Última atualização: 28/01/2018

CAPÍTULO 1

Nunca pensei em como seria a minha vida sem a minha mãe. Na verdade, não pensar, foi à maneira que nós duas encontramos para aproveitarmos ao máximo possível o tempo que nos restava e tentar assim, evitar o inevitável. Olhei para a sala vazia, ainda com o seu perfume exalando pelo ar, e as lágrimas mais uma vez me vieram aos olhos. Tudo continuava do jeitinho que ela havia deixado há uma semana, quando tivemos que sair às pressas, para aquela que seria a sua última ida ao hospital. Não sei como será daqui para frente, mas doía só de pensar. Peguei a xícara com o que restara do café que tomávamos naquela tarde de domingo, relaxando em frente à TV, e a levei para a cozinha.
Sabia que em algum momento eu teria que seguir em frente, que a vida continua. Mas ficar neste apartamento, cheio de lembranças de minha mãe, como a coleção de galinhas de porcelana sobre a bancada, não seria nada fácil. me ofereceu abrigo em sua casa por uns dias. Eu fiquei de pensar no assunto... Depois. Agora eu não queria pensar em nada. Não pensar era bom, isso até deparar-me com um objeto ou outro do qual minha mãe tanto gostava e começar todo o processo novamente. Abri a torneira deixando que a água umedecesse os restos de café grudento no fundo da xícara e fiquei olhando-a encher e transbordar. Exatamente como me sentia. Enchendo e transbordando.
A campainha tocou e atendeu. Eu não queria passar a noite de hoje sozinha, tampouco passá-la fora de casa. Então pedi para que dormisse aqui comigo. é uma boa amiga. Conhecemo-nos desde sempre. Nossa ligação vai além do que a ciência possa explicar. Crescemos num bairro no subúrbio do Rio de Janeiro e nos mudamos, quase que ao mesmo tempo, para a Ilha do Governador. Minha mãe e Ângela, mãe de , diziam que não havia nada no mundo que pudesse nos separar. Que estávamos ligadas uma a outra de tal forma que podíamos sentir o que a outra estivesse sentindo. Fosse algo bom ou ruim. Fechei a torneira e esvaziei a xícara. Olhei para o fundo, verificando se ainda havia restos de café depois da limpeza. Ouvi um burburinho de vozes vindo da sala e logo depois o som de passos em direção à cozinha. Fui surpreendida pela figura masculina de cabelos cor de fogo que surgiu na porta e me encarou, avaliando-me. Por um instante pensei em perguntar quem era ele, mas minha voz não saiu. Nós nos encaramos por mais alguns instantes até que ele falou, num inglês carregado de um sotaque que desconheço, e os olhos cheios d’água:
— Eu lamento tanto.
Quem era aquele homem e de onde ele surgiu? Ainda me avaliando, ele deu alguns passos na minha direção e fez menção de tocar meus cabelos, mas desistiu no meio do caminho, deixando que seu braço caísse pesadamente ao lado do corpo.
— Quem é você? — finalmente minha voz deu o ar da graça e meu cérebro não me decepcionou ao lembrar a pronúncia correta das palavras em inglês.
— Acredito que seja novidade para você também.
Tá bom, dá para deixar o suspense de lado? Caso não saiba, eu acabei de enterrar a pessoa que mais amava neste mundo e não estou com cabeça para charadas. - Acho que ele percebeu que eu não estava com paciência e então disparou à queima-roupa:
— Sou Friedrich Zorcky. Rei de Ladônia. E seu pai.
Meu o quê? Não percebi que estava tremendo até ouvir o trepidar da xícara no pires ainda em minhas mãos. Minha mãe e eu nunca tocávamos neste assunto. Era um terreno proibido, um tabu, já que as lembranças não lhe eram agradáveis.
Segundo minha mãe me contou — na única vez em que falamos sobre isso —, ela passou apenas uma noite com ele e na manhã seguinte o sujeito saiu do quarto de hotel deixando-a sozinha, com a conta paga e nenhum número de telefone. Aquilo foi o suficiente para mim nos últimos oito anos, quando percebi que não importava mais se tinha ou não um espaço vazio na filiação em minha cédula de identidade. Eu tive a melhor mãe do mundo e isso sim me bastava.
Friedrich continuava a me encarar sem saber como agir. Confesso que eu também não. E então, inexplicavelmente, comecei a rir. Um riso histérico, isento de alegria, que logo foi substituído por um choro descontrolado. passou como uma flecha esbarrando no ombro de Friedrich ao correr em meu auxílio. Ela me abraçou, confortando-me e então se virou para ele.
— Acho que este não é o melhor momento. — eu bem que poderia deixar toda a conversa internacional a cargo de . Sua pronúncia era tão natural que me deixava envergonhada pelos meus quatro anos de cursinho. — A teve e está tendo um dia difícil hoje. — ela passou a mão em meu braço e aquele carinho, de certa forma, me confortou.
Friedrich concordou com um aceno de cabeça, mas não fez nenhum outro movimento que indicasse que já estivesse de saída e, ao invés disso, vi surgir por trás dele uma mulher. Uma belíssima mulher de cabelos claros como fios de ouro e olhos tão azuis que dava a impressão de que podiam me ver por dentro. Seu rosto era gentil e ela sorriu para mim de um jeito carinhoso e maternal. Por um breve momento ela me fez lembrar minha mãe.
Ainda estava paralisada diante da figura da mulher que me encarava, que nem percebi quando substitui o pires e a xícara em minha mão por um copo de água. Um arrepio percorreu o meu corpo e não sabia dizer se era por causa da água gelada ou porque não conseguia desgrudar os olhos daquela mulher.
Friedrich percebeu a nossa troca de olhares.
— Esta é a minha mulher. Laura. — disparou ele, usando a deixa para chegar mais perto de mim. — Sei que este não é o momento mais adequado, mas precisamos conversar.
Concordei, mais automaticamente do que por vontade, e devolvi o copo vazio a . Saí da cozinha seguida pelo cortejo de , Friedrich e Laura. Apontei para os sofás vazios e nos sentamos. sentou no braço da poltrona em que eu estava e a todo o momento perguntava como eu me sentia. Eu já não sabia de mais nada e, estar bem, era o tipo de sentimento que levaria um bom tempo para que eu voltasse a experimentar. Eu queria dormir e esquecer que este dia jamais aconteceu. Se eu soubesse que para descobrir quem era o meu pai a minha mãe teria que morrer, preferia dizer a todos que nasci de um pé de repolho ou que fui trazida no bico de alguma cegonha.
Friedrich olhou compenetradamente para os quadros nas paredes. Em especial uma moldura acima do sofá em que Laura estava sentada. A tela, em preto e branco, foi pintada por um artista de rua quando minha mãe e eu fomos ao centro da cidade para uma conferência de meio ambiente, organizada por sua empresa de eventos.

* * *


Era final de tarde e nosso carro estava parado no estacionamento da Catedral Metropolitana. Minha mãe e eu corríamos feito loucas pelas ruas do centro. Ia cair um toró daqueles e procurávamos por algum vendedor ambulante de guarda-chuva. Até hoje não consigo entender de onde eles surgem com todas aquelas variedades de cores e tamanhos, assim, de repente. Pode estar um sol de rachar, mas basta o tempo fechar e lá vêm eles, surgindo do nada, gritando: “Guarda-chuva, moça? Tá baratinho. Só dez reais.” Foi em meio a esta busca por uma maneira de nos protegermos do temporal que estava chegando que decidimos cortar caminho pelo Largo da Carioca. Era a rota mais rápida até a Catedral. Gotas enormes começavam a pontilhar o chão e em questão de segundos, o céu desabou. Corremos para a marquise mais próxima, protegendo nossas cabeças com as pastas de informativos que foram distribuídas na conferência, e então nos deparamos com Paulo. O sujeito era muito talentoso, e boa parte das telas pintadas eram de artistas e casais famosos. Ele terminava a pintura de um casal, que se espremia cada vez mais sob a marquise já lotada de pessoas a procura de abrigo, quando minha mãe virou para mim e disse:
— Ia ser legal ter um quadro deste lá em casa, não?
Olhei para ela erguendo a sobrancelha e apontando para os quadros.
— Fátima Bernardes e William Bonner ou Angélica e Luciano Huck?
Ela riu jogando a cabeça para trás.
— Não, sua boba. De nós duas. — ela caminhou diante das telas, sem se importar em se molhar e parou subitamente, com sorriso de orelha a orelha — Igual a esta.
A tela que ela escolheu era de duas pessoas. Duas mulheres. Talvez mãe e filha também, ou apenas duas amigas que saíram para almoçar e tiveram seus rostos retratados e expostos em pleno centro do Rio de Janeiro. Elas pareciam felizes e uma delas tinha sardinhas no rosto, exatamente como as minhas. Talvez fosse ruiva também.
— O senhor tem tempo para mais um? — perguntou minha mãe ao pintor assim que o casal saiu feliz e satisfeito, com a foto deles debaixo do braço.
— Claro. As duas juntas?
— Sim. — respondeu minha mãe passando o braço em volta do meu ombro. — De nós duas.
* * *


— Quem é o artista? — perguntou Friedrich, passando o indicador pela moldura.
— Paulo. Ninguém famoso. Um artista de rua. — respondi dando de ombros e soltando o ar lentamente. — Será que podemos ir direto ao assunto?
Friedrich concordou e sentou ao lado da mulher que segurou sua mão. Um gesto genuíno de apoio ao marido. Deixei minhas costas desabarem sobre o encosto da poltrona e fechei os olhos. Mais uma vez me perguntou se eu estava bem e apenas balancei a cabeça dizendo que não. E de fato não estava. Minha cabeça girava e meu corpo exausto implorava por uma cama. Não estava sendo um dia fácil. Mesmo com todas aquelas pessoas ali presentes, nunca me senti tão sozinha.
— Você está bem? — abri os olhos, espantada. Desde que chegou Laura não abrira a boca uma única vez e, no entanto, quando o fez, os pelos do meu corpo se arrepiaram. Inexplicavelmente, até o seu tom de voz lembrava o de minha mãe. Ela então se virou para Friedrich, tomando o cuidado de falar em inglês para não excluir-me da conversa — Fred, acho que não é o momento certo para falar com ela a respeito disto. Veja como ela está cansada e abatida. Não é fácil perder um ente querido. Principalmente a nossa mãe. Eu sei muito bem como é isso. — e voltou então a me encarar. — O que acha de descansar um pouco, querida?
Tentador. Quis responder, mas também estava curiosa para saber o que aquele que se dizia meu pai, tinha a me contar.



CAPÍTULO 2

Parecia que eu tinha dormido por apenas cinco minutos, mas já havia se passado doze horas e meu corpo ainda estava na inércia, incapaz de mover-se para fora da cama sozinho. Meu sono foi agitado, pontuado por lembranças da conversa com Friedrich e Laura. Parte de mim queria acreditar que toda a história contada por ele foi apenas um fruto da minha imaginação perturbada pelo acontecido. Mas a outra parte, aquela racional, que a gente só costuma dar ouvidos quando já não dá mais para voltar atrás, gritava insistentemente em meus ouvidos para que eu fosse com calma, que mesmo que ele fosse à única família que me restava naquele momento, havia coisas que eu não poderia deixar para trás assim, subitamente. Virei de lado, cobrindo a cabeça com o travesseiro e gritei o mais alto que consegui. Não queria incomodar além do necessário. Foi libertador, mas me doeu muito. Controlar as lágrimas não foi fácil. Saber que todos esses anos você viveu em uma mentira sem tamanho, não tinha explicação.
Friedrich me contou uma história totalmente contraditória com a de minha mãe. E o pior: Ele tinha prova de tudo.
Teria sido um conto de fadas daqueles se minha mãe não tivesse sido tão cabeça dura. Mas também pudera; depois de ser deixada sozinha em um quarto de hotel após uma noite de amor, nem eu iria querer mais ver a cara do infeliz. Acontece que Friedrich a deixou, não porque não a queria, mas porque um de seus parlamentares havia falecido e ele precisou voltar às pressas para Ladônia. Tudo isso havia sido explicado a ela numa carta que ele enviara assim que chegou a seu país e da qual nunca teve resposta.
— Eu me apaixonei por sua mãe no momento em que a vi, . — confessou ele, sem se importar que sua atual esposa estivesse ouvindo. Laura apenas olhou submissa para o marido, ainda acariciando sua mão. — Não foi fácil deixá-la.
— Mas não fez nada a respeito depois. — rebati mal criada. Aquela era o tipo de desculpa ensaiada na frente do espelho mais fajuta que eu já tinha escutado.
— Eu tentei. Juro. Logo depois de ter retornado para Ladônia, entrei em contato com o Buffet que organizou o evento e pedi a lista de funcionários presentes naquela noite, incluindo endereços e telefones. Depois de ter enviado a carta, eu liguei e descobri que Elena já não estava mais morando em São Paulo. A pessoa que me atendeu não soube me dizer para onde ela tinha ido, mas me garantiu que se a carta chegasse, faria o possível para que Elena a recebesse.
Até aí a história dele batia com a de minha mãe. Ela havia saído de São Paulo após receber um telefonema do advogado de meu avô, informando-a do falecimento dele. Minha mãe juntou todas as suas economias e partiu no mesmo dia para o Rio de Janeiro. Se não fosse pela tragédia, aquele teria sido o ponto alto de sua vida, segundo ela me contou. Como única filha, herdara uma pequena fortuna — pelo menos para os padrões daquela época —, e foi com este dinheiro que ela abriu a sua empresa de eventos.
Friedrich abriu o paletó e retirou uma folha, já bem gasta, mas que fui capaz de reconhecer ser uma das que eu usava em meu fichário no colegial. Ele a desdobrou, com as mãos trêmulas, e me entregou. Apesar do aspecto, aquela folha ainda preservava o perfume que eu costumava borrifar nas folhas todo início de ano. Meus olhos encheram d’água ao ver a caligrafia, não tão perfeita assim, de minha mãe. No cabeçalho da página, a data fez meu coração pulsar com tanta força que chegou a doer. Era de pouco mais de uma semana.

“Friedrich,
Muito tempo se passou, não é mesmo? Sei que não foi justo deixar de responder a sua carta. Acredite, doeu muito tê-la ignorado. Mas imagine como eu fiquei quando soube quem você era de verdade? Eu não estava preparada para isso, para ser mãe, muito menos mãe da filha de um futuro rei! Não queria que a crescesse com esse estigma. Queria que ela fosse uma garota normal, que pudesse ir à escola anonimamente, sem ter que ser apontada na rua como a bastarda. Fui egoísta, eu sei. Principalmente com a . Vê-la crescendo e acreditando que o pai foi um canalha...
Desculpe, mas eu achei melhor assim. Por um tempo. Mas agora não é o momento para analisar ou julgar a minha decisão.
Eu estou morrendo, Friedrich.
Há seis meses fui diagnosticada com câncer de esôfago. Os médicos me disseram que as chances de cura seriam maiores se tivéssemos diagnosticado a doença no início. Mas agora ela está num estágio em que, achar uma cura, seria o mesmo que um milagre. Amo muito a nossa filha, Friedrich, porém não suporto mais ver o quanto a minha doença à afeta. Ela é tão jovem, com toda uma vida pela frente... Acredito que quando esta carta chegar até você, eu já não esteja mais aqui.
Queria ter mais tempo para explicar melhor os meus motivos, mas sei que você e Laura (sim, eu sei que você se casou. Tenho acompanhado sua vida pelos noticiários!) serão ótimos pais para . Gostaria de estar presente neste encontro, de poder olhar nos seus olhos e pedir perdão pelo que fiz. Não somente a você, mas também a . Eu não tinha o direito de decidir por ela. Esta não era uma escolha exclusivamente minha. Mas como eu disse, não tenho mais tempo.
Preciso que venha ao Brasil o quanto antes, Friedrich. Você é a única família que resta a nossa querida .
Não cometa com ela o mesmo erro que cometi com você. Deixe que ela decida se quer ou não que você faça parte de sua vida.
Elena Marins”


— Isso não quer dizer nada. — falei, tentando modular minha voz chorosa. — Qualquer um que soubesse da verdadeira história poderia ter escrito esta carta.
— Não pense que isso não passou pela minha cabeça, . Mas isto veio junto.
Friedrich pegou outra folha. Esta já estava amarelada e bem mais gasta que a primeira e me entregou. A caligrafia fina e rebuscada preenchia cada linha da folha que mais parecia um pergaminho antigo. O brasão da família real de Ladônia encabeçava a página datada há dezenove anos.
— Esta foi à carta que escrevi a sua mãe assim que retornei à Ladônia. — disse ele ao ver a confusão em meu rosto. — Quando a vi, não tive dúvidas que era mesmo Elena quem havia escrito aquela ali.
Para mim também não havia dúvidas. Eu reconheceria aquele perfume, aquela folha e, principalmente, aquela caligrafia torta e desconexa de minha mãe em qualquer lugar. O fato era que eu mesma não queria acreditar que em minhas veias poderia correr o sangue do homem diante de mim. O homem que durante toda a minha vida parecia mais um ser mitológico que um de carne e osso. Minha mãe mentiu para mim, mentiu para Friedrich e principalmente para si mesma. Não falo pelo dinheiro e pelo glamour da realeza, mas se eles estivessem juntos, talvez, ela ainda estivesse aqui conosco. Talvez, seríamos uma família.
Era muita coisa para assimilar em tão pouco tempo. Não tinham nem vinte e quatro horas que eu havia me despedido para sempre de minha mãe e lá estava eu, com uma decisão do tamanho do mundo para tomar: acreditar ou não que aquele homem era o meu pai. Coisa que, na cabeça dele, já era dada como certa. Friedrich recusou veementemente fazer um exame de DNA, sob a alegação de que não havia dúvida alguma de que eu era sua filha. Ele e Laura concordavam que nós dois tínhamos o mesmo tom de verde nos olhos, a mesma cor de fogo nos cabelos e o formato do nariz e do queixo eram características marcantes dos Zorcky.
— Sei o quão doloroso é este momento, , mas ficaria honrado, sem mencionar muito feliz, se você pudesse vir conosco para Ladônia. — disparou Friedrich dobrando as cartas e entregando-as a mim.
— Que tipo de brincadeira é essa? — falei afrontada. — Eu acabei de conhecer vocês! Acham que eu vou correr para o meu quarto, fazer as malas e pegar o primeiro voo para Ladônia, sendo que eu nem sei em que continente esse raio de país fica, como se nada tivesse acontecido?
— Desculpe se passamos esta impressão, . — interveio Laura, colocando a mão em meu ombro para me acalmar.
— Sabemos que é uma decisão importante e que deve ser tomada com calma. Nós a respeitaremos. Seja ela qual for. Mas adoraríamos que pudesse passar um tempo conosco.
Por que ela tinha que abrir a boca? Por que esta mulher tinha que lembrar tanto a minha mãe? Era praticamente impossível dizer não a ela. Respirei fundo tentando me acalmar.
— É muita coisa para digerir. Posso pensar? — falei, sentindo-me envergonhada pela explosão anterior.
— Claro. — concordou Friedrich. — Só gostaria que mantivesse a mente aberta e tomasse a sua decisão com sabedoria. Temos que retornar a Ladônia na sexta. Acha que consegue pensar em alguma coisa até lá?
— Sexta!? Mas é depois de amanhã! Eu não posso tomar uma decisão importante como esta da noite para o dia, Friedrich. Tenho a faculdade, meu trabalho. Coisas a resolver...
— Eu sei. Não estou pedindo para que deixe sua vida para trás. Como Laura mesmo disse, respeitaremos a sua decisão, seja ela qual for. Mas gostaria muito de retornar ao meu país sabendo que em breve a terei por perto. — Friedrich ajoelhou-se diante de mim e pegou minhas mãos. — Eu não sabia da sua existência até receber esta carta, . Quero ter a chance de reparar qualquer julgamento que faça da minha pessoa. Não tenho o poder de voltar o tempo, mas farei o possível para que os próximos anos sejam especiais, inesquecíveis.
Eu desabei no sofá novamente, sentindo como se estivesse dentro de uma máquina de lavar no estágio de centrifugação.
Minha cabeça girava e meu mundo tinha virado de ponta a cabeça. Num dia eu era apenas Marins, filha de uma publicitária, caloura no curso de administração e no outro estava prestes a me tornar Marins Zorcky, filha do rei Friedrich Zorcky e princesa de um país de onde nunca havia escutado falar.



CAPÍTULO 3

A missa de sétimo dia de falecimento de minha mãe havia terminado há meia hora e eu ainda estava na igreja, sentada e olhando para os vitrais, esperando que eles me ajudassem a tomar a decisão certa. Friedrich partiu para Ladônia sem a minha resposta e bastante desapontado também. Não havia nada que eu pudesse dizer àquele homem de quem só escutei coisas negativas. Levaria tempo para que a imagem dele, pintada por minha mãe em minha mente, fosse mudada.
? Está na hora de irmos. — sussurrou , sentada no banco da fileira de trás.
Eu me preparava para levantar quando vi um folheto caído no chão. Nem mesmo as igrejas estavam imunes à falta de educação das pessoas. Peguei o folheto e estava prestes a amassá-lo quando meus olhos bateram na frase em letras garrafais que encabeçava o papel. “Para cada noite de dor, há um novo dia de alegria”. Mudei de ideia e o guardei no bolso de trás do meu jeans, fazendo o sinal da cruz ao sair da igreja atrás de .
e Ângela não disseram uma única palavra durante todo o caminho de volta para casa. O que foi bom, já que eu precisava estar com a cabeça vazia, para só então enchê-la com intermináveis questionamentos. Ir ou não ir? Aceitar que aquele homem é o meu pai ou não? Como vou me virar sozinha se ficar? E se eu for e não gostar volto para onde?
Eram tantas perguntas e nenhuma resposta. Ângela estacionou o carro na frente do meu prédio e se ofereceu para subir. Concordei e então elas me acompanharam. Ao sairmos do elevador, deparamo-nos com um embrulho enorme atravancando todo o corredor com o Seu Salvador e dois carregadores suando horrores para tirá-lo do caminho.
— Alguém andou encomendando um elefante pela internet, Seu Salvador? — perguntou , caindo na gargalhada.
— Antes fosse, Dona . Antes fosse. Mas este pacote chegou agora a pouco e o Dr. Osvaldo não está em casa. Vamos ter que descer com ele. Podem nos dar uma licencinha?
Por um segundo pensei que aquela caixa fosse para mim. O que não seria estranho, já que o meu apartamento estava com uma coleção delas. Desde que Friedrich voltou para Ladônia, não pararam de chegar caixas com móveis, eletrônicos, eletrodomésticos... No dia que a primeira caixa chegou, Friedrich ligou:
, querida. Espero que tenha gostado dos equipamentos novos para a cozinha. — falou todo empolgado. — Eu não entendo muito dessas coisas então...
— São maravilhosos. — menti. As coisas ainda continuavam nas caixas, intactas e lacradas. — Obrigada, Friedrich.
O que eu não contava era que depois daquela, outras viriam. Muitas outras.
Meu apartamento estava mais parecido com um depósito de donativos para desabrigados do que com um lar propriamente dito. A impressão que dava ao entrar era a de que eu ou estava me mudando ou me preparando para mudar. Eram caixas que não acabavam mais. Hoje de manhã o entregador deixou mais uma e esta foi à única, entre todas, que eu abri. Não era mais um presente de Friedrich e sim de Laura. A curiosidade em saber o que ela havia mandado para mim, falou mais alto. A caixa ainda estava aberta sobre o sofá e e Ângela foram direto bisbilhotar assim que entramos.
, isso é um arraso! — os olhos de brilharam como luzes de natal ao segurar um vestido de cetim azul petróleo pelas finas alças, mas logo depois o sorriso que parecia partir seu rosto ao meio sumiu. — Aonde usar uma preciosidade desta por aqui? Você é a pessoa mais antissocial que eu conheço.
Fiz uma careta para ela, mas no fundo fui forçada a concordar. Mesmo sendo filha de uma promoter e viver cercada de celebridades, ir aos eventos que minha mãe organizava era o mesmo que ir para a forca. Nunca me senti bem andando por aí como uma boneca super produzida, com quilos de maquiagem na cara e rindo para as coisas e pessoas mais sem graça que encontrava.
— São presentes da Laura. — expliquei pegando o vestido das mãos dela e devolvendo-o a caixa. — Mas não posso aceitar. Assim como todos esses outros presentes.
— Por que não ficar com eles, ? — questionou Ângela.
— Isso não está certo, Ângela. Eu não sou assim, você sabe. Não quero que pensem que podem comprar a minha decisão com mobílias para a casa ou um novo guarda roupa. — coloquei a caixa no chão e sentei no sofá. — Essa pressão toda está acabando comigo. Não consigo comer, não consigo dormir. Tenho que voltar ao trabalho e à faculdade amanhã, mas não estou com cabeça para nenhum dos dois... Eu não sei o que fazer.
Ângela sentou ao meu lado e pegou a minha mão.
— Vamos por partes, tudo bem? O mundo não foi feito em um dia. Tome a sua decisão sabiamente e leve o tempo que julgar necessário.
— Aí é que está o xis da questão: eu não quero ir. Mas sinto que devo. Entende? Está tudo tão confuso...
— Sei que ninguém perguntou, mas vou dar minha opinião assim mesmo. — intrometeu-se ainda fuçando a caixa com os presentes de Laura. — Acho que você está fazendo tempestade em copo d'água. Pense comigo. — ela colocou de volta na caixa um conjunto de lingerie rosé e se jogou no chão cruzando as pernas como as crianças em brincadeiras de roda — Com tudo o que aconteceu com você nos últimos meses, esta seria uma ótima oportunidade para espairecer, relaxar, desligar-se de tudo isso um pouco. E digo mais, você não estaria fazendo nada com o que sua mãe discordasse.
— Você sabe que dificilmente eu concordo com o que diz, mas desta vez terei que dar o braço a torcer e admitir que ela, neste ponto, tem razão. — Ângela fez coro à filha. O que surpreendeu a nós duas.
A relação entre Ângela e era engraçada e estranha. Apesar de serem mãe e filha, as duas pareciam duas colegas de dormitório da faculdade. Ângela vivia dizendo a minha mãe que não existe receita para se criar um filho e que o melhor é deixar que ele fizesse aquilo que lhe der vontade, para que aprenda a acertar tomando os erros como aprendizado. Prova disso foi que ao completar 10 anos, Ângela deixou que viajasse sozinha para a Disney em uma excursão. Minha mãe ficou horrorizada e eu, roxa de inveja. Mas, mesmo com todos esses conselhos, ainda não me sentia preparada para dar adeus a minha vida aqui no Brasil e conviver com uma família que nunca sequer ouvi falar.
— Prometo que vou pensar. — disse, pela milésima vez, a frase que me recusava a por em prática.

