Como acabar com o amor da sua vida

Última atualização: 06/03/2018

Prólogo


― Eu não acredito que ele fez isso comigo! ― Esbravejou , tentando limpar as lágrimas que insistiam rolar pelo seu rosto. Sentia raiva de si mesma por ser tão inocente, seu peito quase explodia tamanha era a dor emocional que estava sentindo. Logo atrás de si, Noah vinha correndo o mais rápido que podia, mas suas pernas, apesar de grandes, não eram tão rápidas quanto as de uma líder de torcida enfurecida. ― Você pode me esperar? ― Gritou ofegante, se curvando e colocando as mãos no joelho. Sua respiração acelerada e descompassada. parou, de costas para o garoto. Abraçou-se permitindo que as lembranças voltassem, era doloroso demais pensar na traição. Seu vestido roxo contrastava com o tom sombrio que a noite havia tomado. "Era para ser a melhor noite do ano", pensou a garota, os olhos ardiam e as bochechas queimavam. Noah se recompôs e andou depressa para chegar ao seu lado, a respiração ainda não havia voltado ao ritmo normal. Assim que chegou à alcançou ela virou o rosto para o outro lado de modo que o rapaz só conseguisse enxergar metade de sua face coberta de lágrimas. À luz da lua cheia deixava a pele de cintilando. ― , olhe para mim. ― Noah pediu abaixando a voz, encostando sua mão no queixo da garota. ― Aquele idiota não merece suas lágrimas. usou a manga da blusa do garoto para limpar o rosto e o olhou dentro dos olhos. ― Sei que não, mas... ― Sua voz vacilou e as lágrimas voltaram. ― Eu não sei o que fazer, Noah. Devo ir até ele e terminar tudo? Noah a fitou, pensativo. A garota estava prestes a ter um surto e em um minuto de coragem ele passou os braços pelos seus ombros e deixou que ela chorasse em seu peito enquanto afagava gentilmente os cabelos loiros. Olhando ao redor percebeu que estavam perto da cabana de Princ. A poucos metros dali o namorado de ― Ou ex, ele ainda não sabia. ― praticamente engolia sua melhor amiga e ela acabara de presenciar tudo. O chão de terra estava seco, assim como o clima e as árvores que sibilavam com o vento forte que as balançava, tudo parecia triste assim como . A estrada levava direto para a cidade e o carro velho de Noah se encontrava a poucos metros dali, escondido atrás de uma placa no acostamento. Foi então que um sorriso iluminou o rosto do garoto. ― Eu sempre digo que o melhor remédio para curar todas as dores e desamores é uma boa taça de milkshake. O que você acha? desvencilhou-se de seus braços e o encarou com uma sobrancelha arqueada. A maquiagem borrava todo seu rosto, as roupas amassadas e o cabelo desgrenhado lhe dava uma bela imagem de rainha do baile, mas do dia das bruxas. ― Você só pode estar brincando. ― Revirou os olhos, cruzando os braços. ― Claro que não. ― A puxou para perto, a coragem durando mais que alguns segundos, começaram a andar. ― Por que eu brincaria com uma missão dessas? ― Que missão? ― ergueu a cabeça olhando o garoto sorrir. ― Você está me assustando, Noah. ― Oras, a missão de acabar com o amor da sua vida.


Um


Antes
O despertador soou alto demais para os ouvidos sensíveis da garota, que em um impulso bateu com toda força o quebrando. Já estava acostumada com as férias o que significava dormir até tarde, mas as aulas voltaram com a tortura de acordar cedo.
— Droga! — A voz era abafada pelo travesseiro. A babá seca era apenas um dos aspectos medonhos que formavam sua fisionomia, cabelos emaranhados e bochechas marcadas pelo lado que dormira.
De frente para a cama um espelho com várias fotos grudadas lhe trazia lembranças agradáveis, na primeira e Prince abraçavam-se com os uniformes escolares era final de campeonato e comemoravam, na foto ao lado a garota loira abraçava sua melhor amiga Crystal sorriam com copos vermelhos erguidos, apenas álcool.
Terminou de esfregar os olhos e bocejar, quando viu o próprio reflexo cobriu a boca com as mãos reprimindo um grito de terror. O relógio anunciava que estava atrasada dez minutos, levantou-se e foi até o banheiro arrumar-se para o primeiro dia escolas após as férias de inverno.
Já se passara duas horas desde que a garota tinha começado a se arrumar e ainda não havia descido, sua mãe impaciente batia em sua porta.
, nem ouse se trancar. — Mais batidas. — Você tem mais cinco minutos ou eu entro aí. Revirou os olhos, o rímel entre o dedo médio e o indicador.
— Já vou descer, mãe.
Ouviu os passos se distanciarem da porta e terminou de se arrumar. Uma música pop começou a tocar e a tela de seu celular iluminou-se. A foto era de um garoto loiro, olhos castanhos quase verdes mostrando a língua. Prince.
— Quase pronta. — Nem esperou um "oi" já sabia a pergunta o namorado tinha uma fissura por chegar cedo a escola.
— Anda logo, . — Uma buzinada. — Já estou aqui. A garota andou até a janela, afastou a cortina rosa com a ponta dos dedos e viu o carro azul conversível com o namorado. O sol quente reluzia na lataria, quase a cegava.

— Estou indo. — Desligou sem ouvir a resposta. Pegou a mochila vermelha em cima da cama e deu uma última chegada em sua roupa, calça jeans claro e blusa rosa, o cabelo amarrado em um rabo-de-cavalo preso com uma fita azul. Saiu do quarto e no meio do corredor podia escutar os gritos de seus pais, apertou um pouco a alça em um de seus ombros antes de começar descer as escadas. Seus pais brigavam o tempo todo nos últimos meses e ela achava que estavam prestes a se separarem. Odiava isso, mas nunca falava nada.
Desceu as escadas e passou pelos dois de modo rápido, pararam de gritar assim que a viram, olhos arregalados e suor escorria pela testa de seu pai que saiu pela porta dos fundos sem nem lhe desejar bom dia. Sua mãe acenou antes que abri-se a porta e saísse apressada. Puxou o ar com força quando a porta bateu atrás de si, o calor insuportável logo no início da manhã. Ouviu uma buzinada e colocou um sorriso no rosto, atravessando a rua e entrando no carro. Deu um beijo rápido no lábio de Prince e colocou óculos de sol, ajeitando o batom.
— Pronto para mais um dia escolar? — Limpou os cantos da boca, sem olhá-lo.
— Sempre pronto. — Piscou e acelerou, deixando marcas de pneu pelo asfalto.
. . .


— Princeton! — Trevor, seu melhor amigo, dava socos fracos em suas costas. — Por que demorou tanto, cara? Nem esperou a resposta do amigo, desviou sua atenção para que batia os dedos com pressa na tela do celular, estava esperando Crystal aparecer. O garoto usava uma blusa de frio, mangas azuis com todo o resto vermelho, um leão rugia do lado esquerdo logo abaixo as iniciais da escola, a garota tentou recordar se algum dia já havia o visto com uma roupa diferente.
— Nem precisa responder. — Continuou a abraçando. Ela o odiava.
— A princesinha aqui sempre te atrasa, não é?
Princ ergueu uma das sobrancelhas e o amigo saiu de perto de , erguendo as mãos rendendo-se. Uma garota centímetros menos que apareceu atrás de Trevor, cabelos ruivos ondulados que pendiam abaixo de seu ombro, boca avermelhada e olhos grandes e verdes com cílios enormes. Crystal ignorou Trevor, que a engoliu com o olhar, deu um beijo leve na bochecha de Princ e segurou o braço de a levando até o banheiro feminino. Lá dentro estava vazio e enfim Crystal soltou o braço da amiga, que ficou vermelho.
— Pode me dizer o que diabos está acontecendo? — Passou os dedos pela marca vermelha.
Crystal abriu a bolsa e a remexeu até tirar um livro grosso de dentro. A capa laranja e empoeirada, um anuário escolar.
continuava com o cenho franzido. A garota o folheou de modo rápida e objetiva até chegar na página que queria e virou o anuário quase enfiando-o na cara de .
— O que é isso? — Perguntou pegando o livro.
Havia seis fotos de pessoas aleatórias e sorridente, mas no meio da segunda fileira uma garota loira com cabelos embaraçados e óculos de graus sorria sem mostrar os dentes, totalmente desconfortável de estar ali. Bochechas enormes mostravam que a garota estava acima do peso, embaixo dos olhos azuis cansados olheiras marcavam a pele pálida. Em baixo da fonte onde deveria conter apenas assinaturas existia vários xingamentos pesados sobre a aparência da menina, seu sobrenome meio rabiscado fora substituído por "baleia", mas ainda conseguia ser lido. Stone.
Deixou o livro cair no chão e se afastou, tão pálida quando na foto antiga.
— Onde achou isso?
— Só apareceu. — Deu de ombros pegando o anuário. — Só queria saber o motivo de esconder isso de mim.
O sinal bateu e saiu correndo do banheiro, o corredor amarrotado de pessoas apressadas de um lado para o outro. Sentia os olhos arderem, queria chorar e sabia que não conseguiria prestar atenção na aula. Com passos fortes atravessou todos e saiu pela porta dupla que dava direto para saída.
Sentiu o ar fresco no mesmo instante que algo respingou em seu rosto e molhou sua blusa, seus olhos se fecharam com a surpresa.
— Oh meu Deus! — Era uma voz masculina. — Me desculpe, você apareceu do nada.
abriu os olhos o encarando. O garoto tinha a armação dos óculos respingado com líquido vermelho, os cabelos loiro-escuros penteados para o lado e olhos castanhos. A garota passou os dedos pela blusa encharcada e o líquido era o mesmo. Ela o conhecia da escola, seu nome era Noah.
— Você só pode estar brincando! — Bufou e saiu pisando forte esbarrando no garoto quase o derrubando.
. . .

Andava sem rumo há alguns minutos, as bochechas vermelhas de tanto chorar e pensava na sorte que tinha de usar maquiagem a prova d'Água. Queria gritar, mas não o fez. Os pés doíam e olhando ao redor se deu conta que estava no centro da cidade. Suspirou. As pessoas passavam apressadas e algumas até a empurravam, tão absortas nos próprios problemas da rotina que não conseguiam enxergar o mundo ao redor.
Do outro lado da rua ao lado direito uma sorveteria encontrava-se deserta, um letreiro de MILKSHAKE com cereja no topo, ao lado esquerdo uma vitrine era toda enfeitada por corações no vidro. Uma vendedora, supôs , terminava de colocar um vestido roxo em uma manequim arrumada em uma pose de dança, não era o mais bonito que já vira, mas a necessidade de gastar com algo lhe atingiu e já estava atravessando a rua, adentrando a loja.
O aroma de menta deixou meio tonta, uma mulher esguia veio em sua direção. Usava um uniforme todo rosa com o crachá acima do peito, Lory era seu nome, tinha cabelos pretos cortados no ombro e olhos puxados.
— Bem-vinda! — Sorriu, os dentes brancos demais. — Em que posso lhe ajudar?
— Gostaria de experimentar o vestido da vitrine. — Apontou para o manequim, de perto o vestido era mais bonito.
— Ótima escolha. — Lory sorriu mais ainda. — Acabou de chegar, é uma edição limitada temos apenas dois. Pode ir até o provador que eu levo para você.
foi até o fundo das lojas, os provadores tinham cortinas vermelhas e entrou no último. Era espaçoso, um espelho de corpo inteiro no centro, cabideiros na parede e um pufe no canto. Sentou-se deixando a mochila no chão, apoiou os cotovelos nos joelhos e a cabeça na mão, grunhiu olhando sua imagem refletida. Estava pior do que quando acabara de acordar, sentia-se triste. Seu passado era algo que pertencia só a si mesma e deveria continuar assim, mas Crystal estava disposta a mudar isso, como sempre fazia. Lory colocou a mão com o vestido estendido,
o pegou e se despiu rápida. A roupa parecia ter sido feita para ela, o laço na cintura lhe deixava mais magra, ia até seus joelhos e os babadinhos no final deixavam-o rodado. A menina rodopiou sentindo-se linda novamente e sorriu para o espelho. Depois de decidir ficar com ele colocou a roupa manchada e sentiu necessidade de dar o troco em Noah, era uma de suas blusas favoritas. Saiu do provador indo até o caixa, a loja apesar de simples era cara, mas ela precisava daquele vestido. Passou o cartão de crédito enquanto Lory tinha uma fisionomia de quem acabara de ganhar na loteria. agradeceu e antes de sair a vendedora lhe chamou.
— Deve ter ficado linda, seu par vai adorar.
— Par? — Virou-se com a sacola em mãos.
— Sim, o baile da escola. Não vai faltar, não é?
forçou um sorriso e assentiu saindo da loja. Soltou o ar com força, ela havia esquecido do baile. Bateu com a costas da mão na testa, ela era a organizadora e não havia pensado em nada ainda. Também não tinha um par, Prince não tinha feito o pedido. Sua felicidade esvaiu-se e começou a andar em direção à sua casa.
. . .

abriu a porta da sala decidida a ir direto para seu quarto, mas tropeçou em algo no início da escada. Havia três malas de couro, uma maior e duas menores. Eram de seu pai. Ergueu uma sobrancelha e foi em direção aos gritos que vinham da cozinha, mas cessaram com o barulho que ela tinha feito. Sua mãe ficou no batente da porta, os cabelos bagunçados e braços cruzados sobre o peito. O pai tinha lágrima nos olhos e caminhou em sua direção, ergueu uma das mãos quando percebeu o que ocorria.
— Você está indo embora?
O homem suspirou, os olhos pretos com olheiras, estava cansado.
— Ia embora sem me avisar? — Deu passos para trás, suas lágrimas rolavam. — Não ia nem se despedir?
— Não quero te ver sofr...
Sua fala foi interrompida pelos gritos da filha, que sentia raiva.
— Vá embora e esqueça de mim. correu pelas escadas e entrou em seu quarto batendo a porta, jogou a mochila e sacola no chão e caiu na cama. A cabeça enfiada no meio dos travesseiros impediam deus soluços de saírem tão altos.
Estava sendo abandonada pelas pessoas que mais amava, era o pior dia da sua vida desde que mudara. Seu celular começou a vibrar e a imagem de Crystal sorrindo brilhou na tela. apenas desligou o aparelho e voltou a chorar.

