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Última atualização: 23/11/2020

Prólogo

Vinte anos antes.


tinha quatro anos quando conheceu Harry.
Seus pais trabalhavam na mesma empresa e iam na mesma igreja, algo assim, e sua mãe os convidou para a sua festinha de aniversário. Logo de cara, eles não se gostaram muito. Bem, eles simplesmente não conversaram, porque Harry estava mais preocupado em comer os seus doces, quase todos, do que brincar no pula-pula. Isso a deixou furiosa.
Marchando, ela foi até ele e roubou-lhe os doces da mão, o que o deixou irritado, e então eles tiveram a primeira briga, uma que terminou em beliscões, algumas mordidas e muitas lágrimas. Eles se odiaram depois disso. Por longos vinte minutos. Então, viu que Harry havia tirado os sapatos para entrar no pula-pula e ela foi junto. Eles pulavam enquanto conversavam e perceberam que não se odiavam tanto assim.
— Você viu aquele filme do Homem-Aranha? — Ele disse cada palavra entre um pulo e outro.
— Não. — Ela gritou, mas não precisaria, pois ele estava bem na sua frente.
— É bem legal. — Gritou, de volta.
Eles riram.
— Você já viu o filme do Scooby Doo? — Ela perguntou.
— Sim! — Harry afirmou, caindo de bunda no pula-pula, mas logo se levantou novamente.
— Ele é bem fofinho, né? — riu. — E come um monte.
— Aham. — Então Harry pôs a língua para fora e gritou, fazendo imitar os seus gestos até que alguém mais velho se aproximou e pediu para que fizessem menos barulho. — Que chatos.
— É. — Ela concordou verdadeiramente com ele.
Após, ambos se deitaram no brinquedo e ficaram, durante a tarde toda, comparando as nuvens com objetos diferentes e animais.
Harry até que era legal.
não era tão chata assim.
E os dois viraram amigos.

[...]


14 anos antes.


Alguns anos depois, os pais de Harry se mudaram e, para a sua surpresa, eles compraram uma casa bem na frente da sua. Assim, bastava eles atravessarem a rua para ficarem juntos e, dessa forma, passavam o dia brincando ou apenas dividindo o fone do Ipod dentro de uma cabana de cobertores até que os pais os chamassem.
E isso pendurou por muito tempo, até Harry ganhar o primeiro celular, com doze anos. era dois anos mais nova, então ainda não tinha ganhado o seu, mas era legal ver o melhor amigo jogando. Aquilo a fazia rir até a barriga doer. Em algumas ocasiões, Styles a deixava jogar, mas sempre ficava de olho para que ela não estragasse o aparelho. No entanto, às vezes ela até ganhava mais partidas do que Harry, mas ele não admitia e dizia que o celular havia travado. apenas dava de ombros.
Em um desses momentos, mais cedo, havia sentido que sua barriga estava doendo. Ela comentou com Styles, dizendo que estava com fome, mas ele achou estranho, pois tinham acabado de comer e era tão magra que parecia ensacada dentro daquelas roupas. Normalmente, ela não comia tanto assim. A não ser a torta de morangos da padaria que ficava na esquina.
Mas, mesmo assim, ele alcançou um pedaço de bolo de chocolate para ela. Depois de comer, ela sentiu que a dor persistiu, então achou que talvez precisasse ir ao banheiro. Após quase meia hora sentada no vaso sanitário, ela percebeu que ainda não era isso e aquilo estava começando a irritar. Por fim, resolveu que ficaria deitada na cama de Harry, olhando ele jogar.
Aos poucos, a dor começou a aumentar e ela estava a ponto de chorar. Para que Harry não a visse com lágrimas nos olhos, virou de bruços, percebendo que a dor começou a diminuir daquela forma, então permaneceu assim por um longo tempo e teria adormecido se Styles não tivesse gritado, horrorizado.
— Que coisa é essa na tua bunda? — Ele gritou. — Mãe!
se levantou imediatamente e começou a se debater achando que um bicho havia pousado sobre o seu bumbum.
— O quê? — Perguntou, aos berros. — Tira, tira!
— Tirar? — Harry devolveu, também aos berros. — Como que eu vou tirar isso?
— É muito grande?
— É gigante. — Ele respondeu. — E tá vermelho.
— Como assim? — começou a chorar.
Logo Anne, mãe de Harry, apareceu na porta e sua expressão estava assustada.
— O que aconteceu aqui? — Ela perguntou, entrando no quarto. — Por que estão gritando desse jeito?
— Tem uma coisa vermelha na bunda da . — Ele apontou para , que ainda se chacoalhava aterrorizada.
— Tia, tira isso de mim, por favor! — Soluçou. — Tira o bicho!
E Anne, então, ao perceber a situação, começou a gargalhar. As duas crianças no quarto paralisaram, perguntando-se por que diabos ela estava rindo de uma situação tão horrível.
, minha querida, não tem nenhum bicho no seu bumbum. — Explicou, acalmando a menina. Trouxe ela em frente a um espelho e a virou de costas. — Olhe aqui. Viu?
E ela viu. Não era nenhum bicho, era sangue.
— Eu estou sangrando? — Ela gritou. — Estou menstruada? — Gritou, mais alto.
— Ela tá menstruada? — Styles desafinou.
— Meus parabéns. — Anne sorriu. — Estás mocinha. Um pouco cedo, mas é bastante normal.
— Que nojo, ! — Harry reclamou, fazendo uma careta.
— Fica quieto ou eu vou me sentar na sua cama.
— Ok.


12 anos antes.


Algum tempo depois, quando fez doze anos, eles tiveram a segunda briga, dessa vez, uma que durou quase um mês inteiro. Na época, Harry estava terminando o ensino fundamental e nessa fase a aparência havia se tornado algo mais importante do que qualquer outra coisa. Inclusive, mais importante até mesmo do que , que, na sua visão, era uma criança comparada a ele.
As espinhas haviam aparecido, as garotas chamavam a sua atenção, passava mais tempo de castigo do que fora dele e os hormônios gritavam em todos os sentidos. Harry estava se tornando um adolescente chato, como todos os outros meninos que já havia conhecido, e isso incluía os amigos idiotas que andavam com ele.
— Ei, Haz. — se aproximou do grupinho e cutucou o braço de Harry. Ela carregava uma mochila roxa nas costas e usava um óculos ridiculamente pequeno e da mesma cor, deixando seu rosto redondo ainda mais redondo. — Mamãe vai fazer uma janta lá em casa, podemos assistir alguns filmes, o que você acha?
Harry a encarou como se tivesse visto um fantasma e sorriu como só alguém que estivesse com dor de barriga sorriria. Ele disse alguma coisa para os amigos e a puxou pelo braço para um canto.
— O que eu disse sobre falar comigo quando estou com meus amigos? — Sussurrou, entredentes, de vez em quando acenava para o grupinho que os observava com curiosidade e certa diversão. — Eles não podem descobrir sobre a gente. Vai manchar a minha reputação.
entreabriu os lábios, chocada, e riu sem vontade.
— Manchar a sua rep... — Repetiu, mas perdeu a fala no meio da frase. — Não acredito que tem vergonha de mim, Styles. — Falou, alto, assustando Harry, que a puxou para mais longe. — Me solta, seu idiota!
— Escuta, ... — Tentou se acalmar. Estava morrendo de vergonha, mas não sabia explicar por quê. Ele a amava, era a sua melhor amiga, mas ele tinha uma imagem ali dentro que precisava zelar. — Você tem doze anos! Doze! — Disse, como se isso fosse algo muito ruim, o que fez com que ela ficasse ainda mais brava.
— E daí? — Ela perguntou, irritada. — Você só é dois anos mais velho e, até um ano atrás, nós andávamos juntos no intervalo!
— Eu sei! — Afirmou, olhando ao redor. — Mas isso foi um ano atrás, agora as meninas começaram a me notar...
— E os garotos também, pelo visto. — Ironizou. — Harry, eles nem devem gostar de você de verdade, se liga!
— Você não entende...
— Pelo visto, não! — Embraveceu. — Não entendo como meu melhor amigo consegue ter vergonha de mim, porque eu nunca faria isso!
, não é bem isso. — Tentou explicar, mas ela já havia lhe dado as costas e saído correndo. — , espera!
— Eu te odeio, Styles, tomara que você morra engasgado! — Gritou, já longe. — E não apareça mais na minha casa.
Nenhum dos dois tocou mais no assunto, nem mesmo chegaram a conversar por cerca de um mês inteiro. Os pais até tentaram fazer com que eles fizessem as pazes, mas nada parecia adiantar. Até que um dia, Harry apareceu chorando em casa e, mesmo com raiva, não podia evitar o carinho que sentia por ele. Mesmo que fosse uma garota de doze anos, sua maturidade era boa o suficiente para amparar o idiota do seu melhor amigo na puberdade.
— Desembucha. — Ela entrou no quarto dele sem bater, não se importando se iria achá-lo ainda de roupas.
! — Ele berrou, e a voz mudou de tonalidade de grossa para fina em uma fração de segundos. Puberdade. — Não sabe mais bater?
— Tá. — Ela saiu do quarto, fechou a porta e bateu três vezes nela antes de entrar novamente. — Desembucha.
Ele revirou os olhos.
— Aconteceu uma coisa...
Styles estava sentado na ponta da cama, tirando os tênis e as meias. Recém havia chegado da escola e no rosto ainda continha rastros das lágrimas que secaram. Parecia com vergonha ao falar, pois não a encarava nos olhos.
— Estou esperando. — Ela se sentou no chão do quarto e abriu um pacote de batatas-fritas que havia encontrado em cima da mesa quando chegara em casa. — Porque essa tua cara tá horrível.
— Greg ficou com a Sophie. — Disse, simples.
— Quem é Greg e quem é Sophie?
— Sophie era a menina que eu estava afim. — Deu de ombros. — E Greg... Bem, Greg era meu amigo.
— Oh. — Ela disse, simplesmente. Colocou mais um punhado de batatas na boca e o encarou.
— Oh? Não vai falar mais nada?
— O que você quer que eu fale? — Perguntou, com uma careta. — Eu tenho doze anos, Harry, nunca gostei de nenhum menino, não sei como é isso.
Ele bufou e jogou-se de costas na cama.
— Pensei que ele fosse meu amigo, sei lá. Mas, pelo visto, ele só queria que eu chamasse ela para o grupo.
— Eu posso dizer “eu te avisei”?
— Não.
— Ok.
— Ok.
Silêncio.
— Mas eu avisei!
!

[...]


8 anos antes.


Quando Harry completou dezessete anos, as coisas mudaram um pouco. Ele havia crescido bastante, fazia academia e fedia bastante, a propósito. As espinhas estavam no seu auge, pipocando por todo o rosto, mas, mesmo assim, Styles parecia fazer sucesso no colégio. Havia entrado para o time de futebol e as meninas caíam aos pés dele.
, por outro lado, não era famosa nem tinha espinhas, o que era bom, pois ela gostava do anonimato e do rosto liso. Aos quinze anos, ela até que chamava bastante a atenção dos rapazes, mas nenhum deles parecia chamar a sua. Pensou que tinha algo de errado e pensou isso por muito tempo, até que, aos dezesseis anos, um garoto novo entrou na sua turma.
— Ele. É. Um. Gato. — As suas amigas diziam, todas no auge da puberdade.
— Ouvi dizer que os pais dele são médicos. — Uma delas cochichou. — Então ele deve ser rico também.
— Será que, se eu pedir, ele casa comigo?
— Só se ele for louco! — , a mais velha, riu delas. — Como será que ele fica se eu desarrumar aquele cabelo ajeitadinho?
ria, mas concordava: ele era bonito. Estava louca para contar a Harry a novidade, por isso lhe mandou uma mensagem de texto.

Para Haz:
Adivinha?

Para :
Hm.

Para Haz:
Entrou um garoto novo na minha sala. Ele é bonito.
E é rico.


A resposta demorou um pouco mais do que normalmente demoraria, mas assim que chegou, embraveceu.

Para :
E o que eu tenho a ver com isso?

Para Haz:
Idiota.

Para :
??

Para Haz:
Só queria te contar. Não precisava ser grosso.

Para :
Por quê? Está afim dele?
E eu não fui grosso.

Para Haz:
Talvez.

Para :
Talvez o quê?
Talvez eu tenha sido grosso ou talvez você esteja afim dele?

Para Haz:
Harry, você, definitivamente, foi grosso.

Para :
Você tá afim do cara???
Nem conhece ele!

Para Haz:
Você conhece bastante gente, então.

Para :
É diferente.

Para Haz:
Vamos ver.

Para :
Como assim?
??
??


