Última atualização: 01/11/2019

PRÓLOGO

Richard & Elizabeth
Edward Robson & Louise Robson

Têm a honra de convidá-lo para o casamento dos seus filhos

Mia Morgan & Joshua Edward Robson

A realizar-se as 16 horas do dia 21 de abril de 2020 na St. Peter's Parish Church.



UM



Eu estava ferrada. Era isso, eu estava total e completamente ferrada. Como? Como minha vida tinha chegado àquele ponto? Olhei mais uma vez para o papel que segurava em minhas mãos. A folha branca com as letras douradas brilhantes parecia ofuscar os meus pensamentos. Como? Eu devia estar feliz, não é? Afinal, apesar dos pesares, amava a minha irmã. Mas então por que, enquanto encarava aquele convite em minha frente, a única coisa em que eu consiga pensar era que, na fatalidade dos meus quase 30 anos, eu estava solteira e mal me sustentava sozinha, enquanto minha irmã, aos 22 anos, recém-formada em Direito, estava prestes a se casar?!
Ok, era óbvio que eu sabia dos planos de Mia e Joshua, mas nunca imaginei que aquilo tudo seria tão rápido. Não tinha nem um mês que eu havia recebido uma foto das alianças dos noivos, tinha? Meu Deus e ainda tinha o ! Não bastava tudo aquilo estar acontecendo, eu ainda teria que lidar com o fato do me ex-noivo-otário ser o padrinho do casamento. Como? Como iria encará-lo depois de tudo o que tinha acontecido? Suspirei pesadamente.
Ali, sentada na sala do meu apartamento em Londres, eu ainda podia sentir todo o constrangimento daquele fatídico dia, um ano atrás, em Sunshine, quando tinha me dito o velho e clássico “o problema não é você, sou eu!” para em seguida ele coçar a cabeça e me dizer, como se não estivéssemos a alguns metros de entrar na igreja:
Eu descobri que não estou preparado para dar esse passo, .
Assim, cru e nu. E eu? Bem, tudo o que consegui fazer naquele momento foi deixar o meu queixo cair e piscar diversas vezes enquanto o observava sair pela porta do que – pasmem – era a limusine que eu tinha usado para chegar até o casamento. Sim, ele me deixou a dois metros do altar, com todos os nossos familiares e convidados lá dentro. Então, lá estava eu, sozinha, vestida de noiva, dispensada com um belo pé na bunda no que, supostamente, seria o dia mais feliz da minha vida.
Senti meu celular vibrar em cima da mesa da sala de estar e dei graças a Deus a quem quer que fosse que estava me fazendo o favor de afastar aquelas lembranças.

“Estou no elevador! E com bebidas! Aguente firme! xo”


Dei um leve sorriso ao ler a mensagem que , minha vizinha tinha me mandado. Na verdade, era muito mais do que apenas uma vizinha, pensei, ao responder à mensagem com um "Rápido! Estou prestes a cortar os pulsos!". Rainha do drama, eu sei. Há um ano, quando me mudei para Londres – fugindo do meu passado traumatizante em Sunshine – , uma charmosa londrina, apareceu em minha porta com uma garrafa de vinho como boas-vindas e desde então tínhamos nos tornados grandes amigas. Eu agradecia a Deus por isso, já que não tinha a menor ideia de como teria suportado aquele ano se não a tivesse ao meu lado. Suspirei. Aquele pensamento fez com que, mais uma vez, as memórias voltassem com tudo em minha cabeça me fazendo encolher no sofá e abraçar os joelhos enquanto meus olhos enchiam de lágrimas. Nove anos! Eu tinha desperdiçado nove anos da minha vida com Grant.
Quando nos conhecemos, no primeiro ano da faculdade, eu não podia acreditar que aquele cara lindo estava mesmo interessado em mim. Não que eu tivesse algum problema de autoestima, eu só não estava exatamente no meu melhor ano. Acontece que minha mãe tinha me obrigado a cursar Direito, porque quando eu lhe disse que iria estudar Literatura e seria escritora, ela me olhou com desdém e disse: “em nossa família não há histórico de fracassados e é assim que vai continuar”, portanto, lá estava eu, aos 19 anos fazendo um curso que odiava, me escondendo em todas as aulas e, ainda assim, ele me notou.
era o melhor aluno da turma e isso refletia em sua aparência nerd hipster – que hoje eu sei era tudo truque para atrair garotas bestas como eu - com seus cabelos pretos quase encaracolados que caiam sobre a testa, brilhantes, contrastando com seus belos olhos camuflados em um óculos de grau sexy. Então, quando ele sorriu e disse que queria saber se poderia levar a garota mais linda da sala para um encontro, eu sabia que iria me casar com ele um dia. Ok, eu era mesmo muito estúpida. Se algum gênio da lâmpada aparecesse agora me dizendo que eu tinha direito a três desejos, eu estava satisfeita apenas com um: voltar no tempo. Eu iria olhar para aquela garota de cabelos esvoaçantes e ar sonhador e dizer: “Garota, eis aqui um babaca! Fuja agora mesmo!”.
Nove anos de tantos planos que foram jogados fora em um único dia. Pensei, sentindo a raiva tomar conta de meu corpo como sempre acontecia quando lembrava daqueles anos passados. Como eu não tinha visto aquilo? Não recebi os sinais? Todo mundo diz que há sinais quando o parceiro começa se distanciar e duvidar do relacionamento, não é?! Mas eu não percebi nenhum. Pelo contrário, enquanto meu ex-noivo tinha uma crise existencial, eu planejava o casamento. Estúpida! E agora, para completar a avalanche de vergonha e autopiedade, a minha irmã tinha tido a coragem de convidá-lo como padrinho de casamento. Senti todo o meu corpo estremecer ao me lembrar da ligação que recebera de Mia algumas horas atrás.
***

Estava assistindo uma maratona de Gilmore Girls, aproveitando o meu dia de folga da Livraria Solar, quando ouvi o alerta de chamada de vídeo do Skype na tela do meu notebook, era a Mia, minha irmã. Olhei para o convite de casamento, ainda aberto sobre a mesa, tentei colocar o melhor sorriso em meu rosto, já imaginando toda a ladainha “irmã caçula bem-sucedida” que ela costumava jogar em minha cara e apertei o botão "Aceitar".
-cat!
Minha irmã surgiu na tela, seus cabelos claros balançavam sobre os ombros, os olhos brilhando de entusiasmo. Eu odiava aquele apelido estúpido que minha família tinha colocado em mim quando eu tinha 10 anos e que, pelo visto, permanecia até hoje. Tudo isso porque enquanto eu lutava bravamente para salvar uma gatinha de cima de uma árvore, toda a rua tinha saído para assistir a tentativa frustrada da minha mãe em me tirar dali, para, no fim, eu acabar caindo de bunda no chão com a gata presa em meu rosto.
— Olá, Mia.
— Você recebeu o convite?! – ela perguntou com um sorriso transbordando alegria. — Não ficou divino?
Quando aos cinco anos meu pai biológico abandonou a mim e a mamãe, ela passou por poucas e boas, seu sorriso contagiante tinha dado lugar a choros ocultos durante a noite, nossos momentos de lazer tinham se transformado em encontros com o terapeuta. Mas, um ano depois, mamãe conheceu o Richard, ele era um cara incrível que transformou nossas vidas para melhor em todos os sentidos, eu o amava como um pai. Então, quando eu descobri que iria ganhar uma meia-irmã a minha primeira reação foi pânico, como assim eu deixaria de ser a preferida do Richard? Mas quanto mais a barriga da mamãe crescia, mais encantava e ansiosa eu ficava, afinal, finalmente eu teria uma melhor amiga, alguém com quem dividir tudo.
Eu tinha sete anos quando a Mia nasceu e foi um dos dias mais felizes da minha vida. Mia não era minha meia-irmã, aquela coisinha loira, fofa e rosada, era minha irmã por completo. Mas então, com o tempo fui percebendo o quanto eu e Mia éramos diferentes em muitas coisas, a começar pela aparência. Ela tinha herdado os cabelos lisos e os olhos da mamãe, e eu tinha sido agraciada com o gene sem graça – e exótico - dos cabelos e olhos que não se definiam entre e o castanho do homem que me abandonou há muito tempo. Além disso, nossas personalidades também eram completamente diferentes e mais uma vez, ficava explicito quem tinha puxado a mamãe.
— Sim! - procurei fazer a minha melhor atuação de alguém que também estava completamente radiante. — Já ia te ligar, mas...
— Ah, , eu estou tão feliz! - Mia me interrompeu. — Apesar que aqui está uma loucura, todo dia tem algo para ver, vestido, flores, bufê...
— Eu imagino, como você...
— Ah e a mamãe? - ela suspirou e sorriu. — Acho que nunca a vi tão radiante. - Me limitei a sorrir, sabia que não adiantava falar quando minha irmã começava com a sua habitual enxurrada de novidades. — Você sabe que será uma das minhas madrinhas, não é?! - assenti.
Já esperava por aquilo. É claro que minha mãe não ia deixar passar a oportunidade de me mostrar como a Mia já está mais do que encaminhada na vida, enquanto eu tinha largado tudo para "curtir um ano sabático em um hobby exótico como atendente em uma livraria em Londres", palavras dela.
— Espero que você não tenha engordado muito nesse último ano, -cat, porque peguei as medidas que a mamãe tinha para o seu vestido de noiva.
Qualquer outra pessoa teria ficado ofendida com aquele comentário e, mais ainda, com a menção de um noivado fracassado, mas eu sabia que aquele era simplesmente o jeito de minha irmã caçula. Assim como mamãe, ela não tinha nenhum tipo de filtro e era capaz de dizer coisas dolorosas com muito charme.
— Espero que não. – Dei um sorriso amarelo.
Mia olhou para algo acima do notebook e assentiu, em segundos seu semblante mudou de radiante para apreensiva.
— Er... , preciso te contar uma coisa. - disse desviando o olhar para o chão.
Prendi a respiração. Tinha aprendido durante toda a minha vida que quando Mia usava aquela frase, coisa boa não vinha em seguida. Na infância era um “quebrei o abajur favorito da mamãe, mas disse a ela que foi você”, na adolescência, “Ei, , eu contei para mamãe que você saiu escondido ontem com a Sky, ela ia descobrir de qualquer jeito mesmo” e só de pensar o que viria a seguir, eu me encolhi.
— O que houve?
Mia mordeu o lábio inferior e suas bochechas enrubesceram.
— O Joshua convidou o para padrinho.
Havia poucas coisas no mundo que me faziam demonstrar meus sentimentos tão claramente quando estava perto da minha família e , definitivamente, era uma delas.
— Como é? - senti meu rosto esquentar no exato momento em que ouvi aquele nome.
-cat, eu juro que tentei persuadi-lo a mudar de ideia. - Mia disse com a voz baixa, como se pedisse implicitamente para que eu mantivesse a calma. — Expliquei que você não ia querer ver o Greg, pelo menos não depois de tudo o que ele lhe fez... - ela fez uma pausa dramática, lançou um olhar piedoso para a tela do notebook e continuou: — Mas, você sabe, eles são primos e não tinha muito que eu pudesse fazer. - E, por fim, deu de ombros.
Assim, simples. Deu de ombros como se ela não pudesse fazer mais nada para me ajudar e muito menos se importasse com aquilo.
— Eu não acredito. - Foi tudo o que consegui dizer.
...
— Como você deixou isso acontecer?
, já se passou um ano, pelo amor de Deus! - Mia bufou. — Tenho certeza que você é adulta o suficiente para conseguir ficar algumas horas ao lado dele no altar. – Acho que Mia percebeu meu rosto ficando ainda mais vermelho, pois logo em seguida usou o seu melhor tom doce e solidário. — Quero dizer, não vai ser exatamente da forma como deveria, digo, vocês dois no altar, mas...
— Mia, alguém está batendo na porta. – disse de vez. — Preciso desligar.
Não havia ninguém na porta, óbvio, mas eu precisava acabar urgente com aquela conversa antes que eu a matasse, pior, antes que eu acabasse chorando na frente de Mia. A última coisa de que precisava agora era ser a fofoca da semana para minha família: “Um ano depois e a pobre -Cat ainda não superou o pé na bunda que o lhe deu.” Podia ouvir a voz afetada da minha Tia Margot seguida de suas costumeiras palminhas solidárias nas costas.
— Não ouvi nenhuma batida. – Mia cerrou os olhos desconfiada.
— Já vai! - gritei para o nada, tentando disfarçar meu embaraço. — Tenho que ir, Mia. Tchau.
Abaixei a tela do notebook sem dar chances para que minha irmã me lançasse mais um olhar irritado ou de pena. Minutos depois eu estava mandando uma mensagem de SOS para a .
***

