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Última atualização: 03.07.2017

Capítulo 1


Eu ainda não acreditava que estava ali. Eu ainda não acreditava em como tudo tinha mudado tão bruscamente e tão de repente. Em um momento eu estava prestes a me casar e em outro estava sozinha em um avião para o outro lado do mundo. Olhei pela janela e fiquei por alguns minutos apenas observando as nuvens feito algodão abaixo de mim. Eu sabia que pelas horas de voo já devíamos estar chegando. Respirei fundo e senti meu coração acelerar com aquele pensamento, pois a partir de agora minha vida seria completamente diferente. Eu não estava deixando apenas o meu país e minha família, mas também a esperança de uma vida que não existiria mais.
Não sei por quanto tempo eu cochilei, mas eu acordei com o aviso de que iríamos pousar. Apertei meu cinto, acertei minha poltrona e respirei fundo mais uma vez. Sentia um misto de ansiedade e excitação por finalmente ter chegado e um frio na barriga apertou. Olhei pela janela novamente e, apesar das nuvens, consegui ver a cidade de Melbourne através delas.
Austrália... Nunca foi minha primeira opção, aliás nas muitas vezes que desejei sair do meu país, a Austrália nem sequer estava na lista. Mas agora, por pelo menos uma ano, aqui seria meu lar. Aqui eu teria uma chance de recomeço. Pelo menos, eu desejava profundamente que isso fosse possível.
Depois que sai do avião, demorei cerca de uma hora entre a retirada da bagagem e a passagem pela migração, e por volta das seis da tarde eu estava entrando em um taxi rumo ao meu novo lar. O trajeto até Southbank, segundo o taxista, durava cerca de trinta minutos, mas como era domingo chegamos até meu endereço em apenas vinte. Quando o taxi parou, demorei algum tempo observando o prédio branco e cinza de esquina. Ele não era muito grande se comparado a outros da cidade, mas olhando pra cima pude observar sua altura, catorze andares para cima. E dali de baixo, observei a sacada do quinto andar e sorri. Se foi um sorriso de alegria ou nervosismo, ou os dois, eu não saberia dizer.
O taxista, muito simpático, se ofereceu para me ajudar a subir as malas. Depois de ter colocado todas elas no quarto, dei a ele uma gorjeta pela ajuda, o que pareceu deixa-lo bastante contente. Agora, sozinha naquele apartamento, caminhei até a sacada. O ar fresco da noite soprou nos meus cabelos, e dali pude observar as luzes da cidade. Uma cidade enorme pra eu desbravar. Bem diferente daquela pequena cidade no interior do Rio de Janeiro onde eu fora criada. Tudo tão novo e assustador. O que eu poderia esperar da minha vida daquele momento em diante eu não fazia ideia. Eu só sabia que eu estava muito curiosa para descobrir.

Acordei no dia seguinte depois das três da tarde. O cansaço físico da viagem, o cansaço emocional da mudança e o fuso horário estavam empurrando meu corpo contra a cama e me impedindo de acordar. Eu só decidi me levantar porque minha barriga estava em um protesto violento contra mim por tê-la deixado tanto tempo sem comida. Obviamente minha geladeira estava absolutamente vazia, então assim que dei um jeito no meu cabelo e troquei de roupa, fui ligar meu notebook para procurar o mercado mais próximo. Achei o Cole Supermarket a apenas dez minutos de casa, então logo peguei meu celular para chamar o taxi.
Pouco tempo depois eu estava pegando o elevador. As portas já estavam se fechando quando ouvi alguém gritando e correndo em minha direção, então coloquei a mão entre as portas, para que elas não se fechassem. Uma garota entrou no elevador, ainda ofegante pela pequena corrida e me agradeceu sorrindo.
- Obrigada! – ela disse agora ajeitando melhor os cabelos e a roupa – Eu tenho sérios problemas com o relógio. – ela falou agora desviando os olhos de mim para se virar contra o espelho.
- Pode acreditar, te entendo perfeitamente. – falei sorrindo também. Assim que ouviu minha voz, a garota se virou para mim com um ar desconfiado.
- Você não é daqui, é? Quero dizer, não é australiana. – ela falou parecendo curiosa e eu sorri timidamente antes de responder.
- Não... brasileira! – falei e ela pareceu satisfeita por ter percebido.
- Eu sabia que reconhecia esse sotaque. Já visitei o Brasil uma vez, e não me esqueço daquele sotaque no meu ouvido durante aquelas noites loucas! – ela falou agora rindo e eu a acompanhei. Podia imaginar do que ela estava falando.
- As noites no Brasil podem ser bem loucas as vezes. – falei concordando.
- Nossa, mal posso acreditar que agora minha nova vizinha é brasileira! – ela falou me encarando com seus grandes olhos cor de mel – Bem melhor do que aquele velho rabugento do Barney. – ela parecia estar falando com ela mesma em voz alta, mas mais uma vez sua atenção se voltou para mim - Meu nome é .
- Muito prazer, ! – falei sorrindo verdadeiramente – Sou . – ela apertou minha mãos e nesse instante o elevador se abriu.
- Estou um pouco atrasada para um entrevista de estágio. Deseje-me sorte! – ela falou fazendo uma careta engraçada e eu ri – A gente se vê por aí!
- A gente se vê! – falei acenando enquanto caminhava na direção oposta.

