Última atualização: 20/09/2018

I.




O salão dos Rutherfords estava cheio. Lady Emmanuelle Rutherford, a Condessa de Northampton, era conhecida pelos bailes excepcionais e saraus que faziam os seus convidados deleitarem-se no melhor da música e poesia atemporal. Naquela noite, o salão estava agitado, o barulho das risadas, da conversa e da orquestra ressoava pelas paredes em uma cacofonia extrema. Significava muitas coisas: os rumores e novidades que sempre permeiavam a cidade grande, a constante disposição para conversar de quem não conhecia o pesar do trabalho e a vontade de criar laços que os beneficiariam no futuro.
Eu, , embora estivesse com o corpo presente no salão, era o ponto fora da curva. Até mesmo as matronas estavam divertindo-se entre si, fofocando sobre algo que eu desconhecia. Minha meia irmã mais nova, Catherine Marillier, rodava nos braços do homem que a cortejava desde o começo da temporada. Era questão de tempo para que ele pedisse ao nosso padrasto a mão dela. Estávamos quase no meio da temporada, logo mais os casamentos ocorreriam.
Soltei um suspiro cansado, sentindo que talvez fosse melhor ir para cama cedo com Leo, meu gato. Era muito mais produtivo do que estar em uma festa que eu não gozava a alegria como meus pares.
Meus pares. Ainda era estranho ver tantas pessoas ligadas à aristocracia por metro quadrado, embora aquela fosse minha terceira temporada. Apesar de ser neto de um conde, meu pai nunca importou-se o suficiente com o sangue azul que tinha. Vivíamos em um vilarejo em Castle Combe, eu e meu pais. As poucas vezes que estive diante de pessoas de sangue azul eram em jantares que meu bisavô fazia questão que comparecêssemos, momentos em que o deslumbramento da minha mãe pela elite do Reino Unido intensificava. Era terrível para uma mulher com o objetivo de subir na escala social até o mais alto topo ter um marido tão indiferente àquelas questões.
Mesmo assim, fosse o que fosse, Harry tratou de pagar uma preceptora para mim para que eu tivesse uma boa educação. Mamãe criava ilusões sobre minha primeira temporada em Londres, onde, em sua cabeça, seria uma das mais belas e que conquistaria alguém da linhagem real. Papai, no entanto, deixava claro que não usaria seu dinheiro tão bem dedicado na compra e venda de cavalos para termos férias em Londres. Infelizmente, quando ainda tinha doze anos, a morte o chamou através daquilo que ele mais amava: o hipismo. Tiger, um puro-sangue sem disciplina, em um de seus ataques de raiva, derrubou meu pai da cela, fazendo-o quebrar o pescoço. Embora tenha insistido que a morte do animal não resolveria nada, minha mãe ordenou que Tiger fosse sacrificado.
Seu luto, é claro, durou apenas um ano. Quando nossas roupas passaram a ter diferentes tons de cinza, ela viajou para Londres. Afinal, nossa casa lembrava muito meu pai.
Tia Cassandra lembrava muito meu pai.
Eu lembrava muito meu pai.
O vilarejo lembrava meu pai.
Mas Londres, uma cidade terrivelmente grande, cheia de agitação, não lembrava meu pai.
Para tanto, em dois meses minha mãe voltou a ser uma mulher feliz, sonhadora, cheia de frescurinhas, grávida e noiva do segundo herdeiro na linhagem de um condado. Ter conseguido tamanho objetivo, Diana Marillier criou grandes expectativas em relação à minha temporada, afinal, eu era uma das mulheres mais belas do vilarejo. No entanto, ela não calculou que, em um lugar simples como a nossa antiga casa, a demanda era pequena e que havia dezenas de moças iguais a mim em uma cidade grande. No salão da Lady de Nothans, por exemplo, havia dezenas de jovenzinhas loiras, mais ou menos esguias e de olhos claros como eu. E elas tinham algo que eu nunca teria: classe. É bem verdade que na minha primeira temporada havia caído no conto de minha mãe: fiz tudo exatamente do jeito que ela me ensinou. No entanto, sua maneira de pensar só funcionava para homens que desejavam uma amante, mas eram descuidados o suficiente para acabar caindo em um matrimônio. Ora, eu não queria ser amante de ninguém e seria uma grande humilhação tanto para casa de meu pai, como para o meu padrasto submeter-me a isto. Porém, depois da catástrofe da segunda temporada, quando os únicos dois pretendentes que apareceram estavam apenas de olhos no meu não tão modesto dote, percebi que também não queria um marido aristocrata. Ainda assim, estava ali pela terceira vez em uma temporada social, mas com o objetivo de ficar de olho em minha meia-irmã, Cath. Embora não compartilhassem o sangue, ela e Diana eram iguais em forma e não duvidaria que seria questão de tempo para que Catherine entrasse em uma confusão.
Bocejei discretamente quando a música terminou e os casais começaram a bater palmas. Infelizmente, os bailes dos Rutherfords costumavam ser símbolo moral da aristocracia e dificilmente acontecia algum escândalo, algo que deixasse as coisas mais interessantes. Olhei para o lado e então percebi que estava sozinha enquanto minha mãe gabava-se do cavalheiro apaixonado pela sua afilhada mais nova para suas amigas. Pelo olhar apaixonado do homem para Cath, era claro que até o final de semana teríamos um casamento na casa dos Marillier. Um casamento que não seria meu, obviamente.
Suspirei, decidindo que no dia seguinte iria planejar minha partida para o recanto de Tia Cassandra, com quem fiquei durante a viagem de mamãe para Londres e não via há quase sete anos. Lá, encontraria um homem mais ou menos honesto como meu pai, e viveria uma vida mais ou menos feliz também.
Era o mais ou menos que eu tinha agora.
