Conflito de Interesses

Última atualização: 18/09/2018

Prólogo


— Princesa, você precisa ser impor mais. — Elaine consolava sua filha, , enquanto a garota chorava em seu colo. — Ser menos inocente.
— Ele garantiu que me ajudaria. — a menor murmurou, com o rosto enterrado nas pernas da mais velha.
— Mas, minha filha, ele deu algum sinal que faria isso? — indagou, recebendo uma negativa abafada pelo tecido de sua calça de moletom. — Pois bem, seu trabalho é para amanhã e você está sem dormir ou comer direito há dias para carregá–lo em suas costas. Tome uma atitude e retire o nome deste garoto do seu projeto, é uma ordem. — completou firme, recebendo como resposta um soluço que sinalizava que a menina caiu no choro outra vez. — , levante–se já. — manteve seu tom e a menina levantou–se de maneira desanimada e sem postura. — Ouça bem o que sua mãe tem a dizer: em breve eu irei embora, você sabe, e precisa aprender a se defender e se posicionar. Daqui algumas semanas, não estarei presente para lutar suas guerras e te indicar o melhor caminho e me preocupa estar deixando uma garota frágil e indefesa para trás. Seu pai é ótimo, não pense que menosprezo o apoio que ele pode te dar, mas nós sabemos bem que, quando você abre o berreiro, a única coisa que esse homem sabe fazer é te aninhar e te encher de sorvete até seu choro cessar. Isso ou matar alguém.
— Eu posso te ligar, mamãe… Não vivemos no século passado. — a garota choramingou, coçando os olhos vermelhos e inchados: resultado da combinação bombástica entre noites mal dormidas e o choro recente.
— Por Deus, , eu não quero voltar para o Brasil e deixar um bebê chorão de dezesseis anos para trás. Mostre para mim que você é capaz de tomar atitudes inteligentes e adultas para ficar aqui em São Francisco com seu pai. Do contrário, compro sua passagem e te levo debaixo das minhas asas.
— Sim, mamãe. — a menina automaticamente concordou. Só de pensar em viver em outro país, um lugar que conhecia apenas através das poucas visitas que fizera a parentes e das experiências relatadas por sua mãe. São Francisco era sua casa, seu lar, e, além disso, sabia que sua mãe saberia viver sem a presença diária dela, diferente de seu pai que, com certeza, entraria em depressão por ter a casa cheia em um dia e no outro estar sozinho (como quase aconteceu oito anos mais tarde quando ela fora morar sozinha, embora morasse a duas quadras de seu progenitor).
A adolescente era uma menina extremamente boa e meiga, em um nível que deixava até de ser saudável, visto que frequentemente sofria com trapaças de pessoas que se diziam amigos ou só se aproximavam atrás de favores, o que sempre resultava em uma exausta e sem tempo ocioso. Suas relações eram, em grande maioria, tóxicas e psicologicamente abusivas. Porém, mesmo com os conselhos de sua mãe e até mesmo de seu pai à respeito deste assunto, ela não se sentia mal ou no dever de mudar. Sempre pensou que, se fazia o bem e seu próximo não sabia recebê–lo ou valorizá–lo, era algo que dizia respeito de seus caracteres e não do dela. Mas, naquele momento, a garota apertou o backspace no computador, apagando o nome deu suposto parceiro e decidindo tentar ser menos manipulável, como Elaine costumava dizer.


Capítulo 1


Era só mais um dia de trabalho, fim do meu horário de almoço, e eu sempre podia ser encontrada na cantina do hospital comendo alguma coisa enquanto conversava com , minha melhor amiga. Naquele dia, ela comentou sobre um garotinho que havia dado entrada na ala pediátrica por haver desmaiado na escola e que estava em observação no hospital, alvoroçando todas as internas. Engana–se quem pensa que elas estavam preocupadas com a saúde do garoto. Era o pai dele quem estava deixando todas as funcionárias à flor da pele. Nada que fosse do meu interesse, já que a única coisa que eu jamais faria na vida era dar moral a um cara velho e, ainda por cima, casado.
— O seu residente está cuidando do caso e é bem capaz que você seja a interna encarregada de ajudá–lo. — ainda estava falando do mesmo assunto, enquanto caminhávamos por um dos corredores, em direção ao trabalho que nos esperava.
— O que te leva a acreditar tanto nisso? — perguntei, parando em frente à sala do meu chefe.
— Ah, fala sério, você é a preferida dele. Não tenho dúvidas de que ele te escolherá. — ela abaixou o tom de voz.
— Eu sinceramente não sei de onde você tira essas coisas. Agora me dê licença que vou ver o que ele quer. — ela sorriu torto, mas ignorei e adentrei a sala. — Me chamou, Dr. ?
— Sim, . Sente–se. — apontou para a cadeira em frente à sua mesa, mas preferi ficar em pé. Seja lá o que fosse, seria rápido o suficiente para que eu pudesse voltar ao meu trabalho o mais rápido possível. Era fato que Dr. me fazia sentir certo incômodo que eu não sabia definir se era pro bem ou pro mal.
— O senhor precisa de alguma coisa? — a verdade era que eu também desconfiava daquilo que dissera, então preferia não ter um relacionamento além do profissional com meu residente.
— Sim. Eu sou o médico responsável por um garoto de dez anos que teve um desmaio. Aparentemente não aconteceu nada, mas, mesmo assim, preciso que você o leve para passar por alguns exames. Precisamos ter certeza de que nada mais aconteceu. O quarto é o cento e vinte e dois, na pediatria. Tudo o que deve ser feito está anotado aqui. Você vai me ajudar com isso. — me entregou uma ficha com algumas anotações e eu assenti, me preparando para deixar o ambiente, quando pigarreou me fazendo exitar aguardando–o se pronunciar. — , você tem planos pra depois do expediente? — me virei num pulo, sentindo o sangue se esvair do meu rosto, e dei de cara com meu chefe sorrindo nervosamente. — Digo, se você quer sair pra beber quando for liberada.
O silêncio instalou–se e eu permaneci em pé. Era claro que fazer aquela pergunta tinha sido um ato de coragem repentino da parte dele e meu cérebro brigava consigo mesmo, bombardeando um monte de questões em mim. Ele era um homem bonito, alto, sua idade não diferia tanto da minha e todas as oportunidades de convivência que o hospital nos proporcionara haviam sido agradáveis. Mas ele era meu chefe e, eu tinha certeza que, havia alguma regra — se não explícita no código de conduta dos funcionários — ética sobre relacionamento entre residentes e internos. Então comecei a pensar o que faria em meu lugar. Minha amiga tinha a personalidade totalmente diferente da minha e certamente saberia resolver aquela situação com muita destreza e desinibidamente, como sempre. Oh, céus, ela certamente estaria revirando os olhos para mim neste momento e dizendo que “não havia mal algum em dois colegas de trabalho saindo para beber depois do expediente” e, com certeza, acrescentaria que ele era um gato e que eu estava sendo boba.  
Aqueles grandes olhos azuis acinzentados continuavam me encarando à espera de uma resposta e seu sorriso já havia se dissipado, deixando apenas uma linha reta em seu lugar. Eu precisava dizer alguma coisa.
— Acho que tudo bem, doutor… Só não sei ao certo a hora que…— comecei a respondê–lo, envergonhada e com os olhos fitando meus pés. Deus, como conseguia fazer aquilo?
! — ele me interrompeu e eu rapidamente levantei o olhar até alcançar seu rosto novamente. — Pode me chamar de . Te espero na saída da Emergência às vinte e duas horas, ok?
Apenas assenti e apontei para a porta de um modo extremamente atrapalhado, abrindo–a e me pondo para fora imediatamente. me aguardava no fim do corredor, distraída com suas unhas extremamente bem cuidadas e pintadas em um tom vivo de vermelho. Assim que me viu passar ao seu lado a passos rápidos, tratou de me acompanhar.
— E então? Você está no caso, não é? Eu sei que está. — já estávamos em frente ao elevador e eu apertava freneticamente o botão que sinalizava que pedíamos para descer. — Ei, garota, fala alguma coisa! Porque você está agindo como quem viu o Diabo? Vocês demoraram pra caramba…
, entre no elevador e feche a boca. — assim que as portas se abriram, entramos no cubículo vazio. — Estou no caso, sim. Mas…
— Sabia! Você está no caso. Meu Deus, você vai atender aquele cara gostoso! Sua sortuda filha da puta! Essas coisas boas só acontecem com você. — ela se afobou toda e bateu palminhas como uma idiota.
— Meu paciente tem dez anos, , e me deixe terminar de falar! — encarei–a, séria, e ela levantou as mãos na altura dos ombros, em sinal de rendição. — Além de me passar o prontuário do paciente, ele meio que… — respirei fundo, pensando uma segunda vez se queria mesmo dizer aquilo em voz alta. — meio que me chamou pra sair.
— COMO É QUE É? — ela gritou e o elevador se abriu, chamando a atenção de algumas pessoas. Fiz sinal pra que ela abaixasse o tom. — Me conta o que você respondeu. — pediu toda animadinha, me fazendo revirar os olhos.
— Não tem o que contar. Ele me convidou e eu disse que tudo bem. — respondi como se estivéssemos comentando o clima e comecei a olhar as plaquinhas de cada porta, que continham os números dos quartos, depois de passar pela recepção do andar.
— Oh, meu Deus… Eu não acredito que você teve coragem! — agora ela me abraçava e me sacudia. Dei graças a Deus que estávamos completamente sozinhas no corredor. Coincidentemente, estávamos paradas em frente à porta do quarto onde o garoto que precisava atender estava e essa foi a minha deixa para cortar toda aquela aura feliz que minha amiga criara.
— Ei, ei, … Você já pode me soltar agora. Chegamos ao quarto, preciso trabalhar. — dei alguns tapinhas em suas costas para que ela pudesse me ouvir e me soltar o mais rápido possível.
— Não tenho nada pra fazer por enquanto. Quer ajuda? Eu sei que quer. — ela sorriu e eu revirei os olhos. Se eu bem conhecia minha amiga, ela ia insistir naquilo até eu dizer que aceitava sua “ajuda”. Ambas sabíamos que a única intenção de era por os olhos (e todo o restante de seu corpo) em cima do tal pai bonitão.
— Preciso levá–lo para fazer esses exames aqui. — estendi o braço para que ela pudesse olhar a ficha com as informações ali anotadas.
— Vou buscar uma cadeira de rodas. — virou–se sem esperar resposta e eu chequei novamente as informações do paciente para saber seu nome antes de adentrar o quarto.
Assim que abri a porta, pude ver uma mulher sentada numa das poltronas dispostas no ambiente, próximas à grande janela panorâmica, mexendo em seu celular. Assim que notou minha presença, guardou o aparelho na bolsa que estava repousada na mesinha que a separava da outra poltrona.
— Boa tarde. Como vamos, hein? — me virei em direção ao garotinho, que estava deitado na cama. Estranhei não ver o tal homem de quem tinha falado, mas não liguei muito pra isso. Não nego que estava muito curiosa pra conhecê–lo, mas, enquanto essa hora não chegava, eu faria o meu trabalho. — Resolveu dar um susto em alguém hoje, Jonah? — me aproximei dele, que sorriu tímido. — Vou te levar pra dar um passeio e fazer alguns exames, está bem?
— Mãe… — ele choramingou, olhando para a mulher, que agora estava em pé ao lado de seu filho.
— Ei, não se preocupe. Nada do que fizer vai doer, ok? — Tentei confortá–lo e pareceu dar certo. — Só vou fazer umas perguntinhas antes. Você acha que consegue responder? — demorou a responder, mas assentiu. — Bem, você teve um desmaio, certo?
— Sim. Foi na escola. Eu tava descendo as escadas. As coisas começaram a girar e depois tudo escureceu. Quando acordei, eu já estava aqui. — ele deu de ombros e eu, já com a prancheta que ficava presa em um suporte ao lado da cama em mãos, anotei algumas coisas.
— E você se alimentou antes de ir pra escola? — continuei meu pequeno interrogatório.
— Não. — ele ficou tímido novamente e começou a brincar com seus próprios dedos, quando sua mãe resolveu me ceder melhores informações.
— Esse aí não come nada desde ontem. Almoçou pouco e depois disso não colocou mais nada na boca. — eu continuei anotando o que considerava importante enquanto eles aguardavam em silêncio. — Já dá pra saber o que ele tem?
— Olha, mãe, imagino que tenha sido somente uma queda de pressão por não ter se alimentado, mas mesmo assim vou levá–lo pra realizar alguns exames, só para termos certeza de que não há nada mais que precisamos saber.  
Nesse momento, adentrava o quarto com a cadeira de rodas, obviamente varrendo o cômodo com os olhos à procura de um certo homem, sem esconder a decepção ao não encontrá–lo, e ambas ajudamos Jonah — o garoto — a sentar–se sobre ela. Minha amiga resolveu guiar a cadeira, então abri a porta para que saíssemos.
Andávamos os quatro — Jonah, sua mãe, eu e — em silêncio, cada um distraindo–se como era possível pelos corredores da ala pediátrica, e paramos frente ao elevador. Quando as portas metálicas se abriram, meu olhar, que repousava sobre o piso cor–de–rosa que revestia todo o chão do andar, correu em direção a um par de tênis preto no estilo Converse — que fez menção de sair do cubo metálico, mas recuou — e subiu, lentamente, para as pernas revestidas por um jeans escuro encoberto — na altura da cintura — por uma camisa xadrez de botão de mangas curtas que me deram a chance de observar os músculos perfeitos de seus braços. Minha perdição foi quando meus olhos fitaram aquele rosto delineado perfeitamente por uma barba curta e negra, assim como seus cabelos levemente ondulados, que caíam delicadamente sobre a testa, e aqueles olhos. Olhos tão escuros quanto sua barba e cabelos e que fixaram–se aos meus. Um arrepio subiu minha espinha quando sorriram. Sim, aqueles benditos olhos sorriram e automaticamente eu sorri também.
— Doutora, você não vem? — como em um baque, a voz de Jonah me despertou daquele transe em que tinha me envolvido. — Meu pai também vai agora! — o garoto continuou a falar animado e meu olhar correu descontroladamente dele para o homem posicionado ao seu lado, que repousava uma de suas mãos na cabeça da criança enquanto a outra segurava as portas metálicas para que não se fechassem e me deixassem para trás.
— É, Doutora, você não vem? — repetiu, me fazendo encará–la. Ela estava sorrindo, debochada, como sempre. Rapidamente entrei no pequeno espaço que me restava dentro do elevador, mas não sem antes passar os olhos pela face de todos o que estavam dentro dele. Ele ainda sorria de um modo divertido, o que me fez sentir que na verdade ele estava rindo de mim. Jonah e sua mãe não pareciam ter percebido aquele longo momento constrangedor, visto que ele era só uma criança animada demais com a presença do pai e ela não tirava os olhos do bendito celular. E , bem, era apenas a velha de sempre: deboche, deboche e mais deboche, mas, feliz e surpreendentemente, manteve–se calada até chegarmos ao nosso destino e realizarmos os exames enquanto os pais do garoto esperavam do lado de fora — para o bem de minha sanidade mental.
, você pode voltar com eles para o quarto, por favor? Eu vou levar os resultados para que o Dr. avalie. — ela apenas me encarou e revirou os olhos. Estava demorando. — Fala de uma vez, , você não sabe disfarçar.
— Ah, eu que não disfarço, ? Você tava baband… — ela começou a falar alto demais, mas percebeu que Jonah ainda estava na sala conosco e diminuiu o volume de sua voz — Você quase se ajoelhou e prestou culto ao cara lá no elevador. — minha vez de revirar os olhos — Agora eu só não sei se está me pedindo para acompanhá–los por vergonha ou porque você realmente quer ver seu esqueminha de mais tarde.  
— Esqueminha? , cale a boca. — inspirei fundo e ela cruzou os braços à minha frente. Ela estava certa, bem, pelo menos na parte em que disse que eu estava envergonhada, mas não admitiria. consegue ser muito insuportável quando reconhecem que está com razão. — Doutor pediu que eu fizesse os exames. Não seria muito esquisito você chegar lá com os resultados? Eu tenho que ir. — antes de dar chance de minha amiga responder algo com ironia, virei–me para o menino, que já estava sentado na cadeira de rodas novamente. — Ei, Jonah, a doutora vai acompanhar você e seus pais até seu quarto, ok? — assim que o garoto assentiu, saímos os três juntos da sala e me despedi dos pais de meu paciente com um movimento rápido de cabeça, deixando para trás para que pudesse explicar o que fosse necessário.   
Graças a alguma força sobrenatural, o dia passou rápido. Não tive nenhum outro contato com — o que felizmente me privou de suas piadas — nem com o pai do meu paciente. Fui assistente de em uma cirurgia de remoção do apêndice, mas, graças ao bom senso dele, falamos apenas de trabalho — nosso acordo para depois do expediente sequer fora mencionado.
Encontrava–me sentada em um dos grandes bancos do vestiário feminino, com uma de minhas bolsas repousada em meu colo, enquanto eu procurava freneticamente qualquer peça de roupa mais aceitável para sair depois do trabalho que uma calça jeans, camiseta, moletom e um par de tênis — que, no caso, eram os que eu estive usando por todo o dia. O problema era que eu NUNCA saía depois do expediente, porque preferia beber sentada em meu sofá enquanto assistia série ou estudava, portanto, era óbvio que não estaria preparada para aceitar o convite que recebera mais cedo. Desistindo de virar a bolsa do avesso, joguei–a ao meu lado e encostei–me na parede atrás de mim. Meus dedos pressionavam meus olhos em um claro sinal de cansaço. era o tipo de homem que sempre usava social e, ao meu ver, era inadmissível que eu me colocasse ao seu lado usando a porcaria de um jeans.
Meu celular vibrou dentro do objeto repousado ao meu lado e, ao pegá–lo, vi uma notificação de um número desconhecido em um aplicativo de conversa. Abri a mensagem, curiosa, e a foto de meu chefe, extremamente despojada, diga–se de passagem, apareceu no pequeno ícone ao lado de seu número.  

