Última atualização: 11/11/2018

Capítulo 1

— Veja só, . Eles estão comparando você a princesa mais bonita da história! Isso não é promissor?
Christine Bryant sacolejava a última edição da British Vogue diante do rosto de . A mais velha parecia realizada com o feito da sua pupila enquanto a própria não demonstrava mais do que desinteresse pelas páginas que eram empoleiradas diante dos seus olhos maquiados.
estava exausta. A noite anterior fora preenchida por um desses eventos chatos onde a sua presença rendia alguns zeros a mais para a sua conta bancária e intensificava as dores de cabeça precoces que vinha tendo há meses. Tudo que menos queria era ver seu rosto estampado em mais uma revista junto de um slogan típico e insignificante.
Faria 21 anos em algumas semanas e sentia como se não tivesse vivido nada que uma garota da sua idade tinha de viver. tinha tudo que grande parte dessas garotas almejavam, mas, olhando de dentro, era tudo mais oco e desinteressante do que aparentava aos olhos ingênuos.
Por fim, mesmo a contragosto, agarrou a revista com uma das mãos e deixou que ela caísse em seu colo quando sua empresária, tomada pelo mais puro entusiasmo, saiu do camarim soltando exclamações satisfeitas.
Uma muito maquiada sorria na capa — acompanhada da manchete "Seria a nova rainha da beleza? Teria da realeza uma sucessora?" — e, quando a real examinou a expressão completamente artificial que a primeira reproduzia na capa, perguntou-se como ninguém enxergava a mentira que berrava naquele molde padrão de capa de revista.
Nem de longe aquele era um sorriso sincero, não fazia sentido que enganasse a tantas pessoas. Talvez, no fundo, realmente não enganasse e as pessoas só estivessem preocupadas de menos com aquele detalhe.
Foda-se se a modelo está realmente feliz, o que importa é que está fazendo o seu trabalho e enchendo os nossos olhos com essa disseminação elitista do padrão de beleza que destrói a autoestima de tantas jovens.
suspirou profundamente e colocou a revista na prateleira da penteadeira a sua frente, empurrando alguns produtos de beleza e maquiagem que estavam espalhados pela superfície branca.
— Ei, bonitinha! — o homem que arrumava os cabelos enegrecidos da modelo reclamou com a voz afinada. — Essas bases são caras e se você quebrar qualquer uma, serei eu quem terei que vender um rim para comprar outra.
acompanhou com o olhar nublado quando ele largou seus cabelos e saltitou para reorganizar os produtos que o desleixo da garota havia derrubado.
— Desculpe — disse ela, os lábios estreitos em uma linha fina.
O homem retornou para seus cabelos segundos depois, sem dizer nada, e precisou reencontrar a figura de cabeça amarela através do reflexo do espelho onde várias lâmpadas adornavam a moldura branca. No meio do caminho vislumbrou o seu rosto maquiado, os lábios vermelhos e brilhantes berrando na sua face pálida e contrastando com os olhos azuis vívidos, mas evitou passar tempo demais observando aquela versão demasiadamente produzida de si mesma. Não apreciava os pensamentos que lhe corrompiam quando isso acontecia.
— Você quer dar o fora daqui, não é?
piscou quando a voz mais afável do homem alcançou sua audição. Ele revezava a atenção entre o rosto dela, através do espelho, e o coque impecável que montava em cima da sua cabeça.
— Como você...?
— Qualquer pessoa mais observadora é capaz de perceber — ele respondeu antes mesmo que terminasse de formular a pergunta. Os lábios da morena se partiram em surpresa e ela mexeu a boca sem saber o que falar. — Não se preocupe em explicar. Vendo de perto consigo entender o motivo. Na verdade, acho que todos veem e apenas não têm a sensibilidade de demonstrar.
não soube bem porquê, mas sorriu, mesmo que a forma como seus lábios se repuxaram fosse fria e vazia de humor.
— Eu me sinto vazia — confessou em voz baixa, alguns segundos depois de uma breve reflexão.
O maquiador finalizou o coque e depois espalhou spray fixador nos fios. suspeitou que não tivesse escutado sua pequena confissão e engoliu em seco, concluindo que foi melhor assim.
Mas o homem a surpreendeu quando, depois de lançar um olhar satisfeito para o próprio trabalho, puxou-a pelas mãos e fez com que ficasse de pé.
— Ninguém merece se sentir vazio, querida — ele sorriu, compreensivo, e a ponta dos seus dedos deram base para o queixo da garota. sentiu a vista embaçar. Sua respiração se tornava gradualmente mais pesada. — Se algo não te faz feliz, apenas tire da sua vida. Se isso tudo não te faz feliz, apenas dê o fora.
riu, a cabeça balançando em negação. Estava prestes a explicar que aquilo não era possível, que não podia jogar tudo para o alto quando tantas pessoas contavam com ela. Sua mãe e sua empresária, principalmente.
Mas o barulho da porta abrindo barrou as intenções da modelo e fez com que ela buscasse o responsável pela interrupção por cima do ombro.
Seu segurança particular, dentro de um dos seus tantos ternos negros, estava com uma mão na maçaneta e com a outra posicionada atrás do corpo de musculatura proeminente.
Ele olhou de para o maquiador em dúvida e, então, ao voltar para ela, arrumou a postura e avisou:
— Todos a esperam no estúdio.

Sentia-se estúpida e sem valor diante de todas aquelas câmeras e dos olhares admirados que enquadravam seu rosto.
Nada mais era que um editorial para uma marca de cosméticos, mas para se assemelhava muito a uma tortura, como se fosse o prato principal de um banquete. A posição afetada onde suas mãos emolduravam seu rosto só tornava tudo aquilo ainda mais incômodo.
Era tudo tão frio e artificial, que a garota se questionava se não estava, na verdade, na presença de robôs monitorados pelo parlamento inglês. Não que o parlamento tivesse interesse na sua figura, sua mente é que não tinha limites para a criatividade.
Mas todos eram tão ridiculamente iguais em vestimentas e em gestuais que não tinha como refrear os pensamentos de adentrarem um limbo de questionamentos. Cabelos impecavelmente arrumados, roupas de cores neutras e clínicas, e gesticulares discretos. Tudo perfeitamente equilibrado.
Não fosse pelo rapaz de terno escuro que comia uma maçã no canto da sala e destoava de toda a neutralidade do estúdio. Ele encarava os sapatos sociais cintilantes que calçavam seus pés como se nada naquele ambiente fosse mais interessante do que eles.
podia arriscar que realmente não era.
Qualquer coisa parecia mais atraente que assistir aquele circo refinado que montaram em volta dela.
Perguntou-se se o seu segurança pessoal almejava sair daquele lugar tanto quanto ela mesma. Então, de forma repentina e inesperada, enquanto ainda estava distante da realidade, um flash a cegou, apagando a visão do engravatado enfadado com uma mancha esbranquiçada, e fez com que seus ouvidos zumbissem.
fez uma careta e cobriu as orelhas com as mãos. Agonizou durante alguns instantes com os olhos fechados até que sentiu mãos envolverem seus pulsos e afastarem seus braços.
, o que houve? Você está bem? — reconheceu a voz de Christine e por isso abriu os olhos. Respirava com dificuldade quando enquadrou de forma nublada o rosto preocupado de sua empresária. — , diga alguma coisa.
olhou para além da mulher e viu todos dentro do estúdio assistirem sem ao menos piscar sua pequena crise. Na verdade, o que entendia como o princípio de uma crise de ansiedade. Distúrbio que ela adquiriu há cerca de dois anos e em raras ocasiões dava as caras.
Depois de tantos pensamentos negativos não era surpresa que seu sistema nervoso decidisse responder da pior maneira. Sentiu suas bochechas arderem em constrangimento.
A garota se livrou do toque da empresária de forma rude, sua respiração perdendo o compasso e tornando-se cada vez mais ofegante. Arrastou as mãos pelo vestido justo onde foi colocada e sentiu as pontas dos dedos dos pés pinicarem dentro dos escarpins.
— Eu preciso sair daqui — confidenciou para a empresária, de forma vaga e com certo desespero. A mulher levou alguns segundos para rir com incredulidade.
Olhou para trás rapidamente, com medo de que alguém tivesse escutado as palavras da pupila, e, quando voltou para , foi determinada.
— De onde tirou essa ideia descabida? — indagou, olhando-a com uma firmeza afiada. — Sabe que é impossível. Você assinou um contrato que precisa cumprir e está protagonizando um dos editoriais que prometem ser os melhores do ano.
— Eu não me importo — balançou a cabeça e seus olhos ficaram úmidos. — Eu não aguento mais, Christine.
Christina estava pronta para rebater , mas o editor responsável pelo editorial se aproximou de forma afoita. Ele retirou os óculos de grau e eles penderam em uma corda que envolvia seu pescoço. Segurava alguns papéis e parecia impaciente enquanto os apertava fortemente com os dedos.
— O que está acontecendo, Christine? — olhava para , mas perguntou para a empresária.
Eles sempre perguntavam para a empresária.
Como se não existisse. Como se não tivesse voz e pudesse responder por si mesma. Como se tudo que importasse àquelas pessoas fosse sua aparência, e sua palavra fosse dispensável.
apenas teve uma tontura, Leclair — Christine respondeu o homem, mas fuzilava de forma ameaçadora. — Nada que respirar um pouco não resolva. Não é mesmo, querida?
Leclair soltou uma exclamação indignada e desceu os olhos pela figura franzina de como se ela fosse um bichinho malcriado.
— Alguém traga água para a garota! Temos um editorial a terminar! — berrou para todo o estúdio e foi o suficiente para que tudo se transformasse em uma caótica busca por um copo de água. Todos ali dentro queriam agradar aquele homem mais que tudo.
Ele sacudiu a mão no ar com desdém, como se considerasse todas aquelas pessoas e a forma como o bajulavam ridículas, e se afastou em sua postura vaidosa.
estava a ponto de chorar.
Sua empresária não colaborava enquanto repetia próxima demais do seu ouvido como aquele trabalho era importante, como aquela capa colocaria seu nome em maior destaque no meio da moda fotográfica. Fazia carinhos persuasivos no seu rosto e nos seus braços, afirmando que a garota não podia desistir, que seria uma atitude completamente irresponsável e egoísta.
Todos ali contavam com ela, era o que a mulher dizia.
sabia disso como ninguém e sentiu uma culpa avassaladora se misturar com o desejo de sair dali.
Quando tantas garotas gostariam de estar no seu lugar, como ela não estava satisfeita?
Perguntou-se se o problema era com ela, se era mal-agradecida e pouco profissional. Talvez aquele não fosse o princípio de uma crise de ansiedade, mas de uma dessas crises de estrelismo que via tantos tabloides noticiarem sobre outros artistas.
Era uma mistura destruidora de sentimentos que avançavam pelas terminações nervosas e pela corrente sanguínea de . E foi quando a primeira pessoa apontou com um copo de água que a primeira lágrima escorreu por sua bochecha.
Estragaria a maquiagem se chorasse, pensou por um segundo, antes de agarrar o copo que lhe foi direcionado com a mão trêmula.
levou o plástico até a boca, bloqueando a voz de Christine, e, quando bebericou do líquido transparente, chegaram mais pessoas com copos de água para ela.
afastou o copo dos lábios, assustada com o amontoado de pessoas que se colocaram à sua volta, e em um piscar de olhos alguém o tirou da sua mão e tentou empurrar outro no lugar. Ela não respondeu ao estímulo e o plástico foi ao chão, derramando todo o líquido transparente no assoalho de madeira branca.
soltou uma exclamação muda, cobrindo a boca com os dedos finos de unhas compridas.
Christine se afastou e, quando a modelo percebeu, uma confusão crescia ao seu redor. A empresária passou a esbravejar com os jovens estagiários que assediavam há poucos segundos enquanto os mesmos tinham coragem o suficiente para responder a mais velha com tons de vozes elevados.
se assustou quando uma auxiliar de limpeza se agachou nos pés dela e deu um pulo para trás. A mulher não disse nada, na verdade, mal olhou para ela, e começou a secar o chão.
sentiu outras lágrimas riscarem sua pele e olhou para os lados sem saber o que fazer. Sentia-se no olho de um furacão devastador, mesmo que isso parecesse exagero da sua parte. E em meio a uma busca incerta e aflita encontrou um par de olhos escuros que a observava com atenção logo abaixo de sobrancelhas grossas franzidas e de uma testa com vincos.
deu um passo para trás e seus lábios se partiram. Ela não sabia o que dizer ou como dizer. Mas não esperava que não fosse preciso, muito menos que dois segundos fossem o bastante para o garoto no terno atravessar o estúdio e chegar até ela.
— Por favor, me tira daqui — sussurrou sem pensar quando a figura masculina a alcançou, encarando as orbes negras que a fitaram por entre cílios espessos e apertando os braços largos cobertos por camadas de tecido.
O segurança sequer assentiu antes de se livrar do seu toque desesperado para agarrar um dos seus antebraços. E apenas se deixou ser levada dali. Mesmo que não fizesse ideia de para onde.


