Prólogo
— Oi, Frank, tudo certo por aí? — Sentei-me desajeitada no meio fio em frente ao grandioso palácio, que naquela hora da tarde já não era mais tão visitado por turistas.
Destampei o vinho barato da conveniência, coberto pelo saco de papelão para disfarçar que estava enchendo a cara em plenas cinco da tarde, na frente de crianças, em plena luz do dia.
— Deixa eu te contar sobre o cliente de ontem, você não vai acreditar...
O guarda cujo o nome não devia ser Frank piscou de um jeito monótono, mexendo de leve uma das mãos e fazendo o grande cavalo branco trocar o peso entre as patas dianteiras.
Franzi o cenho ainda olhando pra cima, Frank era ele ou o cavalo?
Não importava muito. Todos os dias trocavam a guarda do palácio e em todas elas eu estava por ali, largada, sempre com frio por não usar roupas decentes e mergulhada em melancolia disfarçada de bom humor.
Naquela ocasião específica, eu narrava a noite desastrosa que tive com um cliente parrudo de pinto pequeno que se achava o rei do mundo. Tentei adicionar um pouco de graça na história, mas, no fim, era sempre meio triste e deplorável me lembrar dos meus atendimentos. Não só porque eram todas verídicas e demoravam meses para deixar minha cabeça, mas também porque era somente eu desabafando para um desconhecido por semana.
Meu celular vibrou enquanto meu monólogo sobre homens que tentam compensar a falta de tamanho do próprio pau com arrogância e misoginia ainda acontecia, fazendo-me interrompê-lo ao ler o nome de Devon piscando na tela.
— Sunset Motel. Beleza, tô indo praí. — Levantei-me já cambaleante. Nunca tinha sido forte pra bebida. — Amigo, essa história vai ter que ficar pra amanhã.
O homem em cima do cavalo permaneceu evitando contato visual. Não teria amanhã para terminar história nenhuma, afinal ele seria trocado por outro. Uma pena, ele era gatinho até; nariz grande, bigode e olhos azuis, uma versão menos acrobática do Benson Boone.
— Tenho que ir, o trabalho chama. — Simulei uma continência desajeitada, indo atrás de um táxi.
Eu poderia descrever os próximos acontecimentos por aqui, mas dada a insalubridade do meu ofício, prefiro pular já para a parte onde me deito ofegante ao lado do cliente e encaro o teto por algum tempo, desassociando, para o meu próprio bem.
No caso de Devon era um pouco menos degradante, já que poderia considerá-lo um amigo se ignorasse o nível de proximidade na cama. Dividíamos um cigarro enquanto falávamos sobre a vida.
— Hum, tô com um esquema novo, multimilionário, vai levar muita grana, briga de cachorro grande mesmo. — O encarei de canto de olho, sem botar muita fé.
Todos os esquemas dele são incríveis até a polícia ser envolvida e foder com tudo.
— Acho que posso te colocar nessa também. — Ri em escárnio, soltando fumaça.
Ok, vamos fingir que ele já não tinha contado comigo no esquema desde o início e estava tentando fazer parecer que me escolheu aleatoriamente.
— Desembucha logo. — Apoiei a cabeça na mão, encarando-o tediosa.
Se não fosse tão hediondo, eu poderia topar, estava mesmo querendo meter o pé daquela cidade do céu cinza.
— Seguinte, conheço um cara com uma empresa de marketing digital montadinha, só falta uma laranja pra fechar tudo com o cliente final.
Traduzindo: Ele conhecia um golpista com um esquema para roubar dinheiro de um trouxa burro demais para cair numa arapuca daquelas em pleno 2025 e precisava de uma otária pra botar a cara a tapa e se arriscar por eles.
— Me deixa adivinhar, você pensou em mim.
— Eu tô falando sério. — Ainda ria de sua cara de pau quando tive o toco de cigarro roubado. — É muita grana envolvida! Manja desses carros de fórmula 1?
Assenti, imaginando uma Ferrari e finalmente entendendo o nível da coisa.
— Então, o cliente é um desses figurões bilionários donos de equipes lá dentro.
Sentei-me, sentindo o coração bater mais forte. Roubar de um bilionário seria considerado hediondo? Ele tinha tanto, por que ligaria se pegássemos um pouquinho?
Quer dizer, olhe só pra mim, bebendo até cair nas escadarias do palácio e tendo que dividir um mísero cigarro com um cliente. Isso não é vida, estou cansada de ter que transar com tanto homem asqueroso por uns trocados apenas.
Suspirei.
— O que querem que eu faça?
Destampei o vinho barato da conveniência, coberto pelo saco de papelão para disfarçar que estava enchendo a cara em plenas cinco da tarde, na frente de crianças, em plena luz do dia.
— Deixa eu te contar sobre o cliente de ontem, você não vai acreditar...
O guarda cujo o nome não devia ser Frank piscou de um jeito monótono, mexendo de leve uma das mãos e fazendo o grande cavalo branco trocar o peso entre as patas dianteiras.
Franzi o cenho ainda olhando pra cima, Frank era ele ou o cavalo?
Não importava muito. Todos os dias trocavam a guarda do palácio e em todas elas eu estava por ali, largada, sempre com frio por não usar roupas decentes e mergulhada em melancolia disfarçada de bom humor.
Naquela ocasião específica, eu narrava a noite desastrosa que tive com um cliente parrudo de pinto pequeno que se achava o rei do mundo. Tentei adicionar um pouco de graça na história, mas, no fim, era sempre meio triste e deplorável me lembrar dos meus atendimentos. Não só porque eram todas verídicas e demoravam meses para deixar minha cabeça, mas também porque era somente eu desabafando para um desconhecido por semana.
Meu celular vibrou enquanto meu monólogo sobre homens que tentam compensar a falta de tamanho do próprio pau com arrogância e misoginia ainda acontecia, fazendo-me interrompê-lo ao ler o nome de Devon piscando na tela.
— Sunset Motel. Beleza, tô indo praí. — Levantei-me já cambaleante. Nunca tinha sido forte pra bebida. — Amigo, essa história vai ter que ficar pra amanhã.
O homem em cima do cavalo permaneceu evitando contato visual. Não teria amanhã para terminar história nenhuma, afinal ele seria trocado por outro. Uma pena, ele era gatinho até; nariz grande, bigode e olhos azuis, uma versão menos acrobática do Benson Boone.
— Tenho que ir, o trabalho chama. — Simulei uma continência desajeitada, indo atrás de um táxi.
Eu poderia descrever os próximos acontecimentos por aqui, mas dada a insalubridade do meu ofício, prefiro pular já para a parte onde me deito ofegante ao lado do cliente e encaro o teto por algum tempo, desassociando, para o meu próprio bem.
No caso de Devon era um pouco menos degradante, já que poderia considerá-lo um amigo se ignorasse o nível de proximidade na cama. Dividíamos um cigarro enquanto falávamos sobre a vida.
— Hum, tô com um esquema novo, multimilionário, vai levar muita grana, briga de cachorro grande mesmo. — O encarei de canto de olho, sem botar muita fé.
Todos os esquemas dele são incríveis até a polícia ser envolvida e foder com tudo.
— Acho que posso te colocar nessa também. — Ri em escárnio, soltando fumaça.
Ok, vamos fingir que ele já não tinha contado comigo no esquema desde o início e estava tentando fazer parecer que me escolheu aleatoriamente.
— Desembucha logo. — Apoiei a cabeça na mão, encarando-o tediosa.
Se não fosse tão hediondo, eu poderia topar, estava mesmo querendo meter o pé daquela cidade do céu cinza.
— Seguinte, conheço um cara com uma empresa de marketing digital montadinha, só falta uma laranja pra fechar tudo com o cliente final.