Ela ignorou as próximas mensagens e se concentrou no resto da aula, mas assim que o sino tocou, ela teve uma ideia. Arrumou o restante dos seus materiais, despediu-se das suas amigas e então se aproximou de Steven, o garoto novo. Diferente de Harry, ele era um pouco mais baixo e não era tão forte, mas aparentava ser inteligente e bastante educado. Aquilo pareceu chamar a sua atenção.
— Oi. — Ela comentou, quando se aproximou dele. Arrumou a alça da mochila sobre o ombro e sorriu.
— Ei. — Steven retribuiu o sorriso e empurrou a cadeira para debaixo da mesa.
— É... Se quiser alguma ajuda com as matérias, pode vir falar comigo. — não estava nervosa, então conseguiu dizer claramente o que queria. — Posso tirar fotos do meu caderno e te enviar, ou te emprestar eles.
— Ah, sim. — Ele concordou. — Claro, muito obrigado, acho que vou precisar.
— Certo! Me avisa quando precisar. — E acenou, despedindo-se.
Estava quase na porta quando ouviu a voz dele novamente.
— Como é o seu nome? — Ele perguntou.
. — Respondeu, curiosa.
— Eu sou Steven. — Viu que ele mordia o lábio, como se segurasse o sorriso.
— Eu sei. — Disse, simpática, e então foi embora.
Estava animada quando saiu da sala, no entanto, sua animação não durou muito tempo, pois Styles a esperava do lado de fora, encostado na parede, com cara de quem comeu e não gostou. Ele a encarou com semblante de poucos amigos e começou a andar do seu lado sem dizer uma só palavra. Eles costumavam ir embora juntos, por isso um esperava o outro no lado de fora da sala. Harry estava no terceiro ano, e no primeiro.
Estavam no meio do caminho de casa, quando o mais velho deu o ar da graça depois de muito tempo em silêncio:
— E eu sou Steven. — Harry arremedou o pobre rapaz.
riu, realmente achando graça da imitação barata dele.
— Não acredito que você se remoeu até agora por causa disso. — Balançou a cabeça negativamente.
— Qual é, ? — Perguntou, desacreditado. — O cara é feio pra caramba!
— Ele não é feio! — Revirou os olhos. — Você só está com ciúmes.
Harry gargalhou e disse, ironicamente:
— Pode crer.
— É o primeiro garoto por quem eu me sinto atraída de verdade. — Explicou, calmamente. Sabia que se o irritasse em um momento daquele, Steve teria alguém no pé pelo resto do ano. — Os outros garotos da escola parecem muito superficiais. Além do mais, todas as meninas da minha sala comentaram que acharam ele muito bonito, ok?
— Ele é... arrumadinho demais, . — Bufou, impaciente. — Não te dá vontade de desarrumar um pouco aquele uniforme engomadinho dele?
Ela olhou de canto para o mais velho, achando graça da situação.
— Dá. — Respondeu.
Mas Harry, então, notou que ela estava pensando de outra forma.
— Deus! Não, . — Fechou os olhos. — Não me faça pensar nisso.
— Qual é, Harry? Eu tenho quinze anos, não sou nenhuma criança.
— Mas você é a minha melhor amiga, caramba!
— E isso não te qualifica como meu pai. — Pontuou. — Você já sabia que, em algum momento, isso iria acontecer, e que, eventualmente, eu iria gostar de alguém. — Aproximou-se dele, encostando os braços.
— Eu sei... — Bagunçou os cabelos e então entrelaçou a sua mão com a de , que precisou respirar fundo para acalmar o nervosismo repentino que sentiu. — Mas vou ficar de olho nesse pirralho. E juro por Deus, , que se ele fizer alguma coisa contra a sua vontade, eu acabo com aquela carinha lisa.
Capiche.
Enfim, tudo pareceu se resolver e o próximo mês seguiu normalmente. ficava na escola uma hora a mais para ajudar Steven com a matéria e Harry fazia questão de esperá-la até o final, pois, de acordo com ele, não era seguro ir para casa sozinha. Mas ela sabia que não era somente isso, pois sentia que ele, constantemente, observava os dois enquanto estudavam sobre a grama, nos fundos da escola. Harry até tentava disfarçar quando era pego no flagra, mas não era estúpida.
Só que aquilo estava atrapalhando os seus planos. Ela queria dar o primeiro beijo, e queria que fosse com Steven, mas seria impossível fazer isso com Harry no seu pé. Por isso, antes de sair de casa naquela sexta-feira, pediu que seu pai a buscasse na escola um pouco mais tarde, pois ficaria para ajudar um colega com a matéria. Ele concordou e vibrou. Quando encontrou Harry, ao sair de casa, resolveu contar:
— Você pode ir embora sozinho hoje.
Ele virou o rosto na sua direção e franziu as sobrancelhas.
— Como assim?
— Meu pai vai me buscar depois da aula.
— Hum. — Ele disse. — Por quê?
— Porque sim. — Deu de ombros e Harry riu. Não pareceu feliz, no entanto. — O quê?
— Nada. — Respondeu, mas sua voz foi ríspida.
Eles não trocaram nenhuma outra palavra até a escola e cada um foi para a sua sala. No refeitório, almoçou com e algumas outras amigas, e então haviam chegado ao fim do período. Não viu Harry sair, nem falou com ele mais naquele dia. Esperou Steven do lado de fora da sala e logo ambos se direcionaram para o pátio.
Eles se sentaram na grama, como sempre faziam, e passaram os próximos quarenta minutos estudando. Haveria uma prova extremamente difícil naquela semana e todos estavam tensos em expectativa. Mas não conseguia pensar muito nisso, pois sua mente viajava para longe. Mais especificamente, pensava em beijar Steven, só não fazia ideia de como.
Sabia que tinha que fazer alguma coisa, pois tinha certeza que ele não daria o primeiro passo. Assim, ela pigarreou, chamando a atenção alheia. Steven a encarou curioso, ainda com a caneta entre os dedos. , então, não soube o que dizer e tossiu. Ele deu de ombros e voltou a prestar atenção no caderno. Novamente, pigarreou, dessa vez um pouco mais alto.
— Tá tudo bem contigo? — Ele perguntou.
Os dois estavam muito perto, como de costume, então o encarou profundamente, como quem avisa “vou te beijar”, e sem dizer nada encostou os lábios nos dele, esperando sentir alguma coisa. Mas, qualquer que fosse a coisa que esperava ter sentido, ela não apareceu. Simplesmente, era como se estivesse beijando a porta do seu quarto, e então abriu os olhos, vendo que Steven havia fechado os dele. Ele, sim, parecia ter sentido algo.
Eles se separaram e se sentiu decepcionada. Antes que pudessem dizer alguma coisa, outro pigarro, um que não fosse o dela, chamou a atenção dos dois. Seu estômago gelou quando viu Harry parado, encarando os dois como alguém encara um caixão num velório. Sem pensar duas vezes, ela recolheu o material e saiu sem dizer nada.
Harry ainda permaneceu mais alguns segundos encarando Steven antes de seguir , e quando estavam longe o suficiente, ela perguntou:
— O que você está fazendo aqui? — Estava irritada, mas não sabia se estava irritada por Harry ter vindo ou por não ter sentido nada naquele beijo sem graça. — Achei que tivesse dito para ir embora.
— E eu fui. — Respondeu, simples. — Seu pai que me pediu para vir te buscar. Sua mãe acabou ficando um pouco a mais no trabalho. — Enfiou as mãos no bolso. Harry só fazia aquilo quando estava inquieto. — Mas, sinceramente? Foi bom eu ter vindo... Que merda foi aquilo, ?
— Não sei do que você está falando. — Encarou o chão, envergonhada demais por ter sido pega dando o pior beijo da sua vida. O primeiro e pior.
— Imagina se seu pai chega nesse momento? — Ele perguntou, exasperado. — Já pensou o que ele teria feito? — apenas o ignorou. — E que merda de beijo foi aquele?
— Não enche, Styles. — Revirou os olhos, sentindo as bochechas pegando fogo.
— Aquele garoto nunca deve ter dado um beijo na vida, , se toca! — Xingou. Harry parecia muito bravo, porque constantemente puxava o ar com força como se estivesse com dificuldades para respirar.
— Pelo menos eu fui a primeira dele. — Rebateu, nervosa. Ele riu, mas não parecia achar graça. — O que foi, caramba? Será que você pode deixar de ser um pé no saco por um momento?
— Eu? Pé no saco? — Perguntou, realmente ofendido. — Você beijou um zé-mané na escola e eu que sou o pé no saco?
— Por que você está tão irritado por eu ter beijado alguém? — Parou no meio da rua, encarando-o com raiva.
— Não estou irritado por você ter beijado alguém. — Pontuou, impaciente. — Estou irritado pelo seu primeiro beijo ter sido uma droga.
— E tá descontando em mim por isso? — Elevou o tom de voz.
— Droga. — Ele olhou para cima, pedindo paciência. — , se eu tivesse colocado a droga de uma pedra no lugar daquele cara, você nem perceberia.
— Tudo bem, Styles. Mas eu ainda não entendi o que você tem a ver com isso? — Levantou as sobrancelhas, desafiando-o.
Sim, aquele beijo havia sido tão bom quanto era beijar o próprio espelho. Mas não entendia por que Harry estava tão pirado por isso e por que simplesmente não ria da sua cara. Seria melhor do que ter que vê-lo quase soltando fumaça pelo nariz.
— Porque você é a minha melhor amiga, sua idiota. — Ele, por fim, berrou, aproximando-se dela. — E eu te amo! — Segurou o rosto de entre as duas mãos. — O seu primeiro beijo deveria ser muito melhor do que aquela... coisa.
olhou confusa para ele e então gargalhou.
— Que merda, Styles! — Riu ainda entre as mãos dele. — Desde quando eu me importaria com isso?
Quem observasse de fora, provavelmente pensaria que estava achando aquilo tudo muito engraçado, mas Harry a conhecia bem demais para saber que não era bem assim, por isso permaneceu encarando seus olhos até que ela parasse de rir e uma expressão triste preenchesse cada canto do seu rosto.
— Era exatamente com isso que eu estava preocupado, . — Ele sussurrou, perto dela. — Eu odeio te ver assim, e eu sabia o quanto você queria isso...
— Não imaginei que fosse ser tão ruim assim. — Ela disse, e os olhos se encheram de lágrimas.
— Não deveria ser tão ruim assim. — Ele a confortou.
— Será que o problema fui eu? — Indagou, inocentemente.
Ele franziu a testa, parecendo bravo novamente, e em um movimento que ela não foi capaz de prever, beijou-a. suspirou surpresa e não teve reação alguma até que Harry se afastou, então ele voltou e deu-lhe outro beijo, e outro, e outro, até que os dois entreabrissem os lábios para que pudessem aprofundar o contato. E, diferente do primeiro, aquele com Steven, nesse ela mal conseguia parar em pé, pois as pernas tremiam feito gelatina.
As línguas se tocaram, inicialmente tímidas, desacostumadas, e os lábios se abriam e fechavam um contra o outro. Era bom e deixava seu coração a beira de um colapso. Pensou que fosse morrer de ataque cardíaco, mas Harry se afastou logo depois, ainda de olhos fechados, misturando a sua respiração com a dela. E então eles riram.
Isso que é um primeiro beijo. — Styles disse, olhando diretamente nos seus olhos, como se quisesse gravar aquela frase na sua mente.
— Ok. — afirmou, e viu ele se afastando. Mas então ela caiu em si: a droga do seu melhor amigo havia lhe beijado. E, sentindo um calor no rosto, ela correu atrás dele e acertou-lhe um tapa forte na nuca. — Que merda foi essa, Styles?
Ele reclamou de dor e gargalhou gostosamente, fugindo dos ataques dela.
— O seu primeiro beijo.
— Seu idiota. — Ela gritou, correndo atrás dele. — O que você estava pensando? Vou contar pra sua mãe isso, Styles, você me paga!
No outro dia, contudo, os dois passaram a tarde toda vendo filmes e comendo as pipocas que a mãe de Harry havia feito, e nenhum dos dois comentou sobre aquele beijo.

[...]


6 anos antes.


havia acabado de fazer dezessete anos quando começou o terceiro ano, o primeiro que passaria sem Harry como sua companhia. Styles havia se formado no verão anterior, ela foi ao baile de formatura como par dele, e assim como imaginou, foi tudo perfeito e ela não poderia estar mais animada pelo melhor amigo. Mas as férias passaram, um novo ano se iniciou e ela estava indo para a escola, pela primeira vez, sozinha.
A única coisa que lhe mantinha segura era a promessa que haviam feito de que Harry esperaria se formar para que fizessem a faculdade juntos, nem que isso lhe custasse dois anos. Eles ainda se viam todos os dias, passavam a tarde juntos, saíam juntos e continuavam dois idiotas pela amizade um do outro. Eles eram apaixonados do jeito não romântico.
À noite, eles se mandavam mensagem, como se não morassem, literalmente falando, um na frente do outro. Nada parecia ter mudado. ainda tinha o sonho de cursar Publicidade e Propaganda, enquanto Harry queria Direito, e eles estavam bem quanto a isso.
Alguns meses depois, Styles começou a trabalhar em uma banca de revistas. De acordo com ele, aquela seria a reserva que os dois teriam quando morassem juntos. Tudo parecia ótimo e eles ansiavam o final daqueles dois anos. No entanto, deveria ter desconfiado quando tudo estava perfeito demais e o seu erro foi ter fantasiado quando ainda era cedo para isso.
No final daquele ano, recebeu uma mensagem de Harry.

De Haz:
, eu te amo. Você, mais do que qualquer pessoa, sabe disso e sabe que eu nunca faria nada para te magoar. Eu te amo tanto que não consigo imaginar a minha vida sem que você esteja nela, por isso eu te peço que me perdoe. Eu sei que prometemos esperar um ao outro e eu sei que não deveria ter quebrado essa promessa, mas eu te imploro que entenda o meu lado, . Semana passada, conversei com um cliente da banca e comentei sobre o meu sonho de fazer a faculdade de Direito. Ele disse que as inscrições para as vagas de bolsistas na Faculdade de Londres estavam abertas e eu me inscrevi por curiosidade, eu juro. Nunca pensei que fosse ser aceito. Tudo o que precisei fazer foi enviar uma redação e, , eu fiquei em terceiro lugar! Eu sei que parece loucura, eu também achei no começo, mas eu consegui! Não sei se algum dia você vai me perdoar por isso, eu espero que sim, mas estou indo para Londres amanhã e não conseguiria ir embora sem me despedir. Por isso, estarei na frente da sua casa assim que você visualizar esta mensagem. Preciso te ver uma última vez antes de ir embora. Por favor.


não soube o que fazer. Na verdade, ela soube. Tinha que descer lá e ver Harry pela última vez antes de ele ir embora, mas não conseguiria. Seu coração estava em pedaços e achou que fosse morrer de tristeza. Ver Harry naquele momento faria com que se machucasse ainda mais. Não respondeu a mensagem dele, ouviu as pedrinhas serem jogadas na sua janela, mas apenas colocou seus fones de ouvido e o ignorou.
Jamais imaginaria que Harry fosse capaz de quebrar aquela promessa, não quando estavam com tudo planejado. Talvez estivesse sendo egoísta, mas ela sabia que não conseguiria fazer aquilo. Então, naquela noite, ela chorou por horas. Chorou de raiva, de tristeza, sentindo-se culpada e então dormiu tendo a certeza de que no outro dia pela manhã, Styles não estaria mais lá com um pedaço de torta só porque ele sabia que aquilo a deixava menos irritada.
No outro dia, inesperadamente, acordou com um barulho do lado de fora. Seus olhos demoraram para focar o teto do seu quarto, pois estavam inchados, então teve que esperar alguns segundos deitada até conseguir enxergar perfeitamente. Não precisava mais dos óculos, graças a uma cirurgia que havia feito quando mais nova, então a miopia já não era mais um problema. Assim que conseguiu levantar, procurou pelo celular embaixo do travesseiro.
Nenhuma notificação.
Normalmente, Harry mandava bom dia logo cedo, antes de começar a trabalhar. Harry. Lembrou-se do dia anterior e imediatamente entristeceu, sentindo-se enjoada e com uma vontade absurda de ficar embaixo das cobertas chorando até aquele dia acabar. O seu melhor amigo estava indo embora para Londres... Aquele que passou a vida inteira do seu lado e presenciou a sua primeira menstruação e o seu primeiro beijo. Aquele que amava infinitamente.
Ouviu novamente o mesmo barulho do lado de fora e percebeu que alguém fechava a porta de um carro. Foi até a janela e espiou, mas desejou não ter feito, pois viu Harry guardando algumas malas dentro do automóvel. A cara dele não estava tão melhor do que a sua e por um momento jurou que o viu limpando o rosto com a manga do moletom.
O peito doeu e se arrependeu de não ter descido no dia anterior para se despedir dele. Sentiu-se mal e uma péssima amiga. E então, como se tivessem alguma ligação, Harry olhou diretamente para onde estava. Sem reação, os dois se encararam por alguns segundos e como se fossem dois desconhecidos, desviaram o olhar ao mesmo tempo.
Sem saber, aquela seria a última vez que veria Harry por seis longos anos.


