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Última atualização: 06/12/2020

"Um fio invisível conecta os que estão destinados a conhecer-se.
Independente do tempo, lugar ou circunstância.
O fio pode esticar ou emaranhar-se, mas nunca irá partir."

Lenda Akai Ito.

Um

Três anos tinham se passado desde que eu abrira meu restaurante em Westhaven Drive e, apesar desse tempo, ainda não estava acostumada com o reconhecimento do meu trabalho na região. Estava ciente da qualidade dos meus pratos, assim como o trabalho excepcional de meus funcionários e do ambiente diferenciado que eu oferecia aos meus clientes, entretanto, era sempre uma surpresa e um orgulho ver o local cheio de pessoas satisfeitas, voltando para mais uma refeição. Ainda era difícil acreditar que o Maru estava entre os dez melhores restaurantes de Auckland.
Quando saí de casa aos dezesseis anos, estava determinada a ter sucesso. Dentro da minha mochila de acampamento, além das roupas básicas, levei um par de tênis extra, meu diário com algumas fotos coladas, dinheiro economizado e meu passaporte. Ao cruzar a soleira da casa de minha mãe, deixei em Waitangi minha família, meu lar, meus amigos e parti para o mundo, correndo atrás do meu sonho de ser uma chef renomada. O fracasso não era uma opção para mim e, enquanto cruzava em direção a Welligton, prometi que só voltaria àquela ilha quando pudesse oferecer uma vida melhor para minha família.
– Está bastante difícil falar com você nas últimas horas. – Desviei o olhar para a porta do restaurante, vendo minha melhor amiga cruzar o espaço entre nós com passos decididos e parar em frente ao balcão do bar.
– Desculpe, – respondi, saindo de trás do balcão e dando-lhe um abraço, que fracamente foi correspondido. – O que aconteceu?
Afastei-me para observá-la, vendo-a sentar-se em um dos bancos e trocar a postura de mulher forte e determinada para alguém machucada e cheia de dor.
e eu terminamos – disse ela, evitando me olhar.
Demorei um pouco para realmente entender o que ela tinha me dito porque essa era uma informação difícil de assimilar. Apesar de discussões frequentes, sendo a maioria por motivos banais, e foram feitos para estarem juntos, e o amor que sentiam um pelo outro era visível para qualquer telespectador. Jamais acreditei que poderia existir um futuro onde eles não estivessem juntos.
– Sinto muito. – Sentei-me no banco ao seu lado e peguei uma de suas mãos, colocando-a entre as minhas. – Quer me dizer o que aconteceu?
Observei minha amiga desmanchar a feição séria e o cansaço tomar conta de todo o seu corpo. Seus olhos castanhos estavam opacos, quase sem vida e delineados por profundas olheiras, ao passo que seus lábios se crispavam e tentavam não tremer, como se ela estivesse tentando controlar as emoções dentro de si. Com a mão livre, ajeitou os cabelos negros para trás, tirando os fios que caiam sobre seu rosto e, após, soltou um longo suspiro.
– Estava difícil de aguentar todas aquelas mulheres o rodeando. – Começou ela. – Cheguei em um momento que não conseguia mais acreditar nas declarações porque o jeito afável dele me fazia questionar a veracidade de suas palavras.
, não estou entendendo.
retirou sua mão das minhas e cruzou os braços, deixando o olhar se perder em algum lugar à sua frente.
– Lembra-se de quando o conheci? – Assenti. – Na época ele era galanteador, um solteiro que tinha encontros sem compromissos todas as noites e que cantava qualquer mulher bonita. sempre foi expansivo, sociável, e comunicativo. A lábia dele sempre conseguia lhe garantir uma noite de prazer e estava tudo bem porque não queria absolutamente nada com ele, mas de alguma forma, ele me conquistou, e com o tempo foi mudando e me fez acreditar que eu seria a única em sua vida.
, ele te traiu?
– Eu não sei. – Deu de ombros. – Mas nos últimos meses comecei a notar que as piadinhas maliciosas voltaram e que, em alguns momentos, ele cantava mesmo que de brincadeira, outras conhecidas nossas. Aos poucos, comecei a perceber que o galanteador estava voltando e tentei não me importar com isso, mas uma hora as brincadeiras cansaram e comecei a me sentir totalmente desrespeitada. Quando cheguei em casa hoje, ele estava com a Fiona, jantando em nossa sala de jantar, extremamente casuais e íntimos demais para uma relação de chefe e secretária.
, será... – tentei falar, mas ela balançou a cabeça como se dissesse que não queria ouvir.
– Ela estava vestida como se estivesse indo para um encontro e seus saltos estavam atirados pela sala, como se o ambiente já lhe fosse familiar. Senti-me uma intrusa dentro da minha própria casa. Ele percebeu, mas não falou absolutamente nada. – Seus olhos encheram-se de lágrimas, mas ela não deixou que nenhuma fosse derramada. – Fiz uma mala de roupas, disse que o estava deixando e vim para cá. Ele não me ligou uma vez sequer, .
Percebi que minha amiga ia desmoronar a qualquer instante, por isso pus-me de pé e a abracei o mais forte que consegui, tentando passar todo o meu carinho. Vê-la tão frágil machucou meu coração porque não conseguia entender como uma pessoa tão forte como ela precisava sentir tanta dor. Deveria ser proibido que pessoas boas sofressem por amor.
– Eu o amo tanto, mas minha confiança nele acabou. – Confessou ela, finalmente permitindo-se chorar enquanto agarrava meus braços e correspondia ao abraço.