Dois


Faltam dois meses.
― Eu disse para a direita! ― balançava a prancheta rosa no ar e batia os saltos impaciente, igual uma criança birrenta.
― Disse para direita umas quarenta vezes garota. ― O garoto rechonchudo segurava a enorme faixa pelo lado esquerdo, era sardento e ruivo.
Noah sentava-se na arquibancada se divertindo com toda a cena que rolava no ginásio, escrevia um artigo sobre como bailes escolares deixavam as pessoas loucas e irritantes. Seu alvo principal era a organizadora maluca, Ashley. A garota usava uma roupa que o lembrava uma fantasia de coelhinha da playboy, mas depois da morte. Riu com o pensamento enquanto a garota descia da escada bufando, indo brigar com os gêmeos. Noah passou a mão pela nuca e soltou um suspiro, faltava exatamente um mês para o ensaio do baile e dois para o oficial e ela ainda não havia falado com ele sobre a música e os efeitos de luz. Tudo isso pelo incidente, para ele terrivelmente engraçado, que havia custado uma blusa para .
! ― Gritou, mas a garota girou o quadril poucos centímetros antes de revirar os olhos ignorando-o. ― Ashley, vou deixar seu baile sem música.
Por fim ela cedeu, gritou para que largassem a faixa e disse que ninguém fazia nada direitos, os ruivos rebateram que ela era uma vadia louca e correram.
caminhou graciosamente até Noah, colocando uma mexa de cabelo atrás da orelha. Quando se aproximou apertou a prancheta contra o peito e com voz monótona e tediosa dirigiu-se a ele.
― O que quer?
― O que quero? ― Riu pelo nariz. ― Você quem deveria querer que seu "maravilhoso" baile tivesse música. ― Fez aspas com os dedos enfatizando.
― Você que vai tirar as fotos de rei e rainha do baile? ― O garoto assentiu. ― Ótimo lhe mando meus melhores ângulos depois. ― Seu olhar era vitorioso, colocou a caneta de pompons no lábio inferior. ― Sobre a música é melhor resolvermos isso rápido, então você me pega as nove em ponto.
Noah fitou-a confuso, ela havia afirmado aquilo. Emitiu um "hãm" com a boca que a fez revirar os olhos e gesticular com as mãos como se ele fosse uma criança.
― Minha casa está em reforma. ― Mentiu. ― Me pegue as nove e não se atrase.
Antes dele raciocinar ou negar ela já estava rebolando para longe, a observou quando beijou o quarteback suado. Noah fez cara de nojo, odiava suor.
Antes de sair do ginásio vazio Noah cancelou uma partida online com seus amigos um bipe anunciou que havia recebido um e-mail. Não era ninguém conhecido.
13:00, 22 de Junho de 2016
De: anonimo@mail.com
Para: noahaniquilador@mail.com
Assunto: A vadia mais burra do país.
"Querido" Noah,
Que e-mail bizarro como o dono. Sabe, ponderei muito para lhe enviar isso, precisava de alguém estranho e suficientemente frustrado para esta missão. Te observei por algum tempo até chegar a conclusão que você é a pessoa certa, então parabéns! Não que isso seja bom ou que eu goste de você, não se iluda eu não gosto, porém, você é mais suportável que a . Como sabe nossa ilustre líder de torcida não é tão boa, assim como seu namorado e os dois que os rodeiam sempre fazem coisas ruins para você e os "oprimidos" dessa escola. Agora vamos ao mais importante, no decorrer desta semana lhe enviarei algumas informações sobre a preciosa loira e caberá a você a decisão de se vingar ou excluir tudo. Boa sorte na sua missão, faça uma escolha sábia.
Abraços, T.
Havia dois anexos, uma foto e um vídeo com o mesmo nome do assunto. A foto era de uma anuário escolar antigo, Noah leu os comentários rabiscados e assustou-se a constatar que era Ashley, fechou o arquivo com presa. O coração batendo acelerado, não entendia ao certo o motivo, mas sentia-se culpado de mexer com isso. Porém, sua curiosidade foi maior, olhou para todos os lados vendo se estava realmente sozinho, colocou os fones e deu play no vídeo.
No vídeo um corredor com vários armários azuis estava lotado de alunos que conversavam alto, a pessoa que gravava tinha um objetivo: mostrar uma garota praticamente desfilando entre as pessoas. O cabelo preto cortado em chanel meio ondulado, usava um vestido preto com colarinho branco e salto também preto, era o que se via na filmagem. A menina filmada virou-se mandando um beijo rápido, a pele moreno claro, olhos arredondados e puxados no canto pretos, a boca pintada de vermelho escuro e unhas pontudas da cor vinho, usava uma maquiagem mais leve. Os garotos ao redor encaravam-na com desejo enquanto as meninas cochichavam e desviavam os olhares. Noah esperou até que a menina parasse em frente a um armário decorado com fitas vermelhas, outra garota, loira e gorducha, tinha dificuldades em abrir seu armário ao lado.
— Não quero problemas, Heather. — , Noah a reconheceu, encolheu-se segurando os livros com mais força. Heather olhou para a câmera movendo os lábios lentamente formando a palavra "Perdedora" e depois voltou a sorrir, olhando .
— A escória. — Ergueu os dedos. — Deveria mudar-se daqui e poupar todos de ver sua cara, não acha?
se encolheu mais, podendo sumir a qualquer instante. Mas não disse nada e Heather continuou falando coisas maldosas. Noah passou o vídeo para frente, não conseguia escutar aquilo.
A qualidade da gravação diminuiu, deveria estar sendo feita com uma câmera de celular e o cenário também era diferente. Alguns arbustos teimosos apareciam na frente da imagem, denunciando que quem estivesse gravando não queria ser pego. Ashley sentava-se sozinha em um banco de concreto, sua mochila estava em cima da mesa e ela comia um sanduíche natural, mastigava devagar e seus olhos tristes divagavam sem rumo aparente.
Um rapaz alto e esguio andou graciosamente ate o banco vazio em frente a , que havia corado, seu cabelo cortado no estilo militar, pele bronzeada e olhos castanho brilhantes. Lhe lançou seu melhor sorriso.
— Oi, . — O nome da garota saía estranho da boca dele, quase como se fosse errado. — Ja te convidaram pro baile?
balançou a cabeça em negativa, a mao que segurava o lanche tremia um pouco e o rapaz alargou o sorriso. Trajava uma blusa justa preta e uma calça mais larga.
— Eu e Heather terminamos e como sabe é meu desejo ser o príncipe do baile de primavera. — Suas mãos fortes pegaram as pequenas e gorduchas da garota, ele passada o dedo indicador fazendo carinho. — Sempre te observei e achei que talvez você pudesse ir comigo.
— Isso seria ótimo, Victor! — Sorriu, mas logo fechou a expressão a sobrancelha erguida, puxando as mãos e abraçando-se. Não o olhava diretamente. — É mais uma brincadeira de Heather não é? — Murmurou, quase inaudível para a gravação. Victor soltou um suspiro dramático e pegou a mão da garota mais uma vez, fazendo-a encara-lo. Passou o dedo indicador em sua bochecha, a voz saindo suave mas estranha ainda.
— Nunca faria algo assim com você. — Sorriu e Noah começará a se irritar. — Vai comigo? corou mais e assentiu. Victor levantou-se do banco, dando um beijo estalado — E forçado. — na bochecha da garota, as mãos agora dentro do bolso de sua calça.
— Te busco as oito, use algo bem bonito. — Disse deixando-a com um sorriso sincero e bobo nos lábios enquando ele sumia do vídeo.
Noah pausou. Ainda havia alguns minutos para assistir, mas o ar fugia de seus pulmões. Sentia-se enojado daquilo tudo, como se ele tivesse feito parte daquele plano, um cúmplice inativo, mas sabia que deveria ir até o fim é assim o fez. Deu play mais uma vez, sentindo sua mão suar de nervosismo.
A definição era em HD e girava por um ginásio iluminado. Faixas e balões estavam pendurados por todo o teto alto, uma música pop no fundo e pessoas com vestidos de gala. De um lado do ginásio mesas com toalhas brancas estavam lotadas de pessoas mexendo no celular ou conversando entre amigos, uma mesa maior ao fundo continha tigelas com bebida e comidas diversificadas, alguém abaixou a música com protestos e algumas vaias dos estudantes.
— Ainda não acabamos, mas chegou a hora de anunciarmos e príncipe e a princesa do baile. — A câmera focou no homem que falava em cima do palco, usava um terno cinza simples, a pele negra bem cuidado e o cabelo raspado. — Quero agradecer a presença de todos no baile de primavera da Avenue School. — Palmas e gritos. Noah conhecia aquela escola, ficava a trinta e cinco minutos dali, na cidade ao lado. Engoliu em seco. — É uma honra anunciar os vencedores e a votação este ano foi uma das maiores! Uma mulher foi recebida com assobios quando entrou no palco, usava um vestido longo e azul, os cabelos pretos trançados de lado e uma maquiagem forte realçando os traços. Segurava um envelope dourado que entregou ao homem. Noah viu ao fundo tinha mais duas mulheres segurado almofadas roxas com coroas de plástico em cima, assim como faixas. Provavelmente com os "títulos" gravados. A mulher que entregou o envelope voltou segurando um buquê de rosas vermelho, todos sorriam.
— O nosso príncipe é... — Sorriu mais, abrindo o envelope de forma lenta e depois o girando. —Victor Hambre!
Palmas de todos os lugares e uma luz foi direcionada para onde ele estava. Subiu os degraus com presa, acenando e sorrindo para todos, usando um terno preto aparentemente caro. Foi colocada a coroa em sua cabeça e ele ficou do lado do diretor, mas Noah percebeu que seu olhar estava diferente. Feliz demais.
— Agora é hora de conhecermos nossa linda princesa. — Mais uma longa pausa para abrir o envelope, mas o homem não sorriu. Estava confuso, olhou mais uma vez para o nome. — Ashley... Stone. — Sua fala desconfortável alastrou-se pelo ginásio silencioso.
Os murmúrios tornaram-se altos enquanto a luz procurava pela garota. Estava sentada, os cabelos soltos e maquiagem demais no rosto, o vestido rosa longo e apertado deixava-a mais gorda. Via-se o medo em seu rosto, mas ela levantou-se andando de forma lenta. Não sabia andar de salto.
A câmera deu zoom em Heather, a morena jogou um líquido vermelho no chão e discretamente colocou o pé na frente de , a garota caiu com um estrondo. O barulho do vestindo rasgando-se ao meio foi alto e logo a calcinha da loira apareceu, grande e com ursinhos azuis, usava uma cinta bege que não escondia muito sua gordura.
O ginásio explodiu em risadas enquanto se encolhia, os cabelos e rosto sujos com o líquido espesso, encolheu os joelhos segurando-os com as mãos. Heather apenas riu, levantando-se e indo até o palco. O diretor não sabia o que fazer, desconcertado ele colocou a coroa na cabeça de Heather, enquanto a moça que segurava o buquê desceu as escadas colocando uma toalha para tampar e tirá-la daqui, Noah viu que ela chorava muito antes da tela ficar congelada. Fechou o notebook fortemente. O coração acelerado e os olhos marejados, ele sabia que a loira podia ser uma vadia, mas suas brincadeiras eram só brincadeiras, nunca a vida insultando ninguém ou fazendo algum mal.
Aquilo era diferente, era nojento e nauseante.
— Ei, garoto. — Uma voz feminina o chamou, a quanto tempo estava ali? — Você precisa sair.
Era a faxineira. Noah jogou tudo na bolsa, limpou o suor da testa e saiu desnorteado do lugar.


