Última atualização: 14/10/2017

I.This is the starting of my greatest fear.

Após semanas de noites mal dormidas sentia sua cabeça latejar e dores por todo o corpo. Ficar vinte minutos rastejando por um tubo de ventilação não ajudou em nada sua situação. Naquele lugar estreito e claustrofóbico, a posição exigida aumentou suas dores e o cheiro de mofo, poeira e ferrugem produziam tonturas. Mas ela ignorava todo o desconforto físico, tinha coisas mais importantes com que se preocupar. Quando finalmente saiu do sistema de ventilação respirou fundo por algum tempo enquanto ajeitava a mochila nas costas e enfiava munição nos bolsos, então passou a caminhar rapidamente por corredores largos empunhando uma pistola e mantendo olhos e ouvidos atentos, pois qualquer movimento em falso colocaria toda a operação em risco. Chegou a um pátio cheio de máquinas há muito desativadas, enferrujadas e cobertas por musgos. Mato saía das fissuras no chão e as paredes tinham partes descascadas e partes sem reboco que exibiam tijolos manchados e escurecidos. A fábrica aos pedaços era apenas mais um dos resquícios da vida antes da revolução que havia instaurado a “Nova República”.
Ouviu um chiado do micro comunicador em seu ouvido direito e parou. Escondeu-se atrás de uma das máquinas ouvindo as instruções de Penny. Enquanto , Dax e Selina estavam espalhados em diferentes pontos da fábrica, Penny, uma mulher engenhosa e teimosa que conseguia aprender a lidar com qualquer tipo de maquinaria, estava no caminhão controlando o sistema de vigilância e direcionando os outros. Penny informou que Dax e Selina já haviam derrubado os seguranças presentes no local, deixando o caminho livre. Com as instruções de Penny, rapidamente alcançou o corredor que a levaria ao seu objetivo.
Assim que avistou a larga porta de metal sua respiração ficou pesada e a cada passo que dava seu coração acelerava cada vez mais. A porta estava apenas encostada e com um chute ela foi aberta. A mulher teve apenas alguns segundos para avaliar a situação: havia três homens do outro lado da sala marrom mal iluminada. Do lado esquerdo estava um homem magro de cabelos pretos segurando uma lâmina curva em suas mãos sujas de sangue. Do lado direito, um ruivo um pouco acima do peso tinha uma seringa com um liquido amarelado já bem próximo do terceiro homem, esse no centro, estava preso a uma estrutura de metal que o mantinha de pé. Os dois homens armados se viraram assustados, mas não tiveram tempo de tentar se defender, desferiu dois tiros certeiros na cabeça de ambos. Não eram os primeiros a morrer por suas mãos. Matar havia se tornado uma parte de sua vida. Só matava quando achava extremamente necessário, mas ainda assim isso a assustava. Pensar que um dia o ato poderia ser tratado com frieza e indiferença a preocupava. Então seus olhos focaram no homem a sua frente e a culpa pelas mortes se dissipou. Vê-lo naquele estado, desacordado, com fios, vários hematomas, vergões, cortes e machucados espalhados pelo seu tórax e braços fizeram cada centímetro de seu corpo ser tomado pelo pavor. Caminhou até ele e notou a mesa de metal do lado esquerdo, com diversos instrumentos de tortura, alguns modernos e outros que vinham sendo usados há séculos.
- . – chamou com a voz falha assim que o alcançou. Ele não se moveu e o desespero começou a preencher seu peito. – , por favor. Acorda. – insistiu, tocando o rosto dele. Ele tinha a testa coberta por sangue misturado a suor e um corte no canto direito da boca. A boca rasgada significava uma coisa: ele havia recebido uma visita de Bishop, o sádico torturador que tinha o hábito de “alargar o sorriso” de suas vítimas. Mas o corte na boca de era pequeno. Bishop apenas tinha começado o serviço.
O comunicador voltou a chiar, mas não conseguiu prestar atenção em uma só palavra que Penny dizia. Segurou o rosto de entre suas mãos e chamou novamente, dessa vez um pouco mais alto e logo dois grandes olhos a encararam.
- ... – a voz dele era quase um sussurro. Ela suspirou aliviada e retirou os fios espalhados em seu tórax.
- Você vai ficar bem, vou te tirar daqui. – cortou as correias que prendiam os pés dele e a mão esquerda. Antes de cortar a da mão direita colocou seu braço direito em volta dele sustentando seu peso. – Desculpa ter demorado tanto a te achar. – ela sussurrou após colar sua bochecha a dele e então cortou a última correia que o prendia ali.

***


Estavam no caminhão indo para casa e isso deveria tranquilizar , mas o aperto em seu peito ainda estava presente. estava deitado em uma cama improvisada feita com duas cobertas dobradas e ela estava sentada ao seu lado acariciando seus cabelos. Geralmente evitava demonstrações de intimidade e qualquer proximidade, mas naquele momento nada disso importava, precisava toca-lo, se certificar que ele estava bem e que não sairia de perto dela.
Assim que se afastaram da fábrica, caiu em um sono profundo, precisava descansar após tudo que tinha passado e nem mesmo o ambiente abafado ou os sacolejos do velho caminhão seriam capazes de acorda-lo. Caminhão esse que fora achado em um ferro velho e pelas mãos de Penny foi reformado para parecer com mais um dos veículos de distribuição da República. Com o caminhão e os documentos falsos podiam transitar por aí livremente. Selina e Dax que sempre ficavam na cabine, costumavam se vestir como meros trabalhadores da República e cumpriam bem o seu papel de enganar policiais e oficiais de segurança. Penny sempre ficava no baú, na maioria das vezes estava mexendo com alguma parafernália tecnológica ou então invadindo algum sistema de segurança. No momento, Penny havia largado o pequeno dispositivo de rastreamento que tentava consertar e apenas observava os amigos recostados do lado oposto do baú. Chamou a amiga após algum tempo:
- . – ao ouvir a voz de Penny, levantou os olhos que antes encaravam . Até então não tinha conseguido parar de encarar os machucados e cicatrizes, observando também como ele estava mais magro e debilitado. – Dorme também. Precisa descansar.
- Não estou com sono. – seus olhos pesados contradiziam suas palavras.
- Temos algumas horas de viagem e você não dorme direito desde o dia que o foi levado. – acusou e franziu a testa. – As manchas roxas e as bolsas nos seus olhos confirmam isso.
- Eu estou bem. Sério.
- Você está olhando pra ele como se fosse perdê-lo a qualquer momento. – a voz de Penny agora soava não apenas preocupada, mas também cheia de compaixão.
- É só que... – começou a falar, mas se calou, não queria dizer tudo que estava sentindo agora, não quando havia a possibilidade de ouvir algo.
- Ele está bem agora. Está com a gente. Tenta dormir um pouco. Estou aqui para cuidar dele, assim como a Selina e o Dax. – insistiu e viu a amiga suspirar. – Dorme um pouco vai, tente não ser uma mula teimosa. – completou sorrindo.
- Ok. - concordou com um pequeno sorriso. – Mas se me comparar com uma mula novamente, vamos ter problemas. – ameaçou divertida.
- Só dorme, vai. – insistiu e viu a amiga se ajeitar e em menos de dois minutos ouviu sua respiração calma e profunda.

***


Poucos minutos antes do amanhecer eles chegaram a seu lar: uma casamata situada entre uma cadeia de montanhas. A enorme construção de concreto e aço tinha quase um século e havia sido construída para garantir proteção diante de um conflito nuclear. Agora abrigava aqueles que decidiram fugir das garras da Nova República. Sua localização garantia a segurança dos dissidentes que ocupavam o local há pouco mais de quinze anos.
Durante noventa e três anos a nação esteve sob o comando de um regime ditatorial, repressivo e assassino. Vários levantes ocorreram, mas apenas nos últimos oito anos do regime é que uma oposição forte conseguiu se organizar e articular ataques que foram enfraquecendo o governo. Nesse período muitos foram assassinados e torturados, mas a fagulha da revolução incendiou a nação e o governo foi finalmente derrubado. Um novo regime foi instaurado, chamado Nova República, mas este sofreu desde o início com a instabilidade. Alguns estados buscavam emancipação e muitas pessoas rejeitavam os ideais dos novos governantes. Diante desse cenário e com a permanência de muitas pessoas do antigo regime no novo sistema político, não demorou muito até que o novo governo traísse os ideais que proclamava. As tensões foram crescendo e a tão sonhada Nova República passou a ser um regime repressivo e assassino. Heróis, soldados e trabalhadores morreram nos conflitos, e a situação piorava a cada dia. Muitas pessoas que ainda acreditavam nos ideais da revolução abandonaram o conforto da vida nas cidades e se juntaram a guerrilhas, agora lutando contra seu velho inimigo travestido de “novo regime”.
No interior da casamata, foi imediatamente levado para enfermaria ficando sob os cuidados de Ivy, a competente médica da comunidade. Assim que se separou de , ciente de que ele estava em boas mãos, foi em direção a sua cabine. O pequeno espaço que dividia com Penny, possuía dois quartos minúsculos, um cômodo que era sala e cozinha e um banheiro estreito. Assim que entrou na cabine ela estalou as costas e fez um rápido alongamento antes de se despir e entrar no chuveiro. Ficou alguns minutos ali enquanto sentia seus músculos relaxarem. Quando tocou sua região lombar ao se ensaboar, sentiu uma dor aguda que provocou uma careta. Tentou ver o que seria a causa da dor sem sucesso e então assim que saiu do chuveiro se posicionou em frente ao espelho ao lado da pia. Diante do espelho conseguiu ver o enorme hematoma arroxeado, mas não conseguia se lembrar de quando e onde havia o adquirido. Após algum tempo o analisando, a imagem dos diversos hematomas cobrindo o corpo de tomaram sua mente. A dor de cabeça até então ignorada voltou e um nó se formou em sua garganta. Ela se apoiou a pia sem conseguir continuar encarando seu reflexo. Se sentia tão incompetente por não ter encontrado antes. Ele havia passado três semanas sendo golpeado e eletrocutado por causa da sua incapacidade de conseguir rastreá-lo. Por sorte ele ainda estava vivo e pelo que pode observar de seus ferimentos, se recuperaria. Bom, se recuperaria fisicamente. Ela não sabia tudo o que ele tinha passado, mas de uma coisa tinha certeza, tortura psicológica podia ser muito pior que a física. Imaginar as diversas torturas que ele podia ter passado lhe causavam uma dor tangível. Respirou pesadamente por alguns minutos e então sentiu fortes dores nas mãos. Percebeu que apertava a pia com tanta força que os nós de seus dedos estavam esbranquiçados. Afastou-se da pia, abriu e fechou as mãos algumas vezes e depois jogou água no rosto. Considerou ir visitar , mas logo desistiu da ideia. Enrolou-se na toalha, foi até seu quarto e se vestiu rapidamente logo buscando o conforto de sua cama. Queria dormir e não pensar em nada por um tempo. Escapar da culpa e dor que a aprisionavam e ir para um mundo de sonhos onde todos os problemas podiam ser resolvidos. A verdade era que dormir não significava paz e bons sonhos para ela. Sabia disso, sabia que na maioria das noites tinha pesadelos e costumava acordar ainda mais miserável do que estava quando havia ido dormir, mas ela se iludia. Mentir para si mesma era o que quase sempre a impedia de ter um colapso.
Após vários minutos ela finalmente conseguiu dormir e por sorte, naquele dia teve bons sonhos e conseguiu relaxar. Dormiu por quase vinte horas, tirando o atraso de parte das horas de sono perdidas. Seu sono tranquilo foi interrompido já na madrugada do dia seguinte, quando foi afligida por uma dor de cabeça lancinante. Dessa vez era diferente, não era por causa da privação de sono ou culpa. levou algum tempo para conseguir sair da cama, e quando finalmente se levantou cambaleou até o banheiro. Com cuidado retirou o armário do banheiro do lugar, revelando um compartimento secreto. De trás de um cano retirou uma pequena caixinha metálica que continha algumas ampolas com líquido azulado. De outra caixinha retirou uma seringa e depois aplicou o líquido azulado em seu braço esquerdo enquanto fazia careta e trincava os dentes. Apoiou-se na pia por alguns segundos, sua testa coberta por um suor frio que escorria por todo seu corpo, depois se arrastou de volta ao quarto. Assim que a dor passou, pegou novamente no sono, dessa vez indo de encontro ao usual mundo de pesadelos.

***


Quando finalmente acordou, procurou se manter ocupada. Além de manter sua mente longe de divagações que iam da culpa ao medo, também era necessário para compensar o dia anterior, desperdiçado na cama. Enquanto a Nova República primava por membros “felizes” e submissos na sociedade, a comunidade que vivia na casamata precisava de membros livres, engajados e úteis. Para garantir o funcionamento todos deviam ajudar nos diferentes setores necessários para a sobrevivência da comunidade. Estavam engajados em uma luta material e psicológica contra a Nova República e por isso precisavam manter a casamata autossuficiente.
No caso de , a negligência com o trabalho significaria além de outras coisas, aumentar a antipatia de muitos membros da comunidade. Evitar inimizades era sempre a melhor opção. Ela participava de muitas missões de todo o tipo em cidades, desertos ou florestas, mas nos momentos em que estava na casamata, precisava ajudar em algum setor. Revezava entre o setor de soldagem, o de energia e o de mecânica. Nesse dia decidiu ficar no setor de soldagem onde tinha a companhia de Dax. O membro mais velho de seu grupo de combate era muito calado, não desperdiçava tempo questionando como ela se sentia ou querendo saber seus pensamentos mais profundos. Apenas trabalhavam, sendo que seus comentários eram limitados a como criar estratégias que facilitariam a atividade e isso era exatamente o que ela precisava. No caminho de volta a sua cabine, após passar quase o dia todo trabalhando, encontrou Ivy que lhe deu notícias sobre a situação de . Apesar dos machucados, desidratação e desnutrição, ele ficaria bem. Não tinha ferimentos graves ou internos. Estaria fisicamente recuperado em algumas semanas. A notícia trouxe alivio, mas também levantou algumas dúvidas.
Após o banho, sentou no pequeno sofá cinza em sua sala e recostou a cabeça fechando os olhos. Sua mente estava novamente turbulenta e confusa. Ficou ali no escuro refletindo sobre algumas coisas até ser interrompida pela chegada de Penny. A graxa cobria seu macacão e pele, o que contrastava com sua palidez. abriu os olhos assustada com o barulho, mas fechou novamente com uma careta incomodada pela claridade.
- Boa noite, dorminhoca. – Penny falou animada.
- Boa noite, porquinha. Devia ir direto para o banho.
- Vou daqui a pouco. Achei que fosse passar o dia no setor de mecânica. – comentou, sentando no piso de cimento queimado.
- Mudei de ideia. Dax falou que precisava de ajuda na soldagem. – tocou a sobrancelha esquerda, sinal de que estava mentindo. Realmente era dia dela ficar no setor de mecânica, mas ao contrário de Dax, Penny iria passar o tempo todo questionando seus sentimentos e querendo conhecer seus pensamentos mais profundos.
- Foi visitar o ? – questionou enquanto retirava suas botas pretas.
- Ainda não.
- Devia ir. Ele perguntou por você. – diante da expressão de confusão de , Penny continuou. – Passei lá hoje de manhã. Agnes está como um cão de guarda em um sofá do lado da cama dele. – revirou os olhos jogando as botas no canto da sala.
- Imaginei que estivesse. Mais um motivo para adiar a visita.
- Talvez ela passe a gostar de você agora que salvou o filho dela. – argumentou, abraçando as pernas.
- Ela deve estar sentindo um pouco de gratidão, mas gostar de mim já é demais.
- Ela não te odeia. Ela só...
- Me odeia sim. – discordou, se afastando do encosto do sofá irritada. - Odeia o que represento e todas as memórias que trago à tona. Sou um constante lembrete de todas as merdas que ela já passou. Não só para ela. – a raiva e a mágoa foram aumentando durante o desabafo, mas ao ver a expressão piedosa de Penny resolveu mudar de assunto. A considerava a pior pessoa para falar de seus problemas, pois ela sempre tentava resolve-los.
- ... – começou com a voz terna.
- Vamos mudar de assunto, vamos falar do . – o modo como falara deixava claro que não daria continuidade ao assunto anterior, o que fez Penny suspirar.
- Ele está bem. Em algumas semanas estará completamente recuperado. – afirmou feliz.
- Encontrei com a Ivy e ela falou que ele está bem até demais. – o comentário deixou Penny confusa. Não havia felicidade nele, apenas preocupação. – Podia ser muito pior, muito pior mesmo e é isso que não sai da minha cabeça.
- Não estou entendendo.
- Ele ficou lá por quase um mês, nas mãos de terríveis forças paramilitares. “Justiceiros” e torturadores manipulados pelo governo. Ele está machucado, mas não parece que ficou lá por tanto tempo. – explicou, externando suas preocupações.
- Está preocupada que ele não tenha sido torturado o suficiente? – questionou, não escondendo a incredulidade e horror em sua voz.
- Sim. – confessou e viu Penny arregalar os olhos. – Estou feliz que ele esteja bem, mas Penny... Nós conhecemos a ação deles. – sentou na ponta do sofá estalando os dedos repousados em seu colo. – Já resgatamos outras pessoas e também já encontramos corpos descartados por eles. Uma semana é suficiente para vários ossos quebrados, lesões internas e amputações. – falava rápido enumerando nos dedos. – está machucado, mas inteiro. Isso não faz sentido. Especialmente se eles sabem quem ele é. Ele é filho de uma das líderes da maior guerrilha em atividade. Líder da organização que tem causado muitos transtornos para o governo. Por que tratar ele “bem”? – argumentou, esperando uma reação da outra que apenas a encarava, ainda digerindo aquelas palavras. – Olha... eu estou muito feliz que ele está bem e inteiro. Só estou confusa e preocupada com os possíveis motivos por trás disso.
- Tem uma outra possibilidade. – Penny começou com uma expressão triste. - Talvez eles não tenham machucado tanto ele fisicamente porque investiram a maior parte do tempo machucando a sua mente.
- Essa possibilidade é ainda mais assustadora. – falou baixo encarando o chão. Imaginar aquilo lhe causava calafrios. Havia várias formas de tortura psicológica: todo tipo de ameaças, simulação de afogamento e de execução, privação sensorial e do sono, entre outras. Algumas levavam a uma vida cheia de noites infestadas por pesadelos, em outros casos o dano era muito maior levando a loucura e até ao suicídio. A intenção era clara: quebrar o espirito, seja para tornar o sujeito mais suscetível a um interrogatório, para aterrorizar, ou simplesmente punir. Imaginar passando por qualquer uma delas era doloroso demais. - A tortura física é algo horrível, mas a psicológica é muito pior. – os pensamentos cruzando a mente de faziam seus olhos arderem. – As cicatrizes que ela deixa são profundas e duradouras. E é muito doloroso pensar nele passando por isso.
- Foi só uma suposição. – afirmou agitada. Ver o estado de havia feito ela se arrepender de mencionar aquilo. – Aposto que ele está bem. Talvez a razão para ele não estar “tão” machucado não seja tão horrorosa quanto pensamos.
- Queria muito que estivesse certa. – sussurrou, encarando as próprias mãos.
- ...
- Eu preciso vê-lo. – Num ímpeto levantou-se do sofá e foi em direção a porta.
- Se quiser posso dar um jeito de tirar a Agnes de lá. – Penny falou já firmando a mão direta na parede para se levantar.
- Não precisa. Vai tomar seu banho. No momento, encarar a Agnes é a menor das minhas preocupações. – completou, fechando a porta em seguida.


