Última atualização: 18/01/2018

Antes de começar a ler, acesse a primeira parte dessa história em: Antes de Tudo - Outros/Finalizada, no site Fanfic Obsession.


Prólogo

A jovem desliza os dedos pelo ventre, enquanto lágrimas quentes rolam pelo canto dos olhos. Ela se mexe para chegar até sua amiga, porém, as correntes a prendem a outra extremidade do quarto. Os seus cabelos castanhos estão sujos, por causa dos dias sem limpeza. Os seus olhos verdes estão afogados num mar de vermelho.
A morena sabe que não possui poder algum sobre a situação que se encontra, sua única esperança é que o pai do seu bebê venha em sua busca. O medo a corroia. Se o homem que a mantém em cativeiro descobrisse sobre a criança, tudo estaria perdido. Ele não hesitaria em acabar com a sua vida.
O seu peito ardia com a visão da amiga imóvel. No seu íntimo, ela ansiava que a amiga ainda estivesse viva, porém, a realidade era bem diferente.
A porta do quarto é aberta. A morena estremece. A mulher que tem lhe atormentado nos últimos dias adentra o espaço, com um sorriso perverso nos lábios. A jovem sabia que estava em apuros. Sempre era assim. Se o homem dos seus pesadelos era ruim, a mulher era terrível.

— Quer tocar na sua amiguinha? — a voz fina perfura os seus tímpanos.

A mulher se aproxima do corpo frio e puxa a cabeça da jovem morta. Uma gargalhada se espalha pelo ambiente e mais uma vez a jovem de olhos verdes estremece.

— Em breve, você fará companhia a ela.

Em seguida, ela sai do quarto, fechando a porta em um baque.
Um soluço sobe a garganta da moça caída sobre o colchão sujo e puído.
A única coisa que desejo é o bem do meu bebê, e para isso preciso ficar firme. Deus me ajude! A jovem pensou antes de se debulhar em lágrimas.



Capítulo 01

Funcionária nova

Entorno o café na garrafa térmica e volto para o fogão. Analiso tudo que está no fogo para ter certeza que nada irá queimar. Abro os armários que ficam acima do balcão, pego os pratos e canecas, em seguida, abro a gaveta dos talheres e pego três conjuntos. Quando volto para o fogão, tudo está no ponto. Rachel, ovos levemente queimados assim como o bacon, panquecas no ponto com um tablete de manteiga em cima; Holly, ovos com a gema mole e bacon no ponto em um prato, no outro coloco uma montanha de panquecas junto com chantilly e xarope maplé. Para mim, apenas um amontoado de panquecas com xarope maplé, e um bacon no ponto, em outro prato.

— O café está pronto, se apressem, caso não queiram comer frio — clamo por elas.

Abro a gaveta especial do armário e retiro uma colher de plástico em companhia de uma tigela de ursinhos. Pego o cereal na porta do balcão de ferro, despejo na tigela e derramo leite sobre o cereal.
Após essas tarefas, viro-me para a garotinha, de quase três anos, sentada na cadeirinha de bebê. Ela sorri para mim e dá uma risada gostosa. Levo o seu cereal e ela começa a comer sem cerimônia.

— Mais uma vez — Rachel resmunga ao ver Annie com uma colher e a boca cheia de cereal. Ela se abaixa para beijar a testa da minha menina e faz um bico — Quando você vai se atrasar para o café?

Annie dá uma risada, aquecendo o meu coração.
Lembro-me bem de quando acordei em uma madrugada gelada de fevereiro e tivemos de chamar um táxi às pressas. A minha garotinha ia nascer. Assim que os meus olhos encontraram o seu rosto angelical, não pude segurar as lágrimas. Annie era o bebê mais lindo que já tinha visto. Ela nasceu careca, olhos verdes iguais aos meus e uma boca de coração. Com o passar dos meses, constatei que ela seria uma loirinha, assim como a dona do nome que lhe dei.
Parar de pensar na agente federal me corroia a alma. O seu bebê deveria ter uma idade parecida a da minha menina, no entanto, essa possibilidade se foi juntamente com a agente Annie.
Rachel se aproxima do seu café da manhã, me agradece e faz um coração no ar. Acabo rindo do gesto bobo, e que se repete toda manhã. Minha amiga senta-se de frente para Annie, ela joga os cabelos ruivos para o lado e começa a devorar o prato. Logo, Holly aponta no corredor, com cara de sono e cabelos armados. Me seguro para não rir.

— Guah — Annie anuncia apontando para Holly. Essa é minha deixa para rir.
— É Holly, lindinha — Holly afirma.

Reviro os olhos.

— Você sabe que ela ainda não aprendeu a falar.
— Sim, eu sei. — Ela olha para a minha filha como se estivesse analisando-a — Tenho vontade de saber a língua dos bebês apenas para conversar com ela. Os assuntos de Annie parecem bem mais interessantes que os nossos.

Mordo o meu polegar.

— Não está preocupada com ela? — Rachel indaga. Há um vinco entre suas sobrancelhas — Annie já tem quase três anos e não falou nada coerente.

Havia meses que não parava de pensar nisso. E todas as vezes que marcava uma consulta com a pediatra, acabava cancelando em cima da hora. Contudo, precisava levar minha menina urgentemente ao médico. Não podia ser normal uma criança levar tanto tempo para dizer a primeira palavra.

— Marquei uma nova consulta com a pediatra.

Rachel acena.
Annie come o último resquício de cereal, depois entorna a tigela com leite sobre a boca. Ela sorri com a boca toda suja, assim que abaixa a tigela. A campainha começa a tocar e já sei que é Millie. Corro para a porta da frente e encaro um sorriso insosso no rosto da mulher loira de olhos castanhos.

— Algum problema? — questiono.
, sinto muito. — Ela morde o lábio nervosamente — Terei de resolver um problema no banco e não vou poder ficar com a Annie hoje.

Dou um suspiro cansado. Não é a primeira vez que isso acontece. Desde o dia que resolvi ir para o trabalho e deixar Annie em casa com Millie, tenho sofrido com esse tipo de falta. Millie vivia com a mãe e quem acabava resolvendo os problemas era a menina. Nós tínhamos quase a mesma idade, entretanto, a falta de estatura de Millie junto com a carinha de anjo, deixava a minha percepção bem confusa.

— Desculpe não avisar antes, mas recebi a ligação há pouco tempo.
— Está tudo bem, Millie. Vá resolver os seus problemas, vou dar um jeito por aqui.

Dou aceno e sorrio com os lábios.

— Obrigada, .

A garota sai apressada até a porta da frente e sai.
Fecho a porta e torno para a cozinha. A última vez que levei Annie para o trabalho, Glenn disse que estava terminantemente proibido, ou seja, não queria ver minha filha ali nem pintada de ouro. Glenn era o dono da lanchonete, Your Food – nome bem original. Esse foi o lugar que acolheu Rachel e que a tem mantido na cidade de Nova York até hoje, além disso, a lanchonete era a melhor do Brooklyn.
Your Food é o lugar onde libero a minha alma. A cozinha é o meu lugar. O movimento era grande, porém, gostava de trabalhar sozinha. Sentindo a adrenalina no sangue. Rachel havia conseguido o emprego pra mim, assim que o meu resguardo acabou. Sim, Annie ia comigo todos os dias. Até porque, não poderia me dar ao luxo de ficar sem trabalhar e muito menos de ficar longe da minha filha, ela era muito novinha para deixá-la com uma babá. Glenn sabia dos riscos que corria com a menina dentro do seu estabelecimento, contudo, ele se importava demais comigo e com as meninas – além de ser um coração mole.
Assim que Annie completou um ano, resolvi diminuir o leite de peito. Não poderia manter a situação por mais tempo, e muito menos colocar o meu chefe em saia justa com a justiça. Foi assim que soube do serviço de babá da Millie e como o que ganhava só era para a Annie, resolvi pagar uma pessoa conhecida para cuidar dela. A melhor decisão que tomei. As duas se davam tão bem que pareciam ser da mesma família.
Então, eu trabalhava como a cozinheira do primeiro turno do Your Food e as meninas como as garçonetes. Nunca fui de me gabar, contudo, os nossos horários eram os que davam mais movimento no lugar. E tenho certeza, que se não tivesse uma filha pequena, Glenn me contrataria por dois turnos, assim como as meninas. Como os clientes diziam? Ah, elas tinham carisma.

— Millie não vai poder ficar com Annie — falo baixinho, me sentando em meu lugar ao lado da minha filha. Há uma tigela com pedaços de morango, mamão e melancia. Levanto os meus olhos e Holly pisca para mim.

Em momento algum me esqueceria da força que Holly e Rachel me deram quando tive de vir para Nova York.
Após a minha saída do hospital em São Francisco. Erik me hospedou em um hotel e logo no dia seguinte partimos para Nova York. Não tinha nada. O agente foi o meu benfeitor nos primeiros dias, ele comprou roupas para mim e pagou minha passagem. Mesmo que ele estivesse fazendo o seu trabalho, não sei se qualquer um seria tão bom para mim quanto ele. Podia imaginar a minha vida sem a chegada da polícia no apartamento de Jayden. Provavelmente estaria morta. Os bens do apartamento foram confiscados na época e mesmo que liberassem alguma peça de roupa, rejeitaria até o fim. Tudo que vem das mãos de Jayden, eu quero distância. A única coisa que não posso mudar é o sangue que corre nas veias da minha filha. Entretanto, ensinarei até o fim como ser um cidadão que se preze. Sei que não sou perfeita, mas pelo menos tenho respeito pela vida humana.
Chegando em Nova York, Erik me levou de carro até o condomínio de Rachel e Holly. Ele não chegou a subir, até porque minha amiga de cabelos negros e olhos esbugalhados, estava à minha espera, com um sorriso nos lábios. Ela pegou a mochila com as poucas roupas que foram compradas, agradeci a Erik por tudo e segui minha amiga para o prédio de tijolos.
As duas me receberam com abraços e beijos, enquanto engolia o nó que se formava na minha garganta. A dor de ter sido traída e enganada corroia cada célula do meu corpo. Saber que o meu bebê iria crescer sem um pai era ainda mais doloroso. Eu estava perdida no meio de uma confusão muito grande e complicada, todavia, tinha duas amigas maravilhosas que me deram colo e não iriam me abandonar por nada. Estando nos braços delas, diante de tanto amor. Acabei me entregando as lágrimas e aos soluços.
Foram semanas e mais semanas com noites em claro, deixando as lágrimas me inundarem. Permitindo que a dor fluísse para fora de mim. Os meus olhos viviam inchados, a dor no peito era grande. A decepção tinha tomado conta do meu corpo. Porém, quando vi a minha menina nos meus braços, toda a dor e decepção valeram a pena. Sempre valeria pela minha Annie.

— O que você vai fazer? — Holly indaga.

Olho para Annie, mastigando suas frutas e nos observando. Os seus olhos verdes grudam nos meus e ela sorri de boca cheia, faço um bico para lhe enviar um beijo e ela solta uma risada.

— Vou ficar em casa.
— Você sabe que não pode — Holly afirma. Volto os meus olhos para ela — Se você não for, é a mesma coisa que fechar a lanchonete. Na sua folga, aquele lugar fica vazio. Já disse, o cozinheiro que fica no seu lugar é sinistro.
— Demais — Rachel concorda.

Alessio, o cozinheiro substituto, era mesmo estranho. Perdi as contas de quantas vezes Glenn falou sobre os hábitos estranhos de Alessio. Primeiro, ele montava várias velas ao redor da cozinha e cantava uma música estranha. Em seguida, ele alisava todos os alimentos e só assim começava a cozinhar. As meninas diziam que era algum tipo de bruxaria, por isso, elas nunca passavam para a cozinha quando tinham que trabalhar à noite.

— Eu fico com a Annie — Holly murmura, dando um sorriso malicioso para a garotinha loira. — Assim, podemos colocar a casa a abaixo.
— Oh meu Deus! — Rachel exclama. Quando olhamos para Annie, ela está com um sorriso igual ao de Holly. O que nos faz cair em gargalhadas.

Termino o meu café da manhã, com a minha filha ao lado. As meninas voltam para o quarto, pois precisam de um banho. Quando termino de comer, ainda tem frutas na tigela de Annie, então resolvo lhe dar na boca.

— Você poderia dizer mama.

Pego a primeira colher, enquanto Annie olha para mim com curiosidade. Solto um suspiro exasperado.

— Meu amorzinho, estou ficando preocupada. Se você não falar logo...

Não queria pensar nas possibilidades. Se Annie tivesse algum problema seria muito mais complicado. As contas já eram altas, o meu salário acabava no mesmo dia que recebia. Fraldas, leite, roupas, tudo era necessário para a minha filha. Eu ganhava um bom dinheiro com o trabalho de cozinheira, porém, uma pequena parcela era depositada em uma conta. Inicialmente, o dinheiro era para que eu pudesse pagar uma faculdade futuramente, no entanto, não poderia mais pensar em mim, e sim na criança que tinha para cuidar. Então, acabei decidindo que essa mísera quantia, que depositava todo mês, seria para o futuro de Annie. Ela poderia construir algo quando crescesse como nunca tive essa oportunidade, precisava dar a ela.
Contudo, se apresentasse algo diferente na saúde dela... Eu iria limpar a conta no banco e fazer o possível para que minha filha tivesse o máximo de assistência.

— Mah — Annie resmunga. Quase derrubo a tigela de frutas quando escuto sua voz. Volto os meus olhos para a minha pequena. Há uma ruga entre as suas sobrancelhas, como se ela estivesse fazendo muito esforço — Maaaaaaaaaaaaaaah!

Sorrio.

— Bom, é alguma coisa.

Forma-se um sorriso de orelha a orelha no meu rosto. Coloco a tigela de frutas sobre o balcão, tiro Annie da cadeirinha e começo a beijar o seu rosto, provocando risadas nela. Me dirijo para a sala, agarrando a garotinha e enchendo-a de beijos.

— Eu adoro essa risada — Rachel informa, assim que aponta na sala.
— Eu também.
— Agora vamos.

Levanto-me do sofá com Annie ainda nos braços e me dirijo à porta. Holly aparece vestida com o seu pijama de coelhinhos e com os cabelos amarrados no alto da cabeça. Rachel abre a porta, enquanto coloco minha filha no chão e lhe dou um beijo na testa.

— Se comporte. — Ela balança a cabeça em resposta.

Apesar de ainda não falar, Annie compreendia tudo que falávamos. Quando perguntávamos se ela queria algo, a resposta era um aceno de cabeça. Fora a questão da fala, nada me preocupava. Foram pouquíssimas as vezes que Annie ficava doente, e ela era uma garota bem ativa. Vivia correndo pela casa. Perdi as contas de quantas vezes cheguei do trabalho e encontrei ela e Millie ofegantes.
Annie gostava de brincar de esconde-esconde. Millie era maravilhosa com ela. Eu como mãe, adorava fazer qualquer coisa com a minha filha. Entretanto, não é todo mundo que suporta fazer a mesma coisa repetidas vezes. Millie era diferente, parecia ter nascido com o dom de cuidar e lidar com crianças.
Assim que chegamos ao ponto de ônibus, o mesmo para no ponto. Se tivéssemos ficado mais alguns segundos em casa, teríamos de ir a pé. Até o transporte andar por todo o Brooklyn, estaríamos perdidas. É óbvio que não possuí apenas um ônibus para o número de habitantes de um dos bairros mais conhecidos de Nova York, contudo, o lugar é enorme e até passear e transportar todos... Os ônibus costumavam demorar em torno de trinta minutos. Sim, também precisávamos de mais, só que nunca fui de ficar reclamando sobre esse tipo de coisas na vida.
Havia muitas coisas na minha cabeça.
Enquanto navegamos pelas ruas de Nova York, minha mente passeia para três anos atrás. Eu era tão ingênua e me sentia tão segura das minhas decisões e do que estava a minha volta. Porém, era apenas uma presa para o caçador.
Os anos se passaram e após tanto tempo, finalmente, posso sentir que tenho as rédeas da minha vida. Sou mãe solteira, tenho um emprego e não dependo de homem para me sustentar. O que mais poderia querer?
Rachel me desperta de meu devaneio quando o nosso ponto chega. Your Food não era tão longe, entretanto, se nos arriscássemos a caminhar todas as manhãs teríamos uma caminhada de meia hora. E uma caminhada não combinava com trabalhos que deveriam ser feitos de pé.
A fachada vermelha com letras cursivas na cor amarela está apagada, e as portas de vidro ostentam uma placa de FECHADO. Rachel empurra as portas, os seus cabelos recebem uma corrente de ar deixando-os mais brilhantes que o normal. Adentro o lugar de luz fraca, paredes de madeira envernizada, mesas grudadas nas paredes com bancos acolchoados e cobertos com couro vermelho vivo. Há mesas redondas espalhadas pelo centro do estabelecimento, um balcão de mogno toma os fundos do lugar e a direita duas antigas máquinas de música.
Meus olhos encontram os castanhos de Gleen, há um sorriso brincalhão em seus lábios carnudos. Os seus cabelos cortados, permitindo que um topete castanho tampe um pouco de sua calvície prematura, estão bagunçados, como se ele tivesse se esquecido de penteá-los. No entanto, todas nós sabíamos que isso fazia parte do seu charme.
Ao lado de Glenn, há uma jovem muito parecida comigo. Com exceção dos olhos azuis profundos e o rosto coberto de sardas delicadas. A mulher está vestindo roupas comum, jeans e camisa de mangas juntamente com um avental. Um avental parecido com o meu.

— Bom dia, garotas — Glenn nos cumprimenta. Ele olha para o espaço que deveria conter Holly e ergue as sobrancelhas — Onde está Holly?
— Millie não pôde ficar com Annie.

Ele acena.

— Que bom que temos Caroline. — Ele vira-se para a mulher que está torcendo os braços nervosamente — Emma, Rachel essa é Caroline. Caroline, a ruiva é Rachel e Emma é a morena. — Caroline acena timidamente — Caroline irá trabalhar com você, Emma.

Engulo em seco. Minha parte egoísta deseja contestar, contudo, as esferas azuis de Caroline calam a minha boca. Talvez ela precisasse desse emprego, assim como todos os ajudantes que Glenn quis contratar. E eu queria a cozinha toda para mim. Isso estava errado e tinha que começar a mudar.

— Ótimo, terei de fazer dois trabalhos por hoje — sorrio para a morena. — Depois que colocar tudo no fogo, você pode ficar olhando enquanto sirvo as mesas.

Os olhos de Caroline brilham.

— Claro.

Indico a porta da cozinha apenas com um movimentar da cabeça.

— Então, vamos ao trabalho.



Capítulo 2

Anjo

Levanto-me da cama desconhecida com uma dor de cabeça dos diabos. Meu cérebro parece ter recebido várias marteladas como se fosse um prego teimoso. A primeira ação que tenho é de tocar minha cabeça e me perguntar por que diabos insisto em beber tanto, sexo não resolve o meu problema de ressaca no outro dia. Segundo ato que tenho é de pegar minha calça que está jogada do lado da cama e perto da poltrona de veludo vermelho. Nada de cueca, acho que apenas pegá-la do chão e simplesmente jogá-la na primeira lixeira que encontrar no caminho para casa.
Gozei na cueca noite passada, enquanto chupava os seios da loira deitada ao meu lado.
Não lembro o nome dela. A única coisa que posso afirmar é que ela é gostosa para caralho. Até mesmo me fez sujar minha cueca, coisa que mulher nenhuma nesses últimos três anos conseguiu fazer.
Respiro fundo.
Visto a calça e procuro por minha camisa de botões azul escuro. Quando a encontro, constato que está sem os três últimos fechos, porém, coloco-a mesmo assim.
Viro-me para a mulher aconchegada na cama e me pergunto porque não lhe dou mais uma chance e fodo mais uma vez. Contudo, já sei a resposta. Nada pode se repetir. Apesar de sua bunda arrebitada e bem desenha clamar pelo o meu pau, não posso me deixar levar.
Nada de relacionamentos. Não mais.
Saio do apartamento pequeno, entretanto, aconchegante, e tomo o caminho para o elevador que para a minha sorte para no andar que estou. Assim que abro a porta, uma senhora olha para mim de cara feia, balança a cabeça completamente desgostosa com o meu estado e sai do elevador em direção ao seu apartamento.

— Bom dia — sai mais como um resmungo do que como uma saudação.

Entro no elevador e aperto o botão para ao térreo. A mulher loira que deixei dormindo vai ficar furiosa quando acordar e não encontrar sua transa de uma noite ao seu lado. Recordo-me que ela pediu que deixasse o telefone para que nos encontrássemos de novo. Mas, ela não conhecia minha história e não fazia ideia de que só queria deslizar dentro dela até perder os sentidos. Apenas para esquecer o que a vida tinha feito comigo.
Loiras. Eram apenas elas que acabavam debaixo de mim ou que cavalgava no meu pau. Minhas favoritas. E que me lembravam tanto da mulher da minha vida.
Balanço a cabeça para abandonar esses pensamentos.
Ontem à noite, eu, Erik e Elliot fomos para uma boate a fim de comemorar a entrada do menino Scott na faculdade de culinária. Apesar de sempre ficar zoando Elliot por amar cozinhar, Erik não conseguia viver sem o irmão. O meu amigo tinha ficado completamente dependente das comidas do cara.
No fim da noite, cada um encontrou uma mulher para poder comemorar entre quatro paredes.
Chamo um táxi assim que saio do prédio e o primeiro que dou sinal para. Não moro em um dos condomínios associados ao FBI, pois queria me deixar um pouco distanciado deles. Até porque, queria viver nas sombras de todos os casos, nunca me destacando para não chamar a atenção de ninguém quando precisasse tomar medidas drásticas.
Assim que chegamos ao prédio onde vivo. Uma construção de janelas de vidro e madeira límpida, paredes cinza quase branco. Sempre há um porteiro para que possamos nos comunicar pelo interfone, caso não tenhamos as chaves em mãos ou haja um visitante. Sr. Potter, um homem nos seus cinquenta anos, cabelos grisalhos e bom porte, esta a porta me encarando com um sorriso nos lábios.

— Bom dia, Sr. .

Coloco quatro dedos em posição de quartel para cumprimentá-lo e seu sorriso se amplia. Sr. Potter já trabalhou para o exército americano, então, acabou se tornando um hábito esse modo de cumprimento entre nós. Ele faz a mesma posição de dedos, agora completamente sério.

— Bom dia, Sr. Potter.
— Noite foi longa? — questiona ao constatar o estado das minhas roupas e posso supor que meu rosto transparece uma ressaca das brabas, além de não ter passado nem no banheiro da loira desconhecida.
— E prazerosa — digo com um sorriso malicioso nos lábios.

Sr. Potter dá uma risada.
Tiro a cueca de dentro do bolso da calça e atiro na lata de lixo mais próxima. O homem à minha frente me encara de forma interrogativa.

— Vou querer saber? — ele indaga apontando para a lata.
— Não.

Ele dá outra risada e esfrega uma barriga que não tem. <}p>— Um dia você encontrará uma Amy, garoto.

Potter tem uma esposa, na qual é apaixonado desde os tempos de serviço para o exército. Eles se conheceram depois que o homem levou um tiro no abdômen e ficou à beira da morte. Amy era a enfermeira de plantão quando ele chegou. Potter diz que foi à primeira vista, ela o laçou no primeiro olhar.
Aceno para ele, enquanto aperto o botão do elevador, quando ele chega, uma menina e um menino de idades semelhantes saem correndo do cubículo e a mãe logo em seguida, gritando para eles não correrem. Entro no elevador, e quando a porta se fecha, murmuro:

— Minha Amy já se foi.

Me perco em pensamentos. Um menino correndo no quintal e uma mulher de baixa estatura, corpo definido, logo atrás dele. Há risadas. Muitas risadas de felicidade.
E logo a imagem se desfaz e olhos verdes como a campina percorrem a minha mente, muito diferentes daqueles que aprendi a amar. Tenho sonhado com esses olhos desde a morte da minha esposa, em horas eles estavam tristes e outras alegres. E em muitos momentos, em vários dias da minha vida tenebrosa, ansiei por esses olhos olhando para mim como se não houvesse mais nada na vida. Contudo, eram apenas sonhos idiotas de um cara completamente fodido por dentro.
A porta do elevador se abre e encontro Erik sentado ao lado da porta do meu apartamento. Parece deprimido.

— Posso saber o que faz aqui? — pergunto, cruzando os braços no peito. O meu amigo levanta a cabeça e parece feliz com o que vê.
— Elliot saiu cedo para a primeira aula e me deixou sem almoço.

Olho para o relógio de pulso e constato que ainda é nove da manhã.

— Ainda não é hora do almoço.
— Não, mas em breve será. Então, você pagará o meu almoço hoje — afirma, esfregando as mãos uma na outra. — Leve-me onde quiser.

Arqueio as sobrancelhas.

— Sabe que isso não é um encontro, certo?

Erik abre a boca, depois de se erguer do chão, um falso espanto. Ele até ergue a mão e leva a boca.

— Não acredito e eu pensei que você me queria por mais de uma noite.

Dou uma gargalhada e pego a chave para abrir a porta do apartamento. Assim que entramos, dá para ter contato com a vista de Manhattan pelas janelas amplas, há dois sofás de três lugares postos em forma vertical para o horizonte, e ambos estão de frente um para o outro. Há uma mesa de centro entre os sofás. As paredes em um tom de marrom quase preto preenchem as paredes da sala.
Removo a camisa praticamente destruída e sigo para a esquerda, onde ficam duas portas. Todas são suítes, a da direita é o meu quarto e o outro é de hóspedes. Ele acaba sendo usado quando Erik vem para minha casa se agarrar com alguma mulher. Todas as vezes que meu amigo manda a mulher da vez embora, envio todos os lençóis para a lavanderia. Por isso, nunca trago mulheres para casa. Não quero vestígios de estranhas na minha casa e muito menos sinal delas me procurando depois.
O quarto possuía uma janela semelhante à da sala, porém menor. A janela fica do lado adjacente a porta, do lado direito do quarto enquanto a cama fica na parede oposta à da entrada. Dois criados mudos estão distribuídos de cada lado da cama. Ainda na parede que fica a porta do quarto, há mais duas portas, uma para o banheiro e outro para o closet.
Sigo para o banheiro, pego escova de dente e pasta, logo depois tomo uma ducha de água fria para curar a ressaca. Quando volto para a sala, encontro Erik cochilando no meu sofá, com as pernas postas na mesa de centro. Pego um livro na estante que fica ao lado da porta e derrubo-o sobre a mesa de centro. Erik dá um salto e remove a arma que está na panturrilha.

— FBI!
— Sempre preparado — cantarolo.

Ele se recupera, guarda a arma e fecha a cara.

— Idiota.


Papelada. Isso resume nossa manhã no escritório do FBI. Havíamos encerrado um roubo de obras de arte do Museu de Arte Moderna com sucesso. Capturamos o ladrão e ainda descobrimos que ele tinha falsificado algumas obras que estavam prestes a ser expostas no museu. Ou seja, além de um ladrão de primeira linha, ainda era um falsificador nato.

— Aonde vai me levar para almoçar? — Erik indaga do outro lado o escritório.
— Quer dizer que vocês finalmente assumiram? — indaga Agente Jones. Uma mulher negra de cabelos cacheados e olhos verdes expressivos. Sempre os olhos verdes me perseguindo. Contudo, a minha parceira de profissão era muito bem casada e tinha acabado de sair a licença a maternidade de seu primeiro filho.
— Sempre deixamos bem claro o nosso tipo de relação — Erik afirma.

Todos no escritório começam a rir e acabo entrando na onda deles, embora ainda esteja sentindo um pouco de dor de cabeça. Tomei quatro xícaras de café e não adiantou muito, só serviu para me deixar pilhado.
Erik se levanta e começa a falar com Jones sobre um material que precisa ser traduzido por um profissional, pois ele terá de entregar um caso de assassinato na semana que vem. Caso isso não aconteça, o chefe vai arrancar o coro dele.
Chefe.
Hunter Griffin era o chefe do departamento do FBI de Nova York, eu já havia pesquisado sobre o cara em uma das minhas várias fontes desde que perdi tudo. Havia adquirido um equipamento de primeira linha, além de informantes que tinha espalhados por algumas porções de lugares. Nada a minha volta escapava. Ainda que tenha melhorado bastante as minhas táticas investigativas, ainda não tinha ideia de onde exatamente estava Smith. Todas as informações que conseguia eram devido a sua permissão, como lugares que ele já havia saído. Nada concreto.
No fim, Griffin era limpo como algodão novo. Nada sujava a ficha, a não ser alguns problemas com o filho que sempre dava as caras em algum centro policial. Fora isso, o cara estava límpido.
Voltando ao Smith. Meu chefe estava fazendo de tudo para que o caso se conservasse afastado dos caras de Nova York, contudo, pelas informações que havia obtido, por onde o caso passava, havia devastação. Muitos agentes tinham morrido devido à causa. Smith não estava mais brincando de casinha e não ligava de deixar um estrago em cada canto que passava.
No escritório de casa, tinha uma passagem secreta para sala de um metro quadrado com imagens de todos os lugares que esse infeliz havia ido e não conseguia reunir nada concreto para saber qual seria o seu próximo passo.

— Vamos? — Erik chamou minha atenção.

Aceno e me levanto da cadeira, guardando os documentos que teria de avaliar na volta.
Descemos para a garagem do prédio e pegamos a minha moto, pois será mais fácil enfrentar o trânsito. Colocamos os capacetes, subo na moto e Erik logo depois, e finalmente estamos nas ruas. Passamos pelo Central Park depois de várias voltas e por fim nos encaminhamos para o Brooklyn, onde fica a melhor lanchonete e restaurante da cidade.
Your Food.
Encontrei o lugar por acaso quando estava em meio a um caso de assassinato da esposa de diplomata – a mulher tinha sido assaltada e resistido ao assalto, mas como como as câmeras de segurança estavam quebradas, o marido acreditava que tinha sido alguém da oposição que havia planejado o ocorrido; e assim, o homem descobriu que estava sendo traído pela esposa, por isso ela estava no bairro à uma da madrugada. Enfim, o lugar ficava em uma rua bem movimentada do bairro e embora a fachada não seja muito atraente, o lugar tinha a melhor comida.

— Esse é o famoso Your Food? — Erik indaga com desgosto.
— Sim, e as aparências enganam.

Descemos da moto e resolvemos levar os capacetes para dentro do restaurante. O calor e cheiro de comida inundam as minhas narinas assim que penetro o lugar. A luz fraca e paredes de madeira envernizada me lembram de bares de primeira linha. A claridade do dia perfura as janelas de vidro deixando o lugar com cara de família.
Nos dirigimos aos bancos acolchoados com couro vermelho vivo e esperamos. Sei que os lugares de atendimento sempre mudam, contudo, geralmente sou atendido pela garçonete ruiva, Rachel.
Pego o cardápio a minha frente e começo a perseguir as letras pequenas. A cada mês era acrescentado um prato novo na lista e sempre me arriscava a comer algo de diferente, porém, esse ainda não obteve mudanças então vou continuar com meu habitual bife com batatas fritas.

— Já escolheu?

Erik continua analisando o cardápio e parece confuso.

— O que é pão de queijo?

Antes que possa responder, uma voz rouca e melodiosa toca os meus ouvidos.

— É uma massa macia feita de polvilho azedo com queijo dentro. Todos que comem não se arrependem — ela afirma.

Ergo os olhos para capturar o rosto da desconhecida. Os seus cabelos castanhos estão em corte repicado um pouco abaixo das costas, seu rosto é meigo apesar do pouco de lápis que ela passou nos olhos deixá-la mais adulta do que parece; os lábios bem delineados e nariz afilado a tornam encantadora, e os olhos... Quando os seus olhos encontram os meus, sinto uma fisgada no peito.
São iguais ao do sonho.
O sorriso que deixava seus olhos puxados se desfaz assim que nossos olhares se encontram. Ela franze o cenho, confusa. Ela sentiu o mesmo que eu. A moça desvia os olhos dos meus e pisca algumas vezes quando torna a olhar para Erik, os seus olhos se arregalam, no entanto, não dura muito e ela volta ao perfil profissional.
Enquanto isso, não consigo tirar os meus olhos dela. Olho para a plaquinha que fica presa ao avental branco e quase sinto a minha mente cantar o seu nome. .
Ela se volta para mim, completamente envergonhada. sabe que estava a observando descaradamente.

— O senhor, o que vai querer? — pergunta.
— Bife com batatas e uma garrafa de Sprite.

Ela anota o pedido.

— Ok, em breve volto com os pedidos.

Ela retorna para o que acredito ser a cozinha e não a vejo mais sair. Fico observando a porta por, acredito, minutos e ela não sai para atender outra mesa. Ouço o meu nome ser murmurado por alguém, mas simplesmente não posso ignorar o anjo que acabei de encontrar. O meu peito parece uma marreta descontrolada e posso sentir minha respiração querendo sair do controle, entretanto, dou o meu melhor para parecer normal diante dessa visão.
Recebo uma pancada na cabeça e por fim acordo de meus devaneios. Erik está com uma carranca.

