Última atualização: 14/01/2020

Capítulo 1

– Você ouviu o que eu disse, ?
sentou-se na cama superior de sua beliche e puxou o macbook para seu colo. Dessa vez, estava tão bêbada que sequer se preocupou em xingar o bom velhinho que lhe dera o aparelho. Tudo bem, não odiava seu pai, até porque se esforçava muito todos os dias para não se importar o suficiente para odia-lo, mas, vejam só! Ele lhe comprara um novo notebook da queridinha da Apple e pagava sua faculdade. Um bom cretino fazia assim: comprava a dependência da filha.
– Temos um trabalho para amanhã, Kate, droga! – piscou várias vezes até ter a sensação de uma vista desembaçada.
Kate, sua parceira de quarto, largou-se no pequeno sofá e caiu na gargalhada. Os olhos chapados queimavam em vermelho e – por muito pouco – o cigarro que tinha entre os dedos quase começou um incêndio ao tirar uma finadas cortinas, Kate soltou um gritinho e ligou a televisão.
– Não esqueça de colocar meu nome nos créditos quando terminar, querida – ela sorriu enquanto afundava seu cigarro no cinzeiro ao lado da beliche – pela minha participação em... cinco palavras das vinte mil.
lançou a cabeça para trás, sentindo-a afundar no travesseiro. Fechou os olhos, toda a cerveja que bebera visitou seu esôfago e a fez lembrar dos tempos de colégio. Não foi uma sensação muito boa.
– Estamos ferradas – ela concluiu, tentando prender o riso que tentava escapar de sua garganta junto com o ácido de seu estômago.
Não aguentou. As duas caíram na gargalhada.
sabia que não era a universitária perfeita e que, a julgar pela divisão dos dormitórios por curso, todo seu corredor – ou andar – concordava com ela. Para começar, Katherine e nunca tinham horário para voltar para o quarto, o que, para , era totalmente culpa de Kate, além de não se preocuparem nem um pouco com o barulho. Naquela quinta-feira, por exemplo, e Kate subiram as escadas às duas da manhã, contando umas as outras sobre os acontecimentos da festa submundana em um dos bares da redondeza. E, como se gritar nos corredores não fosse o suficiente, agora ruam como duas descontroladas enquanto ouviam um rock pesado sair de uma reportagem de TV no último volume.
Alunos de ciências políticas de Harvard gostavam de seguir as regras, mas isso não parecia ser uma opção para nenhuma das duas.
Por isso, não ficaram surpresas ao ouvir as batidas na porta. Ao ver que Kate nem mesmo se mexera, deixou um sorrisinho alterado nos lábios e saltou de sua cama para atender a porta.
– Pois não? – , por pura infantilidade, abriu apenas uma frestinha da porta por onde espremeu um de seus olhos castanhos. Ela se virou com uma careta divertida para Kate ao constatar que a mulher que batia em sua porta era Melinda Douglas, a responsável pelo andar.
A antipatia da inspetora pelas duas era tão grande que nem mesmo esperou que lhe desse passagem – apenas empurrou com força a porta do dormitório, cuja maçaneta não foi nem um pouco delicada ao acertar a boca do estômago da estudante. Melinda manteve a porta aberta enquanto encarava as duas com uma expressão de desaprovação.
– Eu já perdi a conta de quantos avisos eu já dei a vocês, meninas – ela sussurrou, mas parecia querer gritar – a não ser que tenha um palhaço aqui dentro, parem de dar risada, ou melhor, relincharem dentro desse quarto. Tem pessoas querendo dormir. E abaixem agora mesmo essa televisão.
Kate finalmente tirou o travesseiro que cobria seu rosto e apontou para a televisão.
– Não acredito que você, logo você – Kate falava como se estivesse muito ofendida. escondeu o sorriso com a mão – fã número um do bom e velho rock’n roll, está me pedindo para desligar a televisão enquanto a Incubus dá um show exclusivo na Wembley. Você me decepciona, Douglas.
O rosto de Melinda estava tão vermelho que pensou que a mulher fosse explodir.
– Desliguem essa porcaria – ela repetiu sem pensar duas vezes – e falem mais baixo. Se eu precisar voltar aqui hoje, vai ser para expulsar as duas desse dormitório.
Então ela mesma pegou o controle de cima do sofá e abaixou o volume para o cinco antes de fechar delicadamente a porta e deixar e Kate sozinhas com o difícil desafio de não cair na gargalhada.
, sem um pingo de sono ou vontade de concluir o trabalho, sentou-se ao lado de Kate no sofá e observou o show na televisão. Já ouvira falar sobre aquela banda, era impossível não saber quem era ela, principalmente quando se passava vinte e quatro horas ao lado de Katherine Ward. Além disso, a Incubus havia trazido de volta à tona a fama monumental do rock da década de setenta. até mesmo já ouvira algumas músicas no iPod de Kate, mas, para ela, se o estilo musical não tivesse indie no nome, não estava interessada.
, você não deveria me deixar assistir a eles antes de dormir – Kate lamentou após um longo período de transe – vou ter sonhos eróticos.
Com uma careta, levantou-se do sofá e voltou a escalar até sua cama para tentar pegar no sono.
–Nossa amizade tem limites, Kate. Limites.


Alyssa Mitchell amava sua profissão. Ela precisava se lembrar e repetir isso mentalmente várias vezes em que se encontrava em situações humilhantes, como aquela, para conseguir uma única manchete.
Enquanto se esgueirava em meio à multidão de adolescentes – e adultos! – suados em frente ao The Milestone Hotel, Alyssa pensou em todo seu curso de jornalismo, e se lembrou de como era importante agir sempre como se estivesse cem por cento segura do que estava fazendo.
Com as energias renovadas, Mitchell deslizou pelas groupies e contornou o edifício até a rua de trás. Seu plano parecia loucura, mas, como ela gostava de lembrar, amava sua profissão. Por isso, ao encontrar as portas do fundo, arremessou seu celular para longe e largou-se sobre uma poça d’água. Sua intenção era bem simples, só precisava esperar.
Não demorou muito.
Uma mulher de salto alto se aproximava. Alyssa começou uma tosse e murmúrios forçados.
– Socorro – ela ao menos se esforçou para parecer realista. Ouviu a mulher apressar o passo em sua direção para ajuda-la.
– Ah meu Deus – a moça deveria estar em seus trinta anos, vestida inteiramente de social. Abaixou-se ao lado de Alyssa e apoiou sua bolsa no chão ao lado – você está bem?
– Um grupo de meninas enlouquecidas passou e...– Aly tossiu – a rua é estreita. Meu celular...
A mulher olhou para onde Alyssa apontava e se espantou ao imaginar a força com que a garota havia sido pisoteada para seu telefone ser lançado para tão longe. Mitchel, por sua vez, sorriu por dentro. Era apenas um celular antigo e inutilizado. Sequer sabia se ainda era possível liga-lo. Mesmo assim, a mulher parecia tão disposta a ajuda-la que deu as costas e foi na mesma hora busca-lo. Foi o tempo que teve para apanhar o cartão chave do hotel de dentro de sua bolsa abandonada e correr de volta para o meio da multidão. Agradeceu por não estar usando salto.
De longe, ouviu a mulher gritar. Não lhe deu ouvidos e continuou sua corrida, precisava se misturar com os fãs. Largou seu sobretudo preto em uma das caçambas de lixo próxima ao hotel e enfiou-se em baixo de uma enorme bandeira segurada pelos fãs, na qual estava desenhado um enorme rosto de Kalel Lancastre, cercado por users do twitter de seus fãs. Alyssa se perguntou o que o vocalista da Incubus pensaria ao olhar pela janela e ver uma réplica gigante e mal feita de seu rosto.
Aly não se demorou por lá. Voltou a se movimentar pelos jovens até, sofridamente, alcançar a faixa. Um segurança tentou dete-la.
– Estou hospedada aqui – Alyssa disse, mostrando a ele o cartão chave que havia roubado.
O segurança olhou para o cartão e assentiu, puxando um pedaço da faixa de contenção para permitir a passagem. Aly sorriu satisfeita ao entrar no hotel pela entrada principal. Apresentou seu cartão na recepção e seguiu para o elevador. O barulho vindo de fora era ensurdecedor.
Ao entrar no elevador, Alyssa olhou para o número grafado em seu cartão. 32? Bem, isso devia ser no terceiro andar.
Não foi difícil encontrar o quarto e...Bem, Alyssa não estava acostumada com hotéis cinco estrelas. O quarto vintage era simplesmente magnífico. Ela se perguntou como deveriam ser os quartos nos quais os integrantes da Incubus estavam hospedados. Eram de cair o queixo.
Enquanto admirava o quarto, arrastou-se até a cama. Os lençóis eram extremamente macios e convidativos. Infelizmente, não tinha muito tempo para experimenta-los.
Precisava encontrar a banda o mais rápido possível para conseguir alguma informação útil que pudesse ser aproveitada pela revista para a qual trabalhava.
Paparazzi? Não, Alyssa odiava a palavra paparazzi. Preferia se auto nomear jornalista de campo.
Mitchell não teve tempo nem de por um plano em prática ou de levantar daqueles lençóis. As batidas frenéticas em sua porta acordaram-na de um transe e seu coração por um momento pareceu quase sair pela boca.
Ela pensou em se esconder. Droga! Pensava que teria mais tempo. O que faria agora? Não tinha um plano para isso.
Praguejou baixinho, encolhida sobre a cama. Fechou os olhos em pânico.
– Srta. Woodsen? – o homem atrás da porta deveria ter seus cinquenta e muitos anos. Era baixinho, tinha um cavanhaque bem desenhado e vestia um terno cinza. Usava um rolex dourado no pulso e Alyssa teve que buscar bem fundo em sua memória para se lembrar de onde o conhecia – esqueceu da droga da reunião com a equipe depois do show? Caramba, contratamos você porque disse que era a melhor estilista de Londres, haja como tal! Um pouco de comprometimento e profissionalismo iria lhe cair bem. Estilista? Oh, merda! Alyssa mal conseguia combinar seus sapatos e o melhor conjunto de peças que Aly tinha era jeans e moletom.
O homem a olhava estarrecido. Mitchel pigarreou.
– Me desculpe, sou Amanda Van der Kamp – ela começou, em pânico – a srta. Woodsen teve um imprevisto e só chegará amanhã.
– Bem, então me parece que falta mais comprometimento do que pensei. Amanhã os quatro já estarão em suas casas, espero que Simone não tenha problemas em ir à casa de cada um, visto que não apareceu hoje.
Alyssa não sabia o que dizer. Vendo a expressão amarrada do homem, a lembrança subitamente lhe acertou em cheio. Droga, aquele era Arwin Green, empresário da Incubus. Alyssa estava ferrada.
– Ah, claro – ela disse – me passe o endereço dos meninos e entregarei pessoalmente a... Simone Woodsen.
Arwin Green nem mesmo esperou que ela terminasse a frase. Anotava freneticamente na parte de trás de um cartão que tirara do bolso e lhe entregou os quatro endereços.
– Se as medidas e a ideia central não estiverem prontos amanhã a noite, peça para Woodsen entregar a carta de demissão. Vamos evitar constrangimentos.
Alyssa assentiu. Seus ouvidos zuniam.
– Posso assistir à reunião e passar as informações para Woodsen amanhã, se preferir.
O empresário a mediu da cabeça aos pés – ela nem teve tempo de disfarçar suas roupas molhadas e sujas.
– Não será necessário – ele respondeu – tenha uma boa noite.
Ao fechar a porta, Alyssa pensou que fosse vomitar de nervosismo. Precisava sair o mais rápido possível daquele hotel, afinal tinha nas mãos uma mina de ouro na forma de cartão. Precisava pensar urgentemente em um plano para se passar por uma estilista, entrar na casa dos integrantes da Incubus e arrancar deles o máximo de informações possível. Bolar planos era, com certeza, a parte mais difícil do trabalho. Alyssa não possuía nenhum conhecimento sobre moda.
A ideia genial veio com um estalo.
Felizmente, Alyssa conhecia um cara.
Ou melhor, uma mulher.


Capítulo 2

Eram onze horas da manhã quando Alyssa chegou no aeroporto. Espremeu-se próxima ao portão de desembarque internacional e rezou baixinho, apesar de não ser uma mulher religiosa. Contudo, havia exigido que a presença da melhor amiga, pagara suas passagens, usara o argumento de questão de vida ou morte e negou-se a contar sua situação por telefone. Alyssa precisava que sua melhor amiga viesse, não podia deixar uma oportunidade como essa escapar.
Alyssa empertigou-se quando os primeiros passageiros começaram a desembarcar.
– Cade você, cade você...
Aly sussurrava baixinho. Felizmente, reconheceu a amiga de longe. Primeiro viu uma cabeça volumosa loira surgir através das portas de vidro. Os enormes fios amarelos misturavam-se com os pelos falsos de seu casaco de pele – também falsa. Notou a calça estampada e esvoaçante por último, e logo depois a mala preta que carregava atrás de si. Ao vê-la, abriu um sorriso tão grande e bonito que o lado bissexual de Aly resolveu passar para dar um oi.
Alyssa suspirou de alívio.
A excêntrica havia chegado para lhe salvar.


entrou nervosa no carro da melhor amiga. Havia ficado extremamente preocupada ao receber o telefonema de Alyssa no meio da madrugada e estava desesperada para entender o que estava acontecendo. Infelizmente, a amiga não havia dado muitas informações e já estava começando a imaginar o pior.
Quando Alyssa sentou-se no banco do motorista e deu partida no carro, nem mesmo esperou que a amiga iniciasse uma conversa.
– Aly, eu juro por todos os deuses, se você não me disser agora o que me trouxe até Londres eu desço desse carro e chamo a polícia por sequestro.
Em qualquer outro momento, Alyssa teria dado risada da dramaticidade da melhor amiga, mas estava preocupada demais para isso. Ela bufou.
– Escuta, , você sabe o quanto meu trabalho é importante para mim – Aly mantinha os vidrados na estrada.
– Aly...
– Amanhã você ja vai estar de volta, eu juro! – Alyssa não conseguia olhar nos olhos de , sentia-se egoísta por fazer a amiga viajar até outro continente só para suprir as vontades do chefe da revista para o qual Aly trabalhava. Contudo, apesar da amiga estudar ciências políticas na melhor faculdade do país, ela era um gênio da indústria da moda e seu ego sabia muito bem disso. No fundo, Alyssa compartilhava dos sentimentos negativos que tinha de seu pai, afinal, entre muitas outras adversidades, fora ele quem impedira de seguir seu sonho e sua vocação – E garanto que você vai amar.
– Estou ouvindo, pode desembuchar quando quiser – costumava gesticular em excesso quando estava irritada.
– Eu meio que invadi o hotel da Incubus ontem a noite e agora acham que eu sou a estilista da banda e me esperam para tirar medidas e ideias hoje a tarde – Alyssa tagarelou tão rápido que nem teve tempo de associar o que havia sido dito.
– Você...
– Eu roubei um cartão de uma mulher que estava entrando pelos fundos do hotel – Aly, ao parar em um farol vermelho, manteve as mãos no volante e virou-se para – Quando eu fui até o quarto dela, o empresário da Incubus apareceu! A merda do Arwin Green. bateu na minha porta e pensava que eu era Simone Woodsen.
não conseguiu se conter. Cuspe saiu de sua boca quando a gargalhada escapou de seus lábios rigidamente fechados. Ela apoiou o cotovelo na janela aberta do veículo e virou para encarar Alysson enquanto esta dirigia. Ficou assim por longos segundos, admirando a cara de pau e má sorte da amiga. Por que as coisas hilárias sempre aconteciam com Alyson?
–Deixa eu ver se eu entendi – retomou, apontando para Aly com um ar debochado – você roubou o cartão de ninguém mais ninguém menos que Simone Woodsen e agora o empresário da Incubus pensa que você é simplesmente a melhor estilista de toda a Inglaterra? – ela se ajeitou no banco, jogando as mãos para a cima desacreditada – Aly, você nasceu com a bunda virada para a lua.
Alysson olhou para a melhor amiga como se não acreditasse no que estava ouvindo.
– Acontece que agora os integrantes da Incubus estão me esperando na casa deles para eu recolher as medidas e mostrar minhas ideias!
– Aly, eu não sei se estou mais surpreendida ou com inveja de você.
– Não, , você não entendeu – Aly era cautelosa com as palavras – Preciso que você finja ser Simone por hoje, preciso que você arranque daqueles quatro a maior fofoca que conseguir.
ficou boquiaberta.
– Alysson!
– Por favor, , eu juro que nunca mais peço nada do tipo pra você! É que isso pode custar o meu emprego! – Alysson levou uma buzinada altíssima ao demorar-se em um farol vermelho. Arrancou com tudo, no susto. As narinas arderam com o cheiro de borracha queimada dos pneus – Por favor. Você é a única pessoa que entende de moda e que teria a cara de pau para fazer isso. Além de ajudar na minha possível escalada para editora da Rock’n News..
bufou. Ela sabia mais do que ninguém o quanto a melhor amiga sonhava um dia em ser a editora da Rock’n News, revista para a qual trabalhava. Sabia também, após passar anos ouvindo Aly reclamar de seu chefe, que ele fazia de tudo para tornar a vida de Alyson insuportável. E, além de tudo, sabia que se negasse aquela oportunidade se arrependeria por toda sua vida.
– Você entende que me fez perder um dia na faculdade por causa disso, certo? – perguntou – e que eu tinha um trabalho para entregar hoje.
Aly sorriu.
– Aquele que você não fez?
soltou um estalo com a língua, derrotada.
–Certo, vamos fazer isso.


Ao adentrarem Hampstead, ainda levaram uns quinze minutos até encontrarem o endereço certo do primeiro astro do rock a ser visitado pela ilustre Elizabeth Blake: Kalel Lancastre, vocalista da Incubus e dono de boa parte dos corações e vaginas da Inglaterra, Estados Unidos e do mundo.
nunca perdera seu tempo para analisar todos os componentes daquela banda de rock potente e avassaladora que tinha quebrado iTunes por semanas . Ela sabia de uma coisa: moda. E sair da moda e chegar aos astros de rock não era um segredo para ninguém.
Aly deu batidinhas de encorajamento em antes desta descer do carro. O que amiga falara era verdade, poucas pessoas teriam a cara de pau de , e ela sequer estava nervosa. Pelo contrário, a estudante só conseguia pensar em como contaria toda essa história bizarra para Kate quando chegasse em terra americana. A roommate e fã assumida de rock iria surtar.
Chegou na porta da mansão medieval e lançou um último olhar a Alyssa, estacionada do outro lado da rua e abaixada para não ser vista caso alguém passasse por lá, antes de bater na porta.
O vocalista demorou tanto para chegar que pensou que não tinha ninguém em casa. Depois de uns cinco minutos esperando do lado de fora, apertou o casaco de pelos – falso – contra seu corpo e se preparou para bater novamente. Não foi preciso, quando a porta se abriu quase deu soquinhos no rosto da figura em sua frente, e, ao olhar para esta, pensou no pecado que teria cometido ao ameaçar estragar aquela perfeição.
Toda a lenda ao redor do que seria a beleza de Kalel Lancastre era absolutamente verdadeira. nem mesmo gostava de homens com cabelos compridos, mas decidiu abrir uma exceção para astros do rock cabeludos. Era selvagem, escuro e encaracolado. O nariz reto era uma finalização sublime de suas maçãs do rosto saltadas, que compartilhavam com os olhos escuros o foco do rosto do cantor. Havia uma pequena cicatriz no canto do lábio superior, o que, um dia, provavelmente deu lugar a um piercing, assim como o de sua sua sobrancelha. Os olhos estavam pintados com lápis escuro e exaltava todo seu potencial modal, juntamente com as botas de couro, a calça preta justíssima e a camiseta preta coberta por uma jaqueta florida.
Avassalador, brutal e estonteante. Como cafeína.
Kalel Lancastre era café e adrenalina.
O coração de – ou será que foi algum outro órgão? – quase saiu pela boca ao ver o vocalista encara-la dos pés a cabeça, como se fosse alguma de suas presas sexuais (o que ela não acharia ruim em ser). Suas sobrancelhas arquearam-se ao olhar para os olhos da garota, mel contra abismo. achou sexy como ele lambia os lábios ao analisa-la.
– Ora, temos uma escoteira perdida.
teve que repassar em sua cabeça: ela era uma estilista famosa inglesa. Ele precisava dela para ser lindo e seu ego era maior que os cabelos de seu empregador. Por isso, satisfeita com a leitura do seu personagem, estampou um sorriso sarcástico e entrou na sala de Kalel como se estivesse em casa.
– Ora, temos um músico engraçado por aqui.
Kalel virou-se surpreso pela entrada ousada da loira. Bateu a porta sem deixar de assisti-la.
– Alguém está com pressa.
revirou os olhos e tentou manter o controle, embora fosse difícil visto o cômodo maravilhoso no qual estava. A sala deveria ser maior que todo o apartamento chique de seu velho na California, e a decoração medieval parecia ter sido toda retirada do cenário de Game of Thrones – e ela tinha certeza absoluta de que muitas das cenas da série haviam sido reproduzidas naquele sofá.
– Ainda tenho mais três de vocês para visitar – disse, tirando a fita métrica de Aly da sua bolsa junto com alguns cadernos vazios que a amiga emprestara para melhorar a personagem – então é óbvio que estou com pressa.
Kalel se aproximou, a expressão era uma mistura de decepção e divertimento.
– Ah, então você é a Woodsen – ele disse, analisando-a mais uma vez como se duvidasse de sua descoberta – pensei que fosse mais velha.
cerrou os olhos.
– Pensei que tivessem me contratado por ser a melhor, não jurássica.
Kalel gargalhou sem tirar os olhos de seu novo entretenimento: ela. A estilista petulante e egocêntrica fazia por merecer toda sua atenção.
– Justo – ele respondeu, por fim – gostei de você, escoteira. Arwin disse que viria, sou todo seu. Então...O que tem para mim hoje?
– Preciso que tire a camisa.
Kalel lançou-lhe um olhar carregado de segundas intenções por baixo de seus cílios volumosos. Um sorrisinho brotou no canto de sua boca
– Tsc, tsc – ele falou, negando com o indicador – se quer me ver sem roupa, precisa pedir com um pouco mais de... – Kalel olhou para o lustre enquanto pensava na palavra certa – atitude. Por que não vem você mesma tirar, escoteira? Prometo que vai amar a medalha no final.
queria muito pensar em sua proposta, mas conteve-se em bufar e fingir irritação enquanto ia até o músico e tirava sua jaqueta. Kalel nem se moveu e fingiu não gostar nem um pouco de como a testa do vocalista estava tão próxima de sua orelha e a boca tão próxima da sua. Lançou a jaqueta florida sobre a mesa de cabreúva e encarou-o com sua melhor expressão de estilista de elite.
– Se não colaborar comigo, vou embora e aviso Arwin que não tenho condições de trabalhar com sua banda – ela alertou – Agora, tire a droga da sua camisa e sapatos, preciso das suas medidas se não quiser passar a próxima turnê pelado.
Kalel levantou os braços como se se rendesse e começou a tirar as botas. Embora a bronca, ele mantinha um olhar entretido no rosto e não desviava os olhos da escoteira bonitinha que tinha aparecido em sua porta. Os olhos de Woodsen tinham um brilho esquisito de divertimento e Kalel não podia negar que aventureiras eram seu ponto fraco. Mulheres bem sucedidas também, bem melhor que as broches que carregava por aí.
Ao ficar só de calças, olhou para e abriu os braços em uma pergunta silenciosa se ela estava feliz agora. Bem, ela estava. Será que estilistas precisavam mesmo pedir para os modelos ficarem sem roupa? Tarde demais. Mas fora uma ótima ideia de última hora.
foi até ele e pediu para que ele levantasse os braços para que ela pudesse passar a fita pela sua cintura musculosa e modelada de uma escultura grega. Quando foi medir seu quadril, Kalel colocou as mãos atrás da cabeça e suspirou.
– Sabe, se você me acompanhar pela turnê, não teria problema nenhum em ficar pelado.
finalmente perdeu a paciência. Caramba, ela tinha usado seu tom mais duro! Afastou-se de Kalel, guardou seus pertences na bolsa e jogou pela última vez a jaqueta em direção ao vocalista. Ele a agarrou confuso.
– Eu desisto – rendeu-se – fique pelado, dane-se. Tenho seus outros colegas para visitar e espero que eles não sejam como você.
Sem esperar qualquer resposta, a estudante passou como um tornado pelo cantor e fez seu próprio caminho até a saída, batendo a porta ao se retirar. Correu para o carro de Aly, indignada.
– Vamos embora, Alyson – ela disse, irritada – e, por favor, use as informações que vou te dar e destrua esse filho da mãe.

A segunda casa visitada foi a de Sebastian Hall, o baixista tatuado da Incubus. Embora as tatuagens, brincos e piercing não fossem um ponto a se marcar no coração de , os cabelos raspados e olhos azuis convenceram-na de que o segundo astro do rock também era uma beldade. Quando chegou, o homem estava tão entorpecido por qualquer substância ilegal que tinha usado – ou combinação de substâncias ilegais – que não teve muito trabalho para tirar suas medidas e conversar sobre suas ideias para o figurino. Ela chegou até a dizer sobre calças transparentes que pegavam fogo: o baixista só concordou e respondeu "ótima ideia" após uma longa pausa para as palavras fazerem sentido em seu cérebro latejante. Ele não pareceu entender uma só palavra dela.
Partindo de lá, parou na casa de Nathaniel Patel, o guitarrista e filho de Hades da mitologia grega. O garoto assemelhava-se a um anjo do avesso: pele extremamente clara, cabelos curtos, negros e encaracolados, olhos muito pretos como duas fossas e sobrancelhas grossas demais para seu rosto esquelético. Os braços fechados por tatuagens eram os únicos pontos de seu corpo que denunciavam que o rapaz não havia nascido em um mundo preto e branco.
Contudo, como todos os rockeiros que havia conhecido até aquele momento, ele era perturbadoramente lindo. hipnotizante.
De longe, o mais educado dos três. Até mesmo pediu para sua empregada fazer biscoitos para a visita da estilista. Trocaram ideias e discutiram diversos figurinos para cada uma das temáticas de seus shows. Quando disse que iria embora, Nathaniel sorriu e pediu para que ela embrulhasse alguns dos biscoitos para levar para casa. saiu de lá satisfeita e motivada.
A terceira casa era de , baterista polêmico da Incubus. nem mesmo sabia como era o rosto do astro ou se dera o trabalho de pesquisar seu nome, o nome piscava na maioria das revistas e sabia mais ou menos o que esperar. Mas, quando chegou em seu apartamento luxuoso na parte leste do bairro nobre de Londres, percebeu que o homem não era nada do que ela esperava.
nem mesmo se deu o trabalho de abrir a porta. Uma moça latina foi quem a atendeu, vestida com um uniforme cinza claro. Ela pigarreou sem graça após ouvir a apresentação de e deu espaço para que ela entrasse. Nem sinal do baterista.
A moça atendia pelo nome Santiago e pediu para que a estilista se sentasse enquanto ela chamava por seu patrão. sentou-se sem reclamar e aproveitou o tempo para admirar o apartamento. Não era tão enfeitado e chamativo como a mansão cavalheiresca de Lancastre, mas definitivamente fazia jus à conta bancária milionária do músico: tons de preto e cinza se misturavam com as vidraças. Uma bateria preta com pratos dourados jazia bem no centro de uma sala de estar. Lustres geométricos pendiam do teto e refratavam nos vidros das pilastras da sala. Uma imensa janela levava até a varanda do primeiro andar do duplex.
estava tão concentrada nos detalhes daquela sala que levou um susto ao ouvir as risadas escandalosas de uma jovem que descia as escadas. Vestida apenas com uma camisa social grande e saltos, mantinha os botões fechados com os braços cruzados sobre o peito e corria pelos degraus de mármore negro. Não pareceu sequer notar a presença de mais uma figura feminina na sala, com as sandálias ecoando no piso, passou correndo pela porta de saída e sumiu do apartamento.
sequer teve tempo de revirar os olhos, logo outra sombra descia pela escada: e desta vez não pode desviar a atenção e nem quis. Se Kalel Lancastre era o vocalista gato e rebelde que fez com que sentisse as pernas tremerem, era o baterista etéreo que fazia todos os hormônios femininos de se aflorarem. Desceu as escadas como se flutuasse em um palácio, vestido apenas com um roupão de seda preguiçosamente amarrado abaixo da cintura. Sua beleza era como um quadro do Van Gogh: cabelos dramáticos loiros até o ombro, olhos azuis vibrantes, traços impulsivos e expressivos. Era delicado como uma escultura clássica em um corpo esguio de rockstar. Uma antítese deliciosa entre a aparência de um anjo e atitude de um homem digno do inferno.
– Percebe que espantou minha companhia – foi o cumprimento de enquanto este aproximava-se de . Não chegou muito perto, conteve-se ao lado de um pequeno criado mudo coberto por garrafas caras de whisky e cigarros. O cheiro de nicotina deu voltas na sala de estar.
– Sinto muito se sua namorada não entende de figurino – ela respondeu com o mesmo mau humor – preciso que tire o roupão para eu tirar as medidas.
prendeu o cigarro entre os dentes para desamarrar o roupão, revelando um corpo com proporções entre atleta prodígio e usuário de drogas. Os músculos do abdome confundiam-se com alguns ossos visíveis da costela, e lamentou muito a presença de uma boxer preta para esconder o lugar para onde aquelas entradas apontavam. Desde a postura de até seu porte físico, tudo gritava rockstar dos anos setenta. Felizmente, amava um flashback.
– Termine logo com isso – ele falou entre um trago e outro – tenho compromissos mais tarde.
sorriu enquanto amarrava-o com a fita métrica.
– Ah, é? E qual o nome delas?
O rosto do músico não moveu um músculo, era como se o único sentimento que sua face era capaz de expressar fosse o tédio absoluto. Ele apenas levantou e braço e levou o cigarro de seus dentes para a ponta de seus dedos para que pudesse perguntar:
– Qual o seu nome?
o encarou enquanto anotava os números em seu caderno falso.
– Simone Woodsen.
a olhou com o queixo erguido, a fumaça escondia parte de seu rosto.
– Simone Woodsen é meu próximo compromisso.
O baterista tinha uma seriedade tão explícita nos olhos que não soube dizer se ele estava sendo irônico ou pensava mesmo que estava ali para dormir com ele. Então ela apenas levantou as sobrancelhas, estava farta.
– Já aguentei brincadeirinhas demais de Kalel, não sou obrigada a aturar você também.
desencostou-se do criado mudo como se, de repente, merecesse um pouquinho se sua atenção.
– Brincadeirinhas de Kalel, huh? – disse ele, curioso – devia ter dito antes.
revirou os olhos.
– E o que teria feito, me convidado pra festinha de antes com sua namorada?
cerrou as sobrancelhas como se o que dissesse não fizesse sentido algum.
– Ela não é minha namorada – subitamente voltou a parecer extremamente desinteressado na conversa – é a de Kalel. Quer dizer – ele fez uma pausa para dar um longo gole de seu whisky – era. – esticou a mão com o copo para – servida, docinho?
rejeitou com um gesto.
– Obrigada, docinho. – ela disse, recolhendo seus pertences – Isso entre você e Kalel, não me interessa. Espero que se seu agente quiser meus serviços de novo, você arranje modos. Com licença.
já estava chegando na porta para ir embora quando resolveu responde-la.
– Se vir a loira aí fora, mande-a de volta.
bufou.
– Vou manda-la para o inferno. – ela gritou, antes de bater a porta e deixar o prédio.


Capítulo 3

Kate descansava os pés no encosto da carteira da frente da sala de aula. Seu desinteresse pela aula de Políticas Públicas e a professora cinquentona da matéria era aparente e geralmente contagioso. Entretanto, já estava acostumada com a indiferença diária da amiga e era imune ao seu vírus, mesmo sentada tão perto quando na carteira do lado. Ou talvez estivesse tão contaminada com sua própria doença chamada Rock'n News para ser capaz de adquirir uma nova.
virou mais uma página da revista, entretida.
– Dá pra acreditar que Alyssa usou a palavra "empáfia"? – falou, baixo o suficiente para apenas sua roommate escutar – eu nem sei o que isso quer dizer e não sabia que Aly era tão entendedora de gramática.
Kate não parou nem por um instante de lixar suas unhas para olhar para a amiga.
– Se prestasse atenção nas aulas, saberia. – respondeu, e então abaixou seus pés e se ajeitou para conversar com – Você quer parar de ler isso? Até parece que tem coisa nova aí. Kalel Lancastre egocêntrico e arrogante bla bla bla Sebastian drogado bla bla bla machista bla bla bla. Todos já sabíamos.
bufou.
– Duvido que conseguiria fazer melhor, fui uma completa estilista a la elite. Você deveria ter visto, senti até nojo de mim mesma. Vou começar a ser mais ousada, o que acha? – mantinha as mãos no queixo enquanto se lembrava de como se divertira ao interpretar Simone Woodsen e sonhava acordada – um pouco mais de humor ácido, um pouquinho de sarcasmo...
– Uau, , se você quiser ser como eu posso te dar umas aulas. – Kate bateu na revista e acabou deixando-a cair. olhou Kate com raiva nos olhos. Apesar de não ser de fazer piadas afiadas ou comentários maldosos, era uma bomba relógio, o que queria dizer que em sua casa – ou dormitório – não cabia desaforo nenhum. Além disso, impaciência era um ponto forte de sua personalidade altamente trabalhada ao longo dos anos em que viveu batendo de frente com o homem que a concebeu – agora, se puder parar de ler revista do mundo do rock e começar a estudar pro seu futuro, ajudaria todas nós.
– Você bem que poderia ser menos estraga prazeres – não tinha um único tom de divertimento em sua voz – e parar de ser tão escrota.
– Infelizmente isso é pedir demais, mas posso prestar atenção na aula se isso for te ajudar a se concentrar – Kate ajeitou o corpo, largou a lixa em seu estojo e apoiou o rosto nas mãos fechadas, assistindo com um repentino interesse à professora. até pensou que a amiga estivesse mesmo concentrada, mas Kate não aguentou nem mesmo cinco minutos – Puxa...a Sra.Hams é tão baixinha. Você acha que a cordinha de seu O.B toca no chão quando ela está menstruada?
desistiu de ficar brava com a amiga e cedeu ao seu mais novo foco da conversa: a altura da professora.
– Não deveria fazer piadas sobre a Sra. Hams, soube que ela tem 5 Phds – comentou – além disso, não acho que ela tenha idade pra usar O.B ou qualquer outro absorvente.
As duas, por fim, riram. Apesar das farpas, conseguiam aturar as atitudes escrotas uma da outra.

Dois meses haviam se passado desde o episódio em Londres. A vida de voltara a ser monótona, tudo o que fazia para passar seus dias era comer, fingir estudar e sair a noite para festas e bares nos quais tanto quando Kate não faziam ideia de como a polícia local deixava-os abrir as portas. Ela também costumava passar o tempo pensando em como não tinha mais jeito de salvar o seu quinto semestre, e nem mesmo como foi capaz de chegar ao quinto semestre. odiava aquilo. Odiava tudo que sua universidade e seu curso era, odiava as perspectivas que tinha para seu futuro e odiava cada vez mais sua vida. Não era feliz, isso era claro para todos. A única coisa que verdadeiramente a animava era quando desenhava ou conseguia sobras de panos das lojas para criar seus próprios looks alternativos. Criar moda era o que fazia se lembrar de que era alguém.
Estava sentada no sofá de seu dormitório desenhando o que ela gostava de chamar de coleção primavera de 2019 quando o telefone do quarto tocou. estranhou, quando precisavam falar com ela ou com Kate, ligavam em seus celulares, a não ser que fosse alguém ligado à faculdade, nesse caso preferiam aparecer pessoalmente para reclamar ou ameaça-las.
O telefone era um mero enfeite e assim foi até aquele momento.
deu de ombros e atendeu.
– Srta.? – foi a voz da recepção que respondeu-a – o senhor Kalel Lancastre está na linha. Posso transferir?
demorou instantes para absorver a informação, instantes os quais, contudo, não foram suficientes para tirar da estudante a careta atônita que apareceu em seu rosto ou o zumbido de seu ouvido. Ela piscou várias vezes. Bem, não estava drogada ou bêbada, muito menos com algum tipo de transtorno mental. Provavelmente estava apenas sonhando.
Por isso, deu de ombros e repetiu para si mesma: que se dane.
– Pode – ela disse.
O intermediário assentiu com um murmúrio baixinho. Demorou alguns segundos de música clássica de elevador até a segunda pessoa aparecer do outro lado da linha.
– E não é que foi fácil te encontrar, escoteira? Pensei que uma mulher misteriosa como você me traria alguma dificuldade.
fechou os olhos sentindo as batidas de seu coração tocarem a pele interna de seu peito. Aquilo não estava realmente acontecendo, não tinha como. Primeiramente, não era possível Kalel Lancastre, vocalista dos maiores sucessos musicais da época (e talvez de todas as épocas) lembrasse dela. E, também, para ele foi Simone Woodsen, não uma estudante de ciências políticas de Harvard. Ela não sabia muito bem como conduzir aquela conversa, o que não era muito comum para uma garota tão extrovertida e despreocupada como .
– O gato comeu sua língua? – Kalel, ao percebeu a ausência de palavras da garota, interferiu – ou está se perguntando como te encontrei?
balançou a cabeça, apesar de saber que ninguém veria seu gesto. Talvez um gato realmente tivesse comido sua língua, porque ela permaneceu calada.
– Tudo bem, eu conto – Kalel continuou, o divertimento transparecia em suas palavras – acontece que Simone Woodsen uma ova. Já sabia que alguma coisa não cheirava bem, mas só tive certeza depois de ler a manchete da Rock’n News sobre nós dias depois. E... dormindo com minha namorada, huh? Quem poderia saber de tudo isso? – embora soasse cretino, Kalel não parecia irritado por ter sido enganado ou exposto – Enfim, a real Simone Woodsen passou aqui depois e foi demitida por Arwin, ela vai ter um probleminha até conseguir outros clientes. Ah, claro que ela tentou explicar como o cartão de seu hotel foi roubado por uma menina baixinha com aparência de fuinha. Não é que combina perfeitamente com a descrição da jornalista que fez nossa matéria? – Kalel parecia se divertir com seu sarcasmo, mas tinha esquecido como era respirar há muito tempo do início daquela conversa – A partir daí, não foi muito difícil ligar os pontos.
finalmente sentiu que tinha voz.
– O que você quer? – ela torceu pra ter soado tão durona quanto quis parecer.
Kalel soltou uma risada nasalada.
– Vou fazer um show em Boston daqui a dois dias, mas, enquanto estou em Massachusetts, posso aproveitar para tomar alguma coisa com você, um vinho, uma cerveja, um banho... o que você acha?
engoliu em seco.
– Acho que vou estar ocupada.
– Ótimo, um banho, então – Kalel respondeu – certifique-se de estar sozinha amanha a noite, passo aí depois da meia noite. Até amanhã, escoteira.
Kalel não deixou que respondesse antes de desligar o telefone e deixar uma estudante aterrorizada do outro lado da linha.
Por sorte, não demorou para se recompor. Não era do tipo que abaixava a cabeça tão fácil.


Capítulo 4

– Ele o que? – a voz de Alyssa soou talvez muito mais alto do que um sussurro deveria soar, e com certeza devia ter se arrependido no mesmo instante. Os demais jornalistas da Rock’n News que compartilhava a extensa área de cubículos não precisavam saber o que se passava na conversa entre as duas – , o que você vai fazer?
não tinha outra opção senão esperar por Kalel na porta de seu dormitório. Que alternativas teria? Não fazer nada e correr o risco de encontrar o empresário disposto a encarcera-la? Arriscar ser acusada de fraude? Perder sua credibilidade no mundo? Ela não gostava de pensar no que poderia escolher.
Respirou fundo e, quando voltou a falar, pareceu novamente como ela mesma.
– Vou me encontrar com Kalel amanhã e ouvir o que ele tem a dizer. E não se preocupa que não vou te colocar no meio disso.
ouviu Alyssa bufar.
, eu já estou no meio disso! Droga!
– Só podemos esperar, ok? Até meia noite. Kate vai estar em uma festa e pensa que vou ficar na faculdade terminando meus desenhos e tentando me curar de uma doença desconhecida que peguei ontem – fingiu uma tosse fresca.
– Isso é loucura.
– Como eu disse, não temos outras opções.
– Me conte tudo depois, por favor, e tenta não fazer besteira, está bem? – concordou com um risinhos nos lábios.
– Não preciso fazer besteira para as besteiras acontecerem.
–Só...as evite. Boa sorte! E, se tiver encrencada mesmo, diga a verdade e coloque a culpa em mim.
balançou a cabeça. Jamais diria nada que pudesse ferir ou prejudicar sua melhor amiga.
e Alyssa se conheceram ainda no ensino fundamental quando era a esquisitona vegana de roupas espalhafatosas e discursos feministas e Alyssa era a editora do jornal da escola. As duas formaram uma dupla implacável, agia como uma maluca e criava polêmicas, e Aly fingia não ter planejado toda a cena para que seu jornal fizesse sucesso e todos quisessem comprar para saber o que havia aprontado. Era como se polícia e ladrão cooperassem um com outro de mentirinha.
Foi quem fez com que Aly iniciasse sua carreira no jornalismo. O artigo publicado em seu blog sobre uma adolescente no início do curso em Harvard que realizara uma passeata com mais de quinhentas pessoas contra o fim do culto ao padrão de beleza nas academias, bem no centro de Nova Jersey, chamou a atenção de blogueiros famosos que deram o ponta a pé inicial para que Alyssa alcançasse os tabloides ingleses e fosse contratada pela revista mais famosa e renomada do mundo do rock: Rock'n News.
–Não precisa se preocupar – despediu-se – te ligo pra te contar tudo depois. Beijos. desligou, mal ela sabia que todos os conselhos da melhor amiga não teriam valido de nada. Ela estava prestes a se meter na maior besteira que poderia acontecer na vida de qualquer um.


Katherine já estava com a porta aberta, encostada na madeira da lateral e a mão apoiada na maçaneta como se pensasse se sair era uma boa ideia.
– Tem certeza que você está bem pra ficar sozinha? – ela perguntou, olhando com remorço para a amiga – Não quero que morra sem ninguém por perto.
assentiu, um sorriso amarelo apareceu em seu rosto.
– Resolveu ser uma boa amiga agora, é? – brincou – Eu estou ótima, pode ir.
Kate piscou.
– Absoluta? Você está meio pálida.
– Sim.
Assim que Katherine saiu do dormitório, enxugou o rosto com as mãos para tirar o excesso de base, pó e corretivo que tinha passado no rosto e que, aparentemente, era um pouco mais claro que seu tom natural. Pulou da cama, largou os edredons em algum canto de sua cama e saltou lá de cima para frente do espelho. Não que quisesse ficar bonita para encontrar Kalel, mas queria ao menos sentir-se apresentável para encontrar com o astro.
Ficou um bom tempo se observando no espelho. Foi o tempo de vestir seus chinelos vermelhos quando o telefone tocou para avisar que Kalel Lancastre estava subindo.
batucou nas pernas e caminhou em círculos em seu quarto. Estava ansiosa.
Sua ansiedade atingiu seu auge ao ouvir as batidas na porta. Ao abrir, pensou mais uma vez que fosse cair para trás.
– Boa noite, escoteira.
cerrou os olhos e entregou-lhe seu melhor sorriso cínico.
– Boa noite – respondeu – entra logo.
– Com pressa como sempre – ele disse, entrando em passos lentos e olhando ao redor.
coçou a cabeça e fechou a porta, sem saber muito bem o que estava fazendo ali ou se aquilo era mesmo real.
– Eu não sei o que você quer, Lancastre – ela começou – mas vai rápido, Kate não vai voltar muito tarde.
Kalel se aproximou o suficiente para que pudesse ver as pupilas do músico brilharem com segundas intenções. Suas mãos enroscaram-se em sua cintura por cima do moletom enquanto um sorriso malicioso formou-se em seus lábios.
– De quanto tempo estamos falando? – ele sussurrou em seu ouvido – Porque não costumo ser muito rápido, mas posso me esforçar.
desvencilhou-se do corpo do cantor, embora o calor de seu corpo e seu cheiro de sabão em pó e perfume caro fazia o lado feminino e hétero de gritar. Uma pena. Talvez, só talvez, se Kalel se comportasse como uma pessoa decente, consideraria um encontro romântico — após varias tentativas frustradas, claro.
Por enquanto, ele continuava a ser desprezível, e, portanto, continuaria a despreza-lo.
Ele gargalhou ao vê-la se afastar.
– Vamos direto aos negócios, então.
sentou-se sobre a escrivaninha e Kalel se apoiou na parede oposta.
– Negócios? – ficou confusa – não sei se entendeu bem a sua descoberta, mas eu não sou Simone mais. Isso foi há tipo...dois meses. Sou outra pessoa agora.
– Há, muito engraçadinha – Kalel parecia feliz consigo mesmo – essa parte eu entendi muito bem, bem até demais. Mas, admito, fiquei aliviado em saber que a cabelos dourados bonitinha que apareceu em minha porta não trabalha para a banda. Não preciso me importar mais com a falta de ética ao dormir com os funcionários.
revirou os olhos.
– Não vou dormir com você, Lancastre. Me ameace o quanto quiser.
Lancastre pareceu ofendido.
– Comigo? – ele riu – Não preciso ameaçar ninguém para dormir comigo, escoteira, e muito menos durmo com quem não me quer. Embora você, um dia, queira. Quando isso acontecer, será muito bem vinda.
Antes que pudesse responder – e ela iria, apesar de não ter nada na ponta da língua no momento – Kalel continuou.
– Mas, , por outro lado...
prendeu o riso. Ou aquilo estava estranho demais, ou precisava muito de um manual de como entender estrelas do rock, porque nada fazia sentido em sua cabeça. Talvez estivesse doente de verdade e precisava mesmo que Kate voltasse para cuidar dela.
Ela resolveu responder àquele comentário com a única interpretação que passou por sua cabeça.
– Eu não sei qual o seu conceito de castigo ou vingança contra as pessoas que você não gosta – ela disse – mas, também não vou dormir com .
Kalel desencostou-se da parede e foi até ela, as mãos estendidas a frente de seu corpo como se estivesse tentando consertar um erro e pedisse por calma.
– Ah, não, não precisa dormir com ele – ele se apressou em dizer – só precisa fazer ele acreditar que vai. Tipo...até ele se apaixonar – Kalel fez um coração com as mãos e uma careta idiota como se amor fosse o sentimento que ele mais apreciava no mundo – e depois, cair fora. sorriu e arqueou as sobrancelhas como se tivesse escutado a maior bobagem de sua vida.
– Beleza, Lancastre. Isso é tudo? Já terminamos aqui?
O músico balançou a cabeça.
– Eu não vim até aqui brincar com você, – o som de seu nome inteiro sendo pronunciado por Kalel Lancastre fez os pelos da nuca de se arrepiarem – quero que faça exatamente o que estou dizendo. Quero que deixe aos seus pés e o chute depois de um tempo. Forte o suficiente para machucar, e que ele demore um pouco até conseguir ficar de pé de novo.
não conseguia acreditar no que estava ouvindo. Alô? Alguém pode trazer Kate de volta? Talvez com alguns drinks para eles. Ou, melhor ainda, alguém poderia, por favor, rebobinar até dois meses atrás?
– Não vou fazer isso, seu cretino – disse, soando incrédula e cansada – dê o fora do meu dormitório.
Kalel nem se moveu.
– Você vai, sim, escoteira.
cerrou os olhos.
– Ou o que?
– Ou denuncio sua farsa para a polícia – ele respondeu sem pensar. Falava sério dessa vez – e, prometo a você, vai passar um bom tempo na cadeia. Tenho contatos até demais.
A boca de assumiu o formato redondo de alguém extremamente surpresa. Teve certeza que todos seus órgãos pararam de funcionar por um instante. Sentiu suas mãos suarem. Ela não conseguiu responder, só encara-lo.
Lancastre, vendo que não tinha nenhuma frase afiada no momento, tirou um ingresso do bolso e uma pulseira de papel vermelha, jogando os objetos sobre a escrivaninha da estudante.
– Te vejo no meu show em Boston amanhã a noite – ele falou, dirigindo-se para a porta – a pulseira é para o VIP. Vá bonita, tenho alguém para te apresentar.
Foram com essas palavras que Kalel foi embora, deixando uma calada e assustada para trás.