Capítulo 1

Três anos atrás, quando eu ainda estava no segundo ano da faculdade, recebi um telefonema no meio da aula. Era a minha mãe. Primeiramente, fiquei assustada e corri atender, até porque minha mãe nunca teve o costume de ligar no meio da minha aula para falar sobre qualquer coisa, normalmente ela mandava alguma mensagem e então conversávamos assim. Mas naquele dia foi diferente e eu me desesperei antes mesmo de atender.
No entanto, ao contrário do que eu esperava, minha mãe estava calma e o assunto não pareceu ser sério. Ela perguntou como eu estava e disse que era seu intervalo no trabalho, por isso havia ligado. Eu, obviamente, estranhei e insisti perguntando se estava tudo bem. Ela riu nervosamente e enrolou um pouco antes de ir direto ao ponto:
— Conversei com Anne hoje, antes de sair de casa. Ela estava feliz. — Disse, e eu pude imaginar ela enrolando uma mecha do seu cabelo naquele instante. — Radiante.
Meu silêncio fez com que ela continuasse:
— Ela estava indo ao supermercado... — Claramente, eu não estava entendendo nada, por isso permaneci em silêncio. — Comprar algumas coisas para o almoço.
Fui perdendo a paciência. Minha mãe sempre fora uma mulher direta, sem papas na língua e nunca escondíamos segredos uma da outra. Porém, enquanto eu estava ali, no telefone, matando aula na cafeteria do campus, senti que havia algo a mais naquela simples informação.
— Mãe, por favor... — Pedi, suspirando.
Ela pigarreou.
— O que eu quero dizer é que Anne vai fazer um almoço grande. Ela estava feliz... — Insinuou, e eu continuei sem entender, até que, finalmente, minha mãe falou: — Harry está em casa. — Merda. Foi a única coisa que pensei naquele momento. — E ela convidou a gente para almoçar lá... Nós três.
Merda ao quadrado.
— Como assim? — Perguntei, e, aparentemente, minha mãe notou o pavor na minha voz.
— Não se preocupe, eu disse que você estava muito ocupada com as provas da faculdade. — Emendou, rapidamente. — Achei que talvez fosse muito cedo para vocês dois conversarem... — Um suspiro apertado saiu pela minha boca e eu senti minha pressão baixar. — Só achei que deveria saber.
Ainda não havia decidido se eu estava aliviada ou triste. Meus pais souberam sobre a nossa briga dois dias depois que Harry havia ido embora, porque não dava para esconder os olhos inchados, nem a falta de apetite constante. Eles, no entanto, apoiaram-me e me ajudaram a passar por aquilo, por isso, tanto minha mãe quanto meu pai sabiam que eu não estava preparada para vê-lo e talvez nunca estivesse.
Por fim, eu realmente não fui almoçar com eles, mas meus pais foram. Minha mãe até perguntou se eu queria saber como ele estava, mas eu neguei e resolvi esconder minha curiosidade debaixo do tapete, porque aquilo, definitivamente, não me faria bem e eu afundaria novamente em algo que eu já havia superado. Pelo menos eu achava que havia superado.
Eventualmente, Harry acabou voltando outras vezes para casa, mas em todas meus pais davam alguma desculpa para os pais dele e a gente acabava não se encontrando. Ou seja, faziam seis anos desde a última vez que eu havia o visto. Soube por Anne, das vezes em que a encontrei, que ele havia se formado há um ano, mas que conseguira um trabalho por lá e resolvera ficar.
Bom para ele.
Eu, por outro lado, cursei Publicidade e Propaganda na Universidade de Manchester, a quarenta minutos de casa, consegui um emprego na agência local e me tornei chefe do departamento de mídias sociais um ano depois. Diferente de Harry, permaneci em Holmes Chapel e não pretendia sair dali tão cedo.
Eu vivia confortavelmente, até que...

[...]


Atualmente...


Era sexta-feira, como todas as outras sextas-feiras. O dia estava ensolarado, apesar do clima ameno e parecia tudo perfeito. Havia combinado com de almoçar com ela e então faríamos compras, pois, de acordo com ela, eu estava precisando de roupas íntimas novas. Como se ela soubesse. Porém, apesar disso, algo estava me incomodando. Na verdade, eu não sabia exatamente o que, mas eu tinha um pressentimento que havia se alojado no meu peito logo pela manhã.
Por fim, fui trabalhar.
No horário de almoço, apareceu na minha sala com uma sacola em mãos. Ela tinha um sorriso amável, mas com uma pitada de indecência. Eu soube, no mesmo momento, o que tinha dentro daquela sacola.
— Meu chefe me liberou mais cedo para o almoço, então eu resolvi dar uma passadinha num lugar. — Ela cantarolou, entrando e se sentando na poltrona que ficava na minha frente.
Eu revirei os olhos e peguei o embrulho.
— Espero que tenha acertado meu tamanho. — Provoquei.
— Garota, com essa sua bunda, só pode ser G. — Ela devolveu, achando graça da minha careta. — Espero que goste, é um presente.
Eu sorri antes de desembrulhar, mas meu sorriso se fechou e logo eu estava de queixo caído.
! — Exclamei, horrorizada. — Isso é minúsculo!
— Você tinha que ver os outros, então. — Ela riu, enrolando uma mecha do seu cabelo encaracolado.
Para ser sincera, era totalmente o oposto de mim. Era alta, com longos cabelos castanhos cacheados, olhos azuis e um corpo de tirar o fôlego. Ela dizia que estava alguns quilos acima do seu peso, mas eu discordava. era gostosa, e eu sabia que os olhares que recebíamos na rua eram, na verdade, só para ela.
Havíamos nos conhecido no ensino médio, quando estudamos na mesma sala e, felizmente, escolhemos o mesmo curso na mesma universidade anos depois. Apesar de trabalharmos em setores diferentes, estávamos na mesma empresa, sempre juntas, e, depois de Harry, ela havia se tornado a minha pessoa favorita. Ultimamente, ela era a única.
Mas, em momentos como aquele, eu me questionava seriamente, pois a vontade de esganá-la era maior do que o amor que eu sentia por ela.
— Olha... — Suspirei com a calcinha em mãos. — Eu sempre pensei que isso servia para tampar e não para... enfim, fazer outras coisas senão esconder.
— Amiga, se você soubesse a serventia e o poder que uma calcinha tem... — Debruçou-se na minha mesa, sussurrando. — Experimenta!
Surtei.
— Han?
— Entra no banheiro e veste. Quero ver como ela fica em você. — Disse, simplesmente, sentando-se na ponta da mesa.
Eu ri desacreditada. Obviamente, eu não iria fazer isso no trabalho.
— Claro que não. — Guardei a calcinha. Depois vi que ela acompanhava um sutiã. Era um lindo conjunto, apesar de ser pequeno demais. Não sei se algum dia usaria. Pelo menos, não com a finalidade de tampar alguma coisa.
— Chata. — Bufou. — Vai sair para almoçar agora?
Eu ri da careta dela, então guardei o embrulho na minha gaveta e me levantei.
— Sim. Você vem junto? — Perguntei, ao colocar a bolsa no ombro, já me preparando para sair da sala.
— Sim. — Disse, exageradamente, como se estivesse morrendo. — Estou morta de fome. — Alisou a barriga e nós saímos.

[...]


No fim da tarde, depois de um dia cansativo de trabalho, eu voltei para casa. Tinha sido uma longa semana, mas pelo menos eu já havia terminado a faculdade. Uma pós graduação ainda não era uma alternativa. A verdade era que eu estava bem com a posição que eu havia conquistado, então não via necessidade de mudar qualquer coisa. A não ser, é claro, o salário indigno que eu recebia.
Estacionei o carro na garagem e tirei o casaco antes de sair, permanecendo com o vestido social de manga longa e a meia calça escura. Ao fazer a volta pelo quintal, observei Anne do outro lado da rua a me acenar, cumprimentando-me com um longo sorriso no rosto. Ela gritou alguma coisa, eu sorri cordialmente e perguntei “o quê?”, ela repetiu, mas eu achei que ouvi errado, pois ela disse algo sobre Harry. Eu sorri novamente, dessa vez como alguém que entendeu, assenti e entrei em casa.
Não estava afim de ouvir sobre Harry, o que provavelmente seria algo como: “Harry acabou de se formar, não é legal?”, “Harry começou a namorar com uma garota da faculdade, legal, né?” ou “Harry conseguiu um ótimo emprego em Londres, provavelmente ganha mais do que todos nós juntos”. Eu não queria ouvir sobre as conquistas maravilhosas e a vida perfeita dele em Londres, principalmente quando eu continuava em Holmes Chapel numa agência praticamente falida e sem namorado. Oh, céus.
Minha mãe estava na sala, vendo filme ao lado do meu pai, que comia pipocas numa bacia gigante. Eu me joguei ao lado deles e roubei a bacia, recebendo um empurrão gentil e brincalhão do meu pai. Com um suspiro eu disse:
— Quero um aumento.
Eles riram e meu pai envolveu o braço dele nos meus ombros.
— Você pode falar com eles sobre isso. — Ele disse, simples, como se fosse fácil assim. Desse jeito.
— Não é bem assim. — Balbuciei.
— O máximo que você vai receber, é um sim ou um não. — Explicou, com calma, uma característica que eu não havia herdado dele.
— Nesse caso, o não eu já tenho. — Coloquei um punhado de pipoca na boca.
— Então é só esperar outra oportunidade. — Minha mãe comentou, ao se levantar do sofá, indo em direção à cozinha. — Receber um bom salário não é tão fácil quanto parece. — Eu somente assenti, mas tive vontade de dizer: “para Harry, aparentemente, é facilzinho”. — Escuta, a Anne falou contigo hoje? — Perguntou, quando voltou da cozinha, trazendo um pouco mais de pipoca.
— Sim, mas não entendi muito bem o que ela disse. — Expliquei, não tirando os olhos da televisão. Estava passando “O Diabo Veste Prada” pela décima vez. — Eu até pensei que ela havia dito o nome do Harry, mas não parei para escutar.
Meus pais ficaram em silêncio por um longo período de tempo, até que comecei a ouvir os seus cochichos, o que não era comum. A última vez em que ouvi meus pais sussurrarem sobre algum assunto, foi no dia em que eles haviam cancelado uma viagem que estava marcada há meses à Itália, só não sabiam como me contar.
Daquela vez, eu tinha recusado todas as propostas de férias com os meus amigos porque iria à Itália com a família de Harry, mas, como meu pai havia sido requisitado no trabalho naqueles dias, eu acabei ficando em casa durante dois meses. Ou seja, quando eles cochichavam, algo não estava certo.
Automaticamente, como um cachorro, meus ouvidos ficaram atentos a qualquer coisa que eu pudesse captar daquela conversa baixa entre eles. O volume da televisão abafava ainda mais e eu desejei ter o controle para mutá-la por alguns segundos. Até parei de mastigar a pipoca, ficando cem por cento concentrada nos dois, mesmo que meus olhos ainda mirassem a tela à frente.
Com um suspiro, meu pai se calou. Provavelmente, minha mãe havia vencido a discussão, o que me deixou ainda mais desconfiada e, sinceramente, um pouco amedrontada. Minha mãe era uma ótima pessoa, mas tinha a mente um tanto... maligna. O que quer que ela estivesse tramando, não era nada bom, por mais que as intenções fossem ótimas. Por fim, decidi terminar de comer as pipocas e, assim que o filme terminou, subi para tomar banho.
A noite avançou rapidamente, como sempre, e após o jantar vesti um moletom e coloquei meus óculos de descanso. Provavelmente leria até sentir sono, para então dormir e amanhã ficar o dia inteira em casa, ou sair com . Como sempre. Mas, diferente dos outros dias, minha mãe bateu na porta do meu quarto e pediu para que eu tirasse o lixo, pois ela já iria se deitar. Eu assenti e desci as escadas.
Já do lado de fora, eu me encolhi pelo frio repentino e não característico daquela época. Pelo menos eu estava confortável e de pantufas. Arrastando o saco de lixo, eu o coloquei na lixeira que ficava na frente da minha casa, consequentemente, na frente da casa de Anne, onde também havia alguém colocando o lixo para fora, só que do outro lado da rua.
Eu estranhei, pois não era Anne, nem Gemma, mas sim um rapaz. Ele fazia muito barulho, vestia um moletom e era alto. Permaneci encarando-o por alguns segundos até que ele também me encarasse e então ficamos os dois nos encarando pelo que me pareceu horas, até que a ficha, enfim, caiu. Minha boca, instintivamente, secou e eu não sabia se corria, fingia que não havia o visto ou simplesmente ficava ali.
Optei pela segunda opção e dei meia volta. Aparentemente, eu havia desaprendido a caminhar, pois meus passos pareciam tortos e eu tive o pressentimento que iria cair antes de alcançar a porta.
? — Ele chamou, baixo, do outro lado da rua, mas eu ainda escutei como se estivesse na minha frente, rente ao meu ouvido e senti como se realmente estivesse.
Suspirei fundo duas vezes antes de parar, virar-me para ele novamente e responder com um aceno:
— Harry.
Ele também pareceu surpreso e pude ver pela fumaça do frio que saía pela sua boca que ele estava ofegante assim como eu. Aquela era a primeira vez que o via em seis anos, depois da nossa “despedida” que foi uma merda. Nunca mais conversamos, nem mandamos mensagem um para o outro. O número dele ainda estava gravado no meu celular e eu me perguntei, pela primeira vez em muito tempo, se ele também tinha o meu número gravado no dele.
Sem saber o que falar, ele chutou algumas pedrinhas que estavam ao seu alcance e eu me senti nervosa como há tempos não ficava. Harry sempre teve esse efeito sobre mim, mesmo de longe. E eu sempre odiei isso. No entanto, não pude deixar de notar: ele parecia envergonhado. Styles sempre foi de tudo um pouco, menos envergonhado. E lá estava ele, cabisbaixo como se procurasse palavras dentro da sua mente para formular qualquer frase. E foi o que ele fez.
— Faz tempo, não é? — Murmurou, e eu tive que me esforçar para entender.
Eu assenti, mordendo meu lábio inferior.
— Seis anos, para ser exata. — Disse, e ele riu sem humor. — Está passeando? — Resolvi perguntar por educação, ou talvez fosse porque eu estava com tantas saudades de ouvir aquela voz, que meu coração parecia pequeno de tão apertado.
— Não. — Explicou, dando um passo para frente. Automaticamente, eu dei um passo para trás. Ele percebeu. — Voltei para casa ontem de noite. Acabei pedindo transferência do trabalho.
Se fosse possível, meu peito se apertou ainda mais e eu podia jurar que minha pressão tinha baixado.
— Ah... — Eu somente disse.
— Pois é. — Ele enfiou as mãos no bolso do moletom escuro. Se fosse o Harry de antigamente, eu diria que ele estava inquieto, mas não o conhecia mais.
O clima pesou e eu me senti tonta. Aquela cena parecia irreal na minha mente e, por mais que eu tivesse sonhado com isso desde o dia em que ele partiu, naquele momento, eu só queria me esconder e fingir que nada havia acontecido.
— E você? — Ele perguntou, do nada, quebrando o silêncio bizarro.
— Hum? — Eu murmurei, mas havia escutado claramente. No entanto, não consegui distinguir o que ele queria que eu respondesse.
— Como vão as coisas, quero dizer... — Explicou, gesticulando com a mão direita para logo enfiá-la no bolso outra vez.
— Normais. — Limitei-me em dizer. Quis fechar a boca nesse instante, mas minha mente estava a mil. — Bem, muita coisa mudou em seis anos, né.
Dei de ombros e ele se encolheu. Talvez pelo frio.
— Eu imagino. — Olhou para o céu.
Longos segundos se passaram, mas nem eu nem ele nos movemos. Era como se nenhum de nós quisesse sair dali e, ao mesmo tempo, como se não quiséssemos ficar ali na presença um do outro, pois doía como o inferno. Caramba, era o meu melhor amigo ali, porém, era como se fosse outra pessoa.
— Então. — Eu limpei a garganta. — Seja bem-vindo de volta.
Ele voltou a me olhar e eu senti um peso sobre mim.
— Obrigado.
Assenti.
— Boa noite, Styles.
E sem esperar sua resposta, eu corri para dentro de casa.