Capítulo 2

sabia poucas coisas sobre o rapaz que estava sentado na sua frente.
Sabia que se chamava , que não tinha mais do que vinte e poucos anos e que era alguém monossilábico. Nunca vira ele sem o terno escuro e nunca trocaram mais do que duas palavras.
Sabia que era um bom observador, não apenas porque aquele era o seu trabalho e estava constantemente com as vistas sobre , mas porque, dentre todas as pessoas que estavam naquele estúdio, ele foi o único a perceber que ela estava prestes a perder o controle.
se surpreendeu quando ele correu com ela pelas escadas de incêndio e engoliu o ar quando ele abriu a porta e rajadas de vento violentas a cumprimentaram. Seus poros eriçaram pelo contato repentino com a brisa fria e nos seus olhos transcorreu a compreensão de que o topo do prédio da editora seria o seu refúgio.
Olhou para um tanto quanto embasbacada e sua respiração se tranquilizou um pouco quando encontrou a imensidão azul do céu acima de si.
Seus problemas pareceram pequenos e insignificantes diante daquela infinitude esfumaçada.
Com alguns passos tímidos, depois de lançar mais uma olhadela insegura, mas agradecida, para o segurança, andou pelo piso de concreto e alcançou uma superfície elevada ao chão onde sentou. Parecia um tipo de reservatório, mas a modelo achou por bem usar como um banco improvisado, suas pernas ainda não estavam perfeitamente firmes.
Havia uma estrutura semelhante na sua frente e foi onde se apoiou, antes de cruzar os braços e as pernas. Ele não olhou para por mais do que dois segundos e virou o rosto para o lado para fitar o horizonte.
Ela percebeu que ele estava tentando oferecer-lhe algum tipo de privacidade. Mas apenas de se ver fora daquele estúdio, dos holofotes e das lentes das câmeras, já se sentia mais calma. Sua respiração já acontecia de forma mais ritmada e seus pulmões trabalhavam da maneira correta.
— Eu agradeço imensamente por ter me tirado do estúdio. — murmurou para o rapaz, chamando a atenção dele, depois dos segundos que usou para criar coragem. Abraçou o próprio corpo quando as íris escuras encontraram as suas de forma intensa e suas bochechas arderam constrangidas. — Eu teria uma crise de ansiedade se você não tivesse me tirado em tempo.
arqueou uma das sobrancelhas e seus lábios se repuxaram para o lado em um sorriso discreto.
apenas entendeu sua reação quando ele falou:
— Temo dizer que a senhorita já estivesse tendo uma crise de ansiedade.
Ok. Não tão monossilábico, então.
piscou algumas vezes, pega de surpresa pela sinceridade — ou atrevimento, depende do ponto de vista — do segurança.
— Como?
— Peço perdão se soar invasivo ou indelicado, — ele continuou, com demasiada tranquilidade, sem sequer desviar os olhos com embaraço ou hesitação — mas posso jurar que seu rosto estava mais pálido do que o padrão e seus olhos maiores do que normalmente são. Não foi difícil chegar a conclusão de que em instantes cairia dura ali mesmo enquanto ofegava daquele jeito.
As bochechas de estavam tão vermelhas que pareciam ao ponto de explodir.
Ela não soube o que dizer. Não achou que o segurança foi ofensivo ou até mesmo indelicado, mas se viu completamente assustada, pela segunda vez, pela honestidade dele.
Ele nem mesmo piscou enquanto lhe falava todas aquelas coisas.
E, por mais estranho que fosse, não estava acostumada com aquele nível de sinceridade para ela. Era tratada de forma cuidadosa e teatral pelas pessoas do seu círculo social, com bajulações excessivas e elogios falsos.
Então, ao invés de buscar formas que não fossem bobas e constrangedoras de respondê-lo, a modelo molhou os lábios e deixou que o olhar intimidade transcorresse pela figura larga e imponente do rapaz.
Como segurança, não era de se surpreender que sua estatura fosse tão elevada, mesmo que fosse poucos centímetros maior que , e que tivesse o peitoral tão expansivo. A camisa branca e o blazer escuro limitavam a visão da garota, mas isso não a impediu de imaginar os gominhos que aquelas peças cruelmente escondiam. Os braços cruzados do homem tornavam aquela região ainda mais proeminente e percebeu como suas mãos eram grandes.
Desceu um pouco mais e, depois de esbarrar as vistas em certa área volumosa que a fez engolir em seco, correu para as pernas longas e grossas que estavam cruzadas e eram envolvidas pelas calças de corte reto.
era um verdadeiro monumento. Mas foi apenas quando ergueu os olhos para o rosto dele e não se refreou quando pegou ele sorrindo enviesado para ela, que se perguntou porque nunca prestara mais atenção no rapaz.
Ele esteve sempre ao seu lado durante os últimos 9 meses, acompanhando-a em todos os eventos e trabalhos, e, para ela, fora invisível até aqueles últimos minutos. Nada além do rapaz que recebia uma boa grana para mantê-la em segurança. Nunca trocaram mais do que algumas palavras profissionais e frias, e ela nunca passou mais do que dois segundos com os olhos sobre ele.
Bom, ao menos até aquele dia.
Bem ali, fitando-o cara a cara, percebeu que o segurança não desmerecia sua atenção. Na verdade, com aqueles olhos negros brilhantes, com os lábios carnudos e com aquela barba rala cobrindo o maxilar proeminente e emoldurando o rosto quadrado, podia apostar que ele arrancava muitos suspiros do público feminino heterossexual e do masculino homossexual.
Ele tinha a pele morena, bronzeada, e os cabelos não passavam de uma camada rala de pelos.
Era uma belíssima visão, concluiu em um momento de sordidez.
Ele ainda a encarava sem medo, e se divertia acompanhando seu estudo quase invasivo, quando as batidas de um rap reverberou pela atmosfera que os envolvia.
piscou quando ele sacou o celular do bolso frontal das calças e ficou curiosa quando viu sua testa se encher de ruguinhas conforme lia algo no visor iluminado do aparelho. Ele riscou a tela com o polegar e finalmente silenciou a música quando empurrou o telefone contra uma orelha.
, com quem eu falo? — a seriedade do profissional estava de volta, apagando o momento ínfimo de informalidade que eles tiveram. sentiu algo se contorcer no seu baixo-ventre quando escutou a voz rouca do rapaz se tornar polida. Mordia o lábio inferior quando fez uma careta e olhou para ela. — Sim, ela está aqui... — arqueou as sobrancelhas e a pessoa do outro lado da linha deixou seu segurança em silêncio por um momento. Mas por nenhum segundo ele tirou os olhos dela. — Sim, claro, só um instante. — então lhe estendeu o celular. — É para você.
partiu os lábios, confusa, mas, como não tinha nada a dizer, pegou o aparelho com a mão e, encarando por entre os cílios longos e cobertos de rímel, o encostou na orelha.
— Alô? — murmurou, vaga, e viu o segurança levantar e se afastar, provavelmente para dar-lhe alguma privacidade. Ele empurrou as mãos grandes nos bolsos frontais da calça e caminhou para longe com uma belíssima comissão traseira.
Quando a voz de Marlo Lowell surgiu do outro lado da linha, entendeu o afastamento de e sentiu vergonha pela sua pequena observação.
Meu amor, como some assim sem dizer nada? Christine está completamente insana à sua procura.
respirou fundo ao escutar a voz afável do noivo. Levantou-se e começou a andar sobre os saltos para fazer seu sangue circular melhor.
— Eu precisava de um pouco de ar — disse baixo. Não queria conversar com o noivo naquele momento e sentia-se estranha por isso.
Marlo deveria ser seu porto seguro, não? Mas por que, quando olhava para ele, enxergava o mesmo que via nas pessoas com que trabalhava e que adoraria poder evitar?
E precisou fazer isso com o seu segurança? — apesar da pergunta, não sentiu ciúmes na voz de Marlo.
Ele parecia muito tranquilo, na verdade. Como sempre. Afinal, era assim sua personalidade: calma, discreta e lânguida. Um verdadeiro lorde perdido no século XXI.
— Ele foi a única pessoa que notou que eu não estava bem, Marlo.
Ei, eu não estou reclamando! — Marlo se apressou quando notou o tom de voz duro da garota. Ela não havia sido grossa, mas a conhecia suficientemente para saber que estava irritada com algo. Dois anos não eram dois meses no final das contas. — Fico feliz que ele tenha ajudado você, apesar de ter minhas dúvidas se sumir assim e deixar todos preocupados foi a melhor decisão.
coçou o centro da testa ao sentir a acusação na voz do noivo e caminhou para perto da beirada do prédio, tentando fazer com que a imensidão azul, que se terminava em tons quentes de amarelo e laranja, mais uma vez, se sobressaísse aos seus problemas.
Ela respirou fundo, enchendo os pulmões com os ares poluídos da grande Londres e fechou os olhos por um segundo.
— Foi a única que eu fui capaz de ter. — respondeu ao abrir os olhos. Sua pele continuava a se arrepiar com a brisa e desejou ter pegado seu sobretudo antes de fugir com o segurança.
Escutou Marlo suspirar do outro lado e deixou que ele tivesse seu próprio tempo.
Eu não liguei apenas para saber se estava bem, — ele acrescentou, quando se sentiu pronto. — Na verdade, liguei porque finalmente encontrei o momento e não podia esperar nem mais um dia para ter perguntar o que pretendo perguntar.
— Momento? — repetiu.
Não esperou boa coisa.
Em vista que não estava em um bom momento e fora justamente nele que seu noivo encontrara brecha para perguntar algo.
Sim, — ele riu e a modelo sentiu seu nervosismo de quilômetros de distância. — O momento para finalmente perguntar... Eu te amo, , e gostaria de saber se você aceita se casar comigo? Pra valer!
O coração de deu um solavanco e suas pernas perderam um pouco da firmeza recém adquirida.
Não, não de uma forma agradável.
Nos primeiros segundos silenciosos que se sucederam as palavras de Marlo, a mente de esvaziou-se de forma avassaladora, de forma que ela esquecera até mesmo o próprio nome. Ela deu meia volta e caminhou de forma quase bamba até onde estivera sentada há poucos segundos.
Quando, finalmente, sentou em segurança, sua mente foi devastada por imagens dos últimos minutos. Do seu estado catatônico e de como ninguém além do seu segurança pareceu enxergar sua dor.
Como, em um momento como aquele, Marlo achou que seria uma boa ideia fazer uma proposta como aquela?
Quando concluiu que, de qualquer forma, aquilo seria uma boa ideia?
Pior!
— Como você acha que eu reagiria ao ser pedida em casamento por telefone?
O outro lado da linha ficou mudo por um tempo e ouviu passos se aproximando. estava mais uma vez na sua frente e parecia verdadeiramente curioso, além de um pouco preocupado. Sua testa estava repleta de ruguinhas.
, eu... — o outro lado da linha chiou e fez com que desviasse os olhos do segurança para os seus pés. — Você realmente se importa com isso? Estou pedindo com todo o meu amor, pensei que fosse o bastante.
riu, completamente vazia de humor, e balançou a cabeça desacreditada. Desejou que Marlo pudesse ver com os próprios olhos sua indignação.
— Sua forma de demonstrar amor me parece um tanto quanto distorcida. — murmurou, intimidada pela presença de e constrangida pela situação em si.
Marlo recomeçou com seu discurso sobre como o amor era mais importante que essas tradições tolas e ultrapassadas, mas estava cansada demais para continuar escutando.
— Não, Marlo. — resmungou, entredentes.
Ele se calou.
Não? Não para o pedido ou não para...
— Não para tudo.
...
— Agora não, Marlo. — suspirou pesarosamente. — Nós podemos conversar em um outro momento. Agora eu só preciso ficar sozinha. Eu sinto muito.
Não esperou uma resposta, apenas encerrou a ligação. Parecia que o peso de um piano de caldas saíra dos seus ombros quando o fez. Mas sabia bem que era uma sensação passageira e logo teria que encontrar meios para lidar com o que ouviu.
— Aqui — estendeu o celular para . Ele recolheu o aparelho com cautela e guardou de volta no bolso.
— Tudo bem? — questionou. encolheu os ombros.
— Achei que fosse um bom observador.
Ele riu um pouco e sentou na frente dela, criando a mesma atmosfera que compartilharam há pouco.
— Eu sou — mexeu os ombros dentro do blazer. — Perguntei por educação.
— Pensei que não se importasse com esses bons costumes. — percebeu a gafe logo que a cometeu e cobriu a boca com uma das mãos. Os olhos arregalados e as bochechas esquentando novamente. — Perdão, eu não quis dizer isso.
riu.
— Na verdade, você quis, sim. — cruzou os braços e apertou os olhos para ela. — Mas não se preocupe. Não é inverdade.
arrastou os lábios vermelhos em um sorriso embaraçado.
— Você é diferente, — afirmou em um átimo de coragem, ao lembrar do nome que ele dissera ao atender o telefonema.
Ele arqueou uma das sobrancelhas grossas, surpreso.
— Diferente bom ou ruim?
desviou os olhos por um segundo e quando voltou a enquadrar o rosto másculo de traços marcantes, confessou:
— Eu ainda não consegui decidir.


