Cursed

Última atualização: 29/05/2018

Capítulo 1.
Godfrey’s Family.


Bill despertou com a claridade em seu quarto e com o cheiro convidativo de bacon e café. Olívia estaria preparando o café da manhã e não havia dúvidas. Ele levantou sentindo dor em cada extensão de seu corpo. A noite anterior foi agitada. Sorriu com as lembranças.
Abriu o chuveiro e deixou a água cair em seu corpo. Estava exausto. Ouviu as vozes de Roman e, ao mesmo tempo, sua cabeça começou a doer. Depois de 15 minutos, ele terminou o que tinha pra fazer e se vestiu. Mexendo em seu celular, chegou a cozinha. Olívia está presente, assim como Roman.
— Bom dia, querido. — Olívia sorri.
— Dia.
Roman não disse nada. A tensão entre os gêmeos é extremamente visível. Olívia apenas ignora, porque sabe que é inútil e desgastante tentar fazer ambos se unirem.
Bill, por ser o mais velho e primogênito apenas por algumas horas de diferença de Roman, assumiu a empresa logo depois de seus 18 anos. Agora, com seus 23, ele é o responsável por todo o patrimônio de sua família. Roman, em contrapartida, gosta de ostentar e esbanjar o seu status. Sendo ele o mais novo da família, sabe que pode fazer o que bem entender porque Olívia pode livrá-lo de suas confusões. Sempre foi dessa forma. As encrencas que arrumou com a polícia foram facilmente deixadas de lado graças a influência de Olívia na sociedade de Hemlock Grove, a cidade onde os Godfrey’s residem e são fortemente influentes na economia. Roman conhece bem a influência disso tudo. Bill, entretanto, procura ver-se livre do status da família e desde sempre procurou ser conhecido através de seu próprio mérito.
Bill, o filho promissor. Roman, o filho mimado.
Quando ainda eram duas crianças, possuíam uma amizade forte. Com o passar dos anos, isso foi deteriorando, ao ponto de Roman odiar Bill. O motivo fora perdido há muito tempo. Aquela manhã, em que novamente eles sequer trocaram palavras, seria diferente de todas as outras. Esta possui algo especial. Olívia tem algo em mente. Assim que Bill saiu para ir para a empresa e Roman com Peter, ela passou as horas planejando algo. Sabia que Bill iria chegar apenas mais tarde e Roman sabe-se Deus quando. Sabia também que apenas iria ver os gêmeos no café da manhã. O único momento do dia em que eles estariam no mesmo ambiente, mesmo que sem se falar.
Ela sente falta dos velhos tempos. Sente falta dos natais em que realmente havia uma família unida. Durante seus sonhos mais profundos e secretos, tudo o que ela mais almeja é ter seus garotos novamente sem essa desavença e essa competição para ver quem é melhor. Às vezes ela se culpa por isso. Talvez, se tivesse amado os dois da mesma forma, esse atrito entre eles jamais existiria. Quando Roman nasceu, cerca de 3 horas depois de Bill, Olívia percebeu que o bebê havia vindo ao mundo com um pequeno revestimento de pele sobre seu rosto.
Na antiga cultura de sua família, acredita-se que bebês que nascem com isso são destinados a grandes feitos. Então ela preparou a pele e a comeu. Porém, a teoria de Olívia se dissipou assim que Roman e Bill tornaram-se adultos. Ela percebeu que Bill estava destinado a grandes feitos, uma vez que ele é totalmente diferente de seu gêmeo. Apesar de amar ambos de forma incondicional, nunca soube como demonstrar. É por tais motivos que Roman a menospreza, enquanto Bill permanece neutro.
A infância de ambos não foi fácil, apesar de serem criados na melhor qualidade que o dinheiro poderia oferecer. Cercados de luxo e riqueza, poderiam ter os melhores brinquedos, o melhor estudo e quaisquer coisas que desejassem. Ainda sim, não era o suficiente. Dinheiro nunca faltou, mas nunca pôde comprar felicidade. Por mais que pudessem ter tudo, eles não tinham nada. Isso mudou drasticamente. Houve um acontecimento marcante na vida dos irmãos Godfrey aos 5 anos. Na calada de uma noite tempestuosa, Roman despertou diante de uma gritaria na sala. Com medo, acordou Bill. Os dois deram as mãos e seguiram em passos silenciosos pelo corredor. Ao chegarem, viram seu pai atirado no tapete e Olívia parada, sem esboçar qualquer reação. A frieza como ela tratou a situação deixou a mente de Roman marcada por um tempo e aquilo desencadeou um ódio permanente por sua mãe.