Três


Nove horas. Noah estava parado em frente à casa de número quarenta e dois, na rua PineCrik. A porta branca a sua frente ainda estava enfeitada com uma guirlanda mediana, vermelha e verde. Limpou as mãos suadas pela calça e tocou a campainha. Algumas vozes foram ouvidas junto com os passos e abriu a porta abruptamente, empurrando-o para trás e fechando a porta.
— Vamos? — Puxou-o pela blusa, olhava para todos os lados procurando algo. — Cadê seu carro? — Ainda segurava-o pelo colarinho.
Noah empurrou a mão da garota, ela estava estragando sua blusa. Era a do Batman e ele amava o Batman.
— Primeiramente, se tem tanta vergonha de mim poderia ter marcado em outro lugar. — Ela o encarou, fazendo-o revirar os olhos. — Acha que não percebi como olhou para todos os lados vendo se alguém nos veria? — Deu uma pausa passando a mão nos cabelos tipicamente bagunçados. — Percebi seu olhar. — Suspirou. — Segundo, não tenho carro. — abriu um sorriso malicioso e ele completou. — Ainda.
tinha os braços cruzados sobre o peito e Noah queria poder elogia-la. Estava realmente bonita, os cabelos presos em um rabo-de-cavalo frouxo, usava um short de algodão azul, uma blusa de frio cinza e uma camiseta da Barbie. Ela parecia real, não a vadia da escola. Os dois encaravam-se parados no meio-fio.
— E como exatamente vamos chegar na sua casa? — Aproximou-se semicerrando os olhos.
— Vamos com Legolas. — Fez um floreio com a mão, apontando para a garagem da garota onde havia uma bicicleta amarela encostada no portão.
— Você só pode estar brincando. — Revirou os olhos passando pelo rapaz.
Noah fechou os olhos esperando ouvir o bater da porta anunciando a ida da garota, mas isso não aconteceu. A voz impaciente de o tirou do devaneio.
— Vamos ou você vai ficar parado aí como um lunático?
se apoiava na bicicleta, os braços cruzados deixavam a Barbie em sua blusa deformada, completamente demoníaca. Noah riu e caminhou até ela. Apoiou a bicicleta no quadril enquanto a garota subia no cano com as pernas viradas par a esquerda, quando foi subir desequilibrou-se um pouco, fazendo a bicicleta tremular.
— Nem ouse me derrubar. — Disse entredentes segurando com mais força o guidom. — Esperava mais do cara que usa uma blusa do Batman.
— Esperava o quê? — Desviou atenção da rua por instantes e a bicicleta tremeu, desciam uma ladeira pouco inclinada.
— Quem sabe um Batmóvel? — Riu. — Um dia lhe darei uma blusa que faça jus à você.
— E qual seria? — Sua voz saiu afinada, caçoando. — Da Barbie?
— Do Robin. — Virou o rosto para cima, as sobrancelhas arqueadas. — O que têm contra a Barbie?
Noah começou a rir e logo a garoto o acompanhou. Dois adolescentes falando de personagens fictícios como se tudo fosse real em cima de uma bicicleta amarela, cômico. A risada do rapaz era rouca e dela estridente. A rua ficou mais iluminada e retilínea, Noah freou aos poucos até colocar o pé direito no chão, tirando a mão do guidom para ela descer. A casa era simples, feita de madeira envernizada, dois andares com três janelas no andar de cima e duas no de baixo, as portas recém-pintadas de branco como o portão da garagem. Um jardim bem cuidado com grama verde e canteiros de várias flores, um caminho de pedra clara levava a entrada, onde havia uma varanda enfeitada com luzes de natal que piscavam e um balanço também branco. achou tudo reconfortante e abraçou-se lembrando de seus pais e o clima que a perseguia. Noah arrastava a bicicleta com cuidado para não passar as rodas em cima das flores e acenou para ela, um sorriso travesso no rosto. Esperou até ele abrir a porta para que entrasse e agradeceu, ele era mais educado que Prince, notou. A casa cheirava a bolo de chocolate e o estômago da loira roncou, o piso era de madeira e reluzia, uma escada do lado esquerdo e a sala à direita. Apesar do cheiro de chocolate outro era predominante em sua roupa, uva. Noah cheirava a uvas. Ele fez menção de segurar sua mão, mas desistiu e acenou com a cabeça para que o seguisse, passaram da sala e adentraram na cozinha. Encostada de costas na pia havia uma mulher magra, esguia e de cabelos pretos presos em um coque, usava um avental rosa clarinho. Noah foi até ela e a girou, — Arrancando uma risada surpresa da mulher. — abraçando-a.
— Boa noite, mãe. — Sua voz foi abafada pelos ombros da mulher.
Ela terminou de abraçá-lo e se virou para encarar . O avental que usava havia uma frase "A melhor mãe do mundo" e a garota pode visualizar Noah dando aquilo para ela em uma data especial, fofo.
— Olá, Ashley. — Sua voz era doce e seu sorriso chegava aos seus olhos pretos. — Chegaram na hora certa.
— Oi, senhora... — Não sabia o nome dela, trocou o peso do corpo para a outra perna.
— Pode me chamar de Helena, querida. — Foi até sua direção dando um abraço apertado e acolhedor. — Aceita bolo?
Noah apareceu ao lado de , segurando-a pela mão. Não sentia-se confortável, as bochechas queimando.
— Mais tarde, mãe. — Sorriu. — Estamos atrasados.
acenou enquanto ele a puxava escada à cima. Quatros portas fechadas distribuídas pelo corredor, foram para a última onde havia uma placa escrito "Não entre. Garoto raivoso." ela o olhou, mas o garoto deu de ombros soltando sua mão e abrindo a porta. O quarto era amplo, uma cortina vermelha na janela, as paredes pintadas de cinza, uma cama de casal com a colcha do Batman ao centro, uma escrivaninha com vários papéis e o notebook ficavam do lado direito da cama encostada na parede, do mesmo lado tinha uma guarda-roupas enorme com um espelho comprido onde lia-se, — Com batom, tentando imitar sangue. — " Qual seu filme de terror favorito?". Do lado esquerdo havia inúmeros pôsteres de filmes e jogos, um hack com TV, DVD e um som. Em cima da cama de Noah uma prateleira cheia de livros chamou sua atenção, assim como os vários livros de uma prateleira. Ela tirou os tênis e subiu na cama, pegando os CD's de uma banda indie e sentando com as pernas cruzadas.
— Aqui tem todos a discografia do Panic! — Girava os discos, admirada. — Isso é incrível!
— É minha banda favorita. — Pegou o notebook lotado de adesivos e sentou ao seu lado. — Vamos começar? Quanto antes mais rápido terminaremos e você pode ir.
o encarou surpresa, o tom de voz que havia usado foi totalmente áspero é grosso.
— Não precisa reforçar todo segundo o quanto me despreza.
Noah colocou o notebook de lado, fechou os olhos e jogou a cabeça para trás.
— Olha, — Sua voz estava rouca. — Já olhou alguma vez para mim? Ou sempre que praticou bullying estava de olhos vendados?
As palavras do garoto a atingiram como um tapa no rosto. Lembrou-se de todas as vezes em que zombou dele pelas costas, ajudou seu namorado a pichar o armário dele ou jogar lixo em suas roupas.
— Desculpe. — Murmurou cabisbaixa.
— Não quero suas desculpas falsas, guarde para outro. — Abriu os olhos. — Nós dois sabemos a vadia que você é.
Noah sentiu a própria respiração falhar quando as palavras saíram sem sua permissão, mas não tinha volta. Ele acabara de suicidar o resto da vida social que tinha. A garota o olhou por segundos até virar o rosto. Algumas pessoas precisavam de algum chacoalhão para perceberem seu erros, pensou.
— Realmente acha isso? — Não houve respostas. Ela levantou-se indo até a janela, parou olhando pro nada. — Tem razão, todos devem pensar isso. — Sua voz era de choro, mas ela não permitiu as lágrimas. — Enfim, melhor começarmos.
Voltou a sentar ao lado de Noah que abriu o notebook em silêncio, abrindo um programa de fotos e música.
— O que imagina? Posso fazer algo em 3D.
— Queria algo que lembrasse os anos oitenta, por aí. — Os dois olhavam para a tela, não se encaravam. — Baile de máscaras ou fantasia?
— Máscaras parece mais legal.
— Máscaras então. — Sorriu.
. . .

— Obrigada pela ajuda. — disse descendo da bicicleta, enfrente sua casa. Ventava forte.
— Desculpe por mais cedo, não sabia onde estava coma cabeça. — Passou as mãos pelo cabelo, os puxando.
— Estava precisando. — Abraçou-se, os cabelos balançando. — Sabe, a maioria não conhece a verdadeira Ashley e não gostariam dela.
— Acho que eu preferiria a verdade. — Sorriu, queria abraçá-la, mas não o fez.
Ela assentiu e foi até a porta, ele a olhava.
— Até mais, Noah. — Entrou.
— Até. — Respondeu, mas ela já não ouvia.
Sua mãe estava acordada, as luzes denunciavam isso. Assim que trancou a porta, a voz abafada veio da cozinha.
— Ashley, precisamos conversar.
A garota ignorou, subindo pelas escadas, trancando a porta do quarto e jogando-se na cama bagunçada. Respirou fundo, o celular apitou mais uma vez. Era mais uma mensagem de Crystal, havia treze, mas ela só leu a última.
" Bitch: Onde vc tá? Sumiu sem me avisar. Sério que vc ficou brava? Cresce e me liga. "
Não queria responder, mas preferia encerrar o assunto e nunca mais falar sobre.
" : Não to magoada, estava ocupada com o baile. Nos vemos amanhã na escola."
Enviou a mensagem e gritou sobre os travesseiro. Queria chorar para sempre e não sair dali, não queria ser a vadia da escola. Mas na cadeia alimentar escolar o melhor era estar no topo, mesmo que significasse isso. O celular tocou, um número desconhecido. demorou alguns segundos para atender.
— Quem é?
— Batman. — Suspirou. — Sou eu, Noah.
— Como tem meu número? — A pergunta saiu ríspida, sem querer.
— Isso importa mesmo? — Um barulho dele se mexendo. — Ainda quer o CD?
— Claro! Pode me entregar quando?
— Amanhã.
— Ok, amanhã na escola, então.
Desligou, o sorriso enorme em seu rosto. A ligação de Noah havia lhe deixado mais feliz que a mensagem de sua melhor amiga. A mensagem. A garota pegou o celular rapidamente, olhando os detalhes da última conversa com Crystal. A localização era Road Pic, Prince morava ali, Crystal do outro lado da cidade.