Capítulo 5

preferiu ir sozinha. Durante todo o intervalo entre a saída de Lancastre de seu dormitório e o horário do início do show, decidiu ignorar as ligações de Alyssa e inventou qualquer desculpa idiota para driblar as perguntas de Kate. Ela mal conseguia acreditar que aquilo estava mesmo acontecendo, não estava nem um pouco afim de tentar convencer outras pessoas.
Havia um único motivo para estar fazendo aquilo: ela não acreditava nem por um segundo que aquilo daria certo. Ah, e também o motivo de não querer ser presa, mas esse era apenas o incentivo que ela precisava para pelo menos mostrar a Kalel que tentara.
não foi cedo o bastante para assistir o show. Não fazia ideia se os seguranças a deixariam entrar no final da apresentação, mas não tinha cabeça ou ânimo o suficiente para assistir a duas horas de rock’n roll cantados por um babaca e acompanhado de um baterista desprezível. Não, ela preferia correr o risco de ser barrada.
Por sorte, quando chegou, a pulseira vermelha VIP transformou-a instantaneamente em um deus. Os seguranças deram passagem e um deles até a acompanhou até a sala na qual estavam os famosos e convidados. Uma janela extensa muito acima da multidão permitia os presentes de assistirem às últimas músicas da banda, mas ninguém parecia muito interessado ali: pareciam entretidos com a mesa de salgadinhos, com as bebidas e com as três modelos sentadas no sofá de couro.
olhou em volta. Não tinham muitas pessoas, alguns homens engravatados, as três modelos, uma mulher vestida de Prada com uma criança no colo e mulheres de roupa social.
Então olhou para si mesma – uma calça pantacourt florida e uma cropped branca de algodão. Talvez os óculos redondos de lente amarela fosse a única peça que completava a impressão de que ela estava no lugar errado. Fizera Katherine prometer interna-la em uma clínica psiquiátrica caso passasse a usar social algum dia.
Como nunca se incomodou com seu constante desajuste, mandou o mundo ir a merda e foi comer. Enquanto pescava alguns folhados restantes da bancada, podia ouvir, ao fundo, os fãs gritando e aplaudindo ao ver os integrantes da incubus deixando o palco.
ouviu seu estômago roncar e deu uma grande mordida em um salgado moreno que parecia delicioso demais para ser esquecido na bandeja. Foi quase um choque quando, ao olhar para metade do bolinho que tinha sobrado em sua mão, notou o recheio de presunto e pensou que fosse vomitar. Não comia carne ou nenhum derivado de animais há quatro anos e sentia o estômago embrulhado só de pensar.
Por sorte, uma mão estendeu-lhe um guardanapo. nem mesmo levantou o rosto para agradecer, puxou o guardanapo e cuspiu toda a massa amarela de animal morto no papel.
Depois, entregou à mesma mão o embrulho com a comida mastigada: estava enjoada demais para pensar que talvez – só talvez – fosse desagradável dar para alguém segurar um papel cheio de restos de folhado. Só depois de se certificar que sua boca estava mesmo limpa foi que ela resolveu olhar seu benfeitor para agradece-lo.
Oh.
– Uau – foi o que Kalel Lancastre conseguiu dizer, tinha uma carranca incrédula e imóvel estampando seu rosto ao largar com desgosto o guardanapo na lixeira.
arregalou os olhos, constrangida, e deu um sorrisinho amarelado.
– Eu sou vegana – ela disse como se explicasse tudo.
Kalel cerrou as sobrancelhas.
– Sabe que tem ovo na massa não é? E provavelmente leite.
arregalou ainda mais os olhos.
– Cara, vocês precisam aprender a deixar de usar essas coisas – ela reclamou – Depois passo umas receitas para vocês, que nojo!
– Sua mãe não te ensinou a não usar a expressão “nojo” quando se refere a comida?
enfiou o indicador no peito do vocalista.
– Sua mãe não te ensinou a não matar os animais?
– Minha mãe morreu no parto.
recolheu a mão, sem graça.
– Ah – foi o que ela conseguiu dizer – enfim, estou aqui. E agora?
Kalel balançou a cabeça, ainda sem acreditar naquela conversa. Depois, apontou com a cabeça para um dos cantos da sala.
– Por que não vai ali cumprimenta-lo?
se virou para onde Lancastre apontava e viu sentado no centro do sofá de couro abraçado com as três modelos. sorriu, irritada. Ótimo, era esse tipo de homem que ela teria que conquistar? Não, obrigada.
– Ele está ocupado, Lancastre – revirou os olhos – me peça outra coisa.
Kalel parecia entediado, mas ainda assim – suado e com boa parte da maquiagem já derretida – parecia-se com Lúcifer, o anjo mais bonito do céu. Os cabelos encaracolados estavam molhados de suor, alguns fios grudados e enrolados nas têmporas. A sombra escura havia escorrido e agora contornava seus olhos, destacando seu visual de astro de rock. Vestia uma calça de couro justa e um colete preto por cima do peito nu e definido, brilhoso devido ao suor.
Sexy.
– Então faça-o deixar de estar ocupado, ou ocupado com você – falou. Já não estava mais entretido com ela, buscava algo para comer – gosta de mulheres com atitude.
bufou, mas cedeu. Percebeu que poderia discutir o quanto quisesse, Kalel não mudaria de ideia. Sendo assim, a loira caminhou com passos lentos e irritados até o sofá.
Embora não tivesse uma aparência tão bruta e uma beleza tão grosseira quanto a de Kalel, ficava ainda mais fascinada ao olha-lo. Estava largado no sofá com os braços abertos para abranger as três mulheres. Seu rosto estava limpo de maquiagem, vestia uma calça preta de couro boca de sino e uma camiseta branca social com metade dos botões abertos. Faixas de tecido preto cobriam seus pulsos. O cabelo comprido estava repicado, e, embora lisos até os ombros, um ninho bagunçado de fios com diferentes cortes destacava o topo de sua cabeça. Embora muito bem acompanhado, parecia entediado e olhava fixamente para enquanto a menina se aproximava. Nem um só músculo de seu rosto de movia.
tinha a impressão que o baterista encarava-a por baixo os óculos escuros aviador.
– Meninas, que ótimo que estão todas juntas – sorriu, abrindo os braços desajeitada – Kalel está ali chamando vocês, por que não vão lá? – fazia gestos bem claros para que elas se levantassem e fossem embora.
permaneceu parado. As modelos a olharam com o cenho franzido.
– Não estão me ouvindo? – ela perguntou – Kalel está chamando vocês.
olhou para Kalel. O músico lambia os dedos para tirar o excesso do recheio das carolinas que tinha colocado na boca. respirou fundo e voltou a fitar nervosa as meninas.
A morena da direita deu de ombros e se levantou, indo até o vocalista. Aparentemente, paparicar o vocalista gato da Incubus era melhor do que se jogar em cima do baterista com uma loira maluca mandando-a embora.
Uma das modelos da esquerda se levantou, mas apenas para contornar e se sentar ao lado do músico que ficara vago. Antes que a ruiva pudesse se sentar, agarrou-a pelos braços e levantou-a novamente.
– Vai, vai, vai – repetiu como se a modelo fosse um mosquitinho inconveniente. A menina pareceu assustada e foi embora.
Ótimo, restava uma.
Não foi difícil. deu seu melhor sorriso sarcástico e não precisou mover um único músculo para a última levantar e ir embora. arqueou as sobrancelhas ao se ver sozinho no sofá – aquilo não devia acontecer com frequência.
– Eu conheço você? – ele perguntou, seu rosto parecia entediado.
se sentou no canto do sofá, longe do alcance dos braços do baterista. Viu que suas unhas curtas estavam pintadas de preto. Ela sentiu um frio na barriga diante a possibilidade de reconhece-la.
– Deve ter me visto na porta do hotel – ela sorriu e estendeu a mão – sou sua fã, muito prazer. Não faz ideia de como estou feliz em finalmente te conhecer.
apertou sua mão, receoso. O fato de estar a metros de distância e parecer muito mais raivosa que emocionada fazia com que a menina não fosse uma fã comum ou alguém que não estava realmente feliz em conhece-lo. Mesmo assim, sentia-se entretido.
– E você é a... – a tentativa de de conhecer melhor a loira foi interrompida por Kalel, que, agora acompanhado por três modelos penduradas em seus ombros, resolveu participar da conversa.
! – ele disse – vejo que já conheceu minha .
tirou os óculos escuros e se inclinou para frente. Foi o movimento mais drástico do músico até aquele momento.
– Sua ? – ele riu e se virou para a estudante do outro lado do sofá – é um prazer te conhecer, do Kalel.
revirou os olhos.
– Da última vez que chequei, eu era , Kalel – ela respondeu, grosseira. Aquilo estava sendo demais, começou a pensar que seria melhor se simplesmente fosse presa – eu dei um duro danado pra tirar essas três daqui – apontou para as modelos que o acompanhavam – não entendi por que veio devolver. Por que não vai dar uma volta? Estou conversando com .
passou os olhos de para Kalel. Com certeza estava se divertindo com aquilo.
Kalel só sorriu.
– Você é uma gracinha, escoteira – ele respondeu – o que achou do show?
não entendeu o porquê de Kalel estar ali se sua intenção era fazer com que conquistasse . Ele não deveria deixa-los sozinhos?
arregalou os olhos. Ah, o show. Aquele que ela não assistiu.
– Incrível como sempre – ela respondeu, encolhendo os ombros – você foi ótimo, , mesmo. Agora, Kalel, você...
Kalel tirou o braço que envolvia a menina ruiva e se inclinou em direção a , parecia ofendido por não ter escutado um elogio de cara.
– Eu o que? – ele perguntou, impaciente. deu de ombros.
– Eu não sei...desenvolvi a teoria de que você fica excitado consigo mesmo enquanto canta.
Ao seu lado, explodiu em uma gargalhada enquanto Kalel parecia ficar vermelho de tanta raiva.
– Talvez essa tenha sido você enquanto me assistia – Kalel tinha recuperado sua expressão lasciva ao responde-la.
– Com essa maquiagem borrada? Eu acho que não, Lancastre.
– Bem, – foi quem interviu, embora tivesse certeza de que Kalel não tinha uma resposta – acho que a essa altura já posso te oferecer uma bebida. O que você quer?
– Só uma cerveja – ela sorriu.
Assim que saiu para buscar as cervejas, Kalel piscou para e deixou a área VIP acompanhado pelas meninas. Muitas das pessoas que estavam ali antes do final do show já tinham saído – os homens e mulheres de roupa social, ela notou. Sebastian Hall estava próximo ao vidro, segurando a criança no colo ao lado da mulher vestida de Prada. Nathaniel não estava mais lá também.
Ao voltar, estendeu a latinha para e sentou-se mais próximo – o suficiente para que seu braço conseguisse atravessar os ombros da mulher.
não conseguiu nem fingir que estava desconfortável. era ainda mais sexy que o vocalista, e ela adoraria estar sozinha com o baterista para fazer todas as coisas que com certeza não podiam ser feitas com mais pessoas por perto. A boca do músico era uma delicada mancha rosada em seu rosto, úmida de Corona, e começou a ter fantasias lascivas de outros modos de experimentar a bebida. Ele cheirava a álcool, suor e a uma mistura de perfumes femininos.
Merda. Aquilo era a perdição em formato de astro do rock.
pendurou os óculos na camiseta para que pudesse encarar melhor. Ele tinha um par de olhos tão claros que era como se a estudante pudesse enxergar através deles.
– Então – ele começou. Até a voz dele, céus, descobriu que seu corpo podia sentir coisas só de ouvir aquela voz suave carregada de sotaque britânico – desde quanto é fã da banda?
Então...desde nunca. No caso.
– Há três anos – ela respondeu – minha colega de ciências políticas é muito fã de vocês também, então vivia me mostrando músicas da Incubus e essas coisas. Não tive como fugir.
– Ciências políticas, huh?
bufou. Não devia ter mencionado.
– É, tipo isso.
– Tipo isso? – riu, levando a garrafa até a boca para beber um outro gole.
– Meu suposto pai sempre quis que eu fizesse um curso sério – ela respondeu. Não estava gostando do rumo daquela conversa – então me obrigou a ir pra Harvard. Eu não aconselho. sorriu. Seus dentes eram alinhados e delicados, combinavam com o restante de sua aparência espetacular.
– Harvard? Uou, estou lidando com um pequeno gênio, então.
Gênio? se segurou muito para não cair na risada. Era verdade, se com gênio quisesse dizer pessoa medíocre bancada pelo pai que não terminava nenhum trabalho e nem sabia como não tinha bombado ainda – mas que, certamente, não passaria do terceiro ano.
– Com certeza não sou um gênio – rebateu – mas pode continuar a me chamar assim, faz bem pro meu ego.
suspirou.
– Bem, , eu espero muito que ser um gênio não te obrigue a passar as noites de sábado na faculdade ou estudando.
sentiu o seu coração parar por alguns instantes. Aquilo que ela sentia eram borboletas em seu estômago? nem mesmo conseguia se concentrar nas palavras do baterista, só em como seus lábios se mexiam de acordo com sua expressão facial e de como sua energia era serena e despreocupada. Era como se a aparência de batesse de frente com toda sua personalidade e profissão. mudou de ideia, aquele homem não era uma antítese. O baterista da Incubus era simplesmente paradoxal.
– Depende – ah, se ele soubesse que nunca passara uma só noite, de sábado ou de qualquer outro dia, na faculdade ou estudando – por quê?
inclinou o corpo, seus olhos de repente estavam perto demais. Seus dedos tiraram algumas mechas loiras rebeldes que caíam sobre o rosto da estudante e puxou-as para trás de sua orelha, ao passo que seu rosto se aproximava ainda mais. sentiu a respiração do músico em seu pescoço, os pelos de todo seu corpo se eriçaram. Sua boca quente e úmida tocou a orelha de .
– Porque tenho alguns outros planos pra gente – ele sussurrou, sentiu o bafo quente do baterista acariciar seus ouvidos enquanto sua mão agarrava os cabelos da mulher por trás.
Se não estivesse sentada, com certeza teria caído para trás.
Se não estivesse sentada, com certeza teria caído no chão.
Ela fechou os olhos. Sentiu sua virilha formigar com os toques do músico.
– Ah, é? – ela respondeu, definitivamente delirando. A intenção era conquista-lo, certo? Então não faria mal algum se ela somente se deixasse levar – e quais são eles?
levantou, e teve que conter a lamentação de te-lo longe de si.
– Primeiro – estendeu sua mão para ajudar a se levantar – vamos te tirar daqui.


Eram dez horas da noite quando estacionou em frente ao Boston Yacht Haven e entregou as chaves para o manobrista. Foi um homem uniformizado com a jaqueta do hotel quem abriu a porta do passageiro para que descesse, e logo se colocou atrás da mulher, guiando-a com as mãos em sua cintura. sentia os dedos quentes do baterista dedilharem a pele nua de sua cintura e seu torso se esfregar lentamente – e deliciosamente – em suas costas enquanto andavam.
– Me trouxe para o hotel? – ela perguntou, sarcástica – puxa, , são dez horas da noite. Pensei que me pagaria uma bebida primeiro.
pôde ver de relance um sorriso se formar nos lábios de .
– Você é sempre assim, tão reclamona?
deu de ombros.
– Só quando estou muito decepcionada.
soltou-se de e parou ao seu lado, passando apenas um braço por sua cintura com tanta força que fez ter um pequeno ataque cardíaco por alguns segundos. A brutalidade com a qual o homem a agarrava a fez se perguntar como deveria ser o sexo – e, mais uma vez, se viu tendo fantasias boas demais para que fossem reais. Repetiu para si mesma que não dormiria com . Ele era um babaca. Aquilo não iria acontecer.
Além disso, se quisesse conquistar o baterista, tinha que faze-lo correr um pouquinho mais atrás de seus objetivos.
– Para o bar do hotel, então – ele disse ao entrarem pela portaria principal, indo em direção a um corredor a esquerda do lobby do hotel.
O bar do Boston Yacht Haven com certeza era maior que todos os bares próximos a Harvard que e Kate já haviam visitado. A única iluminação ambiente eram algumas luzes que saíam de dentro do balcão de vidro e as lâmpadas penduradas próximas às estantes com as bebidas. Duas mesas de sinuca preenchiam a sala vazia. achou até estranho o fato de todos os bancos em frente ao balcão estarem disponíveis em um sábado a noite, sendo que a única pessoa presente era o bar man encerando alguns copos.
A estudante se sentou em um dos bancos enquanto se contentou em ficar em pé, com o braço esquerdo apoiado no balcão e o corpo virado para .
– E então, o que vai beber? – ele perguntou, seus olhos eram parados e olhavam diretamente para os castanhos de , um sorrisinho quase imperceptível estava preso no canto de sua boca.
– Um whisky com gelo de coco – ela falou – por favor.
arqueou as sobrancelhas e olhou para o garçom.
– Dois, por favor.
Assim que ele saiu, desencostou-se do balcão a apoiou as mãos uma de cada lado do banco no qual estava sentada. Ele se aproximou, o rosto empinado, os queixos quase se tocavam.
... – ele suspirou, como se se deliciasse com as palavras – Tem certeza que não conheço você? É bem familiar pra mim.
– Tenho certeza absoluta, – ela respondeu, seu indicador contornava os lábios do loiro – acho que saberia se tivesse te conhecido.
não se deu por vencido.
– Tem certeza mesmo de que nunca dormimos juntos?
se segurou para não dar risada.
– Acho que eu também lembraria disso.
respirou pesado mais uma vez. tinha a sensação de que o músico se segurava muito para não agarra-la ali mesmo, assim como usava seu autocontrole para não pular em cima dele de uma vez e acabar com aquela tortura.
– Certamente lembraria – ele respondeu, baixinho.
ajeitou rapidamente o corpo quando o barman voltou a se aproximar, deixando os dois copos em sua frente.
– Poderia nos dar um pouco de privacidade? – perguntou, jogando duzentos dólares em cima da bancada. quase cuspiu fora todo o whisky que tinha colocado na boca – está dispensado por hoje.
– Boa noite, senhor – disse o barman, recolhendo o dinheiro e indo embora do bar.
Os dois ficaram finalmente sozinhos.
terminou seu copo com um único gole, ainda apoiado próximo a . Mais uma vez, ficou chocada. Nem mesmo Katherine, a pessoa mais bêbada e maior má influência que tinha por perto, conseguia beber tanto whisky tão rápido. Ela ficou até sem graça em devolver o copo para bancada com um único dedo a menos de conteúdo. nem pareceu reparar, encarava com tanta atenção que era como não tivesse mais nada em volta.
finalmente desistiu daquela distância entre os dois, colando suas testas e a ponta de seus narizes. Ele não tava tentando ser romântico nem nada, apesar de seu rosto roçar lentamente por todos os pontos de sua bochecha. encaixou seu corpo entre as pernas de ao mesmo tempo que sua boca desceu para o pescoço da estudante. Passou a língua devagar, e não pôde deixar de deixar escapar um gemido ao sentir a boca úmida de em seu pescoço e sua ereção sendo constantemente pressionada contra as pernas abertas da menina. Ela sentiu cada centímetro do corpo do músico e pensou que fosse derreter. Fechou os olhos, quando mais apertados ficavam os dois corpos, mais a boca de se tornava violenta.
As mãos de finalmente apertaram suas coxas, com tanta força que parecia querer rasgar o tecido. não conseguia mais aguentar, tirou as mãos das costas do baterista e segurou seu rosto, sendo ela quem juntou os lábios.
Merda, talvez beija-lo tivesse sido uma má ideia para alguém que não queria sexo aquela noite. Tudo parecia quente demais. O hálito de whisky de e a ferocidade com que os lábios de tocavam e se mordiam ardia a boca de , deixando-a tonta se prazer. O atrito entre as calças e o excesso de volume do músico forçavam a agarra-lo com as pernas e prende-lo para que ele só pudesse chegar mais perto. tinha certeza que nenhum dos dois conseguiam respirar, tudo era uma mistura de grunhidos e murmúrios baixos de duas pessoas que precisavam urgentemente sentir um ao outro.
pensou que todas as pessoas do mundo deveriam beijar um astro do rock antes de morrer, porque se a energia de um show traziam a sensação de que os espectadores poderiam desmaiar de excitação, o sexo com certeza os mataria com o tempo. E o melhor de tudo era que, se precisasse morrer daquilo, não dava a mínima. Ela só queria mais.
o puxou pelo cós da calça para mais perto, sentindo tudo o que havia por baixo daquela peça de couro. Céus. Soltou outro gemido só de pensar na sensação que aquilo daria a ela, e entendeu como um convite silencioso para massagear o clitóris de por cima de sua calça. Ela queria gritar. Gritar de prazer, de frustração por não te-lo dentro dela, de tesão. Mas contentou-se em beija-lo de volta. Não queria nunca mais parar de fazer aquilo.
Infelizmente, tinha uma política muito rigorosa de não compartilhar seu corpo com cretinos nem para satisfazer pirraças idiotas de terceiros. Por isso, ao sentir os dedos do baterista escorregando por debaixo de sua camiseta, se viu obrigada a separa-los.
Ela saltou do banquinho, ainda tonta e insatisfeita. a olhou decepcionado como se sua mãe tivesse esquecido de seu aniversário.
– Acho que estamos em um lugar um pouco público demais para isso – ela falou, sem graça. Desceu os olhos para as calças de e agradeceu por ser mulher, porque provavelmente estaria na mesma situação se tivesse um cromossomo X a menos.
arqueou as sobrancelhas.
– Está brincando? – ele perguntou, confuso.
tentou pensar em qualquer outra desculpa rápida, mas não tinha nenhuma explicação do porquê não poderia continuar aquilo que parecia satisfazer até mesmo a vontade dos deuses.
Então ela pensou em uma única explicação que faria com que mantivesse seu interesse por ela.
– Acho que Kalel não iria gostar disso.
Claro, conhecia a relação entre os dois bem o suficiente para saber que citar um possível relacionamento com Kalel faria querer ainda mais conquista-la. Ela não precisaria pedir para que ele ligasse no outro dia, ele faria pela pura satisfação de incomodar o colega de banda.
Touche. Um sorriso brotou na expressão de enquanto este se aproximava.
– Kalel? – ele disse – Kalel deve estar agora mesmo com outra mulher.
balançou a cabeça. Dissimulada, era mesmo dissimulada no final das contas.
– Não é certo – ela falou.
apontou para sua calça.
– Não é nada certo me deixar assim também.
sorriu, de verdade agora. Ficou satisfeita em deixa-lo daquele jeito e desejou poder terminar com aquilo também. Mas que merda de princípios.
– Desculpa – ela falou – não posso fazer isso hoje.
já estava se sentindo derrotada o suficiente e deu as costas para ir embora. Era estranho pensar que a melhor coisa que já aconteceu com ela foi aquela noite? Com certeza. Queria poder aproveitar a vida como eles aproveitavam e não passar todos os seus dias lamentando sua existência.
Mas tinha outro planos além de deixa-la ir embora.
– Por que não fica e termina sua bebida, então?
virou-se novamente para ele. Apesar de saber que o único motivo pelo qual queria continuar em sua companhia era para provocar Kalel ou talvez conseguir dormir com ela, ela não pôde deixar de sentir um pouquinho feliz.
– Pode me embebedar o quanto quiser, não vou fazer coisas com você – ela disse, indo até ele.
levantou os braços como se rendesse.
– Nada de sexo, só alcool.
sorriu, voltando a se sentar no banquinho em que estava. Dessa vez, se sentou ao seu lado.
sorriu.
– Então acho melhor chamar o barman de volta.
assentiu.
– E meus duzentos dólares de volta.

A noite que seguiu não foi como ela esperava. não fazia ideia do conhecimento de e descobriu que subestimava astros do rock até aquele momento. Pata ela, assuntos como filosofia e direitos humanos não era algo que qualquer um gostaria de conversar, especialmente bateristas sexies e não tinha dificuldade alguma em imaginar o quarto de com uma bandeira americana e fotos de adoração a Donald Trump.
Porém, ficou surpresa ao perceber que o homem era o completo oposto do que imaginava. Assim que mencionou seu medo por nunca conseguir um emprego e odiar o seu curso – o que foi assustadoramente sincero e impulsivo – pareceu interessado em discutir todos os problemas com o sistema de educação e os problemas de ser forçado a escolher um curso que lhe daria dinheiro.
– E eu não acredito que passou uma semana presa – tinha no rosto um sorriso espantado – puxa!
terminou seu segundo copo de vinho. A mistura de bebidas alcoolicos já começava a fazer efeito em sua corrente sanguínea.
– Uma semana e três dias – ela corrigiu – comecei uma greve em uma loja de departamento e foi uma confusão só! Teve uma manifestação enorme de funcionários e os seguranças chamaram a polícia. Fiquei detida até meu pai decidir vir até Massachusets para pagar minha fiança.
não conseguia parar de rir.
– Que absurdo! – ele disse, olhando para como se também não imaginasse que a garota fosse tão divertida. sentiu-se repentinamente intimidada, estava acostumada a agir sem pensar e conversar com alguém que ela queria impressionar estava começando a assusta-la.
– Assim que as coisas funcionam quando não se é um astro de rock – respondeu – você depende de seus para sair da cadeia.
Ele levantou as mãos em rendição.
– Mas eu nunca fui preso – ele riu – nossa, nunca estive em uma conversa em que a pessoa do outro lado é que é a má influência.
– Má influência? A estudante aqui sou eu – fingiu estar ofendida – e eu só estava lutando por nosso direitos.
pareceu derrotado.
– Está certo – ele respondeu – deveria me importar mais com o futuro da nossa sociedade. No momento só me importo com o fato de ter chamado uma mulher como você para um hotel e não ter sequer te levado para o quarto.
deu de ombros.
– Agradeça Kalel por isso – ela disse, mas no fundo sabia que não entenderia o que no fundo ela queria dizer.
bufou. o encarou por um instante enquanto este parecia realmente frustrado. Ela segurou um sorriso, aquela noite realmente tinha sido boa, no final das contas. não era a primeira impressão que causava, embora isso não o fizesse deixar de ser um canalha, ou que pensasse duas vezes antes de recusar qualquer contato físico com ele. Quer dizer, quase qualquer contato.
Qual é? Ela ainda era uma mulher com os hormônios à flor da pele.
Ao ver que não responderia nada mais que uma sugestiva arqueada de sobrancelhas, decidiu ser a intrometida que sempre fora.
– O que vocês dois têm, hein? – ela perguntou como se não fosse nada.
demorou longos instantes para dar de ombros.
– Digamos apenas que não somos melhores amigos.
Não era o suficiente para .
– Então essas provocações são sérias mesmo? – ela insistiu – Qual é, não me diga que foi por causa de uma mulher.
riu sarcástico e virou seu último copo.
– Nem tudo é sobre mulheres, e nunca houve uma briga – ele falou, e então se levantou – estou subindo para meu quarto, se quiser vir comigo sinta-se a vontade.
simplesmente deu as costas e foi embora.
– Você está de brincadeira? – gritou ao ve-lo já próximo aos elevadores – Vai me deixar aqui? São quatro horas da manhã!
nem mesmo se virou para olha-la.
– Vai ser muito bem vinda no meu quarto, acho que já deu de conversa por hoje.
cruzou os braços.
– Não vou subir com você.
Ao chegar o elevador, entrou sem delongas. Nem mesmo de atreveu a olhar para enquanto as portas metálicas se fechavam e o levavam até a suíte presidencial.
Ela nem acreditou no que estava acontecendo. Ótimo, justo quando sua opinião sobre começava a mudar, ele a abandonava sozinha às quatro da manhã em um hotel que não estava nem perto de ser a pousada pela qual pagara.
– Você é a quarta que ele traz para esse bar – até se assustou ao ouvir o garçom em um dos cantos do balcão. Tinha esquecido de sua volta – elas geralmente sobem o elevador.
apoiou-se sem ânimo no balcão.
– Hoje não – ela respondeu, cabisbaixa. Não sabia se estava mais decepcionada por aquela noite ter acabado ou pelo jeito como ela havia acabado – Pode me dar outro copo de whisky, por favor?
Em vez de servi-la, o barman tirou do bolso sua carteira e estendeu-lhe vinte dólares.
– Toma, chame um taxi – ele falou – acho que o mínimo que esse tal Sebastian pode te fazer é pagar sua carona para casa. riu sem graça.
– Esse é , Sebastian provavelmente é melhor que isso – ela respondeu – não precisa me dar seu dinheiro, dou um jeito.
O barman deu de ombros.
– É dos duzentos dólares que ele me deu. Como eu disse, é o mínimo que ele pode fazer.
agradeceu e pegou o dinheiro. Ao subir no carro, deu seu endereço para o motorista e encostou a cabeça na janela, pensando em como estava chateada com o que acontecera. Bem, não só por sequer pedir seu número ou simplesmente ter ido embora sem parecer no mínimo interessado depois das seis horas que passaram rindo um com o outro e contando coisas embaraçosas – chegara a pensar que os dois haviam criado uma conexão! Que idiota! – mas também porque sem o interesse de , provavelmente acabaria na cadeia.
Ela estava começando a odiar o rock’n roll.
Por sorte – ou por resultado de um extremo esforço – não chorou. Não, não. Chorar porquê? Nem mesmo queria aquilo.
Sim, ela não queria. Foi o pensamento que confortou ela pelo caminho de volta.
Mal sabia que, da janela da suíte presidencial do hotel cinco estrelas de Boston, um astro do rock da banda mais famosa do momento a assistia preocupado entrar em um taxi. Nem sabia, também, que ele ligara para o barman, sete minutos atrás, prometendo mais cem dólares se ele desse dinheiro à garota loira sentada no bar e que pedisse por taxi para leva-la de volta.


Capítulo 6

— Tudo bem, eu só estava curiosa.
prendeu o celular entre seu ombro e o ouvido enquanto usava as mãos para amarrar os tênis.
– Kate, você sabe que odeio isso – considerou. Não gostava de mentir, mas em casos necessários como esse ela realmente não se importava – só falta o velho perguntar meu número de matrícula e eu tenho certeza que ele só não pergunta porque já decorou.
Kate, do outro lado da linha, bufou. Kate não era uma mulher muito sociável no dia a dia – as pessoas costumavam se ofender muito rápido quando ela estava por perto – então conseguia entender a frustração da parceira de quarto por ter se ausentado por um final de semana.
– Kate, eu juro meu voo para Massachussets já está marcado para amanhã – falou. Dissera a amiga que precisava passar o final de semana em Los Angeles, na casa de seu suposto pai, para receber o dinheiro do mês – preciso desligar agora, tudo bem? Ele trouxe a namorada e está me obrigado a ir a esse estúpido almoço no clube. Nos vemos segunda, prometo.
ouviu Kate bufar mais uma vez, contrariada, antes de murmurar uma despedida e desligar o telefone.
Largou o celular na bancada do quarto da pousada e olhou para o espelho, pensando se o que estava prestes a fazer era justificável.
Em qualquer outra situação, jamais faria aquilo. Ela nunca iria procurar justificativas e paliativos para um homem que a abandonara no meio da madrugada na recepção de um hotel após terem trocado beijos e histórias divertidas. Aquilo era o cúmulo de uma atitude machista e ela era contrária a qualquer tipo de feitos como esse. Contudo, não era a hora de bancar a feminista. Precisava, aparentemente, deixar todos seus princípios e dignidade de lado se quisesse conquistar e se livrar de ir para a cadeia.
Por esse motivo, e unicamente por esse motivo, decidiu pedir o número de para Kalel. Iria se desculpar por tê-lo enchido com perguntas íntimas das quais ele não gostava das respostas.
Patético. Era como cuspir e pisar sobre seus ideais antes de jogá-los fora.

Bom dia, ! É a de ontem a noite, td bem? - [enviado por às 10:43 A.M]
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Eu entendo se nunca mais quiser falar cmg, mas eu precisava pedir desculpas por ontem. Eu fui mtt intrometida e eu entendo que o assunto não é da minha conta! - [enviado por às 11:23 A.M]
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Vc pode por favor não me ignorar!! To me sentindo péssima aqui, qual é? - [enviado por às 12:58 A.M]
...
Estou aqui em frente [enviado por às 11:59 A.M]

quase cuspiu toda a água que tinha colocado na boca ao ler aquela mensagem de .

Aqui em frente tipo em frente ao meu hotel? [enviado por às 11:59 A.M]

ligação recebida de .


engasgou com a água e foi obrigada a finalmente abrir a cuspir tudo. A cama ficou ensopada com o choque da estudante. Seu coração subiu para a boca e ela levou um bom tempo até conseguir respirar normalmente para atender o celular.

– Alô? – ela atendeu, ainda embargada.
– Oi, , sou eu – ele respondeu quase imediatamente – desculpa se pareceu que eu estava te ignorando, eu estava dirigindo. Você está no seu...na pousada?
quase riu ao perceber que ele ia dizer hotel. Aquele lugar com certeza não era como os hotéis com os quais ele estava acostumado.
– Sim! – ela pareceu entusiasmada demais, então pigarreou enquanto saltitava pelo quarto em uma comemoração silenciosa por não estar tão perto quanto pensava de um presídio – Quer dizer, sim, estou no quarto.
Ele demorou um tempo para responder, teve medo de que ele havia repentinamente se arrependido de ter ligado.
– Você pode descer?
ficou até envergonhada pelos pulos de agradecimento que deu sozinha em cima da cama.
– Acho que tenho um tempinho, sim. – ela respondeu – estou descendo.
conseguiu escovar o dentes e terminar se se vestir em menos de cinco minutos. Desceu correndo as escadas até a recepção.
estava ali, posando para uma foto com a recepcionista da pousada. Não sorria, mas os olhos e sua postura pareciam contentes e relaxados. Vestia uma calça jeans justa de lavagem clara e uma camiseta florida vermelha com alguns dos botões abertos. Mais uma vez ficou sem ar.
a viu assim que ela pisou no térreo e pareceu imediatamente sem graça. Olhou para o chão enquanto a recepcionista agradecia pela atenção e oferecia algo para beber. Ele agradeceu educadamente e por um momento não reconheceu o astro de rock arrogante que a abandonara no hotel na noite anterior.
– Você tem alguma coisa contra responder mensagens? – perguntou ao vê-lo se aproximar, quando finalmente a mulher voltará para seu posto no computador.
Ele sorriu, parecia de ressaca. Os olhos azuis caíam em seu rosto.
– Eu estava por perto.
cruzou os braços e arqueou as sobrancelhas.
– Ah, que coincidência! – ela exclamou – você me viu pela janela, rastreou meu celular ou alguma coisa assim? Porque não lembro de ter te falado onde eu estava hospedada.
pareceu mais uma vez sem graça. Ajeitou desajeitado os botões de sua camisa.
– Tudo bem – rendeu-se, sem olhá-la nos olhos – perguntei a Kalel onde estava.
suspirou. Pensou que gostaria de ouvir aquilo, mas não sentiu nada. Ela não sabia direito se estava gostando daquilo ou só queria que aquele jogo acabasse.
– Se arrependeu de ter me mandado embora?
desviou de novo o olhar, trocando o peso do corpo uma vez em cada perna. Pigarreou, sem jeito. Demorou longos instantes antes de respirar fundo e encara-la.
– Você está ocupada? – ele perguntou – estava pensando em te levar para almoçar.
o olhou, perplexa. havia acabado de convida-la pra almoçar? O que estava acontecendo? Primeiro ele a expulsa da recepção, e depois a chama para comer?
Ela não queria aceitar, não mesmo. O que seria de seus princípios e dignidade se aceitasse aquilo? não conseguiria viver consigo mesma se aceitasse almoçar com aquele homem. Contudo, também não conseguiria viver consigo mesma na cadeia, então ela sorriu.
– Você paga – ela disse – e eu escolho aonde vamos.
, por não conhecer muito bem a cidade de Boston, fingiu-se de muito entendedora da culinária americana e das travessas da região e acabou guiando-os às cegas até o primeiro restaurante aparentemente caseiro que viu. Ao entrarem em um restaurante praticamente vazio, de deu conta de que talvez devesse ter deixado escolher onde comeriam.
– Boa tarde...Oh, meu Deus! – também não havia pensado na possibilidade de levá-los a um lugar cheio no qual todos reconheceriam – Meu Deus! Sejam bem vindos ao Brasileirinho! Sr. ...
O garçom que os recebeu era baixinho e atarracado. O uniforme talvez estivesse alguns tamanhos menores do que deveriam estar e a bandana com a bandeira do Brasil não combinava com absolutamente nada de sua roupa. não se sentia a vontade com pessoas que ignoravam as leis da moda por completo. Tipo, cara, não é difícil saber a própria numeração de sua roupa quando se tem dinheiro para comprar um relógio de ouro como o que usava.
– Obrigada – respondeu , claramente incomodado – Você teria algum lugar mais reservado pra eu e minha amiga podermos almoçar?
O garçom assentiu e levou-os até o segundo andar. Enquanto andavam até a escadas, notou atrair os poucos olhares ali presentes.
– O segundo andar é reservado para o horário do jantar, mas podemos abrir uma exceção – explicou o garçom.
Por fim, ele pediu para que tirasse uma foto sua com antes de deixar os cardápios na mesa e anunciar que voltaria em breve para recolher os pedidos. queria de enfiar em um buraco de tanta vergonha.
– Comida brasileira, huh?
deu de ombros.
– Gosto de diversidade cultural – ela respondeu, sem ter ideia do que encontraria no cardápio.
arqueou as sobrancelhas, mas não disse nada.
não poderia estar mais arrependida: feijoada, torresmo, vatapá, moqueca... Ela não sabia nem pronunciar muitos nomes dali, muito menos o que eram.
– Feijoada... Já ouvi falar sobre isso – disse – e parece uma boa coisa pra comer em um domingo. E você?
– Hã...
Por sorte, não precisou responder. O garçom logo voltava para anotar os pedidos. Enquanto pediu a tal feijoada, optou pelo acarajé recheado com molho de pimenta, fosse lá o que aquilo era.
riu ao ver o garçom se afastar.
– Você nunca veio aqui, não é?
fingiu estar ofendida.
– Claro que vim! – ela rebateu, depois pensou um pouco e preferiu ceder – passei em frente algumas vezes.
sorriu, parecia genuíno.
– Você é um pouco doidinha, não é?
cerrou as sobrancelhas.
– O que...
levantou as mãos, rendendo-se.
– No bom sentido! Quero dizer...desculpa – ele passou a mão pelo cabelo, sem graça, e repetiu – desculpa.
não entendeu o porquê de de repente parecer muito envergonhado. Astro do rock prepotente, egocêntrico, rude e maravilhoso envergonhado? Não fazia sentido.
– Uau, não precisa de tudo isso – ela respondeu – nem me ofendeu.
Ele balançou a cabeça.
– Não por isso – corrigiu – por ontem. É que...Kalel não é meu assunto preferido, mas posso te contar pra me redimir por ontem. Boston é perigoso, deveria ao menos ter te deixado em casa.
não conseguiu pensar em como precisava levar numa boa a situação se quisesse conquista-lo.
– É, deveria – ela assentiu.
— Me desculpa — repetiu — o pai de Kalel não era muito...bom. Kalel veio morar comigo aos 18 anos, nós dois já havíamos criado a banda e Kalel não tinha mais para onde ir sem ter que pedir ajuda para seu pai. Meu pai já tinha saído de casa há anos, então ter uma pessoa a mais na casa não seria um problema para minha mãe, eu...
interrompeu ao notar o quanto a história parecia chateia-lo de verdade — não precisa me contar, mesmo.
pareceu ignorar.
— Kalel era um irmão pra mim, meu vizinho, melhor amigo, colega de banda. Dois anos! Já estávamos procurando um apartamento para deixar a casa da minha mãe e morarmos juntos — contava — um dia eu saí de casa pra tentar divulgar nossa busca por um guitarrista. Eu nem me toquei — tinha tanta amargura na voz que quase pôde compartilhar de sua raiva por Kalel.
Espera um pouco. Ela também odiava Kalel! A recriação da história de ficou ainda mais real depois que ela se deu conta.
— Voltei pra casa mais cedo porque recebi um telefonema de Nathaniel, o guitarrista da banda vencedora das regionais. Queria ele há muito tempo e preferi não procurar mais por outros. Quando eu cheguei em casa, encontrei Kalel...
— Ah meus deuses! — estava entretida, colocou a mão sobre a boca como se apreciasse a história como se fosse um filme — viu ele transando com sua namorada?
balançou a cabeça.
— Vi ele transando com a minha mãe.
teve que controlar muito seus instintos para não atrair todas as pessoas do andar de baixo com sua estrondosa gargalhada. Ela engoliu um pedaço tão grande de seu acarajé para disfarçar a vontade enorme de dar risada e acabou tornando a situação ainda pior ao engasgar.
? — chamou, preocupado. dobrou-de para frente sentindo que jamais seria incapaz de parar de tossir enquanto tivesse que esconder o quando a briga entre Kalel e era hilária. estendeu-lhe um copo de água.
— Meus deuses — ela murmurou, perplexa — Isso é...Uau, tudo bem, entendi qual é a de vocês dois.
deu de ombros, deixando para trás sua postura encolhida.
— Kalel Lancastre é desprezível e ninguém pode negar isso — falou — Então, saí de casa com o dinheiro que eu tinha guardado para a faculdade e passei a dormir com as namoradas de Kalel em vez de matar o desgraçado por foder a minha mãe.
arqueou as sobrancelhas.
— E ele dorme com as suas? — perguntou — Bem maduros, os dois.
nem mesmo tinha terminado de comer, puxou um cigarro de seu bolso e acendeu-o, ignorando completamente os avisos colados nas paredes.
— Não tenho namoradas — ele respondeu, guardando o isqueiro no bolso traseiro e com o cigarro preso entre os lábios — nem outras mães.
— Nem maturidade — ela completou — ou boas maneiras.
Ele riu, tirando o cigarro da boca para soltar a fumaça.
— Puxa, , você me faz gostar cada vez mais de você — ela não soube dizer se estava sendo irônico ou apenas lascivo. Ela decidiu ser debochada na resposta.
— Olha só — ela bateu nas pernas, surpresa — e eu não estou nem tentando!
riu. Droga, desejou ter estudado um pouco mais sobre ciências políticas para aprender alguma lei que proibisse astros do rock canalhas de terem sorrisos absurdamente lindos.
— E você, — ele perguntou — qual segredo escondido a sete chaves você tem para me contar?
cerrou as sobrancelhas.
— E por que eu teria um segredo escondido para te contar? — ela disse — não posso ter apenas segredos escondidos que sejam realmente segredos escondidos? Porque, nesse caso, eu estaria proibida de contar.
Julia balançou a cabeça.
— Eu contei o meu.
— Você também me abandonou de madrugada na recepção de um hotel em uma cidade que não conheço — ela rebateu — ah, e bêbada.
deu um longo trago em seu cigarro, os olhos azuis observavam atentamente . Ficaram alguns segundos se encarando.
— Você é um pouco difícil de lidar, não é? — perguntou ele, por fim.
riu sarcástica.
— Eu não sou difícil de lidar, — negou — Só não vou aceitar que me trate como qualquer uma. Aliás, esse negócio de qualquer uma não existe, é uma coisa que você precisa saber — não conseguiu prender toda a raiva acumulada desde que conhecera ele em seu apartamento—. Então, não, eu não sou difícil de lidar, sou só mais uma mulher com o meu jeito de agir e pensar, o qual não aceita atitudes escrotas como as suas numa boa.
nem se movia.
— Uou — murmurou, ajeitando-se na cadeira — não disse nada sobre mulheres ou sobre você ser “qualquer uma” — ele fez aspas com as mãos.
—Você não precisa dizer — rebateu — e, sinceramente, não é culpa sua. Vai ser se não percebeu o quanto está errado.
balançou a cabeça.
— Do que diabos você está falando?
— Estou falando que você não pode dizer que uma mulher é difícil de lidar só porque ela não aceita ser tratada como você a trata— falava com calma, embora, como sempre, suas palavras causassem impacto — e que não pode largar uma mulher sozinha e de madrugada só porque ela não quis dormir com você.
— Não foi por isso que...
— Eu estou falando — não o deixou terminar — não me interrompe, merda! Você precisa parar de tratar todas as mulheres como se elas tivessem a obrigação de querer dormir com você.. É bizarro eu ter que explicar isso, parece que quando conto isso para os homens eu estou falando com um bando de retardados sem noção do mundo.
respirou fundo, parecia confuso demais para formular uma frase. pensou melhor.
— Eu não quis dizer que você é um retardado sem noção de mundo — corrigiu — mas, não vou pedir desculpas por isso. Quis dizer que você é um idiota.
— Acho que é por isso que te chamei pra esse almoço, certo? — ele perguntou. Seu corpo estava inclinado para frente, ele observava com tanta atenção que ela sentia que os olhos azuis do baterista podiam ver através de sua alma — Pra discutir o quanto eu sou um idiota.
balançou a cabeça.
— Estamos aqui para você se desculpar por ser um idiota.
se ajeitou na cadeira.
— Certo — assentiu — eu sou um idiota.
finalmente decidiu que podia voltar a comer.
— Sim, você é.
— Me desculpa.
— Eu te desculpo, .
— ele corrigiu.
arqueou as sobrancelhas.
— Estamos nos chamando por apelidos agora? — ela sorriu — Tudo bem, , você está perdoado. Só espero que não se repita.
apagou seu cigarro em uma das pernas da mesa. conteve o impulso de chuta-lo por debaixo da cadeira.
— Eu eu — começou ele, lançando o cigarro em direção a uma lixeira — espero que você esteja se referindo a eu te abandonar no bar, e não a nossa noite.
o olhou. Seu rosto era perfeitamente angular e a iluminação frágil do segundo andar realçava as curvas delicadas de seu queixo. Era assustador o quanto seu visual etéreo não combinava com suas roupas e sua personalidade de rock star. Seus cílios contornavam seus olhos tão bem quanto flores contornavam a nascente de um rio. A voz do músico era suave o suficiente para fazê-la sentir-se nas nuvens.
Ela suspirou. Onde estava se metendo?
— Você queria saber um segredo, certo? — ela perguntou, cedendo ao encanto de — Bem, aqui vai. Eu odeio ciências políticas mais do que eu odeio qualquer outra coisa. Meu pai traía minha mãe com tanta cara dura que nem se surpreendeu quando eu descobri ou ficou chateado ao acordar e ver que minha mãe tinha saído de casa e abandonado a gente — tinha tanto ódio, tanto de sua faculdade, quanto de seus pais, que contar toda a história fazia-a esquecer de todas as outras coisas que detestava, como ou Kalel — então eu disse a ele que o odiava e criava polêmicas por Los Angeles o suficiente pra ele entender que eu seria muito mais útil longe dele. Foi aí que ele me mandou para Harvard para estudar ciências políticas. Eu queria tanto vazar que aceitei.
balançou a cabeça.
— Quer um conselho? — ele perguntou, assentiu — Larga essa faculdade.
riu.
— Ah, claro, e iria fazer o que, então?
pensou um pouco.
— Trabalhar como conselheira gastronômica para os turistas em Boston.
gargalhou.
— Eu iria passar fome — ela disse, apontando para seu almoço metade comido — isso aqui está horrível.
deu de ombros e apontou para seu prato, remexendo-o com seu garfo.
— O meu está delicioso — ele falou, levantando o garfo. Um pedaço de laranja subiu preso em um dos dentes do talher, arregalou os olhos — Tudo bem, acho que você deveria talvez procurar outro emprego.
Os dois riram, pela primeira vez na tarde aproveitando a presença um do outro.
O momento foi interrompido pelo toque de celular de . Ele pediu licença e atendeu.
— Arwin, Arwin — foi como ele cumprimentou o interlocutor — eu tenho quase certeza que hoje é meu dia de folga e você não deveria estar me ligando...O que? Está de brincadeira? — olhou para com uma decepção incompatível para um dia de folga — Cara, eu tinha esquecido disso, mas Nate vai ficar feliz em assumir por mim...Como assim Nate não vai? E por que eu tenho que ir? Nate, um belo de um filho da mãe — ele bufou — Tá, tá, eu chego aí em vinte minutos... Eu sei, droga! Tchau.
desligou o celular e suspirou, olhando para como uma criança que a acabara de perder seu doce.
— O que você acha de acabar esse almoço me acompanhando até o estúdio? — ele perguntou.
fingiu pensar sobre a proposta.
— E o que eu ganho com isso? — ela perguntou. sorriu.
— Vai ser a primeira a ouvir nosso novo single? — perguntou, retoricamente — Sabe quantos matariam para estar no seu lugar?
rolou os olhos.
— Menos, , menos. Vou com você.
comemorou em silêncio e jogou sobre a mesa o dinheiro da refeição junto com a gorjeta. Desceram correndo até o carro estacionado do outro lado da rua para que nem o garçom nem qualquer cliente pudesse reconhecer .
dirigia um Maserati Gran Tourismo com bancos de couro, o carro preto, um modelo idêntico ao carro da ídola do pop, Britney Spears, era um dos sonhos de consumo de . Claro que ela ficou mais do que animada ao sentar no banco do passageiro.
— O que gosta de ouvir? — ele perguntou, ligando o rádio.
passou as estações como se estivesse em seu próprio carro, riu ao começar a dirigir.
— Confortável? — ele perguntou, debochado.
concordou ao encontrar uma rádio de seu gosto. Tame Impala tremeu os bancos do carro ao tocar no último volume.
— Por que não? — ela respondeu, dando de ombros.
— Não estou reclamando — rebateu — Tame Impala — ele repetiu o nome da banda como se apreciasse a palavra, as notas escorregaram de sua boca — então você gosta de rock mesmo, pensei que estava tentando me impressionar.
o olhou torta.
— Indie rock! — ela disse — e eu não preciso te impressionar com meu gosto musical.
— Vamos por uma música melhor — falou, tirando uma das mãos do volante para encaixar um CD no rádio. alcançou a caixinha de onde tinha saído o disco.
Kalel estampava o centro da foto, encostado em um 365 GT 2+2 azul metálico. Estava sem camisa e seu peito malhado e definido fazia com que aquela capa se destacasse do restante das capas sem graça dos outros artistas. Acima dele, em pé sobre o teto do carro, encarava a câmera com um rosto tão sexy que chegou a se perguntar se ele realmente estava do seu lado. Nate estava sentado no banco do motorista enquanto Bash enfeitava o capô. Puxa, aquela foto era uma tortura para mulheres com hormônios de sobra. Eles não eram humanos: eram deuses gregos na terra destinados a levar todos os interessados no gênero masculino à loucura.
Mas não era só a aparência, infelizmente. A música da Incubus era absolutamente eletrizante. Fazia todos os pelos de arrepiarem e uma vontade absurda no fundo de sua garganta para gritar a letra em pé com a cabeça para fora do teto solar. Os solos de guitarra e bateria eram próprios de um festival eterno de música boa, um rock in rio 365 dias por ano.

