FFOBS - Criptografia Simétrica, por Nom de Plume.

Última atualização: 12/11/2017

Prefácio


Quero deixar claro, meu bem, que sou forasteiro, mas no fundo desejo tornar-me aldeão, idílico... Só com uma presença a me afagar todos os dias. Na rua da solidão encontrei a paz de um sorriso gringo, de um sorriso atraente, de um sotaque estranho, de uma escrita desconhecida. Na mesma rua da minha aflição, esbarrei em suas costas finas, em seus peitos arredondados, no seu rebolar espanhol, na sua graça sem emoção. Na mesma rua do meu entusiasmo, eu a vi esbarrando por amores descomunais, por tristezas sem curas, pelo medo de ser só num mundo tão grande. Obrigado por ser a rua que cruza o meu desespero e o meu riso. A realidade às vezes é dura. Maltrata teu emocional. Eu já não aguento mais olhar tantas tristezas andarem por estas ruas sem vida.
Ao som de Marylin Manson, podia-se ler nas paredes o mantra de sua mãe, que continuaria ressoando.
Conversamos e é como se as palavras doessem por saber que existe sempre uma possibilidade de perda. A incerteza perturba a paz do amor em cada palavra sem afeto extremo. Em que momento nos tornamos assim, tão dependentes do afago do outro?
Eu procuro uma palavra que não seja amor, mas é. E você, você sabe. Sente muito, mas não transborda. Meu rádio não capta as tuas frequências. Eloquência?
Ah, meu bem, te digo com veemência, quem não sabe lutar, não merece vencer. E você nunca soube perder. Nunca procurou entender que toda perda, por mais que seja subtração, também envolve uma adição. Sinto muito se eu sinto tão pouco. Agora ficou tudo oco. Ouço o teu eco ficando louco ...ouço ...oco ...oco.
Você se lembra daquele dia que me disse que o céu era da cor do infinito e que as estrelas eram apenas pedaços fragmentados de um coração? Eu me lembro do seu vestido florido se impregnando em minhas retinas enquanto tentava imaginar se as rosas, margaridas e crisântemos podiam fazer parte da via láctea. Eu me lembro daquele dia como se cada memória minha já não existisse mais e lembro-me que, no escuro, seus olhos brilhavam como neon enquanto meus lábios tremiam tentando segurar o choro. Você me tornou especial aquele dia, me mostrando que pedaços de vida caem em cima de mim todos os dias, em forma de poeira cósmica. E eu chorei e berrei e solucei e abracei a mim mesmo como se eu fosse a única pessoa no mundo todo. Estou moído e carrego em meu peito aquele seu olhar de neon juntamente com seu sorriso feito puramente de estrelas. E eu louvo aos ventos e ao tempo que me fizeram deixar em meu âmago frio e calado a cantiga mais bela que poderia ouvir: “Se não fosse Deus bancando o escritor. Se não fosse o Mickey, e as terças feiras, e os ursos-panda, e o andar de cima da primeira casa em que eu morei.” E eu me lembro, de cada palavra, de cada cheiro e de cada toque, porque eram todos cheios de amor e cheios de verdades. E eu ainda consigo te ver naquela cama com as mãos entre as pernas me esperando, não importa se 7 horas de voo ou 45 minutos de carro. E eu ainda a espero… E esse abismo... (teus olhos) e o que me resta, meu bem, é pular. E pulei neste teu abismo...
Meu peito é ponto de partida e tem pontos pela sua partida.
Te amo não esperando reciprocidade. Isso já não faz parte. Não é uma exigência. Amar é um pássaro em pleno vôo. E, se ainda amo e te verso, é porque se a vida nos por, por acaso ou poesia, em zonas cósmicas diferentes, o fato do amar, com toda certeza, faz o viver valer a pena. Mas eu cobiço a existência.
Eu sou o rascunho do mundo! Eu sou poesia mal escrita, dor em prosa e alegria em verso. Sou palavras cuspidas num papel de qualquer jeito, um dia bem organizado e outro sem métrica alguma. Sou a vergonha dos grandes escritores, os clichês dos poemas de amores, sou a biografia dos anônimos, da escória poética, sou os mal-amados, sujos, safados, tarados e doentes. Sou a psicose humana transcrita na prancheta de um analista.
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(Alguns poemas pertencem a 946 Poesia).