Já se passavam das sete da noite e eu estava jogada no sofá zapeando pelos canais australianos. O clima estava gostoso e deixei a sacada aberta, soprando o vento da noite sobre mim. Eu estava me sentindo em paz e, pela primeira vez em muito tempo, estava com esperança de que eu realmente poderia ficar bem. Era verdade que em alguns momentos eu precisei me esforçar para lutar contra as lembranças que tanto me atormentavam, mas felizmente eu consegui afastá-los com sucesso.
Estava completamente absorta assistindo a um programa de calouros e dei um pulo quando ouvi batidas na porta. Não estava esperando ninguém e mais do que isso, não conhecia ninguém que pudesse estar batendo na minha porta àquela hora da noite. Levantei-me devagar e fui até a porta um pouco receosa, mas quando a abri encontrei minha vizinha parada ali, com um sorriso no rosto.
- Oi, ! – a encarei um pouco surpresa mas sorri ao vê-la.
-Olá, ! Está tudo bem? – falei agora curiosa.
- Claro! Quero dizer, consegui aquela vaga de hoje mais cedo... – ela falou dando de ombros, mas parecendo satisfeita.
- Que bom! Parabéns! – falei educadamente.
- É, eu estava procurando a século e... – ela fez uma pausa para revirar os olhos – Na verdade eu passei pra saber se você não está a fim de sair para tomar alguma coisa sabe... – ela falou rápido demais e eu tive que me esforçar para entender.
- Vamos comemorar seu novo estágio? – perguntei divertida e ela riu.
- Pode ser. Mas pensei em ser mais uma espécie de boas-vindas para você! Acha que consegue ficar pronta em meia hora? – ela falou desafiadoramente. Eu ainda não tinha me recuperado completamente da viagem e ainda tinha mil coisas para resolver sobre a minha chegada, mas essa era uma boa oportunidade de criar laços com alguém, e eu não poderia perder.
- Aposto que sim. – falei tentando ser o mais convincente possível.
- Então passo aqui daqui a pouco. Tchau, ! – ela falou enquanto se afastava e caminhava em direção ao apartamento dela.
Fechei a porta me sentindo feliz por em tão pouco tempo já ter conhecido alguém naquele país. Eu deveria estar com sorte. Minhas roupas ainda estavam dentro da mala, então peguei a primeira coisa descente que vi pela frente. Tomei um banho e soltei os cabelos. Os fios castanhos caíram pelos meus ombros e eu os ajeitei com a escova. Encarei meu reflexo no espelho. Segunda noite na Austrália e eu já tinha conseguido uma companhia para sair. Será que era um bom sinal?
Cerca de quarenta minutos depois eu já estava passando um batom quando ouvi batidas na porta. Peguei minha bolsa e fui ao encontro de .
- Pronta para seu primeiro passeio por Melbourne? – ela falou enquanto caminhávamos na direção do elevador.
- Ansiosa por isso! – falei sincera e ela sorriu.
dirigiu por cerca de vinte minutos antes de pararmos em uma rua movimentada. Havia vários Pubs, bares e restaurantes abertos, mesmo em plena segunda-feira.
- Vou te levar ao Baker’s Pub. – ela falou enquanto atravessávamos a rua juntas – Lá tem boas cervejas e o preço é ótimo! E, claro, os caras também... – ela falou rindo e piscando pra mim. Observei rapidamente a garota na minha frente. , com seus cabelos loiros caindo em ondas na altura do ombro, tinha uma aura tão leve e descontraída que fazia com que eu me sentisse amiga dela a anos.
- Acho que essa noite eu fico só com as cervejas! – falei rindo, mas na verdade eu estava falando muito sério. Por muito tempo minha melhor companhia seria alguma bebida.
Entramos no bar e escolhemos uma mesa no canto. Não estava muito cheio e o movimento parecia estar apenas começando ainda. Assim que nos sentamos o garçom se aproximou.
- E aí, ? O de sempre? – ele falou já anotando antes mesmo de ouvir a resposta, o que fez a garota sorrir e me encarar.
- Sim, e pode trazer uma para minha mais nova vizinha aqui! – ela apontou para mim que sorri timidamente para o garçom.
- Anotado! Aproveitem e qualquer coisa é só me chamar. – ele falou simpático antes de sair.
- Eu costumo vir aqui com o pessoal da faculdade, sempre que as aulas estão difíceis demais para se suportar. – ela falou rindo.
- Eu gostei daqui, parece bem legal! – falei enquanto fazia um pequeno tour pelo local com meus olhos. – Mas então, viemos aqui para comemorar sua contratação no estágio? – falei agora encarando minha vizinha que sorriu.
- E... para comemorar sua mudança para Melbourne! – ela falou me encarando desafiadoramente antes de joga o corpo para trás, se recostar na cadeira e rir – Quero dizer, eu sei muito bem como é ser nova na cidade e não conhecer ninguém. Eu tive sorte de encontrar pessoas legais e... Você também teve essa sorte! – ela falou rindo e eu retribui.
- Devo dar graças então pela minha sorte, ou sabe-se lá quanto tempo eu teria demorado para conseguir me socializar não é mesmo? – falei enquanto pegava a cerveja que o garçom acabara de deixar na mesa – Um brinde a novas amizades! - falei erguendo a garrafa e imitou o meu gesto e logo depois nós viramos a garrafa em um gole.
Naquela noite, em meio a risos e conversas, enquanto a bebida entrava, as histórias saiam. Descobri que estava no último período de arquitetura. Descobri que ela saiu de Sidney brigada com os pais advogados que queriam que ela seguisse o mesmo ramo da família. E ela, bom, ela soube da bolsa que eu havia ganho para cursar administração na Universidade de Melbourne, soube que minha banda preferida era Oasis e soube de todos os motivos que tinham me levado até ali.




Capítulo 2


- Adorei sua família! – falou enquanto passava os canais na TV. Eu ainda estava com lágrimas nos olhos desligando o notebook. Eu me perguntava se em algum momento eu deixaria de chorar quando falasse com meus pais. Dessa vez participou da vídeo chamada também, e eu apresentei a eles minha nova amiga.
- Eles também gostaram de você. – falei agora me jogando no sofá ao lado dela. Joguei a cabeça para trás e fechei os olhos – Ai, estou cansada! – falei fazendo um drama.
- É seu quarto dia de aula, ! – ela falou revirando os olhos e rindo.
- Você sabe o quanto é difícil estudar em uma língua que não é a sua? – falei a encarando fingindo seriedade – Maaaas, graças a Deus amanhã já é sexta! – falei tomando o controle da mão dela, para que parasse de ficar trocando o canal.
- Você fala como se não fosse uma nerd, né? Só estou te vendo hoje porque quase arrombei a sua porta e te obriguei a parar de estudar. – ela falou debochada e eu ri.
- Não posso ficar pra trás, , e é realmente mais difícil pra mim do que para os outros por causa do idioma. Tenho que me esforçar duplamente para entender a matéria. – falei sincera enquanto me ajeitava no sofá.
- Você dá conta! – ela falou dando um tapinha no meu ombro – E agora eu preciso ir. Amanhã tenho estágio e está a todo vapor. Nem me deram um tempo pra me adaptar e já jogaram todos os pepinos nas minhas costas. Eu sim deveria estar bem cansada! – ela falou implicando e me puxando pelo braço para me levantar, o que foi acompanhado por um resmungo de protesto – Agora abra a porta para mim e eu penso na minha disponibilidade de te levar a praia amanhã. Você precisa conhecer outras pessoas que não sejam eu.
Levei até a porta e a agradeci pela visita, e ela me fez garantir que na próxima vez eu a visitaria. Foram tantas coisas acontecendo em poucos dias que eu não tivera tempo até hoje para ir ao apartamento dela. Combinamos então de almoçar juntas no domingo, para que eu finalmente pudesse conhecer seu lar, pois segundo ela nosso sábado seria bem longe de casa.