Suas lágrimas molharam minha blusa e os soluços dela preencheram o ambiente vazio. Deixei que colocasse para fora toda a tristeza que deveria estar sentindo enquanto acariciava seus cabelos e pensava em uma forma de afastar sua dor. Ficamos abraçadas por muito tempo e não me importei que os minutos corressem, nem que precisasse terminar de fechar o restaurante. Naquele momento, minha única preocupação era acalmá-la e oferecer-lhe todo o conforto que poderia. Eu jamais tinha me permitido ter um relacionamento com esse nível de entrega entre duas pessoas e por isso não sabia o que lhe dizer para ajudá-la, tudo que podia fazer era oferecer meu ombro e tentar passar todo o carinho que sentia por ela. Por isso foi fácil para mim permanecer em silêncio.
Quando o som de seus soluços e o tremor de seu corpo foi diminuindo, percebi que ela estava se acalmando e não demorou muito para que nos afastássemos. secou as lágrimas remanescentes com os dorsos das mãos e lhe estendi uns guardanapos para que assoasse o nariz.
– Vamos para a minha casa, – falei após meus olhos encontrarem o relógio de parede e constatar que já passava da meia-noite. – Você fica comigo pelo tempo que quiser.
Ela assentiu, terminando de se recompor e afastando-se. A vi tomar o caminho para o banheiro e, enquanto estava lá, terminei de checar todas as aberturas, apagar as luzes e peguei minha bolsa, esperando-a na porta. Dei-lhe um sorriso fraco quando se aproximou e saiu para a rua, fazendo-me segui-la. Tranquei a porta depois de acionar o alarme e caminhamos juntas em direção aos nossos carros. O mini Cooper dela estava estacionado atrás do meu Jeep Renegade preto.
– Acho que você não está em condições de dirigir. Pegue suas coisas e venha comigo, amanhã vamos juntas buscar seu carro. – Ela assentiu e fez exatamente o que eu tinha sugerido.
Enquanto dirigia para casa, percebi que ela estava dormindo. Suspirei, aliviada por ela ter conseguido se acalmar e cair no sono. Nunca acreditei em amor à primeira vista, mas os dois tinham sido responsáveis por abalar minhas crenças. Lembro-me de quando chegou ao restaurante reclamando, pela primeira vez, sobre um homem que tinha ido à agência e que convidado-a para sair sem sequer um diálogo decente. Ela estava furiosa com a cara de pau dele, relatou-me que na ocasião dispensou , mas que isso só tinha servido para instigá-lo. Daquele momento em diante, reclamou mais inúmeras vezes das insistências dele até que, finalmente, ele conseguiu convencê-la. costumava dizer que tinha se apaixonado no instante que a tinha conhecido e que, por isso, não poderia perdê-la. Por causa deles, quase acreditei que o amor podia nascer em um pequeno momento e ser eterno.
Pelo visto, minhas crenças continuavam certas. Aos meus olhos, amor era sinônimo de dor e por isso eu o via como um mal que preferia evitar para não sofrer, mesmo que isso me caracterizasse como uma covarde.


∞ ∞ ∞


Uma semana se passou desde que foi para o meu apartamento e ela não tinha saído de dentro dele em nenhum desses dias, nem mesmo para ir trabalhar. Explicou-me que tinha conseguido tirar uns dias de folga e que os usaria para colocar a cabeça no lugar e aprender a lidar com os próprios sentimentos. Não a julguei e apenas aceitei sua decisão, mas sabia que se ela continuasse se escondendo do mundo por um tempo, teria que intervir em algum momento.
Durante esse período, tentei falar com sem que ela soubesse, mas ele tinha sumido. Queria saber como estava lidando com término, afinal, depois de tantos anos de convivência, ele também tinha se tornado meu amigo, mas meus telefonemas nunca foram atendidos. E, quando fui buscar mais roupas para no apartamento em que eles dividiam, meu amigo havia ido embora. Não havia sequer um par de meias ou algum sinal de que um casal tinha morado ali e o único sinal que encontrei de sua existência foi um envelope destinado a . Coloquei nas malas o resto de suas roupas, peguei o envelope e fechei o lugar com um sentimento de pesar ao lembrar-me de como os dois tinham sido felizes ali e que agora seguiriam separados.

# dois anos antes #
– Esse apartamento parece promissor – falei da sala do apartamento, observando o cômodo grande e iluminado pela luz que vinha da porta da sacada.
– Sim, é esse! – disse, reaparecendo do corredor com logo atrás de si.
Ambos sorriam felizes e pararam juntos à minha frente. Enquanto os dois trocavam ideias de como utilizar cada cômodo, senti enorme carinho ao perceber o olhar amoroso e sorriso tenro de ao ouvir minha amiga falar. Naquele momento, percebi o quanto ele a amava e que sua única vontade era fazê-la feliz e, por isso, acreditei que estava assistindo uma linda história começar.

# agora #
Estacionei a poucos metros do Maru e caminhei sem pressa pela rua, apenas aproveitando os sons e a vida que Westhaven Drive oferecia, ao mesmo tempo em que o vento marítimo acalmava minha mente. Assim que entrei em meu restaurante, deixei que os pensamentos sobre a separação de meus amigos ficassem do lado de fora e foquei-me no trabalho.
– Srta. , tem um senhor querendo falar com a senhorita. – Parei de picar as cebolas e encarei uma das minhas garçonetes, Ana.
– Ele disse o motivo?
– Não, senhorita, apenas pediu para chamar a dona do estabelecimento. – Assenti e larguei a faca sobre a tábua de vidro.
– Obrigada, Ana. Já vou – respondi, limpando as mãos e retirando o avental. – George, termine isso, por favor. – Ordenei de forma educada enquanto saía da cozinha e retornava para o salão.