Traduzindo: Ele conhecia um golpista com um esquema para roubar dinheiro de um trouxa burro demais para cair numa arapuca daquelas em pleno 2025 e precisava de uma otária pra botar a cara a tapa e se arriscar por eles.
— Me deixa adivinhar, você pensou em mim.
— Eu tô falando sério. — Ainda ria de sua cara de pau quando tive o toco de cigarro roubado. — É muita grana envolvida! Manja desses carros de fórmula 1?
Assenti, imaginando uma Ferrari e finalmente entendendo o nível da coisa.
— Então, o cliente é um desses figurões bilionários donos de equipes lá dentro.
Sentei-me, sentindo o coração bater mais forte. Roubar de um bilionário seria considerado hediondo? Ele tinha tanto, por que ligaria se pegássemos um pouquinho?
Quer dizer, olhe só pra mim, bebendo até cair nas escadarias do palácio e tendo que dividir um mísero cigarro com um cliente. Isso não é vida, estou cansada de ter que transar com tanto homem asqueroso por uns trocados apenas.
Suspirei.
— O que querem que eu faça?
P1
Observava as partículas de pó voando contra a luz branca vinda da penteadeira extravagante do quarto de Félix, enquanto tragava o cigarro que queimava entre meus dedos. A ponta do meu salto baixo, preto e lustrado batucava no piso de madeira, como se marcasse uma contagem regressiva para minha própria ruína.
Ou seria redenção?
Tinha se passado um mês, dias intensos de muita preparação, mentiras empilhadas umas nas outras, noites mal dormidas, e agora tudo se resumia a mim e no quão boa nisso eu poderia ser. A bomba relógio estava em minhas mãos e eu sinceramente temia não saber o que fazer com ela, até o momento da explosão iminente.
— Já chega disso. — resmungou Félix, me arrancando o cigarro sem a mínima delicadeza. — Você vai chegar lá fedendo a Derby e vão te achar uma pobretona!
Ri brevemente de sua expressão de nojo. Era impressionante, ele não tinha nenhum pouco de autocrítica.
— Eu sou uma pobretona, Fee. — Minha voz saiu seca e sem forças pra discutir.
— Não no meu turno, querida. Hoje você será uma mulher de negócios — decretou ele, segurando meu queixo com a mão fria e manchada de corretivo.
Os olhos escuros de Félix estavam concentrados, e por um segundo, tive a impressão de que ele estava mais nervoso do que eu, só que sabia disfarçar melhor.
No fim daquela arrumação toda, olhar para o espelho foi um choque contido; ele refletiu uma versão limpa demais de mim mesma. Maquiagem leve, quase imperceptível, com cara de natural, nada de cílios extravagantes, batom vermelho ou glitter colado nos cantos dos olhos. Eu me parecia com uma daquelas mulheres ricas da TV, sofisticada…
Ou, pelo menos, alguém tentando muito parecer assim.
Esse era definitivamente o meu caso. Senti falta do look que costumava exibir na noite, do iluminado da pele contrastando com as luzes das boates onde dançava. Mas sabia que aquela outra versão não era aceita no lugar onde eu iria, ao menos não em plena luz do dia.
Só de pensar no contraste entre as duas, senti meu estômago se revirar. Félix teria que me desculpar, mas eu precisava de mais um cigarro ou iria explodir.
— Nem pensar! — bateu em minha mão estendida com o pincél de pó — Vai estragar a pele e a minha paciência.
Revirei os olhos buscando outra coisa para descontar meu estado de nervos. O papel largado de canto me chamou a atenção: O memorando do golpe.
A agência Mirage, de nome nada irônico.
Segundo o mentor da mentira, seria uma agência especializada em gestão de imagem e investimentos para atletas de alto rendimento. Tinha sede em Genebra e uma filial discreta em Paris. Era tudo inventado: o time por trás da empresa; as redes sociais com seguidores comprados, mas discretos o bastante para se passarem por pessoas reais; matérias falsas plantadas em blogs e revistas de luxo que nunca, jamais, ouviram falar de nós, mas que agora juravam ter uma parceria de anos conosco.
— Clientes discretos, confidencialidade máxima, foco em reestruturação de imagem pública. — murmurei baixinho, tentando soar confiante e crível. — Cinco investidores suíços. Três contratos com jovens atletas de futebol em ascensão nas categorias de base... — Nada daquilo existia, mas soava bem quando dito com confiança.
Eu só precisaria interpretar um papel, como no grupo de teatro que fiz parte na infância. Mesmo com o coração batendo na garganta, tentei pensar positivo. Afinal de contas, se desse certo, eu nunca mais precisaria tocar num cigarro barato ou me deitar com todos aqueles clientes nojentos toda noite.
Finalmente me levantei, quando Félix deu o último retoque no iluminador quase invisível no alto da minha bochecha. A refletida no espelho tinha o cabelo preso com elegância, vestia um blazer claro e saia ajustada e nada curta. Não havia nenhum rastro da vida que eu levava até a noite anterior. Tão igual, mas ao mesmo tempo tão diferente. Ela parecia-se com uma versão de mim que deu certo.
Ao me encarar ali, por um instante, não soube se queria abraçar aquela mulher ou destruí-la.
— Vai lá e arrasa — Félix abriu um sorriso orgulhoso, batendo palminhas como se estivesse prestes a aplaudir a estreia de um espetáculo. — Muita merda pra você, mon ange.
Me permiti rir da referência teatral, antes de guardar o papel com as informações falsas na bolsa emprestada que levaria comigo.
— Eu volto rápido. — O encarei parado na soleira da porta e tentei sorrir, o máximo que pude. — Quando a grana cair... a gente compra duas passagens pra França e desaparece.
Félix sorriu, com os olhos brilhando de algo que me pareceu ser esperança e também medo. Contraí os lábios. Eu estava igual.
Não sabia se conseguiria explicar em palavras o que ele significava pra mim. A irmandade que tínhamos cresceu em meio a adversidade, numa boate barulhenta, de clientes folgados e violentos; no começo de tudo, precisei de proteção e a encontrei em Félix. Mesmo magro e franzino, ele nunca hesitou em me defender, fiz o mesmo por ele várias vezes.
No fim das contas, sem família, éramos somente eu e ele nesse mundo. E não existia a mais remota possibilidade de eu deixá-lo pra trás.
— Não esqueça de pisar com força, queixo erguido e postura. — Assenti, segurando um revirar de olhos. Parecia um flashback. — Vai lá e acaba com eles!
Apertei os olhos quando o ar frio da manhã bateu no meu rosto. Era estranho estar na rua tão cedo. Normalmente, naquele horário eu já estaria em casa, tentando tirar a maquiagem enquanto contava todo o dinheiro amassado em notas de vinte.
Agora, vestida como alguém que sabia o preço de ações na bolsa de Londres, caminhava na calçada, tentando ignorar a forma como meu corpo estranhava tudo ao redor. Eu realmente poderia me considerar uma vampira, sair a luz do dia me causava calafrios.
No meio-fio, o Ford Escort cinzento de Devon já me aguardava. A lateral ainda fodida, depois de uma fuga mal calculada do assalto que ele se meteu na semana retrasada, e a lataria vibrando a cada ronco do motor. Aquele carro era um verdadeiro monumento à decadência.
Ao que parecia, eu também não tinha muita autocrítica.
— A limusine para o grande baile — Ironizei, pegando na maçaneta e ficando surpresa com o fato de ela não ter saído na minha mão.
Entrei com cuidado para não bagunçar a obra de Félix, lembrando-me da história da abóbora da Cinderela. Infelizmente o feitiço não tinha se estendido ao meu meio de transporte, mas o cheiro de gasolina velha e o rasgo no banco eram quase tão mágicos quanto a carruagem do filme.