— Você não cansa?

Uno as sobrancelhas, confuso.

— De quê?

Ele revira os olhos.

— Caçar.

Dou um suspiro e volto a olhar para a porta da cozinha, esperando que ela apareça. No entanto, ela continua lá dentro. Será que ela é mesmo garçonete? Ou está com medo de mim? Talvez eu tenha a assustado, apesar dela ser alta e a maquiagem forte deixá-la com ar de madura, nota-se que é mais nova do que aparenta.

— Não estou caçando — digo, ainda com os olhos voltados para a porta. — Apenas... apenas...
— Apenas?

Volto-me para o meu amigo e, tenho certeza, que se estivesse de frente para um espelho, iria flagrar uma imagem sonhadora de mim mesmo.
O que há comigo?
Ainda essa manhã eu só fodia loiras. Eu só queria sexo e apenas com mulheres de cabelos completamente opostos ao do anjo que acabei de apreciar.
Estou bêbedo. Só pode ser isso. Embora tenha tomado banho frio e quatro canecas de café, o álcool ainda estava fazendo efeito no meu sangue, me tirando completamente do nexo.
O anjo volta e começa a distribuir nossa comida sobre a mesa. Ela segura a bandeja de forma antinatural. Ela não é garçonete. põe os alimentos em seus devidos lugares enquanto a observo como um idiota.

— Desculpa perguntar, mas você é nova aqui?

A pergunta flui de meus lábios antes mesmo que impeça.
pisca algumas vezes. Esse parece ser um trejeito. Ela morde o lábio, envergonhada. Quando libera a carne macia, vermelhidão toca cada extensão do seu lábio inferior.

— Na verdade não, sou a cozinheira. — Ela balança os pés, parece um pouco trêmula — Estamos com falta de uma pessoa hoje.
— Oh, sim.

Meus olhos permanecem grudados nos seus verdes como a campina e fico tentado a elogiá-la, contudo, seria estranho e poderia assustá-la.

— Aproveitem a comida!

E se vai às pressas.
Me concentro na comida. Então, essa é as mãos de fada que prepara esses quitutes maravilhosos. Sabia que o restaurante ficava sempre lotado, graças às mãos de fada do cozinheiro ou cozinheira, só não imaginava que era um anjo por trás disso tudo.
Erik pediu uma porção de pão de queijo e bife ao molho inglês, além de uma garrafa de Pepsi com limão.
Devoramos tudo em pouco tempo e já me sinto ansioso para encontrar com a minha mais nova garçonete favorita. Esfrego as mãos uma na outra e quase não consigo segurar o sorriso que deseja brotar em meus lábios.
E assim como esperava, volta a nos atender. Antes que possa dizer algo, Erik toma a frente.

— Pode trazer a conta, .

Viro-me para o meu amigo com uma expressão nada boa. se vai e perco a chance de falar algo.

— Qual é o seu problema?
— Só estou salvando a pele da garota.
— Acha que iria usá-la?
— É o que tem feito todo esse tempo com as outras.

Engulo em seco. Ele tem razão.
volta com a conta e agora está ansiosa. Mesmo sabendo que não sou o melhor, não posso perder a oportunidade de falar algo. Faça hoje para não se arrepender amanhã.
Pego o dinheiro, ergo-o e coloco em sua mão. Está fria, o oposto de quem trabalha na cozinha, além de ser suave como uma pluma. Há uma corrente elétrica que toca cada músculo da minha mão, apenas com o contato. Sei que ela pode sentir isso. Levanto os olhos e tenho a certeza ao observar a linda campina sendo semicerradas.

— A propósito, a comida é maravilhosa. Você tem um dom.

Seus olhos suavizam.

— Obrigada — murmura.

Ela se afasta. Eu e Erik nos levantamos e seguimos para a porta. Olho por cima do ombro assim que Erik sai do local e encontro-a me observando. Sorrio e ela retribuí. Saio e constato que não conseguirei prestar atenção em relatório nenhum, a única coisa que penetrará os meus pensamentos são os lindos olhos da cozinheira .



Capítulo 3

Montanha de sentimentos

Ainda fito a porta de vidro.
Meu peito parece um martelo constante sobre um prego. A cada martelada penso que vou me desintegrar.
Mordo o lábio e pisco algumas vezes para poder retornar ao presente. Tenho que continuar o meu trabalho, Caroline havia sido uma mão na roda, porém, ainda havia muita coisa a ser feita.
Retorno para a cozinha e começo a olhar as panelas que deixei no fogo. Caroline está na ponta do fogão industrial fritando cebolas para o bife. Além disso, seus olhos estão vigilantes às batatas que estão na fritadeira eletrônica.
Respiro fundo e volto ao serviço.
Preciso fazer uma remessa de brigadeiros, pois é o único desejo da freguesia da noite.
Era o doce mais esperado.
Desde que me candidatei a vaga de cozinheira para o Your Food, procurei me atualizar quanto aos cardápios diferentes. Havia adquirido muitas receitas mediante os livros que tinha lido há três anos, contudo, queria ser a melhor no que amava fazer. Por isso, sempre buscava melhorar.
Brigadeiro foi a dádiva dos deuses. Naveguei por uma fileira de pratos brasileiros em uma noite de tédio e lá estava, a receita simples e eficaz. Como sempre, fiz um teste em casa para saber se era do agrado das meninas e foi um sucesso.
No outro dia, comecei a fazer o doce e distribuir em forminhas no formato de bolas com granulado por cima. Não vendeu tanto nas primeiras remessas, no entanto, com o tempo, o lugar ficou conhecido pelo doce brasileiro.
Gleen sempre espera que faça mais brigadeiros do que a remessa comum, entretanto, sempre estou sozinha e fico com bastante trabalho. Agora que ele me obrigou a ter uma ajudante, irei aproveitar a oportunidade para aumentar a produção.
Assim que o horário de almoço termina, Caroline e eu fazemos uma pausa para comer algo. Rachel vem logo em seguida e devora um prato com panquecas de chocolate, além de um sanduíche natural. Eu sei, é uma mistura estranha.

— Caroline.
— Sim? — Ela se aproxima rapidamente com um sorriso meigo e temeroso nos lábios.
— Vou lhe ensinar uma receita que deixarei em suas mãos para repeti-la durante o resto do dia. — Viro-me para ela, só para ter certeza que estava prestando atenção — Você sai que horas?
— Às sete.

Assim como eu e Rachel.

— Vou fazer a primeira porção da parte e você observa. Quando tiver alguma dúvida, é só perguntar.

Ela acena.
Começo a preparar o brigadeiro, explicando passo a passo e mostrando o ponto do doce. Depois de feito, informo que temos que deixar esfriar um pouco, por isso, coloco-o na geladeira. Posteriormente, explico que o doce precisa estar durinho para que seja fácil de manuseá-lo.
Voltamos aos nossos outros afazeres. Caroline já começa a preparar mais brigadeiros enquanto a anterior está esfriando. Me dedico aos lanches que são pedidos, me dividindo entre a cozinha e o salão.
Sei que hoje irei capotar na cama assim que me deitar, isso se não ocorrer antes. Todas as vezes que tenho de cobrir uma das meninas fico no meu limite. Passar o dia cozinhando já é cansativo, contudo, servir mesas no processo destrói qualquer um. Poderia ter pedido que Caroline servisse, porém, ela é muito tímida e um pouco atrapalhada com bandejas, apesar de ser um primor na cozinha. No entanto, já estou acostumada a lidar mais com o público.
Muitas coisas haviam mudado nos últimos três anos. Minha timidez foi-se aos poucos, mas no fim consegui vencê-la.
Quando retiramos o doce da geladeira, ele já está no ponto, ensino Caroline fazer as bolinhas e molhar no granulado, além de colocar na forminha. Enquanto isso, o doce que ela fez já estava esfriando e quase pronto para pôr na geladeira. Em seguida, dei-lhe um dos brigadeiros para que experimentasse. Sorri quando ela revirou os olhos de prazer.
Havia muitos brasileiros que fabricavam o doce, contudo, eles vendiam na Times Square, a quilômetros do Brooklyn. Ou seja, não tinha concorrência.
O dia transcorre movimentado e mesmo me distraindo com a comida, o olhar do homem loiro de cabelos cacheados não saiu da minha cabeça. Os azuis pareciam me perfurar a cada segundo e ele não tirava os olhos de mim, o que me fez ficar um pouco tímida. O olhar constante me deixava aquecida. Quando ele saiu pela porta, uma parte dentro de mim suplicava para que ele retornasse. Mesmo assim, pude sentir o vazio de não estar sendo observada por aqueles lindos olhos.
O que há comigo?
Nem ao menos sei o nome desse homem. E em hipótese alguma posso fantasiar algo com alguém que acabei de conhecer. Não sou mais uma adolescente. Tenho responsabilidades e a principal delas é minha filha.
Respiro fundo e empurro as imagens do sorriso brilhante do homem desconhecido.

— Vi que não tirou os olhos de você — Rachel murmura enquanto estamos no ponto de ônibus.
— Como sabe o nome dele?
— Ele é meu cliente, sempre atendo aquele lado do restaurante.
— Nunca tinha visto ele por lá.

Rachel estala a língua.

— Você nunca ficou com aquelas mesas. Perdi as contas de quantas vezes vocês estiveram no mesmo local, mas nunca repararam um no outro.

Ela tem um ponto.
Nosso ônibus chega e como esperado, está lotado. Ficamos em locais divergentes. Me espremo entre um monte de jovens, bem no meio do veículo, e Rachel fica esmagada no início. Assim que nosso ponto chega, descemos e Rachel grita para o motorista esperar.
Ela sempre faz isso.
Dou uma risada e a espero.

— Você mudou de assunto — Rachel resmunga. Os seus cabelos brilham com as luzes dos postes, algo semelhante como fogo.
— Não entendi.

Faço minha melhor cara de confusa, porém não funciona.

— Ficou interessada nele?

Volto os meus olhos para ela com uma expressão nada boa.

— Não existem possibilidades de romances na minha vida — pauso e suspiro. — Tudo o que preciso pensar é na minha filha – que já deveria ter começado a falar –, e numa futura faculdade.

O semblante de Rachel muda e fica triste. Eu sei que ela pensa que nunca conseguirei entrar na faculdade, pelo menos não com uma filha e muitas despesas. Contudo, não consigo simplesmente abandonar esse desejo, é como se ele tivesse vida própria. Foi uma das únicas coisas que veio de Jayden e que não saíram da minha pele, o anseio de ir a universidade.
E mesmo que não consiga, não custa nada sonhar com essa possibilidade. Ela deixa a vida mais doce.
Quando abrimos a porta, Holly e Annie gritam juntas, me causando uma crise de riso. Minha garotinha corre e se agarra nas minhas pernas. Puxo-a para cima, a abraço apertado e distribuo beijos em suas bochechas cheias. Annie começa a rir com o carinho, pois ela está sentindo cócegas. Sempre foi assim.

— Estava com saudades da mamãe? — questiono e Annie acena. — Que bom! Porque estou com tantas saudades que a senhorita vai tomar banho comigo.
— Eeeeeeeeeh! — Annie comemora, levantando os braços.

Levo Annie para o quarto, prometendo para as meninas que farei o jantar, apesar dos resmungos delas sobre eu estar cansada. Eu sei que estou exausta, ninguém além de mim tem ideia de como o meu corpo se encontra, contudo, cozinhar sempre parece aliviar alguma tensão em meu corpo, por isso não rejeito nenhuma oportunidade.
Removo as roupas de Annie, contando sobre as inúmeras coisas que vi durante o dia, porém, deixando de fora o homem que perfura a minha mente desde o primeiro olhar. Como uma menina obediente, ela me ouve com atenção e maravilhada com tudo que tenho a lhe contar. Talvez, se minha garotinha falasse, poderia fazer perguntas sobre tudo que havia visto e ouvido, no entanto, não tínhamos essa dádiva da comunicação. Depois de tirar sua roupa, começo a remover as minhas, em seguida, deixo Annie sobre a cama enquanto preparo a água do chuveiro. Após ter certeza que a temperatura está agradável para nós, retorno ao quarto para pegá-la, ela está toda enrolada em sua toalha enquanto brinca com um carrinho cor de rosa de almofada. Seguimos para o banheiro e nos banhamos com água morna. Uma parte dos meus músculos, tensos e duros, relaxam com o contato com a água. Annie passa shampoo na minha cabeça muito animada.
Quando terminamos, estamos limpas e relaxadas. Annie está com um sorriso nos lábios, para ela, tomar banho é uma de suas partes favoritas do dia e mesmo que outra pessoa lhe dê um banho, não é a mesma coisa de ser comigo. Fico contente de ter esse tempo com ela e dela achar isso tão fundamental para o seu dia.
Após nos vestirmos, seguimos para a sala. Deixo Annie sentada em sua cadeira perto do balcão e começo a preparar os ingredientes para uma lasanha à bolonhesa. Antes, corto algumas frutas e jogo em uma tigela, entrego para Annie, que desata a comer.
Deixo os meus pensamentos navegarem pelo o dia corrido enquanto faço a receita em modo automático. Apesar de desejar com todas as minhas forças, não posso deixar de lado a imagem daqueles lindos olhos e o sorriso, que por algum motivo me deixou tímida. Não houve nenhum tipo de conversa, contudo, de alguma maneira inexplicável me sentia ligada a ele, como se não precisássemos de conversas e muito menos saber nossos nomes. Sei que ele leu o meu nome na pequena plaquinha que ficava presa na minha roupa de trabalho e que Rachel me informou seu nome, no entanto, não era a mesma coisa que se conhecer.
Solto um suspiro.
Não posso pensar em um estranho.
Estranho.
Erik!
Como pude esquecer? Ele estava ali na mesma mesa que aquele homem… Não, que . Sim, esse era o seu nome e creio que ele era merecedor que os meus pensamentos o chamassem como tal.
Erik o conhecia e pareceu bastante assustado ao constatar que eu estava servindo-os. Notei pelos olhos que ele não queria que soubesse que nos conhecíamos. Não tinha ideia do motivo, porém, respeitei o seu desejo, até porque, o homem havia me ajudado mais do que deveria.
Eles pareciam amigos, não apenas simples conhecidos. Quem sabe trabalhassem juntos. Não. Não faria sentido, Erik não ficaria tão assustado e, se fosse essa a situação, conheceria o meu caso. Entretanto, ele parecia admirado em me ver. Então, descarto logo a ideia de trabalharem juntos. Quem sabe sejam amigos de infância ou de faculdade... Quem sabe... O único fato que tenho absoluta certeza é de que são amigos, dava para ver uma certa harmonia emanando dos dois.
É navegando por esses pensamentos que mal percebo o tempo passar, logo a lasanha já está cheirando, removo-a do forno e chamo pelas meninas. Descanso o recipiente quente sobre o balcão o mais longe possível de Annie. Holly pega os copos, pratos e talheres e me sento em um dos bancos. Corto um pedaço pequeno da comida e coloco no prato para esfriar. Annie adora lasanha.

, não sei porque ainda me surpreendo com essas maravilhas que você faz — Holly geme, depois de comer o primeiro pedaço.

Dou uma risada.

— Ela conheceu um cara hoje — Rachel murmura.

Ergo a cabeça em alerta e com os olhos arregalados.

— Rachel!
— O quê? — indaga, inocentemente. — Não falei nenhuma mentira.

Resolvo entrar no jogo dela.

— Conheci vários caras hoje. — Dou um sorriso irônico ao final da frase.
— Alguém pode me explicar o que está acontecendo? — Holly pergunta.

Quando viro-me para a mulher de cabelos escuros, ela está com o garfo a caminho da boca e com uma expressão confusa.

conheceu um cara hoje que chamou bastante a atenção dela — Rachel afirma.

Abaixo minha cabeça, contudo, antes posso ver os lábios de Holly formando um sorriso.

— É mesmo? Conte mais.

Posso sentir os olhos das duas sobre mim, no entanto me concentro na comida, que parece ter adquirido um sabor muito melhor agora. Elas começam a conversar sobre e a cada menção de seu nome minha pele se arrepia e não consigo controlar a vontade de morder o lábio.
Rachel conta que ele é um cliente ativo e isso chama minha atenção. Se ele era ativo, deveria ir todos os dias. Rachel havia dito que ele costumava ir até o Your Food, porém, pensei que era em dias esporádicos e não todos os dias.
O pedaço de lasanha da Annie esfria o suficiente para confiar que ela não se queimará e, por isso lhe entrego a tigela, fazendo com que ela sorria para mim e comece a comer. Sua tigela de frutas está vazia, então levo-a até a pia.

— Ele também pareceu muito interessado — Rachel informa. Ela toca o queixo de forma teatral. — Para falar a verdade, parecia mais interessado que . Quase não foi capaz de tirar os olhos dela.

Minhas bochechas esquentam, o que faz as duas se derramarem em uma gargalhada.

— Já chega desse assunto — sibilo. — Não vou me envolver com ninguém. Não quero ninguém.

Minha voz sai mais dura do que esperava e isso me assusta. Sabia que havia marcas em mim nas quais jamais seriam saradas, estigmas que me perturbariam o resto da minha vida. A confiança que uma vez depositei em Jayden me levou ao fundo posso, por isso tinha conhecimento que o meu coração e o meu cérebro rejeitava toda e qualquer relação por causa disso. Não podia se construir uma relação sem confiança. E no fundo, não podia ver uma forma de renovar esse sentimento fundamental para um casal.
Sabia que era loucura imaginar uma relação com um cara que apenas encarei por algum tempo, entretanto, me sentia obrigada a afirmar que não havia futuro antes mesmo de começar. Não acreditava que algum dia pudesse recuperar essa confiança, mas se isso acontecesse, seria no futuro, um tempo muito distante do hoje.

. — Holly estende a mão para tocar a minha e sorri. — Eu sei de tudo que passou e como Jayden destruiu suas relações futuras. Mas tenho que dizer. Nem todos são um Jayden.
— Podem existir milhares como ele, porém há muitos outros milhares que não se parecem nenhum pouco com aquele desgraçado — Rachel diz.
— Não somos tolas em afirmar que esse tal não é como ele, ou qualquer outro cara. No entanto, não há como saber sem arriscar. A vida é cheia de riscos — Holly continua. — Seria sem graça se não os houvesse. Se permita viver e se entregar.

Rachel se aproxima e toca nossas mãos.

— Não estamos dizendo que não deva blindar o seu coração para que não sofra as consequências de uma decepção depois. Só queremos que saia dessa caverna que se entocou e viva.

Uma lágrima solitária desce pela minha bochecha e sorrio.

— Já disse que amo vocês? — questiono.

Elas sorriem de volta.

— Hoje não — Holly afirma.
— Eu amo vocês.

As duas se levantam e me abraçam apertado. Annie resmunga e quando nos voltamos para ela, à menina loira está de boca aberta, tentando, talvez, dizer que deseja estar no meio desse abraço. Me aproximo da minha filha, beijo sua bochecha, limpo a boca que está suja de molho e a abraço, causando nela uma risada animada. Holly e Rachel se aproximam e me ajudam abraçar a minha menina, alegrando ainda mais Annie.
Ela poderia não ter um pai, contudo, havia tanto amor a sua volta que não tinha como sentir falta de um.


Assim que me levantei pela manhã no outro dia, me senti diferente. Diria ansiosa.
Depois de me erguer, fazer minha higiene e tomo um banho, sigo para a cozinha. Começo a fazer o café da manhã, quase alucinando de tanta fome.
Na noite anterior, passamos do horário e Annie acabou dormindo mais tarde que o normal. Ou seja, ela estava dormindo em seu berço e não parecia ter hora para acordar, no entanto, sabia que teria de despertá-la em breve para que não ficasse emburrada. Teve uma vez que cometi o erro de acordar e ir trabalhar sem acordá-la, além dela ficar com raiva, se negou a comer e chorou por tudo, demorei a compreender o motivo, contudo, quando adquiri a compreensão, fiquei bem chateada comigo. Então, depois desse episódio, sempre acordava ela antes de partir para mais um dia de serviço.
Termino de fazer o café da manhã e corro para acordar Annie. Me aproximo de seu berço e mexo em sua barriga.

— Meu amor, acorde — sussurro ainda sacudindo-a. — Mamãe vai trabalhar logo.

Ela resmunga, entretanto, quando abre os olhos, sorri. Seu rosto está inchado. Ela se senta e eu a retiro do berço, beijando sua bochecha. Annie deita a cabeça em meu peito enquanto nos dirigimos à cozinha. Assim que entramos no local, vejo as meninas todas amassadas e bocejando, porém comendo sem parar. Eu já tinha preparado a mamadeira de Annie com vitamina de morango. Entrego a mamadeira e começo a comer o meu café da manhã.
A campainha toca e Rachel se levanta para atender. É Millie.

— Bom dia — a loira cumprimenta. Os seus olhos encontram Annie enrolada em meu colo com sua mamadeira. — Vejam só quem está dengosa hoje. No colinho da mamãe.

Millie se aproxima e toca o nariz de Annie. Minha filha sorri com os lábios, sem remover o bico da mamadeira da boca.

— Ela acabou de acordar — informo.

Ela entende imediatamente o motivo de Annie estar enroscada em mim.

— Quer comer? — Holly pergunta a Millie.

Os seus olhos brilham.

— Se ainda tiver panquecas, aceito.
— Para a sua sorte, fiz a mais.

Uma grande mentira.
Eu tinha conhecimento da situação de Millie. Sua mãe não fazia comida e ela não se dava bem com o fogão, então, sempre fazia panquecas a mais para ela.
A loira começa a comer animadamente. Rachel e Holly se levantam para se arrumarem para o trabalho enquanto nós três terminamos de comer. Quando elas voltam, Millie está lavando a louça para mim ao passo que fico brincando com Annie. Assim que estão todas prontas para o trabalho, beijo as bochechas da minha filha e a abraço, depois a entrego para a sua babá.
O caminho para o trabalho é como todos os outros dias. Ônibus lotado. Assim que chegamos, Caroline já está na cozinha fazendo brigadeiro. Desde o dia anterior, a mulher ficou entusiasmada com o serviço que ofereci a ela. Após terminar o doce e o colocar na geladeira, começamos a nos preparar para mais um dia longo de comes e bebes. E como sempre, o cansaço nunca me abala, cozinhar sempre será um alívio para mim.
Embora meus pensamentos estejam ligados à culinária, uma parte deles não consegue esquecer os olhos e o sorriso de . E não faço ideia de quando serei capaz e nem se quero isso. Mas sei que uma parte de mim anseia vê-lo hoje.



Capítulo 4

Lutando

Não deveria.
Repeti isso diversas vezes durante as últimas horas. Tentei colocar na minha cabeça que tudo isso não fazia sentido. A minha cabeça estava trabalhando do jeito errado. Eu estava desejando algo que nem ao menos conseguia compreender.
Mais uma vez estou em frente ao Your Food. Só que diferente de todas as outras, não estou aqui para comer. Sim, é óbvio que também irei comer, mas o meu objetivo é completamente o oposto.
Preciso ver .
Tenho consciência de que ela não é uma garçonete e, provavelmente, não a verei. No entanto, não consegui destruir a parte do meu cérebro que dizia que queria vê-la.
Não sei o que está acontecendo comigo. Não diria que estou apaixonado, talvez encantado. Porém, precisava admitir que depois que os meus olhos encontraram-na, o meu corpo pareceu criar vida. Havia morrido há três anos e sabia que deixava o destino me levar para onde quer que fosse, então, quando encontrei o rosto angelical de , tudo se acendeu.
Era louco. Muito louco. Sem dúvidas a razão havia me abandonado há tempo. Contudo, o que poderia fazer? A mulher fazia parte até mesmo dos meus sonhos. Sim, eu sonhei com ela. Não foi nada sexual, era apenas algo doce e inocente. Sorrisos e olhares que consumiam cada partícula da minha alma. E eu necessitava do que quer que tudo isso significasse. O que mais me admirava era o fato de que não me sentia dependente de vê-la, apenas queria vê-la.

— Estou ansioso — Erik murmura e esfrega as mãos uma na outra.

Viro-me para ele rapidamente enquanto estaciono a moto.

— Já está viciado na comida?

Erik me encara culpado.

— Acho que sim — ele suspira e revira os olhos. — Não deixei Elliot cozinhar porque queria comer aqui.
— Melhor não dizer isso a ele.
— Eu não direi, não sei você.
— Jamais faria isso com um amigo.
— Sei.

O irmão do meu amigo é orgulhoso demais para admitir que existem pessoas melhores na cozinha, além de seus professores e inspirações. Ele era completamente dedicado ao que estudava e merecia o título de melhor aluno da faculdade. Elliot não desperdiçava dinheiro quando era para fazer um prato diferente, todos os dias a janta era uma nova receita que o professor havia passado para ele testar em casa. Erik e eu não reclamávamos, raras foram as vezes que algo dava errado, a comida sempre maravilhosa e colocava muitos restaurantes no chinelo.
Entramos no Your Food e o cheiro de gordura perfura as minhas narinas, o aroma familiar faz com que os meus músculos relaxem. Sentamos na mesma mesa do dia anterior e procuro ao redor a mulher de cabelos castanhos e olhos verdes, entretanto, só vejo a garçonete de olhos negros e Rachel. devia ter ficado no lugar da de olhos negros. Já fui atendido por ela algumas vezes quando comecei a vir no local, porém, acabei me tornando cliente de Rachel.
Foi impossível controlar minha cara de decepção quando ela se aproximou da nossa mesa.

— O que vão querer? — indaga.
— Olhar para você é o suficiente — Erik fala, ergo os olhos para ver o meu amigo de queixo caído.

Rachel vira-se para ele e dá um sorriso malicioso.

— Não temos essa opção, sinto muito.
— É uma pena, traria mais lucros para o lugar.
— A cozinheira é muito boa.
— Também achei, mas tenho outros motivos para voltar agora.
— Faça bom proveito.

Observo atônito a troca de palavras entre Rachel e Erik. Ele resolveu flertar e ela correspondeu, de uma forma bem sutil e praticamente gritando: “você terá que fazer melhor que isso”. Isso é divertido. Um novo desafio para o meu amigo. O que significava que no final ele iria levar um belo pé na bunda, porque mulheres assim nunca caíam na sua lábia.

— Vou querer estrogonofe de carne, arroz e batatas — informo, olhando para o prato especial do mês no cardápio. Não estou interessado na troca de olhares entre os dois. Nunca pensei que algo assim fosse tão desconfortável.

Ouço o ruído da caneta no papel, indicando-me que Rachel não está afetada por Erik. Mais um pé na bunda. Ergo a visão para admirar a cara de idiota de Erik e um sorriso satisfeito toca os meus lábios.
Por algum motivo desconhecido, estou com vontade de mostrar os dentes.

— E você? — Rachel questiona Erik.
— O que você quiser — murmura, ainda olhando para ela.

Rachel revira os olhos e seguro uma risada.

— Traga o mesmo para ele — digo e ela acena.

Quando Rachel segue em direção à cozinha, não consigo controlar a gargalhada que escapa pela a minha garganta, ao passo que Erik observa de cara feia.

— Devo colocar no livro de recordes?
— O quê? — indaga confuso.
— Devo colocar no livro de recordes como o pior flerte da história?

Ele revira os olhos.

— Acho que Griffin vai nos passar mais um caso de fraude — Erik muda de assunto.
— Parece bom.
— Não sente falta de adrenalina? — Erik questiona.
— Não, quem gostava dessas coisas não era eu. Sempre foi você e...

Engulo em seco.
Odeio quando tenho de mencioná-la. Odeio ter de me lembrar do seu nome em uma conversa. Odeio ter de falar algo relacionado a ela.
Contudo, o que poderia fazer? Annie estava tatuada na minha pele. Ela foi marcada como ferro em brasa em mim no momento que seu chefe resolveu que o melhor era que se mudasse para São Francisco. Isso tudo é uma merda.
Lembrar dela dói como o inferno e nem mesmo os olhos doces e gentis de podem aliviar o pesar no meu peito. Annie sempre será o amor da minha vida e a única para mim. Mesmo que apareçam outras. Mesmo que seja algo mais, Annie sempre será muito além do que se pode imaginar.
Não consigo me arrepender um só segundo de tê-la pedido em casamento e deixá-la adentrar na minha vida de forma tão repentina, porque apesar de o destino ter nos separado, tudo que vivemos foi maravilhoso demais para restar arrependimentos. Sim, eu culpava Smith por tê-la levado tão cedo e ele teria o que merecia, eu teria minha vingança.
Rachel chega com nossos pratos com dois Sprite. Não precisava pedir para ela saber o que queria.
Começamos a comer. Não sou estúpido para afirmar que não estou comendo devagar porque quero arranjar uma forma de ver sem parecer um maníaco. Perdi as contas de quantas vezes me virei para as duas portas com dois círculos de vidro em cada. Cada vez que uma garçonete entrava e saía, o meu coração dava um pulo, todas às vezes a decepção me assolava como uma martelada repentina.
Preciso ver o olhar doce de . Preciso do meu anjo. Porque ela parece o meu anjo da guarda. Ela deixa a dor mais suportável e me traz uma paz que eu não fazia ideia que precisava. O sorriso que ela me direcionou no dia anterior cutucou o meu peito de uma forma extraordinária e me fez esquecer por algumas horas o que era não ter Annie ao meu lado. Não estou dizendo que me faz esquecer Annie, isso é impossível, quero dizer que a dor não parece tão ruim quando olho para .
Fico mexendo a comida de um lado para outro e colocando pequenas porções na boca, os meus olhos sempre voltando para a porta da cozinha. Quando termino de comer, Erik já havia terminado há tempos e só não questionou minha demora, pois estava seguindo Rachel com o olhar.

— Ela não vai te dar uma chance.
— Dizem que as ruivas são as melhores — informa sem me dirigir o olhar.
— Você é um idiota.

Isso parece chamar sua atenção.

— Não sou eu que pego todas as loiras que aparecem na minha frente. — Erik observa ao redor — Sorte que aqui não tem nenhuma loira.

Bufo.
Eu sei que virei um verdadeiro caçador de loiras e que não dou a mínima para elas, entretanto, ele não precisava me lembrar. Não me orgulhava dessa atitude, mas precisava agir dessa forma. Todas as noites tinha que levar uma loira para cama, em busca de um alívio para o meu coração e minha mente, se não...
Espera...
Não fui atrás de mulher alguma noite passada. Simplesmente... esqueci...
Volto os meus olhos para a porta da cozinha e noto pela primeira vez uma vitrine com o que parecem ser doces. Sempre gostei de donuts – dentre outros doces –, contudo, donuts sempre foi um dos meus favoritos. Levanto-me, ignorando os resmungos de Erik. Quando chego próximo à caixa de vidro, os meus ombros caem. Não há donuts, apenas bolas – que parecem ser de chocolate – cobertas com granulados e distribuídas em papéis brancos.

— Brigadeiro.

Levanto os olhos e encaro a garota de cabelos escuros e olhos negros. Procuro por seu nome no crachá. Holly. Ela me observa de forma curiosa.

— O que seria brigadeiro? — pergunto, voltando para as bolas de chocolate.
— Acho que não vale informar, mas experimentar.
— Não sei se é confiável.
— Tudo que faz é confiável.

Quando volto a olhar para Holly, há um sorriso de vencedora. Ela sabe que me ganhou apenas por dizer o nome de , o que me faz ter certeza que fui o tópico de assunto entre ela e a colega de trabalho.

— Vou querer dois.

Holly embala dois em um saco de papel pardo e lhe entrego uma nota de cinco dólares. Assim que volto para a mesa, Erik está pagando a conta. Depois que ele entrega o dinheiro, Rachel segue para o caixa. Ele se levanta emburrado e seguimos para a porta do estabelecimento. Antes de sair do local, olho mais uma vez para a porta da cozinha e dou um suspiro ao constatar que não verei hoje. Quando saio, a tensão toma conta do meu corpo novamente.
Erik pegou mais um caso de falsificação para que trabalhássemos, porém, o dia não foi um dos melhores. Meu corpo estava tenso e não conseguia me concentrar no trabalho como deveria. Griffin acabou me mandando para academia, pois não estava rendendo.
Desde a perda de Annie, havia me dedicado cem por cento no trabalho e era considerado um dos melhores agentes. Até fui escolhido para ficar à frente de uma dupla, contudo, sabia que teria de ter Erik ao meu lado para que fosse mantido em rédea curta. Poderia ser dos melhores, mas era impulsivo e se fizesse alguma merda, minha carreira iria para o ralo e não me restaria mais nada para viver.
Soco o saco de areia algumas vezes e volto para o pulley, após algumas puxadas, retorno para o saco e me concentro nele. Minha pele está suada e os meus músculos queimando, no entanto, ignoro qualquer dor ou desconforto físico e foco na dor interior que precisa ser extravasada. Tomo uma respiração e forço o punho com o abdômen contraído. Um, dois, três. Um, dois, três.

— Vai acabar desmaiando — uma voz melodiosa toca os meus ouvidos.

