No Body, No Crime by Taylor Swift
Capítulo 1 - O ordinário e o novo
2018
O casamento é um ponto de virada na vida de boa parte das pessoas. Principalmente para aquelas que não estavam acostumadas em dividir a cama, o banheiro, as tarefas domésticas e a feira da semana. Fez apenas 7 meses desde que passou a usar os sobrenomes - e já assumia que se acostumara com tudo aquilo.
Estavam no verão, a estação favorita da maioria dos cidadãos de Lee’s Summit. As pessoas usavam shorts na rua, não era necessário ficar checando o tempo com medo de não estar agasalhado o suficiente e as piscinas passaram a ser utilizadas com mais frequência. Se pudesse, iria trabalhar de regada.
– Já está indo?
O detetive levantou o olhar, sentindo-se estranhamente eufórico. Na porta da garagem estava esfregando os olhos. Ele deu uma mexidinha no pé para encaixar o sapato.
– Pensei que quisesse dormir até mais tarde, por isso não te acordei – replicou ele.
levantou um pouco o canto dos lábios, uma forma de dizer que estava tudo bem. Àquela altura, o detetive já achava que conhecia cada um dos sorrisos dela e o que cada um significava.
Um sinal de alerta começou a piscar na cabeça de . Fez o que fazia toda manhã: abraçou-a e beijou-lhe a testa. desejou um dia de trabalho tranquilo e avisou que iria voltar a dormir, sentia-se cansada.
– Está tudo bem? – perguntou , já dentro do carro.
– Sim, não se preocupe – disse ela e ensaiou um bocejo. – Só preciso dormir mais um pouco.
Ele balançou a cabeça positivamente, mas o rosto não abandonou a expressão preocupada.
– Amo você – disse ele, esticando-se para beijá-la mais uma vez.
Dessa vez, riu de verdade.
– Amo você também, detetive.
Já no carro, a caminho da delegacia, deu uma olhada no painel do carro.
Era quinta-feira, fazia 77°F lá fora.
Os adolescentes pegavam o ônibus, os pais iam trabalhar. ouviu risadas lá fora.
Era um dia depois da terapia. Eram os dias imprevisíveis da casa – aconteciam a cada duas semanas e nem sempre mudavam algo na rotina do casal. sempre voltava mais quieta, apática. O processo de cura era lento e muito doloroso; para a mulher e para o esposo. Já era uma vitória saber que ela conseguia tomar pílulas receitadas pelo psiquiatra, depois do mal que a psicóloga falsa a fez.
era um peão no xadrez de sua família tóxica e depois tornou-se mais uma peça em uma família de criminosos. Sempre uma peça menor, movida para lá e para cá por mãos mais poderosas e imponentes. Agora que tinha independência, não sabia mais o que fazer. O que era um peão sem um rei para defender?
adicionou um lembrete no celular.
“Lembrar de comprar chocolates às 6 da tarde”.
A delegacia tinha passado por uma reforma nos últimos meses. havia perdido de vez o seu escritório e o ar-condicionado tinha que funcionar, para dezenas de homens e mulheres falantes, fardados e que tinham aversão a desodorante. Ainda era manhã, então o detetive desconfiava que o cheiro ruim vinha daqueles que passaram a noite em plantão e desconheciam o chuveiro que a unidade possuía.
Em cima da sua mesa, ele encarava a plaquinha:
“Detetive — Departamento de homicídios”
– Se bajulando a essa hora, ?
O detetive sentou-se em sua cadeira, ignorando a provocação.
Richard Lawrence agora deixava a barba crescer e assumiu as cãs – parecia estar vivendo uma crise dos 40, desde que se divorciou da mulher há um ano e passou a ser ainda mais viciado em trabalho. Agora, passava mais tempo na academia da polícia do que em casa dormindo.
– Bom dia, Richard – cumprimentou . – Como foi a operação noturna? Muitos adolescentes malucos?
– Nem me fale – disse o homem em uma expressão de cansaço. – Parecia um pandemonium.
fez uma careta complacente.
– Pensei que, depois do período de formatura, seria menos pesado… Mas parece que me enganei.
– Enfim, deixei para os outros resolverem. – Richard balançou a mão em descrédito. – O que quero te mostrar é isso.
O papel foi jogado na mesa sem muita cerimônia – não se importou, já havia acostumado com a brutalidade do colega de trabalho. A cópia do boletim de ocorrência indicava a denúncia do desaparecimento.
– Esther Edwards afirma que a amiga sumiu há 3 dias, se chama Alana James – Resumiu o detetive, sem paciência para esperar o amigo ler todo o relato. – Disse que marcou de encontrá-la na terça, como ocorria toda semana, mas Alana não apareceu. Tentou entrar em contato, mas só dá fora de área ou desligado. Esther até pensou que ela tinha se mudado, mas o carro ainda continua na garagem da casa que morava.
– E não foi para a casa dela, dos conhecidos? – franziu o cenho. – A mãe da desaparecida tem algo a dizer? Você chegou a passar para Roth?
Richard balançou a cabeça positivamente. Samantha Roth agora era Detetive Roth, do Departamento de Crimes Especiais, assim como Lawrence.
– E como eu posso ajudar nisso?
– Alana James é casada – respondeu Richard. – E o marido parece não ter sentido falta da esposa.
Para um bom detetive, meia história não bastava. Porém, conhecia o parceiro e sabia que ele não era lá o homem que adorava pedir favores.
– Quer que eu peça para o Capitão conseguir um mandato, não é? – implicou .
– O caso será nosso se você conseguir. Não acho que terá grandes problemas, a história me parece muito clara.
– Qual é a palavrinha mágica?
Lawrence rangeu os dentes, revirou os olhos, e então disse:
– Por favor.
Capítulo 2 - O segredo e a denúncia
Todos da delegacia sabiam que era o favorito do Capitão Pollack, mas ninguém sabia ao certo o porquê. Existiam muitas teorias: o sobrenome do detetive era famoso; a simpatia era conhecida por todos; o número de casos resolvidos era satisfatório e alguns achavam que em breve se tornaria cunhado do Capitão (mesmo sendo de amplo conhecimento que ele não estava disponível no mercado casamenteiro há um tempo).
Teorias e mais teorias – ou fofocas, para aqueles que são mais honestos do que quem os conta essa história. Era fato que Pollack favorecia , mesmo que gritasse com ele durante todo o processo. Então, não foi difícil conseguir um mandato para entrar na casa dos James.
Will James, marido da desaparecida, era um corretor de imóveis. Tinha sido um canoeiro ganhador de medalhas, inclusive nas Olímpiadas de Verão de 2004 e 2008. Em 2012, perdeu a medalha de bronze para um espanhol e teve uma lesão no pulso séria demais para continuar a carreira. Nada mais natural, adotar a profissão mais genérica e rentável depois de ter o sonho impedido tão cedo.
O bairro dos James não era um dos melhores. Era fácil identificar a necessidade de um ou outro reparo na casa, mas o jardim estava delicadamente arrumado e colorido – por sua vez, este fazia alguns dias que não recebia um golinho de água.
Como se não tivesse nada melhor para fazer, trabalhou de motorista e levou os detetives Roth e Lawrence até onde Will James trabalhava – apenas para descobrirem que, coincidentemente, ele havia tirado férias naquela semana. Uma viagem de apenas 20 minutos foi o suficiente para que todo o histórico do casal James fosse revelado para : os dois eram casados há cinco anos, mas moravam juntos desde a época da faculdade. Ela também era atleta, porém menos talentosa e não levou a carreira para o profissional.
Roth e Lawrence apertaram a campainha. Alguns metros atrás deles, fez o papel de um oficial qualquer, como se não estivesse com os ouvidos bem atentos para escutar barulhos estranhos, os narizes dilatados para sentir cheiros criminosos ou observar comportamentos dissonantes.
Will abriu apenas quando começaram a bater com os dizeres “Polícia, sr. James, abra a porta, por favor”. Automaticamente, o detetive lembrou das palavras da sua esposa: os policiais eram muito mais cordiais com brancos.
Não foi surpresa constatar que Will era um homem alto, branco e loiro.
E estava com uma aparência péssima. Os traços do seu rosto não o faziam ser o homem mais deslumbrante do mundo, mas, pelas olheiras e cabelos desgrenhados, era capaz de apostar que ter a polícia em sua porta era o menor dos problemas daquele homem.
A cordialidade do homem não durou muito. Lawrence era impaciente e logo perguntou:
– Alana James está com você?
deixou escapar um sorrisinho. Era uma pergunta que tinha muitas respostas e a maioria iria incriminá-lo.
Will fez uma cara sofrida.
– Aconteceu alguma coisa com ela?
– Ela está desaparecida, Sr. James – interpôs a detetive Roth. – Quando foi a última vez que a viu?
– Terça de manhã… – replicou exasperado. – Nós tivemos uma discussão e ela pediu um tempo. Quando voltei para casa, ela não estava mais aqui. Tentei ligar pra ela e não me atendia… Pensei… Pensei que ela tinha me bloqueado. Não achei que tivesse desaparecido.
Roth olhou para Lawrence com as sobrancelhas ruivas erguidas.
Lawrence virou-se para encarar , que deu de ombros.
– Podemos dar uma olhada na sua casa? – pediu Roth. Will assentiu ainda aturdido.
Que fofa, pensou . Eles iriam entrar independente do pedido ou não.
Enquanto vasculharam a casa, observava qualquer sinal de querer fugir de Will. Por sua vez, a presença de 3 policiais não parecia ser a maior preocupação do homem.
A casa estava uma bagunça – não uma bagunça "aconteceu uma briga e pessoas se feriram", mas uma bagunça "homem recém separado e infeliz vive aqui".
As fotos do casamento ainda estavam nas prateleiras. As medalhas, os troféus e os diplomas foram pendurados para orgulho, mesmo que estivesse com mais pó do que deveriam. Garrafas vazias de bebida estavam em lugares diferentes da casa e um cheiro podre exalava da cozinha.
Não havia sangue ou sinal de lutas. O sótão precisava de limpeza e tinha barulhos que indicavam que um bom inseticida deveria visitar a casa.
– Então, você está me dizendo que sua mulher saiu de casa enquanto você estava fora e não levou nada? Nem mesmo o carro dela? – Roth perguntou não conseguindo segurar a exímia fachada de boa policial.
Era de imaginar que alguém que dificilmente fosse encarado com uma leitura ruim de seu caráter demoraria para entender do que se tratava. Will James piscou uma, duas, três vezes. Só depois das perguntas retóricas da Detetive Roth, o homem percebeu o que tudo aquilo parecia.
– O quê? O que você está insinuando?
Lawrence revirou os olhos e mexeu a algema pendurada no cinto.
– Iremos fazer apenas algumas perguntas. Se você for cooperativo, não será necessário algemas – explicou Richard.
– Vocês têm uma casa no lago?
A voz de ressoou de modo esquisito pela casa. Roth, Lawrence e James viraram para o detetive, que encarava as fotos penduradas na parede.
apontou para uma foto em particular que tinha Alana, Will e uma moça desconhecida. Os três pescavam e riam como se tivessem contando uma piada muito engraçada.
– Tem bastantes fotos nesse mesmo lugar – justificou.
– Sim, temos – replicou Will. – Por que isso é relevante?
– Quando foi a última vez que você foi até lá? – Indagou mais uma vez.
– Er… um mês, dois talvez. Por quê? O que é que tem?
sentiu muita vontade de usar a força policial para colocar aquele homem em seu lugar – ora, era o principal suspeito do desaparecimento da mulher, estava em uma situação embaraçosa e ainda tinha coragem de ficar fazendo perguntas como se eles fossem os criminosos?
Ele quase podia ouvir comentar “só podia ser branco” quando o marido fosse contar sobre o seu dia. E iria rir, como se ele próprio não fosse um homem branco.
– Não encontrei isso nos seus registros – disse Roth, confusa.
– É do meu pai, na verdade – disse Will. – Nós cuidamos dela.
– Tem alguma possibilidade de sua esposa estar lá?
– Nenhuma – respondeu sem muita cerimônia.
– Por quê? – perguntou intrigado.
– Ela odeia aquela casa.
trocou um rápido olhar com Lawrence.
A casa do lago dos James era a próxima parada deles.
Teorias e mais teorias – ou fofocas, para aqueles que são mais honestos do que quem os conta essa história. Era fato que Pollack favorecia , mesmo que gritasse com ele durante todo o processo. Então, não foi difícil conseguir um mandato para entrar na casa dos James.
Will James, marido da desaparecida, era um corretor de imóveis. Tinha sido um canoeiro ganhador de medalhas, inclusive nas Olímpiadas de Verão de 2004 e 2008. Em 2012, perdeu a medalha de bronze para um espanhol e teve uma lesão no pulso séria demais para continuar a carreira. Nada mais natural, adotar a profissão mais genérica e rentável depois de ter o sonho impedido tão cedo.
O bairro dos James não era um dos melhores. Era fácil identificar a necessidade de um ou outro reparo na casa, mas o jardim estava delicadamente arrumado e colorido – por sua vez, este fazia alguns dias que não recebia um golinho de água.
Como se não tivesse nada melhor para fazer, trabalhou de motorista e levou os detetives Roth e Lawrence até onde Will James trabalhava – apenas para descobrirem que, coincidentemente, ele havia tirado férias naquela semana. Uma viagem de apenas 20 minutos foi o suficiente para que todo o histórico do casal James fosse revelado para : os dois eram casados há cinco anos, mas moravam juntos desde a época da faculdade. Ela também era atleta, porém menos talentosa e não levou a carreira para o profissional.
Roth e Lawrence apertaram a campainha. Alguns metros atrás deles, fez o papel de um oficial qualquer, como se não estivesse com os ouvidos bem atentos para escutar barulhos estranhos, os narizes dilatados para sentir cheiros criminosos ou observar comportamentos dissonantes.