Capítulo 2

Então.
Eu não costumava fugir assim desde o dia em que Harry foi embora. E agora que ele tinha voltado, eu fugi outra vez e ainda estava prestes a vomitar. Sério isso? Minha mãe, de repente, surgiu na cozinha e se aproximou de mim, fazendo um carinho nas minhas costas. Seus olhos estavam tristes e eu soube.
— Vocês sabiam, não é? — Senti minha voz falhar.
— Sim — ela respondeu, acuada. — Anne comentou pela manhã, logo quando você saiu para o trabalho.
Suspirei.
— Mãe, vocês precisam me dizer essas coisas. — Escorei minhas costas no balcão da pia. — Eu preciso confiar em vocês sobre isso.
— Seu pai disse exatamente isso. — Ela pareceu emburrada consigo mesma. — Eu achei que depois de seis anos...
— Eu sei, eu sei. — Aproximei-me dela, fazendo um carinho em seus ombros. — Mas isso diz respeito a mim e Harry, essa coisa entre nós dois. Pode parecer que eu estou bem, mas vocês dois sabem que é bem mais difícil do que parece.
Ela assentiu, parecendo arrependida.
— Desculpa — pediu, abraçando-me. — Prometo que vou avisar da próxima vez que ele vier.
— Mãe... — eu murmurei, sobre o seu ombro. — Harry não veio a passeio.
— Não? — Ela me afastou, parecendo curiosa.
— Não. — Neguei com a cabeça. — Ele pediu transferência do emprego dele. Vai voltar a morar com Anne.
Minha mãe pareceu surpresa e levou uma das mãos à boca, tentando tampar o queixo caído.
— Eu não sabia — disse, ainda apavorada.
— Eu imaginei que não soubesse. — Suspirei e voltei para dentro do abraço dela. Estava me sentindo com oito anos novamente, quando um machucado se resolvia com um simples abraço de mãe. — O que eu faço agora, mãe?
Ela suspirou, como se quisesse um tempo a mais para medir as palavras que diria.
— Eu não sei, sinceramente. — Acariciou meus cabelos. — Essa situação de vocês é bem sensível. — Afastou-me e me encarou nos olhos. — Para começar, eu achei uma bobagem vocês terem terminado uma amizade de quase quinze anos pelo que aconteceu.
— Mãe, nós já falamos sobre isso. Foi um motivo importante pra mim e pra Harry — eu expliquei.
— Mas, — ela continuou, me ignorando — se fosse comigo, eu tentaria me aproximar agora. Acho que Harry também se sente da mesma maneira que você e eu acho que essa amizade de vocês merece uma segunda chance.
Fechei meus olhos e segurei o choro que ameaçou vir. Era por esse motivo que eu não queria me encontrar com Harry novamente. Por mais que tivessem se passado seis anos, eu me sentia como naquele mesmo dia em que nos vimos pela última vez. Era como se eu não tivesse chorado ou sofrido o suficiente e precisasse extravasar todas as vezes em que ouvia sobre ele.
— Não sei se eu estou pronta pra isso. — Funguei.
— Se não tiver, tudo bem, paciência. — Acalmou-me. — Agora, você precisa ter certeza de que não está pronta e que isso não é você mesma impondo limites e não se deixando viver — alertou, seriamente.
Eu assenti e voltei, pela última vez, para o abraço dela.
— Preciso de um colo — balbuciei, como uma criança. Ela riu. — É sério.
— Você é a minha bebê — disse, carinhosa. — Sempre vai ter um colinho.
Eu sorri.
— Obrigada, mãe. Por tudo. Prometo que vou tentar me aproximar dele. — Suspirei, sentindo um frio na barriga ao pensar que iria falar outra vez com Harry.
— Você faz bem — assegurou-me. — Nada nesse mundo vale mais do que uma boa amizade. Você e Harry foram feitos um para o outro. E eu sei que você sabe disso.
Eu permaneci em silêncio, pois, sim, eu sabia, só ainda não tinha coragem de admitir em voz alta.

[...]


No outro dia pela manhã, eu acordei com barulhos de conversa. Meus pais, normalmente, iam ao supermercado no sábado de manhã e a casa permanecia silenciosa até a chegada deles. Ou seja, havia duas opções aqui: ou eles já haviam chegado do mercado e eu tinha dormido demais, ou alguém estava fazendo uma visita a eles.
Olhei no celular.
9h30min.
Sem me preocupar, tomei um banho demorado e vesti uma roupa confortável. O dia amanheceu nublado e chuviscava lá fora. Desejei permanecer deitada, mas o costume de acordar cedo todos os dias tinha grudado em mim e não me deixava dormir até muito tarde. Com meu celular em mãos, desci as escadas, notando a conversa ficando um pouco mais alta.
Identifiquei a voz dos meus pais e a de Anne. Eles estavam na sala de jantar, provavelmente tomando café da manhã juntos. Fazia tempo desde a última vez que eles se reuniram para comer, e eu nem me lembrava mais como sentia falta disso. Eu e Harry costumávamos dividir o pedaço de bolo. Senti meu coração apertar.
Sem passar pela sala de jantar, fui direto para a cozinha e peguei um copo de água. Olhei lá fora, vendo que os chuviscos esbranquiçavam o banco do jardim e algumas poças se fizeram sobre a grama. Pelo visto, hoje era dia de ficar em casa. Coloquei o copo em cima da pia e me virei, indo em direção à sala de jantar. Mas parei no meio do caminho quando escutei a risada de Harry.
Oh, céus.
Entrei em pânico e fiquei parada, sem saber o que fazer. Quis tomar outro copo de água, pois minha boca estava seca, mas iria ficar com vontade de fazer xixi, então apenas continuei ali. Meu pai, de repente, apareceu na cozinha com um prato vazio. Ele me viu ali e seu rosto logo adquiriu um semblante sério ao perceber o meu estado. Provavelmente, eu estava pálida e com uma cara não muito boa. Haha.
— Oi? — ele disse, ao largar o prato em cima da pia. — O que tá fazendo aí parada? Tá tudo bem?
Eu me virei pra ele e arregalei os olhos como se dissesse “não é óbvio?”.
— Pai, o Harry tá ali? — sussurrei a pergunta, torcendo para que a resposta fosse negativa.
— Han, sim — respondeu, hesitante, como se estivesse medindo a consequência que viria com a sua resposta.
— Meu Deus — resmunguei, cobrindo meu rosto com as minhas mãos.
— Achei que você tivesse dito para a sua mãe que iria tentar falar com ele... — explicou, aos sussurros também. — Ela quem convidou eles para o café. — Levantou as mãos, livrando-se da culpa.
Eu balancei a cabeça negativamente, desacreditada.
— Mas é claro que convidou. — E eu podia esperar menos dela?
— Mas olha, se quiser subir, eu posso te levar um sanduíche no quarto. — Acariciou meus ombros. — Não precisa se sentir obrigada a ficar.
O problema era que eu me sentia obrigada, sim. Como ex melhor amiga que estava tentando se redimir, meu trabalho era me sentar naquela mesa e dividir a porcaria de um bolo com meu ex melhor amigo. Quem sabe assim ele se lembrasse do que tinha abandonado. Ah, não, não assim, . Calma lá.
Eu suspirei, deixando meu celular em cima da bancada, então tomei coragem antes de dizer:
— Vou lá.
Meu pai me encorajou com dois tapinhas nas costas, daquele jeito de pai, e então voltou para a sala de jantar. Eu ainda dei uma cheiradinha nas axilas antes de segui-lo. Nunca se sabe.
Quando apareci com ele, foi como se um botão se acionasse. Toda a conversa cessou e eu pensei que havia ficado surda por um momento. Somente escutava o barulho do meu sangue correndo rápido e do meu coração pulando desesperado contra o meu peito.
Sentei-me ao lado de minha mãe, de frente para Harry, e tentei sorrir quando ele me olhou, mas me esqueci completamente como fazia isso. Mas que merda? Aquele ali na minha frente não era Harry. Na verdade, era ele, mas uma versão mil vezes melhorada dele. Quase me engasguei quando seus olhos encararam os meus. Senti minhas bochechas esquentarem e olhei para meu prato vazio.
— Anne exclamou, animada. — Está linda!
— Obrigada, Anne. — Por um momento, havia me esquecido que a mãe dele estava ali também. — Que falta de educação a minha. — Levantei-me e fiz a volta na mesa, abraçando-a.
Harry não desviou os olhos do sanduíche que comia. Levou a mão até a xícara e tomou um longo gole do café, mas quase cuspiu quando sua mãe disse:
— Harry, filho, levante e cumprimente a sua amiga também.
Acho que nós dois sentimos a mesma coisa, pois ambos nos encaramos como se não soubéssemos o que fazer. O pavor estava estampado no rosto dele, e provavelmente no meu também, e isso desencadeou várias coisas: a primeira foi um nervosismo tão grande que fez minha barriga roncar alto, fazendo todo mundo escutar. Que vergonha, .
A segunda foi que Harry deixou o sanduíche cair no chão e Sunny, a bulldog dos meus pais, aproveitou o momento e abocanhou o lanche. A terceira, no entanto, foi a mais estranha, pois, depois de toda aquela bola de neve esquisita, nós dois nos encaramos e explodimos em uma gargalhada que apenas trouxe outras sucessivamente.
Eu ria sem querer e ao ouvir o ronco do meu próprio riso, eu ri mais ainda e Harry também. Mas que merda estava acontecendo ali? Pensei em meio a risos que doíam minha barriga. Assim que fomos nos acalmando e o riso foi cessando aos poucos, a única coisa que senti foi mais vergonha. O que faríamos depois disso? Como previsto, o clima ficou tenso outra vez, mas nossos sorrisos continuaram ali como prova do que havia acontecido. Ele, então, levantou-se da cadeira. Eu, ao me recompor totalmente, disse:
— Não se incomode, Harry, pode ficar sentado.
Ele abriu a boca para dizer alguma coisa, mas apenas assentiu e se sentou novamente. Rapidamente, o arrependimento tomou conta de mim e eu quis voltar no tempo apenas para saber o que ele faria. Graças a Deus, minha mãe pigarreou e ofereceu suco de laranja.
Imediatamente, eu voltei ao meu lugar e fiz um sanduíche enquanto meus pais engatavam uma conversa da qual eu nem me lembro sobre o que era. Sentia, de vez em quando, que Styles me encarava com curiosidade e às vezes eu arriscava um olhar na direção dele, mas desviava quando sentia que ele iria encarar de volta.
— Sua mãe comentou que vai voltar a morar aqui, Harry — meu pai disse, tomando um gole do seu café em seguida. O jornal estava na sua frente, mas ele não parecia tão interessado.
— Sim — Harry assentiu. — Foi sorte ter surgido uma vaga em Holmes Chapel.
— É mesmo? — Minha mãe entrou na conversa. — E você faz o quê? Se não se importar em dizer, é claro.
Ele riu ao negar.
— Tudo bem — tranquilizou-a.
Enquanto Harry falava, eu via ali uma brecha para examiná-lo. Diferente de seis anos atrás, Styles estava mais maduro em sua aparência. Tinha tatuagens espalhadas por todo o braço, usava anéis e algumas pulseiras, e eu reparei que sua postura de adolescente havia ido para o espaço, dando lugar a uma postura ereta e despojada. Harry Styles havia virado um homem. Eu, automaticamente, corrigi a minha postura.
Em seguida, ele continuou:
— Estou trabalhando como assessor criminalístico em uma empresa de Londres que tem uma filial aqui — explicou, simples. — Quando procurei pelo emprego, já entrei sabendo da filial em Holmes Chapel.
— Isso parece sério — meu pai disse, e seus olhos brilhavam.
Harry riu, achando graça de verdade do que meu pai tinha dito. Eu me vi curiosa sobre a profissão dele, mas minha boca permaneceu fechada.
também trabalha aqui no centro — minha mãe interrompeu a conversa, apontando para mim. — Conta para ele, filha.
Eu a encarei e pude sentir que nos meus olhos continham ódio. Disfarcei ao limpar minha garganta antes de falar.
— Sim, trabalho em uma empresa de Publicidade e Propaganda — comentei, atraindo todos os olhos sobre mim. Inclusive os dele, que pareciam curiosos. Harry cruzou as mãos em cima da mesa e se debruçou, como se quisesse captar toda e qualquer palavra que saía pela minha boca. Fiquei nervosa. — Sou gerente no departamento de mídia sociais.
— Uau — Anne disse. — Isso é muito bom!
— Mas, claro, o salário não é tão bom — despejei, de repente. — E a empresa também não é muito reconhecida, sabe? Então, sei lá...
Senti minhas mãos suarem. Eu tinha aquela mania irritante de tentar diminuir as coisas para não soar exibida, e droga, eu estava fazendo isso naquele exato momento. E teria falado mais, se Harry não tivesse me interrompido.
— Parabéns, — ele disse, com um sorriso que me desestabilizou. — Não é qualquer pessoa que consegue um posto desse em tão pouco tempo. — E ali eu notei: Harry estava fazendo o meu trabalho. Ele estava me exibindo. — Isso é demais! O salário não importa muito agora, mas seu currículo vai ficar ótimo. Depois você pode até tentar algo em uma empresa maior. Aposto que vai ter CEO correndo atrás de você, . — Usou meu sobrenome e isso me pegou desprevenida.
Harry só usava meu sobrenome quando queria enfatizar algo.
Eu sorri afetuosamente para ele, dando uma mordida no meu sanduíche. De repente, em uma fração de segundos, senti como se tudo fosse como há seis anos e aquele ali na minha frente fosse o Harry-meu-melhor-amigo. Uma sensação gostosa e conhecida se espalhou no meu peito, então percebi que não era a única sentindo isso, pois Styles continuava sorrindo. E tive certeza quando ele pegou um pedaço de bolo, encarou-o por alguns segundos e então inclinou ele na minha direção.
— Quer dividir? — perguntou, com um maldito sorriso de canto, deixando sua covinha à mostra.
Eu assenti, tentando impedir os fogos de artifícios, os quais eu guardei durante anos, de estourarem dentro de mim, e comi a metade daquele bolo. No final, acabamos terminando a refeição em silêncio, até que eles precisaram voltar. Nos despedimos com um aceno tímido, eles foram embora e eu caí no sofá com meu coração acelerado feito um louco.
Aquele foi um bom começo.