Respirei fundo, tentando controlar minha tremedeira, tão distraída que nem reparei o olhar de Devon em minha direção. Seus lábios volumosos esboçaram um sorrisinho que não pude interpretar de primeira, mas parecia-se muito com sarcasmo.
— Como vai a minha golpista favorita?
Não disse?
— Isso não tem graça nenhuma.
— Que cara é essa? — ele perguntou, finalmente dando partida no carro jurássico. — Não me diga que vai dar pra trás.
— Não vou! — respondi rabugenta, olhando pela janela para evitar contato visual.
Devon respirou fundo, como se precisasse de paciência para lidar com o nervosismo alheio. Para ele era tão fácil, só precisou recrutar uma otária e servir de chofer.
— O esquema tá redondo, . — Teimou. — É sério, tá tudo tão bem amarrado que eles teriam que cavar muito, muito fundo pra descobrir qualquer coisa.
Cruzei os braços, não caindo mais naquela ladainha toda.
No dia em que topei fazer parte foi simples, parecia o plano perfeito. Mas depois de tanto tempo, depois da minha cabeça criar milhares de cenários catastróficos em que eu era pega em flagrante, as coisas já não pareciam tão a prova de erros assim.
Não achava que tentar roubar um bilionário me renderia apenas uns dias em cana com direito a fiança, e imaginar o que poderia acontecer me causava calafrios.
— Mas e se cavarem? Você e seus planos infalíveis… a gente se ferrou bonito no último, lembra?
Não tinha como não lembrar. A memória veio rápida em minha cabeça, as vozes trêmulas dos idosos ao telefone, a forma como eles eram inocentes e acreditavam em cada palavra que eu lhes dizia e depositavam a aposentadoria sem pensar duas vezes… Até mesmo o som estridente da sirene da viatura que me levou pra delegacia era nítido em minha mente.
Devon manteve as mãos firmes no volante.
— Relaxa, até eles descobrirem, já estaremos longe. Você vai ficar lá um mês, no máximo. — Me remexi no banco, desconfortável. — Depois do primeiro pagamento… desaparecemos.
Um mês e um salário milionário da Aston Martin. Repeti mentalmente, como quem rezava. Tinha que me apegar àquela promessa, porque se pensasse demais àquela altura desistiria de tudo.
O carro seguiu silencioso até os bairros sucateados do subúrbio darem lugar a arranha-céus assustadores de fachadas espelhadas e calçadas limpas. Devon estacionou a dois quarteirões de distância do local. Eu não podia chegar na sede da Aston Martin dentro de um Ford caindo aos pedaços.
Endireitei o blazer, respirando fundo. Tentava me concentrar em andar no par de saltos como se nunca os tivesse calçado antes. Fiz o que Fee me disse e arrumei minha postura, rumando em direção ao edifício imponente. O gosto de nicotina ainda pairava em minha boca.
Suspirei ressabiada. Paris ainda parecia longe. E a Aston Martin, estava perto demais.
(...)
Adentrei o saguão sofisticado com passos firmes. Era a hora de incorporar a mulher do espelho, a que não tinha ficha criminal e que transava com menos de 6 homens ao ano porque estava ocupada sendo uma workaholic, fazendo pilates e sendo bem sucedida.
— Nome? — A recepcionista de sorriso falso perguntou.
— . Tenho uma reunião marcada às oito. — Disse com naturalidade, como se repetisse aquilo todos os dias.
Sem esboçar reação com a facilidade que foi conseguir entrar, recebi o crachá de visitante e agradeci sorrindo minimamente, seguindo em direção aos elevadores, sem olhar para trás. Alguém devia avisar para reforçar a segurança, não pediram sequer um documento com foto!
O elevador estava prestes a fechar quando alguém segurou a porta com a mão. Não corri até lá, correr não era elegante e demonstrava desespero - não que eu não estivesse desesperada. Entrei com calma, desejando um bom dia cordial enquanto ajustava uma mecha de cabelo para atrás da orelha. Levantei a cabeça, reparando no reflexo das portas de metal, e então eu o vi.
Ali, entre ternos escuros e gravatas perfeitamente alinhadas, havia um homem de óculos escuros, jaqueta casual, cabelos bagunçados e postura desinteressada. Destacando-se por não seguir o dress code e por parecer não pertencer àquele meio. Parecia despreocupado com o tempo, não olhava para o celular ou o relógio, como os engravatados ao redor, muito menos para o chão.
Na verdade, ele olhava pra mim.
Bom, ao menos era o que parecia, afinal de contas aqueles óculos não me deixaram ter muita certeza de nada.
De qualquer forma, sustentei o olhar por meio segundo, pensando nas possibilidades de ter minhas mãos pegando firme naqueles ombros largos e marcados. Logo soltei um sorriso curto pra mim mesma, lembrando-me que, apesar de tentador, aquele não era meu propósito ali dentro. Endireitei o queixo, voltando meus olhos para o painel de botões.
E então, o toque agudo do meu Samsung velho explodiu em meio a bossa nova irritante no elevador silencioso. Constrangida, vi os executivos se entreolharem confusos, mal reconhecendo qualquer outro ringtone que não fosse de um Iphone recém lançado. O homem de óculos escuros soltou um riso abafado, baixando a cabeça para disfarçar.
Pesquei a merda do aparelho na bolsa, desligando-o enquanto prometia a mim mesma matar quem quer que fosse o dono da empresa de cobrança que escolheu a pior hora do dia para encher a porra do meu saco!
Quando finalmente cheguei ao andar, senti que poderia soltar todo o ar que prendia dentro de mim depois da vergonha passada. Sai, tentando não andar com tanta pressa e distraída, endireitando no ombro a bolsa esquisita que Félix tinha me arrumado. Quase não percebi quem vinha logo atrás de mim, estranhamente perto.
Tratei de ignorá-lo, avançando pelo corredor extenso até a sala de reuniões indicada pela placa. Precisava estar 100% focada, e aquele moreno alto e aparentemente marrento era uma baita distração. Respirei fundo, como quem se posiciona atrás de grandes cortinas vermelhas e bati à porta, sendo autorizada a entrar.
Na cabeceira da grande mesa estava Lawrence Stroll, impecável em um terno escuro. Ele se levantou, cumprimentando-me com firmeza no aperto de mão.
— Srta. , bem-vinda. Este é meu filho… Lance. — indicou alguém atrás de mim.
Virei-me, segurando mais uma vez minhas expressões faciais.
Era o homem do elevador. Ótimo, tinha começado muito bem querendo dar em cima do filho do dono. Os óculos agora estavam dobrados em uma das mãos grandes dele e seu olhar afiado me encarou pela segunda vez naquela manhã.
Belos olhos castanhos, aliás.
Sua mão tocou a minha, pegando-me desprevenida. Tinha feito o movimento de aperto de mãos mais uma vez, mas não esperava que a dele fosse tão macia e convidativa. Será que tê-lo ali não arruinaria o plano?
Senti o coração dar um pequeno salto dentro do peito.
Não me pareceu só de medo, nem apenas de encanto.
Foi algo no meio daquelas duas coisas contrárias, que me deixaram temporariamente confusa.
Quando ele abriu um sorrisinho mínimo em minha direção, bati o martelo.
Era um alerta.
Ou seria redenção?
Tinha se passado um mês, dias intensos de muita preparação, mentiras empilhadas umas nas outras, noites mal dormidas, e agora tudo se resumia a mim e no quão boa nisso eu poderia ser. A bomba relógio estava em minhas mãos e eu sinceramente temia não saber o que fazer com ela, até o momento da explosão iminente.
— Já chega disso. — resmungou Félix, me arrancando o cigarro sem a mínima delicadeza. — Você vai chegar lá fedendo a Derby e vão te achar uma pobretona!
Ri brevemente de sua expressão de nojo. Era impressionante, ele não tinha nenhum pouco de autocrítica.