Estava pensando nisso quando o senhor Robert Lincoln aproximou-se de mim e segurei-me para não revirar os olhos. Mamãe havia alertado-me sobre a deselegância do ato, no entanto, não conseguia evitar quando se tratava dele.
— Boa noite, senhorita . Acredito que tenho uma dança reservada com a senhorita. — disse ele, felizmente não cuspindo-me toda. Já era um grande avanço.
— Claro. — respondi com um sorriso forçado enquanto aceitava seu braço.
Não precisava procurar seu único nome no meu cartão, muito menos pedir permissão para minha mãe para que dançássemos. Na verdade, eu sabia que se aquela temporada fosse tão ruim quanto a segunda — a qual já estava sendo — mamãe faria com que eu me casasse com senhor Lincoln, não importando quão desagradável ele fosse para mim ou para ela, que também não o suportava.
Senhor Lincoln falava muito e eu entendia pouco. As más línguas diziam que ele havia batido a cabeça quando criança, mas Lincoln insistia ser muito bem do juízo. Eu tendia a acreditar nos rumores, afinal, escutar suas grandes palestras sobrava constantemente para mim. Se ele não fosse o único homem que trocava palavras além da cortesia comigo e não fosse de uma família tão influente quanto a do Duque de Weshestter, talvez eu não dignasse nem mesmo o olhar para aquela verruga nojenta que ele possuía na ponta do nariz.
Enquanto rodava pelo salão em uma quadrilha, captei diversos olhares sobre mim; variavam entre pena, compaixão e desprezo. Sentia-me diminuída naquele cenário, no entanto, havia feito as pazes comigo mesma ao decidir que seria minha última noite na temporada de Londres.
O último acorde da música tirou-me um peso terrível, que fez-me retirar-me do meio do salão quase em fuga até a mesa de limonadas. Aquela parte do cômodo estava relativamente vazia e cada vez que andava mais, tentava tirar a sensação ruim que dançar com senhor Lincoln me proporcionou.
— Escute o que você está dizendo, . É um absurdo sem tamanho. — uma voz feminina reclamou.
— Por que não é válido? Animais de estimação também são parte da família. — replicou em um tom complacente.
— Concordo com ela, . Digo, quem não vai à uma sessão importantíssima do parlamento porque o cachorro morreu? — argumentou outra voz masculina.
Com discrição, olhei para o lado de onde vinham as vozes. Em uma roda estava o Marquês e a Marquesa de Exeter e o Conde de Dudley debatendo sobre a questão. Eles eram conhecidos por serem bastante jovens para quem já possuía tanto poder social, principalmente o Conde de Dudley, o qual sempre estava em destaque nas páginas de política. O conde e a marquesa eram irmãos gêmeos, sendo um a cópia inteira do outro.
— Eu entraria de luto se Salomão morresse — comentou Dudley sem muita pretensão de parecer emocionado. Dizia como se estivesse falando de um detalhe em sua roupa ou do clima. — A opinião de vocês não conta, afinal, são casados e felizes, não sabem o que é ter um laço forte com um animal de quatro patas.
— Quer dizer, então, que para ficar de luto por um bicho de estimação, é necessário ser pobre de espírito? — concluiu a marquesa, rindo em demasia.
— Ever, não foi isso que eu falei.
Eu havia sido apresentada a eles na primeira temporada e, assim como boa parte da aristocracia, mal troquei duas palavras além das de cortesia. Era má educação escutá-los sem autorização, porém não poderia evitar ter curiosidade em relação a eles.
— Senhorita , oh, a senhorita será perfeita! — exclamou a marquesa segurando meu braço com firmeza, notando minha presença antes despercebida.
Acompanhei-a, pálida por ter sido imposta na conversa. Igualmente estava o Conde de Dudley, como se tivesse visto uma assombração à sua frente, fitava-me com o rosto branco como mármore.
— Veja bem, estamos dentro de uma questão importantíssima — discursou o marquês muito feliz com a reação surpresa de seu amigo. — Ora, é válido estar de luto por um pet?
Demorei um pouco mais que o necessário para responder sua pergunta. Vasculhei pela mente uma resposta padrão, do tipo que mamãe ensinaria a mim, porém nada saiu. Então, optei pela verdade.
— Eu ficaria de luto se Leo morresse. Ele tem sido uma família para mim, embora seja um animal — eu falei, mas arrependi-me logo depois. Era bem provável que eu tenha parecido uma completa idiota falando do meu gato como se ele fosse um ser humano.
— Bem, então eu concordo — disse a marquesa com um sorriso enorme. — Não é, querido?
— Sim, sim — concordou Exeter com o mesmo sorriso.
Pisquei repetidamente tentando entender o que estava acontecendo. O conde, no entanto, olhava para o casal como fosse os matar com a força da mente. Eu pouco sabia, mas comecei a pensar que eles estavam pregando uma peça em mim. Eu era uma presa fácil, afinal. Eles deviam estar me usando para sua própria diversão.
Ao abrir a boca para dar uma desculpa e esconder-me até que mamãe resolvesse ir para casa, a marquesa soltou um gritinho animado.
— Veja, é uma valsa! Vamos dançar, querido.
O marquês de Exeter olhou para sua esposa como se a mesma tivesse descoberto a fonte da juventude.
— Sim, e pode dançar junto com a Senhorita . — complementou ele em grande entusiasmo.
— Tudo bem para você, querida? Sua mãe a autoriza dançar valsas? — perguntou a marquesa com seus grandes olhos de íris amarelada.
— Ah, eu… Eu...
Antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo, estava com a mão agarrada no braço de Dudley e indo em direção ao meio do salão mais uma vez.
Respirei fundo e engoli em seco. Era só uma valsa. Uma dança de poucos minutos e eu fugiria de lá
Eu nunca tinha dançado valsa em público. Não por não ter autorização de minha mãe, mas pelo senhor Lincoln, o único que costumava tirar-me para dançar, achar um escândalo.