Capítulo 3

Todos os dias da semana seguinte, perguntei-me se Harry apareceria novamente. A verdade é que ele simplesmente sumiu das minhas vistas e, de acordo com Anne, estava ocupado demais para dar as caras. É claro que a minha semana foi uma droga, mas não só porque eu não o vi mais, também porque era semana de ensaios na agência, o que deixava todo mundo louco e, consequentemente, eu estava louca.
Na sexta-feira, finalmente, eu havia chegado em casa e sobrevivido a mais um dia cheio, a única coisa que eu queria era me deitar na minha cama, de barriga cheia, depois de um banho quentinho e encarar o teto até adormecer. Quem disse que trabalhar era fácil, com certeza morreu por dentro. Por fim, foi o que eu fiz. Não a parte do “morrer”. Quer dizer... a parte em que eu jantei, tomei banho e adormeci foi cumprida com sucesso. O problema foi continuar dormindo, pois alguma casa no meu quarteirão resolveu fazer uma festa.
Em plena sexta-feira.
Catei meu celular embaixo do travesseiro. 1h da madrugada. Bufei e enfiei meu rosto no colchão, colocando o mesmo travesseiro sobre minha cabeça numa tentativa de abafar o som. Mas nada adiantava, a música estava tão alta que eu sentia as paredes do meu quarto vibrarem ao acompanharem a batida e me rendi. Não conseguiria voltar a dormir, muito menos queria ficar ali deitada sem fazer nada apenas escutando alguém fazer a festa.
Com um suspiro, vesti meu moletom, odiando aquele frio insistente, então abri a janela do meu quarto e pulei para o lado de fora. Logo abaixo, estava o telhado que cobria a sala. Ele era plano e parecia ter sido feito perfeitamente para que eu pudesse permanecer em cima dele sem cair e era o que eu costumava fazer. Anos atrás. Com Harry. Droga. Levei o celular no bolso do moletom e me sentei no telhado.
O céu estava estrelado, e a lua, cheia. Percebi que a brisa fria estava agradável demais e por um momento agradeci por estar acordada. A semana tinha sido tão cheia que as únicas coisas que eu fiz foi trabalhar, comer, tomar banho e dormir. Não tive tempo para pensar ou aproveitar o dia e isso estava me consumindo. Fechei os olhos ao olhar para cima, suspirando longamente. A música já não me incomodava.
Poucos minutos depois, vi uma movimentação na casa da frente. Alguém abria a janela do quarto que ficava de frente para o meu. Aquele costumava ser o quarto de Harry e, pelo visto, continuou sendo, pois quem abria a janela era ele. As luzes estavam apagadas e a rua era escura, o que nos iluminava, de fato, era a lua.
Assim que me viu, ao colocar uma das pernas para fora da janela, ele congelou no lugar. Encarou-me por alguns segundos, sem saber o que fazer, mas logo pulou para o telhado, sentando-se da mesma forma que eu: com os joelhos rente ao corpo. Ele estava com o capuz na cabeça, mas acredito que havia se esquecido disso, pois tentou passar as mãos no cabelo, parando no meio do caminho e rindo envergonhado quando se lembrou.
Aquela era mais uma característica dele: passar a mão pelos cabelos quando estava nervoso.
Eu ri por isso e baixei o rosto, mas não pude permanecer assim tanto tempo, pois a saudade que estava dele apertou em mim. Olhei na direção de Harry mais uma vez, percebendo que estava sendo encarada de volta. Rimos novamente. Ele se inclinou para trás, escorando as costas na parede do seu quarto e ficou assim, simplesmente, admirando-me.
Comecei a ficar nervosa, mas estava com sorte porque o vermelho nas minhas bochechas não poderia ser visto daquela distância. Então fiz a mesma coisa: escorei-me e o admirei pelo que pareceram horas. Uma cócega no meu estômago me fez desviar os olhos por um momento, o que me trouxe de volta à realidade, que não poderia ser mais clichê. A música que tocava no fundo era “Say you won’t let go” e, aparentemente, Harry também notou, pois ouvi sua risada.
Olhamo-nos novamente, dessa vez com sorrisos que iam de orelha a orelha, e num ato que eu não estava esperando, ele ligou a lanterna do celular e levantou-o, passando a balançar o braço de um lado para o outro, como se estivesse em um show. Gargalhando, eu fiz o mesmo. Se alguém estivesse vendo aquela cena, com certeza estaria pensando que éramos dois loucos.
Eu via sua boca cantando a música, mas não ouvia sua voz, o que me deixou triste, pois ele costumava cantar para mim e eu amava. Achei que seria prudente apenas admirar a cena, com meus braços balançando de um lado para o outro na batida da música. E foi nesse momento que eu percebi: ali era o meu lugar. Não no telhado, eu digo, mas com Harry. Com o meu melhor amigo e com as nossas brincadeiras bestas.
Imediatamente, a tensão sumiu dos meus ombros e eu só me sentia aliviada e grata por ele estar de volta. A falta que eu senti dele, durante seis anos, quebrou cada pedacinho de mim, mas a volta dele reconstruiu todos e eu me senti inteira como se Harry fosse uma cola instantânea. Mas ele era aquela cola que nunca mais descolava. Eu estava novinha em folha porque ele estava ali comigo. A pessoa que eu mais amava no mundo estava ali comigo.
Não percebi quando havia deixado meus braços caírem ao lado do meu corpo enquanto só o encarava com lágrimas nos olhos. Reparei que ele também havia parado com o show. Em seguida, senti meu celular vibrar, mas ele não foi a única coisa que vibrou, pois meu coração o acompanhou quando li “Haz” na tela. Harry havia me mandado uma mensagem.
Nunca havia aberto tão rápido uma mensagem quanto aquela e senti minhas mãos tremendo ao ler.

De Haz:
Tá tudo bem, pequena?


Olhei-o de volta e percebi que ele me encarava ansioso ao esperar pela minha resposta. O apelido carinhoso, no entanto, derreteu o resto de mim que ainda continuava firme.

De :
Sim. Só estava relembrando de algumas coisas.

De Haz:
Parece um pouco surreal, não parece? Que estamos aqui de novo.

De :
Parece. Mas é bom.

De Haz:
Muito.


Eu li a última mensagem e sorri, guardando o celular no bolso outra vez. Não sei quanto tempo ficamos na posição inicial, onde só nos encarávamos, mas a festa havia acabado e o sol estava apontando lá longe. Senti meus olhos pesados e bocejei. Harry, então, apontou para mim e juntou as mãos, colocando-as, em seguida, sob o rosto, como se dissesse que era hora de eu ir dormir.
Eu assenti, mesmo que não quisesse ir dormir, e acenei, despedindo-me dele. Styles acenou de volta e bocejou também, arrancando um riso meu. No fim, a última visão que tive dele foi fechando a janela e logo eu estava deitada sobre o meu colchão macio, adormecendo com um sorriso enorme no rosto.

[...]


