "Coutinho" nas costas. Isso vai ser fácil, ninguém resiste a uma criancinha fofa dessas.
Então, a cada nome que ele chamava, o jogador respectivo vinha em nossa direção e, logo após atender o menininho, eu conseguia uma selfie. E assim consegui tirar foto com Piqué (deixei claro que ele deveria dizer para Shakira que ela é a mulher mais maravilhosa de todos os tempos, todos os dias), Jordi Alba, Rakitic, Ter Stegen e Sergi Roberto.
Lionel Messi, meu ídolo maior, deus do futebol, o melhor de todos os tempos, apareceu em nosso campo de visão. E eu, que até o momento estava comportada, sem muitas alterações cardíacas, comecei a chamá-lo desesperadamente.
— Lio! LIO! MESSI! Messi, por favor! – ele, então, virou a cabeça lentamente em minha direção, como se fosse um filme mesmo, em câmera lenta, e acenou levemente – Aaaah! Você viu, você viu? – olhei para o lado, procurando a minha prima – , cadê você?
— Você parece ser bastante fã do Messi, né? – uma voz masculina (muito bonita e questionadora, por sinal) soou por trás de mim.
— Ele só é o melhor jogador do muuun...– assustei-me ao focar os meus olhos no jogador parado em minha frente – do – finalizei depois de alguns segundos.
Ele autografava a bola do garotinho que estava ao meu lado, vestia a camisa de viagem do time (azul com detalhes laranja) e a bermuda no mesmo feitio. Roupas que lhe caíam muito bem, diga-se de passagem. O fone de ouvido agora estava envolta do pescoço. Não pude evitar reparar no sorriso que ele carregava no rosto. Simplesmente maravilhoso.
— Disso eu não posso discordar de você – ele entregou a bola para o garoto enquanto davam um high-five. Então ele me olhou e o sorriso aumentou – Vai querer uma foto também?
— Claro! – assenti, enquanto levantava a mão direita que, vamos ser sinceras, estava levemente trêmula.
Ele chegou mais perto, abaixou o corpo, colou o rosto no meu e sorriu para a câmera.
— Não tem porque ficar nervosa – ele retirou o celular delicadamente da minha mão e tirou nossa foto – Pronto! Agora tenho que ir, tchau!
— Tchau, Coutinho – respondi sem ter muita certeza do que tinha acabado de acontecer, e com cheiro de Philippe Coutinho ainda em meu nariz, nem vi quando Luís Suárez, o último jogador do time a dar as caras, passou em minha frente indo em direção ao ônibus.
— E aí? Podemos ir embora? – assustei-me com o aparecimento súbito da minha prima.
— Onde você estava? – perguntei curiosa enquanto voltávamos a nos dirigir para a saída do aeroporto – Pensei que ia filmar tudo com o seu celular de última geração.
— Estava com fome, fui tomar um café – ela disse dando de ombros – Preciso parecer que conheço os jogadores e não que sou uma doida querendo atenção e views. Tipo certas pessoas...
— Ei... Eu não quero views, mas claro que não ia deixar a oportunidade de registrar esse momento único em minha vida, além de ser o primeiro momento de felicidade espontânea que tive desde a semana passada – declarei, genuinamente feliz.
— Neste caso, fico feliz. Agora vamos para casa – saímos finalmente do aeroporto.
O sol bateu em meu rosto, a brisa do mediterrâneo balançou os meus cabelos, o celular que carregava as primeiras fotos da minha volta estava em minha mão, que o segurava como se fosse um tesouro, e o sorriso no rosto de quem estava voltando para casa. Por um instante, a felicidade adentrou o meu ser e eu realmente me senti bem por estar ali. No lugar de onde jamais deveria ter saído.


Dos

Uma claridade absurda adentrava pela janela do quarto fazendo com que eu abrisse os olhos rapidamente e fechasse-os logo em seguida, me virando para o outro lado da cama onde a luz não pudesse me encontrar. Estiquei meu braço direito por cima do pequeno móvel, que ficava localizado bem ao lado da cama, peguei meu celular e o trouxe para perto de mim apenas para comprovar: sábado, 11h.
Acordar nesse horário já estava virando costume, muito diferente da minha vida antiga, onde costumava acordar bastante cedo, até mesmo em um dia de sábado. Uma preguiça impressionante se apoderava de mim e nada no mundo parecia mais confortável do que o meu travesseiro e o meu colchão. Porém, nem tudo é assim, tão lindo. Além das tentativas frustradas de arranjar um emprego nessa semana, tive que passar pelo sofrimento de ter que andar com uma imagem apresentável pelo metrô de Barcelona em um calor de 30 graus. Eu odiava muito o verão Europeu!
Mas o meu principal problema continuava sendo o desemprego, e o calor parecia até fichinha perto disso. Não recebi nenhum telefonema, nenhuma entrevista fora marcada. Aparentemente, Barcelona era uma cidade com bastante fisioterapeutas. Iria ficar mais velha, desempregada e morando no quarto de hóspedes de uma pessoa desajustada como a minha prima.
Desculpe-me pelo meu drama. Mas tem sido uma semana e tanto.
Levantei da cama e pude sentir o quanto o meu pijama minúsculo, que havia colocado na noite anterior com intuito de não sentir tanto calor, estava colado em meu corpo só de suor.
Sério, eu imploro para todos os deuses: preciso de um emprego! Pelo menos para comprar um ar-condicionado para esse quarto. Não é humanamente possível sobreviver a um calor desses.
Saí do quarto batendo a porta, com um mau humor matinal que ninguém nesse mundo poderia me julgar. Vistoriei o resto do apartamento e nada de , graças a Deus! Não aguento mais passar o dia todo com medo de ser filmada e parar na internet para um monte de desconhecidos printarem e espalharem por aí. Era maluquice demais para minha cabeça.
Adentrei o banheiro, joguei minhas roupas recém retiradas em um cesto que ficava por perto e adentrei o box. A água gelada caía sobre meus ombros, fazendo com que eu relaxasse completamente por alguns minutos, esquecendo os problemas que me esperavam do lado de fora daquela enorme porta branca que me separava da realidade. Era um momento meu. Só meu.