Capítulo 3

— Você disse para o seu noivo que queria ficar sozinha.
Continuavam sentados nos mesmos lugares, na frente um do outro. O silêncio era interrompido apenas com poucos e vagos comentários sobre amenidades.
Justamente por isso, se surpreendeu com o parecer menos evasivo de .
Estava se livrando dos saltos e cruzou as pernas com elegância enquanto seus pés voltavam a se acostumar com a liberdade.
Ela também provava um pouco do gostinho da liberdade naquele instante, com a imensidão azul cobrindo sua fuga e o vento atiçando sua pele.
— Não era verdade — confessou ao olhar para ele por entre os cílios pesados. Um tanto tímida, deixou os sapatos de lado. — Tudo que eu menos quero agora é ficar sozinha. Mas Marlo e Christine não me pareceram as melhores opções. Espero que não se incomode de ocupar esse posto por enquanto.
riu charmoso e coçou a nuca.
Cada mínimo movimento dele, fazia com que uma parte do blazer se agarrasse em alguma área saltada do seu corpo. Naquele momento, ao flexionar um dos braços, permitiu que o tecido pressionasse os músculos da região com afinco.
— Bom, eu sou pago para lhe fazer companhia.
abriu a boca, beirando um falso ultraje, mas não conseguiu colocar a falsa indignação em palavras, antes rompeu-se em uma gargalhada.
a assistiu com um sorriso discreto preso no canto dos lábios.
— Como nunca percebi que você é uma ótima companhia? — indagou para o nada ao cessar as risadas, algumas poucas ainda escapando pelos lábios pintados, em um átimo de coragem.
— Não costumamos ter a esperteza de reparar no que está bem debaixo do nosso nariz. — respondeu mesmo assim.
engoliu o resto da risada imediatamente ao perceber a forma como os olhos do jovem homem a fitavam e como ele não sorria mais. Agora a observava com um tom de seriedade, como se a despisse, mas não das roupas.
Estava desacostumada com homens como aquele postado na sua frente, que gesticulava com confiança e não arrogância, e que sustentava uma postura que podia ser confundida com prepotência, mas era apenas profissionalismo.
parecia verdadeiro em suas palavras e maduro em suas intenções. Não tinha receio de apontar suas opiniões, algo que apenas pessoas muito seguras de si podiam fazer.
— Quantos anos você tem? — questionou sem pensar duas vezes, com resquícios da coragem recém tomada. Suspeitava que a convicção inabalável dele estivesse influenciando-a e acrescentou em um tom de indulgência: — Se não for indelicado da minha parte, claro.
— Não é indelicado — ele garantiu. — Farei 25 em duas semanas. Mas por que a pergunta? — seu rosto caiu para o lado em evidente curiosidade.
mordeu o lábio, incerta se deveria ou não revelar suas reflexões bobas. Mas arqueou uma das sobrancelhas em incentivo e, depois de respirar fundo, a modelo finalmente falou, com o tom de voz mais baixo do que o que tinha adquirido ao longo a conversa:
— É que você parece mais maduro do que os homens que eu conheço.
fez uma careta.
— Consigo imaginar os tipos de caras que conhece — riu, mas não encontrou humor no impulso. Foi um som amargo, na verdade. — Justamente os que costumam nos trazer a má fama.
repuxou os lábios com o humor que faltara em .
— Eles existem dos montes no meio da moda, , não tem como evitar.
O segurança coçou o queixo coberto pela camada de barba rala e cruzou os braços de modo que o tecido do blazer, mais uma vez, apertou os músculos dos seus braços. reconheceu um Casio prateado piscar em um dos pulsos.
— Pode me chamar de . É como meus amigos costumam me chamar. eu guardo para ocasiões mais... Profissionais.
piscou os olhos, surpresa.
— E não seria o mais indicado para esse caso? — começou a brincar com a barra do vestido que apertava suas coxas magras e percebeu em uma espiada que atraiu a atenção do rapaz para lá.
Viu o pomo-de-Adão dele se mover e como regulou a postura rapidamente para voltar a erguer os olhos para o seu rosto.
— Talvez. Mas não acho que à essa altura ainda seja necessário.
entendeu o que ele quis dizer.
Em poucos minutos criaram um entrosamento assustador e quase pareciam velhos conhecidos. Estavam à vontade na presença um do outro e aquilo parecia ser o bastante para que fossem dispensadas formalidades.
apertou os lábios, os pés balançando em uma inquietude que se assemelhou a da sua mente quando percebeu que não tinha ideia de como prolongar o diálogo.
Temia que um silêncio embaraçoso recaísse sobre a atmosfera confortável que haviam criado. Não queria que voltassem a se tratar com a frieza de uma relação padrão entre chefe e funcionário. Ela nem mesmo era sua chefe de verdade.
foi contratado por Christine e era as ordens da mais velha que seguia com maestria, mesmo que estivesse sempre à posto para garantir a segurança de e atender todos os seus pedidos mais pífios. Mesmo que eles não existissem. não via motivo para deixar nas mãos de outras pessoas tarefas que ela mesma podia executar.
Tinha duas mãos e elas eram craques em carregar sacolas, pegar almoços e lavar as próprias louças.
— Você não se incomoda de passar praticamente 24 horas seguindo todos os passos de uma desconhecida?
processou a pergunta por poucos segundos antes de coçar o queixo com uma careta engraçada. riu baixinho.
— Na verdade, eu nunca parei para pensar sobre o assunto. Eu apenas faço o que tenho que fazer. Esse é o meu trabalho e tenho que me esforçar para fazer o meu melhor. Não tive a sorte de nascer com um rosto sofisticado para a alta costura. — suas sobrancelhas saltaram de modo dramático no final.
Não foi grosso. entendeu o tom de humor que veio acompanhado da acidez.
Entretanto, isso não impediu seu estômago de despencar. Seus braços endureceram e sentiu um bolo dolorido na garganta. Não conseguia engolir, então forçou um sorriso frio.
— Eu não chamaria de sorte.
percebeu a própria gafe antes mesmo de escutar a voz seca e cortante de . Pôs-se a se retratar imediatamente:
— Perdão, não quis soar mesquinho. Não dê importância para as bobagens que eu falo.
balançou a cabeça e enlaçou os dedos das mãos sobre as pernas como uma lady do século XVIII. Era comum que usasse da postura altamente rígida como uma forma de defesa, como se a arrogância aparente a transformasse uma mulher audaciosa. Mas, naquele momento, apenas queria não parecer tão cabisbaixa.
— Você só está falando o que todos realmente pensam. O certo é que eu devia agradecer pela sinceridade. É uma qualidade escassa nas pessoas à minha volta.
riu de forma quase inaudível, ainda desconcertado por seu ímpeto infeliz. Abaixou um pouco a cabeça, mas permaneceu a observar por entre os cílios:
— Você não gosta? Digo, disso tudo? — gesticulou com o dedo em círculos, como se indicasse todo o universo fashionista que rodeava a garota.
suspirou profundamente.
— Não é que eu não goste... Eu só... É como você disse. Meu rosto, minha aparência... É um tanto quanto maçante a consciência de que tudo que importa é se minha pele está perfeita e se as medidas dos meus quadris estão dentro do padrão preestabelecido. Não é como se eu tivesse algum talento, sabe? Como se eu precisasse me esforçar. Quero dizer, eu me esforço quando rejeito uma porção de fritas e Coca-Cola, mas você deve entender o que quero dizer. Eu só nasci e, bom... Dei sorte — repetiu o que o moreno havia dito e olhou para ele, esperando por uma reação assustada ou até mesmo surpresa, mas a fitava com um brilho de compreensão e curiosidade.
A forma como as bochechas dele saltaram quando os cantos dos lábios se ergueram delicadamente fez empurrar a língua por entre os próprios lábios e sugar o inferior para mordê-lo.
Apertou as mãos de modo ansioso. Era assustadora a perspectiva de como aquela figura engravatada instigava sua honestidade, como se o rapaz estivesse ali para nada além de ouvir suas lamúrias sobre seus demônios. Foi muito fácil colocar para fora todas as suas frustrações, e suspeitava que a culpa fosse ou do sorriso despojado e convidativo ou do olhar penetrante e verdadeiro.
De qualquer forma, era envolvente o suficiente para desligar o filtro social de .
— Eu disse para não dar atenção para as bobagens que eu falo sem pensar — ele arqueou uma das sobrancelhas de forma provocante. encolheu os ombros, envergonhada. O segurança deixou escapar uma pequena risada e aumentou a pressão contra o lábio inferior, achando aquele som particularmente encantador. — Posar para uma foto vai muito além de ter ou não um rosto e um corpo bonito, — ela quis sorrir quando ele a chamou pelo nome de modo tão intimista, mas puniu-se mentalmente pela ideia de se comportar como uma adolescente. — O meio da moda ainda não entendeu esse ponto. Ou entendeu, mas prefere manter-se imparcial sobre a diferença do que está dentro de um padrão conservador e do que é belo. O belo muitas vezes pode vir do que é considerado feio e desajeitado. O belo pode vir do sujo e do desmazelo. O belo é relativo e ilimitado. As lentes de uma câmera têm a capacidade de capturar essa beleza independente do que olhos menos treinados possam ver. Eu entendo perfeitamente o que quer dizer e posso garantir que concordo em partes, mas acredito que está equivocada em alguns pontos.
não foi capaz de disfarçar o choque. Escutou cada palavra que os lábios grossos enunciaram com vasta atenção e cada uma delas atravessou sua mente conflituosa, revirando seus neurônios a todo vapor, antes de acalentar seu peito.
era um homem alto. Com traços marcantes e firmes, e um corpo másculo de músculos proeminentes.
Era um pensamento preconceituoso, mas não esperava que um homem daquele porte fosse, de uma hora para a outra, iniciar um discurso sensível e inspirador sobre a essência da fotografia.
Precisou piscar algumas vezes para sair do breve transe pelo qual fora engolida. Encarava com um fascínio inesperado, uma emoção especial no olhar.
— Você parece bastante entendido do assunto — foi tudo que conseguiu dizer, a voz baixa e polida soando um tanto quando distante.
Um reflexo de timidez cortou o semblante do rapaz.
— Eu tiro algumas fotos, sabe, nas horas vagas. Quando não estou correndo atrás de uma certa modelo e trocando farpas com paparazzis. — brincou para tentar mascarar o desconcerto e sorriu com a percepção.
— Fotógrafo? — repetiu como que para confirmar e ele assentiu com um sorriso fechado. — Estou verdadeiramente surpresa.
— Um brutamontes também pode ter sensibilidade para a arte afinal. — estalou a língua nos dentes com uma arrogância proposital e a modelo jogou a cabeça para trás em uma gargalhada.
— Seus músculos bem distribuídos não fazem de você um brutamontes, percebeu o equívoco logo que fechou a boca. Sua face ferveu em embaraço quando percebeu o olhar do segurança nublar na sua direção. tentou disfarçar, mas seus lábios tremeram e percebeu que se segurava para não exibir um sorriso. Ela coçou a testa, sem jeito. — Desculpe.
riu, olhava para a garota como se ela fosse uma forma de vida não identificada vinda diretamente de outra galáxia. Não com medo, mas estranhamento e curiosidade.
— Você é a única pessoa que pede desculpas ao fazer um elogio.
— Não foi um elogio — rebateu. ergueu as sobrancelhas e ela percebeu que havia cometido a segunda gafe. — Digo, não intencional.
Suspirou completamente constrangida pela sua falta de tato com o sexo oposto. Felizmente ou não, antes que o rapaz bem afeiçoado pudesse dizer qualquer palavra, um som gutural sobressaltou-se em meio aos dois.
arregalou os olhos e cobriu a boca com a mão ao perceber que o barulho primitivo viera do seu estômago. Quis morrer quando gargalhou com todo o corpo e estava prestes a pedir mais desculpas, dessa vez pelo inconveniente.
Mas ele foi mais rápido:
— Isso definitivamente é resultado da rejeição forçada às batatas e à Coca-Cola! Você precisa comer.
abaixou a mão, os lábios crispados:
— Acho que é tolice tentar negar. Não deu tempo de comer nada hoje antes do ensaio. — arqueou uma das sobrancelhas desconfiado e suspirou conformada: — Tá. Eu preferi não comer nada hoje, por causa das fotos.
balançou a cabeça, como quem achava a perspectiva cruel e absurda.
— Isso é ridículo, você sabe.
deu de ombros.
— Ossos do ofício.
Então, sem dizer nada, levantou e estendeu uma das mãos para a garota. hesitou, olhando da mão grande de dedos longos para o rosto do segurança.
— Eu conheço um lugar perfeito para você matar em grande estilo o que está te matando. — ele explicou, risonho.
piscou algumas vezes e buscou na mente motivos para negar o convite. Encontrando nada além do vazio gritante.
Não era má ideia. Escolheu não pensar muito mais e logo estava erguendo o indicador para pedir um segundo. Colocou de volta os scarpins e finalmente juntou a mão à dele, sentindo sua palma formigar em contato com a aspereza de .
Sentia-se uma aventureira digna de um filme de Indiana Jones. Sabia do risco. Conhecia pouco, quase nada, sobre e estava deixando que ele a guiasse para aonde quer que fosse. Mas não queria se preocupar. Queria seguir sua intuição, mesmo considerando a possibilidade ínfima de que ela a colocasse em uma enrascada.
queria arriscar, sumir das vistas de Christine e de Marlo pelas próximas horas. E seu segurança, mesmo que inconscientemente, estava lhe propondo isso.
iria com ele. Mas isso não queria dizer que não podia fazer algumas perguntas.
— É nas proximidades? Algum lugar que eu conheço? — perguntou enquanto seguia pela laje.
— Creio que não. É um pouco afastado, na verdade... Mas eu também faço bico de motorista para uma certa modelo e tenho as chaves de um veículo bem apropriado... — jogou no ar, andava para trás e puxava consigo.
Sorriam um para o outro com uma recém intimidade, como se berrassem confissões silenciosas que apenas os dois podiam entender.
— Você não tem nada a perder, tem? — perguntou, brincalhão, antes de alcançar a porta que levava às escadas de incêndio.
— Talvez — gracejou . — Mas no momento eu também tenho todo o tempo do mundo.