Número desconhecido
Estamos de pé? Tenho mais algumas coisas para resolver, mas estarei livre em 30 minutos.

Minha vontade de digitar uma negativa em CapsLock era enorme, mas seria extremamente deselegante. Bloqueei a tela do celular, sem saber o que fazer. Talvez se eu ficasse ali, sentada, alguma força divina me tiraria daquela situação. No meu caso, a força divina tinha nome: . Minha amiga adentrou o vestiário com um grande copo de café e me lançou um olhar curioso, recebendo um sorriso discreto como resposta.
— Já te vi derrotada depois de um dia de trabalho, mas hoje você tá de parabéns, ! — largou seu copo sobre um banco e abriu um dos pequenos armários destinados a guardarem os pertences pessoais dos funcionários — vai sair correndo quanto te vir.
— Eu não posso sair com ele hoje. — murmurei, soltando meu ar e passando a mão pelo rosto nervosamente — A não ser que eu use jeans e moletom.
— Bata na sua cara antes que eu bata. Ele é um dos médicos mais chiques desse lugar. — ela sequer virou–se em minha direção. — Sorte sua que sou uma pessoa muito preparada pra certas ocasiões. Garanto que tenho o que você precisa. Achei! — exclamou alegremente, virando–se rapidamente em minha direção. Um vestido vinho pendia de seus dedos.
Naquele momento, tive mais certeza ainda que os céus queriam que eu desmarcasse meu compromisso. era um pouco mais alta que eu e possuía mais curvas que meu sistema digestivo, o que me faria ficar muito esquisita dentro daquela roupa.  
Antes de ouvir minha negativa, jogou a peça sobre meu colo e voltou–se assustadoramente animada para a frente de seu armário, retirando de lá uma sandália preta de salto alto.
— Nem pensar, . Não vou usar isso. — levantei–me, enfiando seu vestido de volta no lugar de onde ela o tinha tirado.
— Tudo bem, jeca. Vá de moletom. — ela deu de ombros, devolvendo a sandália onde eu colocara a peça de roupa. Oh, meu Deus… Eu não tinha escolha.
— Certo, certo. Temos vinte minutos. — me rendi e ela bateu palminhas. Bem sabia eu o quanto minha amiga gostava de brincar de boneca comigo.
Após um banho rápido, me vesti e, embora desconfortável, tive que admitir que não ficara tão ruim quanto achara. A barra estava poucos centímetros acima de meus joelhos; o decote triangular não mostrava muito, mas me proporcionava um bonito desenho de busto; e as mangas longas e justas me davam um pouco de proteção contra frio e possíveis arrepios. Já o salto alto deu–me uma boa postura. Havia alguns meses que eu não me via tão bem vestida e arrumada — tinha plena certeza que a última vez havia sido no casamento de meu único irmão, no qual assumi a missão dama de honra, há exatos seis meses.
Encontrei–me com no local marcado e, já dentro de seu carro, fui obrigada a decidir entre ir a um restaurante caro — para o qual eu estava devidamente vestida, mas não era o tipo de lugar que eu me sentia a vontade para frequentar — ou a um barzinho para o qual já havia me arrastado algumas vezes. Fiquei com a segunda opção.
Ao chegarmos ao nosso destino, passamos pela estreita porta posicionada sob um letreiro de LED azul que demonstrava que estávamos adentrando o Benji’s Bar. Meu chefe me guiou até um dos sofás que estavam localizados na extremidade mais distante do ambiente, onde a luz era menos clara que no restante do bar. O lugar estaria vazio se não fosse por Benji posicionado atrás do balcão servindo bebidas, meia dúzia de gatos pingados à sua frente esperando seus drinks e cervejas, e duas garçonetes arrumando mesas na área principal do salão.
— Eu não sabia que você era uma garota de bares. — disse descontraído, sentando de lado no sofá para que pudesse ficar de frente para mim.
— Na verdade, eu sou uma garota de casas e camas. — respondi, tentando soar descontraída, mas, como sempre que estava nervosa, apenas falei besteira. — Não, de camas não! Eu quis dizer da minha cama. — tentei concertar e só consegui parecer mais patética que antes. O homem ao meu lado me encarou por um segundo, mas logo gargalhou alto, jogando a cabeça para trás. Senti minhas bochechas ruborizarem e esquentarem.
— Ok, ok… — me encarou, prendendo o riso, e eu nem mesmo conseguia olhá–lo. — Eu adoraria conhecer as casas e as camas, . — caçoou, fazendo–me soltar um risinho e passar uma das mãos pelo rosto. Felizmente, uma das garçonetes, que se apresentou como Betsy, aproximara–se, interrompendo o assunto constrangedor para anotar nossos pedidos. — Acho que vou querer apenas um Sazerac, e você? — tirou os olhos da moça parada à nossa frente para tornar a me encarar. Meu cérebro gritava “cerveja”, mas eu estava ao lado de um homem que acabara de pedir clássico e imponente drink, portanto, para não parecer a louca que bebe cerveja jogada no sofá de casa enquanto chora bêbada assistindo Glee, optei por um Whisky Sour, que era o meio termo perfeito entre beber álcool puro e drinks cheios de coisas que tiravam totalmente a lógica de uma bebida alcoólica. — Uau, Whisky? Você está me surpreendendo. — comentou.
— Já que vou falar besteira, que pelo menos eu tenha algo a culpar. — brinquei, tentando não levar em consideração a segunda tentativa dele naquela noite de me rotular como uma garota que eu não era, fazendo–o rir. Betsy logo voltou com nossas bebidas e começamos a conversar sobre assuntos aleatórios.
— Eu estou muito contente e surpreso que você tenha aceitado sair comigo hoje… Não esperava uma afirmativa. — meu chefe me sorriu e eu dei de ombros, sem saber o que responder diante daquela frase. — Já tem algum tempo que venho te observando no Hospital, cheguei a acreditar que você namorava quando não percebi nenhuma aproximação masculina a você. — meus olhos, que repousavam na mesa de centro posicionada a nossa frente, correram em direção ao seu rosto e encontraram um sorriso estampado nele. Eu estava surpresa, não com o que tinha sido dito, mas com a coragem que ele teve para admitir aquilo. De certa forma, não era muito ético um residente dizer em alto e bom som que esteve de olho em uma de suas internas.
— Achei que não faria mal sair para beber com um colega de trabalho. — tentei forçar um sorriso, mas estava nítido que eu me sentia desconfortável e meu acompanhante pareceu entender, visto que mudou o assunto.
A noite passou rápido e eu preciso confessar que fora melhor que imaginei. era uma pessoa descontraída, totalmente diferente do que demonstrava no trabalho, e eu me senti a vontade para falar um pouco mais sobre mim e como fora crescer com uma mãe brasileira e um pai americano, fazendo ponte aérea o tempo todo entre as Américas. Acabei por descobrir que ele nasceu e fora criado em Los Angeles. Esqueci–me totalmente de que estava sentada ao lado de meu chefe.
— Eu conheci o Rio de Janeiro há dois anos. O Brasil é encantador, assim como as brasileiras e o carnaval. — comentou, bebericando uma água com gás que havia pedido já que estava dirigindo naquela noite.
Eu nunca estivera no Rio de Janeiro, mas já havia perdido as contas de quantas pessoas associavam–me a esse estado pelo simples fato de citar o Brasil como minha segunda nacionalidade. A verdade é que este lado da minha família morava no interior de Minas Gerais e minha mãe saiu de lá direto pra vir morar com meu pai em São Francisco, e fora pra lá que voltara quando sua história de amor se acabara, no auge dos meus 16 anos. Decidi apenas sorrir e concordar com o que o homem ao meu lado acabara de dizer. Ninguém podia negar que o Rio era bonito.
Naquela noite, nenhuma aproximação com segundas intenções surgira da parte de nenhum de nós, o que me fez agradecer. Céus, ele era lindo, simpático e muito bom de conversa, mas eu não posso dizer que me senti atraída de qualquer forma que se distanciasse de amizade. me deixou à porta de casa, despedindo–se com um beijo no rosto.