Bring me the best of you
bring me what u’ve got
cause i’m the only one here
and you are stuck alone with me now


Sim, adoraria ficar presa ou sozinha com aqueles quatro. Na verdade, imploraria por aquilo.

— Já tinha ouvido esse disco? — perguntou, tirando de seu transe.
— Hã... — ela começou, e depois deu de ombros — Já. Temos esse cd no dormitório.
Claro que não tinham, mas foi o suficiente para sorrir.
— Espera só até ouvir nosso próximo single.
O estúdio que estava esperando não existia. Em vez disso, estacionou o carro no estacionamento de um bar de jazz fechado e levou ela até o porão. pensou que encontraria aparelhagem de último nível e bebidas de graça, mas tudo o que viu foi uma pequena sala com sofás, aparelhos antigos e um canto forrado com jornais e colchões com um microfone, baterias e amplificadores.
Arwin Green e Sebastian Hall, baixista da banda, estavam sentados no sofá. Sebastian não parecia tão drogado como na vez que se conheceram.
— As gravações são fechadas, — disse Arwin, levantando-se — Me desculpe, querida, vai ter que ir embora.
passou reto por Arwin.
— Ela fica, Green — ele rebateu — vou gravar isso logo para poder ir embora.
Sebastian não estava feliz.
— Mas que merda, Green — resmungou — por que você tem sempre que arranjar um problema — ele levou um cigarro de maconha à boca, e percebeu que ele não estava tão bravo quanto parecia, apenas chapado.
— Vocês podem me lembrar por que aceitei trabalhar com vocês? — Arwin perguntou.
, sentado sobre o banquinho da bateria, levantou uma das mãos com a baqueta.
— Porque somos a maior banda de rock do século — respondeu.
Sebastian concordou.
— E porque deixamos você rico — completou.
, um pouco sem graça, concordou com os dois e sentou-se ao lado de Sebastian, e o baixista a olhou como se ela fosse um vírus infeccioso. não deu a mínima.
— Da próxima vez — falou Sebastian, ainda olhando — me avisem que podemos trazer convidados. Helliot estava doido para me ver gravar.
cerrou as sobrancelhas.
— Quem é Helliot? — ela perguntou.
— Meu filho — Sebastian falava com preguiça. se lembrou da criança de colo que estava no camarim do show deles em Boston.
— Com esse tanto de maconha — ela respondeu — acho que ele iria ficar literalmente doido em te ver gravar.
O olhar que Sebastian lançou para foi de um homem completamente possesso, mas antes que ele pudesse levantar para responder algo a altura para a garota, Arwin os interrompeu com uma gargalhada seca.
— Eu adorei sua garota, ! — ele anunciou, rindo — tudo bem, ela pode ficar.
Uau, obrigada. E a garota tem nome, dumb ass.
— Ela iria ficar de qualquer jeito — respondeu — e você não viu nada. Então, me diz logo o que eu tenho que fazer.
parou de prestar atenção na conversa quando Sebastian e mergulharam em uma discussão sobre notas musicais e ritmo da bateria. Ela olhou ao redor, o estúdio parecia muito mais um esconderijo para aqueles que iriam para o bar e queriam transar e usar drogas sem serem incomodados. pensou em quantas mulheres , Kalel, Nathaniel e Sebastian já deveriam ter levado àquele tipo de estúdio, ou quantas vezes já tinham transado sobre um sofá como aquele.
Ela sentiu a súbita vontade de ficar em pé. Encostou-se na parede e observou testar batidas nos pratos do instrumento. Era incontestável o fato de que era um baterista digno do título de melhor: seus olhos ficavam vidrados nos tambores e suas mãos eram rápidas demais para conseguir acompanha-las. Ele tocava com paixão e energia, o peito pulava com as batidas e ele tinha no rosto um biquinho expressando sua concentração. Aquela visão do paraíso era demais para a garota. E pensar que ela já o tinha beijado... Uau.
— Ele é muito bom — ela murmurou, para ninguém em especial. Arwin, ao seu lado, assentiu.
— Quando o garoto faz isso — ele apontou para — eu perdoo todas as polêmicas que ele causa. é um em um milhão.
respirou fundo.
Um em um milhão. Ela queria tanto ser talentosa o suficiente para ser uma em um milhão, uma em um milhão com tanta paixão quanto ele.
Jamais conseguiria isso na política.
— Ele é, sim...
Ficaram no estúdio até as quatro da tarde, quando finalmente mostrou o single novo — ao som de represálias de Sebastian e Nathaniel — e foi à loucura. Talvez a Incubus não fosse superestimada, afinal. Eles mereciam cada prêmio, e respeitava muito o mundo musical para dizer isso de qualquer um, mesmo para aqueles os quais ela foi obrigada a conquistar.
Por fim, insistiu para leva-la até sua pousada. A Incubus partiria ainda aquela noite em direção a Nova York para o segundo show da turnê. Apesar de sentir-se um pouco desanimada — o que talvez tivesse a ver com o fato de ela ter,estranhamente, aproveitado a presença de — ela estava ainda mais aliviada. Com a Incubus longe de Massachussets, ficaria livre de Kalel de de suas ameaças. Ela não tinha entendido muito bem o propósito de tudo aquilo, mas tinha aproveitado a experiência e não ter alguém ameaçando sua liberdade vinte quatro horas por dia era algo muito gratificante.
— Está entregue — disse ao estacionar em frente à construção na qual estava hospedada.
o olhou.
— Obrigada por hoje — agradeceu, sincera —foi incrível.
retribuía o olhar com atenção e... carinho? Tristeza?
— Eu que te agradeço, faz tempo que não curtia tanto uma companhia feminina vestida.
deu um soquinho em seu braço.
— Você não can...
— Tá, tá, eu sei — ele interrompeu, rolando os olhos — machista, entendi, desculpa.
riu.
— Eu estou indo, então, meu trabalho aqui foi feito.
assentiu, mas continuou encarando como se não quisesse que ela fosse embora. Nem ela sabia direito o porquê de seu corpo lutar tanto contra seu movimento de descer do carro.
Foi um movimento rápido de que impediu que finalmente deixasse o banco do passageiro. Sua mão calejada belas baquetas segurou o queixo de com uma delicadeza estranha ao músico até então. Ele se inclinou, sentiu seu perfume amargo e os olhos semicerrados do baterista tocarem seus sentidos. Ela estremeceu ao pensar no que estava para acontecer, mas não foi louca de lutar contra. Os lábios se encostaram, não o suficiente para tirar seu fôlego, mas, sim, para fazê-la perder o ar. Um frio bagunçou seu estômago. Ela segurou o pescoço de , os dedos enroscados nos fios loiros do rapaz. As línguas deslizavam com leveza, e, embora tudo estivesse em câmera lenta, o beijo entre eles não durou nem cinco segundos.
Ela foi puxada para a realidade rápido demais. já estava afastado, mas ainda perto o bastante para enxergarem a pupila um do outro.
— Foi um prazer te conhecer, — ele sussurrou, acariciando as bochechas da menina.
precisou se esforçar para fazer algum som sair de sua garganta.
— Eu digo o mesmo — foi sua resposta, antes de sair apressada do carro e correr em direção a pensão.
É. Ela não fazia ideia de onde se metera.


Capítulo 7

Comida mexicana! Nada de frutas tropicais no meio do almoço! [enviado por às 2:38 p.m]

Seguida da mensagem, havia uma foto de mostrando a língua ao lado de um taco mexicano. O fundo se parecia com o banco traseiro de uma van, a luz da tarde iluminava o rosto do baterista e dava a ele uma áurea feliz. não conseguiu não sorrir.
Desde que partira de Massachussets, há duas semanas atrás, e haviam mantido contato. mandava algumas fotos da turnê e experiências, sempre respondia algo sobre seu tédio dentro de um dormitório escuro de Harvard.
Infelizmente, o baterista não era o único integrante interessado no número da garota. Kalel e seu plano maligno de destruir o coração de a havia perseguido de volta a Harvard e cobrava sempre atualizações sobre a proximidade dos dois. Se ele queria saber se já haviam trocado fotos íntimas? Bem, o máximo que ela conseguira foi uma foto de vestido com uma fantasia de Rambo ridícula de Halloween.
Claro que tentou ignorar as mensagens do vocalista, mas com o tempo passou a ponderar se seria mesmo seguro fingir que nada tivesse acontecido após cometer um crime. Seu maior problema era o fato de ser incapaz de enxergar em alguém que pudesse se apaixonar — ou mesmo ter seu coração partido.
Para sua sorte, ou azar, Kalel era quem fazia grande parte do trabalho. Enquanto a banda fazia os dois shows prometidos na Flórida, Lancastre organizava o próximo encontro entre e , e seria em nada mais nada menos que Los Angeles.
Ótimo, pensou, como se aquela cidade já não fosse problemática o suficiente.
Era isso que passava pela sua mente enquanto o táxi contornava as ruas lotadas da Califórnia em direção a Bel Air. Em toda sua situação, ela só conseguia pensar em uma vantagem: ao menos em LA, ela não teria que ficar em um hotel ou qualquer outro tipo de estadia desconfortável. Ela tinha sua bela casa — e toda para ela.
Já conseguia ver o arvoredo do bairro se aproximando quando seu celular tocou e denunciou uma ligação de Kalel. Ela teve que respirar fundo antes de atender, descobrira que possuía um grave problema de raiva.
— Eu já estou em Los Angeles — ela atendeu, irritada — o que quer agora?
Ela ouviu a risada de Kalel do outro lado da linha.
— Eu sei, escoteira, meu motorista já passou sua localização.
— Seu moto...— até perdeu a fala ao encarar, pelo espelho retrovisor, o motorista barbudo de meia idade que ela, até então, pensava ser um taxista qualquer enviado pelo vocalista — Puxa, você é maluco. Mesmo, maluco.
Ela teve um lampejo da imagem de Kalel Lancastre dando de ombros em sua cabeça.
— Eu chego aí em quinze — ele falou, despreocupado — enquanto isso, avisa a irmã Wilson que você está em Los Angeles pra fazer não sei o que porque não sei o que lá e fique surpresa quando descobrir que estamos aqui para um show.
cerrou as sobrancelhas.
— Irmã Wilso...ah — ela revirou os olhos — há há, muito engraçado.
— Beijos, querida.
E ele desligou.
O que eu fiz, Deus, para merecer isso.
— Como pode trabalhar pra ele — perguntou, abrindo o contato de para enviar-lhe uma mensagem.
O motorista a encarou pelo espelho.
— Não é o mesmo que você tem feito?
Touche.
preferiu não responder. Em vez disso, pensou em alguma mensagem convincente para mandar ao seu futuro ex amante. O que ela sequer poderia ter que fazer em Los Angeles? não tinha nada para fazer, em Massachussets, Los Angeles ou nem mesmo em Marte.
Puxa, como ela precisava dar um jeito em sua vida.
E a ideia veio daí. Veio da sua miséria.

E ai, ? Aproveita bastante esses tacos mexicanos, eu estou morrendo de inveja. Enquanto você curte a Flórida eu estou seguindo seu conselho: vim para Los Angeles encontrar meu pai e dizer a ele que estou desistindo de Harvard. Me deseje sorte! Se der errado, a ideia foi sua [enviado por às 7:36 p.m]

bloqueou a tela de seu celular e olhou pela janela — o motorista já estacionava próximo a sua casa. Ela não gostava de pensar naquela mansão como sua, mas crescera ali e, apesar de detestar o meio como ela foi parar ali ou o nome de quem estava no contrato, tinha memórias queridas demais para serem apagadas com o ódio.
Ela nem mesmo pensou se deveria dar gorjetas ou pagar pelo trajeto, apenas desceu do carro e pediu ajuda com o porta malas. Em menos de cinco minutos o automóvel já não estava mais ali.
arrasou sua mala preguiçosamente pelo pequeno caminho de terra batida que levava até a porta principal. O chaveiro tilintou com notas que encheram o coração de com nostalgia ao abrir a porta.
Ela nem sequer a fechou: a sala toda decorada pela sua mãe nos anos oitenta arrastou para dentro através de aromas e recordações visuais. O tapete vermelho da sala de estar trouxe os dias de criança, nos quais a babá de a colocava para brincar sem que ela arranhasse a madeira polida do chão. Os quadros relembravam brigas e mais brigas entre seus pais nos dias de leilão. A escada lembrava o jeito como sua mãe desceu os degraus com cuidado para não acordar seu pai enquanto fugia de casa.
Ela conseguiu não chorar. Largou sua mala parada no centro da sala e subiu as escadas, o cheiro familiar do carpete embrulhava seu estômago. Foi direto para seu quarto: era monumental. Um quadro original da época iluminista decorava uma das paredes, cercado por fotos tiradas por , alguns desenhos terminados e cartinhas recebidas de amigos. A cama estava perfeitamente arrumada, como se ninguém tivesse entrado ali desde que partira — mas, ela sabia que isso não tinha acontecido.
Ela fechou os olhos, a experiência de estar ali de volta após três anos distante era sufocante. Contudo, lembrava-se de cada detalhe: do tapete azul marinho, dos grafites da parede, e da escada caindo do teto até o sótão.
O sótão.
Ela correu e puxou a escadinha por uma corda presa no teto, mal conseguia prestar atenção a sua volta. O cheiro de poeira a fez tossir, mas o sorriso não se desfez do seu rosto quando ela finalmente chegou no último andar.
Seu ateliê.
Também estava intacto: os manequins estavam exatamente onde ela os havia deixado, os panos, o baú com seus desenhos. Ela contornou seu primeiro vestido, sentiu vontade de rir: a costura e o design estavam horríveis. Ela tinha evoluído muito, teria mudado as cores da barra e mudado o contorno do decote se pudesse refazer-lo.
suspirou. Daria tudo para ter aquele ateliê de volta.
Dessa vez, quase chorou. Os olhos e seu nariz arderam, ela sentiu o rosto queimar e percebeu que não tinha nada a ver com o pó. Sentiu as lágrimas se formarem. Ela quase chorou.
Mas, foi interrompida pela notificação de seu celular e foi puxada para o presente.

Los Angeles?? Não brinca! Desembarquei pela manhã, estou no Bel Air hotel até sexta feira. Pare de me seguir, stalker. [enviado por , às 8 p.m]

Agora, falando sério, estou muito feliz por você, espero que dê tudo certo. O que acha de ir ao meu show amanhã e depois sairmos para você me contar como foi? Eu escolho o restaurante para o bem dos dois. Boa sorte !! [enviado por às 8 p.m]


sorriu. Não tinha o porquê sorrir, mas sorriu. As mensagens de às vezes conseguiam fazer isso com ela.
— Jesus, escoteira, o plano era ele se apaixonar e não o contrário.
levou um susto ao se virar e dar de cara com Kalel Lancastre de pé no meio de seu ateliê. Ele estava com o cabelo particularmente mais armado do que o normal, mas seu rosto limpo de maquiagem e a roupa simples o fizeram quase passar por outra pessoa. Quase, se houvesse alguém que pudesse causar tamanho desprezo em .
Ela fingiu não ter se assustado e revirou os olhos.
— Como entrou aqui, Lancastre?
Ele apontou para a escadinha pendurada.
— Você deixou a porta aberta, literalmente todas as portas você deixou aberta.
Merda.
— E o que você está fazendo aqui? — ela rebateu, Kalel se aproximou com aquele sorriso sacana que praticamente era a única expressão do músico.
— Eu estava com saudades.
o empurrou antes que ele se aproximasse demais.
— Eu estou falando sério, Kalel — repetiu — o que está fazendo aqui?
Ele pensou um pouco, olhando ao redor. conteve o impulso e pedir para que ele parasse, aquele lugar era pessoal demais para permitir que qualquer um visse. Ele rodopiou entre os manequins, o rosto franzido.
— Puxa — ele disse — você é boa mesmo, escoteira. Muito boa.
o olhou, irritada. Ele se rendeu com os braços.
— O que você está fazendo aqui? — foi a resposta de Kalel, com os braços levantados — essa não é a casa do seu pai? Aquele que você já deixou bem claro que...
— Ele está em Washington — interrompeu, antes que Kalel dissesse “odeia”. Ela não sabia bem se usar aquela expressão era a melhor definição para seus sentimentos — não veio para casa.
Kalel sorriu, novamente investindo contra . Suas mãos agarraram sua cintura.
— Estamos sozinhos em casa, então, huh? — ele sussurrou.
tentou empurra-lo mais uma vez. Tentou, mas o perfume doce do rockeiro, misturado com a intensidade da troca de olhares entre os dois e a forma como o toque dos músculos do abdómen de Kalel em sua barriga eriçavam seus pelos da nuca impediram que seus braços interpretassem a vontade de seu cérebro. E ele entendeu isso como um convite para continuar, mas, dessa vez conformada, nem sequer pensou em correr para longe.
— Vim te entregar isso — Kalel sussurrou, a respiração do homem era quente contra sua bochecha. Ele tirou do bolso traseiro um ingresso azul, mas não se deu o trabalho de descolar os corpos para estende-lo para ela — é do nosso show de amanhã.
não conseguiu responder, estava sem ar.
— Eu estou falando com você — ele falou de novo, dessa vez acariciando, com a outra mão, a bochecha da estudante.
Droga.
desejava que ele fosse embora, desejava que Kalel não encostasse nela ou não fosse atraente o suficiente para deixa-la bamba.
Mas, se o desejava tanto assim que ele sumisse, por que seu corpo queimava tanto e implorava para que ele continuasse?
A luz da janela na qual estavam encostados iluminava o rosto de Kalel e o fazia parecer ainda mais um ser mitológico. Ela tinha certeza de que o homem não era real, nem . Os dois foram feitos por mãos divinas, Kalel pela mão do inferno, pela mão de um Deus. Um demônio e um anjo caído.
Ela se deu conta de que estava atraída pelos dois. E existia no mundo alguma alma carente que não estivesse?
Talvez não fosse culpa dela. Ela podia experimentar os toques de um sem esquecer de seus princípios ou de seu juízo. Ela podia fazer o que quisesse, o feminismo não a julgaria.
Ela fechou os olhos. Pôde ouvir Kalel rindo, aquele seu riso frágil e sutil que escapava discretamente, como se deslizasse pela sua garganta. Uma nota grave na sinfonia de suas respirações.
Seu nariz tocou sua bochecha, sua testa tocou a têmpora de . Ela já não tinha controle algum sobre seus pensamentos.
Foi o suficiente para dizer a Kalel: sim.
Sua boca deslizou pela lateral do rosto de até deu ouvido, uma trilha quente, úmida e gostosa. quis que ele chegasse mais perto, que ele apertasse sua cintura, que ele a desafiasse a chegar mais perto. Que eles entrassem em uma briga de quem desejava mais que o outro.
Mas ela não podia. Não quando ele era quem ele era, não quando ele fazia o que fazia.
— Vá embora — sussurrou, mas ela mesma não foi capaz de se ouvir. Sua cabeça estava tomada por uma batida surda e constante. Seu corpo estava entorpecido.
Os lábios de Kalel se fecharam ao encontrar o lóbulo da orelha de . Sua respiração era um jato de ar quente. Cada pelo do corpo da garota estava arrepiado.
— Então implore para que eu vá — murmurou, lenta e dolorosamente.
— Da última vez que chequei, a casa era minha.
Ele sorriu e se moveu. Os lábios sutilmente se tocaram, mas não se moveram. Sua mão agarrou delicadamente a lateral do rosto de . Ela não abriu seus olhos, mas ele sorria.
— Apenas diga que quer que eu vá.
Seus lábios eram quentes, tinham gosto de café. O calor de seu corpo era uma amostra do inferno.
levantou a mão e cobriu a do músico, apoiado em sua bochecha. Ela sentiu os lábios do vocalista se apertarem contra os seus. Ele a beijaria. Se não fizesse nada, ele a beijaria.
Ela não queria isso, queria?
Mas não teve que decidir. De repente, ele se foi. Rápido e completamente inesperado. tomou um susto quando ele se afastou, desencostando os corpos e se inclinando para observar a janela. Seus olhos cerrados e suas sobrancelhas franzidas estavam fixos em um ponto do lado de fora.
— Pensei que seu pai estivesse em Washington — ele disse.
, recuperando-se do transe, pigarreou e arqueou as sobrancelhas.
— Ele está. — ela respondeu.
— Então de quem é aquele carro estacionado ali fora?
levou um susto e desvencilhou-se do corpo do vocalista em questões de segundos. Seu coração, de repente, pareceu parar de bater.
Ela olhou pela janela.
MERDA.
— Ah, merda — ela falou, aflita. Empurrou Kalel para longe de seu corpo e correu até a portinhola para seu quarto — pensei que ele fosse ficar em Washington para a votação da nova emenda.
Ela pulou de volta para o andar de baixo e olhou para cima, vendo Kalel se aproximar da escada para olha-la. ficou impaciente.
— Desça logo daí! — ela sussurrou, mas queria gritar.
Kalel ainda a encarava com um semblante confuso.
— Votação da nova emenda? — ele perguntou — em Washington? O que disse que seu pai fazia mesmo?
olhou para a porta, com medo de dar de cara com o homem. Ela não tinha muita certeza sobre o conhecimento de seu velho sobre o ateliê em seu quarto e não queria correr o risco de ele descobrir naquele momento.
— Desce daí, Kalel — ela repetiu, mas Kalel não parecia cooperativo. Ele passou a encarar o horizonte, pensativo.
eu... — de repente, Kalel arregalou os olhos e voltou a encara-la — merda, ! Seu pai é, tipo, o ? Tipo, Quentin ? Tipo, a droga do prefeito de Los Angeles Quentin ? — ele parecia assustado — Merda, , meu Deus!
— Kalel eu vou subir aí e...
?
sequer teve a oportunidade de xingar Kalel uma última vez antes de ser atrapalhada por Quentin.
engoliu em seco antes de se virar para a porta e ser obrigada a vê-lo.
Quentin estava velho. As rugas em seu rosto estavam muito mais aparentes que há três anos. Vestia, como sempre, um terno de risca de giz e uma gravata negra. Seus olhos castanhos estavam assustados, os braços confusos se moviam como se procurassem uma posição boa o suficiente para ver a filha pela primeira vez em três anos.
? — ele perguntou mais uma vez, depois olhou para Kalel, descendo as escadas, e depois voltou a olhar a filha — O que...
puxou Kalel para perto, fazendo-o tropeçar no último degrau e correr quatro passos para trás até recuperar seu equilíbrio.
— Oi — ela falou, apressada — Quentin, esse aqui é Kalel Lancastre. Kalel, esse daqui é Quentin , prefeito de Los Angeles.
Kalel olhou para Quentin como se compartilhasse do sentimento de .
— Muito prazer — ele respondeu, finalmente conseguindo estabilizar os dois pés no chão.
Quentin o mediu com o olhar.
— O que você está fazendo aqui?
Por um momento pensou que Quentin estava falando com ela, mas se deu conta de que o homem encarava Kalel. Ela agradeceu por não estar sozinha naquele quarto e olhou Kalel, esperando uma resposta dele.
Kalel ergueu as sobrancelhas.
— Estou em turnê com minha banda, a...
Quentin não deixou que ele terminasse.
— Sim, sim — ele falou, impaciente — eu sei bem quem você é. Quis dizer o que um marginal como você está fazendo dentro do quarto da minha filha.
Por mais que estivesse gostando de ver Lancastre encurralado, pensou que estava na hora de tomar as rédeas da situação.
— Quentin, pelo amor de Deus, você não me vê há três anos e ainda quer me chamar de filha? — ela perguntou, sarcástica.
Ele cerrou as sobrancelhas.
— Eu te liguei tantas vezes, ! — ele falou, se aproximando. sentiu a necessidade de dar a mesma quantidade de passos para trás — É você quem sempre me evita, só fala comigo quando é sobre dinheiro ou para me culpar de alguma coisa.
jogou os braços para cima.
— Ah, me perdoa se sua única utilidade para mim é me dar dinheiro — ela falou, estava tão nervosa que quase gritava — mas depois que você traiu minha mãe e deixou que ela fosse embora, eu não gosto muito da ideia de te ver ou falar com você com tanta frequência. Aliás, a vida inteira foi assim, não foi? Ou você, de repente, se sente o pai presente que tanto diz ser?
Quentin olhou para Kalel. O prefeito estava certamente constrangido de estar tendo aquela discussão em frente a outras pessoas. Sua habilidade com campanhas o fizeram criar um padrão comportamental que evitava ao máximo brigas ou polêmicas quando tinha alguém por perto.
Para seu azar, não temia uma plateia, e Kalel não parecia muito interessado na discussão, assistia aos dois impaciente, como se não visse a hora de ir embora.
, meu trabalho...
riu.
— Eu sei, seu trabalho, sua campanha, suas eleições... Sua filha, porra — falava em um tom que poderia ser escutado em qualquer lugar daquela mansão — A merda da sua família, ou das suas, eu sei que você não é muito adepto à monogamia mesmo.
Quentin balançou a cabeça, parecia realmente ofendido.
— Pra que isso agora, filha?
não aguentou: todas as lágrimas que vinham sendo guardadas despencaram de uma só vez. Ela gritou, de ódio, de dor, sentindo-se incompreendida, abandonada. Por que? Por que tinha que ser o tipo de mulher que se esforçava tanto para levantar as outras mulheres enquanto se afundava mais e mais na própria desgraça? Porque ela sentia a necessidade de culpar seu pai por todas as frustrações de sua vida? Talvez porque ele fosse o culpado, ou porque ela era fraca o bastante para não ser capaz de assumir a própria responsabilidade?
Ela esteve, a vida toda, cercada de ouro e afogada na própria miséria. Lutara, a vida toda, pelos direitos das minorias e escondendo seus direitos atrás de sua falta de motivação para usá-los.
Aquele homem talvez não fosse culpado pela sua infelicidade, mas era o culpado por aparar sua perspectiva e diminuir seus sonhos aos próprios. Ele foi a faísca que precisava para se reduzir às cinzas.
Por esse motivo ela chorava.
... — Quentin tentou amenizar a situação, mas não era do tipo que parava de discutir tão cedo.
— Você, nunca mais, precisa me dar dinheiro — ela falou, com raiva — eu odeio você. Eu pensei que eu não ligasse tanto assim, mas eu ligo. Eu realmente odeio você, e não quero mais nada vindo de você.
Quentin riu, irônico.
— E o que você tem sem mim? — ele perguntou — sou eu quem pago por seu dormitório, sua mesada...Sou eu quem te sustento.
balançou a cabeça.
— Uma ova que é — ela cuspiu as palavras — esse dinheiro não é seu. Esse dinheiro é sujo, como você. Esse dinheiro, que você pega de quem trabalha o dia todo, de quem não tem um dormitório, uma cama, não tem mesada, nem comida, esse dinheiro, eu não quero.
Quentin a olhou nos olhos, o rosto vermelho parecia prestes a explodir.
— Pois é esse dinheiro sujo — ele rosnou — que paga Harvard pra você.
— E como eu já disse — repetiu, o queixo erguido — não quero. Pegue de volta.
Quentin franziu o rosto.
— Vai abrir mão de Harvard? — ele perguntou — não te criei para se tornar um ninguém, .
— Ah, papai — falou, carinhosa — você não me criou para nada. As babás me criaram, minha mãe me criou. Me desculpa, pai, por querer ser o mesmo que você é pra mim. Um ninguém.
Quentin não entendia a situação.
— Por que? — Quentin parecia ter ignorado a última fala de — Por que quer abandonar Harvard?
perdeu a paciência
— PORQUE EU ODEIO AQUELA MERDA — ela gritou. Pôde ver Kalel, ao seu lado, dar um pulo de susto. Quentin recuou vários passos, receoso.
respirou fundo. Ela finalmente tinha falado.
— Por isso estou aqui — ela continuou, agora mais baixo — não vim para ver você, vim dizer que, pra mim, chega. Estou abrindo mão de Harvard e de todo seu dinheiro, obrigada.
De todas as reações que ela podia esperar de seu pai, ela jamais imaginou que Quentin pudesse gargalhar em resposta. Seu riso grave e rouco despertou em o lado mais escuro de sua raiva. Ela precisava desesperadamente ir embora dali.
— E você vai fazer o que? — ele riu, divertido — O que você vai fazer, ? Você não tem nada.
ficou sem resposta, mas não precisou pensar em nenhuma. Pela primeira vez desde que Quentin entrara no quarto, Kalel entrou no meio dos dois e resolveu se manifestar.
— E é por isso que eu estou aqui — Kalel concluiu, passando seu braço ao redor dos ombros de é nossa mais nova estagiária da nossa recém contratada estilista. Ela vai nos ajudar na próxima turnê.
e Quentin, ambos ficaram espantados.
— Estagiária da estilista? — Quentin perguntou.
estava tão atônita quanto, ainda chorava.
— Estagiária de... — ela começou, mas então percebeu que Kalel tentava ajudar ela com Quentin — Sim, a Incubus me contratou.
Kalel assentiu.
— Agora, se nos dá licença, viemos pegar alguns desenhos de e já estávamos indo — Kalel disse — e sua filha é muito boa, sr. , muito melhor estilista do que você como pai. Ou prefeito.
conteve o riso. Quentin os encarava espantado.
Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, Kalel arrastou para fora do quarto. O prefeito não foi atrás deles, ou deu alguma resposta: os dois saíram pela porta e entraram no carro de Kalel sem que ninguém soltasse uma única nota.
Sentado no banco do motorista, Kalel não deu partida enquanto não parava de soluçar. Ela sentia o peito doer com o esforço de conter seu desespero interno.
— Obrigada — foi o que ela conseguiu dizer, meio embargada, quando recuperou o ar — por me ajudar com meu pai.
Kalel respirou fundo.
— Eu não falei isso só para te ajudar com seu pai — Kalel corrigiu — disse porque é verdade. Você é muito boa, . Quero que você estagie para a gente.
tomou um susto. Olhou para Kalel com os olhos arregalados, sentindo, mais uma vez, que estava sendo sufocada.
Kalel percebeu seu espanto.
— Quer dizer — continuou ele — ainda precisamos conversar com Arwin e tudo o mais, mas tenho certeza que quando mostrarmos algumas de suas ideias eles vão querer você também.
sentia que estava participando de alguma espécie de pegadinha.
— Kalel, eu... — ela fungou — por que está sendo legal comigo? Eu nem gosto de você.
O vocalista sorriu.
— Não estou fazendo isso por você, escoteira — respondeu — estou fazendo pela banda. Além disso, eu tenho uma certa experiência com péssimos pais e uma promessa a mim mesmo de me vingar de todos eles.
não sabia mais o que dizer.
— Obrigada mesmo, Kalel... — falou — eu só... Para onde vou agora?
Kalel ligou o carro.
— Por enquanto, nós vamos até o Bel Air hotel arranjar uma cama para você. Santo Deus, escoteira, você trabalha para nós agora, onde estivermos é onde você está. E eu sempre sei muito bem para onde ir.


Capítulo 8

— Mas que droga, . Por que é que você está tão preocupado?
andava de um lado para o outro do lobby do hotel, aflito. Suas botas faziam um barulho desconfortante no silêncio da sala blindada contra o som externo. Nathaniel, sentado em um dos sofás, observava enquanto bolava um baseado.
parou em frente a Nathaniel. As mãos na cintura acentuavam seu nervosismo.
— Onde foi que aquele filho da mãe se meteu? — ele perguntou, e depois voltou a se movimentar pelo piso laminado — São dez horas da noite! Dez! Ele nem responde minhas mensagens.
Nathaniel franziu o cenho.
— Estamos falando sobre Kalel em Los Angeles — Nathaniel, ao contrário de , não estava nem um pouco preocupado. Acendeu seu cigarro e deu um trago com seu descaso típico de guitarrista — não deveria estar tão encanado com a escapada dele.
bufou. Não queria admitir que não estava nem um pouco preocupado com o lugar onde o vocalista se encontrava, mas, sim, com quem ele estava dando essa escapada. E só de lembrar que ainda não o havia respondido fazia ir à loucura.
— Temos que sair cedo — respondeu — é um show grande amanhã.
Nathaniel expirou, a fumaça ofuscou os olhos negros do guitarrista e lhe deram uma aparência ainda mais sombria. sempre dissera que o maior contraste da banda era a aparência de Nate e sua simpatia.
Nathaniel ainda encarava sob os cílios volumosos.
— Tem mais alguma coisa que te preocupa, — ele disse após algum tempo — Vai me falar ou o que?
bufou, sentando-se no sofá oposto e afundando a cabeça nas mãos. Ele não gostava de pensar que o que estava sentindo era ciúmes, mas não conseguia suportar a ideia de Kalel estar, naquele momento, dando em cima ou em cima de . Não que ele tivesse alguma coisa a ver com isso, claro que não. Mas a situação o incomodava de uma maneira que ele nunca havia sido incomodado antes.
Nathaniel respirou fundo, ainda não tinha desistido de arrancar informações pessoais e preocupantes sobre o melhor amigo.
— É aquela garota do estúdio que Sebastian mencionou?
não respondeu com som, mas o breve aceno que deu com a cabeça foi o suficiente para Nathaniel entender a situação. Ficaram longos segundos em silêncio até uma risada cínica de Nate fazer com que levantasse a cabeça.
— Qual a graça, mate? — perguntou, ainda mais cínico. Nathaniel deu de ombros.
— Vocês dois, cara — Nathaniel abriu os braços, descansando-os sobre o encosto do sofá — ainda não entendi por que está tão preocupado, vocês dois não vivem disputando todo mundo? Que que tem ele comer a sua garota? Amanhã você sabe que vai comer a dele.
ficou irritado, não só por se sentir estranhamente incomodado com os termos utilizados por Nate, mas também por saber que era verdade. Mais uma vez, lutou contra a visão de Kalel e juntos em sua cabeça.
Ele engoliu em seco. Nathaniel era seu melhor amigo, não era? Não havia motivos para não ser sincero.
— Ela não, Nate — respondeu, desviando o olhar.
Nathaniel abaixou o baseado e deu batidinhas sobre o cinzeiro. Encarou , o olhar distante do baterista parecia realmente chateado. O guitarrista assentiu, ressentido pelo parceiro de banda.
— Puxa, , eu sinto muito — Nate lamentou, sincero — não sabia que essa era importante.
balançou a cabeça, derrotado.
— Pelo visto, não é. Deve estar em algum canto com Kalel, aquele...
— Ei, já tentou ligar pra ela?
deu de ombros.
— Ela não responde minhas mensagens, não faço questão de ir atrás — bufou, levantando-se — quer saber? Esquece essa história. Com certeza uma boa trepada vai me fazer esquecer de tudo isso.
Nathaniel arqueou as sobrancelhas.
— Pelo amor de Deus, , pegue a droga do telefone e ligue para ela — falou o guitarrista — é a primeira garota que você conversa por mais de uma semana.
— Ora, não precisavam me esperar acordados.
Uma terceira voz fez e Nathaniel se desconcentrarem de sua conversa e se voltarem para a porta. A cena deixou ainda mais incomodado, e ele não soube direito nomear a sensação que teve ao ver e Kalel Lancastre, lado a lado, entrarem no hotel.
cerrou as sobrancelhas. o olhava, os olhos escuros pareciam molhados, seu rosto era uma expressão fechada e desanimada. Contudo, controlou o impulso de perguntar qualquer coisa, ao ter sua hipótese confirmada, ele só assentiu e deu as costas, sumindo pelas escadas.
Ele pensou, quando chegou no segundo lance das escadas, que seu humor não conseguiria piorar. Contudo, teve sua opinião destruída ao sentir uma mão em seu ombro e ver que Kalel o havia seguido. Sentiu uma onde de agressividade assolar seu peito e se controlou muito para não extravasar no colega.
— O que você quer, Kalel? — perguntou, se virando.
Lancastre tinha um sorriso escroto no rosto.
— Uou, alguém está estressado — Kalel brincou — Vim ver aonde você está indo.
respirou bem fundo e contou até dez.
— Vou dormir — respondeu, ríspido — você deveria ir também.
Kalel concordou.
— Vou dormir muito bem — disse ele — assim que encontrarmos um quarto pra nossa escoteira. o de três horas no futuro ficaria muito orgulhoso e surpreso do auto controle responsável que o impediu de dar um soco bem no centro do nariz empinado do vocalista. Em vez disso, mediu Kalel com um extremo descaso — que não era muito bem o sentimento dele no momento — e fingiu ignorar o fato de que possivelmente estaria hospedada ali também — e ainda graças a Kalel.
Poderia ser pior. e Kalel poderiam ficar no mesmo quarto.
— Me faça um favor, Lancastre — pediu, cuspindo as palavras sem esconder seu ódio atrás delas — Vá você e essa menina se ferrarem, eu não dou a mínima. A única coisa que me interessa são as merdas das suas cordas vocais estragadas se não descansar ou passar a noite toda gemendo.
Kalel sorriu.
— Eu não tinha pensado nessa alternativa, mas seria um bom motivo para cancelar o show — Kalel fingiu ponderar — Mas, se eu não te conhecesse muito bem, diria que está com ciúmes, . Tsc, tsc, nunca pensei que veria isso um dia.
voltou a subir os degraus.
— Como eu disse, os planos de vocês para hoje à noite não me interessam. Esteja inteiro para a merda do show.
ficou agradecido por não ser mais seguido pelo resto dos andares. Quando teve certeza que estava sozinho o suficiente, passou a correr degraus acima com a ânsia esmagadora de chegar até seu quarto e afundar o rosto em um belo de um pó. Por um lado, sentia-se decepcionado com a falta de força para bater seu recorde em completa abstinência, mas estava passando a acreditar que Kalel havia sido posto em sua vida como algum tipo de obstáculo divino para a redenção. E, puxa, aquele obstáculo estava fazendo um estrago danado, não só tornando praticamente impossível a vida de , mas trazendo obstáculos novos para seu caminho.
E, no fim, tudo acabava em . A loirinha exótica que despertara tanto sua curiosidade quanto seu sexo masculino.
Não, ele não estava criando sentimentos ou nada do tipo. Na verdade, tinha certeza absoluta que nunca havia sentido nada por garota alguma, exceto por Tiana Lewis, a baixinha da quarta série com quem havia tido sua primeira experiência emocional. Tudo bem, ele tinha nove anos, mas o ponto era que, depois que Kalel apareceu para ferrar com todas suas apostas, havia criado uma certa barreira impermeável contra frustrações. estava começando a quebrá-la, e ele só se deu conta ao ver o quão estava possesso com Kalel por causa de uma garota. A barreira previa exatamente esse tipo de coisa, e não foi capaz de ver essa chegando.
Com todo esse escalonamento dos fatos em mente, concluiu, ao entrar em seu quarto e enfileirar três carreiras sobre a escrivaninha, que talvez a vida realmente devesse ser dessa maneira. Viva rápido, morra jovem. Ninguém se importava com sua vida além dele mesmo. E ele não teria experiências completas se trocasse prazeres como aquele por selos de recuperação.


