PRÓLOGO
Na vastidão dos palcos iluminados e dos estúdios silenciosos, onde a fama e a arte se encontram em uma dança delicada, duas forças opostas começam a se mover em direção uma à outra.
Ela, Jeong, uma cantora brasileira-coreana de talento visceral e personalidade forte, que carrega nas raízes a mistura de dois mundos e o desejo incessante por autenticidade.
Ele, Jeon Jungkook, ícone global, prodígio da música, cuja imagem impecável esconde a vontade de se reinventar e desafiar limites.
Num cenário onde egos são medidos em decibéis e silêncios pesam mais que aplausos, o que nasce entre eles não é só um álbum, mas uma colisão de mundos e emoções.
Este é o começo da história que vai além das notas e dos holofotes. Uma história de rivalidade, paixão, descobertas e um amor que surge entre as frestas do som.
COLISÃO
A sala de reuniões era ampla, silenciosa e excessivamente branca. Daquelas em que até as ideias pareciam deslizar das paredes de vidro antes de serem levadas a sério.
Jeong estava sentada à cabeceira da mesa, perna cruzada, blazer escuro caindo sobre os ombros como uma capa informal. O cabelo estava solto, liso, dividido ao meio, e seus olhos varriam as informações no tablet com a atenção cirúrgica de quem não tinha tempo a perder. Ela não costumava vir até Seul para reuniões criativas — muito menos para projetos que não fossem idealizados por ela. Mas ali estava, diante de um plano ambicioso demais para ignorar.
O produtor à sua frente gesticulava animadamente.
— Estamos falando de uma colaboração global. Uma ponte entre mundos. O conceito é arriscado, sim, mas você é a única que pode fazer isso funcionar. Você é o impacto.
manteve o olhar firme. Havia algo no entusiasmo dele que soava mais como jogada de marketing do que visão artística. Ainda assim, ela escutava.
— O projeto já tem nome?
— Reverber. Um álbum visual. Quatro faixas originais, quatro curtas-metragens interligados. Você escreve, produz, canta. Mas — e aqui o homem fez uma pausa dramática — há uma proposta para dividir os vocais na faixa principal.
O ar pareceu mudar de densidade. pousou o tablet lentamente.
— Com quem?
O produtor sorriu, hesitante.
— Jeon Jungkook.
Silêncio.
Não um silêncio constrangido, mas sim aquele que precede decisões de guerra. recostou-se na cadeira. Os dedos tamborilaram o apoio de braço por alguns segundos antes que ela dissesse:
— Ele aceitou?
— Ainda não. Mas demonstrou interesse. O CEO da HYBE está por trás da ideia. Ele acha que seria uma união de dois titãs. Você, com sua sonoridade densa, visceral. Ele, com alcance global e uma imagem... "Perfeita".
Ela sorriu de canto, de forma irônica.
— Perfeita demais, talvez.
— Justamente por isso, seria interessante. Jungkook está buscando amadurecer musicalmente, algo mais cru e autoral, e quer se envolver no processo desde o começo. E você, bom... você tem o que ele não tem: ferocidade criativa.
não respondeu de imediato. Na verdade, já conhecia a música de Jungkook. Não por gosto pessoal — ele nunca estivera na sua playlist, nem na sua órbita. Mas era impossível não saber quem ele era. O Golden Maknae. O menino-prodígio. Voz limpa. Técnica impecável. Aparência estonteante. Fama massiva. Mas será que havia verdade ali? Essa era a pergunta que não saía da sua cabeça.
Dois dias depois, entrou no estúdio principal da HYBE com seus fones de ouvido pendurados no pescoço, as mãos nos bolsos da calça larga de moletom e o olhar afiado. Não havia repórteres, fãs ou câmeras ali dentro. Só ela, o piano encostado na parede e a sala de gravação esperando por alguma centelha.
Ela sabia que ele chegaria em breve. A reunião fora confirmada por mensagem: "Sessão de brainstorm criativo, 10h. Studio C. Com Jungkook." E ali estava. Ela, primeiro. Sempre primeiro. Às 10h03, a porta se abriu. Sem pressa, mas sem desculpas. Jungkook entrou com um café em uma mão, uma caderneta na outra e uma camisa preta de algodão com as mangas puxadas até os cotovelos. Os cabelos estavam soltos, ligeiramente bagunçados, como se tivesse acordado assim por acidente. Ou por charme. Ele parou ao vê-la sentada no canto da sala.