A maioria das mesas já estava ocupada e as restantes ainda vagas estavam reservadas. Por sermos um restaurante cinco estrelas e só funcionarmos à noite, raramente restava alguma mesa sem cliente. Enquanto seguia Ana por entre as mesas e poltronas beges, alguns clientes paravam-me para elogiar a comida, e, após uns quinze minutos, consegui aproximar-me do homem que tinha me chamado.
Ele estava sentado sozinho em uma das mesas com a vista privilegiada do janelão que dava para o mar, observando alguma coisa no horizonte. Observei suas costas e reparei nos ombros largos por debaixo do terno preto, a baixa iluminação do local acompanhada da luz do luar que entrava pelo vidro refletia seus cabelos loiros, quase platinados, e o faziam parecer, mesmo que de costas, uma pintura. A maneira como se comportava, indiferente aos comentários e olhares femininos do local, apenas o tornava ainda mais austero e intocável. Desviei o olhar para Ana, como se perguntasse se era aquele quem queria falar comigo e, após um aceno confirmatório dela, aproximei-me um pouco nervosa.
– Pois não?
Ao virar o rosto para mim e encarar-me, senti-me diminuída pela intensidade daquele olhar. Os olhos castanhos tão claros, quase âmbar, analisavam-me minuciosamente de uma forma como se estivessem estudando algo realmente interessante. Reparei na cicatriz pequena em sua sobrancelha esquerda e prendi a respiração por alguns segundos. Por algum motivo, aqueles olhos e aquela cicatriz me eram familiares, eu só não conseguia me lembrar de onde os tinha visto antes.
? – perguntou ele, levantando-se educadamente e ficando a poucos palmos de distância. Sua voz grave, porém fria, causou arrepios por todo o meu corpo e não consegui deixar de reparar que ele era vários centímetros mais alto. Assenti em resposta. – Meu nome é Withmore.
– Muito prazer, Sr. Withmore – falei, recuperando-me de sua beleza estonteante, e estendi a mão em cumprimento.
Ele retribuiu o gesto, apertando minha mão levemente, porém firme, contra a sua. A diferença entre elas era gritante e rapidamente imaginei como seria ter aquelas mãos fortes e grandes passeando pelo meu corpo. Retirei minha mão da sua quando notei meus pensamentos impuros. Céus, que eu não tenha deixado transparecer nada.
– Em que posso lhe ajudar, Sr. Withmore?
Ele indicou a mesa ao nosso lado, convidando-me a sentar. Sentei-me no local à sua frente e ele o fez assim que me acomodei, em um ato cavalheiresco. Assim que se acomodou, abriu o terno de forma displicente e continuou encarando-me.
– Gostaria de contratar seus serviços para um evento – disse antes de sorver um gole do vinho já servido, olhando-me sobre a taça.
Meu coração batia forte dentro do peito, de forma que eu estava encontrando dificuldade de me manter calma perto dele. Por que parecia conhecê-lo? Por que aqueles olhos quase dourados me eram tão familiares e lembravam a mansão da ilha de Mangere?
– Desculpe, Sr. Withmore, mas paramos de fazer eventos há um ano. – Suspeitei que ele já soubesse disso devido à sua falta de reação com a minha informação.
- É uma pena saber disso, Srta. – disse, por fim. – Seu estabelecimento é o favorito de minha noiva e ela vai ficar extremamente desapontada em saber que não poderemos contratá-la para nosso casamento.
Noiva. A palavra me acertou com força. Somente em um universo alternativo que um homem como ele não seria comprometido e poderia aparecer de repente em meu restaurante. Aquelas mãos tocariam meu corpo somente em minha imaginação. Resignada, suspirei.
– Foi a partir dela que o senhor soube da minha existência? – perguntei, querendo prolongar um pouco mais nossa conversa.
O leve levantar de um canto de seus lábios, como um sorriso fugaz, chamou minha atenção. Ele parecia saber de algo que eu não sabia e todo aquele mistério estava deixando-me desconfortável. Remexi-me na cadeira e, tentando distrair-me de sua presença, acenei para Leo, um dos garçons, que se aproximou rapidamente.
– Uma soda, por favor, Leo – pedi e o vi se afastar.
– Sim. – A voz fria voltou a chamar minha atenção, respondendo minha pergunta. – Ela frequenta bastante seu restaurante.
– Mas não me recordo de tê-lo visto aqui antes.
–Nunca consegui conciliar meu horário de trabalho com os jantares sociais de minha noiva.
– Entendo. Qual o nome dela?
– Emily Stock – respondeu, tomando mais um gole de vinho assim que Leo se aproximou com a minha bebida, serviu-me e retirou-se rapidamente. O nome me era desconhecido e, mesmo ciente de que era impossível saber o nome de todos os meus clientes, tenho certeza de que me lembraria de alguém que tinha o hábito de fazer encontros sociais no Maru. – Posso saber por que não realiza mais eventos?
Foi a minha vez de estudá-lo através do copo de cristal. Os cabelos loiros eram lisos e alguns fios teimosos caíam sobre seus olhos analíticos, tornando aquela seriedade completamente atraente. O queixo quadrado combinava perfeitamente com o tamanho de seus lábios e nariz, de forma que seu rosto parecia ter sido esculpido meticulosamente. Baixei o copo sobre a mesa. Onde eu estava com a cabeça para ficar admirando alguém comprometido e inalcançável?
– Quis me dedicar em manter a qualidade do restaurante – respondi. – Os eventos exigiam muito do meu tempo.
Ele assentiu e, por trás daqueles fios teimosos, seus olhos estreitaram-se um pouco.