— Eu sou uma pobretona, Fee. — Minha voz saiu seca e sem forças pra discutir.
— Não no meu turno, querida. Hoje você será uma mulher de negócios — decretou ele, segurando meu queixo com a mão fria e manchada de corretivo.
Os olhos escuros de Félix estavam concentrados, e por um segundo, tive a impressão de que ele estava mais nervoso do que eu, só que sabia disfarçar melhor.
No fim daquela arrumação toda, olhar para o espelho foi um choque contido; ele refletiu uma versão limpa demais de mim mesma. Maquiagem leve, quase imperceptível, com cara de natural, nada de cílios extravagantes, batom vermelho ou glitter colado nos cantos dos olhos. Eu me parecia com uma daquelas mulheres ricas da TV, sofisticada…
Ou, pelo menos, alguém tentando muito parecer assim.
Esse era definitivamente o meu caso. Senti falta do look que costumava exibir na noite, do iluminado da pele contrastando com as luzes das boates onde dançava. Mas sabia que aquela outra versão não era aceita no lugar onde eu iria, ao menos não em plena luz do dia.
Só de pensar no contraste entre as duas, senti meu estômago se revirar. Félix teria que me desculpar, mas eu precisava de mais um cigarro ou iria explodir.
— Nem pensar! — bateu em minha mão estendida com o pincél de pó — Vai estragar a pele e a minha paciência.
Revirei os olhos buscando outra coisa para descontar meu estado de nervos. O papel largado de canto me chamou a atenção: O memorando do golpe.
A agência Mirage, de nome nada irônico.
Segundo o mentor da mentira, seria uma agência especializada em gestão de imagem e investimentos para atletas de alto rendimento. Tinha sede em Genebra e uma filial discreta em Paris. Era tudo inventado: o time por trás da empresa; as redes sociais com seguidores comprados, mas discretos o bastante para se passarem por pessoas reais; matérias falsas plantadas em blogs e revistas de luxo que nunca, jamais, ouviram falar de nós, mas que agora juravam ter uma parceria de anos conosco.
— Clientes discretos, confidencialidade máxima, foco em reestruturação de imagem pública. — murmurei baixinho, tentando soar confiante e crível. — Cinco investidores suíços. Três contratos com jovens atletas de futebol em ascensão nas categorias de base... — Nada daquilo existia, mas soava bem quando dito com confiança.
Eu só precisaria interpretar um papel, como no grupo de teatro que fiz parte na infância. Mesmo com o coração batendo na garganta, tentei pensar positivo. Afinal de contas, se desse certo, eu nunca mais precisaria tocar num cigarro barato ou me deitar com todos aqueles clientes nojentos toda noite.
Finalmente me levantei, quando Félix deu o último retoque no iluminador quase invisível no alto da minha bochecha. A refletida no espelho tinha o cabelo preso com elegância, vestia um blazer claro e saia ajustada e nada curta. Não havia nenhum rastro da vida que eu levava até a noite anterior. Tão igual, mas ao mesmo tempo tão diferente. Ela parecia-se com uma versão de mim que deu certo.
Ao me encarar ali, por um instante, não soube se queria abraçar aquela mulher ou destruí-la.
— Vai lá e arrasa — Félix abriu um sorriso orgulhoso, batendo palminhas como se estivesse prestes a aplaudir a estreia de um espetáculo. — Muita merda pra você, mon ange.
Me permiti rir da referência teatral, antes de guardar o papel com as informações falsas na bolsa emprestada que levaria comigo.
— Eu volto rápido. — O encarei parado na soleira da porta e tentei sorrir, o máximo que pude. — Quando a grana cair... a gente compra duas passagens pra França e desaparece.
Félix sorriu, com os olhos brilhando de algo que me pareceu ser esperança e também medo. Contraí os lábios. Eu estava igual.
Não sabia se conseguiria explicar em palavras o que ele significava pra mim. A irmandade que tínhamos cresceu em meio a adversidade, numa boate barulhenta, de clientes folgados e violentos; no começo de tudo, precisei de proteção e a encontrei em Félix. Mesmo magro e franzino, ele nunca hesitou em me defender, fiz o mesmo por ele várias vezes.
No fim das contas, sem família, éramos somente eu e ele nesse mundo. E não existia a mais remota possibilidade de eu deixá-lo pra trás.
— Não esqueça de pisar com força, queixo erguido e postura. — Assenti, segurando um revirar de olhos. Parecia um flashback. — Vai lá e acaba com eles!
Apertei os olhos quando o ar frio da manhã bateu no meu rosto. Era estranho estar na rua tão cedo. Normalmente, naquele horário eu já estaria em casa, tentando tirar a maquiagem enquanto contava todo o dinheiro amassado em notas de vinte.
Agora, vestida como alguém que sabia o preço de ações na bolsa de Londres, caminhava na calçada, tentando ignorar a forma como meu corpo estranhava tudo ao redor. Eu realmente poderia me considerar uma vampira, sair a luz do dia me causava calafrios.
No meio-fio, o Ford Escort cinzento de Devon já me aguardava. A lateral ainda fodida, depois de uma fuga mal calculada do assalto que ele se meteu na semana retrasada, e a lataria vibrando a cada ronco do motor. Aquele carro era um verdadeiro monumento à decadência.
Ao que parecia, eu também não tinha muita autocrítica.
— A limusine para o grande baile — Ironizei, pegando na maçaneta e ficando surpresa com o fato de ela não ter saído na minha mão.
Entrei com cuidado para não bagunçar a obra de Félix, lembrando-me da história da abóbora da Cinderela. Infelizmente o feitiço não tinha se estendido ao meu meio de transporte, mas o cheiro de gasolina velha e o rasgo no banco eram quase tão mágicos quanto a carruagem do filme.
Respirei fundo, tentando controlar minha tremedeira, tão distraída que nem reparei o olhar de Devon em minha direção. Seus lábios volumosos esboçaram um sorrisinho que não pude interpretar de primeira, mas parecia-se muito com sarcasmo.
— Como vai a minha golpista favorita?
Não disse?
— Isso não tem graça nenhuma.
— Que cara é essa? — ele perguntou, finalmente dando partida no carro jurássico. — Não me diga que vai dar pra trás.
— Não vou! — respondi rabugenta, olhando pela janela para evitar contato visual.
Devon respirou fundo, como se precisasse de paciência para lidar com o nervosismo alheio. Para ele era tão fácil, só precisou recrutar uma otária e servir de chofer.
— O esquema tá redondo, . — Teimou. — É sério, tá tudo tão bem amarrado que eles teriam que cavar muito, muito fundo pra descobrir qualquer coisa.
Cruzei os braços, não caindo mais naquela ladainha toda.
No dia em que topei fazer parte foi simples, parecia o plano perfeito. Mas depois de tanto tempo, depois da minha cabeça criar milhares de cenários catastróficos em que eu era pega em flagrante, as coisas já não pareciam tão a prova de erros assim.
Não achava que tentar roubar um bilionário me renderia apenas uns dias em cana com direito a fiança, e imaginar o que poderia acontecer me causava calafrios.
— Mas e se cavarem? Você e seus planos infalíveis… a gente se ferrou bonito no último, lembra?
Não tinha como não lembrar. A memória veio rápida em minha cabeça, as vozes trêmulas dos idosos ao telefone, a forma como eles eram inocentes e acreditavam em cada palavra que eu lhes dizia e depositavam a aposentadoria sem pensar duas vezes… Até mesmo o som estridente da sirene da viatura que me levou pra delegacia era nítido em minha mente.
Devon manteve as mãos firmes no volante.
— Relaxa, até eles descobrirem, já estaremos longe. Você vai ficar lá um mês, no máximo. — Me remexi no banco, desconfortável. — Depois do primeiro pagamento… desaparecemos.