* * *


Isso nunca tinha me acontecido antes. Nem mesmo quando eu era criança. Para dizer a verdade, não consigo me lembrar de sonho algum que tivesse sonhado ao longo dos meus singelos 18 anos. Pelo menos, não até esta tarde.
Depois de ouvir os conselhos de e Ângela, decidi que estava na hora de parar de adiar o momento de pensar no que aconteceu na última semana. Fazendo uma breve retrospectiva, coloquei na balança os prós e os contras desta decisão.
Partir para Ladônia seria o mesmo que um voo às cegas. Eu não sabia onde iria cair. E esta queda estava me matando de medo. Por outro lado, penso que talvez tenha razão. Um lugar novo, com pessoas novas, pode ser bom. Aparentemente, Friedrich e sua mulher, são gente boa. Mas tenho receio de me tornar alguém que não sou apenas para me encaixar em algum lugar. Entretanto, eu só teria a minha resposta se tentasse. Eu bem que estava mesmo precisando de umas férias... E foi no meio dessas divagações que eu caí no sono, abraçada a um porta-retratos com a foto de minha mãe.
Acordei minutos, ou foram segundos depois, não sei dizer, esbaforida e suando mais que um maratonista em final de prova. Talvez fosse efeito do sono perturbador, com cavalos e estábulos. Poderia jurar que senti o cheiro de esterco e couro em meu quarto! Isso era um sinal de que o que eu mais temia era o meu próprio medo. Mudar para um lugar estranho e distante era uma sensação parecida com a de andar a cavalos. Só de pensar em um quadrúpede desembestado sob as minhas pernas fazia os pelos do meu corpo arrepiarem.
Depois de um bom banho frio a lembrança do sonho foi esquecida e eu estava, novamente, me perguntando se havia mesmo tomado à decisão certa.
Para o meu próprio bem, esperava que sim.



CAPÍTULO 4

O aroma do café mesclado ao de pães frescos invadiu meu quarto trazendo deliciosas recordações das tardes em que minha mãe e eu passávamos juntas aos domingos. Era o único dia da semana em que nos permitíamos não fazer absolutamente nada. Minha boca encheu d'água só de lembrar o seu bolo de mandioca com coco e as rabanadas que fazia especialmente para mim. Se eu estivesse em um desenho animado agora, estaria flutuando em direção à sala, levada pelo aroma que perfumava todo o apartamento.
arrumava a mesa, colocando xícaras e pires enquanto Ângela trazia uma cesta de pães quentinhos. Elas não me viram entrar, então aproveitei a ocasião para olhar minhas amigas. Elas eram tudo o que me restava agora. Eram a minha família. Ignorar isso seria uma tremenda idiotice, mas não poderia impor isso a elas. e Ângela já tinham problemas demais para terem que se preocupar com os meus. Mas, mesmo assim, aqui estavam elas, preparando o lanche e me fazendo companhia. Porém, não fosse por um, ou mais um, inconveniente detalhe, aquela cena seria digna de um comercial de margarina. A família reunida em volta da mesa, sorrindo e partilhando o alimento. Mas aquilo tinha que estragar tudo.
Era muita forçação de barra.
— Isso já está passando dos limites! — esbravejei entrando na sala. — Vou dar um jeito nisso agora.
— Calma, . — interveio quando peguei o telefone. — Ele não faz por mal.
— Calma? Olhe só para esta sala, . É praticamente impossível andar aqui sem que uma caixa ou outra desabe. Eu já não aguento mais toda essa pressão.
— Sei que é difícil para você entender, . Mas veja o lado dele também. — falou Ângela servindo-me uma xícara de café. — Você ainda não deu nenhuma resposta a ele. Como pai, acredito que ele esteja apenas querendo que você viva com um pouco mais de conforto até que se decida. É um jeito meio torto de querer compensar o tempo que vocês viveram afastados, mas significa que ele se importa com você.
Respirei fundo, contando até dez. Já estava indo longe demais. A impressão que eu tinha era de que, quanto mais eu demorasse a resolver, mais caixas chegariam e aí eu teria que ser forçada a decidir, já que não haveria espaço ali para todas aquelas coisas e eu.
— Não é tão simples assim.
— Por que não? — rebateu puxando a cadeira para mim. — Você é quem está complicando as coisas, . Não é uma coisa definitiva. Você pode ir e, se não gostar, é só voltar. Veja isso como se fossem férias. Isso. Férias!
Quando digo que eu e este ser estranho que responde por minha amiga temos uma ligação que nem Freud explica, não é à toa. Eu já havia cogitado esta possibilidade. De encarar a ida para Ladônia como férias. Que mal haveria em passar alguns meses com a parte da minha família que eu não conhecia? Agora ela ia ficar impossível.
— Bruxa! — acusei-a, mostrando a língua para ela.
quicou na cadeira dando palminhas de felicidade.
— A-há! Eu não disse, mãe? Minha intuição nunca me engana.
— Isso quer dizer então que você vai aceitar o convite do rei e passar uma temporada em Ladônia? — quis saber Ângela, dando um gole em seu chá de ervas que cheirava tão bem quanto os pães quentinhos. — Está mesmo disposta a isso?
— Não. — respondi deixando escapar um riso nervoso. — Mas é isso ou continuar brigando com essas malditas caixas neste apartamento. E por falar nisso — levantei da cadeira e fui em direção ao motivo da minha explosão. —, o que Friedrich mandou desta vez?
Percebi que e sua mãe ficaram tensas com a minha atitude. O que era um tanto quanto suspeito, já que elas sempre foram a favor de que o rei de Ladônia me mandasse presentes.
— Er... , antes que você abra esta caixa, tem uma coisa que eu gostaria de te contar.
Aquilo me deixou mais tensa ainda. não era dada a encabulamentos e muito menos corar diante de alguma situação.
— Friedrich ligou a três dias perguntando se havia algo que você gostaria muito de ganhar ou comprar. Desculpe, . Mas eu falei sobre as suas aulas de violino então...
— Você fez o quê? ! — parei no meio do caminho — Você sabe que eu só levei as aulas de violino à diante por causa da minha mãe. Este era o sonho dela, não meu.
— Eu sei. Eu sei. Mas você toca tão bem que eu achei que não haveria problema...
Fã de música clássica, minha mãe sempre insistiu para que eu aprendesse algum instrumento. Ela era uma excelente pianista e seu sonho era que um dia pudéssemos tocar juntas em um concerto. No início eu bati o pé e me recusei, mas acabei me afeiçoando ao instrumento, porém, desde que eu soube da doença de minha mãe, me dediquei com mais afinco às aulas de violino e ceder ao seu pedido seria o mínimo que poderia fazer por ela naquele momento. Eu via em seus olhos um brilho contagiante, sempre que ia assistir as minhas aulas, contrariando as ordens médicas algumas vezes. Admito que levo jeito para a coisa, mas era algo que não queria mais para a minha vida. Era um sonho dela que se realizava através de mim e só. Não havia sentido continuar com a prática se ela não estaria lá para me assistir.

Junto com o presente de Friedrich — que nada mais era que um legítimo Estradivário —, vieram três ingressos para um concerto que aconteceria naquela noite. ficou em êxtase, já que aquela era a oportunidade perfeita para que eu tirasse o vestido que ganhei de Laura da caixa, e também porque a deixei arrumar meu cabelo e fazer a maquiagem. Em resumo, virei uma boneca Barbie em tamanho gigante nas mãos dela. As sete em ponto, a limusine alugada por Friedrich chegou e Seu Salvador nos avisou pelo interfone.
— Desta vez eu me superei. Você está linda, . — gabou-se ao prender um último grampo em meu cabelo e me girando para frente do espelho. — O que achou?
— Uau! — de fato havia feito um milagre. A garota leva jeito para a coisa. — Tem certeza que sou eu ali, refletida naquele espelho?
— Absoluta. Eu já disse que você é uma garota linda, . Só precisa saber explorar isso.
— Andem logo, meninas. O carro já chegou. — anunciou Ângela colocando apenas a cabeça dentro do quarto.
— Você ainda não se arrumou? — perguntei ao vê-la com a mesma roupa de hoje à tarde.
— Eu não vou.
— Por quê?
— Problemas no paraíso. — cochichou . — Sabe quando os gatos saem e os ratos fazem a festa? Traduzindo: Carlos dando trabalho mais uma vez.
Aquilo era muito injusto. Com todos os problemas que vinha enfrentando em seu casamento com Carlos, Ângela continuava tratando-me como prioridade. O altruísmo dessa mulher não conhece limites.
— Apressem-se, meninas. — disse Ângela cerrando os olhos severamente para a filha, antes de voltar para o corredor.
— Mas o que foi que eu fiz desta vez? — resmungou voltando para o espelho para dar uma última checada no visual.
— É proibido dizer a verdade agora?
— Foi um comentário totalmente desnecessário né, ? — falei, pegando minha bolsa sobre a cama. — Sei que ele não é perfeito, mas é dele que sua mãe gosta.
Ela revirou os olhos para mim e me entregou os nossos celulares e um vidro de gloss para que eu guardasse na bolsa.
— Não quero falar sobre isso. Será que podemos ir?



CAPÍTULO 5

Quase duas semanas inteiras haviam se passado e eu não consegui entrar em contato com Friedrich para agradecê-lo pelos ingressos para o concerto e pelo violino. Decidi então retomar a minha vida, pois sabia que mais cedo ou mais tarde ele retornaria as minhas ligações. Havia trabalhos da faculdade acumulados e um semestre inteiro de aulas da ONG para planejar. As tarefas conseguiam ocupar boa parte dos meus pensamentos, mas bastava uma pausa de cinco minutos para que eles logo se arrastassem para a memória de minha mãe. Meu celular começou a tocar e atendi as pressas achando que era Friedrich.
— Alô? — atendi um tanto empolgada demais, mas logo murchei ao ouvir a voz do outro lado da linha.
— Finalmente consegui falar com você! Eu sei que fui um tremendo babaca com você naquela noite, mas acho que não merecia todo esse gelo. — disse Matheus, falando tão rápido que se eu respirasse, ficaria perdida no meio do caminho.
— Ah. Oi... Matheus... É você?
— E quem mais seria? — percebi certa possessividade em seu tom, mas achei melhor ignorar. Precisava da minha linha desocupada e quanto antes ele desligasse, melhor. Então, começar uma discussão, estava fora de cogitação naquele momento.
— É que eu estava esperando outra ligação...
— É por causa desse cara que você tem me evitado todos esses dias?
— Quem falou em cara, Matheus? E outra. Eu não estou te ignorando. É só que... — era difícil colocar aquelas palavras para fora sem que me sentisse destruída por dentro.
— Desembucha, ! — exigiu. Seu tom me fez ferver de raiva. Como eu pude achar que estava apaixonada por esse ogro?
— A minha mãe morreu! E eu estive ocupada, cuidado do velório e das coisas dela. Tá bom para você ou isso seria excesso de informação?
A linha ficou muda por uns bons trinta segundos antes que Matheus abrisse a boca novamente. Mas eu não estava com paciência para suas crises de ciúmes e muito menos para a sua disputa territorialista com um adversário imaginário. Matheus era uma excelente pessoa; até você começar a namorá-lo. Uma pena eu ter percebido isso um pouco tarde demais. Não sou o tipo de pessoa que sente prazer em magoar os sentimentos alheios, mas, no caso de Matheus, eu estava seriamente pensando em abrir uma exceção. Eu não suportava mais aquela relação. Já seria complicado demais ter que olhar para ele todos os dias na faculdade sem isso.
— Mas que droga, . Eu sabia que ela estava mal, mas... — ele suspirou, soprando forte no fone. — Por que você não me ligou?
— Não é o tipo de notícia que eu goste muito de contar por aí.
— Poderia ter me procurado. Eu teria ficado do seu lado.
e Ângela me ajudaram. — não precisava mencionar Friedrich naquele momento. Matheus já era encanado demais para que eu desse mais asas à sua imaginação fértil. — Mas obrigada pela oferta. E...
Eu tinha que fazer aquilo agora? Não podia esperar até estarmos na cantina da faculdade mais tarde? Achei melhor adiar e reunir um pouco mais de coragem.
— Eu preciso desligar, Matheus. Tenho que preparar minha aula agora antes que as crianças cheguem. A gente se fala mais tarde?
— Claro, claro. Te vejo na cantina, depois da aula. Beijos.
— Tchau, Matheus.
Desliguei antes que ele pudesse pescar alguma informação subliminar em minha despedida. Pensaria nisso mais tarde, quando não tivesse tantos exercícios para elaborar.
O dia voou como um raio e não havia nenhuma chamada perdida de Friedrich no meu celular. Era estranho, mas aquela falta de notícias dele estava me preocupando. Não era típico dele, ignorar meus telefonemas. Na maioria das vezes esta era uma atitude minha. Pagando na mesma moeda? Acho que não. Afinal de contas, ele é um rei e só tem uma nação inteira para governar.
Depois do trabalho, segui para a faculdade sem vontade nenhuma. Na verdade, acredito que parte do desânimo devia-se ao fato de ter que encarar Matheus e terminar tudo. Então, me peguei pensando que, se tivesse aceitado o convite de Friedrich naquele dia, teria evitado estar passando por isso agora.
Entreguei meu trabalho de matemática I e fiz um teste surpresa de economia no terceiro tempo, antes do intervalo. Mas o que é que estava acontecendo com o tempo hoje? Parecia que sempre que eu olhava para o relógio, os ponteiros davam três voltas completas em menos de meio minuto. E foi com essa percepção, de que o dia de hoje seria o mais curto e ao mesmo tempo o mais longo, que forcei meus pés a me guiarem pelo campus em direção à cantina no final do prédio quatro. Apesar de saber que estaria lá também, não ajudava muito no fato do que eu estava prestes a fazer. Era como se meus pulmões tivessem perdido a capacidade de filtrar o oxigênio para o meu corpo. Queria conversar com ela antes, saber como fazer aquilo de um jeito que não o magoasse demais, mas seria impossível, já que Matheus esperava por mim na entrada. E, se meus olhos não estivessem me traindo, ele segurava uma caixa, em formato de coração. Meus chocolates favoritos. Deus, dai-me coragem, pois se me der paciência, não sei se serei capaz de fazer isso. Segui em sua direção estampando no rosto o sorriso mais convincente que consegui curvar em meus lábios e antes que eu pudesse me aproximar o suficiente para pegar em sua mão, Matheus me tomou num abraço sufocante.
— Ah, . Eu sinto muito. Você está bem?
As palavras ficaram presas na minha garganta, sufocadas pela minha covardia. Apenas balancei a cabeça, escondendo meu rosto em sua clavícula, enquanto pensava em algo para dizer e acabar de vez com aquilo. Ele me afastou, mantendo uma mão em meu ombro, para me entregar a caixa de chocolates com a outra.
— Espero que eles possam animar um pouco mais a sua vida.
Será que dá pra parar com isso? Eu estou tentando terminar com você!
— Obrigada. — disse apenas.
— Vem, separei uma mesa para a gente lá dentro.
Deixei que Matheus me rebocasse para dentro da cantina, percebendo olhares aqui e ali enquanto passávamos, mas não vi em parte alguma. Todos sabiam o que havia acontecido com a minha mãe. Era a fofoca do momento no campus da UFRJ.
Como Matheus não ficou sabendo? Até alguns alunos do curso de medicina, que ficava do outro lado da Cidade Universitária, com quem eu cruzei no início da semana, estavam sabendo. Ele me levou até a mesa em que costumamos nos sentar e puxou a cadeira para mim. Tinha alguma coisa errada. Tá, tudo bem que ser mimada era maravilhoso, mas ele nunca foi um cavalheiro e esse excesso de gentileza não se encaixava com o seu modus operandi. Por que eu estou com a impressão de que ele não só foi um tremendo babaca há algumas semanas, quando fez aquele escândalo desnecessário na fila do cinema, como também andou aprontando?
Diferentemente das outras vezes, Matheus não sentou ao meu lado e, ao invés disso, ocupou a cadeira diante de mim. Contrabalanceando com o seu comportamento quando cheguei, essa distância me pegou de surpresa. Eu não esperava dizer tudo o que pretendia com ele ali, me encarando. Preferia o conforto e o anonimato de uma conversa indireta, da qual eu não precisasse olhar diretamente em seus olhos. Ele esticou o braço e Rita, a balconista, veio até nós.
— Oi, . Que bom ver você aqui de volta. Sinto muito pelo que aconteceu com a sua mãe. — disse ela afagando meu ombro.
Rita é um amor de pessoa. Uma senhora já a beira dos cinquenta e muitos ou sessenta e poucos anos, mas que não tem nenhum fiozinho branco em sua vasta cabeleira negra, que ela mantém sempre presa num coque em uma rede de nylon. Seus olhos castanhos já viram muitas situações semelhantes a minha ao longo dos trinta anos em que trabalha ali. Seus pêsames, de todos os que eu ouvi no campus hoje, foram os que mais me soaram sinceros.
— É, ela já não estava muito bem mesmo. Pelo menos agora pôde descansar. Difícil agora vai ser seguir em frente sem ela.
— Verdade. Mas pode contar comigo para o que precisar. — concordou ela agora afagando meus cabelos e percebi o olhar frio e severo que lançou a Matheus. — O que vocês vão querer hoje?
— Obrigada, Rita. — minha voz saiu embargada. — Só um café, por favor.
— Para mim o de sempre. — disse Matheus evitando olhá-la.
Ela voltou para trás do balcão e falou com alguém através da janelinha que dá acesso à cozinha.
— Ela parece aborrecida com você. — falei assim que percebi que Rita estava longe o suficiente para não nos ouvir.
— É mesmo? Nem reparei. — desconversou Matheus, brincando com a caixa de chocolates sobre a mesa, girando-a com o indicador.
— Não vai comer?
Não sei se vou merecê-los depois que você ouvir o que tenho para dizer, era o que eu deveria responder, mas optei por: — Agora não.
Nós dois parecíamos completos estranhos sentados naquela mesa. Havia tanto a dizer, mas nada parecia adequado. Por duas vezes tentei começar o assunto, mas desisti, pois sabia, lá no fundo, que Matheus queria me contar alguma coisa. Deixaria que ele começasse a conversa. Covarde, acusou-me meu inconsciente. Ele parecia tão desconfortável quanto eu e então, para amenizar um pouco o clima, decidi seguir por um caminho menos tortuoso antes da derradeira conversa.
— E aí, o que aconteceu por aqui enquanto estive fora?
Aos meus ouvidos a pergunta soou natural, casual até, mas eu não esperava aquela reação de Matheus. Ele fez uma careta, como se alguém o tivesse chutado por debaixo da mesa e abaixou os olhos para a caixa que ainda girava debaixo do seu indicador, agora um pouco mais rápido que antes, apenas um borrão cor-de-rosa.
— Alguma coisa de errado com a minha pergunta?
Os giros pararam subitamente, mas ele ainda não olhava para mim. E, de cabeça baixa, disse:
— Você não falou com nos últimos dias, suponho.
De fato eu não falava com desde a noite do concerto no Municipal. Assim como eu, ela estava cheia de trabalhos da faculdade acumulados e estava fazendo horas extras no cursinho de inglês no qual dá aulas. Mas eu não entendia o que tinha a ver com a minha pergunta. Continuei em silêncio, esperando que ele me desse uma luz para o enigma, mas ele não o fez e continuou a fitar a caixa.
— Matheus, está tudo bem? — insisti e ele balançou a cabeça afirmando. — Mas então por que é que eu estou com a impressão de que você tem alguma coisa para me contar?
— Porque, como sempre, você está certa. — disse ele, abrindo o lacre da caixa de chocolates. — Tem uma coisa que eu gostaria de conversar com você. Mas não sei como começar.
— Que tal do começo? — sugeri, sem querer colocar pressão, mas morrendo de curiosidade.
Ele sorriu constrangido e pegou um chocolate em formato de estrela da caixa e me entregou. Eu aceitei ainda examinando seu rosto a procura de alguma informação, mas tudo o que vi foi um rapaz confuso e, até mesmo, arrependido.
— Foi uma coisa de momento — começou ele, olhando para todas as direções menos para mim. — Você estava me ignorando naquela semana e eu achei que por causa daquele meu comportamento ridículo no cinema, você não iria querer mais nada comigo.
— Bom, foi ridículo mesmo. Desnecessário até, mas não era motivo para que eu o ignorasse, Matheus. Eu te falei a razão de eu não ter entrado em contato antes. — expliquei.
— Eu sei, mas é que eu pensei... — ele deu de ombros e pegou outro chocolate na caixa e o enfiou na boca de uma vez só, mastigando lentamente antes de voltar a falar. — Acontece que eu pensei que você não queria mais saber de mim. Você já tinha dito tantas vezes que não suportava namorados que pegassem no seu pé que eu... Bem... Na minha cabeça já era certo de que você ia me dar um pé na bunda, então...
Quanto mais ele falava, mais sentido estava fazendo. Pela dificuldade em se explicar, só havia um motivo e, se a minha intuição estivesse certa, a emenda ia sair melhor que o soneto. E eu que estava preocupada em magoar seus sentimentos.
— Quem é ela? — perguntei na tentativa de facilitar um pouco para o seu lado. Ele me encarou como se uma segunda cabeça tivesse nascido sobre o meu pescoço e eu apertei os lábios para não rir, mas falhei debilmente.
— Isso não é engraçado, . — repreendeu-me ele, genuinamente ofendido. Que irônico, não? A ofendida ali deveria ser eu, afinal, era na minha cabeça que um par de cornos brotava.
— É, você está certo. Não é engraçado. — concordei e virei o rosto na direção da TV de plasma na parede ao lado.
Matheus não respondeu a minha pergunta quanto à garota com que havia me traído, mas aquilo já não me importava mais. Na verdade, até o que eu gostaria de dizer a ele perdeu totalmente a importância depois que meus olhos bateram na manchete anunciada no rodapé da TV. A CNN noticiava um acidente aéreo nos arredores de Edimburgo, na Escócia. Não dava para ouvir o que o correspondente internacional relatava, mas pude acompanhar a notícia pelas legendas que mudavam rapidamente enquanto ele falava. Ao que parecia, o acidente foi devido a uma pane elétrica na hora do pouso e, até o momento, a lista com os nomes dos passageiros a bordo não fora totalmente divulgada. No entanto, algumas fotos dos passageiros confirmados eram exibidas no canto superior direito da tela. Homens, mulheres, crianças e idosos. Até mesmo uma família inteira foi extinta devido à tragédia. Mas havia também alguns sobreviventes que, ainda recebendo atendimentos médicos no local, se prestavam a dar relatos sobre o incidente. Na medida em que as imagens mudavam, eu perdi completamente a noção de tempo e espaço. As vozes ao meu redor tornaram-se apenas sussurros desconexos e sem importância. As legendas continuavam a mudar freneticamente no rodapé da tela, tornando quase que impossível acompanhar a notícia. Ouvi com gratidão quando alguém pediu para que Rita aumentasse o volume da TV e de repente, todos se calaram para ouvir.
A lista, extraoficial, tinha para mais de cento e cinquenta nomes, mas apenas um em particular prendeu a minha atenção a ponto de eu me colocar de pé num pulo. Se o que o jornalista disse for mesmo verdade, isso explicava porque Friedrich não retornava as minhas ligações há duas semanas.