Toc. Toc. Toc. Toc.
Batidas incessantes me despertaram do meu transe. Bufei alto. Não acredito! Que dia horrível para ser eu.
— O QUE É? – gritei alto o suficiente e fiz questão de demonstrar, em meu tom de voz, a minha chateação.
— Saia já desse banheiro! Eu tenho um babado fortíssimo para te contar, prima. Você não vai acreditar! – ela respondeu do outro lado e pude ouvir seus passos de um lado para o outro no corredor do apartamento, ansiosa.
Relutante, desliguei o chuveiro. Peguei a toalha, me enxuguei e me enrolei nela, abrindo a porta logo em seguida e dando de cara com , que estava com um sorriso enorme, me dando um pouco de medo, admito.
— Você vai me matar? – perguntei me afastando, enquanto sua expressão dizia que não estava entendendo nada e nem o porquê da minha reação. – Você está com um sorriso de quem está escondendo uma faca aí atrás e vai me esfaquear a qualquer momento.
— Deixa de ser besta, mulher! – ela balançou as mãos no ar, desdenhando, e começou a dar pulinhos animados logo em seguida. – Você não sabe o que a minha assessora conseguiu para nós duas!
— Se for entrada para um dos seus eventos idiotas, eu passo. Prefiro me entupir de Coca-Cola e batata frita com cheddar e bacon, assistindo algum filme extremamente clichê que me faça chorar – disse passando por ela e entrando no meu quarto.
— Deixa de ser chata! Desse jeito, o que você vai entupir são as suas veias. E, além disso, já se passaram duas semanas desde que você deu o pé na bunda daquele maldito. Está na hora de começar a viver de novo, não acha? Além do que, o evento de hoje tem tudo a ver com você e um tal Futbol Club Barcelona – olhei para ela, curiosa, cedendo um pouco – Ainda bem que consegui a sua atenção total – ela sorriu maliciosa e se encaminhou para fora do quarto – Pode se vestir. Vou preparar um chá de camomila para você de café da manhã.
Filla de pu... – fechei a boca antes que pudesse xingar a minha amada e querida tia.
Troquei-me rapidamente e me encaminhei para a cozinha. O meu estado de curiosidade estava avançado e eu queria saber desesperadamente o que essa doida estava aprontando.
— Seu café da manhã está pronto, senhorita! – ela sorriu animada e puxou a cadeira para que eu pudesse sentar.
Encarei o croissant, que parecia deliciosamente saboroso, e torci a cara para o chá que acompanhava o salgado.
— Vai me contar agora ou não vai? – perguntei ao sentar e levei a xícara à boca, engolindo forçadamente o líquido. Camomila. Eca.
— Ok. Carlota, minha assessora, conseguiu um par de ingressos para o evento do mês, daquela marca de cerveja que é parceira do Barcelona, Estrella Damm, junto com a Rakuten, Nike e Beko. Eles vão fazer uma apresentação oficial dos novos uniformes da temporada – ela disse, rindo e totalmente animada – Vão ter diversas pessoas famosas lá, alguns jogadores e é open bar.
Abri a boca, não para morder o croissant, que estava no ar segurado pela minha mão, mas, sim, porque não estava acreditando no que ouvia.
— Mas os uniformes não foram apresentados no final da temporada passada? – perguntei não entendendo o porquê desse novo evento.
— Prima, não importa! O que importa é que vai ter um desfile e, depois, comes e bebes liberados até altas horas. Eu acho que é o momento ideal para você se distrair – ela falou na expectativa, esperando a minha resposta.
— Vamos! – disse sem titubear, enquanto terminava de levar o croissant à boca, enfim dando a primeira mordida naquela delícia.
Depois dessa notícia maravilhosa, passei o resto da tarde jogada no sofá. Ignorei o almoço, pois ainda estava cheia do chá da manhã. Cheguei a fazer as unhas das mãos e dos pés para não parecer tão desleixada no evento. Além de ignorar as ligações e mensagens de Dona Inês, vulgo minha mãe. Ainda não estava preparada para encarar a bronca de ter chegado à Barcelona e não ter ido visitar meus pais. Sem falar que ela deveria estar possessa por eu ter escolhido o pequeno apartamento da minha prima no lugar da casa aconchegante deles. O melhor era ignorar por um tempo.
Estava quase cochilando na metade de Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel, filme que já tinha assistido várias vezes com Thierry. Lembrar dele ainda me machucava e meus olhos não conseguiam se segurar e acabavam derramando algumas várias lágrimas. Mas, no momento, eu só conseguia sentir sono. Despertei do meu quase cochilo quando adentrou o apartamento depois de uma tarde inteira fora.
— Cheguei! – ela colocou um pacote em cima da mesa – Trouxe pizza e nossos ingressos. Se prepare, a festa vai ser no Eurostars Grand Marina Hotel!
Resolvi observá-la. Estava maravilhosa com o cabelo longo todo ondulado e a maquiagem impecável no rosto.
— Ainda bem que não vi seus stories. Deve estar cheio de propaganda desse lugar aonde você foi se arrumar todinha – falei, desdenhando.
— Permuta. Já ouviu falar, bebê? – Deu a língua. – Vem comer logo que hoje a festa promete. E você precisa começar a se arrumar. Também quero te ver toda linda como eu. Ah! Se quiser trazer alguém para casa, está liberado, viu? Só não faça muito barulho para não me acordar – disse dando uma piscadela e fazendo cara de safada.
— Não vou trazer ninguém, . Não se preocupe – falei em negativa – dispenso a pizza. Do jeito que ando comendo feito uma porca, capaz de nem entrar na roupa que estou pensando em ir – observei quando ela tirou uma fatia enorme da caixa e colocava na boca.
— Tenho certeza de que um pedacinho de pizza não vai fazer mal nenhum. Vem comer! – ordenou com a boca cheia.
Olhei para ela, depois olhei para a pizza e a pizza me olhou de volta. Tão linda, cheirosa e gostosa.
— Só um pedacinho – me juntei à elas na mesa.