Will abriu apenas quando começaram a bater com os dizeres “Polícia, sr. James, abra a porta, por favor”. Automaticamente, o detetive lembrou das palavras da sua esposa: os policiais eram muito mais cordiais com brancos.
Não foi surpresa constatar que Will era um homem alto, branco e loiro.
E estava com uma aparência péssima. Os traços do seu rosto não o faziam ser o homem mais deslumbrante do mundo, mas, pelas olheiras e cabelos desgrenhados, era capaz de apostar que ter a polícia em sua porta era o menor dos problemas daquele homem.
A cordialidade do homem não durou muito. Lawrence era impaciente e logo perguntou:
– Alana James está com você?
deixou escapar um sorrisinho. Era uma pergunta que tinha muitas respostas e a maioria iria incriminá-lo.
Will fez uma cara sofrida.
– Aconteceu alguma coisa com ela?
– Ela está desaparecida, Sr. James – interpôs a detetive Roth. – Quando foi a última vez que a viu?
– Terça de manhã… – replicou exasperado. – Nós tivemos uma discussão e ela pediu um tempo. Quando voltei para casa, ela não estava mais aqui. Tentei ligar pra ela e não me atendia… Pensei… Pensei que ela tinha me bloqueado. Não achei que tivesse desaparecido.
Roth olhou para Lawrence com as sobrancelhas ruivas erguidas.
Lawrence virou-se para encarar , que deu de ombros.
– Podemos dar uma olhada na sua casa? – pediu Roth. Will assentiu ainda aturdido.
Que fofa, pensou . Eles iriam entrar independente do pedido ou não.
Enquanto vasculharam a casa, observava qualquer sinal de querer fugir de Will. Por sua vez, a presença de 3 policiais não parecia ser a maior preocupação do homem.
A casa estava uma bagunça – não uma bagunça "aconteceu uma briga e pessoas se feriram", mas uma bagunça "homem recém separado e infeliz vive aqui".
As fotos do casamento ainda estavam nas prateleiras. As medalhas, os troféus e os diplomas foram pendurados para orgulho, mesmo que estivesse com mais pó do que deveriam. Garrafas vazias de bebida estavam em lugares diferentes da casa e um cheiro podre exalava da cozinha.
Não havia sangue ou sinal de lutas. O sótão precisava de limpeza e tinha barulhos que indicavam que um bom inseticida deveria visitar a casa.
– Então, você está me dizendo que sua mulher saiu de casa enquanto você estava fora e não levou nada? Nem mesmo o carro dela? – Roth perguntou não conseguindo segurar a exímia fachada de boa policial.
Era de imaginar que alguém que dificilmente fosse encarado com uma leitura ruim de seu caráter demoraria para entender do que se tratava. Will James piscou uma, duas, três vezes. Só depois das perguntas retóricas da Detetive Roth, o homem percebeu o que tudo aquilo parecia.
– O quê? O que você está insinuando?
Lawrence revirou os olhos e mexeu a algema pendurada no cinto.
– Iremos fazer apenas algumas perguntas. Se você for cooperativo, não será necessário algemas – explicou Richard.
– Vocês têm uma casa no lago?
A voz de ressoou de modo esquisito pela casa. Roth, Lawrence e James viraram para o detetive, que encarava as fotos penduradas na parede.
apontou para uma foto em particular que tinha Alana, Will e uma moça desconhecida. Os três pescavam e riam como se tivessem contando uma piada muito engraçada.
– Tem bastantes fotos nesse mesmo lugar – justificou.
– Sim, temos – replicou Will. – Por que isso é relevante?
– Quando foi a última vez que você foi até lá? – Indagou mais uma vez.
– Er… um mês, dois talvez. Por quê? O que é que tem?
sentiu muita vontade de usar a força policial para colocar aquele homem em seu lugar – ora, era o principal suspeito do desaparecimento da mulher, estava em uma situação embaraçosa e ainda tinha coragem de ficar fazendo perguntas como se eles fossem os criminosos?
Ele quase podia ouvir comentar “só podia ser branco” quando o marido fosse contar sobre o seu dia. E iria rir, como se ele próprio não fosse um homem branco.
– Não encontrei isso nos seus registros – disse Roth, confusa.
– É do meu pai, na verdade – disse Will. – Nós cuidamos dela.
– Tem alguma possibilidade de sua esposa estar lá?
– Nenhuma – respondeu sem muita cerimônia.
– Por quê? – perguntou intrigado.
– Ela odeia aquela casa.
trocou um rápido olhar com Lawrence.
A casa do lago dos James era a próxima parada deles.
Capítulo 3 - O corpo e o colapso
O corpo de Alana James boiava no lago artificial em Stockton, a 2 horas de Lee’s Summit. Era possível sentir o cheiro ruim de longe – mas havia chovido há poucos dias e era impressionante pensar que um corpo de dias não havia se perdido na água. Não havia marcas de carro, de arrombamento ou qualquer invasão na propriedade. Os vizinhos não viram e nem ouviram nada – afinal, embora fosse temporada de ir ao lago, ainda era dia útil e a maioria das casas da região estavam fechadas.
Era quase como se Alana James tivesse ido ali para morrer.
Ao reconhecer o corpo da esposa, Will James vomitou. E chorou em desespero.
A perícia chegou um pouco depois dos três detetives. Depois da prisão de Stifler, vários substitutos passaram pela polícia até a atual perita: Betty Carlson. Era uma mulher mais velha do que aparentava, calada além do comum e com o que Lawrence chamava de “mente de titânio”.
Ainda estavam embalando o corpo em plástico quando Betty, amarrando os cabelos lisos para trás, apontou para a cabeça de Alana.
– Tem sinais de morte por afogamento e de traumatismo craniano, que pode ter ocorrido nas pedras do fundo do lago – disse. – Resta saber o que aconteceu primeiro.
– Ela era canoísta quando era mais nova – afirmou Roth. – Duvido muito que não sabia nadar bem.
Lawrence olhou ao redor. A vista do lago era bonita – etérea, aconchegante e romântica. Não seria um lugar que ele escolheria para tentar se matar. Comentou:
– Então, a teoria de ser suicídio não é sólida?
– Não temos nenhum histórico de problemas psicológicos – replicou Roth. – Mas podemos perguntar. Às vezes não encontramos porque não estamos procurando…
parecia sobrar mais uma vez naquele caso – talvez devesse concluir as demandas que ele tinha na delegacia. Se estava ali, era apenas porque tinha sido responsável pelo mandato conquistado do Capitão.
Ao menos era isso que Lawrence e Roth pensavam.
Alguns metros de distância, quase já na grama do vizinho, apontou para uma canoa verde e azul abandonada.
– Aquilo lá é uma canoa? – perguntou em dúvida.
Lawrence revirou os olhos.
– Claro, né?
– Mas essa não é aquela canoa de duplas? Tem essas duas modalidades, se não me engano. – franziu o cenho. – Acho que vi isso nas últimas Olimpíadas de Verão.
Os quatro oficiais ficaram em silêncio. Trocaram um olhar de quem esperava que o outro tomasse a iniciativa. Betty tirou as luvas do bolso e foi em direção ao barquinho, sem paciência para esperá-los dar o primeiro passo. Os detetives a seguiram entre pedras, grama e água de um lago calmo.
A canoa estava em bom estado, embora tenha sido vítima da chuva dos últimos dias. Os remos também estavam lá, jogados sem muito jeito. Só foi preciso um pouco de luminol para descobrir que em um deles havia sangue lavado pela natureza.
###
– Ela era da sua escola.
tirou os olhos do quadro com as fotos da vítima e do suspeito para encarar seu parceiro, detetive Lawrence. Não havia como fazer isso em seu próprio escritório, restando a sala de reunião vazia. Em cima de sua mesa, estava o chocolate favorito de , mas ele não sabia quando ia poder entregá-lo – o detetive tinha que esperar mais um pouco para a autópsia ficar completa.
– Aparentemente era uma celebridade – acrescentou . – Há posts nas redes sociais sobre ela em todos os lugares. A morte dela repercutiu mais do que imaginamos.
– O Capitão mandou transferir completamente o caso para mim e você – avisou Lawrence.
O detetive soltou um suspiro. Era óbvio que iria acontecer isso, afinal, ele era da área de homicídios. No entanto, roubar casos nunca era visto de forma positiva dentro da delegacia, sobretudo de uma detetive novata como Samantha Roth.
Ele ainda lembrava da animosidade que cercava Lawrence no caso dos Stuarts, quando o crime caiu de paraquedas em seu colo. Não ajudava o fato de que eles não se gostavam na época.
– Você conseguiu gravar algum depoimento de James? – perguntou .
– Roth disse que era impossível – Richard bocejou. – Ele estava descontrolado e o liberou sem antes perguntar para mim, é claro.
olhou para o amigo como se ele fosse louco.
– E obviamente esse foi o motivo pelo qual o Capitão a tirou do caso. – A voz dele subiu um tom mais alto. – Não acredito que ela fez isso.
Richard balançou a cabeça para expor que concordava com o parceiro. coçou a cabeça. Era um erro de principiante deixar o principal suspeito acalmar-se e buscar advogados quando poderia arrancar informações valiosas diante de uma aparente histeria.
– Eu acho que ele seja o assassino… Ou, provavelmente, está ligado diretamente com a morte dela – disse depois de um tempo.
Lawrence fez um barulho de desdém com a língua.
– Lá vem você… nem viu todas as evidências e já está com teorias.
– Sim, pois você é o policial que mais baseia-se em evidências de todo Estados Unidos da América.
– Cala a boca, vagabundo – replicou Lawrence.
sorriu. Os dois sabiam que ele tinha razão.
O barulho de uma gaveta sendo fechada cortou a conversa entre parceiros. esticou-se um pouco para entender de onde vinha o barulho e viu Samantha descontar a raiva no móvel mais uma vez.
Lawrence deu dois tapinhas no ombro de .
– Te vira.
Sem perder tempo, colocou mais um lembrete em seu celular:
“Pagar o almoço de Sam nos próximos três meses”.
Era quase como se Alana James tivesse ido ali para morrer.
Ao reconhecer o corpo da esposa, Will James vomitou. E chorou em desespero.
A perícia chegou um pouco depois dos três detetives. Depois da prisão de Stifler, vários substitutos passaram pela polícia até a atual perita: Betty Carlson. Era uma mulher mais velha do que aparentava, calada além do comum e com o que Lawrence chamava de “mente de titânio”.
Ainda estavam embalando o corpo em plástico quando Betty, amarrando os cabelos lisos para trás, apontou para a cabeça de Alana.
– Tem sinais de morte por afogamento e de traumatismo craniano, que pode ter ocorrido nas pedras do fundo do lago – disse. – Resta saber o que aconteceu primeiro.
– Ela era canoísta quando era mais nova – afirmou Roth. – Duvido muito que não sabia nadar bem.
Lawrence olhou ao redor. A vista do lago era bonita – etérea, aconchegante e romântica. Não seria um lugar que ele escolheria para tentar se matar. Comentou:
– Então, a teoria de ser suicídio não é sólida?
– Não temos nenhum histórico de problemas psicológicos – replicou Roth. – Mas podemos perguntar. Às vezes não encontramos porque não estamos procurando…
parecia sobrar mais uma vez naquele caso – talvez devesse concluir as demandas que ele tinha na delegacia. Se estava ali, era apenas porque tinha sido responsável pelo mandato conquistado do Capitão.
Ao menos era isso que Lawrence e Roth pensavam.
Alguns metros de distância, quase já na grama do vizinho, apontou para uma canoa verde e azul abandonada.
– Aquilo lá é uma canoa? – perguntou em dúvida.
Lawrence revirou os olhos.
– Claro, né?
– Mas essa não é aquela canoa de duplas? Tem essas duas modalidades, se não me engano. – franziu o cenho. – Acho que vi isso nas últimas Olimpíadas de Verão.
Os quatro oficiais ficaram em silêncio. Trocaram um olhar de quem esperava que o outro tomasse a iniciativa. Betty tirou as luvas do bolso e foi em direção ao barquinho, sem paciência para esperá-los dar o primeiro passo. Os detetives a seguiram entre pedras, grama e água de um lago calmo.
A canoa estava em bom estado, embora tenha sido vítima da chuva dos últimos dias. Os remos também estavam lá, jogados sem muito jeito. Só foi preciso um pouco de luminol para descobrir que em um deles havia sangue lavado pela natureza.
– Ela era da sua escola.
tirou os olhos do quadro com as fotos da vítima e do suspeito para encarar seu parceiro, detetive Lawrence. Não havia como fazer isso em seu próprio escritório, restando a sala de reunião vazia. Em cima de sua mesa, estava o chocolate favorito de , mas ele não sabia quando ia poder entregá-lo – o detetive tinha que esperar mais um pouco para a autópsia ficar completa.
– Aparentemente era uma celebridade – acrescentou . – Há posts nas redes sociais sobre ela em todos os lugares. A morte dela repercutiu mais do que imaginamos.
– O Capitão mandou transferir completamente o caso para mim e você – avisou Lawrence.
O detetive soltou um suspiro. Era óbvio que iria acontecer isso, afinal, ele era da área de homicídios. No entanto, roubar casos nunca era visto de forma positiva dentro da delegacia, sobretudo de uma detetive novata como Samantha Roth.
Ele ainda lembrava da animosidade que cercava Lawrence no caso dos Stuarts, quando o crime caiu de paraquedas em seu colo. Não ajudava o fato de que eles não se gostavam na época.
– Você conseguiu gravar algum depoimento de James? – perguntou .
– Roth disse que era impossível – Richard bocejou. – Ele estava descontrolado e o liberou sem antes perguntar para mim, é claro.
olhou para o amigo como se ele fosse louco.
