Don't Panic

Última atualização: 07/11/2017

Prólogo

Abril de 2005
nunca quis ser uma princesa – pra ser sincera, ela sempre gostou mais de ser uma heroína: a Mulher Maravilha, ou a Mulher Gato, ou até mesmo a Mulan servia. Contanto que não fosse a donzela em perigo.
Naquele momento, ali, num país que não era o seu, numa casa que não era a sua, com uma família que não era a sua, sentia-se a heroína de sua própria história. Estava radiante, com seus grandes cabelos loiros soltos e jogados para um lado só, a blusa ciganinha branca tão 2004, a bermuda jeans e um sorriso no rosto. Não tão largo, porque Willa não era simpática – naquele momento, sentia que estava gravando o momento em que vencia o clímax final do filme da sua vida.
Quase isso. estava, sim, num set de filmagem – mais precisamente, um da NBC –, gravando a sua primeira cena no piloto do seriado novo que faria parte, o mais cotado para ser o próximo queridinho da emissora, sendo escalada como uma das principais – um seriado mais maduro, em que ela poderia se destacar mais em outros aspectos, senão comédia. Por mais que tivesse apenas onze anos, já tinha uma carreira brilhante, e era uma das cinco crianças mais bem pagas do mundo (por mais que não se considerasse, especificamente, criança. Preferia o termo “Pré-adolescente”).
Truth or Dare seria um seriado revolucionário para sua época – abordaria temas como homossexualidade, bullying, relacionamentos abusivos, empoderamento da mulher, divórcio, drogas e outros. não entendia muito de nada dessas coisas, mas sabia que queria entender, porque queria ser a melhor Willa que conseguisse, a melhor Willa que esse mundo já havia visto. E já tinha em mente tudo que aquela personagem poderia trazê-la.
Willa Rivers era diferente de Emma Geller, sua primeira e única personagem até então, quando encorporou a filha excêntrica e nerd de Ross e Rachel, em Friends, nas últimas cinco temporadas do seriado. Willa era uma personagem totalmente sua – geniosa, empoderada, ardilosa, independente e sagaz. O contexto da história era que a família Rivers havia perdido seu patriarca, e tudo torna-se um problema ainda maior quando Willa, sua mãe, Elena, e sua irmã mais velha, Trish, (que era a protagonista da série, representada por Leslie Andrews, uma garota ruiva e bem alta que, até então, era desconhecida no mundo da televisão) se mudam para o Orange County e a mãe conhece um novo pretendente, para o desgosto da caçula; então, a história começa a se desenrolar.
estava ansiosa. A primeira cena era simples: elas tomariam café da manhã juntas, Trish as faria ter um momento sentimental de recomeço, e então, elas terminariam com um abraço, dizendo que tudo ficaria bem, porque elas estavam nessa juntas; e então, Trish e Willa iriam para o colégio.
Fácil. tirou de letra. Foi encorajada e elogiada por seus colegas de trabalho, que não esperavam que a garota fosse tão fácil de gravar com.
Difícil mesmo foi quando, algumas horas depois, teve que gravar a sua primeira cena com o rapazote que, supostamente, faria seu par na série – e nunca esteve tão nervosa. Claro que foi extremamente profissional – estaria mentindo se dissesse que gravar a sua primeira cena com , o mini galã da América, que ganhou o mundo inteiro com Zathura: Uma Aventura Espacial e ABC do Amor, foi um ultraje. Ele era bom demais para ser reduzido a qualquer coisa menor que genialmente espontâneo. Desde a primeira cena que gravaram juntos, sabia que aquele garoto lhe causaria problemas.
Como a vida imita a arte, lá vai o que aconteceu:
adentrou, nervosa, a sala de aula onde gravariam sua primeira cena juntos e o rapaz, de cabelos loiros na altura do queixo, com um grande fone de ouvido da beats pendurado no pescoço, já caracterizado de Tommy Hart, sentou-se ao seu lado, tranquilo, como quem se deita na areia da praia.
Enquanto estava uma pilha, mal sabia como cumprimentá-lo – alguma hora eles teriam que se beijar! –¸ tantas coisas novas acontecendo, tanta coisa se passava na cabecinha daquela garota de onze anos. Ela mal podia conter as mãos que tremiam e o coração que batia forte, enquanto ...
parecia estar de férias.
- E aí.
Eles já haviam se conhecido, antes, na table read, mas ele não parecia ser muito simpático. Pelo contrário. Era como se a fama que ele mal tinha já houvesse subido por sua cabeça – e por isso, a garota resolveu não manter muito contato além do necessário.
O que não diminuia o fato de que ele, possivelmente, era o garoto mais bonito que ela já havia conhecido no mundo inteiro e ela não conseguia olhar dentro dos olhos dele por mais de um segundo inteiro sem querer soltar uma risadinha envergonhada.
Mal abriu a boca para responder, e então, ouviu o grito: Ação!
Josh Schwartz exclamou. E então Willa Rivers tomou vida.
Estavam em um laboratório de química experimental. O ambiente era todo branco, absurdamente limpo e organizado e estava separado em bancadas que possuiam béqueres e líquidos coloridos que fariam o experimento tomar forma. O professor já havia começado a aula e Willa estava sentada em sua bancada, sozinha, com um jaleco que tinha o seu nome e o óculos redondinho com armação de tartaruga e cabelos presos num coque. Estava entretida em suas anotações quando ouviu o barulho de uma bolsa ser jogada no chão, perto do banco ao seu lado. Levantou o olhar e arqueou uma sobrancelha, vendo um rapaz de camisa xadrez e sem jaleco sentar-se ao seu lado. Observou minuciosamente cada movimento do garoto desconhecido, com doces olhos verdes e um sorriso simpático no rosto. Tirou os fones do ouvido e pendurou-o no pescoço, sem parecer se importar muito com o olhar inquisidor que a garota lhe lançava. Ele tinha porte de Skatista – com aqueles cabelos grandes, lisos, a camisa xadrez por cima de uma branca básica, a calça jeans folgada e vans. Aquele fone enorme o entregava, também. Nada, nadica de nada, o tipo de Willa. Ela não se envolvia com essas pessoas.
Willa gostava de pessoas inteligentes, sérias e comprometidas.
- Tem alguém aqui? – Ele perguntou, tentando entendê-la.
Mas Willa não era daquelas garotas que se podiam entender.
- Eu não preciso de uma dupla.
- Não foi essa a minha pergunta – ele piscou, sorrateiro, e deu uma pequena risada para a garota ao seu lado, que não moveu um músculo do rosto. Willa revirou os olhos, encarando-o de cima a baixo.
- Existem outras bancadas com carteiras disponíveis.
- Se eu quisesse me sentar em alguma delas, teria me sentado – ele deu de ombros, parecendo a achar a atitude da menina bizarra, mas sem se importar muito. Tommy Hart não era muito do tipo que levava desaforo para casa.
- Quando disse que não precisava de uma dupla, quis dizer que não queria que você fosse minha dupla.
As palavras da garota surtiram o efeito contrário do esperado no rapaz, que deu uma risadinha esperta, dando de ombros.
- ... E eu quis dizer que não dou a mínima.
Um minuto se passou em que os dois se encararam firmemente – Willa, com uma raiva que subia queimando por seu estômago até sua garganta, quase desenvolvia raios laser com os olhos. Ela o faria, se pudesse. E Tommy não poderia ligar menos, mas devolvia o olhar como quem está entediado.
Tommy não esperava pelo que aconteceria a seguir: ninguém esperava.
De repente, a garota virou-se para frente e voltou a anotar em seu caderno. Tommy deu-se por satisfeito, distraído, procurando por seu próprio caderno na bolsa, não notou quando a garota juntou o líquido azul e o rosa – e então, Tommy colocou o caderno em cima da bancada que, agora, dividiria com a loira pelo resto do ano letivo. Até que, Willa, num movimento rápido e sagaz, derrubou o béquer que continha os líquidos misturados em cima de seu próprio caderno, e começou a gritar.
- Meu Deus! O que você está fazendo? – a garota gritou, afastando-se com sua bolsa para trás, parecendo estar chocada e assustada com a suposta atitude do garoto.
- EU estou fazendo? Você é louca?
Fogo. A mesa toda pegava fogo. A fumaça subia como neblina e Tommy tentava, com seu próprio caderno, abafar as chamas. Muita fumaça. Gritos. Pessoas correndo. Um Tommy paralisado. Uma Willa aparentemente abalada demais.
E então, o extintor de incêndio.
- Vocês dois. Detenção. Agora. A garota parecia decepcionada, e até entoou um “mas professor...!”. Já Tommy, completamente sem reação.
Viu Willa piscar pra ele antes de sair pela porta da sala.
Tommy estava fodido.
também estava.


