Última atualização: 03/03/2019

Capítulo I.




O salão dos Rutherfords estava cheio. Lady Emmanuelle Rutherford, a Condessa de Northampton, era conhecida pelos bailes excepcionais e saraus que faziam os seus convidados deleitarem-se no melhor da música e poesia atemporal. Naquela noite, o salão estava agitado, o barulho das risadas, da conversa e da orquestra ressoava pelas paredes em uma cacofonia extrema. Significava muitas coisas: os rumores e novidades que sempre permeiavam a cidade grande, a constante disposição para conversar de quem não conhecia o pesar do trabalho e a vontade de criar laços que os beneficiariam no futuro.
Eu, , embora estivesse com o corpo presente no salão, era o ponto fora da curva. Até mesmo as matronas estavam divertindo-se entre si, fofocando sobre algo que eu desconhecia. Minha meia irmã mais nova, Catherine Marillier, rodava nos braços do homem que a cortejava desde o começo da temporada. Era questão de tempo para que ele pedisse ao nosso padrasto a mão dela. Estávamos quase no meio da temporada, logo mais os casamentos ocorreriam.
Soltei um suspiro cansado, sentindo que talvez fosse melhor ir para cama cedo com Leo, meu gato. Era muito mais produtivo do que estar em uma festa que eu não gozava a alegria como meus pares.
Meus pares. Ainda era estranho ver tantas pessoas ligadas à aristocracia por metro quadrado, embora aquela fosse minha terceira temporada. Apesar de ser neto de um conde, meu pai nunca importou-se o suficiente com o sangue azul que tinha. Vivíamos em um vilarejo em Castle Combe, eu e meu pais. As poucas vezes que estive diante de pessoas de sangue azul eram em jantares que meu bisavô fazia questão que comparecêssemos, momentos em que o deslumbramento da minha mãe pela elite do Reino Unido intensificava. Era terrível para uma mulher com o objetivo de subir na escala social até o mais alto topo ter um marido tão indiferente àquelas questões.
Mesmo assim, fosse o que fosse, Harry tratou de pagar uma preceptora para mim para que eu tivesse uma boa educação. Mamãe criava ilusões sobre minha primeira temporada em Londres, onde, em sua cabeça, seria uma das mais belas e que conquistaria alguém da linhagem real. Papai, no entanto, deixava claro que não usaria seu dinheiro tão bem dedicado na compra e venda de cavalos para termos férias em Londres. Infelizmente, quando ainda tinha doze anos, a morte o chamou através daquilo que ele mais amava: o hipismo. Tiger, um puro-sangue sem disciplina, em um de seus ataques de raiva, derrubou meu pai da cela, fazendo-o quebrar o pescoço. Embora tenha insistido que a morte do animal não resolveria nada, minha mãe ordenou que Tiger fosse sacrificado.
Seu luto, é claro, durou apenas um ano. Quando nossas roupas passaram a ter diferentes tons de cinza, ela viajou para Londres. Afinal, nossa casa lembrava muito meu pai.
Tia Cassandra lembrava muito meu pai.
Eu lembrava muito meu pai.
O vilarejo lembrava meu pai.
Mas Londres, uma cidade terrivelmente grande, cheia de agitação, não lembrava meu pai.
Para tanto, em dois meses minha mãe voltou a ser uma mulher feliz, sonhadora, cheia de frescurinhas, grávida e noiva do segundo herdeiro na linhagem de um condado. Ter conseguido tamanho objetivo, Diana Marillier criou grandes expectativas em relação à minha temporada, afinal, eu era uma das mulheres mais belas do vilarejo. No entanto, ela não calculou que, em um lugar simples como a nossa antiga casa, a demanda era pequena e que havia dezenas de moças iguais a mim em uma cidade grande. No salão da Lady de Nothans, por exemplo, havia dezenas de jovenzinhas loiras, mais ou menos esguias e de olhos claros como eu. E elas tinham algo que eu nunca teria: classe. É bem verdade que na minha primeira temporada havia caído no conto de minha mãe: fiz tudo exatamente do jeito que ela me ensinou. No entanto, sua maneira de pensar só funcionava para homens que desejavam uma amante, mas eram descuidados o suficiente para acabar caindo em um matrimônio. Ora, eu não queria ser amante de ninguém e seria uma grande humilhação tanto para casa de meu pai, como para o meu padrasto submeter-me a isto. Porém, depois da catástrofe da segunda temporada, quando os únicos dois pretendentes que apareceram estavam apenas de olhos no meu não tão modesto dote, percebi que também não queria um marido aristocrata. Ainda assim, estava ali pela terceira vez em uma temporada social, mas com o objetivo de ficar de olho em minha meia-irmã, Cath. Embora não compartilhassem o sangue, ela e Diana eram iguais em forma e não duvidaria que seria questão de tempo para que Catherine entrasse em uma confusão.
Bocejei discretamente quando a música terminou e os casais começaram a bater palmas. Infelizmente, os bailes dos Rutherfords costumavam ser símbolo moral da aristocracia e dificilmente acontecia algum escândalo, algo que deixasse as coisas mais interessantes. Olhei para o lado e então percebi que estava sozinha enquanto minha mãe gabava-se do cavalheiro apaixonado pela sua afilhada mais nova para suas amigas. Pelo olhar apaixonado do homem para Cath, era claro que até o final de semana teríamos um casamento na casa dos Marillier. Um casamento que não seria meu, obviamente.
Suspirei, decidindo que no dia seguinte iria planejar minha partida para o recanto de Tia Cassandra, com quem fiquei durante a viagem de mamãe para Londres e não via há quase sete anos. Lá, encontraria um homem mais ou menos honesto como meu pai, e viveria uma vida mais ou menos feliz também.
Era o mais ou menos que eu tinha agora.
Estava pensando nisso quando o senhor Robert Lincoln aproximou-se de mim e segurei-me para não revirar os olhos. Mamãe havia alertado-me sobre a deselegância do ato, no entanto, não conseguia evitar quando se tratava dele.
— Boa noite, senhorita . Acredito que tenho uma dança reservada com a senhorita. — disse ele, felizmente não cuspindo-me toda. Já era um grande avanço.
— Claro. — respondi com um sorriso forçado enquanto aceitava seu braço.
Não precisava procurar seu único nome no meu cartão, muito menos pedir permissão para minha mãe para que dançássemos. Na verdade, eu sabia que se aquela temporada fosse tão ruim quanto a segunda — a qual já estava sendo — mamãe faria com que eu me casasse com senhor Lincoln, não importando quão desagradável ele fosse para mim ou para ela, que também não o suportava.
Senhor Lincoln falava muito e eu entendia pouco. As más línguas diziam que ele havia batido a cabeça quando criança, mas Lincoln insistia ser muito bem do juízo. Eu tendia a acreditar nos rumores, afinal, escutar suas grandes palestras sobrava constantemente para mim. Se ele não fosse o único homem que trocava palavras além da cortesia comigo e não fosse de uma família tão influente quanto a do Duque de Weshestter, talvez eu não dignasse nem mesmo o olhar para aquela verruga nojenta que ele possuía na ponta do nariz.
Enquanto rodava pelo salão em uma quadrilha, captei diversos olhares sobre mim; variavam entre pena, compaixão e desprezo. Sentia-me diminuída naquele cenário, no entanto, havia feito as pazes comigo mesma ao decidir que seria minha última noite na temporada de Londres.
O último acorde da música tirou-me um peso terrível, que fez-me retirar-me do meio do salão quase em fuga até a mesa de limonadas. Aquela parte do cômodo estava relativamente vazia e cada vez que andava mais, tentava tirar a sensação ruim que dançar com senhor Lincoln me proporcionou.
— Escute o que você está dizendo, . É um absurdo sem tamanho. — uma voz feminina reclamou.
— Por que não é válido? Animais de estimação também são parte da família. — replicou em um tom complacente.
— Concordo com ela, . Digo, quem não vai à uma sessão importantíssima do parlamento porque o cachorro morreu? — argumentou outra voz masculina.
Com discrição, olhei para o lado de onde vinham as vozes. Em uma roda estava o Marquês e a Marquesa de Exeter e o Conde de Dudley debatendo sobre a questão. Eles eram conhecidos por serem bastante jovens para quem já possuía tanto poder social, principalmente o Conde de Dudley, o qual sempre estava em destaque nas páginas de política. O conde e a marquesa eram irmãos gêmeos, sendo um a cópia inteira do outro.
— Eu entraria de luto se Salomão morresse — comentou Dudley sem muita pretensão de parecer emocionado. Dizia como se estivesse falando de um detalhe em sua roupa ou do clima. — A opinião de vocês não conta, afinal, são casados e felizes, não sabem o que é ter um laço forte com um animal de quatro patas.
— Quer dizer, então, que para ficar de luto por um bicho de estimação, é necessário ser pobre de espírito? — concluiu a marquesa, rindo em demasia.
— Ever, não foi isso que eu falei.
Eu havia sido apresentada a eles na primeira temporada e, assim como boa parte da aristocracia, mal troquei duas palavras além das de cortesia. Era má educação escutá-los sem autorização, porém não poderia evitar ter curiosidade em relação a eles.
— Senhorita , oh, a senhorita será perfeita! — exclamou a marquesa segurando meu braço com firmeza, notando minha presença antes despercebida.
Acompanhei-a, pálida por ter sido imposta na conversa. Igualmente estava o Conde de Dudley, como se tivesse visto uma assombração à sua frente, fitava-me com o rosto branco como mármore.
— Veja bem, estamos dentro de uma questão importantíssima — discursou o marquês muito feliz com a reação surpresa de seu amigo. — Ora, é válido estar de luto por um pet?
Demorei um pouco mais que o necessário para responder sua pergunta. Vasculhei pela mente uma resposta padrão, do tipo que mamãe ensinaria a mim, porém nada saiu. Então, optei pela verdade.
— Eu ficaria de luto se Leo morresse. Ele tem sido uma família para mim, embora seja um animal — eu falei, mas arrependi-me logo depois. Era bem provável que eu tenha parecido uma completa idiota falando do meu gato como se ele fosse um ser humano.
— Bem, então eu concordo — disse a marquesa com um sorriso enorme. — Não é, querido?
— Sim, sim — concordou Exeter com o mesmo sorriso.
Pisquei repetidamente tentando entender o que estava acontecendo. O conde, no entanto, olhava para o casal como fosse os matar com a força da mente. Eu pouco sabia, mas comecei a pensar que eles estavam pregando uma peça em mim. Eu era uma presa fácil, afinal. Eles deviam estar me usando para sua própria diversão.
Ao abrir a boca para dar uma desculpa e esconder-me até que mamãe resolvesse ir para casa, a marquesa soltou um gritinho animado.
— Veja, é uma valsa! Vamos dançar, querido.
O marquês de Exeter olhou para sua esposa como se a mesma tivesse descoberto a fonte da juventude.
— Sim, e pode dançar junto com a Senhorita . — complementou ele em grande entusiasmo.
— Tudo bem para você, querida? Sua mãe a autoriza dançar valsas? — perguntou a marquesa com seus grandes olhos de íris amarelada.
— Ah, eu… Eu...
Antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo, estava com a mão agarrada no braço de Dudley e indo em direção ao meio do salão mais uma vez.
Respirei fundo e engoli em seco. Era só uma valsa. Uma dança de poucos minutos e eu fugiria de lá
Eu nunca tinha dançado valsa em público. Não por não ter autorização de minha mãe, mas pelo senhor Lincoln, o único que costumava tirar-me para dançar, achar um escândalo.
Levei minha mão com cuidado até o ombro do conde enquanto a outra era acolhida pela sua palma enluvada. O aperto em minha cintura era leve, porém não deixou-me menos perturbada. Então, levantei a cabeça para fitar o rosto de Dudley e engoli em seco. Ele era terrivelmente belo. Tinha as sobrancelhas espessas e mais escuras que o cabelo, o qual era um tom castanho escuro. Os olhos eram igualmente intrigantes como o da marquesa, no entanto brilhavam como uma joia real. Deviam ser verdes, mas brilhavam amarelos aquela noite. A música tocou e nós começamos a deslizar devagar pelo salão em silêncio. O conde demorou alguns segundos até alcançar meu olhar e um calafrio desceu pela minha espinha. Eu sentia o calor de seu corpo, apesar dos diversos tecidos que separavam-nos. Era emocionante estar ali em seus braços, embora pouco conhecesse seu caráter.
— Eu peço seu perdão pelo comportamento de minha irmã e meu cunhado — disse ele, a voz em um tenor inquisitivo. — Às vezes eles esquecem sua posição.
— Tudo bem, milorde. Não se preocupe — respondi, pois acreditava que não havia mais o que dizer.
— Então, o Leo, de quem você falava, é um cão ou um gato?
Pisquei aturdida diante de sua pergunta.
— Um gato, milorde. Um dos mais bonitos.
— Com certeza não chega aos pés de Salomão — falou de imediato.
Olhei para ele contrariada, pronta para replicar, quando vi seu sorriso desdenhoso.
— Nenhum de nós é um juiz imparcial para julgar tal coisa — argumentei segurando a sombra de um sorriso.
— Acredito que esteja correta, senhorita. — Ele inclinou-se um pouco para frente e senti o frescor de sabonete em minhas narinas. Seus cabelos estavam um pouco úmidos e lembrei que seu nome foi anunciado um pouco antes de senhor Lincoln aproximar-se, pois chegara tarde. Ao contrário do meu antigo par, o Conde de Dudley era refinado e tinha uma áurea muito mais confortante. E havia seus olhos extremamente convidativos, é claro.
Continuamos a dançar em silêncio, mas dessa vez de forma muito mais congruente. Dudley guiava-me com muita facilidade e uma sensação de querer abraçá-lo ocorreu-me. Queria sentir seu calor mais de perto e examinar seu cheiro. Queria ser tocada por ele.
Antes que eu entendesse aquela miríade de emoções, a música terminou. Com muito esforço e timidez nos afastamos, ele tão acostumado com a aproximação quanto eu. Apesar de nunca ter estado tão perto de um homem como daquele jeito, o sentimento era de familiaridade. Como poderia isso acontecer?
Observando a forma com que olhava-me, percebi em seu rosto que Dudley passava pela mesma indagação. Porém não verbalizamos isso, apenas fizemos uma pequena reverência em adeus, o segredo da emoção pairando sobre nós.


Capítulo II.



, Lord Ward, Conde de Dudley



Eu costumava ter sonhos malucos. Alguns estranhamente concretizavam-se. Minha mãe dizia que eu era sensitivo, mas não parecia levar a sério as palavras de uma criança. Não sabia quão perturbador era ter aqueles sonhos até assistir do enterro de minha mãe sete dias antes dela morrer de repente. Cheguei a sonhar também com o casamento de Cory e Ever, atuais marqueses de Exeter, antes de meu melhor amigo admitir que estava cogitando a possibilidade de pedir sua mão para ser sua esposa. No entanto eu também já havia sonhado com jacarés dançando valsa e um porco como rei da Inglaterra, logo, alguns sonhos eram frutos apenas da minha cansada mente.
Sonhei com na primeira noite que a vi no salão. Ela era só um rosto comum na multidão, para tanto, nem mesmo chegamos a ser apresentados. Em meu sonho, vi-a correndo à margem do rio como uma criança, enquanto gritava para que eu a acompanhasse, seu rosto mudava as características principais exceto os olhos. Eram sempre os mesmos.
A perturbação veio, naturalmente, porém segui minha rotina. Havia muito o que se fazer e não era o momento certo para deixar uma mulher desconhecida entrar em minha cabeça.
No entanto, nos poucos bailes e reuniões sociais que eu participava, sempre pegava-me procurando-a pelo salão. Às vezes encontrava-a, às vezes não. Dificilmente eu conseguia disfarçar minha curiosidade. Não demorou muito para que Cory começasse suas perguntas impertinentes sobre o que ou quem eu estava sempre procurando. Embora fosse bastante insistente, consegui com que segurasse meu segredo durante toda uma temporada. Ser bom em guardar segredos era apenas um dos meus trabalhos. E depois, havia sido apenas um sonho e logo a senhorita sairia da minha cabeça. Talvez até mesmo casaria-se.
Porém, vi-me perguntando sobre ela casualmente. Tal curiosidade não passou batido pela minha irmã, que estava disposta a casar-me o mais rápido possível. Ever tinha medo de que eu estivesse muito sozinho em Ward House. E, claro, nutrindo suas expectativas românticas, queria que meu casamento fosse tão ou mais feliz que o dela, todavia, era sabido por nós que isso não iria acontecer.
Ainda assim, era interessante alimentar aquela pequena admiração por de longe. Não aproximava-me, pois seria como enganar a todos, inclusive a mim. Um cortejo, a qual insinuava um casamento, com alguém como a senhorita não possuía qualquer vantagem, sendo ela de uma família tão pouco expressiva no parlamento.
Então, sonhei com ela de novo; dessa vez, ela estava dentro de uma carruagem carregando um gato e ria como uma menina. Não admitiria em voz alta, mas foi este o motivo de ter adquirido Salomão.
Porém, o casal de marqueses nunca deixariam que isso fosse apenas uma paixão inocente. Resolveram, então, ser a pedra no meu sapato. O trabalho deles foi dificultoso, pois poucas vezes fui convidado para as mesmas reuniões que a senhorita e, quando estávamos por perto, sempre havia uma forma de fugir de um diálogo estranho, afinal, eu também era feito do mesmo material que a minha irmã. Quando fomos apresentados formalmente faltou-me coragem para falar algo que fosse além do esperado, tendo em vista que em momentos públicos como aquele, sentia estar sendo observado por todo o mundo. Além disso, estar no meio de muita gente nunca foi meu forte. Apesar de passar boa parte dos meus dias em constante contato com pessoas, era difícil lidar com uma multidão. O humor dela sempre atingia-me sobremaneira que dificultava minhas interações sociais.
Com o tempo, imaginar coisas sobre a senhorita se tornou uma escapatória para momentos em que sentia a cabeça a ponto de explodir. Sua memória exalava conforto, embora eu tivesse consciência de que era tudo fruto da minha imaginação. Não éramos amigos, tampouco amantes.
No baile da Condessa de Northampton, fui pego desprevenido. Havia tomado banho depois de uma longa reunião com um dos representantes do partido trabalhista, o qual levantava uma proposta para mim, e planejava ir para cama mais cedo. Ever, no entanto, apareceu junto com seu marido e convenceu-me que deveria sair de casa, já que a última vez que fui visto em algum lugar público fora do âmbito político foi a um mês atrás, no sarau da Lady Windy. Que, devo acrescentar, foi lastimável de tão ruim.
Ao entrar em Warfield House, logo depois de cumprimentar os anfitriões, fui abordado por um par de matronas, no entanto, consegui facilmente livrar-me delas. O objetivo naquela noite era apenas cumprir tabela, não fingir importar-me com o mercado casamenteiro. Inevitavelmente, procurei a senhorita pelo salão e tive o desprazer de vê-la dançar com senhor Lincoln. Uma mulher tão bonita sendo cortejada por alguém de nível tão obtuso era quase um insulto diante de uma temporada onde haviam diversos tipos de pessoas de diferentes e importantes famílias. O que mais incomodava-me era pensar que aquele interesse de Lincoln era antigo e um tanto desgostoso para com a senhorita , que sorria, mas seus olhos azulados imploravam para morrer antes de ter que encarar o seu par mais uma vez.
Eu não era efetivamente cobrado como os outros pares do reino para casar-me. Na verdade, embora fosse um dos pouquíssimos ainda solteiros, os jornais britânicos estavam mais concentrados naqueles que sempre despertavam uma boa fofoca, não quem tinha uma vida monótona como a minha. Quem desejava ler algo sobre mim deveria procurar por entre as páginas sobre o parlamento, contudo, mesmo essas deveriam ser procuradas com muito cuidado, pois podiam ser perdidas dentre tantas novidades da política britânica.
— Acha que a senhorita se casará com o senhor Lincoln nessa temporada, Cory? — indagou minha irmã para seu marido.
— Bem provável. Essa é a terceira temporada da menina, não é? — titubeou — Deve ter perdido a esperança depois de não ser abordada por ninguém. Acredita que nem mesmo dançou com outro par além do senhor Lincoln?
— Não sabia que havia se tornado uma velha fofoqueira, Exeter. — resmunguei, sem me conter.
— Só com quem é importante, . Só com eles. — respondeu piscando logo em seguida.
Arrumei meu colarinho, a claustrofobia atacando de repente. Devagar direcionei-me para a mesa de limonadas, lembrando o porquê de detestar estar em um lugar tão cheio de gente. Cumprimentei quem eu conhecia no meio do caminho, desejando na verdade que eles se afastassem de mim, sua proximidade sufocava-me. Os marqueses de Exeter, no entanto, não percebiam meu estado.
Aos poucos acalmei-me e voltei a conversar sem muito problema com Ever e Cory. Era como se nada tivesse acontecido e que a sensação de que entraria em colapso fosse apenas um delírio de minha parte. Não sei como entramos na discussão sobre luto por um bicho de estimação e pouco posso dizer sobre como Ever conseguiu envolver em nossa conversa. Ao vê-la em minha frente, empalideci como um covarde que eu era. Pensar, imaginar, cogitar eram uma coisa. Vê-la ali em minha frente com a pose totalmente perdida era outra. Embora não possuísse uma aparência impressionante, não havia como não se encantar com suas bochechas proeminentes, nem seu nariz pequeno; ela tinha uma aparência doce, modesta em usar poucas joias e olhos complacidos. Seus lábios eram finos e curvilíneos, fazendo minha atenção descer constantemente a eles.
— Eu ficaria de luto se Leo morresse. Ele é como uma família para mim, embora seja um animal. — Sua voz era em um tom brando, esperando ser ouvida, mas não respondida. Ela não olhava diretamente para mim, mas mantinha um ar de curiosidade, desejando saber o que se passava em minha cabeça.
Apesar de negar meu verdadeiro interesse, não perdi a oportunidade de levá-la até o centro do salão para dançar. Valsa era uma das danças mais fáceis para mim, o que era ótimo, pois nunca fui mais do que um dançarino competente. Ever, coitada, fora a quem mais sofreu com minhas pisadas em seus pés quando aprendemos os passos das danças de salão ainda crianças.
Estar com o corpo perto de era como sair de casa no primeiro dia de verão após um longo inverno. Eu podia sentir o seu calor através dos dedos que descansavam em meu ombro e em cima de minha mão. Apertei-os de leve, ansiando pelo seu toque. Em silêncio, dançamos pelo salão do Conde de Northampton diante da alta roda londrina. O suave tocar em sua cintura era difícil de balancear; uma angústia queimava meu âmago desejando aproximar-se deliberadamente dela, de forma que pudesse sentir o roçar de sua respiração em minha pele.
— Eu peço seu perdão pelo comportamento da minha irmã e meu cunhado — falei, interrompendo o som dos violinos ao longe. — Às vezes eles esquecem sua posição.
— Tudo bem, milorde. Não se preocupe — respondeu tímida.
— Então, o Leo, de quem você falava, é um cão ou um gato?
Senhorita piscou surpresa.
— Um gato, milorde. Um dos mais bonitos.
— Com certeza não chega aos pés de Salomão — repliquei de imediato.
Ela olhou para mim esquecendo um pouco seu decoro quase religioso, pronta para replicar. Eu sorri, não contendo diante daquela reação.
— Nenhum de nós é um juiz imparcial para julgar tal coisa — argumentou, tentando não sorrir. Ainda assim seus lábios largos lhe denunciaram, esticando-se com um leve tremor.
— Acredito que esteja correta, senhorita.
Quis puxar-lhe conversa, mas minha mente estava muito mais preocupada em manter o impulso longe, evitando-me de cumprir atitudes não cavaleirescas. Era melhor manter-se daquele jeito: tão perto, tão longe.
Quando a música acabou e encarei-a de novo, percebi que aquelas sensações não estavam dominando só a mim. Senhorita entendera, tanto quanto eu, a plenitude daquela dança.
Porém, nos mantivemos calados até eu devolvê-la à sua mãe e voltar a Ever. Contive a satisfação, pensando em como burlar as perguntas de Exeter, mas então avistei o senhor Kurtwood ao longe com sua filha, Salie Kurtwood, minha futura noiva.
Assim, a realidade bateu na porta outra vez.


