Don't Panic

Última atualização: 17/02/2018

Prólogo

Abril de 2005
nunca quis ser uma princesa – pra ser sincera, ela sempre gostou mais de ser uma heroína: a Mulher Maravilha, ou a Mulher Gato, ou até mesmo a Mulan servia. Contanto que não fosse a donzela em perigo.
Naquele momento, ali, num país que não era o seu, numa casa que não era a sua, com uma família que não era a sua, sentia-se a heroína de sua própria história. Estava radiante, com seus grandes cabelos loiros soltos e jogados para um lado só, a blusa ciganinha branca tão 2004, a bermuda jeans e um sorriso no rosto. Não tão largo, porque Willa não era simpática – naquele momento, sentia que estava gravando o momento em que vencia o clímax final do filme da sua vida.
Quase isso. estava, sim, num set de filmagem – mais precisamente, um da NBC –, gravando a sua primeira cena no piloto do seriado novo que faria parte, o mais cotado para ser o próximo queridinho da emissora, sendo escalada como uma das principais – um seriado mais maduro, em que ela poderia se destacar mais em outros aspectos, senão comédia. Por mais que tivesse apenas onze anos, já tinha uma carreira brilhante, e era uma das cinco crianças mais bem pagas do mundo (por mais que não se considerasse, especificamente, criança. Preferia o termo “Pré-adolescente”).
Truth or Dare seria um seriado revolucionário para sua época – abordaria temas como homossexualidade, bullying, relacionamentos abusivos, empoderamento da mulher, divórcio, drogas e outros. não entendia muito de nada dessas coisas, mas sabia que queria entender, porque queria ser a melhor Willa que conseguisse, a melhor Willa que esse mundo já havia visto. E já tinha em mente tudo que aquela personagem poderia trazê-la.
Willa Rivers era diferente de Emma Geller, sua primeira e única personagem até então, quando encorporou a filha excêntrica e nerd de Ross e Rachel, em Friends, nas últimas cinco temporadas do seriado. Willa era uma personagem totalmente sua – geniosa, empoderada, ardilosa, independente e sagaz. O contexto da história era que a família Rivers havia perdido seu patriarca, e tudo torna-se um problema ainda maior quando Willa, sua mãe, Elena, e sua irmã mais velha, Trish, (que era a protagonista da série, representada por Leslie Andrews, uma garota ruiva e bem alta que, até então, era desconhecida no mundo da televisão) se mudam para o Orange County e a mãe conhece um novo pretendente, para o desgosto da caçula; então, a história começa a se desenrolar.
estava ansiosa. A primeira cena era simples: elas tomariam café da manhã juntas, Trish as faria ter um momento sentimental de recomeço, e então, elas terminariam com um abraço, dizendo que tudo ficaria bem, porque elas estavam nessa juntas; e então, Trish e Willa iriam para o colégio.
Fácil. tirou de letra. Foi encorajada e elogiada por seus colegas de trabalho, que não esperavam que a garota fosse tão fácil de gravar com.
Difícil mesmo foi quando, algumas horas depois, teve que gravar a sua primeira cena com o rapazote que, supostamente, faria seu par na série – e nunca esteve tão nervosa. Claro que foi extremamente profissional – estaria mentindo se dissesse que gravar a sua primeira cena com , o mini galã da América, que ganhou o mundo inteiro com Zathura: Uma Aventura Espacial e ABC do Amor, foi um ultraje. Ele era bom demais para ser reduzido a qualquer coisa menor que genialmente espontâneo. Desde a primeira cena que gravaram juntos, sabia que aquele garoto lhe causaria problemas.
Como a vida imita a arte, lá vai o que aconteceu:
adentrou, nervosa, a sala de aula onde gravariam sua primeira cena juntos e o rapaz, de cabelos loiros na altura do queixo, com um grande fone de ouvido da beats pendurado no pescoço, já caracterizado de Tommy Hart, sentou-se ao seu lado, tranquilo, como quem se deita na areia da praia.
Enquanto estava uma pilha, mal sabia como cumprimentá-lo – alguma hora eles teriam que se beijar! –¸ tantas coisas novas acontecendo, tanta coisa se passava na cabecinha daquela garota de onze anos. Ela mal podia conter as mãos que tremiam e o coração que batia forte, enquanto ...
parecia estar de férias.
- E aí.
Eles já haviam se conhecido, antes, na table read, mas ele não parecia ser muito simpático. Pelo contrário. Era como se a fama que ele mal tinha já houvesse subido por sua cabeça – e por isso, a garota resolveu não manter muito contato além do necessário.
O que não diminuia o fato de que ele, possivelmente, era o garoto mais bonito que ela já havia conhecido no mundo inteiro e ela não conseguia olhar dentro dos olhos dele por mais de um segundo inteiro sem querer soltar uma risadinha envergonhada.
Mal abriu a boca para responder, e então, ouviu o grito: Ação!
Josh Schwartz exclamou. E então Willa Rivers tomou vida.
Estavam em um laboratório de química experimental. O ambiente era todo branco, absurdamente limpo e organizado e estava separado em bancadas que possuiam béqueres e líquidos coloridos que fariam o experimento tomar forma. O professor já havia começado a aula e Willa estava sentada em sua bancada, sozinha, com um jaleco que tinha o seu nome e o óculos redondinho com armação de tartaruga e cabelos presos num coque. Estava entretida em suas anotações quando ouviu o barulho de uma bolsa ser jogada no chão, perto do banco ao seu lado. Levantou o olhar e arqueou uma sobrancelha, vendo um rapaz de camisa xadrez e sem jaleco sentar-se ao seu lado. Observou minuciosamente cada movimento do garoto desconhecido, com doces olhos verdes e um sorriso simpático no rosto. Tirou os fones do ouvido e pendurou-o no pescoço, sem parecer se importar muito com o olhar inquisidor que a garota lhe lançava. Ele tinha porte de Skatista – com aqueles cabelos grandes, lisos, a camisa xadrez por cima de uma branca básica, a calça jeans folgada e vans. Aquele fone enorme o entregava, também. Nada, nadica de nada, o tipo de Willa. Ela não se envolvia com essas pessoas.
Willa gostava de pessoas inteligentes, sérias e comprometidas.
- Tem alguém aqui? – Ele perguntou, tentando entendê-la.
Mas Willa não era daquelas garotas que se podiam entender.
- Eu não preciso de uma dupla.
- Não foi essa a minha pergunta – ele piscou, sorrateiro, e deu uma pequena risada para a garota ao seu lado, que não moveu um músculo do rosto. Willa revirou os olhos, encarando-o de cima a baixo.
- Existem outras bancadas com carteiras disponíveis.
- Se eu quisesse me sentar em alguma delas, teria me sentado – ele deu de ombros, parecendo a achar a atitude da menina bizarra, mas sem se importar muito. Tommy Hart não era muito do tipo que levava desaforo para casa.
- Quando disse que não precisava de uma dupla, quis dizer que não queria que você fosse minha dupla.
As palavras da garota surtiram o efeito contrário do esperado no rapaz, que deu uma risadinha esperta, dando de ombros.
- ... E eu quis dizer que não dou a mínima.
Um minuto se passou em que os dois se encararam firmemente – Willa, com uma raiva que subia queimando por seu estômago até sua garganta, quase desenvolvia raios laser com os olhos. Ela o faria, se pudesse. E Tommy não poderia ligar menos, mas devolvia o olhar como quem está entediado.
Tommy não esperava pelo que aconteceria a seguir: ninguém esperava.
De repente, a garota virou-se para frente e voltou a anotar em seu caderno. Tommy deu-se por satisfeito, distraído, procurando por seu próprio caderno na bolsa, não notou quando a garota juntou o líquido azul e o rosa – e então, Tommy colocou o caderno em cima da bancada que, agora, dividiria com a loira pelo resto do ano letivo. Até que, Willa, num movimento rápido e sagaz, derrubou o béquer que continha os líquidos misturados em cima de seu próprio caderno, e começou a gritar.
- Meu Deus! O que você está fazendo? – a garota gritou, afastando-se com sua bolsa para trás, parecendo estar chocada e assustada com a suposta atitude do garoto.
- EU estou fazendo? Você é louca?
Fogo. A mesa toda pegava fogo. A fumaça subia como neblina e Tommy tentava, com seu próprio caderno, abafar as chamas. Muita fumaça. Gritos. Pessoas correndo. Um Tommy paralisado. Uma Willa aparentemente abalada demais.
E então, o extintor de incêndio.
- Vocês dois. Detenção. Agora. A garota parecia decepcionada, e até entoou um “mas professor...!”. Já Tommy, completamente sem reação.
Viu Willa piscar pra ele antes de sair pela porta da sala.
Tommy estava fodido.
também estava.


Capítulo 1

Junho de 2017
estava sentada à mesa com uma taça de vinho na mão e o coração quase saltando pela boca.
O ambiente estava muito bonito, bem classy. As luzes com tom amarelado dos enormes lustres de cristal, a decoração era simples, mas eficaz. O salão alugado era enorme – contava com um pequeno palco, uma área com um bar e mesas espalhadas com toalhas brancas, flores e pessoas famosas, fúteis e incrivelmente desinteressantes. mal podia conter a tragédia que seu sábado a noite seria: mas como uma boa atriz que era – sempre seria –, mantinha um sorriso doce nos lábios todas as vezes que alguém chegava para cumprimentá-la.
Quanto tempo que não tenho notícias suas, , realmente você faz falta, essa indústria precisa de pessoas como você. Quando vai deixar essa ideia boba de manter todo esse talento escondido pra si? Soube que a CW daria tudo para que você estivesse presente na nova série, sim, aquela que vai estrear com a Lucy Hale. Você poderia facilmente conseguir um papel.
Blá, blá, blá, não poderia estar menos interessada. Esforçava-se para não revirar os olhos. Se quisesse o raio do papel, se inscreveria para fazer o raio do teste, ué. Mas mantinha as aparências por pura educação. Não estava ali para mendigar emprego – por mais que se alguém lhe oferecesse algum na sua área, ela, provavelmente, aceitaria de bom grado.
Estava preparada para aquele tipo de ladainha porque, quando prometeu que viria à festa, sabia onde estava se metendo. Mas o que Oliver não pedia sorrindo que ela não fizesse chorando?
Não era aquilo que a preocupava.
Apesar de estar saturada daquele ambiente – esperava que a sensação de âmago passasse com os anos, mas, pelo visto, só piorava –, e daquelas pessoas que só se importavam com seguidores de Instagram e matérias em revistas, o fator era o que fazia a boca do seu estômago apertar. Queria conseguir parar de buscá-lo pelo ambiente com os olhos, mas estes pareciam ter vida própria! Não se cansavam de procurar pelo salão os cabelos grandes e louros que poderiam se destacar até mesmo na multidão das ruas da Times Square.
- , por favor, quer parar com os pés? – ouviu Leslie reclamar, com seus doces cabelos ruivos balançando junto com sua cabecinha, enquanto repreendia a amiga, inclinando-se um pouco para o lado na mesa que dividia com ela, Pipper, e China. – Quem vê de longe, até pensa que você está nervosa. Rá, rá, rá.
Pelo visto, não estava sendo tão discreta quando pensava.
- O não chegou ainda, pode ficar tranquila – o rapaz ao seu lado, com longos olhos puxados, grandes maçãs no rosto e profundas covinhas no canto do sorriso disse, com a voz grossa e inesperada, recebendo um olhar fulminante como resposta.
- De qual lado você está, Chinês?
E então, George Tanaka girou os olhos, visto que sua descendência era japonesa. Mas já havia cansado de tentar mudá-los de opinião quanto ao apelido.
- Do lado que quer ir embora – Pipper respondeu, quase deitada na cadeira ao lado de Tanaka, com a expressão entediada. – Vocês me prometeram álcool, famosos gostosinhos...
- E interação -, que, sejamos sinceros, sempre é um evento... – a ruiva completou.
- Vão à merda – a garota fez uma expressão de quem estava irritada, mas não pode conter um sorrisinho no canto dos lábios.
- Não estou recebendo nada disso. Eu disse que deveria chegar só na hora da festa.
A garota de curtos cabelos loiros platinados e gigantes olhos azuis revirou os olhos bem marcados de preto.
- Ei – China reclamou. Os dois mantinham uma espécie de amizade colorida sem compromissos, que nunca dava em nada – em resumo, quando ficavam muito bêbados, se atracavam no banheiro. No sentido literal da palavra.
O japonês, que era o cantor da banda de rock indie-alternativo na qual Pipper era baterista, era indeciso demais para uma Pipper impaciente demais e complicada demais e que, agora, queria dar satisfações de menos.
- Tem famosos gostosinhos o suficiente pra vocês dois aqui nessa festa, japonês – ouviram, então, a voz de Oliver Prior soar repentinamente, abraçando a namorada por trás. Leslie sorriu, dando um beijo estalado em um dos braços em que ele envolveu seu pescoço. – Não precisa competir.
- Quem tá precisando competir é a – o rapaz de olhos puxados respondeu, rindo, recebendo uma cotovelada de lado, e levantou as mãos em rendição. A garota fez uma expressão afetada e revirou os olhos. – Qual é. Você terminou o namoro desde, sei lá, 2005 e não engata um beijo de boca...
- Com licença, China? Só fazem dois meses! É recente.
- Você tá há dois meses na seca, ? – Oliver perguntou, olhando pra ela, meio zombeteiro. – Vou te anunciar lá no palco pra ver se te dá uma ajudinha.
- Vai, Pipper, é contigo! – Leslie apontou para a amiga, que respondeu, prontamente:
- “Ex-atriz de Truth or Dare só precisa de um beijo de boca pra ver se para de ficar choramingando pelos cantos e assistindo filmes da Rachel McAdams”.
- “ , atriz que ficou conhecida por ser a excêntrica filha de Ross e Rachel no seriado Friends só precisa de um beijo de boca pra ver se resolve fazer alguma coisa útil com a vida além de passear com seu cachorro, Mojito”.
O japonês, ao seu lado, continuou com a brincadeira, recebendo um high5 da loira, acompanhado de algumas risadas.
- “ , brasileira que ganhou o mundo como Willa Holland, só precisa de um beijo de boca pra ver se para de gastar todo o dinheiro do aluguel com sorvetes da Haagen Dazs”.
Leslie foi a próxima, revirando os olhos, e então, mais risadas. Exceto por uma pessoa em especial, que levantou um certo dedo em específico para os amigos.
- Eu juro que se vocês não calarem a boca, vou eu mesma buscar o Travis em casa, trazê-lo pra cá e vocês terão que aguentá-lo a noite inteira. E eu ainda convido ele pra morar com a gente, Leslie.
Então, vários gritos, vaias, e pessoas se revoltando ao mesmo tempo. Todas as pessoas da mesa se manifestaram contra e fez uma careta. Desde quando seus amigos odiavam tanto seu ex namorado?
Tudo bem, ele poderia ser um pouco inconveniente às vezes, e tudo bem também, ela nem gostava dele tanto assim. Mas pelo menos foi um relacionamento duradouro que ela poderia esfregar na cara de sempre que o visse. Dessa vez, ela não tinha nada para esfregar na cara dele.
Estava desempregada e solteira. Dignidade ela perdeu desde, sei lá, os seus catorze pra quinze anos, quando começou a se envolver com aquele embuste...

X

Fazia pouco tempo que havia chegado – porém, , que era o louco dos horários, agora, estava se sentindo irritadiço. Maldito trânsito de Los Angeles, maldito momento que resolveu ir com o próprio carro. Mas afinal, para que pedir um Uber se não poderia beber? Quer dizer, não que não quisesse. Precisava de um incentivo para passar por aquela noite são.
Já eram dois meses que estava limpo, e acreditem, isso era muito para . Não que ele se considerasse um álcoolico – mas ele precisava refazer sua imagem na mídia se quisesse continuar com a carreira etc. Um bocado de baboseira que ele não se importava. Estava cagando pra sua imagem ou para como as pessoas o viam.
A única coisa que realmente importava pra ele era poder trabalhar, e há quatro meses estava impedido de fazê-lo, desde que Shonda Rhimes havia decidido que ele era impraticável de se trabalhar com. Foi expulso da única série do qual realmente se orgulhava de ter feito parte – afinal, How To Get Away With Murder era inteligentíssima e quase um ultraje.
De todo jeito, depois de quatro meses parado, de “quarentena”, ele poderia até mesmo ser escalado para a próxima turma do Hi5 na Discovery Kids e mal se importaria. Só precisava voltar a ativa. Era só isso que ele queria: e se parar de beber fosse o necessário para que ele pudesse voltar, era isso que ele faria. E qualquer outra coisa que lhe pusessem na mesa.
Era só por isso que estava ali: não poderia se dar ao luxo de perder essa festa, era sua volta a elite da fama. Apesar de continuar considerando Oliver um de seus melhores amigos, sempre achava melhor comemorar os aniversários em outros momentos, ou dar um jeito de chegar quando ia embora. Só que Avery o mataria se ele perdesse. Segundo ela, era um longo caminho a se percorrer, e ele precisava estar nos lugares certos, nas horas certas. Quem mandou estragar tudo, ?
Ele também se perguntava.
Apesar de tudo, havia um papel numa nova série da ABC, Mason Hills, a mais nova futura queridinha da emissora, e ele sabia que estava sendo cotado. Era o personagem dos seus sonhos: inteligente, sombrio, irônico, imprevisível, maduro. Um personagem que realmente pudesse ser levado a sério – e não mais um playboyzinho de drama adolescente que só serve pra manter o público feminino entretido, que foi, basicamente, noventa porcento de tudo que ele fez até hoje. Não mais, ele pensava. Essa era uma série de suspense. Era uma série inteligente com sacadas geniais. Uma série que envolvia um banho de sangue, pessoas escuras e misteriosas e um grupo de amigos bem preparados para resolver assassinatos feitos por um serial killer psicopata que ninguém sabia quem era. Tudo que sempre sonhou em participar.
Mas precisava ser paciente, como também diria Avery. Credibilidade só se alcança com paciência.
No auge de seus vinte e dois anos, até que estava muito bem. Já havia participado de duas séries com visibilidade mundial, sendo um dos protagonistas em ambas, uma trilogia de cinema e mais alguns filmes aleatórios em que ele fazia personagens secundários, mas relevantes. Ele sabia que estava indo bem. Ele sabia que iria chegar onde precisava. Mas queria voltar a trabalhar logo e estava impaciente demais.
Quase tão impaciente quanto estava naquela festa. Também era difícil ver todas aquelas pessoas bebendo sem poder se deixar dar um gole se quer.
De todas as coisas que o irritavam, de todas as coisas que tiravam a sua paciência, encontrar ali, sentada no bar, com aqueles cabelos presos que deixavam sua nuca a mostra e o batom vermelho (maldito batom vermelho, malditos lábios grossos delineados de vermelho), a taça de vinho sempre presente na mão, ele, com certeza, colocou-a no topo da lista.
Precisava tanto de uma bebida. Dane-se qualquer outra coisa. E foi com esse intuito que se aproximou do bar.
De jeito nenhum estava procurando uma desculpa para abordá-la.
- ?
Usou o apelido, é claro, não poderia perder a oportunidade de provocá-la. Observou a garota tensionar os ombros, ainda de costas.
- Não esperava te ver por aqui – continuou, bem no pé do ouvido, antes de apoiar o cotovelo na bancada, bem ao seu lado. Encarou-a com um sorriso irônico no rosto. – Resolveu ter consideração por alguém?
As palavras saiam como se tivessem vida própria. Ele sabia que deveria se controlar – afinal, fazia o quê? Um ano e meio que não via , assim, de carne e osso? Mal sabia como a garota reagiria. Era imprevisível demais.
De todo jeito, ao vê-la ali, bem na sua frente, depois de tanto tempo sem notícias, era impossível evitar. Não parecia de verdade. Queria tocá-la. Mal podia decidir se era um sonho ou um pesadelo. Definitivamente não podia ser real.
Afinal, aquele rosto delicado e fino ainda o atormentava quando ele ia dormir...
- Pelo Oliver? Sempre tive – ela respondeu, prontamente, com a voz rouca de sempre, dando um gole de sua taça e uma piscadela para o rapaz. – Esse tipo de coisa não se força, você sabe.
- E o namoradinho, não trouxe dessa vez? Da última vez que te encontrei, corria atrás dele como a boa cadelinha no cio que sempre foi... Mas achava que era só comigo.
se surpreendeu com a própria escolha de palavras, mas agora já era tarde demais e já havia dito mesmo – precisava descontar a própria frustração de algum jeito e ali estava. Agora a brasileira havia virado de frente pra ele, com o banquinho que girava. Encarou-o como quem está entediada, como quem não se afeta, mas por dentro, ele sabia que ela estava mal podia se conter. Via no modo em que ela mordia o lábio marcado de vermelho. Revirou os olhos, inclinando o rosto para cima, visto que (principalmente agora que ela estava sentada), o rapaz era mais alto.
- Parece muito preocupado com a minha vida amorosa, . Não me superou ainda? Mas já fazem tantos anos! – encarou-o com uma expressão compassiva, depois de respondê-lo com um tom maternal, e o rapaz sentiu algo dentro dele revirar. A boca do seu estômago queimava. Sentiu seus lábios mais secos que o normal.
Odiava o quão ela era rápida para respondê-lo, não importa o que ele dissesse. Odiava quando suas palavras pareciam não afetá-la. Resolveu ignorar qualquer coisa que ela tivesse dito e continuar com seu discurso:
- Pelo visto, cansou de você, assim como eu. Perfeitamente compreensível.
olhou para ele como se seus olhos pudessem queimá-lo vivo, levantando-se, dessa vez, sem postergar nenhuma expressão de explícito rancor. ouviu quando ela pisou com os saltos no chão. Claque, claque. Próximos demais.
Mas continuava baixinha, mesmo com os saltos. Cruzou os braços. Torceu os beiços marcados de vermelho. Arqueou uma sobrancelha.
Dez segundos de completo e torturante silêncio.
- Vá beber, , para ver se me esquece. Só assim que você consegue, né?
Então, uma eternidade. Foi o tempo em que seus olhos ficaram presos um no outro. Uma eternidade inteira.
, com aqueles cílios grandes e olhos medianos bem demarcados, sentia os olhos de à sua frente penetrarem os seus. Mas não a olhavam de um jeito comum.
Naquele momento, notou que também havia ido longe demais. De braços cruzados, com seu queixo levantado, pronta não só para uma batalha, mas para uma guerra inteira, esperou por uma resposta que parecia não vir. Um, dois, três, quatro. Os segundos se passavam lentamente enquanto eles mal conseguiam desgrudar os olhos um do outro. queria sair – queria ir embora, queria virar as costas e deixá-lo ali, falando sozinho todas aquelas baboseiras que saíam da boca dele, que ela sabia – tinha certeza! – que eram mentira (ou que eram verdade?), e apenas ir embora. Ir embora como ela nunca conseguiu.
Então, piscou os olhos algumas vezes. Alguma coisa prendia seus pés ali, ao lado dele. Alguma coisa prendia seus olhos aos dele. Alguma coisa prendia seus ouvidos ao que ele iria dizer, mas nem havia dito ainda.
Cinco, seis, sete, oito, e então, juntou um pouquinho de força de cada célula que se formava em seu corpo e para fazer menção em virar-se, mas não estava disposto a deixá-la ganhar assim tão fácil. Portanto, num movimento rápido demais, segurou-a pelo braço, o que fez com que a morena a sua frente voltasse para perto, por impulso. Nove, dez, onze. Olhos que não se desgrudavam.
Até que pode ouvir a voz rouca e grave dizer:
- Eu não preciso esquecer alguém que eu nunca cheguei a amar, .
Bang, bang.
Um tiro, provavelmente, doeria menos. até pode imaginar perfeitamente um girassol, bem na sua frente, que antes estava vivo, sorridente e amarelo, e num estalo de dedos, foi murchando aos poucos, caindo pétala por pétala, até que não sobrasse um resquíciozinho de vida se quer.
Pode ver encará-la de cima a baixo com todo o desprezo que conseguira guardar em seus olhos, pegar seu copo de água cristalina e sair, deixando uma plantada, frustrada e sozinha no bar.