Capítulo 1

Junho de 2017
estava sentada à mesa com uma taça de vinho na mão e o coração quase saltando pela boca.
O ambiente estava muito bonito, bem classy. As luzes com tom amarelado dos enormes lustres de cristal, a decoração era simples, mas eficaz. O salão alugado era enorme – contava com um pequeno palco, uma área com um bar e mesas espalhadas com toalhas brancas, flores e pessoas famosas, fúteis e incrivelmente desinteressantes. mal podia conter a tragédia que seu sábado a noite seria: mas como uma boa atriz que era – sempre seria –, mantinha um sorriso doce nos lábios todas as vezes que alguém chegava para cumprimentá-la.
Quanto tempo que não tenho notícias suas, , realmente você faz falta, essa indústria precisa de pessoas como você. Quando vai deixar essa ideia boba de manter todo esse talento escondido pra si? Soube que a CW daria tudo para que você estivesse presente na nova série, sim, aquela que vai estrear com a Lucy Hale. Você poderia facilmente conseguir um papel.
Blá, blá, blá, não poderia estar menos interessada. Esforçava-se para não revirar os olhos. Se quisesse o raio do papel, se inscreveria para fazer o raio do teste, ué. Mas mantinha as aparências por pura educação. Não estava ali para mendigar emprego – por mais que se alguém lhe oferecesse algum na sua área, ela, provavelmente, aceitaria de bom grado.
Estava preparada para aquele tipo de ladainha porque, quando prometeu que viria à festa, sabia onde estava se metendo. Mas o que Oliver não pedia sorrindo que ela não fizesse chorando?
Não era aquilo que a preocupava.
Apesar de estar saturada daquele ambiente – esperava que a sensação de âmago passasse com os anos, mas, pelo visto, só piorava –, e daquelas pessoas que só se importavam com seguidores de Instagram e matérias em revistas, o fator era o que fazia a boca do seu estômago apertar. Queria conseguir parar de buscá-lo pelo ambiente com os olhos, mas estes pareciam ter vida própria! Não se cansavam de procurar pelo salão os cabelos grandes e louros que poderiam se destacar até mesmo na multidão das ruas da Times Square.
- , por favor, quer parar com os pés? – ouviu Leslie reclamar, com seus doces cabelos ruivos balançando junto com sua cabecinha, enquanto repreendia a amiga, inclinando-se um pouco para o lado na mesa que dividia com ela, Pipper, e China. – Quem vê de longe, até pensa que você está nervosa. Rá, rá, rá.
Pelo visto, não estava sendo tão discreta quando pensava.
- O não chegou ainda, pode ficar tranquila – o rapaz ao seu lado, com longos olhos puxados, grandes maçãs no rosto e profundas covinhas no canto do sorriso disse, com a voz grossa e inesperada, recebendo um olhar fulminante como resposta.
- De qual lado você está, Chinês?
E então, George Tanaka girou os olhos, visto que sua descendência era japonesa. Mas já havia cansado de tentar mudá-los de opinião quanto ao apelido.
- Do lado que quer ir embora – Pipper respondeu, quase deitada na cadeira ao lado de Tanaka, com a expressão entediada. – Vocês me prometeram álcool, famosos gostosinhos...
- E interação -, que, sejamos sinceros, sempre é um evento... – a ruiva completou.
- Vão à merda – a garota fez uma expressão de quem estava irritada, mas não pode conter um sorrisinho no canto dos lábios.
- Não estou recebendo nada disso. Eu disse que deveria chegar só na hora da festa.
A garota de curtos cabelos loiros platinados e gigantes olhos azuis revirou os olhos bem marcados de preto.
- Ei – China reclamou. Os dois mantinham uma espécie de amizade colorida sem compromissos, que nunca dava em nada – em resumo, quando ficavam muito bêbados, se atracavam no banheiro. No sentido literal da palavra.
O japonês, que era o cantor da banda de rock indie-alternativo na qual Pipper era baterista, era indeciso demais para uma Pipper impaciente demais e complicada demais e que, agora, queria dar satisfações de menos.
- Tem famosos gostosinhos o suficiente pra vocês dois aqui nessa festa, japonês – ouviram, então, a voz de Oliver Prior soar repentinamente, abraçando a namorada por trás. Leslie sorriu, dando um beijo estalado em um dos braços em que ele envolveu seu pescoço. – Não precisa competir.
- Quem tá precisando competir é a – o rapaz de olhos puxados respondeu, rindo, recebendo uma cotovelada de lado, e levantou as mãos em rendição. A garota fez uma expressão afetada e revirou os olhos. – Qual é. Você terminou o namoro desde, sei lá, 2005 e não engata um beijo de boca...
- Com licença, China? Só fazem dois meses! É recente.
- Você tá há dois meses na seca, ? – Oliver perguntou, olhando pra ela, meio zombeteiro. – Vou te anunciar lá no palco pra ver se te dá uma ajudinha.
- Vai, Pipper, é contigo! – Leslie apontou para a amiga, que respondeu, prontamente:
- “Ex-atriz de Truth or Dare só precisa de um beijo de boca pra ver se para de ficar choramingando pelos cantos e assistindo filmes da Rachel McAdams”.
- “ , atriz que ficou conhecida por ser a excêntrica filha de Ross e Rachel no seriado Friends só precisa de um beijo de boca pra ver se resolve fazer alguma coisa útil com a vida além de passear com seu cachorro, Mojito”.
O japonês, ao seu lado, continuou com a brincadeira, recebendo um high5 da loira, acompanhado de algumas risadas.
- “ , brasileira que ganhou o mundo como Willa Holland, só precisa de um beijo de boca pra ver se para de gastar todo o dinheiro do aluguel com sorvetes da Haagen Dazs”.
Leslie foi a próxima, revirando os olhos, e então, mais risadas. Exceto por uma pessoa em especial, que levantou um certo dedo em específico para os amigos.
- Eu juro que se vocês não calarem a boca, vou eu mesma buscar o Travis em casa, trazê-lo pra cá e vocês terão que aguentá-lo a noite inteira. E eu ainda convido ele pra morar com a gente, Leslie.
Então, vários gritos, vaias, e pessoas se revoltando ao mesmo tempo. Todas as pessoas da mesa se manifestaram contra e fez uma careta. Desde quando seus amigos odiavam tanto seu ex namorado?
Tudo bem, ele poderia ser um pouco inconveniente às vezes, e tudo bem também, ela nem gostava dele tanto assim. Mas pelo menos foi um relacionamento duradouro que ela poderia esfregar na cara de sempre que o visse. Dessa vez, ela não tinha nada para esfregar na cara dele.
Estava desempregada e solteira. Dignidade ela perdeu desde, sei lá, os seus catorze pra quinze anos, quando começou a se envolver com aquele embuste...

X

Fazia pouco tempo que havia chegado – porém, , que era o louco dos horários, agora, estava se sentindo irritadiço. Maldito trânsito de Los Angeles, maldito momento que resolveu ir com o próprio carro. Mas afinal, para que pedir um Uber se não poderia beber? Quer dizer, não que não quisesse. Precisava de um incentivo para passar por aquela noite são.
Já eram dois meses que estava limpo, e acreditem, isso era muito para . Não que ele se considerasse um álcoolico – mas ele precisava refazer sua imagem na mídia se quisesse continuar com a carreira etc. Um bocado de baboseira que ele não se importava. Estava cagando pra sua imagem ou para como as pessoas o viam.
A única coisa que realmente importava pra ele era poder trabalhar, e há quatro meses estava impedido de fazê-lo, desde que Shonda Rhimes havia decidido que ele era impraticável de se trabalhar com. Foi expulso da única série do qual realmente se orgulhava de ter feito parte – afinal, How To Get Away With Murder era inteligentíssima e quase um ultraje.
De todo jeito, depois de quatro meses parado, de “quarentena”, ele poderia até mesmo ser escalado para a próxima turma do Hi5 na Discovery Kids e mal se importaria. Só precisava voltar a ativa. Era só isso que ele queria: e se parar de beber fosse o necessário para que ele pudesse voltar, era isso que ele faria. E qualquer outra coisa que lhe pusessem na mesa.
Era só por isso que estava ali: não poderia se dar ao luxo de perder essa festa, era sua volta a elite da fama. Apesar de continuar considerando Oliver um de seus melhores amigos, sempre achava melhor comemorar os aniversários em outros momentos, ou dar um jeito de chegar quando ia embora. Só que Avery o mataria se ele perdesse. Segundo ela, era um longo caminho a se percorrer, e ele precisava estar nos lugares certos, nas horas certas. Quem mandou estragar tudo, ?
Ele também se perguntava.
Apesar de tudo, havia um papel numa nova série da ABC, Mason Hills, a mais nova futura queridinha da emissora, e ele sabia que estava sendo cotado. Era o personagem dos seus sonhos: inteligente, sombrio, irônico, imprevisível, maduro. Um personagem que realmente pudesse ser levado a sério – e não mais um playboyzinho de drama adolescente que só serve pra manter o público feminino entretido, que foi, basicamente, noventa porcento de tudo que ele fez até hoje. Não mais, ele pensava. Essa era uma série de suspense. Era uma série inteligente com sacadas geniais. Uma série que envolvia um banho de sangue, pessoas escuras e misteriosas e um grupo de amigos bem preparados para resolver assassinatos feitos por um serial killer psicopata que ninguém sabia quem era. Tudo que sempre sonhou em participar.
Mas precisava ser paciente, como também diria Avery. Credibilidade só se alcança com paciência.
No auge de seus vinte e dois anos, até que estava muito bem. Já havia participado de duas séries com visibilidade mundial, sendo um dos protagonistas em ambas, uma trilogia de cinema e mais alguns filmes aleatórios em que ele fazia personagens secundários, mas relevantes. Ele sabia que estava indo bem. Ele sabia que iria chegar onde precisava. Mas queria voltar a trabalhar logo e estava impaciente demais.
Quase tão impaciente quanto estava naquela festa. Também era difícil ver todas aquelas pessoas bebendo sem poder se deixar dar um gole se quer.
De todas as coisas que o irritavam, de todas as coisas que tiravam a sua paciência, encontrar ali, sentada no bar, com aqueles cabelos presos que deixavam sua nuca a mostra e o batom vermelho (maldito batom vermelho, malditos lábios grossos delineados de vermelho), a taça de vinho sempre presente na mão, ele, com certeza, colocou-a no topo da lista.
Precisava tanto de uma bebida. Dane-se qualquer outra coisa. E foi com esse intuito que se aproximou do bar.
De jeito nenhum estava procurando uma desculpa para abordá-la.
- ?
Usou o apelido, é claro, não poderia perder a oportunidade de provocá-la. Observou a garota tensionar os ombros, ainda de costas.
- Não esperava te ver por aqui – continuou, bem no pé do ouvido, antes de apoiar o cotovelo na bancada, bem ao seu lado. Encarou-a com um sorriso irônico no rosto. – Resolveu ter consideração por alguém?
As palavras saiam como se tivessem vida própria. Ele sabia que deveria se controlar – afinal, fazia o quê? Um ano e meio que não via , assim, de carne e osso? Mal sabia como a garota reagiria. Era imprevisível demais.
De todo jeito, ao vê-la ali, bem na sua frente, depois de tanto tempo sem notícias, era impossível evitar. Não parecia de verdade. Queria tocá-la. Mal podia decidir se era um sonho ou um pesadelo. Definitivamente não podia ser real.
Afinal, aquele rosto delicado e fino ainda o atormentava quando ele ia dormir...
- Pelo Oliver? Sempre tive – ela respondeu, prontamente, com a voz rouca de sempre, dando um gole de sua taça e uma piscadela para o rapaz. – Esse tipo de coisa não se força, você sabe.
- E o namoradinho, não trouxe dessa vez? Da última vez que te encontrei, corria atrás dele como a boa cadelinha no cio que sempre foi... Mas achava que era só comigo.
se surpreendeu com a própria escolha de palavras, mas agora já era tarde demais e já havia dito mesmo – precisava descontar a própria frustração de algum jeito e ali estava. Agora a brasileira havia virado de frente pra ele, com o banquinho que girava. Encarou-o como quem está entediada, como quem não se afeta, mas por dentro, ele sabia que ela estava mal podia se conter. Via no modo em que ela mordia o lábio marcado de vermelho. Revirou os olhos, inclinando o rosto para cima, visto que (principalmente agora que ela estava sentada), o rapaz era mais alto.
- Parece muito preocupado com a minha vida amorosa, . Não me superou ainda? Mas já fazem tantos anos! – encarou-o com uma expressão compassiva, depois de respondê-lo com um tom maternal, e o rapaz sentiu algo dentro dele revirar. A boca do seu estômago queimava. Sentiu seus lábios mais secos que o normal.
Odiava o quão ela era rápida para respondê-lo, não importa o que ele dissesse. Odiava quando suas palavras pareciam não afetá-la. Resolveu ignorar qualquer coisa que ela tivesse dito e continuar com seu discurso:
- Pelo visto, cansou de você, assim como eu. Perfeitamente compreensível.
olhou para ele como se seus olhos pudessem queimá-lo vivo, levantando-se, dessa vez, sem postergar nenhuma expressão de explícito rancor. ouviu quando ela pisou com os saltos no chão. Claque, claque. Próximos demais.
Mas continuava baixinha, mesmo com os saltos. Cruzou os braços. Torceu os beiços marcados de vermelho. Arqueou uma sobrancelha.
Dez segundos de completo e torturante silêncio.
- Vá beber, , para ver se me esquece. Só assim que você consegue, né?
Então, uma eternidade. Foi o tempo em que seus olhos ficaram presos um no outro. Uma eternidade inteira.
, com aqueles cílios grandes e olhos medianos bem demarcados, sentia os olhos de à sua frente penetrarem os seus. Mas não a olhavam de um jeito comum.
Naquele momento, notou que também havia ido longe demais. De braços cruzados, com seu queixo levantado, pronta não só para uma batalha, mas para uma guerra inteira, esperou por uma resposta que parecia não vir. Um, dois, três, quatro. Os segundos se passavam lentamente enquanto eles mal conseguiam desgrudar os olhos um do outro. queria sair – queria ir embora, queria virar as costas e deixá-lo ali, falando sozinho todas aquelas baboseiras que saíam da boca dele, que ela sabia – tinha certeza! – que eram mentira (ou que eram verdade?), e apenas ir embora. Ir embora como ela nunca conseguiu.
Então, piscou os olhos algumas vezes. Alguma coisa prendia seus pés ali, ao lado dele. Alguma coisa prendia seus olhos aos dele. Alguma coisa prendia seus ouvidos ao que ele iria dizer, mas nem havia dito ainda.
Cinco, seis, sete, oito, e então, juntou um pouquinho de força de cada célula que se formava em seu corpo e para fazer menção em virar-se, mas não estava disposto a deixá-la ganhar assim tão fácil. Portanto, num movimento rápido demais, segurou-a pelo braço, o que fez com que a morena a sua frente voltasse para perto, por impulso. Nove, dez, onze. Olhos que não se desgrudavam.
Até que pode ouvir a voz rouca e grave dizer:
- Eu não preciso esquecer alguém que eu nunca cheguei a amar, .
Bang, bang.
Um tiro, provavelmente, doeria menos. até pode imaginar perfeitamente um girassol, bem na sua frente, que antes estava vivo, sorridente e amarelo, e num estalo de dedos, foi murchando aos poucos, caindo pétala por pétala, até que não sobrasse um resquíciozinho de vida se quer.
Pode ver encará-la de cima a baixo com todo o desprezo que conseguira guardar em seus olhos, pegar seu copo de água cristalina e sair, deixando uma plantada, frustrada e sozinha no bar.