Capítulo 1 - Desejos


"A educação tem raízes amargas, mas os seus frutos são doces."


Há coisas que nunca parecem ser como realmente são. Esse é um grande fato. é uma americana comum, como qualquer outro americano. Tem uma mãe descendente judaica e um pai polonês. Uma garota mestiça.
Seus pais moravam anteriormente em uma cidadezinha na Albânia e, alguns meses antes do nascimento de , rumaram a Long Island, onde Marie deu a luz à menina e se separou, quatro anos depois, do marido.
Oton largou a família momentos após se apaixonar por uma britânica, o que possibilitou a saída de Marie da cidade com suas duas filhas para ir à Santa Ana, onde sua mãe residia com seu pai doente.
visitava Oton duas vezes ao mês. Tinha pouca ligação com o pai, o vínculo era ínfimo e, para não se esvair completamente, se encontravam nos domingos na fazenda de Eno, pai da esposa de Oton. Marie mantinha distância do novo casal.
Oton se casou novamente quando fez nove anos, depois de descobrir que seria pai de um garoto. Oskar.
Quando completou seus dezessete anos e meio, com permissão da mãe, decidiu se juntar a irmã em Cambridge, no intuito de conseguir uma bolsa de estudos de três anos na Universidade de Harvard.
Marie e sua família materna não eram de classe alta, algo que nunca importunou , tinham boas condições de vida, apesar de tudo. Oton e toda sua família polonesa eram o completo oposto. nunca soube exatamente como conseguiram tanto dinheiro.
Ele mandava em torno de trezentos dólares mensais para a filha, o que dava para sustentá-la por, pelo menos, quatro semanas.
De dois a três meses atrás, teve que excluir sua vida social, alterar seus gostos, comportamento e se dedicar cem por cento às notas escolares. Não que tivesse muitos grupos pessoais na escola. Ela tinha somente três amigos, Dalle Nogare, descendente italiana, Terence Osbourne, e Ozzy Agnoletto, gêmeos. O que é de se imaginar só pelos nomes e sobrenomes de ambos. Conheceram-se juntamente em Long Island e se encontravam com frequência em Santa Ana, ou quando a garota visitava o pai e avós na cidade natal.
, , Terence e Ozzy adquiriam o mesmo desejo: se formar em Harvard. Com o objetivo de mudarem-se para Cambridge, mais especificamente, para um dos union dorms¹ da instituição, quando completassem a maioridade.
Todos os quinze anos de se resumiram em, basicamente, esforços e dias de reclusão total.
Deixar seus amigos durante o ano foi difícil, mudar seu estilo de vida (de maneira geral) foi difícil, se comportar devidamente 24/7² foi difícil. Tudo se generalizou em uma grande batalha.
tinha duas semanas até fazer os exames médicos e uma consulta num psicólogo qualquer. Para ser aceito em Harvard não se pode ter nenhuma doença crônica ou anomalia psicológica.
Seus amigos iriam para sua casa uma semana antes para viajarem a Massachusetts juntos, passariam dois meses no apartamento de Susan, irmã de , em Boston e logo depois se mudariam para a universidade. Até o tempo ser preenchido se decidiriam para onde ir após o término da graduação. Nova York e Boston eram as mais prováveis opções.
Em duas semanas, precisaria de dinheiro o suficiente para passar os sessenta dias com Susan e, então, tentaria arrumar um emprego na cidade durante o período de aulas. Não precisaria adorar o local, mas não queria odiá-lo.
cursaria, muito provavelmente, algo voltado à educação. Durante boa parte da vida foi ligada à língua e história em si, visto que sempre buscou por mais conhecimento, porém sentia sede em compreender a mente do ser humano. Ainda não estava certa e, como Harvard não viabiliza a possibilidade de escolher previamente em qual área se formar, precisaria de algum tempo ponderando o assunto.
