Última atualização: 14/08/2020

PRÓLOGO

Richard & Elizabeth
Edward Robson & Louise Robson

Têm a honra de convidá-lo para o casamento dos seus filhos

Mia Morgan & Joshua Edward Robson

A realizar-se as 16 horas do dia 21 de abril de 2020 na St. Peter's Parish Church.



UM



Eu estava ferrada. Era isso, eu estava total e completamente ferrada. Como? Como minha vida tinha chegado àquele ponto? Olhei mais uma vez para o papel que segurava em minhas mãos. A folha branca com as letras douradas brilhantes parecia ofuscar os meus pensamentos. Como? Eu devia estar feliz, não é? Afinal, apesar dos pesares, amava a minha irmã. Mas então por que, enquanto encarava aquele convite em minha frente, a única coisa em que eu consiga pensar era que, na fatalidade dos meus quase 30 anos, eu estava solteira e mal me sustentava sozinha, enquanto minha irmã, aos 22 anos, recém-formada em Direito, estava prestes a se casar?!
Ok, era óbvio que eu sabia dos planos de Mia e Joshua, mas nunca imaginei que aquilo tudo seria tão rápido. Não tinha nem um mês que eu havia recebido uma foto das alianças dos noivos, tinha? Meu Deus e ainda tinha o ! Não bastava tudo aquilo estar acontecendo, eu ainda teria que lidar com o fato do me ex-noivo-otário ser o padrinho do casamento. Como? Como iria encará-lo depois de tudo o que tinha acontecido? Suspirei pesadamente.
Ali, sentada na sala do meu apartamento em Londres, eu ainda podia sentir todo o constrangimento daquele fatídico dia, um ano atrás, em Sunshine, quando tinha me dito o velho e clássico “o problema não é você, sou eu!” para em seguida ele coçar a cabeça e me dizer, como se não estivéssemos a alguns metros de entrar na igreja:
Eu descobri que não estou preparado para dar esse passo, .
Assim, cru e nu. E eu? Bem, tudo o que consegui fazer naquele momento foi deixar o meu queixo cair e piscar diversas vezes enquanto o observava sair pela porta do que – pasmem – era a limusine que eu tinha usado para chegar até o casamento. Sim, ele me deixou a dois metros do altar, com todos os nossos familiares e convidados lá dentro. Então, lá estava eu, sozinha, vestida de noiva, dispensada com um belo pé na bunda no que, supostamente, seria o dia mais feliz da minha vida.
Senti meu celular vibrar em cima da mesa da sala de estar e dei graças a Deus a quem quer que fosse que estava me fazendo o favor de afastar aquelas lembranças.

“Estou no elevador! E com bebidas! Aguente firme! xo”


Dei um leve sorriso ao ler a mensagem que , minha vizinha tinha me mandado. Na verdade, era muito mais do que apenas uma vizinha, pensei, ao responder à mensagem com um "Rápido! Estou prestes a cortar os pulsos!". Rainha do drama, eu sei. Há um ano, quando me mudei para Londres – fugindo do meu passado traumatizante em Sunshine – , uma charmosa londrina, apareceu em minha porta com uma garrafa de vinho como boas-vindas e desde então tínhamos nos tornados grandes amigas. Eu agradecia a Deus por isso, já que não tinha a menor ideia de como teria suportado aquele ano se não a tivesse ao meu lado. Suspirei. Aquele pensamento fez com que, mais uma vez, as memórias voltassem com tudo em minha cabeça me fazendo encolher no sofá e abraçar os joelhos enquanto meus olhos enchiam de lágrimas. Nove anos! Eu tinha desperdiçado nove anos da minha vida com Grant.
Quando nos conhecemos, no primeiro ano da faculdade, eu não podia acreditar que aquele cara lindo estava mesmo interessado em mim. Não que eu tivesse algum problema de autoestima, eu só não estava exatamente no meu melhor ano. Acontece que minha mãe tinha me obrigado a cursar Direito, porque quando eu lhe disse que iria estudar Literatura e seria escritora, ela me olhou com desdém e disse: “em nossa família não há histórico de fracassados e é assim que vai continuar”, portanto, lá estava eu, aos 19 anos fazendo um curso que odiava, me escondendo em todas as aulas e, ainda assim, ele me notou.
era o melhor aluno da turma e isso refletia em sua aparência nerd hipster – que hoje eu sei era tudo truque para atrair garotas bestas como eu - com seus cabelos pretos quase encaracolados que caiam sobre a testa, brilhantes, contrastando com seus belos olhos camuflados em um óculos de grau sexy. Então, quando ele sorriu e disse que queria saber se poderia levar a garota mais linda da sala para um encontro, eu sabia que iria me casar com ele um dia. Ok, eu era mesmo muito estúpida. Se algum gênio da lâmpada aparecesse agora me dizendo que eu tinha direito a três desejos, eu estava satisfeita apenas com um: voltar no tempo. Eu iria olhar para aquela garota de cabelos esvoaçantes e ar sonhador e dizer: “Garota, eis aqui um babaca! Fuja agora mesmo!”.
Nove anos de tantos planos que foram jogados fora em um único dia. Pensei, sentindo a raiva tomar conta de meu corpo como sempre acontecia quando lembrava daqueles anos passados. Como eu não tinha visto aquilo? Não recebi os sinais? Todo mundo diz que há sinais quando o parceiro começa se distanciar e duvidar do relacionamento, não é?! Mas eu não percebi nenhum. Pelo contrário, enquanto meu ex-noivo tinha uma crise existencial, eu planejava o casamento. Estúpida! E agora, para completar a avalanche de vergonha e autopiedade, a minha irmã tinha tido a coragem de convidá-lo como padrinho de casamento. Senti todo o meu corpo estremecer ao me lembrar da ligação que recebera de Mia algumas horas atrás.
***

Estava assistindo uma maratona de Gilmore Girls, aproveitando o meu dia de folga da Livraria Solar, quando ouvi o alerta de chamada de vídeo do Skype na tela do meu notebook, era a Mia, minha irmã. Olhei para o convite de casamento, ainda aberto sobre a mesa, tentei colocar o melhor sorriso em meu rosto, já imaginando toda a ladainha “irmã caçula bem-sucedida” que ela costumava jogar em minha cara e apertei o botão "Aceitar".
-cat!
Minha irmã surgiu na tela, seus cabelos claros balançavam sobre os ombros, os olhos brilhando de entusiasmo. Eu odiava aquele apelido estúpido que minha família tinha colocado em mim quando eu tinha 10 anos e que, pelo visto, permanecia até hoje. Tudo isso porque enquanto eu lutava bravamente para salvar uma gatinha de cima de uma árvore, toda a rua tinha saído para assistir a tentativa frustrada da minha mãe em me tirar dali, para, no fim, eu acabar caindo de bunda no chão com a gata presa em meu rosto.
— Olá, Mia.
— Você recebeu o convite?! – ela perguntou com um sorriso transbordando alegria. — Não ficou divino?
Quando aos cinco anos meu pai biológico abandonou a mim e a mamãe, ela passou por poucas e boas, seu sorriso contagiante tinha dado lugar a choros ocultos durante a noite, nossos momentos de lazer tinham se transformado em encontros com o terapeuta. Mas, um ano depois, mamãe conheceu o Richard, ele era um cara incrível que transformou nossas vidas para melhor em todos os sentidos, eu o amava como um pai. Então, quando eu descobri que iria ganhar uma meia-irmã a minha primeira reação foi pânico, como assim eu deixaria de ser a preferida do Richard? Mas quanto mais a barriga da mamãe crescia, mais encantava e ansiosa eu ficava, afinal, finalmente eu teria uma melhor amiga, alguém com quem dividir tudo.
Eu tinha sete anos quando a Mia nasceu e foi um dos dias mais felizes da minha vida. Mia não era minha meia-irmã, aquela coisinha loira, fofa e rosada, era minha irmã por completo. Mas então, com o tempo fui percebendo o quanto eu e Mia éramos diferentes em muitas coisas, a começar pela aparência. Ela tinha herdado os cabelos lisos e os olhos da mamãe, e eu tinha sido agraciada com o gene sem graça – e exótico - dos cabelos e olhos que não se definiam entre e o castanho do homem que me abandonou há muito tempo. Além disso, nossas personalidades também eram completamente diferentes e mais uma vez, ficava explicito quem tinha puxado a mamãe.
— Sim! - procurei fazer a minha melhor atuação de alguém que também estava completamente radiante. — Já ia te ligar, mas...
— Ah, , eu estou tão feliz! - Mia me interrompeu. — Apesar que aqui está uma loucura, todo dia tem algo para ver, vestido, flores, bufê...
— Eu imagino, como você...
— Ah e a mamãe? - ela suspirou e sorriu. — Acho que nunca a vi tão radiante. - Me limitei a sorrir, sabia que não adiantava falar quando minha irmã começava com a sua habitual enxurrada de novidades. — Você sabe que será uma das minhas madrinhas, não é?! - assenti.
Já esperava por aquilo. É claro que minha mãe não ia deixar passar a oportunidade de me mostrar como a Mia já está mais do que encaminhada na vida, enquanto eu tinha largado tudo para "curtir um ano sabático em um hobby exótico como atendente em uma livraria em Londres", palavras dela.
— Espero que você não tenha engordado muito nesse último ano, -cat, porque peguei as medidas que a mamãe tinha para o seu vestido de noiva.
Qualquer outra pessoa teria ficado ofendida com aquele comentário e, mais ainda, com a menção de um noivado fracassado, mas eu sabia que aquele era simplesmente o jeito de minha irmã caçula. Assim como mamãe, ela não tinha nenhum tipo de filtro e era capaz de dizer coisas dolorosas com muito charme.
— Espero que não. – Dei um sorriso amarelo.
Mia olhou para algo acima do notebook e assentiu, em segundos seu semblante mudou de radiante para apreensiva.
— Er... , preciso te contar uma coisa. - disse desviando o olhar para o chão.
Prendi a respiração. Tinha aprendido durante toda a minha vida que quando Mia usava aquela frase, coisa boa não vinha em seguida. Na infância era um “quebrei o abajur favorito da mamãe, mas disse a ela que foi você”, na adolescência, “Ei, , eu contei para mamãe que você saiu escondido ontem com a Sky, ela ia descobrir de qualquer jeito mesmo” e só de pensar o que viria a seguir, eu me encolhi.
— O que houve?
Mia mordeu o lábio inferior e suas bochechas enrubesceram.
— O Joshua convidou o para padrinho.
Havia poucas coisas no mundo que me faziam demonstrar meus sentimentos tão claramente quando estava perto da minha família e , definitivamente, era uma delas.
— Como é? - senti meu rosto esquentar no exato momento em que ouvi aquele nome.
-cat, eu juro que tentei persuadi-lo a mudar de ideia. - Mia disse com a voz baixa, como se pedisse implicitamente para que eu mantivesse a calma. — Expliquei que você não ia querer ver o Greg, pelo menos não depois de tudo o que ele lhe fez... - ela fez uma pausa dramática, lançou um olhar piedoso para a tela do notebook e continuou: — Mas, você sabe, eles são primos e não tinha muito que eu pudesse fazer. - E, por fim, deu de ombros.
Assim, simples. Deu de ombros como se ela não pudesse fazer mais nada para me ajudar e muito menos se importasse com aquilo.
— Eu não acredito. - Foi tudo o que consegui dizer.
...
— Como você deixou isso acontecer?
, já se passou um ano, pelo amor de Deus! - Mia bufou. — Tenho certeza que você é adulta o suficiente para conseguir ficar algumas horas ao lado dele no altar. – Acho que Mia percebeu meu rosto ficando ainda mais vermelho, pois logo em seguida usou o seu melhor tom doce e solidário. — Quero dizer, não vai ser exatamente da forma como deveria, digo, vocês dois no altar, mas...
— Mia, alguém está batendo na porta. – disse de vez. — Preciso desligar.
Não havia ninguém na porta, óbvio, mas eu precisava acabar urgente com aquela conversa antes que eu a matasse, pior, antes que eu acabasse chorando na frente de Mia. A última coisa de que precisava agora era ser a fofoca da semana para minha família: “Um ano depois e a pobre -Cat ainda não superou o pé na bunda que o lhe deu.” Podia ouvir a voz afetada da minha Tia Margot seguida de suas costumeiras palminhas solidárias nas costas.
— Não ouvi nenhuma batida. – Mia cerrou os olhos desconfiada.
— Já vai! - gritei para o nada, tentando disfarçar meu embaraço. — Tenho que ir, Mia. Tchau.
Abaixei a tela do notebook sem dar chances para que minha irmã me lançasse mais um olhar irritado ou de pena. Minutos depois eu estava mandando uma mensagem de SOS para a .
***

Ouvi a buzina invadir o silêncio do apartamento me despertando mais uma vez daquelas lembranças. Me levantei, abri a porta e sorri ao ver minha amiga parada ali. , como uma excelente gerenciadora de crises, segurava garrafas de vinho em cada uma das mãos, mas isso não a impediu de me puxar para um abraço acolhedor.
— Desculpe a demora. – Ela disse enquanto nos afastávamos e ela adentrava o apartamento. — Tive que esperar a Joe aparecer na galeria para poder fugir de lá.
colocou as garrafas sobre a mesa de centro e tirou o casaco, seus cabelos castanhos com mechas claras eram cortados em um estilo quase chanel - eu os achava estilosos demais para terem uma definição - e os olhos eram de um azul incomum. Quem a visse acreditaria que ela era uma daquelas modelos altas e antipáticas demais que perambulavam pela Piccadilly, mas a na verdade era uma nerd formada em História da Arte que trabalhava em uma famosa galeria próxima ao Hyde Park. Ela era demais!
— Aquilo lá está uma loucura. - ela suspirou, pegou o celular no bolso, digitou algumas coisas enquanto falava: — Descobrimos um pintor novo pelo Instagram e estamos desesperados para contratá-lo, mas...
Então, tão rápido quanto começou a falar, ela parou, um suspiro pesado saiu de seu corpo ao me fitar. Eu estava assim tão péssima?
— Ok, vamos deixar o trabalho para lá. – sorriu, colocou o celular sobre a mesa e apontou para as garrafas de vinho. — Vou pegar as taças.
Suspirei voltando para o sofá.
— Acho que preciso tomar essa garrafa inteira.
— A meta do dia é exatamente essa, não se preocupe.
Ela foi até a cozinha buscar os copos enquanto eu assumia a mesma posição fetal no sofá desde que recebera a ligação de Mia.
— Você sabe que não tenho taças finas!
— Acho que podemos nos virar com isso aqui.
Ri ao vê-la voltar para a sala com duas canecas, uma com símbolo de Hogwarts e outra com a caricatura do Harry Potter, em suas mãos. Sim, eu era uma grande fã da J.K Rowling.
se acomodou no sofá ao meu lado e serviu o vinho para nós duas.
— Então...
— Então... – repeti virando o líquido bordô de uma só vez.
Ok, eu sei que já devia ter idade o suficiente para saber que o álcool não era a resposta para os meus problemas, mas naquele momento eu estava pouco me importando com aquilo.
— Você sabe que não sou de rodeios, então vou logo dizer de uma vez. – assenti enquanto a reabastecia nossos copos. – Sua irmã é uma vadia traidora!
!
— Não, , nada de defendê-la – ela tomou um gole, depois continuou: — Como ela teve coragem de chamar o filho da puta do para padrinho?
Aquilo era outra coisa que eu amava na . Ela falava palavrões com frequência. Podia parecer besteira, mas vindo de uma família que a palavra “merda” era sinônimo de: “queimar no inferno”, eu amava ouvir os palavrões dela.
— Bem, tecnicamente foi o noivo dela que o chamou, eles são primos.
— Cacete, ela tinha que escolher um da mesma família? – fez uma pausa dramática e eu não consegui conter o sorriso. — Já não basta uma irmã com dedo podre?! – fiz uma careta. — Desculpa, querida, é a porra do filtro que eu não tenho, você sabe.
— Eu sei – sorri.
— Você ao menos disse a ela que estava puta da vida com isso, não disse?! - assenti. Ok, não exatamente assim, mas ela percebeu né?! — E então?
Dei de ombros.
— Então, ela me disse que já tinha se passado um ano e que tem certeza de que eu sou adulta o suficiente para conseguir ficar algumas horas ao lado dele no altar.
— Vadia traidora!
— Vadia traidora! - Levantei a caneca de Hogwarts brindando e tomei outro gole. Depois daquela ligação de Mia estava difícil não concordar com .
— Você não precisa ir, . - colocou sua mão sobre a minha e a apertou em um gesto de solidariedade.
— Ao casamento da minha irmã caçula? – sorri irônica. — Claro que não.
— Estou falando sério, ela não merece sua consideração.
Suspirei. É claro que já tinha cogitado aquela possibilidade. Uma doença contagiosa, um pé quebrado, qualquer coisa que pudesse ser usada como desculpa para não ter que voltar a minha cidade natal e muito menos encarar o uma semana inteira. Porém, assim como eu tinha pensado nas desculpas, pensei também nas consequências.
— Você não conhece minha família. – disse bebendo mais um gole do vinho. Novamente eu virei todo o conteúdo da caneca em um único gole. — Se eu não aparecer, minha mãe vai dar um jeito de me fazer arrepender disso para o resto da minha vida.
praguejou.
— Sinto muito, . – ela me puxou para um abraço, deitando minha cabeça em seu ombro. — Nós vamos dar um jeito nisso, eu prometo.
Ficamos em silêncio por alguns instantes enquanto as minhas lágrimas iam cessando.
— Mas agora chega dessa sessão de autopiedade! - se levantou, pegou a caneca da minha mão e a encheu um pouco mais. — Vamos fazer o que realmente importa, vamos nos embriagar!
Gargalhei. Para falar a verdade, não estava mais tão longe daquilo.
***

Duas horas e duas garrafas de Chardonnay depois, nós fomos para o apartamento de , que alegou que seu irmão tinha uma excelente aparelhagem de som e que nós precisávamos dançar para afastar os maus espíritos da autopiedade. Por um instante eu pensei em não ir, há um ano morando naquele prédio, eu só tinha trocado apenas algumas palavras com o irmão de – tirando o desastroso dia em que o conheci - e o homem era tão sério e sisudo que eu costumava a compará-lo ao Mr. Darcy do romance Orgulho e Preconceito da Jane Austen. Claro que aquilo que era um charme no Mr. Darcy, em não passava de falta de educação e arrogância.
— Tem certeza que seu irmão não vai chegar por agora? – perguntei assim que atravessei a porta do apartamento 1222.
O apartamento deles era incrível. Em questão de espaço não mudava muito em relação ao meu, mas de longe era muito mais organizado e bem decorado do que o caos que eu chamava de residência. Os móveis projetados e monocromáticos contrastavam com os quadros coloridos e excêntricos da , dando ao ambiente um ar sofisticado e moderno.
— Ele está em uma “reunião muito importante”. – disse usando as aspas porque provavelmente aquilo tinha sido o que ele tinha dito para ela. Típico. — Não vai aparecer tão cedo, relaxa.
pegou o celular, encaixou-o na caixa de som. Logo em seguida a voz de Adele começou a tocar e nós começamos a dançar. Então, de repente, eu já estava com uma garrafa de whisky na mão e Adele resolveu começar a cantar sobre um amor que se foi. Senti cada estrofe de “Don’t you remember” como se ela tivesse sido escrita para mim, mas logo percebeu que aquele poderia ser um caminho sem volta, já que eu comecei a chorar descontroladamente, mudou a música.
Nós duas cantamos mais algumas outras canções entre risos e, no meu caso, lágrimas, até cairmos esgotadas sobre o sofá.
— Acho que preciso de um banho. – suspirou levantando-se. — Já volto, ok?
Assenti.
— Vou ficar aqui fazendo mais algumas performances. – Fui até o celular de para procurar por mais músicas.
Minutos depois, eu não saberia dizer como, afinal eu já tinha tomado metade da garrafa de whisky, - aquilo era uma boa justifica -, lá estava eu, olhando o Instagram do Grant, como uma adolescente apaixonada. Paralisei, a foto do perfil dele era ele e uma morena espetacular.
Já fazia mais de meses que eu não procurava saber nada dele, três meses para ser mais exata, e agora eu estava ali. Tinha me deixado levar pela bebida, era isso, aquela era a justificativa para naquele momento eu estar encarando o status dele: noivo de Kimberly Thorne.
Meu Deus, ele estava noivo! Fui abaixando a página e fotos do casal foram surgindo. sorrindo radiante enquanto abraçava a versão mais jovem de Kim Kardashian por trás. Eles abraçados em frente à Torre Eiffel. de joelhos em frente a morena exuberante enquanto ela exibia um anel de no mínimo 4 quilates na mão direita. Como? Como ele tinha tido a coragem de fazer aquilo comigo? Me humilhar daquela maneira. Senti as lágrimas quentes rolarem pelo meu rosto enquanto eu olhava cada uma das fotos do perfil de e de repente, Whitney Huston começou a cantar sobre a promessa de um amor eterno carregando com sua voz cada pedaço do meu autocontrole. Senhor, tinha como aquilo tudo ficar pior?
E como uma resposta irônica do destino, a porta do apartamento se abriu e um perplexo me encarou, levando embora o resto da minha dignidade.


DOIS



— Você ainda está aqui?
Não precisei levantar o olhar para saber que John McPhee, meu assistente, estava parado em minha porta. Fitei o relógio no canto direito do notebook: 22:54. Puta merda! Estava tão concentrado terminando de revisar os pontos de um acordo que faríamos no dia seguinte que não me dei conta das horas passando.
— Assim como você. - Respondi enquanto ainda digitava alguns detalhes finais.
— Bom, você é meu chefe e ainda está aqui, não pegaria bem eu ir embora antes. - John disse entrando e sentando-se na poltrona em minha frente. — Mas eu desisti de esperar seu retorno à Terra e vim aqui pedir, humildemente, para irmos embora.
— Estou revisando os contratos das Indústrias Brandon.
— E então?
— Parece que está tudo ok. - Assenti.
— Claro que está, eu e você já fizemos isso um milhão de vezes. - John debruçou-se sobre a mesa e suspirou. — Sério, , preciso dormir. - Desviei o olhar da tela do computador em minha frente e o fitei. Os olhos que contrastavam com a pele morena estavam cansados.
Conhecia John McPhee há exatos 15 anos quando éramos apenas dois jovens perdidos, recém-chegados a Faculdade de Direito de Bristol e, claro, prontos para nos endividarmos até o rabo com o empréstimo estudantil. Após a faculdade, a vida nos levou para caminhos diferentes, eu tinha retornado a Londres para viver com a e a Mimi, nossa avó e única parente viva, e, apesar dos pesares, a vida do John tinha sido mais complicada. July, sua namorada desde a adolescência, tinha engravidado assim que terminamos a faculdade e, meses depois, ela acabou falecendo por complicações no parto. John não teve outra escolha a não ser retornar a sua cidade natal e pedir ajuda aos seus pais para cuidar da pequena Lily, minha afilhada. Então, dois anos atrás, ele e Lily retornaram a Londres e eu fiz de tudo para mantê-lo no emprego comigo. Não me arrependi nem por um segundo de tê-los por perto.
— Da próxima vez que eu for contratar um funcionário, me lembre de não ser um amigo. - John riu. — Você já confirmou a reunião com o Smith?
Tinha tudo preparado nos mínimos detalhes para acabar com o Matthew Smith, representante das Indústrias Brandon. O Anthony Brandon, presidente da empresa que o Smith defendia, havia se afundado em dívidas não deixando outra opção a ele a não ser a venda das Indústrias Brandon e, como um presente, aquele caso tinha caído em minhas mãos, justamente quando eu precisava. Aquela era a oportunidade perfeita para mostrar ao Sr. Smith que seu voto de confiança não tinha sido em vão.
— Sabe, tenho pena do Sr. Brandon, quarenta anos de dedicação para levantar uma empresa do nada e agora ela será liquidada.
— Ele deveria ter pensado nisso antes de afundá-la em dívidas.
— Você não sente remorso?
Sentia. Na verdade, aquela era uma das partes que eu mais odiava em meu emprego. Há cinco anos, quando eu havia sido contrato pelas Indústrias CW, tinha sido um sonho se realizando. Por muitos anos tinha batalhado para chegar a um cargo de assessoria jurídica em uma empresa de grande porte, até chegar à parte, há três anos, em que Cameron Watson, meu chefe, começou a querer expandir seus lucros através da compra e fragmentação de empresas falidas. Foi um momento crucial em minha carreira, eu não concordava com aquilo, não conseguia conceber o fato de ter batalhado tanto para acabar sendo o causador da desgraça de outras pessoas, porém, ou eu saia fora com a consciência tranquila e o bolso vazio ou, bem, obviamente, preferi ter o que comer no fim do dia.
— Estou fazendo apenas o meu trabalho, McPhee, ele deveria ter feito o dele também - respondi. — E não foi remorso que me trouxe até aqui.
John assentiu.
— Entendo.
Ficamos em silencio enquanto eu conferia mais algumas coisas do acordo com Anthony Brandon, mas podia sentir os olhos do John sobre mim, me analisando, até que ele falou:
— Você não acha que tem trabalhado demais não? - o encarei. — Quero dizer, sei que você tem feito de tudo para não deixar ninguém duvidar do seu trabalho, pelo menos não depois do que aconteceu aquela vez, mas...
— John.
— Foi mal, chefe. - Ele suspirou. — Só queria lhe dar um conselho. - Revirei os olhos, mas ele me ignorou e continuou. — Nos conhecemos há tanto tempo, , e sempre imaginei que a essa altura da vida, nossos filhos estariam brincando juntos. - Arqueei a sobrancelha. Que porra de conversa era aquela? — Mas chego aqui e você já está, saio e você continua. Isso não é saudável, cara.
Fitei-o sério, depois comecei a rir.
— Quem é você? A porra do Dr. Phill?
John revirou os olhos e se levantou.
— Boa noite, chefe.
— Boa noite, McPhee. Mande um beijo para a Lily.
John parou na porta e olhou para trás.
— Você tem que visitá-la logo, a criatura já está achando que não tem mais padrinho.
Ele tinha razão, fazia já um bom tempo que não ia ver a Lily, mas para ser justo, com o John, ele estava certo, tinha um bom tempo que eu não fazia outra coisa além de trabalhar. Fazia questão de dedicar todos os meus dias a CW, pois sabia que eu tinha que provar ao Sr. Watson que ele podia confiar em mim e se para isso eu tivesse que sacrificar algumas horas do meu dia, assim o faria. Tinha batalhado muito para chegar onde estava e não podia deixar aquela segunda chance escapar de jeito nenhum.
***

Entrei no elevador do prédio em que morava e olhei o relógio em meu pulso: 00:47. Estava cansado, não, estava destruído. Mesmo depois que o John foi embora ainda fiquei mais alguns minutos no escritório verificando os compromissos que teria no dia seguinte, não podia me dar ao luxo de nenhum vacilo. Era isso, estava destruído, mas satisfeito. Pensei enquanto relembrava os detalhes que tinha discutido na reunião junto com os acionistas do escritório referente ao acordo com as Indústrias Brandon. Seria brilhante, palavras do Sr. Watson. E eu realmente precisava que fosse. Desde um incidente em que estive envolvido, eu me matava naquele escritório para tentar recuperar a confiança do Sr. Watson e aquela era a oportunidade que estava esperando para mostrar todo o meu potencial e, com sorte, finalmente ter o meu nome à frente da direção jurídica daquele escritório. Tudo o que eu precisava agora era tomar um banho, uma boa dose de whisky e dormir, amanhã seria o grande dia.
As portas do elevador se abriram e uma música alta invadiu meus ouvidos destruindo meus planos de sossego. Quem diabos estaria ouvindo Whitney Huston àquela altura meia-noite de uma quarta-feira? Bufei. É claro que eu sabia muito bem a dona aquele feito, , minha vizinha pirada. Não bastava ser louca de pedra, aquela mulher tinha que ser tão inconveniente quanto. Me lembrei da primeira vez em que a vi, um ano atrás, na verdade, a primeira vez em que tive a certeza de que deveria manter distância daquela mulher.
***

Estava saindo do prédio, atrasado para a reunião que definiria o meu futuro na CW Industrias. Meu estômago revirava, minhas mãos suavam e a única coisa que conseguia pensar era no fato de que o Sr. Watson e os acionistas estavam prestes a dar um pé em minha bunda e pior, com justa causa. Mas assim que pus os meus pés na calçada fora do hall do prédio eu ouvi um grito:
Thor, não!
Em seguida, tudo o que vi, ou melhor, senti, foi um labrador de dois metros de altura pular sobre mim e me derrubar na calçada. E como se não bastasse a maluca que tentava segurá-lo achou que seria uma ótima ideia abaixar para me ajudar, ao mesmo tempo em que virava o seu copo de café quente sobre meu corpo.
— Meu Deus! Meu Deus! Me desculpe, ele puxou a coleira e eu... – ela se abaixou e estendeu a mão em direção a minhas calças onde o líquido quente por um centímetro não caiu em meu pau. — Juro que tentei segurá-lo, mas... - a maluca parou e me fitou. — Ah, você é o irmão da , não é?! Ela me mostrou sua foto uma vez... – ela deu um sorriso largo enquanto ainda passava a mão por minha calça, numa tentativa vergonhosa de limpar a merda que ela tinha feito. Travei o maxilar. — Eu sou a , sua vizinha do 1221, me mudei tem uns dois meses e...
Segurei sua mão e a afastei impedindo-a de continuar esfregando minha virilha, qual o problema com aquela mulher? Me levantei e a encarei:
— Se você não tem capacidade para controlar o seu cão, não devia sair por aí com ele. – Respondi, ignorando sua mão estendida enquanto observava o estrago que o café tinha feito em minha roupa.
Agora eu não estava só atrasado, estava fodidamente atrasado. Ótimo, era só o que faltava para o Sr. Watson passar a corda em meu pescoço.
O rosto da maluca enrubesceu e ela desviou o olhar para o cachorro, que agora estava com a língua para fora na sua melhor versão de cão idiota.
— Na verdade, ele não é meu. – ela sorriu. — Recebo algumas libras para poder passear com ele e...
— Puta que pariu, quer dizer que alguém paga por esse seu serviço de merda?
A mulher arregalou os olhos e depois os estreitou, como se tivesse levado um tempo para compreender o que eu havia dito.
— Acho que você está me ofendendo. – disse e se aproximou como se assim pudesse me analisar melhor.
Foi a primeira vez que coloquei - de fato - meus olhos sobre ela. Era como se a Júlia Roberts e seus cabelos selvagens dos anos 90 tivesse ali em minha frente. Mas as semelhanças entre ela e aquela Roberts de Uma Linda Mulher só iam até aí. A maluca do 1221 era baixa e sua cabeça mal dava em meus ombros e seus olhos , que me fitavam desconfiados, eram grandes e levemente repuxados, como de gato. Quando se aproximou de mim, fitei-a dos pés à cabeça e fiquei perplexo.
Aquela mulher nunca devia ter ouvido falar em roupas sóbrias. Desde as sapatilhas vermelhas com pompons nas pontas até à meia calça cinza com a saia azul escuro de bolinhas brancas e a blusa prateada. Em sua cabeça um gorro branco contrastava com os cabelos . Imaginei que um caminhão de roupas provavelmente tinha virado na esquina e ela saiu vestindo todas de forma aleatória. Que porra era aquela?
— Só se você for do tipo que se ofende com a verdade.
Por uns instantes ela ficou ali com os olhos arregalados até começar a fazer carinho na cabeça do cachorro e dizer, com a voz mais inocente do mundo:
— Sabe, Thor, acho que você está merecendo um petisco! – e com um sorriso cínico nos lábios, ela me fitou. — Bom trabalho, garoto!
***

Caminhei em direção à porta do 1221 com aquela lembrança em minha mente, me deixando ainda mais irritado, e estava prestes a bater ali disposto a obrigá-la a desligar a porra do som quando percebi algo que me fez parar no meio do hall. Não era dali que a música alta vinha, mas sim do meu próprio apartamento. Apertei o maxilar tentando controlar a raiva que começava a tomar conta do meu corpo. Será que resolveu dar uma festa logo naquele dia? Mas quem em sã consciência dava uma festa com uma música tão depressiva quanto aquela? Passei a mão pelo cabelo, bufei afrouxando o nó da gravata e caminhei até à porta imaginado o que estava prestes a enfrentar. Mas quando a porta se abriu, eu definitivamente não estava preparado para o que vi.
, a minha vizinha maluca, estava parada ali, na sala do meu apartamento, em cima do meu sofá. Quer dizer, não exatamente parada já que ela balançava de um lado para o outro sem qualquer senso de coordenação motora, isso, eu tinha quase certeza, era culpa da garrafa de whisky - minha garrafa de Jack Daniels - que ela segurava na mão esquerda.
Diabos, aquela mulher era uma profusão de cores! Desde os cabelos esvoaçantes caindo sobre o pijama azul estampado com sorvetes e unicórnios, até as pantufas em formato de dinossauro. Seu rosto era uma mistura de lágrimas, rímel borrado e, quando em meio a sua performance do refrão de “I will always love you”, ela me viu, um tom extremamente vermelho tomou conta de seu rosto e se juntou àquela aquarela.
?


TRÊS



Por quê? Por que eu tinha me dado ao trabalho de me perguntar se tudo aquilo tinha como piorar? Por acaso eu não sabia que era a rainha da lei de Murphy? É claro que tinha como piorar. Fechei e abri os olhos na esperança de tudo ser apenas um delírio da minha mente banhada com tanto álcool, mas continuava parado na porta do seu apartamento me encarando como se eu tivesse acabado de fugir de um hospício.
Gemi. É claro que eu não podia culpá-lo, afinal estava em cima do seu sofá com uma garrafa de whisky em uma mão, um controle de televisão na outra, cantando Whitney Huston como se eu estivesse no palco do X Factor. Senti meu rosto esquentar parecendo que iria explodir, desci do sofá e, como se já não tivesse feito o suficiente:
— Sr. . – Eu disse com minha melhor imitação de Elizabeth Bennet fazendo uma reverência ao conhecer o Mr. Darcy.
Uma reverência! Pelo amor de Deus, eu tinha mesmo feito uma reverência? Tinha! Como se eu fosse uma personagem de um romance da Jane Austen! Mas a culpa não era minha, era dele! Pois, sempre que o via ele estava tão sério que me lembrava de todos aqueles aristocratas dos romances de época que eu tanto lia. E o que foi aquilo de Sr. ? Eu nunca o chamava assim. Maldito Jack Daniels!
— Ensaiando para algum musical da Broadway, imagino.
Bufei. Sempre que nos encontrávamos, o que era raro, já que eu o evitava com frequência, fazia alguma graça a respeito do meu emprego na Livraria Solar. Tudo isso porque, um dia, ele entrou lá e eu estava fazendo a minha melhor performance de Elsa cantando “Let it go” para a Lola, filhinha do Frank, meu chefe. Qual é, eu fui obrigada a fazer aquilo para manter o meu emprego!
A pirralha não parava de chorar e afastar a clientela, eu tinha que inventar alguma coisa para distraí-la. E o que poderia ser melhor do que uma performance de Frozen? Claro que, como eu disse, rainha da Lei de Murphy que sou, o insuportável do escolheu aquele exato momento para entrar na livraria e assim, presenciar toda aquela humilhação.
Mas devo dizer que aquela era uma parte sensível da minha vida, não o fato de ser obrigada a dar uma de babá de vez em quando, mas sim a parte profissional. Desde que tinha largado minha vida em Sunshine e me mudado para Londres, eu já tinha tido vários empregos: babá de cachorro, caixa, garçonete, assistente em um escritório de publicidade, até me fantasiei de Hot Dog. Como eu disse, vários. Passei por tudo isso até me falar sobre uma vaga em uma charmosa livraria-café no centro da cidade e eu finalmente reencontrar a minha verdadeira paixão em um só canto: café e romances! E apesar das piadinhas do , eu amava aquele lugar.
— São encontros de cultura e arte, . – disse seca. — Não que isso lhe interesse, é claro.
Óbvio que quando ele entrou e me viu com a peruca loira na cabeça, eu expliquei que estávamos em um sarau. E é claro que ele apenas me fitou com desdém, escolheu o livro que queria – bem tedioso, por sinal - e foi embora sem trocar nenhuma palavra a mais.
— Não mesmo. – disse com a indiferença de sempre, indo até o som e desligando a música. — Vejo que gostou do meu whisky.
Ele apontou com a cabeça para a garrafa que eu segurava presa em meu peito como se fosse algo precioso. Enrubesci e tentei endireitar a minha coluna para fazer a melhor postura arrogante possível.
— Já tomei melhores.
deu um sorriso irônico deixando bem claro que ele duvidava daquilo. Esnobe!
— Claro. – disse cruzando os braços sobre o peito e me fitando com descarado deboche.
Eu detestava . Ok, talvez aquela palavra fosse forte demais, mas eu, definitivamente não ia com a cara dele. Tinha alguma coisa na sua áurea que não batia com a minha. Talvez ele tivesse Marte em Vênus e eu Lua em Capricórnio, qualquer coisa esotérica assim. O fato era que a minha antipatia por , mesmo a gente só tendo trocado pouquíssimas palavras na vida, era tão grande que eu só podia acreditar que a Miley (uma garota bem excêntrica que trabalha comigo na Solar) tinha total razão sobre essa coisa de vidas passadas e signos. Enfim, eu não sabia dizer bem o porquê, mas fosse o que fosse, eu o detestava.
— Você se acha incrível, não é?!
Eu disse indo em sua direção, mas quando cheguei perto, percebi que pela nossa diferença de altura era melhor eu ter ficado em cima do sofá. E, é claro, que com a quantidade de álcool em meu organismo foi exatamente aquilo o que eu fiz.
arqueou a sobrancelha e me lançou um olhar incrédulo ao me ver subindo outra vez em seu sofá e – quase - olhando-o nos olhos.
— Você acha que pode tratar todo mundo com esse ar de desdém... – ele fez menção de falar algo, mas eu não deixei. Tinha que aproveitar o álcool e falar algumas verdades que estavam engasgadas naquele um ano de – quase nenhuma – convivência. — Como se você fosse superior a todo mundo?! Sério?! E por quê? Só porque você tem esse corpo definido – eu gesticulei para o seu peitoral – e essa cara bonita demais para não ser notada?! – endureceu o maxilar e eu tinha quase certeza de que ele estava se esforçando para não rir. — Mas veja bem, você não é!
Eu cruzei os braços e o fitei com um sorriso que esperava estivesse dizendo “Viu só? Você não tem nada demais!” O que obviamente era mentira. parecia ter saído diretamente de um catálogo de modelos de grifes, mais um motivo pelo qual eu o detestava. Ninguém deveria ser bonito daquele jeito, aquilo era injustiça com o restante dos mortais.
aproximou-se um pouco mais de mim, suas pernas tocando o sofá, seu rosto inclinou-se sobre o meu, - como alguém podia ser tão alto? - seus olhos brilhavam com um ar de diversão.
— Você tem certeza disso, ?!
Ele estava tão próximo que eu podia ver cada detalhe das suas írises assim como os diferentes tons da vasta barba que preenchia seu maxilar quadrado. E por um instante eu quase até podia sentir o seu cheiro que mesclava entre amadeirado e...
— Não! – eu balancei a cabeça.
sorriu malicioso. O que estava acontecendo comigo?
— Quero dizer, sim! - bufei e o afastei. — Aliás, na verdade, nem me sinto atraída por tudo isso aí. – Sorri triunfante.
Ele me fitou por uns segundos e depois abriu o sorriso mais sincero que já tinha o visto dar.
— Fico feliz em ouvir isso, , acredite!
Nos encaramos por alguns segundos, como se estivéssemos naquela brincadeira infantil para saber quem desviaria o olhar primeiro, até que o piscou soltando um suspiro pesado.
— Agora... - ele endureceu o maxilar. — Você poderia, por favor, descer do meu sofá? – senti as minhas bochechas corarem e desci extremamente envergonhada.
me olhou como quem diz “muito bem” a uma criança de quatro anos quando ela para de fazer birra.
— E onde diabos está ? – ele fitou ao redor, olhou para a cozinha e depois para o corredor que dava em direção aos quartos. — Supondo que você não invadiu o meu apartamento.
Abri a boca pronta para responder a mais um dos seus insultos, mas fui interrompida por que escolheu aquele exato momento para voltar à cena:
— Nosso!
virou-se para a irmã e, tenho que admitir, apesar de ser um cretino, ele a adorava. Seus olhos acompanharam o sorriso nos lábios, demonstrando o carinho que ele tinha por ela.
Quando me mudei, me contou por alto que eles tinham perdido os pais em um acidente de carro, a mais ou menos 15 anos, e por isso ela teve que se mudar para Londres para morar com a avó, a única parente viva que lhes restava, até que essa também faleceu e, no fim, o , oito anos mais velho, teve que assumir as responsabilidades da casa e ser o pai e a mãe da . Aquilo quase me fez gostar dele um pouco.
— Se este é o tipo de convidado que você vai começar a trazer para cá, acho melhor eu me mudar.
Eu disse quase.
— Meu Deus, você está me ofendendo, não está? – disse, sem conseguir disfarçar meu constrangimento. — Ele está me ofendendo, não está?! - eu estreitei os olhos e fiquei na ponta do pé - inutilmente, é claro - para encará-lo com ódio.
— Jamais. – Ele sorriu. Sim, um sorriso que mostrava toda a sua fileira de dentes brancos e perfeitos. — Mas se me permite, , acho que já passou do horário de visitas.
!
Senti meus olhos encherem de lágrimas. Ótimo! Aquilo era o que estava faltando para completar o meu dia, ser humilhada e expulsa do apartamento do Mr. Darcy-Fake.
, a é minha convidada e se você está incomodado com algo, pode ir para seu quarto. - me abraçou pelos ombros e fitou seu irmão com raiva.
Naquele momento fiquei eternamente grata pela lealdade da minha amiga.
— Além disso, hoje não está sendo um dia fácil para ela.
Ok, isso ela poderia ter deixado de lado.
— Ah, é mesmo?
assentiu, sem se quer notar a ironia na voz do irmão.
— Algum problema no Reino de Arandelle? – ele cruzou os braços e levantou a sobrancelha como se realmente se importasse.
Eu odiava . Sim, se eu achava que “detestar” era uma palavra forte, eu estava enganada. Odiar e detestar eram as palavras certas para definir o que eu sentia por aquele filhote do demônio.
— Não é da sua...
— A irmã mais nova dela vai se casar daqui algumas semanas... – declarou antes que eu conseguisse evitar aquele desastre.
Por favor, Deus, que ela não...
— E o ex-noivo dela vai ser o padrinho!
Meu Deus! Se já debochava de mim sem motivos, imagine agora que a tinha entregue a ele um prato cheio.
— Depois de ter enrolado ela por nove anos, ! Nove! Tudo bem que ele vai desacompanhado, mas ainda assim...
Ok, eu já estava quase no fundo do poço da humilhação, então...
— Na verdade, ele vai com a noiva. – Eu disse pegando o celular sobre o sofá e balançando no ar.
— O que?! – tomou o celular de minha mão e começou a passar as imagens. – Cacete, !
Funguei ao perceber que chorava. Pronto, não havia mais nenhuma dignidade a ser mantida na frente de .
— E ela é linda. - Funguei outra vez.
— Realmente... – ouviu-o cortar o silêncio e me fitar. Por um instante pensei ter visto compaixão em seus olhos, mas logo um sorriso irônico surgiu em seus lábios. — Que dia triste para ser .
É claro que, mas mais uma vez, só eu percebi aquela ironia já que assentia em concordância.
— Agora se me dão licença, vou dormir, alguns adultos têm problemas reais para enfrentar. - deu um beijo na testa da irmã. — Boa noite, – depois fitou-me. — Srta. Elsa. - E fez uma reverência!
Sim, pasmem, ele fez uma reverência exatamente como a que eu tinha feito quando o vi chegar, e seguiu pelo corredor em direção aos quartos.
estava concentrada na página do no Instagram e não notou o apelido que me dera, muito menos a sua irônica reverência. Mesmo assim, fiz questão de dizer alto o suficiente para que ele ouvisse:
— Seu irmão é um cretino!


