Dias Homéricos

Última atualização: 01/12/2020

Parece um sonho!


Estava quente quando Mariana chegou ao aeroporto de Atenas. Tão quente que a menina podia sentir seu corpo acostumado com a temperatura mediana da Flórida começando a suar por baixo da blusa de mangas longas que vestia.
O calor, porém, não impediu que ela desse um dos sorrisos mais largos da sua vida ao pisar no solo grego pela primeira vez. Esse sempre fora um dos maiores sonhos desde que se conhecia por gente: viajar para a Grécia com os seus melhores amigos.
E era por eles que ela esperava sentada em um café, enquanto conversava com Michael, amigo que fez durante a longa viagem de Miami para Grécia. Conversaram pelo que pareceram ser horas, o que na verdade foram somente 1h10, perdendo a noção do tempo e das pessoas à sua volta, até que de repente ouviram um coro gritando:
— Mariana!
Mariana reconheceu aquelas vozes e levantou a cabeça, que estava virada para o café em sua mesa, vendo um grupo de amigos que se atrapalhava com diversas malas.
— São eles! — ela disse para Michael, apontando para o grupo barulhento.
Ela saiu imediatamente da mesa do café e correu em direção ao grupo, sem se importar em esbarrar em algumas pessoas no caminho.
O grupo barulhento era formado por André, uma jovem ruiva também conhecida por Clarissa e, por fim, pela Rebeca, melhores amigos de Mariana, que moravam no Brasil, onde ela também morava antes de se mudar para a Flórida.
— Não acredito que isso está finalmente acontecendo! — Mariana disse, emocionada.
— Eu sei! — Clarissa gritou. — Parece um sonho!
— tudohhhhhh — disse André gritando em plenos pulmões.
— Finalmente conseguimos tornar isso real! — disse Rebeca, ainda um pouco sonolenta após as longas horas de voo.
Começaram então a conversar e se abraçar em um momento de felicidade coletiva que atraia a visão dos outros passageiros no aeroporto. No meio de toda a comoção, Mariana se recordou que não estava sozinha antes da chegada de seus bffs e, como a pessoa educada que ela é, decidiu apresentá-los ao Michael.
— Gente, tô com um amigo aqui que veio comigo desde Miami. — Mariana falou, começando a observar ao redor tentando encontrar o café, pois esse encontro havia a feito perder toda a noção espacial.
Assim que avistou a grande placa escrito Starbucks, apontou para ele sentado, que acenou para ela e os amigos.
— Aquele é o Michael, ou Mike se preferirem, a gente conversou bastante no voo. — falou, puxando André pela mão em direção ao novo amigo enquanto as meninas os seguiam.
chegando perto da mesa que estava Michael, mariana fala:
— Michael, esses são os amigos que eu tinha te falado!
— Prazer, pessoal! Espero que vocês tenham tido uma viagem boa — disse Michael, levantando a cabeça que estava a olhar o telefone. Ele estava vestindo uma jaqueta preta com um pequeno broche em sua gola que tinha um desenho de uma pantera e no bolso de sua jaqueta existia um pente garfo que usava para pentear seu black power que estava a deixar crescer desde o início do ano. Seu estilo, mais do que óbvio para quem o olhava, era baseado no movimento Black is beautiful dos anos 1960.
— Sim, tivemos, obrigada! — disseram Clarissa e André simultaneamente.
— Ele vai pra Skopelos também, galera! — disse Mariana. — Talvez a gente esteja hospedado no mesmo lugar.
— Poxa, seria muito bacana, mas antes, vamos comer por favor! Estou morrendo de fome há 5 horas! — disse Clarissa puxando André e Mariana na frente para fofocarem enquanto procuravam o caminho do pizza hut.
Diante desse contexto Rebeca e Michael acompanharam o grupo inicialmente em silêncio, até que os dois simultaneamente tentam puxar papo e dão uma risada envergonhada.
— Desculpa. — Rebeca falou, com as bochechas coradas. — Pode falar.
Michael riu, achando fofo a menina estar envergonhada.
— A Mariana acabou nem falando o nome de vocês… — ele disse, também envergonhado.
— Me chamo Rebeca. — ela riu. — O que faz pela Grécia?
— Tô tentando começar um mochilão pela Europa. — ele falou. — Último ano de faculdade, sabe como é, né?
— Sei bem. — ela respondeu. — Último ano de quê?
— Línguas Clássicas. — sorriu. — Tô querendo vivenciar um pouco o grego.
Ela riu, observando o rapaz.
— O que foi? — ele perguntou, gostando do som da risada dela.
— Você não parece um estudante de Línguas Clássicas. — disse.
— Bom, você não deveria julgar um livro pela capa. — brincou. — Eu, por exemplo, acho que você deve fazer Medicina, mas provavelmente estou errado.
— Está mesmo. — ela confirmou. — Acabei de terminar a faculdade de Direito, mas realmente não tenho cara de advogada. — ela fez uma careta para ele, que riu.
Chegando à pizza hut, depois de cruzar quase que metade do aeroporto, finalmente iriam saciar a fome que os atingia desde metade do Atlântico. Sentaram-se em uma mesa no canto do restaurante e conversaram até dar umas 12h40.
— Nossa já são 12h40, como o tempo passa rápido — disse Rebeca — Temos que ir agora se quisermos curtir um pouco a cidade antes de irmos pegar a balsa.
Todos concordaram e se despediram de Michael, que visitaria alguns amigos em Atenas antes de ir para Skopelos.
— O que acharam dele? — Mariana perguntou quando já estavam fora do aeroporto. — Simpático, né?
— O que achou, Rebeca? — Clarissa perguntou com um sorriso malicioso. — Ele foi simpático com você? — os amigos riram e Rebeca ficou vermelha.
— Cala a boca, Clarissa. — ela falou, emburrada, virando o rosto para outro lado.
— Ele tá tão na sua! — disse André, cutucando a barriga da amiga e fazendo com que ela ficasse ainda mais sem graça.
— Não acredito que a Rebeca já conseguiu um boy no aeroporto! — Clarissa disse, fingindo estar chateada.
— Vamos deixar pra lá, ele nem está mais aqui e eu nem peguei o contato dele. Vamos curtir a cidade e depois vemos no que dá. — disse Rebeca olhando os arredores da cidade de dentro do ônibus que haviam pegado no aeroporto
— Fica tranquila, amiga. — Mariana enquanto balançava o celular em sua mão — Eu peguei antes de vocês chegarem e, se depender de mim, esse casal sai antes de chegarmos ao hotel.
— Ai, Mari, não me iluda assim, minhas habilidades de fanficar estão a todo vapor… — brincou Rebeca, mas logo perdendo o foco do diálogo para apreciar a paisagem.


Mamma mia...

No todo, o grupo de amigos teve uma tarde agradável em Atenas. Visitaram o principal ponto turístico e histórico, a Acrópole ateniense, e, às 15h40, foram em direção ao porto que os levaria à ilha.
Mariana passou o caminho inteiro reclamando do calor, enquanto André falava sobre a história da Atenas Clássica que estava ao redor do grupo. Contudo as duas outras amigas pouco prestavam atenção no futuro grande historiador, pois Clarissa estava zoando Rebeca por todo percurso pelo acontecimento de mais cedo.
— Agora eu tô sentindo esse calor. — disse Clarissa ao ver um grego que saía da balsa que eles iriam pegar. — Realmente existem deuses aqui, André.

Rebeca’s P.O.V. on
Depois dessa tarde cheia de provocações e desse último comentário da Clarissa, nada mais irá me surpreender durante as próximas 24h. O que a minha amiga tem de espontânea ela tem de sincera. E eu sinceramente amo muito meus amigos e o modo de como esse grupo é formado por pessoas tão distintas entre si, mas que harmonicamente se combinam.
Assim que chegamos no cais, nos direcionamos à fila para fazer todo o procedimento para entrar na barca. Procedimento esse que, na minha humilde opinião, durou muito mais que o necessário, mas quem sou eu para opinar sobre isso, não é mesmo.
Uma vez superado todos os protocolos de embarque, finalmente nos acomodamos na pequena balsa que nos levaria à tão amada ilha de Skopelos. Ao nos acomodarmos, eu, por preferência, fiquei sentada do lado da barreira do casco da embarcação. E é nesse cenário que de fato “me dou conta” de onde estou e com quem.
Nesses últimos 9 anos de amizade, cheio de altos e baixos, já fizemos e planejamos fazer muitas coisas, mas nunca realmente acreditei que iríamos conseguir organizar e executar uma “puta” viagem internacional para a Grécia.
Me lembro como se fosse ontem quando a Mariana pela primeira vez comentou e tentou nos convencer a realizar essa nova, e extremamente cara, aventura pelo mediterrâneo. De primeiro ninguém realmente “pilhou” com a ideia, pois éramos todos universitários falidos que lutavam a cada dia para pagar as xerox, contudo uma coisa a Mariana tem de sobra, e ninguém pode negar, é sua persistência. Não foram uma nem duas as vezes que ela levantou esse tema até nos dobrar enfim a fazê-lo. Contudo, dentre as inúmeros providências que uma viagem desse porte acarreta, houveram dois grandes detalhes que tomaram meses, se não anos, para conseguirmos orquestrar: 1° como iríamos conseguir toda a verba para fazer a viagem; e 2° como faríamos para chegar ao mesmo tempo na Grécia sendo que estávamos praticamente nos pólos opostos do Continente Americano.
Nossa, só de me recordar de todo o trabalho que tivemos já consigo sentir todos os fios de cabelo branco que adquiri e os possíveis anos de vida a menos que terei. Entretanto, ao olhar essa paisagem mitológica digna dos deuses à vista, cercada por meus melhores amigos e uma possível nova amizade, ou quem sabe algo a mais; vejo que todos os sacrifícios valeram a pena só pelo privilégio de viver esse momento. E assim segue minha linha de raciocínio até que do nada sou interrompida por uma voz muito familiar.
Rebeca P.O.V. off

— Olha quem ta chegando, gente! — diz Mariana fazendo com que todos olhem em direção ao porto.
No meio da multidão de turistas, Michael se destacava ao se aproximar do check-in da embarcação. Passa por todo o processo de seguridade que verificava as passagens e pertences, observa o barco e, ao avistar o grupo de novos amigos que havia feito mais cedo naquele dia, se aproxima dos mesmos.
— Oi, gente, tudo bem??? Curtiram a cidade??? — diz, olhando na direção de Rebeca.
— Oi, a gente curtiu muito simmm!!! — diz André historicamente empolgado, todavia Michael continuava a olhar para Rebeca, que estava ficando envergonhada da mesma forma que no aeroporto.
— Bom que vocês curtiram… posso sentar-me aqui??? — disse apontando para um espaço que havia ao lado de Rebeca.
— Claro que pode, só me deixa arrumar para você se sentar — disse ela acenando que sim com a cabeça.
Enquanto isso, Mariana, Clarissa e André se olhavam com aquele olhar que só amigos entendem, mas nada disseram. E, nesse momento, a balsa começou a se movimentar, assim se iniciado a viagem de 5 desgastantes horas, em que os amigos haviam aproveitado para conversar melhor com Michael e para tirar algumas fotos com o mar grego translúcido que estava a cercar o grupo.
Chegaram finalmente, todavia um pouco cansados e enjoados. Ainda estavam se distraindo, admirando o mar que ficava para trás, quando sentiram que a balsa parou. Correram para a proa, vendo a cidade que saltava ao olhar de tão bonita e colorida. Ainda boquiabertos, saíram com dificuldade da balsa e pegaram as malas que os comissários gentilmente os entregavam, assim começando a aventura que planejaram desde a adolescência. Os 5 amigos, agora que Michael parecia estar oficialmente incluído, então caminharam com suas malas em direção ao hotel.
Já estava de noite e as luzes do vilarejo o tornavam mais bonito e aconchegante. Assim eles aproveitaram para tirar várias fotos antes de se dirigirem para o endereço indicado pelo Google.
O hotel era simples, mas muito bonito, e todas as pessoas que conversavam animadas no saguão pareciam se conhecer há anos. Todos ficaram maravilhados com o ambiente e foram para a recepção para fazerem o check-in.
— Gente, pelo amor de Deus, olha este homem atrás do balcão. — Clarissa disse, chamando a atenção dos amigos para um jovem que atendia a alguns hóspedes.
— Mamma mia… — falou Mariana, balançando a mão numa tentativa de conseguir um pouco de vento.
— Vamos fazer esse check-in. — André falou, rindo, e Clarissa e Mariana correram para ver quem chegaria primeiro.
Novamente, Rebeca e Michael ficaram para trás. Olharam-se e riram.
— Parece que isso vai acontecer muito nessa viagem. — ele disse.
— Espero que sim. — Rebeca pensou alto, ficando envergonhada logo depois e tentando corrigir sua fala. — Digo, espero que alguém me faça companhia, pois sempre sou deixada para trás sozinha.
Mike riu, percebendo a vergonha da menina.
— Relaxa, não vou te deixar pra trás. — ele piscou antes de seguirem os amigos até o balcão.
— Isso, reservamos dois quartos. — Clarissa falava quando eles chegaram.
— Estão no nome de quem, senhora? — perguntou o atendente
— No nome de….na verdade eu não sei....fizemos no nome de quem, pessoal??? — disse olhando para os amigos com um ar de dúvida.
— Foi no meu nome, Rebeca Catarina de Melo Mamede — disse com um ar de orgulho na voz.
Os procedimentos básicos do check-in foram feitos, enquanto André e Mariana observavam o salão da recepção e todos os acessos, vendo que havia piscina, bar e muito mais a ser desbravado no hotel. Então, o processo foi concluído e as chaves entregues, os quatro amigos se olharam com uma animação no olhar e com uma rapidez correram em direção aos elevadores, quebrando o cansaço que a viagem deu, já que suas malas já estavam dentro dos quartos.
Rebeca, também empolgada com a chegada nos quartos, parou no meio da corrida aos elevadores, olhou para trás, onde Michael havia ficado fazendo o seu check-in, e disse:
— A gente se vê amanhã! — andando lentamente de costas para os elevadores com um sorriso no rosto, não dando tempo para ele sequer responder, e entrou no elevador em que seus amigos já estavam.