Capítulo III.





Era uma manhã de sábado pós-baile. O sol apareceu em uma Londres antes cinzenta, transformando-se em um dia perfeito para passear. Eu não iria, obviamente — para quê ver as mesmas pessoas, que sempre andavam pelo Hyde Park como pavões, quando eu já havia os encarado no dia anterior? Por isso, fingi não ouvir quando Donna tentou acordar-me para que eu acompanhasse uma das caminhadas da minha irmã. Levantei-me apenas quando tive certeza que Catherine, junto com a mamãe, tinham saído.
Leo estava deitado sobre mim, como de costume, deixando a pequena cama que eu adquirira para ele de lado. Era um vira-lata cinza e preto com os olhos verdes, meio amarelados. Inconscientemente, comparei-os aos do Conde de Dudley, mas detive esse pensamento. Embora tenha despertado diversas ilusões na cabeça da minha mãe, era certo para mim que tinha sido meu último respirar na aristocracia inglesa. Quando ela voltasse do passeio da Cath, eu conversaria sobre minha volta para casa.
Balancei um sininho para chamar Donna, a qual apareceu minutos depois com uma bandeja com meu café da manhã. Agradeci com um sorriso e aceitei sua ajuda para vestir-me. O vestido que eu havia escolhido era desconfortável e esvoaçante demais, no entanto, era o preferido de mamãe. Donna fez um penteado simples, uma grande trança se transformou em um grande coque. Mais do que o apresentável, eu diria.
Segurando Leo em meu braços, logo após estar vestida, segui em direção à uma das inúmeras salas do andar inferior. A casa vazia daquele jeito era terapeuticamente calma, então não tive pressa em descer as escadas. No tangente da preguiça que sentia, era questão de tempo para começar a miar como meu gato.
Phillip Marillier atravessou as escadas correndo, ignorando a paz que eu exalava. Desviei de suas pernas pequenas enquanto fitava meu meio-irmão ser perseguido pela sua babá.
— Bom dia, Phillip. — gritei cumprimentando-o.
— Bom dia, ! — ele gritou de volta, sua voz infantil vibrando por cima dos resmungos da sua babá.
Ri, pois aquela cena se repetia constantemente em minha casa. A presença de Phillip — uma criança gorducha de quase nove anos — seria uma das coisas que eu sentiria falta. Mamãe havia engravidado dele quando veio à Londres esquecer-se de meu pai. Obviamente, ela e o Senhor Marieller eram espertos o suficiente para esconder a gravidez, mas precisei apenas de alguns anos para perceber furos naquela história. Tia Cassandra, a qual explicou a mim sobre de onde vem os bebês, foi a peça chave para que eu juntasse o dois mais dois. Claro que o objetivo da minha tia era desistir de casar-me e ficar ali em Norfolk com ela, no entanto, não foi o suficiente para manter-me longe de Londres. Eu acreditava que esse era o motivo dela nunca dar-se bem com a minha mãe. Enquanto Diana Marieller queria estar envolvida com a alta roda, Cassandra Williams queria distância dela e de tudo que ligasse à ela. Convencer de que Cassandra era a mulher certa para guiar-me ao matrimônio não seria fácil, no entanto, apelaria para o bom senso de Diana. Não havia lugar para mim na aristocracia.
Quando mamãe chegou em casa, ela estava envolta em uma conversa animada com Cath. Falavam sobre jóias e casamento, então deduzi que era algo sobre o futuro de Catherine; ainda assim, eu acreditei ser um pouco precipitado, afinal, não havia existido um pedido formal ainda.
— A senhora deseja que eu peça um pouco de água? Está um dia seco hoje — falei solícita, logo depois de cumprimentá-la.
— Sim, querida. Claro! Obrigada.
Enquanto ela sentava no sofá e abanava-se com o leque que sempre carregava consigo, Catherine entrou cheia de animação, rodando pelo cômodo.
— Ah, , hoje foi tão mágico! — exclamou profundamente feliz. — Dave e eu estávamos andando por uma área deserta do Hyde Park, então Diana fingiu desviar os olhos e ele beijou-me.
Arregalei os olhos, mais impressionada na habilidade do cavaleiro de Cath em descobrir um lugar deserto do Hyde Park, do que Diana fazer vista grossa diante de tamanha sem vergonhice.
— Mas você sabe, querida, que não pode deixar mais do que isso. Inclusive, é bom passar um tempo sendo pudica — alertou mamãe. — Ele não pode achar que você é fácil, não senhorita.
Segurei a vontade de rir, descrente com a conversa que tínhamos. Se aquele diálogo vazasse pelos salões londrinos, ficaríamos desmoralizadas por anos.
— Sim, irei seguir seu conselho, madrasta — afirmou Cath enrolando um dos cachos negros com o dedo. — Porém, ele me confidenciou que iria falar com papai ainda hoje para acertar o casamento. Ai, estou tão animada!
— Não se anime muito, criança. O hoje dele pode ser em apenas alguns dias — falou Diana. — Sabe como esses cavalheiros são: completamente atarefados. E seu pai está muito ocupado com os negócios nos últimos dias.
Ela parou e virou-se para mim.
— Onde está minha água?
Saí em passos rápidos para a cozinha pedir para uma criada trazer-me o pedido de minha mãe. Alguns minutos depois cheguei junto com Meghan, uma das servas mais jovens.
Sentei-me junto à elas com cautela. Não sabia como abordar minha volta para casa, mas tinha consciência que não existia maneira fácil.
— Mamãe, a senhora ainda tem esperanças de que eu case ainda este ano? — indaguei fingindo timidez.
Diana fez uma careta.
— O Conde de Dudley enviou algum buquê esta manhã? — neguei com a cabeça. — Oras, mas você foi a única mulher que ele dançou.
— Isso não é verdade, madrasta — interpôs Cath. — Ele dançou com a Marquesa de Exeter e a Senhora Sallow.
— Mas as duas são casadas! Não é como se ele fosse casar-se com a irmã — argumentou insatisfeita.
— É normal que cavalheiros dancem com jovens casadouras sem compromisso, mamãe — falei, embora também tivesse desejado que o Conde de Dudley mandasse algum sinal que se interessara por mim.
No entanto, era melhor assim. Afinal, para que iludir-me dessa maneira?
Mamãe estalou a língua e relaxou os ombros.
— Não há o que fazer. Terá que se casar com o Senhor Lincoln.
— Deus que me livre! — exclamei mortificada. — A senhora viu a verruga dele? E quando ele fala cuspindo?
— Tadinha da , madrasta — disse Catherine empática. — Não merece tamanha condenação.
— Oras, se não consegue um pretendente melhor, é por pura culpa sua, filha. Em apenas alguns meses, arrumei vários pretendentes e um casamento para Catherine — falou em sua defesa.
A ideia de casar-me com Senhor Lincoln dava-me calafrios. Preferia mil vezes morrer a ter que olhar para aquele homem desagradável todos os dias.
— Mas há uma saída — falei ousada. — Eu poderia voltar para Norfolk, para Tia Cassandra. Ela conhece vários homens elegíveis e com muito dinheiro, mas que moram longe de Londres. Eu poderia…
— De jeito nenhum! — negou mamãe — Você vai se casar com Lincoln, mas não volta para Norfolk.
Levantei-me estupefata.
— Mas Tia Cassandra pode ajudar-me, mamãe! Não vê que não há esperança para mim em Londres? — argumentei.
Meu coração batia com muita pressa, o medo de cair em uma vida infeliz ao lado do meu único pretendente dominando-me.
— Prefiro que vire solteirona ao ver você vivendo com aquela mulher! — disse ela exaltada.
— Então deixe-me ficar solteirona!
— Não mesmo! Irei conversar com Paul. Há alguns dias ele recebeu uma proposta do Senhor Lincoln. Da próxima vez, irei dizer para que ele aceite — concluiu mamãe.
— Isso não é justo! Será que eu poderia ao menos casar-me com alguém que não tivesse idade para ser meu pai? — repliquei angustiada.
Mamãe se levantou de vez e pediu para que Catherine saísse e fechasse a porta. Respirei fundo, sabendo que perder a cabeça não era sensato.
Quando a porta foi fechada, minha mãe tratou de discursar:
— Você já fez o Paul gastar muito dinheiro com a temporada, . Ele tem reclamado que todos esses esforços foram em vão. Até aumentou o valor do seu dote ao meu pedido! — justificou ela segurando-me pelos ombros. — Estamos na metade da temporada e nada parece mudar. Receio que essa é a melhor opção pra você.
Engoli o choro e observei a sinceridade dos olhos da minha mãe. Mais uma vez sentia-me fora da curva, embora me esforçasse para ser igual a todo mundo. O que havia de tão diferente em mim? Por que eu me sentia sempre rechaçada, um fardo nas costas?
Será que até mesmo casada com Senhor Lincoln, esse sentimento iria predominar?
Ouvimos alguém bater a porta e mamãe consentiu que entrasse. Era Senhor Ross, nosso mordomo, o qual carregava uma carta. Porém, o que mais chamou-nos a atenção foi seu remetente.
— De quem é, Senhor Ross? Eu não entendi. — disse minha mãe, não acreditando nos próprios ouvidos.
— Lady Ever Harrison, Marquesa de Exeter, senhora.


Capítulo IV.




, Lord Ward, Conde de Dudley



Apesar de saber que ter filhos e ter sobrinhos eram duas coisas diferentes, todas as vezes que visitava minha irmã questionava-me se demorar-me a casar era uma boa escolha. Gregory e Felicity eram duas crianças encantadoras, embora brigassem a maior parte do tempo. Tendo eles dois anos de diferença, a menina tinha quatro anos e o menino dois. Eram bebezinhos ainda, no meu ponto de vista, mas não deixavam de ser sapecas. Ever sempre chegava com uma história ou outra interessante sobre uma nova palavra ou traquinagem que eles faziam.
Gregory correu para meu braço quando entrei na sala de visitas dos Exeter, logo após ser anunciado. Suas pernas gordinhas eram uma graça, porém não rápidas o suficiente para que Felicity não me alcançasse primeiro. Recebi vários abraços e beijos deles dois antes de que fossem levados para o berçário pelas suas respectivas babás.
— Você mima-os demais. — resmungou Ever quando sentei-me ao seu lado.
— Sou o tio deles, oras. Não é para isso que estou aqui? — falei estranhando o fato do chá não estar já à mesa, como de costume.
Todas as sextas-feiras, eu e minha irmã nos encontrávamos em sua casa na hora do chá. Sempre fomos muito unidos e desde que ela casou-se, nossos tempo juntos diminuiu consideravelmente. Aquele compromisso marcado era perfeito para matar a saudade de nossas conversas e vê-la xeretar a minha vida rotinamente.
— Estamos esperando alguém? — perguntei confuso.
Como se tivesse escutado minha pergunta, o mordomo de Ever apareceu pronto para apresentar alguém.
— Senhorita chegou, milady.
Ao ouvir seu nome, meu coração pulsou em resposta. Mantive-me sereno, embora a mente não evitasse sentir êxtase em saber que iria vê-la outra vez. Levantei-me assim que ela entrou e fiz uma reverência, a qual a Senhorita replicou igualmente. Ela vestia vermelho escuro e tinha uma aparência um tanto escandalosa para a hora do chá — até no dia anterior ela parecia mais simples —, era nítido perceber que algo estava errado pela sua expressão forçada. Ao seu lado estava sua aia, uma mulher de sobrenome francês, a qual não tomei o trabalho de decorá-lo.
Sentamos em nossos respectivos lugares e logo as xícaras foram servidas. Não pude deixar de reparar mais uma vez que a Senhorita estava retraída em seu lugar e totalmente desconfortável. Caí em si quando o pensamento de ser chamada para uma reunião íntima não fosse do agrado dela, levando em consideração que a marquesa e ela não eram amigas e Ever pouco interessava-se por ela até dois meses antes, quando Cory descobriu meu interesse por ela.
— Está tudo bem contigo, senhorita? Parece um pouco pálida — indaguei de forma discreta para ela no momento em que minha irmã tagarelava sobre biscoito com a francesa que acompanhava-na.
— Estou sim, milorde. Obrigada por perguntar. — Sua voz era de um tom brando e contrário à perturbação de seus olhos.
— Estou muito feliz por ter sua companhia, Senhorita . — disse Ever cheia de segundas intenções. — Como a senhorita bebe seu chá?
— Com creme e sem açúcar, milady. — replicou com graça.
— Que interessante! Dudley também só toma chá assim.
Contive-me de revirar os olhos diante daquelas palavras. Ever como cupido era uma ótima marquesa.
— Milorde é um homem sensato então. — concluiu ao pegar sua xícara.
— O açúcar tira o gosto do chá, enquanto o creme o complementa — argumentei.
— É exatamente o que penso. — disse ela, com um misto de encanto e assombro. — Mamãe sempre me diz que isso não fazia sentido.
— Oh, falando de sua mãe, como vai a Senhora Marieller? — perguntou Ever ao me servir.
— Ela está bem, sim. Estamos bastante atarefadas nessa temporada, desde que o baile de debute de Catherine aconteceu.
— Senhorita Mariller é linda como uma garça. Todos devem estar muito felizes com o bom desempenho dela em seu primeiro ano. — comentou Ever antes de beber um pouco de seu chá.
A Senhorita , no entanto, olhou para as mãos incomodada, antes de dizer-lhe:
— Seu sucesso era esperado, de toda maneira. Cath é encantadora.
Tentei em vão puxar no fundo da mente a imagem de Catherine Marieller e falhei. Com certeza havia estado tão mais atento a que a existência de sua meia-irmã fora ignorada por mim.
— O que acha da Senhorita Marieller, ? — indagou Ever.
— Não a conheço.
— Fala a sério? — perguntou , confusa. — Pensei que todas a conheciam.
Sorri, segurando-me para dizer que preferia conhecer mais a ela do que sua irmã menor.
— Ainda não tive a oportunidade.
— Ela é uma ótima dançarina — acrescentou sem retirar os olhos de mim.
— Interessante.
— E gosta muito de passeios à tarde.
— Bom. — respondi, não entendendo onde ela desejava chegar.
— Cath é muito inteligente, também.
Ever, percebendo que o rumo da conversa era perigoso, coçou a garganta para que nossa atenção focasse nela mais uma vez.
— Então, querida, é verdade que está noiva do Senhor Lincoln?
Senti vontade de jogar minha xícara de chá intocada na cabeça de minha irmã gêmea, depois daquela pergunta descabida. A Senhorita corou, mortificada.
— Não, milady. Ele é apenas amigo da minha família — respondeu a mulher.
— Ora, querida, não seja tímida — disse sua aia, finalmente participando da conversa. — Pode confessar à marquesa de que ele é seu pretendente.
Elas riram. A francesa, de prazer. Ever e Senhorita , de nervoso.
— Você gosta de ler, senhorita ? — perguntei antes que caíssem em um silêncio constrangedor.
— Sim, mas não leio tanto quanto gostaria. Acabo deixando vários livros inacabados pela biblioteca. — disse ela virando-se para mim.
— Gosta de romances?
Ela assentiu.
— Tem um novo do Charles Dickens que é bem interessante. Comecei, mas acabei esquecendo de continuar — ela disse envergonhada.
— Não a julgo, para mim é difícil ler algo que não remeta meu trabalho. Quase nunca leio ficção. — comentei.
— Ah, conhece algum livro bom de economia para iniciantes, milorde? — levantei as sobrancelhas surpreso. — Sei que não é costume das mulheres se aterem à isso, mas acredito ser importante para a administração da casa.
, por Deus! — exclamou a francesa, constrangida. — Que tipo de coisa é essa para se perguntar a um conde?
— Tudo bem, senhora. O pedido da Senhorita não é nada estranho. Há muitos livros sobre economia e contabilidade para mulheres — menti.
O comentário da sua aia pareceu murchar a animação e espontaneidade que começara a conduzir nossa conversa. As costas da Senhorita ficaram tensas e ela voltou a falar aquelas frases sem significado, que boa parte das mulheres falavam por educação. Até mesmo Ever, a qual era mestre em conversar asneiras, parecia meio frustrada, já que queria arrancar muito mais de .
Era esse também um dos motivos pela qual não costumava conversar com mulheres de forma despretensiosa, principalmente as que estavam à procura de casamento. As regras da etiqueta davam-nos uma lista pequena de temas interessantes para ser debatidos e exigia que tanto eu quanto minha interlocutora fingisse que nossos cérebros eram feitos de gelatina.
Um tempo depois, a Senhorita anunciou já estar tarde e que precisava ir embora. Ever lamentou sua ida e disse que a convidaria mais vezes para tomar chá. Trocaram sorrisos e reverências antes que eu encarasse-a finalmente.
— Foi um prazer estar em sua companhia, Senhorita — falei em um tom baixo, monótono, mas com muito significado.
— O prazer é todo meu, milorde. — ela usou o mesmo tom.
Educadamente, segurei sua mão mais próxima e beijei-a por cima da luva. Pude sentir um pouco da loção para as mãos que ela usava. O cheiro era de flor de cerejeira.
Seus olhos miraram com suavidade meu movimento, então, ela sorriu. Havia algo de diferente em seu sorriso; não era aquele subir do canto dos lábios condescendente. Era um sorriso largo, cheio de dentes, que iluminava seu rosto e destacava seus largos lábios. Um homem teria o porquê de acordar todas as manhãs se essa era a sua visão rotineira.
Ever apenas pronunciou-se quando teve certeza de que as mulheres haviam ido embora, após acompanhá-las até a porta.
— Ela é um pouco fora da curva, não acha? Parece não ter prestado muito atenção nas aulas de etiqueta. — disse em uma expressão pensativa. — Mas nada que duas conversas não resolvam.
Virei-me para ela em alerta.
— Do que você está falando?
— Da sua futura esposa, oras.
Levantei as sobrancelhas.
— Ela não será a minha futura esposa, Ever.
— Por que não? Você gosta dela, não é? E ela é tão solteira quanto você. Não sei o que os impede de casar.
— Eu preciso mais do que um gostar para casar-me, Ever.
— Então, depois de seja lá quanto tempo observando-a, você quer ser mais cuidadoso? — indagou ela, pouco entendendo onde eu queria chegar.
Neguei com a cabeça.
— Irei casar-me com a Senhorita Kurtwood, não a Senhorita .
Minha irmã encarou-me com um misto de confusão e estresse. Desde que tivera os dois filhos, sua paciência diminuía com mais facilidade.
— Por que diabos você vai se casar com Senhorita Kurtwood?
— Isso não é jeito de uma dama falar. — alfinetei.
— Estou muito chocada para ser uma dama agora. — Ela sentou em seu sofá. — Então, por todo esse tempo, você enganou a mim e a Exeter ao dizer que procurava pela Senhorita ?
— Eu estava falando a verdade, querida. A questão é que preciso de um bom aliado do partido contrário no Parlamento para aprovar alguns projetos de suma importância. — resumi minha sina. — Ter o Senhor Kurtwood como sogro é a minha solução.
Ever continuou fitando-me por longo segundos sem dizer nada. Seu silêncio começou a deixar-me em alerta assim que a vi apertar os olhos, como se não me enxergasse.
— Não acredito que irá casar-se com alguém por causa de um motivo tão estúpido.
— Escute o que você está dizendo, querida. — eu disse com carinho. — Poder não é algo estúpido. Você é marquesa e é uma das mulheres mais poderosas da corte. Por que ignora o quanto gosta de ser quem você é e ter o que você tem?
— Mas eu não casei com Cory por causa disso! Eu casaria com ele mesmo se ele fosse um criado.
Olhei para ela com ar de riso, imaginando-a casando-se com alguém de uma classe social mais baixa. Suas palavras eram muito bonitas, mas, para mim, não refletiam a realidade.
— Eu duvido.
— No que baseia essa dúvida? Acha que eu sou fútil que nem você? — disse ela em descrença.
— Não foi o que eu estava dizendo, Ever. Escute, eu…
Antes que terminasse de falar, minha irmã gêmea jogou o resto de seu chá preto em meu rosto e saiu do aposento revoltada. Felizmente, o líquido estava frio e não danificaria meu terno de cor escura. Apenas mantive a expressão entediada, o rosto todo sujo, mas não disse nada, afinal, não era a primeira vez que presenciei um ataque de fúria da Marquesa de Exeter. Ruim era para Cory, que tinha que lidar com ela todos os dias.
Peguei um lenço de meu bolso e enxuguei meu rosto com um suspiro. Eu e Ever éramos conhecidos pelo temperamento antagônico desde a meninice e não seria diferente depois de virarmos adultos. Não iria estressar-me com sua falta de maneiras, afinal, ela tinha lá seus motivos para ficar raivosa.
Pensei, então, no que ela me dissera. Apesar de conviver no meio aristocrático e quase ser uma londrina de nascença, Ever sempre manteve a veia romântica. Sentia-me grato por ter alguém preocupando-se comigo, no entanto, casar-se por amor era para aqueles que não tinha maiores problemas em sua vida, por mais estonteante que fosse a Senhorita .
Havia coisas muito mais importantes do que meu coração naquele momento.

Capítulo V.