sentiu-se absurdamente desconfortável.
Abandonada por Lancastre no centro do lobby, após a pequena cena de , jamais pensou que teria um curto período a sós com Nathaniel Patel. Não que o homem fosse grosseiro quanto o restante dos integrantes, mas sentia-se intimidada com a beleza cruel do guitarrista, principalmente quando ele a observava de maneira tão sombria por trás da fumaça de seu cigarro. Era uma cena claramente desconfortável, até mesmo para uma pessoa descontraída como .
— Então... — trocou o peso do corpo nos pés e balançou o corpo — Nathaniel, né?
Nate estendeu o baseado para , ela suspirou como um agradecimento aos deuses e sentou ao lado do homem no sofá. Boa cannabis viajou pelos pulmões da garota.
— Eu me lembro de você — ele disse, e teve que fingir engasgar com a fumaça, e não com o choque.
Nate não fez contato visual, aproveitou a oportunidade para não olhá-lo também.
— Estive no show — falou, cotidianamente.
Pelo canto do olho, viu Nathaniel balançar a cabeça.
— Não — disse ele — não é do show, você é muito familiar. Mas, tudo bem, posso estar errado.
— Eu...
— Qual o seu nome mesmo?
engoliu em seco.
.
Ele assentiu. devolveu-lhe o baseado e tombou a cabeça para trás, sentindo todas as mil e uma sensações que seu corpo permitia. Não sabia aonde aquela conversa iria chegar, mas ela estava com tanto medo nos últimos meses que já estava começando a ficar acostumada com aquilo.
— Então, — ele começou. Sua voz era carregada de preguiça ou tédio — eu não sei o quanto você conhece esses dois ou o quanto você está próxima da banda, mas acho que você deveria saber que está se metendo em uma situação que pode não acabar muito bem pra você — achou estranho o modo como Nate conseguia fazer suas palavras terem efeito mesmo sem dize-las olho no olho.
fechou os olhos. Ah, ela sabia muito bem o quão mal tudo aquilo podia acabar.
— Tenho certeza que você já dormiu com mais de uma mulher ao mesmo tempo — disse, defensiva — não vejo o porquê de ser diferente quando se trata de uma mulher.
— Ah, você pode sair com quantos homens você quiser — ele corrigiu, ainda monótono — mas esses dois não seriam minha primeira opção — ele fez uma pausa para olhá-la de canto — principalmente se você tem ética o suficiente pra não querer causar problemas maiores pra gente.
sentiu uma sensação esquisita no fundo do estômago. Culpa? Não. Ela não tinha culpa daquilo, se alguém precisava de ética ou tinha culpa por algum problema, esse alguém era Kalel Lancastre.
Ela suspirou.
— Não quero causar problema nenhum — respondeu. Sentiu a estranha necessidade de ser sincera — E não estou saindo com Kalel, eu não o suporto.
— Oh — Nathaniel soou satisfeito — isso é bom, eu acho.
— Problema resolvido — foi a única a se mover, vendo Kalel se aproximar com uma chave balançando em sua mão — quarto um sete cinco, no nosso andar.
olhou para Nathaniel, ele a encarava sugestivo como alguém que esperava alguma reação específica vinda dela. Infelizmente, não se encontrava em condições para ser grosseira ou dar Nathaniel o que ele queria.
Ela se levantou, indo até Kalel.
— O que? — ela falou, surpresa — Não posso pagar por esse hotel, Kalel. Pensei que tínhamos vindo até aqui para conversar com Arwin não para me hospedar.
Kalel balançou a cabeça.
— Sou eu quem pago seu salário, — respondeu — E é a banda quem vai pagar sua estadia até você começar a receber.
— Certo, mas ainda não posso fazer a banda pagar uma estadia no Bel Air hotel.
, você é nossa funcionária. Deve ficar onde a banda e a equipe estiver.
A garota bufou, derrotada.
— Certo — respondeu, distante — vou pagar cada centavo de volta, prometo.
Kalel revirou os olhos.
— Como quiser — ele entregou as chaves para a garota — Agora que estamos entendidos, o quarto é todo seu.
agradeceu, pegando as chaves das mãos do roqueiro. Antes de ir até o elevador, lançou um último olhar para Nathaniel, no sofá. Ele tinha no rosto uma pergunta silenciosa: o que diabos estava acontecendo?
Talvez estivesse chapado demais para perguntar em voz alta, ou realmente não dava a mínima.
Por sorte, Kalel só assentiu e sentou-se ao lado de Nathaniel, esquecendo-se da presença da ex estudante. Aliviada, apertou as chaves em sua mão e saiu do lobby, não preparada para subir para seu quarto e menos preparada ainda para ficar na companhia dos dois astros. Sendo assim, ela seguiu por um estreito corredor além dos elevadores, o qual desembocava em uma extensa área externa com piscina. Seu queixo caiu: aquele lugar era enorme. Apesar de sua vida de luxo, jamais imaginaria que estaria hospedada em um lugar como aquele um dia, nem mesmo com Quentin.
Ela caminhou pelo gramado em direção a um dos bancos. Muitas coisas passavam por sua cabeça e ela tinha quase certeza que, se não tivesse um momento a sós consigo mesma, ela enlouqueceria. Em primeiro lugar, ela finalmente havia deixado Harvard. Durante três anos, tudo o que conseguia pensar era como se sentiria livre e feliz se fosse capaz de abandonar a faculdade dos sonhos de Quentin, mas seu peito e sua consciência, naquele momento, não estavam de acordo com suas fantasias. Sua cabeça divagava até Kalel e a fazia pensar em tudo o que estava acontecendo em sua vida e fazia-a questionar o rumo que ela estava tomando. Seria a melhor decisão?
se sentou em um banco de madeira próximo às espreguiçadeiras. A lua iluminava a piscina e fazia-a brilhar em tons roxos e neon. O barulho da fonte bagunçando a água era como terapia. As ondas formavam harmonias na superfície, lembravam tecido quando pregados nas saias.
Sem querer desperdiçar sua repentina inspiração, e sem muita ideia de como conduzir sua vida a partir daquele momento, tirou de sua bolsa seu caderno e começou a fazer a única coisa sobre a qual ela não tinha dúvida alguma: desenhar.
Enquanto traçava as curvas de um vestido roxo, ela sentia sua própria tristeza e confusão conduzir sua mão pelo papel. Sua cabeça pairou em muitas distrações com as quais ela já estava muito acostumada. Seria ela boa o bastante para aquele emprego? Estaria seu pai certo quando disse que, se não fosse por ele, ela não seria nada? Ela sequer estava preparada para se tornar um ninguém?
Afogada no próprio desespero, a garota perdeu a noção do tempo. Ela só percebeu que estava ficando realmente cansada ao se assustar com a própria sombra no gramado.
bocejou, e então percebeu que a sombra não era dela. Seu coração deu um pulo no peito ao notar a repentina presença de uma segunda pessoa por ali.
? — perguntou , com o rosto franzido. Os grandes olhos azuis delatavam o tamanho de sua pupila dilatada.
levou a mão ao coração, quase derrubando seu desenho.
— Deuses, , você me assustou.
O homem parecia inquieto e nervoso. Ele se largou no banco ao lado de e encarou a piscina.
— O que você está fazendo aqui? — ele perguntou a ela, sem olha-la.
deu de ombros.
— Não estou muito afim de ir para o quarto.
desceu os olhos até a bolsa da loira, vendo, largada sobre o bolso maior, as suas chaves.
Ele voltou a encarar a piscina.
— Não vai ficar no quarto de Kalel, huh — falou, sarcástico.
estava com problemas suficientes para dar atenção à falta de educação do baterista.
— Eu não estou muito disposta agora, — ela reclamou, irritada — pode voltar para de onde você veio e me deixar sozinha? Ou, pelo menos, parar de insinuar coisas como se eu te devesse explicações?
suspirou. Com os músculos explicitamente rígidos, o baterista afundou o rosto nas mãos e puxou os fios de seus cabelos por entre os dedos. Não parecia tentar disfarçar a tensão.
— Acabei de fazer uma coisa pela qual não estou muito orgulhoso — ele murmurou, o som saiu abafado pela sua mão.
encarou a cabeça loira do músico. Ela não tinha muita certeza se estava preocupada ou se só queria que ele fosse embora para que ela continuasse a lamentar as escolhas de sua vida.
Depois de longos minutos em silêncio absoluto, finalmente cedeu à boa educação.
— Está tudo bem — falou ela — todos fazemos coisas que não nos orgulhamos.
balançou a cabeça.
— Eu estou muito na merda, — ele se limitou em dizer.
não sabia como conforta-lo. Ela estava tão ocupada com os próprios problemas que quase — só quase — não se sentiu culpada em querer um tempo sozinha.
— O que você quer que eu diga? — perguntou, com calma. Ela não tinha a intenção de ser rude, apesar de falhar em tentar esconder sua impaciência.
levantou o rosto, observando a lua ao encostar o pescoço no encosto do banco.
— Eu só...não quero ficar sozinho agora.
— Você não tem alguma garota de programa para ligar ou algo do tipo?
finalmente olhou para ela, seu rosto tinha uma careta incrédula.
— Qual é o seu problema?
suspirou.
, eu não sou sua terapeuta — ela resmungou.
não respondeu. Com os olhos claramente cheios de raiva momentânea, ele tirou os olhos de e voltou a observar os próprios pés. Ficaram mais longos minutos em silêncio até se dar conta de que talvez tivesse sido rude demais.
— Desculpa, eu só estou um pouco nervosa com tudo isso — ela disse, olhando para — contei ao meu pai que detestava Harvard e ele falou umas coisas — ela pensou um pouco — desagradáveis.
Ele pareceu relaxar um pouco.
— Ele não ficou muito feliz, né?
sorriu, cínica.
— “Não te criei para ser um ninguém, ” — ele imitou, irritada — “Você não tem nada sem mim,
riu, acomodando-se no banco para ficar virado para ela.
— E o que vai fazer agora?
Ela engoliu em seco. Bem, ela adoraria saber a resposta dessa pergunta.
— Kalel me chamou para ser aprendiz da estilista de vocês — ela respondeu, sentia um frio no estômago toda vez que se lembrava que aquilo realmente estava acontecendo.
arqueou as sobrancelhas.
— Vai trabalhar com a gente?
Ela balançou a cabeça, desviando o olhar para seu caderno.
— Eu não sei — respondeu — no fundo, acho que Kalel só queria me tranquilizar. Ele vai me apresentar para sua estilista e para Arwin amanhã, mas não sei o que vai acontecer.
demorou para responder, observando com cuidado.
— Podia ter falado comigo — ele disse, por fim — teria te ajudado também.
bufou.
— Escuta, , eu não quero ser objeto da intriguinha entre vocês — recostou-se no banco, aproximando-se do corpo de — Eu não namoro nenhum dos dois, eu não quero nenhum dos dois. Isso está começando a me tirar do sério.
tinha no rosto uma expressão indiferente, os olhos acompanhavam os lábios da garota enquanto esta falava.
observou primeiro seus olhos. Quase transparentes de tão azuis, permitiam de enxergar um leve reflexo de dor e de uma profundidade escondida. Não era comum ao baterista, no entanto, deixar transparecer sua vulnerabilidade, e pôde ver o esforço com o qual tentava parecer indiferente. Para a infelicidade dele, tinha familiaridade suficiente com a dor para reconhece-la.
Apesar de impaciente e ocupada enfrentando uma luta consigo mesma contra todos os impulsos de gostar do músico, não se considerava um monstro. Tudo bem, ela não lidava suficientemente bem com seus próprios sentimentos e problemas para se considerar capaz de amenizar o desespero alheio, mas o peito apertado da mulher a impedia de simplesmente ignorar aquele momento tão sensível entre os dois.
Ela suspirou, segurando a mão de sobre sua perna.
— Desculpa se estou sendo uma vaca com você — ela se desculpou, apesar de saber que era o cretino da situação — se vamos ser amigos, precisamos parar de ser escrotos um com o outro.
ainda encarava com profundidade. Estavam próximos o bastante para que pudesse sentir a respiração irregular de sobre seu rosto. De repente seus olhos desceram novamente para a boca da mulher, e ela não se considerava mais capaz de responder por si mesma. se inclinou, as pernas se tocaram e deslizaram uma sobre as outras. puxou seu corpo pela cintura, as pontas dos dedos apertaram sua pele.
— Você não quer nenhum dos dois? — ele perguntou, e sentiu que foi mais uma provocação do que uma pergunta. Ele agarrou uma de suas pernas e a puxou para sobre seu colo, e ela nem sequer foi capaz de resistir. Sua perna encaixou-se perfeitamente sobre as coxas do músico e sentiu seu corpo inteiro formigar conforme deslizava sua mão por ela.
Com os olhos vidrados nos lábios rosados do baterista, tentou dizer alguma coisa e amaldiçoou todos seus hormônios por ser tão fraca. Ela não queria nenhum dos dois? Não se recordava de ter dito isso. No momento, ela só queria que seus dois corpos estivessem grudados um sobre o outro.
Como um protesto pelo silêncio, apertou sua mão contra a coxa da mulher e, em um ato agressivo, uniu os dois corpos e suas testas. se assustou ao sentir o corpo deslizar pelo banco e com o choque bruto entre os dois. Enquanto tentava recuar, o rosto de acompanhou seu movimento de forma a não permitir que as testas se desgrudassem. Dessa vez, perdeu totalmente o fôlego.
— Nada de espertinho para dizer agora? — perguntou, descendo os dedos até a barra da saia de e deslizando a sua mão para debaixo dela, fazendo o caminho de volta. nem sequer teve medo de que alguém aparecesse por ali, sentiu todo seu corpo se arrepiar conforme as peles roçavam. sorriu contra seu rosto — Nenhum protesto?
Ela continuou sem dizer nada — era uma mulher que preferia sentir tesão em silêncio. Para não deixar sem uma resposta, balançou a cabeça negativamente como um aval silencioso para que ele fizesse o que quiser com ela.
não disse mais nada. Com o calor entre os dois rostos, passou suavemente a língua pelo pescoço de enquanto seus dedos brincavam na borda de sua calcinha. respirou fundo e empertigou-se de modo a roçar pelo corpo do baterista, em uma tentativa frustrada de tentar saciar o seu desejo repentino. Jogou os braços em volta do pescoço de e, ao sentir seu indicador por cima do tecido de sua roupa íntima, lembrou que só se vive uma vez.
Que se dane.
Assim que subiu de seu pescoço, avançou para seus lábios. correspondeu como se já esperasse por aquilo, agarrando a nunca de com violência enquanto sua mão certamente deixava marcas em sua coxa. As línguas deslizaram como se quisessem ocupar todo o espaço destinado a elas, as bocas não permitiam que nenhum dos dois respirassem e ambos os lábios ardiam com a ferocidade das mordidas e puxões. entrelaçou os dedos nos fios loiros de e os puxava com tanta força que a própria mão doía com o esforço, mas a dor não era maior que o desejo de ambos de se unirem em um corpo só.
gemeu ao sentir a mão habilidosa do baterista em a virilha, e pareceu, ao ouvi-la, perder ao pouco controle que lhe restava. Colocando as duas mãos, uma em cada perna da garota, puxo-a para o seu colo e levantou o pano esvoaçante de sua saia de modo que o contato entre a roupa íntima de e as calças do baterista fosse direto. A intimidade de queimou ao sentir a ereção de crescer encostada a ela. Ela deslizou pelo seu colo e, dessa vez, quem arfou foi ele, agarrando a bunda da menina com as duas mãos e com certeza deixando ali hematomas para o dia seguinte. sentiu o tecido de sua calcinha rasgando com os toques de e decidiu que não aguentava mais. Em meio a grunhidos de prazer e vontade, subiu a camiseta do baterista e cravou as unhas em suas costas sentindo o calor emanar de sua pele. Ao sentir seu toque sobre as costas nuas, segurou o lábio inferior de com os dentes e encaixou cada perna em um dos lados de seu corpo, levantando-os.
— Vou te levar para o meu quarto — ele avisou, em um sussurro quase inaudível.
— Por favor — ela respondeu, no mesmo volume, enquanto se segurava em seu colo.
Os corpos não se desgrudaram um único segundo enquanto cambaleavam até o elevador. foi pressionada contra a parede enquanto uma das mãos de tateavam a parede em busca do botão. , desesperada para chegar logo no quarto e finalmente sentir tanto quando desejava, tirou uma das mãos de seu pescoço e ajudou a procurar pelo maldito. As duas mãos buscavam as cegas.
— Inferno — amaldiçoou , descolando os rostos para chamar o elevador.
Assim que a cabine se abriu diante deles, entrou com em seu colo e as costas de foram jogadas contra a parede. Talvez, se estivesse consciente, ela se perguntaria como o vidro do espelho permaneceu intacto depois do impacto. Mas, naquele momento, não deu a mínima. Enquanto o elevador subia, os dois ignoraram toda e qualquer câmera existente ali. Só existiam os dois e o desejo de ambos por mais.
Ao chegar no andar, sequer se perguntou se deveria mesmo fazer aquilo. Abandonaram a camiseta de ali mesmo no corredor e, ao ser colocada no chão para que pudesse abrir a porta de seu quarto, deixou por ali sua saia. terminava de arrancar a própria camisa quando terminou de abrir a porta. Ele a mediu com um olhar lascivo antes de lançar seu melhor sorriso cafajeste e conquistador.
— Deixe um pouco para mim — reclamou, puxando-a para dentro de seu quarto pela barra de sua calcinha.
A porta fechou-se atrás deles e tudo o que sobrou foram seus murmúrios no escuro.


— Tem como você ir mais pra lá? — reclamou, empurrando para longe com seus pés — Está invadindo o meu espaço.
riu, recusando-se a se afastar. Os dois gargalharem enquanto travavam uma guerrinha por debaixo dos edredons. Derrotada, parou de relutar, encarando o baterista com um sorriso. a puxou para perto, deixando acomodar-se na curva de seu pescoço. Ela respirou fundo aquele perfume entorpecente e delicioso.
— Ótimo jeito de lidarmos com nossas merdas — disse, olhando para o teto.
debruçou-se sobre o travesseiro.
— Eu não consigo me lembrar mais das merdas que fizemos.
— Eu vou definitivamente fazer mais merdas daqui para frente.
sorriu solene, penteando os fios loiros do homem com os dedos. Ela ainda não conseguia acreditar que havia transado com , cuja beleza ainda era um dos objetos de estudo das organizações mundiais — e, se não era, deveria ser. Parecia surreal. Ela sequer sabia o motivo de ter feito aquilo: carência, impulso, tesão acumulado ou se foi por pura e espontânea vontade reprimida.
Pelo menos ele parecia se tornar um ser humano decente aos poucos, apesar de ainda olha-lo com receio.
? — quebrou o silêncio, sem encara-la. puxou as mechas do cabelo de para trás e aninhou-se próxima ao seu rosto.
— Huh? — respondeu.
— Sabe o que disse sobre pararmos de ser escrotos um com o outro se quisermos ser amigos?
pensou e assentiu. fechou os olhos e a puxou para mais perto, próximo a pegar no sono.
— Eu não quero ser seu amigo — ele falou, antes de puxar o cobertor para cima e dormir.
, ao contrário, não conseguiu dormir. Soltou-se dos braços de assim que teve certeza que este estava dormindo, e sentou-se em perna de índio sobre o colchão. Respirou fundo.
“Eu não quero ser seu amigo”
repetiu isso várias vezes em sua cabeça. Encarando fixamente há mais de meia hora o relógio digital sobre o criado mudo ao lado de , não conseguia sossegar as batidas aceleradas de seu coração e sua dor de barriga repentina. Ela ficara tão imersa em seus próprios problemas e em como parecia ser uma pessoa bacana que esquecera-se completamente das ameaças de Kalel. Não passou por sua cabeça, nem por um segundo sequer desde que chegara em Bel Air, que precisava conquistar e destruir . Precisava machuca-lo muito mais do que ele parecia já doer.
Ela não era capaz disso. Se dera conta ao ouvi-lo dizer aquelas palavras. Ela não podia fazê-lo se apaixonar por ela para depois ir embora como se não tivesse deixado um coração partido para trás. Ela não era um monstro como seu pai, ela não era insensível como Kalel e muito menos capaz de acabar com os sentimentos de .
Ela não era capaz de machuca-lo. Logo , que treinara a vida toda para não se importar com ninguém. As pessoas matavam, magoavam, abandonavam as outras todos os dias. O mundo era distorcido e doente, mas isso não lhe dava passe livre para adoece-lo mais e ela definitivamente não podia. Não podia fazer nada para machuca-lo. Tudo o que ela queria era poder abraça-lo e pegar no sono sem se preocupar com o resto do universo. Queria aproveitar sua companhia sem medo de perde-la ou de magoa-lo tanto que nunca mais olharia na sua cara. Ela não suportaria isso.
Foi essa decisão que fez com que levantasse da cama às 3 da manhã. Vestiu suas roupas íntimas tentando fazer o maior silêncio possível e torceu para que o corredor estivesse vazio para que ela encontrasse suas roupas. Antes de abrir a porta de fininho, lançou um último olhar a dormindo e suspirou baixinho. Kalel podia denuncia-la, fazer qualquer coisa. Ela não continuaria com aquilo e se afastaria.
Saiu do quarto pisando cuidadosamente no carpete e agradeceu ao Olimpo ao encontrar sua saia e camiseta na porta. Vestiu-as e desceu correndo para a piscina, na esperança de recuperar sua bolsa deixada por lá.
Quando finalmente entrava em seu próprio quarto, passava das três e meia. Apesar do horário e do conforto absoluto se sua cama de luxo, não dormiu.
No final, sabia que doeria muito mais nela.


Capítulo 9

Batidas na porta de seu quarto a acordaram de seu breve cochilo.
saltou da cama com o susto. Precisou de mais batidas para se dar conta de que eram reais e não parte de um sonho, e franziu o rosto ao ver o horário. Sete e meia da manhã? Quem poderia ser o monstro em sua porta?
preferiu não esperar novas pancadas na delicada madeira de seu quarto chique. Esticou os dois pés, foi cambaleando até a porta para abri-la e ficou ainda mais confusa em notar que não conhecia a pessoa do outro lado.
Era uma mulher baixinha de cabelos escuros. Ela, vestida inteiramente de terninho social, tinha um rosto franzido e muita seriedade para uma pessoa só.
pigarreou.
— Sim? — ela perguntou, confusa.
A mulher deu uma espiada para dentro do quarto, depois virou-se pra .
? — perguntou, olhando para a prancheta que tinha nas mãos. assentiu — Sou Anya Gallinger, chefe da equipe de modelistas da Incubus. Kalel Lancastre avisou-nos sobre você e fiquei responsável pelo seu dia-teste. Você...hm... — Anya mediu dos pés a cabeça. Por conta de ter abandonado sua mala de roupas em sua antiga casa e de ter deixado o resto de seus bens em Harvard, vestia ainda as roupas amassadas do dia anterior. Anya limpou a garganta — está pronta pra começar?
Ótima primeira impressão.
— Eu não estava esperando começar agora, minhas roupas ainda estão em Massachusetts. Mas, tudo bem, só me dê um minutinho para escovar os dentes.
Anya arqueou as sobrancelhas ao observar dando as costas e deixando a porta livre enquanto ia ao banheiro.
Antes de acompanhar a modelista, tentou, sem sucesso, desamassar as roupas em frente ao espelho. Por fim, deu de ombros e trancou o quarto, sabendo que, mesmo amarrotada, ainda estava bem vestida.
Anya a levou até um quarto do final do corredor do mesmo andar, quarto o qual estava servindo de sede para o departamento de design de roupas. ficou imediatamente encantada:
Tinha certeza absoluta que só havia visto aquele tipo de organização em filmes e em seus sonhos. Para começar, havia quatro araras diferentes espalhadas pelo quarto, cada uma com um estilo e tamanho diferente de roupas. No lugar onde deveriam estar as camas havia duas mesas compridas cobertas por papéis, desenhos, máquinas de costura e notebooks, todos enfileirados e organizados como se estivesse realmente dentro de um ateliê. Ela não pôde impedir seu queixo de cair.
—Aqui a comissão encarregada dos figurinos e estilo dos rapazes durante os shows e sessões de foto —Anya explicava, enquanto dava voltas com pelo quarto —em todos os hotéis que vamos reservamos um único quarto para nossa equipe, e se estivermos em Londres temos um ateliê próprio. Aquelas são Helga e Andrew, fazem parte da equipe fixa da banda também. Além deles, temos Olivia Tomlinson, estilista encarregada, você já deve ter ouvido falar —com certeza havia ouvido falar. Olivia Tomlinson era uma das estilistas americanas mais famosas por administrar grandes artistas —e os funcionários dela, dos quais já não temos muito controle e vivem mudando.
não conseguiu fazer muita coisa além de assentir e parecer uma criança deslumbrada. cumprimentou Helga e Andrew e continuou a tour até pararem em frente a quatro manequins de papelão em tamanho real dos integrantes da Incubus. Anya voltou a ler em sua prancheta.
—Bem, acho que já te apresentei tudo por aqui —falou, tirando seus óculos de grau —então vamos aos negócios. Como Kalel fez questão de frisar, ele quer que você termine a tour pelos Estados Unidos conosco. Isso é bom, porque vamos ter tempo para te ensinar e avaliar o seu trabalho. Essa semana, você vai observar e aprender, entendeu? — assentiu — certo. Vou te explicar um pouco dos meninos agora, suponho que já os conheça há tempos.
teve que prender uma risada. Conhecia-os há tempos? Não era bem assim, a não ser que tempos possa significar meses.
De qualquer modo, concordou.
—Então vai ser mais fácil —ela apontou para o manequim do Kalel — Para Kalel, gostamos de explorar seu corpo. Coletes, calças justas, tudo que deixe a mostra seus... —ela pigarreou, sem graça, ao ver com um sorriso engraçado contidos nos lábios e suas sobrancelhas arqueadas de modo sugestivo —gostamos de explorar seu corpo, a equipe toda. Nathaniel só usa roupas preto e branca, isso é muito importante, ok? Nunca vestimos ele com nada colorido, por isso temos sempre que inovar as roupas e fazer novos designers para que ele não pareça repetir sempre as mesmas coisas. Ah, e as tatuagens devem ficar a mostra, sempre mangas curtas para haver o contraste entre as roupas e as cores do braço. Entendido?
O sorriso de não tinha mais tom algum de deboche. Ela estava maravilhada com a explicação e não via a hora de poder aplicar tudo o que estava aprendendo em roupas de verdade para eles. O conceito por trás de Nate era simplesmente genial. Ela se lembrou da primeira vez que viu Nate pessoalmente e como a beleza do homem foi um choque para seu lado feminino. O contraste grosseiro entre sua pele extremamente branca, seus cabelos muito pretos e suas tatuagens coloridas era de fazer qualquer pessoa babar, e saber que eram suas roupas que realçavam esse contraste e faziam sua beleza ser tão aparente aos olhos deixava ainda mais apaixonada pela moda.
Era como se um clique tivesse estalado em sua cabeça e ela finalmente pudesse enxergar um detalhe muito simples, porém muito escondido, que fizesse o resto do mundo fazer sentido.
Anya pareceu perceber o quanto estava perplexa com a recém descoberta, e um sorriso brotou no rosto da mulher antes que ela continuasse a falar.
—Já é o típico rockeiro dos anos setenta — ah, sim, isso já havia notado. E, céus, como ela amava — olhe para uma foto do Queen e reproduza as roupas nele. Ah, não as de Freddie...Você me entendeu. Calças justas, couro, boca de sino, camisetas estampadas, volumosas, abertas, você quem decide. Roupas que levem os fãs de volta a uma época em que estaria sentado no banco de Roger Taylor. E os dois são tão parecidos que a nostalgia dos fãs aumenta a venda dos ingressos.
Roger Taylor..Céus, eram idênticos. Mais uma vez, as roupas fazendo o trabalho.
— Sebastian é o mais simples e o mais difícil —continuou — roupas leves e básicas, sem muito conceito por trás. A ideia é que ele não se importa o suficiente e está sempre vestido com qualquer coisa. Funciona.
E como funcionava.
Anya mediu novamente .
—Espero que você tenha entendido ou tenha memória fotográfica, já que não anotou nada do que eu disse — quase engasgou com a própria saliva, mas só deu de ombros. Não precisava anotar aquilo.
—Pode deixar que eu sei quando será preciso anotar — respondeu.
Se Anya se incomodou com a grosseria, ela não deixou transparecer. Na realidade, Anya nem mesmo pareceu ouvir —o que sabia muito bem que não era verdade. Ela simplesmente virou as costas e fez um gesto para que a seguisse.
Anya passou o resto da manhã ensinando como funcionava o dia a dia da comissão.
Naquele dia, acordaram cinco da manhã para preparar a Incubus para o show que teriam às nove. Eles cuidavam de tudo por trás dos shows, photoshoots, entrevistas e demais eventos. Às vezes acompanhavam a banda até o backstage e outras vezes Olivia mandava alguns de seus funcionários. No fim, tudo dependia da autorização e ordem da Olivia, desde as roupas do dia a dia até as de eventos. Até mesmo os trajes do dia a dia deles passavam antes pela aprovação da equipe antes de lotar seus armários. estava louca com a ideia de poder auxiliar no design das roupas de premiações e vídeo clipes, era como se a menina estivesse sonhando. Estava tão entusiasmada que quase — quase — considerou a possibilidade de agradecer Kalel, mas resolveu que seria melhor não fazer nenhum movimento que pudesse deixar Lancastre convencido de que lhe devia uma — o que não seria possível sob qualquer hipótese, visto a repulsa que sentia por ele. Por fim, decidiu apenas aproveitar o momento e deixou que Helga ensinasse a ela tudo o que precisava. Sentou-se em uma das cadeiras próximas às máquinas de costura e assistiu enquanto a estilista terminava os reparos finais de uma jaqueta estampada para .
Era meio dia e meia quando Anya passou pela estação na qual estavam para avisar o horário de almoço. suspirou, decepcionada por não poder continuar com as atividades, mas Helga não parecia muito disposta a continuar a trabalhar fora de seu horário. Sendo assim, enquanto Helga e Andrew saíam do quarto, resolveu esperar mais algum tempo, sentindo os tecidos e sonhando acordada com a oportunidade que lhe havia sido dada.
— Você vem, ?
estava tão entretida com os próprios devaneios que se assustou quando sentiu a mão de Anya tocar seu ombro. suspirou.
— Não sei se já agradeci pela oportunidade — ela disse, olhando para Anya — mas, obrigada. Não tem ideia do quanto isso está sendo importante para mim. Quer dizer...Puxa, eu não sou nem formada nem nada. Há pouco tempo atrás estava em um bar próximo a faculdade reclamando de ciências políticas com um cara que acabei de conhecer. E eu sequer usava meu nome verdadeiro.
Anya riu. Ela parecia ser pouco mais velha que , talvez tivesse vinte cinco ou vinte e seis anos. Contudo, marcas de expressão acompanhavam o contorno de seu rosto pequeno e tinha a impressão de que a mulher era muito mais inteligente e experiente do que ela imaginava ou parecia ser.
Anya desceu a mão pelo braço de , confortando-a, e pediu gentilmente para que ela se sentasse. Assim que se acomodou em uma das poltronas em um canto do quarto, Anya arrastou uma cadeira até a sua frente e se sentou.
— Muitos estilistas começam assim, sabia? — ela explicou, debruçada nos próprios joelhos para encarar mais de perto.
encolheu os ombros.
— Como bêbadas de Harvard sem diploma algum? — perguntou.
Anya nem mesmo sorriu.
— Como indicação de algum artista — retificou —ou você acha que todas as modelistas e estilistas de todos os famosos são formadas em algum curso de moda?
balançou a cabeça, sem saber a resposta. Não esperava por aquilo. Anya, ao ver que não diria nada, continuou:
— Eu, por exemplo, sou formada em geologia. Geologia! — ela berrou, jogando as mãos pro céu — Agora, me diz, em que mundo você imagina um geóloga como chefe da equipe de estilistas e modelistas da Incubus? Ou melhor, uma geóloga sendo contratada por Olivia?
sorriu.
— Eu não imagino — admitiu.
Anya apoiou sua mão no ombro de .
— Exatamente — concluiu ela — fica tranquila, ok? E não entenda isso como um passe livre para fazer o que quiser, você assumiu um comprometimento aqui. Agarre essa oportunidade, aprenda conosco e se torne aquilo que você quer se tornar. Sem olhar para trás, sem enxergar ainda aquela estudante de ciências sociais bêbada de Harvard que você era.
cerrou as sobrancelhas.
— Ciências políticas —corrigiu.
— O que?
pigarreou, sem graça.
— Você disse Ciências sociais, eu estudava ciências políticas.
Anya se levantou, abrindo os braços e exibindo uma pose de alguém que não se importava com absolutamente nada no mundo.
—Claro! Você pode estudar o que quiser, basta querer muito isso — Anya disse e preferiu deixar por isso e não falar mais nada — Agora, vamos almoçar com o restante da equipe e depois nós vamos curtir a festa pós show da banda, pode ser?
assentiu.
— Ótimo — concluiu Anya — Então vamos.


realmente não esperava fazer amizade com sua chefe, mas como todos os demais acontecimentos de sua vida naquele momento eram muito mais surreais que aquilo, ela parou de se espantar com tudo. Sendo assim, encontrava-se sentada no sofá de couro da suíte de Anya Gallinger enquanto esta revirava roupas e mais roupas de dentro de sua mala.
— Eu tenho certeza que tenho algumas roupas aqui do seu tamanho — ela falou, de cócoras próxima a mochila — Como eu odeio nossas estadias curtas, nem vale a pena colocar tudo no cabide.
empertigou-se para ver o que ela tanto bagunçava.
— Anya, você não precisa fazer isso, sério — disse , um pouco sem jeito — está tudo bem, posso ir buscar minhas roupas amanhã ou comprar alguma coisa antes de ir.
Anya suspirou, cansada, derrubando o corpo para trás e deitando de costas no carpete. ajeitou-se no sofá para se arrumar em perna de índio.
— Meu Deus, você não pode estar falando sério, mulher! — exclamou Anya, encarando de baixo para cima. Os cabelos escuros da chefe se espalhavam ao redor de sua cabeça e a deixavam com uma aparência engraçada — você está se esforçando muito para não aceitar as roupas da chefe de estilo da Incubus. O que é? Tem medo que não caia tão bem em você quanto cai em mim?
se levantou, fingindo-se ofendida.
— Estou começando a pensar que você quer me humilhar na frente da imprensa — rebateu — eu sou pelo menos dez centímetros mais alta que você e suas roupas vão me deixar parecida com um umpa lumpa. Obrigada, eu passo.
Anya revirou os olhos, sentando-se novamente para procurar as roupas.
— A única maneira de se humilhar na frente da imprensa é se você for vestida com essa dobradura que chama de saia. Além do mais, somos duas profissionais da moda e sabemos perfeitamente como agir em uma emergência como essa — Anya falou — agora se plante aqui do meu lado e vamos vestir esses seus três metros de perna.
suspirou, sentando-se ao lado de Anya. Apesar de fisicamente terem um corpo muito parecido, Anya era muito baixinha e qualquer shorts dela serviria como roupa íntima para . Aliás, ela realmente precisava trocá-las e o desamparo que tinha em relação aos seus pertences começava a lhe desesperar. Por sorte, sempre guardava uma calcinha extra em sua bolsa, mas depois daquele dia ela precisaria tomar alguma atitude a respeito e isso não podia de jeito algum ser procrastinado.
— O que você acha de usar esse meu body? Ele tem esse corte transversal que provavelmente ajuda a esticar até o final do seu tronco — Anya puxou uma peça preta de sua mala.
pegou o body e assentiu, gostando da ideia. Como era preto, as duas acabaram encontrando uma calça comprida cheia de babados que disfarçaria o comprimento e cairia bem com o estilo capri. As duas debateram alguns estilos e decidiram a roupa de Anya antes de resolverem se separar para tomar banho.
— Nos encontramos às quatro na recepção — falou Anya — tentamos pegar uma carona com a Lottie, vocês vão se dar muito bem, ela é a cabeleireira da banda.
assentiu e voltou para seu quarto carregando consigo as roupas emprestadas por Anya. Ela realmente precisava de um tempo a sós para absorver tudo o que estava acontecendo e surtar de felicidade por alguns segundos.
Por isso, a primeira coisa que fez quando entrou em seu quarto foi largar todas as roupas em cima de sua cama e ir tomar um banho demorado. Enquanto a água quente escorria pelo seu rosto, ela não pôde evitar pensar em . Esteve tão absorta com Anya e a equipe que nem lembrara de sua situação do dia anterior. não sabia se deveria se sentir arrependida por ter cedido ao charme irresistível de ou se estava tudo bem dormir com ele. Na realidade, ela ainda se sentia assustada com o que o baterista lhe falara antes de adormecer e não sabia direito como deveria lidar com isso. Uma coisa era certa: ela definitivamente abandonaria o plano de conquista-lo. Quanto a isso ela não tinha dúvida alguma. Só lhe restava definir como resolveria isso com Kalel.
saiu do banho decidida a pedir conselhos a única pessoa que ela sabia que tinha um pouco de humanidade restante. Sendo assim, enrolou a toalha de algodão ao redor de seu corpo e, sentada na cama, discou para Alyssa. Torceu baixinho para que ela atendesse logo.
— Alô? — atendeu Aly.
suspirou, grata.
— Ei, Aly, sou eu ! — disse ela — tudo bem?
! — Alyson soou surpresa e animada — Meu Deus, você não me deu mais notícias!
— Puxa, se você soubesse o que têm acontecido. Adivinha onde estou?!
Aly tomou alguns segundos antes de responder.
— Hm... Harvard? — sugeriu.
rolou os olhos.
— Los Angeles! — corrigiu, mas continuou a falar antes que Alyson pudesse dizer qualquer coisa — ok, eu vou ser rápida porque estou fazendo uma ligação internacional e...bem, eu estou dura. Não faça muitas perguntas, tá?
— O que você está fazendo em LA?
— Viu? Eu acabei de pedir para você não perguntar nada.
, como você espera que...
— Escuta, larguei Harvard! — interrompeu — Kalel Lancastre me convidou para fazer parte da equipe de estilistas da Incubus!
ouviu Alyson gritar do outro lado da linha.
— Ah...Meu..Deus! , como isso aconteceu? Meu Deus!
saltou da cama, soltando gritinhos empolgados junto com a melhor amiga.
— Eu sei! Eu sei! — falava, tentando segurar a toalha que começava a cair — Eu estou no hotel deles, hoje foi meu primeiro dia!
, isso é o máximo — Aly soava orgulhosa — você merece tudo isso. E, o que mais? O que tem para me contar?
começou a andar pelo quarto, sem jeito e sem saber como contaria todas as novidades por telefone.
— É uma história engraçada, na verdade — começou — Você se lembra de quando eu te disse que Kalel havia descoberto tudo e queria se encontrar comigo?
— Uhum — concordou Alyson.
— Então... Kalel meio que está me chantageando com essa história. Meio, não, ele está definitivamente me chantageando com essa história. Ele disse que vai contar tudo a polícia se eu não fizer com que morra de amores por mim.
teve que esperar Alyson se recompor de uma crise de tosse antes de dar a ela uma resposta. apertou os olhos bem forte, com medo da reação da amiga. Ela realmente torcia para que Alyson não se sentisse culpada ou algo do tipo.
— Fazer ... , você tem ideia da situação? Eu mal consigo acreditar. Diga que está brincando! — Alyson soava tão incrédula quanto o esperado — Não é possível que exista no mundo alguém tão distorcido e perturbado capaz de fazer uma ameaça dessas.
Finalmente alguém havia exposto exatamente o que pensava sobre a situação.
— Eu sei, certo? — disse — Kalel é doente! Eu...Argh.
— E o que você fez sobre isso?
— “E o que eu fiz sobre isso?” — imitou , caminhando até a sacada para observar a rua — O que você é, minha psicóloga? Óbvio que tive que dar um jeito de seguir as ordens do imbecil, o que mais eu poderia fazer além de ir para a cadeia?
— Meu deus, , eu sinto muito, muito mesmo! — falou Alyson entre suspiros — Se eu soubesse que isso iria acontecer...
— Não, não, não — interrompeu , assistindo alguns carros chiques estacionando em frente ao hotel — a culpa não é toda sua, ok? Além do mais, isso está sendo bom! Eu finalmente larguei Harvard, estou trabalhando de estilista para uma das maiores bandas do mundo e ainda consigo tirar uma casquinha de de vez em quando. Falando nisso, dormi com ele ontem.
— Santa mãe de Deus! — Alyson pareceu ter atingido o ápice de seu choque.
— E, na verdade, era sobre isso que eu queria conversar — suspirou — Não acho que consigo fazer isso.
— Transar com um astro do rock gato?
quis bater na amiga.
— Fazer com que ele se apaixone por mim e depois magoa-lo.
ouviu Alyson soltar um longo suspiro, como os que ela dava antes de ter que explicar uma coisa muito óbvia quando falava algo estúpido.
— Pelo amor, , estamos falando sobre aqui! Alô? — disse ela — Você acha mesmo que você vai estalar os dedos e fazer ele magicamente se apaixonar por você? E depois deixar ele muito mal? Não é assim tão fácil, não é assim que o amor funciona.
— Acha que não consigo conquistar ? — soou ofendida.
— Eu acho que você não deveria estar pensando nisso — continuou a amiga — Qual é, você é ! Desde quando acha dificil deixar um cara bobo por você?
pensou um pouco.
— Tem razão...
— Você é tipo a droga da , uma das mulheres mais incríveis que eu conheço.
conseguiu sorrir.
— Tem razão, Aly — concluiu a loira — Eu não preciso levar tudo o que está acontecendo ao pé da letra.
— Exato! , existem muitas outras alternativas para você sair dessa. Kalel é quem está viajando achando que você está encurralada, ele nem imagina do que você é capaz de fazer! E nem as outras soluções que você pode encontrar se pensar um pouco, o que ele aparentemente não faz...
— Eu... — a fala de foi interrompida por um assovio sugestivo vindo da rua. franziu o rosto, segurando sua toalha com uma das mãos e procurando pelo autor do som.
Ela teve que usar muito de seu auto controle para não soltar uma das mãos e mostrar um de seus dedos para Kalel no andar debaixo. Ele acenava e ria enquanto olhava para cima e apontava para .
revirou os olhos. Viu Sebastian descendo acompanhado de uma mulher de um dos carros e entrar no hotel. se deu conta de que a banda havia chegado do show e seus pensamentos foram imediatamente para o fato de estar de volta ao hotel. Se ela fosse rápida, talvez pudesse encontra-lo no corredor do andar. Ela realmente precisava conversar com ele.
— Eu...— continuou ao telefone, deixando Kalel plantado como um idiota no térreo e entrando de volta em seu quarto — eu preciso desligar. Te ligo mais tarde.
— Mas... — desligou antes de ouvir o que mais Aly tinha para falar.
Ela jogou o celular sobre a cama e prendeu a toalha em seu corpo, de modo a não precisar segura-la mais com as mãos. Tirou a toalha que estava sobre sua cabeça e abandonou-a sobre uma das cadeiras, correndo em direção a porta. O corredor ainda estava vazio, mas ela sabia que era uma questão de tempo até o elevador se abrir e a banda voltar para seus quartos para se arrumar para a festa.
Demorou exatamente dois minutos até que finalmente alguém aparecesse no elevador. viu Sebastian e sua garota primeiro, os dois desceram da cabine soltando risinhos e cochichando entre si. Atrás dele vinha Nathaniel, sozinho. Ele nem sequer pareceu notar parada próxima à porta, ao contrário de Sebastian, que, em vez de passar reto pela menina como Nathaniel fizera, diminuiu os passos até parar com uma expressão divertida ao seu lado. Contudo, não deu a mínima, ela só conseguiu prestar atenção nas três figuras que saíam do elevador por último. Um estranho aperto atingiu seu peito de repente, não como a raiva reprimida que sentia por Quentin , mas um tipo diferente, um ódio avassalador e rápido que se parecia mais com um soco na boca do estômago.

não estava desacompanhado. Duas gêmeas ruivas abraçavam-no de lado e sorriam enquanto o baterista se arrastava em passos lentos com seus óculos escuros e sua expressão fechada.

, posso conversar com você um minuto? — perguntou ao ve-lo passar.

Foi a ruiva da direita que chamou a atenção do homem para que ele notasse ali, contudo preferiu não responder. Ele mediu com indiferença, abaixando alguns centímetros seu aviador, sussurrou alguma coisa para a aspirante a modelo e continuou seu caminho como se nada tivesse acontecido.

arqueou as sobrancelhas, confusa. Até mesmo Sebastian, encostado na parede, franziu o rosto.

—O que ele tem? — perguntou o baixista.

bufou.

—Dez anos, aparentemente.

A mulher ao lado de Sebastian riu. O baixista sorriu, deu de ombros e saiu andando, levando sua companheira consigo.

Lá estava , de ressaca moral após transar sóbria com uma criança escrota. Céus, ela era preciosa demais para compartilhar seu corpo com alguém do tipo. Agradeceu aos deuses por já ter tomado um banho e se purificado, talvez devesse se enxaguar com um chá de sal grosso para recuperar as energias perdidas.

Irritada, ela ajeitou a toalha em seu corpo e entrou de volta em seu quarto. Talvez abandonar aquela cama de madrugada fora a melhor decisão que já tomara.
Bem, ela tinha três anos de ciências políticas, um mês e meio de prisão, quatro anos de veganismo e ainda era estilista de uma das maiores bandas de rock do mundo. Ela não precisava de bateristas gatos.

só precisava de si mesma.



— Você o que?

— Que droga, Nate, eu sei que você já entendeu — bufou, mais uma vez, encostando a cabeça no encosto do banco de sua limousine.

Eram cinco horas da tarde quando as limousines pararam em frente ao Bel Air Hotel para levar a banda até o clube onde seria a festa. Kathy e Louise, as fãs gêmeas que haviam acompanhado até o hotel, já haviam ido embora e ficara mais uma vez sozinho com os parceiros de banda. Como sempre, uma única limousine levava apenas e Nathaniel, visto que toda a equipe da Incubus se esforçava ao máximo para manter Kalel e separados. Até o momento, parecia fazer sentido.

, às vezes eu não acredito nas coisas que você me diz — Nate ria, incrédulo — Você não diz a uma mulher que tem sentimentos por ela depois da primeira transa. Não é assim que funciona.

bufou, bebendo um gole de vodka pura. Espremeu os dentes ao sentir o gosto do álcool queimar sua garganta.

— Eu não tenho sentimentos por ela e não foi bem isso que eu disse —corrigiu — eu disse que não queria ser amigo dela. E, não quero. Não quero que ela me veja assim.

Nathaniel puxou o copo da mão do amigo para poder beber.

— Cara, você se expressou completamente errado.

— Eu sei disso! — ele gritou, depois arrepiou os cabelos com os dedos enquanto pensava — Eu nunca precisei dizer a uma mulher que eu não quero que ela me veja como um amigo. Eu não sabia o que fazer!

— Você tinha acabado de dormir com ela, , ela já não te via como um amigo. Meu Deus, você é burro, cara?

—Há, há, você é muito engraçado, Nate. — respondeu, cínico — de qualquer modo, ela não está interessada. Saiu do quarto no meio da madrugada e nem me disse nada, ou respondeu alguma coisa. Acho que a mensagem foi bem clara.

Nathaniel riu.

— Claro que ela foi embora, você é o maluco que se apaixona depois da primeira noite — ele deu de ombros — Se fosse ao contrário, você também iria.

balançou a cabeça, distante.

— Não com ela — falou.

, eu juro por Deus que se você desistir dela eu acabo com a sua raça.

bebeu mais um longo gole de sua bebida, apenas para sentir uma azia desesperadora. Não via a hora de chegar na festa e terminar todas as entrevistas para poder realmente iniciar seu final de semana.