Ouvi a buzina invadir o silêncio do apartamento me despertando mais uma vez daquelas lembranças. Me levantei, abri a porta e sorri ao ver minha amiga parada ali. , como uma excelente gerenciadora de crises, segurava garrafas de vinho em cada uma das mãos, mas isso não a impediu de me puxar para um abraço acolhedor.
— Desculpe a demora. – Ela disse enquanto nos afastávamos e ela adentrava o apartamento. — Tive que esperar a Joe aparecer na galeria para poder fugir de lá.
colocou as garrafas sobre a mesa de centro e tirou o casaco, seus cabelos castanhos com mechas claras eram cortados em um estilo quase chanel - eu os achava estilosos demais para terem uma definição - e os olhos eram de um azul incomum. Quem a visse acreditaria que ela era uma daquelas modelos altas e antipáticas demais que perambulavam pela Piccadilly, mas a na verdade era uma nerd formada em História da Arte que trabalhava em uma famosa galeria próxima ao Hyde Park. Ela era demais!
— Aquilo lá está uma loucura. - ela suspirou, pegou o celular no bolso, digitou algumas coisas enquanto falava: — Descobrimos um pintor novo pelo Instagram e estamos desesperados para contratá-lo, mas...
Então, tão rápido quanto começou a falar, ela parou, um suspiro pesado saiu de seu corpo ao me fitar. Eu estava assim tão péssima?
— Ok, vamos deixar o trabalho para lá. – sorriu, colocou o celular sobre a mesa e apontou para as garrafas de vinho. — Vou pegar as taças.
Suspirei voltando para o sofá.
— Acho que preciso tomar essa garrafa inteira.
— A meta do dia é exatamente essa, não se preocupe.
Ela foi até a cozinha buscar os copos enquanto eu assumia a mesma posição fetal no sofá desde que recebera a ligação de Mia.
— Você sabe que não tenho taças finas!
— Acho que podemos nos virar com isso aqui.
Ri ao vê-la voltar para a sala com duas canecas, uma com símbolo de Hogwarts e outra com a caricatura do Harry Potter, em suas mãos. Sim, eu era uma grande fã da J.K Rowling.
se acomodou no sofá ao meu lado e serviu o vinho para nós duas.
— Então...
— Então... – repeti virando o líquido bordô de uma só vez.
Ok, eu sei que já devia ter idade o suficiente para saber que o álcool não era a resposta para os meus problemas, mas naquele momento eu estava pouco me importando com aquilo.
— Você sabe que não sou de rodeios, então vou logo dizer de uma vez. – assenti enquanto a reabastecia nossos copos. – Sua irmã é uma vadia traidora!
!
— Não, , nada de defendê-la – ela tomou um gole, depois continuou: — Como ela teve coragem de chamar o filho da puta do para padrinho?
Aquilo era outra coisa que eu amava na . Ela falava palavrões com frequência. Podia parecer besteira, mas vindo de uma família que a palavra “merda” era sinônimo de: “queimar no inferno”, eu amava ouvir os palavrões dela.
— Bem, tecnicamente foi o noivo dela que o chamou, eles são primos.
— Cacete, ela tinha que escolher um da mesma família? – fez uma pausa dramática e eu não consegui conter o sorriso. — Já não basta uma irmã com dedo podre?! – fiz uma careta. — Desculpa, querida, é a porra do filtro que eu não tenho, você sabe.
— Eu sei – sorri.
— Você ao menos disse a ela que estava puta da vida com isso, não disse?! - assenti. Ok, não exatamente assim, mas ela percebeu né?! — E então?
Dei de ombros.
— Então, ela me disse que já tinha se passado um ano e que tem certeza de que eu sou adulta o suficiente para conseguir ficar algumas horas ao lado dele no altar.
— Vadia traidora!
— Vadia traidora! - Levantei a caneca de Hogwarts brindando e tomei outro gole. Depois daquela ligação de Mia estava difícil não concordar com .
— Você não precisa ir, . - colocou sua mão sobre a minha e a apertou em um gesto de solidariedade.
— Ao casamento da minha irmã caçula? – sorri irônica. — Claro que não.
— Estou falando sério, ela não merece sua consideração.
Suspirei. É claro que já tinha cogitado aquela possibilidade. Uma doença contagiosa, um pé quebrado, qualquer coisa que pudesse ser usada como desculpa para não ter que voltar a minha cidade natal e muito menos encarar o uma semana inteira. Porém, assim como eu tinha pensado nas desculpas, pensei também nas consequências.
— Você não conhece minha família. – disse bebendo mais um gole do vinho. Novamente eu virei todo o conteúdo da caneca em um único gole. — Se eu não aparecer, minha mãe vai dar um jeito de me fazer arrepender disso para o resto da minha vida.
praguejou.
— Sinto muito, . – ela me puxou para um abraço, deitando minha cabeça em seu ombro. — Nós vamos dar um jeito nisso, eu prometo.
Ficamos em silêncio por alguns instantes enquanto as minhas lágrimas iam cessando.
— Mas agora chega dessa sessão de autopiedade! - se levantou, pegou a caneca da minha mão e a encheu um pouco mais. — Vamos fazer o que realmente importa, vamos nos embriagar!
Gargalhei. Para falar a verdade, não estava mais tão longe daquilo.
***

Duas horas e duas garrafas de Chardonnay depois, nós fomos para o apartamento de , que alegou que seu irmão tinha uma excelente aparelhagem de som e que nós precisávamos dançar para afastar os maus espíritos da autopiedade. Por um instante eu pensei em não ir, há um ano morando naquele prédio, eu só tinha trocado apenas algumas palavras com o irmão de – tirando o desastroso dia em que o conheci - e o homem era tão sério e sisudo que eu costumava a compará-lo ao Mr. Darcy do romance Orgulho e Preconceito da Jane Austen. Claro que aquilo que era um charme no Mr. Darcy, em não passava de falta de educação e arrogância.
— Tem certeza que seu irmão não vai chegar por agora? – perguntei assim que atravessei a porta do apartamento 1222.
O apartamento deles era incrível. Em questão de espaço não mudava muito em relação ao meu, mas de longe era muito mais organizado e bem decorado do que o caos que eu chamava de residência. Os móveis projetados e monocromáticos contrastavam com os quadros coloridos e excêntricos da , dando ao ambiente um ar sofisticado e moderno.
— Ele está em uma “reunião muito importante”. – disse usando as aspas porque provavelmente aquilo tinha sido o que ele tinha dito para ela. Típico. — Não vai aparecer tão cedo, relaxa.
pegou o celular, encaixou-o na caixa de som. Logo em seguida a voz de Adele começou a tocar e nós começamos a dançar. Então, de repente, eu já estava com uma garrafa de whisky na mão e Adele resolveu começar a cantar sobre um amor que se foi. Senti cada estrofe de “Don’t you remember” como se ela tivesse sido escrita para mim, mas logo percebeu que aquele poderia ser um caminho sem volta, já que eu comecei a chorar descontroladamente, mudou a música.
Nós duas cantamos mais algumas outras canções entre risos e, no meu caso, lágrimas, até cairmos esgotadas sobre o sofá.
— Acho que preciso de um banho. – suspirou levantando-se. — Já volto, ok?
Assenti.
— Vou ficar aqui fazendo mais algumas performances. – Fui até o celular de para procurar por mais músicas.
Minutos depois, eu não saberia dizer como, afinal eu já tinha tomado metade da garrafa de whisky, - aquilo era uma boa justifica -, lá estava eu, olhando o Instagram do Grant, como uma adolescente apaixonada. Paralisei, a foto do perfil dele era ele e uma morena espetacular.
Já fazia mais de meses que eu não procurava saber nada dele, três meses para ser mais exata, e agora eu estava ali. Tinha me deixado levar pela bebida, era isso, aquela era a justificativa para naquele momento eu estar encarando o status dele: noivo de Kimberly Thorne.
Meu Deus, ele estava noivo! Fui abaixando a página e fotos do casal foram surgindo. sorrindo radiante enquanto abraçava a versão mais jovem de Kim Kardashian por trás. Eles abraçados em frente à Torre Eiffel. de joelhos em frente a morena exuberante enquanto ela exibia um anel de no mínimo 4 quilates na mão direita. Como? Como ele tinha tido a coragem de fazer aquilo comigo? Me humilhar daquela maneira. Senti as lágrimas quentes rolarem pelo meu rosto enquanto eu olhava cada uma das fotos do perfil de e de repente, Whitney Huston começou a cantar sobre a promessa de um amor eterno carregando com sua voz cada pedaço do meu autocontrole. Senhor, tinha como aquilo tudo ficar pior?
E como uma resposta irônica do destino, a porta do apartamento se abriu e um perplexo me encarou, levando embora o resto da minha dignidade.


