Dogtown Style

Última atualização: 24/05/2019

Capítulo 1

Ela o olhou disfarçadamente pelo canto dos olhos torcendo para que ele não percebesse. Não sabia o que havia de especial no garoto, mas sentia um magnetismo quando se aproximava dele. Olhou mais uma vez para o boné virado e para a camiseta larga e mordeu o lábio involuntariamente, o cabelo comprido do rapaz estava jogado em seu rosto de forma propositalmente desarrumada, dando ainda mais charme a ele.
se amaldiçoou mentalmente por não conseguir parar de encarar o garoto e voltou seu olhar para as próprias pernas tentando recuperar a linha de pensamento. Antes que ele entrasse no ônibus, estava repassando as matérias que estava estudando para a prova do dia seguinte. Depois de ele chegar, esquecera até o seu nome.
Estava olhando tão fixamente para os próprios joelhos que não percebeu que ele havia se sentado ao seu lado. Quando sentiu o perfume amadeirado com notas cítricas, subiu seus olhos até perceber o rapaz ao seu lado.
Por um instante, se esqueceu de que esteve disfarçando e apenas o olhou abertamente. O rapaz instantaneamente lhe devolveu o olhar e deixou escapar um sorriso pelo canto dos lábios. Hipnotizada, seu próprio sorriso escapou sem ser convidado.
Depois disso, a vergonha voltou a dominá-la. Não sabia por que estava se sentindo daquela forma. Já tinha 24 anos e já havia encontrado tantos garotos em seu caminho que nunca imaginara que algum fosse provocar nela aquela reação. Sentia-se como se tivesse voltado a ser uma garota de 15 anos.
Revirou os olhos mentalmente e imaginou que deveria estar com os hormônios a flor da pele. Deu um risinho para si mesma enquanto concluía que ficava fora de si em seu período fértil. Verificou mentalmente o seu ciclo e se congratulou em perceber que conhecia muito bem o seu próprio corpo, já haviam se passado doze dias desde sua última menstruação e seu ciclo era quase religioso.
Um pensamento engraçado se passou em sua cabeça e isso fez com que abrisse ainda mais o sorriso que estava pregado em seus lábios. Imaginou o quão constrangedor seria se o rapaz pudesse ler mentes como nesses filmes de fantasia.
Percebeu, no meio deste pensamento, que o rapaz agora a encarava abertamente, provavelmente curioso pela razão de seus sorrisos. Vermelha, ela virou o rosto bruscamente para a janela do ônibus.
O caminho até o metrô se passou repleto de olhares e, a cada vez que ele a pegava o encarando, um novo sorriso se formava nos lábios do rapaz. Quando o ônibus enfim parou, agradeceu mentalmente por poder novamente ter paz de mente. Sabia que assim que os dois se separassem voltaria a se concentrar na prova e desejava aqueles poucos momentos que restavam antes de chegar a faculdade para organizar as tarefas do dia. A garota dependia de listas de tarefas para se manter organizada e vivia de maneira bem sistemática.
apressou o passo e subiu quase correndo as escadas da estação Bresser-Mooca, pois não queria se atrasar para a primeira aula. Odiava pegar a linha vermelha todos os dias e sabia que provavelmente iria esmagada até chegar na República, mas sabia que não podia se dar ao luxo de perder um vagão.
Passou correndo pela esquerda nas escadas-rolantes e parou em frente a faixa amarela esperando o metrô que chegaria sem dúvidas lotado. Havia aprendido a olhar para o chão do vagão quando ele se abria. Se visse espaço no chão, significaria que conseguia se espremer para dentro do metrô, por mais que os outros passageiros sempre se apoiassem na porta para dificultar a entrada das pessoas.
colocou os fones de ouvidos enquanto esperava e não demorou muito até que o metrô chegasse. Ela se espremeu nele, como já estava habituada, e contou pacientemente as cinco estações até chegar na República, ansiando por ar fresco.
Quando as portas enfim se abriram, novamente correu pelas escadas rolantes em direção à baldeação com a linha amarela. Já estava habituada, pois vivia sempre naquele ritmo acelerado como se a vida corresse por ela.
Já estava completamente absorta em listar suas tarefas do dia mentalmente quando percebeu que o mesmo rapaz estava novamente ao seu lado no metrô, na linha amarela. Sentiu o corpo todo paralisar em choque e não soube explicar bem o porquê, mas seu coração disparou como o rufar de tambores.
sentiu novamente o magnetismo que havia a envolvido no ônibus, mas dessa vez, também sentiu um diferente sabor: o do medo.
Assustada, se perguntou qual eram as chances no universo de pegar novamente o transporte público com a mesma pessoa naquele curto trajeto até a estação Higienópolis-Mackenzie. Desta vez, não se atreveu a olhá-lo, com medo de que ele pudesse estar de fato a seguindo. Sentiu um calafrio em tentar imaginar o que aquele duplo encontro poderia significar.
Quando saiu da estação, sentiu seus ombros relaxarem quando percebeu que o garoto havia tomado outro caminho. Ele não estava a seguindo afinal. Sentiu-se boba por ter desconfiado de uma coincidência tão banal. No fundo, alguma voz dizia que aquele encontro poderia significar alguma coisa, mas a voz cética de sua personalidade dizia que não existiam essas coisas de destinos e encontros casuais. Havia sido somente uma coincidência.
Por fim, o garoto e a garota se separaram. Ela se dirigiu à faculdade Mackenzie e ele, à praça Roosevelt.



Capítulo 2

havia passado o dia em aulas que conseguiam ser uma mais tediosa que outra. Precisara se esforçar para não sair da sala durante aquele último período. As quatro horas seguidas assistindo à aula de Transportes foram horríveis. Ela não suportava aulas em que o professor apenas lia os slides e detestava ainda mais aquela “dobradinha quádrupla” que fazia com que sua bunda assumisse o formato quadrado da cadeira.
Engenharia Civil não era lá o curso de graduação mais empolgante do mundo. Em geral, ela apenas se esforçava para conseguir passar nas provas injustas que os professores inventavam e conseguir o seu diploma para conseguir um emprego que lhe desse mais condições. Pelo menos era isso que as pessoas haviam dito a ela quando escolhera a faculdade, com 18 anos.
Se refletisse a respeito, diria que todos os amigos na faculdade haviam escolhido a faculdade provavelmente pelo mesmo motivo. Em 2012, quando escolhera o seu curso, todos os telejornais e guias vocacionais diziam como os engenheiros civis estavam em falta no mercado e que este era um caminho bem fácil para o sucesso financeiro. Em 2018 com a crise batendo na porta, as coisas não estavam assim tão garantidas. havia ouvido falar de muitos amigos formados que se sujeitavam a ganhar salários bem pequenos para não ficarem desempregados. O mito do piso salarial de R$8.000,00 por mês havia chegado ao fim.
Sempre que se lembrava dos desafios que o mercado de trabalho a trariam parecia que um peso se instaurava em seus ombros. Não suportava a ideia de que sete anos de faculdade pudessem ter um resultado tão ridículo. Não depois de ter aberto mão de fazer qualquer curso que gostasse mais.
Seus pais haviam colocado tanta pressão a respeito da faculdade na época em que escolheu o curso que ela nem tivera muito que pensar nas decisões que tomaria. No entanto, muitas vezes à noite, antes de dormir, começava a se questionar sobre sua trajetória até aquele momento. Antes que as ideias pudessem se transformar em arrependimentos, a garota sufocava os sentimentos bem no fundo de seu peito. Aos poucos, estava se tornando um pouco oca. Totalmente alheia aos caminhos que deveria seguir para sua vida.
A garota repetiu o movimento mental de sufocar os pensamentos desagradáveis e se lembrou de onde estava. A faculdade não era o melhor lugar para pensamentos tristes. Isso acabava com a “vibe” de seus “amigos”. Era irônico como se sentia sozinha em um ambiente tão lotado, mesmo se dando muito bem com as pessoas da sua sala. Às vezes, sentia saudade de poder falar de seus problemas e ter colo, mas já nem se lembrava quando tinha sido a última vez que havia sentido isso.
Sua amiga, Raíssa, despertou de seus pensamentos.
- Não tem mais como aguentar essa aula insuportável... Vamos ‘pra cantina, pelo amor de Deus.
assentiu e seguiu a amiga até fora da sala, agradecendo mentalmente por ela ter tomado a iniciativa.
- Vai! Agora me conta do tal garoto – Raíssa disse, já fora da sala de aula.
- Eu já disse tudo que tinha para dizer – disse meio rindo. – Ele era, assim, de tirar o fôlego, mas eu fiquei olhando para ele como se tivesse virado uma estátua e corando sem parar. Não que vá fazer alguma diferença, já que eu provavelmente nunca mais vou ver o cara na vida.
- Ai deixa de ser estraga prazeres – Raíssa respondeu brincando, com a voz em um tom mais elevado. – Eu quero saber pelo menos como ele era.
- Ele não era muito do seu estilo, mas ok. – disse revirando os olhos. A essa altura, as duas amigas já se encontravam em frente à lanchonete. – Ele tinha o cabelo assim meio comprido, com as pontas mais claras. Não julga que era super estiloso – já começou se justificando antecipando o julgamento da amiga.
- Sabia que teria alguma excentricidade – Raíssa respondeu, brincando. – Mas o que mais? Quero detalhes.
- Não consegui reparar muito porque fiquei desviando o rosto o tempo todo, mas acho que ele é da minha altura. Estava com uma bermuda meio caída, uma camiseta dessas bem largas e um boné preto – ela disse se esforçando para se lembrar. – Não sei explicar, ele tinha meio que essa aura sabe, dava vontade de morder o lábio – disse soltando uma risada espontânea. – Era puro feromônio, deu vontade de levantar e pegar o boné dele... Eu devo estar ficando louca!
Raíssa riu sonoramente ao último comentário da amiga. Era raro ver assim tão a fim de algum cara e por isso achava engraçado vê-la admitir que sentira uma atração tão forte.
- ‘Tô vendo que você vai sonhar com esse menino – Raíssa disse e mostrou a língua. – Se você vir ele de novo no ônibus, eu quero foto hein!?
- Até parece... Quais são as chances de eu ver o cara de novo em uma cidade como São Paulo? – disse negando com a cabeça. – Além disso, eu nunca teria a cara de pau de tirar uma foto dele.
- Vai tirar sim – Raíssa disse ignorando o que a amiga havia falado. – Se não tirar eu vou te perseguir com isso até depois da sua morte.
- Ai que dramática! – disse rindo enquanto fingia revirar os olhos. – Está bem, se eu ver o cara de novo – ela fez uma pausa, após reforçar a palavra “se”. – Eu tiro uma foto dele.
- Combinado – Raíssa respondeu fazendo biquinho.
As duas amigas continuaram brincando por mais um pouco de tempo, mas logo voltaram para a sala de aula. Aquele professor insistia em fazer chamada no final e elas não queriam perder a presença.
Quando a aula terminou, correu para o caminho do metrô, porque sabia que ainda teria que terminar de estudar para a prova do dia seguinte. Enquanto corria apressada, não acreditou no que via. O tal garoto passava por ela em direção à Praça Roosevelt. se perguntou se um raio cairia mesmo duas vezes no mesmo lugar, mas não tirou a foto que havia prometido à Raíssa.