CAPÍTULO 6

— Calma, . Fala devagar. Eu não estou conseguindo acompanhar. — pediu , do outro lado da linha. — Quando foi que isso aconteceu? Tem certeza mesmo que era ela?
— Mas é claro que tenho, ! Quantas Laura Zorcky, você conhece? Não estou louca. Foi o nome dela que o jornalista disse. — afirmei, abrindo a porta do meu apartamento e disparando para o meu quarto.
Peguei a mala de viagem no alto do meu armário e a abri sobre a cama despejando aleatoriamente minhas roupas ali dentro, enquanto desistia de equilibrar o celular entre o ouvido e o ombro, colocando-o no viva voz. Eu não fazia a mínima ideia de como chegaria à Ladônia, mas precisava fazer alguma coisa, já que Friedrich não retornava as minhas ligações. A cabeça dele devia estar a mil e eu não era a melhor pessoa para julgá-lo. Lembro que quando minha mãe morreu, eu não queria falar com ninguém. Queria que o mundo esquecesse a minha existência.
— Mas se fosse mesmo ela, o seu p... Quer dizer, o rei Friedrich, já teria entrado em contato, não?
— Não se ele estiver ocupado com as equipes de buscas. — falei desabando na cama, sentindo um aperto profundo e desconhecido no peito.
Laura e eu mal havíamos trocado meia dúzia de palavras quando nos conhecemos, mas ela me parecia ser uma pessoa boa e não merecia um final trágico como aquele. Assim como minha mãe, era muito injusto ela ser arrancada precocemente de sua família de uma maneira tão violenta.
Pensei em Friedrich e em tudo o que ele deveria estar passando naquele momento. Apesar de ele e minha mãe terem tido uma história no passado, percebi que ele amava a esposa. O sentimento entre eles era mútuo e, de certa forma, bonito de se ver.
Uma lágrima tímida rolou em meu rosto, solidarizando-se com o sofrimento de Friedrich. Queria poder segurar em sua mão naquele momento, dar-lhe o apoio que ele precisava. Mas eu não estava lá! Ainda.
, você está aí? — chamou , sua voz distorcida saindo do viva voz.
— Sim. Estou. — respondi num arremedo de voz.
— Ô, amiga... — ficou em silêncio e percebi que, assim como eu, a notícia foi um baque para ela também. — Chego aí em cinco minutos.
Enquanto aguardava a chegada de , terminei de arrumar a mala. A todo o instante as imagens que vi na TV na cantina da faculdade eclipsavam a minha visão. O avião caído, todo o lado direito da aeronave não era mais que um monte de metal retorcido e disforme, as fotografias das vítimas, os depoimentos dos sobreviventes... Um arrepio percorreu meu corpo.
Liguei a TV do meu quarto na esperança de que o Jornal Nacional desse mais algumas informações sobre o acidente. Antes que as notícias do Brasil e do mundo fossem dadas, ainda precisei aguentar os minutos finais da novela que antecedia o jornal. Impaciente, fui até a cozinha preparar um café na cafeteira que Friedrich que me deu — o único presente dele que eu havia desembalado. Confesso que não fosse o meu vício pela cafeína, a máquina continuaria guardadinha no mesmo lugar.
Muitos comerciais depois, finalmente ouvi a familiar chamada do jornal e voltei para o quarto correndo. Já de cara, Willian Bonner, âncora do jornal, começou com a notícia sobre o acidente em Edimburgo e um link para o correspondente local foi aberto. O repórter começou com um resumo detalhado do acidente e que o laudo da caixa preta só ficará pronto no final do mês, mas que os técnicos não descartavam a possibilidade de que uma falha elétrica tenha sido a causa do acidente. Em meio às informações, finalmente ouvi o que mais me incomodava desde o momento em que soube do acontecido.
— As famílias das vítimas continuam aguardando pela divulgação oficial da lista de passageiros. — disse o jornalista. — A lista só saiu hoje, no final da tarde, e será anunciada agora de madrugada, através de um porta-voz da companhia, em uma coletiva marcada para as duas horas da manhã, horário local. Estima-se que, a bordo, havia cento e cinquenta passageiros. Entre eles: dois pilotos e cinco membros da tripulação. Até o momento, apenas vinte vítimas fatais foram confirmadas, cento e quinze feridos e quinze ainda desaparecidos. — enquanto o jornalista narrava, uma imagem aérea, acredito eu que, feita no inicio da tarde, era passada. — As equipes de buscas ainda estão circulando a área, mas a mata fechada atrapalha na localização das vítimas sobreviventes que se refugiaram na floresta.
Mais uma vez os nomes e as idades das vítimas fatais foram anunciados e foi com alívio que constatei que Laura não estava naquela relação. Mas ela tampouco estava na listagem dos sobreviventes feridos. Minha última esperança fiava-se no fato de que, talvez, o grupo que procurou abrigo na mata estivesse bem. Fisicamente, pelo menos. Como que para confirmar as minhas esperanças, o repórter continuou:
— Acredita-se também que a rainha Laura Zorcky seja uma das sobreviventes. O rei Friedrich Zorcky veio pessoalmente à Edimburgo e está participando ativamente junto com as equipes de busca. O povo de Ladônia está fazendo uma vigília diante do Palácio di Plázio, em oração pela vida da rainha.
Naquele momento, entrou no meu quarto. O rosto tão pálido quanto às velas do castiçal da mesa de jantar. Com os olhos cheios d'água, ela venceu a distância entre nós e me abraçou.
— Sinto muito, amiga.
Eu não sabia o que dizer. Laura não era nada minha, exceto a esposa de meu suposto pai e rainha de uma nação que a idolatrava como uma santa. Mas ainda assim, senti muita afeição por aquela mulher, que lembrava e muito a minha mãe, quando nos conhecemos. afrouxou o abraço e afastou-se de mim. Seus olhos estavam úmidos.
— Ela está bem. — eu disse. Mas parecia que queria convencer a mim mesma disso.
— Eu sei.
— Então chega dessa choradeira e me ajude a levar esta mala para a sala. Vou deixar as chaves do apartamento com vocês. Amanhã vou ao consulado de Ladônia dar entrada no meu visto e... — calei minha tagarelice quando percebi que não havia saído do lugar e eu estava falando sozinha e apenas as paredes do corredor pareciam me ouvir. Olhei para ela que encarava o chão, incapaz de olhar para mim. — , o que houve?
Sabe quando você tem a impressão de estar vivendo um déjà vu? Não sei bem, mas tinha a sensação de ter visto aquela mesma reação não fazia muito tempo. Mas continuei aguardando por uma resposta dela, que parecia estar mais interessada nas unhas dos pés, pintadas num vermelho sangue, do que em me responder.
— Eu nem sei por onde começar, . — o miado de um gato teria sido mais alto que o seu tom. — Para ser sincera, não queria ser eu a portadora desta notícia, mas sou sua amiga e me chateia ver as pessoas te sacaneando.
Rebobinando os acontecimentos do meu dia até aquele momento, sou transportada até a cantina, mais precisamente a uma mesa do fundo, onde Matheus e eu nos encontramos no final da tarde. Foi uma conversa semelhante, mas que não chegou a ser concluída devido à notícia que vi na TV e precisei sair de lá às pressas. Matheus não chegou a me dizer quem era a tal garota e alguma coisa me dizia que sabia quem era. Daí, o que Matheus disse, começou a fazer sentido: Você não falou com nos últimos dias, suponho
. — , se tem alguma a ver com o Matheus, pode falar. Nós conversamos hoje.
— Eu não acredito que aquele safado teve a coragem de fazer isso com você. — falou irritada. Percebi que seus punhos se fecharam ao lado do corpo. — Eu disse a ele que contaria a você se ele não tomasse uma atitude. Mesmo sabendo do que aconteceu com a sua mãe, aquele cretino teve a coragem de sair com a Sheila.
Foi como levar um tapa sem mão ouvir o que acabava de me contar. Durante o nosso encontro e até mesmo ao telefone, Matheus deu a entender que não sabia do que havia acontecido com a minha mãe. E agora fico sabendo que ele sempre soube! Então estava explicado a caixa de chocolates e o olhar mordaz de Rita hoje.
— Ele sabia?
— É claro que sabia, . Todos os nossos amigos e alguns conhecidos também. Sua mãe era muito querida por lá, você sabe. Alguns até ficaram mais tristes por não poderem mais ir a uma festa organizada por ela do que por sua morte propriamente dita.
— E eu achando que estava sendo cruel por terminar com ele. Quanta estupidez!
— Você não sabe como fico feliz em saber que vocês terminaram. — disse ela, incapaz de esconder sua satisfação.
Não era segredo para ninguém que não via meu relacionamento com Matheus com bons olhos. Eles já haviam namorado há algum tempo e, mesmo com todas as recomendações e contra e indicações de , resolvi investir. Resultado: quebrei a cara bonito. Ela me lançou um olhar do tipo eu te avisei e colocou as mãos na cintura.
— Tá bom. Você estava certa. Satisfeita?
— Não. Mas você bem que poderia me dar ouvidos de vez em quando. — ela balançou a cabeça e pegou a minha mão. — Agora me conte, que história de acidente é essa?

ficou boquiaberta com o que lhe contei e ela mesma estava chocada por não ter visto os noticiários nos últimos dias. Nem mesmo Ângela havia comentado (e olha que ela é a maior noveleira que eu conheço!). Assim como eu, estava atolada de trabalhos da faculdade e estava se desdobrando para cobrir uma licença no trabalho. Uma das professoras precisou fazer uma cirurgia de última hora, pegando todos de surpresa, inclusive , ao anunciarem que ela assumiria as suas turmas e as da colega afastada até que ela retornasse.
Contei a ela também dos meus planos de ir para Ladônia o quanto antes, tão logo meu visto fosse liberado e que por esta razão, não queria perder tempo com atividades demoradas como fazer as malas.
— Eu preferia que você estivesse indo para lá num outro contexto. — confessou , servindo o café em duas xícaras enquanto eu tirava um tabuleiro de pães de queijo do forno. — Chegar lá assim, no meio dessa confusão não vai ser nada legal, ainda mais com o rei longe de casa. O que as pessoas vão pensar quando a vir chegando com uma mala e bradando aos quatro ventos que é a filha bastarda do rei?
— Não faço a mínima ideia. Mas não vou arrendar o pé de lá enquanto não conseguir falar com ele. — dei de ombros colocando um pão de queijo na boca e queimando a língua. — Vou me juntar ao grupo de orações na frente do palácio, se for preciso.
— Quem é você e o que fez com a minha amiga que estava determinada a não ter nenhum vínculo com a realeza de um país da Europa Ocidental, menor do que o estado de Sergipe? — gargalhou e esticou a mão para pegar um pão de queijo do tabuleiro, mas eu a detive com um tapinha.
— Ela ainda está aqui. — declarei desanimada. — Mas não posso lhe negar solidariedade neste momento. Mesmo sem saber como seria recebido por mim, ele veio aqui, atendendo a um último pedido de minha mãe. É o mínimo que eu posso fazer, .
Ela pegou a minha mão.
— Eu sei disso. E é por isso que me orgulho de ser sua amiga.



CAPÍTULO 7

Eu mal consegui pregar os olhos durante a noite. Na companhia do controle remoto, zapeei pelos canais a procura de notícias mais atualizadas sobre o acidente de avião, mas não havia nada de novo. Nenhum progresso nas buscas. Durante o expediente também não foi diferente. Entre uma aula e outra, acessei aos sites dos principais jornais internacionais, mas até mesmo eles estavam sem novidades. Minha única opção foi esperar até o horário do meu almoço, quando finalmente iria ao consulado. Já havia deixado tudo resolvido no trabalho também. Conversei com Caio, meu chefe, e lhe expliquei toda a história. Claro que ele não acreditou no início, mas depois de alguns minutos e ver uma fotografia de Friedrich, ele finalmente se convenceu de que eu era a cópia fiel do rei.
— Vou ter que acrescentar ao currículo da ONG que uma de nossas voluntárias era a filha de um rei. — ele riu, ainda balançando a cabeça, incrédulo, diante da fotografia na tela de seu laptop. — Como a sua mãe pode esconder isso de você por tanto tempo?
— Talvez porque ela quisesse evitar reações como essa. — nós rimos e logo depois fui dispensada e liberada para resolver tudo o que precisava sem me preocupar em voltar a tempo para o fim do expediente.

Depois de uma madrugada praticamente insone e nenhuma novidade sobre o acidente ao longo do dia, cheguei ao consulado. Fui submetida a uma série de entrevistas, onde avaliaram o meu nível de inglês, minha condição financeira e os motivos que me levaram a fazer aquela viagem. Eu não podia falar que era a filha do rei. O que certamente tornaria tudo menos burocrático e mais rápido. Mas minha certidão de nascimento tinha um espaço em branco onde o nome de Friedrich deveria estar escrito e com certeza as cartas trocadas pelos meus pais, não comprovaria nada. Porém, felizmente consegui a autorização do meu visto. Eu estava liberada para ir a Ladônia.
A ida ao consulado levou menos tempo do que eu imaginava, o que foi ótimo, já que ainda precisava comprar a minha passagem e resolver algumas coisas com e sua mãe. Segui em direção a Praça XV e aguardei. A próxima barca só sairia às quatro da tarde. Comprei umas revistas na banca de jornal e fiz um lanche na lanchonete do terminal sabendo que aquela era a minha primeira refeição do dia. E não era nada saudável.
Em apenas um mês, toda a minha vida havia mudado. Perdi minha mãe para o câncer, o que me fez rever os meus hábitos, mas ganhei um pai. Pai este que durante anos não nutri esperanças de conhecer e que fazia um péssimo julgamento a seu respeito. Nosso primeiro (e único) encontro não foi em um momento de alegria. Minha mãe tinha acabado de morrer e eu levei um bom tempo para processar a informação. Depois de tantos anos sem ao menos saber o nome, descobrir quem é o seu pai e que ele nada mais é que o rei de uma nação é de fazer qualquer um tremer nas bases. O irônico nisso tudo é que antes eu não queria ouvir falar em partir para Ladônia e agora, aqui estava eu, disposta a fazer de tudo para estar perto de Friedrich e lhe dar apoio neste momento. Eu queria que alguém tivesse feito isso por mim. Não que Ângela e não o tivessem feito. Eu sou grata a elas por isso, sério, mas não era a mesma coisa.
E agora tinha Laura. Aquela mulher mexeu comigo. Havia algo nela que eu não sabia explicar. Ela me transmitia paz e no meio do caos em que eu me encontrava quando nos conhecemos, ela me ofereceu conforto com suas poucas palavras. Deus, permita que ela esteja bem. Ofereci uma prece silenciosa e segui com os outros passageiros para a plataforma de embarque quando os portões se abriram.
Uma brisa fria soprava do mar e uma chuva forte caiu sobre nós. Sempre tive muito medo das chuvas que caíam durante a travessia da barca. Não é o meu meio de transporte favorito, mas como estava tendo uma manifestação que fechou toda a Avenida Presidente Vargas, não queria passar horas fechada dentro de um ônibus lotado.
— Droga! Maldita mania de trocar de bolsa. — praguejei inconformada com a ideia de me molhar toda por ter esquecido o guarda-chuva na outra bolsa.
— Esse lugar está vago?
Olhei para cima e vi Matheus de pé. Seu terno claro estava com o lado direito salpicado de gotas de chuva. Ele ajeitou a mochila nos ombros aguardando a minha resposta.
— Eu estava sentado na janela, mas a chuva estava forte demais. — explicou, justificando o motivo para a mudança de lugar. — Então, posso?
— Claro. A barca é um local público. — grunhi, agradecendo por as cadeiras serem individuais e pelos braços que separavam umas das outras. O que limitaria seus movimentos caso ele tentasse algo ousado.
— Obrigado.
Eu não estava interessada em uma conversa amigável e informal com Matheus, então pesquei meu iPod do fundo da bolsa e tapei meus ouvidos com os fones, colocando o volume mais alto que os meus tímpanos pudessem suportar. Pelo canto do olho, percebi que ele me encarava e cada virada de página que eu dava em minha revista era seguida por seus olhos atentos. Continuei ignorando-o até que toda aquela avaliação tornou-se insuportável.
Tirei os fones.
— O que foi? — não esperava que meu tom soasse tão rude, mas depois do que me contou ontem, isso era o máximo que ele teria de mim.
— Estou preocupado com você.
— Sério? — sarcasmo nível máximo. — Não vou tentar suicídio me jogando de uma barca em movimento porque o meu namorado, agora ex, me traiu com a garota que eu mais detesto na vida. Por me fazer parecer ridícula na frente da faculdade inteira ao ser vista na companhia dele depois de tudo o que ele fez. — meu tom subiu umas oitavas e alguns passageiros viraram as cabeças para ver o que estava acontecendo. — Então, poupe-me das suas preocupações. Elas são totalmente desnecessárias.
— Vejo que você e conversaram, então. — ele abaixou a cabeça examinando as mãos. — Eu não queria que aquilo tivesse acontecido. Eu te expliquei o que houve...
— Não explicou, não. Você mentiu. — acusei. A raiva dominando meus olhos. — Você sabia o que havia acontecido com a minha mãe e mesmo assim fez o que fez. Foi imperdoável, Matheus.
— Podemos, ao menos, sermos amigos?
— Não acho que você tenha o direito de me pedir isto.
— Por que não? — questionou ele puxando o fone que eu havia acabado de colocar no ouvido. — Acho que esta é a única relação que se encaixa bem para nós. Você sabe disso.
— Vou pensar no assunto. — prometi. — Mas não vai ser hoje e nem agora. Tenho coisas mais importantes para resolver e acho que vamos ficar um bom tempo sem nos ver.
— Do quê você está falando?
— Nada. — desconversei colocando os fones de volta no ouvido e aumentando o volume.

— Não! — exclamei irritada olhando para a tela do computador. — Isto não pode estar acontecendo.
Ângela entrou no escritório — o quarto de hóspedes que minha mãe havia convertido em escritório anos atrás para trabalhar e guardar todos os seus documentos — com um pano de pratos no ombro enxugando as mãos no avental.
— O que houve?
— Todos os voos para Ladônia foram suspensos e não há previsão de quando estarão disponíveis. — joguei o corpo para trás, batendo as costas com força no encosto da cadeira. — Só pode ser algum tipo de castigo.
— Não diga isso, querida. Pode ser alguma pane no site da companhia. — disse Ângela massageando meus ombros. Suas mãos cheiravam a alho e cebola e eu me senti culpada por ela estar se encarregando da minha alimentação com mais frequência que o necessário. — Por que não descansa um pouco e tenta novamente mais tarde?
Acatei ao seu pedido e desliguei o computador. Mas acontece que, nem naquele dia e em nenhum outro, ao longo da semana, eu consegui comprar o raio da passagem. Continuei acompanhando o andamento das buscas pelo noticiário, mas o nome de Laura não fora citado uma única vez naquela semana. Finalmente, na sexta-feira, as equipes de buscas tinham localizado o grupo que se abrigou na mata. Uma imagem feita no momento do resgate era passada enquanto o jornalista narrava os acontecimentos. A cada pessoa que saía em meio às árvores acompanhadas pelos membros da equipe de salvamento, uma salva de palmas eclodia e uma equipe médica de prontidão ia ao encontro das vítimas.
Minhas esperanças já estavam por um fio, quando finalmente o jornalista deu a notícia que me perturbou desde que soube do acontecido.
— Após dias de incansáveis buscas, finalmente a rainha Laura de Ladônia foi encontrada. — disse o repórter com empolgação. — Apesar de alguns ferimentos superficiais e muito debilitada pelos dias de refúgio na mata fechada, a rainha passa bem. Ela já foi medicada e hoje a noite ainda partirá em um avião particular da família real para Ladônia. Agora vamos falar com Melissa Fortes que está em frente ao Palácio di Plázio e nos dará mais informações.
A imagem foi cortada e o link para a outra repórter foi aberto. Mesmo com a chuva forte que caía a população ainda se aglomerava diante do palácio. Cartazes com frases de apoio a família real misturavam-se aos cânticos entoados pelo povo. A repórter surgiu diante da tela, abrigada em uma capa de chuva amarela.
— A expectativa pela chegada da rainha é grande aqui, Otto. — disse ela, com um sorriso. — Segundo o boletim médico, a rainha passa bem e apenas um repouso e descanso lhe foram receitados. A rainha Laura voltava de uma viagem de dois dias ao Oriente Médio, onde realizava sua costumeira compra de tecidos. Ela declarou que o incidente não a impedirá de retornar ao continente asiático outras vezes e que espera voltar lá em breve, já que toda a sua bagagem foi perdida no acidente. — a repórter riu e eu me peguei rindo com ela, embora estivesse com o rosto umedecido pelas lágrimas. — Ela não perde o bom humor nunca. É por isso que ela é uma das pessoas mais queridas de seu país. É com você, Otto.