A manhã tinha começado agitada com as duas primeiras aulas de Matemática Financeira. O professor Orm era ótimo, o que não era ótimo era sua matéria. Meu cérebro quase se fundiu durante a aula, então eu decidi que era a hora perfeita para uma pausa e um cappuccino. Aproveitei o curto intervalo entre as aulas para ir ao refeitório.
Peguei um cappuccino e fui procurar uma mesa para me sentar, o que não seria uma tarefa fácil pois aonde eu corria os olhos via estudantes sentados por todos os lados. Procurei então pelas mesas mais próximas de mim e sem querer meu olhar cruzou com um par de olhos azuis. Reconheci o garoto de vista, pois já tinha assistido algumas aulas com ele naquela semana. Ele estava sentado sozinho em uma mesa, escondido atrás de alguns livros e uma caneca de café ao lado.
- Pode sentar se sentar aqui se quiser. – ele falou sério, porém parecendo amigável.
- Obrigada! – sorri enquanto ia em sua direção e ele liberou um espaço na mesa para que eu apoiasse minha caneca.
- Eu sou Alex. – ele falou quando eu me sentei e esticou a mão para me cumprimentar.
- . – falei retribuindo o aperto de mão com um sorriso tímido no rosto.
- Você é aluna estrangeira, né? – ele falou agora soltando a caneta para prestar realmente a atenção em mim.
- Sim, e você o aluno australiano, né? – falei em tom de brincadeira e ele sorriu pela primeira vez.
- Você deve estar ouvindo muito essa pergunta nessa semana. – ele falou parecendo meio sem jeito.
- Talvez. – falei divertida e ele sorriu novamente.
- Bom, eu ainda estou no primeiro ano, mas se tiver alguma dificuldade em algo que eu possa te ajudar pode contar comigo. – ele falou simpático e eu sorri.
- Muito obrigada pela oferta. É bem provável que eu realmente precise de uma mãozinha de vez em quando. Ainda estou meio perdida por esse campus. – ele assentiu com a cabeça sorrindo. Depois voltou a atenção para escrever algo no papel e o rasgou.
- Eu falei sério, precisando de ajuda, pode mandar uma mensagem. – ele me entregou o papel com um número anotado. Por alguns segundos aqueles olhos azuis ficaram fixos em mim, e depois um sorriso tímido se formou no rosto dele – Agora eu preciso ir. Tenho um trabalho em grupo para fazer. – ele falou enquanto começava a juntar as coisas dele.
- Obrigada. – falei guardando o papel na minha bolsa – E se eu não me engano, nossa próxima aula juntos é na terça.
- Vejo você na terça, então. – ele jogou a mochila nas costas – Ah e cuidado para não se atrasar para a próxima aula. Se eu não me engano você tem aula com o agora, e digamos que ele é meio temperamental demais. E cuidado para não entrar para o fã clube dele também. – ele falou fazendo uma careta e eu ri - Até mais, !
Observei aquele garoto se afastar por alguns segundos. Eu não havia reparado antes o quão alto e, o quão forte ele era. Seu porte atlético quase destoava de sua postura serena e até meio séria. Era fácil esquecer que ele era mais novo do que eu. Assistindo ele partir eu pensei bem e, se eu queria mesmo apagar alguém da memória, acho eu estava no lugar certo.
Resolvi pedir um sanduíche para acompanhar o cappuccino e aproveitei para pegar o meu quadro de horários para verificar qual seria a minha próxima aula: Gestão de pessoas. Pelo nome da matéria, não me parecia nada muito complicado. Esperava que o professor não fosse tão ruim como Alex dissera. O sanduíche chegou e enquanto eu comia meu celular vibrou com uma mensagem da .
:
Vai sair que horas hoje?
Eu:
Tenho duas aulas depois do almoço.
:
Vou fazer um happy hour lá em casa depois do estágio com o pessoal da faculdade. Você vai né?
:
Não me odeie, mas hoje eu estou realmente querendo descansar. Ainda mais se eu quiser aguentar seu pique no fim de semana.
:
Eu te odeio.
:
Mentira... mas você é uma nerd insuportável.
:
Não sou não. Sou muito legal e descolada.

Antes que eu pudesse responder mais qualquer coisa para levei um susto quando olhei a hora no celular. Saltei da cadeira e comecei a caminhar apressadamente rumo a minha sala. Cheguei no corredor do terceiro andar já bufando e precisei parar um pouco e respirar fundo antes de entrar na sala.
- E mais uma vez eu não vou tolerar atrasos. – parei na porta ao ouvir a voz do professor já em sala. Um homem alto e bem vestido, os cabelos loiros penteados para trás contrastava com a barba por fazer, e antes de começar a falar novamente, apontou para mim com o braço - Como vocês podem ver, algumas pessoas não levam a faculdade tão a sério para chegarem na hora. – ele se virou lentamente na minha direção com um sorriso sarcástico. Quando aqueles olhos extremamente azuis encontraram os meus eu pude jurar que os vi vacilar, mas no segundo seguinte ele retomou a postura arrogante anterior e agora falou diretamente comigo – Vai precisar de um mapa para achar um lugar pra sentar, senhorita? – ele falou com um olhar de deboche e eu senti meu sangue ferver lentamente. Respirei fundo e engoli uma resposta, mas não podia garantir que meu olhar não indicava o quanto eu gostaria que ele fosse atingido por um raio naquele momento. Pra piorar, ele ainda esperou eu encontrar um lugar para sentar antes de recomeçar a aula.
Enquanto eu caminhava até uma carteira vazia, eu sentia o olhar dele e do resto da turma nas minhas costas e senti a raiva e a vergonha crescerem dentro de mim. Quando me sentei percebi um grupinho de meninas do lado esquerdo rindo e aparentemente zombando de mim. E antes de começar a falar, ele me lançou um último olhar provocativo, com um insuportável sorriso debochado antes de desviar o olhar e começar a aula.
Duas horas. Durante duas horas ele não olhou mais na minha direção. Durante duas horas eu imaginei as mais terríveis formas de tortura para aquele homem. Por que não jogá-lo em poço de cobras para que ele morresse lentamente? Eu estava com raiva. Como alguém podia pagar pau para um cara arrogante e babaca como aquele? Qual o motivo dele falar daquele jeito comigo na frente de toda a sala? Foram dez minutos, DEZ MINUTOS de atraso! Precisava daquele drama todo? Mas eu sabia porque ele tinha feito aquilo... provavelmente o grande ego dourado dele estava sentindo uma necessidade imensa de chamar atenção.
Olhei no relógio e faltava apenas cinco minutos para a aula acabar. Respirei fundo e contei até dez para tentar voltar ao meu estado normal. Mas quando eu lembrava de como a turma toda ficou me encarando enquanto ele me expunha a raiva voltava. Assim que ele encerrou a aula, juntei todas as minhas coisas e caminhei o mais depressa possível para sair da sala. Porém, quando eu passei pela mesa do professor, escutei aquela voz novamente.
- Senhorita ! – seria exagero dizer que só a voz dele me irritou? Talvez sim, mas me irritou. Parei onde eu estava e lentamente me virei na direção dele, com o sorriso mais cínico que eu já tinha dado em toda a minha vida – É assim que se pronuncia? – ele conferiu na lista sob a sua mesa antes de voltar a me encarar.
- Sim, está correto, professor. – falei desejando sair dali imediatamente.
- Queria te perguntar, acho que ficou um pouco nervosa hoje. – ele falou agora caminhando calmamente em minha direção, e aquele comentário provocativo fez com que eu direcionasse muita energia pra controlar minha língua.
- Nervosa? Talvez. Geralmente eu não lido muito bem com “humilhações” públicas. – falei soando mais ríspida do que deseja transparecer. Ele tentou conter um riso debochado.
- Acha que a humilhei publicamente? – ele falou agora próximo de mim. Talvez um pouco próximo demais.
- Acha que não? – falei desafiadoramente, mas seus olhos agora estavam vidrados no meu. Como uma cobra que tenta hipnotizar a vítima. Senti involuntariamente meu coração acelerar com a proximidade. Senti meu corpo tentar reagir aquilo. Eu só não sabia se ele iria correr ou pular pra cima daquele homem.
- Acha que eu tentar ensinar responsabilidade dentro de sala de aula é humilhação? – ele se aproximou ainda mais. Um passo, uma passo era o que faltava para o meu corpo tocar o dele. Eu desviei o olhar. Ele venceu. Estava me sentindo sufocada e a noção de que todos tinham ido embora e eu estava sozinha com ele na sala me deixou desconfortável.
- Não estou aqui para questionar seus métodos, professor. – falei depois de alguns segundos o encarando novamente, mas antes que ele pudesse responder qualquer coisa, dei as costas a ele e saí.