Capítulo 2

Achei que fosse ter uma experiência melhor com o passar da noite – bom, não tive.
Era lá pras três da manhã de uma sexta-feira à noite, eu estava na festa de aniversário do meu melhor amigo e nada (ouça bem, nada) de realmente útil havia acontecido, eu só tinha ficado muito puto com e aquilo fora suficiente para que eu perdesse a paciência pelo resto da noite. O pior de tudo é que eu estava ficando com sono. Sono demais, entediado demais, sóbrio demais. E sendo obrigado a ouvir uma música remixada da Taylor Swift. Respirei fundo, sentado num banco aleatório perto da pista de dança onde tanta gente famosa e, ao mesmo tempo, desconhecida, se divertia. Era um ambiente razoavelmente grande, a boate, onde se fez o after party do jantar. Tinha uma pista lotada de gente famosa e (alguns que eu nunca ouvi falar) e um palco onde a banda de China havia se apresentado, além do bar funcionando nas laterais e alguns corredores que eu não fiz questão de desbravar.
Segui todas as instruções de Avery, pelo menos. Havia conversado com bastante gente da indústria artística (e porra, como as pessoas eram mais interessantes quando eu estou bêbado) e feito bastante social, porque, segundo ela, não era a festa de aniversário do meu primeiro amigo aqui em LA, era uma festa importante para eu refazer a minha imagem. “As pessoas sempre falam de você, , sempre falarão. Mas nesse momento da sua vida, é importante que falem bem.”
E mais um blá, blá, blá de coisas que eu não fazia mínima questão de chegar a me importar ou ao menos prestar atenção, blá.
De verdade, eu só queria entender o motivo pra tanta burocracia mimizenta nesse meio – por exemplo, o que é que importa pros outros o que eu faço numa sexta feira à noite? Ou se eu tô saindo com alguém? O que realmente deveria importar é: estou cumprindo com as minhas obrigações? Estou fazendo meu trabalho de maneira efetiva? Estou roubando ou matando alguém? Não, caralho. Nunca matei ninguém (quase matar não conta como matar, se é o que você está pensando). Eu já tinha minha própria família, Avery (que, às vezes, conseguia ser pior que Dona Stella no quesito satisfações), e agora, teria que ficar dando também pro resto do mundo?
Ninguém tem nada a ver com nada que eu faço, por Deus. Arrumem uma vida.
Que grande pé no meu saco ter que ficar me explicando. Estava muito puto.
Tão puto que mal conseguia dar atenção pra garota que se colocou na minha frente, no bar, do nada, e me perguntou se eu queria uma cerveja. Não que eu estivesse precisando me esforçar muito – a morena de longos cabelos bem pretos fazia todo o trabalho, deslizando o dedo no meu peito e me puxando pra perto pra sussurrar umas propostas que eu considerava bem convidativas e até daria atenção pra elas... quando estivesse menos puto. Ela me puxou pra um canto da festa mais vazio, e estávamos em pé, recostados sobre uma bancada improvisada, a luz do ambiente era baixa e a música ruim muito alta, o que facilitava as coisas, visto que precisávamos ficar bem próximos pra conversar. Ela era muito bonita – alta, com grandes olhos azuis e tinha um corpo meticulosamente desenhado e prestigiado pelo vestido colado que ia até a metade das coxas. Pena que ela era uma porta e não parava de tagarelar.
- Ah, sim, ... – o uso do apelido me incomodou um pouco. – Eu me lembro de te ver no cinema pela primeira vez quando eu era novinha, ainda, tinha uns doze anos.
Sorri de lado, um pouco convencido. Ia ser uma puta mentira dizer que não gostava da atenção que eu costumava receber, sim, amaciava o meu ego. Mas também era o único assunto sobre o qual as pessoas pareciam saber conversar sobre e isso cansa – tipo aquelas conversas sobre os filmes que apareci ou das pessoas com quem trabalhei. Eu queria alguém que me mantivesse entretido, na verdade, alguém que fizesse a noite valer a pena – porque, até então, era melhor ter ficado em casa, mesmo.
De todo jeito, ela não estava parecendo fazer um bom trabalho.
- Sim? E qual foi esse filme? – tentei parecer interessado.
- Zathura.
Ri um pouco, por educação, lembrando do primeiro filme em que apareci, e de como estava nervoso, e do tanto de coisa que havia acontecido desde então até aqui. Mas isso durou um total de cinco segundos.
Resolvi, então, que aquele papo não iria muito mais longe que aquilo e que era melhor dar a noite como terminada e ir pra casa, por isso, me aproximei da garota, bem perto de seu ouvido e quase a chamei para dar uma voltinha no meu carro, quando, de repente, um ser minúsculo e bravo apareceu bem na minha frente, ficando entre eu e a morena. Eu arregalei os olhos por sobressalto, mesmo, ficando meio absorto enquanto me perguntava o que porra estava acontecendo ao me dar conta de quem estava ali, na minha frente. Impossível não reconhecer.
- Quem é você? – pude ouvir a voz característica e bem conhecida perguntar. Podia imaginar sua expressão arrogante olhando firmemente para a mulher com quem eu antes conversava, de braços cruzados. – O que está fazendo com o ?
A mulher colocou os cabelos negros para trás de seus ombros, e então, inclinou um pouco a cabeça para frente, intercalando o olhar entre eu e , sem entender muito bem o que estava acontecendo e esperando alguma reação minha, mas eu estava perplexo demais para dizer qualquer coisa. Tive, até, que prestar mais atenção que o normal para entendê-la, porque agora que estava entre a gente, mal conseguia ouvir a sua voz.
- Nós estamos conversando. – respondeu, apenas, com uma expressão confusa e meio irritadiça, que deixavam suas sobrancelhas em evidência. Olhava incisivamente para mim, na expectativa que dissesse alguma coisa, fizesse uma intervenção, assumisse seu lado na discussão, mas eu não poderia perder a oportunidade de ver até onde iria. Quer dizer, era óbvio que eu tinha dimensão do quão imprevísivel poderia ser – mas depois da briga que havia acontecido algumas horas antes, eu não esperava ter notícias dela tão cedo.
Pois bem, cá estava. O Furacão sempre voltava.
- Certo. Eu dou a conversa como terminada, então – voltou a tomar a frente da conversa, com sua voz embargada, mas firme, e ela afirmava com a cabeça enquanto dizia cada palavra, usando uma atitude imponente e irredutível. Pigarreei um pouco, antes de tocar em seu ombro, achando que seria a hora certa de fazer uma intromissão. , no entanto, virou pra mim com um sorriso divertido, completamente diferente da expressão dura que entregava a morena a sua frente.
- ... O que você tá fazendo? – perguntei, com uma expressão incisiva e meio confusa, mas no fundo, eu queria rir. Mais precisamente, gargalhar.
Certamente arrumaria um jeito de esfregar isso bem na cara dela no outro dia. Eu nunca perderia a oportunidade: faria questão de recitar cada detalhe, tim tim por tim tim, cada fato da noite, cada palavra, cada atitude que resultava daquele ser minúsculo tão capaz de me dar nos nervos. De certeza ela se lembraria daquilo.
Depois ela podia sumir de novo, que fosse, quantas vezes quisesse.
- ? Olha, eu não quero atrapalhar nada... – a mulher estava prestes a destrinchar um discurso com tom moralista quando a a interrompeu, desbravada e despreocupada, dizendo:
- Então não atrapalhe. Pode ir embora – virou-se novamente para a garota antes de falar, afastando-a com a mão. E o que aconteceu foi que esta foi embora mesmo – bufou um pouco, pegou sua bebida e sua bolsa e saiu. Notei quando virou novamente pra mim, com uma sobrancelha arqueada e braços cruzados, prestes a ir embora de novo. Antes que pudesse fazê-lo, cruzei os braços também, abaixando um pouco a cabeça, tentando ficar na mesma altura que ela, com um sorriso vitorioso.
Agora éramos dois idiotas na mesma altura de braços cruzados encarando um ao outro com expressões distintas: eu, triunfante, e ela, orgulhosa.
Poderia, sim, dizer que estava puto com ela por ter sido uma empata foda (bem aleatória, por sinal), mas, se realmente tô sendo sincero aqui, não podia me importar menos com a garota que saiu.
- Posso saber por que você mandou o meu date ir embora, ? – perguntei, ao que ela respondeu com uma risadinha frouxa e esperta.
- Por favor... Você estava mais entediado que eu, quando estou conversando com você.
Sua voz era arrastada, as palavras soavam lentas, e o tom era divertido, como quem brinca, diferente do tom duro e rude que me lançou antes. A língua até mesmo um pouco enrolada pela bebida. Vi quando deu de ombros, dando uma piscadela com os cílios longos e olhos castanhos demarcados com preto.
O sorriso pomposo não saía do canto dos meus lábios. A gente se encarava sem reservas – ela olhava na minha íris, bem no fundo, sem desviar por um segundo, e eu mantive o olhar, desafiando-a.
- Estava me observando, é?
- É.
Levantei, voltando a minha altura normal, surpreso com a resposta, se é pra comentar. Observei-a sem disfarce, ao encolher os ombros e empinar o nariz pequeno e fino, imponente, gloriosa, como quem não tem vergonha do que diz. Eu não esperava por essa resposta. Eu, na verdade, nunca esperava por nada que dizia.