Capítulo 3

havia acordado naquela manhã sem nenhuma vontade de sair da cama. Havia passado a madrugada inteira estudando para a prova de Fundações e Obras da Terra e havia se dado 30 minutos para cochilar antes de sair para a faculdade. Como o curso era integral, não sobrava muito tempo para estudar e aquela era uma das matérias mais difíceis do curso. No ano anterior, havia reprovado justamente nela e, desta vez, não poderia deixar de passar. Principalmente pelo preço de sua faculdade, afinal a Mackenzie não era conhecida por ser uma faculdade barata.
Ela saiu da cama e foi direto para cozinha para colocar a água para ferver. Precisaria de uma bela quantidade de café naquele dia para conseguir chegar até o final dele.
“Pelo menos é sexta-feira”, ela pensou enquanto colocava suas roupas no quarto escuro. Ainda não havia acordado o suficiente para acender as luzes e sentia que elas machucariam seus olhos.
terminou de se arrumar e foi até a cozinha. Como previra, a água já estava fervendo e logo começou o ritual necessário para passar o café. Assim que sentiu o cheiro do pó moído, fechou os olhos e sorriu com aprovação. Gostava muito de café e achava o cheiro maravilhoso.
Não demorou muito até que estivesse com tudo arrumado para sair de casa, sabia que a jornada que a aguardava era longa e se esforçou para não se desanimar com o trajeto.
Todos os dias, durante aqueles sete anos, a garota havia acordado cedo e pegado o transporte público. Antes da inauguração da estação Higienópolis-Mackenzie na linha amarela, ela pegava um ônibus até o metrô, fazia uma baldeação para a linha amarela e ainda pegava um último ônibus até perto da faculdade. Agora, com a inauguração da estação, havia conseguido se livrar de um ônibus, mas o percurso ainda era bem cansativo.
A maioria dos alunos de sua faculdade nunca tivera que se preocupar com isso, pois ganhavam carros de seus pais quando completavam 18 anos. , por outro lado, só estava conseguindo cursar a faculdade porque havia financiado o curso pelo FIES. Quando começou o curso, as prospecções para Engenharia Civil eram maravilhosas e ela nunca pensara que corria o risco de não conseguir arcar com o financiamento. Agora, com 24 anos, tinha medo da imensa dívida que carregava e esperava conseguir um estágio para ajudar a começar a quitar suas parcelas. Infelizmente, arrumar qualquer tipo de atividade remunerada não estava tão fácil naqueles dias.
estava tão cansada naquela manhã que nem ao menos pensar nisso a afetou. Geralmente, sentia-se ansiosa com o mais simples pensamento que pudesse direcionar a dinheiro. Hoje, não sabia direito o que era sentir.
Fez tudo de maneira mecânica até chegar à faculdade. Não estava conseguindo se concentrar muito em nada, nem ao menos nas pessoas agarradas no seu corpo no metrô ou no calor do ônibus. Estava quase anestesiada.
No entanto, toda cafeína que havia ingerido na última noite e naquela manhã já começava a lhe trazer uma sensação esquisita no peito, como se tivesse urgência em fazer alguma coisa que não sabia explicar direito o que era. Sabia que não devia tomar tanto café, mas tinha muitas coisas para fazer e, acima de tudo, associava tomar algumas xícaras daquele líquido negro como um momento do dia em que se permitia fazer algo que lhe desse prazer.
teve outras aulas antes do horário de sua prova, mas não conseguiu se concentrar em nenhuma. Ficou desenhando nos cantos das folhas do caderno para tentar se manter acordada até a hora da aula de Fundações, pois sempre gostara de passar tempo desenhando. Quando finalmente chegou a hora da avaliação continuou agindo da mesma maneira mecânica que havia agido durante todo o dia. Olhou os valores de resistência do solo na página e eles pareceram flutuar da página, mas a garota se esforçou para conseguir fazer alguma coisa mesmo assim. Quando terminou, estava acabada.
Seguiu pelos corredores quando o sinal tocou sinalizando o fim do dia. Quem a olhasse de longe pensaria em um zumbi. Estava ainda mais cansada do que quando acordara e pensar na maratona que precisava enfrentar para chegar em casa lhe deu vontade de chorar, mas engoliu a vontade assim como engolira tantas sensações no passado.
Quando chegou à estação perdeu a coragem de voltar para casa. Comprou uma daquelas porções de 6 pães de queijo por R$1,00 e se sentou contra a parede em um local que não atrapalhava a passagem das outras pessoas. Atacou os pães de queijo como se sua vida dependesse daquilo, torcendo para que a comida pudesse preencher o vazio que sentia no fundo do estômago. A sensação de se encher de carboidratos era boa, mas não durava mais do que três segundos e ela sabia que não podia gastar todo seu dinheiro em pães de queijo. No fim do mês, sempre percebia que o que mais levava sua mesada era o fato de sempre comprar comida quando se sentia cansada.
apoiou a cabeça na parede e fechou os olhos deixando que os sons das pessoas passando desaparecessem a sua volta. Era sexta-feira afinal, poderia deixar de correr de um lado para o outro com medo de se atrasar ou tentando cumprir mil responsabilidades que se empilhavam em suas costas.
Começou a ouvir o som de um saxofone distante e não estranhou. Era comum que artistas de rua tocassem aqui e ali ou que a organização do metrô permitisse eventos culturais nas estações. Abriu os olhos para procurar onde poderia estar o músico e não acreditou nos seus olhos quando olhou para o lado.
O músico não estava em nenhum lugar que conseguisse enxergar, mas, bem ao seu lado, estava o rapaz que vira no dia anterior. Ainda com um boné na cabeça e totalmente alheio a presença dela.