– Não há nada que eu possa fazer ou lhe dizer para mudar de ideia?
Quem era aquele homem? Por que ele trazia lembranças de minha infância e de minha casa? Por que tenho a sensação de que nos conhecemos há tanto tempo e que ele é alguém que eu não deveria esquecer?
– Para quando está marcado o casamento?
– Julho do ano que vem.
– Quantos convidados?
– 350.
Após isso, nossa conversa se resumiu a maiores detalhes do seu casamento, sempre com perguntas e respostas diretas, como se estivéssemos jogando uma partida de tênis na qual ninguém queria errar e perder pontos. Honestamente, fiquei desconfortável a maior parte do tempo, já que em alguns momentos minha mente divagava para lembranças remotas todas as vezes que um sorriso ladino aparecia em seu rosto. Os minutos foram passando e somente fui me dar conta de que precisava voltar a gerenciar a cozinha quando Joseph, um dos cozinheiros, apareceu no salão, procurando-me com os olhos.
– Preciso ir, sr. Withmore – falei, levantando-me da cadeira e vendo-o imitar meu gesto.
– Posso esperar por uma resposta sua? – perguntou, retirando de dentro do bolso interno do terno um cartão e entregando-me.
– Sim. – Mais uma vez estendi a mão, dessa vez para uma despedida.
– Foi bom encontrá-la, – falou, simples assim, enquanto apertava minha mão, como se tivesse intimidade para me chamar pelo primeiro nome. Assenti, desvencilhando-me e andando a passos apressados para o meu refúgio.
Assim que cruzei a porta da cozinha, apoiei-me em uma das estações e respirei fundo. Por que meu instinto parecia gritar "alerta!" enquanto minha mente emaranhava-se em uma confusão de pensamentos e lembranças que envolviam olhos âmbares e brincadeiras na beira-mar? Por que este homem me parecia tão familiar e como tinha sido capaz de me deixar desestruturada tão facilmente?
– Srta. , está tudo bem? – Joseph apareceu ao meu lado, com um semblante preocupado. – Aquele homem causou algum mal à senhorita?
– Não. Está tudo bem, Joseph. – Respirei fundo. – Ele apenas me deixou uma sensação estranha.
– Gostaria que eu chamasse o Paul?
Pela quantidade de fregueses da alta sociedade que frequentavam o Maru, eu havia sido orientada a ter uma equipe de segurança no estabelecimento e Paul era o chefe dela.
– Não será necessário, está tudo bem, mesmo. – Recompus-me para convencê-lo de que tudo realmente estava bem, mesmo que não fosse verdade. Dei-lhe um sorriso e desconversei, focando o assunto nos pratos que precisavam ser preparados e, em poucos minutos, tinha conseguido afastar aquele homem de minha mente. O Maru tinha uma reputação a manter e foi nesse objetivo que foquei durante todo o resto da noite.
Apesar da minha equipe competente, a noite estava sendo extremamente puxada. Para uma quarta feira, nós estávamos com um movimento fora do comum e eu estava dando o meu máximo em gerenciar a cozinha enquanto deixava Edward, meu gerente, comandar a equipe da frente, composta por quatro garçons, um maitre e dois bartenders. Duas vezes mais fui chamada para o salão para receber elogios sobre os pratos e sobre o atendimento. Quando os últimos clientes saíram, um casal de turistas alemães, suspirei aliviada ao ver Charles virar a chave e trancar o estabelecimento. Aos poucos o pessoal da cozinha apareceu no salão e, antes que todos começassem a ajudar no serviço de limpeza, falei:
– Ótima noite, pessoal. Conseguimos passar por mais uma noite turbulenta sem qualquer erro. – Sorri. – Obrigada por todo o trabalho perfeito. Estão todos de parabéns.
Aos poucos, cada um foi terminando suas funções e indo embora e, quando percebi, era a única pessoa remanescente. Tranquei a porta dos fundos da cozinha, fechei todas as janelas e apaguei a maioria das luzes, deixando apenas as do bar acesas. Sentei-me em um dos bancos altos após me servir de uma dose de martíni seco e degustei a bebida como prêmio, por vencer magistralmente mais uma noite movimentada. Era meu pequeno prazer me permitir uma dose de uma das minhas bebidas favoritas após um dia de sucesso, quase como um pequeno ritual, meu próprio brinde por mais um dia de trabalho perfeito. Comi a azeitona e bebi mais um gole, deixando finalmente que a imagem de Withmore retornasse aos meus pensamentos.
Fechei os olhos e umedeci os lábios, recriando sua imagem à minha frente. O conjunto de terno e calça social negros, com uma camisa branca e uma gravata também negra, perfeitamente alinhados e ajustados ao corpo atlético. Os olhos frios e meticulosos que se escondiam por detrás dos fios loiros de sua franja desfiada e o cabelo desalinhado e não tão curto a ponto de quase alcançar seus ombros largos. Lembrei-me de seu movimento de afastar a franja dos olhos, jogando o cabelo para trás, e mordi o lábio inferior ao me recordar de suas mãos. Mais uma vez me permiti imaginar suas mãos passeando pelo meu corpo e não tive dúvidas de que, por baixo de todas aquelas roupas, houvesse um corpo definido que seria capaz de me erguer com apenas um braço. Suspirei, relembrando da nossa despedida e do sorriso cínico em seus lábios ao falar meu nome e arrepiei-me ao imaginá-lo sussurrando meu nome enquanto suas mãos me tocavam.