QUATRO



Me levantei 5:30am, como fazia praticamente todos os dias, coloquei o moletom, a calça, meu tênis e saí para minha corrida matinal. Correr era o que me ajudava a pensar e naquele momento eu precisava repassar cada palavra do que seria dito na reunião com o Anthony Brandon e seu advogado, dali algumas horas. Coloquei os fones de ouvido e saí do quarto em direção à porta do meu apartamento, mas enquanto procurava pelas chaves na mesa da sala, me deparei com jogada em meu sofá.
Qual era o problema com aquela mulher? Não era como se a casa dela fosse longe demais para ela não conseguir ir embora. Olhei as taças e garrafas de vinho espalhadas pela mesa e encontrei a explicação, provavelmente ela estava em coma alcoólico. Além de louca, pelo visto minha vizinha tinha problemas com bebidas. Bufei e já estava saindo dali quando a vi tremer e encolher o corpo. Merda! Ok, eu não gostava da , mas aquilo não era motivo para deixá-la morrer de frio no meu apartamento, afinal eu não queria ser acusado de homicídio culposo ou, nesse caso, abandono de incapaz.
Me repreendi por aquele pensamento escroto, caminhei até o quarto, peguei um edredom e voltei para cobri-la. Assim que sentiu o cobertor sobre o corpo, se aninhou e um leve suspiro de prazer saiu de seus lábios. Senti um arrepio em minha nuca. Ainda que não fosse lá muito seu fã, ali parada, em silêncio, era difícil não notar sua aparência. não era linda, daquelas belezas óbvias que viram cabeças pela rua, era algo diferente - e eu não estava me referindo a suas roupas exóticas -, algo do tipo que a cada olhar você encontra outra coisa nova para admirar. Demônios, eu sabia que aquele tipo de beleza era muito mais perigoso. Pensei, enquanto ainda a encarava.
Se eu não soubesse muito bem a personalidade por trás daquele rosto, poderia até imaginá-la nua em minha cama com aqueles cabelos espelhados pelos lençóis e sua pele corada depois de um belo orgasmo. Para meu espanto, murmurou algo e se mexeu, me trazendo de volta à realidade, no reflexo virei para trás e acabei tropeçando no centro. Praguejei baixo e sai dali. A última coisa que queria agora era ter que lidar com a minha vizinha maluca encarando minha ereção matinal. Sim, eu precisava correr.
***

Uma hora depois voltei para o apartamento, tomei uma ducha, me arrumei, preparei o café e continuava na mesma posição. Me escorei no balcão da cozinha tomando um café enquanto a observava dormir e quase comecei a me preocupar de fato com a possibilidade de ela estar em coma alcoólico quando começou a despertar. olhou ao redor, provavelmente tentando se lembrar onde estava e como tinha ido parar ali. Seus cachos caíam ao redor de seu rosto e assim que ela colocou seus olhos sobre mim, suas bochechas coraram.
— Acho que acabei dormindo em seu sofá. – disse com aquela voz rouca recém-saída de um bom sono
Ela passou a mão pelos cabelos, no que eu supus ser uma tentativa de domá-los.
— É-É o que parece.
Me surpreendi com a minha própria voz falhando. Puta que pariu, o que eu poderia fazer? Seu cabelo bagunçado e sua voz rouca, por um segundo, fez a imagem dela recém-saída de um sexo selvagem voltar à minha mente. Eu não estava preparado para aquela porra de imagem e muito menos para a reação do meu corpo. Dei a volta no balcão, fazendo o possível para esconder a ereção em minha calça. Era só o que me faltava, agora tinha ereções apenas graças a minha imaginação, igual a um adolescente no cio. Bufei, peguei uma caneca no armário, a coloquei sobre a bancada e a servi com café.
— Café? – Os olhos dela semicerraram e ela hesitou. — Ou talvez você prefira algo mais... Alcoólico. – Disse indicando com a cabeça a mesa ao centro com as garrafas vazias.
revirou os olhos, fez menção de se levantar, mas na mesma hora ela levou a mão a cabeça e voltou a se sentar.
— Da próxima vez que resolver encher a cara, é melhor se lembrar que existe o dia seguinte, Whitney.
Em segundos seu rosto adquiriu um tom vermelho.
— Olha... – ela encarou o chão por alguns instantes e depois voltou a me fitar, seu rosto ainda mais vermelho do que ao acordar. — Sobre ontem à noite...
Arquei a sobrancelha.
— O que teve ontem à noite? – perguntei olhando-a por detrás da caneca enquanto tomava um gole de café.
Esperei até que ela resolvesse falar, o que levou bem uns três minutos de silêncio constrangedor, pelo menos para ela, porque eu estava me divertindo e muito. pigarreou, respirou fundo e se levantou caminhando até a cozinha. Observei-a enquanto dava a volta no balcão, seus olhos sempre focados no chão.
— Se vamos mesmo ter essa conversa constrangedora, primeiro eu preciso de um café. - disse pegando a caneca que eu tinha lhe oferecido e parado há alguns metros de mim.
Sorri sarcástico enquanto a dava um longo gole no café. O suspiro de prazer que saiu de seus lábios me pegou de surpresa e atingiu em cheio o meu pau. Merda! Quem diria que ver uma mulher bebendo café poderia ser algo sensual? Travei o maxilar. O John tinha razão. Estava tão focado no trabalho que tinha negligenciado uma das necessidades mais básicas do ser humano: transar. Era isso, falta de sexo. Essa era a única explicação para meu corpo estar reagindo a daquela maneira.
— Eu gostaria de me desculpar... - sua voz era um sussurro me trazendo de volta a realidade.
— Se desculpar? – a interrompi, colocando a caneca sobre o balcão e deixando o braço estendido ali, a apenas alguns centímetros do seu quadril. — Pelo o que, ? – eu me aproximei um pouco mais fazendo-a recuar. — Por subir em meu sofá, beber o meu whisky ou por confessar que me acha gostoso demais?
arregalou os olhos e quase cuspiu o café.
— Eu não disse isso.
— Ah, você disse sim. – Ela balançou a cabeça afastando-se um pouco. — Você disse inclusive que adoraria que eu a levasse para a cama.
Tentei prender o riso ao ver o constrangimento pigmentar cada canto do rosto dela.
— Eu jamais diria algo assim. – Ela se defendeu, recuando um pouco mais, mas à essa altura eu já tinha dado outro passo em sua direção e já estava presa entre mim e o balcão.
— Você quase implorou para transar ali mesmo no sofá. – disse colando os meus lábios em sua orelha.
— E-eu ... Eu não fiz nada disso.
Eu não sabia que porra era aquela que estava acontecendo comigo. Primeiro estava apenas a fim de tirar a do sério, deixá-la desconcertada até vê-la adquirir aqueles mil tons de vermelho e vê-la ir embora correndo do meu apartamento – de preferência para nunca mais voltar -, mas de repente era eu quem estava gostando demais daquela brincadeira.
— O que foi? - sorri, fitando dos seus olhos até a boca carnuda. — Meu vocabulário não condiz com os romances duvidosos que você tanto lê em seus... Como é mesmo o nome? - encarei seus lábios outra vez. Qual era o meu problema com a boca daquela mulher? — Ah sim, encontros de cultura e arte?
bufou.
— Saiba você que todos os livros que lemos são clássicos de muito bom gosto. - disse empinando o queixo.
— Aposto que sim. Cinquenta tons de cinza? - dei uma piscadela.
revirou os olhos, mas seu rosto estava claramente corado.
— Não sou adepta a BDSM, .
— Será mesmo que não? – arqueei a sobrancelha. — Por acaso você já experimentou? - fitei-a malicioso da cabeça aos pés e voltei a encará-la. — É sempre bom estar aberta à novas experiências, . – Dei uma piscadela.
Lá estava, estremeceu, sua respiração ofegou e seu rosto ficou vermelho como um pimentão. Eu finalmente tinha conseguido tirá-la do sério, mas a que custo? Agora era eu quem estava imaginando-a presa em minha cama usando apenas uma das minhas gravatas. Seus cabelos caindo sobre meus lençóis, como uma ninfa pronta para ser adorada enquanto eu decidia por qual parte do seu belo corpo eu começaria a prová-la.
— Se quiser, posso lhe ensinar uma coisa ou outra.
Aproximei ainda mais meu corpo ao dela, um suspiro baixo saiu dos seus lábios me fazendo sentir outra fisgada em minha virilha. O que será que aconteceria se eu a pegasse por aquele belo traseiro e a jogasse em cima daquele balcão?
— Olha só, vocês já estão de pé!


CINCO



O que, pelo amor de todos os santos, tinha acabado de acontecer ali naquela cozinha? Primeiro eu estava perdida em um sonho louco no qual eu perseguia o e a Kim Kardashian com uma faca em mãos. Depois comecei a sentir um cheiro delicioso de café e fui teletransportada para uma tarde na cozinha da minha avó Judy, com todas as suas plantas, cristais e mandalas. Vovó Judy sorriu para mim, seu costumeiro copo de café em mãos, e me disse:
“O passado é passado, docinho. Há sempre coisas novas para serem descobertas. Abra-se para a vida, meu bem!”
Eu abri a boca para lhe perguntar o que ela queria dizer com aquilo, mas então senti minha cabeça sendo esmagada e uma luz intensa atravessou meus olhos, me acordando. Meu Deus, de quem tinha sido a ideia de beber tanto ontem à noite? Ah claro, ! Por falar em , onde é que eu estava?
Abri os olhos mais uma vez tentando ignorar a forte dor de cabeça que a claridade estava me causando. Olhei ao redor e quando vi escorado no balcão de sua cozinha, impecavelmente vestido em um terno cinza escuro, me encarando por de trás da sua xícara, eu quase desmaiei. Imediatamente meu rosto ficou vermelho. Tentei ajeitar os meus cabelos, que provavelmente estavam parecendo uma juba, depois passei a mão por meu rosto na tentativa de limpar a baba seca no canto da boca. Jesus, eu tinha certeza que devia estar parecendo uma louca naquele instante.
Então, de alguma forma, entre o momento em que eu tentei me ajeitar (leia-se: domar o meu cabelo) e me desculpar com o pelo choro de autopiedade e pelas coisas que eu tinha dito a ele na noite passada - aparentemente a quantidade de álcool não tinha sido o suficiente para me causar uma amnésia, o que era uma pena – de repente eu estava presa entre ele e o balcão de sua cozinha discutindo minhas preferências sexuais na cama. Senhor!
— Não sou adepta a BDSM, .
— Será mesmo que não? – ele arqueou a sobrancelha. — Por acaso você já experimentou? É sempre bom estar aberta a novas experiências, .
Ok, eu não suportava , mas eu não podia negar que assim que aquelas palavras saíram de sua boca e seus olhos me fitaram com malícia, eu senti meu rosto esquentar, meus mamilos endureceram e os cabelos da minha nuca se arrepiaram. De repente a imagem de em minha frente, usando aquele terno bem alinhado e seu olhar sacana enquanto ele caminhava até mim, deitada, nua, com os braços presos na cama pela gravata preta que ele usava agora, veio em minha mente.
— Se quiser, posso lhe ensinar uma coisa ou outra.
Então ele se aproximou um pouco mais e por uma fração de segundo eu senti meu corpo desejando e... Meu Deus, ele estava excitado?
— Olha só, vocês já estão de pé!
surgiu de repente me salvando do que poderia ser o meu segundo maior arrependimento na vida ( Grant figurava no topo da lista, obviamente). Eu me afastei e o pigarreou ficando de costas para nós duas por alguns segundos. Ele fingiu procurar algo na geladeira enquanto a se aproximava de nós para pegar uma xícara de café.
— Então, , está melhor? - ela disse, enchendo a caneca com o líquido preto.
Levei um tempo para me adaptar à mudança brusca do meu corpo naqueles últimos instantes, depois suspirei e me caminhei até ela para encher minha xícara outra vez. Eu definitivamente precisava me afundar em litros de café na esperança da ressaca e daquelas sensações inesperadas que a aproximação do tinha causado em mim.
— Se por melhor você quer dizer com ressaca física e moral – disse olhando de soslaio para . — estou ótima. - Dei um sorriso falso.
suspirou e passou a mão pelo meu ombro.
, não fique assim, nós vamos achar uma solução.
Bufei.
— Acho que a única solução no momento seria eu cortar os pulsos.
revirou os olhos e fez um barulho que deixava bem claro sua desaprovação.
— Que tal encarar a situação como adulta?
Obrigada, meu Deus por ter enviado a naquele exato momento, definitivamente pegar o iria para o topo da lista de arrependimentos da vida. Agradeci aos céus enquanto o fitava com deboche.
— Essa sou eu sendo adulta, . - Sorri.
— Claro que é!
— Sabe o que eu acho? – disse alheia ao clima arisco do ar. — Acho que podíamos fazer igual aquele filme, como é mesmo o nome? Aquele que a mulher paga um cara para ir com ela no casamento da irmã...
— Bem Acompanhada. – Respondi baixinho.
Se já achava o meu gosto por livros duvidosos imagine se ele soubesse a minha lista de filmes.
— Isso! - sorriu empolgada. — Deve ter algum cara na internet para se passar por seu namorado, nada que uma grana não resolva. - Ela deu uma piscadela como se todos os meus problemas tivessem sido resolvidos naquele instante.
Ótimo, nada melhor do que chegar ao casamento da minha irmã com um gigolô de acompanhante. Sim, , problema resolvido, pensei imaginando a Tia Margot encarando um moreno alto todo vestido no couro parado ao meu lado no meio do casamento. Por um instante cogitei aquela possibilidade, mas então, a realidade me bateu.
— Não sei nem como vou pagar o aluguel esse mês, imagine pagar alguém para sair comigo. - Suspirei. — Sem falar que isso é humilhante.
Os ombros de caíram em sinal de derrota.
— Então, vamos sair hoje à noite. - disse tentando ser otimista. — Temos pouco mais de um mês para encontrar um namorado para você.
Eu ri.
— Não querendo ser pessimista mais uma vez, mas tem um ano que não encontro um namorado, você acha que vou encontrar em um mês?
— Há sempre alguém desesperado, . – sorriu irônico.
Quase tinha me esquecido de sua presença, se é que era possível alguém não enxergar aqueles quase 1.90 de músculos destacados em um terno cinza bem alinhado. Ele não podia pelo menos se vestir mal? Ter mau hálito?
— Por acaso você não está atrasado para alguma audiência muito importante no seu mundo muito adulto?
sorriu debochado e olhou o relógio no pulso. Seu rosto ficou pálido.
— Puta que pariu!
E com isso ele pegou sua pasta no balcão, jogou sobre o ombro e saiu correndo do apartamento.
— Ele tem razão sabe, há sempre alguém desesperado. - disse assim que ficamos a sós.
— Nesse caso esse alguém sou eu – suspirei. — Como vou encará-lo, ? Ele vai estar lá todo lindo e incrível com sua noiva linda e incrível durante uma semana e eu vou simplesmente ter que aguentar isso? - senti a vontade de chorar voltando com tudo e dessa vez não tinha a desculpa da bebida, era a humilhação nua e crua. — Não basta ter que voltar para casa, praticamente falida, ter que encarar meus pais e minha irmã caçula superdotada casando na igreja que sempre sonhei? Não, tenho que aguentar meu ex e sua noiva Kardashian? Sério?
— Nós vamos dar um jeito nisso, prometo! - passou a mão pelo meu braço e sorriu. — Vamos começar marcando alguns encontros na internet, não custa nada.
Dizendo isso foi até o quarto, pegou seu notebook e retornou. Então era isso, eu tinha algumas semanas para achar alguém tão desesperado quanto eu.
Que comecem os jogos!


SEIS



— Ouvi dizer que até o final do dia o Parker vai nos procurar para fechar o acordo. – John disse assim que entrou no meu escritório.
Já fazia praticamente uma semana desde a audiência que tivemos com o Parker, advogado da Indústrias Brandon, mas até o momento eu aguardava um retorno seu. Aquela merda estava me deixando ansioso. Eu tinha feito tudo o possível naquela reunião para que a única saída do Parker fosse fazer o acordo, aceitando o valor exorbitante oferecido por nós, e consagrar de vez minha capacidade a frente do setor jurídico daquela empresa, mas o filho da puta estava me cozinhando em banho maria. Olhei mais uma vez para a tela do meu celular, nada. Nem uma novidade se quer. Merda!
— Se até o final do dia ele não ligar, vamos retirar a oferta. – Disse assinando alguns dos documentos que o John tinha deixado sobre a mesa.
John concordou com um aceno de cabeça.
! - Levantei a cabeça e vi o Sr. Watson, passando pela porta do meu escritório e caminhando em minha direção.
Cameron Watson era exatamente a mesma coisa desde quando eu o tinha conhecido aos cinco anos de idade, um cara baixinho e rechonchudo, mas o seu espírito altivo e inteligência o tornavam gigante. Ele e sua esposa, Margareth, foram grandes amigos de meus pais e eu devia muita coisa àquela família, principalmente, estar onde eu estava hoje.
Quando meus pais faleceram, o velho e fodido clichê dos pais que morrem um acidente de carro, eu estava no terceiro ano da faculdade e no ensino médio. Um mês depois do acidente eu estava decidido a largar a faculdade e procurar um emprego que fosse o suficiente para sustentar eu e a sem que ela precisasse abandonar os estudos. Quando soube o que eu estava prestes a fazer, Cameron Watson apareceu em nossa porta e disse que, em memória aos meus pais e a amizade que eles tinham, ele bancaria minha faculdade. Lembro até hoje quando ele colocou sua mão rechonchuda em meu ombro e disse firme: "Ouça, garoto, não desista, faça sua parte, dedique-se, e quando você estiver pronto, tenho uma vaga para você em meu escritório." Aquelas palavras tinham mudado a minha vida e eu sempre seria eternamente grato a ele. Desde então, Cameron Watson nunca tinha deixado de me apoiar, nem mesmo no ano passado quando eu quase botei tudo a perder. Era por isso que agora eu não fazia outra coisa a não ser tentar provar a ele que o seu voto de confiança não foi em vão.
— Sr. Watson. - Assenti fazendo sinal para que ele se sentasse.
Ele dispensou a cadeira e veio até mim.
— Nunca vou convencê-lo a me chamar de Cameron, não é, garoto? - Sorriu. — Só consegui chegar agora de Washington e precisava vir lhe dizer. - Sr. Watson segurou minha mão com força. — Parabéns por sua atuação com o Parker, ele deve estar tremendo até agora! – Sua risada grossa preenchendo todo o ambiente. — Sabia que não tinha me enganado com você, garoto. Você tem o dom!
Sr. Watson deu alguns tapas em meu ombro, me cumprimentando.
— Obrigado, senhor.
Ele finalmente se sentou e ficou ali por mais uns minutos conversando comigo e com o John sobre os benefícios que sua estadia em Washington traria para a empresa. Quando o Sr. Watson me convocou e disse que iríamos começar a expandir os negócios através da compra e venda de empresas falidas, eu me preocupei. Poucas pessoas eram capazes de fazer um negócio como àquele dar certo, mas o cara era um falcão que raramente errava em suas decisões.
— É claro que precisamos analisar tudo com cuidado.
— Claro. - Eu e John assentimos. — Uma coisa é nossa expansão aqui na Europa, onde já estamos consolidados, outra coisa é ir para outro continente.
— Exatamente, garoto. - Sr. Watson assentiu. — E é claro que eu e você ainda iremos conversar muito sobre essa decisão. - Ele sorriu e se levantou. — Agora, preciso ir, se eu atrasar para mais um jantar, a Margareth vai arrancar minhas bolas. - Riu alto da própria piada sobre a sua esposa.
— Mande um abraço para ela e diga que em breve vou visitá-la.
— Vá mesmo, você sabe como ela se derrete toda por você. - Sorri. Margareth Watson era uma das pessoas mais incríveis que eu conhecia. — Se eu não tivesse tanta certeza de que sou o homem da vida dela, estaria preocupado.
Rimos e nos despedimos, mas antes de sair, Sr. Watson parou na porta e me fitou:
— Semana que vem vou oferecer um jantar em minha casa, se até lá você tiver uma posição do Parker, falaremos de negócios. - Assenti.
Ele deu uma piscadela e saiu, no mesmo instante um John empolgado virou-se para mim:
— Você sabe sobre qual tipo de negócios ele quer falar, não sabe?
— Espero que seja o que estou pensando. - disse indo até o aparador ao lado da mesa do escritório e me servindo de um pouco de água.
— Bom, não sei o que você está pensando, mas a Gina, do RH, me falou por alto algo que ela ouviu a Megan, secretaria do Sr. Watson, conversando no refeitório.
Me escorei no aparador e bebi um gole d'água.
— Você está me saindo uma ótima fofoqueira, John.
Ele fez uma careta.
— Você não quer saber a informação?
Sorri.
— Desembuche de uma vez.
— A Megan disse para a Gina que ouviu o Sr. Watson discutindo com alguns acionistas a possibilidade de você se tornar o diretor geral da CW, agora que o Jordan irá para a filial em Istambul.
Fui incapaz de conter um sorriso, esperava por aquela oportunidade já a algum tempo, mas o John fez uma careta, como se ainda tivesse algo a mais para dizer e que, provavelmente, eu não iria gostar.
— Diga logo tudo de uma vez. - falei me encaminhando para a poltrona em sua frente.
— Bem, parece que os acionistas estão um pouco receosos de... - pigarreou. — Na verdade, eles querem indicar o Granger.
Meu corpo enrijeceu. Há quase 10 anos eu dava meu sangue por aquela empresa. Vivia para aquele trabalho vislumbrando a possibilidade de crescer dentro da empresa e agora, quando finalmente eu teria a oportunidade, o Granger, aquele almofadinho de merda, poderia roubar o meu lugar? Não mesmo.
— Que porra é essa?
— Bem, parece que os acionistas estão preocupados com o que houve... - John fitou qualquer lugar menos meu rosto e pigarreou. — Você sabe.
— Caralho! - bufei batendo o punho sobre a mesa. — Aquilo foi uma única vez, um vacilo.
John concordou e continuou:
— O que Gina disse que ouviu a Megan dizer – revirei os olhos. Meu assistente era a porra de uma velha bisbilhoteira. — é que o Sr. Watson está mesmo pensando em você ou no Granger para o cargo, porém, as chances do Granger são maiores porque, bem... - o John estava tentando segurar o riso, mas ele percebeu o meu olhar furioso e no mesmo instante ficou sério. — Segundo o que a Megan disse, ele é casado, né? Um cara de família... - senti o deboche na voz de John, o fuzilei com o olhar e ele deu de ombros. — Qual é?! Todo mundo sabe que você está bem longe de mudar o status de solteiro.
Bufei. Aquilo era ridículo. Essa era a chance pela qual eu estava esperando durante todos aqueles anos e os acionistas pensavam que status de relacionamento era quesito para desempate? Eu era muito mais competente do que o bosta do Granger, aquilo era óbvio. Podia não ser mais sociável ou “homem de família”, mas tinha certeza de que era melhor. Pensei sentindo a raiva tomar conta de mim. Desde quando estar ou não em um relacionamento poderia definir a minha capacidade para sócio?
— Isso é ridículo! - me levantei de vez. Eu estava furioso. Furioso comigo, por ter feito aquela merda no ano passado e furioso com a porra dos acionistas que pelo visto tinham ficado presos no século XVIII. — Como eles podem achar que o Granger é melhor do que eu só por que é casado? O que essa porra tem a ver?
John deu de ombros.
— Acho que para ser parte da diretoria você tem que ter uma vida exemplar. - John deu um sorrisinho cínico.
— Voltamos a porra da Idade Média e ninguém me avisou? – Bufei. — Por que não contratam o Papa então?
— Não sei, , também não vejo lógica nisso. - John ficou em silencio por alguns instantes, depois suspirou e disse: — Acredito que o incidente do ano passado deixou os acionistas um pouco receosos com relação a sua imagem associada a um cargo tão importante na empresa.
Praguejei e dei um murro na mesa. Eu iria matar o Peter Granger e todos aqueles acionistas ridículos.
— Isso é algo que você sempre quis, não é? Ter seu nome em destaque na empresa. - John levantou as mãos como se anunciasse um letreiro e disse: — , diretor geral da Indústrias CW, acho que soa até melhor do que Peter Granger. - Sorriu.
— Não importa se soa melhor se eu não tenho a merda de uma esposa.
Ouvi um barulho na porta, parecido com uma risada, levantei o olhar e vi entrando na minha sala com seu melhor sorriso.
— Oi, irmão. - ela continuou sorrindo, como se tivesse acabado de ganhar na loteria. Ela estava aprontando alguma coisa. — Olá, John.
Na mesma hora o rosto moreno do meu assistente adquiriu um leve tom avermelhado, ele pigarreou, se levantou, fechou o botão do paletó e sorriu sem jeito.
— Olá, , como tem passado?
Olhei de soslaio para ele, nunca tinha o visto ficar tão formal, nem mesmo com seus clientes, mas já tinha reparado que todas as vezes que o John e a se encontravam ele tinha aquela mesma reação.
— Bem, obrigada. – Minha irmã colocou uma mecha de cabelo para trás da orelha, sorriu e olhou para o chão.
Diabos! Eu tinha quase certeza de que eles estavam flertando bem ali na minha frente.
— O que você faz aqui, ?
Ela sorriu inocente e disse:
— Tive um intervalo na galeria e queria saber se você não gostaria de ir almoçar comigo.
Concordei, me levantei, peguei o terno que estava sobre a minha cadeira e o vesti.
— John. – O chamei, mas ele estava muito concentrado babando sobre a . — McPhee!
Ele se sobressaltou e desviou o olhar da minha irmã, me encarando constrangido.
— Sim?
— Qualquer ligação do Parker, me avise. – Assentiu. — Volto em uma hora.
— Ok, chefe.
— Vamos? - perguntei a .
— Vou ao banheiro e te encontro no elevador. – Ela foi até a porta, depois olhou para trás e sorriu. — Até mais, John.
Em seguida tive quase certeza de tê-la visto pegar o celular no bolso e digitar algo com um sorriso travesso nos lábios. Esperava estar errado, porque quando a sorria daquele jeito só podia significar uma coisa: encrenca.


SETE




Uma semana havia se passado desde o dia que eu tinha recebido aquele maldito convite e somente naqueles últimos dias tinha me arranjado 10 encontros às cegas, o que provou que no fim das contas estava mesmo certo, havia sim pessoas desesperadas. Até demais. Depois de 10 encontros com o mais variado tipo de pessoas, dentre elas três adolescentes cheirando a leite, dois quarentões querendo me vender maconha, três aposentados beirando a cova e, até mesmo, duas mulheres, eu já estava aceitando a realidade. Eu seria a dama de honra solteirona e fracassada da minha brilhante irmã caçula.
— A senhora está me ouvindo?
Uma garota de uns 19 anos estava parada em minha frente no caixa da livraria. A palavra “senhora” me causou um desconforto no estômago e me trouxe de volta a realidade.
— São 10 libras.
Enquanto embalava o livro escolhido pela cliente, “Como eu era antes de você”, mordi a língua para não dizer a ela que deveria se poupar daquele sofrimento sendo ainda tão jovem, porque o Frank já tinha chamado a minha atenção diversas vezes por querer dar opinião nas compras dos clientes, então terminei de embalar, ignorando o meu sentimento de crítica literária e lhe entreguei o troco.
— Como alguém ainda compra esse livro? - ouvi Miley, minha esotérica colega de trabalho resmungar ao meu lado.
— Algumas pessoas são masoquistas. - Dei de ombros, ignorando o meu subconsciente gritando que eu era uma daquelas pessoas. Sim, Jojo Moyes era uma destruidora de corações, mas eu a amava. — Pode segurar as pontas aqui alguns minutinhos? Meu celular não para de vibrar, acho que pode ser uma emergência.
Miley me lançou um olhar desconfiado e eu me virei em direção a porta dos fundos. É claro que eu sabia muito bem que aquela emergência tinha nome e um chanel maravilhoso: .
— Puta que pariu, achei que você não fosse atender nunca mais!
Revirei os olhos.
— Qual a parte do “não posso atender telefone no trabalho” que você não entendeu até hoje? - sorri.
— Garota, nós estamos em uma situação de vida ou morte.
— Por que você está sussurrando?
— Estou no banheiro, agora foco, tenho novidades.
— Ai meu Deus.
— Achei o cara perfeito.
Estremeci.
...
— Não, nada de , juro que dessa vez será o cara dos seus sonhos.
— Da última vez que você me disse que eu iria conhecer o cara dos meus sonhos acabei tendo um encontro com uma loira alta e sensual.
bufou.
— Não tenho culpa se os americanos acham legal nomes unissex.
Sorri.
— Quem é o desesperado da vez?
— Não posso dizer agora, estou com pressa, mas à noite te espero lá em casa.
A lembrança de um dentro de seu terno cinza perfeitamente alinhado parado na cozinha a centímetros de mim veio a minha mente. Desde aquele dia eu evitava com todas as minhas forças ir à casa da ou encontrar com o . Sério, todas as vezes antes de sair de casa ou descer do táxi para entrar no prédio eu olhava ao redor como se estivesse fugindo de um serial killer. Era isso ou encará-lo e ter a certeza de que as lembranças da nossa, bem, interação na cozinha, viriam a minha mente e imediatamente ficaria vermelha como um pimentão.
, não acho que...
, esse é o cara perfeito, juro.
Ouvi um resmungo do outro lado da linha, alguém a estava chamando.
— Não posso falar agora, tenho que ir.
— Ok.
Estremeci outra vez. Em que momento da minha vida eu tinha me tornado a garota desesperada que topa ter tantos encontros às cegas em uma semana? Ah sim, no momento que recebi aquele bendito convite. Bufei e estava prestes a voltar ao trabalho quando recebi outra ligação: minha mãe. Senti ânsia de vômito. Eu geralmente ignorava suas ligações sempre que possível, mas àquela já era a sua sexta chamada e ainda era meio-dia. Que Deus me ajude!
— Olá.
— Olá?! Estou te ligando desde ontem e você me atende assim? Com um olá?
Suspirei.
— Desculpe, mamãe, ando muito ocupada e não tive tempo de retornar suas ligações.
Minha mãe dei um risinho debochado.
— Ah, com certeza deve ser muito trabalhoso tirar o pó desses livros.
Respirei fundo. Agora eu me lembrava muito bem o porquê eu evitava as suas ligações.
— Bom, como por algum milagre você finalmente me atendeu, não vou perder o meu tempo falando sobre esse seu hobby exótico. - Revirei os olhos. — E não revire os olhos para mim, .
Elizabeth era uma bruxa, literalmente.
— Não estou fazendo isso. - Disse me sentindo a mesma garotinha insegura de anos atrás.
— Carreguei você em minha barriga por nove meses, , sei exatamente o que você está fazendo agora.
Meu Deus, o que será que aconteceria se eu desligasse o telefone agora?
— Mamãe, tenho que...
— Você engordou?
Suspirei. Eu ia mesmo desligar na cara dela.
— Como?
— Preciso saber se você engordou, porque dei a Mia as medidas do seu vestido de noiva para ela adiantar o seu vestido de madrinha, já que você, obviamente, não vai se dar ao trabalho de vir aqui tirar as medidas.
Pelo menos nisso ela tinha razão.
— Não, não engordei, sigo tamanho 40.
— Ótimo, porque a cor das madrinhas será verde menta e Deus sabe que se você tivesse engordado mais um pouquinho que fosse, com certeza iria parecer um bombom lá no altar e não é isso que queremos, não é?!
Mordi o lábio me controlando para não soltar um palavrão. Minha mãe era capaz de despertar o meu pior lado e, é claro que eu ficaria horrorosa em um vestido verde menta, mas até parece que a Mia iria escolher alguma cor que fizesse suas madrinhas se destacarem mais do que ela.
— Mamãe, era só isso? Porque preciso voltar ao trabalho, sabe como é, ainda tem muito pó para tirar.
— Não gosto do seu tom, .
Suspirei. Aquela era sua frase clássica quando queria nos repreender.
— Desculpe.
— Tem mais uma coisa. - Me preparei para a próxima bomba. — Você já conseguiu um acompanhante? - Era o meu fim. — Porque a Marilyn Mae, minha amiga da Igreja, me disse que o irmão dela também está solteiro e bem, não é exatamente um homem jovem, mas tenho certeza que é melhor você ter um acompanhante idoso do que nenhum.
Ok. Aquela era minha deixa ou eu desligava agora ou teria um derrame cerebral.
— Mamãe, tenho mesmo que desligar, o meu chefe está me chamando. Mande um beijo para o papai. Tchau.
Encarei perplexa a tela do meu celular. Que ligação tinha sido aquela? Há muito tempo eu tinha aprendido a lidar com a personalidade da minha mãe, mas ainda assim, em momentos como aqueles, ela era capaz de me surpreender. Ela achava mesmo que eu iria encarar aquele casamento tendo como acompanhante um senhor em um andador enquanto o desfilava com sua Kim Kardashian? Pelo amor de Deus! Senti uma onda de desespero invadir o meu corpo, procurei o nome da no celular e digitei uma mensagem:
Acho bom esse cara ser o homem da minha vida!
Tinha que ser.


OITO



— Você enlouqueceu?
Pela primeira vez eu fui obrigado a concordar com algo que saia da boca de . Estávamos ali no nosso apartamento há quase meia-hora enquanto a tentava explicar todo o seu plano sobre "como eu e seríamos perfeitos juntos" como se fosse a pessoa mais sensata e lógica do mundo, mas bastou reunir nossos nomes em uma única frase para que sua “palestra” fosse por água abaixo. Só havia duas explicações para aquela proposta totalmente sem lógica da : ela estava louca ou minha irmã andava fazendo uso de entorpecentes.
— Você quer que eu e o fiquemos noivos? - encarava a com uma genuína perplexidade.
Minha irmã enrubesceu diante do tom "você só pode estar delirando" que a usou, abaixou os olhos e deu de ombros.
— Que vocês finjam estar noivos.
— O que dá no mesmo nível de loucura. – bufou e virou-se para mim: — Você não vai dizer nada?
Tomei um gole do whisky para ganhar tempo, eu ainda estava tentando absorver toda aquela ladainha da . Segundo ela, uma mão lavaria a outra. precisava de um acompanhante para ser capaz de suportar o casamento da irmã mais nova - o que no meu ponto de vista não passava de infantilidade-, e eu, bem, graças a merda de uma empresa que vivia no tempo das cavernas, precisava me mostrar inclinado a uma vida monótona, digo, monogâmica.
— Não é loucura, , é uma ideia brilhante! - minha irmã protestou.
— Realmente brilhante, . - riu sarcástica. — , pelo amor de Deus, diga alguma coisa.
Ela me encarou com seus olhos suplicantes por um apoio, mas...
— Eu... - hesitei, analisando dos pés à cabeça.
Não podia ser assim uma ideia tão ruim, poderia?
— Meu Deus, você não pode estar achando que ela tem razão, está?
, é claro que eu tenho razão. - resmungou levando as mãos ao quadril.
Demônios! Eu sabia que ela estava prestes a lançar o melhor de seus argumentos, era sempre assim quando brigávamos e ela colocava as mãos no quadril. Pobre, .
— Você precisa de um acompanhante para o casamento da sua irmã caçula no qual, - ela deu uma pausa dramática, — o seu ex vai estar lá com a noiva, que vamos combinar, parece ter saído diretamente da porra da capa da Vogue e o precisa de uma noiva para se tornar diretor geral na empresa em que a vida toda ele deu praticamente o sangue. - Então ela cruzou os braços, lá vinha a cartada final. Pensei alarmado. — Vocês precisam um do outro.
Os ombros da caíram, ela cruzou os braços e resmungou. Mas , como boa argumentadora que sempre foi, não parou por aí. Às vezes me perguntava como a não tinha, assim como eu e meu pai, escolhido do Direito, ela com certeza acabaria com qualquer um em um tribunal.
— Não vejo o porquê de vocês não se ajudarem.
— Eu vejo inúmeros porquês. – Eu disse encarando a , como se cada cor de sua roupa fosse um motivo a mais para eu achar aquela ideia uma loucura.
Hoje ela usava um vestido azul piscina, um cashmere vermelho escuro, com meia-calça branca e botas marrons. Sim, cada cor era uma lembrança do porquê definitivamente eu não deveria me associar com a em nada. Mas...
— Primeiro, eu e você, - eu disse apontando para – precisamos ter uma conversa séria sobre seu hábito de ouvir atrás das portas. - Minha irmã empinou o queixo e me olhou desafiante, mas deixei passar. Tinha outra discussão como prioridade. — Entretanto...
— Não! - me interrompeu.
— Entretanto...
— Meu Deus, você está mesmo considerando essa possibilidade? - o queixo de caiu enquanto ela me fitava.
Nem eu mesmo podia acreditar que estava cogitando aquele plano surreal da , mas, uma mão lavaria a outra. Não era isso?
— Você não é exatamente a mulher dos meus sonhos , mas... – novamente a olhei dos pés à cabeça apenas para vê-la reagir como fez a seguir, corando e trancando o maxilar de raiva. — Como eu mesmo disse alguns dias atrás, - encarei seus olhos e sorri sarcástico: — há sempre alguém desesperado.
bufou, se levantou da poltrona, me fitou e, verdade seja dita, ela parecia genuinamente chocada.
— Nós dois não temos nada a ver.
— Isso é óbvio. - fez uma careta. — Mas como eu adoro discordar de você... Neste caso, temos sim algo em comum. - arregalou os olhos. — Precisamos mentir para algumas pessoas em benefício próprio.
Ouvi as palmas empolgadas da cortar o silêncio e em seguida ela deu um soquinho no ar.
— Isso mesmo, ! - ela sorriu radiante. — , vejam só, vocês podem se ajudar!
fez uma careta. Claramente o que eu e ela víamos como um plano sem sentido e com tendência ao desastre, a o via como brilhante. Diabos, nunca tinha visto ela tão empolgada desde o dia em que conseguiu o emprego na Galeria.
...
— Não, , escuta. - Minha irmã interrompeu daquele seu jeito mandona que não dava abertura para outros argumentos. — O casamento da sua irmã será uma semana inteira de eventos torturantes e se você chegar lá solteira vai ser pior ainda, nós sabemos disso. – estremeceu. — Tenho certeza que o zé mané do vai fazer questão de exibir sua Kardashian a semana toda.
— Meu Deus... – ela mordeu o lábio inferior. — Eu não tenho qualquer chance perto daquela mulher, não é?!
! – a repreendeu e por um segundo senti à vontade de fazer o mesmo.
Era óbvio que a não percebia que mesmo com todas aquelas cores berrantes compondo o seu visual, ela era atraente e, principalmente, como a ideia de ela precisar de um cara para aparecer em uma festa de casamento era ridícula. Seja lá quais foram os motivos para que seu ex terminasse com ela, assim que ele colocasse os olhos naquela mulher parada ali, ele perceberia que tinha sido um erro. E se o cara não era capaz de ver isso, ele era babaca. Pensei, sentindo outro incomodo no meu estômago diante daquela constatação. De onde tinha surgido aquilo? Me levantei do sofá para disfarçar o desconforto daquele pensamento e fui até o aparador para me servir um pouco mais de whisky.
John tinha razão sobre uma coisa: eu tinha mesmo que dar um tempo do trabalho, porque outra coisa já estava ficando mais do que óbvia para mim: eu preciso transar. Urgentemente. Aquela era a única explicação para que nos últimos dias os meus pensamentos estarem sendo tomados por aquele tipo de merda. Tomei o gole de uma vez só e voltei a falar:
— Olha, , por mais que eu ache que você deveria mandar esse povo se foder e ir até lá como uma mulher adulta, solteira e dona de si, afinal de contas, estamos no auge do empoderamento feminino... – disse seco enquanto a sorria para mim como uma mãe orgulhosa e a estreitava os olhos, claramente desconfiada do que eu falaria a seguir: — Acho que a tem razão. - piscou os olhos algumas vezes, como se ainda absorvesse o que eu tinha dito. — Podemos realmente nos ajudar.
O silencio reinou por alguns segundos no meu apartamento, até que passou a mão por uma mecha de cabelo que caia do seu rabo de cavalo, começou a mexê-la nervosamente e disse:
— Isso é um desastre. - Suspirou. — Cheguei ao fundo do poço.
— Fico lisonjeado. - disse sarcástico.
Ela suspirou pesarosa pela milésima vez.
— Não acredito que estou mesmo cogitando a possibilidade de me associar a você. - disse baixo, mas não o suficiente para que eu não pudesse ouvir.
— Olha, se você...
, olhe para o ! - Minha irmã interrompeu e apontou para mim, antes que eu começasse a dizer algumas verdades para a . — Qualquer mulher que estiver neste casamento vai sentir inveja de você, até a Mia vai desejar que o seja o noivo.
Sorri presunçoso. Quem diria que minha irmãzinha era uma mãe coruja?
— Acho que o não precisa de ninguém alimentando ainda mais o seu ego, . - Estava prestes a lhe dar uma resposta, mas mordeu o lábio inferior e me fitou insegura: — Você ficaria uma semana comigo em Sunshine? – perguntou desconfiada. — Com a minha família inteira?
Assenti. Aquilo seria uma tortura, mas precisava pensar em mim também. Mais cedo quando o John jogou aquela bomba em cima de mim eu já tinha certeza de que tudo estava perdido. Se o que fazia do Granger melhor candidato do que eu para o cargo era uma aliança no dedo então, obviamente, eu não teria chances. Mas, quando a começou com toda aquela maluquice de me juntar a em um noivado falso, um lampejo de esperança começou a surgir. Não que fosse exatamente a melhor escolha, mas ela era a única em vista naquele momento, então... Foda-se, eu precisava dela.
— Você iria a eventos sociais do escritório comigo por algumas semanas? - engoliu em seco encarando seus pés.
— Sim.
— E se comportaria como uma boa menina? - Não sei de que porra de lugar tinha saído aquela pergunta, mas acho que fiz apenas para provocá-la e vê-la se irritar, o que, diga-se de passagem, aconteceu instantaneamente. Assim que aquelas palavras saíram da minha boca, cada canto do rosto da adquiriu um tom de vermelho.
— Isso não vai dar certo. - disse balançando a cabeça e colocando a mão sobre o rosto.
Quase sorri por, mais uma vez, conseguir tirá-la do sério. Nunca, em toda minha vida, tinha conhecido uma pessoa que deixasse transparecer tanto seus sentimentos quanto a . E para falar a verdade, estava tão acostumado a conviver com pessoas que eram obrigadas a mascarar suas reações que talvez seja por isso que todas as vezes que a provocava eu sentia aquela satisfação.
— Oh, gente, isso será perfeito! – sorriu, ignorando o clima fúnebre da e dando como vitória certa a sua ideia. — Quase quero ir ao casamento daquela vadia traidora para ver a cara de todos.
— Vamos, por favor? - implorou.
— Eu adoraria, mas tenho prazos a cumprir na galeria. – fez uma careta. — Já sabem que vou querer muitas fotos do meu mais novo casal preferido, né?!
gemeu. Diabos, será que aquela mulher achava que eu tinha algum tipo de doença contagiosa? Já estava quase começando a me arrepender daquela ideia maluca, mas então, a visão do filho da puta do Granger sorrindo para seu nome na porta da sala do diretor geral da CW me veio à mente. Eu nunca deixaria aquilo acontecer.
— Que dia temos que embarcar? - Perguntei me servindo mais uma dose de whisky.
A e a se entreolharam. Aquilo não era um bom sinal.
— Daqui a duas semanas. – A ruiva disse mordendo o lábio. – Chegaremos direto para o jantar de recepção.
Virei o líquido de uma só vez.
— Que Deus me ajude.
Dizendo isso sai para o meu quarto deixando as duas sozinhas, a com um sorriso empolgado e com a certeza de que teria uma dor de barriga em breve.


NOVE



As 19h da quarta-feira, eu estava parada na porta do 1222, meu estômago dava voltas e minhas mãos soavam tanto que a cada 10 segundos eu as limpava em meu vestido. Toquei a campainha e esperei mentalizando todos os mantras piegas que a Miley tinha me ensinado.
Você é incrível! Você é linda e...”
— Onde é o velório?
perguntou assim que abriu a porta de seu apartamento e me fitou dos pés à cabeça. O encarei e a vergonha tomou conta do meu semblante. Não bastasse todo nervoso que estava sentindo, eu ainda tinha que lidar com o fato de que, provavelmente, nunca tinha se vestido mal em sua vida inteira. Sério, tenho certeza de que ele tinha saído da barriga da sua mãe exatamente daquele jeito: em um perfeito terno azul marinho, sapatos marrons e o cabelo impecável. Será que aquele homem nunca vestiu um bom e velho jeans? Ou ficou um dia inteiro enfiado em um pijama com os cabelos bagunçados? Não, claro que não, era impecável.
— Perdão?
— Nunca vi você usando tanto preto de uma só vez. - Ele deu de ombros e fez sinal para que eu entrasse. — Suponho que esteja de luto.
Senti meu rosto corar. Eu tinha passado o dia inteiro nervosa sobre o que eu poderia usar para o jantar que iriamos hoje à noite na casa do chefe do . Para ser sincera, aquele era meu estado desde semana passada, quando combinamos aquele acordo idiota, que eu tinha certeza de que seria um total desastre, até o dia que ele me mandou uma mensagem dizendo: “Jantar importante. Quarta-feira. 19h. Seja pontual!
E quando eu respondi perguntando o que eu deveria vestir e ele, sarcástico como sempre, disse: “O que você quiser, Clark! Tenho certeza de que no quesito roupa você nunca decepciona!” eu sabia que estava ferrada. Então, implorei a para ela ir à rua comigo durante o almoço, pois não tinha a menor ideia do que vestir, pelo menos não para jantar de negócios e pior, como a noiva de .
Quando fomos à minha loja preferida no centro de Londres, a Flower, eu tinha escolhido um vestido azul claro estampado com rosas e uma sandália alta violeta, a tinha me achado linda, mas fiquei com receio de estar colorido demais e era óbvio que eu já tinha recebido olhares desaprovados o suficiente do para saber que ele me mataria se me visse daquele jeito. Então, lá estava eu, parada em seu apartamento, com um vestido preto midi, sandálias pretas e o cabelo preso em um coque (já que meus cachos e rebeldes também poderia chamar muita atenção). Acho que o tem razão, eu pareço mesmo estar indo a um velório, pensei ao ver o meu reflexo em um dos quadros cults da .
— Achei melhor economizar nas cores. - Corei ao olhar para os meus próprios pés, minhas unhas pintadas de vermelho era a única coisa de cor em todo meu corpo. — Sabe como é, nem todo mundo as entendem.
me lançou um olhar que por um segundo pensei ter sido gentil, mas então ele suspirou, passou a mão pela barba e me encarou aparentemente irritado.
, isso jamais dará certo se não for você mesma.
Fitei-o desconfiada. Que papo era aquele?
— Desculpe se estou enganada, mas você não é exatamente um fã do meu “eu mesma”.
Ele assentiu imediatamente. Idiota!
— Mas vamos ser realistas... – ele cruzou a sala e se aproximou de mim. — Já tem grandes chances de isso não dar certo, - disse apontando dele para mim. — Então, acredito que o quanto mais próximos nos mantermos da realidade, melhor. – Seus olhos percorreram meu rosto e por alguns instantes vi algo ali. Algo além da fachada seria, ele parecia apreensivo. Aquele emprego devia mesmo ser importante para ele. — Você não acha?
Nos primeiros instantes tentei absorver o que o tinha acabado de dizer, ele tinha razão, não adiantava acrescentarmos mais mentiras àquele acordo, ele por si só já era um fracasso. E mais uma vez me choquei ao perceber que concordava com ele, não só concordava como estava agradecida. Eu odiava usar preto! Por muitos anos eu tinha sido obrigada a usar as roupas com cores sem graça que minha mãe comprava para mim, pois era o que ela considerava “adequado para uma moça de família”, então, quando vir morar em Londres senti que o primeiro passo para a minha liberdade era começar a me vestir do jeito que eu quisesse e claro, isso envolvia cores, muitas cores.
— Então isso quer dizer que eu posso trocar de roupa? – coloquei as mãos atrás do corpo e mordi o lábio na expectativa de sua resposta.
colocou as mãos dentro do bolso, deu de ombros e eu podia jurar que tinha visto um quase sorriso gentil em seus lábios.
— Deve.

***

De todos os homens que um dia eu tinha imaginado que estaria colocando um anel de noivado em meu dedo e isso inclui Chris , Patrick Dempsey, Mr. Darcy, Idris Elba e Jesse Williams (não necessariamente nessa ordem), o definitivamente era o último que passaria por minha mente. Para falar a verdade, ele nem sequer passava por ela. Qual é, o cara está quase no topo da minha lista de pessoas "non-gratas", sem falar que uma mulher com cabelos , miúda e corpo tamanho 40 não é exatamente o par perfeito para o cruzamento de uma deusa grega com um guerreiro viking. Meu Deus, por que ele tinha que ficar tão bonito naquele terno azul marinho?
Estremeci. Há quem queríamos enganar? Qualquer um que nos visse lado a lado saberia que aquilo ali era uma mentira, pensei enquanto o observava colocar em meu dedo o anel mais lindo que eu já tinha visto e todos aqueles pensamentos ficaram nublados diante da joia em minha frente. Não era um anel exagerado, pelo menos não tanto quanto o que o cretino do Gregory tinha dado a sua Kardashian, era delicado, com uma pedra esverdeada, cravejada com pequenos diamantes ao redor. Prendi a respiração. Era perfeito.
— Meu Deus, esse anel é maravilhoso - suspirei. — Onde você o arranjou? Com certeza não foi em um pacote de salgadinho. - Sorri nervosa.
Segundo Sky, minha amiga de infância que ainda vivia em Sunshine, aquele era um dos meus mecanismos de defesa. Sorrir e fazer piadas em momentos de desespero. Não podia contradize-la, todas as vezes que íamos para a diretoria, a Sra. Adams, nossa diretora carrasca, aumentava os meus dias de detenção a cada risadinha que eu dava, o que, obviamente, me garantia no mínimo três dias recolhendo o lixo da escola e um mês inteiro ouvindo da mamãe como eu era boa em uma única coisa: decepcioná-la.
— Você achou que eu lhe daria um anel de pacote de salgadinho? - arqueou a sobrancelha.
Percebi a indignação em sua voz, mas apenas dei de ombros.
— Sempre espero qualquer coisa de você, . - Sorrisinho.
— Esse anel era da nossa mãe. - disse com a voz embargada e todo o constrangimento do mundo tomou conta de meu corpo.
Gelei. Qual era o meu problema? Por que eu não sabia ficar de boca calada? Encarei a sentindo todo o sangue se concentrar em meu rosto.
— Meu Deus, não posso usá-lo. - disse empurrando a mão do . — Não posso usar o anel de sua mãe para toda essa mentira. - Tentei arrancar o anel, mas o bendito parecia ter enganchado. — Droga!
Arregalei os olhos e levei a mão à boca, eu tinha me libertado de muitas coisas da educação conservadora da minha mãe, mas xingar ainda era algo muito raro para mim, o que só podia significar que naquele momento eu devia estar mesmo muito nervosa.
— Claro que pode, .
Tentei mais uma vez puxar o anel enquanto fitava minha amiga com desespero.
, você é quem deveria usar esse anel um dia, com alguém que você ama e não eu e o para uma mentira dessas.
levantou-se, colocou sua mão sobre a minha, pedindo silenciosamente que eu parasse com aquela tentativa frustrada de tirar o anel. Bufei. Maldita Lei de Murphy.
— E, na verdade, a mamãe deixou esse anel para o . – Ela sorriu com os olhos emocionados. — Para quando ele encontrasse “a garota”, como ela dizia.
Gemi. Aquilo só piorava. Ouvi o bufar ao me ver encolher e depois ele me encarou.
— Olha, , você não é exatamente a mulher para quem eu pensei que um dia daria esse anel. - Outch! Ok, não estava levando nada daquilo a sério, mas ainda assim, não era exatamente aquilo que eu esperava ouvir na minha segunda tentativa de noivado. — Mas eu não tive tempo de procurar por outro e já estamos quase atrasados para o jantar, então por hoje... - ele pegou a minha mão e empurrou o pouco, quase nada, do espaço que tinha conseguido arrastar o anel por meu dedo. — Fique com ele. - fitou-me sério.
Soltei um suspiro pesado e, sem muita escolha, acabei concordando.
— E ?
— Sim? - engoli em seco.
— Não o perca.
Pela primeira vez notei como me encarava com seriedade, seu olhar foi do meu rosto para o anel e uma sombra de tristeza cruzou seus olhos . E de repente, a coisa mais estranha aconteceu, nossos olhares se reencontram e por alguns instantes nos entendemos. Por uma fração de segundos senti uma conexão com que jamais tinha sentido em toda minha vida com ninguém. Aquele homem tinha muitos defeitos, mas definitivamente ele era devoto a família.
Seu olhar estava cravado no meu e toda a devoção que ele entregava à sua família parecia estar ali refletida em suas írises . Uma sensação de admiração e respeito percorreu meu corpo me fazendo assentir e, silenciosamente, senti a necessidade de garantir a ele que o entendia e que teria todo o cuidado do mundo com aquele anel, pois sabia a sua importância.
— Agora um sorriso dos pombinhos para a foto! – A voz animada da junto com a luz do flash desviou nossos olhares. — Meu Deus, vocês acabaram de noivar, sorriam! – Ela deu um sorrisinho conspirador.
— Perdão, estou tão feliz que não consigo mexer um músculo do meu rosto.
disse e eu senti um embrulho no meu estômago. Deus, a quem queríamos enganar? Era óbvio que aquilo nunca daria certo. Qualquer pessoa com um mínimo de consciência saberia no primeiro instante que tudo não passava de uma grande mentira.
— Isso não vai dar certo. – Estremeci.
— Já está querendo o divórcio, meu bem? – ele sorriu irônico.
— Não me chame de meu bem.
— Querida?
Era oficial, eu iria vomitar.
— Acho que devíamos desistir, é sério.
me fitou sério e acho que eu parecia mesmo estar prestes a vomitar, pois ele colocou sua mão sobre a minha e a apertou. Arregalei os olhos e encarei nossas mãos entrelaçadas.
— Vamos, se não vamos chegar atrasados. – Ele virou-se para e a beijou na testa. – Boa noite.
Quando seguimos para o elevador eu ainda encarava a mão grande de entrelaçada aos meus dedos finos. Ele seguiu o meu olhar, sorriu e sussurrou em meu ouvido:
— Acho melhor se acostumar, , gosto de manter as minhas mãos no que é meu.