II. The past never does go away.

Havia uma relativa distância entre a cabine de e a enfermaria, mas no momento essa parecia estar ainda mais longe. Ela mantinha os olhos no chão ou nas próprias mãos, evitando contato visual com qualquer membro da comunidade. Toda aquela confusão mental envolvendo o medo, a preocupação e a culpa já estavam deixando ela suficientemente abalada. Não que ela ligasse muito para a opinião alheia, mas estava sobrecarregada com todo o resto. Caminhar pela comunidade sempre fora algo frustrante. Após dezenove meses morando no local, ela ainda se sentia desconfortável e como se não conseguisse se ajustar. Esse sentimento de não pertencimento era parcialmente por ela não ter vivido grande parte de sua vida ali, como o resto dos habitantes. Mas havia um denominador complicador: suas origens. não era apenas uma pessoa em necessidade que havia sido levada para ser cuidada ali, nem era apenas alguém com um coração revolucionário querendo a derrubada da Nova República. Ela era uma fugitiva. Fugira do seu próprio sangue e lutava contra o legado presente nele. O pai de era Hugo Bormann, um importante político do antigo regime, que através de manobras e acordos havia se tornado muito influente na Nova República. Não era apenas a jornada política de Bormann que o tornava alguém desprezado pela comunidade. Ele dedicava suas horas de folga a sua atividade favorita: a tortura. Sentia um especial prazer em ver o desespero e o pânico tomar conta das pessoas, em ver as esperanças indo embora e os olhos se escurecendo diante da morte certa. Durante muitos anos trabalhou em parceria com Ernest Bishop espalhando o terror entre aqueles que se opunham ao governo e até aqueles que apenas estavam no lugar errado na hora errada. tinha oito anos quando o antigo regime foi derrubado e durante toda a sua infância, adolescência e início da vida adulta esteve cercada por uma bolha de mentiras que a impediram de conhecer as atividades bárbaras e desumanas de seu pai. Quando finalmente descobriu, passou a coletar documentos incriminadores, incluindo relatos detalhados de torturas. Enquanto tentava expor o pai e toda a sujeira presente por trás dos panos, ela foi descoberta. Precisou fugir e diante de muitas dificuldades e sofrimento, aprendeu a se virar sozinha. Enquanto vivia sozinha em uma cabana na floresta, encontrou , Dax e Selina que após algum tempo conseguiram convencê-la a ir para comunidade com eles. Inicialmente ela ficou feliz, afinal estava cansada da solidão, mas logo nos primeiros dias na comunidade, encontrou alguns rostos familiares. Pessoas que estavam nos relatos que ela havia lido, pessoas que haviam sido torturadas pelo seu pai. Todos sabiam quem ela era e a maioria das pessoas a odiava, não só por ter o sangue do sádico Hugo Bormann, mas porque era uma constante lembrança de tudo o que elas haviam sofrido. Parte dela entendia o ódio e o distanciamento daquelas pessoas, mas queria que eles entendessem que ela não era em nada parecida com o pai e que a única coisa que conseguia sentir por ele era repulsa.
Na entrada da enfermaria Ivy a recebeu com um largo sorriso e apontou para o quarto onde estava internado. Apressou-se até a porta, que foi aberta antes que tivesse a chance de bater. Agnes a encarou com sua usual expressão impassível. Seus olhos analisaram .
- Você. – o desprezo estava presente em sua voz.
- Vim ver como ele está. – ignorou o tom de voz da outra tentando manter a civilidade.
- Volto em alguns minutos. – se afastou da porta, mas logo virou-se. - Obrigada por ajudar a salvar o . – apesar das palavras serem de agradecimento, seu tom era desgostoso.
- Só estava fazendo meu trabalho.
- É. Tem razão. – suspirou e se afastou. Agnes detestava encarar , seus olhos eram idênticos ao do pai. Era como encarar seu algoz. Todas as vezes que a olhava lembrava-se dos choques e das sessões de estupro desempenhadas por Hugo Bormann. Mesmo que nunca tivesse dado sinais de ser parecida com o pai, Agnes não conseguia separar as coisas, olhava para ela e só conseguia pensar em toda a imundície presente no seu sangue. Ter que ver a proximidade entre e a irritava profundamente.
entrou no quarto e avistou de olhos fechados. Após observá-lo por alguns segundos, sorriu ao ver que apesar da perda de peso e machucados, ele aparentava estar bem melhor. Decidiu deixa-lo descansar e voltar outra hora. Ao abrir a porta, o rangido despertou que logo se pronunciou:
- Nem pense em fugir. – a voz rouca dele soou divertida. fechou novamente a porta e se aproximou da cama com um pequeno sorriso. – Estava me sentindo abandonado, achei que não ia me visitar.
- Eu salvei seu traseiro e ainda me quer de babá? – questionou com falsa indignação. Ele riu, mas logo fez uma careta.
- Não me faça rir. – ordenou e bateu a mão na cama para que ela pudesse se sentar ali.
- Desculpa.
- As pessoas vão fazer piada sobre meu novo sorriso não é? – perguntou com uma sobrancelha arqueada apontando para a cicatriz no canto da boca. estava sendo o mesmo de sempre fazendo piada e rindo da própria desgraça. considerou inicialmente que estava errada, ele estava bem, era o mesmo. Mas então pensou que talvez ele apenas estivesse se protegendo, fazendo o que ela sempre fazia: mostrar uma expressão feliz para as pessoas enquanto sofria sozinha.
- Alguns vão com certeza, mas vão esperar você estar totalmente recuperado. Enquanto isso, vão falar pelas suas costas. – ele riu e novamente fez careta. – Desculpa.
- O lado bom é que agora eu aparento ser um cara durão. – comentou, forçando uma voz grave.
- Talvez deva raspar o cabelo e fazer umas tatuagens, para complementar esse visual. – comentou, mexendo no cabelo dele e ajeitando de forma a parecer um moicano.
- Ótima ideia.
- Como você está? – questionou após alguns segundos de silêncio.
- Bem. Ainda com dores, mas logo estarei completamente recuperado. – respondeu com um sorriso que desapareceu ao ver a compaixão nos olhos dela. – Não me olha desse jeito. Você não. Não pode. – trincou os dentes, aborrecido.
- As pessoas estão preocupadas. Eu estou preocupada. – afirmou, tocando o braço dele carinhosamente.
- Não tem que se preocupar. Eu estou muito bem. Bem o suficiente para aproveitar sua presença para começarmos a investigar esses caras. – ele se ajeitou na cama e seus ossos aparentes chamaram a atenção dela.
- Investigar o que exatamente?
- Enquanto eles me transportavam de uma sala para outra, eu vi alguns baús de metal. Aparentemente, algo que tinham roubado recentemente. Algo importante, mas que segundo eles, o governo não sentiria falta. – abaixou o tom de voz durante a explicação.
- O que acha que pode ser? – questionou curiosa.
- Não tenho a mínima ideia. Mas temos uma pista. Tinha um desenho gravado neles. Uma mulher com roupa romana e uma árvore do lado. Pega papel e caneta que eu desenho para você. – ele apontou para o sofá. Havia um bloco de notas e uma caneta, esquecidos ali por Agnes. os pegou e entregou para . E então finalmente reparou em suas mãos. As mãos feridas estavam trêmulas, tão trêmulas que ele mal conseguia segurar a caneta. Ele não conseguiu desenhar, a tremedeira aumentou de tal forma que só saiam rabiscos. Ele quebrou a caneta e soltou um xingamento com uma expressão de dor e frustração. pegou papel e caneta e jogou no sofá. Diante da expressão derrotada dele, ela segurou suas mãos e as apertou com delicadeza. Ele até tentou retribuir o gesto, mas suas mãos estavam fracas e ele mal podia controla-las. Depois da tentativa falha de desenhar ele ainda não tinha a encarado.
- . – ela chamou. – Está tudo bem. Ainda é muito recente. – o jeito que ele a encarou fez seu coração doer. – As coisas vão melhorar. Vai levar um tempo, mas seus sentidos vão voltar a funcionar. – ele sustentou o olhar que misturava angústia e descrença.
- Não tenho certeza disso.
- Confia em mim. Eu sei que vão. – apertou novamente as mãos dele e depois as soltou mantendo a proximidade. – Me conta o que aconteceu lá. – continuou após alguns segundos de silêncio.
- Não quero falar sobre isso – escondeu as mãos sob o lençol que o cobria e encarou o teto.
- Precisa conversar, desabafar. – insistiu, tocando seu tórax.
- Não vou.
- Isso vai ajudar – a insistência de o irritou.
- Como? – questionou nervoso, finalmente a encarando. – Como isso vai me ajudar? – ele segurou o braço dela e a afastou. – Como relembrar toda essa porcaria vai me ajudar?
- ... – suplicou, encarando seus olhos que agora transbordavam fúria.
- E como você vai me ajudar? Justamente você? – estava vermelho e veias saltavam em sua testa. – Se tem algum dom inato, esse provavelmente é o de provocar sofrimento, não curar. – rosnou e viu ela rapidamente se afastar da cama. A sentença a atingiu como um soco no estômago. Não conseguiu encará-lo e decidiu fugir dali. Assim que alcançou a porta, ouviu seu nome e se virou. – Me desculpe. – ele respirava profundamente enquanto massageava a nuca. – Eu não quis... Eu não quis te machucar.
- Não somos nossos pais. Você mais do que ninguém devia saber disso. – afirmou, sentindo os olhos arderem.
- Eu sei. Me desculpe. – ele estendeu a mão pedindo que ela se aproximasse. – É só que... eu... eu não posso falar sobre o que aconteceu. Todo mundo tem me perguntado, mas já tem sido difícil o suficiente sem me esforçar para relembrar tudo. Só consigo dormir com medicação e mesmo assim meus sonhos são assombrados. Pensar em tudo que aconteceu é muito doloroso. Eu só quero esquecer. – completou enquanto uma lágrima rolava por sua bochecha.
- Eu sinto muito. – sentou novamente na cama e colou a bochecha a dele, depois encaixou o rosto na curvatura de seu pescoço e continuou. – Por tudo que teve que passar, por causa da minha incompetência.
- Não é sua culpa. – passou a acariciar o cabelo dela. – Você só é culpada de uma coisa: me achar e me trazer de volta a salvo.
- Mas eu demorei tanto a te encontrar. – ela se afastou um pouco o encarando.
- Você me achou e eu serei eternamente grato por isso. – tocou o rosto de que em seguida pousou a mão sobre a dele. Afastaram-se quando a porta foi aberta.
- Me desculpe. Não quis interromper. – a enfermeira Martinez entrou no quarto e se aproximou da cama. – Preciso levá-lo para mais alguns exames e testes.
- Estará aqui quando eu voltar? – questionou e viu negar.
- Mas volto amanhã.
- É uma promessa? – questionou erguendo a sobrancelha e viu-a assentir com um sorriso.
saiu do quarto se sentindo ainda pior. Além de perceber que os danos deixados pelos dias sob tortura eram muito maiores do que deixava transparecer, também se sentia miserável. Tinha ido até lá para saber mais sobre a situação dele e então tentar ajudá-lo. Mas o que tinha feito era demonstrar suas próprias fraquezas para então ser consolada. Sentia-se egoísta demandando ajuda, enquanto era ele quem precisava de todo o apoio e atenção possíveis. Seguiu em direção a saída, mas mudou o trajeto quando avistou Ivy. Seguiu a médica até a porta do pequeno consultório, a alcançando antes de entrar.
- Além dos tremores, quais são os outros sintomas? – questionou, quase atropelando as palavras.
- Vamos conversar aqui dentro. – Ivy abriu a porta e entrou logo sendo seguida. Assim que as duas sentaram, a médica continuou. – Precisa entender que a tortura faz a pessoa ser reduzida a um extremo estado de angústia e isso deixa marcas. – explicou com o tom de voz calmo, o que deixou um pouco irritada. Não queria ser poupada.
- Eu sei. E eu quero saber quais as marcas nele. – exigiu ansiosa e viu Ivy suspirar.
- Além dos tremores, também apresenta desorientação sensorial, sua capacidade normal de percepção está abalada. Ele vê algumas coisas de modo distorcido e apesar de não admitir, acredito que tem sofrido alucinações. – diante da expressão surpresa de , esclareceu – Martinez o flagrou falando sozinho algumas vezes. Além disso, também apresenta dificuldades para se concentrar. Distúrbios de humor e do sono.
- Sintomas comuns, certo? – estalava os dedos pousados em seu colo. – Para toda a pressão insuportável que ele deve ter passado.
- Sim. Essa confusão mental é comum. Sinal de estresse pós-traumático.
- E o que mais os exames contam?
- Tem indícios de afogamento, mas sem sinais de violência sexual. – o rosto de se contorceu enquanto sua mente formava a imagem de um já machucado tendo seu rosto coberto por um tecido e então água em abundância sendo despejada nele. A experiência de passar por uma simulação de afogamento era desesperadora, ter seus pulmões se enchendo de água sem poder reagir, com pés e mãos amarrados. – Tem muitos ferimentos e hematomas, mas nenhum deles trouxe complicações.
- E ele vai ficar bem? – questionou em um sussurro sentindo um aperto no peito.
- É difícil dizer. – admitiu enquanto tentava escolher bem as próximas palavras. – Em alguns casos os sintomas desaparecem em dias ou semanas...
- E em outros eles não desaparecem e o dano se torna permanente. – ponderou, sentindo novamente um nó se formar em sua garganta.
- Ele vai superar tudo isso. – Ivy afirmou buscando os olhos de que pareciam perdidos. Talvez se dissesse aquilo com firmeza suficiente, a sentença se tornaria verdadeira.

***


não conseguiu dormir, e mais uma vez o motivo era . Sempre que fechava os olhos sua mente produzia imagens de sendo torturado de diferentes formas. Uma mais sádica e dolorosa que a anterior. Era desesperador. Mesmo com corpo e mente cansados, passou o dia seguinte no setor de soldagem. Precisava focar no trabalho e aproveitar o silêncio que a companhia de Dax lhe proporcionava. No fim do turno correu até a cabine, tomou um banho rápido e seguiu até a enfermaria. A pressa era para evitar encontrar Penny, que com certeza faria diversas perguntas sobre a visita na noite anterior.
Assim que se afastou da cabine, passou a caminhar lentamente enquanto respirava fundo e tentava espantar todas as perturbações presentes em sua mente. Quando alcançou o corredor que levava a enfermaria observou uma movimentação de oficiais de segurança entrando no local. Correu até lá e se deparou com a agitação de enfermeiros e pacientes. A preocupação cresceu dentro de si quando viu um segurança em frente o quarto de afastando curiosos. Ao chegar à porta também foi barrada e tentou forçar a entrada. A tentativa falhou, mas lhe permitiu observar o que acontecia lá dentro. Uma enfermeira aplicava algo no pescoço de que estava desacordado e tinha os membros superiores e inferiores cobertos por marcas vermelhas. As marcas e o modo como o ambiente estava bagunçado indicavam luta. A cena lhe causou angústia e irritação o que levou a outra tentativa de entrar lá. Pouco tempo depois Agnes e Clint Graham, o chefe da segurança, surgiram em seu campo de visão, obrigando que ela se afastasse para permitir a saída deles.
- O que aconteceu? – questionou Agnes que tinha uma expressão preocupada.
- atacou uma das enfermeiras. – chefe Graham respondeu com sua usual expressão carrancuda.
- O que? Mas como?
- Ele a empurrou contra uma parede. – Graham berrou sem se importar com as pessoas que tentavam ouvir a conversa.
- Está machucada? – virou para Agnes que se mantinha calada.
- Não. Ele não seria capaz disso – Agnes se apressou em responder. – Ela só está assustada.
- Não podemos deixar isso se repetir. – o chefe abaixou o tom, mas a irritação e impaciência ainda estavam presentes em sua voz. – Precisamos garantir a segurança dele e dos profissionais de saúde.
- O que isso significa? – questionou, tentando entender o que estava por trás daquelas palavras.
- Graham acredita que é melhor mantê-lo imobilizado. – Agnes sussurrou, ainda ponderando se aquela era a melhor opção.
- Você quer amarrar ele? – gritou, se aproximando de Graham.
- Essa não é a definição correta. – respondeu com deboche. – Mas é basicamente isso.
- Não vão fazer isso com ele.
- Essa decisão não é sua.
- Nem sua.
- Você não tem voz aqui. E nesse caso a contenção é sim necessária. – Graham fez um sinal e o oficial que até então apenas assistia a discussão segurou o braço de .
- Muitas pessoas daqui foram torturadas em algum nível...
- A maioria pelas mãos do seu pai. – a interrompeu irritado.
- Sim, eu sei. E eu acredito que nenhuma delas ia querer ser acorrentada como um animal enquanto lida com esse evento traumático. – rosnou para o chefe e então se virou para Agnes. – Não pode fazer isso com ele. - implorou sentindo o desespero encher seu peito. – Ficar amarrado vai fazê-lo reviver tudo. Essa porcaria toda já está sendo dura o suficiente. Não pode deixá-lo fazer isso. já sofreu demais.
- Ele é um perigo para si mesmo e para os outros. – argumentou tristemente. – Que opção eu tenho?
- Me deixa cuidar dele. – arriscou apresentar a ideia que tinha acabado de cruzar sua mente. – Posso vigia-lo dia e noite.
- Foram necessários três homens para segurá-lo, o que te faz pensar que consegue fazer isso sozinha? – Graham questionou com desdém.
- Ele confia em mim. – respondeu raivosa. – E agora preciso que você confie, Agnes. – encarou a mulher cujo rosto transparecia a dúvida que tomava seus pensamentos.
- Não acho que isso seja uma boa ideia.
- É melhor do que torturá-lo de novo, o fazendo reviver o cativeiro e todas as merdas de lá. – afirmou e viu Agnes olhar para o chefe Graham e depois para ela avaliando qual decisão seria a correta.
- Tudo bem. – falou após alguns segundos de reflexão. – Você fica responsável por acompanhá-lo. Continuarei vindo todos os dias e vou manter um oficial na enfermaria. – completou vendo assentir.
- Isso é um erro. – Graham murmurou.
- Se algo acontecer, a culpa é sua. – Agnes ignorou Graham e apontou o indicador para . – E vai pagar por isso.


III. And I wanna be here when times are hard.

dormia em uma desconfortável cadeira ao lado da cama de . Havia sido vencida pelo cansaço após horas esperando ele acordar. Ele dormira quase vinte e quatro horas e agora encarava a mulher completamente desajeitada na cadeira de madeira. Imitou o barulho de um ronco e viu-a acordar sobressaltada.
- , você acordou. – esfregou os olhos e ajeitou a postura enquanto estalava o pescoço.
- Quer me explicar por que estava roncando toda desajeitada nessa cadeira? – fez sinal para que ela limpasse o canto da boca.
- Eu não ronco. – afirmou com um careta enquanto limpava a boca.
- É claro que ronca. – riu diante da expressão de indignação que estampava o rosto dela. –Acordou com o próprio ronco.
- Lógico que não. – rebateu enquanto prendia os cabelos em um rabo de cavalo. Sua expressão agora era de dúvida o que fez rir ainda mais. – Está se sentindo bem?
- Sim, só um pouco tonto. – esfregou a nuca.
- É por causa do excesso de sedativos. – levantou e passou a estalar as costas. – Logo melhora. Está com fome? – questionou e viu-o negar.
- Que bom que cumpriu a promessa.
- Não comemore muito. Agora vou passar bastante tempo aqui. Vai enjoar da minha cara.
- O que quer dizer?– ele franziu a testa.
- Vou te fazer companhia. – ela sentou novamente, aproximando a cadeira da cama.
- As coisas devem estar bem ruins para minha mãe te colocar de babá. – recebeu um leve tapa no braço. – Não estou reclamando. Aprecio a companhia. É que ela...
- É, eu sei. Não faz parte do meu fã clube. – rolou os olhos. – Se lembra do que aconteceu ontem? – perguntou após alguns segundos de silêncio. mordeu o lábio e franziu a testa confuso enquanto vasculhava sua memória. Arregalou os olhos quando flashs do dia anterior cruzaram sua mente.
- Como ela está? Eu a machuquei? – questionou agitado, sentindo seu coração acelerar.
- Ela está bem, só a assustou. – respondeu com a voz calma, tocando o braço dele.
- É por isso que está aqui. Para me vigiar e se certificar que eu não vou atacar mais ninguém. – a respiração dele havia se tornado ofegante.
- Não.
- Todos devem estar achando que sou maluco e extremamente perigoso.
- Não. Você não é nada disso. – levantou da cadeira e se aproximou da cama. – Você sofreu uma situação extremamente angustiante e estressante. Agora está lidando com o trauma. É por isso que eu estou aqui. Para te ajudar a lidar com tudo isso. – sentou na cama, encarando o rosto de , que mantinha uma expressão de preocupação e dor. – ... – chamou em um sussurro. – O que aconteceu ontem? O que te levou a agir daquele jeito? – ele encarou as mãos trêmulas e então fechou os punhos com força.
- Quando a Martinez se aproximou com a seringa, era... era como... – gaguejou, ainda encarando as próprias mãos. Respirou fundo, tentando clarear os pensamentos que agora estavam turvos e se confundiam com memórias dolorosas. – Era como se eu não estivesse mais aqui. – continuou, finalmente encarando . – Era como se eu tivesse sido transportado para aquela sala marrom novamente. – sentiu o suor escorrer por sua testa e umedeceu os lábios antes de continuar. – Por um momento eu olhei para ela e enxerguei Red. O homem ruivo que você matou. Olhei para ela e o que vi foi... foi ele me encarando com aquele sorriso macabro. O mesmo que sempre dava quando me acordava com choques ou quando aplicava aquelas injeções... – engoliu em seco, sentia novamente as dores e angústia. Sentiu tocando sua mão direita, então a segurou. – Ele costumava aplicar uma substância que me causava dores intensas. Como se tudo que fizeram já não causasse dores suficientes. –apertou os lábios com força e encarou a mão, que agora era acariciada pelo polegar de – Juro que não quis machucá-la. Eu olhei para ela e o vi, e quis afastá-lo. – falou agitado, soltando a mão de e fechando novamente os punhos. – Depois disso não me lembro de mais nada.
- Está tudo bem agora. É normal você reviver o que passou. São memórias intensas. Só... me deixa ficar aqui e te ajudar com tudo isso. – ele assentiu e ela novamente tocou a mão dele. Para , ouvir tudo aquilo era pior que ser golpeada repetidas vezes. Tentou não expressar toda a dor que aquelas palavras lhe causavam. Era quem precisava de apoio enquanto passava por tudo aquilo. Ela devia ser a rocha ali.

***


O silêncio da madrugada foi interrompido pelo ranger da porta. estava novamente sedado e em um sono profundo. Já , além de ter sono leve, estava constantemente em estado de alerta. O ranger da porta a fez levantar-se silenciosamente esperando os próximos passos do intruso. Um homem entrou e apesar da escuridão no quarto, iluminado apenas pelas luzes dos aparelhos, ela pode ver que este portava uma faca. O homem deu dois passos em direção a cama de , mas parou ao ouvir um assovio. Se assustou com a presença de mais alguém no quarto, e após um momento de hesitação, atacou . A tentativa não teve sucesso, ela segurou seu pulso e acertou um chute em seu estômago. O homem gritou e soltou a faca ao sentir a forte pressão em seu pulso. Tinha certeza que estava quebrado. Não teve tempo de reagir, logo sentindo um soco no maxilar. O soco seguinte em sua garganta fez com que ele caísse desacordado.
abriu a porta e arrastou o homem nocauteado para fora. Sob a iluminação da enfermaria pode reconhecê-lo. Era o irmão da enfermeira Martinez. Não lembrava seu nome, mas reconhecia seu rosto. Os dois irmãos eram inseparáveis. Não precisou se esforçar muito para entender os motivos que levaram ele a tentar atacar . Apesar de Martinez não estar machucada, seu irmão enxergava como uma ameaça ao bem estar dela. arrastou o homem até o oficial de segurança que dormia em uma cadeira de plástico. O acordou com um leve chute no joelho e ordenou que ele fosse buscar Agnes e chefe Graham.
Assim que Agnes e Graham chegaram, explicou a situação. Agnes não prestou muita atenção às palavras dela. Foi em direção ao quarto de com o coração acelerado. Só queria ficar perto do filho. A possibilidade de perdê-lo a deixava completamente desestabilizada. O irmão de Martinez ainda estava desacordado no chão da enfermaria. Um oficial de segurança o levou até uma maca para que Ivy pudesse cuidar de seu pulso quebrado. O homem recebeu os cuidados necessários e depois foi levado para uma cela. Chefe Graham seguiu em direção à saída, mas foi interrompido por .
- O desfecho disso seria bem diferente se o estivesse amarrado.
- Não me teste. – rosnou diante do olhar dela. – Não vai gostar dos resultados.
- Não me ameace. Eu sei me defender. – respondeu raivosa e quando o viu abrir a boca continuou: – Não, isso eu não aprendi com o meu pai.
não esperou uma resposta. Afastou-se de Graham e foi até o quarto de . Bateu na porta e entrou silenciosamente. Deparou-se com Agnes sentada na cadeira de madeira ao lado da cama, segurando a mão do filho. Ela envolvia a mão dele com carinho e mantinha um olhar perdido.
- Eu achei que, quando ele voltasse, as coisas voltariam a ser como antes. Mas eu estou constantemente com medo de perdê-lo. – começou, sem encarar . – Lembro-me da época que ele ainda era um bebe. Eu passava as madrugadas acordada ao lado do berço para ter certeza que ele ainda estava respirando. Perdi muitas noites de sono apenas o observando. – Agnes derramou uma lágrima e apertou as mãos dele com mais força. – E quando eu fui presa, ele tinha só seis anos. Ele era apenas uma criança e eu passei meses longe dele. E eu estava sempre com medo não por mim e pelos diferentes tipos de tortura que podia sofrer, mas por ele. Pelo meu garotinho que nem sabia se eu estava viva. Medo que conseguissem encontrá-lo. Que o machucassem. – ela afundou o rosto na cama sem soltar as mãos do filho. nunca a tinha visto tão vulnerável mas não achou apropriado ir até lá tocá-la ou abraçá-la. – E agora, ele é um homem feito e eu continuo assustada o tempo todo. Achei que com a volta dele tudo ia ficar bem. Mas é muito doloroso saber tudo que ele passou, que ele ainda passa, e não poder ajudar. – finalmente encarou , seu rosto já coberto por lágrimas. – Obrigada. – dessa vez pode sentir a sinceridade naquelas palavras. – Você o salvou de novo. Estava certa o tempo todo. Só queria que pudéssemos salvar ele de todas as memórias que continuam o torturando.
- Ele vai ficar bem, Agnes. Vai sim. Ele é um homem incrivelmente forte e eu tenho certeza que vai superar tudo isso. – afirmou, sentindo os olhos arderem.
- Por favor, não conte para ele o que aconteceu hoje. Ele já está lidando com muita coisa. – pediu com a voz embargada e balançou a cabeça em concordância. – Pode ir para sua cabine. Descanse. Vou passar o resto da noite aqui. – assentiu e saiu pela porta.