— Eu já desisti, cara, não adianta — ele respondeu — hoje mesmo ela pediu para conversar comigo e eu saí andando. Não quero parecer ficar em cima dela o tempo todo ou fazer com que ela pense que me deve explicações por ter ido embora — suspirou, recostando a cabeça no vidro da janela — e mesmo que queira me dar explicações, eu realmente não quero ouvir. Se eu cobrar explicações, ela vai me achar...Ah, eu nem sei do que eu estou falando. Só não quero que ela pense mais coisas ruins sobre mim.

Nathaniel arregalou os olhos, sarcástico.

— Entendi. Então você ignorou ela, depois de transar com ela, porque não quer que ela pense coisas ruins sobre você— recapitulou Nate — você é genial.

bufou.

— Se eu ouvir explicações, ela só vai achar mais ainda que eu quero que ela me dê explicações — tentava provar seu ponto.

— Mas que droga, , isso não faz sentido nenhum.

finalmente virou o restante do copo em um gole só, sentindo-se extremamente frustrado.

— Que merda, Nathaniel! —gritou ele, visivelmente possesso — Você tem ideia do quanto é difícil impressionar essa garota? Ela é tipo...Ah,cara, eu nunca pensei que fosse ter medo de falar com uma mulher mas me deixa simplesmente apavorado. Ela me odeia! Eu não posso falar com ela sem uma vozinha bem no fundo da minha cabeça me lembrar que ela me odeia e só está procurando motivos para me odiar mais. Eu não posso dar esses motivos para ela!

...

—Não, Nathaniel, você não entende — interrompeu — ela me odeia.
Nathaniel revirou os olhos e soltou um longo suspiro.

, você está bêbado —ele disse, dando o assunto por encerrado — só tome vergonha na cara e peça a ela desculpas.




— Meu Deus, , quer parar de andar como se estivesse com assaduras no rabo?
olhou torto para a chefe enquanto elas, Lottie e Elba tentavam arranjar uma mesa para eles.
devia admitir que, quando ficou sabendo que iria a uma festa/jantar patrocinada pela Incubus para promover a turnê ela esperava muito sexo, drogas e rock n’ roll. Contudo, o que ela não esperava era um salão com mesas cheias de pessoas importantes e engravatadas. Na área principal, uma mesa cheia de comidas — as quais não sabia nem pronunciar — enfeitavam o centro, cercado por mesas redondas grandes e garçons uniformizados. Um grande pôster promocional da Incubus preenchia toda a área de um pequeno palanque onde estava posicionado o microfone.
Também havia uma área externa, atrás do salão e bem afastada do restante, cuja decoração se aproximava mais do que estava esperando. Grandes caixas de som pendiam das colunas gregas, havia confete e serpentina para todos os lados, uma grande fonte de tequila, um bar ao ar livre e uma grande piscina. Bem no centro da lateral do jardim uma mesa completa de aparelhagem de som só aguardava por um DJ.
— Seu body é muito apertado — reclamou , puxando a parte inferior do body junto com sua calcinha — duvido que eu aguente até o final da noite.
— Por favor, pare de puxar a calcinha para fora do seu rabo.
jogou os braços para cima.
— Quer parar de falar “rabo”? — ela fez aspas com a mão — que irritante!
— Meninas — advertiu Elba, colocando cada uma de suas mãos nas costas das mulheres e empurrando-as delicadamente em direção a uma mesa — querem parar de discutir e dar um sorriso? O fotógrafo ali está tirando fotos da gente.
soltou um sorriso falso, sem antes ajeitar mais uma vez sua roupa, E seguiu em direção à mesa.
Por sorte, o jantar foi servido poucos minutos após sua chegada. Álbus antigos da banda tocavam baixinho ao fundo enquanto desfrutava de um delicioso risoto de funghi. Apesar da boa conversa e da boa comida, não conseguia se concentrar no momento e mantinha os olhos sempre em movimento, sem conseguir acreditar na quantidade de astros que havia naquela sala — ela realmente quase teve um ataque cardíaco ao se dar conta de que Terry Crews estava sentado algumas mesas adiante, e de que Liam Gallagher, antigo vocalista da Oasis, estava logo ao lado.
Ao que parecia, as únicas estrelas ausentes naquela noite eram justamente os protagonistas de toda a festa, a própria Incubus. Os primeiros a chegar foram Kalel e Sebastian, ambos acompanhados apenas por seus assessores e por Arwin Green, e foram direto para um largo corredor onde dariam algumas entrevistas. A segunda leva de flashes e gritos vieram pouco mais de quinze minutos mais tarde, quando Nathaniel e entraram no salão e seguiram pelo mesmo caminho que seus colegas de banda.
terminou sua quarta taça de vinho com um único gole e revirou os olhos.
—Que horas são? — ela perguntou — Não era bem isso que eu esperava de uma festa da Incubus.
Lottie riu.
— Ei, aguenta aí, loirinha — falou ela — ainda são seis horas da noite e eles acabaram de chegar, ainda é um jantar familiar.
—Espera só até a galera com as crianças irem embora — acrescentou Elba.
Eles não estavam errados. Pouco a pouco, os convidados mais velhos começaram a ir embora e o volume da música foi se tornando cada vez mais alto.
Quando menos esperava, ela se encontrava já alterada por vinho sentada em um dos bancos do bar externo e desabafando com o barman. Anya estava desaparecida com Elba e Lottie conversava com alguns amigos ainda dentro do salão.

— Eu mataria por um copo desses — disse, com os olhos fixos no copo que o barman preparava para um dos convidados.

O barman riu.

— Tem certeza que consegue beber mais? — ele perguntou, entregando o drink para o homem sentado ao lado de .

, fingindo-se ofendida e com os olhos arregalados, saltou do banco. Uma vez novamente em pé sobre o gramado, ela deu batidinhas sobre o balcão.

—Está brincando? —perguntou ela — é claro que consigo! Eu sou blin...blindada —afirmou ela, com dificuldade, e depois se recompôs e empinou o nariz para o garçom —Quer saber? Eu te desafio! Prepare um shot de tequila para nós dois.

O barman riu ainda mais, divertido.

— Não posso beber, senhorita, estou trabalhando.

— Ah, qual é! —lamentou —é uma festa de rock ‘n roll, é claro que você pode beber.

— Eu concordo com ela, Steve — disse uma terceira voz.

virou-se um pouco desnorteada até enxergar claramente o autor da voz. com certeza o conhecia de algum lugar, mas sua aparência charmosa fez a consciência bêbada de não se dar o trabalho de tentar descobrir quem ele era.

— Certo — respondeu , com os olhos cerrados para o novo interlocutor — três shots, então, um para mim, um para você e um para nossa amigo...
O homem estendeu a mão, sua expressão curiosa demonstrava seu espanto ao notar que a loira não o reconhecera.
— James — apresentou-se — e você é...
estendeu a mão.
— Sou — falou ela. James segurou sua mão estendida e deu nela um pequeno beijo. recolheu a mão, desconfortável.
— Steve — disse James para o barman — você ouviu a , três shots para nós, por favor.
Steve encheu apenas dois copos sobre o balcão.
— Desculpe, senhor Franco, não posso beber enquanto trabalho.
revirou os olhos, debruçando-se sobre o balcão.
— Vamos, Steve! — pediu ela — ninguém vai perceber. Tenho certeza que a Incubus não vai se incomodar nem um pouco se você tomar uma com a gente.
— Ah, eles não se importam? — Steve perguntou.
negou lentamente com a cabeça. Steve sorriu.
— Então por que não para de olhar para cá?
e James se viraram imediatamente. , sentado do outro lado da piscina e abraçada com o que deduziu ser uma Angel da Victoria’s secret, encarava fixamente o homem ao lado de no balcão. percebeu que aquele olhar era cem por cento intencional e parecia que entre os dois havia um enorme problema.
James cerrou as sobrancelhas.
— Não acho que seja com você o problema, Steve — falou ele, parecendo confuso.
olhou para James.
— Vocês se conhecem? — perguntou ela.
Ele balançou a cabeça negativamente.
— Você conhece? — James retornou a pergunta.
encolheu os ombros.
— Bem, eu...
James arqueou as sobrancelhas, como se entendesse tudo.
— Compreendo — disse ele, se levantando — espero que eu não apanhe hoje, sabemos que ele gosta de fazer isso.
— Ah, qual é! — reclamou ela — não tem nada entre ele e eu.
, não tenho mais idade para esse tipo de coisa — reclamou ele — foi um prazer te conhecer.
Assim que Franco saiu andando, olhou nervosa para o barman esperando que ele fizesse alguma coisa. Contudo, Steve apenas encolheu os ombros e se virou para atender outros convidados.
bufou, irritada, e virou de uma só vez os dois copos de tequila. Depois de lançar um gesto não muito educada para , saiu cambaleante até o banheiro, mas sem antes de pegar de um dos garçons um copo de cidra.
Ao entrar no toalete feminino, abandonou o copo vazio sobre a pia e apoiou-se no mármore. Sentia o mundo inteiro balançar e pensou que poderia vomitar para poder beber um pouco mais sem perigo.
Enquanto lavava o rosto, pensando em suas opções para o resto da festa, um vulto feminino entrou correndo e rindo pela porta. Ela diminuiu os passos ao ver .
? — perguntou Anya.
se virou, sentando-se sobre a pia.
— Eu estou muito brava — respondeu ela, depois franziu o rosto — você estava transando com Elba, não estava?
A chefe caiu na gargalhada.
— Meu Deus, — exclamou, rindo — você é ainda melhor bêbada.
revirou os olhos.
— Para de rir — reclamou, debruçando-se novamente na pia — eu não estou bêbada.
— Quer vomitar? — perguntou Anya, segurando as mechas loiras de seu cabelo, preocupada — ou quer alguma outra coisa?
se virou, as sobrancelhas arqueadas.
— Na verdade, quero sim — disse ela, levantando um dedo — Lottie está solteira?
Anya caiu na gargalhada, assentindo.
— Lottie está solteiríssima e provavelmente também interessada — respondeu — mas não era sobre isso que eu estava falando.
segurou o rosto de Anya com as mãos.
— Ai meus deuses, eu estou bêbada — falou ela, como se acabasse de notar esse fato. começou a rir alto — estou bêbada em frente a minha chefe. Esse é o melhor trabalho do mundo.
Anya sorriu.
— Você...
A conversa entre as duas foi abruptamente interrompida com a abertura de uma das portas. Para sua surpresa, a mulher que entrou era a mesma que, segundos atrás, estava abraçada com . Ela chorava descontroladamente enquanto tentava limpar o rosto com as mangas de seu vestido.
— Ah, desculpa — disse ela, fungando — pensei que estivesse vazio.
— Bem, eu estou indo — disse Anya, dando batidinhas no ombro de — se precisar de alguma coisa, me chama.
assentiu vendo sua amiga ir embora.
— Você está bem? — perguntou para a outra mulher, depois de alguns instantes observando-a lavar o rosto molhado pelas lágrimas.
Ela soltou um soluço alto antes de responder.
acabou de — mais um soluço — acabou de me dar um fora — as palavras saíam embargadas.
franziu o rosto, confusa.
— Você não estava com ele até agora a pouco?
Ela balançou a cabeça.
— Ele disse que não podia ficar comigo hoje porque tinha outra garota — ela fez uma pausa, mais lágrimas começaram a escorrer em seu rosto — ele foi gentil mas eu tenho certeza que não tem mais ninguém. Eu não sou bonita o suficiente.
— O que? Está brincando? — perguntou, puxando alguns papéis toalha para secar o rosto da morena — olha só para você! Está se enxergando direito?
— Ele não me quis e ainda inventou outra história. podia dizer que não sou boa o bastante, entende? Eu entenderia...
balançou a cabeça.
— Ok, em primeiro lugar, você tem que aprender a levar um fora, garota! Todas nós recebemos e damos foras, é, tipo, a lei da vida! — explicou , calma — em segundo lugar, só porque um homem não te quis, não quer dizer que você não seja boa o suficiente! Você é mais do que o suficiente, e você é maravilhosa! Além disso, tenho certeza que tem muitas outras qualidades também. Você é boa em alguma coisa, não é?
A morena assentiu.
— Eu danço muito bem — disse ela, pensando.
sorriu.
— Viu?! Você dança, parece ser uma mulher muito simpática e ainda é muito bonita — concluiu — você não precisa que astros do rock ou que qualquer outro homem te assegure isso.
A mulher secou o nariz com a gola de seu vestido, provavelmente também muito bêbada e chateada.
— É que meu ex está aqui — ela explicou — e ele disse que nunca alguém bonito vai me querer. Ele estava certo, não tenho chances com .
arregalou os olhos.
— Então eu acho que você deveria ir até o seu ex e dizer algumas coisas para ele.
Ela levantou a cabeça.
— Você acha?
assentiu exageradamente.
— Eu tenho certeza — afirmou, apontando para a porta — agora vai lá e diga a ele que tudo o que você sabe fazer.
A mulher, como em um último suspiro de coragem insana, saiu pisando duro do banheiro determinada a falar poucas e boas para o ex namorado. bufou, satisfeita, e virou-se para a pia para jogar um pouco mais de água sobre seu rosto.
Assim que teve certeza que conseguiria ficar em pé sem ajuda, embora o restante do mundo ainda girasse em diversas frequências diferentes, saiu do banheiro procurando pela mulher que acabara de confortar.
Para sua infelicidade, assim que avistou a cabeça morena próxima ao bar, sua visão foi tampada por uma outra cabeça, a qual era a última que ela desejava ver aquela noite.
— Uou, aonde você está indo, escoteira?
usou todo seu autocontrole para não passar reto por Kalel e deixa-lo falando sozinho. Por isso, ele apenas tombou a cabeça com uma expressão sarcasticamente sincera.
— O que você quer dessa vez?
Kalel franziu o rosto.
— De você? Muitas coisas — respondeu, e quis cuspir em sua cara — Mas, por enquanto, só quero saber aonde você está indo e porque não está ali sentada com ?
olhou para onde Kalel apontava, apenas para ver sentado no centro de uma rodinha de mulheres. revirou os olhos enquanto voltava a encarar Kalel.
— Está com ciúmes porque não é tão popular? — perguntou com um biquinho.
Kalel arqueou uma de suas sobrancelhas.
— Você está muito bêbada, escoteira, por que não se senta um pouco? Do lado dele. Ou esqueceu do nosso trato?
estava prestes a responder alguma coisa muito mal educada quando ouviu gritos masculinos vindos do bar. Ela olhou de relance em direção ao barulho e sentiu uma onda de raiva subir à cabeça ao ver o ex namorado da mulher do banheiro segurando as duas mãos da mulher contra o peito e gritando em seu rosto. olhou indignada para Kalel, com os olhos arregalados, esperando que ele fizesse alguma coisa. Contudo, o vocalista não pareceu ter notado a cena e ainda encarava aguardando uma resposta.
— Ele já gosta de você, loirinha — disse Kalel — mas você precisa de esforçar mais se quiser que ele realmente se apaixone. Você tem dois meses para isso.
— Dois meses? — gritou, assustada. Entretanto, os gritos do bar se sobressaíam e Kalel não pôde ouvir com toda a intensidade sua indignação.
, incomodada com os gritos e preocupada com a situação, não esperou que Kalel respondesse. Ela nem sequer estava mais prestando atenção em sua própria conversa.
— Podemos falar disso depois? — perguntou — preciso de um minutinho.
deu de costas sem ver a reação do vocalista e foi em direção à briga. O ex namorado da morena encurralava-a contra o bar e dizia coisas não muito educadas enquanto esta não conseguia parar de chorar o suficiente para responder. A cena limpava a cabeça de e ela mal conseguia formular uma palavra sem ser interrompida por ódio e nojo absolutos.
— Com licença? — pediu, cutucando o ombro do homem. Ele devia ter pelo menos um metro e noventa de altura e era tão forte quanto um armário.
Assim que o homem se virou para , a loira deu o primeiro soco.
O homem soltou a ex namorada e cambaleou alguns passos para trás, tampando o rosto com a mão. Mesmo coberto, uma trilha de sangue era possível de ser vista, escorrendo de seu nariz. balançou a mão, com dor nas juntas, mas o peito estava estranhamente satisfeito com o que acabara de fazer.
— Por que não intimida alguém do seu tamanho? — disse ela, nervosa. O homem a olhava com a expressão de pura confusão.
— Você está louca? — perguntou ele, se ajeitando em pé..
Finalmente, a briga começou a atrair a atenção dos demais convidados. Algumas pessoas começavam a se amontoar ao redor do bar, outras gritavam pelos seguranças.
não sabia ao certo se o homem teria coragem de retribuir o soco dado, mas ela preferiu não pagar para ver. Enquanto ele andava em sua direção, conseguiu reunir força o suficiente para estender o braço e dar uma cotovelada rápida em seu abdome.
Dessa vez, assim que ela tentou recuar o braço, ele o segurou. Iria puxa-la para longe se dois seguranças não tivessem aberto caminho entre a multidão e se posto entre os dois. Um dos seguranças agarrou pelas costas e puxou-a para longe, enquanto alguns convidados seguravam o homem.
— Foi ela quem começou! — gritou ele, apontando para .
rangeu os dentes.
— Começaria de novo! — berrou de volta.
O segurança começou a arrastar para longe, ao som de algumas objeções e murmúrios. Para piorar sua raiva, ela olhou de relance para o bar e viu o homem sendo acalmado por outros convidados e apertando a mão de um dos segurança. Ela até tentou se debater, mas não pareciam levar sua versão tão a sério..
odiava a merda do patriarcado.
Assim que foi jogada para a rua com a maior falta de delicadeza, ela começou a andar de um lado para o outro da calçada, nervosa.
Mal conseguia manter os pés em uma única linha reta, seu estômago sentia-se esquisito e foi atingida pelo profundo desespero de não estar com seus pertences. Ela se deu conta de que não teria roupa para o dia seguinte e precisava desesperadamente ir para Harvard.
A loira estava tão absorta nos próprios pensamentos que se assustou ao ver duas mãos segurando seu ombro. Pela quantidade de anéis, ela quase empurrou a figura para longe pensando que se tratava de Kalel, mas só quando levantou a cabeça percebeu que talvez fosse pior do que ela imaginava.
Era só o que me faltava, pensou ela.
— Você está bem? — perguntou , abaixando o rosto para poder olhá-la nos olhos.
esquivou-se de modo grosseiro das mãos do baterista.
— Não tenho tempo para gastar com você agora — falou ela — preciso ir para Massachusetts.
tentou segura-lá pelos braços para impedir que ela saísse andando para longe.
— Do que você está falando — perguntou — quer ir para Massachusetts agora?
desvencilhou-se novamente.
— Me solta! — alertou — estou indo para Massachussets pegar todas as minhas coisas.
arqueou as sobrancelhas, posicionando-se em frente à mulher e impedindo a passagem de .
— Ah, é mesmo? — perguntou ele — e como você vai para lá?
passou reto, empurrando com seu próprio corpo.
— Vou andando, , saia do caminho. É urgente.
segurou-a pelos pulsos, tentando ao máximo mantê-la por perto.
— falou ele, devagar — Me desculpe, mas você não vai sair daqui. Está maluca? São duas horas da manhã, você está bebada, de salto alto, sozinha e a um território inteiro dos Estados Unidos de distância. Você vai pegar um táxi e ir para o hotel, ou qualquer outro lugar seguro. Entendeu?
puxou a mão de volta.
, nem em um milhão de anos eu iria te escutar — disse ela, e continuou andando.
Enquanto subia a rua, não conseguia manter apenas um pensamento em sua cabeça. Pensou em Kate e como sentia sua falta, pensou em como estava com ciúmes da tal garota da qual havia falado, na raiva que sentia tanto por quanto por Kalel e na dor nas juntas de sua mão direita. Pensou em todo o caminho que teria para percorrer e sentiu-se ainda mais determinada a chegar rápido.
Ao passar pelo terceiro quarteirão, um carro começou a andar rente ao meio fio ao seu lado, acompanhando seus passos. Antes que ela pudesse desconfiar ou sentir medo, contudo, ela olhou de canto do olho, vendo no banco do motorista de um conversível azul.
, entra no carro — mandou ele — vamos para o hotel, você deve estar cansada.
continuou subindo a rua, ignorando-o.
não desistiu.
, por favor! — pediu, apenas para ser ignorado mais uma vez. Após alguns minutos acompanhando a mulher pela rua, finalmente cedeu — Certo, você quer ir para Massachusetts? Eu te levo, vamos no conforto do conversível de Arwin. Entre no carro.
desistiu de andar, parando com os braços cruzados e virada para . Ela pensou, as sobrancelhas cerradas.
— Tudo bem — aceitou ela — mas eu dirijo.
arregalou os olhos.
— O carro de Arwin? — disse ele, rindo — Acha que vou te deixar dirigir nesse estado?
ficou indignada.
— Você também está bêbado!
— Não sou eu que quero ir até a costa leste andando!
cruzou os braços mais uma vez, decidida. pensou por um momento, depois assentiu.
— Se esse for único jeito de te fazer entrar nessa droga, tudo bem — falou, arrastando-se para o banco do passageiro.
comemorou infantilmente, deu a volta e saltou para o banco do motorista.
— Coloque Harvard no Massachusets — disse ela, depois começou a rir — quer dizer, no Waze.Machassusts...Machassu...Mac
— Massachusetts — disse , abrindo o waze — Massachusetts, .
balançou a cabeça.
— Isso.
Para a sorte dos dois, tinham poucos carros durante o caminho até a estrada. estava consciente o suficiente para, pelo menos, enxergar os farois. a auxiliava no volante, cauteloso.
— Quer parar com isso? — disse ela, dando um tapinha em uma das mãos de ao redor do freio de mão — Como se você também não estivesse beudo. Bebidado. Bebado.
tirou a mão do freio.
— Por que você age como se não suportasse ficar do meu lado? — ele perguntou em resposta.
nem precisou pensar.
— Porque eu não suporto.
Ele se ajeitou no banco.
— O que eu fiz de tão ruim para você me odiar desse jeito?
— Por onde você quer que eu comece?
bufou.
— Posso ao menos pedir desculpas? — ele perguntou — ou não vai mudar nada?
, não tem absolutamente nada para se desculpar — ela falava enrolado — Não pode se desculpar por ser quem você é.
— Você só... Não gosta de mim? Sem motivo algum?
riu.
— Tenho muitos motivos — disse ela — muitos. Mas acho que ter te conhecido é o pior de todos.
Após essa fala, encolheu-se no banco, magoado. Por um momento, desejou ser o homem que levou o soco.
Com certeza teria doído menos.
Ficaram por meia hora em completo silêncio. continuava extremamente apreensivo com bêbada no volante, mas sentia-se tão chateado que parou de querer brigar com a loira. Contentou-se em prestar atenção no caminho.
só voltou a ficar extremamente assustado quando, ao chegarem na estrada vazia, resolveu pisar fundo no acelerador e dobrar a velocidade máxima permitida na via. arregalou os olhos.
— O que você está fazendo???? — perguntou, nervoso.
Não foi capaz de sustentar o nervosismo ao olhar para a garota. Ela sorria abertamente, o vento forte arrancava todos os seus fios de cabelo do lugar e seus olhos brilhavam de entusiasmo. sentiu-se imediatamente no clima, desprendeu-se do cinto, ficando parcialmente de pé, e soltou o maior grito possível de sua garganta. riu, gritando em seguida. A velocidade do carro era tanta que sequer sentia sua voz saindo, tamanho era o vento.
— Eu sou a droga do melhor baterista do século — gritou para a noite. gargalhava no banco do motorista enquanto afundava cada vez mais o pedal — , cacete!
— Eu larguei Harvard — berrou em tom de libertação — larguei Harvard!
comemorou, apontando para .
— Você socou um cara.
ria alto.
— Eu soquei um cara! — concordou ela —Deuses! Eu soquei um cara.
Os dois continuaram gritando por pelo menos cinco minutos na maior velocidade que o carro era capaz de atingir. Contudo, o êxtase durou pouco. Após aproximadamente dois quilômetros, o carro começou a gradativamente desacelerar. olhou confusa para , que parecia tão desnorteado quanto. bufou enquanto insistia no acelerador, em vão.
apontou para o painel, largando-se mo banco.
— Estamos sem gasolina.
Ambos pareciam decepcionados. encostou lentamente no acostamento até o carro parar de uma vez. O visor da gasolina mostrava-se ja no fim.
— Não acredito que não encheu o tanque.
levantou os braços como se rendesse.
— O carro nem é meu — defendeu-se — droga, parece que não vamos para Harvard hoje.
— Merda — lamentou — e agora?
deu de ombros. Estava prestes a dizer que podiam ligar para alguém quando olhou para o lado e se deu conta de que estava exatamente onde queria estar aquela noite: ao lado de . Sozinhos. não queria mudar absolutamente nada daquele momento.
não respondeu. , no silêncio, puxou um cigarro de seu bolso e acendeu-o. Deu um longo trago, pensativo.
— O carma é uma droga — disse ele, rindo.
, que até então estava com a cabeça apoiada no volante, levantou, apenas para fazer uma expressão irônica.
— Está magoado porque eu fiz o mesmo que você faz com todas as outras mulheres? — perguntou ela, com um biquinho.
tirou o cigarro de entre seus dentes.
— Por que você faz isso comigo? — perguntou, olhando para a estrada vazia.
riu.
— O que foi?
balançou a cabeça.
— Quem é você, , e porque você consegue me fazer sentir as coisas que sinto?
demorou para responder, perguntando-se se o baterista falava sério. Por fim, deu de ombros.
— Você acha que eu acredito nessas besteiras que você fala? — ela perguntou, esquecendo-se completamente, por toda a noite, que deveria conquista-lo e não obriga-lo a se afastar. A verdade era que já havia de envolvido demais com para pensar na situação como uma fantasia inventada por Kalel. Não era um jogo, pelo menos não mais — Hoje quando eu estava no banheiro, sua companheira de antes, quer dizer, não as ruivas de antes antes, a companheira da festa, disse que você tinha dado um fora nela — as palavras saíam automaticamente de sua boca, e tinha certeza que se arrependeria dessa conversa no dia seguinte quando a ressaca batesse — e que você tinha dito que já tinha outra garota. Você tem várias garotas, , pare de me cantar.
sorriu.
— Está com ciúmes de mim, ?
fez uma careta.
— “Eu não quero ser seu amigo, ” — imitou ela, infantilmente — cafajeste! Acha que eu sou burra? Não espere que eu caia nas sua cantadas. Não dou a mínima se você é um astro do rock gostoso.
riu.
— Sou um astro do rock gostoso?
bateu no volante, irritada. riu alto, irritando ainda mais a mulher.
— Qual a graça? — ela perguntou.
balançou a cabeça, expirando a fumaça.
— Você é a droga da outra garota de quem eu estava falando. Não queria que você pensasse que sou esse mulherengo que todos dizem que sou — ele disse para ela — Era você que eu queria essa noite.
apoiou a cabeça no encosto do banco, olhando o céu.
— Não quero que você deixe de ficar com as garotas para provar que não é o que eu penso que você é— disse ela.
arqueou as sobrancelhas.
— Não quer?
negou.
, você pode dormir com quantas mulheres você quiser.
— Eu só...
— Não é a quantidade de mulheres com quem você transa que te faz ser um idiota — explicou, impaciente — é o modo como você trata o assunto.
— E como eu trato o assunto? — perguntou, nervoso.
riu.
— Isso você deve aprender sozinho, — disse — eu não sou a sua mãe.
—Você de novo com esse papo — deu um longo trago, irritado, e encostou-se com descaso no banco — Não é minha terapeuta, não é a minha mãe... O que você é, então, ? — perguntou, buscando uma resposta específica.
Como esperado, ela não lhe deu.
— Sou a mulher que você não consegue enganar, e isso te frustra mais do que tudo.
sorriu. Não era o que ele queria, mas era a absoluta verdade. E a verdade era crua e dolorida.
— Eu não estou tentando te enganar — rebateu — mas você me deixa frustrado.
pensou um pouco.
— Sabe o que pode fazer para se redimir? a olhou com o canto do olho, inclinando a cabeça. deu de ombros.
— Parar de ficar observando de longe enquanto flerto com outros caras.
riu.
, eu te observo de longe até quando você não está flertando com ninguém — respondeu, divertido — ou você pensa que eu não vi quando você roubou uma garrafa inteira de Pol Roger do bar?
tapou a boca com a mão, constrangida e surpresa.
— Eu não roubei! Eu pedi, ele falou que ia me dar uma taça e foi embora! — tentou se defender, apenas ria entretido — e você, quer parar de me stalkear? Isso é bizarro.
— Eu não estava te stalkeando, você só estava muito bonita hoje — respondeu — duvido que qualquer pessoa tenha conseguido tirar os olhos de você.
rolou os olhos.
— Boa tentativa, . Mas, vai ter que usar cantadas melhores do que essa daqui para frente — encostou a cabeça na porta — Além do mais... Ah, droga. Todos devem ter me visto andar esquisito de um lado para o outro.
gargalhou, mas sua resposta foi interrompida por fortes luzes azuis no retrovisor. soltou um belo de um palavrão e apagou seu cigarro ao ver uma viatura estacionar logo atrás do carro dos dois. arregalou os olhos, assustada.
O policial desceu de seu carro e foi até a porta do passageiro. o olhou com uma expressão tão perdida quem nem mesmo era preciso um teste de bafômetro para notar o problema.
— Documentos, por fav... — disse ele, antes de levantar o rosto — Ei, você não é o ? Da Incubus?
pensou que conseguiriam ficar numa boa com a polícia após esse comentário. Pensou.
Contudo, antes mesmo que pudesse sorrir ou comentar qualquer coisa, fez uma careta esquisita e tomou a frente do diálogo.
— Eu não me sinto muito bem — foi o que ela disse, antes de debruçar-se na janela e vomitar nos sapatos do policial.


Para a surpresa de , quando acordou, não estava em seu quarto.
A cama era dura e fria como cimento. O travesseiro machucava sua cabeça e com certeza não era feito de algodão ou qualquer tipo de estofado. As luzes eram muito mais claras que o habitual e o ambiente tinha um cheiro forte de mofo e esgoto.
?
levantou em um susto, olhando ao redor. Seu estômago reclamou mais uma vez e ela pensou que fosse vomitar de novo. Suas têmporas latejavam.
— O que... — ela começou a dizer, ainda atordoada.
estava sentado ao seu lado, mas, para aumentar a confusão da loira, eles não estavam sozinhos. Um senhor vestido de couro encarava em um dos cantos do recinto. Uma mulher de roupas curtas dormia encostada na parede.
cerrou as sobrancelhas.
— Por que estamos em uma cela?
sorriu.
— Não se lembra do que fez com os sapatos do policial?
enrugou o rosto. As memórias vieram de uma vez e ela sentiu vontade de encontrar um buraco para se enterrar, tamanha era a vergonha.
— Ai droga — disse ela, batendo na própria testa — ai droga, ai droga.
riu.
— Fica tranquila, já liguei para Nathaniel vir — disse ele — ele já deve estar chegando.
! Como você me deixou dirigir daquele jeito? — perguntou ela, com a vaga lembrança de estar no volante de um conversível.
— O que? — perguntou ele, incrédulo — você se esqueceu que queria ir andando até Massachusetts?
tentou levar a sério, visto a situação dos dois. Não conseguiu. Um riso escapou de sua garganta e quando percebeu os dois gargalhavam feito duas crianças presas em uma delegacia — se isso fosse algo comum.
A graça durou pouco. Um policial se aproximou da cela com uma chave, abrindo a porta. Um homem baixinho vinha atrás deles, junto a outro homem.
e ? — chamou o guarda — pagaram sua fiança.
— E vocês vão pagar cada centavo de volta — disse Arwin Green, empresário da Incubus, na sala dos oficiais.
ouviu bufar.
— Você chamou Arwin? — gritou para Nathaniel.
Nate encolheu os ombros, sem expressão.
— Eu não chamei ninguém — respondeu — mas vocês roubaram o carro dele, alguém deve ter avisado.
Arwin chegou perto de , nervoso.
— Vá para o carro, agora — disse ele.
tentou protestar, mas Arwin não o deixou falar nada. O baterista lançou um último olhar para , antes de soltar alguns palavrões e seguir Nathaniel para o lado de fora.
sentiu seu estômago revirar ao ficar sozinha com Arwin Green.
— Quando a você — disse ele, seus olhos brilhavam em tons de ódio — o que estava pensando?
engoliu em seco, sem resposta.
— Começou uma briga na festa — enumerou ele com os dedos — roubou o meu carro, bêbada, ultrapassou os limites de velocidade com dentro do carro e ainda vomitou em um oficial.
— Me desculpe, eu...
Arwin não a deixou continuar.
— Eu deveria te demitir agora mesmo — cuspiu ele — mas, não vou fazer isso, porque Kalel parece gostar muito do seu trabalho. Essa é sua última chance. Pare se agir como uma adolescente mimada e irresponsável. Você quer ser estilista dessa banda? Aja como tal. Mais uma de suas gracinhas e nem mesmo se o papa ou o presidente te apoiarem eu chuto você para bem longe. Estamos entendidos?
assentiu.
— Ótimo — respondeu — suas malas de Harvard já estão no onibus da turnê. Agora volte para o hotel.
respirou fundo, saindo da delegacia e direção ao carro forte da banda. Havia sido uma longa noite.
Ao menos não precisava mais atravessar o país para Massachusetts.


Capítulo 10

Largada em sua cama. Era assim que se encontrava após horas de viagem em um ônibus fretado para a equipe inteira da Incubus. Ela não soube ao certo e que ponto da estrada sua dor de cabeça insuportável havia se transformado em um sono arrebatador, mas se lembrava exatamente de ter caído em algum dos bancos do fundo, ao lado de um dos engenheiros de som, e apagado por três horas.
Agora, após descarregar sua bagagem e tomar um longo banho, não tinha mais sono. Deitou na cama vestida com uma roupa confortável e encarava o teto como se fosse capaz de contar quantos azulejos o compunha. Talvez pudesse, caso se concentrasse. Não era o caso. Ela pensava em como havia sido irresponsável e ingrata com o universo pela chance que lhe fora dada. E, como se não bastasse a constante raiva, dúvida e outros jeitos nojentos de autodepreciação, ainda havia o sutil, rápido e quase passado despercebido ultimato.
Dois meses.
Dois meses para o quê? Para conquistá-lo? Para quebrar seu coração?
não sabia ao certo, mas pelo menos já tinha um plano. Kalel não tinha como tomar conhecimento do que se passava no privado entre e , apenas daquilo que ele, de fato, podia ver. Sendo assim, se aproximaria de o suficiente para Kalel perceber que fazia seu máximo, enquanto, quando estivessem sozinhos, deixaria claro que eram apenas amigos. Nada mais que isso. não seria conquistado.
Ninguém se machucaria.
E, como se o universo tivesse feito mais uma de suas extraordinárias coincidências, o celular de vibrou com o nome de na tela.
— Alô?
? — respondeu. Sua voz soava mais macia ainda por telefone, e ela teve a sensação que podia vê-lo através do aparelho — você está em seu quarto?
— Ligou para saber a cor da minha calcinha?
gargalhou do outro lado e, mais uma vez, conseguiu mentalizar seu sorriso nos azulejos do teto de seu quarto.
— Foi por isso que liguei — confirmou, convincente — sabe, estou saindo agora da coletiva de imprensa e elas sempre me inspiram a fazer perguntas inapropriadas. Não consigo tirar isso da cabeça. E então?
riu.
— Dourada — respondeu, brincando.
— Dourada?! — perguntou, após um tempo. Soava surpreso — Bem, eu não duvido, vindo de você. Mas, só vou acreditar vendo.
— Isso não vai acontecer.
— Então pode, pelo menos, dizer que está livre esta noite?
olhou espreguiçou-de nos lençóis de seda, esticando o rosto para bisbilhotar o relógio digital do criado mudo.
— Depende do que tem em mente — respondeu — são seis horas da tarde, estava pensando em dormir. Amanhã acordo cedo.
— Eu sei — confirmou — a passagem de som.
assentiu, preguiçosa.
— Bash não está muito satisfeito com o figurino do show, precisamos trabalhar nisso o mais rápido possível.
ouviu arfar do outro lado da linha, divertido.
— Você vai sofrer com Sebastian.
rolou na cama, ficando de bruços com os pés levantados e balançando para frente e para trás. A toalha havia se embolado sob seu corpo e o torso de estava preso entre camadas de pano úmido e lençóis.
— Essa banda só me traz problemas — brincou.
— Whoa — murmurou em tom de alerta — você está soando como Arwin. Oh não...
Ambos riram. O riso morreu em apenas um sorriso e tanto quanto ficaram sem palavras. Restou um silêncio denso pairando a ligação até recuperar sua sã consciência.
— Voltando ao assunto da sua calcinha — retomou o baterista — não foi bem por isso que liguei. Estou saindo agora da coletiva, o que vai fazer essa noite?
pensou com os lábios franzidos.
Dois meses. Ela não tinha escolha se quisesse convencer Kalel.
— Nada — respondeu — tenho a noite livre.
— Sendo assim, por acaso você está familiarizada com uma banda chamada The Neighbourhood?
riu seca.
— Se eu estou familiarizada? — claro que foi uma pergunta retórica.
— Está? — insistiu ele.
se sentou na cama, quase como se já pudesse imaginar aonde aquela conversa chegaria e sentiu seu coração pular algumas batidas necessárias.
— Óbvio que estou — assentiu, quase sem voz — tinha um pôster deles no meu dormitório. Por quê?
A resposta de pareceu demorar uma eternidade, sua respiração contra o celular soava como tortura.
— Por que eles por acaso estão em turnê pelos Estados Unidos — sua resposta finalmente veio — e eu meio que consegui fazer com que eles esperassem mais uma noite.
prendeu a respiração.
— Você... — nem mesmo foi capaz de ouvir em bom tom o murmúrio que saiu de sua boca. Ela levou uma de suas mãos à cabeça, segurando seu cabelo para trás — O The Neighborhood...
— Acontece que a banda está aqui em São Francisco, saem pela manhã para Nova York — explicou , mas só era capaz de ouvir um zunido — mexi uns pauzinhos com Brandon, ele tem uma casa aqui perto do Golden Gate Park e nos convidou para um jantar.
— Bra...Brandon? — mal conseguia formar palavras — Brandon Fried? A droga do baterista da The Neighbourhood? Vou conhecer a droga do baterista do The Neighbourhood?
— Você vai conhecer a droga do baterista — confirmou — mas só se estiver pronta em vinte minutos. Te encontro no estacionamento.
— Fico pronta em dez — gritou ela, desligando o telefone e jogando-o para algum lugar naquela bagunça de cama. Saltou do colchão, largou a toalha no carpete do quarto e correu até suas malas trazidas de Harvard.
Parecia prestes a surtar. Já havia ido a um show da banda em Nova York em 2017, mas ficara tão longe do palco que mal foi capaz de enxergar as tatuagens de Jesse Rutherford, muito menos o tão talentoso baterista indie rock no fundo do palco com seu instrumento. Só a ideia de ve-lo já lançava choques elétricos de entusiasmo em todo o corpo da menina. Ela estava louca. Todo o sono de repente desaparecera e dera lugar ao simples pânico: que roupa deveria usar para conhecer Brandon Fried?
Ela despejou todas as roupas de suas duas malas no chão e mergulhou em busca de qualquer coisa que gritasse impacto.
Botas cano alto. Definitivamente um belo par de botas pretas cano alto. E talvez um vestido preto.
Certo. Um vestido preto curto, botas pretas cano alto e...Ok, um sobretudo para o frio de São Francisco. podia fazer isso funcionar.
Como já havia tomado um banho decente, tentou fazer seu melhor com a maquiagem em apenas 7 minutos e o resultado foi melhor do que o esperado — mas longe de um ótimo reboque. Não se importava muito.
Vestiu-se correndo e desceu pelo elevador até o subsolo do hotel. A Range Rover alugada estava parada no centro do estabelecimento, e só se deu conta de que era porque este se erguera pela janela e acenava com um sorriso.
Mesmo com apenas o torso visível, teve que tomar cuidado para não perder o equilíbrio. não era um homem adepto ao uso de ternos, nem mesmo para entrevistas, mas quando decidia fazer o bom uso de um social, deixava todos os homens do mundo no chinelo. E ele sequer precisava se esforçar. Da cintura para cima, o baterista vestia uma camiseta branca social, alguns botões abertos deixando a mostra parte de seu peitoral, mangas arregaçadas até pouco depois de seu cotovelo e suspensórios coloridos. Estava particularmente mais atraente do que o normal. O cabelo se encontrava palmos mais curto, também, bagunçados ao redor de sua cabeça e bem longe de seus ombros como antes. O pecado em carne e osso.
cerrou os olhos para enxerga-lo escuro. Os saltos de sua bota faziam eco enquanto avançava para o passageiro.
entrou no carro e bateu a porta, largando sua bolsa vermelha sobre o colo. despendurou-se da janela e voltou a se sentar, observando com um sorriso. — O seu cabelo — observou ela, apontando para .
Ele levou as mãos a cabeça, sentindo seus fios loiros entre os dedos.
— Lottie cortou — respondeu, seu sotaque britânico carregado era delicioso.
assentiu, admirando-o.
— Eu gostei.
deu partida, soltando uma risada no fundo de sua garganta.
— Eu notei — respondeu, a olhando de canto de olho — você pode ser muito boa em tudo, , mas não é nada boa em disfarçar quando está babando por mim.
desviou o olhar para a janela, rindo constrangida.
— E você ainda se pergunta porque não suporto ficar do seu lado? — ironizou ela.
encolheu os ombros no volante.
— Comecei a desenvolver uma teoria — começou ele. inclinou a cabeça com um sinal para que ele continuasse — você é bonitinha, sempre teve a atenção de todo mundo, um pouquinho mimada...
— Mimada? — interrompeu.
tirou uma das mãos do volante e levantou o indicador pedindo por silêncio.
— Por favor, eu estou falando! — murmurou, como um chefe dando uma bronca — que falta de educação!
rolou os olhos, rindo e se ajeitando no banco. Estendeu os braços como se estivesse irritada com o rumo da conversa mas pronta para terminar de ouvir.
— Como eu estava dizendo antes de você me interromper — pigarreou — você sempre foi o centro das atenções por causa de uma ou outra qualidade aí dentro desse corpinho alto — ele mediu ela com o indicador — e então eu chego, todo bonitão — ele viu rir, como se achasse tudo aquilo absurdo, e ele encolheu os ombros — Ah, qual é, eu sou muito bonito. Eu sou muito bonito, loiro, olhos azuis, um corpinho saudável — ele enumerava com os dedos — um astro do rock, baterista do ano pela Rolling Stones, e do ano passado, e do ano antes desse...Ah, e muito engraçado, divertido, muito bom de cama. Eu roubei seus holofotes. Agora, você me odeia, porque sou muita areia pro seu caminhão.
assentiu.
— É uma boa teoria, .
a olhou de lado.
— Você acha?
— Acho — disse ela — mas você está errado.
— Estou? E porquê?
sorriu.
— Porque nós estamos há apenas cinco minutos dentro desse carro — explicou — e não sou eu quem ainda não tirou os olhos de suas pernas.
riu, chacoalhando a cabeça e limpando a garganta. apoiou a cabeça na janela para que pudesse observa-lo melhor.
— Eu... — ele tentou se justificar, imaginou, mas ela foi mais rápida para interromper.
— Olhos na pista, .
Brandon Fried morava na Fulton Street, muito próximo ao Golden Gate Park. Era uma mansão de paredes brancas e vidro. estacionou em frente à casa, desceu do carro e contornou-o pela frente, mas não esperou que ele fosse um cavalheiro para abrir a porta: conseguia muito bem abri-la sozinha e não aguentaria mais um segundo de animação com a ideia de que Brandon Fried estava logo atrás daquelas portas grandes de gente rica.
— Jesus, — reclamou — você quase me acertou com a porta!
nem lhe deu ouvidos.
— Eu estou sonhando — ela disse, subindo correndo os degraus da entrada em direção a porta.
vinha logo atrás, com passos longos. olhou impaciente da porta, batendo o pé no chão para que se apressasse. riu, subindo dois degraus de cada vez e parando ao seu lado.
— Tenta não surtar.
respirou fundo.
— Eu estou ótima — ela falou, dando pulinhos — só estou me aquecendo.
franziu as sobrancelhas.
— Se aquecendo para o qu...Quer saber? Deixa pra lá.
apertou a campainha. prendeu a respiração entusiasmada.
Para a decepção de , não foi Brandon quem abriu a porta. A morena, vestida com uma camisa transparente com estampa de oncinha, tinha um sorriso grande nos lábios e um olhar tímido. Seus olhos pousaram em e teve a impressão que suas bochechas ficaram vermelhas demais. Ela ajeitou as pernas, segurando o cabelo castanho para trás.
— disse ela sorrindo e estendendo a mão — é um prazer te conhecer, sou sua fã número um. Me chamo Lys.
não sorriu, como esperado. Ele apertou a mão de Lys, complacente.
Lys, uniu dois mais dois, a namorada de Brandon.
— Essa aqui é a disse, apoiando uma de suas mãos nas costas da loira.
sorriu, trêmula.
— Prazer — as palavras soaram mais como uma única lufada de ar.
Lys parecia muito mais nervosa que , se isso era possível. Deu alguns passos para trás e estendeu os braços para o lado de dentro.
— Entrem, por favor.
Ambos, e , pediram licença e entraram na mansão. Deixaram seus casacos no mancebo ao lado da porta e seguiram Lys até a sala de estar. A casa inteira estava apagada, sem sinal algum de Brandon. estava um pouco mais desanimada que quando chegaram e sentiu-se cada vez mais nervosa. Suas mãos suavam.
— Brandon teve que sair — disse Lys, sua voz era baixa e fina — mas ele já chega. Podem se sentar.
murmurou um “oh” baixinho, e, tentando não transparecer o quanto estava decepcionada, sentou-se na poltrona. Ela olhou em volta, alguns sofás, uma lareira aconchegante, uma televisão enorme. Uma cortina branca logo atrás da poltrona de separava a sala de estar do que ela imaginou ser o restante da casa.
, por trás, girou a poltrona de de modo que esta ficasse de frente para ele e para a cortina. franziu o rasto. se inclinou para perto de seu ouvido.
— Me desculpe por isso — sussurrou ele — esperava que ele fosse levar essa visita um pouco mais a sério. Podemos ir se você não quiser esperar.
engoliu em seco.
— É claro que quero esperar, está brincando?
assentiu e voltou para sua postura normal. Lys, parada em um canto, pigarreou.
? — chamou — Tenho alguns CD’s lá em cima, você se importaria de autografa-los?
olhou para como se pedisse por permissão. Ela assentiu. Assim que os dois saíram, suspirou alto e encarou as cortinas. O que ela esperava? Claro que Brandon Fried era ocupado demais para esperar para conhecer uma fã.
se levantou, dando uma volta pela pequena e aconchegante sala de estar. Tinha uma bateria preta encostada próxima ao sofáa. olhou para o vazio e, movida pela curiosidade e pelo silêncio, apanhou as baquetas de um suporte na parede e testou algumas batidas tímidas. Puxa, ela era péssima, mas aqueles tambores eram ótimos para aliviar o nervosismo. Ela batucou mais algumas vezes, ainda em pé. Sempre quisera saber como era bater naqueles pratos prateados barulhentos.
Bateu com toda sua força. Um barulho ensurdecedor ecoou pela sala e até ela mesma se assustou.
Batidas soaram de volta.
se assustou mais ainda, prestando atenção para ver se era apenas o eco de suas próprias batidas.
Não eram. Aquelas eram bem feitas, limpas e harmônicas. Definitivamente não eram dela.
bateu mais uma vez, mas o som continuou. Ela se virou, em pânico. Ainda estava sozinha.
A cortina se mexia.
avançou alguns passos. Ela conhecia aquela melodia.
A cortina se abriu. arregalou os olhos, levou as duas mãos à boca e pensou que fosse desmaiar.