Levei minha mão com cuidado até o ombro do conde enquanto a outra era acolhida pela sua palma enluvada. O aperto em minha cintura era leve, porém não deixou-me menos perturbada. Então, levantei a cabeça para fitar o rosto de Dudley e engoli em seco. Ele era terrivelmente belo. Tinha as sobrancelhas espessas e mais escuras que o cabelo, o qual era um tom castanho escuro. Os olhos eram igualmente intrigantes como o da marquesa, no entanto brilhavam como uma joia real. Deviam ser verdes, mas brilhavam amarelos aquela noite. A música tocou e nós começamos a deslizar devagar pelo salão em silêncio. O conde demorou alguns segundos até alcançar meu olhar e um calafrio desceu pela minha espinha. Eu sentia o calor de seu corpo, apesar dos diversos tecidos que separavam-nos. Era emocionante estar ali em seus braços, embora pouco conhecesse seu caráter.
— Eu peço seu perdão pelo comportamento de minha irmã e meu cunhado — disse ele, a voz em um tenor inquisitivo. — Às vezes eles esquecem sua posição.
— Tudo bem, milorde. Não se preocupe — respondi, pois acreditava que não havia mais o que dizer.
— Então, o Leo, de quem você falava, é um cão ou um gato?
Pisquei aturdida diante de sua pergunta.
— Um gato, milorde. Um dos mais bonitos.
— Com certeza não chega aos pés de Salomão — falou de imediato.
Olhei para ele contrariada, pronta para replicar, quando vi seu sorriso desdenhoso.
— Nenhum de nós é um juiz imparcial para julgar tal coisa — argumentei segurando a sombra de um sorriso.
— Acredito que esteja correta, senhorita. — Ele inclinou-se um pouco para frente e senti o frescor de sabonete em minhas narinas. Seus cabelos estavam um pouco úmidos e lembrei que seu nome foi anunciado um pouco antes de senhor Lincoln aproximar-se, pois chegara tarde. Ao contrário do meu antigo par, o Conde de Dudley era refinado e tinha uma áurea muito mais confortante. E havia seus olhos extremamente convidativos, é claro.
Continuamos a dançar em silêncio, mas dessa vez de forma muito mais congruente. Dudley guiava-me com muita facilidade e uma sensação de querer abraçá-lo ocorreu-me. Queria sentir seu calor mais de perto e examinar seu cheiro. Queria ser tocada por ele.
Antes que eu entendesse aquela miríade de emoções, a música terminou. Com muito esforço e timidez nos afastamos, ele tão acostumado com a aproximação quanto eu. Apesar de nunca ter estado tão perto de um homem como daquele jeito, o sentimento era de familiaridade. Como poderia isso acontecer?
Observando a forma com que olhava-me, percebi em seu rosto que Dudley passava pela mesma indagação. Porém não verbalizamos isso, apenas fizemos uma pequena reverência em adeus, o segredo da emoção pairando sobre nós.


II.



, Lord Ward, Conde de Dudley



Eu costumava ter sonhos malucos. Alguns estranhamente concretizavam-se. Minha mãe dizia que eu era sensitivo, mas não parecia levar a sério as palavras de uma criança. Não sabia quão perturbador era ter aqueles sonhos até assistir do enterro de minha mãe sete dias antes dela morrer de repente. Cheguei a sonhar também com o casamento de Cory e Ever, atuais marqueses de Exeter, antes de meu melhor amigo admitir que estava cogitando a possibilidade de pedir sua mão para ser sua esposa. No entanto eu também já havia sonhado com jacarés dançando valsa e um porco como rei da Inglaterra, logo, alguns sonhos eram frutos apenas da minha cansada mente.
Sonhei com na primeira noite que a vi no salão. Ela era só um rosto comum na multidão, para tanto, nem mesmo chegamos a ser apresentados. Em meu sonho, vi-a correndo à margem do rio como uma criança, enquanto gritava para que eu a acompanhasse, seu rosto mudava as características principais exceto os olhos. Eram sempre os mesmos.
A perturbação veio, naturalmente, porém segui minha rotina. Havia muito o que se fazer e não era o momento certo para deixar uma mulher desconhecida entrar em minha cabeça.
No entanto, nos poucos bailes e reuniões sociais que eu participava, sempre pegava-me procurando-a pelo salão. Às vezes encontrava-a, às vezes não. Dificilmente eu conseguia disfarçar minha curiosidade. Não demorou muito para que Cory começasse suas perguntas impertinentes sobre o que ou quem eu estava sempre procurando. Embora fosse bastante insistente, consegui com que segurasse meu segredo durante toda uma temporada. Ser bom em guardar segredos era apenas um dos meus trabalhos. E depois, havia sido apenas um sonho e logo a senhorita sairia da minha cabeça. Talvez até mesmo casaria-se.
Porém, vi-me perguntando sobre ela casualmente. Tal curiosidade não passou batido pela minha irmã, que estava disposta a casar-me o mais rápido possível. Ever tinha medo de que eu estivesse muito sozinho em Ward House. E, claro, nutrindo suas expectativas românticas, queria que meu casamento fosse tão ou mais feliz que o dela, todavia, era sabido por nós que isso não iria acontecer.
Ainda assim, era interessante alimentar aquela pequena admiração por de longe. Não aproximava-me, pois seria como enganar a todos, inclusive a mim. Um cortejo, a qual insinuava um casamento, com alguém como a senhorita não possuía qualquer vantagem, sendo ela de uma família tão pouco expressiva no parlamento.
Então, sonhei com ela de novo; dessa vez, ela estava dentro de uma carruagem carregando um gato e ria como uma menina. Não admitiria em voz alta, mas foi este o motivo de ter adquirido Salomão.