Capítulo 4

engoliu em seco totalmente descrente do fato que aquilo poderia significar alguma coincidência. Estava tão cansada que chegou a duvidar de sua sanidade. Talvez ela estivesse vendo coisas por não ter dormido de verdade naquela noite.
Se aquele fosse o caso, a garota começava a se perguntar o que havia com ela e o garoto, já que ele parecia uma figura presente em sua cabeça.
fechou os olhos mais alguns instantes e respirou fundo, percebendo o quanto estava sendo tonta. Era óbvio que não estava imaginando a presença do rapaz. Forçou-se a abrir os olhos e o encarou abertamente. Se ele estava mesmo a seguindo, não havia motivos para que fingisse não o notar.
Surpreendida, percebeu que ele nem sequer estava prestando atenção nela. Na verdade, agora que ela o observava de forma mais clara, percebeu que ele estava discutindo com alguém pelo celular. Pelo que conseguia ouvir, alguém tinha o deixado esperando na estação e ele não estava muito feliz com a situação.
Tentou imaginar quem o rapaz poderia estar esperando, mas haviam tantas possibilidades que logo desistiu. Curiosa, continuou ouvindo a conversa.
“Cara, já é o segundo dia que eu venho aqui e você não aparece” ele disse, com a voz exaltada. “É o seguinte, da próxima vez que você quiser comprar alguma mercadoria você que vá buscar que eu não sou idiota”.
O garoto desligou a ligação assim que terminou aquela frase. Percebeu que o estava encarando no mesmo instante, não deixando sequer uma oportunidade para a garota disfarçar que estivera bisbilhotando. Um sorriso divertido se formou no canto dos lábios do rapaz que antes estivera tão bravo.
- Quer dizer que a garota Mackenzie está me seguindo? – Ele perguntou de um jeito convencido.
engasgou com o ar, ultrajada. Não podia acreditar que ele pudesse pensar que ela o estivesse seguindo. Ficou tão chocada que só conseguiu repetir uma expressão particular da frase dele.
- Garota Mackenzie!? – Ela repetiu como se não fosse capaz de entender.
Ele riu como se o choque dela tornasse aquela conversa muito mais divertida e ignorou a pergunta. Sem dizer nada, ele se levantou e saiu de lá e ficou atônita, não acreditando que ele havia a deixado ali falando sozinha. Enquanto ela o encarava em choque, seu cérebro anotou coisas aleatórias não relacionadas a raiva que subiu pelo pescoço da garota, como o fato de que ele tinha um skate na mochila e a maneira como o cabelo dele estava escondido dentro do boné.
“Desgraçado” ela pensou enquanto o observava sair dali, mas algo dentro dela parecia reagir da maneira oposta. A maneira como ele mostrava imprevisibilidade criava uma certa tensão excitante no ar, de mistério.
amaldiçoou a maneira como tudo que aquele moleque fazia parecia criar uma aura de atração, mas, após alguns segundos de reflexão, concluiu que a culpa não era de verdade dele. A verdade era que não esteve com outros homens desde que o Luís terminara com ela.
Se fosse começar a pensar no Luís, pensou, aquela poderia muito bem ser uma das piores sextas-feiras do ano. Havia evitado pensar nele o máximo que podia nos últimos tempos. Nos primeiros meses do término, tudo que fizera fora sofrer por ele, sem conseguir sentir felicidade por nada. Agora, não suportava sequer escutar aquele nome sem se enfurecer.
Cansada, resolveu enfim se levantar para sair daquela estação de metrô. Costurou por entre as pessoas sem tirar do pensamento um instante o garoto. Achou engraçado que ele tivesse a chamado de garota Mackenzie, afinal. Justo ela, que havia tido tanta dificuldade em se identificar com os alunos abastados que frequentavam a faculdade. Quando deu por si, ela estava rindo sozinha.
Ela ainda se lembrava do primeiro dia de faculdade, quando havia ingressado no campus. Estava acostumada a não dar muito valor a aparência e a não se arrumar para fazer as coisas do dia a dia. Lá, no entanto, sentia-se excluída e malcuidada a cada vez que olhava para as outras mulheres, com roupas e maquiagens impecáveis. Com o tempo, havia cedido e começado a se maquiar para ir a faculdade, mas, ainda assim, parecia uma tentativa falha perto das outras garotas, pois não tinha coragem de usar suas roupas bonitas “de sair” para estar de dia na faculdade.
Os momentos em que se sentia mais à vontade nos primeiros anos da faculdade eram as festas universitárias e as escapadas no bar. No começo, havia se deslumbrado com a experiência e tentava frequentar tudo que podia sem prejudicar muito que passasse nas matérias. Com o tempo, as coisas haviam mudado um pouco. Os anos foram se passando na faculdade e começou a aparecer em cada vez menos festas. Em 2018, ainda não havia colocado os pés em um evento da faculdade e estava se sentido indiferente a isso.
foi relembrando todas as experiências de quando havia entrado na faculdade, em 2012, até chegar em casa. Muitas das lembranças envolviam Luís, o que a fazia fugir de pensar nelas. Outras, eram bem agradáveis. Lembrava-se de uma vez que voltando de uma festa com Raíssa a amiga estivera tão bêbada que dormiu no carro de uma conhecida que estava dando carona às garotas. Não conseguiram acordá-la e ela acabou dormindo dentro da garagem até o dia seguinte.
Haviam tantas lembranças engraçadas que se distraiu até chegar em casa, esquecendo até um pouco o quanto estava cansada. Quando abriu a porta de casa, pegou o celular que havia permanecido intocado durante toda o trajeto até ali.
Abriu o instagram quase automaticamente e começou a ver os stories de Raíssa e das outras pessoas da sua sala. Era sexta-feira e, por isso, quase todos as fotos e vídeos eram de bares ou baladas. Sentiu vontade de também estar em um lugar destes, mas estava tão cansada que não se atrevia a sair de casa.
Abriu a aba de fotos curtidas e estranhou a perceber que uma foto sua do ano anterior tinha sido curtida por um perfil que não conhecia. Clicou no perfil da pessoa, pois não era possível reconhecer quem havia curtido sua foto sem abri-lo.
Quando as fotos do desconhecido carregaram, a boca de se abriu involuntariamente de descrença. Atônita, percebeu que se tratara do perfil do mesmo garoto que vira mais cedo naquele dia. Sem saber o que fazer, bloqueou o celular e entrou direto no banho.



Capítulo 5

não sabia explicar porque havia aberto seu Instagram tantas vezes para olhar a notificação do dia anterior naquela manhã, mas sentia seu ego fortalecer a cada vez que via que o rapaz havia se dado ao trabalho de encontrá-la no Instagram. Como ele não sabia nem o nome dela, não conseguia imaginar como ele havia a encontrado.
Naquele sábado de manhã, a garota havia acordado, tomado café e já começado a se arrumar para ir em um churrasco com Raíssa. A amiga já havia a chamado a muito tempo, mas depois de ficar sozinha naquela sexta à noite havia decidido ir.
gostava dos momentos em que podia se arrumar e se sentir bonita. Naquela manhã, ela já havia passado um bom tempo se maquiando e se enfiando na saia e blusa que havia escolhido para o churrasco na casa de uma colega de faculdade. Enquanto passava por este ritual de roupas, maquiagem e perfumes, a garota colocou Offspring para tocar e tentou se animar. Entretanto, não sentia que as ondas de entusiasmo chegariam tão cedo ao seu corpo. Quando a garota estava pronta, pegou o celular para chamar o Uber que a levaria até a casa de Raíssa.
não era muito de gastar dinheiro quando poderia chegar até algum lugar de ônibus e metrô, mas sentia-se mais segura em pegar um Uber quando saia vestindo uma saia. Mentalmente, concluiu como era difícil ser mulher e ter que se preocupar com coisas tão estranhas como limitações de transporte por uma simples peça de vestuário.
Antes de abrir o aplicativo do Uber, se pegou mais uma vez abrindo o Instagram e checando suas notificações. Aquilo já havia até se torando automático naquele dia. Sem entender muito bem o porquê de ter feito aquilo, a garota aproveitou o aplicativo aberto para tirar uma foto de si mesma e postar em seu stories.
logo pegou o Uber e chegou na casa de Raíssa, mas, mesmo assim, se sentiu desconfortável com o motorista tentando puxar assunto. A garota sempre tivera dificuldade em socializar com estranhos e achava a experiência de ter uma pessoa estranha tentando a fazer falar muito inconveniente. Quando enfim chegou em frente ao prédio da amiga, agradeceu mentalmente por poder estar sozinha consigo mesma.
Logo subiu pelos elevadores e, quando Raíssa atendeu a porta, ainda estava com a toalha na cabeça e com apenas seu sutiã e uma saia.
rolou os olhos sem se assustar, pois sabia que sua amiga não era nem um pouco pontual. Entrou no apartamento que Raíssa dividia com outra amiga enquanto a dona da casa voltava rápido para o banheiro para não ser vista apenas de sutiã no hall de seu andar. a seguiu até o banheiro para que pudessem conversar.
- Atrasada como sempre. – disse a sua amiga, fingindo estar mais brava do que de fato estava. Raíssa apenas rolou os olhos enquanto tirava a toalha dos cabelos.
- Não é minha culpa que você leve todos os horários muito a sério – Raíssa disse dando de ombros. – Às vezes penso em te passar o horário errado. – Ela riu da própria piada.
- Ei, se você pegasse ônibus e metrô todo dia também seria um pouco paranoica com horários. – ela disse se defendendo. – Eu tenho sempre a sensação de que vou me atrasar.
- Amiga, respira fundo que hoje é sábado e você não tem que se preocupar com nada disso. Só pensa no porre que nós duas vamos tomar. – Raíssa disse já empolgada enquanto separava suas maquiagens sobre a pia do banheiro.
- Acho bom mesmo. – disse dando risada. – Até falei para os meus pais que vou dormir aqui para eles não implicarem muito comigo chegando bêbada em casa.
- Essa é a minha garota! – Raíssa disse dando risada.
olhou para a pia do banheiro e viu as maquiagens de marca espalhadas para serem usadas. Sentiu-se um pouco deslocada ao se lembrar das marcas nacionais que mantinha em casa, mas logo afastou o pensamento. Lembrou-se, no entanto, de um assunto nem um pouco relacionado.
- Mudando completamente de assunto. – disse, começando a contar o que estivera ansiosa em compartilhar com a amiga. – Tenho novidades.
- Desembucha logo, desgraça. – Raíssa disse rindo, pois odiava que a deixassem curiosa. fez uma pausa proposital antes de continuar apenas para deixar a amiga mais impaciente.
- Advinha quem eu vi ontem voltando do Mackenzie? – disse com um sorriso divertido nos lábios.
- Não acredito! Mister skate boy está te seguindo, é? – Raíssa disse parando de fazer sua maquiagem, empolgada com a história.
riu do jeito que a amiga chamou o rapaz.
- Eu também pensei que sim de começo, mas depois eu vi que ele estava lá esperando alguém e levou bolo. – disse lembrando-se do dia anterior. – Deu ‘pra escutar enquanto ele falava com alguém no telefone.
- Ui! Será que era namorada? – Raíssa disse ficando cada vez mais interessada no ocorrido. Para ela, parecia que estava assistindo uma novela de que gostasse muito.
- Acho que não, a não ser que ele estivesse querendo vender alguma “mercadoria” para ela. – respondeu rindo. – Pelo menos era isso que ele estava falando no telefone, eu desconfiei de tóxicos.
- Hum, que fora da lei então... Gostei. – Raíssa disse brincando. – Deus me livre, mas quem me dera.
- Tonta! – respondeu achando graça na brincadeira da amiga. – De qualquer maneira, ontem à noite ele curtiu uma foto minha no Insta.
- O quê??? – Raíssa disse alto, empolgada. – E como você não me disse isso antes?!?! E o que você fez?
- Nossa, como é exagerada! – disse, revirando os olhos para o drama da amiga. – Eu não fiz nada... Eu tinha que fazer alguma coisa?
- Você tem que agradecer por me ter na sua vida, porque se não, você estava perdida. – Raíssa disse levantando as mãos para o céu de um jeito dramático. – Dá aqui seu celular e me deixa ver.
entregou o celular nas mãos de Raíssa, que logo já entrou no Instagram da amiga.
- Exatamente como eu imaginava! Foi em foto antiga. – Raíssa disse feliz enquanto abria o perfil do rapaz. – Ele quer o seu corpo nu.
- Deixa de ser tonta. – disse, inclinando a cabeça para o celular para também ver as fotos do rapaz. – O que tem que a foto é antiga?
- Ah, pobrezinha... Tão inocente – Raíssa zombou parando o que estava fazendo e olhando para . – Amiga, o Insta é o novo Tinder.
- Como assim o novo Tinder? – perguntou corando.
- É isso mesmo que você ouviu, mas o jeito de flertar é diferente – Raíssa respondeu. – O jeito agora é curtir as fotos antigas da pessoa, se a pessoa curtir as suas também geralmente rolam umas mensagens no Direct e aí vrau.
se sentiu muito inocente por não saber daquilo, mas pensou fazer sentido, já que ele havia curtido uma foto do ano anterior.
- E olha só, ele abriu seu stories de hoje, quer dizer que ele está abrindo seu perfil. – Raíssa disse entregando o celular para a amiga, convencida por saber os joguinhos de flerte da rede social.
não tinha percebido que ele havia visto a foto que tirara antes de sair de casa e abriu o aplicativo para conferir o que sua amiga dizia.
- Ai ,meu Deus e o que eu faço agora? Eu não sei mais flertar. – disse, desconfortável.
- Como assim não sabe mais flertar? Desde quando você não sai com um cara? – Raíssa perguntou olhando assustada para a amiga. – , desde quando você não transa? – Raíssa complementou com os olhos arregalados.
ficou envergonhada com a pergunta tão direta, mas respondeu mesmo assim.
- Ah, Raíssa, o término com o Luís não foi muito bom ‘pra mim. – respondeu desconfortável por entrar naquele tópico.
- Amiga, pelo amor de Deus, esse skater veio para te salvar dessa seca! – Raíssa disse em choque, mas, ainda assim, achando graça da situação. – Curte logo uma foto antiga dele, o cara é um pitel!
olhou para o celular e abriu o perfil do rapaz mais uma vez, apenas para concordar com sua amiga enquanto encarava as fotos. Mesmo nelas o rapaz provocava uma reação forte nela.
- Pois é, . – disse, lendo o nome do rapaz no perfil. – Parece que eu vou dar match com você. – ela disse brincando enquanto curtia uma foto de 2016 do rapaz.
- O nome dela é Jeniffer e eu encontrei ela no Tinder... – Raíssa começou a cantar rindo. – Nesse caso, no Insta.
deu uma tapinha de brincadeira no braço da amiga para que ela parasse de brincar do assunto e as duas continuaram conversando enquanto Raíssa se arrumava. Quanto a , agora restava esperar para ver o que ele faria.