— Você é pontual — comentou ele, com um sorriso leve.
— Você não — respondeu ela, sem sorrir.
Jungkook deixou o café no suporte ao lado do microfone, tirou os fones do pescoço e os colocou sobre a mesa. Seu olhar cruzou o dela por um segundo a mais do que o necessário. Havia algo inquisitivo ali. Como se estivesse tentando decifrá-la em silêncio.
— Disseram que você é difícil de trabalhar — ele disse, casualmente.
ergueu uma sobrancelha.
— E disseram que você só funciona com autotune.
A resposta veio como um estalo.
Por um instante, não houve sorriso nos lábios de nenhum dos dois. Só a vibração no ar. Uma tensão crua, feita de ego, talento e paredes muito finas. Jungkook se sentou diante da mesa de som, abrindo o caderno de anotações como se nada tivesse acontecido.
— Bom, então parece que temos algo em comum — murmurou.
o observou em silêncio por alguns instantes. Depois, levantou-se, caminhando até o teclado no canto da sala. Sentou-se no banco acolchoado e deslizou os dedos pelas teclas, como quem testava não só a afinação do instrumento, mas a do ambiente inteiro.
— Vamos ver do que você é feito, Jungkook — disse, por fim.
Ele se virou, apoiando os cotovelos nos joelhos, com um sorriso que já beirava o desafio.
— O mesmo vale para você, Jeong.
As notas que saíam do piano eram suaves, quase ensaiadas, mas com uma fluidez orgânica que fazia a diferença entre um músico técnico e um artista real. tocava sem esforço, apenas testando o ambiente. Seu estilo era intimista, com frases melódicas que se prolongavam como se estivessem contando um segredo. Jungkook observava em silêncio, braços cruzados, encostado no canto da sala. Aquela era sua primeira vez dividindo um espaço de criação com alguém que não fazia parte do seu mundo habitual. Ele estava acostumado a idol trainees, produtores experientes, compositores de fórmulas perfeitas. era... imprevisível. Ela terminou a frase musical com um acorde menor suspenso e o encarou de leve.
— Alguma ideia ou só vai me assistir?
Ele sorriu, caminhando até o microfone montado no centro da sala.
— Estou processando. Às vezes, é melhor ouvir antes de falar.
assentiu, surpresa com a resposta ponderada.
— Tem algo nessa progressão que me lembra Caetano. É sutil, mas está ali — murmurou ela, mais para si do que para ele.
— Caetano?
Ela ergueu os olhos.
— Caetano Veloso. Brasileiro. Gênio.
Ele arqueou uma sobrancelha, curioso.
— Nunca ouvi. Tem alguma referência pra me mostrar depois?
Um pequeno sorriso apareceu no canto da boca dela.
— Talvez.
Ele tirou o casaco leve e puxou uma cadeira para mais perto do piano.
— Ok. E se a gente começar pensando na letra? Qual é o conceito que você tem em mente?
Ela girou um pouco no banco, enfrentando-o com postura aberta.
— Fragmentos de vozes internas. Gritos que ninguém escuta. Queria que soasse como algo entre confissão e provocação.
Jungkook inclinou a cabeça.
— Confissão e provocação... você quer cantar como se estivesse nua.
deu uma risada curta.
— Emocionalmente, sim.
Ele riu de volta.
— Eu gostei disso.
Foi a primeira troca sincera desde que entraram na sala.
— E você? — ela perguntou. — O que espera disso tudo?
— Verdade. E desafio — respondeu. — Quero sair da minha zona de conforto. Tô cansado da versão que todo mundo espera de mim.
Ela o analisou por um instante. Pela primeira vez, não o via como produto. Havia algo naquele Jungkook que estava tentando quebrar as próprias paredes.
— Então não vai ser fácil — comentou.
— Espero que não seja.
O silêncio que veio depois não era mais desconfortável. Era como o tipo de silêncio que existe entre notas de uma boa composição — necessário.
Horas depois, estavam mergulhados em uma espécie de transe criativo. O tempo dentro do estúdio seguia outra lógica. estava de pé agora, rabiscando palavras em um caderno coreano espiral, enquanto Jungkook testava harmonias no teclado, com o corpo levemente curvado e os dedos dançando pelas teclas.
— "Me escuta quando eu calo" — murmurou, escrevendo a frase em hangul com letra firme.