Comemos e jogamos um pouco de conversa fora. Sem celulares. Apenas duas velhas primas/amigas conversando e rindo, como nos velhos tempos. Não muito tempo depois, me dirigi ao banheiro. Era hora de tomar mais um banho e começar os preparos para a noite.
Às 18h, estava pronta. O sol ainda brilhava do lado de fora, e a ansiedade aumentava a cada minuto. A regra de hoje é não passar nenhum vexame. Seria o cúmulo e fatal.
— Uau! Mas você está mesmo uma gata, não é? – adentrou o cômodo da sala; o macacão preto lhe caindo muito bem, deixando-a simples, porém elegante.
Senti minhas bochechas arderem, mas eu sabia que estava bonita, porque me sentia dessa forma, como jamais estive nos últimos tempos. O cropped e saia longa de renda bege, combinavam com a minha sandália delicada com detalhes em pérolas, assim como o cabelo, que estava em um coque bagunçado, deixando alguns fios escaparem. A maquiagem apagava quase que completamente a minha cara de cansaço. Parecia uma mulher completamente diferente de duas semanas atrás.
— Deixe de bobagem e vamos logo! – falei pegando a minha pequena bolsa e puxei a mulher que estava parada na minha frente para fora do apartamento. O Uber já esperava nós duas há uns 5 minutos.
Apesar do atraso, o motorista era muito gente fina e nos tratou muito bem. Tiramos algumas fotos no caminho e deixei que ela postasse uma foto comigo no Instagram, afinal, estava muito bonita para não me lançar nas redes sociais.
Ao chegarmos no evento, vários fotógrafos estavam na porta esperando por clicks de pessoas importantes. Fiquei um pouco constrangida por ter que passar por ali. Alguns reconheceram e a chamaram para posar. Por consequência, me puxou para aparecer ao lado dela. Sorri forçadamente, achando toda a situação um pouco forçada e embaraçosa. Logo em seguida, adentramos o hotel. Um homem nos guiou até o elevador, apertando o botão do último andar.
Depois de alguns segundos, a porta se abriu e nos apresentou um longo hall, onde, no final dele, havia um grande backdropping com a logo do clube e dos patrocinadores. Caminhamos até o local e ganhamos duas garrafas de Estrella Damm dos moços que nos recepcionavam. Posamos para uma foto carregando-as. Posteriormente, entregamos nossos convites. Assim que entramos, avistamos Carlota em um vestido curto vermelho de chamar a atenção.
— Pensei que não viriam mais! – caminhou até nós. – O evento está para começar, vamos! – nos direcionamos para um grande salão lotado de pessoas e a passarela dividia o ambiente em dois. Nos encaminhamos para as primeiras fileiras de cadeiras e então pude ver alguns jogadores e suas mulheres do outro lado do corredor. Tão lindos e chiques. Tão perto. Sorri, animada com a probabilidade de esbarrar com algum deles e virei o conteúdo da long neck. Se é para beber, vamos beber! – , você tem que filmar o máximo possível – Carlota começou a ditar as instruções para minha prima – Faça essa cobertura excelentemente e será lembrada por todos os patrocinadores. Então nunca mais ficará de fora de eventos como esse.
Não muito tempo depois, o desfile começou. Os modelos andavam pela passarela com segurança e vestiam os uniformes principais e reservas. Logo em seguida, o uniforme feminino fora apresentado e encerrando com o terceiro uniforme. Estava tudo muito lindo e eu estava realmente encantada e realizada de estar ali, apesar de nenhum jogador ter desfilado, infelizmente.
— Garotas, agora vamos para o melhor do evento – Carlota levantou. e eu fizemos o mesmo. Nos direcionamos para um espaço aberto, com uma enorme varanda – Bem-vindas ao open bar! Apenas peço que não façam escândalos, por favor! Uma imagem suja é muito difícil de limpar.
O sol começava a se pôr no horizonte e, aos poucos, o ambiente enchia. Os garçons circulavam com petiscos e cervejas em taças personalizadas. Finalmente, pela primeira vez no dia, consegui sentir um pouco de vento nessa cidade, tudo devido a altura que estava e da proximidade com o porto de Barcelona, que fornecia uma vista maravilhosa e de tirar o fôlego. Era dia de esquecer os problemas, então peguei a primeira taça de cerveja que passou pela minha frente e a entornei. A música começou a tocar no ambiente e as pessoas começaram a se animar, incluindo e Carlota nessa lista de pessoas. Era hora de me animar também.
O céu havia escurecido e nem tinha percebido. Depois de tantos copos, isso era de se esperar. No meio da noite, perdi de vista. Já não sabia muito o que fazia, essa era a verdade. A vontade de ir ao banheiro bateu, então caminhei, procurando alguma coisa que me indicasse onde ficava aquele cômodo. Distraída, acabei tropeçando em um homem alto. E vários outros olharam para mim.
— Desculpa – pedi perdão enquanto tentava olhar por cima do ombro muito alto dele. Em vão, óbvio. Meu olhar se voltou para o cara enorme na minha frente – Onde é o banheiro? – perguntei não sei como. A vontade de ir ao banheiro estava muito grande, maior do que o próprio Gerard Piqué que estava parado na minha frente, tanto que mal reparei nos outros jogadores que o acompanhavam.
— Naquela direção, só seguir reto – respondeu-me e pude ver que já estava um pouco alterado também, mas conseguiu me direcionar para a direita, basicamente pelo caminho que havia percorrido anteriormente.
Graciès – dei meia volta e a visão ficou um pouco embaçada, mas não estava me importando muito. Tinha acabado de tropeçar com o Piqué.
Caminhei rapidamente, tentando me segurar em cima do salto alto. Confesso que estava sendo um pouco difícil no estado que estava. Adentrei o banheiro e tinha uma mulher alguns tantos anos mais velha que eu. Ela se olhava no espelho e conversava com uma outra, que estava dentro da cabine.
— E já conseguiu preencher a vaga? – uma voz suave soou de dentro da cabine e comecei a prestar atenção na conversa das duas.