O rosto dela parecia um pouco suado, devia dizer. Possivelmente pelo corpo quente de quem bebeu. Os cabelos meio bagunçados no penteado que o levava pra trás, os lábios ainda vermelhos num tom escuro, desenhados, grossos e carnudos, o porte elegante e cheio de si, uma das alças do vestido preto que caía sobre o ombro nu e a pele bronzeada...
Porra. era um pacote e tanto.
Não resisti tocar seu braço, colocando a alça no lugar, sentindo os olhos dela me seguirem em cada deslize dos meus dedos. Vi que sua pele arrepiou com o meu toque, e então, voltei a olhar pra ela, e ela já estava olhando pra mim. Nos encaramos, então.
- Por quê? – perguntei.
- Porque... Você agora tem barba – ouvi a sua risada fraca e me deixei soltar uma, também, meio intrigado, querendo saber o que ela diria depois. Apoiei, então, meu cotovelo na bancada e coloquei meu peso numa perna só, de frente para uma que também recostou-se sobre a bancada, com a cabeça levantada, olhando para mim com olhos curiosos.
A verdade é que eu não fazia ideia do que estava acontecendo e estava curioso pra descorbrir, também. Faziam anos que não tinha uma conversa saudável com ou que ao menos passávamos mais que cinco minutos no mesmo ambiente. Também achei que ela nunca mais fosse querer olhar na minha cara depois do monte de coisa que a gente disse um pro outro por motivo nenhum, alguns momentos antes, mas então, lá estava :
Decidida, imponente, leve e despreocupada. Bem na minha frente. Como se nada nunca tivesse acontecido, ela disse. Eu neguei com a cabeça, um pequeno sorriso insistindo em pender no meu lábio. – E eu sempre quis saber como você ficava de barba...
Usou sua mão direita para passar pela minha barba e ficar subindo e descendo as unhas nos pelinhos grossos que preenchiam as laterais do meu rosto, entretendo-se, e eu pisquei várias vezes, tentando entender se era de verdade ou se eu estava num universo paralelo onde eu e ainda poderíamos nos tocar sem danificar um ao outro.
, os dedos de não danificavam. Curavam.
- E o que você achou, ? – perguntei. Minha sobrancelha arqueada, eu a desafiava.
- Que você está muito gostosinho – ela comentou, num tom baixo, como se fosse um segredo, colocando um dos dedos na boca e fazendo um “shhh”, para logo depois, rir. Com a minha expressão, a prometi que não iria contar pra ninguém, usando um sorriso divertido.
Mas a verdade é que o que eu queria mesmo era gravar aquilo e postar em todas as minhas redes sociais. E marcá-la. E então fazer vários DVDs e deixar um exemplar em cada porta de cada pessoa que vive na Califórnia. Fui disperto de minhas ideias quando ouvi continuar: – E que você está bem bonito hoje, sabe, de camisa social e blazer. Eu gosto de te ver de camisa social. E de blazer. E sem camisa social, também, e sem blazer. Sabe? Sem nada.
Então, eu gargalhei, sem conseguir me conter com o discurso, e ela riu também, mas com uma feição confusa, de quem não sabe do que está rindo. A gente se olhou um pouco, eu não fazia ideia do que estava acontecendo e , provavelmente, também não, e por mais que eu estivesse achando aquilo tudo uma péssima ideia (tudo que provenha de mim e juntos, com certeza, é uma péssima ideia), eu não conseguia sair dali de perto dela. Eu não conseguia conter a curiosidade em saber o que mais ela tinha pra falar, o que mais ela tinha pra fazer, como ela ia me surpreender...
Porque, porra. Ela sempre surpreendia.
Tive mais um choquezinho de realidade quando ela cambaleou um pouco para o lado e fechou os olhos, provavelmente sentindo sua pressão baixar, com um sorriso largo no rosto, balbuciou algumas coisas indecifráveis sobre estar louca e eu caí nos meus sentidos. Com um sorriso no rosto ainda, segurei-a firmemente pela cintura, envolvendo um dos meus braços ao redor dela, que, de repente, abriu os olhos, acompanhando meu movimento e piscando algumas vezes.
- Obrigada, . Agora vamos procurar a Leslie. Você precisa voltar pra casa.
- Eu queria que você tirasse essa camisa agora, pra falar a verdade. – Ela retomou o tópico, ainda olhando para o meu braço ao redor de sua cintura e eu virei os olhos um pouco, molhando os lábios. Um de seus braços na bancada e o outro por cima do meu, deslizando seu dedo no meu ombro. E então, levantou os olhos, encontrando os meus no caminho e deixando-os por lá.
A gente estava próximo demais, foi o que eu consegui constatar, no meio de toda a explosão de coisas que se passava pela minha cabeça. Sua expressão, então, tornou-se séria.
Outra coisa que eu constatei era que tinha lábios bonitos demais, e desenhados demais, e olhos que se destacavam demais, os traços moldados demais. Tudo nela era muito; parecia tão atraente quanto todas as outras vezes que a tinha visto. No fundo, eu esperava que toda essa atração passasse com o tempo – mas depois de uns bons dez anos que a gente se conhecia, acho que só fez piorar.
De todo jeito, ela estava bêbada. E era a .
- Leslie, , eu preciso que você me diga onde a Leslie está. – eu cobrei, com a voz mais dura, e ela fechou os olhos com força, para então, abrir. Pareceu retomar um pouco da consciência antes de responder:
- A Leslie me dispensou para ficar com o Oliver.
Do nada, passou explorar meu rosto e os fios do meu cabelo com os dedos, cutucando as minhas maçãs e divertindo-se com algumas mechas loiras. Eu tentava me afastar um pouco dos seus dedos, prendendo o riso, ainda a segurando, enquanto ela ria gostosamente ao me apertar.
- E a Pipper?
- A última vez que a vi, estava arrasando na bateria.
Revirei os olhos, evitando bufar. estava muito perto.
Era muito difícil pensar direito em qualquer coisa para dizer ou no que eu deveria mesmo fazer.
- E aí?
- E aí que você me distraiu quando estava com aquela garota.
Então, subitamente, ela parou de enrolar o dedo em uma das mechas e me encarou com a expressão brava, mas infantil. Molhei os lábios, dando de ombros, me dando como satisfeito com a explicação. Não é como se, algum dia, fosse conseguir entendê-la, de todo jeito – acho que nem Freud ou Jung conseguiria explicar o que se passava na cabeça daquela garota.
- Você tem a chave de casa?
- A minha cabeça está girando.
- Eu não te perguntei se a sua cabeça estava girando.
- Você também não me perguntou se eu te achava um gato, mas eu acho.
Porra. Aquele diálogo estava indo longe demais e não tinha, literalmente, ninguém por perto para ver isso. Era tudo que eu me perguntava. Era essa a hora de os humilhados serem exaltados, mas Deus não estava cooperando – fiquei, então, passando raiva sozinho, revoltado, batendo o pé no chão e olhando para os lados, esperando que, do nada, alguém aparecesse só pra eu ter uma testemunha dessas palavras que mais soavam como música aos meus ouvidos.
- Ah, . Eu realmente espero que você lembre de cada detalhe desta noite amanhã de manhã...
Não consegui conter o sorriso de provocação, quando ela me olhou confusa.
- Por que não lembraria? – enfatizou a última palavra com bastante dificuldade.
- Me dá sua bolsa, .
- Você nunca responde nada que eu pergunto, sempre me deixa sem respostas. Nunca sei o que se passa na misteriosa mente do misterioso .
- Me dá sua bolsa, . – eu mal continha o sorriso.
- Sim, pirilim, Misterioso , e você está com braços bem fortes – dessa vez, eu não consegui me conter. Ri mesmo, jogando a cabeça pra trás, enquanto ela potencializava sua fala com as expressões do seu rosto. Ela gesticulava bastante, também. – Eles eram bem magrinhos alguns anos atrás, você sabe.
- Eu só tinha quinze anos, , dá um tempo. – peguei a pequena bolsinha que estava pendurada no ombro dela e abri, vendo que tinha ali alguns documentos soltos, porque a bolsa era bem pequena, uns trocados, um cartão de crédito, uma camisinha, o celular e uma chave, que eu rezei aos Céus que fosse da casa dela.
- O tempo é relativo. Sabia? Que o tempo é uma criação humana? Nós vivemos submetidos a algo que nós mesmos criamos. Não é engraçado, Misterioso ?
Ela tagarelou e eu pisquei algumas vezes, sem acreditar que aquele era realmente o tópico que ela estava se dispondo a abordar numa sexta à noite às três da manhã, sem contar no meu novo apelido. Pigarreei, dando a noite como terminada.
- Vem, , eu vou te levar pra casa.
- Se você me soltar, eu vou cair – ela disse, séria, e eu coloquei uma mecha que caía por seu rosto atrás de sua orelha.
- Eu tô aqui, . Não precisa se preocupar.
E assentiu, apenas, agora mantendo a expressão e me abraçando por baixo, porque eu era meio alto pra ela manter o braço no meu pescoço. Envolveu seus dois braços ao redor do meu torso, enquanto eu segurava firmemente a sua cintura, impendindo-a de fazer qualquer movimento em falso, mesmo com aqueles saltos altos e finos que ela sempre usava. Me surpreendi ao sentir recostar a cabeça no meu peito e, quando eu olhei pra ela, essa tinha fechado os olhos, deixando-se guiar até o carro. E então, ela disse “para onde você está me levando, Misterioso ?”. E eu só sorri largo, sem respondê-la.
Andamos até o carro e eu abri a porta do passageiro do meu Jeep, ajudando a se acomodar. Ela sorriu pra mim, com os olhos bem abertos e os dentes bem alinhados e recostou a cabeça na cadeira revestida de couro. Fechei sua porta e dei a volta no carro, para só então entrar no banco do motorista e seguir o caminho do apartamento de Leslie.