DOIS



— Você ainda está aqui?
Não precisei levantar o olhar para saber que John McPhee, meu assistente, estava parado em minha porta. Fitei o relógio no canto direito do notebook: 22:54. Puta merda! Estava tão concentrado terminando de revisar os pontos de um acordo que faríamos no dia seguinte que não me dei conta das horas passando.
— Assim como você. - Respondi enquanto ainda digitava alguns detalhes finais.
— Bom, você é meu chefe e ainda está aqui, não pegaria bem eu ir embora antes. - John disse entrando e sentando-se na poltrona em minha frente. — Mas eu desisti de esperar seu retorno à Terra e vim aqui pedir, humildemente, para irmos embora.
— Estou revisando os contratos das Indústrias Brandon.
— E então?
— Parece que está tudo ok. - Assenti.
— Claro que está, eu e você já fizemos isso um milhão de vezes. - John debruçou-se sobre a mesa e suspirou. — Sério, , preciso dormir. - Desviei o olhar da tela do computador em minha frente e o fitei. Os olhos que contrastavam com a pele morena estavam cansados.
Conhecia John McPhee há exatos 15 anos quando éramos apenas dois jovens perdidos, recém-chegados a Faculdade de Direito de Bristol e, claro, prontos para nos endividarmos até o rabo com o empréstimo estudantil. Após a faculdade, a vida nos levou para caminhos diferentes, eu tinha retornado a Londres para viver com a e a Mimi, nossa avó e única parente viva, e, apesar dos pesares, a vida do John tinha sido mais complicada. July, sua namorada desde a adolescência, tinha engravidado assim que terminamos a faculdade e, meses depois, ela acabou falecendo por complicações no parto. John não teve outra escolha a não ser retornar a sua cidade natal e pedir ajuda aos seus pais para cuidar da pequena Lily, minha afilhada. Então, dois anos atrás, ele e Lily retornaram a Londres e eu fiz de tudo para mantê-lo no emprego comigo. Não me arrependi nem por um segundo de tê-los por perto.
— Da próxima vez que eu for contratar um funcionário, me lembre de não ser um amigo. - John riu. — Você já confirmou a reunião com o Smith?
Tinha tudo preparado nos mínimos detalhes para acabar com o Matthew Smith, representante das Indústrias Brandon. O Anthony Brandon, presidente da empresa que o Smith defendia, havia se afundado em dívidas não deixando outra opção a ele a não ser a venda das Indústrias Brandon e, como um presente, aquele caso tinha caído em minhas mãos, justamente quando eu precisava. Aquela era a oportunidade perfeita para mostrar ao Sr. Smith que seu voto de confiança não tinha sido em vão.
— Sabe, tenho pena do Sr. Brandon, quarenta anos de dedicação para levantar uma empresa do nada e agora ela será liquidada.
— Ele deveria ter pensado nisso antes de afundá-la em dívidas.
— Você não sente remorso?
Sentia. Na verdade, aquela era uma das partes que eu mais odiava em meu emprego. Há cinco anos, quando eu havia sido contrato pelas Indústrias CW, tinha sido um sonho se realizando. Por muitos anos tinha batalhado para chegar a um cargo de assessoria jurídica em uma empresa de grande porte, até chegar à parte, há três anos, em que Cameron Watson, meu chefe, começou a querer expandir seus lucros através da compra e fragmentação de empresas falidas. Foi um momento crucial em minha carreira, eu não concordava com aquilo, não conseguia conceber o fato de ter batalhado tanto para acabar sendo o causador da desgraça de outras pessoas, porém, ou eu saia fora com a consciência tranquila e o bolso vazio ou, bem, obviamente, preferi ter o que comer no fim do dia.
— Estou fazendo apenas o meu trabalho, McPhee, ele deveria ter feito o dele também - respondi. — E não foi remorso que me trouxe até aqui.
John assentiu.
— Entendo.
Ficamos em silencio enquanto eu conferia mais algumas coisas do acordo com Anthony Brandon, mas podia sentir os olhos do John sobre mim, me analisando, até que ele falou:
— Você não acha que tem trabalhado demais não? - o encarei. — Quero dizer, sei que você tem feito de tudo para não deixar ninguém duvidar do seu trabalho, pelo menos não depois do que aconteceu aquela vez, mas...
— John.
— Foi mal, chefe. - Ele suspirou. — Só queria lhe dar um conselho. - Revirei os olhos, mas ele me ignorou e continuou. — Nos conhecemos há tanto tempo, , e sempre imaginei que a essa altura da vida, nossos filhos estariam brincando juntos. - Arqueei a sobrancelha. Que porra de conversa era aquela? — Mas chego aqui e você já está, saio e você continua. Isso não é saudável, cara.
Fitei-o sério, depois comecei a rir.
— Quem é você? A porra do Dr. Phill?
John revirou os olhos e se levantou.
— Boa noite, chefe.
— Boa noite, McPhee. Mande um beijo para a Lily.
John parou na porta e olhou para trás.
— Você tem que visitá-la logo, a criatura já está achando que não tem mais padrinho.
Ele tinha razão, fazia já um bom tempo que não ia ver a Lily, mas para ser justo, com o John, ele estava certo, tinha um bom tempo que eu não fazia outra coisa além de trabalhar. Fazia questão de dedicar todos os meus dias a CW, pois sabia que eu tinha que provar ao Sr. Watson que ele podia confiar em mim e se para isso eu tivesse que sacrificar algumas horas do meu dia, assim o faria. Tinha batalhado muito para chegar onde estava e não podia deixar aquela segunda chance escapar de jeito nenhum.
***

Entrei no elevador do prédio em que morava e olhei o relógio em meu pulso: 00:47. Estava cansado, não, estava destruído. Mesmo depois que o John foi embora ainda fiquei mais alguns minutos no escritório verificando os compromissos que teria no dia seguinte, não podia me dar ao luxo de nenhum vacilo. Era isso, estava destruído, mas satisfeito. Pensei enquanto relembrava os detalhes que tinha discutido na reunião junto com os acionistas do escritório referente ao acordo com as Indústrias Brandon. Seria brilhante, palavras do Sr. Watson. E eu realmente precisava que fosse. Desde um incidente em que estive envolvido, eu me matava naquele escritório para tentar recuperar a confiança do Sr. Watson e aquela era a oportunidade que estava esperando para mostrar todo o meu potencial e, com sorte, finalmente ter o meu nome à frente da direção jurídica daquele escritório. Tudo o que eu precisava agora era tomar um banho, uma boa dose de whisky e dormir, amanhã seria o grande dia.
As portas do elevador se abriram e uma música alta invadiu meus ouvidos destruindo meus planos de sossego. Quem diabos estaria ouvindo Whitney Huston àquela altura meia-noite de uma quarta-feira? Bufei. É claro que eu sabia muito bem a dona aquele feito, , minha vizinha pirada. Não bastava ser louca de pedra, aquela mulher tinha que ser tão inconveniente quanto. Me lembrei da primeira vez em que a vi, um ano atrás, na verdade, a primeira vez em que tive a certeza de que deveria manter distância daquela mulher.
***

Estava saindo do prédio, atrasado para a reunião que definiria o meu futuro na CW Industrias. Meu estômago revirava, minhas mãos suavam e a única coisa que conseguia pensar era no fato de que o Sr. Watson e os acionistas estavam prestes a dar um pé em minha bunda e pior, com justa causa. Mas assim que pus os meus pés na calçada fora do hall do prédio eu ouvi um grito:
Thor, não!
Em seguida, tudo o que vi, ou melhor, senti, foi um labrador de dois metros de altura pular sobre mim e me derrubar na calçada. E como se não bastasse a maluca que tentava segurá-lo achou que seria uma ótima ideia abaixar para me ajudar, ao mesmo tempo em que virava o seu copo de café quente sobre meu corpo.
— Meu Deus! Meu Deus! Me desculpe, ele puxou a coleira e eu... – ela se abaixou e estendeu a mão em direção a minhas calças onde o líquido quente por um centímetro não caiu em meu pau. — Juro que tentei segurá-lo, mas... - a maluca parou e me fitou. — Ah, você é o irmão da , não é?! Ela me mostrou sua foto uma vez... – ela deu um sorriso largo enquanto ainda passava a mão por minha calça, numa tentativa vergonhosa de limpar a merda que ela tinha feito. Travei o maxilar. — Eu sou a , sua vizinha do 1221, me mudei tem uns dois meses e...
Segurei sua mão e a afastei impedindo-a de continuar esfregando minha virilha, qual o problema com aquela mulher? Me levantei e a encarei:
— Se você não tem capacidade para controlar o seu cão, não devia sair por aí com ele. – Respondi, ignorando sua mão estendida enquanto observava o estrago que o café tinha feito em minha roupa.
Agora eu não estava só atrasado, estava fodidamente atrasado. Ótimo, era só o que faltava para o Sr. Watson passar a corda em meu pescoço.
O rosto da maluca enrubesceu e ela desviou o olhar para o cachorro, que agora estava com a língua para fora na sua melhor versão de cão idiota.
— Na verdade, ele não é meu. – ela sorriu. — Recebo algumas libras para poder passear com ele e...
— Puta que pariu, quer dizer que alguém paga por esse seu serviço de merda?
A mulher arregalou os olhos e depois os estreitou, como se tivesse levado um tempo para compreender o que eu havia dito.
— Acho que você está me ofendendo. – disse e se aproximou como se assim pudesse me analisar melhor.
Foi a primeira vez que coloquei - de fato - meus olhos sobre ela. Era como se a Júlia Roberts e seus cabelos selvagens dos anos 90 tivesse ali em minha frente. Mas as semelhanças entre ela e aquela Roberts de Uma Linda Mulher só iam até aí. A maluca do 1221 era baixa e sua cabeça mal dava em meus ombros e seus olhos , que me fitavam desconfiados, eram grandes e levemente repuxados, como de gato. Quando se aproximou de mim, fitei-a dos pés à cabeça e fiquei perplexo.
Aquela mulher nunca devia ter ouvido falar em roupas sóbrias. Desde as sapatilhas vermelhas com pompons nas pontas até à meia calça cinza com a saia azul escuro de bolinhas brancas e a blusa prateada. Em sua cabeça um gorro branco contrastava com os cabelos . Imaginei que um caminhão de roupas provavelmente tinha virado na esquina e ela saiu vestindo todas de forma aleatória. Que porra era aquela?
— Só se você for do tipo que se ofende com a verdade.
Por uns instantes ela ficou ali com os olhos arregalados até começar a fazer carinho na cabeça do cachorro e dizer, com a voz mais inocente do mundo:
— Sabe, Thor, acho que você está merecendo um petisco! – e com um sorriso cínico nos lábios, ela me fitou. — Bom trabalho, garoto!
***

Caminhei em direção à porta do 1221 com aquela lembrança em minha mente, me deixando ainda mais irritado, e estava prestes a bater ali disposto a obrigá-la a desligar a porra do som quando percebi algo que me fez parar no meio do hall. Não era dali que a música alta vinha, mas sim do meu próprio apartamento. Apertei o maxilar tentando controlar a raiva que começava a tomar conta do meu corpo. Será que resolveu dar uma festa logo naquele dia? Mas quem em sã consciência dava uma festa com uma música tão depressiva quanto aquela? Passei a mão pelo cabelo, bufei afrouxando o nó da gravata e caminhei até à porta imaginado o que estava prestes a enfrentar. Mas quando a porta se abriu, eu definitivamente não estava preparado para o que vi.
, a minha vizinha maluca, estava parada ali, na sala do meu apartamento, em cima do meu sofá. Quer dizer, não exatamente parada já que ela balançava de um lado para o outro sem qualquer senso de coordenação motora, isso, eu tinha quase certeza, era culpa da garrafa de whisky - minha garrafa de Jack Daniels - que ela segurava na mão esquerda.
Diabos, aquela mulher era uma profusão de cores! Desde os cabelos esvoaçantes caindo sobre o pijama azul estampado com sorvetes e unicórnios, até as pantufas em formato de dinossauro. Seu rosto era uma mistura de lágrimas, rímel borrado e, quando em meio a sua performance do refrão de “I will always love you”, ela me viu, um tom extremamente vermelho tomou conta de seu rosto e se juntou àquela aquarela.
?