CAPÍTULO 8

O mês de abril começou frio e com muitas chuvas. Mas isso não foi capaz de abalar o meu humor. Finalmente, depois de tanto tempo, Friedrich entrou em contato. Eu não conseguia esconder o tamanho da minha felicidade em falar com ele. Acredito que ele tenha sido pego de surpresa pela minha calorosa saudação ao telefone:
— Como é bom falar com você outra vez. Eu fiquei tão preocupada.
— Desculpe não ter retornado antes, filha.
Como se ele precisasse se desculpar por alguma coisa.
— Eu entendo perfeitamente. — apressei-me em dizer. — Não tem do quê se desculpar. Lamento não poder estar aí com você. Não consegui comprar a passagem...
— Você estava disposta a vir para Ladônia? — perguntou surpreso. Na boa, até eu ficaria depois de ter me portado tão mal durante a sua visita.
— Sim. — respondi envergonhada.
— Vamos cuidar disso. — Embora não pudesse ver, percebi o sorriso em seu tom.
Eu não queria me deixar empolgar por seu comentário, então preferi falar sobre um assunto mais importante.
— E a Laura, como está? Ela não se feriu mesmo, não é?
Ele riu do outro lado da linha.
— Por que não pergunta você mesma? Ela está bem aqui ao meu lado.
Sabe quando parece que todo o ar some dos seus pulmões? Adicione a isto uma leve parada cardíaca e entenderá como me senti quando ouvi a voz de Laura do outro lado da linha.
, querida. Como é bom falar com você novamente. — sua voz suave me trouxe recordações de minha mãe. Coisa que sempre acontecia quando Laura falava. Mas fiquei feliz em ouvi-la novamente. — Ouvi dizer que estava disposta a vir para Ladônia quando soube do acidente. Se eu soubesse que esta seria a maneira de você vir ficar conosco, teria me acidentado antes.
— Não diga isso nem de brincadeira! — ouvi Friedrich ralhar com ela do outro lado da linha.
— Concordo com ele. — tentei soar imponente como o rei, mas não tive tanto sucesso. — Não brinque com isso. Mas diga, você está mesmo bem? O que os médicos disseram? Qual o diagnóstico?
— Quantas perguntas. — ela riu novamente. Sua risada era gostosa e natural. Sua alegria aflorava facilmente. Era por isso que seu povo a amava e isso era evidente pelas manifestações de carinho que vi pela TV nos últimos dias. — Estou bem sim, . Fora uma leve desidratação pelos dias na mata, estou bem. Um pouco mais magra também o que, cá entre nós mulheres, às vezes vem bem a calhar. — ela riu de novo. — Mas não precisa se preocupar. Eu estou bem.
— Agora eu sei que sim.

Falei com Friedrich e Laura durante toda a última semana. Ela havia me confidenciado que o motivo de sua ida à Índia foi para comprar tecidos para a confecção do meu vestido de apresentação. Eu disse a ela que não havia necessidade e que ela não deveria ter colocado a vida em risco por causa de um pedaço de pano. Se ela ficou chateada com o meu comentário, não deixou transparecer e logo mudou de assunto.
— É uma pena que Friedrich tenha viajado. — disse ela chateada. — Queria muito que você viesse para Ladônia neste fim de semana. Meu filho, , está chegando de um intercâmbio na Austrália e nós faremos uma festa de boas vindas para ele. Gostaria muito que você estivesse aqui.
— Filho? — Eu tenho um irmão? A pergunta chegou à ponta da minha língua, mas não quis ser indelicada.
— Isso. Meu filho. — confirmou ela, dando ênfase no pronome possessivo. — é fruto do meu primeiro casamento. Meu marido, Ivan, morreu quando ele tinha cinco anos.
— Uau! — foi só o que consegui dizer.
— Você ficou monossilábica de repente. — Laura gargalhou. — Confesso que nem seu pai ficou tão surpreso quando soube da existência dele.
— Você me pegou de surpresa, só isso. Claro que eu adoraria estar aí, mas deve estar havendo algum problema com o site da companhia aérea. Acredita que só eles têm voos para Ladônia?
também teve o mesmo problema. Ele estava tentando voltar desde que soube do acidente. — disse ela num tom que sugeria que o filho estava fazendo tempestade em copo d'água. — Mas ele disse que passou madrugadas acordado na frente do computador até conseguir.
Como se eu não tivesse tentado também. Mas a verdade é que, desde que soube que Laura estava bem e em casa, desisti de tentar. Agora me sentia mal por escutar isso.
— Mas não se preocupe, querida — continuou ela —, oportunidades não faltarão.

A manhã de sexta-feira estava fria. Era um daqueles dias que sugeria passar o dia todo no sofá debaixo das cobertas. E foi exatamente o que fiz. Virei de lado e fechei os olhos, deixando que a minha imaginação me levasse para longe. Mas eu não cheguei nem mesmo a sair do meu bairro, quando a campainha tocou. Fiquei quietinha, fazendo o mínimo possível de barulho. Ainda bem que não havia ligado a TV. Eu só queria alguns minutos de descanso. Será que era pedir demais, meu Deus?
Quem quer que fosse do outro lado da porta, não se satisfez em apenas tocar a campainha e começou a esmurrar a porta. Onde é o incêndio, gente? Balancei os pés para me desvencilhar da manta e levantei do sofá, perdendo um pouco do equilíbrio e quase caí sobre uma das muitas caixas que ainda estavam espalhadas pela sala.
— Já vou. — gritei na direção da porta enquanto me enrolava na manta.
Se eu tivesse a mínima ideia do que me aguardava do outro lado da porta, teria, pelo menos, penteado os cabelos, pois com certeza eu devia estar com impressão de ter um monte de feno onde deveria haver fios ruivos. De calça jeans escura e camisa polo azul, Friedrich tirou os óculos escuros e olhou para mim abrindo um sorriso largo, estendendo-me um saco de papel que, pelo cheiro, eram pães fresquinhos e quentinhos. Minha barriga roncou constrangedoramente.
— Bom dia, . Imaginei que estivesse com fome. Posso?
Dei um passo para o lado liberando a entrada para ele, mas não o segui. Continuei no corredor aguardando. A porta do elevador abriu e Dona Martina saiu segurando Vlad, seu Yorkshire, nos braços e acenou para mim. Eu acenei de volta e então entrei.
— Onde está Laura? — perguntei antes de fechar totalmente a porta.
— Ela não pode vir desta vez. Mas mandou lembranças. Onde eu posso colocá-los? — perguntou ele varrendo os olhos pelo apartamento tomado de caixas. Uma careta de desapontamento surgiu em seu rosto. — Não gostou dos presentes?
— Er... Claro, claro. Gostei muito. Só não tive tempo para arrumá-los no lugar. Desculpe.
— Não precisa se desculpar, filha. A culpa foi minha. Eu deveria ter perguntado a você do que estava precisando e não soterrá-la no meio de todas essas caixas. E eu aqui achando que estava lhe proporcionando uma vida confortável. — ele sorriu e apontou para uma caixa diante do sofá. — Olha aquela ali, dá um descanso de pés e tanto, não?
Olhei para o caos que minha casa havia se tornado. Eu tinha tudo ali, menos conforto. Friedrich pareceu perceber o mesmo e então começou a rir.
— Acho que exagerei um pouco.

Friedrich e eu passamos a manhã sentados no sofá apenas conversando. Ele queria saber mais sobre mim e como era o meu relacionamento com minha mãe. Eu poderia passar horas e horas falando sobre a pessoa maravilhosa que ela era, do seu jeito desafinado de cantar, a maneira como penteava os cabelos, de como ela sorria... Contei a ele que, aos domingos, nós duas costumávamos ficar assim, exatamente como estávamos, sentadas no sofá falando banalidades ou assistindo a algum filme água com açúcar na TV. Durante a semana quase não encontrávamos. Minha mãe trabalhava muito e eu, por causa da faculdade e do trabalho na ONG, chegava em casa exausta e mal trocávamos algumas palavras antes de irmos dormir. Levávamos uma vida razoavelmente boa e tranquila, até que veio a notícia de sua doença. Foi como se o chão tivesse se aberto debaixo dos meus pés. Não conseguia aceitar como uma coisa tão horrível como aquela, pudesse ter acontecido justamente com a minha mãe. Ela era tão cheia de vida, ativa e vê-la definhar dia após dia, foi demais para mim.
Friedrich segurou minha mão e puxou-me para um abraço desajeitado. Era difícil falar sobre isso. Era difícil olhar para aquele apartamento e não sentir a presença dela em cada cantinho.
— Posso imaginar como está sendo difícil para você. — disse ele, ainda me prendendo em seus braços e com o queixo apoiado sobre a minha cabeça. — Mas não precisa mais ter que passar por tudo isso sozinha, você sabe disso, não sabe? — apenas balancei a cabeça afirmando e me afastei. Friedrich passou os polegares em minhas bochechas secando as lágrimas que eu sequer havia me dado conta de ter derramado. — Pode contar sempre comigo para o que precisar, . Eu não estive presente nos últimos dezoito anos, mas farei o que estiver ao meu alcance para fazê-la feliz.

Na hora do almoço, Friedrich me ajudou a preparar a comida. Bom, ele tentou. Levou quase vinte minutos para descascar dois dentes de alho e eu praticamente tive que expulsá-lo da cozinha quando quase cortou o dedo ao partir uma cebola ao meio. Mas Friedrich queria continuar seu interrogatório a respeito da minha vida. Porém, agora era a minha vez de alvejá-lo com perguntas. Bom, na verdade havia uma que eu estava muito inclinada a fazer desde que conversei com Laura há alguns dias.
— Por que você e Laura não tiveram filhos? — perguntei sem tirar os olhos do molho na panela.
— Nós tivemos. — disse ele, parando de mastigar um pedaço de pimentão, sentado no banco alto, me assistindo cozinhar. Apaguei o fogo e girei, ficando de frente para ele. Friedrich começou a fazer desenhos imaginários com a ponta do indicador sobre o balcão da cozinha. — O nome dela era Mysie. Laura estava tendo uma gestação complicada e os médicos a recomendaram ficar de repouso. Mas seus sangramentos eram constantes. Ela ficou semanas no hospital, recebendo tratamento. Seu estado se estabilizou depois de alguns dias, mas antes de a mandarem para casa, os médicos queriam fazer novos exames.
A atmosfera na cozinha ficou pesada demais, parte disso devia-se a expressão mortificada no rosto de Friedrich. Peguei o outro banco alto e me acomodei ali. Embora estivesse mexendo há poucos minutos em uma panela quente, minhas mãos ficaram frias.
— Levaram Laura para mais um exame de ultrassom. — continuou ele olhando fixamente para a aliança em seu anelar esquerdo, elegendo involuntariamente o objeto como apoio. — Não entendemos por que precisaria de mais exames já que ela estava bem. E foi então que recebemos a notícia de que o bebê estava morto.
Senti a umidade de uma lágrima tímida que rolava em meu rosto e a afastei de um jeito nada delicado, o que acabou fazendo de mim o foco da atenção de Friedrich.
— E não tentaram novamente depois disso?
Friedrich balançou a cabeça negando e esboçando um sorriso desanimado.
— Mesmo que quiséssemos, seria impossível. O sangramento durante a gestação foi causado por problemas na placenta. Laura teve que ser submetida a uma histerectomia.
Senti um embrulho no estômago e logo a fome passou. Como a vida era injusta. Enquanto Laura, uma mulher adorável e gentil, queria tanto ser mãe novamente, há tantas mulheres por aí que têm mais filhos do que podem contar e os doam como se fossem objetos usados. Sinceramente, não dava para entender.
Uma vez perdido o clima para cozinhar, Friedrich sugeriu que saíssemos para almoçar e assim aproveitar para saber mais um pouco sobre mim e os lugares que gosto de ir. E lá fomos nós, para mais uma rodada da inquisição Friedrichiana.



CAPÍTULO 9

Meus olhos ainda estavam muito inchados — resultado de uma noite de despedidas regada a muita choradeira —, quando acordei de meu cochilo, sentada em uma poltrona de couro creme no avião particular da família real de Ladônia. Friedrich me encarava com o queixo apoiado sobre as mãos entrelaçadas e um sorriso que não saía de seu rosto desde que embarcamos.

* * *


Assim que voltamos de nosso almoço, não pudemos mais evitar o elefante branco no meio da sala, neste caso, representado pelas duas malas vermelhas ao lado do sofá. Minha decisão de partir para Ladônia fora tomada há dias, mas agora que era real, a ficha ainda não tinha caído.
e Ângela chegaram no final da tarde, trazendo uma bandeja de rabanadas (meu quitute favorito!), e eu não consegui controlar a emoção em me dar conta de que não as veria mais tão cedo. Sentiria falta das invasões no meio da noite de com sua tagarelice desenfreada. De cruzar com Ângela no corredor de madrugada, quando ela e minha mãe ficavam trabalhando até tarde no escritório. Elas eram parte de mim. Parte da minha vida. A minha família. E agora eu teria que dizer adeus. Ou, como disse , “até breve”.
— Prometa que mandará notícias sempre. — exigiu , seu rosto brilhava com a umidade das lágrimas que não paravam de rolar de seus olhos. — Deixe seu celular sempre por perto, o computador ligado vinte e quatro horas por dia.
— Prometo. — garanti, dando-lhe um forte abraço. — Prometa-me que vai pegar leve com a sua mãe.
olhou para Ângela e balançou a cabeça concordando.
— Cuide-se, . — falou Ângela, ocupando o lugar deixado por sua filha que foi ao banheiro buscar mais uma caixa de lenços. — Estaremos sempre aqui para o que precisar.
— Eu sei. — e a abracei mais forte antes de acrescentar: — E quero que você e me visitem em Ladônia também. Elas podem ir, não é, Friedrich?
Friedrich foi pego de surpresa ao me ouvir chamá-lo e não conseguiu esconder o quanto a nossa despedida o comovia também. Ele passou as mãos rapidamente pelo rosto antes de responder.
— Mas é claro. Vocês serão sempre bem-vindas.

* * *


— Todos estão ansiosos com a sua chegada. — anunciou Friedrich quando me inclinei em direção à janela para observar o terreno a muitos mil pés de altura abaixo de nós.
Era como estar diante de um enorme quebra-cabeça. Dava para ver nitidamente a demarcação dos terrenos, a paleta de cores em dégradé que só a Mãe Natureza sabia como usar. Dentro de poucas horas eu estaria pisando naquelas terras. Terras estas que até então nunca tinha escutado falar. Pelo alto-falante a voz do comandante anunciou que estávamos nos preparando para a aterrissagem, assim como informou que o clima em Ladônia estava agradável, porém um pouco frio. Embora passasse de pouco mais das sete da noite, ainda era possível ver os raios do sol primaveril refletindo no lago.
— Como está se sentindo? — quis saber Friedrich desafivelando seu cinto para sentar-se ao meu lado.
— Apavorada. Assustada. Todos os “ada” que você conhecer. — ele soltou uma gostosa gargalhada.
— Apenas relaxe e seja você mesma. Laura já cuidou muito bem da sua imagem por lá, fazendo uma propaganda daquelas.
— Se a sua intenção era me acalmar, lamento informar, mas falhou totalmente. Agora sim estou em pânico!
— Fique calma, . Não arrancarão pedaços de você.

O jato de Friedrich pousou no aeroporto de Malta, capital do país. Do hangar, seguimos para um heliporto que ficava a poucos metros de distância, onde o piloto e outro homem, ao melhor estilo segurança de boate, já nos aguardavam, parados ao lado de um helicóptero com o brasão da família real estampado na lateral. Dois empregados se encarregaram das nossas malas enquanto Friedrich cumprimentava os homens que o receberam com uma reverência.
— Majestade. — disse o segurança de boate a Friedrich, em inglês, tirando os óculos escuros espelhados. Certamente não foi só Laura quem andou fazendo propaganda sobre mim, já que Friedrich fez questão de se comunicar com o homem num idioma que eu pudesse entender. — Fizeram uma boa viagem?
— Decerto que sim, Nikkos. — o rei olhou para mim e sorriu mais uma vez. — A companhia foi adorável. Esta é minha filha, .
— É uma honra conhecê-la, princesa. A rainha falou muito bem da senhorita. — disse o homem, cumprimentando-me com uma reverência também. O gesto me assustou e logo surgiram imagens na minha cabeça com pessoas se curvando por onde quer que eu vá. — Sou Nikkos, assessor pessoal do rei.
— Prazer em conhecê-lo, Nikkos. — respondi apenas. Não sabia qual o protocolo para cumprimentar assessores ou os funcionários diretos do rei. Então fiquei no básico mesmo.
Nikkos estendeu a mão e me ajudou a subir no helicóptero e depois se virou para Friedrich. Os dois ficaram conversando por alguns minutos enquanto o piloto se acomodava na frente e começava os procedimentos para a decolagem. Quando as pás dos rotores começam a girar, Friedrich e Nikkos entram no helicóptero. Nikkos na frente, ao lado do piloto e Friedrich ao meu lado.
— Preparada? — perguntou ele segurando minha mão fria.
— Nem um pouco. — admiti ainda mais nervosa.
— Falta pouco agora. — disse ele gesticulando para o piloto, autorizando a nossa partida.
Eu nunca havia voado de helicóptero na minha vida. E confesso que tive mais medo de voar naquela aeronave do que da recepção que aguardava por mim no palácio. A sensação era a de estar voando dentro de um elevador. Espaços fechados me dão claustrofobia, mas procurei não pensar nisso, distraindo-me com a paisagem do lado de fora.
Na viagem de pouco mais de meia hora do aeroporto até Edine, onde fica o Palácio di Plázio, a paisagem tornara-se mais bucólica, interiorana e um pouco fria também. Muito verde, lagos e montanhas cercavam a residência oficial da família real. Friedrich disse que além do Palácio di Plázio ainda havia o Palácio Administrativo Storm, na capital Malta. Mas por ser uma construção extremamente grande, com muitas alas, salões e aposentos, a família real optou por um espaço menor, de fácil administração. Neste caso, o Palácio di Plázio.
Senti meu estômago virar uma gigantesca pedra de gelo ao ver a silhueta do palácio com apenas vinte minutos de voo. Involuntariamente, segurei a mão de Friedrich com mais força do que gostaria. Minhas pernas estavam trêmulas e, se não estivesse tão frio, eu, provavelmente, estaria suando em bicas. Com movimentos circulares e ritmados, Friedrich tentava me acalmar. Não era apenas eu quem tinha medo da aceitação. Isso estava claro também nas atitudes dele. Fosse com presentes ou em sua insistência em querer fazer parte da minha vida, Friedrich temia aquele momento tão mais do que eu.
Confesso que essa experiência será um aprendizado para nós dois. Sabemos tão pouco ou quase nada um do outro que cada reação é uma novidade. A voz do piloto chegou aos nossos ouvidos através dos headphones informando que estávamos nos preparando para o pouso. Através do vidro, pude ver a movimentação que acontecia na frente do palácio que tinha tantas janelas que mal conseguia contá-las. Os empregados estavam enfileirados de maneira a formar um longo corredor humano ladeando um extenso tapete vermelho.
O helicóptero pousou e eu rapidamente olhei para as minhas roupas. Vendo aquelas pessoas tão bem vestidas, não achei que meu jeans e sobretudo eram adequados para a ocasião. Onde é que eu fui me meter!
— Vamos? — chamou Friedrich quando as pás pararam de girar.
E eu lá tinha escolha agora?
Respirei fundo.
— Vamos.