Capítulo 2

Achei que fosse ter uma experiência melhor com o passar da noite – bom, não tive.
Era lá pras três da manhã de uma sexta-feira à noite, eu estava na festa de aniversário do meu melhor amigo e nada (ouça bem, nada) de realmente útil havia acontecido, eu só tinha ficado muito puto com e aquilo fora suficiente para que eu perdesse a paciência pelo resto da noite. O pior de tudo é que eu estava ficando com sono. Sono demais, entediado demais, sóbrio demais. E sendo obrigado a ouvir uma música remixada da Taylor Swift. Respirei fundo, sentado num banco aleatório perto da pista de dança onde tanta gente famosa e, ao mesmo tempo, desconhecida, se divertia. Era um ambiente razoavelmente grande, a boate, onde se fez o after party do jantar. Tinha uma pista lotada de gente famosa e (alguns que eu nunca ouvi falar) e um palco onde a banda de China havia se apresentado, além do bar funcionando nas laterais e alguns corredores que eu não fiz questão de desbravar.
Segui todas as instruções de Avery, pelo menos. Havia conversado com bastante gente da indústria artística (e porra, como as pessoas eram mais interessantes quando eu estou bêbado) e feito bastante social, porque, segundo ela, não era a festa de aniversário do meu primeiro amigo aqui em LA, era uma festa importante para eu refazer a minha imagem. “As pessoas sempre falam de você, , sempre falarão. Mas nesse momento da sua vida, é importante que falem bem.”
E mais um blá, blá, blá de coisas que eu não fazia mínima questão de chegar a me importar ou ao menos prestar atenção, blá.
De verdade, eu só queria entender o motivo pra tanta burocracia mimizenta nesse meio – por exemplo, o que é que importa pros outros o que eu faço numa sexta feira à noite? Ou se eu tô saindo com alguém? O que realmente deveria importar é: estou cumprindo com as minhas obrigações? Estou fazendo meu trabalho de maneira efetiva? Estou roubando ou matando alguém? Não, caralho. Nunca matei ninguém (quase matar não conta como matar, se é o que você está pensando). Eu já tinha minha própria família, Avery (que, às vezes, conseguia ser pior que Dona Stella no quesito satisfações), e agora, teria que ficar dando também pro resto do mundo?
Ninguém tem nada a ver com nada que eu faço, por Deus. Arrumem uma vida.
Que grande pé no meu saco ter que ficar me explicando. Estava muito puto.
Tão puto que mal conseguia dar atenção pra garota que se colocou na minha frente, no bar, do nada, e me perguntou se eu queria uma cerveja. Não que eu estivesse precisando me esforçar muito – a morena de longos cabelos bem pretos fazia todo o trabalho, deslizando o dedo no meu peito e me puxando pra perto pra sussurrar umas propostas que eu considerava bem convidativas e até daria atenção pra elas... quando estivesse menos puto. Ela me puxou pra um canto da festa mais vazio, e estávamos em pé, recostados sobre uma bancada improvisada, a luz do ambiente era baixa e a música ruim muito alta, o que facilitava as coisas, visto que precisávamos ficar bem próximos pra conversar. Ela era muito bonita – alta, com grandes olhos azuis e tinha um corpo meticulosamente desenhado e prestigiado pelo vestido colado que ia até a metade das coxas. Pena que ela era uma porta e não parava de tagarelar.
- Ah, sim, ... – o uso do apelido me incomodou um pouco. – Eu me lembro de te ver no cinema pela primeira vez quando eu era novinha, ainda, tinha uns doze anos.
Sorri de lado, um pouco convencido. Ia ser uma puta mentira dizer que não gostava da atenção que eu costumava receber, sim, amaciava o meu ego. Mas também era o único assunto sobre o qual as pessoas pareciam saber conversar sobre e isso cansa – tipo aquelas conversas sobre os filmes que apareci ou das pessoas com quem trabalhei. Eu queria alguém que me mantivesse entretido, na verdade, alguém que fizesse a noite valer a pena – porque, até então, era melhor ter ficado em casa, mesmo.
De todo jeito, ela não estava parecendo fazer um bom trabalho.
- Sim? E qual foi esse filme? – tentei parecer interessado.
- Zathura.
Ri um pouco, por educação, lembrando do primeiro filme em que apareci, e de como estava nervoso, e do tanto de coisa que havia acontecido desde então até aqui. Mas isso durou um total de cinco segundos.
Resolvi, então, que aquele papo não iria muito mais longe que aquilo e que era melhor dar a noite como terminada e ir pra casa, por isso, me aproximei da garota, bem perto de seu ouvido e quase a chamei para dar uma voltinha no meu carro, quando, de repente, um ser minúsculo e bravo apareceu bem na minha frente, ficando entre eu e a morena. Eu arregalei os olhos por sobressalto, mesmo, ficando meio absorto enquanto me perguntava o que porra estava acontecendo ao me dar conta de quem estava ali, na minha frente. Impossível não reconhecer.
- Quem é você? – pude ouvir a voz característica e bem conhecida perguntar. Podia imaginar sua expressão arrogante olhando firmemente para a mulher com quem eu antes conversava, de braços cruzados. – O que está fazendo com o ?
A mulher colocou os cabelos negros para trás de seus ombros, e então, inclinou um pouco a cabeça para frente, intercalando o olhar entre eu e , sem entender muito bem o que estava acontecendo e esperando alguma reação minha, mas eu estava perplexo demais para dizer qualquer coisa. Tive, até, que prestar mais atenção que o normal para entendê-la, porque agora que estava entre a gente, mal conseguia ouvir a sua voz.
- Nós estamos conversando. – respondeu, apenas, com uma expressão confusa e meio irritadiça, que deixavam suas sobrancelhas em evidência. Olhava incisivamente para mim, na expectativa que dissesse alguma coisa, fizesse uma intervenção, assumisse seu lado na discussão, mas eu não poderia perder a oportunidade de ver até onde iria. Quer dizer, era óbvio que eu tinha dimensão do quão imprevísivel poderia ser – mas depois da briga que havia acontecido algumas horas antes, eu não esperava ter notícias dela tão cedo.
Pois bem, cá estava. O Furacão sempre voltava.
- Certo. Eu dou a conversa como terminada, então – voltou a tomar a frente da conversa, com sua voz embargada, mas firme, e ela afirmava com a cabeça enquanto dizia cada palavra, usando uma atitude imponente e irredutível. Pigarreei um pouco, antes de tocar em seu ombro, achando que seria a hora certa de fazer uma intromissão. , no entanto, virou pra mim com um sorriso divertido, completamente diferente da expressão dura que entregava a morena a sua frente.
- ... O que você tá fazendo? – perguntei, com uma expressão incisiva e meio confusa, mas no fundo, eu queria rir. Mais precisamente, gargalhar.
Certamente arrumaria um jeito de esfregar isso bem na cara dela no outro dia. Eu nunca perderia a oportunidade: faria questão de recitar cada detalhe, tim tim por tim tim, cada fato da noite, cada palavra, cada atitude que resultava daquele ser minúsculo tão capaz de me dar nos nervos. De certeza ela se lembraria daquilo.
Depois ela podia sumir de novo, que fosse, quantas vezes quisesse.
- ? Olha, eu não quero atrapalhar nada... – a mulher estava prestes a destrinchar um discurso com tom moralista quando a a interrompeu, desbravada e despreocupada, dizendo:
- Então não atrapalhe. Pode ir embora – virou-se novamente para a garota antes de falar, afastando-a com a mão. E o que aconteceu foi que esta foi embora mesmo – bufou um pouco, pegou sua bebida e sua bolsa e saiu. Notei quando virou novamente pra mim, com uma sobrancelha arqueada e braços cruzados, prestes a ir embora de novo. Antes que pudesse fazê-lo, cruzei os braços também, abaixando um pouco a cabeça, tentando ficar na mesma altura que ela, com um sorriso vitorioso.
Agora éramos dois idiotas na mesma altura de braços cruzados encarando um ao outro com expressões distintas: eu, triunfante, e ela, orgulhosa.
Poderia, sim, dizer que estava puto com ela por ter sido uma empata foda (bem aleatória, por sinal), mas, se realmente tô sendo sincero aqui, não podia me importar menos com a garota que saiu.
- Posso saber por que você mandou o meu date ir embora, ? – perguntei, ao que ela respondeu com uma risadinha frouxa e esperta.
- Por favor... Você estava mais entediado que eu, quando estou conversando com você.
Sua voz era arrastada, as palavras soavam lentas, e o tom era divertido, como quem brinca, diferente do tom duro e rude que me lançou antes. A língua até mesmo um pouco enrolada pela bebida. Vi quando deu de ombros, dando uma piscadela com os cílios longos e olhos castanhos demarcados com preto.
O sorriso pomposo não saía do canto dos meus lábios. A gente se encarava sem reservas – ela olhava na minha íris, bem no fundo, sem desviar por um segundo, e eu mantive o olhar, desafiando-a.
- Estava me observando, é?
- É.
Levantei, voltando a minha altura normal, surpreso com a resposta, se é pra comentar. Observei-a sem disfarce, ao encolher os ombros e empinar o nariz pequeno e fino, imponente, gloriosa, como quem não tem vergonha do que diz. Eu não esperava por essa resposta. Eu, na verdade, nunca esperava por nada que dizia.
O rosto dela parecia um pouco suado, devia dizer. Possivelmente pelo corpo quente de quem bebeu. Os cabelos meio bagunçados no penteado que o levava pra trás, os lábios ainda vermelhos num tom escuro, desenhados, grossos e carnudos, o porte elegante e cheio de si, uma das alças do vestido preto que caía sobre o ombro nu e a pele bronzeada...
Porra. era um pacote e tanto.
Não resisti tocar seu braço, colocando a alça no lugar, sentindo os olhos dela me seguirem em cada deslize dos meus dedos. Vi que sua pele arrepiou com o meu toque, e então, voltei a olhar pra ela, e ela já estava olhando pra mim. Nos encaramos, então.
- Por quê? – perguntei.
- Porque... Você agora tem barba – ouvi a sua risada fraca e me deixei soltar uma, também, meio intrigado, querendo saber o que ela diria depois. Apoiei, então, meu cotovelo na bancada e coloquei meu peso numa perna só, de frente para uma que também recostou-se sobre a bancada, com a cabeça levantada, olhando para mim com olhos curiosos.
A verdade é que eu não fazia ideia do que estava acontecendo e estava curioso pra descorbrir, também. Faziam anos que não tinha uma conversa saudável com ou que ao menos passávamos mais que cinco minutos no mesmo ambiente. Também achei que ela nunca mais fosse querer olhar na minha cara depois do monte de coisa que a gente disse um pro outro por motivo nenhum, alguns momentos antes, mas então, lá estava :
Decidida, imponente, leve e despreocupada. Bem na minha frente. Como se nada nunca tivesse acontecido, ela disse. Eu neguei com a cabeça, um pequeno sorriso insistindo em pender no meu lábio. – E eu sempre quis saber como você ficava de barba...
Usou sua mão direita para passar pela minha barba e ficar subindo e descendo as unhas nos pelinhos grossos que preenchiam as laterais do meu rosto, entretendo-se, e eu pisquei várias vezes, tentando entender se era de verdade ou se eu estava num universo paralelo onde eu e ainda poderíamos nos tocar sem danificar um ao outro.
, os dedos de não danificavam. Curavam.
- E o que você achou, ? – perguntei. Minha sobrancelha arqueada, eu a desafiava.
- Que você está muito gostosinho – ela comentou, num tom baixo, como se fosse um segredo, colocando um dos dedos na boca e fazendo um “shhh”, para logo depois, rir. Com a minha expressão, a prometi que não iria contar pra ninguém, usando um sorriso divertido.
Mas a verdade é que o que eu queria mesmo era gravar aquilo e postar em todas as minhas redes sociais. E marcá-la. E então fazer vários DVDs e deixar um exemplar em cada porta de cada pessoa que vive na Califórnia. Fui disperto de minhas ideias quando ouvi continuar: – E que você está bem bonito hoje, sabe, de camisa social e blazer. Eu gosto de te ver de camisa social. E de blazer. E sem camisa social, também, e sem blazer. Sabe? Sem nada.
Então, eu gargalhei, sem conseguir me conter com o discurso, e ela riu também, mas com uma feição confusa, de quem não sabe do que está rindo. A gente se olhou um pouco, eu não fazia ideia do que estava acontecendo e , provavelmente, também não, e por mais que eu estivesse achando aquilo tudo uma péssima ideia (tudo que provenha de mim e juntos, com certeza, é uma péssima ideia), eu não conseguia sair dali de perto dela. Eu não conseguia conter a curiosidade em saber o que mais ela tinha pra falar, o que mais ela tinha pra fazer, como ela ia me surpreender...
Porque, porra. Ela sempre surpreendia.
Tive mais um choquezinho de realidade quando ela cambaleou um pouco para o lado e fechou os olhos, provavelmente sentindo sua pressão baixar, com um sorriso largo no rosto, balbuciou algumas coisas indecifráveis sobre estar louca e eu caí nos meus sentidos. Com um sorriso no rosto ainda, segurei-a firmemente pela cintura, envolvendo um dos meus braços ao redor dela, que, de repente, abriu os olhos, acompanhando meu movimento e piscando algumas vezes.
- Obrigada, . Agora vamos procurar a Leslie. Você precisa voltar pra casa.
- Eu queria que você tirasse essa camisa agora, pra falar a verdade. – Ela retomou o tópico, ainda olhando para o meu braço ao redor de sua cintura e eu virei os olhos um pouco, molhando os lábios. Um de seus braços na bancada e o outro por cima do meu, deslizando seu dedo no meu ombro. E então, levantou os olhos, encontrando os meus no caminho e deixando-os por lá.
A gente estava próximo demais, foi o que eu consegui constatar, no meio de toda a explosão de coisas que se passava pela minha cabeça. Sua expressão, então, tornou-se séria.
Outra coisa que eu constatei era que tinha lábios bonitos demais, e desenhados demais, e olhos que se destacavam demais, os traços moldados demais. Tudo nela era muito; parecia tão atraente quanto todas as outras vezes que a tinha visto. No fundo, eu esperava que toda essa atração passasse com o tempo – mas depois de uns bons dez anos que a gente se conhecia, acho que só fez piorar.
De todo jeito, ela estava bêbada. E era a .
- Leslie, , eu preciso que você me diga onde a Leslie está. – eu cobrei, com a voz mais dura, e ela fechou os olhos com força, para então, abrir. Pareceu retomar um pouco da consciência antes de responder:
- A Leslie me dispensou para ficar com o Oliver.
Do nada, passou explorar meu rosto e os fios do meu cabelo com os dedos, cutucando as minhas maçãs e divertindo-se com algumas mechas loiras. Eu tentava me afastar um pouco dos seus dedos, prendendo o riso, ainda a segurando, enquanto ela ria gostosamente ao me apertar.
- E a Pipper?
- A última vez que a vi, estava arrasando na bateria.
Revirei os olhos, evitando bufar. estava muito perto.
Era muito difícil pensar direito em qualquer coisa para dizer ou no que eu deveria mesmo fazer.
- E aí?
- E aí que você me distraiu quando estava com aquela garota.
Então, subitamente, ela parou de enrolar o dedo em uma das mechas e me encarou com a expressão brava, mas infantil. Molhei os lábios, dando de ombros, me dando como satisfeito com a explicação. Não é como se, algum dia, fosse conseguir entendê-la, de todo jeito – acho que nem Freud ou Jung conseguiria explicar o que se passava na cabeça daquela garota.
- Você tem a chave de casa?
- A minha cabeça está girando.
- Eu não te perguntei se a sua cabeça estava girando.
- Você também não me perguntou se eu te achava um gato, mas eu acho.
Porra. Aquele diálogo estava indo longe demais e não tinha, literalmente, ninguém por perto para ver isso. Era tudo que eu me perguntava. Era essa a hora de os humilhados serem exaltados, mas Deus não estava cooperando – fiquei, então, passando raiva sozinho, revoltado, batendo o pé no chão e olhando para os lados, esperando que, do nada, alguém aparecesse só pra eu ter uma testemunha dessas palavras que mais soavam como música aos meus ouvidos.
- Ah, . Eu realmente espero que você lembre de cada detalhe desta noite amanhã de manhã...
Não consegui conter o sorriso de provocação, quando ela me olhou confusa.
- Por que não lembraria? – enfatizou a última palavra com bastante dificuldade.
- Me dá sua bolsa, .
- Você nunca responde nada que eu pergunto, sempre me deixa sem respostas. Nunca sei o que se passa na misteriosa mente do misterioso .
- Me dá sua bolsa, . – eu mal continha o sorriso.
- Sim, pirilim, Misterioso , e você está com braços bem fortes – dessa vez, eu não consegui me conter. Ri mesmo, jogando a cabeça pra trás, enquanto ela potencializava sua fala com as expressões do seu rosto. Ela gesticulava bastante, também. – Eles eram bem magrinhos alguns anos atrás, você sabe.
- Eu só tinha quinze anos, , dá um tempo. – peguei a pequena bolsinha que estava pendurada no ombro dela e abri, vendo que tinha ali alguns documentos soltos, porque a bolsa era bem pequena, uns trocados, um cartão de crédito, uma camisinha, o celular e uma chave, que eu rezei aos Céus que fosse da casa dela.
- O tempo é relativo. Sabia? Que o tempo é uma criação humana? Nós vivemos submetidos a algo que nós mesmos criamos. Não é engraçado, Misterioso ?
Ela tagarelou e eu pisquei algumas vezes, sem acreditar que aquele era realmente o tópico que ela estava se dispondo a abordar numa sexta à noite às três da manhã, sem contar no meu novo apelido. Pigarreei, dando a noite como terminada.
- Vem, , eu vou te levar pra casa.
- Se você me soltar, eu vou cair – ela disse, séria, e eu coloquei uma mecha que caía por seu rosto atrás de sua orelha.
- Eu tô aqui, . Não precisa se preocupar.
E assentiu, apenas, agora mantendo a expressão e me abraçando por baixo, porque eu era meio alto pra ela manter o braço no meu pescoço. Envolveu seus dois braços ao redor do meu torso, enquanto eu segurava firmemente a sua cintura, impendindo-a de fazer qualquer movimento em falso, mesmo com aqueles saltos altos e finos que ela sempre usava. Me surpreendi ao sentir recostar a cabeça no meu peito e, quando eu olhei pra ela, essa tinha fechado os olhos, deixando-se guiar até o carro. E então, ela disse “para onde você está me levando, Misterioso ?”. E eu só sorri largo, sem respondê-la.
Andamos até o carro e eu abri a porta do passageiro do meu Jeep, ajudando a se acomodar. Ela sorriu pra mim, com os olhos bem abertos e os dentes bem alinhados e recostou a cabeça na cadeira revestida de couro. Fechei sua porta e dei a volta no carro, para só então entrar no banco do motorista e seguir o caminho do apartamento de Leslie.

Nos primeiros dez minutos, tagarelava sem parar sobre qualquer coisa que passasse na sua cabeça, como ela sempre fazia, principalmente quando estava alegrinha. Falou da festa, do seu dia, da Leslie, do jantar ruim e do restaurante novo que tinha frequentado durante a semana e que a gente passou por ele. E então, silêncio total. Mas não era um silêncio desconfortável. Era... Pacífico.
Nada que eu tivesse conhecido com nos últimos anos.
- Você não gosta de observar as ruas da cidade à noite? – ela comentou, num tom empolgado, com os pés no painel do carro. Tinha uma das mãos na janela e observava tudo com bastante atenção, parecendo estar muito interessada em cada detalhe de ruas comuns de LA. – As luzes me deixam fascinada.
Ri um pouco da escolha de palavras.
- Eu acho legal dirigir à noite, também. Essa hora, principalmente, é mais tranquilo, quase não tem carro – respondi, sincero, parando pra ponderar sobre e chegando a conclusão que a sempre gosta de conversar umas coisas inúteis que ninguém mais liga. Estava prestes a sorrir inconscientemente com meu próprio pensamento quando ela continuou:
- Você sempre fica um saco quando tem trânsito...
Comentou, despreocupadamente e riu um pouco, desfazendo o penteado para recostar melhor a cabeça no banco e deixando seu cabelo cair como cascatas por seu colo, ainda olhando pra janela. Ela pareceu não achar que disse nada de errado, como quem descreve a característica de um bom amigo que a gente conhece há tempo, sendo que a boca do meu estômago apertou um pouco e eu engoli em seco.
Éramos eu e . A gente não era amigos. A conotação que ela tinha usado era estranha e parecia íntima demais, fora o jeito que ela mexia no cabelo...
Sendo que, ao mesmo tempo, era a . Eu nunca foi íntimo de ninguém no mundo como eu fui íntimo da .
- E você, já aprendeu a dirigir? – retruquei, tentando esticar um pouco a piada, dando uma piscadela para , que revirou os olhos, mas riu um pouquinho, com a voz rouca, mas ainda arrastada. Como se seus ânimos tivessem acalmado um pouco. O sinal estava vermelho, agora, então eu virei um pouco de lado, voltando minha atenção para ela.
- Só quando você deixar de ser um pé no saco.
- Você se divide bastante entre me elogiar e me xingar.
- Isso é porque você me deixa bem confusa, Misterioso .
Finalmente, ela, que estava meio deitada, meio sentada, com os pés descalços no painel do meu carro favorito, virou seu rosto ainda recostado no banco para mim, deu de ombros e suspirou, séria. Eu a observava em cada minúsculo detalhe, olhando pra ela ali, ao meu lado, de novo, no banco do passageiro com os pés pra cima, pela milésima vez, porque não parecia verdade. As coisas que saíam da boca dela não pareciam verdade.
não usava mais do seu charme comigo, por mais que ele estivesse sempre lá. não me dava mais apelidos ou brincava com as minhas manias. Mas aqui estava ela: fazendo comigo exatamente o que queria porque ela simplesmente conseguia. No meio da minha linha de raciocínio, enquanto eu continuava olhando pra ela e pensando todas aquelas coisas, ouvi sua voz soar, doce: – O sinal tá verde, .
A gente se encarou por mais um breve momento, e então, eu apertei um pouco as mãos em volta do volante do carro e virei pra frente de novo, seguindo o caminho pelas ruas vazias e iluminadas de LA. Durante o silêncio – momentos raros quando se tinha como companhia, eu voltei a tentar entender a facilidade que essa mulher tinha em dizer exatamente o que se passava na sua cabeça, sem medo ou vergonha.
Parecia surreal pra mim como a gente não tinha se visto por mais de um ano, não parava pra conversar a muito mais que isso, mal tínhamos notícia um do outro, e lá estava ela – deitada com o banco recostado, com os pés pra cima no painel do meu carro, guiando a minha noite e dizendo todas essas coisas. Como se tivéssemos voltado seis anos no tempo. Como se esses seis anos não tivessem acontecido.
- Você tomou a poção da verdade hoje, por acaso? – resolvi brincar, olhando pra frente. se acomodou um pouco no banco, virando de lado, ficando mais virada para mim e sorrindo largo.
- Sim. Se ela se chamar “Tequila” – eu abri um sorriso de volta, sem responder mais nada. Parecendo incomodada com o silêncio repentino que não fazia muita diferença pra mim, dedicou-se a procurar por seu celular.
- O que é que você quer agora, ? – o apelido saía involuntariamente, agora, e eu nem chegava a me arrepender tanto assim quando usava, mas meu tom impaciente com certeza se mostrou. parou pra me encarar de novo, e eu comecei a achar que a gente estava fazendo isso vezes demais – estava com um braço apoiado no banco, virada de lado, os pés pra cima, procurando a bolsa. Mas não se movia. Não conseguiu parar de encarar. Quis saber o que se passava na sua cabeça, quis muito saber o que aquela expressão significava, mas ela não parecia disposta a me revelar.
Balançou um pouco a cabeça antes de se dedicar à busca novamente.
- Eu queria conectar meu celular pelo bluetooth.
Ela, então, fez uma imitação ridícula de alguma coisa que eu, apesar de me esforçar, não conseguiu identificar, mas, ao parar o carro, levantei um pouco, tirei meu celular do bolso e dei pra ela. Configurei o rádio do carro e avisei:
- O meu já tá conectado, só escolhe a música.
- Você é genial. Parabéns – assenti com a cabeça, agradecendo, vendo-a bater palminhas e a observei com o canto do olho enquanto ela mexia alegremente pelo meu Spotify.
Pouquíssimo tempo depois, ao parar o carro no drive da MC, notei que me analisava enquanto eu pegava a carteira no bolso e sorri com o canto do lábio.
- Onde é que a gente tá?
Porra, , achei meio óbvio.
- No drive da MC. – respondi, mesmo assim. – Você precisa comer alguma coisa.
- Mas eu prefiro a BK. E não estou com fome. – reclamou, virando-se para a janela de novo.
- Não é uma democracia.
- Nunca é quando você está envolvido.
- Nunca disse que seria – sorri cínico, e ela retribuiu com tanto cinismo quanto. – E depois nem vem querer comer minhas batatas, .
Antes que pudesse retrucar, abri a janela e sorri para a atendente, que não disfarçou nem um pouco a surpresa ao nos ver.
- Boa noite... – esforçei-me um pouco para ler o crachá. – Holly. Por favor, duas ofertas do Triplo Bacon. Uma sem verdura e uma com, um suco de uva e uma Coca. Tem mostarda? Certo. Obrigado, Holly.
E então, ela fez algumas perguntas, disse que eu era um de seus atores favoritos, etc, etc. A garota saiu de sua cabine e veio tirar uma selfie comigo, que aceitei de bom grado e tentei ser o mais gentil possível. Já , parecia estar cansada demais para se preocupar com qualquer outra coisa. Notei que me observava pagar o lanche com o cartão de crédito e a gente partiu para a próxima cabine, onde esperaria os sanduíches saírem.
, então, dedicou-se em procurar uma música para escutar, e eu aprovei mentalmente quando os acordes de Don’t Panic começaram – era a primeira música do Parachutes, o primeiro álbum da Coldplay, uma das bandas que a gente costumava ouvir a discografia por horas quando a gente tava junto. Mas tentei não ligar uma coisa a outra. A gente, então, se dedicou a ouvir o album e prestar atenção nele, despreocupadamente, com a voz de , como sempre, no fundo. Mas eu não reclamava.
A gente ficou nessa até que chegou a nossa vez e a gente pegou nossos respectivos sanduíches.