Quatro



Noah nunca havia caminhado tão confiante pelos corredores de Road Academy como caminhava agora. Usava uma blusa de mangas dobrada até os cotovelos, xadrez azul e preta, os cabelos penteados para trás e a mochila pendia em um ombro só. Na mão esquerda, — por ser canhoto — segurava um embrulho, havia passado a noite toda fazendo aquilo, azul e rosa, apesar de todos perceberem que havia um CD ali. Era um pedido de desculpas por ter agido como um babaca e também pensava que podia ser um início de amizade, apesar de tudo sentia-se feliz e orgulhoso. Tinha um plano em sua cabeça, entregaria o presente, ganharia um sorriso e um oi. Só isso e mais nada. Mas não foi isso que aconteceu.
usava a roupa de treinamento das líderes de torcida, um short de corrida azul escuro, uma blusa de mangas compridas da mesma cor por baixo da camisa justa amarela com o nome da escola em vermelho, um tênis branco e os pompons azul e amarelo. Estava encostada ao armário enquanto Prince beijava seu pescoço e Crystal mexia ao celular, entediada. Noah esperou que a garota se afasta-se um pouco do namorado, quando ela começou a mexer em seu armário ele respirou fundo e foi até ela. Passando pela ruiva, que o fitou mortalmente.
— Ei! — Cutucou seu braço, de modo leve.
o olhou da cabeça aos pés, assim como os amigos. Sentiu o estômago congelar e ficou apenas o olhando, o armário aberto. Noah percebeu a burrada que havia feito e entregou o CD abruptamente, ela o pegou de maneira estranha enquanto ele virava-se apertando a alça da mochila e indo em direção à saída. Ouviu passos apressados em sua direção e fechou os olhos, esperando o pior. Prince puxou sua mochila.
— O que é aquilo? — Noah podia ver e a amiga vindo na sua direção. As pessoas no corredor olhavam a cena cochichando.
— Não é nada. — Sua voz saiu baixa, quase um lamento. Não olhava para o quarteback.
Prince não o soltou, os punhos fechados. segurou em seu braço, os olhos grudados em Noah que se encolhia.
— Deixa pra lá, ele só deve ter errado de pessoa. — Puxou-o. — Ele não vale a pena.
, que segurava o CD com a outra mão, soltou o namorado e foi até o lixo mais próximo, jogando o embrulho ali. Meneou a cabeça em direção a Noah, depois abraçou Prince e começaram a andar na direção oposta, ignorando-o. Algumas pessoas cochicharam, mas logo o sino tocou e todos se misturaram. Noah continuou parado, em choque enquanto as pessoas passavam esbarrando em seus ombros. Ele não acreditava no quão idiota havia sido, sentiu uma raiva formar-se. Olhava para o quarteto que desfilava pelo corredor, Prince parou levando as mãos na cabeça como se esquecesse de algo e correu para o lado esquerdo, Trevor e deram de ombros continuando o caminho retilíneo, Crystal conversava ao telefone e logo separou-se dos dois, que não deram muita importância. Assim que sumiram de vista Noah voltou ao controle, sentiu a palma da mão molhada e quando a olhou percebeu que suas unhas, mesmo curtas, fincaram em sua pele e um pouco de sangue havia o melado. Suspirou, derrotado. Perderia o primeiro período da aula, mas precisava se recompor. Apertou a mochila contra os ombros, não podia ficar ali olhando pro nada ou seria pego e levaria uma ocorrência por matar aula, deu meia volta e foi em direção ao banheiro.
O banheiro masculino era horrendo para ele, os mictórios ficavam ao fundo, quatro cabines com portas azuis estavam todas rabiscadas por palavras e frases nojentas, dos quatros espelhos amarelados dois estavam trincados e os outros tinham desenhos de pênis com caneta preta ou azul permanente, pelo menos o chão era limpo e não fedia a urina era o que sempre pensava para tentar deixar tudo menos deprimente. Abriu a torneira e lavou as mãos, a água fria mandou um arrepio pelo seu corpo e fez um ardor pelo machucado, lavou o rosto e ficou encarando o próprio reflexo. Tinha olheiras por não ter dormido direito gravando os CD's, seus olhos estavam vermelho por estar segurando o choro e a boca era fina e pressionada. Apoiou as mãos na borda da pia, abaixando a cabeça e fechando os olhos. Como havia sido tão burro? O vídeo que havia recebido voltou a sua memória, queria se vingar, estava com raiva, mas fazer aquilo só o faria pior que . Balançou a cabeça. Não, ele não era assim. Apagaria o vídeo e seguiria sua vida, como sempre havia feito. Exasperou antes de sair do banheiro, faltava poucos minutos para o segundo período começar e nem ele percebera quanto tempo passará ali, sozinho. Foi até seu armário deixando a mochila lá e pegando o livro de física. Seguiu reto pelo corredor silencioso, virando a esquerda pode ouvir alguns murmúrios parecidos com alguma discussão e depois algo como alguém sendo jogado na parede. Sua curiosidade fez com que se esgueirasse pela parede, havia duas pessoas ali e eles a conhecia. Crystal e Prince. Tudo seria normal se os dois não estivessem se beijando. Noah voltou com rapidez pelo corredor, o coração acelerado e a cabeça rodando com os pensamentos. Acabara de presenciar uma traição e não sabia o que fazer. O sino tocou o assustando e as vozes se tornaram altas, ele viu do outro lado, procurava alguém. Prince, ela procurava o namorado.
Noah engoliu em seco e foi para a sala de aula.
. . .

Toda terça-feira e Prince mentiam para os amigos, eles não iam diretamente para casa. Passavam na KL, um hospital psiquiátrico. Visitavam Neri, o irmão mais novo de Prince. O motivo de não contarem para Trevor ou Crystal era simples: O garoto havia tentado se matar inúmeras vezes e nunca conseguia. Ninguém além da família e sabia disso, talvez porque Prince também tentara se matar dois anos atrás e ele havia conseguido. Ficou morto por três minutos.
A família achava que era alguma maldição, os médicos diziam que podia ser algo crônico passado de geração para geração, mas ninguém tocava no assunto e queriam que permanecesse assim. Depois de sua tentativa, quase concretizada, Prince arrumou refúgio no futebol tornando-se um astro, logo depois conheceu e foi amor à primeira vista para ambos. Eles eram felizes apesar de tudo. Mas com Neri era diferente, o garoto não encontrava nada bom o suficiente para prendê-lo a vida, os pais já haviam desistido, pois toda vez que o tiravam da clínica ele arrumava um novo jeito. sabia que o irmão mais velho não desistiria de Neri e ela achava isso uma coisa maravilhosa, via o amor que Prince tinha e às vezes se emocionava com o carinho que partilhavam.
— Oi, Neri. — Abraçou-o, sentindo os ossos de seu corpo. Havia emagrecido.
Neri tinha os olhos que oscilavam entre castanho e verde, os cabelos loiro escuro e um pouco grandes estavam bagunçados, sua boca era carnuda é bem desenhada, uma pinta pequena dava charme ao seu rosto quadrado. Usava uma camisola azul claro, uma pulseira branca de identificação e várias partes do seu braço haviam sido cobertas com gases, onde ele se ferira.
— Oi loirinha. — Seu sorriso, apesar de bonito, não chegava aos olhos.
A garota ficou parada enquanto Prince afagava o cabelo do irmão e o abraçava. Ela reparou que ele trocara de quarto. Esse tinha as paredes pintadas de amarelo claro, em um canto uma escrivaninha de madeira estava lotada de papéis desenhados, um guarda-roupas simples e a cama no meio. Um quarto simples, sem vida. Percebeu que os dois conversavam e resolveu dar a privacidade necessária.
— Vou ir buscar café, vocês querem? — Sorriu, já no batente da porta. Eles balançaram a cabeça negativamente e voltaram a conversar.
seguiu pelo corredor virando para a direita, tudo ali era tão familiar que se assustava. As paredes azuis, o chão branco. Cumprimentava algumas enfermeiras de modo casual, era tudo normal para ela. Sua rotina. Uma cadeira de plástico branca ficava ao lado da cafeteira, fitou a menina que sentava ali e enquanto esperava seu copo encher um tremor passou pelo seu corpo. A garota tinha os cabelos pretos partidos ao meio, os olhos cinzentos, a mesma camisola de Neri e uma gaze branca molhada de sangue no pulso. Não parecia sentir dor, não parecia sentir nada. engoliu seco, as lembranças atingindo-a. Dois anos atrás antes de se mudar havia pensado em morrer, na verdade tentara uma vez quando tomou vários remédios de uma vez, mas só conseguiu uma dor de barriga forte e vários boatos na escola. " Não consegue nem se matar." A voz de Heather ecoou pela sua mente.
Pegou o café e saiu dali com passos firmes, sentindo o ardor nos olhos, mas não chorou. Chegou ao quarto rapidamente e sentou na cadeira. Em frente à cama Prince fazia cosquinhas no irmão que ria de modo sincero. Bebericou o líquido quente, absorvendo aquele momento feliz e se sentiu completa.
. . .

Prince a deixará em casa há duas horas, deram um selinho rápido de despedida e antes mesmo que seu caro vira-se a esquina a garota tentara ligar para Noah. Todas suas ligações foram recusadas e agora ela estava deitada, vencida pelo cansaço.
Levantou-se e pegou o notebook, apoiando em uma das pernas. Pegou um CD virgem que tinha e foi até uma pasta escondida onde suas músicas preferidas estavam, passou-as para o CD e enquanto a tela lhe mostrava que faltavam alguns minutos para concluir ela começou a recortar um embrulho de presente que receberá anos atrás. Era da Barbie em frente a um castelo, mas deveria servir. Assim que cortou, escreveu em uma tira de fita isolante branca "Me desculpe, Batman. Sou uma vadia sem coração." E colocou sobre o embrulho, tirou o CD já concluído e o arrumou. Suspirou alto, não era o melhor pedido de desculpas, mas seria um começo. Em uma última tentativa ligou para a casa de Noah. Sua mãe atendeu no segundo toque.
— Olá, Helen. — Começou apreensiva. — O Noah está?
— Oi, querida. — podia vislumbrar seu sorriso. — Só um segundo.
Ouviu o barulho de passos pela escada e uma porta abrindo-se a voz de Helen foi abafada.
— Telefone para você. — Alguns resmungos inaudíveis. — É .
Mais barulhos de passos e depois a porta fechou-se. Noah respirou do outro lado.
— O que você quer? — O cansaço era nítido.
— Queria pedir desculpas. — Mordeu o lábio. — Tentei te ligar, mas...
— Mas não quero falar com você. — A cortou. — Sério, já não basta a escola? Você tem que me ligar e continuar essa tortura?
A voz do garoto a assustou, mas não desistiria.
— Olha, peguei o CD de volta. Queria te agradecer, foi o melhor presente que já recebi. — Disse em um fôlego só, com medo de ser interrompida novamente.
Um silêncio constrangedor a fez olhar a tela para ver se ele havia desligado, mas a ligação continuava.
— Agradeça não me ligando mais.
Ele desligou e ela ficou olhando o celular por alguns minutos, sentindo-se idiota demais. Jogou-se na cama, os travesseiro entre o rosto e gritou.
. . .

Já era madrugada quando o bipe seguido da vibração a acordou. Pensou que era Crystal e nem pegou o celular. Mais um bipe. Bufou e puxou o aparelho debaixo do travesseiro. Duas mensagens de Batman, ela havia salvo o contato de Noah assim.
Batman: Sei que pedi para não me ligar, mas... Bem isso é uma mensagem não é?
Batman: Ok, talvez você esteja me ignorando ou apenas dormindo.
Ela sorriu. Digitando e apagando até achar que estava bom.
: Isso seria uma trégua?
Mandou um EMOGI sorrindo e esperou. Ele enviou um que revirava os olhos.
Batman: Pensaremos nisso depois. Você e Prince terminaram?
Achou a pergunta estranha, mas deu de ombros como se ele pudesse vê-la.
: N. Por que?
Batman: Por nada... Até mais.
Pensou em responder, mas percebeu que não havia mais o que ser dito. Bloqueou a tela e sorriu, sentiu a esperança de que pudessem ser amigos.