CAPÍTULO 10

Definitivamente eu não estava preparada para aquilo. Pessoas que eu nunca vi na vida, receberam-me com entusiasmo e empolgação. Com pompas de uma celebridade! Friedrich cochichou em meu ouvido que todos estavam ansiosos pela minha chegada. Em especial Laura que, mesmo usando um colar cervical e com alguns hematomas pelo corpo, fez questão de me receber ao pé da escadaria do palácio, acompanhada por um rapaz de presença altiva, imponente. A semelhança física deles era impressionante. Apostava com quem quisesse que aquele ali era o seu filho, .
— Finalmente você veio! — a empolgação da rainha de Ladônia chagava ser cômica. Desajeitada, Laura jogou seus braços ao redor do meu pescoço e me deu um beijo na bochecha.
Embora Laura e os demais deixassem bem explícito o quanto estavam animados com a minha chegada, o rapaz ao seu lado, usando roupas casuais — jeans e uma camisa de flanela com as mangas dobradas que deixavam a mostra parte da musculatura dos bíceps —, encarava-me com curiosidade, como se eu fosse algum tipo de criatura exótica ou bizarra.
— Você deve estar exausta, não? — afirmou Laura, alisando minha bochecha com as costas da mão. — Mandei que preparassem o quarto para você. Os carregadores levarão sua bagagem para lá logo em seguida.
— Obrigada, Laura. — respondi agradecida. — Mas você não deveria estar de repouso? Esses ferimentos foram bem mais sérios do que fez parecer ao telefone.
— Este é um grande defeito dela. — falou o rapaz, aproximando-se de nós e estendendo a mão para mim. — Sou . Filho da rainha teimosa aqui. — apresentou-se dando um sorriso que erguia apenas um lado da boca, mas que era charmoso à beça.
Nosso aperto de mãos foi rápido, porém durou o tempo necessário para que eu sentisse uma eletricidade percorrer todo o meu corpo. Tive que engolir em seco, porque aqueles olhos inquisidores — e azuis — estavam me queimando. Eu precisava de uma intervenção divina, monárquica ou qualquer outra, para me tirar daquela situação extremamente embaraçosa que estava fazendo minhas bochechas corarem.
E minhas preces foram ouvidas. Não da maneira que eu esperava, mas...
Uma movimentação vinda do lado oeste do palácio chamou nossa atenção e uma matilha de Beagles correu na nossa direção. Atrás deles, um rapaz corria desesperado tentando conter os animais eufóricos. Em poucos minutos, fui atacada por dez cachorros que pularam em cima de mim e me jogaram no chão. Confesso que sou apaixonada por animais. Principalmente cachorro, mas minha mãe não me deixava ter um. Ela falava que nosso apartamento não era o melhor ambiente para criar um animal. Por isso, muita das vezes, eu passava horas na casa da brincando com Boris, seu Labrador muito farrista e bagunceiro.
Os cães continuavam a lamber meu rosto, mordiscar minhas mãos e minhas orelhas. Eu não sabia se minha risada era de alegria ou de desespero por estar pagando aquele mico logo no primeiro dia. Com a ajuda de , o rapaz conseguiu conter o ataque dos cães e Friedrich me ajudou a ficar de pé.
— Desculpe, majestade. — começou a dizer o rapaz, totalmente envergonhado. Achei bonitinho a maneira como o rosto dele ficou corado, ressaltando o verde de seus olhos. Ele vestia jeans surrados e uma camiseta de malha preta. Sua pele era levemente bronzeada, o que sugeria trabalhos externos, e músculos bem definidos que a camiseta não foi capaz de ocultar. — Eles se assustaram com o barulho do helicóptero. A senhorita está bem?
Ainda sob efeito da crise de risos por causa do ataque, apenas balancei a cabeça afirmando enquanto batia nas calças para tirar a grama que ficara grudada ali.
— Precisa tomar mais cuidado com esses pestinhas, . — disse Friedrich também rindo.
Como um pastor de ovelhas, reuniu os cães e começou a guiá-los para longe. Pulando nas minhas pernas, um dos cães havia ficado para trás. Eu me abaixei para acariciar o topo de sua cabeça e ganhei uma lambida no rosto em agradecimento. No minuto seguinte ele já estava no meu colo.
— Sophie! — ralhou , quando se deu conta da falta de um de seus cães, estendo os braços para mim para que a entregasse a ele.
— Parece que ela gostou de você. — constatou Laura também se aproximando para acariciar a cadela em meu colo. Como que para dar ênfase à afirmativa da rainha, Sophie me deu uma lambida do queixo à ponta da orelha.
— Acho que isso foi um sim. — emendou Friedrich. — Gosta de cães, ?
— Adoro! — respondi abrindo o maior sorriso desde que cheguei à Ladônia.
— Então ela será sua. Seu presente de boas-vindas. — falou Friedrich acenando para que se retirasse e em seguida virou-se para mim. — Que tal entrarmos agora para que você possa se trocar depois desta recepção animalesca e juntar-se a nós para o jantar?
Concordei e seguimos em cortejo subindo as escadarias de mármore ladeadas por um guarda corpo antigo que me remeteu aos filmes de época. Um empregado abriu para nós a enorme porta maciça com o brasão da família real de Ladônia encrustado na madeira. Meu queixo deveria estar arrastando no chão naquele momento. Era como ter sido transportada através de um portal do tempo ao me deparar com aquele enorme salão. A mobília era antiga, mas muito bem conservada. As janelas tinham cortinas grossas de veludo vinho e um tapete bege, com mosaicos, cobria boa parte do piso de madeira perigosamente polido. Eu não sabia para onde olhar primeiro. Tudo parecia tão surreal que eu queria ter olhos ao redor da cabeça inteira para não perder nada; fosse à tapeçaria nas paredes ou o lustre majestoso no teto, não queria perder nenhum detalhe.
Surgindo de algum lugar nas profundezas do enorme salão, uma mulher veio até nós, trajando um tailleur vinho e sapatos de salto alto enquanto dava instruções a uma das empregadas do palácio. Ela parou diante de nós com uma breve reverência. Seus cabelos negros estavam presos em um coque impecável, nenhum fiozinho estava de fora. Embora tivesse uma postura totalmente profissional, sua presença, de certa forma, me trouxe tranquilidade.
— Os aposentos da princesa já estão prontos, majestade. — disse ela à Laura. Pela minha visão periférica, vi que revirou os olhos ao ouvir o título pelo qual eu seria conhecida de agora em diante. Ele não era o único. Ainda sentia minhas entranhas darem um nó só de pensar nisso. — Posso acompanhá-la?
— Por favor, Evanna. — agradeceu Laura. E, virando-se para mim, a rainha disse: — Evanna é minha assistente pessoal e será a sua até que se ambiente por aqui. Futuramente poderá eleger sua própria assistente. Ela cuidará das suas necessidades e lhe auxiliará no que for preciso.
Logo me veio à mente os filmes antigos novamente onde as princesas tinham suas damas de companhia, só que elas eram bem mais jovens. Em outras palavras, Laura e Friedrich estavam me deixando aos cuidados de uma babá, isso sim. Mais uma vez meus olhos são atraídos para que colocou a mão na boca provavelmente escondendo um sorrisinho por me ver naquela situação. Despedi-me dos outros e acompanhei Evanna até a enorme escadaria. Seguimos então por um extenso corredor, cercado por muitas portas. Depois da terceira, perdi as contas, pois havia tantos objetos de arte pelo caminho que certamente eu precisaria de um mapa para me localizar e não me distrair novamente.
Evanna parou diante de uma porta dupla e a abriu para mim. Se antes eu havia ficado boquiaberta com o salão lá em baixo, agora então eu precisei me beliscar para ter certeza de que não estava sonhando. Com uma decoração em branco, rosa e dourado, o quarto — se é que esta era a definição certa para algo tão majestoso como aquilo — era esplêndido. Exceto nas revistas de decoração, eu nunca tinha visto algo assim na vida.
— Espero que tudo esteja do seu agrado, princesa. — disse Evanna, orgulhosa.
E como não estaria? Isso aqui é mais do que eu poderia imaginar em toda a minha vida.
— Está tudo... Perfeito!
Evanna então saiu do quarto, deixando-me a sós para me trocar. Coloquei Sophie no chão e comecei a explorar o território. Só a cama era de tirar o fôlego. Tinha quase o triplo de uma cama de casal normal e o dobro de uma king size. Resisti ao impulso de me jogar sobre o lustroso lençol de seda cor-de-rosa, isso porque outra coisa naquele quarto suntuoso chamou minha atenção. Uma porta estava entreaberta e, por aquela pequena fresta, pude vislumbrar um arco-íris de tecidos. Abri mais a porta e deparei-me com um closet duas vezes maior que o meu singelo quarto lá no Brasil.
Foi impossível controlar a emoção diante de todas aquelas peças e não lembrar-me de minha mãe. Elena, apesar de não termos muitos recursos, era uma mulher requintada e estava sempre muito bem vestida. Ela teria adorado isso aqui. Principalmente os sapatos. Que falta você me faz, mãe.
Saí do closet, ainda com os olhos marejados, e continuei minha exploração. Diante da cama havia um sofá cor de creme de dois lugares, posicionado de frente para uma TV de tela plana conectada a um daqueles aparelhos com mais de seiscentos canais e uma lareira. No canto leste, uma pequena mesa de chá, com cadeiras brancas e acolchoadas, me fez lembrar a minha infância, de quando e eu brincávamos de bonecas. Cheguei até a vislumbrar nós duas ali, com nossos bebezões, tomando um chá imaginário e segurando as xícaras com o mindinho erguido.
Sophie começou a latir, trazendo-me de volta para a realidade que mais parecia um sonho, diante das portas francesas.
— O que foi, garota? — agachei ao seu lado, acariciando seu pelo ralo, enquanto ela arranhava as portas. — O que há lá fora, hein?
Abri as portas e mais uma vez fiquei sem fôlego. Nem se eu vivesse mais mil vidas, jamais poderia imaginar que um dia veria uma vista como aquela. Era como estar diante de uma pintura. Não devia passar das nove da noite agora e o dia começava a dar indícios de que finalmente estava chegando ao fim. Mas ainda assim, era esplêndido ver as montanhas refletidas no lago que circundava parte do palácio, o verde das muitas árvores e as flores. Nossa, como havia flores em Ladônia! Debrucei-me sobre a sacada, apreciando a vista até que Sophie voltou a ficar eufórica novamente. Ouvi latidos vindos lá de baixo e descobri a razão de todo aquele agito da cadelinha. Os cães corriam soltos pelo gramado leste enquanto apenas os observava. Acenei para ele quando, num breve momento, nossos olhares se cruzaram. Ele retribuiu meu cumprimento com um aceno antes de se levantar da pedra em que estava sentado observando os cães e com um assobio chamou-os. A matilha respondeu prontamente e eles saíram do meu campo de visão.
— Está sentindo falta dos seus amigos, não é, garota? — disse à Sophie acariciando atrás de sua orelha. — Eu também.



CAPÍTULO 11

Todos já estavam a minha espera para o jantar. Para a ocasião, optei pelo básico; jeans, camiseta branca, um casaquinho de lã lilás que ganhei de no inverno passado e sapatilhas pretas. Friedrich estava sentado em uma poltrona saboreando um tipo de licor enquanto conversava com . Laura foi a primeira a se virar quando entrei na sala.
— Gostou do quarto? — quis saber ela logo de cara. Não sei se gostar era a palavra certa. Na verdade eu amei. Um legítimo quarto de princesa. Literalmente!
— É maravilhoso, Laura — respondi encantada. — Se Sophie não tivesse começado a latir, acho que ficaria naquela banheira pelo resto da noite.
— Isso é ótimo. Espero que ache o mesmo do nosso jantar de hoje — disse Friedrich oferecendo o braço para mim.
Ao chegamos à sala de jantar, Friedrich puxou uma cadeira para Laura e imitou o gesto do padrasto puxando uma para mim, sentando-se em seguida em uma cadeira ao meu lado. Quando estávamos devidamente acomodados, os empregados serviram o jantar como se fossem membros de um balé perfeitamente coreografado, colocando os pratos diante de nós em uma sincronia assustadora. Entretanto, o mais assustador foi aquilo que surgiu em meu prato assim que a cloche foi levantada. Embora o cheiro estivesse maravilhoso, sua aparência não era das melhores. Era difícil descrever aquilo, que mais parecia uma linguiça enorme e gorda, inflada como um balão de gás. Meu estômago deu umas boas piruetas em protesto e mandou a fome para o espaço.
— O que há de errado, filha? — perguntou Friedrich percebendo que eu sequer toquei nos talheres.
Como eu explicaria a ele que aquilo no meu prato não me parecia nada apetitoso sem ofendê-lo? Friedrich vinha se esforçando muito para que eu me adaptasse a minha nova vida, assim como se empenhava para se adaptar a minha. Mas aquilo ali... Não ia rolar mesmo!
— É melhor tirar este prato da frente da . Ela está começando a ficar meio... verde — debochou , afastando sua cadeira para longe de mim.
— Quer que eu mande providenciar outra coisa para você, querida? — ofereceu Laura e eu, agradecida, afastei meu prato para longe, o que fez com que retornasse à sua posição inicial. Um pouco perto demais desta vez, devo acrescentar. — Um sanduíche, panquecas... Basta pedir e eles providenciarão.
— Um sanduíche está bom. — Olhei mais uma vez para o prato servido e não pude segurar a língua. Afinal de contas, já que iria passar um tempo por aqui, era bom começar a aprender sobre a culinária para não passar vexame da próxima vez e saber exatamente o que não pedir. — Não me leve a mal, Friedrich, mas o que é isto!?
— Entendo perfeitamente a sua estranheza, . Foi exatamente assim que me senti quando almoçamos ontem, lembra? — E tinha como esquecer? Foi um tanto engraçado ver a cara dele diante de um belo e suculento prato de feijoada.

* * *

— É assim que vocês comem o feijão por aqui? — questionou Friedrich com os olhos arregalados diante do prato que a garçonete colocou a sua frente.
— Esta é uma das variações. A melhor delas, na minha opinião.
— Em Ladônia temos o hábito de comer o feijão no café da manhã, mas apenas o caldo. É como um tipo de molho, entende?
Feijão no café da manhã? Bom, cada louco com a sua mania, não!
— Não — admiti por fim. — Mas, se esta vai ser a última vez em que comerei uma feijoada, é bom aproveitar — Olhei para ele que nem mesmo havia desembrulhado os talheres, ainda se decidindo se comeria ou não o prato a sua frente. — Não precisa se preocupar, o porco não vai te morder.
— Como assim?
Caí na gargalhada. Nunca poderia imaginar que estar com Friedrich pudesse ser tão agradável. Desde que minha mãe morreu, aquela foi à primeira vez em que ri e me senti agradecida por ser ele, meu suposto pai, o responsável por me proporcionar momentos descontraídos assim.
— Foi uma piada — agitei as mãos, pedindo para que ignorasse o que eu disse. — Quer saber? Deixa para lá. Tome aqui, talvez tenha algo no cardápio que lhe pareça menos estranho.
Ele folheou o cardápio por alguns segundos até que o deixou de lado e resolveu encarar a feijoada. Muito a contra gosto, colocou a primeira garfada na boca e a mudança em sua expressão ao se dar conta de que a feijoada era uma delícia, quase fez com que eu me engasgasse com a minha própria comida.
— Nossa, isso é bom mesmo! — deliciou-se ele, de boca cheia e sem nenhuma classe.
— Minha mãe dizia que eu tenho o péssimo hábito de julgar a comida pela aparência. Acho que agora sei de quem herdei isso. — Comentei, mas Friedrich já não prestava mais atenção a nada do que eu falava, pois estava ocupado demais devorando toda a comida em nossa mesa. Quem nunca comeu melado...

* * *


No final das contas, Friedrich não me obrigou a comer o Haggis e mandou que me providenciassem um sanduíche. Enquanto comíamos, Laura quis saber quais as primeiras impressões que eu tive do país.
— Até agora estou gostando de tudo o que vi. A vista do meu quarto é maravilhosa. Vai ser difícil me acostumar a abrir a janela e não ver o costumeiro engarrafamento matinal.
— Isto não chega nem perto do que ainda há para conhecer, — disse ela com um sorriso que logo murchou em seu rosto. — Queria muito levá-la para conhecer alguns lugares, familiarizá-la com a cultura local, a gastronomia — enfatizou apontando para seu prato praticamente vazio —, mas os médicos me proibiram de sair e Friedrich é uma pessoa muito ocupada.
— Talvez Evanna possa acompanhá-la — sugeriu Friedrich, limpando a boca com o guardanapo.
— Eu posso acompanhar a — ofereceu-se em tom de quem encerra o assunto, tomando um gole do vinho em sua taça, sem tirar os olhos de mim.
— Isso seria ótimo, querido. O que acha, Friedrich?
— Se a não se incomodar, não vejo problema algum. Talvez possa ajudá-la com o nosso idioma também.
Olhei para com seu sorrisinho irônico e tive certeza que iria me arrepender da resposta que daria.
— Sem problemas — declarei vencida.



CAPÍTULO 12

Apesar de estar muito cansada da longa viagem, dormir seria quase uma heresia quando ainda havia muito que ver por aqui. Enquanto Sophie corria pelo quarto, atirei-me sobre a cama e peguei o notebook. Havia várias mensagens em minha caixa de entrada e entre spans e propagandas, nenhum e-mail de . Atualizei minha caixa de entrada umas duas vezes antes de finalmente concluir que não passara tempo suficiente para que ela já estivesse morrendo de saudades.
Ledo engano.
Levou menos tempo do que eu esperava para que o sono me vencesse enquanto observava os entalhes em gesso no teto do meu quarto pensando em tudo o que havia deixado para trás e tudo o que estava por vir. Friedrich e Laura são pessoas incríveis, mas isso ainda está longe de ser o que sou. Princesa? Eu? Quem poderia imaginar?

* * *


Eu estava no meio de um sonho e sabia disso porque eles estavam se tornando cada vez mais constantes. Mas desta vez, além dos cavalos, minha mãe também estava presente. Ela estava sentada sobre uma toalha xadrez, como se esperasse alguém para um piquenique, usando um vestido de seda branco e com seus cabelos soltos, voando ao vento, enquanto seus lábios moviam-se lentamente. Não conseguia entender o que ela falava com todos aqueles cavalos correndo ao seu redor. Apesar da minha cara de espanto, ela sorria.
Era o sorriso que eu me lembrava, aquele que iluminava todo o seu rosto. Tentei me aproximar, mas o meu medo de cavalos me repelia. Queria ir até ela, abraçá-la e tocá-la mais uma vez, porém não conseguia chegar perto o bastante, embora ela me convidasse a sentar do seu lado. Chamei por minha mãe, no entanto, som algum saiu de meus lábios, embora tivesse sentido minha garganta queimar. E então, de repente, comecei a me afastar. Era um movimento involuntário e foi aí que percebi que tinha um par de braços ao redor da minha cintura. Eu deveria ficar irritada com quem quer que fosse que estava me levando para longe dela, porém não fiquei. Meus lábios se curvam num sorriso de alívio e meu coração bateu acelerado ao me virar para trás e ver...

* * *


“Give it to me, I'm worth it Baby,
I'm worth it Uh huh I'm worth it
Gimme, gimme, I'm worth it”


Levantei ofegante ao ouvir o toque do meu celular. Chutei as cobertas para longe enquanto tateava às cegas até finalmente encontrar o responsável por interromper aquele momento. Ainda sonolenta, olhei para o display e não me espantei com o nome do contato e sim com a hora da ligação. Três e meia da manhã!
— Credo, que voz é essa? — reclamou do outro lado da linha quando atendi.
— Eu estava dormindo, .
— Às onze horas da noite? Desde quando você dorme tão cedo?
— Desde quando estou em um país, do outro lado do Atlântico, com uma diferença de fuso horário de quatro horas em relação ao Brasil! — esclareci me atirando de volta aos travesseiros.
— Desculpe, . Nem me toquei desse detalhe. Mas então, como é Ladônia? Conheceu muitos lugares?
— Sério mesmo que você quer falar sobre isso agora? — agradeci mentalmente ao bocejo providencial que me escapou naquele momento, mas que não pareceu ser suficiente para minha amiga sem noção se tocar.
— Ué, por que não? Eu estou acordada. Você também está, então...
!
— Tá bom. Tá bom. Já entendi. Não tem nem vinte e quatro horas que chegou aí e já está me tratando como escória.
— Não é isso. Eu adoraria te contar cada detalhe deste dia. Mas... — outro bocejo me escapou — são quase quatro horas da manhã.
soltou uma gostosa gargalhada do outro lado da linha.
— Estou brincando com você, sua boba. Claro que entendo. Eu quem deveria ter ficado atenta ao horário.
Suspirei aliviada.
— Mas não pense você que vai escapar de me contar tudinho, hein.
— Longe de mim. Ligo para você em algumas horas — prometi.
— Tudo bem. Pode voltar para o seu sono de princesa agora. — Ela deu outra gargalhada, rindo da própria piada. — Beijos.
— Beijos.
Tão logo encerramos a ligação, caí no sono novamente. Mas desta vez, para a minha total frustração, sem sonhos.

Acordei algumas horas depois com um mau humor do cão. Eu sabia que boa parte desta irritação era por causa desses sonhos que venho tendo ultimamente. E o da noite passada me deixou frustrada por duas razões.
Primeiro: depois de quase três meses, fiquei feliz em rever minha mãe, mesmo que em sonho, mas ela queria me dizer alguma coisa, porém meu medo de cavalos não permitiu que eu me aproximasse o suficiente.
Segundo: de quem eram aqueles braços que me envolveram, levando-me para longe dela, e que ao mesmo tempo me deixaram muito feliz?
Sophie já estava de pé e toda serelepe, saltitando pelo quarto, interrompendo meu momento epifânico. Eu estava pronta para chamar a atenção dela quando abri os olhos e entendi a razão de toda aquela algazarra às oito da manhã.
já estava devidamente arrumado; calça de poliéster preta, camiseta branca de gola em V, tênis de corrida e, a julgar pelo perfume que exalava pelo quarto — uma mistura amadeirada e cítrica —, e pelos cabelos loiros ainda úmidos, ele acabara de sair do banho e agora estava sentado na minha mesa de chá, olhando para mim com divertimento. Puxei a coberta até a altura do queixo desejando que ela fosse como a capa de invisibilidade do Harry Potter. Segundo fez questão de me informar inúmeras vezes, eu não sou nada atraente ao acordar.
— Você sempre fala enquanto dorme? — perguntou ele passando uma geleia cor de ameixa em uma torrada.
— Eu não falo dormindo! — mentira deslavada. Por diversas vezes minha mãe entrou em meu quarto no meio da noite pensando que havia alguém lá comigo. Depois de um tempo, ela passou a ignorar meus monólogos noturnos, mas não sem antes se certificar de que todas as portas e janelas estavam devidamente trancadas. — E por que você está aqui?
colocou toda a torrada na boca e em seguida lambeu os dedos. O gesto revirou alguma coisa dentro de mim. Era quase como ter borboletas no lugar do estômago.
— Estava esperando você acordar. Seu primeiro dia de aculturação, lembra?
Afundei a cabeça nos travesseiros esquecendo completamente do meu compromisso desta manhã com o filho da rainha.
— Claro que lembro. — Outra mentira que o observador logo percebeu ao erguer uma sobrancelha desafiadora para mim. — Se me der alguns minutos, logo estarei pronta.
virou de costas e voltou a atacar a mesa que certamente fora posta para mim.
— Fique à vontade. O quarto é seu.
— Você não está pretendendo ficar aí enquanto eu me arrumo, não é? — minha voz saiu num falsete ao encarar aquelas costas largas de músculos delineados que se retraíam e dilatavam enquanto ele devorava tudo o que via pela frente.
— Ah, pretendo sim. Afinal de contas, o seu café da manhã está muito melhor que o meu.
Como é que é? Além da beleza física, ele bem que poderia ter herdado um pouco da gentileza e educação da mãe. Sujeitinho petulante!
— O tempo está passando, princesa. O sol não vai esperar por você o dia todo.
Fui para o closet marchando como um soldado coreano e me tranquei lá por dez minutos, já prevendo que o belo dia logo viraria uma manhã cinzenta e desagradável.



CAPÍTULO 13

não mentiu quando disse que a manhã estava linda. Friedrich me contou, enquanto sobrevoávamos Edine em seu helicóptero, que a primavera por aqui é bem diferente da que estou acostumada. Embora o mês de abril fosse considerado o mais ensolarado de todos, era praticamente impossível ignorar a brisa fria que soprava das montanhas ao norte.
Já estávamos andando há quase uma hora e minhas pernas curtas não eram páreo para as de , que eram tão compridas quanto às de uma gazela, quando ele apontou para uma das centenas de montanhas que cercavam o palácio. Meu instinto inicial seria dar as costas e sair correndo, mas isso só colocaria mais lenha na fogueira e pegaria no meu pé até as próximas gerações. Eu não iria dar a ele esse gostinho.
colocou a mochila com nossos suprimentos nas costas — já que não me deixou comer sequer uma migalha de pão antes de sairmos — e começou a subida. Por sorte, eu havia escolhido uma legging sport, uma bota palú preta impermeável e uma camisa de lã vermelha. Eu não sabia aonde ele iria me levar então usei o seu próprio look como base para o meu. Ainda bem!
A subida estava cada vez mais complicada. O terreno era cheio de raízes baixas e pedregulhos, no entanto, subia com a facilidade de quem passou a infância subindo e descendo aqueles cumes.
— Falta muito ainda? — perguntei, dobrando meu corpo e apoiando as mãos nos joelhos para recuperar o fôlego depois de quase meia hora de subida.
— Já chegamos — declarou ele, lá do alto.
Consegui concluir a subida cinco minutos depois dele e o encontrei sentado sobre uma pedra gigantesca, mascando um chiclete. não esboçava nenhum traço de cansaço em seu rosto devido à subida íngreme e instável, porém, suas bochechas estavam ligeiramente coradas. Embora tenha carregado à mochila com os nossos suprimentos, aquilo pareceu brincadeira de criança para ele.
— Você é bem lenta, hein.
— Não tenho vocação para cabrito — rebati carrancuda, sem fôlego e com um suor pegajoso descendo pelas minhas costas.
Ele abriu a mochila e pegou uma garrafa de água.
— Tome. É melhor se hidratar.
Coordenação motora não é bem o meu forte, ainda mais depois daquela escalada. A garrafa passou por entre minhas mãos e me acertou em cheio na testa.
— Ai! Seu idiota! — exclamei irritada, alisando a área lesionada com a palma da mão. — Custava ter trazido até mim ou esperado que eu fosse buscar?
— Desculpa, . Não queria te machucar — disse parecendo verdadeiramente arrependido ao se aproximar. — Está doendo?
— Ah, esquece — dispensei sua preocupação afastando sua mão com um tapa. — Só tenha mais...
Minha frase ficou pela metade, suspensa no ar como partículas de poeira, assim que me dei conta da paisagem que nos cercava. Se eu já tinha achado a vista da sacada do meu quarto de tirar o fôlego, esta então era de arrancar os pulmões. Deus foi muito generoso com Edine, colocando aqui os campos mais verdes e floridos que já vi. O lago que margeava o palácio parecia um espelho, refletindo o azul e as nuvens do céu. Mais ao sul era possível ver um pequeno arco-íris formado pela cachoeira que desaguava no rio. Até o ar daqui era diferente. Limpo, fresco e agradável.
— É lindo, não é?
Mesmo ainda muito irritada com pela garrafada, fui obrigada a concordar. O adjetivo correto para descrever o que estava diante dos meus olhos ainda não fora inventado. Mas lindo, servia.
— Este é o meu lugar favorito aqui — revelou ele, com o olhar tão perdido no horizonte quanto eu. — Sabia que foi exatamente aqui que tudo começou?
Apenas balancei a cabeça dividindo minha atenção entre e a paisagem digna de um cartão postal a nossa volta.
— Em 1704, James Aldington, era um mero pescador escocês, porém muito ambicioso também. Influenciado pelas grandes navegações no início do século XV, James reuniu uma pequena tripulação e zarpou de encontro ao desconhecido. Uma semana depois de sua partida, uma tempestade os alcançou em alto mar fazendo com que a embarcação e seus tripulantes fossem arrastados para o fundo do Mar do Norte. Entretanto, James era um homem de muita sorte, ou talvez fosse apenas coisa do destino mesmo. A verdade é que ele foi o único homem em quinze que conseguiu sobreviver à tempestade e chegar ao continente. — abriu os braços abarcando toda a paisagem ao nosso redor. — Este continente.
“Por quase seis meses, o pescador conseguiu sobreviver com o que encontrou nas florestas desta ilha. Passou frio, enfrentou doenças, mas manteve-se sempre firme em seu propósito que era retornar para a Escócia e sua amada Ladônia. E, sendo assim, usando os poucos recursos que tinha, conseguiu construir uma jangada e lançou-se ao mar novamente.”
— Depois de quase ter morrido da primeira vez, ele ainda teve coragem de voltar ao mar com uma simples jangada? — o interrompi sem querer, indignada em como as pessoas podem ser tão imprudentes.
— O que você teria feito no lugar dele então? — indagou cruzando os braços em desafio.
— Sei lá. Acenderia uma fogueira, talvez — dei de ombros. — Mas voltar ao mar, nem pensar.
— Poderia ter funcionado, se esta ilha estivesse na rota de navegação da época. — Concordou ele com um breve aceno e continuou: — O fato é que James conseguiu retornar a Escócia em sua jangada. Chegando lá, contou a sua esposa o que havia encontrado. Muito mais entusiasmado que antes, o pescador conseguiu outra embarcação, juntou todas as suas provisões e, novamente, lançou-se ao mar. Só que desta vez, eram apenas ele e sua mulher, Ladônia, grávida de pouco mais de oitos meses.
“Quando o casal atracou nessas terras, não encontraram absolutamente nenhuma alma viva. Exceto os animais e a vegetação. Finalmente James havia encontrado um território para chamar de seu. Entretanto, James sabia que um dia essas terras seriam reclamadas por alguém e foi por isso que, quando seu primogênito Ian nasceu, ele o declarou rei dessas terras sobre esta pedra”.
Ele deu alguns passos para trás até encostar-se à enorme pedra na qual estivera sentado momentos antes e anunciou, teatralmente:
— A pedra do rei!
Com essa eu tive que rir. Não pela maneira como ele disse e sim porque acabei por me lembrar do filme O Rei Leão e a pedra do reino, onde Simba foi apresentado aos outros animais erguido por Rafiki macaco mandril e imaginei James fazendo o mesmo com seu pequeno Ian, exibindo-o aos animais que habitavam aqui naquela época.
— Qual é a graça? — perguntou ele, confuso com a minha reação.
Ainda recuperando o fôlego, respondi:
— Olha, não me leve a mal, a história é fantástica e tudo o mais, mas... A pedra do rei! Soou muito Hakuna Matata, entende?
E então foi a vez de ele cair na gargalhada também. Até aquele momento, não havia notado as pequenas covinhas que surgiram em suas bochechas. Talvez porque, naquele momento, ele fosse apenas o sendo e não o sendo imbecil.
— Nunca tinha pensado nisso — admitiu consultando o relógio em seu pulso. — Acho melhor nós voltarmos. Você precisa colocar um pouco de gelo aí — e apontou para a minha testa — se não quiser ficar parecendo com um unicórnio.
Pronto, esqueci tudo o que pensei antes a respeito dele. Definitivamente, é um imbecil.
Fiquei um pouco desapontada, não pelo que ele disse, mas sim por termos passado tão pouco tempo ali. A vista era sem dúvida esplendorosa. Porém, meu maior receio era a descida. Precisaria ter o dobro de atenção para não prender o pé em alguma raiz ou tropeçar em uma daquelas pedras e descer o cume rolando feito uma bola de neve e dar a ele mais um motivo para fazer chacota de mim.
— Vai na frente, escoteiro.