- Não acredito que você ainda não goste de Coca – comentou, com a boca cheia de batatas, dando um grande gole no seu refrigerante. Eu ri um pouco pelo uso da palavra “ainda”, como se fosse chegar um dia em que eu fosse realmente gostar daquela... coisa que mais soava como um veneno.
Mas quem sou eu pra julgar? Não é como se cigarro fosse muito melhor... – É tipo, a melhor coisa já inventada.
Eu tinha decidido furar com a regra de não comer no carro por um dia, porque estava com muita fome. Quer dizer, não tinha nada a ver com .
Quando a gente chegou basicamente na rua do apartamento que ela dividia com Leslie, eu mal havia começado a comer, porque estava dirigindo. , no entanto, não conseguiu esperar.
- Não acredito que você está comendo no meu carro.
riu, prendendo um pouco o riso, porque a boca estava cheia de comida e refrigerante.
- Não acredito que você lembra que eu não como com verdura.
Eu a olhei com o canto de olho, parando o carro na frente do edifício em que ela morava. Lançei-lhe um olhar específico, porque na verdade fui pedindo no automático, mas não era pra ela ter notado que eu lembrava. – que foi? Achei que fosse um jogo.
- Tá. Perdi.
Ela, então, jogou duas batatas em mim, rindo.
E então, ficou séria, bem séria, tirou os pés do painel, e endireitou-se no banco. Provavelmente porque eu não contive a cara de bravo, mesmo que só olhasse pra frente. E sabia que quando eu estava meio puto eu ficava piscando feito louco, exatamente como eu estava fazendo.
Aquele carro era um limite.
Repousei as mãos no volante, apertando-o com força. Respirei fundo e soltei o ar pesado.
- , eu...
- Tudo bem, . Só junte suas coisas.
A garota assentiu, inclinando-se até o meu banco e catando as duas batatas que havia jogado em mim, para então, colocá-las na boca. Eu sorri pra ela, meio falso, e ela pegou sua sacola da MC – que já estava vazia –, parou, e virou os olhos pra mim de novo, confusa, como quem não sabe o que fazer.
Não deu pra conter um sorriso descabido.
Me levantei, com a sacola quase cheia na mão, dei a volta no carro, abri a porta com a mão livre e a ajudei a sair – juntei sua bolsa pequena no ombro e seus sapatos de salto jogados no piso do carro e abri o braço para servir de apoio pra ela, que prontamente aceitou, do mesmo jeito que a gente saiu da festa. Então, tranquei o carro com os dedos que sobravam e seguravam a chave e decidi que deixá-la especificamente no seu apartamento seria a melhor opção. Nós passamos pelo Hall do prédio até o elevador naquela mesma posição.
A gente subiu em silêncio até o sétimo andar do prédio de dez andares, que era panorâmico, então, se entreteu com as “luzes da cidade que a deixavam fascinada” enquanto eu me dedicava em procurar a chave na sua bolsa com as mil coisas que eu tinha na mão, além de agarrada a mim como um bicho preguiça. Quando eu finalmente consegui abrir a porta do apartamento, pensei ter aberto a porta de Nárnia de tão feliz que ela ficou. Se soltou de mim e abriu o maior sorriso da sua vida inteira, correndo pro sofá e se jogando lá, fechou os olhos e continou sorrindo. Fui estocando suas coisas em cima da mesa da sala de estar e, não sei, acho que como o barulho das coisas tilintando, ela se despertou repentinamente de seus devaneios e me chamou:
- ?
- Eu tô indo, . Você vai ficar bem? Mandei um whatsapp pra Leslie dizendo que te deixei em casa, salva e bem alimentada. Sã já não posso dar a certeza.
Ela riu, como eu esperava, mas prontamente se levantou e veio até mim, me segurando pela mão. Fechou a porta atrás de mim, movimento que eu acompanhei com os olhos e me puxou pelo braço.
- ? – resumi todas as minhas dúvidas numa pergunta só.
- Você não precisa ir embora agora.
Fui seguindo com ela, mas parei bruscamente na metade do caminho, antes que a gente chegasse no sofá, e ela parou também, por impulso, dando um passo pra trás. Aquela noite já tinha ido longe demais, a trégua foi boa enquanto durou – mas já já estaria sóbria e voltaria a me odiar pelos cantos, e acho que a nossa interação sóbria de ontem valeu por um ano inteiro.
Ela olhou pra cima, esperando que eu olhasse de volta – aqueles olhos eram, realmente, tentadores, e era muito difícil dizer qualquer coisa além de “sim, claro, óbvio ou lógico” pra eles. Pra ser sincero, eu também não queria ir embora ainda. Mas eram quatro da manhã de um dia que provavelmente nunca teria acontecido na vida real – eu tinha certeza de que estava vivendo num universo paralelo – e eu queria estar bem longe daqui quando ela acordasse.
- Tá na hora, , são quatro da manhã. Cê tem que beber muita água e dormir.
- Não posso fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
Revirei os olhos.
- Tchau, . Daqui a uns dois anos a gente se vê de novo. – brinquei, mas ela pareceu não achar engraçado.
- ... – segurou minha mão com as suas duas pequenas e macias. – Por favor.
- Se eu estiver aqui amanhã, você me mata.
- Prometo só te torturar – ela puxou meu braço mais uma vez, com um sorriso sapeca no rosto. Permaneci imóvel, olhando pra ela com um sorriso incrédulo no rosto e negando com a cabeça.
Aquilo já havia ido longe demais. Eu realmente não fazia ideia do que estava acontecendo. Era estranho estar ali de novo – o apartamento estava um pouco diferente do que eu me lembrava, mas a estrutura era a mesma. Era o apartamento de Leslie – eu vinha aqui quando estava viajando ou quando ela fosse passar muito tempo fora. Não era como se não se sentisse em casa ali.
– Por favor... Só termina de comer, pelo menos. A gente assiste um episódio só de How I Met Your Mother e você vai embora.
- Tá. Mas a gente assiste um que Ted e Robin não estejam juntos.
Foi a vez dela revirar os olhos.
- Eles foram feitos um pro outro, . Supera.
- Boa noite, .
Fiz menção de ir embora, me virando pro lado da porta, mas aí ela riu enquanto me puxava com mais força pro sofá, e eu caí, bem ao lado dela.
- Só senta, , eu quero colocar minha perna por cima da sua.
Eu peguei o controle da televisão, que estava do outro lado dela, e , como dito, colocou suas (deliciosas) pernas semi cobertas pelo vestido fendado por cima das minhas e encaixou-se entre meu peito e meu braço. Coloquei na opção Smart, selecionei o aplicativo da Netflix, escolhi um episódio aleatório da quinta temporada da série e repousei a sacola da MC Donalds sobre as pernas que estavam no meu colo, finalmente parando para comer minhas tão esperadas batatas.
Sendo acompanhado por uma ainda esfomeada, é claro.
- , minhas batatas.
- Pshhhh. Eles estão cantando Bangity Bang.

Já tinha amanhecido quando eu acordei, do nada, com um celular vibrando no sofá. Era o de , notei quando coloquei a mão no bolso da minha calça e vi que este não tremia. Peguei o celular e arregalei os olhos quando notei que eram quase oito da manhã, e que a Leslie estava ligando. Talvez tivesse esquecido a chave. Não me importei em atender na hora.
Estava com um puta torcicolo. A gente tinha apagado na mesma posição que a gente estava quando a gente começou a assistir a série – , claramente, não durou mais que meio episódio – e esta ainda rolava na televisão, mas dava pra ouvir os passarinhos cantando de quando você acorda cedo. Quis me espreguiçar, mas não tinha como fazer isso sem acordar .
E então, um choque de realidade: estava na casa de . . A minha ex-namorada, , aquela com quem eu tinha terminado cinco anos antes e que arrancaria todos os meus cabelos assim que me visse ali, sóbria. E o pior: de ressaca.
de ressaca era a representação do inferno de Dante. Eu sabia bem.
Minha sorte era que a garota tinha um sono bem pesado, e disso eu me lembrava. Com todo cuidado do mundo, apoiei um de seus braços por debaixo das pernas que estavam repousadas no meu colo e o outro por debaixo de seu torso, que estava recostado no meu peito. Juntei todas as minhas forças para levantar com equilíbrio – o que não foi muito difícil, visto que era minúscula – e consegui, levando-a como quem segura a noiva até o que eu sabia que era o quarto dela, apesar de nunca ter chegado a entrar lá. Então, deitei-a adormecida sobre a grande cama de casal, a cobri com o cobertor e fechei as cortinas do quarto.
Deixei um copo de água ao lado na cabiceira da cama antes de sair pela porta da frente.


Capítulo 3

Acordei com os lábios mais secos que o normal; meu estômago gritava com uma ardência insuportável e a minha cabeça parecia estar em estado de combustão. Eu, que estava deitada de bruços, tentei fazer um esforcinho pra me levantar, mesmo com o corpo meio dolorido – não durou muito tempo. Me joguei de volta na cama e resolvi permanecer ali mesmo. Era, claramente, o melhor lugar do mundo inteiro.
Abri um pouquinho os olhos com desgosto. Tinha um gosto muito ruim na boca, notei depois de abrir e fechá-la algumas vezes, fazendo um barulho irritante. Passei os olhos por mim mesma e notei, também, que ainda estava com o vestido da noite anterior, e que a fronha do meu travesseiro (que antes era perfeitamente branca, assim como o lençol que cobria a cama e o cobertor que estava sobre ela) estava manchada de preto e vermelho da maquiagem. Respirei fundo antes de juntar todas as minhas forças e sentar na cama, olhando ao redor do meu próprio quarto com uma sensação muito estranha de não fazer ideia do que estava acontecendo ou do que tinha acontecido. Ou de quem eu era. Mal sabia meu nome. E como raios eu tinha chegado aqui?
Mas o que me deixou intrigada mesmo foi ver um copo de água na minha mesa de cabeceira. Eu sempre esquecia o copo de água, e sempre tinha um debate caloroso interno sobre ter que me levantar pra pegar. Acontecia frequentemente em dias como esse.
De todo jeito, agradeci aos céus quando senti o líquido que, apesar de natural, desceu molhando por dentro, sorri em alívio e acho que até vi estrelas, só pra, então, me jogar na cama de novo. Tateei às cegas pelo meu celular na cama, mas não achei.
Dane-se, pensei, não é como se fosse ter alguma coisa muito urgente pra resolver num sábado de manhã. Daí, abracei novamente meu travesseiro manchado e me deixei minha mente vagar até dormir de novo, o que não demorou muito.

x

Quando eu acordei novo, dessa vez, foi com uma movimentação fora do normal no meu apartamentozinho. Ouvi várias vozes além da de Leslie – talvez Oliver e China? Não estava muito a fim de refletir sobre o assunto, porque, naquele momento, eu estava cagando pra conclusão.
Foi bem instantâneo, na verdade, a minha gastrite dar sinal de vida. Abri os olhos, prestes a gritar com eles para fazerem menos barulho, era a porcaria de um sábado de manhã, pelo amor de Deus, mas algo foi mais rápido em subir pelo meu estômago, e esse algo era bem nojento e tinha um tom amarelado, que me fez levantar num salto e correr para o banheiro.
Senti que tinha colocado minha vida inteira para fora, de uma vez só, na pia mesmo. Uma careta ao me olhar no espelho. E então, de novo.
Eu odiava aquela sensação. Odiava muito estar naquele estado.
Precisava muito, muito, de água, mais do que qualquer coisa que pudesse imaginar no mundo, e então, lavei meu rosto só com água e passei um pouco na nuca, além de escovar os dentes. Decidi que pegaria um copo de água na geladeira e depois tomaria o melhor banho da minha vida – o que me fez prender os cabelos num coque justo e separar algumas coisas para preparar a banheira. Me dediquei, então, a fazer meu caminho até a cozinha, mas parei bem no meio do corredor porque, assim que abri a porta do meu quarto, todo mundo parou pra me encarar como se o apocalipse tivesse acontecido e eu tivesse ficado. E então, alguém desligou a televisão, subitamente.
Pisquei algumas vezes, meio confusa. Era sábado de manhã. A gente tinha acabado de se ver. Ao passar os olhos rapidamente pelo ambiente, curiosa, notei que todos os meus amigos estavam ali – China, sentado num dos banquinhos atrelados à grande bancada que dividia a sala da cozinha americana, rapidamente levantou-se, assim que me viu, ficando ao lado de Pipper, que já estava em pé, com uma caneca de café esfumaçante na mão, porém, ambos estavam perfeitamente limpinhos e com roupas diferentes do dia anterior – roupas casuais, rosto limpo e cabelos recém-molhados. Tanaka estava meio tenso e Pipper, séria. Então, a atenção me foi tomada quando quase ouvi a voz de Oliver – que estava sentado de frente para China – dizer alguma coisa, mas sua boca foi tapada pelas mãos de uma Leslie que o abraçava por trás e sorria de maneira estranha. Forçada. E então, todos sorriram daquele mesmo jeito, sem dizer nada – exceto, por, novamente, Pipper, que revirou os olhos.
- Nenhuma piadinha sobre o meu estado? Sério? – arqueei as sobrancelhas, muito desconfiada.
Seria, com certeza, a primeira coisa que eles fariam. Que qualquer um de nós faria, na verdade.
- Ah, acredite. Eu tenho várias.
E o japonês recebeu um beliscão de Leslie ao dizê-lo. Parei uns dez segundos para encará-los, um por um, muito desconfiada, porque eles estavam estranhos demais – e, tudo bem, estava com uma puta ressaca, quase não me importava, mas o âmago no meu estômago me dizia que tinha alguma coisa acontecendo.
Esperei que eles dissessem alguma coisa. Leslie ainda tampava a boca de Oliver.
Foda-se.
- Ok. Vou tomar um banho. Alguém viu meu celular?
- Não! – todos responderam em uníssono.
Ok, bizarro, fiz uma careta e dei um passo pra trás, levantando as mãos em rendição. Tentei pensar nas possibilidades do que poderia ter acontecido na noite anterior que o deixassem naquele estado.
Passei meu olhar desconfiado por cada um deles enquanto me encaminhava para a geladeira e passava pela bancada, tentando me lembrar de cada detalhe da noite, alguma coisa específica que trouxesse aquela reação. Abri a porta da geladeira, de costas para eles, pensando no que poderia estar acontecendo, e só pude ouvir o barulho do cochicho. Revirei os olhos.
Chegamos no jantar, ok. Conversamos na mesa, algumas taças de vinho, ok. Rimos muito relembrando de umas histórias ridículas uns dos outros com o passar da festa, ok. .
Quis vomitar de novo quando me lembrei dele e das coisas que tinha me dito.
Eu não preciso esquecer alguém que eu nunca cheguei a amar, .
Engoli a bile e então, um blackout. Não me vinha mais nada à cabeça. Tinha alguns flashes de estar na pista de dança com Pipper gritando um mix de Lonely Boy e umas músicas da Beyoncé, e então, alguns shots de Tequila com o Japa. Conversei com várias pessoas que eu não devia ter falado sobre várias coisas que eu não devia ter falado pra nenhuma dessas pessoas. Suspirei, balançando a cabeça e finalmente pegando meu copo com água e bebendo até o fim.
Sentia o olhar curioso de cada um deles sobre mim, e saco, que incômodo, mas assim que me virei pra reclamar com eles, todos agiram como se estivessem conversando e vivendo normal. Revirei os olhos.
Patético.
- Tá. Vocês já podem me falar o que está acontecendo.
- Tem uma aspirina pra você aqui. E é bom você tomar o omeprazol pra sua gastrite, também – Leslie, que usava uma saia jeans e uma blusinha soltinha, pegou os comprimidos em cima da bancada, na caixinha de remédios e entregou-os para mim, bem na mão. Assenti, agradecendo com um meio sorriso, mas ainda assim, olhando meio desconfiada. Eu amava Leslie de todo o meu coração e o quanto ela cuidava de mim, mas eu estava curiosa e intrigada demais com o comportamento bizarro dos meus amigos.
Tudo bem que eles são sempre bem doidos, mas normalmente, eles me incluíam nessas coisas de gente de doida, porque sinceramente, se tem alguém doido aqui, essa pessoa era eu. Eu era tipo a doida líder. A doida mor.
Logo depois, China comentou:
- Vai tomar banho, , cê tá fedendo.
- Quem deixou esse chinês dos infernos entrar na minha casa? – eu, então, reclamei, perdendo totalmente a paciência e recebendo uma careta em resposta. Pipper deu de ombros, meio que concordando. Minha cabeça ainda latejava, meu estômago ardia e esses caras com esse comportamento estavam me dando nos nervos. – Por que vocês todos estão aqui, na verdade? A gente já se viu ontem de noite. Não tá bom? Vocês não tem vida? Não tem casa pra morar?
90% das pessoas que estavam ali nem moravam naquela casa, por Deus. Eu perdi completamente as estribeiras – só queria paz, silêncio e poder andar pelada por minha própria casa, porque eu ainda estava tendo que usar aquele vestido meio colado e desconfortável, mas não podia, porque eles estavam lá. E eles todos estavam tão estranhos. Estava tudo muito estranho.
Silêncio, enquanto todos se encaravam.
- Fudeu, gente – foi Oliver quem disse. – Eu estava contando que ela fosse acordar de bom humor.
- A ? – ouvi, também, o som da risada de Leslie.
Lambi os lábios, fazendo um barulho irritante com a boca, demonstrando minha insatisfação. Tudo bem, eu não era uma pessoa da manhã. Mas cada um com seus defeitos.
- Mais fácil ela arrumar um emprego – Pipper esticou a piada, rindo, e então, todos a acompanharam, exceto eu, que bufei, irritadiça, e coloquei o copo na bancada, fazendo com que o barulho de vidro contra o mármore inundasse o lugar. Fiz uma expressão brava enquanto os encarava.
- Que diabos está acontecendo, vocês podem me dizer? – apoiei os dois braços na bancada, olhando bem nos olhos de cada um dos meus melhores amigos, mesmo com o rosto meio borrado de rímel e batom, um coque bem mal feito no cabelo e a expressão de gente doida. Eu falava com o tom firme, rude e alto. – É o clube do “Vamos estressar a por nenhum motivo aparente”? “Vou importunar a no sábado de manhã quando ela queria privacidade porque eu não tenho nada de melhor pra fazer com a minha vida”? É esse o clube idiota de vocês? É ESSE?
Então, o celular de Pipper apitou, no centro da mesa, interrompendo meu discurso.
E era uma ligação de .
Todas as pessoas da mesa encararam o celular no centro da bancada. Até que Pipper pegou o celular, com certa rapidez, e escondeu entre as pernas semicobertas pelos shorts jeans. Mas ele continuava tocando, até que parou.
Cinco segundos de total silêncio em que eu continuava encarando a bancada que agora só tinha uma jarra com café, açúcar, leite em pó e algumas canecas.
- Pipper? – perguntei, com a voz meio falha, depois de engolir em seco, com muito medo da resposta que receberia após a minha pergunta: – Por que é que está te ligando?
Várias coisas se passaram pela minha cabeça ao esperar pela resposta que seguia.
Porra. Eu estava surtando. Meu coração estava batendo muito, muito forte, e eu não conseguia parar de pensar umas coisas muito absurdas e eu precisava tanto, tanto de um pote de sorvete inteiro da Haagen Dasz. Só pra mim.
Pipper foi a única dos amigos que chegou ao grupo após o meu término com – nos foi apresentada assim que assumiu como baterista da Silver Linings, sendo a única da banda que era mulher e também não fazia parte da formação original, no fim de dois mil e treze – China se interessou por ela logo de cara e a gente passou a se aproximar. Com o tempo, ela acabou se tornando parte do grupo, estando com ele ou não.
A questão é que Pipper nunca gostou de . Ela era a única de nós que era completamente 100% team , e não fazia nenhum caso de esconder isso de ninguém, muito menos dele. Eles não mantinham contato e nem se sentiam obrigados a serem muito educados um com o outro.
Quando eu vi o nome dele no visor, senti vontade de vomitar de novo – a ideia de voltar pra minha vida era assustadora demais, me deixava em pânico. Claro que eu me sentia mal, sim, porque eu tinha continuado bem mais próxima do nosso grupo de amigos do que ele, que ainda os encontrava, mas não com a mesma frequência. Mas eu não me sentia mal o suficiente para abrir mão dos meus amigos, mesmo que um pouco. E agora a Pipper, que era a única que havia comprado a minha briga, também estava sendo corrompida por aquele macaco loiro charmoso dos infernos. Não que eu a julgasse – havia cedido aos seus encantos por muito menos.
De todo jeito, eu não fazia ideia do que fazer. Minha cabeça não parava de rodar. O fluxo de pensamentos era rápido demais e uma angústia passou a preencher meu peito – eu não fazia nem ideia do que eu estava pensando e precisava acalmar minha cabeça. Precisava sentar. O fiz, no banquinho mais próximo, engolindo a aspirina sem água mesmo, como se aquilo fosse salvar a minha vida.
- , não surta. Vá tomar um banho e a gente conversa direitinho.
A voz de Leslie, que normalmente servia de calmante, só serviu para atiçar ainda mais a minha curiosidade e, principalmente, as minhas neuras. O telefone de Pipper vibrou de novo. Mais uma mensagem de , eu pensei, meu Deus, eu estou ferrada, eu estou tão ferrada. Era sobre ele que eles queriam conversar. Alguma coisa havia acontecido com . Era por isso que eles estavam agindo daquela forma.
Minha respiração descompassou.
- Eu não tenho tempo para banhos! Eu estou surtando! – gritei, levantando-me novamente, e então, encarei cada um dos meus amigos com o que Barney Stinson chamaria de crazy eyes.
George tentava inutilmente prender o sorriso. Oliver evitava o olhar do meu. Leslie tinha uma careta no rosto, compassiva. Mas Pipper...
Ela revirou os olhos.
- , tá bom, já que você não sabe ser uma pessoa normal – Pipper enfatizou, tomando um gole de seu café e fazendo questão de revirar os olhos mais uma vez. Depois de engolir o líquido, ela, calmamente, continuou seu discurso: – E está surtando por nada, vou te dar um motivo pra surtar: você tá na TV. E em todas as matérias de sites de fofoca. E tá todo mundo louco no Twitter e no Instagram porque acha que você voltou com o . É bom você nem abrir o celular.
Aquilo tudo veio como uma enxurrada. Como se eu estivesse em pé numa avalanche de neve e fosse completamente engolida pela onda gelada que me fazia rolar por uma montanha e bater a cabeça numa pedra grande e dura.
E então, me sentei de novo, tentando absorver cada palavra que ela tinha dito, repetindo um mantra mentalmente: isso é mentira. Isso não é real. Isso é um pesadelo. Isso é mentira. Isso não é real. Isso é um pesadelo. Isso é mentira. Isso não é real.
Acorda, , por favor, acorda.
- Ah, então, a Pipper esqueceu de mencionar uma parte... – Oliver se pronunciou. – O tá vindo pra cá. Tipo agora.