DEZ



— Odeio garotas!
Minha mãe jogou o pescoço para trás e gargalhou, seus cabelos castanhos balançavam junto com o vento enquanto ela embalava uma gorduchinha e minúscula que a fitava com fascínio. Estávamos no London Fields Park, um parque público situado no oeste de Londres, meus pais sempre nos levavam ali domingo de manhã para um piquenique. Era um dos meus programas preferidos, exceto naquele dia em que Juliet Brigton driblou a bola do meu pé, me derrubou de bunda no chão na frente de todo mundo e fez o gol mais incrível que já tinha visto.
— Quero ver você dizer isso quando crescer. - Meu pai disse passando a mão sobre meu cabelo, bagunçando-o.
— Vou continuar odiando, principalmente as exibidas como a Juliet.
Minha mãe entregou ao meu pai e me puxou para o seu colo.
— Um dia, , você vai conhecer uma garota e o sorriso dela vai fazer o seu mundo girar tão rápido, mas tão rápido, que seu estômago vai embrulhar e suas pernas irão tremer.
— Eu vou ficar doente?
Meus pais se entreolharam e riram.
— Não, você vai se apaixonar. - Minha mãe sorriu gentil. — E aí, você vai pedí-la em casamento e dará a ela este anel, assim como seu pai me deu um dia.
Fitei o anel da mamãe, a pedra verde brilhava e reluzia fazendo pequenos brilhos no chão.
— E eu posso pedi-la em casamento aqui, mamãe?
Assentiu.
— Tenho certeza de que ela iria adorar, .
Olhei para os meus pais, juntos e felizes.
— Eu vou gostar muito dela, não é mamãe? Assim como o papai gosta da senhora, não é? - minha mãe sorriu. — E vamos trazê-la aqui todos os domingos também, não é?!
— Sim, meu filho, vamos.
***


Entre todas as mulheres na qual eu poderia estar colocando aquele anel naquele momento, a que estava em minha frente era definitivamente a última que passaria por minha mente. Quando entrou em meu apartamento com um vestido preto, sandálias pretas e o cabelo preso em um coque, eu quase não a reconheci. Não que ela não estivesse bonita, - nos últimos dias eu já tinha aceitado o fato de que não gostar da não me impedia de achá-la linda -, mas por estar tão sem cor. E o meu choque foi ainda maior quando me dei conta de que sim, eu preferia ela com toda aquela sua aquarela exótica.
, isso jamais dará certo se não for você mesma. - Me vi dizendo a ela àquelas palavras e um olhar desconfiado cruzou o seu semblante.
— Desculpe se estou enganada, mas você não é exatamente um fã do meu “eu mesma”. – Ela disse fazendo as aspas com os dedos.
Concordei. Automaticamente.
— Mas vamos ser realistas. – Cruzei a sala e me aproximei dela. — Já tem grandes chances de isso não dar certo, então o quanto mais próximos nos manter da realidade, melhor, você não acha?
hesitou por uns instantes até que disse:
— Então isso quer dizer que eu posso trocar de roupa?
Ela mordeu o lábio inferior, e me fitou, provavelmente ainda desconfiada sobre o que eu tinha acabado de lhe dizer. Coloquei as mãos dentro do bolso, dei de ombros e quase sorrir ao ver seus olhos brilhando de expectativa.
— Deve.
deu um gritinho de felicidade e saiu disparada pela porta em direção a seu apartamento. Então, quando voltou, ela usava um vestido azul claro estampado com rosas e uma sandália violeta contrastava com seu esmalte vermelho. Ver todas aquelas cores de volta aonde de fato elas pertenciam quase me fez sorrir, mas o que me atingiu de verdade, enquanto a observava dos pés à cabeça, foram seus cabelos que estavam soltos em ondas sensuais. Porque eu sempre associava aqueles cabelos a coisas inapropriadas? Desviei os olhos daquela imensidão de cachos e encarei o anel de diamantes que acabara de colocar em seu dedo fino. Um arrepio percorreu minha espinha.
Aos 20 anos eu tinha feito uma promessa. Nunca me casaria. Nunca deixaria que alguma mulher tivesse sobre mim o poder de me fazer querer construir uma família ao ponto de ficar refém daquele sentimento e correr o risco de, um dia, da mesma forma que tinha acontecido comigo e a , perder tudo de uma só vez. Aquela certeza estava enterrada em meu coração assim como aquele anel estava escondido e esquecido em meu cofre. Então, quando a me disse naquela manhã que precisaria de um anel de noivado para dar a e tornar a situação mais real possível, aquele anel veio em minha mente. O anel de minha mãe.
Nem eu mesmo acreditava que, depois de todos aqueles anos, eu estava colocando aquele anel no dedo de alguma mulher e, muito menos, que essa mulher fosse a . Minha garganta secou. Ainda que tudo aquilo não passasse de uma farsa, rever aquele anel, depois de todos aqueles anos, mexeu comigo, principalmente quando ali na sala do meu apartamento, nossos olhares se encontraram, e, ainda que por alguns segundos, eu senti que fosse capaz de ver por trás de todos os sentimentos que eu guardava dentro de mim e, naquele exato momento, eu percebi algo que me atingiu em cheio, se eu desviasse do foco, se, por um instante que fosse, eu esquecesse que tudo aquilo não passava de um farsa, poderia ser um perigo àquela promessa eu tinha feito anos atrás.


ONZE



Onde eu estava com a cabeça quando tinha concordado com tudo aquilo? Pensei enquanto encarava o rosto tranquilo de um aparentemente adormecido no banco do táxi em que estávamos a caminho do jantar na casa do seu chefe. Cameron Watson morava há 25 quilômetros da cidade e achou que seria melhor irmos de táxi, pois um: ele iria beber e dois: ele não confiava em meu senso de direção, palavras que ele deixou bem claras quando chegamos ao hall do nosso do prédio.
— Não que eu não confie em mulheres no volante, , muito pelo contrário, eu só não confio em você.
Idiota! Pensei ao encará-lo mais uma vez e, involuntariamente, começar a observá-lo. Os cabelos castanhos estavam sempre alinhados assim como sua barba espessa que preenchia o rosto com louvor moldando o maxilar quadrado e os lábios fartos. Os olhos, que agora, graças a Deus, eu não podia ver naquele momento, eram ainda mais azuis do que o da . O perfume, encostei um pouco mais com cuidado aspirando o cheiro ao seu redor, era uma mistura de amadeirado com canela. Definitivamente, apesar da personalidade insuportável, era muito bonito e agora, ainda que por algumas semanas, ele seria o meu noivo. Como eu fui me meter naquilo?
— Apreciando à vista?
Tomei um susto quando a voz do preencheu o silêncio do táxi e no reflexo ao voltar para o meu acento acabei batendo a cabeça na alça no alto da janela. Meu Deus ele estava acordado todo aquele tempo? Fingi me espreguiçar, como se aquilo fosse colar, e o fitei com olhos apertados, como se tivesse acabado de despertar.
— Perdão? - fingi um bocejo.
sorriu torto ainda de olhos fechados.
— Tenho um sono leve, . Acho que é algo que você deveria saber, - ele virou a cabeça no acento e seus olhos azuis me atingiram em cheio. — agora que somos noivos, é claro.
Enrubesci e tentei pensar em qualquer coisa que me ajudasse a mudar de assunto:
— Acho que já está na hora de você me chamar pelo meu nome, agora que somos noivos, é claro. - Dei um sorriso cínico.
— Como quiser, .
Sua voz saiu rouca e intensa ao pronunciar o meu nome fazendo com que os pelos de minha nuca se arrepiassem. Senti vontade de pedir a ele para voltar ao “”, assim era mais fácil me manter consciente de quem ele era. , meu vizinho intragável do 1222.
— Bem, - pigarrei — já que acordamos, - ignorei seu sorriso irônico — acho que poderíamos usar esse momento para nos conhecermos melhor. - Fitei o taxista por cima do vidro e abaixei meu tom de voz ao completar: — E, sabe, criarmos uma história sobre como nos conhecemos e nos apaixonamos. – Eu disse sem jeito encarando qualquer ponto que não fosse seu rosto.
Observei-o de canto de olho se mexer parecendo um pouco desconfortável, ele olhou pela janela por alguns instantes depois disse:
— Não precisamos inventar muita coisa, como eu disse, quanto mais perto nos mantermos da realidade melhor; - ele voltou-se para mim, ainda parecendo querer estar em qualquer outro lugar que não naquele táxi comigo. —Você é melhor amiga de minha irmã, nos conhecemos, nos apaixonamos e aqui estamos.
Assenti.
— Acho que é uma boa história.
E de fato era. Acho que ninguém acreditaria em outra história que inventássemos. Na verdade, ainda não estava muito confiante de que alguém fosse acreditar em qualquer coisa que envolvesse nós dois em um relacionamento. O silencio tomou conta do táxi me deixando ainda mais nervosa. Eu já imaginava as pessoas no jantar rindo e debochando da nossa farsa. Senhor, aquilo ia dar muito errado, não ia?!
— Qual sua cor favorita? - puxei um assunto qualquer na tentativa de manter a minha mente longe de pensamentos desastrosos.
arqueou a sobrancelha.
— Alguém ainda pergunta isso hoje em dia?
Ignorei-o.
— Qual é?
— Preto. – Claro que seria preto.
Ficamos em silêncio novamente e eu o encarei, aguardando.
— O que foi? - perguntou por fim.
— Você não vai perguntar qual é a minha?
— Tenho certeza de que são todas. - Sorriu debochado.
Senti meu rosto esquentar e desviei o olhar.
— Nunca consegui escolher uma preferida. - disse mexendo no botão da minha bolsa.
— Tenho certeza que não.
acomodou a cabeça de volta ao acento, cruzou os braços e fechou os olhos.
— Comida favorita?
Ele bufou.
— Qualquer uma. – Disse de olhos fechados.
— Qual a sua comida favorita, ?! Ah, a minha é cheeseburguer, obrigada por perguntar, querido.
abriu os olhos apenas para revirá-los.
— Isso nem ao menos é comida, .
Bufei.
— Nossa, você é péssimo em encontros, não é? - cruzei os braços e me ajeitei no banco me sentindo uma garotinha de cinco anos quando contrariada. — Não consegue manter uma conversa.
— Geralmente em meus encontros eu costumo fazer algo melhor do que conversar, . - Ele virou a cabeça para mim e seus olhos azuis me fitaram com uma emoção que eu soube muito bem distinguir: malícia. Pura e crua. — Na verdade, agora que você disse isso, percebi que o que faço raramente requer uma conversa.
Meu rosto voltou a corar assim que imagens de um entre quatro paredes começou a invadir a minha mente. Os cabelos bagunçados, corpo nu definido – como eu imaginava que seria os seus músculos por debaixo daqueles ternos caros que vestia - e suado colado ao meu, suas mãos grandes passeando por meu corpo... Meu Deus, o que estava acontecendo comigo? Balancei a cabeça e tentei focar na conversa afastando para longe aqueles pensamentos impróprios para menores de 18 anos.
— E como você me pediu em casamento?
Ele ficou em silencio, encarou outra vez a escuridão através da janela do táxi e, por uns instantes, pensei que não fosse responder, até que perguntou:
— Como você gostaria que fosse?
Corei. Quando era uma adolescente romântica e boba sonhava que seria pedida em casamento em algum parque, aquela imensidão verde, como nos campos das histórias de Jane Austen, com várias pessoas se divertindo com aqueles que amavam em um dia ensolarado, tudo em perfeita harmonia. Então veio o Gregório Albuquerque e um pedido de casamento no seu apartamento enquanto comíamos um sushi e assistíamos a um documentário sobre acasalamento de felinos. Gregório olhou para mim e disse: “Acho que devíamos nos casar!”, assim, romântico como dois estranhos conversando sobre o tempo enquanto esperam o metrô na estação. Tudo bem que na época eu me senti como se tivesse sido pedida em casamento em cima da Torre Effeil, mas para a garota que amava livros românticos e grandes gestos, aquilo foi bem decepcionante. Sinais! Por que eu nunca os vi?
?
arqueou a sobrancelha, ainda aguardando minha resposta.
— Hum... - mordi o lábio. — Você me levou para um passeio romântico em um parque, fizemos um piquenique, então você se ajoelhou e... – Encarei minhas mãos sobre o colo enquanto mexia em meus dedos. Nem eu mesma acreditava que estava falando aquelas coisas para o . — E me pediu para que eu fosse para sempre sua. – Sussurrei.
Demorei uns segundos para criar coragem e fitá-lo, quando, finalmente nos encaramos, tinha o semblante impassível, mas algo em seus olhos parecia brilhar diferente, não sabia exatamente o que era e também não tive tempo de especular já que, de repente, sua gargalhada alta encheu o táxi.
— Diabos mulher, você trabalha mesmo em uma livraria, não é?!
Bufei. Aquelas seriam as piores semanas da minha vida.


DOZE



— Você me levou para um passeio romântico em um parque...
Paguei ao motorista do táxi e descemos. As palavras de rodavam em minha mente junto com lembranças de um passado que há muito eu não me atrevia a visitar.
— ... fizemos um piquenique...
Fitei de soslaio a mulher ao meu lado que admirava boquiaberta a grandiosidade da casa de Cameron Watson, eu mesmo tinha ficado assim quando vi aquele casarão pela primeira vez. A arquitetura moderna e imponente tomava conta de cada canto daquele lugar como um aviso claro referente a riqueza do seu dono, mas enquanto se distraía perdida em cada detalhe da mansão, eu a observava. Seus cachos caiam sobre o vestido azul claro criando um contraste de cores que para qualquer um naquela festa poderia soar nada ver, mas que, naquela mulher em minha frente, combinava perfeitamente bem.
A fonte em frente à casa soltou um jato forte e mudou de cor fazendo soltar um gritinho de surpresa e prazer. Sorri involuntariamente ao ver seus olhos brilhando igual a uma criança que virá pela primeira vez um carrossel.
— ... então você se ajoelhou e me pediu para que eu fosse para sempre sua.
A lembrança daquele dia no parque ao lado dos meus pais e me atingiu em cheio. Há muito tempo que aquilo não vinha mais a minha mente, mas, naquele exato momento, enquanto fitava e seu entusiasmo inocente, foi como se eu tivesse sido teletransportado para o London Fields Park. Diabos! Porque aquelas memórias estavam voltando com tudo depois de tantos anos?
“Nos conhecemos a tanto tempo e sempre imaginei que à essa altura da vida, nossos filhos estariam brincando juntos.”
Eu estava ficando velho, era isso. Bufei. 35 anos. Talvez fosse a merda do meu relógio biológico informando que já estava na hora de ter uma família. Estremeci. Desde quando aquelas coisas passavam por minha mente? Maldito John McGreen por encher a minha mente com aquela ladainha da Oprah e despertar aqueles pensamentos e lembranças que há tanto tempo estavam enterradas.
Quando ainda era jovem eu também acreditava que, à essa altura, já teria uma família, uma mulher que amasse e um ou dois filhos. Sorri irônico. A vida tinha outros planos, afinal. Pensei ao me lembrar do dia em que recebi a ligação da minha avó informando do acidente com meus pais. Engoli em seco ao lembrar que se não fosse pela , eu teria desistido de tudo, mas assim que a vi no hospital, tão vulnerável, tão quebrada, eu soube que dedicaria minha vida para dar a minha irmã tudo o que ela merecia. Foi por ela que não desabei, mas foi também pelo o que aconteceu a nossa família, que eu sempre tive a certeza de que eu nunca iria querer ter uma.
— Meu Deus! – ouvi a voz admirada de me trazendo de volta para a realidade.
— Impressionada?
— O que? – ela me fitou, a animação tomando conta de seu rosto. — É claro que estou impressionada. Eles são parentes da Rainha Elizabeth, por acaso?
Foi impossível não sorrir.
— Não que eu saiba.
— Olha só, sabe sorrir. - Fiz uma careta. — Sério, por um segundo achei que era um derrame, mas é mesmo um sorriso. - Ela riu debochada.
Quase sorri de novo, mas não queria dar a ela o prazer da vitória, então fiz sinal para que seguíssemos e subimos as escadas, estávamos chegando à porta quando estancou, eu podia sentir a tensão espalhando por todo o seu corpo.
— Respira. – Sussurrei em sua direção.
sacudiu a cabeça freneticamente.
— Não consigo, isso não vai... - sua voz falhou.
. – Me aproximei um pouco mais dela e segurei em seu ombro.
— Sério... Eu... Eu acho que...
.
Coloquei a mão sobre seu rosto chamando sua atenção e, involuntariamente, meu polegar começou a massagear sua bochecha em movimentos de vai e vem. Ela me fitou, seus olhos arregalados foram se fechando, sua respiração indo de acelerada para quase um suspiro. Não sei o que sentiu naquele instante, mas eu, por outro lado, tive a leve sensação de ter sido atingindo em cheio por uma descarga elétrica.
— Vai dar tudo certo. – Ouvi minha própria voz saindo em um sussurro rouco. O que era aquela sensação estranha que percorria todo meu corpo?
— Como você pode ter certeza? – abriu os olhos e me encarou.
Eu não tinha certeza, muito pelo contrário, nos últimos instantes ao lado dela nem mesmo eu podia acreditar que tinha concordado com aquela loucura. Quais eram as chances de um plano como àquele dar certo? Eu era um cara prático e ao longo dos anos em minha carreira no Direito eu tinha aprendido que a melhor forma de se conduzir a vida era sendo uma pessoa racional e indiferente. Eu não me envolvia emocionalmente com os casos de meus clientes, mantinha a distância necessária para ser prático e eficaz, calcular riscos – e evitá-los - era minha função. Na vida pessoal não era muito diferente, tinha sempre uma mulher disponível para saciar as necessidades básicas da natureza humana, mas nunca deixava nenhuma acreditar que seria mais do que aquilo. Sexo era sexo e pronto. Eu era uma pessoa prática, então como eu tinha concordado em me envolver em uma farsa que tinha quase 100% de chances de dar errado?
Fitei os olhos tensos de e disse:
— Eu não tenho.
Aquela era a verdade. Eu não tinha a menor ideia do que estávamos nos metendo, mas sabia de uma única coisa: eu tinha que começar a tratar aquele acordo como mais uma negociação em minha carreira ou então...
— Nossa, obrigada, ajudou bastante.
Sorri. Nos encaramos por mais alguns instantes, seus olhos esverdeados transparecendo todo o nervoso e preocupação que ela estava sentindo naquele instante. Coloquei as mãos ao redor dos seus braços, quase me arrependendo no segundo seguinte, já que ainda podia sentir aquela corrente elétrica passando de sua pele para a minha, mas disfarcei o incomodo – que ela pareceu não sentir – e disse:
— Veja bem, esqueça o acordo.
— Como é?
— Isso mesmo. - Confirmei com a cabeça. — Por hoje, esqueça o acordo, apenas entre, se divirta e aproveite a noite.
ficou em silencio alguns segundos, parecendo verdadeiramente surpresa com minha proposta.
— Aproveitar a noite? – perguntou e eu assenti com um sorriso. — Meu Deus, como você pode estar tão tranquilo?
Segurei em seu cotovelo, ignorando a sensação inquietante de sua pele em contato com a minha e a guiei até a entrada da casa do Sr. Watson, quando estávamos prestes a entrar, me virei e disse:
— E , não se esqueça: - ela me fitou, seus olhos inseguros. — seja você mesma.


TREZE



“Seja você mesma...”
Como ele podia me dizer aquilo com tanta tranquilidade, pior, como ele podia dizer aquilo e achar que eu ficaria calma? Eu não estava acostumada com alguém me dizendo aquela frase. Para falar a verdade, dos meus quase 30 anos, 28 eu tinha ouvido completamente o contrário: , por favor, ao menos uma vez, tente ser menos você e comporte-se!” Era assim que minha mãe falava comigo quase todos os dias.
Suspirei e encarei o com misto de gratidão e confusão enquanto atravessávamos o imenso salão de recepção da casa do seu chefe. Se eu achava a fachada em vidro daquele lugar imponente era porque ainda não imaginava o que me aguardava ali dentro. O pé direito alto valorizava ainda mais a ampla sala em que, provavelmente, os móveis tinham sido substituídos para dar lugar a uma incrível e sofisticada decoração. Tudo ali reluzia e deixava claro o poder aquisitivo do seu dono, por um instante eu me sentia em um daqueles seriados americanos baseados nos dramas das famílias ricas.
— Cameron Watson definitivamente é parente da rainha. - Sussurrei.
sorriu mostrando toda a sua fileira de dentes perfeitos fazendo com que um leve arrepio percorresse minha nuca. Ele não podia ao menos ter um dente torto?
— Então, quando o vir, não esqueça a reverência, - ele me fitou e deu uma piscadela — sei que você é boa nisso.
Sorri ignorando a reação dos meus imaturos hormônios diante do sorriso de um homem bonito e sentindo o nervosismo se esvair um pouco de mim. Para ser sincera, não estava somente nervosa porque tinha grandes chances de todas aquelas pessoas ali descobrirem a nossa farsa, mas, principalmente, porque ainda estava tentando lidar com as emoções daqueles últimos minutos ao lado de na entrada da casa do Sr. Watson.
Não tinha a menor ideia em que momento tinha passado de insuportável para gentil, mas, por uns instantes, enquanto seu dedo roçava em um toque suave sobre meu rosto, em uma tentativa clara de me acalmar, cada pelo do meu corpo se arrepiou e eu me vi de volta a cozinha de seu apartamento. Mas, diferente da excitação que senti naquele dia, ali, parados enquanto tocava minha bochecha, uma onda de paz invadiu meu corpo, como se ele soubesse exatamente o que fazer para me acalmar. Aquela sensação me pegou de surpresa e eu não sabia como reagir, e, antes que eu pudesse analisar tudo aquilo, ele colocou outra vez a mão sobre meu cotovelo, me trazendo de volta a realidade do que nos cercava.
— Vamos.
me guiou pelo salão e meia hora depois, eu já tinha aumentado minhas listas de contato em umas 15 pessoas. Até o momento, verdade seja dita, ele tinha levado a sério sua palavra de deixar de lado o nosso acordo naquela noite e me fazer aproveitá-la.
O me apresentava apenas com meu nome, deixando que as pessoas deduzissem nosso tipo de relacionamento e isso, de certa forma, acabou me acalmando ao longo da noite, pelo menos até a hora que um senhor gordinho e baixinho começou a se aproximar da gente e sussurrou em meu ouvido que aquele era seu chefe, Cameron Watson. Imediatamente fiquei tensa e minhas mãos começaram a suar, como sempre acontecia comigo quando estava nervosa.
, pare de enxugar as mãos na roupa! A voz irritada da minha mãe veio em minha mente no exato momento em que pensei em passar as mãos na lateral do meu vestido. Inspirei e expirei fundo, eu precisava me controlar.
! - o homem baixinho parou em nossa frente e deu dois tapinhas nas costas, ou o máximo que ele conseguiu alcançar, do homem alto ao meu lado. — Já não era sem tempo, a Margareth já estava achando que você não viria mais.
sorriu cordial.
— Desculpe, Sr. Watson, chegamos já tem um tempo, mas não quis atrapalhá-lo com seus convidados.
O senhorzinho balançou a mão como quem dizia “até parece que seria um incômodo” e sorriu.
— Deixa só eu achar a Margareth, ela está louca para vê-lo. – disse olhando ao redor. – Ah, ali está ela, Margareth! Margareth!
Uma elegante senhora de cabelos loiros, quase brancos, e curtos olhou em nossa direção, notei que ao avistar o seus olhos se iluminaram junto com seu sorriso. O casal que estava conversando com ela, um homem de cabelos pretos e estatura mediana acompanhado de uma mulher em um deslumbrante macacão preto, assentiu ao ouvi-la dizer algo e a acompanhou até onde estávamos. Assim que eles se aproximaram, e o homem moreno trocaram um aceno de cabeça, foi tão singelo que eu mesma só percebi por que prestava atenção a eles.
.
— Granger. – disse com o maxilar tenso. — Miriam. – Acenou cordial para a outra mulher.
— Ah, ! – Margareth pareceu não notar o clima hostil e o abraçou. — Pensei que não o veria hoje.
— Jamais faria essa desfeita com vocês. - disse retribuindo o abraço, em seguida ele a segurou pela mão fazendo-a girar e sorrir. — Margareth, você sempre deslumbrante. – sorriu charmoso enquanto a senhora em sua frente corava.
O Sr. Watson cutucou minha cintura com o cotovelo e sussurrou de um jeito conspiratório:
— Veja, menina, olha só como ela se derrete todinha. – disse rindo, depois se virou para os dois. — Acho que ela se lembra de mim quando nós éramos jovens, eu tinha o mesmo porte físico, não era, paixão?
— Cameron! – a mulher o repreendeu e ele riu.
— Tenho certeza de que é por isso que ela sempre fica louca para vê-lo, rapaz. – Sr. Watson riu ao ver as bochechas vermelhas da esposa. — Relembrar os velhos tempos.
Fiquei ali observando a interação dos três, rindo cúmplices das piadas internas, - o tal Granger parecia prestes a ter uma disenteria -, e se não soubesse a história de acreditaria que aquele casal simpático pertencia a sua família, quase podia reconhecer em seu olhar o mesmo brilho que ele tinha ao fitar a .
— E essa jovem encantadora? – Margareth perguntou indo até mim com um sorriso gentil em seus lábios finos.
— Margareth, Sr. Watson, - notei que fez questão de não se dirigir ao Granger, - essa é a , minha...
Meu Deus, esse era aquele momento que eu estava temendo. Pela primeira vez na noite percebi o desconforto de , provavelmente se debatendo sobre como iria me apresentar e de repente senti o nervosismo tomar conta de mim. O que ele iria dizer?
— Oh Meu Deus! – a Miriam puxou a minha mão, interrompendo nosso contato visual, e deu um gritinho empolgado. — Que anel ma-ra-vi-lho-so! Oh meu Deus, vocês estão noivos?
Vi os olhares de todos irem em direção ao meu dedo, mas o que mais me chamou atenção foi o de Margareth. Ela fitou o , seus olhos inspecionando cada detalhe do seu rosto, depois me encarou e eu percebi algumas lágrimas se formando no canto de seus olhos. Meu estômago revirou. Eu não conseguia dizer nada, de repente todas as palavras sumiram do meu cérebro e minha língua tornou-se pesada.
— Noivos? – o tal Granger nos encarou. — Não sabia nem que você estava em um relacionamento, . - O homem, que eu mal conhecia, mas já detestava, me fitou dos pés à cabeça com nítido ar de superioridade. — Aliás, acho que nenhum de nós.
Não tive tempo de assistir a reação das três pessoas ao meu lado diante daquela afirmação, pois, no mesmo instante a maneira como o enrijecer o corpo e praticamente fuzilar o homem com o olhar chamou minha atenção. Eu nunca o tinha visto tão furioso, nem mesmo no dia em que nos conhecemos e eu derramei café por toda a sua calça.
— Não que seja da sua conta, Granger, mas não costumo misturar profissional com pessoal.
O tal Granger riu, sem fazer questão de disfarçar o sarcasmo.
— Ah é? E desde quando?
apertou o maxilar e estava prestes a responder ao Granger, provavelmente algum palavrão, mas a voz embargada de Margareth chamou nossa atenção.
, - ela me chamou e eu a fitei, seus olhos castanhos brilhando intensamente — eu não te conheço ainda, e nesse momento eu estou com bastante raiva desse daí – disse apontando a cabeça para o – por não ter nos apresentado antes, mas sei que se ele lhe deu este anel, é porque, com certeza, você é alguém muito especial. – Ela sorriu e me abraçou, depois sussurrou em meu ouvido: — Obrigada e bem-vinda a família!
Todo meu corpo estremeceu e eu senti meus joelhos virarem gelatina enquanto cada parte do meu corpo era preenchida pela sensação de vergonha e desonestidade. Percebendo o meu estado de nervos, o passou o braço ao redor da minha cintura e sussurrou algo em meu ouvido que provavelmente tinha a ver com tentar me fazer manter a calma, mas minha mente estava longe demais para prestar atenção em suas palavras. Como? Como eu ia manter a calma?
Eu não sabia mentir e pior, eu não sabia disfarçar nada do que eu sentia. Na verdade, àquele era um grande problema em minha vida, todas as minhas emoções eram capazes de transparecer em meu semblante na mesma velocidade em que eu as sentia e, naquele momento, eu tinha certeza de que eu estava longe de parecer uma noiva radiante.
— Eu não... Nós não...
Senti a enxurrada de verdade querer atravessar a minha boca, definitivamente eu não sabia mentir.
— Vocês não? – a cobra do Granger insistiu e eu quase cedi, quase, pois no mesmo instante eu senti a mão firme do apertando a minha cintura em mais uma tentativa de me manter calma.
— Você está bem, querida? - a mulher do tal Granger perguntou tocando em minha mão. — Nossa, sua mão está gelada – ela fez uma careta - e molhada.
Antes que eu tivesse qualquer reação entrelaçou nossos dedos em um aperto gentil.
— Bom vocês terão mais tempo para se conhecerem melhor mais tarde, agora, se me permitem, vou levar a para... Hum... Bem – ele olhou ao redor tão nervoso quanto eu. — Conhecer a casa.
Conhecer a casa? Ele ficou maluco? Eu não conseguia ficar em pé e o idiota queria me levar para dar uma volta pela casa?
— E-eu n-não...
— Se acalme, só quero tirá-la daqui. - Sussurrou em meu ouvido. — Vamos. – disse entredentes, fingindo um sorriso.
Assenti e enquanto tentava controlar minha respiração e minhas pernas para que eu não desabasse ali mesmo, uma pergunta girava em minha mente: Onde, em nome de todos os santos, eu tinha me metido?


QUATORZE



Onde eu estava com a porra da cabeça quando concordei com aquela loucura da ? Estávamos ali a mais ou menos uma hora e tudo estava indo muito bem, obrigado, até o filho da puta do Granger aparecer com sua esposa esquelética e praticamente quase colocar tudo a perder.
Depois disso, a única coisa que eu conseguia pensar era como um cara como eu, prático, que odiava complicações, tinha se metido naquela enrascada? Bufei e passei a mão pela barba enquanto observava pela milésima vez nos últimos cinco minutos uma desesperada caminhar de um lado para o outro na sacada da casa do Sr. Watson.
Mesmo naquele pouco tempo de convivência, eu já tinha aprendido algo sobre , ela era extremamente transparente com seus sentimentos e no exato momento em que o Granger questionou o nosso noivado, eu a vi vacilar e tive uma certeza, ela iria nos entregar. Eu sabia que aquele plano tinha grandes chances de dar errado, mas nunca imaginei que seria assim tão rápido.
Por que de todas as pessoas que poderiam presenciar aquele momento, tinha que ter acontecido exatamente na frente da Margareth? Demônios! Ainda podia sentir seus olhos marejados me encarando cheios de expectativas enquanto eu arrastava a para longe com a desculpa ridícula de que iríamos conhecer a casa. Inferno, eu devia estar muito desesperado para achar que tudo aquilo poderia dar certo e pior, tendo a como cúmplice.
— Meu Deus, meu Deus! – ela repetia aquilo incessantemente pelos cinco minutos que estávamos ali fora na sacada da casa.
. – Tentei pela milésima vez fazê-la me escutar.
— Nem comece. – Ela disse parando e levantando o dedo indicador para mim em sinal para que eu ficasse calado. — Como nos metemos nessa loucura?
— Veja bem...
— Não, nada de veja bem, , estou decidida, nós precisamos desmentir isso. – Ela balançou a cabeça. — Não há a menor chance de eu conseguir fazer isso direito.
voltou a andar de um lado para o outro, seu rosto corado, sua respiração irregular e seu semblante diziam que ela estava prestes a ter um treco bem ali.
— Acho que você está sendo um pouco radical.
De repente parou, levou as duas mãos ao rosto, respirou fundo e depois me encarou.
— Um pouco radical? – ela levou as mãos ao quadril. — Pelo amor de Deus, você viu como aquela senhora... A... A....
— Margareth.
— Margareth. - Ela assentiu. — Você viu como ela me abraçou? – cruzei os braços ao redor do peito tentando disfarçar o desconforto. — Eles são mais do que seus chefes não são? – permaneci em silencio, mas acho que aquele meu gesto acabou por lhe dizer muitas coisas. — Meu Deus! Por que não me avisou sobre isso, ? Se eu soubesse que ela iria me olhar daquele jeito e me abraçar como se eu fosse sua filha, jamais concordaria com essa mentira. – Ela voltou a caminhar de um lado para o outro.
me olhava como se estivesse prestes a me arrancar um rim, estava furiosa e, verdade seja dita, ainda mais linda. Senti uma vontade de me aproximar dela, colocar a mão em seu rosto e acalmá-la como tinha feito algumas horas antes quando chegamos ali, mas de repente, algo em meu estômago estralou e eu sabia que seria muito mais prudente me manter onde estava, escorado no parapeito da sacada, alguns metros longe dela.
parou e me encarou, percebi, pelo seu olhar, que ela esperava que eu lhe contasse toda a história por trás da minha relação com os Watson. Suspirei, ninguém em minha vida sabia sobre aquilo, exceto a e o John. No escritório eu fazia questão de não revelar a ninguém para que não pensassem que eu estava onde estava por favoritismo, pois não era. Eu sabia que mesmo com a oportunidade que o Sr. Watson tinha me dado, a posição que eu tinha hoje em sua empresa nada mais era do que reflexo dos anos de esforço e dedicação que eu tinha depositado a minha profissão e àquele emprego.
Fitei-a novamente, seus olhos cheios de expectativa e curiosidade, eu não devia nada a , eu não a conhecia e não tinha nenhuma obrigação de lhe contar as merdas que tinham acontecido em minha vida, então sem saber o porquê, de repente, ouvi a minha própria voz dizendo:
— O Cameron e a Margareth foram grandes amigos da minha família. – disse quebrando o silêncio. — Eu tinha 20 anos, estava no meu segundo ano de faculdade, quando meus pais faleceram e, eu ainda era um menino, tinha muitos planos de curtir cada ano da faculdade, muitas festas que ainda queria ir, muitas irresponsabilidades para cometer – sorri irônico ao vê-la revirar os olhos — mas, de repente, me vi em um mundo em que eu era o único responsável por mim e pela , que ainda era uma criança. – Passei a mão pelos cabelos enquanto aquelas lembranças amargas invadiam minha mente. — Então, a única solução que encontrei foi desistir da faculdade e procurar um emprego que nos mantivesse - Fiz uma pausa tentando me manter o mais indiferente possível. —, mas aí o Sr. Watson me procurou e disse que, em memória da amizade deles, ele nos ajudaria até que eu conseguisse nos sustentar. — escorou-se no batente ao meu lado, colocou os braços ao redor do corpo e me fitou enquanto eu continuava. — Então, depois que me formei, fui trabalhar em sua firma disposto a pagar cada centavo do que ele tinha gastado comigo e com a .
— Ele é um bom homem. – Ela disse, sua voz saiu rouca, como se estivesse emocionada.
Assenti e pela primeira vez encarei a e ao contrário da pena que esperava ver em seus olhos, suas írises brilharam com algo que me chocou: admiração. Me afastei do batente e coloquei as mãos no bolso me sentindo repentinamente desconfortável.
— Sabe o que a Margareth disse no meu ouvido? – balancei a cabeça, negando. — Bem-vinda à família. - Engoli em seco. — Você pode até vê-los como meros benfeitores, , mas aquela mulher o ama como se fosse da própria família.
Senti em cheio outra pontada em meu estômago. Durante todos aqueles anos sempre soube o quanto a Margareth e o Sr. Watson sempre me quiseram bem, mas eu já tinha tido a minha cota de apego emocional o suficiente em minha vida para saber que, mesmo se por um único instante, eu permitisse retribuir aqueles sentimentos a eles, eu estaria outra vez vulnerável a toda aquela merda que eu já tinha passado anos atrás. E, definitivamente, não estava disposto ou, muito menos, preparado para àquilo.
— E agora estamos mentindo para eles. – A voz de , seguida de um suspiro desanimado me trouxe de volta a realidade, afastando aqueles pensamentos.
Escorei-me novamente no parapeito da sacada e a fitei.
— Vamos mentir para sua família também. - disse na tentativa de desviar o foco da conversa.
Ela fez uma careta.
— É diferente.
— Diferente, como?
mordeu o lábio, ficou pensativa por alguns instantes e depois disse:
— Minha família é a própria Família Adams, não me importo de mentir para eles. – Ela deu de ombros.
— Bom saber que você tem a sua família em tão alta estima. - Sorri irônico.
— Já aquele casal ali dentro, por outro lado, gosta mesmo de você. - disse ignorando meu comentário.
Ficamos em silêncio, nenhum dos dois se atreveu a dizer nada e a única coisa que ouvíamos era as conversas, risadas e a música que vinham de dentro da casa.
— O que faremos? – ela disse por fim, quebrando a atmosfera tranquila entre nós.
— Ouça, , - afastei-me do batente, parei em sua frente e a encarei — não faremos nada.
— Mas...
— Eu e você temos um acordo e vamos seguir com ele.
suspirou, encarou a parte interna da casa por alguns segundos, provavelmente perdida em seus próprios pensamentos e, em seguida, seus olhos pousaram sérios sobre mim.
— Você tem certeza disso?
— Sim, agora precisamos voltar. – Ela balançou a cabeça, ainda contrariada com a minha decisão.
Ignorei seu olhar de repreensão, estendi a mão para tocar em seu cotovelo e a guiei de volta para o interior da casa. Eu também não estava feliz em mentir para a Margareth e o Cameron, aquilo era óbvio, mas se para alcançar o cargo e o reconhecimento que eu tanto almejava dentro das Indústrias Watson eu precisava fingir um noivado com , então eu o faria. Já tinha abdicado e dedicado muitos anos da minha vida àquela empresa, não iria deixar passar uma oportunidade como aquela por toda essa baboseira emocional.
Caminhamos em silêncio e assim que entramos na sala, o olhar gentil – e ao mesmo tempo curioso – da Margareth nos encontrou. Suspirei, abaixei o braço e entrelacei meus dedos no de , aquela mesma sensação de descarga elétrica percorreu meu corpo assim que seu olhar caminhou de nossas mãos até meu rosto. Não sei se ela sentiu o mesmo, mas seus olhos me encaravam como se me inspecionassem.
— Está tudo bem?
Ela assentiu com um leve aceno. e eu seguiríamos com aquele acordo até eu garantir a minha promoção e depois, inventaria a Margareth alguma desculpa para nosso término rápido. Até lá eu só precisava garantir que a Margareth, não se apagasse muito a e tudo ficaria bem, foi pensando justamente nisso que eu a guiei em direção oposta à de Margareth.
Avistei o John ao lado da mesa de comida. Onde mais ele poderia estar? Pensei enquanto caminhávamos até lá.
, esse é John Green, meu assistente pessoal. – Ele sorriu gentil. — John, essa é , minha...
— Sua noiva falsa. – John riu e arregalou os olhos. — Muito prazer, . – disse estendendo a mão.
— Como ele sabe?
— Não se preocupe, eu geralmente sei de tudo. – Ele riu. — E nesse momento, gostaria de prestar minha solidariedade a você.
— Solidariedade?
— Sei o quão difícil é se relacionar com o , ainda que seja de mentira.
tentou prender o riso ao ver meu semblante fechar, mas acabou falando miseravelmente.
— Meu Deus! – ela levou ao peito tentando outra vez controlar a risada. — Não te conheço muito bem, mas saiba que você acaba de ganhar uma amiga.
Fitei-os furiosamente enquanto sorriam cúmplices.
— Obrigado, John. – Bufei. — Amanhã, quando chegar ao escritório, pode ir direto ao RH assinar sua demissão.
sorriu e quando dei por mim, estava fazendo o mesmo.
sorrindo? – John fez uma careta e virou-se para . — O que você fez com ele?
— Não sei, mas já é a segunda vez que o vejo fazer isso em menos de 24 horas, devemos nos preocupar?
— Vão à merda. – disse fazendo-os rir ainda mais.
e John continuaram uma conversa animada tendo minha pessoa como tópico principal e eu estávamos prestes a tirá-la dali antes que eles fundassem um grupo “os cem maiores defeitos de , até que ela pediu licença e foi ao banheiro.
Observei-a seguir pela sala, seu vestido colorido e seus cabelos , que caíam por suas costas acompanhando o balanço de seu quadril, destacavam-se em meio aquele mar de roupas escuras e sérias. Era como se onde ela passasse uma luz a acompanhasse fazendo-a receber diversos olhares, alguns de surpresa, outros de reprovação, mas a maioria parecia admirada com a coragem daquela mulher em usar tantas cores de uma só vez. Sorri. Se soubessem como aquilo era tão típico de , ninguém estaria surpreso.
Ouvi o pigarro do John ao meu lado e me virei.
— O que foi?
— Sabe, enquanto você me contava sobre o mirabolante plano da de te associar a sua vizinha exótica e meio doida, - John disse ainda também fitando o caminho que tinha feito — você se esqueceu de um pequeno detalhe, não foi? – ele virou-se para mim e me fitou sério.
Arquei a sobrancelha.
— Não sei do que está falando.
John riu irônico.
— Sério? – continuei com a mesma expressão em meu semblante. — A mulher é linda.
— John. – disse seu nome da forma mais ameaçadora que pude.
A última coisa que precisava naquele momento era que a mente do meu amigo fosse tomada por sua imaginação fértil.
, eu sou seu amigo e jurei lhe dizer a verdade sempre. – Revirei os olhos, eu sabia, lá vinha alguma filosofia barata. — Me diga, quais são as chances desse plano acabar bem? – travei o maxilar.
— Não me lembro de ter pedido a sua opinião. – disse sem me importar de estar sendo rude. Eu não queria ter aquela conversa.
— Qual é?! Sabemos que você e mulher bonita é uma combinação nuclear.
Bufei.
— Ela nem é... – John me encarou como se dissesse “nem se atreva”. — Ok, ela é linda, mas não precisa ficar preocupado, pois não tem a menor chance de termos interesse um no outro além do acordo que fizemos.
Aquilo era óbvio. Ainda que parecesse sem motivo, eu e jamais conseguiríamos conviver se não fosse a necessidade urgente de mentir para algumas pessoas em nosso benefício. Ela era uma mulher atraente, isso era um fato. Mas o John não conhecia a personalidade insuportável que havia por trás daqueles belos olhos como eu conhecia. e eu estaríamos juntos naquela apenas por alguns meses e depois disso cada uma seguiria o seu caminho, como sempre tinha sido.
— Ela, talvez não.
John disse, me trazendo de volta para a conversa.
— O que quer dizer com isso? - Fitei-o com o cenho franzido.
Ele colocou a mão sobre meu ombro e sorriu.
— O que eu quero dizer, meu amigo, é que, da próxima vez que olhá-la, pelo menos tente disfarçar o quanto você quer levá-la para a cama.
Engoli em seco e estava prestes a lhe dar uma resposta fria, mas escolheu exatamente aquele instante para retornar à sala. Seus olhos percorreram o local, provavelmente se certificando de que continuávamos no mesmo lugar, até que ela nos viu e sorriu. Um arrepio percorreu todo o meu corpo e eu senti uma excitação vibrar em meu estômago. Maldito John Green!