Terence e Ozzy fariam estágio em uma Engenharia Civil e cursariam Política de Saúde
Pública, se tudo ocorresse como o planejado. decidiu cursar Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda. Nesse momento, conversava com os primos na sala de estar enquanto jantavam e assistiam algo na televisão. Os primos, de sua idade, não se preocupavam tanto com todas aquelas coisas, sempre tiveram muita personalidade e maturidade, assim como , contudo, nesse período da vida apenas curtiam o que o tempo trazia... Do bom, e do nem tão aproveitável assim.
- A era do éon Fanerozóico. – contemplou, levando uma garfada de macarrão mexicano à boca logo depois. – Eu acho que entre 251 milhões e 65,5 milhões de anos atrás.
- No continente... Como se chama? Pangeia? – Lucius estreitou os olhos, inclinando sua cabeça.
- Não entendo grandes coisas sobre a idade medieval da vida, Grinch³. – Mohammed interveio.
Grinch era só o fetiche que seus parentescos adquiriram a ela, por, em certa época de sua pré-adolescência, detestar o Natal.
Não que desgostasse do significado do dia em si, mas denominou a data como algo irritante. Várias pessoas se reunindo hipocritamente apenas para comer e ganhar presentes. Não mude essa teoria, ela está certa. Tio Adelpho nunca era visto, um dos parentes mais próximos poderia morrer em sua cidade e ele sequer comparecia ao enterro. Contudo, sempre ia nas festas natalinas concedidas por Marie. A falsidade naquele dia era fluente, como tia Anise, odiava metade da família e se fingia de amorosa nas comemorações de fim de ano. Era só mais um feriado em que tinha folga na escola e, no outro dia, começaria tudo novamente. Apenas outro dia normal, tirando o fato de toda a cidade estar infestada por diversos pinheiros e luzes cintilantes.
- Não gosto que me chamem de Grinch, Mohammed. – se manifestou enquanto encarava o primo.
- Je sais. – Mohammed tinha a mania desnecessária de treinar seu francês em uma conversa não formal.
- Mamãe disse que você vai morar em Cambridge por um tempo... – Lucius abocanhou a comida. – Quando?
- Na próxima semana. Amanhã Eustáquio vai trazer os garotos para cá, vamos buscar no aeroporto terça-feira. – concluiu e a conversa se findou ali. Por um tempo, pelo menos.
Poucos minutos depois se dirigiram a cozinha, deixaram os pratos e talheres sob a pia e Carlota se prontificou a lavá-los. Carlota era a empregada da casa, além de ser uma grande amiga de toda a família.
Não sabia ao certo quando seus primos e tia voltaram à estrada mas, assim que terminou de fazer sala, correu para seu quarto a fim de conversar com os amigos.
"Atendam... porcos."
Foi o que digitou em "Envie uma mensagem" no Skype para os dois. Não demoraram a atender. sorriu.
- Fala logo o que quer, ainda não arrumei as malas. – o primeiro a se pronunciar foi Ozzy. Ele dividia o notebook com Terence naquela noite.
- Eu estou esperando vocês em casa, deveriam ser mais gratos. – fez uma careta e arrancou alguns risos de , que checava algo em sua mochila.
- Eu estava pensando... – Ozzy se pronunciou novamente. – Poderíamos ter férias de Verão e Outono, não acham?
- Teríamos férias em todas as estações do ano. – mudou sua feição para algo como "isso é quase ridículo."
- Vocês são estranhos. – Terence apareceu com o rosto em frente a webcam. Usava uma touca beanie cinza, seus famosos óculos de grau e tinha a barba por fazer. Terence era ruivo, encantador.
- Para quando você marcou nossa consulta medicinal, ? – inquiriu e os outros dois começaram a prestar mais atenção na conversa agora.