O som vibratório de meu celular sobre o balcão assustou-me, desmanchando toda a cena que se formava em minha mente e causava desconforto entre minhas pernas. O aparelho continuou vibrando e li o nome de na tela. Respirei fundo algumas vezes sem atender a ligação. Minha amiga certamente notaria o tremor em minha voz pelo excesso de sensações em meu corpo. Tomei o restante de minha bebida e, antes que pudesse retornar a ligação, me mandou uma mensagem.

", preciso que compre alguns testes de gravidez antes de vir para casa, e que seja logo. Estou surtando."

– Puta que pariu! – falei, deixando a taça suja sobre o balcão, pegando minhas coisas e saindo o mais rápido possível do restaurante, sem me esquecer de fechar tudo. – Era tudo o que ela precisava agora, estar grávida do – resmunguei enquanto atirava minha bolsa e casacos no banco do passageiro e dava a partida do carro. – Grávida do – resmunguei mais uma vez, dirigindo o mais rápido possível para uma farmácia vinte e quatro horas que havia perto do meu apartamento. Estacionei sem muito jeito, uma vez que já se passava da meia noite e as ruas estavam vazias. Saltei do carro pegando só a bolsa e entrei rapidamente na farmácia. – Boa noite – murmurei para a atendente atrás do balcão. – Onde ficam os testes de gravidez? – Ela apontou para uma estante.
Peguei um teste de cada marca, totalizando sete, e os carreguei no braço até o balcão mais uma vez, despejando-os sobre o mesmo e não me dando conta de que não era mais a única cliente naquele estabelecimento.
– Boa noite, .
Oh, céus! Deus só podia estar brincando comigo. Estremeci ao reconhecer a voz e, por alguns instantes, não quis acreditar no que estava acontecendo. Demorei mais alguns segundos para me virar e cumprimentá-lo. Arrependi-me amargamente quando o fiz, já que foi mais expressivo ao ver meus produtos do que em toda a nossa conversa anterior.

Dois

Qual era a probabilidade de encontrar aquele homem em uma farmácia vinte e quatro horas no mesmo horário? E pior: qual a probabilidade de nos encontrarmos no momento em que eu estava comprando sete testes de gravidez?
Universo, querido universo, o que eu te fiz para merecer passar por tanta vergonha?
Sorri sem jeito para o homem de quase dois metros, esperando que meu talvez cliente – sim, talvez, porque ainda não havia conseguido parar para pensar se faria o jantar de seu casamento – não fizesse nenhum comentário a respeito do que estava me vendo comprar.
– Boa noite, Sr. Withmore – respondi, atenta aos seus atos. Seus olhos brilharam de divertimento por trás da franja e, mais uma vez naquela noite, o vi levar a mão para o rosto e jogar os fios para trás. Como um homem podia ser tão estupidamente gostoso?
– Vai levar todos estes, senhorita? – A vendedora perguntou, chamando minha atenção.
– Sim – respondi, desviando meu rosto do seu e evitando qualquer outra possibilidade de troca de olhares.
– Quarenta e sete dólares, senhorita.
Mordi o lábio inferior ao perceber que ainda estava parado ao meu lado e que prestava atenção a cada movimento que eu fazia, peguei o cartão e estendi para a vendedora, amaldiçoando minha amiga, o universo e o homem perfeito ao meu lado que me fazia passar tanta vergonha. Paguei, peguei a sacola com os testes e, finalmente, retornei meu olhar para ele.
– Tenha uma boa noite, Sr. Withmore – falei, educada.
Ele, porém, sorriu cínico mais uma vez e eu soube, por puro instinto, que algum comentário viria:
– Boa noite, , e parabéns.
Estremeci novamente, mas desta vez de raiva e, sem dizer mais nada ou olhá–lo, saí da farmácia e corri para o meu carro. Segura dentro do veículo e sozinha com meus pensamentos, comecei a dirigir para casa e não consegui evitar socar a direção em alguns momentos. Ele tinha mesmo concluído que eu estava grávida? E se eu estivesse, qual era o problema?! Soquei o volante uma última vez depois de estacionar na garagem do meu prédio e desligar o motor do carro, sentindo meu rosto esquentar em um misto de raiva e vergonha, fazendo–me encostar a testa na direção, fechando os olhos e respirando fundo.
– Inspira – sussurrei antes de puxar o ar profundamente para, em seguida, exalar. – Expira. Ótimo!
Repeti o exercício mais três vezes, acalmando meu interior, muito embora o sorriso cínico dele não saísse de minha mente. Ajeitei–me novamente no banco, apoiando minhas costas e cabeça no encosto, e liguei o rádio. Uma música punk qualquer tocava e a violência da batida expressava exatamente o meu interior. Precisava subir, já que Eleanor estava me esperando com os testes, então desliguei o rádio quando a música terminou, peguei tudo e finalmente saí.
Meu apartamento ficava no décimo quarto andar de um prédio luxuoso com vinte e sete andares, localizado no centro de Auckland. Tinha sido um capricho meu comprar o imóvel com o dinheiro que herdei de meu avô, mas depois de tantos anos morando em albergues e pensionatos, eu queria ter um lugar que me orgulhava chamar de casa. Apesar do luxo, o apartamento não era grande, mas sua localização o valorizava e me permitia ter uma visão maravilhosa de quase toda a cidade, embora meu prédio não fosse nem de perto um dos mais altos de Auckland.
Após a lenta subida do elevador envidraçado, cheguei ao meu andar e, logo na entrada, tirei os sapatos – hábito herdado da família de minha mãe –, pendurei o casaco em um armário embutido e deixei minha bolsa sobre a poltrona do hall.
? – chamei, adentrando mais e procurando por minha amiga.