Nos primeiros dez minutos, tagarelava sem parar sobre qualquer coisa que passasse na sua cabeça, como ela sempre fazia, principalmente quando estava alegrinha. Falou da festa, do seu dia, da Leslie, do jantar ruim e do restaurante novo que tinha frequentado durante a semana e que a gente passou por ele. E então, silêncio total. Mas não era um silêncio desconfortável. Era... Pacífico.
Nada que eu tivesse conhecido com nos últimos anos.
- Você não gosta de observar as ruas da cidade à noite? – ela comentou, num tom empolgado, com os pés no painel do carro. Tinha uma das mãos na janela e observava tudo com bastante atenção, parecendo estar muito interessada em cada detalhe de ruas comuns de LA. – As luzes me deixam fascinada.
Ri um pouco da escolha de palavras.
- Eu acho legal dirigir à noite, também. Essa hora, principalmente, é mais tranquilo, quase não tem carro – respondi, sincero, parando pra ponderar sobre e chegando a conclusão que a sempre gosta de conversar umas coisas inúteis que ninguém mais liga. Estava prestes a sorrir inconscientemente com meu próprio pensamento quando ela continuou:
- Você sempre fica um saco quando tem trânsito...
Comentou, despreocupadamente e riu um pouco, desfazendo o penteado para recostar melhor a cabeça no banco e deixando seu cabelo cair como cascatas por seu colo, ainda olhando pra janela. Ela pareceu não achar que disse nada de errado, como quem descreve a característica de um bom amigo que a gente conhece há tempo, sendo que a boca do meu estômago apertou um pouco e eu engoli em seco.
Éramos eu e . A gente não era amigos. A conotação que ela tinha usado era estranha e parecia íntima demais, fora o jeito que ela mexia no cabelo...
Sendo que, ao mesmo tempo, era a . Eu nunca foi íntimo de ninguém no mundo como eu fui íntimo da .
- E você, já aprendeu a dirigir? – retruquei, tentando esticar um pouco a piada, dando uma piscadela para , que revirou os olhos, mas riu um pouquinho, com a voz rouca, mas ainda arrastada. Como se seus ânimos tivessem acalmado um pouco. O sinal estava vermelho, agora, então eu virei um pouco de lado, voltando minha atenção para ela.
- Só quando você deixar de ser um pé no saco.
- Você se divide bastante entre me elogiar e me xingar.
- Isso é porque você me deixa bem confusa, Misterioso .
Finalmente, ela, que estava meio deitada, meio sentada, com os pés descalços no painel do meu carro favorito, virou seu rosto ainda recostado no banco para mim, deu de ombros e suspirou, séria. Eu a observava em cada minúsculo detalhe, olhando pra ela ali, ao meu lado, de novo, no banco do passageiro com os pés pra cima, pela milésima vez, porque não parecia verdade. As coisas que saíam da boca dela não pareciam verdade.
não usava mais do seu charme comigo, por mais que ele estivesse sempre lá. não me dava mais apelidos ou brincava com as minhas manias. Mas aqui estava ela: fazendo comigo exatamente o que queria porque ela simplesmente conseguia. No meio da minha linha de raciocínio, enquanto eu continuava olhando pra ela e pensando todas aquelas coisas, ouvi sua voz soar, doce: – O sinal tá verde, .
A gente se encarou por mais um breve momento, e então, eu apertei um pouco as mãos em volta do volante do carro e virei pra frente de novo, seguindo o caminho pelas ruas vazias e iluminadas de LA. Durante o silêncio – momentos raros quando se tinha como companhia, eu voltei a tentar entender a facilidade que essa mulher tinha em dizer exatamente o que se passava na sua cabeça, sem medo ou vergonha.
Parecia surreal pra mim como a gente não tinha se visto por mais de um ano, não parava pra conversar a muito mais que isso, mal tínhamos notícia um do outro, e lá estava ela – deitada com o banco recostado, com os pés pra cima no painel do meu carro, guiando a minha noite e dizendo todas essas coisas. Como se tivéssemos voltado seis anos no tempo. Como se esses seis anos não tivessem acontecido.
- Você tomou a poção da verdade hoje, por acaso? – resolvi brincar, olhando pra frente. se acomodou um pouco no banco, virando de lado, ficando mais virada para mim e sorrindo largo.
- Sim. Se ela se chamar “Tequila” – eu abri um sorriso de volta, sem responder mais nada. Parecendo incomodada com o silêncio repentino que não fazia muita diferença pra mim, dedicou-se a procurar por seu celular.
- O que é que você quer agora, ? – o apelido saía involuntariamente, agora, e eu nem chegava a me arrepender tanto assim quando usava, mas meu tom impaciente com certeza se mostrou. parou pra me encarar de novo, e eu comecei a achar que a gente estava fazendo isso vezes demais – estava com um braço apoiado no banco, virada de lado, os pés pra cima, procurando a bolsa. Mas não se movia. Não conseguiu parar de encarar. Quis saber o que se passava na sua cabeça, quis muito saber o que aquela expressão significava, mas ela não parecia disposta a me revelar.
Balançou um pouco a cabeça antes de se dedicar à busca novamente.
- Eu queria conectar meu celular pelo bluetooth.
Ela, então, fez uma imitação ridícula de alguma coisa que eu, apesar de me esforçar, não conseguiu identificar, mas, ao parar o carro, levantei um pouco, tirei meu celular do bolso e dei pra ela. Configurei o rádio do carro e avisei:
- O meu já tá conectado, só escolhe a música.
- Você é genial. Parabéns – assenti com a cabeça, agradecendo, vendo-a bater palminhas e a observei com o canto do olho enquanto ela mexia alegremente pelo meu Spotify.
Pouquíssimo tempo depois, ao parar o carro no drive da MC, notei que me analisava enquanto eu pegava a carteira no bolso e sorri com o canto do lábio.
- Onde é que a gente tá?
Porra, , achei meio óbvio.
- No drive da MC. – respondi, mesmo assim. – Você precisa comer alguma coisa.
- Mas eu prefiro a BK. E não estou com fome. – reclamou, virando-se para a janela de novo.
- Não é uma democracia.
- Nunca é quando você está envolvido.
- Nunca disse que seria – sorri cínico, e ela retribuiu com tanto cinismo quanto. – E depois nem vem querer comer minhas batatas, .
Antes que pudesse retrucar, abri a janela e sorri para a atendente, que não disfarçou nem um pouco a surpresa ao nos ver.
- Boa noite... – esforçei-me um pouco para ler o crachá. – Holly. Por favor, duas ofertas do Triplo Bacon. Uma sem verdura e uma com, um suco de uva e uma Coca. Tem mostarda? Certo. Obrigado, Holly.
E então, ela fez algumas perguntas, disse que eu era um de seus atores favoritos, etc, etc. A garota saiu de sua cabine e veio tirar uma selfie comigo, que aceitei de bom grado e tentei ser o mais gentil possível. Já , parecia estar cansada demais para se preocupar com qualquer outra coisa. Notei que me observava pagar o lanche com o cartão de crédito e a gente partiu para a próxima cabine, onde esperaria os sanduíches saírem.
, então, dedicou-se em procurar uma música para escutar, e eu aprovei mentalmente quando os acordes de Don’t Panic começaram – era a primeira música do Parachutes, o primeiro álbum da Coldplay, uma das bandas que a gente costumava ouvir a discografia por horas quando a gente tava junto. Mas tentei não ligar uma coisa a outra. A gente, então, se dedicou a ouvir o album e prestar atenção nele, despreocupadamente, com a voz de , como sempre, no fundo. Mas eu não reclamava.
A gente ficou nessa até que chegou a nossa vez e a gente pegou nossos respectivos sanduíches.

- Não acredito que você ainda não goste de Coca – comentou, com a boca cheia de batatas, dando um grande gole no seu refrigerante. Eu ri um pouco pelo uso da palavra “ainda”, como se fosse chegar um dia em que eu fosse realmente gostar daquela... coisa que mais soava como um veneno.
Mas quem sou eu pra julgar? Não é como se cigarro fosse muito melhor... – É tipo, a melhor coisa já inventada.
Eu tinha decidido furar com a regra de não comer no carro por um dia, porque estava com muita fome. Quer dizer, não tinha nada a ver com .
Quando a gente chegou basicamente na rua do apartamento que ela dividia com Leslie, eu mal havia começado a comer, porque estava dirigindo. , no entanto, não conseguiu esperar.
- Não acredito que você está comendo no meu carro.
riu, prendendo um pouco o riso, porque a boca estava cheia de comida e refrigerante.
- Não acredito que você lembra que eu não como com verdura.
Eu a olhei com o canto de olho, parando o carro na frente do edifício em que ela morava. Lançei-lhe um olhar específico, porque na verdade fui pedindo no automático, mas não era pra ela ter notado que eu lembrava. – que foi? Achei que fosse um jogo.
- Tá. Perdi.
Ela, então, jogou duas batatas em mim, rindo.
E então, ficou séria, bem séria, tirou os pés do painel, e endireitou-se no banco. Provavelmente porque eu não contive a cara de bravo, mesmo que só olhasse pra frente. E sabia que quando eu estava meio puto eu ficava piscando feito louco, exatamente como eu estava fazendo.
Aquele carro era um limite.
Repousei as mãos no volante, apertando-o com força. Respirei fundo e soltei o ar pesado.
- , eu...
- Tudo bem, . Só junte suas coisas.
A garota assentiu, inclinando-se até o meu banco e catando as duas batatas que havia jogado em mim, para então, colocá-las na boca. Eu sorri pra ela, meio falso, e ela pegou sua sacola da MC – que já estava vazia –, parou, e virou os olhos pra mim de novo, confusa, como quem não sabe o que fazer.
Não deu pra conter um sorriso descabido.
Me levantei, com a sacola quase cheia na mão, dei a volta no carro, abri a porta com a mão livre e a ajudei a sair – juntei sua bolsa pequena no ombro e seus sapatos de salto jogados no piso do carro e abri o braço para servir de apoio pra ela, que prontamente aceitou, do mesmo jeito que a gente saiu da festa. Então, tranquei o carro com os dedos que sobravam e seguravam a chave e decidi que deixá-la especificamente no seu apartamento seria a melhor opção. Nós passamos pelo Hall do prédio até o elevador naquela mesma posição.
A gente subiu em silêncio até o sétimo andar do prédio de dez andares, que era panorâmico, então, se entreteu com as “luzes da cidade que a deixavam fascinada” enquanto eu me dedicava em procurar a chave na sua bolsa com as mil coisas que eu tinha na mão, além de agarrada a mim como um bicho preguiça. Quando eu finalmente consegui abrir a porta do apartamento, pensei ter aberto a porta de Nárnia de tão feliz que ela ficou. Se soltou de mim e abriu o maior sorriso da sua vida inteira, correndo pro sofá e se jogando lá, fechou os olhos e continou sorrindo. Fui estocando suas coisas em cima da mesa da sala de estar e, não sei, acho que como o barulho das coisas tilintando, ela se despertou repentinamente de seus devaneios e me chamou:
- ?
- Eu tô indo, . Você vai ficar bem? Mandei um whatsapp pra Leslie dizendo que te deixei em casa, salva e bem alimentada. Sã já não posso dar a certeza.
Ela riu, como eu esperava, mas prontamente se levantou e veio até mim, me segurando pela mão. Fechou a porta atrás de mim, movimento que eu acompanhei com os olhos e me puxou pelo braço.
- ? – resumi todas as minhas dúvidas numa pergunta só.
- Você não precisa ir embora agora.
Fui seguindo com ela, mas parei bruscamente na metade do caminho, antes que a gente chegasse no sofá, e ela parou também, por impulso, dando um passo pra trás. Aquela noite já tinha ido longe demais, a trégua foi boa enquanto durou – mas já já estaria sóbria e voltaria a me odiar pelos cantos, e acho que a nossa interação sóbria de ontem valeu por um ano inteiro.
Ela olhou pra cima, esperando que eu olhasse de volta – aqueles olhos eram, realmente, tentadores, e era muito difícil dizer qualquer coisa além de “sim, claro, óbvio ou lógico” pra eles. Pra ser sincero, eu também não queria ir embora ainda. Mas eram quatro da manhã de um dia que provavelmente nunca teria acontecido na vida real – eu tinha certeza de que estava vivendo num universo paralelo – e eu queria estar bem longe daqui quando ela acordasse.
- Tá na hora, , são quatro da manhã. Cê tem que beber muita água e dormir.
- Não posso fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
Revirei os olhos.
- Tchau, . Daqui a uns dois anos a gente se vê de novo. – brinquei, mas ela pareceu não achar engraçado.
- ... – segurou minha mão com as suas duas pequenas e macias. – Por favor.
- Se eu estiver aqui amanhã, você me mata.
- Prometo só te torturar – ela puxou meu braço mais uma vez, com um sorriso sapeca no rosto. Permaneci imóvel, olhando pra ela com um sorriso incrédulo no rosto e negando com a cabeça.
Aquilo já havia ido longe demais. Eu realmente não fazia ideia do que estava acontecendo. Era estranho estar ali de novo – o apartamento estava um pouco diferente do que eu me lembrava, mas a estrutura era a mesma. Era o apartamento de Leslie – eu vinha aqui quando estava viajando ou quando ela fosse passar muito tempo fora. Não era como se não se sentisse em casa ali.
– Por favor... Só termina de comer, pelo menos. A gente assiste um episódio só de How I Met Your Mother e você vai embora.
- Tá. Mas a gente assiste um que Ted e Robin não estejam juntos.
Foi a vez dela revirar os olhos.
- Eles foram feitos um pro outro, . Supera.
- Boa noite, .
Fiz menção de ir embora, me virando pro lado da porta, mas aí ela riu enquanto me puxava com mais força pro sofá, e eu caí, bem ao lado dela.
- Só senta, , eu quero colocar minha perna por cima da sua.
Eu peguei o controle da televisão, que estava do outro lado dela, e , como dito, colocou suas (deliciosas) pernas semi cobertas pelo vestido fendado por cima das minhas e encaixou-se entre meu peito e meu braço. Coloquei na opção Smart, selecionei o aplicativo da Netflix, escolhi um episódio aleatório da quinta temporada da série e repousei a sacola da MC Donalds sobre as pernas que estavam no meu colo, finalmente parando para comer minhas tão esperadas batatas.
Sendo acompanhado por uma ainda esfomeada, é claro.
- , minhas batatas.
- Pshhhh. Eles estão cantando Bangity Bang.