Nunca que isso é uma fanfic


No dia seguinte, por volta de umas 6:30 da manhã, Rebeca acordou como se fosse um dia normal, mas, ao observar o quarto, viu sua amiga Mariana dormindo na cama ao lado, assim abrindo um sorriso pela confirmação de que a viagem a Skopelos não era mais um simples sonho agradável. Levantou para ir ao banheiro, e, no caminho ao pequeno banheiro que o quarto tinha, espiou pela porta que dividia os dois quartos seus outros dois amigos dormindo e o quarto desarrumado.
— Parece que eles foram dormir tarde ontem… Ai ai — pensou alto.
Entrou então no banheiro, para poder fazer sua higiene básica, enquanto Mariana acordava por causa de Rebeca, que havia pensado um pouco alto demais. Mariana, assim como a amiga, acordou e, antes mesmo de abrir os olhos, deu um sorriso que ia de orelha a orelha. Levantou-se da cama em um rápido pulo e disse:
— Que felicidade, ai, Beca, nem acredito que estamos aqui! — disse para a companheira de quarto, que imaginava que estava por ali ainda. Mariana então percebeu que a amiga não estava mais na cama, já arrumada, dando então uma corridinha para o banheiro, que estava fechado e que emanava um barulho de água.
— Ela tá tomando banho, não vai poder me ouvir… Esperta ela — disse Mariana, virando para a porta que dava para o outro quarto, o que a fez abrir novamente aquele contagiante sorriso. Entrou no quarto, gritando:
— BOM DIAAAA! — fazendo com que André e Clarissa se encolhessem na cama para tentarem dormir mais, todavia Mariana era persistente e não cansou até fazer com que os dois acordassem. Quando os dois dorminhocos olharam para a amiga, que estava a rir, imediatamente abriam o mesmo sorriso que todos fizeram ao acordar e se verem na viagem, que antes era somente um sonho e agora se tornava realidade.
— Te amo, Mariana. — disse uma Clarissa sonolenta. — Mas não faça isso nunca mais se quiser estar viva até o fim da viagem.
Os amigos então se arrumaram para o primeiro dia de passeio, dia esse que teria diversas atividades, como a visita ao set de Mamma Mia, filme preferido de um deles. Saíram dos quartos pela porta principal do quarto de Rebeca e Mariana, e foram em direção ao elevador, que estava a uma distância de 4 portas deles, quase saltitando de felicidade, mas com o barulho de seus estômagos vazios.
Quando o elevador abriu e eles foram entrar, Mariana parou um instante e percebeu que tinha esquecido os próprios óculos, e então percebeu que estava vendo tudo embaçado.
— Meu deus, gente, eu esqueci meus óculos, tô vendo nada, eu encontro vocês lá no café da manhã mesmo — disse com um pouco de vergonha ao perceber que havia outras pessoas no elevador e foi em direção ao quarto.
Entrou no quarto e procurou seus óculos, o que não foi tarefa fácil, pois seus eles estavam debaixo da cama. Ela demorou uns bons minutos até cogitar essa possibilidade.
Quando finalmente chegou ao saguão, com os óculos no rosto, percebeu que não fazia ideia de onde era o café da manhã. As poltronas da recepção estavam relativamente vazias e não via nem rastro de seus amigos por ali. Mariana sempre tivera uma péssima noção de localização, por isso sempre era guiada por Rebeca, que certamente havia escutado atentamente as instruções do recepcionista na noite anterior, enquanto ela e Clarissa haviam apenas ficado observando a beleza dele.
De qualquer forma, era justamente o recepcionista uma das únicas pessoas presentes no saguão que poderiam informá-la sobre a direção do café, então ela seguiu até ele um pouco envergonhada.
— Oi, bom dia. — ela sorriu, tímida.
— Bom dia, senhorita. — ele sorriu abertamente. — Posso te ajudar em alguma coisa?
— Hm, na verdade, pode. — ela disse, mexendo nos cabelos. — Eu posso ter ficado um pouco distraída com suas instruções ontem e não faço ideia de onde seja o café da manhã. Acabei me separando dos meus amigos e agora estou um pouco perdida.
— Pegue o elevador para o primeiro andar. — ele falou, rindo da tentativa de explicação dela. — Você vai ver um restaurante assim que sair dele.
— Ah, muito obrigada! — ela agradeceu. — Prometo prestar mais atenção da próxima vez.
— Vou cobrar. — ele piscou e ela ficou vermelha de repente. — Aproveite o café por mim.
Ela sorriu, sem saber o que falar, e balançou a cabeça afirmativamente antes de se dirigir de volta para o elevador, pensando no sorriso do recepcionista e sorrindo consigo mesma. Entrou no elevador e percebeu que no painel tinha escrito “café da manhã” e não tinha percebido, mas gostou de ter conhecido uma pessoa nova.
Chegando na porta do grande restaurante, viu que seus amigos já estavam tomando o café e que Michael já estava lá. A mesa então olhou para Mariana com um ar de dúvida, mas ao mesmo tempo rindo de já imaginar o que causou a demora.
— Gente, eu me perdi por esse hotel, fui parar lá na entrada. — disse ela ainda um pouco corada da conversa com o recepcionista.
— Alguma coisa aconteceu de bom nessa recepção, pra você ficar assim toda coradinha! — disse Clarissa, já imaginando o motivo, e fazendo com que toda a mesa observasse atentamente as bochechas de Mariana, então deixando-a mais envergonhada ainda.
— Você não tem ideia… — disse, observando a organização da mesa e percebendo que Rebeca estava sentada ao lado de Michael, e que infelizmente não havia cadeira disponível.
Michael já havia chegado ao salão antes de todos, por isso, quando Mariana chegou, ele estava acabando. Ele então deu seu lugar a ela, assim se despedindo do grupo, pois iria conversar com seu pai, que estava doente.
O grupo de amigos reunidos agora ficou ouvindo Mariana contar sua história com o recepcionista, enquanto degustavam as comidas típicas da Grécia e de café de hotel.
— Fanficou toda, hein, Mariana. — disse André enquanto ria, derramando um pouco de suco no prato vazio e fazendo a mesa rir.
— Nunca que isso é uma fanfic. — eles riram.
Depois que todos terminaram devidamente o café, desceram para a recepção, onde esperariam Michael para poderem seguir para o tour dos sonhos de qualquer fã de Mamma Mia.
Mariana procurou pelo recepcionista que havia a ajudado mais cedo, mas atrás do balcão estava uma moça de cabelos cacheados.
— Procurando alguma coisa, Mariana? — Clarissa perguntou, debochada.
— Não, Clarissa. — ela deu língua para a amiga, que riu.
Mariana obviamente continuava a espiar a recepção, tentando disfarçar a vontade e a curiosidade de conversar com o recepcionista que ainda nem sabia o nome. Todavia tentava esquecer isso, pois teria um tour que sonhara desde a primeira vez que assistiu seu filme preferido pela primeira vez, mas havia algo que sempre a fazia olhar de volta para a recepção.
Assim que Michael chegou ao saguão, os amigos seguiram para fora do hotel. Clarissa estava conversando com André e rindo sobre algo que havia acontecido mais cedo e acabou esbarrando em alguma coisa.
— Desculpa, eu… — ela começou a falar quando percebeu que havia esbarrado em uma pessoa, ainda rindo com o amigo, que ria agora do mico que ela havia pagado.
— Olha por onde anda. — um rapaz respondeu mal humorado.
Clarissa juntou as sobrancelhas, estranhando a reação rude do homem, que agora ela observava. Ele tinha uma jaqueta de couro pendurada nos ombros, um cigarro nos lábios e um cheiro forte de álcool. “Como um cara bonito desses pode ser tão rude”, ela pensou, revirando os olhos e seguindo os amigos, já que tinha ficado para trás nesse meio período. Antes de alcançá-los, porém, ela virou-se para a direção oposta, em que o rapaz seguia, e pode ver ele virando para a direção dela também, a observando. Os dois se encararam por algum tempo, com uma expressão indefinida nos rostos, antes de Clarissa balançar a cabeça e voltar a seguir seu caminho.

Mariana’s P.O.V. on
Enquanto observo o lindo cenário à minha volta, ainda não consigo acreditar que isso está realmente acontecendo e não é só um sonho maluco que criei na minha cabeça. Ir para Grécia sempre foi meu sonho, desde que eu era uma garotinha, e agora que estou aqui é muito melhor do que eu um dia poderia imaginar! O fato de eu estar aqui e estar com meus melhores amigos faz com que isso seja mil vezes maior. As águas cor de turquesa combinam perfeitamente com as construções brancas que embelezam a ilha.
Sou tirada do meu devaneio quando Clarissa suspira suavemente. Vejo então um homem que é, em minha humilde opinião, o par perfeito para ela. O homem rapidamente se apresenta para o grupo e descobrimos que seu nome é Harry, o guia da excursão. Na medida em que o tour acontece, vejo Clarissa se aproximar cada vez mais dele. Isso me deixa extremamente feliz porque, assim que ele pisou no barco em que estávamos, eu soube que eles dariam um ótimo casal. Eu olho para a frente do barco e vejo Rebeca e Michael ficando terrivelmente próximos um do outro. Começo a rir, fazendo André voltar sua atenção da ilha para mim.
— Por que você tá rindo? — ele pergunta.
— Ah, nada, só olha aquilo… — aponto para o novo casal.
— Ai, meu Deus!! Aquela é a nossa Rebeca? A que nunca quer sair e nunca se abre? Essa Rebeca?
— Sim — eu digo —, mas tem mais… se você olhar para esquerda, você vai ver a Clarissa encarando nosso guia turístico. — termino, rindo levemente.
— Nossa! Não acredito, Rebeca tem um homem e Clarissa tem um homem! Você acha que a gente vai ter essa sorte?
— Eu não sei… espero que sim. — digo, esperançosa, mas, no fundo, já estou pensando em um certo garoto de olhos castanhos.
Mariana’s P.O.V. off