— Que nada! As pessoas que foram para a entrevista não me pareceram capacitadas, sabe? Preciso de alguém que me auxilie nos tratamentos e que tenha disponibilidade total para viajar. Aparentemente, ninguém quer abrir mão da vida pessoal para viver viajando toda semana. Apesar do salário bom – respondeu a mulher que, analisando bem, parecia cansada e abatida – Não sou mais tão jovem para estar toda semana nessa loucura, por isso preciso que essa pessoa me substitua nessas ocasiões.
— Relaxa, – a porta se abriu e uma jovem muito parecida com a que a esperava apareceu – está cheio de fisioterapeuta nessa cidade. Uma hora aparece um com disponibilidade e boa vontade.
Ao escutar a palavra fisioterapeuta, fiquei ainda mais atenta à conversa e acabei me deslocando ainda para mais perto das duas, que me olharam desconfiadas.
— Minha querida, – falei, tendo a liberdade, que não tinha, de colocar o braço ao redor dos ombros da mais velha – sei que não estou no melhor estado no momento, mas sou uma fisioterapeuta muito boa, por sinal. E estou disposta a viajar para onde você quiser! – sorri largamente e ela me olhou mais desconfiada ainda, retirando o meu braço delicadamente dos seus ombros.
Ela parou um pouco e pensou. De repente me olhou e me analisou.
— Eu posso estar muito louca mesmo para falar isso, porque claramente você está bêbada e isso já seria um fator para nem entrevistar você, mas eu tenho uma fé muito grande e sei que é Deus me ajudando e te colocou na minha vida. Além disso, eu realmente estou desesperada para arranjar alguém para esta vaga. Me passa o seu número, vou te mandar uma mensagem amanhã – ela disse, tirando o celular da bolsa.
Com um pouco de dificuldade, consegui falar meu número para a mulher.
— Muito obrigada, de verdade! Me chamo e você não irá se arrepender – disse quase emocionada. Era realmente um momento de euforia. Eu estava pulando por dentro.
— Isso ainda não é uma contratação, mas me chamo Yolanda Sánchez e espero realmente que você não apareça nesse estado na entrevista – ela disse soltando um risinho.
— Minha querida, isso aqui é o céu para os meus pés, que andaram muito essa semana atrás de um emprego – a abracei e, logo em seguida, abracei a mulher que a esperava e observava a conversa – Agora preciso mesmo entrar nessa cabine, sabe como é. Nos vemos em breve.
Fiz as minhas necessidades e saí disposta a tomar mais um drink para celebrar essa nova chance que a vida estava me dando. Caminhei para o bar determinada.
"Uma caipiveja!"
"Uma limonada!"
Falei assim que cheguei no bar e uma voz masculina me seguiu quase que instantaneamente. O barman olhou para mim e, logo em seguida, para o homem ao meu lado, me virei e me deparei com ninguém mais, ninguém menos do que Philippe Coutinho.
— Ei... – falei para o homem que já começava a pegar os limões, ele virou em minha direção e prestou atenção em mim – É o Philippe Coutinho! Eu tenho uma foto com ele, quer ver? – perguntei para o moço, que assentiu, empolgado. Vendo ele animado, tirei o celular da bolsa e selecionei a galeria de fotos. Procurei por minha foto com o homem ao lado, mostrei para o barman e, logo em seguida, para o próprio Coutinho.
— Ah! É a garota fã do Messi. Aquela de uma semana atrás. Como você está? – questionou, virando-se parcialmente para o meu lado.
— Ai, meu Deus, ele lembra de mim! – falei emocionada, colocando as duas mãos no rosto, fazendo uma barreira para que o jogador ao meu lado não pudesse escutar a minha empolgação – Sabe... – retirei a mão do rosto e me direcionei para ele, que tinha um sorriso de lado muito bonito. – Minha vida estava uma merda. Uma merda muito grande, mas hoje consegui uma entrevista de emprego. Você pode acreditar? E agora estou aqui com você. Meu Deus! Isso é muito surreal. E você, como está?
— Sua limonada, senhor – o barman se intrometeu e depositou o copo com o suco de limão na frente de Coutinho.
— Obrigado – agradeceu ao homem – Eu estou bem. Pronto para começar a temporada de novo. Fico feliz pela sua entrevista, espero que consiga o emprego – ele disse levantando o copo levemente, como se estivesse brindando comigo.
— Desculpa a pergunta, mas por que limonada? – esperei curiosa a resposta.
— Pensei que fosse me pedir outra foto, afinal, não sabemos quando nos veremos em alguma outra situação... – ele riu e tomou um gole da bebida – Mas, respondendo a sua pergunta, eu não bebo.
— Primeiro, aceito a foto. Segundo, não vamos nos encontrar de novo. Duas vezes em duas semanas é demais para minha sorte. Terceiro, mas por quê? A vida é tão mais divertida com uma cerveja ou uma vodca. Neste caso com as duas – disse meneando com a cabeça para o homem que preparava a minha bebida.
— Não é que eu não beba totalmente. Eu só bebo em ocasiões especiais – piscou o olho direito para mim.
— Sua caipiveja, senhorita – o homem, que ouvia a nossa conversa o tempo todo, colocou o líquido na minha frente.
— Delícia! – falei animada e virei dois goles seguidos, me refrescando com o gosto maravilhoso.
— Ei, pera lá! Vamos com calma – ele tirou o copo de minha mão e depositou de volta na bancada – Eu vou tirar a foto que você quer do meu celular e se, por acaso, nos encontrarmos de novo eu te envio – tirou o celular do bolso e se posicionou para a selfie.
— Você não vai nem se lembrar de mim, mas tudo bem – ri e me coloquei mais perto dele para a foto. Aproveitei e levantei o copo.
— Eu lembrei agora, não lembrei? – ele piscou novamente, apenas com o olho direito, e pude observar o sorriso discreto que aparecia em seus lábios.
Eu poderia beijá-lo agora – vi as bochechas de Coutinho ficarem vermelhas e a risada do barman soar ao fundo. Rapidamente cobri a boca com as duas mãos. Havia falado mais do que devia.