All I am is a man
I want the world in my hands
I hate the beach
But I stand in California with my toes in the sand

O som vinha da bateria de Brandon Fried, ao fundo, perto de Jesse Rutherford. Isso mesmo, , você não está sonhando. Jesse Rutherford estava ali, cantando atrás de um microfone, olhando para ela. Tinha um sorriso aberto e provavelmente segurava para não rir do estado de choque de
.

Use the sleeves of my sweater
Let's have an adventure
Head in the clouds but my gravity's centered
Touch my neck and I'll touch yours
You in those little high waisted shorts, oh

Jeremy Freedman, Zach Abels e Mikey Margott também estavam ali. não só estava conhecendo a droga do baterista da The Neighbourhood. estava conhecendo a droga da banda inteira.
E eles estavam fazendo a droga de um show particular.

She knows what I think about
And what I think about
One love, two mouths
One love, one house
No shirt, no blouse
Just us, you find out
Nothing that wouldn't wanna tel

sentou-se de volta na poltrona, ainda com as mãos na boca. Sentiu os olhos encherem de lágrimas e precisou usar todo o seu auto controle para não gritar nem desmaiar. Virou-se e viu e Lys em pé, próximos a porta. tinha os olhos fixos em , um sorriso no rosto e os braços cruzados. Ela quis sair correndo para abraça-lo, mas não podia perder um minuto sequer de Sweater Weather.

'Cause it's too cold whoa
For you here and now
So let me hold whoa
Both your hands in the holes of my sweater

And if I may just take your breath away
I don't mind if there's not much to say
Sometimes the silence guides our minds to
So move to a place so far away

Jessie Rutherford a encarava olho no olho. Aquilo era surreal, muito melhor que assisti-lo de longe sobre a cabeça de milhares de pessoas. Ela podia ver cada tatuagem a mostra e com detalhes. A energia de seu trabalho conectava cada pessoa viva daquela sala. Até , mesmo sem deixar de observar as caras e bocas de , parecia curtir o som.
começou a cantar junto, não se conseguiu se conter.

The goosebumps start to raise
The minute that my left hand meets your waist
And then I watch your face
Put my finger on your tongue
'Cause you love the taste yeah

These hearts adore,
Every other beat the other one beats for
Inside this place is warm
Outside it starts to pour

Brandon levantou as baquetas, chamando por . desencostou-se da parede, apontando para si mesmo com uma careta de dúvida. Brandon assentiu, levantando-se. correu até ele, deu batidinhas em seu ombro, murmurou qualquer coisa e sentou-se no banquinho da bateria com as baquetas em mãos. Brandon foi até Lys e abraçou-a, sem antes sorrir para como se se divertisse com a situação. com certeza se divertia.
Ela sorriu histérica para Brandon — o que deve ter parecido muito pior do que qualquer um poderia imaginar, e voltou a atenção para a banda. tocava. Jesse foi até cantar do seu lado, a banda inteira convergiu para a bateria.

Coming down
One love, two mouths
One love, one house
No shirt, no blouse
Just us, you find out
Nothing that I wouldn't wanna tell you about, no no

‘Cause it's too cold whoa
For you here
And now
So let me hold whoa
Both your hands in the holes of my sweater

Cause it's too cold whoa
For you here and now
So let me hold whoa
Both your hands in the holes of my sweater

cantava junto sem errar uma única palavra. Os meninos brincavam um com o outro e com .

Whoa, whoa
Whoa, whoa, whoa
Whoa, whoa

'Cause it's too cold whoa
For you here and now
So let me hold whoa
Both your hands in the holes of my sweater

It's too cold whoa
For you here and now
So let me hold whoa
Both your hands in the holes of my sweater

It's too cold,
It's too cold
The holes of my sweater

Ao final da música, precisou levantar e liberar sua energia com palmas exageradas e assobios.Ela sentiu o peito doer de tanta animação e os seu coração batia forte contra a parede interna de seu corpo.
— Deuses, eu mal acredito nisso — soprou , com a mão na testa — vocês são incríveis.
Jesse foi o primeiro a se manifestar, ajeitando o microfone de volta no apoio e indo até ela para uma apresentação formal.
mandou a formalidade a merda. Praticamente pulou sobre ele e o envolveu com um abraço de fã maluca. Jesse retribuiu, rindo.
— Whoa, desse jeito vai deixar o seu homem ali com ciúmes.
largou Jesse com um sorriso de orelha a orelha, e abanou a mão.
— Ele não...
Ele não é meu homem, ela ia dizer. Mas, por algum motivo não conseguiu.
Talvez porque uma pequena parte dela quisesse que aquilo fosse verdade.
— ...Se importa — concluiu , olhando para por cima do ombro de Jesse. Ele tinha as duas mãos na cintura e um sorriso com lábios fechados no rosto. respirou fundo.
— É um prazer conhecer vocês — falou ela, contornando o vocalista e se jogando em cima dos demais integrantes.
— O prazer é todo nosso, — Jeremy, um dos guitarristas, colocou a mão no ombro da loira — disse que você iria surtar, mas acho que ela está indo bem — ele terminou a fala virado para .
abriu uma careta sarcástica.
— Ah, eu ia surtar?
encolheu os ombros, ultrapassando a bateria.
— Você surtou, um pouco — admitiu ele — Ei, Brandon, você devia ter visto a cara dela quando ela pensou que você não estava aqui.
quis esconder o rosto com as mãos, mas antes que Brandon pudesse dizer qualquer coisa, Jesse atrapalhou a conversa com uma gargalhada. Ele olhou para , depois para , e apontou para Brandon.
— Fica tranquila, — falou — o Fried aqui não pode dizer nada. Vocês não viram como ele ficou travado quando o Christian veio dizer que estava tentando entrar em contato — Jesse mal conseguia falar sem gargalhar e mostrar seu tom de deboche — ele ficou maluco. Não largou o celular o dia inteiro e me xingou por tentar tirar ele de perto do telefone.
— Cara... — começou Brandon, visivelmente constrangido, mas todo o resto da banda também já estava em tom de brincadeira.
— Quando Chris avisou, ainda era um pouco antes do show — disse Lys, delicada, entrando na roda — ele pediu para eu segurar o celular e não deixou eu ir para a muvuca porque não conseguiria ouvir o telefone tocar.
gargalhou, abaixou a cabeça, identificando-se com Brandon. Ela teria feito o mesmo por eles.
— Cara, vocês são muito bons — disse — eu não estava tão por dentro do rock alternativo mas passei a manhã toda ouvindo seu último álbum.
— É porque eu sou uma ótima influência — apoiou a mão no peito de , convencida.
Zach balançou a cabeça para ela.
— Continue assim, .
Eles riram como uma roda de amigos.
— Vocês podem... — tirou o celular da bolsa, sinalizando uma possível fotografia com a banda.
Mikey deu um passo a frente, pegando o celular da mão de . Eles se amontoaram em volta do baixista e sorriram.
— Puxa, eu não sei nem mais o que dizer...
— Não precisa dizer nada — respondeu Zach — você veio até a casa do Brandon e vai jantar conosco, é praticamente da turma.
— Precoces — murmurou em tom de brincadeira.
— Certo — falou Jesse, batendo nas costas de Mikey. Mikey esboçou uma careta de dor — vamos comer, estou morrendo de fome.
Brandon tomou a dianteira, abrindo a porta da sala de estar para eles e revelando uma área comum que levava até a sala de jantar.
— ele falou, guiando-os — disse que você é vegana. Espero que goste de shimeji.
saltitou por uns dois passos adiante, alegre.
— Eu amo shimeji!
Brandon e trocaram olhares, sorrindo cúmplices um para o outro.
— O que você pode comer? — perguntou Jesse com uma expressão reflexiva. encolheu os ombros.
— Shimeji — ela levantou as sobrancelhas como se fosse algo óbvio — e... muita coisa! Lentilha, brócolis, grão de bico...
— Alguma coisa gostosa?
assentiu.
— Lentilha, brocolis, grão de bico, shimeji — ela numerava com os dedos — e, se é o que você quer ouvir, Oreo também.
— Eu não como verduras — disse Mikey, pondo-se em uma das pontas da mesa abaçanada. Depois, ele se inclinou minimamente em direção a Zach como se sussurrasse apenas para ele — sou contra o agronegócio.
— Ha, ha — soltou uma risada teatral, puxando a cadeira para de sentar — muito engraçado.
Mikey tinha um sorriso folgaz nos lábios. Os meninos soltaram um uníssono de objeções à piada mal feita do baixista, Jesse amarrotou uma bolinha de papel toalha e lançou em sua direção.
— Desculpa por esse daí, — Brandon se aproximou com as bandejas e as abandonou sobre a toalha de mesa: risoto de funghi, shimeji e uma salada de folhas variadas. O vinho servido era milionário, igual aos que Quentin servia aos deputados quando recebia-os em casa para debater propostas de corrupção — convive tanto com um bando de idiotas que o cérebro atrofiou, acho que é incapaz de conversar com uma pessoa politizada hoje em dia.
Dessa vez, quem acertou uma bolinha de papel foi Mikey bem no centro da testa de Bran.
Conforme o jantar prosseguia, sentiu-se cada vez menos nervosa e mais apaixonada pela banda da qual era fã. O jeito alternativo de Jesse fez com que imediatamente sentisse uma conexão e os dois passaram a completar piadas uns dos outros e rir de comentários desconexos. O vinho no corpo dos rockeiros — e no de — começou lentamente a fazer efeito, e em algum ponto, talvez entre o prato e a sobremesa, ela parou de prestar atenção na conversa e se ocupou em observar . Ela também não se lembrava com exatidão como sua observância se tornou uma troca de sorrisos entre os dois. E ela não deu a mínima. Estava absurdamente feliz.
Depois do jantar, todos se sentaram en roda na sala de estar e passaram o violão de mão em mão como faziam nas festas de colegial. O instrumento estava sob a posse de Jeremy quando este resolveu iniciar um pequeno quiz com a nova fã numero um.
— chamou ele, abandonando o violão de volta na case do centro da roda — Qual sua música preferida da The Neighbourhood?
— Não consigo escolher uma, mas, assim, sob pressão, acho que Greetings from California.
— E nossa, ? — foi quem perguntou, ao seu lado, com olhar afável.
imaginou que o baterista provavelmente estava exausto após a viagem, as coletivas e, agora, o jantar. Ele nem mesmo tivera tempo de respirar, seu corpo mostrava sinais de exaustão: os olhos caídos, corpo com uma postura um pouco mais relaxada do que o normal e a voz lenta e preguiçosa.
pensou um pouco. Não conhecia muito bem as músicas deles e nunca havia se dado o trabalho de pesquisar. Claro, tinha a curiosidade e apetite imenso por procurar por vídeos de tocando, mas conteve-se, uma vez que se conhecia o suficiente para saber estabelecer limites para sua imaginação. A visão de suado e tocando uma bateria despertaria algo em que ela não estava disposta a acordar.
Contudo, havia uma que ela não conseguia evitar escutar.
— Taking The Devil’s Place — ela respondeu.
cerrou o cenho, um sorriso de canto apareceu em seus lábios fechados.
— Aquela sobre um motim no inferno?
prendeu uma risada.
— Eu gosto, é revolucionária.
— Essa é muito boa — concordou Lys — mas sou uma romântica incurável. Gosto de In Levi’s Arms.
Brandon concordou, os dois trocaram um selinho.
— Me sinto honrado — brincou a Lys, levando a mão ao peito — porque esta fui eu que compus.
Jeremy estendeu sugestivo o violão a . O restante da banca encorajou-o, juntamente com . pegou o instrumento e, após verificar a afinação com algumas notas, começou a lenta melodia inicial de In Levi’s Arms. E não podia negar o quão bom era aquele sucesso da banda, envolvente e intenso. A voz de era rouca e incrivelmente afinada, tão distinta da de Kalel, mas muito mais sexy e aconchegante. E também muito diferente de sua voz normal. As notas altas saíam com perfeição e tinha uma habilidade fora do comum com os falsetes. Era a combinação perfeita. Kalel que se cuidasse.
Ao fim da música, soltou um discreto sorriso para , o qual ela não foi capaz de retribuir por estar tão imersa em uma fantasia com o baterista. Ele devolveu o violão a Jeremy ao som de aplausos e assobios dos rapazes.
Jesse, Zach e Jeremy foram os primeiros a se despedirem, por volta das dez horas da noite. Lys, Brandon, Mikey, e ficaram para mais algumas fotos de fã, trocaram alguns autógrafos entre eles — os quais certamente acabariam nas mãos de — e se despediram como se fossem amigos há algum tempo. Brandon deu a seu par de baquetas autografadas e Mikey entregou uma palheta. guardou as recordações como se fossem ouro dentro de sua bolsa antes de dar um último abraço neles e seguir em direção ao carro do lado de fora.
Sentada já no banco do passageiro, sentiu-se extraordinária. De longe aquele havia sido o melhor dia de sua vida e ela estava verdadeiramente feliz.
— E então? — se assustou com , entrando no carro pelo lado do motorista.
pensou que o sorriso fosse capaz de cortar seu rosto.
— Obrigada — foi o que ela conseguiu dizer, tirando uma mecha de cabelo da frente de seu rosto — mesmo.
a olhava com ar afetuoso.
— Não precisa agradecer.
— Quando virou um expert de The Neighbourhood? — ela lembrou de tocando Sweater Weather.
não tirou os olhos da rua.
— Hoje de manhã. Ouvi algumas vezes no ônibus quando descobri que eles estavam em São Francisco.
— Não tinha nada mais importante para fazer? — ela tentou não soar debochada, mas foi exatamente desse jeito que a frase saiu.
inclinou a cabeça como se fosse dizer alguma coisa. Pensou um pouco com os olhos vidrados no freio de mão, e então subiu-os para os olhos de .
— Nada mais importante do que te deixar com esse sorriso bobo por tanto tempo.
palavreou um inaudível “uh”, as sobrancelhas arqueadas com ironia
— E o galanteador está de volta — infelizmente. Ela conseguia sentir algumas borboletas em seu estômago pedindo para que sua consciência acreditasse naquelas palavras — Seu charme não funciona comigo, esqueceu?
— Uma pena, você era a única pessoa com quem eu queria que funcionasse.
— Certo — espalmou sua coxa, soltando um suspiro — vamos falar sobre outras coisas, esse seu jeitinho de conquistador me deixa de mau humor e a noite está muito boa para isso.
balançou a cabeça, bufando uma risada irritada.
— Você sabe que não vou parar de te chamar para sair enquanto você não aceitar que formaríamos um belíssimo casal, não sabe? — batucava no volante enquanto dizia — seríamos o casal mais estiloso do tapete vermelho. E o mais quente também, considerando os eventos. arqueou as sobrancelhas.
— Considerando os eventos?
riu dando de ombros.
— Bem, nós transamos e foi muito bom mesmo — ele olhou de soslaio para , afim de ver sua reação. tinha um sorriso contido no rosto — fora nossa química. Seríamos melhores que Niall e Anna.
— Melhores que Niall e Anna?
— Você vai continuar repetindo tudo o que eu falo?
rolou os olhos.
, o que você quer de mim?
arregalou os olhos e olhou assustado para a loira, quase perdendo o controle do carro. Ele a observou com uma careta atônita por uns instantes, depois voltou a prestar atenção na via, com uma expressão cética.
— Cristo, , pare de deixar as coisas tão difíceis.
olhou para os próprios pés. Ela não sabia direito até onde agia com cuidado para não passar a mensagem errada para , e até onde ela mesma estava lutando contra os próprios sentimentos. Ela não queria se iludir pensando que , o rock star, milionário, homem mais sexy do ano e dono de todos os holofotes mundiais estava mesmo gostando dela. Não podia se deixar iludir pelas palavras que ele provavelmente dizia a todos as outras. Além disso, mesmo que fosse sincero, não podia deixar aquilo acontecer. Eram amigos.
... — suspirou soturna, olhando as luzinhas dos postes noturnos passarem como riscos — você não sabe como eu queria que fosse eu quem estivesse tornando as coisas difíceis. Não faça isso comigo.
— Eu não estou fazendo nada — ele falava alto, claramente se contendo para não gritar — Sabe, eu estou tentando! Estou tentando mesmo! Você inventou esse ódio por mim e, , isso está me torturando!
Ela engoliu em seco, segurando um ímpeto sufocante de chorar. Sentiu os olhos arderem com tristeza, a garganta fechar aos poucos. Ela tapou a boca, apoiando a testa na janela e se esforçando para não olhar para o músico, mas em vão. Foram apenas alguns segundos de reflexão para conter as lágrimas antes de virar-se para e apoiar o polegar em seu queixo. virou a cabeça alguns centímetros, de modo a poder olhar a mão da mulher sobre seu rosto. Ele tirou uma das mãos do volante e, ao parar no último semáforo, fechou os olhos, cobrindo os dedos de com os seus. O calor entre as peles fez o coração de se contorcer dentro de seu peito.
— Eu não odeio você — ela sussurrou, mas não respondeu. Ele permaneceu com os olhos fechados, os músculos formavam uma expressão abatida — e eu juro que tentei.
, com os olhos novamente abertos e o carro de volta em movimento, entrelaçou os dedos sobre seu rosto e abaixou-os lentamente, devolvendo a mão de para seu próprio colo. Ele colocou a mão, agora livre, no volante e não disse mais nada.
O resto do caminho foi em silêncio absoluto.
Quando estacionou no subsolo do Omni San Francisco, eram aproximadamente duas da manhã. Ficaram pelo menos uns dez minutos dentro do carro, em silêncio, ouvindo a respiração um do outro mas incapazes de terminarem qualquer assunto. Foi que, aparentemente exausto, quebrou o gelo, girando a chave na ignição.
— Boa noite, — ele falou, olhando para ela — você pode ir subindo, preciso checar algumas coisas na recepção.
assentiu, suspirando um boa noite e descendo do carro, abatida. A pouca luz dos corredores do térreo até os elevadores criava uma atmosfera melancólica que só intensificava a tristeza da loira, e a música ambiente da cabine fazia as lágrimas ficarem cada vez mais difíceis de serem contidas. Ela se olhou no espelho, encarando os olhos tristes de perto. Ficava tentando se convencer de que aquilo não era culpa sua. Não era.
Desceu do elevador com a visão fixa do carpete escuro. Seu rosto formigava e tudo o que ela queria naquele momento era afundar em sua cama e dormir para parar de pensar. Como a melhor noite de sua vida havia se transformado naquilo?
E, aparentemente, estava prestes a piorar.
— Ora, ora. Se está procurando o meu quarto, ele é para o outro lado.
apertou os olhos com pesar, respirando fundo e contando mentalmente até três.
— São duas da manhã, Kalel — ela se virou para ele, com os olhos semicerrados — me deixa em paz, por favor. Não tenho nenhuma atualização para você hoje.
— Então por que parece tão tristinha? — Kalel se aproximou o suficiente para que pudesse sentir seu perfume amargo de grife. Ele estava vestido apenas com uma calça justa jeans preta. Seus cabelos selvagens estavam presos em um coque às pressas no topo de sua cabeça a ele segurava um copo de destilado em sua mão esquerda. Seus pés descalços no carpete não faziam nenhum som — Posso fazer uma coisa ou outra para te animar.
torceu o nariz ao sentir a mão livre do vocalista levantar uma mecha loira solta de seu cabelo e coloca-la de volta para trás da orelha. Os dedos desceram rastejando pelo pescoço da mulher e teve o leve desconforto de ter alguém alisando sua pele. Kalel era terrivelmente bom naquele jogo. Qualquer mulher iria ser levada a subir as paredes com aqueles toques sutis do astro. só sentiu uma repulsa involuntária em seu estômago. Ela de afastou com um largo passo para trás e uma careta de nojo no rosto.
— Eu disse para me deixar em paz — ela repetiu, cruzando os braços abaixo do peito. Sua visão do Kalel absolutamente bêbado foi atrapalhada pela imagem de uma mulher alguns metros atrás deles, surgindo de dentro do quarto do homem e se encostando na lateral da porta aberta, coberta por um lençol amassado. pigarreou — vá terminar sua noite, não a deixe esperando — apontou com o queixo para a mulher.
Kalel nem olhou para trás, sorrindo maliciosamente para a estilista.
— Eu dou conta das duas.
bufou, o choro preso em sua garganta ficou ainda mais difícil de segurar, mas ela fez seu máximo.
— Boa noite — ela falou, por fim, tentando se virar.
Kalel tinha outros planos.
— Não tão cedo, escoteira — ele falou, alto demais — preciso saber o que rolou entre vocês dois, você sabe, pra tentar consertar.
— Nada que você possa fazer alguma coisa.
— Tsc, tsc — ele balançou a cabeça, dando passos em sua direção — ah, , , você está apaixonada pelo nosso baterista, não está?
desviou o olhar.
— Isso não é da sua conta.
— Eu espero que seus sentimentos não atrapalhem o nosso trato.
— Não tem sentimento nenhum, seu cretino nojento — ela cuspiu as palavras com ódio — quando houver da parte dele, fique em paz que vai ser o primeiro a saber.
— Ah, é? — ele perguntou, sugestivo — eu estava aqui pensando, acho que vou aumentar um pouco as nossas cláusulas.
não respondeu. Kalel sorriu ardente.
— Você agora tem um mês. Vai ter que machuca-lo fingindo troca-lo por mim. Ah, e transe com ele. Vamos deixa-lo mesmo infeliz quando acabar.
— Seu dissimulado filho da mãe...
— Temos que cuidar disso também — ele piscou, terminando sua bebida em uma golada — você precisa parar com esses xingamentos, escoteira. Se fosse na cama, tudo bem, mas de graça desse jeito eles não me animam tanto. Tente me tratar um pouco melhor, tudo bem? Esse seu jeito marrento está me dando nervos mais do que me excitando.
torceu o rosto, seu estômago revirou.
— Você é maluco — ela perguntou, irônica.
— Hã, hã... — ele tentou interromper, mas foi tomada por uma raiva muito maior do que qualquer outra coisa.
— Eu é que estou cansada desse jogo, seu sociopata desprezível. Eu tenho nojo de você. Você pode ter me ajudado uma vez na vida me trazendo até aqui, mas continua repulsivo — ela falava, se aproximando. Chegou perto o suficiente para afundar seu indicador em seu peito, olhando-o bem de perto nos olhos enquanto tentava falar sem ranger tanto os dentes de raiva — a partir de agora, vou te tratar melhor, vou cumprir seu plano, vou seguir exatamente o que diz. Faça seu melhor jogo enquanto pode, Kalel, porque você pode ser a porcaria do vocalista da Incubus, mas eu sou a merda da filha do prefeito de Los Angeles. Então, venha com tudo. Pode vir. Mas não pense que isso não vai voltar para você, porque vai. E, quando voltar, é você quem vai ficar no chão, por um bom tempo. Até se dar conta de que nunca mais vai levantar. Eu estou contando os dias para isso.
Kalel abriu a boca para responder, mas foi interrompido por alguém que nenhuma das partes estava ansiosa para ver naquele momento.
— Mas que merda está acontecendo aqui?
apareceu como uma onda de fúria saindo das escadas.
Kalel riu com uma lufada de ar, passando reto por e indo até .
— Você não devia deixar suas garotas saírem insatisfeitas dos seus encontros — ele falou, zombando — ou acaba desse jeito, elas vindo implorar por mim.
, ele está te incomodando?
Kalel segurou o braço de quando ele tentou passar para o lado de .
— Eu já expliquei o que aconteceu, cachinhos dourados — disse Kalel perto do ouvido do baterista — se está com tanto ciúmes assim, pode esperar pela sua vez quando eu acabar.
estava acostumado o suficiente com as atitudes do vocalista para saber que aquilo era uma mentira. Ele foi rápido o suficiente, e inesperado, para agarrar o pescoço de Kalel com uma fúria que nunca tinha visto até então. Kalel gargalhou contra seu rosto, mas realmente não estava no clima para brincadeiras.
Foi , claro, que começou a briga. O soco do loiro veio com tanta força que derrubou Kalel no chão. Sua cabeça bêbada nem teve tempo de raciocinar o que estava acontecendo, pulou sobre seu corpo e os dois rolaram no chão em uma mistura de testosterona em excesso e raiva acumulada. gritou para que parassem, mas nenhum dos dois estava em condições para ouvi-la. por cima machucava tanto o resto de Lancastre que o carpete já contava com algumas gotas de sangue.
Kalel, após um período de sufoco, finalmente jogou para longe e conseguiu se levantar, mas só teve tempo de ficar em pé antes de vir pra cima dele de novo. Kalel, dessa vez preparado, preparou o punho para acerta-lo. E iria acerta-lo em cheio.
Se não tivesse entrado no meio para separa-los.
Os anéis do vocalista afundaram em seu lábio superior. recuou passos para trás com a força, e teria encontrado direto o chão de não estivesse atrás para segura-la. Sua visão escureceu com a dor em seu nariz. Sentiu sangue escorrer e encontrar seu queixo.
Kalel parou atônito, olhos arregalados para . Sua boca estava semi aberta em choque. levou a mão ao rosto, ainda sem entender o que tinha acabado de acontecer.
— Filho da... — começou, mas pensou que tinha o direito de ser a primeira a se pronunciar.
— Volte para seu quarto, Kalel — ela sussurrou com a mão no rosto — volta pra lá.
— Eu não...Meu Deus — Kalel estendeu os braços para apaziguar a situação, assustado — Me desculpa, , puxa...
— Você a ouviu, porra.
Kalel deu curtos passos para trás, recuando em direção ao seu quarto. Quando chegou à conclusão de que não tinha mais nada a ser feito, coçou o queixo ensanguentado e deu meia volta, entrando de volta em seu quarto e trancando a porta. Provavelmente a mulher lá de dentro teria uma noite muito diferente da qual ela esperava ter.
, também. Ela pensou que passaria a noite toda sendo forte e madura o suficiente para não chorar como uma criancinha, mas a dor, física e emocional, misturada ao estresse e ao seu humor anterior fez com que as lágrimas caíssem involuntariamente. Seu rosto não demorou para ficar empapado com uma mistura de lágrima e sangue. Seu rosto queimava.
— Deixa eu ver isso — pediu, ainda controlando a respiração para não perseguir Kalel até seu quarto.
fechou os olhos, mole. segurou seu rosto com as duas mãos, secando com o polegar algumas lágrimas que caíam. Vendo que a loira não manifestaria nenhuma reação, ele buscou em sua bolsa o cartão chave do quarto de e a ajudou a entrar, sentando-a na cama. Buscou alguns lenços umedecidos no banheiro e uma toalha seca.
, enquanto isso, mantinha o corpo encolhido na cama, as pernas abraçadas e soluçava como uma adolescente após perder o primeiro amor. sentou ao lado de seus pés e, com o maior cuidado do mundo, passou a esfregar com os lenços o sangue de seu nariz e o que já tinha escorrido para o restante do rosto.
— Estou te machucando? — ele perguntou, amassando uma bolinha de papel já usado e jogando na lixeira. balançou negativamente a cabeça como um ser inanimado — Não devia ter entrado no meio, mas acho que você é a pessoa mais teimosa que conheço.
não respondeu. Ela estava confortável em só chorar. a olhou nos olhos, jogando os cabelos da loira para trás e acariciando-a por um tempo. Ela sentiu carinho e teve vontade de se jogar em seus braços e ter uma noite agradável no calor do corpo de . E no cheiro do corpo de . E, se fosse possível, em seus lábios também.
Mas não era um monstro.
Ela fechou os olhos, sentindo as mãos habilidosas do músico enxugarem seu rosto e alisar a pele de suas bochechas.Ela não podia fazer isso. Queria, muito. Queria mais do que tudo. Mas não era um monstro.
terminou de limpar a loira e tratou de enxugar o pouco de sangue que respingava de seus próprios supercílios. Ele foi até o banheiro enxaguar o rosto e, quando voltou, ainda permanecia na mesma posição.
— Se quiser trocar de roupa, prometo te ajudar de olhos fechados.
não respondeu. Tirou os sapatos devagar na beirada da cama e encostou-os ao lado do criado mudo. Deixando o sobretudo apoiado em cima das botas, ergueu o edredom e enfiou-se debaixo dele. Julia assistiu-a, depois largou a toalha que segurava em uma bancada próxima e respirou fundo.
— Estou indo, então — ele disse baixo — Durma bem, se precisar de alguma coisa sabe onde me encontrar. ficou olhando dar as costas e caminhar até a porta. Os ombros caídos, a camisa social amarrotada e o rosto todomanchado de hematomas recentes mexeram com o lado sentimental da estilista.
Quer saber? Que se dane. Talvez ela fosse um monstro.
? — ela sussurrou. já estava com a mão na maçaneta quando ouviu seu nome ser chamado e mexeu o rosto para olha-la — Pode dormir comigo esta noite? Não quero ficar sozinha.
engoliu em seco, largando a maçaneta. Ele tirou primeiro os sapatos, balançando a cabeça positivamente de um jeito sereno. Não desconectaram a troca de olhares e a energia do quarto acabava com todo o frio de São Francisco. Ele desabotoou os suspensórios e arrancou a camiseta.
observou cada pedaço e só conseguiu pensar em como ansiava aconchegar-se em seu peito. Em algumas horas de insanidade realmente parou de se preocupar com as consequências.
levantou o edredom e deitou-se ao seu lado, puxando-a para perto. aninhou-se na curva de seu pescoço, o calor entre os corpos a faria adormecer em segundos.
— Boa noite — ela murmurou contra sua pele e fechou os olhos.
apertou-a mais contra seu corpo como resposta, acariciando o rosto da mulher com a ponta dos dedos.
adormeceu como uma criança que finalmente chegara em casa.


Capítulo 11

batia ansiosa os pés no piso grudento daquela lanchonete na periferia de Tottenham, um dos bairros, estava ciente, mais perigosos e necessitados de Londres.
Havia uma semana desde que a equipe desembarcara novamente de um voo fretado em solo inglês. A turnê americana, cujo último show foi realizado em São Francisco ao final do mês, havia terminado com todas as arenas lotadas e a banda, juntamente com a equipe, não demorou para retornar a Londres para iniciarem a produção do próximo álbum. E, devia admitir, esperava conseguir algum tempinho com , mas estava decepcionada com a distância entre os dois desde que o trabalho das modistas fora transferido para um ateliê próximo à empresa de Olivia Thompson e que passara a trabalhar feito louca e a não ter tempo nem para respirar. Claro que a rotina de estava ainda pior, com todas aquelas sessões de fotos, entrevistas, gravações e boates de stripe. Ah, claro, e as festas triunfais organizadas por eles na casa de Sebastian. obviamente não havia sido convidada, mas se contentara em ver as fotos saídas nos sites e jornais e em notar o quanto parecia estar se divertindo com tantas mulheres seminuas ao seu redor.
Ela tentava não ficar totalmente decepcionada por ter passado uma semana trocando somente uma mensagem ou outra com o baterista. de repente parecera esquecer da existência da garota e só trocaram olhares uma única vez quando precisou levar algumas amostras para Arwin no estúdio. Kalel, contudo, fazia questão de reforçar o quanto era importante para dar uma semana de espaço para e cobrar sua presença em uma reunião para íntimos em sua casa no final de semana. E estaria lá. sentia-se estranhamente ansiosa.
Entretanto, sentada sobre um estofado vermelho da Britt Burguers, a ansiedade de era totalmente outra. O cheiro de gordura e batatas fritas não eram o suficiente para desviar a atenção da loira daquela porta enferrujada.
Ela quebrara tanto a cabeça para encontrar uma solução que tirasse Kalel de seu caminho que quando notou que a resposta estava muito mais perto do que imaginava quase desmaiou de alegria. E tudo se resumia nas vantagens de ter uma melhor amiga jornalista com um leque gigante de buscas e meios para encontrar o que quer. E foi exatamente o que Alyssa fez.
Eram duas horas e vinte e sete minutos da tarde quando o sino sobre a porta de entrada tilintou, avisando a entrada de alguém. O homem tinha pelo menos um e noventa de altura, cabelos muito pretos, compridos ao redor de sua cabeça e deixando o topo reluzente e careca de fora, coberto apenas com alguns fios órfãos e dispersos. Vestia uma calça preta barata, uma camiseta branca com manchas avermelhadas e uma jaqueta que encontraria facilmente em alguma loja de brechó e ainda conseguiria leva-la pela metade do preço. Mas, enquanto o homem se aproximava de sua mesa — visto que era a única ocupada àquele horário — foi capaz de vislumbrar pequenos traços familiares: as maçãs no rosto, apesar de enrugadas e esburacadas, muito saltadas, ajudavam a marcar o maxilar definido mesmo com quilos a mais.
O nariz fino e alto marcava o centro do rosto. Olhos castanhos com cílios volumosos olhavam com profundidade. Seu modo de andar era hostil e prepotente. conseguia imaginar o homem, há alguns anos, com uma beleza singular.
Tal pai tal filho.
William Lancastre sentou-se à mesa sem cerimônia alguma. Um cheiro azedo recendeu no ar e o estômago de embrulhou ao senti-lo entrar em seu organismo. Ela tentou prender a respiração até se acostumar com o odor da ausência de um bom desodorante. Ou qualquer desodorante.
Ele encarou com as grossas e peludas sobrancelhas franzidas. A garota estava sem palavras e um nó formou-se em sua garganta. Ela sabia muito bem o que fazer, mas de repente a ideia pareceu ser absurda. Talvez tivesse idealizado um tipo totalmente diferente de homem, mas aquele a encarava com um olhar malicioso e degradante. Tudo era uma mistura para causar ânsias.
— William Lancastre? — ela perguntou, já sabendo a resposta.
O homem se inclinou sobre a mesa, olhando mais de perto. Ela se remexeu desconfortável em seu assento e tentou se afastar, encostando o tronco ereto no banco engordurado da lanchonete.
— Sou eu — ele respondeu, desconfiado. foi engolida por um hálito forte de cachaça e problemas dentários — e você deve ser Leila .
— corrigiu, tentando não respirar.
— Conversei com sua amiga — o homem tirou os cotovelos da mesa e esticou o braço, chamando pela garçonete — mas não entendi o que quer de mim.
A garçonete radiante apareceu deslizando com seus patins antes que pudesse responder. Vestia-se com um uniforme americano de garçonete do subúrbio: meia calça por baixo de uma minissaia vermelha, camiseta colegial branca de gola alta e uma gravatinha borboleta listrada. Nos pés, um par de patins brancos de rodas vinho. Seus cabelos curtos dourados estavam presos em marias chiquinhas e ela tinha o topo da cabeça coberto por um chapéu de marinheiro.
— Pois não? — ela perguntou, tirando um caderninho do bolso de seu avental e mascando um chiclete que, a julgar pela força que seu maxilar fazia, já devia estar gasto.
William correu os olhos pelo cardápio.
— Um x-burguer e uma cerveja — pediu, grosseiro.
A garçonete anotou sorridente em seu caderninho e depois virou-se para , esperando seu pedido. agradeceu com um gesto, mas dispensou-a. Ela deu de ombros e saiu patinando em direção à cozinha.
pigarreou.
— Então... — começou, sem jeito — eu te procurei porque estou tendo problemas com seu filho, Kalel, e...
— Escuta, mocinha — ele nem mesmo a deixou terminar de falar — em primeiro lugar, Kalel já está bem crescido para você vir até mim para resolver esse seu problema por você. Em segundo lugar, não tenho mais contato com ele, não posso te ajudar e nem quero. O sanduíche e a cerveja são por sua conta.
Lancastre falava completamente enrolado e algumas palavras soavam chiadas e emboladas uma nas outras.
Bêbado.
conteve o impulso de xinga-lo e apenas decidiu continuar.
— Seu filho...Ele ganha muito dinheiro. Eu faço parte da equipe de figurinistas e parte dos lucros que a banda dele ganha vem pra mim. Eu imagino que saiba quanto dinheiro seu filho faz por show.
William a encarou visivelmente interessado. Encolheu os ombros ao ouvir a pergunta da loira e assentiu com a cabeça.
— Sei que o rapaz é famoso e ganha bem, sim.
— Ele não só ganha bem, senhor Lancastre. Ele ganha milhões em uma única semana de show. Quem ganha bem sou eu, senhor.
Ele balançou a cabeça.
— Pois bem. E aonde você quer chegar com isso?
— Como eu andava dizendo, estou tendo problemas com seu filho e acho que só o senhor é capaz de resolvê-los. Estou disposta a pagar um valor...generoso por isso.
Ele cerrou a monocelha. Um emaranhado de fios brancos se formou em sua testa enrugada.
— E com que tipo de problema estamos lidando?
tirou um envelope cheio de dinheiro da bolsa e o fez correr pela mesa, parando pouco a frente das mãos do homem. Ele elevou as sobrancelhas e usou apenas dois dedos para abrir o pedaço de papel e bisbilhotar as libras.
— Desse tipo de problema — ela respondeu — e isso é só a metade.
William esticou a mão sobre a mesa, mas dispensou o aperto para selar o acordo.
O final de semana seria divertido.


