PARTE 01 |INTRODUÇÃO 00
THE NEW YORK TIMES • 1982.
Reportagem de: Jonathan Van der Saar.
A mansão milionária do baterista da banda Outsiders, Kai Moreau, foi tomada por chamas, durante esta madrugada (01/11) em Point Dume, em Malibu. De acordo com Brandon Sullivan, o Xerife da Polícia do Condado de Los Angeles, declarou que o incêndio causou a morte de 4 pessoas, e deixou 1 em estado grave. A causa do incêndio ainda está sendo averiguada.
De acordo com testemunhas locais, o incêndio começou nas primeiras horas de hoje (01/11) após uma briga acalorada entre alguns membros da banda próximo do final da festa de halloween, tradição eventual característica da banda. Localizada em um dos pontos mais afastados, em Point Dume, a mansão era rodeada por uma floresta densa próxima de um precipício com uma visão estonteante à beira-mar. A localização estratégica era proposital para manter a discrição do rockstar diante os holofotes e paparazzis. Devido a isto, é considerado pela Brigada de Bombeiros de Malibu que o fogo tenha alastrado rapidamente, o que impediu que alguns convidados escapassem.
O Xerife Brandon Sullivan e seu time, até o fechamento desta publicação, não possui novas informações sobre a tragédia. Os quatro corpos encontrados em meio aos destroços ainda não foram identificados pela polícia, mas a notícia que Xerife Sullivan repassou para a redação do The New York Times é que ao menos dois destes corpos, pertencem a membros da banda. Nomes ainda não foram revelados. O Capitão da Brigada de Bombeiros de Malibu, Malcom Griffin, declarou esta manhã que o incêndio já foi controlado, e que os moradores próximos da região já podem retornar para suas casas em segurança. Em ligação com Hugo Fonseca, empresário da banda Outsiders, o empresário relatou que irá esperar as investigações serem concluídas para que as informações sejam liberadas para o público, e o que este pede por hora, é o respeito e compreensão dos fãs da banda.
“Nós ouvimos alguns gritos vindo da mansão. É esquisito dizer isso, sabe? Mas na verdade, é bem comum. Quando está só o proprietário, é bem calmo, mas quando eles se reúnem? Bem, você sabe, rockstars, né? Acho que dá para ter uma ideia. Achamos que era só mais uma daquelas festas animais que esse tipinho de gente gosta de fazer, coisa de Hollywood, sabe? Mas aí, meu marido desceu as escadas desesperado com nosso filho no braço, gritando que precisávamos sair dali o quanto antes. Foi muito rápido, tudo só pegou fogo”, testemunha anônima. Outras testemunhas relataram igualmente que as festas famosas hospedadas na mansão milionária do rockstar costumam a ser oferecidas na verdade pelo colega de banda e amigo Eddie Von Brandt, e que brigas e discussões entre os membros da banda na verdade eram algo comum. “Pode crê bicho, só coisa doida lá. Não, não, tô falando sério, só festa estranha com gente esquisita, saca? Droga, bebida, tá ligado bicho? Era supimpa, mas fica esquisito rápido”, outra testemunha anônima e participante das festas declarou a redação. Relatos de agressões físicas e violência era algo comum entre os membros da banda; próxima de Kai Moreau e , esta testemunha anônima declarou ainda: “ sempre foi agressiva, violenta até. Não sei o que tinha de errado com ela, mas ela era horrível, descontava em todo mundo... ugh, só pode ter algo de errado com ela”.
A banda Outsider surgiu em meados de 1969, no pub The Dregs, em Birmingham, Inglaterra. Formada originalmente por Eddie Von Brandt, Kai Moreau e Viggo Storm, apenas conseguiu estourar em meados de 1971 quando foi adicionada ao grupo como vocalista. Desde então, sua ascensão ao sucesso tornou-se algo meteórico. Com um ritmo envolvente e marcado, com raízes no blues crossroads e referências góticas, pode-se dizer que os Outsiders sempre fizeram jus ao seu título pela forma que se portavam, e por sua própria performance etérea: completos forasteiros.
Impossíveis de serem enquadrados em uma categoria, depravados e pecadores, o que se toma como certeza até o momento é que, seja dada qual for o resultado da investigação policial, é deixado claro a todos que nunca houve algo normal sobre os Outsiders. Novas informações devem ser divulgadas durante esta semana.
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── TWAIN. M. O Estranho Misterioso.
BIRMINGHAM • 1967.
Lufadas de ar escapavam por entre seus lábios entreabertos, embaçando o espelho velho e descascado do banheiro apertado, pichado, fedendo a urina e sexo do pub que se encontrava.
O tremor que percorria seu corpo estava começando a ficar mais forte, intenso, fazia com que seus músculos se contraíssem e relaxarem de maneira inesperada, em espasmos erráticos como se estivesse preparando-se para receber os golpes que nunca chegariam. Mesmo que seu sangue estivesse quente pelo álcool que havia ingerido, e que a sensação de seu cérebro desacelerando, tornando-se menos nublado e mais estável fosse reconfortante, ainda se sentia com frio. Ainda conseguia ouvi-la ao fundo de sua mente. Ainda conseguia sentir as garras dela fincando-se por cada mísero centímetro de sua mente, perfurando quaisquer frágeis barreiras que ele havia tentado erguer para bloquear a memória, e o arrastando de volta para um lugar escuro. Um vazio convidativo e tentador demais para que ele recusasse sua presença.
Um monstro que espiralava fora de controle por seu peito, espalhando-se por entre suas veias, tal como veneno, amortecendo e esfriando tudo o que encontrava por seu caminho. Destruindo tudo o que ficava para trás. E uma parte de ? Parecia clamar por isso. Mas então, os gritos dela começaram, e sua mente espiralava de volta para aquele fatídico momento.