— Isso é forte — disse Jungkook, sem tirar os olhos do piano.
— É sobre ruído interno. Quando todo mundo fala alto, mas você só escuta a si mesmo no silêncio.
— Isso tem a sua cara.
Ela ergueu os olhos, desafiadora.
— E a sua?
Ele piscou, meio sorrindo.
— Talvez. Mais do que eu gostaria de admitir.
À tarde, o produtor entrou com dois cafés gelados e um sorriso tenso.
— Como estão indo?
o ignorou, ainda concentrada nos papéis. Jungkook pegou o copo e fez um gesto vago.
— Estamos começando a nos suportar.
O produtor riu, aliviado.
— Já é mais do que eu esperava no primeiro dia.
Quando ele saiu, olhou para Jungkook de lado.
— Sempre tão diplomático?
— Só quando vale a pena.
— E eu valho?
Ele não respondeu de imediato. Deu um gole no café antes de encará-la.
— Ainda estou decidindo.
soltou uma risada baixa.
— Justo.
No fim do dia, após horas de escrita, acordes e algumas provocações silenciosas, guardou seus materiais com calma. Jungkook ainda estava no teclado, tocando uma melodia improvisada — algo melancólico, quase triste, com um quê de inverno. Ela parou ao lado da porta.
— Aquilo é seu?
Ele assentiu sem olhar para ela.
— Pode ser o refrão. Se você não odiar.
Ela pensou por um instante.
— Não odiei. Só acho que ainda está muito... limpo.
— "Limpo"? — ele perguntou, olhando por cima do ombro.
— Perfeito demais. Você canta como se não pudesse errar. Às vezes, isso soa distante.
— E você canta como se estivesse sempre se defendendo. — Ele não disse em tom de crítica. Era observação. Crua. Verdadeira.
mordeu o canto do lábio inferior e assentiu devagar.
— Talvez. Mas pelo menos é real.
Jungkook fechou o teclado e se levantou.
— Acho que vai ser interessante.
— Ou desastroso.
— Às vezes, é a mesma coisa — ele respondeu.
E naquele momento, pela primeira vez, eles sorriram ao mesmo tempo. Não como rivais. Nem como aliados. Mas como duas forças prestes a colidir de verdade.
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A noite havia caído em Seul como um cobertor cinza-claro, com as luzes dos arranha-céus piscando lentamente no céu úmido. O táxi deslizou pelas avenidas largas até parar em frente ao pequeno edifício residencial que chamaria de casa pelos próximos dois meses. Um lugar simples, de janelas amplas e paredes brancas, localizado em Hapjeong, perto do rio Han.
Ela preferiu não ficar em hotel. Sempre achou que a neutralidade sem alma dos corredores de carpete abafado bloqueava sua criatividade. Aquela escolha por algo mais residencial, mais silencioso, já dizia muito sobre como ela enxergava a arte: ela precisava de verdade, de ruído humano, de cheiro de café e piso de madeira. Subiu os três lances de escada a pé, mesmo cansada, e tirou os sapatos ao entrar. O apartamento era um misto de minimalismo coreano com alguns detalhes seus — uma rede de tecido cru pendurada discretamente no canto da sala, um porta incenso de pedra sabão que trouxera do Brasil, e uma vitrola herdada da avó coreana que morava em Busan. Acendeu uma luz amarela fraca, largou a bolsa no sofá e foi direto para a cozinha. Enquanto o chá esquentava, tirou o moletom que ainda trazia o cheiro do estúdio e ficou apenas com a regata preta justa. Os ombros estavam tensos, e a mente, ainda mais. Ela tentava não pensar nele. Mas era inevitável.
Jungkook. Jeon Jungkook.
A lenda viva que parecia ter sido feito para brilhar. Ele tinha um carisma que entrava na sala antes mesmo de ele abrir a porta. Era irritante. E, ao mesmo tempo... magnético.
Havia algo nele que a desarmava. Não era só talento — era presença. Uma segurança silenciosa, como se ele soubesse que pertencia àquele lugar, àquele estúdio, àquele mundo. Mas ainda não sabia se aquilo era arrogância ou apenas... paz com quem se é. Ela pegou o celular e abriu o bloco de notas, digitando uma frase solta:
"Ele canta como se não soubesse o que está perdendo."
Apagou. Reescreveu. Apagou de novo. Fechou o celular e deu um gole no chá.