TRÊS



Por quê? Por que eu tinha me dado ao trabalho de me perguntar se tudo aquilo tinha como piorar? Por acaso eu não sabia que era a rainha da lei de Murphy? É claro que tinha como piorar. Fechei e abri os olhos na esperança de tudo ser apenas um delírio da minha mente banhada com tanto álcool, mas continuava parado na porta do seu apartamento me encarando como se eu tivesse acabado de fugir de um hospício.
Gemi. É claro que eu não podia culpá-lo, afinal estava em cima do seu sofá com uma garrafa de whisky em uma mão, um controle de televisão na outra, cantando Whitney Huston como se eu estivesse no palco do X Factor. Senti meu rosto esquentar parecendo que iria explodir, desci do sofá e, como se já não tivesse feito o suficiente:
— Sr. . – Eu disse com minha melhor imitação de Elizabeth Bennet fazendo uma reverência ao conhecer o Mr. Darcy.
Uma reverência! Pelo amor de Deus, eu tinha mesmo feito uma reverência? Tinha! Como se eu fosse uma personagem de um romance da Jane Austen! Mas a culpa não era minha, era dele! Pois, sempre que o via ele estava tão sério que me lembrava de todos aqueles aristocratas dos romances de época que eu tanto lia. E o que foi aquilo de Sr. ? Eu nunca o chamava assim. Maldito Jack Daniels!
— Ensaiando para algum musical da Broadway, imagino.
Bufei. Sempre que nos encontrávamos, o que era raro, já que eu o evitava com frequência, fazia alguma graça a respeito do meu emprego na Livraria Solar. Tudo isso porque, um dia, ele entrou lá e eu estava fazendo a minha melhor performance de Elsa cantando “Let it go” para a Lola, filhinha do Frank, meu chefe. Qual é, eu fui obrigada a fazer aquilo para manter o meu emprego!
A pirralha não parava de chorar e afastar a clientela, eu tinha que inventar alguma coisa para distraí-la. E o que poderia ser melhor do que uma performance de Frozen? Claro que, como eu disse, rainha da Lei de Murphy que sou, o insuportável do escolheu aquele exato momento para entrar na livraria e assim, presenciar toda aquela humilhação.
Mas devo dizer que aquela era uma parte sensível da minha vida, não o fato de ser obrigada a dar uma de babá de vez em quando, mas sim a parte profissional. Desde que tinha largado minha vida em Sunshine e me mudado para Londres, eu já tinha tido vários empregos: babá de cachorro, caixa, garçonete, assistente em um escritório de publicidade, até me fantasiei de Hot Dog. Como eu disse, vários. Passei por tudo isso até me falar sobre uma vaga em uma charmosa livraria-café no centro da cidade e eu finalmente reencontrar a minha verdadeira paixão em um só canto: café e romances! E apesar das piadinhas do , eu amava aquele lugar.
— São encontros de cultura e arte, . – disse seca. — Não que isso lhe interesse, é claro.
Óbvio que quando ele entrou e me viu com a peruca loira na cabeça, eu expliquei que estávamos em um sarau. E é claro que ele apenas me fitou com desdém, escolheu o livro que queria – bem tedioso, por sinal - e foi embora sem trocar nenhuma palavra a mais.
— Não mesmo. – disse com a indiferença de sempre, indo até o som e desligando a música. — Vejo que gostou do meu whisky.
Ele apontou com a cabeça para a garrafa que eu segurava presa em meu peito como se fosse algo precioso. Enrubesci e tentei endireitar a minha coluna para fazer a melhor postura arrogante possível.
— Já tomei melhores.
deu um sorriso irônico deixando bem claro que ele duvidava daquilo. Esnobe!
— Claro. – disse cruzando os braços sobre o peito e me fitando com descarado deboche.
Eu detestava . Ok, talvez aquela palavra fosse forte demais, mas eu, definitivamente não ia com a cara dele. Tinha alguma coisa na sua áurea que não batia com a minha. Talvez ele tivesse Marte em Vênus e eu Lua em Capricórnio, qualquer coisa esotérica assim. O fato era que a minha antipatia por , mesmo a gente só tendo trocado pouquíssimas palavras na vida, era tão grande que eu só podia acreditar que a Miley (uma garota bem excêntrica que trabalha comigo na Solar) tinha total razão sobre essa coisa de vidas passadas e signos. Enfim, eu não sabia dizer bem o porquê, mas fosse o que fosse, eu o detestava.
— Você se acha incrível, não é?!
Eu disse indo em sua direção, mas quando cheguei perto, percebi que pela nossa diferença de altura era melhor eu ter ficado em cima do sofá. E, é claro, que com a quantidade de álcool em meu organismo foi exatamente aquilo o que eu fiz.
arqueou a sobrancelha e me lançou um olhar incrédulo ao me ver subindo outra vez em seu sofá e – quase - olhando-o nos olhos.
— Você acha que pode tratar todo mundo com esse ar de desdém... – ele fez menção de falar algo, mas eu não deixei. Tinha que aproveitar o álcool e falar algumas verdades que estavam engasgadas naquele um ano de – quase nenhuma – convivência. — Como se você fosse superior a todo mundo?! Sério?! E por quê? Só porque você tem esse corpo definido – eu gesticulei para o seu peitoral – e essa cara bonita demais para não ser notada?! – endureceu o maxilar e eu tinha quase certeza de que ele estava se esforçando para não rir. — Mas veja bem, você não é!
Eu cruzei os braços e o fitei com um sorriso que esperava estivesse dizendo “Viu só? Você não tem nada demais!” O que obviamente era mentira. parecia ter saído diretamente de um catálogo de modelos de grifes, mais um motivo pelo qual eu o detestava. Ninguém deveria ser bonito daquele jeito, aquilo era injustiça com o restante dos mortais.
aproximou-se um pouco mais de mim, suas pernas tocando o sofá, seu rosto inclinou-se sobre o meu, - como alguém podia ser tão alto? - seus olhos brilhavam com um ar de diversão.
— Você tem certeza disso, ?!
Ele estava tão próximo que eu podia ver cada detalhe das suas írises assim como os diferentes tons da vasta barba que preenchia seu maxilar quadrado. E por um instante eu quase até podia sentir o seu cheiro que mesclava entre amadeirado e...
— Não! – eu balancei a cabeça.
sorriu malicioso. O que estava acontecendo comigo?
— Quero dizer, sim! - bufei e o afastei. — Aliás, na verdade, nem me sinto atraída por tudo isso aí. – Sorri triunfante.
Ele me fitou por uns segundos e depois abriu o sorriso mais sincero que já tinha o visto dar.
— Fico feliz em ouvir isso, , acredite!
Nos encaramos por alguns segundos, como se estivéssemos naquela brincadeira infantil para saber quem desviaria o olhar primeiro, até que o piscou soltando um suspiro pesado.
— Agora... - ele endureceu o maxilar. — Você poderia, por favor, descer do meu sofá? – senti as minhas bochechas corarem e desci extremamente envergonhada.
me olhou como quem diz “muito bem” a uma criança de quatro anos quando ela para de fazer birra.
— E onde diabos está ? – ele fitou ao redor, olhou para a cozinha e depois para o corredor que dava em direção aos quartos. — Supondo que você não invadiu o meu apartamento.
Abri a boca pronta para responder a mais um dos seus insultos, mas fui interrompida por que escolheu aquele exato momento para voltar à cena:
— Nosso!
virou-se para a irmã e, tenho que admitir, apesar de ser um cretino, ele a adorava. Seus olhos acompanharam o sorriso nos lábios, demonstrando o carinho que ele tinha por ela.
Quando me mudei, me contou por alto que eles tinham perdido os pais em um acidente de carro, a mais ou menos 15 anos, e por isso ela teve que se mudar para Londres para morar com a avó, a única parente viva que lhes restava, até que essa também faleceu e, no fim, o , oito anos mais velho, teve que assumir as responsabilidades da casa e ser o pai e a mãe da . Aquilo quase me fez gostar dele um pouco.
— Se este é o tipo de convidado que você vai começar a trazer para cá, acho melhor eu me mudar.
Eu disse quase.
— Meu Deus, você está me ofendendo, não está? – disse, sem conseguir disfarçar meu constrangimento. — Ele está me ofendendo, não está?! - eu estreitei os olhos e fiquei na ponta do pé - inutilmente, é claro - para encará-lo com ódio.
— Jamais. – Ele sorriu. Sim, um sorriso que mostrava toda a sua fileira de dentes brancos e perfeitos. — Mas se me permite, , acho que já passou do horário de visitas.
!
Senti meus olhos encherem de lágrimas. Ótimo! Aquilo era o que estava faltando para completar o meu dia, ser humilhada e expulsa do apartamento do Mr. Darcy-Fake.
, a é minha convidada e se você está incomodado com algo, pode ir para seu quarto. - me abraçou pelos ombros e fitou seu irmão com raiva.
Naquele momento fiquei eternamente grata pela lealdade da minha amiga.
— Além disso, hoje não está sendo um dia fácil para ela.
Ok, isso ela poderia ter deixado de lado.
— Ah, é mesmo?
assentiu, sem se quer notar a ironia na voz do irmão.
— Algum problema no Reino de Arandelle? – ele cruzou os braços e levantou a sobrancelha como se realmente se importasse.
Eu odiava . Sim, se eu achava que “detestar” era uma palavra forte, eu estava enganada. Odiar e detestar eram as palavras certas para definir o que eu sentia por aquele filhote do demônio.
— Não é da sua...
— A irmã mais nova dela vai se casar daqui algumas semanas... – declarou antes que eu conseguisse evitar aquele desastre.
Por favor, Deus, que ela não...
— E o ex-noivo dela vai ser o padrinho!
Meu Deus! Se já debochava de mim sem motivos, imagine agora que a tinha entregue a ele um prato cheio.
— Depois de ter enrolado ela por nove anos, ! Nove! Tudo bem que ele vai desacompanhado, mas ainda assim...
Ok, eu já estava quase no fundo do poço da humilhação, então...
— Na verdade, ele vai com a noiva. – Eu disse pegando o celular sobre o sofá e balançando no ar.
— O que?! – tomou o celular de minha mão e começou a passar as imagens. – Cacete, !
Funguei ao perceber que chorava. Pronto, não havia mais nenhuma dignidade a ser mantida na frente de .
— E ela é linda. - Funguei outra vez.
— Realmente... – ouviu-o cortar o silêncio e me fitar. Por um instante pensei ter visto compaixão em seus olhos, mas logo um sorriso irônico surgiu em seus lábios. — Que dia triste para ser .
É claro que, mas mais uma vez, só eu percebi aquela ironia já que assentia em concordância.
— Agora se me dão licença, vou dormir, alguns adultos têm problemas reais para enfrentar. - deu um beijo na testa da irmã. — Boa noite, – depois fitou-me. — Srta. Elsa. - E fez uma reverência!
Sim, pasmem, ele fez uma reverência exatamente como a que eu tinha feito quando o vi chegar, e seguiu pelo corredor em direção aos quartos.
estava concentrada na página do no Instagram e não notou o apelido que me dera, muito menos a sua irônica reverência. Mesmo assim, fiz questão de dizer alto o suficiente para que ele ouvisse:
— Seu irmão é um cretino!