QUINZE



Para variar, eu estava completamente atrasada, pensei enquanto encarava o relógio na tela do computador marcando 19h27min. Havia combinado de jantar com a naquele sábado às 19h, para que pudéssemos criar todo o roteiro da minha linda história de amor com o , afinal, na semana que vem estaríamos na Cova do Leão, quero dizer, na casa dos meus pais e precisávamos combinar tudo. Mas o carrasco do Frank me obrigou a catalogar todo o novo carregamento de livros que havia chegado no início daquela manhã, o que basicamente significava uma sexta-feira inteira perdida em frente ao computador.
Bufei, enquanto digitava todas as informações do último lote de mais um daqueles livros de coach que tenta nos ensinar como tomar as rédeas de nossas vidas. Revirei os olhos. Eu sempre ficava indignada como as pessoas eram capazes de se encantarem por aquelas porcarias e, para meu pesadelo, meu chefe era uma delas.
Lembrei o dia em que liguei para ele informando que como estava chovendo muito eu não teria como sair de casa para pegar o metrô e ele me respondeu com um: “, você nunca leu “Seja o que você quiser ser”?”, seja seu próprio guarda-chuva e se vire, espero você em 20 minutos”. Um dia depois, fiquei com uma gripe tão pesada que me fez ter muito ódio de toda aquela ladainha barata para o resto da vida.
— É para catalogar, não acabar com o teclado. – Bia disse com ironia ao me ver digitando com força. — Você anda nervosinha esses dias, o que houve?
foi o que houve, pensei enquanto as lembranças daquele desastroso jantar da última quarta-feira vinha em minha mente.
— Nada. – Respondi dando de ombros. — Só estou um pouco cansada.
— Já olhou seu horóscopo hoje? Talvez os planetas que te regem não estejam em um bom momento.
— Tenho certeza de que estão em um péssimo momento. – disse brigando outra vez com o teclado. Aquela joça escolhia os piores momentos para travar.
— Odeio quando isso acontece comigo. - Bia deu um suspiro. — Já sei, vou preparar um café para gente dar o gás e acabar logo com isso. – disse indo em direção ao balcão da cafeteria.
Suspirei e voltei para minha pilha de livros, precisava terminar aquilo o mais rápido possível antes que meu estômago começasse a fazer autofagia, suspirei, era isso, eu estava irritada porque estava morta de fome, não tinha nada a ver com o fato de que eu não conseguia parar de pensar o quão estranho era .
Era verdade que tudo já tinha desandado naquele jantar muito antes dele resolver ser o sisudo de sempre, mas não era minha culpa se ele achou que seria uma boa ideia me dar aquele anel. De imediato senti um enjoo ao me recordar do olhar que Margareth Watson deu do anel para mim e depois para o .
“— O Cameron e a Margareth foram grandes amigos da minha família. Eu tinha 20 anos, estava no meu segundo ano de faculdade quando meus pais faleceram e, eu ainda era um menino...”
Meu Deus, quando o me contou aquelas coisas, meu coração parou e um aperto preencheu meu peito ao imaginá-lo, aos 20 anos, no auge da sua juventude, pronto para descobrir tantas coisas do mundo e de repente, sozinho com sua irmã mais nova para criar. Naquele instante, enquanto ele me contava aquelas coisas, algo entre tristeza, dor e mágoa passou por seus olhos . Era como se, mesmo 15 anos depois, ainda vivesse em luto. E, por uns instantes, eu o entendi. Entendi por que ele era aquele homem sempre tão sério e distante, por alguns instantes aquela antipatia que eu sentia por ele quase se esvaiu e naquele momento quis lhe dizer muitas coisas.
Queria ter lhe dito que ele tinha criado a muito bem, porque se ela era aquela mulher incrível que eu conhecia, com certeza em boa parte era por conta dele. Queria dizer que sentia muito por ele ter perdido sua juventude e, principalmente, por seus pais terem ido embora tão cedo. Mas tudo o que eu quis dizer ficou preso em minha garganta e eu não consegui dizer nada, a única coisa que fiz foi observá-lo e sentir aquele aperto no peito.
Então quando ele me questionou por que eu estava tão chateada em mentir para a Margareth e o Sr. Cameron sendo que mentiríamos também para minha família, aquilo me atingiu em cheio. Me senti mal por ter respondido que minha família se tratava da própria Família Adams em carne e osso, mas, para falar a verdade, todas as vezes em que eu recebia alguma mensagem da minha mãe, eu comprovava a minha teoria.
Ontem mesmo ela tinha me mandado uma mensagem com a foto do tal irmão da colega de igreja dela com a mensagem: “Ele já aceitou ser seu par no casamento. Pare de ser orgulhosa e mande uma mensagem para o homem. Melhor aparecer como cuidadora do pobre coitado do que sozinha.” E quando a raiva me consumiu e eu respondi a ela que apesar de estar muito a solidariedade do senhor, por ter “me aceitado”, eu já tinha um acompanhante. Claro que me arrependi no mesmo instante, porque bastou essa informação para ela me mandar uma enxurrada de mensagens e ligações querendo saber quem eu levaria.
, se você me aparecer aqui com um desses tais artistas de sinal, eu te interno”. E essa tinha sido a mais gentil de todas.
Era isso, eu não me importava de mentir para eles se aquilo era só um exemplo do que eu teria que suportar nos próximos dias, e também não me importava nem um pouco com o julgamento do quanto a isso.
Bia voltou com o café, eu agradeci, tomei um gole e suspirei satisfeita por enganar o meu estômago por mais alguns minutos.
— Acha que conseguimos terminar antes das 20h? – Bia me fitou esperançosa.
Enquanto eu catalogava os livros, ela era a responsável por organizá-los nas devidas sessões, ou seja, seu trabalho dependia do meu, por isso, eu sabia que precisava afastar aquelas coisas da minha mente e focar no trabalho.
— Vamos sim.
— Ah, ótimo, porque marquei um encontro hoje às 21h e preciso estar linda, pois meu horóscopo disse que hoje é o dia perfeito para eu encontrar o amor da minha vida. – Ela sorriu.
— Não me diga que você a encontrou no Tinder. – Sorri ao me lembrar da sua última tentativa de encontro pelo Tinder, ela quase acabou sem carteira.
Bia corou.
— Não, ela é colega de trabalho do meu irmão e se chama Luna, ou seja... – ela deu uma piscadela e eu sorri.
— Meu Deus, aposto que ela é mesmo o amor da sua vida.
Seu sorriso se iluminou, eu estava feliz pela Bia. Quando a conheci ela tinha acabado de levar um pé na bunda da ex-namorada, e acho que foi por isso que nos identificamos tanto, mas ao contrário de mim, a Bia não se afundou em chocolate e maratonas de seriados água com açúcar, não, ela teve tantos encontros que perdemos as contas.
Era por isso que eu esperava de coração, que a Luna fosse à bola da vez. Pelo menos uma de nós duas tinha que ter aquela sorte, pensei ao me lembrar do fatídico dia em que fui dispensada no altar. Senhor, só de pensar que daqui alguns dias eu estaria novamente em frente ao Gregório e a sua Kim Kardashian a tira colo, aquilo fazia meu estômago revirar.
, olhe para o ! Qualquer mulher que estiver neste casamento vai sentir inveja de você, até a Amanda vai desejar que o seja o noivo.”
Me lembrei daquela fala da e um arrepio me percorreu. Ainda era incapaz de acreditar que embarcaria naquele seu plano bizarro e que tinha topado tudo aquilo.
O pior de tudo era que a tinha razão, era terrivelmente atraente, pelo menos foi essa a realidade que me atingiu quando o vi no meio da sala do jantar de seus chefes, ao lado do seu colega de trabalho, John Green. Quando o avistei e ele me encarou com tanta intensidade, meu corpo inteiro formigou como se estivesse prestes a ter algum tipo de ataque alérgico.
Cada pelo do meu corpo se arrepiou ao ver aquele homem alto, em um belo terno, me fitando como se não houvesse mais ninguém ao nosso redor. Então, de repente, minha mente foi invadida por diversas cenas dignas de um filme erótico e eu senti que estava ferrada. Mas antes mesmo que eu tivesse tempo para decifrar cada uma daquelas sensações que me invadiam naquele instante, voltei para perto do , e diferente do cara gentil que tinha sido até ali, ele passou o restante da noite sendo monossilábico e decidido a me manter longe do Sr. Watson e sua esposa.
Sério, o homem simplesmente tinha se fechado como uma concha, não me dirigiu mais do que algumas palavras durante a noite e, do momento em que entramos no carro do John – ele nos deu uma carona de volta – até o elevador, não trocamos nem uma palavra. Nem se quer um “Obrigado, , por manter a sua parte no acordo hoje”, absolutamente nada.
Então, depois desse dia, a única coisa que consegui fazer foi remoer cada momento daquele jantar tentando entender o que eu poderia ter feito de errado para que ele ficasse daquele jeito, mas no fim, cheguei à única conclusão plausível, era um babaca e eu estaria presa a ele nas próximas semanas.
— Glória a Shiva, acabamos. – Ouvi a Bia dizer assim que atravessou a porta do depósito uma hora depois. — Será que você poderia fechar sozinha hoje? – disse olhando para a tela do celular. — Já estou super atrasada.
— Claro, pode ir.
Peguei o celular na minha bolsa para mandar uma mensagem para a avisando que já estava a caminho e que, definitivamente, toparia uma pizza, mas a porcaria estava descarregada e eu não tinha nem me dado conta. Ótimo, àquela hora a provavelmente já teria comido e eu teria que me virar com o que não estivesse vencido em minha geladeira, já que, para variar, eu estava sem um tostão para pedir comida.
Terminei de fechar tudo, peguei a minha bolsa e fui para a estação de metrô. 20 minutos depois eu estava dentro do elevador do meu prédio implorando aos céus para que a tivesse ouvido meus pensamentos, pedido uma pizza e deixado alguns pedaços para mim. A porta se abriu e, sim, eu estava desesperada por um prato de comida, mas também tinha ficado o dia todo na livraria e naquele momento o banho pesou mais.
Entrei no apartamento e fui direto para o chuveiro. Tomei um banho rápido, coloquei um dos meus pijamas preferidos – um macacão colorido com uma toca em formato de unicórnio – e minhas pantufas no formato do Sulley de Monstros S.A, peguei a garrafa de vinho na geladeira – sim, minha geladeira estava vazia de comida, mas as bebidas estavam em dias, afinal, uma mulher tem que saber definir bem suas prioridades, obrigada – e segui para o apartamento da .
Enquanto ia até lá eu agradeci aos céus por ter me dito que o não estaria lá hoje, para falar a verdade, foi por isso que marcamos em seu apartamento ao invés do meu – isso e o fato de lá ter mais comida do que no meu, óbvio -, a última coisa que queria, depois de ter revivido as emoções do jantar em minha mente, era reencontrar com o intragável do .
Apertei a campanhia enquanto um cheiro maravilhoso de comida invadia minhas narinas, fechei os olhos e inspirei, quase fui capaz de sentir o gostinho de macarrão ao molho pomodoro em meus lábios. Eu amava a , aquilo com certeza era muito melhor do que pizza.
Ouvi o clique da chave girando e antes mesmo que a porta abrisse por completo, eu já estava dentro do apartamento derramando sobre ela todo o meu entusiasmo.
— Eu sei, eu sei, demorei, mas trouxe o vinho e...
— Estou vendo.
Me virei, me deparando com o me fitando com a sobrancelha arqueada, nitidamente confuso.
— Oh, !


DEZESSEIS



Eu iria matar John Green, arrancaria cada parte do seu corpo com o maior prazer. Eu tinha uma programação para aquela sexta-feira, uma programação que envolvia ir a um bar, relaxar e, o principal, encontrar uma mulher bonita e disposta a ter uma noite de sexo, sexo selvagem e bem feito.
“Da próxima vez que olhá-la, pelo menos tente disfarçar o quanto você quer levá-la para a cama.”
Aquela fala de John veio em minha mente acompanhada da imagem de parada sorrindo em minha direção no meio da sala do Sr. Watson. A mesma sensação inquietante em meu estômago reapareceu exatamente como naquele dia.
Quando a reapareceu naquela sala, a primeira coisa que me veio à minha cabeça foi levá-la de volta ao banheiro, colocá-la sobre a bancada da pia e dar a ela o melhor orgasmo de sua vida. Provar e saborear cada canto de seu corpo até deixá-la em êxtase.
Demônios! Era por isso que eu precisava seguir o plano daquela sexta-feira: uma foda gostosa era a solução para afastar aquela merda toda da minha mente e ter a certeza de que aquelas reações do meu corpo a não passavam de total e completa consequência da abstinência do último mês.
Bem, aquele era o plano perfeito da minha sexta-feira, pelo menos até um John Green com cara de cachorro pidão atravessar a minha sala no fim do dia.
— Preciso de um favor. – disse ao sentar-se em minha frente.
— Não. – Respondi sem tirar os olhos dos contratos que estava revisando.
— Mas você nem me ouviu.
Levantei os olhos e o fitei irônico.
— É sexta-feira à noite, John, não estou disponível para fazer favores.
John suspirou e pela primeira vez reparei que seu olhar adquiriu um ar pesaroso. Droga!
— O que você quer?
Ele se ajeitou na cadeira, a tristeza dando lugar a esperança.
— Será que a Lily pode ficar com você até amanhã?
Ok, eu amava a minha afilhada, aquela pequena diabinha era uma das poucas pessoas capazes de me fazer dizer sim em todas as situações, mas era sexta-feira e eu tinha certeza de que precisava achar uma boa foda antes de embarcar de fato naquele acordo com a . Era isso, ou eu transava naquele fim de semana antes de irmos para sua cidade ou estaríamos fadados ao fracasso.
Por isso que a última coisa de que precisa era do John atrapalhando meus planos. Mas ao fitar outra vez o meu melhor amigo em minha frente, seus olhos brilhando em expectativa, eu já sabia que iria ceder.
— Por quê?
— Tenho um encontro.
— Deixa-me ver se entendi, você quer que eu deixe de transar hoje para que eu fique com sua filha enquanto você vai transar? É isso?
— Cara, não é isso. – John balançou a cabeça. John olhou para todos os cantos da minha sala, menos para mim. — Não é uma transa. – Sussurrou.
— Não? – arqueei a sobrancelha. —Por acaso vai levá-la à missa?
Ele revirou os olhos e pela primeira vez reparei algo estranho, John estava agitado, como se lutasse para não deixar a ansiedade tomar conta de seu corpo.
— Bem, tem essa mulher e... – Ele olhou para o chão, depois mexeu em seus dedos. — Eu a conheço há algum tempo, e... Meu Deus, ...– Suspiro. Meu melhor amigo estava suspirando como uma adolescente. Que porra era aquela? — Ela é incrível.
Conhecia o John a mais de uma década e nunca, jamais, tinha o visto suspirar por uma mulher, nem mesmo pela mãe da Lily.
— Não vai me dizer que você está apaixonado? – perguntei irônico.
John me encarou e corou. O filho da mãe, corou.
— Perdidamente.
Puta que pariu.
— E isso começou desde quando?
— Aí é que está, não começou. – Ele fitou o chão, envergonhado. — Gosto dela tem um tempo já, mas nunca imaginei que teria chances com ela, até que finalmente tomei coragem para chamá-la para sair e, bem, ela aceitou, então...
— Então você precisa despachar a sua filha para algum lugar para poder transar.
— Cara, não é isso. – Ele balançou a cabeça outra vez. — Para você tudo se resume a sexo, não é?!
— Na verdade, para qualquer ser humano em suas perfeitas faculdades mentais, o que, pelo visto não é o seu caso.
— Idiota! – respondeu diante do meu sorriso debochado. — Só não posso deixar a Lily em casa sozinha, você a conhece, por mais madura que ela acha que seja, é só deixá-la sozinha para ela dar uma de Master Chef. – John e eu trocamos um olhar cúmplice. —Corro o risco de voltar e a casa estar pegando fogo.
Ri ao lembrar das vezes em que a Lily tentou me convencer a deixá-la fazer o jantar para nós dizendo que estava treinando para ser uma grande chef de cozinha. Eu já tinha dito a ela para pensar em outra profissão, o único talento que a diabinha tinha na cozinha era na hora de comer.
— Ok, eu fico com a pestinha o fim de semana. – John suspirou como se estivesse aliviado, depois sorriu. — Mas quero conhecer essa mulher incrível.
John assentiu levantando-se depressa e eu tive a leve impressão de que ele estava nervoso.
— John? – o chamei antes que ele saísse do escritório. John se virou, ainda parecendo desconfortável. — Vai dar tudo certo, fique tranquilo. – Sorri encorajando-o.
E foi assim que acabei aqui, assistindo a uma maratona de Alexia e Katie acompanhado de uma pré-adolescente cheia de opiniões a respeito da minha vida amorosa.
— Sério, dindo, você não acha meio triste o fato de as únicas mulheres da sua vida ser eu e a tia ? – a diabinha perguntou enquanto colocava o macarrão na água para cozinhar. — Até eu já fui pedida em namoro e...
Parei de cortar o tomate naquele exato momento e encarei sério.
— Primeiro, você ainda é uma criança, não conta como mulher. – falei aquilo para vê-la enfezar e foi exatamente o que aconteceu. Ótimo! — Segundo, que história é essa de pedido de namoro? Você já contou isso para seu pai?
— Claro que não, ele surtaria. – disse com o maior cinismo do mundo. Como eu disse, uma diabinha. — Além disso, sei que só posso namorar depois dos 15. – Sorriu.
— 15? Achei que tínhamos concordado com 20. – Voltei a cortar os tomates. — Na verdade, acho que eu e o John vamos aumentar isso para 30.
Lily revirou os olhos.
— Falar em namorar, - disse enquanto pegava os tomates cortados e jogava na panela. — Vamos voltar ao assunto que interessa, quando você vai arrumar uma namorada?
— Desde quando minha vida amorosa se tornou uma preocupação para você, diabinha? – ela mostrou a língua em protesto ao apelido que lhe dera. — Pode deixar que eu mexo o molho, não queremos um incêndio.
— Dindo! – ela fez um bico, mas se afastou do fogão dando passagem para que eu assumisse seu posto. — Só acho que você e o papai já estão ficando velhos demais para não terem uma namorada.
Cacete, que ótima sexta-feira, obrigado, John. A Lily seguiu com sua análise crítica sobre a minha vida amorosa ou melhor, a inexistência dela, por mais uns 10 minutos até que a companhia tocou. Quem quer que fosse já tinha me eterna gratidão.
Ou não. Foi o que pensei ao ver uma fantasiada de unicórnio invadir o meu apartamento.


DEZESSETE



Não se preocupe não, o tem um compromisso hoje à noite, seremos só eu e você!”
Lembrei das palavras da quando fiz questão de me certificar que o não estaria ali. Mas ele só não estava, como, para variar, estava impecável com uma calça social azul-marinho e uma blusa social branca dobrada até os cotovelos, relevando os pelos castanhos que cobriam seus braços, sem falar nos primeiros botões abertos que deixavam a mostra um pouco do seu peitoral bronzeado. Como um cara que só andava de terno poderia ter aquele bronzeado? Qual é! Suspirei. Eu iria matar a .
?
Ouvi o estralando os dedos em frente ao meu rosto me tirando do transe. Meu Deus, eu estava praticamente babando em sua cara. Qual era o problema comigo?
— Você está bem?
Assenti, disfarçando meu embaraço por ser pega em flagrante encarando-o.
— Eu e a combinamos de jantar hoje, ela está?
Por favor Deus, diz que sim!
— Não, a teve que ir a Galeria, ela não te avisou?
Suspirei outra vez sem conseguir esconder minha decepção. Adeus, jantar maravilhoso, olá bom e velho miojo.
— Provavelmente sim, mas meu celular descarregou.
abriu a boca para dizer algo, mas foi interrompido por uma voz fininha que surgiu como um furacão em sua sala.
— Dindo, o molho vai queimar e... – Uma garotinha fofa, com seus prováveis 10 a 1 anos parou de falar no instante em que me viu. Ela me olhou dos pés à cabeça, imediatamente seus olhos se iluminaram e um sorriso radiante surgiu em seus pequenos lábios. — Meu Deus, que pijama incrível, sempre quis um desses! - Corei ao notar o me olhando dos pés à cabeça, parecendo reparar pela primeira vez no que eu estava vestindo.
Ele cruzou os braços ao redor do peito e me fitou, um sorriso irônico surgiu em seu rosto.
— Belo rabo.
Meu Deus, eu queria que um buraco se abrisse ali, naquele exato momento, para eu me enfiar dentro dele!! Por que eu tinha escolhido justamente aquele pijama? Ah sim, porque seria uma noite de garotas. Eu definitivamente mataria a .
— Eu sou a Lily, você deve ser a , não é?!
A garotinha disse piscando os longos cílios que cobriram seus olhos amendoados me impedindo de fazer o que mais queria fazer naquele instante, agredir o . Fiquei emocionada ao pensar que a tinha falado de mim para alguém e, provavelmente, tinha incluído meu gosto para roupas, pois a garotinha me identificou no mesmo instante em que viu meu pijama.
— Oi, Lily. – Sorri me abaixando colocando as mãos no joelho para ficar na sua altura. — A já falou de mim para você?
Ela assentiu.
— Sim, mas meu dindo falou mais... Aí! – ela colocou mão na cintura e fuzilou o com o olhar, depois se virou para mim, como se nada tivesse acontecido, e um sorriso fofo formou-se em seus pequenos lábios. — Você quer jantar com a gente?
— Ela não quer.
— Não, obrigada.
e eu falamos ao mesmo tempo, me deixando extremamente constrangida por sua negação tão incisiva.
— Não estou com fome. – disse me levantando e tentado soar o mais indiferente possível ao seu comportamento grosseiro.
Óbvio que, rainha das leis de “como passar vergonha na frente do ” que eu era, meu estômago achou exatamente aquele silêncio constrangedor o melhor momento para soltar um ruído.
— Diabos, mulher! O que é isso dentro do seu estômago, uma gata parindo?
— Dindo! – a garotinha Lily o repreendeu tentando controlar o riso, mas, como boa criança, bastou uma troca de olhares entre ela e o padrinho para ambos caírem na gargalhada. Óbvio que meu rosto corou tanto que senti minhas bochechas esquentarem. — Fizemos o nosso prato preferido, macarrão à bolonhesa.
— É o nosso prato preferido porque é o único que sabemos fazer. – passou a mão pela cabeça da Lily bagunçando seus cabelos carinhosamente.
Por um segundo quase me esqueci de estar irritada com ele.
— Tem certeza de que não quer comer com a gente? – Lily insistiu.
Queria, porque para falar a verdade, estava desesperadamente faminta, mas a última coisa que eu precisava depois de um dia inteiro remoendo o comportamento estranho do naquele jantar com seu chefe, era ter que ficar em sua companhia. Principalmente levando em consideração que cada gesto e palavra sua deixava bem claro que ele pensava o mesmo da minha.
— Não, eu não estou com fome, obrigada.
Meu estômago deu outro ronco fazendo meu rosto esquentar enquanto a Lily e o tentavam controlar o riso. Corei ainda mais.
— Pelo amor de Deus, , aceite logo de uma vez.


DEZOITO



Desde o jantar naquela quarta-feira, eu havia tentado de todas as formas manter a longe de mim. Não somente ela, como todas as pessoas que depois daquele dia tinham resolvido me parabenizar pelo noivado. Puta que pariu, como uma mentira podia voar tão rápido assim? Funcionários que eu nunca tinha visto, brotavam do nada para me parabenizar pelo casamento eminente.
Mas nada tinha sido mais difícil do que me livrar da Margareth e suas perguntas. No dia seguinte quando ela me ligou querendo marcar um encontro comigo para saber tudo sobre “a mulher incrível que tinha conquistado o meu coração” eu inventei uma virose tão grave que provavelmente levaria a morte em breve. E na sexta, quando ela me pediu o telefone da minha “amada” para oferecer ajuda com os preparativos do casamento, - puta que pariu, se eu soubesse que ficar noivo era significado de casar às pressas, jamais teria concordado com aquilo - eu fui obrigado a dizer que a era uma mulher a moda antiga que não gostava de tecnologia, logo, não usava celular. Ok, era nessas horas que eu me questionava como tinha conseguido chegar até aqui como um advogado bem-sucedido.
Enfim, havia passado aqueles últimos dois dias me esquivando com sucesso de todas as formas de tudo que me lembrava e nosso plano que, nitidamente, estava fadado ao fracasso. Mas então, quando ela surgiu em meu apartamento com aquele seu pijama para lá de exótico e os cabelos vermelhos soltos em um emaranhado de cachos, eu tinha certeza de que as entidades divinas – sejam lá quais sejam elas – estavam de gozação com a minha cara.
Cacete, eu tinha passado o dia inteiro tentando afastá-la do meu pensamento e a mulher simplesmente me aparece na porta da minha casa de pijama e com uma garrafa de vinho? E droga, por que ela ronronava como uma gata no cio a cada garfada que dava no macarrão?
Bufei, passando a mão pelos cabelos enquanto observava ela e Lily se tornarem grandes amigas e darem gargalhadas sobre coisas aleatórias que eu não estava fazendo questão de prestar atenção, já que a única coisa em que minha mente conseguia se concentrar era nos barulhos excitantes que saíam da boca da a cada mordida.
Era isso, eu estava destinado a ter a pior sexta-feira de toda a minha vida, isso graças ao filho da mãe do John e sua misteriosa “mulher incrível”.
— Aí, , você é tão legal. – Lily sorriu.
— Obrigada, Lily, você também é muito divertida. – sorriu enquanto tomava um gole do vinho.
— E não é nada doida como meu dindo disse.
Assim que aquela frase saiu dos lábios da Lily, cada pessoa na mesa foi tomada por uma reação diferente. Lily, obviamente, continuou com seu ar inocente típico das crianças que não se importam em possuir filtro, a , por outro lado, cuspiu metade do vinho em cima do seu prato e eu, bem, fiz a única coisa que poderia fazer naquele instante: sorri o mais inocente possível.
— Você disse para sua afilhada que eu sou doida? – questionou me fuzilando com o olhar.
Lá estava, enfurecida. Seu rosto corando quase do tom de seus cabelos, os olhos transmitindo toda a fúria e indignação que ela sentia naquele instante e, caralho, todo o meu corpo reagiu. Cada parte dele explodiu em uma sensação de euforia por saber ser a causa daquela reação instantânea dela.
— Desculpe, mas não costumo mentir para a Lily. – Sorri e tomei um gole do vinho, provocando-a.
O que estava acontecendo comigo?
— Sim, sim. – Lily sorriu balançando a cabeça. — Eu e o dindo sempre falamos a verdade um para o outro.
— Exceto que você não me contou que algum moleque safado lhe pediu em namoro. – disse tentando distrair o foco da conversa para evitar que a continuasse me olhando como se fosse arrancar os meus olhos.
— Dindo! – Lily corou.
A tentativa deu certo, pareceu ficar mais aliviada à medida que Lily e seu monólogo sobre o colégio e os garotos tomavam conta da mesa. Eu definitivamente precisava ter uma conversa séria com John, não estávamos preparados para a versão adolescente da Lily, eu tinha certeza daquilo, pois cada vez que ela mencionava um garoto eu queria mudá-la de escola. Onde já se viu uma coisa daquelas? Era isso, primeiro tópico da minha próxima reunião com o John: colocar a Lily em um colégio de freiras.
Elas conversaram por mais alguns minutos enquanto terminávamos de jantar, e assim que levantamos e recolhemos os pratos, a insistiu em assumir o a pia.
, você é nossa convidada. – Lily insistiu outra vez. — Além do mais, eu e o dindo temos um acordo, quando eu cozinho, ele lava.
— Então é você quem deveria lavar tudo. – Eu disse antes que a espertinha se livrasse.
— Poxa, dindo, queria tanto assistir só mais um episódio de Alexia e Katie com a , - riu com a coincidência dos nomes. — Por favor, por favor.
sorriu com a perspicácia da diabinha em fugir da pia de prato e jogá-la diretamente em meus braços.
— Vão logo, antes que eu mude de ideia.
Lily sorriu me abraçando ao redor da cintura e foi impossível não sorri de volta. Senti o olhar da sobre nós e a encarei, ela sorriu e eu dei de ombros, como se dissesse que sim, Lily Green era uma diabinha, mas também era meu ponto fraco.
Um tempo depois terminei de lavar toda a louça e estava voltando para a sala, quando a pergunta que Lily lançou a ela, me vez parar para ouvir. A criatura tinha resolvido dar uma de velha alcoviteira comigo e a . Tal pai, tal filha.
— Mas se você não tem namorado e o meu dindo não tem namorada, por que vocês não namoram?
— Porque não é assim que as coisas funcionam, Lily. – respondeu tentando disfarçar seu constrangimento.
— Por que não? – pobre .
— Você não acha o meu dindo bonito, é isso, ?
Engoli o riso ao ver a cara de espanto da , mas de repente me vi encarando-a com a mesma expectativa que a garotinha de dez ano em sua frente a encarava.
— Não é isso, quero dizer, hum... – fitou o olhar esperançoso de Lily, depois desviou os olhos para outro ponto qualquer da sala, evidentemente constrangida. — Seu dindo, digo, o é muito bonito sim, mas...
— Viu só, se você é adulta e bonita e meu dindo é adulto e bonito, vocês deviam namorar e fazer crianças bonitas.
— Ok, diabinha, hora de ir para a cama.
Se eu não estava preparado para ouvi-la falar sobre garotos, imagine sobre fazer bebês. Cacete, a juventude estava perdida. Pensei, me sentindo um idoso, enquanto pegava a Lily e jogava a sobre o meu ombro fazendo-a protestar ao mesmo tempo em que gargalhava.
A diabinha ainda teve a audácia de soltar um “Tchau, , pense no que lhe disse”, fazendo com que gargalhasse e se despedisse dela. Coloquei-a dentro do banheiro, liguei o chuveiro, lhe entreguei a tolha e o pijama, que já estavam separados em cima da cama, e voltei para a sala.
estava sentada no sofá, seus olhos concentrados em buscar algum canal na TV enquanto seus lábios bebericavam o vinho. Ela soltou o controle parando em algum canal onde passava pela milésima vez um dos filmes de Harry Potter, acomodou-se com os pés sobre o sofá e sorriu com entusiasmo. Sorri, pensando como eu poderia facilmente me acostumar com aquela cena em minha sala. jogada em meu sofá, com seus pijamas exóticos, e dezenas de maratonas de Harry Potter. Diabos! Uma sensação estranha surgiu em meu estômago, de onde eu estava tirando toda aquela merda sentimental? Ainda mais com tendo como protagonista?
Não tive tempo de assimilar aqueles pensamentos, muito menos as sensações, pois naquele momento levou as mãos aos cabelos prendendo-os em um coque. Não saberia dizer se foram as taças de vinho ou se foi aquele gesto despretensioso que deixou sua nuca a mostra que, diga-se de passagem, sempre achei uma das partes mais atraentes em uma mulher, mas de repente me vi caminhando até ela, próximo o suficiente, para me abaixar e dizer em seu ouvido:
— Quer dizer que você me acha muito bonito?


DEZENOVE



Quase não podia acreditar que tinha acabado de ter um jantar civilizado e – surpreendentemente – agradável com o . Ok, tirando a parte em que a Lily soltou que o filho da mãe disse a ela que eu era louca - claro que o tinha que dar o seu toque especial -, a noite havia sido bem divertida.
A Lily era um encanto e enquanto eu a ouvia tagarelar sobre todos os assuntos do universo, - a menina tinha a capacidade de ir de um assunto ao outro em um piscar de olhos - me lembrei da minha infância, principalmente quando ela começou um papo sobre garotos fazendo o emburrar. Na hora, foi inevitável rir ao me lembrar do Ricardo tendo que me aguentar junto com a Jana e nossas peripécias de adolescência. Suspirei. Das pessoas da minha família, a que eu mais sentia falta e, provavelmente a única, era o meu padrasto. Sentia falta de nossas conversas leves e divertidas, mas todas as vezes que pensava em ligar para ele eu imaginava a minha mãe tomando o telefone de sua mão e me enchendo com toda sua ladainha de sempre, por isso, acaba desistindo.
— Você não acha o meu dindo bonito, é isso, ? – ouvi a voz da Lily me trazendo de volta a nossa conversa.
Nos últimos minutos enquanto assistíamos ao seu seriado preferido e o lavava a louça – graças a esperteza da garota -, Lily tinha embarcado em uma missão: me juntar ao seu padrinho.
Quase tive um mini infarto quando ela me perguntou se eu o achava bonito, era óbvio, pelo jeito de olhar, que até aquela criança tinha consciência da beleza do padrinho, e por isso sabia muito bem o que eu iria responder, mas mesmo assim, senti meu rosto corar e dei graças a Deus por ela não ter feito aquela pergunta na frente do . Já tinha passado constrangimentos o suficiente em sua frente para uma vida inteira, aquilo era um fato.
— Não é isso, quero dizer, hum... – seus olhinhos verdes brilhavam na expectativa da minha resposta, desviei o olhar para qualquer canto da sala tentando disfarçar a vergonha. — Seu dindo, digo, o é muito bonito sim, mas...
Mas basta dois minutos na companhia uma do outro que milhares formas de assassinato vêm em minha mente. Pensei, mas não quis dizer aquilo e assustá-la.
— Viu só, se você é adulta e bonita e meu dindo é adulto e bonito, vocês deviam namorar e fazer crianças bonitas.
— Ok, diabinha, hora de ir para a cama.
O apareceu e pela primeira vez em todos aqueles anos eu estava agradecida por sua presença. Meu Deus, o que está acontecendo com as crianças do hoje? Eu não dizia coisas como essa quando tinha dez anos, dizia?
— Tchau, , pense no que lhe disse. – Ouvi-a gritar sobre os ombros do padrinho e foi impossível não rir.
Acompanhei com o olhar o carregando a Lily nos braços em meio a risadas e pensei em aproveitar aquele momento para ir embora, mas não queria parecer grosseira e ir sem agradecer o jantar que, diga-se de passagem, estava uma delícia.
Então, fiquei passando os canais aguardando ele retornar e, como sempre acontecia quando eu via que estava passando algum dos filmes de Harry Potter, meu coração se aqueceu e eu me encostei no sofá, relaxando e esquecendo de tudo ao meu redor, pelo menos até o brotar na sala e sussurrar em meu ouvido:
— Quer dizer que você me acha muito bonito.
Eu queria morrer. Primeiro pelo susto, segundo porque, pelo amor de Deus, ele tinha mesmo que ter ouvido aquilo? E Senhor, que arrepio foi aquele que senti em minha nuca?
— Meu Deus, quer me matar do coração? – disse me levantando já indo em direção a porta e pedindo aos céus para que ele ignorasse aquele comentário. — Preciso ir embora, boa noite.
Mas antes que eu alcançasse a porta, caminhou em minha direção, segurou em meu braço e parou a apenas alguns centímetros de mim.
— Não, senhora. – disse balançando a cabeça. — Não sem antes você confessar que me acha muito bonito. – Concluiu com um sorriso sínico.
Bufei. Era só o que me faltava, não bastava ele ter ouvido aquela vergonhosa confissão, achava mesmo que eu iria repeti-la? Pior, para ele?
— Ah, faça-me o favor, . – disse, me soltando de sua mão e tentando me aproximar da porta para uma fuga rápida e eficaz.
— Vamos, , confesse.
Me virei, coloquei as mãos no quadril e o encarei furiosa.
— Você não tem vergonha de ficar ouvindo atrás da porta?
Seu sorriso se alargou, me fazendo imaginá-lo na infância sendo pego em uma travessura, com aquele mesmo sorriso, os cabelos claros que provavelmente formavam ondas e olhos aqueles , que tenho certeza, mesmo naquela época, deviam ser capazes de enganar qualquer um quanto a sua inocência.
— Sabe... – começou a se aproximar de mim e, à medida que ele fazia isso, eu dava um passo para trás, até que me vi presa entre ele e a porta do seu apartamento. — Até que você é bem bonitinha também, .
me fitou dos pés à cabeça fazendo com que cada parte do meu corpo fervesse e eu tinha certeza de que aquela sensação era graças a raiva chegava em um galope potente em cada uma de minhas células. Sério, eu queria chutá-lo em todas as partes possíveis, a começar por aquele seu sorrisinho sínico. Como se estivesse lendo meus pensamentos, seu sorriso tornou-se sacana e ele aproximou-se um pouco mais, - eu quase podia sentir seu quadril tocando em mim -, e sussurrou em meu ouvido:
— Nunca vi um unicórnio tão sensual.
Ok, era oficial, eu ia matá-lo.
— Eu vou chutar o seu saco se você não se afastar. – disse entredentes.
O riu, aumentando ainda mais o ódio que transbordava pelo meu corpo, mas, para meu alívio, ele obedeceu e se afastou.
— Pena que tenha uma personalidade terrível.
Por um segundo, algo estranho ocorreu, assim que ele disse aquilo, uma mistura de reações e pensamentos passou por minha mente. achava que a minha personalidade era horrível, ótimo, eu devia ficar feliz com isso, não devia? Afinal, quanto menos ele gostasse de mim, mais longe ficaria. Então, porque assim que ele se afastou, eu tive a sensação de que algo estava faltando? E por que aquelas suas palavras tinham me atingindo de uma forma tão inesperada? Levantei o queixo, empinando o nariz, fazendo a minha melhor pose de orgulhosa.
— E desde quando homens como você se interessam por algo tão profundo quanto personalidade?
O cruzou os braços ao redor do peito e me fitou, uma de suas sobrancelhas arqueou deixando claro que ele me desafiava a completar aquele raciocínio.
— Acha que basta uma mulher ser bonita para eu querer ficar com ela?
E, de repente, uma coragem que não sabia de onde vinha, surgiu em mim, na verdade, tinha quase certeza de que tinha a ver com prazer de desafiá-lo. Aquele era o problema quando eu e ficávamos em um mesmo ambiente, ele aflorava o que havia de pior em mim. Toda a minha vida eu fui elogiada por ser a meiga, gentil e educada -Cat, mas quando o estava por perto, parecia que algo me dominava e controlar a minha língua tornava-se algo impossível.
— Na verdade, eu achava que bastava ter uma vagina. – Sorri sarcástica.
Então, para minha surpresa, a risada alta e grossa do invadiu toda a sala. Uma sensação estranha me atingiu e, quase tive um choque ao perceber que poucas vezes na vida eu já tinha sentido algo semelhante com aquilo. Era como se sua risada preenchesse alguma parte de mim. Céus, o que estava acontecendo comigo?
, .
se aproximou, me encurralando outra vez entre seu corpo e a porta, nossa diferença de altura me fazendo levantar a cabeça para encará-lo, ele levou a mão ao meu cabelo, colocou para trás uma mecha e deslizou os dedos devagar por toda a extensão dos meus fios, seus olhos acompanhando o seu movimento.
— Fico me perguntando... – o colocou as duas mãos ao redor do meu rosto e passou o polegar por meus lábios, seu olhar fixo em minha boca, seu rosto estava a centímetros do meu. Eu podia sentir a sua respiração tocando minha pele tão nitidamente quanto eu podia sentir o toque dos seus dedos em meus lábios.
Não sei em que momento aquilo aconteceu, mas estava tão próximo de mim que eu jurava ser capaz de ouvir as batidas de seu coração acelerando.
— Qual seria a melhor forma de calar essa sua língua afiada... – ele roçou seu nariz no meu, fazendo com que cada pelo do meu corpo se arrepiasse, depois suas írises foram dos meus olhos a minha boca. Um sorriso, que eu não consegui decifrar, surgir na boca do e, em seguida, ele sussurrou contra meus lábios: — E eu só consigo pensar em uma...
Meu Deus, ia me beijar! E, os céus que me ajudassem, pois, por mais louco que fosse tudo aquilo, ao invés de empurrá-lo, a única coisa que eu consegui fazer foi fechar os olhos e entreabrir os lábios.
— Dindo, cadê o edredom?


VINTE



— Por que eu tenho a impressão de que você não está me ouvindo? - A voz de John invadiu meus pensamentos me trazendo de volta à sala do meu escritório.
Tínhamos marcado aquela reunião para a primeira hora da manhã afim de ajustarmos tudo o era preciso para eu viajar tranquilo no dia seguinte. E era, justamente, por causa daquela viagem que minha mente não estava conseguindo focar na conversa com o John. Se a algumas semanas atrás alguém me falasse que eu estava prestes a me tornar cúmplice de e sua loucura, no mínimo, eu iria rir debochado na cara dessa pessoa. Mas agora, eu não era só cúmplice de como também, não conseguia tirá-la da minha cabeça, pelo menos não depois do que quase aconteceu na noite passada.
— Desculpe.
— Onde está sua cabeça hoje?
Fiz um gesto para que ele deixasse aquele assunto para lá e prosseguisse com a reunião.
— O que você estava dizendo?
John me olhou parecendo desconfiado.
— Aconteceu alguma coisa?
— Nada.
— É a viagem não, é? – revirei os olhos já imaginando o que estava por vir. John Green e sua psicanálise barata. — , você não acha melhor cancelar esse plano?
— Não sei se você se lembra, mas foi você mesmo que me disse que está era a única maneira de eu conseguir concorrer frente ao Rezende pelo cargo de diretor, arrumando uma noiva. – disse colocando os braços sobre a mesa e o fitando. — Posso saber por que resolveu mudar de ideia agora?
— Não sei, talvez porque, como eu lhe disse, eu vi a forma com que você olha para aquela moça, , e, sinceramente, uma viagem só vocês dois juntos, por uma semana, acha mesmo que é uma boa ideia?
— Se é uma boa ideia, não sei, mas é a única que tenho no momento. – Bufei, desviando o olhar do Freud de quinta em minha frente. Era só o que me faltava. — E eu agradeceria se você parasse com essa ideia fixa de que eu olho para a de algum jeito diferente.
John suspirou.
— Ok, já vi que hoje o seu humor não está dos melhores. – disse se levantando. — Vou buscar os documentos que estão faltando para o acordo com o Martin, você assina e finalizamos, pode ser?
Assenti e assim que John saiu, voltei a ler pela milésima vez o parágrafo do contrato em minha mesa, mas, da mesma forma que aconteceu todas as vezes antes, minha mente voltou para a noite passada na sala de meu apartamento. Maldição!
Minha primeira reação quando a Lily apareceu interrompendo o que poderia ser o fim dos meus questionamentos a respeito do sabor da boca da , - e uma possível libertação daqueles pensamentos -, foi querer pegar aquela diabinha e trancafiá-la no quarto para aprender a nunca mais interromper alguém em momentos inoportunos. Cacete, era sério que a pirralha tinha escolhido aquele exato momento para sentir frio?
Mas acontece que, depois, algo que agora eu acredito ter sido minha consciência, me mostrou que, na verdade, eu devia mesmo era agradecer a Lily por sua total falta de noção. E isso ficou ainda mais nítido para mim, naquela manhã, quando a apareceu em meu quarto, com aquela maldita conversa.
— Posso entrar? – ouvi a voz da atrás da porta.
Deixei notebook de lado e fiz sinal para que ela entrasse. aproximou-se e se sentou na beira da cama.
— Deu tudo certo ontem à noite na Galeria?
Tive a impressão de vê-la corar diante da minha pergunta, sabe lá Deus porque, mas depois ela assentiu e seguiu.
— Aham. – Sorriu. — Só queria saber como você está. – arqueei a sobrancelha. — Preparado para ser o melhor noivo do mundo por uma semana inteira?
— Mal posso esperar por esse momento.
Revirei os olhos fazendo-a sorrir.
— Sabemos que este seu noivado com a é uma farsa, mas...
— Por que eu sempre sinto que devo me preocupar quando você vem com um "mas"?
Foi a vez de ela revirar os olhos.
— Gostaria de lhe pedir uma coisa.
— Como eu disse, eu sabia que devia me preocupar com o "mas". – disse ajeitando minha postura na cama.
sorriu, depois me encarou séria.
— Promete cuidar dela?
Enrijeci o corpo. Como se não bastasse todas as merdas que passavam por minha cabeça naquelas últimas horas, agora tinha que ouvir aquilo.
— Acho que a já é grandinha o suficiente para cuidar de si, .
— Eu sei. – Ela assentiu veemente, como se ao fazer isso defendesse a amiga. — Mas, estou preocupada que ela não saiba lidar muito bem com o reencontro com o . – Franzi o cenho. Quem diabos era ? — é o nome do ex dela. – a completou, lendo meus pensamentos.
Algo no fundo da minha mente me colocou em alerta. Em nenhum momento naqueles dias em que passamos arquitetando aquela farsa, eu tinha parado para pensar na possibilidade de a ainda sentir alguma coisa pelo ser ex. Mas agora era óbvio, afinal, qual outro motivo a levaria inventar um noivo falso para ir a esse casamento? Puta que pariu, no que eu estava me metendo?
— Ela ainda é apaixonada por ele? - perguntei, sem saber se queria de fato ouvir a resposta.
— Não sei, eles ficaram juntos nove anos, acho difícil deixar de gostar rápido de alguém com quem você ficou tanto tempo assim, não acha?
— Não saberia dizer.
Não saberia mesmo, pelo menos se levasse em consideração que o relacionamento mais longo que tive durou apenas algumas noites de sexo para no fim, dar em merda, eu estava longe de ser a pessoa indicada para responder àquela pergunta. A deve ter pensado a mesma coisa, pois sorriu e continuou:
— Não, não saberia. – disse ainda sorrindo. — Mas é isto, queria que você cuidasse dela, pois estou preocupada com essa situação com o , ainda mais da forma como eles terminaram.
— E como eles terminaram?
Ok, eu sabia que não deveria me meter na vida da , quanto menos eu soubesse sobre ela, melhor seria para nós dois, mas, de alguma forma, aquela conversa com a estava atiçando para caralho a minha curiosidade.
— Não sei se a ia gostar de saber que lhe contei isso, ela é bem orgulhosa quando se trata de você.
— Me sinto lisonjeado. – disse irônico, fazendo-a me repreender com o olhar. —Vamos, conte logo de uma vez.
ficou em silencio por alguns instantes, provavelmente questionando se a sua lealdade para com a seria atingida caso ela resolvesse abrir a boca.
— Ele a deixou na porta da igreja, quando estavam prestes a se casarem.
Caralho!
— Que filho da puta.
Que tipo de pessoa é capaz de fazer isso com alguém? De repente me senti um idiota por ter debochado tantas vezes da e da sua falta de maturidade para encarar aquele casamento. Não era só ter que voltar para casa depois de muitos anos, era ter que encarar justamente todas as pessoas que a viram ser humilhada daquela forma, aquela porra toda era muito mais complicada do que eu tinha imaginado.
— Não poderia concordar mais. – suspirou, genuinamente chateada.
— Não é possível que ela ainda sinta algo por esse babaca.
— Eu espero que não, mas por mais que você não entenda, a é diferente de nós, .
— O que quer dizer com isso?
— Quero dizer que ela é capaz de sempre ver o lado bom em uma pessoa, mesmo que essa pessoa tenha lhe feito mal.
— Ela é bem idiota, então.
No momento em que disse aquilo eu me arrependi, pois, no fundo, eu sabia que não era aquilo que eu pensava. A verdade era que eu invejava . Tinha levado tanta pancada da vida e, para completar, escolhido uma profissão em que muitas pessoas viviam da desconfiança e da mentira, que me sentia incapaz de olhar para alguém e ver o lado bom dessa pessoa, pelo contrário, eu via cada mínimo defeito.
— Não seja babaca. – me repreendeu com seu melhor tom de mãe e eu sorri. — Se você deixasse de lado seus preconceitos e desse uma chance a ela, veria que a é uma excelente pessoa.
— Ok, advogada do diabo, - disse para provocá-la — diga logo de uma vez o que você quer.
— Já disse, preciso que você cuide dela, , e, por favor, por mais mentira que tudo isso seja, não a magoe. - Senti um incomodo no meu estomago. — A já teve decepção suficiente para uma vida inteira.
— Nunca faria isso. – disse o mais sério que pude.
— Promete?
E foi aquelas palavras da que ficaram rodando em minha mente pelo resto dia me impedindo de me concentrar em qualquer outra coisa. E, para piorar, ainda que todas as vezes em que eu via a , eu sentisse vontade de pegá-la, prendê-la em minha cama e fazer tudo o que minha imaginação vinha tramando nos últimos dias, a voz da minha irmã me trazia de volta a realidade. Eu tinha feito uma promessa a , não magoaria e, sem dúvidas, levá-la para cama estava longe de ser a melhor maneira de manter a minha palavra.
Bufei e passei a mão pela barba, precisava voltar ao foco inicial de tudo aquilo: semi promovido a diretor geral. Aquele era o motivo pelo qual eu tinha me associado a e seria o único.
Me levantei, fui até o aparador próximo à porta, e, por mais cedo que fosse, decidi tomar uma dose de uísque para clarear a minha mente e me trazer de volta aos eixos. Ouvi o barulho da porta do escritório sendo aberta e estava prestes a dar algumas instruções ao John, mas travei assim que me dei conta de que quem estava parado ali no meio da minha sala.
— O que você está fazendo aqui, Júlia?


