Última atualização: 06/04/2020

Capítulo 1 - A rotina e o caos.

As ruas possuíam a coloração tonalizada em vinho, amarelo mostarda e marrom. O ar de caráter soturno do outono não impressionava os cidadãos de Lee's Summit; eles apenas resmungavam, pedindo que as estações congelantes dessem espaço aos dias quentes do verão.
, assim como a maioria, detestava o inverno da região centro-oeste americana. No rádio tocava uma música country desconhecida, porém repleta de acordes familiares. Com as mãos no volante, ele deixava-se levar pela paisagem das ruas repletas de adolescentes e crianças carregando suas mochilas, esperando pacientemente o ônibus escolar passar. Buzinou para seus vizinhos, sentindo falta daquela relação íntima que eles compartilhavam com os filhos.
A calmaria entre as ruas funcionava como um tipo de terapia para si, fazendo-o crer que seria mais um típico dia no Departamento de Polícia de Lee's Summit. Em menos de vinte minutos, estacionava seu automóvel de frente à delegacia.
franziu o cenho confuso, não reconhecendo a falta de viaturas estacionadas em frente ao local, como de costume. Subiu os poucos degraus, abriu a porta e o ar do aquecedor atingiu-o, lhe dando uma sensação de relaxamento aos músculos. Em uma rápida olhada, contou cinco pessoas pelo lugar até o seu escritório — um número resumido demais para um lugar onde havia mais de mil funcionários à disposição.
Pensou em perguntar para alguém o que estava acontecendo, mas pensava em terminar o relatório que negligenciou no dia anterior, pois sentia uma enxaqueca terrível.
Suspirou ao encarar seu nome gravado na porta de seu escritório:
“Detetive — Departamento de homicídios”
A sala era simples, do jeito como qualquer detetive naquele prédio teria: um birô cinza, em cima uma pilha de papéis do relatório do último caso com um notebook e uma impressora de lado, duas cadeiras giratórias, uma pequena lixeira de plástico verde perto da mesa, um armário cheio de papéis, que talvez servissem para alguma coisa, e um quadro-negro cheio de fotos e rabiscado com a resolução do último caso embaixo.
Assim que ligou a luz e fechou a porta atrás de si, retirou o sobretudo azul marinho, jogando-o em cima da cadeira. Passou a mão pelos cabelos castanhos escuros, sentindo a preguiça matinal dominar seu corpo. Até agora, sua única obrigação naquele momento era entregar o relatório ao capitão e esperar para que mais alguém achasse que era Deus e tirasse a vida de uma pessoa por puro egoísmo; começando assim seu trabalho. Felizmente, a cidade era tranquila e dificilmente havia homicídios. No ano anterior, tinham sido registrados apenas sete mortes por assassinato, um número que posicionou Lee’s Summit como a quinta cidade mais segura do estado. sentia que essa seria a sua contribuição para a sociedade onde não se tinha mais esperança: usaria seu brilhante raciocínio lógico para que a cidade fosse mais justa, mesmo que a mudança fosse inexpressiva para muitos. Sua mãe, Olívia, dissera que ele perdera parte de sua sensibilidade desde que entrara para a polícia — o que era, em parte, verdade. O detetive chegou a ver atrocidades que o ser humano fazia que antes era, no mínimo, impensável para ele. Hoje, sabia que, no mesmo coração em que saíam as maiores declarações de amor, saíam as maiores maldades.
Guardou sua arma dentro de uma das duas gavetas que havia em seu birô, como de costume, e organizou os objetos da mesa para que eles estivessem em perfeita simetria.
Mirou os olhos para o quadro encostado no canto da sala e andou lentamente em sua direção. Fotos de Hilary Smith — uma garota de 17 anos, loira e alta, que há dois meses morrera assassinada pelo seu ex-namorado ciumento — estavam destacadas com fita adesiva no meio do quadro. Retirou com cuidado as fotos, lembrando-se dos momentos em que ficou encarando-as, esperando que elas respondessem suas perguntas nas diversas noites em que ele trabalhava até tarde. Retirou cada uma delas de seu lugar e jogou na lixeira, tentando convencer a si mesmo que nunca mais se lembraria daquela adolescente, quando sabia que nunca se esqueceria do rosto sorridente que ela tinha em seu aniversário de 16 anos e quão aflito ficou em pensar que ela poderia ser sua filha.
Limpou o quadro e sentou-se na cadeira enquanto mexia no cordão de seu colar cinza com um pingente de cruz — hábito que havia adquirido nos últimos tempos. A serenidade que o prédio possuía perturbou-o. Abriu o notebook para escrever as últimas linhas do relatório, quando o barulho de multidão invadiu os seus ouvidos, a sensação de que metade da cidade havia ocupado o prédio da polícia. sorriu com a familiaridade que o som produzia. Tudo estava normalizado: o Departamento de Polícia de Lee´s Summit estava em caos novamente.


Capítulo 2 – Sequestro.

O capitão David Pollack era um homem hostil e petulante, no auge dos seus 55 anos, com os cabelos grisalhos e uma pequena careca atrás de sua cabeça. Os gritos da sua voz rouca e estridente eram ouvidos dentro da sala em que se encontrava, ascendendo assim sua curiosidade. Havia pelos corredores e no salão principal oficiais fardados com os rostos frustrados, observando o que o capitão falava. O detetive aproximou-se da multidão tentando compreender o que David discursava e se juntou a oficial Samantha Roth, devidamente uniformizada, que sorriu o cumprimentando no momento em que o mesmo se achegou.
conhecia Samantha desde a entrada dela na polícia — fora seu parceiro diversas vezes em patrulhas pelos bairros. Era uma mulher bastante bonita e simpática, com os olhos amêndoas que brilhavam todas as vezes que ela sorria e os cabelos alaranjados como fogo. Porém, por trás de todo aquele traje inofensivo, havia uma pessoa durona e uma personalidade extremamente perspicaz. Sammy, como intimamente a chamava, tinha um charme que fisgara o detetive por alguns meses, no entanto, foi minguado assim que os dois tentaram um relacionamento.
— Não consigo entender como vocês conseguem ser tão imbecis! — ralhou o capitão. — Como alguém consegue sequestrar uma família rica e ninguém consegue encontrá-los? Quem os deixaram entrar na minha delegacia?
— Que sequestro? — cochichou à Sammy, que cruzou os braços depois do comentário ofensivo de seu superior.
— Você não viu os noticiários? — ela sussurrou discretamente. — Os s estão desaparecidos há dois dias e ninguém sabe o paradeiro deles.
O detetive lembrava-se vagamente de escutar algo relacionado a esse caso nos corredores ou na TV nos últimos dias, porém não dera muitos ouvidos, afinal, para ele, logo apareceria alguém estipulando um preço para resgatar a família podre de rica. Além do mais, aquele não era o seu departamento. Talvez eles estivessem em algum lugar na América do Sul, pregando uma peça em seus funcionários. Ele, mais do que ninguém, sabia que gente rica possuía uma queda por maluquices e drama.
— David convocou todos que estavam em patrulha para procurá-los por toda estrada principal para Kansas City e não conseguimos nada de proveitoso! — ela suspirou frustrada.
— Tem certeza? Você não viu nada estranho? — arqueou a sobrancelha direita diminuindo o tom de voz ao perceber que Pollack havia parado seus insultos para atender uma ligação.
A oficial franziu o cenho, concentrada, enquanto tentava lembrar de algo que vira nas últimas horas. Rapidamente, a visão que tivera de uma casa vazia e abandonada, localizada na estrada de Raytown, uma cidade depois que encontraram os últimos vestígios dos celulares de todos os s, lhe veio em mente. Assim que fez menção de falar alguma coisa, o capitão gritou de felicidade — se é que poderia ser chamado assim aquelas palavras que ele proferira.
— Abutres! — gritou David. — Acharam o lugar onde supostamente eles estão: em Raytown. O que, claramente, não foi por causa de você, Detetive Lawrence.
O homem loiro e anuído que estava ao lado do capitão se encolheu de vergonha e constrangimento ao ouvir seu nome ser mencionado. Cochichos correram pelo salão diante da cena humilhante para o detetive.
— Voltem lá e me mantenham informado. — ordenou Pollack. Lawrence deu um passo para frente, pronto para comandar os oficiais, quando o capitão estendeu o braço lhe impedindo de continuar.
— Detetive . — David o chamou fazendo sentir todos os músculos de seu corpo enrijecer. Um frio, que não tinha nada a ver com o clima do dia, percorreu sua espinha. — Assuma o caso.
— Mas senhor... — tentou argumentar. Seu rosto denunciava sua surpresa e ser encarado por todo o departamento pouco ajudava em seu nervosismo
— Faça o que eu digo. Agora. Stifler tem as informações que você precisa.
Antes que digerisse as palavras ditas pelo seu superior, observou David voltar ao seu escritório. Seus olhos escuros fitaram as costas do capitão, escutando o som do coração pulsar em seus ouvidos. O silêncio sucumbiu em toda a sala, sendo um belo contraste com os pensamentos de , que estavam fazendo um grande barulho em sua cabeça.
piscou várias vezes para voltar à realidade e encontrou-se mirando Stifler — o jovem ruivo de vinte e pouco anos, cheio de sardas, conhecido como "o cara dos computadores" ou "o sabe tudo" pelo Departamento, o melhor perito da cidade — em sua frente. Os oficiais esperavam sua orientação atentamente e dezenas de murmúrios preencheram mais uma vez o salão principal. Coçando a garganta, falou. A voz grave e autoritária ressoou como um alarme nos ouvidos dos policiais.
— Peguem as informações do local com Stifler, lá eu darei os próximos passos.

Samantha sorriu ao ver quão sereno parecia estar, embora tivesse certeza que por dentro estava em estado de calamidade. Ele, a quem sempre tentava não estar no meio de tanta atenção, não sabia lidar com o favoritismo que o capitão o presenteara desde a sua entrada na academia.
Mais uma vez a agitação preencheu o departamento. Homens e mulheres saíram apressados do local, prontos para cumprirem seu dever em um dia que começou cedo demais. O detetive, então, seguiu Sammy até a viatura em que ela dirigia e o barulho de sirene foi acionado.


Capítulo 3 - A casa e seu mistério.

Foram quase trinta minutos de viagem até o local que fora informado aos policiais. observava a estrada com as folhas caindo no chão, enquanto ouvia atentamente as informações sobre o sequestro que Samantha lhe listava.
Em resumo, eles sabiam pouco e desconfiavam muito.
A família era dona de diversas empresas de marketing e propaganda em Missouri, inclusive a mais famosa: Cerquilha, Cordin e FaryTa1e. Eles deveriam estar em uma reunião de negócios importante em Kansas City há dois dias, porém desapareceram antes de chegar a seu destino. Seus parentes e amigos próximos estavam fazendo campanhas para acharem alguma pista, tendo conseguido apenas restos de celulares jogados na estrada em direção à KC; celulares que a polícia não tinha ainda certeza de que pertenciam a família, já que não sobrara quase nada dos aparelhos para identificá-los. Eles acreditavam que por não ter nenhuma notícia do sequestrador, ou seria alguma piada de mau gosto da família ou todos estavam mortos; contudo, obviamente, nem seus parentes, nem a mídia sabia das suas crenças em relação ao súbito sumiço.
Os s eram formados por Chad , pai e presidente da empresa, Gemma , mãe e vice-presidente da empresa, Anthony , filho mais velho e prodígio da família, o prometido futuro presidente da empresa, e , filha mais nova da família. Toda a história estava cheia de furos e exigia várias perguntas. O detetive não pode evitar que sua mente vagasse pelas possibilidades que submetiam aquele caso.
Assim que estacionaram perto das outras viaturas e desceram do carro, o estômago de revirou de ansiedade. Scott, atual parceiro da oficial Roth, batia o pé nervosamente e parecia aliviado ao ver o detetive indo em sua direção. Ficar sozinho, junto com diversos colegas de trabalho apontando suas armas em completa tensão, era agonizante para ele, o qual detestava aquele tipo de abordagem.
— Tem certeza sobre a casa? — indagou , virando-se para fitar a trilha grande o bastante para um carro passar dentro da mata.
— Encontramos o carro em que eles estavam, está a 10 metros da casa. — disse o jovem com seus olhos azuis temerosos. — Está com os documentos de todos eles, inclusive suas bolsas e carteiras, totalmente intactas. Tudo perto daquela casa.
— Leve-nos até lá. — ordenou o detetive fazendo um aceno às dezenas de policiais que chegaram ao local junto com ele para segui-lo.
pisava nas folhas e galhos caídos no chão adentrando no bosque. O frio repentinamente atacou seu corpo e ele abotoou seu sobretudo. Em menos de dois minutos, eles avistaram a casa cercada por oficiais apontando suas respectivas armas, esperando por qualquer movimento.
Ela era grande, estilo vitoriana, provavelmente com um andar em cima, maior do que as árvores, e poderia ser vista da estrada. Porém o seu estado deplorável fazia com que as pessoas passassem despercebidas pelo imóvel. Seu abandono era evidente. A madeira velha estava corroída por cupins e ferrugens dominavam as grades de ferro. As paredes, antes pintadas de rosa, estavam descascadas e sujas de forma que fez fazer uma careta ao observá-la.
— Está abandonada há mais de vinte anos e não se sabe quem são os donos. — disse o parceiro da oficial Roth a ninguém em particular.
— Há alguém dentro? — perguntou Samantha, tão enojada quanto o detetive. — Quero dizer, vocês entraram nessa casa?
— Não tivemos permissão do capitão. — respondeu a Samantha. — Ele disse para esperarmos chegar e dar as ordens.
suspirou olhando ao seu redor. Dificilmente seria um trote da família se eles livraram-se dos seus documentos. Dois dias de sumiço e nenhum sinal dos sequestradores. A chance de achar alguém vivo diminuía a cada minuto que se passava. A casa abandonada não parecia ser evidência, além de ser um lugar inadequado para moradia. Se eles procuravam corpos, ele apostava que estavam jogados em algum lugar entre as árvores.
O detetive vestiu um colete à prova de balas por precaução e decidiu que entrariam para fazer uma vistoria no imóvel. Segurando firme a pistola em sua mão, tomou à frente de dezenas de policiais devidamente armados. Assim que chegou à grade que trancava a casa, franziu o cenho ao ver o cadeado novo. O instinto de o alertou que algo sobre o caso estava deliberadamente errado. Aproximou a arma no cadeado e soltou o gatilho, estraçalhando o objeto. Assim que abriu as grades e a porta de madeira, a escuridão da casa fez seus pensamentos se tornarem turbulentos. No entanto, decidiu concentrar-se na adrenalina que começara a lhe dominar. Indicou silenciosamente para que Scott ligasse a lanterna e, no vislumbre, pode perceber o temor do oficial. Segurou-se para não revirar os olhos diante daquela atitude de alguém que vivia o tempo todo em perigo. Se queria calmaria e segurança, o oficial Scott havia escolhido o emprego errado.
Como havia organizado, cinco policiais adentraram nos cômodos de baixo enquanto o detetive subia para o primeiro andar com mais cinco homens em seu encalço. A escada rangia a cada passo e a poeira subia simultaneamente, causando uma sensação de tenebrosidade.
Sentindo o nariz incomodando com o árido odor de mofo, chegou ao primeiro andar. Era composto por um corredor longo e cheio de quartos, e uma pequena janela jazia no final iluminando um pouco aquela total escuridão. Ele contou seis portas fechadas e conforme abria a maçaneta para abri-las, só pode constatar o óbvio: nada.
Nada além de poeira e o terrível fedor de algum bicho morto. Chegando à última porta de madeira, esperando ver as mesmas coisas que as anteriores, não conseguiu abri-la. Levantou a mão como sinal para que os seus colegas parassem de procurar o que não tinha dentro dos quartos abertos e prestar atenção no que ele fazia. forçou a maçaneta sentindo o mormaço dificultar a respiração. Aquela casa era extremamente abafada, apesar do frio ferir-lhe os ossos. O detetive encaixou a perna e o ombro e empurrou com força, mas a porta não fez menção de se mexer. Irritado, sentindo seu corpo sujo como aquelas paredes, deu um chute violento fazendo parte da madeira podre, corroída de cupins, em pedaços.
O rosto do detetive e dos outros policiais estavam sobressaltados. Ele pode ver um pequeno salto de Scott, mas logo se recompôs tirando sua perna do buraco que fez na porta. Colocou o braço na abertura e, tateando às cegas, segurou a maçaneta do lado de dentro destrancando a porta.
O cheiro de cinzas o atingiu violentamente quando entrou no cômodo. Era tão claustrofóbico quantos outros, com a diferença de ter uma janela de vidro fechada totalmente embaçada.
Scott arrumou a lanterna atrás de e iluminou o quarto, fazendo o detetive parar de andar subitamente. Assim que olhou para o chão, no meio daquele cômodo, descobriu de onde vinha o cheiro de cinza. Roupas queimadas estavam jogadas ao chão, recentemente destruídas.
Senhor? — Uma voz no rádio que estava em seu colete foi ouvida. — Senhor? Está aí?
— Sim. Estou escutando. — respondeu ainda fitando os restos de roupas que havia em sua frente.
Olhamos todos os cômodos, não tem nada aqui. Nem mesmo móveis. — disse o policial do outro lado.
— Me esperem aí embaixo. — Avisou desligando o rádio logo em seguida.
Perguntas foram adentrando em sua mente, buscando sentido em tudo aquilo. Aquelas roupas eram de alguém da família que eles procuravam? O que elas tinham em relação ao desaparecimento dos 's?
— Detetive? — Scott o chamou, o acordando para o presente. — Acabamos por aqui?
Ele estava louco para sair daquela casa e sabia disso. Não o culpava, lembrava-se bem de seu primeiro caso em campo e todo o medo que sentira junto com a vontade de sair correndo do local do crime. Queria poder desejar o que o oficial ansiava, mas o som de barulhos no teto o fez desconsiderar a ideia.
Os oficiais lançaram um olhar significativo para o detetive. Antes que dissesse alguma coisa, já sabiam o que ele pensava; afinal, todos pensavam a mesma coisa. apressou o passo à procura de uma porta no teto para o sótão e com ajuda da lanterna de Scott, encontrou rapidamente. Guardou sua arma na cintura e arregaçou as mangas. Balançou o alçapão e a viu trancada e enferrujada. Empurrou mais uma vez e só recebeu em resposta ferrugem caindo em cima dele.
— Deve ter sido apenas um rato, detetive. — disse um dos oficiais.
Não, não é apenas um rato, a mente de acusou. Havia algo lá e seu instinto lhe dizia para não desistir. Empurrou o alçapão mais uma vez e ouviu risadas de escárnio dos oficiais.
— Era só um rato. — comentou Scott rindo. — Não precisa disso, .
Ele empurrou mais uma e outra vez. Os risos ficavam mais descontraídos conforme os policiais zombavam da insistência do jovem detetive. estava incessante e deu um salto ficando pendurado no alçapão, segurando-o com força. Depois de alguns segundos, um barulho de engrenagem se ouviu e logo uma escada de ferro apareceu descendo até o chão.
Os risos dos policiais pararam subitamente e os lançou um olhar de displicência. O detetive pegou sua arma mais uma vez e tomou a lanterna de Scott. Colocou os primeiros pés na escada sem muita firmeza e fez uma pequena prece para que aquilo não fosse coisa de sua cabeça e que houvesse algo ali. Parte por querer resolver aquele caso e parte por não desejar parecer um idiota na frente de seus colegas de trabalho e subordinados.
Subiu os degraus sentindo o mormaço diminuir. Apontou a lanterna e viu lençóis aparentemente limpos e garrafas de água vazias. Algo estranho, contando que não havia sinal de nenhuma habitação humana naquela casa nos últimos anos. Segurou a lanterna passando por cada canto cuidadosamente. Copos, pacotes de salgadinho... Cada vez mais ele se surpreendia com o que achava e com a grandeza daquele sótão.
De repente, viu uma cabeça de uma mulher fora do corpo completamente suja de sangue e ele arregalou os olhos. Mexeu mais uma vez a lanterna e pode ver o resto do corpo dela ao seu lado. Passou mais para o lado e viu mais duas cabeças e dois corpos, porém dessa vez de homens. Todos eles inteiramente sujos de sangue e ele apertou a arma com força — talvez o assassino ainda estivesse lá.
Mas, conforme ele passava a lanterna, não conseguia ver ninguém além do vazio. Ele tinha quase certeza que aqueles eram os s, só precisava saber onde estava o corpo de mais uma deles. Ele passou a lanterna devagar, observando até mesmo as teias de aranha, e parou subitamente ao ver um par de olhos escuros totalmente perdidos fitá-lo. Seu coração se pôs a bater com mais rapidez.
Ela estava sentada em uma cadeira e o encarava à beira da inconsciência. Sua pele negra estava molhada de suor e seus cabelos grudavam no pescoço. pode ver as amarras em seus pés e suas mãos; podia imaginar o quanto estavam apertadas diante do sangue que tingia as cordas. Os olhos estavam sem vida e vermelhos, como de quem chorara por muito tempo. Seus lábios estavam secos e ela tremia compulsivamente.
sentiu seu corpo responder a seus movimentos vivaz e correu em sua direção. Ele desatou seus pés e suas mãos que estavam inchadas e assim que a libertou, a mulher caiu em seus braços como se fosse uma boneca. Estava em estado traumático, deduziu o detetive. Mas quem não ficaria? Toda sua família morta de forma tão cruel, com seus corpos decapitados em sua frente, quem agiria com sanidade?
— Chamem uma ambulância! — Gritou e algumas cabeças de policiais apareceram na escada, correndo logo após de fitarem a mulher caída em seus braços. — Chamem uma ambulância, agora! — rugiu e apressadamente eles desceram a escada.
A garota em seus braços, no entanto, pareceu voltar a consciência e segurou o colarinho de com as mãos ainda tremendo. Lágrimas corriam em sua face livremente e ela falou com voz quebrada, esforçando-se o máximo para que o som saísse. Voz que denunciava que seu estado de lucidez estava longe do saudável.
— Eles estão todos mortos.