Eu estava caminhando desnorteada pelo campus. Uma mistura de raiva e excitação tomando conta de mim. Quem era aquele homem afinal? Qual era a dele? Eu só sabia uma coisa, eu não queria mais ter nenhum tipo de contato com ele. Se eu tivesse outra opção para cursar aquela matéria eu o faria. Eu tentava organizar meus pensamentos, mas estava sendo uma tentativa inútil. Eu só parei quando senti uma mão me segurar pelo braço.
- , está tudo bem? – Alex estava me encarando com um olhar preocupado.
- Sim, tudo bem, Alex. – falei tentando soar o mais convincente possível.
- Sua cara não está muito boa. – ele falou não parecendo muito certo da minha resposta e eu suspirei.
- Você não tinha me alertado o quão babaca aquele poderia ser. – falei agora recuperando um pouco o controle. Alex riu.
- Porque eu não pensei nisso antes. – ele falou rolando os olhos – Relaxa tá? Porque eu posso garantir que pelo menos metade desse campus já teve algum problema com e o ego dele.
- Bom saber que eu não fui premiada. – falei de mal humor, mas aquilo só fez Alex sorrir. E quando ele sorriu, não consegui deixar de fazer o mesmo.
- Vai me contar o que ele fez? – ele falou se oferecendo para carregar minhas coisas e caminhamos até uma árvore próxima. Contei a ele tudo o que tinha acontecido depois que nos despedimos no refeitório, e enquanto eu contava minha história deixando extravasar toda minha raiva, Alex apenas se divertia.
- Você está achando legal, né? – falei me fingindo de brava e dando um soquinho de leve no ombro dele.
- Não estou não, eu juro. É porque você é muito engraçada contando isso. Bem que dizem que as latinas tem sangue quente. – ele falou divertido e eu fiz uma cara fingindo indignação.
- Vou te mostrar todo meu sangue quente quando te der uns tapas por ficar rindo de mim. – me fingi de brava mas sem conseguir falar sério.
- Mas é verdade, , ele até pegou leve com você. Já vi ele fazer um aluno que chegou muito atrasado explicar o resto da aula para a turma dizendo que já que ele chegava atrasado devia ser porque sabia demais. – ele falou enquanto arrancava umas folhas da árvore distraidamente.
- E por que um cara assim ainda dá aula aqui? – falei agora realmente indignada.
- Simples, porque ele é um dos principais beneficiários da faculdade. – Alex falou desanimado.
- Então é tudo questão de negócios? – agora falei tão desanimada quanto ele.
- Tudo.