Um mês e um salário milionário da Aston Martin. Repeti mentalmente, como quem rezava. Tinha que me apegar àquela promessa, porque se pensasse demais àquela altura desistiria de tudo.
O carro seguiu silencioso até os bairros sucateados do subúrbio darem lugar a arranha-céus assustadores de fachadas espelhadas e calçadas limpas. Devon estacionou a dois quarteirões de distância do local. Eu não podia chegar na sede da Aston Martin dentro de um Ford caindo aos pedaços.
Endireitei o blazer, respirando fundo. Tentava me concentrar em andar no par de saltos como se nunca os tivesse calçado antes. Fiz o que Fee me disse e arrumei minha postura, rumando em direção ao edifício imponente. O gosto de nicotina ainda pairava em minha boca.
Suspirei ressabiada. Paris ainda parecia longe. E a Aston Martin, estava perto demais.
Adentrei o saguão sofisticado com passos firmes. Era a hora de incorporar a mulher do espelho, a que não tinha ficha criminal e que transava com menos de 6 homens ao ano porque estava ocupada sendo uma workaholic, fazendo pilates e sendo bem sucedida.
— Nome? — A recepcionista de sorriso falso perguntou.
— . Tenho uma reunião marcada às oito. — Disse com naturalidade, como se repetisse aquilo todos os dias.
Sem esboçar reação com a facilidade que foi conseguir entrar, recebi o crachá de visitante e agradeci sorrindo minimamente, seguindo em direção aos elevadores, sem olhar para trás. Alguém devia avisar para reforçar a segurança, não pediram sequer um documento com foto!
O elevador estava prestes a fechar quando alguém segurou a porta com a mão. Não corri até lá, correr não era elegante e demonstrava desespero - não que eu não estivesse desesperada. Entrei com calma, desejando um bom dia cordial enquanto ajustava uma mecha de cabelo para atrás da orelha. Levantei a cabeça, reparando no reflexo das portas de metal, e então eu o vi.
Ali, entre ternos escuros e gravatas perfeitamente alinhadas, havia um homem de óculos escuros, jaqueta casual, cabelos bagunçados e postura desinteressada. Destacando-se por não seguir o dress code e por parecer não pertencer àquele meio. Parecia despreocupado com o tempo, não olhava para o celular ou o relógio, como os engravatados ao redor, muito menos para o chão.
Na verdade, ele olhava pra mim.
Bom, ao menos era o que parecia, afinal de contas aqueles óculos não me deixaram ter muita certeza de nada.
De qualquer forma, sustentei o olhar por meio segundo, pensando nas possibilidades de ter minhas mãos pegando firme naqueles ombros largos e marcados. Logo soltei um sorriso curto pra mim mesma, lembrando-me que, apesar de tentador, aquele não era meu propósito ali dentro. Endireitei o queixo, voltando meus olhos para o painel de botões.
E então, o toque agudo do meu Samsung velho explodiu em meio a bossa nova irritante no elevador silencioso. Constrangida, vi os executivos se entreolharem confusos, mal reconhecendo qualquer outro ringtone que não fosse de um Iphone recém lançado. O homem de óculos escuros soltou um riso abafado, baixando a cabeça para disfarçar.
Pesquei a merda do aparelho na bolsa, desligando-o enquanto prometia a mim mesma matar quem quer que fosse o dono da empresa de cobrança que escolheu a pior hora do dia para encher a porra do meu saco!
Quando finalmente cheguei ao andar, senti que poderia soltar todo o ar que prendia dentro de mim depois da vergonha passada. Sai, tentando não andar com tanta pressa e distraída, endireitando no ombro a bolsa esquisita que Félix tinha me arrumado. Quase não percebi quem vinha logo atrás de mim, estranhamente perto.
Tratei de ignorá-lo, avançando pelo corredor extenso até a sala de reuniões indicada pela placa. Precisava estar 100% focada, e aquele moreno alto e aparentemente marrento era uma baita distração. Respirei fundo, como quem se posiciona atrás de grandes cortinas vermelhas e bati à porta, sendo autorizada a entrar.
Na cabeceira da grande mesa estava Lawrence Stroll, impecável em um terno escuro. Ele se levantou, cumprimentando-me com firmeza no aperto de mão.
— Srta. , bem-vinda. Este é meu filho… Lance. — indicou alguém atrás de mim.
Virei-me, segurando mais uma vez minhas expressões faciais.
Era o homem do elevador. Ótimo, tinha começado muito bem querendo dar em cima do filho do dono. Os óculos agora estavam dobrados em uma das mãos grandes dele e seu olhar afiado me encarou pela segunda vez naquela manhã.
Belos olhos castanhos, aliás.
Sua mão tocou a minha, pegando-me desprevenida. Tinha feito o movimento de aperto de mãos mais uma vez, mas não esperava que a dele fosse tão macia e convidativa. Será que tê-lo ali não arruinaria o plano?
Senti o coração dar um pequeno salto dentro do peito.
Não me pareceu só de medo, nem apenas de encanto.
Foi algo no meio daquelas duas coisas contrárias, que me deixaram temporariamente confusa.
Quando ele abriu um sorrisinho mínimo em minha direção, bati o martelo.
Era um alerta.
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Enquanto o tal Lance se acomodava ao lado do pai e cumprimentava os outros dois engravatados presentes ali, me posicionei ao centro da sala de reuniões ampla, cheia de janelas de vidro, aço escovado e quadros de carros históricos nas paredes. O ambiente exalava testosterona, mas me mantive firme; sabia lidar com homens como um adestrador que domava seus cães.
Tudo bem que estava vestida e parada, mas ainda assim, teria que me esforçar para prender a atenção deles em mim.
A apresentação terminou e eu já sentia minha garganta seca. Tentei ser rápida e objetiva, expliquei que a proposta da empresa consistia em reconstruir a imagem pública em caso de eventuais cancelamentos, estabelecer campanhas estratégicas e treinar o cliente para lidar melhor com a imprensa. Não entrei muito em detalhes técnicos, não tinha tido tempo de decorá-los, por isso lhes dei apenas o suficiente para parecer entendida do assunto.
Lawrence Stroll manteve-se inclinado para frente, com os dedos entrelaçados sobre a mesa. Ainda estava em dúvida sobre sua posição. Ele parecia interessado, mas não impressionado. O que me deixava um pouco apreensiva, já que o comparsa de Devon nos vendeu a ideia como sendo algo genial e completamente fora de suspeitas.
Mas pelo que li sobre Lawrence, ele parecia ser inteligente, não era a toa que era um investidor de muito sucesso.
— Entendo… — murmurou ele, maneando a cabeça. Não entendi se era em aprovação ou se ele apenas queria que eu parasse de falar. — Mas, antes de continuar, queria deixar algo claro.
Engoli a seco, sustentando-me diante da mesa enquanto impedia minhas pernas de tremerem.
— Não estamos contratando para a Aston Martin em si. Precisamos de alguém para lidar com a imagem do meu filho. — Ele virou ligeiramente a cabeça, indicando-o.
Lance continuava calado ao lado, braços cruzados, expressão neutra.
— Claire, a assessora atual dele, vai se aposentar no fim da temporada — continuou Lawrence. — Então precisamos de alguém que assuma tudo. Entrevistas, redes sociais, as aparições públicas e crises. E precisa ser alguém que ele aprove.
Assenti, como se não estivesse aterrorizada com a brusca mudança de planos. Aquilo ali não estava no roteiro inicial, teria que improvisar, ao menos até que conseguisse deixar aquele prédio maldito, desistir daquela roubada e nunca mais pisar os pés ali.