Cinco


— Me deixe em paz. — andava à frente de Crystal, ignorando.
A morena puxou o braço da amiga fazendo-a parar e a encarar.
— Sério, . — Soltou-a colocando as mãos na cintura. — Você tá traindo o Princeton com aquela... Coisinha? — Cerrou os olhos fazendo um floreio com a mão.
Crystal usava uma blusa preta de mangas cumpridas, saia à cima dos joelhos xadrez, preta e vermelho, um laço pequeno vermelho na cabeça e sapatos também pretos.
— Nunca mais insinue algo assim. — Deu um passo para frente. — Eu nunca trairia Prince e você sabe disso. — Virou-se novamente, mas antes de continuar pelo corredor girou nos quadris. — Aliás o nome dele é Noah.
ouvia o barulho dos próprios saltos batendo no chão e fazendo eco, olhou para a roupa amassada. Usava uma calça jeans clara e regata rosa. O embrulho em sua mão estava meio molhado por causa do suor, ela o limpou na barra da blusa antes de entrar na enfermaria. Mais cedo, no refeitório, Trevor e Noah haviam começado uma discussão, ninguém sabia o motivo. Mas o garoto deu um soco em Trevor que revidou com um mais forte, deixando-o tonto. Prince que impedira o amigo de bater mais nele.
viu Rebecca, a enfermeira, e foi até ela. A enfermaria não era grande, uma sala de paredes brancas onde três macas com cortinas azuis ficavam, havia um armário com remédio, uma mesa quadrada com papéis sobre doenças, camisinhas e canetas. Rebecca sentava-se lá, um sorriso largo no rosto, sardinhas na bochecha rosada, cabelos castanhos presos e olhos expressivos dourados. Não era nova, mas conseguia ser mais bonita que a própria .
— Está sentindo algo, senhorita Stone? — Sua saía sempre baixinha.
negou com a cabeça, mostrou o presente e percebeu que estava horrível. Uma criança de cinco anos poderia ter feito aquilo. Não. Uma criança faria melhor. Mas não deixou o sorriso murchar.
— Vim ver Noah.
Rebecca apontou com a caneta para a maca do meio, agradeceu e foi até lá. Passou a mão no cabelo, ajeitando-o. Segurou a cortina por alguns segundos, respirou fundo e a abriu. Noah estava deitado de olhos fechados, uma mão na testa e outra segurando um saco de gelo sobre o nariz. reparou na roupa na roupa que ele usava, blusa preta por baixo de uma blusa de mangas cumpridas azul, calça bege e um tênis surrado preto. Ela gostava daquele estilo meio despojado.
— Você está parecendo uma psicopata aí parada. — Não abriu os olhos, mas sorriu.
— Doí? — Sentou na beirada da cama.
— Não muito. — Sentou-se, a encarando. — Mas não é como se eu gostasse de levar um soco todo dia.
— Por que fez isso? — Estalou a língua, os olhos de Noah eram indecifráveis.
— É cansativo ser tratado como lixo, . — Suspirou. — Muitas pessoas acabam se matando por babacas como o Trevor. — Cerrou os punhos. — Pessoas incríveis, sabe? Alguns não aguentam tantas humilhações. E tenho comigo que apesar de nossos defeitos cada um de nós tem algo extraordinário dentro de si.
As palavras fizeram os olhos da garota marejarem, ela sabia como era sentir-se como um lixo, almejar a própria morte apenas para não ter que passar por certas coisas. Entregou o embrulho abruptamente o pegando de surpresa, queria mudar de assunto antes que desabasse.
— Trouxe algo para tentar me redimir. — Deu um sorriso zombeteiro.
Noah tinha covinhas fundas quando sorria, ele girou o CD várias vezes antes de desembrulha-lo e ficou encarando sem dizer nenhuma palavra.
— É simbólico. — Exasperou. — Por ter sido uma completa idiota.
— Obrigado, Barbie. — Disse o apelido após ler que ela havia escrito Batman ao invés de seu nome. Enrugou a testa. — Agora é tipo um apelido nosso, certo?
— Algo assim. — Sorriu antes de dar de ombros. — Não enfrente Trevor de novo. — Soltou rápida.
— Não quero parecer um covarde. — Puxou os cabelos para trás, fechando os olhos novamente. — Posso me cuidar.
Remexeu-se inquieta, antes de se levantar. Não sabia se dava um beijo em sua testa ou apertava sua mão. Por fim, decidiu não fazer nada. Soltou o ar pela boca, olhando o relógio que anunciaria o início do quarto período.
— Tenho que ir. — Não queria. — Sabe, não é todo mundo que tem um nariz quebrado para faltar às aulas.
— Descobriu meu plano! — Piscou.
Assim que fechou a cortina um barulho de e-mail fez Noah suspirar. Era desconhecido, no assunto lia-se "STONE" ele abriu o anexo, era uma foto de Ashley sentada em um balanço de metal, nevava ao seu lado e suas roupas antes brancas estavam marrons, mas não era terra. Ele engoliu em seco, percebendo que não eram brincadeiras inocentes que aconteciam com a garota. No fim ainda havia a assinatura, apenas "T" e ele soube que deveria descobrir quem era.
. . .

Noah chutava as pedrinhas cada vez com mais força, ao seu lado Jack balançava a cabeça irritado. A pele negra combinava com seus olhos verde claros, o cabelo no estilo militar e músculos. Noah queria perguntar onde o melhor amiga tinha estado para ficar tão grande.
— Cara, faz algumas horas que voltei e você não para de chutar essas merdas. — Ralhou, puxando o amigo. — Vai, me conta.
Jack passará três meses em um intercâmbio pela Nova Zelândia. Noah puxou os cabelos para trás, sentia-se um péssimo amigo.
— Ashley Stone. — Soltou o nome como se aquilo bastasse, mas o amigo só ergueu a sobrancelha. — Vou enlouquecer.
— Espera. — Jack se enfiou na frente de Noah, colocando a mão sobre seu peito. — Por que aquela vadia iria te enlouquecer?
Os dois estavam indo para o Pulp, uma sorveteria e lanchonete que imitava os anos oitenta. Pararam no meio da rua se encarando, até Noah voltar a andar, olhando para o chão.
— Você vai gostar dela. — Murmurou. — Vi uma coisa que pode mudar tudo, mas ela não vai acreditar em mim.
— Desembucha, cara. — Sorriu. — Odeio enigmas.
Então o garoto contou tudo para o amigo. Desde o e-mail até a traição que presenciara, quando se deram conta já estavam dentro do Pulp. Um balcão vermelho com uma linha branca, piso xadrez, preto e branco, mesas de madeira e bancos também vermelhos encostados na parede, uma máquina de música antiga tocava rock. Os dois se sentaram ao fundo, uma garçonete veio os atender toda sorridente. Juliette era seu nome, estudava com os dois. Tinha cabelos pretos até a altura dos ombros, totalmente lisos, usava um chapéu branco, vestido rosa com bolinhas claras e um tênis all Stars cano alto, Noah a achava bonita. Os olhos pretos e sorridentes da garota brilharam ao ver Jack, ela lhe deu um abraço rápido antes de puxar uma caderneta e anotar o pedido dos dois.
— Daqui uns minutos já trago. — Piscou e saiu em direção a cozinha
Jack esperou que ela se afastasse o suficiente para inclinar-se na mesa, um sorriso fino no rosto e os olhos bem abertos.
— Temos que bolar um plano.
— Pra que exatamente? — Respondeu Noah pausadamente.
— Para que ela acredite em você. — Mordeu o lábio inferior. — Mas primeiro devemos descobrir quem está mandando esses emails pra você, pode muito bem ser a Cristalina.
Noah riu, o amigo nunca falava o nome correto de Crystal. Juliette voltou trazendo uma batata frita grande, dois Milk shakes, morango e chocolate, e dois hambúrgueres enormes. Jack passou a língua pelos lábios e antes da garota perguntar se queriam mais algo ele atacou as batatas fritas.
— Que saudade! — A boca cheia e suja de mostarda. — Tava com mais saudade dessa comida do que de você.
Noah mostrou a língua para ele e começou a comer, a mente divagando entre o que fazer e em como aproveitar o amigo ao máximo. Os dois faziam brincadeiras enquanto mastigavam e levaram vários tipos de olhares das pessoas que chegavam, mas não importava estavam se divertindo.
Quando já estavam empanturramos encostaram-se no banco e passaram a mãos pela barriga.
— Com quem vai ao baile? — Jack olhava diretamente para Juliette.
— Eu vou? — Abriu apenas um olho.
— Ah, claro que vai. — Aproximou-se. — E vai convidar uma pessoa nesse momento.
Antes de pensar Juliette apareceu mais sorridente do que nunca, a caderneta na mão e a caneta em outra.
— O que mais vão querer?
— Meu amigo quer uma acompanhante para o baile.
Juliette ergueu a sobrancelha, o sorriso maior ainda, mas as bochechas vermelhas.
— É. — Noah começou com a mão no cabelo. — Quer dizer, você tem par? — Ela negou com a cabeça. — Então...quer ir comigo? — Sentiu o próprio rosto queimando.
— Seria um prazer! — Apertou a caderneta com força e depois alguém a chamou, ela virou o rosto antes de virar-se para os dois. — Combinamos os detalhes depois. — Rabiscou os números no papel e entregou à Noah.
Quando ela se afastou, chutou o amigo por baixo da mesa.
— Você é completamente louco!
— E você tem um par. — Sorriu mais é se espreguiçou. — Vamos sair daqui.
Se levantaram e saíram do Pulp, Noah acenou para Juliette antes de fechar a porta atrás de si.
. . .

— Tenho uma ideia! — Era madrugada e Noah estava com a voz rouca na ligação. — Mas vou precisar do seu carro.
— Cara. — Fez barulho, mexia-se na cama. — São três horas da madrugada. — Enfatizou.
— Tanto faz. — Revirou os olhos. — Vai me ajudar?
— Tenho escolha? — Suspirou. — Só não faça nenhuma besteira.
— Te mando os detalhes por mensagem. — Deu uma pausa, apenas a respiração fazendo com que soubesse que o amigo continuava ali. — Você é o melhor amigo do mundo.
— Eu sei. — Sorriu. — Até amanhã.
— Até.
Noah pressionou o celular com força ao peito, o quarto na penumbra, apenas um abajur ligado e alguns papéis rabiscados. Iria atrás de Heather e descobriria mais sobre o passado de antes de interferir em seu futuro.


Seis


Não demorou para que Noah descobrisse que Heather morava no mesmo local, na verdade ele nem precisou se esforçar. Ainda encarava o e-mail brilhante na tela de seu notebook, vinha da antiga escola de . Ele havia mandado uma mensagem dizendo que era um dos alunos antigos que havia feito um intercâmbio e gostaria de rever seus amigos. Recebeu a resposta na sexta à noite e já arrumará tudo para viajar ao sábado de manhã. Usava uma calça de moletom cinza, tênis de corrida branco e blusa preta, sentia-se estranhamente bonito. Passou as mãos pelos cabelos e pegou a mochila cheia de bottoms, tinha uma quantia boa de dinheiro, documentos e os e-mails impressos. Suspirou antes de sair do quarto e descer as escadas. A casa cheirava a waffle de chocolate, seus preferidos. Entrou na cozinha dando um beijo no topo da testa de sua mãe, usava o mesmo avental de sempre, na mesa tinha suco, café, frutas e as waffles. Noah serviu-se com café forte e começou a comer.
— Jack me ligou. — Seu sorriso era largo e sentou à frente do filho. — Vão sair juntos?
— Não sei se ele vai comigo. — Deu de ombros, a boca cheia.
— Esse projeto... — Começou desconfiada, os olhos apertados. — Vai render pontos extras?
— Ah, com certeza. — Engoliu de uma vez só ouvindo a buzina tão conhecida. — Hora de ir, te amo. — Beijou mais uma vez a testa da mãe antes de correr porta a fora.
O carro de Jack era um Corolla preto, reluzia de tão limpo. Abriu a porta colocando a mochila no banco traseiro antes de virar-se para o amigo.
— Bom dia. — Ergueu a sobrancelha. — Então você vai comigo.
— Não deixarei você sozinho nessa. — Engatou a marcha antes de dar uma piscadinha. — Quem sabe encontro um cara bonitão.
Noah revirou os olhos e sorriu, aumentou um pouco o volume do som e observou como o amigo vestia-se bem. Uma calça jeans preta, blusa de algodão cinza e tenis também pretos. Tudo limpo e passado. Jack era perfeccionista de um modo extremo.
— Tá me olhando demais. — Repreendeu sorrindo. — Já disse que não tem chance.
— Despedaçou meu coração. — Virou o rosto olhando a janela, já haviam saído da cidade. — Pensei que poderia ser o novo Gregor.
Jack fez careta ao ouvir o sobrenome, acelerou um pouco mais. Sua concentração era incrível.
— Qual o plano?
— Não sei. — Confessou. — Depois que recebi o e-mail liguei três vezes para casa dela até que a mãe atendesse, falei que era um amigo antigo e perguntei onde ela trabalhava. — Suspirou. — A mãe dela pareceu relutante, mas cedeu.
— E então, qual nossa primeira parada? — Jack batia os dedos sobre o volante.
— Lanchonete Anp.
— Que nome estranho. — Acelerou e começou cantarolar.

. . .