Do outro lado da cidade, Jungkook também encarava o teto, deitado de lado no sofá de couro preto da sala de seu apartamento. A música instrumental tocava baixa nos fones, enquanto ele brincava com a tampa de uma caneta entre os dedos. O caderno de anotações estava aberto em seu colo, e no centro da folha havia apenas um título:
"Colisão."
Nada mais.
O dia tinha sido denso. Não tenso — mas carregado de algo novo, algo com cheiro de madeira crua e ferrugem criativa. Jeong era diferente de qualquer artista com quem ele já havia trabalhado. Havia uma vibração nela que misturava desafio e elegância. Como uma música em compasso quebrado — difícil de acompanhar, mas impossível de ignorar. Ela era firme, intensa, com um sotaque quase imperceptível em certas palavras coreanas que entregava sua origem. Ele notou isso. Ela falava "bora" ao terminar as frases, às vezes. E quando se irritava, os olhos ficavam mais escuros, como se guardassem trovões abafados. Mas o que mais o intrigava era que ela não parecia impressionada.
não o tratou como "o Jungkook". Não o olhou com admiração nem com desdém. Apenas o viu como um igual — ou talvez, como um possível obstáculo. E aquilo, ironicamente, o fazia querer provar que merecia estar ali. Pela primeira vez em meses, ele sentia vontade de surpreender alguém. Não o público. Não a equipe. Alguém específico.
Ele pegou o celular, abriu a pasta de gravações e clicou no áudio que havia capturado no fim do dia — a melodia improvisada que tocou enquanto ela saía do estúdio.
Fechou os olhos.
O som era limpo, sim. Mas ela tinha razão. Faltava sujeira. Faltava risco. Ele respirou fundo e murmurou para si, em coreano baixo:
— Você quer verdade... então tá.
Abriu o caderno e, pela primeira vez naquela noite, escreveu algo:
"Eu sou o grito que você não queria ouvir."
Fechou o caderno com um estalo leve e recostou a cabeça no sofá, ainda escutando o silêncio que vinha depois das notas. Aquela era só a primeira sessão. E ele já estava, de algum jeito, envolvido demais.
O segundo dia começou com chuva. Finas gotas marcavam os vidros do estúdio, desfazendo o contorno dos prédios ao redor como se o mundo lá fora estivesse sendo apagado aos poucos. Dentro, o ar cheirava a café fresco e madeira — o tipo de aroma que se instala em qualquer lugar onde música real está prestes a nascer. chegou antes, de novo. Usava uma calça de alfaiataria larga, tênis branco e uma blusa de moletom cinza clara com as mangas enroladas nos antebraços. O cabelo preso de maneira despretensiosa e a ausência completa de maquiagem faziam parte do uniforme não oficial dos dias de criação.
Ela sentou-se no chão do estúdio, as costas apoiadas na parede acolchoada, folhas soltas espalhadas ao seu redor. Estava experimentando versos em coreano e português, tentando decidir qual deles parecia mais verdadeiro naquela melodia. A língua portuguesa entrava como um sussurro, uma camada secreta que talvez ninguém entendesse de imediato — mas que ela sabia que precisava estar ali. Era a ponte entre os dois mundos que ela carregava dentro do peito.
— "Eu me afogo no que não digo..." — Murmurou, testando a sonoridade. — "Mas cê nem vê."
Fez uma careta leve. A sílaba soava estranha com a batida lenta que construíra no dia anterior.
A porta se abriu sem aviso.
Jungkook entrou com uma jaqueta preta, o capuz ainda jogado sobre a cabeça. Os olhos estavam vermelhos — de sono, provavelmente — mas alerta. Ele escaneou a sala e parou ao vê-la ali no chão, cercada de palavras e rabiscos.
— Achei que você teria um trono por aqui — comentou, tirando o capuz.
— Achei que você não viesse com cara de quem fugiu da cama de alguém — retrucou , sem levantar os olhos.
Ele riu, mais com o nariz do que com a boca.
— Trabalho melhor com caos.
— E eu com silêncio. Estamos empatados.
Jungkook largou a mochila no canto e sentou-se no banquinho do teclado, girando uma caneta entre os dedos. Estava vestido de maneira simples, mas havia uma tensão nova nos ombros. Algo mais firme. Como se estivesse carregando uma missão.