A Senhora Leroux estava possessa quando entramos na carruagem. Desde que começamos nosso caminho para casa, ela insistia que não deveria ter se comportado daquela maneira diante do Conde de Dudley.
— Onde já se viu uma mulher pedindo indicações de livros de economia? Você perdeu o juízo, ?
Calei-me, pois não havia o que ser dito. Eu errei. Merecia ser punida.
No entanto, não fora premeditado. A conversa no dia anterior junto com a Marquesa de Exeter e o Conde de Dudley, acreditei que poderia sentir-me à vontade de falar sobre aquilo diante de notórios aristocratas que não se limitavam à conversas sobre o clima. Além do mais, era conhecida a quebra da etiqueta dos marqueses que, mesmo sendo casados, sempre dançavam juntos nos bailes. Porém, como sempre, eu havia entendido errado. Eu sempre entendia errado.
Pus a mão na cabeça, lembrando do que tinha feito depois da discussão terrível que tive com minha mãe. Àquela altura, a carta que escrevi para Tia Cassandra pedindo socorro deveria estar atravessando Londres e eu estaria encrencada.
Embora eu tivesse minha justificativa, trazer minha tia para confusão era uma atitude impensada e que poderia acarretar problemas maiores. Se antes mamãe estava irredutível...
— Se você tinha chances de ter o Conde de Dudley como pretendente, receio dizer que…
Não contive o sorriso cético.
— Com todo o respeito, Senhora Leroux, mas a senhora está equivocada. Duvido muito que eu tivesse qualquer chance de me tornar esposa do conde.
— Como não? Você é bonita e de boa família, .
— Assim como todas as outras mulheres da temporada. — repliquei.
Vi minha dama de companhia murchar em seu assento e lembrei que minha falta de sucesso a atingia também. Meu fracasso não era só meu. Alcançava mamãe, Senhora Leroux, o galho da árvore genealógica de meu pai…
Eu precisava casar-me. Mesmo que fosse com um dos homens que eu mais desprezava. Era minha obrigação. Só eu podia fazer isso.
Não senti nada de heróico nisso, e sim pena. Eu era um estorvo para os Marillier e os pouco se importavam com minha existência. Tinha pouco contato com a família de meu pai, e os primos que eu tinha geralmente fingiam não ver-me em eventos sociais.
Quando cheguei em casa, já havia aceitado que casar com Senhor Lincoln era algo que eu teria que fazer. Desisti desse jeito: fácil como ludibriar uma criança. Apenas aproveitaria minha última temporada como solteira e tentaria aproximar-me da marquesa, a qual se mostrou uma ótima companhia.
Ao chegar em casa, tive uma surpresa nem tão surpresa assim. Catherine estava lá, emocionada. Mostrava o anel para as criadas, enquanto mamãe falava do tamanho da pedra da jóia. Se a cena não deixava claro que ela era uma mulher comprometida, o grito animado de minha meia-irmã chamando-me para comemorar seu noivado, foi o suficiente para entender que, em breve, ela seria uma mulher casada.
Dormimos juntas naquela noite. Cath estava à todo vapor, falando pelos cotovelos e não pude deixar de ser os ouvidos para isso. Sua felicidade era tamanha que os olhos castanhos escuros pareciam ter se tornado um tom mais claro de caramelo. Ficamos na minha cama conversando por baixo do lençol no escuro, madrugada adentro.
— Eu sou tão sortuda, ! Dave é tão amoroso para comigo. — disse sonhadora. — Teremos lindos filhos ruivos com olhos escuros.
Sorri genuinamente feliz por ela. Catherine era querida, impecável em suas maneiras e repleta de energia. Era claro que teria sucesso em sua primeira temporada.
— Você será a noiva mais linda de toda a Inglaterra.
— Não quero ser a mais linda do país, mas quero ser mais bela do que a Lady Eliza. — ela fez um muxoxo. — Mulher arrogante! Se acha melhor do que todas só porque é filha de um Duque.
— Bem, ela tem pelo que se gabar, Cath. — ponderei. — Se você estivesse em seu lugar faria o mesmo.
— Claro que não! — negou ela, embora ninguém acreditasse naquilo. Nem mesmo ela.
— Queria que você tivesse minha sorte também, . Digo, o Senhor Lincoln é um crápula! Tenho calafrios só de pensar em tê-lo na família.
Dei um sorriso triste.
— Não é o fim do mundo. Ao menos, sei que nunca faltará comida na mesa e poderei esbanjar do bom e do melhor. — afirmei.
— Eu preferia o conde de Dudley.
Soltei uma risadinha.
— Ele não se mostrou interessado, Catherine.
— Mas ontem ele parecia tão compenetrado em você! — argumentou minha meia-irmã. — E ele é bonito.
Pensei no conde naquela tarde vestido de trajes escuros em sua expressão sempre sóbria. Olhos claros, cabelos finos e encaracolados. Não havia nada de muito impressionante em sua aparência, mas talvez fosse essa característica que o fizesse ser tão agradável para mim.
— Se bem que ele parece ser muito chato. — continuou Catherine. — Dizem que o conde é o do tipo que não se impressiona fácil e não gosta de nenhum evento social. Li no jornal uma vez que ele separou uma briga em uma sessão do Parlamento porque era o único que estava com juízo perfeito. As declarações românticas dele devem ser terríveis de ruins.
— Um homem modesto? Ele é perfeito…
— Nós podíamos tentar seduzi-lo! — interrompeu Catherine — Ele não teria outra opção a não ser casar contigo!
— Que loucura é essa, Catherine Marillier? — repreendi-a. — Isso não é conversa de moças de família! Ademais, eu nunca saberia ser uma condessa. Mal consigo ser uma senhorita.
— Ah, você é muito chata, — resmungou minha meia-irmã.
— Sou sim! Agora vamos dormir. Está tarde. — concluí virando-me de costas para dormir.
— Boa noite, .
— Boa noite, Cath.
Apesar da posição que expus à Catherine, imergi naquela ilusão em que eu e Dudley éramos casados, bebíamos chá preto todos os dias e conversávamos sobre um escritor que nunca lemos, mas aparentava ser talentoso.
Dormi, então, pensando no Conde de Dudley e acordei recebendo um buquê de flores do Senhor Lincoln.


Capítulo VI.




, Lord Ward, Conde de Dudley



White’s era um dos pouquíssimos lugares em que sentia-me confortável fora do meu lar. Ainda assim, eu estava tenso naquele final de tarde. Cory estava na mesa comigo, fumando o seu charuto. Ele me conhecia bem o suficiente para saber que o silêncio sempre foi minha melhor conversa. Se não há nada interessante a se dizer, é melhor que não o faça.
Contudo, eu estava desconfortável. Meu pescoço doía de toda a tensão que enfrentei no dia e nem mesmo um copo de whisky relaxara-me. Ainda pensava na reunião que tive com alguns pares do Reino sobre a lei de endurecimento da regulamentação de implantação das malhas ferroviárias. Era uma ideia terrível ao meu ver, levando em consideração que criaria mais tensão entre os burgueses e a aristocracia. Estávamos declinando em poder, criar inimigos não era um caminho inteligente. Logo após isso, fui tomar chá da tarde em Kurtwood House, para conhecer minha possível futura noiva. Embora não possuíssem um título em sua casa, os Kurtwood eram riquíssimos e famosos por suas lojas de variedades. Além do mais, eles mesmos tinham laços distantes com a aristocracia escocesa. Dentre os cinco filhos da casa, a Senhorita Salie Kurtwood era a mais bela. Tinha cabelos escuros como o pai e a pele pálida da mãe. Falava com graça e encantava em poucos segundos de conversa. Não seria qualquer martírio casar-se com ela.
Porém, não era em Senhorita Kurtwood que eu pensava enquanto estava sentado em uma das mesas do White’s.
Eu sonhei com mais uma vez na noite anterior. Senhorita , corrigi em minha mente, pela sétima vez. Ela estava sentada na poltrona de meu quarto, vestida apenas de camisola e robe branco, o cabelo penteado em uma trança emaranhada. A lareira estava acesa e parecia ser uma noite fria. Não havia nada de sexual na cena; ainda assim, exalava uma intimidade nunca antes experimentada por mim.
, imaginei que estivesse dormindo. — eu falava ao entrar em meu quarto.
Ela me dava um sorriso preguiçoso, antes de se espreguiçar como um gato.
— Estou indo agora mesmo, querido. Irá acompanhar-me? — respondia.
levantou-se e foi em minha direção, beijando minha bochecha.
Porém, ao acordar, o que realmente acontecia, era Salomão lambendo meu rosto e miando de fome. Não conseguia tirar aquela cena de minha cabeça, principalmente pelo fato de ter mais aspecto de lembrança esquecida do que um sonho em si.
— Ever falou-me que não irá cortejar a Senhorita — disse Cory, quebrando o silêncio mútuo. — Por quê?
— A Senhorita Kurtwood é uma escolha melhor. — respondi sem pensar muito.
— Para qualquer outro homem, talvez. Mas você? — ele deu um riso de escárnio. — Você não aguentaria dez dias uma mulher cheia de caprichos. — Nunca ouviu o ditado “os opostos se atraem”? — indaguei com a sobrancelha arqueada.
— Vamos lá, amigo. — disse antes de tragar mais uma vez seu charuto. — Diga-me o verdadeiro motivos de não cortejar a Senhorita .
Observei se ao meu redor não havia mais ninguém ouvindo nossa conversa, não obstante, boa parte dos homens presentes estavam imersos em seus jogos e bebidas. Não havia porque temer contar para Exeter, sendo ele meu amigo mais fiel desde Eton.
— O dinheiro está ficando escasso para manter todas as famílias em Dudley. A venda de ameixas tem um bom retorno, mas ele não é imediato. Se não achar uma forma de resolver isso até o final do ano, sete famílias perderão seu sustento.
— Você sabe que sempre pode pedir-me dinheiro emprestado, não é? — falou ele em tom baixo.
— Não há porquê se preocupar, Exeter. Ainda há as vantagens sociais que o Senhor Kurtwood tem a oferecer-me. Esse tipo de influência ninguém empresta.
Cory piscou repetidas vezes. Em silêncio, deixou a cabeça cair em seu ombro.
— Sede de poder não combina com você.
Olhei-o zombeteiro.
— Estou por dentro da política mesmo antes de meu pai morrer, Cory. Até mais envolvido do que você, que tem lá suas obrigações. Por que está tão admirado?
— Não sei. — replicou encarando seu charuto. — Talvez eu e sua irmã esperávamos que fosse diferente. Que você tivesse uma família feliz como nós temos.
— Sabe, eu posso ser feliz com a Senhorita Kurtwood. Não há nada que impeça isso de acontecer. — Argumentei.
Ele negou com a cabeça.
— Eu diria isso se Senhorita não estivesse no meio. Afinal, você está deslumbrado por ela.
Ri como se ele tivesse dito uma grande piada, apesar de saber que meus sentimentos estavam tão escrachados.
— A Senhorita pode ser muito interessante, mas não vale o risco. Não consigo imaginá-la como minha condessa — menti.
— Casamento é algo para vida toda, George. — aconselhou. — Vale mesmo a pena arriscar-se apenas por vantagens políticas?
Concluí que era algo a se pensar. Meus pais não eram apaixonados, mas não se odiavam e viviam em constante indiferença de um para com o outro. Poderia ser que fosse o matrimônio ideal para nossa sociedade, no entanto, era insuportável para mim. Ainda assim, eu não precisava amar minha esposa. Eu tinha amor o suficiente de minha irmã e de meu gato. Porém, a ideia de ignorar a existência de alguém que estaria comigo o resto da vida era estúpida.
— Procurarei outras mulheres disponíveis para o casamento, então. — Conclui. — está fora de questão.
— Hm, então, você garante que não sente nada por ela?
Afirmei com o balançar da cabeça.
Exeter encostou em sua cadeira, relaxado.
— Então, não tem problema a amizade dela e de Ever. Inclusive, elas estavam juntas na hora do chá hoje à tarde.
— De novo?
— De novo.
— Que bom para as duas. — falei com tom de descaso.
— É sim. — disse ele com um sorriso misterioso.

Salomão estava deitado na escada, em todo seu esplendor, quando eu cheguei em Ward House. Às vezes, tinha impressão que ele era o verdadeiro dono da casa e eu era apenas um convidado. Às vezes, eu tinha certeza. Tentei pegá-lo nos braços, porém ele arranhou meu braço de má vontade. Xinguei-o, mas ele manteve sua cara de tédio, ignorando-me deliberadamente. Ele ainda era muito arisco e boa parte de meus criados o detestava. Ainda assim, Salomão conseguia ser muito mais agradável que boa parte dos membros do Parlamento que eu conhecia.
Parei de andar no corredor onde uma das pinturas de meu pai estava pendurada. Nossa aparência era quase idêntica, embora tivéssemos personalidades distintas. No quadro, ele estava com o rosto tenso. Suas verdadeiras características se afloraram depois da morte de mamãe, quase como se ela sugasse toda a sua vivacidade. Não era metido em vários escândalos, mas os rumores existiam e muito cedo aprendi que os rumores, mesmo os mais absurdos, não nasceram do nada. Era visto por todos como um homem simpático e feliz, mas não era isso que eu via todos os dias em casa. Até, claro, mamãe morrer de repente.
Eu sonhei com meu pai traindo mamãe com uma cantora de ópera. Tentei manter a ideia de que era apenas um sonho, porém, anos depois, os boatos chegaram aos meus ouvidos. Meus sonhos ou eram, ou se tornavam realidade, apesar de todas as vezes que eu os tinha, fingir ser apenas um sonho. Então, por que negar o sentimento em relação a , sendo que já havia sonhado diversas vezes com ela?
Olhei para o lado contrário e observei a pintura de minha mãe no primeiro ano de casamento.
Ela era estonteante. Lady Deborah , Condessa de Dudley, era impecável em todos os modos. Filha de um duque, seu pai era o vigésimo sexto na linha de sucessão da coroa. Mamãe tinha os olhos amendoados e era a mulher mais paciente que eu conhecia. Suas reclamações eram as que eu e Ever mais temíamos, já que feria mais por ser em tom de voz calmo, cirúrgico. Ela olhava em nossos olhos e dizia: estou decepcionada, você errou.
E era como uma facada em meu coração.
Foi com ela que aprendi a manter a voz baixa, quando tudo que eu desejava era gritar em fúria. Ela me ensinou a conversar, convencer e cultivar amizades certas. Mamãe sabia muito mais sobre acordos políticos que meu pai, embora fingisse ser estúpida, apenas para rir de seus interlocutores em seu íntimo.
O pintor havia captado muito bem o brilho no olhar de uma jovem ingênua em seu primeiro ano de casamento. Conversas aqui ou ali, descobri o porquê daquela imagem não ser a que eu via todos os dias. Era assunto por toda a alta roda: Deborah amava seu marido, mas não era correspondida. Eu poderia culpar meu pai, mas seria injusto, levando em consideração que ninguém era obrigado a amar ninguém. Minha mãe se esforçava para chamar-lhe a atenção. Meu pai sentia-se sufocado, incapaz de dar-lhe o que ela desejava. Então, o tempo passou, e a indiferença foi a solução que os dois encontraram para suportar um ao outro.
Escutei um miado e vi que Salomão encarava a mesma pintura que eu.
Não posso afirmar que minha mãe foi feliz. No último ano em que estava viva, flagrei-a bebendo e chorando na biblioteca, se perguntando onde a felicidade habitava.
Por que, então, eu não cogitava casar-me com , apesar do sentimento vivo que crescia em meu peito?
Porque eu não iria ser como minha mãe.


Capítulo VII.




— Você toca algum instrumento, Ever?
— Sou completamente incapaz de fazê-lo, .
Nós duas rimos enquanto observamos Catherine tocar o seu piano para os convidados do jantar.
Era uma sexta-feira, duas semanas após o pedido de casamento de Catherine. A casa estava um caos naquela manhã, desde que a Marquesa de Exeter havia confirmado sua presença. Ela e seu marido seriam os que possuíam maior título na mesa, então o desespero de mamãe era natural.
Ever, a marquesa, a qual insistiu que a chamasse pelo primeiro nome, poderia ser dez anos mais velha do que eu, mas tinha a animação de uma jovem debutante. Não sabia o que a mesma havia visto em mim, porém nunca recusaria a amizade de um par do reino. Principalmente alguém tão agradável como Ever. Mamãe aproveitou nossa amizade para aproximar-se da marquesa e o convite para algo tão íntimo foi total ideia dela. Nenhum dos Exeters pareciam incomodados com a adulação de minha mãe e isso aliviou-me, pois pensei que o convite aceito era mais por cortesia do que vontade. Eles eram a parte boa para o desconforto que me dominava toda vez que o Senhor Lincoln olhava para mim.
Ele havia visitado a casa duas vezes após ter mandado o buquê de flores. Eu tentava não rechaça-lo, mas tudo que girava em seu entorno era como uma alerta de perigo. Senhor Lincoln era um homem de quase quarenta anos que nunca se casou; não entendia porque eu teria que ser a escolhida. Entretanto, o que eu tinha que fazer? Com quem me casaria se não ele?
Felizmente, as mulheres se retiraram para tomar chá e os homens para jogar e fumar, deixando-me mais aliviada.
— Ainda bem que saímos. — Comentou Ever, quando sentei ao seu lado. — O olhar de Senhor Lincoln dá-me calafrios.
— Ele é um bom homem. — Defendi-o, embora não quisesse realmente fazê-lo.
— Mas totalmente indiscreto. — Resmungou a marquesa. — Bem, vamos falar de coisa boa. Para quando será o casamento da Senhorita Marillier?
— Provavelmente no começo do outono. Queríamos que fosse no verão do próximo ano, porém ninguém confia na paciência de Catherine o suficiente.
Ela deu uma risadinha.
— Eu também não confiaria. — Afirmou. — Essa temporada está muito melhor de casamentos. Já recebi três convites apenas para a próxima semana. Terei que escolher qual eu desejo ir.
— Isso é verdade, ano passado tivemos mais noivados. — Repliquei, pensando nos noivados firmados que eu ouvi falar nas últimas semanas.
— Até meu irmão está pensando em arranjar uma noiva esse ano.
Peguei a minha xícara apenas para ter um motivo para desviar o olhar.
— Deve estar sentindo a pressão de ter um herdeiro logo. — continuou ela.
— Ele já tem alguma moça em mente? — Indaguei, apesar de saber que não iria gostar da resposta.
— Acho que sim. — Respondeu ela, aparentando não muita certeza. — Só espero que seja sensato em sua escolha, afinal, ela se tornará minha família, não é?
Balancei a cabeça em concordância. De forma discreta, relaxei os ombros e respirei fundo. Não havia motivo para sentir-me perturbada com aquela informação.
No entanto, ela martelou-me por um bom tempo. Sentia-me triste, apesar de ter ideia que eu estava longe de ser capacitada para ser uma escolha. Muitas moças haviam sido ensinadas pelas melhores preceptoras ou mesmo em escolas para garotas renomadas; por isso, era um pouco difícil fazer amizades na temporada, já que a maioria se conhecia. Até mesmo Catherine havia estudado por anos em uma escola para moças. Eu ainda tinha a criação superior para uma mulher do campo, o que funcionava bem no interior, mas não ali em Londres.
Ainda assim, algo me dizia que minha perturbação era muito mais complexa do que a natural insegurança que dominava-me.
Quatro dias depois do jantar onde Catherine oficializou seu noivado, eu e Ever saímos para passear em Hyde Park. Felizmente, mamãe não via mais motivo para que a minha acompanhante estivesse comigo, o que me deixava mais confortável para conversar com a marquesa. Tínhamos parado debaixo de uma árvore e Lady Ever lamentava não ter organizado-se para um piquenique, pois estava um dia lindo para tal.
Foi quando avistamos o Conde de Dudley e mais três pessoas cavalgando em um trote lento. Senhorita Kurtwood estava ao seu lado com um belo puro-sangue. Eles pararam para nos cumprimentar, mas, antes que eu acalmasse meu coração, o grupo já havia ido embora.
— Parece que agora sabemos quem é a sortuda que está cortejando. — resmungou Ever, parecendo tão desgostosa quanto eu.
— A Senhorita Kurtwood é muito agradável. — Comentei, pois ela foi muito simpática comigo nas poucas vezes que conversamos.
— Concordo, mas eu tinha planos diferentes para meu irmão.
Fiquei em silêncio tentando não pensar aquilo como uma insinuação. Por pouco, eu havia caído na ilusão de que receberia atenções de um nobre, apenas para me livrar de vez da sombra do matrimônio com o Senhor Lincoln. Tia Cassandra não deu nenhuma resposta para mim, claramente estando muito chateada como a forma abrupta que saì de sua casa anos atrás. Eu era a única que poderia livrar-me de um casamento desastroso com o Senhor Lincoln. Então, tomei coragem e disse:
— Ever, preciso de um grande favor seu.

Os dias que se seguiram foram os mais loucos da minha vida. Ever era uma matrona exigente e, após saber da minha situação, estava disposta a casar-me até com um bode, desde que ele não fosse o Senhor Verruga — um apelido um tanto infantil para o Senhor Lincoln, mas bastante condizente com a realidade.
Eu sabia que possuía algumas falhas na minha educação, parte por não ser uma aluna dedicada e parte por ter tido uma péssima preceptora. Mas, Ever deixou aquilo escancarado, quando resolver revisar as regras da alta sociedade. Felizmente, eu era uma boa aluna quando o assunto me interessava e não tinha problema em seguir ordens.
No dia em que escolhemos para a sua estreia como minha madrinha, eu estava nervosa. Escolhi um vestido vívido azul de tulle, do jeito que ela orientou-me. Pedi para que Donna fizesse um penteado mais elaborado e caprichei na maquiagem. Naquela noite, eu não seria mais uma mulher solteira no salão. Naquela noite, eu chamaria atenção.
Não obstante, meu estômago revirava de ansiedade. Era o primeiro baile que eu iria sem ser acompanhada pela Senhora Leroux ou mamãe, e sim pela Marquesa de Exeter. Fazia alguns minutos que estava pronta quando meu mordomo chamou-me dizendo que a marquesa estava à minha espera.
Contudo, não evitei sentir estranheza quando vi a carruagem com o brasão da família do Conde de Dudley na frente da nossa casa. O Marquês de Exeter desceu e cumprimentou-me em tom apologético, pois sua carruagem havia quebrado no meio do caminho e tiveram que pegar carona com o conde. Cumprimentei-os ainda fora e, com a ajuda do marquês, entrei e sentei ao lado de Ever, de quem as pulseiras brilhavam mesmo à noite. Não conseguia ver bem por estar escuro, porém consegui distinguir os dois homens pela sombra de seus cabelos. Dudley tinha os cabelos um pouco mais curtos, enquanto Exeter mantinha os seus mais longos.
— Essa noite vai ser ótima! — Comentou Ever quando a carruagem começou a andar. — Tudo que eu ensinei será posto à prova, querida. — Esse comentário não me ajuda muito. — Respondi com um riso nervoso.
— Oras, você não é uma debutante, . Recomponha-se.
— Com todo respeito, mas do que as senhoras estão falando? — Perguntou o conde perdido.
— Só posso dizer que estamos à procura de um marido à altura de . — replicou Ever. — Por isso pedi que dance com ela uma música, assim como o Cory irá fazer.
— Oh, tudo bem. Agora seu pedido faz mais sentido. — disse ele. Vi um vislumbre de um sorriso. — Agora saberei como irá se comportar quando Felicity debutar.
— Nem me fale. — Comentou o marquês incomodado.
— Já sinto pena da menina desde já. — falei.
— Ever a deixará maluca. — Complementou o conde.
— Se Felicity não o fizer antes. — Respondi e nós dois soltamos uma risadinha complacente.
— Ei! Eu estou ouvindo sua conversa. — Reclamou Ever indignada. — Mais uma palavra e não a ajudarei mais!
— Oh, minha amiga, desculpe-me. Não pude evitar. — Eu disse, embora o riso da minha conversa com Dudley não tivesse morrido.
Então, de repente, um miado soou na carruagem. O silêncio veio posteriormente, tenso e a única resposta para aquele tipo de barulho.
— O que foi isso? — perguntou Ever temerosa.
— Salomão? — chamou Dudley à procura de seu gato. — Deus santo! O que você está fazendo aqui?
Senti um leve roçar em meus pés e dois olhos tão azuis quanto meu vestido brilhou na face do gato. Agachei-me o máximo que o espartilho permitiu-me e ele pulou em meu colo.
— Esse é o famoso Salomão? — Falei o acariciando. — O pêlo dele é tão macio! Qual é a raça dele?
— Deus tenha piedade! — exclamou Ever assustada — Você está com esse gato demoníaco no colo? Solte-o! Ele vai acabar estragando o seu vestido.
— Nada, ele está bem quieto. — Argumentei, enquanto sentia sua cabeça enrolar em minha mão enluvada, pedindo por mais carinho.
— O Salomão gostou de você? — indagou o Marquês de Exeter com o tom de voz incrédulo. — Ele não te arranhou?
— O que está dizendo, milorde? — Perguntei confusa. — Ele é super calmo.
Como resposta, Salomão ronronou e eu dei um beijinho em sua cabeça.
— Eu… — tentou dizer Dudley, quem estava calado até então, mas foi interrompido pela porta aberta de repente e o cocheiro avisando que já haviam chegado em seu destino.