Bill nunca soube exatamente como iria reagir depois de presenciar aquela confusão. Então ele se tornou uma pessoa isolada; fria. Isso mudou de uma forma radical, quando conheceu , sua noiva. Aquela concha que ele havia criado ao seu redor foi desmanchando e ele revelou-se uma pessoa totalmente diferente do que todo mundo já havia visto. Isso foi uma tremenda surpresa para Olívia. Bill, pela primeira vez em sua vida, realmente estava sendo feliz.
Ver um filho sorrir é algo que faz qualquer pai e mãe feliz também. Foi o que Olívia sentiu quando notou os sorrisos discretos e as bochechas coradas de seu filho mais velho. No fundo, ela sabia que ele precisava de alguém. Enquanto Bill estivesse feliz, ela estaria também. Porém, Roman sentiu mais ódio ainda. Quando completou 18 anos, ele descobriu sobre o segredo de sua família ser Upir e, então, cometeu suicídio. Não sabendo que não iria adiantar, ele retornou à vida poucos minutos depois como um Upir completo, diferente de Bill, que permaneceu metade vampiro.
Não era o que Bill havia escolhido para si, então tomou um caminho totalmente diferente de sua mãe e irmão. Ele gostaria de ser alguém normal. Viver como alguém normal. Roman nunca foi capaz de compreender isso. Por ser um Upir recém formado, sua vontade de sangue ainda é forte demais para que ele possa controlar, mesmo Olívia estando ao seu lado, auxiliando-o no que for necessário.
Diversas vezes Bill pensou sobre esse estilo de vida, mas, ainda sim, não a queria. Tem receio de machucar quem ama; ao contrário de Roman, que gosta de usar isso para eliminar quem quer que ouse se opor a ele. A prova disso foi quando ele arrancou a língua e drenou todo o sangue do corpo de Olívia. Desde então, ela começou a frequentar reabilitação com o médico da Torre Branca, nome genérico dado ao Instituto Godfrey. Há poucos meses voltou para casa e esse acontecimento mudou sua perspectiva sobre seus filhos e sobre sua própria forma de viver ao longo dos anos.
Ela percebeu que não havia mais controle sobre ambos. Bill se tornou independente e Roman arruma confusão apenas para entreter a si próprio. Olívia começou a questionar-se. Ela nunca foi uma ótima mãe, tinha consciência, mas o que fez foi em prol da segurança dos gêmeos. Os sacrifícios. As perdas. As decisões radicais e ruins. Tudo por eles. Entretanto, Roman nunca foi capaz de enxergar os feitos de sua mãe e sempre arrumou motivo para criticá-la ou atacá-la com palavras hostis.
Quando J.R. faleceu, Olívia disse aos gêmeos que ele tinha se suicidado e havia, inclusive, uma nota deixada para trás e, quem sabe, servir de consolo. Roman cresceu acreditando firmemente no suicídio de seu pai, enquanto Bill cresceu desconfiado. A verdade é que naquela noite, após enfrentar Olívia e perguntar o que ela realmente era, ele experimentou da força de sua esposa. Através de seus poderes de Upir, Olívia o obrigou a colocar a arma na boca e a puxar o gatilho. Isso nunca foi revelado.
Desde que nasceu, no século dezenove, Olívia pertencia a uma família aristocrática da Romênia. Aos 13, ela fugiu com um escravo cigano chamado Dimitri, sendo abandonada por ele logo depois, descobrindo que o mesmo havia fugido com suas joias e os cavalos. Olívia, então, inconsolável e cheia de raiva, mutilou uma pequena cauda que havia no final de sua coluna. Ela sangrou até ser encontrada.
Como a linhagem seguiu, toda a sua família sempre fora metade Upir. Não foi diferente com ela. Olívia cometeu suicídio por amor e retornou como uma Upir completa. Nove meses depois, ela deu à luz a uma bebê que chamou de Magdalena. Ignorando totalmente as sugestões de seu pai para criar a bebê como sua irmã mais nova, Olívia alegou que um filho de escravo permanece escravo, então deu a criança para os criadores de porcos.
Anos depois do nascimento de Magdalena, Olívia deixou sua casa e foi estudar Artes Dramáticas. Nesse tempo novo e de mudanças em sua vida, ela conheceu J.R. pouco tempo depois, os dois casaram. A primeira filha do casal, Juliet, morreu. Então vieram os gêmeos e a paz fora restaurada na casa, mesmo que por um curto período de tempo.
E, dessa vez, Olívia estava mais do que determinada em unir os gêmeos novamente. Se fosse necessário, ela moveria céus e oceanos caso ela julgasse ser preciso.