— Estou em Oxford para terminar uma matéria com...? Onde você está? Isso são sirenes?
riu, e, desajeitadamente como qualquer estadunidense experimentando pela primeira vez o volante inglês, imbicou o carro em direção ao acostamento e liberou a passagem para a ambulância. A estrada vazia permitiu que ela logo voltasse a pista e continuasse seu trajeto rumo a Humpstead, bairro nobre de Londres.
— Estou na estrada, Aly — o velocímetro do carro apontava para um número além da margem permitida naquela via enquanto ouvia Kiss no último volume e gritava com Alyssa por bluetooth — não vou arranhar o seu carro, já disse!
O ar condicionado ardia todo seu canal respiratório, e podia ver, pelo reflexo do espelho, sua zona T avermelhada pelo frio. Mas não era esse o único motivo para que parecesse nervosa. Ela conseguia ver, pelo espelho retrovisor, o Renault Clio prateado de William Lancastre a seguindo. E, mesmo que não pudesse ve-lo, conseguia sentir, se abrisse um pouco seu vidro, o cheiro forte do escapamento do carro gasto.
— Cristo, tome cuidado — tarde demais, a única razão para que não tivesse tomado multa até aquele momento era a ausência de radares pelo caminho — e com os Lancastre também. Eu já te disse o quanto isso é uma péssima ideia?
— Aly, estamos há quinze minutos da mansão de Sebastian. Não tenho tempo para me arrepender agora, e não iria mesmo que tivesse — ela precisava gritar para ser ouvida sobre Detroit Rock City.
— Vamos deixar novamente claro que eu sou cem por cento contra isso.
rolou os olhos.
— Você diz isso porque não faz ideia fo inferno que está sendo aturar as ameaças desse homem.
— Inferno? — Aly gritou, aguda — , você largou um curso que você odiava por causa dele, enfrentou o seu pai, conseguiu o emprego dos sonhos, conheceu a The Neighbourhood e transou com !
— Aly, Kalel está me chantageando! — gritou de volta, mal podendo acreditar no que estava ouvindo.
— Kalel foi a melhor coisa que já te aconteceu, pare de bancar a...
— Ok, ok — não a deixou terminar — eu vou fingir que você não está dizendo essas coisas.
— Poxa, , eu só acho que não é para tanto! — insistiu Alyssa — Eu já te disse, Kalel fugiu de casa muito novo, aparentemente esse William coisa boa não é! E você traz ele de volta por vingança do que, exatamente?
— Se você estivesse no meu lugar...
— No emprego dos sonhos e transando com um homem dos sonhos? Bem, realmente, queria poder estar no seu lugar!
bufou, não querendo prolongar a discussão. Buzinou com autoridade para uma minivan branca que andava lentamente dentro da velocidade máxima e ultrapassou-a com o maior número do velocímetro que o carro de Alyssa permitia. O carro advindo da direção contrária buzinou e desviou subitamente enquanto acelerava na contramão. Só quando se ajeitou de volta em sua pista, lembrou-de da ligação.
— Vou desligar agora — alertou a loira, cuspindo o chiclete de sua boca para dentro do saco de lixo pendurado no câmbio — você deveria seguir essa vida de coach. Besos.
desligou antes de ouvir a despedida da amiga. Largou a cabeça sobre o encosto do banco almofadado e pensou na possibilidade de Alyssa ter dito algo pertinente — mas parecia absurdo cada vez que as suas palavras se repetiam em sua mente. Talvez Kalel tivesse-lhe dado boas oportunidades, sim, mas nada que cobrisse o medo constante de ser denunciada. Além do mais, preferia estar trancada na sala de aula de Harvard a ser uma marionete nas mãos de alguém, muito menos de um homem. Os prós e contras não se anulavam.
se lembrava bem da estrutura soberba da mansão de Sebastian Hall, embora no dia em que a visitara não houvesse tantos carros estacionados pela rua. E todos caros demais, como se tivesse voltado no tempo e acompanhando seu pai em alguma reunião no Senado. Dinheiro demais em pouco espaço — ou muito espaço, dadas as pequenas proporções de uma garagem mundana.
Ela estacionou o humilde veículo de Aly em frente à garagem, um pouco admirada com o fato de estar cercada por, no mínimo, um bilhão de dólares, incluindo a mansão. estava acostumada a viver com dinheiro, mas aquilo era muito maior do que ela poderia raciocinar.
Apanhou sua bolsa de grife — afinal seu pai servira para algumas coisas — e desceu do carro cautelosa com seus saltos. O clima londrino naquela tarde, por incrível que parecesse, estava tranquilo o suficiente para uma mulher de roupa fresca. Calças leves e bodies trançados não era um conjunto comum às chuvas da Inglaterra, mas as nuvens e o sol pareceram cooperar com a moda naquele dia. O restante do universo, por outro lado.
tocou a campainha, atenta ao som do escapamento do carro de William sendo arrastado no asfalto enquanto se aproximava para estacionar. O estômago da garota se remexeu dentro de seu corpo e ela pensou por longos segundos que fosse vomitar. Infelizmente — ou para sua sorte — a porta foi aberta antes que mudasse de ideia e fugisse dali. Era uma boa atitude a ser tomada.
— Ora, ora, finalmente — involuntariamente olhou para o céu. A súplica que fez foi silenciosa, mas clara para qualquer um que estivesse perto: Kalel? De novo? Como ele conseguia estar em todos os lugares o tempo todo?
— Olá, Kalel — ela forçou um sorriso ao responde-lo — saudades de mim?
Ele mexeu o corpo e abriu os braços como se seus movimentos dissessem tudo. Ele armou um abraço, embora nunca tivera a intenção de dá-lo. A provocação certamente funcionaria mesmo sem toque algum.
— Claro que senti, não te vejo desde São Francisco! — ele falou, e sentiu o canto de sua boca formigar com a lembrança — Não fique aí parada, entre! Sebastian está cheirando em algum lugar, mas vai adorar saber que nossa escoteira chegou.
fez menção de subir os degraus da entrada, mas foi barrada pela maldade súbita que subiu em sua cabeça e a fez se lembrar de William descendo do carro. Ela sorriu com toda a malícia que seu corpo permitia, e ancorou-se radiante na porta.
— Na verdade, estou esperando meu convidado.
Kalel ergueu as sobrancelhas.
— Seu convidado!? — ele sorriu com diversão, o corpo envergado para trás e usando as mãos para manter-se equilibrado na porta — Ora, eu esperava mais cordialidade vinda de você! A festinha de celebração é de Bash e está aqui, você nã...
Kalel congelou. Não foi a reação comum que se esperaria de uma pessoa surpresa, mas a surpresa definitivamente estava presente em seus olhos, arregalados. As sobrancelhas abaixaram-se para formar uma careta de dor, em conjunto com os lábios, rígidos. A linha do maxilar saltou sobre suas maçãs do rosto avantajadas, as quais perdiam totalmente a cor e se tornavam uma mistura de amarelo e branco pálido.
Assim que a respiração de Kalel parou e sua coluna enrijeceu-se, percebeu que talvez fizera besteira. Não era a reação de um homem assustado.
Aquilo era pânico em uma criança.
atreveu-se a virar o rosto para onde Kalel olhava, e viu William atravessando o gramado perfeitamente verde e aparado como se pisasse em areia movediça. Lento, torturante. Supreendentemente satisfeito.
— Len... — Kalel pareceu tentar falar, mas sua voz soou como uma lufada de ar quente. Seu pulmão se esvaziara e ele agora parecia precisar de algo mais que uma porta para se apoiar.
— Kalel, meu garoto! — , ainda aflita e talvez repentinamente arrependida, olhou para William como se repreendesse essa sua primeira fala. O homem se aproximava com um sorriso de dentes podres e os braços abertos para um abraço fraterno — Mal acredito que estamos aqui de novo!
Kalel instantanemante recuou um ou dois passos, em choque. Seus olhos pareciam impossíveis de se soltarem de William. Ele entreabiu os lábios, talvez para falar alguma coisa, talvez apenas por assombro, mas nenhum som saiu, então ele os fechou e engoliu em seco. William tinha um sorriso no rosto muito semelhante aos que Kalel gostava de lançar para .
Touche.
não podia voltar atrás agora.
— Ah, Kalel, não acho que Bash ou vá se importar — transpassou seu braço pelos ombros de William — Sempre tem espaço para família, certo?
— Querida, essas regras não se aplicam com esse rebelde aqui, não é mesmo, filho? — provocou William, olho no olho — Faz quanto tempo que não nos vemos? Seis anos?
— Não o suficiente — Kalel sussurrou, tirando os olhos de William e os pousando em , completamente perturbados.
— Isso não é jeito de falar com seu pai — repreendeu-o.
William apoiou a mão no ombro da loira.
— Está tudo bem querida, ele não tem educação. Nunca teve. Por que acha que a mãe dele se drogava tanto? Era desgosto demais para uma pobre mulher só — lamentou-se William.
Com essa fala, a fúria de Kalel resolveu entrar em ação. O colarinho da polo azul de William foi torcida pelos punhos firmes do cantor, dando voltas no tecido claro em torno de seus dedos. O pescoço do mais velho foi coberto pelo pano, os botões pressionados contra seu queixo. Kalel podia segura-lo com apenas uma das mãos, mas quis passar uma mensagem primeiro.
Assim que raiva e medo preencheram os olhos de William, Kalel recuou seu punho e pegou impulso suficiente para derrubar seu pai no gramado. Alguns pingos de sangue se misturaram a outras manchas da camiseta velha e ele gemeu, pondo-se em posição fetal.
— Alguém ajuda! — gritou , voltada para dentro da casa.
O jardineiro ficaria furioso ao ver o rastro de terra e grama arrastados pelas pernas de William enquanto este juntava suas forças para se levantar.
Não precisou fazer isso sozinho. Dois homens — aparentemente valentões dos anos noventa, cobertos por couro — surgiram pela porta, um deles segurando Kalel para dar chance ao outro de levantar William do chão. Com um cigarro preso entre a boca carrancuda do moreno, ele puxou o pai de Kalel do jardim e arrastou-o para dentro, não sem lançar um olhar repreendedor para Kalel antes de entrar. Deviam ter ouvido os gritos de .
— Tirem esse homem da casa de Sebastian!
Os dois valentões ignoraram os berros estridentes de Kalel e sumiram pela porta. sorriu, sentindo-se contente consigo mesma, e seguiu-os para a resplandecente sala de estar de Sebastian Hall. Ouviu os passos nervosos e hesitantes de Kalel sem seu encalço.
Largaram William no sofá vermelho enquanto este balbuciava algumas palavras de ódio e encarava o filho com olhos indecifráveis.
— Ora, me soltem — ele se debatia — esse fedelho tem que aprender a respeitar o seu pai. O garoto é um drogado miserável, não eu. Larguem-me.
franziu os lábios e olhou em direção a Kalel. O vocalista tinha as mãos na cabeça, apertando o topo de seu cabelo volumoso, uma expressão fechada e todos os músculos contraídos. Seu peito subia e descia com velocidade.
Ele parecia pensativo e nervoso. Andou de um lado para o outro, de olhos fechados, ignorando o caos instalado no cômodo — dois homens claramente bêbados prensando um velho maltrapilho contra o sofá, enquanto pelo menos dez convidados encaravam, riam e bebiam e o filho fazia círculos no mármore.
olhava de William para Kalel como se assistisse a uma partida de tênis. Apertava os punhos tão justos que sentia as unhas perfurarem a palma de sua mão. Não conseguia se lembrar a última vez que tinha se sentido tão aflita.
De repente Kalel parou de se mover e cruzou os braços. Fez um gesto singelo com as mãos para seus amigos e ambos soltaram ao mesmo tempo o senhor Lancastre. William sentou-se ereto no almofadado e girou o pescoço para observar o filho — olhar o qual foi retribuído na mesma intensidade.
— Chegaram bem na hora — Kalel falou robótico a — Bash está servindo o almoço no jardim.
As duas réplicas de Kalel soltaram William e murmuraram qualquer coisa em espanhol entre si, misturando-se com o restante dos convidados. William ajeitou as roupas e lançou um olhar provocativo a Kalel, antes de seguir todos em direção ao jardim.
tentou acompanha-los, mas foi impedida pelas mãos do músico segurando seu pulso. Ela recolheu o braço com agressividade.
— O que foi? Pensei que tivesse avisado você que uma hora eu iria revidar.
Mas Kalel não tinha nenhum ódio em seus olhos. Ele suspirou com pesar, balançando a cabeça decepcionado.
— O que você estava pensando? — ele perguntou.
riu.
— Você escolhe, Lancastre — ela apontou o dedo em seu nariz — ou você continua a me chantagear, e seu pai fica, ou você me deixa em paz e eu mando seu pai embora.
pensou que Kalel fosse pensar por algum tempo, parecer nervoso ou perder a paciência. Nada disso aconteceu. Kalel prendeu a respiração por uns segundos, depois tomou fôlego e começou a gargalhar.
— Mandar William embora? — ele perguntou , tomando ar — você acha que é fácil assim? Você? Mandar ele embora?
cerrou os olhos.
— Fui eu quem o trouxe não foi?
Kalel apoiou as mãos no joelho para recuperar o fôlego.
— Não acredito, escoteira. Você, além de tudo, é muito ingênua.
— Escuta Kalel, eu...
— Não — ele interrompeu, com dureza — você escuta. Pensei que depois de ter te ajudado com seu pai eu tinha deixado claro que família estava fora de questão. Você trouxe à tona um lunático. Acha que consegue lidar com ele? Olha só para você! Não consegue nem lidar com seu próprio pai, e ele ainda era civilizado. Você acabou de causar um problema gigante para todo mundo, espero que tenha isso em mente. Se quisesse te prejudicar, nunca teria arranjado um emprego para você! Emprego do qual, preciso dizer, posso te demitir a qualquer hora.
arqueou as sobrancelhas.
— Você devia ter pensado no problema que era William antes de me subestimar — ela rebateu — além disso, você não pode me demitir. não iria deixar.
A expressão de Kalel foi de raiva a puro divertimento.
? — ele riu — não está nem aí para você, querida. Ele está agora mesmo no andar de cima transando com a menina que você quis dar uma de heroína em Los Angeles. E sabe o que ele fazia enquanto você dava seu show naquela festa? Brincava com as mãos com uma modelo seminua dentro da piscina.
sentiu o peito gelado, mas não demonstrou. Cruzou o braço sob o peito como se tentasse proteger a si mesma contra as palavras de Kalel.
— Eu sei que isso é mentira — ela disse, tentando convencer a si mesma de que o vocalista diria qualquer coisa para deixa-la chateada — disse que não queria ninguém aquela noite. Ele saiu comig...
— Com você? — Kalel sorria — escuta, escoteira, eu queria que esse negócio de vocês desse certo tanto quanto você, claro que por motivos diferentes. Mas isso que está dizendo é uma piada. só odeia duas coisas nesse mundo: Donald Trump, e eu. E não tem uma única coisa que ele não faria para acabar com minha vida, e no momento que eu te apresentei a ele como parte dela, você se tornou o brinquedo principal. Ele gosta de você, sim, se não já a teria enxotado. Mas não se sinta especial, porque não é. Não acredita em mim? Suba e veja por si mesma. Você não é a garotinha do coração de , . Você não é ninguém, portanto desça de seu pedestal.
piscou algumas vezes para espantar as lágrimas que apontaram em seus olhos. De fato, conversava com uma mulher enquanto arranjava uma briga.
— Por que essa cara de choque, escoteira? — perguntou, ironico — achava que ele amasse você? Que queria uma vida juntos?
balançou a cabeça.
— Lide com seus próprios problemas, não tente criar um para mim — falou, ríspida, e saiu andando pelo corredor.
desembocou em uma ampla sala de jantar, com iluminação difusa vinda de fileiras do teto. A mesa branca se estendia pelo centro e lembrava mesas extensas de realeza, com cadeiras brancas etéreas dispostas em volta.
Havia comida japonesa nas bandejas rotatórias dispostas em uma linha central sobre a mesa. Os convidados já estavam sentados, Sebastian tinha uma loira esbelta em seu colo em uma das cabeceiras da mesa, enquanto ele se servia de alguns temakis e sucos batizados. O baixista nem pareceu notar a presença de William, sentado na cadeira adjacente à cabeceira oposta. torceu o rosto, vendo Kalel ultrapassa-la e apoiando-se no encosto de uma das cadeiras. Ele deu batidinhas em uma das taças para chamar a atenção.
— Bash, meu querido, e companheiros — disse ele, pensou que ele talvez pudesse interpretar Jack Sparrow e ninguém notaria a diferença entre os atores, apesar discrepância entre as aparências — trouxe um convidado especial para iluminar a nossa tarde. Palmas, palmas para meu querido pai — ele apontou os dois braços como se desse boas vindas — William Lancastre.
Ouviu-se o som estridente de porcelana sendo estilhaçada pelo chão, seguido de um gritinho feminino.
Fez-se um silêncio incômodo enquanto todos os convidados perseguiam a origem do barulho, até encontrarem , na boca do corredor, apoiado sobre o pequeno aparador coberto por louças caras. Seu rosto espantado encarava William, as sobrancelhas juntas contornando as linhas de seus músculos na testa. Sua acompanhante encolhia-se contra a parede, fugindo dos cacos de um vaso que ele acabara de derrubar.
— O que esse verme faz aqui? — perguntou, avançando pela sala de jantar.
Surpreendentemente, quem barrou seu caminho foi Kalel, com as mãos em seu peito contendo-o.
— Kalel disse, cauteloso.
— Sebastian! — gritou — o que...
Sebastian parecia não ter ideia do que estava acontecendo. Perdido e confuso, ele levantou os braços como se mostrasse sua inocência e voltou a comer.
Kalel olhou para , severo, e tornou a sorrir em falso com as mãos juntas diante do corpo.
— Parece que a fama não nos permite esconder nossos endereços, . Por que você e sua dama não se sentam?
As demais pessoas daquele cômodo não pareciam prestar atenção na balbúrdia. Eles comiam, bêbados demais para notar que algo acontecia ou para dar a mínima. Nathaniel espiava despretensioso pela porta de vidro que separava a sala de jantar do jardim, mas, concentrado em seu cigarro e sua cerveja, estava notadamente alienado da conversa e não se mostrava interessado.
— Como você veio parar aqui? — ainda rosnava.
William finalmente se cansou de apenas sorrir e levantou-se, apoiado na mesa por um se deus braços, parou atrás do filho e tocou-lhe o ombro. O corpo do vocalista se enrijeceu, mas permaneceu parado. nem pareceu notar quando seu punho se fechou em volta de um dos vasos de cerâmica e todos seus músculos se prepararam para usá-lo.
fez menção em se levantar, porém tudo aconteceu rápido demais.
Assim que as juntas de se tornaram brancas em volta da decoração, William fez um único movimento com as mãos entre o bolso interno de sua jaqueta e a violenta cabeleira de Kalel. demorou para notar — ou talvez estivesse perplexa demais para acreditar no que estava vendo — que William agora apontava uma arma para a cabeça do próprio filho.
Finalmente a mesa inteira notou o que acontecia e um lento murmúrio correu pela sala.
Nathaniel, do lado de fora, encarava boquiaberto a cena e parecia ponderar se deveria entrar ou não. Alguns se lançaram em direção ao chão para se proteger.
levou a mão a boca, sentindo uma sensação aguda no peito. Arrependeu-se de tudo o que havia feito e pensou no conselho que deveria ter ouvido de Alyssa.
Kalel, por sua vez, fechou os olhos lentamente com pesar, como se já esperasse por isso e estivesse decepcionado por estar certo. tinha olhos arregalados e usava a mão vazia para estende-la e pedir silenciosamente por calma.
Ouviu-se o estalo da arma sendo carregada.
se levantou.
— Pare!
— pediu — sente-se.
Mas ignorou-o.
— Não foi isso o que eu quis dizer, William -— algumas lágrimas de medo despontaram em seus olhos — por favor, não era isso que eu queria.
tinha um semblante atordoado.
— Você pediu para que eu resolvesse seu problema, criança — William respondeu.
— Não assim, não, por favor, pare! Abaixe essa arma.
— Bem — ele deu de ombros — tarde demais.
E o gatilho foi acionado. gritou junto com algumas outras três pessoas. foi uma delas, e as sílabas de seu “não” se arrastaram pelo silêncio que se seguiu após o clique seco da arma. Sem balas, sem sangue, sem um enorme show.
Uma fina e estridente gargalhada saiu da boca de William e cresceu sobre o choque de todos os presentes. Kalel abaixou a cabeça, e foi empurrado por um dos braços do pai. Este balançava o revólver e ria como um bobo da corte.
— Peguei vocês!
caiu sentada com o rosto entre as mãos. Kalel, nem um pouco afetado, arqueou as sobrancelhas e saiu da sala, lento.
William bateu palmas e virou-se para .
— Bem, que isso seja um aviso. Vou aumentar o meu preço para dois milhões de dólares, o que acha? Tenho certeza que vai arranjar um jeito de me pagar. Entro em contato mais tarde.
E então ele guardou sua arma dentro da jaqueta e foi embora.


— Mas que porra você tinha na sua cabeça?
precisou esforçar-se para não se encolher contra a parede e chorar. Nunca tinha visto ou qualquer homem tão nervoso com ela. Após puxar até a primeira porta do corredor do segundo andar, e dado de cara com um dos estúdios de Sebastian, quebrara uma estante inteira de discos, estilhaçara um disco de platina e destruíra uma bateria. O resquício do tilintar dos pratos no chão zuniam ainda nos ouvidos da loira.
, eu posso explicar...
— Explicar? E que explicação seria coerente o suficiente? Eu disse a você, disse logo quando nos conhecemos, que o pai de Kalel era louco! Por que você, QUE MERDA VOCÊ ESTAVA PENSANDO, quando achou ser uma ideia boa para cacete trazer William Lancastre até uma casa que não é sua, em um almoço que não é seu?
não aguentou. Sentiu o rosto encharcado e precisou tomar fôlego para conseguir falar.
— Kalel é horrível, !
estava inteiro vermelho. Suas narinas abertas mostravam todo o ódio que sentia, seus braços inquietos buscavam alguma outra coisa para quebrar — e tinha a impressão que seu rosto era uma incrível tentação.
— William Lancastre acabou de apontar uma arma! Uma arma! E essa nem de longe foi a primeira vez, ou você acha que a mãe dele ficou louca por nada? Você acha, , que quando a mãe de Kalel sofria com um garfo enfiado nos dedos, ou com garrafas quebradas em sua cabeça, ou quando passava dias trancadas no banheiro, você acha que ela se importava em como seu filho iria crescer sendo terrível? Ou você acha que ela estava mais preocupada em se manter viva do marido? Hein? ME RESPONDE, , PORRA. VOCÊ ACHA QUE ELA SE IMPORTA COM ISSO DENTRO DO HOSPÍCIO NO QUAL ELA FOI LARGADA?
engoliu em seco, soluçando.
— Eu não sabia... — lamentou entre muitas lágrimas.
mantinha distância e não conseguia encara-la.
— Vá se ferrar, . Pare de ser tão hipócrita.
— Não me chame de hipócrita, você perdeu todo o direito disso.
levantou os olhos para .
— Do que você está falando? Você acha que ainda pode...
não quis ouvir.
— Você pode me chamar de muitas coisas, , mas hipócrita não é uma delas. Você merece esse título só para você! Tudo o que tem feito comigo, pagando de galanteador, romântico, me levando para conhecer minha banda preferida... Céus, todas as coisas que você me falou! E tudo mentira! Quando disse na festa que queria a mim enquanto transava com outra! Mentiras e mais mentiras!
riu sem humor.
— Eu não acredito que estou ouvindo isso, é a coisa mais absurda que alguém já me disse — ele se aproximou — é você quem sempre me afasta!
— E pelo visto estava certa em afastar!
— Pare de pensar que te devo explicações! Você não é de ouro, , eu não aguento mais toda essa sua arrogância, chega!
— Minha arrogância??? Olhe só para você!
passou as mãos pelos cabelos, irritado e visivelmente descrente com a situação.
— Sim, sua arrogância — ele parara de gritar — fez toda essa situação se tornar um assunto sobre nós dois enquanto...
— Olhe para seu próprio umbigo! — ela o entrecortou.
— ...enquanto nem sequer existe nós dois. Não somos um casal.
arqueou as sobrancelhas.
— Pensei que eu já tivesse deixado claro que não somos.
— Não, não — ele balançou a cabeça — eu estou deixando claro agora. Você já disse que não é minha terapeuta, que não é minha mãe...Bem, eu te digo agora, pare de achar que eu te devo satisfações, porque, , eu não sou seu namorado.


Capítulo 12

acordou na manhã seguinte com uma enxaqueca descomunal.
Rolou na cama e conseguiu ouvir de longe os latidos de Frida na fresta da porta. Embora amasse a cadelinha de Alyssa, não estava disposta a levantar naquele domingo, ainda mais sabendo do que a aguardava para o restante do dia.
Permaneceu em um limbo entre sonho e realidade até escutar o tilintar das chaves na fechadura e a porta do quarto de hóspedes abrindo abruptamente. Luz matutina invadiu o quarto e piscou até suas retinas pararem de arder.
— Bom dia, xuxu — Aly trazia uma caixa de donuts aberta em suas mãos — trouxe café da manhã vegano daquela confeitaria que você gosta.
relutou contra a necessidade de se levantar, mas o cheiro dos bolinhos açucarados acabaram sendo o suficiente para tira-la da cama. Calçou suas meias e arrastou-se até a cozinha do apartamento. Alyssa terminava de trazer suas malas para dentro e uma máquina antiga coava café em algum canto da cozinha.
— Como foi a viagem? — perguntou já sabendo do que Aly realmente queria conversar.
Alyssa sentou-se em sua frente após trancar a porta.
— Uma chatisse — lamentou-se, apanhando um donut com granulado — entrevistei uma banda sem graça de Oxford. Não sei se estou querendo muito, mas esperava que depois da manchete sobre a Incubus a Rock’n News começaria a me entregar furos maiores.
— Não acho que esteja querendo demais, não — ela limpou a baunilha de sua boca — a manchete da Incubus ficou bem legal.
Alyssa bufou.
— Se você soubesse como você faz falta...— ela sorriu — tenho certeza que causou bastante ontem. Preciso andar por aí com você por perto, quem sabe consigo aumentar o número de matérias pra eles.
sorriu, rolando os olhos. Gostaria de poder ajudar a amiga, mas nada do que acontecia com ela naquele momento poderia estar disponível para os jornais. Seria como jogar sujeira no ventilador.
— Tenho certeza que vai conseguir coisas melhores conforme for crescendo na revista. Você é muito boa e nem todo mundo tem seu jogo de cintura.
— É, tomara — Aly deu de ombros e sorriu — mas suponho que eu não seja a única. Como foi ontem?
olhou para o teto, lamentando o fato de a melhor amiga ter trazido o fato à tona.
Abandonou o donut mordido sobre a toalha de mesa e mordeu os lábios enquanto encarava a cobertura caramelada buscando por uma resposta.
Nada veio à cabeça. Ouviu Alyssa suspirar e levantar para buscar as xícaras de café.
— Tão ruim assim, huh. Lamento, , sei o quanto você esperava que isso funcionasse. apoiou a cabeça no punho.
— Pensei que estaria só passando uma mensagem para o Kalel, mas...Ah, Aly, eu estraguei tudo.
— O que quer dizer?
— O pai de Kalel é simplesmente maluco! Apontou uma arma para o próprio filho e pediu dos milhões para ir embora de vez. E pediu em dólares! Era como se pedisse diretamente para mim — tapou a boca como se algo a proibisse de sequer se lembrar daquele fato. Aly olhou-a assustada, entregando-lhe uma caneca quente — por um momento eu pensei que ele fosse mesmo atirar. Foi horrível, Aly, eu tinha certeza que ele iria atirar! E, de certa forma, eu teria matado Kalel. Ah, deuses Aly, eu o teria matado!
, pisque já esses olhos e mande essas lágrimas embora! — Alyssa sentou-se ao seu lado, abraçando-a — Você não teria matado ninguém, a culpa seria inteira de William! Você entende, não é? A culpa seria de quem atirou. Só é culpado quem faz.
fungou.
— Queria mostrar a Kalel que eu também posso jogar como ele.
— Qualquer um pode jogar como ele, a pergunta a ser feita é se você quer mesmo jogar como ele — Alyssa segurou o rosto de , obrigando-a a olhá-la nos olhos — Quer mesmo provar a Kalel que é igual? Ou melhor, você quer mesmo ser igual a um homem desses?
balançou a cabeça.
— Não quero ser como Kalel.
— Então desista de jogar desse jeito.
segurou a cabeça como se pudesse arrancar seus fios de cabelo fora. Seu rosto ardia e ela se esforçava para segurar todas as lágrimas que ameaçavam cair.
Olhou para Aly e um sentimento surgiu em seu peito, uma vontade de colocar para fora todos os pensamentos que insistia em guardar para si. Alyssa saberia como acalmá-la, ajuda-la e até mesmo clarear sua cabeça. estava cansada de agir como se pudesse resolver tudo sozinha.
— Eu não sei o que fazer, Aly. Eu me sinto tão... — ela suspirou, baixando o olhar para os pés — Posso te fazer uma pergunta? Promete que será sincera, independente da nossa amizade de anos?
Aly segurou seu ombro.
— É claro que você pode.
hesitou, repassando suas inseguranças em sua cabeça.
— Acha que sou fraca? — perguntou, por fim, e apressou-se em acrescentar — quero dizer, acha que sou fraca e mimada, que não aceito ser contrariada e ajo como uma criança impulsiva?
Alyssa soltou uma gargalhada, tomando um longo gole de seu café. Terminou seu donut antes de responder.
— Se acho que você age como uma criança impulsiva? Sim, acho — disse, admirando o lustre — Mas não acredito que alguém possa algum dia chama-la de fraca. É natural, não se culpe por isso, durante toda sua infância eu duvido que algum dia você tenha ouvido um “não” e é normal que aja impulsivamente quando é contrariada.
— Mimada — ela mastigou a palavra — tenho ouvido muito isso.
Alyssa soltou uma risada irônica.
— De quem?
— Kalel me disse, ...
— Não, não, não — Aly levantou-se, irritada com a ideia de estranhos ofendendo sua amiga — não, , não foi isso o que eu quis dizer. Mimada é uma criança que não aceita quando os pais se recusam a comprar um celular novo, ou uma adolescente que não aceita levar um toco. Você é mimada quando não aceita que algo seja feito de um jeito contrário a sua vontade. Agora esses caras...O que eles podem dizer sobre isso? Chamam-na de mimada porque? Porque não quer um sociopata te chantageando e te dizendo com quem trepar?
— Até ontem estava dizendo que ele foi a melhor coisa que já me aconteceu.
— Eu estava louca.
— Mas você tem razão. Kalel me arranjou esse emprego, o que eu estaria fazendo se ele não me ajudasse? — limpou uma lágrima de seu rosto, envergonhada — Você já percebeu como não consigo nada sozinha? Sempre alguém importante consegue as coisas para mim. Meu pai, Kalel, você...
Alyssa se levantou, agitada.
, eu te proíbo de dizer essas coisas dentro do meu apartamento, está ouvindo? — ela cruzou os braços — Se você não fosse uma ótima aluna, não teria entrado em Harvard nem se o papa tivesse feito suas recomendações. Se seus desenhos fossem uma droga, sequer teria chamado a atenção de Kalel. A One Direction só é famosa graças ao Simon Cowell, sabia disso? Foi Simon Cowell que conseguiu isso para eles, e você vai me dizer que eles não merecem? Justin Bieber foi descoberto pelo Usher, não foi? Ele não merece? O mérito não é dele?
não respondeu.
— Vou parar com esse papo ridículo antes que você diga coisas mais absurdas do que essas — Aly continuou — quero minha amiga de volta.
A campainha tocou e interrompeu a conversa. Aly foi para a porta, apontou para e esboçou as palavras “salva pelo gongo” enquanto destrancava a fechadura. Colocou apenas a cabeça para fora e virou o seu café com a intenção de se apressar para sair.
— Entrega para — ouviu o porteiro dizer — assine aqui por favor.
Aly assinou e chutou a porta para fecha-la, com um vaso de orquídeas nas mãos.
— Uh la lá — ela riu, dançando a caminho da mesa — olha só quem tem um admirador.
teve a infantil ideia de que talvez fossem de , e um sorriso forçou-se para fora de sua boca. Ela se levantou e tentou arrancar o cartão da mão de Aly, mas esta desviou e subiu na cadeira para sair do alcance de . a observou ler o cartão e a risadinha da amiga sumiu de seu rosto. Ela pigarreou e olhou para com olhos indecifráveis.
— Obrigada pelo salário do mês, loirinha. Se precisar de novo dos meus serviços, sabe onde me encontrar — ela leu — Com amor, William.
sentiu seu corpo inteiro gelado e engoliu em seco. Um temor tomou conta de suas mãos e pernas e ela precisou se sentar novamente.
Aly desceu da cadeira e ficou ajoelhada na cadeira.
— Parece que o pagaram — ela disse, cautelosa.
trincou os dentes e derrubou o arranjo de flores no chão com um impulso de raiva. Os cacos se esparramaram com a terra pela cozinha do apartamento. Aly se encolheu.
Um silêncio esquisito pairou por vários instantes.
bufou antes de finalmente dizer algo.
— Precisamos fazer alguma coisa.
Alyssa balançou a cabeça.
— Ele ainda pode te denunciar? Kalel, digo. Faz o que? Uns cinco meses desde que tudo isso aconteceu.
— Eu já pesquisei — fechou os olhos — posso pegar de um a dez anos na prisão. Quanto tempo se passou não importa, e conhecendo Kalel prefiro não arriscar.
Mais silêncio no ambiente. Uma mosca silenciosa talvez pudesse ouvir a mente das duas trabalhando em conjunto.
— E se denunciá-lo por agressão? — sugeriu Alyssa — Ele te bateu, não bateu?
— Não tenho mais marcas, Aly. Ninguém acreditaria em mim.
Alyssa bufou.
— Vamos manter o plano original, ok? — se levantou e andou de um lado para o outro — deixou claro que não quer nada comigo, preciso reconquista-lo e Kalel pode me ajudar. Vamos acabar logo com isso.
Aly segurou pelos ombros.
— Não pode estar falando sério. Vai desistir?
de afastou das mãos da amiga.
— Não estou desistindo, só não me importo mais. não gosta de mim e eu também não gosto dele, vou fazer o que Kalel quer e pronto, estou livre.
— Agora sim está agindo como uma criança mimada, levou um fora e ficou toda nervosinha.
não respondeu e foi tomar seu banho.
Afinal, sabia que Alyssa estava certa.
Aly saiu pouco tempo depois a pedido da chefe e deixou sozinha no apartamento. A loira terminou de se vestir e checou o horário, sabendo que precisaria estar ao meio dia no prédio da Vogue UK para uma sessão de fotos da banda. Terminou de se vestir com calma, adiando ao máximo o momento em que teria que enfim aceitar a ideia de ver naquele domingo.
O táxi saiu vinte minutos antes do meio dia e estacionava em frente ao prédio poucos minutos antes do horário marcado. Anya e outro estagiário de Olivia fumavam um cigarro na porta de entrada enquanto algumas fãs e paparazzis tentavam atravessar a faixa. mostrou o crachá para um segurança e entrou pelo portão.
— Argh — reclamou, cumprimentando os colegas — quem vazou a informação de que a Incubus estaria aqui?
— Não sei, mas já estava assim quando cheguei. A banda está lá dentro há um tempão — respondeu Anya.
— Parece que a própria Vogue divulgou que teriam fotos com eles — falou o menino — Olivia comentou algo conosco antes de sairmos.
deixou o queixo cair.
— Olivia está aqui?
— Não, ela precisa terminar a coleção de outono e está super ocupada esses dias.
Ele e Anya apagaram seus cigarros e os três entraram no prédio, pegando o elevador até o quinto andar.
— Fiquei sabendo que os meninos estão de mau humor — comentou Anya, e se perguntou se havia como Anya saber de alguma coisa sobre ela — então tentem não fazer nada para piorar isso.
— Eles sempre estão de mau humor — resmungou .
O andar estava todo organizado para um típico photoshoot: luzes fortes, araras de roupas espalhadas pelo salão, cenários diversos e muitos engravatados ao redor do fotógrafo principal.
No caminho difícil entre o elevador e os outros membros da equipe de figurinistas, ao lado da banda, respirou fundo e se lembrou das palavras de Alyssa para se acalmar.
Ela era incrível. Nascera para um trabalho como aquele, e não importavam os motivos que a trouxeram até ali. Não teria permanecido se não fosse ótima.
cumprimentou o restante da equipe e olhou de soslaio para e Sebastian, ao lado das araras, tendo suas roupas ajeitadas por um estilista de Olivia.
— Que bom que chegaram — esse mesmo estilista agradeceu, mas sem tirar os óculos redondos dos últimos pontos na manga da jaqueta escura nos braços de Bash — preciso de uma opinião sobre as roupas de .
Os três olhares recaíram sobre o baterista, mas não foram retribuídos. tinha os dois olhos presos em Kalel, sentado em uma cadeira do outro lado do salão recebendo a atenção dos maquiadores.
Anya contornou a mesa que os separava e parou diante do loiro, apoiou o indicador no queixo e fitou suas vestes. não conseguiu desperdiçar aquela chance de admira-lo e inclinou-se para observar o rapaz.
O estilo seria cômico se não tratasse de . O conjunto formado por calças de couro, uma camisa baby look muito justa preta e um kimono estampado por cores vivas faria qualquer pessoa assemelhar-se a um pivete vestido de aleatoriedades para um trote escolar. No entanto, no corpo esguio do baterista, era como se ele fizesse parte de uma propaganda de perfume estrangeiro.
Anya e pareceram chegar à mesma conclusão. A chefe de equipe apenas se aproximou para ajeitar o tecido delgado do kimono sobre os ombros de e desceu um pouco o cós da calça para que uma linha, pouco menor que a grossura de um dedo, de sua pele ficasse exposta. Os dedos de Anya chamaram a atenção do baterista, e ele finalmente tirou os olhos de Kalel e baixou-os para a mulher. notou que ele parecia ligeiramente alterado.
— O que está fazendo aí embaixo, querida? — a voz arrastada de soou um pouco pétrea demais, mas o modo como a olhou deixou à mostra a malícia da pergunta.
Anya não era boba nem nada. Ninguém deixaria uma cantada de às moscas.
— Meu trabalho — ela sorriu, com olhos pontudos. Suas mãos correram pela camisa do baterista e ela alisou o tecido, ou ao menos fingiu ser essa a intenção.
sentiu-se enjoada e resolveu sair dali.
Ao passar reto pelas mesas, um pouco sem rumo, notou o sorriso debochado de Sebastian em sua direção. Virou o rosto por curiosidade e recebeu uma levantada de sobrancelhas sugestivas vindas do baixista. Ela mostrou-se confusa, mas Hall desviou o olhar e aceitou que talvez ele estivesse bêbado como .
Pensou, já irritada demais pela ideia de estar com ciúmes, se teria que passar a tarde toda recebendo ordens de Anya enquanto esta era paparicada por .
Depois, sentiu-se infantil e balançou a cabeça para afastar aqueles pensamentos. Viu Kalel sumindo por uma porta e imaginou que, já que teria que pedir desculpas a ele uma hora ou outra, aquele seria um bom momento para afastar seus pensamentos do baterista.
Passou pela mesma porta e entrou em uma copa. A mesa de madeira tinha variados petiscos e sucos. Do lado oposto, logo abaixo das janelas, um balcão oferecia os copos, talheres e máquinas de chá e café expressos. Kalel nele, com as mãos em uma xícara.
— Kalel?
Kalel olhou de esguelho e virou-se muito rápido para alguém que realmente estivesse afim de conversar. Fingiu-se preocupado em encher seu copo com café e ignorou a aproximação de . Ela respirou fundo.
— Preciso falar com você.
Kalel sequer olhou para ela.
— Hoje não, escoteira. Tire seu nariz pontudo daqui.
Mas não estava disposta a deixa-lo em paz.
—Olha, me desculpe por ontem, tudo bem? — pediu, mesmo assim — Passei dos limites trazendo seu pai até aqui e sinto muito por isso.
— Sei que não sente muito, dê o fora, porra.
— Kalel, pode só me escutar? Por favor? —
Kalel não respondeu. apoiou-se no balcão ao lado dele — eu não sabia que seu pai era esse...completo maluco, ok? Eu fui mimada, irresponsável e descuidada, sei disso. Sei que deveria ter pensado melhor ou ter usado meu bom senso, mas não achei que devia isto a você até perceber que seu pai é um problema muito maior Kalel a encarou de lado, seu rosto coberto por fumaça quente que saía do copo. Ele baixou os ombros, seus olhos eram vagos.
, não dou a mínima — ele respondeu — você mandou sua mensagem, certo? Não deu certo, você ainda vai fazer o que eu mando. E sabe por quê? Porque eu estou dizendo que vai.
— Só porque estou me desculpando, não quer dizer que você não tenha merecido. Merecia pior, se quer saber.
Kalel sorriu sarcástico, mas não conseguiu ver o prazer que ela geralmente conseguia ver em seus olhos.
— Ouço isso bastante.
rolou os olhos e viu Kalel sair de perto do balcão e puxar uma cadeira para se sentar. Ela desistiu de tentar de desculpar e saiu da sala, torcendo para que a cena entre Anya e já tivesse acabado. Por sorte, agora fazia retoques da maquiagem e Sebastian recebia toda a atenção da chefe de equipe.
Um pouco aliviada, ela foi até ela para receber sua tarefa.
— Onde você estava? — perguntou Anya com um alfinete entre os lábios e olhar cirúrgico — Pode terminar isso pra mim? Emergência nas calças de Nate. — e então ela se virou para os outros figurinistas — Quem foi que fez as calças dele? Vocês tomaram as medidas ou tiraram da bunda o tamanho da cintura?
Ela entregou a caixinha de alfinetes para e saiu irritada pelo salão.
— O que está acontecendo com a sua manga? — a loira perguntou.
— Decidiram encurtar.
começou a dobrar o tecido e prendê-los para dentro, deixando a manga da camiseta estufada.
Ela passou o restante do dia ajeitando tecidos e ajudando a equipe a trocar os figurinos nos intervalos entre as fotos. Para seu incômodo, não a olhou nem uma única vez. Nem mesmo fingia estar bravo ou ignorá-la de propósito: ele simplesmente não estava nem aí. Andava um pouco desajeitado e flertava com algumas das meninas, mas era como se fosse apenas mais uma do membro da enorme equipe da Incubus. Ela realmente desejou que ele voltasse a brigar com ela ou pelo menos lembrar que ela existia.
A primeira troca de olhares só aconteceu perto das quatro da tarde.
buscava agachada os sapatos de Nathaniel quando olhou de relance para cima e encontrou os olhos claros de fixos nela. Assim que percebeu que havia visto, ele desviou o olhar e puxou alguma conversa de última hora com a responsável pelo cenário.
Foi aí que decidiu que eles precisavam conversar. Pediria desculpas a ele também, quem ligava para seu orgulho?
Esperou até que ele decidisse buscar um café ou alguma coisa para comer naquela mesma sala em que conversou com Kalel. estava com as mãos apoiadas no balcão e a cabeça baixa, pensativo.
se aproximou devagar e, delicadamente, alisou o tecido amarrotado das costas do baterista e o ajeitou nos ombros. pareceu assustar-se e se virou com os músculos retesados. Quando viu que se tratava de , ele fechou os olhos e soltou um longo suspiro.
...
— Você não pode me ignorar para sempre, eu trabalho com você.
— Você trabalha para mim.
— Nem nos seus sonhos.
Um sorrisinho apareceu no canto dos lábios de , e por um momento ela pensou que estava tudo bem entre os dois. Mas os olhos azuis do baterista e o hálito forte de álcool denunciaram o contrário.
— Não estou evitando você — ele desvencilhou-se das mãos de e deu a volta na sala — estou trabalhando. Você devia fazer o mesmo.
Ela comprimiu os lábios.
— Você está bêbado.
— Você está sóbria.
tentou se aproximar, mas se afastou a mesma distância.
— Tudo bem, entendi a mensagem — ela lamentou, levantando os braços em rendição — ainda está bravo comigo por causa de ontem.
não respondeu, mas a careta de nojo que fez quase destruiu o pequeno coração gelado da figurinista.
— Não vai dizer nada? — enquanto ela falava, era incapaz de retribuir seu olhar — Ou vai continuar insistindo nessa merda de história de que você não está me ignorando?
— Sim, , eu estou te ignorando. Melhor?
— Não — resmungou, largando-se em uma cadeira — nada melhor. Podia ao menos parar de flertar com todo mundo como fazia comigo.
Uma gargalhada rápida saiu dos lábios de .
— Qual a graça?
— Não era um flerte com você.
sentiu uma pontada tão forte em seu peito que pensou que fosse chorar. Ela não sabia ao certo quando exatamente seus sentimentos por apareceram, mas naquele momento ela percebeu que eram mais reais do que ela podia imaginar, e se perguntou se alguma vez em sua vida já tinha se sentido assim.
Ela gostava de . Isso fazia sentido agora, quando já não existia mais nada. Nem mesmo o horizonte do possível, fez questão de demonstrar.
— Era? — ela não soube o porquê de ter perguntado isso, mas as palavras no passado doeram absurdamente.
— Não conheço você, . Pensei que você fosse só... — fechou os olhos como se tivesse medo do que suas palavras poderiam causar — intrigante. Pensei que sua energia fosse, sei lá, nova. Que você fosse ser essa pessoa que... — ele riu da ideia idiota que passou em sua cabeça — fosse me acompanhar em qualquer coisa que minha mente doida inventasse. Mas a mente doida aqui é a sua.
— O que?
finalmente levantou o olhar para ela.
— Eu acho que não preciso explicar isso.
, não quero dizer que eu estava certa, mas você também não pode dizer que a única errada nessa história sou eu — se avançou alguns passos, cautelosa, e novamente recuou— Quer dizer... — ela respirou fundo. Não sabia como continuar aquilo.
Estava na hora de saber a verdade. Fim. Não porque precisava de seu perdão, não porque a ideia de se afastar e ve-lo todo dia a consumia. Simplesmente porque estava na hora de deixar tudo na mesa e talvez, com a verdade, ficasse paz consigo mesma e com seus sentimentos.
Bem, ela não tinha certeza desses tais sentimentos. Gostar dele? Sim. Sentimentos? não podia dizer.
Mas a verdade precisava vir à tona.
— Quer saber? Esquece. Precisamos conversar de verdade. Você se lembra daquele restaurante pelo qual passamos com o ônibus voltando do aeroporto?
O rosto de não demonstrava nada. Seus olhos estavam, mais uma vez, vazios.
— Não preciso conversar, , faça seu trabalho e eu faço o meu, ok? — ele largou metade do chocolate mordido sobre a mesa, como se tivesse perdido a fome — Só fique um pouco longe de mim, é mais fácil.
correu para intercepta-lo no caminho para a porta. Os olhares se encontraram e a energia trocada naquele curto pedaço de tempo pareceu ser suficiente para uma eternidade.
— Eu preciso conversar, tem coisas que você precisa saber.
— Pois então me diga, ou sai da frente, .
—Por favor, você sabe o endereço, eu juro que depois do que você ouvir, ainda quiser que eu suma, vou ser apenas mais uma figurinista. Por favor. Prometo te deixar em paz.
bufou. entendeu como uma oportunidade.
— Às oito? Em frente ao restaurante. Vou te esperar na porta.
Então, a estilista deu um passo para o lado e deixou o caminho livre para . Ele encarou o chão por instantes, olhou para , balançou a cabeça e foi embora.


Capítulo 13

Alma Heliopolli era uma senhora italiana de pouco mais de quarenta anos, dona e gerente de um dos restaurantes mais frequentados pelos estrangeiros ao ingressarem em terra londrina. Ela era também muito conhecida no bairro pelo seu excelente trabalho e carisma, tão excelente que não lhe era difícil criar laços de amizade com seus clientes. Era uma senhora cuja empatia era percebida de longe e sempre estava disposta a ajudar e consolar aqueles que precisavam.
Por isso, naquela noite de domingo, Alma não teve coragem de fechar seu restaurante no horário comum.
A garota estava sentada na mesma mesa por pouco mais de uma hora e meia, Alma fez questão de contar. Inquieta e um tanto quanto cabisbaixa, a mocinha loira tomava a sua quinta água com gás e batucava a mesa com as unhas. O nervosismo expresso deixou até os garçons um pouco aflitos e Alma sentiu que, fosse qual for o bolo que a moça acabara de levar, provavelmente merecia melhor.
Mal ela sabia que a moça sentada naquela cadeira era , uma estagiária da equipe de modelistas da famosa banda Incubus, e que ela esperava ninguém mais, ninguém menos, que para contar-lhe toda a verdade sobre as ameaças e histórias de Kalel.
Uma coisa estava bem clara: ela não teria um encontro aquela noite. Não só porque não havia nada de romântico em suas intenções, mas também porque não havia a outra pessoa sentada na mesa.
Duas horas se passaram e começou a cogitar a ideia de que simplesmente não apareceria.
Alma se aproximou devagar após passadas duas horas e pouco mais de quarenta minutos. Observando a jovem, ela tinha quase certeza de que ninguém deveria deixá-la esperando por tanto tempo. olhava no relógio com a completa noção de que estava em processo de negação e custava-lhe admitir que havia sido feita de idiota.
— Querida? — uma senhora de aproximou, vestida de avental e com as mãos cruzadas na frente do corpo. Parecia gentil, os olhos caíam tristemente com compaixão — O restaurante está fechando. Acho que ele ou ela não vem hoje.
olhou ao redor: todas as mesas estavam vazias, a não ser a dela. As luzes já haviam sido apagadas e havia apenas algumas acesas sobre a área em que estava.
Ela suspirou, puxando a carteira.
— Me desculpe por fazer a senhora deixar aberto o restaurante por tanto tempo.
— Imagine! — Alma respondeu, e segurou com delicadeza a mão de — Não se preocupe em pagar as águas, fica por conta da casa. Você parece ter tido uma noite difícil.
abaixou a cabeça, pensativa.
— Era bem importante ele ter vindo — ela desabafou, olhando para a senhora — precisava falar uma coisa importante. Acho que ele deixou claro que não quer conversar.
Alma tomou a liberdade de sentar-se com a jovem.
— Era importante por quê?
— Porque ele acha que fiz uma coisa muito ruim por um motivo — ela respirou fundo — e, na realidade, foi por outro. Ele não quer falar comigo porque pensa que pisei na bola.
— E você acha que ele está certo?
— Acho que de todos os afetados pela minha bobagem, ele era o único que não merecia. Está certo em não querer falar comigo...Mas se soubesse o verdadeiro motivo do porquê fiz o que fiz, ele entenderia...
Alma assentiu. Com a luz fraca que batia em seus fios grisalhos, vinda da rua, a mulher parecia um anjo sobrenatural enviado para dar conselhos e salvar mulheres indefesas.
Mas não estava indefesa. Ela tinha total controle de sua vida e não deixaria uma birra boba impedi-la de contar a verdade. Talvez não a perdoasse, mas ao menos ela precisava, pelo bem de sua integridade e consciência, livrar-se da chantagem de Kalel.
se levantou e, apesar da gentileza da dona, deixou o pagamento na mesa. Agradeceu Alma gentilmente, pediu-lhe mais uma vez desculpas por ter demorado tanto em seu restaurante, e chamou um táxi na rua.
Após dar o endereço de ao motorista, ela se recostou no banco traseiro e respirou fundo.
Tudo acabaria aquela noite. Por bem, ou por mal.