— Quem sabe quando eu puder entregar essa foto para você? – ele respondeu, galante, e pude sentir o ar faltar em meus pulmões – Vamos deixar isso por conta do destino – pegou a sua limonada, acenou para o homem e saiu andando.
Me virei e o barman fez um joinha para mim.
— Me vê outro drink, por favor! – finalmente soltei o ar e me perguntei o que diabos tinha acabado de acontecer?
Uma coisa é certa: eu só posso estar muito bêbada.


Tres


Primeiro eu senti o gosto totalmente amargo na boca, depois escutei alguns barulhos aleatórios e sussurros e, enquanto abria os olhos, sentia a minha cabeça doer na mesma proporção que não reconhecia o lugar onde estava.
De repente o silêncio se instaurou no ambiente, me levantei rapidamente e coloquei a mão na cabeça, fechando os olhos em seguida. Tudo girou por um segundo.
— Não se assuste, por favor! – uma voz masculina grave soou cautelosa.
Dei um pulo onde estava que, logo depois, reparei ser um sofá instalado no meio de uma sala de estar. Conferi rapidamente se ainda estava com as minhas roupas postas e se usava as mesmas da noite anterior. Ufa! Uma sensação de alívio passou pelo meu corpo ao perceber que estava intacta.
— Quem são vocês? – perguntei ao reparar um homem loiro parado em pé na minha frente e um ruivo que se postava atrás da bancada americana que separava a sala da cozinha.
— Você não lembra de nada? – o loiro questionou de volta, sentando na ponta do mesmo sofá.
— Vocês fizeram algo comigo? – indaguei com medo, realmente assustada com o que poderia ter acontecido. Apesar de Barcelona ser uma cidade relativamente segura, a gente nunca sabe com que tipo de indivíduo podemos nos topar nas ruas, certo?
Uma risada soou alta na cozinha. O ruivo ria, gargalhava com vontade e eu olhava para os dois sem entender realmente o que estava acontecendo.
— Ignora ele – negou com a cabeça – Nós somos gays e não temos fetiches loucos com pessoas heterossexuais, pode ficar relaxada – sorriu me tranquilizando – Sou Ramon e aquele doido ali se chama Pablo. Nós te encontramos no bar da festa de ontem e você, tipo, contou toda a tua vida, chorou e tudo, tentou ligar para o ex e nesse ponto, já pode nos agradecer por não deixarmos você cometer esse crime fatal. No final, procuramos a sua prima por todo canto da festa, mas você não conseguiu encontrar ela. Então, vimos que você estava tão bêbada que resolvemos te trazer pra cá, antes que algum tarado te encontrasse naquele estado – ele respirou por fim e terminou de falar.
— Nossa... Estou tentando assimilar tudo – falei um pouco desorientada.
— Enquanto você assimila tudo, que tal vir tomar um café mega especial? – Pablo falou pela primeira vez e tinha uma voz muito mais afeminada do que Ramon.
— Tem Aspirina? – no momento que levantei, a dor de cabeça pareceu piorar de forma horrenda.
— Bem aqui, esperando por você! – o ruivo disse ao mesmo tempo que depositava o pequeno comprimido ao lado da xícara de café.
Durante o período que tomávamos o nosso desdejuni, descobri que Ramon era de Madrid e fanático pelo Atletico, tendo um crush irremediável no Antonie Griezmann, e que, politicamente, ele é contra a independência da Catalunha e só tinha ficado em Barcelona porque havia conhecido Pablo em uma festa e se apaixonado por ele no mesmo dia. Além disso, era um dentista que começava a fazer sucesso na região por estar terminando o doutorado com uma tese inovadora para a área.
Já Pablo era completamente diferente. Odiava futebol, era a favor da independência da Catalunha e ainda estava na faculdade. Seu maior sonho é ser um diretor de cinema, como Guillermo del Toro. Enquanto isso não acontecia, ele tinha um bico como atendente em uma cafeteria perto da casa deles. Gostava de curtir a vida e se considerava um latino caliente. E mais do que todas essas coisas juntas, ele amava Ramon com todas as forças e agradecia pelo amado ter ficado na cidade o apoiando e o ajudando na conquista de um de seus maiores sonhos.
A dor começava a passar e eu já me sentia em casa com aqueles dois. Porém, despertei para realidade quando o meu celular tocou escandaloso em cima da mesinha de centro da sala.
— Alô – falei sem checar quem era o autor da ligação. Ou neste caso: a autora.
— Você pode me dizer onde é que a senhorita se meteu? – perguntou do outro lado da linha, aparentemente preocupada – Aposto que tem mais de mil ligações minhas no seu celular.
— Não exagera, priminha. Está tudo bem comigo! – comuniquei despreocupada.
Vou ter que confessar que, passado o nervosismo que senti ao acordar nesse lugar desconhecido, já estava me sentindo em casa e que tinha conquistado duas amizades incríveis nesse meio tempo.
— Tu sumiste ontem e fiquei extremamente preocupada. Te procurei por todos os cantos daquela festa, mulher. E não recebi nenhuma mensagem de você. Quase que coloco a polícia atrás de ti, só não fiz porque o teu celular estava tocando, então era um sinal de Deus dizendo que tu tinhas se enfiado na cama de algum cara muito gostoso... Me diz que não é um jogador de futebol – ela jogou tudo de uma vez e se não estivesse atenta ao monólogo talvez tivesse perdido a metade da mensagem.
— Pelo amor de Deus, . Eu não dormi com ninguém! – ouvi os meus mais novos amigos darem uma risadinha – Estou na casa de dois amigos que conheci ontem, inclusive acho que você vai adorar eles! O que acha da gente receber eles qualquer dia desses na sua casa?
— E não rolou nenhum ménage? Não acredito! Você é muito decepcionante, – juro que podia vê-la fazendo o movimento de negação que costumava realizar quando não concordava com algo – Venha para casa logo, ok? Não tenho compromissos hoje e quero passar o resto do domingo assistindo filme de menininha com a minha prima.
— Está bem. Prometo que não vou demorar muito. T'estimo! – salientei antes de desligar o celular.