O fantasma que estava desesperadamente tentando fugir. E, justamente, o que nunca conseguia.
Curvou-se para frente, fechando os olhos com força. As mãos ásperas e calejadas, com os nós dos dedos esfolados, revelando marcas recentes de um impacto sisudo que havia rompido a fina camada de pele que envolvia os nós dos dedos e deixado marcas roxas por entre os dedos, agarraram com mais força a lateral da pia imunda e pegajosa, fincando suas unhas contra a louça pálida, com força o suficiente para sentir as unhas começarem a se partir. Ele teria quebrado. Certamente teria gostado de o fazer se tivesse a certeza que o material de porcelanato de segunda categoria ao menos lhe cortasse as palmas das mãos.
havia aprendido desde muito cedo que a única maneira de escapar daquele inferno era através da dor. Sua ou de outra pessoa, tampouco importava. A dor era o que o mantinha alerta.
Mas naquela noite, o porcelanato permaneceu intacto.
Já era tarde demais quando ele percebeu, em meio a um ofego engasgado, que não conseguia respirar direito.
Já era tarde demais quando ele percebeu em meio a um ofego que não conseguia respirar. Escapava por entre seus lábios entreabertos, irregular e rápida demais. A pressão em seu peito estava começando a se tornar insuportável, fazendo sua cabeça girar, o tremor que percorria os músculos tensos de seu corpo era involuntário e intenso. E então havia aquela maldita sensação de estar se afogando. Ele sabia que não estava se sufocando de verdade. Ele sabia que ele conseguia respirar se assim desejasse, mas não conseguia obrigar-se a fazer. Não conseguia convencer-se de que nada daquilo era real, e quanto mais ele obrigava-se a normalizar sua respiração, mais falta de ar sentia. Fechou os olhos e deixou sua cabeça pender para frente, repousando contra o material frio e liso do espelho.
Contentou-se em apenas ouvir o barulho da torneira aberta. Os pequenos engasgos que o ar dentro do cano causava, espirrando a água em jatos irregulares e bagunçados que acertavam a parte inferior de sua barriga coberta pela blusa preta que usava, e a cintura de suas calças jeans. sabia que deveria se preocupar com tal coisa, com a potencial mancha que ficaria sobre o tecido, deixando-o mais escuro do que de fato era, mas ele ainda podia sentir a pressão em seu peito, ele ainda estava hiperventilando, o ar escapando rápido demais por entre seus lábios entreabertos, fazendo com seu sua cabeça girasse, e seus ouvidos ficassem abafados, um ruído insuportável amortecendo-os para toda a realidade ao seu redor.
Quando abriu os olhos, outra vez, e encarou suas mãos, ele viu apenas sangue.
Não estava mais em um banheiro sujo em um pub qualquer, não, ele estava de volta a cobertura no prédio de luxo, de volta ao inferno pessoal que o perseguia não importava o quanto ele tentasse escapar, de volta ao maldito banheiro de mármore, metal e vidro reluzente, imponente como tudo naquele lugar; frio e distante. E suas mãos, outra vez, estavam cobertas de sangue. O vermelho pungente parecendo adentrar e ser absorvido por sua pele, revelando linhas que ele jamais pensou que poderia ser capaz de ver ou existir em suas mãos, espalhando-se de forma abstrata e irregular pelo porcelanato pálido e elegante, adentrando em pequenas fissuras e revelando falhas que outrora não eram percebidas. A iluminação amarelada criando uma sensação vertiginosa, enquanto tudo girava ao seu redor, e dentro da banheira, com os pulsos repousados para fora, ela...
Ela outra vez. O fantasma que o perseguia. Que o acompanhava não importava onde estivesse. O fantasma que ele não conseguia deixar para trás, ou livrar-se, não importava o quanto ele tentasse. Não importava o quanto de maconha fumasse, ou o quanto de buracos que enfiasse seu pau, ela estava sempre ali, pairando por trás de sua cabeça, espiralando em um véu maldito de sussurros distantes, longínquos demais para serem compreendidos, próximos demais para serem ignorados. Estava ali, corroendo e apodrecendo ao fundo de sua mente, criando larvas e expelindo necrochorume, contorcendo-se a própria escuridão que o envolvia, arrastando-se ao vazio que o consumia de bom grado. Dela ele não conseguia escapar, e era por isso, que ele a odiava.
Alba...
se concentrou na fúria que incendiou seu peito. Disposta em pontos extremos, misturava-se de maneira confusa e sufocante em sua intensidade: era fria e ameaçadora, arrastando-se por sua pele como garras afiadas, lhe cortando o que restava de sua alma e deixando que o líquido putrefato e viscoso escorresse pelas fissuras. Algo sombrio, perigoso, que ele alimentava a muito tempo, e que a essa altura começava a perder-se a linha entre onde terminava e onde aquela coisa se iniciava. Mas era, igualmente, cálida, sufocante o suficiente para parecer queimar por suas veias, pulsando, consumindo tudo o que havia por seu caminho, criando uma necessidade desesperada de apenas explodir. De extravasar da forma que pudesse. Cegava-o em uma névoa branca, onde apenas a fúria dominava.
se concentrou no sentimento. Era a única coisa capaz de o manter com a cabeça no lugar, de o livrar das garras que Alba possuía sobre si. A única coisa que o lembrava era que ela não possuía o poder que achava que tinha sobre ele. Seu ódio por ela. Seu ódio por tudo o que ela representava. Mas então, ele cometeu seu primeiro erro naquela noite, ao abrir seus olhos e encarar seu reflexo no espelho sujo e embaçado.
Deparou-se com tudo o que odiava. Com tudo o que desprezava.