Capítulo 4

— E aí?
fitava com expectativa, os olhos vidrados em cada expressão que a garota fazia enquanto degustava do sanduíche de bacon que ele mesmo sugeriu e ela, um pouco relutante, aceitou provar.
A mocinha precisava confessar que quando o rapaz estacionou a Mercedes negra na frente do pequeno restaurante ficou com um pé atrás e insegura sobre se arriscar no estabelecimento de aparência questionável.
Passaram pouco mais de quarenta minutos na estrada e apenas quando se afastaram de Londres e a urbanização foi dando lugar às paisagens naturais que as preces do estômago da modelo se viram prontas para serem atendidas.
Mas tinha uma boa lábia e sabia como ser convincente. Não precisou de muito para persuadir a mocinha de que o lugar estava dentro de todas as normas de higienização, além de produzir um cardápio delicioso de sanduíches.
Naquela altura já mastigava devagar um exemplar desses, investigando a procedência de cada ingrediente da composição que Christine morreria apenas de vê-la sentindo o cheiro. Imagine se tivesse assistido a dentada generosa que a garota deu no pão enquanto fechava os olhos. conseguia prever o semblante censurador da sua empresária.
Sorriu com o pensamento enquanto ainda mastigava e aproveitou para enviar uma dica silenciosa sobre o julgamento que fazia do sanduíche para . Ele, inconsciente dos seus pensamentos, pegou sua reação apenas como uma resposta para a sua pergunta.
Sorriu, orgulhoso.
— Eu sabia que você iria cair pela especialidade da casa.
fechou a mão e colocou frente à boca para falar sem parecer mal-educada:
— Eu não disse que gostei.
encolheu os ombros largos conforme seu corpo sacudia em uma gargalhada.
— Você parece prestes a ter um orgasmo bem na minha frente.
Não fossem os olhos de saltarem e a mocinha se engasgar, iniciando uma sinfonia de tosses asfixiadas, não teria percebido como suas palavras foram completamente inapropriadas. Ele estava prestes a cruzar os braços em seu jeitão despojado e precisou parar no meio do caminho com preocupação.
— Uma água por favor — pediu mecanicamente para a mulher enfadada atrás do longo balcão amadeirado, mas a mocinha gesticulou apressada e negativamente.
As sobrancelhas enegrecidas do outro permaneceram unidas de modo preocupado até os pulmões da garota apresentarem os primeiros sinais da calmaria.
Não demorou muito e repuxou os lábios para o lado desconcertada. Seu rosto fervia e tinha dúvidas se por causa do acesso desenfreado de tosses ou se pela vergonha que fazia sua corrente sanguínea concentrar o sangue no alto das bochechas ossudas.
Antes que ela desenrolasse qualquer frase embaraçada que serviria apenas para deixar a situação ainda mais constrangedora, inclinou o corpo por sobre a mesa:
— Eu sinto muito pelo comentário — parecia sincero e quase pediu que parasse. Não precisava ouvir seu pedido, já sabia que ele não tinha falado com maldade. Mas deixou que ele se explicasse, as orbes sombreadas cravadas no seu rosto. — Eu não sei onde estava com a cabeça. Acho que os últimos minutos me levaram a esquecer que você é minha chefe — coçou a nuca em um lapso de timidez que pela primeira vez presenciava.
— Eu não sou sua chefe — não entendeu porquê aquilo foi tudo que sua mente projetou para sua língua desenrolar de forma fragmentada e distante. Os dois pares de olhos grudados um ao outro como se dissessem tudo que corrompia os pensamentos de ambos, como se o contato indireto fosse tudo que pudessem ter. Um silêncio quase cortante que logo tratou de macular: — E você não falou nada demais. Eu costumo me assustar com pouco.
A tentativa da menina de mostrar familiaridade com o assunto embutido no comentário de foi tão fracassada que ele precisou apertar os lábios para segurar o impulso de rir que contraiu seu estômago.
arrastou as pontas dos dedos pela raiz puxada dos cabelos de forma blasé e desviou os olhos de para o sanduíche, que se encontrava praticamente inteiro dentro do prato de porcelana vermelha.
— Tem certeza que não quer uma água? — inquiriu, empurrando as mãos para debaixo da mesa.
levantou os olhos para ele, antes de balançar a cabeça em negação. Então, mais uma vez seus olhos recaíram sobre o sanduíche.
— Eles embalam pra viagem? — perguntou ao segurança.
Ele assentiu e os cantos dos lábios foram erguidos com humor.
— Você não gostou.
— Não! Não é isso — apressou-se em explicar. — Eu só... Acabei perdendo a fome.
Mentira. Estava com vergonha e com medo de repetir a desventura se voltasse a comer tão rapidamente. Não soube se o rapaz acreditou em sua desculpa ou não, mas ele riu baixo.
— Eu estou brincando, — falou quando já se levantava. ergueu o rosto para acompanhar os movimentos desenvoltos e esperou pela explicação que veio em silêncio quando ele pegou o sanduíche. — Vou pedir para embalarem. Volto em um minuto, tudo bem?
— Sim, claro — ela sorriu minimamente. — Obrigada.
Com o manear de cabeça de um lorde, o rapaz lhe deu as costas e guiou os pés calçados nos sapatos sociais para o balcão do caixa.
o observou por todo o curto trajeto, as costas largas que esticavam um pouco o tecido do blazer, as pernas que se alongavam depois de uma região proeminente que ela se censurou por notar, e o caminhar intercalado e imponente, mas, de alguma forma, despojado e espontâneo.
Em um lampejo de racionalidade pouco bem-vindo, lembrou-se do noivo. Do homem que minutos atrás repetiu a proposta que já havia feito há alguns meses. Mas dessa vez de forma mais imediata e pacata, bem menos ornamentada do que foi a primeira.
Suspirou e se obrigou a deixar a figura em roupas sociais longe da sua atenção. Sentia-se culpada por não se sentir culpada pela grosseria que usou para responder ao noivo. Mas enquanto ela queria acreditar que fora o pedido certo no momento errado, sua mente insistia em repetir que fora o pedido errado no momento errado.
Perguntou-se por um instante se, em outras circunstâncias menos infelizes, teria visto as palavras do noivo com bons olhos.
Será que teria se sentido lisonjeada? As famigeradas borboletas no estômago teriam aparecido? Elas apareceram para apenas uma vez, logo no começo do namoro com Marlo, mas com o passar do tempo foram sumindo e deixando um vazio saudoso.
Uma embalagem de papelão pousou sobre a mesa na frente de e seus pensamentos se dispersaram em uma névoa densa. Ela suspirou e levantou o rosto para , com um pequeno sorriso agradecido brilhando no canto da boca.
O rapaz continuou em pé, empurrou o blazer para trás antes de enterrar as mãos nos bolsos frontais da calça.
— Então, milady, de que outras formas posso atendê-la? — perguntou. olhou para o relógio no alto da parede revestida em tinta laranja e encolheu os ombros. O segurança interpretou seu gesto como pôde: — Quer voltar para a editora?
riu um pouco, como se aquela possibilidade fosse não apenas improvável, mas inconcebível. — É o último lugar para onde quero ir. Acabaram-se as suas sugestões? — coçou o queixo, um pouco relutante. insistiu: — Não existe nenhum outro lugar que você aprecie e que possa me levar?
— Só consigo pensar em algo e no quanto é inapropriado.
— Inapropriado? — ela averiguou em busca de uma explicação conexa.
— Você não quer mesmo voltar para a editora? Nós podemos...
— interrompeu . Estava cansada de dialogar sentada enquanto o outro se encontrava em pé, então levantou-se. A diferença de altura permaneceu, mas bem menos embaraçosa. — Só me leve para qualquer lugar onde uma equipe de fotografia não esteja me esperando. Ou Christine. Ou Marlo. Eu só quero respirar longe de tudo pelo máximo de tempo que eu puder.
passou a mão pela cabeça, parecendo enfrentar uma batalha interna. Alguns segundos depois ele suspirou, os olhos escuros sobre ela, e soube que havia tomado uma decisão.
— Existe um lugar.
sorriu.
— Então me leve até ele.
Logo os dois seguiram para a Mercedes estacionada lá fora, ambos ansiosos, mas por motivos completamente diferentes.
estava curiosa sobre o próximo ponto de parada dos dois e estava receoso não apenas por estar levando a garota até lá, mas porque abriria para ela uma parte da sua vida que apenas poucos tiveram o gosto de conhecer.
Movido pelo costume, guiou os sapatos lustrosos pela terra úmida até a porta do passageiro. Destravou o veículo e abriu a porta para , que se equilibrava nos saltos. Bufava e xingava baixinho repetidas vezes para os sapatos que afundavam um pouco na terra maciça a cada novo passo.
Estava na metade do caminho quando estacionou e fitou , dando-se conta de algo. Ele ainda a esperava com a porta aberta e as sobrancelhas espessas uniram-se de modo confuso.
sorriu para ele, mas não disse nada. Com muita dificuldade girou nos calcanhares e alterou o rumo da sua empreitada. Restou a apenas assistir sem entender nada a garota contornar a região frontal do automóvel e parar logo na porta do carona.
Mas quando a abriu e por cima da lataria negra arqueou uma das sobrancelhas para o rapaz, ele entendeu o que ela estava fazendo.
Não estavam ali como chefe e funcionário, não precisam agir de modo mecânico e profissional ou seguir regras preestabelecidas.
não demorou a bater a porta do passageiro e migrar para o seu lugar atrás do volante. Olhou para , que já esperava por ele dentro do carro, com um sorriso escondido.
Toda a pequena interação aconteceu de forma silenciosa e os dois decidiram não falar nada sobre o assunto, deixando tudo à margem de interpretações particulares.
— Espero não decepcionar.
balançou a cabeça e olhou para as mãos dispostas sobre o tecido do vestido que não cobria mais do que o início da suas coxas pálidas.
— Isso é muito improvável.
Foi o suficiente para engatar a marcha e acelerar ao longo da estrada de terra. Pelo resto do caminho mantiveram um silêncio confortável, cada um com seus pensamentos. Mas nada os impedia de trocar breves e quase imperceptíveis sorrisos cúmplices, nem de arriscar vez ou outra espiar .
Ela havia decidido abrir as janelas e deixar o vento corrido esbofetear sua face, os olhos em frestas e um sorriso tranquilo brilhando nos lábios rosados. O batom vermelho aos poucos ia se perdendo e dando lugar ao tom natural da boca feminina.
Quatorze. Foi a quantidade de vezes que sentiu a lateral do rosto esquentar sob o olhar do seu segurança. Tentou impedir as bochechas de corarem em todas elas, mas dificilmente obteve êxito. Torceu, então, para que ele acreditasse que o motivo dos tons rosados em sua pele fosse a força com a qual o vento a cumprimentava.
Quase 40 minutos depois estavam de volta à cidade. Os prédios administrativos e os condomínios concretados substituindo a paisagem verde e natural na qual estiveram inseridos. O vento se tornou menos fresco e mais abafado contra o rosto de e ela decidiu fechar a janela. Teve a impressão que até mesmo o céu parecia mais opaco e denso na região excessivamente urbanizada, mas não podia garantir que não era coisa da sua cabeça.
também fechou a sua janela e de rabo de olho fitou .
— Decepcionada em voltar para a velha Londres?
— Não é isso — ela olhou para ele, mas o mesmo já havia voltado a dar atenção à estrada. De perfil, o maxilar do homem se tornava ainda mais marcante. — É só que... Quando nos afastamos de Londres parecia que de alguma forma eu também pude me distanciar dos meus problemas. De tudo que eu estava sentindo. Voltar parece entrar novamente no olho do furacão.
assentiu, como se a entendesse, mas logo umedeceu os lábios para falar, depois de fazer uma pequena curva e entrar em uma rua estreita:
— Você sabe que o furacão está em você, certo? — olhou para por um segundo e ela piscou sem entender. — Você está apenas se iludindo ao acreditar que estará livre dos problemas ao se afastar fisicamente das causas deles. Eles vão estar sempre aí com você no final do dia, quando deitar a cabeça no travesseiro.
— Eu sei disso — falou de forme seca, incomodada com as palavras do garoto. — Eu não estou fugindo dos meus problemas. Quero dizer, eu sei que terei que lidar com eles uma hora ou outra.
— Eu não disse que você estava fugindo.
— Bom... Foi o que eu entendi.
suspirou e seus dedos pressionaram o couro do volante.
— Estou apenas dizendo que os problemas estarão com você até que os resolva. Independente de onde e de como você esteja. Desculpe se soei rude e intrometido, não foi minha intenção.
— Tudo bem — murmurou olhando-o de lado e percebendo como ficou tenso de repente. Com uma frieza profissional. Talvez ela tivesse sido mais grossa do que o necessário, algo que não estava acostumada a fazer.
Tinha tantas pessoas esperando por qualquer deslize seu, qualquer gafe ou indelicadeza, que teve de aprender com o tempo como agir da maneira mais mecânica, planejando cada um dos seus comportamentos e das suas decisões. Mas com , tudo que havia aprendido e todo o tempo de prática parecia ter ido por água abaixo. Não conseguia se refrear perto dele, tudo que sentia era exposto facilmente pela sua incapacidade de esconder seus instintos.
Não gostou nada daquela sensação de vulnerabilidade.
Então deixou que o silêncio, dessa vez desconfortável, que se instalara, se prolongasse, enquanto sua cabeça criava diálogos intermináveis e indecifráveis.
Nunca soube escutar verdades.