– E obviamente esse foi o motivo pelo qual o Capitão a tirou do caso. – A voz dele subiu um tom mais alto. – Não acredito que ela fez isso.
Richard balançou a cabeça para expor que concordava com o parceiro. coçou a cabeça. Era um erro de principiante deixar o principal suspeito acalmar-se e buscar advogados quando poderia arrancar informações valiosas diante de uma aparente histeria.
– Eu acho que ele seja o assassino… Ou, provavelmente, está ligado diretamente com a morte dela – disse depois de um tempo.
Lawrence fez um barulho de desdém com a língua.
– Lá vem você… nem viu todas as evidências e já está com teorias.
– Sim, pois você é o policial que mais baseia-se em evidências de todo Estados Unidos da América.
– Cala a boca, vagabundo – replicou Lawrence.
sorriu. Os dois sabiam que ele tinha razão.
O barulho de uma gaveta sendo fechada cortou a conversa entre parceiros. esticou-se um pouco para entender de onde vinha o barulho e viu Samantha descontar a raiva no móvel mais uma vez.
Lawrence deu dois tapinhas no ombro de .
– Te vira.
Sem perder tempo, colocou mais um lembrete em seu celular:
“Pagar o almoço de Sam nos próximos três meses”.
Capítulo 4 - A pedra e o caminho
Apenas as luzes da cozinha estavam ligadas quando chegou em casa. Tinha mandado mensagem perguntando se queria algo para jantar, mas recebeu apenas um emoji que significava “tanto faz”.
– Amor, cheguei.
Ninguém respondeu nada. respirou fundo e tentou não pensar no pior. ainda era uma mulher depressiva, mas havia tempos que não tinha nenhuma crise incapacitante. Esperava que fosse apenas uma indisposição, como qualquer outro dia.
Em dias de crise de , não dormia. Preocupava-se em demasia e doava-se em dobro. Amava a sua esposa e faria isso quantas vezes precisasse – mas, havia dias que eram mais desgastantes do que outros.
– , onde você está?
Ela estava deitada na cama, ainda com as roupas de mais cedo. Encarava o nada, enrolada em lençóis, mesmo que estivesse quente demais para usá-los.
– Comeu alguma coisa, amor?
balançou a cabeça negando.
– Estou sem fome.
– E para seu chocolate favorito?
Ela levantou os olhos brevemente. Tentou segurar, mas um pequeno sorriso se formou em seu rosto; estendeu o braço magro.
– Quero.
deu um passo para trás.
– Só se tomar banho comigo.
Quem não conhecia a dinâmica do casal, dificilmente não iria ficar constrangido diante daquele pedido. Dar um banho era a forma dele cuidar da mulher: lavava seu corpo com cuidado e depois secava seu cabelo, quando não tinha nem forças para levantar da cama. Os olhos encheram de água e, pela primeira vez no dia, o choro veio.
– Eu amo você – ela disse com a voz embargada. – Sei que às vezes pode parecer que não, mas eu amo.
estava cansado. O dia tinha sido mais caótico do que ele imaginou, chegou mais tarde do que pretendia e estava com fome. Porém, sem resmungar, ajudou a levantar-se, tirou-lhe as roupas e ensaboou o corpo que amava e desejava – e ele só o fazia porque aquele corpo pertencia a ela.
Lavaram-se. Pediram comida em um restaurante que eles gostavam. comeu pouco, preferia o chocolate. Ela também ouviu murmúrios sobre o dia de , embora ele não tenha entrado em detalhes. O detetive disse que iria passar a noite acordado, precisava reler o relatório da Detetive Roth. Ele dormiu com a cabeça na barriga da esposa antes mesmo de escovar os dentes.
###
Todos os corpos passam a parecer os mesmos na sala de autópsia. Depois de anos analisando ferimentos, assinando documentos e discutindo técnicas de morte, os corpos estendidos nas gavetas pareciam se diferenciar apenas pela quantidade de cabelo.
Exceto quando a ficha era lida mais uma vez e o corpo passava a ter nome, idade e família.
– Ela morreu há 3 dias, ou talvez 2 – explicou Betty para os detetives. – A batida na cabeça não foi o suficiente para matá-la, mas deve ter a deixado inconsciente. Provavelmente foi jogada na água ou caiu depois da pancada. Eu prefiro essa teoria, porque não há nenhum sinal de briga. Morreu afogada.
– Foi um golpe só? – perguntou intrigado. – Não há sinais de briga?
Betty balançou a cabeça negando.
– A equipe de perícia não achou nada de incomum dentro da casa do lago – complementou Lawrence, que ficara fazendo hora extra do dia anterior. – Se havia pegadas na beira do lago, foram embora por conta da chuva.
começou a folhear o relatório intrigado. O crime perfeito não existia, mas as coincidências que o ajudavam eram demais para sua cabeça. Deu uma risada incrédula quando viu que nem mesmo digitais tinham encontrado no remo sujo de sangue – no entanto, foram encontrados fibras que sugeriam que o suspeito usava luvas no momento do ataque.
– Qual era a provável altura do assassino? – indagou .
– Entre 1,75 a 1,80 – replicou Betty e imitou o possível movimento que matou Alana. – O golpe foi de baixo para cima. É impressionante. Um golpe desse dificilmente é fatal, o que indica habilidade com os remos do suspeito.
encarou Lawrence.
– Acho que foi um golpe acidental. O suspeito deve ter fugido com medo quando viu que ela não tinha acordado.
Lawrence encarou .
– E como ela chegou ali, então? O marido?
Betty cobriu o rosto de Alana James com o lençol, indicando que seu trabalho tinha terminado.
– Isso eu não posso responder. Agora é com vocês, irei me retirar. Querem que eu traga um café com biscoitinhos?
fez uma careta e negou, Lawrence o seguiu. Nunca entenderia como alguém seria capaz de comer logo depois de estar cercado por tantos cadáveres. Ele precisava de ao menos meia hora de ar puro e visões menos mórbidas.
— Detetives, – avisou Scott, da porta da sala. — o suspeito já está aqui com o advogado para dar depoimento.
###
Com as recentes reformas na delegacia, o ar-condicionado da sala de depoimentos estava em manutenção. O calor brindou a face dos homens assim que abriram a porta e retirou o casaco que utilizava quase como farda, mesmo em dias de verão.
Sentaram-se, resmungando o clima infernal, mas pouco poderiam fazer para manter a privacidade daquele depoimento. Acompanhada por James, estava a Sra. Rohden, uma advogada de 30 anos que vestia um terninho vinho e balançava um papel como um leque.
Após as breves recomendações, Lawrence fez a primeira pergunta:
— Pode nos descrever a última vez que viu sua esposa?
Will James mexeu o colarinho. Vestia formalmente naquele dia e tinha se barbeado finalmente. Não se parecia em nada com o homem que encontraram no dia anterior, embora ainda não tivesse aparência de quem dormiu bem à noite.
— Na terça-feira, no café da manhã.
— Havia algo de diferente naquele dia? Ela chegou a falar que queria ir para casa de vocês no lago?
Will deu uma olhadela para a advogada, que o encorajou com um aceno.
— Não realmente. Ela fez meu café como sempre – respondeu ele. — Sobre a casa do lago, ela havia falado em alugar para a temporada, mas não chegou a...
— Vocês alugam a casa com frequência? – perguntou , aquela informação nova sendo cheia de potencial.
Will negou com a cabeça.
— Nunca alugamos. Iria ser a primeira vez.
— Ela já tinha algum contato em mente? Alguém que estava interessado em ver a casa e alugar? – indagou Lawrence.
O homem franziu a testa.
— Não que eu saiba. Foi uma ideia muito jogada no ar, não chegamos a elaborar.
— Vocês estavam com algum problema no casamento? Algo que justificasse uma saída de casa com malas e tudo?
— Claro que não — replicou rapidamente.
percebeu uma movimentação debaixo da mesa e viu Will fazer uma careta. Era bem provável que a advogada o tivesse cutucado de uma forma um pouco violenta.
Lawrence levantou as sobrancelhas para e então disse:
— Então, qual é a sua teoria para as malas que ela carregava?
— Meu cliente não está aqui para descobrir quem assassinou a esposa. São vocês – interveio a advogada, antes que Will respondesse alguma coisa.
inclinou-se por cima da mesa. Os braços musculosos e a posição imponente, deixaram Will encurralado quando o detetive disse:
– Onde você estava na terça-feira?
– No trabalho, oras – disse ele com uma risada nervosa.
– Alguém pode confirmar o seu álibi?
– A minha secretária.
– Muito bem — balançou a cabeça positivamente. O calor o fazia se tornar mais impaciente. – Se eu ligar agora para ela, vou escutar que você passou o dia de terça sentado em seu escritório até o horário de voltar para casa?
— Não exatamente…
Sra. Rohden olhou para Will, como se tivesse criado um chifre em sua cabeça.
— Eu tive que dar uma saída para uma vistoria, ok? – justificou-se de forma embolada.
— Mas, você não sentiu falta da sua esposa quando chegou em casa? Nem nos últimos dias? — perguntou Lawrence com um ar inocente, como se não tivesse escutado suas justificativas antes.
— O que acontece entre mim e minha esposa só diz respeito a nós dois.
— Não vejo como isso tenha relevância para o caso — interrompeu a advogada. – Não responda, Will.
— Como não? — replicou , impaciente — Alana James é sua esposa. Sumiu por dias e você não contatou a polícia, nem os pais dela sabiam do sumiço. Então, ela é encontrada morta em poucos dias.
— Você está presumindo que meu cliente… — iniciou a advogada, que foi interrompida por James.
— Está bem, está bem! — disse ele. — Nosso casamento não estava mil maravilhas. Pensei que ela tinha ido embora para casa dos pais e pedido um tempo. Ela fazia isso às vezes.
— E vocês brigaram porque… — falou Lawrence esperando que o homem finalizasse.
— Porque ela era uma doida ciumenta do caralho.
– Amor, cheguei.
Ninguém respondeu nada. respirou fundo e tentou não pensar no pior. ainda era uma mulher depressiva, mas havia tempos que não tinha nenhuma crise incapacitante. Esperava que fosse apenas uma indisposição, como qualquer outro dia.
Em dias de crise de , não dormia. Preocupava-se em demasia e doava-se em dobro. Amava a sua esposa e faria isso quantas vezes precisasse – mas, havia dias que eram mais desgastantes do que outros.
– , onde você está?
Ela estava deitada na cama, ainda com as roupas de mais cedo. Encarava o nada, enrolada em lençóis, mesmo que estivesse quente demais para usá-los.
– Comeu alguma coisa, amor?
balançou a cabeça negando.
– Estou sem fome.
– E para seu chocolate favorito?
Ela levantou os olhos brevemente. Tentou segurar, mas um pequeno sorriso se formou em seu rosto; estendeu o braço magro.
– Quero.
deu um passo para trás.
– Só se tomar banho comigo.
Quem não conhecia a dinâmica do casal, dificilmente não iria ficar constrangido diante daquele pedido. Dar um banho era a forma dele cuidar da mulher: lavava seu corpo com cuidado e depois secava seu cabelo, quando não tinha nem forças para levantar da cama. Os olhos encheram de água e, pela primeira vez no dia, o choro veio.
– Eu amo você – ela disse com a voz embargada. – Sei que às vezes pode parecer que não, mas eu amo.
estava cansado. O dia tinha sido mais caótico do que ele imaginou, chegou mais tarde do que pretendia e estava com fome. Porém, sem resmungar, ajudou a levantar-se, tirou-lhe as roupas e ensaboou o corpo que amava e desejava – e ele só o fazia porque aquele corpo pertencia a ela.
Lavaram-se. Pediram comida em um restaurante que eles gostavam. comeu pouco, preferia o chocolate. Ela também ouviu murmúrios sobre o dia de , embora ele não tenha entrado em detalhes. O detetive disse que iria passar a noite acordado, precisava reler o relatório da Detetive Roth. Ele dormiu com a cabeça na barriga da esposa antes mesmo de escovar os dentes.
Todos os corpos passam a parecer os mesmos na sala de autópsia. Depois de anos analisando ferimentos, assinando documentos e discutindo técnicas de morte, os corpos estendidos nas gavetas pareciam se diferenciar apenas pela quantidade de cabelo.
Exceto quando a ficha era lida mais uma vez e o corpo passava a ter nome, idade e família.
– Ela morreu há 3 dias, ou talvez 2 – explicou Betty para os detetives. – A batida na cabeça não foi o suficiente para matá-la, mas deve ter a deixado inconsciente. Provavelmente foi jogada na água ou caiu depois da pancada. Eu prefiro essa teoria, porque não há nenhum sinal de briga. Morreu afogada.
– Foi um golpe só? – perguntou intrigado. – Não há sinais de briga?
Betty balançou a cabeça negando.
– A equipe de perícia não achou nada de incomum dentro da casa do lago – complementou Lawrence, que ficara fazendo hora extra do dia anterior. – Se havia pegadas na beira do lago, foram embora por conta da chuva.
começou a folhear o relatório intrigado. O crime perfeito não existia, mas as coincidências que o ajudavam eram demais para sua cabeça. Deu uma risada incrédula quando viu que nem mesmo digitais tinham encontrado no remo sujo de sangue – no entanto, foram encontrados fibras que sugeriam que o suspeito usava luvas no momento do ataque.
– Qual era a provável altura do assassino? – indagou .
– Entre 1,75 a 1,80 – replicou Betty e imitou o possível movimento que matou Alana. – O golpe foi de baixo para cima. É impressionante. Um golpe desse dificilmente é fatal, o que indica habilidade com os remos do suspeito.
encarou Lawrence.
– Acho que foi um golpe acidental. O suspeito deve ter fugido com medo quando viu que ela não tinha acordado.
Lawrence encarou .
– E como ela chegou ali, então? O marido?
Betty cobriu o rosto de Alana James com o lençol, indicando que seu trabalho tinha terminado.