Viro-me para encontrar a autora da voz e não me surpreendo em encontrar uma mulher de cabelos negros e corpo bem delineado. Torno minha atenção para o saco de areia e volto a socá-lo.
Isso já estava virando perseguição.
Jennifer era uma das novas agente em treinamento. O FBI havia recrutado alguns novos para serem treinados por nós. Esse era outro motivo que me fazia renegar o poder de chefe de operação, não tenho paciência para lidar com novatos. Não quando minha cabeça está fervendo por vinte e quatro horas.
A mulher ficava no meu pé sempre que está livre. Havia momentos que ficava preocupado com tudo isso, entretanto, não poderia fazer muita coisa a não ser evitá-la.

— Há novos casos de traficantes na mesa de Griffin, poderíamos trabalhar num deles. Juntos.

O alívio que senti com os exercícios se desmancha com apenas algumas palavras. Paraliso e respiro fundo, e isso não tem nada a ver com o esforço físico, mas tudo com autocontrole.

Erik tem me mantido distante de qualquer caso que comece com traficante. Nós éramos o que Nova York tinha de melhor, entretanto, nos limitamos com casos meia bocas. Contudo, a parte obscura que vivia em mim precisava saber mais, precisava da sua vingança.

— Que tipo de traficante?

Espero por uma resposta. Longos segundos se passam e não ouço a voz de Jennifer. Viro-me para ela e há uma careta de confusão em seu rosto, sua boca está entreaberta, em busca de palavras.

— Que tipo de traficante? — digo com uma voz autoritária.

Ela estremece e engole em seco.

— Drogas.

Meu sangue esquenta na mesma hora.
Não era o que eu queria.

— Pode me deixar em paz agora — a frustração emana em cada palavra.
— Mas…
— Disse para me deixar em paz — grito e respiro pesadamente.

Jennifer engole em seco mais uma vez e se afasta, saindo pelas portas de vidro. Erik está na entrada com cara de poucos amigos, assim que ele entra no local, sei que serei repreendido.

— O que foi isso?
— Ela veio me encher a paciência mais uma vez.
— Você nunca perdeu o controle desse jeito.
— Tive meus motivos.

Apesar dos meus braços pesarem, concentrei-me nas dores internas e tornei a socar o saco de pancadas.
Preciso de um alívio além de físico. Preciso de paz. E por algum motivo inexplicável, um anjo de olhos verdes pode me dar isso.
Paro no ato e começo a retirar as bandagens em volta das minhas mãos. Olho para as paredes de vidro do último andar do prédio e noto que o sol já está se pondo. Não faço ideia que horas acaba o expediente de , só espero que chegue a tempo de vê-la, mesmo que seja de longe.

— Aonde vai? — Erik indaga.
— Your Food.
— Quê? — Uma máscara de confusão toma suas feições. — O que vai fazer lá?
— Ver .

Erik pisca.

— Tá de brincadeira. — Olho para ele com seriedade — Por quê?

Suspiro.

— Não sei explicar. Só preciso vê-la.

Ele me encara por alguns minutos, tentando usar suas especialidades de agente. Tentando descobrir o que está se passando na minha mente. Isso não tem funcionado muito bem comigo nos últimos anos e acho difícil ele conseguir desvendar algo que nem eu mesmo entendo.

— O que está acontecendo com você, cara?
— Eu não sei, Erik.

Ele acena e sai da academia pensativo. Como um cara bom em sua profissão, sei que ele analisará o meu encontro com no dia anterior e irá tirar suas conclusões.
Não me importo. Apenas quero vê-la, simples assim.
Sigo em direção ao banheiro, tomo um banho e me visto às pressas. Logo, estou no estacionamento em cima da minha moto, em seguida o trânsito de Nova York me abraça. Estamos no fim de agosto e em breve o verão nos deixará, dando lugar a estação onde as folhas ganham cores alaranjadas. Desde criança, esse era o meu momento preferido do ano.
E depois virá o inverno, a neve tomando conta das ruas e um frio de congelar os ossos tomará o ar da cidade. Esses eram os meses que meu humor sempre está em seu melhor estado. Ainda mais nos últimos três anos… O verão sempre me lembraria dela…
Paro a moto em frente à lanchonete e espero. Estou torcendo para que não tenha terminado o expediente, pois não sei se serei capaz de aguentar mais um para vê-la. Poderia abrir os arquivos dela do FBI, mas não quero saber mais dela. Quero tê-la nas minhas vistas, no entanto, não quero estar na sua vida. Não preciso de outra mulher. Já tive uma que me estragou para todas as outras e não tenho a mínima vontade de ter um relacionamento. Os encontros casuais são mais do que suficientes.
A porta da lanchonete é aberta e a mulher que me atendeu mais cedo passa pela porta, sorridente. Rachel sai logo em seguida, dando uma gargalhada.
Minhas mãos começam a suar. Estou do outro lado da rua, a vista de qualquer uma delas.
Sei que será a próxima a sair.
Ela sai com um sorriso tímido nos lábios, e, como um ímã, seus olhos encontram os meus. O sorriso em seus lábios se desmancha e a vejo tremular.
Engulo em seco.
E uma força demoníaca me afasta da minha moto e começo a caminhar em direção ao meu anjo.



Capítulo 05

Sinceridade

Quando recebi a ligação de Erik, fiquei assustada. Meu primeiro pensamento era de que Jayden havia descoberto o meu paradeiro e estava em Nova York atrás de mim. Por um momento fiquei olhando para a tela do celular enquanto minha pulsação se tornava cada vez mais acelerada. Se Jayden soubesse onde estava, tudo estaria perdido e tinha consciência que não podia me mudar, não tinha como me mudar, não tinha dinheiro para começar de novo. Haviam economias que tinha feito nos últimos anos como precaução, apesar de lá no fundo desejar pagar uma faculdade. No entanto, não era tanto dinheiro. Não quando se tem uma filha pequena.

— Não conte ao que me conhece.

Distanciei o celular no mesmo instante. Quando tornei a colocá-lo na minha orelha, só havia uma respiração leve.

— Não entendi — afirmei.
— Não conte a ele que nós conhecemos.
— Como contaria algo a ele se nem o conheço? E muito menos falei com ele.
, só não fale nada.
— Tudo bem. Essa conversa não faz sentido algum, mas não contarei.
— Obrigado, tenho que ir agora.
— Ok!

Naquele momento, me senti bem perdida. Porém, agora, olhando para o homem que está vindo em minha direção, uma parte do aviso de Erik faz sentido. Ele sabia que viria me ver.
Respiro fundo.
Por algum motivo, sinto dificuldade de puxar ar para os meus pulmões. Jamais imaginei que tornaria a ver esse homem na minha frente. Não vou mentir e dizer que nenhuma parte de mim desejava que tornasse a vê-lo, porém, na prática era bem diferente. Esse homem causava reações em mim que me faziam desejar uma fuga rápida e eficaz.
Apesar de ainda ser verão, os primeiros sinais de outono já tocam o ambiente. Um vento frio desliza pela minha pele e um arrepio percorre o meu corpo. se aproxima cada vez mais e não faço ideia do que vou fazer quando ele estiver próximo o suficiente para uma conversa. Minhas mãos começam a suar e mexo-as nervosamente, contudo, logo me desfaço do tique nervoso.
Assim que o homem loiro de cabelos cacheados para à minha frente, noto que ele está tão perdido quanto eu. Ele veio até aqui, mas não faz ideia de como irá interagir comigo e isso faz com que meu nervosismo evapore e um sorriso brote em meus lábios, no qual espelha.

— ele sussurra o meu nome e os meus poros abrem.

Engulo em seco.

— murmuro.

Não sei quanto tempo se passa. Nossos olhares parecem ter vida própria e simplesmente não consigo desviar dos círculos azuis brilhantes, eles estão cheias de expectativas.
Alguém coça a garganta, quando desviamos o olhar para encontrar quem o fez, nos deparamos com Rachel e Holly com um sorriso nada agradável aos meus olhos. Diria que malicioso demais para o meu gosto.

— Devemos ir na frente?
— Não — respondo, rápido demais.

Volto os meus olhos para e ele está de cabeça abaixada, porém, me encarando por cima dos cílios. Minhas bochechas esquentam. Quando tento consertar, percebo que não faço ideia do que poderia falar ou fazer para tornar a situação mais agradável. Melhor, menos constrangedora.

— Gostaria de acompanhar você até em casa — afirma.
— O que?
— Gostaria...
— Não! — exclamo e mais uma vez minhas bochechas ficam carmim. — Quero saber por que quer me levar até em casa.

Ele dá uma risada sem graça e coça a nuca.

— Não sei como funciona essas coisas, há muito tempo não faço isso e nunca fui muito bom.
— Isso o quê?

É sua vez de ficar vermelho.
Olho em volta e percebo que Rachel e Holly estão a alguns metros de distância, nos dando privacidade. Agradeço internamente por não terem me deixado, no entanto, respeitado minha privacidade.

— Flertar. — Suas bochechas ficam mais vermelhas com a palavra dita.

Mordo o lábio.

— Isso é flertar?
— É.

Ele engole em seco.
Um silêncio passa entre nós. Não faço ideia de como mudar isso. Me sinto perdida e confusa com o que está acontecendo. diz está flertando comigo, e isso significa que ele está interessado em mim. Entretanto, será que eu estou interessada nele dessa forma? É obvio que sim, mas não sei se quero estar. Tenho fugido de envolvimentos amorosos há três anos e não sei se estou preparada para isso.
respira fundo e como uma força sobrenatural, algo toma conta de seus olhos e todo o constrangimento desaparece como fumaça. E pela primeira vez me sinto pequena diante do que vejo. Um homem. E não me sinto uma mulher, nunca me senti. Mesmo tendo uma filha me esperando em casa, ainda me sinto como a adolescente que fugiu de São Francisco e que estava encantada por um cara que só tinha uma bela aparência. E é ai que reflito e tento encontrar o motivo para estar interessado em mim.

— Não sou bom nisso, mas estou cansado de me sentir constrangido. — Ele morde a parte interna da bochecha — Acho que a melhor forma de começar algo – o que quer que isso seja –, é sendo sincero com você. Passei o dia inteiro pensando em você e tentei impor a minha mente que ela desviasse disso, contudo, não consegui. A ideia era vir até aqui e apenas te ver, mas o meu corpo quis mais do que isso e estou aqui na sua frente. Muito perdido. Não sei o que deveria dizer num momento desses, porém, agradeceria se você me deixasse te acompanhar até em casa.

Mordo o lábio inferior, tentando segurar um sorriso.

— Sempre volto para casa de ônibus, entretanto, acho que não faz mal caminhar um pouco. — Viro-me para Rachel e Holly, que olham para todos os cantos menos para nós — Vou falar com elas e já volto.

Ele acena.
Quando me aproximo delas, seus rostos estão cheios de expectativa. E não sei se elas gostarão da ideia de caminhar até em casa. Estamos moídas do dia de trabalho e sei que uma parte de mim deseja que elas rejeitem.

— Ele quer nos acompanhar até em casa — informo.
— Caminhar? — Holly questiona.
— Sim.
— Claro que sim — Rachel diz animada.

Holly vira-se para ela com os olhos arregalados, contudo, Rachel lhe dá um beliscão.

— Obvio que sim. E também precisarei de gelo — a morena resmunga esfregando a região do braço que foi agredida.

Dou um suspiro e retorno para .

— Elas aceitaram.

Começamos a nos dirigir para uma caminhada de longa meia hora.
Os primeiros dez minutos parecem uma tortura. Holly e Rachel estão à nossa frente e estamos alguns bons passos de distância. Não tenho noção do que esse homem quer comigo, porém, sua revelação me deixou um pouco surpresa. Sei que aconteceu alguma coisa entre nós no dia anterior, havia uma conexão fora do comum.

— Me fale sobre você — quebra o silêncio.
— O que exatamente?

Não deveria ter perguntado isso. Não deveria estar prolongando esse tipo de conversa. Essa coisa de se conhecer quando você quer se envolver com alguém. Não posso fazer isso, mas a parte de mim que deseja sair da caverna e viver com todos os riscos e consequências está louca por essa conversa. Enquanto isso, a parte desconfiada e que um dia foi machucada tenta se esconder, porém, mesmo ela deseja dizer para ele tudo da sua vida e até mesmo os seus pensamentos mais sombrios.

— Sei que o seu nome é , contudo, o crachá só tinha o primeiro nome — diz, com uma careta.
— Gleen quer que nos mantenhamos mais ligados aos clientes, então ele não coloca os sobrenomes. Primeiro nome sempre deixa as pessoas mais íntimas. — Olho para de rabo de olho, sua boca está entreaberta, me indicando que ele entendeu a ação de Gleen — Gray.

Ele franze o cenho.

Gray.
— ele estende a mão com um sorriso nos lábios. O cumprimento como se fosse a primeira vez que nos víssemos.
— Eu sei — mordo o lábio inferior. — Rachel me falou que é cliente assíduo da lanchonete.
— É mesmo? — indaga surpreso.
— Sim. Acho que ela notou o que quer que seja isso.
— Entendo.

Mais silêncio, porém, com ele não sinto necessidade de falar. Não quero tomar atitude com nada que possa acontecer, se está interessado, ele precisa ter atitude. Se não quero relacionamentos, não vou tentar começar algo. Caso queira algo ele tomará a iniciativa.
Apesar de estar cansada e louca para ver minha menina, a caminhada passa mais rápido do que esperado. Assim que chegamos ao prédio de tijolos, Rachel vira-se para mim, pisca e fala apenas com os lábios “aproveita”. Controlo uma risada nervosa e torno os meus olhos para , que está me encarando de forma intensa e curiosa.
Esse olhar faz com que palavras que nem fazia ideia que estavam na minha cabeça comecem a se derramar pelos meus lábios.

— Acho que preciso ser sincera com você também — abaixo a cabeça, respiro fundo e volto a olhá-lo. — Não vou bancar a idiota e dizer que não aconteceu nada ontem. O que quer seja aquilo. Também passei o meu dia com você num canto da minha mente, tentando ultrapassar os meus pensamentos e foi precisamente difícil me concentrar em tudo que tinha para fazer. Estou me sentindo muito perdida nesse momento, tentando entender o que isso significa e gostaria muito que você me ajudasse. Já tenho muitas coisas com que me preocupar e não quero mais uma.
— Tudo bem. Justo. — Ele acena — Estou te deixando confusa também e decididamente não quero isso, mas estou tentando entender isso assim como você. — fica pensativo, olhando a sua volta, em busca de uma inspiração para uma solução a nossa situação. Seus olhos se perdem em pensamentos por alguns minutos e quando eles voltam a me encarar, a curiosidade está predominante no azul dos seus olhos — Só me diga uma coisa. Acha que se sumir da sua cabeça.

Reflito.
Minha vida era cheia de dificuldades. O sonho de uma faculdade que poderia ser chamado de utopia. Uma filha pequena que me preocupava a cada dia. Minha confiança nas pessoas tinha sido destruída por completo por causa do pai da minha filha. Era cozinheira de uma lanchonete e restaurante do Brooklyn, contudo, a minha mente ainda encontrava tempo para pensar nesse homem. Acho que não tinha mais dúvidas da minha resposta.

— Não.
— Bom, então concordamos em algo. — O mesmo sorriso do dia anterior toca os seus lábios — Eu proponho que tenhamos um encontro.
— Encontro?
— Sim. Acho que nos conhecermos um pouco possa ajudar no que quer que isso seja. — Sei que estou fazendo uma careta quando ele parece desesperado — Por favor, não quero ficar maluco por simplesmente não tirar você da cabeça.
— Não deveríamos testar uma semana sem nos vermos para ver como funciona? — sugiro.
— Tenho muito trabalho e preciso de concentração total.
— Tudo bem.
— Sério?
— Por que não? Um encontro nunca matou ninguém.

Ele acena, sério.

— Quando será sua próxima folga?
— Terça.

Hoje era uma quinta, tínhamos quase uma semana para esse tal encontro.

— Espero não enlouquecer até lá. — Ele ergue os olhos e aponta para o meu prédio — É aqui que você mora?
— Sim.
— Que horas posso te buscar? À tarde?

Ergo a sobrancelha.

— Você não trabalha?
— Posso dar um jeito — informa com um sorriso torto.
— Vai dar um jeito só para termos um encontro?
— Claro.

Aceno.

— Vou subir — digo apontando para o prédio.

— Vejo você terça, às três.

Aceno mais vez. Ando de costas para o prédio, ergo a mão e faço sinal de até logo para , depois lhe dou as costas e corro para entrada do prédio. Quando já estou na segurança da escada que leva ao segundo andar paro por um instante e começo a respirar pesadamente. Como se não tivesse respirado um só instante após o nosso encontro. Olho para as minhas mãos e elas estão tremulas. Um sorriso idiota está colado em minha boca.
Preciso me recompor. Não posso entrar no meu apartamento com cara de boba. Sei que as meninas irão fazer interrogatório e não terei como escapar. Elas arrancavam os seus piores segredos somente com a insistência, e eu era franca diante de duas pessoas tão persistentes.
Quando me sinto pronta para enfrentar as duas, começo a subir as escadas. A pior parte do prédio é subir as malditas escadas. Sempre odiei ter de me locomover dessa forma. Poderia ser forçada a correr ao redor do Central Park duas vezes por dia e não acharia tão ruim como subir escadas. Tenho verdadeira aversão.
Assim que chego ao andar do meu apartamento nem é necessário que pegue a chave, pois a porta é escancarada por uma Rachel animada. Ela me puxa para dentro e me aperta como se eu fosse um urso de pelúcia. Meu rosto é apertado pelos seus braços fortes e gemo frustrada com a falta de delicadeza dela.

— Delicadeza em pessoa — resmungo, massageando o rosto. Com certeza ficou vermelho.
— Pare de enrolar, trate de falar o que aconteceu.

Reviro os olhos.

— Posso ver minha filha, primeiro?

Agora é a vez de Rachel revirar os olhos. Noto que Holly não está na sala, por isso ainda não estou sofrendo mais agressões físicas.
Corro para o quarto e encontro Millie e Annie brincando com um conjunto de lego que dei de aniversário para Annie esse ano. Quando minha garotinha levanta os olhos, um sorriso brota em seus lábios, logo ela se coloca de pé e corre até mim. Me abaixo e me preparo para recebê-la. Assim que sinto o seu corpo quente e com cheiro de bebê, levanto-me e giro-a. Uma risada gostosa escapa de seus lábios, bem como um toque em meu peito. Amor. Essa menina loirinha era salvação da minha vida. Por causa dela não me deixei afundar na culpa. Graças a ela os meus dias se tornavam mais fáceis. Annie era a alegria em carne e osso, e só minha.

— Como você se comportou? — indago, assim que paro de girá-la. — Não deu trabalho para a Millie, certo?

Ela acena ainda sorrindo.
Firmo o meu sorriso, mesmo não desejando isso. Tudo que queria era ter algum sinal de que ela me responderia verbalmente, porém, mais uma vez me decepciono. Acredito que terei de marcar uma consulta com a pediatra e descobrir o motivo de Annie não ter falado ainda. Já havia pesquisado e descoberto que algumas crianças tinham dificuldade para falar com coerência, contudo, sempre havia algum som, mesmo que fosse apenas a palavra “mamãe” ou “papai”.

— Millie.

A loira, que estava guardando as peças de lego dentro da caixa transparente, ergue os olhos.

— Ela não tentou falar?

Os ombros de Millie caem.

— Não. Sinto muito.

Aceno.
Volto para Annie e sorrio.

— Vamos tomar banho? — Começo a correr para o banheiro enquanto Annie gargalha alegremente.


Encaro Annie dormir na minha cama. Hoje resolvi que queria ela nos meus braços invés de deixá-la no berço. Sentia que tinha de protegê-la mais do que nos outros dias. A porta do quarto é aberta, revelando Rachel e Holly com sorrisos tímidos no rosto. Elas entram no quarto com um prato de brigadeiro que tinha feito no dia anterior.

— Acho que você não nos contou como foi o encontro com o bonitão — Holly sussurra.

Reviro os olhos. Não sei por que me deixei iludir que elas haviam se esquecido disso, estava tão compenetrada em me preocupar com Annie que deixei essa história de lado e me dediquei ao máximo em dar atenção a minha filha.

— Bom, não foi um encontro.
— Não, no entanto ele queria algo com você.
— Sim, ele não sabia o que, mas queria.
— O que? — Rachel ergue a voz e lhe direciono um olhar reprovador. — Desculpa.

Olho para Annie e ela continua dormindo calmamente.

— Ele está confuso. Parece que estamos num impasse. Ele não para de pensar em mim desde que nos vimos ontem e precisava me ver hoje.
— Bem que percebi que ele estava procurando alguém, deveria supor que era você — Rachel afirma. — Só que estava tão perturbada com as cantadas daquele amigo dele que acabei me distraindo.
— Erik? — Rachel vira-se para mim assustada.
— Você o conhece?
— Claro, ele trabalha para o FBI. Foi Erik que me trouxe para Nova York.

Holly arregala os olhos.

— Caramba! — Holly exclama. — Nem reparei no cara que estava com ele. Mas você comentou que o nome dele era Erik. Que louco! Será que trabalha para o FBI também?

Franzo o cenho.

— Não tenho ideia. — Lembro-me do pedido de Erik ao telefone mais cedo — Erik me ligou mais cedo, disse para não dizer a sobre me conhecer. Ontem ele ficou esquisito quando o vi e não parecia querer que demonstrasse que nos conhecíamos. Obvio que resolvi ignorar o bichinho da curiosidade e vou continuar assim. Erik me ajudou quando não tinha por onde escapar. Não sei como seria se ele não tivesse me enviado para cá, com certeza Annie teria ido para adoção e eu estaria perdida.
— Calma aí, ! — Rachel mais uma vez exclama alto demais. Ela olha para Annie e sorri envergonhada — Se não tivesse encontrado ele, teríamos arranjado um jeito de trazê-la para cá, você sabe que tenho dinheiro guardado.
— Tenho certeza que sim, mas quem tiraria Jayden da minha cola? Quem me daria uma nova identidade? Quem forjaria os resultados dos meus exames? Jayden acredita piamente que perdi o bebê. Vocês duas são minha família, entretanto, não poderiam me proteger do chefe do tráfico de mulheres.

Elas acenam.
A lembrança das palavras de Rachel logo antes me desperta e me anima, por finalmente desviar a atenção de mim.

— Quer dizer que Erik está interessado em você?

Rachel arregala os olhos e suas bochechas ficam vermelhas. Holly e eu começamos a gargalhar de forma controlada para não acordar Annie.

— Não disse isso. Ele estava cheio de cantadas e foi um saco.
— Sei... — Holly murmura ironicamente.
— Para a informação de vocês, não estou interessada nele. Conheço aquele tipo.
— Que tipo? — questiono.
— O tipo galinha.

Holly e eu caímos na gargalhada mais uma vez.



Capítulo 06

Perdendo o controle

Fazia menos de doze horas desde que a vi, mas a necessidade louca de apenas olhar nos seus olhos verdes e puxados nos cantos, me deixa à beira da loucura. parece ter penetrado o meu cérebro de forma inacreditável. Nas duas últimas noites, os meus sonhos foram dedicados apenas a ela. O seu sorriso sempre era o que me despertava pela manhã e me permitia ter um dia agradável. No entanto, depois de ir almoçar no Your Food e não vê-la – como já era previsto –, fiquei tenso. O único fato que me deixava mais tranquilo era que na terça eu a veria.
Apenas isso.
Estou relendo alguns casos antigos que foram fechados por falta de provas, enquanto Erik está na sala de Griffin. Ao que parece, teremos um novo caso e deve ser bem sigiloso para Erik ser chamado na sala do cara.
O caso que estou lendo é de um homem que foi assassinado na calada da noite. Havia sido encontradas provas de que ele havia sido traído pela esposa e de que brigavam noite e dia. A principal suspeita era a esposa. Na noite do ocorrido ela estava em casa, na cama do casal, e foi encontrada ao lado do marido morto. A garganta do homem havia sido cortada, sendo impedido de gritar. Já a esposa, estava sobefeito de remédios para dormir, por isso foi inocentada.
Não descobriram quem havia cometido o crime. Tentaram entrar em contato com o caso extraconjugal da mulher, no entanto, ele havia sumido do mapa há uma semana. Logo em seguida, ele foi encontrado morto do mesmo jeito em um quarto de hotel. Nas anotações do caso, a mulher ficou em choque quando viu as fotos do amante morto e teve de ser internada por seis meses para se recuperar.
Por falta de suspeitos e provas, o caso foi arquivado. Entretanto, algo nele me chamava atenção. Por que alguém mataria o marido e o amante? Essa pessoa só poderia ser um homem interessado na mulher. O FBI poderia apostar nisso, porém, ninguém havia entrado em contato com a viúva. Ela estava sobproteção nossa, acredito que isso estava afastando quem quer que tenha assassinado os caras.
O ruído de uma pasta de papel caindo sobre uma mesa desvia a minha atenção das páginas.
Erik está na minha frente, em sua mesa, com uma cara nada boa.

— O que houve? — Olho para a pasta grossa e desgastada — Caso antigo?
— Não te interessa, — sibila.

Ergo a sobrancelha.
Levanto-me e sigo direto para a sua mesa. Antes que Erik tome os papéis da minha mão, vejo o nome Smith.
Minha respiração falha e um calafrio percorre a minha espinha. Desejei esse caso nos últimos três anos, até mesmo pedi para Griffin. No entanto, meu pedido nunca foi atendido. Agora, aqui estava à oportunidade de pegar esse desgraçado, entregá-lo a justiça e vê-lo pegar prisão perpétua ou, caso tenha sorte e ele for pego no sul do país, cadeira elétrica.

— Você não vai fazer parte dessa investigação — Erik afirma.
— Por quê?
— Está ligado demais a tudo isso.
— E você não está?
— Minha esposa não morreu por causa desse miserável.

Respiro fundo. Tento controlar a raiva que perfura os meus poros. Aperto os punhos e cravo as unhas nas palmas até sentir furar a carne. Sei que essa ferida ficará feia, porém, é a única coisa que me segura para não dar um soco na cara de Erik.
Não vai adiantar argumentar com ele. Conheço-o suficiente para saber que ele é mais persistente que eu. Então, resolvo fazer a única coisa que me resta. Socar alguns sacos de areia até sentir os meus músculos ficarem moles.


Tive dificuldades para pilotar a moto até o meu apartamento. Minhas mãos tremiam de forma descontrolada e teve momentos que pensei que perderia o controle por completo, causando um maldito acidente.
Estava furioso com Erik. Ele sabia quanto esse caso era importante para mim. Não era apenas vingança, mas uma dívida que tinha com a minha falecida esposa e precisava cumprir. Custe o que custar.
Depois de chegar em casa, me dirijo para o banho. A água quente aliviaria a tensão nos meus ombros e relaxaria os músculos dos braços e pernas. Até porque, quando meus braços estavam moles demais para socar o saco de areia, me dediquei à tarefa de chutá-lo. No entanto, a exaustão foi mais rápida e acabei caindo sobre o tatame.
Como esperado, a água alivia o meu corpo e quase desmaio dentro do boxe. Talvez devesse ter optado pela banheira, assim poderia tirar um cochilo longo. Contudo, minhas mãos estavam fracas demais para arrumar os sais de banho. Nem mesmo havia removido as roupas. O meu corpo começa a deslizar pela parede – e sei que não serei capaz de me levantar por um bom tempo –, então, antes de estar completamente sentado no piso liso, fecho o registro da água.
Quando desperto, me surpreendo com ruídos vindos da sala. Meu primeiro pensamento é me levantar e pegar a arma que fica escondida debaixo da pia do banheiro, no entanto, o corpo reclama de um simples respirar, não quero nem imaginar como seria com um movimento rápido. Contudo, ao mesmo tempo em que estou pensando em várias frases que poderia dizer antes de morrer, Erik aparece no vão da porta com uma expressão preocupada.

— Por que não atendeu o celular?

Olho para chão cinza chumbo, ignorando meu amigo de infância como uma criança birrenta. Se tivesse forças, acabaria com ele. Tinha consciência que estava muito melhor que ele numa luta corporal e estava me esforçando para melhorar no tiro a distância. Não sentia vontade de ultrapassá-lo em nada, nunca senti, entretanto, precisava de todas as habilidades possíveis para pegar Smith. Trabalhando no caso dele, ou não.

— Vai fingir que não estou aqui? — bufa. — , não posso te meter nessa história, você vai perder o controle. Vi como reagiu quando soube da morte dela e sei que vai enlouquecer quando vê Smtih na sua frente. Estou pensando no melhor para você e para o caso. Tente me entender.

Ergo a cabeça com rosto vermelho de raiva. Não tinha força nos braços, porém, minha boca ainda podia trabalhar com as palavras.

— Acha mesmo que colocaria em risco algo que Annie trabalhou tanto para conseguir resultado? Acha mesmo faria com que a morte dela fosse em vão? — estou gritando e posso sentir a minha garganta arranhar a cada palavra. — Ela deu a vida dela para defender aquela garota, ela deu a vida dela por esse caso. Jamais colocaria tudo a perder. Dane-se o ódio que sinto por esse desgraçado. Seria o primeiro a dizer que temos que tomar cuidado e pegarmos esse infeliz. Quero estar no julgamento dele e vê-lo sendo condenado. Quero vê-lo sofrer.

Erik me encara silenciosamente e sai do vão da porta em direção ao meu quarto, quando retorna, suas feições estão do mesmo jeito.

— O arquivo está em cima do criado mudo. Acho bom dormir antes de ler aquela merda. Já sei onde o infeliz está e teremos de viajar amanhã à noite para pegarmos ele.

Aceno.
Meu amigo vira-se para sair do quarto e provavelmente do apartamento. Antes pronuncio o mais sincero agradecimento:

— Obrigado.

Erik me encara por cima do ombro, ergue o braço e bate continência. Dou um sorriso fraco.

— Quer que te leve até a cama? Você parece acabado.
— Agradeceria imensamente.

Erik me tira do boxe, me carrega pelos ombros até o quarto e minha cama. Já sobre a cama, ele remove as minhas roupas molhadas e me cobre com o cobertor. Antes que possa agradecer mais uma vez, o sono me devora.
Quando despertei, a primeira coisa que pensei foi que precisava de donuts. Então, resolvi levantar a minha bunda da cama e correr até a primeira Dunkin Donuts. Contudo, quando peguei a chave de casa que estava sobre o balcão, uma caixa da melhor loja de donuts estava lá.
Obrigado, Erik.
O meu amigo sabia que para ler o arquivo que estava no meu quarto, precisaria do meu doce preferido.
Sigo para o meu quarto, pego o arquivo grosso e amassado, depois retorno para a cozinha. Descanso a pasta sobre o balcão, sento-me em uma banqueta, abro a caixa de donuts e começo a devorá-los. O começo do arquivo não há nada de novo, então passo algumas páginas. Noto que o nome da garota que estava envolvida com Smith não é mencionado em nenhuma parte e imediatamente fico surpreso. Lembro-me vagamente que Annie havia comentado o nome , mas não conseguia me lembrar do primeiro. Além disso, tinha certeza que ela não deixaria de lado o nome de uma personagem importante nessa trama toda.
Com isso, resolvo mandar uma mensagem para Erik.

: Está faltando informações no arquivo.
Erik: Não, levei ele completo.
: Então ele foi entregue a você incompleto.
Erik: Por que acha isso?
: Não tem o nome da namorada do Smith.
Erik: Para a sua informação, o nome dela foi cortado da papelada. A garota está sobproteção do FBI nos últimos anos e não pode ser colocada no meio disso tudo. Não tenho mais informações sobre o assunto. Apenas pegue essa merda de papelada, leia e tire suas conclusões.

Com o ultimato de Erik, torno a ler o arquivo.
No decorrer da leitura, noto que Smith tem deixado mais rastros do que antigamente. Até parece que ele quer ser pego, a não ser que esteja apenas descuidado. Erik me informou há um ano que a garota que vivia com ele não tinha ideia do que o cara fazia. Tentei contestar com ele, porém, não fui permitido a expor minha opinião.
Acreditava que essa garota só estava vigiando o FBI e informando os nossos passos para Smith. Caso fosse mentira, podemos perder de vez as nossas chances de pegar esse cara. No entanto, se isso fosse realmente verdade, não haveria tantos rastros de Smith em um dossiê.
Quando os meus olhos caem sobre as cidades e países que Smith tem visitado nos últimos três anos, percebo uma igualdade ao tempo em que ele ficou nos lugares. Duas semanas no máximo. Uma foto dele tinha sido enviada para todos os aeroportos do país, entretanto, ele continuava pulando de um lado para o outro como se fosse algo comum. Um criminoso que viaja muito. Por ironia do destino, ou simplesmente sorte, ele estava no Texas há uma semana, ou seja, era nossa chance de pegá-lo.

: Já arrumou as suas malas?
Erik: Sim, já estou descendo.

