Última atualização: 07/11/2017

Antes de começar a ler, acesse a primeira parte dessa história em: Antes de Tudo - Outros/Finalizada, no site Fanfic Obsession.


Prólogo

A jovem desliza os dedos pelo ventre, enquanto lágrimas quentes rolam pelo canto dos olhos. Ela se mexe para chegar até sua amiga, porém, as correntes a prendem a outra extremidade do quarto. Os seus cabelos castanhos estão sujos, por causa dos dias sem limpeza. Os seus olhos verdes estão afogados num mar de vermelho.
A morena sabe que não possui poder algum sobre a situação que se encontra, sua única esperança é que o pai do seu bebê venha em sua busca. O medo a corroia. Se o homem que a mantém em cativeiro descobrisse sobre a criança, tudo estaria perdido. Ele não hesitaria em acabar com a sua vida.
O seu peito ardia com a visão da amiga imóvel. No seu íntimo, ela ansiava que a amiga ainda estivesse viva, porém, a realidade era bem diferente.
A porta do quarto é aberta. A morena estremece. A mulher que tem lhe atormentado nos últimos dias adentra o espaço, com um sorriso perverso nos lábios. A jovem sabia que estava em apuros. Sempre era assim. Se o homem dos seus pesadelos era ruim, a mulher era terrível.

— Quer tocar na sua amiguinha? — a voz fina perfura os seus tímpanos.

A mulher se aproxima do corpo frio e puxa a cabeça da jovem morta. Uma gargalhada se espalha pelo ambiente e mais uma vez a jovem de olhos verdes estremece.

— Em breve, você fará companhia a ela.

Em seguida, ela sai do quarto, fechando a porta em um baque.
Um soluço sobe a garganta da moça caída sobre o colchão sujo e puído.
A única coisa que desejo é o bem do meu bebê, e para isso preciso ficar firme. Deus me ajude! A jovem pensou antes de se debulhar em lágrimas.



Capítulo 01

Funcionária nova

Entorno o café na garrafa térmica e volto para o fogão. Analiso tudo que está no fogo para ter certeza que nada irá queimar. Abro os armários que ficam acima do balcão, pego os pratos e canecas, em seguida, abro a gaveta dos talheres e pego três conjuntos. Quando volto para o fogão, tudo está no ponto. Rachel, ovos levemente queimados assim como o bacon, panquecas no ponto com um tablete de manteiga em cima; Holly, ovos com a gema mole e bacon no ponto em um prato, no outro coloco uma montanha de panquecas junto com chantilly e xarope maplé. Para mim, apenas um amontoado de panquecas com xarope maplé, e um bacon no ponto, em outro prato.

— O café está pronto, se apressem, caso não queiram comer frio — clamo por elas.

Abro a gaveta especial do armário e retiro uma colher de plástico em companhia de uma tigela de ursinhos. Pego o cereal na porta do balcão de ferro, despejo na tigela e derramo leite sobre o cereal.
Após essas tarefas, viro-me para a garotinha, de quase três anos, sentada na cadeirinha de bebê. Ela sorri para mim e dá uma risada gostosa. Levo o seu cereal e ela começa a comer sem cerimônia.

— Mais uma vez — Rachel resmunga ao ver Annie com uma colher e a boca cheia de cereal. Ela se abaixa para beijar a testa da minha menina e faz um bico — Quando você vai se atrasar para o café?

Annie dá uma risada, aquecendo o meu coração.
Lembro-me bem de quando acordei em uma madrugada gelada de fevereiro e tivemos de chamar um táxi às pressas. A minha garotinha ia nascer. Assim que os meus olhos encontraram o seu rosto angelical, não pude segurar as lágrimas. Annie era o bebê mais lindo que já tinha visto. Ela nasceu careca, olhos verdes iguais aos meus e uma boca de coração. Com o passar dos meses, constatei que ela seria uma loirinha, assim como a dona do nome que lhe dei.
Parar de pensar na agente federal me corroia a alma. O seu bebê deveria ter uma idade parecida a da minha menina, no entanto, essa possibilidade se foi juntamente com a agente Annie.
Rachel se aproxima do seu café da manhã, me agradece e faz um coração no ar. Acabo rindo do gesto bobo, e que se repete toda manhã. Minha amiga senta-se de frente para Annie, ela joga os cabelos ruivos para o lado e começa a devorar o prato. Logo, Holly aponta no corredor, com cara de sono e cabelos armados. Me seguro para não rir.

— Guah — Annie anuncia apontando para Holly. Essa é minha deixa para rir.
— É Holly, lindinha — Holly afirma.

Reviro os olhos.

— Você sabe que ela ainda não aprendeu a falar.
— Sim, eu sei. — Ela olha para a minha filha como se estivesse analisando-a — Tenho vontade de saber a língua dos bebês apenas para conversar com ela. Os assuntos de Annie parecem bem mais interessantes que os nossos.

Mordo o meu polegar.

— Não está preocupada com ela? — Rachel indaga. Há um vinco entre suas sobrancelhas — Annie já tem quase três anos e não falou nada coerente.

Havia meses que não parava de pensar nisso. E todas as vezes que marcava uma consulta com a pediatra, acabava cancelando em cima da hora. Contudo, precisava levar minha menina urgentemente ao médico. Não podia ser normal uma criança levar tanto tempo para dizer a primeira palavra.

— Marquei uma nova consulta com a pediatra.

Rachel acena.
Annie come o último resquício de cereal, depois entorna a tigela com leite sobre a boca. Ela sorri com a boca toda suja, assim que abaixa a tigela. A campainha começa a tocar e já sei que é Millie. Corro para a porta da frente e encaro um sorriso insosso no rosto da mulher loira de olhos castanhos.

— Algum problema? — questiono.
, sinto muito. — Ela morde o lábio nervosamente — Terei de resolver um problema no banco e não vou poder ficar com a Annie hoje.

Dou um suspiro cansado. Não é a primeira vez que isso acontece. Desde o dia que resolvi ir para o trabalho e deixar Annie em casa com Millie, tenho sofrido com esse tipo de falta. Millie vivia com a mãe e quem acabava resolvendo os problemas era a menina. Nós tínhamos quase a mesma idade, entretanto, a falta de estatura de Millie junto com a carinha de anjo, deixava a minha percepção bem confusa.

— Desculpe não avisar antes, mas recebi a ligação há pouco tempo.
— Está tudo bem, Millie. Vá resolver os seus problemas, vou dar um jeito por aqui.

Dou aceno e sorrio com os lábios.

— Obrigada, .

A garota sai apressada até a porta da frente e sai.
Fecho a porta e torno para a cozinha. A última vez que levei Annie para o trabalho, Glenn disse que estava terminantemente proibido, ou seja, não queria ver minha filha ali nem pintada de ouro. Glenn era o dono da lanchonete, Your Food – nome bem original. Esse foi o lugar que acolheu Rachel e que a tem mantido na cidade de Nova York até hoje, além disso, a lanchonete era a melhor do Brooklyn.
Your Food é o lugar onde libero a minha alma. A cozinha é o meu lugar. O movimento era grande, porém, gostava de trabalhar sozinha. Sentindo a adrenalina no sangue. Rachel havia conseguido o emprego pra mim, assim que o meu resguardo acabou. Sim, Annie ia comigo todos os dias. Até porque, não poderia me dar ao luxo de ficar sem trabalhar e muito menos de ficar longe da minha filha, ela era muito novinha para deixá-la com uma babá. Glenn sabia dos riscos que corria com a menina dentro do seu estabelecimento, contudo, ele se importava demais comigo e com as meninas – além de ser um coração mole.
Assim que Annie completou um ano, resolvi diminuir o leite de peito. Não poderia manter a situação por mais tempo, e muito menos colocar o meu chefe em saia justa com a justiça. Foi assim que soube do serviço de babá da Millie e como o que ganhava só era para a Annie, resolvi pagar uma pessoa conhecida para cuidar dela. A melhor decisão que tomei. As duas se davam tão bem que pareciam ser da mesma família.
Então, eu trabalhava como a cozinheira do primeiro turno do Your Food e as meninas como as garçonetes. Nunca fui de me gabar, contudo, os nossos horários eram os que davam mais movimento no lugar. E tenho certeza, que se não tivesse uma filha pequena, Glenn me contrataria por dois turnos, assim como as meninas. Como os clientes diziam? Ah, elas tinham carisma.

— Millie não vai poder ficar com Annie — falo baixinho, me sentando em meu lugar ao lado da minha filha. Há uma tigela com pedaços de morango, mamão e melancia. Levanto os meus olhos e Holly pisca para mim.

Em momento algum me esqueceria da força que Holly e Rachel me deram quando tive de vir para Nova York.
Após a minha saída do hospital em São Francisco. Erik me hospedou em um hotel e logo no dia seguinte partimos para Nova York. Não tinha nada. O agente foi o meu benfeitor nos primeiros dias, ele comprou roupas para mim e pagou minha passagem. Mesmo que ele estivesse fazendo o seu trabalho, não sei se qualquer um seria tão bom para mim quanto ele. Podia imaginar a minha vida sem a chegada da polícia no apartamento de Jayden. Provavelmente estaria morta. Os bens do apartamento foram confiscados na época e mesmo que liberassem alguma peça de roupa, rejeitaria até o fim. Tudo que vem das mãos de Jayden, eu quero distância. A única coisa que não posso mudar é o sangue que corre nas veias da minha filha. Entretanto, ensinarei até o fim como ser um cidadão que se preze. Sei que não sou perfeita, mas pelo menos tenho respeito pela vida humana.
Chegando em Nova York, Erik me levou de carro até o condomínio de Rachel e Holly. Ele não chegou a subir, até porque minha amiga de cabelos negros e olhos esbugalhados, estava à minha espera, com um sorriso nos lábios. Ela pegou a mochila com as poucas roupas que foram compradas, agradeci a Erik por tudo e segui minha amiga para o prédio de tijolos.
As duas me receberam com abraços e beijos, enquanto engolia o nó que se formava na minha garganta. A dor de ter sido traída e enganada corroia cada célula do meu corpo. Saber que o meu bebê iria crescer sem um pai era ainda mais doloroso. Eu estava perdida no meio de uma confusão muito grande e complicada, todavia, tinha duas amigas maravilhosas que me deram colo e não iriam me abandonar por nada. Estando nos braços delas, diante de tanto amor. Acabei me entregando as lágrimas e aos soluços.
Foram semanas e mais semanas com noites em claro, deixando as lágrimas me inundarem. Permitindo que a dor fluísse para fora de mim. Os meus olhos viviam inchados, a dor no peito era grande. A decepção tinha tomado conta do meu corpo. Porém, quando vi a minha menina nos meus braços, toda a dor e decepção valeram a pena. Sempre valeria pela minha Annie.

— O que você vai fazer? — Holly indaga.

Olho para Annie, mastigando suas frutas e nos observando. Os seus olhos verdes grudam nos meus e ela sorri de boca cheia, faço um bico para lhe enviar um beijo e ela solta uma risada.

— Vou ficar em casa.
— Você sabe que não pode — Holly afirma. Volto os meus olhos para ela — Se você não for, é a mesma coisa que fechar a lanchonete. Na sua folga, aquele lugar fica vazio. Já disse, o cozinheiro que fica no seu lugar é sinistro.
— Demais — Rachel concorda.

Alessio, o cozinheiro substituto, era mesmo estranho. Perdi as contas de quantas vezes Glenn falou sobre os hábitos estranhos de Alessio. Primeiro, ele montava várias velas ao redor da cozinha e cantava uma música estranha. Em seguida, ele alisava todos os alimentos e só assim começava a cozinhar. As meninas diziam que era algum tipo de bruxaria, por isso, elas nunca passavam para a cozinha quando tinham que trabalhar à noite.

— Eu fico com a Annie — Holly murmura, dando um sorriso malicioso para a garotinha loira. — Assim, podemos colocar a casa a abaixo.
— Oh meu Deus! — Rachel exclama. Quando olhamos para Annie, ela está com um sorriso igual ao de Holly. O que nos faz cair em gargalhadas.

Termino o meu café da manhã, com a minha filha ao lado. As meninas voltam para o quarto, pois precisam de um banho. Quando termino de comer, ainda tem frutas na tigela de Annie, então resolvo lhe dar na boca.

— Você poderia dizer mama.

Pego a primeira colher, enquanto Annie olha para mim com curiosidade. Solto um suspiro exasperado.

— Meu amorzinho, estou ficando preocupada. Se você não falar logo...

Não queria pensar nas possibilidades. Se Annie tivesse algum problema seria muito mais complicado. As contas já eram altas, o meu salário acabava no mesmo dia que recebia. Fraldas, leite, roupas, tudo era necessário para a minha filha. Eu ganhava um bom dinheiro com o trabalho de cozinheira, porém, uma pequena parcela era depositada em uma conta. Inicialmente, o dinheiro era para que eu pudesse pagar uma faculdade futuramente, no entanto, não poderia mais pensar em mim, e sim na criança que tinha para cuidar. Então, acabei decidindo que essa mísera quantia, que depositava todo mês, seria para o futuro de Annie. Ela poderia construir algo quando crescesse como nunca tive essa oportunidade, precisava dar a ela.
Contudo, se apresentasse algo diferente na saúde dela... Eu iria limpar a conta no banco e fazer o possível para que minha filha tivesse o máximo de assistência.

— Mah — Annie resmunga. Quase derrubo a tigela de frutas quando escuto sua voz. Volto os meus olhos para a minha pequena. Há uma ruga entre as suas sobrancelhas, como se ela estivesse fazendo muito esforço — Maaaaaaaaaaaaaaah!

Sorrio.

— Bom, é alguma coisa.

Forma-se um sorriso de orelha a orelha no meu rosto. Coloco a tigela de frutas sobre o balcão, tiro Annie da cadeirinha e começo a beijar o seu rosto, provocando risadas nela. Me dirijo para a sala, agarrando a garotinha e enchendo-a de beijos.