– Isso eu não posso responder. Agora é com vocês, irei me retirar. Querem que eu traga um café com biscoitinhos?
fez uma careta e negou, Lawrence o seguiu. Nunca entenderia como alguém seria capaz de comer logo depois de estar cercado por tantos cadáveres. Ele precisava de ao menos meia hora de ar puro e visões menos mórbidas.
— Detetives, – avisou Scott, da porta da sala. — o suspeito já está aqui com o advogado para dar depoimento.
Com as recentes reformas na delegacia, o ar-condicionado da sala de depoimentos estava em manutenção. O calor brindou a face dos homens assim que abriram a porta e retirou o casaco que utilizava quase como farda, mesmo em dias de verão.
Sentaram-se, resmungando o clima infernal, mas pouco poderiam fazer para manter a privacidade daquele depoimento. Acompanhada por James, estava a Sra. Rohden, uma advogada de 30 anos que vestia um terninho vinho e balançava um papel como um leque.
Após as breves recomendações, Lawrence fez a primeira pergunta:
— Pode nos descrever a última vez que viu sua esposa?
Will James mexeu o colarinho. Vestia formalmente naquele dia e tinha se barbeado finalmente. Não se parecia em nada com o homem que encontraram no dia anterior, embora ainda não tivesse aparência de quem dormiu bem à noite.
— Na terça-feira, no café da manhã.
— Havia algo de diferente naquele dia? Ela chegou a falar que queria ir para casa de vocês no lago?
Will deu uma olhadela para a advogada, que o encorajou com um aceno.
— Não realmente. Ela fez meu café como sempre – respondeu ele. — Sobre a casa do lago, ela havia falado em alugar para a temporada, mas não chegou a...
— Vocês alugam a casa com frequência? – perguntou , aquela informação nova sendo cheia de potencial.
Will negou com a cabeça.
— Nunca alugamos. Iria ser a primeira vez.
— Ela já tinha algum contato em mente? Alguém que estava interessado em ver a casa e alugar? – indagou Lawrence.
O homem franziu a testa.
— Não que eu saiba. Foi uma ideia muito jogada no ar, não chegamos a elaborar.
— Vocês estavam com algum problema no casamento? Algo que justificasse uma saída de casa com malas e tudo?
— Claro que não — replicou rapidamente.
percebeu uma movimentação debaixo da mesa e viu Will fazer uma careta. Era bem provável que a advogada o tivesse cutucado de uma forma um pouco violenta.
Lawrence levantou as sobrancelhas para e então disse:
— Então, qual é a sua teoria para as malas que ela carregava?
— Meu cliente não está aqui para descobrir quem assassinou a esposa. São vocês – interveio a advogada, antes que Will respondesse alguma coisa.
inclinou-se por cima da mesa. Os braços musculosos e a posição imponente, deixaram Will encurralado quando o detetive disse:
– Onde você estava na terça-feira?
– No trabalho, oras – disse ele com uma risada nervosa.
– Alguém pode confirmar o seu álibi?
– A minha secretária.
– Muito bem — balançou a cabeça positivamente. O calor o fazia se tornar mais impaciente. – Se eu ligar agora para ela, vou escutar que você passou o dia de terça sentado em seu escritório até o horário de voltar para casa?
— Não exatamente…
Sra. Rohden olhou para Will, como se tivesse criado um chifre em sua cabeça.
— Eu tive que dar uma saída para uma vistoria, ok? – justificou-se de forma embolada.
— Mas, você não sentiu falta da sua esposa quando chegou em casa? Nem nos últimos dias? — perguntou Lawrence com um ar inocente, como se não tivesse escutado suas justificativas antes.
— O que acontece entre mim e minha esposa só diz respeito a nós dois.
— Não vejo como isso tenha relevância para o caso — interrompeu a advogada. – Não responda, Will.
— Como não? — replicou , impaciente — Alana James é sua esposa. Sumiu por dias e você não contatou a polícia, nem os pais dela sabiam do sumiço. Então, ela é encontrada morta em poucos dias.
— Você está presumindo que meu cliente… — iniciou a advogada, que foi interrompida por James.
— Está bem, está bem! — disse ele. — Nosso casamento não estava mil maravilhas. Pensei que ela tinha ido embora para casa dos pais e pedido um tempo. Ela fazia isso às vezes.
— E vocês brigaram porque… — falou Lawrence esperando que o homem finalizasse.
— Porque ela era uma doida ciumenta do caralho.
Capítulo 5 - A foto e a imagem
Ao contrário do marido de Alana James, o dia após a descoberta da morte da mulher estava sendo um terror para Sr. e Sra Wilson. Passaram muitos minutos em silêncio, beberam água e precisaram de minutos para se recuperar antes de responder algo claramente.
Alana James era filha única, fruto de anos e anos de uma batalha contra a infertilidade. Um milagre. Um sonho de décadas de tratamentos e orações. Rainbow baby.
Embora estivesse mais confortável depois de colocar ventiladores na sala de depoimentos, mal conseguia ouvir o que aqueles pais diziam sobre sua filha — eram elogios incrédulos de saber que aquela menina tão brilhante não os ligaria em um fim da tarde, não os visitaria naquele mês e nem lhes daria o neto que eles tanto pediam.
O detetive não conseguia parar de pensar no que faria se perdesse Lucy daquele jeito tão cruel. Provavelmente, quem estaria preso seria ele — o assassino estaria morto também.
considerava-se um cristão devoto e sabia a importância de perdoar os devedores dele. Mas, ele dificilmente perdoaria aqueles que fizessem mal à sua filha.
— Qual era a impressão de vocês sobre o casamento de Alana? — perguntou Lawrence, reconhecendo que teria que ter mais iniciativa do que o companheiro daquela vez.
A mulher mais velha franziu o cenho enquanto limpava o nariz com lenço de papel.
— Parecia bom, não é? — Virou-se para o marido, que concordava com a cabeça. — Digo, eles tinham problemas normais como todo casal.
— Que tipo de problemas?
— Eles eram bastante ciumentos – disse a Sra. Wilson. — Mas melhoraram muito depois que se casaram.
, então, fez uma pergunta que não tinha pensado antes:
— Vocês sabem dizer se houve algum caso de traição entre eles durante esses anos de relacionamento?
Sr. Wilson apertou os lábios como quem queria dizer algo, mas não devia. A mãe de Alana, porém, não hesitou:
— Boa parte das brigas eram por causa de um mal entendido que eles tiveram no começo do relacionamento. Alana tinha outro namorado antes — A mulher balançou a mão como se explicasse a situação por meio de gestos. — Eles ficaram juntos pouco depois dela ter terminado com um ex.
Os detetives se entreolharam. Aquilo fez o casal ficar tenso.
— Vocês não acham que Will… – Mas ele foi incapaz de terminar a frase. Era difícil demais sequer pensar que o assassino comece com eles todos os Natais e Dias de Ação de Graça.
— Não há nada conclusivo – disse , acalmando-os. — Ao que tudo indica, o seu genro estava no trabalho quando aconteceu o incidente.
O enterro de Alana despertou o grupo do Facebook de formandos de 2008. Imagens da mulher ainda menina, fotos de câmeras digitais de qualidade duvidosa e vídeos caseiros eram repassados com mensagens diversas de choro, luto… e sede por justiça.
A polícia poderia estar procurando provas, mas a sociedade já tinha julgado e declarado o marido culpado.
Na cerimônia, cochichos e mais cochichos - olhadelas hostis e pessoas negando-se a confortar o mais novo viúvo.
Will tinha, ao menos parecia, realmente se abalado. Não fazia grande drama, mas chorava — acariciava os cabelos de uma Alana sem vida e sentia grande remorso. Ainda lembrava das últimas palavras que disse a ela, e não eram bonitas. Mal via os rostos das pessoas e, até então, não se importava com o que eles pensavam. Afinal, se era para estar preocupado com alguma opinião, a dos policiais era a que mais contava; no entanto, ele tinha tanta certeza de sua inocência que todo o circo de depoimentos o deixava apenas irritado.
Alguém matou sua esposa e estava querendo acusá-lo.
— Meus pêsames.
A voz doce deu-lhe um aperto no estômago; levantou a cabeça e encarou Este Edwards, amiga de infância dele e de sua esposa. Usava um vestido preto, meias e mocassim. Quem não conhecesse, dificilmente a descreveria como a depravada que era.
Will não disse nada — não precisava. O olhar dizia tudo.
— Sei que não sou sua pessoa favorita no momento. – Este suspirou. – Mas pode contar comigo com o que precisar. Águas passadas não movem moinhos e Alana… se foi.
— Não temos por que continuar o contato.
Este deu de ombros.
— Pouco importa. – Deu as costas em uma virada dramática, digna de filme.
Will soltou um baixinho “vai se foder”. Então, enquanto ela se afastava, ele percebeu que deveria ter ficado calado.
Este ainda ia dar o depoimento dela… e o depoimento dela era capaz de mudar tudo.
Alana James era filha única, fruto de anos e anos de uma batalha contra a infertilidade. Um milagre. Um sonho de décadas de tratamentos e orações. Rainbow baby.
Embora estivesse mais confortável depois de colocar ventiladores na sala de depoimentos, mal conseguia ouvir o que aqueles pais diziam sobre sua filha — eram elogios incrédulos de saber que aquela menina tão brilhante não os ligaria em um fim da tarde, não os visitaria naquele mês e nem lhes daria o neto que eles tanto pediam.
O detetive não conseguia parar de pensar no que faria se perdesse Lucy daquele jeito tão cruel. Provavelmente, quem estaria preso seria ele — o assassino estaria morto também.
considerava-se um cristão devoto e sabia a importância de perdoar os devedores dele. Mas, ele dificilmente perdoaria aqueles que fizessem mal à sua filha.
— Qual era a impressão de vocês sobre o casamento de Alana? — perguntou Lawrence, reconhecendo que teria que ter mais iniciativa do que o companheiro daquela vez.
A mulher mais velha franziu o cenho enquanto limpava o nariz com lenço de papel.
— Parecia bom, não é? — Virou-se para o marido, que concordava com a cabeça. — Digo, eles tinham problemas normais como todo casal.
— Que tipo de problemas?
— Eles eram bastante ciumentos – disse a Sra. Wilson. — Mas melhoraram muito depois que se casaram.
, então, fez uma pergunta que não tinha pensado antes:
— Vocês sabem dizer se houve algum caso de traição entre eles durante esses anos de relacionamento?
Sr. Wilson apertou os lábios como quem queria dizer algo, mas não devia. A mãe de Alana, porém, não hesitou:
— Boa parte das brigas eram por causa de um mal entendido que eles tiveram no começo do relacionamento. Alana tinha outro namorado antes — A mulher balançou a mão como se explicasse a situação por meio de gestos. — Eles ficaram juntos pouco depois dela ter terminado com um ex.
Os detetives se entreolharam. Aquilo fez o casal ficar tenso.
— Vocês não acham que Will… – Mas ele foi incapaz de terminar a frase. Era difícil demais sequer pensar que o assassino comece com eles todos os Natais e Dias de Ação de Graça.
— Não há nada conclusivo – disse , acalmando-os. — Ao que tudo indica, o seu genro estava no trabalho quando aconteceu o incidente.
O enterro de Alana despertou o grupo do Facebook de formandos de 2008. Imagens da mulher ainda menina, fotos de câmeras digitais de qualidade duvidosa e vídeos caseiros eram repassados com mensagens diversas de choro, luto… e sede por justiça.
A polícia poderia estar procurando provas, mas a sociedade já tinha julgado e declarado o marido culpado.
Na cerimônia, cochichos e mais cochichos - olhadelas hostis e pessoas negando-se a confortar o mais novo viúvo.
Will tinha, ao menos parecia, realmente se abalado. Não fazia grande drama, mas chorava — acariciava os cabelos de uma Alana sem vida e sentia grande remorso. Ainda lembrava das últimas palavras que disse a ela, e não eram bonitas. Mal via os rostos das pessoas e, até então, não se importava com o que eles pensavam. Afinal, se era para estar preocupado com alguma opinião, a dos policiais era a que mais contava; no entanto, ele tinha tanta certeza de sua inocência que todo o circo de depoimentos o deixava apenas irritado.
Alguém matou sua esposa e estava querendo acusá-lo.
— Meus pêsames.
A voz doce deu-lhe um aperto no estômago; levantou a cabeça e encarou Este Edwards, amiga de infância dele e de sua esposa. Usava um vestido preto, meias e mocassim. Quem não conhecesse, dificilmente a descreveria como a depravada que era.
Will não disse nada — não precisava. O olhar dizia tudo.
— Sei que não sou sua pessoa favorita no momento. – Este suspirou. – Mas pode contar comigo com o que precisar. Águas passadas não movem moinhos e Alana… se foi.
— Não temos por que continuar o contato.
Este deu de ombros.
— Pouco importa. – Deu as costas em uma virada dramática, digna de filme.
Will soltou um baixinho “vai se foder”. Então, enquanto ela se afastava, ele percebeu que deveria ter ficado calado.
Este ainda ia dar o depoimento dela… e o depoimento dela era capaz de mudar tudo.
Capítulo 6 - O passado e o presente
não estava ao lado de quando ele acordou naquela manhã. O estúdio, que antes era um depósito, estava com a porta entreaberta e dava para ver o vislumbre da mulher ainda vestida com a roupa de dormir, o cabelo bagunçado… Mas as mãos estavam sujas de tinta azul.
Era uma fase da arte de : tudo era azul. Azul bebê, azul celeste, azul cobalto, azul marinho, azul turquesa, azul royal, azul piscina.
A tela dessa vez tinha traços finos de uma mão atravessando o que parecia uma parede.
— Bom dia! – murmurou , antes de beijar a têmpora de sua esposa.