Capítulo VIII.



, Lord Ward, Conde de Dudley



Desci da carruagem meio desnorteado, enquanto tentava convencer-me que era só uma coincidência a cena que eu presenciara. Uma coincidência. Só uma coincidência.
Pus a mão na cintura e olhei para o céu, não achando graça nenhuma no que acontecia. Mesmo se eu repetisse trezentas vezes, eu não conseguiria acreditar que era uma coincidência ter sonhado com acariciando um gato em minha carruagem e visto isso ao vivo dois anos depois.
Ordenei para Salomão não sair de dentro da carruagem e ele miou em contragosto, quase seguindo para dentro do salão.
Esperto demais aquele bicho. Ele havia escolhido o lugar certo para deitar e rolar como um rei.
Deixei-o com meu cocheiro, que detestou a ideia de passar a noite com um felino tão antissocial, no entanto, não havia o que fazer. De jeito nenhum entraria com um gato em um baile.
Quando decidi aparecer no salão da viúva do Barão Ridgefield, imaginei que seria o momento para encontrar outras moças que pudessem ser futuras potenciais condessas, apesar de já ser de conhecimento público minhas poucas, mas significativas, visitas aos Kurtwoods. Também planejara rever alguns membros do Parlamento que estavam ainda indecisos sobre a última proposta de limpeza do Rio Tamisa, a qual estava cada vez mais distante de acontecer. No entanto, percebi que seria uma noite de imprevistos quando recebi o recado urgente de meu cunhado dizendo que necessitava da minha ajuda para ir ao baile, pois seu transporte havia quebrado uma das rodas no meio do caminho.
Estranhei, afinal, ele possuía dezenas de carruagens a sua disposição, contudo, ofereci ajuda.
Aquilo, eu conseguia lidar.
Até, é claro, ele explicar-me que precisávamos passar na casa dos Marillier em um bairro circunvizinho de Mayfair para buscar . E ainda tinha o pedido de Ever para dançar com para que fosse vista por homens que estivesse à procura de uma esposa.
Aquilo, eu conseguia lidar.
Porém, ver mais uma vez um sonho tornar-se realidade era sempre assustador para mim. Era como se eu fosse refém do destino e, por mais que eu tentasse, não conseguiria revertê-lo.
Exeter, minha irmã e a Senhorita foram apresentados primeiro ao entrar no salão. Conversei com a baronesa um pouco mais e observei-os afastar-sem sem mim. O barulho de conversa começou a incomodar-me, mas sorri para os conhecidos e cumprimentei-os com suavidade.
Embora aquela multidão fosse como um zumbido de abelhas, eu estava disposto a ser mais sociável naquela noite.
Peguei-me observando de longe, um hábito antigo, visando pegar-lhe feições que, no escuro da carruagem, eram impossíveis de serem vistas. A iluminação do salão era forte e facilmente pude ver o breve balançar de seus quadris no vestido azul que usava. Ela abandonara a simplicidade costumeira, porém continuava bonita de um jeito sóbrio, natural.
Puxando com graciosidade, observei a Marquesa de Exeter apresentar a ela o Sullyvan, um jovenzinho de vinte e um anos. Ele estava assustadíssimo em ser abordado por uma mulher tão vivaz quanto Ever, e assinou seu nome no cartão mais por medo do que vontade.
Cumprimentei mais alguns amigos no caminho enquanto ia em direção dos marqueses. Não obstante, deixei-me ser assediado por um par de matronas que ofereciam suas filhas como se elas fossem cavalos premiados e prometi-lhes uma dança.
— Dudley, venha conversar conosco. — Ouvi a voz grave conhecida do Senhor Kurtwood. — Stanton está falando besteiras aqui e só há um que pode colocar um pouco de juízo em sua cabeça.
Sorri para ele ao me aproximar dos meus pares, deixando para se aproximar dos Exeters depois. Kurtwood tinha um humor volátil e poucos conseguiam conversar com ele sabendo se estava o ofendendo ou não. O antigo Duque de Weshestter era o que mais tinha problema quanto a isso, despertando a ira constante de Kurtwood. Pela minha facilidade de lidar com impacientes no geral, o trabalho de negociar com ele sempre ficava comigo.
O debate estava um pouco acalorado demais para o clima, por isso, tratei de trazer um papo tedioso, mas apaziguador, sobre a estreia de uma nova exposição no Museu Britânico. Stanton, um admirador assíduo da história de nosso país, começou a discursar sobre os celtas e o papo tornou-se muito mais monótono e menos propenso para brigas. Ainda assim, não fiquei por muito tempo, o aglomerado de pessoas e o calor do salão dava-me nos nervos.
Cory estava sozinho e observava com um ar humorado as andanças de sua mulher junto à Senhorita pelo salão. Ever estava eufórica, enquanto a Senhorita mantinha um sorriso plástico ante ao comportamento exacerbado de minha irmã.
— Estou com pena da Felicity. — Comentei em sussurros para Exeter assim que aproximei-me dele.
— Estou com pena dos homens solteiros do ano em que a Felicity debutar. — disse Cory.
Então, após o fim da conversa que elas estavam com um grupo de mulheres, Ever e vieram em nossa direção.
— Falta você assinar o cartão de , . — Falou Ever com aquele olhar de quem tinha até as terceiras intenções.
Li com cuidado o nome dos homens que ali estavam; todos conhecidos e de boa família, embora poucos de grande peso ou influência social. Escondi minha decepção ao ver que a valsa seria com Sullyvan, caso a ordem dos nomes fossem levados à risca, mas assinei meu nome com um sorriso.
— Espero que seja uma noite divertida, Senhorita .
— Eu também. — Disse ela, um tanto tímida.
Depois disso, assim que Exeter tirou para dançar, fui cumprimentar a Senhorita Salie Kurtwood, a qual estava tão encantadora quanto nas outras vezes que a vi.
— Divertindo-se, milorde? — Indagou ela logo quando beijei-lhe a mão.
— Sim. Está uma noite muito agradável, senhorita.
— Com certeza. Oh, vi que a Senhorita está sendo acompanhada pela marquesa. — disse Kurtwood, puxando conversa. — Não sabia que eram próximas.
— É uma amizade recente.
Nós dois olhamos para o local onde os casais dançavam a quadrilha e fitamos a elegância em que batia palmas junto com as outras mulheres que rodopiavam pelo salão.
— Ela é muito bonita. — Comentou.
— É, sim. — me peguei dizendo. Ela levantou as sobrancelhas. — Uma moça muito simpática.
— Verdade, milorde. — Replicou desconfiada.
Tirei a Senhorita Kurtwood para dançar na música seguinte. Era uma balada lenta, romântica, perfeita para um cortejo. No entanto, perdi minha concentração quando Stanton posicionou-se ao meu lado com à sua frente. Forcei minha mente lembrar se ele havia casado no último ano e a memória fresca do noivado acabado por causa de um capricho seu apareceu em minha mente.
tinha aparência concentrada em seu par e a sombra de um sorriso pairava em seus lábios. No primeiro giro, Stanton sussurrou-lhe algo em uma distância curta e escandalosa, sendo respondido por um riso pequeno e sedutor.
Apertei os dentes dentro da boca e foquei em meu par. Se a Senhorita Kurtwood percebeu algo, nada disse. Não olhei mais para o casal ao meu lado, tentava a todo custo esquecer-me da cena vista. Eu não tinha direito de sentir ciúmes, porém aquilo só contribuia para que eu ficasse mais irritado com o ardor de meu peito diante de tal cena. Tentei manter uma conversa com Senhorita Kurtwood, porém pouco sei do que eu realmente falei. Quando a música terminou, batemos palmas para os dançarinos e fitei Stanton levar em direção a porta que daria para o jardim.
A falta de discrição de sua atitude para com irritou-me; ela ainda era uma dama, pelo amor de Deus! Por que agir de forma tão escandalosa?
— Milorde, papai está lhe chamando. — disse Senhorita Kurtwood segurando-me pelo braço e impedindo-me de fazer algo que me arrependeria mais tarde. Então, percebi que na verdade os dois estavam andando para à mesa de limonada, que era no mesmo sentido.
Envergonhado, tentei envolver-me o máximo com a conversa de Senhor Kurtwood. Sua presença sempre criava um grupo grande de pessoas desejando ouvi-lo, o que incomodava-me em demasia. Pior mesmo foi quando seus filhos se aproximaram, sendo eles todos altos como as torres do parlamento pairando ao meu redor. Minha gravata pinicava como espinhos no pescoço, a mão suava frio. Não era a primeira vez que aquilo acontecia: meu corpo estava angustiado, embora não houvesse real motivo para alarde. Pedindo licença, andei em direção à saída para tomar um ar fresco e tentar acalmar os nervos.
Talvez eu estivesse ficando velho. Talvez engolir emoções para impressionar a sociedade estivesse atacando meus nervos.
Meus passos eram pequenos e cheio de incertezas. Eu sabia que conhecia a maioria dos convidados, no entanto, não reconhecia suas faces. Quem era aquele que falava comigo? Quem era a mulher que ficou rubra quando a mirei nos olhos? Quem chamava meu nome?
, preciso que você livre-se do Senhor Lincoln. — Solicitou Ever no meio da confusão de minha mente. — Tire para dançar, agora.
Olhei para os lados situando-me e vi que estava a poucos passos da porta. Ever segurou meu braço com mais força do que o normal, mostrando a urgência do pedido. Procurei pelo salão e avistei-a ouvindo o discurso de Lincoln. Ela parecia bem miúda e temerosa, totalmente diferente da mulher confiante que entrara no salão horas antes.
Folguei minha gravata e soltei um suspiro antes de marchar até eles.
— Com sua licença, Senhor Lincoln, mas receio que a Senhorita tem uma dança reservada para mim e gostaria de requerê-la. — Afirmei com um sorriso forçado.
Ela agarrou minha mão com firmeza enquanto balançava a cabeça veemente.
— Sim, sim. Guardarei uma dança para o senhor. Não se preocupe. — Ela falou antes de puxar-me para o meio do salão.
Como em um passe de mágica, a música que tocava finalizou e eu e nos posicionamos para dançar à espera de outros casais.
A música era belíssima e alegre, também conhecida por mim. Era um sucesso nos bailes nas últimas duas temporadas de acordo com Ever. Infelizmente, requeria uma coreografia muito mais complexa e eu pouco conseguia concentrar-me no que eu fazia.
— Milorde, você está bem? — Sussurrou quando nos aproximamos.
Porém, tive que esperar um pouco antes de respondê-la. Girei, rodopiei e fiz uma leve reverência. Meu estômago embrulhou. Duas palmas sincronizadas e nos encontramos.
— Estou bem.
— Mas você está pálido. — Insistiu.
Outro giro e um rodopio. Apenas dei um aceno, meu corpo parecendo feito de ferro. Duas palmas fracas.
— Impressão sua. — Repliquei quando ela estava perto.
Ela manteve uma careta preocupada na segunda parte da música e eu sentia que talvez fosse o dia em que minha imaculada reputação iria sujar-se. Não sabia quantos rodopios eu aguentaria até vomitar.
Ao ficarmos lado a lado, meu par então avisou:
— A música irá diminuir o ritmo agora. Respire fundo.
E eu respirei, obediente.
Na troca de pares, quase tive um cataclismo. Antes, eu poderia focar apenas em , porém, aquela mulher desconhecida que estava em minha frente apenas me deixava mais nervoso, com a sensação de que algo ruim fosse acontecer.
Os rostos eram grandes borrões. O som dos violinos, muito alto. A conversa da aristocracia, intraduzível. A música, infinita e torturante.
Então, uma salva de palmas e sentia que havia corrido por todo o Hyde Park sete vezes em um dia. Tomei o braço de , mas era ela que me conduziu para o terraço.
Ainda possuía muita gente lá, então a larguei com suavidade.
— Eu preciso sair, senhorita.
— Eu irei com você, Dudley. — Afirmou com confiança. — Não parece estar bem.
— E sua reputação?
— Posso reverter alguns minutos no jardim, mas sua morte não.
Discordava de sua opinião, mas não tive forças para argumentar. Minutos tensos se passaram enquanto andávamos de forma discreta pelo salão até a saída alternativa para os jardins. Mantive a cabeça baixa e fiquei feliz em não ter sido abordado por ninguém. Nós passeamos bastante tempo por entre os arbustos, até encontrar um lugar reservado.
— Estou vendo um banquinho ali, milorde. — Explicou ela arrastando-me com seus pequenos braços. — Dudley, está tudo bem? O senhor pode me responder? O que sente?
Meu título soou como uma pressão forte na nuca, uma lembrança de que alguém em minha posição não podia se dar o luxo de ter uma crise naquele momento.
No entanto, eu sentia uma imensa vontade de chorar como uma criança. Os olhos marejaram, mas não permitiria que visse-me em uma situação mais vexatória do que aquela.
— Só preciso de ar fresco. — Expliquei ao sentar-me.
Como se escutasse minha necessidade, um vento soprou nas árvores e atingiu meu rosto. Peguei um lenço no bolso e tentei enxugar o pescoço, apenas para perceber que meus dedos tremiam.
— Deixe que eu o ajudo, milorde.
A cabeça doeu mais uma vez.
— Você deve voltar ao salão. Sentirão a sua falta.
— Não seja teimoso, Dudley. — Disse impaciente. — Você pode estar muito bem tendo um ataque epiléptico agora.
Ela pegou sem muita dificuldade o lenço em minhas mãos e passou-o com delicadeza na minha testa. Não havia nada mais escandaloso que aquela cena, porém era acalentador ter seus dedos pequenos e gordinhos cuidando de mim.
— O que está sentindo, milorde?
— Eu preciso respirar. — Pedi a empurrando de leve para frente.
— Não precisa ser rude.
Senti mais uma pontada na cabeça.
— Não estou sendo. Apenas não consigo respirar.
— Oh. Desculpe.
deu dois passos para trás e tinha um tom culpado.
— Irei chamar o marquês para ajudá-lo. Tem algum problema ficar sozinho por um minuto?
Neguei com a cabeça e observei ela sair enquanto tirava a gravata com violência. O jardim era bem iluminado, mas ainda mantinha uma aura mágica. Escutei alguns barulhos de passos e risinhos, porém ninguém apareceu.
Respirei fundo. Uma, duas, três vezes. Meu coração voltou a batida normal e a calmaria atingiu-me.
Está tudo bem. Estou seguro.
Então, veio a vergonha. A vontade absurda de chorar. Como um homem adulto e em posição de autoridade poderia cair em tamanho desespero infundado?
Não havia resposta para aquilo.
Cory apareceu minutos depois, a testa franzida em preocupação. Ele havia presenciado uma das minhas crises quando ainda éramos jovens e ingênuos em Eton.
— A Senhorita chamou-me. O que aconteceu? Está passando mal?
A brisa fria bagunçou meus cabelos e senti-me patético. Sua comoção deveria ter criado uma ótima fofoca para os pares do reino e era questão de tempo para as mais bizarras teorias me atingisse.
A noite havia acabado para mim.
— Estava sufocado lá dentro, mas agora estou melhor. — Confessei. — Acho que irei embora.
— Mas você está bem, ? Faz tempo que não o vejo assim.
— Estou sim. — e dei um sorriso. — O cansaço da semana finalmente atingiu-me. Só preciso de uma noite de sono.
Cory encarou-me, não acreditando em nenhuma palavra que eu disse.
— Então, porque a Senhorita estava tão nervosa? Felizmente ela é bastante discreta. Poucos perceberam a sua agitação.
— Eu estava enjoado e ela me acompanhou. Eu imagino que ela assustou-se.
Exeter assentiu.
— Pois bem, pedirei para preparar sua carruagem.
— Não, alugarei uma. Não deixarei vocês na mão.
E assim, o baile que seria apenas um evento interessante, tornou-se um dos piores que eu havia presenciado. Foi o que conclui ao chegar em casa e passar a noite em claro.


Capítulo IX.





Na manhã seguinte ao baile da baronesa viúva, eu acordei com o coração pesado. Embora o Marquês de Exeter tivesse garantido-me que o Conde de Dudley estava bem e apenas precisava descansar, não pude evitar manter minha preocupação. Percebi seu mal-estar assim que libertou-me de uma conversa enfadonha com o Senhor Lincoln. Embora conseguisse fingir que nada estava acontecendo, pude perceber seu desconforto ao dançar. Parecia que a qualquer momento cairia duro no chão.
Após vestir-me, desci para tomar o desjejum pensando em como eu faria para perguntar sobre o bem-estar de Dudley sem parecer uma completa intrometida. Entretanto, ao sentar na mesa da sala de jantar para comer, Diana Marillier, minha mãe, entrou com a felicidade de uma criança em descobrir que era Natal.
, querida! Você não vai acreditar no que aconteceu.
Continuei calma esperando que um criado colocasse minha comida no prato antes de perguntar:
— O que aconteceu?
Eu conhecia a personalidade de mamãe e era normal fazer alarde com coisas supérflua. Porém, daquela vez era diferente.
— Lorde Stanton lhe mandou flores! Orquídeas, as suas favoritas.
Pisquei, aturdida.
— Sério?
— Sim! Veja o cartão.
Ainda surpresa, peguei o cartão escrito pelo Lorde Stanton com cuidado. Continha seu selo azul e era pequeno do tamanho da minha palma.
— Isso quer dizer que…
— Ele está te cortejando, querida! Um Lorde! — exclamou mamãe, parecendo que iria enfartar a qualquer momento.
— Nossa… — murmurei ainda sem acreditar.
Li mais uma vez o cartão e sorri contida. Lorde Stanton tirou-me para dançar na noite anterior e foi muito cordial. Cortejou-me e comentou em um sussurro sobre quão bela estava naquela noite. Ele tinha uma aparência celestial, mas os rumores falavam de atitudes maliciosas. Um anjo caído por certo. Apesar de não ser considerado um libertino, e de rumores serem meia-verdades, eu deveria ser cuidadosa com ele. Deixar-me iludir com seu título igual minha mãe poderia trazer-me problemas.
— Senhor Lincoln também lhe mandou um buquê. Não é emocionante?
— Irei comer e logo depois verificarei as flores. — afirmei voltando ao meu prato.
Assim como avisei, o fiz. Levantei-me animada para a sala e encontrei os dois buquês lado a lado. O de orquídeas era muito mais belo e o de rosas era igual a todos os outros que o Senhor Lincoln enviava-me.
Lembrei-me, então, do momento em que dancei com Lorde Stanton e ele perguntou-me sobre o jardim. Respondi que não havia visitado, mas por certo queria conhecer as orquídeas da baronesa viúva que eram muito famosas. Ele guardara aquele comentário e sua atitude mostrava que era um homem atencioso. Um bom partido, com toda certeza.
Sentindo a esperança de fazer um bom casamento reavivar em meu peito, corri pelas escadas para mandar uma mensagem rápida para marquesa agradecendo meu progresso. Tropecei em alguns degraus, mas mantive-me eufórica, até ouvir Senhor Ross, mordomo dos Marilliers, chamar-me:
— Senhorita ?
— Sim? — virei-me para encará-lo.
Senhor Ross era um homem de idade avançada, mas fiel ao Senhor Marillier. Ele era um dos que mais me fizera sentir em casa assim que me mudei e eu respeitava-o por ser um homem discreto. O mordomo mirava-me com a cabeça inclinada para cima e um olhar intrigado para uma caixa em suas mãos.
— Recebemos isso do Conde de Dudley para senhorita. Está pesado, não quer conferir?
Fiquei nervosa, apesar de não haver motivo para tal. Talvez Dudley tenha pensado em cortejar-me. Talvez ele apenas quisesse agradecer por ter se preocupado com ele.
Desci devagar até Senhor Ross e pedi para que não contasse a mamãe. Ela ficaria maluca ao saber que algo de Dudley chegou para mim, por isso, avisei que explicaria o que ocorreu por mim mesma.
Abri a caixa com cuidado e soltei uma gargalhada alta, mais por felicidade do que graça. Dudley, apesar de ser simples e modesto, surpreendeu-me com aquele presente inusitado.
Senti um roçar em minhas pernas e ri mais ainda ao ouvir o miado de Leo, implorando para usufruir do presente.
No cartão, havia os seguintes dizeres:
“Senhorita Williams,
Agradeço-a pela atenção e cuidado que concedeste-a mim na noite anterior. Era apenas um mau-estar, como falei antes. Acordei sentindo-me melhor.
Há pouquíssimas coisas que poderia enviar-lhe sem que minha atitude fosse mal interpretada, por isso, achei por bem mandar-lhe tamanho presente ao Leo. Espero que seja de seu agrado.
De seu amigo,
Conde de Dudley.”

Levei a caixa até meu quarto de fininho com Leo ao meu encalço. Após fechar a porta, abri com afobação a ração de alta qualidade para meu gato e despejei um pouco no chão. Leo devorou com vontade a comida, já que eu ainda não havia preparado o seu café, e deixou sua tigela limpa. Coloquei mais um pouco e guardei na última gaveta, onde eu escondia o livro de estratégias de xadrez, papel e tinta para escrever. Havia algumas anotações sobre meu progresso no jogo e outras coisas que aprendi com a prática. Eu gostava da lógica do xadrez e o quanto ele desafiava-me a pensar. Acima de tudo, era necessário habilidade para ganhar o jogo, não mera sorte.
Enquanto observava Leo comer mais da ração e sentia um cheiro forte de comida processada encher o quarto, voltei-me ao cartão de agradecimento que enviaria para Dudley. Eu iria mandar pelo Tyler, o neto de Senhor Ross que costumava levar as cartas de amor escondidas de Cath.
O presente era muito mais significativo do que o conde possivelmente achava. Eu não tinha autorização para gastar tanto com meu gato, pois, de acordo com mamãe, “só comia quem trabalhava”. Uma grande controvérsia, levando em consideração que nem ela e nem eu trabalhava.
Então, após pensar bastante, escrevi-lhe o seguinte bilhete:
“Caro Conde de Dudley,
Fico feliz em saber que milorde está se sentindo melhor. Aconselho, porém, que busque um médico. Saúde não é brincadeira.
Sobre o presente, agradeço-lhe por ele, embora seja mais para Leo do que para mim. Seu agradecimento será sempre bem lembrado.
De sua amiga,
Senhorita .”