***


Para , os dias se arrastavam. Ter que continuar naquela enfermaria era um martírio e nem mesmo a companhia de aplacava seu descontentamento. Não lhe faltavam visitas. Agnes visitava o filho todos os dias e passava algumas horas conversando com ele sobre qualquer coisa que pudesse distraí-lo. Também recebia visitas de Penny e Dax, além de outros amigos e conhecidos. A única que nunca o visitava era Selina. Ela havia perdido muitas pessoas importantes naquela enfermaria e não conseguia nem se aproximar do local.
Entediado, estava sentado com as pernas esticadas no sofá, atirando uma pequena bolinha de borracha na parede. Sorriu quando viu entrar com um baralho nas mãos.
- Olha o que o Dax mandou. – deu um tapa nas pernas dele para que pudesse sentar no sofá.
- Ele deveria ter vindo. Não tem graça jogar com você. É péssima em todos os jogos de carta inventados pela humanidade.
- É, mas sou sua única opção, então não reclama. – jogou as cartas no sofá e ele começou a embaralhá-las. – Na verdade, devia me agradecer. Estou tornando sua estadia aqui bem menos tediosa.
- Eu te agradeceria muito mais se me ajudasse a escapar daqui. – se aproximou, sussurrando.
- Isso não vai rolar. – o afastou, tomando o baralho da mão dele. – Então, o que quer jogar?
- Strip poker. – disse, com um sorriso de lado.
- Não. – discordou, rolando os olhos.
- Strip qualquer coisa. – insistiu, mantendo o mesmo sorriso e levou um tapa no braço.
- Nada que tenha a palavra strip. – soltou um bufo diante da expressão canalha que estampava o rosto de .
- Truco com nudez. – tentou novamente e dessa vez ouviu uma gargalhada.
- Nada que envolva nudez. Especialmente a minha.
- Então a minha tudo bem? – questionou com uma sobrancelha erguida. Mordeu o lábio, pensativo e então novamente o sorriso de lado brotou em seu rosto. – ... você quer o meu corpo?
- Eu só quero que você cale a boca. – forçou uma expressão séria enquanto tentava conter a vontade de rir.
- Então vamos jogar algo que possa envolver álcool. – bateu a mão no sofá, animado com a ideia.
- Nada de bebida.
- Você está tirando toda a diversão. – acusou, estreitando os olhos.
- Só a sua. – foi a vez dela sorrir de lado. – Ver essa sua cara de criança sem doce é muito divertido para mim.
- Eu também te amo. – disse sem emoção e viu o sorriso dela aumentar – Antes do jogo que eu vou com toda certeza vencer, você podia fazer minha barba. – coçou o queixo e depois passou a mão pelas bochechas. – Os tremores diminuíram, mas do jeito que estão eu ainda faria cortes horrorosos.
- Claro.
saiu para pedir uma navalha para a enfermeira. A situação ainda instável de impedia que qualquer objeto cortante fosse mantido no quarto, ou nas mãos dele. Quando voltou ao quarto, ele já a esperava no banheiro.
- Estou de saco cheio desse quarto. – falou após alguns minutos encarando , que estava concentrada na tarefa. Ela manteve especial cuidado na área onde estava a cicatriz feita por Bishop.
- Ainda está em período de observação. – afirmou, limpando a navalha na toalha que estava na pia. – Agora cale a boca ou vou acabar fazendo outro corte. – ele fez uma careta e ela continuou. A inquietude de atrapalhava a tarefa e já havia lhe rendido um pequeno corte em seu queixo.
- Ivy falou que vai parar com os sedativos. – anunciou após pouco tempo de silêncio.
- Ótimo. Eles têm te dado muitas tonturas. Agora fique quieto. – ordenou entre os dentes. – Prontinho. – disse após alguns minutos e ele se virou para o espelho. Riu diante da visão. tinha deixado costeletas enormes que ainda por cima estavam tortas. O sorriso debochado dela indicavam que aquilo era proposital.
- Conserte isso. Sou eu que estou com tremores. Suas mãos são perfeitas.
- Obrigada. – falou com um sorriso convencido. Ele riu e então manteve os olhos no espelho enquanto ela terminava de barbear. A visão da lâmina em seu rosto surtiu efeito. Lembrou-se do dia que recebeu a visita de Bishop. O homem magro, careca e de baixa estatura havia investido um bom tempo torturando psicologicamente, fazendo longas e detalhadas descrições de tudo que faria com ele enquanto passava a mão no bem desenhado cavanhaque. No fim, ele apenas começou a fazer o corte no canto direito da boca, sendo interrompido por outro torturador. Todo o medo e agonia o atingiram novamente. Afastou a navalha de seu rosto bruscamente. O susto causado pela ação impediu uma reação da parte de , que acabou com um corte na bochecha.
- Não, não, não. – entrou em pânico ao ver o filete de sangue que escorria pela bochecha dela. Levou o mão até seu rosto, mas ela se afastou, o que aumentou ainda mais a sua aflição.
- Está tudo bem. – se apressou em falar ao ver toda a dor nos olhos dele. – Foi um acidente.
- Eu te machuquei. – pegou a toalha e a pressionou contra a bochecha dela. – Eu... eu... não posso deixar você ficar aqui. Eu sou perigoso e não posso permitir que mais nada aconteça com você.
- , para. Eu estou bem. – colocou a mão sobre a dele e então ele se afastou.
- Por favor, saia. – suplicou sem encará-la. Apoiou as mãos na pia e engoliu em seco, sentindo o suor descer por sua testa e o tremor nas mãos aumentar.
- ...
- Por favor. Você não pode ficar aqui. – insistiu, apertando as mãos na pia e se afastou. Encarou seu reflexo quando ela deixou o quarto e sentiu raiva de si mesmo. Toda a agonia transformada em raiva fez com que desse um soco no espelho. A dor em sua mão não era maior do que a que assolava o seu interior. Enfiou a mão sob a torneira e enquanto o sangue escorria pelo ralo um pensamento cruzou sua mente. Talvez fosse melhor que tivesse morrido durante o cativeiro.

***


acordou no meio da madrugada suado e com o coração acelerado após um sonho vívido formado por lembranças misturadas a cenas imaginadas. As lembranças permeadas por dores, sons e cheiros haviam se tornado ainda mais funestas. A voz de , tão próxima e suave aumentou a sua agitação.
- , você está bem?– ela estava em pé ao lado da cama. A preocupação estampada em seu rosto.
- O que faz aqui? – questionou, sentindo a ferida em sua mão latejar. – Não pode ficar.
- Preciso ficar perto de você. – ela tocou as pontas dos dedos dele.
- Eu... eu não posso deixar você se machucar. – sussurrou, encarando a mão coberta por um curativo. Sua voz trêmula, expressando a dor causada por apenas imaginar aquela possibilidade. Vê-la com um curativo na bochecha fazia seu coração disparar.
- Você não vai me machucar. E eu não posso te abandonar aqui. – sentou na cama e tocou o rosto dele. Acariciou o local e logo sentiu os olhos dele analisando-a. – Me conta o que sonhou.
- Eu estava naquela fábrica de novo. – começou, após algum tempo de hesitação – Em uma pequena sala com os braços presos por uma corrente, acima da minha cabeça, que me mantinha suspenso. Red usou um balde para derramar água sobre minha cabeça. E então começaram os choques, e a dor intensa foi aumentando até se tornar insuportável. A dor... era como ser atacado por um animal e sentir a carne sendo arrancada e devorada aos poucos. Os espasmos começaram e eu estava a ponto de desmaiar quando ouvi a sua voz. – parou de falar por um instante e fechou os olhos, sentindo novamente as dores, relembrando as cenas que assombraram seus sonhos e sentindo os tremores nas mãos aumentando. Umedeceu os lábios e continuou: – Você estava lá e eles falavam tudo que fariam com você, e pensar naquilo era muito mais doloroso que qualquer forma de tortura. É mais doloroso. Só de pensar eu... eu...
- Então não pense. – segurou o rosto dele entre as mãos, acariciando-o com os polegares. – Lembra a nossa primeira missão? Vamos falar sobre isso. – ela retirou os sapatos e deitou na cama diante do olhar surpreso de – Eu estava tão distraída que quase matei um gato. – relembrar a cena fez um sorriso surgir no rosto dele.
- E depois que o bichano levantou, você estava tão feliz que correu para abraçá-lo. – se ajeitou na cama, dando espaço para que ela pudesse ficar confortável.
- Não foi minha ideia mais inteligente. – riu, encarando o teto. – Aquela coisa arranhou meus braços.
- E eu acho que parte de você quis atirar nele. – acusou, sorrindo de lado. Ela o encarou e então tapou o rosto em uma confissão silenciosa.
- Sabe, naquela época eu estava tão acostumada a ficar sozinha. – começou, virando na direção dele. – Depois que eu deixei a cidade, fugindo do meu pai, de todas as porcarias dele e desse maldito governo, eu fiquei sozinha por mais de um ano e me acostumei com isso. E ai, quando encontrei vocês rondando aquela floresta e vocês me convidaram para vir para cá, eu só conseguia pensar em milhões de formas em que isso podia dar errado. Eu não tinha certeza se viver em uma comunidade como essa seria uma boa ideia. Obrigada por me convencer do contrário.
- Obrigado por decidir ficar. – passou a acariciar o braço de . Enquanto encarava os olhos dela, por um momento esqueceu todas as memórias dolorosas e apenas se sentiu feliz pela proximidade. Feliz por ela ter ignorado seus pedidos para que mantivesse distância.
- Quando eu cheguei... era tão difícil andar pelos corredores e sentir todos os olhares de ódio e repulsa. Ainda é. Mas você sempre esteve do meu lado.
- Eu só quero que as pessoas te enxerguem do jeito que eu te enxergo. – parou o carinho por um momento, mantendo a mão pousada sobre o braço dela. Os olhos dele analisavam atentamente cada parte de seu rosto. – Eu não vejo nenhum rastro de Hugo Bormann em você. Tudo que eu vejo é alguém que coloca o bem estar das outras pessoas sempre em primeiro lugar. Que invadiu uma fábrica cheia de seguranças armados para me salvar. E eu sei que faria de novo. E faria o mesmo por qualquer um aqui. Mesmo aqueles que te rejeitam. Você é a pessoa mais forte que eu conheço, em todos os sentidos. E é só isso que importa. – naquele momento pareceu que nada mais importava. Apenas eles. Longe de tudo que os machucava e aterrorizava.


IV. Soon my fears will emerge.

estava acordado há alguns minutos. Estava deitado de barriga para cima com as mãos depositadas sobre o tórax e evitava se mover, não querendo acordar a mulher que dormia profundamente ao seu lado. A distância entre eles era mínima e o cheiro dela preenchia suas narinas. Viu ela se mexer e mudar um pouco a posição, se aproximando ainda mais, agora já tinha seu pé direito colado ao dela. Riu ao notar que ela já estava em um estado de semiconsciência, querendo acordar, mas com o corpo cansado demais para abrir os olhos e se levantar. Quase cinco minutos depois ela finalmente abriu os olhos, os esfregou e ainda de bruços aninhada no travesseiro encarou o homem que sorria para ela. Ficou paralisada por alguns segundos tentando entender por que raios estava acordando ao lado de .
- Por que você está na minha cama? – perguntou, ainda com o rosto enfiado no travesseiro. Apesar de a situação lhe causar estranheza, a preguiça era maior.
- Na verdade você está na minha cama. – ele sorriu de lado e ela franziu a sobrancelha.
- Certo. – ela falou, finalmente lembrando o motivo de estar ali.
- Veio de madrugada se jogar em cima de mim. – viu revirar os olhos e gargalhou da expressão dela que era uma mistura de falsa indignação, olhos inchados e rosto amassado.
- Conseguiu dormir? – bocejou, ajeitando o travesseiro.
- Sim, dormi muito bem. Só agora pela manhã que acordei com seu ronco. – ele afirmou, se ajeitando na cama, colocando uma das mãos atrás da cabeça e o rosto dela se contorceu em uma careta.
- Eu não ronco. – ela murmurou com os olhos semicerrados.
- Vou começar a gravar para te mostrar.
- Vou buscar café. – ela anunciou com os olhos ainda pesados, mas não se moveu. Estava muito confortável naquela posição, o calor proporcionado pela proximidade e os pés se tocando em um carinho simples. Além disso, havia dormido pouco. Os dois só se moveram quando ouviram a porta ranger e Agnes apareceu com uma expressão surpresa que logo se tornou desgostosa. – Bom dia, Agnes. – pulou da cama e calçou os sapatos rapidamente. Olhou de relance para e notou que ele segurava o riso. – Eu vou... mais tarde eu volto. – passou por Agnes sem encará-la, consciente de que estaria sendo fuzilada pelo olhar dela. Começou a rir logo que saiu da enfermaria, se sentindo como uma adolescente que tinha sido pega no flagra. No corredor, encontrou Penny com seu macacão cinza e botas pretas, já vestida para mais um dia de trabalho.
- Do que está rindo? – Penny a encarava com curiosidade.
- Nada importante.
- está acordado?
- Está sim, mas a Agnes está lá. Deixa para visitá-lo outra hora. – apertou os lábios, tentando controlar a vontade de rir.
- Ok, pode ir me contando o que aconteceu para estar com essa cara. – estreitou os olhos tentando decifrar a amiga.
- Agnes me viu na cama com ele. – falou rápido sem se dar conta das interpretações que podiam surgir. – A expressão dela estava hilária, puro horror e descontentamento. – riu da lembrança sem notar que Penny levantara as sobrancelhas e abrira a boca.
- Espera, você e o ... – Penny começou com os olhos arregalados.
- Não. – respondeu calmamente. – Não. – berrou ao ver olhos acusadores a encarando. – Ele teve um pesadelo e ai deitei na cama para conversarmos e aí... Não me olha com essa cara. – naquele momento se arrependeu de ter contado aquilo para Penny.
- É bom ver que finalmente vocês estão partindo para a ação. Sempre teve essa tensão entre vocês. – deu um sorriso largo, enrugando o nariz, satisfeita com a situação.
- Tensão? Que tensão? Não tem tensão nenhuma. – cuspiu as palavras, nervosa com as insinuações.
- É claro que tem. O jeito que vocês se olham, os sorrisos. O jeito que conversam. – ela gesticulava exageradamente.
- Você é louca. Não tem nada disso. – cruzou os braços diante da animação da outra.
- ... você ficou sem dormir quando ele foi levado, moveu meio mundo para encontrá-lo, agora passa os dias e noites cuidando dele e... – começou a enumerar nos dedos, mas foi interrompida.
- Contar isso para você foi um erro gigantesco. – esfregou a testa, já impaciente com o rumo da conversa.
- Pode negar para mim, mas não pode lutar contra esse sentimento. – fechou o punho e aproximou do peito, tentando expressar exagerada emoção para aquela sentença.
- Eu vou só... te ignorar. – deu passos apressados em direção à cabine deixando Penny para trás.

***

Dias se passaram e a rotina se manteve. passava dia e noite com , apenas saindo quando ele recebia visitas. Ele estava visivelmente melhor e já havia recuperado o peso perdido. Dormia sem sedativos e aparentemente a fase de crises e mudanças bruscas de humor havia passado. Diante de sua melhora, ele estava cada vez mais impaciente com as exigências de Ivy e de Agnes para que continuasse na enfermaria. Estava ansioso, querendo voltar a sua antiga vida saindo em missões e se sentia completamente inútil preso naquele quarto. O que lhe acalentava era saber que desde seu resgate, sua mãe não tinha autorizado nenhuma saída da casamata. Pensar em seu grupo de combate saindo sem ele era angustiante.
Como de costume, saiu para que pudesse passar a manhã com a mãe e então almoçarem juntos. Estava deitada no pequeno sofá de sua cabine, enquanto do outro lado do cômodo, Penny preparava o almoço. Levantou em um pulo quando ouviu batidas na porta e se surpreendeu ao encontrar com um sorriso de lado estampado no rosto.
- O que faz aqui? – questionou surpresa, cruzando os braços.
- Estou livre. – escorou no batente com um sorriso vitorioso. – Recebi alta hoje.
- Finalmente. – puxou ele para dentro. – Temos que comemorar.
- Com álcool? – um brilho surgiu nos olhos dele.
- Não. Vamos celebrar com o grude da Penny.
- Não é grude. – Penny discordou indignada. – É uma macarronada deliciosa. Oi, . – acenou com a colher de pau que usava para mexer o molho.
- Tenha cuidado, Penny. Tente não incendiar a cabine dessa vez. – aconselhou e recebeu um olhar de desprezo em resposta. Penny voltou a atenção as panelas e se jogou no sofá ao lado de . – Já podemos voltar a sair em missões. – afirmou animado, jogando as pernas em cima da mesinha de centro.
- Não seja apressado. – murmurou. – A Ivy te tirou da enfermaria hoje, não está bem o suficiente para ir em missões e lidar com todo o estresse que elas envolvem.
- Olha – mostrou as mãos. – Sem tremores. E não aconteceu mais nenhum incidente. – seus olhos focaram na cicatriz na bochecha dela.
- Pare de encarar. – ele levou a mão até lá, mas ela o impediu de tocar o local. – Eu te proíbo de se desculpar de novo.
- Ok.
- Ainda não pode ir lá fora. – começou quando ele se afastou. – Mas, enquanto isso, podemos tentar descobrir o que as gravuras que viu nos baús lá na fábrica significam. – pegou caderno e caneta na mesa ao lado do sofá e entregou a , que rapidamente rabiscou um desenho.
- Essa árvore está mais para ramo. – analisou o desenho atentamente. – E tem certeza que as vestes da mulher são romanas?
- Absoluta.
- Deve ser ramo de oliveira. – Penny se intrometeu. Diante das expressões confusas continuou. – Oliveira. A árvore sagrada do Mediterrâneo. – notou que os dois ainda não tinham acompanhado o raciocínio. – É um símbolo importante na mitologia grega.
- Mas o desenho não é grego. – discordou, mostrando o desenho para Penny quando esta se aproximou do sofá. – É romano. Tenho certeza por causa do capacete que a mulher usa.
- A oliveira também faz parte da mitologia romana. – Penny secou as mãos e jogou o pano de prato na pia.
- Ok, então nós temos uma mulher com capacete romano, um ramo de oliveira... – enumerou tentando entender qual era a ligação.
- É a deusa Minerva. – Penny anunciou e novamente suas palavras geraram interrogações na mente de . apenas observava a conversa analisando os fatos.
- Quem?
- Minerva, deusa da sabedoria. A versão romana da deusa grega Atenas.
- Ok. E por que ela estaria estampada naqueles baús? – ele esfregou a nuca.
- A maioria dos líderes do antigo regime era obcecada com o império romano. – Penny explicou, sentando na mesa de centro.
- Queriam se tornar o próximo grande império. Ideia nem um pouco original. – comentou voltando à conversa. Seus olhos se iluminaram quando finalmente começou a juntar as peças. – As academias militares têm estátuas de Marte, o deus da guerra e das armas. Então se a Minerva está associada ao conhecimento...
- Provavelmente aqueles baús são de algum edifício ou complexo de pesquisa. – acrescentou satisfeito.
- Não me lembro de nenhum edifício com esse símbolo. – analisou novamente o desenho.
- Pode ser de algum estabelecimento já desativado há muito tempo. Ou então alguma organização secreta. – Penny levantou, voltando ao fogão.
- Devíamos ter pegado aqueles baús quando vocês me resgataram. – comentou, esfregando o queixo.
- Desculpa, mas eu estava meio ocupada te arrastando para fora daquele lugar horroroso. – resmungou.
- Talvez eles ainda estejam lá. – tocou o braço de que meneou a cabeça lentamente.
- Impossível. Já se passaram muitos dias. Já devem ter feito uma limpeza no local.
- Devíamos ir até lá para ter certeza.
- Você não vai a lugar algum. – afirmou, cruzando os braços e ele bufou.
- Eu já falei que estou bem. – ele insistiu.
- Antes de deixar a casamata novamente você vai ter que provar para mim e para sua mãe que está bem o suficiente.– elevou o tom de voz.
- Vamos deixar a discussão para outra hora. – Penny interrompeu ao notar se ajeitar no sofá aborrecido. – O grude está pronto.

***


Depois do almoço, Penny voltou ao setor de mecânica. decidiu segui-la, já que não teria mais que acompanhar , precisava voltar ao trabalho. foi junto. Não trabalhava naquele setor e na visão de sua mãe, nem precisava trabalhar por um tempo. Mas ele não queria ficar sozinho encarando as paredes cinza de sua cabine.
Assim que chegou, começou a trabalhar, mas logo foi interrompido. Tim Sharpe, supervisor do setor, iniciou um discurso enfadonho sobre a necessidade de repouso para que ficasse plenamente recuperado e sobre como o setor de mecânica não era uma ocupação apropriada. Enquanto tagarelava, Sharpe ergueu a mão esquerda para desligar a máquina que manuseava. O antebraço do supervisor ficou exposto e a tatuagem presente ali chamou atenção. Os olhos de focaram na gravura e de repente parecia estar novamente diante de um de seus algozes. Ele levou poucos segundos para agir. Segurou Sharpe pela camisa e o atirou em uma parede próxima. O baque fez Sharpe arfar, sentindo dificuldades para respirar devido às dores do impacto. Com uma expressão apavorada assistiu correr em sua direção e levar as mãos até seu pescoço. O pavor e o desespero tomaram conta de si, enquanto tentava inutilmente se soltar das mãos que o sufocavam. era maior e mais forte e permanecia imóvel diante de suas tentativas de afasta-lo. Sharpe começou a perder as forças diante de um vermelho, com veias saltando na testa e dentes trincados, elementos que formavam uma visão assustadora e furiosa. Um outro trabalhador que passava pelo local correu até lá e tentou encerrar a agressão, mas levou uma cotovelada no nariz. Tudo ocorreu muito rápido e quando finalmente alcançou , Sharpe já estava quase perdendo a consciência.
- ! – gritou, mas ele não se moveu. Ele mantinha o olhar furioso fixo em Sharpe. – ! – repetiu, mas dessa vez mais aflita, se posicionando ao lado dele e puxando seu braço. afrouxou o aperto e deu alguns passos para trás encarando as próprias mãos. Sharpe deslizou pela parede, mas foi amparado por Penny que chegara logo depois de . Desorientado, olhou para Sharpe, sentindo todo o peso de sua ação, mas ao mesmo tempo considerando ir até lá para terminar o serviço. Sentiu a mão de tocando seu braço e foi arrastado para longe enquanto Penny verificava o estado de Sharpe. – Olha para mim. – segurou o rosto de , que tinha a visão sem foco. Seu rosto e postura transpareciam fúria e apreensão. – Me conta o que aconteceu. – ele lançou um olhar para Sharpe e começou a bufar.
puxou e o levou para fora do setor. Ele ainda estava vermelho e suava. No largo e mal iluminado corredor, escorou na parede sentindo os tremores voltarem.
- A tatuagem do Sharpe. – ele ofegou, sentindo a cabeça latejar. – Eu nunca tinha notado. – massageou a nuca enquanto seus olhos encaravam o chão. – É a mesma que todos os homens na fábrica tinham. – andava de um lado para o outro de braços cruzados, mas parou e o encarou com as sobrancelhas franzidas.
- Tem certeza?– analisou o rosto dele, que estava vermelho e coberto por alguns arranhões. – Talvez seja só parecida.
- É a mesma. A mesma presente nos braços que me eletrocutaram, surraram e atormentaram. – murmurou, tentando acalmar sua respiração, mas falhando miseravelmente. Ver aquela tatuagem e relembrar tudo fizeram-no travar o maxilar. Seu coração acelerou e os tremores aumentaram. – Eu sei que é difícil de acreditar... Principalmente considerando meu estado agora, mas eu tenho certeza. – encarou com um olhar suplicante e tocou o próprio peito ainda tentando se tranquilizar.
- Eu acredito em você. – ela tocou a mão dele que estava sobre o tórax e depois se aproximou o abraçando.