— Eu adoro essa risada — Rachel informa, assim que aponta na sala.
— Eu também.
— Agora vamos.

Levanto-me do sofá com Annie ainda nos braços e me dirijo à porta. Holly aparece vestida com o seu pijama de coelhinhos e com os cabelos amarrados no alto da cabeça. Rachel abre a porta, enquanto coloco minha filha no chão e lhe dou um beijo na testa.

— Se comporte. — Ela balança a cabeça em resposta.

Apesar de ainda não falar, Annie compreendia tudo que falávamos. Quando perguntávamos se ela queria algo, a resposta era um aceno de cabeça. Fora a questão da fala, nada me preocupava. Foram pouquíssimas as vezes que Annie ficava doente, e ela era uma garota bem ativa. Vivia correndo pela casa. Perdi as contas de quantas vezes cheguei do trabalho e encontrei ela e Millie ofegantes.
Annie gostava de brincar de esconde-esconde. Millie era maravilhosa com ela. Eu como mãe, adorava fazer qualquer coisa com a minha filha. Entretanto, não é todo mundo que suporta fazer a mesma coisa repetidas vezes. Millie era diferente, parecia ter nascido com o dom de cuidar e lidar com crianças.
Assim que chegamos ao ponto de ônibus, o mesmo para no ponto. Se tivéssemos ficado mais alguns segundos em casa, teríamos de ir a pé. Até o transporte andar por todo o Brooklyn, estaríamos perdidas. É óbvio que não possuí apenas um ônibus para o número de habitantes de um dos bairros mais conhecidos de Nova York, contudo, o lugar é enorme e até passear e transportar todos... Os ônibus costumavam demorar em torno de trinta minutos. Sim, também precisávamos de mais, só que nunca fui de ficar reclamando sobre esse tipo de coisas na vida.
Havia muitas coisas na minha cabeça.
Enquanto navegamos pelas ruas de Nova York, minha mente passeia para três anos atrás. Eu era tão ingênua e me sentia tão segura das minhas decisões e do que estava a minha volta. Porém, era apenas uma presa para o caçador.
Os anos se passaram e após tanto tempo, finalmente, posso sentir que tenho as rédeas da minha vida. Sou mãe solteira, tenho um emprego e não dependo de homem para me sustentar. O que mais poderia querer?
Rachel me desperta de meu devaneio quando o nosso ponto chega. Your Food não era tão longe, entretanto, se nos arriscássemos a caminhar todas as manhãs teríamos uma caminhada de meia hora. E uma caminhada não combinava com trabalhos que deveriam ser feitos de pé.
A fachada vermelha com letras cursivas na cor amarela está apagada, e as portas de vidro ostentam uma placa de FECHADO. Rachel empurra as portas, os seus cabelos recebem uma corrente de ar deixando-os mais brilhantes que o normal. Adentro o lugar de luz fraca, paredes de madeira envernizada, mesas grudadas nas paredes com bancos acolchoados e cobertos com couro vermelho vivo. Há mesas redondas espalhadas pelo centro do estabelecimento, um balcão de mogno toma os fundos do lugar e a direita duas antigas máquinas de música.
Meus olhos encontram os castanhos de Gleen, há um sorriso brincalhão em seus lábios carnudos. Os seus cabelos cortados, permitindo que um topete castanho tampe um pouco de sua calvície prematura, estão bagunçados, como se ele tivesse se esquecido de penteá-los. No entanto, todas nós sabíamos que isso fazia parte do seu charme.
Ao lado de Glenn, há uma jovem muito parecida comigo. Com exceção dos olhos azuis profundos e o rosto coberto de sardas delicadas. A mulher está vestindo roupas comum, jeans e camisa de mangas juntamente com um avental. Um avental parecido com o meu.

— Bom dia, garotas — Glenn nos cumprimenta. Ele olha para o espaço que deveria conter Holly e ergue as sobrancelhas — Onde está Holly?
— Millie não pôde ficar com Annie.

Ele acena.

— Que bom que temos Caroline. — Ele vira-se para a mulher que está torcendo os braços nervosamente — Emma, Rachel essa é Caroline. Caroline, a ruiva é Rachel e Emma é a morena. — Caroline acena timidamente — Caroline irá trabalhar com você, Emma.

Engulo em seco. Minha parte egoísta deseja contestar, contudo, as esferas azuis de Caroline calam a minha boca. Talvez ela precisasse desse emprego, assim como todos os ajudantes que Glenn quis contratar. E eu queria a cozinha toda para mim. Isso estava errado e tinha que começar a mudar.

— Ótimo, terei de fazer dois trabalhos por hoje — sorrio para a morena. — Depois que colocar tudo no fogo, você pode ficar olhando enquanto sirvo as mesas.

Os olhos de Caroline brilham.

— Claro.

Indico a porta da cozinha apenas com um movimentar da cabeça.

— Então, vamos ao trabalho.



Capítulo 2

Anjo

Levanto-me da cama desconhecida com uma dor de cabeça dos diabos. Meu cérebro parece ter recebido várias marteladas como se fosse um prego teimoso. A primeira ação que tenho é de tocar minha cabeça e me perguntar por que diabos insisto em beber tanto, sexo não resolve o meu problema de ressaca no outro dia. Segundo ato que tenho é de pegar minha calça que está jogada do lado da cama e perto da poltrona de veludo vermelho. Nada de cueca, acho que apenas pegá-la do chão e simplesmente jogá-la na primeira lixeira que encontrar no caminho para casa.
Gozei na cueca noite passada, enquanto chupava os seios da loira deitada ao meu lado.
Não lembro o nome dela. A única coisa que posso afirmar é que ela é gostosa para caralho. Até mesmo me fez sujar minha cueca, coisa que mulher nenhuma nesses últimos três anos conseguiu fazer.
Respiro fundo.
Visto a calça e procuro por minha camisa de botões azul escuro. Quando a encontro, constato que está sem os três últimos fechos, porém, coloco-a mesmo assim.
Viro-me para a mulher aconchegada na cama e me pergunto porque não lhe dou mais uma chance e fodo mais uma vez. Contudo, já sei a resposta. Nada pode se repetir. Apesar de sua bunda arrebitada e bem desenha clamar pelo o meu pau, não posso me deixar levar.
Nada de relacionamentos. Não mais.
Saio do apartamento pequeno, entretanto, aconchegante, e tomo o caminho para o elevador que para a minha sorte para no andar que estou. Assim que abro a porta, uma senhora olha para mim de cara feia, balança a cabeça completamente desgostosa com o meu estado e sai do elevador em direção ao seu apartamento.

— Bom dia — sai mais como um resmungo do que como uma saudação.

Entro no elevador e aperto o botão para ao térreo. A mulher loira que deixei dormindo vai ficar furiosa quando acordar e não encontrar sua transa de uma noite ao seu lado. Recordo-me que ela pediu que deixasse o telefone para que nos encontrássemos de novo. Mas, ela não conhecia minha história e não fazia ideia de que só queria deslizar dentro dela até perder os sentidos. Apenas para esquecer o que a vida tinha feito comigo.
Loiras. Eram apenas elas que acabavam debaixo de mim ou que cavalgava no meu pau. Minhas favoritas. E que me lembravam tanto da mulher da minha vida.
Balanço a cabeça para abandonar esses pensamentos.
Ontem à noite, eu, Erik e Elliot fomos para uma boate a fim de comemorar a entrada do menino Scott na faculdade de culinária. Apesar de sempre ficar zoando Elliot por amar cozinhar, Erik não conseguia viver sem o irmão. O meu amigo tinha ficado completamente dependente das comidas do cara.
No fim da noite, cada um encontrou uma mulher para poder comemorar entre quatro paredes.
Chamo um táxi assim que saio do prédio e o primeiro que dou sinal para. Não moro em um dos condomínios associados ao FBI, pois queria me deixar um pouco distanciado deles. Até porque, queria viver nas sombras de todos os casos, nunca me destacando para não chamar a atenção de ninguém quando precisasse tomar medidas drásticas.
Assim que chegamos ao prédio onde vivo. Uma construção de janelas de vidro e madeira límpida, paredes cinza quase branco. Sempre há um porteiro para que possamos nos comunicar pelo interfone, caso não tenhamos as chaves em mãos ou haja um visitante. Sr. Potter, um homem nos seus cinquenta anos, cabelos grisalhos e bom porte, esta a porta me encarando com um sorriso nos lábios.

— Bom dia, Sr. .

Coloco quatro dedos em posição de quartel para cumprimentá-lo e seu sorriso se amplia. Sr. Potter já trabalhou para o exército americano, então, acabou se tornando um hábito esse modo de cumprimento entre nós. Ele faz a mesma posição de dedos, agora completamente sério.

— Bom dia, Sr. Potter.
— Noite foi longa? — questiona ao constatar o estado das minhas roupas e posso supor que meu rosto transparece uma ressaca das brabas, além de não ter passado nem no banheiro da loira desconhecida.
— E prazerosa — digo com um sorriso malicioso nos lábios.

Sr. Potter dá uma risada.
Tiro a cueca de dentro do bolso da calça e atiro na lata de lixo mais próxima. O homem à minha frente me encara de forma interrogativa.

— Vou querer saber? — ele indaga apontando para a lata.
— Não.

Ele dá outra risada e esfrega uma barriga que não tem. <}p>— Um dia você encontrará uma Amy, garoto.

Potter tem uma esposa, na qual é apaixonado desde os tempos de serviço para o exército. Eles se conheceram depois que o homem levou um tiro no abdômen e ficou à beira da morte. Amy era a enfermeira de plantão quando ele chegou. Potter diz que foi à primeira vista, ela o laçou no primeiro olhar.
Aceno para ele, enquanto aperto o botão do elevador, quando ele chega, uma menina e um menino de idades semelhantes saem correndo do cubículo e a mãe logo em seguida, gritando para eles não correrem. Entro no elevador, e quando a porta se fecha, murmuro:

— Minha Amy já se foi.

Me perco em pensamentos. Um menino correndo no quintal e uma mulher de baixa estatura, corpo definido, logo atrás dele. Há risadas. Muitas risadas de felicidade.
E logo a imagem se desfaz e olhos verdes como a campina percorrem a minha mente, muito diferentes daqueles que aprendi a amar. Tenho sonhado com esses olhos desde a morte da minha esposa, em horas eles estavam tristes e outras alegres. E em muitos momentos, em vários dias da minha vida tenebrosa, ansiei por esses olhos olhando para mim como se não houvesse mais nada na vida. Contudo, eram apenas sonhos idiotas de um cara completamente fodido por dentro.
A porta do elevador se abre e encontro Erik sentado ao lado da porta do meu apartamento. Parece deprimido.

— Posso saber o que faz aqui? — pergunto, cruzando os braços no peito. O meu amigo levanta a cabeça e parece feliz com o que vê.
— Elliot saiu cedo para a primeira aula e me deixou sem almoço.

Olho para o relógio de pulso e constato que ainda é nove da manhã.

— Ainda não é hora do almoço.
— Não, mas em breve será. Então, você pagará o meu almoço hoje — afirma, esfregando as mãos uma na outra. — Leve-me onde quiser.

Arqueio as sobrancelhas.

— Sabe que isso não é um encontro, certo?

Erik abre a boca, depois de se erguer do chão, um falso espanto. Ele até ergue a mão e leva a boca.

— Não acredito e eu pensei que você me queria por mais de uma noite.

Dou uma gargalhada e pego a chave para abrir a porta do apartamento. Assim que entramos, dá para ter contato com a vista de Manhattan pelas janelas amplas, há dois sofás de três lugares postos em forma vertical para o horizonte, e ambos estão de frente um para o outro. Há uma mesa de centro entre os sofás. As paredes em um tom de marrom quase preto preenchem as paredes da sala.
Removo a camisa praticamente destruída e sigo para a esquerda, onde ficam duas portas. Todas são suítes, a da direita é o meu quarto e o outro é de hóspedes. Ele acaba sendo usado quando Erik vem para minha casa se agarrar com alguma mulher. Todas as vezes que meu amigo manda a mulher da vez embora, envio todos os lençóis para a lavanderia. Por isso, nunca trago mulheres para casa. Não quero vestígios de estranhas na minha casa e muito menos sinal delas me procurando depois.
O quarto possuía uma janela semelhante à da sala, porém menor. A janela fica do lado adjacente a porta, do lado direito do quarto enquanto a cama fica na parede oposta à da entrada. Dois criados mudos estão distribuídos de cada lado da cama. Ainda na parede que fica a porta do quarto, há mais duas portas, uma para o banheiro e outro para o closet.
Sigo para o banheiro, pego escova de dente e pasta, logo depois tomo uma ducha de água fria para curar a ressaca. Quando volto para a sala, encontro Erik cochilando no meu sofá, com as pernas postas na mesa de centro. Pego um livro na estante que fica ao lado da porta e derrubo-o sobre a mesa de centro. Erik dá um salto e remove a arma que está na panturrilha.

— FBI!
— Sempre preparado — cantarolo.

Ele se recupera, guarda a arma e fecha a cara.

— Idiota.


Papelada. Isso resume nossa manhã no escritório do FBI. Havíamos encerrado um roubo de obras de arte do Museu de Arte Moderna com sucesso. Capturamos o ladrão e ainda descobrimos que ele tinha falsificado algumas obras que estavam prestes a ser expostas no museu. Ou seja, além de um ladrão de primeira linha, ainda era um falsificador nato.

— Aonde vai me levar para almoçar? — Erik indaga do outro lado o escritório.
— Quer dizer que vocês finalmente assumiram? — indaga Agente Jones. Uma mulher negra de cabelos cacheados e olhos verdes expressivos. Sempre os olhos verdes me perseguindo. Contudo, a minha parceira de profissão era muito bem casada e tinha acabado de sair a licença a maternidade de seu primeiro filho.
— Sempre deixamos bem claro o nosso tipo de relação — Erik afirma.