— Eu pensei no que você disse ontem — começou, enquanto ligava o sistema de som.
ergueu os olhos, curiosa.
— Sobre perfeição. Sobre cantar como se não pudesse errar.
— E?
— Você tem razão.
Ela arqueou uma sobrancelha, surpresa. — Isso é raro.
— Aproveita — disse ele, com um meio sorriso. — Eu gravei algo ontem à noite. Tá cru, mas... talvez funcione como base pro refrão. Posso te mostrar?
assentiu lentamente. Jungkook conectou o celular ao sistema e apertou o play. A voz dele preencheu a sala.
Era diferente.
A suavidade habitual estava lá, mas havia algo novo: textura, falhas propositalmente mantidas, respiração visível nas entrelinhas. Como se ele estivesse cantando com o corpo inteiro, não só com as cordas vocais. Como se estivesse... sentindo.
"Eu deixo o céu gritar por mim / Quando a minha voz não cabe aqui / E se eu for o erro que você quis evitar?"
A música cessou. O eco das últimas notas se espalhou pelo espaço vazio, como uma dúvida deixada no ar. não disse nada por alguns segundos. Depois, pegou o violão encostado na parede e começou a dedilhar uma sequência suave — algo menor, melancólico.
— Isso tem peso — disse ela. — O tipo certo de peso.
Jungkook a observava tocar, os olhos fixos nas mãos dela, que se moviam com delicadeza, mas também com firmeza. Como se cada acorde estivesse sendo escolhido com cuidado cirúrgico.
Ela olhou de volta.
— Vamos usar isso. Mas quero que a primeira voz que apareça na música seja a minha.
Ele inclinou a cabeça, curioso.
— Algum motivo?
— Porque é sobre calar. E calar precisa vir antes do grito.
Jungkook sorriu, como se aquilo fizesse sentido em mais de um nível.
— Você tem umas ideias estranhas.
— E você, uma fama que não sabe o que fazer com.
Silêncio. Mas era um silêncio diferente agora. Não havia mais estranhamento. Só uma provocação implícita. Um jogo de espelhos entre dois artistas que se reconheciam, ainda que não admitissem.
Passaram às duas horas seguintes costurando versos. Jungkook puxava linhas melódicas mais doces, e vinha com letras rasgadas, quase ásperas. A mistura funcionava. Era como assistir duas ondas opostas se encontrando no mesmo ponto: às vezes violentas, às vezes suaves. Mas sempre, sempre intensas.
Na pausa para o almoço, sentaram-se em frente ao vidro, com potes plásticos de dosirak preparados pela equipe da gravadora. separava o arroz com os pauzinhos, pensativa.
— Quando você começou a compor de verdade? — perguntou ele, entre uma colherada e outra.
— Aos treze. Mas só fui gostar do que escrevia com dezenove.
— E antes disso?
— Eu me odiava.
Jungkook não esperava uma resposta tão direta. Engoliu o arroz com calma, sem desviar o olhar.
— E agora?
— Agora eu só tenho medo de repetir quem eu fui.
Houve um silêncio longo. Ele pensou em dizer algo, mas desistiu. Às vezes, silêncio era o único elogio possível.
Quando o ensaio terminou naquele dia, não houve provocação na saída. Nenhuma frase afiada. Apenas um olhar breve, um aceno de cabeça, como se ambos soubessem que aquele encontro não era o fim, mas só o começo.
voltou para o apartamento com a cabeça cheia de ideias e o coração pesado de dúvidas. Jogou-se no sofá, puxou o cobertor e ficou olhando pela janela para as luzes da cidade. As palavras que tinha escrito durante o dia giravam em sua mente como uma melodia inquieta.
"Eu sou o grito que você não queria ouvir."
O verso parecia ecoar dentro dela, como se fosse um mantra para enfrentar o medo de se expor, de mostrar suas feridas e sua força ao mesmo tempo.
Do outro lado de Seul, Jungkook também não conseguia desligar o pensamento sobre . Ela era diferente, desafiadora, um enigma que ele queria desvendar — não só como artista, mas como pessoa. Aquelas duas vozes, aquela colisão, tinha um potencial que nenhum deles conseguia ignorar.
Ele fechou os olhos, respirou fundo e começou a rabiscar novas palavras no caderno.
"Somos dois mundos prestes a colidir. Que venha o impacto."
Continua...
Nota da autora: Sem nota.
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