No sábado de manhã, Anne bateu na nossa porta e nos convidou para jantar em sua casa à noite. Minha mãe confirmou por nós três e me contou enquanto almoçávamos, não escondendo a felicidade em seu rosto. Eu também estava feliz, pois, de alguma maneira, eu sentia que tudo estava se encaixando novamente e que eu e Harry iríamos reconstruir nossa amizade.
Por isso, quando deu o horário combinado, eu já estava mais do que pronta. Decidi vestir uma das minhas melhores roupas, optando por uma maquiagem básica e deixei o cabelo solto. Minutos depois, estávamos indo os três até a casa de Anne. Tocamos a campainha e quem atendeu a porta foi Harry. Minhas mãos começaram a suar assim que ele nos viu. Me viu, para falar a verdade, pois seus olhos não se desviaram para meus pais em nenhum momento.
Ele abriu a boca para falar alguma coisa, mas calou-se e apenas me encarou de cima a baixo. Vi quando seus olhos brilharam e me senti alvoroçada quando percebi que ele estava me admirando. Acabei encolhida e vermelha de vergonha. Meus pais pareceram perceber, pois minha mãe pigarreou.
— Harry, boa noite — ela disse com sua voz mais alta do que o normal.
Harry pareceu sair do transe que estava e desviou os olhos de mim, passando a olhar para a minha mãe. Ele sorriu sem jeito e deu espaço para que pudéssemos passar.
— Boa noite, Katherine. — Voltou-se para o meu pai. — Jhonn.
Meu pai assentiu com um meio sorriso e eles entraram antes de mim. Logo eu estava sozinha com Harry, enquanto meus pais se enturmavam com os de Styles, que voltou a me olhar.
— Oi — eu disse.
— Oi — ele respondeu com um sorriso. — Uau... Você... Está linda!
— Obrigada — respondi e dei uma olhada nele. Não sabia o que falar numa situação daquelas, muito menos com ele. — Você também.
Ele riu e com um gesto convidou-me para entrar. Tirei meu casaco e me surpreendi quando ele o pegou, pendurando no cabideiro próximo à porta. Logo ele estava ao meu lado e senti uma de suas mãos nas minhas costas ao me conduzir para a sala. Um arrepio cruzou a minha espinha e eu me encolhi automaticamente. Pela sua expressão, eu deduzi que ele havia percebido, pois, assim como eu o conhecia, Harry poderia adivinhar cada movimento meu.
— Você vai adorar o prato de hoje — ele comentou baixinho. — Mãe fez especialmente pra você.
— Ah, é? — perguntei. — Gentileza a dela.
— Ela passou a tarde inteira dizendo que fazia tanto tempo desde o último dia que você jantou com a gente — Harry explicou, olhando o perfil do meu rosto, pois eu me recusava a olhar para ele. Só o seu perfume já estava me deixando tonta.
— Ela tem razão — comentei. — Mas espero mudar isso a partir de agora...
— Eu também — disse verdadeiramente e ficamos em silêncio.
Ao chegarmos à sala, eu percebi sua resistência em sair de perto de mim e de, principalmente, tirar sua mão de minhas costas, pois foi a última coisa que ele fez, fazendo questão de deslizar os dedos pelo meu braço num carinho longo.
— Já volto — ele sussurrou antes de sair.
Assisti quando ele foi à cozinha e, então, ao cumprimentar todo mundo, sentei-me na poltrona. Os sofás estavam ocupados por meus pais, os pais de Harry, Gemma e o namorado dela.
Demorou um pouco para que ele voltasse, mas quando voltou, trazia uma bandeja com alguns biscoitos e um bules com chá. Ele serviu uma xícara só com chá para ele, como ele sempre gostou de tomar, e serviu outra, colocando leite e açúcar. Eu me perguntei para quem seria, então ele me surpreendeu outra vez quando a trouxe para mim. Era exatamente como eu tomava e o fato de ele se lembrar aqueceu meu coração.
— E acredita que ela simplesmente rasgou o cheque na frente dele? — minha mãe contava sobre alguma história que eu sequer estava prestando atenção.
— Há. — Anne soltou uma risada sarcástica, também alheia a mim e Harry. — Ela queria mais dele! Óbvio.
Eu agradeci quando peguei a xícara, esbarrando nossos dedos no caminho. Ele baixou o braço e seguiu caminho para o outro lado da sala, mas não deixei de notar o modo como ele esticou e fechou a mão com força, como se nosso toque doesse. Em seguida, ele se sentou na poltrona que ficava de frente para mim e permaneceu até o jantar ser anunciado com uma expressão perdida enquanto tomava o chá. Foi a primeira vez que senti medo de ter feito algo errado desde que Harry havia voltado e, além disso, senti-me, de certa maneira, inválida por não conseguir desvendar sua expressão naquele momento.
Quando o jantar finalmente chegou, nós fomos os últimos a sair da sala, como se quiséssemos ficar sozinhos. Não trocamos nenhuma palavra desde o chá e eu evitei olhá-lo, pois saber que ele não me olhava de volta estava me frustrando de uma forma que eu nunca havia me sentido antes. No entanto, quando o encarei uma última vez antes de migrar para a sala de jantar, ele sorriu para mim e tudo ficou bem novamente.
“Preciso falar contigo”, silabou sem deixar sair a voz. Minha leitura labial era péssima, mas aquilo eu consegui ler. “Ok” eu silabei também e esperei que ele fosse a outro lugar para que eu pudesse segui-lo, mas ele respondeu “depois do jantar”. Assenti e em seguida fomos, nós dois, para onde iria ser servida a comida.
Quando chegamos, reparei em duas coisas: a primeira era que todos estavam quietos demais, como se estivessem tramando algo, e eu tive certeza disso quando percebi que os dois lugares que sobraram naquela mesa de oito lugares eram os dois lugares um ao lado do outro. Pude ver Harry erguer as sobrancelhas e me perguntei se ele estava feliz por isso, porque eu mesma quase não conseguia conter a euforia ao saber que estaríamos tão perto.
Seis anos atrás, Harry expulsaria sua irmã da cadeira para se sentar ao meu lado, mas hoje a situação estava mudada. Pelo menos ninguém comentou nada nem fez qualquer piada, o que já nos deixava no lucro. Harry, então, sinalizou para que eu me sentasse primeiro e foi o que eu fiz. Ele se sentou à minha esquerda e logo o jantar foi servido.
Eu não havia pegado bife, então deixei minha mão esquerda descansando sobre minha perna. Já Harry utilizava as duas mãos ao cortar o bife, o que causava uma movimentação por parte dele, automaticamente fazendo-o se esbarrar em mim. Não me lembrava que ele se movimentava tanto ao comer, mas não reclamei, pois era reconfortante senti-lo tão perto.
Nossos pais engataram uma conversa animada com Gemma e o namorado sobre a última viagem deles para o Havaí, enquanto eu e Harry apenas assentíamos. Em algum momento da conversa, reparei que o braço direito dele havia caído ao lado do corpo e ele só usava o esquerdo para manusear o garfo. Estranhei, porque Harry era destro, mas logo descobri o motivo quando senti ele procurando pela minha mão embaixo da toalha de mesa.
Imediatamente, eu me engasguei com a comida. Ninguém pareceu notar, no entanto, apenas Harry, que riu e tentou esconder a risada ao tomar um gole de vinho. Eu, então, encarei seu rosto, perguntando silenciosamente e discretamente o que ele estava fazendo.
Ele simplesmente arqueou a sobrancelha como se dissesse “isso” e entrelaçou nossas mãos uma na outra, deixando-as sobre a minha coxa coberta por uma meia calça escura. Seu sorriso ao ver minha expressão surpresa foi impagável e eu diria que aquela cena ficaria para sempre na minha mente, se não fosse pelo seu polegar acariciando as costas da minha mão e toda a minha capacidade de pensar ir embora.
Meu garfo permaneceu parado sobre o prato por um longo tempo e minha visão ficou até um pouco turva. Para mim, todo o mundo emudeceu e a única coisa que eu escutava era meu próprio coração batendo na minha cabeça... se isso sequer fosse possível. Após recobrar minha consciência, senti que a mão de Harry estava quente, mas, além disso, ela estava trêmula, o que me deixou mais tranquila, pois pensei que fosse a única a sentir aquele turbilhão de sensações.
Eu olhei para ele novamente, ele sorriu outra vez, eu também e voltamos a comer como se nada tivesse acontecido.
— Harry, por que está comendo com a mão esquerda? — sua mãe perguntou, achando estranho.
— Ahn? — ele perguntou após ter levado uma garfada à boca. — Ah, sei lá. Acho que deu câimbra na outra. — Deu de ombros despreocupadamente e até eu quase acreditei.
Por um momento, havia me esquecido que Harry era advogado e a sua lábia sempre foi ótima, mesmo antes da faculdade.
— Precisa comer mais banana, então — ela disse como se desse um sermão. Pareceu acreditar nele, pelo visto. — Não te vejo comendo muita fruta ultimamente.
— Vou comer mais banana — assentiu, mas eu sabia que ele não iria e só havia concordado para que a conversa acabasse logo.
Instantes depois, sua mãe entrou em outro assunto com meus pais e o jantar, aos poucos, findou-se. O que foi bem ruim, pois tivemos que soltar nossas mãos e voltar à sala como se nada tivesse acontecido. Mas eu estava mais ansiosa do que antes, Harry queria falar comigo e eu queria saber logo do que se tratava.
Não precisei esperar muito, contudo, pois senti que ele pegou na minha mão e me carregou porta afora pelos fundos logo depois que todo mundo se reuniu na cozinha para limpar a louça e continuar o assunto do qual estávamos alheios. Vi que ele me levava para o jardim na parte de trás da casa, onde sempre íamos quando precisávamos conversar sobre algo sério.
Foi ali que Harry contou sobre querer ser advogado e quando achou que seus pais fossem se separar. Também era onde eu o levava quando precisava de um conselho. Era nosso lugar de conforto e era para lá que ele estava me levando. Fomos em silêncio e a única coisa que eu escutava era os nossos passos abafados pela grama. O vento estava frio, eu havia deixado meu casaco do lado de dentro, mas também não me importava. A única coisa que passava pela minha cabeça era que iria ficar a sós com Harry depois de seis anos.
Quando chegamos, ele, ainda segurando minha mão, sentou-se num banco de madeira que ficava ao lado de um arco de flores e me puxou gentilmente para que eu me sentasse ao lado dele. Encaixou a palma da minha mão na sua e suspirou antes de se virar para mim e me encarar de uma forma que me fez engolir a seco.
O seu maxilar estava apertado e eu notei, talvez pela décima vez, que a sua fisionomia mudara bastante desde o dia em que ele foi embora. Não me cansava de dizer, mas Harry era um homem e isso me causava calafrios. Tudo nele parecia maduro: suas roupas, seu cabelo jogado, sua feição marcada, o seu cheiro e, principalmente, sua voz. Céus, ele estava perfeito.
— Finalmente — ele disse, ao soltar um suspiro, mas não sorriu em nenhum momento. Também não parecia sério, só estava... sereno. — Esperei muito tempo por isso.
Eu suspirei, tentando achar alguma coisa para dizer.
— Você... queria falar comigo? — perguntei, pigarreando quando minha voz arranhou minha garganta.
— Sim. — Ele continuou a me encarar e isso estava me deixando desconfortável, pois não sabia o que fazer. — Acho que temos assuntos inacabados. — Apertou o maxilar novamente, esperando pela minha resposta, mas eu apenas assenti. — Ok.
Ok — disse também.
Mas parecia que nenhum de nós sabia como começar.
— Como você passou esses seis anos?
Eu demorei um pouco para entender o que ele estava me perguntando.
— Bem? — disse, mas pareceu mais uma pergunta do que uma afirmação.
— Bem? — ele perguntou com uma expressão desconfiada.
Obviamente, eu não havia passado bem e, pela sua cara, ele também devia saber. Vi-me de mãos atadas naquele momento, diante de alguém que me conhecia dos pés a cabeça e soube que não conseguiria mentir para ele. Harry saberia imediatamente, pois seu rosto permanecia atento a mim.
— Preciso saber, , porque se eu for me abrir com você, eu preciso que isso seja uma via de mão dupla — ele disse calmamente, como se lesse meus pensamentos. — Não quero fazer isso sozinho. — Abaixou o tom de voz e terminou sussurrando: — Não vou conseguir fazer isso sozinho. Eu preciso da minha melhor amiga.
O ar pareceu sumir dos meus pulmões e eu precisei de um tempinho até conseguir resgatar a coragem que havia sumido há tanto tempo. Eu também precisava do meu melhor amigo. A verdade era que eu precisei dele seis anos atrás e ele havia ido embora. Isso me trouxe a mágoa e a tristeza de volta, e ao olhar para os seus olhos tão perto dos meus, eu desabei.
— Horrível — falei no primeiro soluço. — Péssima. Acabada. — Ele arregalou os olhos, claramente não esperando por isso. — Foi assim que me senti. Durante seis anos.
E chorei. Chorei feito um bebê e mal estava me importando com o rímel que eu sabia que escorria pelo meu rosto. Eu só queria colocar aquilo para fora de mim, pois não sei se aguentaria engolir por mais uma vez. Acho que explodiria, finalmente, se guardasse aquela bomba por mais tempo.
... — ele começou, preocupado com o rumo da conversa.
— Não! — eu berrei. — Você quer uma via de mão dupla? Então não atravessa na minha!
Vi a sombra do seu sorriso, mas ele segurou e assentiu. A sua única preocupação, naquele instante, parecia tentar me acalmar e ele fazia isso ao acariciar as costas da minha mão.
— Bota para fora — sussurrou para mim e aquela foi a sua deixa.
— Você sabe por quanto tempo eu chorei? — perguntei, mas não esperei sua resposta. — Por dias. Não foram horas. Foram dias, Harry Styles, dias. O meu melhor amigo tinha ido embora, assim, simples, de um dia para o outro! Custava ter me avisado uma semana antes? Custava ter contado pessoalmente?
Eu tentei limpar a bagunça no meu rosto, mas tive a impressão de ter piorado.
— Foram os piores anos da minha vida! — continuei. — Eu não comia, não bebia, chorava o dia inteiro, não falava com ninguém... Fui parar no hospital, Harry, por desidratação. Acordava gritando à noite, sonhando que alguém te levava de mim e quando acordava e pensava que tinha sido só um pesadelo, eu lembrava que era ainda pior: você foi por vontade própria.
Os olhos dele ficavam cada vez mais tristes conforme eu falava. Não me sentia bem ao vê-lo assim, mas precisava falar antes que a coragem fosse embora. Antes, também, de ter que escutar, porque eu sabia que esse momento chegaria logo depois.
— E depois eu fiquei sozinha. Não tinha amigos, tive que passar o último ano sem ninguém. A minha sorte foi que se aproximou de mim. — Funguei, lembrando do último ano do ensino médio. — E aí eu passei na faculdade e lembrei que a gente podia estar juntos na mesma universidade. Para mim, essa foi a pior parte. A gente iria morar juntos, Harry, juntos!
Comecei a chorar de novo. Harry se aproximou de mim, mas eu coloquei a mão na frente.
— Não, senão eu não vou conseguir falar o resto. — Ele riu um pouco.
— Certo, continua.
Eu assenti antes de continuar.
— E então sua mãe decidiu que iria me atualizar todo o mês. — Imitei a voz de Anne: — Harry está no segundo ano da faculdade, Harry arrumou um monte de amigos, Harry está namorando, Harry conheceu a rainha! — eu zombei.
— Minha mãe falou isso mesmo? Que eu conheci a rainha? — ele perguntou desacreditado.
— Claro que não! — Revirei os olhos. — Mas ela ficava o tempo todo falando de você e eu tinha que aguentar isso. Harry, foram os piores anos da minha vida, eu pensei que fosse morrer e não teve um dia sequer que eu não lembrei da gente. Foi uma merda, se quer saber, e eu te odeio por isso. — Despejei minhas últimas frases. Ele continuou me encarando. — É isso. Pode mandar agora.
Ele respirou fundo e fungou antes de começar a falar. Diferente de mim, Harry não chorava, mas estava muito mais sério do que o normal. Estava bravo, com as sobrancelhas juntas em um vinco muito aparente e eu reconheceria aquela expressão de longe.
— Eu tive medo — ele começou — de contar para a minha melhor amiga que eu iria embora. Eu tive medo de você virar as costas para mim e eu ter que passar os últimos dias em Holmes Chapel sabendo que você nunca mais me olharia na cara. Por isso eu contei no último dia, porque se a resposta fosse negativa, eu iria embora no outro dia e não teria a chance de desistir. Porque eu iria, se você pedisse. — Ele olhou profundamente nos meus olhos. — Eu ficaria. Mas então eu te mandei aquela mensagem e, no fundo, eu queria que você me dissesse para ficar.
— Harry... — eu comecei, não sabendo daquele lado da história.
— Há. — Me interrompeu. — Minha vez agora.
— Tudo bem. — Eu assenti.
— Quando você não apareceu, do que eu mais tinha medo estava acontecendo e eu me senti... não sei, foi como se tudo não importasse mais. Você disse que chorou. — Ele umedeceu os lábios. — Eu chorei, . Você lembra de alguma vez que eu chorei? Eu tenho certeza que foram pouquíssimas — ele disse.
Harry tinha razão. Eu podia contar nos dedos as vezes que o vi chorar e saber que ele havia chorado me deixou frustrada e, ao mesmo tempo, consolada, pois eu não fui a única.
— Eu acho que chorei por um mês inteiro e depois disso ainda chorava vendo fotos nossas — continuou. — Então começaram as aulas e eu achei que não fosse piorar. Tinha aula todos os dias, não conseguia me enturmar e minhas notas eram horríveis. Pensei que fosse entrar em depressão, , porque não tinha ninguém além de Gemma para conversar. Sophie foi a única pessoa que começou a falar comigo e talvez por isso começamos a namorar.
Um nó foi parar na minha garganta. Tentei ignorar e desviei o olhar. Ele percebeu, pois logo disse:
— Também foi por isso que terminamos logo. Não começamos a namorar porque nos gostávamos, mas porque fomos o tapa buraco um do outro. Ficamos amigos depois e hoje ela está noiva de um amigo meu. Mas o que eu quero dizer é que... eu esperava que você me apoiasse e esperava que você voltasse a falar comigo depois. — Torceu o nariz e eu vi que seus olhos começaram a brilhar. — Eu ficava nervoso toda vez que meu celular tocava, porque eu tinha esperança de que você me mandasse alguma mensagem.
— Eu também — disse, mordendo meu lábio inferior.
— Nós dois erramos.
— Sim — assenti.
— Eu por ter quebrado nossa promessa e ter contado em cima da hora que iria embora — explicou. — Você por não ter se despedido de mim e ter tomado a iniciativa de se afastar.
Eu senti as lágrimas querendo voltar.
— Fomos muito idiotas, não fomos? — perguntei sorrindo, mas com a voz embargada.
— Muito idiotas — assentiu. — Mas eu não quero continuar sendo idiota, . — Sentou-se mais próximo de mim e procurou minha outra mão, segurando as duas.
— Nem eu. — Senti uma lágrima descendo pela minha bochecha.
— Então... — ele disse, abrindo um sorriso sincero e meigo. — Você me perdoa?
Eu explodi em felicidade. Naquele momento, tudo pareceu se encaixar perfeitamente e eu me senti como se estivesse em um sonho. Balancei a cabeça ao dizer que sim, sem me importar se havia sido rápido demais.
— Você me perdoa? — eu perguntei baixinho quando foi a minha vez.
Ele riu, apertando minhas mãos nas suas.
— Quantas vezes for preciso.
E então estava tudo bem. Simples assim.
— Eu amo você — falei, olhando em seus olhos.
Ele deixou um beijo em minhas mãos e devolveu o meu olhar.
— E eu amo você. — Suspirou, não tirando o sorriso do rosto.
Ouvimos uma movimentação do lado de dentro da casa e eu agradecia porque ninguém podia nos ver ali. Mas já estávamos tempo demais ali fora.
— Acho que precisamos voltar — eu disse ao olhar para trás apenas para me certificar que ninguém estava nos espiando.
Harry suspirou outra vez e se levantou, soltando as minhas mãos. Eu o imitei, sorri para ele e tomei caminho para voltar para dentro de casa. De repente, senti frio e tremi. Mas, antes que pudesse apressar o passo, senti Harry segurar meu braço e me puxar gentilmente para ele. Não estava entendendo o que havia acontecido até sentir o calor do seu abraço apertado.
Minha cintura foi envolvida com certa força e o rosto dele se enterrou no meu pescoço, suspirando fundo. Automaticamente, eu parei de respirar, levando meus braços até seu pescoço e apertando na mesma intensidade. Sem reação, eu apenas amoleci contra ele. Fechei meus olhos e aproveitei do seu abraço que, mesmo depois de tanto tempo, ainda era o meu conforto.
— Eu senti tanto, tanto a sua falta — ele murmurou contra meu pescoço, distribuindo arrepios pelo meu corpo. — Achei que fosse morrer.
— Eu também — disse em sussurros.
Minhas mãos rumaram ao seu cabelo, sentindo os cachos macios entre meus dedos e eu nem sabia que senti tanta falta disso até aquele momento. Com um suspiro, o rosto dele escorregou pelo meu até sua testa se apoiar na minha. Eu abri meus olhos e me deparei com aquela imensidão verde me encarando de volta. Mas seus olhos encaravam, ao invés dos meus olhos, minha boca. Harry se aproximou, resvalou seu nariz no meu e eu senti sua respiração se misturando com a minha.
Eu desci os meus olhos para a boca dele e percebi que Harry mexia o maxilar de uma forma tensa, como se os dentes se causassem atrito. Ele só fazia isso quando tentava se conter e eu me perguntei o que ele estava tentando conter, ao mesmo tempo temendo a resposta. Em seguida, Styles levou suas mãos firmes uma em cada lado do meu rosto, deixando-me presa a ele. Se fosse possível, ele se aproximou ainda mais, até eu sentir seus lábios roçando nos meus. Então ele fechou fortemente os olhos e direcionou sua boca até a minha testa, deixando um beijo demorado ali.
Harry se afastou, sorriu, mas eu não senti que aquele era um sorriso sincero. Ele apenas pegou uma das minhas mãos, deixou outro beijo e disse:
— Vamos?
Com o coração na boca, as mãos tremendo e o estômago embrulhado, eu me perguntei: o que havia acabado de acontecer ali?