***


Após uma visita rápida a enfermaria, Sharpe voltou ao trabalho. Estava transtornado com o acontecimento. Ser atacado sem explicação já era uma situação ruim, mas isso se tornava ainda pior quando o agressor era o filho de Agnes . não seria punido e continuaria sendo tratado como alguém que precisa de ajuda e compreensão. Isso irritava Sharpe profundamente. Pensar na possibilidade de reencontrar , ser atacado novamente e talvez até morto era estressante. Após o fim de seu turno, entrou em sua cabine amaldiçoando mentalmente a família . Trancou a porta, acendeu a luz e só então percebeu que tinha companhia. estava sentada no pequeno sofá preto com uma arma apontada para a sua cabeça. Analisou a situação, tentando encontrar alguma forma de sair ileso dali, mas a porta estava trancada e não conseguiria nem se esconder, nem ir a lugar algum. Não podia ser mais rápido que uma bala.
- Sente. – ordenou calmamente. – Só estou aqui para conversarmos.
- Não precisa usar uma arma para uma conversa amigável. – murmurou sem se mover, ainda considerando as suas opções.
- Não vou usá-la se não precisar. Isso depende de você. Inicialmente, a única razão para eu estar armada é tornar essa conversa mais fácil. – deu um pequeno sorriso enquanto via o olhar de Sharpe ser tomado pelo pânico. – Sente logo, não tenho a noite toda.
Sharpe deu passos curtos até a poltrona em frente o sofá. Não podia fazer nada além de obedecer. Encarar alguém armado não era uma atitude inteligente, especialmente quando esta pessoa carregava certa fama por não errar disparos.
- Por que está aqui? – questionou, sentando desconfortavelmente e sentindo o suor escorrer por suas costas. – Está aqui porque quer terminar o serviço que o começou?
- Não estou aqui para te matar. – ela depositou a arma ao seu lado e notou que o olhar de Sharpe estava focado nela. – Sabe que não preciso dela. Melhor não tentar nada, eu só quero fazer algumas perguntas.
- O que quer? – espalmou as mãos nos braços da poltrona e os apertou.
- Só quero saber mais sobre você. E eu preciso que responda somente a verdade.
- Eu tenho escolha?
- Não. Me mostre a sua tatuagem. – ordenou e após alguns segundos de hesitação o homem obedeceu. Ele estendeu o braço esquerdo e ali estava o desenho da lateral de um crânio, nele também estavam presentes uma bandana e um enorme brinco no lugar da orelha. Embaixo, um par de ossos cruzados. – O que significa?
- É só um desenho. – engoliu em seco quando ela deu um sorriso de lado que para ele parecia mais uma sentença de morte. – Não tem que significar nada. – gaguejou.
- Você tem que ser honesto comigo... Se não quer ter problemas. Vamos fazer um trato. Vai funcionar assim: para cada mentira que contar... – passou a estalar os dedos. – Eu quebro um dos seus dedos. Talvez isso te incentive a ser sincero. – o barulho dos ossos estalando fizeram Sharpe arfar.
- Finalmente mostrando suas verdadeiras cores não é? – acusou enquanto tentava controlar a respiração. – Aprendeu essa tática de interrogatório com seu pai?
- Não preciso seguir os passos dele. – ela se afastou do encosto, se sentando na ponta do sofá. – Tenho meus próprios métodos. Então... o que vai ser? – questionou entre os dentes.
- É o símbolo dos piratas. – gaguejou e viu assentir para que continuasse. – Na verdade, a bandeira de um famoso pirata inglês.
- Certo. Mas o que eu quero saber é o que isso significa para você. Por que carrega um símbolo pirata no antebraço?
- Eu... – começou ainda considerando se contar tudo era a melhor opção.
- Omitir é o mesmo que mentir.
- Eu fazia parte de um grupo, antes de vir para cá. Nós... nós roubávamos do antigo regime.
- Por isso o símbolo de pirata? – ela questionou e meneou a cabeça negativamente quando ele assentiu. – O que vocês roubavam? – ele apertou os braços da poltrona com mais força. – O que roubavam? – repetiu impaciente.
- Órgãos sintéticos, medicamentos, todo tipo de coisa.
- E é só isso que faziam? Só contrabandeavam?
- Sim.
- Você está mentindo. – acusou, se aproximando ainda mais.
- Eu não estou. – gaguejou, sentindo o pânico tomar conta.
- Sim, você está. Esse seu grupo de “piratas” além de roubar, também tortura. – rosnou irritada.
- Não, nós não fazemos isso.
- Nós? Ainda é um deles? É um desgraçado torturador? – questionou novamente, pegando a arma e apontando para a cabeça dele.
- Não faço mais parte. – berrou desesperado, encarando o cano da arma. – Estou aqui, investindo meu tempo e esforço aqui. Eu sou um cidadão da casam>ata. Mas eles... eles não são torturadores.
- São agora. Os homens que torturaram o tinham essa tatuagem. – murmurou fechando os punhos. – Todos eles. Por isso ele te atacou.
- Isso é impossível, eu... eu...
- Minerva. – o interrompeu irritada. – Isso significa algo para você? – ele hesitou e ela entendeu aquilo como uma confissão. – Me conte o que sabe.
- É como era chamada uma rede de centros de pesquisas do antigo regime. Vários institutos comandados por um seleto grupo de cientistas.
- Sabe a localização de algum desses centros? Sem mentiras, Sharpe. – ordenou quando ele abaixou a cabeça por um momento.
- Já invadi um deles. Mas estão desativados agora. Todos eles.
- Me passe as localizações e eu vou embora. E nós podemos esquecer que estive aqui.
Sharpe pegou um mapa sobre a mira de . Apontou as coordenadas que sabia e depois sentou novamente na poltrona. Após fazer algumas ameaças sobre as consequências de contar daquela visita a alguém, caminhou até a porta. Parou por um instante e se virou para o homem ainda tenso e grudado à poltrona.
- Você era um contrabandista e agora está aqui. Vivendo sem que ninguém saiba do seu passado. – começou, colocando a arma na cintura. – Eu nunca fiz nada de errado. Não sou o meu pai. Por que acha que é o único que merece uma chance?


V. I will never leave you in the dark.

Após interrogar Sharpe, foi até a cabine tentar dormir um pouco, mas os acontecimentos do dia turbulento pairavam em sua mente impedindo a chegada do sono. Levantou após horas encarando o teto e silenciosamente deixou a cabine. Decidiu ir até o local onde tinha passado várias madrugadas insones durante o período em que estava cativo. Atravessou a casamata até o centro de treinamento, local aonde sempre ia para tentar se distrair dos problemas, enquanto focava em suas habilidades, alvos e sacos de pancada. Ao abrir a pesada porta de metal, pôde identificar um barulho vindo do fundo do enorme salão. Passou pelo ringue que ficava logo na entrada e caminhou entre aparelhos e alvos até a fonte do som. Deparou-se com uma cena que a fez bufar.
- Não devia estar aqui. – repreendeu que tinha uma garrafa de whisky na mão esquerda e uma faca na mão direita. Ele cambaleou, assustado com a presença de .
- ... Estou só espairecendo. – sorriu após beber um gole de whisky.
- Atirando facas bêbado? – questionou mal humorada enquanto se aproximava e notou que ele tinha os olhos tão vermelhos quanto as marcas feitas por Sharpe.
- É. – atirou uma faca no alvo, errando por alguns centímetros.
- Roubou isso? – apontou para garrafa e viu-o assentir.
- É. – ele bebeu mais um gole.
- Agnes proibiu a sua entrada aqui. – levantou a voz cruzando os braços.
- Eu precisava treinar.
- Bêbado?
- Essa é a parte de esfriar a cabeça – atirou outra faca, dessa vez sem olhar o alvo.
- Beber não vai ajudar. – estendeu a mão para que lhe entregasse a garrafa, mas ele se afastou.
- Nada pode me ajudar. – murmurou sentando na mesa onde estavam depositadas as facas.
- ...
- Minha mente está tão ferrada, que não tem jeito de consertar. – fechou os olhos e deu alguns tapas na testa.
- As coisas vão melhorar... – começou com uma voz terna, mas foi interrompida.
- Não, não vão. – rosnou, pegando uma faca e começou a passar os dedos pela lâmina. – As coisas não vão voltar ao normal. Nada vai ser como era antes.
- Isso é você desistindo? – ela ficou agitada ao notar o modo como ele falava, expressando derrota e exaustão. – Desistindo de lutar e...
- Eu quase matei um homem hoje. – a interrompeu raivoso, atirando a faca e dessa vez acertando o alvo. – Machuquei a Martinez e eu... eu te machuquei – abaixou o tom de voz. Lembrar-se do ocorrido sempre fazia seu coração doer. Sua respiração se tornou pesada e sentia os olhos arderem. – Eu devia estar numa cela. – concluiu em um sussurro, empurrando a caixa de facas no chão. O estrondo metálico assustou .
- Não fala isso. – ela gritou ao sentir um nó se formar em sua garganta.
- Eu pensei que tudo estava bem, mas não está. Dias sem esses surtos e eu já estava acreditando que as coisas estavam voltando ao normal. O que aconteceu hoje me mostrou que é assim que as coisas vão ser agora. – levantou da mesa e bebeu mais um gole do whisky. – Eu já desisti, você devia fazer isso também. – bebeu mais um gole e viu que os lábios de tremiam.
- Não.
- Eu não valho a pena. – ele apertou os lábios sentindo toda a angústia que vinha ignorando começar a inundar seu ser.
- Para com isso. Isso aí é a bebida falando. – ela foi até ele, tomou a garrafa e arremessou na parede. Os olhos dele agora estavam fixos nela, analisando cada pedaço de seu rosto. – Sim, a sua mente está ferrada no momento e os flashbacks e lembranças do trauma têm feito você agir dessa forma. Mas isso não é você. – deu um pequeno empurrão no tórax dele. sentia os olhos arderem, mas tentava segurar as lágrimas.
- É agora. – murmurou amargo, encarando o chão.
- Não é. – ela berrou e deu alguns passos para trás. – Eu não posso imaginar tudo que tem passado. Eu... – sentiu as lágrimas finalmente rolarem. – Preciso de você. – cruzou os braços por um momento e depois se abraçou. a encarava chocado. Era a primeira vez que a via abaixar todas as suas defesas na frente dele. De repente toda a merda que vinha passando parecia não ser nada perto da necessidade de ser forte por ela. – E preciso que lute contra todas essas vozes pessimistas, que continue lutando contra toda essa porcaria e... – suspirou. – Você fala que eu sou forte, mas você é muito mais. Você consegue enfrentar isso. Eu sei que sim. Por favor, . Não entrega os pontos. – implorou, sentindo mais lágrimas molhando seu rosto e fechou os olhos. Ficou alguns segundos de olhos fechados. Logo sentiu a envolvendo e desabou nos braços dele.
- Por que não desiste de mim? – questionou após algum tempo. Sua bochecha colada ao topo da cabeça de . Ela se afastou para encará-lo.
- Porque você está errado. Você vale a pena. – sussurrou, pousando as mãos sobre o tórax dele.
limpou as bochechas de e encostou a testa à dela. Eles se encararam por alguns segundos, sentindo um calor aquecer ambos. Ele umedeceu os lábios e passou a acariciar a bochecha dela. Viu desviar o olhar e logo depois se afastar.
- Eu conversei com o Sharpe. – ela encostou-se a uma pilastra afastada de . – Consegui algumas informações.
- Conversou? – ele questionou com uma sobrancelha erguida e um sorriso de lado.
- Interroguei. – rolou os olhos, rindo.
- Com uso da força ou ameaças? – cruzou os braços e novamente se aproximou dela.
- Só ameaças. Posso ser bem persuasiva. – respirou fundo ao notar ele perigosamente perto.
- E até assustadora. – brincou encostando na pilastra ao lado dela. – O que ele contou?
explicou tudo para . Como havia sido o interrogatório e tudo que Sharpe havia revelado.
- Se você já tem as coordenadas para os laboratórios o que estamos esperando? – ele questionou, se aproximando novamente e segurando os ombros dela.
- Então, você não está desistindo? - ela levantou os ombros e ele deslizou as mãos até seus cotovelos.
- Não. – ele meneou a cabeça e a viu sorrir.
- Nós vamos invadir esses laboratórios. Juntos. Quando você estiver bem para sair. – anunciou, se afastando. – E já que quer voltar a treinar, vou te ajudar. – ela pegou a caixa de facas do chão e logo ele apareceu para ajudá-la. – Vamos iniciar correndo para ficar em forma. – o viu abrir a boca para reclamar, mas continuou. – Começamos depois de amanhã bem cedo.

***


estava sentada na bancada que separava a cozinha e a sala tomando seu café, entretida com uma pequena aranha que descia de sua teia logo acima de sua cabeça. Lembrava-se de como costumava ter pavor de aranhas quando criança. Chorava e gritava para que o pai a socorresse. Naquela época, ela o considerava a melhor pessoa do mundo, sempre atencioso e protetor. Em sua mente infantil, ele era pintado como uma espécie de herói. A morte precoce da mãe havia feito se aproximar ainda mais do pai e até completar vinte e dois anos, eles eram inseparáveis. Foi então que tudo mudou. Três anos depois ela não tinha medo de aranhas, a vida havia lhe ensinado que havia coisas e pessoas muito mais assustadoras com que se preocupar. Seu pai era uma dessas pessoas. Ela agora conhecia a verdadeira face do homem antes admirado e amado.
Na maioria das vezes que lembranças da infância cruzavam sua mente ela se odiava. Sentia que havia sido muito estúpida em acreditar que havia bondade e amor em Hugo Bormann. Especialmente depois de mudar para casamata, passando a conhecer e encarar todos os dias tantas vítimas do vil torturador. Em alguns momentos os olhares de repulsa de algumas pessoas dali a influenciavam tanto que seu peito se enchia de temor. Medo de que seu sangue e genética falassem mais alto, que fosse parecida com o pai e tão perversa quanto ele. Cogitava que talvez estivesse mantendo esse lado cruel guardado e que a qualquer momento poderia ser dominada por ele. Pensava nas pessoas que já teve que matar e em todos os golpes que já desferiu. Lembrou como havia brincado que ela podia ser assustadora quando contou do interrogatório de Sharpe. E admitiu para si que se Sharpe não tivesse colaborado, ela não teria ficado apenas nas ameaças. Teria o machucado, assim como todas as pessoas que interrogou quando procurava por .
Talvez ela apenas precisasse de motivos para deixar a perversidade e selvageria tomarem conta de seu ser. Constatou que a possibilidade de perder poderia ter desencadeado esse processo de perda de humanidade. Semanas atrás, quando em uma das missões havia sido capturado, ela perdera o chão. Fez tudo que podia para encontrá-lo. Machucou e matou muitas pessoas e teria feito coisas piores e até bárbaras se fosse necessário. era seu ponto fraco. O homem que sempre via o melhor nela. Que sempre enxergou a pessoa que ela queria ser, que se esforçava para ser. Que nunca tinha olhado para ela com desconfiança ou asco. Um homem bom. Mesmo agora, sendo atormentado por lembranças dolorosas, tudo que ela via nele era o homem virtuoso e generoso que conhecera em um dos piores dias de sua vida. E ela sentia que toda a admiração que ele cultivava por ela cairia por terra se ele soubesse de tudo que ela era capaz. Suas reflexões foram interrompidas por uma batida na porta, olhou o relógio no pulso e viu que ainda nem eram 5h. Assim que abriu a porta, entrou sem cumprimentá-la e foi direto até a garrafa de café.
- Bom dia. – ele falou após bebericar o café. Seu rosto ainda tinha marcas feitas pelo lençol. – Está tudo bem? – questionou diante do silêncio dela, que apenas o encarava.
- Sim. Eu só... estou meio sonolenta ainda. – coçou a sobrancelha esquerda. Ele sabia que ela estava mentindo. Algo a perturbava. Decidiu não confrontá-la no momento. Teria muito tempo para fazer isso.
- Foi sua ideia ir correr tão cedo. – largou a xícara na pia e começou a fazer alguns polichinelos. – Vamos?
- Está animado. – ela terminou de beber seu café e também colocou a xícara na pia.
- Vou te provar que estou bem, para gente ir logo invadir alguns laboratórios. – começou a se alongar. – E você vai ver como eu estou sarado. – completou com um sorriso sacana e ela riu.
- Vamos ver quantos quilômetros vai aguentar.
Saíram da casamata e caminharam algum tempo por trilhas tortuosas, até alcançarem uma planície. A casamata estava em um local de difícil acesso. Isso era ótimo para evitar qualquer ataque inimigo por terra, mas era um empecilho para saídas e passeios descompromissados. sorriu, aproveitando o cheiro de terra e mato. Havia ficado preso por tanto tempo, primeiro no cativeiro e depois na enfermaria, e sentia falta de passar manhãs naquele local. Em suas corridas ou passeios para arejar os pensamentos, quase sempre tinha como companhia. Ele aproveitou o local por algum tempo e então começaram a correr.
Logo ficou claro que ainda levaria um bom tempo até estar novamente em plena forma. Ele parou por um instante, apoiando as mãos nas coxas enquanto arfava tentando recuperar o fôlego. Estava suado, a camisa completamente encharcada. Voltou a correr e se esforçou para acompanhar o ritmo de , mas logo mais paradas eram necessárias. Vendo que apesar da exaustão, não queria parar, mudou a direção. Entraram na mata e em poucos minutos chegaram a um rio de água cristalina. Ela parou e começou a se alongar. Quando virou, viu tirando a camisa e depois a bermuda.
- Está maluco? A água deve estar gelada. – comentou, passando rapidamente os olhos pelo corpo dele.
- É, mas nós estávamos correndo. – largou as roupas no chão e foi até ela.
- Não. Eu estava correndo. – passou a estalar as costas e o pescoço. – Você estava se arrastando como um idoso com tuberculose. – riu debochada e viu-o dar um sorriso maquiavélico.
não teve tempo de reagir ao que veio em seguida. a abraçou, pulando no rio e a levando junto. A ação inesperada a fez engolir água. Emergiu tossindo e passou as mãos pelos cabelos enquanto o procurava. Assim que ele apareceu ela gritou: – Eu vou te matar! – deu uma risada e ela fez uma careta raivosa. nadou na direção dele, que seguiu na direção contrária. Ficaram algum tempo feito gato e rato, mas logo estavam rindo, brincando e jogando água um no outro.
- Trégua? – ele perguntou, erguendo as mãos. Tinha as bochechas vermelhas devido à água gelada.
- Trégua. – ela mergulhou e foi até ele, emergindo a poucos centímetros de distância. Ele se distraiu, observando os traços dela e não notou suas intenções. Ela sorriu antes de pular em cima dele, o afundando. Após alguns segundos mantendo submerso, o soltou e tentou nadar para longe, mas sentiu seu pé direito sendo agarrado e depois puxado. a arrastou para perto e a abraçou.
- Agora está presa.
- Não, não estou. Se eu quiser eu me solto.
- Então você quer ficar colada a mim. Eu sempre soube. Sou completamente irresistível. – ergueu as sobrancelhas em uma insinuação e sorriu de lado. Ela rolou os olhos, mas sem intenções de se afastar.
- Só estou preocupada em te machucar no processo.
- Não se preocupe com isso, vai ter outras preocupações. – ela franziu a sobrancelha e foi a vez dele de forçar a cabeça dela para baixo. Foi apenas por um instante e então ela subiu o empurrando e passou a nadar de costas, se afastando. a observou por algum tempo com um sorriso largo e logo passou a nadar também.
Os dois passaram um bom tempo nadando despreocupados. Naqueles momentos esqueceram o passado e das cicatrizes que ele deixara, não havia traumas, medo ou arrependimentos.
Quando já estava com a pele enrugada, saiu da água. Torceu o cabelo e depois as roupas encharcadas, pesadas e grudadas ao seu corpo. ainda estava no rio a analisando, mas quando ela se afastou saindo de seu campo de visão, ele a seguiu.
- Tire essas roupas encharcadas. – ordenou, saindo da água. – Vai acabar ficando doente.
- Eu não vou ficar seminua na sua frente. – cruzou os braços e os esfregou, tentando aplacar o frio.
- Vista as minhas enquanto as suas secam. Eu que te joguei no rio com roupa e tudo.
- Tem razão, você que merece passar frio. Vire-se – exigiu e ele acatou. – Nem pense em olhar. Lembre-se que eu posso quebrar todos os ossos do seu corpo. E eu vou fazer isso se me der motivo. – ele riu, encarando as pedras no leito do rio.
retirou a blusa e o short e os estendeu em uma pedra. Enquanto vestia as roupas de , seus olhos focaram nas costas dele. Em cada cicatriz presente ali. Marcas de vários tamanhos, de queimaduras a cortes profundos, contrastando com a pele branca.
- Já se vestiu? – perguntou ainda de costas, mas estava distraída demais para ouvir. – ? – olhou para trás e ela estava vestindo a camisa. O rosto dela estava tapado, mas tinha a barriga e colo expostos. Notou uma cicatriz que começava do lado esquerdo de sua barriga, passava por sua cintura e parecia ir até suas costas. Analisou a cicatriz, curioso com a história por trás dela. Ela tinha outras cicatrizes e ele conhecia cada uma que fora adquirida desde que ela chegara à casamata. Mas apesar da proximidade entre eles, ela não compartilhava muito sobre sua vida antes da tarde em que se conheceram. voltou a olhar para frente antes que ela notasse que estava sendo observada. – Está pronta?
- Pode se virar. – ele obedeceu e em seguida ela se sentou em uma pedra. – Provavelmente vou pegar um resfriado depois de horas nessa água gelada. – ela murmurou, esfregando o nariz.
- Não reclame. Nós dois estávamos precisando disso. – afirmou, sentando na frente dela. – Uma distração.
- Tem razão. Os dias têm sido bem estressantes. – ela suspirou e abraçou as pernas. – Mas as coisas vão melhorar. Já estão melhorando. – sorriu e ele retribuiu.
- Senti falta daqui. Um lugar tranquilo e silencioso. Os sons do rio, do vento e da floresta. A casamata às vezes também é silenciosa. Mas é diferente sabe, é como se o clima estivesse quase sempre pesado, tomado por uma tensão e problemas eminentes. Essa guerra contra a República mantém uma inquietação constante. E parece que as coisas ficam mais angustiantes a cada dia. – mordeu o lábio pensativo e diante da falta de resposta de , notou que o olhar dela passeava por seu tórax analisando as cicatrizes espalhadas ali. – Está encarando meu corpo ou as cicatrizes? – levantou o tom de voz, chamando a atenção dela. – Se for o corpo tudo bem, não te culpo. Mas se forem as cicatrizes, pode ir parando. Se eu não posso encarar as suas, você também não pode encarar as minhas.
- Desculpa. É que... – começou, mas se calou, não queria externar seus pensamentos.
- O que foi? – ele levantou e sentou ao lado dela.
- A última vez que eu vi essas cicatrizes, foi... foi no dia do seu resgate. Você estava amarrado, ensanguentado e cheio de machucados. – ela falava, ainda encarando as cicatrizes. Tocou uma que antes era um enorme corte entre as costelas dele. – E eu chamei seu nome... mais de uma vez e você... você não se moveu. – os olhos dela começaram a arder enquanto tateava outras cicatrizes no tórax dele. – E por um momento eu achei que tinha te perdido. – terminou em um suspiro e sentiu a mão dele sobre a sua. Então finalmente encarou seus olhos.
- Não perdeu e nem vai.
- Desculpa por ficar tocando nesse assunto.
- Não se desculpe. – envolveu a mão dela entre as suas. – Eu que tenho que me desculpar. Eu sei que eu não tenho sido uma companhia agradável. – a viu menear a cabeça. – Tenho revezado momentos depressivos com surtos de fúria. Às vezes até fui agressivo. – ele umedeceu os lábios, olhando de relance para a cicatriz na bochecha dela. – E mesmo assim você não se afastou. Não saiu correndo. Está sempre disposta a me ajudar e eu nunca vou poder agradecer o suficiente por tudo que já fez até esse momento. E eu sei que eu ainda vou ter momentos sombrios e...
- E quando esses momentos vierem, eu vou te seguir na escuridão e arrastar o seu traseiro para fora de lá. – diante da sinceridade presente naquela sentença, sorriu. Soltou a mão de e passou a acariciar seu rosto. Ele precisava dela. Estar com ela era a única coisa que podia afastar, mesmo que temporariamente, toda a dor que o afligia. Ela era a única que conseguia renovar suas esperanças. Era o motivo dele continuar lutando.
Aquela proximidade fez suspirar. Fora algo involuntário e normalmente ela fugiria de tal situação e não demonstraria como aquilo a afetava, mas não conseguia se afastar. Estar ali sentindo os olhos dele a analisando, suas mãos a tocando gentilmente, sentindo seu cheiro, observando atentamente cada sarda, cada cicatriz e cada gota que escorria de seus cabelos até seu queixo perfeitamente desenhado fazia seu coração acelerar. E então ele se aproximou, a encarando ternamente enquanto seus polegares acariciavam suas bochechas e acabou com a distância entre as bocas. Apesar de surpresa com a atitude, rapidamente correspondeu enquanto sentia seu interior aquecer. Apenas quando ele aprofundou o beijo é que ela sentiu um alarme soar em sua mente. Todas as razões para se manter afastada piscavam como placas de neon. Cortou o beijo e se levantou apressada.
- ! – chamou, também levantando e andando até ela. Seus olhos expressavam a confusão presente em sua mente. Não conseguia entender como em um momento estava desfrutando de um momento de carinho e intimidade e no outro via ela o encarar com frieza.
- Nós não devíamos... – começou a tirar a roupa e a jogar em cima dele, não se importando se ele a visse.
- Espera.
- Precisamos ir. – vestiu rapidamente as roupas encharcadas, esquivando das tentativas dele de tocá-la. – Agora.
O silencio reinou no caminho de volta. ainda tentou começar uma conversa, até se desculpar, mas não conseguiu nada além de respostas monossilábicas. Então desistiu. Torceu para que o silêncio organizasse suas ideias.