Porém, o casal de marqueses nunca deixariam que isso fosse apenas uma paixão inocente. Resolveram, então, ser a pedra no meu sapato. O trabalho deles foi dificultoso, pois poucas vezes fui convidado para as mesmas reuniões que a senhorita e, quando estávamos por perto, sempre havia uma forma de fugir de um diálogo estranho, afinal, eu também era feito do mesmo material que a minha irmã. Quando fomos apresentados formalmente faltou-me coragem para falar algo que fosse além do esperado, tendo em vista que em momentos públicos como aquele, sentia estar sendo observado por todo o mundo. Além disso, estar no meio de muita gente nunca foi meu forte. Apesar de passar boa parte dos meus dias em constante contato com pessoas, era difícil lidar com uma multidão. O humor dela sempre atingia-me sobremaneira que dificultava minhas interações sociais.
Com o tempo, imaginar coisas sobre a senhorita se tornou uma escapatória para momentos em que sentia a cabeça a ponto de explodir. Sua memória exalava conforto, embora eu tivesse consciência de que era tudo fruto da minha imaginação. Não éramos amigos, tampouco amantes.
No baile da Condessa de Northampton, fui pego desprevenido. Havia tomado banho depois de uma longa reunião com um dos representantes do partido trabalhista, o qual levantava uma proposta para mim, e planejava ir para cama mais cedo. Ever, no entanto, apareceu junto com seu marido e convenceu-me que deveria sair de casa, já que a última vez que fui visto em algum lugar público fora do âmbito político foi a um mês atrás, no sarau da Lady Windy. Que, devo acrescentar, foi lastimável de tão ruim.
Ao entrar em Warfield House, logo depois de cumprimentar os anfitriões, fui abordado por um par de matronas, no entanto, consegui facilmente livrar-me delas. O objetivo naquela noite era apenas cumprir tabela, não fingir importar-me com o mercado casamenteiro. Inevitavelmente, procurei a senhorita pelo salão e tive o desprazer de vê-la dançar com senhor Lincoln. Uma mulher tão bonita sendo cortejada por alguém de nível tão obtuso era quase um insulto diante de uma temporada onde haviam diversos tipos de pessoas de diferentes e importantes famílias. O que mais incomodava-me era pensar que aquele interesse de Lincoln era antigo e um tanto desgostoso para com a senhorita , que sorria, mas seus olhos azulados imploravam para morrer antes de ter que encarar o seu par mais uma vez.
Eu não era efetivamente cobrado como os outros pares do reino para casar-me. Na verdade, embora fosse um dos pouquíssimos ainda solteiros, os jornais britânicos estavam mais concentrados naqueles que sempre despertavam uma boa fofoca, não quem tinha uma vida monótona como a minha. Quem desejava ler algo sobre mim deveria procurar por entre as páginas sobre o parlamento, contudo, mesmo essas deveriam ser procuradas com muito cuidado, pois podiam ser perdidas dentre tantas novidades da política britânica.
— Acha que a senhorita se casará com o senhor Lincoln nessa temporada, Cory? — indagou minha irmã para seu marido.
— Bem provável. Essa é a terceira temporada da menina, não é? — titubeou — Deve ter perdido a esperança depois de não ser abordada por ninguém. Acredita que nem mesmo dançou com outro par além do senhor Lincoln?
— Não sabia que havia se tornado uma velha fofoqueira, Exeter. — resmunguei, sem me conter.
— Só com quem é importante, . Só com eles. — respondeu piscando logo em seguida.
Arrumei meu colarinho, a claustrofobia atacando de repente. Devagar direcionei-me para a mesa de limonadas, lembrando o porquê de detestar estar em um lugar tão cheio de gente. Cumprimentei quem eu conhecia no meio do caminho, desejando na verdade que eles se afastassem de mim, sua proximidade sufocava-me. Os marqueses de Exeter, no entanto, não percebiam meu estado.
Aos poucos acalmei-me e voltei a conversar sem muito problema com Ever e Cory. Era como se nada tivesse acontecido e que a sensação de que entraria em colapso fosse apenas um delírio de minha parte. Não sei como entramos na discussão sobre luto por um bicho de estimação e pouco posso dizer sobre como Ever conseguiu envolver em nossa conversa. Ao vê-la em minha frente, empalideci como um covarde que eu era. Pensar, imaginar, cogitar eram uma coisa. Vê-la ali em minha frente com a pose totalmente perdida era outra. Embora não possuísse uma aparência impressionante, não havia como não se encantar com suas bochechas proeminentes, nem seu nariz pequeno; ela tinha uma aparência doce, modesta em usar poucas joias e olhos complacidos. Seus lábios eram finos e curvilíneos, fazendo minha atenção descer constantemente a eles.
— Eu ficaria de luto se Leo morresse. Ele é como uma família para mim, embora seja um animal. — Sua voz era em um tom brando, esperando ser ouvida, mas não respondida. Ela não olhava diretamente para mim, mas mantinha um ar de curiosidade, desejando saber o que se passava em minha cabeça.
Apesar de negar meu verdadeiro interesse, não perdi a oportunidade de levá-la até o centro do salão para dançar. Valsa era uma das danças mais fáceis para mim, o que era ótimo, pois nunca fui mais do que um dançarino competente. Ever, coitada, fora a quem mais sofreu com minhas pisadas em seus pés quando aprendemos os passos das danças de salão ainda crianças.
Estar com o corpo perto de era como sair de casa no primeiro dia de verão após um longo inverno. Eu podia sentir o seu calor através dos dedos que descansavam em meu ombro e em cima de minha mão. Apertei-os de leve, ansiando pelo seu toque. Em silêncio, dançamos pelo salão do Conde de Northampton diante da alta roda londrina. O suave tocar em sua cintura era difícil de balancear; uma angústia queimava meu âmago desejando aproximar-se deliberadamente dela, de forma que pudesse sentir o roçar de sua respiração em minha pele.