VINTE E UM



Existem momentos em nossas vidas que situações bizarras acontecem e você se pergunta como foi parar ali, aquela era a pergunta que vinha me atormentando durante toda a noite depois que eu saí do apartamento do . Como eu tinha quase deixado-o me beijar? Tudo bem, verdade seja dita, eu não tinha quase o deixado me beijar, eu queria que ele me beijasse e se não fosse pela Lily. Ai meu Deus, não conseguia nem começar a descrever a vergonha que eu tinha sentido quando ouvimos a voz da garotinha nos trazendo de volta a realidade. Porque, claramente, o que eu e o estávamos prestes a fazer só podia ser diagnosticado como algum tipo de delírio da mente.
Enfim, fiquei tão envergonhada que aproveitei que o voltou para o quarto com a Lily e me mandei do apartamento. Sim, eu fugi. E sim, eu sei que isso foi bem infantil, mas fugir sempre foi uma das minhas maneiras preferidas de lidar com problemas. Pelo menos fisicamente, já que, em forma de punição cósmica, eu tinha passado a madrugada inteira tendo sonhos eróticos com ele? Meu Deus, por que aquilo estava acontecendo com minha mente?
— Roupas, maquiagem, escova de dente... Acho que está tudo aqui. Será que tem algo faltando?
Eu tinha consciência de que a estava falando alguma coisa comigo, mas não consiga prestar atenção em nada. Minha mente naquele momento divagava em dois únicos assuntos: um: flashs vergonhosos dos sonhos da noite passada com o , dois: o fato de que amanhã eu estaria de volta em minha cidade natal.
?
Não sabia dizer qual das duas coisas estava me deixando mais nervosa, aliás, quando eu parava para pensar que estaria de volta à New Sunshine - com o a tiracolo em um noivado falso -, eu tinha certeza do que estava me deixando assim. Afinal, depois de todo aquele tempo fazendo o máximo para evitar qualquer pensamento que me levasse de volta ao passado, agora eu estava prestes a encarar tudo aquilo outra vez.
, em que planeta você está? Você ainda está chateada por causa do jantar de ontem? O me disse que...
A voz da combinada com aquela última frase fez com que, finalmente, eu prestasse atenção em nossa conversa.
— O que o te disse?
— Que você jantou com ele e a Lily ontem.
— Ah, só isso?
— Só, por quê? – me fitou desconfiada. — Aconteceu alguma coisa? Droga, o te tratou mal, não foi? Eu vou matar aquele...
— Não, não. Na verdade, o jantar foi legal. – Sorri.
— Ah que bom. – ela sorriu, parecendo verdadeiramente aliviada. — O tem aquele jeito meio distante, mas ele é uma companhia muito agradável, você vai ver, .
— Acho um pouco difícil que isso aconteça, - falei com sinceridade, mas logo me arrependi ao ver seu semblante entristecer um pouco. — mas, ei, a Lily, por outro lado, é muito fofa. – disse tentando mudar o assunto, o que serviu, pois o sorriso da se iluminou no mesmo instante.
— Eu sou apaixonada por aquela pirralha, ela é uma figura, não é?!
— E como. – disse me lembrando de cada fala excêntrica que a pequena havia me dito na noite passada, principalmente quando mencionou que eu e o padrinho dela devíamos fazer crianças bonitas. Cristo! — Achei ela a cara do John.
— É sim, bastante.
Assim que àquelas palavras saíram da boca da seu rosto corou e eu percebi na hora. E, para falar a verdade, eu já tinha reparado há um bom tempo que aquela era uma reação automática quando se tratava do nome John Green. Sério, todas as vezes que o nome de John Green vinha na conversa, a mudava completamente, quase como se uma luz irradiasse dela, exatamente como agora.
— Você gosta dele, não é?!
enrijeceu e começou a mexer freneticamente nas coisas em minha mala, arrumando-as pela decima vez.
— Como assim? É claro que gosto, o conheço há muito tempo e...
— E porque todas as vezes que eu ou o mencionamos o nome dele, você fica vermelha? – revirou os olhos, tentando disfarçar o óbvio. — E, além disso, teve aquela vez que o encontramos próximo a Galeria, nunca vi você ficar tão atrapalhada, pensei que ia derrubar o sorvete no pobre coitado. – Gargalhei fazendo-a corar ainda mais.
— Não sei do que você está falando. – disse fingindo estar concentrada na missão de arrumar cada item da minha mala.
— E outra, posso estar muito envolvida com toda a minha saga catastrófica, mas reparei muito bem que a senhorita chegou toda radiante esta manhã, o que, diga-se de passagem, é bem estranho para quem passou a noite toda trabalhando.
Touché! Em questão de segundos minha melhor amiga começou a ter todas as reações mais loucas do mundo, para começar, seu rosto quase ficou do tom do meu cabelo, depois ela se levantou, caminhou pelo quarto, sem ter coragem de olhar em minha direção. Em seguida, voltou-se para a beira da cama e começou a tirar e colocar as coisas dentro da minha mala sem nem ao menos se dar conta de que já tinha feito aquilo umas cem vezes nos últimos minutos.
, você...
Meu celular vibrou em cima da minha cama, chamando minha atenção, era uma ligação da Sky.
— Salva pelo celular, por enquanto. – disse levando o telefone ao ouvido.
— Oi, Sky.
Por favor, diga que é verdade que você está mesmo vindo para esse show de horrores.
Sorri. Como eu sentia falta da Sky e de seus comentários espirituosos.
— Por livre e espontânea pressão, amanhã estou aí.
Graças a Deus, não iria aguentar muito tempo aqui sem você. – Ela suspirou. — Agora me diga também que é verdade que você está trazendo um acompanhante.
Como ela...? Ah, claro, minha mãe.
— Ela já espalhou isso para toda a família, não foi? – ouvi um "uhum" do outro lado da linha e uma sensação de vergonha me dominou.
Na verdade, ela só contou para mim e para a Mia, já tem alguns dias, mas ontem...
— O que aconteceu ontem?
Primeiro preciso que você me garanta que vai manter a calma.
— Sky, só de ouvir isso eu já perdi toda a calma.
Sky riu.
Certo, ontem a Sra. fez um jantar lá na casa de vocês, só para o pessoal da família que já está aqui em New Sunshine e...
— E?
Acredita que o filho da puta do Você-Sabe-Quem teve coragem de aparecer para jantar com a gente lá na casa da sua mãe? E ainda teve a cara de pau de trazer Aquela-Que-Não-Deve-Ser-Nomeada a tira colo?
— Não!
Depois do meu grito indignado, a imediatamente parou o que estava fazendo e começou a prestar atenção na minha conversa com a Sky.
Ah, , fiquei tão puta da vida que contei para todo mundo ouvir que você está namorando um cara muito gostoso! Pelo amor de Deus, diga que eu não menti.
Milhares de coisas passaram em minha cabeça e a maioria se resumia em matar o e sua Kim Kardashian com muita crueldade. Como ele tinha a coragem de fazer aquilo? Meu Deus, eu nem estava lá e já podia sentir toda a humilhação e constrangimento de ter que aguentar os dois dentro de minha casa. Senti um aperto no meu peito e meus olhos anuviaram com as primeiras lágrimas que começavam a se formar.
Ok, sei que você deve estar querendo me matar, mas, , eu não aguentei a audácia desse cretino.
— Tudo bem, Sky. – Suspirei, com a voz já embargada. O pior de tudo era que eu sabia que não deveria perguntar o que iria dizer em seguida, mas a curiosidade tinha falado mais alto que minha dignidade. — Ele disse alguma coisa?
, eu vou lhe dar uma surra.
— Eu sei, sou muito idiota. - suspirei, me odiando por ainda querer saber qualquer coisa relacionada ao .
Bem, se serve de consolo, a tal Melissa nem é isso tudo, achei ela bem sem gracinha. - Sky sendo Sky, quase sorri. — É sério, reparei também que ela é meio vesga sabe? E o cabelo com certeza é aplique.
Dessa vez foi impossível não rir. me lançou um olhar que claramente me dizia que estava louca e eu fiz sinal avisando que depois explicaria tudo a ela.
— Obrigada. - disse com devia gratidão.
Mas vamos logo ao que interessa... E então?
— Então o que?
O boy, mulher! Como ele é? Me diga que você já superou o padrão hipster tirado a intelectual, mas que no fundo sabemos que não passa de um tapado. – ri outra vez. Era bom demais conversar com a Sky, podíamos ficar o tempo que fosse sem nos falar, mas quando isso acontecia, era como se não tivesse passado um dia se quer. — O que foi? Você sabe muito bem que nunca fui uma grande fã de Você-Sabe-Quem. – foi a vez dela rir.
E aquilo era verdade, inclusive tivemos várias brigas por conta daquilo. Eu, idiota como era, defendia o com unhas e dentes, enquanto a Sky vivia repetindo que eu merecia coisa melhor. Suspirei, se eu tivesse escutado ela, com certeza não teria desperdiçado anos da minha vida com aquele imbecil. Ouvi o barulho de algo quebrando ao fundo e em seguida um palavrão saiu da boca da Sky.
Vou ter que desligar, o retardado do Chico quebrou mais um vaso! Saia daí, seu gato tapado, vai se sujar todo. – Sky xingou outra vez. — Ok, quando chegar amanhã quero saber tudo sobre o boy magia, ai meu Deus, não vejo a hora de ver seu retorno triunfal. Te amo.
Me despedi da Sky e, por alguns instantes, fiquei paralisada, as palavras da minha prima, suspensas no ar: "Seu retorno triunfal." De repente, me vi de volta a sala do meu apartamento, no fático dia, algumas semanas atrás, em que recebi aquela droga de convite de casamento, as mesmas palavras daquele dia ecoavam em minha mente: eu estava ferrada. Completamente ferrada.


VINTE E DOIS



Um sorriso malicioso preencheu os lábios grossos da morena alta e curvilínea em minha frente e a cada passo que ela dava em minha direção seu quadril rebolava provocante.
— Nossa, a gente não se ver há tanto tempo e é assim que você me recebe?
Havia algo sobre Júlia Assunção que eu já tinha constatado há muito tempo, ela exalava sexo e problema. Muito problema. O tipo de problema que, por pouco, não tinha me ferrado por completo e, era por isso que, desde então, eu tinha decidido evitá-la. Deixei o copo sobre a bancada, escorei o quadril ali e cruzei os braços ao redor do peito, encarando-a sério.
— Achei que tinha deixado bem claro que não queria mais vê-la, Júlia, muito menos aqui.
Ela fez um biquinho, como uma garotinha de sete anos quando é contrariada, depois parou em minha frente, seu dedo indicador com a unha grande e pintada percorreu o meu braço do punho até o ombro.
— Vim apenas acompanhar o meu marido, afinal, ele ainda é um dos maiores investidores desta empresa. - Enrijeci o corpo e a encarei sério, esperando que aquilo deixasse claro que os seus joguinhos já não me atraiam mais, cometer aquele erro uma vez já tinha sido mais do que suficiente.
— E só Deus sabe como isso ainda é possível. – disse me afastando.
— Ah, me lembrei, é porque ele é o único que não sabe do que aconteceu ano passado.
Júlia deu um sorrisinho cínico, caminhou alguns passos em minha direção e, graças aos seus saltos enormes e a nossa pouca diferença, ela aproximou seus lábios dos meus me fazendo senti-los enquanto falava:
— Você devia ficar feliz por isso.
Fiz uma careta. Ela tinha razão. Aquilo tudo quase tinha me custado o meu emprego e por um triz eu não estava agora na rua pedindo esmola para mim e a , mas ainda assim, por mais hipócrita que fosse, eu sentia pena do homem que era casado com aquela mulher.
— Estou sentindo um cheiro de culpa? – Júlia disse assim que seus olhos capturaram meu semblante.
— Nossa culpa.
— Não me recordo muito bem sobre o que você está falando. – disse passando a mão pelo meu peito, descendo lentamente até próximo da minha virilha. — Gostaria de criar lembranças novas que eu não esqueça? – ela mordeu o lábio, depois sussurrou em meu ouvido: — Sabe como é, recordar é viver.
Se isso tivesse acontecido um ano atrás, a Júlia já estaria em cima da minha mesa e eu finalmente teria a transa quente que estava precisando para expurgar todos aqueles demônios que vinham me assolando nos últimos dias, mas tinha sido justamente por uma atitude como aquela que, agora, eu estava metido naquele plano maluco da na tentativa de fazer de mim um homem descente. E, diabos, eu sabia que repetir o erro do passado não era bem o melhor caminho para aquilo.
— Neste caso, recordar é assinar a minha sentença de morte. – disse colocando minhas mãos sobre seus ombros e a afastando.
Júlia deu ombros, o bico infantil voltando aos lábios carnudos. Será que ela não percebia o quanto aquilo era patético? Nem mesmo a Lily, uma criança, ainda usava daqueles artifícios.
— Nossa, , relaxe, ninguém me viu entrar aqui.
— E espero que ninguém a veja saindo. – disse passando a mão ao redor de seu braço e a levando até a porta.
Mas antes que eu a abrisse, Júlia aproveitou que estávamos próximos e, em um movimento rápido, juntou nossos corpos.
— Eu sei que você está com saudades. – disse, seu quadril roçando descaradamente em mim. Senti uma pontada em minha virilha.
Puta que pariu, será que a minha mente e meu corpo não podiam entrar em consenso pelo menos uma vez na vida?
— Júlia...
— Me encontre hoje à noite.
— Você ficou maluca? - Disse, empurrando-a.
— Já disse, estou com saudades. – mais uma vez, lá estava a droga do biquinho. — E eu lhe disse que não temos mais nada um com o outro.
— Não lembro de termos entrado em um consenso quanto a isso.
— Saia, Júlia.
Eu não sei que porra aconteceu, mas na mente dela, a palavra sair teve outro significado: enfiar a língua em minha boca. E, caralho, quase não acreditei quando uma constatação me atingiu em cheio. Naquele exato momento eu tinha em cima de mim uma das mulheres mais gostosas com quem eu já tinha tido o prazer de transar, mas a porra da minha cabeça e, diga-se de passagem, do meu corpo, estava em outro lugar completamente diferente. Puta que pariu, aquilo não podia estar acontecendo.
— Então é verdade. – Júlia disse ao interromper o beijo e me encarar. Ela me fitava como se estivesse vendo muito além do meu rosto em sua frente. — Você está mesmo noivo?
Primeiro fiquei sem reação, como ela sabia sobre o meu "noivado" com a ? E segundo, o que aquela história tinha a ver com tudo aquilo?
— Como você ficou sabendo?
— Notícias ruins correm rápido. – Ela sorriu dando de ombros.
— Ótimo, temos mais um motivo para você sair daqui.
— Qual é, . – Júlia sorriu maliciosa colocando as mãos sobre o meu peito.
— Você sabe que não vejo problema algum em compartilhar, não sabe?
— Você está...
Parei no exato momento em que ia dizer que ela estava louca, porque de repente algo passou por minha mente, aquilo era o que eu estava pedindo há semanas, não era? Júlia estava bem ali em minha frente me oferecendo o que eu precisava, um bom sexo para descarregar e poder embarcar em paz naquela viagem com a , sem chances para que meus hormônios colocassem tudo a perder. E foi pensando naquilo, ou melhor dizendo, não pensando, que levei a mão ao cabelo da Júlia, prendendo-o entre meus dedos e a empurrei contra a parede, minha língua explorando cada canto de sua boca, depois seu pescoço, fazendo-a gemer e...
— Pronto, chefe, aqui está o... Puta que pariu!
Afastei meu corpo depressa da Júlia e me virei de costas, tentando ganhar tempo para me livrar daquela confusão. Cacete, quando eu iria aprender a pensar com uma única cabeça?
— Olá, Green. – Júlia o cumprimentou como se não tivesse acabado de quase ser pega, mais uma vez, em flagrante. — Eu já estava de saída, obrigada. – disse aproximando-se da porta, mas antes de sair ela parou e disse: — Te espero mais tarde, .
Bufei, passando a mão pelo cabelo, tentando ajeitar a bagunça que a Júlia tinha deixado ali, em todos os sentidos.
— Te espero mais tarde, ? Que porra é essa? – John disse irritado enquanto eu me servia uma dose de uísque e tentava buscar uma explicação lógica para o que quase tinha acontecido ali. — Você ficou maluco?
— Merda!
— Onde está a porra do seu juízo?
— Eu...
— Caralho, ! Você tem noção do risco que correu? – assenti. John tinha razão, eu tinha dado o maior vacilo de todos. — E se outra pessoa entrasse aqui? Pensei que você tinha aprendido com o que aconteceu ano passado, mas pelo visto...
— Claro que aprendi. – Balancei a cabeça. — Não tenho culpa se a louca da Júlia resolveu ressurgir das cinzas e...
— Ah claro, porque você obviamente é um homem indefeso que foi atacado e...
— Me poupe do seu deboche, John. – disse irritado.
Já bastava a minha consciência que naquele momento tinha resolvido aparecer com toda a bagagem do último ano e, por mais que eu merecesse, não estava afim de ouvir um sermão. Ficamos em silencio por alguns minutos, cada um com seus pensamentos a mil, agora além de toda aquela merda eu estava me sentindo mal por ter sido grosseiro com o meu amigo. Demônios, por que aquela mulher tinha resolvido aparecer logo agora? Só podia ser uma piada.
— O que ela queria? – John perguntou, quebrando o silencio.
— Conversar sobre o tempo, o que você acha? – ele me lançou um olhar irritado e eu suspirei. Abri o botão do terno e me sentei em uma das poltronas reservada aos clientes. — Desculpe. – John balançou a cabeça, como se disse "tranquilo". — Olha, eu não tenho a menor ideia do porquê ela resolveu aparecer logo agora, mas eu preciso arrumar um jeito de me livrar de vez da Júlia, John, e garantir que ela não estrague tudo, pelo menos, até eu conseguir o cargo de diretor geral.
— Pensei que já tinha dado um jeito nisso, considerando que agora você é noivo.
— Cacete! - Bufei, minha consciência voltando com tudo outra vez.
Agora, mais do que nunca, eu precisava que aquela noivado falso com a desse muito certo. Até ali eu tinha evitado ao máximo que a fizesse aparições em meu ciclo social, porque quanto menos outras pessoas se envolvessem, mais fácil seria quando eu inventasse uma desculpa para nosso término. Mas a presença da Júlia ali no escritório e quase termos sido pegos em flagrante – mais uma vez -, deixava bem claro que eu precisava fazer o possível para mantê-la longe de mim e, principalmente, para que todos acreditasse que e eu estávamos apaixonados.
— Eu não sei o que você viu nessa mulher, ela não me desce.
— Tem certeza de que você já olhou direito para ela?
John revirou os olhos.
— Viu só? Foi isso o que eu quis dizer sobre as chances desse seu plano com a dar errado, principalmente depois dessa viagem.
— Como assim?
— Já esqueceu o que eu lhe disse? Você e uma mulher bonita juntos e sozinhos por muito tempo? É óbvio que não vai dar certo.
Ah, era aquilo.
— Você só se esqueceu de um detalhe, meu amigo. – John arqueou a sobrancelha e eu continuei: — e eu, nos detestamos. – disse indo me sentar em minha poltrona atrás da mesa, precisava focar no trabalho e esquecer todo aquele dramalhão mexicano em que minha vida tinha se transformado. — Tudo isso será como um acordo de negócios, logo, não há menor chance de dar errado.
— Ok, , acredite no que você achar melhor. – John foi até a porta e já estava saindo, mas voltou e me fitou sério. — Só tente não magoar a , ela me pareceu ser uma boa pessoa. – Dizendo isso ele foi embora me deixando extremamente irritado.
Que porra era aquela? De repente todo mundo resolveu defender a honra da ? Bufei. Será que ninguém conseguia ver que era impossível que eu e a nos envolvesse de qualquer outra forma que não aquele noivado falso? Nós não tínhamos nada a ver um com outro e...
"Sabe, até que você é bem bonitinha também, ."
"Eu vou chutar o seu saco se você não se afastar."
"Pena que tenha uma personalidade terrível."
"E desde quando homens como você se interessam por algo tão profundo quanto personalidade?"
"Acha que basta uma mulher bonita para eu querer ficar com ela?"
"Na verdade, eu achava que bastava ter uma vagina."
Toda aquela conversa que tivemos na noite passada voltou a minha mente e, assim como naquele momento, uma risada alta invadiu o silencio de minha sala. Eu tinha que admitir, tinha se tornado uma surpresa e tanto para mim. Ok, eu ainda a achava louca, mas se em algum momento eu pensei que a não passava de uma mulher tímida e sem graça, que se resumia a seu gosto duvidoso para roupas, eu que era o maluco ali. Diabos, e que porra foi aquela dela aparecer em minha mente logo quando outra mulher estava com a língua praticamente enfiada em minha garganta?
Que merda era aquela? Como alguém que, a pouco tempo atrás, nem fazia parte de minha vida, de repente começava a fazer parte de meus pensamentos daquela forma tão constante?
"A é diferente de nós, . Ela é capaz de sempre ver o lado bom em uma pessoa, mesmo que essa pessoa tenha lhe feito mal."
Aquilo tudo já estava indo longe demais! Pelo amor de Deus, eu não era mais um adolescente com os hormônios a flor da pele, eu era a porra de homem com 35 anos na cara e estava na hora de agir como tal. Principalmente agora eu tinha em minhas mãos a oportunidade de assumir a diretoria geral da empresa a qual eu tinha dedicado praticamente a minha vida toda. Aquela não era hora para perder o foco, pelo contrário, manteria as coisas no eixo, eu e tínhamos um acordo e eu o seguiria até conseguir me tornar o diretor geral das Indústrias Brandão. E nada mais.


VINTE E TRÊS


Vamos lá, respira. Isso mesmo, expire e inspire.
Mentalizei aquilo pela milésima vez nas últimas horas, porque cada minuto a mais que eu passava dentro daquele carro com o a caminho de New Sunshine eu pensava que iria explodir. Primeiro de ansiedade, pois não conseguia parar de pensar como seria a reação de todos ao me ver ali. Tudo bem, por mais idiota que eu me sentisse, precisava admitir, era a reação do que estava me deixando mais ansiosa. Será que em algum momento ele tinha se arrependido de... Pelo amor de Deus, o homem te largou na porta da Igreja. Minha consciência apareceu naquele momento jogando em minha cara o quão estúpida eu era por ainda pensar aquilo.
E ainda tinha outro detalhe, pensei, encarando a pequena pedra verde com brilhantes do anel em meu dedo esquerdo. Eu estava noiva. Estremeci. Por mais falsa que fosse aquela história, eu não conseguia parar de pensar em como a minha família iria reagir ao saber que, depois de um ano inteiro sem dar notícias, eu estava de volta a New Sunshine e noiva. E aí estava o segundo motivo pelo qual eu estava prestes a ter um treco, não o fato de estar prestes a mentir para todo mundo que eu conhecia, não, isso eu já estava quase aceitando, o motivo era: .
Aquela era a décima vez, em menos de uma hora de estrada, que o meu insuportável companheiro de viagem trocava a música que eu tinha escolhido sem nem ao menos se importar em me perguntar se estava tudo bem em fazer aquilo. Sério, o homem era impossível.
— Seria muito difícil para você deixar tocar pelo menos alguma das músicas da minha playlist?
— Seria. – Ele disse com a maior cara de pau, sem desviar os olhos da estrada. — Principalmente porque estou correndo o risco de perder os tímpanos com cada uma delas. – Finalizou, me olhando e sorrindo sarcástico.
— Pelo amor de Deus, qual o problema com minhas músicas? – bufei. — Qual pessoa em pleno século XXI não gosta de Lady Gaga?
— Meu carro, , minha playlist. – disse selecionando uma música de John Mayer para tocar.
Certo, eu gostava muito de John Mayer, sua voz era uma das mais bonitas que eu conhecia, mas eu definitivamente não queria dar o braço a torcer e admitir ao que, de algum modo muito absurdo, nós tínhamos algo em comum.
— Na verdade, nós dois pagamos pelo aluguel do carro, então, tecnicamente....
— Mas o cadastro está em meu nome, então, tecnicamente, - ele me fitou — meu carro, minha playlist.
Bufei.
— Alguém já lhe disse que você é insuportavelmente dominador?
No mesmo instante em que aquelas palavras saíram de minha boca, eu me arrependi, e a situação só piorou ainda mais depois que o me olhou e com um sorriso malicioso surgindo em seus lábios, me disse:
— Nunca dentro de um carro.
Imagens de um sem camisa surgiu em minha mente, ele suado, os cabelos bagunçados e a voz rouca me mandando tirar a roupa enquanto me encarava com aqueles olhos e... Meu Deus, qual era o problema comigo? Eu sabia que em algum momento da minha vida aquele tanto de romance de banca que eu a Sky líamos escondidos no meu quarto iria fazer mal a minha imaginação, só não precisava ser naquele momento.
Senti meu rosto corar como de uma adolescente prestes a dar o primeiro beijo, pelo amor de Deus, quantos anos eu tinha? 13? Mexi nos botões do ar condicionado, reduzindo a temperatura, porque, com certeza, aquela reação do meu corpo não tinha nada a ver com as imagens do em minha mente, mas sim com...
— Calor, ? – perguntou sem disfarçar cada nota maliciosa de sua voz.
— Idiota. – Sussurrei, fazendo-o rir.
Ficamos em silêncio por alguns minutos, mas de vez em quando eu podia sentir seus olhos me inspecionando, até que ele disse:
— Vamos fazer assim, eu deixo você colocar a sua música, se você me deixar fazer uma pergunta.
Me virei no banco, fitando-o desconfiada.
— Que tipo de pergunta? – a última coisa que eu precisava naquele momento era ter que responder perguntas constrangedoras ao enquanto a voz sensual de John Mayer servia de trilha sonora para minha imaginação proibida para menores.
— Quer ou não ouvir a sua música?
— Depende. – arqueou a sobrancelha. — Quero ouvir Lady Gaga. – Ele fez uma careta, mas assentiu. — E tem que ser mais de uma música.
riu, fazendo uma sensação estranha percorrer a minha barriga ao constatar que quando ele fazia isso, parecia despertar em mim a mesma vontade de sorrir. Além disso, se soubesse como um sorriso suavizava seu rosto, tornando-o ainda mais atraente, ele faria aquilo com mais frequência. Senhor, eu precisava mesmo tirar a voz de John Mayer do som, estava enlouquecendo.
— Você já pensou em fazer Direito? É excelente em negociações.
Enrijeci, me lembrando de anos atrás, a faculdade de Direito, os anos trabalhando com meu pai em seu gabinete. Cada dia era um tormento, cada dia eu desejava estar em qualquer lugar que não fosse ali, resolvendo problemas dos outros. Todos os dias eu me perguntava: como alguém que não sabia resolver nem os próprios problemas poderia fazer isso por outras pessoas?
— Eu sou formada em Direito. – Me vi dizendo.
nem ao menos disfarçou a cara de espanto. Ele se virou para mim, sua testa franzida como se não conseguisse conceber aquela ideia.
— Você é formada em Direito? – assenti. — Mas você chegou a exercer?
— Sim, por quase cinco anos.
Ele balançou a cabeça, ainda visivelmente incrédulo.
, advogada, como nunca soube disso?
— Bem, você nunca me perguntou. – Respondi dando de ombros.
Ele ficou em silêncio, parecendo perdido, por alguns instantes, em seus próprios pensamentos.
— Por que você não quis mais advogar?
Suspirei. Naquele último ano, quando alguém conversava comigo sobre aquele assunto, a pergunta mais frequente era: "Você ficou maluca? Como alguém larga uma profissão dessas para trabalhar em uma livraria?", quase me surpreendi com a forma educada e sem deboche com que o tinha me questionado a respeito daquela decisão.
— Quando eu fui embora de New Sunshine, cheguei até a procurar emprego na área, mas eu sabia, na verdade, eu já sabia disso desde o primeiro dia de faculdade, que eu detestava o Direito. – Confessei, me sentindo estranhamente em paz por finalmente poder dizer aquilo em voz alta. — Então decidi que não iria mais seguir na carreira.
— Você não ficou com medo? Jogar tudo o para o alto e se arriscar dessa forma?
— Fiquei. – Assenti. — Mas quer saber? Foi uma das melhores decisões que já tomei, e olha que devo ser a pessoa que tem o maior recorde de péssimas escolhas na vida.
ficou em silêncio e depois sorriu.
, ... – Ele me fitou, ainda sorrindo. — Por que eu tenho a sensação de que você nunca irá parar de me surpreender?
Seu tom de admiração e o brilho diferente em seus olhos claros me pegaram de surpresa me deixando extremamente envergonhada. De repente me senti desconfortável, como se o silêncio no carro estivesse querendo nos dizer muitas coisas enquanto aquela sua pergunta retórica pairava no ar, bailando ao som da voz sedutora de John Mayer, tornando a atmosfera do ambiente muito mais do que deveria ser. Eu precisava mudar aquela música, tinha corrompido John Mayer para sempre para mim.
— O que pensa que está fazendo? – perguntou assim que comecei a procurar por minha playlist no celular.
— Colocando a melhor música que você irá ouvir hoje. – Sorri fazendo-o revirar os olhos.
— Duvido muito disso e, além do mais, não fiz a minha pergunta.
— Meu Deus, você é mesmo insuportável. – Ele sorriu. — Vamos, faça a bendita pergunta.
Ele me lançou um olhar que não soube decifrar, depois seguiu encarando a estrada.
— Você ainda é apaixonada por esse tal de ? – perguntou assim, de vez, como quem pergunta sobre o tempo.
Senti meu corpo enrijecer automaticamente. Estava preparada para qualquer tipo de pergunta idiota que o fosse fazer, na verdade, já imagina que sua pergunta teria algum tom malicioso ou zombeteiro, mas não me preparei para aquela pergunta, até porque, eu mesma evitava fazê-la para mim, e, segundo, porque ninguém tinha coragem de me perguntá-la, talvez por achar que eu ficaria magoada ou, pior, muito irritada, mas àquela altura dos acontecimentos eu precisava admitir uma coisa: não era o único capaz de se surpreender por ali.
— O me machucou muito.
— Não foi isso que eu perguntei.
A verdade era que da mesma forma que eu evitar me fazer aquela pergunta, evitava mais ainda saber a sua resposta.
— Bem, é complicado, e eu...
— Acho que aí está a sua resposta, . – disse seco, voltando a ser o de sempre.
E antes que eu pudesse rebatê-lo, deu play no som e a voz de Lady Gaga preencheu o silêncio, como um sinal claro de que ele não tinha mais perguntas e que, pelo menos por hora, não queria mais conversar. A raiva chegou a galope em meu peito, tinha passado todo aquele ano evitando fazer aquela perguntar para mim mesma e agora o idiota do a escancarava em minha cara, a troco de quê?
O pior de tudo era que agora eu não conseguia mais parar de pensar naquilo. Eu ainda era apaixonada pelo ? Mesmo depois de toda a humilhação que ele tinha me feito passar? Todas as perguntas que estavam guardadas a sete chaves no fundo da minha mente começaram a surgir e tudo aquilo por culpa de que surgiu do nada e tinha arrancado o band-aid sem qualquer tipo de anestésico.
Será que quando eu visse o meu coração ainda iria disparar como todas as outras vezes? Ou será que... Não tive tempo de pensar em mais nada, pois naquele momento o GPS anunciou que tínhamos chegado ao nosso destino, lá estava, escrito na placa no alto da avenida: Bem-vindos a New Sunshine!


VINTE E QUATRO



Fui guiando o pelas ruas de New Sunshine e à medida que seguíamos, cada uma delas me trazia milhares de recordações de toda a minha vida. A época divertida da escola, a praça do meu primeiro beijo no desengonçado Victor, as aventuras com a Sky em nossos lugares preferidos, os passeios com o , o restaurante do meu primeiro encontro com o , a loja em que escolhi o vestido de noiva, tantas coisas vividas ali, tantas histórias, que faziam com que o aperto no peito que eu vinha sentindo durante todo aquele dia surgisse com ainda mais força.
Passamos pela orla, o pôr do sol já chegando ao fim banhava o céu e o mar com as cores mais lindas que eu já tinha visto, trazendo as lembranças dos meus melhores dias ali, naquelas praias, principalmente aos fins de semana, quando o levava eu e a Sky para um piquenique no fim do dia e nos divertíamos com suas histórias mirabolantes. Suspirei. Não tinha ideia do quanto sentia falta de tudo aquilo até estar ali. New Sunshine tinha deixado um gosto amargo em minha vida, mas ainda assim, era um dos meus lugares favoritos no mundo.
— Você está bem?
— Sim. – Assenti. — Um pouco nostálgica, talvez. – Dei de ombros. — Pode virar à esquerda e no fim da avenida, a direita, Village New Sunshine, logo ali na frente você vai ver o portão grande com grades cinzas. - disse, tentando manter a calma e ignorar a orquestra de sentimentos conflitantes e contrários se apresentava em meu peito conforme íamos nos aproximando daquele lugar que por muitos anos tinha sido o meu lar.
seguiu as minhas instruções e minutos depois, ao pararmos na porta do condomínio, Seu Ernesto, um senhorzinho que eu conhecia desde quando me entendia por gente, apareceu e fez sinal para que o abaixasse o vidro e se identificasse.
— Boa tarde, em que posso ajudá-lo, meu jovem?
— Oi, Seu Ernesto. – disse me abaixando próximo ao para ele pudesse me ver.
— Menina ! – disse com um sorrisão gentil. — Quanto tempo! Veio para o casamento da senhorita Mia, não é? – sorri e balancei a cabeça confirmando. — Seu vai ficar feliz demais, sejam bem-vindos. - Seu Ernesto abriu o portão e acenou para que seguíssemos.
Enquanto nosso carro avançava pelo condomínio, outra onda de sensações ia tomando conta de mim. Se uma semana atrás eu estava tensa por não saber o que me esperava no jantar na casa do chefe do , naquele instante, enquanto íamos nos aproximando em frente à casa dos meus pais, - lotada com todos os outros carros dos convidados que estavam ali para o jantar de recepção -, eu estava prestes a ter um ataque cardíaco.
No caminho, percebi de canto de olho o me lançar alguns olhares conforme avançávamos pelo condomínio e passávamos por suas casas luxuosas, eu sentia que ele queria me perguntar algo, mas fingi que não tinha percebido sua inquietação enquanto olhava a janela. Mas assim que indiquei a casa em que ele devia parar, o estacionou olhou mais uma vez pela janela, depois para mim, até que ele não se aguentou e disse:
— Caramba, , você por acaso se esqueceu de mencionar que é milionária?
Me mexi no banco, me sentindo levemente desconfortável como todas as vezes em que aquele assunto aparecia. Era muito difícil para as pessoas acreditarem na história da garota que tinha jogado tudo para o alto, largado uma profissão estável e se mandado para a capital sem pedir um tostão que fosse dos pais ricos durante todo aquele tempo. Mas eu tinha feito aquilo, em nenhum momento daquele tempo em que estive fora de casa eu tinha se quer pensado em pedir ajuda aos meus pais, até porque, pelo o que eu conhecia da minha mãe, aquilo seria só um motivo para ela me arrastar de volta para casa.
— Meus pais são, não eu.
Disse aquilo e o fitei, já esperando todo o deboche que sempre vinha em seguida quando eu deixava claro a alguém que eu não tinha nada a ver com o dinheiro dos meus pais. Mas ao invés disso, o me encarava com um brilho diferente em seus olhos claros, quase como se me admirasse. Mais uma vez me senti atingida por aquela conexão que parecia existir entre a gente, aquele entendimento que, mesmo que só durassem alguns segundos, era verdadeiro.
— Justo. - O canto de sua boca subiu em um quase sorriso, depois ele olhou para fora, suspirou e voltou-se para mim, seus olhos me sondaram por alguns segundos. — Então, pronta para ser a noiva mais radiante de todos os tempos?
O pânico voltou com ainda mais força. Meu Deus, era óbvio que nada daquilo daria certo! Sério, qualquer um que olhasse para mim e para o saberia que estávamos longe de ser um casal, ainda mais um casal apaixonado, pensei fitando-o. Desde aquela manhã quando o bateu em minha porta que não conseguia parar de pensar em que confusão eu estava me metendo. Nós dois não conseguíamos ficar um minuto sem brigar, imagina uma semana inteira de convivência? Já podia até ver a gente se matando na frente dos meus pais e tudo indo por água abaixo.
Dois, minha família, em especial, minha mãe. Senhor, e se ela resolvesse fazer uma entrevista com o ? Como ele iria sair de uma emboscada como aquela? Porque era óbvio que Elizabeth não deixaria o meu suposto noivo escapar sem uma enxurrada de perguntas. E, ah meu Deus, e mais uma vez, lá estava eu pensando em como o iria reagir assim que me visse com o ? Bufei. Não, não era possível, que eu ainda fosse capaz de me importar com a opinião do , não depois daquele dia catastrófico em que ele me largou praticamente no altar.
Não seja idiota, , quem você acha que está enganando além de você mesma, querida?
Ouvi o barulho da minha porta sendo aberta, me tirando daquele transe, e vi o me estender a mão.
— Vamos, , uma hora você vai ter que sair daí.
Só então eu percebi que ele já tinha descido do carro. Me encolhi e balancei a cabeça negando. revirou os olhos, pegou o celular no bolso, digitou algo e depois disse:
— Emergência. – E me entregou o aparelho.
Fitei-o com o cenho franzido, mas ao colocar o celular em meu ouvido, a voz da surgiu, me trazendo uma sensação de conforto.
, levante agora essa sua bunda incrível dessa cadeira, saia do carro e entre nesta casa com sua melhor cara de esnobe.
— Como você sabe que estou empacada dentro do carro?
— Sei muito bem como você lida com situações de pânico. – Percebi a voz da um pouco receosa ao admitir que sabia que eu não era boa em lidar com crises.
— Eu acho que é melhor eu voltar, . Sério, isso não...
— , pelo amor de Deus, entre logo nessa casa e mostre para o idiota do a mulher incrível que ele perdeu.
— Não sei bem se isso...
— Ok, situação drásticas necessitam de medidas drásticas, passa para o .
Suspirei e entreguei o telefone ao .
— Ela quer falar com você.
Me perguntei o que ele poderia fazer para resolver aquela situação, aliás, não havia nada para resolver, eu já estava decida, eu iria voltar para casa. Era isso, eu ia dar meia volta, pedir a para ligar para minha mãe e avisar que eu tinha sofrido um terrível acidente e que provavelmente ficaria em coma pelos próximos anos. Pronto, situação resolvida. Estava prestes a dizer ao para ele entrar no carro, pois iríamos embora imediatamente, quando o ouvir perguntar.
— Você tem certeza disso? – sua expressão era séria enquanto ele ouvia atentamente o que parecia ser instruções da . — Quem diria que minha irmãzinha poderia ser tão malvada? – ele sorriu. — Certo, estamos aguardando.
— O que ela te disse? – perguntei assim que o vi desligar a chamada.
fez sinal para que eu ficasse quieta, me dando vontade de cortá-lo em mínimos pedaços, depois um bip veio de seu celular e ele encarou a tela com um sorriso sádico. O que estava acontecendo ali? E como se lesse meus pensamentos, ele virou a tela de seu celular para mim e eu quase tive um infarto ao ver o vídeo que a o tinha enviado.
Reconheci a minha estante de livros e em cima da bancada, todas as minhas edições de colecionador dos livros de Harry Potter, exceto por uma, o primeiro livro, Harry Potter e a Pedra Filosofal, o que eu tinha mais ciúmes, porque além de ser a primeira edição, era autografada pela JK. Rowling, aquele livro tinha me custado um ano inteiro de privações financeiras já que eu tinha juntado toda a mesada da época para comprá-lo e eu tinha certeza de que ele estava junto aos outros. Onde estava?
Respondendo a minha pergunta, a imagem da câmera virou e a apareceu no vídeo, em uma mão ela segurava o meu bebê e na outra, para meu desespero, um galão de álcool e fósforos. parecia uma serial killer prestes a cometer um crime. De repente o vídeo acabou e o abaixou o celular, me fitando.
— Ela não faria isso.
— Na verdade, ela acabou de escrever: "faria sim, desça agora!". - disse lendo a tela do celular.
Meu coração disparou. Que tipo de pessoa era capaz de fazer uma ameaça como aquela? Eu precisava, com urgência, reavaliar minhas amizades.
— Meu Deus, tudo bem, já estou saindo, ok, avise ela. – Bufei saindo do carro com a força do ódio. Tirei meu casaco e joguei dentro do carro, bati a porta e me virei para o , ele estava me encarando e ficou assim por um bom tempo até que eu disse: — O que foi? Vamos, , avise logo. - falei apreensiva.
— Calma. - disse, parecendo voltar a si, depois sorriu diante do meu desespero. Sádico. — Pronto, já avisei.
— Onde já se viu me chantagear com o meu bem mais precioso? - resmunguei. — Sua irmã não tem coração.
— O que posso dizer? - ele sorriu. — É o charme da família .
— Não ter coração?
gargalhou, sua risada foi tão alta e honesta que eu senti cada nota me atingir em cheio e quando dei por mim, estava sorrindo também. Por alguns instantes todo o nervosismo que eu estava sentindo desde a noite passada pareceu se esvair, dando lugar a algo novo que, naquele momento, eu não consegui interpretar muito bem o que era.
— Eu estava falando da chantagem, mas acho que a falta de coração também vale. – Ele ainda sorria, as pequenas rugas no canto de seus olhos se acentuando. — Apesar de que, pensando por esse lado, teria que admitir que a foi adotada.
Sorri. Mesmo sendo um idiota na maior parte do tempo, o sempre era capaz de tecer elogios a irmã, quase como uma mãe leoa. Aquele pensamento trouxe de novo algumas das minhas inseguranças, por que eu e a Mia não podíamos ser assim? Pensei, me sentindo desanimada outra vez, mesmo depois de todos aqueles anos, a relação distante minha e da minha irmã ainda era algo que me entristecia.
— Pronta?
Balancei a cabeça negando. Encarei mais uma vez a fachada da casa, tudo exatamente como antes, a diferença ali era só uma: a forma como eu a via. O que antes era meu porto seguro, o lugar para onde eu sempre voltava quando tinha um dia ruim, agora era meu maior tormento. Suspirei. Já tinha imaginado aquele momento milhares de vezes, eu voltando para casa, bem sucedida, dona e responsável de mim, mas ao contrário disso, estava mais dura do que nunca e com um noivo falso a tira colo. Eu era uma piada!
Estava prestes a dar meia volta e abrir mão da minha edição especial de Harry Potter, quando, de repente, senti os dedos do se entrelaçando a minha mão. Uma sensação de descarga elétrica percorreu todo o meu corpo, desde os nossos dedos conectados, até o meu peito, aumentando descontroladamente a minha pulsação. Institivamente o encarei, procurando em cada detalhe de seu rosto algum sinal de que ele tinha sentido o mesmo.
— Nós vamos conseguir fazer isso, . - abaixou a cabeça e me fitou, seus olhos quase tão sérios quanto seu semblante. — Eu prometo.
Não sei em que momento meu cérebro tinha decidido que sim, eu devia confiar no , a única coisa que eu sabia era que mesmo antes daquelas palavras saírem de sua boca algo dentro de mim, ao encarar nossos dedos entrelaçados, já sabia daquilo.
— Vou perguntar outra vez? – ele disse, quase sorrindo. — Pronta para ser a noiva mais radiante de todos os tempos??
— Vamos lá!
***

Entramos em minha casa, e quase senti um conforto ao perceber que tudo estava exatamente como eu tinha deixado a um ano atrás. O hall de entrada era imenso, com uma escada que dava para andar onde ficava os quartos, na direita, uma aconchegante sala de TV com vista para a frente da casa, na esquerda, a imponente sala de jantar separada da cozinha por um balcão americano. E, no fim do hall, em minha frente, o lugar da casa que minha mãe mais se orgulhava: o jardim, e era justamente lá onde todos estavam.
Minha mãe tinha feito um espetáculo, luzes pendiam por todo jardim e diversos arranjos de jasmim estavam espalhados, deixando o lugar ainda mais charmoso e sofisticado, no centro uma mesa grande estava montada nos mínimos detalhes para a hora do jantar. Mais ao fundo, em uma espécie de palco improvisado no deck próximo à piscina, uma banda de jazz tocava uma acolhedora música de fundo. Podiam dizer o que quisessem, mas Elizabeth sabia fazer uma recepção como ninguém.
— Agora eu sei por que você cumprimenta as pessoas com reverência. - debochou enquanto atravessávamos o hall em direção ao jardim. — Quem diria, , é da realeza.
— Vai se...
— -cat?
Ouvi meu apelido de infância sendo chamado ao fundo por uma voz estridente e sabia muito bem a quem ela pertencia, antes de me virar, e dizer com meu melhor sorriso falso em meu rosto:
— Sra. !
Era uninamidade ali no Village New Sunshine que Sra. era uma das vizinhas mais fofoqueiras do condomínio, quiçá da cidade inteira. Na adolescência eu e a Sky perdemos as contas de quantas vezes tínhamos sido deduradas por ela ao tentarmos sair escondidas durante a noite. Sem falar que, se alguém do outro lado do mundo estivesse sabendo sobre uma ruiva destrambelhada de New Sunshine que havia sido abandonada no altar pelo noivo depois de nove anos de relacionamento, com certeza, a fonte teria sido ela, Sra. .
— Ô meu Deus, é mesmo você, não é?! Esse seu cabelo continua rebelde e inconfundível. - Ela gargalhou e caminhou em minha direção com os braços abertos. — Por que demorou tanto para voltar, menina? - disse me puxando para um abraço. — Se foi pelo o que aconteceu naquele ano, saiba que ninguém mais comenta sobre aquela pequena tragédia. - ela deu um sorriso que para muitos poderia ser considerado solidário, mas que me fez sentir vontade de mandar ela enfia-lo bem no meio da... — Minha nossa e quem é esse deus grego?
Respirei fundo, enquanto observava a Sra. , uma senhora de quase 60 anos, devorar o com o olhar. Meu Deus, e a noite só estava começando. Minhas bochechas coraram na mesma hora, mas antes que eu o apresentasse, o estendeu a mão.
. - E como se tivesse saído de um romance do século XVIII, ele beijou a mão da senhora em nossa frente. — Encantado. - Ele sorriu.
A pobre Sra. não teve uma chance se quer, pensei tentando esconder o sorriso ao vê-la corar como uma garotinha inocente diante de uma das facetas do , o Mr. Darcy fake. Coitada, se soubesse o que há por trás desse suposto charme.
— E você é o que da nossa -cat, jovem rapaz? - Sra. perguntou como se ela própria agora fizesse parte de um romance de época.
A cor fugir do meu rosto e meu estômago embrulhou. Era aquilo, a primeira provação da noite. Minha língua pareceu engrossar e as palavras ficaram presas no fundo da minha garganta. Senhor, se eu não conseguia fazer aquilo nem com a fofoqueira da Sra. , imagine quando eu fosse apresentar o para os meus pais?
— Er...
passou o braço ao redor de minha cintura, me puxando para junto do seu corpo e depois, seus lábios tocaram na minha têmpora.
— O noivo, senhora.
Todos os pelos do meu corpo se arrepiaram, cada parte do meu corpo se esquentou e se não fosse pelo abraço firme de ao redor de mim eu com certeza teria caído, por isso que a única coisa que eu consegui fazer diante do comentário seguinte da Sra. foi sorrir sem jeito.   
— Jesus, -Cat, é como dizem, Deus tarda, mas não falha!
Não saberia dizer bem qual a foi a reação do , pois eu sabia que se olhasse para ele, meu rosto iria enrubescer mais ainda - se é que aquilo era possível -, mas, graças a nossa proximidade, eu podia sentir a vibração do seu corpo e tive a leve impressão de que ele lutava contra a vontade de rir. Senhor, e aquilo ali tinha sido apenas uma amostra grátis do que estava por vir. Que Deus me ajudasse.