VI. It feels like there's oceans between you and me.

Apesar dos passos apressados, o caminho até a casamata pareceu mais longo. Ambos estavam agitados e mexidos com o beijo, mas aparentemente apenas o encarava como algo positivo. não dirigiu a palavra a ele até estarem dentro da fortificação. Informou que não poderia treinar no dia seguinte e correu até sua cabine. Assim que fechou a porta ela tocou os lábios, relembrando o beijo e todas as sensações que ele havia desencadeado. Passou a mão pelos cabelos perturbada com a confusão de sentimentos e foi até o banheiro. Precisava tirar aquela roupa, tomar um banho e então tentar esquecer o ocorrido. Mas esquecer seria a última coisa que conseguiria fazer. Debaixo do chuveiro a todo momento surgiam flashes dos momentos passados com , especialmente o beijo. Então, o medo invadiu seus pensamentos. Medo que as coisas mudassem e que nada voltasse a ser como antes. Talvez tivesse sido só um beijo, parte do calor do momento. Mas poderia carregar sentimentos que arruinariam o melhor relacionamento que já tivera. Uma voz em sua mente sussurrava que ela queria aquilo, queria que tudo mudasse, queria mais do que uma amizade com . Mas então as placas de neon apareciam mostrando que ela não podia ficar com ele. Não podia nem cultivar esperanças. A inquietação crescia dentro de si enquanto considerava as várias possibilidades. Talvez só estivesse solitário, tentando lidar com toda a merda que vinha o perturbando e o beijo teria sido apenas um momento de distração para ele. Essa era uma boa possibilidade. Eles poderiam esquecer aquilo e seguir em frente. Mas talvez ele tivesse sentimentos mais profundos por ela, assim como ela tinha por ele apesar de não admitir, e se esse fosse o caso tudo mudaria.
Aquela seria mais uma noite de insônia. Desde que saiu do banho ela havia se enfiado embaixo da coberta e tentava sem sucesso pegar no sono. Já estava há horas imóvel naquela cama e a cada minuto que passava ela ficava mais agitada. Se levantou impaciente e viu que ainda eram onze horas. Trocou de roupa e saiu da cabine ainda tentando suprimir de seus pensamentos. Caminhou apressada até a ala oeste da casamata e assim que chegou a porta desejada deu duas batidas. A porta se abriu revelando Selina, que a encarou com as sobrancelhas arqueadas e logo deu espaço para ela entrar. A expressão perturbada de preocupou Selina. Ela não era o tipo de pessoa que se abatia facilmente e nem a procurava por qualquer problema. As duas eram parecidas. O tempo havia as endurecido.
No caso de Selina, esse processo havia começado mais cedo. Ainda criança se juntou a guerrilha, empunhando armas e lutando ao lado dos pais na resistência. Sua vida era marcada por lembranças dolorosas e muitas perdas. Durante os quinze anos morando na casamata, ela havia perdido todos que amava pelas mãos do governo, direta ou indiretamente, em circunstâncias traumáticas. Seus pais haviam dedicado a vida a guerrilha, inicialmente lutando contra o antigo regime e depois contra a Nova República. Se empenharam na tarefa de desestruturar os vários serviços do país, como: transporte, energia, comunicações e abastecimento, mas sua principal atividade eram ataques surpresa a instalações militares. O envolvimento nessas missões arriscadas levou à prisão de ambos e após meses de torturas e interrogatórios intermináveis, a morte. Quatro anos depois o irmão de Selina se feriu em um “atentado terrorista” forjado pelo governo, e apesar de ter sido levado a casamata às pressas, não resistiu aos ferimentos. Os horrores presenciados nos conflitos e a morte de familiares foram suficientes para o início da transformação de sua personalidade, mas foram as perdas seguintes que agravaram esse processo. Seu marido e o filho foram infectados por um vírus letal, uma arma biológica criada pelo governo e disseminada em algumas áreas para espalhar o terror. Com o crescimento dos movimentos de resistência, a Nova República buscou desenvolver novas armas, especialmente vírus e toxinas modificados em laboratórios. Em enormes laboratórios que mais pareciam campos de extermínio, utilizou presos políticos como cobaias de experimentos envolvendo vivissecções, exposição a diferentes temperaturas e a armas químicas e biológicas. Após esses experimentos, foram feitos testes com as novas armas em algumas regiões povoadas. Em poucas semanas milhares morreram e doenças se espalharam por quase todo o território.
Em um período de oito anos Selina havia perdido tudo que amava e isso fez crescer nela um desejo por vingança e violência. Passou por um período obscuro assumindo um comportamento explosivo e frio. Matou e torturou anunciando que era tudo em nome da causa rebelde, mas na verdade era apenas uma forma de externar todo ódio que sentia pelo governo. Com o tempo abandonou a violência desnecessária e indiscriminada, mas manteve a frieza. Vivia desprovida de auto piedade e sem precisar de ninguém. A vida havia escolhido um caminho solitário para ela, e ela aceitara isso. A única pessoa que conseguiu romper a barreira que havia criado era . Quando conheceu , Selina a odiou, por quem era e o que representava, mas em pouco tempo de convivência viu tudo que tinham em comum. Com o passar do tempo passaram a compartilhar um laço invisível de respeito e honestidade e apesar de terem apenas onze anos de diferença, Selina sentia um carinho quase maternal.
- O que aconteceu? – Selina perguntou assim que sentou no sofá.
- Eu preciso de um favor. – estava sentada na ponta do sofá estalando os dedos sob o olhar atento de Selina.
- Ok. Manda.
- Eu preciso que você cuide do .
- Por quê?
- Ele ainda não está recuperado. Ele atacou o Sharpe e tem tido episódios depressivos e... – começou, encarando as próprias mãos.
- Eu sei. Essa parte eu entendo. Aqueles que foram torturados continuam sendo torturados. – Selina disse com um sorriso fraco, se aproximando do sofá. – O que eu quero saber é por que você quer que eu faça isso. Achei que você queria cuidar dele.
- Eu queria, mas as coisas se complicaram. – gaguejou ainda inquieta.
- Quão complicadas? – levantou o tom de voz, chamando a atenção da mais nova.
- Ele me beijou. – disse em um sussurro e apertou os lábios. – E isso não podia ter acontecido.
- Não estou surpresa. – sentou no braço do sofá diante do olhar desconcertado de . – Sempre existiu “algo” entre vocês.
- Não fala isso.
- A cumplicidade sempre esteve presente nesse relacionamento. E tudo que aconteceu fez vocês se aproximarem ainda mais. O beijo não foi totalmente inesperado. – Selina argumentou, observando o comportamento de . – E está claro o quanto isso te afeta.
- Você sabe que não pode acontecer nada. – murmurou, apertando as mãos.
- Eu sei. – afirmou com uma expressão impassível.
- Eu só preciso me afastar um pouco. Para as coisas voltarem ao normal.
- Eu sei a resposta, mas vou te perguntar mesmo assim para que possa refletir. – começou após alguns segundos de silêncio. – O que é tão assustador, saber que ele tem sentimentos por você ou que você corresponde?
- Não tem sentimento nenhum. – esfregou a testa. – Ele só está confuso. – afirmou, tentando se convencer. – Só precisamos nos afastar por um tempo. Para acabar com qualquer tipo de confusão.
- Querida... – tocou o ombro dela carinhosamente. – Você pode fugir dele, tentar afastá-lo, mas sabe que não pode controlar como ele se sente, nem como você se sente.
- Nada disso importa. Eu só preciso ignorar isso tudo até passar.
- ...
- Eu não posso ter isso. Eu não posso tê-lo. Eu... – levantou agitada. Suspirou, passando as mãos pelos cabelos se sentindo desnorteada. – Pode fazer isso por mim? – suplicou, se aproximando novamente do sofá. – Cuidar dele, treinar junto.
- É lógico que sim.
- Ele quer ficar bem logo para voltarmos as missões.
- Acha que ele tem condições de sair?
- Ainda não. Mas logo vai ficar bem.
- Agnes não concorda. Ela veio me procurar ontem. Disse que está fora do grupo de combate.
- Ela não controla isso. – cruzou os braços e depois se abraçou. Também não podia impedir que participasse de missões, mas a possibilidade dele se machucar agora a apavorava.
- Ela é a mãe dele. Só está com medo.
- Eu sei e até concordo, mas o é teimoso, até mais que a Penny. Ele vai com a gente na próxima missão e a Agnes não vai conseguir impedi-lo.

***


entrou em sua cabine silenciosamente torcendo para não encontrar Penny acordada. Sua mente ainda estava perturbada pelos acontecimentos do dia e não queria dividir isso com mais ninguém. Dividiu suas preocupações com Selina porque se sentia sufocada e sabia que ela não daria ao assunto uma importância desnecessária. Selina conseguia lidar com as informações sem se agitar ou tentar resolver a situação. Era o oposto de Penny. A aparência das cabines era um exemplo das muitas diferenças entre elas. Enquanto a cabine de Selina era simples e com poucos móveis em tons sóbrios; a cabine de e Penny tinha almofadas, utensílios coloridos, pinturas emolduradas e móveis estilizados feitos pela mais nova. Penny era dotada de um otimismo e confiança inabaláveis. Seu entusiasmo não havia enfraquecido diante das provações que enfrentara. Era isso que aproximava as colegas de cabine. considerava Penny como uma irmã mais nova que trazia a leveza que lhe faltava. Geralmente considerava Penny uma boa companhia, mas quando se tratava de problemas emocionais, principalmente envolvendo , preferia não compartilhar.
Já debaixo das cobertas e aconchegada a seu travesseiro bufou. Não podia apagar de sua mente as feições de , nem sua voz, nem as sensações que ele provocara. Passou a encarar o teto se sentindo dividida entre a necessidade de se afastar e a culpa proveniente dessa decisão. Seria difícil se manter longe e abrir mão de uma relação de carinho e apoio, mas ela não conseguia enxergar outra saída. Sabia que fugir dele era uma atitude infantil, mas precisava evitar que aquele beijo trouxesse maiores complicações. A confusão em sua cabeça era complicação suficiente. Apenas imaginar o que poderia estar passando na mente dele já fazia sua cabeça latejar. Não estava preparada para uma conversa sincera. Não estava preparada para ouvir que ele tinha sentimentos profundos por ela e nem para ouvir que aquele beijo não tinha significado nada.

***


Dias passaram e se manteve firme em sua decisão de manter distância de . Sempre arrumava desculpas para não passar mais que poucos segundos em sua companhia. Inicialmente ele ainda tentou romper a barreira que ela havia levantado, mas logo desistiu. Conhecia bem o suficiente para saber que uma insistência da sua parte apenas pioraria as coisas. Então ele focou nos treinos e em retomar a forma para voltar a missões. Dividia seu tempo entre treinos com Selina e momentos de conversa com Ivy, que decidira assumir o papel de sua psicóloga. Os momentos com Ivy se resumiam em longos silêncios da parte dele enquanto ela se esforçava para fazê-lo falar. As tentativas dela eram infrutíferas, ele continuaria guardando tudo para si já que a única pessoa em que confiava plenamente evitava sua companhia. era a única que o deixava confortável para compartilhar as coisas horríveis e humilhantes que havia enfrentado. conseguia notícias de através de Selina e Penny. A segunda sempre tentava iniciar um interrogatório sobre o que tinha levado a aquele afastamento, situação que deixava ainda mais estressada. Estresse que era sempre combatido no salão de treinamento tarde da noite.
Após mais um dia de trabalho e um jantar recheado de perguntas e comentários inconvenientes, entrou no centro de treinamento determinada a descarregar toda a irritação em um saco de areia. Assim que entrou no local, quis dar meia volta, mas sua presença já havia sido notada. e Selina lutavam no ringue e pararam assim que ouviram o barulho na porta. Os olhos de passaram rapidamente pelo tórax descoberto dele e quando encarou seu rosto viu ele abrir um largo sorriso.
- Vem lutar comigo. – passou uma toalha pela testa suada. – Selina já está cansada de perder. – apontou para mulher que havia se abaixado para pegar a garrafa de água.
- Aposto que ela chutou seu traseiro. – comentou, sorrindo. Sentia falta de passar seus dias na companhia dele.
- Chutei. – Selina afirmou, rindo. – Repetidamente. – foi atingida pela toalha de .
- Vem. – ele se apoiou em uma das cordas que cercavam o ringue. – Nós não lutamos há meses.
- Melhor não. Preciso bater em algo que aguente a força desses punhos. – comentou, gerando mais risadas em Selina. fingiu levar uma facada. – Bom treino para vocês. – caminhou rapidamente até o outro lado da sala. Tentou se concentrar apenas nos golpes que desferia no saco de areia. Após alguns minutos ouviu barulho de passos, mas não conteve os socos, chutes e joelhadas. parou ao lado do saco, a observando de braços cruzados. Ele estava suado e ofegante e ela tentava não se desconcentrar nem desviar o olhar do alvo de seus golpes.
- Você pode me olhar, sabe. Não é perigoso. – ele começou com um tom brincalhão. – Sei que tem faísca entre nós e você quer arrancar minhas roupas 90% do tempo em que estamos juntos, mas acho que consegue se controlar por alguns segundos. – ela ignorou os comentários e continuou golpeando o saco de areia. – Sério? Nenhuma risada ou olhar de desprezo?
- Eu estou meio ocupada. – murmurou, desferindo os golpes mais rapidamente.
- É meio irônico você ter me abandonado depois de dizer que não faria isso. – sorriu amargamente e viu ela franzir a sobrancelha por um momento.
- As coisas se complicaram. – não parou os golpes mesmo abalada por aquelas palavras.
- Por causa do beijo, eu sei. E nós precisamos conversar. – segurou o saco de areia e bufou.
- Não, não precisamos. – ela foi até sua garrafa de água, ainda evitando contato visual.
- Eu só preciso de dois minutos. – se aproximou massageando a nuca. – Eu quis te dar espaço, mas agora precisamos conversar. – ela se virou, finalmente o encarando e se arrependeu disso. – Eu quero te entender. Isso parece certo para mim. – apontou para si e depois para ela. – Eu só quero saber por que é tão errado para você. – mordeu o lábio esperando uma resposta, mas ela apenas esfregou a testa e suspirou. – Talvez seja por eu estar tão ferrado por tudo que aconteceu.
- ... Não tem nada a ver com isso.
- Ou talvez você ache que você é tão ferrada que não merece ser feliz.
- Para. Não fica tentando me analisar. Você não... – se afastou e recolheu a garrafa e a toalha, mas foi interrompida.
- Eu gosto de você e nós...
- Não gosta. Você só está confuso. Com tudo que aconteceu e eu estava do seu lado, mas isso não significa que você goste de mim. – ela ajeitou as faixas em suas mãos. Queria fugir dali.
- Você sempre esteve do meu lado. Bom, não nas últimas semanas. – suspirou e deu um sorriso fraco. – Eu não vou ser um babaca te pressionando e exigindo qualquer coisa de você. Você me conhece. Eu não sou um cretino. Eu só preciso que você me escute. Tem algumas coisas que eu preciso te falar e você pode, por favor, só me escutar. – suplicou, encarando-a, e ela balançou a cabeça assentindo. – Quando eu estava naquela fábrica, minha maior preocupação era você. – deu dois passos na direção de . – Eu ficava pensando se eles tinham conseguido te capturar, se estava bem e segura. Eu estava preocupado com os outros também. Me importo com eles. Mas... pensar em qualquer coisa acontecendo com você sempre foi mais doloroso e eu achei que era só por sermos tão próximos e bons amigos, mas é maior que isso. Eu gosto de você e acho que eu já sinto isso há algum tempo. – meneou a cabeça e deu alguns passos para trás, esbarrando em um aparelho.– E eu acho que você também sente algo por mim e devia refletir sobre isso. – ele novamente se aproximou. – Mas se não, tudo bem. Está tudo bem se você não sente nada. Você não me deve nada. Não precisa se afastar ou fugir. Nós somos bons juntos, como amigos, parceiros no trabalho e eu preciso de você. Só... pare de fugir. – completou e então segurou a mão dela por um instante e se afastou.
ficou parada com um olhar perdido e suspirou ao ouvir o barulho da porta. Ajeitou as faixas e voltou a golpear o saco de areia, enquanto tentava administrar tudo que havia falado. Após alguns minutos viu Selina se aproximar.
- Você está bem? – questionou preocupada.
- Ótima. – parou a atividade e passou a encarar Selina.
- Conversei com a Agnes mais cedo. Vamos semana que vem.
- Dividiu os dois laboratórios entre os grupos de combate?
- Não. Vamos vasculhar ambos. Ela disse que tem tarefas distintas para os outros.
- vai com a gente? – perguntou após alguns segundos de silêncio.
- Sim.
- Acha que ele está pronto?
- Pelo que vi, sim. Não concorda?
- Confio no seu julgamento. – falou, tentando parecer convicta daquela decisão. Não queria que fosse. Mas não queria soar superprotetora ou pior: apaixonada.
- Ok. Vou deixar você treinar.
Assim que Selina se afastou chutou o saco de areia com força desejando que as coisas fossem mais fáceis. Queria poder voltar no tempo e evitar a aproximação com . Queria que as coisas não tivessem mudado. Não possuía tal habilidade, tudo que podia fazer agora era tentar conter qualquer dano causado pelo beijo.

***


Finalmente chegou o dia de voltar à ativa. Estavam no caminhão indo em direção ao centro de pesquisa indicado por Sharpe. Tomado pela ansiedade, já tinha limpado, desmontado e remontado suas armas diversas vezes. Penny fez algumas tentativas de iniciar uma conversa, mas permanecia um silêncio constrangedor no baú, então voltou sua atenção a um comunicador que precisava de reparos. estava sentada do lado oposto ao de e o observava enquanto ele estava distraído com as armas. Notou alguns machucados em suas mãos e braços. Estava tão preocupada em manter distância que até aquele momento não havia notado aquelas marcas já em processo de cicatrização. Ele ainda lutava contra os traumas e tentava lidar com gatilhos que podiam ativar memórias e alucinações. se sentiu inundada pela culpa, um fardo já bastante familiar. Se sentia envergonhada pela covardia que a mantinha afastada enquanto ele lidava com tanta coisa sozinho. Após alguns momentos de reflexão e depois hesitação ela se levantou e foi até ele. Sentou ao lado de silenciosamente e começou a limpar as próprias armas. Ele parou de desmontar a pistola e a encarou por alguns segundos. Sorriu antes de continuar sua atividade. Não precisava de um pedido de desculpas e nem nada do tipo. Só precisava daquilo. Ter a certeza de que ela estaria ali ao seu lado.
Já no centro de pesquisa, se dividiram em dois grupos para vasculhar os três andares. Encontraram salas de arquivos reviradas, e laboratórios de botânica e biologia molecular há muito saqueados. Vários equipamentos estavam destruídos e o chão coberto por cacos de vidro e todo tipo de entulho. Uma única sala ainda estava em bom estado, mas continha apenas algumas espécies de plantas imersas em tonéis de líquido viscoso. permaneceu todo o tempo atenta aos movimentos de , temendo que algo pudesse desencadear alguma reação negativa nele. Após horas examinando o local aquela parecia ser uma viagem perdida, mas enquanto vasculhava o sistema, Penny conseguiu a localização de outros centros ligados ao grupo Minerva.
Nos dias que se seguiram invadiram outros dois centros, em locais muito afastados do primeiro. Um possuía laboratórios de microbiologia e o outro, laboratórios de química e físico-química. Ambos também já haviam sido saqueados e estavam parcialmente destruídos. Dias depois alcançaram o quarto centro que estava em um local de difícil acesso e tinha sua fachada deteriorada pelo tempo. Novamente fizeram uma inspeção minuciosa nos três andares, sendo que um andar era administrativo e os outros dois dedicados a biofabricação de tecidos e órgãos. Salas que antes guardavam órgãos sintéticos, agora estavam completamente vazias.
Apesar desse centro estar em uma situação de descaso e degradação parecida com os outros, Penny sentia que havia algo errado. Enquanto vasculhava o sistema, notou que as configurações de segurança eram muito mais reforçadas do que as dos outros prédios. Descobriu que os elevadores possuíam um sistema de segurança independente e aquilo a intrigou. Levou alguns minutos de análise até que descobrisse que um dos elevadores era de alta velocidade. Não havia sentido em ter um elevador de alta velocidade em um edifício com tão poucos andares, o que significava que haviam muitos andares no subterrâneo.
Todo o grupo entrou no elevador e Penny destravou os modos de segurança, garantindo acesso a 20 andares subterrâneos. Descobriram diversos andares focados unicamente em engenharia genética. Todos inteiros e quase impecáveis, não fosse pela poeira acumulada nos aparelhos. Muitos laboratórios branquíssimos e bem equipados para a manipulação genética. Salas com aparelhos robóticos desconhecidos por eles. E parecia que a cada nível que desciam as coisas ficavam mais estranhas. Uma sala gigantesca com uma esfera prateada enorme ligada por diversos tubos no centro e que parecia emanar uma energia fortíssima. Outra com uma espécie de reator em formato hexagonal que ocupava uma parede inteira e brilhava oscilando entre um tom hora esverdeado, hora azulado. No 17º andar diversas salas com um tipo de gaiola de vidro no centro, com pequenas turbinas na parede que apesar de desativadas, emitiam um zunido constante e fantasmagórico. O 18º tinha um triângulo com vários cabos, cada um se ligando a uma sala, e cada sala recheada de esferas de vidro com animais anômalos flutuando em um liquido fluorescente. No 19º, diversos tubos intercalados a tanques de água cercados por grossas grades e aparentemente vazios. Cada nível revelava surpresas, e o grupo buscava recolher o que aparentava ser útil e registrar informações sobre tudo o que viam.
Apesar do enorme número de anomalias encontrados, nada poderia prepará-los para o que havia no 20º nível. Quando saíram do elevador se depararam com uma sala espaçosa. Uma interface cobria o lado esquerdo e outra o lado direito e na extremidade da sala estava uma pequena caixa com uma luz vermelha ligada a diversos cabos que iam até o teto. Atrás da caixa, uma porta larga que brilhava conforme a luz da caixa piscava. Atravessaram a sala assim que Penny se certificou que tal ação era segura, desviaram da caixa e atravessaram a porta. Na sala seguinte, diversos pequenos tubos com substâncias desconhecidas do lado direito e do lado esquerdo haviam alguns computadores, mas não prestaram atenção em nada disso. Outra coisa chamava a atenção do grupo. Do outro lado da sala, entre diversos braços robóticos, estava um tubo que ia do chão ao teto e dentro dele um homem flutuando em um líquido transparente ligado a diversos fios.
Enquanto observava o homem dentro do tubo sentiu o coração acelerar. Deu pequenos passos na direção do tubo e sentiu a respiração mais pesada a cada passo. Quando estava perto o suficiente estendeu a mão direita e a ergueu quase tocando o tubo, sentindo a mente girar diante da certeza de que conhecia o homem de cabelos pretos na sua frente.