De acordo com os nossos dados, Smith estava próximo a uma cidade chamada Waco. Assim que chegamos à cidade, alugamos um quarto duplo em um hotel meia boca. Não pretendíamos ficar mais de três dias no lugar, assim como era provável que não conseguíssemos pegar Smith nessa viagem. A ideia era marcar território e descobrir quais são os planos que o traficante tem ou teve nos últimos anos. Havíamos alugado um carro para que pudéssemos nos locomover de forma rápida, eficaz e discreta.
Pego minha bolsa e começo a retirar minha Magnum juntamente com a munição. Erik tinha trazido um estoque para ser distribuído pelo local, até porque não sabíamos se precisaríamos de proteção contra qualquer acaso. Recarrego a Magnum e ponho no cós da calça. Sairemos em busca de um hotel fora da cidade, o mesmo que Smith está hospedado.

— Segundo andar, quarto sete — Erik anuncia.

Pego o bloco onde anotei o número do nosso quarto quando fiz a reserva.

— Estamos no quatro, segundo andar.
— Será ótimo, não é muito perto. O bom dessa operação é que não será barulhenta e poderemos pegar alguma informação.
— Deveríamos pegar um dos caras que trabalham para ele.
— Não sei se acho uma boa ideia.

Ergo os olhos do bloco de notas e franzo o cenho. Erik sabia que essa tática tinha dado certo comigo no passado, seria prático e fácil, sem muitos riscos. O problema era conseguir um lugar para interrogar o cara.

— Isso pode ter dado certo com você e Annie. — Encolho com o pronunciar do nome — Mas não vai acontecer de novo. Não podemos arriscar perder Smith de novo. Estamos com o FBI seguindo os seus passos, se conseguirmos pegar ele em uma transação, será o que precisamos para prendê-lo.
— Tínhamos que prendê-lo logo.
— Sabe que não podemos. O desgraçado nunca deixa rastros. Sabemos que ele faz tudo isso, mas precisamos de provas. Se prendermos ele por desconfianças, mesmo tendo certeza, ele irá escapar rapidamente e poderemos perder a chance de vez.

Dou um suspiro.

— Não sei por que estamos aqui.
— Sabe sim. — Erik se aproxima com sua expressão profissional e tensa — Temos informações sobre ele, contudo, como o caso foi passado para nós, precisamos ter certeza que os dados no dossiê estão certos. Desde Donald, o FBI tem guardado esse caso entre sete chaves, somos privilegiados por isso.

Em nossa viagem até o Texas, havia refletido bastante sobre o motivo de este caso ter vindo para Nova York e principalmente para as mãos de Erik. Não sou estúpido de pensar que era apenas por causa do seu bom nome como agente. O FBI não fazia nada por acaso. Eles haviam dado esse caso para o meu amigo, não para um colega de trabalho. Eles sabiam que iria trabalhar nesse caso. Eles sabiam que eu faria o possível e o impossível para ver Smith atrás das grades.
Entretanto, não poderia dizer isso a Erik, ou ele abandonaria o caso e eu sabia que Griffin não me entregaria algo com uma ligação tão pessoal.

— Eu sei.

Erik coloca sua Glock no cós da calça, se direciona até a porta de entrada e eu o sigo. O hotel antigo de paredes amareladas e piso barulhento – a cada passo era um rangido diferente –, era o pior que tinha entrado após tantas missões dentro e fora dos Estados Unidos. Porém, todas as nossas missões eram assim, ficávamos nos piores lugares e pagávamos outro hotel como reserva. Pelas fotos que tínhamos adquirido, o lugar que Smith está hospedado é bem melhor do que o nosso, o que me deixava mais confortável, até porque teria de dormir no lugar velho e sujo, não iria gostar de trabalhar em um semelhante.

— Não gosto desse lugar.
— Sabe que é o melhor disfarce.
— Acho que você é paranoico. Se fosse um criminoso, meu primeiro pensamento era de que agentes atrás de mim estariam em lugar nojento como esse.

Erik ficou silencioso.

— Devíamos ficar no mesmo hotel que ele. Ele não irá ao nosso quarto nos matar.
— Sabe que ele pode ter os nossos nomes e fotos, certo?

Bufo.

— Sei, Scott. Mas não tenho muita coisa a perder.

Quando saímos do hotel, o carro alugado, que por incrível que pareça é novo, um Corolla preto, está estacionado em frente ao nosso quarto. Logo estou no banco do passageiro e Erik no do motorista e, assim que estamos pronto, ele dá a partida.
Desde o acidente fatal, não tenho tocado no volante de um carro. Nem mesmo havia tentado. Não sei se teria psicológico para isso. Posso não ter visto o acidente, porém, só de pensar em como foi terrível para Annie estar detrás do volante, grávida e com uma única forma de sobreviver, sendo ela correr desesperadamente com um veículo, fazia com que meu coração acelerasse e o pânico adentrasse os meus poros.
Assim que chegamos ao hotel, penso se não seria melhor que ficássemos no carro e analisássemos as nossas chances dentro dele. Contudo, ter um carro parado com dois caras chamaria muita atenção e era tudo que não queríamos. Saímos do carro de óculos escuros. Não tínhamos como disfarçar de forma mais simples, o sol do Texas estava queimando nossa pele e era um ótimo pretexto para evitarmos contato visual.
Como dizem, os olhos são a janela da alma, e tinha certeza que eu e Erik não transpareceríamos nada além de ódio por Smith.
Subimos para o segundo andar do prédio na cor gelo, logo estamos em frente a porta cinza e não hesitamos em entrar. Como esperado, o hotel é razoável, nada comparado com os hotéis da Holanda. As paredes em um cinza mais aproximado ao violeta deixam o ambiente tranquilo, duas camas com os seus lençóis brancos, uma mesa de mogno com duas cadeiras, uma TV velha, um frigobar e uma porta que leva até o banheiro. Me jogo sobre a cama e respiro aliviado por constatar que a própria é tão confortável como imaginei.

— Pode dormir um pouco, ficarei de vigia — Erik informa.

Ergo-me da cama e olho-o esperançoso e preocupado. Não havíamos dormido no voo, refletindo sobre como seria e o que aconteceria se realmente déssemos de cara com o traficante. Resolvemos algumas questões e afirmei que não perderia a cabeça se visse o cara. Pelo menos esperava que não.

— À vontade, não estou cansado. Já você está horrível e não sei se serei capaz de olhar para essa sua cara de semimorto.

Dou uma risada sem graça e volto a me deitar.


, acorde.

Abro os olhos, confuso com o sacolejar. O rosto preocupado de Erik toma minha visão e é como uma injeção de adrenalina, ergo o corpo com rapidez, pronto para o que estiver por vir.

— O que houve?
— Fiquei de vigia e não ouvi nenhum ruído. Saí algumas vezes para conferir se realmente tinha alguém no quarto e nada. — Ele me encara receoso — Acho que eles não estão mais aqui. Talvez os nossos dados estejam errados.

Aperto os punhos.

— Estamos perdendo tempo.
— Não exatamente.

Levanto os olhos com uma expressão questionadora.

— O que quer dizer?
— Lembra de Ryan? — Aceno. — Podemos fazer a mesma coisa com o cara que acabou de entrar no quarto. Pela forma que ele agiu, com certeza está dentro dos esquemas do Smith.

Levanto-me, pego a Magnum que deixei sobre a mesa de cabeceira e ponho-a em punho, verifico a munição e olho para Erik, determinado.

— Vamos.

Erik acena e saímos do quarto.
Já anoiteceu, não há nenhum resquício de sol, o que me faz constatar que dormi mais do que suficiente, enquanto Erik está virado e provavelmente exausto. Assim que chegamos à porta do quarto, ela está entreaberta, o que nos dá oportunidade de entrar rapidamente, sem nenhum estardalhaço. Olho para Erik e fazemos uma contagem labial, quando chegamos ao três, entramos.
O lugar está mal cheiroso. Não há nada de novo nele, a decoração é exatamente igual ao do quarto em que estamos, entretanto, o lugar parecia ter se transformado em um verdadeiro chiqueiro. Embalagens e caixas estavam espalhadas por todo lado e até mesmo poderia ouvir ruído de moscas. As camas estavam desarrumadas, lençóis espalhados para todo lado. Um verdadeiro terror.
No canto do quarto, um homem baixinho de cabelos avermelhados está paralisado e de olhos arregalados. Começo a me aproximar do homem, porém sou surpreendido quando ele puxa uma faca de caça do cós da calça e direciona até a garganta. Os meus olhos quase saltam do rosto e um desespero percorre todas as minhas veias, um grito mudo toca minhas cordas vocais e apesar da minha proximidade com o homem, não sou capaz de impedir a fatalidade. Sangue começa a esguichar, meu coração está aos pulos no peito e sinto o ar me deixar com a cena minha frente. Um zumbido toca o meu ouvido e sei que estou à beira de um acesso de pânico ou raiva. Minha pele queima e minha mente percorre uma nuvem sombria me fazendo perder completamente o controle.
Uma única chance e a perdi. Mal começamos e já estamos perdendo as cartas. Uma dor lancinante toca alguma parte do meu corpo e não sou capaz de perceber de onde ela vem, nem onde está. Só sei que ela está presente.

— Merda — uma voz ao longe sibila.

Pisco várias vezes, tentando entender o que está acontecendo. Sei que perdi a noção e estou navegando na minha mente ferrada, apenas tenho certeza que minha chance de pegar Smith foi-se embora.

— Sabia que não poderia colocá-lo nessa missão. Em algum momento você perderia a cabeça.

A dor se intensifica cada vez que minha mente torna a realidade. Os ruídos na rua, o ar-condicionado trabalhando, minha respiração entrecortada e um ruído de agonia que escapa fracamente do fundo da minha garganta.

— Deixe-me ver isso — Erik se aproxima, pega minha mão direita e quase dou um berro com a dor que perpassa o meu pulso. — Com certeza está quebrado. Vamos até um hospital e em seguida para casa, não temos mais nada para fazer aqui.
— O homem...
— Sabe o que acabamos de ver e o que isso significa.

Sim, eu sabia. Essa era a certeza que precisávamos. Smith era muito mais perigoso do que imaginávamos, por isso o homem preferiu morrer a sofrer as consequências que viria caso algo escapasse dele. Ou seja, Smith teria algo guardado para qualquer um que o traísse e seria muito pior que morte.



Capítulo 07

Primeiro encontro

Annie está sentada no chão colorido feito especialmente para crianças, há vários legos e um carrinho vermelho a sua frente. Na semana anterior, marquei uma consulta com uma das melhores pediatras de Nova York e quase paguei a mais só para a doutora me atender o mais breve possível.
Essa era a mesma médica que estava de plantão no dia do meu parto. Ela era da ala particular do hospital, porém, no dia do nascimento de Annie, havia tido uma nevasca e foi um verdadeiro milagre que Rachel, Holly e eu tivéssemos conseguido entrar em um táxi e chegar ao local, pois a maioria dos médicos ficaram presos em suas casas por causa do mal tempo. Assim que Dra. Perry fez o parto, mesmo não sendo sua especialidade, resolvi entregar a saúde da minha filha em suas mãos. Não me importava se as consultas levavam quase todo o meu dinheiro, a saúde de Annie sempre estaria em primeiro lugar.
A porta do consultório é aberta e sou atraída por ela. A doutora olha para a sua ficha e ergue os olhos, sorridente. Volto minha atenção para a garotinha loira e ergo-a do chão, fico feliz por não ouvir nenhum resmungo de reclamação. Annie sorri para a Dra. Perry, que retribui seu sorriso acolhedor.
Annie nunca foi o tipo de criança que tem medo de enfermeiras ou médicos, na verdade, ela gosta de pessoas que vestem branco. Claro que o fato dela nunca ter sido internada quando menor ajudou muito. Não havia nenhuma lembrança ruim com esses profissionais, o máximo foram algumas vacinas, que logo foram esquecidas quando um pirulito era entregue para ela.
Entramos na sala branca com alguns toques de amarelo bebê. Duas poltronas brancas de frente para uma mesa de vidro e inox, assim como uma cadeira de aparência confortável atrás da mesa. Há uma maca logo ao lado, um cartaz sobre vacinação acima da maca e alguns quadros com pinturas abstratas distribuídos nas outras quatro paredes. Sento-me em uma das poltronas e coloco Annie na outra. Dra. Perry se acomoda em sua cadeira e olha para mim.


— Então, , algum problema com essa garotinha? — Ela olha pra Annie rapidamente e sorri.
— Sim.

Uma nuvem de preocupação percorre os seus olhos e uma tensão profissional toma suas feições. Dra. Perry aproxima-se de sua mesa, pega uma caneta e se prepara para escrever sobre um bloco de notas.

— Pode falar.
— Ela não fala uma palavra — solto uma respiração dolorosa.
— Nada?
— Resmungos ou gritos. Tentei influenciá-la a falar ‘mamãe’ e ela disse "mah". Foi o máximo que consegui nesses quase três anos. — Olho para Annie, que está entretida com o carrinho vermelho, e volto para a doutora — Não vou mentir, estou com medo. Na verdade, apavorada.

Tomo fôlego e espero pelas próximas palavras.

— Tudo bem. Faz parte, você é mãe e quer o melhor para a sua filha. — Ela descansa a caneta sobre o papel, cruza as mãos sobre o queixo e descansa os cotovelos sobre a mesa — Mas não é preciso se desesperar, Annie ainda está no seu tempo. Contudo, há vários exercícios que podem influenciar a fala e acredito que alguns deles você deve ter pensado em fazer, sem ao menos saber se é o certo. Um jogo de bonecos pode ajudar, que tenha um representante para a mãe, o pai e a própria Annie. Ler histórias, de preferência longas. Conte sobre o seu dia a dia, repita quantas vezes for possível.

Uma lágrima rola pela minha bochecha e logo a seco.

— Sempre conto sobre o meu dia.
— Já é alguma coisa. Continue, repita. Ensine as cores e nomes das diversas coisas. Desenhos podem ajudar também, assim como músicas. Há inúmeras coisas que vão ajudar Annie, basta colocá-las em prática. Tenho certeza que até o próximo aniversário dela, ela terá falado alguma coisa.

Aceno.

— Você me informou que é órfã, certo?
— Sim.
— Mas, tem alguma ideia de quem sejam os seus pais, teve alguma curiosidade em procurar?
— Nunca me importei com isso. Por quê?
— Talvez esse retardo não seja nada psicológico, mas algo genético. — Arregalo os olhos e não demora pra Dra. Perry me acalmar. — Não é nenhuma doença genética, mas algo passado pela genética. Não tem com que se preocupar. Estou perguntando isso, porque não vejo outro motivo para o retardo da fala, quem sabe até mesmo você teve essa dificuldade quando criança, no entanto, não sabe.

Aceno mais uma vez. Pela primeira vez na vida me condeno por não ir em busca dos meus pais. Minha filha estava enfrentando problemas e não tinha como ajudar, por causa do meu desinteresse em procurar meus benditos pais.
Não posso controlar a frustração que me toma. Eu teria que ir contra essa vontade absurda de não saber quem são aqueles que me deram a vida, tenho de ir atrás da minha descendência. Sei que posso ajudar a minha filha sem saber sobre o meu passado, no entanto, alguma parte dentro de mim dizia que precisava saber. Não seria apenas uma fala, o que viria depois? Alguma doença genética que apareceria do nada e desencadearia mais desespero. Não. Eu iria descobrir todo esse passado e a tranquilidade iria voltar a reinar.
Assim espero.
Depois que saímos do consultório da Dra. Perry, seguimos para a loja de brinquedos. Já tinha em mente do que comprar para Annie assim que adentrei o lugar. Peguei uma caixa com quatro bonecos, dois adultos e duas crianças, por ironia, eram dois casais. Não havia um que tivesse apenas uma mãe e uma filha, então esse era o único que poderia recorrer. Além disso, notei que as bonecas pareciam comigo e com Annie, o que ajudaria ela a assimilar a si mesma e a mim.
Annie acabou se agarrando a uma pelúcia do Olaf e não pude negar comprar para ela. Em seguida, nos dirigimos a uma livraria e comprei os três primeiros livros da saga Percy Jackson e os Olimpianos, pelas as minhas pesquisas, eles eram infanto juvenil e como a doutora me disse, deveriam ser escritas mais longas. Passei os livros no caixa, depois resolvi que deveríamos tomar um sorvete. Não gostava de acostumar Annie com doces, preferia lhe dar apenas frutas por causa da sua idade, contudo, de vez em quando não faria mal. Nós duas amávamos sorvete de morango com pedaços da fruta, então não pensei duas vezes em pedir. Informei ao sorveteiro que colocasse M&M por cima, o que deixou Annie muito animada.
Assim que terminamos de comer, chamei um táxi. Não poderia atravessar Manhattan com uma criança e compras até o Brooklyn, um ônibus seria desconfortável demais. Annie ficou abraçada com Olaf enquanto eu conferia o meu celular. Havia uma mensagem de um número desconhecido e, mesmo receosa, resolvi abri-la.

Desconhecido: Olá!
: Quem é?

Meu coração começou a dar pulos. Um medo terrível de que fosse Jayden do outro lado da linha. Porque, caso fosse ele, teria de ir embora e não sei se me sentiria bem em outro lugar como me sinto em Nova York. Aqui era o meu lar. São Francisco nunca foi uma casa para mim, lá não tinha um lar só meu, um emprego e nem mesmo uma cama própria. Já em Nova York, poderia viver aos trancos e barrancos, porém me sentia independente e dona de mim mesma. E essa é uma das melhores sensações para o ser humano.

Desconhecido: Não quero que pense que sou um stalker. Fui almoçar mais cedo hoje e acabei pedindo o seu número para Rachel. Não sei se você se lembra, mas temos um encontro hoje 😉

Dou uma risada. Annie olha para mim e sorri também, contudo, sua atenção retorna para Olaf e a minha para o celular.

: ! Desculpa, fico um pouco paranoica com números desconhecidos.
: Está no seu direito. Tem muito louco espalhado por aí.
: Sim.
: Qual sua comida favorita?
: Lasanha.
: Quanta convicção... Estava pensando em algo bem informal para hoje, então a lasanha vai ficar para outro dia. O que acha de um passeio pelo Central Park?

Fico tentada em dizer que poderia levar Annie, porém me lembro de que nunca falei dela para ele. E era óbvio que não falaria. Ele poderia ser amigo de Erik, mas não iria abrir a existência da minha filha para qualquer um, precisava me sentir segura para informar para que tinha uma filha. Claro, não podia esconder isso dele por muito tempo. E esperava que o encontro de hoje me desse alguma perspectiva, e assim abrir o jogo sobre minha pequena.

: Parece uma boa ideia.
: Que bom! Estarei às duas e cinquenta e nove na porta do seu prédio.
: Combinado!

Há um sorriso bobo nos meus lábios quando o táxi para em frente ao meu prédio. Guardo o celular dentro da bolsa, pago o motorista e ele me ajuda com a minhas compras, levando-as até a entrada do prédio.
Agradeço o homem, fico tentada a lhe dar uma gorjeta, mas desisto quando me recordo o absurdo de dinheiro que gastei apenas em um dia. No entanto, pego uma nota de dez dólares e lhe entrego mesmo assim, ele ainda tenta recusar, contudo, insisto.
Depois de subir as escadas, a porta é aberta por uma Holly animada. Ela deveria estar no trabalho, o que me faz questionar o que ela faz em casa.

— Hoje é o dia do seu encontro com o bonitão. Alguém tinha que lhe ajudar a se vestir. — Reviro os olhos. — Agora me dê essas compras. Afinal, assaltou algum lugar?

Dou uma risada sem graça.

— Comprei tudo que a Dra. Perry disse que era necessário para ajudar Annie.
— O que ela falou?
— Ela passou várias instruções. — Sento-me no sofá, enquanto Annie corre até o quarto. — Acredita que tenho que ler todas as noites para Annie? E são livros grandes e complicados para a idade dela.
— Por que isso?
— A doutora disse que vai fazê-la me questionar.
— Faz sentido.
— Sim.

Annie volta para a sala carregando Elsa, Ana e Olaf. Acreditava que ela queria fazer a coleção dos personagens do filme, ou seja, havia muito dinheiro para ser gasto.

— Alguém quer fazer um filme — Holly afirma e Annie acena.

A campainha toca e me levanto para abrir. Assim que abro a porta, vejo uma Millie toda bagunçada, suas roupas largas parecidas com um pijama e os cabelos loiros amarrados em um coque frouxo. Ela entra no apartamento e se senta no sofá.

— Algum problema, Millie?
— Mamãe passou a noite fora e não consegui pregar o olho.

Mordo o lábio.

— Tem certeza que pode cuidar da Annie por algumas horas?
— Claro, você não tem ideia de como essa garota me anima. — Ela dá uma risada quando Annie coloca as três pelúcias em seu colo. — Alguém quer fazer um filme.
— Falei a mesma coisa — Holly murmura. Em seguida, levanta-se do sofá e me encara com um olhar malicioso. — Vamos escolher uma roupa maravilhosa para esse encontro.


Holly poderia ser personal stylist, ela sabia vestir qualquer pessoa e com poucas opções. Sei que minha amiga queria ter gasto o dinheiro dos pais em uma faculdade para se aperfeiçoar, ela poderia dizer que não, contudo, conhecia as suas paixões e me entristeço com o que a vida reservou para ela. Perder os pais tão cedo deve ser muito ruim, ainda mais numa fase que você precisa tanto deles. Como não tinha ideia de como era ter um casal de pais do meu lado, não me fazia falta. Você não pode sentir falta de algo que nunca teve.

— Já que vocês vão para o Central Park, um vestido seria uma ótima opção e essas suas pernas precisam ser mostradas. — Holly analisa o closet e tira um vestido creme com flores azuis. — Não vamos encontrar coisa mais perfeita. E para a sua sorte, pode usar as suas amadas sapatilhas.
— Iria usar elas de qualquer jeito.

Holly revira os olhos.

— Vamos fingir que tenho algum poder sobre você. Agora se sente que vou secar seu cabelo.

Tinha ido tomar um banho quente para relaxar a tensão do encontro e a preocupação com Annie, com isso, acabei lavando o cabelo, pois ele estava muito sujo e sem movimento. Descanso sobre a cama e Holly começa a usar o secador. Annie adora escutar o barulho do aparelho, ela fica tão encantada que já dormiu diversas vezes enquanto secava o meu cabelo. Enquanto Holly trabalha, dou uma conferida na minha maleta de maquiagem. Não gosto de usar muita maquiagem, especialmente durante o dia, minha marca registrada para ir trabalhar sempre eram o lápis, delineador e rímel, nada mais, até porque não compensa passar camadas de maquiagem se vou acabar sujando o rosto ou suando. Era perda de tempo. Contudo, gostava de marcar os meus olhos puxados. Sabia que ninguém me veria, pois trabalhava na cozinha, mas quem disse que me arrumava para alguém?! A afirmação mais idiota da história era que uma mulher se arrumava para um homem, era mais fácil uma mulher se arrumar para outra mulher do que para um macho.
Pego um batom com uma tonalidade avermelhada, porém puxado para a cor rosa e espalho sobre os lábios, sei que essa cor deixará minha boca mais visível, no entanto, bastante natural. Depois, apanho o delineador e deslizo-o sobre a minha pálpebra, puxando um pouco além do canto dos olhos, em seguida, passo uma camada de rímel. Pronto. Não é necessário mais nada.
Ao passo que termino, Holly encerra seu trabalho, deixando os meus cabelos naturais. Ondas grossas caem sobre os meus ombros e sorrio com o resultado. Posteriormente, coloco o vestido e minhas sapatilhas creme para combinar.

— Você está tão fofa! — Holly exclama.

Dou uma risada.

— Que horas são?

Holly olha para o relógio de pulso.

— Duas e cinquenta e nove.

Sorrio. Me aproximo da janela do meu quarto e olho para a calçada do prédio. Um táxi para em frente, sai do automóvel logo em seguida e meu peito se aquece com o que vejo. Ele disse que estaria aqui duas e cinquenta e nove e aqui está ele.

— Ele chegou.
— Um minuto antes, que feio, tinha que chegar uma meia hora antes.
— Você não entende, Holly. Ele disse que estaria aqui duas e cinquenta e nove, e aqui está.

A boca de Holly se abre e levanto o seu queixo.

— Ele conseguiu um ponto — ela afirma.
— Com certeza.

Pego uma bolsa transversal na cor marrom e coloco meu celular dentro dele, confiro se tem algum dinheiro na carteira e me dirijo para a sala. Annie e Millie estão assistindo desenho e quase não percebem que estou passando, entretanto, paro em frente à Annie e me abaixo para beijá-la.

— Mamãe não vai demorar. — Ela acena. — Faça tudo que Millie pedir e seja uma boa menina. — Volto os meus olhos para Millie — Faz o exercício dos bonecos com ela.
— Vou fazer, em breve essa menina vai falar tanto que vamos cansar de ouvir a voz dela.
— Estou esperando por isso.

Beijo as bochechas de Annie, me levanto e saio do apartamento.
Quando chego ao andar de baixo, noto algo estranho em . Há uma tala envolvendo da sua mão até o antebraço. Não sei o que aconteceu, mas sei que o estrago foi grande. Me aproximo dele rapidamente e toco a tala preta um pouco receosa em machucá-lo.

— O que aconteceu?
— Acidente de trabalho.
— Quebrou? — indago, fitando o braço e tocando com a ponta dos dedos.
— Não, mas torceu. Perdi um pouco os sentidos com a dor.
— Céus! Você precisa ficar em repouso. Por que não cancelou o encontro? — Ergo os olhos e percebo o quanto ele está surpreso com a minha preocupação.
— Não queria deixar de te ver.

Minhas bochechas esquentam, porém mantenho meu olhar conectado ao dele.

— Não seria necessário cancelar. Poderíamos ficar em lugar tranquilo e apenas conversar.
— Central Park parece ótimo.

Ele aponta para o táxi, que continua parado a nossa espera. abre a porta com sua mão boa, entro no veículo e ele logo depois.
O caminho até o Central Park é silencioso, então aproveito para admirar as ruas da cidade. Nova York sempre teve um brilho especial para qualquer um que admire a vida urbana. Eu era uma dessas. O campo poderia ser atrativo para umas férias, entretanto, as ruas movimentadas davam vida para um lugar. É certo que não conheço a vida no campo, porém posso afirmar que a quietude me atrai nem um pouco.
Paramos, paga o taxista, saímos do carro e nos dirigimos para o parque.
Posso sentir a tensão entre nós. Aquele momento do encontro que ninguém sabe o que dizer e muito menos como começar uma conversa. Você pensa em várias coisas idiotas para falar, contudo, nenhuma delas parece o certo. No entanto, você precisa falar algo se não irá enlouquecer.

— Sabe, sempre detestei silêncio. Adoro estar em contato com a vida urbana — murmura.

Sorrio por dentro. Porém não sei se pelo o que ele falou ou por finalmente o silêncio ter sido quebrado.

— Compartilho do mesmo sentimento. Nunca fui para o campo, mas não creio que vou gostar tanto a ponto de morar.
— Tenho uma propriedade em Aspen.

Ergo a sobrancelha. ergue a mão boa e coça a nuca.

— Não sei por que comentei isso.
— Imagino que seja um convite.

Ele fica vermelho, arrancando uma risada de mim.

— Quantos anos você têm? — questiono.
— Não é falta de educação perguntar a idade de outra pessoa?
— Está me chamando de mal educada? — faço-me de ofendida. — Respondendo a sua pergunta. Não é falta de educação. É feio perguntar a idade de uma mulher.

Ele toca o queixo e seu olhar fica pensativo.

— Pensei que era só mulheres mais velhas.

Semicerro os olhos e ele dá uma risada.

— Faremos assim, eu digo a minha idade e você a sua. — Aceno — Tenho vinte e oito.
— Vinte e um.

Ele dá um suspiro de alívio.

— Fico muito feliz por isso. Não sei como ficaríamos se soubesse que não era maior de idade.

Quando chegamos a uma barraca de cachorro quente, pede dois completos – depois de perguntar como prefiro – e o senhor atende o nosso pedido de forma rápida e eficaz. Assim que tornamos a caminhar, o assunto muda um pouco, contudo o mesmo território de perguntas e respostas.

— Comida favorita?
— Lasanha.
— Verdade, você disse na mensagem — diz com um sorriso nos lábios. — Nhoque.
— Uh, é delicioso. Adoro cozinhar qualquer tipo de massa.
— De onde surgiu o amor pela culinária?

Pressiono os lábios em uma linha fina, depois mordo o lábio inferior. Tento me recordar se alguém já me perguntou isso, contudo, nem mesmo Jayden me indagou sobre o assunto.

— Não sei. Acho que é uma coisa que nasceu comigo.

Ele dá uma risada e balança a cabeça.

— Você falou como Elliot.
— Elliot?
— Sim, irmão de Erik, aquele cara que estava comigo no Your Food.

Aceno.

— Esse Eliott trabalha com comida?
— Ainda não. Ele está fazendo faculdade de gastronomia da Yale.

Estanco no lugar e meus olhos se enchem de lágrimas. Meu sonho era ter podido entrar em uma faculdade de renome. Antes de tudo, não pensava em nada disso, estava contente com o que a vida tinha reservado para mim, ser cozinheira de uma lanchonete qualquer. Entretanto, minha cabeça foi preenchida por esperanças que se tornaram vazias com os acontecimentos. Agora, me formar no que tanto amo, já fazia parte da minha alma e você não pode se separar da sua alma.

— Está tudo bem?

está a minha frente com os olhos preocupados. Engulo o nó na garganta, fecho os olhos e respiro fundo.

— Estou ótima. — Olho para o cachorro quente quase no fim e torno a mordê-lo. — Isso está muito bom.

Ele não parece acreditar em mim, porém, não insisti no assunto.

— Em que você trabalha? — questiono.
— Detetive. Não daqueles que trabalham a mando de alguém específico, mas detetive policial.
— Por isso machucou a mão?
— Na verdade, foi o pulso. No entanto, sim, foi no trabalho.

Termino o meu cachorro quente e jogo a embalagem na primeira lixeira que encontro. ainda está na metade do seu, pois está com dificuldade de mexer apenas com um braço.

— Você não é daqui — afirma.

Nós sentamos em um banco de madeira e noto que fica mais fácil para ele comer estando sentado.

— Sou de São Francisco.

Ele franze o cenho e me encara.

— Como nunca te vi antes? — Seu olhar é intenso, fazendo coisas estranhas no meu estômago e deixando minhas bochechas quentes — Nasci e cresci lá, deveria ter te visto em algum momento.
— Temos uma diferença de idade grande. — Coloco uma mexa de cabelo atrás da orelha e abaixo a cabeça timidamente. Me sinto como uma virgem em seu primeiro encontro, contudo, ainda estou pior, pois já fui virgem e tive um primeiro encontro e não agi dessa forma estranha. — Há três anos estava terminando o colegial, enquanto você já devia estar na polícia há muito tempo.

Ele acena, porém, continua a me encarar. Seus olhos azuis me deixam sem jeito, no entanto, gosto da atenção deles. Os olhos de descem para os meus lábios no momento que os mordo e posso sentir o ar esquentar com esses míseros gestos.
Por que algo tão pequeno está mexendo tanto comigo? Será que a abstinência mexeu com algum parafuso da minha cabeça? Não há respostas para essas perguntas, mas sei que existe um desejo tão forte entre nós dois, assim como há uma conexão absurda e não fazemos ideia de onde isso começa ou termina. Se isso evoluir, não sei se serei capaz de me encontrar no meio disso tudo.
se aproxima depois de engolir o restante do cachorro quente, ele está tão próximo que posso sentir o cheiro que emana da sua pele, é menta com limão. Delicioso. Parece loucura, mas posso imaginar uma torta de limão sendo feita pelas minhas mãos, assim como posso imaginar como será estar envolvida por esses braços fortes e firmes. Meus olhos tremulam cada vez que ele se aproxima, nossas respirações se tornam apenas uma, fecho as pálpebras à espera do que está por vir.
Entretanto, o ruído de algo clama por nossa atenção, desfazendo o enlace que estávamos nos envolvendo.
Viramo-nos e deparamos com um menino, de talvez quatro anos, no chão. se levanta rapidamente e ajuda o garoto a se levantar. Há várias lágrimas no rosto do menino, olho para o seu joelho e constato que está ferido, meu primeiro instinto é me levantar, abraçá-lo e dizer que tudo ficará bem, no entanto, a imagem que vejo a minha frente me paralisa.
tenta consolar o garoto, contado uma história de sua infância. Enquanto seca as lágrimas do menino, ele conta que estava sozinho em casa quando caiu da bancada da cozinha e chorou muito, porém, ele teve de ser forte e procurar um kit de primeiros socorros para que limpar e cobrir o corte que havia sido feito no braço. E termina dizendo que precisou ser forte para fazer isso, assim como o menino seria. As lágrimas cessam, o garotinho abraça um sem jeito e corre para direção contrária, sem dúvidas até sua mãe. Meu instinto maternal desejou observar o menino até que estivesse em segurança, mas o meu coração vencia a batalha de observar o homem à minha frente. Eu poderia não saber nada sobre esse homem, todavia, tinha certeza que ele nunca seria mau para a minha filha, e para mim isso era essencial.


O táxi parou em frente ao meu prédio e nós dois saímos do veículo. pediu que o motorista esperasse. Não vou mentir, fiquei decepcionada com essa informação, esperava convidá-lo para subir e conhecer Annie.