O despertador tocou exatamente às oito horas da manhã e, enquanto tentava acertá–lo de qualquer jeito para fazer cessar o barulho irritante que emanava daquele pequeno objeto, agradeci a Deus por ter bebido muito pouco na noite anterior. Era meu primeiro dia de folga, finalmente, e, apesar de amar minha profissão, eu ficava extremamente feliz e de bom humor tendo dois dias na semana para desfrutar da minha própria companhia e relaxar — o que incluía vestir pijamas o dia todo. Meu apartamento estava completamente necessitado de uma faxina e de ser abastecido com mantimentos. Trabalhar cinco vezes por semana e dezoito horas por dia resultava em almoços e jantares no hospital, então meu lar ficava totalmente ao gosto de Deus, o que fazia do primeiro dia de folga ser, oficialmente, dia de encarar o supermercado — que, para minha felicidade, ficava a um quarteirão de onde eu morava — e de organizar a grande bagunça que meu velho buldogue era capaz de fazer.
— Shock, eu não vou levá–lo ao supermercado. — o cão me encarava com a coleira babada que correu para pegar assim que percebera que eu sairia de casa, repousada às suas patas. Aqueles olhos pidões estavam fixos em mim quando ele empurrou a coleira em minha direção com o focinho. — Sério, cara, eu não posso correr o risco de te ver destruir a prateleira de salame novamente. — a esta altura, já estava ajoelhada fazendo carinho nas orelhas de meu pet. — Prometo que vamos ao parque ainda hoje, ok? — o cachorro pareceu entender quando finalmente deitou–se e apoiou a cabeça nas patas, então me senti livre para sair.  

Com o carrinho de compras completo daquilo que julgava necessário para pelo menos duas semanas, minha parte favorita estava prestes a começar — comprar um monte de besteiras alimentícias — e eu encarava a prateleira de refrigerantes, tentando decidir entre o veneno com sabor de uva ou o famoso à base de cola. Céus, por que meu instinto não me deixava simplesmente jogar as duas garrafas dentro do carrinho e fingir que eu não era médica? Bem, talvez porque já haviam algumas (muitas) garrafas de cerveja escondidas sob as embalagens de hambúrguer.
— De todos os setores, este é o último em que eu imaginaria encontrar uma médica. — uma voz soou divertida para mim, me fazendo rir mentalmente, pois era como se a pessoa estivesse lendo meus pensamentos conflituosos.
— Este, definitivamente, é um lugar que eu devia evi… — comecei a responder no mesmo tom brincalhão que tinha sido dirigido à mim, mas me calei automaticamente ao me virar e dar de cara com um homem escorado nas prateleiras, fazendo com que ele ficasse de frente para mim. Mas não era qualquer homem, e sim aquele homem. Sim, o do elevador. E com um maldito sorriso desconcertante à tira colo. Eu reconheceria aqueles olhos negros a quilômetros de distância, benditos olhos que me fizeram perder totalmente a linha de raciocínio. — Evitar. É… Ahn… É isso. — tentei não perecer tão embasbacada por aquele monumento, então me virei de volta em direção às bebidas para escolher depressa qual levaria para casa e sair, o mais rápido possível, da presença daquele ser. Eu acabara de perceber que vestia a tríade maligna de roupas velhas e confortáveis (uma camiseta, que provavelmente estava rasgada em alguma das laterais depois de Shock brincar com ela, um short jeans e um chinelo) e aquilo estava me deixando extremamente tímida, principalmente quando o cara ao meu lado deu uma bela conferida em minhas pernas.
— Não se envergonhe, doutora German, afinal eu também estou aqui, no corredor da vergonha. — ele completou, soando muito mais debochado agora, o que me fez encará–lo e eu podia ter certeza que minhas bochechas estavam coradas e que o ar condicionado daquele maldito lugar estava quebrado.
— Culpado. — murmurei, cruzando os braços, enquanto me mantinha focada em ter meus olhos repousados apenas em seu nariz (o único lugar neutro daquele corpo).
— Não é um pouco cedo para fazer compras? — seu braço se esticou, alcançando meu carrinho e retirando uma das garrafas de cerveja estrategicamente escondida. — Essa é das boas. — sorriu e a colocou na pequena cesta que repousava aos seus pés. Minha sobrancelha se arqueou e ele deu de ombros.
— Eu tenho plena certeza que poderia fazer o mesmo questionamento a você. — resolvi assumir uma postura hostil. Com certeza isso evitaria que ele percebesse o quão desconcertada eu ficava em sua presença e, claro, o cara tinha acabado de surrupiar minha cerveja. Ele apenas riu, levantando as mãos em sinal de rendição.
— Ok, mereci essa. Eu preciso comprar algumas coisas para o meu filho antes que ele acorde, por isso estou aqui tão cedo. — sorriu, enfiando suas mãos nos bolsos da calça e evidenciando os músculos de seus braços. Corri os olhos por sua cesta de compras, avistando alguns cereais, leite, picles e minha cerveja. Com certeza uma criança não seria responsável por ingerir minha bebida fermentada favorita. — Bem, os picles e a cerveja são uma necessidade pessoal.
— Então estamos quites. — dei de ombros após furtar o pote de picles e finalmente decidir pelo refrigerante de uva, depositando ambos em meu carrinho e fazendo–o gargalhar, mas me sentindo verdadeiramente vingada. Me virei na direção oposta, decidida a sair de perto daquele homem antes que ele levasse algo a mais além de minha sanidade mental, maturidade e cervejas, mas, para minha infelicidade (ou não), ele me seguiu.
— É… Doutora German, acho que eu devia ter seu número de telefone. — meus pés colaram no chão, me dando a única opção de me virar de volta para ele, o que fez com que nos esbarrássemos. Imediatamente me afastei, olhando–o incrédula. Ele estava fazendo o que eu achava que estava? — Eu provavelmente deveria ter o número de telefone de um médico. É questão de emergência. — tentou se explicar enquanto uma de suas mãos bagunçavam seus cabelos. — Por favor, eu realmente preciso.
— Acho que não. Se precisar de atendimento você pode ir ao hospital, que tal? Tem bastante gente lá para te atender. — sorri debochada e me esforcei para virar–me e sair daquele lugar, mas meus pés não queriam me obedecer de nenhuma forma e tudo ficava pior visto que o olhar daquele homem era mais manipulador que o que enfrentei mais cedo vindo do meu animal de estimação. — Ok. — revirei os olhos e ele me estendeu seu celular com um sorriso de orelha à orelha.
— Obrigado. — respondeu–me, encarando a tela do aparelho onde meu nome estava gravado. Dei–lhe as costas e me retirei o mais rápido possível dali.  

— Puta que o pariu, Shock! — ao abrir a porta de casa, avistei meu cachorro rolando sobre a terra escura que caíra ao chão junto ao vaso que ele fizera questão de derrubar e agora estava quebrado. Larguei as compras sobre o balcão da cozinha e corri em sua direção. O cão, quando me viu, levantou–se e correu em minha direção. — Mau, garoto mau. Pelo amor de Deus, eu não posso sair por vinte minutos que você transforma minha casa em um chiqueiro! — Agarrei–o pela coleira e puxei–o para a varanda, mantendo–o longe do meu tapete recém–adquirido. — Fique aí e pense no que fez. Mamãe está chateada.
Resolvi que era melhor limpar a sujeira de meu cachorro e a casa antes de guardar as compras em seus devidos lugares. A vantagem de não parar em casa era que nada ficava muito sujo, o que não me custou mais que uma hora para ser limpo e organizado. Meu cachorro estava dormindo do lado de fora, onde eu o havia colocado, então não me senti uma péssima mãe ao perder mais alguns minutos guardando o que trouxera do supermercado.  

Shock me arrastava pelo grande parque que ficava próximo ao meu apartamento e eu já estava esgotada. Quarenta minutos acompanhando o ritmo de um cachorro que não saía de casa havia cinco dias era o máximo de exercício físico que eu me permitiria fazer naquele dia, e foi por isso que o soltei da guia — para deixar que brincasse livre e não tivesse vontade de destruir todos os meus vasos de planta. havia combinado de me encontrar, então resolvi me sentar em um banco sob a sombra de uma grande árvore para esperá–la.
— Aquele ser do mal que você chama de filho está destruindo todo o gramado do parque. — minha amiga sentou–se ao meu lado.
— Deixe ele destruir algo além da minha casa, por favor! Você correu uma maratona para chegar aqui? — não pude deixar de reparar o quão suada e ofegante ela estava.
— Quase isso. Mas deixa pra lá e começa a desembuchar como foi seu encontro com seu chefinho. — ela virou–se em minha direção, animada como sempre quando o assunto era homem.
— Ah, , nada demais. Saímos pra beber no Benji’s e conversamos bastante. Ele é um cara legal, mas não senti nada de mais. — resumi, dando de ombros.
— Espera… Você está me dizendo que saiu com um cara gato daquele e que não rolou nem um mísero beijinho porque não sentiu nada de mais? — ela revirou os olhos e bufou, aparentemente indignada — , eu preciso saber se você conhece o significado de sexo casual.  
— Eu entendo que isso não é algo que eu queira viver, ué. — tentei me justificar. Eu odiava como me fazia sentir menos mulher e corajosa.
— Definitivamente não entendo como você consegue ser tão frígida e desinteressante, … Falo isso pro seu bem, você sabe que eu te amo, mas fica difícil te defender assim. Precisa sair, se divertir e transar mais.
— Ok, ok. Já entendi. — Desisti de tentar conversar. Ela continuaria falando até o fim da minha vida se eu respondesse qualquer coisa. O gênio de minha amiga era extremamente forte, o que tornava um diálogo muito complicado quase sempre, por isso sempre desistia de qualquer princípio de discussão. — Preciso levar o Shock para tomar banho e aproveitar minha folga. Nos vemos outra hora, amiga. — me levantei, procurando meu cão e avistando–o longe. Assoviei e ele correu em minha direção com energia. Parecia que aquele bicho nunca se cansava e eu me sentia muito culpada por não proporcionar a ele mais momentos como aquele, fora de casa e livre.
— Hoje à noite nós vamos sair, eu e você. Vamos voltar ao Benji’s. Você devia convidar o seu chefe… Demonstra um pouco de interesse e, por favor, termina a noite em algum lugar além da sua casa. — concluiu nosso assunto e eu apenas assenti. Seria inútil dizer que não. Ela era capaz de entrar em minha casa e me arrastar pelos cabelos até o bar se considerasse necessário. Mas era óbvio que eu não convidaria ninguém.
A companhia de na noite anterior não havia sido ruim. Muito pelo contrário, ele se mostrara o homem agradável de sempre, mas o seu ar sempre sério apesar das brincadeiras fazia com que parecesse inalcançável. Não posso negar que me sentia atraída, até porque só sendo muito fora da casinha para não se sentir assim por aquele par de olhos azuis acinzentados e pelo charme de um homem bem apessoado, mas eu me sentia muito desconfortável e até um pouco inferior perto dele. Mas alguma parte de mim acreditava que tivesse razão e eu devesse mesmo aproveitar melhor minhas pausas no trabalho e, se isso incluía dar uma chance para conhecê–lo mais a fundo, talvez eu pudesse fazê–lo. Isso só não aconteceria imediatamente e, com certeza, podia esperar, pois só de pensar nessa possibilidade um calafrio subia minha espinha.  

— Você está usando saia? Por livre e espontânea vontade? — me encarava dos pés a cabeça e a boca estava aberta, na típica expressão de quem estava em estado de choque. Tenho plena certeza de que, em um ano (desde que conheci ), eu nunca usara uma saia, pois aquela peça, definitivamente, não estava entre minhas vestimentas favoritas. Isso explicava a surpresa dela ao não me ver de short ou calça. — Meu Deus, , este é o cropped que eu te dei no seu aniversário!
— Já saí de casa no meu dia de folga, então decidi ousar em tudo desta vez. — dei de ombros, me sentando em uma das banquetas postas à frente do bar. Benji sorriu ao me ver e eu pedi uma cerveja, recebendo–a rapidamente em seguida.
Ficamos sentadas apenas bebendo e jogando conversa fora, mas decidiu sentar–se em um dos sofás espalhados pelo bar. Eu concordei, mas, constatando que minha primeira long neck estava vazia, fiquei no bar para reabastecer minhas mãos e meu organismo de álcool. Pedi uma cerveja, para levar comigo até o lugar que minha amiga escolhera, e um shot de tequila para o consumo imediato.
— Te encontrar uma vez, considerei sorte, mas, agora, acho que é destino. — aquela maldita voz, somada ao limão que tinha acabado de ingerir, me fez estremecer e eu podia sentir o sangue se concentrando na minha face. Me virei lentamente, pedindo a Deus que aquilo fosse uma pegadinha do meu cérebro, dando de cara com o mesmo homem que havia me encontrado mais cedo no supermercado. O pai do meu paciente.
— Você está me seguindo? — consegui dizer encarando seus olhos negros e só então percebi que estava prendendo a respiração. Ele riu, fechando os olhos e me fazendo sentir falta do calor que aquelas bolas escuras me causavam. Novamente adotei uma postura defensiva, cruzando os braços.
— Este é meu lugar favorito na cidade, doutora German. — seus olhos voltaram a me encarar, enquanto ele se sentava no lugar que abandonara anteriormente. — Pensando nisso, talvez você esteja me seguindo. — concluiu debochado, fazendo sinal com o dedo indicador na direção do dono do bar, que acenou alegre ao vê–lo. Logo ele estava munido de cerveja.
— Ha ha ha, só se eu não tivesse algo melhor a fazer. — virei–me de volta para o bar e debrucei–me sobre o grande e largo balcão enquanto dava um longo gole na minha cerveja. — Droga, isso não vai durar nada. — murmurei, encarando a garrafa de vidro que estava entre meus dedos.
— Eu acho que posso te apresentar algo melhor a fazer, mas eu sequer sei seu primeiro nome, então não posso fazê–lo. — um sorriso idiota brincava em seus lábios e eu pude sentir a malícia contida naquela frase.
. — respondi, tentando demonstrar desinteresse, o que provavelmente não funcionou, visto que seus lábios se abriram ainda mais em um sorriso que agora mostrava os dentes.
— Perfeito para você e, embora você não tenha perguntado, meu nome é . Está sozinha?
— AH. MEU. DEUS. — lembrei–me de minha amiga, que certamente estaria muito impaciente, me esperando. — Não, estou com uma amiga e, céus, ela deve estar uma fera me esperando. Preciso ir. — me levantei depressa, mas, antes que eu saísse, sua mão segurou meu braço levemente, me fazendo parar e me encolher. Eu podia jurar que havia eletricidade saindo daqueles dedos. estava em pé e parecia sem graça.
— Será que ela se importa se eu me juntar a vocês? — a mão que me tocara agora bagunçava seus cabelos, exatamente da mesma forma que havia feito mais cedo no nosso primeiro contato.