VII. I'm busy erasing voices of the dead

- Não pode ser ele. – Selina começou atordoada. – Isso é impossível. – observou que todos a sua volta carregavam expressões de descrença. Bom, quase todos.
- Vocês conhecem ele? – Penny questionou, se aproximando do tubo e analisando atentamente o homem que parecia não ter mais que trinta anos. – É bonito.
- Não reconhece? – Dax estava surpreso por Penny não reconhecer o rosto do herói da revolução que havia derrubado o antigo regime. – Temos um monumento o homenageando na casamata. – a expressão confusa de Penny se converteu em espanto.
- Esse é Charles Kane? – perguntou agitada, sentindo sua mente ser preenchida por dúvidas e confusão. – Não faz sentido. Ele deveria estar mais velho.
- Devia estar morto. – murmurou amargamente e ao desviar o olhar do homem no tubo, notou o encarando preocupada.
- Se Charles Kane está morto, então o que é isso? – Penny caminhava em volta do tubo tentando entender a situação. O homem não estava morto. Na verdade, ele estava em animação suspensa. Do lado direito uma interface registrava seus sinais vitais. – Forças obscuras criaram um clone? – questionou enquanto analisava os controles nos painéis atrás do tubo.
- Não é possível criar clones humanos. Todas as tentativas falharam. – Selina também se aproximou do tubo, maravilhada.
- Mais da metade do que vimos hoje nós achávamos impossível. – disse Dax, sentindo calafrios ao lembrar de todas as coisas estranhas que haviam presenciado nos diversos níveis.
- E se ele nunca morreu? E se nós só achamos que ele morreu? – Penny expôs a ideia que não lhe parecia tão absurda.
- Ele está morto há dezesseis anos, Penny. Eu tenho certeza. – ainda estava atônito encarando o homem. A sala parecia cada vez mais fria, mas não era isso que lhe gerava um frio na espinha e o tremor nas mãos.
- E mesmo se ele estivesse vivo, devia estar mais velho. – Selina concluiu, observando cada detalhe de cada instrumento presente na sala.
- O que é menos improvável: ele ser um clone ou nunca ter morrido? – Penny passara a mexer nos controles, buscando mais informações.
- Talvez é só alguém parecido com o Charles.
- Um filho talvez? – Dax sugeriu.
- Todo esse complexo é muito sinistro para esse homem ser só alguém parecido com ele. – Penny afirmou, tocando o tubo. Após alguns segundos de silêncio, continuou. – Mas então, o que vamos fazer? Não podemos deixar ele aqui.
- Por que não? – parecia ter sido tirado de um transe. Logo sua voz adquiriu um tom nervoso. – Até onde sabemos, isso pode ser uma armadilha.
- Esse lugar está abandonado há anos. – Penny argumentou e viu a agitação de aumentar. Ele suspirou antes de responder.
- Só pode ser uma armadilha. Ele está morto. Devia estar morto. – passou as mãos pelos cabelos, perturbado. ouvia a conversa ainda encarando o homem no tubo. Queria entender o que estava acontecendo. Também queria ir até e então acalmá-lo, sentia como ele estava alterado através de seu tom de voz, mas não ia fazer isso. Não podia correr até ele e tocá-lo, não podia confundir ainda mais as coisas. Sabia o que Charles Kane significava para , mas mesmo assim se segurava.
- Nós vamos tirar ele daqui. – Selina ordenou e fez um sinal para que Penny fosse até os painéis novamente.
- Se fizer isso vai acabar matando todos nós – rosnou, já sentindo a raiva tomando seu ser.
- ... – Selina começou, mas foi interrompida.
- Esse não é o Charles. – ele gritou, recebendo olhares surpresos. – Eu estava lá quando ele morreu. Eu o vi me encarando ensanguentado e cheio de ferimentos de bala. E aí... Eu vi minha mãe se jogando em cima dele numa tentativa inútil de estancar o sangramento. Eu o vi agonizando, se engasgando no próprio sangue... – sua voz estava trêmula, raivosa e a respiração rápida. O rosto vermelho com veias saltadas.
- Eu sei, eu sei... – correu até ele. Se aproximou com os punhos fechados. Não queria tocá-lo. – E eu sei o quanto isso te afeta. Mas esse sendo o Charles ou não, nós precisamos investigar. Nós precisamos saber por que ele está aqui, escondido em um andar subterrâneo. Levá-lo, analisá-lo e interrogá-lo é a decisão certa. – argumentou enquanto o observava tentando acalmar a respiração. – Eu preciso que confie em mim dessa vez.
- Eu sempre confio, mas dessa vez não posso. Mas claramente também não posso impedir isso. Todos parecem concordar. – observou os rostos atentos a sua volta. Se afastou de e foi para perto da porta. Assim que a atenção de todos se voltou novamente para o tubo, pegou a arma que estava em sua cintura e começou a passar o indicador lentamente pelo gatilho. Não hesitaria em fazer o necessário para manter todos a salvo.
- Ele vai acordar assim que o tirarmos daí? – Selina perguntou para Penny, que estava concentrada mexendo nos controles.
- Não. Ele está hibernando. Pode levar horas ou até dias para acordar.
Após alguns minutos analisando as informações armazenadas nos painéis e de se certificar que faria tudo corretamente para não matar o homem enquanto tentava libertá-lo, Penny acionou os controles. O nível da água começou a baixar conforme o vidro abaixava lentamente. Selina e Dax se posicionaram para retirar o homem de sua prisão de vidro. Seguraram ele e retiraram os fios espalhados por seu tórax. Quando o último fio foi retirado um zunido foi ouvido. Logo uma luz vermelha começou a piscar e a temperatura abaixou rapidamente. O local havia entrado em modo de segurança. Dax jogou o homem nas costas e todos pretendiam deixar o local rapidamente. Um urro de dor chamou a atenção do grupo. Todos voltaram sua atenção para que caiu de joelhos.
- ! – correu até ele e se jogou de joelhos na sua frente. – Você está bem? – tocou seu rosto e tateou seu tronco procurando ferimentos. Ele levou as mãos até a cabeça enquanto grunhia e sussurrava coisas ininteligíveis, o que aumentou a preocupação dela. tentava chamar a atenção dele que parecia estar em transe. Ela ouviu as reclamações de Dax sobre a necessidade de sair dali, mas não prestou atenção em nada que disse depois disso. – , por favor. Nós precisamos ir. – puxou o rosto dele, mas seu olhar estava perdido. Era como se ele não estivesse ali. Mais uma vez ele sentia como se ainda estivesse em cativeiro. Quando o zunido começou e a luz vermelha passou a piscar, ele sentiu um impacto em sua cabeça e ficou atordoado como se tivesse sido golpeado. A dor aguda o jogou no chão e então foi tomado por um medo feroz e desolador. Sentia a dor de ser repetidamente golpeado em várias partes do corpo. Cada local em que sentia um golpe parecia queimar e em alguns pontos parecia que a pele se abria. O reflexo da luz vermelha era visto por como se fosse seu sangue se esvaindo e se espalhando pelo chão. Travou o maxilar com tanta força que dores agudas também tomaram o local. Não notava a presença de o chamando desesperadamente, pois as vozes de seus torturadores eram uma presença constante, como fantasmas o assombrando. – ! – gritou, puxando novamente o rosto dele. Dessa vez o segurou encostando as testas e depois os narizes em uma tentativa de fazê-lo encará-la. – Eu estou aqui. Você não está sozinho. Você está bem, está aqui comigo. – pressionava a testa a dele, sentindo a agonia a sufocando. – Por favor. – implorou em um sussurro. Se sentia impotente não conseguindo libertá-lo do pesadelo que estava vivenciando. Diante do insucesso de suas tentativas, puxou novamente o rosto de e o beijou. Após alguns segundos ele se afastou.
- . – encarou a mulher, se sentindo aliviado ao perceber que os golpes não eram reais.
- Precisamos sair daqui. – ela o ajudou a se levantar e ele se apoiou nela, se sentindo tonto e fraco. Foram juntos até o elevador. Ele, com um caminhar lento pois não tinha total controle das pernas e ela o suportando, sendo forte pelos dois.

***


Com a ajuda de Penny, Dax colocou o homem desacordado no baú. e entraram logo depois, o segundo ainda com certa dificuldade motora. Dax desceu, fechou a porta do baú e foi até o banco do carona para que finalmente Selina os guiasse para longe daquele local insólito.
No baú, todas as atenções estavam voltadas para o homem idêntico a Charles Kane. Penny se afastou do homem inquieta, não estava acostumada a ficar no escuro. Os mistérios que envolviam o homem pareciam corroer seu interior. Precisava saber a verdade por trás daquela situação. Perdida entre um emaranhado de suposições desconexas, ela se assustou ao encarar .
- Abaixa a arma! – ordenou aflita. se virou, se deparando com apontando uma pistola para o homem desacordado.
- Me entregue a arma. – se aproximou lentamente dele que, ainda fraco, se apoiava a parede metálica.
- Eu preciso proteger vocês.
- Não queremos um tiro acidental. Acha que no seu estado é seguro estar com uma arma? – ele engoliu seco e abaixou a arma após alguns segundos de hesitação. – Se ele acordar e tentar algo eu vou cuidar dele, ok? – assentiu enquanto entregava a arma.

***


As horas até a casamata pareceram ainda mais longas preenchidas pela apreensão de cada um dos integrantes do grupo de combate. O trajeto fora especialmente angustiante para e . Ele, completamente atormentado pela presença de um fantasma do passado, e ela, preocupada com e perturbada com a possibilidade de que uma alucinação pudesse levá-lo a tentar algo de que iria se arrepender.
Assim que chegaram à casamata Selina ordenou que e Penny descarregassem o caminhão e catalogassem tudo que haviam trazido. Enquanto isso, Selina e Dax levariam o homem até uma cela especial. Depois Dax levaria até a enfermaria e em seguida relataria para Agnes tudo sobre a missão.
Enquanto descarregava o caminhão, Penny apenas a observava. Após algum tempo, a mais nova sentou em uma caixa encarando o nada com a sobrancelha franzida.
- ! – a mulher apenas resmungou em resposta. Estava ignorando o fato de Penny não estar trabalhando porque não queria conversar. Queria apenas terminar a tarefa para ir checar . – Por que o ficou tão perturbado com o Charles?
- Não sabemos se é realmente o Charles. – analisava o conteúdo de uma caixa sem prestar muita atenção na agitação de Penny.
- Clone, filho, sósia, sei lá. O que quero saber é por que ele afeta o . – questionou, roendo a unha do polegar.
- Eu moro aqui há uns dois anos e já sei a história. Por onde andou todo esse tempo?
- Muito ocupada no meio de máquinas para me importar com a vida alheia. – rebateu ácida e riu. – Mas me conta o que sabe. – exigiu ansiosa.
- Não. Aparentemente você não gosta de fofocas. – provocou e entrou no baú para buscar outra caixa.
- Quer que eu implore? – Penny seguiu e fez uma careta quando ela lhe entregou uma caixa pesada. – Eu vou implorar.
- Não precisa. – sentou em uma caixa e logo Penny repetiu o gesto. – Há vinte e dois anos, Agnes e Leon, o marido dela, se envolveram com a resistência. Eles se uniram a uma guerrilha decididos a lutar contra o antigo regime. Lá eles conheceram o Charles e trabalharam juntos para desestabilizar o governo. – Penny escutava atentamente enquanto tamborilava os dedos na caixa metálica. – Pouco tempo depois, a Agnes se apaixonou pelo Charles... – os olhos de Penny se arregalaram e ela apertou as extremidades da caixa.
- O que? Como assim? É sério isso?
- É. E todo mundo da casamata sabe.
- Eu não acredito que a Agnes e o Charles... – Penny começou a gesticular exageradamente atropelando as palavras. – Espera, rolou algo ou só ficou no plano platônico?
- Eles se envolveram enquanto ela ainda estava casada e... – foi interrompida por um grito de Penny.
- Nossa! Ela sempre pareceu tão séria. E o que aconteceu?
- Leon descobriu e... – começou, mas não conseguiu terminar a sentença. Suspirou, sentindo novamente toda a dor que sentira quando lhe contara aquela história.
- Ele com certeza não lidou bem com isso. – voltou a roer as unhas, ansiosa.
- Ele denunciou ela. – sua voz era quase um sussurro. Carregada de dor e rancor. – Ajudou o governo a prendê-la e ela foi parar nas mãos do meu pai. – sentiu os olhos arderem e encarou o chão. Não se assustou com a reação explosiva de Penny. Havia reagido da mesma forma.
- Como ele pôde fazer isso? – berrou indignada, seu interior era uma mistura de ódio e incredulidade. – Todo sofrimento que ela passou foi culpa dele. Ele não pensou nela e nem no . O era só uma criança na época. Eu odeio ele. Eu não o conheço, mas já odeio. E aquele desgraçado fez isso pelo que? Ego ferido? Como alguém pode ser tão horrível assim?
- Meu pai é um torturador. Me pergunto isso todos os dias. – encarou Penny com um olhar triste e viu que os olhos dela estavam marejados.
- Eu sinto tanto pela Agnes, pelo , por você... – se levantou e sentou ao lado de inclinando a cabeça sobre o ombro dela. – Mas se o Leon é o culpado, por que o odeia o Charles? – questionou após alguns segundos de silêncio.
- Acho que ele associa o Charles ao sofrimento da mãe.
- Ele deve ter sofrido tanto com tudo isso. E agora o Charles está de volta. – bufou encarando o nada. – Como será que a Agnes vai receber a notícia?
- Eu não sei. Ela o amava e viu ele ser brutalmente assassinado. Como lidar com algo assim?

***


A movimentação na área de confinamento era o oposto da discrição exigida por Selina. Ninguém podia saber da presença de alguém idêntico a Charles Kane na casamata. Ele seria considerado uma espécie de "messias ressurreto" e isso causaria balbúrdia e complicações. Selina já havia explicado isso para todos presentes ali, mas Agnes parecia não estar utilizando a razão no momento. Exigia que sua entrada fosse permitida, aumentando cada vez mais o tom de voz. Ela havia entrado na cela minutos antes, mas agora Selina barrava sua entrada. O motivo era que o homem estava sendo examinado por Ivy enquanto Dax os vigiava. Selina e tentavam convencer Agnes a esperar, mas esta parecia irredutível, bradando aos quatro ventos sobre seu direito de estar ali. Além de ser a líder do local, estava diante do homem que acreditava ter morrido há dezesseis anos. O homem que amou com todas as suas forças e que continuava amando mesmo após tantos anos. Acreditava que tinha todo o direito de estar lá dentro. Queria ser a primeira pessoa que ele visse quando acordasse. Mas apesar de sua insistência, Selina não mudou de ideia. Selina já estava estressada com toda a situação e a cada minuto ficava mais impaciente com a mulher histérica na sua frente. Momentos antes, teve que tirar Agnes da cela porque ela não conseguia se conter. Nos poucos minutos em que viu Agnes ao lado do homem, presenciou um lado completamente desconhecido dela. Entendia seu desespero, mas nem sabiam se aquele era realmente Charles. Além disso, Selina estava preocupada com . Ele havia passado apenas dez minutos na enfermaria e depois correra até a área de confinamento preocupado com o bem-estar de sua mãe. E claramente ele tinha todas as razões para estar, porque no momento Agnes ameaçava Selina.

***


Após quase duas horas descarregando o caminhão e catalogando tudo, e Penny caminharam apressadas até a área de confinamento. Assim que alcançaram aquele andar, ficaram incomodadas com a iluminação bruxuleante e o ar gelado daquela área da casamata. Passar pela cela de Jordan Martinez aumentou o desconforto de . Lembrou da fatídica noite em que ele tentara atacar . Ela havia cumprido a promessa que fez a Agnes. Não contou para sobre o ocorrido. Aquele era mais um segredo que ela guardava dele com a intenção de protegê-lo. Mais uma omissão que lhe corroía por dentro. Ao chegarem no setor mais bem protegido daquele andar, se depararam com Agnes sentada em uma cadeira de plástico com as mãos algemadas. Antes que Penny pudesse perguntar o que havia acontecido, Selina se aproximou com uma expressão nada amigável.
- As coisas estão mais agitadas do que eu esperava.
- Dá para perceber. – Penny comentou observando Agnes, que respirava rapidamente e apertava os joelhos com força. – Ela não parece bem.
- Cadê o ? – perguntou preocupada.
- Ele acabou de sair daqui. Disse que precisava tomar um ar. Foi naquela direção. – apontou para o corredor do lado esquerdo e viu se afastar.
encontrou sentado no chão no fim de um corredor mal iluminado. Sentou ao lado dele em silêncio, pois não sabia o que dizer. As coisas estavam mais confusas do que nunca.
- Eu achei que as coisas não podiam ficar mais ferradas. E aí um fantasma ressurge. – ele murmurou após um longo silêncio.
- Eu sei. Eu odeio isso. E nós estamos escuro. Em momentos assim queria ter um superpoder para descobrir tudo. O que acha de telepatia? – questionou divertida e viu ele sorrir. – Como você está? – passou a mão pelos cabelos dele.
- Preocupado com a minha mãe.
- Vamos cuidar dela.
- Eu estou com medo, . – confessou, angustiado, finalmente a encarando. – Por ela, por todos nós.
- Nós vamos lidar com isso. Juntos. – passou a acariciar seu rosto. Naquele momento não permitiu que dúvidas e preocupações preenchessem sua mente. Sabia que ele precisava dela.
- Obrigado. – sussurrou, se aproximando lentamente, seu olhar intercalando entre os olhos e a boca dela. Ela então o puxou para um abraço apertado. Queria tirar todo o peso da angústia que ele carregava.
Voltaram para a companhia dos outros após alguns minutos. Agnes ainda estava na mesma posição, mas agora tinha ao seu lado tentando acalmá-la. A porta da cela rangeu e Ivy foi recebida por olhares ansiosos.
- Ele acordou. – assim que a sentença foi ouvida, Agnes pulou da cadeira e estendeu os braços para que Selina pudesse abrir as algemas. A contragosto, Selina obedeceu. Agnes e Selina entraram no quarto e decidiu segui-las, mas antes que alcançasse a porta sentiu segurando seu braço.
- Fica. – pediu em um sussurro.
- Eu preciso protegê-la.
- Dax e Selina estão lá. Vão cuidar dela.
- É meu dever protegê-la. – ele afirmou ainda sem se mover.
- E o meu é proteger você. – deu um pequeno sorriso e logo sentiu a mão de deslizar por seu braço até alcançar sua mão.


VIII. But every day I found new ways to hurt you

Penny correu até a sala se atrapalhando na tarefa de abotoar o macacão. Estava atrasada para o trabalho, coisa que não costumava acontecer. Os acontecimentos do dia anterior haviam conseguido tirar seu sono. Tomou café rapidamente, queimando a língua no processo. Calçou as botas e ao abrir a porta da cabine deu de cara com que estampava profundas olheiras. Puxou a amiga para dentro e a sentou no sofá.
- Passou a noite com o ?
- Por que está falando engraçado?
- Queimei a língua. – fez uma careta. – Passou a noite com o ?
- É, dormimos naquelas cadeiras desconfortáveis esperando a Agnes. – estalou o pescoço e se recostou no sofá. Estava exausta. – Ele não quis sair de lá sem ela.
- Ela passou a madrugada inteira lá? – sentou ao lado da amiga, não mais se preocupando com seu atraso.
- Sim, só saiu por que a Selina a obrigou. – fechou os olhos e massageou as têmporas, sentindo os efeitos da noite mal dormida.
- Não dá nem para imaginar o que ela está sentindo. – comentou tristemente. – Ela o amava e achou que ele estava morto por tanto tempo. E agora ele está aqui.
- Ainda não sabemos se é mesmo o Charles.
- Para Agnes é o Charles sim. Por que é isso que ela quer. Ele vivo e do lado dela. É a mesma coisa com navegadores e sereias. – afirmou, gesticulando aflita, e a encarou confusa. – Eles tinham tanta certeza que sereias existiam que eles realmente as viam.
- Achavam que viam. Qualquer golfinho acabava se tornando sereia na visão deles.
- Mas isso não é impossível.
- Golfinhos virarem sereias? – franziu a testa, confusa pelo cansaço, e Penny riu.
- Não. Charles estar vivo. – explicou entre risadas.
- Ele foi morto em um atentado. Fuzilado. Um corpo velado com vários furos a bala.
- Talvez tenha mais nessa história. Devíamos exumar o suposto corpo. – a mais nova estava convicta de que havia alguma trama sinistra por trás da situação.
- Não. Selina até pensou nessa possibilidade. Mas Agnes falou que ele foi cremado. – Penny bufou insatisfeita, mas logo voltou a cogitar novas teorias.
- Podem ter trocado o corpo antes da cremação. – sugeriu com os olhos arregalados.
- Se ele fosse verdadeiramente o Charles, deveria pelo menos ter as cicatrizes dos tiros. – rebateu pensativa. – E também deveria estar mais velho. Ele aparenta ter uns trinta, mas devia ter a idade da Agnes.
- Talvez o tratamento que fizeram pra manter ele vivo também retirou as cicatrizes e o manteve jovem. – insistiu em sua teoria de uma conspiração. – Ele não tem nenhuma marca ou sinal que a Agnes possa reconhecer?
- Não.
- E a Selina já o interrogou? – questionou e viu assentir.
- Ela falou que ele não se lembra de nada. E que parecia genuinamente assustado.
- Então... ele pode ser o Charles com amnésia. – sugeriu, absorta em meio as suas hipóteses.
- Ou é um clone que não se lembra de nada porque não tem memória nenhuma. Nasceu e viveu naquele laboratório até nós o libertamos.
- Tem algum teste que a gente possa fazer?
- Ivy já fez alguns exames e já está no laboratório fazendo testes buscando alguma anomalia no DNA dele. Mas é possível que não apareça nada nos exames e continuemos na dúvida.
- Talvez a Agnes consiga fazer ele se lembrar de algo.
- Ela está acreditando nisso. – fechou os olhos por um instante. A esperança inabalável de Agnes a perturbava. A pena que sentia lhe causava estranheza. Aquela mulher forte não deveria ser digna de pena.
- E dá pra culpá-la? Eu nunca me apaixonei, então eu não tenho nem noção do que ela está sentindo agora. Mas tenho certeza que é algo avassalador e... – parou de prestar atenção em Penny e se perdeu em devaneios. Imaginou se fosse ela no lugar de Agnes naquele cenário. Imaginou como seria assistir morrer violentamente e então passar anos lidando com a dor e o luto. E aí reencontrá-lo anos depois. Sabia que estaria como Agnes. Repreendeu-se pelos devaneios e percebeu que Penny a encarava.
- O que?
- Eu perguntei como o está.
- Péssimo. Está muito preocupado com a Agnes e com medo dessa situação. E talvez ele tenha razão. Talvez o nosso 'hóspede' seja só uma armadilha deixada lá para nós acharmos e fomos estúpidos o suficiente para cair. – passou a encarar o teto.
- Ou talvez ele seja alguém que estava preso e nós o ajudamos. Charles possivelmente.
- Eu queria ter o poder de tirar toda a aflição que ele está sentindo. – confessou após alguns segundos de silêncio. Penny percebeu imediatamente que ela falava de e suspirou.
- Você já faz muito. É a âncora dele.
- O que? – encarou a amiga com as sobrancelhas franzidas.
- Você é o que o mantém são.
- Não. Eu não sou isso. Eu só... não posso. – se levantou agitada. – Eu vou tomar um banho. E você tem que ir. Já está atrasada.
- É... eu tenho que correr. – foi até a porta, mas antes de abri-la se virou novamente para . – Quando é meu turno vigiando nosso "hóspede"?
- Selina e Dax estão revezando a vigia. Ela falou que se for precisar da gente avisa.
- Ok. Bom descanso.
- Até mais tarde.