Só então reparei, pela primeira vez, nas várias ligações de , seguida de mensagens dela e de Carlota. No meio de todas, tinha uma em especial de um número desconhecido.

Espero que a ressaca não esteja muito grande hoje. Te espero amanhã às 10h, de preferência sóbria, na Av. Onze de Setembre, Sant Joan Despí. Un petó.
Yolanda Sánchez xx


Franzi o cenho. Não sabia quem era essa mulher que me mandava mensagem. Será se é engano?
— Posso fazer uma pergunta? – os dois assentiram em conjunto e eu achei aquilo muito bonitinho – Eu comentei com vocês sobre alguma Yolanda Sánchez?
— Hm... Acho que você comentou algo como entrevista de emprego... Banheiro, algo assim. Não consigo me lembrar também – Pablo falou tentando recordar de algo.
— Sim, quando encontramos você no bar, rolava uma comemoração com o barman, e era justamente sobre isso, você encontrou com essa mulher no banheiro e ela disse que ia te mandar uma mensagem falando onde deveria encontrar com ela para essa tal entrevista de emprego – Ramon incrementou logo em seguida.
— Não acredito! Ai meu Deus, eu preciso ir para casa dormir. Preciso que essa cara de ressaca e esse bafo de cachaça saiam de mim. Tenho uma entrevista de emprego, não posso acreditar! – procurei ao redor onde estariam o resto das minhas coisas: sapato e bolsa.
— Vamos! Eu levo você! – Ramon se ofereceu e eu sorri feliz, sinal de aquilo que acabara de acontecer não era só o momento, talvez fosse o início de uma amizade, realmente.
Pablo rapidamente juntou as minhas coisas e me entregou, dando um beijo na minha bochecha.
— Espero que a gente se reencontre em breve para comemorar loucamente a conquista desse emprego – respondi simplesmente com um sorriso verdadeiro – Coloquei meu número em um papelzinho dentro da sua bolsa.
— Eu prometo que ligarei contando se arranjei ou não o emprego – o abracei e logo em seguida fui atrás de Ramon que já saía pela porta.
Descemos dois lances de escada e não muito tempo depois o sol de Barcelona já tocava o meu rosto e ombros. O loiro caminhou um pouco pela calçada na frente do prédio e parou em frente a uma Scooter, retirando dois capacetes da parte de trás da moto. Quando reparou que eu estava parada atrás dele, embasbacada, ele deu um risinho safado.
— Eu só espero que você não vomite em cima de mim.
Rolei os olhos entediada, peguei o capacete e rezei realmente para que isso não acontecesse. Percorremos algumas ruas importantes de Barcelona e, por incrível que pareça, eu estava amando andar por aquela cidade daquela forma.
Ao chegar na frente do edifício de , me despedi rapidamente do homem que havia me dado a carona e prometi que ligaria quando soubesse do resultado da entrevista, assim como tinha feito com Pablo.
Já no apartamento, resolvi antecipar a migdiada e graças a Deus, não me esperava mais para a tarde de filmes de menininha que prometera e não iria me encher de perguntas. Com este cenário instalado, poderia dormir em paz. Eu realmente precisava descansar.
Acordei apenas uma vez e já era bem tarde, resolvi fazer uma boquinha rápida e voltar logo para a cama. O dia seguinte seria o dia.
Por ansiedade e por ter dormido o dia anterior praticamente todo, acordei na segunda 6 horas da manhã, ainda rolei alguns minutos na cama, porém nada conseguia fazer com que eu dormisse de volta. Resolvi levantar logo e tomar meu café. Por volta das 8h, depois de alguns episódios de Friends, tomei meu banho e me vesti adequadamente, como uma fisioterapeuta de verdade: calça branca, blusa off-white e apenas uma rasteirinha no pé. Quando saí do banheiro dei de cara com que me olhou de cima a baixo, curiosa.
— Para aonde a senhorita vai assim, logo cedo e toda vestida de réveillon? – ela colocou as mãos na cintura esperando uma explicação, aquilo lembrou a minha mãe, que eu ainda não havia ido visitar. Diga-se de passagem: sou uma péssima filha!
— É uma longa história e vai parecer conto de bêbado, mas resumindo: conheci uma senhora no banheiro da festa, ela falou alguma coisa sobre emprego, aparentemente eu me intrometi na conversa e ela resolveu me dar uma chance. Eu acho que foi isso que aconteceu, as queridas pessoas que conheci e onde dormi depois da festa, me falaram o resumo da história, já que não me lembro de nada. Enfim, ela me mandou uma mensagem ontem e agora estou indo para a entrevista de emprego – me olhava incrédula.
— Mulher, tu és realmente cagada nessa vida. Espero que dê certo! Ah, você tá me devendo uma tarde de filmes de menininha – ela me abraçou rapidamente e entrou no banheiro – Boa sorte!
— Você que sumiu ontem à tarde. E obrigada! – agradeci, e logo em seguida olhei para o relógio que marcava 8h30, senão saísse nesse instante, chegaria atrasada no local, portanto tratei logo de pegar a minha bolsa e sair do apartamento imediatamente.
Caminhei uns 2 minutos até a parada de ônibus Mitre – Ganduxer, seria um grande caminho até o local indicado no endereço, o tempo estimado era de 50 minutos e eu chegarei bem em cima da hora.
Depois de 4 paradas, pegar dois ônibus e chegar, finalmente, na última parada, ainda tinha que caminhar mais 10 minutos até chegar ao meu destino final.
Ia andando distraída, sem prestar atenção nas lojas e restaurantes que me rodeavam, sem dar realmente conta das coisas, até que me assustei com a imponência de um prédio. Enorme, cinza e com o símbolo do Futbol Club Barcelona.
Estanquei no meio do caminho e chequei novamente a mensagem, olhei no gps, mapas e em tudo que pudesse realmente me confirmar que aquele era o lugar correto.
E realmente era ali.
Senti uma súbita vontade de vomitar e o nervosismo começou a tomar conta de mim. Como assim? Que golpe o destino estava me dando? Não sabia realmente o que fazer.
Dei meia volta, pensando em desistir de tudo e dei de cara com uma senhora que caminhava em minha direção.