QUATRO



Me levantei 5:30am, como fazia praticamente todos os dias, coloquei o moletom, a calça, meu tênis e saí para minha corrida matinal. Correr era o que me ajudava a pensar e naquele momento eu precisava repassar cada palavra do que seria dito na reunião com o Anthony Brandon e seu advogado, dali algumas horas. Coloquei os fones de ouvido e saí do quarto em direção à porta do meu apartamento, mas enquanto procurava pelas chaves na mesa da sala, me deparei com jogada em meu sofá.
Qual era o problema com aquela mulher? Não era como se a casa dela fosse longe demais para ela não conseguir ir embora. Olhei as taças e garrafas de vinho espalhadas pela mesa e encontrei a explicação, provavelmente ela estava em coma alcoólico. Além de louca, pelo visto minha vizinha tinha problemas com bebidas. Bufei e já estava saindo dali quando a vi tremer e encolher o corpo. Merda! Ok, eu não gostava da , mas aquilo não era motivo para deixá-la morrer de frio no meu apartamento, afinal eu não queria ser acusado de homicídio culposo ou, nesse caso, abandono de incapaz.
Me repreendi por aquele pensamento escroto, caminhei até o quarto, peguei um edredom e voltei para cobri-la. Assim que sentiu o cobertor sobre o corpo, se aninhou e um leve suspiro de prazer saiu de seus lábios. Senti um arrepio em minha nuca. Ainda que não fosse lá muito seu fã, ali parada, em silêncio, era difícil não notar sua aparência. não era linda, daquelas belezas óbvias que viram cabeças pela rua, era algo diferente - e eu não estava me referindo a suas roupas exóticas -, algo do tipo que a cada olhar você encontra outra coisa nova para admirar. Demônios, eu sabia que aquele tipo de beleza era muito mais perigoso. Pensei, enquanto ainda a encarava.
Se eu não soubesse muito bem a personalidade por trás daquele rosto, poderia até imaginá-la nua em minha cama com aqueles cabelos espelhados pelos lençóis e sua pele corada depois de um belo orgasmo. Para meu espanto, murmurou algo e se mexeu, me trazendo de volta à realidade, no reflexo virei para trás e acabei tropeçando no centro. Praguejei baixo e sai dali. A última coisa que queria agora era ter que lidar com a minha vizinha maluca encarando minha ereção matinal. Sim, eu precisava correr.
***

Uma hora depois voltei para o apartamento, tomei uma ducha, me arrumei, preparei o café e continuava na mesma posição. Me escorei no balcão da cozinha tomando um café enquanto a observava dormir e quase comecei a me preocupar de fato com a possibilidade de ela estar em coma alcoólico quando começou a despertar. olhou ao redor, provavelmente tentando se lembrar onde estava e como tinha ido parar ali. Seus cachos caíam ao redor de seu rosto e assim que ela colocou seus olhos sobre mim, suas bochechas coraram.
— Acho que acabei dormindo em seu sofá. – disse com aquela voz rouca recém-saída de um bom sono
Ela passou a mão pelos cabelos, no que eu supus ser uma tentativa de domá-los.
— É-É o que parece.
Me surpreendi com a minha própria voz falhando. Puta que pariu, o que eu poderia fazer? Seu cabelo bagunçado e sua voz rouca, por um segundo, fez a imagem dela recém-saída de um sexo selvagem voltar à minha mente. Eu não estava preparado para aquela porra de imagem e muito menos para a reação do meu corpo. Dei a volta no balcão, fazendo o possível para esconder a ereção em minha calça. Era só o que me faltava, agora tinha ereções apenas graças a minha imaginação, igual a um adolescente no cio. Bufei, peguei uma caneca no armário, a coloquei sobre a bancada e a servi com café.
— Café? – Os olhos dela semicerraram e ela hesitou. — Ou talvez você prefira algo mais... Alcoólico. – Disse indicando com a cabeça a mesa ao centro com as garrafas vazias.
revirou os olhos, fez menção de se levantar, mas na mesma hora ela levou a mão a cabeça e voltou a se sentar.
— Da próxima vez que resolver encher a cara, é melhor se lembrar que existe o dia seguinte, Whitney.
Em segundos seu rosto adquiriu um tom vermelho.
— Olha... – ela encarou o chão por alguns instantes e depois voltou a me fitar, seu rosto ainda mais vermelho do que ao acordar. — Sobre ontem à noite...
Arquei a sobrancelha.
— O que teve ontem à noite? – perguntei olhando-a por detrás da caneca enquanto tomava um gole de café.
Esperei até que ela resolvesse falar, o que levou bem uns três minutos de silêncio constrangedor, pelo menos para ela, porque eu estava me divertindo e muito. pigarreou, respirou fundo e se levantou caminhando até a cozinha. Observei-a enquanto dava a volta no balcão, seus olhos sempre focados no chão.
— Se vamos mesmo ter essa conversa constrangedora, primeiro eu preciso de um café. - disse pegando a caneca que eu tinha lhe oferecido e parado há alguns metros de mim.
Sorri sarcástico enquanto a dava um longo gole no café. O suspiro de prazer que saiu de seus lábios me pegou de surpresa e atingiu em cheio o meu pau. Merda! Quem diria que ver uma mulher bebendo café poderia ser algo sensual? Travei o maxilar. O John tinha razão. Estava tão focado no trabalho que tinha negligenciado uma das necessidades mais básicas do ser humano: transar. Era isso, falta de sexo. Essa era a única explicação para meu corpo estar reagindo a daquela maneira.
— Eu gostaria de me desculpar... - sua voz era um sussurro me trazendo de volta a realidade.
— Se desculpar? – a interrompi, colocando a caneca sobre o balcão e deixando o braço estendido ali, a apenas alguns centímetros do seu quadril. — Pelo o que, ? – eu me aproximei um pouco mais fazendo-a recuar. — Por subir em meu sofá, beber o meu whisky ou por confessar que me acha gostoso demais?
arregalou os olhos e quase cuspiu o café.
— Eu não disse isso.
— Ah, você disse sim. – Ela balançou a cabeça afastando-se um pouco. — Você disse inclusive que adoraria que eu a levasse para a cama.
Tentei prender o riso ao ver o constrangimento pigmentar cada canto do rosto dela.
— Eu jamais diria algo assim. – Ela se defendeu, recuando um pouco mais, mas à essa altura eu já tinha dado outro passo em sua direção e já estava presa entre mim e o balcão.
— Você quase implorou para transar ali mesmo no sofá. – disse colando os meus lábios em sua orelha.
— E-eu ... Eu não fiz nada disso.
Eu não sabia que porra era aquela que estava acontecendo comigo. Primeiro estava apenas a fim de tirar a do sério, deixá-la desconcertada até vê-la adquirir aqueles mil tons de vermelho e vê-la ir embora correndo do meu apartamento – de preferência para nunca mais voltar -, mas de repente era eu quem estava gostando demais daquela brincadeira.
— O que foi? - sorri, fitando dos seus olhos até a boca carnuda. — Meu vocabulário não condiz com os romances duvidosos que você tanto lê em seus... Como é mesmo o nome? - encarei seus lábios outra vez. Qual era o meu problema com a boca daquela mulher? — Ah sim, encontros de cultura e arte?
bufou.
— Saiba você que todos os livros que lemos são clássicos de muito bom gosto. - disse empinando o queixo.
— Aposto que sim. Cinquenta tons de cinza? - dei uma piscadela.
revirou os olhos, mas seu rosto estava claramente corado.
— Não sou adepta a BDSM, .
— Será mesmo que não? – arqueei a sobrancelha. — Por acaso você já experimentou? - fitei-a malicioso da cabeça aos pés e voltei a encará-la. — É sempre bom estar aberta à novas experiências, . – Dei uma piscadela.
Lá estava, estremeceu, sua respiração ofegou e seu rosto ficou vermelho como um pimentão. Eu finalmente tinha conseguido tirá-la do sério, mas a que custo? Agora era eu quem estava imaginando-a presa em minha cama usando apenas uma das minhas gravatas. Seus cabelos caindo sobre meus lençóis, como uma ninfa pronta para ser adorada enquanto eu decidia por qual parte do seu belo corpo eu começaria a prová-la.
— Se quiser, posso lhe ensinar uma coisa ou outra.
Aproximei ainda mais meu corpo ao dela, um suspiro baixo saiu dos seus lábios me fazendo sentir outra fisgada em minha virilha. O que será que aconteceria se eu a pegasse por aquele belo traseiro e a jogasse em cima daquele balcão?
— Olha só, vocês já estão de pé!