Capítulo 3


Passava um pouco das dez da manhã e estava sentada na minha cama mexendo os dedos freneticamente no celular. Encarei rapidamente a mochila aberta a minha frente para verificar se tinha colocado todos os itens que eu iria precisar para um dia na praia.
- , falei para o pessoal que nos encontraríamos as 10:40 em frente ao Luna Park, tudo bem? – falou levantando brevemente o olhar da tela do celular para verificar minha resposta.
- Claro que sim, já estou quase acabando. – falei caminhando em direção ao banheiro – Vou só pegar meu protetor e um creme para o cabelo. – gritei de longe.
O dia estava ensolarado, e no céu havia poucas nuvens. dirigia seu Nissan X-Trail preto tranquilamente por entre as ruas da cidade. No som tocava Rockabye e nós cantarolávamos loucamente dentro do carro. A praia de St. Kilda, a mais famosa da cidade, ficava a cerca de vinte minutos do apartamento, então não demoramos muito a chegar, mas perdemos algum tempo procurando um local para estacionar. Quando eram 10:45 nos aproximamos do local marcado. Logo que nos viu uma garota alta de traços orientais veio sorrindo em nossa direção, acompanhada de mais dois rapazes. nos apresentou, a garota era Misuki, uma japonesa que morava há dez anos na Austrália. Com ela estavam Mike e Peter. O primeiro era estiloso e extravagante, e o segundo tinha a pele morena e lindos cabelos cacheados. Era um grupo incomum. Segundo , todos estavam no último ano.
Demoramos pouco tempo ali com as apresentações e logo fomos caminhando em direção à praia. Assim que chegamos na areia e coloquei meus pés sobre ela, senti que havia me desligado de todos ao meu redor. O clima quente, o barulho das ondas quebrando, o sol no meu rosto e o azul infinito do mar a minha frente me fizeram lembrar de casa. Do meu país. E fez eu me recordar de alguém que eu não deveria. Fechei os olhos e tentei esvaziar a minha mente. Eu não queria pensar, queria apenas sentir. Queria apenas aproveitar aquele momento. A brisa do mar soprava meu rosto e meus cabelos balançavam livres ao vento. Nada mais importava a não ser o que eu estava vivendo naquele exato instante.
- ! – abri meus olhos quando me chamou. Ela sorria divertida – Vamos arrumar um lugar pra ficar certo? – sacudi a cabeça positivamente e nós caminhamos pela areia.
Esticamos nossas toalhas na metade no caminho entre o calçadão e o mar. Todos nós começamos a nos despir e, depois de passarmos protetor solar, nos esticamos juntos ao sol. Depois de alguns minutos ali, Peter resolveu entrar na água e resolveu o acompanhar.
- Você vem, ? – ela perguntou enquanto ficava de pé – Talvez você estranhe um pouco a temperatura da água. Não é tão agradável como no seu país. – ela falou sorrindo, mas eu já estava me levantando para acompanhá-los. - Eu vou morrer congelada? – falei divertida.
-Acho que não. Talvez uma leve hipotermia, mas você sobreviverá. – ela falou debochada.
- Além disso, se o frio não a matar, as águas-vivas podem fazer isso. – Mike falou me encarando com seus chamativos óculos escuros e riu.
- Isso é sério? – agora sim eu arregalei meus olhos e pensei seriamente em mudar de ideia. revirou os olhos rindo.
- Nem é tão frequente assim. Ou pelo menos a gente nunca morreu disso. Vamos lá! – ela disse me puxando pelo braço em direção ao mar.
O dia estava maravilhoso. Tempo bom, mar tranquilo, companhias divertidas. Eu não me lembrava a última vez que tinha me sentindo tão livre, tão despreocupada com a vida.
Depois daquele primeiro banho de mar, decidimos ir comer algo em um quiosque próximo ao local onde estávamos. Ficamos um bom tempo ali, comendo, bebendo, conversando e, quando eram quase duas da tarde voltamos para praia. Mais uma vez as horas pareceram voar, em meio a conversas, risadas e banhos de mar.
Depois de algum tempo, todos estavam deitados na areia relaxando e eu podia jurar que Misuki estava cochilando. Sentei-me na areia por alguns segundos observando o mar, então me virei em direção a , que ainda estava deitada.
- Vamos dar uma volta na beira da praia? – perguntei animadamente. Era algo que eu sempre tivera o costume de fazer no Brasil.
- Ai, , não sou muito animada para caminhadas de longa distância, não? Além disso, Peter me chamou pra ir tomar algo com ele daqui a pouco. – ela me deu um sorrisinho malicioso e eu entendi perfeitamente.
- Acho que vou sozinha então, está bem? – falei dando de ombros – É bom que eu deixo você um pouco sozinha para aproveitar o Peter. – falei baixinho para que somente ela escutasse e nós duas rimos. Levantei e coloquei minha roupa novamente para caminhar. Ao contrário do Brasil, aqui as pessoas não tinham muito costume de andar de roupas de banho por aí.
Caminhei pela beira da praia, absorvendo aquela paisagem linda, o mar azul e a tarde indo embora. Pessoas felizes se divertindo juntas, pássaros voando sobre a minha cabeça. Se fosse há cerca de seis meses atrás, eu não imaginaria que estaria fazendo aquela caminhada sozinha. Por alguns segundos me permiti pensar no que ele estaria fazendo a uma hora dessas no Brasil. Mas eu sabia que aquele pensamento não iria me trazer nada de bom, então tratei de distrair minha mente novamente.
Andei por uns vinte minutos e decidi que já era hora de voltar. O dia estava indo embora e e seus amigos deveriam estar à minha espera. Resolvi fazer a caminhada de volta pelo calçadão, observando o movimento da cidade. Quando fui me aproximando do local onde nós estávamos, notei que eles já não estavam mais ali. Olhei ao redor pra ver se os encontrava, mas eles realmente tinham saído. Senti uma leve onda de pânico tomar conta de mim. Minha mochila, com minha carteira, meu celular e todas as outras coisas estavam com eles. Onde eles poderiam ter ido sem mim. Esperei por uns minutos para ver se eles voltavam, mas foi em vão.
Resolvi caminhar até um estacionamento perto dali para ver se eles não poderiam estar me esperando em algum lugar, mas também foi em vão. Eu estava descalça então não dava pra ir muito longe dali. Pensei em ir até o quiosque ali perto e pedir para usar o telefone, mas ele parecia estar fechando.
- Senhorita . – em meio aquele desespero interno, ouvi uma voz familiar e me virei bruscamente para o lado. Vindo em minha direção, sem camisa e com o corpo ainda molhado, estava o professor . Ele passava uma mão pelos cabelos bagunçados na tentativa de tirar o excesso de água, e um sorriso convencido surgiu em seu rosto quando finalmente chegou perto de mim. Talvez aquele sorriso se devesse ao fato de eu estar completamente sem reação e o encarando, era possível inclusive eu estar babando. Mas acredite em mim, qualquer mulher estaria fazendo o mesmo. Sacudi discretamente a cabeça tentando me livrar da minha cara de surpresa e idiota, enquanto ele pegava o capacete que estava na moto ao meu lado.
- Professor... – me amaldiçoei por minha voz ter falhado naquele momento. Mais um sorriso vitorioso surgiu em seu rosto.
- Talvez fosse melhor eu colocar isso aqui. – ele falou retirando a camisa que estava pendurada no ombro e a vestindo bem na minha frente. E o que eu fiz enquanto isso foi afastar todos os pensamentos impuros que estavam passando na minha mente. Afastei tais pensamentos e recuperei a compostura.
- Que bom, evitou que eu precisasse dizer o quão desnecessário era você estar nessas condições aqui. – por Deus, do que eu estava falando? O cara estava na praia. Era melhor eu ficar de boca fechada para manter minha dignidade. Desviei o olhar e dei um passo para trás. Tentei ignorá-lo enquanto dava mais uma varrida no lugar atrás de . Queria matá-la por ter sumido agora.
- ! – senti meu corpo formigar ao ouvir meu primeiro nome saindo da boca dele e o encarei novamente – Você parece preocupada. – ele falou sério. Por alguns segundo meu cérebro ficou cogitando a ideia de contar a ele o que estava havendo e enquanto eu não abria minha boca, aqueles olhos não desgrudavam dos meus.
- Me perdi das pessoas que estavam comigo. Minha bolsa está com eles. – falei baixando um pouco a guarda, mas o sorriso que ele deu parecia estar se divertindo com a situação.
- Eu te levo pra casa! – O QUE? Quase engasguei quando ele falou aquilo e não pude evitar uma risada debochada.
- Acho que você bebeu muita água do mar, professor. Eu pensei em algo mais seguro, tipo você me emprestar seu celular para tentar falar com alguém. – falei impaciente com aquela proposta ridícula e falta de senso dele.
- Hm... desculpe, não trago celular pra praia. – ele lamentou falsamente dando de ombros e subiu na moto – Espero que consiga resolver seu problema. E que chegue em casa é claro! – ele falou rindo antes de colocar o capacete.
Em apenas alguns segundos meu cérebro precisou raciocinar. Eu não queria em hipótese nenhuma subir naquela moto. Eu não queria ter aquele tipo de contato com . Mas meus instintos de sobrevivência estavam me dizendo que ficar sozinha ali com o sol se pondo, em um lugar onde eu não conhecia ninguém esperando a sorte chegar não era nada seguro. Tentei focar meu pensamento ao fato de o apartamento ser a apenas quinze minutos dali, mas ainda assim xinguei o destino por aquela ser a minha única saída, e antes que ele arrancasse com a moto consegui gritar.
- Espera! – ele parou de acelerar e me encarou, seus olhos eram a única coisa que eu via, mas eu tinha certeza que aquele sorriso estava na cara dele – Tudo bem, você pode me levar até em casa, professor? – falei contra vontade e ele me ofereceu a mão. Respirei fundo, apoiei minha mão na dele e num impulso subi na moto atrás dele. Senti imediatamente meu corpo reagir ao contato físico com ele. Minhas peito estava contra as suas costas e eu não sabia o que fazer com as minhas mãos.
- Qual o destino? – ele perguntou se preparando para sair.
- 28 Southgate Ave, Southbank – falei próxima a ele, para que pudesse escutar.
- Acho que seria uma boa ideia você se segurar em mim agora. – ele falou parecendo se divertir como nunca na vida. E eu revirei os olhos contrariada. Minhas mãos envolveram a cintura dele cautelosamente, e senti meus dedos tocarem seu abdômen por cima da fina camisa que ele vestia, e assim que o fiz, com um ronco, ele deu partida na moto.
De moto o trajeto durou menos ainda. Conforme o veículo andava, eu apertava meu corpo com mais força ainda contra o dele, involuntariamente. Vez ou outra ele fazia alguma manobra para ultrapassar um carro ou virar uma esquina e eu me perguntava se minhas unhas estavam deixando marcas em sua barriga. Ele era um louco dirigindo e eu estava apavorada. Sentia a adrenalina tomar conta do meu corpo e eu só torcia para chegar viva em casa.
Quando avistei meu prédio no fim da rua senti uma onda de alívio tomar conta de mim. Sinalizei para ele que já podia estacionar e ele o fez. Desci da moto com as pernas completamente bambas. Ele retirou o capacete e me encarou sorrindo.
- Sua tentativa de me matar foi fracassada. - falei mal humorada ajeitando meu cabelo, mas ele estava sorrindo divertidamente - Não sei porque está sorrindo. – falei revirando os olhos e pela primeira vez ouvi sua risada espontânea. Por um momento desejei registrar aquela cena, ele ficava lindo rindo daquele jeito.
- Se eu fosse te matar seria de outro jeito. – ele falou com a voz rouca e um sorriso safado no rosto, que depois se tornou um sorriso de divertimento.
- Acho que essa foi sua chance única de me matar. Não haverá outras. – falei impaciente – Mas ainda assim, obrigada pela carona. – falei já me preparando para dar as costas, mas ele impediu.
- Espera! – ele falou procurando alguma coisa dentro do bolso – Liga para sua amiga, avisa que você já está em casa e precisa das chaves. – ele falou me entregando o celular com um olhar provocativo e um sorriso cínico. Mais uma vez senti meu sangue ferver e minha vontade era arremessar aquele celular bem longe, mas me segurei. Tentando manter o controle pequei o celular da mão dele e disquei para . Ele me encarava fixamente, mas dessa vez eu não desviei o olhar. Ele gostava de jogar, mas ele não podia achar que ia vencer sempre.