Capítulo 2.
Derry.


Roman despertou e, assim que abriu as pálpebras, sentiu seus olhos arderem com a invasão da luz em seu rosto pálido. Piscou diversas vezes, tentando ajustar suas íris esverdeadas. Deveria ser tarde e sabia que estava atrasado. Levantou e foi pegando suas roupas pelo chão e as vestindo depressa. Pouco se importou se estavam amassadas ou não. Ao sair da casa, acendeu um cigarro e logo foi entrando no veículo vermelho estacionado não muito longe. O destino é a Mansão Godfrey.
Já havia cerca de 20 ligações perdidas de Olívia. Nesta altura, ela deveria ter aberto um buraco no piso da casa de tanto andar em círculos, de forma aflita. Bill havia saído logo de manhã para ir buscar e logo em breve estaria em casa. Roman acelerou mais. Assim que estacionou, Olívia abriu a porta e a sua feição transformou-se no segundo seguinte quando o mesmo desceu do veículo. Roman realmente está encrencado.
— ONDE DIABOS VOCÊ ESTAVA? — Olívia gritou, inconformada.
— Por aí. — resmungou — Estou com dor de cabeça.
— Eu estou farta de seus comportamentos infantis! Trate de começar a agir como um homem ou você trate de arcar com as consequências. — ela o segura pelo punho.
Roman sente a força de Olívia e sabe que ela fala sério. Ele nunca havia presenciado aquele tom de voz dela, parecendo surpreso. Ao se soltar, começou a subir as escadas em direção ao seu quarto. Foi quando ouviu Olívia dizer do andar de baixo.
— Esteja pronto em 40 minutos. Não me faça perder a paciência e te forçar, Roman.
Bufou. Continuou com passos firmes até seu quarto, onde pôde tomar seu banho em paz e se vestir, para depois tratar de sua higiene pessoal e arrumar suas coisas para a viagem para Derry. Francamente, ele não parece interessado em ir, tampouco quer se dar ao trabalho de passar horas em um avião com Olívia, Bill e . Entretanto, depois do que Olívia lhe dissera e demonstrou minutos atrás, sente que não seria inteligente desafia-lá. Ouve risadas no andar de baixo e logo presume que trata-se de seu irmão e sua noiva. Rola os olhos.
— Estamos bem ansiosos, Liv! — comenta, empolgada — Tenho certeza de que será uma ótima viagem!
— Irá. — sorri — Uma viagem em família estava mais do que na hora! Além do mais, é uma forma de aliviar a tensão do casamento.
Roman ouvindo tudo, sentiu-se enojado. Ainda não é capaz de aceitar que Bill abriu mão de sua imortalidade por uma simples garota qualquer. Sentiu uma leve pontada em seu rosto. Seus dedos tocaram sua bochecha, quando, anos atrás, havia uma cicatriz. A mesma que Bill possui.
Lembrou-se de quando eram crianças e ouviram Olívia falar que ambos nasceram com uma doença. O resultado ficou em suas bochechas. Duas cicatrizes perfeitamente idênticas. Quando Roman cometeu suicídio, sua cicatriz deixou de existir. Ele fora curado. Ao contrário de Bill.
— Podemos ir logo? Todos já estamos prontos. — diz, descendo as escadas.
— Estávamos te esperando, Roman. — Olívia o responde — Bem, agora poderemos ir!
Levaram as bagagens para o carro e logo seguiram para o aeroporto, no jatinho particular da família. Bill e ficaram conversando com Olívia durante a viagem, enquanto Roman ficou ouvindo música alta em seus fones de ouvido e ignorando a existência de seus familiares. Olhou o céu através da janela redonda e desejou não estar lá naquele momento. Os pensamentos sobre si próprio começaram a fluir. Sua cabeça estava muito longe de lá.
As vezes ele tem medo de si próprio. Tem receio do que pode fazer com quem ele realmente se preocupa. No fundo, Roman é inseguro e não deixa transparecer de forma alguma. Nem ele consegue se entender. O que ele faz é apenas para mascarar seus medos. Ser um completo imbecil, abusar de drogas e álcool e transar por diversão. Faz isso pra esconder que, no fundo, é inseguro. Balançou a cabeça, afastando esses pensamentos para bem longe.
— Quanto tempo até chegarmos? — perguntou.
— Não muito, Roman — Olívia informa —, por quê?
— Não aguento mais ficar aqui.