— Para onde você está indo? O caminho é por aqui... – aquela só podia ser Yolanda Sánchez, tinha alguns pequenos flashes dela na festa. Isso só podia ser um sinal. Antes de terminar a frase, ela apontou para frente e me guiou – Você está bem vestida, parabéns. Doutor Jorge Ruiz com certeza vai aprovar a boa vestimenta, é com ele que você vai fazer a entrevista, com a minha supervisão. Claro que a palavra final é minha – deu uma piscadela e eu sorri nervosa – Não precisa ficar nervosa, vai ficar tudo bem – afagou minhas costas enquanto me encaminhava para a entrada do prédio.
Caminhei por onde ela me guiou. Não conseguia parar de olhar para aquele enorme símbolo, realmente não acreditava no que estava acontecendo.
— Bon dia. – Yolanda falou para o moço na portaria – Pode liberar a entrada da moça, ela está comigo.
— Senhorita, só preciso tirar uma foto e que deixe seus documentos comigo. É pela segurança do local – o senhor falou sorrindo enquanto apontava para a webcam que era colocada na frente do meu rosto.
Sorri nervosa para a foto e entreguei os documentos.
— Entrada liberada.
Respirei fundo umas dez vezes tentando me acalmar. Depois de recobrar um pouco da minha confiança, ultrapassei a catraca e segui Yolanda para aonde quer que ela estivesse me levando.
No meio do caminho pude ver o gramado ao longe por meio da vidraça que separava os ambientes, alguns jogadores se encontravam no banco, mas não consegui reconhecer nenhum por conta da distância.
— Eles ainda estão em horário do café da manhã, por isso não estão todos no gramado – ela me disse ao reparar que eu olhava curiosa para o gramado – O refeitório é no andar de cima no final do corredor, aqui ficam os acessos aos gramados e exames rápidos, vamos ficar nesse espaço apenas enquanto há treino – assenti e viramos um corredor enorme que dava acesso aos elevadores.
Entramos no aparelho e subimos dois andares apenas.
— Aqui é onde fica o consultório do Doutor Jorge e de toda área médica, temos a nossa sala coletiva no final do corredor e a sua sala privativa será ao lado da minha, lá você poderá estudar os seus pacientes de forma mais silenciosa, já na sala coletiva discutiremos os tratamentos a serem aplicados para lesões mais graves. No andar de cima ficam as salas de recuperação e leitos para quem faz cirurgia por conta de alguma lesão. Você conhecerá depois – paramos na frente da sala que indicava ser a do Doutor Chefe – Preparada?
Ainda estava nervosa, mas a partir daquele momento não poderia deixar transparecer. Aparentemente aquela era a chance da minha vida e certas coisas não acontecem novamente, por isso respondi com firmeza em minha voz:
— Sim!
Ela apenas deu dois toques na porta e adentrou o recinto.
— Com licença, Jorge. Essa é a fisioterapeuta que eu falei para você, ela veio para a entrevista – o doutor se levantou e estendeu a mão para que eu pudesse apertá-la. A chacoalhei delicadamente.
Ele estava na faixa dos 60 anos, seus cabelos, quase totalmente grisalhos, brilhavam de tão bem cuidados e o sorriso no rosto demonstrava que ele era um homem simpático.
— Pode se sentar – ele assinalou para uma das duas cadeiras que estavam na frente dele, separadas por uma mesa de madeira – Como você se chama e quantos anos você tem? – perguntou diretamente, logo que sentei no lugar indicado.
— Sou e tenho 25 anos – respondi prontamente.
— Bem , visando a necessidade da minha colega de trabalho Yolanda, vou fazer perguntas básicas para você, não se preocupe – explicou brevemente e soltou a pergunta logo depois – Você já trabalhou em algum lugar que demandasse atenção especial para mais de um paciente ao mesmo tempo?
— Então, a minha especialização é em fisioterapia ortopédica, meu primeiro estágio aqui em Barcelona me demandou muita atenção e carinho para muitos pacientes, assim como em Paris, já efetivada, cheguei a ter mais de 10 pacientes em minha responsabilidade – respondi segura.
— Ótimo. Aqui você provavelmente terá alguns jogadores em sua responsabilidade e a fisioterapia ortopédica lhe ajudará nessa nova fase. Vamos continuar... Quais são os seus pontos fracos e fortes como profissional?
— Bom, doutor, eu me considero uma pessoa bastante batalhadora. Sei falar inglês, francês. Sou determinada e responsável com o meu trabalho. Acredito que estes sejam meus pontos fortes, já meus pontos fracos posso considerar o sentimentalismo um deles, me envolvo e me preocupo até demais com os meus pacientes, e especificamente para esta empresa, sou fanática por futebol, o Barcelona é o meu time de coração. Não sei se isso ajuda ou atrapalha – respondi sincera.
— Aqui você pode se envolver com o staff e com os jogadores. Ser amiga. Não há nada demais nisso. Só não confunda o horário de trabalho com o de lazer, e sobre amar o time... isso é ótimo! Gostamos de funcionários que vestem a camisa.
— Compreendo. Sou estritamente profissional quanto amizades em horário de trabalho, não se preocupe – afirmei e ele sorriu como se aprovasse a resposta.
— Por último, uma questão um pouco delicada e que pode determinar se você fica ou não: tem disponibilidade para acompanhar o time durante toda a temporada?
Olhei para ele e para Yolanda. Meu coração palpitou. Teria que abdicar de uma vida para seguir o time do meu coração.
— Sim. Tenho disponibilidade – apesar de estar com um pouco de medo, trabalhar com o futebol e com o time do Barcelona com certeza é a realização de um sonho.
— Será uma grande oportunidade . Você pode contar comigo, estarei em todas as viagens – Jorge anunciou.
— Seja bem-vinda ao time! – Yolanda complementou com um sorriso no rosto.
Dei vários pulinhos internamente enquanto abria o maior sorriso do mundo, agradeci pela a oportunidade e apertei a mão do Dr. que estava estendida para mim.