Capítulo 4


- Eu já te disse, a culpa foi sua por voltar por um caminho diferente do que foi. – rolou os olhos enquanto colocava a travessa de carne no forno.
- Não, a culpa é de vocês por não terem conseguido ficar com as bundas na areia por 40 minutos até eu voltar. – falei tranquila, mas ainda levemente brava com .
- , a Misuki estava passando mal, provavelmente algo que ela comeu. Eu falei para a gente te esperar, mas eles não quiseram, então eles foram embora e eu fui atrás de você. Pelo caminho que tinha visto você seguir. – ela falou sem olhar pra mim, prestando atenção na panela ao fogo. Eu suspirei enquanto forrava um toalha na mesa.
- Tudo bem, eu entendi que ninguém teve culpa. Mas mesmo assim, foi uma droga. – falei sincera.
- Ah, não vai me dizer que foi uma droga pegar carona com seu querido professor. – ela falou debochada e eu agora fui eu quem rolou os olhos.
- , eu te adoro, mas não enche. Se você soubesse o quão babaca ele é, não iria ficar curtindo com a minha cara. – falei um pouco mais exaltada do que desejava – Agora me fala onde estão os pratos pra eu pegar. – falei mudando de assunto, e terminando de arrumar a mesa para nosso primeiro almoço de domingo juntas.
Comemos juntas e depois fizemos uma maratona de clássicos da comédia romântica e eu fiz um brigadeiro, que por sinal nunca tinha comido e adorou. Quando eram quase seis da tarde, depois de receber uma mensagem falou:
- O pessoal está chamando a gente para ir a Federation Square. Vai ter uns shows bem legais com umas bandas regionais hoje. Vamos? – ela falou parecendo animada.
- Hm... acho melhor não. Vou ser largada pra trás de novo. – falei brincando, mas com um fundo de verdade. Eu tinha ficado com um pé atrás com os amigos de depois do episódio do dia anterior.
- Ah qual é, , já te expliquei o que houve! Vai ser divertido e eu prometo não desgrudar de você. – ela falou rindo e eu sorri de volta.
- Vou só por você! – falei cedendo e ela deu pulinhos de alegria.
- Ótimo! Não estou te expulsando da minha casa, mas vá se arrumar. Saímos em quarenta e cinco minutos.

A Federation Square estava abarrotada de gente. No pequeno palco improvisado uma banda tocava o melhor do pop rock. Fomos até uma barraquinha pegar algo para beber e logo fomos nos misturar com a multidão. Por algum motivo Misuki e Mike não tinham ido, então só sobraram e Peter, o que me deixou um pouco desconfortável, uma vez que eu sabia que estava rolando algo entre os dois, apesar de em nenhum momento eles terem feito nada para que eu me sentisse assim.
Nós ficamos um tempo curtindo a música, dançando e conversando. Mas em determinado momento percebi que os dois estavam querendo se curtir. E foi exatamente por isso que eu quase transbordei de felicidade quando vi Alex atravessando por entre as pessoas sozinho.
- , vi um colega da faculdade. Vou ali falar com ele. Depois te ligo pra gente se reencontrar. – ela assentiu e eu logo fui em direção onde eu tinha visto Alex. Por alguns segundos eu o perdi em meio as pessoas, mas bastou procurar um pouco mais para encontrá-lo.
- Alex! – falei colocando a mão em seu ombro e ele se virou.
- ! – ele me encarou sorridente e surpreso – Você por aqui!
- Sim, vim com minha vizinha dar uma volta. – falei sorrindo.
- Que legal! E onde está ela? – ele perguntou dando uma breve olhada ao meu redor e eu revirei os olhos sorrindo.
- Achei melhor dar um pouco de privacidade pra ela e para o carinha que está com ela. – falei sincera.
- Então fica comigo! – ele falou espontâneo e por um segundo ficamos ali parado pensando na ambiguidade daquela frase – Quero dizer, vamos sentar ali e conversar e passar o tempo até sua amiga acabar o que quer que ela esteja fazendo. – ele riu e eu o acompanhei.
Caminhamos até um canteiro do outro lado da praça e nos apoiamos ali. Alex estava com uma aura mais relaxada hoje, não estava tão sério como na primeira vez que o vi. Os cabelos loiros estavam bagunçados, assim como a barba que estava crescendo. Ele deu um gole na bebida que estava na mão e me ofereceu. Eu aceitei.
- E aí? O que está achando da Austrália? – ele perguntou agora me encarando.
- Bom, é muito diferente do Brasil. Eu gosto. Gosto como as pessoas são, gosto da organização, gosto das paisagens daqui. – falei distraída lembrando de tudo o que eu estava falando – O único defeito daqui é que não tem a minha família. – falei rindo e ele fez o mesmo.
- Sente falta deles? – ele perguntou atencioso.
- Quase sempre. – falei sincera.
- Então você precisa arrumar coisas para distrair sua cabeça. Para sentir menos a ausência deles. – ele falou com ar de conselheiro.
- Você parece entender disso. – falei, mas depois me perguntei se não tinha sido muito invasiva. Ele deu um tímido sorriso de lado antes de responder.
- Digamos que eu tive que saber lidar com a ausência desde sempre. Eu não tenho uma boa relação com meu pai. Na verdade eu diria que eu não tenho relação nenhuma com aquele homem. – ele falou, sem se importar em confessar aquilo. Fiquei parada o encarando, sem saber muito bem o que responder e ele percebeu, porque sorriu e continuou – Então eu tenho as melhores soluções pra você se distrair, porque sempre funcionou comigo.
- Então você já pode começar a me dizer. – falei dando mais um gole na bebida dele, que havia me oferecido novamente e ele ficou pensativo por alguns segundos.
- Qual o seu nível de intimidade com a água? – ele falou com um sorriso desafiador.
- Eu sou quase uma sereia. – falei divertida e ele pareceu satisfeito.
- No próximo fim de semana vou te levar para mergulhar. O que acha? – ele falou de repente e percebi a expectativa para saber minha resposta em seus olhos. Por que ele acha que eu negaria aquilo? Seria incrível!
- Eu acho a melhor ideia que você poderia ter, Alex. – falei realmente ficando empolgada com a ideia e ele sorriu verdadeiramente.
Alex e eu ficamos pouco mais de uma hora conversando sobre as coisas mais aleatórias possíveis e o tempo pareceu voar. Eu só percebi que ele havia passado quando meu celular tocou e parecia estar louca atrás de mim. Então me despedi de Alex e marcamos de almoçar juntos na faculdade no dia seguinte. Sai de lá e fui encontrar no lugar marcado. E um sorriso idiota se formou em meu rosto enquanto me afastava de Alex.