Capítulo 5

estava muito tenso quando estacionou na frente de um pequeno prédio residencial e de paredes com tintura creme descascada. Não devia ter mais do que quatro pavimentos.
percebeu como ele demorou para deixar o veículo no ponto morto e puxar o freio de mão. Perguntou-se se o comportamento se devia ao pequeno desentendimento que tiveram ou a pensamentos particulares do rapaz. Decidiu que não gostava das coisas do jeito que estavam e que precisava fazer algo para quebrar o clima denso.
— Você não pretende me esquartejar e separar as partes do meu corpo por Londres, não é? — sua voz saiu rouca e falha pelo desuso, cortando o ar de forma pesada.
Ótimo, , não poderia escolher melhor forma de acabar com a tensão.
se sobressaltou no banco, como se não esperasse escutar a voz da garota tão cedo. Estava tirando o cinto e se atrapalhou no processo, soltando alguns palavrões baixos. Livre do sinto, ajeitou a postura e olhou para .
— Desculpe, o que disse?
sorriu amarelo. O clima frio lá fora não poderia ser comparado com o ar pesado que os envolvia dentro daquele carro.
— Esse prédio parece um pouco abandonado — ela explicou, desconcertada, indicando o condomínio com um movimento discreto de cabeça.
primeiro partiu os lábios em compreensão, em seguida eles se uniram para formar lentamente um sorriso aliviado. Compreendera as intenções pacifistas da garota e, pelo seu comportamento seguinte, pela forma como sorria com os olhos, abraçou a ideia.
— Seria burrice da minha parte admitir, não? — eriçou as sobrancelhas, enigmático.
mordeu o lábio inferior, feliz por ele ter entrado na brincadeira, mostrando a mesma vontade dela de consertar as coisas. Arriscou uma risada e cruzou os braços abaixo dos seios, o queixo foi erguido de forma desafiadora.
— Então por qual motivo eu me aventuraria a entrar quando não tenho garantia para minha segurança?
sorriu fechado, como se interagisse com algum pensamento sigiloso. Relaxou a postura e umedeceu os lábios, olhando por um instante para a fachada do pequeno prédio que os esperava lá fora.
esperou que ele olhasse para ela de novo e quando ele o fez estava irredutível.
— Vai ter que pagar para ver — os ombros dentro do terno se moveram despojadamente. abriu a boca para rebater, mas ele foi mais rápido ao emendar: — Ou morrer carregando essa dúvida.
brincou com a barra do vestido e se permitiu uma risada baixa.
— Isso se parece com algo que um sociopata diria para atrair a vítima.
— Eu já falei, — seu nome se desenrolou de forma quase afrodisíaca pela língua do rapaz e sentiu uma fisgada em um região ridiculamente inapropriada —, pague para ver ou passe o resto da vida se perguntando "e se?".
Com as bochechas coradas e as coxas prensadas uma na outra, tinha uma decisão. Sugou o lábio inferior por entre os dentes e tirou o próprio cinto. Depois de um último olhar incitador para , destravou a porta ao seu lado e pulou graciosa para fora do veículo.
deu a volta no veículo ao mesmo tempo que saia do mesmo. Quando se reencontraram na calçada concretada, esperou que explicasse onde estavam. Mas o segurança não parecia ter essa intenção. Continuou com o mistério e, depois de travar a Mercedes, com poucas palavras, pediu que ela o seguisse.
Adentraram o pequeno e antigo prédio, passando por um porteiro bigodudo que os cumprimentou educadamente. Usando de um pouco mais de intimidade com , obviamente.
Não haviam elevadores, então foram pelo vão estreito de escadas. mordeu os lábios atrás de , tomada por lembranças do momento em que ele agiu como seu salvador horas atrás.
O rapaz era misterioso e suas palavras sempre pareciam vagas de alguma forma. Mas algo em seu olhar e na forma tranquila como se movia oferecia um conforto incomum à . Havia verdade nele, em suas palavras, nos olhos escuros.
Como nunca o percebeu? Bem ali do seu lado esse tempo todo. O rapaz era a sua muralha para o mundo lá fora, tomava a frente de qualquer situação que ameaçasse o bem-estar e a segurança de .
Como nunca parou para notar que dentro do terno de corte reto e por trás dos óculos escuros havia um jovem homem com um sorriso de tirar o fôlego e uma voz rouca que merecia ser ouvida?
se escondera por muito tempo, mas agora estava ali, ao alcance dos olhos e das mãos de . Seus passos duros e largos que engoliam dois degraus de uma vez, contrastando com o baque delicado que os saltos finos faziam no metal vermelho, ambos abafando os ruídos das respirações pesadas.
Finalmente alcançado o segundo pavimento do condomínio, os pés de já reclamavam no interior apertado dos scarpins. rumou em silêncio para uma das duas portas de maneira clara e a modelo o seguiu com os olhos e com os mesmos pés indignados. Ele sacou de um dos bolsos um molho de chaves e olhou para por cima do ombro, como se estivesse conferindo se garota ainda estava ali aguardando pelo seu veredito.
sorriu fechado, encorajando-o, e foi o suficiente para o rapaz girar uma das chaves na fechadura. A porta foi aberta com um ranger característico de madeira envelhecida. a empurrou para o lado e com um movimento sutil de cabeça convidou a entrar no apartamento de paredes brancas e mobília rústica.
— Organização não é o meu forte — disse logo que deu o primeiro passo para dentro do apartamento.
Como se acompanhassem as palavras do dono, o apartamento cresceu diante dos olhos de , conforme ela o adentrava, pegando-a desprevenida. O conjunto de móveis de madeira maciça que padronizavam uma sala-de-estar e algumas fotografias espalhadas por estantes e paredes brancas revelaram onde a mocinha estava afinal.
— Você mora aqui? — perguntou sem tirar os olhos da decoração particular que adornava o pequeno cômodo. Escutou quando a porta fora fechada e quando o molho de chaves fora jogado sobre alguma superfície.
Alguns passos calculados e se colocou ao seu lado. Estava parada no centro da sala, observando e absorvendo tudo que podia daquele mundo desconhecido.
— Desde que saí da casa dos meus pais.
assentiu apenas para mostrar que escutou. Tentou determinadamente que seus pensamentos não navegassem para as águas pecaminosas do fundo de sua mente. Indagações inadequadas e improváveis foram empurradas para longe enquanto se esforçava em andar pela pequena sala de forma cuidadosa, mas espontânea e curiosa o suficiente para fazê-la parecer relaxada.
Uma pena que tivesse consciência do par de olhos escuros que esquentavam sua nuca e impedia todos os seus pensamentos de se manterem em uma linha imaculada.
Tornou-se inevitável para a imaginação de criar cenários e justificativas para explicar porque a trouxera ali. Mais inevitável ainda foi cair na armadilha de acreditar que só havia uma única resposta plausível para aquele inquérito. Uma resposta pouco ortodoxa, mas que de uma forma muito suspeita levou um comichão cheio de expectativa para o interior das pernas femininas.
apertou os lábios com discrição e continuou a andar pelo assoalho de madeira escura e envelhecida. Suas bochechas corando conforme seus saltos gerava uma sequência cortante de baques pelo piso. Os ombros tensos com a constatação de que a mera possibilidade já lhe tivesse soado agradável.
tinha um compromisso. Com um homem que há poucas horas repetira um pedido de casamento. Então, como uma mulher adepta da monogamia, sabia que aquele formigamento naquela região era algo perigoso e inadequado em proporções assustadoras.
— Estou começando a me arrepender...
Era a voz rouca de . Soou próxima, porque, afinal, dividiam o mesmo cômodo, e, ao mesmo tempo, distante, como se suas palavras tivessem sido mais para si mesmo do que para sua acompanhante.
virou-se para ele de qualquer forma. O lábio inferior estava preso entre os dentes perfeitamente alinhados e viu arriscar um rápido olhar para a região.
— Desculpe? — ela perguntou. Tinha ouvido as palavras do garoto, mas não entendeu o que queriam dizer.
coçou a nuca.
— Você parece bem... Deslocada? — encolheu os ombros, as mãos mais uma vez perdidas dentro dos bolsos.
engoliu em seco.
— Estou apenas surpresa. — respondeu, incerta. Permitiu-se avançar dois passos na direção do garoto e sentiu os primeiros indícios do calor do corpo masculino. Refreou-se antes que fizesse uma grande besteira. — Por que... Por que me trouxe aqui?
suspirou, completamente alheio ao que buscava com aquelas perguntas.
— Na verdade não foi exatamente para o meu apartamento que eu quis te trazer — antes que cobrisse sua voz com a dela em mais um questionamento, ele emendou, parecendo apressado, como se tivesse receio de voltar atrás se demorasse demais: — Vem, eu quero te mostrar um lugar.
hesitou antes de segurar a mão grande estendida na sua direção, mas decidiu que seria indelicado recusar a gentileza. No entanto, quando o toque suave de pele aconteceu, ela teve a certeza esmagadora de que o fez porque queria. Queria muito segurar a mão de outra vez.
Sentia-se uma aproveitadora. Enquanto o garoto a tratava com uma gentileza polida e inocente, apenas tentando deixá-la confortável, estava lá ela, satisfeita de forma totalmente inapropriada com a junção de suas mãos e com o calor que emanava da palma grande e áspera, os dedos roçando naturalmente como se fossem velhos conhecidos.
Passaram por um corredor estreito onde alguns portas fechadas escondiam os demais cômodos do apartamento e abriu a última porta, revelando um cômodo mais escuro que a sala, mas visivelmente mais zelado.
Uma esquadria que se estendia horizontalmente no alto da parede dos fundos era a responsável pela iluminação natural precária do que compreendeu que seria um estúdio de fotografia adaptado.
Existia uma bancada com algumas câmeras e equipamentos cuidadosamente organizados. As paredes serviam como murais onde várias fotos foram penduradas em linhas de barbante, a maioria delas em preto e branco.
Era um cômodo ainda menor que o anterior e no lado aposto ao da mesa de equipamentos havia uma tela branca, uma dessas usadas como fundo. Uma única pergunta lhe veio à mente.
— Você trabalha como fotógrafo? Pra valer?
Já passeava pelo cômodo, seus dedos correndo pela mesa e por algumas das câmeras e lentes que haviam espalhadas pela superfície.
— Consigo ganhar algum dinheiro extra, sim — sentiu o sorriso de quando ele disse o que ela queria saber mas não teve coragem de perguntar claramente.
— Ah — ergueu os olhos para as paredes brancas, mais precisamente para todas as fotografias que as revestiam pelos varais improvisados.
Reconheceu o mesmo fundo branco que estava montado perpendicular à uma das paredes em algumas capturas, mas também encontrou fundos naturais e urbanos. Haviam fotos de topos os tipos em cores e essências. Casais, famílias, crianças, paisagens, homens, mulheres...
sentiu um arrepio ao longo da coluna. Seus dedos curiosos não se contiveram em tocar a imagem de uma mulher completamente livre de roupas. Engoliu em seco e sentiu se aproximar pelas suas costas.
Não era uma foto sensual, não intencionalmente, apesar da mulher na imagem ter um corpo bronzeado e de curvas bem distribuídas que deixou levemente constrangida. Era crua e ao mesmo tempo delicada.
Era real, a mulher ali. Tudo nela parecia verdadeiro. Sua expressão que transmitia a felicidade genuína de um sorriso, o corpo angular que não estava montado em uma posição afetada, como as que montava para as grandes revistas de moda. Não haviam retoques. Haviam estrias, celulites e seios que conheciam o poder da gravidade.
— Parece que gostou dessa — riu molhado e, apenas quando seu hálito morno bateu contra a nuca de , ela percebeu que estava tão próximo.
— Desculpe — afastou os dedos, acordando do pequeno transe.
— Tudo bem — ele garantiu. — Pode tocar.
assentiu. Mordeu os lábios com força quando seus olhos voltaram receosos para a fotografia. Sentia como se estivesse invadindo a privacidade daquela mulher. Era uma imagem muito íntima.
Será que...
— É sua namorada?
Arrependeu-se no mesmo instante por ser tão enxerida e inapropriada. Estava prestes se contradizer explicando para que ele não precisava responder sua pergunta, mas a voz dele tomou frente da sua sem qualquer inibição:
— Essa é sua forma de perguntar se eu estou solteiro?
O corpo de se contraiu e ela estreitou os olhos por cima do ombro, para ele. sorria de lado, os lábios rosadas repuxados de uma forma que soou tentadora para .
— Sua pergunta conseguiu ser mais inapropriada que a minha — o repreendeu, como se não estivesse babando na boca do rapaz há muito pouco.
travou o maxilar e baixou os olhos, envergonhado, por um segundo. Seu pomo-de-Adão se moveu e percebeu que, mais uma vez, havia sigo desnecessariamente grosseira.
— Peço perdão, não foi minha intenção — disse ele.
Então foi a vez de de demonstrar desconcerto. Não teve coragem para pedir desculpa pela própria grosseria, mas esperou que um pequeno sorriso fizesse aquilo por ela. entendeu e logo também abriu um breve sorriso.
Ela voltou os olhos para a fotografia. não havia lhe dado uma resposta, mas não ousaria repetir a pergunta. Surpreendeu-se, então, quando, de forma inesperada, ele falou:
— Não, . Ela não é minha namorada. Não mais.
O prazer de escutar seu nome sendo pronunciado pelos lábios carnudos de não conseguiu superar o incômodo que sentiu pela resposta.
Não mais.
Engoliu em seco, sentindo-se miúda diante da mulher majestosa que exibia o corpo nu de maneira tão confiante para a lente de .
— Você sempre fotografa suas namoradas nuas?
Não buscou o olhar dele por sobre o ombro, não teve coragem. Suas bochechas ardiam como nunca.
— Se elas permitirem, sim.
assentiu de forma robótica. Buscou algo que pudesse usar para sair daquele assunto e um detalhe na imagem, que se repetia em tantas outras dentro estúdio, chamou sua atenção. Algo que não percebeu enquanto invejava as curvas do corpo feminino enquadrado no foto em questão.
— Por que preto e branco? — indagou enquanto o olhar escorria por todas as fotografias expostas que podia alcançar. — A maioria esmagadora delas são assim. Se trata apenas um gosto particular?
Era estranho, mas nenhum dos dois se movia. posicionado atrás de como se espreitasse cada um dos seus movimentos mais ínfimos e ela completamente tensa sob o olhar masculino.
— Existe algo sobre tirar as cores... — começou devagar, de forma carinhosa. Não um carinho para , mas pela fotografia. Ela sentiu cada nuance desse carinho como se fosse para ela, porém. — E colocar os detalhes. Quando tiramos as cores de uma fotografia, estamos tirando a primeira camada dela, a primeira coisa que as pessoas reparam quando a veem. O que chama atenção, mas pode cegar para detalhes que deveriam ser imprescindíveis. Quando essa camada se esvai, se torna mais fácil perceber o que realmente importa na imagem. Aqui — se aproximou um pouco mais, encostando o torso nas costas de e os dedos longos na fotografia da ex-namorada. quis pedir que ele parasse de tocar na foto, mas engoliu o ímpeto ridículo. — Observar as curvas, os detalhes do corpo de Lindsay, a expressão facial... Quando não temos cores vibrando antecipadamente, chamando nossa atenção, é muito mais fácil. Parece meio confuso e sem sentido, mas, é como se deixasse de ser sobre visualizar e passasse a ser sobre sentir a fotografia, sabe? Permitir que o ínfimo se torne gritante, entende? E as cores costumam camuflar o ínfimo.
suspirou, irremediavelmente encantada. De repente, podia apostar que, se abaixasse os lábios e recitasse aquele monte de palavras bonitas bem no seu ouvido, suas pernas amoleceriam e seu ventre teria se contraído.
Ainda mais.
— Você faz fotografia parecer algo...
— Verdadeiro? Denso? — o peito dele vibrou atrás de quando riu. — Porque fotografia é sobre isso, . Sobre buscar verdade através de uma lente e passar essa verdade através de uma fração de segundo congelada no tempo. E a verdade nunca é vazia.
— Não é assim que eu me sinto quando estou posando para uma foto — lamentou a modelo, frustrada por não identificar a verdade citada por na sua profissão.
não se sentia verdadeira. Na verdade, não se sentia nada além de uma farsa, uma mentira produzida para vender um padrão cruel e aterrador.
— Eu posso te mostrar — o tom de surgiu sugestivo depois de alguns segundos de um silêncio.
— Como? — finalmente olhou-o por sobre o ombro, as sobrancelhas unidas. Encontrou os olhos escuros de vidrados nela.
Ele tocou seu quadril com sutileza, fazendo a pele por baixo do vestido pinicar. quis colocar a mão sobre a dele, mas achou que soaria desesperado demais.
— Eu posso te mostrar que a fotografia não é algo superficial. Muito menos vazio.
observou o rosto anguloso por alguns segundos, divagando sobre a expectativa que havia nele. Fez que sim com a cabeça em dado momento.
— Me mostre.