A raiva foi mais forte do que o ataque de pânico, e a explosão partiu de um movimento violento e rápido, quando enterrou seu punho fechado contra o vidro do objeto à sua frente. Os nós dos dedos dele, esbranquiçados pela força que imprimia em seu movimento, tornaram-se rapidamente vermelhos com a ruptura da fina camada de pele que envolvia seus nós dos dedos, manchando o vidro com seu sangue. O vidro não quebrou de imediato, mas criou uma rachadura proeminente com o formato de seu punho. Então ele acertou, de novo, e de novo, e de novo até que o vidro se parta, cedendo a sua própria fragilidade precária e chocando-se em estilhaços no chão e sobre o porcelanato encardido da pia. Até que seu reflexo desapareça.
Os cortes e escoriações causados pelos cacos de vidro latejavam. Não eram muitos, mas eram o suficiente para que ficassem visíveis com pequenos fragmentos cravados em sua pele. Mas apesar da dor pulsante que atingia seus dedos, apesar da sensação de ter o sangue espalhando-se devagar por entre seus dedos, e pingando, rítmico, juntando-se com a água da torneira aberta, estava sorrindo.
Uma onda de prazer percorreu seu corpo, arrepiando os pelos de seus braços e pescoço, enviando uma onda cálida para o centro de seu corpo. Talvez fosse verdade o que Eddie lhe dizia, talvez fosse apenas um glutão por punição, mas no fundo, bem no fundo mesmo, sabia que era muito mais do que apenas tesão por dor.
Era o controle que lhe oferecia. A certeza do que ele poderia causar se assim desejasse.
Arrancando de forma porca os fragmentos cravados em seus nós dos dedos. pegou um pouco do sabonete líquido do lugar, algo que cheirava estranhamente a uma mistura de limão com jasmim nauseante e adocicado demais. O toque do sabonete em seus nós dos dedos fez com que sua mão tivesse um pequeno espasmo instintivo, tremendo com a dor afiada e incômoda que se espalhou pelo membro. exalou por entre os dentes, acostumado com aquela sensação, gostava de sentir aquela dor aguda, era quase instintivo para si mesmo, fincar as unhas ou ficar apenas esfregando o ferimento para que a dor o envolvesse, de novo, e de novo.
Clareava sua mente. O deixava em alerta e focado —— Alba não o alcançava.
Secou as mãos rapidamente de qualquer jeito, pouco importando-se com os ferimentos expostos ou a potencialidade de ter que responder por ter quebrado algo naquele pub —— se sequer se dessem ao luxo de investigar o que havia acontecido naquele banheiro; não o fariam —— antes de deixar o banheiro, como se nada mais tivesse acontecido. O cheiro pungente de fumaça de cigarro, bebida alcoólica, suor e urina impregnou seu nariz, espalhando-se por seus pulmões com a familiaridade e desgosto de alguém que conhecia aquele lugar como a palma de sua mão. Grudou em suas roupas e até mesmo em sua pele. Seu nariz havia ficado um pouco mais vermelho do que de fato era, ardendo, e talvez fosse apenas o tempo seco que estivesse o incomodando, ou talvez, fosse alguma outra droga que um grupo de bêbados ao fundo do pub estavam cheirando. Seja o que for, a decadência daquele lugar muito bem lhe caía; era familiar, reconfortante.
Os olhos percorreram por um momento os outros rostos com desinteresse, apoiando-se preguiçosamente contra o balcão do pub, e pedindo a mesma bebida de sempre: bourbon, puro. Apalpou, distraído, pelo bolso de sua calça jeans, buscando pelo maço de cigarro. Retirou um, e prendeu os dentes, tentando lembrar-se de onde estava a porra de seu isqueiro quando uma mão, pequena e delicada, pálida como neve se estendeu à sua frente, quase empurrando o isqueiro em seu rosto, em uma oferta silenciosa. Um sorriso quase satisfeito surgiu pelos lábios de , que não encarou a intrusa até que seu cigarro tivesse sido acendido, e ele tivesse o tragado por um momento.
A nicotina percorrendo seu corpo envia uma onda de satisfação, quase alívio, mas foi apenas quando seus olhos se encontraram com a da mulher desconhecida que ele teve certeza que finalmente poderia silenciar Alba ao menos pelo resto da noite.
A mulher era bonita, atraente até, de uma forma que não havia demorado muito para capturar a atenção de . Cabelos descoloridos em um loiro mais claro, entre dourado e platinado, lisos com uma franja que cobria suas sobrancelhas escuras, o rosto possuía o formato de coração, com os olhos grande e azuis com uma falsa inocência que poderia ter enganado qualquer idiota que ela se aproximasse —— mas conhecia aquele jogo a muito, muito tempo para não deixar-se enganar ——, lábios finos, tingidos por um batom vermelho profundo, com sardas que formavam uma faixa pontilhada sobre seu nariz e maçãs do rosto. Havia um pouco de sardas em sua mandíbula, e igualmente entre a curvatura de seu pescoço e peito. Usava uma mini saia realmente curta, cobrindo apenas metade de suas coxas, de cintura alta, e sua blusa florida com as mangas curtas na altura de seus cotovelos justa ao corpo possuía um decote em V, acentuando de forma tentadora a curvatura de seus seios fartos.
Pareciam ficar ainda maiores quando ela cruzou os braços, propositalmente, parecendo puxá-los para cima, com um sorriso malicioso. podia ver facilmente como o tecido floral e estampado de sua blusa esticava-se sobre seus mamilos duros quando ela se inclinou em sua direção. Sua mão direita brincando com a manga da camisa dele, as unhas dela roçando a pele do bíceps dele com um toque quase fantasmagórico, arranhando o músculo tenso, brincalhona. Um flash dourado cintilou na mão esquerda dela que acariciava o braço de . Uma aliança.
bufou, soltando um riso baixo, desprovido de quaisquer traços de humor, mecânico, quase inumano. Não seria a primeira que ele tomava que era comprometida de alguma forma, e tampouco ele se importava com aquilo.