Capítulo 2


Fiquei imóvel diante dele, refletindo sobre o que deveria responder àquela questão. Mas não demorou muito para que encontrasse a resposta. provavelmente surtaria, no bom sentido da palavra, se eu aparecesse com um homem, principalmente se fosse o que estava parado frente a mim. Foi então que assenti e sua expressão de timidez se suavizou. Agarramos nossas cervejas e caminhamos lado a lado e em silêncio até minha amiga.
Eu caminhava com os olhos fitos no chão para evitar que eu caísse na tentativa de admirar o homem ao meu lado e movimentar as pernas ao mesmo tempo. Mas, ao me aproximar do sofá vermelho onde estava, encarei-a, me arrependendo imediatamente ao fazê-lo. Ela não estava só e sua companhia me fitava correndo seus olhos curiosos rapidamente para a pessoa ao meu lado.
— Amiga, olha só quem apareceu! — falou animadamente, apontando para meu chefe sentado ao seu lado. Rapidamente ela percebeu a presença de e sua expressão mudou de animação para surpresa, depois para malícia e por último deboche. — Veja só, este não é o pai do seu paciente de ontem?
Eu continuava em pé à frente deles, o que fez assentir depois de esperar por alguns segundos sem que eu respondesse.
— Sou eu mesmo. Você é a... — tentou lembrar-se, cerrando seus olhos enquanto a encarava — Claro, doutora . Como vai, doutor ? — cumprimentou com um movimento pequeno de cabeça.
— Não sabia que vocês se conheciam... — meu chefe se limitou a dizer com a voz dura.
— Ahn... Pois é... — acordei de meu transe para responder encarando minha amiga, que tentava segurar o riso.
— Nos conhecemos. — se limitou a dizer enquanto uma de suas mãos repousava carinhosamente em minhas costas, empurrando-me discretamente em direção ao sofá. Sentei-me no lugar vago ao lado de meu chefe e sentou-se ao meu lado. sequer o encarava, olhando fixamente para meu rosto que, a essa altura, pegava fogo. Eu só queria cavar um buraco para enterrar o resto da minha dignidade morta e caída ao chão.
Pude reparar sobre a mesa o mesmo drink que meu chefe pedira na noite anterior e estremeci com a memória. Céus, há um dia eu estava no mesmo bar com ele e agora aparecia com outro homem... Não queria nem imaginar o que ele estava supondo em sua cabeça. Lancei um olhar de socorro para , que agora bebia sua cerveja com seu típico sorriso irônico brincando em seus lábios.
— Ahn, bem, de onde vocês se conhecem? Pelo que me lembro, sequer conversaram ontem enquanto ajudávamos seu garoto. — questionou curiosa e eu apenas encarei , esperando que ele respondesse, mas temendo o que diria. Pude perceber que ele notara o clima tenso que estava entre nós e isso ficara claro devido a sua postura desconfortável.
— Nos encontramos por acaso mais cedo, no supermercado. — respondeu simplesmente, dando de ombros. Sua voz parecia calma, o que me fez soltar o ar em alívio.
— E vocês resolveram sair após se encontrarem por acaso no supermercado? — , por sua vez, mantinha um tom hostil e debochado, o que fez com que eu me encolhesse mais ainda em meu lugar, embora ele agora olhasse fixamente para o outro homem ao meu lado. apenas sorriu, igualmente debochado, enquanto eu me reservava a ficar calada.
— Bem... — tossiu, chamando a atenção de todos nós — Rapazes, se importam se eu roubar por um momento? Preciso ir ao banheiro e uma mulher nunca vai sozinha. — sorriu simpática enquanto dava uma desculpa para me tirar dali, o que eu agradeci mentalmente.
Coloquei-me de pé rapidamente e praticamente corri para o banheiro com minha amiga em meu encalço. Assim que adentramos o lugar, ela conferiu todas as cabines, concluindo que estávamos sozinhas, para, enfim, trancar a porta principal do mesmo.
— Puta. Que. O. Pariu. — falou pausadamente, virando-se para mim. — Por que você não me avisou que estaria acompanhada?
— Porque eu não estava até encontrá-lo no bar. Isto não é um encontro, , pelo menos não um proposital. — passei as mãos pelo rosto, demonstrando nervosismo.
— Ok, agora me diga o que fazer com ! — ela parou frente a um espelho que revestia uma parede inteira do espaço.
— Eu não faço idéia, eu não sabia que ele estaria aqui esta noite. — suspirei, desanimada.
— Bem, talvez eu tenha mandando uma mensagem em seu nome para ele, convidando-o para estar aqui, assim que você saiu do parque hoje. — falou com muita naturalidade, me fazendo encará-la surpresa e muito irritada.
— Por que eu não estou surpresa? — pensei em voz alta — Aquele homem deve estar achando que estou tratando-o como um idiota por sua culpa. Céus, eu supostamente chamei-o para sair e trouxe outro cara! — comecei a andar de um lado a outro do banheiro na tentativa inútil de me acalmar.
— Ok, ok, meu amor. Se acalme. Eu só estava tentando ajudar. Imaginei que você jamais teria coragem de chamá-lo para sair, então o fiz por você. — ela deu de ombros enquanto encostava-se à grande bancada de pedra onde ficavam os lavatórios do banheiro. — Eu, tanto quanto você, não poderia imaginar que apareceria. Aliás, você sequer me contou que encontraram-se mais cedo.
, eu estou voltando para aquela maldita mesa, então, por favor, tenta não atrapalhar mais a minha noite. — recuperei um pouco de meu controle.
— E você toma cuidado para não chatear mais ainda o pobre do seu chefe. Ele realmente gosta de você. — ela alertou ainda na mesma posição relaxada de antes e eu retirei-me do ambiente, enraivecida diante da atitude imbecil de minha amiga.
No meio do caminho, me encontrou e sua postura descontraída não se fazia presente. Eu me sentia culpada, visto que em nenhum momento me preocupei com o que ele pensaria desta situação, sendo envolvido em algo que nem eu fazia idéia de como resolver. Parei frente a ele para que pudéssemos conversar e passou por nós com o nariz empinado e pisando duro. Abusada, ainda se sentia no direito de ficar com raiva!
, eu... — suspirei tentando formar uma frase coerente que expressasse um pedido de desculpas.
— Seu namorado não ficou muito contente em me ver. — me interrompeu, enfiando suas mãos nos bolsos frontais da calça jeans que marcava tão perfeitamente seu corpo.
— Ele não... Não é meu namorado. — passei as mãos pelo rosto, extremamente envergonhada — Eu nem sei o que dizer.
— Enfim, só vim me despedir... Não acho que é uma boa idéia ficar com vocês esta noite. Nos vemos por aí! — sorriu, tentando demonstrar que tudo estava bem e eu senti meu coração encolher dentro do peito. Se uma bigorna caísse sobre mim, não teria me deixado com a sensação de peso que eu estava.
— Me desculpe, de verdade. Eu estou tão envergonhada... — suspirei — mas você pode ficar, se quiser. Juro. — insisti mais uma vez, na tentativa de me redimir por algo que sequer era minha culpa. Porém, eu precisava tentar fazer com que aqueles dois caras não ficassem com uma péssima impressão a meu respeito.
— Tudo bem, vamos tentar. Acho que o doutorzinho, pode me render uma boa diversão esta noite. — comentou, retomando sua atitude despojada e descontraída, e me encorajou a voltar para a mesa com uma de suas mãos espalmadas em minhas costas.
Respirei fundo e caminhei de volta para meu local de origem. Minha amiga já estava sentada em seu lugar e falava algo para meu chefe, que não parecia muito contente com a situação, com toda razão. Sentei-me ao lado de , fazendo-a dar espaço para que pudesse se sentar também. Os olhos curiosos de minha amiga correram do homem ao meu lado diretamente para mim, me questionando sem palavras sobre o que eu estava fazendo. Respondi dando de ombros. Ainda estava muito chateada com seu comportamento e não considerei necessário explicar a ela minhas atitudes.
— Bem, já que estamos todos aqui, podemos pedir algo para comer ou vamos apenas beber até esquecermos nossos nomes e que, como médicos, devemos ser conscientes? — questionou, tentando descontrair o clima desconfortável.
— Como o único não-médico da mesa, fico com a segunda opção. — respondeu, já se prontificando a chamar um dos garçons que circulavam pelo ambiente, fazendo seu pedido, e logo estava com sua long neck em mãos.
— E você trabalha com o quê, Único-Não-Médico-Da-Mesa? — minha amiga perguntou, me fazendo ficar curiosa sobre o assunto. De relance pude ver revirar os olhos enquanto dava um gole em sua bebida.
— Eu tenho um restaurante de comida brasileira. — o homem respondeu e eu pude ter certeza que meu queixo foi parar em meus joelhos diante daquela informação. Eu havia escutado “comida brasileira”, tipo, comida da minha mãe?
— Olha só, é metade brasileira. — respondeu animada, me envolvendo na conversa.
— Jura? — sorriu em minha direção e eu assenti em resposta.
— Minha mãe é brasileira e voltou a morar no Brasil há alguns anos. — comentei — É um lugar lindo e a comida é melhor ainda.
— Você poderia conhecer o Ô Xente! qualquer dias desses...