Capítulo 4 - Sangue e Família.

havia marcado exatos 5 minutos desde que o Capitão Pollack aparecera na TV da sala de espera do hospital falando sobre os corpos achados em Raytown. David havia usado todas as palavras ditas por através do telefone quando entrou na ambulância desacordada. Ela havia caído na inconsciência logo que desceram do sótão. Assim que colocou os dois pés no chão do primeiro andar, o detetive agarrou o corpo mole e fraco nos braços. Apenas depois de avisar ao capitão o que acontecera e a adrenalina no seu sangue diminuir o ritmo, percebeu que seu colete estava tingido de sangue que não o pertencia. A polícia da cidade de Raytown foi acionada, mas eles sabiam que não tinha mais o que fazer a não ser encontrar o assassino.
Seguindo as ordens do seu superior, foi junto com alguns policiais para o hospital esperar os amigos e familiares da vítima com o objetivo de passar as informações necessárias. Enquanto esperava, as indagações explodiam como fogos de artifício na mente do detetive e a imagem dos corpos decapitados lhe aterrorizava.
Enquanto velava junto com outros oficias a segurança de , a equipe da perícia investigava o local com minuciosidade. Era questão de tempo até que achassem alguma pista.
O detetive levantou-se para pedir informações sobre a saúde da assim que três pessoas entraram como um furacão na sala de espera. Instintivamente, todas as pessoas que aguardavam de forma paciente no local ergueram seus rostos em direção à confusão que se instalava ali.
— Onde está minha sobrinha? Onde está ? Diga me onde ela está! — Antes mesmo da recepcionista dizer algo, a mulher baixinha, aparentando estar na casa dos trinta, gritou. Os cabelos pretos estavam bagunçados e o vermelho do rosto era marcado por olheiras de noites mal dormidas e choros contínuos.
— Meu amor, — um homem ao seu lado a segurou pelo ombro — tenha calma!
— Calma? Meu irmão está morto, Ryan! Toda família que eu tinha morreu! Apenas Belle está viva. Eu quero vê-la!
Enquanto a mulher gritava com Ryan, o outro homem que entrara com eles conversava calmamente com a recepcionista, conseguindo as informações que procurava. Ele usava terno e tinha os cabelos cheios de gel, penteados para trás de forma pomposa. Mantinha uma pose serena, profissional e prepotente de quem mandava e não recebia ordens. comparou-o com um dos principais personagens de Suits encarnado em toda sua glória e arrogância.
— Com licença, — falou educadamente — vocês são parentes da senhorita ?
Ryan suspirou aliviado e olhou para o detetive com gratidão estampada no rosto por ter interrompido aquele escândalo de sua esposa. Arrumou ligeiramente a gola de seu suéter branco e estendeu a mão com um sorriso.
— Sim, e você deve ser o detetive que o capitão Pollack nos falou. — respondeu ele afável.
correspondeu o seu cumprimento. O homem, que estaria no auge de seus 35 anos, tinha as mãos bastante calejadas e um aperto forte.
— Meu nome é Ryan Dixon. Sou esposo da irmã de Chad. Estamos devastados com a atrocidade que aconteceu.
O detetive observou o rosto de Ryan procurando algum vestígio de tristeza genuína, no entanto, encontrou apenas o luto respeitoso que qualquer ser humano com alma teria naquele momento. A então tia de arrumou seus cabelos rapidamente e passou a mão no rosto enxugando as lágrimas que ainda estavam em sua face.
— Fallon Dixon. —apresentou-se — Eu sou... — hesitou — Era... Irmã mais nova de Chad.
— Sinto muito pela sua perda, senhora Dixon. — falou com a voz neutra.
Um silêncio fúnebre ressoou entre eles enquanto seus pensamentos vagavam pela família morta. O homem engravatado, que falava com a recepcionista minutos antes, coçou a garganta chamando-os atenção.
— Ah! — exclamou Ryan. — Esse aqui é Elliot Russel, noivo de .
O detetive fitou-o. Elliot era quase tão alto quanto ele e aparentava possuir sua idade. Mostrava-se ser um homem silencioso e era dotado de uma animosidade no olhar pertencente à sua profissão. Em sua íris azul gelo, havia uma calma bem calculada, uma faixa que cobria os verdadeiros sentimentos que tumultuavam sua mente.
— Prazer. — Ele lhe estendeu a mão. apertou de bom grado com um movimento pequeno nos lábios apenas para que as covinhas do seu rosto aparecessem.
Mesmo estando sério a maior parte do tempo, era considerado simpático apenas por causa dos rasgos em suas bochechas que a qualquer movimento em seu rosto apareciam sem aviso prévio. Desde a adolescência, as covinhas em seu rosto era sua arma que o deixava mais convidativo. Com isso, Elliot riu de forma branda, já que sorrir abertamente naquela situação não era certo.
— Eu falei com a recepcionista. — informou Elliot. — Belle está bem, mas precisa descansar. Visitas só serão permitidas daqui a mais ou menos quarenta minutos.
E suspirou frustrado.
imaginou o quão desesperado Elliot ficara nos últimos dias: sua noiva desaparecida junto com a família, a angústia da incerteza de não saber se ela ainda estava viva. Imaginou que, desde que soubera que respirava, tinha vontade de correr em sua direção, prendê-la em seus braços, dizer que tudo ficaria bem e nunca a deixaria escapar.
— Por que não nos sentamos? — sugeriu Ryan.
Ele anuiu e, junto com os outros, se sentaram nas cadeiras da sala de espera.
Assim que senhor Dixon sentou-se na cadeira, se pôs a falar sem parar:
— Nos últimos dois dias estávamos espalhando vários cartazes para achá-los. Uma pena não termos tido resultados satisfatórios — lamentou enquanto explicava a estratégia que sugerira à polícia, as quais foram deliberadamente ignoradas.
deu uma rápida olhada nos parentes dos s tentando captar o sentimento de cada um. Elliot batia o pé no chão e olhava para a recepção cada vez que alguém ameaçava ir à sua direção, enquanto Fallon chorava copiosamente ao lado de seu marido, o único que parecia estar confortável a situação. A forma dinâmica que Ryan narrava os fatos vividos nos últimos dias intrigava o detetive; o homem estava aparentando que, no mínimo, não sabia do fim trágico que o desaparecimento da família proporcionou.
— Os corpos estavam em uma casa em Raytown? — Ryan perguntou, virando-se para .
— Sim, em uma casa abandonada. — confirmou com cuidado para não dizer mais do que devia.
— Como estavam os corpos? É verdade que... — Fallon perguntou, mas logo se interrompeu temerosa. — Não vai ser caixão fechado, não é?
lambeu os lábios sentindo um pequeno peso na garganta. Desviou o olhar para o chão, tentando buscar palavras brandas para amenizar a situação.
— Acredito que não, senhora.
Os olhos de Fallon se encheram de lágrimas, mas as enxugou rapidamente com a ponta dos dedos. Ela lançou um olhar duro para frente e cerrou o punho batendo com força na coxa.
— Eu quero justiça. — Sua voz soou como sussurro convicto. — Ache esse maluco, esse psicopata! — Ela ordenou virando-se para o detetive. — Mate-o se for preciso.
balançou a cabeça concordando, mas manteve-se calado. Percebendo a tensão gradual que se estabelecia, Elliot se pôs a fazer perguntas superficiais sobre o caso. Era cedo demais para dizer qualquer coisa, mas eles pareciam ansiosos por qualquer informação que fizesse a morte daquela família fazer sentido. Cautelosamente, explicou que não tinha nenhuma novidade sobre o culpado e que tudo que sabia era o que tinha acontecido naquela manhã.
Ao ouvir as palavras pouco satisfatórias, Fallon mostrou-se agitada e frustrada. Ela esperava que o detetive tivesse em mente ao menos um suspeito, mas tudo indicava que ele sabia tanto quanto eles. Levantou-se rapidamente quando uma enfermeira estava se aproximando. A mulher arrumou o jaleco e sorriu.
está bem. — disse ela. — Apenas alguns ferimentos leves, fisicamente está saudável. Ela pode vê-los, mas receio que não é o momento para fazer perguntas. — Lançou um olhar significativo para o detetive. — Sejam pacientes, ela ainda está em estado pós-traumático.
Rapidamente os três adultos acompanharam a enfermeira com pressa, mostrando sua ansiedade em rever o quanto antes. acompanhou-os devagar, não querendo atrapalhar a conversa entre a família. Checou o celular procurando qualquer mensagem de Stifler, sem sucesso. Olhou suas redes sociais e aplicativos de mensagem, mas o perito não enviara nada, deixando-o preocupado. Viu, então, que já havia se afastado do grupo e que eles já estavam a outro corredor. Apressou o passo para juntar-se aos parentes da vítima quando uma voz o fez parar subitamente. Ele conhecia muito bem aquele som grave e autoritário que acompanhara todos os passos de sua vida. Sinônimo de pressão, aquela voz ainda ressoava em seus ouvidos quando ele sentia que o que ele fazia não era suficiente e que nunca o seria. Era o tom de sua consciência, que culminava sua cabeça quando seus erros eram maiores do que ele podia suportar.
— Filho?


Capítulo 5 - Pesadelos Inoportunos.


A mansão dos s destacava-se no meio daquele bairro nobre em Lee’s Summit. , habituada com a fachada de madeira bem polida, entrou sem prestar atenção no quão deserto estava o seu jardim. Chegando à porta, soltou a mão de seu noivo e beijou-lhe os lábios; Elliot acenou rapidamente com um sorriso, sinalizando que a esperaria do lado de fora, enquanto via empurrar com força para que as portas se abrissem. A casa estava escura e vazia, nenhum sinal de que alguém passara ali nas últimas cinco horas. Franzindo o cenho, ela observou as duas grandes escadas para o primeiro andar, onde se encontrava os cômodos, para seguir seu caminho no amontoado de degraus à sua esquerda.
— Pai? — ela olhou pros lados — Mãe?
O silêncio do recinto fora a resposta que recebera. Apenas o som rítmico de seus sapatos altos era ouvido pelo lugar.
— Anthony? — Chamou — Que droga! Por que vocês inventaram de sair e não me avisaram?
Resmungou em contragosto. Andou por um dos corredores, estranhando não encontrar nenhum empregado — nem mesmo o senhor Kane, o mordomo de longa data dos s, estava na casa. escutou o barulho de passos e deduziu que era Elliot. Bufando, totalmente inconformada por todos terem saído da casa sem a avisar, reclamou.
— Elliot, eles foram embora e não me avisaram! Acredita? E ainda deram folga para todos... — Ela interrompeu-se ao virar-se para encará-lo. Seu coração parou por alguns segundos e logo voltou a bater forte demais, quase saindo do seu peito ao ver a grotesca cena. Elliot, seu noivo, não estava ali.
viu uma estaca de ferro enterrada no piso de madeira com a cabeça de uma homem pingando sangue no chão. Deu um passo e viu um jogo da velha desenhado no chão de vermelho, símbolo da empresa de seus pais. Com o horror estampado no rosto, a jovem aproximou-se para encarar-lhe a face. Os olhos castanhos escuros abertos e esbugalhados; o cabelo preto e sedoso bagunçado. Não havia dúvida que fosse ele: o formato redondo de seu rosto e até mesmo as rugas e as olheiras eram altamente familiares. Ela queria gritar e correr, chorar em desespero, contudo não conseguia. O estado de choque em que ela estava só a permitia encarar o sangue jorrando da cabeça de Chad .


Capítulo 6 - Laços frágeis

Klaus era um neurocirurgião respeitado pela alta sociedade de Missouri e sempre que tinha oportunidade ostentava sua posição. Os cabelos eram um mar cinza e rugas marcavam sua face cansada; em todos os hospitais da região, alguém já ouvia falar de seu nome e respeitava seu trabalho. Em Kansas City, era conhecido e requisitado quase todas as semanas. Sua presença impunhava respeito — até mesmo quando se estava com a família, a autoridade que Klaus possuía preenchia todo o espaço e aquilo incomodava em proporções absurdas. Era como seu pai fosse além do humano.
O olhar em sua direção era sempre acusatório e naquela vez não era diferente. tinha quase nada parecido com o pai, apenas a antiga cor dos cabelos e dos olhos. De resto, a aparência se assemelhava a mãe. Mesmo sendo 10 centímetros mais alto que seu pai, se sentia minúsculo perto dele. Ele usava jaleco com seu nome bordado de lado com linhas azuis, uma combinação harmoniosa com a sua camisa social da mesma cor.
— Veio visitar seu pai? — perguntou Klaus em tom amargo.
— Estou aqui à trabalho — respondeu prático. — Sua mãe sente sua falta. Você não vai lá desde 4 de julho. — disse com uma reprimenda implícita.
Eles estavam no final de setembro e isso lhe dava quase três meses que não ia à casa de seus pais. Não que ele não sentisse falta de sua família, mas ele desejava apenas visitá-los em feriados como Ação de Graças e Natal. Ainda assim, era difícil evitá-los quando eles moravam em Kansas City e viviam trabalhando em hospitais próximos à Lee’s Summit. Era por isso que, sem planejamento algum, esbarrou com Klaus no corredor do hospital da cidade. suspirou pesado, desejando ser essa a resposta que seu pai desejava.
— Bem, acho que você pode vir nos ver hoje à noite. — falou o cirurgião segurando-o pelo ombro. A mão de Klaus era forte, pesada. observou para os dedos precisos de seu pai e entendeu aquilo era uma ordem, não uma sugestão.
— Eu não sei, pai...
— Seu irmão vai estar aqui e sua mãe deseja ver a família reunida — insistiu. — Você sabe que eu não ligo para isso, — ele revirou os olhos — mas sua mãe sim. Eu estava pra ligar pra você ainda mais cedo.
— Pai... — Ele olhou para o final do corredor, procurando pela família dos s — Eu preciso ir. Estou aqui à trabalho.
— Tudo bem se você não quiser ir. — Ele balançou a mão em desdém — Mas se mudar de ideia, apareça às sete.
Soltou-lhe o ombro e saiu pelo corredor no sentido contrário ao que ia. balançou a cabeça espantando os pensamentos conflituosos e apressou o passo pelo corredor torcendo para que achasse a sala onde estava. Não teve muita dificuldade em encontrá-los, já que avistara a enfermeira dando as últimas informações para os parentes.
Aproximou-se e escutou a mulher reforçar as regras para os visitantes com delicadeza. Logo que a enfermeira abriu a porta, a família de entrou na sala rapidamente. Não querendo atrapalhar aquele momento tão íntimo, decidiu esperar do lado de fora. Cruzou os braços e encostou-se na parede do hospital ponderando as palavras de seu pai. Não tinha reais motivos para não querer ir a um jantar de família, afinal, rever seu irmão depois de tantos meses seria bom. Passava tanto tempo trabalhando que basicamente esquecera de que haviam pessoas que ainda se importavam com ele, apesar de ser daquele jeito estranho dos .
Mesmo com a certeza do afeto de seus pais em sua mente, não conseguia se sentir confortável quando estava em um dos jantares que sua mãe oferecia. Já havia se passado 10 anos, mas ele não enxergava mais do que a decepção que trouxera aos seus pais na adolescência, uma época onde havia se rebelado e cometido mais erros do que pudesse contar em toda sua vida. Sentia-se envergonhado por ter feito sua mãe ficar noites acordada até tarde o esperando chegar ou por ter dado tanto prejuízo com um dos carros que ganhou do seu pai. Foi a primeira e última Mercedes que teria na vida. Era insensato, imprudente e rebelde quando mais novo e a vergonha pelos seus atos imaturos ainda lhe era carregada nas costas desde que decidira tomar um rumo melhor na vida. Até mesmo sua escolha de trabalhar para a polícia não agradou seu pai, que desejava que seu filho mais novo tomasse algum rumo na área de saúde. Ainda assim, o fato de ter seguido sequer uma carreira já era válido, tendo em vista que todos esperavam que ele vivesse às custas dos pais até onde o dinheiro o levasse.
se sentia um péssimo companheiro para seu irmão desde que entrara na puberdade e Andrew ingressava na universidade de química. O detetive sempre soube que estava à sombra de um irmão mais velho inteligente, mas vê-lo se tornando um dos cientistas químicos e farmacêuticos mais famosos do século XXI, revolucionando a área industrial, era demais para competir. Sabia que ele fazia coisas malucas às vezes, no entanto, não esperava que um dia iria idealizar um dos remédios antidepressivos mais aclamados pelos psiquiatras, enquanto ele perseguia ladrões de bolsas nas ruas.
Revê-lo poderia ser uma tortura ou uma benção e, felizmente, considerava correr o risco. Saiu de seus pensamentos ao ouvir o coçar de garganta que a enfermeira que os acompanhava fazia. Olhou para frente encarando a mulher esguia de cabelos ruivos o fitar, esperando sua atenção.
— Por gentileza, fale-me da situação de .
— Sim, sim. — a enfermeira saiu de órbita. — Ela está bem, receberá alta em breve. Fizemos uma bateria de exames e está tudo ok. Apenas um pouco de desidratação e excesso de remédios para dor de cabeça. Pelo que consta na ficha de saúde de seu médico, ela tem problemas de enxaqueca.
assentiu e andou em direção a porta para conversar com a vítima. No entanto, a mão de Evellyn segurando um dos seus braços, o impedindo de continuar.
— Ela está em um alto estado de choque. Há um médico psicólogo a acompanhando — explicou em alerta. Evellyn parecia bem mais baixa ao seu lado e precisou levantar a cabeça para encará-lo. — Receio que ela não possa dar algum depoimento nos próximos dias.
Cauteloso, aproximou-se da janela ao perceber que as persianas foram abertas. A cena que ele presenciou era do jeito que fora alertado segundos antes.
estava com os olhos sem vida, vidrados em um ponto invisível no canto da sala. Elliot sussurrava palavras de conforto enquanto acariciava seus cabelos, contudo, sua noiva não demonstrava está prestando e atenção. A tia de , no entanto, chorava ao ver a situação deplorável de sua sobrinha - os braços e o pescoço estavam arranhados e repletos de cortes semi-abertos com apenas alguns pontos na mão esquerda. O rosto estava fino e os lábios secos. Um médico de meia idade conversava com Ryan Dixon, que afagava as costas de sua mulher. De repente, lágrimas desceram no rosto da vítima sem que qualquer expressão aparecesse em sua face. Elliot acariciou suas bochechas, enxugando-as com carinho. Olhou para trás e disse algo ao médico.
fitou rapidamente a hora em seu celular e percebeu que já havia passado trinta minutos de sua hora de almoço. Lembrava do recado que o capitão Pollack deixara, apressou-se para entrar no quarto.
Assim que abriu a porta, o olhar vago de desapareceu. A íris escura fez questão de mirar nos olhos do detetive. já tinha uma despedida na ponta da língua, porém se demorou na mudança repentina de comportamento da . Um silêncio estranho invadiu a sala, todos esperando um novo passo de . No entanto, tudo que a fez foi encarar seu salvador com atenção. Então, o médico coçou a garganta, incomodado com aquela mudança brusca de clima. O detetive pigarreou também e desviou olhar para família que se mostrava confusa com a reação de .
— Ela ficará bem? — perguntou ao médico.
— Sim, ela ficará. — O homem olhou para os lados e segurou o braço do policial, o empurrando para fora.
cerrou os olhos e assim que percebeu que estavam do lado de fora, puxou o braço rudemente. Quem aquele homem achava que era para puxar-lhe daquele jeito?
— Olhe, detetive , — ele pronunciou seu sobrenome com nojo — não me importo de quem você é filho, você não pode entrar assim no quarto de uma paciente no estado dela.
revirou os olhos, exausto. Odiava ir hospitais, principalmente aqueles em que seu sobrenome era reconhecido.
— Eu estava junto com a família, senhor... — leu rapidamente seu nome bordado no jaleco — Senhor Boyle. Não consigo ver nada de errado feito por mim.
— Você deixou agitada e, por mais que ela vá ficar bem fisicamente, seu estado emocional não é um dos melhores. É anti-profissional da sua parte entrar dessa maneira.
Com uma careta indignada e confusa, o detetive fitou o médico tentando entender qual o motivo de ter tanta inveja de seu pai a ponto de tentar irritar um filho dele.
— Apenas avise a família que alguns oficiais ficarão em frente do quarto e alguns viaturas continuarão no estacionamento do hospital — avisou, mostrando-se nem um pouco feliz em estar naquela situação. Queria sair daquele hospital o mais rápido possível e começar a pensar no caso dos s.
— Escute, garotinho... — o médico apontou o dedo para seu rosto — Isso aqui não é uma delegacia que não se importa com os direitos humanos. Policiais perto do quarto podem acarretar a paciente...
— ...uma morte trágica por um assassino que está a solta e matou toda a sua família sem estiverem longe. — o interrompeu claramente impaciente. — E exijo que o senhor me trate com mais respeito. Eu sou um policial e, caso não seja de seu conhecimento, sou autoridade aqui.
Boyle abriu a boca em choque pelo que o detetive falara.
— Não tenho nada a ver com o que você tem com meu sobrenome, então, não me trate desse jeito. Posso ser jovem, mas não sou idiota. Passar bem.
virou-se depois de seu discurso pronto para dividir as equipes que ficariam no hospital, quando sentiu seu celular vibrar. Atendeu rapidamente assim que viu o nome de Stifler brilhando na tela.
, tenho notícias interessantes para você.