A pele de estava quente sobre os lábios; a resposta soou como um suspiro escaldante pelo peito de . Que coisa grandiosa era aquele sentimento que antes parecia ser apenas pena: e então, a mulher de impulsos residiu em seu coração de forma que não sairia mais nem com reza braba.
Ele ainda lembrava do momento em que caiu a ficha que não estava saindo com apenas porque sentia que devia alguma coisa. Sam, que sempre fora muito perceptiva, observou através do copo de cerveja, enquanto ele comentava sobre o filme que o então novíssimo casal tinha visto em um cinema ao ar livre, quando disse:
— Você gosta dela.
— É claro. Não o fosse, não estava saindo com ela – replicou na defensiva. A mão estava no cabelo em um tique nervoso. Sam sorriu.
— Falo de gostar de verdade. De amar.
ficou calado; ele, que costumava ter sempre algo na ponta da língua, não era capaz de responder aquela verdade fresquinha em seu prato.
Quando estava triste, ele ficava também. Em dias felizes, era o sol e ele, um girassol. Clichê e meio brega, não é verdade?
Mas, diga-me há outra forma de se apaixonar que não seja brega?
E então, porque amava aquela mulher, começou a reparar em pintura; aprendeu suas alergias e passou a evitar alguns restaurantes. Aos poucos, ele passou a ser quem era obcecado, não ela. Precisava receber-lhe mensagens, uma ligação antes de dormir… Não tinha como vê-la e não beijá-la – nem que fosse de leve, com os lábios tão selados quanto cartas confidenciais. Precisava – melhor, necessitava tocá-la as mãos, o quadril, o rosto.
Para os amigos, quando eles se casaram, foi muito rápido. Para eles, demorou uma eternidade.
voltou ao presente ao ouvir a voz de , sob o barulho da colher misturando açúcar no corpo:
— Acho que vou decidir hoje a data da amostra.
Desde que conheceu o marido, sempre soube que era um homem simpático. No entanto, naqueles momentos em que ele estava sério, com a mandíbula trincada de concentração, levantava o olhar desperto e sorria… Era sublime.
– Que bom ouvir isso, amor. – Ele pegou-lhe a mão e apertou. – Não vejo a hora de ver a sua estreia.
– Reestreia – corrigiu com um sorriso travesso.
amava o sorriso dela.
###
Esther chegou na delegacia como de quem tinha saído diretamente do funeral. A face pálida e o cabelo tão milimetricamente penteado a fazia parecer uma boneca – no entanto, ao sentar-se do outro lado da mesa, sua feição dura indicava que havia mais do que uma tristeza de perder a amiga: era o desejo de alcançar justiça.
— Você foi quem fez a denúncia. Como percebeu que sua amiga estava desaparecida?
Ela deu um suspiro como de quem estava pronta para dizer a verdade entalada em sua garganta.
— Sim, liguei para ela algumas vezes durante os dias desaparecidos e mandei mensagem. Pode olhar no histórico – justificou Alana. — Ela nunca foi de sumir assim, sempre fomos muito próximas…
— Havia algo de muito diferente no tópico das conversas de vocês? – indagou .
Esther lambeu os lábios e deu um suspiro.
— Ela estava tendo problemas no casamento.
— Que problemas?
Ela apertou os lábios antes de dizer.
— Will tinha uma amante. Quer dizer, achava que era o caso dele ter uma amante.
— E o que você achava? — disse Lawrence com a sobrancelha levantada.
— Ele comprou joias que não eram para ela… – replicou Esther. — Era óbvio que a estava traindo.
Não havia sequer requisito de dúvida em Esther, embora suas palavras fossem tão calculadas quanto as de uma atriz. Ela tinha certeza que Alana, sua preciosa amiga, estava sendo traída pelo verme do Will.
— Como Alana reagiu quando descobriu que estava sendo traída?
lembrava das reações das ex-namoradas na época da escola, que descobriram que não eram as únicas que recebiam a atenção dele. Quase perdeu alguns dentes por conta do seu comportamento.
Esther finalmente deu lugar para a raiva - disse o quão transtornada e agressiva ficava a amiga. Tão raivosa que perguntou se não havia espaço para tristeza de ter a confiança destruída.
Ele não conseguia imaginar sua esposa com outra pessoa; o simples pensamento fazia seu coração arder no peito.
Pelo relato de Esther, a reação de Alana foi de criar um plano para flagrar o marido. Quis confrontá-lo. Estava com planos de arrumar suas coisas e ir embora, mas, no dia seguinte, Alana mandou mensagem falando que tinha mudado de ideia.
— Quem muda de ideia assim? Pelo amor de Deus, o homem tava traindo ela!
E os xingamentos se sucederam de forma tão acalorada que surpreendeu os detetives. Esther claramente acreditava que a amiga tinha sido morta por Will - mas o odiava muito mais por ter convencido Alana a continuar o casamento, o que acreditava ser apenas mais uma forma de mandá-la em direção à morte.
Contou que a encontrava uma vez por semana no café de sempre, mas que ela não apareceu e nem confirmou que ia no dia do seu desaparecimento.
— Nunca passamos muito tempo sem conversar. Ela ficou esquisita de repente.
###
As palavras do depoimento de quase 2 horas estavam transcritas no papel. sentia como se tivesse ficado muito ruim em seu trabalho — saber que Will estava traindo a esposa deveria fazê-lo acreditar cada vez mais na narrativa de que ele era o culpado, no entanto, algo não batia.
— Toma.
A voz feminina com tons de mau humor ressoou, junto com o barulho da caneca de café batendo em sua mesa. Samantha olhava com cara de poucos amigos, o que o fez engolir a piada que ele faria em momentos como aquele.
Era melhor não cutucar onça com vara curta.
— Quer dar uma olhada?
Sam entortou a boca com tédio, mas arrancou o papel das mãos do detetive, como se lhes pertencessem.
Talvez pertencessem mesmo.
pegou a caneca com café com cuidado e bebericou – tinha a quantidade de açúcar perfeita. Buscou o celular por hábito, enquanto esperava os comentários da policial. Então, leu algo que deixou-lhe nervoso:
“Lucy chegou aqui em casa com uma mochila dizendo que vai morar com você. O que tá acontecendo, ?”
Era uma fase da arte de : tudo era azul. Azul bebê, azul celeste, azul cobalto, azul marinho, azul turquesa, azul royal, azul piscina.
A tela dessa vez tinha traços finos de uma mão atravessando o que parecia uma parede.
— Bom dia! – murmurou , antes de beijar a têmpora de sua esposa.
A pele de estava quente sobre os lábios; a resposta soou como um suspiro escaldante pelo peito de . Que coisa grandiosa era aquele sentimento que antes parecia ser apenas pena: e então, a mulher de impulsos residiu em seu coração de forma que não sairia mais nem com reza braba.
Ele ainda lembrava do momento em que caiu a ficha que não estava saindo com apenas porque sentia que devia alguma coisa. Sam, que sempre fora muito perceptiva, observou através do copo de cerveja, enquanto ele comentava sobre o filme que o então novíssimo casal tinha visto em um cinema ao ar livre, quando disse:
— Você gosta dela.
— É claro. Não o fosse, não estava saindo com ela – replicou na defensiva. A mão estava no cabelo em um tique nervoso. Sam sorriu.
— Falo de gostar de verdade. De amar.
ficou calado; ele, que costumava ter sempre algo na ponta da língua, não era capaz de responder aquela verdade fresquinha em seu prato.
Quando estava triste, ele ficava também. Em dias felizes, era o sol e ele, um girassol. Clichê e meio brega, não é verdade?
Mas, diga-me há outra forma de se apaixonar que não seja brega?
E então, porque amava aquela mulher, começou a reparar em pintura; aprendeu suas alergias e passou a evitar alguns restaurantes. Aos poucos, ele passou a ser quem era obcecado, não ela. Precisava receber-lhe mensagens, uma ligação antes de dormir… Não tinha como vê-la e não beijá-la – nem que fosse de leve, com os lábios tão selados quanto cartas confidenciais. Precisava – melhor, necessitava tocá-la as mãos, o quadril, o rosto.
Para os amigos, quando eles se casaram, foi muito rápido. Para eles, demorou uma eternidade.
voltou ao presente ao ouvir a voz de , sob o barulho da colher misturando açúcar no corpo:
— Acho que vou decidir hoje a data da amostra.
Desde que conheceu o marido, sempre soube que era um homem simpático. No entanto, naqueles momentos em que ele estava sério, com a mandíbula trincada de concentração, levantava o olhar desperto e sorria… Era sublime.
– Que bom ouvir isso, amor. – Ele pegou-lhe a mão e apertou. – Não vejo a hora de ver a sua estreia.
– Reestreia – corrigiu com um sorriso travesso.
amava o sorriso dela.
Esther chegou na delegacia como de quem tinha saído diretamente do funeral. A face pálida e o cabelo tão milimetricamente penteado a fazia parecer uma boneca – no entanto, ao sentar-se do outro lado da mesa, sua feição dura indicava que havia mais do que uma tristeza de perder a amiga: era o desejo de alcançar justiça.
— Você foi quem fez a denúncia. Como percebeu que sua amiga estava desaparecida?
Ela deu um suspiro como de quem estava pronta para dizer a verdade entalada em sua garganta.
— Sim, liguei para ela algumas vezes durante os dias desaparecidos e mandei mensagem. Pode olhar no histórico – justificou Alana. — Ela nunca foi de sumir assim, sempre fomos muito próximas…
— Havia algo de muito diferente no tópico das conversas de vocês? – indagou .
Esther lambeu os lábios e deu um suspiro.
— Ela estava tendo problemas no casamento.
— Que problemas?
Ela apertou os lábios antes de dizer.
— Will tinha uma amante. Quer dizer, achava que era o caso dele ter uma amante.
— E o que você achava? — disse Lawrence com a sobrancelha levantada.
— Ele comprou joias que não eram para ela… – replicou Esther. — Era óbvio que a estava traindo.
Não havia sequer requisito de dúvida em Esther, embora suas palavras fossem tão calculadas quanto as de uma atriz. Ela tinha certeza que Alana, sua preciosa amiga, estava sendo traída pelo verme do Will.
— Como Alana reagiu quando descobriu que estava sendo traída?
lembrava das reações das ex-namoradas na época da escola, que descobriram que não eram as únicas que recebiam a atenção dele. Quase perdeu alguns dentes por conta do seu comportamento.
Esther finalmente deu lugar para a raiva - disse o quão transtornada e agressiva ficava a amiga. Tão raivosa que perguntou se não havia espaço para tristeza de ter a confiança destruída.
Ele não conseguia imaginar sua esposa com outra pessoa; o simples pensamento fazia seu coração arder no peito.
Pelo relato de Esther, a reação de Alana foi de criar um plano para flagrar o marido. Quis confrontá-lo. Estava com planos de arrumar suas coisas e ir embora, mas, no dia seguinte, Alana mandou mensagem falando que tinha mudado de ideia.
— Quem muda de ideia assim? Pelo amor de Deus, o homem tava traindo ela!
E os xingamentos se sucederam de forma tão acalorada que surpreendeu os detetives. Esther claramente acreditava que a amiga tinha sido morta por Will - mas o odiava muito mais por ter convencido Alana a continuar o casamento, o que acreditava ser apenas mais uma forma de mandá-la em direção à morte.
Contou que a encontrava uma vez por semana no café de sempre, mas que ela não apareceu e nem confirmou que ia no dia do seu desaparecimento.
— Nunca passamos muito tempo sem conversar. Ela ficou esquisita de repente.
As palavras do depoimento de quase 2 horas estavam transcritas no papel. sentia como se tivesse ficado muito ruim em seu trabalho — saber que Will estava traindo a esposa deveria fazê-lo acreditar cada vez mais na narrativa de que ele era o culpado, no entanto, algo não batia.
— Toma.
A voz feminina com tons de mau humor ressoou, junto com o barulho da caneca de café batendo em sua mesa. Samantha olhava com cara de poucos amigos, o que o fez engolir a piada que ele faria em momentos como aquele.
Era melhor não cutucar onça com vara curta.
— Quer dar uma olhada?
Sam entortou a boca com tédio, mas arrancou o papel das mãos do detetive, como se lhes pertencessem.
Talvez pertencessem mesmo.
pegou a caneca com café com cuidado e bebericou – tinha a quantidade de açúcar perfeita. Buscou o celular por hábito, enquanto esperava os comentários da policial. Então, leu algo que deixou-lhe nervoso:
“Lucy chegou aqui em casa com uma mochila dizendo que vai morar com você. O que tá acontecendo, ?”
Capítulo 7 - A suspeita e a traição
Lucy observou o virar das mãos sujas de tinta de sua madrasta. Parecia estar em uma entrevista - ela perguntava sobre a escola, o futebol e a aula de canto. As respostas eram secas, desviantes, completamente vazias de significado e, talvez, explicasse o porquê de olhar para a porta do quarto da menina sempre que tinha oportunidade.
Agora que estava em Missouri por tempo indeterminado, Lucy teria que lidar com a mulher mais silenciosa que conhecera: a madrasta. A menina não tinha nada contra a esposa do pai - ela nunca dera nenhuma abertura para ser detestável, mesmo no auge de seu ciúmes infantil.
não se metia nas conversas entre ela e o pai; todos os anos ganhava os presentes mais caros da madrasta que, só mais tarde, descobriu ser mais rica do que as roupas despojadas sugeriram. O quarto de Lucy na casa tinha ganhado um grande desenho na parede que sugeria uma Hermione jogadora de futebol feita pela artista; a junção das duas coisas que Lucy mais amava, tudo isso feito pela mulher de seu pai.
— Quer algo para jantar? — indagou .
— Estou sem fome.
A mulher levantou as sobrancelhas, mas nada disse. Lucy deu um sorriso falso, com as mãos na barriga e os pés batendo em um ritmo ansioso no chão. Ainda não tinha desfeito a grande mochila rosa que estava abarrotada de roupa.
conhecia, de longe, uma jovenzinha que fugiu de casa.