Eu fiquei completamente encantada com a coincidência. Desde que minha mãe voltara para o Brasil, nunca mais havia comido aquilo e, só então, me dei conta de como sentia saudade — da comida e da mamãe.
— Nunca comi comida brasileira, quais dias seu restaurante abre? — questionou antes que eu respondesse, chamando a atenção de todos da mesa. Por um momento, havíamos esquecido que ele ainda estava ali. Sua postura era de alguém extremamente desconfortável e aquele parecia ser o último lugar em que queria estar.
— Abrimos todos os dias para almoço e jantar. Vai ser um prazer recebê-los, me deixem saber quando aparecerem por lá. — respondeu, sem olhar diretamente para meu chefe, e eu e minha amiga trocamos um olhar confuso. Parecia que estava sendo estabelecido um clima estranho entre os dois e aquilo estava me deixando apreensiva.
— Eu irei, mas apenas se você servir feijoada. Céus, eu nem me lembro mais o gosto que isso tem! — comentei nostálgica e sentindo meu estômago revirar em alegria com a memória distante.
— Te deixo saber quando servirmos. — sorriu e piscou em minha direção, fazendo meu sorriso se alargar.
— Então... — pigarreou chamando, novamente, a atenção para si e arrancando um sorrisinho lateral de . — Vamos pedir algo para comermos ou não?
O resto da noite se passou em amenidades, embora tivesse sido um pouco difícil balancear o clima da mesa visto que meu chefe não se esforçou muito para parecer simpático ou, no mínimo, alguém sociável, e por vezes assumira uma postura debochada e ríspida sempre que falava algo e tentava manter o assunto vivo entre nós quatro.
Depois de algumas horas, avistara alguém no bar que despertara seu interesse e não pensou duas vezes antes de se levantar para tentar um final feliz para sua noite. Ao mesmo tempo, decidiu encerrar sua noite sob a desculpa que teria que se apresentar no hospital dali a algumas horas e pediu para que eu o acompanhasse até seu carro após encerrar sua conta. Caminhamos lado a lado e em silêncio até chegarmos próximos ao local onde seu carro estava estacionado. Meu chefe apoiou seu corpo no veículo e eu me dispus à sua frente esperando o que, certamente, ele tinha para dizer, visto que havia requisitado minha companhia até lá.
— Você não me convidou para estar aqui esta noite, não é? — finalmente puxou assunto, fazendo-me encarar meus pés em desconforto com aquela constatação.
— De fato, não. Mas não quero que pense que não o convidei porque já tinha planos... — respondi — Só não achei que tinha que fazê-lo. Não temos essa liberdade, eu acho.
— Podemos ter, se você deixar... Sabe, , considero que você seja uma mulher bem inteligente, é uma das minhas melhores internas, mas me parece muito inocente da sua parte não entender minhas reais intenções aqui. Não estou tentando construir apenas uma amizade entre nós. — sua fala direta fez com que eu o encarasse com curiosidade, temendo pelo rumo do assunto.
— Desculpa, , eu realmente não estou entendendo onde você está querendo chegar. — respondi, incomodada.
— Tudo bem. — suspirou, desistindo momentaneamente — Podemos nos ver novamente, a sós? Nós podemos nos encontrar em minha casa ou na sua para um jantar. O que me diz? — abandonou sua postura séria e distante, fazendo-me sentir mais relaxada. Ele era um bom homem (além de um gato) e tinha certa razão em se sentir chateado com o que ocorrera nesta noite, merecia uma chance de aproximação.
— Pode ser no meu apartamento, mas eu tenho um cachorro e ele pode ser bastante inconveniente quando quer. — descontraí, arrancando uma risada fraca do homem à minha frente.
O clima estava um pouco mais fresco do que costumava fazer em São Francisco e eu fui atingida por uma brisa que fez com que eu me abraçasse automaticamente, por estar do lado de fora sem casaco, e meu chefe pareceu perceber, pois desencostou-se de seu carro e se aproximou para se despedir. Senti uma de seus braços rodearem minha cintura e, no mesmo instante, seu perfume preencher minhas narinas. Seus lábios encostaram em meu rosto em um beijo delicado enquanto sua outra mãos me aproximava pela nuca. Senti meu corpo responder ao toque e tentei não externar aquilo.
— Vamos conversando sobre a próxima vez, certo? Você não vai se arrepender. — falou com o rosto perigosamente próximo ao meu e não pude evitar o sorriso tímido que se abriu em meus lábios enquanto meus olhos encaravam aqueles olhos curiosamente acinzentados. — Acho melhor você entrar, está começando a fazer frio aqui fora.
— Sim. — foi a única coisa que consegui responder e ele se afastou, dando a volta em seu carro para adentrá-lo e acenando antes de ir embora.
Voltei para dentro do estabelecimento e encontrei a mesa vazia. O relógio digital acima do bar marcava quase duas horas da manhã e as músicas agora tocavam mais altas para embalar algumas pessoas que se animavam na pista de dança. Sentei-me de frente para Benji, no bar, que mexia alguma mistura alcoólica antes de entregá-la para uma moça que a esperava. A mistura colorida com um azul turquesa bonito e um guarda-chuva amarelo na ponta chamou minha atenção e eu pedi para que ele fizesse o mesmo para mim.
— Seus amigos te abandonaram? — perguntou brincalhão antes de colocar o copo com o líquido azul no balcão à minha frente.
— Talvez eu os tenha abandonado por alguns instantes também. Você os viu? É meio triste ficar sozinha em um bar... Parece que eu estou com problemas. — brinquei, vendo-o rir minimamente.
— A garota, , saiu há alguns minutos e estava acompanhada. O outro rapaz que estava em sua mesa se aventurou na pista e, a contar pelo tanto de cerveja que tem anotado em seu nome, esta decisão deve ter sido influenciada pelo álcool. — no mesmo instante meus olhos correram para o local citado, procurando rapidamente me certificar de que aquilo realmente estaria acontecendo e não demorei a encontrar se mexendo minimamente com as batidas altas de alguma música eletrônica desconhecida. Em suas mãos, a constante long neck e, à sua frente, uma garota loira que parecia animada em falar. Ele havia ficado para trás, sentado à mesa, quando saí para acompanhar e, somente naquele momento, senti uma pontada de culpa. havia me envolvido em uma bela situação constrangedora e, de fato, não havia como deixar os dois homens satisfeitos com a situação. Era óbvio que meu chefe tinha intenções mais profundas a meu respeito — o que me preocupava em relação ao meu trabalho, visto que boatos sobre isso poderiam começar a se fortalecer — e era inevitável que ele se sentisse chateado ao me ver acompanhada de outro homem — mesmo sendo algo não planejado —, que por sua vez poderia se sentir usado, de alguma forma, para gerar ciúme ou algo do tipo.
Fiquei um tempo sentada nos bancos do bar, apenas bebendo e pensando no constrangimento da situação e na promessa de receber meu chefe em minha casa para um novo encontro — decisão esta que eu não sabia se havia sido uma boa. Talvez estivesse na hora de ir embora para dormir e fingir que esta noite nunca acontecera. Até porque as tequilas e cervejas já começavam a pesar meu corpo e minha cabeça, e não era uma boa ideia deixar que eu ficasse bêbada e sozinha por muito tempo.
— Ei, Benji, a última da noite, por favor! — me assustei quando senti alguém extremamente próximo a mim e me virei rapidamente para encarar a pessoa sem noção que fazia isto, para, então, dar de cara com sorrindo desgraçadamente lindo em minha direção. — Achei que tinha ido embora com seu date. — sentou-se no banco ao meu lado e eu me esforcei para desfocar de seu rostinho ordinário e bonito.
— Bem, aqui estou eu... Não por muito tempo. — dei de ombros, ingerindo o que restava da minha bebida colorida e tentando me levantar logo em seguida, mas, como o esperado para alguém que tinha bebido sem reservas, cambaleei e o homem ao meu lado me segurou levemente por um dos braços fazendo-me sentar novamente. — Talvez só um pouco mais. — e então ele riu, fazendo-me encolher em meu assento diante daquele pequeno constrangimento.
— Vamos fazer assim: eu vou beber isto aqui o mais rápido possível — balançou a milésima cerveja que bebia naquela noite diante dos meus olhos — e eu te acompanho até sua casa. Você não está muito sã para andar sozinha a esta hora.
— Tudo bem... — respondi com um resmungo, constatando que já passavam das duas da manhã. Não podia recusar a oferta, pois, mesmo fisicamente alterada, meu cérebro ainda tinha noção de algumas coisas e não era seguro andar sozinha, bêbada e sonolenta pelas madrugadas de São Francisco.
Alguns minutos depois, estávamos saindo pela porta do Benji’s e entrando em um táxi em um completo silêncio. Enquanto a cidade passava pela janela do veículo, meu corpo começou a amolecer dando sinais de que estava sendo abatido pelo álcool. Os borrões me faziam ficar tonta e o silêncio do ambiente não ajudava nem um pouco. não pareceu perceber quando meu corpo se afundou ainda mais no estofado cheirando à velhice e cigarro.