VINTE E CINCO



— Sônia, Sônia, venha aqui! Você não sabe quem está noiva outra vez...
Ouvi uma das convidadas falando ao fundo enquanto eu e o atravessávamos o jardim. A cada passo que eu dava eu escutava algum comentário ou a respeito da minha “coragem” em reaparecer ali depois daquele dia “desastroso” ou, como, aparentemente, eu tinha “ressurgido das cinzas e inacreditavelmente conseguido outro noivo”. Acredite ou não, aquelas eram as coisas mais amenas que eu tinha ouvido até ali. Senhor, eu mal tinha dado dois passos e já era o centro das fofocas da noite.
Suspirei tentando não me incomodar com aqueles comentários, mas cada segundo que passava, eu tinha certeza de uma coisa: iria precisar de muito álcool para sobreviver aquela semana inteira em New Sunshine. Agradeci aos céus quando o pareceu ler os meus pensamentos, parou o garçom que passava em nossa frente, pegou duas taças com um líquido transparente e me entregou uma delas.
— Achei que você fosse precisar. – disse, seus olhos brilhando com verdadeira solidariedade.
Ótimo, agora, para completar, eu tinha a piedade do . Peguei a taça de sua mão, virei o líquido de uma só vez, sentindo-o queimando cada célula de minha garganta.
— O que era isso? - fiz uma careta.
Ele levou a taça até o nariz e cheirou.
— Gim.
— Horrível.
Olhei para a frente, ainda me recuperando do gosto forte da bebida, quando vi minha irmã caminhando em nossa direção. Mia estava linda em um vestido tubinho rosê, combinando perfeitamente com seus saltos finos. Ela acenou, com seu sorriso mais charmoso e seus cabelos loiros balançando ao vento. Aí sim estava uma noiva radiante!
— Me dê o seu. – disse depressa para o .
— Mas o que...
— Agora! - peguei a outra taça da mão do e fiz o mesmo que da primeira vez, virei tudo de uma vez.
Meu Deus, como alguém conseguia beber aquilo puro?
— Ok, senhorita pau d’água... – segurou minha mão há tempo de me impedir de pegar mais uma taça na bandeja do garçom. — Vamos devagar.
E antes que eu pudesse protestar e lhe dizer, com a maturidade de uma garotinha de 10 anos, para ele ir cuidar da própria vida, os braços finos de minha irmã já estavam ao redor de meu pescoço e cada parte do seu corpo me abraçava apertado.
-cat!! Meu Deus, você veio mesmo! Estou tão feliz que está aqui! Está tudo tão lindo, não está?! – Mia se afastou um pouco e com as mãos ainda em meus ombros, me fitou dos pés à cabeça. — Tem certeza mesmo que não engordou, -Cat? Esse abraço está mais fofinho! – disse com seu sorriso meigo.
— Não, Mia, não engordei.
— Deve ser a roupa então. - Ela deu de ombros ainda sorrindo. — E, nossa, você trouxe mesmo um acompanhante. – Minha irmã virou-se para o e o encarou, dos pés à cabeça, analisando-o, sem qualquer constrangimento em estar sendo indiscreta.
Conhecia aquele olhar, Mia estava procurando algo de errado no , algo que explicasse o que um cara como ele estava fazendo comigo, afinal, já era conhecimento da família que eu tinha um dedo podre para homens. Obrigada, !
. – Ele estendeu a mão para cumprimentá-la e sorriu. Um sorriso que, para quem não o conhecesse, parecia apenas educado, mas fui capaz de reparar que seus olhos demonstravam que alguma coisa em Mia não o tinha agradado.
Afastei aquele pensamento, minha irmã era capaz de encantar qualquer um apenas com um sorriso, e com o , com certeza, não seria diferente.
— Mia.
— É um prazer finalmente conhecê-la, cunhada.
Mia me encarou, seu cenho franzido deixando claro que ela estava confusa.
— Cunhada? – sua sobrancelha fina se arqueou ao me encarar. — Não sabia que você estava namorando, -cat.
Ia dizer a Mia que não éramos exatamente o tipo de irmãs que ligavam uma para a outra para contar as novidades da vida, mas sabe lá Deus porque, de repente, me vi levantando a mão, mostrando o anel de noivado e dizendo:
— Na verdade, estamos noivos. – Dei o meu melhor sorriso, que eu esperava que pudesse ser traduzido como: “ei, veja só, estou ótima, obrigada!”.
Vi os olhos da minha irmã se estreitarem, desconfiados.
— Como assim? Você nunca nos disse que estava namorando, e agora aparece noiva? Sem nunca ter contado nada a ninguém?
— Ah, faça-me o favor, Mia, sua irmã deixou de nos contar sobre a vida dela há muito tempo. – Minha mãe disse se aproximando de nós. A fitei e senti o peso do seu olhar encarando cada canto do meu corpo, me inspecionando como ela costumava fazer. — Não me surpreenderia se ela aparecesse com filhos. – Dessa vez ela fitou o , exatamente da mesma forma como tinha feito comigo.
Todas as vezes que eu via a minha mãe eu tinha a mesma sensação, poderiam se passar anos, ela ainda seria linda. Seu cabelo claro era cortado curto, tão elegante que sempre me fazia lembrar da Meryl Streep em “O Diabo Veste Prada”, e que Deus me perdoasse, mas as vezes, eu achava que a personagem Miranda Priestly tinha sido inspirada nela. Prendi o riso ao me recordar que era assim que eu e a Sky nos referíamos a mamãe, principalmente quando ela resolvia me proibir de ir em algum lugar.
— Oi, mãe. – disse, lhe dando um abraço rápido.
— Olha só, você ainda se lembra que tem uma mãe. – Bem, não podia dizer que não tinha nada a ver com minha mãe, ali estava um traço de sua personalidade que tínhamos em comum, o drama. — Mesmo que não tenha lembrado de mim na hora de decidir ficar noiva.
Um silêncio constrangedor pesou sobre nós, naquele um ano em que estive fora imaginei diversas vezes como seria voltar para casa, mas em nenhum cenário eu imaginaria estar ali com um noivo e, muito menos, que esteve noivo fosse o .
, senhora. – Ele estendeu a mão para minha mãe e sorriu cordial, completamente alheio ao clima tenso que se instalava entre nós duas.
Minha mãe pareceu analisá-lo por alguns segundos, como se decidisse entre me recriminar mais um pouco por surgir do nada, depois de um ano de reclusão, noiva de um desconhecido ou ser a Elizabeth simpática e educada, como ela era para todos os outros.
— Olá, ! – cumprimentou com um sorriso. — Saiba que mesmo a minha adorável filha escondendo-o de nós, é um prazer recebê-lo.
Soltei a respiração que nem sabia que estava prendendo.
— O prazer é meu, Sra. . – Ele sorriu, depois virou-se para mim, seu olhar fixando-se no meu: — Estou muito feliz de finalmente conhecer a família da minha .
Um arrepio estranho atravessou meu corpo quando o pronunciou aquelas palavras com tamanha seriedade. Minha . Pelo amor de Deus, de onde ele tinha tirado aquilo?
— Então vocês estão mesmo noivos? – a voz de Mia trouxe-se nos de volta a conversa, quebrando nosso contato visual.
Meu rosto enrubesceu e eu desviei o olhar para qualquer ponto que não fosse seus intensos olhos .
— Sim.
assentiu e sorriu pela milésima vez desde que tínhamos atravessado a porta da casa dos meus pais. Queria muito o seu assistente, o John, estivesse ali, tinha certeza de que ele iria concordar comigo que nunca tinha visto o sorrir tanto em tão pouco tempo. O coitado iria ter uma dor de maxilar em breve. Senti vontade de sorrir quando nossos olhares se cruzaram e, novamente, ele pareceu ler o meu pensamento. Dessa vez, ele não sorriu, mas seus olhos sim, e aquilo me pareceu realmente genuíno.
— Hum... – Mia me fitou, seus longos cílios balançando de forma meticulosa. Oh não! Eu conhecia aquele olhar... — E você achou que o momento ideal para anunciar isso seria no meu jantar de casamento?
— Isso foi culpa minha, cunhada. – levou a mão ao peito, como se pedisse perdão. — Pedi a que não contasse nada a vocês antes porque, primeiro queria conversar pessoalmente com o Sr. e a Sra. , para ter a benção deles e como surgiu a oportunidade de virmos para o seu casamento achei que não haveria problema algum. – Fitei o nitidamente admira. Eu nunca tinha visto uma pessoa dar um fora em alguém de forma tão elegante. — Mas não se preocupe, - então, para terminar ele encarou a Mia e disse, com aquele seu sarcasmo de sempre: — de forma alguma, queremos que nossa felicidade, ofusque o seu dia.
Minha irmã estava com raiva, na verdade, eu quase podia ver a fumaça de ódio acima de sua cabeça como num desenho animado, mas eu sabia que a Mia estava fazendo o possível para não transparecer na frente do , afinal, as mulheres da família não podiam transparecer os sentimentos, não, nós tínhamos que manter o charme diante de qualquer situação.
— Não é isso, estou feliz por vocês. - Ela sorriu sem graça, passando a mão pelos cabelos. — Depois de tudo o que a -Cat passou, coitadinha, ela merece ser feliz. – disse, piscando seus olhos o mais gentil possível e fazendo exatamente o que eu esperava.
— Sim, ela merece!
Coincidentemente aquelas palavras saíram ao mesmo tempo da boca do e de outra pessoa atrás de mim.
— Papai!
Ah, como eu tinha sentido saudades dele, pensei ao me jogar em seus braços e o apertar forte. Aquele homem rechonchudo, de bochechas coradas e risada fácil, tinha sido o motivo de todas minhas boas lembranças da infância. Cada momento meu que envolvia risadas e carinho, tinha sido graças a ele.
— Como eu senti falta desse abraço, minha pimentinha. – Meu pai me apertou um pouco mais e sorriu. — É possível que você esteja ainda mais bonita desde a última vez que a vi? – disse segurando em sua mão e me fazendo girar.
— Também senti sua falta, papai.
— Acho que os novos ares lhe fizeram muito bem, minha filha. – Sorriu com a mão em meu rosto.
— Parece que sua filha esqueceu de nos dizer que está noiva, querido. – Minha mãe disse, chamando nossa atenção.
Meu rosto esquentou em segundos. Era impressionante como eu não tinha qualquer problema em enganar a minha mãe e a Mia, mas quando se tratava do meu pai, a culpa, que estava todo aquele tempo, bem escondida no fundo da minha consciência, parecia ressurgiu com tudo.
— Ah eu sabia que tinha algum brilho diferente em você. – Meu pai deu uma piscadela.
Fiz menção de lhe dizer algo, queria contar a ele que na verdade tudo não passava de uma farsa e explicá-lo que se aquilo que eu e o tínhamos fosse verdade, de longe ele seria a primeira pessoa a saber. Mas não podia contar nada ao meu pai, ainda mais depois daquelas palavras. Não que eu estivesse com qualquer tipo de brilho em mim, isso era coisa da cabeça dele, mas sabia que aquele seu comentário significava que ele acreditava que eu tinha superado o e estava feliz e, bem, a última coisa que queria era decepcioná-lo.
, o noivo esquecido, senhor, é um prazer.
Meu pai riu a apertou a mão do .
Gonçalves, o pai. – disse com um sorriso largo.
— Desculpe, mas o senhor é o Dr. Gonçalves? Juiz Federal?
— Eu mesmo. – Papai balançou a cabeça. — Não me diga que você é do Direito, meu jovem.
O encarava meu pai com tanto respeito e admiração que eu senti o orgulho me invadir e, quando dei por mim, estava sorrindo enquanto observava aquela interação dos dois.
— Advogado, senhor. Empresarial. – assentiu. — É uma honra conhecê-lo.
— Gostei dele, . – Meu pai fingiu sussurrar, arrancando risadas minha e do .
— Nossa, em pensar que a -Cat sempre nos desprezou tanto por sermos do ramo jurídico. – Mia disse, interrompendo nossas risadas. — E veja só, agora está noiva de um advogado. – Mia sorriu. — Sempre soube que no fundo você queria ser como nós -Cat.
Enrijeci, meu corpo todo ficando em alerta diante do comentário desnecessário da Mia.
— Eu nunca desprezei ninguém, Mia, só não achava que era a profissão certa para mim.
— Você sabe que ainda dá tempo de voltar atrás, não é, ?! Tenho certeza de que o seu pai iria adoraria tê-la de volta no escritório. – Minha mãe disse, ignorando completamente meu comentário.
Senti meu rosto esquentar, envergonhada, pelo presenciar um daqueles momentos “vamos dizer a como viver a vida dela” que minha mãe tanto gostava e que, ingenuamente, eu pensei que demoraria mais uma pouco para acontecer. Qual era o problema com ela, afinal? Será que era tão difícil entender que eu não tinha as mesmas ambições na vida que ela? Havia tantas coisas que eu queria dizer a ela naquele momento, mas como sempre acontecia, bastava um olhar de Elizabeth para que as palavras ficassem presas em minha garganta.
— Não faça isso, meu amor. – Ouvi a voz do me trazendo de volta. — Se tem algo pelo qual me encantei em você é por não ser nem um pouco esnobe como nós. – A mão do pousou sobre meu rosto, quente e gentil, me pegando completamente de surpresa. — Até porque, isso não é algo que combina com alguém especial como você.
Engoli em seco, cada pelo da minha nuca se arrepiou e tive a impressão de sentir os meus joelhos vacilarem. Caramba, quem diria que era tão bom ator? Sério, eu quase podia acreditar em suas palavras enquanto ele me encarava daquela forma tão intensa. Não tinha a menor ideia do que estava se passando por sua mente, mas quando o olhar do desceu para a minha boca, por alguns instantes, eu quase me esqueci de que estávamos no jardim de minha casa em New Sunshine, com toda a minha família nos encarando.
— Bem, meu rapaz, depois dessa, o que posso lhe dizer? – meu pai colocou a mão no ombro do , nos despertando daquele transe. — Bem-vindo à família!
Olhei para o para ver se algo em sua expressão me explicava como ele podia ter soado tão verdadeiro em suas palavras? Era algum truque de advogado? Mas nada, apenas sorriu para meu pai e retribuiu o abraço.
— Com licença, Sra. . – uma moça com uma roupa preta e rabo de cavalo se aproximou de nós. — Preciso que a senhora e a senhorita Mia venham ver se está tudo ok para que possamos servir o jantar.
Minha mãe assentiu.
— Bom, mais tarde conversamos melhor sobre tudo isso. – minha mãe acenou em nossa direção. — Mais uma vez, foi um prazer . – disse seguindo a moça com a Mia ao seu lado.
— Bom, , o que me diz de um uísque? – meu pai deu uns tapinhas no ombro do que concordou, balançando a cabeça. — E você, pimentinha? Me parece estar precisando de uma bebida.
Se tinha uma pessoa que me conhecia muito bem, era meu pai. Eu não só precisava de uma bebida, como também precisava entender porque eu tinha reagido daquela forma ao toque do . E porque, em nome de todos os santos, eu senti tanta verdade em suas palavras?
Talvez um momento afastado de tudo aquilo me fizesse respirar e pensar claramente no que estava acontecendo. Era óbvio que todas as coisas que aconteceram nos últimos instantes tinham mexido com minha mente. Essa era a única justificativa para naquele momento eu estar encarando o como se ele fosse por detrás daquela sua fachada distante houvesse muito mais que eu gostaria de conhecer.
— Podem ir, vou ao banheiro e já encontro com vocês. – Sorri, me despedi deles e sai.
Perdi as contas de quantas vezes fui parada até o caminho do banheiro e parabenizada por estar noiva. Sério, Sra. ? Aquele, sem dúvida, era algum tipo de recorde mundial do quão rápido alguém poderia espalhar uma fofoca.
Bufei, irritada. Até mesmo o pastor Félix me parou para dizer que estava radiante com a novidade e que, pasmem, se soubéssemos que eu teria tanta sorte em tanto pouco tempo, eu não precisava ter devolvido a cafeteira que ele me deu de presente de casamento.
Finalmente alcancei o banheiro, e estava prestes a entrar, disposta a ficar ali pelo resto da noite quando uma voz atrás de mim, que eu conhecia muito bem, ecoou pelas paredes da casa, alcançando em cheio meu coração.
-Cat?
Fechei os olhos e respirei fundo, antes de me virar pedindo aos céus para que aquela voz não fosse a de quem eu pensava que era. Mas era óbvio que naquele momento o pessoal lá no alto devia estar ocupado com coisas muito mais importantes porque, lá estava ele, parado em minha frente, me encarando com os mesmos olhos e sorriso charmoso que por tantos anos tinham sido o meu mundo: Grant.


VINTE E SEIS



Bastou meia hora junto à família da para eu perceber por que ela tinha ido embora dali. Era como se aquelas pessoas tivessem ficado presas no século XVIII, no qual a maior ambição que uma mulher poderia ter em sua vida era arranjar um marido. Isso ficou ainda mais óbvio para mim depois que a milésima tia agradeceu, bem em nossa frente, a misericórdia divina, pela “-Cat” finalmente ter encontrado um caminho na vida e, por “caminho”, eu tinha certeza de que queria dizer: um homem.
E que porra de apelido ridículo era aquele? A cada segundo que alguém nos abordava e a chamava de “-Cat”, eu ficava mais curioso para perguntá-la sobre a origem daquele apelido horroroso, mas notei que cada vez que ouviu ser chamada assim, seu rosto enrubescia e ela ficava claramente constrangida. E, aparentemente, eu era o único ali capaz de perceber ou, pelo menos, me importar, já que todos continuavam a chamando assim mesmo diante de sua reação. Diabos, a verdade era que depois daqueles momentos embaraçosos, eu começava a simpatizar com , isso para não dizer o mínimo.
Do instante em que passei em seu apartamento, até o caminho ao aeroporto, eu nunca tinha visto, em toda minha vida, alguém tão tenso, o que era um feito e tanto levando em consideração que eu já havia presenciado diversos acordos que mais pareciam uma amostra das Conferências da Guerra Fria. Para falar a verdade, pareceu só conseguir relaxar, de fato, quando já estávamos no carro a caminho de sua cidade e, de forma surpreendente, fomos capazes de manter uma conversa sem que ela ficasse na defensiva. E, caramba, que conversa!
De repente, para meu espanto, me peguei sorrindo ao me lembrar da emburrando todas as vezes que eu mudava a sua playlist, coisa que, devo admitir, fiz apenas para vê-la irritada, na tentativa de fazê-la se esquecer um pouco aquele tensão que pairava sobre ela. E quando, brinquei a respeito de suas habilidades em negociar, me soltou aquela informação: ela era advogada.
E o mais louco de tudo foi que ao ouvir a admitir que abandonar a profissão tinha sido a melhor escolha de sua vida, algo aconteceu em meu estômago, algo que tinha muito a ver com o que eu senti por ela naquele momento: admiração. Quantas pessoas eram incapazes de admitir para si mesmas que não estavam satisfeitas com sua profissão e se afundavam, cada vez mais, em um mundo de insatisfação e frustração? Eu conhecia várias, e, se eu fosse bem sincero comigo mesmo, diria que eu era uma delas. Foi aí que eu percebi que, naquele instante, eu não só admirava a , como também a invejava.
Pensei em meu trabalho, nas horas que gastava naquele escritório dando o meu sangue por aquele emprego e para que? Para comprar e destruir pedaço por pedaço empresas de pessoas que tinham lutado a vida toda para construir um negócio, mas que tinham dado o azar de não terem sucesso. Eu era um filho da puta sugador do fracasso alheio e, para ser honesto, um covarde por não conseguir admitir aquilo e dar o fora, enquanto que, aquela mulher ali ao meu lado, tinha decidido seguir o seu próprio caminho, suas próprias escolhas, independente das expectativas dos outros.
E foi no meio de todos aqueles pensamentos que a conversa do dia anterior com a surgiu em minha mente e, feito um idiota, me vi perguntando a se ela ainda era apaixonada pelo tal . Não sei que merda tinha dado em mim para perguntar aquilo, talvez curiosidade, talvez algo mais que, naquele momento, para o bem da minha sanidade, eu preferi não pensar a respeito. A única coisa que eu sabia dizer era que no exato instante que aquelas palavras saíram de minha boca, eu me arrependi.
E esse sentimento se aprofundou ainda mais em minhas entranhas quando eu percebi que não tinha uma resposta para a minha pergunta. Na verdade, a forma como ela vacilou e respondeu de maneira vaga, exatamente como eu ensinava aos meus clientes quando sabiam que tinham alguma culpa no cartório, acabou por me dar uma resposta que, por razões desconhecidas, me deixou irritado. Ela não era capaz de perceber que o cara ter abandonando-a na porta da Igreja já era motivo mais do que suficiente para ela nunca mais querer vê-lo, quanto mais ainda sentir algo por ele?
Foi graças àqueles pensamentos girando em minha mente, me deixando cada vez mais irritado, que acabamos em silêncio pelo resto do caminho, com a falando apenas o necessário para me guiar por sua cidade, até que chegamos ao condomínio em que ela morava. E neste momento eu constatei que além de todas as outras coisas que eu não sabia sobre , ali estava mais uma, ela era rica para caralho. Fiquei tão espantado com aquilo que a questionei sobre isso e quando ela me respondeu, sincera, que não tinha nada a ver com o dinheiro dos pais, mais uma vez eu me vi dominado por aquela sensação de admiração. Cacete, quem diria que a minha vizinha destrambelhada fosse capaz de me surpreender tanto a cada instante que eu passava ao seu lado?
Naquelas últimas semanas eu tinha passado praticamente todos os dias achando que o desespero da por não querer aparecer sozinha no casamento de sua irmã, não passava de imaturidade, a velho clichê da irmã mais velha que não quer ser a “solteirona” da família. Mas assim que meus olhos pousaram sobre sua irmã Mia, eu percebi que para , aquilo tudo ia muito além de ter que encarar a todos depois de ter sido largada no altar.
Precisou apenas alguns segundos na companhia de Mia para eu reconhecer todo o seu típico joguinho de garota mimada que nasceu para ser o centro das atenções, e isso incluía menosprezar a a qualquer oportunidade possível. Caralho, não era de se admirar que sempre que eu pegava a observando a mim e a interagindo, seus olhos brilhavam, admirados, como se para ela, fosse surreal o fato de irmãs se darem bem.
E como se não bastasse, ainda tinha a sua mãe, Elizabeth . Demônios, a frieza daquela mulher podia congelar o inferno. Como uma mãe era capaz de tratar de forma tão distante a filha que não via a um ano? A verdade era que, depois das merdas que eu ouvi sair da boca da irmã da , eu não podia julgá-la por temer voltar para aquele lugar. Mas, ainda assim, mantinha-se firme diante de todos os comentários desagradáveis, fossem de alguma parente intrometida ou de sua irmã e de sua mãe e aquilo, só fez com que aquela sensação de admiração que eu começava a sentir por ela, se multiplicasse.
No fim, em alguns minutos, percebi que a única pessoa que parecia prestar entre os parentes de , estava agora mesmo em minha frente, bebericando seu whisky, enquanto compartilhávamos um pouco sobre as nossas profissões.
— Acredito que já tenha ouvido falar das Indústrias Watson, sim. – Sr. acenou para um convidado que o cumprimentou. — Se não me engano, ano passado vocês compraram a empresa daquele cara do caso de fraude que teve repercussão nacional, como é mesmo o nome...
— Jorge Botelho.
— Isso! – Sr. assentiu. — Uma compra e tanto, uma multinacional como aquela não é fácil de liquidar.
— Não, senhor. – Concordei.
Aquele tinha sido um dos poucos casos dos quais eu não me sentia culpado por ter participado. O Jorge Botelho tinha enfiado a sua construtora em enorme esquema de fraude junto com diversas prefeituras do país. Basicamente, ele mereceu.
— É preciso culhões. – Ele riu. — Meus parabéns.
— Obrigado, senhor. – Assenti. — É uma honra ouvir isso de alguém que acompanho o trabalho há tanto tempo.
— Se importa que eu faça uma pergunta pessoal, meu rapaz?
Balancei a cabeça negando.
— Vá em frente.
— A quanto tempo você e a minha filha estão juntos?
Procurei em minha mente se em algum momento eu e a já tínhamos conversado sobre isso, mas não me lembrei de nenhum.
— Na verdade, não tem muito tempo.
— E vocês já estão noivos? Como isso aconteceu?
Engoli em seco. Diabos, devia ter ouvido a quando ela quis criar a nossa história.
— A é minha vizinha, um dia ela me atropelou com um cachorro e nunca mais pude tirar os meus olhos dela. – Improvisei.
Um improviso que pareceu convencê-lo, já que homem me olhou com um brilho no olhar e disse, orgulhoso:
— Parece bem algo que a faria. – Ele sorriu. — Como ela está?
Senti que sua pergunta implicava muito mais do que, de fato, expressava.
— Acho que ela está indo muito bem, senhor.
— Quando a decidiu ir embora, ninguém achou que ela duraria muito tempo por conta própria, mas eu a apoiei, mesmo isso enlouquecendo a minha mulher, porque sabia que sair daqui por um tempo lhe faria bem. – Concordei. Era bom saber que ainda havia alguém sensato na família da . — A Elizabeth, por outro lado, ainda acredita que a deveria voltar para casa e, não me entenda mal, daria tudo para ter a minha filha de volta, ao meu lado, mas desde que a vi não consigo deixar de pensar que há algo de diferente nela.
— Se me permite, senhor, depois de algumas coisas que vi e ouvi por aqui, acredito que ela está muito bem onde está.
O Sr. desviou o olhar, bebeu outro gole de uísque, como se calculasse bem o que iria dizer a seguir.
— Pela forma como você respondeu a Mia alguns minutos atrás, acredito que seja sobre ela que você está falando. – Fiquei em silêncio, era minha melhor resposta. — As coisas sempre foram um pouco difícil entre elas, mas irmãos são assim, né?! Vivem implicando um com o outro, competindo pela atenção dos pais.
— Com todo o respeito senhor, eu tenho uma irmã e, sim, implicamos algumas vezes um com o outro, mas não me lembro de nenhum momento em que tentei constrangê-la ou usá-la para alimentar o meu ego na frente de outras pessoas.
Sr. arregalou os olhos e me fitou, o homem ficou pálido. Merda! Por que eu não podia manter a minha boca fechada? O que tinha acontecido com a ideia de ser o noivo perfeito? Mas que se dane, tinha certeza de que já tinha passado da hora de alguém dizer algumas verdades. Implicância de irmã, uma porra. Mia era claramente uma narcisista.
— Bem, meu rapaz. – disse, quebrando o silêncio. — Ninguém pode acusá-lo de não ser uma pessoa sincera.
— Não, não podem.
— Bom, isso torna então, o que vou dizer a seguir, muito mais fácil. Como eu disse, acredito que há algo de diferente em minha filha e alguma coisa me diz, que você tem sua parcela de participação nisso, meu rapaz. Então, o que vou lhe dizer, direi apenas uma vez. – O homem em minha frente pareceu crescer alguns centímetros enquanto me encarava com toda a seriedade de um Juiz Federal. O que diabos estava acontecendo ali? — Deus sabe que a já teve a sua cota de decepção para uma vida inteira e, principalmente, o quanto eu me arrependo de ter deixado isso acontecer a ela. Por isso, quero que saiba que não deixarei que aconteça outra vez, então, não decepcione a minha filha.
Engoli em seco, mas segui encarando-o, agora com muito mais respeito e admiração do que quando eu tinha chegado ali. merecia ter alguém que cuidasse dela daquela forma.
— Não se preocupe, senhor, não o farei.
Mais uma promessa para a minha lista, perfeito. Mas, de alguma forma, naquele momento, eu quis dizer cada uma daquelas palavras com sinceridade.
— Não, não acho que você o fará.
— Sr. . – A mesma moça de rabo de cavalo que tinha aparecido antes para chamar a mãe e a irmã da , apareceu, quebrando o contato dos nossos olhos e levando com ele a atmosfera tensa. — Já estamos quase prontos para o brinde, o senhor me acompanha, por gentileza?
— Claro. – O Sr. virou-se para mim e sorriu. — O dever me chama. – Ele deu uma piscadela e saiu como se, segundos atrás, não tivesse acabado de me ameaçar.
Quase ri. O homem era baixinho, rechonchudo e tinha uma aparência gentil, mas quando se tratava de defender a sua filha, se transformou, quase como se estivéssemos em um Tribunal e claro, eu fosse o réu. Depois que o Sr. saiu, fiquei ali sozinho, observando as pessoas interagindo, algumas riam alto, distraídas com suas conversas, mas uma grande parte, de vez ou outra, eu pegava me olhando em meio a cochichos. Onde diabos a tinha se metido? Com certeza seria mais fácil aguentar aquilo se ela estivesse por perto. A surpresa daquele pensamento me atingiu em cheio e eu me convenci de que era somente porque, querendo ou não, com ela perto, ao menos dividiríamos as atenções daquela tropa de fofoqueiros. Bufei, virei o restante do uísque em meu copo, deixando-o sobre a bandeja do garçom, e saí à procura de .
Passei por alguns cômodos da casa, que mais parecia ter saído de um daqueles seriados de arquitetura, e estava prestes a mandar uma mensagem para a , depois de minutos procurando-a sem sucesso, até ver duas senhoras encarando algo que acontecia mais a frente, fiquei me perguntando o que tanto estava chamando a atenção delas, até que ouvi a conversa:
— Pobre -Cat. – reconheci uma das senhoras, ela tinha sido a primeira que nos interceptou assim que chegamos ali. — Perdeu os melhores anos da juventude com esse daí.
Me virei na direção do alvo da conversa. estava parada na porta do banheiro, seu rosto estava visivelmente corado e seu olhar desviava em todas as direções, menos no homem em sua frente, que, mesmo de costas, pela conversa das mulheres em minha frente, eu supus ser o seu ex-noivo. Ele parecia poucos centímetros mais alto que a , seus cabelos eram escuros e um pouco ondulado. Não podia ver o seu rosto, mas toda a sua linguagem corporal, - coisa que eu tinha aprendido graças aos anos de negociações -, dizia que ele estava tão nervoso quanto ela.
— E veja como ela olha para ele. – A outra mulher disse com um ar de solidariedade. — É óbvio que a pobrezinha ainda gosta do traste.
Caralho, era como se eu estivesse assistindo uma daquelas comédias românticas água com a açúcar que a se entupia quando estava na TPM. Qualquer um que assistisse aquela cena de longe pensaria a mesma: aquele era a porra de um reencontro de um casal apaixonado.
— Será? Não sei não, a vi mais cedo com o novo noivo, eles me pareciam felizes.
— Bem, acho que o pobre rapaz não tem ideia no que está se metendo.
Merda, era só o primeiro dia e eu já iria sair de corno. Bufei e passei pelas senhoras, sentindo algo muito estranho começar a dominar cada parte de meu corpo enquanto eu caminhava em direção aonde e o tal conversavam. Raiva. Nua e crua. Era para isso que a tinha me trazido até ali? Para fazer papel de idiota?
No exato momento em que comecei a me aproximar deles, percebeu minha presença e desviou seu olhar, parando-o sobre mim. Continuei caminhando até ela, sem, em momento algum, afastar meu olhar do seu, e pela forma confusa com que a me encarava eu quase podia ouvir a sua pergunta pairando no ar: “Você está bem?”.
Respirei fundo e tentei dizer a mim mesmo que eu não tinha motivos para estar com raiva, afinal não tinha nada a ver com o que estava acontecendo ali, eu e a tínhamos um acordo e nada mais. Fingiríamos um noivado, conseguiríamos o que queríamos e cada um seguiria sua vida. Era isso, eu não precisava saber os motivos que a tinham feito concordar com aquilo, e mesmo que um deles fosse me fazer passar por um idiota enquanto ela provocava ciúmes no ex-noivo para tê-lo de volta, bem isso, era problema dela. Não meu.
Mas, ao parar em sua frente, - ignorando completamente a presença do seu ex-noivo babaca-, toda a lógica que minha mente estava disposta a seguir, desapareceu e eu fiz a coisa mais estúpida que eu poderia ter feito: eu beijei .
Era para ter sido um beijo rápido, leve e calculado, na medida certa para deixar um recado para o tal , mas assim que meus lábios encostaram na boca de , uma vontade primitiva de aprofundar o beijo tomou conta de mim e, quando dei por mim, eu já tinha colocado a mão na cintura de e a puxado para mais perto de mim. Cada célula do meu corpo, cada pelo, reagiu. Se antes eu tinha sentido uma descarga elétrica apenas por tocar em , aquilo tinha ido muito além. Caralho, eu não conseguia me lembrar de nenhuma vez em que beijar alguém tinha sido algo tão bom.
Mas, aparentemente, somente eu pensava daquela forma, porque não só não correspondeu, como, para meu espanto, ela mordeu a minha língua. Abri os olhos e me controlei para não dizer um xingamento, mas tinha certeza de que ela podia lê-lo em meus olhos. Ouvi um pigarro atrás de mim. Para nossa sorte, eu estava de costas para o , assim ele não era capaz de ver nem a minha careta de raiva e, muito menos, o ar de espanto no rosto da , ou, definitivamente, nosso plano teria ido por água abaixo naquele instante.
— Estava te procurando, minha linda. – disse, depois de respirar fundo e garantir que minha voz não iria sair com nenhum resquício de raiva.
Será que ela pensou que passaríamos a semana inteira com aquelas pessoas sem que precisássemos dar um ou outra demonstração de afeto como um casal real? Provavelmente não, já que seus olhos me fitavam expressando toda a confusão que passava por sua mente.
Outro pigarro.
Qual o problema com aquele otário? Continuei com uma mão ao redor da cintura de , e me virei, fitando o dos pés à cabeça, exatamente como a mãe e a irmã de tinham feito comigo quando nos encontramos, e torci para que meus olhos fossem capazes de transmitir toda a indiferença que desejava.
— Desculpa, amigo, não tinha o visto aí. – Estendi a mão cumprimentando. — . – me encarou, questionando-se, exatamente como eu queria, qual era probabilidade de ele não ter sido visto parado logo ali. — Acontece que quando esta mulher está por perto, sou incapaz de ver as outras pessoas. – disse, pousando meus olhos sobre .
Quase podia ouvir o ranger do maxilar do . Era óbvio que o cara estava puto. Algo, muito parecido com satisfação, cruzou meu peito.
Grant. – Ele apertou minha mão de volta.
Por alguns segundos ficamos apenas nos encarando, tinha certeza de que o estava me avaliando da mesma forma que eu estava fazendo com ele. Altura mediana, porte típico de quem já tinha sido atleta em algum momento, mas que agora, nos tempos vagos, preferia o esporte transmitido pela TV. Grant transparecia uma única coisa: tédio. O que, uma mulher cheia de vida, como , tinha visto naquele homem para aguentá-lo por tanto tempo?
— É um prazer, Gregoty. – Sorri, quase perverso, dando a entender que ele era tão insignificante que a nunca tinha comentado comigo a seu respeito.
.
— Deixe-me adivinhar, - disse ignorando-o. — você é mais um primo da minha .
— Na verdade... – começou a falar, mas o a interrompeu.
— Sou o ex-noivo dela.
Sério que o otário estava dizendo aquilo como se fosse algo para se orgulhar? Era um babaca mesmo.
— Ah, então você é o cara que eu tenho que agradecer. – arqueou a sobrancelha, claramente confuso. — Veja bem, se você não tivesse a abandonado na porta da Igreja no dia do casamento, eu e a não teríamos nos conhecido, então, obrigado por ser um babaca, Gregoty.
— É .
Dei o meu melhor sorriso sarcástico, enquanto o rosto do cara em minha frente ia ficando cada vez mais vermelho. estava prestes a explodir e eu, estava adorando ser o causador daquilo.
— Ok, er, a gente se ver depois, . – sorriu nervosa, abriu a porta ao seu lado, que eu percebi era o banheiro e apontou para dentro. — Você, entre aí, agora.
— Vocês vão entrar aí juntos?
— Nada melhor do que uma mulher que sabe mandar. – abri a porta e encarei um perplexo . A satisfação percorreu meu corpo ao sorrir para o cara irritado em minha frente. — Foi um prazer, Gregônio.
E bati a porta, mas não sem antes ouvi-lo gritar.
— É !
Gargalhei e me virei para encarar a . Pela forma como ela me olhava, aparentemente, eu era o único que estava achando graça daquela situação.
— Que porra foi essa?
Definitivamente ela estava puta. Se tinha algo que eu havia aprendido sobre a naquelas últimas semanas era que ela só usava palavrões quando estava muito irritada.
— Primeiro, acho que você devia me agradecer. – disse, escorando na porta e cruzando os meus braços ao redor do peito. — E depois, me pedir desculpas.
— Como é que é?
— Eu lhe fiz um favor lá fora e como você me retribuiu? Mordendo a porra da minha língua.
O rosto de enrubesceu e olhou para o chão, quase pude imaginá-la aos cinco anos, uma garotinha travessa ao ser pega fazendo algo de errado.
— Bem, ninguém mandou você enfiar a porra da sua língua em minha boca.
Fiquei irritado ao me dar conta de que mesmo quando era a causa da minha raiva, era capaz de arrancar um sorriso meu.
— Era isso ou deixar você continuar olhando pateticamente para o babaca do , enquanto todo mundo fofoca sobre como a pobre -Cat ainda está sofrendo pelo pé na bunda que levou há um ano.
— Oh! – levou a mão a boca, perplexa com realidade que a atingiu.
— Pois é, de nada.
— D-Desculpe é que... – ela se aproximou. — Eu mordi mesmo a sua língua, não foi?
Fiz a minha melhor cara de “o que você acha?”.
— Meu Deus, mil desculpas, ... É só que... Eu não esperava e, bem, tente ver pelo meu lado, não é sempre que um estranho vem e mete a língua em minha boca. – Fitei-a descrente. — Pelo menos não sem avisar antes.
Bufei, sem querer admitir que a palavra “estranho” tinha me atingindo de uma maneira que eu não esperava.
— Não se preocupe, não farei novamente.
Já estava me virando para sair, quando a disse:
— Não!
Arquei a sobrancelha, confuso com sua reação enfática. queria ser beijada novamente por mim?
— Quero dizer, acho que funcionou. – Ela sorriu, quase como se estivesse empolgada. — O me pareceu mesmo perturbado, você não acha?
Ah claro, lá estava a resposta que eu estava procurando.
— Fico feliz por ter sido útil. – Sorri irônico. — Agora, se me der licença, preciso de álcool. – Parei na porta, me virei para ela e, antes de sair, disse: — Ouvi dizer que ajuda na cicatrização.
E pensar que eu tinha achado que seria a quem iria precisar de ajuda para aguentar aquela semana. O que eu estava pensando quando a beijei? Diabos, esse tinha sido o problema. Ao ver a conversando corada, como uma garotinha abobalhada, com o , eu não pensei em nada, apenas segui o que meu corpo quis. E agora, depois que o sabor de sua boca pulsava na minha, pedindo por mais, eu tinha certeza de que sim, havia uma pessoa ali que iria precisar de ajuda, e, definitivamente, não era a .


VINTE E SETE



Encarei a porta do banheiro ainda sem entender o que tinha acontecido ali durante aqueles últimos minutos. Primeiro, a conversa com o que, em nenhum momento, havia sido parecida com as que, pelo menos umas milhares de vezes, eu já tinha imaginado, pensei enquanto cada palavra trocada por nós retornava a minha mente.
— Olá, -Cat?
Respirei fundo, pedindo a Deus para que eu conseguisse me manter calma e me virei. Lá estava , exatamente como eu me lembrava de um ano atrás. O mesmo corte de cabelo que fazia com que seus cachos pretos caísse um pouco sobre a testa, os mesmos óculos de grau cobriam seus olhos .
— Oi, . – sorriu, meio tímido, meio constrangido.
Foi naquele exato momento que eu tive mais certeza de que, apesar de ele ainda ser o de sempre, de alguma forma, algo estava diferente. Minhas pernas não tremeram, nenhum tipo de arrepio estranho percorreu meu corpo e as batidas do meu coração seguiam o mesmo ritmo de sempre.
— Ei, .– Me ouvi responder, com uma normalidade que nem eu mesma imaginei que sentiria ao vê-lo.
soltou um suspiro, como se estivesse prendendo a respiração durante todo aquele instante em que ele esperava minha resposta. Todas as vezes que repassei aquela cena, durante aquele último ano, muitas reações passaram por minha mente. Gritos, choros e irônia eram as emoções mais presentes em todas elas, mas em nenhuma, eu tinha me sentido daquele jeito que estava sentindo agora.
— Como você está? – disse por fim, depois de alguns segundos de análise. — Acho que ir para a capital lhe fez bem.
sorriu, mas eu senti um leve tom de ressentimento em sua voz, como se para ele, me ver bem, depois de tudo o que tinha acontecido, fosse algo surpreendente. E era, até mesmo para mim.
— Sim, acho que é como dizem, há males que vem para o bem. – Assenti, dando de ombros. enrubesceu. — E você, como está? – dei um leve sorriso.
— Bem. – Dei de ombros. — Já faz um tempo, não é?!
— Sim. – Assenti.
Basicamente um ano, 123 dias, desde que você me abandonou no altar, mas ei, quem está contando, não é?! Pensei, e dei graças a Deus por não ter dito aquilo em voz alta. A última coisa que queria era o achando que eu tinha passado todo aquele tempo remoendo aquela história.
Ficamos em um silêncio constrangedor por alguns instantes, colocou a mão no bolso, um gesto que lembro muito bem que ele só fazia quando estava nervoso, e me encarou.
, eu...
— Não, .– disse o interrompendo. Por mais, estranhamente tranquila que eu estivesse, aquela não era exatamente a conversa que eu gostaria de ter com ele logo no primeiro dia. — Está tudo bem, de verdade. – Dei de ombros. — Acho que no fundo a Mia tem razão, já se passou muito tempo para que a gente não saiba lidar com a situação como adultos. – suspirou e seus ombros caíram demonstrando toda a tensão que ele vinha guardando.
— Estou feliz que você esteja aqui, -Cat.
As palavras de flutuaram entre nós e, mais uma vez, eu fiquei aguardando alguma reação, qualquer uma que fosse. No passado, qualquer mínimo elogio de sua parte era capaz de fazer meu corpo reagir e eu ficava encantada como uma adolescente no primeiro encontro. E agora, enquanto seus olhos me fitavam gentis, a única coisa que passava em minha mente era: os sinais, como eu não percebi os sinais?
— Obrigada. – Foi tudo o que consegui dizer. — E por falar em sermos adultos, parabéns pelo noivado.
Ele me encarou, seu rosto corando em segundos. Oh meu Deus, eu tinha mesmo dito aquilo em voz alta? Algo muito estranho estava acontecendo comigo. Onde estava cólera que surgiria no exato momento em nos encontrássemos, como eu tinha imaginado durante todo aquele tempo? Onde estava o grito, o choro, a raiva? Nada. Eu não senti absolutamente nada enquanto encarava o em minha frente. E acho que ele também tinha percebido, porque, depois de nove anos compartilhando tantos momentos com aquele homem, eu sabia dizer muito bem o que se passava em seu olhar. E o que aqueles olhos me diziam era que ele ainda estava esperando o drama.
— Er... Obrigado.
— Espero que dessa vez você esteja pronto. – Pensei que aquelas palavras sairiam com raiva ou amargura, mas pela forma constrangedora que o me olhou, ele também notou a indiferença em minha voz.
, eu... - pigarreou, suas mãos voltaram para o bolso e ele encarou todos os pontos da sala, menos meu rosto.
E quando eu pensei que tudo não poderia ficar mais estranho, a sensação de estar sendo observada me invadiu e quando procurei de onde poderia estar vindo aquilo, vi o caminhando em minha direção.
— Olha, , eu... Hum... Eu sinto muito... Eu... ? -Cat?
Eu podia ouvir ao fundo a voz do me dizendo alguma coisa, mas estava tão concentrada observando o vindo até nós, tentando entender o que estava se passando na cabeça dele que, praticamente, não distingui uma palavra do que o estava dizendo. Tinha alguma coisa errada ali. Nunca o tinha me olhado daquela forma, seus olhos brilhavam com uma intensidade que me fez sentir como se o seu olhar quase fosse capaz de me atravessar. O fitei expressando minha confusão, tentando arrancar de sua expressão qualquer coisa que indicasse o que ele estava prestes a fazer, mas o apenas continuou caminhando em nossa direção e, quando dei por mim, suas mãos estavam ao redor do meu rosto e seus lábios pressionavam a minha boca.
E aquele era o segundo motivo por que eu ainda estava encarando a porta do banheiro sem conseguir sair dali. Aquele beijo e todas as sensações que ele causou em mim. Foi tudo tão surreal e inesperado que não consegui ter qualquer reação. Ok, verdade seja dita, apenas meu exterior estava paralisado porque, por dentro, tudo fervilhou. Era como se eu estivesse presa dentro de um furacão, rodopiando tão rápido que minhas células pareciam colidir uma na outra. E foi tudo aquilo que me assustou e fez com que eu tivesse a reação mais idiota do universo. Meu Deus, eu mordi mesmo a língua dele. Gargalhei ao me lembrar do olhar de ódio que ele me lançou assim que nos afastamos. Pobre !
E para piorar, quando ele se justificou dizendo que tinha feito aquilo para me salvar da humilhação de ser o centro de fofoca da minha família – e do condomínio inteiro -, fiquei ainda mais sentida por minha reação infantil, sem falar na decepção que senti ao perceber que ele só tinha feito aquilo por piedade. Bufei, de onde tinha vindo aquilo?
Ouvi a batida na porta do banheiro me afastando dos meus pensamentos. Joguei uma água no rosto, para afastar qualquer sinal de vergonha que estivesse ali, e saí do banheiro à procura de algo alcoólico para recuperar a coragem para encarar o outra vez.
Cheguei ao jardim, me encostei no balcão de madeira ripada que tinha sido montado como uma espécie de mini bar e pedi outro gim, mas dessa vez, graças a Deus, não seria pura.
— Sabe, você parece uma amiga que eu costumava ter.
Ouvi a voz de Sky ao meu lado e me virei sorrindo.
— Ah é? – disse, pegando a bebida e tomando um gole.
— Não, acho que não, agora olhando assim de perto, me lembro de sempre achá-la com um ar triste de quem nunca transava, enquanto a senhorita, bem, eu diria que acabou de ter um belo de um orgasmo no banheiro. - Sky deu uma piscadela e levantou seu copo como se estivesse brindando.
Meu rosto inteiro esquentou.
— Meu Deus, você viu aquilo?
— Por aquilo você quer dizer aquele deus grego lhe dar um beijão na frente de Você-Sabe-Quem e depois você carregá-lo para dentro do banheiro com cara de quem ia terminar o que começaram do lado de fora? Querida, acho que todo mundo viu.
Sky riu.
— Meu Deus!
— Estou brincado, foi só eu, a Sra. Forest e... - Sky deu de ombros. — É basicamente quem não viu, agora sabe.
— Ela continua uma fofoqueira, não é?
— Dê um desconto, desde que você foi embora a pobre coitada não tem tido muita pauta.
Rimos e eu a puxei para um abraço.
— Senti sua falta – disse, me afastando dos seus braços com um sorriso.
— Eu também, Pussy-. – Sky sorriu ao pronunciar o apelido debochado que ela tinha colocado em mim, segundo ela, em forma de protesto, já que, assim como eu, a Sky não era lá muito fã do apelido idiota que minha família tinha me dado. — Então, como foi o desprazer de encontrar com o traste? - Sky pegou meu braço, passou ao redor do seu e começamos a caminhar pelo jardim.
— Acho que bizarro definiria bem.
— Eu vi quando ele te seguiu até o banheiro. – Ela me lançou um olhar de "dá para acreditar?". — Fui atrás e estava pronta para interromper antes que os tapas rolassem, mas o Thor ali chegou primeiro. – disse apontando com a cabeça para um canto onde o batia um papo aparentemente animado com meu pai e o Joshua. — Se eu tivesse um homem desse só para mim, para transar o dia inteiro, eu também não ia fazer questão de dar sinal de vida para ninguém.
Gargalhei.
— Ele nem é tão...
— Não, nem venha querer tentar amenizar o meu recalque.
— Ele é mesmo bonito, não é? – disse fitando o .
Acho que ele teve a mesma sensação que eu tive mais cedo de estar sendo observado, pois naquele momento seus olhos vagaram pelo jardim, a procura de algo, até que ele os cravou em mim. me lançou um meio sorriso e meu estômago se agitou, de novo me vi no meio do furacão. Senhor, o que estava acontecendo ali?
— Querida, bonito é o William Bonner. – A voz de Sky quebrou nosso contato visual e eu me voltei para ela. — Esse homem é a porra de um orgasmo ambulante.
— Meu Deus. – Eu ri, quase cuspindo o gim em seu rosto. — Vamos, deixe eu te apresentar o Sr. Orgasmo, então.
— Eu sabia! Chupa . – A encarei, perplexa por ela quase ter gritado aquilo. — O que foi? Muito cedo?
Balancei a cabeça, rindo outra vez. Sky sendo Sky.
— Falando nisso, e a tal Melissa, já conheceu? – neguei. — Bem, adianto que você não perdeu nada, tive cinco minutos de conversa com ela e sou capaz de nomear todas as marcas do seu closet.
Senti a curiosidade de perguntar a Sky um pouco mais sobre a Melissa, mas antes que o fizesse, o parou em nossa frente, sorrindo e meus pensamentos acabaram se desviando.
— Olá, senhoritas.
, essa é a Sky, minha prima.
— A segunda ovelha negra da família. – Sky disse estendendo a mão. — Caso você esteja se perguntando, a sua noiva aqui, é a primeira.
riu alto, mostrando toda a sua fileira de dentes perfeitos, fazendo com que os cantinhos de seus olhos quase se fechassem. De repente eu não era capaz de ouvir mais nada ao meu redor, o barulho das taças brindando, das conversas, do jazz ao fundo, tudo desapareceu, a única coisa que eu ouvia era a risada de invadindo meus tímpanos e se alojando em algum lugar dentro de mim. Todo o meu corpo formigou e eu senti como se estivesse caminhando em direção a um precipício.
— Eu duvido muito disso. - Seu olhar se prendeu em mim, mesclando entre a diversão e o desafio, assim como seu sorriso.
Um alarme de perigo disparou em minha mente, alto e visceral, no exato momento em que percebi que o precipício tinha um nome: , e que Deus me ajudasse, pois tinha a impressão de que eu estava a um passo de cair.