Capítulo 6

— Como você quer?
perguntou de forma vaga, enquanto espalhava as mãos pelos materiais na mesa, procurando o que precisava. Parecia verdadeiramente empolgado com a ideia de ter posando para suas lentes.
— Como eu quero o quê? — a mocinha piscou em dúvida, até então fitava as próprias unhas, muito tentada a destruí-las com os dentes.
Estava uma pilha de nervos, parada no meio do estúdio esperando pelo seu segurança-fotógrafo.
— Como você quer ser fotografada? — ele observou-a por sobre o ombro, um sorriso charmoso e um olhar intrigado.
franziu o nariz, criando ruguinhas no centro da testa.
— Não é você quem devia decidir isso?
riu e virou-se novamente para a mesa, deixando suas costas largas, agora cobertas apenas pela camisa social branca, à mercê das orbes azuis da menina.
— Não é sobre mim, . É sobre você.
teria sorrido se soubesse o que fazer. Olhou ao seu redor, nervosa, e percebeu que inspirações não lhe faltariam.
— chamou e, como se nunca deixasse o trabalho de segurança de lado, o moreno virou o rosto automaticamente. — Eu posso? — indicou as paredes com as fotos e pensou um pouco antes de parecer frustrado.
Não estava feliz com a ideia de escolher as fotos de outras pessoas para guiar as suas. Queria que ela fizesse sua escolha a partir de algo pessoal, de algo quisesse mostrar, de como quisesse se mostrar. Para ele e para as lentes dele. Mas balançou a cabeça afirmativamente, dando-a permissão. Ela passou a vida sendo guiada em todos os aspectos, era esperado que não soubesse o que fazer com ela quando tinha as rédeas consigo.
sentiu-se desencorajada pelo vislumbre de decepção que enxergou em , mas, ainda assim, forçou-se a caminhar pelo estúdio para estudar rapidamente cada fotografia disposta ali, buscando algo que pudesse se identificar.
Foi espontânea a forma como seu olhar pescou a famigerada fotografia, aquela que tanto instigou sua curiosidade. sentiu vontade de rir quando o vislumbre da ideia passou pela sua cabeça de forma vaga. Ri de si mesma por ser tão ridícula.
Nunca teria a coragem daquela mulher, muito menos a autoconfiança que precisou para se expor daquela forma.
Não se achava feia, nem de longe, sabia que estava perfeitamente dentro do maldito padrão. Gostava do que via no espelho na maioria das vezes, mas... Comparando-se com aquela mulher de curvas tão acentuadas era quase risível olhar para seus seios minúsculos e para as pernas finas.
Porém, algo em seu interior vibrava com a ideia. Mesmo que ela fosse deveras absurda.
arriscou uma olhadela para um concentrado e percebeu que gostaria de surpreendê-lo. Talvez se saísse da sua zona de conforto, o rapaz não a acharia tão previsível como ela sabia ser. Mas ele também havia dito que o ensaio tinha que ser sobre , não sobre ele.
Ela questionou-se, então, se queria fazer aquilo apenas para impressionar seu segurança-fotógrafo. Dois segundos depois encontrou a resposta.
Não.
apenas desejava se despir.
Era isso.
desejava se livrar de todas as camadas que a escondiam e que a moldavam de acordo com que sua empresária e sua mãe queriam.
Tirar as roupas seria algo simbólico. Era a sua segunda pele, mas só mais uma entre tantas. as tiraria como um pequeno ato revolucionário. Seria uma decisão completamente sua, não haveria ninguém para lhe censurar. Estaria livre de parte das suas amarras de certa maneira.
Restava saber se ela teria essa coragem.
Assim como no primeiro questionamento, instantaneamente a resposta veio em sua mente, quando seu olhar caiu para o assoalho.
Não. Não teria.
Mas não precisava ser tão extrema, certo?
Sorriu sozinha de modo ansioso.
Queria dizer que caminhou decidida para perto da tela branca que serviria de fundo para as fotos. Mas a realidade é que quase caiu dos saltos em apenas alguns passos curtos. Todo seu corpo tremia por antecipação, mas não hesitou.
Faria aquilo.
Se morresse de vergonha poderiam escrever na sua lápide que, ainda assim, foi uma mulher corajosa. Ou ao menos tentou.
Fitou ainda de costas, alheio aos seus diálogos e conflitos internos, e engoliu em seco.
Vamos, , pensou, irritada com a própria covardia.
Para não desfazer o trabalho do cabeleireiro, decidiu que seria melhor se tirasse o vestido por baixo. Então, com as mãos trêmulas, agarrou e desceu pelos braços uma alça de cada vez. Seus seios saltaram para fora quando o vestido se embolou na altura da sua cintura, sua barriga embrulhada.
Respirou fundo e fechou os olhos repetindo palavras encorajadoras na privacidade da sua mente. Um movimento calculado de quadris e o forçar das mãos e o vestido se arrastou por suas pernas até cair silenciosamente no chão.
Os pelos do corpo de arrepiaram com a constatação de que estava só de calcinha atrás do seu quase funcionário. E o mais absurdo era que só conseguia pensar se ele apreciaria seu corpo, sua pele pálida nua, seus seios discretos, suas curvas bem mais sutis que as da mulher da foto, quem descobriu ser sua ex-namorada.
Engoliu em seco.
É claro que ele a acharia ridícula.
Como poderia se comparar àquela mulher? Àquele corpo escultural de curvas latinas? À coragem de deixar todo o corpo à mercê das lentes de ?
Deus, onde estou com a cabeça?, perguntou-se. Estava pronta para resgatar o vestido aos seus pés, a coluna inclinando para baixo. Mas de repente estava falando.
estava falando e se virando na sua direção.
— Sabe, eu acho que seria legal se as fotos fossem feitas em um espaço externo. Você poderia...
estava calado.
automaticamente recolocou a coluna reta e tudo que passou a ouvir foram as batidas avassaladoras que ressonavam contra seu tórax.
Ele não a observava. Não, não era uma questão de olhar e guardar as informações. a engolia. Cada porção de pele, cada pequena curva.
Por um segundo tudo que ele esteve fitando foram seus olhos assustados, mas, depois do que pareceu uma batalha interna, permitiu que as orbes negras escorregassem pelo pescoço lânguido, pelo colo de ossos proeminentes, pelos seios pequenos e enrijecidos — nessa altura precisou umedecer os lábios —, pela barriga lisa de costelas quase visíveis, pela única região coberta pelo tecido fino da calcinha lilás e pelas pernas longas, que se terminavam nos saltos que esquecera de se livrar.
Se não fosse impossível, acharia que o olhar de foi coberto por um tom ainda mais escuro quando ele voltou a fitá-la diretamente nos olhos. Sentia que ele era o caçador. E ela a caça indefesa.
Se fosse mesmo morrer de vergonha, seria bem ali.
— disse ele de uma forma tão lenta que teve de usar todas as forças para continuar de pé. — O que você está fazendo?
Ele não estava entendo. Ele não estava entendendo nada.
Era o que mais temia, porque ela teria que explicar.
— Eu não — gaguejou quando tentou. — Eu só... Deus! Eu pensei que — respirou fundo, percebendo que o movimento do seu colo chamou a atenção de para a região. Ele foi rápido em arrumar a postura, porém. — Pensei que poderia me despir das minhas roupas para me despir da fachada que criaram para mim.
Quê?
balançava a cabeça como se processasse o que ela dizia. De tudo que esperava dele, definitivamente um sorriso discreto não estava incluído.
A modelo engoliu um monte de ar e interrompeu seu fluxo respiratório quando deu o primeiro passo. Não voltou a respirar até ele estacionar bem na sua frente, envolvendo-a em sua fragrância máscula. Segurava uma câmera com uma das mãos e com a outra tocou os cabelos presos em um coque.
— Posso? — seus olhos grudados aos dela como se nada pudesse quebrar aquele contato. Tinha tanto magnetismo que sentia as mãos coçarem para tocar o garoto, em qualquer pedaço de pele que pudesse.
Segurou seus impulsos cada vez mais insanos e assentiu timidamente, deixando que desfizesse seu coque e seus cabelos negros caíssem em ondas artificiais sobre seus ombros até a altura dos seios.
— Agora sim — ele alargou o sorriso, satisfeito. Afagou o braço de . — Você é corajosa, garota. E surpreendente.
também sorriu, mais do que satisfeita com o elogio. Poderia se acostumar a ser surpreendente.
começou a arrumar seus cabelos de modo que eles emoldurassem seu rosto pequeno e ela se permitiu escanear o rosto de barba por fazer. Ele estava concentrado, mas seu maxilar estava travado e seu toque, apesar de delicado, tinha uma quantidade de tensão. Os olhos vez ou outra nublavam, mas ele os piscava algumas vezes, como se quisesse espantar algum pensamento incômodo.
quis tocar a pele morena, os fios ralos da barba, as sobrancelhas grossas e as poucas linhas de expressão. Imaginou se a pele dali era áspera como a das mãos.
— Perfeita — ele disse ao terminar e ousou tocar seu braço, sentindo o músculo da região enrijecer sob o tecido da camisa e seu toque.
— Não quero ser perfeita hoje, . Quero ser apenas... Uma garota que saiu de interior da inglaterra para tentar carreira em Londres. Quero ser eu.
— E você não é perfeita — ele acrescentou, com obviedade e um tanto de admiração.
— Nem de longe — riu baixinho, corada.
assentiu e começou a se afastar, andando de costas.
— Vamos fazer do seu jeito, . Como você quiser. Ah! Nada de espaço externo, hum? — arqueou uma sobrancelha, sapeca, e riu, os ombros encolhidos.
— Não dessa vez.
Logo estava posicionando a câmera na frente do rosto, o rosto contorcido para que um dos olhos se estreitassem. Focalizou uma seminua e novamente embaraçada e não evitou uma risada divertida.
— Seja você, — pediu ao abaixar a câmera e focalizar a garota com os próprios olhos.
— Eu estou sendo eu! Desculpe se não estou acostumada a ficar nua na frente dos meus funcionários.
— Eu não pedi que tirasse a roupa — ele lembrou. Ela revirou os olhos, desdenhando do seu argumento, e ele suspirou. — Você pode vestir de volta, sabe? O vestido.
— Eu não quero.
— Tem certeza? Porque parece que você está bem desconfortável.
— Só tire as fotos, — pediu. — Só me diga o que fazer e tire as fotos.
— Tudo bem — ele voltou a cobrir o rosto com a câmera de lente comprida. — Você pode afastar o vestido e dar dois passos para trás? Por favor, não tire as sandálias.
atendeu os pedidos e ficou esperando pela próximas instruções com as mãos unidas na frente do corpo. Estava segurando os impulsos de cobrir os seios.
— Você é linda, — ele soprou e foi como música para os ouvidos da modelo. — Imagino que já tenha ouvido isso uma porção de vezes, mas eu não posso culpar as pessoas, é algo que realmente precisa ser dito.
sabia o que ele estava fazendo. Queria deixá-la confortável. Mas isso não impedia de haver verdade em suas palavras, impedia?
— Você pode... — ele continuou, devagar e certeiro, movendo a câmera em vários ângulos e tirando várias capturas de uma despreparada. — Feche os olhos e mostre pra mim que sabe disso, . Mostre pra mim como você se cuida, como contempla o próprio corpo com a certeza de que... De que é uma obra de arte de alguma divindade superior enfadada — riu fraco de si mesmo. — Você pode fazer isso, ?
Ela engoliu em seco. Sabia que as palavras do garoto eram inocentes, mas não pôde impedir seu cérebro de caminhar por uma estrada nebulosa.
De uma forma ou de outra, fez o que ele pediu. Começou com carinhos sutis pelas laterais na cintura, subindo os dedos delicadamente, criando um trajeto de pelos arrepiados. Riu um pouco quando alcançou a base dos seios, sentindo cócegas e deixou que os dedos subissem mais, passando pelo interior do par para alcançar seu colo liso e o pescoço delgado.
Respirava de forma entrecortada. Era como se estivesse se despindo para além das roupas, as carícias pela pele nua servindo como uma apresentação e contemplação de cada pequena parte do seu corpo. Uma dança gostosa e anestesiante.
— Isso... — ouviu murmurar. — Você reconhece a sua beleza, . Sabe que ela não está presa à sua aparência, sabe que é mais... Agora quero que abra os olhos e mostre-a pra mim. Não que não seja algo escancarado. Mas quero que me mostre como você se vê, como você se conhece. Me mostre quem você é, .
abriu os olhos e encontrou apoiado na mesa, a câmera diante dela de modo certeiro. Sorriu. Simples e espontaneamente. Não como o exibir de dentes que montava diante das câmeras das grandes editoras de revistas de moda. Não como nas passarelas. Sorriu porque se sentiu leve de um jeito estranho.
E porque achou a careta que fazia sem perceber algo extremamente adorável.
Então, gradualmente, foi se soltando cada vez mais diante da lente de , diante do seu olhar e postura profissional, e diante dos seus breves comentários ora repleto de elogios cabíveis ora de dominado por instruções precisas. A vergonha dando lugar à vontade de dar tudo de si.
E foi sentindo aos poucos à forma como ele a fotografava, como parecia pescar para o interior do aparelho moderno cada uma de suas nuances, como ele parecia buscar algo além da sua aparência, do seu rosto maquiado. Foi percebendo como parecia buscar o que havia por trás daquelas camadas, o que se escondia no seu interior, sua verdadeira personalidade.
Com a câmera e o olhar clínico, tentava descobrir quem era aquela garota e o que ela mais almejava, o que tinha a dizer, com um olhar, um sorriso. Ele a vasculhava. Cada parte visível ou não dela.
ficava sem fôlego ao pensar que podia ver além de todos. Vê-la despida de todas os falsos moralismos e modéstias fajutas. Sentia-se completamente livre para ele. E viva como nunca. Sentia como se pudesse ser ela mesma. E tinha certeza que, com , podia.
Não soube se durou minutos ou horas, mas em determinado momento o fotógrafo abaixou a câmera e alongou as costas. Ele tinha experimentado diversas posições e ângulos ao longo do ensaio, tudo para captá-la da melhor maneira.
tinha um sorriso imenso de satisfação tomando rosto quando catou o vestido de volta. A região parecia congelada, não fosse pelos impulsos de riso que a entretiam vez e outra.
— Viu? — também se encontrava satisfeito. o pegou enfiando as mãos nos bolsos depois de deixar a câmera sobre a mesa.
— Foi incrível — confessou como se não fosse óbvio. — Eu me senti tão viva. Eu... — gargalhou, sem saber o que acrescentar.
a acompanhou com um sorriso estreito.
— Isso é fotografia, . Vida. Um segundo parado no tempo, um instante vibrante de vida que fica congelado para sempre ao alcance dos nossos dedos.
sorriu e balançou a cabeça, como se concordasse, mas fosse incapaz de acrescentar algo que não fosse estúpido. falava tão bonito. Era quase... Não. Era muito poético.
Estava pensativa, um sorriso vago, e por isso não notou quando ele guiou os pés de forma dura na sua direção. Nem percebeu quando, em meio aos seus devaneios bobos, o olhar profissional se transformou em um brilho lascivo.
Apenas quando o calor do corpo masculino ficou próximo de mais e um toque gentil e morno alcançou sua lombar que subiu os olhos para os dele. Engoliu em seco quando entendeu o que o par de orbes escuras dizia em um silêncio gritante.
— Droga, — ele murmurou contra seu rosto, o hálito quente embriagando enquanto juntava seus corpos superficialmente. Os mamilos entumecidos roçando de leve no tecido da camisa de botões. — Isso é tão, tão inapropriado, mas...
arrastou a mão pelas costas nuas da modelo e ela ofegou em surpresa. Esfregou as pernas quando apertou na altura de suas costelas, o polegar arriscando um toque na base de um dos seus seios.
— Mas? — ela pediu, finalmente largando o vestido e descansando as mãos no torso de , o nariz roçando no dele.
Era muito, muito errado.
Mas porque só o breve vislumbre já parecia tão certo?
— Eu só consigo pensar...
— Sim?
Ele sorriu de forma dolorida contra seus lábios, quase como se estivesse sendo torturado. Então confessou:
— Em arrancar a última peça que te cobre.