Já tinha amanhecido quando eu acordei, do nada, com um celular vibrando no sofá. Era o de , notei quando coloquei a mão no bolso da minha calça e vi que este não tremia. Peguei o celular e arregalei os olhos quando notei que eram quase oito da manhã, e que a Leslie estava ligando. Talvez tivesse esquecido a chave. Não me importei em atender na hora.
Estava com um puta torcicolo. A gente tinha apagado na mesma posição que a gente estava quando a gente começou a assistir a série – , claramente, não durou mais que meio episódio – e esta ainda rolava na televisão, mas dava pra ouvir os passarinhos cantando de quando você acorda cedo. Quis me espreguiçar, mas não tinha como fazer isso sem acordar .
E então, um choque de realidade: estava na casa de . . A minha ex-namorada, , aquela com quem eu tinha terminado cinco anos antes e que arrancaria todos os meus cabelos assim que me visse ali, sóbria. E o pior: de ressaca.
de ressaca era a representação do inferno de Dante. Eu sabia bem.
Minha sorte era que a garota tinha um sono bem pesado, e disso eu me lembrava. Com todo cuidado do mundo, apoiei um de seus braços por debaixo das pernas que estavam repousadas no meu colo e o outro por debaixo de seu torso, que estava recostado no meu peito. Juntei todas as minhas forças para levantar com equilíbrio – o que não foi muito difícil, visto que era minúscula – e consegui, levando-a como quem segura a noiva até o que eu sabia que era o quarto dela, apesar de nunca ter chegado a entrar lá. Então, deitei-a adormecida sobre a grande cama de casal, a cobri com o cobertor e fechei as cortinas do quarto.
Deixei um copo de água ao lado na cabiceira da cama antes de sair pela porta da frente.


Capítulo 3

Acordei com os lábios mais secos que o normal; meu estômago gritava com uma ardência insuportável e a minha cabeça parecia estar em estado de combustão. Eu, que estava deitada de bruços, tentei fazer um esforcinho pra me levantar, mesmo com o corpo meio dolorido – não durou muito tempo. Me joguei de volta na cama e resolvi permanecer ali mesmo. Era, claramente, o melhor lugar do mundo inteiro.
Abri um pouquinho os olhos com desgosto. Tinha um gosto muito ruim na boca, notei depois de abrir e fechá-la algumas vezes, fazendo um barulho irritante. Passei os olhos por mim mesma e notei, também, que ainda estava com o vestido da noite anterior, e que a fronha do meu travesseiro (que antes era perfeitamente branca, assim como o lençol que cobria a cama e o cobertor que estava sobre ela) estava manchada de preto e vermelho da maquiagem. Respirei fundo antes de juntar todas as minhas forças e sentar na cama, olhando ao redor do meu próprio quarto com uma sensação muito estranha de não fazer ideia do que estava acontecendo ou do que tinha acontecido. Ou de quem eu era. Mal sabia meu nome. E como raios eu tinha chegado aqui?
Mas o que me deixou intrigada mesmo foi ver um copo de água na minha mesa de cabeceira. Eu sempre esquecia o copo de água, e sempre tinha um debate caloroso interno sobre ter que me levantar pra pegar. Acontecia frequentemente em dias como esse.
De todo jeito, agradeci aos céus quando senti o líquido que, apesar de natural, desceu molhando por dentro, sorri em alívio e acho que até vi estrelas, só pra, então, me jogar na cama de novo. Tateei às cegas pelo meu celular na cama, mas não achei.
Dane-se, pensei, não é como se fosse ter alguma coisa muito urgente pra resolver num sábado de manhã. Daí, abracei novamente meu travesseiro manchado e me deixei minha mente vagar até dormir de novo, o que não demorou muito.