— Queria muito subir, mas devemos ir devagar.
— Concordo — afirmo com um sorriso nos lábios e nem um pouco surpresa por ele ter falado exatamente o que estava pensando. Olho para a porta do prédio e mordo o lábio. A despedida é sempre a pior parte do primeiro encontro. — Vou subir.
— Vejo você em breve?
— Claro. Tchau.

Antes que possa dar um passo, me puxa com o seu braço bom. Meu corpo colide com o seu e nossas bocas se conectam me deixando completamente fora do ar. Os ruídos da rua se desfazem com um simples toque de lábios. Minha mão instantaneamente segue para os seus cabelos, enquanto a sua desliza para minha nuca e faz uma carícia entre ela e minha bochecha. Nossos lábios se movimentam de forma lenta, fazendo coisas no meu estômago e esquentando cada pedaço do meu corpo.
Quando o beijo termina, nossas testas colam uma na outra e nossas respirações estão pesadas. Sorrimos, então, captura meus lábios em um beijo rápido e por alguns segundos todas as sensações estão sobre mim de novo.

— Preciso vê-la amanhã. Na verdade, acho que vou me oferecer para subir.

Não sou capaz de dizer nada.

— Vou dispensar o táxi.
— Não! — exclamo. — Você tem razão, é cedo ainda. E tenho que preparar a minha filha...
— Filha? — indaga com as sobrancelhas unidas. — Você não me disse que tem uma filha.
— Sim, eu tenho. — Abaixo a cabeça e respiro fundo, torno a encará-lo e ele está apenas surpreso, nenhum julgamento por não ter lhe contado isso antes. — Ela tem três anos. Não quis contar nada porque estávamos nos conhecendo e sou bem protetora com relação a ela.
— Entendo. Mas sabe que isso é algo bem importante, certo?
— Claro, me desculpa, só estava com medo.

Nos fitamos por longos segundos até que ele acene. Seus lábios encontram os meus novamente e não posso controlar o sorriso de alívio por ele não ter ficado chateado com a falta de informação.

— Nos vemos amanhã. Vou contar as horas.

Ele se afasta, entra no carro e segue seu rumo.

— Também vou contar.



Capítulo 08

Cartas na mesa

Quando chego ao prédio do FBI, penso duas vezes se devo ou não fazer isso. Encontros servem para conhecer a outra pessoa e fiquei sabendo bastante coisa de , no entanto, sinto que ainda faltam peças que ela não quis me dar. E a minha parte agente não quer deixar isso escapar, preciso saber mais sobre essa mulher.


— O que faz aqui? Não ia ter um encontro com ? — Erik questiona, parando na minha frente assim que piso na recepção.

Franzo o cenho com a forma que ele a chama e um sentimento muito conhecido queima no meu peito, todavia, ignoro-o.

— Acabei de deixá-la em casa — respondo. — Só vim pegar uns documentos no meu computador e vou para casa.

Ele acena.

— Como foi o encontro?

Sorrio de lado.

— Não poderia ser melhor.

E não poderia mesmo. era muito mais do que aquilo que imaginava, sua preocupação com o meu pulso me deixou tão surpreso que fiquei sem ação por minutos. Ela parecia tão apavorada com a minha falta de repouso. Fazia muito tempo que sentia apreciado por alguém, desejando o meu bem-estar.
Além das nossas conversas, aquela conexão que senti no instante que a vi estava lá, quase palpável. Ansiava pelo dia de amanhã. Iria no horário que ela sai do trabalho, a deixaria em casa e quem sabe subiria até seu apartamento. Eu sei que ela tinha uma filha e que ela precisava informá-la sobre nós antes de me conhecer, porém, poderia ser apresentado como um amigo. Na verdade, nem sei o que está acontecendo entre nós, só tivemos um encontro. Eu e minha mania de apressar as coisas.
Me aproximo da minha mesa, ligo o computador e me sento na cadeira. Depois de ligado, abro o programa do FBI e coloco " Gray" na busca. Em dois segundos, a foto de aparece, clico e rolo a página de informações. Não há nada que já não saiba. Contudo, o local de seu nascimento está Nova York e a própria me disse que é de São Francisco. Ou seja, está mentindo para mim.
Quando rolo a página mais uma vez, sinto o ar escapar do meu corpo. O nome de sua filha é o mesmo que o da minha falecida esposa.
Minhas mãos tremem enquanto mexo o mouse, pronto para clicar no nome da criança e ver o seu rosto, entretanto, não consigo. Não há informações sobre o pai e isso é estranho. Não ter os registros dos pais de indica que ela é órfã, até aí tudo bem, pois os dados de vinte anos atrás eram pegos com muita dificuldade e sempre davam preferência para criminosos. No entanto, hoje, com a vasta tecnologia, conseguíamos dados que às vezes nem mesmo a própria pessoa conhece.
Certo.
Milhões de coisas passam pela minha cabeça, mas nenhuma delas fazem sentido. Então, recorro para a única coisa que me deixará mais confortável. Abro a sessão privada do FBI, coloco a primeira senha e minutos depois é pedido outra e mais outra. Após quatro senhas diferentes, entro no setor e pesquiso mais uma vez, porém o setor diz não ter encontrado. A paranoia ainda continua apitando na minha cabeça, por isso, pego a foto de e faço a pesquisa por reconhecimento facial.
Assim que o nome " " aparece na tela, franzo o cenho. Tinha a impressão que conhecia o sobrenome, porém, não me lembrava de onde. Clico no nome e a tela amplia. Quando os meus olhos encontram o nome de Smith, um frio percorre a minha espinha.
Fecho os olhos e respiro fundo.
Talvez tenha lido errado. A que passei a tarde, que tinha uma conexão além do normal comigo não poderia ser a garota do Smith.
Abro os olhos novamente e ali está, o nome "Jayden Smith" continua lá e o meu peito parece ser rasgado em um único corte profundo.
O que diabos está acontecendo? Gray não pode ser . Nem faria tanto sentido manter o primeiro nome, seria fácil demais, mesmo que estivesse no arquivo privado.
Minha cabeça começa a latejar. Mantenho minha pesquisa e continuo lendo sobre ela. Órfã, cresceu em um orfanato para meninas em São Francisco, nenhum registro sobre os pais, viveu um tempo com o civil Jayden Smith, que logo foi apontado como chefe de uma quadrilha de tráfico de mulheres.
Não tem nada afirmando que a filha de é de Smith, porém, só um idiota não saberia que a criança é dele. A garota estava grávida quando tudo aconteceu.
Fecho o computador rapidamente e o cachorro quente que comi começa a revirar no meu estômago. Minha mente fica anuviada, parecido com o meu ataque no Texas. Eu não havia percebido no dia, mas quando perdi controle sobre as minhas faculdades mentais, acabei socando a parede com toda força, causando uma torção no meu pulso.
Respiro fundo.
Não posso perder o controle mais uma vez e acabar com o meu outro pulso.
Preciso pensar.
Tinha consciência de como era duro pensar naquele dia, mas precisava colocar meus neurônios para funcionar, só assim teria respostas. Lembro que Erik me disse que a garota tinha dado entrada no hospital com princípio de aborto, também disse que ela não sabia de nada. Eu não acreditei. Claro que não. A garota só estava tentando escapar de todo um processo.
Erik.
Ele conhece . Por isso ele parecia tão apreensivo quando o levei até o Your Food, ficou com medo que dissesse que o conhecia e eu acabaria descobrindo sobre as ligações. Sobre as conexões. Merda. Estava tendo sentimentos pela mulher do homem que mais odeio. Não. não era dele. era forte e independente, nunca seria de ninguém, ela criou a filha sozinha e tem trabalhado duro para isso. É óbvio que não sabia dos esquemas de Smith, pelo menos esperava que não. Se ela soubesse, teria escapado das garras do FBI nesses três anos para encontrar o amado.
No entanto, ela ainda estava aqui. Lembro-me da mensagem que enviei para ela e sua resposta contida e preocupação para saber quem era. estava fugindo de Smith, se escondendo. Notei como ela anda preocupada pelas ruas, sempre olhando à nossa volta, nem mesmo percebia o que estava fazendo. Ela era inocente nisso tudo. Entretanto, como olharia para a filha dela? Eu poderia lidar com o fato dela ter estado com o homem que mais odeio nesse mundo... Mas, um filho? Se a menina se parecesse com ele? Como vou lidar com uma situação dessas? Ele é o assassino da minha falecida esposa, não saberia lidar com algo dessa proporção.
Merda.
Quem estou querendo enganar, nem mesmo sei como olhar para . Quando minha mente navega por seus cabelos castanhos e olhos verdes, agora, Smith aparece no fundo, rindo da minha cara. Estou interessado na única mulher que ele não quis nas mãos de outro. O que posso fazer agora? Como devo proceder? Não sei o que fazer, porém, de uma coisa tenho certeza, a traição de Erik foi o limite.
Dane-se que estava machucado e louco por causa do cara, Erik tinha que ter me avisado sobre . A confusão que havia me metido era muito além do que podia imaginar. O meu melhor amigo me escondeu uma informação importante, algo que poderia mudar tudo, ele viu como estava interessado por ela e preferiu ficar calado a me dizer onde estava me metendo. Erik tinha me deixado em um cômodo sem portas e sem janelas, completamente impossibilitado de sair.
Imprimo algumas folhas com as informações de e sigo até a sala de Erik, na qual ele havia adquirido algumas semanas atrás, por estar com um caso tão importante. Quando adentro o local, fecho a porta, tranco-a e atiro as folhas sobre a mesa dele.

— sussurra, assim que seus olhos encontram as folhas.
— Só quero saber por que não me contou.
— Não achei importante.

Paraliso com sua afirmação.
Não achou importante? Isso era mais do que importante, muito além de importante. Céus!

— Não achou importante? — sibilo, me aproximo da mesa e me inclino sobre ela. — foi namorada daquele desgraçado, estou desenvolvendo sentimentos pela ex do assassino da minha mulher. Como pode dizer que não é importante?
, você tem que entender. Não podia contar sobre ela com essa sua sede de vingança.
— Mas eu posso me aproximar dela, sair com ela, beijá-la… — rosno, passo as mãos pelos cabelos em seguida sobre o rosto, tentando encontrar uma saída para toda essa confusão. — Que ainda por cima tem uma filha dele e com o mesmo nome da minha mulher.
— Foi uma homenagem.

Ergo a cabeça e o encaro incrédulo.

— Quê?

Ele suspira e firma os olhos nos meus, como se quisesse ter certeza que acreditaria nas suas próximas palavras.

— O nome. Foi uma homenagem a sua Annie. descobriu sobre a morte dela e todo o resto, discutiu com Smith, ele tentou levá-la embora e ela acabou caindo, o que ocasionou no princípio de aborto. Assim, ela fingiu ter perdido o bebê, o FBI ajudou e Smith está longe delas há três anos.

Eu estava certo. era a mulher que imaginava e saber disso aquece o meu peito. Apesar da facada que levei nas costas, era reconfortante saber que, pelo menos, isso eu acertei. Ela poderia ter feito escolhas erradas no passado, mas tentava acertar agora. E eu sabia que se continuasse com isso, em algum momento iria perder a cabeça ou até mesmo usá-la nessa minha sede de vingança. Não queria mais um erro para a sua vida, era o momento de acertos, por isso, eu deveria me afastar.

— Mesmo assim, você deveria ter me contado. Pensei que amizade era isso.

Saio da sala sem olhar na cara de Erik. Não quero ter de encará-lo por um bom tempo, e estar de licença foi a melhor coisa que me aconteceu.


: Oi, aconteceu alguma coisa?

Essa é a terceira mensagem de em duas semanas. Eu sei que ela está se controlando para não enviar mais e também tenho certeza que a próxima mensagem não será nada agradável, provavelmente serei xingado por vários nomes.
Não tenho ido no Your Food e para acabar com a tentação, nem saio de casa, peço o almoço e a janta por telefone. Sentia uma falta do inferno da comida de . Tinha certeza que era colocado algum tipo de droga naquela comida, porque estava viciado. Além disso, meus sonhos haviam voltado, na verdade, agora tinha pesadelos sempre que fechava os olhos. E eles eram regados por imagens de , Smith e uma criança. Via a hora ficar louco com tantas visões diferentes, sempre mostrando uma família feliz, me fazendo sentir como o vilão da história.
A única coisa que esperava era ter forças para aguentar a distância. Pois, por mais que tenha conhecido ela há tão pouco tempo, fazia falta e se fosse forte o bastante para ficar longe, iria vê-la, nem que fosse uma última vez.
O celular apita e fico tentado a jogá-lo pela janela. Passo a mão pelo meu rosto e sinto a barba crescida tomar conta da minha face – não lembro a última vez que a removi. Bufo e respiro fundo logo em seguida. Gostaria que a vida fosse mais simples e não precisasse seguir um padrão de normas éticas. Ou ao menos que eu fosse um pouco mais egoísta, pois meu corpo ansiava por mais do que tudo.
Pego o aparelho que apita mais vez, porém com uma chamada. Quando vejo o nome de “Elliot” no display, sei o que virá a seguir. Em alguns dias acontecerá o aniversário de Erik e, Elliot, como um bom irmão, estava organizando uma social para ele. O Scott mais novo nunca foi adepto a festas, porém, quando havia uma oportunidade de ele entrar na cozinha e demonstrar seus dotes culinários para uma grande parcela de gente, sempre haveria uma exceção para uma bagunça.
Pressiono a tecla para atender a chamada e ponho o aparelho no ouvido.

— Finalmente! — Elliot exclama. — Sei que estão brigados, mas não faço parte disso.
— O que quer, Elliot?
— Quero saber se vai vir para o aniversário dele — quando me preparo para informá-lo, ele me corta continuando — independente da briga que tiveram, vocês ainda são amigos e seria uma idiotice não vir para a festa que estou preparando.
— Você nem gosta de festas.

Ele respira fundo.

— Sim, gosto dos bastidores. Porém, Erik é meu irmão e nunca o vi tão desanimado com o aniversário dele. Sempre achei que ele considerava você mais irmão dele do que eu, contudo, quando cresci, aprendi que não era questão de quem ele amava mais e sim que nós somos importantes para ele — continua. — Por isso, quando ele está brigado com um de nós, ele fica todo sentimental e até pega a “garrafa prêmio”.

Sim, sabia que garrafa era aquela. Uma Glenfiddich Special Reserve 12 Anos, que ele havia ganhado de um caso. O cara que o presenteou havia sido roubado, obras de arte que tinha adquirido ao longo dos anos haviam sido substituídas por cópias idênticas. Erik quem conseguiu desvendar o caso e o ajudei.
Essa garrafa só era pega quando resolvíamos algo bem complicado. Erik tinha até anunciado que nunca mais a pegaríamos, até prendermos Smith.

— Ele disse que não tocaria mais nela.
— Depois que você acaba com todas as bebidas da casa e precisa de mais, vai para o que resta. Sinceramente, até parece que vocês são um casal.

Dou uma risada.

— Não jogo para esse lado.
, só sei que você está intimado a vir nessa festa. Estou me fodendo para o que aconteceu. Cansei de ver Erik assim. Vocês são tão irmãos quanto eu e ele, então mexa essa bunda e venha no dia.
— Sim, senhor.

Elliot encerra a chamada e jogo o celular do outro lado da cama. Uma coisa esse cara estava certo, eu e Erik éramos irmãos, por isso doeu quando descobri sobre . Entretanto, irmãos se perdoavam e encontravam o caminho do perdão até o dia da festa. Não quis admitir para Elliot, mas estava com saudades do meu melhor amigo.



— Quantos filhos quer ter? — Annie indaga.
Deslizo o dedo indicador por suas costas nuas, a pele se arrepia a cada movimento e posso sentir o sorriso em meus lábios.
— Não me importo quantos serão, só não quero ser como o meu pai.
Annie ergue a cabeça do meu peito e me encara com os seus olhos curiosos – e que me encantaram desde o primeiro momento –, enquanto toca o meu maxilar. Sei que essa é a hora que sempre entramos em uma conversa séria e tudo que desejo no momento é estar dentro dela.
— Você nunca fala do seu pai.
— Ele foi um péssimo pai, não preciso falar dele.
— Não quer conversar sobre isso em algum momento?
— Não.
Ela suspira e volta a deitar a cabeça. Os seus dedos acariciam o meu tórax e sei onde isso levará. A sua mão se aproxima cada vez mais do meu pau e já estou pronto para ela. Quando Annie o toca, massageia-o e gemo em seu ouvido. Aproximo minha boca de sua orelha enquanto ela continua o seu trabalho.
Adorava todos esses momentos. Sejam eles na cama ou fora dela. Assim que Annie adentrava em um assunto no qual não gostava ou não desejava falar, ela me distraia com suas mãos mágicas, e, obviamente, nunca a rejeitei. Seria loucura rejeitar. Essa mulher havia nascido para mim, como eu nasci para ela. Não existia um futuro sem ela.
Fecho os olhos apreciando o toque, no momento em que seus dedos somem, abro os olhos e encaro a cascata de cabelos castanhos que estão na cabeça da mulher a minha frente. As íris verdes prendendo o meu olhar. Ela sorri, aproxima o seu rosto do meu e planta um beijo no meu maxilar.
— Sou sua — ela murmura.
...
— E você é meu.
— Não posso... — Seu dedo indicador me impede de continuar.
— Uma única vez, ).
— Não sei se terei forças para deixar você ir, depois.
Ela sorri.
Suas mãos tocam o meu pau e logo estou deslizando dentro dela. É louco como o sentimento que queima o meu peito devora cada parcela do meu raciocínio.



Desperto com o corpo necessitado. Já havia tido sonhos com Annie muitas e muitas vezes, porém, esse ultrapassava os limites. As duas estavam nele. Me torturando e tomando toda a minha sanidade. E aquele olhar no rosto de ... Parecia tão desejosa. Será que teria esses sonhos o resto da minha vida? Porque não sei se terei forças para resistir a tudo isso.
Quando pararia de ser um viciado? As duas mulheres que apareceram na minha vida me tornaram alguém dependente delas. Isso era saudável? Não tenho ideia, mas de uma coisa tenho certeza, não poderei me afastar mais de .
Levanto-me da cama e resolvo fazer a única coisa que poderá me ajudar. Visto-me rapidamente e sigo em direção a garagem. Se esses sonhos fariam parte de mim agora, havia uma forma de aliviar toda a tensão e excitação. Bebida e mulheres.

A boate lotada e cheirando a suor perturbava a minha mente, contudo, não havia vindo atrás de silêncio e sim de alívio. A minha escolha de mulher desde o falecimento da minha esposa eram sempre as loiras, assim como ela. Todavia, uma morena não parava de me observar desde o momento que ingressei no lugar. A distância não poderia dizer muito, os seus cabelos longos e corpo pequeno eram as minhas únicas descrições.
Resolvo fazer parte do seu jogo e olhá-la com outros olhos. Dou um sorriso de canto e posso dizer que suas bochechas ficam vermelhas, no entanto, sou respondido com um sorriso malicioso. Me ergo do banco do bar e resolvo ir até ela. No instante que me elevo, minha vista fica embaçada e cambaleio um pouco. Pisco algumas vezes e volto a focar na morena, no entanto, assim que meus olhos a encontram, não a vejo. Entretanto, está parada a minha frente e seus olhos parecem tristes, demonstram sua decepção. Balanço a cabeça para me livrar da ilusão, quando torno a encarar a morena, meu corpo já não anseia por alívio. Ele parece cansado e dolorido, então retorno para o balcão, pago minha conta e sigo para fora do local.
conseguiu fazer o que nem Annie conseguiu, me estragou para as outras mulheres.



Capítulo 09

Amigo ou inimigo?


Descanso o celular na mesa de cabeceira e pressiono os dedos em minhas têmporas. Algo estava muito errado. estava em silêncio por mais de três semanas e não sabia se me preocupava com ele ou sentia raiva. Sim, a raiva prevalecia.
Sentia-me burra por pensar que aquele encontro iria dar em alguma coisa. Merda. Até falei sobre Annie. Cheguei a pensar que ele pode ter se assustado por haver uma criança no meio da história, porém, duvidava disso. Não queria refletir muito sobre o assunto, enviei a última mensagem na semana passada e estava me controlando para não lhe enviar outra, contudo, com vários xingamentos. Poderia até comprar um dicionário apenas para dar nomes específicos para o tipo de idiota que ele é.
Rachel iria dobrar o turno hoje e Holly estava no mercado fazendo compras. Annie brincou tanto com Millie que quando lhe dei um banho e a vesti, não demorou muito para que o sono a pegasse de jeito.
A campainha toca e já sei que é Holly querendo ajuda por causa das inúmeras compras que ela fez. Levanto-me da cama e me dirijo à sala. Pego uma peça de lego no meio do caminho e coloco no bolso do meu pijama. Quando abro a porta, me surpreendo com o que vejo. Meu corpo paralisa e uma sensação de pavor toma o meu ser, fazendo com que o ar comece a escapar dos meus pulmões.

— O que faz aqui? — sussurro a pergunta.

O homem de cabelos loiros, olhos azuis e de grande porte me observa com os olhos cheios de súplica.

— Diga, o que faz aqui, Ryan?

Ele desvia os olhos dos meus e sua expressão dá a sensação de que está sentido dor. Assim que ele ergue os olhos, posso ver o pedido de perdão e o meu coração anseia em lhe dar isso, no entanto, a minha parte racional diz que não é seguro que ele esteja aqui.

— Senti sua falta.

Pressiono os lábios em uma linha fina.

— Como me achou?
— Estou morando em Nova York. — Ele olha em volta e compreendo o seu olhar de temor quando observa o corredor. — Posso entrar?
— Não sei se é uma boa ideia.
, acha que se não estivesse do seu lado, Jayden não a teria encontrado? — ele sussurra a pergunta.

Sei que ele tem razão. Ryan foi o único do meu passado que soube que não perdi o bebê, caso ainda estivesse sob os comandos de Jayden, ele já teria encontrado a mim e a Annie.
Dou espaço para que Ryan entre e fecho a porta em seguida. Olho para ele no meio de uma sala pequena e aconchegante, no entanto, Ryan está tenso e sei que não posso fazer nada para deixá-lo confortável.

— Melhor se sentar.

Quando ele se senta, uma lufada de ar escapa de sua boca e os seus olhos fitam cada canto do apartamento.

— Lugar legal.
— Sim.

Ele descansa a cabeça sobre as mãos e os cotovelos nas coxas, seus olhos me observam de forma profunda e posso ver que ele está analisando meu estado de espírito.

— Como disse, estou morando em Nova York, para ser mais exato, estou à procura de algum lugar no Brooklyn. Estava andando agora à noite e vi você saindo de um restaurante, então resolvi segui-la.

Que ótimo!

— Já começamos mal.

Ele fecha os olhos, porém continua.

— Sei que é um pouco maluco. Quando vi você, só pensei em segui-la e pronto. Mas quando cheguei aqui, quis saber mais. , apenas quero ter certeza que está bem, se não quiser minha presença aqui, não vou questioná-la.

Antes que possa dizer alguma coisa, a porta da frente é aberta, atraindo nossa atenção. Holly passa pela porta sem olhar para a sala. Há inúmeras sacolas no chão, ela começa a pôr todas para dentro e quando ergue os olhos – com certeza para me chamar – nos encontra sentados no sofá, observando os seus movimentos. Holly ergue a sobrancelha para mim e quando sua atenção se volta para Ryan, vejo-a engolir em seco.

— Não sabia que teríamos visita — ela murmura, ainda olhando para Ryan.
— Foi uma surpresa — ele informa.

Quando torno a olhar para ele, noto que está encarando Holly intensamente.

— Certo. — Holly balança a cabeça, tentando buscar um pouco de raciocínio. — Só preciso de ajuda com as compras.
— Claro! — Ryan exclama e se levanta para ajudar.

Recosto-me no sofá e observo a interação dos dois com um sorriso nos lábios. Ficou óbvio que rolou alguma coisa entre eles e não sei se fico feliz por minha amiga finalmente ter dado sinal de que seu coração pode ser laçado, ou preocupada com o passado de Ryan.
Ele pega as compras e leva até a cozinha, Holly se aproxima de mim, um pouco tonta.

— Quem é ele? — sussurra.
— Ele trabalhava para Jayden.

No mesmo instante minha amiga fecha a cara. Holly era a que sentia mais culpa com o que aconteceu comigo, ela acreditava que se tivesse ficado em São Francisco, eu não teria caído na lábia de Jayden. Contudo, discordo de seu pensamento, estava muito envolvida para escapar de suas garras.

— Ele largou tudo quando descobriu.

Ryan retorna para a sala e se acomoda no sofá ao meu lado. Holly senta-se do meu outro lado de forma protetora.

— Pode continuar.

Ele olha para Holly, aflito.

— Holly sabe de tudo.

Ryan engole em seco. Ele vira-se para frente e encara suas mãos que estão cruzadas uma na outra.

— Depois que saí do hospital, fui informar Jayden sobre a perda do bebê. Ele ficou desolado. Disse que voltaria para te buscar e suplicar o seu perdão, porém, disse a ele que não era apenas o bebê, mas também o que ele faz. — Ele ergue os olhos e vejo a dor neles. — Só que você precisa entender que Jayden acredita que o que faz é certo, que se trata apenas de um negócio. Nada mudaria sua forma de pensar, nem mesmo você ou o bebê.

Jayden era doente. Só assim para uma pessoa achar que o que fazia era certo. Tratar pessoas como se fossem mercadorias… Não sabia o que pensar sobre isso, mas tinha certeza que sentia nojo dessa situação, por isso sufoquei todo e qualquer sentimento por esse homem. E hoje, podia afirmar que não sentia mais nada por ele, para mim, Jayden era como qualquer bandido mesquinho. Esperava que a proteção do FBI ajudasse a nos guardar das vistas dele, pois não sei como seria caso Jayden descobrisse sobre Annie, não quero ver minha filha perto desse homem.

— Não me importo mais com ele — afirma, encarando o vazio. — Tudo que mais quero é distância dele.
— Fico feliz por isso. Não tenho ideia de onde ele está, no entanto, fico contente por não ter notícias.

Aceno.
Antes que possa pensar em alguma coisa, ouço o resmungo de Annie. Ela deve ter acordado.

— É o bebê? — Ryan questiona.
— Sim. Annie.

Os seus olhos se arregalam, ele me encara como se fosse louca. Levanto-me do sofá e sigo até o quarto.
Annie está de pé no berço com o rosto choroso, pego-a nos braços e planto um beijo em sua testa.
Caminho para a sala com a minha garotinha agarrada ao meu pescoço.

— Céus! — Ryan exclama.

Annie olha para o homem loiro e o observa de forma curiosa, sua cabeça se inclina para o lado enquanto analisa o homem à sua frente.

— Ela se parece com você, mas…

Interrompo-o.

— Eu sei.

Tinha consciência de que Annie era muito parecida comigo, o que me deixava bastante satisfeita. Todavia, a genética teve de deixar algum traço do homem que ajudou na geração dela, e essa marca foram os cabelos. Não me importava com esse fato, a não ser quando ouvia as pessoas comentarem que “os cabelos devem ter vindo do pai”. É algo estúpido, no entanto, não gostava de pensar que Annie tinha um pai, para mim, ela só era minha e gostaria de manter assim por um longo tempo.

— Ela é linda.
— Sim, ela é — Holly murmura com os olhos focados em Annie.

Volto a me sentar e me recordo da reação de Ryan quando pronunciei o nome de Annie. Talvez ele tivesse se informado sobre a agente que havia falecido, porém alguma coisa me dizia que era algo além disso.

— Conhecia a agente que morreu?
— Sim. — Ryan engole em seco antes de continuar. — Ela foi até o apartamento de vocês naquela época com a minha ajuda. Só que deu tudo errado. Jayden voltou mais cedo para casa naquele dia, mandei várias mensagens para ela, mas não sei se ela ignorou ou resolveu apostar em algo mais ousado. Se Jayden não tivesse visto ela, nada teria acontecido.

Uma dor aguda toma o meu peito. Tudo era minha culpa. Todo esse tempo tenho tentado acabar com esse sentimento horrível que me perseguia e nunca me abandonava. Porém, como algo verdadeiro poderia ir embora? Assim como o amor verdadeiro, a culpa verdadeira também existia e ela corroia o mais profundo ser da criatura humana. A morte de uma mulher, esposa, futura mãe e de um bebê era minha culpa, o sangue deles estavam em minhas mãos e nada mudaria isso.
Olho para a criança descansando no meu colo e penso no que seria caso não tivesse aberto minha boca naquele dia. Provavelmente estaríamos com Jayden, quem sabe ele seria um bom pai; no entanto, ainda viveria numa mentira e com um homem doentio ao meu lado. Era doloroso e egoísta pensar nisso, mas a vida daquela agente foi a salvação para mim e minha filha. Por isso, devia tudo a ela, pois ela se sacrificou por nós.

— Realmente é minha culpa — digo baixinho.
... — Holly tenta intervir, contudo, quando foco os meus olhos nos seus, ela se cala.
— Tenho vivido com essa culpa todo esse tempo. Por que mudaria agora?

Ryan pressiona os lábios um no outro, pega minha mão livre em forma de consolo. Sorrio fracamente.

— Agora sei que você abandonou isso tudo. — Ele dá um sorriso sem graça e coça a sobrancelha. — Estava trabalhando com o FBI?

Minha indagação é apenas uma distração. Desviar a minha mente do pensamento de culpa que iria me assolar ainda mais quando estivesse sozinha. Todavia, Ryan se mostrou um ótimo narrador.
Annie era uma mulher ousada e muito boa em sua profissão, ela mesma tinha paralisado Ryan quando o conheceu. Na verdade, ele foi categórico em dizer que ela o seduziu, o que rendeu ótimas risadas. Além disso, ele nos informou que a mulher perdeu o controle com a falta de respostas dele sobre Jayden, nisso ela acabou cravando uma chave de fenda em sua coxa. Para a sorte de Ryan, o parceiro dela cuidou dele. Foi depois disso que Ryan começou a passar todas as informações sobre os esquemas de Jayden, ou melhor, o que eles pediam.
Quando a porta da frente foi aberta, fiquei surpresa ao constatar que era de madrugada e que Rachel já estava em casa. Assim que encontrei o rosto da minha amiga em meio a um bocejo, notei que seus lábios estavam manchados do batom grape e um sorriso preguiçoso se formava em sua boca. No momento que Rachel se deu conta que estava sendo observada por três pares de olhos, as suas bochechas ficaram carmins.

— Estamos dando uma festa? — ela pergunta.
— Sim, e Annie foi a primeira a dormir.

Rachel sorri para uma Annie apagada. Minha amiga se aproxima, observando Ryan da cabeça aos pés.

— Quem é você?
— Ryan. — Ele se levanta e estende a mão. — Sou amigo da .
— Não sabia que tinha um amigo além do bonitão — resmunga, cumprimentando-o.
— Rachel — sibilo.
— Desculpa. — Rachel tampa a boca como se sentisse culpada por contar um segredo. — Você foram mais do que amigos.
— Rachel!
— Eu sei que você ama meu nome — diz, enquanto se aproxima e planta um beijo na minha testa. — A propósito, temos uma festa para ir amanhã à noite. E não adianta dizer não, você irá obrigada.

Bufo frustrada.

— Que tipo de festa?
— Aniversário daquele amigo do bonitão.
— Erik?
— Sim. Ele acabou de me convidar.

Minha mente borbulha e dou um sorriso malicioso quando percebo o que suas palavras significam.

— Ele veio deixá-la em casa?

Rachel percebe o erro, mas disfarça, fingindo não ser algo fora do comum.

— Sim, estava por lá e como odeio pegar ônibus esse horário, aceitei a carona.

Viro-me para Holly e ela está a ponto de insinuar o que já temos certeza, no entanto, peço-a com os olhos para deixar isso para lá.
Ryan está perdido na conversa, o que não é uma novidade para ele.

— Se quiser dormir aqui, pode ficar no sofá — anuncio para ele, no momento que um bocejo me toma. — Já deveria estar cama, pois tenho trabalho amanhã.

Levanto-me do sofá e começo a me dirigir para o meu quarto.

— Holly, você poderia me fazer o favor um pegar um cobertor e um travesseiro para Ryan? — indago inocentemente. — Rachel, você deveria tomar um banho, posso sentir o cheiro de gordura de longe.