— Eu peço seu perdão pelo comportamento da minha irmã e meu cunhado — falei, interrompendo o som dos violinos ao longe. — Às vezes eles esquecem sua posição.
— Tudo bem, milorde. Não se preocupe — respondeu tímida.
— Então, o Leo, de quem você falava, é um cão ou um gato?
Senhorita piscou surpresa.
— Um gato, milorde. Um dos mais bonitos.
— Com certeza não chega aos pés de Salomão — repliquei de imediato.
Ela olhou para mim esquecendo um pouco seu decoro quase religioso, pronta para replicar. Eu sorri, não contendo diante daquela reação.
— Nenhum de nós é um juiz imparcial para julgar tal coisa — argumentou, tentando não sorrir. Ainda assim seus lábios largos lhe denunciaram, esticando-se com um leve tremor.
— Acredito que esteja correta, senhorita.
Quis puxar-lhe conversa, mas minha mente estava muito mais preocupada em manter o impulso longe, evitando-me de cumprir atitudes não cavaleirescas. Era melhor manter-se daquele jeito: tão perto, tão longe.
Quando a música acabou e encarei-a de novo, percebi que aquelas sensações não estavam dominando só a mim. Senhorita entendera, tanto quanto eu, a plenitude daquela dança.
Porém, nos mantivemos calados até eu devolvê-la à sua mãe e voltar a Ever. Contive a satisfação, pensando em como burlar as perguntas de Exeter, mas então avistei o senhor Kurtwood ao longe com sua filha, Salie Kurtwood, minha futura noiva.
Assim, a realidade bateu na porta outra vez.


III.





Era uma manhã de sábado pós-baile. O sol apareceu em uma Londres antes cinzenta, transformando-se em um dia perfeito para passear. Eu não iria, obviamente — para quê ver as mesmas pessoas, que sempre andavam pelo Hyde Park como pavões, quando eu já havia os encarado no dia anterior? Por isso, fingi não ouvir quando Donna tentou acordar-me para que eu acompanhasse uma das caminhadas da minha irmã. Levantei-me apenas quando tive certeza que Catherine, junto com a mamãe, tinham saído.
Leo estava deitado sobre mim, como de costume, deixando a pequena cama que eu adquirira para ele de lado. Era um vira-lata cinza e preto com os olhos verdes, meio amarelados. Inconscientemente, comparei-os aos do Conde de Dudley, mas detive esse pensamento. Embora tenha despertado diversas ilusões na cabeça da minha mãe, era certo para mim que tinha sido meu último respirar na aristocracia inglesa. Quando ela voltasse do passeio da Cath, eu conversaria sobre minha volta para casa.
Balancei um sininho para chamar Donna, a qual apareceu minutos depois com uma bandeja com meu café da manhã. Agradeci com um sorriso e aceitei sua ajuda para vestir-me. O vestido que eu havia escolhido era desconfortável e esvoaçante demais, no entanto, era o preferido de mamãe. Donna fez um penteado simples, uma grande trança se transformou em um grande coque. Mais do que o apresentável, eu diria.
Segurando Leo em meu braços, logo após estar vestida, segui em direção à uma das inúmeras salas do andar inferior. A casa vazia daquele jeito era terapeuticamente calma, então não tive pressa em descer as escadas. No tangente da preguiça que sentia, era questão de tempo para começar a miar como meu gato.
Phillip Marillier atravessou as escadas correndo, ignorando a paz que eu exalava. Desviei de suas pernas pequenas enquanto fitava meu meio-irmão ser perseguido pela sua babá.
— Bom dia, Phillip. — gritei cumprimentando-o.
— Bom dia, ! — ele gritou de volta, sua voz infantil vibrando por cima dos resmungos da sua babá.
Ri, pois aquela cena se repetia constantemente em minha casa. A presença de Phillip — uma criança gorducha de quase nove anos — seria uma das coisas que eu sentiria falta. Mamãe havia engravidado dele quando veio à Londres esquecer-se de meu pai. Obviamente, ela e o Senhor Marieller eram espertos o suficiente para esconder a gravidez, mas precisei apenas de alguns anos para perceber furos naquela história. Tia Cassandra, a qual explicou a mim sobre de onde vem os bebês, foi a peça chave para que eu juntasse o dois mais dois. Claro que o objetivo da minha tia era desistir de casar-me e ficar ali em Norfolk com ela, no entanto, não foi o suficiente para manter-me longe de Londres. Eu acreditava que esse era o motivo dela nunca dar-se bem com a minha mãe. Enquanto Diana Marieller queria estar envolvida com a alta roda, Cassandra Williams queria distância dela e de tudo que ligasse à ela. Convencer de que Cassandra era a mulher certa para guiar-me ao matrimônio não seria fácil, no entanto, apelaria para o bom senso de Diana. Não havia lugar para mim na aristocracia.
Quando mamãe chegou em casa, ela estava envolta em uma conversa animada com Cath. Falavam sobre jóias e casamento, então deduzi que era algo sobre o futuro de Catherine; ainda assim, eu acreditei ser um pouco precipitado, afinal, não havia existido um pedido formal ainda.
— A senhora deseja que eu peça um pouco de água? Está um dia seco hoje — falei solícita, logo depois de cumprimentá-la.
— Sim, querida. Claro! Obrigada.
Enquanto ela sentava no sofá e abanava-se com o leque que sempre carregava consigo, Catherine entrou cheia de animação, rodando pelo cômodo.
— Ah, , hoje foi tão mágico! — exclamou profundamente feliz. — Dave e eu estávamos andando por uma área deserta do Hyde Park, então Diana fingiu desviar os olhos e ele beijou-me.
Arregalei os olhos, mais impressionada na habilidade do cavaleiro de Cath em descobrir um lugar deserto do Hyde Park, do que Diana fazer vista grossa diante de tamanha sem vergonhice.