Capítulo 6

havia chegado em casa quebrado do show e ainda um pouco bêbado, sabendo que no instante em que se jogasse no sofá apagaria e não voltaria a dar sinal de vida até muito mais tarde naquele sábado.
Ele trabalhava como roadie de uma banda pouco conhecida e, naquela noite de sexta, depois do show, ele ainda havia ido para a casa do vocalista com o pessoal e bebido até não conseguir mais andar. Não sabia como havia conseguido dirigir depois daquilo até sua casa, mas aparentemente anjo da guarda de bêbado fazia turno dobrado.
Teve dificuldade de encaixar a chave na fechadura e xingou a porta algumas vezes antes de conseguir de fato abri-la. Quando conseguiu de fato entrar no apartamento, acabou fazendo mais barulho do que pretendia em fechar a porta, mas não deu a mínima para o fato de que pudesse acordar o amigo com quem dividia o lugar, Marcelo.
A boca de já estava começando a anunciar a sede que viria com a ressaca, então foi direto para a cozinha e pegou a garrafa de Coca-Cola na geladeira, encheu o copo e engoliu tudo em um gole só. Quando terminou, sentiu o açúcar em seu estômago criar uma sensação de conforto.
Mesmo quebrado e com sono, pegou o celular antes de se deitar no sofá, pois já havia se tornado hábito constante mexer naquele pequeno aparelho. Abriu o instagram e abriu seus próprios stories daquela noite para rever as loucuras daquela noite insana. Ficou rindo enquanto revia a cena do Canhoto, o vocalista, colocando fogo em uma pilha de copos descartáveis sujos na pia para não ter que jogá-los fora. Aquele tipo de brincadeira com fogo era tão comum que já não causava nenhum choque no rapaz.
Quando a sequência de seus stories acabou, se viu abrindo os stories de algumas meninas que tinha no feed, para admirar a infinidade de selfies que elas postavam. Adorava como as mulheres faziam questão de colocar fotos de si mesmas no instagram e desejou que alguma delas estivesse ali naquela noite/manhã.
Abriu um sorriso sacana enquanto percebia que não importava o quanto estivesse bêbado e cansado, sempre queria uma mulher ao seu lado no fim do dia. Tinha certeza que se a banda para quem trabalhava fosse mais famosa, teria uma mulher nos braços naquele exato momento, mas como a vida ainda não estava tão fácil, sabia que tinha que ir atrás de alguns contatinhos.
Pensar em contatinhos o fazia pensar no mesmo instante na garota que ficara o encarando naqueles últimos dias. A garota Mackenzie. Não sabia o que havia visto naquela patricinha, mas havia pensado muito nela nos últimos tempos.
Para ele, que estava acostumado com as “santinhas” que apareciam com a banda de vez em quando, na maioria das vezes nem olhava para essas garotas-exemplo, filhinhas de papai, que o olhavam com cara de superiores.
Essa garota, no entanto, havia o encarado de um jeito tão diferente no ônibus, que começava a se perguntar se valia a pena abrir para ela uma exceção.
Havia sido fácil encontrá-la no instagram antes de ir para a Jaiclub preparar o show. Bastou que clicasse nas postagens marcadas no Mackenzie e lá estava ela, compartilhando o tédio de suas aulas para todo o universo.
Intrigado por se lembrar dela naquela manhã, procurou mais uma vez o perfil da garota, que descobrira se chamar . Abriu um sorriso de lado ao perceber que ela havia acabado de postar um story.
abriu a foto que ela havia postado no mesmo instante, sorrindo em ver o quanto ela estava irresistível com aquela blusinha decotada pronta para ir a um churrasco.
O rapaz imaginou que se tratasse de um desses churrascos em algum prédio de filhinho de papai, afinal, esse provavelmente era o estilinho de seus amigos, mas sorriu em imaginar como seria estar em um churrasco destes. Odiaria cada segundo ao lado dos playboys, mas conseguiu se imaginar abraçando a garota por trás, agarrado em sua cintura e sentindo aquele perfume que ele havia sentido todas as vezes que passara por ela.
Abriu mais uma vez a foto dela e mordeu o lábio, excitado. A filha da puta tinha mexido com ele mesmo com uma foto inocente. Imaginava como seria vê-la vestindo menos roupas.
Já estava quase fechando o celular quando recebeu o alerta de notificação que fez um sorriso amplo se abrir em seus lábios. Justo a garota que estivera em sua cabeça lhe dava o prazer de uma curtida e era isso tudo que ele precisava para que os jogos começassem. havia curtido uma foto antiga sua e ele sabia que poderia tê-la se jogasse as cartas direito.
Abriu o perfil dela mais uma vez e curtiu três fotos do ano anterior, desejando saber se ela continuaria com os joguinhos. Escolheu fotos de uma viagem que ela fizera em que ela estava particularmente gostosa.
Depois disso, teve que respirar fundo para controlar a excitação. Bebeu um copo da água se lembrando que ela não estaria ali naquela noite e que teria que se livrar sozinho de seus problemas. Olhou para a própria mão e deu uma risada amarga, imaginando que teria mais um compromisso no banheiro antes de poder enfim dormir.
Amaldiçoou seu corpo e deu de ombros, pelo menos depois poderia dormir toda a tarde tranquilo.