Lorde Stanton chegou em minha casa assim que o relógio bateu às três horas. Era como se ele estivesse todo o tempo de frente de nossa casa observando até que o horário considerado educado para as visitas finalmente chegasse. Ele era um homem elegante e muito alto. Tinha ascendência irlandesa: era um tanto loiro e com algumas sardas no rosto. Embora fosse totalmente fora de moda, Lorde Stanton era bonito à sua maneira.
Ele beijou minha mão com um pouco de demora do que o costume, os olhos cinzentos encarando-me com interesse suficiente para deixar-me rubra. Se fosse em outras casas, onde as mães eram mais castas, tenho certeza que aquela atitude poderia ser vista com ultraje, entretanto, mamãe estava entusiasmada demais em tê-lo como visita para prestar atenção a isso.
Às vezes eu tinha impressão que caso eu vira-se amante de algum sangue azul, ela ia apoiar-me de certa maneira, embora fosse uma vergonha para a família.
Sentamos na sala de visita, nós três em lugares confortáveis conversando futilidades.
— Ontem, a Senhorita estava brilhando no meio da multidão — disse Stanton à minha mãe.
— Ela é linda, não é, milorde? Uma graça! — elogiou mamãe.
O lorde inclinou um pouco seu rosto em minha direção e mirou-me com atenção ao dizer:
— Uma rosa no meio de tantos cravos. Sinto honrado por encontrá-la. — então fitou minha mãe. — E, é claro, ela tem a quem puxar tamanha beleza.
Mamãe e eu ficamos vermelhas; ela, por receber tamanho elogio de um homem mais novo e de alta estima, riu de lisonjeio por trás do leque que carregava pendurado no pulso. Eu, porém, ri sem graça e nervosa. Apesar de ser normal do cortejo tais comentários, sentia-me uma debutante: completamente inexperiente. Senhor Lincoln, meu fiel pretendente, sempre foi muito mais discreto em suas atenções para comigo.
— Acho que fomos apresentados na casa de campo dos Edwards, no verão do ano passado, não é? — comentei.
— Sim, senhorita. Na ocasião, porém, estava muito apaixonado para minha então noiva para olhar para outra mulher. — sorriu para mim. — Se não o tivesse, tenho certeza que prestaria atenção na senhorita.
Pisquei repetidamente e sorri, incômoda. Stanton continuou fitando-me como se eu fosse uma arte grega muito interessante; era um olhar de quem desnudava uma obra artística de grande prestígio. Arrepiei-me quando vi-o lamber os lábios rapidamente, uma sensação estranha atravessando meu corpo.
— Oh, lembro-me bem disso. — falou mamãe. — Se permite-me, milorde, fiquei bastante sentida em saber que um par como vocês não deram certo.
Apertei os lábios evitando ri. Apesar de soar como alguém triste, os olhos de Diana Marillier brilhavam como duas pérolas com a perspectiva de ter em mãos uma boa fofoca. Stanton, se o percebeu, não teve a delicadeza de livrar sua antiga noiva.
— Ah, infelizmente nem tudo que brilha é ouro, não é, minha senhora?
Pude ver mamãe bater palmas por dentro diante daquela informação tão ambígua, podendo transformar-se em uma fofoca muito mais palatável.
Remexi-me desconfortável. Imaginava se seu interesse por mim minguasse, logo eu estaria na boca de alguma lady desocupada.
Nossa conversa foi guiada por outros comentários fúteis que não são bons o suficiente para serem citados. A sua estadia, no entanto, foi curta. Antes que percebesse, estávamos nos despedindo.
Quase dez minutos depois, o Senhor Lincoln apareceu em nossa porta. Mamãe ainda tinha seus incontáveis elogios para ele e convidou-o para sentar-se conosco. Era de uma discrepância a diferença entre ele e Lorde Stanton. Enquanto esse último estava muito mais dedicado em cortejar-me até o fundo da palavra, o Senhor Lincoln parecia mais um vigário censurando sobre os pecados da alta roda. Olhei-o com complacência ao ouvi-lo falar com o tom repreensivo de uma senhorita que havia fugido no último final de semana para Gretna Green. Muitas vezes nós mulheres éramos vistas como fofoqueiras, mas os homens possuíam tanto quanto nós essa falha no caráter.
Foi a primeira vez que não senti-me totalmente desconfortável com sua presença. Apreciei ficar balançando a cabeça em concordância enquanto não prestava a menor atenção ao que ele dizia. Inclusive, por alguns segundos imaginei que o Conde de Dudley seria o próximo a aparecer em minha porta, entretanto observei que era uma ilusão da minha parte. Não havia nada como um cortejo entre nós, apesar dos momentos em que senti-me eufórica com a ideia de encontrá-lo. Ademais, eu não havia sido educada para ser uma condessa. Nunca contaria a mamãe, porém eu tinha consciência que a sua dedicação com a minha educação foi negligente. Ela acreditava piamente que minha beleza era o suficiente para conseguir um título, pensamento um tanto ingênuo de sua parte.
Tarde da noite, quando toda a Londres dormia, fiquei pensando no que Tia Cassandra acharia de meu pequeno progresso no mercado do casamento. Provavelmente não iria gostar, levando em consideração que ela afirmava com veemência que aquilo era a prisão das mulheres. Uma gaiola com laços, dizia minha tia. Não discordava com ela, mas entendia que eu não tinha o que fazer. O mundo era assim e não havia como ser mudado. Lembrei de sua briga com minha mãe para que eu não fosse para Londres. Os gritos foram ouvidos por todo o chalé cheio de blasfêmias e ofensas de ambos os lados. Mamãe ficou horrorizada quando Tia Cassandra afirmou explicar o quão repugnante era compartilhar a cama com um homem; ela não sabia que minha cabeça de criança pouco entendeu a explicação dela. No final, eu tive que escolher entre as duas. Minha mãe foi a escolha óbvia, mas aquilo machucou profundamente Tia Cassandra, a qual não respondia quaisquer das cartas que eu enviava desde então. Ainda assim, ela era a última ligação com meu pai que eu mantinha. Se antes eu era uma criança apenas tolerada, depois de adulta passei a ser ignorada até pelos primos que um dia apostei corrida pela propriedade de meu avô.
Quando meus olhos começaram a pesar, deduzi que sua falta de resposta para meu pedido de socorro foi uma punição por ter insistido em ir a Londres, embora àquela altura seu rancor deveria ter sido erradicado.

Revi o Conde de Dudley de novo apenas três semanas depois. Ele estava na igreja durante o casamento do herdeiro do ducado de Wessex ao lado de Ever no banco de frente ao meu. Pude ver que seu cabelo estava um pouco mais longo do que antes, algo bastante fora de moda. Ainda assim, o conde era muito elegante. Tinha uma altura mediana, mas postura de quem sabia seu lugar: o topo. Ele percebeu a minha presença quando, curioso, olhou para trás checando se a noiva estava à vista. Segundos depois virou-se para mim, finalmente reconhecendo minha presença.
— Milorde. — cumprimentei-o com uma leve reverência.
Ele esticou os lábios suavemente e sorriu. Senti carinho quando ele respondeu-me:
— Senhorita .
Ele virou-se para frente depois, porque a marcha nupcial passou a tocar. Porém, foi o suficiente para que um calor estranho amparasse meu peito pelo resto da cerimônia. Nem mesmo os comentários críticos de Cath sobre o vestido da noiva foi o bastante para ignorar aquela emoção.


Capítulo X.



Lorde de Ward, Conde de Dudley.



Um dia após o baile da baronesa viúva, resolvi visitar Dudley. Era meu refúgio, o lugar em que escondia-me até a vergonha dissipar. Boa parte dos funcionários de Dudley House eram antigos o suficiente para saber que minhas visitas repentinas significavam que eu precisava de um tempo só, então, eles pouco incomodavam-me. Tudo estava em ordem, do jeito que eu havia deixado no início do ano. A decoração bolada pela minha mãe era mantida pela Senhora Hudson, a governanta. A antiga condessa era sofisticada de forma minimalista, algo que dividia opiniões pelos salões da alta roda. Eu admirava como ela conseguia usar vestidos simples e joias exuberantes sem parecer que travestia uma falsa humildade.
Sempre acreditei que Dudley House era grande demais para mim e minha irmã. Uma mansão como aquela merecia seu próprio exército de crianças importunando criados. Ainda muito cedo decidi que o faria acontecer. Naquele momento, porém, saber que estava muito perto de cumpri-lo, a ideia deixava-me nervoso. Eu queria ser um pai muito melhor que o meu — não que ele fosse terrível, mas havia diversas coisas que senti falta em minha criação. Pensar em Senhorita Kurtwood como mãe dos meus filhos deixava tudo mais inseguro, principalmente pelo fato de que não sabia se era seu desejo engravidar várias vezes. Embora fosse socialmente aceitável um homem reclamar seus direitos de ter quantos herdeiros quisesse, algo em mim dizia que era egoísta tais atitudes.
Passei três semanas em Dudley brigando contra minha própria mente, convencendo-me que até o final da temporada eu deveria decidir o que fazer. Nesses dias encontrei-me com o Lord Byron, uma figura bastante peculiar na sociedade aristocrata. Seus antecessores eram homens imorais e trapaceiros — posições que iam além da esperteza e inteligência conhecida dos Rutherford, por exemplo. Nas últimas gerações, os que carregaram aquele título tiveram perdido diversos bem. O antigo Lord Byron caiu em tamanha desgraça que perdeu todas as suas terras e morreu afundado em dívidas, as quais deixou para a filha de seis anos. Parecia o resultado justo que Deus havia lhes dado. Então, um burguês em ascensão recebeu o título. Logan McBrair possuía a árvore genealógica mais confusa que já vi, desde ciganos a estrangeiros. Entretanto, por causa de um galhozinho advindo de seu pai, um homem já de idade avançada que teve um filho pouco antes de sua morte, ele era o herdeiro de algo em falência. Conhecido pela indústria de enlatados que se alastrava por todo continente, Byron era infimamente rico. Desprezava a alta roda, mas era querido pelos ministros que o tinha como um exemplo de diplomata. Até mesmo a Rainha Vitória o tinha com alta estima, embora ele tivesse algumas manias grosseiras. Era ele que criara em mim a ideia de investir no plantio de ameixas; com condição, é claro, que eu me tornasse seu maior fornecedor. Sua empresa vinha de um regime pós-revolução, algo novo e não muito bem aceito pela sociedade; porém Logan era amado por todas as áreas da mesma, apesar do título que carregava. Havia um magnetismo nele que nem mesmo os mais conservadores eram-lhe problema. Eu o enxergava como igual, embora tivesse consciência que éramos feitos de materiais distintos.
Naqueles dias, nós dois tivemos uma conversa interessante. Logan estava sentado em minha sala de visitas e mantinha uma aparência introspectiva, logo após o jantar.
, o que acha de um casamento por procuração? — perguntou de repente.
— Eu não o faria. — respondi. — A não ser que precisasse casar-me rapidamente e não pudesse comparecer. Por que a pergunta?
— Preciso me casar, mas não quero ter que frequentar a temporada social para encontrar uma esposa. Muito menos casar-me com alguém de sangue azul.
Fitei-o com um sorriso pequeno, achando aquela atitude típica dele.
— Não sei como você mantém uma amizade comigo quando sente tanto desprezo pela aristocracia.
Logan olhou para mim como se finalmente enxergasse-me.
— Às vezes esqueço que você é um esnobe.
— E eu que você é um selvagem. — falei relaxando-me em meu assento. — Já tem em mente uma noiva? A família dela estaria confortável em não ter uma celebração?
— Acredito que sim. Eles precisam de dinheiro. — disse ele. — Um casamento por procuração também ajudaria-me a deixar claro que tipo de arranjo quero fazer.
— O que você quer dizer com isso?
— Se fosse apenas uma caça à uma amante, faria sentido enchê-la de mimos, afinal, a qualquer momento pode-se-ia terminar. Um casamento não tem tal possibilidade. Eu teria que cortejá-la e adudá-la um pouco até o fim da vida, pois teria que viver debaixo do mesmo teto. Quero que minha esposa seja minha sócia, que trabalhemos juntos.
— Então, não deseja amor, Logan? — perguntei provocando-o. — Pensei que casamento por amor era uma invenção burguesa.
— Eu deixei de ser burguês há tempo, . Mas também não sou aristocrata. — falou ele pensativo. — Não sei quem eu sou.
— Seja um, outro, ou algo entre os dois, todas as nossas faces necessitam de amor, Logan. — afirmei. — Não necessariamente entre homem e mulher.
— Talvez você esteja certo.
Ele sorriu para mim e senti-me feliz por tê-lo como amigo.


Revi dois dias depois de ter voltado para Londres. Ela estava na igreja durante o casamento do herdeiro do ducado de Wessex com sua família ao lado. usava um vestido de cor vermelha e, embora fosse de um tom brando, parecia um convite para a paixão. Percebi a sua presença quando, curioso, olhei para trás com a esperança de que a noiva estivesse à vista. Segundos depois virei-me para ela, finalmente reconhecendo-a.
— Milorde — cumprimentou-me com uma leve reverência. A face dela ficou rubra, embora nada mais indicasse constrangimento.
— Senhorita . — respondi com um sorriso.
Virei-me para frente antes de cumprimentar seus parentes, pois a marcha nupcial pôs-se a tocar. Durante a cerimônia quase pude escutar o bater do meu coração. Sentia-me eufórico em pensar que em pouco tempo seria eu esperando no altar. Imaginei como seria ver entrando com seu traje branco em minha direção.
Senti frio de repente. Por que eu insistia em afundar-me naqueles pensamentos quando sabia que não iriam ser reais?
Lembrei, então, da carta de Senhor Kurtwood solicitando minha presença em sua casa para acertar o noivado com sua filha. Eu ainda não havia o respondido, mas sabia que teria que ser muito em breve. Deixar um homem como aquele esperando era pedir para criar uma tempestade totalmente evitável.
Um pouco antes de ir para o casamento, recebi um recado de Kurtwood. Ele tinha uma forma passiva-agressiva de falar, pedia quando na verdade estava ordenando. Socialmente, em tese, eu estava acima dele, mas havia muito mais a ser colocado na balança. Na semana seguinte, a votação para a criação de uma lei que regulamentava a criação de empresas de pequeno e médio porte iria ocorrer. Kurtwood, por conta de nossa conversa, estava disposto a deixá-la passar sem muita alteração, em concordância a bancada conservadora, onde eu me encaixava. O Conde de Stanley, quem desejava ser primeiro ministro, mostrava-se satisfeito com minhas ligações com o lado opositor.
Durante a recepção do casamento, no almoço, voltei-me a observar discretamente, do jeito que havia feito nos últimos anos. Apesar de estar a poucos metros do meu alcance conversando com as amigas de Ever, ela nunca me pareceu tão longe.
O que aconteceria se eu negasse querer casar-me com Salie Kurtwood? E se eu começasse a cortejar publicamente a ? Apesar de não haver qualquer documento escrito, minha palavra como cavaleiro teria que ser verdadeira. Minha honra, minha posição no partido e tantas outras coisas estavam em jogo. A reputação tão bem estruturada como alguém que dialogava abertamente com os dois lados ficaria por um fio.
Demorei alguns segundos para perceber que devolvia o olhar para mim. Ela cobriu a boca para abafar o sorriso antes de desviar sua atenção para Ever, que discursava com afinco sobre algum tema supérfluo.
Meu coração, indiscreto que era, doeu no peito. Eu havia caído em uma armadilha por pura insensatez. Como livraria-me de tal problema?
Apertei os lábios e desviei o olhar quando observei Stanton aproximar-se do grupo e conversar exclusivamente com . Não senti apenas ciúmes, mas também entrei em situação de ter pena de mim mesmo. Era errado tais pensamentos, pois não me esforcei em momento algum a me aproximar dela, nem mesmo a cortejava. Deixei que a covardia me dominasse de forma que não conseguia sair daquela posição confortável. Agora, estava ali como um idiota querendo afastá-la de Stanton.
Cory segurou em meu ombro de repente.
— Se a quer tanto, por que não fala com ela?
Demorei um pouco antes de responder pensando se negar era uma boa ideia ou não.
— Eu nunca seria páreo para Stanton. — falei em tom de brincadeira e retirando sua mão de mim.
— Ela perguntou sobre você esses dias.
Virei-me, interessado.
— Verdade?
Cory soltou uma gargalhada.
— Não. é discreta em falar sobre você, mas é fácil perceber que fica diferente ao seu lado.
— Diferente como? — questionei curioso.
— Se não estivesse tão preocupado em negar suas vontades, você saberia. — provocou-me.
Assim que o desconforto de estar em um lugar cheio de pessoas começou a aparecer, decidi ir para casa. Estava vestindo meu casaco com ajuda do mordomo de Wessex quando apareceu sozinha no meio do corredor.
Ela fez uma pequena reverência, mas manteve uma distância um tanto atípica. Estávamos diante de um criado, afinal.
— Dudley, sua irmã avisou-me que estava indo. Não tive a oportunidade agradecer pessoalmente seu presente para Leo. — ela disse. — Ele deve ter engordado uns três quilos nessa semana.
— Imaginei que fosse gostar, Salomão ama aquela ração. Ficou até obeso no começo.
Ela riu meio constrangida e eu a acompanhei. Ficamos em silêncio desconfortável observando o mordomo sair; os dois querendo falar, mas não corajosos o suficiente para dizer alguma coisa.
— Acredito que devo voltar para mamãe.
— Sim, claro. Não quero pô-la em problemas. — justifiquei rapidamente.
— Mais uma vez obrigada, milorde.
— Eu que devo agradecer. Não sei o que seria de mim sem sua ajuda naquela noite.
— Oh, esqueci de perguntar se está melhor. — comentou com o rosto exalando preocupação.
Vi-a dar alguns passos em minha direção, mas parar subitamente quando percebeu o que fazia.
— Estou bem melhor, senhorita. Não se preocupe.
Ela relaxou os ombros.
— Então, devo ir. — mas não saiu do lugar.
Eu também não fiz qualquer movimento para sair.
— Senhorita ?
— Sim?
Abri a boca para dizer-lhe que Stanton não era homem o suficiente para ela. Ele esqueceria dela em poucos meses e deixaria vivendo em um matrimônio solitário.
Porém eu não tinha poder de dizê-lo. Por isso, diante de seu pequeno arquear de sobrancelhas esperando meu comentário, falei:
— Chame-me de . Somos amigos, afinal.

Capítulo XI.