Capítulo 4

— Ei! — Harry reclamou, agitando-se no sofá. — Posso saber por que estou apanhando? — Eu dei de ombros, segurando um riso quando voltei a minha atenção ao filme que estávamos olhando.
Harry estava uma graça com aquela expressão confusa.
Bem, depois daquela noite, simplesmente voltamos a agir como seis anos atrás. Estava tudo bem entre nós dois, tínhamos voltado com as mensagens de boa noite e bom dia, as refeições matutinas estavam muito melhores com um bolo dividido ao meio no final da manhã e o melhor: era como se aquela noite não houvesse acontecido.
Só que não era bem assim.
Sim, nós estávamos bem e fazíamos tudo o que um dia fizemos como melhores amigos, porém, nem por um segundo eu me esqueci o que havia acontecido e o nosso quase beijo. A princípio, nem ele. E eu sabia disso, pois Harry me olhava e me tratava diferente e isso estava acabando comigo. Primeiro, porque a mão dele vivia na minha perna, como se ali fosse o seu lugar de conforto. Segundo, porque ele parecia arrumar alguma desculpa para me abraçar e ficar bem perto de mim.
Pelo que eu me lembrava, não éramos assim um com o outro antes de Harry partir, o que estava me deixando com aquela pulga atrás da orelha. O problema era que eu não podia reclamar, pois a aproximação dele mexia comigo de uma forma que eu nunca me senti antes. Quer dizer... Styles sempre mexeu comigo, mas agora parecia diferente e eu tinha medo de procurar saber o porquê e acabar achando algo que fosse irreversível para mim.
Digamos que eu apenas estava apreciando o momento. Depois de seis anos separados, muito tempo parecia pouco e eu me sentia uma adolescente ao lado de Harry. E, naquele instante, estávamos vendo um filme na televisão da minha sala. Eu estava com as minhas pernas sobre as de Harry e a mão dele descansava na minha coxa. Porém, ele estava tendo alguns espasmos nos dedos, pois era um hábito que o corpo dele havia criado quando Harry se concentrava muito em alguma coisa.
O problema era que, todas as vezes que sua mão apertava minha coxa, eu sentia cócegas e me retraía, sendo que, da última vez, acabei acertando-lhe um tapa quase automático no seu ombro. O coitado sequer reparou o que estava acontecendo, então ficou perdido enquanto me olhava ao me questionar o que estava acontecendo. Mas eu não queria que ele se afastasse, então não contei nada e apenas dei de ombros. Ele, no fim, voltou ao filme.
Além do mais, era uma graça vê-lo tão desconfiado.
No entanto, recebi um último apertão. Dessa vez, eu apenas encolhi as minhas pernas, tirando-as do colo dele, mas Harry as puxou novamente com uma expressão quase emburrada e possessiva. Melhor do que o ver confuso, era vê-lo irritado daquele jeito possessivo. Não do jeito ruim, obviamente, porque Harry nunca foi possessivo do jeito doente. Ele era só... um pouco egoísta com o que era dele.
— O que foi agora? — Arqueou uma sobrancelha, olhando-me desconfiado.
Eu bufei e olhei para a mão dele nas minhas coxas.
— Você é cego por acaso? Fica me fazendo cócegas... — Franzi o nariz.
Harry repuxou um sorriso de canto e disse:
— Não que eu saiba.
Eu ri, revirando meus olhos, e apontei para a televisão quando percebi que ele não parava de me olhar.
— Presta a atenção no filme.
Styles deu de ombros com uma expressão divertida.
— Só estou me certificando de que não estou cego.
— Harry...
...
— Você é um galanteador barato, sabia disso, né? — Cutuquei suas costelas, vendo que ele sequer pestanejou com isso.
— Está funcionando? — ele perguntou debochado. — Porque eu nem estou me esforçando ainda.
. — Eu forcei uma risada. — Até parece.
Ele gargalhou de um jeito que prendeu o meu olhar.
— Linda, se eu já tivesse cantado você, não estaríamos aqui nesse sofá assistindo filme. — Lançou-me um olhar diferente e eu tentei esconder o rebuliço no estômago.
— Sim, com certeza — disse ironicamente. — Porque eu já teria te colocado para fora da minha casa.
Harry riu e se aproximou de mim, deixando seu rosto muito perto do meu.
— Você sabe o que eu quis dizer, . Sei que é mais esperta do que isso. — E piscou o olho esquerdo, afastando-se em seguida.
Eu entreabri os lábios, por onde saiu um suspiro surpreso, ao mesmo tempo em que a minha risada indignada preencheu o cômodo.
— Você é um bobo! — Bati fraquinho em seu braço.
— E você me ama exatamente assim. — Abraçou-me e me derrubou no sofá. Isso fez com que ficássemos deitados um do lado do outro. — Não ama?
Sua pergunta soou no meu ouvido. Eu estava com a barriga virada para o teto, com as pernas dobradas em cima das pernas de Harry, que estava de lado virado para mim, com um braço embaixo das minhas costas e o outro por cima, em um abraço apertado. Resumindo: estávamos uma bagunça, mas muito próximos. Eu virei minha cabeça para a TV, sentindo que a respiração dele batia no meu pescoço e toda a situação estava me deixando nervosa.
— Talvez. — Eu dei uma risadinha que mais pareceu um engasgo.
Ele, sem falar nada, começou a desenhar círculos por cima da minha camiseta, sobre a minha barriga, e eu me perguntava se ele conseguia ouvir o meu coração frenético.
Minha respiração passou a ficar mais acelerada e logo reparei em duas coisas: a primeira era que Harry não conseguia ver o filme daquela forma, pois a única visão que ele tinha era do meu pescoço e ele parecia ok com isso. A segunda, e talvez a mais importante, era que eu podia sentir o seu coração e ele batia como se Harry tivesse corrido uma maratona inteira.
Já não sabia mais o que acontecia no filme, mas não me importei. Acabei me virando sobre o seu braço, ficando de frente para ele num ato corajoso que nem mesmo eu soube de onde tirei. Sua expressão surpresa me deixou um pouco tímida, mas logo ele ficou sério novamente, abraçando-me mais apertado.
Nossas pernas se entrelaçaram uma na outra de alguma forma que eu pensei ser humanamente impossível, então estávamos em uma posição ainda mais íntima do que a anterior. Umedeci meus lábios, estranhamente secos mesmo depois de passar o dia inteiro bebendo água e reparei que Harry fez a mesma coisa por puro reflexo. Era como se fôssemos nos beijar.
Seus dedos subiram da minha barriga até o meu rosto, onde ele acariciou como se fosse a coisa mais importante do mundo para ele e eu me senti amada. Suspirei com aquele carinho, fechando os olhos, e por instinto agarrei a camiseta de Harry. Ele soltou a respiração de forma pesada, então ficamos assim por longos minutos, até que, ainda com os olhos fechados, senti seu nariz no meu em um beijo de esquimó.
Um riso fraco saiu por entre meus lábios, que Styles imitou com o seu próprio riso bobo, de modo que os nossos sorrisos permaneceram em mim e nele. Eu abri meus olhos, encarado os verde escuros na pouca iluminação da sala, recebendo sua total atenção nos meus castanhos. Eu podia ouvir meu sangue correndo forte e nada lá fora chamava a nossa atenção. Aquele momento era nosso.
Permanecemos assim por longos minuto, ambos em silêncio, até que, em algum momento, não sei exatamente quando, eu acabei dormindo. Acordei muito tempo depois, sozinha. Quando entreabri os olhos, suspirei frustrada, porque eu achava que era a única pessoa no mundo a dormir num momento daquele. Ri de mim mesma, achando graça da situação, e encontrei um bilhete dele sobre minha barriga. Era um post-it que estava colado na minha camiseta e ele dizia a seguinte frase:

“Você estava bonita demais dormindo e eu não quis te acordar, mas precisei ir. Vou sentir sua falta, princesa. Te ligo depois. Amo você, xx!”


Sorri, suspirando quando terminei de ler e guardei o bilhete no meu quarto. Assim que me deitei na cama, eu tampei meu rosto com o travesseiro, deixando minhas pernas balançarem no ar. Eu estava completamente ferrada.

[...]


A semana seguinte foi tranquila, sem muito trabalho para fazer, mas todas as vezes em que eu chegava no escritório, eu me lembrava de algo muito importante: ainda não tinha avisado que Harry havia voltado. O que fazia com que eu me sentisse culpada e uma amiga horrível, porque ela, mais do que ninguém, merecia cada detalhe do que estava acontecendo entre nós dois.
Aproveitando a manhã sem prazos, eu disquei o ramal dela, pedindo que viesse até a minha sala, onde ela, diga-se de passagem, adorava ficar. Sorri quando recebi a sua resposta afirmativa e sem delongas ela apareceu, sem bater, entrando feito um furacão. Como sempre fazia.
— Posso trancar? — Apontou para a porta.
— Deve. — Arqueei as sobrancelhas, em seguida bebendo um pouco de água.
fechou a porta de uma forma muito empolgada e logo se sentou na minha frente. Inclinou-se sobre a minha mesa e se arrastou na poltrona para que pudesse ficar mais perto.
— Manda — disse potente.
Eu ri, porque ela me conhecia melhor do que ninguém. Eu até poderia dizer que me conhecia melhor do que Harry, mas aí eu estaria arriscando muito, então eu diria que era por esse motivo que os dois eram os meus melhores amigos. Eu tomei fôlego antes de falar:
— Harry voltou para casa.
Não estava esperando pelo grito que recebi dela e logo estava pulando pelo escritório. Eu gargalhei com a cena, colocando o dedo indicador em frente aos meus lábios, pedindo para que fizesse silêncio. Em seguida, alguém que, provavelmente, havia escutado os gritos dela, bateu na minha porta.
— Está tudo bem! — respondi de volta e ouvi a pessoa se afastar novamente.
voltou correndo para a poltrona com os olhos arregalados.
— Mentira! — sussurrou gritando. Se é que isso fosse possível.
— Sim. Faz alguns dias, acho que duas semanas...
— Duas semanas e você só veio me dizer agora? — Fez uma cara de brava, mas que não durou muito. — Não importa... E aí? O que aconteceu?
— Nossa, muita coisa. — Passei as mãos pelos cabelos, ajeitando-os.
Ela agitou as mãos e riu de uma forma engraçada e muito animada, arrancando-me uma risada.
— Não acredito que finalmente chegamos a esse assunto. — Respirou fundo e gesticulou rapidamente. — Fala logo, garota!
— Então — eu comecei e expliquei tudo o que havia acontecido nesses últimos dias. E a cada palavra que eu dizia, sua expressão se tornava ainda mais cúmplice. — E ainda não nos vimos desde então... Estava pensando em ir hoje à casa dele.
— Garota, vai com tudo! — Bateu na mesa, eufórica. — Sério. Eu sei que você vai, provavelmente, negar isso, mas eu tenho certeza de que tem mais do que amizade aí. Certeza absoluta.
Eu revirei os olhos, rindo, mas não neguei. Também não afirmei. A verdade era que eu também desconfiava, mas ainda não me sentia pronta a admitir.
— Você mesmo disse que ele está te tratando diferente. E sabe quem age assim? Eu e Bryan. Meu noivo, . — Ela arregalou os olhos, dando ênfase. — Confia em mim quando eu digo que é só questão de tempo para ele tascar um beijo nessa tua boca. — Inclinou-se para trás, cruzou as pernas e olhou as unhas em uma ação debochada. Depois, apontou para mim. — Ou você tascar um beijo nele, né... Nunca duvidei de você, amiga.
Arremessei um papel amassado nela, que bateu em sua testa e caiu no chão. nem se deu o trabalhar de pegá-lo, estalando a língua como se estivesse com preguiça demais para fazê-lo.
— Não sei o que está acontecendo com a gente, mas eu tenho certeza de que não somos os mesmos de seis anos atrás, sabe, ? — Repuxei o canto dos lábios.
— Obviamente — ela disse. — Vocês estão mais maduros, empregados... Solteiros.
Eu ri.
— Também estávamos solteiros na época.
— É, eu sei. — Suspirou. — Mas na época vocês ainda tinham a questão hormonal, o que confunde bastante, sabia? Agora as coisas estão mais claras e é bem mais fácil de distinguir o que é desejo e o que é paixão. No caso, vocês podem ter os dois, mas já sabem diferenciar. Eba!
Eu apoiei minha cabeça sobre as mãos, as quais estavam em cima da mesa, e choraminguei. estava certa e eu me lembrei do meu primeiro beijo. Eu havia gostado, Harry havia gostado, mas não era como se estivéssemos apaixonados um pelo outro, nem como se pensássemos em fazer isso antes de acontecer. Agora a única coisa que eu pensava, com clareza, quando estava com ele, era em beijá-lo.
— Tenho medo de estragar a nossa amizade — murmurei melancolicamente, tirando uma risada de , o que me fez rir também. — O que é?
— Amiga, vocês ficaram separados durante seis anos e em duas semanas voltaram a se falar como se tivesse sido seis dias, não anos. — Começou a se inclinar novamente. — Acha mesmo que um beijinho vai acabar com a amizade de vocês? Faça-me um favor, ...
E aquilo bastou para mim, porque tinha razão: um beijinho não iria nos afastar. Mas... Eu queria só um beijinho de Harry?