O barulho da porta da garagem foi o suficiente para ambas suspirarem por finalizar aquela esquisita interação. , de alívio; Lucy, de nervoso.
O pai tinha chegado.
###
Bárbara morava em Chicago e já sabia que sua filha não estava na casa da amiga que fora dormir no dia anterior. Estava fumegando pelo nariz com a insolência de Lucy, mas decidiu que era quem poderia lidar melhor com aquilo no momento.
, porém, achava que não.
Momentos raros como aquele, quando ele esquecia que Lucy era uma criança e, como outra qualquer, tinha tendências a fazer escolhas erradas, ele entendia porque o pai era tão rigoroso.
Somos como nossos pais, afinal.
— Papai, quis te fazer uma surpresa!
Pela primeira vez em todos os anos sendo pai de Lucy, quis bater na filha.
No entanto, ele escutou a quase adolescente embrulhar-se em muitas histórias, dignas de uma criança mentirosa que ensaiou diversas vezes o que iria dizer. No entanto, Lucy não calculou o fato de que seu pai lidava com mentirosos com frequência — e não só isso, ele mesmo foi um mentiroso nato na idade dela.
Foi preciso apenas duas perguntas que necessitavam de respostas diretas para desmontar a menina: foi muito choro e abraços de quem estava sentindo pressão demais com o time de futebol, as mudanças do corpo e não saber lidar com a mãe dando total atenção ao irmão que acabara de nascer.
escutou toda conversa com o coração pequenininho - as paredes eram incrivelmente finas. Pensou no quanto gostaria de ser próxima do pai para chorar e dizer o que sentia quando estava nessa idade.
Quando saiu do quarto exausto emocionalmente e pensando em apenas pedir uma pizza e banhar-se, já estava na cozinha ligando para a rede de pizzaria que eles sempre contataram em dias ruins. Ele sorriu sozinho e suspirou aliviado por não estar só.
O alívio, porém, durou muito pouco. Ao buscar uma toalha para sua filha no armário que ficava no estúdio de , encontrou, pela metade, uma carta destinada a Elliot Russell.
###
Richard Lawrence era uma pessoa limitada. Ele demorou muito tempo para conseguir admitir isso, precisou de um divórcio conturbado, brigas com a ex-mulher e 2 meses de terapia (que foi abandonada antes de receber alta). Assim que percebeu que não era o detetive acima da média que sempre imaginou ser, passou a reconhecer as melhores características daqueles que trabalhavam com ele.
Para Richard, era um excelente detetive. Não sem defeitos, era verdade; era um homem organizado, focado e buscava justiça - as características básicas de um bom policial, mas tão raras, que o fazia ser um destaque na delegacia.
Naquele dia, algo estava errado com seu companheiro de equipe. O maior indicativo disso era a mesa repleta de papéis em cima da mesa de .
Lawrence não gostava de se meter na vida dos outros, no entanto, já tinha percebido que a mulher de , conveniente herdeira, era capaz de manipular o humor do homem com a facilidade de uma feiticeira. E ainda tinha a menina, filha de uma gravidez na adolescência, que era tema constante das conversas casuais na pausa do café.
— Hey – cumprimentou ao parceiro. – Que bagunça é essa?
passou a mão no rosto rudemente.
— Não faço ideia… — balançou a cabeça, voltando para a realidade. — São registros de Will James quando era esportista de alto-rendimento e estava na faculdade.
— E qual é o veredito?
parecia uma criança que passou o dia assistindo TV e era obrigada a sair para brincar, por uma mãe impaciente, quando disse:
— Ele é culpado, todos nós sabemos. Ele tinha uma amante, aliás, que pode estar envolvida. Você já descobriu quem era?
O detetive não estava em seus dias normais, era claro. Ter se apegado tanto à teoria de feminicídio - provável, é verdade - quando as pistas eram mais circunstanciais provava que ele não estava em seus dias mais espertos.
Richard pegou o que parecia ser um resumo do que coletara; era um emaranhado de informações que deveria fazer sentido apenas para quem escreveu. O detetive suspirou. Isso não iria dar certo.
— Pegue sua jaqueta, vamos dar uma pausa.
Sem reclamar, levantou-se.
— Vamos para onde?
Ainda era 14hrs da tarde quando Richard respondeu:
— Vamos beber.
++++++++++
1 semana antes do crime
— …esse daqui é sem leite, não esquece — disse Esther ao finalizar o pedido. O lugar que ia toda a semana com Alana estava com funcionários novos e alguns tendiam a esquecer que sua amiga era intolerante a lactose.
Esther estava com o moletom cinza da faculdade, com o capuz escondendo os cabelos. Não tinha se dado o trabalho de maquiar-se, também; quem sempre vinha arrumadíssima para o encontro das duas era a amiga, e essa era a função de Alana na dinâmica que compartilhavam desde o Ensino Médio.
Alana tinha até mesmo tentado uma carreira de influencer, mas desistiu muito antes de atingir 1 mil visualizações no antigo blog. No entanto, nunca deixou de ser a mais bem vestida, a mais simpática e a mais interessante em todos os lugares que ia. Às vezes, Esther sentia inveja da amiga e sua personalidade solar.
Quando Esther sentou-se para esperar o pedido, a amiga entrou no café um tanto ansiosa; usava uma camisa escrita MIAMI BEACH 1896, calças leggings cheias de pelos e chinelos trocados.
Era uma roupa de uma americana normal, exceto que Alana não usaria em dias normais.
— Amiga…
— Estou sendo traída — disse Alana.
Sem cumprimentos, sem enrolações. Os olhos marejados, a boca pequena fazendo um bico.
É, definitivamente não foi um dia normal.
Agora que estava em Missouri por tempo indeterminado, Lucy teria que lidar com a mulher mais silenciosa que conhecera: a madrasta. A menina não tinha nada contra a esposa do pai - ela nunca dera nenhuma abertura para ser detestável, mesmo no auge de seu ciúmes infantil.
não se metia nas conversas entre ela e o pai; todos os anos ganhava os presentes mais caros da madrasta que, só mais tarde, descobriu ser mais rica do que as roupas despojadas sugeriram. O quarto de Lucy na casa tinha ganhado um grande desenho na parede que sugeria uma Hermione jogadora de futebol feita pela artista; a junção das duas coisas que Lucy mais amava, tudo isso feito pela mulher de seu pai.
— Quer algo para jantar? — indagou .
— Estou sem fome.
A mulher levantou as sobrancelhas, mas nada disse. Lucy deu um sorriso falso, com as mãos na barriga e os pés batendo em um ritmo ansioso no chão. Ainda não tinha desfeito a grande mochila rosa que estava abarrotada de roupa.
conhecia, de longe, uma jovenzinha que fugiu de casa.
O barulho da porta da garagem foi o suficiente para ambas suspirarem por finalizar aquela esquisita interação. , de alívio; Lucy, de nervoso.
O pai tinha chegado.
Bárbara morava em Chicago e já sabia que sua filha não estava na casa da amiga que fora dormir no dia anterior. Estava fumegando pelo nariz com a insolência de Lucy, mas decidiu que era quem poderia lidar melhor com aquilo no momento.
, porém, achava que não.
Momentos raros como aquele, quando ele esquecia que Lucy era uma criança e, como outra qualquer, tinha tendências a fazer escolhas erradas, ele entendia porque o pai era tão rigoroso.
Somos como nossos pais, afinal.
— Papai, quis te fazer uma surpresa!
Pela primeira vez em todos os anos sendo pai de Lucy, quis bater na filha.
No entanto, ele escutou a quase adolescente embrulhar-se em muitas histórias, dignas de uma criança mentirosa que ensaiou diversas vezes o que iria dizer. No entanto, Lucy não calculou o fato de que seu pai lidava com mentirosos com frequência — e não só isso, ele mesmo foi um mentiroso nato na idade dela.
Foi preciso apenas duas perguntas que necessitavam de respostas diretas para desmontar a menina: foi muito choro e abraços de quem estava sentindo pressão demais com o time de futebol, as mudanças do corpo e não saber lidar com a mãe dando total atenção ao irmão que acabara de nascer.
escutou toda conversa com o coração pequenininho - as paredes eram incrivelmente finas. Pensou no quanto gostaria de ser próxima do pai para chorar e dizer o que sentia quando estava nessa idade.
Quando saiu do quarto exausto emocionalmente e pensando em apenas pedir uma pizza e banhar-se, já estava na cozinha ligando para a rede de pizzaria que eles sempre contataram em dias ruins. Ele sorriu sozinho e suspirou aliviado por não estar só.
O alívio, porém, durou muito pouco. Ao buscar uma toalha para sua filha no armário que ficava no estúdio de , encontrou, pela metade, uma carta destinada a Elliot Russell.
Richard Lawrence era uma pessoa limitada. Ele demorou muito tempo para conseguir admitir isso, precisou de um divórcio conturbado, brigas com a ex-mulher e 2 meses de terapia (que foi abandonada antes de receber alta). Assim que percebeu que não era o detetive acima da média que sempre imaginou ser, passou a reconhecer as melhores características daqueles que trabalhavam com ele.
Para Richard, era um excelente detetive. Não sem defeitos, era verdade; era um homem organizado, focado e buscava justiça - as características básicas de um bom policial, mas tão raras, que o fazia ser um destaque na delegacia.
Naquele dia, algo estava errado com seu companheiro de equipe. O maior indicativo disso era a mesa repleta de papéis em cima da mesa de .
Lawrence não gostava de se meter na vida dos outros, no entanto, já tinha percebido que a mulher de , conveniente herdeira, era capaz de manipular o humor do homem com a facilidade de uma feiticeira. E ainda tinha a menina, filha de uma gravidez na adolescência, que era tema constante das conversas casuais na pausa do café.
— Hey – cumprimentou ao parceiro. – Que bagunça é essa?
passou a mão no rosto rudemente.
— Não faço ideia… — balançou a cabeça, voltando para a realidade. — São registros de Will James quando era esportista de alto-rendimento e estava na faculdade.
— E qual é o veredito?
parecia uma criança que passou o dia assistindo TV e era obrigada a sair para brincar, por uma mãe impaciente, quando disse:
— Ele é culpado, todos nós sabemos. Ele tinha uma amante, aliás, que pode estar envolvida. Você já descobriu quem era?
O detetive não estava em seus dias normais, era claro. Ter se apegado tanto à teoria de feminicídio - provável, é verdade - quando as pistas eram mais circunstanciais provava que ele não estava em seus dias mais espertos.
Richard pegou o que parecia ser um resumo do que coletara; era um emaranhado de informações que deveria fazer sentido apenas para quem escreveu. O detetive suspirou. Isso não iria dar certo.
— Pegue sua jaqueta, vamos dar uma pausa.
Sem reclamar, levantou-se.
— Vamos para onde?
Ainda era 14hrs da tarde quando Richard respondeu:
— Vamos beber.
1 semana antes do crime
— …esse daqui é sem leite, não esquece — disse Esther ao finalizar o pedido. O lugar que ia toda a semana com Alana estava com funcionários novos e alguns tendiam a esquecer que sua amiga era intolerante a lactose.
Esther estava com o moletom cinza da faculdade, com o capuz escondendo os cabelos. Não tinha se dado o trabalho de maquiar-se, também; quem sempre vinha arrumadíssima para o encontro das duas era a amiga, e essa era a função de Alana na dinâmica que compartilhavam desde o Ensino Médio.
Alana tinha até mesmo tentado uma carreira de influencer, mas desistiu muito antes de atingir 1 mil visualizações no antigo blog. No entanto, nunca deixou de ser a mais bem vestida, a mais simpática e a mais interessante em todos os lugares que ia. Às vezes, Esther sentia inveja da amiga e sua personalidade solar.
Quando Esther sentou-se para esperar o pedido, a amiga entrou no café um tanto ansiosa; usava uma camisa escrita MIAMI BEACH 1896, calças leggings cheias de pelos e chinelos trocados.
Era uma roupa de uma americana normal, exceto que Alana não usaria em dias normais.
— Amiga…
— Estou sendo traída — disse Alana.
Sem cumprimentos, sem enrolações. Os olhos marejados, a boca pequena fazendo um bico.
É, definitivamente não foi um dia normal.
Capítulo 8 - O passado e o perdão
Lawrence descobriu que conseguia passar muito tempo calado naquela primeira crise no casamento. Admirou o autocontrole de — este tomou apenas uma caneca, bebericando como quem não queria que acabasse logo. Foi quando não sobrou nenhuma gotinha, que Richard finalmente disse:
— Não precisa me dizer o que aconteceu, eu genuinamente não me interesso — confessou. — Mas estou com um parceiro imprestável num caso que costumamos resolver em menos de duas semanas.
— É, foi mal — disse , sem delongas. — Eu descobri uma coisa ontem à noite e mal consegui pregar os olhos… escreveu uma carta para o ex.
Lawrence ergueu a sobrancelha.
— E você quer conselho de um recém-divorciado por quê?
— Pra eu fazer exatamente o contrário.
Demorou apenas três segundos para eles trocarem sorrisinhos.
— Você leu o que estava escrito?
— Só a primeira linha.
— E conversou com a mulher sobre isso?
— Ainda não.
— Porra! — xingou Lawrence. — Vai tomar no cu tu também, . Me ajuda a te ajudar.
passou as mãos no rosto.
— Tô com minha filha adolescente fujona em casa. Me dá um tempo.
— Mesmo assim, cara. A gente conversa, pergunta, sei lá…
Admitir que Richard estava certo era sempre muito difícil. No entanto, havia algo ainda mais difícil: reconhecer que talvez não fosse o marido perfeito que imaginava ser.