Touché, mademoiselle

Enfim terminaram o tour, que ainda fazia seus olhos se iluminarem. E, já na rua do hotel, ouviram o que o guia falava sobre a cidade como um todo e a importância daquela rua que os amigos estavam hospedados. Chegaram na frente do hotel e começaram a se despedir do guia, que tinha outro grupo para levar ao tour.
— Amei muito esse tour, pessoal, um dos melhores que já tive a oportunidade de guiar — disse o guia com uma felicidade contagiante — Se vocês quiserem podemos sair qualquer dia, vai ter uma festa amanhã de noite lá em Alonnisos, uma ilha que fica umas duas horas daqui, se sim só me dar um toque no zap.
— Vamo pensar sim, nós da mesma forma amamos o tour e a companhia — disse Clarissa animada com uma possível festa.
— Uma festa com você, Harry??? Como que a gente não vai perder essa — disse André, pensando na festona que deveria acontecer na famosa ilha grega das festas.
Assim que se despediram do guia formalmente, ficaram a observá-lo conhecer o novo grupo que iria levar para as maravilhas daquela ilha. Se olharam e perceberam que todos tinham todos a mesma ideia, então abriram um sorriso malicioso.
— Ao mesmo tempo??? — disse Mariana animada
— Em 3… 2… 1… — Ir à praia — disseram André, Clarissa, Mariana e Michael em uníssono. Ao passo que, em dissonância, a quinta integrante animadamente disse: — Dormir — uma fala que terminou de forma desanimada ao ver seu descompasso em relação ao grupo.
— Bem, praia também é uma boa opção, se for o desejo da maioria... — disse Rebeca em sua resolução mais para si do que para eles.
Assim sendo, o quinteto se dirigiu à praia, que era a um bloco de distância do local que estavam, sem passar no hotel por eles já trajarem suas roupas de banho por baixo. Ao menos a maior parte do grupo.
Chegando no destino, seus olhos reluziam ao ver a areia mais branca e a água mais cristalina que já haviam visto em vida. Clarissa e André não perderam tempo e logo tiraram suas roupas, as jogando de qualquer jeito nos braços de Mariana e se encaminhando em direção ao mar. Enquanto isso, Mariana e Rebeca estendiam algumas toalhas na areia ao mesmo tempo que equilibravam a pilha de roupas deixadas para trás. Já Michael se manteve afastado um pouco da turma para testar seu grego com um nativo que havia encontrado no caminho.
André e Clarissa, já dentro do mar, gritavam para que o resto dos amigos fossem nadar com eles. Entretanto Rebeca disse que não estava no clima de entrar no mar, além de que não tinha trago a roupa de banho, pois havia esquecido disso quando os amigos a falaram da ideia de ir à praia, mais cedo no café da manhã antes da chegada de Mariana. Todavia Mari já se levantou, tirando sua roupa.
— Rebeca, olha meu telefone aí que tá no meu short, sim?— disse animada, sem nem olhar onde colocava as roupas que acabara de tirar e correndo em direção a André, que estava atacando a ruiva em uma guerrinha de água.
Depois de alguns bons minutos Michael chegou, sentando-se ao lado de Rebeca após do seu parcial sucesso no treino de grego.
— Eu te vi conversando com o nativo… conseguiu ter um pouco da sua tão procurada experiência grega? — perguntou a menina em tom de brincadeira ao rapaz para puxar assunto.
— Poderia ter sido melhor se não tivesse me esquecido de como se diz loja de suvenir… — ele a respondeu tentando disfarçar seu chateamento com o ocorrido.
— Bem, não posso te ajudar com esse problema. Sei o total de zero palavras em grego, mas sou fluente em mandarim. Se um dia se interessar por essa língua, posso te ajudar — ela disse em um misto de vergonha com desinibição, tendo o intuito de fazer o garoto se sentir um pouco melhor.
— É mesmo? Você não parece ser uma poliglota… — ele disse surpreso por essa nova descoberta sobre a garota e, consequentemente, se esquecendo lentamente do ocorrido anteriormente.
— Não foi você que disse que não se deve julgar um livro pela capa? — Rebeca inquiriu fazendo uma careta engraçada para Michael.
— Touché, mademoiselle — ele a respondeu risonho e, assim, ambos acabaram gargalhando diante da situação.
Eles dois se sentiram pertencentes e nervosos quando o clima começou a mudar, e as ondas do mar começaram a se tornar uma mera trilha sonora para suas bochechas coradas e seus sorrisos tímidos. Foi nessa hora, porém, que os amigos retornaram do mar, fazendo ambos ficarem desconcertados.
Mariana então perguntou para Rebeca, que estava sendo molhada por André.
— Onde está meu telefone, flor???
— Eu... não sei…— disse sendo interrompida pelas brincadeiras de André — Para, André, deixa eu só falar com a Mariana em paz. — disse elevando o tom de voz.
— Amiga, eu realmente não sei onde está o seu telefone, você disse que estava no short, mas achei nada. — disse Rebeca, dando uma última checada na canga em que estava sentada.
— Meu Deus, gente. — disse Mariana, preocupada. — Me ajuda a procurar aqui, por favor.
Os amigos começaram a balançar as toalhas e olhar dentro das bolsas procurando o aparelho de Mariana, mas não o encontraram em nenhum lugar.
— Acho que devo ter esquecido em algum lugar do tour. — ela disse, chorosa, colocando as mãos na cabeça.
— Não lembro de você ter usado ele no tour. — disse Rebeca, tentando recordar-se da última vez que havia visto o celular da amiga. — A Clarissa tirou as fotos com a câmera dela e você não deve ter ligado pra ninguém da Grécia, senão iria pagar uma fortuna.
— Verdade. — Mariana balançou a cabeça, mostrando concordar com a amiga. — Mas ele tava no meu bolso, eu tenho certeza. Ele deve ter caído em algum lugar, ou alguém pode ter pegado. — ela fez uma careta.
— Credo, amiga. — disse Clarissa. — Pensamentos positivos! Onde você se lembra de ter usado ele pela última vez?
— Não sei. — forçou a memória, tentando ao máximo se lembrar. — No café da manhã eu mandei uma mensagem pra minha mãe. Depois eu não me lembro mais…
— Talvez tenha ficado no hotel e você nem percebeu. — disse André, secando seus cabelos molhados. — Você tava super distraída com o boy da recepção. — os amigos riram, embora estivessem um pouco tensos.
— É, talvez eu tenha esquecido mesmo. — ela ponderou, ainda um pouco incerta e esperando muito que o amigo estivesse certo.
— Vamos voltar logo, então. — André apressou Clarissa, que ainda se secava, e logo todos estavam fazendo o caminho de volta para o hotel.
Não demoraram muito para chegarem ao hotel. Mariana logo correu para a recepção acompanhada de André, enquanto Clarissa, Rebeca e Michael seguiram para seus respectivos quartos para tomarem banho.
Para a felicidade de Mariana, embora estivesse triste com a possível perda de seu celular, quem estava no balcão era o rapaz de mais cedo.
— Boa noite. — ela falou, sorrindo e recebendo o bonito sorriso do atendente. — Eu de novo.
— O que te traz aqui novamente? — ele perguntou. — Disse que iria prestar mais atenção. — ele brincou, apoiando os braços no balcão.
— Acontece que eu perdi meu celular. — ela disse com as bochechas vermelhas de vergonha. — Queria saber se por acaso o encontraram no restaurante hoje mais cedo.
Ele rapidamente procurou algo no armário embaixo do balcão e tirou um aparelho de lá.
— Pra sua sorte, me entregaram ele aqui de manhã. — disse, empurrando o celular para ela. — Aliás, bela foto. — ele disse, se referindo ao papel de parede da menina, que consistia em uma foto dela em frente ao famoso castelo da Cinderela localizado no parque da Disney.
Mariana corou mais ainda, se é que isso era possível, enquanto André ria ao seu lado.
— Precisamos saber seu nome. — André disse, entrando finalmente na conversa. — Só pro caso de essa esquecidinha aqui precisar de mais alguma ajuda. — recebeu uma cotovelada discreta de Mariana. — Ai!
— Ele tá brincando. — ela forçou um riso, mas o rapaz já tinha pegado um papel pequeno de um bloco de notas que estava no balcão e começava a escrever alguma coisa.
Logo, ele a entregou o papel, que a informava que o nome dele era Gregg e continha alguns números.
— Pode me ligar se precisar de alguma coisa. — ele sorriu, observando o sorriso envergonhado da menina.
— Obrigada, Gregg. — ela falou e virou-se para ir embora, mas logo lembrou de algo e virou-se novamente para o balcão. — O meu nome é Mariana.
— Estava tentando descobrir. — ele disse antes que ela se virasse completamente.
— Amiga, pode me assoprar aqui, por favor? — André perguntou quando estavam à caminho do elevador, e, ao perceber a expressão confusa da amiga, continuou: — Foi acender a vela, no final do date tem que apagar.



Moscow Mule

O grupo, agora devidamente calmo, chegou nos quartos e se arrumou, pois planejavam em ir ao bar que havia no hotel após descansar do longo tempo que passaram se divertindo com o tour e a praia. Por volta de umas 19 horas, o grupo, devidamente arrumado, se dirigiu ao bar, que ficava no saguão principal, ao lado esquerdo da recepção.
Ao chegarem na porta do bar, olharam para dentro e se animaram ao verem de longe algumas pessoas e os lindos drinks que alguns tomavam. Ao adentrar o recinto, todos olharam para o grupo que estava levemente mais arrumado que o necessário para a ocasião e, depois de alguns segundos, voltaram os olhares para suas mesas e companheiros.
Se dirigiram ao balcão do bar e se sentaram um do lado do outro, pedindo cada um sua bebida preferida, sem mesmo olhar o cardápio.
— Boa noite, eu gostaria de um mojito, por favor! — disse Clarissa para o barman, que usava uma blusa social branca de mangas curtas juntamente com um suspensório e uma gravata borboleta vermelha.
— … eu queria um Malibu Sunset — disse Mariana com água na boca.
— Gostaria um soju puro — disse Rebeca.
— E você, vai querer o quê? — perguntou o barman para André, que estava o observando.
— Eu??? Vou querer uma Moscow Mule, por favor. — ele pediu, ainda sem tirar os olhos do atendente, que soltou uma risada divertida ao perceber os olhares antes de virar-se para preparar as bebidas.
— Eita. — disse Clarissa, olhando para os amigos. — Sentiram essa tensão aqui, ou foi só eu? — ela riu, seguida das amigas, deixando André sem graça.
— Eu senti também. — Mariana concordou, olhando discretamente para o barman e depois para André. — Ele é uma gracinha, eu investiria.
— Não, gente. — André falou. — Estou bem, muito obrigado.
— Bem eu também estou. — Clarissa disse. — Mas não recusaria um desses.
— Eu estou recusando. — falou André. — Pelo menos por agora. — ele piscou e as amigas riram.
O barman voltou com algumas das bebidas, entregando-as às suas respectivas donas.
— Já volto com seu Moscow Mule. — ele disse bem próximo de André, sorrindo para ele.
— Gente. — Rebeca arregalou os olhos quando o atendente saiu. — O que foi isso? — ela riu. — Pelo visto, se o André não quer, ele tá querendo — disse olhando maliciosamente para todos os amigos, deixando André super vermelho de vergonha.
— Gente, esquece isso aí e vamo falar da festa que o Harry convidou a gente — disse André mostrando o telefone para as amigas — Vai ser amanhã, temos que economizar pra não morrer no final da festa.
O grupo de amigos então conversaram e tomaram uma segunda rodada, agora bebendo outros drinks mais leves, pois não queriam ficar muito bêbados para poderem curtir a festa que teriam no dia seguinte, o que animou o pessoal.
Já no final dos seus drinks, as meninas um pouco cansadas, mas ainda animadas, decidiram ir logo para os quartos e aproveitar para poderem descansar e possivelmente jogar algum jogo qualquer.
— Vamo então, gente, queria jogar algum joguinho com vocês antes de ir dormir — disse Clarissa já pensando em que jogo jogariam.
— Acho uma ótima ideia, estou meio cansada mesmo. — disse Rebeca enquanto Mariana concordava com a cabeça.
— Amadas, vocês podem ir indo na frente, acho que vou aproveitar pra ler um livro que precisava reler para um artigo. — disse André puxando um livro de sua mochila.
— Sei… — disse Mariana, sorrindo maliciosa para o amigo.
— Tô falando sério, gente, olha aqui o livro — riu André balançando o livro na frente das meninas.

André’s P.O.V. on
Finalmente vou poder reler esse livro. Meu orientador vai me matar se eu prolongar mais uma semana a análise dele, mas pelo menos é uma leitura boa, Marx nunca fica chato. Queria estar lá com as meninas, elas devem estar jogando verdade ou consequência, mas pelo menos eu já sei tudo delas, não vou perder muita coisa.
Mas agora tenho que ler logo, senão em breve serei jubilado da universidade, então vamos lá. Leio com um sorriso no rosto, não somente por estar lendo um dos meus autores favoritos, mas sim por a todo momento lembrar que essa viagem finalmente saiu das conversas de whatsapp e se tornou uma realidade. Mas, durante a leitura, outra coisa me distrai.
— Lendo Marx, hein! — diz o barman, que se chama Omar, como se pode ler em sua tarjeta.
— Tô sim, relendo na verdade, terceira vez eu acho... — eu digo, fechando o livro para mostrar a capa para ele.
— Nunca me dei bem com Marx, sou mais pra um estruturalista, um Lévi-Strauss da vida — diz mostrando um livro embaixo da bancada, que lia em momentos de pouco movimento.
— Nunca li nada dele, mas já ouvi falar muito sobre. — digo tentando lembrar das minhas aulas de antropologia que tive há anos.
— Você podia me explicar sobre Marx e eu te explicaria sobre Lévi-Strauss. Creio que seja uma troca justa, não acha? — ele diz com um sorriso no rosto.
— Pode ser, nunca perco uma oportunidade de doutrinar alguém... — eu digo, tentando desviar do olhar penetrante que o barman me dirige.
— Vindo de você, eu até aceitaria ser doutrinado — diz o barman rindo ao mesmo que seca um dos copos do bar em um pano — mas agora não vou continuar atrapalhando sua leitura, divirta-se — diz com um sutil sorriso de lado ao pôr o copo de volta no lugar, dando as costas ao rapaz.
André’s P.O.V. off

Enquanto isso, no quarto, as meninas já haviam colocado seus pijamas e conversavam sobre suas vidas e sobre a viagem como um todo. Clarissa tinha vindo para o quarto de Rebeca e Mariana para poderem se comunicar melhor.
— Vamos jogar verdade ou consequência. — disse Mariana, sentada com as pernas cruzadas em sua cama.
— Pode ser. — disse uma Rebeca já deitada e enrolada em suas cobertas.
— Vocês já sabem tudo sobre mim. — Clarissa disse rindo, sentando-se na cama de Mariana.
— Nada a ver. — disse Mariana. — Eu não sei, por exemplo, o motivo de você estar olhando tanto esse celular desde que a gente entrou no bar.
O sorriso de Clarissa sumiu de repente.
— Nada de importante. — ela forçou um sorriso, mas as amigas a conheciam o suficiente para saber que era algo sim importante.
— Desembucha, Clarissa. — Rebeca ordenou, de olhos fechados.
— Não é nada, gente. — ela disse, olhando para as unhas e recebendo um olhar reprovador de Mariana. — É só o Daniel de novo. — ela revirou os olhos.
Rebeca de repente se sentou na cama, com os cabelos bagunçados e os olhos vermelhos de sono.
— Não acredito que você não apagou o contato desse embuste, Clarissa. — ela disse, fazendo uma cara de brava que fez as outras rirem por conta do estado em que a amiga se encontrava.
— Clarissa, você simplesmente pega os conselhos que a gente te dá e joga no lixo, não é possível. — disse Mariana, cruzando os braços.
Daniel era o ex-namorado de Clarissa, que sempre voltava a importuná-la quando lhe era conveniente, lê-se quando ele estava carente ou quando precisava de alguma coisa. Rebeca e Mariana o odiavam por ter feito a amiga sofrer, e o odiavam mais ainda por continuar procurando Clarissa quando ela estava começando a superá-lo.
— O que ele quer dessa vez? — Mariana perguntou, mexendo nos cabelos da amiga.
— O mesmo de sempre. — ela deu de ombros, jogando o celular na cama. — Quer me ver.
— Coitadinho. — Rebeca fingiu pena. — Que compre uma passagem para a Grécia, então. — ela disse, brava, e as amigas riram.
— Bate na madeira! — Clarissa correu para a mesa de cabeceira que havia entre as duas camas e deu três batidinhas nela com a mão fechada. — Se Deus quiser, volto para lá com um grego bem bonito! E Daniel nunca mais vai me importunar.
— Deus vai querer, amiga. — disse Mariana, pensando no guia turístico e sorrindo consigo mesma antes de ser atingida por um travesseiro na cara. — Ai!
As meninas então começaram uma guerra de travesseiros enquanto Rebeca implorava para que desligassem as luzes.