Narrador

Só quando o taxi parou frente à portaria do prédio de é que se dera conta de que a mulher adormecera ao seu lado, não obtendo sucesso em acordá-la, e teve um breve momento, antes de pagar a corrida e carregá-la prédio a dentro, de agradecer aos céus por ter dado tempo dela dizer seu endereço.
— Menina ! O que é que te aconteceu? — o porteiro apareceu afoito no hall de entrada ao ver uma das moradoras mais simpáticas entrar no lugar carregada por um completo desconhecido — Ela está viva?
— Só está dormindo. O senhor pode me informar para qual andar e apartamento devo levá-la? — perguntou enquanto tentava equilibrar a moça em seus braços e chamar o elevador ao mesmo tempo.
— Não sei se posso, jovem. Nunca o vi por aqui. — o mais velho assumiu uma postura defensiva que fez o mais jovem bufar impaciente.
— Infelizmente, essa é sua única opção. Eu não acho que será necessário sair tentando abrir todas as portas deste edifício enquanto carrego a garota. — arqueeou uma de suas sobrancelhas, fazendo com que o porteiro cedesse e dissesse-lhe como chegar à casa de sob dezenas de recomendações.
Ao ficar de frente para a pequena porta branca, não restaram-lhe dúvidas de que aquele era o lugar certo. O pequeno arranjo de flores circular sobre o número 36 era algo que, com a pouca experiência que tivera, combinava perfeitamente com a garota dormindo em seus braços. Sua pequena bolsa repousava sobre seu ventre e o homem teve que se equilibrar para abri-la enquanto tentava manter a mulher em pé, segurando-o a com apenas um braço. Assim que a chave virou delicadamente na fechadura, pôde ouvir passos leves e constantes do outro lado do objeto de madeira que agora abria lentamente, revelando um focinho preto e uma carinha questionadora. O velho buldogue, sentado sobre suas patas traseiras, dividia o olhar entre sua dona completamente adormecida e o estranho que a carregava pela pequena sala, mas não pareceu se importar o suficiente para tentar atacá-lo. Talvez o animal soubesse que ali estava alguma espécie de salvador que estava ajudando sua mãe a sair de algum tipo de enrascada. Ele era apenas um cachorro, mas sabia muito bem que ela era o tipo de pessoa que só podia beber em casa, porque não tinha muito controle sobre seu limite alcoólico. Assim que a porta se fechou e resolveu desbravar o ambiente, Shock tomou a frente tentando guiar o visitante até o quarto.
Com a garota deitada, o homem procurou cobrí-la com o edredom pesado que repousava sobre a cama. Sua respiração era tranquila e sentiu-se tentado a passar uma de suas mãos sobre o rosto da nova conhecida para tirar alguns fios de cabelo que caíam ali, mas concentrou-se em dar meia volta e retornar para a sala, sendo seguido por seu novo amigo. Sem saber como se comportar naquela decisão, ficou indeciso entre ir embora e deixar um recado na geladeira para que a garota não se assustasse ao se ver em casa depois de um pequeno apagão, ou ficar e esperar para explicar pessoalmente aquela pequena peça do acaso. Não sabia se devia quebrar aquela barreira da liberdade que não tinha com a mulher, mas, por fim, decidiu que seria uma boa ideia ficar — só mais um pouco — para monitorá-la.
Sentou-se no sofá e permitiu-se observar o pequeno cômodo decorado com simplicidade — o que só enaltecia a personalidade que a dona dele parecia ter. Um pequeno porta-retrato sobre a mesa de centro chamou sua atenção e não hesitou em pegá-lo para ver de perto a foto envelhecida de uma família. Um homem sorridente dividindo suas bochechas para um beijo duplo de duas mulheres quase idênticas — se não fosse pela notável diferença de idade entre elas. A menor, em estranho reconhecimento, identificou como sendo a mesma que estava a dormir alguns passos longe dele. No segundo seguinte se pôs a rir da situação, no mínimo, esquisita em que se encontrava e daquela sensação idiota de ter que zelar pelo sono de uma semideconhecida. Não pode deixar de rir do cara que esteve com cara de enterro durante toda a noite no bar em clara demonstração de ciúme e permitiu-se pensar em como estaria sua expressão ao saber que, de certa forma, era quem estava no apartamento da garota no final da noite para cuidar que ela estivesse bem. E foi com essa pequena felicidade noturna que adormeceu, ali mesmo, sentado sobre o sofá de uma garota que ele mal conhecia.
Ser acordado por um latido era a última coisa que esperava e, ao abrir os olhos, atônito por se pegar dormindo em seu cargo de fiscal do sono alheio, avistou o cachorro de orelhas em pé com as patas dianteiras sobre seus joelhos. Se fosse um ser humano, aquele claramente era um pedido de socorro. O homem pôs-se de pé e se dirigiu rapidamente ao quarto onde, posteriormente, deixara , sendo seguido de perto por Shock. Assim que adentrou o cômodo, deparou-se com a mulher com metade de seu corpo para fora da cama e cabeça baixa enquanto vomitava todo o álcool ingerido. Em reflexo, correu para segurar seus cabelos enquanto ela fazia o piso de madeira de privada. Assim que o pequeno contratempo terminou, ela se jogou novamente sobre a cama, sentindo o aperto em seus cabelos se desfazer. Sabia que havia outro alguém em seu quarto e, se sua memória não estivesse tentando pregar-lhe uma peça, lembrava-se bem quem ele era.
— Por favor, me diga que não há nada importante que eu deva lembrar... — murmurou sem deixar de encarar o teto por um segundo sequer, sentindo seu coração bater descompassado com a pequena possibilidade de ter promovido qualquer mico além do vômito no chão.
— Não há. Você apenas apagou no caminho até aqui e eu não consegui te acordar. Me perdoe pela pequena invasão... achei que era uma boa saída. — o homem se prontificou a esclarecer e acalmá-la, sentindo-se satisfeito em falar quando pode vê-la soltar um suspiro aliviado.
— Obrigada. — ela agradeceu, ainda sem coragem para olhá-lo. Sentia-se envergonhada pela situação e jurava para si mesma que nunca mais colocaria uma gota de álcool em seu organismo se estivesse fora de casa, e a dor de cabeça que começava a aparecer era mais um motivo para reafirmar aquilo a si mesma.
— Tudo bem. Eu só quis ajudar e posso limpar essa bagunça pra você. — se dispôs ao perceber que a garota não fazia menção de se levantar dali tão cedo.
— Não mesmo! — ela tentou levantar, mas sentiu seu mundo rodar e caiu deitada novamente — Você não tem que fazer mais nada, muito menos limpar minha sujeira.
— Acho que você não está em condições de exigir em muita coisa... — debochou, fazendo-a rir minimamente — E, caso não se lembre, doutora German, eu tenho um filho. Lidar com a sujeira alheia é uma das minhas melhores especialidades de pai.
E foi assim que o rapaz deixou o quarto sob instruções para encontrar os equipamentos necessários para dar um jeito na bagunça de , que aproveitou para ir tomar um banho após constatar que já se passavam das três da manhã. Ela esperava que a água fizesse mais que lavar seu corpo: lavasse sua consciência da culpa que sentia por ter se permitido passar dos limites sem sequer perceber. Era por isso que sempre bebia em casa, de porta trancada e celular desligado, para que pudesse relaxar sem medo.
De dentro de seu banheiro, pode ouvir a porta do quarto sendo aberta e decidiu que tomaria banho frio como auto-punição por estar fazendo com que um estranho limpasse seu vômito. Ela não entendia qual a motivação que o homem tinha para cuidar dela da forma que estava fazendo e precisou ignorar as voltas que seu estômago deu.
Quando terminou seu trabalho, sorriu satisfeito do cheiro de lavanda que ficou no ambiente. Ele realmente sabia o que estava fazendo. Mas o aroma de flores sumiu quando abriu a porta do banheiro e saiu distraída, vestida com a calça e camiseta de um pijama e seus cabelos levemente molhado. O cheiro cítrico dela transformara o oxigênio dez vezes melhor de se inspirar e Tom tinha certeza que ficaria viciado.
A moça subiu seus olhos do piso agora limpo para o homem que segurava o rodo próximo de seu corpo. Não pode evitar sorrir envergonhada e cativada pela cena.
— Me assusta pensar em quantas vezes teve que lidar com vômito para saber limpar assim. — comentou, tentando descontrair, ignorando sua própria timidez. O homem tinha feito muito por ela naquela noite, então não podia se dar ao luxo de não ser educada e uma boa anfitriã.
— Foram mais vezes que eu desejava, não tenha dúvidas. — respondeu e os dois riram. não pode evitar reparar nas ruguinhas que se formavam em seus olhos quando ele sorria e observou como o sorriso dela era lindo. — Como está se sentindo? Precisa de algo?
— Estou bem — ela de fato estava, mas, mais tarde, providenciaria um comprimido para evitar ser pega de vez pela ressaca —, mas preciso ingerir algo que não seja alcoólico e gelado.
— Chocolate quente? — sugeriu — Eu posso fazer.
— Não! Você já fez demais. — sorriu e ambos saíram do quarto, seguindo para a cozinha — Eu me encarrego disto. — referiu-se à bebida e aos utensílios de limpeza, os quais fez questão de levar consigo para fora do quarto, sendo seguida de perto pelo homem.
Shock cochilava tranquilamente em sua caminha personalizada mas não demorou a levantar e caminhar em direção à sua dona quando a viu apontar no final do corredor. Ficou encarando-a como se quisesse verificar que tudo estava bem e abaixou-se o mínimo possível para deixar um carinho atrás de suas orelhas para confortá-lo. Enquanto os adultos se dirigiam à cozinha, o cachorro retornou para o seu lugar anterior para continuar aquilo que estava fazendo.
— Aqui está. Espero que agrade o chef. É a receita do meu pai, a não ser pela enorme bola de sorvete de creme que ele usaria como acompanhamento. — a mulher comentou, descontraída e um tanto nostálgica, enquanto servia uma caneca cheia de chocolate quente. Sentia falta de seu pai e reconhecia que precisava encontrar um tempo para disponibilizá-lo ao homem.
— Tenho que conhecer o homem sábio que mistura as duas melhores invenções do ser humano. — respondeu após dar um grande gole da bebida. Aquilo deixou um pouco sem graça e sem palavras. Imaginar o encontro entre os dois homens era algo que ela não conseguia enxergar como uma possibilidade, mas algo dentro de si nutria a certeza de que seria algo muito bonito. De certa forma, suas personalidades combinavam.
E, mais uma vez, o silêncio se estabeleceu enquanto tomavam a bebida recém preparada, mas isto estava longe de ser algo ruim. Era, no mínimo, aconchegante. Ela permitiu-se observar o homem sentado do outro lado do balcão que dividia a sala da cozinha. Sua postura impecável e ao mesmo tempo relaxada era algo lindo de se ver, assim como seu cabelo bagunçado na medida certa. Seus olhos escuros eram um mistério e ela pode sentir seu ventre se contrair em expectativa quando eles fitaram-na com a mesma curiosidade e, quando os lábios de sorriram, eles fizeram o mesmo. Dificilmente encontrava olhos que sorriam em adultos, estava acostumada a vê-los em seus pacientes, mini-pessoinhas inocentes, então não evitou sorrir em resposta antes de dar o último gole de sua bebida.
— Bem, vou para casa. Preciso chegar antes de o sol resolver dar as caras por completo. — o homem quebrou o silêncio, levantando-se para lavar sua caneca enquanto despertava de seu pequeno transe e espiava pela fresta na cortina da varanda para ver os tons da noite darem passagem para os primeiros raios de claridade. No pequeno relógio do aparelho da TV a cabo, conseguiu identificar os números que indicavam que era quase cinco horas da manhã. — É meu dia de ficar com Jonah.
— Ah, ok, claro! — ela apressou-se em responder quando apareceu ao seu lado, sem saber ao certo como se despedir — Muito obrigada, eu... Nem sei ao certo como agradecer pelo que fez por mim. — fitou seus pés numa tentativa frustrada de se concentrar.
— Não precisa. Eu fiz o que era necessário. Era isso ou deixar você ficar dando voltas dentro daquele maldito táxi fedendo a cigarro. — ele respondeu brincalhão e ela não exitou em encará-lo e sorrir.
— Obrigada, , de verdade. — soou sincera e ele alargou seu sorriso, assentindo em resposta.
Os dois rumaram até a porta, ele seguiu na frente e ela logo atrás, observando-o caminhar com as mãos nos bolsos frontais da calça.
— Você está bem mesmo? Eu posso ficar se for necessário. — ambos estavam no corredor do andar do apartamento de e esperavam enquanto o elevador subia do térreo.
— Estou bem, pode ir descansar. Seu filho deve esgotar o restinho de energia que eu exigi.
— Ok. — a porta do elevador se abriu — Essa é minha deixa. Obrigada pelo chocolate e pela companhia... — se aproximou e ela sentiu seu corpo congelar no lugar em que estava quando ele colocou uma de suas mãos em sua nuca e a outra em sua cintura puxando-a para mais perto. Seus olhos se encontraram e ela entrou em transe quando ele abriu um de seus sorrisos e, em seguida, depositou um beijo carinhoso em sua testa.
rapidamente impediu que a porta do cubículo de metal se fechasse, adentrando-o no instante seguinte. precisou de alguns segundos para se recompor e virar-se em direção a ele, que acenou antes de apertar o botão que o levaria ao térreo.
Quando ela voltou para sua casa, ouviu seu celular tocar uma única vez em algum lugar e demorou alguns minutos para encontrá-lo dentro da bolsa que levara consigo ao bar, que, por sua vez, estava caída embaixo do sofá. Na tela, sobre a foto de seu cachorro, estava a notificação de mensagem. Seu coração perdeu um batimento quando leu seu conteúdo.

Número desconhecido:
Finalmente apareceu a oportunidade de usar o número que você me deu. Esqueça aquela história de não precisar agradecer, pois acabei de encontrar uma forma de fazê-lo: venha ao meu restaurante hoje às 21h. Traga seu pai, farei uma receita especial com sorvete de creme para ele. E para você, claro. Hahahahahaha.

Antes mesmo que digitasse alguma resposta, a tela quase apagada do celular acendeu, indicando uma nova mensagem.

:
Ah, agora que não corro o risco de presenciar suas bochechas enrubescendo, posso dizer que você tem um cheiro incrível.

E, automaticamente, ela sentiu seu rosto arder, precisando bloquear o celular por um momento para se recompor. Refletiu sobre a proposta e considerou uma boa ideia. Precisava mesmo passar um tempo com seu pai e tinha certeza de que ele não recusaria a proposta.

G.:
Hahahahaha. Harry vai ficar muito metido ao descobrir que foi convidado pelo chef. Te vejo mais tarde. Boa noite, .

Preferiu ignorar a segunda mensagem por não saber ao certo o que dizer.

:
See you. Bom dia, .

E foi assim, com um sorriso estampado no rosto e uma pontada de ansiedade, que ela foi dormir: sentindo-se leve mesmo depois de diversas situações constrangedoras em uma mesma noite.


Capítulo 3


Entrar no Ô Xente! acompanhada de meu pai fora a melhor coisa que eu pude fazer no meu último dia de folga. Ele havia ficado tão feliz com o convite para jantarmos juntos, que eu me senti um pouco mais culpada de não dar a atenção que o homem que me criou com tanto amor merecia. Claro que meu pai era a pessoa mais compreensiva do mundo inteiro e sabia que meu trabalho exigia total dedicação de minha parte. Ser interna em um dos hospitais mais conceituados de São Francisco era o desejo de uma boa parte dos formandos em medicina da região e eu tinha total noção de que precisava valorizar essa oportunidade, visto que pouquíssimos programas permitiam que seus integrantes escolhessem uma única área para se especializarem e ainda abriam a possibilidade de uma promoção dentro do hospital. E, acompanhando de perto todo meu esforço para merecer estar onde eu estava, estava meu pai, sem me cobrar nada além de que eu desse meu melhor.
— Comida brasileira, bonequinha? É uma forma de me dizer que está com saudade de sua mãe? — o homem sentado à minha frente perguntou, fingindo falsa preocupação e me fazendo rir.
— Não se preocupe, querido Harry. Estamos aqui porque fomos convidados pelo chef. — dei de ombros, lendo o cardápio.
— Ok, vamos ver se ele sabe o que está fazendo ou se teremos que ensiná-lo algumas coisinhas. — respondeu, piscando em minha direção.
— Papai, o que nós sabemos? — caçoei, observando as opções de entrada enquanto um garçom servia uma cestinha de algo que eu reconheceria a léguas de distância. Pão de queijo. — Aí está sua primeira oportunidade de dizer se ele sabe o que está fazendo.
— Elaine ficaria orgulhosa disso. — comentou, admirado, após provar um dos pãezinhos.
Neste momento eu pude sentir meu celular, previamente colocado no modo mudo, vibrando. Peguei-o e pude ver o nome de na tela de bloqueio.

:
Você veio mesmo!!!! Está linda. Te vejo na sobremesa. ;)

:
Eu disse que viria.