Ele amava , mesmo ela sendo uma incógnita. Ela era inalcançável. Ele pagaria um bom dinheiro para entender o que se passava na cabeça dela.
— Eu tenho medo da resposta — disse . — Não sei se saberei lidar com ela.
Do outro lado da mesa da sala de depoimento estava Will James, que não respondeu a nenhuma pergunta na última hora. É claro, ele estava acompanhado por um advogado.
Richard já bufava, ciente de que aquela era uma tarde perdida. Àquela altura, nem se esforçava mais para intimidá-lo com perguntas. Will mal mudou de expressão quando perguntaram sobre a identidade de sua amante — com certeza, um ótimo trabalho da advogada.
Já , desviava o olhar para o bolso toda vez que sentia o celular vibrar com mais uma mensagem: era Bárbara, falando sobre a filha. Ela estava prestes a repetir de ano.
Chame de karma ou Lei da Semeadura, mas a verdade era só uma: estava lidando com os mesmos problemas que os pais enfrentaram quando ele era adolescente. Ele só esperava que Lucy o ouvisse antes de chegar à gravidez precoce. O detetive encolheu os ombros ao sentir um calafrio. Que Deus desse juízo à sua filha antes que isso acontecesse.
Sabia que negligenciava a criação de Lucy e, muitas vezes, colocava-se como vítima ao não reconhecer que podia se esforçar ainda mais para estar perto dela. Não devia estar presente apenas nas conquistas e nos aniversários — há algo muito mais especial na rotina: pequenas broncas e conversas ordinárias que constroem o caráter de uma pessoa. E não estava lá para participar.
De volta à realidade, soltou um suspiro de cansaço. Elliot estava apenas torrando a paciência dos detetives, já que sabia que as provas que o incriminavam eram apenas circunstanciais.
Então, ele recebeu a mensagem do T.I:
“Conseguimos uma liminar para analisar o celular de Alana e você vai achar interessante.”
####
Carta de para Elliot
Elliot,
Às vezes, minhas memórias me traem. Às vezes, penso muito em você. Penso que você sempre me dava um buquê de flores quando íamos a um restaurante novo. Eu não recebo flores com frequência agora. Também não saio para muitos encontros hoje em dia.
Antes, eu conhecia todos os restaurantes de Kansas City. Hoje em dia, é raro não pedir comida por delivery. Também não sei quais são as últimas novidades daquelas marcas de tênis que você acompanhava.
Você sabia que o Los Angeles Dodgers vai ganhar de novo o campeonato? Quer dizer, eu acho. Não assistimos a baseball aqui. prefere basquete.
Honestamente, eu também prefiro basquete. Prefiro comer em casa, usando meias e roupas sujas de tinta. Não gosto do cheiro de rosas. Nunca sei o que fazer com flores mortas, a não ser pintá-las. Aliás, aqueles tênis que você gostava eram horríveis — nada funcionais.
Eu odeio que você tenha me feito sorrir tantos dias, porque os dias de dor não compensam. Preferia nunca ter te amado, levando suas opiniões como se fossem minha Bíblia pessoal.
Você me quebrou de um jeito irreparável, Elliot. Agora, sou incapaz de amar o homem da minha vida de forma completa por sua culpa. E de todas as maldades que você poderia ter feito, manter-me viva foi a pior delas.
— Não precisa me dizer o que aconteceu, eu genuinamente não me interesso — confessou. — Mas estou com um parceiro imprestável num caso que costumamos resolver em menos de duas semanas.
— É, foi mal — disse , sem delongas. — Eu descobri uma coisa ontem à noite e mal consegui pregar os olhos… escreveu uma carta para o ex.
Lawrence ergueu a sobrancelha.
— E você quer conselho de um recém-divorciado por quê?
— Pra eu fazer exatamente o contrário.
Demorou apenas três segundos para eles trocarem sorrisinhos.
— Você leu o que estava escrito?
— Só a primeira linha.
— E conversou com a mulher sobre isso?
— Ainda não.
— Porra! — xingou Lawrence. — Vai tomar no cu tu também, . Me ajuda a te ajudar.
passou as mãos no rosto.
— Tô com minha filha adolescente fujona em casa. Me dá um tempo.
— Mesmo assim, cara. A gente conversa, pergunta, sei lá…
Admitir que Richard estava certo era sempre muito difícil. No entanto, havia algo ainda mais difícil: reconhecer que talvez não fosse o marido perfeito que imaginava ser.
Ele amava , mesmo ela sendo uma incógnita. Ela era inalcançável. Ele pagaria um bom dinheiro para entender o que se passava na cabeça dela.
— Eu tenho medo da resposta — disse . — Não sei se saberei lidar com ela.
Do outro lado da mesa da sala de depoimento estava Will James, que não respondeu a nenhuma pergunta na última hora. É claro, ele estava acompanhado por um advogado.
Richard já bufava, ciente de que aquela era uma tarde perdida. Àquela altura, nem se esforçava mais para intimidá-lo com perguntas. Will mal mudou de expressão quando perguntaram sobre a identidade de sua amante — com certeza, um ótimo trabalho da advogada.
Já , desviava o olhar para o bolso toda vez que sentia o celular vibrar com mais uma mensagem: era Bárbara, falando sobre a filha. Ela estava prestes a repetir de ano.
Chame de karma ou Lei da Semeadura, mas a verdade era só uma: estava lidando com os mesmos problemas que os pais enfrentaram quando ele era adolescente. Ele só esperava que Lucy o ouvisse antes de chegar à gravidez precoce. O detetive encolheu os ombros ao sentir um calafrio. Que Deus desse juízo à sua filha antes que isso acontecesse.
Sabia que negligenciava a criação de Lucy e, muitas vezes, colocava-se como vítima ao não reconhecer que podia se esforçar ainda mais para estar perto dela. Não devia estar presente apenas nas conquistas e nos aniversários — há algo muito mais especial na rotina: pequenas broncas e conversas ordinárias que constroem o caráter de uma pessoa. E não estava lá para participar.
De volta à realidade, soltou um suspiro de cansaço. Elliot estava apenas torrando a paciência dos detetives, já que sabia que as provas que o incriminavam eram apenas circunstanciais.
Então, ele recebeu a mensagem do T.I:
“Conseguimos uma liminar para analisar o celular de Alana e você vai achar interessante.”
Carta de para Elliot
Elliot,
Às vezes, minhas memórias me traem. Às vezes, penso muito em você. Penso que você sempre me dava um buquê de flores quando íamos a um restaurante novo. Eu não recebo flores com frequência agora. Também não saio para muitos encontros hoje em dia.
Antes, eu conhecia todos os restaurantes de Kansas City. Hoje em dia, é raro não pedir comida por delivery. Também não sei quais são as últimas novidades daquelas marcas de tênis que você acompanhava.
Você sabia que o Los Angeles Dodgers vai ganhar de novo o campeonato? Quer dizer, eu acho. Não assistimos a baseball aqui. prefere basquete.
Honestamente, eu também prefiro basquete. Prefiro comer em casa, usando meias e roupas sujas de tinta. Não gosto do cheiro de rosas. Nunca sei o que fazer com flores mortas, a não ser pintá-las. Aliás, aqueles tênis que você gostava eram horríveis — nada funcionais.
Eu odeio que você tenha me feito sorrir tantos dias, porque os dias de dor não compensam. Preferia nunca ter te amado, levando suas opiniões como se fossem minha Bíblia pessoal.
Você me quebrou de um jeito irreparável, Elliot. Agora, sou incapaz de amar o homem da minha vida de forma completa por sua culpa. E de todas as maldades que você poderia ter feito, manter-me viva foi a pior delas.
Capítulo 9 - A verdade e o boato
Lucy estava jogando no celular quando perguntou o que ela queria para jantar. A menina apenas deu de ombros e não tirou o olhar da tela, resmungando que ainda estava no início da partida.
levantou as sobrancelhas, mas não disse nada. Iria ser lasanha congelada, decidiu. O dia havia sido estranhamente silencioso – esperava o barulho de estar com uma pré-adolescente em casa, mas apenas havia um pequeno rangido dos armários da cozinha sendo abertos por alguém faminto durante as horas em claro.
O celular vibrou com uma nova mensagem.
: Chegarei mais tarde em casa
: Avise a Lucy que irei ter uma conversa séria com ela quando chegar
: OK!
: Teremos lasanha do mercado no jantar hoje
: Legal.
A artista deixou a cabeça cair para o lado e franziu a testa, estranhando.“Legal?” Nenhum emoji? Ponto final na mensagem? Cadê o “eu te amo”?
sentiu um aperto no estômago. Fazia tempo que não ficava ansiosa em alguma interação com seu marido — sendo bem honesta, ele era fonte de sua calmaria, seu porto seguro. Só precisava de um pouco mais de afirmação.
Digitou “amo você” e apagou. Inconscientemente, levou o dedão da mão direita até os dentes e arrancou um pedaço de cutícula.
Estava sendo paranoica. Nada estava acontecendo. Deveria voltar-se às palavras da terapeuta, com quem se consultara no mesmo dia.
Mas, e se tivesse se cansado dela? E se ele tivesse encontrado alguém mais interessante, menos dramática? Alguém que o apoiasse mais do que necessitava mais de seu apoio?
Não se sentia tão miserável como em semanas anteriores, mas gostaria de dormir agarrada nele, sentir seu calor rodeando seus braços e perder-se em seu peito. Em dias como aquele, só conseguia dormir à noite inteira se estivesse com ela.
O barulho do microondas a fez acordar daqueles pensamentos obscuros. Não precisava ler além do que estava na mensagem. Lembrou-se da terapeuta dizendo que não poderia viver de especulações — tinha que entender as coisas como elas eram.
jantou sozinha naquela noite.
###
As câmeras do Café que Alana e Esther encontravam-se toda terça-feira comprovaram que a vítima não estava lá no dia que morreu. Esther aparecia nas imagens no horário descrito: estava de cabelo molhado, de moletom e sandálias como ela tinha dito. Nas imagens, a amiga comprou um café, olhou para a janela do estabelecimento várias vezes, também mandou as mensagens que a polícia estava ciente, e foi embora depois de 40 minutos de espera infrutífera.
— Então, vamos recapitular – iniciou o Detetive Lawrence. — Alana James foi vista pela última vez pelo seu marido depois de uma discussão, provavelmente porque descobriu que estava sendo traída. Pediu um tempo, não disse para onde ia e foi encontrada morta na casa de lago da família.
— A justificativa do marido para não procurá-la foi porque achou que ela estava na casa dos pais. Alana não conversava diariamente com eles, por isso os pais não sentiram falta dela… Apenas a amiga sentiu que algo estava errado. – Completou .
— A secretária de Will confirmou que ele chegou tarde e saiu cedo na terça em que Alana desapareceu — prosseguiu Lawrence, enquanto organizava a linha do tempo no quadro. — Disse também que ele comprou umas coisas para bebê naquela semana. Todo mundo achava que ele seria pai em breve. Ninguém sabia da crise no casamento, nem da amante.
balançou a cabeça.
— Se Alana estivesse grávida, saberíamos. Provavelmente era a amante que estava prenha.
Silêncio. Alguns segundos pensando até que continuou:
— Há mensagens dele no celular de Alana não respondidas. Dá a entender que o marido ficou no bar até mais tarde no dia da morte. Podemos conseguir imagens do lugar também?
Lawrence negou com a cabeça. Era um lugar inóspito, com segurança pífia. Só podiam confiar nas palavras dos funcionários do dia.
deu um meio sorriso lembrando dos áudios patéticos enviados por Will James. Ele admitia o affair, mas dizia que ia mudar, que tinha acabado de bloquear a dita cuja e que nunca mais iria vê-la de novo.
— Dá a entender que a amante era alguém próximo. É a peça que falta pra saber se estamos no caminho certo — comentou .
— Bem, sabemos que o assassino era uma das únicas pessoas que sabiam onde Alana estava e conhecia bem a casa do lago para entrar pela porta da frente.
— Esther foi a última pessoa que Alana falou por mensagens, confirmando a ida ao encontro semanal delas – acrescentou ele. — Já confirmamos o álibi dela na cafeteria de sempre.
Estava ficando tarde, mas ele não podia enrolar mais o caso daquela forma. A resposta parecia muito óbvia, no entanto, os problemas pessoais cegaram o bom entendimento de .
Lawrence pegou um papel qualquer, amassou e jogou no lixo.
Errou por pouco.
— Aposto dez pila que Esther é a amante misteriosa.
amassou uma outra folha de ofício e imitou seu amigo.
Acertou em cheio.
— E matou a amiga porque Will não queria se separar dela.
Os dois se olharam e riram das suas teorias mirabolantes.
Então, pararam de rir.
###
chegou em casa mais tarde do que planejou. A lasanha estava fria e pela metade, em cima da mesa em uma vasilha transparente. Com muita fome, o detetive pôs a comida no microondas antes de cumprimentar a filha, que estava esparramada no sofá da sala.
Lucy mexia no celular. Com as pernas esticadas, o moletom cinza sujo de farelos de biscoito, parecia uma adolescente comum. Quando o pai perguntou se ela tinha jantado, a menina respondeu que tinha acabado de comer.
O detetive suspirou; pensou nela pequena, de pernas gordinhas, capaz de formular apenas a palavra “água”. Lembrou de quando ela começou a se interessar por futebol, que queria ser goleira, mas era baixinha demais para alcançar as bolas. Apesar disso, sua filha era uma excelente ponta-esquerda, além de ter uma voz mezzo-soprano elogiada por onde ela ia nas competições regionais. Onde havia errado? Como uma garota tão nova tinha conseguido fugir de Chicago até Lee's Summit?
– O senhor chegou tarde, hein?
segurou a língua para não ser rude com a menina, que ele amava mais que tudo, mas que estava tirando-o do sério com facilidade.
– Sente aqui comigo na cozinha… Onde está ?
– Está pintando, eu acho.