Capítulo 7 - O Indesejado

Daniel Stifler era conhecido pelo departamento por sua inconstância. Apesar de ser qualificado para o cargo, sua personalidade apenas destacava sua esquisitice. Cheio de trejeitos, o cientista forense amava seu trabalho de forma que mesmo as cenas mais preocupantes e grotescas o extasiava. Um gênio incompreendido, Stifler mantinha sempre o cabelo ruivo bem penteado e carregava um sorriso estranho e cheio de dentes. Poucos pareciam ver mais do que um garoto que andava esquisito e possuía mais espinhas do que o normal para quem já havia saído da puberdade.
, no entanto, o aceitou como pupilo assim que Daniel começou uma conversa sobre Criminal Minds e como deveria ser interessante trabalhar para FBI. Apesar da sua obsessão por serial killers — coisas que graças a Deus não era recorrente em Lee’s Summit —, o tanto que Stifler era curioso, ele era inofensivo.
encontrou-o tirando fotos da cena do crime. Os corpos já haviam sido encaminhados ao OCME* e, assim que chegasse na delegacia, as imagens das estradas de Raytown iriam estar disponíveis para averiguação. Ainda havia uma equipe vasculhando o perímetro da casa com cachorros de caça e mais tarde organizaria as convocações para depor na polícia. Com cuidado, o detetive começou a vasculhar por algum furo em seus planos, mas parou assim que percebeu que Stifler não estava sozinho.
Fiscalizando o trabalho da perícia, o Detetive Richard Lawrence caminhava pelo sótão impacientemente. respirou fundo, temendo que a presença de Lawrence significasse o que havia cruzado sua mente, embora a verdade estivesse escancarada à sua frente: depois de três meses sem um parceiro, finalmente o capitão havia lhe designado alguém para trabalhar junto com ele. No entanto, esperar por um novo colega de trabalho nunca foi-lhe tão desanimador, levando em consideração que teria que lidar com o maior almofadinha da delegacia.
— Algum problema, Richard? — indagou , ensaiando uma expressão serena, porém cautelosa.
— O que aconteceu com sua camisa?
soltou um resmungo ao perceber que ainda tinha manchas vermelhas em sua vestimenta. Eram discretas, mas era seu dever ter no mínimo a trocado.
— Problemas de trabalho, eu acredito — respondeu sem se abalar.
Richard, no entanto, incomodou-se com sua atitude.
— Está aí o porquê de não se mandar qualquer detetive para o campo.
colocou as mãos nos bolsos da calça, a sensação térmica baixando assim que encarou sem medo o melhor e mais insuportável detetive de Lee’s Summit.
— Concordo, detetive — disse ele.
Stifler levantou o olhar de sua câmera, estranhando a atitude de . era conhecido por não levar desaforo para casa e sua atitude cordial era anormal para aqueles que o conheciam.
— Agora, se me der licença o detetive qualquer aqui precisa fazer seu trabalho.
Daniel levantou as sobrancelhas e segurou o riso. Observou aproximar-se de Stifler, que sorriu ante ao amigo.
— Dia difícil?
— Nem me fale — respondeu — Diga-me o que era tão interessante que me fez vir até aqui.
Com uma animação renascida, Stifler se pôs a falar do modo organizado em que o criminoso executou o assassinato. Tudo indicava que a diferença da hora da morte era de menos de um dia e havia apenas três cadeiras no sótão, não quatro. Havia pacotes de salgadinhos e doces jogados por todas as partes; todos dentro da validade. Os pequenos pacotes de suco de caixa e garrafa de água foram levados em busca de um DNA que pudesse levar ao culpado.
Apesar de ser explicado para o Detetive , Lawrence os rodeava como abutre em busca de respostas. Ele anuía, fazia notas e perguntas, transformando a paciência de em graus menores a cada segundo. Seu jeito invasivo era fogo aceso perto da pólvora que era o temperamento de . Embora tenha melhorado com a idade, sua essência impaciente ainda permanecia intacta diante de idiotas que não sabiam seu lugar.
E, com toda certeza, Lawrence era um deles.
— Vou precisar que tragam os cachorros para farejar a área de dentro. Talvez tenha algo que estamos esquecendo. Lá fora, encontrei algumas pegadas que iam para fora do perímetro em que os policiais estavam, vocês deveriam dar uma olhada — disse Richard meio sugerindo, meio ordenando.
De toda maneira, ainda assim recebeu o olhar arqueado de de “você sabe que esse caso é meu?” que era muito mais efetivo do que as palavras propriamente ditas.
Foi quando Lawrence sorriu, o bastardo.
— O que há, ? Não me diga que não sabe que somos parceiros a partir desse caso?


Capítulo 8 - Primeira Pista

— Jesus, Maria, José… — resmungou , com os dentes cerrados enquanto caminhava freneticamente pelo seu escritório — Abraão, Isaque, Jacó…
Samantha e Daniel assistiam seu ataque de raiva com atenção, apesar de possuir expressões completamente opostas. Enquanto Roth tinha o rosto preocupado com o que poderia fazer, Stifler ria da tentativa falha do detetive de manter-se calmo.
— Não acha engraçado isso de não falar palavrão? Luteranos são estranhos. — disse o perito para Sam.
puxou os cabelos lisos para trás, quase os arrancando da cabeça.
— De todos os filhos da…
— Olha a língua! — repreendeu Daniel, o qual recebeu um olhar de morte de seu amigo.
, não é tão ruim assim. — constatou Samantha, tentando se aproximar de seu amigo.
— Sammy, eu gosto de todo mundo aqui. Gostar não, tolero sem precedências. Mas aquele filho da…
— Olha a língua! — repreendeu mais uma vez Stifler.
Em ebulição, deu um passo em direção de seu amigo com o punho levantado, pronto para não dar-lhe um soco. Por instinto, Daniel levantou-se de súbito e correu para fora do escritório como uma lebre ao avistar seu predador. Era uma cena engraçada: suas pernas finas e longas, desajeitadas, mais atrapalhavam do que ajudavam e pode ouvir algo caindo lá fora e a voz apologética de Daniel pedindo perdão. Ia gritar uma ameaça ao perito quando sentiu duas mãos segurarem seus ombros.
Apesar de ter a aparência delicada e macia, as mãos de Sammy pesavam sobre . Era quase uma ordem implícita para que ele ficasse ali onde ela o segurava.
— Você não é de perder a paciência, .
Ele levantou as sobrancelhas escuras, cético, e Samantha revirou os olhos.
— OK, talvez você seja um pouco estressadinho, mas não o suficiente para esse show todo. — ela manteve o contato visual vibrante, os olhos cor de caramelo analisando, lendo sua mente — O que está acontecendo?
Eles estavam muito perto. só precisaria inclinar-se um pouco para sentir o sabor dos lábios já conhecidos por ele. sabia — claro que sabia — que ela não iria o repelir.
Porém, o detetive se deteve. Embora seu instinto primitivo e seu Eu antigo lhe sussurrassem como a serpente no Jardim Éden para que cedesse apenas àquela vez, repetindo que celibato, igreja e cristianismo não eram para ele, a última coisa que desejava era brincar com os sentimentos de Sammy e usá-la apenas para satisfazer os desejos de seu corpo. Os dois queriam coisas diferentes e fazer o jogo do viva o presente, quando sabia que, em determinado momento, iriam se machucar, não parecia certo.
— Este dia está sendo cheio de surpresas, Sammy. — Comentou respirando fundo e deixando os ombros relaxarem — Lawrence foi a cereja do bolo.
— O que o Capitão disse sobre isso?
franziu o cenho ao lembrar da resposta mal humorada e suja de seu chefe.
— Não se repete esse tipo de coisa em frente à damas.
Sammy riu debochada e lhe deu um soco no mesmo lugar que antes segurava. Não o machucou, mas era estranhamente forte para uma mulher aparentemente delicada como ela.
— Lawrence não é tão ruim, . Ele é até bonito.
O detetive fez uma careta.
— Meu Deus, juro que se você sair com ele, nunca mais falo contigo. Sammy riu, apesar da exasperação do seu amigo. Todos os dois sabiam que a ameaça era poeira jogada ao vento.
— Mas ele é um bom profissional. — constatou Samantha — Ele irá ajudá-lo com o caso enquanto eu lido com os adolescentes de Lee’s Summit West.
fez uma careta.
— Boa sorte.
E com isso os dois se despediram com um rápido abraço. demorou-se alguns segundos fitando a porta até que voltasse para o quadro vazio. Aos poucos, o detetive listou as poucas informações que possuía, sentindo os ânimos se acalmarem e indiferença lhe dominar mais uma vez. Após escrever o nome dos familiares, começou a complementar a pasta do caso através das suas pesquisas online. Nesse momento, ele sempre se tornava muito introspectivo. O murmúrio contínuo da delegacia acontecia longe de sua linha de pensamento. Era como adentrar em um mundo secreto, desconhecido até mesmo por ele próprio.
— Deus do céu, ! Você anda assistindo TV demais. mordeu os lábios com força segurando um palavrão. Devagar, o detetive virou seu rosto para trás apenas para fitar Richard olhando-o com um sorriso pretensioso, zombando de seu quadro bem organizado.
— Como você organiza todos os seus casos? Quer dizer, se você é capaz de pensar em mais de uma coisa ao mesmo tempo.
O detetive respirou fundo e tentou não socar o seu parceiro de trabalho por lhe interromper.
— O que deseja, Lawrence? pôde ver Richard arrumar seus ombros e o olhar como se fosse o homem mais inteligente da sala. Mais uma vez a ideia de socá-lo cruzou sua mente.
— Estive com a médica legista enquanto você desenhava no seu quadrozinho. — começou a andar pelo cômodo — Não há nenhuma evidência de tortura, a não ser os braços e as pernas igualmente presos por cordas. Os s estavam vivos e conscientes quando perderam suas cabeças.
— Bom saber — disse voltando-se para seu quadro e escrevendo as informações.
Richard ficou observando-o e esperando ele fazer mais algum comentário, porém manteve-se calado. Incomodado com sua presença no escritório, indagou:
— Mais alguma coisa?
— Você não acha que isso possa ser sinal de psicopatia? Um serial killer talvez?
virou-se para ele com a testa franzida.
— É muito cedo para dizer algo assim, não acha?
— Eles foram mortos de forma cruel e premeditada, . — justificou Richard — Se você tivesse procurado saber sobre o caso, ao invés de reclamar ao capitão nossa parceria, você ia saber que todas as quatro vítimas estão com uma marca de um jogo da velha na mão direita.
franziu o cenho.
— Todos? Até mesmo a ?
Lawrence balançou a cabeça concordando e sentou-se em uma das cadeiras do escritório despreocupado.
— Todos eles tiveram suas carnes dilaceradas com um facão — afirmou Richard. — O que você acha que isso significa? Para mim, é um caso clássico de psicopatia.
manteve-se em silêncio com a sensação que estava deixando algo passar. Pensou nas redes sociais dos s
— Irei procurar se há casos antigos com o símbolo de cerquilha no sistema. — decidiu Richard já caminhando para saída.
— Cerquilha? — perguntou , alarmado.
— Cerquilha, tic-tac-toe, jogo da velha, tudo a mesma coisa!
retirou seu celular do bolso em segundos e abriu o navegador da internet. Pesquisou as palavras chaves “” e “Cerquilha”, encontrando as diversas notícias sobre o assassinato brutal da família e a imagem de um dos prédios pertencentes a eles. Contudo, o que realmente lhe intrigou foi o símbolo do jogo da velha que estampava a empresa.
— Richard, acho que temos nossa primeira pista.


Capítulo 9 - A Família Bane

tinha a desculpa perfeita para não comparecer ao jantar de sua mãe. Além do caso importante que estava em suas mãos, sua cachorra, Sly, precisava de uma caminhada diária e deveria estar enlouquecendo presa dentro da sua casa. Só de imaginar o estrago que seu sofá estaria, a vontade de voltar para casa era eminente. Ainda assim, o detetive decidiu sair no fim do expediente normalmente e foi em direção à casa de seus pais.
Garoava quando ele chegou no bairro de classe média alta de Kansas City. Uma das músicas mais antigas de John Mayer estava na metade quando ele estacionou o carro de frente à garagem de seus pais. Apesar de ser bastante abastados, o casal era modesto. lembrava poucas vezes de ver seus progenitores ostentar apenas pelo prazer de fazê-lo.
O detetive sentia-se ridículo ao apertar a campainha e descobrir que estava de mãos vazias. Deveria ter tentado ao menos preparar alguma comida, mesmo não sendo um ótimo cozinheiro. Porém, sua mãe pouco importou-se com isso: de tão emocionada com a presença do filho mais novo, abraçou-o quase partindo-o no meio, tamanha emoção. Lá no fundo, ela acreditava que o filho não iria aparecer.
Ao andar pela casa em que ele cresceu, o detetive sentiu um embrulho no estômago. As imagens doces da sua infância eram escassas comparadas às conturbadas da sua adolescência. quase pôde ver-se entrar naquela casa bêbado e rindo enquanto sua mãe morria de preocupação; quase podia ver seu pai ainda com a roupa de hospital, a face exalando cansaço e fúria por ter que evitar a prisão de seu filho menor de idade que foi pego dirigindo sem carteira.
Klaus ainda possuía a cautela inicial, apesar de estar aliviado com a presença de seu caçula. O abraço trocado pelos dois foi estranho, desconfortável, o qual refletia o relacionamento instável que possuíam desde que entrou na puberdade.
Ao perguntar sobre seu filho mais velho, Olivia explicou que ele havia subido para tomar banho e logo iria se juntar a eles. Os três sentaram na grande mesa de vidro da sala de jantar enquanto ouviam a matriarca explicar sobre o dia estressante que teve. observou a arrumação minuciosa de sua mãe e sentiu a boca encher de saliva com a ceia bem produzida que iria saborear.
— Soube que está com o caso dos s — disse Klaus sem olhar diretamente em seus olhos.
— É uma tragédia o que aconteceu com eles, não é verdade? — comentou sua mãe, de repente, parecendo bastante séria — Depois de tudo que eles passaram, terminar a história da família desse jeito…
— Como assim, mãe? — indagou interessado.
— Casais interraciais não são tão aceitos na alta roda, querido. — explicou ela enquanto colocava um dos manjares em seu prato. — Claro que não é nada explícito, mas sempre há um clima estranho, uma desconfiança. Principalmente porque, além de negra, Gemma veio de uma família pobre, ao contrário do marido dela.
— Boa noite, família.
O rosto de Olivia iluminou-se como um raio ao ver seu filho mais velho entrar na sala de jantar, fazendo-a deixar o assunto de lado. Andrew era, o que dizia ser, a versão mais feia do detetive, embora a maioria das pessoas entravam em desacordo nesta questão. Possuindo uma natureza bem mais reservada, Andrew conquistava com sua fala mansa e inteligência sem a típica boçalidade de seus pares. Quem o via, dificilmente, o caracterizaria como um doutor em farmácia. Era o único da família que não possuía pose arrogante, mesmo sendo o que mais tinha credencial para fazê-lo.
— Meu lindo, sente-se! Fiz seu prato favorito. Você deve estar faminto — continuou Olívia apontando para a cadeira a sua frente.
— Como foi o vôo? — indagou , polido.
— Foi bem tranquilo, irmão. — respondeu Andrew com um sorriso genuíno e apertando seu ombro.
Era a forma minimalista deles demonstrarem afeto um ao outro, um cumprimento tão antigo que nem mesmo eles sabiam quando começara.
— E como vai na delegacia? Prendendo muitos bandidos? — perguntou Andrew ao se sentar.
— Ah, você sabe…
— Bem, não vamos falar sobre trabalho, sim? — interrompeu Olívia — Vamos apenas aproveitar esse momento em família.
Apesar de sua frase final, minutos depois a matriarca gabava-se dos prêmios que seu filho mais velho havia ganhado e das palestras que havia apresentado em Harvard. Há muito tempo, tinha percebido que o problema nunca era falar do trabalho e sim falar do trabalho dele. E ainda havia a mais nova conquista de Andrew: no próximo semestre, ele estaria ajudando um pós-doutorando em uma pesquisa na Universidade de Missouri enquanto refletia em qual faculdade das cinco que lhe ofereceram emprego. E ele, é claro, tinha apenas trinta e quatro anos de idade.
Ainda assim, o irmão mais velho de estava constrangido com a vangloriação de seus pais. Em vãs tentativas de mudar de assunto, Andrew até mesmo trouxe à tona Lucy, no entanto, relembrar que ela residia tão longe de , pelo que seus pais diziam ser falta de firmeza sua, teve efeito contrário. Bastou que a conversa se tornasse cheia de implicações sobre como o detetive deveria reger sua vida para a comida perder o gosto. E foi por isso que, minutos depois, ele inventou uma desculpa qualquer para ir embora. Ao se despedirem, ainda ouviu seu irmão lhe pedir desculpas pelo constrangimento, um pedido genuíno, lembrando a o porquê de não conseguir odiar seu irmão mais velho.
O detetive deixou a casa dos pais com um sentimento de perda. Uma dor pequena, angustiante à sua maneira, porém fácil de suportar. Ardia como um pequeno corte no dedo, quebrando o frágil dossiê do relacionamento instável com a família que pintava em sua mente. Ele respirou fundo, cansado. Afinal, não era a primeira vez que aquilo acontecia e não seria a última.
Assim que ligou o carro e ativou a conexão do celular com o painel do automóvel, o número de Bárbara brilhou na tela. Atendeu preocupado, já que a mesma nunca o ligava a não ser que fosse em um momento de extrema necessidade.
— Alô, papai? — uma voz infantil e feminina ressoou pelo som do carro. Estava abafada, como se a criança estivesse escondida debaixo de um lençol.
Um sorriso involuntário desenhou-se no rosto do detetive.
— Oi, Lucy.