— Mas você sabe, querida, que não pode deixar mais do que isso. Inclusive, é bom passar um tempo sendo pudica — alertou mamãe. — Ele não pode achar que você é fácil, não senhorita.
Segurei a vontade de rir, descrente com a conversa que tínhamos. Se aquele diálogo vazasse pelos salões londrinos, ficaríamos desmoralizadas por anos.
— Sim, irei seguir seu conselho, madrasta — afirmou Cath enrolando um dos cachos negros com o dedo. — Porém, ele me confidenciou que iria falar com papai ainda hoje para acertar o casamento. Ai, estou tão animada!
— Não se anime muito, criança. O hoje dele pode ser em apenas alguns dias — falou Diana. — Sabe como esses cavalheiros são: completamente atarefados. E seu pai está muito ocupado com os negócios nos últimos dias.
Ela parou e virou-se para mim.
— Onde está minha água?
Saí em passos rápidos para a cozinha pedir para uma criada trazer-me o pedido de minha mãe. Alguns minutos depois cheguei junto com Meghan, uma das servas mais jovens.
Sentei-me junto à elas com cautela. Não sabia como abordar minha volta para casa, mas tinha consciência que não existia maneira fácil.
— Mamãe, a senhora ainda tem esperanças de que eu case ainda este ano? — indaguei fingindo timidez.
Diana fez uma careta.
— O Conde de Dudley enviou algum buquê esta manhã? — neguei com a cabeça. — Oras, mas você foi a única mulher que ele dançou.
— Isso não é verdade, madrasta — interpôs Cath. — Ele dançou com a Marquesa de Exeter e a Senhora Sallow.
— Mas as duas são casadas! Não é como se ele fosse casar-se com a irmã — argumentou insatisfeita.
— É normal que cavalheiros dancem com jovens casadouras sem compromisso, mamãe — falei, embora também tivesse desejado que o Conde de Dudley mandasse algum sinal que se interessara por mim.
No entanto, era melhor assim. Afinal, para que iludir-me dessa maneira?
Mamãe estalou a língua e relaxou os ombros.
— Não há o que fazer. Terá que se casar com o Senhor Lincoln.
— Deus que me livre! — exclamei mortificada. — A senhora viu a verruga dele? E quando ele fala cuspindo?
— Tadinha da , madrasta — disse Catherine empática. — Não merece tamanha condenação.
— Oras, se não consegue um pretendente melhor, é por pura culpa sua, filha. Em apenas alguns meses, arrumei vários pretendentes e um casamento para Catherine — falou em sua defesa.
A ideia de casar-me com Senhor Lincoln dava-me calafrios. Preferia mil vezes morrer a ter que olhar para aquele homem desagradável todos os dias.
— Mas há uma saída — falei ousada. — Eu poderia voltar para Norfolk, para Tia Cassandra. Ela conhece vários homens elegíveis e com muito dinheiro, mas que moram longe de Londres. Eu poderia…
— De jeito nenhum! — negou mamãe — Você vai se casar com Lincoln, mas não volta para Norfolk.
Levantei-me estupefata.
— Mas Tia Cassandra pode ajudar-me, mamãe! Não vê que não há esperança para mim em Londres? — argumentei.
Meu coração batia com muita pressa, o medo de cair em uma vida infeliz ao lado do meu único pretendente dominando-me.
— Prefiro que vire solteirona ao ver você vivendo com aquela mulher! — disse ela exaltada.
— Então deixe-me ficar solteirona!
— Não mesmo! Irei conversar com Paul. Há alguns dias ele recebeu uma proposta do Senhor Lincoln. Da próxima vez, irei dizer para que ele aceite — concluiu mamãe.
— Isso não é justo! Será que eu poderia ao menos casar-me com alguém que não tivesse idade para ser meu pai? — repliquei angustiada.
Mamãe se levantou de vez e pediu para que Catherine saísse e fechasse a porta. Respirei fundo, sabendo que perder a cabeça não era sensato.
Quando a porta foi fechada, minha mãe tratou de discursar:
— Você já fez o Paul gastar muito dinheiro com a temporada, . Ele tem reclamado que todos esses esforços foram em vão. Até aumentou o valor do seu dote ao meu pedido! — justificou ela segurando-me pelos ombros. — Estamos na metade da temporada e nada parece mudar. Receio que essa é a melhor opção pra você.
Engoli o choro e observei a sinceridade dos olhos da minha mãe. Mais uma vez sentia-me fora da curva, embora me esforçasse para ser igual a todo mundo. O que havia de tão diferente em mim? Por que eu me sentia sempre rechaçada, um fardo nas costas?
Será que até mesmo casada com Senhor Lincoln, esse sentimento iria predominar?
Ouvimos alguém bater a porta e mamãe consentiu que entrasse. Era Senhor Ross, nosso mordomo, o qual carregava uma carta. Porém, o que mais chamou-nos a atenção foi seu remetente.
— De quem é, Senhor Ross? Eu não entendi. — disse minha mãe, não acreditando nos próprios ouvidos.
— Lady Ever Harrison, Marquesa de Exeter, senhora.


IV




, Lord Ward, Conde de Dudley



Apesar de saber que ter filhos e ter sobrinhos eram duas coisas diferentes, todas as vezes que visitava minha irmã questionava-me se demorar-me a casar era uma boa escolha. Gregory e Felicity eram duas crianças encantadoras, embora brigassem a maior parte do tempo. Tendo eles dois anos de diferença, a menina tinha quatro anos e o menino dois. Eram bebezinhos ainda, no meu ponto de vista, mas não deixavam de ser sapecas. Ever sempre chegava com uma história ou outra interessante sobre uma nova palavra ou traquinagem que eles faziam.
Gregory correu para meu braço quando entrei na sala de visitas dos Exeter, logo após ser anunciado. Suas pernas gordinhas eram uma graça, porém não rápidas o suficiente para que Felicity não me alcançasse primeiro. Recebi vários abraços e beijos deles dois antes de que fossem levados para o berçário pelas suas respectivas babás.