Capítulo 7

já havia bebido mais do que conseguia se lembrar tentando tirar um pouco da cabeça suas preocupações habituais. Se estava se sentindo deslocada com as pessoas do lugar? Bebeu mais uma caipirinha! Seus problemas com dinheiro? Mais um shot de tequila! A situação com Luís? Que tal algumas muitas cervejas!? Suas escolhas de carreira? Era melhor parar por ali se não quisesse sair carregada.
Normalmente, beber tanto provocava o efeito contrário do que desejava. Muitas vezes, passara festas escondida no banheiro chorando enquanto Raíssa fazia de tudo para tirá-la daquela “bad”. Naquele sábado, no entanto, a bebida não estava provocando nela lágrimas, mas sim risadas.
Apesar de ser um churrasco, havia comido muito pouco naquele lugar. Quando chegara ali, sentira-se tão envergonhada que se manteve calada, apenas observando, mas agradeceu por não ter aparecido naquele lugar sozinha. A sorte de ter Raíssa por perto, era que ela não se importava de falar pelas duas.
Após muitas horas de churrasco, no entanto, já conseguia conversar com as pessoas abertamente e até mesmo fazer alguma piadinha aqui e ali. Até mesmo dançava as músicas sertanejas que estavam tocando. Geralmente, ela tratava as músicas destes eventos como música de elevador e não dava muita atenção a elas. Naquela noite, já havia dançado sertanejo com alguns caras e não parecia estar se importando muito.
Raíssa estava adorando ver a amiga daquele jeito e por isso estava ainda mais falante e expansiva. Lembrou-se das vezes em que saíra com em 2012, quando a garota tinha apenas 18 anos e era bem menos séria.
Apesar de toda afobação que estava sentindo, ela começou a tentar parar com a bebida, pois uma voz responsável na sua mente lhe dizia que não queria estar tão bêbada para que no dia seguinte conseguisse se lembrar do que havia acontecido ali. odiava admitir, mas já havia se esquecido das coisas com alguma frequência no passado.
Normalmente, a garota tinha ressacas morais muito fortes nos dias seguintes, quando caía em si sobre as coisas que tinha feito ou sobre como não se lembrava de vários trechos em sua memória. A verdade é que não era uma “party girl” e usava aquela rotina de festas do primeiro ano de faculdade como outra maneira de vestir uma máscara e não ser quem era de verdade.
Mascarar inseguranças era uma rotina frequente para a garota e, por isso, muitas vezes ela interpretara personagens em sua vida, sem perceber de fato. A verdade é que ela não tentava viver segundo o “script” de outras pessoas, mas sentia tanto medo do futuro e do desconhecido que se entregava às decisões alheias sem se dar conta.
Havia sido assim desde muito nova, quando percebera na escola que ser autêntica fazia com que as pessoas pudessem atacá-la pelo que ela realmente era. Vários episódios de bullying e as experiências de homens que haviam a manipulado no passado faziam com que a garota tivesse muita dificuldade em confiar nos outros.
Com o tempo, retirara todo o valor daquelas experiências, dizendo a si mesma que apenas a garota de 13 anos se importaria com elas e que a adulta que havia se tornado era forte o suficiente para viver sua vida e obter suas conquistas. Talvez fosse por isso que a garota se importasse tanto com o sucesso financeiro em sua carreira.
Naquele sábado, no entanto, não se deixou pensar em nenhum segundo naquelas questões. Talvez fosse por causa da carência que havia sentido na sexta-feira... Ou talvez fosse o fato de estar chegado próxima do momento de ser formar. estava cada vez mais ansiando por momentos em que pudesse extravasar e esquecer de onde estava ou sobre quem era.
Estivera tão presente naquele lugar com aquelas pessoas que não havia pego seu celular em nenhum momento. Pelo menos não até a hora de ir ao banheiro. Sozinha naquele espaço silencioso, não resistiu em olhar suas mensagens e notificações.
Suas mãos não estavam a obedecendo do jeito que previa e por isso tentara desbloquear algumas vezes a tela do celular, sem sucesso. Respirou fundo e tentou mais uma vez, para se sentir frustrada novamente quando a câmera frontal abriu com o celular ainda boqueado.
Olhou-se no espelho se perguntando se estaria de fato tão bêbada e se preocupou. Uma voz no fundo de sua cabeça tentava a convencer de que não e de que devia continuar bebendo e ela sabia que só tentava se convencer de que estava sóbria quando já estava completamente bêbada.
se sentou no chão, no canto do banheiro e apoiou a cabeça sobre os joelhos, tentando espantar um pouco as nuvens que o álcool provocava em seus pensamentos. Levantou a cabeça sentindo-se melhor e tentou desbloquear novamente o celular. Desta vez, conseguiu.
Olhou os grupos no whatsapp, mas não se atreveu a responder nada, pois sabia que do jeito que tivera dificuldade em desbloquear o celular provavelmente digitaria tudo errado. Depois, deu um sorriso largo ao ver que Raíssa estivera certa a respeito de . Ele havia curtido três de suas fotos no instagram.
não sabia se havia sido todo o álcool que ingerira, mas cansou-se daquelas curtidas e clicou logo em seguir o rapaz no aplicativo, curiosa para saber o que ele faria a partir daquilo. No mesmo instante, viu o rapaz segui-la de volta e mandar um emoji de chapéu de formatura para ela no direct. Entendeu de imediato. Ela era, afinal, a garota Mackenzie.
A garota não conseguiu conter o sorriso que se formou em seus lábios. Gostara de perceber que o rapaz era divertido.
respondeu com um emoji de boné na conversa, sabendo que ele também entenderia a mensagem. Combinava bem com o estilo do garoto.
Enquanto esperava o garoto a responder, percebeu que deveria estar a bastante tempo no banheiro e começou a se questionar se as pessoas não achariam estranho que ficasse trancada ali dentro. Suspirou e levantou com dificuldade. Por mais bêbada que estivesse, não gostava da ideia de as pessoas a acharem estranha por qualquer motivo que fosse.
Abriu a porta do banheiro e de repente sentiu todo o álcool desaparecer como em um passe de mágica. Bem a sua frente, viu Luís esperando para entrar no banheiro.
Por um instante, ficou sem reação, apenas o encarando, incrédula. Não se lembrava da última vez que o tinha visto pessoalmente, mas não imaginava que ele teria a audácia de aparecer no mesmo ambiente que ela.
Passou por ele mais rápido do que um furacão, xingando até a sétima geração da família dele mentalmente. Que tipo de pessoa aparecia em uma festa depois de as pessoas já estarem bêbadas, afinal?! E o que ele pretendia ali? Falar com ela? Se aquele fosse o caso, bem sabia que ele não conseguiria.
Saiu apressada pela sala e nem se deu ao trabalho de procurar por Raíssa. Sentiu a presença de Luís nas suas costas, mas continuou a passos rápidos a passar pelas pessoas que já estavam tão bêbadas que nem se tocaram de que ela estava indo embora. Logo, já estava no hall esperando o elevador para que pudesse sair daquele lugar. A simples ideia de dividir o mesmo ambiente com Luís a sufocava.
Seu ex-namorado tentou chegar até ela no hall, mas assim que o elevador se abriu correu para ele. Luís tentou segurar seu braço, mas a garota puxou sua mão com força e se desvencilhou do aperto do rapaz. Ele a soltou e pareceu entender o recado, pois não entrou no elevador junto com ela.
Ninguém se dera ao trabalho de ir atrás dela além dele e a garota se sentiu grata por isso. Odiava quando as pessoas começavam a tornar aquela situação ainda mais chata e questioná-la sobre o que havia ocorrido.
sentiu a fúria subir a sua cabeça e queria gritar. Não podia ter ao menos um segundo de diversão sem que algum de seus problemas aparecesse para acordá-la.
“Mas hoje não” pensou consigo mesma. “Hoje, nem que eu vá sozinha para a Augusta ou, sei lá, faça uma loucura, eu não vou deixar esse filho da puta estragar a minha noite”.
Enquanto via o visor do elevador mostrando os números descerem vagarosamente lembrou novamente de seu celular. Abriu a conversa com de imediato pensando que talvez aquilo pudesse a distrair.
“Quer ir em um show?” havia mandado, sem rodeios. Percebeu que o garoto não brincava em serviço.
sentiu-se impulsiva pela primeira vez em muito tempo. Estava tão determinada a sair daquele lugar e irritada com Luís que nem sequer pensou antes de responder ao garoto.
“Você me busca?” Ela respondeu, não sabendo de onde arrancara a coragem.
“Passa o endereço” Ele respondeu, prontamente.
digitou o endereço do prédio em que estava em Pinheiros e simplesmente mandou todo o medo de que ele fosse um lunático ou assassino para um outro planeta. Havia sido corajosa, mas uma fina camada de gelo já se formava sobre seu estômago. Tentou se convencer de que o fato de que faria qualquer coisa para não ter que voltar àquele prédio e pedir carona para Raíssa e de não ter um pingo de vontade de voltar para a casa dos pais depois de ver Luís justificavam aquela loucura.
Um lado de sua cabeça surtava com o fato de que era perigoso sair assim com um estranho. Mas o álcool estava fazendo um bom trabalho em mantê-lo bem fraco. No fim, se existisse mesmo essa coisa de destino, descobriria porque havia visto tantas vezes o mesmo rapaz em um período tão pequeno de tempo.
Naquela noite de sábado, esperou até que aparecesse.