Minha amiga arregala os olhos e corre até o seu quarto.
Se você quer Rachel longe por alguns minutos, a melhor forma de mantê-la afastada é dizer que ela não está cheirando a perfume.
A minha intenção era óbvia, deixar Holly e Ryan a sós. O loiro nunca teve um raciocínio rápido, então tinha que dar um empurrãozinho. Holly já estava na hora de se encantar por alguém, e mesmo que uma vez tenha me enganado sobre os homens, hoje tinha um faro mais apurado para encrenca.
Com exceção de .
Sabia que minha amiga estava em boas mãos, independente do passado de Ryan. Acreditava na sua inocência com relação ao depois de tudo, e ouvir as histórias da homônima da minha filha me deixaram mais confortável para confiar nele. Mesmo que uma pequena parte ainda gritasse para que tomasse cuidado. Ryan era diferente e mesmo que os homens da minha vida sempre me decepcionem, queria acreditar nele com todas as forças, porque ele era como um irmão e gostaria de manter todos que me fazem bem por perto.
Coloco Annie para dormir ao meu lado ao invés de pô-la no berço, estou me sentindo um pouco carente essa noite e preciso da minha menina do meu lado. Pego meu celular mais uma vez e mordo o lábio para não deixar um suspiro escapar.
Estou sendo estúpida por esperar notícias dele, porém não posso controlar a dor da decepção no meu peito. Não queria que ele fosse mais um cafajeste. Queria que ele fosse o meu recomeço.
Demorou tanto para alguém mexer comigo, não queria que se afaste. Porém, não dependia de mim e jamais correria atrás de um homem.
Bloqueio o display e ponho o celular para carregar. Amanhã acordarei cedo e tudo que preciso é de uma boa noite de sono, e não tenho muito tempo para isso.



Capítulo 10

Festa


— Você vai dobrar hoje? — Olho para Caroline, que está fazendo o último prato de brigadeiro.

Nós havíamos aderido o produto para o dia todo, o que havia deixado Glenn bem animado. As vendas tinham aumentado e daqui a pouco a lanchonete viraria uma doceria.

— Sim, estou precisando do dinheiro extra — diz, fazendo mais uma bolinha de chocolate. — Rachel comentou que vão para uma festa.

Ela ergue os olhos azuis brilhantes e torno a olhar para o molho que estou fazendo. Os olhos dela eram tão azuis que me davam um pouco de medo às vezes.

— Sim, mas não creio que Holly vá conosco. Então, provavelmente vou chamar a babá da minha filha e pedir para ir com a gente. Claro, caso Holly não vá.

Tinha quase certeza de que Holly não iria para esse aniversário.
Hoje pela manhã, quando estava saindo do meu quarto, ouvi ela e Ryan conversando sobre comerem alguma coisa juntos. Talvez, pudesse endossar o convite e pedir que os dois fiquem com Annie. Porque Deus sabe que Millie precisa de alguma diversão, além do mais, preciso dela como escudo quando encontrar . Até porque não era estúpida de pensar que ele não estará no aniversário de um amigo. Uma parte de mim estava torcendo para que os dois fossem apenas conhecidos que saíam na hora do almoço juntos, mas tinha certeza que era o oposto disso.
Deixo o molho no ponto para Alessio cuidar para mim e Caroline termina de fazer os brigadeiros. Ela era rápida e eu estava contente por não ter batido boca com Glenn sobre contratar uma ajudante. Quem sabe agora possa tirar minhas férias atrasadas, porque estava precisando.
Amo cozinhar, no entanto, chega um momento que você precisa descansar de algo que gosta tanto para finalmente voltar com o gás todo. Muitas coisas na vida são boas, mas quando você exagera, sempre estraga. A única exceção à regra é o amor, quanto mais amor, melhor.
Rachel entra na cozinha quase pulando de excitação.

— Vamos logo! — exclama, batendo as mãos uma na outra como uma adolescente que foi convidada para sair pelo crush.
— Tente não parecer tão animada quando chegarmos lá.

Holly está na porta do restaurante, ansiosa. Seus olhos vão de um lado para o outro da rua, como se esperasse por alguém. Sem dúvidas ela e Ryan marcaram alguma coisa.
Assim que eu e Rachel saímos da lanchonete, Holly engancha cada braço em uma de nós e começamos a caminhar até o ponto de ônibus.

— Devia convidar Millie para ir à festa — Holly diz.
— Ela vai ficar com Annie, esqueceu?

Viro-me para ela com a minha melhor cara de inocente. Ela revira os olhos.

— Pare com isso, . Sei que você escutou Ryan hoje de manhã. E sim, nós marcamos de ficarmos juntos essa noite e não me importo de Annie estar no meio, porque preciso mesmo de um freio.

Ergo as sobrancelhas.

— Está chamando minha filha de freio?

Ela revira os olhos novamente e solta uma respiração profunda.

— Você sabe que não. Amo Annie, ela é como uma sobrinha para mim. Contudo, não sou boba, posso me aproveitar um pouco de uma criança.
— Ela disse que vai se aproveitar da sua filha. Vai deixar? — Rachel questiona com a mão na boca em um falso espanto.

Holly dá uma cotovelada em Rachel, que nos arranca uma risada.

— Entendi o que quer dizer, Holly. Claro que você pode fazer isso, crianças são ótimas como freios, mas só peço que faça os exercícios com ela, espero que Annie comece a falar até o natal.

Rachel e Holly cruzam os dedos.
Minha filha vai começar a falar.
O ônibus não demora quando chegamos no ponto, subimos e nos distraímos com as possibilidades de como acabaria o “encontro” de Holly e Ryan. Só esperava que Annie não fosse deixada de lado e nem que os dois se atracassem na frente dela.
Quando chegamos em casa, Annie está correndo pela casa e rindo, logo atrás dela está uma Millie ofegante. Quando Millie nos vê, dá um sorriso e solta um suspiro cansado. Annie percebe a movimentação diferente e assim que seus olhos verdes encontram os meus, começa a correr em minha direção. Me abaixo para poder recebê-la e no momento que seu corpo pequeno me toca, todo o cansaço se vai.
Annie se agarra ao meu pescoço em um abraço apertado e toda a vontade que sentia de ir a essa festa se esvai no mesmo segundo.

— Rach…
— Nem pensar, você vai sim.

Olho para a minha amiga e faço bico.

— Você tem coragem de me afastar dessa coisinha fofa? — Coloco o rosto de Annie ao lado do meu e aprofundo o bico — É maldade demais.
— Nem vem, Annie não vai ligar de passar mais algum tempo longe de você, ainda mais ficando com a Holly.

Holly sorri.

— Sempre sou a melhor diversão. Sem ofensas, Millie.

Millie dá uma risada.

— Não ofendeu, não duvido que Annie fale o seu nome primeiro.

— Não! — exclamo. — Ela vai falar mamãe, primeiro. Não é, meu amor?

Olho para Annie e ela parece estar absorvendo as muitas palavras, logo em seguida ela acena e todas nós damos uma gargalhada.

— Millie, vamos à festa conosco — Rachel anuncia.

A loira abre a boca, sem saber o que dizer, e mexe na barra da blusa.
Sei que ela quer aceitar, no entanto está com receio de sair de casa, como sempre. Millie não dizia, mas todas nós sabíamos que ela ficava acordada a noite inteira esperando a mãe voltar de mais uma noitada.

— E Annie?
— Vai ficar comigo — Holly anuncia.

Millie olha para cada uma de nós, em dúvida do que decidir.

— Acho que não tenho motivos para negar. Só não tenho roupas para ir.



Olho para o espelho do elevador e dou um suspiro.
Rachel me obrigou a usar um vestido dela, o que significava que para mim virava quase uma blusa. O vestido vermelho era de tecido fino com pescoço alto e mangas longas, terminava antes do meio da minha coxa; e para a minha sorte, não tinha tanta bunda para fazer o vestido subir e mostrar o que não devia. Esse era um dos pontos positivos de não ser tão abundante. Havia posto uma bota cano longo, que comprei no último verão em uma liquidação, na cor preta com um salto básico. Meus cabelos estavam naturais e uma maquiagem leve com os olhos marcados com delineador e máscara.
Tinha que dar meus parabéns para Holly, ela tinha arrasado no visual.

— Estou me sentindo nua — resmungo, olhando para a parte de trás do vestido, apenas para ter certeza que não há nada de fora.
— Você está linda — Rachel diz.

Minha amiga havia feito cachos pelas madeixas ruivas. Usava um vestido branco e solto com lantejoulas e um salto da mesma cor do vestido. Sua maquiagem, ao contrário da minha, era carregada, deixando seu rosto mais chamativo e belo.

— Todas nós vamos arrasar nessa festa — Rachel afirma, com convicção.

Fito Millie e reviro os olhos, arrancando uma risada da loira.
Millie usava um preto básico, colado no busto e solto no restante do corpo. Sua maquiagem era tão carregada quanto à de Rachel e um salto agulha estava posto em seus pés.

— Tenho certeza que vamos chamar muita atenção.

Quando chegamos ao andar de Erik, meu estômago embrulhou. Em toda a trajetória até esse lugar, me obriguei a não pensar em um futuro encontro entre e eu. Já tinha tentado imaginar as inúmeras coisas que ele ouviria da minha boca, entretanto, não acreditava que iria falar tudo que estava entalado na minha garganta. Talvez apenas o ignorasse por toda a noite. Mas essa opção não seria fácil.
Rachel pressiona a campainha do apartamento. Já podemos ouvir a música do lado de dentro, alta o suficiente para quem está dentro do ambiente e baixa para os vizinhos. Eles deviam ter paredes bem grossas para impedir o eco.
A porta de madeira envernizada é aberta por uma versão mais nova de Erik, que nos encara sorridente. Não me passa despercebido quando seu olhar se mantém mais tempo em Millie.

— Entrem, Erik está em algum lugar — informa com o seu sorriso maroto nos lábios.

Como imaginei, as paredes eram grossas. A música pulsava por todo o meu corpo, poderia até comparar com uma boate. Não há jogo de luz, pois o ambiente é mais caseiro, no entanto, a iluminação estava fraca para dar uma sensação mais confortável aos convidados. Porém tem o efeito contrário em mim. Me sinto acuada.
Observo as paredes na cor branco gelo, típico de um apartamento de homens. Quando me preparo para analisar mais o ambiente, Erik se aproxima de nós com os olhos brilhando ao encontrar Rachel.

— Olha quem finalmente chegou, pensei que não viria… viriam.
— Eu disse que viria.
— Sim, você disse. — Ele lhe dá um sorriso misterioso e intenso, fazendo com que eu e Millie fiquemos desconfortáveis.
— Eu e Millie vamos procurar algo para beber — disse sem esperar resposta.

Puxo ela para longe dos dois e começamos a caminhar pelo lugar. A cozinha com uma ilha de pedra de granito apresentava várias opções de bebidas. Nunca fui de beber, mas precisava extravasar todo o estresse que se acumulava no meu corpo há anos.

— Isso é champanhe? — Millie indaga surpresa.
— Acho que sim.

Pegamos duas taças e abrimos uma garrafa. O líquido queima minha garganta e é um pouco amargo no fim.

— Não gosto disso. — Millie fez cara feia, o que me arrancou uma risada.
— Também não, mas quero esquecer um pouco da vida por hoje, então vou me obrigar a esquecer. — Ergo a taça para enfatizar meu ponto. — Com isso.

Ela acena e bebe o restante que está na sua taça.



No fim das contas, fui deixada com a garrafa de champanhe. Rachel devia estar se agarrando com Erik em algum canto da casa e Millie havia sido sequestrada por Elliot no processo. Minha capacidade de raciocínio estava lenta, entretanto, ativa. O que não era nada bom. Não havia visto em lugar algum, o que me fazia deduzir que ele não estava aqui e não viria. Todavia, eu o queria aqui, mais do que desejei que me desse notícia nas últimas semanas.
Engulo mais um gole do champanhe e noto que a garrafa está vazia, descanso-a na mesa de centro que está a minha frente e sento-me no sofá. No momento que minha bunda gruda no móvel, uma vontade incontrolável de fazer xixi me desperta e me levanto com certa dificuldade. Quando chego ao cômodo, tranco a porta e faço o que tenho de fazer.
Há sensação melhor do que fazer xixi, quando está tão apertada? Melhor coisa da face da Terra.
Confiro minha maquiagem pelo espelho e continuo impecável. Até eu ficaria comigo mesma. estava perdendo tudo isso por ser um completo idiota.
Alguém bate na porta e encaro a madeira imóvel, como se pudesse ver por trás dela.

— Está ocupado, espere um pouco.

Lavo minhas mãos e acho graça do sabonete - ele não tem nada de engraçado, porém, meu primeiro porre tinha que fazer coisas estranhas com o meu cérebro. A pessoa do outro lado da porta volta a bater, agora com insistência.

— Já disse para esperar.

Aproximo-me da porta e abro-a com violência.
O ar foge dos meus pulmões quando os meus olhos encontram o homem que tem perturbado os meus sonhos e pensamentos. Engulo em seco. As íris azuis de observam os meus lábios e é como se sentisse sua boca na minha mais uma vez. Nossos olhos se encontram e todo o meu corpo se acende, a parte racional que ainda estava sobre mim desaparece como num passe de mágica. O álcool já exercia seus efeitos.

— O que você quer? — sussurro a pergunta.

não me responde, apenas entra no banheiro e tranca a porta. Assim que aproxima o seu corpo do meu, me derreto, nossos lábios se encontram é como se todo o resto desaparecesse. A música, as vozes, os cheiros. A única coisa que me importava era nós dois, e estava adorando cada segundo disso.
Uma hora as mãos dele estão no meu rosto ou cabelos, em outros, estão deslizando pelo o meu corpo. Minha pele se aquece. Ele é como a chama e eu a palha.
Nossas bocas famintas. O sabor inigualável. Não havia palavras para descrever ao sentir a sua pele na minha. Ele separa nossos lábios e o frio que toca a carne me faz choramingar.

— Não posso. Não consigo me afastar. Não consigo — murmura, deslizando a boca pela parte nua do pescoço. — Não posso me afastar. Preciso de você.

Puxo sua cabeça para que nossos olhos se encontrem. Verde e azul. Lutando para imaginar o que se passa pela cabeça do outro. O efeito do álcool se foi, porém, não consigo encontrar a voz da razão que dizia que deveria ignorá-lo, que deveria riscá-lo da minha vida. O meu corpo desejava tê-lo e não poderia negar esse alívio a ele.

— Então não se afaste. — Minha voz está ofegante.

Uma expressão de dor toma os olhos de e uma vontade louca de colocá-lo em meus braços e consolá-lo me toma. Por isso, ergo a mão e deslizo por seu rosto. Contorno as sobrancelhas, sigo o desenho da sua barba por fazer e vou em direção ao seu cabelo.
Ele fecha os olhos, apreciando o carinho. Quando os abre novamente, a dor neles me faz cambalear para a bancada da pia.

— Você devia se afastar de mim — resmunga.

Há uma distância de um metro entre nós, no entanto é como se estivéssemos mais longe um do outro.

— Posso decidir por mim mesma e não quero me afastar.

Não entendo essa vontade louca que me move a lutar por ele, contudo, ela é renovadora e me faz sentir poderosa.
Aproximo-me de e coloco as mãos envolta de seu rosto, acaricio sua face com o polegar e sorrio para ele. Ainda posso ver a dor em seus olhos, porém, um sorriso tímido toca seus lábios, que causa uma queimação gostosa no peito.

— Já fiz muitas escolhas erradas na minha vida e tenho medo de cometer mais erros. Mas, aprendi que a vida é assim, aprendemos com os erros. Sem eles não evoluímos. Isso — aponto para ele e para mim, enfatizando o que quero dizer —, não precisa ser um erro. Podemos fazer dar certo.

Ele engole em seco.
Antes que possa acrescentar mais alguma coisa, me puxa para os seus braços e empurra seus lábios nos meus, me arrancando um suspiro. Minhas mãos deslizam para os seus cabelos e me perco na sensação de sentir os seus braços a minha volta, enquanto sua língua se move de forma lenta e erótica com a minha.
me leva até a bancada da pia, mais uma vez. Seus dedos encontram o zíper do vestido, eles o desliza e se embrenham pela minha pele quente. Arfo com a sensação. Puxo os seus cabelos e calo um gemido quando sua mão toca o alto da minha bunda.
Todavia, a magia se vai quando afasta os seus dedos da minha pele, assim como os seus lábios. Me sinto vazia mais uma vez, o que me faz grunhir de frustração.
Quando encontro as íris azuis de , noto que ele está sorrindo, tanto com os lábios como com os olhos.

— Por que está sorrindo? — Cruzo os braços sob os seios.
— Porque está tão frustrada quanto eu.

Reviro os olhos.

— Não parece.

Sua boca cola na minha em um selinho rápido.

— Estou muito.

Ele pressiona sua virilha na minha barriga, me fazendo engasgar ao constatar que ele está pronto.

— Tem certeza que vai discutir comigo? — indaga, esfregando sua barba na minha orelha.
— Sim… Quero dizer, não… Não vou — gaguejo.

se afasta com um sorriso malicioso nos lábios, que se desmancha logo em seguida e suas feições ficam sérias. Coloca uma mecha do meu cabelo atrás da orelha e me encara intensamente.

— Jamais faria sexo com você num banheiro. , você merece tudo de melhor, não seria diferente que eu desejasse você na minha cama e não em cima de uma pia.

Sua afirmação me pega de surpresa. Só tive um homem em toda a minha vida, entretanto, as histórias que minhas amigas me contavam eram de que homens não se importavam com o lugar que teriam de fazer sexo, o importante era o ato. Por isso, me surpreendia com o tamanho respeito que havia construído por mim. Não sabia dizer se isso fazia parte de sua conduta ou aquilo era dirigido apenas a minha pessoa. Porém, era eu que estava ali e suas palavras me tocaram no mais íntimo.
Fecho o zíper do meu vestido enquanto abre a porta. Viro-me para o espelho rapidamente, a fim de conferir a maquiagem. Quando saio, não olho para ninguém, apenas sou levada pela mão de , que está entrelaçada a minha. Assim que saímos do apartamento, descemos as escadas e logo estamos em frente a uma porta idêntica a anterior. Me preparo para fazer um comentário sobre o local de sua residência, quando sou levada para dentro do lugar e logo pressionada contra a porta em um beijo de tirar o fôlego.

— Sem mais delongas, preciso de você — sussurra, entre uma pausa para puxar o fôlego, com um sorriso no rosto.

Suas mãos encontram o zíper novamente e dessa vez, não há delicadeza. Estamos afoitos por mais. Começo a abrir os botões da sua blusa. Depois a calça. O vestido escorrega pelo o meu corpo. No momento que estamos apenas de roupas íntimas, se distancia e me observa com um olhar de admiração, fazendo com que minhas bochechas esquentem. Assim que ele volta a se aproximar, posso ver o olhar apaixonado, no qual me deixa hipnotizada. Me perco na imensidão do azul até que sua boca volta a minha, suas mãos descem pelos meus braços e tocam a minha cintura.
Não sinto apenas luxúria, há algo mais. Uma formigação e uma sensação de realização, como se esse fosse o meu lugar. Como se tivesse sido tirado de mim há muito tempo e finalmente havia recuperado. Era meu e não deixaria escapar.
me ergue e começa a caminhar para o que acredito ser o seu quarto. Minhas costas tocam o colchão macio, no entanto, a sensação se vai quando me coloca sentada sobre a cama. Ele abre o fecho do meu sutiã e o remove, em seguida estou deitada novamente com os lábios ligados aos seus. Minha calcinha é removida logo depois, assim como sua cueca.
Estamos nus. Assim como viemos ao mundo, e não me sinto envergonhada com essa condição. Na verdade, nunca me senti tão confortável nua. Parece engraçado, mas era muito além do que se poderia explicar. Uma vez li que quando alguém está com a pessoa certa, não há sentimentos ruins que resistam. O desconforto é um deles. E isso me assusta, pois me leva a crer que é o certo, e que recebi uma responsabilidade enorme para administrar.
Ele se inclina sobre o meu corpo, logo depois de pôr a camisinha.

— Quero você por cima.

Pisco confusa, porém, aceno quando entendo o que ele quer dizer.
ergue o meu corpo mais uma vez e me senta sobre suas coxas enquanto escora as costas sobre uma montanha de travesseiros. Ele toca o meu rosto e planta um beijo delicado em meus lábios.

— Você é linda. Tão, tão linda.

Mordo o lábio.

— Nunca me cansarei de admirá-la? — murmura a pergunta, sem desejar uma resposta.

Ele me alça mais uma vez e me encaixa nele. Quando o meu corpo escorrega sobre ele, não consigo segurar o gemido que escapa dos meus lábios.

Porra! sibila.

Me movimento lentamente, apreciando cada centímetro dele. Minhas pernas cansam após alguns minutos, no entanto, continuo. nota minha fraqueza e resolve me ajudar. Nada é rápido, tudo lento e doce. Nunca fiz sexo de forma tão calma. Talvez uma vez, nos meus sonhos.
E então, percebo que era ele naquele bendito sonho. Era por que sentia aquele sentimento profundo que parecia me rasgar. Quando nossos corpos chegam ao êxtase, noto que estava no caminho para me apaixonar por .



Capítulo 11

Devagar


Ela está nos meus braços e é tão bom sentir o seu cheiro em mim. Gostaria de tatuar o aroma de no meu corpo para jamais me esquecer dessa sensação gostosa que ela me passa. Beijo o seu cabelo e escorrego os dedos por sua coluna exposta.
Sei que ela não está dormindo, assim como sei que está apreciando cada toque e cada beijo que planto em alguma parte do seu corpo. Queria mantê-la comigo a noite inteira, porém, não tenho dúvidas de que ela ainda está acordada porque precisa voltar para casa e não quer se deixar levar pelo cansaço que sobreveio, após tudo isso.
Quando sua cabeça se ergue e sou observado pela íris verde como a campina, é impossível controlar o sorriso bobo que se forma em meus lábios.
Como pude ter sido tolo em afastá-la? Era ela desde o início. A dor da perda do meu pai não foi comparada a dor que senti quando perdi Annie. Parece loucura. Amava o meu pai na medida do possível, entretanto, nunca recebi carinho dele para sofrer como um louco pela sua perda. Annie havia me dado tudo que precisava. Amor, carinho, confiança, segurança. Parece idiotice o que vou dizer, mas os homens precisam de segurança, mesmo que digam que são os fodões, todo homem precisa do seu porto seguro. E Annie era o meu. Contudo, ela foi arrancada dos meus braços de uma forma brutal e não pude fazer nada a respeito.
me passava tudo isso e muito mais. Annie foi minha provação para poder encontrar . Me chateia pensar que Annie entrou na minha vida apenas para deixar uma marca. Ela devia ter sido o meu futuro, no entanto, o maldito destino tomou ela de mim. era minha salvação. O meu anjo.

— Anjo — murmuro.

Ela morde o lábio inferior.

— Você vai me contar?

Franzo o cenho.

— O quê?
— Por que sumiu?

Minha mente entra em pane com essa pergunta.
Não poderia dizer que sabia de onde ela tinha vindo, quem era o pai da sua filha e que ele tinha causado a morte da mulher da minha vida. Não, era inocente nisso tudo, não precisava da palavra de Erik e muito menos de provas, o meu coração me dizia que ela tinha sido tão injustiçado quanto eu.
Contudo, não queria começar essa relação com mentiras, e não podia contar toda a verdade, no entanto. Contar verdades e omitir coisas não poderia ser tão ruim para um relacionamento, não quando se tem tantas feridas do passado. Haveria tempo para expô-las mais pra a frente, se desse certo, e tinha certeza que daria.

— Não acho que seja bom para você.
— Por que não?
— Tenho marcas do meu passado que me assombram até hoje, não queria trazer esse fardo até você.

Ela morde o lábio mais uma vez e me surpreende com um beijo doce em meu peito.

— Como disse ontem: a vida é para erros e acertos, até porque, qual seria a graça de viver sem os altos e baixos? São os momentos ruins que fazem os outros serem tão bons.

Sorrio com suas palavras.
Ergo-me da cama e jogo o corpo de sobre o colchão, arrancando um grito de surpresa dela. Uma risada percorre suas cordas vocais e é um som gostoso de se ouvir.

— Há algo em você que me dê raiva ou qualquer outro sentimento ruim? — Sim, havia o passado dela.
— Sou tímida.
— Isso não é ruim para mim.
— Mas costuma ser na sociedade, por isso agradeço a Deus por me dar o dom de cozinhar.
— Um esplêndido dom.

Ela acena com um sorriso brilhante do rosto. Todavia, o sorriso se desfaz logo em seguida e sei o que vem a seguir, mas não adianto o assunto. Continuo admirando suas feições até que o silêncio é cortado.

— Preciso ir — ela anuncia.
— Precisa mesmo?
— Minha filha precisa de mim.

Aproximo meu rosto do seu e capturo seus lábios em um beijo cheio de luxúria. Evito tocá-la para que meu corpo não reacenda e impeça-a de sair.
Tinha ideia das responsabilidades de uma mãe e pelo o que já conhecia de , ela vivia para essa criança, na qual só tinha o nome. Sabia que nunca haveria uma disputa pela atenção de entre mim e a menina, e jamais afirmaria isso, a pequena sempre seria a prioridade de , o que me deixava mais encantado por essa mulher.
Ela perpassa as mãos pelas minhas costas e toda a minha resistência vai embora. Logo meus dedos percorrem cada centímetro do seu corpo, apreciando tudo que ela tem. Fico duro e sei que não poderei deixá-la ir sem ter mais dela. Estava necessitado dessa mulher, desse sentimento que ela me causava, no qual não sabia explicar e muito menos descrever.
Pego uma camisinha dentro da mesa de cabeceira e deslizo sobre o meu pau, me preparo para afundar nela e receber a sensação de plenitude. E vai muito além do que esperava, como se tudo com fosse uma descoberta e extrapolasse todas imagens que se passavam na minha cabeça. Meu peito acelera a cada movimento, sinto que vou explodir a qualquer momento. Delicio-me com os seus lábios, pescoço, clavícula, seios, no entanto, não parece o suficiente, quero mais e mais dela. Distribuo beijos pela sua pele quente, sem deixar os movimentos cessarem. E ela excede as minhas expectativas, o alívio vem de uma forma arrebatadora e sei que precisaremos de um bom tempo para nos recuperar do que acabou de acontecer. Se todas as vezes que fizéssemos sexo ficasse mais extraordinário, me perguntava quanto tempo meu coração aguentaria.

— Anjo, o que está fazendo comigo? — indago, com rosto em seu pescoço, respiração pesada e meus músculos relaxados.

As mãos de acariciam os meus cabelos e me inclino como um cachorrinho para receber seu carinho.

— Me pergunto a mesma coisa.

Aspiro seu aroma pós-sexo e me vejo inebriado. Como seria tê-la sempre na minha cama? Aqui estou eu mais uma vez apressando as coisas. Não era assim que a vida funcionava, havia uma ordem para todas as coisas e com iria devagar.

— Vou deixá-la em casa, assim que tiver forças para me levantar.

Ela dá uma risada que reverbera por todo o meu corpo.

— Pare de ser tão adorável.
— Tudo em mim para você é perfeito, mas não sou perfeita.

Ergo a cabeça.

— Se não é, está perto de ser.

Volto a deitar a cabeça em sua clavícula e logo suas mãos estão em meus cabelos. Por algum momento, penso que cochilei com o seu toque íntimo e delicado. Não me movo.

— Preciso mesmo ir embora.

Aperto meus braços a sua volta.

— Eu sei.
— Também não quero ir, no entanto, também quero.

Dou uma risada, ergo a cabeça mais uma vez e lhe dou um beijo casto. Saio de cima dela, começo a catar minhas roupas e vesti-las. me imita, e não demora muito para que estejamos vestidos.
Quando encontro os seus olhos, vejo uma nota de preocupação que me deixa em alerta. Aproximo-me dela e puxo-a para os meus braços.

— Algum problema?
— Não está chateado porque não posso ficar? — Pisco várias vezes para entender sua pergunta, e quando finalmente compreendo o que ela quer dizer, não posso controlar o tom de ofensa.
— Jamais pediria que escolhesse entre eu e sua filha. Isso que estamos construindo é novo e precisa ser moldado. Não entendemos os sentimentos que temos um pelo outro e é caminhando que vamos descobrir. — Levo as mãos até seu rosto e o seguro com delicadeza. — Sua filha é o ser humano mais importante da sua vida e jamais teria como eu querer disputar com ela. Se tivesse um filho — engulo em seco —, nunca o colocaria em segundo plano, ele sempre seria minha prioridade.

Lágrimas escapam de seus olhos e as seco logo em seguida.

— Pare de falar coisas lindas, pois posso correr o risco de me apaixonar.
— Essa é a ideia. — Pisco para ela.

dá uma risada enquanto procura por sua bolsa tiracolo, que foi jogada em algum lugar entre a sala e o quarto. Assim que ela encontra, pego os dois capacetes e saímos do apartamento. Dentro do elevador, se aproxima e pega o meu pulso que uma vez estava machucado.

— Pensei que tinha quebrado — diz baixinho.
— Foi uma torção muito grave, ainda não posso abusar, mas está bem melhor.

Ela tira os olhos do meu pulso e me encara preocupada.

— Tem certeza que pode pilotar uma moto?

Aproximo-me dela e lhe roubo um beijo.

— Absoluta.

No momento que chegamos na garagem, seguimos para a minha vaga, subo na moto e logo em seguida. Ela aperta os braços à minha volta e eu não poderia ficar mais satisfeito.
Tento prolongar o caminho até o seu apartamento, no entanto, a falta de trânsito da madrugada não está ao meu favor. Gostaria de sentir seu corpo abraçado ao meu por mais tempo, porém não seria dessa vez que meu desejo seria concedido.
desce da moto assim que chegamos ao prédio, ajudo-a remover o capacete e removo o meu, sem sair de cima da moto.

— Não quer subir? — questiona.
— Não acredito que estou dizendo isso, mas seria bom se fôssemos mais devagar. — Puxo-a para os meus braços e beijo a ponta do seu nariz. — Vamos fazer dar certo e a primeira regra é ir devagar.
— Devagar.

Aceno e ela sorri. Ela sabe que estou certo sobre isso e sei que está contente por ter proposto. As mulheres têm o costume de pedir para ir mais devagar, pois os homens sempre são os inconsequentes. Eu fazia parte da pequena parcela que não precisaria de na minha cama para construir sentimentos por ela. Mesmo que ainda seja estranho todo esse conjunto de sentimentos que sinto e que não posso nominar, ainda, não a quero apenas pelo seu corpo, mas por todo o conjunto: corpo, alma e espírito.
Dou-lhe um beijo de despedida e observo-a entrar no prédio. Quando não a vejo mais, ponho o capacete e sigo para a minha casa, em busca da melhor noite de sono em anos.


Quando desperto pela manhã, o álcool que ainda estava no meu organismo se foi e minha mente começa a trabalhar com mais clareza. O que havia feito? Não estava arrependido de ter estado com e em momento algum desejei desistir, contudo, ainda havia a voz que dizia que tinha feito uma burrada. Tinha aberto a porta do meu coração para ela e tinha consciência de que não poderia me afastar. Não mais.
Ontem à noite falei com Erik por breves momentos, nos abraçamos e ele me pediu desculpas por esconder algo tão fundamental para minha vida. Ele tinha escondido tudo para o meu próprio bem, porém, a vida me deu uma rasteira e me interessei pela ex do meu maior inimigo. Não havia como mudar nada disso, apenas seguir em frente.
Levanto-me da cama e sigo para o banheiro. Depois de um banho relaxante, vou para cozinha comer algo e constato que não tenho nada na geladeira. Então, resolvo subir um andar até o apartamento dos Scott. Elliot nunca acordava cedo, todavia, não deixava a geladeira esvaziar, ela sempre estava farta.
Opto pelas escadas, pois não tenho muita paciência para elevadores. Pego a minha chave reserva – Erik e eu, tínhamos o costume de ter a chave reserva um do outro, pois nunca sabíamos quando precisaríamos entrar no apartamento –, abro a porta e entro no lugar. Fico surpreso em notar que o recinto não está tão bagunçado. Não perco tempo e logo vou até a cozinha e abro geladeira. Como esperado, há várias frutas, dentre outros ingredientes. Como não sou um cozinheiro, opto por um suco de frutas, leite e cereal.
Arrumo a comida e começo a comer. Quando estou na terceira colherada, ouço o ruído de vozes e uma delas está tentando passar despercebida. Elliot aponta na cozinha, segurando uma jovem pela mão, seus cabelos loiros estão bagunçados e ela parece bastante preocupada.

— Não precisa ficar envergonhada — ele tenta sussurrar no seu ouvido, porém, o silêncio me permite ouvir.
— Vergonha é meu nome do meio — informa, com as bochechas vermelhas.

Quando os dois se dão conta da minha presença, a garota fica branca e logo em seguida vermelha como um tomate. Elliot faz um ruído com a garganta e observa o que estou comendo.

— Cereal e suco?

Dou de ombros.

— Para mim está ótimo.

Ele revira os olhos e puxa a loira para mais perto. Ela sussurra algo no ouvido dele, no qual não posso ouvir, e em seguida ele sorri e faz o mesmo. Resolvo dar atenção ao meu café da manhã, ao invés da conversa dos outros.
Elliot começa a preparar panquecas e fico na expectativa de ter algumas para mim. Como um jovem de bom coração, ele me cede algumas e não demora pra que todos nós estejamos comendo.
A garota loira ainda está envergonhada, no entanto, está mais concentrada em seu café da manhã.

, esta é Millie. Conhecida da sua amiga. — Ele dá um sorriso malicioso e retorno com o mesmo sorriso.
— Na verdade, sou babá da filha de — Millie informa.
— Ah! — exclamo.