Na segunda-feira tentei não me atrasar para as primeiras aulas, pois eram de Comportamento Organizacional e Ética Profissional, com a professora Katherin e ela parecia tentar compensar o fato da matéria não ser tão levada a sério sendo completamente rígida com horários e comportamento. Minha preocupação com isso talvez tenha sido um pouco exagerada, uma vez que quando cheguei na sala, apenas umas cinco pessoas já estavam lá. Sentei em uma cadeira perto da parede e coloquei meus fones de ouvido para passar o tempo.
Cerca de quinze minutos depois, com a sala completamente cheia, ela entrou. Seus cabelos loiros e ondulados estavam presos num meio rabo. Seus olhos azuis mostravam segurança e determinação. A beleza daquela mulher era estonteante e ela parecia muito mais nova do que realmente era. Não era à toa que absolutamente todos os caras presentes naquela sala arrastariam um trem por ela.
Com trinta minutos de aula, a professora finalizou a explicação que havia começado na aula anterior e pediu para que formássemos trios para fazer um trabalho em sala de aula. Acabei caindo em um grupo com uma menina de cabelos cacheados negros como carvão e olhos feito jade e um garoto pouco mais alto do que eu, e eu diria um pouco acima do peso.
O trabalho parecia mais fácil do que realmente foi na prática, então quase todos os grupos levaram a aula para finalizar. Nossos cérebros já estavam fervendo de tanto pensar quando finalmente concluímos e Sandy, minha companheira de trabalho se levantou para entregá-lo a professora lá na frente. Olhei rapidamente para Tommy e achei que ele ia babar a qualquer momento.
- Essa mulher é maravilhosa. Me pergunto como pode ter perdido essa? – ele falou meio abobalhado. Ouvir o nome do professor meu deixou um pouco tensa, mas aquele comentário me deixou alerta.
- Não entendi. - me limitei a falar.
- Eles já foram casados. – ele me olhou como se fosse óbvio – Quer dizer, isso já faz mais de anos, mas todo mundo ainda comenta. Principalmente quando eles são vistos juntos por aí. Dizem que são só amigos, mas as vezes é difícil de acreditar que só exista amizade entre aqueles dois. – ele falou rindo maliciosamente. Mas eu não sorri, apenas virei a cabeça para olhar com mais atenção aquela mulher. Sim, Tommy estava certo, era difícil imaginar que qualquer homem pudesse ter apenas uma amizade por uma mulher como aquela. Eu não percebi que eu estava olhando fixamente para Katherin. Só percebi quando os olhos azuis de pantera me encararam de volta. Foi impossível sustentar um olhar como aquele.



Capítulo 5


Talvez fosse o fato de eu estar indo fazer algo empolgante, talvez fosse o fato de Alex estar me levando para fazer algo empolgante, mas enquanto eu me arrumava no meu quarto, eu sentia uma pequena excitação crescer dentro de mim. Eu estava me sentindo estranha, uma sensação que eu não sentia a muito tempo. Eu não sabia bem o que era, só sabia que era bom.
Coloquei meus últimos pertences dentro da mochila, e fui conferir minha roupa no espelho. O short jeans e um chinelo azul, que combinava com o quimono branco com estampas azuis marinho em forma de mandala. Por baixo, um biquíni branco tomara que caia. Coloquei o óculos escuro na cabeça e sorri. Eu estava gostando do que via no espelho.
Eu já estava pronta, tomando um copo de suco quando meu celular tocou. Era uma mensagem de Alex avisando que já estava parado lá embaixo me esperando.
Quando cheguei a porta do prédio, pude ver Alex o carro parado logo em frente. De óculos escuros e o cabelo penteado para trás, ele cantarolava alguma música que vinha do interior do veículo, mas eu não conseguia identificar. Caminhei despreocupadamente até me aproximar dele, que tirou os olhos escuros imediatamente assim que me viu parada ao lado do carro.
- Bom dia, ! – ele falou animadamente.
- Bom dia, Alex! – falei na mesma empolgação.
- Você pode entrar no carro agora se quiser! – ele falou divertido e eu sorri antes de dar a volta e me sentar ao seu lado.
- Confesso que estou um pouco em dúvida se fiz bem em aceitar sua proposta. Eu tenho mesmo muita intimidade com água, mas eu nunca mergulhei de verdade. – falei sincera, realmente me sentindo um pouco ansiosa.
- Nesse caso, acho melhor irmos com mais calma, não acha? – ele falou com um sorriso compreensível no rosto e eu me senti mais calma – Que tal começarmos com um mergulho de snorkel de leve, pra você ir se acostumando? – sim, achei aquela ideia incrível, sensacional. Estava mais aliviada e me sentindo mais segura com essa opção alternativa.
Com a pequena mudança de roteiro, fomos parar na praia de Rosebud, a cerca de uma hora de casa. Durante todo o caminho a conversa aconteceu naturalmente e eu percebi que era fácil trocar ideias com Alex. Ele era inteligente e sensível. Ao mesmo tempo era um cara determinado e convicto de seus ideais. Vez ou outra ficávamos em silêncio, mas não era um silêncio constrangedor. Alex me dava um tempo absorvendo as lindas paisagens que passavam por nós. Passamos por dentro da cidade e suas lindas construções, antes de cairmos na auto estrada, tão reta que parecíamos estar flutuando. A paisagem verde dos dois lados, o céu azul... vez ou outra passávamos por alguma área residencial com casinhas tão lindas que pareciam saídas de um sonho. E naquele momento, era exatamente assim que eu me sentia, em um sonho.
Não sei em que momento eu cochilei, mas meus olhos se abriram preguiçosos quando eu ouvi a voz de Alex chamando delicadamente o meu nome.
- Pensei que nunca fosse acordar, ! – ele falou divertido enquanto me encarava sorrindo. Senti meu rosto corar levemente. Eu não podia acreditar que tinha cochilado.
- Foi mal. – falei baixo enquanto tentava me recompor.
- Relaxa! – ele falou parecendo não dar a menor atenção a minha pequena crise de Bela Adormecida. Ele desceu do carro e alguns segundos depois eu fiz o mesmo. Estávamos parados em um pequeno estacionamento, o carro estacionado a sombra de uma árvore. Alex estava jogando a mochila nas costas e na mão eu podia ver duas máscaras de snorkel.
- Prometo pegar leve com você hoje, ! – ele falou rindo e eu pensei que era possível eu estar com uma cara levemente assustada. Então respirei fundo e tentei relaxar. Estava tudo bem. Aliás, estava tudo perfeito.
A praia em Rosebund era bem diferente da badalada St. Kilda. Havia alguns grupos de pessoas espalhadas ali e aqui e a praia tinha um gostoso ar de privacidade. Um longo píer se estendia mar a dentro e era possível ver alguns barcos atracados nas proximidades da praia.
Caminhamos juntos até a ponta do píer e nos sentamos ali. Alex tirou a camisa, ficando apena com seu calção de banho e por mais que eu tentasse meus olhos insistiam em se voltar para o corpo descoberto dele, mas assim que ele tirou completamente a blusa, desviei o olhar rapidamente e tratei de fazer o mesmo, retirando a minha. Agora eu podia sentir o sol aquecer minha pele e o mar a minha frente refletia o azul do céu.
- É lindo, não é? – Alex falou agora me encarando e eu sorri.
- É incrível! – falei sincera, ainda olhando a paisagem a minha frente.
- É uma boa forma de se esquecer as coisas quando precisa. – ele falou mais para ele do que pra mim.
- É uma boa forma de construir novas memórias. – falei também mais pra mim do que pra ele e pouco tempo depois nós estávamos debaixo d’água.