- Vamos consultar o psicólogo às duas na quinta e na sexta o Dr. Isaac às quatro. – forçou minimamente sua mente a lembrar das datas e horários marcados para as consultas. – E se tivermos algum tipo de doença? Já pensaram nisso? Tudo acaba. Tudo.
- Se vocês tiverem e eu não, se conformem, porque eu entro na Universidade. – Ozzy continuou amassando suas roupas dentro de uma mala grande e marrom clara.
- Você é um merda, Ozzy. – virou a cabeça para a webcam somente para dizer aquilo. Estava com o rosto e quadril reclinados para o lado em sua escrivaninha, enquanto arrumava algo na mochila.
- E sua mãe, . Como está? – Terence parou por um segundo para mirar a feição da garota.
fixou os olhos em um ponto qualquer do quarto, involuntariamente. Arfou e apoiou o queixo na palma da mão direita.
- Na mesma. – crispou os lábios e deu de ombros.
- Sabem, caras, encontraremos em Cambridge. – recordou e fez com que a expressão de se transmudasse para um misto de confusão e curiosidade.
- ? – franziu o cenho.
- Não se lembra do , ? – Ozzy perguntou, quase declarando o fato como óbvio.
- Não...
- O filho dos . – e a parte do cérebro de que parecia não funcionar anteriormente, voltou a maquinar de uma só vez, sua mente poderia entrar em colapso.
- ! – ela vozeou. Sorriu. – Pensei que tivesse voltado para Windsor. Ele está em Cambridge?
- Desde o ano passado. É um ano mais velho... Conseguiu uma vaga integral sem o mínimo de esforços. O pai dele é um ... – esganiçou a voz ao lembrar que o garoto era filho de um dos filiados da maior empresa na Alemanha. O que não fazia sentido em relação à sua entrada na universidade, já que dinheiro não é, nem de longe, a premissa para conseguir uma vaga, mas não quis perguntar nada a respeito.
- A Feira de Frankfurt... – começou. – Nunca entendi muito bem sobre isso.
- É uma das maiores da Alemanha. – Terence explicou, enquanto teclava algo no notebook. – Não tem uma definição ao certo... Mas Dexter é um dos filiados.
- Ouvi dizer que ficou tão arrogante quanto o pai. – Ozzy cochichou.
- Deve ser. Não existe um sequer que não seja medíocre. – comentou. – Me disseram que Dexter já deu um golpe na Feira...
- Ele superfaturou alguns contratos... Acho que fornecedores que davam dinheiro por fora. – Terence concluiu. Duvidoso. Nenhum deles sabia se aquilo era realmente verdade.
- Ele aceitou dinheiro extra para fechar contratos? – inquiriu incrédula. – Que filho da mãe!
- Ouvi nosso pai comentar que ele quase perdeu a guarda de – Ozzy falou mais baixo, para que ninguém além de seus amigos o ouvisse. – quando o encontraram usando drogas pela primeira vez.
- já usou drogas? berrou, logo levando uma das mãos a boca, tanto por descrença quanto para calar seus gritos histéricos.
- Fico feliz por ficar informada e se encarregar de informar a Deus e ao mundo também. – jogou a mochila sobre a cama e se escorou na escrivaninha.
- , nós chegaremos aí pela manhã, precisamos descansar. Papai mandou apagarmos as luzes. Boa noite, filles. – Terence e Ozzy se despediram acenando e agora somente e se viam pela webcam.
- Estão com a mania de Mohammed. – enviesou os olhos e riu baixinho. – Preciso dormir. Boa noite.
- Boa noite... – sorriu com escárnio. – Fille.




1 - Dormitórios.
2 - "Vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana", expressão habitualmente utilizada no exterior.
3 - Personagem conhecido internacionalmente através do filme How the Grinch Stole Christmas.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.



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