CINCO



O que, pelo amor de todos os santos, tinha acabado de acontecer ali naquela cozinha? Primeiro eu estava perdida em um sonho louco no qual eu perseguia o e a Kim Kardashian com uma faca em mãos. Depois comecei a sentir um cheiro delicioso de café e fui teletransportada para uma tarde na cozinha da minha avó Judy, com todas as suas plantas, cristais e mandalas. Vovó Judy sorriu para mim, seu costumeiro copo de café em mãos, e me disse:
“O passado é passado, docinho. Há sempre coisas novas para serem descobertas. Abra-se para a vida, meu bem!”
Eu abri a boca para lhe perguntar o que ela queria dizer com aquilo, mas então senti minha cabeça sendo esmagada e uma luz intensa atravessou meus olhos, me acordando. Meu Deus, de quem tinha sido a ideia de beber tanto ontem à noite? Ah claro, ! Por falar em , onde é que eu estava?
Abri os olhos mais uma vez tentando ignorar a forte dor de cabeça que a claridade estava me causando. Olhei ao redor e quando vi escorado no balcão de sua cozinha, impecavelmente vestido em um terno cinza escuro, me encarando por de trás da sua xícara, eu quase desmaiei. Imediatamente meu rosto ficou vermelho. Tentei ajeitar os meus cabelos, que provavelmente estavam parecendo uma juba, depois passei a mão por meu rosto na tentativa de limpar a baba seca no canto da boca. Jesus, eu tinha certeza que devia estar parecendo uma louca naquele instante.
Então, de alguma forma, entre o momento em que eu tentei me ajeitar (leia-se: domar o meu cabelo) e me desculpar com o pelo choro de autopiedade e pelas coisas que eu tinha dito a ele na noite passada - aparentemente a quantidade de álcool não tinha sido o suficiente para me causar uma amnésia, o que era uma pena – de repente eu estava presa entre ele e o balcão de sua cozinha discutindo minhas preferências sexuais na cama. Senhor!
— Não sou adepta a BDSM, .
— Será mesmo que não? – ele arqueou a sobrancelha. — Por acaso você já experimentou? É sempre bom estar aberta a novas experiências, .
Ok, eu não suportava , mas eu não podia negar que assim que aquelas palavras saíram de sua boca e seus olhos me fitaram com malícia, eu senti meu rosto esquentar, meus mamilos endureceram e os cabelos da minha nuca se arrepiaram. De repente a imagem de em minha frente, usando aquele terno bem alinhado e seu olhar sacana enquanto ele caminhava até mim, deitada, nua, com os braços presos na cama pela gravata preta que ele usava agora, veio em minha mente.
— Se quiser, posso lhe ensinar uma coisa ou outra.
Então ele se aproximou um pouco mais e por uma fração de segundo eu senti meu corpo desejando e... Meu Deus, ele estava excitado?
— Olha só, vocês já estão de pé!
surgiu de repente me salvando do que poderia ser o meu segundo maior arrependimento na vida ( Grant figurava no topo da lista, obviamente). Eu me afastei e o pigarreou ficando de costas para nós duas por alguns segundos. Ele fingiu procurar algo na geladeira enquanto a se aproximava de nós para pegar uma xícara de café.
— Então, , está melhor? - ela disse, enchendo a caneca com o líquido preto.
Levei um tempo para me adaptar à mudança brusca do meu corpo naqueles últimos instantes, depois suspirei e me caminhei até ela para encher minha xícara outra vez. Eu definitivamente precisava me afundar em litros de café na esperança da ressaca e daquelas sensações inesperadas que a aproximação do tinha causado em mim.
— Se por melhor você quer dizer com ressaca física e moral – disse olhando de soslaio para . — estou ótima. - Dei um sorriso falso.
suspirou e passou a mão pelo meu ombro.
, não fique assim, nós vamos achar uma solução.
Bufei.
— Acho que a única solução no momento seria eu cortar os pulsos.
revirou os olhos e fez um barulho que deixava bem claro sua desaprovação.
— Que tal encarar a situação como adulta?
Obrigada, meu Deus por ter enviado a naquele exato momento, definitivamente pegar o iria para o topo da lista de arrependimentos da vida. Agradeci aos céus enquanto o fitava com deboche.
— Essa sou eu sendo adulta, . - Sorri.
— Claro que é!
— Sabe o que eu acho? – disse alheia ao clima arisco do ar. — Acho que podíamos fazer igual aquele filme, como é mesmo o nome? Aquele que a mulher paga um cara para ir com ela no casamento da irmã...
— Bem Acompanhada. – Respondi baixinho.
Se já achava o meu gosto por livros duvidosos imagine se ele soubesse a minha lista de filmes.
— Isso! - sorriu empolgada. — Deve ter algum cara na internet para se passar por seu namorado, nada que uma grana não resolva. - Ela deu uma piscadela como se todos os meus problemas tivessem sido resolvidos naquele instante.
Ótimo, nada melhor do que chegar ao casamento da minha irmã com um gigolô de acompanhante. Sim, , problema resolvido, pensei imaginando a Tia Margot encarando um moreno alto todo vestido no couro parado ao meu lado no meio do casamento. Por um instante cogitei aquela possibilidade, mas então, a realidade me bateu.
— Não sei nem como vou pagar o aluguel esse mês, imagine pagar alguém para sair comigo. - Suspirei. — Sem falar que isso é humilhante.
Os ombros de caíram em sinal de derrota.
— Então, vamos sair hoje à noite. - disse tentando ser otimista. — Temos pouco mais de um mês para encontrar um namorado para você.
Eu ri.
— Não querendo ser pessimista mais uma vez, mas tem um ano que não encontro um namorado, você acha que vou encontrar em um mês?
— Há sempre alguém desesperado, . – sorriu irônico.
Quase tinha me esquecido de sua presença, se é que era possível alguém não enxergar aqueles quase 1.90 de músculos destacados em um terno cinza bem alinhado. Ele não podia pelo menos se vestir mal? Ter mau hálito?
— Por acaso você não está atrasado para alguma audiência muito importante no seu mundo muito adulto?
sorriu debochado e olhou o relógio no pulso. Seu rosto ficou pálido.
— Puta que pariu!
E com isso ele pegou sua pasta no balcão, jogou sobre o ombro e saiu correndo do apartamento.
— Ele tem razão sabe, há sempre alguém desesperado. - disse assim que ficamos a sós.
— Nesse caso esse alguém sou eu – suspirei. — Como vou encará-lo, ? Ele vai estar lá todo lindo e incrível com sua noiva linda e incrível durante uma semana e eu vou simplesmente ter que aguentar isso? - senti a vontade de chorar voltando com tudo e dessa vez não tinha a desculpa da bebida, era a humilhação nua e crua. — Não basta ter que voltar para casa, praticamente falida, ter que encarar meus pais e minha irmã caçula superdotada casando na igreja que sempre sonhei? Não, tenho que aguentar meu ex e sua noiva Kardashian? Sério?
— Nós vamos dar um jeito nisso, prometo! - passou a mão pelo meu braço e sorriu. — Vamos começar marcando alguns encontros na internet, não custa nada.
Dizendo isso foi até o quarto, pegou seu notebook e retornou. Então era isso, eu tinha algumas semanas para achar alguém tão desesperado quanto eu.
Que comecem os jogos!


SEIS



— Ouvi dizer que até o final do dia o Parker vai nos procurar para fechar o acordo. – John disse assim que entrou no meu escritório.
Já fazia praticamente uma semana desde a audiência que tivemos com o Parker, advogado da Indústrias Brandon, mas até o momento eu aguardava um retorno seu. Aquela merda estava me deixando ansioso. Eu tinha feito tudo o possível naquela reunião para que a única saída do Parker fosse fazer o acordo, aceitando o valor exorbitante oferecido por nós, e consagrar de vez minha capacidade a frente do setor jurídico daquela empresa, mas o filho da puta estava me cozinhando em banho maria. Olhei mais uma vez para a tela do meu celular, nada. Nem uma novidade se quer. Merda!
— Se até o final do dia ele não ligar, vamos retirar a oferta. – Disse assinando alguns dos documentos que o John tinha deixado sobre a mesa.
John concordou com um aceno de cabeça.
! - Levantei a cabeça e vi o Sr. Watson, passando pela porta do meu escritório e caminhando em minha direção.
Cameron Watson era exatamente a mesma coisa desde quando eu o tinha conhecido aos cinco anos de idade, um cara baixinho e rechonchudo, mas o seu espírito altivo e inteligência o tornavam gigante. Ele e sua esposa, Margareth, foram grandes amigos de meus pais e eu devia muita coisa àquela família, principalmente, estar onde eu estava hoje.
Quando meus pais faleceram, o velho e fodido clichê dos pais que morrem um acidente de carro, eu estava no terceiro ano da faculdade e no ensino médio. Um mês depois do acidente eu estava decidido a largar a faculdade e procurar um emprego que fosse o suficiente para sustentar eu e a sem que ela precisasse abandonar os estudos. Quando soube o que eu estava prestes a fazer, Cameron Watson apareceu em nossa porta e disse que, em memória aos meus pais e a amizade que eles tinham, ele bancaria minha faculdade. Lembro até hoje quando ele colocou sua mão rechonchuda em meu ombro e disse firme: "Ouça, garoto, não desista, faça sua parte, dedique-se, e quando você estiver pronto, tenho uma vaga para você em meu escritório." Aquelas palavras tinham mudado a minha vida e eu sempre seria eternamente grato a ele. Desde então, Cameron Watson nunca tinha deixado de me apoiar, nem mesmo no ano passado quando eu quase botei tudo a perder. Era por isso que agora eu não fazia outra coisa a não ser tentar provar a ele que o seu voto de confiança não foi em vão.
— Sr. Watson. - Assenti fazendo sinal para que ele se sentasse.
Ele dispensou a cadeira e veio até mim.
— Nunca vou convencê-lo a me chamar de Cameron, não é, garoto? - Sorriu. — Só consegui chegar agora de Washington e precisava vir lhe dizer. - Sr. Watson segurou minha mão com força. — Parabéns por sua atuação com o Parker, ele deve estar tremendo até agora! – Sua risada grossa preenchendo todo o ambiente. — Sabia que não tinha me enganado com você, garoto. Você tem o dom!
Sr. Watson deu alguns tapas em meu ombro, me cumprimentando.
— Obrigado, senhor.
Ele finalmente se sentou e ficou ali por mais uns minutos conversando comigo e com o John sobre os benefícios que sua estadia em Washington traria para a empresa. Quando o Sr. Watson me convocou e disse que iríamos começar a expandir os negócios através da compra e venda de empresas falidas, eu me preocupei. Poucas pessoas eram capazes de fazer um negócio como àquele dar certo, mas o cara era um falcão que raramente errava em suas decisões.
— É claro que precisamos analisar tudo com cuidado.
— Claro. - Eu e John assentimos. — Uma coisa é nossa expansão aqui na Europa, onde já estamos consolidados, outra coisa é ir para outro continente.
— Exatamente, garoto. - Sr. Watson assentiu. — E é claro que eu e você ainda iremos conversar muito sobre essa decisão. - Ele sorriu e se levantou. — Agora, preciso ir, se eu atrasar para mais um jantar, a Margareth vai arrancar minhas bolas. - Riu alto da própria piada sobre a sua esposa.
— Mande um abraço para ela e diga que em breve vou visitá-la.
— Vá mesmo, você sabe como ela se derrete toda por você. - Sorri. Margareth Watson era uma das pessoas mais incríveis que eu conhecia. — Se eu não tivesse tanta certeza de que sou o homem da vida dela, estaria preocupado.
Rimos e nos despedimos, mas antes de sair, Sr. Watson parou na porta e me fitou:
— Semana que vem vou oferecer um jantar em minha casa, se até lá você tiver uma posição do Parker, falaremos de negócios. - Assenti.
Ele deu uma piscadela e saiu, no mesmo instante um John empolgado virou-se para mim:
— Você sabe sobre qual tipo de negócios ele quer falar, não sabe?
— Espero que seja o que estou pensando. - disse indo até o aparador ao lado da mesa do escritório e me servindo de um pouco de água.
— Bom, não sei o que você está pensando, mas a Gina, do RH, me falou por alto algo que ela ouviu a Megan, secretaria do Sr. Watson, conversando no refeitório.
Me escorei no aparador e bebi um gole d'água.
— Você está me saindo uma ótima fofoqueira, John.
Ele fez uma careta.
— Você não quer saber a informação?
Sorri.
— Desembuche de uma vez.
— A Megan disse para a Gina que ouviu o Sr. Watson discutindo com alguns acionistas a possibilidade de você se tornar o diretor geral da CW, agora que o Jordan irá para a filial em Istambul.
Fui incapaz de conter um sorriso, esperava por aquela oportunidade já a algum tempo, mas o John fez uma careta, como se ainda tivesse algo a mais para dizer e que, provavelmente, eu não iria gostar.
— Diga logo tudo de uma vez. - falei me encaminhando para a poltrona em sua frente.
— Bem, parece que os acionistas estão um pouco receosos de... - pigarreou. — Na verdade, eles querem indicar o Granger.
Meu corpo enrijeceu. Há quase 10 anos eu dava meu sangue por aquela empresa. Vivia para aquele trabalho vislumbrando a possibilidade de crescer dentro da empresa e agora, quando finalmente eu teria a oportunidade, o Granger, aquele almofadinho de merda, poderia roubar o meu lugar? Não mesmo.
— Que porra é essa?
— Bem, parece que os acionistas estão preocupados com o que houve... - John fitou qualquer lugar menos meu rosto e pigarreou. — Você sabe.
— Caralho! - bufei batendo o punho sobre a mesa. — Aquilo foi uma única vez, um vacilo.
John concordou e continuou:
— O que Gina disse que ouviu a Megan dizer – revirei os olhos. Meu assistente era a porra de uma velha bisbilhoteira. — é que o Sr. Watson está mesmo pensando em você ou no Granger para o cargo, porém, as chances do Granger são maiores porque, bem... - o John estava tentando segurar o riso, mas ele percebeu o meu olhar furioso e no mesmo instante ficou sério. — Segundo o que a Megan disse, ele é casado, né? Um cara de família... - senti o deboche na voz de John, o fuzilei com o olhar e ele deu de ombros. — Qual é?! Todo mundo sabe que você está bem longe de mudar o status de solteiro.
Bufei. Aquilo era ridículo. Essa era a chance pela qual eu estava esperando durante todos aqueles anos e os acionistas pensavam que status de relacionamento era quesito para desempate? Eu era muito mais competente do que o bosta do Granger, aquilo era óbvio. Podia não ser mais sociável ou “homem de família”, mas tinha certeza de que era melhor. Pensei sentindo a raiva tomar conta de mim. Desde quando estar ou não em um relacionamento poderia definir a minha capacidade para sócio?
— Isso é ridículo! - me levantei de vez. Eu estava furioso. Furioso comigo, por ter feito aquela merda no ano passado e furioso com a porra dos acionistas que pelo visto tinham ficado presos no século XVIII. — Como eles podem achar que o Granger é melhor do que eu só por que é casado? O que essa porra tem a ver?
John deu de ombros.
— Acho que para ser parte da diretoria você tem que ter uma vida exemplar. - John deu um sorrisinho cínico.
— Voltamos a porra da Idade Média e ninguém me avisou? – Bufei. — Por que não contratam o Papa então?
— Não sei, , também não vejo lógica nisso. - John ficou em silencio por alguns instantes, depois suspirou e disse: — Acredito que o incidente do ano passado deixou os acionistas um pouco receosos com relação a sua imagem associada a um cargo tão importante na empresa.
Praguejei e dei um murro na mesa. Eu iria matar o Peter Granger e todos aqueles acionistas ridículos.
— Isso é algo que você sempre quis, não é? Ter seu nome em destaque na empresa. - John levantou as mãos como se anunciasse um letreiro e disse: — , diretor geral da Indústrias CW, acho que soa até melhor do que Peter Granger. - Sorriu.
— Não importa se soa melhor se eu não tenho a merda de uma esposa.
Ouvi um barulho na porta, parecido com uma risada, levantei o olhar e vi entrando na minha sala com seu melhor sorriso.
— Oi, irmão. - ela continuou sorrindo, como se tivesse acabado de ganhar na loteria. Ela estava aprontando alguma coisa. — Olá, John.
Na mesma hora o rosto moreno do meu assistente adquiriu um leve tom avermelhado, ele pigarreou, se levantou, fechou o botão do paletó e sorriu sem jeito.
— Olá, , como tem passado?
Olhei de soslaio para ele, nunca tinha o visto ficar tão formal, nem mesmo com seus clientes, mas já tinha reparado que todas as vezes que o John e a se encontravam ele tinha aquela mesma reação.
— Bem, obrigada. – Minha irmã colocou uma mecha de cabelo para trás da orelha, sorriu e olhou para o chão.
Diabos! Eu tinha quase certeza de que eles estavam flertando bem ali na minha frente.
— O que você faz aqui, ?
Ela sorriu inocente e disse:
— Tive um intervalo na galeria e queria saber se você não gostaria de ir almoçar comigo.
Concordei, me levantei, peguei o terno que estava sobre a minha cadeira e o vesti.
— John. – O chamei, mas ele estava muito concentrado babando sobre a . — McPhee!
Ele se sobressaltou e desviou o olhar da minha irmã, me encarando constrangido.
— Sim?
— Qualquer ligação do Parker, me avise. – Assentiu. — Volto em uma hora.
— Ok, chefe.
— Vamos? - perguntei a .
— Vou ao banheiro e te encontro no elevador. – Ela foi até a porta, depois olhou para trás e sorriu. — Até mais, John.
Em seguida tive quase certeza de tê-la visto pegar o celular no bolso e digitar algo com um sorriso travesso nos lábios. Esperava estar errado, porque quando a sorria daquele jeito só podia significar uma coisa: encrenca.