Puxei na memória. No início dos preparativos ouvi um pouco sobre a equipe de Fórmula 1 e os dois pilotos em pista. Confesso não ter prestado muita atenção, sequer me recordava de ter visto fotos da dupla. Mas uma coisa me chamou a atenção enquanto ouvia falar do nepo baby: A forma como ele foi descrito a partir das pesquisas feitas.
— Compreendo. — Menti, fingindo ponderar. — Pelo pouco que sei do senhor Stroll… — olhei rápido para Lance — a imprensa o vê como alguém reservado, distante e às vezes até infeliz. E nas entrevistas, suas respostas… se limitam a “vamos ver como será a corrida” ou “ainda não sabemos”, nada muito concreto. Com todo respeito, Isso o faz parecer bem desinteressado, não misterioso. Posso trabalhar isso, se quiserem.
Foi arriscado partir para uma crítica ao protegido do dono, sim, mas foi uma atitude desesperada. Aquela coisa de vendedor, sabe? Criar um problema para vender a solução.
Pelo canto de olho, vi Lance arquear uma sobrancelha, como se tivesse sido cutucado. Mas apesar do incomodo, não reagiu. Já Lawrence pareceu avaliar minha fala, olhou pro filho e depois voltou a me encarar intrigado.
— E você, filho, o que acha?
O piloto respirou fundo, claramente irritado por ter que participar da conversa.
— Bom, se ela acha que pode melhorar… ótimo. Contratem logo. — Segurei o sorriso quando o vi voltar a abrir a boca, quase impaciente — Só quero voltar a treinar.
Pensei no quão insuportável deveria ser conviver com um ser humano daqueles. Ele praticamente implorou para ser deixado em paz, como se fosse um esforço absurdo pedir sua opinião para algo para si próprio.
Mas, apesar dos pesares, pra mim funcionava.
— Ah, tenho um último ponto. — Lawrence continuou. — Essa vaga exige disponibilidade total, serão viagens constantes durante a temporada. Isso inclui ficar perto dele em treinos, acompanhá-lo no paddock e nos compromissos. Você é… livre para isso?
Hesitei por um segundo. Qual é, existia home office pra isso! Não sabia que seria contratada pra virar babá de um marmanjo daqueles.
— É solteira? — Antes que eu pudesse responder, Lance se adiantou, perguntando como se fosse uma informação logística qualquer.
Pisquei, surpresa.
Eles perguntavam aquilo pra todos os candidatos?
— Sou — respondi, tentando parecer indiferente.
Por dentro, minha cabeça estava em parafuso. Viajar o mundo grudada no cangote do filho do dono definitivamente não estava dentro do plano inicial. Embora fosse uma ideia tentadora, e em muitos níveis.
— Mas preciso ser sincera, nunca trabalhei com Fórmula 1 antes. — admiti, tentando disfarçar a insegurança com humildade.
Lawrence sorriu de leve, compreensivo.
— Claire vai te ensinar tudo o que precisar, não se preocupe! Ela ainda tem um ano conosco, vai preparar muito bem sua nova sucessora.
Seria ótimo, afinal de contas eu não sabia absolutamente nada sobre… tudo.
Lawrence se levantou rapidamente, me oferecendo a mão novamente.
— Bom, então estamos de acordo. Vamos encaminhar a papelada ainda hoje. — disse sorridente ao apertar minha mão.
Sai dali o mais rápido que pude. Meu coração batia tão rápido que chegava a doer.
Sabia que no fim tudo tinha saído como queríamos, eu estava praticamente dentro!
Mas… a que custo? Eu estava aterrorizada com a ideia de ter que viajar e conviver com aquele cara correndo risco de ser descoberta a qualquer momento. Não sabia se seria capaz de sustentar uma mentira tão cabeluda estando tão perto de alguém que não me parecia ser fácil de enganar como Lance.
Por um segundo, cogitei seriamente a ideia de mandar Devon e seu comparsa para o inferno e desistir de tudo.
E, pra completar meu estado de nervos preocupante, Lance seguia atrás de mim no corredor, em silêncio, como uma sombra.
Reduzi a velocidade dos meus passos, deixando que ele me ultrapassasse e pegasse o elevador primeiro, sozinho. Funcionou bem inicialmente, mas a porta estava quase fechando quando a mão dele surgiu novamente entre as placas de metal.
— Você não vem? — ele franziu o cenho.
Respirei fundo, deixando um sorrisinho sem graça escapar teatralmente. Seria tão mais fácil se ele fosse tão esnobe quanto parecia.
— Ah, não, pode ir sozinho! Eu pego o próximo pra te dar privacidade. — Abanei o ar.
— Isso não faz nenhum sentido, temos que nos acostumar com a presença um do outro. — disse ele, quase impaciente.
Não tive como discutir aquilo sem soar esquisito, então simplesmente entrei. Tentei relaxar os ombros e respirar fundo, repetindo mentalmente a mim mesma de que já estava acabando.
Lance apertou o botão de subir, e eu, o de descer. Ironicamente perfeitos em direções opostas.
— … — ele quebrou o silêncio, pensativo. — Seu sobrenome é francês, não?
Engatei minha personagem automaticamente. Só ainda não sabia se iria colar. Fazer a francezinha e gastar meu vocabulário mínimo de francês usando algumas palavras soltas funcionava bem com os clientes bêbados e desesperados por sexo.
Claramente não era o caso ali.
— Meu pai era um imigrante francês, artista plástico. — Mentira. Meu pai era um alcoólatra que trabalhava como operário em seus poucos momentos de sobriedade. — Mas nasci aqui, na Inglaterra.
Stroll concordou com a cabeça, claramente desinteressado sobre a história da minha árvore genealógica. Ele só tinha feito uma pergunta simples, um sim ou não já bastava.
O elevador parou no andar dele. Lance desembarcou, mas virou-se antes da porta fechar.
— Bem vinda ao time, não se preocupe se não souber nada de esportes. Com esse currículo… você vai tirar de letra.
Piscou discretamente enquanto os lábios esboçaram um pequeno sorriso e saiu.
A porta se fechou sem que eu ao menos pudesse agradecer pelas boas vindas. Desci sozinha até o térreo, quase me esquecendo de voltar a respirar. O perfume bom dele ainda estava pelo ar, confinado comigo dentro da grande caixa de metal. Fechei os olhos inspirando fundo, tentando guardar um pouquinho daquele cheiro comigo.
Meu Deus, aquele homem era uma tentação.
Depois de caminhar os dois quarteirões para encontrar o carro velho de Devon, me deparei com sua cara feia colada no vidro embaçado. Bati com força, fazendo-o pular de susto e depois contornei a lata velha, me jogando no banco do passageiro. Tive vontade de socá-lo ao ver seu rosto inchado e os olhos pequenos de quem tinha passado o tempo ali tirando um cochilo tranquilo.
— E aí, dobrou o velho e o colocou no bolso? — perguntou, ainda sonolento.
O encarei possessa.
Enquanto eu estava lá colocando minha própria liberdade em risco, o bonitão estava ali no bem bom, e ainda assim ele se sentia no direito de debochar da minha cara? Tentei controlar a raiva pelo menos até que ele desse partida e se afastasse do prédio. Cheguei a rir em escárnio.
Devon falava como se Lawrence fosse um dos idosos que roubamos alguns trocados e não um dos homens mais ricos do mundo. Ele não era bobo, muito menos o filho dele, que parecia acompanhar tudo de perto.
— Eu estou fora.
Devon tirou o pé do acelerador num susto e virou o corpo em minha direção. — O que acha que tá dizendo? Tá louca?
— Você e seu mandante são dois idiotas, Devon. — Trinquei os dentes, raivosa. — A vaga é pra outra função, vou ter que viajar o mundo, ficar grudada no filho dele nos paddocks da vida, em hotéis… com a minha ficha, com o meu nome e passaporte… eles me pegam fácil! Vão nos descobrir rapidinho!