Não falei com durante todo o trajeto de volta ao palácio, embora ele, por diversas vezes, tivesse tentado engatar uma conversa. Sinceramente, estava complicado acompanhar a personalidade desse cara. Essa relação de morde-e-assopra não ia rolar.
— Você gosta de música? — quis saber ele enquanto nos aproximávamos da entrada lateral, uma passagem mais curta, somente para uso dos moradores e funcionários do palácio. — Você tem cara de que curte boy bands. Nem me dei ao trabalho de responder e tomei a dianteira, passando apressada por ele. Antes mesmo que meus pés tocassem o primeiro degrau da pequena escada, me puxou pelo braço de modo que dei um giro completo parando de frente para ele.
— Olha, eu já pedi desculpas pelo lance com a garrafa. Será que dava para abaixar a guarda um pouco?
Seus olhos azuis pareciam duas frias e sólidas pedras de gelo ao me encarar daquela maneira.
— Eu até poderia, se você fosse sincero comigo e me dissesse qual é o seu problema — ergui a cabeça na tentativa de encarar seus olhos de igual para igual, porém foi inútil. era quase três cabeças mais alto e tudo o que consegui encarar foi sua barba por fazer. Mas eu não iria sair por baixo. — Num momento você me trata bem e no outro parece que estamos em algum tipo de disputa da qual alguém se esqueceu de me dar às regras!
soltou meu braço e deu um passo para trás pressionando os lábios e balançando a cabeça.
— Já que tocou no assunto — ele olhou para ambos os lados antes de se aproximar de mim, deixando a distância entre nós de apenas alguns centímetros, mas que foi suficiente para que eu sentisse todos os aromas que exalavam dele; desde seu perfume ao hálito mentolado do chiclete que ele mascou a manhã inteira. — Você pode enganar o Friedrich e a minha mãe, mas a mim você não engana. Já viajei para muitos lugares ao redor do mundo e conheci pessoas como você, .
— E que tipo de pessoa eu sou? — desafiei-o, sentindo meu rosto corar com a raiva que me esquentava o sangue.
— Oportunista — disse somente, mas foi o que bastou para que minha mão acertasse em cheio seu rosto.
— Você não sabe nada sobre mim. NADA!
Disparei para dentro do palácio torcendo para não encontrar ninguém no caminho e só parei quando cheguei ao meu quarto. Tranquei a porta deixando que minhas costas deslizassem por ela até chegar ao chão. Será que era esta mesma impressão que os outros terão ou têm sobre mim? Eu não pedi por nada disso. Eu sequer sabia que tinha um pai até Friedrich bater a minha porta naquela tarde.
Olhei para meu quarto suntuoso e tive que encarar a realidade. Isso não era para mim.



CAPÍTULO 14

Depois de passar a semana inteira me remoendo com as coisas que me disse e fazendo cara de que está tudo bem para Friedrich sempre que ele me perguntava alguma coisa, decidi que iria ignorá-lo — pela eternidade, se fosse possível. Tanto é que, quando finalmente consegui ligar para no final da semana, eu sequer mencionei o nome do filho da rainha.
— Será que agora pode me contar como é a Ladônia? — perguntou , do outro lado da linha, de boca cheia.
— O país é lindo. Muito verde, muitas flores, muito frio. Tem um lago no jardim, acredita? As pessoas aqui são ótimas também. — Fiz uma careta ao falar a última frase. Por causa de um, eu não iria generalizar. E, além do mais, não era nenhuma mentira mesmo. Fui muito bem recebida e estou sendo muito bem tratada por todos aqui e ponto. Quem é mesmo? — Ainda não me acostumei com a comida, mas a cozinheira tem sido muito compreensiva com a minha reticência em comer alguns de seus pratos.
— Fico aqui me perguntando o que estão te servindo aí — ela riu. — Porque deve ser algo muito ruim mesmo para que você, uma comilona de marca maior, recuse.
— Nem queira saber... — estremeci só de pensar no prato servido na minha chegada.
— Mas tem uma coisa que eu quero saber — informou ela, seu tom ficando mais sério agora. — Você falou aí que Ladônia é isso e aquilo, mas não senti isso na sua voz. Está tudo bem mesmo, ?
Tem vezes que eu gostaria que o nosso fio invisível se rompesse, justamente para evitar situações como aquela. Ser minha melhor amiga era a principal qualidade de , mas também era seu maior defeito. Sabe aquele tipo de pessoa que é capaz de entrar em uma arena e lutar não somente com os gladiadores, mas também com os leões só por sua causa? Esta é . E eu sabia que se contasse a ela o que falou, minha amiga daria um jeito de atracar aqui na Ladônia. Nem que fosse a nado.
— Estou bem, . Sério — menti e emendei em seguida: — Ainda estou me acostumando com as coisas por aqui. Pode relaxar. Ninguém arrancou pedaços de mim. — Ainda, pensei. — Se você está dizendo — disse ela, nada convencida pelas minhas palavras. — Ângela está mandando um beijo.
— Mande outro bem grande para ela e diga que estou aguardando vocês aqui.
— Pode contar com isso. E vê se se cuida por aí, ok?
— Vou me cuidar sim.

* * *


Sem novos passeios de aculturação com , resolvi ficar por minha conta mesmo e conhecer melhor o palácio. Com a ajuda de Evanna, conheci a biblioteca — que tinha um variado e eclético acervo de livros —, o gabinete de Friedrich, a sala de visitas de Laura; onde a rainha recebia suas convidadas para um chá e colocar o papo em dia, o salão de baile e a sala de música. Esta última mexeu forte com as minhas emoções.
Desde que comecei minhas aulas de violino, minha mãe dizia que queria comprar uma casa maior para que pudesse ter sua própria sala de música. Ela teria adorado esta sala.
— Esta sala não é muito utilizada. No entanto, o rei gosta que a mantenhamos sempre em ordem — explicou Evanna, passando o indicador delicadamente sobre o piano a procura de poeira. — Sua avó, a rainha Elsie, era uma excelente musicista. Tocava violino e harpa como ninguém. E é em memória dela que esta sala ainda se mantém intacta.
Enquanto Evanna falava, percorri a sala que não se parecia em nada com nenhuma outra em que eu havia entrado. Embora o palácio fosse uma construção de meados do século XVII, a vedação acústica da sala parecia ser bem recente. Nas janelas, as cortinas tinham um tecido mais grosso que as do salão principal e móveis mais novos também. Não havia muitas obras de arte por ali, exceto um busto de bronze de Duncan Zorcky, pai de Friedrich, e alguns quadros nas paredes. O piano de cauda estava posicionado ao sul da sala, diante de um sofá de mogno com o brasão da família real encrustado na madeira. Do lado oposto, uma harpa dourada estava sobre um pedestal e também tinha um violino de cerdas de fios de crina de cavalo em uma redoma de vidro. Eu nunca tinha visto uma peça tão antiga assim, nem mesmo tocado em uma.
Distraída com os instrumentos, não percebi quando Evanna deixou a sala. Aproveitei a oportunidade para experimentar o violino. Retirei a peça com cuidado da redoma e ajustei as cravilhas. Ele estava em perfeitas condições, até mesmo as cerdas em que passei um pouco de breu antes de testar a afinação com o arco. O violino respondeu à altura quando toquei as primeiras notas. Fechei os olhos e deixei que a melodia me levasse, sentindo as lágrimas que escapavam dos meus olhos rolarem pelas minhas bochechas. Essa música conseguiu traduzir exatamente tudo o que senti quando soube da doença de minha mãe.
Não percebi a plateia que me assistia até a última nota ser tocada seguida de uma salva de palmas. Por pouco não deixei o violino cair ao me virar e me deparar com Laura e parados ao lado do piano.
— Isso foi lindo, — disse a rainha, emocionada. — Só lembro-me de ter visto uma única pessoa tocar tão lindamente assim. Sua avó, Elsie.
— Obrigada. — Respondi envergonhada, guardando o violino de volta ao estojo. — Fiz este arranjo para a minha mãe. Toquei em seu aniversário no ano passado.
— Que música era esta? Não reconheci — disse Laura, pensativa.
Without you, do David Guetta, não é, ? — perguntou um tanto surpreso.
Apenas balancei a cabeça afirmando, ainda sentindo o rosto pegando fogo. Exceto minha mãe, e Ângela, mais ninguém havia me escutado tocar este arranjo.
— Friedrich disse que você tocava. Só não imaginava que fosse tão bem — ela se aproximou de mim e tocou meu rosto. — Certamente um dom de família.
Automaticamente meus olhos correram em direção a , que mantinha a expressão impassível. Era impressão minha ou aquela era a primeira vez que ele não torcia o nariz ao se dirigirem a mim como um membro da família? Ou talvez fosse apenas fachada para não causar uma cena diante da mãe.
e eu estamos indo à Dulfar, visitar minha irmã Kirsty. Gostaria de vir conosco? — convidou-me Laura. Eu estava bem inclinada a aceitar seu convite, afinal de contas, ainda não havia tido a oportunidade de conhecer muitos lugares por aqui, mas ir com eles, iria exatamente contra ao que vinha evitando. Ou seja, .
— Todos os meses eu faço uma visita semanal a Kirsty. Ela tem ficado muito tempo sozinha na fazenda depois que seu marido Logan morreu. — Explicou Laura.
— Por que não a trouxe para cá? — perguntei, fechando cuidadosamente a redoma do violino. — Certamente vocês não têm problema de espaço aqui.
— Nós bem que tentamos. Mas minha irmã adora a fazenda. A propriedade é da minha família há anos. e eu nascemos naquelas terras também. Mas quando Ivan morreu, não consegui suportar a falta que sentia dele e então nos mudamos para Malta — ela abriu um sorriso tão grande que chegou a refletir em seus olhos. — Venha conosco, . Friedrich vai ficar fora até o fim do mês e vai ser bom para você conhecer novos lugares.
Será que haveria um dia em que Laura me pedisse algo rindo que eu não faria chorando?
— Não acho que seria uma boa ideia — objetivei, ciente do olhar vitrificado de sobre mim, esperando pelo momento em que ele daria o bote ou soltasse mais uma de suas acusações caluniosas. — Sua irmã pode não gostar de uma pessoa estranha em sua casa, principalmente em um momento tão delicado.
— Vamos, . Eu insisto — Laura pegou minhas mãos nas suas, os ferimentos agora completamente cicatrizados. — O que fará sozinha aqui por uma semana? Venha conosco. lhe fará companhia, não é, querido?
foi tão pego de surpresa quanto eu com a afirmação da rainha que se limitou apenas a um ligeiro aceno de cabeça.
— Tudo bem. Eu vou — concordei por fim. Eu não deixaria que me intimidasse. Não precisava provar nada a ninguém, principalmente a ele.
— Ótimo! — disse ela empolgada — Preciso resolver umas coisas com a Evanna antes de irmos. — E deu uma leve batidinha no ombro do filho antes de sair da sala, deixando-nos a sós.
Eu preferia mil vezes encarar uma maratona de provas de Matemática na faculdade mais vinte e quatro horas de aula na ONG a ter que ficar sozinha com novamente. Nosso último encontro não foi nada agradável. Bom, em partes, mas isso não vem ao caso, já que ele conseguiu estragar tudo com seus comentários infames e acusações caluniosas.
andava de um lado para o outro e seus olhos encontravam os meus quando, num momento de descuido, eu o encarava. Estava claro que ele tinha algo para me dizer, a questão era saber se eu estava disposta a ouvir. Embora estivesse bem à vontade em suas roupas; jeans escuros com rasgos nos joelhos, camisa de algodão azul royal e botas de combate, estava desconfortável. Talvez a ideia de ficar sozinho comigo também não o agradasse.
. — Chamou ele, quando me encaminhei para a saída, fazendo meus pés congelarem no chão. Respirei fundo, me preparando para o combate, antes de me virar. estava parado bem atrás de mim, as mãos guardadas nos bolsos e um sorriso muito do sem graça nos lábios. — , espera. Posso falar com você um minuto?
— Isso vai depender. Vai me insultar novamente?
— É exatamente sobre isso que eu gostaria de conversar com você — ele deu alguns passos para trás e se sentou no sofá diante do piano, convidando-me a fazer o mesmo dando tapinhas no espaço vazio ao seu lado. Recusei-me. — Tudo bem. Se é assim que prefere...
— Prefiro.
— Quero te pedir desculpas pelo que disse naquela tarde. Eu fui um completo... — ele parou, coçando a nuca como se tentasse lembrar as palavras. — Do que mesmo me chamou?
— Idiota?
— Isso. — sorriu e lá estavam elas, as covinhas que, mesmo pequenas, faziam uma enorme diferença. Era como estar diante de duas pessoas diferentes. — Fui um idiota por ter falado aquilo para você. Tirei conclusões sem nem mesmo conhecê-la. Será que podemos começar de novo?
— Se você me prometer que não vai mais agir como um idiota, tudo bem.
Ele levantou do sofá num pulo, como se eu tivesse lhe dado voz de comando.
— Palavra de escoteiro.



CAPÍTULO 15

Ainda não estava totalmente confiante das boas intenções de , mas iria dar a ele o benefício da dúvida. Acomodados no banco de trás do SUV particular da rainha, , Laura e eu, seguimos para Dulfar, sendo seguidos por outro carro que levava algumas das empregadas do palácio. Laura me contou que a irmã ficou viúva há pouco mais de dois anos e que vinha se arrastando no luto desde então.
— Nós já tentamos de tudo para tirá-la de lá, mas Kirsty é teimosa como uma mula. — Laura riu sem ânimo. — Sei como é perder quem amamos. Só que a vida é curta demais para desperdiçarmos nosso tempo nos prendendo ao passado. Aqueles a quem amamos, sempre terão um espaço especial dentro de nós. Precisamos aprender a lidar com os dias que virão. No início é difícil. Dói. Mas com o passar do tempo, a gente aprende a conviver com a falta que aquela pessoa nos faz e é isso que nos dá forças para seguir em frente. Eu queria que minha irmã enxergasse isso um dia.
Realmente esta é a parte mais difícil. O processo de recomeçar depois da perda, não é fácil. Eu mesma vinha aprendendo a lidar com isso. Aceitar que minha mãe não estaria mais por perto para segurar minha mão ou me oferecer um colo quando eu precisar de um consolo. Sei exatamente como Kirsty estava se sentindo e também concordei com o que Laura disse. A saudade é o único sentimento que nos resta no final das contas.
Falar de saudade e de perdas deixou o clima um tanto nostálgico e nenhum de nós disse mais absolutamente nada durante o restante da viagem. Aproveitei a oportunidade para olhar a vista que nos rodeava. Dulfar ficava na serra de Edine. O ponto mais alto da Ladônia. A região era conhecida por ser uma das maiores produtoras de vinho da Europa. Inclusive a fazenda da família de Laura, que exportava cerca de um milhão de tonéis de vinho por ano.
O clima em Dulfar era bem mais frio e mesmo com todo o nevoeiro que cobria parte da região, a beleza do lugar era fantástica. Quase uma hora depois, saímos da rodovia e entramos em uma estrada de terra batida. O terreno era irregular e sacolejamos boa parte do caminho até que paramos diante de um enorme portão de ferro com um A dourado e cursivo soldado às barras. Carlton, o motorista, saltou do carro e foi até um interfone ao lado da entrada e, em questão de segundos, os portões se abriram automaticamente para nós.
O interior da propriedade era ainda mais surpreendente. Tinha todo aquele clima bucólico que me atrai bastante, com muito verde e campos abertos que não dava para saber onde era o fim. Seguimos mais alguns metros adentro da propriedade até chegarmos diante de uma enorme construção com uma fachada num tom desbotado de terracota com pilares de pedra na entrada e janelas de madeira rústica. Uma fumaça quase translúcida escapava da pequena chaminé no telhado. Tão logo saltamos do carro, fomos recebidos por uma mulher extremamente parecida com Laura.
— Laura! ! — disse a mulher, descendo os degraus em nossa direção. — E esta linda moça, quem é? Sua namorada, ?
Eu não sabia onde enfiar minha cabeça naquele momento e esconder o quanto meu rosto estava corado com a confusão da mulher. Pelo visto, não foi apenas eu quem ficou corada com a situação. parecia que tinha devorado um vidro inteiro de pimenta. Até suas orelhas ficaram vermelhas.
— Não, Kirsty. Esta é , filha de Friedrich — explicou Laura, salvando-nos daquele momento embaraçoso.
— Ah, sim. A bastarda — falou Kirsty, dando uma boa olhada em mim e franzindo o nariz. — Como você pôde permitir isso, Laura? Aonde já se viu dar abrigo a bastarda de seu marido?
— Kirsty, nós já falamos sobre isso.
— Que seja. Não é problema meu mesmo — rendeu-se ela por fim, agitando as mãos com impaciência e voltando para dentro da casa.
— Não ligue para o que a tia Kirsty disse. Ela já não anda batendo muito bem — cochichou para mim, parecendo envergonhado pela maneira como a tia me recebeu. Chegou a ser irônico vindo dele.
— Venha, . Vamos entrar — convidou-me Laura, estendendo a mão para mim.
Eu os acompanhei até o interior e o que vi ali, logo me fez esquecer a maneira com a qual fui recebida pela anfitriã. A sala era bem ampla e muito clara. Nas janelas havia cortinas de renda branca que combinavam com os estofados dos sofás, todos feitos em madeira. Um fogo tímido crepitava na lareira, deixando o ambiente aconchegante e agradável. Embora Kirsty morasse ali, era como se a casa não fosse habitada há séculos. Camadas de poeira se acumulavam sobre a mobília e os porta-retratos no aparador. Isso sem contar as teias de aranha. Era como se a casa já estivesse pronta para o halloween.
, leve a até o quarto dela. Vou procurar a Kirsty — pediu Laura, saindo à procura da irmã.
cuidou da minha mala e eu o segui por um extenso corredor estreito. Olhando de fora, não dava para ter noção do tamanho da casa. Deveria ter pelo menos uns oito quartos ali. abriu a penúltima porta a direita para mim.
— Seu quarto, princesa.
Limitei-me apenas a olha-lo, peguei minha bagagem e entrei no quarto. Definitivamente aquela casa não era limpa há muito tempo. Os lençóis estavam amarelados e na velha escrivaninha a poeira se acumulava exatamente como nos móveis da sala principal. Minha primeira providência foi abrir a janela. Aquele cheiro de mofo estava começando a irritar o meu nariz. Abri a janela e me deparei com as empregadas do palácio carregando baldes, vassouras, panos de chão, toalhas e algumas roupas de cama também.
— Por que elas trouxeram todas essas coisas? — perguntei a que estava parado de braços cruzados e encostado despojadamente na soleira da porta.
— Elas sempre acompanham minha mãe nas visitas e cuidam da faxina. Minha tia não está bem. Desde que o marido morreu é como se ela tivesse morrido também. Se não fosse por minha mãe, este lugar já teria definhado.
— Ela está tão mal assim?
— Está piorando com o tempo. — deu de ombros chutando o ar. — Sua memória vai e volta e em seus momentos de lucidez ela só faz falar do tio Logan, o que piora muito a situação depois.
— Não consigo imaginar como é viver assim.
— É... — então mudou de assunto. — Tá a fim de dar uma volta? Está impossível respirar neste quarto.
Pensei em recusar o convite, tendo em vista nossa última experiência, mas precisei concordar com ele. Aquele quarto estava impraticável. Ainda no corredor, me contou um pouco mais sobre a fazenda e em como as coisas só não desandaram porque Friedrich mantém os funcionários trabalhando para que a produção não pare.
— Friedrich é um bom homem. Um grande exemplo — derreteu-se ao falar do padrasto. — Ainda está para nascer um homem que chegue aos seus pés.
— Ele é um grande homem, sim — concordei. — Embora tenhamos passado pouco tempo juntos, já percebi que ele é um homem muito especial. E a sua mãe também. — Acrescentei.
— Com certeza — disse ele abrindo um largo sorriso.

e eu passamos o resto da tarde caminhando pela propriedade. Ele me levou até as videiras de vitis vinifera que é a mais frequente na produção de vinho e também aos galpões onde as uvas passavam por todo o processo até se transformarem em vinho. Na vinícola, ele me explicou que o tempo de apuração varia muito, podendo levar de um a cinco anos para que cheguem ao ponto ideal para consumo. Eu tinha uma vaga noção de que o processo era demorado, só não imaginava que pudesse ser tanto.
Em seguida ele me levou também ao aprisco das ovelhas. Com a chegada da primavera, vinha à época do tosque. Boa parte da matéria prima dos tecidos fabricados na Ladônia também saía de Dulfar. Fiquei com pena dos bichinhos ao vê-los aguardando para deixar toda aquela lã fofinha para trás.
— Pode parecer que não, mas isso faz bem a elas. — riu da minha cara de espanto enquanto explicava. — O excesso de lã durante o verão pode causar desconforto, perda de peso ou até mesmo a morte delas. E o método que os esquiladores daqui usam, não machuca as ovelhas.
O processo de tosque era tão rápido que, no meio tempo em que me explicava, o esquilador tosou três ovelhas e logo elas saíram correndo pelo gramado, satisfeitas com o novo corte.
— Viu? — disse ele, apontando para as ovelhas. — Vamos, está quase na hora do jantar e a tia Kirsty não é muito conhecida por sua paciência.
Ou simpatia, pensei enquanto nos afastávamos do aprisco.
Na volta, percebi que algo incomodava . Ele ficou calado de repente, perdido em seus próprios pensamentos. Ensaiei o início de uma conversa, mas ela aconteceu apenas na minha cabeça e não acabava nada bem. Terminava sempre com ele me chamando de oportunista e eu o esbofeteando. Aproximávamo-nos das videiras, quando finalmente resolveu falar:
— Olha, , sobre aquele dia na pedra do rei, eu não queria ter dito aquelas coisas — ele sentou no chão e estendeu a mão para mim, convidando-me a fazer o mesmo. Aceitei, embora um pouco relutante. — Eu não sei se você sabe, mas minha mãe não pode mais ter filhos e, por um momento, pensei que esta fosse a razão para que eles acreditassem cegamente que qualquer pessoa que aparecesse dizendo que era filho ou filha do rei, eles aceitariam sem nem mesmo pestanejar. — pegou um galho no chão e começou a fazer desenhos aleatórios na terra. — Friedrich me mostrou as cartas. Eu lamento por sua mãe.
— Sim. Uma pena mesmo — respirei fundo. Aquela não era a primeira vez que falava com alguém sobre a morte de minha mãe, o que não tornava mais fácil tocar neste assunto a cada nova conversa. Um enorme nó se formou em minha garganta e eu o afastei com um longo suspiro. — Sabe, , eu não o culpo por ter pensado algo do tipo a meu respeito, mas você foi grosseiro!
— Eu sei. E peço desculpas por isso.
— Tudo bem. Desde que não se repita mais.
— Não irá.
Depois de termos conversado e esclarecido todos os mal entendidos, continuamos nossa caminhada pela propriedade dos Arbuckle. me contou que nunca vira Laura e Friedrich tão animados como estavam ultimamente desde a minha chegada. Confessou também que o palácio parecia um mausoléu e que achava um saco morar lá, até que quando alcançou idade suficiente para cuidar do próprio nariz, colocou uma mochila nas costas e saiu mundo afora. Perguntei por quais lugares ele já havia passado e quais os seus favoritos.
— Muitos — respondeu ele com divertimento. — Mas se um dia tiver a oportunidade, gostaria de voltar ao Marrocos.
— A Ladônia foi o mais longe de casa que eu já estive — dei de ombros, sentindo uma pontinha de inveja daquele cara viajado.
— Quem sabe um dia a levo comigo em uma das minhas viagens?
Eu não queria criar expectativas, mas por dentro já estava planejando todo um roteiro que incluía a Ásia e a Oceania.
— É, quem sabe um dia.