— Vamos minha pupila. Vou te mostrar a sua sala de consulta e te dizer como funciona realmente o negócio – Yolanda disse enquanto saía da sala e eu corria para acompanhá-la – Caminhamos até o final do corredor, e, antes de chegar a sala coletiva, ela me mostrou a sua sala e logo em seguida a minha.
Em tons pastéis o ambiente espaçoso continha uma mesa, uma cadeira de rodinhas, um MAC e várias pastas localizadas em uma estante. A maca ao lado da mesa era iluminada pela grande janela de vidro que tinha a vista para os gramados. Fiquei realmente encantada com tudo aquilo.
— Aqui estão os arquivos de cada jogador. Nós vamos dividir e você vai ser a responsável por casos leves e eu pelos mais graves, porém quero que me acompanhe nesses casos para mais aprendizado. Você vai consultá-los aqui. Para tratamento você utilizará a sala do primeiro andar, que fica ao lado do refeitório. Para cafés e lanches pequenos você pode utilizar o telefone para pedir. Café da manhã, almoço e jantar são no refeitório.
— Certo – assenti, absorvendo tudo que ela me falava.
— Aqui está o seu horário de trabalho – entregou-me um papel – Suas folgas são sempre às segundas e dois dias depois de cada jogo, assim como quando os jogadores receberem folga dos treinos. Como daqui a um tempo não irei viajar mais com o time, ficarei cobrindo o seu lugar nesses dois dias. Qualquer dúvida pode me perguntar.
— Ótimo – sorri de verdade ao ouvir sobre as folgas – Começo que dia?
— Amanhã mesmo. Já vou mandar preparar o jaleco e a camisa com o seu nome. No campo não é necessário o uso do mesmo, porém aqui em cima sempre com ele, certo? Vamos que o treino deve estar acabando, quero te apresentar aos jogadores, técnico e aos estagiários que deixei hoje tomando conta do trabalho enquanto estava aqui com você.
Senti o frio na barriga voltar novamente. Iria conhecer os jogadores. Nunca pensei que trabalharia diretamente com eles e meu coração começou a disparar mais uma vez. Quando dei por mim, já estávamos no gramado. E alguns garotos mais novos apareceram na nossa frente.
esses são Pol, Oriol e Berta. Eles são nossos estagiários e ela será de sua responsabilidade a partir de hoje – complementou colocando a mão no ombro da garota de cabelos longos pretos, presos em um rabo de cavalo, e olhos azuis feito o céu, escondidos por um óculos de grau, que apenas sorriu para mim.
— Seja bem-vinda! – os meninos falaram e sorriram galanteadores. Os três deveriam estar na faixa dos 19/20 anos.
Enquanto Yolanda explicava como seria a rotina dali para frente. Os jogadores sentavam em círculo e escutavam atentamente o que o técnico Ernesto Valverde falava. Quando o homem mais velho bateu duas palmas e os jogadores começaram a se levantar para ir ao vestiário, Yolanda nos forçou a caminhar até eles.
— Bon dia, guapos. Como estão? – todos pararam o que estavam fazendo e começaram a prestar atenção no que ela falava. Pude perceber os sorrisos de gratidão enquanto ela começava o seu discurso. Havia respeito ali.
— Vim apresentar à vocês , ela acaba de integrar o nosso elenco e também é fisioterapeuta, cuidará de casos menos sérios e acompanhará vocês em todos os jogos e treinos. Espero que ela seja bem recebida aqui – vi todos assentirem em confirmação, inclusive o técnico – Quer falar algo, ? – Yolanda perguntou para mim e eu, um pouco envergonhada, respondi que sim.
— Olá! Saibam que sou apaixonada pelo time e estou aqui para agregar no que precisarem, não hesitem em me procurar, minha sala fica ao lado da Dra. Yolanda. Espero que tenhamos um ciclo de trabalho proveitoso, muito obrigada pela oportunidade! – falei confiante, deixando para trás toda a insegurança e vergonha que sentia.
Olhei para todos que me encaravam atentos, alguns sorriam, outros comentavam alguma coisa com outros jogadores e meu olhar bateu em um jogador em específico: Philippe Coutinho.
Senti algo estranho. O sorriso branco que se esticava de uma bochecha a outra, queria me dizer algo. Algo mais que boas-vindas. Corei, porém, sorri de volta.
— Seja bem-vinda! – Valverde falou, representando todos os jogadores. – Você começa hoje? Tenho uma lista de jogadores que precisam de uma pequena atenção.
— Ela começa amanhã, Ernesto, já está de saída. Pode falar comigo e com os meus garotos, amanhã a situação já vai ser passada para ela – Yolanda disse e eu aproveitei a deixa.
— Até amanhã, pessoal.
Antes de virar para ir embora, vi Philippe Coutinho dar um passo à frente, porém fora impedido por Arthur que começara a falar com ele.
Olhei para o lado e vi Messi conversando com Suaréz. Consegui controlar o pequeno faniquito que começara a se iniciar no meu interior. Tudo parecia muito surreal.
Já sentada no ônibus de volta para casa, depois de pegar meus documentos e andar mais 10 minutos, adicionei o número que estava no papel dentro de minha bolsa em meus contatos e logo enviei uma mensagem para Pablo.

Obrigada pelas boas vibrações. Consegui o emprego! Vamos combinar algo em breve para comemorar.
xx .


Apertei o botão de enviar e encostei a cabeça no vidro da janela e pude escutar o barulho da minha própria barriga sinalizar que estava com fome. E eu só pude rir. Rir alto e tanto, que algumas pessoas no ônibus me olharam com curiosidade. E eu estava me importando com nada, no momento sou a mais nova fisioterapeuta do meu time do coração.




Continua...



Olá, queridas! O terceiro capítulo demorou, mas saiu finalmente.
Desculpem a demora, resolvi que além de publicitária, um pouco escritora, também quero ter um blog de turismo. SIM! Quem se interessar comenta aí! E também estava de férias, deixa eu contar pra vocês: eu conheci Barcelona e a partir de agora espero mostrar pra vocês os detalhes dessa cidade que tem parte do meu coração e é parte importante dessa história.
É isto.

Até breve.

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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