Corri meus olhos pelo grande salão à procura do homem que parecia estar me vendo de algum lugar, sem sucesso para encontrá-lo, com um sorriso rasgando a face. Saber que ele estava em algum lugar por ali me fez sentir coisas no estômago que preferi ignorar, contrária à atitude de meu pai, que pareceu perceber o sorriso dançando em meus lábios.
— Há algo que eu precise saber sobre esse chef que nos convidou até aqui, minha filha? — me encarou, curioso, e eu pude ver uma ruguinha de preocupação dançar em entre suas sobrancelhas por um pequeno instante.
— Não, papai. — sorri carinhosamente em sua direção, vendo-o estreitar seus olhos ponderando se acreditaria ou não em minha resposta.
— Ainda serei o primeiro a saber, caso alguém tire seu coração de minhas mãos?
— Você sabe que sim. — depositei uma de minhas mãos sobre a sua, que estava disposta sobre a mesa, e ele a virou para apertar minimamente a minha.
Neste momento o garçom se aproximou para saber se já tínhamos noção do que pediríamos e meu pai sugeriu que deixássemos o meu amigo chef escolher nossas refeições, e achei por bem concordar. Poucos minutos depois, estávamos sendo servidos com uma variedade enorme de pratos típicos, muitos desconhecidos para nós, que tivemos pouca experiência com a culinária do país que possuía metade da minha nacionalidade. Fomos surpreendidos pela sensação de provar tantas coisas novas e não ficamos decepcionados com nenhuma delas. À esta altura, meu pai era só elogios para o restaurante e eu concordava plenamente com sua opinião.
— Seu irmão entrou em contato por esses dias? — Harry quebrou o silêncio e o assunto repentino chamou minha atenção.
— Há alguns dias, sim. Qual o motivo da pergunta, pai? Aconteceu alguma coisa com ele, Berta ou o bebê? — perguntei, curiosa, e meu pai negou com um movimento sutil de cabeça.
— Ele só não falou comigo desde que se mudou. — deu de ombros, tristonho, fazendo meu coração quebrar em pedacinhos. Trevor tinha um gênio difícil de lidar e, quase sempre, meu pai era a maior vítima de sua personalidade.
— Pai, você sabe que ele deve estar tentando te punir por dizer o que pensa sobre toda a situação... Ele irá ligar, vocês sempre se acertam no fim. — confortei o homem com um carinho nas mãos, vendo-o assentir.
Quando, enfim, terminamos o prato principal — moqueca de camarão, feita com um óleo alaranjado chamado dendê que eu não fazia idéia de que era feito —, não consegui evitar a ansiedade que crescera em meu corpo por saber que agora seria o momento em que apareceria, e não demorou muito para que o fizesse.
Pude vê-lo sair de uma das portas que estavam mais afastadas do lugar, trazendo consigo uma pequena jarra de cerâmica branca enquanto o garçom que nos atendia trazia uma bandeja. Nossos olhos se encontraram por um breve momento e ele sorriu daquele maldito — e encantador — jeito.
— Boa noite. — cumprimentou-nos educadamente, levando um tempo maior olhando em minha direção, e ao mesmo tempo seu ajudante colocava uma grande esfera de chocolate em nossa frente. — Ouvi dizer que o senhor é um grande fã de sorvete de creme, Harry.
— Ouviu certo, filho. — meu pai assentiu, curioso com o doce disposto a nossa frente. Eu tentava manter o controle do meu corpo, evitando encará-lo demais.
— Isto que vocês estão vendo é uma esfera de chocolate setenta por cento com sorvete de creme caseiro, brigadeiro de caju e chocolate quente branco.
O queixo do homem à minha frente foi parar em seus joelhos quando despejou delicadamente o líquido quente sobre a esfera, fazendo-a dividir-se em quatro partes, revelando seu interior onde estavam o sorvete e o brigadeiro.
— Vai ser um pouco difícil servir chocolate quente com sorvete pra você daqui pra frente, . — meu pai comentou, boquiaberto, fazendo com que eu e meu recente amigo ríssemos. — Espero que isso seja bom como é bonito. — E de fato era. já havia se sentado conosco e a sobremesa que serviu estava quase no fim. Era uma mistura desumana de tão boa.
Os pelos do meu corpo faziam questão de permanecerem arrepiados com a proximidade do homem ao meu lado e eu me sentia como uma adolescente estúpida sem conseguir encará-lo ou manter uma conversa decente. Era uma mistura de atração e resquícios de timidez, resultantes da noite anterior. Graças aos céus meu pai estava presente e não deixava o assunto morrer. Conseguiu extrair mais informações de que eu já havia conseguido nas poucas vezes que nos encontramos e cedeu material informativo suficiente sobre mim para que ele fosse capaz de escrever minha biografia, o que me fazia lançar olhares reprovadores ao meu progenitor algumas vezes.
— Está na minha hora, querida. Você se importa se formos embora agora? Sabe que eu não gosto de ficar acordado até tão tarde e está quase passando das onze. — Harry perguntou-me, fazendo com que eu me assustasse com a velocidade em que o tempo passara. — Claro, papai. Vou pagar a conta e nós vamos, um minuto. — me apressei em chamar um dos garçons, que não demorou a vir em nossa direção. — Precisamos da conta, por favor. — informei-o e ele sorriu minimamente para seu chefe, sentado ao meu lado.
— A conta já foi paga, senhorita. — me informou, fazendo-me olhar atônita para .
— De jeito nenhum, ! — neguei, levando a mão à carteira dentro da pequena bolsa que levara comigo.
— Eu fiz o convite, não mencionei nada sobre pagamento. — sorriu, travesso, fazendo com que meu pai gargalhasse enquanto colocava-se de pé, pronto para ir embora.
— Gostei de você, . Venha até minha casa qualquer dia para continuarmos nossa conversa. — estendeu uma de suas mãos na direção do homem para despedir-se e cordialmente a pegou.
— Assim que houver uma oportunidade, Harry. Foi um prazer recebê-lo. — virou-se em minha direção e meu pai pigarreou dizendo que me esperaria no carro. — E você, vai me convidar para ir até sua casa novamente? — perguntou, descontraído.
— Estou quase me obrigando a isso, porque você me deixa sem graça de receber favores com tamanha frequência, não era necessário. — comentei sem jeito, inspirando profundamente. Uma de suas mãos foi direcionada à minha cintura e eu poderia jurar sentir uma descarga elétrica no mesmo local.
— Não entenda como um favor, mas como um presente. — revirei os olhos sem me deixar convencer. Estava visivelmente incomodada com a situação. — Olha, vamos fazer um acordo? Fique aqui e me espere fechar o restaurante. Posso receber sua companhia como uma forma de pagamento.
Encarei-o, procurando por qualquer traço de deboche, mas o que encontrei foi seu olhar mais sério que nunca. Suspirei, passando uma das mãos sobre o rosto em sinal de desistência.
— Amanhã é meu dia de trabalhar, não posso ficar até tarde e... — tentei argumentar e ele pareceu irredutível. — Deixe-me avisar meu pai, ele deve estar me esperando. — me deixei convencer e ele assentiu.
Alguns minutos depois eu estava de volta ao restaurante sob piadinhas e recomendações de meu pai. O ambiente já estava quase vazio, não fosse por uma ou duas mesas ainda ocupadas por alguns casais. pediu que eu esperasse até que ele terminasse de resolver algumas coisas para que pudéssemos sair e assim foi feito.
Caminhamos lado a lado pelas ruas da cidade, aproveitando o frescor causado pelo mar não tão distante dali. O cheiro do sal foi convidativo e me senti à vontade para pedir que fôssemos pela praia, tendo meu desejo acatado.
— Então, doutora Germane, me conte mais sobre sua profissão. — ele puxou assunto e eu me senti verdadeiramente animada. Era sempre uma alegria falar do meu trabalho.
— Ah, a medicina é algo que eu amo e pediatria foi só mais um passo em direção ao óbvio. Desde antes de entrar na universidade, eu sabia em que direção queria seguir. — respondi.
— E como está sendo trabalhar na área? Tudo que sonhou? — com uma de suas mãos na base da minha coluna, me direcionou à areia branquinha, mudando nosso percurso.
— É bem mais que sonhei e muito cansativo também, mas extremamente gratificante. É incrível lidar com as crianças. Mesmo doentes elas transmitem vida com apenas um olhar e, às vezes, é tudo que preciso. Nós temos a tendência de supervalorizar algumas situações tolas, e presenciar a luta diária de cada um desses serezinhos é uma lição e tanto. — respondi, emotiva, enquanto tirava minhas sapatilhas para sentir a areia sob os pés.
— Posso imaginar. Jonah está em minha vida há apenas dez anos e eu não sou capaz de contar quantas coisas ele me ensinou. — sentou-se, puxando delicadamente uma de minhas mãos para que eu me sentasse ao seu lado.
— Como ele está? Passou a comer melhor ou ainda temos imprevistos na escola? — perguntei, realmente preocupada com a saúde do meu paciente recente.
— Está melhor. Eu e sua mãe estamos de olho nele em todas as refeições para garantir que ele está comendo o que precisa, embora ele tente nos dobrar algumas vezes. — sua resposta me fez rir, mas não pude evitar a curiosidade gerada quando mencionou a mãe de seu filho.
— Como é a relação de vocês? — antes que eu pudesse pensar, as palavras saíram da minha boca. Eu estava verdadeiramente curiosa e ele me olhou com a expressão confusa pela mudança de assunto. — Entre você e a mãe de Jonah. — expliquei.
— Nos damos relativamente bem e nos respeitamos em consideração ao nosso filho e aos quinze anos que passamos juntos. — deu de ombros e eu assenti, ato que ele entendeu como incentivo a continuar. — Nos comunicamos para falar dele, única e exclusivamente. Seguimos nossa vida, cada um na sua. Nosso divórcio não foi fácil, mas aprendemos a nos tolerar e sermos um pouco mais empáticos com nossos sentimentos, ambos sofremos.
— Faz muito tempo que se separaram?
— Dois anos. O começo foi bem difícil, mas adaptamos nossa rotina para que Jonah não fosse vítima da nossa relação fracassada e tem funcionado. Ele precisa de nós dois.
— De fato precisa. Meus pais são separados desde meus dezesseis anos e a minha sorte foi tê-los explicando a situação para que eu não me sentisse frustrada em ter minha mãe morando em outro país e não poder contar com a presença dela. Meu pai fez um bom trabalho comigo, mas meu irmão foi um pouco mais complicado. — falar de minha família era algo que me deixava um pouco mais emotiva que o normal. Nós não éramos quebrados, mas eu sentia falta de ter dois pedaços meus por perto.
— Então você tem um irmão? — virou-se para mim e eu sorri da forma fofa com que ele demonstrava interesse em minha história.
— Um irmão mais novo que, totalmente como o esperado, é um pouco inconsequente. O garoto tem vinte anos, chutou a faculdade, se casou há seis meses e vai me dar um sobrinho daqui um. Pode imaginar a pequena confusão que foi dar a notícia aos meus pais, principalmente com um deles morando no sul do continente? — ri, me lembrando do dia em que Trevor jogou a bomba em meu colo pedindo ajuda para impedir que meu pai o fizesse voltar amarrado para a universidade — Ele tem a personalidade da nossa mãe e eu sou o próprio Harry. Nossos quatro anos de diferença criaram duas pessoas totalmente diferentes e ao mesmo tempo tão unidas, que é estranho não tê-lo aqui. — concluí meu discurso, me concentrando nas ondas do mar que quebravam na areia.
— Eu imaginava que você fosse um pouco mais velha do que disse ser. — deu um meio sorriso e eu continuei quieta, tentando formular uma resposta para seu comentário. — Não me leve a mal — continuou ao perceber que eu não falaria nada — Você aparenta uma maturidade que ninguém espera de uma garota de vinte e quatro anos. — deu de ombros.
— Idade é só um número. — imitei seu gesto com os ombros e abracei meus joelhos ao sentir a brisa vinda do mar.
— Este é um bom pensamento. — espreguiçou-se, rindo minimamente. Sua resposta me deixou curiosa sobre sua idade, mas não consegui perguntar a respeito. — A que horas você precisa estar no hospital amanhã? — retirou seu celular de um dos bolsos para rapidamente ver as horas.
— Às seis. — suspirei, levantando-me em seguida — Melhor irmos... Do contrário, só poderei dormir de verdade daqui cinco dias. — brinquei, arrancando uma risada gostosa dele, que se levantou e me acompanhou para fora da praia. Não demoramos tanto até chegarmos à calçada do meu prédio, visto que não estávamos tão longe.
— Está entregue. — paramos em frente à portaria — Acho que desta vez consegue ir sozinha, certo?
— É... sim. — pude sentir minhas bochechas esquentarem, o que o fez rir.
— Então vá, nenhum de nós quer você dormindo sobre seus pacientes durante a semana. — debochou, fazendo-me cerrar em sua direção.
— Ok, engraçadinho. Boa noite. — dei um passo à frente, aproximando-me desajeitadamente. Lançou-me um de seus sorrisos desconcertantes e, antes que meu cérebro pudesse se desligar dele, puxou-me para um abraço que correspondi sem jeito. Uma de suas mãos fez um carinho delicado em meus cabelos e eu me afastei o suficiente para olhar seu rosto. — Obrigada pela noite, pelo jantar. Minha dívida com você está ficando enorme, não sei até quando irá aguentar. — brinquei, fazendo-o alargar o sorriso.
— Eu quem agradeço. — soltou-me do abraço, mas permaneceu segurando minha mão. Seu polegar deixava pequenas descargas elétricas sobre ela enquanto movia-se numa forma de carinho. Eu precisava entrar, mas era claro que nenhum de nós queria romper aquele pequeno contato, porém precisei fazê-lo. — Boa noite, .
Dei-lhe um último sorriso antes de me virar e caminhar prédio adentro. Enquanto esperava o elevador, pude vê-lo entrar em um táxi, sumindo do alcance dos meus olhos. Como em um susto, soltei o ar de meus pulmões, fechando os olhos com força para tentar entender o que é que eu estava sentindo. Ao ver meu reflexo no espelho do elevador, constatei aquilo que já imaginava — por conta do incômodo nas bochechas que começava a sentir: eu não parava de sorrir. Era fácil perceber a energia que emanava de meu corpo e havia alguns meses que eu não me sentia assim.
Talvez, mas só talvez, o conselho que me dera há alguns dias estivesse certo — não que ela precisasse saber disso — e eu realmente precisava sair mais e deixar que as coisas fossem mais leves de vez em quando. Eu não sabia ao certo como fazê-lo, mas parecia estar tomando o caminho certo. Pensando nisso, digitei rapidamente um “obrigada” e enviei por mensagem à minha amiga que, mesmo de uma forma um pouco torta, havia me ajudado a dar o primeiro passo. Havia outra mensagem no aplicativo e meu sorriso se alargou ainda mais ao lê-la, sendo acompanhado por um arrepio que subiu minha espinha.

:
Existem muitas formas de agradecimento e eu tenho algumas ideias para cobrá-las. Durma bem, doutora.