SETE




Uma semana havia se passado desde o dia que eu tinha recebido aquele maldito convite e somente naqueles últimos dias tinha me arranjado 10 encontros às cegas, o que provou que no fim das contas estava mesmo certo, havia sim pessoas desesperadas. Até demais. Depois de 10 encontros com o mais variado tipo de pessoas, dentre elas três adolescentes cheirando a leite, dois quarentões querendo me vender maconha, três aposentados beirando a cova e, até mesmo, duas mulheres, eu já estava aceitando a realidade. Eu seria a dama de honra solteirona e fracassada da minha brilhante irmã caçula.
— A senhora está me ouvindo?
Uma garota de uns 19 anos estava parada em minha frente no caixa da livraria. A palavra “senhora” me causou um desconforto no estômago e me trouxe de volta a realidade.
— São 10 libras.
Enquanto embalava o livro escolhido pela cliente, “Como eu era antes de você”, mordi a língua para não dizer a ela que deveria se poupar daquele sofrimento sendo ainda tão jovem, porque o Frank já tinha chamado a minha atenção diversas vezes por querer dar opinião nas compras dos clientes, então terminei de embalar, ignorando o meu sentimento de crítica literária e lhe entreguei o troco.
— Como alguém ainda compra esse livro? - ouvi Miley, minha esotérica colega de trabalho resmungar ao meu lado.
— Algumas pessoas são masoquistas. - Dei de ombros, ignorando o meu subconsciente gritando que eu era uma daquelas pessoas. Sim, Jojo Moyes era uma destruidora de corações, mas eu a amava. — Pode segurar as pontas aqui alguns minutinhos? Meu celular não para de vibrar, acho que pode ser uma emergência.
Miley me lançou um olhar desconfiado e eu me virei em direção a porta dos fundos. É claro que eu sabia muito bem que aquela emergência tinha nome e um chanel maravilhoso: .
— Puta que pariu, achei que você não fosse atender nunca mais!
Revirei os olhos.
— Qual a parte do “não posso atender telefone no trabalho” que você não entendeu até hoje? - sorri.
— Garota, nós estamos em uma situação de vida ou morte.
— Por que você está sussurrando?
— Estou no banheiro, agora foco, tenho novidades.
— Ai meu Deus.
— Achei o cara perfeito.
Estremeci.
...
— Não, nada de , juro que dessa vez será o cara dos seus sonhos.
— Da última vez que você me disse que eu iria conhecer o cara dos meus sonhos acabei tendo um encontro com uma loira alta e sensual.
bufou.
— Não tenho culpa se os americanos acham legal nomes unissex.
Sorri.
— Quem é o desesperado da vez?
— Não posso dizer agora, estou com pressa, mas à noite te espero lá em casa.
A lembrança de um dentro de seu terno cinza perfeitamente alinhado parado na cozinha a centímetros de mim veio a minha mente. Desde aquele dia eu evitava com todas as minhas forças ir à casa da ou encontrar com o . Sério, todas as vezes antes de sair de casa ou descer do táxi para entrar no prédio eu olhava ao redor como se estivesse fugindo de um serial killer. Era isso ou encará-lo e ter a certeza de que as lembranças da nossa, bem, interação na cozinha, viriam a minha mente e imediatamente ficaria vermelha como um pimentão.
, não acho que...
, esse é o cara perfeito, juro.
Ouvi um resmungo do outro lado da linha, alguém a estava chamando.
— Não posso falar agora, tenho que ir.
— Ok.
Estremeci outra vez. Em que momento da minha vida eu tinha me tornado a garota desesperada que topa ter tantos encontros às cegas em uma semana? Ah sim, no momento que recebi aquele bendito convite. Bufei e estava prestes a voltar ao trabalho quando recebi outra ligação: minha mãe. Senti ânsia de vômito. Eu geralmente ignorava suas ligações sempre que possível, mas àquela já era a sua sexta chamada e ainda era meio-dia. Que Deus me ajude!
— Olá.
— Olá?! Estou te ligando desde ontem e você me atende assim? Com um olá?
Suspirei.
— Desculpe, mamãe, ando muito ocupada e não tive tempo de retornar suas ligações.
Minha mãe dei um risinho debochado.
— Ah, com certeza deve ser muito trabalhoso tirar o pó desses livros.
Respirei fundo. Agora eu me lembrava muito bem o porquê eu evitava as suas ligações.
— Bom, como por algum milagre você finalmente me atendeu, não vou perder o meu tempo falando sobre esse seu hobby exótico. - Revirei os olhos. — E não revire os olhos para mim, .
Elizabeth era uma bruxa, literalmente.
— Não estou fazendo isso. - Disse me sentindo a mesma garotinha insegura de anos atrás.
— Carreguei você em minha barriga por nove meses, , sei exatamente o que você está fazendo agora.
Meu Deus, o que será que aconteceria se eu desligasse o telefone agora?
— Mamãe, tenho que...
— Você engordou?
Suspirei. Eu ia mesmo desligar na cara dela.
— Como?
— Preciso saber se você engordou, porque dei a Mia as medidas do seu vestido de noiva para ela adiantar o seu vestido de madrinha, já que você, obviamente, não vai se dar ao trabalho de vir aqui tirar as medidas.
Pelo menos nisso ela tinha razão.
— Não, não engordei, sigo tamanho 40.
— Ótimo, porque a cor das madrinhas será verde menta e Deus sabe que se você tivesse engordado mais um pouquinho que fosse, com certeza iria parecer um bombom lá no altar e não é isso que queremos, não é?!
Mordi o lábio me controlando para não soltar um palavrão. Minha mãe era capaz de despertar o meu pior lado e, é claro que eu ficaria horrorosa em um vestido verde menta, mas até parece que a Mia iria escolher alguma cor que fizesse suas madrinhas se destacarem mais do que ela.
— Mamãe, era só isso? Porque preciso voltar ao trabalho, sabe como é, ainda tem muito pó para tirar.
— Não gosto do seu tom, .
Suspirei. Aquela era sua frase clássica quando queria nos repreender.
— Desculpe.
— Tem mais uma coisa. - Me preparei para a próxima bomba. — Você já conseguiu um acompanhante? - Era o meu fim. — Porque a Marilyn Mae, minha amiga da Igreja, me disse que o irmão dela também está solteiro e bem, não é exatamente um homem jovem, mas tenho certeza que é melhor você ter um acompanhante idoso do que nenhum.
Ok. Aquela era minha deixa ou eu desligava agora ou teria um derrame cerebral.
— Mamãe, tenho mesmo que desligar, o meu chefe está me chamando. Mande um beijo para o papai. Tchau.
Encarei perplexa a tela do meu celular. Que ligação tinha sido aquela? Há muito tempo eu tinha aprendido a lidar com a personalidade da minha mãe, mas ainda assim, em momentos como aqueles, ela era capaz de me surpreender. Ela achava mesmo que eu iria encarar aquele casamento tendo como acompanhante um senhor em um andador enquanto o desfilava com sua Kim Kardashian? Pelo amor de Deus! Senti uma onda de desespero invadir o meu corpo, procurei o nome da no celular e digitei uma mensagem:
Acho bom esse cara ser o homem da minha vida!
Tinha que ser.