X

Me sentei, de toalha, no vaso sanitário com tampa fechada e respirei fundo, tentando juntar cada resquício de coragem que ainda havia dentro de mim como quem cata conchinhas na areia da praia. Fechei os olhos com força e fiz uma careta antes de, com meu celular em mãos, clicar no aplicativo do Safari e pesquisar pelo nome de .
Desejei nunca ter feito isso, pra começar. Todas as fontes eram muito recentes e mencionavam, também, o meu nome – dizendo coisas sobre o primeiro amor nunca morrer, o casal queridinho dos anos dois mil estar de volta e com tudo, e todos tinham várias fotos de nós dois, a maioria antiga.
Rolei o dedo pra cima e cliquei no primeiro site que vi, contendo uma manchete dizendo e voltaram? Confira por si mesmo”.
A matéria em especial tinha várias fotos nossas, desde as mais antigas possíveis, até umas mais recentes, umas formais e públicas e outras mais íntimas – eu e tivemos muitas fotos expostas, afinal, é o que se espera de um relacionamento de um casal teen em evidência. A mídia se alimentava de cada mínimo passo que nós dávamos, principalmente depois que a série acabou e nós, teoricamente, continuamos juntos. Era um puta inferno.
O jornalista basicamente fez uma linha do tempo com fotos nossas:
Na primeira foto, a gente era, basicamente, dois fetos – nem lembro direito quantos anos a gente tinha, talvez uns doze, mas de certeza, foi tirada no primeiro MTV Movie Awards que a gente frequentou, lá por 2006, bem no comecinho da segunda temporada da Truth Or Dare, quando nossos personagens estavam começando a conquistar um espaço maior que o esperado na série, porque o público estava se identificando com nossos personagens e o foco da série foi começando a mudar. Era uma típica foto de premiação – eu e não éramos muito próximos nessa época ainda, pelo contrário, na verdade, a gente não se gostava muito, e acho que deixei isso meio claro na foto, em que um de treze anos me abraça de lado por puro marketing com seu sorriso gracioso terno preto, e eu dou um sorrisinho fechado, com um vestidinho cinza com brilhantes e minisaltos. Eu lembro de estar tão nervosa nesse dia (e lembro, também, que estava um pé no saco, agindo como se fosse muito normal porque ele se achava a estrela do cinema). Não evitei uma risadinha leve com a lembrança. Foi o primeiro evento que atendemos juntos, representando a série.
Já a segunda foto, nós estávamos mais crescidos e já éramos muito amigos na época – com uns quinze anos, na gravação da season finale da quinta temporada da série (que teve sete, no total). Estávamos no set de filmagem de Truth or Dare, o vestido de Tommy Hart e eu, de Willa Rivers, ele, com uma jersey e um colete do time de basquete da escola, com os cabelos presos pra trás e eu, que ainda tinha cabelos loiros na época, vestida com as cores do time do colégio, vermelho e branco, um pouco antes de filmar a parte do episódio em que descobriríamos se Tommy ganharia uma bolsa para a Universidade ou não. Tiramos pouco tempo antes de gravar o episódio, na verdade – eu o abraçava por cima com gosto e dava um beijo estalado em sua bochecha, e ele sorria largo, me segurando pela cintura. Eu, ao menos, me lembrava dessa foto, mas esse dia era claro e vívido na minha mente, nós estávamos tão felizes nesse dia, tão bem e tão juntos, e aquela foto parecia captar tanto essa sintonia que os meus olhos se encheram de água.
Tinha uma foto, também, de nós dois, agora com nossos dezessete anos, no iniciozinho do namoro – era uma foto tirada por um papparazzi, na verdade, e eu soltei uma risadinha porque era uma foto muito engraçada: eu estava com as pernas bem abertas e abraçava , tentando, de todo jeito, chamar a atenção dele, que, apesar de ter os braços ao meu redor, mexia no celular.
E uma última foto. A que pareceu mais como um soco no estômago.
Era uma foto próxima, íntima – eu me lembrava que Leslie a havia postado em seu próprio Instagram, quase cinco anos antes, com uma legenda cheia de corações. A foto ainda estava lá, apesar de ser de 2013. Ela nunca apagou. Um mês depois do dia em que essa foto foi tirada, eu e terminaríamos o nosso relacionamento de quase dois anos. Foi a nossa última foto íntima.
Eu lembrava que ela havia tirado a foto, pois no dia, estava ao nosso lado no banco de trás do carro de Oliver – eu lembrava também, claramente, de a gente estar numa roadtrip para Malibu, com China no passageiro. Pipper ainda não era muito próxima da gente na época.
Na foto, eu estava sentada (quase deitada) entre as pernas de , com a mão em seu pescoço e as pernas dobradas, apoiadas em uma de suas coxas e os pés com um tênis em cima do banco. Ele tinha a mão apoiada na minha panturrilha coberta por uma calça legging preta e olhava pra mim sorrindo meio irônico, mostrando uma de suas covinhas, visto que estava de perfil. Eu, que estava de frente para a câmera pela posição, gargalhava, com um sorriso largo que mostrava os meus dentes e o jeito apaixonado que olhava para , com o rosto meio escondido pelo dele. No fundo da foto, estava a janela do carro, que mostrava algumas árvores e o Céu que quase se punha, além do Vans que eu usava e um pedaço do banco da frente.
Foi inevitável a sensação de nostalgia e saudade que me bateu ao ver aquelas fotos.
e ficaram conhecidos como o casal queridinho da América depois de ficarem juntos tanto na sua aparição na série televisiva Truth or Dare (2004-2012), como na vida real, por pouco mais de um ano. O término do casal, em setembro de 2013, foi um choque para todos os fãs (o one true pairing que você respeita! Ou respeitava? E respeita de novo!), e até mesmo para amigos íntimos – segundo fontes próximas que preferiram não se identificar na época, o término foi “inesperado, conturbado e frustrante para todos”, disse. “ambos demoraram a superar”.
Quis continuar o meu mantra, mas não tinha palavras para descrever como me sentia em relação àquela matéria. Não tinha palavras para descrever tudo que se passava tão rápido na minha mente lendo todas aquelas coisas e tendo acesso de novo a todas aquelas fotos e todas aquelas sensações tão afundadas dentro de mim.
“Porém, ainda há esperança! Não só fotos dos dois juntos, mas fontes que revelam que os dois passaram um bom tempo conversando intimamente na grande festa de aniversário de Oliver Prior. Confira na íntegra!”
E então, finalmente, a foto recente, em que, saindo do salão em que ocorreu a festa de Oliver e indo em direção ao carro, eu, que estava abraçada a , levantava os olhos para o rosto dele, enquanto dizia alguma coisa. Já ele, olhava para mim como se risse do que eu estava dizendo, mas tinha uma das mãos em direção ao carro, apertando na chave o botão para abri-lo.
Tudo que eu podia pensar era: merda.
E então, vários, vários flashes, de vários momentos aleatórios da minha noite, alguns com , alguns no seu carro, e eu fechei os olhos com força, sentindo meu coração bater muito, muito forte e sem controle.
“Ela parecia estar com ciúmes dele e estava bem bêbada, se quer saber”, disse a fonte, que preferiu não se identificar. “Eu estava conversando com sobre trabalho e nós estávamos, você sabe... Hm... Conversando (risos). E então, chegou entre nós dois como um furacão e me dispensou, me mandou ir embora. Eu fui embora, claro. Não me reduzo a ficar brigando por homem. Nem se esse homem for .”
Ainda bem que a nossa pequena estrela não tem a mesma maturidade, não é mesmo?! Acredito que agora está claro o real motivo da brasileira ter sumido das telinhas... Bafo! Outras fontes dizem tê-los visto saindo da festa e indo comer um lanche na MC Donalds. Gente como a gente, ué! Será que tem como não shippar?

Havia, então, por último, mais uma foto – uma que havia tirado com uma garota na Mc Donalds. Surpreendentemente, eu também estava no raio da foto, aparecendo no fundo, com os pés em cima do painel de , as mãos na barriga e olhos fechados.
Resolvi desligar o celular (que não parava de apitar com novas notificações que eu não ousei abrir) e entrar na minha banheira. Eu precisava relaxar.
Continuei repetindo todo o meu mantra durante o banho, que demorou bem mais que o que eu planejava, porque eu não queria, de jeito nenhum, sair do banheiro e dar de cara com a situação bem ali, na minha frente, depois de uma ressaca interminável – que agora, não parecia só mais física, mas moral, emocional, mental. Decidi tentar ignorar o assunto até sair do banho e agir como se nada estivesse acontecendo.
Não consegui por muito tempo, sendo sincera – algumas imagens realmente se formavam na minha cabeça, e as coisas pareciam fazer algum sentido. Lembrei de conversar com na after party, e tinha uma perfeita representação dele sorrindo sob as luzes da coloridas e cegantes da festa na minha cabecinha. Lembrava também de estar no carro dele e de comer um Triplo Bacon.
Massageei o meu cabelo com xampu, frustrada – em que mundo pareceria certo passar mais que cinco minutos no mesmo ambiente que de novo? Como é que dos meus quatro melhores amigos, nenhum me impediu de cometer a maior estupidez da sua vida? Como é que todas as pessoas do mundo ficaram sabendo? Oliver me garantiu que naquela festa não haveria nem sombra de fotógrafos senão os exclusivos da festa, que só tirariam as fotos que lhe fossem especificamente requisitadas, que as mostrariam para Oliver antes de postar em qualquer lugar. Havia um contrato assinado.
Como é que eu pude deixar isso tudo acontecer de novo? Eu estava, justamente, no lugar que eu tanto evitei por tantos anos. Quatro anos de esforço para sumir da mídia e em algumas horas, eu tinha destruído tudo.
Os aniversários que perdeu, as pessoas afastou, os eventos que evitou, as oportunidades que deixou passar. Tudo para que ninguém me encontrasse. Tudo para que as pessoas esquecessem que eu existia. Tudo por água a baixo.
Saí do box enrolada por um roupão, uma toalha na cabeça e um coração partido. Encarava o espelho, inexpressível, com o pesar de tantas emoções juntas em menos de duas horas que havia acordado. Algumas gotículas desciam pelo meu rosto molhado, as mãos apoiadas na bancada de vidro. A minha ficha estava finalmente caindo.
Vamos, , não surte, não seja tão dramática, não precisa ficar ansiosa, pensei, mas era como se pudesse ouvir as minhas próprias palavras. Você precisa ir lá e lidar com isso. Respire fundo. Um, dois, três...
Fazia algum tempo que eu não precisava lidar com esse tipo de coisa, de sensação – quando resolvi desistir da vida de atriz, quase quatro anos antes, sabia que, apesar de não estar mais nos holofotes, minha imagem não desapareceria para sempre.
Estaria sempre ligada a cada um dos meus projetos – os bem sucedidos, os mau sucedidos. Estaria sempre ligada a cada uma das pessoas com quem me envolvi – principalmente as famosas. E isso inclui Oliver e Leslie, principalmente. A Silver Linings.
Bom, de fato, eu estaria sempre ligada a – e algo me dizia que não seria apenas por notícias, fotos ou projetos antigos. Ele era um caso especial.
Fechei os olhos com tanta força que realmente achei que, quando abrisse, tudo estaria resolvido.
Não estava.
Um novo fluxo de pensamentos bombardeava a minha mente a cada segundo que se passava – meu coração batia muito forte dentro do peito, minhas mãos queriam começar a tremer, minha respiração quase descompassando...
Não posso voltar para lá.
Não posso voltar para lá.
Não posso voltar para lá.
Vai começar de novo. Não posso voltar para lá. Por favor, de novo não.
Respira. Um, dois, três, quatro, cinco. Expira. Calife, vinte e dois anos. Brasileira residente nos Estados Unidos. Universidade da Califórnia em Los Angeles. Filmes, televisão e departamento de mídias sociais.
Meu coração foi voltando as suas batidas normais aos poucos, depois de alguns minutos em que eu repetia para mim mesma algumas das informações a qual eu tinha plena certeza de que eram, realmente, verdade e agora. Tentei me distrair, também – uma outra técnica que aprendi em Betty Ford era nomear os objetos ao meu redor. Espelho, creme de pentear, pente de madeira, escova de dentes rosa, pia, torneira, maquiagem. Liguei a torneira e ouvi a água descer por dez segundos.
Mais alguns minutos em que eu não podia conter minhas mãos que tremiam.
Mais alguns minutos em que eu inspirava, contava até cinco, expirava. Estava na hora de fazer alguma coisa, afinal.
Penteei os cabelos, coloquei roupas leves e que faziam eu me sentir segura, e ao sair do banheiro, dei de cara com uma Leslie preocupada sentada na minha cama.
Ela, com certeza, era minha amiga mais antiga. Havia acompanhado tudo. Sabia de cada detalhe de cada coisa que havia acontecido e era a única que poderia ter noção do meu desespero.
Foi por isso que, quando a vi ali, de braços abertos, encolhi-me sentada ao seu lado e repousei a cabeça com os cabelos molhados em seu colo, sentindo o choro subir por meu peito com urgência. A gente ficou ali, enroscadas, uma na outra por um tempo enquanto eu colocava pra fora todo o meu desespero, e então, eu me acalmei, sentindo Les beijar o topo da minha cabeça.
- Vai ficar tudo bem. Eu estou aqui, como sempre. Você não sabe? – ela usou seu tom maternal, bem no meu ouvido, e eu senti o meu coração aquecer um pouco com o alívio e a certeza de que eu não estava sozinha. E nem estava . – Agora, a gente precisa sair e conversar com o .
- Leslie, vai começar de novo – eu comecei, depois de fungar, ainda na mesma posição, ignorando o seu tópico. – Eu não vou aguentar de novo.


Capítulo 4

- Certo. Agora conte o que realmente aconteceu.
Vi revirar os olhos explicitamente e, quase como um espelho, eu revirei também, logo após terminar de contar o meu breve resumo da noite anterior. Tudo sobre mim parecia estar irritando-a muito mais que o normal nesse dia específico e nesse dia específico, também, eu não estava com a menor paciência pra esse tipo de chilique desnecessário.
Estavam todos lá quando eu cheguei – China, Pipper, Oliver e Leslie, e eles encaravam a gente, virados um para o outro, como se estivessem numa sala de cinema assistindo a pré-estreia do último filme do Star Wars. Ou qualquer filme mais esperado.
- Eu já te disse, . Você tem que assumir as coisas que faz – dei de ombros, porque era verdade.
sempre encontrava mil desculpas para as coisas que fazia e também tentava contornar a situação de maneira em que ela não parecesse responsável pelo que quer que tivesse acontecido. Sempre foi assim. Esperava que ela tivesse mudado com o tempo – pelo visto, continuava a mesma. Eu estava bem tranquilo, na verdade – mal humorado, impaciente, irritadiço, mas tranquilo. Aquilo tinha sido uma dor de cabeça pra mim também, que acordei com Avery no meu pé, gritando mil coisas que nem valem a pena ser reproduzidas. Já , de braços cruzados, se pôs na minha frente com uma expressão enraivecida que costumava me lançar, daí, a discussão se tornou mais acalorada.
- É uma boa hora para ser um babaca, , parabéns. Sempre com um timing incrível.
- Quer que eu minta pra você, ? Então vamos lá: armei tudo, te droguei e chamei papparazzis porque eu estou tão apaixonado por você. Está feliz agora? – aumentei um pouco o tom, sem perceber, para alcançar o que ela usava. , agora, parecia vermelha como um pimentão, e eu me senti relativamente satisfeito por tê-la atingido.
- Vou ficar feliz quando você for atropelado por um caminhão.
- Vê se cresce, . O mundo não gira ao seu redor. Eu tenho coisas mais importantes pra fazer.
Eu queria ir embora. Era um sábado à tarde. Dar satisfações, a qualquer momento, é um saco, mas principalmente num sábado à tarde. Eu só fui em consideração a Oliver e Leslie, que tinham me chamado pra conversar quando a nem tinha acordado ainda. Eu aceitei, claro, mesmo que soubesse que não ia dar certo, pra deixar as coisas claras e resolver logo isso. É o que dá quando a gente tenta ser legal.
Ouvi Pipper suspirar fundo, no encarando como se brigássemos por um pirulito.
- Calem a boca, por favor, vocês são patéticos – disse, com um tom entediado, mas firme. Ela ao menos aumentou o tom de voz para falar. Eu arqueei a sobrancelha; não tinha a menor intimidade com ela, nem fazia muita questão de ter, mas não liguei pelo modo que falava comigo. Naquele momento, eu não ligava pra nada, na verdade: eu realmente só queria curtir meu sábado em paz. – Ninguém aguenta mais vocês dois. , se você não tem nenhuma informação útil, só vai embora daqui e segue a vida.
Admito que, na hora, achei meio bizarro que essa garota que chegou agora se achava a líder do grupo, mas eu até que iria de bom grado pra casa, pra praia, surfar, ou qualquer lugar que tirasse minha cabeça disso. Quase me direcionei até a porta ao ver sorrir triunfante, como se tivesse recebido uma estrela por ser a melhor aluna da classe, mas para minha surpresa, ela continuou:
- , pare de ser uma chata resmungona e faça alguma coisa sobre se a situação te incomoda. Grava um vídeo no Instagram desmentindo ou sei lá. Ninguém se importa.
Então eu realmente passei a dar mais crédito à Pipper. Não por ela ter tido coragem de falar desse jeito comigo e – mas porque ela simplesmente falou o que todo mundo estava, realmente, pensando. Todas as pessoas da sala a encaravam em silêncio quando ela, despreocupadamente, como se nada, levantou-se e foi até a cozinha repor um pouco do seu café.
Um minuto de silêncio se passou em que todos esperavam, tensos, por uma reação; fosse minha, fosse da . Não aconteceu, e eu nem queria que acontecesse. Era sempre cansativo demais lidar com .
- , foi só isso que aconteceu? – Leslie perguntou, mais uma vez, num tom doce e com um sorriso acolhedor. Eu assenti, me voltando pra ela.
Eu realmente amava Leslie. Eu, ela, e Oliver atuamos juntos em Truth or Dare por anos. Ela também era a minha melhor amiga – aparecia na minha casa frequentemente com um pedaço de bolo que cozinhou ou até roubava uns brigadeiros que a fazia e levava pra mim, só pra conversar e saber como estavam as coisas. Ela sempre fizera questão de me manter em sua vida, mesmo tendo que se desdobrar, muitas vezes, em mil, para que não nos afastássemos. Talvez eu tivesse dificultado as coisas, diversas vezes, era muito difícil pra mim ainda ter uma ligação tão forte com alguém que convivia tanto com , mas fico feliz de não termos nos deixado ir.
Leslie era alguém a se manter por perto. Eu faria qualquer coisa por ela.
- Aham. Eu estava com uma garota, a apareceu e estava bem bêbada e não tinha como voltar pra casa porque vocês todos tinham sumido. Ela mal conseguia andar direito. Daí eu passei na MC, comemos no caminho e eu a trouxe pra cá – por algum motivo, eu escondi, sim, o fato de ter ficado mais um pouco no apartamento. Leslie assentiu e, de rabo de olho, a fazer uma careta desacreditada.
- A gente só queria entender mesmo o que aconteceu – Oliver assegurou, levantando-se e vindo até mim, e então, os outros levantaram-se também e migraram para a mesa, onde todo mundo acabou se acomodando. suspirou fundo, seguindo-nos, e eu sabia que ela se sentia um pouco incomodada com a minha presença ali. Ela era uma boa atriz, mas no momento, não fazia questão de disfarçar.
Quer dizer, era o seu apartamento. A gente podia mesmo ter resolvido isso numa ligação ou sei lá. – A gente viu sua mensagem de manhã, o que já foi bem estranho, mas então, com toda a movimentação nas redes sociais, a não atendia o telefone...
- É, eu acordei com uma ligação da General Avery me mandando vir aqui resolver isso, também – dissertei com um tom mais leve, e Oliver sorriu, simpático, pra mim. – Não é só a que está com os nervos à flor da pele, pelo visto.
Juro que saiu naturalmente. Eu nem queria provocar. Mas pra minha surpresa, todo mundo riu da piadinha que fiz sobre os hormônios da . Engoli um pouco em seco, porque se tinha alguém que me fazia tremer na base, essa pessoa era . Não queria começar uma guerra agora, queria terminá-la e ir embora.
- Ela anda meio intensa, mesmo – China continuou, recebendo um “você não tem noção do quanto” de Pipper, como complemento. mantinha os braços cruzados e fez uma careta para os amigos.
- Vão se foder – ela disse, simplesmente. Mas eu sabia pelo tom e pelo cantinho do lábio que pendia que ela nem tinha ficado tão irritada assim.
- Ah, , relaxa, vai – Leslie, que estava em pé ao seu lado, a abraçou. – Faz meses que o grupo todo não fica junto. A gente – e então, apontou para as outras três pessoas sentadas na mesa – sente falta disso.
Duas pessoas suspiraram em conjunto, e não é necessário se esforçar muito para descobrir quem delas – de todo jeito, fui eu quem havia se sentido culpado ao ouvir Leslie dizer aquelas palavras.
Quer dizer, , com certeza, não facilitava as coisas pra ninguém – não tinha papas na língua e pouquíssima educação quando se tratava de mim, mas fui eu quem me afastou, e não medira esforços para isso, porque eu realmente achei que fosse o melhor. Depois de tudo que havia acontecido, tanto antes de terminarmos quanto depois, eu não tinha certeza se saberia como me manter são com a Situação tão perto. E então, passei a evitar qualquer coisa remotamente me lembrasse dela e de tudo.
A verdade mesmo é que, ali, eu não sentia só o incômodo de querer ir embora. Tinha, também, uma sensação nostálgica – aquelas eram todas as pessoas que foram mais importantes pra mim aqui em LA, e estavam todos ali, os meus melhores amigos, na sala da casa da Leslie, como se estivéssemos no auge dos nossos dezessete anos com umas cervejas e Mr. Brightside tocando no volume mais alto.
Por um breve momento, houve uma troca cúmplice de olhares entre cada uma das seis pessoas que estavam sentadas naquela mesa: para alguém que olhasse de fora, não tinha nada de muito diferente acontecendo. Apenas um grupo de amigos que tinha passado por uns maus bocados e acabaram se perdendo no caminho.
Mas para a gente, ali, acho que era uma coisa diferente – um dia ruim, um ano difícil, umas pessoas que a gente perdeu e situações que não podem ser mudadas, porque caralho, a vida não funciona assim, a gente não pode voltar no passado e fazer as coisas diferentes, por mais que a gente queira. Escolhas foram feitas e situações aconteceram através delas, e isso tudo nos levou a estarmos ali, naquele dia, em junho de 2017, num sábado à tarde.
Naquele momento, não havia mídia, gente intrometida, ranço, ou lembranças ruins. As palavras idiotas foram silenciadas, as bagunças que a gente fez foram ignoradas, as discussões foram deixadas de lado e deram espaço para uma sensação de conforto e conexão. A gente se sentiu família, porque acho que, sinceramente, era exatamente isso que a gente sempre foi.
Não importa por quanto tempo alguém da família passe longe – essa pessoa nunca deixa de ser família. Não importam os erros. Não se escolhem lados.
E acho que ali, finalmente, eu e a nos deixamos fazer parte disso, ao trocar um discreto aceno de cabeça.
- Ô, ele ficou todo emocionado... – China bateu com o cotovelo na minha costela, que virei os olhos, rindo um pouco.
- Cala a boca, Chinês. Você é um cantorzinho de música pop para garotas de doze anos.
E agora, um murrinho, de leve. Tanaka odiava ser comparado a músicos comerciais, em toda sua pompa Indie Revolucionária. Era muito simples deixá-lo irritado.
- ... E você tem um filme com Adam Sandler.
Ouvi o que eu tinha certeza que era a voz de , porque esta era inconfundível, e então, a mesa explodiu em risadas, inclusive eu, que soltei um sorrisinho de lado e arqueei a sobrancelha pra ela, inquisitora, que respondeu com uma piscadela.
- Acho que ficou bem claro quem ganhou essa batalha, .
- Tanaka, você já perde pelo fato de ser japonês. – dei de ombros, sem me importar muito em arrumar um argumento melhor na discussão ridícula. America para os americanos, porra.
- E o Oliver, que é semicanadense? É tipo, três vezes pior que ser japonês na América.
- Chinês.
- Cala a boca, . – a gente riu de novo, o vendo puxar o cabelo dela como forma de retrucá-la.
- Pra começar, a gente tem o Justin Bieber, e ele é, você sabe, o cara. – Oliver esticou a piada, despertando algumas risadas, e então, começou a enumerar outros artistas, em sua própria defesa. – E a Avril Lavigne. E a sósia da Avril Lavigne. E, sei lá... A Alanis Morrissette. Porra, o Jim Carrey!
- Mano, a gente tem Naruto – George soltou, com um dedo específico levantado, um de cada mão, e então, começou o levante: vários gritos, muxoxos, risadas e xingamentos, e Pipper até jogou uma bolacha na cara dele. – Invalida qualquer coisa que vocês disserem a partir de agora, seus merdas. A cultura oriental vai dominar o mundo, caralhoooo!
- Porra, eu realmente beijei de boca com um cara que assiste Anime – Pipper suspirou fundo, com uma mão no rosto. – Não dá pra acreditar.
A conversa, então, se seguiu, entre provocações e piadinhas sujas uns com os outros, e o tempo – que para a gente, tinha parado – acabou passando rápido demais, sem mais discussões calorosas entre nenhum dos integrantes. Pelo menos, nenhuma em que a gente falasse sério.
Às vezes eu notava que me lançava uns olhares estranhos. Eu sabia que a minha presença ali era meio assustadora pra ela – era pra mim também, mas eu lidava um pouco melhor com as coisas, mesmo que por uma tarde, mesmo que sem compromissos. Sabia também que ela era razoavelmente ansiosa (para ser educado) e que poucas coisas surtiam um efeito maior que o esperado nela. E esse era um dos motivos para eu ter me distanciado, também.
De todo jeito, não sei se ela tinha essa sensação também, mas ao mesmo tempo que era estranho, era confortável, certo. Parecia muito certo. Como se eu pertencesse ali, mesmo depois de tanto tempo, mesmo depois de tantas tentativas, mesmo com toda a tensão. Então, eu me deixei levar pelo momento. Ela também parecia estar um pouco mais habituada que quando eu pisei o pé no apartamento.
Fazia muito tempo que eu não tinha contato nenhum com a que eu primeiro conheci – uma que não retrucava tudo que eu dizia, que não fazia coisas pequenas se tornarem gigantescas, que não me fizesse pisar em ovos. Uma com quem eu realmente pudesse conversar. A única pessoa do mundo que parecia me ver de verdade.
Apesar de tudo, lá pelas oito da noite, eu fui o primeiro a fazer menção de ir embora, dizendo que tinha que estudar o script pro teste da nova série para o qual eu aplicaria, que seria essa semana. E tinha mesmo, mas eu não o faria mesmo – eu precisava ir pra casa, colocar a cabeça no lugar, tentar entender o que estava acontecendo, dormir, visto que não tinha o feito nem por quatro horas completas na última noite. Acabou que a gente não tirou nenhuma conclusão sobre nada e só ficamos ali, comendo e conversando, como se nada estivesse acontecendo fora daquele apartamento. E, bom, nada que fosse tão interessante quanto estar ali.
Fiquei surpreso de ouvir seus passos quando ela correu até mim na portaria, pouco depois que eu saí porta a fora de seu apartamento.
- Ei, ! – gritou, enquanto parava de correr, aos poucos.
Eu usei uma expressão confusa, mas surpresa, ao ver a magrela de vestidinho florido correndo até mim, que, ao parar, cruzou os braços, quando eu me virei de frente pra ela, na portaria do seu prédio.
A gente estava numa ruelinha entre dois jardins floridos que faziam parte da área aberta antes do Hall de entrada do edifício, que era protegido por grandes grades acinzentadas que davam um ar meio medieval.
- Já está com saudade, é? – eu decidi manter o clima saudável, tentando, ao máximo, fazer com que ela entendesse que eu estava levantando uma bandeira branca. Ela deu de ombros, com um breve sorrisinho envergonhado, típico. O sol estava quase se pondo.
- Eu queria te agradecer, na verdade – seu tom era despreocupado e doce, e ela mexia um pouco os pés nas sandálias havaianas, como quando está sem graça. Eu prendia um pouco o sorriso, ouvindo atentamente o que ela dizia, quando olhava pra baixo. – Eu tenho alguns flashes de ontem...
- Que nada, você entreteve minha noite. Sabia que você me chamou de gostosinho? – se você está na chuva, é pra se molhar. Eu, como prometido, me vi fazendo questão de lembrá-la de alguns tópicos da noite anterior. Um sorriso sacana surgiu nos meus lábios e eu vi que ela quase se deixou rir, porém, fez uma careta, ajeitando a postura. – E disse também que queria me ver peladão.
- Ok, agora você está simplesmente inventando coisas.
Ri um pouco, assentindo.
- Tá guardado no teu inconsciente, . Provavelmente vai aparecer por aí quando você sonhar comigo.
Eu soava natural e sabia que estava prestes a me matar por ser meio prepotente e abusado, mas as palavras saíam antes que eu pudesse contê-las, e bom, eu não queria contê-las.
- Nos seus sonhos, .
- Ah, não, ... Nos meus sonhos, você está peladona.
A garota piscou três vezes pra mim, sem acreditar, e então, riu.
Isso mesmo. riu. Não conteve a risada. estava ali, na portaria do seu prédio, num sábado à noite, de braços cruzados, e eu estava apoiado na grade contando piadinhas infames e ela riu.
Eu me deixei sorrir também, é óbvio, porque no fundo mesmo, eu só queria deixá-la constrangida e irritadinha – de todo jeito, eu gostava do jeito de como as minhas palavras tinham surtido efeito nela.
A porra da risada da poderia tocar na rádio.
¬- , vai embora. Você já encheu o meu saco o suficiente por esse ano. Quem sabe no ano que vem?
Eu dei de ombros e arregalei um pouco os olhos, pensando que tinha feito uma piadinha parecida também ontem, mas não comentei nada sobre – porque, porra, essa conexão com a era tão sinistra que chegava a ser ridículo e eu não queria ser aquele que sente a necessidade de ficar remoendo o quanto a gente funcionava bem sempre que estávamos juntos e que tudo que aconteceu era uma grande bola de merda – e daí rolou que a gente foi ficando sério aos poucos, eu ajeitei o meu boné pra trás, coloquei as mãos no bolso da bermuda, e subitamente, perdi toda a vontade de ir embora.
Eu queria ficar ali. Eu queria ficar ali com a , mas eu não podia querer isso. Daí com esse silêncio eu fiquei com uma puta vontade de explicar pra ela que não tinha nada a ver com nada disso que tinha acontecido.
- Eu realmente vou dar um jeito de resolver isso, . Não precisa se preocupar.
- Eu sei – ela assegurou, sorrindo um pouco e mexendo os dedos na barra do seu vestido, que já era um pouco curto, mas tentei manter o foco. – Foi bobagem minha te culpar. Eu travei um pouco com a ideia...
- Entendi. Foi meio bizarro pra mim também. Não tirei isso da cabeça até chegar aqui.
E era verdade, por mais que eu achasse que não tivesse ter dito isso. Eu mal dormi ontem de pensar na noite que tive com a – rolei na cama por horas até apagar, só pra ser acordado de novo por Avery. A gente se encarou, meio cúmplice, e porra, eu tinha muita coisa pra falar pra ela, umas perguntas que eu queria que ela me respondesse. Eu sabia que ela tinha também, pelo jeito que ela olhava pra mim. Os olhos dela sempre foram expressivos demais.
Mas nenhum de nós dois disse nada.
Trinta segundos em que só se era escutado o barulho da rua e do vento. O sol se punha no Céu e a lua tava subindo, já, mas a gente nem notou.
- Então... Eu vou subir. Disse pra eles que ia pegar alguma coisa no carro.
Eu assenti, dando de ombros. soltou os cabelos e colocou-os pra trás.
- E vai subir de mãos vazias?
- Porra.
A gente riu um pouquinho, mas o clima estava ficando palpável demais, e acho que a percebeu isso e então, acenou brevemente com a cabeça, se dispondo a virar de costas e voltar para o apartamento. Algo dentro de mim não quis deixar aquele momento acabar, então, me vi pronunciando:
- E olha... A Avery pediu seu número, hoje mais cedo...
Vi a engolir em seco e sua expressão ficar mais dura.
- ... Pra quê?
- Eu não dei. – dei de ombros, com um sorriso cúmplice. – Não vou deixar ela te incomodar. Esse é o meu trabalho.
mal pode conter o alívio em seu rosto e um sorriso doce.
- Você faz o seu trabalho muito bem, mesmo. – recebi uma piscadela como resposta e dei de ombros.
- Só achei bom te avisar. É a Avery, afinal... Ela não dá pra trás, você sabe.
- Você tem meu número? – ela inclinou a cabeça um pouco pra frente, perguntando, do nada, e ignorando qualquer coisa que eu tinha dito antes. Eu desviei um pouco os olhos dos dela, me sentindo meio sem graça pela primeira vez desde ontem. Eu tinha, sim, o contato da , mesmo que ela tivesse mudado de número, mesmo que eu nunca tivesse utilizado. Voltei a olhar pra ela e então, molhei os lábios, assentindo.
- Faz uns quatro ou cinco meses, eu acho. A Leslie me passou. O Oliver não quis me dar – revirei os olhos, e então, usei uma expressão leve, para que ela não achasse que significasse muita coisa, por mais que significasse.
- Por que você me ligou?
Eu parei pra pensar o quanto conseguia ser direta quando queria. Normalmente, as boas maneiras e o fluxo correto e mais lento das coisas teriam impedido outras pessoas de me perguntarem tão incisivamente.
, claramente, não tinha problemas com isso. Seus olhinhos curiosos me encaravam com expectativa. Suspirei audivelmente, sem querer lembrar ou expressar nada do que havia acontecido naquela noite de fevereiro, a qual eu sabia especificamente a data e cada detalhe de tudo. Não tinha como esquecer. Resolvi que não queria conversar sobre aquilo. Principalmente ali. Principalmente com .
Mas o pior de tudo, é que eu realmente queria muito.
- Não cheguei a ligar.
- Pra que você queria o meu número, então?
Eu fiquei sério por um segundo e então, senti meus olhos arregalarem um pouco. Precisava exercer minha profissão, agora. Não podia deixar que ficasse intrigada com o assunto, porque uma vez que ela ficasse... Ela não desistiria. Portanto, pendi um pouco o canto do meu lábio e respondi:
- Ver se eu podia usar seu apartamento, lá no Rio. Economizar um pouco com hospedagem etc.
Ouvi sua risada educada, porque ambos sabiam que em um milhão de anos seria esse mesmo o tópico da conversa. Ela sabia que eu estava fugindo, soltando uma piadinha pra evitar o assunto, mas demonstrou estar satisfeita com isso, assentindo, sem insistir muito no tópico, como eu achei que faria, mas eu também conhecia o suficiente para saber que ela não deixaria isso de lado assim tão fácil. Acho que ambos decidimos que lidar com isso depois seria a melhor opção. Talvez não estivéssemos lá ainda.
- Ah. A resposta seria um claro e redondo não. E eu ia te xingar de todos os sinônimos de babaca já conhecidos, pra só depois desligar.
Concordei com a cabeça, dando uma leve risada e abrindo o sorriso, só para eu pudesse fechá-lo aos poucos, sentindo-me, por algum motivo, mais leve.
- Tudo bem, qualquer coisa posso ligar pra sua mãe. Ela nunca deixou de me amar.
A vi colocar uma pequena mecha que caía dos seus olhos para trás e abaixar a cabeça. Cheguei a conclusão de que tinha recebido muito mais de do que merecia naqueles últimos dois dias, então, resolvi me contentar.
- Claro que não. Olha você, com esse boné do Golden State pra trás e camisa estampada como se estivesse nos anos noventa. Você é tipo o filho que ela nunca teve.
Eu ri de verdade, concordando, porque mãe de tinha um amor meio exagerado por mim mesmo, e não dava pra negar.
- O que posso fazer? É natural, você sabe. O meu charme.
revirou os olhos com um sorriso.
- Então... A gente se vê... – eu não soube identificar se era uma pergunta ou uma afirmação.
Fiz questão de assegurar, de todo jeito.
- A gente se vê, .