Todos no escritório começam a rir e acabo entrando na onda deles, embora ainda esteja sentindo um pouco de dor de cabeça. Tomei quatro xícaras de café e não adiantou muito, só serviu para me deixar pilhado.
Erik se levanta e começa a falar com Jones sobre um material que precisa ser traduzido por um profissional, pois ele terá de entregar um caso de assassinato na semana que vem. Caso isso não aconteça, o chefe vai arrancar o coro dele.
Chefe.
Hunter Griffin era o chefe do departamento do FBI de Nova York, eu já havia pesquisado sobre o cara em uma das minhas várias fontes desde que perdi tudo. Havia adquirido um equipamento de primeira linha, além de informantes que tinha espalhados por algumas porções de lugares. Nada a minha volta escapava. Ainda que tenha melhorado bastante as minhas táticas investigativas, ainda não tinha ideia de onde exatamente estava Smith. Todas as informações que conseguia eram devido a sua permissão, como lugares que ele já havia saído. Nada concreto.
No fim, Griffin era limpo como algodão novo. Nada sujava a ficha, a não ser alguns problemas com o filho que sempre dava as caras em algum centro policial. Fora isso, o cara estava límpido.
Voltando ao Smith. Meu chefe estava fazendo de tudo para que o caso se conservasse afastado dos caras de Nova York, contudo, pelas informações que havia obtido, por onde o caso passava, havia devastação. Muitos agentes tinham morrido devido à causa. Smith não estava mais brincando de casinha e não ligava de deixar um estrago em cada canto que passava.
No escritório de casa, tinha uma passagem secreta para sala de um metro quadrado com imagens de todos os lugares que esse infeliz havia ido e não conseguia reunir nada concreto para saber qual seria o seu próximo passo.

— Vamos? — Erik chamou minha atenção.

Aceno e me levanto da cadeira, guardando os documentos que teria de avaliar na volta.
Descemos para a garagem do prédio e pegamos a minha moto, pois será mais fácil enfrentar o trânsito. Colocamos os capacetes, subo na moto e Erik logo depois, e finalmente estamos nas ruas. Passamos pelo Central Park depois de várias voltas e por fim nos encaminhamos para o Brooklyn, onde fica a melhor lanchonete e restaurante da cidade.
Your Food.
Encontrei o lugar por acaso quando estava em meio a um caso de assassinato da esposa de diplomata – a mulher tinha sido assaltada e resistido ao assalto, mas como como as câmeras de segurança estavam quebradas, o marido acreditava que tinha sido alguém da oposição que havia planejado o ocorrido; e assim, o homem descobriu que estava sendo traído pela esposa, por isso ela estava no bairro à uma da madrugada. Enfim, o lugar ficava em uma rua bem movimentada do bairro e embora a fachada não seja muito atraente, o lugar tinha a melhor comida.

— Esse é o famoso Your Food? — Erik indaga com desgosto.
— Sim, e as aparências enganam.

Descemos da moto e resolvemos levar os capacetes para dentro do restaurante. O calor e cheiro de comida inundam as minhas narinas assim que penetro o lugar. A luz fraca e paredes de madeira envernizada me lembram de bares de primeira linha. A claridade do dia perfura as janelas de vidro deixando o lugar com cara de família.
Nos dirigimos aos bancos acolchoados com couro vermelho vivo e esperamos. Sei que os lugares de atendimento sempre mudam, contudo, geralmente sou atendido pela garçonete ruiva, Rachel.
Pego o cardápio a minha frente e começo a perseguir as letras pequenas. A cada mês era acrescentado um prato novo na lista e sempre me arriscava a comer algo de diferente, porém, esse ainda não obteve mudanças então vou continuar com meu habitual bife com batatas fritas.

— Já escolheu?

Erik continua analisando o cardápio e parece confuso.

— O que é pão de queijo?

Antes que possa responder, uma voz rouca e melodiosa toca os meus ouvidos.

— É uma massa macia feita de polvilho azedo com queijo dentro. Todos que comem não se arrependem — ela afirma.

Ergo os olhos para capturar o rosto da desconhecida. Os seus cabelos castanhos estão em corte repicado um pouco abaixo das costas, seu rosto é meigo apesar do pouco de lápis que ela passou nos olhos deixá-la mais adulta do que parece; os lábios bem delineados e nariz afilado a tornam encantadora, e os olhos... Quando os seus olhos encontram os meus, sinto uma fisgada no peito.
São iguais ao do sonho.
O sorriso que deixava seus olhos puxados se desfaz assim que nossos olhares se encontram. Ela franze o cenho, confusa. Ela sentiu o mesmo que eu. A moça desvia os olhos dos meus e pisca algumas vezes quando torna a olhar para Erik, os seus olhos se arregalam, no entanto, não dura muito e ela volta ao perfil profissional.
Enquanto isso, não consigo tirar os meus olhos dela. Olho para a plaquinha que fica presa ao avental branco e quase sinto a minha mente cantar o seu nome. .
Ela se volta para mim, completamente envergonhada. sabe que estava a observando descaradamente.

— O senhor, o que vai querer? — pergunta.
— Bife com batatas e uma garrafa de Sprite.

Ela anota o pedido.

— Ok, em breve volto com os pedidos.

Ela retorna para o que acredito ser a cozinha e não a vejo mais sair. Fico observando a porta por, acredito, minutos e ela não sai para atender outra mesa. Ouço o meu nome ser murmurado por alguém, mas simplesmente não posso ignorar o anjo que acabei de encontrar. O meu peito parece uma marreta descontrolada e posso sentir minha respiração querendo sair do controle, entretanto, dou o meu melhor para parecer normal diante dessa visão.
Recebo uma pancada na cabeça e por fim acordo de meus devaneios. Erik está com uma carranca.

— Você não cansa?

Uno as sobrancelhas, confuso.

— De quê?

Ele revira os olhos.

— Caçar.

Dou um suspiro e volto a olhar para a porta da cozinha, esperando que ela apareça. No entanto, ela continua lá dentro. Será que ela é mesmo garçonete? Ou está com medo de mim? Talvez eu tenha a assustado, apesar dela ser alta e a maquiagem forte deixá-la com ar de madura, nota-se que é mais nova do que aparenta.

— Não estou caçando — digo, ainda com os olhos voltados para a porta. — Apenas... apenas...
— Apenas?

Volto-me para o meu amigo e, tenho certeza, que se estivesse de frente para um espelho, iria flagrar uma imagem sonhadora de mim mesmo.
O que há comigo?
Ainda essa manhã eu só fodia loiras. Eu só queria sexo e apenas com mulheres de cabelos completamente opostos ao do anjo que acabei de apreciar.
Estou bêbedo. Só pode ser isso. Embora tenha tomado banho frio e quatro canecas de café, o álcool ainda estava fazendo efeito no meu sangue, me tirando completamente do nexo.
O anjo volta e começa a distribuir nossa comida sobre a mesa. Ela segura a bandeja de forma antinatural. Ela não é garçonete. põe os alimentos em seus devidos lugares enquanto a observo como um idiota.

— Desculpa perguntar, mas você é nova aqui?

A pergunta flui de meus lábios antes mesmo que impeça.
pisca algumas vezes. Esse parece ser um trejeito. Ela morde o lábio, envergonhada. Quando libera a carne macia, vermelhidão toca cada extensão do seu lábio inferior.

— Na verdade não, sou a cozinheira. — Ela balança os pés, parece um pouco trêmula — Estamos com falta de uma pessoa hoje.
— Oh, sim.

Meus olhos permanecem grudados nos seus verdes como a campina e fico tentado a elogiá-la, contudo, seria estranho e poderia assustá-la.

— Aproveitem a comida!

E se vai às pressas.
Me concentro na comida. Então, essa é as mãos de fada que prepara esses quitutes maravilhosos. Sabia que o restaurante ficava sempre lotado, graças às mãos de fada do cozinheiro ou cozinheira, só não imaginava que era um anjo por trás disso tudo.
Erik pediu uma porção de pão de queijo e bife ao molho inglês, além de uma garrafa de Pepsi com limão.
Devoramos tudo em pouco tempo e já me sinto ansioso para encontrar com a minha mais nova garçonete favorita. Esfrego as mãos uma na outra e quase não consigo segurar o sorriso que deseja brotar em meus lábios.
E assim como esperava, volta a nos atender. Antes que possa dizer algo, Erik toma a frente.

— Pode trazer a conta, .

Viro-me para o meu amigo com uma expressão nada boa. se vai e perco a chance de falar algo.

— Qual é o seu problema?
— Só estou salvando a pele da garota.
— Acha que iria usá-la?
— É o que tem feito todo esse tempo com as outras.

Engulo em seco. Ele tem razão.
volta com a conta e agora está ansiosa. Mesmo sabendo que não sou o melhor, não posso perder a oportunidade de falar algo. Faça hoje para não se arrepender amanhã.
Pego o dinheiro, ergo-o e coloco em sua mão. Está fria, o oposto de quem trabalha na cozinha, além de ser suave como uma pluma. Há uma corrente elétrica que toca cada músculo da minha mão, apenas com o contato. Sei que ela pode sentir isso. Levanto os olhos e tenho a certeza ao observar a linda campina sendo semicerradas.

— A propósito, a comida é maravilhosa. Você tem um dom.

Seus olhos suavizam.

— Obrigada — murmura.

Ela se afasta. Eu e Erik nos levantamos e seguimos para a porta. Olho por cima do ombro assim que Erik sai do local e encontro-a me observando. Sorrio e ela retribuí. Saio e constato que não conseguirei prestar atenção em relatório nenhum, a única coisa que penetrará os meus pensamentos são os lindos olhos da cozinheira .



Capítulo 3

Montanha de sentimentos

Ainda fito a porta de vidro.
Meu peito parece um martelo constante sobre um prego. A cada martelada penso que vou me desintegrar.
Mordo o lábio e pisco algumas vezes para poder retornar ao presente. Tenho que continuar o meu trabalho, Caroline havia sido uma mão na roda, porém, ainda havia muita coisa a ser feita.
Retorno para a cozinha e começo a olhar as panelas que deixei no fogo. Caroline está na ponta do fogão industrial fritando cebolas para o bife. Além disso, seus olhos estão vigilantes às batatas que estão na fritadeira eletrônica.
Respiro fundo e volto ao serviço.
Preciso fazer uma remessa de brigadeiros, pois é o único desejo da freguesia da noite.
Era o doce mais esperado.
Desde que me candidatei a vaga de cozinheira para o Your Food, procurei me atualizar quanto aos cardápios diferentes. Havia adquirido muitas receitas mediante os livros que tinha lido há três anos, contudo, queria ser a melhor no que amava fazer. Por isso, sempre buscava melhorar.
Brigadeiro foi a dádiva dos deuses. Naveguei por uma fileira de pratos brasileiros em uma noite de tédio e lá estava, a receita simples e eficaz. Como sempre, fiz um teste em casa para saber se era do agrado das meninas e foi um sucesso.
No outro dia, comecei a fazer o doce e distribuir em forminhas no formato de bolas com granulado por cima. Não vendeu tanto nas primeiras remessas, no entanto, com o tempo, o lugar ficou conhecido pelo doce brasileiro.
Gleen sempre espera que faça mais brigadeiros do que a remessa comum, entretanto, sempre estou sozinha e fico com bastante trabalho. Agora que ele me obrigou a ter uma ajudante, irei aproveitar a oportunidade para aumentar a produção.
Assim que o horário de almoço termina, Caroline e eu fazemos uma pausa para comer algo. Rachel vem logo em seguida e devora um prato com panquecas de chocolate, além de um sanduíche natural. Eu sei, é uma mistura estranha.

— Caroline.
— Sim? — Ela se aproxima rapidamente com um sorriso meigo e temeroso nos lábios.
— Vou lhe ensinar uma receita que deixarei em suas mãos para repeti-la durante o resto do dia. — Viro-me para ela, só para ter certeza que estava prestando atenção — Você sai que horas?
— Às sete.

Assim como eu e Rachel.

— Vou fazer a primeira porção da parte e você observa. Quando tiver alguma dúvida, é só perguntar.

Ela acena.
Começo a preparar o brigadeiro, explicando passo a passo e mostrando o ponto do doce. Depois de feito, informo que temos que deixar esfriar um pouco, por isso, coloco-o na geladeira. Posteriormente, explico que o doce precisa estar durinho para que seja fácil de manuseá-lo.
Voltamos aos nossos outros afazeres. Caroline já começa a preparar mais brigadeiros enquanto a anterior está esfriando. Me dedico aos lanches que são pedidos, me dividindo entre a cozinha e o salão.
Sei que hoje irei capotar na cama assim que me deitar, isso se não ocorrer antes. Todas as vezes que tenho de cobrir uma das meninas fico no meu limite. Passar o dia cozinhando já é cansativo, contudo, servir mesas no processo destrói qualquer um. Poderia ter pedido que Caroline servisse, porém, ela é muito tímida e um pouco atrapalhada com bandejas, apesar de ser um primor na cozinha. No entanto, já estou acostumada a lidar mais com o público.
Muitas coisas haviam mudado nos últimos três anos. Minha timidez foi-se aos poucos, mas no fim consegui vencê-la.
Quando retiramos o doce da geladeira, ele já está no ponto, ensino Caroline fazer as bolinhas e molhar no granulado, além de colocar na forminha. Enquanto isso, o doce que ela fez já estava esfriando e quase pronto para pôr na geladeira. Em seguida, dei-lhe um dos brigadeiros para que experimentasse. Sorri quando ela revirou os olhos de prazer.
Havia muitos brasileiros que fabricavam o doce, contudo, eles vendiam na Times Square, a quilômetros do Brooklyn. Ou seja, não tinha concorrência.
O dia transcorre movimentado e mesmo me distraindo com a comida, o olhar do homem loiro de cabelos cacheados não saiu da minha cabeça. Os azuis pareciam me perfurar a cada segundo e ele não tirava os olhos de mim, o que me fez ficar um pouco tímida. O olhar constante me deixava aquecida. Quando ele saiu pela porta, uma parte dentro de mim suplicava para que ele retornasse. Mesmo assim, pude sentir o vazio de não estar sendo observada por aqueles lindos olhos.
O que há comigo?
Nem ao menos sei o nome desse homem. E em hipótese alguma posso fantasiar algo com alguém que acabei de conhecer. Não sou mais uma adolescente. Tenho responsabilidades e a principal delas é minha filha.
Respiro fundo e empurro as imagens do sorriso brilhante do homem desconhecido.