Naquela manhã, depois de uma aula incrível do senhor Orm, decidi que era melhor permanecer na sala sem tirar os quinze minutos de intervalo e não correr o risco de um novo showzinho do . A sala estava praticamente vazia. Pensei em ouvir um pouco de música, mas resolvi ir até a mesa do senhor Orm e tirar algumas dúvidas sobre o exercício que deveríamos entregar na próxima aula.
- Senhor Orm... – falei me aproximando com a folha na mão. Ele se virou em minha direção depois de enfiar a última papelada em sua pasta. Só agora, próxima a ele, pude perceber o quão alto era. Devia ter mais de 1,90, com certeza. Apesar de não ser tão velho, ele apresentava o corte baixo para disfarçar a calvície. Ainda assim, podia ser considerado um homem atraente e sem dúvidas era muito inteligente, e eu diria até um tanto excêntrico. Eu já tinha ouvido algumas pessoas dizerem que os números tinham deixado ele um pouco maluco, mas eu acreditava ser só implicância de quem não ia bem na matéria.
- Pode me chamar de Gustaf, senhorita . - ele sorriu simpático.
- Então pode me chamar de ! – falei sorrindo timidamente - Estou com dúvidas algumas questões da atividade que o senhor passou. – falei já pegando a folha para indicar quais questões eram. Gustaf pegou a folha da minha mão e se sentou em uma cadeira, me convidando a fazer o mesmo. Juntos ficamos quase todo o tempo do intervalo discutindo as questões, que depois se estendeu a uma discussão sobre a matéria dele no geral. Ele parecia muito apaixonado pelo trabalho que fazia e parecia satisfeito com meu interesse na matéria. Só percebemos que o tempo tinha passado, quando ouvimos uma voz já próxima a nós:
- Acho que sua aula acabou há um tempo atrás, Gustaf. – levantei a cabeça e imediatamente meus olhos se encontraram com olhos incrivelmente azuis. Apesar de estar falando com Gustaf seu olhar esta fixo em mim. Senti minha respiração quase parar, como se algo de errado pudesse acontecer se eu fizesse qualquer movimento brusco.
- Por Deus, eu nem tinha visto o tempo passar. Já está na sua hora, ? – ele falou se levantando rapidamente e ajeitando o paletó. sorriu divertido para Gustaf, sua atenção saindo de mim.
- Não se preocupe, meu amigo, eu me adiantei um pouco. – eles se cumprimentaram com um aperto de mão familiar e amigável.
- Eu estava aqui com , a explicando a magia dos números. – ele falou ainda empolgado com nossa conversa.
- Tenho certeza que ela captou a magia, Gustaf. – ele falou me encarando rapidamente antes de voltar a atenção ao amigo e sorrir.
- tem talento com eles, . – ele falou parecendo sincero e nesse momento senti o peso do olhar de Fimmal sobre mim e com um sorriso cheio de malicia ele respondeu:
- Tenho certeza que ela tem talento em muitas coisas, meu amigo. – senti minhas bochechas corarem imediatamente. Respirei fundo para manter meu controle, afinal Gustaf estava ali e eu precisava fingir que não entendi a mensagem oculta de naquela frase.
- Obrigada pela ajuda, professor Gustaf. Acredito que depois dessa sua ajuda irei resolver com mais facilidade as questões. – falei enquanto me levantava e tentava disfarçar a irritação na minha voz, sorrindo o mais simpática que pude para Gustaf e, sem ao menos olhar na direção de me virei e caminhei em direção a minha mesa.
A aula se arrastou pelas duas horas seguintes. Eu tentei me concentrar apenas no que o professor estava falando, afinal a matéria era importante. Tentei ignorar as frequentes encaradas que ele me dava e seu ar de divertimento quando via que estava me incomodando. Eu tentava ignorar o fato de meu cérebro frequentemente me lembrar da cena de sem camisa na praia, dos momentos que passei agarrada em sua cintura. Céus, eu só podia estar ficando louca. Eu estava realmente me sentindo atraída por aquele tipo de homem? Eu não podia negar. Não podia negar que apesar de ser um cara totalmente arrogante e egocêntrico, ele também era tudo o que todas as outras alunas pensavam. Sua postura segura, seu meio sorriso malicioso, seu olhar desafiador e penetrante, a forma como ele movia cada parte do corpo. Ele era como uma serpente que seduzia a vítima para dar o bote final.
Mais uma vez precisei me concentrar para voltar minha atenção ao conteúdo da aula e assim que ela acabou não pensei duas vezes antes de sair correndo da sala. Eu estava me sentindo sufocada com meus próprios pensamentos. Caminhei até os jardins da faculdade e me joguei de baixo de uma árvore qualquer. Ar puro era o que precisava para me desintoxicar. Fiquei alguns minutos ali parada, apenas sentindo a brisa na minha pele, então decidi que seria uma boa ideia ouvir um pouco de música. Música quase sempre era a solução. Mas quando abri a mochila e revirei ela quase pelo avesso não encontrei meu fone em lugar algum e passou pela minha cabeça que ele tinha ficado na sala. Olhei para o celular e já haviam passado mais de dez minutos que a aula tinha acabado, então pensei que não teria risco algum de encontrar lá em cima.
Eu não poderia estar mais enganada, pois assim que coloquei os pés na sala, pude vê-lo sentado em sua mesa, a cabeça baixa, concentrado em seja lá o que estivesse escrevendo. Por alguns segundos pensei que ele não tivesse notado minha presença, mas então ele finalmente virou seu olhar em minha direção, parando de escrever e me encarando. Lancei um leve olhar pela sala só para constatar que não havia mais ninguém ali. Respirei fundo. Desviei o olhar e caminhei em direção a minha mesa sem encará-lo. Eu podia sentir seu olhar sobre mim, mas não me virei. Cheguei a carteira onde eu estava sentada há pouco tempo antes e não vi meu fone sobre ela. Olhei pelo chão ao redor, talvez pudesse ter caído, mas não o encontrei. Tentei pensar em onde pudesse tê-lo perdido, mas era difícil pensar quando eu sabia que ele estava me observando.
- Está procurando por isso, ? – mais uma vez meu nome saiu da boca dele. O que teria acontecido com o senhorita ? Olhei para ele e o vi agora de pé, encostado na própria mesa me encarando e segurando meu fone entre os dedos. Eu realmente não conseguia imaginar a minha cara diante daquela situação, porque eu mal conseguia identificar como estava me sentindo.
Caminhei na direção dele devagar. Eu sentia como se tudo estivesse em câmera lenta. Ele estava lá parado, me encarando, esperando eu chegar perto dele, e pela primeira vez, eu não consegui desviar o olhar. Finalmente parei a sua frente. Mais uma vez estávamos a um passo de distância um do outro.
- Sim, professor. – me limitei a responder e estendi a mão para que ele me entregasse os fones, mas ele não o fez.
- Tem certeza que é só isso que está procurando, ? – ele falou quase num sussurro e eu senti meu corpo formigar. Ele estava tão perto. Eu tentei forçar meu cérebro para responder algo rápido, mas não estava conseguindo. O silêncio que ficou entre nós naquele momento só estava fazendo tudo ficar ainda mais tenso.
- O que mais eu poderia querer, senhor ? – falei tentando não me abalar e um leve sorriso de lado surgiu em seu rosto.
- Talvez você ainda descubra, . – ele falou desafiadoramente, enquanto colocava devagar os fones em minhas mãos, sem se preocupar com o fatos de suas próprias estarem alisando provocativamente as minhas e seus olhos nem por um minuto se desviaram dos meus.





Continua...



Nota da autora: (03.07.2017) - Sem nota.




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