André’s P.O.V. on
Realmente continuo a ler, até um momento em que eu sou o único cliente restante no recinto, já se aproximam das 23 horas. Com as maravilhosas críticas econômicas-sociais de Marx, acabo perdendo completamente a noção do tempo, assim só há Omar comigo, o qual está sentado em um banco no lado de dentro do balcão lendo o livro que me mostrara anteriormente. Envergonhado de estar prolongando, provavelmente, o seu tempo de expediente, falo:
— Ai meu deus, tô te segurando muito aqui! Só vou recolher minhas coisas para te liberar…
— O horário de fechar realmente já passou, mas você estava tão concentrado que não quis atrapalhar e, sinceramente, não faz muita diferença, porque eu moro aqui do lado. — diz ao fechar seu livro e guardá-lo em sua bolsa.
— Nossa, ainda tenho que pagar, né??? Eu realmente perdi a noção do tempo. — acabo por falar enquanto procuro em minha mochila a carteira.
— Tem mesmo, quase que eu também esqueci — ri sutilmente dizendo isso — São 19 euros. — diz olhando no sistema. — Você pode tanto pagar agora, ou deixar pra pagar no check-out. O que vai escolher?
— Vou pagar agora — falo.
Ao mesmo tempo que falo, abro minha carteira, que está de cabeça pra baixo, fazendo com que todas as notas e moedas caiam no chão. Envergonhadamente, me abaixo e pego tudo que havia caído, e ali mesmo conto os 19 euros.
Levanto e Omar está com uma caneta na mão e tentando segurar um sorriso do mico que acabei de passar. Dou o dinheiro para ele, assim debitando minha divida do sistema. Pego meu livro e me despeço dele, já com olhos cansados. Ao me retirar do bar e, assim, adentrar o elevador, vejo ele fechando a porta do local e em seguida me acenando um tchau com a mão enquanto esbanja um belo sorriso. Lamentavelmente, pouco posso continuar a admirar, ou talvez responder o aceno, pois as portas do elevador logo se fecham.
Já na porta do quarto, agora silencioso, tento pegar a chave que estava dentro da mochila, torcendo para não tê-la esquecido. Ao achá-la, abro a porta cuidadosamente para não produzir muito barulho, podendo acordar as meninas. Todavia, nessa tarefa não me saio bem, pois deixo meu livro cair, causando um barulho que ecoa no corredor silencioso. Me agacho sutilmente, enquanto me xingo pelo descuido, para pegar o livro quando algo chama minha atenção. Muito intrigado, noto que de dentro do livro um pequeno guardanapo cai e, pelo que parece, há algo escrito em seu verso.
Primeiramente, pego o guardanapo misterioso, deixando o livro ainda no chão. Nele estava escrito Omar Ayuso e um número de telefone. Leio isso rindo, percebendo que nem me dei conta que precisava trocar de contato com ele. Abro a porta e, já dentro do quarto, quando vou fechar-lá, olho o livro que ainda está no chão, rindo um pouco mais alto e o pegando.
Observo que as meninas estão dormindo todas em somente um quarto, e observo que Clarissa se encontra no chão quando vejo suas pernas saindo de trás de uma das camas. Vou para o meu quarto, me arrumar para dormir. Mas, antes de ir devidamente me deitar, ponho o livro sobre uma mesa que há em um dos cantos do quarto e coloco novamente o bilhete dentro.
André’s P.O.V. off


A gente se esbarra por aí

Rebeca, como sempre, foi a primeira a despertar, por volta das 7h, e se chocou com o estado pós guerra de travesseiros em que se encontrava o quarto. Clarissa, por algum motivo, estava deitada no chão entre a cama dela e a de Mariana, que estava com parte do corpo na cama e a outra parte pendurada no ar. Rebeca riu da situação das amigas e se dirigiu ao banheiro, tomando cuidado para não pisar na menina ruiva estirada no chão.
Ao terminar sua higiene matinal, retrocedeu em direção às camas, contudo agora só encontrando uma de suas amigas dorminhocas no mundo da lua, ou quem sabe em parte. Era visível para qualquer um que Mariana estava mais dormindo do que acordada enquanto procurava uma muda de roupas para se trocar, entretanto, mesmo que de modo desengonçado, a garota teve sucesso em sua tarefa e suficiente êxito na missão de chegar ao banheiro sem esbarrar em nada. Passada meia hora, Mariana voltou mais desperta e se uniu à mais velha na árdua tentativa de acordar Clarissa, que resultou em completa desistência por parte delas, que, humildemente, preferiram por fim verificar o estado de André e, se possível, despertá-lo rápido o suficiente para que todos pudessem ir ao café da manhã.
Quando Clarissa acordou, já quase 9h, viu todos os seus amigos prontos e sentados nas camas, mexendo em seus celulares.
— Por que não me acordaram? — ela perguntou, esfregando os olhos.
— Eu não queria ser morta, thanks — respondeu Mariana, fazendo a menina recordar da ameaça que havia feito no dia anterior — Agora corre para se arrumar, pois só temos uma hora antes do encerramento do café da manhã — completou Rebeca já se estressando com sua fome crescente.
Ao chegarem no restaurante, faltavam 30 minutos para a suspensão do café da manhã, contudo mesmo assim encontraram Michael esperando-os enquanto bebericava um chocolate quente.
— Você também demorou para descer? — perguntou André ao Michael enquanto o cumprimentava.
— Na verdade não, estava esperando vocês, mas como a Mariana não respondeu minhas mensagens e pela demora preferi ir me adiantando. — respondeu o rapaz de bom humor, assim aproveitando a deixa para cumprimentar as demais integrantes do grupo que se aproximavam.
— Putz, nem notei que você tinha mandado. Foi mal, mas na próxima manda para a Rebeca! Aposto que ela lhe responderá rapidamente — provocou fazendo a outra correr para o bufê na tentativa de disfarçar sua vergonha.

Após todos terminarem suas refeições na velocidade da luz, a qual portanto foi extremamente silenciosa, Michael foi o primeiro a se levantar enquanto chamava a atenção dos outros amigos
— Gente, me surgiu a oportunidade de alugar uma lancha, o que vocês acham? — disse Michael com um ar de dúvida.
Os amigos se olharam e Rebeca disse o que todos estavam pensando:
— Eu imagino que seria um pouco caro, não? — disse com medo de parecer grosseira, mas na verdade tinha um ar de preocupação com Michael.
— No início era um pouquinho, mas comecei a falar em grego com o cara da lancha e ele achou muito bom eu falar em grego com ele, me dando um desconto bonzinho, entretanto é dibas eu pagar, meu pai me deu uma boa reserva de dinheiro pra essa viagem, e eu queria realmente fazer isso com vocês. — olhou carinhosamente para Rebeca enquanto falava.
O pessoal resolveu ajudar em parte do pagamento, como única condição para participarem. Subiram então para pegar dinheiro suficiente para custear a lancha, para poderem dar uma volta na ilha e curtir um pouco.
Diferentemente do dia anterior, dessa vez todos já trajavam roupa de banho antes mesmo de terem ido ao café da manhã, assim, após partilharem as despesas com o canadense, puderam já se direcionar diretamente à lancha.
Após uma caminhada 10 minutos até o píer em que se encontrava a lancha aportada, o grupo colocou o que tinha comprado em seus respectivos lugares e zarparam com a lancha.

Michael’s P.O.V. on
Okay, primeiro passo da operação “Conquistar a Jovem Morena” feito. Agora é torcer para que o resto dê certo. Antes que você se pergunte, leigo leitor, sim, estou quebrando a quarta parede. Nunca gostei dela e não é agora que irei apreciá-la.
Enfim, não sou o tipo de pessoa que acredita em amor à primeira vista. Esse imaginário estilo princesas da Disney já me causou muitos problemas na juventude desde o jeito como meus amigos viam minha sexualidade, bem como eu me compreendia como pessoa, indivíduo. Nunca fui do tipo de querer adquirir crushes em pessoas aleatórias ou de se deslumbrar por uma imagem inventada. Isso, em verdade, sempre me cansou profundamente, pois já experimentei na pele que na maioria das vezes as pessoas não são o que aparentam ser, digo, no quesito romântico. Para mim o belo está na psique humana, a qual pode ser analisada de diversas formas em diversos aspectos.
Talvez por isso decidi fazer línguas clássicas como curso na faculdade, apesar de a minha família obviamente não apreciar essa escolha. Compreender a expressão das pessoas e como elas interpretam a realidade à sua volta diz muito do como elas são em seu cerne. Alguns ousaram dizer que olhos são as portas para a alma, mas para mim a linguagem, qualquer que seja, essa sim é o portal para a imensidade existencial que um ser humano poder ser.
E assim finalmente chegamos no ponto da Rebeca. Ela obviamente não parece ser muito acostumada a interagir com o gênero oposto, mas das conversas que tivemos posso confirmar que ela é um mundo linguístico altamente exótico que me atrai a decodificá-lo, analisá-lo e, se possível, traduzi-lo.
Sim, quem sabe talvez seja por isso que, desde o início dessa viagem, ao invés de simplesmente seguir meu plano de mochilar pelas diversas ilhas paradisíacas dos mediterrâneo grego, preferi acompanhar esse caoticamente organizado grupo de amigos sul-americanos. A animação constante e a alta capacidade de me esquecerem são algumas de suas características que mais me divertem em estar com eles, por mais incrível que possa ser. Devido minha alta posição social, nunca fui antes tratado de modo tão acolhedor e displicente em toda minha vida e admito gostar muito disso.
Voltando ao ponto da Rebeca, perdão pela minha TDAH, como estava dizendo… ela me cativou e, sinceramente, o que eu posso perder? Obviamente ela não está atrás do meu patrimônio, percebo pela forma como age, e estamos ambos tendo uma das melhores viagens de nossas vidas sem pensar muito. Que mal faz deixar rolar? Nenhum! E por isso pela primeira vez decidi fazer algo que meus amigos sempre me orientaram: me deixar viver a vida um pouco.
Por me permitir isso foi que aluguei uma lancha e, sem nenhum aviso prévio, simplesmente os convidei, a convidei, para participar de uma aventura náutica pelas margens do litoral grego.
— Ah! A lancha branca à esquerda foi a que aluguei, aquela ali — digo olhando para ver a reação de Rebeca, a qual somente esbanja animação.
— Ela é perfeita, Mike, nossa!!! — responde Clarissa enquanto o resto do grupo se aproxima da embarcação de luxo nunca antes experimentada.
— Bem, fico feliz de vocês a terem aprovado — digo rindo da comoção que o grupo faz ao redor da lancha. Rebeca e Mariana entram na lancha com cuidado enquanto vão perguntando à capitã todas as informações e procedimentos de segurança que consideravam importantes caso uma ondulação mais acentuada ou um polvo gigante vinhessem a pôr em risco todos nós. Em contrapartida, Clarissa, André e eu estávamos mais interessados em arrumar nossas coisas e simplesmente iniciarmos nossa aventura.
Depois de alguns minutos em alto mar finalmente decidimos ancorar a lancha para aproveitarmos do cenário mítico para poder nadar, bronzear-se ou simplesmente relaxar. Calma, meu nobre leitor, eu sei que até agora nenhuma interação decente ocorreu entre mim e ela. Mas tudo ainda está conforme meu incrível plano infalível: primeiro iríamos embarcar, eu a convidaria para nadar e a partir daí eu iria convidá-la…
—Michael!!! — diz Rebeca, já com roupa de banho, na beira da lancha me chamando para pular com ela. — Ela adivinhou meu plano... — digo pensando alto, fazendo com que Mariana conseguisse ouvir.
— Que plano, hein? — diz Mariana com uma expressão que mostra que já fanficava em sua mente toda a situação.
*tchibum* é o que nos interrompe, é o barulho de Rebeca pulando para o mar cristalino que nos cerca, seguido do grito da mesma.
— Vêm, gente, a água é quentinha e eu consigo ver meus pés — diz animada em perceber que a água é realmente muito cristalina. Eu por um segundo fico parado admirando como ela consegue ser fofa em muitas situações, enquanto vejo o resto do pessoal pular.
— Vai pular não??? — diz a capitã rindo, enquanto percebe minha expressão de admiração.
— Vou sim! — digo ficando vermelho de vergonha.
Nós todos nos divertimos muito naquele mar, todavia uma hora nos cansamos e decidimos ir comer e beber o que tínhamos trago. Todos subimos, ficando somente André ainda nadando, insistindo que ficaria um pouco mais, ideia que durou pouco quando ouve o barulho do vinho que abro.
Já com um pouco de álcool no sangue, colocamos algumas músicas para tocar e podemos gastar a animação que ainda está guardada em nós. É aí que eu percebo uma ótima chance para poder chamar Rebeca para um encontro, ela cansada de se mexer se encosta na grade da lancha sozinha, então vou em sua direção. Faço bem? Quando já estou próximo a ela, de repente uma onda inesperada atinge o barco fazendo com que eu seja jogado na direção dela, entretanto consigo me segurar na grade. Em um segundo, ficamos de frente a frente, na proximidade de um palmo, olho no olho, o que faz com que nós dois nos envergonhemos e voltemos a distância inicial, seguidos de diversas desculpas. Situação essa que muda no momento em que uma onda na direção contrária nos faz cair um em cima do outro, nos deixando ainda mais corados. De repente, a feição de Rebeca muda e ela diz:
— Michael, eu sei que isso é inesperado e a situação não faz isso menos constrangedor, mas você gostaria de ir a um encontro?— depois de ouvir tais palavras você tem que concordar comigo, ela é uma feiticeira. Só pode! Como poderia ela mudar de feição tão rapidamente e me fazer essa pergunta?
— Claro!!!— digo enquanto percebo que todos estão a olhar-nos, todavia o olhar de Rebeca me atrai como se fosse um buraco negro e eu quero encarar essa aventura. Não me julgue, você também iria querer fazer o mesmo se visse o olhar dela!
Nos levantamos e, ainda corados por causa da situação, fingimos que nada ocorreu, apesar dos risos e falas que nosso amigos soltam. Assim, voltamos a dançar ao som da música que constantemente é cortada pela briga entre Clarissa e André, já que um quer pop e o outro indie. Mas, graças às forças do universo, entram em um acordo ao por uma música de sua banda francesa preferida.
O sol começa a se pôr então voltamos ao píer, nos despedimos da capitã, Angèle, pegamos nossas coisas e ficamos a observar a lancha partir.
Michael’s P.O.V. off