— Vi que não tirou os olhos de você — Rachel murmura enquanto estamos no ponto de ônibus.
— Como sabe o nome dele?
— Ele é meu cliente, sempre atendo aquele lado do restaurante.
— Nunca tinha visto ele por lá.

Rachel estala a língua.

— Você nunca ficou com aquelas mesas. Perdi as contas de quantas vezes vocês estiveram no mesmo local, mas nunca repararam um no outro.

Ela tem um ponto.
Nosso ônibus chega e como esperado, está lotado. Ficamos em locais divergentes. Me espremo entre um monte de jovens, bem no meio do veículo, e Rachel fica esmagada no início. Assim que nosso ponto chega, descemos e Rachel grita para o motorista esperar.
Ela sempre faz isso.
Dou uma risada e a espero.

— Você mudou de assunto — Rachel resmunga. Os seus cabelos brilham com as luzes dos postes, algo semelhante como fogo.
— Não entendi.

Faço minha melhor cara de confusa, porém não funciona.

— Ficou interessada nele?

Volto os meus olhos para ela com uma expressão nada boa.

— Não existem possibilidades de romances na minha vida — pauso e suspiro. — Tudo o que preciso pensar é na minha filha – que já deveria ter começado a falar –, e numa futura faculdade.

O semblante de Rachel muda e fica triste. Eu sei que ela pensa que nunca conseguirei entrar na faculdade, pelo menos não com uma filha e muitas despesas. Contudo, não consigo simplesmente abandonar esse desejo, é como se ele tivesse vida própria. Foi uma das únicas coisas que veio de Jayden e que não saíram da minha pele, o anseio de ir a universidade.
E mesmo que não consiga, não custa nada sonhar com essa possibilidade. Ela deixa a vida mais doce.
Quando abrimos a porta, Holly e Annie gritam juntas, me causando uma crise de riso. Minha garotinha corre e se agarra nas minhas pernas. Puxo-a para cima, a abraço apertado e distribuo beijos em suas bochechas cheias. Annie começa a rir com o carinho, pois ela está sentindo cócegas. Sempre foi assim.

— Estava com saudades da mamãe? — questiono e Annie acena. — Que bom! Porque estou com tantas saudades que a senhorita vai tomar banho comigo.
— Eeeeeeeeeh! — Annie comemora, levantando os braços.

Levo Annie para o quarto, prometendo para as meninas que farei o jantar, apesar dos resmungos delas sobre eu estar cansada. Eu sei que estou exausta, ninguém além de mim tem ideia de como o meu corpo se encontra, contudo, cozinhar sempre parece aliviar alguma tensão em meu corpo, por isso não rejeito nenhuma oportunidade.
Removo as roupas de Annie, contando sobre as inúmeras coisas que vi durante o dia, porém, deixando de fora o homem que perfura a minha mente desde o primeiro olhar. Como uma menina obediente, ela me ouve com atenção e maravilhada com tudo que tenho a lhe contar. Talvez, se minha garotinha falasse, poderia fazer perguntas sobre tudo que havia visto e ouvido, no entanto, não tínhamos essa dádiva da comunicação. Depois de tirar sua roupa, começo a remover as minhas, em seguida, deixo Annie sobre a cama enquanto preparo a água do chuveiro. Após ter certeza que a temperatura está agradável para nós, retorno ao quarto para pegá-la, ela está toda enrolada em sua toalha enquanto brinca com um carrinho cor de rosa de almofada. Seguimos para o banheiro e nos banhamos com água morna. Uma parte dos meus músculos, tensos e duros, relaxam com o contato com a água. Annie passa shampoo na minha cabeça muito animada.
Quando terminamos, estamos limpas e relaxadas. Annie está com um sorriso nos lábios, para ela, tomar banho é uma de suas partes favoritas do dia e mesmo que outra pessoa lhe dê um banho, não é a mesma coisa de ser comigo. Fico contente de ter esse tempo com ela e dela achar isso tão fundamental para o seu dia.
Após nos vestirmos, seguimos para a sala. Deixo Annie sentada em sua cadeira perto do balcão e começo a preparar os ingredientes para uma lasanha à bolonhesa. Antes, corto algumas frutas e jogo em uma tigela, entrego para Annie, que desata a comer.
Deixo os meus pensamentos navegarem pelo o dia corrido enquanto faço a receita em modo automático. Apesar de desejar com todas as minhas forças, não posso deixar de lado a imagem daqueles lindos olhos e o sorriso, que por algum motivo me deixou tímida. Não houve nenhum tipo de conversa, contudo, de alguma maneira inexplicável me sentia ligada a ele, como se não precisássemos de conversas e muito menos saber nossos nomes. Sei que ele leu o meu nome na pequena plaquinha que ficava presa na minha roupa de trabalho e que Rachel me informou seu nome, no entanto, não era a mesma coisa que se conhecer.
Solto um suspiro.
Não posso pensar em um estranho.
Estranho.
Erik!
Como pude esquecer? Ele estava ali na mesma mesa que aquele homem… Não, que . Sim, esse era o seu nome e creio que ele era merecedor que os meus pensamentos o chamassem como tal.
Erik o conhecia e pareceu bastante assustado ao constatar que eu estava servindo-os. Notei pelos olhos que ele não queria que soubesse que nos conhecíamos. Não tinha ideia do motivo, porém, respeitei o seu desejo, até porque, o homem havia me ajudado mais do que deveria.
Eles pareciam amigos, não apenas simples conhecidos. Quem sabe trabalhassem juntos. Não. Não faria sentido, Erik não ficaria tão assustado e, se fosse essa a situação, conheceria o meu caso. Entretanto, ele parecia admirado em me ver. Então, descarto logo a ideia de trabalharem juntos. Quem sabe sejam amigos de infância ou de faculdade... Quem sabe... O único fato que tenho absoluta certeza é de que são amigos, dava para ver uma certa harmonia emanando dos dois.
É navegando por esses pensamentos que mal percebo o tempo passar, logo a lasanha já está cheirando, removo-a do forno e chamo pelas meninas. Descanso o recipiente quente sobre o balcão o mais longe possível de Annie. Holly pega os copos, pratos e talheres e me sento em um dos bancos. Corto um pedaço pequeno da comida e coloco no prato para esfriar. Annie adora lasanha.

, não sei porque ainda me surpreendo com essas maravilhas que você faz — Holly geme, depois de comer o primeiro pedaço.

Dou uma risada.

— Ela conheceu um cara hoje — Rachel murmura.

Ergo a cabeça em alerta e com os olhos arregalados.

— Rachel!
— O quê? — indaga, inocentemente. — Não falei nenhuma mentira.

Resolvo entrar no jogo dela.

— Conheci vários caras hoje. — Dou um sorriso irônico ao final da frase.
— Alguém pode me explicar o que está acontecendo? — Holly pergunta.

Quando viro-me para a mulher de cabelos escuros, ela está com o garfo a caminho da boca e com uma expressão confusa.

conheceu um cara hoje que chamou bastante a atenção dela — Rachel afirma.

Abaixo minha cabeça, contudo, antes posso ver os lábios de Holly formando um sorriso.

— É mesmo? Conte mais.

Posso sentir os olhos das duas sobre mim, no entanto me concentro na comida, que parece ter adquirido um sabor muito melhor agora. Elas começam a conversar sobre e a cada menção de seu nome minha pele se arrepia e não consigo controlar a vontade de morder o lábio.
Rachel conta que ele é um cliente ativo e isso chama minha atenção. Se ele era ativo, deveria ir todos os dias. Rachel havia dito que ele costumava ir até o Your Food, porém, pensei que era em dias esporádicos e não todos os dias.
O pedaço de lasanha da Annie esfria o suficiente para confiar que ela não se queimará e, por isso lhe entrego a tigela, fazendo com que ela sorria para mim e comece a comer. Sua tigela de frutas está vazia, então levo-a até a pia.

— Ele também pareceu muito interessado — Rachel informa. Ela toca o queixo de forma teatral. — Para falar a verdade, parecia mais interessado que . Quase não foi capaz de tirar os olhos dela.

Minhas bochechas esquentam, o que faz as duas se derramarem em uma gargalhada.

— Já chega desse assunto — sibilo. — Não vou me envolver com ninguém. Não quero ninguém.

Minha voz sai mais dura do que esperava e isso me assusta. Sabia que havia marcas em mim nas quais jamais seriam saradas, estigmas que me perturbariam o resto da minha vida. A confiança que uma vez depositei em Jayden me levou ao fundo posso, por isso tinha conhecimento que o meu coração e o meu cérebro rejeitava toda e qualquer relação por causa disso. Não podia se construir uma relação sem confiança. E no fundo, não podia ver uma forma de renovar esse sentimento fundamental para um casal.
Sabia que era loucura imaginar uma relação com um cara que apenas encarei por algum tempo, entretanto, me sentia obrigada a afirmar que não havia futuro antes mesmo de começar. Não acreditava que algum dia pudesse recuperar essa confiança, mas se isso acontecesse, seria no futuro, um tempo muito distante do hoje.

. — Holly estende a mão para tocar a minha e sorri. — Eu sei de tudo que passou e como Jayden destruiu suas relações futuras. Mas tenho que dizer. Nem todos são um Jayden.
— Podem existir milhares como ele, porém há muitos outros milhares que não se parecem nenhum pouco com aquele desgraçado — Rachel diz.
— Não somos tolas em afirmar que esse tal não é como ele, ou qualquer outro cara. No entanto, não há como saber sem arriscar. A vida é cheia de riscos — Holly continua. — Seria sem graça se não os houvesse. Se permita viver e se entregar.

Rachel se aproxima e toca nossas mãos.

— Não estamos dizendo que não deva blindar o seu coração para que não sofra as consequências de uma decepção depois. Só queremos que saia dessa caverna que se entocou e viva.

Uma lágrima solitária desce pela minha bochecha e sorrio.

— Já disse que amo vocês? — questiono.

Elas sorriem de volta.

— Hoje não — Holly afirma.
— Eu amo vocês.

As duas se levantam e me abraçam apertado. Annie resmunga e quando nos voltamos para ela, à menina loira está de boca aberta, tentando, talvez, dizer que deseja estar no meio desse abraço. Me aproximo da minha filha, beijo sua bochecha, limpo a boca que está suja de molho e a abraço, causando nela uma risada animada. Holly e Rachel se aproximam e me ajudam abraçar a minha menina, alegrando ainda mais Annie.
Ela poderia não ter um pai, contudo, havia tanto amor a sua volta que não tinha como sentir falta de um.


Assim que me levantei pela manhã no outro dia, me senti diferente. Diria ansiosa.
Depois de me erguer, fazer minha higiene e tomo um banho, sigo para a cozinha. Começo a fazer o café da manhã, quase alucinando de tanta fome.
Na noite anterior, passamos do horário e Annie acabou dormindo mais tarde que o normal. Ou seja, ela estava dormindo em seu berço e não parecia ter hora para acordar, no entanto, sabia que teria de despertá-la em breve para que não ficasse emburrada. Teve uma vez que cometi o erro de acordar e ir trabalhar sem acordá-la, além dela ficar com raiva, se negou a comer e chorou por tudo, demorei a compreender o motivo, contudo, quando adquiri a compreensão, fiquei bem chateada comigo. Então, depois desse episódio, sempre acordava ela antes de partir para mais um dia de serviço.
Termino de fazer o café da manhã e corro para acordar Annie. Me aproximo de seu berço e mexo em sua barriga.

— Meu amor, acorde — sussurro ainda sacudindo-a. — Mamãe vai trabalhar logo.

Ela resmunga, entretanto, quando abre os olhos, sorri. Seu rosto está inchado. Ela se senta e eu a retiro do berço, beijando sua bochecha. Annie deita a cabeça em meu peito enquanto nos dirigimos à cozinha. Assim que entramos no local, vejo as meninas todas amassadas e bocejando, porém comendo sem parar. Eu já tinha preparado a mamadeira de Annie com vitamina de morango. Entrego a mamadeira e começo a comer o meu café da manhã.
A campainha toca e Rachel se levanta para atender. É Millie.

— Bom dia — a loira cumprimenta. Os seus olhos encontram Annie enrolada em meu colo com sua mamadeira. — Vejam só quem está dengosa hoje. No colinho da mamãe.

Millie se aproxima e toca o nariz de Annie. Minha filha sorri com os lábios, sem remover o bico da mamadeira da boca.

— Ela acabou de acordar — informo.

Ela entende imediatamente o motivo de Annie estar enroscada em mim.

— Quer comer? — Holly pergunta a Millie.

Os seus olhos brilham.

— Se ainda tiver panquecas, aceito.
— Para a sua sorte, fiz a mais.