Capítulo 10 - Pistas e Palpites


— Por que está tão feliz, ?
levantou as sobrancelhas diante da indagação de seu parceiro. Desde que pegaram a primeira pista do motivo do crime, Richard havia saído da delegacia apenas para comer. Faltava apenas duas horas para o fim do dia quando o detetive voltou da casa de seus pais, após uma longa conversa com sua filha de dez anos. Ainda não sentia sono e, embora possuísse o cansaço notório, não conseguia segurar a felicidade que trocar palavras com sua filha lhe fornecia.
— Por que a pergunta? — rebateu enquanto lia rapidamente as anotações organizadas por Lawrence.
— São dez horas da noite e você está sorrindo como um idiota. — disse Richard irritado.
— Não sabia que havia se tornado fiscal do sorriso, Lawrence. Quanto você ganha para realizar essa tão importante missão?
Richard bufou com a forma sarcástica que seu parceiro de trabalho agiu.
— Fiz uma lista com os funcionários mais propensos a criar uma conspiração, mas parece que os únicos que poderiam ganhar alguma coisa com a morte dos s são os próprios s — explicou Lawrence mostrando uma lista de suspeitos para depor.
franziu as sobrancelhas assim que o nome da mais nova apareceu no papel.
— Acha que pode estar por trás disso?
— Eu acho — respondeu Lawrence com cuidado — que qualquer um pode ser o autor do crime.
— E eu acho que devemos esperar o depoimento dela. Eu a vi quando foi liberta, Richard. Ela estava à beira da loucura. é uma das vítimas, não o contrário. — justificou .
O detetive Lawrence encarou o seu parceiro como se o mesmo fosse um inseto desagradável. , no entanto, não deixou-se abalar com tal comportamento.
— Bem, você me chamou por um motivo, não é? — mudou de assunto , o qual não tinha pretensão de continuar aquele jogo de gato e rato.
— Encontramos a arma do crime a três quilômetros da casa — disse Daniel entrando de súbito no escritório de . — Em pouco tempo teremos resultado da análise do sangue da arma, mas o corte nas vítimas é típico do modelo do facão encontrado.
Stifler andou até o seu amigo com seus passos de gato, como se estivesse desfilando em uma passarela de moda, até entregar-lhe a imagem da peça.
— A faca tinha 45 centímetros e é nova, afiadíssima. Certeza que comprada apenas para esse ato. — acrescentou o perito.
— Era militar ou artesanal? — indagou enquanto encarava a imagem em suas mãos.
— Militar. — respondeu Stifler — Ah, já sabemos o modelo do sapato das pegadas: tênis Nike, provavelmente o modelo Wmns, tamanho trinta e cinco.
— Então, nosso assassino é uma mulher? — sugeriu ao escrever o nome “mulher?” na parte do quadro em que organizava o perfil do assassino.
— Só porque tem pé pequeno você acha isso? — indagou Stifler com um sorriso zombeteiro.
— Como ninguém conseguiu vencê-la? Digo, ela estava com um facão contra quatro pessoas. Ninguém tentou fugir? — sugeriu , ignorando a insinuação do perito.
— Esse tipo de crime não se comete sozinho, detetive. Muito menos um bem planejado como tal. — explicou Richard.
Os três homens ficaram em silêncio, cada um entrando em um mar de ideais diferentes e inclinando-se para um ou outro detalhe que mais lhe intrigava. Daniel foi o primeiro a desistir e se despediu, dizendo que não era pago para resolver mistérios, “o único mistério que eu gosto de desvendar são os de Stephen King. O resto eu dispenso”, acrescentou Stifler antes de ir.
— Eu também estou indo. Só começaremos a ir a algum lugar quando formos pegar os depoimentos. Até lá é melhor descansar. — falou Richard antes de desaparecer da delegacia e voltar para sua casa.
Depois de minutos encarando a imagem que tirou da internet da família , saiu andando pelo prédio do departamento de polícia que estava tão vazio quanto naquela manhã. Apenas poucos detetives cumpriam o turno da noite e a maioria dos policiais faziam ronda pelos bairros da cidade de Lee’s Summit. Após dar boa noite a um policial que sempre via durante a noite, mas não fazia ideia o nome, voltou para casa com a certeza que seria uma daquelas noites difíceis demais para dormir.


Capítulo 11 - O Funeral

Ainda estava escuro quando saiu para dar uma caminhada rotineira. Não o fazia todos os dias, afinal, o frio da manhã nunca foi convidativo, porém era um dos poucos momentos que podia passear com sua cachorra, Sly, por entre os campos verdejantes e a lagoa de Lee’s Summit.
Se já era esquisito encontrar uma pessoa caminhando quando o sol ainda estava nascendo na cidade, era ainda mais anormal ver um homem alto e viril como o detetive passeando com uma maltês, toda pomposa. Sly era pequenininha e antes pertencia a Olivia , quando ela possuía tempo para se dedicar ao pet. Apesar da agenda corrida, nada na vida de se comparava aos horários mirabolantes que a cirurgiã se impunha no trabalho. Fazia quatro anos que o detetive e a cadela dividiam a casa no subúrbio da cidade e, desde então, se tornaram melhores amigos. Sly era sua companheira, a quem ele dedicava afeto o suficiente para tentar aplacar a dor da saudade de ter a filha tão longe.
A voz de John Mayer tocou em seu fone de ouvido e sorriu ao ouvir sua música favorita tocar tão cedo de manhã. O sol nascia e ele parou para beber um pouco de água para admirar aquele dia que se iniciara. O detetive havia dormido apenas quatro horas na última noite, mas o cansaço ainda não havia o derrubado. Ia ser um bom dia, ele constatou. agachou-se e dividiu sua água com Sly enquanto acariciava o pelo branco de seu pet.
Então, seu celular tocou, atrapalhando um dos versos de Gravity, quando John Mayer pedia para deixá-lo onde a luz estivesse. Ele atendeu, pouco prestando atenção ao nome que apareceu no celular; estava aleatório demais para se preocupar àquela hora da manhã.
— Detetive , bom dia. Aqui é Cassandra Harriet, da delegacia.
— Bom dia, Cassandra. Como vai? — disse afável. — Precisa de alguma coisa?
— Detetive, creio que não tenho boas notícias — explicou Cassandra, com sua voz aveludada, tentando ao máximo não despertar a ira de um superior. — Esta noite houve um vazamento no banheiro do primeiro andar do prédio e acabou destruindo o teto do seu escritório. Felizmente, os policiais do turno noturno conseguiram salvar todos os documentos que estavam lá, mas não há com o senhor voltar para seu escritório. Sinto muito.
— Oh! — exclamou coçando a cabeça — Eu posso lidar com isso, não se preocupe. Mais alguma coisa, Cassandra?
pode escutar a mulher se remexer na cadeira e coçar a garganta de forma desconfortável antes de lhe dizer:
— O detetive Lawrence está pedindo para que o encontre em um cemitério de Kansas City para acompanhar o enterro dos s — disse ela. — Ele pede para que seja o mais rápido possível, para que não chegue atrasado.
— Mandarei o endereço por mensagem. — A voz do detetive Richard ecoou no outro lado da linha, fazendo a secretária repetir a informação mecanicamente.
segurou um resmungo inconformado com o exibicionismo de seu colega. Por que incomodar Cassandra com uma coisa que apenas dois SMSs poderiam resolver?
Chamou Sly para seus braços e voltou para o carro. Despediu-se da calmaria com um pesar de saber que o resto do dia seria como atravessar uma grande avenida de sunga a sete graus abaixo de zero.

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O cemitério histórico de Kansas City estava mais cheio do que o costume naquela manhã ensolarada. Repleto de jornalistas, o local parecia mais uma premiere do último filme da Angelina Jolie do que um enterro. Ao chegar na porta, pôde vislumbrar seu parceiro narrando fatos que não respondiam nada para perguntas impertinentes dos repórteres. Ser discreto não era uma das qualidades do detetive Lawrence.
No entanto, toda a atenção voltada a Richard se tornou nefasta assim que a herdeira saiu do carro, escoltada por dois seguranças e seu noivo. Vestida à caráter, andava de cabeça baixa enquanto Elliot segurava-a pela cintura, a protegendo dos abutres à procura de um furo de reportagem.
A multidão gritava seu nome em diversos tons para chamar-lhe atenção, fazendo-a olhar para os lados, perdida como um coelho que acabara de perceber que não poderia fugir do caçador. pensou que ela iria entrar em colapso; as câmeras, os gritos e o empurra-empurra apenas ressaltaram a sensação de sufoco, fazendo-a andar para frente com passos largos, quase em uma corrida pela sua própria vida.
Então, no meio daqueles rostos desconhecidos, ela viu . Parou subitamente e abriu a boca para regular sua respiração. Durou alguns segundos ininterruptos até que Elliot a guiasse para dentro onde os jornalistas não tinham autorização para transitar.
— O que foi isso? — indagou Lawrence com a testa franzida.
Não era um total idiota, afinal.
— Nada. — disse andando, sem direcionar o olhar.

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A primeira coisa que Richard Lawrence constatou no funeral dos s era que os ricos, até mesmo em suas mortes, esbanjavam em luxo. Contudo, apesar de usar caixões banhados a ouro e serem enterrados em lugares de honraria, por dentro seus corpos apodreciam como qualquer outro.
Havia pequenos murmúrios desrespeitosos, choros descontrolados e um reverendo que tentava levantar alguma esperança, apesar de que, diante de uma tragédia como esta, a palavra parecia ter perdido o significado.
, o detetive criança que lhe acompanhava, estava muito mais preocupado em encarar sem cerimônia os parentes dos mortos, em especial a herdeira, a qual mantinha-se em posição de mosca morta por todo tempo. Pessoas aproximavam-se dela com tapinhas, lhe diziam palavras vazias de bom ânimo e ela respondia com igual animação — isso quando seu noivo não respondia por ela. Lawrence desconfiava de todo aquele circo, achando que diante de tais circunstâncias, era tudo muito orquestrado.
deveria estar prestando atenção naqueles que receberam intimação ainda na manhã daquele dia e que logo mais apareceriam na delegacia para dar seu depoimento. Deveria fincar seus olhos no que acontecia entre as rodas de conversas daqueles que passavam sob o caixão fechado, ignorando rudemente o reverendo que falava sobre a justiça de Deus. deveria fazer muita coisa, todavia, seu dever não ganhou atenção o suficiente para que desviasse do comportamento dos s que estavam vivos.
Para , estava em choque ainda para poder estar ali tão perto dos corpos sem vida de sua família. E Elliot parecia o único que entendera isso ao pedir que não se aproximassem mais da noiva e respeitassem seu luto.
Elliot Russel poderia passar uma imagem de homem de gelo, mas sua carcaça fria não foi suficiente para que não observa-se os olhos vermelhos e a coriza de quem desejava chorar, não podia diante de tanta pressão; os óculos escuros foram apenas um charme para esconder o ser humano que Russel era. Foi o que mais interessou o detetive, afinal, eram os s algo mais do que sogros para o homem?
Assim que o reverendo pediu para que prosseguisse a cerimônia, já que a rouquidão não o deixava falar por mais nenhum segundo, foi que o homem de gelo derreteu-se ao encarar o caixão lacrado de seu antigo chefe ser coberto pela terra. Enquanto a filha mais nova de Chad fitava a cena de forma aturdida, algumas lágrimas molharam o rosto inexpressivo de seu noivo. Dificilmente diria que ele estava chorando diante da forma que trincava seu maxilar. Era o aprendiz que não havia aprendido com seu mestre a dizer adeus.

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encarava o espelho do banheiro do salão dos s há longos minutos desde que lavara a face. O rosto ainda estava molhado e ela pode encarar as sardas de seu nariz e as manchas escuras de seu queixo, quando tinha um péssimo hábito de mexer em suas espinhas. Naquele dia não usava maquiagem. Ela sentia-se adormecida em um pesadelo infinito onde não podia se esconder nas cobertas de seu irmão à noite.
Ela estava sozinha.
Sozinha.
Pulo de susto, assustada com o som externo da voz que soou no banheiro. Ou seria sua mente pregando-lhe peças?
Uma enxaqueca atingiu-lhe e ela sentiu como seus miolos saíssem da cabeça. Com as mãos tremendo de dor, abriu a bolsa que sempre carregava para pegar a cápsula de remédio. Então, encarou o desenho da cerquilha marcado na mão direita. E a mente, que estava em branco, lembrou-se da dor de ter a carne dilacerada enquanto escutava o som aterrorizador das palavras que a ameaçavam.
Não fale.
No entanto, apesar do aviso de sua mente, um grito estridente saiu de sua garganta.


Capítulo 12 - Depoimentos

O primeiro a chegar para dar seu depoimento foi Ernest Thurman. Era um homem com mais de setenta anos, no entanto, parecia dez anos mais jovem. Usava óculos discretos, típicos de avó, os cabelos brancos como a neve fresquinha na primeira geada do inverno. Porém, qualquer sentimento de pureza parava aí.
Na sala de interrogações, os detetives compartilhavam o lado esquerdo da mesa. Embora fosse comum a prática de dividirem os papéis de bom x mau policial, os dois não estavam para brincadeira. O surto de durante o velório lembrou mais uma vez que quem fez aquela barbaridade estava à solta.
Ernest tinha um álibi, estando ele em Kansas City à espera dos s para a reunião. Ainda assim, seria ingenuidade dos detetives acreditar que o assassinato não fora feito por profissionais, os quais sabiam o horário exato para interceptar a família. Quem, a não ser aqueles que os acompanhavam, saberiam daquela brecha na segurança?
— Então o senhor trabalha com os s desde a antiga presidência? — indagou Richard enquanto lia as anotações feitas mais cedo.
— Sim, desde que o pai de Chad assumiu a presidência e comprou a Cerquilha dos antigos donos — confirmou Ernest — é uma pena que tenham ido tão cedo. Que tragédia!
— O senhor tinha muito inimigos, senhor Thurman? — perguntou , quem o olhar nunca se apartava de Ernest.
— Não que eu saiba, detetive — disse ele — Digo, concorrentes não são inimigos, não é? Além do mais, eles compraram quase toda a concorrência.
Os detetives trocaram um rápido olhar em silêncio, confirmando que seus pensamentos vagavam para o mesmo caminho.
— Talvez… — iniciou Ernest, buscando a atenção dos policiais — ...eles sejam amaldiçoados?
piscou em silêncio tentando entender qual era o objetivo de Thruman.
— Por que diz isso? — inquiriu Richard.
Com um sorriso de quem estava feliz em ter a atenção voltada para si, Ernest disse em tom conspiratório:
— Os pais de Chad morreram em um acidente de carro quando ainda eram muito jovens. Uma tragédia! E mais essa? Acho que é maldição.
Richard bufou achando aquilo totalmente descabível, porém manteve-se em sua análise da fala.
— Eles tinham inimigos? — perguntou .
— Não sei dizer, mas com certeza não tinham boa fama de família perfeita como Chad e Gemma tinham — disse Ernest.

A próxima a entrar foi Lee Kyung-Soon. Descendente de imigrantes coreanos, a mulher era estonteante. Seu andar revelava que ela não seguia, e sim era seguida. pode perceber até mesmo Richard afrouxar sua gravata azul diante dela.
Logo quando foi indagada sobre a morte dos patrões, Kyung-Soon mostrou-se tão fria e meticulosa quanto era de se esperar de uma grande executiva. Após desejar pêsames a ninguém em particular, a mulher teceu comentários sobre o impacto que a tragédia havia dado nos negócios.
Enquanto Lawrence anotava o quão calculista a senhorita Lee era, observava as pequenas características de quem estava frustrada com o que havia acontecido. Tinha um leve pesar em suas palavras, embora fosse por motivos anormais.
— E o que você acha que acontecerá com as empresas após esse desastre? — indagou sem muita pretensão de parecer interessado.
é uma mula, nunca teve metade do brilhantismo do irmão — respondeu a mulher olhando para suas unhas recém pintadas de vermelho — Estarão no lucro se ela não enfiar todos à falência. Se for esperta, deixará para quem sabe comandar a empresa.
— Então, a empresa será vendida…
Lee deu um bufo de descaso.
— Duvido muito — disse ela — É mais fácil casar-se com Russel e entregar tudo nas mãos dele. A estúpida tradição dos s nunca permitiria que ela desistisse das empresas que possui.
— Que tradição? Do que você está falando? — perguntou Richard confuso.
— Ah, vocês não sabem? — disse em tom zombeteiro — Os s têm uma tradição onde o mais velho e o cônjuge serão presidente e vice da empresa, não importa quem sejam. Além do mais, todos os filhos devem estar envolvidos direta ou indiretamente. É um grande negócio de família.