Capítulo 8

havia acordado às 18:00 naquele sábado e ficado jogando videogame até por volta das 19:00 sem coragem de levantar do sofá e arrumar a bagunça de seu apartamento. Não havia um copo no armário e, por isso, ele havia levado a Coca-Cola inteira para junto ao sofá e estava bebendo direto da boca da garrafa para apaziguar a ressaca.
Não havia visto Marcelo ainda naquele dia, o que achara estranho. Geralmente, a essas horas, o amigo estaria bolando um para que fumassem antes do show, na janela. Aparentemente, seu amigo tinha outros planos para aquele dia.
Continuou jogando sem se preocupar, pois sabia que levava cinco minutos para colocar a roupa e sair de casa. Gostava de jogar GTA quando estava entediado, por mais que o jogo não fosse novo e, por isso, passou bom tempo deitado no sofá, apenas vestindo a bermuda com que tinha dormido mais cedo.
Depois de um tempo, até o GTA não estava mais o distraindo e seu estômago roncava pelo longo período privado de comida. nem se deu ao trabalho de abrir a geladeira, pois sabia que nela não havia nada mais que alguns potes de ketchup já abertos por tempo demais. O rapaz teria que caçar comida em algum lugar, mas sabia que não tinha muito dinheiro para isso. O jeito era comprar de novo um pão na chapa na padaria de sua rua. Aquilo havia salvo seu estômago muitas vezes no passado.
dormia no sofá do kitnet próximo a radial de Marcelo em troca de alguns trocados que ganhava com roadie da banda. Estava sempre com a coluna ferrada e não tinha um pingo de privacidade, mas era muito grato ao amigo por tê-lo acolhido quando não tinha mais para onde ir.
Se fosse sensato, talvez tentaria deixar a casa do amigo mais arrumada. No entanto, sempre que chegava tarde no local fazia parecer que havia chegado junto com ele um furacão. Não se importava muito para fazer alguma coisa a respeito.
olhou o horário no celular para saber se a padaria ainda estaria aberta, mas perdeu a linha de raciocínio assim que viu sua última notificação. havia acabado de segui-lo no instagram.
Um sorriso largo se abriu nos lábios do rapaz, que se surpreendeu com a atitude da garota. Não imaginava que uma patricinha daquelas poderia ser tão direta e aprovou silenciosamente a maneira como ela parecia o surpreender cada vez mais.
Impulsivamente, seguiu de volta e já lhe enviou uma mensagem. O garoto não era muito de meias palavras e de planejar os seus atos e, por isso, não costumava deixar de fazer o que tinha vontade. Assim que a garota o respondera, convidou-a para o show daquela noite.
Assim que respondeu e lhe passou o endereço levantou do sofá, xingando alto, atrasado.
“A filha da puta tinha que estar do outro lado da cidade?!” pensou enquanto arrancava a roupa antes mesmo de chegar no banheiro. Precisaria colocar a roupa voando se ainda quisesse comer alguma coisa. Seu estômago não gostava muito da opção de ficar em jejum até o dia seguinte.
tomou um banho frio, por falta de paciência de o chuveiro esquentar, e vestiu a pele arrepiada da água gelada com as mesmas roupas que usava sempre. Uma camiseta larga da Vans, uma bermuda larga e um tênis da DC. Pegou o boné vermelho em cima do sofá e colocou sobre os cabelos ainda molhados que se grudavam em seu rosto. Desceu as escadas do sobrado estreito em um pulo, quase caindo na aterrissagem. Entretanto, apenas continuou correndo.
As pessoas na padaria já o conheciam e quase nem precisou pedir pelo pão na chapa para que ele começasse a ser feito. Estava tão acelerado, que passou um bom tempo olhando para o relógio antes de receber o alimento pelo qual seu estômago tanto ansiava. Quando recebeu o prato de vidro marrom com seu pedido, quase nem conseguiu parar para sentir o cheiro maravilhoso de manteiga derretida que entrava por suas narinas. Engoliu tudo em poucos instantes e foi para fila pagar enquanto ainda mastigava.
Não demorou muito para estar correndo até a Kombi da banda que sempre ficava estacionada nos fundos da padaria. Marcelo era amigo do dono e havia conseguido deixar o veículo lá por um favor que fez ao dono anos atrás. Como produtor da banda, ele sempre resolvia esse tipo de problema.
, que não tinha um carro seu, sempre dirigia a kombi preta, toda estilizada com pichações em inúmeras cores, para carregar os instrumentos até os shows. Naquela noite, ainda teria que buscar em Pinheiros antes de ir buscar a banda. Por isso, xingou mentalmente mais uma vez.
Assim que sentou no banco do motorista, no entanto, relaxou. Se fosse se atrasar, pensou, não havia nada que pudesse fazer. Olhou novamente para o estacionamento em sua volta e deu partida no veículo. Manobrou com cuidado no espaço estreito, ansioso para que pudesse meter o pé no acelerador, assim como gostava.
Assim que chegou na Radial, no entanto, encontrou o habitual trânsito de São Paulo. Passou pelo Glicério, pela Liberdade, pela Consolação e pelas ruas em Pinheiros em uma velocidade ridícula. Desejou que estivesse com seu skate, imaginando que provavelmente chegaria mais rápido. Quando enfim chegou ao endereço passado por , próximo ao Largo da Batata, seu cabelo já estava seco e bagunçado e já sentia seu corpo transpirar por debaixo da camiseta preta.
Sorriu em imaginar o que imaginaria ao vê-lo ali, em uma Kombi detonada, pronto para buscá-la. Provavelmente, a princesinha já havia estado em carruagens mais adequadas do que aquele veículo.
De qualquer maneira, sentia que já descobriria o que tinha a dizer, pois a avistou com a cabeça baixa, enquanto a garota se sentava na calçada.



Capítulo 9

já começava a imaginar que o rapaz não viria e ela ficaria sozinha naquela calçada. Abriu mais uma vez o aplicativo do Uber no celular apenas para perceber que ele estava travando e não atualizando novos motoristas. Bufou irritada, pensando em como sairia dali caso fosse de fato deixada sozinha.
havia se arrependido assim que mandara o endereço para , mas sabia que agora era um pouco tarde para voltar atrás, já que ele já deveria estar a caminho. Por mais medo que estivesse sentindo, não teria coragem de fazer o rapaz ir até Pinheiros por nada.
A garota estava sentada na calçada em frente ao prédio já a uma hora. Raíssa havia descido para falar com ela, mais cedo, perguntando se ela queria ir embora por causa de Luís, mas deu um jeito de dispensá-la. No fundo, queria muito ir embora, mas já havia mandado a mensagem a e não queria que Raíssa fosse embora do churrasco mais cedo por sua causa.
Com algum tempo de conversa e algumas piadas, conseguiu convencer Raíssa de que estava bem e que só precisava de um tempo sozinha. Disse que iria para outro lugar com amigos e que dormiria na própria casa, pois não se atreveu a contar para Raíssa que aceitara sair com .
Pensando naquilo, agora, percebeu que havia sido muito estúpida. Estava prestes a sair com um desconhecido e não havia avisado nenhum amigo ou familiar para que pudesse a encontrar caso as coisas dessem errado. Só de pensar naquilo, afundou o rosto nos joelhos.
Quando a garota levantou o rosto, percebeu uma Kombi preta, completamente pichada que estava vindo em sua direção. Demorou alguns instantes para perceber que a dirigia e que, por isso, aquela era provavelmente sua carona.
gostava de coisas diferentes e por isso ficou intrigada com o veículo, mas se sentiu intimidada. Era mais do que nítido que ela e não pertenciam aos mesmos mundos. tentou imaginar se algum dia já tinha visto alguma coisa parecida, mas nada vinha a sua mente.
Quando estacionou ao seu lado, se levantou e esticou a mão sobre a Kombi, passando a mão sobre uma palavra em verde limão. As cores colocadas no carro eram em sua maioria tons de neon, o que criava um efeito gráfico muito interessante.
Quando se perguntou como seria para ver o veículo, ele imaginou qualquer tipo de reação da garota, menos curiosidade. Quando olhou para o rosto de , viu o mais puro interesse em seus olhos. Aquilo o deixou intrigado.
colocou a cabeça para fora do vidro, acordando de seu transe. Sabia que ainda teria que deixar o equipamento no local do show e montar o palco antes de ir buscar a banda, por isso devia chegar rápido à Consolação. Abriu a porta do lado do carona em seguida, permitindo que entrasse.
entrou no carro se sentindo um pouco deslocada. Agora que via o rapaz de frente, sem se esconder em olhadas de canto, não sabia o que deveria falar ou fazer. Um lado de seu cérebro registrou que estava usando o mesmo perfume do dia em que o vira no ônibus e fez a garota sentir um calor na base da barriga.
não era muito do tipo que falava muito, por isso permaneceu em silêncio enquanto a garota deslizava para cima do banco ao seu lado. Registrou, no entanto, as pernas a mostra da menina ao seu lado e apertou o câmbio do carro com mais força, desejando que pudesse colocar suas mãos sobre ela.
Durante aqueles minutos de silêncio, pegou o celular, no bolso, e mandou as palavras “estou com ” para Raíssa, lembrando-se do medo que tivera mais cedo por ele ser um desconhecido. Guardou o aparelho em seguida, sabendo que provavelmente não conseguiria falar com a amiga sobre aquilo de maneira discreta. Mesmo assim, sentiu-se mais calma assim que enviou as palavras, relaxando os ombros.
já havia se cansado daquele silêncio incômodo, e por isso começou a puxar assunto com a garota.
- Desculpa te fazer esperar muito. – ele disse, concentrado no trânsito a sua frente. – Peguei um trânsito horrível da Bresser até aqui.
- Que isso. – disse com um sorriso tímido. – Eu que peço desculpas por te fazer desviar o caminho. O show é aqui perto?
- Do lado do Mackenzie. – disse, sorrindo quando disse o nome da faculdade. – Você já deve ter passado na frente, menina Mackenzie.
sentiu a tensão se quebrar quando ouviu aquele apelido saindo da boca dele. Toda as vezes em que ele o pronunciara em sua frente, era como se ele a desafiasse a negar.
- Você gosta de me chamar assim, não é? – Ela se virou para ficar de frente para ele e perguntou, o encarando com um olhar divertido, mas desafiador.
percebeu na linguagem corporal do garoto que ele também quis olhá-la de frente, mas o rapaz manteve seus olhos nos outros carros na rua.
- Culpado. – ele admitiu, com um sorriso no canto dos lábios.
O sorriso que ele deu fez com que ela mordesse o lábio inferior. O ar do carro parecia ficar cada vez mais carregado de energia estática.
- Gostei de você ter me convidado hoje. – ela disse, sentindo-se mais corajosa do que habitualmente era. entreteu uma expressão convencida em seu rosto.
- Fiquei admirado por você aceitar o convite. – ele admitiu. – É mais corajosa do que eu imaginava.
percebeu a maneira como ele havia dito aquelas palavras sem pensar muito. Estava claro que ele não tivera acreditado de verdade que ela pudesse aceitar o convite quando mandou a mensagem no Direct. A atitude do rapaz mexeu com alguma coisa dentro dela e ela se sentiu novamente como a filha perfeita que não fazia nada de errado, que seus pais haviam criado com todo cuidado.
No fundo, sabia que não era essa garota que as pessoas enxergavam. Em algum canto recluso e profundo de si, a garota sentia uma atração especial pelo que não era esperado dela. Suas células clamavam por diversão e aventura.
A sensação de que estava errado sobre ela fez com que a garota sentisse uma aura de controle sobre a situação. Dar voz aquele lado de si mesma fazia com que ela se sentisse poderosa. Com isso em mente, ela resolveu provocá-lo.
- Eu tenho alguma coisa para temer? – Ela provocou, com um olhar cheio de duplos sentidos.
Desta vez, não resistiu e olhou para ela abertamente, desviando a atenção do trânsito. continuou sustentando o olhar.
A temperatura do carro pareceu subir 5 graus.
- Isso depende de você. – ele respondeu por fim, quebrando o olhar e voltando a encarar a rua.
aumentou o sorriso em seu rosto, percebendo que tivera efeito sobre o garoto. Um novo silêncio se instaurou no carro, mas desta vez, desprovido da aura desconfortável de antes.
Durante o resto do percurso, os dois ficaram intoxicados por aquela aura de promessas não ditas que haviam trocado, mas não se atreviam a dizer outra palavra. De uma maneira estranha, haviam se sentido intimidados em continuar aquela conversa.
percebeu que agora lançava olhares para ela com uma frequência bem alta, e se surpreendeu em perceber que ela mesma estava fazendo o mesmo. Ela sentiu suas mãos inquietas sobre suas próprias pernas, desejando poder tocá-lo de alguma maneira.
não entendia como aquela garota havia o deixado sem palavras. A verdade é que nenhuma outra mulher havia feito com que ele calasse as palavras sujas que provavelmente viriam com o decorrer daquele diálogo. Sentiu a ansiedade crescer por seu corpo e uma onda de excitação subir por seu estômago. O que teria, afinal, aquela menina para provocar tal efeito nele?
Aquela tensão entre os dois só foi interrompida no momento em que chegaram ao local de show. ainda estava intoxicada pela aura presente no carro, mas se distraiu completamente ao perceber o local onde iria, intrigada e um pouco assustada.
Em sua frente, estava o casarão antigo com ar de abandonado que havia perto de sua faculdade e que vira milhares de vezes enquanto se dirigia para suas aulas, todos os dias. Aquele prédio havia a deixado intrigada muitas vezes, quando ela encarava todos os grafites, pichações e afins que haviam em sua fachada, mas ela sempre tivera medo de aparecer naquele terreno sozinha.
Um frio estranho apareceu no estômago da garota, que manteve o rosto inalterado como uma máscara. Um pensamento ficou tatuado na cabeça dela enquanto ela encarava o casarão. Ela não sabia o que esperar daquela noite.