— Você mima-os demais. — resmungou Ever quando sentei-me ao seu lado.
— Sou o tio deles, oras. Não é para isso que estou aqui? — falei estranhando o fato do chá não estar já à mesa, como de costume.
Todas as sextas-feiras, eu e minha irmã nos encontrávamos em sua casa na hora do chá. Sempre fomos muito unidos e desde que ela casou-se, nossos tempo juntos diminuiu consideravelmente. Aquele compromisso marcado era perfeito para matar a saudade de nossas conversas e vê-la xeretar a minha vida rotinamente.
— Estamos esperando alguém? — perguntei confuso.
Como se tivesse escutado minha pergunta, o mordomo de Ever apareceu pronto para apresentar alguém.
— Senhorita chegou, milady.
Ao ouvir seu nome, meu coração pulsou em resposta. Mantive-me sereno, embora a mente não evitasse sentir êxtase em saber que iria vê-la outra vez. Levantei-me assim que ela entrou e fiz uma reverência, a qual a Senhorita replicou igualmente. Ela vestia vermelho escuro e tinha uma aparência um tanto escandalosa para a hora do chá — até no dia anterior ela parecia mais simples —, era nítido perceber que algo estava errado pela sua expressão forçada. Ao seu lado estava sua aia, uma mulher de sobrenome francês, a qual não tomei o trabalho de decorá-lo.
Sentamos em nossos respectivos lugares e logo as xícaras foram servidas. Não pude deixar de reparar mais uma vez que a Senhorita estava retraída em seu lugar e totalmente desconfortável. Caí em si quando o pensamento de ser chamada para uma reunião íntima não fosse do agrado dela, levando em consideração que a marquesa e ela não eram amigas e Ever pouco interessava-se por ela até dois meses antes, quando Cory descobriu meu interesse por ela.
— Está tudo bem contigo, senhorita? Parece um pouco pálida — indaguei de forma discreta para ela no momento em que minha irmã tagarelava sobre biscoito com a francesa que acompanhava-na.
— Estou sim, milorde. Obrigada por perguntar. — Sua voz era de um tom brando e contrário à perturbação de seus olhos.
— Estou muito feliz por ter sua companhia, Senhorita . — disse Ever cheia de segundas intenções. — Como a senhorita bebe seu chá?
— Com creme e sem açúcar, milady. — replicou com graça.
— Que interessante! Dudley também só toma chá assim.
Contive-me de revirar os olhos diante daquelas palavras. Ever como cupido era uma ótima marquesa.
— Milorde é um homem sensato então. — concluiu ao pegar sua xícara.
— O açúcar tira o gosto do chá, enquanto o creme o complementa — argumentei.
— É exatamente o que penso. — disse ela, com um misto de encanto e assombro. — Mamãe sempre me diz que isso não fazia sentido.
— Oh, falando de sua mãe, como vai a Senhora Marieller? — perguntou Ever ao me servir.
— Ela está bem, sim. Estamos bastante atarefadas nessa temporada, desde que o baile de debute de Catherine aconteceu.
— Senhorita Mariller é linda como uma garça. Todos devem estar muito felizes com o bom desempenho dela em seu primeiro ano. — comentou Ever antes de beber um pouco de seu chá.
A Senhorita , no entanto, olhou para as mãos incomodada, antes de dizer-lhe:
— Seu sucesso era esperado, de toda maneira. Cath é encantadora.
Tentei em vão puxar no fundo da mente a imagem de Catherine Marieller e falhei. Com certeza havia estado tão mais atento a que a existência de sua meia-irmã fora ignorada por mim.
— O que acha da Senhorita Marieller, ? — indagou Ever.
— Não a conheço.
— Fala a sério? — perguntou , confusa. — Pensei que todas a conheciam.
Sorri, segurando-me para dizer que preferia conhecer mais a ela do que sua irmã menor.
— Ainda não tive a oportunidade.
— Ela é uma ótima dançarina — acrescentou sem retirar os olhos de mim.
— Interessante.
— E gosta muito de passeios à tarde.
— Bom. — respondi, não entendendo onde ela desejava chegar.
— Cath é muito inteligente, também.
Ever, percebendo que o rumo da conversa era perigoso, coçou a garganta para que nossa atenção focasse nela mais uma vez.
— Então, querida, é verdade que está noiva do Senhor Lincoln?
Senti vontade de jogar minha xícara de chá intocada na cabeça de minha irmã gêmea, depois daquela pergunta descabida. A Senhorita corou, mortificada.
— Não, milady. Ele é apenas amigo da minha família — respondeu a mulher.
— Ora, querida, não seja tímida — disse sua aia, finalmente participando da conversa. — Pode confessar à marquesa de que ele é seu pretendente.
Elas riram. A francesa, de prazer. Ever e Senhorita , de nervoso.
— Você gosta de ler, senhorita ? — perguntei antes que caíssem em um silêncio constrangedor.
— Sim, mas não leio tanto quanto gostaria. Acabo deixando vários livros inacabados pela biblioteca. — disse ela virando-se para mim.
— Gosta de romances?
Ela assentiu.
— Tem um novo do Charles Dickens que é bem interessante. Comecei, mas acabei esquecendo de continuar — ela disse envergonhada.
— Não a julgo, para mim é difícil ler algo que não remeta meu trabalho. Quase nunca leio ficção. — comentei.
— Ah, conhece algum livro bom de economia para iniciantes, milorde? — levantei as sobrancelhas surpreso. — Sei que não é costume das mulheres se aterem à isso, mas acredito ser importante para a administração da casa.
, por Deus! — exclamou a francesa, constrangida. — Que tipo de coisa é essa para se perguntar a um conde?
— Tudo bem, senhora. O pedido da Senhorita não é nada estranho. Há muitos livros sobre economia e contabilidade para mulheres — menti.