— Ok, garotinha, você precisa me explicar o que quis dizer com aquela mensagem ontem à noite. — me seguia pelos corredores do hospital enquanto caminhávamos em direção à grande praça de alimentação.
— Ai, , eu só estava sendo gentil. Você é uma boa amiga quando quer. — debochei, pagando por um sanduíche de atum.
— Vai precisar de muito mais pra me convencer, . Desembucha. — ela revirou os olhos, fazendo-me rir. — A última coisa que fiz na tentativa de te ajudar foi convidar para o bar e, pelo que me lembro, você não ficou nada grata.
— Antes de convidá-lo, você me convidou. — dei ênfase na palavra e minha amiga me encarou, ainda sem entender — Jesus, você está lerda essa manhã.
— Ou você que está falando em códigos e eu não sou nenhum tipo de Sherlock Holmes pra descobrir suas charadinhas. — sentamos em uma das mesas dispostas sobre a grande praça.
— Sair foi uma boa ideia, obrigada, você é a melhor. Está bom assim pra você? — forcei um sorriso.
Great. Estamos evoluindo nesta amizade. — brincou — Quando foi que eu estive errada?
— Quer a resposta em ordem alfabética ou por grau de raiva que me causou? — questionei com ironia e uma das sobrancelhas arqueadas.
You know you love me. — piscou e lançou um beijo em minha direção. Contentei-me em mostrar-lhe o dedo do meio. Minha amiga pareceu focar seus olhos em algum ponto em minhas costas, mas fez um sinal discreto com a cabeça para que eu não me virasse. — Você tem 30 segundos para me dizer como estão as coisas com seu chefe porque ele está aqui e vindo em nossa direção. — falou sem mover demais os lábios de forma que apenas nós duas entendêssemos.
Minhas mãos gelaram e senti um calafrio tomar meu corpo. Eu sequer havia me lembrado dele durante o dia que se passou, e o peso da promessa, feita na última vez que nos vimos, logo caiu sobre mim, minando uma parte da minha animação naquela manhã. E EU ESTAVA COMENDO PEIXE!
Oh, God, não ouse se levantar desta cadeira. — implorei, vendo-a assentir rapidamente cedendo ao meu pedido.
Senti alguns fios de cabelo da minha nuca se eriçarem e passei a ouvir os passos rápidos do homem que estava vindo até nós.
— Olá, garotas — puxou uma cadeira ao meu lado e sentou-se com o corpo totalmente virado para mim. Ele sorria quando esticou uma das mãos, tocando a minha que estava livre repousada sobre minha perna. Meu corpo ficou rígido com a aproximação inesperada. — Como você está?
— É... — pigarreou, percebendo que o homem não havia se importado muito com a presença dela ali (o que foi uma atitude um tanto rude de sua parte) — Vou indo, amiga, te vejo no fim do dia. — levantou-se rapidamente, recolhendo o que restava de sua comida e saiu, ignorando meus olhares desesperados de pedidos de socorro.
— Hum, estou bem, doutor . E o senhor? — forcei um sorriso que não convenceu nem mesmo a mim e me virei em sua direção, soltando discretamente sua mão.
— Quanta formalidade, . — riu, recostando-se na cadeira e esticando seus braços, apoiando-os atrás de sua cabeça de maneira relaxada, o que fez eu amaldiçoar até sua última geração. Por que é que ele tinha que ser tão bonito? — Nem parece que já saímos duas vezes e vamos sair uma terceira. — continuou rindo e eu coloquei uma mecha do meu cabelo atrás da orelha, sem saber o que fazer com meu nervosismo.
— Sorry. — pedi, tímida, e ele piscou para mim. Aqueles malditos olhos azuis acinzentados. — É difícil abandonar o profissionalismo nas dependências do hospital. — tentei sorrir genuinamente desta vez e pareceu funcionar.
— Então... Eu estava arrumando nossa escala de folga e vi que as suas cairão no final de semana, — assenti, sentindo meu estômago embrulhar com o assunto e seu possível desfecho — e eu pensei que, talvez, o sábado fosse um bom dia para marcarmos aquele jantar. O que acha? — apenas assenti, concordando com a proposta. — Ok. No seu apartamento? — confirmou, vendo-me assentir novamente — Ótimo. A bebida é por minha conta.
— Estamos combinados, dout... — lançou-me um olhar de reprovação — .
— Certo. Preciso voltar ao trabalho. — e foi então que aproximou-se, fazendo-me sentir sua respiração batendo em meu rosto. Meu olhos focaram em seus lábios, involuntariamente, e ele sorriu ao perceber. Perigosamente perto. Em meio à praça de alimentação do hospital em que eu trabalhava.
Minhas mãos começaram a suar e eu podia sentir o esforço que meus pulmões estavam tendo que fazer para respirar. Um pequeno ataque de pânico estava prestes a começar quando o pager guardado no fundo do bolso de meu jaleco, jogado no encosto da cadeira, apitou avisando-me que havia algum chamado na pediatria.
— Eu... tenho que ir. — falei, apressada, tratando de levantar o mais rápido possível e sendo acompanhada por ele. Meu chefe mostrou seus dentes num sorriso estupidamente desconcertante e deu um passo à frente, colocando uma de suas mãos em uma das minhas bochechas deixando um beijo na outra.
Cheguei correndo na ala emergencial, pois a mensagem que recebi pedia para que eu fosse o mais rápido possível até o local e por isso, quando cheguei, estava ofegante e com os batimentos cardíacos acelerados. Uma das enfermeiras do local, Diana, apressou-se em entregar o tablet com a ficha do paciente aberta e dizer-me onde ele estava ao passo que fui até lá. Pude ler, escrito em caixa alta, CHOQUE ANAFILÁTICO*, procurando imediatamente as informações básicas do paciente: Jonah, dez anos. Meu coração deu um salto e eu adentrei a pequena sala onde estavam outra enfermeira e . Meus olhos se prenderam a ele por um momento antes que pudesse perceber minha presença no lugar.
— Meu filho não está respirando, onde está a doutora Germane? — ele perguntou em um tom desesperado, acordando-me do transe. Me aproximei da maca onde o garoto estava deitado. Seus olhos e lábios estavam inchados
Thanks, God, você está aqui. Por favor, , por tudo que é mais sagrado... — o homem continuou a dizer quando me viu pegando a máscara de oxigênio. O garoto estava chorando muito.
— Ei, Jonah, eu sei que é difícil, mas se acalme... Vamos tentar respirar fundo, ok? Juntos. — me abaixei, ficando próxima de seu rosto para que ele pudesse me ver enquanto colocava a máscara nele. — No três. Um, dois, três... — ele inspirou profundamente. Pedi a Diana que aplicasse uma injeção de adrenalina para que os sintomas não evoluíssem. — Está tudo bem, se acalme. — pedi, vendo o menino tentar fazer o que eu dizia. estava em pé à beira da maca e tinha os olhos marejados. — Você está bem? — perguntei, olhando fixamente em sua direção, vendo-o assentir. — Como isso aconteceu?
— Ele estava provando uma sobremesa e... — inspirou profundamente em sinal de cansaço — tudo isso aconteceu.
— Certo. E havia algo diferente nesta sobremesa, algo que ele estava comendo pela primeira vez? — perguntei, pegando o tablet para atualizar o prontuário do garoto.
— Não me lembro, , será que você pode não fazer perguntas por enquanto? — perguntou, impaciente, enquanto se jogava em uma poltrona que estava no local, e passou as mãos no cabelo demonstrando nervosismo. Era completamente compreensível que ele estivesse estressado, mas não tinha como não me sentir mal com a grosseria. Eu estava apenas fazendo meu trabalho. Voltei-me para o menino, agora mais calmo e com menos dificuldade para respirar, e segurei sua mão.
— Você já está melhorando, ok? Eu vou te deixar descansar e, daqui a pouco, Diana vem ver se podemos tirar a máscara. Tudo bem? — sorri, transmitindo tranquilidade para o garoto que me respondeu com um “uhum”. — Ótimo. Eu volto pra te ver. — segui para a porta, sentindo os olhos do mais velho sobre mim, mas, sem negar meu descontentamento pelo tratamento que ele havia me oferecido, saí do quarto. Caminhei em direção à recepção, onde a enfermeira que me auxiliara estava para avisá-la de que eu não estaria com Jonah por algumas horas, mas, antes mesmo que eu chegasse até ela, senti uma mão tocar meu braço, fazendo-me virar num pulo de susto. — Ah, oi. — encarei a expressão sem graça de .
— Oi... Você pode pedir à mãe dele que venha até aqui? — pediu sem graça e, involuntariamente, cerrei os olhos em sua direção — É que eu saí correndo e não peguei o celular. — bagunçou os cabelos de sua nuca.
— Certo. O senhor precisa de algo mais? — perguntei formal, tentando demonstrar indiferença enquanto mexia freneticamente no aparelho em minhas mãos à procura do número de telefone da mulher.
, me perdoe. — pediu, segurando meu punho com delicadeza para que eu olhasse em sua direção e assim o fiz — Eu falei de maneira equivocada com você. Eu me desesperei com a situação, mas isso não é justificativa para minha atitude. Me perdoe mesmo. — suspirou e tentou sorrir. Imitei sua atitude e resolvi relaxar.
— Está tudo bem. — vi-o assentir — Vou tentar ligar e venho avisar caso não consiga. É melhor você ficar com seu filho agora... Se algo acontecer, peça a Diana para me chamar. — enquanto ele voltava para o quarto, fui fazer o que havia me pedido.
Trabalhar na emergência era uma montanha-russa. Em alguns dias não tinha tempo nem para comer e, em outros, passava praticamente todo o tempo preenchendo prontuários e fazendo relatórios, e — tirando o episódio de Jonah — aquele era um desses. Depois de passar na oncologia pediátrica para checar alguns pacientes, fui para a sala de estudos. O trabalho era, basicamente, atualizar informações, conferir se os retornos estavam agendados, ler novos casos clínicos e fazer o relatório diário. Geralmente, nesses dias, as horas demoravam a passar, mas naquele, em especial, elas correram, e a hora de ir para casa chegou depressa. Eu só precisaria entregar o relatório para e ver como Jonah estava.
Meu chefe não se encontrava em sua sala quando fui até lá, então deixei os papéis sobre sua mesa. Em seguida, me dirigi até o quarto do meu paciente. No meio do caminho, encontrei-me com . Seu dia estava sendo mais corrido que o meu, então não tentei conversar por muito tempo, para não atrapalhá-la. Ao chegar no quarto de Jonah, encontrei sua mãe sentada à beira de sua cama, enquanto o garoto dormia, e sentado no sofá ao canto do ambiente. O menino estava melhor e seu rosto estava menos inchado, mas, ainda assim, pedi que passasse a noite em observação. Seu pai, ao conversar comigo, disse que o único alimento diferente que o garoto havia ingerido fora um doce brasileiro feito de amendoim. Por isso, antes de deixar o hospital, deixei uma consulta agendada com o alergologista.

— Olá, raio de sol! — adentrou o vestiário feminino com bastante animação, contrastando com meu cansaço.
— Oi, Feliz! — ironizei, mencionando um dos duendes da história da Branca de Neve. Eu estava sentada em um dos bancos posicionados frente ao grande armário de metal. — Posso saber o motivo desse sorrisinho?
— Seu amorzinho perdeu tanto tempo beijando sua boquinha no meio da praça de alimentação que nem te contou? — virou-se em minha direção depois de fechar a porta do seu espaço no armário, dando de cara com minha expressão perdida. Eu não fazia ideia do que ela estava falando. — Um de nós será efetivado como residente chefe, sem prova, se inscrevermos um trabalho científico numa espécie de competição do hospital. — ela deu alguns pulinhos em comemoração, fazendo meu sorriso aparecer como mágica. Desde meu primeiro ano trabalhando ali, quando conheci , sei que ela estava esperando uma oportunidade como esta. Seu trabalho estava praticamente pronto, pois ela investia boa parte de seu tempo em pesquisas.
— Meu Deus! — me levantei e começamos a pular juntas — Meu Deus!
— Sim! É a minha oportunidade! — ela falou, emocionada — Você não pensa em se inscrever, ? — sentou-se onde eu estava anteriormente.
— Eu não teria chances competindo com você! — brinquei, fazendo-a rir — Não, sério, sequer tenho um projeto de pesquisa. Você sabe que não está nos meus planos, por enquanto. Estarei aqui pra te apoiar e receber uma porcentagem do seu prêmio como pagamento pela minha ilustríssima amizade.
— Ah, claro. — revirou os olhos sem deixar de sorrir — Vamos sair e beber pra comemorar?
— Sem chances. — suspirei — Ainda estou me recuperando do trauma da última vez que você me convenceu a fazer isto. Quero ir pra casa, ficar com meu filhote e dormir na paz do Senhor Jesus. Pode me dar uma carona até lá?
— Você fica mais ranzinza e sem graça com o passar do tempo. Estou verdadeiramente preocupada com isto. — colocou uma de suas mãos em meu ombro e foi minha vez de revirar os olhos. — Dou sua carona, sim, tenho medo de sequestrarem meu bebê...
— E voltamos ao Dunga! — debochei, recebendo um tapa como resposta.

*Anafilaxia: reação alérgica aguda que, não sendo socorrida imediatamente, pode ser fatal.


Continua...



Nota da autora: Oi gente! Acho que esta foi a atualização com menor espaçamento de tempo desde que comecei e preciso dizer que estou orgulhosa de mim hahahaha. O que acharam do nosso chef de comida brasileira? Spoiler do próximo capítulo: teremos interações mais concretas entre a PP e o PP2. Já estou com várias idéias e quero muito colocá-las em prática. Por enquanto é isto. Não esqueçam de comentar (amo ler vocês animadas com algo que eu criei com tanto amor e há muito tempo em meu coração)! Beijinhos.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


comments powered by Disqus