OITO



— Você enlouqueceu?
Pela primeira vez eu fui obrigado a concordar com algo que saia da boca de . Estávamos ali no nosso apartamento há quase meia-hora enquanto a tentava explicar todo o seu plano sobre "como eu e seríamos perfeitos juntos" como se fosse a pessoa mais sensata e lógica do mundo, mas bastou reunir nossos nomes em uma única frase para que sua “palestra” fosse por água abaixo. Só havia duas explicações para aquela proposta totalmente sem lógica da : ela estava louca ou minha irmã andava fazendo uso de entorpecentes.
— Você quer que eu e o fiquemos noivos? - encarava a com uma genuína perplexidade.
Minha irmã enrubesceu diante do tom "você só pode estar delirando" que a usou, abaixou os olhos e deu de ombros.
— Que vocês finjam estar noivos.
— O que dá no mesmo nível de loucura. – bufou e virou-se para mim: — Você não vai dizer nada?
Tomei um gole do whisky para ganhar tempo, eu ainda estava tentando absorver toda aquela ladainha da . Segundo ela, uma mão lavaria a outra. precisava de um acompanhante para ser capaz de suportar o casamento da irmã mais nova - o que no meu ponto de vista não passava de infantilidade-, e eu, bem, graças a merda de uma empresa que vivia no tempo das cavernas, precisava me mostrar inclinado a uma vida monótona, digo, monogâmica.
— Não é loucura, , é uma ideia brilhante! - minha irmã protestou.
— Realmente brilhante, . - riu sarcástica. — , pelo amor de Deus, diga alguma coisa.
Ela me encarou com seus olhos suplicantes por um apoio, mas...
— Eu... - hesitei, analisando dos pés à cabeça.
Não podia ser assim uma ideia tão ruim, poderia?
— Meu Deus, você não pode estar achando que ela tem razão, está?
, é claro que eu tenho razão. - resmungou levando as mãos ao quadril.
Demônios! Eu sabia que ela estava prestes a lançar o melhor de seus argumentos, era sempre assim quando brigávamos e ela colocava as mãos no quadril. Pobre, .
— Você precisa de um acompanhante para o casamento da sua irmã caçula no qual, - ela deu uma pausa dramática, — o seu ex vai estar lá com a noiva, que vamos combinar, parece ter saído diretamente da porra da capa da Vogue e o precisa de uma noiva para se tornar diretor geral na empresa em que a vida toda ele deu praticamente o sangue. - Então ela cruzou os braços, lá vinha a cartada final. Pensei alarmado. — Vocês precisam um do outro.
Os ombros da caíram, ela cruzou os braços e resmungou. Mas , como boa argumentadora que sempre foi, não parou por aí. Às vezes me perguntava como a não tinha, assim como eu e meu pai, escolhido do Direito, ela com certeza acabaria com qualquer um em um tribunal.
— Não vejo o porquê de vocês não se ajudarem.
— Eu vejo inúmeros porquês. – Eu disse encarando a , como se cada cor de sua roupa fosse um motivo a mais para eu achar aquela ideia uma loucura.
Hoje ela usava um vestido azul piscina, um cashmere vermelho escuro, com meia-calça branca e botas marrons. Sim, cada cor era uma lembrança do porquê definitivamente eu não deveria me associar com a em nada. Mas...
— Primeiro, eu e você, - eu disse apontando para – precisamos ter uma conversa séria sobre seu hábito de ouvir atrás das portas. - Minha irmã empinou o queixo e me olhou desafiante, mas deixei passar. Tinha outra discussão como prioridade. — Entretanto...
— Não! - me interrompeu.
— Entretanto...
— Meu Deus, você está mesmo considerando essa possibilidade? - o queixo de caiu enquanto ela me fitava.
Nem eu mesmo podia acreditar que estava cogitando aquele plano surreal da , mas, uma mão lavaria a outra. Não era isso?
— Você não é exatamente a mulher dos meus sonhos , mas... – novamente a olhei dos pés à cabeça apenas para vê-la reagir como fez a seguir, corando e trancando o maxilar de raiva. — Como eu mesmo disse alguns dias atrás, - encarei seus olhos e sorri sarcástico: — há sempre alguém desesperado.
bufou, se levantou da poltrona, me fitou e, verdade seja dita, ela parecia genuinamente chocada.
— Nós dois não temos nada a ver.
— Isso é óbvio. - fez uma careta. — Mas como eu adoro discordar de você... Neste caso, temos sim algo em comum. - arregalou os olhos. — Precisamos mentir para algumas pessoas em benefício próprio.
Ouvi as palmas empolgadas da cortar o silêncio e em seguida ela deu um soquinho no ar.
— Isso mesmo, ! - ela sorriu radiante. — , vejam só, vocês podem se ajudar!
fez uma careta. Claramente o que eu e ela víamos como um plano sem sentido e com tendência ao desastre, a o via como brilhante. Diabos, nunca tinha visto ela tão empolgada desde o dia em que conseguiu o emprego na Galeria.
...
— Não, , escuta. - Minha irmã interrompeu daquele seu jeito mandona que não dava abertura para outros argumentos. — O casamento da sua irmã será uma semana inteira de eventos torturantes e se você chegar lá solteira vai ser pior ainda, nós sabemos disso. – estremeceu. — Tenho certeza que o zé mané do vai fazer questão de exibir sua Kardashian a semana toda.
— Meu Deus... – ela mordeu o lábio inferior. — Eu não tenho qualquer chance perto daquela mulher, não é?!
! – a repreendeu e por um segundo senti à vontade de fazer o mesmo.
Era óbvio que a não percebia que mesmo com todas aquelas cores berrantes compondo o seu visual, ela era atraente e, principalmente, como a ideia de ela precisar de um cara para aparecer em uma festa de casamento era ridícula. Seja lá quais foram os motivos para que seu ex terminasse com ela, assim que ele colocasse os olhos naquela mulher parada ali, ele perceberia que tinha sido um erro. E se o cara não era capaz de ver isso, ele era babaca. Pensei, sentindo outro incomodo no meu estômago diante daquela constatação. De onde tinha surgido aquilo? Me levantei do sofá para disfarçar o desconforto daquele pensamento e fui até o aparador para me servir um pouco mais de whisky.
John tinha razão sobre uma coisa: eu tinha mesmo que dar um tempo do trabalho, porque outra coisa já estava ficando mais do que óbvia para mim: eu preciso transar. Urgentemente. Aquela era a única explicação para que nos últimos dias os meus pensamentos estarem sendo tomados por aquele tipo de merda. Tomei o gole de uma vez só e voltei a falar:
— Olha, , por mais que eu ache que você deveria mandar esse povo se foder e ir até lá como uma mulher adulta, solteira e dona de si, afinal de contas, estamos no auge do empoderamento feminino... – disse seco enquanto a sorria para mim como uma mãe orgulhosa e a estreitava os olhos, claramente desconfiada do que eu falaria a seguir: — Acho que a tem razão. - piscou os olhos algumas vezes, como se ainda absorvesse o que eu tinha dito. — Podemos realmente nos ajudar.
O silencio reinou por alguns segundos no meu apartamento, até que passou a mão por uma mecha de cabelo que caia do seu rabo de cavalo, começou a mexê-la nervosamente e disse:
— Isso é um desastre. - Suspirou. — Cheguei ao fundo do poço.
— Fico lisonjeado. - disse sarcástico.
Ela suspirou pesarosa pela milésima vez.
— Não acredito que estou mesmo cogitando a possibilidade de me associar a você. - disse baixo, mas não o suficiente para que eu não pudesse ouvir.
— Olha, se você...
, olhe para o ! - Minha irmã interrompeu e apontou para mim, antes que eu começasse a dizer algumas verdades para a . — Qualquer mulher que estiver neste casamento vai sentir inveja de você, até a Mia vai desejar que o seja o noivo.
Sorri presunçoso. Quem diria que minha irmãzinha era uma mãe coruja?
— Acho que o não precisa de ninguém alimentando ainda mais o seu ego, . - Estava prestes a lhe dar uma resposta, mas mordeu o lábio inferior e me fitou insegura: — Você ficaria uma semana comigo em Sunshine? – perguntou desconfiada. — Com a minha família inteira?
Assenti. Aquilo seria uma tortura, mas precisava pensar em mim também. Mais cedo quando o John jogou aquela bomba em cima de mim eu já tinha certeza de que tudo estava perdido. Se o que fazia do Granger melhor candidato do que eu para o cargo era uma aliança no dedo então, obviamente, eu não teria chances. Mas, quando a começou com toda aquela maluquice de me juntar a em um noivado falso, um lampejo de esperança começou a surgir. Não que fosse exatamente a melhor escolha, mas ela era a única em vista naquele momento, então... Foda-se, eu precisava dela.
— Você iria a eventos sociais do escritório comigo por algumas semanas? - engoliu em seco encarando seus pés.
— Sim.
— E se comportaria como uma boa menina? - Não sei de que porra de lugar tinha saído aquela pergunta, mas acho que fiz apenas para provocá-la e vê-la se irritar, o que, diga-se de passagem, aconteceu instantaneamente. Assim que aquelas palavras saíram da minha boca, cada canto do rosto da adquiriu um tom de vermelho.
— Isso não vai dar certo. - disse balançando a cabeça e colocando a mão sobre o rosto.
Quase sorri por, mais uma vez, conseguir tirá-la do sério. Nunca, em toda minha vida, tinha conhecido uma pessoa que deixasse transparecer tanto seus sentimentos quanto a . E para falar a verdade, estava tão acostumado a conviver com pessoas que eram obrigadas a mascarar suas reações que talvez seja por isso que todas as vezes que a provocava eu sentia aquela satisfação.
— Oh, gente, isso será perfeito! – sorriu, ignorando o clima fúnebre da e dando como vitória certa a sua ideia. — Quase quero ir ao casamento daquela vadia traidora para ver a cara de todos.
— Vamos, por favor? - implorou.
— Eu adoraria, mas tenho prazos a cumprir na galeria. – fez uma careta. — Já sabem que vou querer muitas fotos do meu mais novo casal preferido, né?!
gemeu. Diabos, será que aquela mulher achava que eu tinha algum tipo de doença contagiosa? Já estava quase começando a me arrepender daquela ideia maluca, mas então, a visão do filho da puta do Granger sorrindo para seu nome na porta da sala do diretor geral da CW me veio à mente. Eu nunca deixaria aquilo acontecer.
— Que dia temos que embarcar? - Perguntei me servindo mais uma dose de whisky.
A e a se entreolharam. Aquilo não era um bom sinal.
— Daqui a duas semanas. – A ruiva disse mordendo o lábio. – Chegaremos direto para o jantar de recepção.
Virei o líquido de uma só vez.
— Que Deus me ajude.
Dizendo isso sai para o meu quarto deixando as duas sozinhas, a com um sorriso empolgado e com a certeza de que teria uma dor de barriga em breve.




Continua...



Nota da autora: Oi, maravilhosas!! Meu Deus, a “De repente, noivos!” está em 2° lugar no top fanfics (31/10) e eu não consigo nem acreditar! Só tenho a agradecer a cada uma de vocês que vem aqui dar uma lindinha/comentar nessa história que escrevo com tanto amor! Obrigada mesmo! Essa atualização foi curtinha, mas queria deixar vocês com a expectativa desse noivado fake hahahah! Espero que continuem gostando da história e de cada um dos personagens! No mais, deixem aí nos comentários o que tão achado, amo ler cada um deles!


Nota da beta: Fiquei em choque que o Liam aceitou isso melhor do que ela, hahahaha. Mal vejo a hora desse plano começar oficialmente.
Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


comments powered by Disqus