***


Uma semana após a chegada do homem misterioso o grupo ainda não havia tido nenhum avanço em descobrir sua verdadeira identidade. Apesar dos esforços de Agnes, ele parecia não se lembrar dela, nem de qualquer outra coisa. Os interrogatórios feitos por Selina também estavam sendo infrutíferos. Selina revezava a vigia com Dax e com Mitchell, um oficial de segurança designado pelo chefe Graham. Graham estava extremamente temeroso com as possíveis intenções do "hóspede" e então decidiu colocar alguém de sua confiança para vigiar o sujeito. continuava muito preocupado com a mãe e tinha se preocupando com ele o tempo todo.
Apesar de seu cérebro ordenar que se afastasse de , mantinha a proximidade. Não podia abandoná-lo nesse momento. Não podia fazer isso novamente. Mas o acompanhava com reservas. Não queria que ele confundisse as coisas. Evitava contato físico e se esquivava delicadamente de suas tentativas de tocá-la. Ele não cobrava nada dela pois temia que isso a afastasse.
Agnes resolveu autorizar que o filho voltasse ao trabalho ansiando que isso o ajudasse a se distrair. Estava aflita e focada em Charles e precisava que ficasse bem. Mas trabalhar no setor de energia só estava servindo para irritá-lo ainda mais. Marion, a supervisora do setor, o encarava com desconfiança e vigiava seus passos. Somente após uma semana de trabalho é que ela relaxou um pouco e voltou sua atenção aos seus próprios afazeres. finalmente poderia trabalhar em paz, mas ficar focado em trabalho não era exatamente o que estava em seus planos.
Quando chegou no setor de energia naquela tarde, imediatamente foi procurar , mas não o encontrou em seu posto. Procurou por ele nas diversas salas e acabou o encontrando escondido entre turbinas desativadas. Ele tinha a companhia de uma garrafa cheia em suas mãos e várias vazias espalhadas pelo chão.
- Você devia estar trabalhando. Não bebendo escondido. – resmungou e ele deu um sorriso amarelo. – Está parecendo um adolescente irresponsável.
- E você está parecendo a minha mãe. – rebateu com a fala já arrastada.
- Ivy não te quer bebendo.
- Ela não manda em mim. – fez uma careta balançando a cabeça negativamente – E eu preciso relaxar. – suplicou, massageando a nuca.
- E isso está ajudando? – questionou, sentando ao lado dele após tirar uma garrafa do caminho.
- Muito. – ela então pegou a garrafa da mão dele e bebeu um gole.
- De onde pegou isso? – indagou, devolvendo a garrafa.
- Da sala da Marion. – confessou despreocupado após um gole e viu arregalar os olhos.
- Você roubou a sua supervisora. Está maluco? – elevou um pouco o tom de voz e ele fez sinal para que ela falasse mais baixo.
- Ela mereceu. Primeiro: ela é má, segundo: é uma péssima supervisora, terceiro: me trata como um bebê, quarto:... – começou a enumerar nos dedos mas logo se perdeu. – Eu esqueci o quarto mas eu tinha uns sete motivos para fazer isso.
- Ela te trata como bebê e você rouba dela? Você realmente fez a coisa mais madura possível. – afirmou sarcástica após beber mais um gole.
- Roubei uns charutos também. – murmurou lentamente entre risos.
- Você não fuma.
- Mas a Selina sim. E preciso adular ela pra garantir que ela não vai me expulsar do grupo de combate.
- Marion vai te matar. E eu vou rir.
- Ela não vai saber porque você não vai contar. É minha cúmplice. Até bebeu junto. Se eu cair, te levo junto. – sussurrou, gesticulando dramaticamente, e ela riu.
- Você é terrível. – empurrou levemente a testa dele.
- Esse é meu nome das ruas: , o T-E-R-R-R-I-V-I-L – riu diante dos erros de soletração, mas principalmente do modo como ele falava.
- Você já bebeu demais. – tomou a garrafa da mão dele e viu ele sorrir. Logo o sorriso sumiu e ele passou a encará-la intensamente, o que gerou certo desconforto. – O que foi?
- Você é uma pessoa incrível. – acariciou o rosto dela e contornou a fina cicatriz em sua bochecha. – E é por isso que eu estou completamente louco por você. – ele começou a se aproximar. – É o ser humano mais maravilhoso que eu conheço. E isso é uma grande coisa porque eu conheço vários seres humanos. – se aproximou mais, estampando um sorriso de lado encarando a boca dela.
- Você está bêbado. – acusou, o afastando.
- Por que você faz isso? Eu sei como se sente e mesmo assim me afasta. Do que tem medo? – apertou os lábios, confuso.
- Eu não tenho medo de nada. Eu só não quero isso. É tão difícil assim de entender? Você falou que não ia ser um babaca e nem ia me pressionar. Pode, por favor, cumprir com a sua palavra? – ela falava rápido e aflita, querendo fugir dali.
- Me desculpe. – ficou subitamente sóbrio. – Eu não quis...
- Está tudo bem. Você só precisa parar de achar que existe algo.
- Por que se importa tanto comigo? – questionou após algum tempo de reflexão. – É diferente da Penny ou Selina.
- Você é meu amigo e eu sinto que preciso te ajudar e cuidar de você. É isso. – se levantou juntando algumas garrafas. – Vai para casa. Consegue se levantar? – questionou e ele assentiu. – Eu vou trabalhar, nos falamos depois.

***


Fugindo de mais uma noite rolando na cama sem conseguir dormir, foi até o centro de treinamento. Assim que tocou a porta de metal ouviu seu nome. Se virou, avistando Selina caminhando rapidamente em sua direção.
- Sabia que estaria aqui. – afirmou ofegante. Havia ido até a cabine de e quando Penny avisou que ela não estava, correu até o centro de treinamento. – Preciso da sua ajuda.
- O que aconteceu? – questionou preocupada.
- Vamos conversar aqui dentro. – empurrou a porta e caminhou até a ringue, se sentando ali. se aproximou, analisando a mulher. Selina parecia ansiosa. – Preciso que interrogue o nosso hóspede.
- Claro. Agora?
- Não. E não é realmente um interrogatório. Não do tipo que está acostumada a fazer – começou e viu franzir as sobrancelhas. – Preciso que faça ele confiar em você. – completou, já esperando uma reação negativa da outra.
- Que? Não. Eu não sou boa nisso. – cruzou os braços, se recostando a uma pilastra – que é amável e passa confiança.
- E você acha que é uma boa ideia deixar ele sozinho com o "Charles"?
- Eu sei que nessa situação não é a pessoa indicada. Que tal a Penny? – sugeriu e logo viu Selina estreitar os olhos.
- Penny confia demais nas pessoas. Ela não tem malícia suficiente para isso. – viu abrir a boca para discordar e continuou. – Sabe que tenho razão. – se levantou suspirando – Preciso que converse com ele. Seja honesta sobre o que puder, demonstre fraqueza e faça ele pensar que está desvelando sua alma.
- Parece que você sabe o que fazer. Por que não conversa com ele? – sorriu falsamente. Queria se safar daquela situação.
- Dax e eu não podemos fazer isso por que para ele nós somos os carrascos que tem mantido ele preso e sujeito a interrogatórios diários.
- Talvez se eu o interrogar consiga arrancar algo e...
- Não, . Essa tática não vai funcionar. Ele está sozinho e confuso, precisa de alguém do lado dele. – Selina poderia simplesmente ordenar que cumprisse tal tarefa, mas precisava que ela percebesse a importância daquilo.
- Mas eu não sei fazer isso. Ser simpática e encantadora. Não sou assim.
- E não precisa ser. Ele só precisa sentir que pode confiar em você.
- Não sou o tipo que as pessoas gostam de cara. – estalou os dedos nervosa. Tinha seus próprios motivos para não querer se aproximar de "outro cara que possivelmente se tornaria dependente dela."
- É claro que é. E nesse caso só precisa ser mais acessível e passar um pouco de vulnerabilidade. Precisa gerar empatia.
- E então o que? Fingir que entendo o que ele está passando, ser amiga dele e aí trançamos o cabelo um do outro. – o sarcasmo irritou Selina.
- ! – elevou um pouco o tom de voz. – Você vai fazer isso.
- Quer que eu seja babá dele? É isso que eu sou agora? – estava irritada com tudo que estava acontecendo em sua vida. Não sabia como lidar com o afeto de e com tudo mais que nublava seus pensamentos. Seu fardo estava pesado demais. – Eu já tenho que ser babá do . E toda essa situação já está sendo difícil o suficiente e eu estou tão cansada de... – desabafa revelando apenas uma pequena parte daquilo que a afligia, mas parou de falar quando notou que Selina encarava algo a sua direita. Seguiu seu olhar encontrando com uma expressão magoada e uma garrafa quase vazia na mão.
- Cansada de ter que cuidar de mim? – sua voz estava arrastada e seu interior transitava entre a tristeza e a frustração.
- ... – apertou os lábios com força quando ele soltou a garrafa no chão.
- Eu não pedi isso. – acusou ressentido, apontando o dedo para ela. – Não pedi para cuidar de mim e nem para agir como minha babá.
- Com tudo que aconteceu, como eu poderia não ficar do seu lado? – encolheu os ombros ciente de como ele receberia aquilo. A expressão de descrença estampou o rosto dele por alguns segundos, mas logo se transformou em raiva.
- Então a minha situação exige isso de você? A pena que sente. – sorriu amargamente. – Eu não quero isso. Não quero sua pena. Não quero continuar sendo um peso para você.
- Você precisa entender que... – ela não sabia o que dizer. Sabia como ele reagiria a cada palavra que dissesse e também como reagiria ao seu silêncio. E ela não estava certa de como queria que ele reagisse.
- O que? Entender o que? – berrou, já sentindo a voz embargada. – Aproveite esse momento pra falar a verdade. Toda a verdade. De como fica ao meu lado por pena. Porque não quer se sentir uma má pessoa. Porque se sente culpada por seu pai ter estuprado a minha mãe repetidamente por meses. – rosnou. Seu rosto queimava e veias saltavam em sua testa.
- Você está bêbado e dizendo coisas que não acredita. – Selina finalmente se meteu na conversa, mas foi ignorada.
- Você tem medo de ser tão cruel quanto ele. – se aproximou de e ela engoliu em seco. – E talvez seja. – murmurou entre os dentes, já sentindo o ar lhe faltar.
Quando bateu a porta de metal, cerrou os punhos e fechou os olhos. Queria socar a pilastra ao seu lado, mas não fez isso.
- Vá atrás dele! – Selina ordenou aflita.
- Não.
- Precisa consertar isso. Ele só está magoado e...
- Ele acha que está apaixonado por mim. É melhor assim. – passou as mãos pelos cabelos tentando controlar sua respiração.
- Não pode se afastar. Assim você está punindo vocês dois.
- Estou fazendo um favor para ele. Não quero falar mais disso. – murmurou com toda a frieza que conseguiu expressar. – Por favor, Selina. – ela assentiu ainda um pouco contrariada. – O que eu faço para o nosso hóspede confiar em mim?

***


A porta se abriu e entrou na pequena cela. Observou o homem que estava deitado encarando o teto. As paredes impecavelmente brancas e os poucos móveis aumentavam a sensação de isolamento e abandono que ele sentia.
- Interrogatórios vão começar cedo hoje? – questionou sem se mover. Estava cansado daquela rotina. Chegou a considerar uma fuga, mas para onde iria desmemoriado? Talvez encontrasse pessoas piores que aquelas que o mantinham cativo.
- Não estou aqui para interrogá-lo. – ela falou ainda parada perto da porta e ele a encarou. Era bonito e não era difícil entender por que Agnes havia se apaixonado por aqueles olhos.
- Então por que está aqui? – ele se sentou na cama e passou a analisar atentamente.
- Eu estava lá quando você foi encontrado. Queria te conhecer. – seu tom de voz e o jeito que se portava estavam diferentes. tentava aparentar certa inocência.
- Era fã do Charlie?
- Não o conheci, mas ele provavelmente não é tudo que dizem por aí. – disse, dando de ombros e ele deu um pequeno sorriso. – Estão te tratando bem?
- Eu estou em uma cela.
- Sinto muito por isso, mas... – cruzou os braços e logo em seguida se abraçou.
- Eles estão sendo cautelosos. Não sabem se sou um ameaça. Nem eu sei se eu sou.
- Espero que consiga se lembrar quem é. Desculpa ter te incomodado. Eu vou embora. – mexeu no cabelo, tentando demonstrar nervosismo, e se virou para porta.
- Espera... acha que deixariam você voltar?
- Eu não sei, mas posso pedir. – ele assentiu e ela bateu na porta. Quando a porta se abriu e finalmente deixou o local, não pode conter um sorriso. Talvez aquilo fosse ser mais fácil do que imaginava.


IX - I can see, see the pain in your eyes

Aquela já era a quarta visita e o "hóspede" parecia já estar muito à vontade na presença de e ela se aproveitava disso. Todo o esforço para encenar a fachada de mulher doce e amável a ajudava a afastar de seus pensamentos. Quando estava ali, ela ficava totalmente focada na tarefa de ganhar a confiança de seu alvo. Seus olhares, sorrisos e cada um de seus movimentos eram calculados.
Assim que entrou na cela, seus olhos focaram no pequeno embrulho em cima da cama. Ao notar o que ela encarava, o homem se apressou em explicar.
- São biscoitos. Agnes trouxe ontem à noite.
- E não gosta de biscoitos? – se sentou na cadeira de madeira no canto da cela e logo ele a acompanhou. Ele a encarou pensativo por alguns segundos e suspirou em seguida.
- Eu não sei – disse finalmente, gerando risadas.
- Por que não experimenta? – franziu a testa ao notar a expressão que surgiu no rosto dele. – O que foi?
- Eu não sei como lidar com isso. – ele começou a tamborilar os dedos na mesa.
- Agnes?
- É. – respondeu ainda prestando atenção no movimento e no som que seus dedos faziam.
- Ela faz muitas visitas? – o tom de voz que utilizava passava dúvida e insegurança.
- Diariamente. E... na última ela disse que eu não devia confiar em você. – torceu a boca e finalmente encarou a mulher.
- Isso é bem compreensível. – baixou o olhar ciente de que esse era um daqueles momentos em que tinha que revelar um pouco de si para garantir sua credibilidade. Naquelas visitas não eram raros os momentos em que ela contava para ele algumas meias verdades.
- Por quê? Ela está com ciúmes?
- Ela deve estar sim, mas não é por isso que me odeia. – começou a estalar os dedos sentindo o olhar dele a analisando. – É por causa do meu pai... quem ele é e o que ele fez. – respirou profundamente antes de continuar. – Há vinte anos ele a torturou de todos os piores jeitos possíveis.
- Ele... – a boca dele se abriu e uma expressão de horror tomou seu rosto.
- Ele fez tudo que podia para quebrá-la. Ela me odeia por que sempre que olha para mim se lembra de tudo que passou. – as lágrimas que encheram os olhos de eram reais. Pensar naquilo a machucava. Especialmente agora que as palavras duras de soavam constantemente em seus pensamentos. – Essa é a verdade sobre quem eu sou. Filha de um carniceiro que machucou e matou por diversão. – sua voz falhou e então sentiu a mão dele sobre a sua.
- Você não é seu pai. Não devia carregar o peso do que ele fez. – deu um pequeno sorriso e logo recolheu sua mão.
- Acho que nós dois somos meio que amaldiçoados. Temos um passado que nos assombra. – ela comentou enquanto limpava os rastros deixados pelas lágrimas.
- É um ótimo jeito de descrever isso. É uma maldição. – observava atentamente as reações dele tentando desvendar a verdade por trás daqueles olhos. Ele parecia realmente frustrado e confuso. – E ainda tem a Agnes para complicar tudo. Ela vem aqui todos os dias na esperança de que eu me lembre de toda uma vida juntos.
- Ela ama você.
- Ela ama o Charles. – a encarou franzindo a testa.
- Me desculpe...
- Eu nem sei o que é mais assustador... – ele apoiou o cotovelo na mesa e a testa na mão, suspirando antes de continuar. – Ser o Charles ou ser apenas um clone. De qualquer jeito eu sou só uma sombra do homem que ele era.
- As pessoas vão te definir por quem ele era. Então... elas que se danem. Você pode escolher não ser apenas uma sombra.
- Como se isso fosse fácil.
- Escolha um nome. – bateu a mão na mesa, agitada com a ideia. – Pare de se tratar como alguém que não devia nem existir. Escolha ser alguém. Se quer ser o Charles, tudo bem, se não, tudo bem também.
- Eu não quero ser o Charles.
- Ótimo. E você não é mesmo. Aquele Charles morreu e... e talvez isso não seja algo ruim. – ele tocou os dedos dela e lhe lançou um sorriso. Era uma forma singela de agradecimento pelas palavras. – Então, vamos pensar em um novo nome para você.

***


Após deixar alguns livros na cela de Charles, voltava a sua cabine se sentindo frustrada. Fazer o "hóspede" confiar nela foi uma tarefa fácil, mas não havia tirado nenhuma informação útil dele. O homem estava confuso e realmente não se lembrava de nada. Ela sentia que aquilo era perda de tempo. Ia até aquela cela, fingia se importar com todos os problemas dele, enquanto enfrentava seus demônios sozinho. Isso era o que mais a perturbava, a necessidade de ficar longe dele. Tal ação gerava dor e desapontamento, mas ela acreditava que tinha que ser assim. Ao alcançar seu corredor, avistou Penny beijando um homem na porta da cabine. Esperou o homem sair para continuar seu trajeto e entrou na cabine se deparando com a mais nova sentada no sofá encarando o teto.
- Quem era? – questionou também se jogando no sofá.
- Owen. – Penny respondeu com um grande sorriso e diante da expressão confusa da amiga, completou. – Owen Rodgers.
- Owen é um adolescente magricela.
- Ele tem dezenove. São só três anos de diferença. – cruzou os braços e em seguida piscou para a amiga. – E ele ganhou alguns músculos nos últimos meses.
- Alguns? Ele era uma vassoura e agora parece um armário. – comentou jogando os pés sobre a mesa de centro e Penny gargalhou.
- Um armário muito sexy.
- Há quanto tempo isso está acontecendo?
- Algumas semanas. Ele pediu algumas aulas de carpintaria, mas claramente ele queria mais que isso. – ela então apontou para o próprio corpo e ergueu as sobrancelhas repetidas vezes. – Ele vai se candidatar para entrar em um grupo de combate e acho que ia se dar muito bem no nosso.
- Nós já temos um brutamontes.
- É, mas o nosso é velho e mal humorado.
- Dax é um ótimo brutamontes. – deu um leve tapa no braço da amiga.
- Estou no grupo de combate há um ano e meio e não sei nada da vida dele.
- Ele é um cara reservado.
- Além disso, ele já deve estar cansado dessa vida. Tem que abrir vaga para o novo. Um novo musculoso e com pegada. – gesticulou estampando um sorriso tarado e recebeu outro tapa.
- Quando ia me contar? – questionou estreitando os olhos.
- Ia esperar mais um pouco. Para você saber como eu me sinto. Você nunca me conta nada. – se ajeitou, ficando de frente para .
- Por que não tem nada para contar. – recostou a cabeça no sofá e fechou os olhos com força por um instante, já sabia que rumo aquela conversa tomaria.
- Me dá vontade de te bater toda vez que fala isso. – cerrou os punhos e bateu nas próprias coxas. – Vocês se beijaram várias vezes e...
- Duas vezes. – interrompeu Penny que revirou os olhos.
- Vocês estavam bem e agora ele está com raiva e sofrendo e você diz que não é nada. – deu um soco no braço de que imediatamente se ajeitou no sofá, passando a encará-la.
- Falou com ele?
- Na verdade ele só gritou algumas coisas. A principal foi que ele não quer distância só de você. – o tom de voz de Penny ficou triste. – O que aconteceu?
- Eu disse algo estúpido e ele ouviu. – apoiou os cotovelos nos joelhos e em seguida o rosto nas mãos.
- Vai precisar ser mais específica. – virou a cabeça para encará-la, ainda mantendo a posição.
- Eu disse que não queria ser babá do "Charles" porque já estava cansada de ter que cuidar dele. – escondeu novamente o rosto entre as mãos diante da agitação de Penny.
- Isso é ruim... muito ruim. Precisa falar com ele e resolver isso.
- O que quer que eu diga? Eu realmente estou cansada de cuidar dele e...
- Está mentindo. Precisa consertar isso.
- Não. Não posso lidar com isso agora. Não tem ideia do que tenho passado. – ajeitou a postura e passou as mãos pelos cabelos nervosa.
- Então me conta. Não tem que carregar nenhum fardo sozinha. – Penny apertou o ombro de , que se afastou e levantou do sofá.
- Você não entenderia.
- Me teste. Nós não somos só colegas de trabalho. Você é minha amiga, minha família. Você pode dividir qualquer coisa comigo. – aumentou o tom de voz agitada. Sabia que queria carregar o peso do mundo nas costas, e se chateava por ela não dividir esse peso com ela. As duas se tornaram amigas rapidamente, e quando a avó de Penny morreu elas passaram dividir a cabine. Em todo tempo que se conheciam, ela se esforçava para se mostrar aberta e dar força para a amiga em todos os momentos, mas não conseguia fazer a mais velha se abrir.
- Eu preciso ir. Eu preciso trabalhar. – pegou o casaco que estava jogado em uma cadeira e foi em direção a porta, mas antes de sair ainda ouviu a declaração de Penny.
- Um dia você vai ter que parar de fugir.

***


- Escolheu um nome? – questionou tentando demonstrar empolgação assim que entrou na cela.
- Olá. É um prazer conhecê-la. – caminhou até ela e estendeu a mão. – Meu nome é Jack.
- Jack? – apertou a mão dele sorrindo. – É forte... e ao mesmo tempo simples. Gostei.
- Agora preciso de um sobrenome.
- Não precisa de um. Eu abandonei o meu e estou muito bem assim.
- Então.... eu sou Jack. Só Jack. – começou estampando um sorriso que se desfez quando fechou os olhos e levou as mãos à cabeça. – Está tudo bem?
- Sim, eu... – a dor havia voltado e ela se esforçava para não gritar. Precisava sair dali. Foi capaz de dar apenas dois passos trôpegos antes de cair no chão. Viu que o homem se jogou na sua frente mas não conseguia distinguir o que ele dizia. A dor lancinante nublava seus pensamentos e tirava suas forças. Com dificuldade puxou o pequeno estojo de metal que estava em seu bolso, mas acabou o derrubando no chão. Ao ver o conteúdo do estojo, o homem se apressou em ajudá-la. Preencheu a seringa com o líquido azul e viu estender o braço. Injetou o conteúdo rapidamente e a puxou para o seu colo.
- Está tudo bem. Você vai ficar bem. – acariciava os cabelos de sentindo o desespero tomar seu corpo. Ela suava e tremia. A dor que ela sentia era visível. – Vou pedir ajuda.
- Fica. – pediu em um sussurro.
Após alguns minutos que pareceram horas, começou a se mexer. Com dificuldade, conseguiu se levantar do colo dele, mas ainda permaneceu sentada no chão.
- Está melhor? – questionou ainda a amparando.
- Sim. Só preciso de alguns minutos. – respirava profundamente tentando organizar seus pensamentos.
- Você me assustou. – confessou acariciando os ombros dela.
- Eu estou bem agora. – tentou se levantar, mas sentou novamente devido a tontura.
- O que você tem? Está doente?
- Não. Eu... – ela esfregou o rosto. – Eu preciso disso porque... porque eu sou viciada. Se eu ficar sem injetar... os sinais de abstinência são muito fortes. – tentou novamente se levantar mas não conseguiu.
- Por um momento pensei que você ia morrer. – espalmou as mãos no rosto de que logo se afastou inquieta.
- Não é tão grave. Desculpa se te assustei.
- Não tem que se desculpar. – tocou o braço dela e se aproximou. – Mas preciso que se cuide, ok? Não quero te perder.