Não era em nada como o Pulp, a lanchonete tinha aparência decadente. Um balcão amarelo, algumas cadeiras de madeira, o chão antes branco estava sujo e com manchas de café. Havia policiais e caminhoneiros ali, mas quase ninguém da idade dos dois. Sentaram-se e esperaram que alguém fosse os atender, rezando para que fossem atendidos por Heather.
Aparentemente a garota era a única garçonete. Movia-se automaticamente com uma jarra com café expresso, os cabelos presos em um rabo de cavalo, calça jeans preta, camiseta rosa e um avental amarelado. Heather foi até os dois, os olhos não transmitiam emoção algum, não se parecia em nada com a garota do vídeo.
— Bom dia. — Abriu um sorriso e pegou a caderneta. — O que vão querer?
— Um café da manhã completo. — Jack lambeu os lábios. — E um suco de laranja.
— Um café. — Noah se debruçou um pouco sobre a mesa. — Você é a Heather, certo?
A garçonete parou de anotar os pedidos, ergueu a sobrancelha e endireitou a postura.
— Sim, é meu nome.
— Posso conversar com você no seu horário de almoço?
— Não quero um encontro. — Estava furiosa. — Só porque sou uma garçonete não significa que não tenho dignidade.
— Não é isso. — Limpou as mãos na calça jeans, enquanto Jack ria. — Queria falar sobre... .
Heather encolheu-se. Guardou a caderneta no bolsão do avental e passou as mãos pelos cabelos, arrumando uns fios desorganizados.
— Sabia que esse dia chegaria. — Suspirou, dando de ombros. — Me encontre lá atrás daqui uma hora.
— Obrigada. — Respondeu enquanto ela se afastava apressada.
Jack ainda ria da situação. Noah deu um soco leve em seu braço e revirou os olhos, começando a estalar os dedos.

. . .


Heather jogou a bituca de cigarro no chão e pisou em cima, jogando o ar para cima. O sol batia de leva em sua pele. Noah aproximou-se, as mãos nos bolsos e os cabelos nos olhos.
— Então, o que você sabe sobre Ashley e eu? — Nem esperou que o garoto se aproximasse.
Noah soltou o ar, olhou para o céu com os olhos fechados. Deixando que o calor invadisse seu corpo frio. Ele contou sobre o vídeo que havia recebido e como era estranho.
— Sinceramente não sei nada sobre esse vídeo. — Aproximou-se e colocou uma mão em seu ombro. — Pra mim ele tinha sumido junto com Victor.
— O Victor sumiu? — Não tirou a mão da garota, nem moveu-se. Ela assentiu, puxando o ar pela boca.
— Sumiu depois que nossa filha nasceu. — Afastou-se, tirou do bolso de trás da calça uma carteira vermelha e mostrou uma foto. Um bebê sorria segurando uma chupeta rosa. Os olhos e a cor da pele eram iguais a de Victor. — Não pesquisou sobre mim não é?
— Queria descobrir pessoalmente.
— Vamos a sua grande descoberta. — Sentou-se em um caixote de madeira, estavam no beco atrás da lanchonete. — Depois daquele baile eu acabei me machucando em um dos treinos, eu era capitã do time e um campeonato se aproximava, fui correndo para o hospital, não podia deixar que um pulso quebrado me parasse. — Sorriu de forma triste. — O médico pediu uns exames de sangue e então veio a confirmação. Eu estava grávida.
Noah trocou o peso do corpo, encostou-se na parede suja e descascada.
— Contei pro Victor, ele disse que não podia ser dele. — Uma risada sem humor escapou de seus lábios. — Depois de uma semana ele fugiu. Eu não consegui uma vaga na faculdade, fui expulsa do time, meu pai não aceitou isso e foi embora também.
— Eu não sabia disso... — Começou a se desculpar.
— Você não tem culpa. — Levantou-se, limpando as mãos. — Acho que é apenas carma, nunca fui boa com as pessoas e a vida me castigou por isso. — Suspirou. — Se tiver a chance diga a que eu realmente sinto muito, o que eu fazia não era humano.
— Vou dizer. — Tentou sorrir.
— Obrigada. — A garota o surpreendeu com um abraço. — Mais uma coisa, Noah. Tome cuidado com a minha prima, acho que é de família ser assim.
— Prima? — Noah afastou-se com cuidado para não parecer rude.
— Sim, a Crystal. — Ergueu a sobrancelha. — Não sabia?
— Ah, claro. Tinha me esquecido. — Pegou o celular, fingindo olhar as horas. — Melhor eu ir.
Acenou com a mão e andou apressado para fora do beco. O ar não chegava ao seu pulmão como deveria, sentia-se zonzo. Era informação demais para ser digerida. Queria vomitar, correr da realidade.
— Ei, você tá bem? — Jack afagou suas costas.
— Não, cara.
Noah tinha lágrimas nos olhos, nada mais fazia sentido. Acreditava em cada palavra de Heather e duvidava muito que ela teria mandado o áudio. Tudo apontava para Crystal, mas qual seria o propósito de tudo? Ele não fazia ideia.
— Vamos embora daqui. — Jack o puxou para o carro.
Passou o caminho de volta todo em silêncio. Estava no modo automático, despediu-se do amigo e entrou em casa, falando para a mãe que não sentia fome. Deitou-se na cama e ficou encarando o número de , não sabia se deveria falar algo ainda, mas sentia cada vez mais que algo estava prestes a mudar. Por fim, acabou dormindo com uma mensagem digitada, mas nunca enviada.


Sete


Noah acordou tarde o suficiente para não almoçar em pleno domingo, rolou pela cama tentando desviar da fresta de luz que entrava pela janela. Queria mais cinco minutos, mas sabia que se continuasse dormindo sua mãe acharia que estaria morto. Desbloqueou o celular e percebeu que além de mensagens de Jack tinha também de .

Barbie: Planos para hoje? 8:34
Barbie: Isso foi um não! Ótimo! 9:00
Barbie: Venha para a festa hoje, 21horas. Vou te mandar o endereço. 9:01
Encarou o horário. Quem acordava às oito horas da manhã em pleno domingo? Só pessoas malucas, pensou. Primeiro respondeu às mensagens de Jack, falando que estava vivo e acordado.
Noah: Caraca, eu só estava dormindo. Festa? Amanhã temos aula...
Não demorou nem um minuto para que a resposta chegasse carregada de emoticons. Revirou os olhos.
Barbie: Deixe de ser tão certinho por um dia. Estarei te esperando lá.
Sentou-se na cama, passou a mão pelos cabelos e olhou para a escrivaninha. Seus trabalhos já estavam todos feitos, não havia mais nada interessante para fazer no domingo. Mandou um "ok" para a loira e foi para o chat de Jack.
Noah: Cara, vem pra minha casa temos uma festa para ir. O celular tocou. Pelo jeito o melhor amigo estava tão incrédulo que não acreditava nas palavras que lerá.
— Gostaria de saber quem sequestrou meu melhor amigo.
Noah revirou os olhos, girando mais uma vez na cama.
— O coringa. — Bufou. — Você vai ou não?
—Eu já ia te chamar. —Jack suspirou alto. — Te pego as nove e meia.
— Mas a festa começa as nove!
Jack riu, sua risada era rouca e alta.
— Ninguém chega no início, Noah.
— Desculpa se não li o manual de festas. — Ficou irritado e sentou-se na cama.
— Não precisa ficar irritadiço. — Mais uma risada. — Tenho que preparar minha roupa.
Noah jogou o celular na cama e se levantou. Parou na frente do espelho e ficou olhando para o reflexo, havia marcas de baba seca no rosto, os cabelos bagunçados, roupas amassadas e apenas uma meia no pé direito. Suspirou e foi direto para o banheiro, precisava estar bem arrumado para sua primeira festa do ensino médio.

. . .


colocou o celular sobre a penteadeira e continuou prendendo os cabelos. Usava um vestido de algodão rosa e nenhuma maquiagem, sentia-se leve por estar em casa.
, desça para conversarmos. — A voz de sua mãe era baixa do outro lado da porta.
A menina cravou as unhas na coxa, estava evitando essa conversa há uma semana. Não queria saber sobre o divórcio, pois assim que soubesse os detalhes tudo se tornaria verdade. Suspirou antes de levantar e abrir a porta, sua mãe não estava lá. Desceu as escadas de modo calmo. Um passo de cada vez, pensava. Quanto mais perto mais sentia o coração acelerar. Marta, sua mãe, encontrava-se sentada no sofá. A cabeça tombada para baixo com cabelos desgrenhados, as mãos juntas e batia o pé impaciente. Assim que ouviu o barulho da filha se aproximando ergueu a cabeça, seus olhos se encontraram por breves segundos antes que os desviasse.
— Sente-se.
— Posso ouvi-la daqui. — Ashley odiava falar assim com sua mãe, mas estava magoada demais.
— Isso não vai ser fácil para mim. — Deu uma pausa, olhou para as revistas em cima da mesinha de centro antes de voltar-se para a filha. — Nem para nós, mas...preciso de você, filha.
sentiu um frio repentino, olhou ao redor. Como podia sentir que estava em um local totalmente desconhecido mesmo tudo continuando igual? O sofá cinza ainda tinha as marcas de seu antigo gato, as revistas ainda ficavam jogas de qualquer jeito sobre a mesa de vidro, o tapete felpudo preto ainda tinha queimadura feita por ela e Crystal. Pendeu a cabeça para trás e sentou ao lado de sua mãe, entrelaçando suas mãos.
— Isso é demais para mim. — começou, sentindo as lágrimas rolarem. — Papai nem ia se despedir.
— É difícil para nós, todos nós. — Apertou suas mãos. — Seu pai e eu ainda nos amamos, mas não desse modo.
— Só queria que fosse diferente... — Murmurou.
Marta agachou-se em sua frente e segurou o rosto da filha, fazendo-a olhar fixamente em seus olhos. As duas choravam.
— Vamos ficar bem contanto que fiquemos juntas. — Engoliu em seco. — Não consigo dormir pensando que você me odeia.
— Eu te amo, mãe. — As lágrimas turvavam sua visão. — Não te abandonarei. abraçou sua mãe fortemente como se aquilo não fosse suficiente, como se o amor que sentia explodisse em seu peito. Sentia falta daquilo e dali para frente tentaria ser a melhor filha. Marta afastou-se uns centímetros.
— Quando estiver pronta precisa falar com seu pai. — Acariciou o rosto da garota que assentia e a puxava para mais um abraço.

. . .


Noah mandou uma mensagem pedindo para que Jack buzinasse e subisse para seu quarto assim que chegasse, estava se sentindo estranho e desconfortável. Já eram dez horas quando Jack apareceu, usava uma blusa cinza de mangas cumpridas, calça de moletom preta e um tênis, havia glitter azul marcando sua bochecha do lado esquerdo do rosto, logo abaixo dos olhos deixando-os realçados.
— Uau! — Jack colocou as mãos sobre a bochecha olhando para Noah, que estava fixado no próprio reflexo. — Onde esse garoto esteve o tempo todo?
— Para com isso. — Não desviou o olhar. — Mas está bom?
Noah escolhera uma blusa vermelho escuro de mangas cumpridas que ele havia dobrado até os cotovelos, uma calça preta e tênis, colocou um boné preto virado para trás, seu cabelo estava grande demais para ficar bonito penteado.
— Você está lindo! — Aproximou-se. — Só falta um detalhe como o meu.
Jack tirou do bolso um potinho e destampou, lambeu a ponta do dedo indicador e passou no glitter.
— Sério? — Noah ergueu a sobrancelha e o amigo assentiu. — Tudo bem.
Jack passou o pó brilhante do lado direito do rosto de Noah e limpou o que sobrou em sua roupa. Abriu um sorriso e bateu palminhas.
— Agora é hora de irmos. — Piscou indo em direção à saída do quarto. — A festa só começa quando eu chego.

. . .