VINTE E OITO



Horas depois, quando anunciaram que o jantar seria servido e nos encaminhamos à mesa, o e a Sky já pareciam amigos de longa data. Foi como se, após a Sky contar todas as nossas peripécias da adolescência, um elo tivesse surgido entre eles. E, por mais envergonhada que eu estivesse por minha prima revelar ao um lado meu que, provavelmente, ele não imaginava, pela primeira vez desde que tinha chegado em Sunshine eu estava, de fato, me divertindo.
― Então quer dizer que era uma rebelde? – o sussurrou conspiratório para a Sky enquanto nos aproximávamos da mesa onde seria servido o jantar.
― Não era bem assim.
― Sim, era. – Sky sorriu. ― Vai dizer que você não se lembra daquela vez que furamos os pneus do carro do Prof. Orlando?
Senti meu rosto corar diante da expressão de fingido choque do .
― O cara me reprovou em Matemática por um décimo. – Bufei. ― Ele mereceu ir andando para casa a pé.
riu.
― E teve aquela outra vez quando a Sra. Forest contou para sua mãe que nos viu fugindo pela janela de madrugada? Você lembra?
Balancei a cabeça confirmando. Eu e Sky tínhamos passado a semana inteira implorando a minha mãe para podermos ir na festa de um dos caras populares do colégio, quando ela categoricamente encerrou a conversa com um "não e se você me pedir mais uma vez eu lhe coloco de castigo" decidimos que a única solução possível era fugirmos pela janela durante a noite.
― Nossa, ficamos tão felizes quando chegamos naquela festa. – Sky continuou. ― Claro que nossa felicidade só durou cerca de uma hora, porque logo depois...
― Minha mãe apareceu na casa do Tiago junto com, pasme, a polícia, acabando não só com a nossa noite como com a festa inteira.
― Pelo visto sua mãe sempre foi encantadora. – disse nos fazendo sorrir.
― Então, no dia seguinte, quando descobrimos que a Sra. Forest tinha nos dedurado, nós fomos para a casa dela e, enquanto ela tranquilamente tirava um cochilo na varanda de casa, nós soltamos vários fogos de artifício e saímos correndo. – Sky riu. ― A pobre velha quase infartou.
― Conheci um pouco a Sra. Forest hoje, então...
― Viu, só? – eu sorri. ― Tudo justificado em legítima defesa.
― Excelente observação, mas não sei se fico preocupado ou impressionado. – Ele sorriu e deu uma piscadela fazendo meu rosto esquentar.
― Ei, -Cat! – minha tia-avó Rose me chamou e se aproximou de nós no exato momento em que íamos nos sentar em nossos lugares. Respirei fundo e me preparei, tinha certeza de que alguma pérola estaria por vir. ― Então, é verdade que Deus finalmente ouviu nossas preces e você arrumou um pretendente? – a senhorinha de cabelos brancos sorriu para o , inspecionando-o dos pés à cabeça.
Meu Deus, aquilo, em algum momento, iria acabar?
― Na verdade, tia Rosa, eu o estou pagando para estar aqui, então, não é bem um pretendente.
― Como é? – tia Rosa franziu o cenho.
― Está mais para um garoto de programa, não é, ?!
Eu não deveria ter respondido daquela forma, minha pobre tia nos encarava com os olhos arregalados e a face vermelha, claramente escandalizada. Mas os gins a mais e toda aquela conversa com o e a Sky tinha despertado algo em mim. Era quase como se eu me lembrasse da boa e velha , a que tinha ficado adormecida por longos nove anos. Um silêncio constrangedor pesou sobre nós. Senti o arrependimento querendo se aproximar, mas antes que eu pedisse desculpas a Tia Rose, o colocou a mão dentro do bolso do terno, abriu a carteira e tirou de lá um cartão.
― Caso queira meus serviços, ficaria feliz em atendê-la, tenho várias clientes da terceira idade como a senhora. – disse com um sorriso malicioso que fez a pobre da Tia Rose ficar ainda mais vermelha, se é que era possível.
Ela nos encarou horrorizada e saiu correndo, sem dizer uma palavra, como se estivesse fugindo do próprio diabo. Me virei para o , seus olhos brilhando em diversão e quando dei por mim, estávamos gargalhando.
― Obrigada.
― Faço o melhor para minhas clientes, . – Um sorriso que faria pernas derreterem surgiu em seus lábios e era óbvio que comigo não seria diferente.
Nos fitamos, ainda sorrindo, como se disséssemos muita coisa naquele silencio.
― Cacete, vocês foram feitos um para o outro! - Ouvi a voz da Sky tirando-nos do transe e me deixando completamente sem jeito. Quem diria que eu e o poderíamos ser tão bons atores?
Então, Sky, sendo Sky, jogou os braços ao redor do pescoço do e lhe deu um abraço, foi a primeira vez na noite que senti o constrangido. Sabia que, fora as vezes em que o vi olhando para a , ele não era exatamente o tipo de pessoa chegada a grandes gestos de afeto. Quase senti vontade de rir ao vê-lo perdido entre retribuir o abraço ou ficar parado, mas antes que ele se decidisse, Sky se afastou e nos fitou. Seus olhos estavam marejados e dessa vez, quem estava confusa ali, era eu.
― Obrigada por trazê-la de volta. – Sky sorriu, olhou para cima, tentando afastar as lágrimas e me fitou séria. ― E você sabe que não estou falando sobre Sunshine.
Algo se agitou dentro de mim, mas o som do tintilar do garfo batendo na taça da ponta da mesa desviou nossa atenção para meu pai que estava de pé e preparado para dar um discurso. sinalizou com a cabeça a cadeira em nossa frente, a puxou e fez sinal para que eu me sentasse.
― Olha só, sendo cavalheiro.
― Por que tenho a impressão de que isso soou mais como um insulto do que como um elogio? – sussurrou, sentando-se na cadeira ao lado.
― Desculpe, eu... - Sorri sem jeito.
― Tudo bem, faz parte do show. – Ele piscou. ― Aproveite.
Sorri e voltei a atenção para meu pai. Uma sensação de déjà vu tomou conta de mim ao me lembrar daquela mesma cena, dois dias antes do meu quase casamento.
― Eu e a minha família gostaríamos de agradecer a presença de todos aqui hoje. – Papai começou, sua voz gentil capturando a atenção de todos. ― É sempre muito bom poder compartilhar com aqueles que amamos os momentos importantes de nossas vidas e hoje não seria diferente. – Meu pai sorriu cordial. ― Eu e a Elizabeth estamos muito felizes e gratos por tê-los como testemunha do amor do Joshua e da nossa querida filha, Mia. – Papai levantou a taça, convida-nos a brindar. ― Joshua e Mia, daqui a alguns dias vocês estarão casados, saibam que todos nós torcemos muito para que vocês sejam tão felizes quanto merecem.
Todo mundo estava emocionado, inclusive eu. Meu pai tinha esse dom, quando ele falava era capaz de nos fazer sentir cada uma de suas palavras. Olhei para a Mia, ela e o Joshua se encaravam apaixonados. Senti uma emoção dentro de mim. Eu e minha irmã tínhamos nossas diferenças, mas era muito bom saber que a Mia tinha encontrado alguém que a amasse como o Joshua. A forma com que ele a olhava era cheia de devoção e cumplicidade, sabia que poucas pessoas eram capazes de amar daquela maneira.
― E a gente torce também para que dessa vez ninguém fuja, hein -Cat?! – um dos meus primos soltou alto, do outro lado da mesa, fazendo com que todos os olhares se voltassem para mim.
Me senti como um animal sendo exposto em um zoológico e, involuntariamente, me vi encolher na cadeira, desejando que um buraco negro me engolisse. O se remexeu ao meu lado, seu maxilar travado, evidenciando seu incomodo. Percebi que ele estava prestes a dizer algo, mas segurei em sua mão, que estava sobre sua coxa, cerrada em punho, pedindo silenciosamente para que ele não o fizesse.
Há muito tempo tinha aprendido que as vezes, com a minha família, a melhor resposta que eu poderia dar, era ficar quieta. E foi isso que fiz o restante da noite, apenas fiquei ali sentada naquela mesa, fingindo comer, enquanto o pior dia da minha vida era alvo de piadas. Quando, finalmente, o jantar terminou, dei graças a Deus, inventei ao uma desculpa de que iria ao banheiro e fugi dali.
Minutos depois, ao me sentar no balanço antigo que ficava ao fundo do jardim, o mais afastado possível de toda a agitação que acontecia dentro da casa, eu finalmente fui capaz de respirar. Todos os anos que passei naquela casa, aquele balanço tinha sido o meu refúgio dos momentos ruins. Era sempre para ali que eu corria depois de uma briga com minha mãe, com a Mia ou com o .
. Suspirei, todas as emoções daquele dia que, por tanto tempo, tinham ficado enterradas, voltaram com força, fazendo com que as lágrimas rolassem pelo meu rosto.
***

— Como assim o casamento está cancelado?
Assim que o me disse tudo aquilo e foi embora, eu fiquei paralisada dentro da limusine, sem ter qualquer reação, por um tempo que eu não saberia dizer, mas que foi o suficiente para meu pai se preocupar, entrar no carro e me encontrar desabando em lágrimas.
Depois disso tudo era um borrão, de alguma forma fui parar ali, na sacristia da Igreja, e agora observava minha mãe sentada em minha frente, com toda a tranquilidade do mundo, enquanto a Mia segurava um copo de água em minha frente.
— Mamãe, você não está me ouvindo? – ouvi sua própria voz sair esganiçada. — O me deixou! – fitei a perplexa.
Minha mãe não demonstrava um fio sequer de emoção mesmo depois de tudo o que eu tinha lhe dito. Será possível que ela tinha escolhido aquele momento para fazer o que sempre fazia de melhor? Me ignorar?
— Ah, por favor, , se recomponha. – Mamãe disse desviando o olhar para qualquer canto que não fosse os meus olhos.
Ela se levantou, foi até uma mesa no canto da sacristia, se serviu um copo de água e tomou um longo gole enquanto fitava qualquer ponto no tapete aos seus pés. Aquela era minha mãe, pensei resignada. Elizabeth não suportava ver ninguém demonstrando qualquer tipo de emoção, principalmente se aquela emoção fosse aos prantos, como era o meu caso.
... – sua mãe pigarreou e continuou: — Eu já mandei o seu pai procurar o , assim que ele o encontrar, eles estarão de volta e esse casamento irá acontecer.
A encarei em choque. Qual era o problema com aquela mulher?
— Você acha que vai obriga-lo a se casar comigo?
— Não posso obrigar ninguém a nada, mas todo mundo tem um preço, vamos convencê-lo. – disse com a arrogância de quem poderia muito bem comprar até mesmo um outro noivo para mim, caso eu quisesse. — Agora cancelar tudo às vésperas do casamento depois de termos gastado milhões? Depois de termos feito anúncio no jornal da cidade? Pelo amor de Deus, !
Senti minha boca abrir e fechar, mas era incapaz de dizer algo. Não podia acreditar nas coisas que minha mãe estava me dizendo. Sabia que ela podia ser fria e indiferente, quando quisesse, mas ela estava passando dos limites.
— Você tem noção da dor de cabeça que irá me causar cancelando tudo isso? – mamãe suspirou e levou a mão direita a sua têmpora, massageando-a. Aquele era um gesto que eu a vi fazer durante toda a minha vida e que significava que a conversa a estava incomodando. — Decoração, buffet, vestidos. – De repente minha mãe parou e suspirou. Seus olhos adquiriram uma expressão de temor. — Meu Deus, o que vou dizer ao Padre Félix, e às minhas amigas?
— Você está de brincadeira comigo! – foi tudo que consegui dizer enquanto a fitava estupefata.
, você é minha filha e eu a amo. – Bufei e revirei os olhos deixando claro que reprovava e muito aquela maneira dela de amar. — E é por isso que eu vou lhe dizer isso agora. – Mamãe se aproximou ao sofá em que eu estava, colocou a mão sobre o meu ombro e me fitou com piedade. — Você já está com 28 anos, minha filha. E não é querendo dizer que o seu relógio biológico está perto de desligar, mas alguém tem que dizer isso!
— Mamãe... – foi a primeira vez que ouvi a voz da Mia. E era também, com certeza, na minha vida, a primeira vez que eu via a minha irmã parecer disposta a enfrenta-la.
Mas tudo só durou alguns segundos, já que rapidamente minha mãe tratou de silenciá-la com o olhar.
, você precisa entender isso. – Seus olhos me fitaram aflitos, como se ela estivesse prestes a dizer algo muito importante: — Os anos estão passando, minha filha, você não está ficando mais jovem e bela, acredite, eu também queria que isso acontecesse. – O canto da boca se curvou em um sorriso de solidariedade. — Mas não acontece.
— Você quer que eu deixe a senhora pagar um cara, que acabou de me abandonar no altar, para se casar comigo, só porque estou ficando velha demais para ter filhos?
— É claro! – disse, mas depois, diante do meu olhar de espanto, ela disfarçou e gesticulou para o nada. — Bem, e também, porque tenho certeza de que o te ama e sei que vocês vão encontrar um jeito de resolver tudo isso. – Dizendo isso, ela voltou a pegar a água sobre a mesa, se serviu e tomou outro gole.
Eu achava que jamais poderia me surpreender com a indiferença da minha mãe, mas pelo visto estava enganada.
— Eu vi o quanto ele me ama enquanto esperou o dia do casamento para me dar um pé na bunda na porta da igreja, porque, supostamente não estava pronto para isso! – gritei e senti o ódio voltar com força.
Eu precisava sair dali, já tinha aguentado tempo demais aquela conversa, sentia como se estivesse sufocando dentro daquele vestido de renda.
— Não estou gostando do seu tom, . – Minha mãe me encarou com o olhar duro. — Vamos, levante-se! Lave esse rosto, ajeite essa maquiagem, arrume esse cabelo e vá atrás de seu noivo. – Eu a encarava de queixo caído. — Não haverá nenhum cancelamento. – Mamãe disse com firmeza. — Já passou da hora de você aprender a agir como uma adulta.
***

Senti todos os músculos de meu corpo enrijecer com aquela lembrança. Era aquilo que minha mãe vivia repetindo "está na hora de agir como adulta, ." Como se eu não tivesse um pingo de responsabilidade em seus ossos. As lágrimas desciam por meus olhos em uma velocidade impossível de controlar. A vida inteira eu tinha feito tudo para agradar aos meus pais, em especial, a minha mãe. Desde pequena quando não brincava com meus amigos porque ela não iria gostar de me ver com o vestido sujo até quando aos 19 anos escolhi a profissão da minha família para agradá-la.
Todos os dias eu me sentia sufocada, presa dentro de uma realidade que não era minha, mas me mantinha firme porque sabia que aquilo era o que a minha mãe queria para o meu futuro. Então quando ela me disse aquelas palavras de ordem para que eu não cancelasse o casamento, mesmo depois de tudo o que tinha me feito, foi o estopim. No dia seguinte arrumei as minhas coisas, coloquei tudo dentro de uma mala e sumi. Deixei tudo para trás, fui para a capital e jurei que nunca mais voltar ali.
Mas, um ano depois, lá estava eu, encarando tudo aquilo outra vez, como uma bela de uma masoquista. Funguei, limpando as lágrimas. Pensei que seria capaz de suportar aquela viagem, pensei que quando eu estivesse ali, seria adulta o suficiente – como a Mia tinha me dito para ser - e ignoraria todas as antigas emoções. Mas agora, depois de horas sendo obrigada a ouvir todos aqueles comentários maldosos eu tive certeza de que, aquele lugar, que por tantos anos tinha sido o meu lar, já não mais me pertencia e talvez, nunca tivesse pertencido.


VINTE E NOVE



Eu era um idiota, um completo idiota. Tinha passado praticamente dois meses economizando minha mesada esperando por aquele fim de semana. O dia dos namorados. Tudo estava planejado nos mínimos detalhes, levaria a Ashley para um piquenique no parque, com direito a suas comidas preferidas – que levou metade de meu dinheiro ao encomendar -, e uma seleção de suas músicas preferidas que eu tocaria para ela no violão.
Na sexta-feira, no fim da aula, fui procurá-la no ginásio, pois sabia que naquele horário ela estaria no treino do time de vôlei e decidi que seria ótimo surpreendê-la com balões e uma caixa de chocolate, já que a Ashley vivia reclamando que eu não era romântico, então, tinha me esforçado bastante para agradá-la naquele dia. A expectativa tomava conta de mim à medida que eu ia me aproximando, será que ela iria gostar? Será que acharia romântico o suficiente? Mas assim que me virei, no fim do corredor que dava para o ginásio, a expectativa foi massacrada por outra sensação: ódio. Ashley Sanders, minha namorada, estava com a língua enfiada na boca de Peter Barnes, do 2 ano B. Aquele tinha sido, sem dúvida, o pior dia da minha vida.
Ouvi a batida na porta do meu quarto e tratei de enxugar o meu rosto, era domingo, e eu tinha gastado todo o meu fim de semana me desidratando, como a merda de uma garotinha, enquanto olhava todas as nossas fotos no notebook.
― Olá, estranho. – Minha mãe colocou a cabeça para dentro do quarto e sorriu.
― Ei.
― O jantar está pronto, seu pai e a estão colocando a mesa, por que não desce para ajudá-los?
― Não estou com fome.
― Você sabe que soou como um pedido, mas é uma ordem, né? Além do mais, nós sempre...
― Jantamos juntos. – Completei sua frase com um revirar de olhos, que ela não gostou nem um pouco. ― Desculpa.
― Aconteceu alguma coisa, ? – minha mãe aproximou-se de mim e colocou a mão sobre a minha testa. ― Você está sentindo algo? – neguei. ― Mas você passou o fim de semana todo dentro do quarto, tem certeza de que não está doente?
― Não é nada. – disse sem encará-la.
, carreguei você por nove meses, engordei 21kg, senti minha vagina abrindo... – fiz uma careta. ― Muita informação? – assenti. ― Imaginei que sim. – Ela sorriu. ― Mas o meu ponto aqui é que sei exatamente quando você está escondendo algo.
Esperei alguns segundos, criando coragem para lhe contar o que tinha acontecido.
― Você sabe que pode me contar qualquer coisa, não sabe?
Suspirei e assenti. Duvidava muito que qualquer outro garoto da minha idade tivesse a sua mãe como melhor amiga, mas ela era a minha e sim, eu sempre acabava lhe contando tudo, aquela vez não seria diferente.
― A Ashley terminou comigo.
― Por quê? – mamãe sentou-se na beira da cama e me encarou. ― O que aconteceu?
― Não sei. – Dei de ombros. ― Ela não teve muito tempo de se explicar, já que sua língua estava enfiada na boca de outro garoto.
― Oh!
― O amor é um saco.
, você tem 15 anos, ainda tem tanto para viver, lhe garanto que um dia você vai ver que o amor é uma das melhores coisas do mundo, se não for a melhor.
― Fácil dizer, já que a senhora e o papai são o casal perfeito.
― Eu e o seu pai estamos longe de sermos um casal perfeito. – Olhei para ela deixando claro que duvidava muito daquilo. – Tudo bem, , preciso lhe contar um segredo. – Minha mãe aproximou-se, como se estivéssemos conspirando sobre o fim do mundo e sussurrou: ― Sabe quantas vezes por dia eu quero matar o seu pai? Duas, e isso nos bons dias.
A encarei sem saber o que dizer. Em todo aquele tempo eu nunca tinha visto meus pais brigarem, já tinha ouvido uma ou outra discussão, quase nunca tinha visto minha mãe chorar por algo que tivesse acontecido entre eles, para falar a verdade, sempre eles acabavam entre risadas.
― Então como vocês estão juntos até hoje?
Mamãe sorriu.
― Porque mesmo nos dias ruins, quando quero cortá-lo em pedacinhos, ele é capaz de me fazer sorrir. – Franzi a testa, confuso. ― Não se preocupe, meu filho, um dia você vai entender.
― A senhora acha que algum dia vou viver um amor como o de vocês? – perguntei, me sentindo um idiota.
― Tenho certeza que sim. – Sorri. ― Agora posso contar outro segredo? – Assenti. ― A Ashley nem era uma garota legal.
― Obrigado, mãe. – disse rindo, pois sabia que ela estava dizendo aquilo apenas para me animar.
Minha mãe colocou as mãos ao redor do meu rosto e disse, como dizia todos os dias para mim e para a ao nos desejar boa noite:
― Sei la luce dela mia vita. – Ela um beijo em minha testa. ― Nunca se esqueça.
― Sei la luce dela mia vita. – Repeti. Aquele era nosso ritual.
― Agora vamos, não será uma dor de cotovelo que irá te livrar de lavar a louça.
***

Procurei por em todos os lugares que poderia imaginar, mas não havia nenhum sinal dela, nem mesmo no banheiro onde disse que estaria e que, desde o começo, suspeitei que era mentira. Peguei meu celular, mandei uma mensagem, mas ela não respondeu. Perguntei a Sky se a tinha visto, nada. Estava começando a ficar verdadeiramente preocupado quando o Sr. Richard se aproximou.
― Você está procurando pela ?
― O senhor a viu?
― Não, mas tenho uma ideia de onde ela possa estar.
Sr. Richard fez sinal para que eu o acompanhasse e assim o fiz. Passamos pelo jardim, onde a maioria das pessoas já começavam a se despedir dos noivos, e seguimos até o fundo. Lá estava ela, sentada em uma espécie de banco de balanço que ficava pendurado em um pergolado. Seus cabelos voavam com o vento, contrastando perfeitamente com a noite. estava de costas, mas a posição caída de seus ombros deixava claro que ela não estava bem.
Diabos, como ela estaria? Se ela tivesse me contado antes o que estávamos prestes a encarar ao voltar para sua casa eu nunca teria concordado com tudo aquilo. Aquelas horas que passei com a família de só serviu para que eu tivesse certeza de que ela estava muito bem onde estava, longe daquelas pessoas.
Por algumas horas, na companhia de sua amiga Sky, parecia ter renascido e eu fui capaz de ver um lado dela que não conhecia. era divertida, leve, sarcástica na medida certa e demônios, atraente para caralho. Mas então, o idiota do seu primo fez aquele comentário na mesa, deixando-a extremamente constrangida e tudo foi por água abaixo. Eu quis quebrá-lo em todos os pedaços possíveis e estava determinado a fazê-lo, até que senti a mão de sobre a minha. Quando a encarei, seus olhos que, minutos atrás brilhavam, agora estavam apagados. Então ela balançou a cabeça como se dissesse "deixe para lá" e passou o restante do jantar aguentando todo o tipo de merda possível.
― Eu construí isso para ela no ano em que me casei com a Elizabeth. – A voz do Sr. Richard soou embargada. ― Depois disso, acho que se tornou o lugar favorito dela na casa.
― É muito bonito.
Disse aquilo mais por educação, pois a única coisa que conseguia reparar era em e sua tristeza. Sr. Richard começou a andar até o balanço, mas eu segurei em seu braço, silenciosamente o informando que eu era quem deveria ir até lá. Ele me encarou. O homem parecia diferente agora, cansado, pude ver nitidamente aquilo em seus olhos.
― Não o conheço muito bem, , mas pelo o que vi hoje, fico muito feliz que vocês estejam juntos. – Ele suspirou. ― E tenho a sensação de que deveria ser grato ao destino por isso. – Sr. Richard deu umas batidinhas em meu ombro, balançou a cabeça e saiu.
Senti como se tivesse levado um murro em meu estômago. Se ele soubesse que o destino estava mais para um cargo de diretor geral nas Indústrias Brandão, talvez não ficasse assim tão feliz. Respirei fundo, tentando afastar aquele pensamento enquanto me encaminhava até , me aproximei aos poucos, parando em pé ao seu lado.
― O que você está fazendo aqui, ?
Ela se sobressaltou, surpresa com minha presença, passou a palma da mão sobre o rosto e me encarou. Seus olhos , pelo choro. Aquilo me atingiu de uma forma que eu não estava esperando.
― Me escondendo, não é óbvio? – disse, depois de fungar algumas vezes.
― E por que você está se escondendo? – me perguntei, ao me sentar ao seu lado.
― Tem certeza de que você está no mesmo lugar que eu? – ela sorriu sarcástica. ― Qual é, aquilo ali é um show de horrores e é óbvio que eu sou a atração principal.
Bufei, tentando controlar a raiva que estava tentando me dominar desde o momento em que todo aquele ataque a começou. Senti vontade de quebrar a cara de todas aquelas pessoas lá dentro e lhes dizer que aquela mulher ali em minha frente era incrível e, se eles, não eram capazes de enxergar aquilo, era porque não passavam de um bando de imbecis.
― Seu pai é um bom homem.
― Sim, ele é. – ela assentiu. ― Mas considerando que ele é meu padrasto... – tentou dar um sorriso que estava mais para autodepreciativo do que qualquer outra coisa.
, eu...
― Tudo bem, está tudo bem. – Ela disse se endireitando no banco e se certificando de que nenhuma lágrima mais estivesse descendo. ― E só tinha me esquecido de como era cansativo estar por aqui.
― Se você quiser ir embora, nós vamos agora mesmo. – Me vi dizendo.
E era a mais pura verdade. não precisava passar por toda aquela merda, ninguém precisava.
― Minha vontade é essa, pegar o carro, ir embora e nunca mais voltar.
― Mas?
― Mas... – Eu sabia que tinha um "mas". me fitou séria, decidida, de uma forma que nunca a tinha visto fazer. Seus olhos mesclando entre tristeza e determinação. ― Se eu fizer isso, , se eu for embora agora, serei para sempre a garota que não sabe ser adulta e que, quando não aguenta mais, foge. - por um tempo, seus olhos vagaram de mim para a paisagem em nossa frente, até que, por fim, ela disse: ― E então, de alguma forma, eles estarão certos sobre mim.
Ah, . Foi tudo o que consegui pensar ao ouvir suas palavras saírem carregadas de ressentimento e me lembrar que eu mesmo já tinha lhe dito aquilo, em alguma ocasião: "para ver a situação como adulta". Puta que pariu, eu era um idiota. Se eu achava que ao vê-la com os olhos marejados eu tinha levado um soco, aquilo não chegava nem perto. Era uma sensação estranha, como se algo dentro de mim estivesse se quebrando, como se eu fosse capaz de sentir, naquele instante, a sua dor.
― Ouça, , essas pessoas podem ser sua família, mas depois de tudo que eu ouvi aqui, tenho certeza de elas não te conhecem.
suspirou.
― Você também não me conhece direito, você não...
. – Coloquei a mão em seu queixo, levantando a sua cabeça para que ela pudesse me olhar nos olhos e prestar atenção em minhas palavras. ― Acho que conheço o suficiente para lhe dizer que você é muito mais do que a garota que foi embora, então não deixe que essas pessoas te definam.
Nos encaramos por um tempo, em silêncio, cada um com seus próprios pensamentos cruzando nossas mentes em alta velocidade, até que ela suspirou, colocou a mão sobre a minha, que ainda estava em seu rosto, e todo o meu corpo reagiu.
― Obrigada. – O canto de sua boca se curvou em um pequeno sorriso, mas seus olhos continuavam opacos, preenchidos por uma tristeza que estava me consumindo. ― Só preciso achar um jeito de sobreviver a tudo isso pelos próximos cinco dias.
― Acho que você já descobriu como. – disse apontando com a cabeça para a garrafa de espumante em seu pé.
se abaixou, pegou a garrafa e deu um gole.
― Definitivamente vou precisar de algo mais forte.
― Bem, você é a rebelde aqui, o que me diz de furarmos alguns pneus ou soltar algumas bombas?
E lá estava, a sua risada cortou o ar e pousou em cheio em meu peito, assim como a realidade de que, durante todos aqueles últimos minutos, eu estava desesperado para ouvir aquele som. Cacete!
― Não acredito que a Sky te contou tudo isso.
― Se quer saber, gostei da Rebelde, acho que você devia deixá-la sair mais vezes. – disse empurrando com o ombro. ― Tenho certeza de que a pobre titia Rose está até agora em choque.
riu outra vez.
― Você é um idiota, sabia.
― Sabia. – Balancei a cabeça, sorrindo e a fitei. ― Mas ao menos a fiz voltar a sorrir.
Sem ter a menor ideia do que estava fazendo, levei a mão a ponta de seus cabelos e fiquei mexendo-o, com suaves movimentos. Os olhos de acompanharam meus dedos, depois voltou-se para meu rosto e, por alguns segundos, tive a impressão de tê-los visto brilhar outra vez. suspirou, sua boca capturando meu olhar, e, pela segunda vez, naquele dia, eu quis beijar .


TRINTA


― Mas ao menos a fiz voltar a sorrir. – Assenti. Sim, ele tinha mesmo feito aquilo.
Quando o apareceu ali no jardim e me viu, antes que eu tivesse tempo de limpar as lágrimas, a sensação de vergonha tomou conta de mim. Não queria que ele me visse daquela forma, como alguém incapaz de resolver seus próprios problemas sem desabar em lágrimas. Mas então, quando ele me fitou nos olhos e disse que, caso eu quisesse, poderíamos ir embora, o constrangimento deu lugar a outro sentimento: gratidão. Foi naquele momento que percebi que sim, não era exatamente a minha pessoa preferida no mundo, mas aquele homem era, com certeza, uma das pessoas mais leais que eu já tinha conhecido.
Lembrei-me das diversas vezes, em nossas conversas, como ele era capaz, sem perceber, de defender e enaltecer aqueles que ele amava, era assim com a , a Lily e, até mesmo, com o John. Comigo, precisava reconhecer que, nas últimas horas, mesmo obrigado a ouvir tanta besteira por parte de minha família que, às vezes, até eu duvidava que fosse real, o tinha se mostrado verdadeiramente leal. E quando ele colocou a mão sobre meu cabelo e começou a fazer movimentos suaves, como se brincasse com minhas mechas, uma agitação incomum tomou conta do meu estômago. Percebi que, pela segunda vez, naquele dia, iria me beijar. E por mais insano que fosse admitir aquilo, eu queria que ele o fizesse.
estava tão próximo que, mesmo na pouca luz do jardim, eu podia ver, enquanto ele me fitava, as nuances de seus olhos , uma manchinha castanha em sua íris esquerda prendeu minha atenção. Sua respiração bateu de encontro ao meu rosto, assim como seu perfume, que se misturava entre amadeirado e sabonete. Quase sorri, era óbvio que um homem prático como cheiraria a sabonete. Então, seu olhar desceu para meus lábios e sem perceber, suspirei.
... - colocou a mão em meu rosto e disse, tão próximo a minha boca, que quase pude sentir seus lábios roçando nos meus.
Tudo ao meu redor desapareceu, senti como se flutuasse diante da expectativa de ser beijada por ele. Não me mexi, receosa de que qualquer movimento meu pudesse quebrar aquela atmosfera estranha e incrivelmente excitante que surgiu entre a gente. Por que eu tinha a sensação de que algo começava a emergir dentro de mim? Algo que me fazia querer muito jogar os meus braços ao redor de seu pescoço e diminuir aquele mínimo espaço entre nós. E se eu fizesse aquilo? E se eu o beijasse, o que iria acontecer?
Mas antes que eu conseguisse pensar em tudo aquilo que eu começava a sentir e nas suas consequências, o celular do tocou, como um despertar para a realidade.
― Merda! – praguejou.
Me afastei e desviei meu olhar, concentrada em qualquer ponto que não fosse seu rosto. O pegou o celular no bolso e não pude evitar ler o nome que estava na tela: "Júlia". A curiosidade me atingiu em cheio, junto com outra sensação a qual eu preferi não pensar naquele momento.
― Você não vai atender? – perguntei diante da sua hesitação.
― Não, não é importante.
Os olhos do pousaram sobre meu rosto, quase como se estivesse procurando por alguma resposta, afastei, mais uma vez, meu olhar de sua direção, com receio de que ele visse ali muito mais do que deveria. Um silêncio constrangedor caiu sobre nós, até que, graças a Deus, o barulho das pessoas se despedindo chegou aos nossos ouvidos.
― Acho que o espetáculo acabou. – disse, tentando quebrar um pouco o gelo.
O que não adiantou muito, já que o parecia mais sério do que nunca ao dizer:
― Sim, devíamos voltar.
Dez minutos depois, finalmente a casa estava vazia. Enquanto subia as escadas para mostrar ao o quarto de hóspedes, eu me dei conta do quão cansada eu estava. Tudo o que eu precisava era de um bom banho e dormir. Mas aquilo estava longe de acontecer, pelo menos naquele momento, já que assim que abri a porta do quarto de hóspedes, dei de cara com um dos casais de padrinhos, prestes a iniciar sua própria lua de mel. Senhor, nunca fiquei tão envergonhada em minha vida e paralisada. Sério, se não fosse pelo que, imediatamente, pediu desculpas e fechou a porta, eu provavelmente estaria lá até agora e não ali, no hall de entrada, tendo, pela milésima vez, uma discussão com minha mãe.
― Como é?
― Já lhe disse, . – Mamãe suspirou. ― Perguntei a você várias vezes se iria trazer um acompanhante, mas você me respondeu? Não, porque você achou melhor aparecer aqui com um noivo que surgiu do nada. – Minha mãe lançou ao o um olhar de "sem ofensas", fazendo o máximo para não perder sua pose de anfitriã gentil. ― Então, quando você finalmente me disse, na semana passada, que traria um acompanhante, eu já tinha cedido o quarto de hóspedes para a Pollen e o Louis.
― Por que eles não foram para um hotel?
― Porque assim como eu, sua irmã também achou que o quarto de hóspedes estava disponível e ofereceu a eles.
― Ótimo! – Bufei, irônica. ― E agora? Onde o vai dormir?
― Não sei, , é esse o problema. Não posso simplesmente pedir que eles se retirem para um hotelà essa altura. – Minha mãe olhou para as escadas, depois sussurrou: ― Você sabe que seria deselegante.
― Eu posso ir para um hotel, sem problema. – O , que a todo o momento ouvia tudo em silêncio sentado no sofá, assim como meu pai, resolveu se manifestar.
Vi o lampejo de vitória cruzar os olhos de minha mãe.
― Obrigada pela compreensão, .
A raiva por, mais uma vez, eu permitir que ela ditasse as soluções, impondo sua vontade, tomou conta de mim.
― Não, você não vai a lugar algum!
― Como é? – mamãe me encarou.
Para falar a verdade, todos na sala me encaravam com a mesma surpresa, exceto pelo , seu olhar me dizia que havia muito mais do que apenas aquilo passando por seus pensamentos.
― Os seus convidados não podem ir para um hotel a essa hora, porque é deselegante, mas o meu noivo pode?
. – Mamãe começou com seu tom de alerta.
― O fica.
― Mas e onde ele irá dormir? Não acho correto deixar ele na sala com todo mundo passando a todo momento.
― Suponho que eu ainda tenho o meu quarto, correto?
Não, eu não podia estar prestes a fazer o que pensava que iria fazer.
― Claro que sim, mas...
Eu ia mesmo fazer aquilo?
― Ótimo, problema resolvido.
, você não está...
Que Deus me ajudasse.
― Sim, estou. – Me aproximei do , que se levantou do sofá, fechou o botão do terno e me fitou sério. ― Estamos noivos. – disse lhe dando a mão. ― Não tem por que ele não dormir no meu quarto, já que a senhora fez a gentileza de ceder o quarto de hóspedes para os padrinhos da Mia.
Ninguém disse uma palavra. Eu e minha mãe ficamos nos encarando em uma batalha silenciosa, quase como se uma estivesse esperando o movimento da outra.
― Bom, então está decidido. – Papai disse, por fim. ― Agora vamos dormir, meus pés estão me matando.
Minha mãe o fitou atônita. E, diga-se de passagem, se eu não estivesse tentando vencê-la em nossa disputa de olhares, eu até mesmo teria vacilado diante da fala de meu pai.
― Como está decidido? Richard, você perdeu o juízo? Não vou permitir isso dentro da minha casa e...
― Então eu vou para o hotel com o . – Empinei o nariz, fazendo minha melhor expressão de arrogante, que ela mesma tinha me ensinado.
― De jeito nenhum a minha filha vai dormir em um hotel tendo o quarto dela, na casa dela. – Papai caminhou até minha mãe e pegou em sua mão. ― Elizabeth, já tem idade o suficiente para tomar as decisões dela. Além do mais, esta tarde para qualquer pessoa procurar um hotel, não vejo problema algum em o ficar aqui conosco esta noite.
― Mas, Richard, você não pode...
― Vamos dormir, meus pés estão me matando. – Papai a interrompeu, em um tom que deixava claro que a conversa estava encerrada. ― Boa noite, crianças.
Meu pai sorriu e saiu, praticamente arrastando minha mãe que, claramente, ainda tinha muitas objeções. O sentimento de triunfo cruzou meu peito e, pela primeira vez, desde que tinha chegado ali, me senti eu mesma.
― Meu Deus, não acredito que consegui fazer isso. – disse, sem conseguir conter o ar de satisfação, fazendo o balançar a cabeça e sorrir com ar de aprovação.
Ao ouvir minha mãe anunciar, com seu ar autoritário, que o teria que ir para um hotel, a rebeldia de anos, que eu vinha guardando a sete chaves desde que tinha chegado ali, resolveu aparecer. Foi somente, minutos depois, quando eu abri a porta, e o entrou, ocupando cada espaço do meu minúsculo quarto com toda a sua altura e ombros largos, que a realidade da situação se abateu sobre mim.
― Sabe... – o olhou ao redor depois se virou e me fitou. Seus olhos brilhando de uma forma que eu não sabia dizer se era malícia ou diversão. ― Ninguém nunca tinha lutado tão bravamente para dormir comigo. – Seus lábios formaram um sorriso sacana. ― Estou lisonjeado, .
Ainda podia sentir a satisfação de finalmente ter sido capaz de enfrentar a minha mãe, mas, onde aquilo tinha me levado? Engoli em seco. Bem ali, prestes a dividir a minha cama com o . O que eu tinha na cabeça?


TRINTA E UM


― E-eu... Eu não... Quero dizer, não foi para isso que...
― Eu sei, . – Ele riu. ― Estou brincando.
Soltei o ar aliviada. caminhou pelo quarto, inspecionando com curiosidade cada parte dali, até parar em frente a um cartaz que eu tinha colado em minha parede aos quatorze anos.
― N'sync, sério? – O perguntou ao encarar a versão enorme da minha boyband preferida na adolescência.
― Todo mundo gostava do N'sync. – disse na defensiva.
― E deixe-me adivinhar. – Ele me tirou sarcástico. ― O seu preferido era o Justin Timberlake?
― Qual é? Você não ouviu a Sky dizer? Eu era uma rebelde, não ia me encantar pelo loirinho de cabelinho de anjo. – O me lançou um olhar que deixava claro que ele duvidava muito daquilo. ― Ok, meu preferido era o Justin. – Fiz uma careta. ― Mas em minha defesa, sempre tive uma queda por loiros.
Somente depois que aquilo saiu de minha boca que eu me dei conta do que havia dito, principalmente quando o cara loiro, em minha frente, deu um sorriso presunçoso.
― Bom saber, , bom saber.
Para variar, senti meu rosto esquentar em segundos.
― Er, hum. Acho melhor eu ir tomar banho.
Peguei minha roupa na mala, a toalha e segui para o banheiro, desejando que a água levasse tudo embora, incluindo a vergonha que eu tinha acabado de passar. Fiquei uns 20 minutos no banho, aproveitando a água quente para relaxar, aquele tinha sido um dos dias mais longos da minha vida. Coloquei meu pijama mais confortável que, diga-se de passagem, cobria todas as partes do meu corpo, saí do banheiro e encontrei o sentado na poltrona, junto a janela, mexendo em seu celular. Ele parecia irritado.
― Algum problema?
― Não. – Levantou a cabeça como se não tivesse notado minha presença até então. ― Coisa do trabalho. – Deu de ombros, colocou o celular de volta no bolso e me fitou. ― Nossa primeira noite juntos e é isso o que você vai vestir?
― O que você esperava?
― Não sei, algo com rendas e transparências.
― No seu sonho. – Ele riu. ― Tem toalha e sabonete no armário embaixo da pia, fique à vontade.
Enquanto o tomava o seu banho, eu me deitei em minha cama e olhei ao redor do meu quarto, milhares de recordações estavam guardadas em cada um daqueles móveis. A minha estante com meus livros preferidos que me acompanhavam desde a infância até as marcas de lápis na lateral da porta, onde o papai marcava a minha altura todo ano. Tantas recordações.
Na parede em cima da escrivaninha, diversas fotografias registravam para a eternidade aquelas memórias. De longe, meu olhar localizou uma, que por tantos anos, tinha sido a minha foto preferida. Eu e o , sentados no nosso restaurante preferido, ele com a mão ao redor dos meus ombros, sorria para a câmera, enquanto eu o encarava como uma idiota apaixonada. Aquele tinha sido uma de nossas primeiras fotos e a única que não tinha conseguido me desfazer.
Fechei os olhos, ignorando as lembranças, depois voltei a fitar o mural. Outra foto me chamou atenção e encheu meu coração de saudades. Eu e minha vó Judy, quando eu tinha sete anos. Estávamos com a testa colada uma na outra, os cabelos brancos da vovó caiam ao lado do seu corpo em uma trança linda. Nunca compreendi como minha mãe tinha saído tão diferente da minha doce avó hippie. Suspirei. Sentia muita falta dela. Vovó Judy era uma das poucas que me compreendia. Me lembrei da última frase que ela me disse, um dia antes de uma parada cardíaca a tirar de mim: "Nunca peça desculpas por ser quem você é, . Você é única!"
Ah, vovó, como queria que você estivesse aqui hoje! Pensei, pegando meu celular e afastando aqueles pensamentos, antes que eu começasse a chorar outra vez.
Comecei a responder algumas mensagens, o Frank, como sempre, estava perdido quanto a localização dos livros na Solar, expliquei a ele tudo o que precisava saber ignorando seu comentário de "como alguém precisa de uma semana de festa para se casar? Por acaso sua família é de ciganos?" com um emoji de coração. A Bia tinha me mandado toda a atualização do seu romance com a Luna, que, aparentemente, estava a todo vapor. Fiquei muito feliz por ela, Bia merecia. Por fim, vi que a , já tinha me mandado mais de 20 mensagens. A última deixava claro sua impaciência.
"Cacete, , o que tá acontecendo por aí? Por que você não me atualiza? Tentei arrancar algo do , mas você o conhece, péssimo em comunicação verbal!"
"Deu tudo certo, por enquanto todos acreditam que eu e o somos um casal apaixonado. Quem diria que seu irmão seria tão bom ator?" – digitei.
"WTF? Estamos mesmo falando do ?" – me respondeu segundos depois.
"Você por acaso tem outro irmão?"
"Engraçadinha. Só fiquei surpresa, só isso."
"Com o quê?"
"Bem, não diga a ele que lhe contei isso, mas, o é um péssimo mentiroso!"
Pensei em contar a sobre o beijo que o tinha me dado na frente do e que, com certeza, merecia o Oscar de atuação, mas me senti extremamente envergonhada e deixei passar. Estava no meio da mensagem para ela informando que era impossível o ser um péssimo ator, quando ouvi o trinco da porta do banheiro girar e o sair de lá, vestido apenas com, pasmem, uma cueca. Meu dedo ficou parado no ar enquanto eu o encarei perplexa.
Era óbvio que o era exatamente como eu imaginava, - não que eu tivesse ficado imaginando por muito tempo -, corpo firme e definido nos lugares certos, como um modelo saído diretamente de um catálogo de grife. Porém não era seu corpo praticamente nu que estava prendendo minha atenção, - ok, talvez um pouco -, mas sim, as diversas tatuagens que iam desde o seu antebraço até a escapula. Consegui identificar alguns dos desenhos, números, - que muito provavelmente eram, na verdade, datas -, a face de um lobo preenchia parte do antebraço, - que tive a impressão de me encarar com os mesmos olhos intimidantes do dono -, uma águia próxima ao ombros, algumas flores estilizadas que subiam seu braço, além de muitas outras coisas. Mas, de todos aqueles riscos que cobriam o seu corpo, uma frase, solitária em seu peito esquerdo, em uma língua que não reconheci, prendeu minha atenção. "Se la lu..."
― O que foi, ? Nunca viu um homem de cueca? – disse, me despertando do transe.
― Claro que sim, é só que...
― Já faz um tempo? – ele arqueou a sobrancelha, seu sorriso tornando-se irônico.
― Cala a boca.
riu, passou a toalha sobre o cabelo, secando-o, depois de alguns instantes, colocou-a de volta ao banheiro, caminhou para a cama e estava prestes a se enfiar debaixo dos lençóis quando minha voz esganiçada o interrompeu.
― O que pensa que está fazendo?
― Indo dormir.
― Assim? Aqui?
― Por acaso, só vejo uma cama aqui. – disse deitando-se ao meu lado. O seu cheiro de sabonete invadiu minhas narinas, como mais cedo. ― E se lhe interessa saber, costumo dormir nu, então, acredite, já estou fazendo um sacrifício aqui. – sorriu, enfiou-se debaixo da coberta e apoio a cabeça em cima das mãos.
Encarei-o perplexa.
― Eu não vou dormir na cama com você.
― E eu aqui pensando que você estava louca por esse momento. – Ele sorriu debochado. ― Fique à vontade em usar a poltrona. – disse, ajeitando-se na cama, deixando claro que ele estava pronto para dormir.
Bufei, me levantei, fui até o guarda-roupa a procura de algo que pudesse usar para delimitar nosso espaço na cama.
Meu Deus, em que momento minha vida tinha se tornado aquela loucura? Eu estava tão bem, vivendo em meu pequeno e aconchegante apartamento, feliz em meu mundo em que minha única preocupação era registrar e vender livros, um café no fim da tarde com a Bia, vinho a noite com a e, claro, torcer para não encontrar com o pelo prédio. Agora, de repente, estava presa nessa versão bizarra de minha vida, em que estava prestes a dividir a minha cama da adolescência, com um vestindo apenas uma cueca e suas tatuagens que ficavam se repassando em minha mente, me intrigando. Pensei, enquanto fazia questão de colocar um dos edredons no meio da cama, para impedir qualquer contato meu e do .
Sem conseguir ver outra solução, afinal, eu tinha procurado aquilo, me deitei e apaguei as luzes no interruptor ao lado da cama. Então fechei os olhos, na tentativa fracassada de conseguir dormir e afastar aquelas reações recém descobertas em relação ao . Mas tudo o que consegui ver, diante de mim, foi seu perfeito corpo coberto de tatuagem. Senhor, qual era o problema comigo?
Mas em minha defesa, nunca poderia imaginar que por debaixo daqueles ternos bem passados, os cabelos bem penteados, o escondia esse seu lado, quase que... Procurei por alguma palavra que descrevesse o homem deitado ao meu lado e a primeira que veio em minha mente foi: livre. A verdade era que, de alguma forma, aquelas tatuagens contavam muito mais do que sua aparência de advogado impecável. De repente, tive o pressentimento de que era muito mais do que ele permitia que as pessoas vissem. E, o mais estranho de tudo, foi que senti que queria conhecer cada parte oculta dele.
? – o chamei, no meio da escuridão do quarto, recebendo um resmungo em resposta. ― Você está dormindo?
― Sim.
― Quantas tatuagens você tem? – perguntei, a curiosidade me dominando e me fazendo ignorar sua resposta e meu instinto de autopreservação.
― Parei de contar na vigésima.
― E todas elas têm um significado?
suspirou.
― Algumas, outras eu fiz enquanto estava bêbado, então, não.
Sorri. Típico. O silencio retornou, mas eu ainda queria saber mais, muito mais.
― A tatuagem em seu peito, tentei ler, mas não reconheci o idioma. - Senti o se mexer ao meu lado. ― O que tem escrito?
Por um instante pensei que ele não fosse responder, até que sua voz rouca, atravessou o silêncio do quarto em o que percebi ser um italiano perfeito.
Se la luce della mia vita.
Todos os pelos do meu corpo se arrepiaram.
― N-não sabia que você falava italiano. – Quase não reconheci minha própria voz.
― Não falo. – respondeu seco e eu entendi como um sinal não queria mais conversar, mas então, para minha surpresa, ele continuou: ― Minha mãe era professora de italiano. Ela costumava repetir essa frase para mim e para a .
― O que significa?
Eu sabia que estava sendo extremamente intrometida, mas a curiosidade inexplicável pulsava dentro de mim, como se naquela frase estivesse uma parte dele que eu precisava conhecer.
― Você é a luz da minha vida.
Fui quase capaz de ver o pequeno, correndo pela casa com seus cabelos loiros, sorriso sapeca e aqueles olhos brilhantes. Quase pude ver sua mãe, uma linda e divertida professora, abaixando-se, o beijando na testa e dizendo aquelas palavras com todo o significado que elas tinham. Aquilo mexeu com minha mente mais do que imaginava. Tinha certeza de que o e a tinham sido criados em um lar cheio de amor, podia perceber isso nos pequenos momentos em que estavam juntos, mas a vida, de alguma forma, tinha tirado aquilo deles. Fiquei pensando neles, tão novos, perdendo as suas pessoas mais importantes.
"Quando meus pais faleceram, eu ainda era um menino... Mas de repente, me vi em um mundo em que eu era o único responsável por mim e pela ..."
Suas palavras, daquele dia no jantar na casa do Sr. Cameron, me acertaram em cheio. Pensei em minha própria família, em como, mesmo tendo um ao outro, parecíamos incapazes de transparecer nossos sentimentos, em especial, quando se tratava de mim e minha mãe. Quantas vezes tínhamos brigado? Inúmeras. Quantas vezes tínhamos dito "eu te amo", praticamente nenhuma.
? Você está chorando? - A voz do me trouxe de volta ao quarto.
― Não. - Funguei, tentando disfarçar as lágrimas que nem eu mesmo sabia que estavam escorrendo. ― Uma professora de italiano como mãe, deve ter sido muito divertido.
Ouvi soltar o ar com força, ele se mexeu na cama, depois do que pareceu vários minutos, respondeu:
― Sim.
― E o seu pai?
― O que você acha? – A ironia tomando conta de sua voz.
― Advogado? – um balanço sutil ao meu lado confirmou o que imagina. ― Qual o problema com nós filhos e essa obsessão de ter a mesma carreira dos pais?
― Também gostaria de saber. - Tinha quase certeza de que o estava sorrindo.
― Mas pelo menos no seu caso você gosta, não é?!
― Sim, acho que sim.
― Já pensou em ser alguma outra coisa?
― Ouvi dizer que as mulheres gostam de boyband, quem sabe.
Sorri. Era estranho admitir que o que eu conhecia, sério e monossilábico, tinha aquele lado divertido, capaz de me fazer querer conversar com ele por horas.
― E você, ? - virou-se, apoio a cabeça em seu cotovelo e me encarou. ― Já sabemos que a advocacia não é mais uma opção, o que você quer fazer? – fiquei quieta. ― Pretende trabalhar para sempre em uma livraria?
― Gosto muito de trabalhar lá. – Respondi, mais na defensiva do que deveria.
Ele assentiu.
― Mas é o que você quer para o resto da vida?
Sempre me questionava a mesma coisa. Eu amava trabalhar na Solar. Foi lá que eu tinha encontrado minha paixão. Foi lá que percebi quantas coisas tinha feito apenas para agradar a minha mãe, a faculdade de Direito, o trabalho no escritório do papai, muitas coisas que eu não tinha escolhido, mas que tinham sido escolhidas por mim. Foi, graças a Solar, no meio do cheiro de livros antigos e novos, misturado ao café de fim de tarde, que eu tinha me redescoberto, mas eu sabia que aquilo era apenas o começo e não o meu futuro.
― Não. – E de repente, me vi dizendo, para a última pessoa que poderia imaginar, o meu sonho. ― Escrever, gosto muito de escrever histórias.
Para falar a verdade, sempre achei que, à essa altura, eu já teria publicado algum dos meus livros, mas, muitas coisas, entre elas a insegurança, tinham ficado no caminho. ficou em silencio, absorvendo a informação. Lembrei de minha mãe, seu descaso quando lhe contei que queria ser uma escritora tinha me levado a esquecer aquilo e me prender por cinco anos dentro da advocacia. Subitamente me senti envergonhada. Existia uma grande possibilidade de o também achar que ser uma escritora não deveria passar de um hobbie ao invés de uma profissão.
― Você já escreveu algum? – perguntou, pegando-me de surpresa.
― Sim. – Confessei.
― Uma escritora, acho que combina com você. – Senti ele sorrir e, diferente do que esperava, seu comentário não soou ofensivo. ― E por que ainda não publicou?
Sua pergunta rodopiou em minha mente.
― Acha que não sou capaz? – Mais uma vez percebi que estava na defensiva.
― Não, , pelo contrário. – Mesmo na escuridão do quarto eu tinha certeza de que o me fitava, pois podia sentir seus olhos presos em meu rosto. ― Se quer saber, depois do que vi hoje, acredito que você seja capaz de fazer muitas coisas, desde que realmente queira.
Fiquei sem reação. Espera ouvir qualquer outra coisa, algo como escrever não era uma profissão de verdade, ou alguma piada sarcástica típica de , mas nada me preparou para sua sinceridade. Além disso, tinha muito tempo que não falava sobre aquele assunto com alguém, aquela parte de mim tinha ficado adormecida, trancada, mas, de alguma forma, a presença do me fazia querer lhe contar tudo, como se no fundo, eu soubesse, que não haveria julgamentos.
― Você tem mais alguma pergunta ou posso finalmente dormir? – perguntou, voltando ao sarcástico de sempre.
― Desculpe, eu...
― Você já reparou que se desculpa com muita frequência?
― D-desculpa.
Ele sorriu e se virou, se posicionando para dormir.
― Boa noite, .
― Boa noite, .
De repente, a calma que eu tinha desejado por todas aquelas últimas horas começou a invadir meu corpo, fazendo com que meus músculos finalmente relaxassem. Eu tinha sobrevivido. Tinha sobrevivido ao dia que por um ano inteiro eu havia remoído em minha mente e, precisava admitir, uma parte daquela vitória se devia àquele homem deitado ali ao meu lado. , nas últimas semanas, tinha se tornado para mim muito mais do que um dia eu poderia ter imaginado. Foi ao pensar naquilo que senti que precisava lhe dizer mais uma coisa, mesmo que talvez ele já tivesse adormecido.
― Obrigada por hoje.
Já estava quase pegando no sono, quando a voz sussurrada do reverberou no silêncio do quarto:
― Não há de quê, bella.
Naquele instante algo aconteceu, cada uma de suas palavras percorreu os meus ouvidos, arrepiando os pelos de minha nuca, e alcançou em cheio o último lugar que deveria: meu coração.