Capítulo 5

Eu estava surtando. Literalmente.
Era domingo. Isso mesmo, o raio de um domingo, às dez da manhã. Eu poderia estar na praia, tomando uma água de coco. Poderia estar num Outlet com Leslie. Poderia estar me atualizando em Riverdale. Poderia estar correndo ou passeando com Mojito.
Mas estava à beira da minha semana de provas do penúltimo semestre de faculdade e provavelmente prestes a ter um nervous break down porque não tinha visto nem metade das matérias.
Eu era, claramente, uma pessoa distraída – gostava de estudar, gostava do assunto que estava estudando, gostava do meu curso e do tanto de coisa que eu havia aprendido em Filme, Televisão e Departamento de Mídias Digitais. Gostava do campus da UCLA. Gostava de me sentir uma pessoa normal de novo e de ser tratada como a garota comum que eu era – apesar de algumas exceções, como alguns professores me darem alguma regalia, vez ou outra.
Mas eu não tinha disciplina alguma para estudos. Era aleatória demais.
Estava me dedicando a andar desesperada pelo apartamento overthinking no quanto eu precisava estudar quando ouvi a porta bater. Foi como um sopro de ar a pulmões cansados – alegremente, pulei até a porta, esperando dar um abraço apertado em Leslie, que sempre sabia como acalmar meus ânimos e me fazer estudar, porém, ao abri-la, eu dei de cara com o próprio demônio. Quase procurei uma bíblia pelo apartamento, talvez, aqueles óleos de batizar que minha vó sempre passava pela minha testa, uma água benta, uma cruz, um sal grosso. Qualquer coisa que fizesse aquela criatura dos infernos sumir da porta da minha casa.
- , querida. Não vai me convidar para entrar?
A voz, que era rouca e politizada, perfeitamente eloquente, soava mais para mim como uma grande vaca mugindo.
- Não.
Até tentei bater a porta na cara da mulher a minha frente, mas esta foi entrando mesmo assim. Suspirei fundo, dando espaço, sem muitas outras alternativas.
Os sapatos de salto de Avery, que tinha lá pelos seus trinta e cinco anos, fizeram barulho contra o chão da sala do apartamento que eu dividia com Leslie. A saia social preta de cintura alta torneava seu corpo modelado de academia e deixava a mostra uma pequena parte das pernas bronzeadas, grossas e perfeitamente torneadas da mulher a minha frente. Tinha um cabelo mediano, com raízes mais escuras que desciam pelo cabelo num tom de loiro mais claro, e olhos que intimidariam até mesmo Frank Underwood. Alguns colares de ouro fino envolviam seu pescoço e colo por cima da camiseta curta de tecido branco, que ia até pouco acima do cós de sua saia. A maquiagem era impecável e o sorriso no rosto, aterrorizante. Eu realmente achei que fosse vomitar.
- Ah, sweetheart. Você já foi mais educada.
- Avery, você não poderia me deixar em paz? – perguntei, cansada, ao fechar a porta atrás de mim. A mulher não se pôs a se desfazer de sua bolsa, suas conversas nunca eram muito longas, porém, colocou os óculos escuros na altura da cabeça e me olhou com olhos debochados, cínicos. Cinismo era uma palavra que representava bem a atitude de Avery em, basicamente, todos os seus discursos. – Estou em semana de provas.
- Eu tenho um estágio pra você. Como diretora, que é o que você tem tentado nos últimos meses, sem sucesso.
Como Avery havia descoberto aquilo, eu nunca saberia. O que eu sabia era que estava prestes a entrar no último semestre de faculdade e precisava urgente de um estágio, tanto para completar as horas, quanto porque eu estava desempregada desde que havia atuado em meu último filme antes de desistir da carreira de atriz, em 2014.
O que eu não sabia era que seria tão difícil arrumar um estágio naquela área, mesmo pra mim, com toda a minha bagagem. As pessoas sempre queriam algo em troca.
Ah, ... Você poderia começar como uma personagem, mesmo que não a protagonista. E então você poderia dirigir alguns episódios. O que acha? Por que não faz o teste? Posso garantir que o papel será seu.
E então, um suspiro, e um muito obrigada. Eu não estava interessada em voltar para as telas – sejam telinhas ou telonas. Eu queria ficar por trás das câmeras agora. De todo jeito, bater perna pelas emissoras não foi de grandes oportunidades pra mim.
Mas é claro que Avery usaria de todas as suas armas. Ela não desistia nunca. Não fazia ideia do que ela queria comigo – mas sabia que ela não dava ponto sem nó. O sorriso em seu rosto era óbvio, triunfante, como a certeza da vitória em uma batalha que nem se havia lutado.
A postura impecável não se desfez nem por um segundo e seus braços estavam dobrados na altura de seu abdômen, com uma bolsa Prada pendurada no antebraço. Eu olhava pra ela e sentia nojo.
- Obrigada, Avery, mas eu dispenso. Só isso?
- Não seja boba, , eu só quero conversar.
- Então ligue para o , Avery! – revirei os olhos e suspirei fundo, cruzando os braços. Nós estávamos em pé, uma de frente para a outra, na entrada do apartamento. – Ele é o seu cliente, eu não.
- Oh, ... Achei que você fosse mais esperta.
- Avery.
- Você conhece a indústria, , e você é tão talentosa... – Ela usava um tom quase maternal. Chegou a aproximar-se um passo, mas eu dei um pra trás, por reflexo – olhar para Avery me dava nojo. – Mas em Hollywood, a gente não trabalha com talento. A gente trabalha com contatos.
Piscou algumas vezes para mim, que fiz uma expressão confusa a sua frente.
Uma batalha interna se travou na minha cabeça e eu mal me contive em disfarçá-la: estava curiosa para saber o que Avery pretendia, sim, e sabia também que tinha a ver com . Mas, ao mesmo tempo, não queria me envolver em nada que pudesse chegar perto de nenhum dos dois, num raio de, pelo menos, cem metros quadrados.
- Eu vou dar um jeito, Avery, não precisa se preocupar. – tentei soar educada e desinteressada, mas ela me conhecia, sim, melhor que isso.
Assentiu, com o mesmo sorriso em seus lábios, com o mesmo veneno escorrendo no canto da boca...
- Quero saber também como você está depois de ontem.
- Estou bem, obrigada.
- Ainda estão falando de vocês, . Principalmente depois do showzinho na portaria. Se queria desmentir, está fazendo um ótimo trabalho... Onde está mesmo o seu relações públicas?
Bem no meio do seu cu, foi o que eu quase respondi. Mas me contentei em respirar fundo.
As fotos em que eu e conversávamos tranquilamente na portaria do meu prédio haviam saído pela manhã, e para a minha surpresa, realmente não havia se posicionado sobre. A foto mostrava a gente através de uma câmera amadora, tirada por um celular, provavelmente, de longe, por detrás da grade, em que a gente estava em pé de frente um pro outro e parecíamos conversar de maneira natural. Na matéria, o jornalista usava a foto pra comprovar que nós realmente estavámos juntos. Eu, bem calma e plena, apenas postei um stories no Instagram que, animadamente, desmentia a história, como quem diz que foi comprar pão.
“Gente, apesar do que dizem por aí, eu e o não voltamos. Certo? Ele continua solteiro, aproveitem, hahaha... E, olha, eu também tô solteira, então, qualquer coisa, vai ali na caixinha de mensagem!”, brinquei, tentando soar natural.
Não precisei gravar muitas vezes para sair de um jeito convincente – havia trabalhado com isso pela minha vida inteira, pelo amor de Deus! Mas o que eu realmente não tinha pensado foi que o meu número de seguidores no Instagram – que era relativamente alto para uma atriz esquecida e fracassada, lá pelos meus quatrocentos mil seguidores – fosse começar a aumentar a cada minuto que passava, e depois desliguei o celular. A minha vontade mesmo era de apagar todas as minhas redes sociais.
Sem mais notícias de nada, até então.
- Eu não preciso mais de um, visto que não tenho mais uma vida pública.
- Entendi. Mas o estágio é na Netflix.
Foi provavelmente naquele momento em que meu coração se corrompeu.
- A nova série que eles estão para gravar aqui em LA, na verdade. Começam na próxima semana. O estágio já é seu, se você quiser. Eu resolvo todo o trâmite.
Suspirei, sem acreditar mesmo que eu estava prestes a fazer – de novo – um pacto com o diabo. Avery não fazia nada sem pedir algo em troca.
- ... Você só precisaria passar alguns meses com o .
Engasguei com a minha própria saliva ao ouvir a proposta, enquanto Avery, em toda sua pompa, não moveu um dedo para me ajudar. O sorriso ainda presente, enquanto ela me analisava de cima a baixo. Aquilo era demais pra mim.
- De novo, Avery? Pelo amor de Deus...
Era isso, minha vida estava terminantemente terminada, e eu nem tinha dito adeus pra Leslie. Eu mal podia respirar, mal conseguia conter o meu coração que se revoltava violentamente contra o meu peito, meu cérebro gritava “não, não, não!” e eu podia imaginar claramente uma grande placa em luz neon vermelha com várias lâmpadas amarelas em volta que emolduravam um perfeito “não!”. Não faça isso, . Não aceite.
Você já esteve lá uma vez. Você já assinou esse contrato antes. Você não precisa disso de novo.
- Ah, meu amor, eu faço isso por você... Sabe que sempre me importei. Sempre vou me importar.
Eu ri.
- Você não se importa com nada além do seu dinheiro, Avery, e é isso que você quer fazer comigo e com o , além de melhorar a imagem dele. Imagina que incrível ele seria, de me aceitar de novo depois de toda a loucura que eu o fiz passar por? – Cuspi as palavras, olhando-a de cima a baixo com desprezo, eu queria que as palavras que saíam da minha boca soltassem fogo só pelo prazer de vê-la arder. – Tão conveniente, depois da crise com o álcool e ser desvinculado com a NBC...
- . Você não aprendeu nada sobre mídia em todos esses anos de faculdade? – Avery ainda sorria, mas dessa vez, com uma falsa compaixão e toda paciência do mundo, olhando pra mim como se eu fosse uma garota mimada fazendo birra. – Deixa eu te explicar como funciona: o , que é homem, faz merda e estraga a carreira dele sendo um puta babaca, típico, esperado. Ele é homem, afinal. Então, eu o coloco do lado de umas criancinhas da África ou ajudando uma velhinha a atravessar a rua e as pessoas até mesmo votariam nele para Presidente dos Estados Unidos – a mulher se permitiu revirar os olhos. – Esquecem fácil. Para nós, mulheres, não é assim que funciona.
Procurei um ponto para discordar, mas não encontrei.
- Veja a Amy Winehouse, antes de morrer. Ou até mesmo a Lindsay Lohan, a Amanda Bynes, a Britney em 2007. – deu de ombros. – Puta, drogada, culpada, porque mostrou os peitos ou cheirou um pó. – soltou uma leve risada. – Agora pensa no Ed Westwick, Johnny Depp, ou o Chris Brown. Um estuprou e os outros dois espancaram suas mulheres. Ninguém lembra. Ninguém liga. Rappers ovacionados com letras misóginas e machistas. É o que essa indústria oferece a nós, mulheres – ela assentiu com a cabeça, torcendo um pouco o lábio. Sua postura impecável. – Você tem a chance, agora, de não ser só mais uma modelinho com a bunda de fora num desses clipes, ou até mesmo desses filmes. Afinal, você é mesmo brasileira. É o que esperam de você.
Engoli em seco, permanecendo em silêncio, sem saber como respondê-la – eu, por mais que sempre tivesse algo pra dizer, não tinha um simples argumento contra aquilo. Conhecia a indústria, conhecia as pessoas, conhecia a si mesma. Eu já estive .
Poderia dizer sim, alavancar minha carreira e destruir meu emocional. Talvez esse fosse o objetivo de vida das pessoas em 2017. Bom, ócios do ofício.
Poderia dizer não, continuar desempregada e provavelmente ter uma Avery no meu pé por todos os dias até que eu finalmente diga sim. Essas eram as minhas únicas duas opções. Avery não desistia. Ela não dava pra trás.
- Você tem a chance agora de prová-los errados. De mostrar que o Brasil também exporta talento e influência, mulheres inteligentes e revolucionárias. Eu não minto para você, , quero seu bem.
- Pare com essa merda, Avery, você sabe que não funciona comigo.
- Querida... Posso ter omitido e manipulado, sim, admito, mas nunca, nunca, mentiria para você, – respondeu, parecendo demonstrar certa dor em ouvir as minhas palavras. Ela se aproximou mais uma vez, mas dessa vez, eu não movi um passo. Poderia vomitar a cada vez que a escutava dizer meu nome com aquele tom de voz carregado de cinismo. – É o melhor para você, você sabe, depois de tudo. Serão só por alguns meses, e então, você poderá deixar tudo isso para trás e seguir a vida que você tanto quer, com o estágio que você quer.
- Você já me disse isso antes.
- Seu trabalho era fingir que estava apaixonada por ele, , não se apaixonar de verdade – Avery revirou os olhos. – Vou precisar que seja mais eficaz nessa parte, dessa vez.
Dei a conversa como terminada, então.
- Ok, Avery, tenha um bom dia – depois de dizer, andei até a porta e abri-a, esperando que Avery saísse e levasse consigo sua proposta dos infernos.
- Vou esperar sua ligação ainda essa semana, . Estou ansiosa para trabalhar com você de novo.
- Tchau, Avery.
- .
A resposta foi dada com um olhar silencioso e impaciente.
- Você sabe das regras.
E a porta foi fechada com força.
Nem eu sei como encontrei coragem para fechar a porta na cara da Avery – mas é o que acontece quando um furacão encontra o outro.

X

- O que raios você está fazendo na minha casa? – perguntei a um japonês de camisa de flanelas, bermuda caramelo e adidas, jogado no meu sofá e mexendo animadamente no celular, enquanto eu colocava a minha bolsa em cima da mesa e cruzava os braços antes de entrar em casa.
Era terça feira e eu ainda teria mais três dias de prova, mesmo que já estivesse exausta das outras duas que já tinha feito e de como a minha cabeça não parecia mais funcionar para nenhum outro aspecto que não fosse ou a proposta de Avery.
Ou o fato de não poder trocar uma palavra com Leslie ou Pipper sobre isso. Era a regra principal.
- Estou esperando a Pipper – ele disse, despreocupadamente, ainda olhando pro celular.
- Ela não mora aqui.
- Mas está perto.
- Não tinha ninguém em casa.
- Peguei a chave reserva na plantinha do lado da porta.
- E não avisou a ninguém?
- Não.
Se fosse em qualquer outro momento, eu brigaria com ele, só por birra, porque bom, todos eles sabiam da chave na plantinha e todos eles já frequentavam nosso apartamento, mesmo que nós não estivéssemos aqui – mas naquele momento, eu só me joguei no sofá e dei um suspiro cansado que George ignorou. E então, um estalo.
Era a porra da oportunidade perfeita.
Um suspiro mais alto.
- , se você quer dizer alguma coisa, apenas diga, ué – o japonês comentou, despreocupado, desbloqueando o celular e virando de lado, passando o braço por trás do meu ombro, no sofá.
Era difícil para qualquer pessoa saber quando ele estava sendo sincero ou irônico, visto que o modo que ele falava era bem peculiar. Era uma das coisas que eu mais gostava nele, na verdade – além do fato de ele ser oriental e ter olhos puxadinhos. E cantar bem.
China era o meu amigo menos próximo para, você sabe, conversar coisas íntimas – confiaria nele pra tudo, claro, a gente se divertia muito juntos e gostávamos de importunar um ao outro, mas não éramos a primeira pessoa que o outro buscava pra certas coisas. Eu acabei me tornando mais próxima de Pipper nesse quesito, mesmo que tivéssemos nos conhecido depois, através dele. Mas eu precisava de verdade conversar sobre aquilo, principalmente com alguém útil – e ele, por também ser o empresário da banda, era entendido de relações públicas, contratos e exposição. Sua vida era baseada nisso.
- Posso te fazer uma pergunta?
- Quer conselhos amorosos?
- Acho que pode se dizer que sim? – acho que dependia muito do ponto de vista.
- Tá.
- O quanto você está disposto a fazer pra chegar onde você quer?
A pergunta veio na lata, tão direta quanto um tiro no peito, e o japonês abriu um pouco os olhos, surpreso. Eu não sabia muito bem como contá-lo de maneira direta. Queria provar um ponto antes.
- Do que você está falando?
- China!
- Tá! – reclamou, levantando as duas mãos, ao ver que o assunto era mesmo sério. Assenti. – Tenho algumas reservas, claro, mas não mediria esforços.
Ponderei, meio nervosa por abordar o tópico, então, juntei meus cabelos num bolo para que pudesse enrolá-lo e prendê-lo.
- E se isso que é necessário fazer for uma coisa muito muito arriscada? – me aproximei um pouco, olhando-o bem nos olhos.
Ele parecia refletir sobre alguma coisa, talvez sobre a sua própria situação. Tipo, a banda ia muito bem, obrigada – a Silver Linings estava ganhando cada vez mais reconhecimento e fazia shows em academias cada vez mais lotadas. O primeiro CD já havia sido lançado há alguns meses em todas as plataformas digitais e havia até mesmo entrado para a lista dos 100 mais vendidos da Billboard. Seus dois primeiros singles tinham clipes com milhões de visualizações no Youtube e aumentavam a cada dia.
Mas eu sei também que as coisas nem sempre foram fáceis e, assim, muitos sacrifícios foram feitos para que ele pudesse estar satisfeito com o lugar em que estava hoje. Eu sabia que ele queria mais. Eu o conhecia – não havia saído do Japão. E era por isso que, talvez, ele fosse a pessoa ideal para conversar sobre isso.
- Escuta, . A gente não pode ficar com os sonhos na cabeça, sabe? Se não é só isso que eles vão ser. Sonhos. – ele disse, dando de ombros e sorrindo um pouquinho no final. – Pra chegar onde a gente quer, demanda esforço. Não vai cair do Céu.
Eu me senti surpreendentemente incentivada, apesar de que nunca, em mil anos, ele teria o mesmo posicionamento se soubesse do que eu realmente estava falando.
- Entendi...
- ... Você só precisa saber se realmente vale a pena.
Suspirei alto. Era essa a questão. Valia mesmo a pena? Era este mesmo o meu sonho? Estaria disposta a cometer o mesmo erro de novo?
A minha mente funcionava como o Google. Como se alguém tivesse pesquisado sobre “ ” no meu cérebro e as informações relacionadas a ele nunca paravam de chegar, sempre tinha mais, e eu passava a minha vida inteira clicando nos links. Eu não conseguia parar de ler as referências. Estava viciada.
- Porra, Chinês.
- O que?
- Eu vou me arrepender muito de fazer isso – suspirei fundo, olhando-o bem nos olhos e engolindo em seco. – E você vai precisar ter uma mente bem aberta.