Capítulo 10

saiu do carro estacionado na Rua Visconde de Ouro Preto e olhou a propriedade, do portão lateral, vendo algumas pessoas aqui e ali sentadas em bancos distribuídos no terreno. Imaginou que o lugar só ficasse cheio mesmo mais tarde e estranhou que tivesse estado tão acelerado para chegar lá. Dentro da Kombi, antes de os dois terem começado aquele silêncio envolvente e sedutor, ela havia visto o rapaz consultar o relógio do celular constantemente enquanto dirigia.
percebeu, após alguns instantes, que assim que desceu do veículo, ele havia caminhado em direção à lateral deste, ao invés de se direcionar até o prédio onde aparentemente seria o show. Sem entender muito o porquê de o rapaz fazer isso, a garota caminhou também até a lateral da Kombi, para ser surpreendida com o que estava dentro dela. Pelas portas abertas, encarou um volume grande de equipamento de som, sem entender o que aquilo significaria.
Em silêncio, começou, ao seu lado, a descer as maletas dos equipamentos, organizando-os para que estes fossem transportados mais facilmente. Enquanto ele assim o fazia, começou a entender que se tratavam dos equipamentos musicais que deveriam ser levados até o casarão. Envergonhada, a garota percebera que não perguntara nada a respeito daquele show a .
Agora que a garota pensava a respeito, conseguia entender enfim o porquê de o garoto ter aparecido com uma Kombi para buscá-la. A princípio, ela havia achado um gosto excêntrico para carros e tivera vergonha de perguntar ao rapaz. Quanto mais pensava no assunto, mais se sentia estúpida.
Sem saber como perguntar a a respeito do que ele estava fazendo. começou a procurar em sua cabeça qualquer coisa que pudesse dizer.
- Eu posso ajudar em alguma coisa? – a garota perguntou, mordendo o lábio, em seguida.
se amaldiçoou imaginando que deveria estar achando entediante vê-lo trabalhar. Levantou o rosto, que antes estivera enfiado entre os instrumentos, sem graça por ter se esquecido de que a garota não estava habituada a aquela rotina que ele vivia todos os finais de semana.
- Imagina, eu já vou acabar aqui. – ele respondeu com um sorriso amarelo, sem saber o que responder a ela.
ficou observando enquanto o portão da lateral era aberto e carregava cada umas das pesadas maletas pretas para dentro. Nunca havia se sentido tão deslocada, e a sensação só foi piorando quando outros rapazes que estavam sentados anteriormente nos bancos dentro da propriedade se levantaram e se ofereceram para ajudar. Em pouco tempo, várias pessoas passavam por sua frente carregando peso, enquanto a garota ficava parada de pé ao lado da Kombi, não sabendo o que fazer com suas mãos.
Assim que todo o material foi levado para dentro, seguiu aquelas pessoas timidamente, registrando cada detalhe do lugar. Percebeu que o material de som estava sendo deixado do lado de fora da casa, então não entrou no casarão em si, mas se sentou em um degrau de um canteiro de flores, para que pudesse observar as coisas.
Em pouco tempo, percebeu que também se sentou ao seu lado.
- Legal o lugar, não é? – Ele perguntou, olhando na mesma direção que encarava, percebendo que a menina estava particularmente interessada na edícula a sua frente, onde ele havia abandonado os instrumentos. – Lá para dentro da casa é até mais “dahora”... Assim que eu terminar de arrumar as coisas aqui eu posso te mostrar se você não quiser ir sozinha.
sorriu ao perceber que ele estava tentando fazê-la se sentir mais confortável. Sentia-se grata por isso, mas questionou a si mesma o quão nítido era que ela era um peixe fora d’água naquele lugar.
- Você vem aqui sempre? – Ela perguntou, ignorando aquele último pensamento e tentando participar da conversa que ele havia iniciado.
- Já “colei” uma ou duas vezes antes. – ele disse dando de ombros. – Mas é a primeira vez que é ‘pro “trampo”. A gente nunca fez show aqui.
franziu as sobrancelhas estranhando as expressões que o garoto utilizava. Sempre as ouvira em São Paulo, mas não eram tão comuns em seu grupo de amigos.
Além disso, quando ouviu aquele “a gente” saído da boca de , ficou ainda mais confusa. A garota nem sequer imaginava que ele pudesse fazer parte da banda que tocaria naquela noite e, por isso, teve dificuldade em entender aquela frase. Vira os instrumentos na Kombi, mas havia assumido imediatamente que o garoto alugava equipamento para o local ou algo do tipo.
- Você faz parte da banda então? – perguntou ainda com uma feição confusa, que tirou uma risada de , que percebeu que nem sequer havia falado o que fazia para a garota.
- Eu trabalho para a banda. – ele explicou, desejando no fundo que sua resposta fosse diferente. – Sou “roadie” dos caras – vendo que ela não conhecia a expressão, riu sozinho e complementou fazendo aspas com as mãos. – Assistente de palco.
não conseguiu disfarçar a maneira como seu rosto se iluminou com a compreensão. Mas em seguida começou a se sentir culpada. Agora que entendia que ele estava trabalhando, começara a se questionar o quão egoísta havia sido da parte dela pedir para que ele fosse buscá-la.
não conseguia decifrar o que se passava por trás dos olhos da garota e começou a se sentir intimidado pelo seu silêncio. Perguntava-se se a garota o estava julgando por seu trabalho e aos poucos, um clima de tensão estranho se materializava no ar. Quando começou a falar, ficou surpreso.
- Nossa! Que vergonha ter atrapalhado o seu trabalho pedindo para me buscar. – a menina disse com uma voz frágil e envergonhada.
Quando percebeu que era aquilo que estava incomodando a garota, sentiu-se aliviado. Mesmo que não estivesse admitindo para si mesmo, tinha medo de que ela pudesse vê-lo de uma maneira inferior.
Assim que ouviu as palavras de , sentiu sua confiança voltar a inflar para o seu estado habitual. Aquele, afinal, era seu estado de espírito comum: nem aí para os outros, provocador e engraçado.
O rapaz se aproximou mais de , arrastando-se para estar sentado bem junto a ela e a garota sentiu suas pernas encostarem na perna esquerda dele. se assustou quando percebeu a mão dele encostando em suas costas, sentindo um leve choque elétrico percorrer todos os seus músculos.
sentiu o hálito próximo do rapaz quando ele falou com ela, próximo a seu rosto.
- Relaxa que você não me atrapalhou em nada. – ele disse em meio a um sorriso. – Espero não te entediar enquanto faço os “corres” da banda - sorriu e assentiu com a cabeça. – Eu vou ter que ir para lá montar os instrumentos.
percebeu na voz do rapaz que ele não tinha muita vontade de sair dali mas o viu se afastar de qualquer maneira. Ficou observando-o montar os suportes de microfone, de baixo e de guitarras e prender fios aqui e ali com uma fita adesiva preta que parecia com fita isolante. Quando começou a tirar as peças da bateria das cases, se questionou sobre como poderia achá-lo atraente fazendo algo tão banal.
Hipnotizada, encarou o garoto trabalhando, imaginando o que viria a acontecer depois.