Foi pensando naquela tradição que os detetives interrogaram Elliot Russel no final da tarde. Era visível a diferença do homem que estava no hospital acalentando a noiva com o homem que entrou na sala. Elliot poderia manter a postura de quem dominava a sala e a grife de quem comandava e não era comandado, no entanto, seu olhos gélidos eram marcados por pequenas bolsas vermelhas de quem não dormiu muito bem e chorou mais do que o esperado. Ainda assim, seu tom de voz era indiferente diante das perguntas sobre como haviam sido os dias em que estavam à procura dos s.
— No começo, achei que eles haviam tido problemas com o carro ou algo do tipo. Nunca entendi muito bem porque eles resolveram ir juntos e sem nenhum segurança, como se fosse uma viagem em família… — disse Russel com um olhar longínquo. — Não duvido que tenha sido essa a intenção de Chad. Há tempos que ele tentava reunir a família para isso, mas sempre foi resoluta nesse quesito. Muita coisa mudou desde que ela começou a trabalhar de verdade na empresa.
— Há quanto tempo estão juntos? — perguntou mais curioso do que pretendia.
— Três anos.
— Ela já trabalhava na empresa integralmente?
— Não, ela abandonou a carreira de artista plástica há dois anos. Nos conhecemos em um jantar da família por meio do pai dela.
— Ele era seu mentor?
Elliot balançou a cabeça concordando.
— Um pouco mais do que isso. Chad pagou minha faculdade mesmo sem me conhecer muito bem. — acrescentou com um sorriso melancólico — Eu era apenas um órfão na Fundação Halo e ele me aceitou quase como um filho.
— Você tinha problemas com Anthony, o filho mais velho? — indagou Lawrence entrando no diálogo.
— Não, éramos bastante próximos, na verdade. Digo, apesar de me encaixar em sua família, ele ainda era o herdeiro e era tratado como tal. — explicou Elliot despretensioso.
— Qual é a perspectiva que você tem em relação a empresa agora? — perguntou .
Russel lambeu os lábios e olhou para o chão, pensando um pouco. Só depois levantou o olhar para afirmar:
— Não faço ideia. Belle poderia muito bem fazer um bom trabalho se ela não estivesse tão traumatizada — lamentou o homem.
Estava anoitecendo quando despediram Elliot. Richard e decidiram fazer hora extra, embora a perspectiva de compartilhar mais tempo com Lawrence não fosse nem um pouco atraente para .
Andando por entre os corredores da delegacia, achou sua nova mesa, que era um pouco menor que a antiga. Sentou-se na cadeira, cansado, e começou a organizar os papéis que estavam jogados aleatoriamente pelo birô.
zinho do meu coração, vai pedir o que para jantar? Estou ligando pro Taco Bell.
Cansado e impaciente, o detetive esfregou os olhos diante da animação de Daniel Stifler, quem nunca, em momento algum, perdia a animação. Ele era como uma criança que nunca cansava de brincar.
— Taco Bell é uma droga, prefiro Chipotle.
— É, mas prefiro ir lá escolher do que falar no telefone… — justificou Daniel — A não ser que queira fugir um pouco daqui.
fitou Stifler e entendeu suas segundas intenções. Ponderando se valia à pena sair da delegacia, o detetive viu Sam piscando para ele de longe e chamando-o com a mão.
Por último, sua barriga roncou pedindo comida, e a resposta positiva escapou de sua boca.
— Aonde você está indo? — inquiriu Lawrence segurando pelo ombro assim que o encontrou cruzando o corredor para a saída.
— Comer. — respondeu continuando a andar para frente.
— Mas eu já pedi pizza.
— Já comi pizza essa tarde, Lawrence. Desculpe-me se meu estômago é um pouco mais exigente do que o seu — replicou .
Percebendo que o parceiro não mudaria de ideia, Richard apelou:
— Irei relatar ao Capitão.
levantou a sobrancelha zombeteiro:
— Então diga a ele que mandei uma abraço.

No jantar, sentados entre as mesas vazias, já que boa parte dos clientes chegariam em minutos depois, manteve-se naturalmente quieto. Stifler, quem sempre fora falante, não parava de dissertar sobre um novo anime japonês que assistia. Chamava-se Bungo Stray Dogs e tinha personagens baseados em famosos autores japoneses. Samantha ria e fazia perguntas para que ele continuasse a falar, embora não estivesse realmente interessada naquele assunto. Ela era assim: gentil e compreensiva, mesmo quando a pessoa que estivesse falando fosse extremamente irritante.
— Está bastante silencioso hoje, . Aconteceu alguma coisa? — perguntou Sam de repente.
— Só estou pensativo. — explicou ele enquanto mexia seu copo com chá gelado — Os depoimentos me levam a um caminho, mas algo me diz que não é exatamente isso.
— Ah, é o caso dos s? — o detetive assentiu — Que caminho?
— Ei, , tenho uma coisa para te contar. — atrapalhou-a Daniel, incomodado por não ser mais o centro das atenções — Eu falei com a médica legista hoje de tarde e…
— Finalmente pediu ela para sair? — completou com as sobrancelhas arqueadas.
Ele fez uma careta em resposta.
— Eu não gosto dela desse jeito.
— Ótimo, porque namorar gente do trabalho é estranho depois que termina. — argumentou Sam piscando logo em seguida para que ria.
— Vocês estão mudando o assunto da conversa. — Reclamou Stifler irritado — O que eu vou dizer é muito importante.
— Igual quando você palestrou por uma hora sobre bungo-stray-alguma coisa? — indagou adorando aquela brincadeira de deixar o amigo vermelho de ira.
— Você é terrível, . — advertiu Sam escondendo a risada com um guardanapo.
Daniel fechou a cara como uma criança.
— Vai, Stifler. Fale. — incentivou o detetive.
O perito soltou a respiração dos pulmões inconformado e, então, disse:
— Saiu os resultados do DNA de uma garrafa de água, salgadinho e outros lanches que estavam lá. Acho que quando você voltar estará tudo pronto. — Explicou ele, sendo prolixo, como de costume — O que realmente me intrigou foi que todos eram da .


Capítulo 13 - Confiança e Desconhecimento

Quando chegou na delegacia para fazer seu depoimento, os detetives já haviam lido e relido os relatórios vindo da médica legista, a perícia e analisado minuciosamente os depoimentos. Já estavam no terceiro dia pós descoberta da morte dos s e era questão de horas para que o Capitão exigisse uma resposta, no entanto, era consenso dos detetives que a resposta estaria no depoimento de : apenas ela viu quem fizera aquilo com sua família.
Ela parecia assustada em estar ali. Sobretudo pelo rosto nada amigável de Richard Lawrence, visto que o mesmo estava completamente desconfiado em relação a posição de no crime acontecido, apesar de ter presenciado o surto que aconteceu durante o enterro de seus parentes.
não chegou a nenhuma conclusão, ao menos, se o fez, não impôs nenhum posicionamento. Tratou com amabilidade, deixando-a confortável ao oferecer café. Apesar disso, estava naturalmente acuada quando começou a responder as perguntas.
— No dia do sequestro, qual era a lista de compromissos de vocês? — indagou Richard, sucinto.
Ela lambeu os lábios antes de responder:
— Íamos de carro para Kansas City no Marriott Hotel para uma reunião com um grupo latino… Não consigo lembrar o nome. — acrescentou olhando para com tom apologético. — A ideia era passar todo o dia lá, pois havia muito a ser resolvido. Eu iria mais cedo com Eliott, mas houve um imprevisto e ele teve que ir sozinho.
Lawrence anotou a última informação, acreditando ser importante, antes de perguntar:
— Era normal essas viagens de carro entre vocês sem a presença de seguranças?
— Não, mas já chegamos a viajar só nós quatro assim para visitar minha avó no asilo em que ela está internada. — explicou com cuidado.
— Isso foi quando?
— Dois meses atrás, acho. — disse ela.
O detetive piscou sistematicamente.
— Não a vi no funeral. O relacionamento de vocês não era bom?
— Ela tem demência senil. Não consegue lembrar-se de nós. — replicou. — Trazê-la para lá só traria confusão pra ela.
— Então, você lembra como foram abordados pelo sequestrador? Era mais de um? — inquiriu Richard.
A herdeira então remexeu-se na cadeira enquanto olhava para os lados, como se a resposta estivesse escrita nas paredes.
— Eu lembro de estar escutando The Animals no celular… — disse insegura — E, havia alguém apontando uma arma em nossa direção no meio da estrada... — apertou os pulsos nas têmporas — Eu… Eu… gritei… Foi terrível. Mamãe gritou também. Todos nós gritamos para que o carro fosse parado. — seus olhos encheram-se de lágrimas. — Ele atirou contra o carro. Eu lembro disso. Bem em minha direção.
Os detetives ficaram em silêncio enquanto viam soluçar copiosamente. Ela sabia que estava segura, se encontrava em uma delegacia, afinal, mas tinha a mente em um nível de perturbação alto o suficiente para que as simples memórias despertasse uma enxurrada de lágrimas de angústia e medo.
, você se lembra de alguma coisa que aconteceu naquele dia? — inquiriu Richard, no que seu parceiro achou um péssimo momento.
Ela negou com a cabeça em veemência, mais lágrimas molhando a sua face bonita.
— Eu só me lembro de acordar e ver meus pais mortos. — A voz embargada dificultava o entendimento das palavras — Lembro de gritar e ninguém me escutar, até não ter mais voz, então tentei fazer barulho com a cadeira. Foi quando me encontrou.
Embora Lawrence tenha lançado um olhar indagador para pelo tom íntimo da voz da mulher, no entanto, o detetive mais novo estava segurando a mão de para que ela acalmasse.
— Se não quiser falar agora podemos deixar o depoimento para depois, tudo bem? — explicou, afável — Olhe pra mim: iremos colocá-la no programa de proteção à testemunha. Você e seu noivo. Vai frequentar um psicólogo. Soa bem pra você?
Ainda fungando, a balançou a cabeça em concordância.
— Eu já tenho uma terapeuta, mas muito obrigada, . — disse enquanto pegava os lenços de papel que estavam em cima da mesa. — É bom ver um rosto conhecido.
sorriu para ela e permitiu-se relaxar.
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Dentro de sua garrafa térmica, o café já havia acabado, fazendo com que fizesse uma careta. Levantou o olhar apenas para acompanhar sair da delegacia ao lado de seus seguranças e Elliot em uma marcha distraída. Em sua mão direita, ela segurava o cartão que ele lhe dera para que ligasse para seu número privado, caso precisasse de ajuda.
— Quando você ia dizer que conhecia a família de ? — inquiriu Richard.
O detetive olhou para seu parceiro em silêncio e voltou a observar sua garrafa vazia. Aquela atitude despreocupada irritou Lawrence, que já estava de pavio curto.
— Não vai me responder?
— Não conheço os s, eu conheço . — replicou sem muita vontade. — Na verdade, nem mesmo ela eu conheço. Cheguei a conversar uma vez com quando estávamos no ensino médio. Não sabia o nome dela, muito menos de que família ela era. O rosto era familiar, mas não tinha certeza quem era até o comentário que fez hoje.
— Como não a reconheceu? Você viu as redes sociais dela!
— Que foram feitas a quatro anos atrás e resumem-se em arte surrealista? — Completou — Ela mudou muito, Lawrence. A puberdade fez muito bem a ela.
Embora tenha achado bonita na época do colegial, sabia que o seu Eu adolescente não era confiável. Na juventude, parecia um cachorro no cio, olhava as mulheres como se fosse apenas um pedaço de carne. Todas eram potenciais namoradas. Não era de se admirar que engravidara a filha do reverendo antes de pegar seu diploma.
— Irei falar com o capitão sobre isso.
revirou os olhos.
— Por que diabos você não consegue resolver suas próprias merdas, Lawrence? Tudo você leva para Pollack. Parece uma criança — reclamou.
— Porque eu ligo para o meu trabalho, porra! — explodiu Richard — E ele deve ser feito com perfeição. Por causa de policiais como você, somos desmoralizados!
— Se acalme. — alertou com a voz em tom baixo. — Está fazendo uma cena.
— Estou mesmo, seu desgraçado. É pra todo mundo aqui saber o quão antiprofissional você é!
descreveria aquela cena como um dos momentos mais oportunos que a paciência divina prevaleceu. Ele estava muito perto para tê-lo respondido com um belo soco.
No entanto, ele sabia que deveria ter comentado que iria tentar conquistar a confiança de e que estava pensando em dar o benefício da dúvida para a teoria de Richard na relação da herdeira e o crime. Ele sabia, mas mesmo assim, manteve-se calado. Observou o rosto de seu parceiro e viu que, assim como , ele não havia dormido direito nos últimos dias. Estava fazendo hora extra quase todas as noites e aquilo deveria estar afetando diretamente seu humor.
Então, ao invés de se defender, apenas disse:
— Estou indo pegar um café.


Capítulo 14 - A mentira

já havia trabalhado mais de uma vez com o Programa de Proteção à Testemunha, muito antes de participar do Departamento de Homicídios. No entanto, apesar da experiência, decidiu que deixar com que o Detetive Lawrence ficasse com essa responsabilidade era a melhor decisão.
Nenhum dos dois comentaram sobre a discussão de mais cedo. Meia hora depois do que aconteceu, avisou ao seu parceiro que ainda tinha muito trabalho para fazer e ele apenas o seguiu. Sentados de frente ao computador, os detetives analisavam as imagens da câmera da prefeitura de Raytown.
A rota observada não era muito usada, sendo ela a mais longe para Kansas City. Só em imaginar o motivo da escolha do caminho era estranho, levando em consideração que eles desejavam chegar o mais cedo possível na reunião. Lawrence solicitou, por telefone, a presença das secretárias dos CEOs para depor, acreditando que elas teriam mais facilidade de resolver aquele pequeno mistério.
O relógio da câmera da prefeitura marcava seis e meia da manhã quando uma moto sem placa parou no meio da estrada. Duas pessoas, um homem e uma mulher, trajando preto e máscaras de pano embaixo de seus capacetes, desceram posicionando o veículo entre as árvores. Meia hora mais tarde, o carro dos s apareceu na filmagem. Um dos suspeitos parou no meio da estrada e atirou contra o pneu do carro. As imagens apresentavam uma ação rápida: os dois criminosos apontando armas contra o carro, a ordem de sair do banco de motorista para que o sequestrador guiasse-os até a casa em Raytown, a cem metros dali. Tudo aquilo na maior tranquilidade.
— Não há nenhuma ligação de algum dos s para a polícia? — indagou .
— Já procurei. O primeiro a ligar para a polícia relatando o desaparecimento foi Elliot Russel. Nada dos s em si. — Lawrence respondeu pensativo.
Na imagem, pode-se ver que um dos criminosos carregando em uma bolsa de plástico o que parecia os celulares.
Entretanto, para o detetive Richard Lawrence, a resposta era essa: queria assumir a empresa e para isso planejou a morte de sua família. Para tanto, contratou uma dupla de criminosos para fazê-lo.
O que intrigava a era o fato de que uma família com grandes posses se posicionava de forma tão negligente quanto sua segurança. O automóvel usado por eles não tinha nem mesmo um rastreador ou seguro, sendo ele um dos carros mais antigos no nome de Chad .
— Há algo que não consigo entender. — comentou Richard depois de um tempo. — Eles abordaram o carro cada um com uma arma, mas não a usaram para matá-los. Todas as mortes se deram com o corte de suas cabeças e não havia sinal de tiros no local.
— Seja lá quem o fez, odiava os s o suficiente para querer sujar suas mãos — concluiu . — Um inimigo antigo e rancoroso.
— Sua amiguinha, , tinha um relacionamento ruim com a família?
segurou-se para não perder a paciência e respondeu a contragosto.
— Não a conheci o suficiente para saber.
Richard cerrou os olhos para focar na imagem em sua frente. Demorou alguns segundos até que abrisse de vez os olhos.
— É um casal. Um homem e uma mulher — constatou. — Ela tem 1.70, o homem tem 1.80.
Eles observaram os dois retirarem um a um do carro e amarrando seus braços e pernas. Havia uma agitação na imagem e o homem ameaçou atirar na cabeça de . Em rápidos segundos, todos ficaram parados, tenso, e obedeceram as ordens dos assassinos. Os dois entraram no carro apertado e deixaram a moto para trás, empurrando-a entre os arbustos. adiantou o vídeo, mas em nenhum momento os criminosos voltaram para buscar o veículo.
— Irei levar quatro policiais comigo para verificar a moto. — avisou Lawrence levantando-se.
estava compenetrado na imagem, uma mentira revelando-se diante de seus olhos.
— Richard, você está certo.
O detetive levantou a sobrancelha, curioso.
— Do que está falando?
apontou para a tela.
— Não houve tiros contra ninguém diretamente. falou que atiraram em sua direção como sendo uma lembrança inesquecível. Isso não aconteceu.
Richard piscou lembrando das palavras da mulher. Estava tão focado na relação íntima que tinha com sua principal suspeita que não se ateve aos pormenores.
— Bom trabalho, detetive . — disse ele satisfeito segundos antes de ir embora.

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Andrew amava comida mexicana. Claro que, depois da sua visita ao país latino, sempre encontrava uma desculpa para mostrar o quanto a comida preparada no seu país de origem era superior à feita pelos americanos. Ainda assim, ele nunca negava jantar em restaurantes mexicanos.
Era uma noite quente. deixou o casaco no carro quando entrou no estabelecimento para encontrar seu irmão. Estava atipicamente vazio, então Andrew pegou o que achava ser a melhor mesa.
— Chegou faz muito tempo? — indagou o detetive ao se aproximar.
— Apenas alguns minutos — respondeu enquanto saboreava os nachos que estavam sobre a mesa — Já pedi pra trazerem seu prato, sei que está com fome.
assentiu, sentindo-se relativamente tímido na presença do irmão mais velho. Andrew exalava um tipo de superioridade que era de sua personalidade, sem soar plástico e superficial. Ele falava e comandava; sabia e comentava; dizia e era ouvido. O mais novo dos odiou-o por toda a adolescência. Odiava o fato de que ele estava sempre certo.
Em algum momento durante os seus anos na academia, os dois voltaram a se ver como irmãos. Andrew era um homem bom, generoso. Detestava a ideia de que havia se afastado de seu irmãozinho, a quem amou desde que soube que sua mãe estava grávida. Desde então, os encontros aconteciam esporadicamente e sempre voltava para casa com a sensação agridoce que deveria ter escutado-o quando mais novo. Talvez, se o fizesse, teria uma vida tão sublime quanto a dele.
— E aí? Como está o trabalho na delegacia? — perguntou Andrew.
— O de sempre — falou com descaso. — Nada tão interessante quanto o seu trabalho.
— Olha, está aí uma coisa que eu discordo completamente. Você não deveria exigir tanto de si mesmo.
deu um sorriso sem graça enquanto bebia seu chá gelado. Não conseguia se concentrar desde que constatou que mentia. Ela não dera qualquer indício que o fizera intencionalmente — era possível ver em seu olhar a sinceridade de suas palavras. Algo estava errado. O detetive sabia disso.
Quando a comida chegou, Andrew falava de política. As eleições presidenciais de 2016 aproximavam-se e muito se falava disso. O filho mais velho dos era muito antenado, enquanto o mais novo, apesar de considerar-se republicano como os pais, pouco importava-se com o assunto. Ainda assim, Andrew, que se identificava com os liberais, não tinha esperanças para mudanças.
— Me vê três tacos, por gentileza. — pediu ao garçom assim que terminara de comer.
— Tinha me esquecido que você come como uma mula.
O detetive deu um sorriso.
— Esses músculos não se sustentam sozinhos.
— Que músculos? Você fala dessas suas pernas de galinha?
— Ei! — exclamou .
Andrew observou-o por alguns segundos. Seu sorriso vacilou, as memórias de que um dia ele o machucara tanto com suas palavras. Porém, já fazia muito tempo isso. À sua frente, havia um novo homem e aquele era confiável.
, preciso te contar uma coisa — disse Andrew. — Estou noivo e vou me casar no final do ano. Quero que você seja meu padrinho.