Obrigou-se a voltar sua linha de olhar para os olhos dela, sustentando-o com uma ponta de curiosidade e malícia. Para ser sincero, pouco se importava com o que quer que ela estivesse falando, só se importava de encontrar um corpo disposto a aliviar sua frustração reprimida durante a noite. E puta merda se aquela mulher não parecia estar disposta.
Não precisou mais do que duas bebidas para convencê-la encontrá-lo do lado de fora do pub, em um beco escuro e estreito que o dono do lugar usava para descartar lixo ou simplesmente como forma alternativa para escapar do lugar caso algum policial tentasse investigar o que diabos estava acontecendo ali —— não seria nem a primeira, nem a última vez que um vizinho bisbilhoteiro tentaria acabar com a festa.
E então ele havia se perdido completamente na mulher de rosto desconhecido, e importância equivalente à de um papel higiênico para si. Suas mãos envolveram o pescoço dela, prendendo-a no lugar, usando seu corpo para empurrá-la contra a parede de tijolos molhados, abaixo de um toldo precário, verde vômito, que possuía mais furos do que protegia de fato qualquer coisa da chuva torrencial que desabou afora. Mas não se importava com a sensação incômoda da água pingando pelas costas de sua jaqueta, umedecendo o couro e deslizando para dentro, criando um caminho por suas costas gélidas. Não, ele estava mais concentrado em devorar a boca da desconhecida, beijando-a com toda a frustração, raiva e intensidade que possuía dentro de si.
Ela tinha gosto de gloss labial e tabaco. Podia sentir a textura viscosa e grudenta do gloss espalhando-se contra sua pele. Seus lábios moviam-se contra os dela com intensidade, com impaciência, sua língua traçando e explorando cada centímetro úmido e cálido de sua boca. Um beijo brusco, exigente e sem paciência permitindo-se deixar suas mãos percorrerem o corpo dela, apertando e acariciando cada curva e saliência que encontrava pelo caminho, engolindo os gemidos baixos e repletos de anseio que ela soltava. Ele podia sentir sua mente estreitando-se a somente a sensações que começavam a pulsar por seu corpo, a sensação cálida percorrendo por suas veias, familiar e intoxicante, misturada com o álcool em suas veias fez com que sua mente emudecesse. Fez com que o fantasma de Alba desaparecesse ao fundo de sua mente, e em seu lugar, estivesse apenas uma sensação de vazio desesperadora.
Queimava por baixo de sua pele como lava, arrastando-se devagar, consumindo tudo o que encontrava por seu caminho até que apenas calor fosse deixado para trás, tensionando os músculos de seu abdômen e costas, transformando suas mãos em garras, fincando-se na pele macia da bunda daquela desconhecida, puxando-a com mais força contra si, sentindo-a esfregar-se como uma putinha no cio, buscando por um pouco mais de fricção. Uma mistura de grunhido, parte riso baixo, escapou por entre os lábios dele, quando a desconhecida usou seu corpo pressionado contra o dele para trocar de posição, empurrando as costas dele contra a parede de tijolos molhadas e irregulares, enquanto seus lábios percorriam pela mandíbula, pescoço e descendo mais e mais para baixo pelo peito dele. tencionou a mandíbula, sufocando um ruído satisfeito ao compreender exatamente o que ela estava fazendo. Suas mãos deslizaram do corpo dela, e imediatamente se encontraram com o cinto de suas calças, desfazendo-o com rapidez praticada.
Uma onda de calor percorreu seu corpo, espalhando-se por seu peito e pescoço, sua respiração tornando-se mais pesada em antecipação. Suas calças de repente pareceram ficar ainda mais apertadas do que estavam anteriormente. Ele ofegou um palavrão entre dentes, observando-a colocar-se de joelhos por entre suas pernas, sem demorar muito para desabotoar e abaixar o zíper de suas calças, os dedos dela enroscando-se no cós de sua cueca e puxando-a para baixo, libertando-o dos confins de suas calças. deixou um gemido baixo, grave, escapar por entre seus dentes cerrados, um sorriso preguiçoso espalhando-se por seus lábios, embriagado pela visão da desconhecida umedecendo seus lábios, admirando-o com um pequeno ofego surpreso.
Os olhos dela percorreram da base para a extensão dele, observando-o saltar para fora, batendo contra a parte inferior da barriga dele, enquanto um tremor percorreu o corpo de quando o vento gélido tocou sua pele quente. Estava duro como aço, sua extensão grossa e longa envolta por veias levemente protuberantes, latejando, em ritmo a sua pulsação, seu coração martelando contra sua caixa torácica em antecipação pela sensação de ter a boca dela em si. A glande, larga de um vermelho profundo e furioso, revelando uma gota de seu líquido claro, escorrendo lentamente pela parte inferior de seu pau. Ele gemeu ao sentir a língua dela, áspera e cálida tocou sua intimidade, sua cabeça pendeu para trás, contra a parede de tijolos, o prazer percorrendo por suas veias, ao passo que suas mãos disparavam em direção aos cabelos dela, enroscando-se nas mechas claras e segurando-a com força. Mesmo que pudesse se conter, não hesitou em empurrar seus quadris na direção da boca dela, desesperado por mais, sentindo-a tomá-lo em sua boca apertada e molhada. Uma onda de prazer e satisfação percorrem pelo corpo dele como ondas elétricas quando o som dela engasgando-se ecoa por seus ouvidos, mas ele pouco se importou.
Perdeu-se ali, fodendo a boca daquela mulher desconhecida, estocando com abandono a boca cálida da mulher, sentindo a garganta dela contrair-se ao redor de si tentando acomodá-lo, entre gemidos e ruídos molhados de engasgo, enquanto ela tentava chupá-lo. Estava tão perdido em seu próprio prazer, e na sensação da língua dela explorando sua carne, que não percebeu quando o marido dela avançou em sua direção, acertando um soco violento no rosto de .