x

Quando eu acordei novo, dessa vez, foi com uma movimentação fora do normal no meu apartamentozinho. Ouvi várias vozes além da de Leslie – talvez Oliver e China? Não estava muito a fim de refletir sobre o assunto, porque, naquele momento, eu estava cagando pra conclusão.
Foi bem instantâneo, na verdade, a minha gastrite dar sinal de vida. Abri os olhos, prestes a gritar com eles para fazerem menos barulho, era a porcaria de um sábado de manhã, pelo amor de Deus, mas algo foi mais rápido em subir pelo meu estômago, e esse algo era bem nojento e tinha um tom amarelado, que me fez levantar num salto e correr para o banheiro.
Senti que tinha colocado minha vida inteira para fora, de uma vez só, na pia mesmo. Uma careta ao me olhar no espelho. E então, de novo.
Eu odiava aquela sensação. Odiava muito estar naquele estado.
Precisava muito, muito, de água, mais do que qualquer coisa que pudesse imaginar no mundo, e então, lavei meu rosto só com água e passei um pouco na nuca, além de escovar os dentes. Decidi que pegaria um copo de água na geladeira e depois tomaria o melhor banho da minha vida – o que me fez prender os cabelos num coque justo e separar algumas coisas para preparar a banheira. Me dediquei, então, a fazer meu caminho até a cozinha, mas parei bem no meio do corredor porque, assim que abri a porta do meu quarto, todo mundo parou pra me encarar como se o apocalipse tivesse acontecido e eu tivesse ficado. E então, alguém desligou a televisão, subitamente.
Pisquei algumas vezes, meio confusa. Era sábado de manhã. A gente tinha acabado de se ver. Ao passar os olhos rapidamente pelo ambiente, curiosa, notei que todos os meus amigos estavam ali – China, sentado num dos banquinhos atrelados à grande bancada que dividia a sala da cozinha americana, rapidamente levantou-se, assim que me viu, ficando ao lado de Pipper, que já estava em pé, com uma caneca de café esfumaçante na mão, porém, ambos estavam perfeitamente limpinhos e com roupas diferentes do dia anterior – roupas casuais, rosto limpo e cabelos recém-molhados. Tanaka estava meio tenso e Pipper, séria. Então, a atenção me foi tomada quando quase ouvi a voz de Oliver – que estava sentado de frente para China – dizer alguma coisa, mas sua boca foi tapada pelas mãos de uma Leslie que o abraçava por trás e sorria de maneira estranha. Forçada. E então, todos sorriram daquele mesmo jeito, sem dizer nada – exceto, por, novamente, Pipper, que revirou os olhos.
- Nenhuma piadinha sobre o meu estado? Sério? – arqueei as sobrancelhas, muito desconfiada.
Seria, com certeza, a primeira coisa que eles fariam. Que qualquer um de nós faria, na verdade.
- Ah, acredite. Eu tenho várias.
E o japonês recebeu um beliscão de Leslie ao dizê-lo. Parei uns dez segundos para encará-los, um por um, muito desconfiada, porque eles estavam estranhos demais – e, tudo bem, estava com uma puta ressaca, quase não me importava, mas o âmago no meu estômago me dizia que tinha alguma coisa acontecendo.
Esperei que eles dissessem alguma coisa. Leslie ainda tampava a boca de Oliver.
Foda-se.
- Ok. Vou tomar um banho. Alguém viu meu celular?
- Não! – todos responderam em uníssono.
Ok, bizarro, fiz uma careta e dei um passo pra trás, levantando as mãos em rendição. Tentei pensar nas possibilidades do que poderia ter acontecido na noite anterior que o deixassem naquele estado.
Passei meu olhar desconfiado por cada um deles enquanto me encaminhava para a geladeira e passava pela bancada, tentando me lembrar de cada detalhe da noite, alguma coisa específica que trouxesse aquela reação. Abri a porta da geladeira, de costas para eles, pensando no que poderia estar acontecendo, e só pude ouvir o barulho do cochicho. Revirei os olhos.
Chegamos no jantar, ok. Conversamos na mesa, algumas taças de vinho, ok. Rimos muito relembrando de umas histórias ridículas uns dos outros com o passar da festa, ok. .
Quis vomitar de novo quando me lembrei dele e das coisas que tinha me dito.
Eu não preciso esquecer alguém que eu nunca cheguei a amar, .
Engoli a bile e então, um blackout. Não me vinha mais nada à cabeça. Tinha alguns flashes de estar na pista de dança com Pipper gritando um mix de Lonely Boy e umas músicas da Beyoncé, e então, alguns shots de Tequila com o Japa. Conversei com várias pessoas que eu não devia ter falado sobre várias coisas que eu não devia ter falado pra nenhuma dessas pessoas. Suspirei, balançando a cabeça e finalmente pegando meu copo com água e bebendo até o fim.
Sentia o olhar curioso de cada um deles sobre mim, e saco, que incômodo, mas assim que me virei pra reclamar com eles, todos agiram como se estivessem conversando e vivendo normal. Revirei os olhos.
Patético.
- Tá. Vocês já podem me falar o que está acontecendo.
- Tem uma aspirina pra você aqui. E é bom você tomar o omeprazol pra sua gastrite, também – Leslie, que usava uma saia jeans e uma blusinha soltinha, pegou os comprimidos em cima da bancada, na caixinha de remédios e entregou-os para mim, bem na mão. Assenti, agradecendo com um meio sorriso, mas ainda assim, olhando meio desconfiada. Eu amava Leslie de todo o meu coração e o quanto ela cuidava de mim, mas eu estava curiosa e intrigada demais com o comportamento bizarro dos meus amigos.
Tudo bem que eles são sempre bem doidos, mas normalmente, eles me incluíam nessas coisas de gente de doida, porque sinceramente, se tem alguém doido aqui, essa pessoa era eu. Eu era tipo a doida líder. A doida mor.
Logo depois, China comentou:
- Vai tomar banho, , cê tá fedendo.
- Quem deixou esse chinês dos infernos entrar na minha casa? – eu, então, reclamei, perdendo totalmente a paciência e recebendo uma careta em resposta. Pipper deu de ombros, meio que concordando. Minha cabeça ainda latejava, meu estômago ardia e esses caras com esse comportamento estavam me dando nos nervos. – Por que vocês todos estão aqui, na verdade? A gente já se viu ontem de noite. Não tá bom? Vocês não tem vida? Não tem casa pra morar?
90% das pessoas que estavam ali nem moravam naquela casa, por Deus. Eu perdi completamente as estribeiras – só queria paz, silêncio e poder andar pelada por minha própria casa, porque eu ainda estava tendo que usar aquele vestido meio colado e desconfortável, mas não podia, porque eles estavam lá. E eles todos estavam tão estranhos. Estava tudo muito estranho.
Silêncio, enquanto todos se encaravam.
- Fudeu, gente – foi Oliver quem disse. – Eu estava contando que ela fosse acordar de bom humor.
- A ? – ouvi, também, o som da risada de Leslie.
Lambi os lábios, fazendo um barulho irritante com a boca, demonstrando minha insatisfação. Tudo bem, eu não era uma pessoa da manhã. Mas cada um com seus defeitos.
- Mais fácil ela arrumar um emprego – Pipper esticou a piada, rindo, e então, todos a acompanharam, exceto eu, que bufei, irritadiça, e coloquei o copo na bancada, fazendo com que o barulho de vidro contra o mármore inundasse o lugar. Fiz uma expressão brava enquanto os encarava.
- Que diabos está acontecendo, vocês podem me dizer? – apoiei os dois braços na bancada, olhando bem nos olhos de cada um dos meus melhores amigos, mesmo com o rosto meio borrado de rímel e batom, um coque bem mal feito no cabelo e a expressão de gente doida. Eu falava com o tom firme, rude e alto. – É o clube do “Vamos estressar a por nenhum motivo aparente”? “Vou importunar a no sábado de manhã quando ela queria privacidade porque eu não tenho nada de melhor pra fazer com a minha vida”? É esse o clube idiota de vocês? É ESSE?
Então, o celular de Pipper apitou, no centro da mesa, interrompendo meu discurso.
E era uma ligação de .
Todas as pessoas da mesa encararam o celular no centro da bancada. Até que Pipper pegou o celular, com certa rapidez, e escondeu entre as pernas semicobertas pelos shorts jeans. Mas ele continuava tocando, até que parou.
Cinco segundos de total silêncio em que eu continuava encarando a bancada que agora só tinha uma jarra com café, açúcar, leite em pó e algumas canecas.
- Pipper? – perguntei, com a voz meio falha, depois de engolir em seco, com muito medo da resposta que receberia após a minha pergunta: – Por que é que está te ligando?
Várias coisas se passaram pela minha cabeça ao esperar pela resposta que seguia.
Porra. Eu estava surtando. Meu coração estava batendo muito, muito forte, e eu não conseguia parar de pensar umas coisas muito absurdas e eu precisava tanto, tanto de um pote de sorvete inteiro da Haagen Dasz. Só pra mim.
Pipper foi a única dos amigos que chegou ao grupo após o meu término com – nos foi apresentada assim que assumiu como baterista da Silver Linings, sendo a única da banda que era mulher e também não fazia parte da formação original, no fim de dois mil e treze – China se interessou por ela logo de cara e a gente passou a se aproximar. Com o tempo, ela acabou se tornando parte do grupo, estando com ele ou não.
A questão é que Pipper nunca gostou de . Ela era a única de nós que era completamente 100% team , e não fazia nenhum caso de esconder isso de ninguém, muito menos dele. Eles não mantinham contato e nem se sentiam obrigados a serem muito educados um com o outro.
Quando eu vi o nome dele no visor, senti vontade de vomitar de novo – a ideia de voltar pra minha vida era assustadora demais, me deixava em pânico. Claro que eu me sentia mal, sim, porque eu tinha continuado bem mais próxima do nosso grupo de amigos do que ele, que ainda os encontrava, mas não com a mesma frequência. Mas eu não me sentia mal o suficiente para abrir mão dos meus amigos, mesmo que um pouco. E agora a Pipper, que era a única que havia comprado a minha briga, também estava sendo corrompida por aquele macaco loiro charmoso dos infernos. Não que eu a julgasse – havia cedido aos seus encantos por muito menos.
De todo jeito, eu não fazia ideia do que fazer. Minha cabeça não parava de rodar. O fluxo de pensamentos era rápido demais e uma angústia passou a preencher meu peito – eu não fazia nem ideia do que eu estava pensando e precisava acalmar minha cabeça. Precisava sentar. O fiz, no banquinho mais próximo, engolindo a aspirina sem água mesmo, como se aquilo fosse salvar a minha vida.
- , não surta. Vá tomar um banho e a gente conversa direitinho.
A voz de Leslie, que normalmente servia de calmante, só serviu para atiçar ainda mais a minha curiosidade e, principalmente, as minhas neuras. O telefone de Pipper vibrou de novo. Mais uma mensagem de , eu pensei, meu Deus, eu estou ferrada, eu estou tão ferrada. Era sobre ele que eles queriam conversar. Alguma coisa havia acontecido com . Era por isso que eles estavam agindo daquela forma.
Minha respiração descompassou.
- Eu não tenho tempo para banhos! Eu estou surtando! – gritei, levantando-me novamente, e então, encarei cada um dos meus amigos com o que Barney Stinson chamaria de crazy eyes.
George tentava inutilmente prender o sorriso. Oliver evitava o olhar do meu. Leslie tinha uma careta no rosto, compassiva. Mas Pipper...
Ela revirou os olhos.
- , tá bom, já que você não sabe ser uma pessoa normal – Pipper enfatizou, tomando um gole de seu café e fazendo questão de revirar os olhos mais uma vez. Depois de engolir o líquido, ela, calmamente, continuou seu discurso: – E está surtando por nada, vou te dar um motivo pra surtar: você tá na TV. E em todas as matérias de sites de fofoca. E tá todo mundo louco no Twitter e no Instagram porque acha que você voltou com o . É bom você nem abrir o celular.
Aquilo tudo veio como uma enxurrada. Como se eu estivesse em pé numa avalanche de neve e fosse completamente engolida pela onda gelada que me fazia rolar por uma montanha e bater a cabeça numa pedra grande e dura.
E então, me sentei de novo, tentando absorver cada palavra que ela tinha dito, repetindo um mantra mentalmente: isso é mentira. Isso não é real. Isso é um pesadelo. Isso é mentira. Isso não é real. Isso é um pesadelo. Isso é mentira. Isso não é real.
Acorda, , por favor, acorda.
- Ah, então, a Pipper esqueceu de mencionar uma parte... – Oliver se pronunciou. – O tá vindo pra cá. Tipo agora.