Capítulo 7

Quando fez girar no mesmo lugar apenas para empurra-la em seguida contra a parede, não havia mais imparcialidade em seu olhar.
Ele agora era quente.
Tão rápido quanto sentiu o contato com a superfície do painel branco, reconheceu as mãos grandes e firmes que apertaram seus quadris e os dedos longos que afundaram na sua carne. Ofegou em sofrimento. O corpo masculino a espremeu entre ele e a parede antes de uma barba rala atiçar os pelos da curva do seu pescoço em carícias ásperas.
deixou um beijo quase casto na região e estremeceu em suas mãos, um formigamento lúbrico encontrando caminho para o baixo ventre da garota.
— Você sabe que eu tenho noivo — sua voz saiu em um sussurro sôfrego, um fio de voz que nem de longe tinha a firmeza necessária. riu contra seu pescoço e fincou mais os dedos nos seus quadris.
— Você também sabe disso e não está me freando.
Não. Ela não estava.
não foi delicado quando puxou seu queixo, fazendo com que ela fosse obrigada a virar o rosto para ele, olhos nos olhos.
nunca sentira tanta dificuldade para respirar. De repente, a ação natural requeria um esforço descomunal dos seus pulmões. Tinha o perfume masculino embriagando completamente seus sentidos, invadindo sua corrente sanguínea de modo voraz, entorpecendo todos os seus músculos.
— Você quer que eu pare, ? — o hálito morno foi de encontro ao rosto de assim como o tom enrouquecido da voz preencheu os ouvidos.
Não. não queria. Poderia ter dito em palavras, olhando dentro daquelas orbes enegrecidas pelo desejo. Mas suas pálpebras já pesavam em um prelúdio delicioso e não foi capaz de impedir seus impulsos de tomarem as rédeas do seu autocontrole.
Respondeu com um beijo. Um beijo urgente e necessitado. Os lábios se chocando com certa violência, as línguas se encontrando em uma batalha esperada, uma das mãos cravadas na nuca de cabelos ralos.
afastou-se apenas o suficiente para fazer girar na ponta dos pés e logo juntou-se à ela mais uma vez, empurrando o corpo miúdo e delicado contra a superfície gelada, com o cuidado instintivo de usar uma das mãos para impedir o contato direto da cabeça dela com contra o revestimento branco. Os lábios incapazes de separar por mais do que frações de segundo carentes de fôlego.
não demorou a agarrar pedaços do tecido da camisa que impedia seu contato direto com os gominhos que deveriam adornar o peitoral masculino, descontando toda a ansiedade que atravessava seu corpo por ali. Brincou com a língua de , sugou e mordeu os lábios carnudos sem se preocupar em deixá-los avermelhados. Na verdade, adoraria se conseguisse o feito.
Estava quase sorrindo contra a boca dele quando notou que a mão que estivera até então nos seus quadris encontrara um caminho traiçoeiro para um dos seus seios.
espremeu o pequeno volume e gemeu baixinho contra a sua boca, divertindo-o enquanto se movia para tentar alertar o rapaz de que o ponto mais rijo da região esperava por uma atenção mais específica.
entendeu, mas, ao contrário da garota, tinha certa calma em seus atos. Interrompeu o beijo, dando a uma ofegante o vislumbre satisfatório dos seus lábios vermelhos e molhados. Um pouco mais manchados do que a modelo havia planejado, pois esquecera completamente que nos seus lábios ainda haviam resquícios do batom vermelho.
Quis rir e estava prestes a erguer o polegar para tentar diminuir o estrago. abaixou e tomou-a pelas coxas sem aviso. sobressaltou com o susto, mas não pôde fazer nada além de jogar os braços em volta do pescoço do rapaz enquanto era carregada para fora do estúdio.
Fora colocada em uma cama e teve que refrear sua curiosidade de escanear cada detalhe do cômodo que pressupôs ser o quarto de quando o próprio, depois de tirar seus sapatos, escalou seu corpo com um sorriso lascivo, fazendo-a abrir as pernas para receber sua presença corpulenta. As mãos grandes afundavam o colchão ao lado da cabeça da modelo e ele roçou os lábios nos dela com suavidade.
estava sorrindo debilmente. Sentia-se drogada pela essência que expirava da pele morena, enfeitiçada pelos toques e pela proximidade quase intimidante.
Ganhou um beijo úmido na curva do pescoço e jogou a cabeça para o lado, antes da região ser sugada pelos mesmos lábios atrevidos. Uma mordida ali e um comichão no interior das pernas. Quase as fechou na tentativa de se aliviar, mas encontrou o corpo masculino no caminho.
, entendendo suas intenções, com um sorriso quente contra a pele do seu pescoço, avançou com os quadris, friccionando o volume coberto pela calça social na região úmida protegida por nada além de uma renda. não costumava dizer palavrões, mas um ficou preso na sua garganta. Apertou a nuca de com uma das mãos e trouxe o rosto dele para perto do seu.
— Sem preliminares — queria que fosse uma ordem, mas saiu como um pedido desesperado. Um pedido que, pela forma como umedeceu o sorriso com a língua, não seria atendido.
— Nada disso — lambeu os lábios trêmulos dela e afastou-se antes que pudesse pescá-lo para um beijo. — Eu vou provar cada pedaço de você. E você vai ficar quietinha aí — aumentou o sorriso.
era inteligente o suficiente para entender que aquilo não era uma ameaça, mas uma promessa. E não parecia um homem que costumava quebrar suas promessas.
Sem forças para lutar contra o desejo que serpenteava pelo seu corpo, segurou a cabeça coberta pela camada de pelos ralos do segurança e deixou que ele descesse pelo seu corpo em um caminho que mesclava beijos estalados, sucções e saliva.
— Era aqui? Era aqui que você implorava para que eu tocasse? — o hálito quente bateu contra um dos pontos altos dos seios de e ela engoliu em seco antes de assentir fervorosamente. Seus olhos semiabertos, as orbes azuis brilhando em pecado por entre os cílios espessos.
riu sobre o pontinho sensível e quando pensou que iria desmaiar ele o abocanhou, fazendo-a perceber que perder os sentidos seria pouco. iria morrer.
O que tinha na cabeça quando sugeriu que pulassem as preliminares? Sorte sua ser sábio o suficiente para não obedecer seus delírios.
Cada mulher tem o seu ponto de prazer, suas zonas erógenas, suas áreas mais sensíveis. Para , poucas coisas eram tão deliciosas como sentir lábios quentes e uma língua molhada brincando com seus seios.
Sentia os olhos de inspecionando cada uma das suas reações e tentou sorrir para garantir ao rapaz que estava tudo bem, mas foi apenas seus lábios partirem e um gemido manhoso escapou por entre eles. sorriu contra a sua pele, os olhos cravados nas suas expressões.
Será que era uma mania, essa de sorrir durante o ato sexual como se tudo não passasse de uma grande diversão?
Era o profissional dando lugar ao homem. Era o olhar clínico, sustentado durante o ensaio, dando lugar aos tons obscuros de uma cobiça carnal. fotografou com paixão, mas uma paixão devotada ao nada além da fotografia. Ali, pela forma como seus olhos cintilavam por ela, a paixão fora desviada para outro destino. Para e pela forma como ela se contorcia em baixo do seu corpo.
Quase resmungou uma objeção quando seu seio foi liberado, mas engoliu-a ao assistir retomar o percurso, arrastando os lábios pela sua barriga, arrepiando todos os pelinhos da região, e objetivando a região do seu corpo que mais ansiava por atenção. Uma mordida suave sobre a renda encharcada e rebolou pedindo por mais. Como ela descobriu ser de praxe, sorriu.
— Eu posso? — ele perguntou olhando para ela, as mãos segurando as alças da calcinha antecipadamente.
não conseguia respirar direito e deixou as mãos caírem ao lado do corpo. Era muita pretensão supor que conseguiria falar. Moveu a cabeça positivamente e um gemido baixinho confirmou a afirmação que brilhava em seus olhos.
se afastou com o aval e desceu a peça devagar pelas pernas longas, de coxas finas e joelhos ossudos, arrastando as pontas dos dedos por tudo de pele que encontrava no caminho. Era uma contradição, como o rapaz se revezava entre brutalidade e delicadeza, entre força e cuidado.
engoliu em seco quando sua calcinha foi jogada para o lado e as mãos grandes afastaram suas pernas. A forma como fitou sua região exposta e naquela altura encharcada fez uma corrente de formigamento avançar por todo seu corpo.
Queria tanto aquilo. Ele.
Algo em seu interior gritava que o que acontecia naquele quarto era errado de todas as formas imagináveis. Mas o peso de sua consciência não conseguia ser páreo para o peso daquela presença suntuosa sobre seu corpo. Muito menos para a força das promessas que brilhavam naquelas orbes escuras.
Os lábios de tocaram depois da breve e calorosa inspeção e, quando fechou os olhos, ela também o fez.
Ah, ele sabia o que estava fazendo. Como já descobrira, ele entendia perfeitamente como revezar entre delicadeza e brutalidade. Era assim que ele trabalhava no interior das suas pernas, era assim que ele pretendia tirar dela a razão. Se é que já não havia tirado.
apertava a coxas de , seus dedos embranquecidos criando marcas vermelhas na pele alva enquanto sua boca se satisfazia com cada gota do suco que fluía da garota.
A modelo queria poder abrir os olhos para assistir o homem trabalhar, mas suas pálpebras pesadas pelo prazer não permitiam. Restava à ela, então, apenas se contorcer contra aquela boca, sentir os lábios grossos se divertindo com os seus, a língua habilidosa lhe invadindo com propriedade.