As cortinas da minha sala de estar, que tinha uma parede toda de vidro, estavam abertas, deixando as luzes noturnas da cidade iluminarem o ambiente. A televisão sobre a lareira estava desligada, mas havia alguns DVDs da minha coleção jogados sobre o sofá. Ao invés de ligar as luzes dos ambientes, liguei apenas um abajur de chão que ficava ao lado da minha estante de livros, do outro lado da sala. A cozinha americana estava vazia, escura e limpa, e sobre a mesa de jantar, um sanduíche permanecia intacto. Eleanor provavelmente não devia ter comido nada durante o dia todo.
? – chamei mais uma vez, dirigindo–me com a sacola da farmácia em mãos para dentro do corredor que levaria às duas suítes e ao lavabo.
O apartamento possuía duas suítes, um lavado e uma dependência de empregada que eu acabei transformando em uma lavanderia para não gastar boa parte do meu salário ao mandar lavar minhas roupas fora. Apressei meus passos para a suíte que eu tinha disponibilizado para a minha amiga e a encontrei sentada no chão do seu banheiro, abraçado aos joelhos, chorando.
... – falei, aproximando–me dela e abaixando–me ao seu lado. levantou os olhos, vermelhos e inchados, para mim e, a julgar pelo seu estado, ela deveria estar ali por horas. – Vamos sair desse piso gelado. – A puxei gentilmente pelo braço, levantando–a e caminhamos juntas até a cama, onde nos sentamos lado a lado enquanto ela secava as lágrimas que ainda escorriam de seus olhos. – Você não pode continuar assim, . Vai acabar ficando doente.
, eu estou grávida – sussurrou ela, abraçando a própria barriga. – Tenho certeza.
– Como pode ter tanta certeza? Fez algum teste?
– Estou atrasada há um mês, – explicou. – Achei que fosse o nervosismo, que meu emocional estava tão bagunçado e que só tivesse piorado com a separação, mas então percebi que há uns dois dias tenho estado enjoada com cheiros mais fortes. Vomitei hoje só de olhar para o sanduíche.
Certo, as chances de ela estar grávida pareciam enormes.
– Mas você chegou a fazer algum teste? – retomei a pergunta e ela negou com a cabeça. Virei–me para pegar a sacola que tinha largado sobre a cama e a estendi para ela, sinalizando com a cabeça para o banheiro.
Ela suspirou, pegou a sacola e voltou para o banheiro.
– Se você estiver grávida, pode ter certeza de que serei a tia mais coruja desse mundo – falei contra a porta fechada.
Enquanto esperava por ela, minha atenção voltou–se para a decoração do quarto apenas para não pensar no que teríamos que fazer se houvesse uma criança a caminho. As paredes eram de um tom laranja suave e os móveis contrastavam por serem de madeira escura, a cama de casal ficava ao centro, ladeada por um criado mudo em cada lado, com um abajur sobre cada um. Esse cômodo não tinha closet, por isso, no lugar, havia um armário com portas de correr ao lado da porta do banheiro e, de frente para a cama, uma cômoda com televisão. Em um dos cantos do quarto, uma poltrona com um abajur de parede e, em outro canto, um espelho de corpo inteiro. tinha preenchido o quarto com suas coisas e o tornado seu: diversos livros de fotografia e publicidade sobre a escrivaninha que ficava em outra parede, perfumes sobre a cômoda e fotos de sua família nos criados mudo, assim como um porta–retratos com uma foto nossa na Torre Eiffel, também sobre a escrivaninha. Sorri ao ver a fotografia em preto e branco. Eu tinha a mesma foto, porém colorida, em uma mesa de canto na sala de estar.
Nós duas tínhamos nos conhecido em Paris há treze anos, e, desde então, nos tornamos inseparáveis. fora para a cidade com o propósito de fazer um curso de fotografia de verão enquanto terminava os estudos em um internato particular do interior da França. Já eu estava lá para ser auxiliar de cozinha nos períodos em que não estava na aula de um colégio público para imigrantes. Ela morava em um internato para filhos de pessoas ilustres e eu em um albergue afastado do centro da cidade. Apesar da nossa gritante diferença de origens – a minha humilde, e a dela uma tradicional família neozelandesa cujo pai é gerente do Banco –, nós duas nos tornamos melhores amigas.
Quando nos formamos no ensino médio, eu já era cozinheira e ela tinha ganhado uma bolsa para estudar na Universidade de Munique. Foi quando nos separamos por três anos, mas sem nunca perder o contato. partiu para Alemanha para estudar Publicidade e Propaganda enquanto eu viajei para a Itália com o intuito de aprender comidas mediterrâneas. Acabei ficando apenas onze meses lá, tendo a Grécia como próximo destino. Fiquei em território grego até me convidar para morar com ela na Alemanha no seu último ano de faculdade.
Arrumar trabalho nunca foi um problema para mim, já que eu sempre procurei enxergar que cada emprego era uma chance de me fazer crescer. Acabei viajando por tantos lugares que fui capaz de aprender diferentes culturas, temperos e sabores. Quando Eleanor se formou, resolvemos voltar para Wellington, e tínhamos na época vinte e dois anos. Com tão pouca idade, tinha vivido e presenciado tantas coisas que foi estranho estar de volta ao meu país.
Assim que retornamos, peguei um barco e fui visitar minha família em Waitangi, encontrando um lar desolado. Meu pai tinha abandonado minha mãe e meu irmão há poucos meses, e meu avô materno estava no hospital com diagnóstico de câncer de pâncreas. Naquele momento, tomei a decisão de ficar com eles pelo tempo que fosse necessário, uma vez que me sentia extremamente culpada por tê–los deixado durante seis anos para seguir meus sonhos. Com a pouca oferta de empregos em uma cidade tão pequena quanto a nossa, decidi montar um pequeno restaurante dentro de casa para ajudar com as despesas. Minha mãe, para se distrair, começou a me ajudar: montamos algumas mesas no quintal, iluminamos o ambiente com algumas tochas e ali surgiu meu primeiro restaurante.