O gosto de sangue explodiu em sua língua, pungente, encorpado e quase sufocante, mas não era desconhecido a ele. Escorreu pela extensão de sua língua, misturando-se com a saliva, tornando-se menos espessa por sua garganta, transbordando pelos cantos de seus lábios quando ele soltou um riso alto, embriagado, desorientado e terrivelmente satisfeito, ao tentar livrar-se do limite enevoado e tortuoso entre a dor, o prazer e o que diabos estava acontecendo ao seu redor.
Tudo parecia girar, até os olhos de encontrarem-se com o outro homem à sua frente.
abriu um sorriso largo —— um sorriso perigoso, semelhante, porventura, com o sorriso que Lúcifer deveria ter exposto antes de cair dos céus, semelhante ao de um culpado ao perceber que havia sido inocentado. Os olhos de cintilavam como os de um gato ao fixarem-se no rosto de sua presa, ao observá-lo se contorcer e gritar, a fúria crispando e distorcendo sua expressão, fazendo a pele enrubescer, os olhos saltarem, as veias pulsarem bem marcadas na testa, os outros amigos segurando-o, puxando-o para trás, a fim de tirá-lo de cima de .
sentiu a satisfação espalhar-se por seu peito como um shot de veneno, satisfeito com a reação que havia conseguido tirar do outro homem. Satisfeito como a mulher que outrora tão voluntariamente o chupava havia gritado em desespero e dor, ao cair para trás, surpresa com o movimento abrupto. Havia uma mistura de euforia deplorável e divertimento sombrio corroendo os pensamentos de , envolvendo-o em um manto espesso, quase enlouquecedor, mas bem vindo, de adrenalina. O coração dele estava martelando contra sua caixa torácica com força e rapidez, chegava a dor, a onda gélida de adrenalina percorrendo sua corrente sanguínea assemelhando-se com lascas de gelo, envolviam e misturavam-se com o desejo e anseio que outrora acalentava e transformaram seu sangue em lava. Era afiadas, intoxicantes. O tremor corroendo sua pele como eletricidade pura, arrepiando os pelos de seu corpo e deixando-o alerta. E, mais duro do que antes.
Era sempre diante da morte que sentia-se mais vivo.
O golpe que havia levado do outro homem, o pegou de surpresa, fazendo-o cambalear para trás, suas costas pressionando com mais força a parede de tijolos, ao passo que o espasmo em sua mão direita, lhe rendera uma mecha inteira, arrancada dos cabelos da mulher por acidente. Havia sangue nas pontas das mechas, como o que parecia ser uma pequena camada de couro cabeludo preso. Mas estava distraído demais com sua própria dor naquele momento para se importar com a mulher ou seu cabelo.
A dor explodiu por trás de seus olhos, espalhando-se por sua maçã do rosto e mandíbula, vibrando por seus dentes, fazendo-os cortar sua língua e a parte interna de sua bochecha. Por um segundo o ruído que ecoou por seu ouvido direito, o desorientou ainda mais, o fez perder o equilíbrio, e quase desabar ao chão, ao lado da mulher em prantos. Por instinto, esticou seus braços para conseguir recuperar seu equilíbrio. A realização tardia do movimento havia permitido que apenas se preparasse para receber outro golpe, e cambaleava por entre latas e sacos de lixo. O gemido outrora preso em sua garganta tornou-se um grunhido causado pela dor do golpe que havia levado. Mas foi o seu riso, baixo, reverberando contra seu peito, que realmente havia enfurecido o outro homem.
não fez menção de se cobrir, apenas cuspiu o sangue em sua boca, sustentando o olhar ameaçador de seu oponente.
O marido da mulher parecia estar em uma mistura de dor profunda e fúria cega, tentando livrar-se dos braços de seus outros amigos e avançar em outra vez. sabia que deveria temer a situação que se encontrava: era apenas um contra cinco, estava bêbado e sua mente ainda estava tentando recuperar-se de seu momento interrompido com a esposa do outro homem. Mas a verdade era que queria aquela briga. O brilho sombrio no rosto do outro homem, a maneira com que os lábios dele se retraíram sobre seus dentes de maneira quase animalística, expondo dentes tortos e amarelados, mas que pareciam surpreendentemente afiados. O sorriso de se expandiu, cambaleando um pouco mais para trás, ao abrir os braços, com uma expressão que parecia gritar “o que eu posso fazer?”, provocando silenciosamente o outro homem.
Foi o que bastou para que o outro avançasse nele. Dentes afiados fincando-se profundamente no ombro de .
recobrou a consciência com o cheiro de Eddie Von Brandt.
Era sempre uma mistura familiar de colônia barata com fundo amadeirado, açúcar queimado e alguma coisa que poderia ser maconha ou uma mistura esquisita de produtos de limpeza e amônia. soltou um grunhido entre dentes, sentindo o torpor da dor envolvê-lo com intensidade enquanto a névoa da inconsciência dissipava de sua mente. Ele piscou algumas vezes, tentando clarear sua visão embaçada, deparando-se com o rosto divertido e desdenhoso de Eddie.
—— Olha só, tá vivo —— Eddie resmungou com um sorriso torto, ouvindo grunhir com dor, ao rolar para a direita. Os olhos de Eddie cintilavam como os de uma raposa, embora estivesse pesados e avermelhados pelo baseado que ele tinha pendurado no canto de seus lábios, presumiu. —— Pena, eu já estava escrevendo o discurso, ia ser emocionante, bem inspirador, quer ouvir? morreu, como viveu, sem nenhum arrependimento e com o pau para fora.
grunhiu alguma coisa inteligível, sentindo os seus músculos protestarem com o movimento. O som escapou por sua garganta de forma áspera, permeado por irritação, um aviso silencioso para Eddie cortar as merdas de piadas que ele não estava com paciência para continuar ouvindo e lidar no momento. Uma parte de seu ego estava ferida, é claro, mas boa parte de sua mente só estava irritada com a intensidade da dor que o envolvia.