, quando não estava sendo estúpido, até que era um cara legal e muito divertido também. Ele me contou um pouco sobre a época em que ele e Laura moraram em Dulfar após a morte de seu pai e das dificuldades, principalmente as financeiras, antes de se mudarem para a capital. Disse que não tinha muitas lembranças do pai e concluiu falando da grande admiração que tinha por Friedrich.
A noite logo começou a cair sem que nos déssemos conta. Eu falava um pouco sobre a minha vida no Brasil, de como as coisas iam bem até recebermos a notícia da doença de minha mãe, quando passamos novamente pelas videiras e pegou um cacho de uvas.
— Essas são as melhores uvas do mundo. — E, antes que eu percebesse, ele enfiou algumas na minha boca.
— Hum! São boas mesmo — respondi de boca cheia. — Podíamos levar algumas e preparar um suco, o que acha?
chegou mais perto, seus olhos fitando os meus tão intensamente que me fez perder o ar.
— Essa não é a melhor maneira de apreciar esta fruta — ele pegou mais uma uva do cacho e colocou na minha boca novamente, porém, havia algo diferente na maneira em como seus dedos tocaram meus lábios desta vez. — Você precisa sentir o sabor da uva, sentir como ela explode na sua boca — chegando cada vez mais perto, eu não tinha para onde me esquivar. Senti as folhas da parreira atrás de mim, acariciando minhas costas e, por um segundo, desejei que fossem as mãos dele ali. — Feche os olhos, .
E foi exatamente o que fiz. Com a ponta do dedo, traçou o contorno dos meus lábios antes de me dar outra uva. Senti sua respiração mais perto do meu rosto, o calor de seu hálito fresco, seu perfume amadeirado e cítrico. Se ele me dissesse naquele momento que eu estava comendo minhocas, eu concordaria com certeza.
...
Senhor ! Senhorita ! Venham, o jantar está servido.
Uma das empregadas gritou por nós, interrompendo o que ele estava prestes a dizer ou fazer, não sei. O que veio bem a calhar, pois eu não sabia se conseguiria manter meu autocontrole se ele continuasse me provocando daquela maneira.



CAPÍTULO 16

— Como é que eu nunca fiquei sabendo desse tal de ? — indagou , indignada quando liguei para ela depois do fiasco que foi o jantar.
não parava de olhar para mim, o que deixou Kirsty muito irritada. Que ela não foi com a minha cara, isso era fato, porém eu compreendia o suficiente a sua condição para não rebater as suas ofensas que eram tão indigestas quanto o prato diante de mim. Mas não foi apenas o menu da noite que mandou meu apetite para a Lua. Ainda podia sentir as borboletas se debaterem dentro de mim toda vez que olhava para na outra ponta da mesa e me recordava do episódio nas videiras. O gosto das uvas ainda estavam na minha boca.
— Desculpa, . Aconteceu tanta coisa...
— Isso é assunto de máxima importância, ! Bem que eu senti que tinha alguma coisa acontecendo por aí — disse minha sensitiva amiga. — Anda, desembucha, vai. O quê que está rolando entre vocês?
— Não está rolando nada, . Que mania de ver romance em tudo! O está só... — Mexendo com a minha cabeça desde o dia que nos conhecemos, admiti para mim, mas nem sob tortura revelaria isso a ela. Tudo bem que tem horas que dá vontade de torcer o pescoço dele, mas quando me lembro daquele sorriso, das uvas, do seu perfume... — Ele está apenas me apresentando ao país. Levando-me para conhecer alguns lugares. Em breve o povo da Ladônia terá conhecimento da minha existência e eu preciso aproveitar o meu anonimato enquanto ainda tenho isso.
— Aham. Sei. E o quase beijo foi o quê, parte da aculturação também?
— Para com isso, ! Ou eu vou desligar. Estou falando sério. Se eu soubesse que ia ficar falando essas bobagens, não teria te contado.
— Tá bom. Tá bom. Não precisa ficar toda nervosinha — rendeu-se ela por fim. — Vão ficar aí até quando?
— Por pelo menos mais três dias — respondi me atirando de costas na cama, que agora estava com os lençóis limpos e cheirando a amaciante. — Laura quer deixar as coisas em ordem por aqui antes de retornarmos para Edine. A irmã dela está bem mal, . Tenho tanto medo de acabar como ela, sabe? De a saudade da minha mãe ser tão forte que eu acabe enlouquecendo também.
— Agora é você quem está falando bobagens, ! Você está cercada de pessoas que te amam, que vão estar aí, dia após dia, fazendo a sua vida valer à pena. Kirsty está desse jeito porque ficou sozinha e a solidão faz isso, mexe com a cabeça das pessoas — filosofou . — Você está proibida de pensar sobre isso, ok? O propósito desta viagem para a Ladônia foi justamente para clarear a mente e não para enchê-la de abobrinhas. E você e ainda têm muitas videiras para conhecer.
— Você é impossível, sabia? — rebati, sentindo meu rosto corar com a lembrança desta tarde. Ouvi passos no corredor e foi a minha deixa para me despedir das insinuações maliciosas de . — Eu preciso ir. A gente se fala depois.
— Isso mesmo. As videiras não podem esperar — disse ela, soltando uma gostosa gargalhada.
— Tchau, .

* * *


Os dias seguintes foram bem esquisitos. Depois de tudo o que conversamos, da tarde agradável e do que aconteceu nas videiras, ficou mais distante e trocamos poucas palavras no decorrer dos dias. Estava se tornando um hábito ele sair de um cômodo sempre que eu aparecia, estivesse ele sozinho ou não. Laura passou boa parte do tempo ocupada também, com a irmã que ainda se recusava em me receber. No final das contas, eu me perguntava que diabo estava fazendo ali, quando poderia estar fazendo algo produtivo no palácio como, por exemplo, lendo um bom livro, praticando um pouco de violino ou cortando os pulsos! Até que na manhã do nosso último dia em Dulfar, fui surpreendida pela visita de Kirsty em meu quarto.
— Posso falar com você? — perguntou ela abrindo apenas uma pequena fresta da porta.
— Claro — respondi rapidamente, sentando na cama.
Kirsty entrou no quarto carregando uma bandeja com um bule, duas xícaras e alguns biscoitos amanteigados.
— Percebi que você não comeu nada nesses últimos dias — falou ela, colocando a bandeja sobre a cama. — Eu também não facilitei muito as coisas para você, não foi? — ela sorriu, servindo um pouco de chá nas xícaras.
Kirsty, quando não estava tendo seus surtos, até que era uma pessoa muito gentil. Sua fala era mansa, suave, quase como o canto de um pássaro, o que acentuava ainda mais a semelhança com a irmã Laura. Embora ela carregasse em seus olhos azuis o peso do período de solidão.
— Eu não era assim. Esta casa não era assim — continuou ela. — Mas quando meu Logan partiu, levou com ele toda a alegria e vida deste lugar. Laura me contou que você também perdeu alguém. Sua mãe, não foi?
— Sim — respondi num arremedo de voz, ainda surpresa com a presença dela. — Câncer de esôfago.
— E como está sendo? Quero dizer, como lida com a ausência dela?
— Não está sendo fácil. Mas procuro me manter conectada às coisas de que ela gostava. Isso faz com que a sinta perto de mim e ameniza um pouco a saudade. — Saudade? — replicou ela, testando a pronúncia, pois fiz questão de falar na minha língua, uma vez que é uma palavra que não tem tradução.
Sorri para ela e, em troca, recebi o seu que por sinal era muito bonito.
— É um sentimento causado pela ausência, distância de algo ou alguém. E matar a saudade, no nosso caso, seria o mesmo que termos aqueles que partiram aqui conosco, fica apenas nas lembranças e nas coisas boas que eles deixaram. E é a isso que recorro sempre que bate a saudade.
Kirsty então levantou da cama rapidamente, quase derramando todo o chá das xícaras e pegou a minha mão. Ela me arrastou para fora do quarto em direção à porta dos fundos. Continuamos andando por todo o gramado sem que ela dissesse uma única palavra. Admito que fiquei com medo, pois não sabia para onde ela estava me levando. Isso até me deparar com uma enorme estrutura de aço, revestida em vidro.
Uma estufa. Ou o que havia sobrado dela.
A estrutura me lembrou muito o Palácio de Cristal (quem já foi à Petrópolis, sabe do que estou falando). Havia uma fonte, com um pequeno chafariz desativado no centro e um caminho de pedras que levava até a entrada da estufa. Kirsty parou diante da estrutura e respirou fundo. Olhei rapidamente para ela e vi que seu rosto brilhava com as lágrimas que escapavam de seus olhos. Sem dizer palavra alguma, ela entrou na estufa e eu a segui.
O lugar parecia um cemitério de flores mortas e as folhas secas pontilhavam o chão nos mais variados tons de marrom. Sem contar o calor que fazia ali. Deveria estar uns trinta graus no mínimo. Kirsty pegou uma pequena pá de jardinagem e me ofereceu outra, ensinando-me como remover as flores e raízes mortas. Passamos boa parte da manhã apenas removendo o que restou das flores nos vasos, sem que ela dissesse absolutamente nada. Kirsty estava concentrada em sua tarefa e, pela primeira vez, desde que cheguei à propriedade dos Arbuckle, vi seu semblante mudar. Ela parecia feliz.
Depois de remover as flores e raízes, Kirsty foi até um armário nos fundos e voltou com os braços cheios de pacotes de sementes.
— Você fica com essas aqui e eu com aquelas ali — delegou, me entregando metade dos pacotes e indo para o outro lado da estufa.
Fiz exatamente como ela me ensinou. Coloquei a terra adubada até a metade, depositei as sementes e depois cobri com mais uma camada de terra, pressionando bem e reguei em seguida. Foi uma experiência totalmente nova para mim. Minha mãe e eu nunca cultivamos o hábito da jardinagem, embora ela adorasse flores.
— Kirsty! ! — ouvimos Laura chamar por nós lá de fora.
— Estamos aqui, Laura — respondeu Kirsty, sem tirar os olhos de sua tarefa.
— O que vocês estão... — Laura começou a dizer, mas parou ao ver o que estávamos fazendo, retomando a fala mais surpresa ainda. — Fazendo?
— Matando a saudade — disse Kirsty, sorrindo cúmplice para mim.
— Matando o quê? — perguntou Laura confusa.
— Saudade — falei, sentindo uma pontada de orgulho de mim mesma por ver Kirsty tão empenhada. — Depois eu te explico.



CAPÍTULO 17

Dois meses já haviam se passado desde a nossa visita à Dulfar e a promessa de Kirsty de que de agora em diante cuidaria pessoalmente das flores, já que jardinagem era a atividade favorita de Logan. Laura ficou bem emocionada ao ver a irmã tão ativa e empenhada em alguma coisa. Até mesmo , que passou os últimos dias de nossa vagem me evitando, me cumprimentou.
— Foi muito legal o que você fez pela tia Kirsty — disse ele enquanto caminhávamos pelas ruas de Malta, tomando nossos cafés duplos. — Pensei que ela fosse arrancar um dos seus olhos. Nunca a tinha visto tão transtornada com a presença de um estranho.
— Eu também pensei nisso quando ela me arrastou até a estufa — admiti. — Mas fiquei feliz por ela ter encontrado uma maneira de superar a ausência de seu tio Logan.
A verdade é que o tempo passou tão depressa que mal me dei conta de que dentro de dois dias seria o meu aniversário. Todos os anos, nas semanas que antecediam a data, minha mãe recusava qualquer trabalho que aparecia apenas para se dedicar exclusivamente a minha festa. Ela não me deixava participar de nada e se trancava em seu escritório com Ângela e .
E por falar em , minha amiga também andou um tanto ocupada ou talvez estivesse me evitando. Embora meu sexto sentido gritasse em meus ouvidos que era a segunda opção, o fato era que o sumiço de mais a movimentação que estava acontecendo no palácio nos últimos dias eram um tanto suspeitas. Sem contar que montou um esquema de turismo que me deixava longe do palácio por quase doze horas.
O passeio de hoje foi histórico e gastronômico. me contou que, logo depois da descoberta da Ladônia, muitos imigrantes vieram. Principalmente os franceses e os irlandeses. Por isso, era muito comum esbarrar com algum pub irlandês ou uma pâtisserie pelas ruas da cidade. Mas havia também ótimos restaurantes italianos, como o em que almoçamos hoje.
— Esta é a primeira vez que vejo você comer algo sem fazer caretas — observou , limpando o canto da minha boca com um guardanapo. — Tinha um pouco de molho aí.
— Obrigada — agradeci, sentindo que estava corando. Embora tivéssemos feito muitas coisas juntos desde que retornamos de Dulfar, aquela era a primeira vez que tocava em mim novamente. O assunto das videiras nunca veio à tona, mas percebi que sua preferência por suco de uva ou vinho durante as refeições havia aumentado consideravelmente. — Acho que ainda não consegui me adaptar a comida. Olhe só para mim. — Foi um tremendo desperdício de palavras dizer aquilo, quando ele já me encarava de um jeito que deixava meu coração acelerado. — Devo ter perdido uns cinco quilos desde que cheguei aqui.
— Você está ótima, — disse ele revirando os olhos. Em seguida, olhou para os lados, como se estivesse se certificando de que ninguém pudesse nos ouvir, ou talvez fosse apenas para reunir coragem de pegar na minha mão e dizer: — , eu...
Eu estava ansiosa para ouvir o que ele queria me falar desde aquele dia nas videiras, mas, deveria ser coisa do destino — ou de algum duende pregador de peças —, pois bem na hora em que ele estava prestes a dizer, eis que o garçom surgiu como se tivesse brotado do chão, bem diante da nossa mesa, com as sobremesas. Por que, meu Deus? Esta era a segunda vez que ele estava a um passo de me dizer algo importante e bem na hora, era interrompido. Se eu não estivesse tão afim daquele brownie, teria dispensado o garçom de um jeito nada delicado.
deve ter pensado o mesmo, pois a maneira como encarou o rapaz, seria capaz de desintegrá-lo se saíssem lasers dos seus olhos.
Perdida a oportunidade, não nos restou alternativa senão comermos nossas sobremesas em silêncio, nos permitindo apenas algumas trocas de olhares e sorrisos sem graça.
— E o seu namorado, o que ele achou da sua mudança para cá? — disparou ele à queima-roupa, do nada, fazendo eu me engasgar com o pedaço de brownie que tinha acabado de por na boca. — Não vai me dizer que uma garota como você não tem um namorado?
— Tinha um cara — confessei, depois de limpar a garganta com um bom gole de água. — Mas acabou antes que pudesse ficar mais sério. Ele era um idiota.
— Pelo visto você tem um ímã para idiotas — disse ele, brindando-me com um meio sorriso, aquele que erguia apenas um lado da boca e exibia uma covinha solitária.
— Alguns têm salvação. — Rebati. — Acredito que a sua namorada também não esteja gostando nada desse tempo que tem dedicado a mim.
— Eu não tenho namorada — respondeu secamente, mudando completamente de humor. — Quer pedir mais alguma coisa?
Rapaz, isso é o que chamo de uma manobra evasiva. Num momento ele está todo animado e no outro trava como freios ABS’S novinhos em folha!
— Não, obrigada. Estou satisfeita.
— Ótimo. Então já podemos ir.
Ele estendeu a mão chamando o garçom que já veio prontamente com a nossa conta. sequer se deu ao trabalho de abrir a comanda para ver o valor e entregou duas notas de cem ao rapaz.
— Fique com o troco — disse ele e saiu do restaurante sem ao menos esperar por mim.
Olhei para o garçom desejando que ele visse em meu rosto o pedido mudo de desculpas que eu fazia em nome de e fui atrás dele. já estava parado ao lado de seu carro quando finalmente o alcancei.
— O que foi aquilo? — perguntei apontando com o polegar por cima do ombro em direção ao restaurante. — Olha, se eu disse alguma coisa que te ofendeu, me desculpe. Não foi a minha...
me pegou pelo braço e me empurrou de encontro ao carro. Parado diante de mim, seus olhos me fitavam de um jeito que nunca vi antes. Havia uma tensão e ao mesmo tempo uma sombra de dúvida, como se ele estivesse travando uma batalha interna consigo mesmo. Senti um misto de medo e adrenalina naquele momento, quando ele me segurou pelo queixo com a mão direita, erguendo meu rosto de encontro ao seu e contornou meu lábio inferior com o polegar. Fiquei rígida, embora minhas pernas vacilassem diante de sua investida, tornando-se moles como marshmallow.
, eu não... — ele então balançou a cabeça e abriu a porta do carro para mim. — Nós precisamos ir.

* * *


Pela primeira vez, eu não estava animada com o dia do meu aniversário. Pela primeira vez, eu não estava ansiosa para o que me aguardava ao cair da noite. Pela primeira vez, eu gostaria que este dia não chegasse. Passei o dia em meu quarto, indo vez ou outra à sacada para olhar a vista. Nem mesmo a paisagem paradisíaca de Edine foi capaz de melhorar meu ânimo. Ou o quarto suntuoso que eu tinha agora.
No final da tarde, logo após ter feito minha terceira refeição do dia em meu quarto, tudo o que eu queria era cair na cama e, para isso, permiti-me um banho relaxante de banheira. Despejei um pouco de sais e uma essência de baunilha na água quente e mergulhei. Fechei os olhos sem sequer me permitir pensar em nada, pois sabia que minha mente traiçoeira me levaria por caminhos em que o regresso seria tão doloroso quanto à ida. Então apenas fiquei ali, ouvindo o som das bolhas estourando e dos pássaros lá fora, deixando que o tempo passasse.
Até que ouvi a porta do meu quarto bater.
Saí do banheiro enrolada apenas no roupão e encontrei sobre a minha cama um vestido de festa preto, longo e com aplicação de renda nas costas. Ao lado dele, havia um bilhete.

“Fique ainda mais bela e venha nos encontrar no salão de baile.
Com carinho, Friedrich.”