Trêmula, o encarei, esperando uma irritação da parte dele. Pensei que Devon iria se desesperar, cair na realidade e desistir daquele plano comigo. Mas não, se manteve calmo como sempre, apenas coçou a barba por fazer, pensativo.
— Viagens? Não era pra isso! — Revirei os olhos. — Damien foi claro: Era pra fechar o contrato, receber o dinheiro, dividir entre nós e sumir.
— O serviço não era pra Aston, seu imbecil! — brandei, impaciente, quase estapeando ele. — É pra cuidar da imagem do filho do dono, o piloto lá!
Mesmo diante do meu desespero, Devon apenas balançou a cabeça, como se calibrasse o problema na cabeça.
— Mas pensa bem, , o pior já passou, que foi enrolar o velho e entrar no esquema! Dá pra te descolar um passaporte falso, a gente dá um jeitinho. — disse, convencido de si. — E outra, esse povo rico viaja de jatinho pra cima e pra baixo, é protegido, não vão ficar vasculhando uma simples assessora. Quem seria louco de segurar uma equipe de F1 no aeroporto só por causa de uma mulher aleatória do time?
Era para me convencer e acalmar, mas tudo aquilo soou tão simplista que fez foi aumentar meu medo. Passaporte falso. Jeitinho. O mundo real não funcionava só com um documento falso e um sonho, ainda existiam policiais, verificações, e pessoas que gostavam de vasculhar a fundo a vida alheia.
— Damien é bom no que faz — Devon acrescentou, como se me desse alguma garantia. — O cara tem contatos! Empresas, gente em aeroportos, alfândegas… acho que até no roubo do Louvre ele tá envolvido.
O observei rir e contive o riso que me veio de repente. Devon falava daquele cara como se ele fosse o próprio Superman, e pensar aquilo me fez perder o sorriso em meu rosto imediatamente, até mesmo o homem de aço tinha suas fraquezas, e eu esperava que não descobríssemos qual era sua criptonita naquele esquema.
— Ah, claro. Assim é fácil ser bandido — ri nervosa, mordendo o lábio em ódio. — Fica a salvo, invisível, por trás de tudo, o cérebro que não suja as mãos. Os outros é que fazem o serviço sujo e se fodem no final.
Me virei pra janela enquanto o carro ganhava velocidade, estava farta daquela discussão que não me levaria a lugar nenhum. No fundo, eu sabia que não desistiria de verdade, não tinha mais nada a perder e a possibilidade de aquela vez dar tudo certo era muito grande. Era imperdível.
A cidade ia ficando para trás e sentia meu peito apertar. Devon falava das soluções arranjadas de última hora, como se fossem apenas um detalhe, só logística, mas eu não deixava de sentir o risco com todos os pelos do meu corpo.
Tudo bem que estava vestida e parada, mas ainda assim, teria que me esforçar para prender a atenção deles em mim.
A apresentação terminou e eu já sentia minha garganta seca. Tentei ser rápida e objetiva, expliquei que a proposta da empresa consistia em reconstruir a imagem pública em caso de eventuais cancelamentos, estabelecer campanhas estratégicas e treinar o cliente para lidar melhor com a imprensa. Não entrei muito em detalhes técnicos, não tinha tido tempo de decorá-los, por isso lhes dei apenas o suficiente para parecer entendida do assunto.
Lawrence Stroll manteve-se inclinado para frente, com os dedos entrelaçados sobre a mesa. Ainda estava em dúvida sobre sua posição. Ele parecia interessado, mas não impressionado. O que me deixava um pouco apreensiva, já que o comparsa de Devon nos vendeu a ideia como sendo algo genial e completamente fora de suspeitas.
Mas pelo que li sobre Lawrence, ele parecia ser inteligente, não era a toa que era um investidor de muito sucesso.
— Entendo… — murmurou ele, maneando a cabeça. Não entendi se era em aprovação ou se ele apenas queria que eu parasse de falar. — Mas, antes de continuar, queria deixar algo claro.
Engoli a seco, sustentando-me diante da mesa enquanto impedia minhas pernas de tremerem.
— Não estamos contratando para a Aston Martin em si. Precisamos de alguém para lidar com a imagem do meu filho. — Ele virou ligeiramente a cabeça, indicando-o.
Lance continuava calado ao lado, braços cruzados, expressão neutra.
— Claire, a assessora atual dele, vai se aposentar no fim da temporada — continuou Lawrence. — Então precisamos de alguém que assuma tudo. Entrevistas, redes sociais, as aparições públicas e crises. E precisa ser alguém que ele aprove.
Assenti, como se não estivesse aterrorizada com a brusca mudança de planos. Aquilo ali não estava no roteiro inicial, teria que improvisar, ao menos até que conseguisse deixar aquele prédio maldito, desistir daquela roubada e nunca mais pisar os pés ali.
Puxei na memória. No início dos preparativos ouvi um pouco sobre a equipe de Fórmula 1 e os dois pilotos em pista. Confesso não ter prestado muita atenção, sequer me recordava de ter visto fotos da dupla. Mas uma coisa me chamou a atenção enquanto ouvia falar do nepo baby: A forma como ele foi descrito a partir das pesquisas feitas.
— Compreendo. — Menti, fingindo ponderar. — Pelo pouco que sei do senhor Stroll… — olhei rápido para Lance — a imprensa o vê como alguém reservado, distante e às vezes até infeliz. E nas entrevistas, suas respostas… se limitam a “vamos ver como será a corrida” ou “ainda não sabemos”, nada muito concreto. Com todo respeito, Isso o faz parecer bem desinteressado, não misterioso. Posso trabalhar isso, se quiserem.
Foi arriscado partir para uma crítica ao protegido do dono, sim, mas foi uma atitude desesperada. Aquela coisa de vendedor, sabe? Criar um problema para vender a solução.
Pelo canto de olho, vi Lance arquear uma sobrancelha, como se tivesse sido cutucado. Mas apesar do incomodo, não reagiu. Já Lawrence pareceu avaliar minha fala, olhou pro filho e depois voltou a me encarar intrigado.
— E você, filho, o que acha?
O piloto respirou fundo, claramente irritado por ter que participar da conversa.
— Bom, se ela acha que pode melhorar… ótimo. Contratem logo. — Segurei o sorriso quando o vi voltar a abrir a boca, quase impaciente — Só quero voltar a treinar.
Pensei no quão insuportável deveria ser conviver com um ser humano daqueles. Ele praticamente implorou para ser deixado em paz, como se fosse um esforço absurdo pedir sua opinião para algo para si próprio.
Mas, apesar dos pesares, pra mim funcionava.
— Ah, tenho um último ponto. — Lawrence continuou. — Essa vaga exige disponibilidade total, serão viagens constantes durante a temporada. Isso inclui ficar perto dele em treinos, acompanhá-lo no paddock e nos compromissos. Você é… livre para isso?
Hesitei por um segundo. Qual é, existia home office pra isso! Não sabia que seria contratada pra virar babá de um marmanjo daqueles.
— É solteira? — Antes que eu pudesse responder, Lance se adiantou, perguntando como se fosse uma informação logística qualquer.
Pisquei, surpresa.
Eles perguntavam aquilo pra todos os candidatos?
— Sou — respondi, tentando parecer indiferente.
Por dentro, minha cabeça estava em parafuso. Viajar o mundo grudada no cangote do filho do dono definitivamente não estava dentro do plano inicial. Embora fosse uma ideia tentadora, e em muitos níveis.
— Mas preciso ser sincera, nunca trabalhei com Fórmula 1 antes. — admiti, tentando disfarçar a insegurança com humildade.
Lawrence sorriu de leve, compreensivo.