A letargia da inconsciência dissipava-se aos poucos para dar espaço a sensação insuportável dos músculos tensos, contraídos e travados pela dor e desgaste que a maldita surra havia lhe deixado. Ele podia sentir o sangue seco na lateral de sua bochecha, e nos cantos de sua boca. Os músculos estavam pulsando junto com a dor, fisgadas afiadas que se assemelhavam à uma lâmina quente de uma faca atravessando seus músculos. Suas têmporas estavam doloridas, uma pressão nauseante que o fez ter a falsa impressão de que sua cabeça explodiria, esmagada, como se houvesse um torniquete ao redor dela, lentamente pressionando-a ao seu limite.
virou-se de barriga para baixo, seu rosto pressionado contra o concreto molhado do chão, encontrando um pouco de alívio com a sensação gélida em sua pele febril. considerou apenas ficar ali; fechar os olhos e deixar-se esquecer de tudo, deixar-se desaparecer e afogar-se na escuridão convidativa da obliteração completa de sua própria existência. Que gosto doce aquilo teria. Mas ele ainda era , o filho da puta que amava ter a atenção de todos ao seu redor, que sabia que era bom assim, que merecia a atenção que recebia, e se estava arrebentado, ainda teria o que desejava. Quantas pessoas não adoravam sentir dó de outra pessoa para se mostrarem boas e empáticas para o mundo? sempre seria visto, percebido.
Forçou um escarro, tentando limpar sua garganta do sangue que se instalava nela, sentindo-a arder, pulsando, como se de repente ele estivesse faminto. Aquela necessidade por algo que ele não tinha ideia do que era, mas que continuava ali, cada vez pior, cada vez mais intensa, nublando seus pensamentos, contorcendo-se em suas estranhas. ignorou o que quer que Eddie tivesse dito, sentindo o melhor amigo agarrar seu ombro direito, e o ajuda-lo a colocar-se de joelhos, sentando-se pesadamente na parte de trás de seus calcanhares, absorvendo a dor que se espalhava por seus músculos e corpo. inspirou fundo, puxando sua cueca para cima e fechando suas calças com uma careta, antes de seus olhos se encontrarem com os de Eddie.
Por um momento os dois se encararam em silêncio. Era frustrante que Eddie fosse um completo otário, mas tivesse os olhos mais bonitos que já havia visto em sua vida; pareciam mudar conforme a luz o tocava, dependendo do lugar pareciam mais claros, levemente puxados para uma tonalidade esverdeada, mas com um fundo azulado intenso. Um tom frio, quase cinzento, mas que por algum motivo aquecia seu peito e enviava-lhe uma sensação inconveniente e indesejada de calor por suas veias. E odiava a sensação. Tencionou a mandíbula com força, observando o rosto de Von Brandt, sem dizer uma palavra.
Questionou-se, pelo o que pareceu ser a vigésima quinta vez se de fato não seria ele aquilo que poderia aplacar o anseio que o consumia em completitude. Se não fosse Eddie e sua expressão relaxada, drogada que seria a justificativa, e igualmente o bálsamo para o vazio que se abria dentro de . Mas então ele balançou a cabeça rapidamente, tentando afastar aqueles pensamentos, frustrado e irritado consigo mesmo. Não, não era Eddie. Não era ninguém, capaz de suprir aquele vazio. estava condenado, e uma parte sombria de si mesmo, gostava daquela ideia.
Ainda assim, não recusou a ajuda que Eddie havia lhe oferecido, tentando sufocar um grunhido de dor quando sentiu sua perna vacilar. Balançou sua cabeça, tentando clarear sua mente, inspirando fundo, mancando e cambaleando ao lado de Eddie que, por sua vez, igualmente não parecia estar lá muito bem também.
O caminho até o restaurante da família de Von Brandt, no centro da cidade, foi um pouco confuso e regado a palavras baixas de irritação. conhecia aquele lugar desde que se conhecia por gente, mas só depois de seus sete anos que o espaço passou a ser sua casa, tecnicamente, quando a família de Eddie, mais especificamente Amélia Von Brandt, a mãe de Eddie, havia se prontificado para cuidar dele após a morte de sua mãe. Tornou-se como uma segunda casa, ou até mesmo a única casa que conhecia.
É claro, era diferente em questões estéticas da casa de sua mãe, e céus, ainda mais do casarão de seu pai. Era menor, mais apertado, cheirando a mofo e naftalina, com pequenos aspectos que nunca haviam sido restaurados na década de 30. encontrou rachaduras, buracos e até mesmo portinholas usadas pelos gângsteres da década de 30 para ocultar drogas e dinheiro, havia conseguido uns trocados assim. Às vezes Eddie lhe dizia que o casarão pertencia a um Peaky Blinder, mas sabia que o melhor amigo estava apenas o provocando. De qualquer forma, morar sobre o restaurante havia lhe despertado uma sensação de conforto, ainda que enviesada. era incluído sim na família de sete pessoas, incluindo Eddie, mas nunca havia conseguido desligar dentro de si a sensação de que não fazia parte dela. Especialmente com o olhar incisivo da matriarca daquela família, a velha romani de expressão severa e tensa, conhecida por Mama Lovina, que parecia sempre estar o observando, assistindo-o de longe como a porra de um falcão.
umedeceu seus lábios, empurrando Eddie para longe de si, ouvindo o melhor amigo soltar um riso baixo, entrecortado, ao caminhar em direção as escadas de ferro que levavam para o segundo andar, muito provavelmente com a intenção de dormir ou passar o resto da noite observando o céu sem enxergá-lo, chapado demais para entender o que quer que estivesse acontecendo ao seu redor. Para a estupefação de , Eddie apenas se sentou nas escadas, assistindo a por entre as barras do corrimão de metal da escadaria. bufou, sem conter um sorriso torto ao observar a posição do melhor amigo e a maneira com que as sombras das barras refletiam em seu rosto.