Millie arregala os olhos.

— Me desculpe, não sei se o senhor sabia.

Franzo o cenho.

— Senhor não, por favor, só . E sim, já sabia sobre a menina. — Dou um sorriso para tranquilizá-la.

Mais ruídos atrapalham o nosso café da manhã e logo encontramos Erik e Rachel sorridentes. Assim que eles adentram a cozinha, Rachel me olha de cara feia e não perde tempo para abrir a boca.

— Espero que você não faça mais nenhuma merda com a minha amiga.

Ergo as mãos como se estivesse me rendendo.

— Juro que serei um bom moço.

Ela semicerra os olhos e desvia seu olhar para a comida.

— Estou faminta.

Rachel e Erik sentam-se nos bancos da ilha e preparam seus pratos com as panquecas de Elliot. Espero por uma reação de Rachel quando ela dá a primeira garfada e o ruído de apreciação sai, quase me levando as risadas.

— Quem fez isso? — ela indaga, ainda de boca cheia.

Elliot ergue a mão e, pela primeira vez, vejo-o envergonhado.

— Céus! Você parece o irmão gêmeo de . Parece que vocês compartilharam receita.

Elliot une as sobrancelhas, os seus olhos encontram os meus. Ele está confuso. Ele nunca soube lidar com outra pessoa cozinhando tão bem quanto ele fora da faculdade. Elliot não era egocêntrico, porém, na cozinha dele ninguém triscava em nada, tudo era dele e só ele fazia.

— Essa cozinha? — questiona Rachel interessado.
— O quê?! — Rachel se espanta com sua pergunta, como se todos fossem obrigados a conhecer as mãos de anjo de . — não cozinha, faz milagres. Ela é um desperdício na lanchonete que trabalhamos, a minha amiga merecia um restaurante só dela para mostrar ao mundo para o que veio.
— Ela não pode ser tão boa assim.
— Ela é sim — eu, Erik e Millie confirmamos ao mesmo tempo.

Elliot olha para nós um pouco perdido e vejo que sua confiança se desfaz no mesmo instante. Ele sabia no que era bom e não gostava de constatar que existiam outros melhores, ou igual a ele.

— Não precisa ficar desanimado, maninho. Você pode ficar em segundo lugar.

Eu e Erik começamos a gargalhar e mal notamos quando Elliot atira um punhado de cereal em nós.


Termino de ler mais um relatório de roubo de obras de arte e atiro o arquivo na minha mesa. Estou farto de casos pequenos. Sabia qual caso queria estar resolvendo, porém, quando você perde o rastro de bandido que é bom no que faz, é difícil recuperar.
Smith havia sumido do mapa e as semanas em casa foram uma distração para minha frustração com o que estava se desenrolando. O cara era como sabonete, escorregadio, e não gostava nada disso.
Não conseguia ver uma luz para essa vingança. Annie precisava, no entanto, eu estava de mãos atadas.
Ao contrário do que muitas pessoas pensam sobre vingança, eu não desejava matar Smith com minhas próprias mãos. A única coisa que queria era prendê-lo e vê-lo na cadeira elétrica, e queria está lá para presenciar o momento que a vida dele deixaria de existir. Esse era o meu consolo e era o que Annie merecia como vingança, ver esse desgraçado pagar por todos esses crimes. Mas para isso acontecer, seria necessário que o infeliz fosse preso no sul do país, se não ele pegaria apenas uma prisão perpétua e isso não era suficiente para mim.
Eu havia ganhado uma sala após o meu retorno. Não sabia se Griffin estava querendo me bajular ou se pretendia me tirar dessa monotonia.
A porta da minha sala é aberta e Erik entra no lugar.
Não havíamos tido uma conversa de verdade desde a noite passada, então, esse era o momento certo – quando não tínhamos nenhum trabalho para fazer.
Ele se senta em uma das cadeiras pretas confortáveis postas à frente da mesa. E um silêncio ensurdecedor se espalha pelo local.

— Gosta mesmo dela?

— Acho que sim. Quero ir devagar.

Ele dá uma risada.

— Ao contrário de…
— Sim — interrompo-o, porque não gosto de ouvir o seu nome, dói demais.
— Como vai lidar com a menina?
— O que quer dizer? — Descanso os cotovelos sobre a mesa de vidro e firmo minha atenção em Erik.
— Ela é filha de Smith, e você não pode mudar isso. Além do mais, ela tem o mesmo nome da sua falecida esposa, no qual você nem consegue pronunciar. Como vai lidar com isso, ? merece o melhor, ela é uma mulher maravilhosa e forte. Mas mesmo sendo tão guerreira, eu não quero compactuar com algo que vai machucá-la.

Uma pontada de ciúmes toca o meu peito, porém, ignoro. Erik só se sente responsável por ela, ele a ajudou desde toda a tragédia que assolou nossas vidas. Ele era um irmão para ela, assim como para mim.

— Tentei me afastar, mas não consegui, então vou dar o melhor de mim para ela.

Ele acena.

Mais silêncio.

— E Rachel?

Erik ergue os olhos e posso ver o brilho de desafio.

— Ela é como a chama. — Ele para por um segundo e dá uma risada. Sei o que ele acabou de perceber. — Acho que o que aquela vidente disse era verdade, estou sendo consumido pelo fogo e você…
— Exatamente do mesmo jeito.

Não falamos mais nada. A constatação de que nossos destinos foram escritos há tanto tempo era assustadora, contudo, tranquilizante, pois sabíamos que estávamos no caminho certo para com nossas caras metades. Se é que isso existia.



Capítulo 12

Annie vs. Encontro


Desligo o fogo do bobó de camarão e saboreio o cheiro. Para mim, essa era uma das melhores comidas e estava com tanta vontade de comer que valeu à pena o dinheiro que investi. Havia saído do trabalho e ido direto ao supermercado para comprar os ingredientes. Para incrementar o prato, fiz arroz branco. Confiro a posta de peixe que fiz para Annie e termino de remover todas as espinhas, confiro mais duas vezes para ter certeza que ela não irá se engasgar e ponho uma porção de arroz. Depois de misturar tudo, coloco na frente dela. Annie sempre foi boa de boca e não havia nada que ela fosse alérgica, o que era um verdadeiro milagre. Em seguida, ponho a minha comida com o bobó.

— Meu Deus, que cheiro é esse? — Ryan indaga, assim que aparece na cozinha. Holly está logo atrás, revirando os olhos.
— Não acredito que é camarão! — ela exclama e corre até a panela.

Ryan faz uma careta e se senta no banco, desanimado.

— Não vai comer? — questiono.
— Sou alérgico. — Ele dá de ombros.

Viro-me para a panela que fiz o peixe, sei que é pouco, mas será o suficiente para alimentá-lo.

— Fiz peixe para a Annie, pode comer o que tiver na panela.

Os seus olhos brilham com a informação, logo ele está com um prato na mão e de frente para as panelas. Annie come devagar, levantando a cabeça e sorrindo para mim. Beijo seu nariz, pois estou achando ela muito fofa com suas bochechas cheias se movendo a cada mastigada.

— Você é a bebê mais linda desse mundo — sussurro.

Ela sorri, mostrando os dentes sujos de comida. Não demora pra que ela me esqueça e volte para o seu peixe com arroz.

, ainda tem salada de ontem? — Holly pergunta.

Aperto os dedos contra as têmporas. Havia esquecido completamente da salada.

— Sim, também vou querer.

Holly traz a salada de batatas e cenoura, colocamos em nossos pratos e todos começamos a comer. O bobó estava tão bom que não resisti e coloquei mais, assim como Holly. Sempre que fazia essa receita, sabia que devia caprichar na proporção, pois havia três loucas por camarão dentro de casa. Rachel, quando chegasse, iria comer o dobro, isso se ela não comesse muito no encontro com Erik.
Ouço o ruído do meu celular, no qual deixei carregando no quarto. Olho rapidamente para Annie, que está concentrada em sua comida e não repara quando me levanto e sigo até o quarto. Assim que chego ao cômodo e encaro o aparelho, não consigo controlar o sorriso que se forma em meus lábios, então, não perco tempo e atendo a ligação.

— Por acaso falo com a Srt. Gray.

É impossível controlar o sorriso bobo que se forma em meus lábios.
Não nos víamos desde o dia do aniversário de Erik, ou seja, três dias. Parece pouco, mas já estava sentindo falta dele, o que é meio bizarro, pois nunca senti tanta falta de alguém. Reconhecia que ocupava boa parte dos meus pensamentos, só perdia para Annie, até porque minha filha é o ser mais importante da minha vida, e homem nenhum ocupa o espaço no coração de uma mãe de verdade.
parecia compartilhar do mesmo sentimento que eu, por acaso, nunca tomava a iniciativa, quando pensava nele, o ruído de uma mensagem ou ligação era acionado. E no fim, um sorriso bobo se formava em meus lábios.

— Sim, é ela mesma — murmuro. — Quem gostaria?

Removo o celular do carregador, volto os meus olhos para fora do quarto e constato que ninguém está por perto. Deito-me na cama com as costas descansando sobre o travesseiro.

— Sr. , e ele gostaria de saber se a Senhorita estaria livre amanhã.
— É mesmo? — indago cinicamente.
— Ele pede apenas um pouco de sua atenção por algumas horas, promete devolvê-la logo.
— Parece muito pouco tempo.
— Concordo, mas creio que não existe competição.

Meu sorriso cresce. Era impressionante como conseguia lidar com o fato de que minha filha vem em primeiro lugar na minha vida, isso me dava a certeza de que ele era um homem para um relacionamento sério.
Relacionamento sério?
Droga.

Não deveria estar pensando nesse tipo de coisa. Sim, não devia. E também sei que algumas semanas atrás enchia a boca para dizer que era independente e não precisava de homem nenhum… Continuo não precisando. Tenho amor próprio suficiente hoje em dia para me olhar no espelho e dizer que sou maravilhosa. Não preciso de ninguém me dizendo o que sou, pois me conheço o suficiente para dizer que luto nas minhas batalhas, perdendo ou ganhando, estou na caminhada na vida.
Ter um homem na minha vida era como um à mais. Não iria morrer como as mocinhas de alguns livros. Você precisa ser sua própria força. Um homem é apenas o complemento.
Era importante ser amada? Claro que era. Ajudava com o nosso ego e o ser humano gosta de ter um companheiro. Por isso, via um potencial em para um futuro.

— Fez sua lição de casa direitinho.
Sim, Srta. Gray solta um suspiro e logo uma risada. — Essa conversa está divertida, mas preciso analisar uns casos, pois quero adiantar o trabalho de amanhã também. Podemos comer em algum lugar? Conheço uns restaurantes ótimos. Você gosta de massa, poderíamos ir num italiano.

Mordo o lábio.
Nunca havia ido a um restaurante de grande porte, me sentia insegura com algo do tipo. Contudo, não podia perder a oportunidade.

— Parece ótimo. Que horas devo estar pronta?
Fiz reserva para às oito.
— Perfeito.

Um silêncio toma conta da ligação e sei o que vem a seguir. Todas as vezes que ele me ligava, existia essa frase minúscula que mexia com o meu coração.

Sinto sua falta, . Estou ansioso para vê-la amanhã. — Posso ouvir o sorriso em sua voz.
— Eu também, .

Desligamos o celular e fico bastante tempo encarando o aparelho, como se fosse sair de dentro dele a qualquer momento. Ouço Holly me chamando, e não demoro a me levantar e seguir para a cozinha. Quando chego ao cômodo, Annie está fazendo bico e os seus olhos estão cheios de água.

— O que aconteceu?

Aproximo-me da minha filha e tiro-a da cadeira de bebê. Ela me agarra com força, deita a cabeça no meu pescoço e choraminga, aliso suas costas para acalmá-la. Seu prato está vazio, ou seja, ela só se deu conta da minha falta depois de comer tudo.

— Quando ela viu que não estava aqui, começou a chorar — Holly diz.

Oh, sim!
Annie não era a típica criança que chorava por tudo, no entanto, ela não aceitava que me distanciasse dela sem me despedir. Quando ela notou que não estava na cozinha, foi a deixa para ela ficar apavorada.
Já havia perguntado a médica se isso era normal e fui informada que era natural crianças como Annie - que só tinha mãe - se ligasse tanto a mim e sentisse essa necessidade de estar por perto. Eu trabalhava o dia inteiro, porém, era comum termos um ritual de despedida todas às vezes e estava acostumada. Annie era uma criança tão ótima, que não considerava tirar esse costume dela, até porque gostava de como minha filha era apegada a mim.

— Mamãe está aqui, meu amor. — Planto um beijo em seus cabelos loiros e ela se aperta ainda mais a minha volta.
— Está dengosa hoje — Holly afirma, observando nós duas.
— Pelo visto, sim — digo, acariciando os cabelos de Annie. — Vou ficar com ela lá no quarto, qualquer coisa me chama.

Holly balança a cabeça.

— Não vamos precisar de você. Podemos cuidar da louça sozinhos e você aproveita para ficar com essa dengosa. — Ela se aproxima e beija a bochecha de Annie que dá uma risadinha.

Aceno para Holly e Ryan, desejo boa noite e sigo para o meu quarto. Sento-me na cama ainda com Annie nos braços. Ela está com a cabeça deitada em meu peito e mexe no desenho da minha blusa, coloco os seus cabelos atrás da orelha e beijo sua testa.

— Você é o ser mais importante da minha vida. — Ela ergue os olhos quando ouve minha voz. — Tudo que faço é pensando em você.

Ela ergue uma das mãos e acaricia o meu rosto, depois levanta a cabeça e me dá um beijo estalado no rosto.

— Todas as minhas escolhas são para vê-la feliz. Sempre — murmuro, acariciando o seu rosto.

Penso em e sorrio. Apesar de apenas dois encontros e um avanço extraordinário, era cedo para dizer, mas sinto que ele seria bom para Annie. Claro, não poderia ter certeza, porém, o meu coração dizia que seria assim. Eu sei que os homens se afastam de mães solteiras por não saberem lidar com isso, e não podia julgá-los por isso, no entanto, admirava aqueles que enfrentavam.
Ter um filho é se dispor a ele, independentemente de suas vontades. Você quer ser feliz? Sim, todos queremos. Todavia, ser mãe ou pai é cuidar de um ser indefeso que sem você não há chance de sobrevivência. Eu havia sido abandonada recém-nascida, porém, não cresci sozinha, fui criada pelas Irmãs e agora estou vendendo saúde. Uma criança precisa de atenção e amor. Se dispor a ser a coluna da casinha de um bebê é responsabilidade demais.
me surpreendeu ao dizer que minha filha era mais importante do que qualquer outra coisa, ele sabe que independente do caminho que esse relacionamento tomar, Annie sempre estará em primeiro lugar.
Depois de me perder em pensamentos, noto que Annie acabou dormindo. Opto por deixá-la na cama invés de colocá-la no berço. Quando estou prestes a me levantar, Ryan entra no quarto e se senta no final da cama.
Ele observa Annie com os olhos cheios de ternura.

— Como é possível ele ser pai dela? — questiona.

Sei que ele não deseja uma resposta, por isso, permaneço calada.

— Se você soubesse. — Ele olha para mim com os olhos cheios de dor. — Se tivesse uma ideia das maldades que vi ele fazendo…
— Ryan — chamo sua atenção. — Já vi filmes suficientes para ter uma ideia de como essa droga de vida funciona, assim como tenho certeza que nada se compara ao que vi. Tudo é pior.

Ele acena.
Voltamos a observar Annie em seu sono profundo.
Meu pensamento volta para Ryan. Se ele acha essa vida tão terrível e nojenta, por que continuou? Não fazia sentido para mim. Erik me disse que os dois cresceram juntos, então, talvez ele tivesse ficado apenas pela parceria. Não tenho ideia. Só sei que agora, ele diz ter abandonado essa vida e confiava em sua palavra. O meu medo era essa aproximação dele com Holly. Minha amiga havia perdido muita gente na sua vida e não gostaria de vê-la sofrendo por alguém.

— O que há entre você e Holly?

Ryan volta os seus olhos para mim, confuso. No entanto, essa confusão não dura e é substituída por um sorriso.

— Não sei dizer, mas me sinto à vontade com ela. Com ela tenho desejo de ter um futuro — diz sonhadoramente, quando torna a razão, limpa a garganta e suas bochechas ficam vermelhas. — Isso é bem bobo.

Dou uma risada.

— Não é bobo. Acho lindo.

Ele acena e levanta-se da cama, com os olhos voltados para Annie. Ryan deseja boa noite e segue para o quarto de Holly, acredito eu.
Observo minha filha dormindo e vejo o que Ryan viu. Annie era pura demais para vir de um homem tão sujo. Annie foi a única coisa boa que saiu de Jayden.


Quando acordei, o dia tinha tudo para ser normal, tirando o encontro com . Como Annie ainda estava dormindo, resolvi tomar um banho quente para despertar, nada anormal. O que realmente me preocupou foi encontrar minha filha deitada na cama, com os olhos em meia lua e molinha. De instinto, a primeira coisa que me veio na cabeça foi tocar em sua testa para ver sua temperatura e constatei que Annie estava com febre.
Pode parecer que toda mãe está preparada para esse tipo de situação, mas não estamos. A última coisa que esperamos é que nossos filhos fiquem doentes, porque dói ver o seu bebê tão triste, desanimado ou sentindo dor. Nosso desejo é tirar a doença da nossa cria e colocar em nós.
Contudo, apesar de estarmos preparadas para o mal estar que isso causa em nós, sempre temos um às na manga. Uma mãe sempre terá um remédio preparado na caixa de primeiros socorros.
Primeiro, conferi se era garganta, pois caso não fosse, teria de levá-la ao médico. Não acreditava que fosse uma infecção alimentar, até porque os alimentos que fiz ontem eram todos frescos e caso fosse, Ryan teria vindo reclamar.
Depois de conferir a garganta de Annie e constatar o que de fato era problema, corro para o banheiro em busca da caixa de primeiros socorros. Quando retorno, Annie está quase cochilando, levanto-a e ponho-a sentada, dou-lhe o remédio. Em seguida, deito-a na cama mais uma vez, embrulho-a e pego a pelúcia Olaf que estava posto em seu berço.
Após isso, corro para a cozinha e encho uma tigela grande com água da torneira. Quando estou enchendo a vasilha, escuto passos atrás de mim, viro-me e vejo Holly esfregando os olhos.

— Por que o café da manhã não está pronto? Acordei muito cedo ou você acordou tarde? — indaga bocejando.
— As duas coisas. Você terá que se arrumar com o café, Annie está doente.

Os olhos de Holly se arregalam.

— Mas ela estava bem ontem.
— Nem tanto, talvez o dengo dela tenha sido porque estava ficando doente.

Holly acena e segue para os armários, com certeza para tomar leite com cereais.

— E o seu encontro com o bonitão?

Franzo o cenho.
Havia me esquecido desse detalhe quando acordei e encontrei Annie doente. Entretanto, não havia falado nada do encontro com , ou seja, Holly havia escutado minha conversa pelo telefone ontem.

— Não acredito que estava ouvindo atrás da porta.
— Na verdade, a porta estava aberta.

Ela tem um ponto.

— Não importa, é feio ouvir conversa dos outros.

Holly revira os olhos e segue em direção à geladeira. Enquanto isso, torno para o quarto, pego uma toalha no closet e molho-a na água fria. Uma das melhores coisas para ajudar a baixar a febre.
Testa, braços, pernas.
O dia será longo.


A febre foi e voltou várias vezes. Medi a temperatura com um termômetro e a febre oscilava entre 39 e 40 graus. Comecei a dar anti-inflamatório para a garganta, pois só assim esse problema se resolveria.
Já era cinco horas da tarde e não havia comido nada ainda. Não podia sair de perto de Annie um segundo se quer, e não queria sair.
Ouvi o ruído da porta de entrada sendo aberta e sabia que era Rachel e Holly. Elas não demoraram pra entrar no quarto. Annie estava deitada na cama, sonolenta, os seus lábios estavam vermelhos e bochechas coradas por causa da febre.

— Como ela está? — Rachel questiona.
— A febre passa e volta. Estava esperando vocês chegarem para que dê um banho nela. — Ergo os olhos para as minhas amigas, sei que devo estar terrivelmente assustadora nesse momento, no entanto, elas não se espantam. — Sei que acabaram de chegar…
— Não fale besteiras, . Você pode ter ficado em casa, porém, não sossegou um instante — Holly afirma. — Ligou para o bonitão?

Droga.
Havia me esquecido completamente. Esfrego as mãos no rosto completamente frustrada. Estava exausta mentalmente. A minha folga costumava ser um momento de alívio para a semana, contudo, essa só tinha me dado dor de cabeça.
Pego o celular que está na mesa de cabeceira. Há uma ligação de , na qual não escutei porque coloquei o celular no modo silencioso para não incomodar Annie. Resolvo retornar a ligação.

? — Sua voz perfura os meus ouvidos e desfaz um pouco da tensão que se estabelecia em meu corpo.
, sinto muito, mas não poderei jantar com você hoje.
Aconteceu alguma coisa? — Sua voz demonstra como está apreensivo.
— Sim, Annie, a minha filha, acordou doente. — Solto um suspiro. — Me desculpe não avisar antes, você fez reserva e tudo mais…
, não se preocupe com isso, o mais importante é a saúde da sua filha.

Uma respiração profunda escapa, o alívio tomando conta de cada músculo do meu corpo. era mais compreensivo do que imaginava, ele era maravilhoso.

— Obrigada por entender.
Só um idiota não entenderia. Já disse a você, jamais me colocarei à frente dela.
— Obrigada mais uma vez.
Não tem do que me agradecer. Nos vemos em breve, vá ficar com ela.

Aceno, mesmo sabendo que ele não a verá. Encerro a chamada, ponho o celular na mesa de cabeceira e encaro a minha pequena, que agora está de olhos abertos.

— Vou preparar o banho dela, fiquem com ela.

A banheira locada no mesmo lugar do chuveiro era uma mão na roda para quem tinha uma criança que quando fica com febre não pode ficar muito tempo de pé, pois não suporta nem mesmo o próprio peso.
O banho funcionou bastante, até consegui dar algumas frutas para ela comer. Era isso que ela precisava e caso ficasse com febre novamente – esperava que isso não ocorresse –, iria levá-la direto para o banheiro.
As meninas nos deixaram sozinhas alegando que iriam se arrumar para dormir e que se precisasse, era só chamá-las. Não iria chamá-las. Sabia como era trabalhar naquela lanchonete e tinha uma noção de como estavam cansadas. Caso não dormisse, falaria com Glenn pela manhã e pediria mais um dia de folga, pois agora tínhamos Caroline que havia aprendido muito rápido como fazia os pratos.
Eu queria me levantar e tomar um banho, porque estava incomodada com a falta da água descendo pelo o meu corpo, no entanto, não queria deixar Annie sozinha e muito menos acordar minhas amigas - que já deviam estar no quinto sono.
O ruído da campainha toca os meus ouvidos, olho para o relógio do celular e constato que já são nove da noite. Apesar de não está fazendo muita coisa, as horas estavam passando como um foguete. Me levantei da cama e segui em direção à porta. Devia ser Ryan atrás de Holly.
Quando abri a porta, mais um terço da tensão que estava sobre o meu corpo se foi. Um homem de cabelos loiros cacheados e olhos azuis, me encarava com uma expressão preocupada.

— Imaginava que estaria assim.
— E não imaginava que apareceria aqui.

Ele sorri, deixando o meu dia menos tenebroso.

— Entre. — Abro a porta ainda mais para que ele adentre o lugar.

observa o apartamento meticulosamente, provavelmente fazendo uma análise detalhada das moradoras de acordo com a descrição do lugar. Eram muitas mulheres e pouco apartamento para tantas bugigangas. Uma estante com poucos livros que havia comprado nos últimos três anos. Uma parede com fotos dos lugares que Holly desejava conhecer. E o arsenal de maquiagem de Rachel que só não estava na sala no momento porque eu e Holly havíamos ordenado para que ela tirasse aquele monte de coisas do meio da sala, porque era bizarro.
Comecei a me dirigir ao meu quarto e ouvi me seguindo, ele parecia apreensivo.

— Não esperava você por aqui. — Uno as sobrancelhas, confusa. — E não me lembro de ter contado qual era o apartamento.
— Erik me disse.

Paramos um de frente para o outro, ao lado da cama. não olhou nem um segundo para o ser pequeno e frágil que estava postado bem no meio do móvel, os seus olhos estavam grudados em mim como se buscasse pelos mais ínfimos segredos.
E antes que pudesse falar algo, fui agarrada por seus braços fortes e a sua boca pressionada contra a minha. Desejei isso por todos esses dias e horas, o meu corpo ansiava por isso, precisava disso. Os meus dedos se moveram automaticamente para os seus cabelos, nos quais fizeram cócegas na minha mão, tão grossos e macios. Assim como no sonho.
Quando se afastou, estávamos ofegantes e com sorrisos bobos nos lábios.

— Sonhei com esse beijo mais vezes do que você pode imaginar — sussurrou com o seu hálito de hortelã batendo contra o meu rosto.
— Eu também — sussurro de volta.

Volto os meus olhos para Annie rapidamente e me recordo que preciso de um banho urgente. Me afasto de e respiro fundo. É difícil ficar longe dele.

— Preciso de um banho, se não for…
— Eu fico ela.
— Obrigada.

Sigo para o banheiro, fecho a porta e assim que começo a regular a temperatura da água, percebo que esse vai ser o primeiro contato de com Annie. E apesar das circunstâncias, espero que dê tudo certo.



Capítulo 13

Primeira palavra


Os meus olhos estavam focados no berço à minha frente, não havia me movido um milímetro desde que seguiu para o banheiro. Sabia que a menina estava deitada na cama, não tinha ideia se estava acordada ou dormindo, ela não fazia nenhum ruído. O meu coração estava acelerado e minha respiração pesada. Não havia conseguido nem ao menos dizer o nome da menina em voz alta, e quando pronunciou o nome dela pelo celular, quase engasguei. Já sabia qual era o seu nome e o motivo da escolha, Erik me contou. quis fazer uma homenagem a mulher que salvou a sua vida e a da criança.
Era lindo.
Entretanto, minha cabeça estava a mil com essa informação. Era demais para mim.
estava no banho e logo sairia para conferir o estado de sua filha e do visitante. Sem dúvidas ela estava imaginando como seria nossa primeira interação e eu não estava fazendo nada a respeito.
Solto um suspiro e conto de um até cinco.
Viro-me para a menina enrolada em um cobertor, os seus cabelos loiros estão espalhados pelo colchão. Não posso ver o seu rosto, pois o lençol está tapando grande parte dele, então, me aproximo lentamente. A menina está acordada e assim que fico em seu campo de visão, nossos olhos se encontram e posso ver algo brilhar no seu. O meu peito imediatamente se enche de uma emoção que não sentia há muito tempo, aquela na qual senti quando Erik estava desconfiado da gravidez da minha falecida esposa. Estranho afirmar isso, sendo que a criança em questão é filha do homem que mais odeio nessa vida, porém, filha da mulher que tem roubado os meus pensamentos nas últimas semanas.
Aproximo-me ainda mais da cama e me sento perto da cabeceira. A menina ergue a cabeça e começa a se arrastar até mim, posso ver quanto esforço ela coloca para se aproximar, então, resolvo pegá-la e colocá-la em meus braços. Assim que faço isso, a garota sorri, descanso-a no meu colo, com sua cabeça sobre o meu peito.
Ela é linda.

— Olá, menininha — sussurro.

Ela ergue a mão e desliza sobre o meu maxilar com barba por fazer. Sua mão suave e quente aquece a região que estava recebendo o frio da noite alguns minutos atrás.

— Papa — ela pronuncia fracamente.

Pisco deliberadamente, sem acreditar no que acabei de ouvir.
O ruído de algo caindo no chão chama minha atenção. É , parada na porta do banheiro com os olhos arregalados e a boca aberta, não de espanto, mas maravilhada. Ela se aproxima às pressas e se senta à minha frente.

— Ela falou.

Franzo o cenho.

— Sim, acho que está confusa...

estende a mão e toca o meu braço livre, quando olho para ela, noto que seus olhos estão cheios de lágrimas.

, você não entende a proporção do que acabou de acontecer. Annie nunca falou uma palavra, eu já estava preocupada, pensando que era algum problema que havia nascido com ela. Até pensei em pesquisar sobre os meus pais e acabei adiando. — Ela balança a cabeça. — O que importa é que ela falou. E nunca me senti tão feliz em toda a minha vida.
— Mas ela devia ter falado “mama” e não…
. — chama minha atenção, com lágrimas escorrendo por suas bochechas. — Acha que vou me importar com algo desse tipo, sendo que finalmente minha filha deu sinal de que pode e vai falar? Não me importo. Ela poderia falar qualquer coisa, até mesmo um palavrão, que não iria me importar. Só queria que ela falasse e isso aconteceu.
— Nem sou o pai dela de verdade — digo, desanimado. Olho para a menina em meus braços que observa nossa conversa de forma eficaz.
— Você parece triste por não ser o pai dela.

E estava. Era algo louco de se pensar e dizer, no entanto, estava mal por não ser o seu pai. Por ela vir de um homem tão vil que tratava as mulheres como mercadoria. Esse pequeno anjo merecia muito mais. Não me considerava o melhor homem da face da terra, todavia, não tratava ninguém como objeto.

— Por mais louco que seja, é assim que estou me sentindo.

Aproximo-me de seu rosto pequeno e planto um beijo em sua testa, ela agarra o meu pescoço em um abraço apertado demais para quem está doente. dá uma risada e seca as lágrimas que insistem em sair do canto dos olhos, depois se levanta e segue para o que acredito ser o closet.

— Papa — a menina murmura na curva do meu pescoço.
— Acho que devido a honra que está me dando, deveria chamá-la pelo seu nome. — Engulo em seco. — Annie.

Fico com ela em meus braços por tempo suficiente para se vestir e quando ela retorna, a pequena está em um sono profundo. Ergo os olhos para a mulher de cabelos castanhos e sorrio.

— Ela sempre dorme rápido assim?
— Quando está doente dorme mais rápido que o normal. — Ela sorri para a visão que está na sua frente e limpa a garganta em seguida, ficando séria. — Vou preparar algo para comer, pode deixá-la na cama.

Pressiono os lábios em uma linha fina.

— Gostaria de ficar com ela e seguir você.

pisca algumas vezes, completamente surpresa.

— Tudo bem.

Ela pega o cobertor e embrulha Annie nos meus braços. Depois se direciona a cozinha e eu a sigo, embalando a menina. confere os armários, porém, ela dá um salto de repente e corre em direção à geladeira. De lá, ela remove uma panela grande, daquelas usadas em cantinas de escola e põe sobre o fogão.

— Ontem fiz bobó de camarão e já havia me esquecido.

Arregalo os olhos, animado.

— Isso parece bom.

, que estava de costas, vira-se para mim com um sorriso ladino. Ela se aproxima e pressiona os lábios contra os meus em um beijo rápido. O gesto é tão normal que faz uma pressão quente no meu peito.

— Você nem viu, como sabe que está bom? — pergunta, cruzando os braços sobre os seios.
— Tudo que você faz fica bom.

As faces de ficam carmim. Retribuo o beijo rápido, fazendo-a rir. Ela torna sua atenção para o fogão e começa a preparar uma panela de arroz. Minutos depois, o cheiro de arroz fresco perpassa por nossos narizes e já estou faminto. Resolvo levar Annie até o quarto para que possa comer sem me preocupar em acordá-la. Deito-a na cama e cubro com o cobertor, depois lhe dou um beijo na testa.
Quando me ergo, percebo o que acabei de fazer e como isso é estranho. Mal conheço essa menina e agi de uma forma tão natural.
Toco o meu peito e esfrego-o. O que quer que tenha acontecido com a minha mente e meu coração essa noite, fez estragos grandes e que não podem ser reversíveis. A pequena Annie havia me conquistado com um simples olhar e estava errado sobre ter me estragado, havia uma menina que tinha ultrapassado todas as minhas barreiras e ela estava deitada à minha frente.
Saio do quarto relutante. Quando chego à cozinha, já está colocando nossos pratos na bancada. Encaro a comida, que apesar de ser do dia anterior, parece suculenta e me sento em um dos bancos. senta-se logo em seguida.

— O que ela tem? — questiono.
— Quem? Annie? — indaga, tapando a boca, pois está de boca cheia.
— Sim.
— Garganta. Ontem ela estava toda dengosa, não imaginei que fosse ficar doente, porque às vezes ela fica assim sem motivo. Contudo, não foi dessa vez.

se levanta e segue até a geladeira, ela volta com uma garrafa de suco de uva e dois copos, depois distribui o líquido em cada um deles.

— Na verdade, quis dizer outra coisa. — Ela me observa e ergue uma sobrancelha, me questionando. — Ela costuma encantar as pessoas tão rápido como me encantou?

sorri. Os seus olhos vagam por seus pensamentos e me permito analisá-la enquanto isso. Os seus lábios estão mais rosados por causa da cor do suco, o seu rosto não possui nenhum maquiagem, deixando claro para mim que os olhos puxados não são efeitos de um delineador. E os olhos. Eles eram minha perdição, poderia me perder na campina que eles eram e não gostaria de encontrar o caminho de volta.