***


estava de olhos fechados sentindo seus músculos relaxando conforme a água os atingia. Era um dos poucos momentos em que ficava sozinha e consequentemente em que tinha que se esforçar ainda mais para manter seus pensamentos afastados dos problemas que a cercavam. Esquecer tudo havia se tornado ainda mais difícil depois de sua crise na frente do "hóspede". Surpreendentemente isso os aproximou. Duas semanas haviam se passado e ele havia se tornado mais atencioso e preocupado com ela. E tal comportamento da parte dele apenas aumentava a sua lista de preocupações. Tentou se concentrar no vapor que preenchia o ambiente, no som que a água fazia ao tocar o seu corpo e o chão, na pressão da água contra a sua pele, mas logo seus sentidos captaram algo mais. Podia sentir dedos apertando sua cintura e tombou a cabeça para o lado ao sentir beijos sendo depositados em seu pescoço. O momento durou pouco e logo acordou de seus devaneios com os olhos arregalados. Fechou os olhos com força e enfiou a cabeça embaixo da ducha se esforçando para expulsar aqueles pensamentos de sua mente. De olhos fechados ela não enxergava apenas a escuridão, mas o rosto dele a encarando com ternura. Não importava quanto tempo ficasse sem encontrá-lo ou o quanto tentasse ignorar sua existência, sempre ocuparia seus pensamentos.

***


Os sons emitidos pelas máquinas e geradores do setor de energia preenchiam o ambiente. A cabeça de latejava e quando o turno acabou ela se apressou em direção a saída. Decidiu ir até a cela de "Charles", ou "Jack", o "hóspede", o homem de origem desconhecida que ocupava uma cela no setor D. Caminhava rapidamente pelos corredores gelados que a levariam a área de confinamento e se assustou com a presença de Mitchell indo na direção contrária.
- Achei que era seu turno vigiando o hóspede. – abordou o homem que parecia estar agitado.
- E é. Mas preciso encontrar o senhor Graham.
- Quem está te substituindo?
- ... – os olhos de se arregalaram e antes que Mitchell conseguisse dizer algo mais, ela correu em direção as celas.
O som que ouviu ao se aproximar da cela a apavorou, mas não mais que a cena que encontrou ao alcançar a porta. estava ajoelhado sobre "Charles" desferindo repetidos socos no homem que parecia estar desacordado.
A fúria estava estampada no rosto de e a cada soco ele parecia empenhar mais e mais força. correu até lá e tentou puxá-lo. Foi inútil, ele parecia estar em um transe e apenas se livrou rapidamente das mãos dela a jogando no chão. A mulher avançou novamente, mas dessa vez conseguiu aplicar um mata leão que possibilitou que o imobilizasse. A proximidade permitiu que ela sentisse o cheiro do álcool, que denunciava o quão bêbado ele estava. ficou ainda mais nervoso e sua movimentação derrubou os dois no chão.
- Pare! Eu não quero te machucar. – ela implorou ainda o segurando. ficou mais agressivo e ela apertou o pescoço dele. Ele se esforçava tentando se libertar, mas diante da falta de ar, começou a se acalmar. Quando parou de se debater, afrouxou o aperto e o golpe se transformou em um abraço. Ambos respiravam fundo tentando controlar a respiração e a raiva.
- Ele está morto? – perguntou em um sussurro com o rosto colado ao chão frio. se levantou com cuidado, se certificando que ele estava lúcido e então caminhou até o homem que tinha o rosto cheio de hematomas.
- Char... Jack! – chamou se ajoelhando ao lado do homem e logo sentiu a mão dele sobre a sua. Ele não conseguia abrir os olhos e nem falar, apenas murmúrios foram ouvidos. – Nós vamos cuidar de você. – segurou a mão dele e então ouviu passos. Viu Mitchell na porta apontando uma arma para , que estava sentado com a cabeça baixa. – Abaixe a arma! – ordenou se levantando e sentindo a angústia invadir seu peito.
- Ele fez isso. Está fora de controle. – o homem viu levantar a cabeça. Seu olhar parecia dizer que ele estava apenas esperando a dor.
- Se machucar ele, eu vou te matar. – falava entre os dentes se aproximando lentamente. – Do pior jeito e da forma mais lenta. Abaixe a arma! – seu maxilar travado e a expressão de ódio diziam a Mitchell que a mulher estava falando sério, então decidiu obedecer. – Vá buscar ajuda!
Assim que Mitchell saiu, caminhou até . Se ajoelhou na frente dele e viu seus punhos machucados. Queria tirar toda a dor e confusão que o assolavam. Levou a mão até seu rosto, mas viu ele se afastar.
- Seu trabalho agora é cuidar dele. – murmurou a encarando.
- ... – tentou novamente tocá-lo, mas ele virou o rosto.
- Fique longe de mim. – rosnou se levantando com dificuldade se apoiando a parede.


X. Truth is like blood underneath your fingernails

Enquanto Ivy cuidava de Charles sob o olhar atento de Agnes, em outra cela era interrogada pelo chefe Graham. A teoria de Graham era de que havia planejado aquela agressão e usou para isso. Para arrancar uma confissão que confirmasse sua teoria, o homem usava gritos e toda a violência verbal que conhecia. A mulher estava tão irritada quanto ele, não por conta das acusações, mas porque aquilo fazia sentido. Alguém tinha planejado a morte de Charles e essa pessoa deixou caminho livre para que a culpa recaísse sobre . Selina entrou na cela e após alguns insultos contra Graham, tirou a amiga dali. deixou o recinto e correu em direção a Mitchell, o segurando pela gola da camisa.
- Você deixou ele sozinho com o . Me diz o motivo. Quem te mandou fazer isso? – vociferou diante do olhar dissimulado dele.
- Você está louca!
- Se afaste dele, Bormann. – ouviu a voz de Graham e se virou. Viu que ele puxava , que tinha as mãos machucadas presas por um par de algemas.
- O que... – largou Mitchell e foi até o chefe de segurança. – Solte ele! Isso não é necessário.
- Não é você que decide isso. – murmurou sem encará-la.
- Você ouviu o homem. – Graham puxou seu prisioneiro, mas foi impedido por que se posicionou na frente deles.
- Eu sei que você me odeia no momento, mas não me importo. Não vou deixar ele fazer isso com você. Eu... – procurava o olhar de já sentindo o ar lhe faltar.
- está certo. Não é você que decide isso. – Agnes afirmou saindo da cela de Charles e caminhou em direção a entrada do setor. – Traga a sua protegida, Selina. Temos assuntos a tratar.
- Eu não vou deixar...
- Cuidamos disso depois. – Selina interrompeu a amiga e fez sinal para que ela a seguisse.
De volta a mesma cela em que havia sido interrogada por Graham, respirou fundo antes de entrar no local, e em seguida se sentou na cadeira apontada por Agnes.
- Por que fez isso? – Agnes questionou, a encarando. – Por que queria matar o Charles? Bormann te mandou fazer isso? – aumentou o tom de voz e cerrou os punhos. – Ele queria arrancar o Charles de mim de novo.
- Eu não fiz nada. – se defendeu, ciente de que nada que saísse de sua boca convenceria Agnes. Ela já havia sido julgada e condenada há muito tempo.
- Agnes, não pode culpá-la. Se não estivesse lá para impedir , Charles estaria morto e...
- Ela o usou. – gritou, interrompendo Selina. – Usou os dois. Se aproximou do e depois do Charles. É por isso que está aqui? – bateu na mesa com força, assustando . – Quer tirar os dois de mim? É por isso não é? Bormann quer continuar me torturando e dessa vez usou a filha. – se aproximava rosnando aquelas palavras, mas Selina se posicionou na sua frente.
- Escute o que está dizendo. Isso não faz sentido algum. está do nosso lado. Tudo que ela fez nesses dois anos aqui foi nos ajudar. É por causa dela que o Charles ainda está vivo. É por causa dela que o está vivo. Esqueceu tudo o que ela fez por ele?
- O que ela fez? – lançou um olhar de desprezo para e se afastou. – Deixou ele ser torturado por semanas e... deixou ele se machucar e machucar outras pessoas. E ainda o enfeitiçou para se apaixonar por ela. Ela é como o pai, só traz dor. É tudo culpa dela. Eu quero ela fora daqui! – berrou, caminhando em direção a porta.
- Não! Ela não vai. – Selina rebateu, elevando o tom de voz.
- Essa é minha decisão final. – disse Agnes antes de sair da cela.
sentia todo o peso de todas aquelas palavras, de todos os julgamentos das pessoas daquela lugar, de todas as suas falhas, de toda a dor que já causara e que sentia. O fardo se tornou pesado demais. Sua respiração estava falha e descompassada e então o ar lhe faltou. Apoiou os cotovelos nos joelhos e a cabeça entre as mãos e se derramou em lágrimas, logo sendo amparada por Selina.
- , sobre a Agnes...
- Eu não me importo com o que ela falou. Me preocupo com o . Me promete que vai cuidar dele. – pediu entre soluços, sentindo seu peito queimar.
- Você não vai embora. – se ajoelhou ao lado da amiga acariciando suas costas.
- Você a ouviu. – A encarou com o rosto já vermelho. – Além disso, já está na hora de...
- Não! Você não vai! – Acariciou o rosto da mulher, se segurando para não a acompanhar nas lágrimas. – Nós temos um trato. Ok? Vá para a sua cabine. Conte a Penny o que aconteceu e peça a ela para me avisar se precisar de mim. Vou checar o e depois vou te ver. Fique longe de confusão. – beijou o topo da cabeça dela e a ajudou a se levantar.

***


estava sozinha na cabine encarando o teto. Penny ainda não havia chegado. Devia estar com Owen. A solidão apenas ajudava a agravar as perturbações que rondavam sua mente. Ao ouvir a voz de Selina, abriu a porta ansiosa.
- Como ele está? – puxou a mulher para dentro e fechou a porta.
- Bem, está descansando em sua cabine. – Selina preferiu não mencionar que tinha a porta vigiada por agentes de segurança.
- E Agnes?
- Mais calma agora que sabe que Charles vai ficar bem. – Selina abraçou ao ver algumas lágrimas rolarem. Ficaram abraçadas por alguns segundos, mas logo a mais velha separou o abraço. – Tem um grupo saindo amanhã para buscar suprimentos médicos. Você vai com eles. Algumas semanas distante até as coisas acalmarem.
- Ok. – assentiu suspirando.
- Penny e Dax também vão.
- Por quê? – questionou, elevando um pouco o tom de voz.
- Porque eu sei que você já estava planejando não voltar – abriu a boca e Selina continuou. – Eu te conheço, vi nos seus olhos.
- Selina...
- Nós temos um trato. – tocou o rosto dela, sentindo os olhos arderem.
- Mas...
- Vai voltar e vai trazer a Penny a salvo. Me prometa. – pediu já sentindo algumas lágrimas rolarem.
- Eu prometo.

***


Para era estranho estar naquele baú sem a companhia de e saber que não era Selina dirigindo o caminhão. As semanas passavam e estar na companhia daquelas pessoas apenas a fazia sentir mais falta de seus amigos. Penny e Dax estavam ali, mas a ausência de duas pessoas importantes era dolorosa. Especialmente sabendo que qualquer sentimento positivo que cultivava por ela havia sido substituído pelo ódio. Ela dormia e acordava com o rosto dele em seus pensamentos e se preocupava a todo momento. Parte dela queria abandonar tudo e fugir, mas não poderia fazer isso, havia feito uma promessa para Selina. Além disso, não podia deixar Penny sob os cuidados daquelas pessoas. Não confiava em ninguém ali para cuidar de sua irmã mais nova além de Dax. Owen estava em sua primeira missão e distraído demais pela presença de Penny, não era capaz nem de cuidar plenamente de si mesmo. Além dele, o grupo era composto por Fisher e Eve. Fisher, um homem de quarenta e poucos anos era um bem-humorado brutamontes apaixonado por filosofia e dinamites. Apesar da diferença de idade, era um grande amigo de . Eve Hart, a competente líder do grupo, mal dirigia a palavra a . Era mais uma cidadã da casamata ressentida com as origens da mulher. Hart usava seus cabelos ruivos presos em um rabo de cavalo, mas mantinha uma mecha solta para ajudar a esconder a enorme cicatriz em sua bochecha, fruto de um encontro com Ernest Bishop. A mulher também carregava marcas do seu encontro com Bormann, mas estas não eram visíveis.
No quadragésimo nono dia em missão, as coisas começaram a desandar. Um acidente resultara em uma torção no pé esquerdo de Penny. Apesar da insistência de em voltar para a casamata, para que a amiga fosse devidamente cuidada por Ivy, Eve Hart decidiu dar prosseguimento a missão. Ainda tinham duas semanas, e três estabelecimentos para revistar e Hart finalizaria sua tarefa. Alcançaram um dos alvos no fim da tarde. Do baú, Penny derrubou os sistemas de segurança, permitindo que Dax e entrassem no sistema de ventilação. Protegidos por máscaras, eles acionaram um gás que logo se espalhou pelo prédio, derrubando cientistas e pesquisadores, e então se separaram para vasculhar o local. Logo o resto do grupo invadiu o prédio, enquanto Penny controlava seus passos do baú. Após alguns minutos, um sinal causou interferência nos comunicadores, para o desespero de Penny que agora estava no escuro, sem poder se comunicar e impossibilitada de ir até lá.
Assim que a nuvem de gás do sono se dissipou, retirou a máscara e passou a vasculhar algumas salas, passando por trabalhadores desacordados e salas bem equipadas e limpas. Parou por um segundo ao ouvir um zumbido agudo vindo do seu comunicador. Apesar da preocupação gerada pela impossibilidade de se comunicar com Penny, decidiu continuar. Ao alcançar um dos laboratórios do quinto andar, se assustou com a presença de um homem encarando a janela. Com arma em punho, ela se aproximou lentamente e notou uma máscara de gás na mão dele. O analisava atentamente sentindo a confusão invadir seus pensamentos. Quando ele se virou, paralisou.
- Olá, querida! Não está pensando em atirar no seu pai, está? – Hugo Bormann abriu um largo sorriso e viu as bochechas de empalidecerem.
- Vo... você... - não conseguia se mover, estava em choque. Após três anos de fuga, ela novamente encarava seu pai.
- Eu senti sua falta. – deu um passo na direção da filha, mas parou quando ela apontou a arma para a sua cabeça.
- Não se aproxime! – gritou transtornada.
- Ok. – Ergueu as mãos em sinal de rendição e recuou. – Se isso te deixa desconfortável, eu vou manter distância... por enquanto. – Escorou em uma mesa diante do olhar feroz da mulher e colocou a máscara ali.
- Você parece calmo demais para alguém que tem uma arma apontada para a cabeça.
- Você não vai atirar. Sou seu pai.
- E tem armas apontadas para a minha cabeça nesse momento, certo? – Indagou um pouco ofegante. – Você tem homens daquele lado do prédio. – apontou para a janela e ele sorriu.
- Eu confio em você querida. – sua voz suave irritava a filha.
- O que está fazendo aqui? – finalmente abaixou a arma, mas manteve a distância.
- Eu estava te esperando. – um sorriso doce surgiu no rosto dele enquanto a confusão ficava estampada nos olhos dela.
- O que... o que está dizendo?
- Eu sabia que viria. Então apenas te esperei.
- Como? – gritou impaciente.
- Assim que você fugiu, eu coloquei muita gente para te procurar, mas de algum jeito, você conseguiu se manter fora do radar... por muito tempo. Tempo demais. – abriu um largo sorriso e cruzou os braços. – Eu sentia sua falta e não tinha notícias suas, mas então, algumas semanas atrás você acendeu o farol. Possibilitando que eu te encontrasse.
- Do que você...
- A rede Minerva, é óbvio. – bateu na mesa, a assustando. – Me desculpe. Quando invadiu aquele laboratório e disparou os alarmes de segurança, você acendeu o farol. Eu sabia da existência dos laboratórios, mas não sabia a localização. A sua invasão fez alertas pipocarem no departamento de segurança. Do qual atualmente eu sou o secretário. – parou por um instante esperando uma reação dela. – Você deve me parabenizar. Isso é uma grande promoção. – a respiração de se tornou ainda mais ofegante e seus lábios tremiam. Estava cada vez mais atormentada pela presença dele, especialmente pelo modo como ele agia. – Está sendo rude. Mas não é para se esperar menos. Eu vi quem te acompanhava, devem estar te envenenando. Dizendo coisas horríveis sobre mim. Dax Cromwell, Selina Barnes, e uma outra garota que eu não sei o nome, então eu suponho que ela é nova nessa vida criminosa. Vi todos eles nos vídeos de segurança. Estou desapontado, querida. Não te criei para te ver na companhia de criminosos e... – foi interrompido por uma risada sarcástica.
- Como se atreve? Você é o criminoso. Eles são muito melhores que você.
- Melhores? – questionou exaltado. – Dax Cromwell é um terrorista. Sabia disso? Sabia que ele é responsável pela chacina de Newport? Que ele orquestrou os atentados em Ashima? E Selina? Por onde começo? Ela é uma vadia que matou centenas.
- Diga algo do tipo de novo e eu atiro – rosnou entre os dentes, erguendo a arma.
- Eles fizeram a sua cabeça. – afirmou após um longo suspiro. – Eu vi como é próxima do filho da Agnes. Estou muito desapontado.
- Não me importo. Você é um torturador... um estuprador... um assassino. – berrou com a voz embargada. O sorriso macabro que ele deu fez com que sentisse um frio descer por sua espinha. O homem notou o efeito de sua expressão.
- Eu sou seu pai. Não devia ter medo de mim. – a voz terna havia voltado.
- Não tenho. Tudo que eu sinto é desprezo. – abaixou novamente a arma dando uns passos para trás.
- Não sei o que essas pessoas têm falado para você, mas eu não sou um monstro...
- Não você não é. – o interrompeu exasperada. – Também não é uma entidade superior que veio trazer dor e desespero. Não é o deus da morte ou algo do tipo como pensa. É só um homem. Cheio de ódio e coisas que me fazem sentir pena. – ela sorriu amargamente. – A sua vida é tão frágil quanto qualquer outra e eu poderia esmagá-la se quisesse.
- Não faria isso. – se afastou da mesa e deu uma passo na direção dela. Aquela mulher diante dele era muito diferente da filha que conhecera e isso o perturbava. – Eu sou seu pai. Te cantava canções de ninar. – deu mais um passo, mas parou quando ela ergueu a arma novamente.
- É... e depois disso ia para uma sala escura torturar e estuprar mulheres.
- Você não entende... elas... elas precisavam ser punidas. – cerrou os punhos irritado.
- Você... – ainda tinha muito a dizer, mas a dor excruciante nublou seus pensamentos. Amaldiçoou aquela dor por vir em momento tão inoportuno.
Um grito ecoou assustando o homem e em seguida caiu de joelhos. Hugo correu até a filha, mas ela ergueu a arma. Sua mão trêmula revelava o quão difícil aquele simples ato estava sendo diante de tanta dor. Ela enfiou a mão esquerda no bolso buscando o estojo prateado. O alcançou, mas quando puxou acabou derrubando. A seringa caiu do seu lado, mas o frasco rolou até perto dos pés de seu pai.
- O que é isso? Está doente? – questionou analisando o frasco. Quando outro grito ecoou, ignorou a arma apontada em sua direção e correu até a filha que caíra no chão. Pegou a seringa da mão dela, e preencheu com o líquido azulado. Aplicou o conteúdo em seu braço e permaneceu ajoelhado ao seu lado. Quando tirou os cabelos do rosto de , um grito de pavor saiu de seus lábios ao ver sangue saindo dos olhos dela. – Seu olhos... – sussurrou, puxando a filha para o seu colo.
Ficaram naquela posição por alguns minutos. Bormann tinha os olhos marejados e acariciava os cabelos da filha. Suspirou aliviado quando ela começou a se mover.
- Ótimo. Eu não te encontrei para te ver morrer nos meus braços. – sussurrou brincalhão e ela se moveu incomodada.
- Então por que me encontrou?
- Porque eu quero a minha filha de volta.
- Sério? – saiu do colo dele com dificuldade e sentou ainda se sentindo tonta. – Você colocou seus capangas atrás de mim quando eu fugi. – os olhos dela se encheram de lágrimas e ela se esforçava para não derramá-las. Não queria chorar na frente dele, mas a raiva estava transbordando. – Homens horríveis que me machucaram e... – diante de tais revelações a expressão dele mudou.
- Quem te machucou? – a expressão macabra voltou e ela percebeu que ele estava genuinamente surpreso.
- Thompson.
- Eu vou encontrá-lo e matá-lo lentamente. – rosnou entre os dentes. Veias saltavam de sua testa.
- Não é necessário. Eu o matei. – confessou, encarando o chão.
- E foi doloroso? – retirou uma mecha de cabelo da frente do rosto dela e ela se afastou mais.
- Foi. Foi doloroso o suficiente para mim. – ela se levantou com dificuldade. Queria ficar o mais longe possível dele – A primeira vez que matei. Agora... agora é mais fácil. Acho que estou me tornando parecida com você. – limpou as lágrimas e ao encarar as mãos se deparou com o sangue. Seu rosto se contorceu em uma expressão de horror. Aquilo tornava tudo ainda mais real. A dor estava pior a cada crise. E agora sangue saíra de seus olhos. Estava estática encarando suas mãos e não percebeu a aproximação de seu pai.
- O que você tem?
- Um péssimo pai. – riu se afastando, mas ele segurou seu braço.
- ... por favor. Eu preciso saber. – implorou e ela desviou o olhar suspirando.
- Eu estou infectada... pelo NT3. – dizer aquilo em voz alta era uma forma de se livrar de parte daquele fardo. E a genuína expressão de dor e confusão de Hugo Bormann deixaram com um pouco de satisfação.
- Não. Não pode ser. É um vírus letal. Se fosse o NT3 essa crise deveria ter te matado. – ele falava rapidamente e com agitação.
- Sim. Eu devia ter morrido há dois anos. Mas não morri. – piscou e deu uma risada. – Por causa do soro. Ele abaixa a carga viral. Impede a manifestação de mais sintomas e bom... a minha morte. – era fácil contar aquilo para ele, pois não se preocupava se tais revelações iriam machucá-lo. – Mas com o tempo o efeito passa e o vírus volta a se multiplicar. Aí as dores de cabeça voltam.
- Essa é um solução definitiva? – indagou preocupado. Estava irritado com a forma como ela tratava do assunto.
- Não. Definitivamente não – outra risada de – O tempo entre as crises têm diminuído e logo o soro vai se tornar ineficaz. Hoje pela primeira vez os meus olhos sangraram, isso significa que eu tenho pouco tempo. – ergueu os braços gesticulando uma comemoração. – Mas você teve a chance de se despedir. – deu uns tapinhas no ombro dele e se afastou.
- Você não está realmente acreditando que eu vou te deixar morrer, está? – correu até ela, novamente agarrando seu braço.
- O que mais poderia fazer?
- Conseguir a cura para você.
- Como?
- O NT3 foi criado pelo antigo regime. Eu posso conseguir a cura.
- Ok. Vamos fingir que eu acredito em você. O que quer em troca?
- Você de volta.
- Isso é muito meigo da sua parte. – deu um sorriso sarcástico, mas logo estampou uma expressão séria. – E o que mais? Vamos, agora é a hora da barganha.
- Eu quero o que você encontrou nos laboratórios subterrâneos do grupo Minerva.
- Aí está. – bateu nos ombros dele. – É por isso que está aqui. Você quer ele. Até me ofereceu uma cura para conseguir isso. – o empurrou, se afastando.
- Você é a prioridade.
- Eu vou embora e não vou ser seguida. – disse entre os dentes o ignorando e caminhou em direção a saída. Hugo foi atrás, mas parou diante do cano da arma de - Você não vai... – se assustou com o disparo e esperou a dor. Para a sorte dele a bala passara a milímetros da sua cabeça.
- Esse foi de aviso. – ela rosnou e saiu porta a fora.




Continua...



Nota da autora: Já estão sofrendo bastante? Êta capítulo sofrido de escrever rs
Pergunta: Quem é o pp de vocês?





Qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


comments powered by Disqus