Era bem verdade que eu não possuía profunda amizade com muitas pessoas em Londres, porém Ever mudou tal cenário. Desde o baile da baronesa viúva, ela sempre trazia algumas de suas amigas para nos fazer companhia. Embora elas não fossem minhas escolhas óbvias de relacionamento, cada das mulheres carregava sua própria individualidade e diversão. Charlotte, Daphne e Bernice tinham o caráter parecido com a marquesa, mas em Ever eu podia ver um pouco de ceticismo e crítica de quem já havia conhecido o lado ruim da sociedade. Ela contou-me um pouco da sua história em um dos nossos encontros. O seu primeiro casamento foi com um homem que era uma fraude, o qual dizia-se um nobre espanhol. Era ele, inclusive, o pai biológico de Felicity. Era um milagre que alguém que passou por uma história como a dela ainda mantivesse sua personalidade intacta e a vontade de ser feliz existindo. Ever, a Marquesa de Exeter, era muito mais forte do que aparentava.
Era uma sexta-feira e a conversa das meninas ainda era sobre o casamento na casa de Wessex. Seus comentários assemelhavam aos de Catherine, que achara toda a decoração de puro mau gosto. Eu achava falta de educação julgar tais coisas, mas confesso que me divertia com as piadas que elas faziam. Ever costumava trazer-me para dentro de seus argumentos, pois eu sempre concordava, mesmo não tendo certeza do que ela se referia.
Por não estar bem situada naquela conversa, eu achava-me perdida em pensamentos que pertubavam-me desde o casamento: o pedido de Dudley para chamá-lo pelo seu primeiro nome. Imaginava que conversar com mamãe ou Ever sobre aquilo seria o certo a se fazer, porém eu sabia que nenhuma das duas veriam minhas palavras como algo inocente.
Estava tentando não afundar-me na ilusão de que ele estava cortejando-me. Dudley havia deixado claro que a aquela intimidade advinha de nossa amizade. Entretanto, eu sabia que o esquentar de meu peito que atingia-me durante nossas conversas não era algo normal.
Como se eu tivesse o invocado, ouvi o mordomo de Exeter anunciar:
— O Conde de Dudley já chegou, milady.
Ever olhou para seu criado com uma careta confusa até que lembrou-se de algo.
— Hoje é sexta-feira? Oh, Deus, esqueci-me completamente! Meninas, há algum problema se meu irmão tomar chá conosco? Este costuma ser o dia em que nos encontramos.
— Problema nenhum, marquesa. Será um enorme prazer. — comentou Bernice, causando risinhos das demais.
Mexi-me em meu assento e fingi não estar desconfortável com o que ela dissera. Dudley apareceu segundos depois e segurava um tabuleiro em suas mãos. Ficou assustado com o número de pessoas na sala de visitas, mas foi muito educado em cumprimentar cada uma de nós. Ele vestia vermelho escuro, um tom que variava entre sóbrio e extravagante; uma controvérsia que apenas Dudley poderia carregar.
— Devo voltar mais tarde? — indagou a Ever. — Trouxe o jogo de xadrez que você havia pedido.
— Acredito que seja melhor deixar o jogo para outro dia, mas você pode participar da nossa conversa. O assunto é de grande relevância.
— Tudo bem. — disse ele, embora parecesse decepcionado.
— Eu posso jogar com você, milorde. Se for de seu desejo, é claro.
O conde virou-se para mim como se apenas naquele momento houvesse prestado atenção a minha presença. No entanto, as outras pessoas que estavam no recinto também escutaram o que eu havia dito e fitavam-me com curiosidade. Desviei o olhar tentando fugir do rubor que atingiu minha face segundos depois tamanha proposta ousada.
— Você sabe jogar xadrez, querida? Que maravilha! — comentou Ever parecendo bastante satisfeita. — Agora tenho ideia do que lhe dar de presente em seu aniversário.
— Aniversário? Quando o será? — indagou o conde enquanto arrumava o tabuleiro na mesa.
— No próximo final de semana, é um sábado — respondi.
— Será que também posso jogar? — perguntou Daphne.
— Vamos fazer um campeonato, então. Primeiro serão o Conde e a Senhorita . Quem perder sai, quem ganhar fica. — propôs Charlotte.
Acertamos a ordem e improvisamos uma mesa de jogos, todos muito animados com a perspectiva de jogar uma partida.
Não demorou muito para que as meninas esquecessem de nós. A conversa voltou a ser um emaranhado de risadas e gritos e, quando um de nós era puxado para conversa, nossa suavidade não se mostrava bem-vinda. Era preferível que jogássemos na sala de jogos, no entanto, não havia quem desejasse nos acompanhar. De vez em quando, via o Conde olhar feio as visitas que desconcentravam-no, porém ele nada dizia a elas.
— Seu chá é com creme e sem açúcar, não é? — perguntei ao serví-lo.
— Sim, isso mesmo.
As peças de xadrez postas no tabuleiro eram de mármore, sendo eles pesados e de cor branca. Pareciam já ter grande tempo de uso, mas eram bem cuidadas.
— Faz muito tempo que os tem? — indaguei.
— Sim, tenho desde criança. Era um dos meus passatempos prediletos.
— Fala a sério?
Ele concordou com a cabeça.
— Há algo de errado?
Ri desconcertada. — Não, mas não consigo imaginar que tipo de criança preferia jogar xadrez a correr pela casa. — comentei curiosa. — Digo, meu irmão, Phillip, é bastante arteiro. Perdi as contas de quantos vasos foram quebrados e quantas confusões ele se meteu. E só tem 9 anos!
— Ever com certeza foi essa criança, mas sempre fui bem mais calmo que ela. — disse em tom nostálgico. — Grandes agitações sempre deixaram-me perturbado.
— É por isso que passou mal naquele dia no baile da baronesa?
Ele piscou aturdido.
— Talvez… Por que fez essa associação?
Dei os ombros, pois não sabia como o responder.
— É a sua vez. — alertei.
Voltando a órbita, Dudley observou seu lado do tabuleiro e com seu bispo levou embora um dos meus peões.
— Irá fazer algo de especial em seu aniversário? — questionou o conde na minha vez.
— Só um segundo — pedi franzindo a testa para me concentrar. Movi uma das minhas torres despretensiosamente. — Estou pensando em ir ao Museu Britânico.
— Posso acompanhá-la?
Meu estômago deu um nó de ansiedade. Fitei-o com cuidado e ele olhava para mim sem pretensão de mostrar-se tímido com o pedido ousado. Contive o sorriso antes de dizer:
— Adoraria.
Então, ele levou embora minha torre.
Como fez isso? — indaguei confusa ao perceber que ele advinhara minha estratégia.
— Eu só o fiz — disse dando os ombros.
Vi um pouco de malícia em seus olhos claros e então caiu a ficha de que ele não estava sendo cem por cento honesto em suas táticas. Seu diálogo era só uma forma de distrair-me, deixando-me nervosa.
A decepção atingiu-me, pois achava que Dudley estava realmente interessado em conversar comigo. Aquilo, porém, não foi o suficiente para que desistisse do jogo.
era um homem difícil de distrair-se. Falei sobre música e arte grega; até mesmo contei algumas curiosidades que eu sabia sobre Afrodite, a deusa do amor. A todo momento estava ele escutando, assentindo, porém, sua concentração pertencia às peças de mármore de frente a nós dois. Fiquei imaginando se aquilo era uma das habilidades que ele usava no parlamento para carregar a fama de um bom político. Admirei-o, pois não havia outro caminho a não ser este. Principalmente pelo fato dele possuir uma aura atraente que despertava um ser provocativo dentro de mim.
Dudley estava com a vantagem; eu só tinha duas saídas para conseguir atacar o seu rei; pelo sorrisinho que ele dava, o conde conhecia ambos. Tal atitude dividia-me em querer estrangulá-lo ou beijá-lo, pensamentos a qual eu não estava devidamente familiarizada.
Assim que minha vez passou e Dudley inclinou-se para analisar o tabuleiro, resolvi usar minha última artimanha:
— George?
O conde levantou a cabeça rapidamente e o olhar que recebi fez meu coração pulsar como um alienado em meu peito. O nome dele era igual a de nosso antigo monarca: forte e escorregava na boca com facilidade.
— O que há, senhorita?
Sua pergunta não era rude ou petulante, trazia consigo solicitude.
— Pode chamar-me de se desejar.
George observou-me em silêncio, lendo minha alma desnuda com facilidade. Apesar disso, não senti-me desconfortável. Eu queria ser lida e compreendida, sobretudo por ele.
— Já sentiu a sensação de não ser deste mundo, ? — indagou ele muito sério. — Que esse ciclo social não pertence a você?
Mais uma vez meu coração saltou no peito. Com cautela, eu lhe disse:
— Para onde quer chegar, George?
— O mundo pode ser moldado através de nossa perspectiva. E você pode pertencer a ele. — afirmou pensativo. — A aristocracia é hostil, mas você pode aprender a jogar o jogo dela.
Arrepiei-me aturdida com sua conversa. Ele pegou seu bispo e deslocou para a esquerda, o movimento que eu desejava que ele fizesse. Com o riso estampado na face, mexi minha rainha para o ponto em que deixava o seu rei encurralado por ela e minha torre.
— Xeque-mate.


Capítulo XII.



, Lord Ward, Conde de Dudley



Quando saí da casa dos Exeters naquele dia, havia ganhado de mais duas pessoas após mim. Ela era muito boa, embora confesse que eu estava bastante distraído com nossa conversa durante o jogo. Uma simples partida de xadrez tornou-se algo muito mais importante. Ele foi o empurrão que eu precisava para decidir o que faria.
No dia seguinte, fui fazer uma visita aos Kurtwoods. Antes de solicitar um cortejo oficial para com , eu iria colocar minha casa em ordem.
Kurtwood parecia realmente animado quando solicitei uma reunião à sós com ele. Sua filha também estava ansiosa quando o disse, e eu sabia que não responderia suas expectativas à altura. Senti-me um pouco mal por quebrar nossas relações, afinal, não havia nada de errado em Salie Kurtwood. O único defeito dela era não ser .
— É um prazer recebê-lo de novo em minha humilde casa, Dudley. Sente-se, por favor.
Assenti antes de sentar-me tenso. Não importava o quão delicado eu fosse ao contar meus planos: Kurtwood não iria aceitar bem minha posição.
— Salie comentou que sentia-o mais distante. — iniciou Kurtwood. — O pedido de casamento desperta nervosismo mesmo quando nós já sabemos a resposta, não é?
Então não haveria tempo para conversas corriqueiras, eu deveria ser mais direto. Assumi uma postura tensa, porém dominadora.
— É sobre isso que vim falar, Kurtwood. — mirei-o sem desviar a atenção. — Apesar da nossa primeira conversa visar um casamento, não havia nenhum acordo fixo sobre o arranjo. Eu iria conhecer melhor sua filha e decidir por mim mesmo. Pois bem, acredito que não poderei proceder mais nesse cortejo. A Senhorita Kurtwood é uma moça muito prendada, mas não é quem procuro para ser uma condessa. Peço perdão pelo tempo perdido e estou aberto para manter nossa amizade.
A expressão de Kurtwood mudou de deleite para irresignação. Porém não alterei minha posição, não perdendo a postura de nobre. Afinal, eu era o Conde de Dudley e, embora usasse de amabilidade com os que rodeavam-me, independente de sua classe, eu era o superior na conversa.
— O que há de errado com minha filha? Salie fez algo que lhe ofendeu, Dudley? Digo, você conhece as mulheres, elas são volúveis. Talvez estivesse sentindo sua falta. Acontece que…
Levantei a mão com o gesto para que ele parasse de falar.
— Não há nada de errado com a Senhorita Kurtwood. Eu apenas não quero casar-me com ela. — concluí.
— E você avisa-me sobre isso às vésperas do noivado? Como ousa trazer tamanha vergonha para a minha casa? — disse com o rosto ficando vermelho o suficiente para deixar-me preocupado.
Ainda assim, continuei sereno, sabendo que aquilo desestabilizaria-o.
— Que noivado, Senhor Kurtwood? Não lembro de ter feito um pedido formal. Além disso, nossa relação era tipicamente política. Podemos achar algo em comum para que nossa relação não se tencione. Veja só, eu…
— Como ousa falar dessa forma comigo! Acha que porque é nobre pode entrar em minha casa e desprezar minha família por não ter sangue azul? — gritou cheio de cólera.
— Tudo bem, Senhor Kurtwood. Talvez essa não seja o melhor momento para conversar. — levantei-me arrumando o casaco que ainda carregava, já que pedi para o mordomo não o levasse. — Outra hora conversamos sobre outras questões do parlamento…
— Não há qualquer aliança! Você desrespeitou minha casa com essa atitude! Como pode dizer que é um cavaleiro?
Senti o sangue subir para cabeça diante de tamanha a ofensa, mas respirei fundo antes de falar.
— Pessoas começam e terminam cortejos o tempo todo, Senhor Kurtwood, principalmente na Alta roda. É assim que as coisas funcionam aqui. — expliquei arrumando meu colarinho.
Kurtwood estava muito tentado em aproximar-se para ser violento, mas ele sabia que levaria desvantagem. Eu era o 3° Conde de Dudley, 7° Lorde Ward e um dos homens mais influentes do Reino, afinal.
— Agora que estamos entendidos, conversarei com o senhor em outra hora. Com licença.
Ao virar as costas, entretanto, ouvi o que eu não gostaria. Kurtwood, no auge da sua ira, ameaçou:
— Você pagará caro por isso, Dudley! Acha que não sei sobre a Senhorita ? Qualquer um vê como se comporta diante dela.
Franzi o cenho e virei-me devagar, ignorando o bater descontrolado de meu coração.
— Não sei do que se trata.
Kurtwood sorriu maquiavélico.
— Está perdendo uma chance de ouro de fazer um bom casamento para correr atrás de um rabo de saia qualquer. Podia muito bem tê-la como amante e casar-se com minha Salie, mas prefere meter-se com uma mulher que apenas trará desgraça e vergonha para os Dudley. — dissertou, o rosto vermelho e roxo simultaneamente. — Sei de seu interesse por ela. Você subestima-me, rapaz. Esquece-se que saí de baixo para chegar aqui. Não perderei o que conquistei por sua culpa, Dudley.
Olhei-o de cima a baixo com desprezo, terminando no vermelho de seus olhos.
— Não sei do que está falando, Kurtwood. Passar bem.
Ventava bastante quando saí da casa dos Kurtwoods. Entrei em minha carruagem com a mão tremendo um pouco, do jeito que eu ficava em momentos de grande tensão. Meu peito ardia em aflição. Se dependesse de mim iria correndo para casa dos Marilliers para ter certeza que estava bem, porém, eu sabia que não era necessário. Porém, minha vontade de cortejá-la em público e casar-me o mais breve possível estava fora de cogitação. Embora Kurtwood pouco pudesse fazer algum mal comigo, com Kelly era outra coisa. Ela era muito mais vulnerável do que eu.
Ao chegar em casa, enviei uma mensagem emergente para Exeter e Logan, os quais estavam no White’s àquela hora. Eles e só eles poderiam ajudar-me a livrar de qualquer represália.


Capítulo XIII.





Ler romances não era uma atividade recomendada para moças, sobretudo aquelas que estavam ainda no mercado do casamento. Entretanto, mamãe pouco importava-se com o que eu lia, ao contrário da Senhora Leroux, que sempre preocupou-se com esse meu hábito.
Eu achava uma preocupação supérflua, principalmente ao levar em conta que os livros que eu lia poucas vezes tinham finais felizes. Os romances góticos, inclusive, eram os meus favoritos. Também gostava de livros de poesia, embora pouco podia compreendê-los.
Toda a minha experiência com o amor advinha daqueles livros, assim como o pouco que eu aprendia com o observar da carruagem. Casais que apaixonaram-se muito jovens tendiam a odiar-se depois do casamento; casais que não amavam-se antes do matrimônio caiam constantemente na indiferença um com o outro; e havia aqueles casais raros de pessoas que tinham uma afeição prévia que tornou-se em amor após o ‘sim’. Claro, também existiam dezenas de casais que amavam-se sem medida, porém boa parte deles juntavam-se à imoralidade e escândalo, algo que não desejava para mim. Por este motivo, nunca tive esperanças grandes com meu casamento. Só queria não odiar meu marido.
Ainda assim, apesar de saber que as chances eram ínfimas, não parava de imaginar como seria estar casada com o Conde de Dudley. Quem era ele por trás de frases misteriosas e sorrisos bonitos?
Peguei-me suspirando pelos corredores de casa, meu corpo esquentando em imaginar transpor a barreira da etiqueta e tocá-lo os ombros. Sentir o seu cheiro de perto. Ouvi-lo sussurrar aquelas frases dúbias. Tê-lo bagunçando a minha mente.
Sabiamente ignorei a perspectiva de ser condessa — a ideia de ter tal posição dava-me nos nervos. Mas não pude evitar deixar que minha cabeça desse asas a imaginação e imaginei que ele devesse ser tão carinhoso quanto Paul era com mamãe quando os dois estavam sozinhos.
Todavia, no final da noite, coloquei-me em uma postura melancólica. Dudley deveria estar fazendo um jogo comigo, pertubando a cabeça de uma jovem inexperiente. Homens de uma posição como a dele não enxergaria a mim como opção. Tanto que, em momento nenhum deixou claro qualquer sentimento além de amizade entre nós.
De certa forma, tal posicionamento era um alívio para mim. Se a vida real era igual aos romances que eu lia, não ser correspondida era melhor do que morrer de forma trágica e horrenda em uma abadia medieval.
E a realidade não demorou muito para trazer-me à tona: Lorde Stanton apareceu convidando-me para passear em uma tarde sem chuva de Londres. A Senhora Leroux acompanhou-nos com seu olhar de águia, mas não era sua constante vigilância que incomodou-me durante o passeio. O que deixou-me irritadiça era a postura indecente de Lorde Stanton, que demonstrou ser um homem perigoso. Diversas vezes insinuou que devíamos despistar a minha dama de companhia para que ficássemos a sós. Eu não ficaria sozinha com um homem a quem não estava comprometida, sobretudo com alguém que não respeitasse a Senhora Leroux. Até mesmo o Senhor Lincoln era mais respeitoso comigo.
A verdadeira surpresa veio em forma de carta para mim em uma terça-feira. Estava eu observando Phillip fazer sua atividade enquanto seu preceptor fora na casinha. Não era uma situação comum, porém pude ver sua aflição enquanto fazia meu irmão recitar a conjugação do verbo amare no presente do indicativo em latim.
Senhor Ross apareceu pomposo e entregou-me uma carta em uma bandeja de prata. Não havia qualquer necessidade de tamanha apresentação, mas ele o fez mesmo assim.
De início, não reconheci o selo. Abriu a carta com cuidado e meu coração apertava-se aos poucos. Nela, Senhor Lincoln falava de sua longa viagem para Escócia e como havia adquirido um par de terras. Estava supervisionando algumas reformas, por isso não estava ali comigo. Não precisava sentir sua falta, dizia ele. Na próxima semana, o mesmo iria visitar-me e pedir minha mão oficialmente em casamento. Não vejo a hora de ser seu esposo, acrescentava ele.
, você está bem? — indagou Phillip com uma curiosidade de criança ao ver-me pálida diante das palavras lidas.
— Estou sim. — respondi, embora quisesse dizer que na verdade eu não tinha tempo.
Meu Deus.

Eu não tinha tempo.


Capítulo XIV.



, Lord Ward, Conde de Dudley



Naturalmente achei as ideias dos meus amigos terríveis.
Cory, de maneira sábia, falou que devia evitar estar com ela em público até as coisas acalmarem-se.
Logan, no entanto, disse que o melhor a se fazer era sequestrá-la e levá-la para Gretna Green. “Os falatórios sumirão à medida que você apresentá-la-a como sua esposa para a sociedade e não há muito o que dizer sobre uma ação irreversível”, disse ele sagazmente.
Apesar de ser uma boa tentação casar-me de forma tão abrupta, não gostava de escândalos e de dar motivos para uma fofoca. Além disso, não tinha certeza se esse era o desejo de e não queria persuadi-la de forma que no futuro ela arrepende-se.
Ao mesmo tempo, a ideia de fingir indiferença na frente de todos soava covarde para mim. Há muito tempo eu já o fazia e podia perder a chance de cortejá-la de verdade se insistisse em tratá-la com menos do que merecia.
Sabendo que nenhum dos meus dois amigos iriam apoiar-me em minha empreitada, resolvi arriscar-me. As inclinações românticas de Ever foram, para mim, muito eficientes. Minha irmã convenceu a participar do sarau da Lady Huntington, embora não fosse lá um dos eventos mais interessantes.
Quando eu a vi entrar no salão, os olhos claros varrendo o local desconhecido, a ansiedade apertou o meu peito. Era uma angústia deliciosa, porém; era daquele jeito meio exagerado que os poetas declamavam. Eu pouco posso descrevê-lo, mas esses sim têm o dom para expressar em palavras aquilo que apenas sabemos sentir.
Seu rosto ficou vermelho ao cumprimentar-me, mas seu olhar não se apartou do meu. demonstrava-se tão agitada quanto eu, ainda que estivesse mais confortável em minha presença.
Sentei entre ela e minha irmã, a qual estava o tempo todo nos observando debaixo de seu leque. Era uma noite quente e o salão da Lady Huntington tinha janelas que pouco serviam para alguma coisa.
À luz das velas, tornava-se mais misteriosa. O rosto bem desenhado revelava uma calma prestes a ficar escassa, como se no fundo, parte de si estava sendo repelido. E aquilo intrigou-me.
O solo de violino de uma das primas da Lady Huntington foi a primeira apresentação. A mulher, embora madura, não era jeitosa e carecia de talento. Quando fez uma careta de desagrado diante de uma nota errada, um sorriso escapou de meus lábios naturalmente.
— Está rindo de quê? — indagou ela, curiosa.
— Nada. — respondi ainda sorrindo.
Ela continuou encarando-me, a expressão turbulenta suavizando-se.
— O que há? — perguntei.
— Gostaria de vê-lo sorrindo mais vezes.
Meu coração disparou, mas mantive a expressão desentendida.
— Acha que sou taciturno?
Ela negou com a cabeça devagar e voltou a olhar para o palco.
— Às vezes você não sorri de verdade, .
Pisquei meio chocado.
Uma salva de palmas ecoou o salão e eu os acompanhei, embora estivesse bem desconexo com a realidade.
Uma dualidade atingiu-me: a facilidade de como ela me lia assustava e excitava. A perspectiva de ser visto pelo que eu era e não pelo que eu deixava os outros verem colocava-me entre um paradoxo de emoções. Eu gostava daquilo, embora não fosse de maneira nenhuma confortável.
Na pausa entre as apresentações, convidei-a a um passeio pelos jardins. Embora fosse pequeno e bastante movimentado, estar sempre sobre a vigilância de Ever era no mínimo constrangedor.
— Cuidado. — disse ela para mim.
Apesar da vontade de zombar de sua atitude, apenas assenti antes de acompanhar a minha — se Deus permitisse — futura noiva.
— É muito deselegante comentar que, embora eu tenha uma ótima companhia, esse sarau está um tanto tedioso. — comentou em segredo.
— Essa é sua forma educada de dizer que é um fracasso?
Ela segurou os risos mordendo os lábios.
— A verdade é que sarau nenhum chega aos pés dos que a Condessa de Northampton organiza. — comentei.
— Realmente, os dela são sempre os mais organizados e ela sempre traz o melhor da arte.
balançou a cabeça dando ênfase ao que dizia e voltou seu olhar ao redor. Havia muitas pessoas no jardim, das quais falavam relativamente alto e reclamavam do calor. Ainda assim, aquele aglomerado de pessoas não incomodavam-me como de costume. Para ser sincero, sua agitação e energia atingia-me de uma maneira diferente. Ali, naquele jardim ridículo e minúsculo de Lady Huntingdon, sendo rude ao fazer comentários desagradáveis sobre o evento, assistindo rir com seus lábios compridos, senti-me muito jovem e, acima de tudo, feliz.
Quando voltamos para nossos lares no ápice da madrugada, despedi-me com um sorriso que não saia da minha face. Segurei sua mão sentindo vontade de levá-la para minha casa e desfrutar de sua companhia até amanhecer.
Estava começando a ficar frio. Ever esperava uma amiga dentro da carruagem após fingir estar cansada para nos deixar sozinhos por alguns minutos.
— Desfrutei bastante da sua companhia essa noite, .
— O sentimento é recíproco. — disse ela contendo o sorriso.
Peguei-lhe mão direita e beijei-a por cima da luva devagar. Meu corpo vibrou sentindo o cheiro de loção de cereja que já apagava-se, porém cravou-se em minha mente.
Então, ela apertou levemente minha mão como se estivesse incapaz de soltar. Seus olhos faiscaram e uma quebra de encanto ocorreu-me. A despedida abalou-me.
— Ainda poderei levá-la ao museu no final de semana?
Ela soltou minha mão, constrangida.
— Claro. Estarei esperando-o.
Embora eu soubesse que a reveria, a sensação de perda não deixou-me antes de pegar no sono.


Capítulo XV.