Depois de chegarem no porto, apostaram uma corrida para a entrada do hotel, pois a animação para o que esperavam em seguida era tanta que, desde o momento que entraram na lancha, só se falava na tal festa que teriam em uma ilha vizinha. Chegaram no elevador, tentando fazer com que todos entrassem. Michael se despediu, quando o elevador abriu no segundo andar, falando que encontrava o pessoal na entrada às 20h40, e o restante dos amigos desceu no andar que ficavam seus quartos, o terceiro, e entraram no quarto, se espremendo pela porta.
O grupo estava super animado com a primeira festa grega que iriam. As meninas demoraram horas escolhendo suas roupas e se maquiando, enquanto André aguardava ansioso por elas. Mariana havia escolhido um vestido branco brilhante, curto e justo, que tinha um decote nas costas abertas; Rebeca apostou em um cropped top tomara que caia e uma saia de babados, ambos cor de rosa e cobertos por um casaco pesado de pele; Clarissa usava um vestido curto de mangas longas, de um preto meio transparente e um decote em “U”; e André usava uma calça preta listrada, uma blusa verde e uma jaqueta preta aberta.
— Meu Deus, nunca me senti tão bonita em toda minha vida. — disse Mariana enquanto passava seu batom olhando-se no espelho do elevador.
— Eu sou bonito sempre, então nem tô sentindo diferença. — disse André e as amigas riram.
Michael já os esperava na recepção, também arrumado e ansioso. Seus olhos estavam vidrados desde o momento em que pousaram em Rebeca.
— Pede pro seu namorado fechar a boca. — Clarissa sussurrou para ela. — Tá começando a babar.
Era por volta das 21h quando eles pegaram a balsa em direção à Skiathos, ilha em que aconteceria a festa. O guia turístico do dia anterior, Harry, que havia os convidado para a festa, já estava acomodado em um dos bancos.
— Olhem! O Harry! — Mariana apontou para o rapaz e acenou animada, logo puxando Clarissa pelo braço. — Vamos sentar perto dele! — e empurrou a amiga para que sentasse no banco ao lado do guia.
— Boa noite, Harry, como vai? — Clarissa perguntou, simpática, mas estranhando o comportamento da amiga.
— Estou ótimo! Que bom que conseguiram vir! — falou, acenando para Rebeca, André e Michael, que sentaram-se um pouco mais afastados. — Estão todos muito bonitos.
— Obrigada, Harry, você também está bonito! Não está, Clarissa? — Mariana sorriu, cutucando a amiga com o cotovelo.
— Claro. — Clarissa sorriu, mas sua cabeça estava em outro lugar e em outras pessoas.

Clarissa’s P.O.V. on
O percurso da balsa demora mais ou menos 1h. Isso significa que passo 1h fingindo olhar para o mar escuro que nos cerca enquanto milhares de pensamentos invadem minha cabeça. Meus amigos estão todos conversando e se divertindo, animados para a festa que virá. Eu também estou animada, eu sempre estou animada quando o assunto são festas, mas não do jeito que gostaria de estar. Continuo pensando na mensagem que recebi de Daniel na noite anterior, e eu realmente gostaria de dizer que não tinha me afetado, mas não adianta mentir para mim mesma. É fácil dizer para Mariana que estou bem e rir com as piadas de Rebeca e de André, mas, no fundo, só eu sei a confusão que se instaura em minha mente quando meu ex me procura.
Quando finalmente chegamos ao local da festa, vamos direto para o bar. Tomamos shots de tequila e brindamos com a bebida especial da casa, algo colorido à base de vodka, antes de irmos para a pista de dança. Tento ao máximo tirar aqueles pensamentos da minha cabeça enquanto bebo o máximo de álcool que consigo. Não que eu consiga muito.
André dança como se não houvesse amanhã e eu tento imitar os passos dele, sem muito sucesso. Rebeca e Michael sumiram em algum momento e Mariana continua tentando empurrar Harry para mim. Não me levem a mal, ele é uma gracinha, e eu sei que Mariana deve estar pensando que havia encontrado o par perfeito para mim, porque ele é o estereótipo dos caras com quem eu geralmente saía. Mas eu simplesmente não quero ficar com ninguém hoje, eu quero me divertir com meus amigos, beber muito, dançar até meus pés doerem e esquecer que um dia me submeti a um relacionamento com alguém tão escroto como Daniel.
— Cadê o Michael e a Rebeca? — André pergunta, gritando devido à música alta.
— Eles sumiram tem um tempo. — respondo, também gritando, e rio.
— Alguém tá aproveitando bem a festa. — Mariana ri. — Aproveita também. — ela sussurra no meu ouvido, apontando com o olhar para Harry.
— Vou ao bar, já volto. — balanço a cabeça, reprovando mentalmente o comentário de minha amiga e indo em direção ao balcão onde as bebidas são servidas.
No caminho, enxergo um rosto conhecido. O rapaz de jaqueta de couro que havia esbarrado em mim no outro dia claramente passou do ponto com a bebida. Ele está sozinho e conversa animadamente com o nada. “Então ele sabe sorrir”, penso, mas logo me preocupo com o estado em que ele está quando tropeça em seu próprio pé e quase cai. Mudo o trajeto do bar e sigo até o desconhecido que, por algum motivo, me chama a atenção.
— Ei. — digo assim que chego perto dele. — Tudo bem? — pergunto, encostando a mão em seu ombro.
Ele me olha, confuso, parecendo analisar minhas feições e de repente abre um sorriso.
— Eu conheço você! — ele diz, animado, embolando as palavras. — De onde eu conheço você? — junta as sobrancelhas, provavelmente tentando lembrar onde havia me visto.
— Nos esbarramos outro dia. — eu digo. — Você falou “Olha por onde anda”. — faço uma cara de brava e tento imitar sua voz grave.
Ele ri, me fazendo rir também.
— Desculpa! — ele fala, ainda rindo, e segura na minha mão com a mão que não está segurando um copo quase vazio de bebida. — Vem, vamos dançar! — não espera eu responder e me puxa para a pista de dança.
Não vou mentir para mim mesma que não gostei dessa atitude, então apenas deixo-me guiar por ele.
— Você fica bem mais bonito sorrindo. — falo assim que chegamos à pista e ele começa a dançar desajeitadamente.
— Quer dizer que eu não fico sexy com a cara fechada? — ele pergunta, fingindo estar bravo, mas rindo logo depois.
— Tem seu charme. — pisco enquanto danço e ele se aproxima de mim, exalando um cheiro forte de álcool e cigarros.
Seu corpo está bem próximo do meu e seus braços logo vão para a minha cintura. Ele aproxima o rosto do meu e nossas bochechas se tocam.
— Você acha? — ele sussurra no meu ouvido e meus pelos se eriçam.
— Acho que é melhor eu ir procurar meus amigos. — suspiro fundo, retirando seus braços da minha cintura e afastando meu rosto do dele.
Ele junta as sobrancelhas novamente, tentando entender o porquê eu havia me afastado.
— Por quê? O que houve? — ele pergunta, segurando meu rosto.
— Nada. — balanço a cabeça, segurando sua mão que estava no meu rosto. — Eu tô um pouco mal hoje. — falo. — E você também. — rio, olhando-o de cima a baixo. — Vê se toma uma água.
Solto sua mão e começo a andar de volta para onde penso estarem meus amigos.
— Calma! — consigo ouvir sua voz atrás de mim. — Desculpa, eu não quis… — ele começa e eu me viro para ele.
— Tá tudo bem. — falo. — A gente se “esbarra” por aí. — rio e observo ele rir também. — Vê se olha bem por onde anda. — pisco antes de retornar ao caminho que trilhava anteriormente.
Clarissa’s P.O.V. off


Isso foi um erro


Era por volta das cinco da manhã quando os amigos saíram da festa. Comeram em uma barraquinha perto da boate e aproveitaram para observar o silêncio e as ruas completamente vazias na madrugada de Skiathos antes de irem para o porto, onde a balsa para Skopelos sairia às seis em ponto.
Rebeca e Michael juraram ter sumido durante o ápice da festa apenas para conversarem em um local menos barulhento, e todos fingiram acreditar. Clarissa não contou de seu encontro inesperado, e Mariana não contou que acabou ficando com Harry em algum momento em que os dois tentavam procurar pela ruiva. André foi o que mais aproveitou a festa, não deixou de dançar por um segundo, bebeu tudo o que tinha direito, recebeu os mais diversos olhares e até recusou alguns gregos que tiveram coragem de arriscar algo a mais.
Na balsa, Mariana tentava evitar os olhares de Harry, envergonhada, enquanto Rebeca, Michael, Clarissa e André engatavam uma conversa animada. Clarissa às vezes olhava para o lado, procurando um rosto específico por entre os rostos da balsa, mas não o encontrou. Não pôde deixar de ficar preocupada, devido ao estado em que o rapaz estava na noite passada, mas deixou para lá assim que pisaram novamente em Skopelos, às 8h da manhã. Todos só queriam tomar um bom banho e dormir um pouco, por isso foram diretamente para o hotel.
Rebeca, depois de descansar e se arrumar, decidiu descer sozinha até a recepção para poder ter um melhor acesso à internet, pois precisava fazer uma petição que seu pai solicitou e assistir uma audiência que estava ocorrendo no Brasil, porém, antes de fazer suas afazeres, foi perguntar para o recepcionista sobre o sinal.
Na recepção estava Gregg, que estava a arrumar alguns objetos com uma falta de cuidado que o fazia derrubar alguns deles, e Raissa, uma das outras recepcionistas, que estava ao lado de Gregg parecendo que esperava ele se arrumar.
— Que pressa é essa, hein, Gregg? — disse Rebeca tentando ver se conseguia identificar o motivo de toda aquela arrumação.
— É porque acabou meu turno e eu preciso ir rápido pra poder fazer minha atividade agora nesse final de tarde, e você? O que faz aqui sozinha? — disse ainda arrumando algumas coisas em sua bancada.
— Tô tendo que trabalhar, então vim aqui porque me disseram que a internet é melhor.
— Realmente é mesmo, é só sentar nessas cadeiras aqui da esquerda, que é o melhor wifi do… — disse parando o que estava a fazer ao perceber que atrás de Rebeca passava Mariana, que já estava a correr indo em direção à praia, parando na frente do hotel para perguntar alguma informação.
— Ei… Gregg? — disse Rebeca tentando chamar atenção de Gregg sem perceber para o que estava olhando.
— Sim, sim, é só se sentar nessas cadeira aí que a internet vai funcionar muito bem — disse saindo do transe que Mariana o havia deixado e voltando a arrumar sua bancada
— E só mais uma coisa, sabe se tem algo que eu e meus amigos podemos fazer essa noite? — disse com um pouco de vergonha de estar atrapalhando Gregg
— Hoje à noite? Hoje vai ter uma festa típica daqui da ilha, panigiri o nome. Me encontrem aqui umas 20h e eu levo vocês lá. — disse Gregg soltando um leve sorriso.
— Ai, ótimo, eu tinha ouvido falar dessa festa! Então marcado. — disse Rebeca indo em direção às cadeiras.
Rebeca assim fez todas as tarefas que o pai tinha a assinalado e terminou ligando para ele para dizer sobre os trabalhos e contar como estava a viagem. Durante a ligação, viu Gregg correndo para fora do hotel, fazendo o que estava tão apressado a fazer.