TRINTA E DOIS



― Não está tão ruim. – Ouvi a voz da Sky atrás de mim, enquanto encarávamos meu reflexo no espelho.
― Não está tão ruim? - Encarei-a através do espelho, mas sem realmente conseguir desviar os olhos do meu reflexo indignado, ou pelo menos, parte do que era possível ver nele em meio a tules, rendas e mais tules.
Não tinha a menor ideia do que se passou na cabeça da minha irmã no momento no qual ela havia escolhido aquele modelo para o vestido das madrinhas, mas, definitivamente, não devia ter sido em um bom dia. Bufei, exatamente como o meu não estava sendo. Passei a mão pela saia de tule do vestido, tentando, em vão, diminuir o volume daquela abominação. Bufei outra vez. Claro que aquilo era exatamente o que precisava para fechar a minha manhã gloriosa, pensei ao me recordar da vergonha que tinha passado ao acordar grudada de conchinha no corpo do .
Santo Deus, de todas as coisas vergonhosas que já tinha feito em minha vida, eu tinha mesmo que enroscar as minhas pernas ao redor do e abraçá-lo como se ele fosse uma espécie de amuleto? E como se não bastasse, o homem tinha que estar só de cueca? Vi meu reflexo corado me encarando enquanto as lembranças do amanhecer vinham em minha mente.
***
Eu estava em um parque, sozinha, tudo ao meu redor era preenchido por um campo verde, o vento batendo em meu rosto fazia com que meu cabelo ricocheteasse contra o meu rosto, me dando uma sensação de liberdade Mesmo com todo aquele vento eu me sentia aquecida e quando um cheiro amadeirado invadiu todo o ar ao meu redor uma sensação maravilhosa tomou conta de mim, aquecendo meu coração e trazendo uma paz que há muito tempo eu não sentia. Sorri. Era como se, finalmente, eu me sentisse em casa.
― Isso é tão gostoso. – Me ouvi dizer, para aquela imensidão verde.
Ouvi um murmúrio que eu tinha quase certeza que parecia um xingamento. Procurei ao redor para saber quem estava ali comigo, profanando o meu momento de paz, mas não vi ninguém. Eu estava só.
?
Uma voz rouca e profunda que eu conhecia chegou aos meus ouvidos. De onde vinha aquele som? De repente, um filme passou em minha mente, senti todo meu corpo em alerta e, em segundos, tudo voltou. Meu confronto com minha mãe, saindo do banheiro usando apenas uma cueca box preta, todas aquelas tatuagens que preenchiam seu corpo, o edredom que coloquei entre nós para impedir que tivéssemos qualquer tipo de contato, nossa conversa antes de dormir. Meu Deus, nossa conversa.
Desviei propositadamente minha mente daquele tópico, porque, de alguma forma, não estava ainda preparada para entender o que tinha acontecido ao final dela. Então obriguei minha mente a focar no edredom. Onde estava o bendito edredom? Não tive coragem de abrir o olho, mas tinha certeza de que aquilo ao qual eu estava abraçada ou melhor, entrelaçada, estava longe de ser algo macio. Pelo contrário, era capaz de sentir cada músculo firme do corpo do contra o meu, meu braço subindo e descendo conforme ele respirava, meus seios chocando-se com suas costas rígida e plana.
Meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Prendi a respiração e esperei, nenhum músculo meu ousou se mexer enquanto eu pedia ao universo para que aquele momento em que o ouvi chamar meu sobrenome ainda fosse um sonho e que o estivesse, de preferência, em um coma profundo. Mas...
, não que eu não esteja achando gostoso também, mas preciso mesmo ir ao banheiro.
Me afastei depressa, quase caindo da cama, mortificada ao pensar que o tinha ouvido o que eu achei que tinha dito em sonho.
― Meu Deus, eu não... Eu não estava...
― Não, não achei que estivesse. – me olhou com um sorriso que quase pareceu gentil.
Santo Deus! Eu sabia que era bonito, na verdade, aquilo era bem óbvio para qualquer um que o olhasse, mas ali, com aquele sorriso e os cabelos dourados bagunçados, como alguém recém saído de uma noite de amor, aquela imagem fez uma parte bem íntima minha formigar. E mais uma vez me perguntei onde estava com a cabeça quando decidi que estava tudo bem dividir a cama com o por todos aqueles dias. Eu não conseguia dizer uma palavra, apenas fiquei ali encarando-o.
― O que?
― Acho que sempre imaginei que você acordava com o cabelo impecável. – Arregalei os olhos e levei a mão a boca ao perceber que tinha dito aquilo em voz alta. riu.
― Não sei o que mais me surpreende, você pensar sobre o meu cabelo ou saber que você me imaginou acordando. – sorriu sacana e eu quis me enfiar debaixo das cobertas e nunca mais sair dali ao pensar no que eu tinha acabado de dizer.
Desviei meus olhos, encarando a pilha inútil de edredom caída no chão, ao pé da cama.
― Parece que a sua barreira não deu muito certo. – O disse, praticamente lendo meus pensamentos, ao acompanhar meu olhar.
Seu sorriso aumentou, alcançando seus olhos que brilhavam divertidos e com algo mais que fez com que o formigamento no meio de minhas pernas se intensificasse. passou a mão pelo cabelo, se levantou e, assim como tinha feito na noite anterior, andou confiante pelo quarto, mesmo estando usando apenas a porcaria da cueca preta. Como aquele homem era capaz de exalar tanta confiança apenas com o andar? E porque, em nome de todos os santos, eu estava encarando seu belo traseiro enquanto ele se encaminhava para o banheiro? Eu já não tinha passado vergonha o suficiente?
Involuntariamente pensei que se o acordava com aquela aparência de fazer inveja em deuses, eu, por outro lado... Passei a palma da mão sobre a boca, tentando afastar qualquer resquício de baba – que sem dúvida havia ali - e estava prestes a prender o cabelo em um coque, para domá-lo, quando parou, virou-se para mim, a mão na maçaneta da porta e disse, com um sorriso que fez não somente um ponto em mim formigar, mas sim meu corpo inteiro:
― Você também é uma visão nada mal para se ter ao acordar, , nada mal.
***
Quando nos sentamos a mesa, para tomar o café da manhã, e todos os olhares da família se demoraram sobre o meu rosto corado e o sorrisinho irritante do , de volta ao seu habitual estado impecável de elegância, eu pude imaginar o que se passou na cabeça de cada um deles. Ótimo, aquilo tinha sido bem feito para eu apreender a nunca mais abrir minha boca perto do , principalmente em ocasiões em que ele estivesse usando apenas uma cueca box preta, exibindo aquelas suas tatuagens delici...
― Sim, não está tão ruim. – Sky disse outra vez, trazendo-me de volta.
Fiquei me perguntando se caso ela repetisse aquilo até o dia do casamento aquele vestido seria capaz de se transformar em algo menos horroroso.
― Pelo amor de Deus, eu estou parecendo um...
― Algodão doce verde? – Sky prendeu o riso. ― Quero dizer, um algodão doce bem deslumbrante, se me permite.
Grunhi.
― Eu vou matar a Mia.
Quando minha irmã, entusiasticamente, anunciou no café da manhã que as 10:30am iríamos até a Bride’s Dream, o ateliê mais famoso de New Sunshine, localizado no centro da cidade, para que eu pudesse, finalmente, experimentar o vestido de madrinha, não sabia se ficava tensa ou feliz. Há muito tempo eu não tinha um momento a sós com a Mia como irmãs e ela pareceu sincera quando disse que estava ansiosa por aquele momento, mas, como eu estava com receio de que acabássemos nos desentendendo, como de costume, arrastei a Sky comigo. A Mia, óbvio, não pareceu muito satisfeita, mas eu sabia que aquilo era porque ela e a Sky tinham um grande histórico de implicâncias.
― Me lembro de ter te avisado, alguns anos atrás, para fazer isso enquanto ela dormia.
― Bem, é óbvio que eu devia ter seguido seu conselho. – disse suspendendo a saia do vestido e descendo do pedestal. ― Não há chance alguma de eu ir a esse casamento vestida nisso. – Bufei.
― Sabe que ela provavelmente fez de propósito, não é?!
Me recusei a pensar naquilo, por mais que, no fundo, eu soubesse que a Sky tinha razão.
― Onde ela está afinal?
― Quem? – perguntou distraída pelo celular.
― A Mia.
― Ah, na outra sala, acho que ela ia finalizar os ajustes do vestido de noiva. – Sky deu de ombros. ― Aposto que o dela é impecável. Aquela vaca!
Quase a repreendi com o olhar, mas o tanto de tule verde menta espalhado pelo meu corpo não me permitiu ser assim tão hipócrita. Avisei a Sky que iria atrás da Mia, orando aos céus para que ao me ver vestida naquilo, alguma compaixão surgisse em seu coração e ela me deixasse fazer alguns ajustes. Perguntei a vendedora que tinha nos atendido se ela tinha visto minha irmã, a moça gentil indicou uma sala ao fim do corredor e fui até lá.
Quando entrei e vi o perfil da Mia no espelho, prendi o fôlego. Minha irmã estava ali, em pé, no meio da sala, extremamente linda. Seu vestido de noiva era do tipo tradicional, um corpete tomara que caia ajustava-se perfeitamente sobre seu corpo magro e a saia, cheia, preenchia o restante de seu corpo com camadas, como uma princesa. Mas alguma coisa estava errada. Nenhuma luz irradiava dela, pelo menos não aquela típica luz de noiva. Ao contrário, Mia estava... Meu Deus, ela estava chorando? Pensei em entrar ali, perguntar se estava tudo bem com ela, quando ouvi uma voz masculina, uma que me pareceu vagamente familiar.
― Por favor, não faça isso.
― Não, você precisa sair daqui.
Minha irmã estava agitada, percebi pela forma excessiva com que ela gesticulava. Aquilo me deixou em alerta. Mia não demonstrava seus sentimentos, seu rosto, seu comportamento, era baseado em indiferença, mas, ali, enquanto encara o homem que eu não conseguia ver, seu corpo todo parecia enviar outra mensagem. Pânico.
― Mia... – O ouvi quase suplicar.
― Não, por favor, você não devia estar aqui. – Mia levou a mão ao rosto, respirou fundo, depois encarou-o. ― O que eu lhe disse?
― Você sabe que precisamos conversar, você não pode...
― Não! – a voz da minha irmã saiu esganiçada. ― O que eu preciso é que você saia.
Uma eternidade pareceu se passar até que eu ouvi um suspiro cansado escapar dos lábios do homem. Congelei quando percebi que ele tinha resolvido acatar o pedido de minha irmã e estava vindo em minha direção. Me virei no corredor, fazendo o possível para não ser pega em flagrante e me abaixei, fingindo estar procurando algo no chão, então, quando ele passou, eu me levantei, sem conseguir ver o seu rosto. Voltei para a porta da sala e observei a Mia cair sentada no sofá, seu corpo dobrou-se sobre seus joelhos e ela soluçou.
Depois de adulta, eu só tinha visto minha irmã chorar pouquíssimas vezes, mas todos aqueles poucos choros tinham sido dignos de uma dama da realeza, nada parecido com o que eu via naquele momento. Eu era a rainha do drama, era eu quem chorava e exibia, sem nenhuma vergonha – como minha mãe costumava dizer com seu tom de reprovação -, os meus sentimentos. Não a Mia. Senti um aperto em meu peito.
Entre mim e a Mia poderiam existir mil diferenças, mas ela ainda era minha irmã e vê-la daquela forma vulnerável mexeu comigo muito mais do que poderia imaginar. Fiz um barulho para perceber que estava me aproximando e, imediatamente, como imaginava, minha irmã se recompôs. Ela limpou os olhos, se levantou, seu corpo adquirindo a postura rígida de sempre, um sorriso surgiu em seus lábios, como se, segundos atrás, ela não estivesse desabando.
?! Não vi que você estava aí, eu...
― Mia, você está bem? – só quando minha voz saiu como um sussurro que percebi quanto preocupada estava.
― Sim, estou ótima. – Minha irmã abanou a mão no ar, ainda sorrindo. ― Hormônios de noiva, você sabe como é.
― Aquele homem ele...
― Ah, não era ninguém importante. – O sorriso de minha irmã quase vacilou, quase, mas ela se manteve firme. ― Oh, deixe-me vê-la! - disse pegando em minha mão e me fazendo girar enquanto ela me avaliava. ― Ah, , eu sabia que verde era a sua cor. – sorriu.
Naquele momento eu soube que a conversa estava encerrada. Senti vontade de confrontá-la, oferecer ajuda, dizer que, apesar de todos os nossos problemas, eu era sua irmã e estaria ali para ela sempre que fosse necessário. Mas eu a conhecia muito bem para saber que a Mia, assim como minha mãe, não era capaz de se abrir, principalmente se ela achasse que algo que ela dissesse, no fim, pudesse prejudicar sua imagem tão bem construída.
Suspirei, resignada, pois, sabia que, assim como a Mia, ainda tinha muita coisa em mim que era reflexo da nossa mãe, muita coisa que hoje eu era capaz de ver que precisava mudar. Mas, entre saber e conseguir se desprender das amarras tão bem estruturadas da nossa mãe, ainda havia um caminho muito longo a percorrer. E, de alguma forma, mesmo com tudo que eu ainda tinha que enfrentar em relação a Sra. Elizabeth , eu sabia que era a Mia que, provavelmente, sofria a maior pressão.
Afinal, eu era a filha que não tinha mais jeito, que falava e demonstrava o que sentia, em qualquer oportunidade. A filha fraca que sorria demais, se importava demais. Já a Mia, desde o dia em que nasceu, minha mãe tinha a criado para a ser o meu completo oposto, a filha perfeita, incapaz de desapontar e, para isso, quaisquer que fossem os seus sentimentos, ela tinha a obrigação de escondê-los em um sorriso calculado e indiferente. A partir do momento que se revela o que se sente para o outro, nos tornamos peões em suas mãos. Assim era a vida, essas eram as palavras da minha mãe. Então, pela primeira vez, em todos aqueles anos, enquanto encarava aquele seu sorriso tão bem treinado estampando o seu rosto, eu senti pena de minha irmã.


TRINTA E TRÊS


Quando a irmã da anunciou na mesa do café da manhã que elas iriam passar a manhã presas em uma programação destinada só para elas, uma onda de alívio passou por mim. Ainda mais depois daquela manhã em que eu constatei o óbvio: Eu estava fodido. Muito fodido. Foi o que descobri no instante em que os braços e as belas pernas da me envolveram durante a noite e eu passei o resto do tempo em claro, controlando a porra de uma ereção. Cacete, eu tinha me tornado um adolescente no auge da puberdade.
Então, como um covarde, ao perceber que ela havia acordado, pedi para me soltar porque, no momento mais vergonhoso da minha vida, disse a pior desculpas de todas: precisava ir banheiro. Puta que pariu. Mas o que eu poderia fazer? Quando, em um rompante de filha desobediente, decidiu que nós dividiríamos o seu quarto, a minha primeira reação foi satisfação. Fiquei feliz por vê-la despertar, bem ali em minha frente, e começar a enfrentar a megera da mãe da maneira como deveria ter feito desde o início. Mas, no instante em que senti os peitos macios de roçarem contra minhas costas enquanto ela, inconscientemente passava as pernas ao redor das minhas, eu sabia que teria a pior noite da minha vida.
O que, para falar a verdade, era como se eu estivesse preso em uma merda de uma piada ruim. Nunca, em todos aqueles anos de vida, eu tinha passado por uma situação como aquela. Uma mulher linda e deliciosa, me prendendo em seus braços e suas pernas, sem que eu pudesse fazer qualquer movimento, porque eu sabia que, por mais que eu quisesse muito tocá-la, , por outro lado, talvez não estivesse preparada. Então, tudo o que me restou foi pensar em desastres ambientais, política e qualquer merda ruim que fizesse com que meus pensamentos não focassem na tentadora ruiva ao meu lado e, claro, evitasse que ela descobrisse minha ereção permanente.
O celular em meu bolso vibrou, me despertando das lembranças daquela manhã. Bufei ao visualizar a tela: mais uma mensagem da Júlia. Depois de praticamente um ano em silêncio, aquela mulher resolvera aparecer do nada com uma frequência que não estava me agradando nem um pouco, ainda mais quando meus instintos gritavam que alguma coisa estava errada. Mas como eu não conseguia pensar o que poderia ser, tinha decidido ignorá-la o máximo possível, até decidir o que fazer.
"Espero que você não esteja me ignorando, querido. Sabemos que não sou do tipo de mulher que gosta de ser deixada de lado."
Revirei os olhos. Ontem, enquanto tomava banho, a Júlia tinha me mandado basicamente a mesma mensagem. Chantagem, como ela costumava fazer no passado, pois sabia que eu cederia. Mas agora, por alguma razão, eu estava disposto a mandá-la se ferrar e enfiar aqueles seus joguinhos em seu belo traseiro. Estava prestes a responder exatamente aquilo, quando uma mensagem na surgiu na tela:
"Como está tudo por aí?"
Sorri. Meu momento de alívio na hora do café só tinha durado minutos, já que no instante seguinte que a irmã de , informou que o seu noivo, assim como ela, também iria fazer a prova final da roupa do casamento, eu tinha sido, sutilmente, convocado a participar. Não era exatamente a minha programação para aquela manhã, tinha prazos para cumprir, ações para protocolar e pretendia usar aquele tempo em que a estaria longe para poder fazer aquilo. Mas quando a mini víbora disse, com seu melhor sorriso: "Só imaginei que seria uma ótima oportunidade para você se enturmar, , não precisa ir se não quiser!", eu sabia que estava sendo testado.
Eu estava realmente inclinado a recusar, porém, minutos depois, quando a me chamou no canto e disse que, caso eu desejasse inventar uma desculpa para fugir, principalmente porque o , como padrinho do noivo, estaria lá, ela entenderia, algo se agitou em meu estômago. E eu conhecia muito bem aquele sentimento, embora não o tivesse há muito tempo, a velha e boa competitividade. Havia sido assim que eu tinha indo parar ali, naquela alfaiataria, dividindo o mesmo ambiente que um Joshua completamente alheio a animosidade pungente entre mim e o imbecil do .
"Estou tendo a manhã mais entediante da minha vida, obrigado!"
Uma foto de , em frente a um espelho enorme, vestida com diversas camadas de babado verde surgiu na minha tela, junto com a mensagem:
"Anime-se! Ao menos você não está parecendo um algodão doce gigante!"
Uma segunda foto foi enviada, uma selfie com uma careta de deboche. Gargalhei.
"Que porra é essa?" – digitei, em meio as risadas.
? – ouvi Joshua, me chamando, mas ainda estava concentrado na foto de . ― ?
― Acho que estamos o entediando, Josh. – Foi a vez da voz do me chamar a atenção. Veneno, cristalino como água.
Fitei-o com o que esperava ser o meu melhor olhar de desprezo.
― Desculpe, a me mandou algumas fotos, acabei me distraindo. – Fiz questão de sorrir malicioso para o que nem ao menos disfarçou a expressão de raiva.
― Nudes? – Joshua riu tão malicioso quanto, mas ao notar o olhar do primo em sua direção, pareceu verdadeiramente constrangido por sua pérola.
Meu sorriso sacana aumentou. que se corroesse com a sua imaginação.
― Então, er... O que achou? – Joshua perguntou diante de outro olhar irritado do primo em sua direção. Estava começando a achar que a qualquer momento ele iria rosnar. ― Qual é, você já viu como ele se veste? Não custa nada pedir a opinião do cara.
Sorri enviesado.
― Muito elegante. – Assenti. ― A Mia vai gostar.
― Na verdade, foi ela quem escolheu. – Ele parecia encabulado, como um homem que sabia muito bem que suas bolas estavam presas na mão da mulher. ― A Mia gosta de decidir as coisas, sabe como é.
Claro que sei. Pensei, com um sorriso sarcástico, tinha certeza de que a mini víbora adorava estar no controle de tudo.
― Uma mulher que sabe o que quer.
― Sim, isso com certeza a define. – Ele sorriu confirmando que somente eu tinha notado a ironia em minha voz.
― Sr. Joshua. – O funcionário da loja que o estava auxiliando entrou na sala. ― O senhor pode, por gentileza, me acompanhar para terminarmos de fazer os ajustes finais na sala ao lado? - Joshua assentiu e se retirou, deixando para trás eu e o em um silêncio quase palpável de tão hostil.
Desde o momento em que entrei no carro, para acompanhá-los até ali, tínhamos trocado apenas poucas palavras, o básico da educação. Qualquer pessoa que estivesse de longe poderia sentir a animosidade entre nós dois. Eu sabia que deveria estar tentando fazer amizade com ele, mostrar o quão superior era o novo noivo da , e, principalmente, o quão insignificante ele tinha sido na vida dela ao ponto de não me afetar em nada, mas toda vez que eu olhava para o seu rosto eu só conseguia pensar em o quanto a devia ter sofrido por aquele imbecil. Foi por isso que não fiz questão de manter qualquer conversa com ele naquele instante e preferi voltar a minha atenção ao celular.
― Então você é advogado.
Me controlei para não revirar os olhos diante da sua tentativa ridícula de começar um diálogo.
― Sim.
― E foi assim que você e a -Cat...
. – disse entredentes, ainda encarando a tela do celular.
― Desculpe?
Desvie os olhos do celular e o fitei, sem se quer disfarçar meu desprezo.
― O nome dela é .
― Eu sei qual é o... – semicerrou os olhos, pensativo, mas pareceu mudar de ideia sobre o que iria dizer. ― Então, foi assim que vocês se conheceram?
― Não.
Pensei que, pelo silêncio que se seguiu a minha resposta monossilábica, ele tivesse entendido que eu não estava nem um pouco a fim de qualquer diálogo que o envolvesse, mas, segundos depois, se ajeitou na poltrona e, para meu tormento, voltou a falar.
― Bem, só queria perguntar se ela... Se ela está bem, sabe? – ele remexeu a mão sobre as pernas, sem me encarar. ― Se está feliz. – Sua última fala saiu quase como um sussurro.
Eu nunca tinha sido o tipo de cara violento, mas, ao ouvi-lo dizer aquilo, a minha primeira reação foi a vontade de socá-lo. Me senti quase selvagem de tão real. Mas, depois do rompante de raiva, senti vontade de aplaudir a cara de pau do filho da puta ao perguntar aquilo.
― Acho que você deveria se preocupar com a felicidade da sua noiva, pois a da minha, pode deixar que eu tenho cuidado muito bem.
Em segundos o corpo de enrijeceu, seu rosto ficou vermelho e ele pareceu incapaz de olha em minha direção.
― Eu não... Olha, eu e a , estivemos juntos por muito tempo. – Suspirou. ― Temos uma história maior do que isso, tenho muita consideração por ela e...
― Com certeza deixá-la na porta da Igreja foi um ato de grande consideração. – E, antes que eu percebesse, quem parecia estar rosnando era eu.
― Você não sabe a história toda.
― Acredito que sei o suficiente.
Pela primeira vez minhas palavras pareceram de fato despertar sua atenção, pois finalmente criou coragem e me encarou. Seus olhos brilhavam com algo que eu não soube identificar, mas tive a impressão de me dizer muito mais do que suas palavras.
― Não há um dia que eu não me sinta envergonhado por ter feito aquilo com a -C... a . – Ele continuou me fitando, o meu pressentimento de que ele gostaria de dizer algo mais aumentou. ― E, depois que eu a vi de volta, percebi também... - passou a mão pelos cabelos e encarou os próprios pés. ― Percebi que não há um dia que eu não me arrependa de tê-la...
― Pronto, estamos finalmente livres desse tédio. – Joshua apareceu sorrindo e já vestido com suas roupas de quando chegamos ali, salvando a vida do primo e impedindo-o de continuar a frase. ― Vamos almoçar?
Percebi que estava prestes a dizer que se arrependia de tê-la deixado, não somente no altar, mas no sentido total daquela palavra e senti cada músculo do meu corpo fazer um esforço sobre-humano para que eu não quebrasse cada pedaço do seu rosto. Filho da puta.
***
Algumas horas depois, quando estacionei o carro em frente ao endereço que tinha me enviado por mensagem naquela tarde, eu ainda podia sentir a raiva pulsando em mim. Depois que o tinha, inesperadamente, de alguma forma, confessado a mim que se arrependia de ter abandonado a na porta da Igreja, a indignação tomou conta de mim, não por suas palavras, mas sim pelo que ele não havia dito. Pelo que eu senti implícito por de trás de cada uma de suas palavras que, só de imaginar o que poderia ser, meu sangue ferveu. Então, quando, providencialmente, a Lúcia me ligou, acabei inventando uma desculpa para não almoçar com eles e fui embora.
Eu sabia que se tivesse que aguentar a presença do enquanto remoía todas aquelas coisas que se passavam por minha cabeça, eu não seria incapaz de suportá-lo por muito tempo antes de quebrar todos os seus dentes. Puta que pariu, o que estava acontecendo comigo? Onde eu tinha enfiado a porra da minha razão? O meu controle?
Dei algumas voltas pela cidade, parei em um restaurante na orla e fiquei lá, observando o mar esperando que aquela ira inesperada fosse embora. Mas, ao descer do carro e encontrar parada na porta do prédio acenando para mim, as palavras do ressoaram em minha mente e eu percebi que a minha fúria ainda estava lá, apenas levemente adormecida.
― O que há com você? – ela me perguntou assim que colocou seus olhos em mim. ― Está com uma cara péssima.
― Agradeço o elogio. – sorriu diante do meu sarcasmo. ― A Lúcia me ligou. – Respondi, revelando uma parte da minha irritação. ― Ela nos convidou para jantar, assim que retornarmos.
― Não acho que seja uma boa ideia. – suspirou.
― Temos um acordo, . – A lembrei.
― Eu sei. – Ela suspirou, resignada. ― Mas será que não podemos arrumar alguma desculpa para não ir? Não sei se estou preparada.
― Vamos deixar para pensar isso depois. – disse indicando para que ela voltasse a caminhar. ― O que viemos fazer aqui afinal?
― Ensaio da dança dos padrinhos. - fez uma careta. ― E, advinha só? Aparentemente sou a única madrinha que não sabia que haveria uma dança.
― Quão vergonhosa é a coreografia? – perguntei com um risinho debochado.
― O suficiente para me fazer querer ir embora outra vez.
― Fico feliz que tenha me chamado, não gostaria de perder isso por nada. – Sorri.
― E eu fico feliz em saber que minha humilhação eminente lhe traga tanta alegria.
Gargalhei, sentindo, pela primeira vez, um pouco da raiva se dissipando. sorriu e me encarou por alguns segundos.
― Sabia que ainda estou me acostumando com isso?
― O quê? – disse, parando na porta do prédio e a fitando com um sorriso. ― A humilhação eminente?
― Não. - Ela balançou a cabeça rindo. ― Estou falando sobre o fato de que um, você tem um senso de humor – ela dizia enquanto enumerava com os dedos. ― E dois, você sabe realmente sorrir.
― Engraçadinha.
riu no exato momento em que alguns raios de sol caíram sobre si, iluminando seu rosto e refletindo em seus cabelos . Naquele momento, a sua beleza me atingiu de forma tão inesperada que eu senti uma fisgada forte em diversas partes do corpo. era linda e, eu não conseguia entender como, em algum momento do passado, eu tinha pensado diferente daquilo.
― Então, como foi? – perguntou, trazendo-me de volta a conversa. Arqueei a sobrancelha e ela continuou: ― A sua manhã. – olhou para baixo, provavelmente envergonhada por sua pergunta se referir a algo específico que ambos sabíamos muito bem o que, ou melhor, a quem se referia.
― Já lhe disse, um tédio.
― E com o , vocês chegaram a conversar? – Assenti. ― Sobre o quê?
― Nada demais.
hesitou e, para minha surpresa, me vi pedindo a qualquer força do universo para que ela não fizesse a pergunta que fez a seguir:
― Ele disse algo sobre mim?
Naquele instante algo muito estranho aconteceu e eu me senti como se tivesse acabado de levar um soco no estômago.
― Não.
O que era preciso para que ela percebesse que o não passava de um moleque imbecil? Em menos de uma olhada em sua direção eu já sabia que ele não a merecia. Então, como que , depois de tantos anos ao lado dele, não era capaz de enxergar aquilo?
― Nada? – insistiu, parecendo desapontada.
Senti, no mesmo instante, a expressão em meu rosto se fechar.
― Nenhuma palavra.
Sabia que deveria ter sentido remorso por mentir para ela daquela forma, mas a verdade era que nem uma gota de pesar passou por mim. Nenhuma se quer.
― E quanto ao vestido? – perguntei, propositadamente mudando o assunto. ― Você disse a sua adorável irmã o quão horroroso é?
― Não, eu ia dizer, mas...
― Mas?
― Aconteceu uma coisa e... Não era o momento. – Ela deu de ombros. ― Mas acho que tive uma ideia excelente.
Meu celular tocou antes que eu tivesse tempo de perguntar o que aquele seu sorrisinho travesso escondia. Era o John. Atendi, enquanto a se escorou na fachada do prédio do estúdio de dança à espera do restante do grupo de padrinhos para que pudéssemos entrar.
Certo, dê uma olhada então para ver se está tudo certo. – John disse, minutos depois que lhe passei todas as instruções necessárias. ― Assim que você autorizar e a internet aqui em casa deixar, eu protocolo.
― Você está em casa?
― Sim, meu chefe resolveu pegar umas férias, então resolvi trabalhar de home office.
― Eu devia mesmo demiti-lo.
John gargalhou do outro lado da linha.
Te envio uma mensagem assim que conseguir mandar o e-mail, beleza?
― Ok, te dou um feedback antes do fim do dia.
Green? Cadê você? Volte já aqui!
Ouvi alguém ao fundo, chamando-o e rindo, uma risada que eu era capaz de reconhecer a quilômetros de distância
― O que... O que a está fazendo em sua casa?
Hum?
― Eu ouvi a voz da . O que ela está fazendo em sua casa?
O que? Não, é a TV! Nada de . Er... Hum... Apenas a TV... Tenho que ir, chefe. Até mais.
John encerrou a ligação e tive quase certeza de que eu encarava o celular com tanta perplexidade que fez a atenção da voltar-se para mim.
― O que foi?
― Tive a impressão de ter ouvido a voz da enquanto falava com o John. – disse, ainda fitando o aparelho em minha mão. O que diabos a minha irmã estaria fazendo, sem mim, na casa do John à tarde, no meio da semana?
― E?
― E ele está na casa dele.
― Oh... – enrubesceu desviando o olhar.
― O que você não está me contando? – a encarei.
Uma desconfiança surgindo no fundo da minha mente. Aquilo não era possível, era?
― Eu? Nada.
Aproximei alguns passos dela, usando o meu melhor semblante de advogado farejador de mentira.
, não sei se alguém já lhe disse isso, mas, você é uma péssima mentirosa.
― Não, eu não sou. – balançou a cabeça, seus olhos ainda voltados para qualquer lugar que eu não estivesse. ― Inclusive, no ano passado, fiz um curso de verão de teatro e o diretor me disse que... – me aproximei um pouco mais, deixando-a propositadamente desconfortável. ― Que... Eu... Hum... – pigarreou - Que eu tinha bastante potencial.
A sem vergonha teve a coragem de empinar o queixo e me encarar atrevida, seus olhos me desafiando a desmenti-la. Quase gargalhei por sua ousadia, mas me controlei, pois naquele instante, precisava saber o que ela estava tentando esconder a respeito da e do John.
― O que você sabe que eu não sei?
Mas a diversão que, segundo atrás, pairava nos olhos de deu lugar a apreensão no instante em que algo atrás de mim pareceu prender a sua atenção. Me virei e quando vi seu olhar, percebi que estava preso no carro que acabava de estacionar próximo a nós.
Uma mulher morena e curvilínea desceu, chamando a atenção de algum dos homens ao redor e, em seguida, o imbecil do estava parado ao seu lado, com a mão em sua cintura. Sem perceber, travei o maxilar. abaixou-se para dizer algo no ouvido da morena – que agora eu lembrava, era sua noiva -, e apontou para nós dois.
Eles começaram a caminhar em nossa direção ao mesmo tempo em que notei se retesar ao meu lado. Seu olhar, transbordando tensão, foi do casal até mim. De repente, ficou na ponta dos pés, jogou os braços ao redor do meu pescoço e, desajeitadamente, empurrou sua boca contra a minha.
― D-desculpe... – se afastou, nervosa. ― Eu não sei por que, eu... - Antes que ela terminasse a frase, eu coloquei uma mão por detrás de seu cabelo e colei meus lábios em sua boca.
Daquela vez, naquele beijo, não havia nada de desajeitado, inocente ou calculado, como tinha tentado fazer, porque, no instante em que minha mão entrelaçou em seus cachos e meu braço tomou posse de sua cintura, eu senti uma urgência inexplicável me dominar. Aquela raiva que tinha estado a todo momento em alerta, esperando o momento de vir à tona, achou que seria exatamente aquela a melhor hora para atingir a superfície.
Essa era a única explicação para que, mesmo depois de ter dito a e a mim mesmo que não mais a beijaria, agora eu estava ali, agarrado ao seu corpo enquanto minha língua devorava cada centímetro de sua boca. Provocando-a, instigando-a a se abrir para mim. E, para meu completo tormento, , fez exatamente aquilo, jogou os braços ao redor do meu pescoço e abriu os lábios, dando passagem para minha língua, me fazendo perder, quase que por completo, o controle da situação.
Não tinha a menor ideia do que estava fazendo, mas tinha a sensação de que meu corpo estava queimando. Fervendo. Apertei um pouco mais os dedos entre seus cabelos à medida que eu tomava posse de sua boca. Um gemido que eu não saberia dizer se saiu de mim ou da atingiu meus ouvidos, me desestabilizando e trazendo à tona uma vontade primitiva de tocá-la em todas as partes. Devorá-la.
― Meu Deus, arrumem um quarto! – ouvi alguém dizer ao fundo, nos despertando, como a porra de um balde de água fria.
Abri os olhos relutante, uma perplexa e ofegante me encarava. Seus lábios inchados e vermelhos tornando uma tarefa ainda mais difícil manter minhas mãos longe de seu corpo. Em suas írises fui capaz de distinguir diversos sentimentos: confusão, espanto e algo que vibrou no fundo do meu estomago: desejo.
― Vamos, entrem antes que a polícia os prenda por atentado ao pudor. – Mia, a mesma voz desdenhosa de antes, disse ao abrir a porta do prédio com Joshua logo atrás.
Ao seu lado, uma Sra. , com o semblante indignado, transparecia toda a sua reprovação.
― O-o que... – começou a falar.
Queria lhe dizer tantas coisas, mas, antes que fosse capaz de abrir a boca, um extremamente vermelho, quase espumando, passar por nós e entrou no prédio. Percebi no exato instante em que achou ter compreendido tudo o que tinha acabado de acontecer ali. Ela se virou, me encarando e antes que a me sorrisse e agradecesse, crente que eu tivesse feito aquilo como parte da encenação, me ouvi dizer, com uma voz tão rouca e furiosa que quase não me reconheci:
― Se quer provocar ciúmes naquele imbecil, pelo menos faça isso direito. – disse entrando no prédio.
Enquanto subia as escadas em direção ao estúpido estúdio de dança, - a raiva fervilhando –, eu ainda podia sentir a boca de sobre a minha, quente, úmida e provocante. Já tinha beijado muitas mulheres em minha vida, cada uma a sua maneira, algumas tinham permanecido levemente em minha memória, outras nem tanto, mas aquele beijo, aquelas sensações, aquilo eu jamais esqueceria. Nem em mil anos.
***
Quase uma hora depois, nem mesmo a lembrança do gosto dos lábios de sobre o meu tinha sido capaz de afastar a raiva que eu estava sentindo, ainda mais depois que a professora de dança resolveu dar início ao que ela chamou de "dinâmica divertida", me obrigando a assistir, de camarote, os casais se misturarem até que a e o estivesse agora, dançando colados, ao ritmo de uma música melosa do Ed Sheeran. E como se não bastasse, o filho da puta estava, a todo custo, tentando fazê-la sorrir, como a porra de um mocinho de comédia romântica. Cacete! O imbecil não tinha consideração nem pela própria noiva que também estava ali, assistindo a tudo como se estivesse prestes a chorar, pensei, fitando, de soslaio, a pobre mulher no canto da sala.
― Eles sempre formaram um casal tão bonito, não sei o que houve.
Podia sentir o veneno escorrendo da voz da mãe de ao parar ao meu lado e dirigir seu olhar ao casal da Netflix dançando em nossa frente. A encarei, talvez com mais desprezo até do que tinha feito mais cedo, com o próprio , naquela sala do alfaiate.
― Ele foi um babaca que a abandonou na porta da Igreja, foi isso que houve. - Me afastei, indo para o outro lado da sala, antes que eu dissesse àquela mulher o que eu realmente pensava ao seu respeito. Parabéns, , excelente maneira de ser o melhor noivo de todos os tempos.
Aguentei quieto, por mais alguns minutos, até que, ao ver a ceder e sorrir para o fez com que a minha fúria voltasse à tona e, quando dei por mim, eu já estava no meio do salão de dança, tocando o ombro do e fazendo com que ele, mesmo sem uma única palavra, entendesse que era para se afastar.
― O que você está fazendo? – perguntou assim que passei a mão ao redor de sua cintura e a puxei, copiando os passos que, por tantas horas, tinha sido obrigado a assisti-la fazer com o ex.
― Aparentemente, estou salvando-a mais uma vez. – Ela ficou em silêncio, então sussurrei em seu ouvido. ― De nada.
― O que há com você hoje?
― Nada.
― Se lhe interessa saber, eu tinha tudo sobre controle. – disse, na defensiva.
― A sua cara de cachorro sem dono dizia outra coisa.
Senti o corpo de enrijecer em meus braços. De repente, ela parou de dançar, quase me fazendo pisar em seu pé e me encarou. Merda!
― Desculpa, . – disse, ao perceber o quão idiota eu tinha sido.
― Pelo que exatamente? – arqueei a sobrancelha. ― Desculpa se estou um pouco confusa com tudo o que aconteceu nas últimas horas.
Percebi por seu olhar que se referia também ao beijo, mas se ela achava que eu iria me desculpar por aquilo, estava enganada, porque eu não sentia o menor arrependimento. Pelo contrário.
― Não vou me desculpar pelo beijo, , mas disse que não a beijaria sem que você permitisse, então, desculpa por isso.
Observei o rosto dela adquirir quase o mesmo tom de seus cabelos, fazendo-me sorrir.
― Tudo bem, se me lembro bem, eu o beijei primeiro.
― Você chama aquilo de beijo? Pensei que você estava tentando quebrar meu dente.
Seus olhos se arregalaram, mas depois de ver meu sorriso irônico ela relaxou e riu.
― Peço desculpas por meu comportamento. - Ela assentiu, colocando uma mecha do cabelo para trás. ― Estou tendo um péssimo dia e acabei descontando em você, sei que não justifica, mas, de qualquer forma, sinto muito.
ficou em silêncio pelo que, para mim, pareceu uma eternidade, até dar de ombros.
― Tudo bem, todo mundo tem direito a um dia ruim. – Sorriu gentil. ― Se quer saber, também não estou em dos meus melhores.
― O que houve?
― Além do de sempre? – deu de ombros e olhou ao redor, observando os outros casais ainda dançando, depois me fitou, aquele seu sorriso travesso voltando aos seus lábios. ― ?
― Hum?
― O que você acha de a gente dar o fora daqui? - sussurrou, em tom conspiratório.
Semicerrei os olhos.
― Será que eu estou prestes a ver um pouco da rebelde? – ela mordeu o lábio, sorrindo.
― Vamos logo de uma vez, ! – disse, puxando-me pela mão e me arrastando para a porta.
― Mas e o ensaio? – parei-a, encarando-a sério. ― Você estava indo tão bem. – Sorri sarcástico.
― Cá entre nós, não acho que a dança seja um dos meus muitos talentos adormecidos.
riu e quando dei por mim, já estava a seguindo em uma gargalhada, atraindo todos os olhares para nós.
― Bem, lá se vão nossas chances de sairmos à francesa. – Sussurrei ao ver a sua mãe parar bem em nossa frente com cara de poucos amigos.
― Onde você pensa que vai ? – o olhar de Dona Elizabeth percorreu nós dois com reprovação. ― O ensaio ainda não acabou.
Fiquei esperando pelo momento em que iria adquirir aquele ar tenso que eu reparei sempre acontecer com ela quando sua mãe estava por perto. Esperei até mesmo ela desistir daquele seu rompante rebelde de última hora, mas ao invés disso, me fitou, seus lindos olhos brilhando em atrevimento.
― Eu estava pensando em uma casa de swing, o que acha de experimentarmos algo novo hoje, querido? – seu sorriso parecia ser um misto de ansiedade e diversão.
Diabos, aquele sorriso era capaz de enlouquecer qualquer um! Pensei, sentindo um arrepio em minha espinha.
Foi ali, enquanto me fitava com aqueles olhos reluzindo em expectativa e seu sorriso audacioso, parecendo finalmente livre e dona de si, que eu percebi algo mais profundo e perigoso começar a tomar conta de mim, algo que eu não quis parar para compreender, pelo menos não naquele momento, mas que eu tinha, quase certeza, de ter transparecido em cada uma daquelas palavras que saíram da minha boca.
― Para vê-la feliz, sou capaz de tudo, bella.




Continua...



Nota da autora: Oi meus amores, como vocês estão?! Espero que esteja todo mundo bem! Bom, como prometido, dessa vez não demorei tanto para enviar a att (eu ouvi um aleluia? Hahahah) e ainda tá enorme... Olhem só como estou boazinha? Hahahaha Sei que costumo responder cada uma nos comentários, mas não poderia deixar de oficializar aqui o meu agradecimento a vocês! Muito obrigada pelos comentários, meu coração fica quetinho com cada um deles! Vocês são incríveis! No mais, espero que tenham gostado dessa att! Fiquem com Deus! Flah, desculpa a exploração com essa att gigante, mas você me disse que como autora, tá acostumada a escrever capítulos enormes, então, tô perdoada né?! Haahaha Obrigada sempre!


Nota da beta: Meu Deus que esse beijo esquentou tudo aqui, Mari! Calma, senhor, vamos respirar fundo! Já falei que amo sua história, mas não custa nada falar de novo, né?! Hahaha
Ih, bem, relaxa, tudo o que você me mandou é tipo 1 capítulo meu, então estou acostumada e com sua escrita boa e bem fluída, não demoro nada! Beijos!
Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


comments powered by Disqus