— Claire vai te ensinar tudo o que precisar, não se preocupe! Ela ainda tem um ano conosco, vai preparar muito bem sua nova sucessora.
Seria ótimo, afinal de contas eu não sabia absolutamente nada sobre… tudo.
Lawrence se levantou rapidamente, me oferecendo a mão novamente.
— Bom, então estamos de acordo. Vamos encaminhar a papelada ainda hoje. — disse sorridente ao apertar minha mão.
Sai dali o mais rápido que pude. Meu coração batia tão rápido que chegava a doer.
Sabia que no fim tudo tinha saído como queríamos, eu estava praticamente dentro!
Mas… a que custo? Eu estava aterrorizada com a ideia de ter que viajar e conviver com aquele cara correndo risco de ser descoberta a qualquer momento. Não sabia se seria capaz de sustentar uma mentira tão cabeluda estando tão perto de alguém que não me parecia ser fácil de enganar como Lance.
Por um segundo, cogitei seriamente a ideia de mandar Devon e seu comparsa para o inferno e desistir de tudo.
E, pra completar meu estado de nervos preocupante, Lance seguia atrás de mim no corredor, em silêncio, como uma sombra.
Reduzi a velocidade dos meus passos, deixando que ele me ultrapassasse e pegasse o elevador primeiro, sozinho. Funcionou bem inicialmente, mas a porta estava quase fechando quando a mão dele surgiu novamente entre as placas de metal.
— Você não vem? — ele franziu o cenho.
Respirei fundo, deixando um sorrisinho sem graça escapar teatralmente. Seria tão mais fácil se ele fosse tão esnobe quanto parecia.
— Ah, não, pode ir sozinho! Eu pego o próximo pra te dar privacidade. — Abanei o ar.
— Isso não faz nenhum sentido, temos que nos acostumar com a presença um do outro. — disse ele, quase impaciente.
Não tive como discutir aquilo sem soar esquisito, então simplesmente entrei. Tentei relaxar os ombros e respirar fundo, repetindo mentalmente a mim mesma de que já estava acabando.
Lance apertou o botão de subir, e eu, o de descer. Ironicamente perfeitos em direções opostas.
— … — ele quebrou o silêncio, pensativo. — Seu sobrenome é francês, não?
Engatei minha personagem automaticamente. Só ainda não sabia se iria colar. Fazer a francezinha e gastar meu vocabulário mínimo de francês usando algumas palavras soltas funcionava bem com os clientes bêbados e desesperados por sexo.
Claramente não era o caso ali.
— Meu pai era um imigrante francês, artista plástico. — Mentira. Meu pai era um alcoólatra que trabalhava como operário em seus poucos momentos de sobriedade. — Mas nasci aqui, na Inglaterra.
Stroll concordou com a cabeça, claramente desinteressado sobre a história da minha árvore genealógica. Ele só tinha feito uma pergunta simples, um sim ou não já bastava.
O elevador parou no andar dele. Lance desembarcou, mas virou-se antes da porta fechar.
— Bem vinda ao time, não se preocupe se não souber nada de esportes. Com esse currículo… você vai tirar de letra.
Piscou discretamente enquanto os lábios esboçaram um pequeno sorriso e saiu.
A porta se fechou sem que eu ao menos pudesse agradecer pelas boas vindas. Desci sozinha até o térreo, quase me esquecendo de voltar a respirar. O perfume bom dele ainda estava pelo ar, confinado comigo dentro da grande caixa de metal. Fechei os olhos inspirando fundo, tentando guardar um pouquinho daquele cheiro comigo.
Meu Deus, aquele homem era uma tentação.
Depois de caminhar os dois quarteirões para encontrar o carro velho de Devon, me deparei com sua cara feia colada no vidro embaçado. Bati com força, fazendo-o pular de susto e depois contornei a lata velha, me jogando no banco do passageiro. Tive vontade de socá-lo ao ver seu rosto inchado e os olhos pequenos de quem tinha passado o tempo ali tirando um cochilo tranquilo.
— E aí, dobrou o velho e o colocou no bolso? — perguntou, ainda sonolento.
O encarei possessa.
Enquanto eu estava lá colocando minha própria liberdade em risco, o bonitão estava ali no bem bom, e ainda assim ele se sentia no direito de debochar da minha cara? Tentei controlar a raiva pelo menos até que ele desse partida e se afastasse do prédio. Cheguei a rir em escárnio.
Devon falava como se Lawrence fosse um dos idosos que roubamos alguns trocados e não um dos homens mais ricos do mundo. Ele não era bobo, muito menos o filho dele, que parecia acompanhar tudo de perto.
— Eu estou fora.
Devon tirou o pé do acelerador num susto e virou o corpo em minha direção. — O que acha que tá dizendo? Tá louca?
— Você e seu mandante são dois idiotas, Devon. — Trinquei os dentes, raivosa. — A vaga é pra outra função, vou ter que viajar o mundo, ficar grudada no filho dele nos paddocks da vida, em hotéis… com a minha ficha, com o meu nome e passaporte… eles me pegam fácil! Vão nos descobrir rapidinho!
Trêmula, o encarei, esperando uma irritação da parte dele. Pensei que Devon iria se desesperar, cair na realidade e desistir daquele plano comigo. Mas não, se manteve calmo como sempre, apenas coçou a barba por fazer, pensativo.
— Viagens? Não era pra isso! — Revirei os olhos. — Damien foi claro: Era pra fechar o contrato, receber o dinheiro, dividir entre nós e sumir.
— O serviço não era pra Aston, seu imbecil! — brandei, impaciente, quase estapeando ele. — É pra cuidar da imagem do filho do dono, o piloto lá!
Mesmo diante do meu desespero, Devon apenas balançou a cabeça, como se calibrasse o problema na cabeça.
— Mas pensa bem, , o pior já passou, que foi enrolar o velho e entrar no esquema! Dá pra te descolar um passaporte falso, a gente dá um jeitinho. — disse, convencido de si. — E outra, esse povo rico viaja de jatinho pra cima e pra baixo, é protegido, não vão ficar vasculhando uma simples assessora. Quem seria louco de segurar uma equipe de F1 no aeroporto só por causa de uma mulher aleatória do time?
Era para me convencer e acalmar, mas tudo aquilo soou tão simplista que fez foi aumentar meu medo. Passaporte falso. Jeitinho. O mundo real não funcionava só com um documento falso e um sonho, ainda existiam policiais, verificações, e pessoas que gostavam de vasculhar a fundo a vida alheia.
— Damien é bom no que faz — Devon acrescentou, como se me desse alguma garantia. — O cara tem contatos! Empresas, gente em aeroportos, alfândegas… acho que até no roubo do Louvre ele tá envolvido.
O observei rir e contive o riso que me veio de repente. Devon falava daquele cara como se ele fosse o próprio Superman, e pensar aquilo me fez perder o sorriso em meu rosto imediatamente, até mesmo o homem de aço tinha suas fraquezas, e eu esperava que não descobríssemos qual era sua criptonita naquele esquema.
— Ah, claro. Assim é fácil ser bandido — ri nervosa, mordendo o lábio em ódio. — Fica a salvo, invisível, por trás de tudo, o cérebro que não suja as mãos. Os outros é que fazem o serviço sujo e se fodem no final.
Me virei pra janela enquanto o carro ganhava velocidade, estava farta daquela discussão que não me levaria a lugar nenhum. No fundo, eu sabia que não desistiria de verdade, não tinha mais nada a perder e a possibilidade de aquela vez dar tudo certo era muito grande. Era imperdível.
A cidade ia ficando para trás e sentia meu peito apertar. Devon falava das soluções arranjadas de última hora, como se fossem apenas um detalhe, só logística, mas eu não deixava de sentir o risco com todos os pelos do meu corpo.
Continua...
Nota da autora: Sem nota.
Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.
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