Negando com sua cabeça, e tentando manter sua cabeça baixa, cambaleia um pouco pelo salão obscurecido, iluminado apenas por velas e lâmpadas amareladas esporádicas, criando uma intensidade quase intimista se não fosse pela fumaça constante dos cigarros e o eco vago do jazz ecoando pelo palco improvisado. Normalmente seria Adeline que estaria nos palcos, a irmã gêmea de Eddie estaria cantando algum jazz antigo enquanto seu irmão mais velho, , dedilhava o violão que repousava por seu colo, tocando sem sentir. Era uma maneira de conseguir alguns trocados a mais com música ao vivo, mas Adeline não havia nascido para isso. Ela era fraca, desinteressante, padronizada demais. Não tinha vida, nem profundidade, era rasa como a porra de um pires fingindo-se ser um oceano. Mas era a filha do dono, então, logo, possuía espaço e prioridade. Se fosse Eddie ali em cima, tinha certeza que algo mais interessante sairia, não que Eddie fosse um bom cantor também, mas Eddie sabia como entreter.
deixou-se cair para trás na cadeira, assistindo sem interesse algum a família de artistas se espalharem pelo espaço. Sete pessoas, sem incluir , eram pessoas o suficiente para o fazer se sentir claustrofóbico, mas nada, jamais, iria o incomodar mais do que ter que lidar com Mama Lovina. A velha mulher era pequena, enrugada e curva, usava um lenço vermelho e estampado de seda ou às vezes veludo, amarrado por entre os cabelos esbranquiçados. O loiro escuro a muito desfeito pela passagem de tempo, mas sua aparência ainda continuava impecável, a maquiagem ainda era utilizada para valorizar os olhos multicoloridos dela —— um indício de onde Eddie havia os herdado ——, camadas grossas de lápis de olho preto e rímel, e os lábios estavam tingidos por um batom vermelho escuro. Medalhas, colares, pulseiras e anéis tilintavam com os movimentos dela, enquanto uma taça de vinho encontrava-se disposta à sua direita, parcialmente bebida, conforme ela retirava as cartas de seu precioso baralho, uma por uma, montando um jogo a sua frente.
—— Mama Lovina —— cumprimentou a velha, com um sorriso torto, charmoso, ciente que não a ganharia no charme, mas poderia a distrair o suficiente para que não fizesse mais questão de descobrir o que havia acontecido com seu rosto, e porque ele estava cheirando assim tão mal aquela noite.
Mama Lovina, todavia, não pareceu nenhum pouco inclinada ou impressionada com a presença de ali. tencionou a mandíbula, mas não disse nada.
—— Voltando tarde, zi fi tá cheirando mal, teve uma boa noite? —— A velha perguntou a , com um tom de quem sabia mais do que revelava, mas não se permitiu intimidar. Soltou um riso baixo, vagaroso, desprovido de humor.
—— Tenho a cara de alguém que teve uma boa noite, Mama? —— Indagou , sarcástico e Mama Lovina soltou um riso baixo, negando com a cabeça.
—— Zi fi tem cara boa não, tem cara é di problema, isso sim —— Mama Lovina resmungou, o sotaque pesado e desconhecido, fazendo suas palavras soarem arrastadas, mas não menos acusadoras. Não havia erguido os olhos das cartas que embaralhou a sua frente, mas não se importou nem um pouco com aquilo, e muito menos em respeitar o espaço dela. Pegou uma das cartas com o único propósito de atrapalhar o jogo dela, girando o material retangular e grosso, pintado à mão, por entre os dedos, brincando distraidamente. A velha permaneceu imperturbável, para o incômodo de ; ele simplesmente detestava quando não lhe ofereciam a atenção devida, a atenção que ele comandava. Um movimento da luz atingiu a carta em sua mão, capturando as bordas douradas, e atraindo a atenção de para o objeto, virou outra vez por entre seus dedos, a fim de observar o conteúdo, com um quase imperceptível sorriso de canto preso em seus lábios. Ele havia pegado a carta do Diabo. —— Zi fi tem é alma condenada, e sabe disso. Gosta disso —— Finalmente a velha ergueu seus olhos para encarar .
Não havia nada ali que lhe fosse amigável ou compreensivo. Um julgamento silencioso e gritante, percorreu pela pele de como uma onda gélida de vento, arrepiando os pelos de seu corpo e deixando-o em alerta, ao mesmo tempo que apenas incitou o monstro que rastejava dentro de seu peito. sentiu as garras afiadas fincarem-se em seu peito, arrastando-as, criando fissuras dentro de si, espaços em que poderia escapar posteriormente.
deixou um riso baixo, desdenhoso reverberar por sua garganta. Deixou-se recostar contra a cadeira outra vez; o movimento o fazendo balançar brevemente com o choque de suas costas e a madeira atrás de si. Os olhos cintilavam com um brilho perigoso, misturando-se com a satisfação pessoal de alguém que enxergava o pecado e a condenação como coisas ruins. Não, muito pelo contrário. Havia algo prazeroso em perceber que dentro de sua alma não possuía mais nada senão vermes, necrochorume, e... bem, o que quer que tivesse sobrado disso. Havia um alento reconfortante em não possuir uma alma. Uma consciência. Havia um alento reconfortante em perceber a liberdade que isso lhe trazia.
—— Devo pedir perdão? —— Resmungou ele, sem ocultar o tom de zombaria que respingou de sua voz. Arrastada, provocativa, tentando encontrar, de alguma forma, uma maneira de incomodar e irritar a velha senhora à sua frente. De quebrar a frieza calculada e assisti-la perder o controle.