Fazia mais ou menos cinco meses desde a última vez que visitara o prédio de . Da primeira vez, contudo, bastou a autorização de Arwin para subir, e, aparentemente, a palavra do empresário valia muito mais que a credencial da estilista.
— O senhor pediu para não ser incomodado — falara o segurança do prédio, antes mesmo de alcançar o elevador.
O jeitinho insistente de não foi o suficiente para convencer a portaria de que o assunto a ser tratado era urgente. Ela tentou a credencial, a carteira de trabalho, mostrou até fotos para provar que falava a verdade. Nada bastou.
já estava quase de retirando do prédio para bolar um plano teatral para se infiltrar no condomínio quando ouviu uma voz conhecida descendo dos elevadores. A moça de presumivelmente trinta anos carregava várias sacolas nas mãos e ainda vestia seu uniforme de governanta. ouviu-se suspirar de alívio ao reconhecer Santiago, a empregada de que a recebera no apartamento da primeira vez.
— Santiago! — sorriu, puxando-a para um abraço. A mulher, confusa, não retribuiu. Saiu dos braços da loira com um semblante preparado para ligar para a polícia. puxou a credencial da bolsa — Se lembra de mim? Sou a estilista que veio aqui da outra vez.
Santiago, com as sobrancelhas cerradas, puxou o documento a altura de sua vista. Depois, mediu com o olhar e reconhecimento brilhou em seus olhos.
— Me lembro sim — torceu para que ela não percebesse o nome diferente — Há alguns meses atrás, certo? assentiu.
— Tenho um assunto muito importante para tratar com , Santiago. É muito importante mesmo.
Santiago encolheu os ombros.
— Mil perdões, senhorita... — ela precisou checar o crachá — , mas o senhor me deu instruções explícitas para não deixar ninguém subir.
A ideia de que talvez pudesse estar acompanhado só fez querer ainda mais subir aquelas escadas.
— Santiago, olhe... — tentou não deixar transparecer seu curto desespero — Arwin me mandou. É imprescindível que eu suba essas escadas, Arwin vai me matar e matar junto. Por favor!
Santiago trocou o peso das pernas e pareceu pensar por um instante. Com um olhar pouco desconfiado, tirou um chaveiro do bolso e arrancou uma chave única.
— Pode, por favor, deixar a chave na portaria depois que sair? — Santiago perguntou, entregando-lhe a chave.
lançou os braços para cima e abraçou a governanta.
— Muito obrigada — agradeceu, indo para o elevador — Acabou de salvar o meu emprego — acrescentou no meio do caminho.
A música de fundo do elevador era Scherzo-Tarantelle, Op. 16, uma sinfonia tocada pelo violinista Henryk Wieniawski. não conhecia o som mas a orquestra tranquila ajudou a acalmar seus nervos enquanto observava os andares crescerem no visor.
Ao alcançar o quinto andar, abriu a porta do apartamento de e foi recebida com um cheiro perfumado cítrico. Tudo impecavelmente branco e limpo mostrava que Santiago tinha acabado de limpar o cômodo quando saiu. Contudo, pairava um silêncio atormentador como se não houvesse ninguém em casa.
? — chamou, sabendo que não deveria estar ali e não queria nem saber de sua presença.
Não teve resposta, obviamente. Ela seguiu pela sala de estar a parou no pé das escadas, ponderando se seria certo subi-las ou não. Pensou por dois minutos antes de decidir que preferia ser chamada de intrusa a deixar as coisas como estavam.
Subiu as escadas tentando fazer barulho para avisar a sua chegada. Não teve resposta. Perguntou-se se talvez estivesse com alguém, e se atrapalharia alguma coisa. Realmente não se importava em chegar no meio de algo.
Não sabia qual era o quarto de , então tentou todas as portas em seu caminho e ficou surpresa com a quantidade de cômodos extras que uma pessoa bilionária poderia ter.
O primeiro cômodo no corredor era uma sala limpa abarrotada de discos em prateleiras, uma coleção do tipo que deixaria qualquer fã de vinil enlouquecido. O segundo era um banheiro do dobro do apartamento de Alyssa, de piso claro e bem iluminado. passou por pelo menos dois quartos de hóspedes vazios até finalmente encontrar uma porta semiaberta no final do corredor. Pela fresta, o interior do quarto mostrava-se escuro e em completo silêncio. Ou estava dormindo, ou não estava em casa.
Ela primeiro colocou o ouvido entre a fresta. Se se concentrasse, podia ouvir o ruído único de uma respiração falhada.
finalmente caiu na real e decidiu sair dali. Apesar de ser um assunto extremamente importante, não interromperia seu sono para isso. Além do mais, sequer queria conversar com ela, estava indo longe demais ao invadir sua casa e obrigá-lo a ouvi-la.
Sendo assim, ela deu meia volta e estava disposta a ir embora. E iria, mesmo. Mas tudo aconteceu muito rápido. De dentro do quarto, fez-se um estilhaço ensurdecedor no meio de tanto silêncio. O som de algo quebrando reverberou pelo apartamento e criou uma atmosfera fantasmagórica. Uma engrenagem de metal escapou pela porta e parou de rodopiar bem ao lado das botas de couro de .
Pensou se deveria ignorar, mas não quis ser racional naquele momento.
escancarou a porta pronta para brigar e quase pisou em um despertador destroçado no piso. Seguiu o caminho das peças e acendeu a luz. Levou um susto com o que viu.
estava, de fato, sozinho deitado na cama. Seu braço estava largado sobre o criado mundo, de onde, provavelmente, viera o despertador agora quebrado. Os olhos encaravam a própria mão, seus contornos estavam em vermelho vivo, as pupilas dilatadas, o rosto extremamente pálido. Uma fina linha de sangue escorria de seu nariz.
Ela correu até ele.
! — ela chamou. Ainda sobre o criado mudo, resquícios de cristais brancos pareciam formar o que deveria ter sido uma fileira. Uma nota de dinheiro semi enrolada ainda pendia entre os dedos do rapaz.
Ele não respondeu e pensou que fosse começar a chorar. Pegou o braço de de cima do criado mudo e tentou ajeita-lo no colchão, permaneceu imóvel como um fantoche. Seu corpo estava gelado.
empertigou-se para que os olhos do músico ficassem na altura dos seus — vou chamar uma ambulância. Fique tranquilo.
até tentou pegar o celular do bolso, mas a mão fria de segurou seu pulso forte o suficiente para que ela entendesse que não era bem o que ele queria. Ela cobriu sua mão com a outra, livre.
— Vou chamar um médico — seu coração batia rápido — ninguém vai nem saber. Posso chamar um que você já esteja acostumado.
não soltou seu pulso. Os olhos vermelhos semicerraram-se e uma arfada escapou de deus lábios secos. quase pôde ouvir a palavra "não" deslizando de sua boca.
, por favor. Um médico, alguém...
Ela colocou as mãos na cabeça, a voz falhando. Se fosse um desenho animado, engrenagens estariam de movendo de forma descontrolada em sua cabeça. Ela apoiou uma de suas mãos nas bochechas de e ele fechou os olhos, o peito subia e descia com dificuldade.
— Nathaniel! — ela falou, fazendo ele olha-la — Me deixa ligar ao menos para Nathaniel, , por favor.
O aperto no braço de se afrouxou e ela entendeu o movimento como um sim. Apesar disso, não soltou o suficiente para que ela saísse dali. usou a mão livre para acariciar seu rosto.
— Eu não vou sair daqui — ela sussurrou, puxando o celular da bolsa.
O número de Nathaniel estava salvo em seu celular há pelo menos duas semanas, mas nunca pensou que o usaria alguma vez. Ela nem imaginava que talvez precisaria conversar com ele, nem por trabalho — que era o motivo pelo qual ela tinha seu telefone salvo.
não a olhava. Os olhos vermelhos estavam presos no teto, o sangue do nariz já seco.
— Alô?
agradeceu aos deuses por Nate ter atendido tão rápido.
— Nathaniel! Nathaniel, você precisa vir pra casa do o mais rápido possível!
Fez-se silêncio.
— Quem é que está falando? — Nate tinha uma voz arrastada e grosseira. Ao fundo, podia ouvir uma música alta e vozes.
— É a , eu estou com e ele não está nada bem. Você precisa vir, por favor!
— Quem? — ele perguntou, agora mais agitado — a amiga do ?
— Sim, porra — ela perdeu a paciência — vem logo, pelo amor dos deuses.
Ele suspirou do outro lado da linha.
— Chego em 15 minutos.
Assim que ele desligou, largou o celular de volta para dentro da bolsa e largou-a em algum canto.
— Vou buscar alguma coisa pra limpar isso — ela apontou pro sangue — precisa me soltar, eu já volto.
A mão de nem se moveu, ao contrário de seus olhos, que desgrudaram do lustre e vagarosamente pousaram em . A respiração do astro estava tão pesada que poderia ser ouvida de fora.
— Tudo bem, não vou sair daqui — ela aceitou, segurando sua mão.
Foram os quinze minutos mais demorados de sua vida.
Nathaniel entrou no quarto tão silencioso e sorrateiro quanto lhe era característico. Os braços e pernas compridos e cobertos por panos pretos fizeram com que , cuja tensão já estava no limite, pulasse de susto na cama.
O guitarrista não parecia assustado. Correu o olho pelo quarto, demorou-os um pouco mais sobre e sobre o criado mudo, e balançou a cabeça decepcionado. Nem sequer deu sinais de nervosismo, só apertou o passo até , segurou o rosto de com as duas mãos e abaixou-se para encarar-lhe nos olhos.
— Quer merda você fez agora, cara — ele sussurrou, falando consigo mesmo. tentou desviar o rosto das mãos firmes do amigo, em vão.
Nathaniel se sentou na beirada da cama e olhou para .
— Entendo que tenha ficado desesperada, não deve ter visto isso tantas vezes quanto eu já vi — ele resmungou, tampando o rosto com as duas mãos e apoiando os cotovelos nos joelhos — Pode buscar uma toalha molhada?
estava tão atônita que não se moveu. Nathaniel suspirou.
— Ei? Ele está bem — o tom de Nathaniel era baixo e um pouco impaciente — Não é a primeira vez que esse idiota abusa do bem-estar.
Ela franziu as sobrancelhas.
— Não seria melhor se chamássemos um médico?
— Seria melhor se tivéssemos uma toalha — ele voltou a olhar para — pode ir buscar, por favor? Fica no armário do banheiro.
respirou fundo e foi até o banheiro da suíte. Nesse meio tempo, pôde ouvir Nathaniel soltando um sermão mal educado para e a respiração pesada do baterista. Ela entregou a Nate uma toalha de rosto e este limpou o sangue e um pouco do suor do rosto do melhor amigo. Depois, levantou-se e foi até a porta do quarto.
— Vamos deixar ele dormir um pouco.
riu irônica.
— Dormir um pouco? — ela perguntou — Você está brincando?
Nathaniel rolou os olhos.
— Não ouviu o que eu disse? Eu entendo sua preocupação, Leila, mas não é a primeira vez que usa um pouco mais do que devia. Ele vai ficar bem, só precisa esperar o efeito passar.
bufou.
— Meu nome não é Leila — ele murmurou, olhando através da fresta da porta o corpo em cima da cama — O que foi que ele usou? Cocaína?
Nathaniel deu de ombros.
— Cocaína e mais uma mistura de coisas, quem sabe — ele fez uma pausa. Não parecia tão tranquilo quanto tentava transparecer — Vá para casa, está tarde. Vou passar a noite aqui.
— Não — suspirou — eu passo, não vou conseguir dormir de qualquer forma. Pode ir.
Nathaniel segurou o olhar em por alguns segundos, como se ponderasse qual seria a melhor decisão.
— Tem certeza? — perguntou, por fim — tudo bem. Me liga qualquer coisa. Tem lençóis, cobertores e o que precisar no quarto de hóspedes.
Nathaniel lançou um último olhar para a porta do quarto de , agradeceu por tê-lo chamado e foi embora.
Com o coração na mão, andou até o quarto de hóspedes e sentou na cama. Respirou fundo algumas vezes tentando conter um ataque de pânico.
Sem sucesso, aceitou que todas as sensações lhe atingissem no peito durante uma hora inteira. Ao se recompor, visitou algumas vezes durante a madrugada.
Não dormiu, mas estúpida seria se acreditasse que dormiria aquela noite. Quem diria que as sedas dos lençois seriam más companhias de sono.

**

acordou com um estrondo e se surpreendeu ao ver que já era uma da tarde. Seus olhos demoraram para processar a claridade do quarto e demorou mais ainda para que conseguisse entender onde estava. Seu peito doeu quando foi atingido pelas memórias da noite anterior e saltou da cama. Ouviu mais alguns barulhos vindos do andar debaixo e se apressou pelas escadas.
? — ela chamou, esperançosa e um pouco perdida na imensidão daquele apartamento.
O loiro estava abaixado próximo ao fogão, apalpando o piso branco ao recolher alguns cacos de vidro.
!
Ele finalmente pareceu perceber que tinha mais alguém ali. Ao enxergar a modelista, imediatamente se levantou, jogando os cacos que tinha em sua mão em uma sacola plástica sobre a pia. Ele parecia assustado e cansado. A olheiras fundas destacavam-se em seu rosto claro.
— Oi — ele falou, baixo. Tinha os olhos presos em e os músculos retestados — Hm... — suspirou.
resolveu polpa-lo de iniciar uma conversa que ele claramente não sabia como ter.
— Como você está?
Ele engoliu em seco e prendeu o ar por alguns segundos.
— De ressaca — respondeu — uma ressaca um pouco reforçada.
— Acha engraçado?
deu de ombros.
—Puxa, , logo você falando coisas como essa. O que aconteceu com a melhor parceira de crimes do mundo? Nem parece que vomitou nos pés de um tira.
Mas sentiu que não havia nem um pouco de humor na voz do baterista. Em vez disso, ela percebeu o quanto parecia desconfortável e ressentido. Desta forma, decidiu não completar o sermão de Nathaniel da noite passada ou responder com palavras duras. Não era uma bronca que precisava naquele momento — embora merecesse uma.
— Acho que você deveria buscar ajuda — ela falou, cabisbaixa. Andou até ele e encostou-se na pia — Nate disse que não é a primeira vez que isso acontece. , eu sei que você me odeia agora, mas eu me importo com você — fechou os olhos. Arrependeu-se de ter admitido isso, mas foi como se um grande peso saísse de suas costas — e sei que existem milhões de pessoas aí fora que se também se importam. Você precisa de ajuda.
virou de costas e apoiou as mãos na ilha da cozinha. A pele estava marcada com marcas de lençol e havia marcas de agulha em seu antebraço. Observando seus ombros subirem e descerem com a respiração pesada, pensou que não fosse respondê-la, ou que seria obrigada a ouvir uma sequência de piadas e deboches dos mais variados tipos.
Entretanto, não parecia querer brincar.
, vai embora, por favor.
— Não. Não me deixou ir embora ontem a noite, não pode me usar quando você está com medo e me despachar quando acha que já está tudo bem. Não está tudo bem, e eu não vou deixar você. Não importa o quanto você me odeie.
Ele socou a mesa.
— Eu não te odeio, porra — ele falou mais alto do que o normal — eu só quero que você vá embora.
— Não.
...
foi até ele e apoiou-se contra a ilha, abaixando-se para ver o rosto de por baixo dos cabelos caídos. Os olhos azuis estavam apertados. resolveu arriscar e tocar seu rosto, a pele quente deu choques de energia em seu corpo. Ela sentiu o braço formigar e um nó na garganta.
, não é demérito nenhum admitir que tem um problema. Eu nem imagino o quanto deve ser difícil para você ter crescido em um ambiente tão problemático, ser decepcionado pelo melhor amigo e pela mãe, viver com constante mídia em cima de você, ter que atender a expectativas e tudo enquanto atura três outros rockstars arrogantes e problemáticos — ela sorriu — eu estou no meio de isso tudo há menos de um ano e já acho que vou enlouquecer. Não é problema nenhum precisar de ajuda, e ninguém precisa saber.
respirou fundo.
— Eu não preciso de ajuda.
— Precisa, sim — falou.
—Não de você.
Ela balançou a cabeça.
— Não foi o que eu quis dizer, também — ela pensou um pouco — eu quis dizer ajuda profissional. Mas gostaria de estar com você no processo, acho que seria bom ter uma amiga por perto.
riu cínico.
— Uma amiga? Eu não sei bem quando foi que eu passei que estava tudo bem entre a gente, agora.
— não, ela não podia trazer a verdade agora. Pioraria tudo —eu errei. Me desculpa! Eu não fazia ideia do que estava fazendo, quais problemas eu tava escavando e eu sinto muito, mesmo. Mas você tem que admitir que eu não tenho cem por cento da culpa nessa história e isso não me torna uma pessoa tão horrível. Eu só quero estar aqui para você, só isso, e nada do que eu tenha feito vai mudar. Eu não sou a pessoa horrível que você pensa que eu sou.
abriu os olhos e deu de cara com o rosto vermelho de . Ela não tinha afastado a mão de seu rosto, mas ficou feliz em ver que também não tentou afasta-la — ele, em vez disso, tocou o rosto de também. Os dois trocaram olhares carregados de intensidade. se esforçou para não soluçar.
...— ela fungou, baixinho — eu também não quero ser sua amiga.
Para a surpresa de , foi quem uniu uma testa a outra. Os narizes se tocaram e ambas as mãos agarravam com força o rosto um do outro. acariciou a bochecha do vocalista.
— E também não quero que coisas como ontem aconteçam de novo. Eu quero estar aqui enquanto você recebe toda a ajuda que precisar.
ajeitou os fios de em sua orelha. Os dedos gelados davam arrepios na jovem.
— Me desculpa por não ter ido te encontrar ontem.
— Não pense nisso agora.
...Eu tenho shows, um novo álbum para lançar, compromissos com a banda...Não posso abandonar tudo por causa disso, vão me largar em uma rehab.
— Por mais que não pareça, Nate, Bash e Arwin vão te apoiar em qualquer decisão que você tomar. E eu também.
Ele observou todos os cantos do rosto de , os olhos delicados pareciam fazer carinho em cada centímetro. quase podia tocar todo o desespero e afeto que tinha no ar daquela cozinha.
— Eu quero muito beijar você — ele sussurrou.
não respondeu, apenas fechou os olhos. Sentiu os lábios roçarem um no outro, mas nenhum dos dois tomou a iniciativa de uni-los de vez. As bocas apenas se tocaram por o que pareceu um século. Sentiram a presença um do outro, trocando carinhos no rosto, os olhos semiabertos mal se olhavam.
— Vou ligar para Arwin e pedir que ele venha para conversarem — infelizmente interrompeu aquele momento. se afastou, largando a cabeça para o teto e assentindo.
puxou o telefone de sua bolsa. Nem mesmo passou pela sua cabeça as possíveis consequências de tudo aquilo, ou os outros problemas que talvez pudesse ter. Talvez estivesse mais preocupada com o bem estar de do que nos próprios problemas.
Finalmente estava começando a perceber que não tinha mais volta.


Capítulo 14

32 meses depois, Londres

—Eu acredito em você, .
apoiou o rosto nas mãos e se ajeitou naquele pequeno sofá de couro. O frio de Londres estava tão forte que, mesmo com o aquecedor do consultório, o estofado continuava gelado. E a falta de temperatura não era o único fato que contribuía para o desconforto de , mas a ideia de fazer terapia não a agradava tanto assim. Pelo menos não era tão ruim quanto ela pensara quando Alyssa sugerira.
—Quer dizer, eu acredito que você pensa isso — continuou Laura — mas não sei quais fontes você usou para chegar a essa conclusão.
bufou. Odiava falar sobre seus sentimentos e odiava mais ainda ser questionada sobre eles.
— A minha vida inteira? — rebateu, sarcástica.
Laura cruzou as pernas, suspirando. Apesar de aparentar pouca idade — talvez trinta anos — as rugas em torno dos olhos e rosto de Laura davam-lhe uma aparência veterana. O corpo magro e a pele marcada por pintas de sol faziam com que a terapeuta não parecesse originalmente britânica, talvez de algum estado da Austrália.
— Se você tivesse que classificar essa sua crença de 0 a 10, o quanto você acha que ela é verdadeira?
bufou mais uma vez, encurralada. Não sabia a resposta, e nunca tinha parado para pensar nisso. Não via como poderia acreditar menos que cem por cento em uma crença que a acompanhara a vida inteira e assombrava suas escolhas. No entanto, olhando para Laura e desafiando-se a pensar racionalmente sobre suas emoções e a jogar um pouco de luz em sua razoabilidade, se surpreendeu com sua resposta.
—Eu vejo isso de duas formas — começou , vencendo o constrangimento — vejo como , que cresceu com um pai político e influente que fazia de tudo por ela, que abriu diversas portas sem que ela precisasse mover um único dedo. Que arranjou todos os empregos, os cursos, todas as oportunidades. Vejo do ponto de vista de uma que não acredita que um dia tenha conquistado algo por conta própria, que brigou com o pai e mesmo assim ainda o usa para se defender, que não sabe como se virar sem ter influência — Laura ouvia com atenção. fez uma pausa para organizar o pensamento e respirar — e, por outro lado, tento ver de um ponto de vista externo. Todas as notas altas que tirei no colégio, o êxito nos cursos de artes, minhas convicções, meu atual emprego...Até mesmo Harvard. Eu...No fundo, sei que não deveria pensar que todas as conquistas vieram do meu pai. Sei que não é verdade e que eu não deveria me apoiar nisso, porque sou muito nova e tenho muito pela frente. Mas a acredita nisso cem por cento. Ela acha que todos a veem como alguém incapaz de ser alguém sozinha.
—Certo. Então, de zero a dez, o quanto você acredita que é incapaz de conquistar coisas sem a ajuda do seu pai:
balançou a cabeça.
—Nove, talvez.
Laura assentiu.
— De zero a dez, o quanto você acredita que as outras pessoas pensam que você não consegue conquistar algo sozinha?
— Nove, também.
Laura arqueou as sobrancelhas.
— Ah, é? Alguém já disse isso para você?
— Não — ela respondeu, tentando entender aonde aquilo iria chegar.
— Então você lê mentes, ?
riu achando aquilo ridículo.
— Não.
— Então como sabe que acham isso de você?
ficou sem resposta. Olhou para os próprios pés sentindo-se infantil.
— Você não pode comprar essa crença, , uma crença que faz mal a você, que dita sua vida, sem ao menos ter certeza sobre isso. Você entende como esse pensamento é deturpado? Só porque você acredita nisso, não quer dizer que os outros pensem também, e, mesmo que pensassem, talvez não seja verdade. — Laura ajeitou o óculos no rosto — , o que os outros pensam ou deixam de pensar sobre você não dita quem você é. Além disso, quais são as provas que você nunca conquistou nada sem a ajuda de seu pai? Você sequer tem provas, ou isso é apenas uma crença sem nenhuma verdade?
— Eu...Eu não sei.
— Você acha que pensa isso de você?
— O que pensa sobre mim não me importa.
— Exceto que importa, sim. E não tem nada de ruim nisso, . Nós tendemos a nos preocupar com o que pensam sobre nós, principalmente as pessoas de quem nós gostamos. Apesar disso, não quer dizer que seja verdade.
respirou fundo. Pela janela, a luz do sol era mínima e dava lugar para os pingos da chuva fina que assediava Londres por toda semana. achava que aquele tempo ruim era deprimente. Ela resolveu que não tinha nada a provar para Laura além da sua sinceridade.
— Acho que todos pensam isso de mim o tempo todo. E, embora eu continue insistindo que não me importo com o que pensam de mim, eu, constantemente, tento provar o contrário.
— Como você faz com .
Ela balançou a cabeça.
— Como eu faço com todo mundo, inclusive com . E eu acabo...só ouvindo coisas sobre ser mimada ou sobre ser uma pessoa ruim. Mas, no fundo, eu só quero que entendam que eu sou capaz, sabe? Sozinha.
— Vou deixar um exercício para fazer em casa. Quero que, toda vez que você pensar coisas sobre você, ou coisas que você acredita ser verdade, quero que anote e pense sobre isso. Pense sobre a veracidade de todas as suas crenças.
assentiu e as duas se levantaram.
— Que horas você vai buscar o na clínica?
— Ás cinco, Anya me liberou porque pediu para que eu o buscasse.
Laura sorriu.
— Mande lembranças a por mim — disse ela, então olhou distante pela janela — Nunca pensei que fosse dizer isso... , puxa!
— Mando, sim! — despediu-se ela.

— Mande abraços para — disse Laura, e depois sorriu — meu Deus, nunca pensei que iria falar isso na minha vida. ...puxa!
— Mando, sim — respondeu, despedindo-se.
Depois de ser internado em uma rehab e Alyssa viajar pela Inglaterra a trabalho, sentiu-se demasiadamente sozinha, apesar de Anya e seus colegas de trabalho lhe fazerem companhia. Obviamente, com afastado da banda, a Incubus fez uma pausa estratégica e o sigilo de sua internação fez surgir palpites de que a banda se preparava para mais uma tour e que o álbum já estava pronto. Bem, isso era uma mentira, mas o sumiço do baterista ao menos não fora questionado. Os fãs estavam satisfeitos e acreditar que haveria mais obras de artes para serem ouvidas em breve.
A equipe de figurinistas, no entanto, estava trabalhando mais do que nunca. Aproveitaram o escândalo para terminar trabalhos atrasados que seriam empurrados para sempre. Além de ter que se preparar para a futura tour e os futuros photoshoots dos rockstars, eles ainda corriam para concluir o que nunca seria concluído. Por fim, o tempo que teriam para respirar foi revertido para uma pilha de trabalhos.
, já beirando a loucura, resolveu que era hora de começar uma terapia. Se podia aceitar seu problema com drogas e se internar em uma clínica, com certeza seria capaz de resolver alguns problemas menores que podiam facilmente ser remendados com uma boa dose de autoconhecimento.

E com a virada do semestre, começara a frequentar a Universidade de Westminster e a finalmente cursar moda. Aparentemente nada era impossível com a pequena ajuda de Olivia e da Incubus. Ela esperava que o fato de estar quase sempre atrasada não fosse um empecilho para a graduação. Dois meses mais tarde era hora de buscar na clínica. E, ela tinha que admitir, sentia-se contente em saber que havia pedido por ela em seu primeiro dia fora de confinamento.

Assim que pisou na rua, resolveu chamar por um táxi para não se molhar tanto na chuva londrina. Passou o endereço de sua faculdade e descansou as costas no banco do chevrolet, checando as últimas mensagens de seu celular.
não recebera uma única mensagem de Kalel naqueles três meses. Trocaram algumas palavras apenas, mas o vocalista parecia abalado com os recentes acontecimentos e andava mais mal humorado do que o normal. não pôde deixar de reparar que seu consumo de substâncias ilícitas havia, aparentemente, diminuído, e a uma vez ela viu Nathaniel concordar com ela a distância ao ver que ambos encaravam a relutância de Kalel em aceitar uma pílula de origem duvidável de Sebastian. Mas as drogas não estavam sendo um problema para os outros integrantes da banda.
Claro, ela não tinha do que reclamar. Estava cursando uma faculdade que amava, ansiava por encontrar , havia feito amigos incríveis que gostavam de moda e ainda por cima havia se livrado do mala do Kalel. Ou, talvez, seu otimismo tivesse alguma relação com a terapia.
O prédio da Universidade de Westminster era próximo do Regent’s Park. Com uma estritira tradicional que enlouqueceria qualquer arquiteto, a construção fazia se sentir como se estivesse em Nova York. Não que ela sentisse saudades dos Estados Unidos, ou de Harvard, mas não podia evitar de memórias na cidade que não dorme. Perdera a conta de quantas vezes havia ido até lá ao lado de Kate ou Alyssa. Além disso, ela sentia saudades do sotaque americano.
Ao entrar no hall, correu até a sala de aula. Felizmente, ainda não havia começado. Sorriu ao encontrar Scott ao lado de uma cadeira vazia, odiava quando não tinha ninguém para conversar durante as aulas.
! — chamou Scott, balançando a mão — Chegou cedo, o que aconteceu com você?
Scott Nikkons era o cara mais londrino que já conhecera. Ele sempre tinha um copo de café nas mãos — como se estivesse constantemente atrasado para um compromisso, embora fosse extremamente pontual — vivia de sobretudo, carregava para todos os lados um guarda chuva e participava de todos os eventos da monarquia inglesa abertos para o público. Ele tinha cabelos ruivos como os de Ed Sheeran, talvez mais bagunçados, bochechas muito rosadas, olhos castanhos e parecia ter saído diretamente do elenco de uma série de TV. Além disso, era tão elegante que deixava qualquer celebridade no chinelo. Ouviu isso, Chris Pratt?
Fora isso, tinha dificuldades em entender o que ele falava. O sotaque britânico era um charme, exceto quando a conversa dependia do entendimento
— Eu estava na terapia.
— Você e essa terapia — ele rolou os olhos — está vendo essa cara? É a minha cara de inveja da sua futura estabilidade emocional.
sorriu.
— Posso te ensinar uma coisa ou outra, Nikkons. Além da estabilidade emocional.
gostava muito de como as bochechas de Scott ficavam ainda mais ruborizada quando ela flertava com ele, apesar do amigo nunca correspondê-la. Sorte de ter uma autoestima desejável. Talvez Scott fosse apenas tímido.
— Bom dia! — para sorte de Scott, porque não estava nem perto do final daquela conversa, os dois foram interrompidos pela professora entrando em sala.
A hora seguinte foi preenchida totalmente de Estética e Filosofia de moda. Depois, e Scott seguiram para o laboratório para suas aulas práticas sobre cor. descobriu que gostava muito mais da teoria do que da prática, em matéria de curso, porque ficava abismada em como pôde ter vivido tanto desenhando e fazendo roupas sem ter tido o mínimo de aulas e sabedoria que estava adquirindo indo às aulas. Era como se um mundo inteiro se abrisse diante aos seus olhos e ela de repente descobrisse que conhecimento era muito mais interessante do que parecia.
Ela ficaria longe de ciências políticas por muito tempo.
No horário do almoço, os dois foram até um restaurante próximo. Toda sexta feira Scott e gastavam mais dinheiro do que teoricamente poderiam gastar com comida de qualidade. Assim que descobriu que Scott nunca havia comido comida tailandesa, ela tomou como sua responsabilidade ensiná-lo o prazer que a culinária asiática poderia proporcionar.
— Você não faz ideia... — Scott comentava sobre o estágio que havia conseguido na semana anterior — Quer dizer, você trabalha com Olivia Tomlinson, então tem ideia, sim. Mas, eu tenho que te dizer, o ateliê de Elizabeth é uma loucura.
deu seu último gole no copo de coca-cola.
— Eu imagino — ela respondeu — eu daria tudo para trabalhar com Elizabeth Blake. Você já falou com ela?
— Eu sequer vi ela. Os estagiários ficam em andares separados, e dizem que a Elizabeth não sai muito do escritório por nada. Mas, eu vi a filha dela, Carol.
Elizabeth Blake também era uma das pessoas mais renomadas no mundo da moda. Ela, Olivia Tomlinson e Simone Woodsen eram a santíssima trindade das passarelas. Particularmente, preferia o estilo de Olivia, mais ousado e moderno. Elizabeth Blake era completamente clássica. Ah, se ignorassem as polêmicas em que a família dela estava envolvida, contudo não tinha paciência para acompanhar. Algo como uma de suas filhas namorar Niall Horan e de repente desaparecer do mapa e deixar o coitado para trás. Mas, bem, isso era outra história.
— Eu pensava que a filha dela estava em Oxford desde que a outra filha dela foi embora — Scott parou e pensou um pouco — isso é muito confuso. Bem que eu podia conhecer a One Direction também, né? Mas acho que só o Zayn e o Niall ainda são acompanhados pela Blake. Quer dizer, não sei o Niall. Ia ser humilhante.
deu de ombros.
— A falecida One Direction, você quis dizer. Ah, não faço ideia de todos esses babados, mas também não me importo.
Scott sorriu.
— É, não é como se você não tivesse seu próprio babado para viver, ou a sua própria banda famosa.
suspirou. Ah, e ele não sabia nem da metade.
— Pois é — ela ponderou — não gosto de trabalhar para eles, especificamente. Me dão um pouco nos nervos, parece que a equipe inteira tem que pisar em ovos o tempo todo, sabe? É estressante, e eu não quero nem ver quando começarem as turnês de novo.
— É...deve. Pelo menos você faz alguma coisa, eu só ando atrás do pessoal e vou anotando o que posso.
— Hm, você podia roubar um dos protótipos de algum vestido antigo de gala. Eu iria adorar vestir um desses.
Scott riu.
— Pra que iria usar um vestido de gala?
deu de ombros.
— Se futuramente eu te chamar para sair, vai ser para um lugar bem chique, tipo uma ópera. Você não vai querer estar acompanhado de uma pessoa má vestida, certo?
Scott desviou o olhar.
— Certo — e até mesmo ficou surpresa com a resposta.
acreditava que estava flertando simplesmente pelo fato de estar acompanhada doze horas por dia por um homem lindo e muito gentil. Ela geralmente não dava sorte em encontrar essa combinação. Era bonitinho vê-lo envergonhado e ela gostava da sensação de flertar com qualquer pessoa que aparecesse. esperava que não estivesse falando sério, não ia suportar mais um sentimento para sua confusão mental. Fora o fato de que só conseguia pensar em e em como toda aquela situação era uma bela merda.
Às cinco horas em ponto, um táxi deixava na porta da clínica na qual havia sido internado.
Ao entrar no prédio, tentava convencer a si mesma de que não estava nervosa. Visitara poucas vezes, as primeiras mais difíceis que as últimas. No primeiro mês, parecia um monstro, vivia mal humorado e estava tão pálido e fraco que concluiu que ele mal se alimentava. O segundo e o terceiro mês, parecia recuperar a cor que perdera. Seu rosto, apesar de mais magro, parecia mais vivo, e seu humor melhorara também — quer dizer, voltou a ser o mesmo humor de quando ele vivia sob a influência de várias drogas.
já estava na recepção, segurando uma mala debaixo do braço e assinando alguns papéis. não escondeu o sorriso quando os olhares se encontraram.
— ela falou, indo até ele.
tinha um sorriso muito bonito.
, que bom que você veio mesmo — ele respondeu, largando a caneta em cima do balcão e empurrando os papéis de volta para a recepcionista — pensei que mandariam alguma outra pessoa.
arqueou as sobrancelhas.
— Alguma outra pessoa?
deu de ombros.
— Arwin não é o seu maior fã — respondeu ele, mas logo abandonou o assunto — você veio de carro ou de táxi? Podemos ir comer alguma coisa. Estou morrendo para comer comida de verdade.
pegou uma das malas de para ajudá-lo e os dois caminharam para o lado de fora.
— Vamos chamar um táxi — ela respondeu — o que quer comer? Comida brasileira? Julia riu.
— Você nem pense nisso — falou, com o olhar distante na rua esperando um táxi passar — Cara, eu tinha esquecido disso, pode deixar que eu escolho onde vamos comer. Sei o lugar perfeito.
Foi quem passou o endereço ao motorista e só descobriu que comeriam comida italiana quando o carro encostou próximo a uma cantina iluminada. Olhando pelo lado de fora, torceu para que encontrassem uma mesa vazia, ou que não fosse incomodado.
Infelizmente, percebeu cedo demais que havia feito um desejo quase impossível. Assim que ambos desceram do carro, todos os olhares se voltaram para . Ele até tentou andar rápido e com a cabeça baixa, mas não conseguiu evitar todos os autógrafos e fotos. teve que se afastar e esperar do lado de dentro da cantina, onde alguns clientes empertigavam-se para entender o que estava acontecendo do lado de fora. O tumulto só foi contido quando um homem — provavelmente o dono — do restaurante saiu para ver o que estava acontecendo. viu pelo vidro e o homem conversarem, até este assentir e encostar o baterista até o lado de dentro. apontou para e os dois se aproximaram.
— Boa noite, senhorita — ele tinha sotaque italiano — posso levar vocês até uma mesa mais reservada. Acompanhem-me.
Ele os levou até uma parte do restaurante separado por vidros — uma área que provavelmente era separada para eventos — e anotou os pedidos. não conseguia parar de sorrir: estava morrendo de saudades de , quase se sentiu mal por ter flertado tantas vezes com Scott. Mas, não, eram coisas completamente diferentes.
— E então, , como você se sente?
bebeu o vinho como se não tivesse pressa nenhuma em responder aquela pergunta.
— Ainda me acostumando com o mundo aqui fora — ele respondeu, e teve a sensação de que ele não queria falar sobre isso — três meses é muito tempo. O que eu perdi?
pensou um pouco.
— Você já sabe que eu comecei a faculdade — assentiu — bem, todo mundo pensa que a Incubus está fazendo um suspense proposital pra lançar o novo álbum. E, se você me perguntar, eu diria que realmente está quase tudo pronto, só falta incluir as suas partes eu acho. Não me deixaram ouvir nada.
— Ainda bem — riu ele — você quer privilégios demais.
— Só alguns — ela disse, encarando-o. Ela gostaria do privilégio de ter , por favor — Acho que só. Ah, a Inglaterra ainda está na União Europeia mas estão trabalhando nisso.
riu.
— Que surpresa.
sentiu uma alegria dentro de si que pareceu nova a ela.
estava mais magro do que o normal. Ela conseguia ver os ossos de seu rosto um pouco mais saltados e os da clavícula também. Os braços não tinham muito mais músculos para mostrar, mas também não tinham mais marcas de agulha ou hematomas. Seus olhos também pareciam mais brilhantes do que o normal, mais colorido, mais vivo, o tom de pele mais saudável. gostava ainda mais do que via.
Eles ficaram alguns segundos em um silêncio confortável, aproveitando da presença um do outro. gostava disso.
— E sobre você, o que tem de novo? — ele perguntou, enchendo a taça dos dois de vinho. achou engraçado como os dois pareciam civilizados, quase como se nunca tivessem dirigido em alta velocidade alcoolizados e sido pegos.
— Estou amando a faculdade, nem me lembro mais de como era estudar Ciências Políticas. Eu nem sei como agradecer vocês por isso, sério.
enrugou o rosto.
— Fala sério, , eu escuto Anya falar sobre você com Arwin — ele sorriu — você é ótima, e parece que Kalel acertou uma vez na vida pelo menos.
sorriu.
— Eu sei que sou boa, mas só agradeço pela oportunidade. Eu estou muito feliz aqui com você.
Trocaram olhares por longos minutos, em silêncio. Era como se dissesse com um olhar “estou feliz com você também”, e agradeceu mais uma vez os deuses por fazê-la tão contente. Mas foi ele quem desviou o olhar.
— Eu estou fazendo amigos novos, também, além de Alyssa e Kate — continuou ela, sentindo um clima esquisito — ele se chama Scott, trabalha para Elizabeth Blake, você acredita?
— Eu não faço a menor ideia de quem ela seja — falou ele — é uma estilista também?
— Sim — assentiu —uma das boas. É aquela polêmica.
riu.
— Ah, agora sei. E para qual você trabalha mesmo?
— Olivia Tomlinson.
— Legal. Que bom que você está fazendo novos amigos. Onde conheceu ele?
— Na faculdade, ele está na minha sala. Inclusive, ele é muito fã de vocês, eu disse a ele que vou apresentar a banda um dia — se inclinou sobre a mesa, aproximando-se de — ele também toca, mas muito mal, coitadinho. Não diga a ele que eu disse isso.
— Bateria?
— O que posso fazer se tenho uma quedinha por bateristas.
engasgou com o ravioli. Um garçom parado próximo fez menção de se mover, mas , recompondo-se, fez um gesto para dispensá-lo. estendeu-lhe o copo com água e ele recusou com os olhos perdidos na mesa. Assim que conseguiu parar e tossir, ele arqueou as sobrancelhas e levantou os olhos para .
— Vocês estão saindo?
fez careta.
— O que? — perguntou — Não! É que...Ah, isso saiu errado. É que Scott é bonito demais para ser só um amigo, não dá para evitar.
— Puxa, mal posso esperar para conhecê-lo — comentou ele, irritado.
gargalhou.
— Scott é um amigo. Eu só estou brincando.
não pareceu mais contente.
— Bem — ela continuou — fora isso, perdi as contas de quanto tempo não falo com Quentin. Acho que isso é bom também. Ah, e a banda quer vê-lo ainda hoje.
O baterista massageou as têmporas como se repentinamente estivesse com dor de cabeça. Afastou o copo de vinho para longe e pareceu pensar de olhos fechados por um longo tempo. só assistiu, nervosa, dando adeus melancolicamente à sobremesa. Provavelmente o jantar já estava no fim.
— Escuta, eles não estão achando nada de você — segurou a mão de por cima da mesa — Kalel até parece que está tentando virar uma pessoa melhor. Sebastian...Ah, eu não faço a menor ideia do que passa na cabeça dele. Quer dizer, eu não faço a menor ideia do que passa na cabeça de qualquer um de vocês, mas é um pouco mais difícil entender Sebastian porque ele sempre está drogado demais para conversar. E Nathaniel foi de visitar, não foi? — assentiu devagar — Viu? Está tudo bem. Provavelmente eles querem muito de ver, talvez tanto quanto você quer ver ele.
— Então é melhor eu vê-los amanhã.
rolou os olhos.
— Nós vamos agora — ela disse, pedindo a conta ao garçom.
fez questão de pagar pelo jantar, e , após pensar em quanto dinheiro economizou estando em uma clínica sem poder gastar com drogas e festas, e tudo isso graças a ela, ela resolveu que tudo bem ele desperdiçar alguns de seus milhões com comida italiana. ajudou a se levantar e o garçom fez questão de chama um táxi para os dois.
— Senhor , — falou ele, assim que saíram da área de vidro — antes de ir embora, se importaria de me dar um autógrafo?



Nathaniel Patel era um homem emotivo. Embora estivesse sempre com a mesma expressão e nunca falasse sobre seus sentimentos — porque ele nunca estava preocupado com os sentimentos dos outros — Nathaniel cultivava bons e fortes sentimentos pelas pessoas de quem gostava.
Foi exatamente por isso que, ao ver cruzar a porta do estúdio de sua casa, Nathaniel se sentiu tão feliz. Talvez ninguém houvesse percebido sua felicidade, uma vez que continuou sentado em um banco afinando sua guitarra, mas por dentro sentia fogos de artifício. era seu melhor amigo e, dos quatro, era ele quem mais sofria da dependência de todas as drogas possíveis, até mesmo mais do que Kalel. Nathaniel tinha que admitir, ver o amigo finalmente bem era o melhor presente de Natal adiantado que poderia receber.
— E aí, cara — disse , aproximando-se. Nathaniel resolveu abandonar o usual aperto de mão entre eles para puxar-lhe para um abraço.
Atrás de vinha . Nathaniel geralmente não dava a mínima para as mulheres com quem saía — porque, acredite, eram várias — e no começo não se importou em ver que tinha uma nova querida para exibir pelos cantos. Era sempre uma diferente. Não pensava que duraria o suficiente para que ele precisasse ter uma opinião sobre ela.
Entretanto, assim que recebeu aquela ligação dela três meses atrás, Nathaniel pensou que talvez ela fosse uma boa opção para o amigo finalmente criar laços. O único problema era que trazia essa áurea de familiaridade e desconfiança. Nate sabia que a conhecia de algum lugar, isso era fato. não era uma qualquer desconhecida que de repente apareceu no hotel deles e virou a nova interna da equipe de figurinos. A teoria atual de Nathaniel era de que era alguma ex de Kalel, ou algo do tipo visto que ele achava muito esquisito a forma como os dois pareciam já se conhecer. Mas ele não tinha tanta certeza. Talvez, tanto tempo depois, era hora de Nathaniel buscar isso mais a fundo. Afinal, Nathaniel era uma pessoa sentimental, e não aceitaria que seu melhor amigo ficasse com alguém que não era quem dizia ser.
Sebastian, também no estúdio, se aproximou para abraçar . Kalel estava no teclado, testando algumas melodias, mas parecia perguntar a si mesmo se deveria ir cumprimentar o baterista ou se seria melhor para sua imagem ficar onde estava.
— Arwin está lá embaixo — falou Bash a — eu não desceria se fosse você, ele vai te atolar de trabalho.
riu.
— Acho que é o mínimo que eu posso fazer, não é — ele falou, indo para a escada — vou pelo menos ouvir para poder fazer tudo ao contrário.
Sebastian soltou aquele sorriso de criança travessa de dez anos e acompanhou escada abaixo. Nathaniel, largou-se em um sofá e pigarreou alto.
— Kalel — ele chamou. Kalel virou o rosto despreocupado — pode deixar eu e sozinhos por uns minutos?
Kalel dividiu seu olhar preguiçoso entre os dois, várias vezes. Depois de parecer concluir que não estava interessado na conversa e que não queria mais tocar teclado, ele levantou e saiu do estúdio sem falar mais nada. Nathaniel, apesar das diversas brigas e desacordos, também gostava muito de Kalel. Ele achava admirável como o vocalista não dava a mínima para absolutamente nada e estava de bem com isso. Tentava não ligar para o quanto ele devia ser perturbado, já que Nate sabia muito bem tudo o que Kalel tinha passado em sua vida. Não era justificativa alguma, mas Nathaniel há muito tempo decidiu não odiá-lo por coisas das quais ele não entendia.
abriu os braços e os colocou na cintura.
— Falar comigo sobre o que?

Nathaniel ficou em silêncio enquanto acendia um cigarro e fez um gesto para que se sentasse. Ela nem se moveu. Nathaniel escondeu um sorrisinho de aprovação.
— Valeu por ter ficado com por todo esse tempo — ele falou, guardando o isqueiro — as mulheres com quem ele costumava sair não fariam isso.
deu de ombros.
— Não precisa agradecer. Eu também não faria isso por muitos homens com os quais saí.
— É exatamente disso que eu estou falando — ele falou. gostava da aparência de Nathaniel com a fumaça em sua volta — como vocês se conheceram, mesmo?
A expressão de era dura como pedra.
— Na área VIP de um show.
Nathaniel arqueou as sobrancelhas.
— Ah, certo. E por que estava lá?
— Não por causa de você, acredite — ela respondeu, emburrada. Nathaniel riu.
— É que você parece ser uma boa pessoa para , e eu sou o melhor amigo dele. Eu odiaria saber que a primeira pessoa com a qual parece se importar vai decepcionar ele assim que tiver a chance.
Nate talvez estivesse ficando louco, mas ele podia jurar que, por milésimos de segundos, a pose de pareceu fraquejar com a frase.
— Hm — ela sorriu — e isso é o que, pra me assustar? Pelo amor dos deuses, Nathaniel, eu achava que Kalel era o único com síndrome de agente da CIA.
— E, de novo, você volta a conversa para Kalel — Nate se levantou e se aproximou da estilista. notou como seus olhos eram assustadoramente afiados — boa gente, ele não é. Mas você faz eu me perguntar sempre o que Kalel fez de tão ruim para você. Ou você acha que eu me esqueci daquela cena na casa de Bash?
desviou o olhar.
— Sei o suficiente sobre Kalel para poder odiá-lo.
Nathaniel cerrou ainda mais as sobrancelhas. Ele odiava ter essa sensação de que alguém estava lhe enganando, ainda mais na cara dura como estava fazendo. Odiava também tentar arrancar coisas com alguém que jogava a altura. A jovem tinha tudo para ser a garota do favorita de Nate, se ela não tivesse usando seu melhor jogo contra ele. Mas, se antes Nate desconfiava, agora ele tinha certeza que algo estava errado. E algo estava muito errado naquilo tudo.
— Sabe sobre Kalel? E sabe como?
riu.
— Eu não sei se você sabe, mas vocês quatro são figuras públicas. Além disso, sou muito fãs de vocês há muito tempo — isso, por alguma razão, não soou tão verdadeiro assim — e já li bastante sobre vocês. Se não querem que todo mundo saiba seus podres, ou pelo menos alguns deles, talvez seja melhor não fazê-los. Além disso, já me contou o suficiente sobre Kalel, também.
Tudo bem. Nathaniel não conseguiria nada com aquilo. não contaria o porquê de ser tão familiar e Nathaniel também não tentaria de tudo naquele momento. Ele já estava cansado e queria aproveitar a noite com o melhor amigo recém saído da rehab.
Dessa forma, ele deu de ombros.
— Dane-se — ele reclamou, curvando-se para amassar o cigarro no cinzeiro — vamos descer. Bash organizou uma festa surpresa para .
pareceu não acreditar.
— Vocês estão dando uma festa surpresa para um cara que acabou de sair da reabilitação?
Nathaniel não parou de andar para responder.
— É melhor mantê-lo entretido, então. Não dá para se esperar boas ideias de Sebastian Hall.
Ele desceu as escadas sem esperar que ela o seguisse. Estava farto e desconfiado.
Mas uma coisa era fato: Nathaniel estava longe de terminar aquela conversa.


Continua...



Nota da autora: Ufa, consegui terminar essa att sem demorar dois anos, gratiluzzzz
Brigada por sempre comentarem coisas maravilhosas, mesmo! Eu fico muito feliz em saber que vocês estão gostando (e espero que tenham gostado dos caps 13 e 14 também). Não tenho previsão pra próxima att porque hoje (31/12) ainda nem comecei a escrever o próximo, mas vou tentar não demorar três meses de novo rs
XOXO




Qualquer erro no layout dessa fanfic, notifique-me somente por e-mail.


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