Capítulo 15 - A filha e o telefonema

Beautiful Savior era uma das três igrejas luteranas localizadas em Lee’s Summit; possuía uma arquitetura padrão, sem grandes pretensões de destacar-se na estrada. Naquele final de semana gelado, a placa avisava da reunião de jovens que acontecia todas as quartas e convidava os novos integrantes à festa que ocorreria na semana seguinte. era membro da igreja desde o nascimento de sua filha e a visitava ocasionalmente nos domingos de manhã na escola dominical, logo depois indo ao culto escutar o sermão do Reverendo Adam Wallace.
A congregação luterana era pequena e o público era uniforme àquela hora da manhã: homens e mulheres brancos já acima dos quarenta. Os adolescentes que sentavam entre as cadeiras costumavam ser netos e filhos que não tinham muita escolha a não ser acompanhar seus responsáveis.
Há muito havia entendido que participar de uma comunidade religiosa não estava ligado diretamente à manutenção de uma espiritualidade, no entanto, havia uma beleza naquela rotina. Era um dos poucos momentos que ele não se sentia completamente só.
Na cartilha do culto havia os procedimentos litúrgicos: o que dizer e o que fazer. Passando as páginas, encontrou um folheto com as orientação de um culto doméstico e particular de uma família. não deixou de sentir um pequeno comichão no peito, a sensação de solidão dominando-lhe mais uma vez.
O sermão falava de generosidade e o reverendo contou um pouco sobre as visitas que fizera a alguns membros da comunidade que estavam doentes, alguns internados no hospital. Nem sempre o detetive estava concentrado no que o jovem pastor dizia; seus pensamentos flutuavam entre a conversa que teve com o irmão naquela semana e o relatório completo da perícia que deixou largado no sofá antes de sair. Que Deus o perdoasse pela falta de atenção.
Quando o culto finalizou, retirou-se em silêncio. Observou o pequeno agitar dos bancos, os burbúrios de cumprimentos e a pequena discussão sobre o almoço. sorria e desejava uma boa semana aos conhecidos, embora uma familiar melancolia o dominasse.
O único que não o tratava com sorrisos e palavras superficiais era o próprio Reverendo Wallace. Até onde sabia, o reverendo não sabia de seu passado e quem ele era antes de entrar na igreja. No entanto, os olhares dúbios que recebia ao responder-lo sobre sua família indicava que não era uma completa tábua rasa para o líder da congregação.
Voltando para casa, o detetive ligou mais uma vez o rádio. Lembrou-se das vezes em que sua filha vinha o visitar e comentava o quanto detestava country. Era apenas uma criança, mas já sentia-se uma adolescente. Estava crescendo rápido — toda vez que a abraçava, percebia que Lucy estava maior. Antes seus braços gordinhos enlaçaram a panturrilha do pai, a falta de praticidade dos pés a fazia equilibrar-se nele. Crescendo, o abraço da menina rodeavam as coxas de antes de estender os braços pedindo para subir em seus ombros. Agora já crescida, Lucy rodeava o quadril de seu pai com facilidade e alinhava-se nele de saudades todas as vezes que o via. A menina estava crescendo rápido demais.
O detetive ressentia-se por não poder acompanhar o crescimento de sua filha, ver os jogos de futebol que ela participava e buscá-la para tomar um sorvete nos finais de semana. Ele lembrava dos primeiros dias quando Lucy era apenas um bolinho de carne e precisava da sua ajuda para tudo. lamentava não poder transferir-se para a cidade onde sua filha morava. Talvez, imaginava ele, assim que resolvesse o caso dos s, poderia conversar com o Capitão de novo.
Ligou para o celular de Bárbara, mas caiu na caixa postal. Tentou o telefone da casa, sem sucesso. Nervoso, parou no acostamento da estrada deserta para enviar uma mensagem para a mãe de sua filha.
"Bárbara, está ocupada? Onde está Lucy?"
Não demorou muito para ela responder:
"Estamos na igreja. Depois ela conversa com você"
"Ok."

Sua resposta era curta e pouco aberta a interpretações. A palavra era só uma forma de confirmar o aviso, escondendo a frustração que envolvia. sabia que Lucy não estava apenas com a mãe, mas também o padrasto, Alexander Smith. O homem era decente e tratava bem a filha de , no entanto, o ciúme era um sentimento traiçoeiro: alojou-se nele com sutileza e não tinha previsão de sair. Encontrar imagens da filha com Alexander e Bárbara nas redes sociais eram outro tipo de soco no estômago. Aquele homem desconhecido estava acompanhando o crescimento de sua filha enquanto ele corria atrás de ladrões de bolsas.
Contrariado, chegou na casa dele em alguns minutos. Saiu batendo as portas dos armários, descontando sua frustração no móvel de madeira, usando a desculpa de que procurava algo para comer. Resolveu, então, comer uma salada que preparara há alguns dias e provavelmente deveria ter sido descartada.
Tanto faz, titubeou ele ao perceber que a comida não fedia, dá para comer.
Ia colocando o primeiro garfo comida na boca quando o celular começou a vibrar. Por algum motivo, o detetive imaginou que fosse Bárbara, embora o visor anunciava que não era de nenhum número de sua lista de contatos. Atendeu no segundo toque.
— Alô?
? É .


Capítulo 16 - A suspeita e a principal testemunha

Havia muitos motivos pela qual conversar com suspeitos de assassinato, sobretudo um tão brutal como o dos s, era uma quebra de ética e decoro que colocava em risco a carreira de . Se ele fosse um homem inteligente e sábio, desligaria o celular e fingiria que a ligação não tinha ocorrido.
era um homem inteligente, mas também era muito curioso, o que o tornava um pouco menos sábio que a maioria.
— Olá, . Tudo bem?
Ele ouviu a mulher soltar o ar antes de dizer.
— Estou dentro do possível. — ele pode sentir um sorriso em sua voz. — Está ocupado?
— Não, não — disse ele olhando para a comida intocada a sua frente. — Pode falar.
— Certo, certo… — murmurou ela — Estive conversando esses dias com Elliott e ele não parece disposto a ser colocado no programa de proteção à testemunhas. Parece que estão tendo muito trabalho na empresa.
O detetive lamentou não estar gravando aquela conversa. O material seria considerado prova ilegal, no entanto poderia ser um indício de que estavam no caminho certo.
— Ah, não? Você também não vai querer?
— Eu tenho escolha? — sua voz saiu baixinha, temerosa. — Mal consigo fechar os olhos e parece…
A voz enganchou-se na garganta. — Me desculpa. — pediu ela, embora não houvesse nada errado chorar, sobretudo em uma situação tão difícil para si.
— Escute, . — chamou com a voz mansa. — Amanhã cedo um policial irá com você até uma cidade em específica. Lá você poderá começar de novo. Não tenho ainda a informação do lugar, nem da sua nova identidade, mas ele a levará lá. Você ficará alguns meses sem contato com seu noivo. Tem problema com isso?
Ela ficou em silêncio. Um fungado e um pequeno roçar de um lençol.
— Você pode ir comigo?
coçou a cabeça imaginando quão problemático seria ter mais uma discussão com Detetive Lawrence. Ainda assim, a confiança que estava sendo construída entre ele e a era importante demais para ser descartada.
— Está bem.

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acordou às cinco horas da manhã após um pequeno cochilo de dez minutos. Todas as luzes do apartamento de seu noivo, Eliott, estavam acesas, embora não houvesse ninguém além dela. Antigamente, a mulher detestava dormir de luz acesa; incomodava seu sono, que sempre foi muito leve. Agora, a simples ideia de estar em um cômodo mal iluminado dava-lhe arrepios.
Levantou-se devagar e observou desconfiada. Tomou um rápido banho, mas os olhos não deixaram de encarar os pontos cegos do banheiro.
Era impossível não ficar ansiosa com a chegada dos policiais. Sentia-se sufocada, perseguida. Por que ela ficara viva e não seu irmão, o mais velho? Anthony era amado por todos. Sorria com facilidade, tinha uma voz mansa e convidativa, era educado como um milorde. Amá-lo era natural; ele era diferente e por sua singularidade era acolhida. Por muitas vezes, permitia-se odiar o irmão por causa disso. Ela não conseguia parar de pensar que Anthony deveria ser o que sobrevivera. Ele era esperto; saberia o que fazer. O luto não o impediria de atingir seus objetivos. Ao invés disso, quem estava vivo era uma mulher fraca que nunca tivera habilidade para organizar sua vida.
andou devagar e entrou no quarto que dividia com o noivo. Na segunda gaveta da cabeceira, procurou por uma pequena caixinha de remédios que recebera da psicóloga naquela semana.
Embora fizesse terapia desde criança, a caçula nunca precisou tomar medicação. Sentia que precisar daqueles remédios, mesmo que fosse por um curto período de tempo, era sinal de sua desistência. sentia-se fraca.
O bater da porta tirou-lhe dos devaneios. Ansiosa, a mulher deu passos de gato até o olho-mágico. Já havia avisado ao porteiro que os dois policiais estariam subindo.
, sou eu.
O rosto do Detetive foi o primeiro a ser identificado. O coração de acelerou-se no peito de forma infantil e ela repreendeu-se por isso.
Abriu a porta e foi recebida por um sorriso marcado pelas covinhas da face. , um dos diversos amores secretos que teve no colégio, estava cada dia mais bonito. Quando convidou-o para entrar junto com o outro detetive que o acompanhava, ela sentiu o cheiro bom de perfume masculino.
Ela cumprimentou o Detetive Lawrence com um murmúrio, recebendo uma educada e desconfiada réplica. A mulher ofereceu uma bebida, mas foi rechaçada. Estavam atrasados, dissera Lawrence. Após assinar algumas papeladas e ganhar um celular novo, era a hora de ir embora. lamentou que seu noivo não chegara a tempo para despedir-se, no entanto sabia que ele arrumaria um jeito para contatá-la. Ele sempre arrumava.
Sentou-se no banco de carona em silêncio. explicou, então, para que cidade iriam e sua nova identidade.
— Sei que foi artista plástica, então será uma descendente italiana que voltou para os Estados Unidos para buscar a inspiração perdida. Inglês é uma das suas línguas nativas, por isso você não tem sotaque. Seu nome será Stella Rossi — disse ele.
— E se pedirem para falar em italiano? — indagou .
virou-se para trás e deu um pequeno sorriso.
— Talvez seja uma boa hora para baixar o Duolingo.
A mulher deu um pequeno riso e olhou para as mãos timidamente. Quando era apenas uma estudante do primeiro ano do ensino médio, fazia a disciplina de Fundamentos do Desenho I com ele. sempre a cumprimentava, às vezes fazia algumas piadas e ela derretia-se por dentro. No entanto, não demorou muito para que ela percebesse que ser simpático era de sua natureza. Não era a toa que os boatos das diferentes meninas que ele ficava rondavam por Lee’s Summit High School. Por muito tempo, dividiu-se entre o nojo e a inveja. Até ele engravidar a filha de um reverendo e ela decidir que preferia homens calmos e responsáveis, como Eliott.
Ainda assim era impossível não sentir um pequeno tremor em seu âmago enquanto ouvia o leve conversar do detetive. Lawrence era mais rígido, no entanto, depois de quase três horas de viagem até Clay Center no interior do Kansas, passou a responder os comentários sobre esportes e filmes que seu parceiro fazia. Às vezes, o Detetive envolvia na conversa e quem estivesse de fora não poderia imaginar o motivo de estarem indo para tão longe.
não sabia o verdadeiro motivo em confiar tanto naquele homem; talvez, tê-lo como principal salvador das horas mais terríveis de sua vida, das quais não se lembrava, a fazia depositar toda a sua fé nele; talvez, ter brigado com seu noivo um dia antes de sair da cidade o tornava mais atrativo.
Se ela não estivesse tão certa daquela pequena firmeza que não possuía há meses, poderia ter percebido que estava sendo observada.


Capítulo 17 - A consciência e a inteligência.

não precisava ir direto para delegacia depois de ter atravessado o estado para deixar em segurança. Na verdade, ele poderia pedir um dia de folga, já que fez um trabalho que não era necessariamente seu. Ele poderia estar dormindo de boca aberta no sofá com o corpo sujo de migalhas de batata frita. Havia um leque de possibilidades de atividades que não envolviam trabalho, mas, ainda assim, escolheu trabalhar.
E aquela escolha não veio por uma virtude dele. não era um digníssimo homem e estava longe de ser um workaholic. O motivo de estar trabalhando quando não devia era que a consciência dele pesava.
Minutos antes de ir embora, estando o detetive Richard do lado de fora fumando um cigarro, beijou o Detetive . E pior: ele correspondeu.
Lawrence esperava-o no carro um pouco antes de voltarem pra Lee’s Summit. Disse que ia esquentar o motor — no fundo, os dois sabiam que ele ia fumar.
deveria ir embora também. Estava ficando tarde e a movimentação estranha poderia pôr a perder o disfarce de .
Mas ela precisava de ajuda para trocar a lâmpada da sua casa nova. O kitnet que seria seu lar até o fim das investigações era confortável, mas possuía uma ou duas instalações velhas.
— Obrigada por trocar a lâmpada. — agradeceu a quando o detetive desceu as escadas. — Obrigada também por ter me trazido até aqui em segurança. Me sinto mais segura com você por perto.
— Sinto muito que a tenha reencontrado numa situação tão trágica. — disse enquanto descia. — Receio que não tenha lembrado mais de nada, não é?
Ela cruzou os braços de modo a se proteger; os olhos escuros procuraram a janela da cozinha, distanciando-se de .
— Tenho alguns sonhos às vezes… Quando eu consigo dormir… Mas não sei diferenciar sonhos e memórias. — disse ela. — Tudo parece muito confuso. Não sei se não é tudo coisa da minha mente…
O rosto da sobrevivente da família denunciou a frustração que sentia. Suas memórias eram valiosas, a chave para a investigação, no entanto, elas não existiam mais.
solidarizou-se. Deu um passo na direção dela, embora não soubesse muito bem o que fazer.
— A partir dessa semana você será acompanhada por profissionais, tudo bem? — falou ele confortando-a. — Eles vão te ajudar.
— Posso ligar para você? — ela pediu em um sussurro. O pé esquerdo mexia em um movimento circular, o que a fez parecer muito frágil e acuada.
— Não sei se é seguro — alertou .
— Por favor. — pediu mais uma vez, os olhos ficando muito grandes e molhados de lágrimas.
coçou a têmpora esquerda. De repente, o detetive sentiu-se muito cansado. As conversas com eram sempre carregadas de uma densa camada emocional que o deixava exausto. Se eles fossem simples amigos, ele estaria disposto a ser o ombro que ela se apoiaria. Porém, era a principal suspeita do crime; e ele era um dos detetives do caso.
— Está bem. — respondeu por fim. — Mas só em caso de emergência.
Ela sorriu. Era uma fileira de dentes brancos, alinhados e felizes. Embora tivesse pesadas olheiras e o aspecto exaurido, era uma mulher muito bonita quando sorria.
— Obrigada, detetive.
A mulher deu um passo para frente. Ela o achava tão atraente. E ali, bancando o seu protetor, cedendo sua atenção para ela, sentiu-se que era uma adolescente mais uma vez querendo a atenção de um menino que gostava. Porém, ela não era uma adolescente. Reconhecer isso fez-a aproximar-se do detetive com ousadia e dar-lhe um rápido encostar dos lábios.
Assustado com a atitude repentina, segurou seus braços.
— O que foi isso?
A pôs as mãos no tronco do detetive e deu um longo suspiro.
— Me desculpe. — falou ela ficando de ponta de pé e deixando o corpo grudar-se no detetive. — Eu não deveria ter feito isso. — continuou, embora seu olhar faminto encarava os finos e rosados lábios de .
poderia usar a desculpa de que não estava perfeito das capacidades mentais, no entanto, naquele momento, o detetive estava completamente consciente de . Ele sentia o calor do corpo da mulher, o derretido olhar de desejo, o cheiro de lavanda do perfume que ela usava; também estava consciente da pulsação de seu corpo e do desejo que começava a possuí-lo.
— Não o verei em meses — sussurrou para ele. O hálito de tocou-lhe o queixo. — Deixe-me agradecê-lo de um jeito próprio.
Dessa vez a iniciativa veio de . Não foi um beijo casto ou afetuoso; na verdade, os dois pareciam animais famintos. Os corpos se enroscaram em uma tentativa frenética de tocar e sentir. apalpou o corpo magro e sem curvas com desespero; já contentou-se em puxar os finos cabelos dele como se fosse arrancá-los. Nem em seus sonhos adolescentes imaginou que ele reivindicava sua boca de modo tão possessivo e excitante.
foi embora logo após aquele episódio. Estava transtornado, frustrado e com os lábios inchados. Se Richard percebeu, não disse nada. Não lembrava ter-se despedido e achou que foi melhor assim. A viagem toda de volta para casa foi uma tortura; metade do tempo ele quis parar o carro e voltar para finalizar o que começou. A outra metade martirizava-o e lembrava-o que era um canalha. Chegando na delegacia, aceitou que era um mau caráter.
conhecia a sensação de que tinha feito algo errado. Ele conhecia a dor do arrependimento e quão pesado era o fardo de ter errado. Sozinho em seu escritório, o detetive começou a pensar se já havia atingido os 70x7 de perdão que ele tinha.
Deus, sou eu.
Soltou um suspiro.
Eu vacilei de novo, não foi? Me meti em problema de novo.
Ele fechou os olhos e a sensação de beijar inebriou-o mais uma vez.
Me perdoa, Deus… Mas … Inferno de mulher gos...
Balançou a cabeça achando que Deus deveria enviar uma rajada de fogo e queimá-lo ali mesmo por querer elogiar os atributos físicos dela.
Sou um canalha, não é? Vou pro inferno com certeza.
Abriu os olhos e encarou a foto de no quadro, apontando como maior suspeita. Qualquer excitação morreu por completo quando observou as imagens dos corpos dos s mutilados bem ao lado da imagem dela.
Soltou mais um suspiro.
Era hora de trabalhar.

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O sol nascia quando Lawrence subiu as escadas da delegacia. Em sua mão esquerda, girava a chave do carro e, na direita, segurava um copo de café da Starbucks. Richard odiava a rede de cafés — o gosto era de barro com leite e açúcar. Mesmo assim, para não ter que encarar a irmã mais velha no café da manhã, decidia sair mais cedo e comprar algo com os cupons que ela juntava.
Estava rotineiramente mau humorado e quase que explodiu pelo nariz quando viu o Detetive descer as escadas no sentido contrário ao dele.
- Vai para onde? A delegacia é do outro lado.
- Paguei minhas horas ontem à noite. - replicou bocejando. - Tirarei o dia de folga.
Richard o olhou incrédulo.
- Acha que o caso dos s vai se resolver sozinho? Não temos nem mesmo um suspeito real! Só suposições.
Em resposta, bocejou mais uma vez.
- Fiz algumas descobertas hoje de manhã e deixei minhas anotações na sua mesa. Marquei um depoimento com a secretária de Chad para amanhã - ele sorriu ao longe. - Meu uber chegou.
E deu rápidos passos até a viatura que Samantha Roth dirigia. Richard não teve tempo para xingá-lo e isso deixou-o com um humor pior do que chegou. Porém, embora tivesse a impressão de que era um preguiçoso de merda, ao ler os resultados da madrugada dele na delegacia, deduziu que ele era um preguiçoso muito inteligente.