— Annie sempre foi uma criança muito ativa. Quando chego do trabalho está sempre correndo de um lado para o outro e sorrindo também. E o sorriso dela parece iluminar todo o lugar.

Posso ver o que ela está dizendo, senti o mesmo quando Annie olhou para mim. Não a vi sorrindo ainda, no entanto, sei que quando vê, será minha completa perdição. Estava inteiramente encantado pela garota.

— Estou um pouco assustado. Já senti esse sentimento uma vez…
— Que sentimento? — questiona.

É então que percebo o erro que cometi. Não deveria ter comentado algo do meu passado, sabendo que nossas vidas estavam conectadas.

— Já tive o sentimento de ser pai.

pisca várias vezes e sua boca se abre de surpresa.

— Você não disse…
— Desculpa — interrompo-a com um ruído sofrido. — Não gosto de pensar no sentimento de impotência quando descobri que havia perdido o meu filho ou minha filha, não sei, nunca vou saber.

Minha vista começa a ficar embaçada e tudo que mais desejo é que a dor não tome de conta do meu peito mais uma vez. A cena de quando queimei a foto do meu casamento e o sapato de bebê que a minha esposa havia comprado para me dar a tão sonhada notícia. Doía pensar no que havia perdido. Doía saber que não pude fazer nada a respeito.
se levanta do banco e vem em minha direção, ela me abraça apertado e me deixo levar, abraçando-a de volta. Não posso controlar as lágrimas e os ruídos de desespero que tomam de conta de mim, enquanto acaricia os meus cabelos e deixa beijos em meu rosto. A cada respiração que puxo é como se uma faca penetrasse o mais fundo da minha alma. Pensei que o tempo me ajudaria, entretanto, ele havia apenas sido o vilão.

— Quase perdi Annie. Por motivos que não me sinto à vontade de falar, tive um princípio de aborto. Fui deixada sozinha, sangrando, se não tivessem me achado, eu e minha filha estaríamos mortas.

Ergo a cabeça e tento secar as lágrimas que insistem em cair.

— Você não me contou isso — digo, fungando.
— Você também não.

Nós dois começamos a rir.
Quando o riso passa, aperto os braços em volta de , como se ela fosse desaparecer a qualquer momento.

— Sei que não teve tanta sorte como eu, mas não se deixe abater por isso. Se sentiu isso por Annie, por favor, não se prenda.
— Não vou.

Depois de alguns momentos agarrados, nos separamos e voltamos a comer sem nos importar por a comida ter esfriado. Assim que terminamos, ajudei a lavar a louça e organizar a cozinha, em seguida, ela se aprontou para se deitar ao lado de Annie. Eu sabia que ela estava cansada, assim como também sabia que não havia vindo à sua casa em busca de romance, mas como alguém para lhe dá força para lidar com a doença da filha. Deitei-me do outro lado da cama e ficamos observando a pequenina dormir. está prestes a cair no sono quando diz:

— É bom ter você aqui.
— Gosto de estar aqui.
— Parece bobo, mas senti medo do que você pensaria sobre ter uma criança na minha vida. Agora entendo porque foi tão compreensivo.

Dou uma risada fraca.

— Acha que foi porque perdi um filho?
— Sim. Os homens têm medo de mães solteiras.

Dou um sorriso de lado, que é capturado pelos seus olhos verdes.

— Você precisa me conhecer mais. Um filho jamais me impediria de ter um relacionamento com uma mulher.

sorri, sonolenta.

— Isso é um relacionamento?
— Sim.
— Obrigada por me informar, .

Ela é levada pelo sono, enquanto minha respiração se acelera com a forma que fui chamado. Há muito tempo ninguém me chamava de .
Nunca fui o tipo de cara de gosta de acordar cedo, no entanto, o meu corpo despertou antes mesmo que o sol desse sinal, continuei com os olhos fechados, entretanto. Uma mão pequena toca minha barba por fazer, fazendo com que as imagens do dia anterior percorressem minha mente. não pôde ter um encontro comigo, pois a filha estava doente, por isso resolvi vir até o seu apartamento onde conheci a pequena Annie, que no fim das contas me chamou de “papa” - essa era sua primeira palavra -, depois, falei demasiadamente e contei para sobre o filho que eu deveria ter e que teria a idade da sua filha.
Para fechar com chave de ouro, me chamou de , e a única pessoa que já me chamou assim foi minha falecida esposa e que por acaso tinha o mesmo nome da filha da mulher que não saia mais da minha cabeça.
Confuso? Pode ter certeza que sim.
Abro os olhos e vejo a menina loira me encarando como se fosse um ser biologicamente estranho e ela a pesquisadora.

— Papa.

É impossível controlar o sorriso imbecil que se forma em meus lábios.

— Não vou lhe julgar, devo mesmo ser seu pai.

Ela ergue um boneco loiro que se parece muito comigo e repete:

— Papa.
— Ah, agora descobrimos o culpado. — Pego o boneco e analiso-o. Ele é assustadoramente parecido comigo. Além dele, há uma boneca parecida com Annie, um menino com cabelos castanho e uma mulher parecidíssima com . Para se tornar real, Annie precisaria de um irmão gêmeo, e claro, eu ser o seu pai biológico. — Isso não estava aqui ontem à noite. Você se levantou?

Annie acena e sorri culpada. Apesar de não falar e ter pouca idade, ela conseguia compreender cada palavra que falávamos.
Ergo a cabeça e encontro dormindo o sono dos justos, então, resolvo tomar a dianteira e cuidar da menina. Confiro que ela não está com febre, e de acordo com o meu treinamento, sua temperatura está normal.

— Parece que alguém está muito bem.

Annie sorri mais uma vez e me pergunto se ela é sempre toda sorrisos.

— Mamãe está dormindo, que tal fazermos uma travessura e comermos todas as frutas da geladeira?

Annie acena.

— Nada disso. — Uma voz rouca chama nossa atenção e noto que é despertando. Ela coloca uma mão na boca e boceja, em seguida se espreguiça, os seus olhos ficam menores pela manhã.
— Se soubesse que ficava tão linda pela manhã, não teria sumido. — As bochechas dela ficam vermelhas com o elogio.

A menina loira se vira para a mãe e anuncia:

— Mama.

arregala os olhos e no mesmo instante vejo-os brilharem com as lágrimas que serão derramadas em segundos.

— Meu amor, você me chamou de “mama”.

Como previa, as lágrimas rolam pelo canto dos olhos de e outras passam por seu nariz até encontrar outro lado do rosto. Ela está emocionada por finalmente ser reconhecida pela filha. Ela não se sente mal por Annie ter chamado um desconhecido de “papa” e isso era estranho, sua explicação sobre a menina não falar nem uma palavra foi bem convincente, contudo. Mesmo assim, me sentia culpado por isso ter acontecido, mesmo que tal fato não tenha sido minha culpa, mas de uma família de bonecos.

— Acho que os bonecos deram certo.

está agarrada com Annie e ainda há muitas lágrimas escorrendo por seu rosto, além de um lindo sorriso.

— Você foi a chave. Ela tem os bonecos há semanas, porém, de alguma forma, você a destravou e era tudo o que mais desejava. — solta uma das mãos da menina e estende para mim, a pego no mesmo instante. — Obrigada, .

Sorrio sem graça.

A vida havia tirado algo marcante de mim, porém, deu algo da mesma relevância em troca. No fim, não saí perdendo.
Eu e Annie acabamos ficando com o quarto só para nós. Não fizemos bagunça na cozinha, entretanto, espalhamos brinquedos por toda a cama, tendo espaço apenas para as nossas bundas. Sim, estávamos rodeados de brinquedos diversos, em sua maioria pelúcia.
Ela me entrega um boneco de neve em um formato estranho, pega uma garota ruiva e a abraça. Depois me encara com cara de tédio, então resolvo imitá-la. Esse parecia ser o seu objetivo, pois um sorriso se forma em seu rosto de orelha a orelha.

— Está com fome? — questiono-a. — Porque estou quase desmaiando, preciso de um café da manhã para recuperar as forças depois dessa bagunça.

No mesmo instante, entra no quarto com os olhos brilhando. Após a segunda palavra de Annie, o sorriso de felicidade e o brilho nos olhos continuavam intactos e gostava do que eles me faziam sentir. Como uma criança que nunca consegue chamar a atenção do pai e quando finalmente consegue se sente o melhor ser humano do mundo.

— Vamos, anjinho? — pergunto a Annie e ela acena.

Pego-a no colo e nos dirigimos à cozinha com logo atrás de nós.

— Anjinho?

Viro-me para . Sua sobrancelha está erguida em questionamento.

— Você é o meu anjo e Annie o meu anjinho.

se aproxima e há um sorriso em seus lábios que demonstram sentimentos muito mais profundos, talvez um pouco de malícia. No entanto, sua face angelical parece brigar com a malícia, o que a deixa ainda mais atraente.

— Salvamos você? — ela pergunta, se aproximando cada vez mais.
— Não tem ideia.

Engulo em seco quando o rosto de está de frente com o meu. Sei que quero sentir os seus lábios macios nos meus e sentir o sabor da sua língua na minha. A boca que me torturou desde o primeiro momento. No entanto, há uma criança no cômodo e não sei se conseguiria apagar essa quentura que tocou o meu corpo com apenas um beijo.
Antes que possa dizer alguma coisa, se afasta e pega uma tigela que está sobre o balcão.

— Pode pô-la na cadeirinha?

Ela me indica uma cadeira de criança e coloco Annie nela, em seguida, entrega uma tigela com frutas picadas para a menina.

— Não sei do que gosta de comer de manhã, então, tenho panquecas, ovos e bacon — Ela olha para o relógio do micro-ondas e me encara de volta. — As meninas irão acordar em alguns minutos, escolha antes que elas cheguem.

Resolvi não questionar, peguei um prato e optei por tudo, estava faminto e comeria até pedra. Assim que descansei o prato sobre o balcão, o ruído de vozes toma os meus ouvidos.

— O cheiro está bom — a morena de cabelos altos anuncia. Assim que ela percebe que estou sentado em um dos bancos, os seus olhos se arregalam e ela se vira para em busca de ajuda. — O que o bonitão faz aqui?

No mesmo instante ela percebe o seu erro, enquanto ergo a sobrancelhas.

— Vamos fingir que não disse nada.

Rachel adentra a cozinha bocejando, não creio que ela tenha acordado o suficiente para me notar no lugar. As duas mulheres se acomodam em seus lugares, após preparem os seus pratos e começam a comer.

— Papa — Annie me chama e volto os meus olhos para ela. Está estendendo uma colher com pedaços de morango e kiwi. Como as frutas e ela sorri animada. Quando torno ao meu prato, noto que a morena e Rachel estão observando Annie como se tivesse criado uma segunda cabeça.

solta um suspiro em meio a uma risada.

— Terminem de comer. Ela falou ontem à noite, parece que era o que precisávamos para destravá-la.

Rachel se volta para , estupefata.

— Ela simplesmente falou “papa” e acabou? — Rachel quase grita.

toca o queixo teatralmente.

— Não, ela disse “mama” hoje de manhã. — Depois de informar as amigas, olha para mim e pisca.

Seja o que isso significa, estou adorando.



Capítulo 14

As origens


O dia anterior foi uma caixinha de surpresas. Ouvir a voz de Annie fez com que toda a preocupação evaporasse em segundos, e consequentemente a febre e tudo que veio com ela. Em momento algum imaginei que uma pessoa de fora poderia ser a chave para destravar a minha filha e incentivá-la a falar. entrou na minha vida modificando todos os meus planos, fazendo um reboliço com os meus sentimentos e melhorando tudo sem nem um esforço. Ainda não compreendia porque ele achava que deveria sumir das minhas vistas, tinha certeza que ele estava completamente equivocado, no entanto, era uma das coisas boas que chegam para você e só se tem uma chance para decidir se vai agarrar ou não. Eu escolhi agarrar.
Hoje vi algo que nunca pensei que desejava. Ver minha filha com um pai. Era estupidez pensar nisso, já que não é o pai de Annie, porém, vendo os dois interagindo, foi impossível tirar esse pensamento da cabeça. Ele teve tanta paciência com a minha menina, parecia tão feliz em estar ali lhe explicando como funcionava a brincadeira ou quando ela pediu – muda ou chamando por "papa" – para que ele repetisse os seus atos. Era lindo de se olhar. Como se a vida tivesse dado a chance de Annie ter um pai em sua vida. Porque mesmo com todo o meu esforço, chegaria um dia que ela me perguntaria quem era o pai dela e porque ele não estava presente. E independente de como esse relacionamento se desenvolvesse, preferia afirmar que foi um pai para ela. seria a única figura paterna na vida da minha filha.
Parece loucura afirmar isso, já que o conheço há tão pouco tempo. Acreditava no que meu coração me dizia, entretanto. A confiança que depositei no pai biológico de Annie me quebrou, mas a via sendo reconstruída pelo homem deitado na minha cama com a minha filha nos braços.
Não conseguia pregar os olhos, pois a visão era linda demais.
estava com a barriga para cima, completamente relaxado, e Annie estava deitada em seu peito com os braços sob a cabeça. Se alguém os visse agora, diriam que eram verdadeiros pai e filha.
Decido que devo dormir, pois terei de acordar cedo amanhã. Glenn me concedeu mais um dia de folga, pois Annie estava se recuperando, porém, ele não seria tão flexível por muito tempo. Caroline poderia aprender rápido, contudo, estávamos perto da próxima troca de cardápio e eu devia construí-lo, caso isso não acontecesse, Glenn serviria meu fígado aos clientes. Ele poderia ser um chefe gente boa quando estava calmo, todavia, nas horas de tensão dava arrepios.
Respiro fundo, com um sorriso nos lábios, e me entrego ao cansaço do dia. Sonho com imagens de e Annie correndo pelo Central Parque, e um anjo de cabelos loiros e baixa estatura olhando de longe. Sei que a conheço, porém, não me recordo. Os seus olhos encontram os meus, ela sorri e uma paz toma conta do meu coração. Seja quem for, ela era tudo que precisava.

Tive de reformular um cardápio assim que cheguei na lanchonete, além disso, o lugar lotou. Eu e Caroline não paramos um segundo. Até nos momentos que Caroline poderia dar uma pausa, ela optou fazer mais brigadeiros para manter as vitrines cheias.
O expediente estava quase acabando e já estava morrendo de saudades da minha filha. Havia adquirido novos vícios além da cozinha: ouvir a voz de Annie e vê-la brincando com . Estava tão encantada com a segunda cena que no dia anterior, quando foi em sua casa, quase pedi para que ele trouxesse uma trouxa de roupas. Eu sei, estou me apressando mais uma vez, não estava chamando-o para morar comigo, contudo. Só não conseguia controlar esse impulso de colocá-lo em nossas vidas, ainda mais depois de sua revelação.
havia perdido um filho. Não sabia o tamanho da dor, porém, sabia como era o desespero dessa possibilidade e não desejaria a ninguém.
Depois de limpar tudo e deixar a cozinha nas mãos de Caroline para ser repassada para Alessio, saio da lanchonete com Rachel e Holly em meu encalço. Assim que saímos do local, avistamos na calçada sentado em sua moto com os braços cruzados. Quando os nossos olhos se encontram um sorriso se forma em seus lábios e consequentemente nos meus.

— Alguém não vai mais de ônibus, mas agarrada ao bonitão — Rachel diz.

Ignoro as palavras e vou até , envolvo os meus braços em volta de seu pescoço e descanso os lábios nos seus em um beijo lento. Sua língua encontra a minha e todo o meu corpo se aquece, minha pressão sanguínea aumenta e gosto da sensação do meu coração martelando o meu peito cada vez mais rápido.

— Seria clichê se dissesse que senti sua falta? — ele indaga.

Finjo estar pensando no assunto.

— Sim — afirmo. — Mas sempre gostei dos clichês.

Volto a pressionar os meus lábios nos seus.

— Arranjem um quarto! — Holly exclama e Rachel ri.

Viro-me para as minhas amigas.

— Tem certeza que vai implicar comigo?

Holly semicerra os olhos.
Nos últimos dois dias, Ryan teve que se ausentar por causa do trabalho, e apesar de estar distraída com Annie e , podia ver que minha amiga estava subindo pelas paredes. Holly estava sentindo falta de Ryan e eu ainda estava decidindo se isso era bom ou ruim. Ryan estava dando motivos para merecer minha amiga, no entanto, havia uma parte de mim que dizia para ter cautela. Não porque não confiava nele, mas pelo o que ele poderia representar ou trazer para as nossas vidas.
Por outro lado, estava mais do que feliz em ver Holly se abrindo para alguém.

— Rachel, é melhor irmos andando. Esses dois ainda vou se agarrar muito até chegarmos ao ponto do ônibus, além disso, perdemos uma companheira. — As duas seguem para o ponto de ônibus enquanto eu e caímos na gargalhada.
— Ela é engraçada — diz, secando o canto dos olhos. — Como é o nome dela mesmo?
— Holly.

Ele envolve os braços à minha volta e cheira o meu pescoço, fazendo cócegas. Depois, os seus lábios encontram os meus novamente e me entrego a eles.
Os dois últimos dias foram tão loucos que havia me esquecido como era tê-los à minha disposição.
Deslizo os dedos por seu cabelo enquanto ele acaricia minhas costas. Nossas bocas parecem feitas uma para a outra, em perfeita sincronia, movimentando todo o restante do corpo. Como uma fábrica, nossos lábios são a central de comando e todo o resto do corpo opera de acordo com o movimentar da central de controle.

— Adoro isso.

Sorrio.

— Eu também.
— Não queria dizer isso, porém, acho que devemos ir. — Ele olha por cima do meu ombro. — Já chamamos atenção demais.

Viro-me e encontro Glenn e alguns clientes observando nosso show de lábios. Imediatamente, minhas bochechas esquentam.

— Sim, devemos ir.

Subimos na moto, colocamos os capacetes e seguimos para o meu apartamento. Os meus braços agarrados ao tronco de , sentindo o seu cheiro, apesar do vento frio.
Quando chegamos ao apartamento, Annie está assistindo desenho e dançando na frente da TV junto com Millie, que parece estar se divertindo tanto quanto a minha filha. A duas rodopiam pela sala, enquanto eu e observamos a pequena em sua graça. Assim que os olhos de Annie nos encontra, ela grita:

— Mama, papa! — exclama.

Ela começa correr em nossa direção e me abaixo para capturá-la em um abraço apertado. Quando nos encontramos, noto a respiração pesada por causa do exercício anterior, além disso, a sua pele está úmida de suor.

— Ee-u… — Millie tenta falar algo e já tenho uma ideia do que seja.

Estava tarde quando sai para o trabalho hoje de manhã, e acabei não contando a Millie sobre a proeza de Annie.

— Ela começou a falar, desculpe, não tive como te dizer. — Ela acena.

Annie me solta e segue para abraçar , no qual a puxa para o seu colo e a joga para o alto, arrancando uma risada gostosa da minha menina.
Passo alguns minutos observando os dois e a interação impressionante entre eles. Parecia que se conheciam há anos, e isso causava uma sensação gostosa no peito, não me fazia sentir sozinha com uma criança para criar. Sem perceber, havia se tornado um apoio para o que estivesse por vir. Ele era importante para Annie em proporções elevadas, penetrou no coração da minha filha ainda mais fundo do que no meu.

, quando ela começou a falar? — Pisco algumas vezes ao escutar a voz de Millie, que está de pé ao meu lado, observando o homem e a menininha entrarem no quarto.
foi a chave.

Viro-me para ela e a encontro com a boca entreaberta e os olhos semicerrados.

— No dia que ela adoeceu, tinha um encontro com ele que tive que cancelar. No entanto, veio para cá e ficou com Annie enquanto estava no banho, assim que sai do banheiro ela simplesmente falou “papa”. — Percorro pela cena mais uma vez, fazendo lágrimas brotarem nos meus olhos. — Muitas mães ficariam chateadas com isso, mas eu só consegui sentir uma euforia sem tamanho. Minha filha havia falado, após longos dois anos e meio, por que diabos iria reclamar?

Millie sorri e seca uma lágrima que rola pelas suas bochechas - nas quais estão sempre coradas.

— Como vão as coisas com o irmão de Erik? — questiono.

A babá da minha filha nunca foi uma pessoa muito sociável, porém, seu entrosamento com o irmão de Erik havia me surpreendido. Millie não gostava de conversar, sempre se fechava em seu mundinho de livros e contos de fadas - apesar da sua vida ser bem dura. Para que a jovem pudesse se enturmar comigo e com as meninas, foi preciso muito esforço, que no final valeu muito à pena. Quando a loira não se escondia em seus livros, se tornava uma ótima conselheira, contudo, não era fácil manter uma conversa ativa com ela. A não ser que tenhamos ajuda de álcool.

— Tenho que ir. — Ela se movimenta até a porta, e noto que suas bochechas estão mais vermelhas que o normal.
— Algum encontro?

Ela morde o lábio, abaixa a cabeça com a face carmim.

— Millie, não precisa ter vergonha de conversar sobre isso, você pode ser babá da minha filha, mas também somos amigas, apesar de você ainda ter vergonha de se abrir.
— Eu sei — sussurra. Ela ergue a cabeça e coloca uma mecha de cabelo atrás da orelha — Não sei o que temos, estamos nos conhecendo.
— É bom sair da rotina. — Sorrio. — Não o conheço, mas o irmão é um bom homem.

Millie acena e aponta para a porta.

— Até amanhã, .

Ela vai embora, e não posso controlar o meu desejo de que esse cara não seja mais um problema para a vida dela, pois já existem muitos na sua conta.
Tomo o meu caminho até o quarto e encontro Annie passando blush nas maçãs do rosto de . Primeiramente senti o choque, em seguida senti uma vontade quase incontrolável de rir, porém me controlei para não chamar a atenção dos dois. Annie estava de costas para mim, enquanto estava de frente, porém, de olhos fechados. Continuo tentando controlar o riso, no entanto, as bochechas rosadas do homem loiro me faz perder toda a compostura.
Uma gargalhada escapa e no mesmo instante tampo a minha boca, lágrimas escapam dos meus olhos por causa do esforço. Entretanto, é em vão, pois os dois estão me encarando agora, e estão sorrindo.
Annie está contente com o seu trabalho, no qual ela crê que está perfeito. Enquanto isso, me observa com os seus olhos intensos e um sorriso malicioso se forma em seus lábios.

— Podemos maquiar a mamãe também, você não acha? — ele questiona Annie, que acena em afirmação.
— Mama.

Balanço a cabeça e tento me afastar da cama, contudo, sai do colchão em um pulo e me agarra, sentando-me logo em seguida. O pincel desliza pelo o meu rosto e gemo de frustração.

— Pode caprichar, Annie — diz, enquanto os seus braços me rodeiam. Os seus lábios tocam minha cabeça. — Isso merece ser lembrado.

não estava brincando quando disse que merecia ser lembrado.
Depois que Annie terminou de me encher de blush, ela me pediu que fizesse o mesmo com ela. Então, agi conforme o seu pedido. Depois de deixar sua face rosada, na qual ficou ainda mais fofa que o normal, descartou o celular e disse que precisávamos guardar essa lembrança.
Várias lembranças.
Tiramos tantas fotos que já estava ficando cega por causa do flash. Duas das milhares de fotos foram as minhas favoritas: a primeira era a que cada um estava beijando um lado das maçãs do rosto de Annie, que estava com os olhos fechados e um sorriso de orelha a orelha; a segunda era nós três olhando para a câmera com os olhos brilhando de alegria.
Nunca fui de documentar fotos minhas, até porque não tinha como tirá-las e muito menos como guardá-las. Além disso, não haveria o que documentar, não tive uma família juntamente com os seus momentos de lazer, mas sim criada no meio de dezenas de meninas que tinham o destino parecido com o meu.
Uma lágrima rola pelo o meu rosto e seco-a imediatamente, seguro o celular com força e olho em volta para ter certeza que ninguém está me observando. Annie está atenta aos legos espalhados na cama, noto pela sua expressão que está caindo de sono, então, pego-a no colo para levá-la para o berço. No processo, uma carteira cai no chão do quarto, espalhando os documentos que há dentro. Coloco Annie no berço e a cubro.

— Durma, querida.

O chuveiro é ligado novamente e ouço cantarolar. Após as fotos, eu e Annie fomos tomar um banho para nos limpar de toda a sujeira do dia, inclusive o blush. Em seguida, o homem que sem dúvidas está desprovido de vestimentas no meu banheiro - céus! -, seguiu para um banho, me mostrando uma bolsa preta com roupas suas. Ele leu os meus pensamentos quando decidiu trazê-las.
Pego a carteira e os documentos que caíram no chão, e começo a guardá-los de volta. Quando me resta apenas a identidade, observo os dados impressos nela e quase caio para trás quando vejo a data de nascimento de .
25 de outubro.
Corro até o meu celular para verificar o calendário e noto que ainda tenho um mês para preparar um aniversário inesquecível para ele. Isso se ele gostar de aniversários.
Resolvo me comunicar com a única pessoa que parece ser próxima dele. Procuro o número na minha agenda e não perco tempo quando o encontro, em apenas um toque ele atende.

— Erik?
? Aconteceu alguma coisa? — ele sussurra, parece preocupado, contudo, continua falando baixo.
— Não, não aconteceu nada. Só queria fazer uma pergunta.
— Pode falar.
gosta de comemorar o aniversário dele?

O celular fica silencioso por longos minutos, fazendo com que me preocupe com a possibilidade de sair do banho e não conseguir minha resposta.

— Por que está me fazendo essa pergunta? Ele disse quando era o aniversário dele? — Antes que possa responder, Erik continua. — Porque seria estranho. Ele fingia não se importar com o aniversário dele, mas ficava com um humor terrível quando o pai não se lembrava dele.

Percebo que esse nunca foi um tópico de conversa entre nós. Na verdade, nunca conversamos sobre nossas origens. Até porque ser uma órfã não abalou a minha vida, apesar de ainda desejar saber de onde vim, para o bem da saúde da minha filha. E nem perguntei a se tinha pai ou mãe, se eles sabiam que eu existia e se eles tinham ideia que minha filha chamava o seu filho de pai.
Não sabia nada sobre ele e ao mesmo tempo sabia tanto. Ele era um homem paciente com crianças, gentil com todos em sua volta e era engraçado. Ele coçava a nuca quando ficava envergonhado e tinha um sorriso irresistível. Apesar de seu rosto demonstrar que ele é quase da minha idade, na realidade, era bem mais velho do que imaginava, chegando quase na casa dos trinta.
E meu conhecimento se limitava a isso. Não estava chateada pela pouca informação, estava surpresa por ter observado tanta coisa nele e nem ter percebido.

— Deixei a carteira dele cair e vi a data de nascimento na identidade. — Mordo o lábio inferior. — Só quero saber se ele gosta de comemorar o aniversário, sei que ainda falta um mês, porém, quero ter tempo para pensar em algo e preparar tudo.

Ouço a respiração do outro lado, o que me dá a certeza de que Erik está pensando sobre o assunto.

— Faça algo mais íntimo, só vocês. Ele não gosta de chamar atenção, mas vai amar ser lembrado.

Sorrio animada e com mil coisas que se passam na minha cabeça

— Obrigada, Erik.
— Não há de que, .

Encerro a chamada, guardo a identidade dentro da carteira e coloco-a sobre o criado mudo. Em questão de segundos, entra no quarto com o cabelo molhado e vestindo uma calça de moletom. O peito exposto me faz esquecer o que estava fazendo antes dele entrar no local. Ele seca a cabeça com a toalha, olha para o berço rapidamente e quando os seus olhos me encontram novamente, há um sorriso malicioso em seus lábios.

— Quando as crianças dormem, os adultos fazem a festa.

Ele se aproxima de mim e joga a toalha em qualquer canto do quarto, termino deitada sobre a cama e sobre mim.

— Sinto falta de você de outra forma no momento. — Ele pressiona sua pélvis contra a minha, fazendo um gemido se formar na minha garganta. — Nós últimos dias tenho me dedicado ao fato de ser um pai. Que falando em voz alta é muito estranho. — Ele balança a cabeça, tentando recuperar o raciocínio. — Não estou reclamando, por mais incrível que pareça, me sinto um pai, assim como sinto que é minha obrigação. Porém, também sou um homem e preciso de você.

Mordo o lábio para controlar o sorriso que insiste em se formar. coloca nosso lábios em um beijo rápido e ao mesmo tempo intenso, arrancando o meu ar.

— As coisas parecem estar indo rápido demais, no entanto quero dizer pra você que estamos caminhando e não correndo — afirma. — Uma vez, caí de cabeça em um relacionamento, ele deu certo, mas acabou muito rápido. Não quero ultrapassar as barreiras que o tempo nos impõe, porque Deus sabe o quanto quero que isso aqui dê certo.
— Também quero que dê certo. — Toco sua testa, afastando um pouco de cabelo. — Desde antes do nascimento de Annie, não desejei homem nenhum e aí você aparece, começa a mexer com a minha mente e mesmo tentando me concentrar em outra coisa você sempre estava ali no canto. Sempre chamando a minha atenção.

Subo mais um pouco na cama, ficando completamente deitada sobre o colchão. me acompanha, com os olhos brilhando em expectativa.

— Acho que está na hora de nos deixar permitir — sussurra no meu ouvido.


Quando acordo pela manhã, estou com a cabeça deitada sobre o peito de . Ergo a cabeça para observá-lo dormindo e mexo em seu cabelo para conter a vontade de acordá-lo, e repetirmos tudo que fizemos na noite anterior. O meu corpo ainda está dolorido dos movimentos que fizemos, porém, estou tão relaxada que ignoro a dor. Saio de baixo dos lençóis e visto um moletom velho que estava à vista no closet. Esse é um dos dias que acordo e não sinto vontade de sair de casa, gostaria de passar o dia na cama fazendo vários nadas.
Sigo para a cozinha, e logo começo a preparar o meu café da manhã, pois acordei mais cedo do que de costume. Depois que minhas panquecas estão prontas, levo-as para o balcão e quase derrubo o prato quando encontro Erik sentado em um dos bancos.

— Cristo! Que susto! — exclamo.
— Desculpa. — Sua voz rouca toca os meus ouvidos. — Você estava tão concentrada que não quis atrapalhar. De qualquer maneira iria se assustar.

Ele tem um ponto.

— É a primeira vez que dorme aqui? — Ele acena em resposta.

Sabia o que tinha acontecido, assim como ele sabia o que eu e fazíamos noite passada, e a única coisa que agradecia era que as paredes eram grossas o suficiente para não ter de ouvir nada dos outros quartos.
Levanto-me para fazer panquecas para Erik, enquanto ele cai no sono em cima da bancada. Acordo-o e decido lhe dar o meu prato. Depois de ter certeza que ele está colocando a comida pela boca, volto para o fogão.

— Tem leite? — ele resmunga.

Pego a garrafa de leite e um copo no armário, em seguida retorno para as panquecas. Quando panquecas frescas estão no prato, desligo o fogão e volto para o balcão.
Recordo-me da pesquisa que queria fazer a respeito dos meus pais, então, decido que essa é a melhor hora para falar com Erik. Até porque, a comida o despertou.

— Teria como pesquisar sobre os meus pais? — Ele franze o cenho. — Digo, quero saber quem eles são. Nunca me importei com as minhas origens, mas não quero descobrir sobre uma doença genética e ficar sem saber o que fazer.

Os seus olhos escurecem, ele olha de um lado para o outro, depois firma o olhar em mim.

— Sabe que se isso acontecer, há chances de vir do pai também.
— Sim, eu sei. Mas já são cinquenta por cento de certeza.

Ele acena.

— Tudo bem, posso procurar. Vai demorar, porque os arquivos sobre órfãs estão incompletos.
— Não me importo, só não quero viver nessa incerteza.

Voltamos a comer. Tento distrair a minha mente com o dia de ontem e o que devo fazer hoje, contudo, meus pensamentos insistem em navegar no fato de desejar saber de onde venho e entender porque fui abandonada. Nunca havia tido esse desejo no meu coração, e agora ele finalmente brotou. O meu medo é encontrar algo feio demais.
Quando termino de comer, deixo a louça na pia e sigo para o quarto. Deito-me na cama, e imediatamente, acorda e me puxa para os seus braços.

— Hum, vestida. Não gosto — diz ainda de olhos fechados.
— Tenho que me arrumar para ir trabalhar.

Ele pega o seu celular no criado mudo, aperta o botão para ver a hora e depois o descansa novamente no móvel.

— Ainda temos tempo.
— Também tenho que fazer o café da manhã.

me deita na cama e começa a tirar a minha calça.

— Só preciso de quinze minutos.

Dou uma risada, que logo é interrompida pelos os seus lábios. Não questiono e nem quero. A única coisa que desejo no momento é sentir a pele de colada na minha.
E não demora muito para que nós dois estejamos suados e ofegantes sobre a cama.





Continua...



Nota da autora: Sem nota.





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