Uma grande mentira.
Eu tinha conhecimento da situação de Millie. Sua mãe não fazia comida e ela não se dava bem com o fogão, então, sempre fazia panquecas a mais para ela.
A loira começa a comer animadamente. Rachel e Holly se levantam para se arrumarem para o trabalho enquanto nós três terminamos de comer. Quando elas voltam, Millie está lavando a louça para mim ao passo que fico brincando com Annie. Assim que estão todas prontas para o trabalho, beijo as bochechas da minha filha e a abraço, depois a entrego para a sua babá.
O caminho para o trabalho é como todos os outros dias. Ônibus lotado. Assim que chegamos, Caroline já está na cozinha fazendo brigadeiro. Desde o dia anterior, a mulher ficou entusiasmada com o serviço que ofereci a ela. Após terminar o doce e o colocar na geladeira, começamos a nos preparar para mais um dia longo de comes e bebes. E como sempre, o cansaço nunca me abala, cozinhar sempre será um alívio para mim.
Embora meus pensamentos estejam ligados à culinária, uma parte deles não consegue esquecer os olhos e o sorriso de . E não faço ideia de quando serei capaz e nem se quero isso. Mas sei que uma parte de mim anseia vê-lo hoje.



Capítulo 4

Lutando

Não deveria.
Repeti isso diversas vezes durante as últimas horas. Tentei colocar na minha cabeça que tudo isso não fazia sentido. A minha cabeça estava trabalhando do jeito errado. Eu estava desejando algo que nem ao menos conseguia compreender.
Mais uma vez estou em frente ao Your Food. Só que diferente de todas as outras, não estou aqui para comer. Sim, é óbvio que também irei comer, mas o meu objetivo é completamente o oposto.
Preciso ver .
Tenho consciência de que ela não é uma garçonete e, provavelmente, não a verei. No entanto, não consegui destruir a parte do meu cérebro que dizia que queria vê-la.
Não sei o que está acontecendo comigo. Não diria que estou apaixonado, talvez encantado. Porém, precisava admitir que depois que os meus olhos encontraram-na, o meu corpo pareceu criar vida. Havia morrido há três anos e sabia que deixava o destino me levar para onde quer que fosse, então, quando encontrei o rosto angelical de , tudo se acendeu.
Era louco. Muito louco. Sem dúvidas a razão havia me abandonado há tempo. Contudo, o que poderia fazer? A mulher fazia parte até mesmo dos meus sonhos. Sim, eu sonhei com ela. Não foi nada sexual, era apenas algo doce e inocente. Sorrisos e olhares que consumiam cada partícula da minha alma. E eu necessitava do que quer que tudo isso significasse. O que mais me admirava era o fato de que não me sentia dependente de vê-la, apenas queria vê-la.

— Estou ansioso — Erik murmura e esfrega as mãos uma na outra.

Viro-me para ele rapidamente enquanto estaciono a moto.

— Já está viciado na comida?

Erik me encara culpado.

— Acho que sim — ele suspira e revira os olhos. — Não deixei Elliot cozinhar porque queria comer aqui.
— Melhor não dizer isso a ele.
— Eu não direi, não sei você.
— Jamais faria isso com um amigo.
— Sei.

O irmão do meu amigo é orgulhoso demais para admitir que existem pessoas melhores na cozinha, além de seus professores e inspirações. Ele era completamente dedicado ao que estudava e merecia o título de melhor aluno da faculdade. Elliot não desperdiçava dinheiro quando era para fazer um prato diferente, todos os dias a janta era uma nova receita que o professor havia passado para ele testar em casa. Erik e eu não reclamávamos, raras foram as vezes que algo dava errado, a comida sempre maravilhosa e colocava muitos restaurantes no chinelo.
Entramos no Your Food e o cheiro de gordura perfura as minhas narinas, o aroma familiar faz com que os meus músculos relaxem. Sentamos na mesma mesa do dia anterior e procuro ao redor a mulher de cabelos castanhos e olhos verdes, entretanto, só vejo a garçonete de olhos negros e Rachel. devia ter ficado no lugar da de olhos negros. Já fui atendido por ela algumas vezes quando comecei a vir no local, porém, acabei me tornando cliente de Rachel.
Foi impossível controlar minha cara de decepção quando ela se aproximou da nossa mesa.

— O que vão querer? — indaga.
— Olhar para você é o suficiente — Erik fala, ergo os olhos para ver o meu amigo de queixo caído.

Rachel vira-se para ele e dá um sorriso malicioso.

— Não temos essa opção, sinto muito.
— É uma pena, traria mais lucros para o lugar.
— A cozinheira é muito boa.
— Também achei, mas tenho outros motivos para voltar agora.
— Faça bom proveito.

Observo atônito a troca de palavras entre Rachel e Erik. Ele resolveu flertar e ela correspondeu, de uma forma bem sutil e praticamente gritando: “você terá que fazer melhor que isso”. Isso é divertido. Um novo desafio para o meu amigo. O que significava que no final ele iria levar um belo pé na bunda, porque mulheres assim nunca caíam na sua lábia.

— Vou querer estrogonofe de carne, arroz e batatas — informo, olhando para o prato especial do mês no cardápio. Não estou interessado na troca de olhares entre os dois. Nunca pensei que algo assim fosse tão desconfortável.

Ouço o ruído da caneta no papel, indicando-me que Rachel não está afetada por Erik. Mais um pé na bunda. Ergo a visão para admirar a cara de idiota de Erik e um sorriso satisfeito toca os meus lábios.
Por algum motivo desconhecido, estou com vontade de mostrar os dentes.

— E você? — Rachel questiona Erik.
— O que você quiser — murmura, ainda olhando para ela.

Rachel revira os olhos e seguro uma risada.

— Traga o mesmo para ele — digo e ela acena.

Quando Rachel segue em direção à cozinha, não consigo controlar a gargalhada que escapa pela a minha garganta, ao passo que Erik observa de cara feia.

— Devo colocar no livro de recordes?
— O quê? — indaga confuso.
— Devo colocar no livro de recordes como o pior flerte da história?

Ele revira os olhos.

— Acho que Griffin vai nos passar mais um caso de fraude — Erik muda de assunto.
— Parece bom.
— Não sente falta de adrenalina? — Erik questiona.
— Não, quem gostava dessas coisas não era eu. Sempre foi você e...

Engulo em seco.
Odeio quando tenho de mencioná-la. Odeio ter de me lembrar do seu nome em uma conversa. Odeio ter de falar algo relacionado a ela.
Contudo, o que poderia fazer? Annie estava tatuada na minha pele. Ela foi marcada como ferro em brasa em mim no momento que seu chefe resolveu que o melhor era que se mudasse para São Francisco. Isso tudo é uma merda.
Lembrar dela dói como o inferno e nem mesmo os olhos doces e gentis de podem aliviar o pesar no meu peito. Annie sempre será o amor da minha vida e a única para mim. Mesmo que apareçam outras. Mesmo que seja algo mais, Annie sempre será muito além do que se pode imaginar.
Não consigo me arrepender um só segundo de tê-la pedido em casamento e deixá-la adentrar na minha vida de forma tão repentina, porque apesar de o destino ter nos separado, tudo que vivemos foi maravilhoso demais para restar arrependimentos. Sim, eu culpava Smith por tê-la levado tão cedo e ele teria o que merecia, eu teria minha vingança.
Rachel chega com nossos pratos com dois Sprite. Não precisava pedir para ela saber o que queria.
Começamos a comer. Não sou estúpido para afirmar que não estou comendo devagar porque quero arranjar uma forma de ver sem parecer um maníaco. Perdi as contas de quantas vezes me virei para as duas portas com dois círculos de vidro em cada. Cada vez que uma garçonete entrava e saía, o meu coração dava um pulo, todas às vezes a decepção me assolava como uma martelada repentina.
Preciso ver o olhar doce de . Preciso do meu anjo. Porque ela parece o meu anjo da guarda. Ela deixa a dor mais suportável e me traz uma paz que eu não fazia ideia que precisava. O sorriso que ela me direcionou no dia anterior cutucou o meu peito de uma forma extraordinária e me fez esquecer por algumas horas o que era não ter Annie ao meu lado. Não estou dizendo que me faz esquecer Annie, isso é impossível, quero dizer que a dor não parece tão ruim quando olho para .
Fico mexendo a comida de um lado para outro e colocando pequenas porções na boca, os meus olhos sempre voltando para a porta da cozinha. Quando termino de comer, Erik já havia terminado há tempos e só não questionou minha demora, pois estava seguindo Rachel com o olhar.

— Ela não vai te dar uma chance.
— Dizem que as ruivas são as melhores — informa sem me dirigir o olhar.
— Você é um idiota.

Isso parece chamar sua atenção.

— Não sou eu que pego todas as loiras que aparecem na minha frente. — Erik observa ao redor — Sorte que aqui não tem nenhuma loira.

Bufo.
Eu sei que virei um verdadeiro caçador de loiras e que não dou a mínima para elas, entretanto, ele não precisava me lembrar. Não me orgulhava dessa atitude, mas precisava agir dessa forma. Todas as noites tinha que levar uma loira para cama, em busca de um alívio para o meu coração e minha mente, se não...
Espera...
Não fui atrás de mulher alguma noite passada. Simplesmente... esqueci...
Volto os meus olhos para a porta da cozinha e noto pela primeira vez uma vitrine com o que parecem ser doces. Sempre gostei de donuts – dentre outros doces –, contudo, donuts sempre foi um dos meus favoritos. Levanto-me, ignorando os resmungos de Erik. Quando chego próximo à caixa de vidro, os meus ombros caem. Não há donuts, apenas bolas – que parecem ser de chocolate – cobertas com granulados e distribuídas em papéis brancos.

— Brigadeiro.

Levanto os olhos e encaro a garota de cabelos escuros e olhos negros. Procuro por seu nome no crachá. Holly. Ela me observa de forma curiosa.

— O que seria brigadeiro? — pergunto, voltando para as bolas de chocolate.
— Acho que não vale informar, mas experimentar.
— Não sei se é confiável.
— Tudo que faz é confiável.

Quando volto a olhar para Holly, há um sorriso de vencedora. Ela sabe que me ganhou apenas por dizer o nome de , o que me faz ter certeza que fui o tópico de assunto entre ela e a colega de trabalho.

— Vou querer dois.

Holly embala dois em um saco de papel pardo e lhe entrego uma nota de cinco dólares. Assim que volto para a mesa, Erik está pagando a conta. Depois que ele entrega o dinheiro, Rachel segue para o caixa. Ele se levanta emburrado e seguimos para a porta do estabelecimento. Antes de sair do local, olho mais uma vez para a porta da cozinha e dou um suspiro ao constatar que não verei hoje. Quando saio, a tensão toma conta do meu corpo novamente.
Erik pegou mais um caso de falsificação para que trabalhássemos, porém, o dia não foi um dos melhores. Meu corpo estava tenso e não conseguia me concentrar no trabalho como deveria. Griffin acabou me mandando para academia, pois não estava rendendo.
Desde a perda de Annie, havia me dedicado cem por cento no trabalho e era considerado um dos melhores agentes. Até fui escolhido para ficar à frente de uma dupla, contudo, sabia que teria de ter Erik ao meu lado para que fosse mantido em rédea curta. Poderia ser dos melhores, mas era impulsivo e se fizesse alguma merda, minha carreira iria para o ralo e não me restaria mais nada para viver.
Soco o saco de areia algumas vezes e volto para o pulley, após algumas puxadas, retorno para o saco e me concentro nele. Minha pele está suada e os meus músculos queimando, no entanto, ignoro qualquer dor ou desconforto físico e foco na dor interior que precisa ser extravasada. Tomo uma respiração e forço o punho com o abdômen contraído. Um, dois, três. Um, dois, três.

— Vai acabar desmaiando — uma voz melodiosa toca os meus ouvidos.

Viro-me para encontrar a autora da voz e não me surpreendo em encontrar uma mulher de cabelos negros e corpo bem delineado. Torno minha atenção para o saco de areia e volto a socá-lo.
Isso já estava virando perseguição.
Jennifer era uma das novas agente em treinamento. O FBI havia recrutado alguns novos para serem treinados por nós. Esse era outro motivo que me fazia renegar o poder de chefe de operação, não tenho paciência para lidar com novatos. Não quando minha cabeça está fervendo por vinte e quatro horas.
A mulher ficava no meu pé sempre que está livre. Havia momentos que ficava preocupado com tudo isso, entretanto, não poderia fazer muita coisa a não ser evitá-la.

— Há novos casos de traficantes na mesa de Griffin, poderíamos trabalhar num deles. Juntos.

O alívio que senti com os exercícios se desmancha com apenas algumas palavras. Paraliso e respiro fundo, e isso não tem nada a ver com o esforço físico, mas tudo com autocontrole.

Erik tem me mantido distante de qualquer caso que comece com traficante. Nós éramos o que Nova York tinha de melhor, entretanto, nos limitamos com casos meia bocas. Contudo, a parte obscura que vivia em mim precisava saber mais, precisava da sua vingança.

— Que tipo de traficante?

Espero por uma resposta. Longos segundos se passam e não ouço a voz de Jennifer. Viro-me para ela e há uma careta de confusão em seu rosto, sua boca está entreaberta, em busca de palavras.

— Que tipo de traficante? — digo com uma voz autoritária.

Ela estremece e engole em seco.

— Drogas.

Meu sangue esquenta na mesma hora.
Não era o que eu queria.

— Pode me deixar em paz agora — a frustração emana em cada palavra.
— Mas…
— Disse para me deixar em paz — grito e respiro pesadamente.

Jennifer engole em seco mais uma vez e se afasta, saindo pelas portas de vidro. Erik está na entrada com cara de poucos amigos, assim que ele entra no local, sei que serei repreendido.

— O que foi isso?
— Ela veio me encher a paciência mais uma vez.
— Você nunca perdeu o controle desse jeito.
— Tive meus motivos.