Mariana’s P.O.V. on
Quando nós chegamos ao hotel, subimos para os quartos, exaustos da noite passada. Eu corri para o banheiro, esperando que, ao entrar no banho, poderia, além de me lavar, tirar a noite passada de mim. Enquanto massageava o shampoo nos meus cabelos, eu não conseguia parar de sentir culpa das minhas ações da noite anterior.
Em algum momento da festa, enquanto dançava, eu vi que Clarissa não estava dançando com a gente e isso me preocupou, tendo em vista que tínhamos tomado alguns drinks desde que havíamos chegado na festa. Eu parecia tão preocupada que Harry notou, porque imediatamente perguntou o que estava acontecendo de errado.
— Eu não consigo encontrar a Clarissa — Eu disse, tentando superar o alto som que nos cercava.
— O quê? Eu não consigo te ouvir! — Ele respondeu, fazendo com que eu puxasse ele para falar mais próximo de sua orelha
Esse foi meu maior erro nessa festa. Veja, quando eu fico bêbada, eu tendo a exagerar nos flertes. Então, no momento em que eu o aproximei de mim, algo estalou na minha mente. Ele era um pouco mais alto que eu, então tinha que se agachar um pouco para eu o poder alcançar. Entretanto, em vez de dizer como estava preocupada, eu simplesmente o beijei.
Imediatamente eu me afastei.
— Meu Deus… isso não deveria ter acontecido…. Me descul...— Eu fui interrompida pelos seus lábios novamente. — Que que você tá fazendo?
— Quê? — Ele perguntou.
— Isso foi um erro, eu tava tentando te arrumar pra Clarissa
— Clarissa? Então por que você me beijou?
— Você não me ouviu falando que isso foi um ERRO?... Olha eu tenho que procurar ela de qualquer forma, e por favor pelo nosso bem não conte isso para ninguém?
— Tudo bem
Assim que saio do chuveiro, percebo que não estou mais cansada. Pelo contrário, sinto que tenho toda a energia do mundo e que preciso gastá-la de um jeito ou de outro. Olho pela janela e, vendo as lindas ruas de Skopelos, decido que irei fazer uma corrida até que me sinta cansada novamente.
Eventualmente, perco a noção do tempo e do espaço. Quando olho ao redor para tentar achar meu caminho de volta para o hotel, percebo que de alguma forma tinha ido parar na praia.
— Mariana, como, diabos, você vai voltar agora? — digo para mim mesma… ou não.
— Nossa, você é realmente péssima em escutar instruções, huh? — diz uma voz atrás de mim, me fazendo pular de susto.
— PUTA QUE- — grito, virando-me para ver quem teve a audácia de me assustar dessa maneira. — Quem você- ai meu Deus, Gregg?
— Sim? — ele pergunta, rindo da minha expressão assustada.
— Você me assustou — digo, segurando meu peito e tentando acalmar meu coração do susto que acabei de ter, e também por causa do homem extremamente atraente à minha frente.
— Então, você ainda não respondeu minha pergunta...
— Qual era sua pergunta mesmo?— pergunto, envergonhada, porque, para ser sincera, quando tem garotos bonitos por perto, minha mente costuma NÃO funcionar.
Ele ri, balançando a cabeça.
— Esquece. No que você estava tão concentrada que te fez não prestar atenção em onde você estava indo?
— Hm, veja bem... Eu não tive a melhor noite ontem, então decidi vir correr um pouco, mas parece que eu estava tão emergida nos meus próprios pensamentos que não percebi para onde estava indo… então agora talvez eu possa estar um pouco perdida — respondo sinceramente, mas envergonhada.
Ele ri novamente, mas dessa vez, ao invés de me dizer para tomar cuidado, ele pergunta o que há de errado.
— Ei, você não precisa me falar se não quiser. Eu só sei que às vezes conversar sobre essas coisas com um estranho ajuda. — ele continua quando percebe que eu hesitei.
— Você está certo, não me conhece tão bem para me julgar, então acho que você ouvir o que eu tenho pra falar não é tão ruim quanto eu pensei…
— Exatamente! Então vai lá e me diz o que tá te incomodando, não vou te julgar, prometo de dedinho. — ele levanta o dedo mindinho para mostrar o quão sério ele está falando.
Eu bufo com o gesto, mas continuo e junto meu mindinho com o dele. — Então, nós fomos para uma festa noite passada...
Mariana’s P.O.V. off

André’s P.O.V. on
Desci do apartamento, depois de me despedir das minhas amigas, e fui até o ponto de encontro, que era na frente de um café com uma estética francesa, onde iria encontrar Omar para o “encontro” em que iriamos continuar a conversa que tivemos no bar outro dia. Cheguei ao local marcado, era na beira-mar, sentei-me na calçada no outro lado da rua em frente ao café, olhando aos arredores. Vi ele vindo depois de virar de uma esquina, ele vinha com um livro embaixo do braço, estava um pouco vermelho do sol que batia em seu rosto e dava para perceber o suor que escorria de sua testa.
Cruzei a rua correndo e, parado na porta do café, o vi acelerando o passo para me alcançar. Finalmente nos encontramos, ele me deu um abraço apertado e um beijo ao estilo francês. Decidimos sentar-nos em uma mesa ao lado da rua, fora do café, pois tanto eu como ele estávamos ansiosos e precisávamos fumar, o que aumentava ainda mais a estética francesa do lugar.
Estranhei no momento em que ele se sentou ao meu lado e não na minha frente, iria ser mais difícil conversar não estando um de frente ao outro, mas somente estranhei em minha mente, nada falei sobre. Começamos a conversar e as palavras fluíam como um rio, indo de assuntos como marxismo teórico, análise antropológica para assuntos cotidianos como que músicas gostávamos. Entretanto, após pedir um chá gelado, o clima ficou silencioso, nós paramos de conversar por um momento, eu erroneamente pensei que poderia ter sido o chá. Mesmo sendo ilógico, era a única coisa que fazia sentido.
Olhei para ele, ele se aproximou puxando a cadeira para perto de mim, me prensando contra a parede de vidro do café, não estava entendendo o que estava acontecendo. Comecei a olhar aos arredores e comecei a ficar corado de vergonha, então olhei para ele novamente, e, em um movimento rápido, ele me roubou um beijo.
Fiquei alguns segundo sem ainda entender o que havia acontecido, ele ficou corado e com uma culpa que se expressava.
— Eu não tava esperando por isso… — eu disse.
Ele, balbuciando alguns sons, se levantou, puxou uma nota de 10 euros, colocou na mesa e em um andar rápido se distanciou, virando na esquina do café. E eu só conseguia observar tudo isso, sem conseguir completar minha frase.
— … mas, acho que foi melhor do que esperava — disse para mim mesmo, pois estava já sozinho.
Levantei e corri até a esquina, onde ele tinha ido, mas já era tarde, não sabia para onde tinha ido. Voltei pra mesa, onde a garçonete estava a me esperar apontando para a conta que achou que eu não iria pagar.
André’s P.O.V. off


Antes tarde do que nunca


Clarissa’s P.O.V. on
Já estava escuro quando acordei. Chegamos da festa por volta das oito da manhã, e a única coisa que consegui fazer foi deitar na minha cama e dormir. Nem sequer havia tomado um banho ou tirado a maquiagem, por isso, assim que levantei, às 18h43, a primeira coisa que fiz foi entrar no banheiro. Não havia ninguém em nenhum dos dois quartos, então pude me arrumar tranquilamente. Decidi que desceria e passearia pela ilha sozinha, para tirar algumas fotos e esclarecer meus pensamentos confusos. Por algum motivo, o rosto do rapaz da jaqueta de couro aparecia constantemente na minha cabeça, acho que até havia sonhado com ele durante a tarde.
Desci com a câmera pendurada no pescoço e cumprimentei Raissa, que estava cuidando da recepção, antes de me dirigir para a rua e respirar o ar fresco da noite grega. A noite estava tão linda que parecia de mentira, as luzes e as cores faziam o pequeno vilarejo parecer um cenário de filme. As pessoas andavam felizes pela rua e eu consegui capturar os sorrisos mais bonitos que já havia visto.
Andei até chegar em uma praça um pouco mais vazia. Alguns grupos de amigos conversavam e algumas famílias passeavam, e um certo rapaz fumava sozinho em um dos bancos de concreto. Não consegui controlar o sorriso ao vê-lo ali, mas logo balancei a cabeça e fechei a expressão. “Por que eu estava sorrindo?”, indaguei a mim mesma antes de chegar um pouco mais perto dele.
Levei a câmera para o rosto e o observei através das lentes. Ele estava sério, parecia que não querer estar ali e que mandaria qualquer um que falasse com ele para um lugar nada agradável, mas algo em seu semblante irritado me fazia sorrir involuntariamente e, além de achá-lo extremamente atraente, eu queria saber tudo sobre ele. O porquê de ele estar nessa ilha, o porquê de ele ter uma expressão tão séria, o porquê de andar sempre com a mesma jaqueta de couro. Ele me intrigava.
Tirei algumas fotos sem que ele percebesse, mas, depois do quinto clique, ele olhou para a câmera e juntou as sobrancelhas. Eu arregalei os olhos e minhas bochechas ficaram vermelhas de vergonha antes de eu soltar a câmera que tampava meu rosto e sorrir tímida, acenando para ele.
Assim que me reconheceu, ele soltou uma gargalhada e fez um sinal com a cabeça para que eu fosse até ele.
— Eu deveria me preocupar com o destino dessas fotos? — ele perguntou, rindo, assim que parei ao lado dele, fazendo com que meu rosto queimasse ainda mais.
— Não. — fechei o rosto, fingindo estar ofendida. — Posso até te mandar depois pra você postar no Instagram. — falei antes de sentar ao seu lado no banco de concreto.
— Uma desculpa boa pra conseguir meu número. — ele piscou antes de levar novamente o cigarro à boca.
Abri a boca, tentando formular alguma resposta, e juntei as sobrancelhas, sem saber o que falar.
— Não quero seu número, convencido. — respondi, com a voz mais fina do que o normal, porque eu queria sim o número dele. — Estou tentando ser amigável e te oferecendo de graça o meu trabalho.
— Deixa eu ver. — ele pediu, apontando com a cabeça para a câmera pendurada em meu pescoço.
Ele se aproximou de mim para observar melhor as imagens que eu mostrava e pude sentir seu perfume ficar mais forte. A jaqueta de couro encostava no meu ombro nu e eu tentava ao máximo não parecer uma adolescente que conversava pela primeira vez com o garoto que gostava. Eu não gostava dele. Eu nem o conhecia.
— Ficaram boas. — ele disse, se afastando de mim para apagar o cigarro no banco e me fazendo pensar que eu queria que ele continuasse perto de mim. — Talvez eu repense a sua oferta. — ele sorriu, voltando a se aproximar de mim e me fazendo agradecer mentalmente mil vezes por seu cheiro voltar a ficar forte. — Quero ver as outras. — ele olhou nos meus olhos antes de olhar novamente para a tela da câmera.
Mostrei todas as fotos que havia tirado desde o começo da viagem e até algumas de antes. Apresentei todos os meus amigos e contei as histórias por trás de cada uma delas. Ele parecia interessado e intercalava o olhar entre as imagens e eu, que sorria animada cada vez que lembrava do momento da foto.
— Aqui foi quando a Mariana achou que tinha perdido o celular. — falei, apontando para uma Mariana com uma expressão triste na tela. — A gente tava voltando pro hotel e ela tava com uma cara tão engraçada que eu tive que tirar foto. — disse, rindo, ao me lembrar da cena. — Ela me mata se descobre que eu tô mostrando pra alguém. — olhei para ele, com uma expressão divertida, e percebi que ele já olhava para mim.
— Por que tirou fotos minhas? — ele perguntou, sério, enquanto analisava os detalhes do meu rosto, e eu percebi que ele tinha ficado em dúvida quando viu que todas as minhas fotos significavam alguma coisa para mim.
— Não sei. — respondi, sincera, ainda olhando em seus olhos. — Digamos que você desperta minha curiosidade. — agradeci mentalmente que ele não podia escutar meu coração, pois ele batia muito mais rápido do que o normal.
Ele levantou as sobrancelhas, abrindo um sorriso sincero, e não pude deixar de sorrir também.
— Também tenho muita curiosidade em relação a você… — ele espremeu os olhos, esperando que eu completasse a sua frase.
— Clarissa. — sorri e ele balançou a cabeça.
— Clarissa. — ele repetiu, completando a frase. — Van McCann. — falou, apontando para si mesmo.
Clarissa’s P.O.V. off