Capítulo 11

passou a borda da camiseta no rosto, cansado, após se agachar e levantar muitas vezes para organizar tudo. Tentava ignorar o cansaço, mas a verdade é que aquilo era muito trabalho para uma pessoa só.
A banda para a qual o garoto trabalhava era muito pequena para contratar mais pessoal, por isso, o rapaz nunca reclamava. Se não fosse por Marcelo, provavelmente não teria nem mesmo esse emprego.
Se levasse o trabalho mais a sério, o mais ideal seria procurar outras bandas que pudesse acompanhar nas etapas de produção. Pelo menos era aquilo que Marcelo sempre lhe dizia. Ouvira muitas vezes o discurso do amigo sobre como ele podia subir na carreira, mas nunca dera muita atenção a isso.
A verdade era que não queria se tornar escravo de qualquer emprego. Gostava de ter tempo livre para andar de skate e fazer o que quisesse na hora que desejasse. Mesmo trabalhar com música não lhe empolgava, mas não se incomodava de fazê-lo desde que isso tomasse apenas o tempo dos finais de semana.
Apesar do cansaço físico, estava de bom humor. Assim que terminou de ajeitar as coisas, havia chamado , que ficara sentada o olhando durante todo o tempo em que ele arrumava as coisas, para que o acompanhasse até o Tatuapé para buscar a banda.
A garota aceitou no mesmo instante e desconfiou se o fato de ela ficar tão ansiosa em sair do lugar não significaria que ela se sentia deslocada ali. Se este era o caso, as coisas piorariam caso ficasse sozinha.
não falava muito, mas não era por constrangimento. Quase sempre, se sentia confortável com seu próprio silêncio. Estava relaxado e sem se importar com muita coisa. Outro homem em seu lugar talvez teria sentido vergonha do suor que colava sua camiseta no peito e cabelo nas bochechas, mas este não era ele, pois ele simplesmente não ligava que estivesse cansado do trabalho. Pelo menos era aquilo que ele dizia a si mesmo.
Apesar de o rapaz sempre se sentir muito confortável com a ausência de conversas, estranhou que aquilo estivesse acontecendo ao lado de , que mais cedo naquela mesma noite havia mostrado que sabia se despir da vergonha quando necessário.
A cabeça de , no entanto, apenas registrava o fato de que pessoas de mundos diferentes provavelmente não tinham nenhum assunto em comum. Mas se fosse honesta, a garota também admitiria que nunca tivera talento especial em puxar conversa com ninguém. Sempre gostara de flertar, mas gostava muito mais de quando podia manter contato visual com a outra pessoa. O fato de o rapaz estar dirigindo novamente não tornava as coisas muito fáceis.
tentou ligar o rádio da Kombi, mesmo sabendo que o aparelho antigo só conseguia sintonizar algumas estações de música. Sentiu-se estranhamente nervoso tentando preencher aquele silêncio com algum som. Após algumas tentativas frustradas, conseguiu e “te liguei”, do Vitão, começou a tocar no ambiente. já estava prestes a tentar trocar de música, já que não gostava muito daquele tipo de letra romântica, mas mudou de ideia assim que percebeu se mexer ao seu lado ao som da música.
O rapaz não conseguiu deixar de olhá-la, pois se sentiu envolvido pela maneira como parecia estar em outro planeta enquanto escutava aquela música e seu corpo se mexia quase de maneira involuntária.
sentiu novamente uma onda de atração pela garota e teve vontade de parar o carro e deixar o show para lá. Mais uma vez, ele se questionou o que aquela garota provocava nele. De repente, só queria poder pôr as mãos nela.
estivera tão distraída pela música que demorou para perceber que o rapaz a olhava pelo canto dos olhos de tempos em tempos, quase incapaz de prestar atenção no trânsito. Assim que tomou conhecimento daquilo, sentiu seu corpo ficar tenso pela vergonha.
voltou a se endireitar no banco, mas não conseguiu deixar que seu sorriso não escapasse ao perceber o rosto da garota corado. De um jeito estranho, aquela mudança constante de comportamento entre a garota toda solta e toda tímida mexia muito com ele. Ele nunca sabia o que esperar dela.
sentiu um misto de satisfação e uma sensação de poder quando se deu conta de que o garoto não havia conseguido desviar o olhar de cima dela antes. Inebriada por aquela sensação, a garota se sentiu encorajada para mexer com ele. Ela olhou para o corpo dele marcado pelas roupas molhadas grudadas em seu tronco e mordeu o lábio.
- Você está com frio? – Ela disse olhando para a pele arrepiada do rapaz, tocando o braço dele levemente enquanto dizia aquelas palavras.
sentiu um choque elétrico assim que encostou nele, como se o seu próprio corpo não estivesse preparado para sentir aquele toque. Percebeu que se assustou com sua atitude, endireitando suas costas e se virando para ela antes de voltar a encarar o para-brisas.
entreteve um sorriso antes de respondê-la.
- Um pouco – ele respondeu olhando para si mesmo e não sabendo outra maneira de justificar sua pele arrepiada. Imaginou a garota encontrando maneiras de aquecê-lo e sentiu um calor na boca do estômago.
- Quer que eu feche a janela? – perguntou com uma feição inocente. apenas assentiu com a cabeça.
No instante que a garota fechou a janela do seu lado, começou a sentir o ar abafado do carro. Tirou a jaqueta das costas e amarrou desajeitadamente envolta da cintura, se mexendo o máximo que o cinto de segurança a permitia. Seus ombros nus ficaram a mostra, fazendo com que desviasse novamente sua visão da direção.
Desta vez, a garota o encarou abertamente, com um sorriso divertido.
- Você está com calor? – perguntou com uma voz que marcava duplos sentidos. não conseguiu conter uma risadinha que escapou por seus pulmões.
- Um pouco – ela respondeu, imitando a última resposta do rapaz.
apertou o volante do carro, deixando os nós de seus dedos mais esbranquiçados e aumentou o sorriso em seus lábios.
Após aquela troca de palavra, permaneceram em silêncio, encontrando seus olhares com certa frequência. se assustou quando percebeu que o carro estava parando ao lado de uma praça. Estreitou os olhos para tentar ler a placa que indicava o nome da rua e se sentiu mais calma em ver que estava na rua Antônio de Barros. Aquele provavelmente era o endereço no Tatuapé para o qual eles estavam indo.
Enquanto ela estava distraída, não percebeu a aproximação de , que colocou seu rosto no pescoço da garota.
Assustada, a primeira reação de foi de paralisar no lugar, tomada pelo choque da reação inesperada. A garota se manteve tensa por quase um minuto antes de seus ombros relaxarem e conseguir se mover no banco.
A respiração de ainda batia no pescoço de , mas ele se manteve parado quando percebeu a maneira como a garota se tornara tensa. Havia agido de maneira impulsiva e agora se questionava como ela reagiria.
se arrepiou assim que sentiu a respiração quente em sua pele. Quando enfim relaxou, fechou os olhos, inebriada. Seu coração batia débil dentro do peito com a onda de adrenalina que surgiu a partir do contato entre eles.
Assim que percebeu que seu contato fora bem-vindo, continuou a chegar mais perto, inebriado no perfume que sentira a noite toda.
- Esperei a noite toda para fazer isso. – ele admitiu rindo, rendendo-se a sua vontade ao invés de sair do carro para tocar a campainha da casa onde a banda estava.
sentiu os lábios de em seu pescoço e soltou um arquejo baixo. Todos os pensamentos de sua cabeça desapareceram instantaneamente, fazendo com que um lado totalmente instintivo de seu corpo tomasse o controle.
Ela jogou a cabeça para trás enquanto o garoto a provocava arrepios e, já com as bochechas coradas, ela virou-se para ele procurando a boca do rapaz que ainda estava com aquele sorriso safado nos lábios entre os beijos em seu pescoço.
Assim que os lábios se encostaram, sentiu um arrepio enquanto ele desfazia o sorriso para envolver sua boa com a sua.
sentiu um prazer especial na maneira como a garota havia tomado a iniciativa de beijá-lo. Sentiu-se incentivado a poder envolvê-la com suas mãos e senti a textura de seus cabelos entre os dedos. Ambos prenderam a respiração involuntariamente.
Apesar de estarem ali com o objetivo de buscar a banda até o show, os dois não tentaram apressar aquele momento. Exploravam calmamente aquele beijo, experimentando seus sabores e o toque de suas línguas.
puxou mais para si, sem quebrar o contato de suas bocas, voltando seu tronco de volta para o seu próprio banco. sentiu parte do seu peso sendo apoiado sobre o peito do garoto, enquanto ela mesma ficava inclinada sobre o freio de mão e o câmbio do carro.
Ainda estavam aproveitando o contato de suas bocas quando um barulho da porta da Kombi sendo forçada a se abrir fez com que se separasse do garoto, assustada. Quatro homens se apoiavam sobre a Kombi pedindo para que a abrisse e ele bufou irritado xingando os quatro integrantes da banda.
A raiva do rapaz, no entanto, precisou de poucos segundos para se esvair. Em alguns instantes, saiu do carro para abrir a porta lateral para que aquelas pessoas entrassem no veículo, sem chegarem a ser apresentadas a ela.
observou enquanto os agora cinco homens conversavam de maneira descontraída. Ainda assustada pela mudança no ambiente de maneira tão rápida, começou a se perguntar se não estaria sobrando ali.
Novamente, naquela noite, a garota começou a se perguntar se ter ido ali havia sido uma boa ideia. Apesar de ainda sentir o efeito daquele beijo na base de seu ventre.
Pelo menos uma coisa, ela pensou, era certa. Sabia que se lembraria daquela noite – e daquele beijo - no futuro.





Continua...



Nota da autora: Gente eu espero que a espera pelo capítulo tenha compensado (ou que vocês me perdoem pela demora dele haha). Bateu um calor aqui né? Hahaha. Esta Kombi está rendendo meeeeesmo. Nem tô me aguentando de ter colocado estes dois para conhecerem suas bocas hahah. É, sou meio surtada.
Aliás, muuuuuito obrigada pelos feedbacks suas lindas, dá uma bela acalmada nas minhas insegurancinhas e é muito legal mesmo saber o efeito da história pra quem tá lendo.
Falando em quem tá lendo, eu deixo aquele agradecimento especial para a Naty e para a Ingrid, que tão sempre com a DS e me animando a continuar escrevendo. Muito obrigada de verdade, suas lindas.
Quem já é de casa já sabe né?! Pega a coca-cola na geladeira e tem videogame na televisão. Pra quem chegou agora o meu sincero “seja bem-vinda”. A casa é pequenininha, mas sempre tem espaço pra mais um.








Nota da beta: Ah, meu Deus! Ah, meu Deus, eu estou surtando aqui… Ah, meu Deus, caraaaa! Hahhaha.
Meu, eles se beijaram no Tatuapé, meu Deus, e que beijo! Você ainda vai causar o meu infarto nessa fic, eu tô tão feliz com essa cena que nossa. Eu amo esses pp’s, e amo essa fic! <3
Continua! <3

Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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