Apesar dos meus braços pesarem, concentrei-me nas dores internas e tornei a socar o saco de pancadas.
Preciso de um alívio além de físico. Preciso de paz. E por algum motivo inexplicável, um anjo de olhos verdes pode me dar isso.
Paro no ato e começo a retirar as bandagens em volta das minhas mãos. Olho para as paredes de vidro do último andar do prédio e noto que o sol já está se pondo. Não faço ideia que horas acaba o expediente de , só espero que chegue a tempo de vê-la, mesmo que seja de longe.

— Aonde vai? — Erik indaga.
— Your Food.
— Quê? — Uma máscara de confusão toma suas feições. — O que vai fazer lá?
— Ver .

Erik pisca.

— Tá de brincadeira. — Olho para ele com seriedade — Por quê?

Suspiro.

— Não sei explicar. Só preciso vê-la.

Ele me encara por alguns minutos, tentando usar suas especialidades de agente. Tentando descobrir o que está se passando na minha mente. Isso não tem funcionado muito bem comigo nos últimos anos e acho difícil ele conseguir desvendar algo que nem eu mesmo entendo.

— O que está acontecendo com você, cara?
— Eu não sei, Erik.

Ele acena e sai da academia pensativo. Como um cara bom em sua profissão, sei que ele analisará o meu encontro com no dia anterior e irá tirar suas conclusões.
Não me importo. Apenas quero vê-la, simples assim.
Sigo em direção ao banheiro, tomo um banho e me visto às pressas. Logo, estou no estacionamento em cima da minha moto, em seguida o trânsito de Nova York me abraça. Estamos no fim de agosto e em breve o verão nos deixará, dando lugar a estação onde as folhas ganham cores alaranjadas. Desde criança, esse era o meu momento preferido do ano.
E depois virá o inverno, a neve tomando conta das ruas e um frio de congelar os ossos tomará o ar da cidade. Esses eram os meses que meu humor sempre está em seu melhor estado. Ainda mais nos últimos três anos… O verão sempre me lembraria dela…
Paro a moto em frente à lanchonete e espero. Estou torcendo para que não tenha terminado o expediente, pois não sei se serei capaz de aguentar mais um para vê-la. Poderia abrir os arquivos dela do FBI, mas não quero saber mais dela. Quero tê-la nas minhas vistas, no entanto, não quero estar na sua vida. Não preciso de outra mulher. Já tive uma que me estragou para todas as outras e não tenho a mínima vontade de ter um relacionamento. Os encontros casuais são mais do que suficientes.
A porta da lanchonete é aberta e a mulher que me atendeu mais cedo passa pela porta, sorridente. Rachel sai logo em seguida, dando uma gargalhada.
Minhas mãos começam a suar. Estou do outro lado da rua, a vista de qualquer uma delas.
Sei que será a próxima a sair.
Ela sai com um sorriso tímido nos lábios, e, como um ímã, seus olhos encontram os meus. O sorriso em seus lábios se desmancha e a vejo tremular.
Engulo em seco.
E uma força demoníaca me afasta da minha moto e começo a caminhar em direção ao meu anjo.



Capítulo 05

Sinceridade

Quando recebi a ligação de Erik, fiquei assustada. Meu primeiro pensamento era de que Jayden havia descoberto o meu paradeiro e estava em Nova York atrás de mim. Por um momento fiquei olhando para a tela do celular enquanto minha pulsação se tornava cada vez mais acelerada. Se Jayden soubesse onde estava, tudo estaria perdido e tinha consciência que não podia me mudar, não tinha como me mudar, não tinha dinheiro para começar de novo. Haviam economias que tinha feito nos últimos anos como precaução, apesar de lá no fundo desejar pagar uma faculdade. No entanto, não era tanto dinheiro. Não quando se tem uma filha pequena.

— Não conte ao que me conhece.

Distanciei o celular no mesmo instante. Quando tornei a colocá-lo na minha orelha, só havia uma respiração leve.

— Não entendi — afirmei.
— Não conte a ele que nós conhecemos.
— Como contaria algo a ele se nem o conheço? E muito menos falei com ele.
, só não fale nada.
— Tudo bem. Essa conversa não faz sentido algum, mas não contarei.
— Obrigado, tenho que ir agora.
— Ok!

Naquele momento, me senti bem perdida. Porém, agora, olhando para o homem que está vindo em minha direção, uma parte do aviso de Erik faz sentido. Ele sabia que viria me ver.
Respiro fundo.
Por algum motivo, sinto dificuldade de puxar ar para os meus pulmões. Jamais imaginei que tornaria a ver esse homem na minha frente. Não vou mentir e dizer que nenhuma parte de mim desejava que tornasse a vê-lo, porém, na prática era bem diferente. Esse homem causava reações em mim que me faziam desejar uma fuga rápida e eficaz.
Apesar de ainda ser verão, os primeiros sinais de outono já tocam o ambiente. Um vento frio desliza pela minha pele e um arrepio percorre o meu corpo. se aproxima cada vez mais e não faço ideia do que vou fazer quando ele estiver próximo o suficiente para uma conversa. Minhas mãos começam a suar e mexo-as nervosamente, contudo, logo me desfaço do tique nervoso.
Assim que o homem loiro de cabelos cacheados para à minha frente, noto que ele está tão perdido quanto eu. Ele veio até aqui, mas não faz ideia de como irá interagir comigo e isso faz com que meu nervosismo evapore e um sorriso brote em meus lábios, no qual espelha.

— ele sussurra o meu nome e os meus poros abrem.

Engulo em seco.

— murmuro.

Não sei quanto tempo se passa. Nossos olhares parecem ter vida própria e simplesmente não consigo desviar dos círculos azuis brilhantes, eles estão cheias de expectativas.
Alguém coça a garganta, quando desviamos o olhar para encontrar quem o fez, nos deparamos com Rachel e Holly com um sorriso nada agradável aos meus olhos. Diria que malicioso demais para o meu gosto.

— Devemos ir na frente?
— Não — respondo, rápido demais.

Volto os meus olhos para e ele está de cabeça abaixada, porém, me encarando por cima dos cílios. Minhas bochechas esquentam. Quando tento consertar, percebo que não faço ideia do que poderia falar ou fazer para tornar a situação mais agradável. Melhor, menos constrangedora.

— Gostaria de acompanhar você até em casa — afirma.
— O que?
— Gostaria...
— Não! — exclamo e mais uma vez minhas bochechas ficam carmim. — Quero saber por que quer me levar até em casa.

Ele dá uma risada sem graça e coça a nuca.

— Não sei como funciona essas coisas, há muito tempo não faço isso e nunca fui muito bom.
— Isso o quê?

É sua vez de ficar vermelho.
Olho em volta e percebo que Rachel e Holly estão a alguns metros de distância, nos dando privacidade. Agradeço internamente por não terem me deixado, no entanto, respeitado minha privacidade.

— Flertar. — Suas bochechas ficam mais vermelhas com a palavra dita.

Mordo o lábio.

— Isso é flertar?
— É.

Ele engole em seco.
Um silêncio passa entre nós. Não faço ideia de como mudar isso. Me sinto perdida e confusa com o que está acontecendo. diz está flertando comigo, e isso significa que ele está interessado em mim. Entretanto, será que eu estou interessada nele dessa forma? É obvio que sim, mas não sei se quero estar. Tenho fugido de envolvimentos amorosos há três anos e não sei se estou preparada para isso.
respira fundo e como uma força sobrenatural, algo toma conta de seus olhos e todo o constrangimento desaparece como fumaça. E pela primeira vez me sinto pequena diante do que vejo. Um homem. E não me sinto uma mulher, nunca me senti. Mesmo tendo uma filha me esperando em casa, ainda me sinto como a adolescente que fugiu de São Francisco e que estava encantada por um cara que só tinha uma bela aparência. E é ai que reflito e tento encontrar o motivo para estar interessado em mim.

— Não sou bom nisso, mas estou cansado de me sentir constrangido. — Ele morde a parte interna da bochecha — Acho que a melhor forma de começar algo – o que quer que isso seja –, é sendo sincero com você. Passei o dia inteiro pensando em você e tentei impor a minha mente que ela desviasse disso, contudo, não consegui. A ideia era vir até aqui e apenas te ver, mas o meu corpo quis mais do que isso e estou aqui na sua frente. Muito perdido. Não sei o que deveria dizer num momento desses, porém, agradeceria se você me deixasse te acompanhar até em casa.

Mordo o lábio inferior, tentando segurar um sorriso.

— Sempre volto para casa de ônibus, entretanto, acho que não faz mal caminhar um pouco. — Viro-me para Rachel e Holly, que olham para todos os cantos menos para nós — Vou falar com elas e já volto.

Ele acena.
Quando me aproximo delas, seus rostos estão cheios de expectativa. E não sei se elas gostarão da ideia de caminhar até em casa. Estamos moídas do dia de trabalho e sei que uma parte de mim deseja que elas rejeitem.

— Ele quer nos acompanhar até em casa — informo.
— Caminhar? — Holly questiona.
— Sim.
— Claro que sim — Rachel diz animada.

Holly vira-se para ela com os olhos arregalados, contudo, Rachel lhe dá um beliscão.

— Obvio que sim. E também precisarei de gelo — a morena resmunga esfregando a região do braço que foi agredida.

Dou um suspiro e retorno para .

— Elas aceitaram.

Começamos a nos dirigir para uma caminhada de longa meia hora.
Os primeiros dez minutos parecem uma tortura. Holly e Rachel estão à nossa frente e estamos alguns bons passos de distância. Não tenho noção do que esse homem quer comigo, porém, sua revelação me deixou um pouco surpresa. Sei que aconteceu alguma coisa entre nós no dia anterior, havia uma conexão fora do comum.

— Me fale sobre você — quebra o silêncio.
— O que exatamente?

Não deveria ter perguntado isso. Não deveria estar prolongando esse tipo de conversa. Essa coisa de se conhecer quando você quer se envolver com alguém. Não posso fazer isso, mas a parte de mim que deseja sair da caverna e viver com todos os riscos e consequências está louca por essa conversa. Enquanto isso, a parte desconfiada e que um dia foi machucada tenta se esconder, porém, mesmo ela deseja dizer para ele tudo da sua vida e até mesmo os seus pensamentos mais sombrios.

— Sei que o seu nome é , contudo, o crachá só tinha o primeiro nome — diz, com uma careta.
— Gleen quer que nos mantenhamos mais ligados aos clientes, então ele não coloca os sobrenomes. Primeiro nome sempre deixa as pessoas mais íntimas. — Olho para de rabo de olho, sua boca está entreaberta, me indicando que ele entendeu a ação de Gleen — Gray.

Ele franze o cenho.

Gray.
— ele estende a mão com um sorriso nos lábios. O cumprimento como se fosse a primeira vez que nos víssemos.
— Eu sei — mordo o lábio inferior. — Rachel me falou que é cliente assíduo da lanchonete.
— É mesmo? — indaga surpreso.
— Sim. Acho que ela notou o que quer que seja isso.
— Entendo.

Mais silêncio, porém, com ele não sinto necessidade de falar. Não quero tomar atitude com nada que possa acontecer, se está interessado, ele precisa ter atitude. Se não quero relacionamentos, não vou tentar começar algo. Caso queira algo ele tomará a iniciativa.
Apesar de estar cansada e louca para ver minha menina, a caminhada passa mais rápido do que esperado. Assim que chegamos ao prédio de tijolos, Rachel vira-se para mim, pisca e fala apenas com os lábios “aproveita”. Controlo uma risada nervosa e torno os meus olhos para , que está me encarando de forma intensa e curiosa.
Esse olhar faz com que palavras que nem fazia ideia que estavam na minha cabeça comecem a se derramar pelos meus lábios.

— Acho que preciso ser sincera com você também — abaixo a cabeça, respiro fundo e volto a olhá-lo. — Não vou bancar a idiota e dizer que não aconteceu nada ontem. O que quer seja aquilo. Também passei o meu dia com você num canto da minha mente, tentando ultrapassar os meus pensamentos e foi precisamente difícil me concentrar em tudo que tinha para fazer. Estou me sentindo muito perdida nesse momento, tentando entender o que isso significa e gostaria muito que você me ajudasse. Já tenho muitas coisas com que me preocupar e não quero mais uma.
— Tudo bem. Justo. — Ele acena — Estou te deixando confusa também e decididamente não quero isso, mas estou tentando entender isso assim como você. — fica pensativo, olhando a sua volta, em busca de uma inspiração para uma solução a nossa situação. Seus olhos se perdem em pensamentos por alguns minutos e quando eles voltam a me encarar, a curiosidade está predominante no azul dos seus olhos — Só me diga uma coisa. Acha que se sumir da sua cabeça.

Reflito.
Minha vida era cheia de dificuldades. O sonho de uma faculdade que poderia ser chamado de utopia. Uma filha pequena que me preocupava a cada dia. Minha confiança nas pessoas tinha sido destruída por completo por causa do pai da minha filha. Era cozinheira de uma lanchonete e restaurante do Brooklyn, contudo, a minha mente ainda encontrava tempo para pensar nesse homem. Acho que não tinha mais dúvidas da minha resposta.

— Não.
— Bom, então concordamos em algo. — O mesmo sorriso do dia anterior toca os seus lábios — Eu proponho que tenhamos um encontro.
— Encontro?
— Sim. Acho que nos conhecermos um pouco possa ajudar no que quer que isso seja. — Sei que estou fazendo uma careta quando ele parece desesperado — Por favor, não quero ficar maluco por simplesmente não tirar você da cabeça.
— Não deveríamos testar uma semana sem nos vermos para ver como funciona? — sugiro.
— Tenho muito trabalho e preciso de concentração total.
— Tudo bem.
— Sério?
— Por que não? Um encontro nunca matou ninguém.

Ele acena, sério.

— Quando será sua próxima folga?
— Terça.

Hoje era uma quinta, tínhamos quase uma semana para esse tal encontro.