Rebeca’s P.O.V. on
Estava sentada na cama, vendo os dois amigos, Mariana e André, se arrumando e bagunçando o quarto com muitas roupas, e ao mesmo tempo olhava no relógio para ver se a Clarissa não iria demorar muito com a saída fotográfica dela. Aquela bagunça ia se construindo na minha frente, todavia não me irritava pois estar ali com eles e indo nessa festa típica com meus amigos de colégio e os novos amigos era uma felicidade que me impedia de me irritar, mas já sabia que eu teria que brigar com eles quando voltássemos da festa e víssemos essa bagunça.
— E como é mesmo que a gente tá indo nessa festa? Onde você arranjou isso mesmo, Rebeca? — disse André tentando achar uma calça que combinasse com seu sapato.
— Eu pedi informação pro Gregg e ele se ofereceu pra levar a gente pra essa festa — disse olhando para o relógio vendo que faltava ainda meia hora para o horário marcado com Gregg.
— O Gregg vai também??? — disse Mariana com uma expressão de surpresa. — André, vamo ter que mudar toda minha roupa! — disse tirando mais roupas de sua mala e colocando em cima da cama.
Eu só conseguia rir daquele momento, ver a Mariana toda apaixonadinha no Gregg era bonito de ver, assim como todo o desespero por causa de uma roupa.
— E o Michael? Vai também? — disse André tentando ver se me fazia ficar envergonhada.
— Vai sim… — respondi, tentando evitar contato visual com meus amigos.
— Isso não vai ser um date não, né? — disse André com uma aflição no olhar.
— Meu date vai ser não, mas da Mariana… quem sabe? — disse dando uma pequena risadinha.
— Quem sabe, né? — disse Mariana tentando se esconder com uma peça de roupa.
Faltando uns vinte minutos para termos que ir para a recepção, Clarissa chegou com um grande sorriso no rosto e não demorou muito para se arrumar, pois André e Mariana já haviam escolhido a roupa que iria usar.
Descemos e Gregg e Michael já estavam nos esperando.
— Quase que nós íamos sem vocês! — disse Gregg rindo e ao mesmo tempo olhando para Mariana, que estava realmente belíssima.
— Mas vocês não teriam coragem de ir sem a gente! — disse me aproximando de Michael com um movimento de um abraço.
— Realmente! Não teríamos mesmo não — disse Michael depois de me dar um beijo.
Fomos, então, para o táxi que Gregg tinha reservado para nos levar à festa. Eu tinha ficado sentada ao lado do Michael, Mariana e Gregg sentaram juntos e André e Clarissa sentaram juntos atrás do táxi.
Ficava olhando pela janela, enquanto segurava a mão de Michael, e tentava lembrar da pesquisa que havia feito sobre essa festa.
Chegamos lá, havia muitas pessoas, maioria de idade mais avançada. O lugar era todo iluminado e havia várias mesas com comidas e bebidas que poderíamos comer e beber à vontade. Nós nos espalhamos para conhecer o local e, depois de uns vinte minutos, duas rodas começaram a se formar, e eu e Michael, não entendo o que estava acontecendo, entramos na maior roda que girava em sentido horário ao som do que parecia uma música típica da ilha. Quando, de repente, da menor roda que girava no sentido contrário, André e Clarissa passam por nós dois e dizem:
— Ei, Rebeca, nos encontre na mesa perto da fogueira! — disse André, no mesmo momento que se distanciava de nós.
— Aqui tem um fogueira??? Eu nem sabia. — disse para Michael, que ria da minha expressão de surpresa.
Passaram se alguns minutos, e todo mundo desfez aquela roda e a cantoria havia cessado. E agora tínhamos a missão de encontrar, naquela multidão, a fogueira e a mesa que não tínhamos muita referência de sua posição.
Nos guiamos pela luz que essa fogueira emanava, acima das pessoas, e chegando perto conseguimos localizar os amigos que estavam dançando e rindo.
— Rebecaaa! Você finalmente achou a gente, pensávamos que teríamos que ir atrás de você. — Disse André, enquanto intercalava a fala com o cigarro que já estava no fim.
— Antes tarde do que nunca! — disse Michael indo em direção à mesa pegar algo para beber.
Continuamos a beber, conversando e dançando, até que, de repente, levei um susto ao ver uma pessoa pulando por cima da fogueira.
— Gente, aquele cara pulou a fogueira??? — disse com um tom de susto
— Ah, sim, tem essa hora da festa que as pessoas pulam a fogueira, a tradição diz que tem que ser com o seu casal. — Gregg explicou.
— Clarissa!!! Vamo a gente pular! Já que não temos um casal ainda. — disse André levantando da mesa e segurando a amiga pela mão, que inicialmente exitou, mas que foi convencida com o apoio do resto do grupo.
— Eu acho que eu to fora dessa… — disse, enquanto observava os dois corajosos que pularam a fogueira soltando um grito uníssono.
— Você não quer ir mesmo não? — disse Michael, me cutucando.
— Ai, não sei, não parece das coisas mais seguras de se fazer. — disse enquanto olhava para Mariana pra ver se recebia uma aprovação de meu comentário.
— Rebeca, deixa disso, parece super ok de fazer, olha o André e a Clarissa fizeram de boas. — disse Mariana enquanto abraçava Gregg.
— Gente, é super legal!!! É quentinho. — disse Clarissa animada com a aventura
— Vamos, amor! — disse Michael, um pouco envergonhado por ter me chamado de amor, eu até que gostei.
— Então, tá bom, mas só se a Mariana e o Gregg forem também — disse olhando para o casal.
— Por mim tudo bem, e pra você? Mari? — disse Gregg levantando e dando a mão para Mariana
— O André e a Clarissa me pilharam, vamos sim então! — disse deixando o copo que estava em sua mão na mesa.
Fomos então para a fogueira. Eu segurava a mão do Michael, pois, do jeito atrapalhado que eu sou, poderia muito bem cair na fogueira e me queimar toda, mas faria isso pelo Michael e, caro leitor, eu realmente fiz! Foi um pouco assustador, mas a emoção do momento e a presença do Michael fizeram ser um momento legal e que guardaria na memória para sempre.
Terminamos o banquete e a festa acabou, e fomos de volta ao hotel quando a multidão se dispersou. Não conseguimos arranjar um táxi, devido à multidão, então decidimos ir andando até o hotel, que não era muito distante de onde a festa acontecia. Andávamos em grupo de dois, e fomos rindo de André, que tropeçava a cada esquina que chegávamos, pois ele havia bebido muito, e falava coisas sem muito sentido sobre uma pessoa que ele beijou e não sabíamos quem era.
Chegamos no hotel, estávamos super cansados da noite, então todos subimos rapidamente para o nosso quarto. Michael se despediu de todo mundo de dentro do elevador e, enquanto as portas se fechavam, exclamou:
— E, Rebeca, não esquece do nosso encontro, estou ansioso! —
Somente soltei um sorriso e fomos em direção ao quarto.
Ai, caro leitor, hoje foi um dia bom, eu gosto de criar essas memórias com meus amigos, elas ficam para sempre com a gente… Só não gosto mesmo de ter que cuidar do André.
Rebeca's P.O.V off


Polyvore da vida real


Logo depois de tomarem o café da manhã, os amigos estavam prontos para retornarem aos quartos e se arrumarem para mais um dia de passeios. No saguão, enquanto Clarissa e Mariana riam de alguma coisa que André havia dito, Michael sentiu sua mão ser segurada levemente.
— Planos pra hoje, senhor? — Rebeca perguntou assim que Michael virou-se para ela.
— Compras no centro, eu acho. — o rapaz deu de ombros. Por estar hospedado em outro andar, não participara da montagem da programação que os amigos haviam feito, mas ouvira alguém mencionar compras durante o café da manhã.
Rebeca fez uma careta e Michael a acompanhou, rindo.
— O que acha de pularmos essa? — ela perguntou, ainda segurando a mão dele sugestivamente.
— E não atender ao chamado dos meus instintos consumistas? — ele levantou uma sobrancelha, encarando a menina. — Sim, parece uma boa. — ele riu, fazendo com que ela risse também.
— Então, Michael, considero iniciado o nosso primeiro encontro. — ela disse simplesmente, começando a andar na direção contrária dos amigos, em direção à saída, e puxando Michael pela mão.
— O quê? — ele perguntou, surpreso. — Calma. Eu não estava preparado. — segurou a mão da menina para que ela parasse de andar. Ela virou-se para ele.
— Precisa se maquiar? — ela perguntou quando parou na frente dele. — Acho que você está bem assim, mas, se quiser…
— Não, Rebeca! — ele riu, olhando para os chinelos nos seus pés e para bermuda que ele usava para dormir. — Vestir uma roupa melhor, pegar minha carteira…
Rebeca balançou a cabeça negativamente, sorrindo com a preocupação do rapaz.
— Só vem. — e voltou a puxar Michael em direção à rua.
Depois de caminharem por algum tempo e conversarem sobre suas vidas pré-Grécia, chegaram à praia. Lá, andaram um pouco até chegarem em uma tenda maravilhosa.
Rebeca sorriu para Michael antes de puxá-lo para dentro da tenda.
— Rebeca, não podemos entrar. — Michael riu enquanto tentava puxar a menina de volta para a praia. — Essas tendas geralmente são privadas.
A tenda não era enorme, mas era linda. Cheia de almofadas coloridas e cangas espalhadas pela areia branquinha, uma pequena mesa com vários tipos de frutas e outras comidas típicas.
— Exatamente! — a menina respondeu, rindo e sentando-se perto de uma aglomeração de almofadas.
— Rebeca… o que… — Michael tentava raciocinar, enquanto Rebeca apenas ria.
— Michael, eu disse que era nosso primeiro encontro. — ela sorriu ao ver os olhos do rapaz brilhando.
— Meu Deus. — ele passou as mãos pelo rosto. — Como você…
— Uma ajudinha do Gregg. — ela piscou antes de jogar uma das almofadas perto de si em Michael. — Agora para de fazer essa cara de bobão e vem sentar aqui comigo.
Michael riu enquanto caminhava até Rebeca.
— Você me surpreende muito, garota. — ele comentou enquanto sentava nas almofadas ao lado dela e abraçava seus ombros.
— Eu tento. — ela deu de ombros e fez uma careta.
— Saiba então que essa é a primeira vez que uma garota prepara um encontro para mim, acredita?— ele diz sorrindo já completamente encantado pela jovem.
— Se continuar comigo, prometo que não será a última. — assim ela se inclinou em direção aos lábios do rapaz iniciando um lento beijo.
Passaram horas conversando, experimentando as comidas e aproveitando a companhia um do outro. Pareciam velhos conhecidos, que namoravam há vários anos e estavam em somente mais um encontro de muitos. Um pensamento, porém, surgiu na cabeça de Rebeca depois de Michael se engasgar com uma uva e eles rirem até ficarem roxos.
— O que vamos fazer depois de tudo isso? — ela perguntou depois de algum tempo em silêncio após a crise de riso.
— Bom, podemos encontrar os outros no centro, se você quiser. — ele respondeu, bebendo um pouco de água para recuperar o fôlego.
Rebeca riu, um pouco sem graça, encarando as almofadas aos seus pés.
— Não tô falando de hoje. — ela disse e Michael a encarou. — Tô falando de quando tudo isso acabar.
Um silêncio tomou conta da tenda. Nenhum dos dois havia pensado nisso até aquele momento, mas um dia aquela viagem chegaria ao fim, e esse fim não estava longe. Michael voltaria para o Canadá e Rebeca para o Brasil, continuariam suas vidas de antes, em que não se conheciam, e tudo voltaria ao normal.
Naquele momento, porém, apesar de sempre resguardar seus sentimentos e nunca os demonstrar, Rebeca não conseguia simplesmente mentir para si mesma e dizer que simplesmente gostaria que sua vida voltasse ao normal. Sim, gostaria de retornar ao Brasil, ao seu escritório de advocacia, ver novamente a sua família — de quem já morria de saudades — e continuar sua rotina lotada. Apesar disso, não queria imaginar a possibilidade de nunca mais ver Michael na sua vida. Conhecia-o há pouco tempo, é verdade, mas sentia algo tão bom no peito quando olhava para ele ou escutava sua voz e suas risadas, que seria difícil deixar tudo isso de uma hora para outra.
— Eu não sei. — ele falou baixo. — Não sei o que vai acontecer.
O coração de Rebeca deu um pulo. Era melhor aproveitar o presente, pois o futuro era totalmente incerto para eles.
Apesar de seu peito doer um pouco com a possibilidade de nunca mais vê-lo na vida depois de alguns dias, a menina conseguiu forçar um sorriso antes de jogar uma almofada em Michael novamente.
— É melhor aproveitarmos então. — ela riu da reação dele e seguiu até ele para beijá-lo. — Corrida até o centro?
— Você tem que aprender a me avisar as coisas antes! — ele gritou, rindo, enquanto a menina já se levantava e se preparava para correr.