X

Me sentei, de toalha, no vaso sanitário com tampa fechada e respirei fundo, tentando juntar cada resquício de coragem que ainda havia dentro de mim como quem cata conchinhas na areia da praia. Fechei os olhos com força e fiz uma careta antes de, com meu celular em mãos, clicar no aplicativo do Safari e pesquisar pelo nome de .
Desejei nunca ter feito isso, pra começar. Todas as fontes eram muito recentes e mencionavam, também, o meu nome – dizendo coisas sobre o primeiro amor nunca morrer, o casal queridinho dos anos dois mil estar de volta e com tudo, e todos tinham várias fotos de nós dois, a maioria antiga.
Rolei o dedo pra cima e cliquei no primeiro site que vi, contendo uma manchete dizendo e voltaram? Confira por si mesmo”.
A matéria em especial tinha várias fotos nossas, desde as mais antigas possíveis, até umas mais recentes, umas formais e públicas e outras mais íntimas – eu e tivemos muitas fotos expostas, afinal, é o que se espera de um relacionamento de um casal teen em evidência. A mídia se alimentava de cada mínimo passo que nós dávamos, principalmente depois que a série acabou e nós, teoricamente, continuamos juntos. Era um puta inferno.
O jornalista basicamente fez uma linha do tempo com fotos nossas:
Na primeira foto, a gente era, basicamente, dois fetos – nem lembro direito quantos anos a gente tinha, talvez uns doze, mas de certeza, foi tirada no primeiro MTV Movie Awards que a gente frequentou, lá por 2006, bem no comecinho da segunda temporada da Truth Or Dare, quando nossos personagens estavam começando a conquistar um espaço maior que o esperado na série, porque o público estava se identificando com nossos personagens e o foco da série foi começando a mudar. Era uma típica foto de premiação – eu e não éramos muito próximos nessa época ainda, pelo contrário, na verdade, a gente não se gostava muito, e acho que deixei isso meio claro na foto, em que um de treze anos me abraça de lado por puro marketing com seu sorriso gracioso terno preto, e eu dou um sorrisinho fechado, com um vestidinho cinza com brilhantes e minisaltos. Eu lembro de estar tão nervosa nesse dia (e lembro, também, que estava um pé no saco, agindo como se fosse muito normal porque ele se achava a estrela do cinema). Não evitei uma risadinha leve com a lembrança. Foi o primeiro evento que atendemos juntos, representando a série.
Já a segunda foto, nós estávamos mais crescidos e já éramos muito amigos na época – com uns quinze anos, na gravação da season finale da quinta temporada da série (que teve sete, no total). Estávamos no set de filmagem de Truth or Dare, o vestido de Tommy Hart e eu, de Willa Rivers, ele, com uma jersey e um colete do time de basquete da escola, com os cabelos presos pra trás e eu, que ainda tinha cabelos loiros na época, vestida com as cores do time do colégio, vermelho e branco, um pouco antes de filmar a parte do episódio em que descobriríamos se Tommy ganharia uma bolsa para a Universidade ou não. Tiramos pouco tempo antes de gravar o episódio, na verdade – eu o abraçava por cima com gosto e dava um beijo estalado em sua bochecha, e ele sorria largo, me segurando pela cintura. Eu, ao menos, me lembrava dessa foto, mas esse dia era claro e vívido na minha mente, nós estávamos tão felizes nesse dia, tão bem e tão juntos, e aquela foto parecia captar tanto essa sintonia que os meus olhos se encheram de água.
Tinha uma foto, também, de nós dois, agora com nossos dezessete anos, no iniciozinho do namoro – era uma foto tirada por um papparazzi, na verdade, e eu soltei uma risadinha porque era uma foto muito engraçada: eu estava com as pernas bem abertas e abraçava , tentando, de todo jeito, chamar a atenção dele, que, apesar de ter os braços ao meu redor, mexia no celular.
E uma última foto. A que pareceu mais como um soco no estômago.
Era uma foto próxima, íntima – eu me lembrava que Leslie a havia postado em seu próprio Instagram, quase cinco anos antes, com uma legenda cheia de corações. A foto ainda estava lá, apesar de ser de 2013. Ela nunca apagou. Um mês depois do dia em que essa foto foi tirada, eu e terminaríamos o nosso relacionamento de quase dois anos. Foi a nossa última foto íntima.
Eu lembrava que ela havia tirado a foto, pois no dia, estava ao nosso lado no banco de trás do carro de Oliver – eu lembrava também, claramente, de a gente estar numa roadtrip para Malibu, com China no passageiro. Pipper ainda não era muito próxima da gente na época.
Na foto, eu estava sentada (quase deitada) entre as pernas de , com a mão em seu pescoço e as pernas dobradas, apoiadas em uma de suas coxas e os pés com um tênis em cima do banco. Ele tinha a mão apoiada na minha panturrilha coberta por uma calça legging preta e olhava pra mim sorrindo meio irônico, mostrando uma de suas covinhas, visto que estava de perfil. Eu, que estava de frente para a câmera pela posição, gargalhava, com um sorriso largo que mostrava os meus dentes e o jeito apaixonado que olhava para , com o rosto meio escondido pelo dele. No fundo da foto, estava a janela do carro, que mostrava algumas árvores e o Céu que quase se punha, além do Vans que eu usava e um pedaço do banco da frente.
Foi inevitável a sensação de nostalgia e saudade que me bateu ao ver aquelas fotos.
e ficaram conhecidos como o casal queridinho da América depois de ficarem juntos tanto na sua aparição na série televisiva Truth or Dare (2004-2012), como na vida real, por pouco mais de um ano. O término do casal, em setembro de 2013, foi um choque para todos os fãs (o one true pairing que você respeita! Ou respeitava? E respeita de novo!), e até mesmo para amigos íntimos – segundo fontes próximas que preferiram não se identificar na época, o término foi “inesperado, conturbado e frustrante para todos”, disse. “ambos demoraram a superar”.
Quis continuar o meu mantra, mas não tinha palavras para descrever como me sentia em relação àquela matéria. Não tinha palavras para descrever tudo que se passava tão rápido na minha mente lendo todas aquelas coisas e tendo acesso de novo a todas aquelas fotos e todas aquelas sensações tão afundadas dentro de mim.
“Porém, ainda há esperança! Não só fotos dos dois juntos, mas fontes que revelam que os dois passaram um bom tempo conversando intimamente na grande festa de aniversário de Oliver Prior. Confira na íntegra!”
E então, finalmente, a foto recente, em que, saindo do salão em que ocorreu a festa de Oliver e indo em direção ao carro, eu, que estava abraçada a , levantava os olhos para o rosto dele, enquanto dizia alguma coisa. Já ele, olhava para mim como se risse do que eu estava dizendo, mas tinha uma das mãos em direção ao carro, apertando na chave o botão para abri-lo.
Tudo que eu podia pensar era: merda.
E então, vários, vários flashes, de vários momentos aleatórios da minha noite, alguns com , alguns no seu carro, e eu fechei os olhos com força, sentindo meu coração bater muito, muito forte e sem controle.
“Ela parecia estar com ciúmes dele e estava bem bêbada, se quer saber”, disse a fonte, que preferiu não se identificar. “Eu estava conversando com sobre trabalho e nós estávamos, você sabe... Hm... Conversando (risos). E então, chegou entre nós dois como um furacão e me dispensou, me mandou ir embora. Eu fui embora, claro. Não me reduzo a ficar brigando por homem. Nem se esse homem for .”
Ainda bem que a nossa pequena estrela não tem a mesma maturidade, não é mesmo?! Acredito que agora está claro o real motivo da brasileira ter sumido das telinhas... Bafo! Outras fontes dizem tê-los visto saindo da festa e indo comer um lanche na MC Donalds. Gente como a gente, ué! Será que tem como não shippar?

Havia, então, por último, mais uma foto – uma que havia tirado com uma garota na Mc Donalds. Surpreendentemente, eu também estava no raio da foto, aparecendo no fundo, com os pés em cima do painel de , as mãos na barriga e olhos fechados.
Resolvi desligar o celular (que não parava de apitar com novas notificações que eu não ousei abrir) e entrar na minha banheira. Eu precisava relaxar.
Continuei repetindo todo o meu mantra durante o banho, que demorou bem mais que o que eu planejava, porque eu não queria, de jeito nenhum, sair do banheiro e dar de cara com a situação bem ali, na minha frente, depois de uma ressaca interminável – que agora, não parecia só mais física, mas moral, emocional, mental. Decidi tentar ignorar o assunto até sair do banho e agir como se nada estivesse acontecendo.
Não consegui por muito tempo, sendo sincera – algumas imagens realmente se formavam na minha cabeça, e as coisas pareciam fazer algum sentido. Lembrei de conversar com na after party, e tinha uma perfeita representação dele sorrindo sob as luzes da coloridas e cegantes da festa na minha cabecinha. Lembrava também de estar no carro dele e de comer um Triplo Bacon.
Massageei o meu cabelo com xampu, frustrada – em que mundo pareceria certo passar mais que cinco minutos no mesmo ambiente que de novo? Como é que dos meus quatro melhores amigos, nenhum me impediu de cometer a maior estupidez da sua vida? Como é que todas as pessoas do mundo ficaram sabendo? Oliver me garantiu que naquela festa não haveria nem sombra de fotógrafos senão os exclusivos da festa, que só tirariam as fotos que lhe fossem especificamente requisitadas, que as mostrariam para Oliver antes de postar em qualquer lugar. Havia um contrato assinado.
Como é que eu pude deixar isso tudo acontecer de novo? Eu estava, justamente, no lugar que eu tanto evitei por tantos anos. Quatro anos de esforço para sumir da mídia e em algumas horas, eu tinha destruído tudo.
Os aniversários que perdeu, as pessoas afastou, os eventos que evitou, as oportunidades que deixou passar. Tudo para que ninguém me encontrasse. Tudo para que as pessoas esquecessem que eu existia. Tudo por água a baixo.
Saí do box enrolada por um roupão, uma toalha na cabeça e um coração partido. Encarava o espelho, inexpressível, com o pesar de tantas emoções juntas em menos de duas horas que havia acordado. Algumas gotículas desciam pelo meu rosto molhado, as mãos apoiadas na bancada de vidro. A minha ficha estava finalmente caindo.
Vamos, , não surte, não seja tão dramática, não precisa ficar ansiosa, pensei, mas era como se pudesse ouvir as minhas próprias palavras. Você precisa ir lá e lidar com isso. Respire fundo. Um, dois, três...
Fazia algum tempo que eu não precisava lidar com esse tipo de coisa, de sensação – quando resolvi desistir da vida de atriz, quase quatro anos antes, sabia que, apesar de não estar mais nos holofotes, minha imagem não desapareceria para sempre.
Estaria sempre ligada a cada um dos meus projetos – os bem sucedidos, os mau sucedidos. Estaria sempre ligada a cada uma das pessoas com quem me envolvi – principalmente as famosas. E isso inclui Oliver e Leslie, principalmente. A Silver Linings.
Bom, de fato, eu estaria sempre ligada a – e algo me dizia que não seria apenas por notícias, fotos ou projetos antigos. Ele era um caso especial.
Fechei os olhos com tanta força que realmente achei que, quando abrisse, tudo estaria resolvido.
Não estava.
Um novo fluxo de pensamentos bombardeava a minha mente a cada segundo que se passava – meu coração batia muito forte dentro do peito, minhas mãos queriam começar a tremer, minha respiração quase descompassando...
Não posso voltar para lá.
Não posso voltar para lá.
Não posso voltar para lá.
Vai começar de novo. Não posso voltar para lá. Por favor, de novo não.
Respira. Um, dois, três, quatro, cinco. Expira. Calife, vinte e dois anos. Brasileira residente nos Estados Unidos. Universidade da Califórnia em Los Angeles. Filmes, televisão e departamento de mídias sociais.
Meu coração foi voltando as suas batidas normais aos poucos, depois de alguns minutos em que eu repetia para mim mesma algumas das informações a qual eu tinha plena certeza de que eram, realmente, verdade e agora. Tentei me distrair, também – uma outra técnica que aprendi em Betty Ford era nomear os objetos ao meu redor. Espelho, creme de pentear, pente de madeira, escova de dentes rosa, pia, torneira, maquiagem. Liguei a torneira e ouvi a água descer por dez segundos.
Mais alguns minutos em que eu não podia conter minhas mãos que tremiam.
Mais alguns minutos em que eu inspirava, contava até cinco, expirava. Estava na hora de fazer alguma coisa, afinal.
Penteei os cabelos, coloquei roupas leves e que faziam eu me sentir segura, e ao sair do banheiro, dei de cara com uma Leslie preocupada sentada na minha cama.
Ela, com certeza, era minha amiga mais antiga. Havia acompanhado tudo. Sabia de cada detalhe de cada coisa que havia acontecido e era a única que poderia ter noção do meu desespero.
Foi por isso que, quando a vi ali, de braços abertos, encolhi-me sentada ao seu lado e repousei a cabeça com os cabelos molhados em seu colo, sentindo o choro subir por meu peito com urgência. A gente ficou ali, enroscadas, uma na outra por um tempo enquanto eu colocava pra fora todo o meu desespero, e então, eu me acalmei, sentindo Les beijar o topo da minha cabeça.
- Vai ficar tudo bem. Eu estou aqui, como sempre. Você não sabe? – ela usou seu tom maternal, bem no meu ouvido, e eu senti o meu coração aquecer um pouco com o alívio e a certeza de que eu não estava sozinha. E nem estava . – Agora, a gente precisa sair e conversar com o .
- Leslie, vai começar de novo – eu comecei, depois de fungar, ainda na mesma posição, ignorando o seu tópico. – Eu não vou aguentar de novo.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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