—— Perdão é di quem é arrependido, zi fi não sente nada. É quebrado. Tem sangue ruim. Não presta. —— A velha retirou outra carta, e repousou sobre a mesa, indiferente às palavras de .
estreitou os olhos inclinando sua cabeça para o lado, observando-a por um longo momento. Questionou-se, internamente, quanto tempo ainda faltava para aquela velha finalmente deixar aquele plano, não seria muito, certamente, talvez alguns meses, no máximo um ano. riu consigo mesmo, trincando os dentes com força, e ignorando a dor que ainda pulsava por seu corpo, deixando seu braço direito repousar contra as costas da cadeira. Talvez tivesse sido o tremeluzir da iluminação amarelada do restaurante que havia feito as lantejoulas vermelhas atingirem o canto de seus olhos, ou talvez tivesse sido o suave suspiro que ecoou, junto com os passos, quando ela passou ao lado da mesa que estava, a pele cálida dos quadris dela quase tocando os dedos esfolados de , enviando um arrepio esquisito por seu corpo. Seus ouvidos registraram o salto dela reverberando, abafado, pelo piso de concreto queimado, transformando-se em madeira quando ela subiu no palco.
Tudo pareceu desaparecer para .
Os ferimentos, a dor, o desprezo pessoal por si mesmo, os olhos afiados de Mama Lovina, o riso engasgado de Eddie, a expressão chateada de Adelina ou as cordas que estava tocando. sentiu sua boca se escancarar em surpresa, sentindo aquele familiar calor ao deparar-se com uma mulher atraente, mas era mais do que isso. Quando o foco da luz recaiu sobre a cabeça dela, não pode conter um exalo baixo de surpresa e estupefação ao deparar-se com a mulher mais bonita que ele já havia visto em toda sua vida. Os cabelos longos e lisos envolviam seus ombros e costas como um manto, uma franja reta espalhava-se por sua testa, destacando os olhos que se contrastavam de maneira enlouquecedora em sua pele. O rosto elegante, parecia delicado, com as marcas do rímel e lápis de olho manchando as maçãs do rosto altas, mas não a fazia parecer decadente ou desesperada, não... nela o rosto manchado parecia surpreendentemente convidativo, fazendo com que uma parte traidora da mente dele percorresse por lugares que ele não desejava ainda visitar, imaginando como o rosto dela ficaria, daquele jeito, enquanto contorcia-se de prazer abaixo dele. A garganta de pareceu seca demais, arranhando, e aquela sensação de anseio, quase desesperadora, avassaladora, corroendo tudo e não deixando nada para trás envolveu seu peito, suas mãos tremeram, sua respiração escapava de maneira mais lenta e pesada enquanto seus olhos tomavam a figura da mulher com intensidade.
Ela parecia jovem, muito jovem para estar naquele restaurante, mas era a maneira com que ela segurava o microfone, a maneira com que ela não parecia estar incomodada com os olhares ao seu redor, e se ele fosse sincero, entendia perfeitamente. Ela era deslumbrante, com o corpo de uma sereia aprisionado em um vestido vermelho que apenas parecia destacar mais suas cores. O rosto, de uma beleza profunda e exótica, não era o tipo de beleza que você encontraria em Adeline ou até mesmo boa parte de Londres, a famosa “rosa britânica”, não, a beleza dela era distante, elegante, como uma princesa do oriente, de olhos profundos e marcantes. Olhos que haviam se encontrado com os dele momentaneamente e o prendido no lugar. Roubando-lhe o fôlego.
Mas foi somente quando ela começou a cantar que sentiu-se desfazer. O anseio dentro de seu peito, a maneira com que sua garganta queimava, suas veias pulsarem, era mais do que desejo. sentiu a voz dela, rouca e ofegante, sensual e sedutora envolvendo o espaço, envolvendo o corpo dele, causando arrepios e pequenos espasmos, fazendo-o tremer contra a cadeira que se sentava. O sotaque polido indicava uma condição financeira bem melhor do que o de uma pessoa que frequentava aquele restaurante. não conseguiu conter um sorriso, ao absorver suas palavras, estava cantando “I put a spell on you” de Nina Simone, e puta merda, tinha certeza que ela realmente havia o enfeitiçado.
—— Quem é ela? —— Questionou sem preocupar-se em olhar em volta para a velha, embora sentisse o olhar da mesma fixo em seu rosto. Tudo o que ele conseguia fazer era admirar a mulher no palco, sentindo a criatura que alastrava-se por seu peito exigindo-a para si. O que ele não daria para fincar suas garras nela, para prendê-la e nunca a deixar escapar. Para fazê-la sua.
—— Destino di zi fi —— A velha repousou uma última carta sobre a mesa, estreitando os olhos por um longo momento, antes de encarar o rosto de uma última vez, memorizando seu semblante e sua expressão, enquanto a luz amarelada do pub traçou os contornos dourados do pedaço revestido de papel, misturando-se com a tinta desgastada pela passagem do tempo, revelando o desenho que se encontrava ali.
A carta dos Amantes.
Virada de ponta cabeça sobre o jogo aberto.
Continua...
Nota da autora: então, a história seria mais um drama voltado para comédia romântica, no passado, mas a verdade é que eu nunca fui muito boa para escrever sobre pessoas felizes e casais fofos. Um dos temas recorrentes aqui ainda é obsessão. A história está repaginada e seu conteúdo agora é bem mais pesado do que o anterior. Ela não é mais um romance, mas sim um Suspense Psicológico com Drama, logo, peço que esteja sempre atenta aos TW que serão avisados no início do capítulo (na tabela e nos avisos iniciais da fic), e que saiba que o relacionamento representado aqui é parasítico, abusivo e não deve ser levado como modelo, nem romantizado. Essa história não acaba bem, e tem motivo para isso. De qualquer forma, obrigada por ter lido!
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