Enquanto isso, os outros três amigos estavam a passear pelas ruas da cidade olhando as lojas e comprando as roupas mais bonitas que já haviam visto. Em um momento, os três se separam para ir às lojas que mais lhe agradavam e lá compraram suas roupas, mais roupa do que já haviam comprado. Então, com suas sacolas que ocupavam as mãos e que pesavam com a quantidade, se encontraram no meio da rua, que havia sido reservada para o uso de pedestres no dia, e falando rápido por conta da ansiedade de mostrar as roupas, pois foi a primeira vez no dia que o grupo entrou separado em lojas diferentes.
— Olha essa calça que eu comprei — falou André, levantando a calça cintura alta com listras brancas e azuis.
— Que linda! — disse Clarissa procurando a sua nova peça em meio ao monte de sacolas que possuía.
Mariana com um cara de choque, lentamente tirou de dentro de uma sacola uma calça idêntica a que André havia comprado.
O que fez o grupo em êxtase e dar um grito, chamando a atenção de todos ao redor, o que fez o grupo rir de vergonha. Rapidamente voltaram para o hotel para poderem criar os looks.
— Finalmente vamo fazer o polyvore da vida real — disse Clarissa já pensando em todos os looks que poderia usar em suas antigas fanfics.

Michael quando chegou em seu quarto, depois de se despedir de Rebeca, deitou-se em sua cama. Observando seu quarto, percebe a roupa que havia separado para usar, idéia que foi atrapalhada pelos planos de Rebeca, fazendo com que Michael refletisse que em situações normais não teria se sentido confortável, mas a presença de Rebeca naquele momento o fez esquecer completamente de como estava vestido e de como as pessoas o veriam.
Michael cresceu no meio de Vancouver e nunca teve muitas referências em quem se inspirar. Sendo o único menino negro de sua escola, viveu uma infância de bullying e racismo, o que mudou no momento em que Michael conseguiu se ver em um certo grupo de militantes do movimento negro dos Estados Unidos, quando estudou o mesmo grupo no ensino médio em uma aula de história. A partir desse momento, assim, o menino que antes se via reprimido, agora se sentia empoderado ao abraçar a estética dos Panteras Negras, inclusive entrando em um grupo local de militantes negros quando completou 18 anos.
E agora, Rebeca fazia também parte do empoderamento de Michael. Estar sendo amado e colocado em nível de grande importância como a sua possível futura namorada estava fazendo era algo que elevava sua auto-estima e fazia com que fosse possível, assim, fazer o mesmo por ela.
Nesse mar de pensamentos que fluía na mente de Michael, Rebeca era o que lhe fazia naquele momento sorrir, e com ela ainda no pensamento, pegou no sono e sonhou com uma possível vida que podia se concretizar estando junto de Rebeca.


Conta tudooooh


Rebeca entrara no quarto onde seus três amigos estavam vendo as compras que fizeram no dia, então os amigos, com algumas roupas em mãos, as jogaram para cima e deram um grito uníssono. Todos estavam empolgados com o date do qual Rebeca acabara de sair.
— Conta tudoooo. — Disse Clarissa já levantando para chegar perto da amiga.
Rebeca cheia de alegria no olhar sentou na cama e começou a contar toda a experiência maravilhosa que teve mais cedo com o amigo, que nessa altura do campeonato se tornaria seu par romântico.

Rebeca já estava com os olhos pesando de sono quando contava sobre a última parte de seu primeiro encontro com Michael e como tudo havia sido perfeito. Portanto, não demorou para que caísse no sono logo depois que terminou o relato minucioso.
Clarissa havia combinado de se encontrar com o Van no dia anterior, todavia, não queria que ninguém soubesse de seu encontro noturno. Sabia que seria uma coisa passageira e preferia que os amigos não ficassem idealizando-o como seu futuro namorado, como Mariana havia feito com Harry. Por isso, esperou que eles fossem dormir para poder sair de fininho.
Todavia, seu plano foi atrasado no momento que André decidiu contar o que havia acontecido no dia anterior e que o estava afligindo desde então. Rebeca ouvia tudo já com os olhos fechados e Mariana estava atenta ao que André tinha a falar, todavia Clarissa estava mais a prestar atenção no relógio, que parecia congelado no tempo. Quando André terminou de contar, Mariana puxou um bocejo da sua cara de ansiedade e espanto ao ouvir a história do amigo.
Os amigos então decidiram ir logo dormir. Antes mesmo que André e Clarissa fossem para suas camas, Rebeca já exprimia seus baixos roncos e Mariana estava já debaixo das suas cobertas. Então os dois amigos se dirigiram ao quarto e deitaram em suas respectivas camas. Clarissa, não sabendo disfarçar o que estava tramando em segredo, nem se deu o trabalho de se cobrir com a fina coberta que tinha na cama, enquanto André se cobria e parecendo que dormia pensando sobre Omar, já que a conversa com as amigas o fez relembrar e pensar mais ainda sobre.
André conseguiu ver quando Clarissa, no escuro, começou a andar pelo quarto, mas decidiu ficar em silêncio para ver o que a amiga estava tramando. Viu quando ela pegou a bolsa no armário e quando ela esbarrou sem querer na cama da Rebeca, que, por sorte, nem se mexeu, e segurou a risada quando a ruiva segurou a perna que que havia batido no móvel. Por fim, observou Clarissa abrir a porta do quarto e sair, como se nada estivesse acontecendo.

Após Clarissa sair do quarto "secretamente", André decidiu tirar logo do peito o que estava guardando. Se descobriu até a altura das pernas, pegou seu óculos e em seguida o celular, que tinha já uma notificação de Omar. Se assustou quando viu a notificação, André iria mandar mensagem justamente para ele. Quando desbloqueou o telefone, Omar estava a tentar pedir desculpa pelo acontecimento que havia feito no dia anterior, todavia, enquanto ele digitava, André o interrompeu dizendo que aceitaria desculpas somente se fossem feitas ao vivo, o que assustou Omar, que ficou algum tempo sem digitar nada.
O que o barman não sabia era que André havia feito isso somente para ter um motivo para poder ver o menino que estava a nutrir sentimento de novo, o coração de André havia conquistado uma batalha que nem sabia que estava participando. Assustado, ele aceitou fazer o pedido de desculpas ao vivo, chamando-o para descer no bar, pois o expediente dele estava a acabar e o local estava vazio.
André se arrumou e desceu para o saguão, rindo por estar fazendo o mesmo que Clarissa, chegou na porta do bar e viu Omar limpando o balcão. Ele viu parado na porta André, que logo se dirigiu para os bancos do balcão, fazendo com que o barman, corado de vergonha, desse a volta e sentasse junto com o amigo. Os dois sentaram um de frente ao outro, e, ainda vermelho, Omar começou a falar.
— Sabe … eu to muito envergonhado com o que aconteceu… não sei porque fiz aquilo, fiz no impulso… porque desde o dia que eu te conheci, eu não te tirava da cabeça — disse olhando para baixo enquanto mexia nas suas mãos.
— Eu entendo… na verdade, se não tivesse fugido o final poderia ter sido diferente. — disse André levantando da cadeira alta do bar e ficando mais próximo ainda de Omar, que agora não estava mais entendendo.
— Como assim poderia ser… — tentou dizer ao ser interrompido por um beijo que André acabara de roubar.
Os amigos, no momento eram algo mais que amigos, se olharam um nos olhos dos outros, mostrando que o ditado popular estava certo, os olhos são as janelas da alma, e as almas dos dois expressavam no momento uma paixão que talvez nunca tivessem sentido antes. E a partir daí, surgindo um clima romântico composto por beijos e abraços apaixonantes, começaram a também conversar sobre aqueles sentimentos que haviam surgido.
Clima esse que, infelizmente, para os dois teve que acabar, quando se percebeu que Omar deveria fechar o bar e ir para casa, e André deveria voltar para o quarto antes que Clarissa voltasse e percebesse sua falta. Já na porta do hotel, os dois apaixonados se dão um beijo de despedida e, quando começam a andar em direções opostas, olham para trás com sorrisos nos rostos e corados, não mais pela vergonha, mas sim por uma paixão efervescente.

Clarissa se sentia um pouco mal de estar escondendo Van dos seus amigos, mas sabia que, quando tudo acabasse, seria melhor. Não daria falsas esperanças a eles nem a si mesma.
Van estava a esperando do lado de fora do hotel, com a jaqueta de sempre nos ombros e os cabelos molhados de quem havia acabado de tomar banho. Ele estava hospedado em um hotel a alguns metros, por isso haviam se esbarrado no primeiro dia.
— Tá bonito. — Clarissa brincou, rindo, logo depois que o abraçou. — Se arrumou todo pra me ver, né?
— Claro, tenho que estar à sua altura. — ele falou enquanto oferecia o braço para que ela entrelaçasse com o dela.
Eles caminharam juntos até a praia, que estava totalmente deserta a essa hora, e sentaram-se na areia macia.
— Hora de matar suas curiosidades, Clarissa. — ele apoiou as mãos atrás do corpo e olhou para ela. — O que quer saber sobre mim?
A menina cruzou as pernas e virou-se para ele antes de sorrir e começar:
— De onde você vem, Van McCann? O que faz na Grécia? — ela riu antes de continuar: — Por que você tá sempre tão mal humorado? Ou quase sempre. — balançou a cabeça ao se lembrar da noite da festa e da noite anterior.
— Venho de Liverpool, na Inglaterra. — ele falou. — Tenho uma banda lá, mas nós somos um fracasso. Tô na Grécia há quase um mês fingindo pra mim mesmo que tô procurando inspiração, mas acho que a verdade é que eu só queria fugir de tudo. — ele acendeu um cigarro aos olhos atentos da menina, que prestavam atenção em cada movimento que ele fazia. — Eu sou mal humorado porque percebi que essa não era a vida que eu planejava ter quando tinha 12 anos e tocava guitarra no porão dos meus avós. — ele riu sem muita vontade. — Eu queria ser um astro do rock, Clarissa. — ele a olhou e ela sentiu a dor em seus olhos. — Mas sou só mais um fracassado.
— Você não é um fracassado, Van. — Clarissa balançou a cabeça negativamente. — Você veio pra cá pra encontrar algo que tá faltando, e você vai descobrir o que é. — ela disse, segurando a mão livre do rapaz. — A sua banda pode ser uma merda, e aposto que sua voz não é muito boa. — ela riu, fazendo com que ele risse também. — Mas eu consigo ver nos seus olhos o quanto você acredita nela e o quanto você quer realizar o sonho daquela criança de 12 anos, embora você finja pra você mesmo que já desistiu. — ele a observava em silêncio. — Agora pega essa guitarra e vai escrever uma música, Van McCann. — ela falou e ele riu.
O resto da noite passou rapidamente. Os novos amigos conversaram sobre suas vidas, sobre seus sonhos, seus medos e tudo o que passava em suas cabeças naquele momento. Clarissa não sabia dizer o porquê confiava em um quase-desconhecido a ponto de falar sobre sua vida, nem o porquê de gostar tanto de ouvi-lo falar sobre a dele. Deitaram na areia, molharam os pés na água gelada do mar, correram pela praia vazia e provocaram risos e sorrisos sinceros um no outro. Quando começaram a sentir frio, porém, tiveram que voltar para o hotel.

André entrou em um dos elevadores, clicou em um botão no painel que era um andar abaixo do andar dos quartos dos amigos, então em seguida apertou o correto, vendo que iria perder tempo parando em um andar errado. E enquanto a porta do elevador fechava, uma voz masculina gritou.
— Segura a porta! — todavia André no momento não soube reagir, sendo tarde demais quando apertou o botão de abertura da porta.
No lado de fora estavam McCann e Clarissa, que não tinha ideia de que era o amigo que estava no elevador. Clarissa se despediu de seu novo amigo e entrou no elevador ao lado, apertando o botão do andar no painel.
Os elevadores chegaram ao mesmo tempo ao andar, fazendo com que, quando os dois amigos saíram, se olhassem fazendo-os ficar boquiabertos de espanto, ao perceberem que os dois foram descobertos.
— Eu já sabia que você tinha saído… nada discreta você — disse o amigo tentando tirar o dele da reta.
— Mas agora eu sei que você saiu escondidinho também … foi falar com o Omar, né, eu vi ele saindo do hotel — disse Clarissa tentando criar um acordo no estilo de Las Vegas.
— E chuto que quem pediu para eu segurar a porta foi o seu date da noite — disse André tentando jogar com a mesma moeda.
— Não é date não! Só fui falar com um amigo… mas isso não é importante, o Omar parece ter gostado da “conversa” de hoje — disse de forma sarcástica.
— Olha, tô percebendo que esse joguinho não vai a lugar nenhum, vamo fazer assim — disse André com uma expressão pensativa — Eu não conto da sua escapada e nem você da minha, e depois a gente vê como contamos para as meninas.
— Acho um acordo justo… depois falo com todo mundo sobre o McCann. — disse já se dirigindo ao quarto com o amigo.
— Então esse é o nome dele… — André disse, rindo da furada que Clarissa acabava de cometer.
Entraram no quarto silenciosamente, deram uma última olhada para si juntamente com um risinho, que terminou com os dois dormindo com os sorrisos ainda estampados no rosto.


Continua...



Nota da autora: (04/09/2020) Oi, gente! O que acharam? Essa é minha primeira fanfic, escrevi ela com muito carinho! Ela já está toda pronta, então as atualizações não irão demorar nada! Vou mandar os capítulos de dois em dois. Espero muito que vocês gostem e acompanhem! Estou muito feliz em publicar aqui.

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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