— Espero não enlouquecer até lá. — Ele ergue os olhos e aponta para o meu prédio — É aqui que você mora?
— Sim.
— Que horas posso te buscar? À tarde?

Ergo a sobrancelha.

— Você não trabalha?
— Posso dar um jeito — informa com um sorriso torto.
— Vai dar um jeito só para termos um encontro?
— Claro.

Aceno.

— Vou subir — digo apontando para o prédio.

— Vejo você terça, às três.

Aceno mais vez. Ando de costas para o prédio, ergo a mão e faço sinal de até logo para , depois lhe dou as costas e corro para entrada do prédio. Quando já estou na segurança da escada que leva ao segundo andar paro por um instante e começo a respirar pesadamente. Como se não tivesse respirado um só instante após o nosso encontro. Olho para as minhas mãos e elas estão tremulas. Um sorriso idiota está colado em minha boca.
Preciso me recompor. Não posso entrar no meu apartamento com cara de boba. Sei que as meninas irão fazer interrogatório e não terei como escapar. Elas arrancavam os seus piores segredos somente com a insistência, e eu era franca diante de duas pessoas tão persistentes.
Quando me sinto pronta para enfrentar as duas, começo a subir as escadas. A pior parte do prédio é subir as malditas escadas. Sempre odiei ter de me locomover dessa forma. Poderia ser forçada a correr ao redor do Central Park duas vezes por dia e não acharia tão ruim como subir escadas. Tenho verdadeira aversão.
Assim que chego ao andar do meu apartamento nem é necessário que pegue a chave, pois a porta é escancarada por uma Rachel animada. Ela me puxa para dentro e me aperta como se eu fosse um urso de pelúcia. Meu rosto é apertado pelos seus braços fortes e gemo frustrada com a falta de delicadeza dela.

— Delicadeza em pessoa — resmungo, massageando o rosto. Com certeza ficou vermelho.
— Pare de enrolar, trate de falar o que aconteceu.

Reviro os olhos.

— Posso ver minha filha, primeiro?

Agora é a vez de Rachel revirar os olhos. Noto que Holly não está na sala, por isso ainda não estou sofrendo mais agressões físicas.
Corro para o quarto e encontro Millie e Annie brincando com um conjunto de lego que dei de aniversário para Annie esse ano. Quando minha garotinha levanta os olhos, um sorriso brota em seus lábios, logo ela se coloca de pé e corre até mim. Me abaixo e me preparo para recebê-la. Assim que sinto o seu corpo quente e com cheiro de bebê, levanto-me e giro-a. Uma risada gostosa escapa de seus lábios, bem como um toque em meu peito. Amor. Essa menina loirinha era salvação da minha vida. Por causa dela não me deixei afundar na culpa. Graças a ela os meus dias se tornavam mais fáceis. Annie era a alegria em carne e osso, e só minha.

— Como você se comportou? — indago, assim que paro de girá-la. — Não deu trabalho para a Millie, certo?

Ela acena ainda sorrindo.
Firmo o meu sorriso, mesmo não desejando isso. Tudo que queria era ter algum sinal de que ela me responderia verbalmente, porém, mais uma vez me decepciono. Acredito que terei de marcar uma consulta com a pediatra e descobrir o motivo de Annie não ter falado ainda. Já havia pesquisado e descoberto que algumas crianças tinham dificuldade para falar com coerência, contudo, sempre havia algum som, mesmo que fosse apenas a palavra “mamãe” ou “papai”.

— Millie.

A loira, que estava guardando as peças de lego dentro da caixa transparente, ergue os olhos.

— Ela não tentou falar?

Os ombros de Millie caem.

— Não. Sinto muito.

Aceno.
Volto para Annie e sorrio.

— Vamos tomar banho? — Começo a correr para o banheiro enquanto Annie gargalha alegremente.


Encaro Annie dormir na minha cama. Hoje resolvi que queria ela nos meus braços invés de deixá-la no berço. Sentia que tinha de protegê-la mais do que nos outros dias. A porta do quarto é aberta, revelando Rachel e Holly com sorrisos tímidos no rosto. Elas entram no quarto com um prato de brigadeiro que tinha feito no dia anterior.

— Acho que você não nos contou como foi o encontro com o bonitão — Holly sussurra.

Reviro os olhos. Não sei por que me deixei iludir que elas haviam se esquecido disso, estava tão compenetrada em me preocupar com Annie que deixei essa história de lado e me dediquei ao máximo em dar atenção a minha filha.

— Bom, não foi um encontro.
— Não, no entanto ele queria algo com você.
— Sim, ele não sabia o que, mas queria.
— O que? — Rachel ergue a voz e lhe direciono um olhar reprovador. — Desculpa.

Olho para Annie e ela continua dormindo calmamente.

— Ele está confuso. Parece que estamos num impasse. Ele não para de pensar em mim desde que nos vimos ontem e precisava me ver hoje.
— Bem que percebi que ele estava procurando alguém, deveria supor que era você — Rachel afirma. — Só que estava tão perturbada com as cantadas daquele amigo dele que acabei me distraindo.
— Erik? — Rachel vira-se para mim assustada.
— Você o conhece?
— Claro, ele trabalha para o FBI. Foi Erik que me trouxe para Nova York.

Holly arregala os olhos.

— Caramba! — Holly exclama. — Nem reparei no cara que estava com ele. Mas você comentou que o nome dele era Erik. Que louco! Será que trabalha para o FBI também?

Franzo o cenho.

— Não tenho ideia. — Lembro-me do pedido de Erik ao telefone mais cedo — Erik me ligou mais cedo, disse para não dizer a sobre me conhecer. Ontem ele ficou esquisito quando o vi e não parecia querer que demonstrasse que nos conhecíamos. Obvio que resolvi ignorar o bichinho da curiosidade e vou continuar assim. Erik me ajudou quando não tinha por onde escapar. Não sei como seria se ele não tivesse me enviado para cá, com certeza Annie teria ido para adoção e eu estaria perdida.
— Calma aí, ! — Rachel mais uma vez exclama alto demais. Ela olha para Annie e sorri envergonhada — Se não tivesse encontrado ele, teríamos arranjado um jeito de trazê-la para cá, você sabe que tenho dinheiro guardado.
— Tenho certeza que sim, mas quem tiraria Jayden da minha cola? Quem me daria uma nova identidade? Quem forjaria os resultados dos meus exames? Jayden acredita piamente que perdi o bebê. Vocês duas são minha família, entretanto, não poderiam me proteger do chefe do tráfico de mulheres.

Elas acenam.
A lembrança das palavras de Rachel logo antes me desperta e me anima, por finalmente desviar a atenção de mim.

— Quer dizer que Erik está interessado em você?

Rachel arregala os olhos e suas bochechas ficam vermelhas. Holly e eu começamos a gargalhar de forma controlada para não acordar Annie.

— Não disse isso. Ele estava cheio de cantadas e foi um saco.
— Sei... — Holly murmura ironicamente.
— Para a informação de vocês, não estou interessada nele. Conheço aquele tipo.
— Que tipo? — questiono.
— O tipo galinha.

Holly e eu caímos na gargalhada mais uma vez.



Capítulo 06

Perdendo o controle

Fazia menos de doze horas desde que a vi, mas a necessidade louca de apenas olhar nos seus olhos verdes e puxados nos cantos, me deixa à beira da loucura. parece ter penetrado o meu cérebro de forma inacreditável. Nas duas últimas noites, os meus sonhos foram dedicados apenas a ela. O seu sorriso sempre era o que me despertava pela manhã e me permitia ter um dia agradável. No entanto, depois de ir almoçar no Your Food e não vê-la – como já era previsto –, fiquei tenso. O único fato que me deixava mais tranquilo era que na terça eu a veria.
Apenas isso.
Estou relendo alguns casos antigos que foram fechados por falta de provas, enquanto Erik está na sala de Griffin. Ao que parece, teremos um novo caso e deve ser bem sigiloso para Erik ser chamado na sala do cara.
O caso que estou lendo é de um homem que foi assassinado na calada da noite. Havia sido encontradas provas de que ele havia sido traído pela esposa e de que brigavam noite e dia. A principal suspeita era a esposa. Na noite do ocorrido ela estava em casa, na cama do casal, e foi encontrada ao lado do marido morto. A garganta do homem havia sido cortada, sendo impedido de gritar. Já a esposa, estava sobefeito de remédios para dormir, por isso foi inocentada.
Não descobriram quem havia cometido o crime. Tentaram entrar em contato com o caso extraconjugal da mulher, no entanto, ele havia sumido do mapa há uma semana. Logo em seguida, ele foi encontrado morto do mesmo jeito em um quarto de hotel. Nas anotações do caso, a mulher ficou em choque quando viu as fotos do amante morto e teve de ser internada por seis meses para se recuperar.
Por falta de suspeitos e provas, o caso foi arquivado. Entretanto, algo nele me chamava atenção. Por que alguém mataria o marido e o amante? Essa pessoa só poderia ser um homem interessado na mulher. O FBI poderia apostar nisso, porém, ninguém havia entrado em contato com a viúva. Ela estava sobproteção nossa, acredito que isso estava afastando quem quer que tenha assassinado os caras.
O ruído de uma pasta de papel caindo sobre uma mesa desvia a minha atenção das páginas.
Erik está na minha frente, em sua mesa, com uma cara nada boa.

— O que houve? — Olho para a pasta grossa e desgastada — Caso antigo?
— Não te interessa, — sibila.

Ergo a sobrancelha.
Levanto-me e sigo direto para a sua mesa. Antes que Erik tome os papéis da minha mão, vejo o nome Smith.
Minha respiração falha e um calafrio percorre a minha espinha. Desejei esse caso nos últimos três anos, até mesmo pedi para Griffin. No entanto, meu pedido nunca foi atendido. Agora, aqui estava à oportunidade de pegar esse desgraçado, entregá-lo a justiça e vê-lo pegar prisão perpétua ou, caso tenha sorte e ele for pego no sul do país, cadeira elétrica.

— Você não vai fazer parte dessa investigação — Erik afirma.
— Por quê?
— Está ligado demais a tudo isso.
— E você não está?
— Minha esposa não morreu por causa desse miserável.

Respiro fundo. Tento controlar a raiva que perfura os meus poros. Aperto os punhos e cravo as unhas nas palmas até sentir furar a carne. Sei que essa ferida ficará feia, porém, é a única coisa que me segura para não dar um soco na cara de Erik.
Não vai adiantar argumentar com ele. Conheço-o suficiente para saber que ele é mais persistente que eu. Então, resolvo fazer a única coisa que me resta. Socar alguns sacos de areia até sentir os meus músculos ficarem moles.


Tive dificuldades para pilotar a moto até o meu apartamento. Minhas mãos tremiam de forma descontrolada e teve momentos que pensei que perderia o controle por completo, causando um maldito acidente.
Estava furioso com Erik. Ele sabia quanto esse caso era importante para mim. Não era apenas vingança, mas uma dívida que tinha com a minha falecida esposa e precisava cumprir. Custe o que custar.
Depois de chegar em casa, me dirijo para o banho. A água quente aliviaria a tensão nos meus ombros e relaxaria os músculos dos braços e pernas. Até porque, quando meus braços estavam moles demais para socar o saco de areia, me dediquei à tarefa de chutá-lo. No entanto, a exaustão foi mais rápida e acabei caindo sobre o tatame.
Como esperado, a água alivia o meu corpo e quase desmaio dentro do boxe. Talvez devesse ter optado pela banheira, assim poderia tirar um cochilo longo. Contudo, minhas mãos estavam fracas demais para arrumar os sais de banho. Nem mesmo havia removido as roupas. O meu corpo começa a deslizar pela parede – e sei que não serei capaz de me levantar por um bom tempo –, então, antes de estar completamente sentado no piso liso, fecho o registro da água.
Quando desperto, me surpreendo com ruídos vindos da sala. Meu primeiro pensamento é me levantar e pegar a arma que fica escondida debaixo da pia do banheiro, no entanto, o corpo reclama de um simples respirar, não quero nem imaginar como seria com um movimento rápido. Contudo, ao mesmo tempo em que estou pensando em várias frases que poderia dizer antes de morrer, Erik aparece no vão da porta com uma expressão preocupada.

— Por que não atendeu o celular?

Olho para chão cinza chumbo, ignorando meu amigo de infância como uma criança birrenta. Se tivesse forças, acabaria com ele. Tinha consciência que estava muito melhor que ele numa luta corporal e estava me esforçando para melhorar no tiro a distância. Não sentia vontade de ultrapassá-lo em nada, nunca senti, entretanto, precisava de todas as habilidades possíveis para pegar Smith. Trabalhando no caso dele, ou não.

— Vai fingir que não estou aqui? — bufa. — , não posso te meter nessa história, você vai perder o controle. Vi como reagiu quando soube da morte dela e sei que vai enlouquecer quando vê Smtih na sua frente. Estou pensando no melhor para você e para o caso. Tente me entender.

Ergo a cabeça com rosto vermelho de raiva. Não tinha força nos braços, porém, minha boca ainda podia trabalhar com as palavras.

— Acha mesmo que colocaria em risco algo que Annie trabalhou tanto para conseguir resultado? Acha mesmo faria com que a morte dela fosse em vão? — estou gritando e posso sentir a minha garganta arranhar a cada palavra. — Ela deu a vida dela para defender aquela garota, ela deu a vida dela por esse caso. Jamais colocaria tudo a perder. Dane-se o ódio que sinto por esse desgraçado. Seria o primeiro a dizer que temos que tomar cuidado e pegarmos esse infeliz. Quero estar no julgamento dele e vê-lo sendo condenado. Quero vê-lo sofrer.

Erik me encara silenciosamente e sai do vão da porta em direção ao meu quarto, quando retorna, suas feições estão do mesmo jeito.