Ela não estava; encontrou-a deitada na cama, com o celular aberto em um vídeo de comida pausado em uma mão, em uma posição de quem tinha pegado no sono em algum momento entre o sal e a farinha da receita. Desligou a luz com um meio sorriso e fechou a porta.
Lucy não parecia estar preparando-se para uma conversa difícil — muito pelo contrário, comia um pote de biscoitos como se não tivesse muitas preocupações.
Sem mais delongas, iniciou a difícil conversa:
— Sua mãe me enviou seu boletim. Parece que você não estava sendo escalada no time principal há um bom tempo no time de futebol, mas não era por falta de desempenho.
A adolescente parou de mastigar e tirou a mão do pote devagar.
— Ah, pai, as notas nem estão tão ruins assim – justificou ela. — Só preciso estudar para final de uma ou duas disciplinas.
segurava o garfo, ainda sem tocar na comida. Fitava a filha fixamente quando disse:
— Você perdeu as finais de matemática e de ciências com sua viagem até aqui, Lucy.
Ela arregalou os olhos.
— Sério? Mas o senhor pode resolver isso, não pode? Eles podem marcar outra data, se os pais conversarem…
Ele suspirou, pegou um pedaço da lasanha requentada, e colocou na boca. Não disse nada, o que assustou ainda mais a adolescente. Parecia que finalmente estava entendendo que estava com problemas.
— Ano passado, a mãe de Pearl fez isso. Sei que você consegue uma flexibilidade em…
O detetive não concentrou-se em ouvir o ruminar da filha; se prestasse a atenção em suas palavras, talvez desse vazão ao sentimento de frustração que sentia. Lucy estava confiante que aquilo era um problema mínimo.
— Você ficou em recuperação em cinco disciplinas, Lucy. Mesmo que pegue um avião para fazer suas provas amanhã, não haverá tempo hábil para você estudar e fazer todas elas.
Lucy encheu os olhos de lágrimas e o peito de apertou-se. Odiava vê-la chorar, mas o momento não requeria dele conforto.
— Bárbara comentou comigo que você estava matando aulas durante o ano. Conversamos sobre isso, lembra? – Ela balançou a cabeça em afirmação, enxugando as lágrimas com violência. – Mas não surtiu o efeito que eu esperava. Você repetiu de ano também por conta das faltas, Lucy.
— Papai, você não pode conversar com eles. Só foi um deslize.
— Você precisa entender que sua falta de compromisso com os estudos traz consequências – interrompeu ele, sem cerimônia. — O que a fez agir dessa maneira? Não entendo…
— O senhor vai me mandar de volta para Chicago?
Ele franziu o cenho, confuso.
— Mandar você para sua casa..?
— Lá não é minha casa! – Ela gritou. Lucy ficou vermelha, não controlando o choro. — Eu odeio aquele lugar! Odeio aquele idiota que mamãe casou! Odeio aquele pirralho que sempre fica pegando as minhas coisas! Odeio também! Por causa dela, você não foi me ver na final que eu ganhei! – A voz esganiçada pelo choro ficou ainda mais estridente. – E daí que eu reprovei de ano? Se a professora de história não tivesse me dedurado, até hoje você não ia saber que eu não estava indo pras aulas!
Tivera, enfim, a reação que esperava – a filha tinha que entender que suas ações tinham consequências. No entanto, ouvi-la desabafar de forma tão inesperada fazia seu coração se comprimir no peito.
levantou-se e deixou sua comida de lado, mas sua filha foi mais rápida e saiu em disparada até o quarto.
Foi quando o detetive levantou os olhos e viu que sua esposa, , encarava a cena em silêncio na porta da cozinha.
É, ele teria outra conversa difícil. A lasanha teria que esperar.
levantou as sobrancelhas, mas não disse nada. Iria ser lasanha congelada, decidiu. O dia havia sido estranhamente silencioso – esperava o barulho de estar com uma pré-adolescente em casa, mas apenas havia um pequeno rangido dos armários da cozinha sendo abertos por alguém faminto durante as horas em claro.
O celular vibrou com uma nova mensagem.
: Chegarei mais tarde em casa
: Avise a Lucy que irei ter uma conversa séria com ela quando chegar
: OK!
: Teremos lasanha do mercado no jantar hoje
: Legal.
A artista deixou a cabeça cair para o lado e franziu a testa, estranhando.“Legal?” Nenhum emoji? Ponto final na mensagem? Cadê o “eu te amo”?
sentiu um aperto no estômago. Fazia tempo que não ficava ansiosa em alguma interação com seu marido — sendo bem honesta, ele era fonte de sua calmaria, seu porto seguro. Só precisava de um pouco mais de afirmação.
Digitou “amo você” e apagou. Inconscientemente, levou o dedão da mão direita até os dentes e arrancou um pedaço de cutícula.
Estava sendo paranoica. Nada estava acontecendo. Deveria voltar-se às palavras da terapeuta, com quem se consultara no mesmo dia.
Mas, e se tivesse se cansado dela? E se ele tivesse encontrado alguém mais interessante, menos dramática? Alguém que o apoiasse mais do que necessitava mais de seu apoio?
Não se sentia tão miserável como em semanas anteriores, mas gostaria de dormir agarrada nele, sentir seu calor rodeando seus braços e perder-se em seu peito. Em dias como aquele, só conseguia dormir à noite inteira se estivesse com ela.
O barulho do microondas a fez acordar daqueles pensamentos obscuros. Não precisava ler além do que estava na mensagem. Lembrou-se da terapeuta dizendo que não poderia viver de especulações — tinha que entender as coisas como elas eram.
jantou sozinha naquela noite.
As câmeras do Café que Alana e Esther encontravam-se toda terça-feira comprovaram que a vítima não estava lá no dia que morreu. Esther aparecia nas imagens no horário descrito: estava de cabelo molhado, de moletom e sandálias como ela tinha dito. Nas imagens, a amiga comprou um café, olhou para a janela do estabelecimento várias vezes, também mandou as mensagens que a polícia estava ciente, e foi embora depois de 40 minutos de espera infrutífera.
— Então, vamos recapitular – iniciou o Detetive Lawrence. — Alana James foi vista pela última vez pelo seu marido depois de uma discussão, provavelmente porque descobriu que estava sendo traída. Pediu um tempo, não disse para onde ia e foi encontrada morta na casa de lago da família.
— A justificativa do marido para não procurá-la foi porque achou que ela estava na casa dos pais. Alana não conversava diariamente com eles, por isso os pais não sentiram falta dela… Apenas a amiga sentiu que algo estava errado. – Completou .
— A secretária de Will confirmou que ele chegou tarde e saiu cedo na terça em que Alana desapareceu — prosseguiu Lawrence, enquanto organizava a linha do tempo no quadro. — Disse também que ele comprou umas coisas para bebê naquela semana. Todo mundo achava que ele seria pai em breve. Ninguém sabia da crise no casamento, nem da amante.
balançou a cabeça.
— Se Alana estivesse grávida, saberíamos. Provavelmente era a amante que estava prenha.
Silêncio. Alguns segundos pensando até que continuou:
— Há mensagens dele no celular de Alana não respondidas. Dá a entender que o marido ficou no bar até mais tarde no dia da morte. Podemos conseguir imagens do lugar também?
Lawrence negou com a cabeça. Era um lugar inóspito, com segurança pífia. Só podiam confiar nas palavras dos funcionários do dia.
deu um meio sorriso lembrando dos áudios patéticos enviados por Will James. Ele admitia o affair, mas dizia que ia mudar, que tinha acabado de bloquear a dita cuja e que nunca mais iria vê-la de novo.
— Dá a entender que a amante era alguém próximo. É a peça que falta pra saber se estamos no caminho certo — comentou .
— Bem, sabemos que o assassino era uma das únicas pessoas que sabiam onde Alana estava e conhecia bem a casa do lago para entrar pela porta da frente.
— Esther foi a última pessoa que Alana falou por mensagens, confirmando a ida ao encontro semanal delas – acrescentou ele. — Já confirmamos o álibi dela na cafeteria de sempre.
Estava ficando tarde, mas ele não podia enrolar mais o caso daquela forma. A resposta parecia muito óbvia, no entanto, os problemas pessoais cegaram o bom entendimento de .
Lawrence pegou um papel qualquer, amassou e jogou no lixo.
Errou por pouco.
— Aposto dez pila que Esther é a amante misteriosa.
amassou uma outra folha de ofício e imitou seu amigo.
Acertou em cheio.
— E matou a amiga porque Will não queria se separar dela.
Os dois se olharam e riram das suas teorias mirabolantes.
Então, pararam de rir.
chegou em casa mais tarde do que planejou. A lasanha estava fria e pela metade, em cima da mesa em uma vasilha transparente. Com muita fome, o detetive pôs a comida no microondas antes de cumprimentar a filha, que estava esparramada no sofá da sala.
Lucy mexia no celular. Com as pernas esticadas, o moletom cinza sujo de farelos de biscoito, parecia uma adolescente comum. Quando o pai perguntou se ela tinha jantado, a menina respondeu que tinha acabado de comer.
O detetive suspirou; pensou nela pequena, de pernas gordinhas, capaz de formular apenas a palavra “água”. Lembrou de quando ela começou a se interessar por futebol, que queria ser goleira, mas era baixinha demais para alcançar as bolas. Apesar disso, sua filha era uma excelente ponta-esquerda, além de ter uma voz mezzo-soprano elogiada por onde ela ia nas competições regionais. Onde havia errado? Como uma garota tão nova tinha conseguido fugir de Chicago até Lee's Summit?
– O senhor chegou tarde, hein?
segurou a língua para não ser rude com a menina, que ele amava mais que tudo, mas que estava tirando-o do sério com facilidade.
– Sente aqui comigo na cozinha… Onde está ?
– Está pintando, eu acho.
Ela não estava; encontrou-a deitada na cama, com o celular aberto em um vídeo de comida pausado em uma mão, em uma posição de quem tinha pegado no sono em algum momento entre o sal e a farinha da receita. Desligou a luz com um meio sorriso e fechou a porta.
Lucy não parecia estar preparando-se para uma conversa difícil — muito pelo contrário, comia um pote de biscoitos como se não tivesse muitas preocupações.
Sem mais delongas, iniciou a difícil conversa:
— Sua mãe me enviou seu boletim. Parece que você não estava sendo escalada no time principal há um bom tempo no time de futebol, mas não era por falta de desempenho.
A adolescente parou de mastigar e tirou a mão do pote devagar.
— Ah, pai, as notas nem estão tão ruins assim – justificou ela. — Só preciso estudar para final de uma ou duas disciplinas.
segurava o garfo, ainda sem tocar na comida. Fitava a filha fixamente quando disse:
— Você perdeu as finais de matemática e de ciências com sua viagem até aqui, Lucy.
Ela arregalou os olhos.
— Sério? Mas o senhor pode resolver isso, não pode? Eles podem marcar outra data, se os pais conversarem…
Ele suspirou, pegou um pedaço da lasanha requentada, e colocou na boca. Não disse nada, o que assustou ainda mais a adolescente. Parecia que finalmente estava entendendo que estava com problemas.
— Ano passado, a mãe de Pearl fez isso. Sei que você consegue uma flexibilidade em…
O detetive não concentrou-se em ouvir o ruminar da filha; se prestasse a atenção em suas palavras, talvez desse vazão ao sentimento de frustração que sentia. Lucy estava confiante que aquilo era um problema mínimo.
— Você ficou em recuperação em cinco disciplinas, Lucy. Mesmo que pegue um avião para fazer suas provas amanhã, não haverá tempo hábil para você estudar e fazer todas elas.
Lucy encheu os olhos de lágrimas e o peito de apertou-se. Odiava vê-la chorar, mas o momento não requeria dele conforto.
— Bárbara comentou comigo que você estava matando aulas durante o ano. Conversamos sobre isso, lembra? – Ela balançou a cabeça em afirmação, enxugando as lágrimas com violência. – Mas não surtiu o efeito que eu esperava. Você repetiu de ano também por conta das faltas, Lucy.
— Papai, você não pode conversar com eles. Só foi um deslize.
— Você precisa entender que sua falta de compromisso com os estudos traz consequências – interrompeu ele, sem cerimônia. — O que a fez agir dessa maneira? Não entendo…
— O senhor vai me mandar de volta para Chicago?
Ele franziu o cenho, confuso.
— Mandar você para sua casa..?
— Lá não é minha casa! – Ela gritou. Lucy ficou vermelha, não controlando o choro. — Eu odeio aquele lugar! Odeio aquele idiota que mamãe casou! Odeio aquele pirralho que sempre fica pegando as minhas coisas! Odeio também! Por causa dela, você não foi me ver na final que eu ganhei! – A voz esganiçada pelo choro ficou ainda mais estridente. – E daí que eu reprovei de ano? Se a professora de história não tivesse me dedurado, até hoje você não ia saber que eu não estava indo pras aulas!
Tivera, enfim, a reação que esperava – a filha tinha que entender que suas ações tinham consequências. No entanto, ouvi-la desabafar de forma tão inesperada fazia seu coração se comprimir no peito.
levantou-se e deixou sua comida de lado, mas sua filha foi mais rápida e saiu em disparada até o quarto.
Foi quando o detetive levantou os olhos e viu que sua esposa, , encarava a cena em silêncio na porta da cozinha.
É, ele teria outra conversa difícil. A lasanha teria que esperar.
Continua...
Nota da autora: Como se concentrar no trabalho quando há tantos problemas para serem resolvidos em casa? E esse detetive é mole demais com a menina dele, pense…
Ahhh, ainda teremos mais conversas difíceis vindo por aí e iremos entender de vez o mistério.
Obrigada por acompanharem a Delatora até aqui. Tchauzinho!
Outras Fanfics:
Confidente
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Para saber se a história tem atualização pendente, clique aqui
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