Capítulo 18 - A secretária e o passado.

Daniel Stifler girava na cadeira, entediado. As poucas pessoas que ele gostava na delegacia estavam ocupadas e as ruas estavam tranquilas; nenhum assassinato, nenhum roubo ou furto… Desejou, então, buscar uma transferência para uma unidade em Kansas City. Cidades grandes eram mais violentas, o que significava mais trabalho; cidades suburbanas, porém, eram um poço de tédio e boa vizinhança.
Um barulho despertou-o dos pensamentos sádicos. A porta do escritório de havia sido aberta e um grupo de faxineiros tirava a mesa com dificuldade.
- O que está acontecendo? - perguntou a ninguém em particular.
- Capitão Pollack ficou irritado com tirando folga hoje - disse Detetive Richard que acabara de aproximar-se dele - decidiu dar o escritório para outra pessoa. vai ter uma mesa no meio da delegacia como todos os outros.
Stifler fez uma careta.
- Está tão devagar assim?
- Não, Pollack que é perturbado - replicou o detetive sem se abalar. - descobriu ontem à noite uma pista interessante. Vou precisar de sua ajuda.
Rapidamente, Stifler arrumou-se na cadeira.
- Cerquilha não é a única empresa dos s, muito menos a mais lucrativa. É algo óbvio que eu não tinha dado conta ainda - comentou Lawrence. - Ele descobriu que teve um escândalo de assédio há muito tempo que rolou na empresa e uma demissão por justa causa. Não temos muita informação porque a mulher apenas expôs no Facebook e não fez uma queixa formal. Além disso, o post foi excluído.
- Você quer que eu descubra o endereço da mulher, é isso? - indagou Stifler tirando a tela de descanso de seu computador. - Essa é fácil.
- Quero que resgate o post, o que temos é só um comentário de alguém na notícia do desaparecimento dos s - explicou Richard. - Dá pra fazer isso?
Daniel riu com desdém.
- Lawrence, a internet é escrita à caneta.

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A porta do quarto estava trancada; a luz estava desligada. Dentro dele, porém, era possível ouvir o barulho dos passos sob o piso de madeira. De longe, o pequeno murmúrio e o balbuciar dos lábios.
orava. E era aquela oração, de uma da tarde, de porta fechada, que ninguém via, que o definia como cristão. Se dependesse dos domingos de manhã, ele nunca consideraria-se um luterano. No fundo, ainda era alguém que criticava a igreja, aos congregados e os cristãos hiper conservadores. Ali, porém, quando ele estava sozinho, sem nenhum par de olhos fitando-o, ele buscava a Deus. Um deus que por muito tempo não conhecia - às vezes, ele achava que ainda não tinha certeza quem era ele. Perguntava-se também se havia alguém o escutando - Deus estaria ouvindo-o? Quem era ele para ser atendido por alguém tão grandioso e poderoso?
dormira por apenas três horas. A cabeça doía de cansaço e o peito ardia pela imagem do Instagram de Bárbara onde Lucy segurava um troféu. Troféu de um campeonato de futebol - o primeiro de muitos, acreditava ele.
Quando jovem, desejava ser rico e bem sucedido. Hoje, com a realidade sendo dura e cruel, ele queria algo simples: ser pai daquela menina. No entanto, embora tivesse tentado ser transferido para a cidade onde Bárbara morava, não conseguiu sair de Lee’s Summit. O fantasma da saudade e da impotência rondavam por sua casa.
Em dias normais, ele estava imerso nas responsabilidades e pouco lembrava da frustração que era não estar vivendo o que gostaria. Em dias ruins como aquele, reservava um tempo trancado no quarto e fazia orações, dizia tudo o que sentia; talvez o que ele precisasse na verdade era de uma terapia. Ainda assim, o homem preferia as rezas aos ouvidos de um psicólogo que, por mais profissional que fosse, sempre carregaria uma montanha de julgamentos para com ele.
--Como eu posso pedir alguma coisa a Deus se ontem eu estava sendo um completo canalha? 一 murmurou ele, o nariz cheio de coriza de tanto chorar.
O celular começou a tocar.
, naturalmente, ignorou.
Lembrou do sermão do reverendo que ocorrera um mês atrás. A frase, a principal fala que ele guardara, dizia que a graça lhe bastava. Porque meu poder se aperfeiçoa na fraqueza.
Sua filha precisava de um pai forte e sadio; não adiantava chorar pelos cantos como um completo imbecil. O caso era a oportunidade que ele buscava; por ela, poderia pedir transferência mais uma vez.
O celular tocou de novo.
limpou o rosto com a camisa, ligou a luz do quarto e pegou o aparelho. O nome de Stifler brilhava com uma foto de uma lhama. O detetive coçou a garganta.
- Oi, Stifler.
- , olá! Está resfriado? Sua voz está rouca. Quer que eu compre…
- Estou bem, Stifler - disse rapidamente. - Aconteceu algo?
- Então… Aconteceu um negócio chato na delegacia… Hoje de manhã eu estava sentado na...
- Não enrole 一 advertiu . - Vá direto ao ponto.
- O Capitão tirou suas coisas do escritório e agora você tem uma mesa como todo mortal da delegacia.
coçou o rosto, lembrando que deveria fazer a barba. O barulho de latidos fez-o lembrar que não havia passeado com Sly nos últimos dois dias.
Perder o escritório era o menor dos problemas quando ele havia perdido total controle de sua vida.
- Mais alguma coisa?
- Não vai falar nada? 一 indagou Stifler curioso. 一 A folga te faz bem. Imagino nas férias….
- Se não tem mais alguma coisa irei desligar.
- Tem, calma, homem. - Resmungou Daniel. - A secretária de Chad veio aqui. Pensei que ela iria cair para trás de tanta ansiedade.
- Tem como você mandar a gravação do depoimento para mim? - pediu , de repente se sentindo ele de novo.
- Não sei se posso… - replicou Daniel. - Ao menos não de graça.
O detetive olhou para o celular com incredulidade. O cansaço da noite acordada atingiu o corpo dele; massageou o pescoço e olhou para a cama bagunçada.
- Pois então deixa pra amanhã. Estou de folga mesmo.
- Vai deixar Richard com todos os créditos? 一 perguntou Daniel provocativo.
- Tchau, Stifler - despediu-se antes de desligar.
Após uma ducha, dormiu como uma pedra, um sono pesado que só o pós-choro dá de presente.

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Era a terceira vez que Richard Lawrence assistia ao vídeo. A cabine da imagem era escura, a iluminação precária dava um ar de mistério e confidencialidade para aqueles que iam delatar seus companheiros. Na imagem, estava ele e a Sra. Kate Kleiman, uma negra mulher na casa dos cinquenta anos, segurando a bolsa no colo como se isso desse forças para falar.
Kate Kleiman odiava policiais. Foi um deles que matou seu irmão mais novo, John, um jovem de dezessete anos que cometeu o erro de nascer negro. Em uma noite de quinta-feira, John estava no lugar errado e na hora errada. Uma bala entre tantas transpassou seu peito, levando consigo sonhos e projetos de um futuro inalcançável. A inocência só foi provada cinco anos após a ocorrência e então Kate poderia dizer com tranquilidade que a polícia matou o irmão dela.
- Há quanto tempo trabalha para os s? - foi a primeira pergunta de Lawrence.
- Vinte anos.
- É feliz lá?
- Eles pagam bem. 一 ela deu os ombros.
Richard encarou Kate. Não parecia abalada; o rosto refletia uma indiferença que o detetive não soube identificar para quem era: ele ou os s mortos. A mulher não desviou o olhar por nenhum segundo.
- Mais alguém sabia que eles iriam para Kansas City naquele horário?
Ela deu um riso zombeteiro. Os olhos ficaram mais indiferentes, afiados como duas facas recém saídas da loja.
- Todos da empresa sabiam. Era uma reunião importante.
- O que estava para acontecer nesse dia?
- Eles iriam firmar um acordo com um grupo da América do Sul para comprar suas filiais. - replicou ela sem hesitação.
- Por que Chad não foi com seguranças? Não era perigoso? - continuou a perguntar Lawrence.
- Ano retrasado, o presidente sofreu um pequeno acidente porque um motorista e segurança caiu no sono. Não aconteceu nada grave, porém ele passou a tomar medidas extremas para proteger a família. - ela deu ar de quem iria sorrir, mas o rosto manteve-se neutro. - Era um homem muito dedicado à família.
Richard levantou a sobrancelha.
- Sério? Nenhum caso de adultério?
Kate riu pelo nariz.
- Só se ele fosse maluco.
- E quem sabia desse constante cuidado dele com a família?
A mulher deu de ombros.
- Todo mundo ou ninguém. Não é como se todos prestassem atenção no que o presidente fazia e ele não era um homem muito misterioso.
O detetive suspirou. Estava feliz por ter algumas respostas, mas ainda não havia chegado onde queria. E, para ele, algumas atitudes não faziam muito sentido. Chad era, para todos os efeitos, um estranho homem rico.
- Fale-me dos filhos. Anthony e , não é?
- Só posso falar de Anthony 一 afirmou Kate. 一 é de outro setor. Só contatava ela para marcar reuniões esporádicas ou dar alguns lembretes.
- Você diria, então, que havia uma preferência dos pais para com Anthony? Que ela era rejeitada?
- Rejeitada é uma palavra forte. Eu diria que ela não se interessava tanto quanto o irmão pela empresa e os pais a entendiam. Até um tempo atrás, nem mesmo estava na empresa.
- Então estavam todos certos com Anthony sendo o próximo presidente das empresas dos s?
Ela aquiesceu.
- Elliott Russel trabalhava no mesmo setor que o presidente? Os dois eram próximos?
- Com certeza, pareciam pai e filho. 一 afirmou Kate.
- Anthony mostrou-se ciumento por conta dessa relação?
Kate hesitou.
- Acho que sim, mas Anthony não era o tipo de demonstrar certos sentimentos em frente aos funcionários. Era um homem muito centrado - explicou a secretária.
Richard olhou para o relógio em seu pulso. Estava quase passando da hora do almoço - ele sentia uma fome desgraçada.
- Diga-me: os s tinham inimigos?
- Qual é o rico que não tem inimigo, senhor? 一 disse a última palavra com um leve tom de zombaria. - Mas se sua pergunta é se há alguém em específico… Houve um homem que com certeza odiaria o presidente a ponto de matá-lo.
Os ouvidos de Lawrence ficaram apurados, mas ele não fez nenhum movimento brusco.
- Por que esse homem em específico? Ele tem nome?
Kleiman segurou o sorriso para não demonstrar quão satisfeita ficou ao saber de algo que o policial não sabia. Arrumou a presilha frouxa do cabelo sem pressa até responder:
- Conrad Trait era o nome dele. Morreu faz quase vinte anos em um acidente de carro. Uma lástima. - explicou ela. - Ele era o antigo dono da Cerquilha.
- Por que ele odiava os s?
Kate deu os ombros.
- Porque se achava mais esperto do que ele, talvez? Não sei como foi o contexto da negociação da Cerquilha. Tudo que posso dizer é que, na época, rendeu um bom dinheiro do presidente e a empresa estava falida.
Kleiman não deu mais nenhum informação realmente interessante, ao menos, não para o detetive Lawrence. Quando a mulher foi embora, a primeira coisa que fez foi pesquisar sobre Conrad Trait. Homem branco, um metro e oitenta; morreu em um acidente de carro em Los Angeles e tinha apenas trinta anos. Não era casado, mas tinha uma filha mais nova. Estava completamente endividado com as contas da faculdade e as dívidas acumuladas na vida adulta, sendo Cerquilha sua terceira tentativa fracassada de abrir uma empresa no ramo de marketing. Então, algo chamou a atenção de Richard.
Conrad Trait formou-se na Universidade de Califórnia um ano depois de Chad e Gemma .
- Puta que pariu! - xingou de repente. - Sou uma mula!
Os funcionários da delegacia o olharam de soslaio, mas nada falaram. Richard Lawrence parecia que ia soltar fogo pelas narinas.
Não era para pouco. Lawrence tinha acabado de perceber que não havia tocado no assunto crucial: não perguntara sobre o caso de assédio, o real motivo de terem solicitado o depoimento de Kate Kleiman.

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- Seu chá, senhora.
- Grazie!
segurou o copo de plástico com as duas mãos. Estava muito quente; queimava a pele suja de tinta azul. Girou o objeto até ler o nome Etela escrito. Sorriu. Nunca acertavam o nome dela, mesmo quando usava o verdadeiro.
O celular novo estava na mesa; o número de Elliott estava discado e esperava o momento em que tocaria no símbolo verde.
Suspirou. Por que estava tão hesitante para falar com o noivo?
Tivera um sonho muito revelador aquela noite; sonhou que beijou , que agarrou-se nele igual sonhava quando adolescente. Então, quando já estava para ajudá-lo a tirar a camisa, o rosto dele transformou-se em Elliott. Os olhos azuis gelo machucados diziam “por que está fazendo isso comigo?”.
tinha tomado os remédios no horário certo no dia anterior. Em uma das paradas para chegar na cidade, lembrava-se de engolir uma pílula sem água quando os dois policiais estavam distraídos. Seria por isso que sentia-se tão confusa? Teria beijado mesmo antes que eles partissem?
Balançou a cabeça para espantar os pensamentos. Não, não era capaz de trair Elliott. Então, por que estava tão hesitante em ligar para ele? O que havia de errado?
Sua nuca queimou. levantou o olhar, mas estava sozinha no café de Clay Center. Um arrepio cruzou seu braço. Levantou-se de supetão e pagou o café deixando uma boa gorjeta para o jovem que a atendera.
O caminho até sua nova casa era longe. O passeio, que parecia ser uma boa ideia mais cedo, tornou-se um inferno. olhava para os lados com desconfiança; o peito apertava-se. Tentou pensar que estava protegida em Clay Center, no entanto, tal argumento não funcionou: faltando poucas quadras para sua casa, correu até a porta da sua casa.
Suava frio quando finalmente trancou a porta. Respirava pela boca e os olhos encheram-se de lágrimas.
No celular discou o número de . Tocou, tocou, mas ninguém atendeu.
Ligou mais uma vez, porém mais uma vez caiu na caixa postal.
O som da batida na porta ressoou como uma tempestade. As mãos de começaram a tremer.
- Stella Rossi? - uma voz feminina cruzou a madeira - Meu nome é Charlotte Manson. Estou ciente das suas… condições. O Capitão Kasey enviou-me. Posso entrar?
Capitão Kasey. Capitão Kasey.
Ela respirou fundo. Era alguém de confiança.
não lembrava do nome do capitão da delegacia de Clay Center, mas deduziu que era aqueles. Fitou a mulher pelo olho mágico e encontrou uma mulher de cabelos escuros e olhos azuis vestida formalmente. Tinha em mãos duas latas de Dr. Pepper, o refrigerante favorito de .
Com hesitação e sentindo-se finalmente segura, ela deixou que a mulher entrasse.


Capítulo 19 - Desencontros e encontros.

O cabelo de Charlotte Manson precisava de hidratação. Talvez ela também devesse tingí-lo mais uma vez, pois a raíz estava escurecendo. Ela também não tinha muito habilidade na maquiagem; o batom estava meio borrado. A roupa precisava de um velho ferro de passar, tamanho era os gominhos que estavam presentes no blazer rosa que usava.
Foram apenas essas coisas que incomodaram na primeira visita da psicóloga. Embora parecesse meio desarrumada, Charlotte tinha os olhos azuis sempre atentos à paciente.
— Então, não lembra-se de nada?
A hesitou. Nada era muita coisa; ela lembrava de pequenas coisas. As memórias estavam embaçadas, como um filme que ela tinha assistido há muito tempo. E ela não gostava de lembrar – não queria lembrar.
— Sei que atiraram…– franziu o cenho, forçando a mente. – Em algum momento… Será antes daquela casa horrenda? Eu… Eu não sei.
— Não precisa forçar a cabeça, querida.
O olhar perdido deixou a psicóloga abalada, sentindo pena daquela mulher que perdera tanto tão rapidamente. era jovem, mas carregava as marcas do trauma com os olhos secos como de uma pessoa idosa. O laudo médico havia diagnosticado amnésia seletiva por motivos traumáticos, porém essa era só a superfície do que havia atingido-a plenamente.
— Fale-me da cidade. O que está achando dela?
— É bem pequena. – replicou com um sorriso encabulado.– Não tem muito o que fazer e não conheço ninguém. Me sinto bem insegura de andar por aqui.
— Tente fazer amizades – aconselhou Charlotte. – Sei que é difícil manter uma identidade à parte, mas encare isso como uma peça de teatro. Você é a protagonista.
— Eu gosto de teatro.
Charlotte encarou um quadro recém pintado no cavalete perto da janela. Eram ondas e mais ondas do mar, grandes e revoltosos. Ainda estava na metade, porém destilava terror advindo do mar.
— Foi você que pintou?
balançou a cabeça positivamente.
— Trabalhei desde que acordei. Quer dar uma olhada de mais de perto?
As duas mulheres andaram a passos cuidadosos. A psicóloga, porque tinha um calo no pé direito; já a tinha como intuição esconder aquele quadro que refletia o coração com transparência, mas resolveu arriscar. Charlotte era o seu único caminho para resgatar sua mente e tornar-se igual a quem era antes.
— É muito talentosa, .
— Obrigada. – agradeceu, sem a modéstia que costumava fingir ao receber elogios.
Ela era boa. Talentosa. Tinha traços bonitos. Etc. Etc.
sabia de tudo isso.
Charlotte ergueu a mão para tocar no quadro, a sensação de relevo dominando a imagem quando disse:
— Não! Não está seco ainda.
Dando um pulinho para trás, a psicóloga corou de vergonha.
— Desculpe, parece tão real! Que imagem!
Então, seu olhar recaiu nos esboços soltos pelo chão. Não demorou muito para encontrar o rosto de um homem.
— Seu namorado?
sentiu o peito esquentar, a sensação de ter feito algo errado piscando um alerta em sua mente.
— Não, não… É um homem com quem sonhei…
O rosto da psicóloga ficou pálido, deduzindo que era a face daquele que provavelmente matara toda a família .
— Sonhou? Que tipo de sonho?
Alheia aos pensamentos de Charlotte, a jovem lambeu os lábios.
— Um sonho romântico.
— Ah…
— Me sinto meio mal por ter sonhado com ele… Digo, eu tenho namorado. Quer dizer, noivo. Eu deveria estar pensando nele agora, não é?– falou em voz alta os pensamentos que pertubaram o seu dia.
— Foi um sonho só romântico?
não respondeu-lhe nada, o que foi uma resposta bem direta para a psicóloga.
— Também tenho outros esboços na mala. Quer dar uma olhada? – desconversou a .
Não esperou a resposta; os pés ligeiros foram sem hesitação para o quarto em busca do caderno.
Charlotte encarou o caminho que sua paciente percorrera; alguma coisa não estava certa. E ela iria descobrir o que era.