X

Leslie adorava cozinhar ao som de John Mayer.
A voz, os solos de guitarra, as letras das músicas, era tudo muito perfeitamente harmonioso e trazia uma paz que ela não se lembrava sentir em nenhuma outra conjuntura musical. Enquanto esperava alguns legumes cozinharem para a salada, se dedicou em cortar alguns pedaços de cebola, tomate e pimentão para temperar o grão de bico. Pegou também mostarda e mel para fazer um molho.
A calma que John Mayer emanava não foi o suficiente para conter a que era conhecida como Furacão .
- Leslie Andrews? – Perguntou num tom desconfiado e a ruiva virou-se, observando a garota sentada com um rabo de cavalo no alto da cabeça, pantufas e um pijama rosa ridiculamente infantil, sentada num dos bancos altos de trás da bancada, onde apoiava seus cotovelos. Virou-se para frente de novo, voltando a cozinhar, depois de sorrir.
O sentimento de Leslie por era quase maternal – logo de cara, assim que se conheceram, decidiram ser almas gêmeas. Leslie, que era quatro anos mais velha que , por volta dos seus vinte e seis, estava presente na vida da garota desde o primeiro dia em que trabalharam juntas, em Truth or Dare. Mas tudo se intensificou quando decidiram dividir o apartamento. Cuidavam uma da outra como quem cuida de um irmão, afinal, a família de toda morava no Brasil e a de Leslie, pelo menos, uns bons três dias de carro longe.
- Terminou de estudar?
- Não. Você deu meu número pro ?
Direta e sem papas na língua, a voz de não falhou e nem pestanejou, o que fez os pequeninos olhos verdes de Leslie se arregalarem um pouco, e esta agradeceu por estar de costas. sabia muito bem ler suas expressões.
- , olha...
- Não, olha você. Tem noção do que fez? – aumentou um pouco o tom de voz, com um súbito surto de raiva.
Leslie, apesar de não ser muito de fazer isso, revirou um pouco os olhos, com todo o porte e pompa que sempre usava, mas a brasileira não viu. Entendia que tudo sobre era muito intenso, mas aquilo havia acontecido há algum tempo e ninguém mais se lembrava disso. Continuou a cortar os legumes e disse, sem aumentar uma oitava sequer no seu próprio tom:
- Vai dizer que não estava interessada em saber o que ele queria?
, subitamente, corou. Não havia pensado em como chegar nessa parte da conversa sem parecer desesperada.
- Foi isso que... Vim perguntar.
Leslie sorriu, doce, virando-se para a amiga e enxugando a mão no pano de prato. Seus longos cabelos ruivos estavam presos num coque perfeito e ela usava uma camiseta enorme de Oliver do Capitão América, que era azul turquesa, e contrastava com a pele da garota, que era alva como a neve deve ser. Leslie negou com a cabeça, torcendo um pouco o lábio, pois sabia que esse realmente era o tópico específico da conversa. nunca mudaria.
- Ele não me disse o porquê, mas faz tempo. Você estava em casa, eu acho, e ele parecia muito nervoso e não quis me dizer o que era de jeito nenhum. Só disse que precisava muito falar com você. Fiquei bem preocupada, até – Leslie fez uma expressão compassiva. – Mas não te perguntei nada depois porque você não comentou, então supus que ele não tinha te ligado. Não queria abrir uma ferida desnecessária.
parecia pensativa, agora, com o rosto apoiado nas mãos e a mente cada vez mais confusa. Passou a mão pelo rosto. Por que é que ele precisava voltar e atormentar sua vida?
- Ele estava nervoso? – perguntou, sem conseguir conter-se. – Será que era sério? Por que será que ele não me ligou?
Leslie arqueou as sobrancelhas, cruzando os braços na altura do peito e virou-se para encarar a amiga, com olhos curiosos e uma expressão divertida.
- Por acaso você está preocupada com o , ?
As bochechas da garota tornaram a colorir-se, e esta, ajeitou a postura no banco, negando rapidamente com a cabeça.
- Só queria saber se estava envolvida em algum aspecto para poder me preparar, só isso.
- Por acaso você está preocupada com alguma coisa que aconteceu com o cinco meses atrás, ?
Ela repetiu a pergunta e revirou os olhos.
- Por acaso você pode ir tomar no seu cu?
A ruiva riu, agora, pegando a tábua cheia de vegetais e misturando ao grão de bico numa frigideira espaçosa.
- Sei que assim que ele me ligou, mandei mensagem pro Oliver e ele foi lá. Depois, ficou tudo bem.
- E você ficou satisfeita com essas informações?
mal poderia acreditar.
Ela estava se corroendo por dentro. Eram tantas perguntas! E todas sem resposta. Será que Avery já teria feito a proposta pra ele? Será que ele tinha concordado? Será que ele esperava que ela concordasse? Será que ele não iria, finalmente, usar o maldito número que agora tinha acesso? Principalmente, agora que tinham um assunto importante para discutir? O que será que havia acontecido? Será que tudo estava bem mesmo? Poderia ser alguma coisa relacionada à família dele...
pensava, pensava, pensava e não chegava a conclusão nenhuma. Foi despertada de seus pensamentos quando Leslie soltou uma leve risada, como sempre, porque ela era simpática demais.
- Ele está bem, . Não tem pra que ficar pensando nisso.
- Eu não fico pensando no .
- Claro que não, . Qualquer coisa que te faça dormir de noite.


Capítulo 6

- Ele é o seu empresário? – a expressão de Avery era de surpresa, mas ao mesmo tempo, confusa. Claro que sem baixar a guarda e a sobrancelha que indicava sua feição de prepotência – expressava, até, certo desprezo, mas Tanaka jamais se deixaria abater por isso. Ele era tão prepotente quanto: era bom no que se dispunha a fazer e sabia disso.
dava um bom sorriso de lado, meio incrédulo, mas agia como se gostasse do que via. Eu também mantinha a minha postura ereta, certamente mais insegura que o oriental ao meu lado, que tratava tudo como se estivesse conversando com bons amigos numa cafeteria.
Estávamos todos ali, no escritório de Avery, a conversa de certeza seria breve – a mulher não se demorava com nada. Não tinha tempo pra isso. – e eficaz. Ela estava de pé, em frente a própria mesa, enquanto nós dois estávamos sentados a sua frente. , também sentado, ao lado da mulher, finalmente tirou os olhos do celular para observar-nos com cumplicidade.
- Sim. George Tanaka.
- Você fez direito? Não sabia que atuava como... – e foi interrompida por uma voz com tom de tédio.
- Eu sou músico. Cantor, guitarrista e empresário da banda Silver Linings.
China constatou o óbvio, e foi o suficiente para Avery entender o recado: não o deixaria intimidado, mesmo que tentasse. Eu estava amando esse cara mais que o normal aqueles dias.
- E aí, brother – cumprimentou informalmente com um sorriso e um aperto de mão o japonês que usava uma camisa social e um porte profissional. – Tá todo arrumado...
- Então – ¬Avery interrompeu a conversa, piscou algumas vezes, provavelmente repreendendo o comportamento amistoso dos dois. – Aqui está o contrato. Você se lembra do procedimento, não, ? – sorriu para mim com um viez de piada interna que não tinha graça nenhuma.
- Se me permite...
George, então, intrometeu-se, e usou uma postura e um tom profissional – um que eu nunca o tinha visto utilizar, na verdade. No dia em que ele estava na minha casa, no momento certo e na hora certa, eu resolvi arriscar tudo e contá-lo sobre a proposta de Avery, mesmo que soubesse que essa sempre fora uma das cláusulas do contrato: absolutamente ninguém além das pessoas ali naquela sala poderiam saber do que realmente acontecia entre eu e . No começo, ele pareceu achar a ideia completamente absurda:
“- E aí? – eu perguntei, ainda sentada com pernas de índio no sofá, completamente de frente para o meu amigo, que se sentava de frente para a televisão e parecia estar tendo uma reação alérgica ou qualquer coisa do tipo. – Diz alguma coisa! – reclamei.
George Tanaka estava em um impasse entre o que ele realmente achava que eu deveria fazer e o que realmente faria.
- É claro que não, , que puta ideia idiota – ele fez uma expressão óbvia, batendo com a mão na testa e se virando pra mim, dobrando uma das pernas e apoiando seu braço direito nela. – Você quer se foder de novo?

- É um estágio na Netflix, Tanaka! Você realmente acha que eu não vou considerar a opção? – rebati, e foi mais que o suficiente.
Ele pareceu ponderar.
- Mas você tem que pensar no que realmente é bom pra você, .
Eu sabia que tinha pegado pesado – sabia também que, de todos os meus amigos, nenhum apoiaria a ideia, nenhum me deixaria seguir com isso. Mas de todos, George Tanaka era o único que poderia considerar a possibilidade, e isso era tudo que eu precisava para me agarrar. O mínimo incentivo.
Então, o fiz. Não deixei ir.
- Eu estou bem.

- É. Agora. Mas é o .
E, ok, foi a minha vez de ficar sem argumentos. Preocupei-me, portanto, torcendo a boca para o lado, sentindo o nervosismo me consumir com o teor do tópico.
- Você não acha que eu consigo?
O rapaz engoliu em seco, abaixando o olhar, provavelmente pensando no quanto eu não conseguiria.
- Eu acho que você conseguiria fazer qualquer coisa que você quisesse, .
Eu sorri, me sentindo surpreendentemente confortada, coloquei uma das mãos por cima da dele que já estava apoiada em sua perna, em forma de agradecimento.
- Pelo que eu entendi, serão só alguns meses...
- E a parte burocrática? Não é como se a Avery brincasse em serviço.
- Eu... não pensei muito nessa parte, na verdade. Uma coisa por vez.
Tanaka riu, segurando na mão da amiga.
- Vê, a gente pode fazer assim...”

Então, a gente conversou um pouco mais e decidimos que o China seria minha consciência no processo. Foi assim que ele acabou ali, com Avery, usando os cinco períodos da faculdade de Business que ele tinha feito, antes de largar para seguir sua música.
- O contrato é simples, Tanaka. Algumas cláusulas referentes à quebra, nada demais – Avery parecia muito certa do que falava, apesar de olhar para o rapaz dez anos mais novo com o canto do olho. – Se me permite um breve resumo...
- Eu prefiro ler. Obrigado.
Eu quase ri, agradecendo mentalmente por não ter que lidar com aquele tipo de burocracia. Odiava artigos, contratos, cláusulas, multas ou qualquer coisa referente. Quando eu atuava, minha mãe é quem cuidava de tudo isso pra mim, por ser minha empresária. Ela costumava ir e voltar bastante do Brasil pra cá, mas então, quando parei de atuar, ela ficou lá de vez e eu fui morar com Leslie no nosso apartamento.
Eu também sorri porque o amigo oriental não tinha papas na língua com Avery, o que me deixava muito satisfeita.
Já ela, não parecia tão satisfeita assim. Sorriu, cínica, mas educada, esperando que ele terminasse de ler.
Eu evitei contato visual com o tempo todo, se quer saber. Não por nenhum motivo específico.
Eu só tinha um pouco de medo de não conseguir parar de encará-lo e parecer uma louca. Por via das dúvidas, é melhor evitar. Eles conversaram sobre várias coisas que eu não entendi e não fiz questão de prestar atenção, até que fiquei entediada.
-... De todo jeito, o contrato fala do que se é esperado – ela assegurou, olhando especificamente para mim. Eu assenti, tentando ser profissional. – O relacionamento não pode ser terminado antes do tempo, o término deve ocorrer de forma discreta e combinada previamente, não poderão ser vistos com outras pessoas e precisarão, sim, participar de eventos e viagens familiares, quando necessário. Caso contrário...
- Ótimo, Avery, só tenho uma dúvida – ele a interrompeu, levantando os olhos do contrato pela primeira vez. – Qual a lógica do ser eximido de uma multa que a pagaria caso quebrasse alguma cláusula do contrato? Aqui não diz nada sobre o comprometimento dele.
- É ela quem precisa do estágio, não ele. Me parece óbvio.
-... Me parece que você está tentando se aproveitar da .
Avery revirou os olhos. Eu olhava tudo com os olhos bem arregalados, sem saber muito bem se deveria intervir ou não na discussão. Afinal, eles falavam de mim e como se não estivéssemos na sala.
Meu Deus. Estamos em 2011 de novo.
- Prefiro confiar mais no fato de que ela é profissional o suficiente para não quebrar o contrato.
- , claramente, não precisa se preocupar com isso, no entanto.
- Certo. – Avery cedeu, dando fim a discussão. – Mais alguma coisa a acertar?
- Você concordou com um ano de contrato? – ele perguntou diretamente pra mim, que arregalei os olhos mais ainda, prestes a surtar. Um ano? Um ano inteiro?
- Um ano? Você só pode estar brincando! Eu não concordei com nada disso, eu acho um absurdo que... – e aí, fui interrompida por um tom duro e imponente.
- Dez meses.
- Pelo amor de Deus, Avery – pareceu se pronunciar pela primeira vez, ajeitando a postura na cadeira. Ele estava calmo, como sempre, mas impaciente, como sempre também. Não aumentou o tom de voz, só parecia estar achando tudo aquilo um saco. – Cinco meses. É o suficiente.
- Sete meses, querido. Nem um dia a menos.
Tanaka não precisou da minha permissão para concordar com a cabeça, afinal, ambos sabíamos que Avery não mudaria de ideia.
- Tudo bem, sem mais acertos – ele colocou o papel novamente na mesa. – Agora é só ajustar os detalhes.

X

Eu podia sentir que minha vida estava começando de novo. É claro que eu estava ansiosa.
Ansiosa para trabalhar de novo, me envolver de novo, sentir que estava fazendo algo que me interessasse de novo, colocar em prática o tanto de coisa que eu estava aprendendo na faculdade. Era uma oportunidade única e eu nunca poderia negar isso, mesmo tentando não dar atenção a Situação durante o processo. Estava indo bem, se quer saber, visto que eu não tive que lidar com ele por muito tempo naquele dia que a gente se viu. Os contratos estariam prontos e seriam assinados na manhã seguinte, e eu decidi que seria bem nesse momento em que eu me disporia a realmente refletir sobre a situação. Afinal, pra quê fazer agora o que se pode fazer no dia seguinte? Esse era o meu lema de vida.
Ao sair da faculdade depois de terminar a minha última prova da semana, eu estava finalmente de férias, e me vi com uma vontade enorme de ligar pro China, acho que pela primeira vez na vida – queria poder comemorar as férias, o estágio, queria poder agradecê-lo por ter comprado a minha briga quando não precisava fazê-lo e não estava ganhando nada por isso.
Agora, eu só precisava esperar que as leituras de mesa finalmente começassem, na semana seguinte, para que então eu pudesse frequentar as gravações. Estava ansiosa para trabalhar de novo. Queria por em prática tudo que sabia, toda a experiência que tinha, queria ver o meu trabalho ser exposto e reconhecido – daria meu sangue se fosse necessário para que isso acontecesse.
Eram quase nove da noite de sexta quando eu saí da faculdade. Era a única cadeira que eu pagava à noite, e porra, que alívio ter recuperado minhas sextas à noite de volta agora que eu estava de férias e faria um novo currículo para o próximo período – que era o último. Um que não tivesse aulas nas sextas feiras à noite.
Apesar de tudo, eu não queria descansar – queria estudar os roteiros, os personagens, a estrutura do seriado, queria conhecer cada aspecto do projeto, apesar de não saber muito sobre a série ainda. Do pouco que eu sabia, tinha certeza de que era muito diferente de tudo que já tinha trabalhado – era um thriller policial baseado na vida de três mulheres que, com vidas aparentemente perfeitas, vão se desenrolando ao ponto de subversão e assassinato. O elenco era maravilhoso e contava com Reese Whiterspoon, Nicole Kidman e Shailene Woodley. Eu pensava bastante sobre como as coisas se desenvolveriam no seriado enquanto caminhava.
O fato de meu celular ter morrido nem me incomodou tanto assim – queria, sim, pegar um Uber pra casa, e queria também avisar pra Leslie não se preocupar em me buscar na faculdade, mas me contentei em sair dos arredores do campus e procurar um Táxi. O ambiente não estava muito vazio – tinham pessoas que também estavam saindo de suas aulas e outras apenas se locomovendo para os dormitórios. Eu estava caminhando pela calçada até uma avenida mais movimentada onde eu pudesse chamar um táxi com as mãos, mas senti meus olhos quase se apertarem com força ao receber repentinamente a luz alta de um carro específico.
Um carro que eu identifiquei como sendo de .
Congelei, com uma careta, sem entender, e vi o cara piscar a luz alta pra mim, tentando chamar minha atenção, com um sorriso diferente no rosto. Eu não fazia ideia do que ele estava fazendo ali e senti meu coração acelerar com a possibilidade de interação.
Não soube muito o que fazer no momento, na verdade, por isso, segui meu instinto de, simplesmente, me fazer de louca e continuar andando – não pensei muito na hora, pra ser sincera. Na verdade, quando as coisas eram relacionadas a , eu normalmente não conseguia funcionar muito bem de tão ansiosa. Não sabia em quais termos estávamos, não sabia o que ele estava fazendo ali, não sabia como deveria agir perto dele, não sabia se a gente já estava namorando ou não. Eu não sabia de nada – e por isso, como todas as vezes que eu me vi incomodada na vida, eu ignorei a situação e continuei andando. Vi que ele tentou manejar uma baliza para tentar me alcançar, depois que eu tive a grande ideia de cumprimentá-lo com um aceno de cabeça bizarro e continuei andando.
- , entra no carro – ele disse, com o tom já impaciente de sempre, quando finalmente me alcançou, depois de abaixar a janela. Eu, que estava na calçada, até aceitaria a carona de bom grado, mas arqueei uma sobrancelha para o tom autoritário de . Não que eu não estivesse acostumada.
O tom de voz de exalava um autoritarismo natural, até mesmo quando ele não tinha a intenção – era como se eu e o resto do mundo estivéssemos inclinados a fazer o que lhe foi requisitado, mas eu não cederia ao Universo assim tão fácil.
- Eu vou pegar um táxi.
- Entre no carro, . Anda.
- Não.
bufou. Eu sabia que ele odiava o quanto eu era teimosa. Revirou os olhos com destreza. Eu não arredaria o pé – e bom, pelo visto, nem ele. document.write(Alice). Não me faz descer do carro.
- Vai embora, .
Ele, que estava com o carro indo na menor velocidade possível para me acompanhar, parou o carro de repente, no meio da rua, com um solavanco no freio de mão. Eu arregalei os olhos, parando do nada, incrédula, porque ele estava interrompendo a via, e por um momento, passei a ouvir o som das buzinas dos carros que estavam atrás do de , e me deixei abrir um pouco a boca num O mal feito. O barulho era ensurdecedor, as luzes altas quase me cegavam, mas ele não estava nem aí – vi quando ele abriu a porta do carro e deixou-o ali, no meio da rua, e então, nem se preocupou em fechá-la – ele me encarou com escárnio ao atravessar a rua para chegar até mim, que passei a andar mais rápido, sentindo uma vontade repentina de rir de nervoso. Os carros não paravam de reclamar e as pessoas na rua passavam olhando – eu mordi o lábio, fingindo que não tinha nada a ver com isso e fazendo a louca, virando um pouco a cabeça pra trás, vez ou outra, dando de cara um mais próximo que nunca. Como ele conseguia ser tão rápido?
- Vou. Mas você vai comigo.
E então, como quem pega um saco de batatas, envolveu os braços ao redor das minhas coxas e me jogou, com bolsa e tudo, sem nenhuma delicadeza, por cima do ombro. Eu, que me debatia enquanto era suspendida pelo embuste, ouvi uma risada suave do loiro.
- Tá pesada, . O que acha de uma dieta? – ele comentou, com o tom zombeteiro, enquanto passava a andar até o carro. Então, além dos meus gritos para me por no chão, eu lhe dei beliscão bem forte, xingando-o de gordofóbico do caralho, apesar de saber que ele estava apenas brincando. – ... Não seja uma garota má. – me repreendeu. – Elas são punidas.
Revirei os olhos, agradecendo por estar de calça, e tentava me dividir entre segurar a bolsa e bater nele com as mãos. Além, claro, dos gritos. E das buzinas. E das luzes fortes. E dos xingamentos dos motoristas nos carros.
- , me coloca no chão agora!
- Shhh... Quietinha, sim? – Então ele, com toda a cara de pau que lhe servia, levantou a mão até onde me suspendia e me deu uns tapinhas bem na bunda com a mão livre, como quem conforta alguém com um toque nas costas. – Puta merda, , você sabe que eu sempre amei essa sua bunda grande, né?
E então, um puta de um tapa.
Eu arregalei os olhos, e então, dei uma mordida no seu braço, e ele se enconlheu um pouco, rindo, para só depois abrir a porta do passageiro, me colocando finalmente no chão, que dei um pisão no pé dele. exclamou um ouch! antes de piscar pra mim, eu revirei os olhos e entrei no carro, encarando-o com raiva enquanto ele fechava a porta. Deu a volta no próprio carro, entrou e seguiu, fazendo com que o fluxo de carros na rua voltasse ao normal. Eu esperava que ele tomasse uma puta de uma multa e ficasse bem pobre – o que eu sabia, também, que nem de longe chegaria perto de acontecer, porque ele era, porra, rico pra caralho.
Ao me acomodar no carro, coloquei o cinto de segurança e finalmente virei para o cara idiota ao meu lado, encarando-o com ódio explícito. Não sabia muito bem o porquê, na verdade – tudo bem que os métodos de , apesar de efetivos, eram patéticos e absolutamente desnecessários, mas eu sabia que também não tinha sido das mais maduras. Acho que estávamos empatados. Exceto pela parte em que ele pegou na minha bundinha.
Bom, não é como se ele nunca tivesse feito isso antes.
Tudo isso porque a minha mente o meu corpo não conseguiam se adaptar a essa nova situação em que eu havia me metido – não como , definitivamente, que estava lá com os olhos no trânsito, tranquilo, enquanto tocava uma música pop ruim na rádio e ele balançava a cabeça, pra lá e pra cá, de um lado pro outro, como quem não se importa com a música ruim, como quem a curte. Ele estava lá. Os cabelos lisos atrás da orelha, uma camiseta com estampa alternativa e as mãos no volante do Jeep que ele tanto amava como se ele estivesse no controle do mundo todo. Como se fosse um dia normal, como se todos os dias ele fosse ali, me buscar na faculdade, me dar uma carona, tomar um sorvete e jogar conversa fora.
Eu mal podia disfarçar a minha respiração transpassada e estava lá. Pleno. Calado.
Porque o silêncio nunca o incomodava – era uma das coisas que eu admirava nele, na verdade, sua capacidade de ficar em silêncio, curtindo os próprios pensamentos, sem se incomodar em puxar assunto ou parecer simpático, enquanto os meus, meu Deus, me enlouqueciam; me aterrorizavam. Eu sabia que tinha uma necessidade constante de conversar porque precisava sair da minha própria cabeça.
Olhei pela janela, tentando me conter em começar uma conversa porque eu não queria demonstrar o desespero que sentia, enquanto , ao meu lado, batucava o volante, despreocupado.
Porra. Era .
Olha, vou dizer, eu tinha sim muitos planos pro futuro – eu queria (mais que tudo) me formar, aproveitar um pouco a solterice, transar loucamente com várias pessoas diferentes, ser a diretora de produção oficial de uma série bem sucedida ou participar efetivamente da produção de um filme que ganharia o Oscar. Eu queria aprender a dirigir como um adulto normal, visitar a minha família com mais frequência... eu me esforcei ao máximo para não incluir em nenhum desses planos, por mais que, vez ou outra, chegasse a conclusão de que nunca havia amado e de que provavelmente nunca amaria ninguém como eu amei .
Mas acho que ele tinha, sei lá, um radar, quando se tratava de mim. Com certeza tinha. No momento em que eu me sentia certa de que o estava, finalmente, deixando para trás, ele fazia questão de bater na minha porta e reaparecer como se nunca tivesse sumido.
- Cara de cu – reclamei, porque foi essa a conclusão que cheguei depois de todos esses pensamentos, sem ao menos notar que estava falando em voz alta, com os braços cruzados. me olhou de lado, com um sorrisinho pequeno no canto do lábio.
- Seis minutos – disse, depois de olhar no relógio. – Quase sete minutos que você conseguiu ficar calada. Parabéns. Aposto que é um recorde.
- O que estava fazendo ali, afinal? – perguntei diretamente, sem rodeios, depois de revirar os olhos, encarando a janela e as luzes da cidade, apenas para não ter que dar de cara com as íris verdes de bem ali. Aqueles olhos do inferno.
Quer dizer, tudo sobre ele só pode ter vindo realmente do inferno. Era humanamente impossível que alguém fosse tão atraente assim – era como se cada gesto simples, o modo que ele segurava o volante, suas costas encostadas no banco de couro, o cabelo atrás da orelha, a barba por fazer, o maxilar trincado, a expressão séria e imponente, a camiseta básica e a calça preta. O jeito como ele parecia estar sempre no controle de tudo, como sempre parecia saber exatamente o que estava fazendo, como se nada pudesse atingí-lo.
- Te esperando, ué. – ele respondeu, simplesmente, como se fosse óbvio, parando o carro no sinal vermelho e virando o rosto de lado para poder olhar pra mim e dar um sorrisinho de lado. Estalou a língua e arqueou a sobrancelha, como quem muda de assunto. – Fez uma boa prova?
Fiz uma careta ao me virar pra ele de volta, sem entender nada, e balancei um pouco o rosto. Como ele sabia do horário que eu saía da faculdade? Como ele sabia que eu teria prova? Por que diabos estava sendo tão solícito e simpático e sorridente? nunca era sorridente.
Nada fazia sentido.
- O que está acontecendo, ? – perguntei, desconfiada, com o tom inquisitório, e ele deu de ombros, voltando a dirigir quando o sinal abriu.
- Liguei pra você e deu caixa postal.
???????????????
- E...?
A verdade também é que eu fiquei um pouco surpresa (diga-se, sem palavras) com o fato de que ele havia me ligado. Quantos anos fazia que eu não recebia uma ligação dele? E por que é que meu celular tinha que ter morrido? Por que o meu sangue estava passando a pulsar tão rápido? Céus, eu podia sentí-lo correr.
parecia mais bem humorado que o normal naquele dia, e eu, puta como o inferno, não conseguia superar o fato de que ele achava que era o rei de tudo.
Era só nisso que eu conseguia pensar.
- E que vim te dar uma carona.
- Como você sabia que...
- A Leslie. Eu estava com ela – ele se prontificou em responder, olhando pra mim com o canto do olho com um sorrisinho inconsequente. – Deixei ela em casa e vim aqui te pegar.
- Mas você não sabia o horário que eu ia largar.
- Não. Mas eu sei que você nunca sai da prova antes do último minuto. Era só saber de que horas terminava sua aula.
Tá. Tudo bem. Eu tive que morder o lábio pra não sorrir.
- E a Les?
- Está fazendo nosso jantar.
A palavra nosso ecoou na mente como um jingle insuportável.
- Você não vai jantar lá em casa.
- Ah, ...
Não se importou em discutir, dando o assunto como já decidido, depois de uma risadinha esperta. Eu me rendi também, dando de ombros, sem mais forças pra lutar. Aquela prova havia destruído cada pedacinho de pulsão de vida que eu ainda tinha dentro de mim e discutir com demandava muito esforço, por isso, me virei de lado e recostei a cabeça no banco de couro preto dele, fechando os olhos e curtindo a sensação de, finalmente, poder me desligar por um tempo.