Daniel, meu irmão mais novo, depois que saía da aula nos ajudava com o atendimento. Por fim, meu trabalho acabou sendo uma distração para os dois e também uma esperança para reconstruir nosso lar. Quando vovô faleceu, um advogado vindo da capital entregou–nos o testamento e a herança, revelando uma pequena fortuna que meu querido avô tinha me deixado. Minha mãe não fazia ideia das origens do dinheiro e nem de que seu pai o possuía e, não vendo mais necessidade de ajuda uma vez que tinha se reerguido do abandono e dos problemas financeiros, ela incentivou–me a deixá–los mais uma vez para construir meu sonho em Auckland. Não foi fácil deixá–los novamente e, depois de repartir o dinheiro igualmente entre nós três, ainda me sobrou uma boa quantia para comprar meu apartamento.
A primeira vez que minha mãe e Daniel vieram me visitar, encontraram–me sentada no chão de minha sala, com folhas rabiscadas ao meu redor e fotos de locais de onde gostaria de montar meu restaurante. Ironicamente, quem comprou o ambiente e investiu nele foram os dois, que o fizeram com o dinheiro que eu tinha repartido. Apenas aceitei a ajuda com a condição de que fossem meus sócios. Aos vinte e seis anos consegui abrir o Maru e já com vinte e nove anos estava consolidada no ramo gourmet de Auckland.
Ao mesmo tempo em que eu passava pelo reencontro com minha família e crescia para ajudá–los, , assim que chegou ao país, conseguiu emprego na Colenso BBDO em Auckland, uma das mais prestigiadas agências de publicidade do mundo. Seu trabalho como fotógrafa e desenhista logo fez com que ela começasse a conquistar notoriedade dentro da empresa, alcançando cargos importantes em pouco tempo. No momento ela era responsável por toda uma equipe, além de ser o braço direito de James Garret, uma lenda no ramo. Foi na Colenso que ela conheceu . Na época, ainda era auxiliar de Garret, e era um cliente fiel, mas bastou aquele encontro para que ele se encantasse com ela e começasse a cercá–la. Demorou quase dois anos de conversa para que minha amiga finalmente aceitasse ir a um encontro e dali em diante eles engataram em um namoro e com seis meses estavam morando juntos. A família dela não aprovou a relação, embora fosse CEO de uma empresa de softwares já estabelecida no mercado, mas apesar de toda a reprovação familiar e de ser deserdada pelos pais, não desistiu da relação e lutou para suprir e demonstrar todo o amor que ela merecia.
Por ver tanta demonstração de amor de ambas as partes, ainda era difícil acreditar que depois de quase quatro anos de relacionamento sério, os dois tinham se separado. O próximo passo deveria ser o casamento e não a separação. Se os dois, que se amavam tanto, não tinham conseguido ficar juntos, como eu poderia acreditar no amor? Como eu, alguém tão quebrada, podia encontrar alguém que me amasse tão intensamente a ponto de desistir da própria família?
O barulho da porta do banheiro se abrindo me fez voltar à realidade e encontrei minha amiga encostada no batente da porta. Percebi de imediato o resultado e, quando nossos olhares se encontraram, pude ver o pânico em sua mente.
, o que eu vou fazer? – ela perguntou, colocando as mãos no rosto e caindo novamente no choro.
Levantei–me sem saber o que falar e a abracei, demorando um pouco para perceber que a angústia de minha amiga acabou me contagiando e nós duas acabamos chorando uma no ombro da outra por tempo indeterminado.
– Amanhã você vai fazer um exame de sangue só para termos cem por cento de certeza. – Funguei, acariciando seus cabelos. – E então iremos criar juntas essa criança, com todo o amor que ela merece.
assentiu, ainda entre meus braços, e aos poucos foi se afastando. Secou as lágrimas com a manga da blusa que usava e caminhou para a cama, deitando–se sem me dizer mais nada. Deitei ao seu lado, segurando uma de suas mãos, ainda querendo passar todo o apoio e força que podia. Com o tempo ela conseguiu pegar no sono e já passava das cinco da manhã quando encostei a porta de seu quarto, caminhando em direção à sala. Ainda era noite escura, apesar do horário, e estávamos para iniciar o inverno. Junho recém se iniciava e a temperatura já estava começando a baixar. Joguei–me na minha poltrona de leitura enquanto observava o mundo lá fora e as luzes que iluminavam a cidade. Senti–me um ser tão pequeno perante toda aquela imensidão escura, tanto do céu quanto do mar. Em breve as chuvas de inverno chegariam e a neve começaria a cair na ilha sul.
Aconcheguei–me melhor na poltrona, abraçando meus joelhos. Será que iria querer continuar com a gestação? Se sim, será que contaria para ou optaria por esconder dele? Como será que contaria para seus pais? Se ela dissesse a verdade para a família sobre a gravidez, como eles iriam reagir?
Caso ela queira manter a gestação apenas para si, criaríamos aquela criança juntas, muito embora toda a nossa rotina precisasse ser modificada e adaptada. Manteria–me trabalhando apenas de noite, quando já estivesse em casa, e enquanto ela trabalhasse, de dia, eu ficaria cuidando do bebê.