, vamos brincar?
Abri os olhos devagar. O quarto estava com todas as janelas abertas. Por algum motivo, a luz do sol não acordou-me como de costume.
— Que horas são? — falei com a voz arrastada.
— Hora de brincar! — respondeu Phillip.
Sorri e tentei levantar. O cabelo estava emaranhado e boa parte dos lençóis estavam no chão. Meu quarto estava bagunçado, quase revirado. O que tinha acontecido?
— Você é uma completa inútil, Donna! — ouvi a voz estridente da mamãe por trás das paredes. — Eu mesma vou lá acordá-la!
Segundos depois a porta foi aberta em um estrondo. Mamãe, ainda vestida com sua roupa de montaria, deu uma grande respirada antes de gritar meu nome:
Grace !
— Sim, senhora. — respondi bocejando.
Mamãe pôs as mãos na cintura e me olhou com cólera.
— Falta apenas trinta minutos para a hora do chá e você fica aí fingindo-se de morta? Isso lá é hora de se acordar?
Arregalei os olhos, assustada.
— Não sabia que estava tão cansada! — comentei admirada. — Em compensação, sinto-me novinha em folha.
— Pare de conversar besteira! Se arrume, porque o Lorde Stanton vai tomar chá conosco. — disse ela. — Donna, ela já está acordada! Venha aqui.
Ignorando nosso diálogo, Phillip subiu em minha cama e começou a pular, contando em francês: un, deux, trois, quatre, cinq, six…
— Sept, huit — continuei sua contagem. — Neuf, dix! — gritamos o último número e fizemos careta um para o outro.
Mamãe olhou me ultrajada com aquela cena.
— Deus santo! , você é uma mulher adulta! Prestes a casar! — exclamou raivosa. — E fica agindo como uma colegial? Não me surpreende que não tenha conseguido nenhum pretendente decente!
Pisquei, aturdida. Suas palavras machucaram e lembravam-me de meu fracasso nas últimas temporadas. Não era a minha culpa, ao menos eu. Já havia ouvido várias das suas insinuações, porém nunca foram tão hostis;
O silêncio varreu aquele início de brincadeira entre mim e meu irmão. Até mesmo ele, tão criança, olhou para mamãe surpreso com sua atitude.
— Vista-se e desça o mais rápido possível. — alertou mais uma vez minha mãe antes de sair do quarto.
— Mamãe ficou chateada comigo? — indagou Phillip com a voz de choro.
Sorri para ele tentando passar uma calmaria que eu mesmo não sentia.
— Ela está só um pouco estressada, querido. Não se preocupe. — levantei-me e beijei sua testa. — Irei trocar de roupa, depois nós iremos brincar mais um pouco.
Ele assentiu e foi embora com seu jeito moleque de ser. Então finalmente vi Donna, quem assistira toda a cena que ocorrera nos últimos minutos. Ela mantinha-se neutra, profissional como sempre fora.
— Eu já escolhi um vestido, senhorita. Em poucos minutos deixarei-a pronta, sim?
Balancei a cabeça positivamente e aceitei sua ajuda. Durante aqueles minutos, que mais pareciam horas, segurei o choro e tentei esquecer-me das palavras de minha mãe. Entretanto, sua fala ressoava na cabeça em ecos infinitos. Eu mal via o que Donna fazia com meu cabelo, apenas acordei para a realidade ao sentir o aperto do espartilho.
— Ouch! — resmunguei.
— Desculpe, senhorita. Ele estava folgado.
Assenti em silêncio.
Donna olhou para mim preocupada.
— Está tudo bem, Senhorita ?
Dei um pequeno sorriso e falei que sim.
— É apenas o sono que ainda não deixou-me em paz. — complementei. Então, lembrei de alguém que ainda não havia visto naquele dia. — Onde está Leo?
— Oh, o bichano? Vi-o andando pela casa. Logo mais aparecerá.
Desci para a sala de visitas vazia e aproveitei para roubar alguns biscoitos, dada a fome que eu sentia. Aproveitei aqueles poucos minutos de paz para conter minha ira e tristeza. Sentia-me encurralada e capaz de cometer uma grande besteira apenas para contrariar a mamãe.
Catherine desceu logo após, acompanhada por mamãe. A Senhora Leroux estava em seus dias de folga, mas voltaria à minha rotina muito em breve. Por esse motivo, estávamos apenas em três.
, querida! Preciso perguntar-te algo. — introduziu Catherine ao sentar-se ao meu lado no sofá. — É verdade que passou toda a noite anterior conversando com o Conde de Dudley?
— Nós apenas trocamos algumas palavras. — justifiquei rapidamente.
Sentia-me nervosa, como se tivessem pegado-me fazendo uma besteira.
— Quem comentou-te isso?
Ela deu os ombros.
— A Senhora Kurtwood, mas você sabe como ela é fofoqueira, não é? Deve ter aumentado a história como sempre faz. — Disse Catherine, enfiando um biscoito de gengibre na boca em seguida.
— Até porque nós todas sabemos que não há qualquer possibilidade de um homem como Dudley cortejar , não é? — falou mamãe de forma rabugenta.
Eu sabia que suas palavras era fruto de muita frustração, no entanto isso não a dava direito de ser tão maldosa comigo. Quis falar sobre as conversas que troquei com e quão íntimos éramos agora. Ele mesmo levaria-me ao museu no meu aniversário! Porém, mamãe continuou a falar:
— Nem sei porque insistimos em receber Lorde Stanton. Afinal, sabemos que é questão de dias para que querida tornar-se dona daquele castelo magnífico na Escócia!
— Escócia? — indaguei engasgada.
— Não soube, querida? — disse Catherine surpresa com minha falta de conhecimento. — O Senhor Lincoln receberá um título! O antigo Duque MacKelian está a passos de bater as botas. Se o casamento ocorrer, você será uma duquesa!
— Na Escócia? — falei mais uma vez. — Não quero ir para a Escócia.
Mamãe deu uma risadinha e pela primeira vez planejei odiá-la.
— Você não tem querer, querida.
A fúria que eu senti não era comparado ao medo que consumiu com aquela afirmação. Eu estava por mim mesma, sem ninguém para ajudar-me. Se eu quisesse livrar-me de Senhor Lincoln, sua verruga… A ideia de ter seus lábios sobre o meu enchia-me de nojo e a simples imagem de repetir tal movimento todos os dias da minha vida era tenebroso. E, ainda por cima, não poderia mais conservar as amizades que tinha; teria que, talvez, aprender escocês e lidar com pessoas que odiaria-me apenas por ser inglesa. Eu preferia até mesmo a falta de educação de Lorde Stanton à vida que Senhor Lincoln poderia oferecer. Pouco importava-me o título.
Como uma entidade invocada, Lorde Stanton foi anunciado pelo mordomo. Como sempre, o milorde agiu com condescendência, fez minha mãe rir de deleite com seus elogios e mal bebericou seu chá. Eu, no entanto, fiquei mais calada do que o costume — Lorde Stanton não pareceu se incomodar com minha quietude. Observei-o imaginando-o como um marido. A ideia, porém, não agradava-me.
Segurei-me para não chorar. Como eu viveria o resto da minha vida longe do homem que eu verdadeiramente amava? Olhei para a porta enquanto Lorde Stanton contava uma de suas anedotas. Fiz uma pequena prece pedindo para que aparecesse e pedisse minha mão. Melhor, que ele sequestrasse-me e tirasse qualquer direito de mamãe de ditar sobre minha vida!
No entanto, a porta manteve-se fechada no lugar de costume até que nosso convidado fosse embora.
Ao nos despedimos, Lorde Stanton foi educado como sempre. Deixei-o beijar minha mão por demorado segundos assim que senti-lo passar-me uma pequena carta na outra mão.
— Pense com carinho. — sussurrou ele antes de finalmente partir.
Subi para meu quarto indicando que iria procurar por Leo sob reclamações de Catherine, que queria jogar xadrez junto comigo.
A carta parecia, na verdade, um bilhete. Tinha dois parágrafos e tinha os seguintes dizeres:

“Senhorita ,
Embora tenha conhecido-a por tão pouco tempo, não consigo parar de pensar na senhorita. Por meio desta, rasgo meu peito para oferecer o coração que pulsa e suplica seu amor.
Necessito-a de maneira tal que mal consigo manter minha normal rotina. Trago uma proposta ousada: fuja comigo. Vamos para Gretna Green e lá nos casaremos. Quero fazer-te minha esposa para todo sempre.
Peço que responda-me o mais rápido possível.
De quem a ama acima de tudo,
Lorde Stanton.”


Tal declaração não era esperado por mim e embaralhou todas as certezas que eu possuía. Ao mesmo tempo, aquela parecia a saída que eu precisava, embora não fosse a que eu queria. Se a carta fosse assinada por , eu não hesitaria. No entanto, era a caligrafia e assinatura de Lorde Stanton, a quem eu não nutria qualquer sentimento. Porém, como eu pensara antes, ele era uma opção muito melhor que Senhor Lincoln. Pouco importava para mim se eu seria duquesa; a ideia de morar com um homem frívolo, deitar-me com ele e viver em alguma construção antiga da Escócia era terrível em todos os aspectos. Era muito mais confortável viver uma aventura com Lorde Stanton, embora eu sentisse que em poucos meses ele esqueceria de mim. Eu não confiava no amor que ele declarava, principalmente por saber que sua base era tão firme quanto um monte de areia. Se eu tornasse Lady Stanton, sei que não precisaria mudar-me para muito longe: as propriedades de Stanton eram a poucos quilômetros de Londres e ele era uma pessoa tipicamente urbana. Seria ruim viver respirando o ar poluído de Londres? Com certeza, mas eu tinha a quem recorrer caso algo desse muito errado. Das opções, aquela parecia a menos danosa.
No entanto, todos os prós e contras mostraram-se supérfluos quando a imagem de voltava-se a minha mente.
Como eu viveria vendo-o em jantares, saraus e bailes e saber que não poderia declarar que meu coração já o pertencia? Como eu reagiria vendo-o casar-se com outra mulher e ter seus herdeiros? Ele esqueceria facilmente de mim? Pois eu não o conseguiria. Olha-lo e saber que nunca iria poder tocá-lo era um imaginário doloroso o suficiente. Porém, o que mais faria-me sofrer, era não ser mais a receptora de sua atenção e carinho. Saber que ele seria mais uma vez o Conde de Dudley, não .
Com a mente em combustão, chorei antes de dormir. Chorei pela minha juventude perdida, pelo meu casamento quase marcado, pela confusão de minha mente e pelo amor que eu sentia que nunca iria se concretizar. Além disso, eu rezei por uma resposta, apesar de, por muito tempo, acreditar que qualquer interferência divina a mim era negada desde a infância.
Porém, na manhã seguinte, logo após a chegada do correio, com a mente mais clara e com cartas estendidas em minha cama, a resposta de quem eu menos esperava veio. O milagre, a resposta, o escape. Minha prece foi atendida e eu decidi.


Capítulo XVI.



, Lord Ward, Conde de Dudley



Ia demorar duas horas para que o sol nascesse e a cidade londrina finalmente acordasse. Eu observava pela janela o breu do meu jardim e do vizinho. Salomão estava deitado em meu colo todo enrolado e dormindo como quem não tem qualquer preocupação. Afinal, ele não tinha. Eu queria descansar igual a ele, no entanto, tive mais um daqueles sonhos realistas demais para serem meros joguetes de minha mente.
No sonho, eu estava sentado no sofá de Ever sentindo-me devastado. Minha irmã acariciava meu ombro com pena:
— Sei que é difícil aceitar, querido, mas ela não o amava o suficiente para ficar. Às vezes, o amor nos dá dores.
Eu sabia quem era a referência de ‘ela’, mas não queria aceitar. Queria entender o contexto, perguntar o que diabos tinha acontecido, contudo, não houve mais nada. Aquela fala foi tudo que eu consegui arrancar da visão que tive.
A previsão sobre o futuro abalou-me sobremaneira que desejei cancelar o passeio que havia marcado com , porém, além de ser um homem de palavra, não suportava a ideia de machucá-la ao desmarcar o nosso compromisso no dia de seu aniversário, embora, no futuro, aparentemente, ela não hesitaria em machucar-me.
Foi um martírio esperar o tempo passar até o horário que eu havia marcado. A imagem do sonho martelava a cabeça a cada segundo que distraía-me com minhas atividades.
No espelho, era possível achar uma sombra da noite mal dormida, dado a palidez de meu rosto contrastado com as olheiras. Ainda assim, apesar da luta interna que meus pensamentos travavam, o meu coração ingênuo saltava de vontade de rever a .
Cheguei na casa dos Marilliers no horário marcado e em ponto. Um mordomo atendeu-me e logo pedi para falar com a Senhora Marillier em busca de sua permissão para sair com sua filha mais velha. Enquanto a ouvia encher-me de elogios e agir com surpresa ao meu pedido, desejei que recusasse. Queria que ela negasse por conta de alguma atividade programada para o aniversário da filha; eu entenderia e voltaria para casa, tendo o dia inteiro para pôr minha cabeça em ordem. No entanto, a Senhora Marillier permitiu nosso passeio com veemência e nem mesmo citou qualquer comemoração pelo aniversário de .
Não demorou muito para que ela viesse. estava linda. Usava um vestido vermelho, um pouco demais para um simples passeio, mas não o suficiente para um escândalo. Ao ver-me em sua sala de visitas, ela não conteve um sorriso. Seu lábios largos estavam pintados de rosa e de uma maneira sedutora, iluminando o rosto. Claro, não estávamos sozinhos: A Senhora Francesa acompanhava-a com a face de quem havia acordado em um mau dia. Ignorei-a e cumprimentei a aniversariante do dia.
— Está belissíma nessa primavera que inicia. — elogiei ao beijar sua mão. — Feliz aniversário, . — sussurrei seu nome.
— Obrigada, . — Respondeu em mesmo tom.
Vi no par dos seus olhos uma sensação de abandono. Eles pareceram mais secretos. E eu quis saber; quis saber o que se passava naquela cabecinha esbelta e que carregava mais profundidades do que eu poderia imaginar.
Ao sentarmos na carruagem aberta, senti-me muito bem passeando pelas ruas de Londres com . Ela falava sobre o tempo, a moda e cores. Eram temas desinteressantes para mim, no entanto, quando as palavras saíam de sua boca pareciam importantes para o momento. Sua conversa fluía de forma que deixava-me quente por dentro, derretido e confortável para esquecer de qualquer cautela que eu deveria adotar.
— Haverá algum evento especial no museu, ? Quero ver a nova exposição, mas ela deixou de ser nova há algum tempo. — disse encabulada.
— Recebi um panfleto esses dias falando da exposição do quadro de Octavie Tassaert. Irá passar apenas dois meses no Museu e depois voltará para França. Conhece o artista?
Ela negou com a cabeça e franziu a testa, pensativa.
— O nome é familiar a mim, porém não consigo lembrar de nada. — Ela sorriu. — Lá veremos.
Foi assim, simples. não disse nada extraordinário, não seduziu-me com as mais belas palavras, não usou de atitudes escandalosas para conquistar minha atenção. Sua simplicidade fisgou-me antes que eu pudesse perceber. Meu peito doía e quis chorar.
Ora, que atitude estúpida. Um homem feito como eu chorar como um menino que ainda usa calça curtas?
Constatei naquela tarde que o amor era assim: quente e reconfortante no começo. No entanto, quando você reconhece a verdadeira natureza dele, entende que, acima de tudo, ele é devastador.
Porém, eu ainda não conhecia o quão devastador o amor poderia ser.
Havia uma sensação de afastamento conforme andávamos pelos corredores do Museu Britânico. A aia de acompanhava-nos, mas era como uma mosca silenciosa sobrevoando sobre nós. Cumprimentei diversas pessoas que eu conhecia, vi seus olhares interessados no meu cortejo público, porém, tudo que eu sentia e via era , seu cheiro de cereja e seus comentários rasos sobre arte.
Pouco importava-me que ela via apenas a estética das representações artísticas — eu escutaria ela falar-me por uma centena de anos. Enquanto fitasse-me com suavidade e dialogasse comigo de forma tão atenta, o mundo seria um grande borrão.
O lugar onde o quadro de Octavie Tassaert estava, era repleto de pessoas, de maneira que apenas olhando de longe sentia-me claustrofóbico. Eu detestava estar no meio de multidão, muito menos quando ela estava agitada, pois sua animação quebrava o equilíbrio que por tanto tempo eu tentava manter dentro de mim. Era uma das inúmeras desvantagens que eu tinha por ser quem eu era: os sentimentos mútuos atingia-me, embora não brotassem de mim. Uma sala enraivecida, por exemplo, estressava-me de forma que eu desejava cometer atos de violência que, em meu estado normal, nunca cogitaria.
Ainda assim, segui com a Senhora Leroux no nosso percalço. Fui empurrado algumas vezes e pedi desculpas, apesar de não ser o culpado. Comecei a suar e percebi que não esperar para que a agitação acalmasse fora uma péssima ideia.
Perdi de vista por longos trinta segundos. Chamei pelo seu nome de batismo, embora tenha soado mais como um sussurro. Sentia-me tonto e confuso. Onde eu estava? O que eu devia fazer?
— Dudley? Milorde? — escutei sua voz ansiosa de longe. — Estou aqui, . Oh, Deus!
Senti uma mão tocar-me no braço e puxar-me para longe. Fui empurrado por mais uma série de pessoas, mas aos poucos, a quantidade de gente foi diminuindo enquanto eu era retirado com pressa para fora da multidão. Entramos, então, na parte cheia de artefatos africanos, os quais ainda eram poucos, pois ainda estavam sendo catalogados. Havia um bom grupo de curiosos, mas eles não eram nada comparado ao tumulto que Octavie Tassaert havia produzido.
Paramos de frente à uma exposição de máscaras e ela mirou-me preocupada.
— Eu o vi mais uma vez ficar pálido como no baile. Isso não é bom, ! — repreendeu. — O que o médico disse-te? Está fazendo algum tratamento?
— Já te falei: não é nada. Eu… — respirei fundo deixando os músculos do corpo descansarem. — Eu apenas não gosto de multidões.
levantou as sobrancelhas desconfiada, porém não disse nada.
— Estou falando sério. — afirmei.
Ela encarou-me por alguns segundos até relaxar os ombros.
— Eu acredito em você. — Então, olhou em volta. — Só não entendo porque continua correndo para o meio de multidões.
— Não é sempre que isso acontece. Só às vezes. — Eu dei um sorriso tentando tranquilizá-la. — Mas eu estou bem agora, não vê?
Ela analisou-me atentamente e pareceu não gostar muito do resultado.
— Imagino que nem sempre tem alguém para ajudá-lo. E se eu não estivesse aqui, ? O que você iria fazer?
Dei um passo em sua direção e segurei seus ombros com suavidade.
— Obrigada por se preocupar, mas eu dou um jeito. Sempre dou um jeito.
Seus olhos azuis ficaram muito abertos e pude visualizar o tom celestial de sua íris: não era um simples céu límpido, era um dia enevoado que não trazia aviso de chuva, tão pouco brilhava sem a presença de outros elementos que compõe o firmamento.
— Eu só quero o seu bem, . Sabe disso, não é?
Suas palavras encantaram-me e não pude deixar de sorrir.
— Sinto-me honrado, .
Tirei minhas mãos de seus ombros, lembrando de repente que ainda estávamos em público. Procurei algum conhecido e, ainda que não encontrei ninguém, aquela nossa conversa particular tinha exercido bastante da etiqueta e corria riscos de nos trazer problemas.
mostrava entender isso ao ficar muito vermelha com o cumprimento nem um pouco discreto de uma mulher que eu desconhecia.
— Senhora Leroux já deve ter sentido nossa falta. — comentou aflita. — Acha que se aparecermos juntos irão fofocar?
Apertei os lábios contendo a vontade de dizer sim, não querendo deixá-la mais consternada do que estava. Eu também sentia-me nervoso, afinal, se iria casar-me com , não seria por simples motivos de honra.
— Como você lidou naquela vez do baile? Não ouvi ninguém comentar sobre.
— Entrei no salão acompanhada por uma amiga que encontrei no corredor. Poucos viram quando nós saímos. — Ela deu um sorriso triste. — Há algumas vantagens de ser invisível.
— Você não é invisível. — repliquei. — Ao menos nunca foi invisível para mim.
Ela deu me um olhar de desolação, como se estivesse a ponto de chorar. Fiquei confuso, imaginando se aquilo que eu havia dito tinha algo ruim.
Andamos mais um pouco pelas salas repletas de gente, porém ainda sem a companhia da senhora francesa, que estava à nossa espreita anteriormente. Com uma distância respeitosa entre nós dois, ouvi comentar sobre alguns artefatos orientais até chegarmos de frente à The Sleep of Reason Produces Monsters por Francisco Goya, o qual era um artista espanhol. A imagem era escura, sendo a representação de uma mulher sentada com a cabeça deitada em uma mesa enquanto era cercada por diversos tipos de animais tidos como sombrios. Ficamos em silêncio, contemplando a obra; eu, particularmente, senti um soco no estômago ao identificar-me com aquela mulher: meus monstros eram todos produzidos ao dormir. Saber do futuro era uma maldição.
— O mundo dos sonhos é assustador, não é? — disse ela ainda mirando a imagem. — O mundo dos pensamentos é perigoso, mas quando estamos acordados, temos a falsa ideia de controle. Já nos sonhos, não.
— Concordo em parte. — falei. — Acredito que controlamos, sim, nossos pensamentos. Não há isso de ‘falsa ideia’ de controle.
Ele virou-se para mim com os lábios apertados de quem não concordava. Levantei a sobrancelha.
— Estou ouvindo. — disse eu.
— Já sentiu ciúmes, milorde?
O meu peito vibrou; parte pela resposta ser mais conectada à ela do que eu gostaria, parte porque havia voltado a chamar-me de milorde. No entanto, o uso da palavra não caracterizava uma volta de formalidades entre nós: ela disse com tom de zombeteiro.
— Bem, sim, eu já. Mas quem nunca?
— Ora, quando você sente ciúmes. dificilmente quer continuar a fazê-lo. Mesmo quando passamos a prestar a atenção em outras coisas, o simples fato de ver a pessoa amada com outra desperta pensamentos egoístas e mal intencionados. — explicou ela. — Eles acontecem muito rápido e, antes de perceber, estamos idealizado um homicídio.
Olhei para ela com falsa surpresa.
— Não sabia que tinha pensamentos homicidas, Senhorita .
Ela sorriu de lado e deu um passo para ficar mais perto de mim. Senti o cheiro já distante de cereja quando ela sussurrou:
— Há mais coisas no meu mundo dos pensamentos, Senhor , do que imagina a sua vã filosofia.
Nós dois soltamos uma risada sem jeito. Olhares inquietos, palavras não ditas. Se não houvessem tantos fatores que nos rodeavam naquele momento, digo com toda a certeza que a beijaria.
— Oh, milorde, pensei que não os encontraria de novo! — Senhora Leroux exclamou enquanto se abanava.
Afastamos-nos e voltamos para uma formalidade padronizada. Conforme o passeio acabava, a melancolia instaurou-se em mim. Talvez esse seja o motivo pela qual adotei uma postura muito reclusa durante a volta para casa.
Na carruagem, eu dava olhares discretos para uma concentrada na rua lá fora. Ela era graciosa, embora não estivesse consciente disso. Era literalmente a mulher dos meus sonhos; quem eu desejava e amava. Infelizmente, também seria quem destruiria meu coração em vários pedaços.
Ao chegar em sua casa, tivemos uma despedida bastante fria, sem muito propósito. Não parecíamos o mesmo casal que estava no museu, mas fazia sentido, já que não sentia-me como eu estava lá. Era como se eu tivesse acordado de uma ilusão e estava finalmente lidando com a realidade.
Observei-a subir as escadas de sua casa junto com sua aia até que elas sumissem de minha vista. Meu peito estava pesado, a sensação de que eu estava perdendo algo consumia-me.
Pronto para bater no teto para que meu cocheiro retornasse para casa, lembrei do presente de aniversário que eu havia comprado para . Em um impulso, desci da carruagem de supetão. O coração batia depressa, as mãos ficaram frias de repente. Quando eu fui atendido pelo mordomo, pensei que teria um infarto a qualquer momento.
— Preciso falar com .
Se o mordomo estranhou o fato de que eu a chamara pelo primeiro nome, pouco mostrou. estava em um corredor perto e sua cabeça apareceu quando seu nome foi dito.
— Pode deixar, Senhor Ross. Eu falo com ele.
O mordomo assentiu e sumiu pelo mesmo corredor que apareceu. Ela veio em minha direção com passos cuidadosos enquanto demonstrava uma curiosidade genuína.
— O que aconteceu, ?
Olhei para o papel enrolado com uma fita azul em minha mão. Hesitei, pensei em inventar uma desculpa para não entregar, a covardia dominando-me mais uma vez. Dias atrás, bem antes do sonho, eu tinha certeza do que eu iria fazer. Naquele momento, no entanto, parecia loucura.
— Eu desenho.
Ela piscou aturdida. Continuei:
— Aprendi a desenhar ainda muito criança, mas agora que sou adulto, o faço pouco. De qualquer maneira, espero que goste.
Estendi o presente em sua direção e, segundos depois, sem nada dizer, ela o pegou em suas mãos. Mirei a atenção que ela dava ao papel ao abri-lo, ansioso para capturar todas as suas expressões.
Seus olhos, de início, ficaram muito abertos. Então, ela pôs a mão na boca engasgando um choro.
Não esperava aquela reação diante de um rabisco tão simples: era ela sentada em uma mesa de xadrez. Em seu colo, estava Salomão, meu gato, e na mesa estava Leo, ou ao menos a forma que eu o imaginava, já que nunca havia o visto. Por esse motivo pintei apenas seu vestido, o qual era vinho, assim como seus lábios.
— Está tão ruim assim? — indaguei com um sorriso nervoso.
Ela negou com a cabeça enquanto mais lágrimas desciam em seu rosto.
— Eu… eu... — gaguejou. — Não sei… o que… que dizer.
— Só agradeça-me. Não espero nada mais do que isso.
Ela olhou-me de uma forma que nunca havia feito antes. Era como se uma cortina houvesse se partido e agora poderia ler sua alma por inteiro; e ela clamava por algo urgentemente.
deu dois passos em minha direção, ficou de ponta de pés e beijou-me. Aconteceu muito rápido e assustou-me de início. Era um beijo muito casto, típico de quem não tinha experiência. Ainda assim, nunca esquecerei o bom toque de seus lábios pela primeira vez contra os meus. Segurei seu rosto e, com cuidado, retribui com um pouco mais de vontade. Era definitivamente perigoso estar ali no hall dos Marilliers agindo de forma tão escandalosa, mas isso era um detalhe muito pequeno para que fosse lembrado. Abri sua boca com delicadeza e meu corpo vibrou ao tê-la correspondendo, embora timidamente. Eram inexperiência, desejo e perigosidade passando por nossos corpos que fez-me segurá-la pela cintura em busca de sentir seu corpo cada vez mais perto do meu.
Afundei em seu gosto como uma criança que se esbanja em uma sobremesa, mas que cuida para não acabar rapidamente.
Quando nos afastamos, ela ainda mantinha os olhos fechados, a boca entreaberta e os lábios — aqueles lábios deliciosos — vermelhos. Sua expressão era tão etérea ao abrir os olhos que minha vontade era pegá-la em meus braços e levá-la para um lugar mais reservado para mostrar-lhe como o amor poderia ser.
Porém — sempre tem um porém — algo quebrou-se após ela piscar.
Seu rosto ficou vermelho, quase ficando roxo. Ela pôs a mão na boca, mortificada, completamente assustada com o que tinha acontecido.
— Meu Deus. — disse ela dando passos atrapalhados para trás. — Meu Deus, meu Deus!
, acalme-se. — Falei tentando aproximar-me.
— Não, não! Perdoe-me, milorde. Não sei o que deu em mim para agir de forma tão escandalosa. Eu imploro seu perdão! — pediu ela, desesperada.
, tenha calma. Nós dois…
— Acho melhor o senhor ir, Dudley. Por favor, não acho que seja apropriado… — falou nervosa. — Você deve achar que sou uma completa desvairada!
Olhei para ela zombeteiro.
— Claro que não, . Mas também acredito que seja melhor que eu vá. Não é prudente passar tanto tempo à sós.
Fiz uma pequena reverência e felicitei pelo seu aniversário, apesar de ter sido eu quem recebeu presente.
Voltei para casa parecendo um pinto no lixo. Deus sabe quão feliz sentia-me. Queria até mesmo pular como um menino pela cidade de Londres, dar toda minha fortuna para mendigos, cantar noite de paz nas portas das casas, embora ainda fosse maio e eu cantasse como um pato com tuberculose. Eu havia beijado a mulher que amava e estava a ponto de voltar para casa dos Marilliers para fazer um pedido formal de casamento. Aliás, eu casaria naquela tarde mesmo tamanha a felicidade que sentia.
Entretanto, a felicidade foi momentânea. Ao chegar em minha casa, sentados no sofá, estavam três dos mais importantes articuladores políticos do parlamento, inclusive o Conde de Stanley. Foi ele quem falou primeiro.
— Precisamos que você resolva a sua situação com Kurtwood.