X

Eu realmente achei que estivesse na Terra 2. Como em Flash.
Estávamos sentados na mesa de jantar retangular – de um lado, Oliver e Leslie, digníssimos, um casal típico de televisão mesmo, faziam jus ao seu porte na mída, então, a mesa composta por alguns pratos de jantar e talheres arrumadinhos do jeito da Les, o risoto de camarão, o vinho, três velas e um jarrinho de flores. Sentados, lado a lado, paralelamente, estávamos eu e , em que ele apoiava o braço no encosto da minha cadeira como se tivéssemos esse tipo de intimidade.
- Eu realmente achava que vocês fossem se matar no percurso – Oliver comentou, com um sorriso divertido, o que arrancou de um dar de ombros. Passou, então, a servir-se do risoto, lançando um olhar cúmplice para Leslie, que retribuiu com uma risadinha. Controlei o impulso de revirar os olhos para aquela cena porque eu acho que já tinha feito isso vezes demais por uma noite. Aliás, nem isso – uma hora.
- Nós até apostamos se vocês chegariam inteiros – Leslie confessou, soltando uma piscadela para mim, que dessa vez, não controlei o tal impulso, fazendo uma careta. Eu me sentia absurdamente desconfortável. – Eu ganhei! Sou a única que confia em vocês.
- Bom, foi por bem pouco, na verdade – comentei, com um viés sarcástico. Dei de ombros, também, comendo feliz o meu risoto, porque, pelo menos, uma coisa parecia estar certa em todo aquele ambiente.
E a coisa certa era o garfo com risoto entrando bem dentro da minha boca.
- A não quis cooperar no começo – me dedurou, sorrindo de canto, usando seu charme. Ele não era simpático assim sempre e isso estava me deixando um pouco noiada. – Tive que tomar umas providências. Né, ?
Bufei discretamente pelo nariz, olhando-o pelo canto do olho, mas o tom dele não era irônico ou provocativo de um jeito irritante. Era diferente. E ele ficava me chamando de o tempo todo.
- Se com isso você quer dizer “agi como um homem das cavernas filho da puta”, sim, a gente tá de acordo.
- O que você fez, ? – Leslie perguntou, com sua taça de vinho na mão, já querendo rir. Sabia que ela já imaginava o que ele poderia ter feito. Afinal, era bem característico do esse tipo de coisa.
Ele não era dos mais pacientes e nunca fez questão de esconder isso de ninguém, portanto, não era muito surpreendente quando ele aparecia com esse tipo de atalho para conseguir o que queria de maneira mais rápida.
- A levei até o carro como uma bela dama deve ser levada, ué.
- Com a bunda pra cima? – fui bem expressiva nas minhas palavras, ouvindo as gargalhadas se espalharem pela mesa enquanto me virava um pouco mais pro cara ao meu lado. – Quanto cavalheirismo da sua parte.
- Qual é, . Eu até abri a porta do carro pra você...
A cada palavra que ele dizia lentamente, ele se aproximava um pouco. E então, ele piscou pra mim. Não aquela piscadela que ele tinha soltado no carro.
Mas essa tinha uma conotação. Eu ajeitei a postura, indo um pouco mais pra trás. O som das risadas de Leslie e Oliver se misturaram na mesa, enquanto terminava de contar a história com mais detalhes.
- Eu daria a minha vida pra ver essa cena! – Oliver comentou, ainda rindo um pouco, enquanto comia.
- Foda-se, Oliver. roubou de mim o direito de ir e vir – militei. – E isso, meus caros, é um puta retrocesso.
- Okay, sufragette, mas fui eu quem mandei ele te trazer, mesmo que pelos cabelos. Ninguém aqui achava que você fosse aceitar a carona de bom grado. Mas alguém tem que vir aqui e alimentar vocês. Certo, crianças?
Fiz uma careta, me sentindo a pessoa mais previsível do mundo.
- Em defesa da , ela até que se comportou bem no carro – assegurou, mas eu ainda estava cada vez mais furiosa com o discurso.
Bebi, portanto, todo o conteúdo que havia na taça de vinho à minha frente. Era o efeito de sobre mim.
Sóbria, eu acreditava que não sairia viva.
- Cala a boca, . Você me estressou suficiente por hoje.
- Ah, . Vai dizer que não estava com saudade?
Olhei-o com o canto do olho e foquei no meu prato.
- Não estava, não.
- Eu aposto que sim.
- Pois você perdeu.
- Bom, . Eu estou.
A gente se encarou por um momento em que julgamos estar sozinhos na sala de estar. Não se ouvia nem o tilintar de talheres – haviam quatro respirações transpassadas na sala e nenhuma ousou dizer uma palavra.
- O que está fazendo, ? – perguntei, ainda encarando-o com as íris castanhas intensas que quase saltavam dos meus olhos. soltou um risinho fácil.
- Ué, mas não é óbvio? – ele perguntou, aproximando-se ainda mais, ao recostar seus braços no braço da cadeira que nos dividia. – Estou flertando com você.
O clima na sala poderia ser cortado com uma faca, naquele momento – as respostas eram lentas e tomavam mais tempo que o necessário. Eu apertava os lábios um contra o outro, tentando de alguma forma expelir a tensão que meu corpo parecia ganhar toda vez que estava por perto. Me afastei um pouco para trás antes de molhar os lábios. Ainda mantínhamos os olhos um no outro, sem desviar para direita ou para esquerda, ele se inclinava pra mim e eu tentava me inclinar um pouco pra trás, mas eu não queria.
Eu queria me inclinar pra frente, também. Eu queria me aproximar.
- Bom, pare.
- Por que, ? – perguntou, num tom cínico, me encarando de perto com um sorriso largo no rosto. As maçãs que saltavam naturalmente e os olhos que me despiam, curiosos. – Por acaso você está correspondendo?
Se passaram mais alguns segundos de completo silêncio em que eu não fazia ideia de como reagir – meu coração começava a acelerar e meus pensamentos corriam num fluxo rápido demais e, Céus, por que estava tudo tão quente?
Já Oliver e Leslie piscavam, atônitos, sem acreditar no que viam.
No entanto, fui salva por uma Leslie que pigarreou, piscando os olhos várias vezes e encarando o casal a sua frente – a gente realmente não parecia lembrar da existência das outras pessoas. Fui a primeira a virar de frente de novo, pegando a garrafa de vinho e repondo o conteúdo que havia sido tomado, sem nem ao menos disfarçar, só para que, então, pudesse beber de novo de uma vez. Um segundo de silêncio em que eu podia sentir me encarar, mesmo que eu estivesse virada pra frente.
Decidi que havia tido demais por um dia e que depois aprenderia a lidar com isso de novo.
- Então, gente, o papo tá ótimo, mas essa prova me quebrou – disse, ao fingir um bocejo e levantar um pouco os braços, como quem se espreguiça. Precisava de um belo banho de banheira e de uma noite inteira sem contato com nenhum ser que estivesse presente naquela mesa, ou nenhum ser com vida humana, na verdade. O tópico estava fora de cogitação. – Boa noite.
- Boa noite? – riu um pouco. – Ah, . Mas a noite acabou de começar.


Capítulo 7

Eu nunca havia pisado naquele apartamento de . Cada detalhe, então, pra mim era um mundo novo e totalmente disponível, do jeito que a minha curiosidade é aflorada. Era bem diferente do anterior, em que ele morava com Oliver – era maior. Um apartamento estereotípico masculino: tudo em tons de cinza e preto e não dava um ar confortável, aconchegante. Parecia prático. Moderno. Independente. E eu não poderia negar que era a cara do .
Era claramente bem grande. Enorme. Um dos maiores que eu já tinha visto. Pelo menos cinco vezes maior que o meu. Um duplex, pelo amor de Deus – e eu nunca ia entender o porquê de uma pessoa que mora sozinha ter um raio de um duplex. Eu estava muito feliz com o apartamento de três quartos que dividia com Leslie.
Ainda por cima, estava cheio de pessoas aleatórias que eu mal lembrava o nome.
Tinha muita bebida, também, o que fez com que eu me sentisse meio mal, porque eu sabia que ele não estava bebendo. Música alta saía dos aparelhos de som embutidos na parede e, pasme, umas luzes meio psicodélicas neutralizando o ambiente.
Eu mal acreditava que estava ali, na verdade. Ao entrar no apartamento com meus olhos curiosíssimos, acompanhada de um Oliver e uma Leslie que pareciam animados demais, eu me senti meio desconfortável, como se estivesse no lugar errado, com as pessoas erradas, pelo motivo obviamente errado. Claro que eu queria comemorar, as férias, o estágio, mas ao mesmo tempo, me sentia meio hipócrita. Não sentia que nada daquilo havia sido conquistado pelas minhas próprias mãos, coisa que era contrária a todos os meus princípios e tudo que eu já tinha alcançado na vida, que foi pelo meu próprio esforço. Estava tudo sendo através de , por causa dele, relacionado a ele, e se tinha alguém no mundo a quem eu não queria dever nada, essa pessoa era .
Pisquei algumas vezes, depois que Oliver fechou a porta atrás de si.
- O que porra...? Quem são essas pessoas? – perguntei, com um careta, abaixando um pouco o rosto para que não fosse percebida. Esperava que fosse apenas uma social ou sei lá. Esperava qualquer coisa além de estar numa sexta-feira à noite numa festa no apartamento do .
- Ah, , sei lá, só fica de boa e curte – Oliver deu de ombros, com uma mão puxando a Leslie e a outra me puxando. – Hoje é dia de você ficar bem doida.
Oliver Prior era a pessoa mais deboísta que você poderia conhecer no mundo inteiro – não tem tempo ruim com ele, não tem bad, não tem discussãozinha, só tem suavidade. A função dele no mundo é fazer todo mundo ficar de boa. Ele não era muito de se estressar.
Leslie deu alguns gritinhos, levantando os braços ao som de Cheap Thrills, enquanto faziam dançando o longo caminho até a cozinha. Eu só andei com uma cara de psicopata pelo lugar, mesmo, estranhando todos os rostos e tentando observar os detalhes da casa do embuste.
Estávamos todos muito bonitos e arrumadinhos – depois do jantar, convenceu Oliver e Leslie a irem para uma festa que ele, muito aleatoriamente, estava dando em seu apartamento para aproveitar e comemorar meu novo estágio etc. Isso não parecia fazer sentido nenhum pra ninguém, certamente, mas no nosso grupo a gente previamente havia estabelecido uma listinha com regras. Uma das principais era: é terminantemente proibido recusar festas. Principalmente se elas têm bebidas de graça. E então, eles me “convenceram” a ir também, mas eu não podia ter cara pra negar, por mais que o tivesse feito no começo. A gente precisava começar a desenvolver a situação e tal.
Ao entrar na cozinha com o casal vinte, encontrei com China e , que me cumprimentou com um sorriso. Ele havia trocado de roupa, se arrumado melhor também. Fazia mais ou menos umas duas horas que a gente tinha se visto no meu apartamento – eram lá pras onze e pouca da noite, e acho que o tempo que levou pra ele acertar alguns detalhes da festa foi o tempo que a gente usou pra se arrumar. Ele parecia mais arrumado agora, apesar de simples: uma camisa azul clara de mangas curtas com uma camiseta branca por dentro, uma calça preta e suas insuportáveis botas de combate. O sorriso dele ao me ver foi cúmplice, um que, há muito tempo, ele não usava pra mim.
Tentei conter o ímpeto de sorrir de volta, mas não pude; não quando me encarava daquela forma.
Sentir os olhos de sobre mim sempre era um descaso com o resto do mundo – havia alguma coisa ali que emanava uma sensação quente, que fazia sentir cada parte do meu corpo vibrar. E vibravam como as cordas de uma orquestra.
A gente, então, se cumprimentou e fizemos todo aquele cronograma inicial de comentar certas coisas específicas sobre como a casa estava lotada ou de como iríamos beber muito e ficar bem loucos e de como eu e a Leslie tínhamos demorado pra nos arrumar e que a Pippes deveria estar aqui e não numa viagem aleatória, etc, para que então, a festa finalmente começasse pra gente.

X

Eu, Oliver e Leslie, pouco tempo e alguns shots de Tequila depois, estávamos dançando e gritando loucamente Crazy in Love no meio da sala de estar de . Eu mal me lembrava onde estava e o meu corpo parecia mexer-se por si só – sangue fluía muito rápido em minhas veias e, de repente, o mundo ao meu redor parecia ter ganhado um efeito do Instagram.
As pessoas estavam mais bonitas, mais simpáticas, mais interessantes. Oliver e Leslie estavam suados e faziam uma coreografia ridícula tentando imitar uma cena de White Girls, e sinceramente, ali, nenhum deles se importava com mais nada. Nem eu. Porque eu estava rindo muito.
- EU SOU PROLETARIUM AGORA, PORRA – gritei, no meu maior pulso esquerdista, levantando os braços e juntando os meus amigos num clubinho. Sentia meus peitos pularem, e então, notou que eu também estava pulando, olhei pra baixo e suspendi-os com o braço, rindo, olhando de volta para os meus amigos. – EU TENHO UM EMPREGO!
- Você tá mais pra burguesia, – Leslie gritou, rindo também, e eu levantei os meus dois dedos pra ela e para Oliver.
- A gente está na América. Cê nunca vai poder participar da Revolução.
- EU SOU A REVOLUÇÃO, PORRAAAAAA!!!!! – gritei, por fim, para só depois dar uma gargalhada que durou mais tempo do que eu esperava, e eles riram também. – E vou fazer um xixizinho.
Fui saindo enquanto eles reclamavam, e nossa, estava tudo muito engraçado. Eu lembro de esbarrar em várias pessoas e várias pessoas reclamaram, mas então, eu esbarrei numa bem grande e alta e tentei prender o riso com medo de ela reclamar também.
- ?
Eu ouvi uma voz grossa e firme soar do meu lado e o arrepio foi instantâneo. Eu fiquei séria na hora. Pisquei algumas vezes, tentando identificá-la, lembrando de já tê-la ouvido antes...
- Dustin? Garlac? – quase me engasguei ao me virar.
Quando o encontrei com os olhos, este sorria, simpático. Mas o meu sorriso... Era mais que simpático. Era sagaz. Esperto.
Tinha quase trinta, o tal Dustin. Era alto, mais alto que o normal, com ombros bem largos (porra) e o sorriso mais charmoso que eu já tinha visto. Não era a toa que era um dos atores mais influentes do Cinema na atualidade. Os cabelos escuros jogados pro lado, o porte maduro, a barba grande e bem cortada quase fizeram as minhas pernas virarem manteiga.
- Não vejo você desde...
E eu me perdi nos lábios desenhadinhos do homem a minha frente. Ele provavelmente continuava falando, com olhos bem pequenos pelas maçãs, sobre a grande estreia de Leslie em La La Land e eu juro que queria muito prestar atenção, mas caramba, ele era muito bonito.
-... Não é?
- Aham. Com certeza – eu assenti, pegando o canudo da minha Piña Collada com o dedo e colocando-o entre os lábios. Olhei pra ele enquanto tomava o conteúdo, lambendo os lábios no final. – Mas me conte de você, Dustin, quero saber de você... – aproximei-me um pouco, olhando-o bem nos olhos, com um sorriso de lado, vendo a expressão do homem barbudo a minha frente tornar-se um pouco surpresa.
A gente se conheceu durante as gravações de O Lado Bom da Vida, pelas bandas de dois mil e treze, em que a gente protagonizou o filme que me rendeu o meu único (e tão adorado) Oscar. O último filme que participei antes de dar um tempo na minha carreira. Bom, eu nunca, nunquinha mesmo, tinha mostrado nenhum interesse em Dustin. Estava meio que um caco na época em que a gente se aproximou, porque foi a mesma época que eu e o traste () acabamos.
Nem sabia o que ele estava fazendo ali, na verdade, na hora nem me importei – ele e nem eram tão amigos assim, colegas de trabalho, alguns amigos em comum.
- Ah, você sabe. Muito trabalho. – disse, simplesmente, dando de ombros, recostado numa bancada, sem se importar muito com o conteúdo da conversa até então.
Era sexta à noite, pelo amor de Deus. Ninguém quer falar de trabalho. – E você, ? Faz tempo que não tenho notícias suas...
O sorriso dele sempre era simpático. Eu dei de ombros também, olhando levemente para o lado e então, para dentro de seus olhos de novo. Ri um pouco.
- Último semestre da faculdade. Vou estagiar com a Netflix!
- Sério? Fico feliz por você! – ambos sorrimos um para o outro, e então, nos abraçamos num cumprimento íntimo. O meu corpo se aqueceu. Poderia ficar dentro daqueles braços grandes e largos pelo resto da vida. Aquele cara era gato demais.
Nem me importei em conter o olhar que desceu sobre ele de cima até embaixo, descaradamente. O álcool que palpitava em minhas veias ascendendo como uma árvore de Natal. – E em te ver, também. Só não esperava que fosse aqui, no .
Ri, aproximando-me um pouco, percebendo que a distância entre nossos rostos era mínima.
- Nós levantamos a bandeira branca, Garlac.
- E o que isso quer dizer, especificamente? – perguntou, colocando uma mecha do meu cabelo atrás da orelha. Mordi o lábio. Eu tinha muitas expectativas. – Vocês estão juntos?
- Você parece muito interessado em saber do meu estado civil, Dustin. Já eu, estou interessada em te contar outras coisas...
Passei a dedilhar o peitoral dele, que piscava várias vezes pra mim, meio que sem acreditar muito no que estava acontecendo. Eu sabia que ele tinha certa atração por mim desde a época que gravamos, mas eu só tinha olhos pra – como, na vida, pude ser tão burra?
Bom, não era naquela noite que cometeria o mesmo erro duas vezes.
- E que coisas seriam essas, ?
Ele me perguntou, eu dei de ombros. Os rostos estavam muito próximos. Meus olhos desciam dos olhos dele para seus lábios, que, meu Deus, eu queria muito encostá-los com os meus.
E depois ter uma make out session no banheiro.
A gente estava quase lá. A química entre nós dois era cortante e clara. Eu sentia minha libido aflorar e libertar-se como as chamas de uma lamparina. Afinal, ele não era só muito gato, inteligente, maduro e mais velho.
Ele era Dustin Garlac. Só a menção daquele nome me fazia pensar em orgasmos.
E era exatamente nisso que eu estava pensando, quando, ao me aproximar, senti duas mãos envolverem de lado a minha cintura e puxá-la para si, me fazendo recuar. Eu nem precisei virar pra saber quem era que me pressionava por trás – nenhum outro toque me faria aquecer tão rápido.
Meu quadril entrou em contato com o de , que envolveu seu braço ao redor de meu torso com tamanha possessividade. Braços firmes, rudes, largos, mãos ásperas tocavam a pele do meu abdômen exposto pela blusa soltinha que ia até pouco acima do umbigo. Ah, por Deus, tenha dó.
É claro que eu me arrepiei inteira, dos fios do cabelo aos dedos dos pés – é claro, depois de tantas semanas sem nenhum tipo de contato, meus países baixos começavam a dar sinal de vida, o que fez com que eu cruzasse as pernas e até empinasse um pouco a bunda sem querer. Ele me manteve ali, presa a ele, enquanto direcionou seu discurso para o homem a minha frente.
Acho que corei, nessa hora, e então, tomei mais um pouco da minha Piña Collada, tentando desviar os olhos de , meio envergonhada por algum motivo aleatório que eu não sabia qual era.
- Garlac – o tom dele era neutro, mas muito incisivo. – Vejo que reencontrou a minha namorada.
Soltou um sorrisinho sarcástico no final da frase, enquanto eu piscava várias vezes de um cara para o outro, sentindo-me frustrada e, ao mesmo tempo, muito surpresa.
Pera, qual foi a palavra mesmo que ele tinha usado? Namorada? E ele estava mesmo atrás de mim? Porra, por que esse foi meu último pensamento? Tantas coisas se passaram pela minha cabeça e eu precisava sair de perto dele se quisesse pensar como uma pessoa normal, e não uma ninfeta.
Tentei impulsionar meu quadril para frente e me desvencilhar, discretamente, de , mas ele não deixou. Me puxou pra perto com força de novo. Nos encostamos de novo. Minha bunda no seu quadril de novo.
Sua expressão estava meio puta e eu quis fechar os olhos com força e me segurei tanto pra não dar uma roçadinha. Eu estava pouco me fudendo pra qualquer outra coisa.
De todas as pessoas do mundo, a última que eu esperava ver ali, naquela situação, naquela hora do dia, era . Mesmo que estivesse na casa dele.
- Namorada? – o outro perguntou, olhando desconfiado para mim, que agora, com os ombros tensos e um sorriso amarelo, desviei o olhar dele, direcionando meus olhos pro lado, tentando agir como se ele não estivesse falando comigo. – A não...
- Pois é. Voltamos. A está comigo interrompeu-o simplesmente, e eu, prestes a refutar, senti os dedos de pressionarem a minha cintura e fazerem um carinho com o polegar. Com força. Na minha pele nua. Meu Deus. Eu não sabia muito bem o que falar, eu queria muito ser coerente no momento, mas eu estava tão arrepiada e o tom de voz dele era tão grosso e duro e tão perto... – Né, ?
- , eu não sei se...
E então, boom.
Eletricidade. Eu não entendia muito de física, claramente, mas até uma leiga como eu poderia descrever o que havia acontecido ali: os lábios de – desenhados, finos, rosados –, ao entrar em contato com os meus, descarregou ali feixes de energia elétrica que fizeram cada centímetro da extensão do meu corpo palpitar. O toque de na minha pele e a mão surpreendente no meu pescoço foi tal como colocar o dedo na tomada.
De repente, eu estava tão acesa quanto às luzes da cidade. Tão iluminada quanto a Times Square numa sexta feira à noite.
Um pigarreio foi ouvido.
- Então... Feliz por vocês.
O sorriso de ao vê-lo sair foi descarado. Ele se separou, repentinamente, de mim e inclinou-se pra frente, a fim de cumprimentar o amigo que saía, acenando com a cabeça pra mim. Senti falta das mãos dele ao meu redor. Senti falta do seu corpo atrás de mim. Senti falta da sua voz rouca no meu pé de ouvido. Mais uma vez eu mal poderia ligar para Garlac – nem me dei ao trabalho de tirar os olhos incrédulos de para despedir-me dele. Encarei o homem loiro e americano ao meu lado por um tempo antes de realmente notar tudo o que havia acontecido. Meu estômago passou a revirar – talvez eu tivesse bebido demais, talvez não tivesse assimilado claramente o que havia acontecido, talvez estivesse alucinando... Eu não conseguia descrever. Eu não conseguia descrever o que tinha acontecido, nem o que eu estava sentindo, e nem como havia chegado ali do nada e em dois minutos tanta coisa já tinha se passado. Os lábios dele encostaram os meus, de novo, depois de... Quantos anos?
Eu mal podia contar.
Ouvi a sua voz rude me perguntar:
- Que porra estava fazendo, ? – perguntou, num tom de voz mais alto, acho que por causa da música, colocando as mechas do seu próprio cabelo pra trás. Olhou pra mim, puto, enquanto me puxava com força para um canto do corredor entre a cozinha e o banheiro, um lugar com menos gente, e no caminho eu apoiei minha Piña Colada em algum lugar, atordoada. – Por que é que cê tava com o Garlac?
Eu o encarava, piscando várias vezes, encarava o ambiente, tentando assimilar ao menos metade do que tinha acontecido – tamanha era minha confusão para formular palavras. Meu rosto melado de tinta neon, o cabelo bagunçado de tanto dançar, o suor, a respiração descompassada e a expressão de pura incredulidade.
- O que... Você... – eu nem sabia o que queria dizer.
- Responde, . O que cê tava fazendo com o Garlac? – ele me cobrou, com o tom ainda endurecido e rude. Mas eu nem conseguia ligar. Eu não estava nem aí.
- Você... Me beijou?
Eu perguntei, olhando pra cima, ignorando qualquer coisa que ele tinha dito até então, enquanto ele apertou um pouco os olhos pra mim, parecendo um pouco confuso agora. Nós dois estávamos usando um tom mais alto pelo barulho da festa.
Não entenda mal. Eu estava muito acostumada a esse tipo de coisa – havia beijado muitas bocas na vida, umas profissionalmente, outras não, mas não era especificamente o beijo que me incomodava.
- Ah, qual é, , a gente já fez mais que isso, até.
Eu respirei fundo e... Empurrei o rapaz com toda a minha força com a mão livre. Quem ele pensava que era? Por que é que ele achava que era o dono do mundo inteiro? Vi ele abrir um pouco um sorriso debochado no rosto, talvez por achar que eu estava brincando, e o sentimento que nasceu na boca do meu estômago crescia exponencialmente. Tão exponencialmente que eu mal pensei antes de fazer qualquer coisa. Eu estava tão puta.
A sequência de situações constrangedoras que se prosseguiram aconteceu de maneira muito rápida. O sorriso de foi sumindo aos poucos quando viu que eu falava sério: não precisou muito para que ele notasse, na verdade. Ele sempre notava.
Daí, por incrível que pareça, eu comecei a chorar, chorar muito e silenciosamente, incrédula. Nos encarávamos, parados, eu olhava pra cima porque ele era bem mais alto, e ele olhava pra baixo, pra mim, pasmo, imóvel, surpreso demais, enquanto observava os meus olhos ganharem uma coloração avermelhada e as lágrimas se formarem lentamente nos meus olhos, e eu pisquei, deixando-as livres para correr. As lágrimas quentes escorriam pelo meu rosto se misturando com os tons de verde e rosa enquanto meu busto subia e descia com a respiração ofegante e a boca semiaberta. A luz negra do ambiente destacando a minha blusa branca. A tinta neon nas maçãs, os lábios avermelhados e os olhos molhados com cílios enormes.
A respiração dele estava ofegante, também, e os olhos, agora preocupados, quase como quem pede desculpa. Mas nada saiu da sua boca. Por um momento, também, nada saiu da minha. Não tive vergonha em chorar na frente dele.
- Por que você fez isso? – eu me vi gritar. As lágrimas corriam livremente por meu rosto, e eu o encarava com olhos arregalados. E então, outro empurrão, agora mais forte que o primeiro. – Por que você acha que pode fazer o que você quiser comigo? Por que, ? Me responde! – e mais um. Mais um grito numa voz embargada e falha, o tom agudo que eu nem sabia que conseguia alcançar. Ele me encarava, ainda imóvel, meio que em choque, não sei, mas eu queria, eu esperava uma reação que não tive. Eu esperava que ele gritasse de volta. Eu esperava que ele apontasse o dedo na minha cara, mas eu sabia que ele não faria isso. Ainda sim eu esperava. Eu esperava porque sempre estaria esperando por ele. – Você acha que eu sou sua, não é isso? Você acha que você me tem! – e então, eu comecei a esmurrá-lo, forte e rápido, focando toda a minha atenção no peitoral de , que ia um pouco pra trás a cada investida, parecendo tentar assimilar o que acontecia, movimentando a cabeça de um lado pro outro lentamente, sem saber o que fazer.
- , calma... A gente...
Ele não tentou me segurar.
– Você acha que sempre vai me ter, né? Você acha que eu vou estar aqui, sempre disponível pra você, pra pagar o louco e agir como se nada tivesse acontecido! Você é um merda, – eu gritava, quase como se os meus gritos fossem salvar o mundo de uma guerra inteira, meus pulmões a todo o gás, eu dei tudo de mim, porque havia um bolo no meu peito que queimava em constrangimento. – Um filho da puta egocêntrico que não liga pra nada e nem pra ninguém. Eu tenho nojo de você.
Acho que não só pela situação, em si, mas por todo o contexto, por todos os anos, por todas as vezes que poderia ter dito algo e não disse. Eu esperava que ele gritasse de volta.
Mas ele não gritou dessa vez. Eu esmurrava seu peito com tamanha intensidade que meus braços cansados começaram a fraquejar, e então, em meio aos gritos e as investidas, meu rosto molhado, senti dois braços me segurando por trás com força, enquanto eu me debatia.
- , para – ouvi a voz de China soar doce atrás de mim. – Você não precisa fazer isso.
- , eu... – ele tentou começar, mas perdeu as palavras. tentou se aproximar, e então, eu parei. Nos encaramos por alguns segundos que pareceram uma vida inteira, ele quase me pedia desculpas com os olhos, olhava pra mim como se quisesse me abraçar, mas eu duvidava; Tanaka ainda segurava meus braços atrás de mim, as respirações entrecortadas mal podiam ser ouvidas com a música, no meio do corredor do novo apartamento grande de , com uma luz negra brega como se estivéssemos nos anos oitenta e manchas de tinta por todos os lados. Não caiu mais nenhuma lágrima dos meus olhos.
Eu me soltei dos braços de China, balancei a cabeça e saí, sem dizer mais nada, sem avisar.
Saí sozinha.