Jack deixou Noah no jardim e foi colocar o carro no estacionamento, estavam em uma verdadeira mansão há cinco minutos da cidade. Os adolescentes seguravam copos e gritavam para serem ouvidos por cima da música eletrônica estridente, o cheiro de álcool e menta era presente, a iluminação era na medida certa e às pessoas estavam incrivelmente bonitas. Noah questionou-de onde elas se escondiam na escola. Esperou até que o amigo voltasse e batesse em seu ombro para que entrassem na casa, ele já segurava um corpo.
— É só refri, eu juro. — Fez Noah cheirar o conteúdo. — Não bebo dirigindo. — Piscou e foi em direção à porta.
As paredes eram da cor creme, entraram diretamente na sala amarrotada de gente. Havia dois sofás onde pessoas brincavam de algum jogo com cartas, — Que Noah percebeu consistia em quem ficava pelado por último. — música alta e uma porta de vidro logo ao fundo que dava para ver a piscina aquecida. Foram até o próximo cômodo. A cozinha parecia mais cheia do que realmente estava. Copos e garrafas de bebidas estavam jogados pelo balcão, disputando espaço com os corpos que se espremiam em amassos quentes até demais. Se espremeram para passar até chegar do lado de fora. estava sentada na borda da piscina com os pés na água, o cabelo estava preso em um rabo-de-cavalo e suas pontas estavam molhadas, usava a parte de cima de um biquíni preto com bolinhas brancas e um shorts jeans escuro, Jack percebeu o olhar do amigo e o empurrou em direção a garota saindo para o outro lado. Noah tirou seu tênis e dobrou a calça, deixando o calçado perto de uma planta e sentou-se do lado da garota.
— Adolescentes bêbados e musica alta. Esse foi meu pedido de aniversário, sabia?
— Oi pra você também, Noah. — Revirou os olhos e virou o rosto em sua direção. — Uau! Não sabia que você tinha roupas bonitas.
O garoto sorriu, mostrando a língua logo em seguida e notando o copo de bebida na mão da loira.
— Posso abrir uma loja de roupas que te deixaria babando. — Fez uma voz mais feminina.
— Com certeza babaria. — Deu um gole e fez careta. — Então o que pretende fazer nessa incrível festa?
— Pensei em lhe pedir sugestões. — lhe ofereceu a bebida, ergueu a sobrancelha antes de pegar o copo e dar um gole. O gosto era terrível e quente. — Espero que sejam melhores que essa bebida.
Ashley revirou os olhos. Percebeu que Juliette não parava de os encarar, as bochechas da garota estavam ruborizadas.
— Você podia tentar conversar com alguém. — Apontou discretamente com o copo em direção ao olhar inquieto. — Acho que teria sorte! — Piscou.
Antes que pudesse responder a música foi interrompida abruptamente e gritos foram ouvidos. A maioria que estava na piscina parou de rir e as pessoas ao redor começaram a entrar na casa. Noah e se entreolharam antes de seguirem os outros. A confusao vinha da sala, demoraram para se enfiar entre os corpos e chegar até o centro de tudo. Crystal filmava a briga sentada no sofá, enquanto Prince ficava atrás de Trevor que discutia com Jack.
— ... Não tem esse direito! — Jack rebatia algo que Noah não havia entendido, o amigo tinha lágrimas no canto dos olhos.
— Se você contar algo eu... eu...
— Você o que? — Jack se aproximou mais de Trevor e Prince também deu um passo. — Vai me bater novamente? Ninguém pode saber o que você é, tenho nojo do que se tornou.
— Você não tem esse direito! — Esbravejou e ergueu a mão para dar um soco, mas a deixou pendente no ar.
Noah entrou na rodinha ficando ao lado de Trevor.
— Nem tente. — Olhou para Prince e Trevor.
— O que você vai fazer? — Trevor se aproximou. — Jogar um livro em mim?
se colocou ao lado de Noah desviando o olhar de Prince.
— Tá na hora de você ir embora, Trevor.
— Parece que temos um corno aqui. — Trevor bateu de ombros com Prince e saiu esbarrando nas pessoas.
Crystal sorria com um pirulito na boca, levantou-se guardando o celular na bolsa e ajeitou o vestido e o laço preto no cabelo. Passou a língua pelos lábios antes de cumprimentar Noah e Jack, ignorando .
— Primeira vez que te vejo em uma festa e quando aparece acontece isso.
— Deixe ele em paz. — grunhiu do seu lado.
— Ashley. — Prince repreendeu. — O que você tá fazendo? — Sua fala saiu pausada e baixa.
As pessoas ao redor continuavam encarando e cochichando. Eles estavam criando um novo espetáculo.
— Que vocês deveriam cuidar da própria vida e dos próprios problemas. — Olhou para todos ao redor. — É melhor irmos embora. — Virou-se para Noah e Jack.
— Você vai embora com eles? — Enfatizou segurando o braço da namorada.
desvencilhou-se, olhando-o com cara feia.
— É isso que os amigos fazem, Prince. — Empurrou Jack e Noah para a saída, enquanto abriam espaço. — Te ligo mais tarde.
Prince ficou parado vendo quando saia com os dois e a festa se reiniciava com gritaria e música alta.


Oito


— Não precisava ter feito isso. — Noah coçava a nuca, puxando os cabelos de leve.
— Eu sei. — Deu de ombros. — Mas aquela festa tava um porre. — Sorriu. — Agradeça a Jack pela carona.
Noah olhou para trás, dentro do carro o amigo descansava a testa no volante. Assentiu.
— Te vejo amanhã, Noah. — Ergueu um pouco o corpo e deu um beijo em sua bochecha.
O garoto ficou sem reação por um tempo e quando pensou em dizer algo já tinha fechado a porta. Balançou a cabeça pensando em como havia agido como um bobo e andou até o carro. Fechou a porta com um suspiro pesado e passou a mão pelas costas do amigo.
— Como você tá? — Já sabia a resposta. Jack fungou. — Trevor não pode continuar fazendo isso.
— É o pai dele. — Lamentou e desencostou do volante, olhando para o asfalto. — Nunca vai aceitar o que somos e eu não posso me enganar mais.
— O Trevor sempre foi um idiota, mas não merece isso. — Arfou. — Melhor irmos para casa e amanhã podemos pensar melhor.
Jack assentiu ligando o carro e arrancando, não conseguia pensar em mais nada.


. . .



Noah acordou atrasado pela primeira vez em sua vida e colocou a culpa na festa. — Festa essa que ele não havia ficado nem por uma hora. — Olhou para o lado e não viu Jack, bufou e foi direto para o banheiro.
Depois do banho quente e rápido foi até a cozinha, sua mãe conversava animadamente com Jack que usava suas roupas. Noah riu, o amigo era alguns centímetros maior e teve que dobrar as blusas até o cotovelo.
— Bom dia, mãe. — Beijou o topo de sua testa e foi até a geladeira. — Bom dia, Jack.
Jack fez um aceno de cabeça enquanto comia mais um pedaço de bolo. — Era o terceiro da manhã. — e voltou a conversa normalmente. Noah enfiou um pedaço de pão com geleia de uva na boca e tomou o café por cima, olhando para o relógio sabia que deveriam correr ou se atrasariam para o primeiro período e eles tinham prova de álgebra.
— Se não se importa. — Cutucou o ombro do amigo. — Temos que ir, minha mãe sempre estará aqui, mas a prova de álgebra só estará lá daqui meia hora.
— Me importo sim. — Levantou-se e deu um abraço em Hellen. — Mas, infelizmente, você tem razão melhor irmos. — Deu um beijo no rosto da mulher que sorria e saiu com Noah logo atrás de si.

Os dois tentavam não fazer contato visual de modo algum, cantarolavam a música que tocava no rádio e tamborilavam os dedos pelo carro. O celular de Noah vibrou com uma mensagem de "Bom Dia" de carregada de emoticons, ele simplesmente sorriu e respondeu que não a ajudaria em álgebra caso ela pegasse recuperação pois perderia a prova, logo em seguida recebeu um novo email. A garganta ficou seca por segundos, engoliu em seco olhando para o amigo.
— Cara mais um daqueles emails.
Jack deu uma freada brusca quando o semáforo ficou vermelho.

— Tinha esquecido disso. — soltou o ar. — Temos que dar um jeito de descobrir quem anda fazendo isso antes de contarmos algo a Ashley.
Noah assentiu abrindo o email.

De: anonimo@mail.com
Para: noahaniquilador@mail.com
Assunto: Problemas no paraíso?

"Querido" Noah,
Vi que não usou tudo que te enviei para malefícios, pelo contrario foi atrás de uma de minhas fontes. Você também ficou com dó da história dela? E se eu te contasse que sabia o que Victor planejava fazer e preferiu não contar nada a Heather? Continuaria a protegendo? Bom, mas isso é outro assunto. Hoje eu resolvi trazer algo diferente, que você já sabe, mas não faz ideia do que fazer com essa informação. Seu tempo está se esgotando, faça escolhas certas.
Abraços, T.

Havia dois anexos de fotos. Uma era de Crystal e Prince se beijando no corredor da escola e o outro era uma foto de com rouba de líder de torcida com dois chifrinhos na cabeça, estava escrito "perdedora" logo abaixo de sua foto. Noah sentiu o rosto arder, o carro começou a andar. Queria mostrar aquela foto para , mas sabia que isso a deixaria arrasada e assustada, além dele poder ser acusado de fazer uma montagem só para separar o casal mais popular, respirou fundo. Não podia fazer isso, não era assim e nem se tornaria algo que jurou destruir. Bloqueou o celular e encostou a cabeça no assento do carro, já estavam chegando.
— O que foi dessa vez? — Jack tinha a testa enrugada.
Noah leu o email e mostrou as fotos, o amigo entrou com toda velocidade no estacionamento do colégio e desligou o carro. Tirou o cinto e o encarou.
— Vamos ter que mostrar para que ele anda a traindo, mas temos que fazer com que ela veja com os próprios olhos. —Noah assentiu e ele continuou. — Por enquanto devemos focar na escola e tentarmos pega-los no flagra, não responda esses e-mails vou procurar alguém que saiba hackear para descobrirmos a origem.
— Obrigada. — Murmurou e ganhou um abraço apertado.

Sairam do carro e foram correndo para não se atrasarem mais.

. . .


Os dois comiam e conversavam de boca cheia, era intervalo e teriam que aguentar apenas mais duas horas antes de irem embora. Trevor e Prince vieram em suas direções com as bandejas em mãos, enquanto e Crystal apenas encaravam e sussurravam "O que pensam que estão fazendo?" da outra mesa, todas as atenções foram dirigidas aos quatro. Jack revirou os olhos.

— Dia agradável não acha? — Trevor sentou-se em frente á Noah. — Não acabamos ontem.
— Acabamos sim, Trevor. — Jack retrucou enfiando um brocolis na boca.
— Onde levou ? — Prince os ignorou.
— Para a casa dela. — Noah se impressionava com a falta de inteligencia do quarterback e queria muito soca-lo, mas sabia que não teria chances.
— Vocês dois andam muito próximos, não acha? — Prince inclinou-se sobre a mesa.
— Posso jurar que nós dois estamos próximos agora. — Zombou. — Mas se quer saber só conversamos coisas do baile.
— Não brinque comigo. — Rosnou e Trevor apenas riu ao seu lado. — Se afaste dela.
— Ou o que? — Trevor levantou-se colocando as mãos sobre a mesa, fazendo um barulho. — Vai soca-lo? Faça isso, Princeton. — Seus olhos estavam estreitos. — Está na hora de você levar seu cachorro raivoso para passear, Trevor.
Prince tentou avançar contra Jack, mas Trevor o impediu e começou a arrasta-lo.
— Não acabamos. — Prince gritou.
— Pelo contrario apenas começamos. — Jack sorriu mostrando a língua para Crystal.
Os dois se encararam e começaram a rir enquanto o pátio voltava a conversar alto e Prince e Trevor já haviam voltado para a mesa habitual.
— Está na hora de acabarmos com eles.
— Os dois? — Noah ergueu uma sobrancelha.
— Trevor é quase meu ex namorado e eu não vou ficar aturando isso. — Mordeu o lábio. — Aliás ele é muito atrevido de vir até aqui nos ameaçar.
— Vamos montar um plano.
Jack riu da voz que o amigo tinha feito e abriu uma barra de chocolate, estava comento descontroladamente para descontar toda sua raiva e frustração naquilo. Ele conhecia o verdadeiro Trevor e sabia que não era daquele modo, por segundos ele amaldiçoou toda a sociedade e seus padrões.


Nove


Estava fazendo seu último trabalho escolar quando a porta de seu quarto foi aberta abruptamente. Já sabia que era o melhor amigo, por isso, nem se deu ao trabalho de virar-se.
— Larga isso e vem comigo. — Cutucou-o com o cotovelo.
— Para com isso. — Noah ergueu o olhar para Jack recostado em sua mesa, revirou os olhos. — O que você deseja?
— O que você deseja? — Fez uma voz de criança e riu logo em seguida. — Cara, falta uma semana praticamente pro ensaio da formatura e você não tem nenhum roupa decente.
— Preciso terminar isso, é pra duas semanas e...
Jack interrompeu a fala do amigo com um belo tapa na nuca, Noah soltou um "Aí" bem alto e depois o olhou indignado.
— Você é louco. — Bufou indo até a porta do quarto.
— E você — Jack cruzou os braços. — vai ficar sem par pro baile, a Ju já comprou um vestido, sabia?
Noah bateu com as costas da mão na própria testa e depois ergueu os braços em rendição. Pegou sua carteira e esperou que Jack passasse pela porta.
. . .