CAPÍTULO 18

Notas do capítulo: Este foi um dos capítulos mais emocionantes que escrevi até hoje e, mesmo sabendo como ele seria, conseguiu me emocionar bastante. Espero que surta o mesmo efeito em vocês! Deixo aqui, como sugestão, ler o capítulo ao som de Photograph do Ed Sheeran.
Uma boa leitura



Embora passasse de pouco mais das oito da noite, o palácio estava deserto. Andei pelos corredores, preocupada demais em dar um passo depois do outro e não tropeçar no vestido ao invés de procurar por qualquer alma viva pelo caminho.
Estava começando a me sentir um tanto ridícula naquele vestido e toda produzida como se fosse ganhar um Oscar, quando cheguei ao topo das escadas e me deparei com , impecavelmente vestido em um fraque cinza, esperando por mim lá em baixo. Seu sorriso ao me ver fez com que meu coração pulasse uns dois batimentos, ficando errático de repente. Precisei do dobro de concentração para não errar os degraus enquanto descia.
Ele estendeu a mão para mim assim que cheguei ao último degrau.
— Está linda, princesa.
— Obrigada — respondi. — Você também não está nada mal. Qual é a ocasião?
ofereceu um braço para mim e guiou-me até as portas fechadas do salão de baile. Não dava para ouvir som ou ruído algum vindo lá de dentro. Olhei para ele que apenas retribuiu com um sorriso enigmático antes de abrir as portas.
Não consegui ver absolutamente nada. O salão estava mergulhado no mais profundo breu. Avancei dando mais alguns passos chamando por . Tinha plena consciência de que ele estava bem ao meu lado, porém, numa fração de segundos, não senti mais sua presença. Tudo o que fui capaz de ouvir fora o ruído da minha própria respiração e os batimentos acelerados do meu coração.
Dei mais alguns passos, mergulhando na escuridão, e então uma luz se acendeu, refletindo sobre um pôster enorme. Meus olhos encheram d’água ao me dar conta da imagem ali. Era uma fotografia antiga em que eu ainda era apenas um bebê, no colo de minha mãe. Uma música ao fundo começou a tocar e eu logo a reconheci também: Photograph, do Ed Sheeran, a minha favorita — embora poucas pessoas tivessem conhecimento disso. Na medida em que avançava pelo salão, várias outras luzes foram se acendendo e iluminando tantas outras fotos. Era como estar mergulhando no túnel do tempo da minha vida. Tantos momentos eternizados bem ali, naquelas fotografias. O sorriso de minha mãe, minha primeira festa de aniversário, nossa viagem de férias ao litoral de Santos...
As luzes se apagaram e um telão surgiu a minha frente. O vídeo começou a rodar e eu não consegui mais me controlar. As imagens foram feitas no ano passado, no aniversário de minha mãe, quando toquei o arranjo que fiz para ela. Nós nem poderíamos imaginar que um mês depois, nossas vidas mudariam completamente ao recebermos a notícia da sua doença.
Meu coração ficou apertado e meu rosto encharcado pelas lágrimas que jorravam como uma fonte inesgotável de dor e saudade. Senti que um par de braços me abraçava, mas não vi quem era. Eu só tinha olhos para a imagem que rodava diante de mim. Queria poder voltar no tempo e reviver novamente cada minuto daquele dia. Poder dizer a minha mãe tudo o que a doença não me deu a chance dizer. O quanto a amava e o quanto sentia a sua falta. O sorriso de felicidade ao me ver tocar o violino e as lágrimas de emoção quando terminei. O brilho em seus olhos. Todas essas coisas nunca mais aconteceriam. Seria apenas isso. Uma lembrança. Uma ausência que o tempo aos poucos transformaria em saudade.
— Eu te amo, mãe — sussurrei, sufocada em minhas próprias lágrimas, quando na verdade queria gritar o mais alto que conseguisse, para que ela, onde quer que estivesse, pudesse me ouvir.
Logo depois as imagens mudaram. Passando para a minha primeira apresentação no teatro da escola. Lembro que neste dia, fiz de tudo para que minha mãe não me levasse para lá. Eu tremia feito vara verde só de imaginar todas aquelas pessoas no auditório olhando para mim. Mas como sempre, ela conseguiu me convencer. E o resultado foi uma sucessão de trapalhadas no palco, tanto da minha parte, quanto dos meus colegas. No final das contas, eu até que achei divertido.
Minhas emoções ainda estavam fora de controle. Hora eu estava chorando e na outra estava rindo, assistindo àqueles vídeos. Não sei onde Friedrich conseguiu as imagens, mas tenho quase certeza de que tinha o dedo de e Ângela nessa história. O que foi confirmado em seguida, através de uma transmissão online e ao vivo.
Os rostos de e Ângela surgiram no telão, sucedendo as memórias da minha infância.
, querida — disse Ângela com os olhos tão vermelhos quanto o seu nariz de tanto chorar. — Imagino o quanto está sendo difícil este momento para você. Elena sempre se empenhava tanto nesta data. Para ela, era como se a Páscoa e o Natal tivessem chegado ao mesmo tempo. Ela adorava planejar as suas festas. Imaginar como seria a sua reação. Esta foi à maneira que encontramos de você tê-la por perto neste dia.
— Amiga, não nos odeie, ok? — pediu , tão emocionada quanto eu. — Sei o quanto está sendo difícil, mas você lembra qual era o lema da sua mãe, não é? “No dia da , a tristeza não tem entrada vip”. — Recitamos em uníssono, a frase que minha mãe entoava todos os anos ao receber os convidados. — Então, enxugue essas lágrimas e aproveite o seu dia como ela gostaria que você fizesse.
— Cuide bem da nossa menina, Friedrich — pediu Ângela e eu senti alguém beijar o topo da minha cabeça. Olhei para cima e deparei-me com Friedrich, também bastante emocionado.
— Cuidaremos — garantiu ele, sorrindo para mim.
— Nos veremos em breve, — prometeu . — Agora enxugue essas lágrimas e aproveite a sua festa.
Tão logo as palavras de foram pronunciadas, o salão inteiro se acendeu e eu me deparei com as pessoas que estavam ali. Eu não fazia a mínima ideia de quem eram ou como chegaram ali. Não percebi movimentação alguma no palácio no decorrer do dia. E olha que o meu quarto ficava de frente para o pátio principal! Muitas delas tentavam esconder a emoção atrás de seus lenços enquanto me aplaudiam. Porém, apenas a presença de uma delas, me surpreendeu. Talvez fosse a maior surpresa da noite.
— Kirsty!
A irmã de Laura veio até mim, enxugando as lágrimas com um lenço e me deu um forte abraço.
— Meus parabéns, — ela se afastou e então sorriu. — As flores estão começando a brotar. Espero que possa ir visitá-las em breve. Elas estão com saudade. — Claro! — sorri, feliz em saber o quanto Kirsty estava bem e seguindo um novo propósito.
Uma fila de convidados começou a se formar atrás de Kirsty, todos querendo me cumprimentar e parabenizar pelo meu dia. Eu não fazia ideia de quem eram aquelas pessoas, porém Friedrich foi me apresentando uma a uma, na medida em que se aproximavam. Entre ministros, senadores, empresários, eu esquecia seus nomes no momento em que o rei os apresentava, imaginando como estava a minha cara naquele momento. Minha maquiagem deveria estar um horror!
! — saudou-me uma chorosa Laura. — Queríamos fazer deste dia um momento especial e mostrar o quanto você é querida por todos nós.
Eu não tinha palavras para agradecer a homenagem que eles fizeram à minha mãe. Tenho certeza de que ela teria adorado. Desde a decoração, em branco e dourado do salão, ao bolo, tudo ali estava perfeito.
Friedrich segurava uma pequena caixa de veludo vermelho nas mãos e a encarava com expectativa. Ao seu lado, Laura também parecia ansiosa, assim como , que tinha um brilho nos olhos que fora incapaz de esconder o quanto a homenagem também o emocionou bastante.
— Na Ladônia, temos a tradição de presentear as filhas com uma joia em seu primeiro aniversário na corte. Este foi o primeiro presente que Laura e eu compramos para Mysie e ficaríamos muito felizes se você puder aceitá-lo — ele então abriu a caixa, exibindo um anel com um diamante enorme. Acho que aquele era o maior que já vi em toda a minha vida! — Pedimos que fizessem alguns ajustes. Espero que sirva.
— É lindo, Friedrich. Mas não posso aceitá-lo.
— Por favor, , aceite — insistiu Laura segurando minhas mãos nas suas. — Não tive a chance de conhecer minha filha, mas se pudesse, gostaria que ela fosse como você. Não vejo ninguém mais digno de honrar o uso desta joia senão você.
Eu estava mesmo parecendo uma manteiga derretida esta noite. Laura me deixou muito emocionada com suas palavras e recusar aquela joia, depois de um pedido como aquele...
Estendi a mão e Friedrich o deslizou por meu anelar direto.
— Obrigada pela noite de hoje, pai — peguei a nós dois de surpresa ao chamá-lo de pai pela primeira vez. Os olhos de Friedrich se iluminaram de satisfação. — E você também, Laura.
— Queremos apenas que você veja o quanto é querida aqui, — disse ela com os olhos marejados, abraçando e Friedrich pela cintura, puxando-os para mais perto. — Somos a sua família, não vê?
A música mudou e uma valsa suave começou a tocar. Friedrich estendeu a mão para mim. — Concede-me a honra desta dança, Alteza?
— Seria um prazer, Majestade.
Olhei ao redor, enquanto Friedrich e eu rodopiávamos pelo salão, e vi todas aquelas pessoas festejando o meu dia. Embora tivesse sido uma surpresa maravilhosa, o maior presente estava bem ali, diante de mim. O pai que nunca nutri esperanças em conhecer, que havia me apresentado a uma família da qual nunca imaginei fazer parte e que aos poucos estava aprendendo a amar.



CAPÍTULO 19

A noite foi melhor do que eu pude imaginar para o dia de hoje. Fui levada aos extremos das minhas emoções com aquela surpresa. Todos os convidados já tinham ido embora enquanto eu ficara ali, olhando para aquelas fotos. Às vezes não percebemos a importância de um determinado momento de nossas vidas até nos darmos conta de que eles nunca mais acontecerão e que serão sobrepostos por outros, mas nunca esquecidos.
A música continuava a tocar, uma melodia suave e agradável. A trilha perfeita para aquele momento entre minhas memórias e eu. Peguei-me rindo sozinha com as fotos que eles puseram ali. , você me paga! No calor do momento, nem percebi que as fotos de nosso fim de semana em Paraty faziam parte da exposição. Lembrei, como se fosse ontem, da primeira vez em que passei um fim de semana sozinha com os amigos e do meu primeiro porre. Depois deste dia, prometi a mim mesma que nunca mais colocaria uma gota de álcool na boca. Claro que todo mundo na vida já disse isso no auge do teor alcoólico, não?
— Seu cabelo já viu dias melhores — falou alguém atrás de mim e eu nem precisei me virar para saber quem era. O tom insolente, e ao mesmo tempo brincalhão, de eu seria capaz de reconhecer até debaixo d’água.
— Este não é o meu melhor ângulo para fotos — eu disse, olhando para o pôster praticamente escondido no fundo do salão. Pelo menos eles tiveram o bom senso de não expor esta foto como as demais. Meu cabelo estava mesmo apavorante!
parou ao meu lado, usando agora apenas a calça do fraque e a camisa branca com as mangas dobradas até a altura dos cotovelos, também encarando a foto comprometedora da minha primeira ressaca.
— Mas até que não está tão ruim quanto aquela dali — comparou ele, apontando com o queixo para a foto do meu aniversário de dois anos.
Sim. De fato os pais — no meu caso, mãe — nos fazem pagar os maiores micos quando ainda não podemos ter vontade própria. Mas até que eu estava bonitinha, vestida de Emília, a boneca de pano do Sítio do Pica-pau Amarelo. Pelo menos ela não me vestiu de Rabicó, que era o meu personagem favorito.
Continuamos a andar pelo salão repleto das minhas memórias. Tinha até uma foto do dia em que cheguei à Ladônia e do momento em que os cães do palácio me atacaram. Éramos uma confusão de mãos, patas, cabelos e pelos. e eu rimos bastante daquela foto. A propósito, quem foi que a tirou?
Escondido em algum lugar daquele imenso salão, o DJ mudou a música. O ritmo suave de antes deu lugar a uma balada mais romântica e incentivou a me pegar pela mão e me arrastar para o meio do salão coberto de balões dourados e brancos.
— O que você está fazendo?
— Tirando você para dançar — disse ele, como se fosse tão óbvio que até uma criança teria percebido, dando uma piscadinha para mim.
segurou minha mão e me girou, de modo que eu parei diante dele. Com a mão esquerda ele firmou minhas costas, puxando-me para mais perto. Com aqueles saltos, eu quase podia olhá-lo diretamente nos olhos, mas foram seus lábios que ficaram na minha linha de visão. Algo que eu já vinha cobiçando em silêncio há muito tempo. Envolvi seu pescoço com meus braços, restringindo ainda mais a distância entre nós. Dando aquele sorriso que me tirava às forças, me abraçou pala cintura e começou a ditar o ritmo desajeitado de nossa dança, guiando meu corpo a seu bel prazer. Deixei que ele me levasse, apoiando a cabeça em seu peito e sentindo seu perfume inconfundível e os batimentos acelerados de seu coração.
Não sei se era a música, a dança ou a proximidade entre nós. O fato era que eu não conseguia mais esconder de mim mesma o quanto me atraía. Mesmo com seu jeito grosseiro, era em momentos como este que tudo desaparecia. Em seus braços eu me sentia em paz, protegida. Sem que percebêssemos, nossos passos foram ficando mais lentos. Já não acompanhávamos mais o ritmo da música, seguíamos o nosso próprio. Lentamente, as mãos de subiram por minhas costas. Seu toque era quente, suave, quase imperceptível, enquanto traçava minha coluna indo em direção à minha nuca. Ele trançou os dedos em meus cabelos, afastando-os e liberando o acesso ao meu pescoço. Senti a sua barba por fazer arranhar minha pele, arrepiando todos os meus poros.
Beije-me. Beije-me. Beije-me. Era só nisso que minha mente pensava naquele momento.
E parece que finalmente o momento chegaria. Com uma lentidão agoniante, seus lábios tocaram a pele sensível do meu pescoço. Um beijo tenro, suave, instigante, quente. Peguei-me imaginando qual seria o sabor de seu beijo quando seus lábios chegaram a minha bochecha. Apenas fechei os olhos, ansiando pelo momento.
Então a música acabou e as luzes do salão se acenderam. Ainda com os lábios em meu rosto, depositou um beijo carinhoso em minha bochecha.
— Boa noite, .
E com essas palavras, foi embora do salão me deixando como uma criança que acaba de ter seu doce roubado.

* * *


Irritada. Esta era a palavra que me definia esta manhã. Apesar de a noite de ontem ter sido fantástica, não posso dizer o mesmo de seu desfecho. As coisas entre e eu estavam seguindo um padrão de quente e frio que me deixava ansiosa só para então me frustrar depois. Quando eu finalmente achava que ia, alguma coisa dava errado, despejando um balde de água fria no clima.
O que eu precisava era parar de criar expectativas, isso sim, e fazer algo de produtivo com o excesso de tempo livre que eu tinha agora.
Porém, foi só abrir os olhos naquela manhã para contradizer tudo o que havia acabado de decidir. estava encostado em minha porta, de braços cruzados e olhando para mim, ignorando totalmente o fato de que Sophie tentava roer os cadarços de seus tênis. Embora ele estivesse deliciosamente lindo — como sempre — em seu jeans desbotado e camiseta de algodão bege, eu precisava seriamente passar a trancar minha porta, pois suas invasões, apesar de me agradarem muito, poderiam ser um tanto constrangedoras. Para mim, óbvio.
— Pretende passar o resto do dia na cama ou quer dar uma volta comigo pelo palácio? — perguntou ele a guisa de bom dia. — Tem muitas alas que você ainda não conheceu.
Aquilo não poderia estar acontecendo! Logo agora que eu estava determinada a não criar expectativas, surge ele com aquela proposta para lá de tentadora. Meu primeiro pensamento foi recusar, mas parece que todo o meu amor próprio, juntamente com a minha razão, resolveram tirar o dia de folga e me abandonarem justamente quando eu mais precisava deles.
— Sim — respondi apenas.
— Sim, você vai ficar na cama ou sim, você vem comigo? — indagou , dando um meio sorriso.
Como resposta a sua pergunta, saí da cama e fui direto para o banheiro. Minha ideia era um banho rápido, mas meus nervos estavam à flor da pele demais para se contentarem com apenas cinco minutos de chuveirada. Desisti do chuveiro e fui para a banheira. Enquanto ela enchia, coloquei todos os frascos de sais de banho sobre a bancada e meio que no úni dúni tê, selecionei os mais afrodisíacos. Eu estava parecendo uma bruxa, colocando os ingredientes para uma poção do amor em um caldeirão fumegante.
Eu hein.
Relaxa, , disse a mim mesma enquanto mergulhava na banheira.
Por mais que eu tentasse acalmar meus nervos, saber que estava esperando por mim do outro lado daquela parede, não ajudava em nada. Respirei fundo, inalando a mistura de aromas e decidi por um fim àquele tormento.
Envolvida em meu roupão, fui para o closet. Havia uma variedade de roupas ali, muito mais do que eu tinha trazido em minhas singelas malas vermelhas, e abençoei Evanna por isso. O dia de hoje amanheceu quente — para os padrões da Ladônia, porque para mim, aqui era sempre frio — e então resolvi entrar no clima também, elegendo um vestido de estampa florida com mangas curtas e uma sapatilha creme. Prendi os cabelos num coque alto, passei um pouco de blush em minhas bochechas pálidas e gloss com sabor de morango nos lábios. Espirrei no ar um pouco de grapefruit e atravessei a nuvem aromática apenas para que o perfume ficasse sutil. Olhei-me no espelho e gostei do resultado. Restava saber se a opinião do responsável por meus batimentos erráticos seria a mesma.
soltou um assobio baixo assim que voltei para o quarto e o encontrei na sacada. Demorou uns bons quinze segundos até que ele dissesse:
— Você está linda.
Um sorriso tímido foi à única resposta que lhe dei antes de acompanhá-lo para fora do quarto.



CAPÍTULO 20

Embora ciente da mão macia e quente de sobre a minha enquanto avançávamos pelos corredores, não quis criar expectativas quanto ao passeio interno. Eu já estava na Ladônia há pouco mais de dois meses e de fato não tinha explorado aquela parte do palácio. O corredor era mais escuro que os demais e havia pouquíssimas obras de artes no caminho. O número de portas ali também era menor. Contei duas apenas.
— Essas portas correspondem a um único cômodo — explicou parando diante de uma porta dupla com os puxadores de bronze. No centro dela, havia um entalhe dourado do brasão de armas da Ladônia. — A história completa do país está guardada bem aqui atrás.
Ele abriu as portas e logo me deparei com um cômodo gigantesco. Não havia paredes divisórias ali — apenas uma, bem nos fundos, com uma porta e um painel eletrônico ao lado —, era tudo muito amplo e a luz natural que adentrava pelas dezenas de janelas, deixava o espaço com uma luminosidade surpreendente. O chão era todo coberto com um tapete marrom e laranja que contrastava com a mobília rústica. As cristaleiras estavam repletas de relíquias da família Zorcky, como caixas de joias e leques feitos de marfim, tinteiros, canetas, uma escrivaninha e até mesmo jogos de chá completos.
Eu não sabia para onde olhar primeiro. Desde os vestidos de baile às esculturas nos pedestais eu não queria perder nada.
— Uma vez por ano o palácio abre as portas para visitação pública — informou . — Friedrich quer que a população conheça a sua história. Não apenas aquelas contadas nos livros. Tudo isso aqui é parte do que somos.
Era difícil formular uma frase naquele momento diante de tudo aquilo. Os objetos estavam arrumados em ordem cronológica, desde os mais antigos — da época de James Aldington — aos mais recentes. Havia cartas, mapas, documentos, pinturas, era um acervo histórico maravilhoso que faria qualquer museu desembolsar uma boa grana para que as peças fizessem parte de suas exposições. Não era para menos a expressão orgulhosa que exibia em seu rosto. A Ladônia era um país pequeno, mas que fora forte o bastante para lutar por sua independência.
— Dentre tudo o que viu aqui, esta é a sala mais importante — falou parando diante da única porta do cômodo. Ele digitou uma sequência de números no painel e um ruído metálico das engrenagens da porta ecoou por toda a sala. — São raras as pessoas que têm acesso à sala do cofre.
abriu a porta e um sensor ativou as luzes alógenas que foram se acendendo uma a uma, iluminando a sala. Ele foi à frente, porém, eu não dei um único passo, começando a suar frio ao ver aquele espaço fechado sem nenhuma janela. continuou falando sem nem mesmo se dar conta de que eu não o seguia, no entanto, pude compreender que, naquela sala, era onde o tesouro real ficava guardado.
— Esta aqui foi à coroa usada na cerimônia de coroação de Friedrich — disse ele, apontando para o espaço a sua direita, mas que não pude ver de onde estava. — A peça pesa mais de dois quilos e foi forjada em ouro vinte e dois quilates e pedras preciosas.
Quando já estava na metade do cômodo, foi que finalmente ele deu falta da minha presença.
— Por que está parada aí? — perguntou intrigado.
Como explicar a que espaços fechados como aquele me davam pavor, sem parecer ridícula? Ele voltou todo o caminho e parou diante de mim. Com as costas da mão, alisou meu rosto.
? Está tudo bem?
Balancei a cabeça afirmando e dei um passo à frente, olhando rapidamente para trás para me certificar de que a porta ainda permanecia aberta. A mão de desceu por meu rosto, passando pelo ombro e por toda a extensão do meu braço até encontrar a minha mão fria e entrelaçada à outra. À medida que adentrava na sala, sentia como se as paredes viessem na minha direção, minha boca ficou seca e meu coração disparou como o cronômetro de uma bomba prestes a explodir. Minhas pernas de repente travaram e não consegui dar mais um único passo. Soltei a mão de e me apoiei numa ilha de vidro no centro da sala, repleta de colares de pedras preciosas que não me dei ao trabalho de tentar identificar, preocupada demais em não ter um ataque cardíaco ali. Puxei o ar com força para meus pulmões, sentindo um suor frio e pegajoso descer pela minha coluna.
, você está bem? — perguntou preocupado, parando ao meu lado e examinando meu rosto com uma expressão que indicava que havia algo de errado com o meu tom de pele. — Você está suando!
— Está tudo bem — menti. Mas aquela altura do campeonato, já me conhecia o suficiente para saber quando eu não estava dizendo a verdade.
— Sabe, você fica linda quando está irritada, mas fica mais linda ainda quando mente. — me girou, colocando-me de frente para ele. Senti o frio da ilha de vidro atrás de mim, pressionando minhas costas quando ele reduziu a distância entre nós. Engoli em seco ao ver a maneira como seus olhos fitavam meus lábios. — Linda demais.
Foram às últimas palavras dele antes de selar meus lábios com os seus, calando todos os meus medos. Prendendo-me em seus braços, me puxou para mais perto, aproximando ainda mais nossos corpos. A intensidade do beijo também aumentou, aquecendo meu corpo frio. Deixei que minha mente me levasse para longe daquela sala, para um lugar seguro, onde as paredes e o teto não estivessem a ponto de me esmagar. Senti seu perfume, que agora me era tão familiar, entrar por minhas vias respiratórias e aos poucos fui me acalmando.
Não podia mais negar o quanto havia se tornado parte de mim. Sua personalidade dúbia era um tanto complicada de compreender e, sinceramente, eu não sei se gostaria de entender. Era o seu jeito ambíguo que me atraía, me desafiava e me encantava. Quando estávamos juntos, tudo parecia perder os sentidos, inclusive eu mesma.
Ainda ofegante, afastei-me de , mas não totalmente, e apoiei minhas mãos em seus ombros. Dizer que eu não havia idealizado aquele momento, seria pura hipocrisia, mas eu esperava que tivesse acontecido em outro contexto, quando eu não estivesse tão propensa a sofrer um ataque cardíaco, de preferência.
Romper nosso contato não estava nos meus planos, tampouco nos de , que ainda me prendia em seus braços ao colar sua testa a minha. Esperei tanto por aquele momento, que não quis acreditar quando fomos sobressaltados com o ruído das engrenagens precedido pelo estridente som metálico das grades se fechando.
Subitamente, fui tomada pelo pânico.
— Me tira daqui, por favor — pedi urgentemente, minha voz trêmula se perdendo aos poucos.
se afastou, apoiando as mãos em meus ombros.
, olhe para mim — pediu. — Está tudo bem, ok? Apenas respire.
Meu corpo balançava para frente e para trás enquanto eu lutava para mandar o oxigênio para os meus pulmões.
— Me tira daqui, , por favor — implorei em pânico. — Só me deixe sair daqui!
segurou meu rosto entre suas mãos, forçando-me a encará-lo. — Você está bem. Está segura. — Com movimentos circulares, ele acariciou minhas bochechas. Percebi seu rosto crescendo diante do meu e meus lábios ficaram ainda mais secos. — Está tudo bem. Nós vamos sair daqui. Você confia em mim?
Apenas balancei a cabeça afirmando. Mantendo-me presa a ele, me ajudou a andar de volta até a porta. Ele digitou um código no painel e logo as grades se moveram liberando a passagem para nós. Retornar para a outra sala, foi o mesmo que voltar a respirar depois de muito tempo embaixo d’água. Senti minhas forças retornarem gradativamente enquanto meus passos ficavam mais firmes.
— Desculpe, .
— Pelo quê? — perguntou ele, de costas para mim, digitando mais uma vez o código para selar a sala do cofre.
— Deveria ter te contado que sou claustrofóbica.
Ele balançou a cabeça, desapontado.
— Não. A culpa foi minha. Esqueci completamente que a sala tem um mecanismo de segurança que bloqueia a porta depois de quinze minutos — explicou ele ao se aproximar e acariciar meu rosto. Seus olhos azuis eram como duas esferas hipnóticas quando me olhavam daquele jeito, e pela segunda vez naquele dia estava perdendo o ar. — Como está se sentindo?
— Melhor, obrigada — respondi.
— Ótimo, porque o passeio ainda não acabou — informou ele, brindando-me com um sorriso de empolgação, antes de me segurar pela mão novamente e me levar para o outro lado da sala.





Continua...



Nota da autora: Muito obrigada por ler!
Beijos





Nota da beta: Aeeee chegou na parte que eu havia parado, e devo dizer que foi lindo o momento da festa dela, as lembranças, o carinho da melhor amiga e da Ângela, ela reconhendo finalmente o rei como o pai dela, tudo impecável, Maria! Apaixonadaaa! Ressaltando também o primeiro beijo deles, que mesmo devido as circustâncias foi incrível! <3

Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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