[...]


Mais tarde, naquele mesmo dia, eu decidi que iria até a casa de Harry. Ele começava a trabalhar antes de mim, por consequência, chegava mais cedo em casa e eu pretendia ir direto para lá. Precisava conversar com ele sobre tudo o que estava acontecendo e antes que perdesse a coragem eu o faria logo.
Estacionei o carro na garagem e, sem pegar minhas coisas, eu simplesmente desci e fui direto para a casa da frente. Sem delongas, eu toquei a campainha e fui recebida por Anne, que sorriu ao me ver.
, querida, entre. — Deu-me espaço para que eu pudesse adentrar o hall, então me cumprimentou com um abraço. — Quer que eu chame o Harry?
— Ah, não, não. — Neguei educadamente. — Vou subir direto, não precisa chamar.
— Certo, então. — Ela sorriu. — Vou preparar um lanche para vocês. Harry chegou faz pouco tempo. Você também? Está toda arrumada...
Eu ri e afirmei.
— Sim, vim direto. Precisava falar com ele.
Anne concordou e então apontou para a cozinha.
— Vou indo lá. Depois nos falamos, querida.
Então eu segui caminho pela escada, sabendo exatamente onde ficava o quarto dele. De repente, lembrei-me que era a primeira vez que eu colocava os meus pés lá depois de todo o tempo que passamos separados e aquilo me deixou nervosa. No entanto, era tarde demais para mudar de ideia. Respirei fundo e dei três batidas na sua porta, recuperando um pouco da confiança.
Ela, no entanto, esvaiu-se rapidinho quando a porta fora aberta, pois ali, na minha frente, estava Harry. Não só ele. Quer dizer, era só ele. Mas ele estava em sua versão pós banho, ou seja: nu da cintura para cima. Imediatamente, seus olhos se arregalaram pela surpresa e eu me virei, soltando uma exclamação envergonhada.
Ouvi sua risada alta e logo fui virada novamente para ele.
— Meu Deus. — Eu ri nervosamente. — Desculpa, não pensei que tivesse recém saído do banho. — Desviei meu olhar para qualquer lugar que não fosse Harry. Meio nu. Com os cabelos molhados.
Entenda, eu não era uma mulher acostumada a ver muitos peitorais nus na minha frente. Então era entendível minha reação. Principalmente em frente a ele.
... — ele me chamou, atraindo a minha atenção para seus olhos. — Está tudo bem, mesmo... Não é como se você nunca tivesse me visto assim. — E riu como se fosse a coisa mais normal no mundo. Em seguida, ele me deu passagem e fechou a porta quando entrei no seu quarto. — Deixou o carro em casa?
Reparei quando ele tentou mudar de assunto, deixando-me mais à vontade. Não totalmente, mas já era um bom começo.
Hum, sim — afirmei ainda meio estranha e me sentei na sua cama.
Harry logo vestiu uma camiseta e eu reparei que em sua pele havia quase o dobro de tatuagens a mais do que na última vez em que havia o visto assim. Há muito tempo. Assim que vestiu a camiseta, ele pegou a toalha que estava sobre a cadeira da escrivaninha e esfregou-a nos cabelos molhados. Ao mesmo tempo, ele me olhou, como se me encorajasse a falar alguma coisa.
Remexi-me sobre a cama e pigarreei.
— Como foi a semana? — perguntei para quebrar o silêncio.
Ele riu soprado, provavelmente achando engraçada a situação.
— Foi tranquila — respondeu ao recolocar a toalha na cadeira. Bagunçou os cachos e, desse jeito mesmo, eles ficaram perfeitos. — Pensei que seria mais agitada, mas é bom que esteja assim. — Aproximou-se de mim, privilegiando-me com o seu perfume. — E a sua? Veio direito do trabalho para cá?
Ele se sentou ao meu lado, dando-me um beijo na bochecha que pareceu mais demorado do que o normal. Reparei, depois, que Harry me examinou com interesse contido, mas logo encarou o meu rosto, disfarçando que, segundos atrás, havia me secado com os olhos.
— Também foi tranquilo. Final de mês, né? — disse simplesmente e ele concordou comigo. — Vim direto do trabalho, sim.
— Ficou com saudades? — zombou e pegou a minha mão, colocando-a entre as suas.
Eu ri antes de responder:
— Também. — Pendi a cabeça para o lado, numa expressão que eu esperava ter sido adorável. — Mas eu precisava conversar contigo — ele afirmou e pareceu atento em mim.
Sua expressão dizia: pode falar. Mas, inexplicavelmente, meus lábios congelaram e minha língua travou no caminho. Uma sobrancelha dele se ergueu, indagando-me o que estava acontecendo. Céus. Eu tinha travado total.
Inicialmente, ele riu, mas quando me viu séria ele estreitou os olhos.
? — Ele se aproximou, parecendo mais preocupado.
— Uh... — resmunguei e, em um rompante, levantei-me da cama.
Como se estivesse enlouquecendo, comecei a andar de um lado para o outro, hiperventilando. Minhas mãos tremiam, suavam e eu sentia o peito doer, como se algo estivesse comprimindo meus pulmões. De duas, uma: ou eu estava morrendo de ataque cardíaco, ou estava tendo um ataque de pânico.
Harry percebeu imediatamente e pulou da cama, aproximando-se rapidamente de mim. Como se soubesse exatamente o que fazer, ele me abraçou por trás, criando um casulo em volta de mim, e apertou-me tão forte entre seus braços que a única coisa que eu pensava era em como eu poderia sair dali e fugir para qualquer lugar.
Sem perceber, minha respiração foi se acalmando, eu fui relaxando e em questão de segundos eu deitei minha cabeça para trás, em seu peito, prestando atenção nos seus batimentos ritmados. Harry estava calmo e eu o admirei por isso. Então, como se não bastasse, ele começou a cantar. Sua voz soava baixinha e a música dizia “put your head on my shoulder”. Automaticamente, eu sorri, suspirando fundo.
Não soube quando, mas segundos depois, estávamos nos embalando no meio do quarto. Harry ainda me abraçava por trás, ainda era apertado e eu ainda estava um pouco agitada, mas aquilo ia, aos poucos, acalmando-me mais e mais. No fim da música, era como se eu tivesse tomado alguma coisa para relaxar e sua voz soou, calma, no meu ouvido:
— Está melhor? — Eu balancei a cabeça para frente e para trás, afirmando, bagunçando meu cabelo na sua camiseta. — O abraço diminui a pressão arterial, diminui a frequência cardíaca e relaxa o corpo. Tivemos uma aula sobre isso na cadeira de psicologia — explicou baixinho. — Está mesmo melhor?
— Sim. — Respirei fundo, não querendo que ele me soltasse. — Foi a primeira vez que aconteceu isso comigo, céus... Pensei que fosse morrer.
Ele riu, bagunçando meus cabelos atrás da orelha com a sua respiração.
— Que bom então que não morreu. — Apertou-me um pouco mais. — Fiquei apavorado, dona .
Eu sorri, levando minha mão ainda dormente para trás, até tocar em seus cabelos úmidos. Continuávamos dando um passo para lá e outro para cá, como se uma música soasse no quarto e dançássemos ao som dela.
— Estou bem agora. Obrigada por isso. — Fiz um carinho nele, sentindo sua cabeça repousar na minha palma, o que aqueceu o meu coração.
Ficamos em silêncio por alguns minutos, apenas aproveitando daquele momento e em seguida me lembrei das palavras de . Fechei os olhos com força, torcendo para que não ganhasse outro ataque de pânico, então ouvi Harry sussurrando:
— Não quero te largar.
Nossos passos, imediatamente, estagnaram. Nós dois percebemos, mas ninguém falou nada sobre isso.
— Não me larga — pedi baixinho, torcendo para que ele tivesse me escutado.
Três segundos depois, fui virada delicadamente, ficando de frente para ele. Minha testa batia em seu queixo, o que me obrigava a olhar para cima. Mas eu não via isso como um problema, muito menos quando Harry segurava meu rosto entre suas mãos, da mesma forma que ele fazia naquele instante. Como se não fosse o suficiente, ele se aproximou ainda mais, resvalando o nariz no meu, então ele fez caminho até a minha bochecha.
— Por que o seu cheiro é tão bom? — perguntou-me como se quisesse saber há muito tempo.
— Acho que você está sentindo o seu — respondi, arrepiando-me quando ele desceu até meu pescoço.
— Acho que estou me tornando um viciado. — Voltou com o rosto até que seus lábios beijassem a minha bochecha. — Em tudo isso.
Eu soltei um suspiro surpreso e agarrei seus pulsos. Não sabia até quando poderia me sustentar nas minhas próprias pernas.
— Haz... — chamei-o pelo apelido, como se quisesse falar algo.
— Hum? — Suas sobrancelhas se estreitaram quando me ouviu, então entreabriu os lábios, encostando-os, superficialmente, nos meus.
— O que... — comecei ao sentir o seu hálito fresco na minha pele. — O que é isso?
Ele travou a mandíbula e eu percebi que ele iria se afastar quando ouviu a minha pergunta. Mas eu fui mais rápida, segurando os seus pulsos com mais força para que não me soltasse.
— Não. Não vai — pedi em sussurros e vi em seu olhar um pedido mudo para que eu não fizesse isso. — Por favor — insisti e ele permaneceu ali do mesmo jeito. — Só... Me responde.
Com um suspiro pesado, ele respondeu:
— Não sei. — Encostou um pouco mais os lábios no meu, até que eu sentisse o movimento deles ao falar. — Não sei por que fico sentindo isso. Queria saber também.
Eu engoli a seco, sentindo como se todo o meu interior pegasse fogo.
— Você também sente isso? — perguntou para mim. Eu balancei a cabeça, afirmando. — Fala. Eu quero ouvir você falando.
— Sim. — Minha voz saiu um pouco mais rouca, mas eu não me importei. — Eu sinto isso também.
Ele suspirou novamente, como se isso o acalmasse.
— Não sei o que fazer — confessou.
— Pode fazer o que quiser. Você sabe que pode — arrisquei, torcendo para que ele entendesse.
Harry riu soprado e vi quando sua língua se remexeu dentro da boca de forma irônica.
... Se você soubesse o que eu quero fazer, não me pediria isso. — Percebi que ele me empurrava com delicadeza para trás, até eu sentir minhas costas batendo na porta do quarto. — Quando foi que você se transformou nessa mulher? Hein?
Um arrepio cruzou pelas minhas costas e eu gostei de ouvi-lo dizendo isso. Era como se ele me empoderasse e, consequentemente, aumentasse o meu ego, trazendo-me coragem e poder.
— Eu me sinto mulher quando estou com você — segredei.
Uma de suas mãos escorregou para a minha cintura, apertando ali.
— Você sabe como aumentar o ego de um homem. — Ele riu sem humor, e seus olhos brilhavam ao olhar minha boca. — Quero fazer uma coisa — ele disse de repente e meu coração pulou, preparando-se. — Não sei se vou aguentar mais tempo.
— O que você quiser.
Então, quando achei que ele fosse me beijar, alguém bateu na porta.
— Harry, filho, trouxe um lanchinho para vocês! — Era Anne e ela soava animada. Coitada, se soubesse o que estávamos prestes a fazer, desceria em um segundo.
Harry, no entanto, correu para longe de mim, assustado. Eu podia ver que ele estava pálido e ofegante, mas eu tinha certeza de que estava pior. O nó na minha garganta me impedia de falar alguma coisa, então eu arregalei os olhos como se dissesse “atende a droga dessa porta”. E foi o que ele fez.
Passou a mão pelos cabelos, sorriu forçado e pegou a bandeja, mandando sua mãe embora apenas com o olhar, exatamente nessa ordem. Mas eu não estava mais com fome e não sabia se conseguiria ficar ali por mais algum tempo.
Assim que ele trouxe a bandeja para dentro do quarto, eu suspirei e disse:
— Acho que preciso ir. — Procurei pelo meu celular, mas ele não estava em lugar nenhum.
— Não — Harry pediu, largando os lanches sobre a mesa do computador. — Por favor. Vamos conversar antes.
Olhei ao redor, ainda procurando pelo aparelho.
— Eu... Podemos conversar outra hora? Por favor. Acho que não vou conseguir falar nada agora. — Implorei com os olhos, então Harry fechou os dele, frisou os lábios e assentiu contra a sua vontade.
— Certo — ele disse quando voltou a me encarar. — Mas precisamos conversar sobre isso.
— Tudo bem. — Assenti, sentindo as minhas mãos tremerem.
Dei mais uma olhada pelo quarto antes de ouvir ele me chamando mais uma vez.
— E, ... — Apoiou-se no batente da porta ao cruzar os braços. Seus bíceps pareciam maiores daquela forma. — Você não trouxe o seu celular.
Lembrando que havia deixado minha bolsa no carro, eu concordei, suspirando envergonhada antes de me despedir com um aceno ao sair pela porta, passando ao lado dele e levando seu cheiro comigo.


Continua...



Nota da autora: Sim, eu demorei horrores para atualizar, mas juro para vocês que tentei postar antes. Bom, de qualquer forma, estou aqui e MUITO feliz com esse capítulo, porque o próximo é de MORRER! Espero que gostem e comentem MUUITOOO, porque eu surto com cada um de vocês. Prometo responder cada comentário e doar um pouquinho do meu amor para vocês. Beijos, beijos e até a próxima! Obrigada por tudo, vocês são demais mesmo! <3

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