###

nunca tinha pisado em uma agência de publicidade. As únicas referências que tinha era Mad Men e os memes da internet – antes tratados como deuses, os publicitários eram hoje vistos como uma profissão um tanto patética pelo Reddit.
Se não estivesse tão compenetrado em conhecer o espaço novo, talvez teria reclamado por mais cinco minutos pela incompetência de Richard. Intimada a depor do caso de assédio, a secretária dos s deu algumas informações valiosas, mas nenhuma relacionada ao caso específico, já que o detetive, envolvido com a conversa, esqueceu de mencioná-lo. O que sabiam, advinha do post resgatado por Stifler. O assediador? Anthony .
— Repita-me, por favor, o porquê estamos aqui – resmungou Lawrence.
passou as mãos nos cabelos com força, escondendo a vontade de esmurrar seu companheiro.
— Ernest Thurman é o funcionário mais antigo da Cerquilha. Na verdade, trabalha aqui desde antes de ser dos s – explicou . – Ele pode passar a limpo a história do antigo inimigo da família.
— Mas e a vítima de assédio?
— Está fora do estado. Chegará amanhã para depor. – replicou .– Você me escutou nas últimas horas? Devo ter repetido dezenas de vezes.
— Não estou em um dia bom, detetive.
O detetive ia dar uma resposta atravessada, mas o olhar abatido de Lawrence o fez hesitar. Richard era um homem igual a ele – cheio de problemas e falhas. Escolheu, então, não dizer nada.
— O senhor Thurman espera por vocês no terceiro andar, sala 16. – avisou a recepcionista.
O escritório de Ernest Thurman era sofisticado e grande. Tinha pôsteres de antigas propagandas, fotos com celebridades e prêmios; um verdadeiro santuário do ego.
— Meus senhores, confesso que estou surpreso com visita de vocês. – cumprimentou-nos com um aperto de mãos. – Estão perto de descobrir o culpado?
— Mais do que nunca. – replicou Lawrence.– Podemos fazer algumas perguntas? Será rápido e…
— Claro, claro. Sentem-se. – disse cheio de amabilidade. – Querem beber algo?
Os dois negaram e sentaram-se sem mais delongas.
Ernest ainda tinha a aparência de um velho sem escrúpulos, mesmo vestido de terno sob medida. Parecia, também, estar perdendo os cabelos brancos que cobriam a cabeça.
— Lembro que falamos da possível existência de inimigos dos s…– iniciou . – É verdade que o antigo dono da agência e Chad não tinha uma boa relação?
Thurman fez um pequeno movimento com os olhos; os dentes amarelos rangeram de hesitação.
— Está falando de Conrad Trait? Eles eram amigos, na verdade. Se conheciam desde a faculdade.
Os dois detetives balançaram a cabeça em assentimento, sem expor que tal informação já havia chegado a eles.
— Mas parece que a Cerquilha os separou…– comentou Lawrence.
Ernest riu como de quem escondia informações.
— Nada… O que os separou foi o desejo pela mesma mulher.
levantou as sobrancelhas, surpreso. O movimento satisfez Ernest, que inclinou-se para frente como um bom fofoqueiro.
— Os dois apaixonaram-se por Gemma em algum momento, mas ela nunca tolerou ser um troféu a ser disputado. Era uma mulher interessante, Gemma…– Thurman deu um sorriso nostálgico. – A Cerquilha era apenas uma desculpa.
— Não durou muito, não é? – replicou Richard. – A morte dele precoce com certeza não estava nos planos.
O homem encostou-se na cadeira, dando fim ao momento de fofoca.
— Com certeza. – afirmou Thurman.– Chad ficou arrasado, embora nunca tenha admitido em voz alta. Bem, mais alguma pergunta? Tenho um horário apertado.
O detetive arrumou-se na cadeira. Como se voltasse à posição de autoridade pública, o homem disse:
— Claro, claro. Nossa última pergunta é a respeito do caso de assédio que Anthony protagonizou. – explicou sem muitas delongas. – É verdade que foi o senhor responsável por acobertá-lo?
Ernest Thurman ficou pálido como neve fresca; Lawrence também surpreendeu-se, porém por outro motivo: não esperava que seu parceiro iria ser tão louco a ponto de confrontar o homem.
— O que está falando, detetive? Está me acusando?
— Não, de jeito nenhum! – respondeu com o tom de voz brando.
— Pois bem. – replicou Thurman na defensiva. – Gostaria, então, de pedir que os senhores detetives se retirassem. Tenho alguns compromissos inadiáveis.
Sem muita pressa, Lawrence e levantaram-se e agradeceram a um Ernest não tão amigável quanto o do começo da conversa. Richard não disse nada até os dois estarem juntos no carro em direção a delegacia.
— Você é maluco, ? Por que foi falar disso com Ernest? Perdeu o juízo?
, porém, estava muito ocupado usando seu celular. A atitude irritou Lawrence de maneira que teve que controlar-se para não agir violentamente.
— Puta que pariu, ! Estou falando, caralho.
— A vítima de assédio não é uma boa suspeita. – replicou , alheio à frustração do parceiro. – O depoimento será feito, mas não acho que ela tenha alguma ligação com o caso. Stifler acabou de enviar-me informações do acordo que ela fez com os s: foi um dinheiro generoso e pagou a pós-graduação dela. Não pisa em Missouri há cinco anos.
— Isso não a impede de querer se vingar, .
— Concordo, mas a morte dos s foi muito específica. Foi assassinado a sangue frio, bem planejado, mas não parece feito por profissionais. – explicou . – Digo, assassinos de aluguel não sujariam as suas mãos e perderiam tempo com tortura. Estavam armados e não usaram para matá-los, apenas para intimidar.
O detetive Lawrence batucou o polegar no volante.
— Quem quer que matou os s realmente os odiava. – concluiu Richard.
deu um suspiro. Haviam voltado para a estaca zero.
— Sei que fui imprudente com Ernest, mas não consegui me segurar. – desabafou . – Só consigo pensar que em breve minha filha estará cercada desses abutres e eu não poderei protegê-la.
O parceiro não disse nada, mas deu-lhe um olhar cheio de empatia. Não tinha filhos e nem os desejava, porém imaginava que o amor de pai era grandioso e ao mesmo tempo assustador.
— Sabe, , acho que você tem total direito de sentir isso, mas na próxima, se arrisque sozinho. Eu gosto do meu emprego e não quero ser suspenso por culpa dos outros.
sorriu apologético como resposta.
Em silêncio, os detetives passaram a lembrar-se dos diversos problemas que estavam carregando como uma sombra que os perseguia. O que dizer ao Capitão Pollack quando chegassem na delegacia? Qual seria o caminho certo a ser traçado? O caso dos s seria mais um sem solução?
Lawrence parou o carro no sinal. A resposta veio como uma ideia epifânica que artistas tinham – era loucura e ao mesmo tempo fazia sentido. Por que não arriscar?
.
— Fale.
– Acha que é loucura pensar que Conrad Trait possa estar vivo?


Capítulo 20 - Promessas e desejos.

O escritório do Capitão David Pollack era impressionante. As condecorações, as fotos ao lado de celebridades e de homens notáveis dos distritos de Kansas City estavam espalhados pelas paredes. Era a grande glória do capitão e refletiam sua personalidade.
O detentor daquelas honrarias, porém, não estava satisfeito. Encarava a dupla de detetives com impaciência, segurando a língua para não destilar mais xingamentos do que sua língua era capaz de pronunciar.
– Quer dizer, então, que vocês não têm nada? – perguntou mais uma vez Capitão Pollack.
— Veja, Capitão…– iniciou detetive Lawrence.– O assassino foi muito cuidadoso.
Colérico, Pollack bateu na mesa com força. Os detetives deram um pequeno salto, assustados com a atitude repentina de seu superior.
— Não chamei vocês aqui para escutar o quanto o criminoso é eficiente. – disse entredentes. – Quero um relatório para ontem! Um suspeito, vocês têm? Uma pista que leve a algum lugar?
ficou tenso. Deveria falar da hipótese levantada pelo parceiro? Se estivesse vivo, Conrad Trait seria o principal sujeito do caso; ele teria motivos reais para querer matar a família de forma tão fria. No entanto, ele estava morto.
Conrad Trait estava morto. Certo?
— E você, , não tem vergonha na cara? – Apontou para o detetive com raiva. O superior começava a ficar vermelho de irritação.– Tirando folga no meio da investigação? Acha que estamos em uma situação confortável, seu animal?!
de 17 anos não levaria desaforo para casa. iria gritar em resposta e dar um chute na mesa, agiria como uma criança malcriada. Seria um show de horrores.
Mas não era um adolescente; era um homem de quase trinta anos e sabia reconhecer qual era o momento de falar e qual era o momento de ficar quieto.
— Só tirará folga agora quando tiver o suspeito atrás das grades, ouviu bem?!
, então, lembrou-se do aniversário da filha que seria em algumas semanas. Iria fazer uma surpresa: comprou passagens e apareceria na sua festa. Boa coisa não ter dito, pois sabia que ela ficaria arrasada.
Ele mesmo estava arrasado ao sair da reunião. Mais silencioso do que o costume, foi até a sala de reunião da delegacia com Richard em seu encalço. Sem muitas delongas, o detetive passou a organizar o quadro que antes pertencia ao seu escritório.
— Ainda acho que Conrad está vivo. – falou Lawrence.
— Sim, pois estamos em um filme de ação do Bruce Willis onde é fácil forjar a própria morte por mais de uma década. – disse com sarcasmo. – Vamos pelo caminho mais plausível, Richard.
— OK, senhor racional. O que sabemos até agora sobre o assassino?
encarou o quadro mais uma vez. Em sua mão, estava a imagem de Lisa Bridges, a mulher que fora assediada por Anthony. Amassou em suas mãos.
— O suspeito não trabalhou sozinho. São duas pessoas, um homem e uma mulher. Talvez a mandante era a mulher. – iniciou . – Eles conheciam a rotina da família e sabia que eles estariam vulneráveis. Os assassinos também conheciam bem Raytown a ponto de fazer uma pesquisa antes da casa para onde levou a família. Deixou-os irrastreável. Matou-os com rapidez: cada um deles tem uma diferença de uma hora ou menos do horário da morte. Morreram decapitados.
A imagem ainda era fresca na mente do detetive: os corpos posicionados do lado das cabeças retiradas do lugar. O cheiro de sangue era insuportável. O lugar era um açougue sem permissão da vigilância sanitária.
— Por que ele manteve viva, então? – indagou Lawrence.
— É a pergunta de um milhão de dólares – replicou .
— Ainda acho que ela está envolvida, .
encarou a foto de que estava no quadro. A mulher era linda; tinha o rosto desenhado pelos deuses. Após ter admitido que estava atraído por ela, que fora longe e a beijou, parecia mais bonita ainda para .
— Não duvido. – comentou baixinho o detetive.
E se ela estava o usando para atrasar a investigação? Distanciar os seu olhar analítico e isento? Se estivesse, na verdade, organizando-se com o namorado para matar os pais e tornarem-se presidentes da multinacional?
Richard aproximou-se do quadro. Com as mãos na cintura, o detetive encarou as linhas que levavam até .
— Ela é a única que pode nos levar pra os culpados e está com amnésia traumática. – apontou Lawrence. – A única memória que ela tem foi fabricada. Que conveniente, não?
O parceiro balançou a cabeça positivamente, o peito apertando ao perceber que estava errado. Não havia porque achar que não tinha nada a ver com o assassinato. Os fatos buscavam atalhos que levavam sempre até ela.
O celular de vibrou no bolso, despertando-o de seus pensamentos. A mensagem vinha de seu irmão, Andrew .
“Tem algum compromisso pra o jantar daqui a dois dias?”.
“Não, pq?”.
“Vou levar minha noiva pra apresentar a família. Queria que vc viesse”.
“Claro, vou sim”.
“Vai desarrumado, pfvr. N quero que minha noiva se apaixone por vc”
.
riu.

“Vai te lascar, Andrew”.

— O que está rindo? – indagou Richard.
— Alguém já te disse que você é um cara super invasivo, Lawrence? – reclamou guardando o celular no bol.
voltou a analisar o quadro. Seus olhos repousaram na imagem do carro encontrado perto da casa.
— Você lembra o porquê de não rastrearem o carro de ínicio? – perguntou a Lawrence. – Esses carros de rico costumam ser super seguros.
— O rastreador estava desligado há meses. Não era um carro que eles costumavam viajar por longa distância, aliás... – Lawrence coçou a cabeça.– Era um carro que todos da família usavam, até a namorada de Anthony.
— Namorada?– levantou a sobrancelha.– Você não disse que ele tinha namorada. Não acha que devemos pegar um depoimento dela?
Lawrence balançou a cabeça em negação.
— Ela está em algum lugar da África. Moçambique, talvez? É do Médicos Sem Fronteiras e tinha viajado uma semana antes do ocorrido.– explicou.– Pelo que a tia dos s disse, o lugar onde ela está é de difícil acesso à internet. Talvez nem saiba que o namorado morreu.
— É um bom álibi. – comentou e voltou-se mais uma vez para o quadro.
###

Lucy arrumou-se para falar com o pai pela câmera. Não era difícil perceber isso: tinha passado um pouco de maquiagem da mãe e usava o colar que havia ganhado no ano passado do pai. Os olhos brilhavam ao vê-lo através da tela: o homem, tão parecido com ela, estava radiante em poder conversar com a filha de novo.
Os poucos minutos que os dois estavam online eram sempre preciosos, sobretudo porque a menina dormia cedo. A rotina de era louca; a de sua filha também. Barbara inscreveu a filha no máximo de atividades extra-curriculares possíveis: tinha espanhol nas segundas, futebol nas terças, aulas de violão nas quartas e aulas de reforço de matemática nas quintas. Apenas nas sexta-feiras a menina ficava livre, embora costumasse ir visitar a avó, que morava a alguns quarteirões.
— Papai, eu queria os livros do Harry Potter de aniversário. – disse Lucy já fazendo um pequeno bico. – Mamãe não quer comprar porque acha caro, disse que eu podia pegar na biblioteca da escola.
— E esses livros são para sua faixa etária, filha? – franziu o cenho. – Lembro de assistir o filme quando adolescente e tinha umas coisas…
— Ah, papai, o senhor sabe que os livros são diferentes dos filmes!
Ele deu um sorriso ladino, orgulhoso e feliz porque a filha já desde cedo gostava de ler. nunca gostou muito – sobretudo ficção. Os poucos que ele leu, eram relacionados ao trabalho.
— Certo. Vou pensar no seu caso.
Ela deu um brilhante sorriso.
— Obrigada, papai. O senhor vai poder vir pra festa?
As palavras do capitão ressoaram na cabeça de . No entanto, os olhos cheios de expectativa amoleceram o seu coração. Lucy era a pessoa que ele mais amava no mundo e ele a mimaria até onde fosse o seu alcance.
— Irei pensar, mas não posso prometer.
A resposta fez a menina balançasse em felicidade. Era o mais próximo de um “sim’’ que ela conseguiria.

foi dormir muito satisfeito naquela noite. Sua filha estava feliz e ele, por consequência, estava também. Tentava não pensar que teria menos de um mês para resolver o caso; que estava muito longe de encontrar os suspeitos. Antes de dormir, decidiu que aqueles eram problemas do amanhã. Hoje, ele estava feliz.
Fechou os olhos, embora não estivesse com sono. Sentiu os músculos relaxarem e tentou esvaziar a mente. Ele já havia chegado tão longe – mais longe do que um dia acreditou. Tinha tornado-se um homem responsável, embora a duras penas.
Tudo iria ficar bem.
O celular na mesa de cabeceira começou a vibrar. abriu os olhos em alerta, esticando-se com rapidez para pegar o objeto.
Era .
hesitou, deixou o celular tocar mais uma vez. O que deveria dizer para ela? Como agir diante de uma incógnita como ?
Atendeu a ligação.
?– indagou a mulher com o tom de voz baixo.
— Sim, sou eu. Está tudo bem?
— Tudo sim. Eu só não estou conseguindo dormir… Estou…– interrompeu-se – Eu não te acordei, não foi?
Ele negou.
— Ah, tudo bem… Queria conversar com alguém. – ela deu um riu constrangida. – Pensei em ligar pra Eliott, mas…
ficou tenso de repente. Além de ser vítima e também suspeita, era comprometida. Onde ele havia se metido?
— Você tem falado com ele?– perguntou .
Ela negou.
— Estava assistindo um filme da Marvel. – começou ela. – Você gosta?
— Não sou de acompanhar muito, mas acho legal. – replicou arrumando-se na cama. – Tenho um amigo que é muito fã e sempre fala dos filmes, sinto que já assisti todos.
— Meu irmão era muito fã de quadrinhos. – comentou.– Não consigo ver essas coisas sem lembrar dele.
Os ouvidos de ficaram atentos.
— Sente muita falta dele?
demorou um pouco para responder. Engoliu o seco e disse:
— Sim. – murmurou. – Anthony merecia tudo de bom no mundo.
— E os seus pais?– perguntou com cuidado. – Só fale se sentir à vontade, é claro.
— Eles eram ótimos pais, apesar de não sermos tão próximos… Eu os amava. – ela fungou. – Não queria que eles fossem assim, .
apertou os lábios sem saber o que dizer.
— Mas vamos falar de outra coisa. – pediu ela tentando mostrar-se bem. – Quero agradecer por ter me incentivar a voltar a pintar.
— Está fazendo algum progresso? – indagou , igualmente com pressa de mudar de assunto.
Do outro lado da linha, encarava o esboço que começara a fazer nas últimas horas. Estava em dúvida se deveria ou não pintá-lo: ali, marcado apenas pelo lápis, o desenho parecia quase uma presença sobrenatural.
— Estou sim – respondeu com um sorriso. – Acho que vai gostar quando ver.
O estômago de embrulhou de um forma boa quando ouviu o pequeno sorrir de ; era discreto, um pequeno ar saindo das narinas.
Pensou no sonho que tivera. Seria mesmo um sonho? Ela pode sentir sua respiração de perto, os lábios violentos e o abraço quente. Estaria sua imaginação indo além do que conhecia?
Pensou, então, em Elliott.
Ele não tinha culpa. Desde que saíra daquela casa de Raytown carregada pelo detetive , ela não queria vê-lo. O clima não estava muito bom antes de sair de Lee’s Summit; algo dentro dela foi quebrado naquela casa.
? Está me escutando?
— Sim. – disse prontamente, embora não fosse verdade.
— Está sendo acompanhada pela psicóloga?
— Aham, ela veio me visitar hoje. – respondeu. – Eu gostei dela.
— Qualquer novidade…
— Avisarei. – completou. Fitou a imagem desenhada no quadro. — Tenho uma surpresa para você. Espero que possa mostrar assim que eu voltar para Missouri.
— Surpresa? O que é?
— Ora, . É uma surpresa.
— Certo, certo… – disse ele sem delongas. – , eu preciso dormir. Podemos conversar mais depois?
— Claro, claro… Boa noite, .
— Boa noite.


Continua...



Nota da autora: As coisas andam se estreitando. O culpado está cada vez mais perto e a confiança do nosso detetive com a pp não é uma das melhores. Em quem acreditar?
Espero que estejam gostando da história. Obrigada a todo mundo que acompanha e comentar <3
Até mais!



Outras Fanfics:
Delicado

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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