Céus, sem dúvidas, serei a tia mais coruja, manhosa e superprotetora. Será que vai ser um menino? Ou uma menina? Um garotinho parecido com não seria muito interessante para a saúde mental de minha amiga, apesar dele ser um cara realmente legal se excetuarmos sua pequena falta de bom senso. Não consigo acreditar que ele a tinha traído porque ainda via em seus olhos o mesmo amor de quando começaram. Gostaria de conseguir compreender a mente de e entender os motivos para que ele tivesse voltado a fazer piadas maliciosas e comentários desrespeitosos para minha amiga.
O que eu não estava conseguindo entender dessa história?
Suspirei e fechei os olhos, conseguindo rever, como um filme, toda a cena de quando a pediu em namoro depois de chegar ao meu restaurante, desolada por uma bronca de Garret. Suspirei de forma triste ao me lembrar de seu chefe. James Garret não iria ficar feliz quando soubesse da novidade, uma vez que sempre pediu dos funcionários dedicação extrema à empresa – e essa era uma das coisas das quais sempre reclamou. O comprometimento excessivo para a Colenso BBDO resultou em um quadro de funcionários solteiros e/ou sem filhos. Se ela seguisse com a gestação, provavelmente seria demitida após completar o período de licença maternidade. Arfei.
O que faríamos?
Massageei minhas têmporas com uma das mãos, novamente fechando os olhos para tentar afastar o turbilhão de pensamentos que iam e vinham em minha mente e, nessa tentativa de relaxar, a imagem daquele homem, Withmore, apareceu. Lembrar–me do seu tom de voz falando meu nome foi quase como reviver o momento e um arrepio percorreu toda a extensão de meu corpo. Por que aqueles olhos quase dourados me pareciam familiar? Por que aquela cicatriz me assombrava? E por que seu nome ressoava em meu interior constantemente, como se pedisse para que eu me lembrasse de algo muito importante.
Afinal, quem é Withmore?
Revoltada por não conseguir esquecê–lo, levantei–me e fui até meu quarto buscar o notebook, voltando para a poltrona. Esperei com impaciência o aparelho ligar e digitei seu nome do navegador. Em instantes, eu tinha a resposta para a minha pergunta, muito embora não me parecesse completa. Cliquei no link que dizia: Corporação Skylark, tradição e confiabilidade. Ri da descrição e procurei na página por ele até encontrar uma foto sua com uma descrição sucinta.
Withmore (33), vice–presidente da Corporação Skylark e filho mais velho do presidente, Otto (64). Possui graduação em Direito Empresarial pela Universidade de Harvard (EUA), mestrado e doutorado em Direito Internacional pela Universidade de Harvard (EUA). Possui, ainda, especialização em Relações Internacionais pela Universidade de Tóquio (Japão) e Administração pela Universidade de Madrid (SPN).
Okay, resumindo: ele é alguém importante e um gênio. Como alguém pode ter tantos cursos, especializações e ser vice-presidente da maior corporação da Nova Zelândia sendo tão novo? Puta que pariu! Reli sua descrição e finalmente me dei conta de quem ele era filho e onde ele trabalhava. Puta que pariu! Otto era um dos maiores empresários do continente e dono de metade do país.
A Corporação Skylark tinha até um time de futebol e era uma das patrocinadoras oficiais dos Jogos Olímpicos. O que se sabia sobre a história da corporação era de que o avô de tinha começado a empresa com navios cargueiros e, a partir do comércio internacional, começou a investir em outras áreas e a riqueza começou a crescer. A família ainda lidava com importação e exportação, por isso o logo de tradição, mas também se tornou forte investidora nas áreas de tecnologia e comunicação. Eram responsáveis por diversos patrocínios em eventos científicos, sempre buscando estar um passo à frente dos concorrentes. Foram a primeira empresa a investir na indústria nacional de microchip e robótica, sem mencionar que, há alguns meses, a mídia anunciou que eles estavam comprando uma emissora.
O mito popular era de que todos na família fossem gênios. Por exemplo: a esposa de Otto, Laila Withmore , era uma renomada advogada de direitos humanos, já tendo participado do Tribunal Internacional de Justiça, também conhecido como Corte de Haia. E, apesar de nenhum deles ter a vida exposta, era de sabedoria popular que os dois filhos haviam sido criados para herdar o império, eram basicamente a versão neozelandesa de realeza.
Freneticamente, comecei a pesquisar mais sobre eles e, depois de algum tempo lendo manchetes e notícias sobre a família mais influente do país depois da família real britânica e de todas as famílias dos ministros, uma minúscula informação antiga me chamou a atenção.

"A família volta a veranear em Mangere, um ilhéu particular vinculado à ilha de Chatham, onde William , fundador da Corporação Skylark, construiu sua primeira casa."
Abaixo da manchete havia a foto de um casarão branco de persianas azuis, com uma varanda cercando–a, logo à beira–mar. Prendi a respiração, atônita.
Reconheci imediatamente aquele casarão, lembrando–me de cenas vívidas da minha infância. Conhecia aquela casa de olhos fechados porque brinquei por anos dentro daqueles cômodos, ainda conseguia sentir o cheio da maresia entrando pela janela da sala de música enquanto ouvia o som do piano. Mordi o lábio inferior, sentindo meu coração pular dentro do peito ao entender o que o encontro no Maru realmente significava.
Percebi, então, o motivo que fez meu instinto gritar alerta! quando o encontrei no restaurante. Não foi sua beleza estonteante ou o ar inalcançável, mas sim um sentimento muito mais profundo que fez meu corpo reconhecer sua presença no momento em que cruzamos nossos olhares depois de tantos anos. Tudo fazia sentido, parecendo se encaixar como peças de um quebra–cabeças. Eu tinha seis anos quando encontrei meu primeiro amor nos corredores daquela casa.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.



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