O comentário da sua aia pareceu murchar a animação e espontaneidade que começara a conduzir nossa conversa. As costas da Senhorita ficaram tensas e ela voltou a falar aquelas frases sem significado, que boa parte das mulheres falavam por educação. Até mesmo Ever, a qual era mestre em conversar asneiras, parecia meio frustrada, já que queria arrancar muito mais de .
Era esse também um dos motivos pela qual não costumava conversar com mulheres de forma despretensiosa, principalmente as que estavam à procura de casamento. As regras da etiqueta davam-nos uma lista pequena de temas interessantes para ser debatidos e exigia que tanto eu quanto minha interlocutora fingisse que nossos cérebros eram feitos de gelatina.
Um tempo depois, a Senhorita anunciou já estar tarde e que precisava ir embora. Ever lamentou sua ida e disse que a convidaria mais vezes para tomar chá. Trocaram sorrisos e reverências antes que eu encarasse-a finalmente.
— Foi um prazer estar em sua companhia, Senhorita — falei em um tom baixo, monótono, mas com muito significado.
— O prazer é todo meu, milorde. — ela usou o mesmo tom.
Educadamente, segurei sua mão mais próxima e beijei-a por cima da luva. Pude sentir um pouco da loção para as mãos que ela usava. O cheiro era de flor de cerejeira.
Seus olhos miraram com suavidade meu movimento, então, ela sorriu. Havia algo de diferente em seu sorriso; não era aquele subir do canto dos lábios condescendente. Era um sorriso largo, cheio de dentes, que iluminava seu rosto e destacava seus largos lábios. Um homem teria o porquê de acordar todas as manhãs se essa era a sua visão rotineira.
Ever apenas pronunciou-se quando teve certeza de que as mulheres haviam ido embora, após acompanhá-las até a porta.
— Ela é um pouco fora da curva, não acha? Parece não ter prestado muito atenção nas aulas de etiqueta. — disse em uma expressão pensativa. — Mas nada que duas conversas não resolvam.
Virei-me para ela em alerta.
— Do que você está falando?
— Da sua futura esposa, oras.
Levantei as sobrancelhas.
— Ela não será a minha futura esposa, Ever.
— Por que não? Você gosta dela, não é? E ela é tão solteira quanto você. Não sei o que os impede de casar.
— Eu preciso mais do que um gostar para casar-me, Ever.
— Então, depois de seja lá quanto tempo observando-a, você quer ser mais cuidadoso? — indagou ela, pouco entendendo onde eu queria chegar.
Neguei com a cabeça.
— Irei casar-me com a Senhorita Kurtwood, não a Senhorita .
Minha irmã encarou-me com um misto de confusão e estresse. Desde que tivera os dois filhos, sua paciência diminuía com mais facilidade.
— Por que diabos você vai se casar com Senhorita Kurtwood?
— Isso não é jeito de uma dama falar. — alfinetei.
— Estou muito chocada para ser uma dama agora. — Ela sentou em seu sofá. — Então, por todo esse tempo, você enganou a mim e a Exeter ao dizer que procurava pela Senhorita ?
— Eu estava falando a verdade, querida. A questão é que preciso de um bom aliado do partido contrário no Parlamento para aprovar alguns projetos de suma importância. — resumi minha sina. — Ter o Senhor Kurtwood como sogro é a minha solução.
Ever continuou fitando-me por longo segundos sem dizer nada. Seu silêncio começou a deixar-me em alerta assim que a vi apertar os olhos, como se não me enxergasse.
— Não acredito que irá casar-se com alguém por causa de um motivo tão estúpido.
— Escute o que você está dizendo, querida — eu disse com carinho. — Poder não é algo estúpido. Você é marquesa e é uma das mulheres mais poderosas da corte. Por que ignora o quanto gosta de ser quem você é e ter o que você tem?
— Mas eu não casei com Cory por causa disso! Eu casaria com ele mesmo se ele fosse um criado.
Olhei para ela com ar de riso imaginando-a casando-se com alguém de uma classe social mais baixa. Suas palavras eram muito bonitas, mas, para mim, não refletiam a realidade.
— Eu duvido.
— No que baseia essa dúvida? Acha que eu sou fútil que nem você? — disse ela em descrença.
— Não foi o que eu estava dizendo, Ever. Escute, eu…
Antes que terminasse de falar, minha irmã gêmea jogou o resto de seu chá preto em meu rosto e saiu do aposento revoltada. Felizmente, o líquido estava frio e não danificaria meu terno de cor escura. Apenas mantive a expressão entediada, o rosto todo sujo, mas não disse nada, afinal, não era a primeira vez que presenciei um ataque de fúria da Marquesa de Exeter. Ruim era para Cory, que tinha que lidar com ela todos os dias.
Peguei um lenço de meu bolso e enxuguei meu rosto com um suspiro. Eu e Ever éramos conhecidos pelo temperamento antagônico desde a meninice e não seria diferente depois de virarmos adultos. Não iria estressar-me com sua falta de maneiras, afinal, ela tinha lá seus motivos para ficar raivosa.
Pensei, então, no que ela me dissera. Apesar de conviver no meio aristocrático e quase ser uma londrina de nascença, Ever sempre manteve a veia romântica. Sentia-me grato por ter alguém preocupando-se comigo, no entanto, casar-se por amor era para aqueles que não tinha maiores problemas em sua vida, por mais estonteante que fosse a Senhorita .
Havia coisas muito mais importantes do que meu coração naquele momento.


Continua...



Nota da autora: O conde parece já ter seu plano de casamento. Será que é isso que acontecerá mesmo? O que estão achando da história? Estão gostando? Deem sua opinião! Ela é super importante.
Caso queiram me acompanhar nas redes sociais, elas estão disponíveis aqui em baixo. Até breve!





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