— O arquivo está em cima do criado mudo. Acho bom dormir antes de ler aquela merda. Já sei onde o infeliz está e teremos de viajar amanhã à noite para pegarmos ele.

Aceno.
Meu amigo vira-se para sair do quarto e provavelmente do apartamento. Antes pronuncio o mais sincero agradecimento:

— Obrigado.

Erik me encara por cima do ombro, ergue o braço e bate continência. Dou um sorriso fraco.

— Quer que te leve até a cama? Você parece acabado.
— Agradeceria imensamente.

Erik me tira do boxe, me carrega pelos ombros até o quarto e minha cama. Já sobre a cama, ele remove as minhas roupas molhadas e me cobre com o cobertor. Antes que possa agradecer mais uma vez, o sono me devora.
Quando despertei, a primeira coisa que pensei foi que precisava de donuts. Então, resolvi levantar a minha bunda da cama e correr até a primeira Dunkin Donuts. Contudo, quando peguei a chave de casa que estava sobre o balcão, uma caixa da melhor loja de donuts estava lá.
Obrigado, Erik.
O meu amigo sabia que para ler o arquivo que estava no meu quarto, precisaria do meu doce preferido.
Sigo para o meu quarto, pego o arquivo grosso e amassado, depois retorno para a cozinha. Descanso a pasta sobre o balcão, sento-me em uma banqueta, abro a caixa de donuts e começo a devorá-los. O começo do arquivo não há nada de novo, então passo algumas páginas. Noto que o nome da garota que estava envolvida com Smith não é mencionado em nenhuma parte e imediatamente fico surpreso. Lembro-me vagamente que Annie havia comentado o nome , mas não conseguia me lembrar do primeiro. Além disso, tinha certeza que ela não deixaria de lado o nome de uma personagem importante nessa trama toda.
Com isso, resolvo mandar uma mensagem para Erik.

: Está faltando informações no arquivo.
Erik: Não, levei ele completo.
: Então ele foi entregue a você incompleto.
Erik: Por que acha isso?
: Não tem o nome da namorada do Smith.
Erik: Para a sua informação, o nome dela foi cortado da papelada. A garota está sobproteção do FBI nos últimos anos e não pode ser colocada no meio disso tudo. Não tenho mais informações sobre o assunto. Apenas pegue essa merda de papelada, leia e tire suas conclusões.

Com o ultimato de Erik, torno a ler o arquivo.
No decorrer da leitura, noto que Smith tem deixado mais rastros do que antigamente. Até parece que ele quer ser pego, a não ser que esteja apenas descuidado. Erik me informou há um ano que a garota que vivia com ele não tinha ideia do que o cara fazia. Tentei contestar com ele, porém, não fui permitido a expor minha opinião.
Acreditava que essa garota só estava vigiando o FBI e informando os nossos passos para Smith. Caso fosse mentira, podemos perder de vez as nossas chances de pegar esse cara. No entanto, se isso fosse realmente verdade, não haveria tantos rastros de Smith em um dossiê.
Quando os meus olhos caem sobre as cidades e países que Smith tem visitado nos últimos três anos, percebo uma igualdade ao tempo em que ele ficou nos lugares. Duas semanas no máximo. Uma foto dele tinha sido enviada para todos os aeroportos do país, entretanto, ele continuava pulando de um lado para o outro como se fosse algo comum. Um criminoso que viaja muito. Por ironia do destino, ou simplesmente sorte, ele estava no Texas há uma semana, ou seja, era nossa chance de pegá-lo.

: Já arrumou as suas malas?
Erik: Sim, já estou descendo.

De acordo com os nossos dados, Smith estava próximo a uma cidade chamada Waco. Assim que chegamos à cidade, alugamos um quarto duplo em um hotel meia boca. Não pretendíamos ficar mais de três dias no lugar, assim como era provável que não conseguíssemos pegar Smith nessa viagem. A ideia era marcar território e descobrir quais são os planos que o traficante tem ou teve nos últimos anos. Havíamos alugado um carro para que pudéssemos nos locomover de forma rápida, eficaz e discreta.
Pego minha bolsa e começo a retirar minha Magnum juntamente com a munição. Erik tinha trazido um estoque para ser distribuído pelo local, até porque não sabíamos se precisaríamos de proteção contra qualquer acaso. Recarrego a Magnum e ponho no cós da calça. Sairemos em busca de um hotel fora da cidade, o mesmo que Smith está hospedado.

— Segundo andar, quarto sete — Erik anuncia.

Pego o bloco onde anotei o número do nosso quarto quando fiz a reserva.

— Estamos no quatro, segundo andar.
— Será ótimo, não é muito perto. O bom dessa operação é que não será barulhenta e poderemos pegar alguma informação.
— Deveríamos pegar um dos caras que trabalham para ele.
— Não sei se acho uma boa ideia.

Ergo os olhos do bloco de notas e franzo o cenho. Erik sabia que essa tática tinha dado certo comigo no passado, seria prático e fácil, sem muitos riscos. O problema era conseguir um lugar para interrogar o cara.

— Isso pode ter dado certo com você e Annie. — Encolho com o pronunciar do nome — Mas não vai acontecer de novo. Não podemos arriscar perder Smith de novo. Estamos com o FBI seguindo os seus passos, se conseguirmos pegar ele em uma transação, será o que precisamos para prendê-lo.
— Tínhamos que prendê-lo logo.
— Sabe que não podemos. O desgraçado nunca deixa rastros. Sabemos que ele faz tudo isso, mas precisamos de provas. Se prendermos ele por desconfianças, mesmo tendo certeza, ele irá escapar rapidamente e poderemos perder a chance de vez.

Dou um suspiro.

— Não sei por que estamos aqui.
— Sabe sim. — Erik se aproxima com sua expressão profissional e tensa — Temos informações sobre ele, contudo, como o caso foi passado para nós, precisamos ter certeza que os dados no dossiê estão certos. Desde Donald, o FBI tem guardado esse caso entre sete chaves, somos privilegiados por isso.

Em nossa viagem até o Texas, havia refletido bastante sobre o motivo de este caso ter vindo para Nova York e principalmente para as mãos de Erik. Não sou estúpido de pensar que era apenas por causa do seu bom nome como agente. O FBI não fazia nada por acaso. Eles haviam dado esse caso para o meu amigo, não para um colega de trabalho. Eles sabiam que iria trabalhar nesse caso. Eles sabiam que eu faria o possível e o impossível para ver Smith atrás das grades.
Entretanto, não poderia dizer isso a Erik, ou ele abandonaria o caso e eu sabia que Griffin não me entregaria algo com uma ligação tão pessoal.

— Eu sei.

Erik coloca sua Glock no cós da calça, se direciona até a porta de entrada e eu o sigo. O hotel antigo de paredes amareladas e piso barulhento – a cada passo era um rangido diferente –, era o pior que tinha entrado após tantas missões dentro e fora dos Estados Unidos. Porém, todas as nossas missões eram assim, ficávamos nos piores lugares e pagávamos outro hotel como reserva. Pelas fotos que tínhamos adquirido, o lugar que Smith está hospedado é bem melhor do que o nosso, o que me deixava mais confortável, até porque teria de dormir no lugar velho e sujo, não iria gostar de trabalhar em um semelhante.

— Não gosto desse lugar.
— Sabe que é o melhor disfarce.
— Acho que você é paranoico. Se fosse um criminoso, meu primeiro pensamento era de que agentes atrás de mim estariam em lugar nojento como esse.

Erik ficou silencioso.

— Devíamos ficar no mesmo hotel que ele. Ele não irá ao nosso quarto nos matar.
— Sabe que ele pode ter os nossos nomes e fotos, certo?

Bufo.

— Sei, Scott. Mas não tenho muita coisa a perder.

Quando saímos do hotel, o carro alugado, que por incrível que pareça é novo, um Corolla preto, está estacionado em frente ao nosso quarto. Logo estou no banco do passageiro e Erik no do motorista e, assim que estamos pronto, ele dá a partida.
Desde o acidente fatal, não tenho tocado no volante de um carro. Nem mesmo havia tentado. Não sei se teria psicológico para isso. Posso não ter visto o acidente, porém, só de pensar em como foi terrível para Annie estar detrás do volante, grávida e com uma única forma de sobreviver, sendo ela correr desesperadamente com um veículo, fazia com que meu coração acelerasse e o pânico adentrasse os meus poros.
Assim que chegamos ao hotel, penso se não seria melhor que ficássemos no carro e analisássemos as nossas chances dentro dele. Contudo, ter um carro parado com dois caras chamaria muita atenção e era tudo que não queríamos. Saímos do carro de óculos escuros. Não tínhamos como disfarçar de forma mais simples, o sol do Texas estava queimando nossa pele e era um ótimo pretexto para evitarmos contato visual.
Como dizem, os olhos são a janela da alma, e tinha certeza que eu e Erik não transpareceríamos nada além de ódio por Smith.
Subimos para o segundo andar do prédio na cor gelo, logo estamos em frente a porta cinza e não hesitamos em entrar. Como esperado, o hotel é razoável, nada comparado com os hotéis da Holanda. As paredes em um cinza mais aproximado ao violeta deixam o ambiente tranquilo, duas camas com os seus lençóis brancos, uma mesa de mogno com duas cadeiras, uma TV velha, um frigobar e uma porta que leva até o banheiro. Me jogo sobre a cama e respiro aliviado por constatar que a própria é tão confortável como imaginei.

— Pode dormir um pouco, ficarei de vigia — Erik informa.

Ergo-me da cama e olho-o esperançoso e preocupado. Não havíamos dormido no voo, refletindo sobre como seria e o que aconteceria se realmente déssemos de cara com o traficante. Resolvemos algumas questões e afirmei que não perderia a cabeça se visse o cara. Pelo menos esperava que não.

— À vontade, não estou cansado. Já você está horrível e não sei se serei capaz de olhar para essa sua cara de semimorto.

Dou uma risada sem graça e volto a me deitar.


, acorde.

Abro os olhos, confuso com o sacolejar. O rosto preocupado de Erik toma minha visão e é como uma injeção de adrenalina, ergo o corpo com rapidez, pronto para o que estiver por vir.

— O que houve?
— Fiquei de vigia e não ouvi nenhum ruído. Saí algumas vezes para conferir se realmente tinha alguém no quarto e nada. — Ele me encara receoso — Acho que eles não estão mais aqui. Talvez os nossos dados estejam errados.

Aperto os punhos.

— Estamos perdendo tempo.
— Não exatamente.

Levanto os olhos com uma expressão questionadora.

— O que quer dizer?
— Lembra de Ryan? — Aceno. — Podemos fazer a mesma coisa com o cara que acabou de entrar no quarto. Pela forma que ele agiu, com certeza está dentro dos esquemas do Smith.

Levanto-me, pego a Magnum que deixei sobre a mesa de cabeceira e ponho-a em punho, verifico a munição e olho para Erik, determinado.

— Vamos.

Erik acena e saímos do quarto.
Já anoiteceu, não há nenhum resquício de sol, o que me faz constatar que dormi mais do que suficiente, enquanto Erik está virado e provavelmente exausto. Assim que chegamos à porta do quarto, ela está entreaberta, o que nos dá oportunidade de entrar rapidamente, sem nenhum estardalhaço. Olho para Erik e fazemos uma contagem labial, quando chegamos ao três, entramos.
O lugar está mal cheiroso. Não há nada de novo nele, a decoração é exatamente igual ao do quarto em que estamos, entretanto, o lugar parecia ter se transformado em um verdadeiro chiqueiro. Embalagens e caixas estavam espalhadas por todo lado e até mesmo poderia ouvir ruído de moscas. As camas estavam desarrumadas, lençóis espalhados para todo lado. Um verdadeiro terror.
No canto do quarto, um homem baixinho de cabelos avermelhados está paralisado e de olhos arregalados. Começo a me aproximar do homem, porém sou surpreendido quando ele puxa uma faca de caça do cós da calça e direciona até a garganta. Os meus olhos quase saltam do rosto e um desespero percorre todas as minhas veias, um grito mudo toca minhas cordas vocais e apesar da minha proximidade com o homem, não sou capaz de impedir a fatalidade. Sangue começa a esguichar, meu coração está aos pulos no peito e sinto o ar me deixar com a cena minha frente. Um zumbido toca o meu ouvido e sei que estou à beira de um acesso de pânico ou raiva. Minha pele queima e minha mente percorre uma nuvem sombria me fazendo perder completamente o controle.
Uma única chance e a perdi. Mal começamos e já estamos perdendo as cartas. Uma dor lancinante toca alguma parte do meu corpo e não sou capaz de perceber de onde ela vem, nem onde está. Só sei que ela está presente.

— Merda — uma voz ao longe sibila.

Pisco várias vezes, tentando entender o que está acontecendo. Sei que perdi a noção e estou navegando na minha mente ferrada, apenas tenho certeza que minha chance de pegar Smith foi-se embora.

— Sabia que não poderia colocá-lo nessa missão. Em algum momento você perderia a cabeça.

A dor se intensifica cada vez que minha mente torna a realidade. Os ruídos na rua, o ar-condicionado trabalhando, minha respiração entrecortada e um ruído de agonia que escapa fracamente do fundo da minha garganta.

— Deixe-me ver isso — Erik se aproxima, pega minha mão direita e quase dou um berro com a dor que perpassa o meu pulso. — Com certeza está quebrado. Vamos até um hospital e em seguida para casa, não temos mais nada para fazer aqui.
— O homem...
— Sabe o que acabamos de ver e o que isso significa.

Sim, eu sabia. Essa era a certeza que precisávamos. Smith era muito mais perigoso do que imaginávamos, por isso o homem preferiu morrer a sofrer as consequências que viria caso algo escapasse dele. Ou seja, Smith teria algo guardado para qualquer um que o traísse e seria muito pior que morte.





Continua...



Nota da autora: Sem nota.





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