X

Estava sentada na bancada da cozinha de enquanto colocava um pano com gelo na testa, com um japonês em pé, recostado ao meu lado, com uma long neck na mão. Respirei fundo bem alto e o oriental ao meu lado deu uma risadinha.
- Do que você tá rindo, seu grande bocó?
Daí eu soltei uma risadinha fraca também.
- Primeiro, você tá ridícula com essa coisa na testa. Você nem ao menos se machucou – os olhinhos puxados do rapaz se fecharam mais ainda quando ele riu, e eu revirei os olhos.
- Minha cabeça tá doendo muito e eu nem tô de ressaca ainda.
Ele deu mais um gole na sua bebida, posicionando-a, então, na bancada, olhando para mim, que tinha os olhos meio fechados e a cabeça inclinada pra trás, enquanto continuava com o suporte de gelo apoiado na testa.
- Eu achava que a Pipper era doida, cara – ele cruzou os braços, negando com a cabeça. – Mas você leva as coisas pra um nível...
- Cala a boca, chinês – bati nele de lado, rindo um pouco, com a voz embargada e gestos mal feitos. As frases eram ditas de maneira lenta e arrastada e eu mal percebia ou me importava. – Eu sou a pessoa mais sensata da festa.
Ele gargalhou.
- Aham. Você nem esmurrou o seu atual namorado porque ele te deu um selinho.
O tom irônico que ele tinha usado foi claro o suficiente para que eu fizesse uma careta. Estava muito cansada.
Fisicamente cansada, emocionalmente cansada, mentalmente exausta, minha cabeça girava e o estômago embrulhado. Eu mal enxergava as coisas direito – a vista embaçada e os olhos baixos requeriam muito mais esforço do que eu estava disposta a fazer. Explicar a China o que havia se passado na minha cabeça no momento do acontecido não era uma opção viável. Acho que provavelmente nunca, mas principalmente ali, naquela hora.
O pior de tudo é que este havia sido, apenas, o primeiro dia de sete meses que se seguiriam.
- Ele não é o meu namorado. – assegurei, acho que mais pra mim mesma do que pra ele.
¬- Cara, você até assinou um contrato.
Bufei, irritada.
- China, você quer que eu te bata também? – aumentei um pouco o tom de voz, usando o mesmo tom lento e embargado, apontando um dedo pra ele, que riu. – Porque eu aposto que o tá lá, todo dolorido – respondi, orgulhosa, e ele negou com a cabeça, desacreditado.
- Dolorido? Você tem meio metro e a força de uma criança de cinco anos – zombou, dando de ombros, e eu torci o rosto, fazendo um barulho estranho de frustração. – Cês tem que conversar, . Vai virar tudo uma bola de neve.
- Ah, eu queria sim que virasse uma bola de neve, e que caísse na cabeça dele e congelasse o seu cérebro – eu disse, sorrindo, e a gente meio que riu, ele sorriu irônico pra mim e continuou a conversa:
- Não só a força, mas a maturidade de uma criança de cinco anos, pelo visto.
- Me deixa em paz. Aquele embuste me dá nos nervos.
- Duvido que você cite três coisas que não te “dê nos nervos”.
- Eu tô bem bêbada e tá todo mundo querendo ter conversa difícil? – me joguei para trás na bancada e deitei a coluna, colocando de lado o pano com gelo e botando as mãos no rosto. Não esperei que o japonês se pusesse ao meu lado e se deitasse ao meu lado também, mas ele o fez, com um sorrisinho simples no rosto. Virei a cabeça um pouco de lado e suspirei, com uma breve risada.
E então, comecei a rir mesmo. Muito. E eu não conseguia parar.
- ...
E então, ele me encarou, incrédulo, sem entender o que estava acontecendo, para que então, começasse a rir também, tanto quanto eu.
- Eu... Sou muito... Patética! – gargalhei, dizendo entre risadas, com as mãos na barriga e olhos fechados, ainda deitada na bancada, com as pernas penduradas. – Nossa... Eu...
- Eu sei – George concordou, recebendo um tapa de lado, mas rindo também. – Ai. Caralho. – ele reclamou de tanto que ria, e eu também.
E então, depois de um tempo, nós dois suspiramos, finalmente parando de rir.
- Olha – eu comecei, virando apenas o rosto para ficar cara a cara com o meu amigo, que também estava na mesma posição. Ele assentiu para que eu continuasse. – Obrigada. Tá?
- Como disse, ? – ele se fez de desentendido, aproximando-se, simulando tentar escutar melhor. – Eu acho que não entendi direito...
Torci um pouco a boca, dando de ombros, negando com a cabeça.
- Já me arrependi de ser legal com você.
- Vai, fala. Eu quero ouvir.
- Obrigada, Tanaka. Não sei o que teria sido de mim sem você nesses últimos dias.
E então, o empurrei um pouco com o braço. Ele empurrou de volta, com um sorriso triunfante nos lábios.
- Nunca imaginei ouvir isso de você.
- Nunca imaginei dizer isso pra você. Você sempre foi, tipo, o amigo inútil.
- Você continua sendo.
- E também continuo querendo que você vá a merda.

X

“Relaxa, . Só tá... Tudo muito rápido.”, controlei o ímpeto de rolar os olhos ao lembrar do que China, um dos meus melhores amigos, havia dito assim que a saiu do corredor em direção a cozinha, e eu, com coisas mais importantes pra me preocupar, saí de lá também, sentindo que estava cada vez mais próximo de uma dose de whisky. De todos os meses que havia esquecido o quão ruim era ter que ficar sóbrio, eu estava, com certeza, pagando o pato. Que audácia do japonês achar que conhecia melhor que eu, ou que a entenderia melhor. Eu tinha consciência de que conhecia como ninguém no mundo, assim como ela me conhecia. Ele falou alguma coisa sobre ir conversar com ela depois também, mas nem quis escutar. Fui até Oliver e Leslie ver se eles me ajudavam a tirar isso da cabeça (sem contar nada, é claro).
Fiquei com eles conversando um tempão, eles estavam bem bêbados e muito engraçados, como sempre. Eram lá pelas três e meia ou quatro da manhã quando a maior parte das pessoas já tinham ido embora, então, eu desliguei a música e fiz a maior parte das missões que se fazia no fim da festa, mas não me deixei tirar os olhos de nem por um segundo desde o nosso desentendimento. Por isso, num momento oportuno, a vi subir pelas escadas do meu duplex, olhando para os lados como se estivesse fazendo alguma coisa errada e não quisesse ser vista. Sorri, debochado, e neguei com a cabeça.
Passei pelas pessoas e atravessei o ambiente de modo que ficasse embaixo da escada, e subi alguns de graus para que tivesse uma visão mais próxima do que ela estava querendo fazer – a vi, então, abrindo todas as portas do corredor, uma por uma, até que, provavelmente, encontrou o que queria.
Vi abrir a porta do meu quarto com cuidado e fechá-la atrás de si, sem voltar atrás.
Eu quis rir um pouco. realmente era um filme a se assistir – eu gostava ver sua mente funcionar, porque apesar de louca, ela era inebriante, tinha uma capacidade jamais vista de me manter interessado. Parecia que sempre se tinha uma coisa nova a se desvendar, um mistério novo pra descobrir, um segredo novo que ela tentava guardar e não conseguia. Eu tentava, apesar de tudo, não me sentir completamente atraído por cada movimento que fazia. Eu falhava miseravelmente.
Porque não dava. A cada vez que mordia o lábio ou colocava o cabelo atrás da orelha, lá estavam os meus olhos independentes, discretamente seguindo cada um de seus mínimos gestos. Os cílios grandes, as sardinhas mal escondidas pela maquiagem e tinta neon, os lábios naturalmente rosados e delineados, o olhar expressivo e imponente...
Claro que cada palavra que ela tinha dito havia sido semelhante a uma facada no estômago. Eram palavras duras – e o pior de tudo, sinceras. era a pessoa mais honesta que eu já havia conhecido, e por mais que eu admirasse isso nela, era perigoso, como um campo minado. Por algum tempo, eu tentei mudar de novo a imagem que tinha sobre mim depois do nosso término, mas ela parecia irredutível, e eu, bom, acabei me cansando quando vi que não tinha resultado. Muitos anos tinham se passado e estávamos mais maduros agora, claro, mas me passava uma sensação ruim saber que ela ainda me via da mesma maneira.
Ou talvez parar para pensar que as coisas que ela tinha dito eram, inconscientemente, verdade. Respirei fundo, tentando não meditar nisso – mas não conseguia parar de me perguntar: por que é que as coisas tinham que ser tão complicadas pra gente? Por que é que elas não podem ser simples de novo?
Minha mente divagava sobre isso enquanto eu ia subindo os degraus da escada e segui seus passos até o meu quarto, que ficava na última porta do corredor. Eu tentei ser o mais suave possível ao fechar a porta atrás de mim para que ela não me percebesse.
Encarava tudo parecendo estar interessada em cada detalhe. Era um quarto bem simples, na verdade, não tinha muita coisa – era um típico quarto minimalista, como eu queria que fosse. Era espaçoso, também, todo em preto, branco e cinza: uma cama grande, uma televisão à frente, uma bancada com o meu notebook, uma estante com muitos e muitos livros e materiais de papelaria, meu closet e o banheiro da suíte. Tinha alguns porta retratos, com a minha família e com Oliver, Leslie e China.
Ela havia se aproximado intimamente de uma das fotos e encarava com uma careta quando eu resolvi intervir:
- ?
¬¬Ela estremeceu um pouco, dando um gritinho de susto e virando-se completamente para mim. Mesmo com o quarto escuro, podia te dar a certeza de que tinha, de fato, corado, e piscou algumas vezes, antes de desviar os olhos pro lado e brincar com as próprias mãos.
- Você me assustou – ela disse, mas a voz era fraca e baixa, tão baixa que tive que me inclinar um pouco pra frente para ouvi-la melhor, mesmo que já tivesse desligado a música no andar anterior.
- Você está no meu quarto – eu constatei, esperando que ela se explicasse. Não que eu estivesse muito incomodado, mas sabia que ela estava constrangida (não pelo que fazia, mas por ter sido pega). ficava mais transparente que o normal quando bebia. Me aproximei um passo, enquanto ela continuava olhando pra qualquer lugar que não fosse eu. Até que deu de ombros, cruzando os braços.
- Estava procurando o banheiro. Quero fazer xixi. – retrucou. O tom debochado e firme. Eu fiz uma expressão de quem não compra o peixe.
- Foi a primeira porta que você abriu – dei mais um passo pra frente. Agora estávamos mais próximos, e eu mal podia enxergá-la, mas sabia que ela fazia uma careta. Revirou os olhos, dando de ombros.
- Eu fiquei curiosa pra saber como era o seu quarto. – confessou, por fim, e então bufou, indo se jogar de costas na beirada da minha cama. Eu ri, porque aquilo tudo era a cara da , e eu me sentia mais confortável em saber que ela, provavelmente, estava se sentindo mais tranquila em relação a mim. Observei-a encarar o teto, meio emburrada. A blusa deixava a maior parte de seu torso à mostra, os cabelos longos e, agora, castanhos esparramados pelo lençol e a respiração que fazia seu busto subir e descer.
- Você não vai mudar nunca, né? – eu disse, com certa nostalgia, mas mantive meu olhar, e ela deu de ombros de novo, deitada, com os braços esticados em cima da cabeça. Eu fui até ela e me deitei ao seu lado, olhando pro teto também. – Achei que fosse demorar mais pra você vir pra cama comigo de novo, mas foi mais fácil do que eu pensei. – eu brinquei, tentando deixar claro que o clima não precisava ficar pesado pelo que tinha acontecido e ela abaixou os braços, me beliscou na barriga, virando a cabeça de lado e olhando pra mim, meio que sorrindo, meio que não. Eu me virei pra ela também, rindo um pouco.
- Você não vai mudar nunca, né? – ela repetiu a minha pergunta.
Sua voz não estava mais embargada e ela parecia estar um pouco mais sóbria, um pouco mais calma. Nossos rostos foram ficando um pouco sérios aos poucos e eu tentei me perguntar como eu poderia ser tão idiota, um completo imbecil, e, ao mesmo tempo, tão sortudo.
negou com a cabeça enquanto olhava pra mim, e eu olhei para ela tentando desvendá-la, tentando abrir suas cortinas – precisava saber o que se passava na cabeça dela. Eu queria poder acalmar cada pensamento ruim e cada desentendimento bobo. Eu queria fazê-la entender que eu me importava, sim, com ela, e que estava grato por tê-la de novo na minha vida, mesmo que de um jeito meio suicida. Eu a tinha de volta. Eu queria que ela soubesse que o fato de eu não estar mais apaixonado por ela não significava que eu não a amasse, porque porra, como eu amava, que não teve um dia de todos esses anos que se passaram em que eu não houvesse parado pra pensar nela e em quanto ela fazia falta.
Mas me tirava as palavras. Toda vez. Toda vez que eu olhava pra ela, tão linda, caralho, ela era tão linda e tão viva, tão frágil e tão corajosa, tão alegre e tão intensa, a pessoa mais forte que eu já tinha conhecido, mas ao mesmo tempo, quando ela se dispunha a sentir a tristeza e a dor que vinha com a vida, por vezes, ela não se limitava. Algo despertava dentro dela e que eu queria mais que tudo conseguir arrancar. Limpar. Tirar. Amar até sair – amar não como escolha, não como sentimento, mas como verbo, como ação. Amar até curar.
Mas eu tentei salvá-la uma vez e não consegui. Doía, também, em mim, saber que eu nunca conseguiria. Só ela seria capaz de se salvar. Só ela seria capaz de se curar.
- Me desculpa – ela pediu, e eu achei que ela fosse chorar de novo. Meu coração apertou e eu queria dizer pra ela que não tinha problema, não tinha problema nenhum, que ela poderia fazer o que quisesse, comigo e com o mundo, contanto que não chorasse. – Me desculpa.
- , eu-
- Por favor – e eu não consegui dizer mais nada, porque o meu maior medo havia se transfigurado em realidade bem ali, naquele momento: lágrimas silenciosas voltaram a escorrer do rosto de . Ela se encolheu um pouco, deixando-as correr livres e perenes, e eu toquei seu rosto com meus dedos, lenta e suavemente, de maneira que não a assustasse, que não a fizesse recuar. observou enquanto minha mão se aproximava do seu rosto e, ao tocá-la, fechou os olhos, delicadamente, com os lábios fechados e o busto subindo e descendo devagar. – .
Foi como entrar no carro e ligar o aquecedor no inverno, como beber um copo de água bem gelada depois de uma hora inteira de corrida. Foi como entrar no mar num dia quente.
me chamou pelo apelido com tanto carinho que eu até pensei que ela tivesse me perdoado.
- Shh. – eu pedi, e ela abriu os olhos pra mim. Deslizei a ponta dos meus dedos que alcançaram cada centímetro do seu rosto, um por um, e então, alisaram suas maçãs e pararam no canto de sua boca, agora, servindo de apoio pro seu rosto. As lágrimas foram parando de cair aos poucos, mas antes, molharam um pouco a minha mão. Não me importei. – Não tem que se preocupar.
- Eu sei que...
- , você sempre vai ser a minha pessoa favorita no mundo inteiro – foi o que eu consegui dizer. Eu não queria que ela dissesse mais nada.
Eu não sabia como isso ia refletir nela e nem sabia se era o que ela queria – ou precisava – ouvir, mas era o que eu precisava que ela soubesse. Porque era verdade. Não tive coragem de tirar a minha mão dali. A pequena e doce mão de , então, se sobrepôs a minha, e ela sorriu. Sem mostrar os dentes, mas eu sabia que era um sorriso verdadeiro. Ela apertou a sua mão contra a minha e eu não conseguia desviar os olhos dela. Seus olhinhos vermelhos e cansados, então, foram se fechando aos poucos, e ao sentir sua mão cair ao lado da minha, soube que ela tinha adormecido.
- Porra, – eu sussurrei, suspirando. – Você ainda vai me enlouquecer.
Tirei minha mão do seu rosto com o maior cuidado para que ela não sentisse falta e acordasse e, então, me levantei. Queria que ela se sentisse confortável ao dormir, mas tinha certeza de que, se tentasse trocar a roupa dela, ela acordaria – então, eu só a puxei um pouco, com delicadeza, de maneira em que ela pudesse ficar no topo da cama e apoiasse sua cabeça no travesseiro. A cobri com um cobertor e fechei as cortinas do quarto, indo pegar um copo d’água para deixar pra ela na cabeceira quando acordasse de manhã.
Eram cinco da manhã e eu achava que a festa poderia ser dada como terminada, oficialmente, mesmo – eu acordei Oliver e Leslie que estavam meio mortos no sofá e perguntei se eles queriam dormir lá em cima, mas eles disseram que iriam pra casa da Les. Eu os assegurei que ficaria aqui comigo e eles não pareceram achar uma ideia ruim na hora.
Levei o copo de água para , quando pensei em dormir, e decidi que o melhor para minha sanidade seria ficar pelo quarto de hóspedes.


Continua...



Nota da autora: E AÍ GENTE DOEU EM VOCÊS COMO DOEU EM MIM? hahahah o final desse capítulo mexe comigo de um jeito... já tô mandando a att ansiosa pra saber o que vocês acharam (comentemmmmm!!!!!!). espero que tenham gostado desse lado mais aberto desse tão amado embuste <3 e não se preocupem, tem muito mais doidera de onde essa veio. assim que esse capítulo entrar eu mando o outro! xxxxxxxxx



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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