Capítulo 17




Eu beijei apenas dois homens em minha vida. A primeira vez que eu o fiz, foi com um primo de Catherine. Naquela tarde nós fugimos de nossas babás e decidimos criar um desafio. Éramos muito jovens e curiosos. Lembro de passar duas semanas sentindo-me culpada, pois eu sabia que era errado fazer aquilo.
Beijar foi diferente. Não havia curiosidade motivando-me, mas algo mais forte, mais danoso. Foi a melhor escolha que eu fiz e, ao mesmo tempo, a que eu mais me arrependia.
Não sabia onde estávamos diante daquele acontecimento, porém tinha consciência que Dudley era um perfeito cavaleiro. Dessa forma, imaginava que o seu senso de honra o levaria a pedir minha mão em casamento. De maneira nenhuma foi premeditado o que fiz, no entanto, caso ele escolhesse-me como sua esposa, todos os meus problemas seriam resolvidos como em um passe de mágica. Então, resolvi que lhe daria um dia. Se ele não aparecesse, meu plano de fuga continuaria vivo.
Já no meu quarto, guardei a imagem do seu desenho ao lado da carta que motivara-me a fugir. Estava junto com as poucas coisas que eu levaria, no entanto eu esperava não precisar usar nada daquilo — principalmente minhas economias, as quais iriam tudo para a passagem para Escócia.
Existia algo muito perigoso em ter esperança. Aprendi da forma mais dolorosa possível. O dia seguinte ao meu aniversário, após receber um presente atrasado de minha mãe, fui à igreja junto de Catherine. Era para ser apenas uma distração, mas procurei por o tempo todo, embora fosse raro sua presença na capela.
Enchi-me de aflição o resto do dia. Toda carruagem que chegava perto de casa era ele — ao menos era isso que minha cabeça maluca dizia. Recebi a visita de Ever, que desejava saber se eu gostara de seu presente, porém ela não era quem eu queria que viesse. Apesar de estar alerta ao meu nervosismo, a marquesa não disse nada para mim, apenas levantou suas sobrancelhas finas com um ar de ‘estou de olho’ ao se despedir.
De vez em quando, eu olhava para a janela da sala de visitas à espera da carruagem com o brasão dos estampado. O único transporte que realmente apareceu foi o do Duque a qual Catherine estava comprometida. Eu estava feliz pela minha irmã postiça, embora sentisse que os primeiros anos de casamento poderiam ser um tanto desastrosos para ela, que não amadurecera o suficiente para virar uma esposa. Porém, ninguém esperava uma mulher ficar madura para conduzir um casamento; muito antes de descobrir o verdadeiro sentido do matrimônio, obrigávamos nossas meninas a dizerem sim diante de um altar.
A noite chegou e com ela foi-se a esperança. não viria. Não havia qualquer promessa feita, no entanto, eu não tinha tempo.
Um pouco antes de dormir, mamãe veio conversar comigo. Sua atenção noturna era atípica, então fiquei alerta quando ela veio dizer-me que queria apenas desejar boa noite.
Então, quando saiu do quarto e fechava a porta, lembrou-se:
— Oh, o senhor Lincoln avisou que estaria aqui amanhã e que traria uma surpresa. Não é isso excitante?
Murmurei uma resposta positiva, apesar de sentir meu sangue gelar.
E eu reforcei a lembrança de que, mesmo se Dudley estivesse disposto a fazer-me uma visita, eu não tinha tempo.
A manhã veio como um sopro e logo eu estava comendo mais do que o costume no café por conta da ansiedade que dominava-me. Estava agitada e Catherine reclamou três vezes pelo barulho que meu pé fazia ao batucar o chão.
Senhor Lincoln chegou em um horário considerado escandaloso, mas entrou no escritório de meu padrasto e ficou ali por horas. Algo em mim irritou-se sobremaneira de ter alguém tão distante emocionalmente de mim decidindo o futuro que só eu sofreria consequências. Cada vez mais que o tempo passava, mais eu tinha certeza do que eu iria fazer.
Tentei impedir Catherine de fugir, mas não consegui evitar: antes de perceber, estava apenas eu, Lincoln e Leo na sala de visitas. Meu gato foi o único que não deixou-me sozinha.
— Imagino que já saiba o motivo de eu estar aqui. — discursou ele pomposo.
— Sim, eu o sei. — falei com toda a firmeza que continha em minha voz.
Meu pretendente começou a andar pelo cômodo e eu acompanhei-o com o olhar.
— Tenho a observado há algumas temporadas. — disse ele. — É uma jovem muito recatada e de pouca fala. Pergunto-me como alguém de caráter tão fleumático poderia sair da Senhora Marillier.
Pisquei aturdida diante de seu elogio a mim através de uma ofensa à minha mãe.
— Em breve herdarei um ducado na Escócia…
— Não sabia que o senhor possuía parentes escoceses. — Comentei rapidamente sentindo uma necessidade estranha de participar de seu até então monólogo.
Ele olhou para mim como se finalmente tivesse notado minha presença na sala.
— Oh, sim. Felizmente é apenas um primo muito distante… — ele balançou a mão com desdém. — Não é disso que quero falar agora.
Engoli o seco quando Senhor Lincoln mirou-me com firmeza.
— Quero que case-se comigo, Senhorita . Aceitaria ser minha esposa?
De todas as maneiras que imaginei reagir diante de tal pedido, a calmaria não foi premeditada. Quando a pergunta foi proferida, facilmente o respondi:
— Não.
Mas, com certeza, aquela calmaria era apenas um presságio para a tempestade que assolou dentro de casa.
Lincoln ficou minutos inteiros mudo e minha mãe invadiu a sala em um turbilhão, dizendo que eu estava doente e minha dicção não estava em seus dias melhores. Uma desculpa estúpida, mas que fez-me levantar do sofá com uma coragem que nunca pensei possuir.
— Não há doença ou problema de dicção. Sinto-me honrada pelo pedido, mas não quero casar-me com o Senhor Lincoln. — dei um sorriso artificial. — Espero que o senhor encontre uma mulher digna para ser sua duquesa, no entanto, essa mulher não sou eu.
Ignorei os gritos de ultraje de minha mãe e corri para cima, trancando-me no quarto. Mamãe bateu na porta chorando de raiva, esbravejando o quanto eu era burra e estava perdendo a maior oportunidade da minha vida. Seus comentários doíam sim e, às vezes, pegava-me pensando se minha escolha tinha sido a melhor a ser feita. Ainda assim, eu tinha consciência que eu não podia dar pra trás.
A escolha já fora feita. Agora, eu teria que arcar com as consequências.
Não saí do quarto depois do episódio com o Senhor Lincoln. Várias pessoas, inclusive Cath, chamaram-me para sair e ir comer, porém decidi agir como uma mulher emburrada enquanto arrumava as poucas coisas que tinha para fugir.
A ansiedade fez-me passar horas andando em círculos pelo quarto. Esperei relendo a carta que impulsionara-me a cometer um ato tão desesperado. Com o pouco dinheiro que eu tinha, apenas a passagem de ida estava garantida. Pensei em desistir, mas era minha liberdade que estava em jogo. Embora achasse que o Senhor Lincoln era um homem orgulhoso, havia uma grande possibilidade de mamãe tê-lo convencido a visitar-me no dia seguinte com o pretexto de que eu estava muito nervosa. Não importava quantas vezes eu dissesse não, ela ainda casaria-me com ele.
Faltava algumas horas para os servos da casa acordarem quando desci as escadas vestida de preto, como uma recém-viúva, carregando uma trouxa de roupas, uma faca de serra, uma jóia da mamãe e dinheiro. Também segurava uma caixa com Leo e pedia aos céus que ele se mantivesse em silêncio. O coração batia às pressas no peito; meus olhos estavam muito alertas e andei um pouco até conseguir encontrar uma carruagem alugada. Era a primeira hora do dia e o sol ainda não tinha aparecido. Desci nos correios e encontrei algumas pessoas que compravam sua passagem para fora de Londres e logo estava em uma carruagem junto com mais cinco pessoas rumo à Escócia. Mais precisamente: Gretna Green. Entreguei ao responsável por nós, a joia que levava em troca da proteção de Leo. Deveria valer três passagens daquela que eu comprara, mas não hesitaria em pagar mais para levá-lo comigo. Teríamos duas paradas e chegaríamos no nosso destino em dois dias e meio; na primeira encontraria quem iria garantir minha liberdade. Ainda sentia que meu coração iria sair da boca quando começamos a andar para longe de Londres. Não sabia se um dia voltaria, então sussurrei uma despedida para a cidade que abrigou-me por um tempo, mas nunca fora meu lar.


Capítulo 18


, Lord Ward, Conde de Dudley



Entre sonhos confusos, acordei sobressaltado e murmurando que eu deveria mandar uma carta para o assistente de Lorde Byron. Foi uma ação tão brusca que deixou meu corpo todo dolorido. Eu ainda estava no meu escritório e parecia já ser tarde da noite. No canto da mesa havia uma bandeja com o jantar frio oferecido por um dos meus servos horas atrás. O corpo reclamou quando levantei e cambaleei um pouco até chegar perto da comida. Fiz uma careta ao sentir o cheiro, o enjôo dominando o meu estômago, embora não tivesse comido nada o dia inteiro.
Olhei para as diversas cartas espalhadas na mesa, documentos oficiais e memorandos que eu escrevera em todas as reuniões do parlamento. A desesperança consumiu o meu peito e tive vontade de voltar a Dudley. Lá, eu poderia afundar-me na mediocridade e apenas administrar as terras que um dia herdei.
Ri descrente com a minha situação.
Nem mesmo minhas terras estavam em seus melhores dias; eu teria que, eventualmente, escolher qual das famílias que serviram com lealdade a meus antepassados irão perder sua propriedade em troca de algumas migalhas de um burguês qualquer.
Saí do escritório e fui arrastando-me até meu quarto. Encontrei Salomão no meio do caminho e peguei-o no colo, dando carinho ao felino que foi esquecido nos últimos dois dias. As palavras de Stanley rondavam-me como um assombro perturbador. Ele estava transtornado e perguntou o que diabos eu tinha feito para que Senhor Kurtwood agisse de forma tão mesquinha.
Teríamos uma votação importante para aquela semana, que dizia à respeito da regulamentação da indústria ferroviária; parte do partido de Kurtwood aprovava nossas escolhas e votaria a favor. Porém, algo mudou desde minha última conversa com o burguês. Com seu grande poder de influência, Kurtwood estava convencendo indecisos a votar contra e projetando uma regulamentação que poderia resultar em monopólio de algumas empresas específicas. Stanley dependia daquela votação para que sua futura liderança como primeiro ministro desse certo, pois era ele o autor do projeto. Até mesmo o Príncipe Albert estava gostando da ideia, pois era de conhecimento geral do Parlamento sua antipatia por Lorde Palmerston, nosso primeiro ministro.
Nos últimos dias, tentei contatar ao Senhor Kurtwood de diversas formas. Cartas, recados e até mesmo visitas a sua casa — nenhuma dessas funcionaram, sendo essa última a mais humilhante. Fui tratado de forma hostil pelos seus empregados, que negaram sua presença, embora soubéssemos que ele estava em seu escritório.
Stanley determinou: eu criei o problema e eu deveria resolvê-lo. Todavia, eu tinha consciência que aquela não era toda a verdade. O Conde havia me dado o prazo de quatro dias porque possuía uma carta na manga ainda. No fundo, ele estava apenas me dando uma chance para não ter que cair no ostracismo dentro do partido.
Dois dias depois da nossa conversa, eu tinha certeza que era esse o fim de minha carreira política.
Perder todo o prestígio e poder que trabalhei desde cedo era frustrante. Doído. Dilacerante. Porém, se esse fosse o único meio que me levasse à , eu o tomaria. Perder poder não era nada comparado em perder a oportunidade de ser feliz ao lado de quem eu alimentava um profundo sentimento como aquele. Se havia algum arrependimento, foi o de não correr para a casa dos Marillers pedir a mão de em casamento assim que tive o meu primeiro sonho com ela.
Não sei em qual momento eu dormi de verdade. Descansei como não fazia há dias e cheguei a passar da hora de levantar. Quando finalmente o fiz, comi na mesa de jantar em silêncio. Vi no rosto dos meus empregados a desconfiança da rotina que voltava, mas ignorei-os, assim como minhas obrigações. Havia tempo para que eu tentasse convencer alguns parlamentares a mudar seu voto, apesar da chance ser pequena.
O dia seria muito longo.
Naquela tarde, fui até a casa de Exeter pedir ajuda ao meu amigo. Sentei-me no sofá de visitas enquanto esperava Cory terminar alguma atividade que ele fazia com sua enteada, Felicity.
Ever apareceu minutos depois que cheguei. Ela vinha de um passeio junto com Gregory e sua babá, e estava muito falante, até que viu-me pelo corredor. Nunca a vi ficar em silêncio tão de repente. Minha irmã despediu-se da empregada e seu filho antes de entrar no cômodo.
— Você está bem, querido? — indagou, sentando-se com cuidado ao meu lado.
— Não estou nos meus melhores dias. — admiti com um sorriso cansado. — Mas estou bem, sim.
— Oh! — ela piscou surpresa. — Pensei que você estaria mais triste, porém fico feliz em saber que o que você sentia não era o bastante para fazê-lo sofrer.
Franzi o cenho.
— Do que você está falando?
— Oras, da fuga de ! Do que mais seria?
Meu coração pulou no peito, nervoso.
— O quê?!
Ever empalideceu finalmente percebendo que era a primeira vez que eu ouvia falar daquela conversa.
— Já correu por toda a Londres. Você realmente não escutou sobre? — neguei com a cabeça. — fugiu essa madrugada junto com Lorde Stanton! Eu fiquei embasbacada, porque jurava que ela nutria sentimentos por você! Ela nunca nem mesmo citou Lorde Stanton em nossas últimas conversas. De começo acharam que ela poderia ter sido sequestrada, mas encontraram cartas do Stanton dentro do quarto dela. Além do mais, o gatinho dela também sumiu.
— E ela… deixou alguma carta?
Para mim? Quis completar.
Ever olhou-me cheia de compaixão e tocou em meu ombro.
— Sei que é difícil aceitar, querido, mas ela não o amava o suficiente para ficar. Às vezes, o amor nos dá dores.
Engoli o choro, a sensação de deja vu deixando-me igualmente miserável como no sonho. A fuga de não fazia sentido; dias atrás tínhamos nos beijado! Ela mostrava-se tão inocente e recatada. Será que a mulher que eu conhecia tinha um caráter diferente de que se mostrava? Será que ela estava apenas fazendo um jogo comigo e Lorde Stanton apenas para conseguir o melhor partido? Não era difícil imaginar tais atitudes quando ela tinha uma mãe tão ambiciosa como a Senhora Marillier.
Ever soltou um suspiro, parecendo bastante abatida.
— Eu realmente imaginava que éramos boas amigas. Digo, ela nunca deu sinal de estar interessada de verdade com Stanton! Estava tão desesperada para fugir de Senhor Lincoln que decidiu casar com um homem superficial como Stanton? E de forma tão escandalosa?
— Senhor Lincoln? Do que você está falando? — indaguei. Minha irmã bateu os pés, irritada.
— Você também não sabe de nada! Senhor Lincoln está há tempos querendo casar-se com e queria oficializar o noivado ainda nessa temporada. — explicou, parecendo bastante satisfeita em ser a primeira a me contar tais fatos. — A mãe dela iria fazê-la casar de um jeito ou de outro! Agora que ela fugiu, espero que se case com Lorde Stanton. Ao menos isso diminuirá o estrago feito em sua reputação.
Fiz uma careta, achando toda aquela história muito estranha. Por que ela escolheu justo Lorde Stanton para fugir? Por que não citou sobre seu desejo de partir a mim, quando a beijei?
Balancei a cabeça inconformado. Quem eu estava querendo enganar? Eu desejava-a de sobremaneira que estava fadado a cometer o mesmo erro de minha mãe e casar-me com alguém achando que nenhum momento a faria sentir o mesmo que eu. Entrei em uma confusão gigantesca apenas para ser rejeitado. Kurtwood deveria estar feliz, já que não precisou fazer nada para deturpar a imagem de . Ela o fez sozinha.
Cory desceu minutos depois, parecendo disposto a convencer até mesmo a Rainha Vitória de votar certo na quinta-feira, no entanto, sorri melancólico para ele e convidei-0 a beber comigo no White’s.



O Marquês de Exeter e o Lorde Byron estavam sentados diante de mim desconfiados. Eles esperavam uma atitude escandalosa minha, mas eu estava há cinco minutos em completo silêncio bebendo licor como se fosse água. O álcool não fazia efeito daquela vez e isso frustrava-me. Eu queria parar de pensar em , no seu sorriso, na sua voz, nas suas ideias. Queria convencer-me que quem eu conheci não existia, era tudo fruto de uma mente apaixonada. Àquela altura, ela devia estar nos lençóis de outro homem e nem lembrava mais de mim. Soltei uma risada fraca, sentindo-me patético.
— Deus me livre de um dia ficar desse jeito por causa de mulher. — disse Byron, que olhava-me como se eu fosse um lunático.
Cory sorriu para ele e bateu em seu ombro como em um conforto.
— Mas vai ficar, amigo. Espera só sua esposa encomendada chegar.
Ia murmurar alguma coisa quando uma agitação tomou conta do ambiente.
Pelas mesas do White’s e em busca de uma sala privada para jogar, estava Lorde Stanton de semblante sereno.
Levantei e cambaleei em sua direção. Cory tentou conter-me, porém Byron segurou-o. “Ele precisa fazer isso” disse ele.
— Stanton?
O homem virou-se para mim parecendo alheio ao motivo da minha aproximação. Apenas fez uma careta ao sentir o cheiro forte de álcool impregnado em mim.
— Ora, Dudley, não é muito cedo para estar bêbado?
Ignorei o que ele disse, pois estava mais disposto a compará-lo comigo. O que fez o escolher? O que ele tinha de especial que eu não possuía?
— Cuide de . Ela é uma mulher espetacular e merece ser tratada como uma rainha.
? — Stanton franziu o cenho. — Oh, a Senhorita ! Você não é o primeiro que fala-me dela hoje. Tive minha casa revirada pela Senhor Marillier tarde passada! Como as fofocas são danosas, não é? Não sei de onde tiraram que fugimos juntos quando não a vejo faz dias, senão semanas!
Pisquei aturdido.
— Sabe, Dudley, se a Senhorita planejava ser a fonte da desgraça de sua família, em momento nenhum incluiu-me em seu projeto. Pobre do homem que foi seduzido por aqueles doces lábios. — sussurrou a última frase zombando de mim. — Ela por certo ajudou-me na minha missão, sabe? Kurtwood não poderia estar mais satisfeito em vê-la caindo na desgraça sozinha.
Eu o socaria naquele exato momento se as informações que ele havia me dado não fossem tão valiosas e aliviassem minha alma, como um remédio fazendo efeito após horas de dores à fio.
não fugiu com Lorde Stanton. Seja lá qual fosse o motivo de sua fuga, não era para os braços de um homem.
Então, franzi o cenho preocupado. Para onde ela foi? Com quem? E por quê?


Continua...



Nota da autora:Nossa pp fugiu! E agora? Ela parece não ter escolhido qualquer um dos homens ao seu redor. Então, o que a fez fugir?
Qual é a teoria de vocês?
Obrigada a todos que estão lendo e comentando. Sempre fico bestinha ao lê-los hahahaha vocês são incríveis!
Até mais!





Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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