Levantou e pegou um pouco de Whisky, retornando a sentar. Bill analisou cada passo dado por seu irmão e sentiu-se triste. Ele sente falta da amizade que possuía com Roman no passado. Nem ele entende o motivo que os afastou. Na verdade, Bill não lembra. E parte dessa perda de memória é culpa do mais novo.
— E então, como andam os preparativos? — Olívia pergunta, empolgada.
— Em andamento, mãe. — Bill sorri — tem providenciado exatamente da forma que ela gosta.
— E os convites? Quando pretendem entregar?
— Pegaremos assim que voltarmos. — responde — eles estão lindos!
Roman está com a cabeça bem longe da conversa. Ele sabe que já ouviu sobre Derry em algum lugar. Sabe que acontece algo na cidade, porém não lembra. Sua cabeça anda ocupada demais para ele simplesmente recordar algo. Roman acaba adormecendo com seus próprios pensamentos.
— Às vezes eu gostaria de entender o porquê de ele me detestar tanto. — Bill suspira — Sinto saudades de quando éramos crianças.
— Roman tem se afastado de nós, Bill. — o consola — Não há nada que possamos fazer quanto a isso.
— Eu sinto que parte desse ódio é culpa minha... Mas, por mais que eu me esforce, eu não consigo lembrar o que aconteceu. Roman me culpa por algo que eu sequer lembro. — lamentou.
Olívia sentiu a consciência pesar instantaneamente. Ela sabe o que causou a perda de memória de Bill; mas nunca entendeu o que aconteceu antes. Agora era a hora de ela revelar a verdade, depois de um longo tempo de silêncio.
— Vocês dois eram pequenos, quando aconteceu. — iniciou — Eu nunca compreendi os motivos que desencadearam aquele acidente.
— Do que está falando? — Bill a encara.
— Em uma tarde, você estava nos jardins. Roman havia chegado e estava completamente furioso com algo que você tinha feito. Vocês dois brigaram e ele te empurrou. Na queda, você acidentalmente bateu com a cabeça e isso gerou algumas perdas de memórias. Roman nunca disse o que o motivou a te atacar e até hoje nunca houve resposta. O que quer que tenha acontecido, você não pode lembrar e Roman nunca iria falar. Talvez seja o motivo que ele tem para te odiar. — explicou.
Bill passou a mão em seus cabelos, nervoso. Nunca que iria lembrar do que houve. Se pudesse, talvez poderia se redimir com Roman e, dessa forma, tentar uma aproximação. Agora que sabia o porquê de não lembrar de sua infância, sentiu-se mais culpado. O que ele poderia ter feito para Roman odiá-lo tanto? Ficou disperso entre seus pensamentos e sequer notou quando o jatinho aterrissou. Roman foi gentilmente acordado por sua mãe e a família pegou um carro para ir até o hotel onde iriam se hospedar. O silêncio dominou o veículo. Bill e Roman ficaram encantados com a paisagem do lado de fora, mesmo um estando incomodado com o outro. Ao chegarem no hotel, confirmaram a reserva e pegaram as respectivas chaves de seus quartos, seguindo para o elevador.
No andar, cada um foi para o seu quarto. Todos os quatro estariam muito bem instalados em suítes, mas não é com isso que Bill se preocupa. notou de longe o incômodo de seu noivo e soube que precisaria conversar. É a única forma de aliviar a tensão que ele sente e fazer com que o mesmo aproveite a viagem.
— Pode dizer.
— Eu me sinto péssimo. — desabafou — Meu irmão me odeia por algo que eu fiz e sequer posso lembrar!
— Bill, nós podemos tentar terapia de regressão. Nós podemos descobrir o que aconteceu! — sugeriu — Amor, eu sei que você sente falta do Roman, mas não deixe que a frieza dele atrapalhe essa viagem.
— Se ao menos eu pudesse lembrar...
— Quando voltarmos para Hemlock, iremos ao melhor especialista e iremos descobrir o que aconteceu.
— Eu já te disse o quanto te amo? — sorriu, meigo.
Ele a puxou gentilmente, fazendo-a sentar em seu colo. Bill olhou diretamente em seus olhos azuis, seguindo para os seus lábios convidativos. Começou a beija-lá. O ar não demorou para faltar e, quando se separaram, ela sorriu.
— Bem vindo à Derry.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.

Outras Fanfics:

Faded.

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