Jack cantarolava uma música indie que tocava na rádio. Quando pararam no semáforo pediu para que Noah procurasse por Steicy em seu celular. Noah encarou a tela. Uma garota morena de cabelos castanhos escuros e olhos da mesma cor sorria para a foto, usava um vestido preto e fazia um V com os dedos para o fotógrafo. Ergueu a sobrancelha sem entender.
— É bonita, mas?
— Ela vai nos ajudar. — Deu partida no carro. — É uma amiga minha, conheci no Intercambio ela é do Brasil. — Continuou a cantar.
— Tá bom, mas em que exatamente ela pode ajudar?
Jack esperou a música terminar para começar a explicar, isso era uma de suas manias que mais irritava Noah.
— Steicy é ótima em hackear e descobrir a origem das coisas, se você concordar ela pode achar o IP de quem anda enviando seu e-mail e depois só descobrimos o nome.
— Ela pode mesmo fazer isso? — Agora o amigo tinha sua atenção total. Encarou novamente a foto, a menina baixinha e magra não parecia tão ofensiva assim.
— Pode e vai. Basta você aceitar e eu passo seu número pra ela agora.
— É claro que eu quero, cara! — Um sorriso enorme alargou-se em seu rosto.
Jack piscou e estacionou o carro em frente a uma loja de dois andares, vários vestidos de baile estavam expostos na vitrine junto com smokings de variadas cores. Os dois entraram na loja e um sininho tocou, logo em seguida uma mulher apareceu. Noah ainda reparava no local, o chão branco límpido, as paredes cinza escuro, araras com roupas e vestidos, camisas em cima de mesas de vidro, sapatos suspensos na parede e preços absurdamente elevados. Engoliu em seco. A mulher, que se chamava Isabella, sorria para os dois. Usava um terninho preto e um salto alto, mas mesmo assim ainda era mais baixa que os dois, os cabelos pretos e lisos estavam presos em um coque e os olhos castanhos tinham uma maquiagem leve.
— Boa tarde, como posso ajudá-los? — Sua voz era doce e suas mãos estavam juntas.
— Queremos smoking e sapato social para o baile. — Jack fez uma voz galanteadora.
Isabella sorriu mais ainda.
— Me acompanhem.
Enquanto iam atrás dela passaram por mais dois cômodos igualmente grandes, várias meninas gritavam quando viam as amigas em vestidos enormes de formatura. Noah encolheu-se tentando imaginar qual vestido Juliette usaria. Cutucou o amigo de leve.
— Cara os preços daqui são absurdos. — Sussurrou.
— Deixa que eu pago, considere um presente pra você. — Jack piscou.
Jack era rico, um dos mais ricos da cidade e Noah acreditaria se alguém falasse que a família do amigo era uma das mais ricas do estado. Assim que chegaram em uma sala cheia de provadores e espelhos Isabella pegou suas medidas e saiu do local, pedindo para que a aguardassem. Estavam sozinhos ali. Alguns minutos se passaram até que o barulho do salto anunciasse que a mulher voltava. Os seus dois braços estavam lotados de ternos de variadas cores, ela ainda mantinha o sorriso no rosto. Noah levantou-se para ajudá-lo, mas foi recusado.
— Entrem nas cabines e eu entrego as roupas para cada um.
Jack entrou na esquerda e Noah na da direita. Logo em seguida Isabella entregou sete smokings para cada um. A medida que experimentavam eles saiam e olhavam-se no espelho, o tamanho ficava bom, mas as cores não agradavam nenhum dos dois. Jack achaca as que havia experimentado todas sem graça. Preto escuro. Cinza. Branco. Nenhuma ficava como ele imaginava. Os dois riam a cada vez que se viam, fazendo piadinhas. Noah encontra o smoking perfeito no quinto que prova, é preto fosco e para ele ficou excepcional. Jack concorda com o amigo, mas ainda não achou algum que goste e falta apenas mais um para experimentar. Noah senta-se e espera que o amigo se troque, quando Jack aparece está com um sorriso enorme no rosto, usa um smoking de veludo vermelho escuro que realça seu tom de pele e seus olhos.
— É esse! — Rodopia na frente do espelho.
— Ficou muito bom. — Noah levanta-se e vai até o amigo.
Vozes conhecidas chamam a atenção dos dois, particularmente uma em si. É a voz de Crystal e ela grita com a mulher que está a atendendo. Os dois colocam a cabeça para verem o outro cômodo e acabam vendo Crystal em um vestido horrendo roxo escuro que a deixa gorda e Prince sentado à observando, ele roe as unhas e bate o pé de modo descontrolado no chão. A mulher que atende Crystal passa apressada pelos dois, a garota segura os cabelos enquanto fecha os olhos. O celular de Prince toca, sua expressão de susto deixa claro para os dois de quem é a chamada: . O rapaz levanta-se e vai até o outro lado da sala, possibilitando que Jack e Noah possam o ouvir. Ele fica calado por um tempo, os dois podem ver que ele puxa os cabelos.
— Meu amor, me desculpe. Estou no treino, podemos nos ver mais tarde? — Mais uma pausa. — Claro, claro. Desculpe. Te amo. — Desligou e apertou o celular contra o peito.
Não percebem quando Crystal aparece atrás dos dois, as mãos na cintura. Ela Pigarreia.
— O que fazem aqui? — Seus olhos se estreitam.
— É uma loja pública, não é? — Jack olha ao redor sorrindo.
Crystal aproxima-se dos dois.
— Sei que está tramando algo, Jack Gregory. Cuidado, sei sobre sua "amizade" com trevor e o pai dele ficaria feliz também.
Jack não se deixa intimidar e aproxima-se também, até que não sobre espaço entre os dois. A sua altura faz com que ele tenha que olhar para baixo.
— Engraçado você dizer isso. Me ameaçar de tal forma quando está aqui com o namorado da sua amiga? Quer dizer, pelo que ouvimos ele está no treino.
A garota bufa, mas não consegue retrucar. Prince aparece do seu lado, olha para os três e a puxa, logo em seguida chega a atendente com outros vestidos, assim como Isabella. Os dois pagam as compras, antes de saírem Jack tira uma foto sem que percebam e saem da loja.


Dez



Os dois haviam marcado de se encontrarem no Pulp. Como de costume Noah chegou primeiro e pediu dois milk shakes, ele sabia que era viciado, mas não se importava. Dessa vez tocada uma música pop/indie de uma nova cantora, ele batucou o ritmo de "Ugly" enquanto entoava baixinho a música. Seus olhos se fecharam conforme chegava a parte do refrão. Deu um pulo quando a mão tocou seu ombro, o coração acelerado e a boca seca, mas quem viu não era a pessoa que esperava.
— Oi, Ju! — Tentou soar o mais tranquilo que podia. — Desculpe, nem te vi chegar.
— Eu que peço desculpas por te assustar. — Suas bochechas estavam rubras. — Trouxe seu pedido. — Depositou as taças na mesa, os pés batendo inquietos e a bandeja pressionada contra a barriga, mordia o lábio inferior.
— Algum problema? — Franziu a testa.
— Ainda vamos ao baile juntos, certo? — Remexeu-se mais ainda. Alguns clientes já olhavam feia.
— Claro, por que a pergunta?
Julliete olhou para as duas taças depois para o rosto do garoto. Seu rosto poderia facilmente ser comparado a um pimentão.
— Ah, não. — Noah riu. — É só uma amiga, já até comprei meu smoking.
A garota abriu um enorme sorrindo antes de sair apressada após ser chamada pelo nome. Noah olhou par a tela do celular inúmeras vezes antes de começar a tomar seu milk shake, já pensava seriamente em ir embora quando a porta fez o típico barulho quando um novo cliente entra. Vários garotos entraram gritando e logo no fim, como uma esperança solta apareceu. Usava um moletom cinza largo, o capuz sobre o rosto, um tênis esportivo e as mãos enfiadas no bolso da calça também cinza com "barbie" bordado ao lado direito, um detalhe tão pequeno que fez Noah abrir um sorriso enorme, um suspiro de alivio saiu de sua boca. A garota olhou para todos os lados até avista-lo e andar em sua direção, cabisbaixa e apressada.
— Desculpa a demora. — Estava ofegante. — Tive alguns imprevistos e vim correndo.
— Tudo bem. — Mentiu. — Tá bem?
deu um longo gole no milk shake que já ficava aguado, suspirou fundo antes de colocar os cotovelos sobre a mesa e afundar os cabelos nas mãos. Parecia prestes a chorar, mas não o fez, apesar de Noah saber que ela segurava.
— Está sendo uma tortura ficar em casa, minha mãe chora todas noites no quarto e acha que eu não sei, ela em esperanças do meu pai ligar ou simplesmente aparecer de uma hora pra outra. — Respirou o fundo, controlando-se. — Não consigo encarar isso tudo sozinha, mas não posso sobrecarregá-la.
Noah puxou uma das mãos de o que lhe deu um pequeno susto. Os olhos da loira estavam marejados, o nariz e bochecha vermelhos.
— Olhe pra mim. — Pediu em um murmúrio. — Você é forte e sei que consegue, mas não precisa aguentar tudo sozinha, tem a mim. Já pensou em falar com seu pai?
puxou a mão com força e abraçou-se. Bebericou mais um pouco antes de lançar um olhar fulminante.
— Nunca mais vou falar com aquele... homem.
— Um dia terá que perdoa-lo.
mexeu a cabeça de um lado para o outro de modo rápido negando tudo. Noah não queria deixa-la pior, por isso, chamou outra garçonete e pediu mais milk shake, pigarreou assim que a atendente saiu e tentou fingir certo conforto com o silencio.
— Hoje fui comprar meu smoking, foi estranho e...
— MEU DEUS! — elevou a voz dando um pulo na cadeira. — Esqueci completamente! — Bateu com a costas das mãos na testa. — Falta uma semana pro ensaio do baile, falta muitas coisas para organizar e Prince nem mesmo me convidou.
Só a menção do nome do garoto fez com que Noah sentisse incomodado, o novo sorvete chegou, ele afastou um pouco a taça para encara-la. Cruzou as mãos em cima da mesa, a testa enrugada e a boca apertada.
, eu preciso te contar uma coisa muito séria, mas preciso de provas para isso.
— Pare com isso. — ficou séria. — Conte-me logo.
— Não posso. — Mordeu o lábio, endireitando-se na cadeira. Passou a mão pelos cabelos antes de mudar de assunto. — Podemos falar sobre outra coisa?
assentiu e quando perceberam estavam em um assunto completamente animado sobre como redes sociais e o youtube podem ser comparados a um buraco negro, você entra e nunca sai. Era meia noite quando foram embora, não por que quisessem, mas porque o Pulp precisava fechar. Noah a levou em Legolas antes de seguir rumo à sua casa com um enorme sorriso no rosto.
. . .
Chegando em casa avisou sua mãe pela porta do quarto que havia chegado em segurança e sem nenhum tiro ou ferimento grave, a mulher riu antes de desejar boa noite pro filho.
Noah jogou-se na cama, relembrando toda a noite que tivera com , não podia negar que eram grandes amigos e isso o deixava extremamente feliz, como se sua vida realmente começasse a dar certo, mas logo em seguida o medo invadia seu corpo. E se não conseguisse provar nada? E se quem estivesse mandando as fotos e vídeos sobre Ashley espalhasse para alguém que buscasse vingança? Ele sabia que nesse momento ela não aguentaria isso.
Percebendo que não conseguiria dormir, levantou-se e foi até o notebook abrindo e-mail, apenas um não era Spam. Clicou com medo, pensando que seria mais algo sobre .
Assunto: Amiga do Jack
De: umemailqualquer@mail.com
Para: noahaniquilador@mail.com
Quero primeiro dizer que adorei seu e-mail, acho que o JackASS já falou de mim não é? Por isso, sem mais delongas ou apresentações. Eu to super atarefada com o colégio, aqui no Brasil é um SACO e temos uma prova extensa pra entrar na faculdade... eu disse sem delongas né? Desculpe, eu sou toda devaneios. Preciso da senha do seu e-mail, então se tiver nudes nele apague-os, por favor. Infelizmente, eu vou ter que demorar uma semana ou dez dias pra conseguir me dedicar ao seu problema, espero que isso não seja um problema KKKKK. Desculpa mesmo. Vou esperar o seu contato. Tchauzinho.
Noah associou tudo e sem receio algum passou a senha do seu e-mail, mas antes mudou ela. BatmaNoah parecia inadequado para aquela situação. Fechou o notebook ainda com o sorriso no rosto, ia conseguir ajudar e tirar satisfações com quer que estivesse fazendo isso.
Jogou-se na cama mais uma vez, desbloqueou o celular. — Que estava com um papel de parede cômico do Batman em cima de um pôney. — e mandou uma mensagem para Jack. A resposta veio logo em seguida.
Jack: Que comece nossa missão de destruir o rei e a vadia 2 da escola.
Noah riu antes de mandar um emoji revirando os olhos, um dos poucos que usava e o sono chegou rápido. Teve pesadelos.




Continua...



Nota da autora: Sem nota.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail. Para saber quando a fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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