Um primeiro espasmo mais intenso correu pelo corpo feminino e nem teve tempo de sentir falta dos dedos de em uma das suas pernas, logo ele estava invadindo-a com a língua enquanto apertava o pontinho inchado mais acima com o polegar.
Esqueça a ladainha sobre morrer de vergonha. Se morreria naquele dia, certamente seria de prazer.
Não sabia dizer exatamente quando, mas em dado momento seu corpo já convulsionava contra a boca de , suas mãos espremendo os lençóis brancos que forravam a cama e sua coluna arqueada em expectativa. Enquanto o rapaz investia com mais e mais precisão. Queria tirar de tudo que ela podia oferecer e um pouco mais.
Então ele veio, como nunca, de uma forma completamente diferente do esperado. abriu os olhos e fitou o teto branco, sua mente nublada pelo orgasmo avassalador, tão diferente de todos que já teve na vida. Sua respiração regularizava aos poucos, assim como os batimentos cardíacos.
Por uma fração de segundos fez a maldita comparação, por uma fração de segundos o rosto de Marlo atravessou seus pensamentos. Pensamentos esses que se espelharam feito fumaça quando o rosto de surgiu na sua frente, revogando toda a sua atenção. Os olhos tão nublados e brilhantes que queria poder guardar aquela visão pra sempre.
Ele não sorria, então não sorriu. Mas se permitiu fazer um carinho sutil na barba que envolvia aquele maxilar, sentindo-se satisfeita ao vê-lo mover o rosto manhosamente para espalhar o contato, os olhos entreabertos.
Não demorou muito e quando os lábios se encontraram uma vez mais, assim como um par de dedos a invadiram sem aviso prévio, o gemido de foi abafado. Ela podia provar do próprio gosto durante o beijo e gostou de sentir o calor que havia no interior de suas pernas se derramando em sua boca juntamente do gosto de .
movia os dedos devagar, entrando e saindo com uma calma assustadora, como se estivesse apenas garantindo que a mocinha ainda estaria molhada o suficiente para o que estava por vir.
Mas um detalhe ainda incomodava e ela quebrou o beijo para expô-lo.
— Por que você é o único vestido? — reclamou, arrancando uma risadinha de .
— Não fale como se tivesse sido eu a tirar suas roupas — rebateu, sorridente, e mordeu o lábio inferior quando sentiu o polegar pressionando seu ponto sensível mais embaixo. Os olhos pesaram, mas ela se esforçou para manter os dois abertos para o rapaz. — Você se livrou delas por conta própria.
— Então agora é a sua vez de se livrar das suas — respondeu por cima da timidez, os olhos piscando quase inocentemente.
pescou seus lábios em uma mordida e os sugou levemente antes de se jogar ao seu lado na cama.
— Faça isso por mim — pediu com um sorriso lateral, o rosto caído no colchão, virado para . Ela arrastou a língua por entre os lábios e então os repuxou em um sorriso discreto.
Foi para cima de com cuidado, os joelhos apoiados ao lado do corpo dele enquanto sentava sobre o volume da calça. Fingiu ingenuidade para a maneira como os olhos escuros escaneavam cada milímetro do seu corpo exposto pela nova posição, mas seus dedos já corriam para os botões da camisa branca, livrando cada um deles de suas casas. Gradualmente foi descobrindo o peitoral bronzeado, encontrando uma pele depilada e uma porção de tatuagens.
se inclinou para ajudar a se livrar da camisa e aproveitou para lhe dar um beijo rápido enquanto ela empurrava a peça pelos seus braços. A mocinha riu e deixou a camisa em cima da cama. Antes que o segurança se afastasse, porém, cravou as unhas na nuca dele e aprofundou o beijo, deixando que seu corpo tombasse levemente sobre o dele.
Pele com pele, arfou contra os lábios de quando o mesmo a envolveu fortemente com os braços, fazendo com que seus seios ficassem espremidos contra o peitoral dele.
— Para quem queria pular as preliminares — murmurou com um sorriso malicioso, em intervalos rápidos onde as bocas se desgrudavam em busca de ar. — Você está demorando muito.
riu e uniu suas testas, olhos nos olhos.
— E para quem queria provar cada parte de mim, você está muito apressadinho.
— É justamente por isso que eu estou apressado, querida. Tem algo em mim que ainda não provou você e está ansiando por isso.
— Vamos resolver isso, então — ela mal piscou e já estava desabotoando a calça social de , que deixou-se tombar contra o colchão em uma risada rouca.
abriu o zíper e ele inclinou os quadris para que ela pudesse puxar a calça.
— Branca, sério? — perguntou depois de perder a calça para o chão do quarto, fitando a cueca box que salientava perfeitamente o que guardava, esticando-se ao longo do comprimento e marcando as veias de .
— O quê? — ele piscou, confuso, algumas ruguinhas brotando na testa. — Não gosta?
— Minha favorita — ela confessou em voz baixa, mas sem hesitar. Engatinhou sobre e aproximou o rosto do dele no mesmo instante que sentou no seu colo. — Onde tem camisinha? — questionou.
deixou escapar um ruído enrouquecido quando ela se movimentou no seu colo, friccionando-se nele propositalmente.
— Primeira gaveta do criado-mudo — respondeu com um pouco de dificuldade, apontando para a direita.
pulou para fora da cama e arrancou um pacote de camisinha da fileira que estava guardada na gaveta, sem deixar de reparar na quantidade considerável.
— Você coleciona ou o quê? — chacoalhou o pacote na frente do rosto de ao voltar para a cama, sem conseguir esconder o incômodo. Ele encolheu os ombros despojadamente.
— Sou prevenido — piscou, maroto, e revirou os olhos.
Estava com as mãos um pouco trêmulas quando abriu o pacote, sentada sobre as pernas ao lado de , e ele se virou para beijar sua barriga.
— Como você gosta? — indagou contra a pele da região, distribuindo algumas mordidinhas que fazia cócegas. baixou os olhos para ele sem compreender e o rapaz subiu os beijos até estar com o rosto na altura do dela. Então repetiu de forma mais clara, os dedos de uma das mãos dedilhando a cintura da garota: — Qual posição você prefere?
sorriu debilmente, quase sem acreditar. Nenhum dos homens com os quais já esteve tinha lhe feito aquela pergunta. Marlo nunca fez. E o mais engraçado era que a resposta estava na ponta da sua língua. Piscou algumas vezes e sentiu as bochechas arderem.
— Gosto de ficar embaixo.
piscou, as sobrancelhas se juntando.
— Sério?
— Bom, o que posso dizer? Sou uma mulher clássica — deu de ombros, mas suas bochechas ardiam como o inferno. Abaixou levemente o rosto, constrangida, e fitou por entre os cílios, a camisinha segura em uma das mãos. — Você não gosta?
Ele balançou a cabeça.
— Gosto, mas estou surpreso. As mulheres costumam antipatizar com essa posição. Você sabe... Por uma questão patriarcal.
assentiu, mas tinha outra questão em mente.
— Qual a sua posição favorita?
fez que não com a cabeça.
— Nada disso — sorriu e fez deitar devagar. Colocou-se por cima, do jeito que ela queria e roçou o nariz no dela. — Hoje é sobre você, eu já falei.
— Mas eu queria...
— ele interrompeu contra os seus lábios em um rosnado impaciente. — Coloca a camisinha e deixa eu te foder de uma vez.
não seria louca de tardar a atender aquele pedido. Com o interior se contorcendo em expectativa, empurrou a cueca branca, recebendo a ajuda de para tirá-la do caminho, e o vestiu com a camisinha, as mãos tremendo de ansiedade.
não avisou com palavras, nem pediu mais autorizações, certo de que queria aquilo tanto quanto ele. Uma das mãos agarrou uma das pernas da garota, abrindo-a mais para recebê-lo, e a outra segurou o rosto delicado, puxando-a para um beijo.
E assim, envolvida pelos lábios quentes e habilidosos, recebeu a primeira investida. Gemeu baixinho para dizer que estava tudo bem e foi o suficiente para que recriasse o movimento por uma porção de vezes, aumentando a velocidade e a força conforme lhe oferecia mais respostas positivas.
Ela soltava ruídos satisfeitos, reviravas os olhos, mordia seus lábios e arranhava as unhas nas suas costas.
Era por isso que apreciava estar por baixo na hora do sexo, para sentir o calor do corpo masculino esquentando sua pele, o movimento dos quadris contra os seus, para ter os músculos flexionados ao alcance do seu toque. precisava tocar, sentir, ser envolvida de todas as maneiras.
Não que não gostasse de outras posições, mas nenhuma era capaz de lhe oferecer a sensação de intimidade que aquela permitia. Como se seu corpo se encaixasse perfeitamente com o da sua companhia. No caso, seu segurança pessoal.
— murmurou em um chiado que se encontrou com o som sequencial das estocadas e da cama rangendo, o corpo içando para frente conforme era invadida, as testas unidas e o suor dos corpos se misturando.
— Diz — soprou contra o seu rosto, observando cada traço do rosto feminino com admiração. — Diz pra mim, . O que você quer?
— Você — soluçou, o corpo arqueado. — Mais.
— Eu já estou aqui, , te dando tudo de mim. Tudo que eu tenho.
Era tudo que precisava. Aquelas palavras somadas à mão que desceu para o interior da suas pernas e pressionou seu ponto de prazer, foi o suficiente para que o nó em seu ventre desatasse em um orgasmo longo e avassalador.
veio logo depois, com algumas investidas mais lentas e pontuais, enquanto ela ainda se perdia em espasmos anestésicos. Espalhou alguns beijos pelo pescoço e colo da mocinha, e, então, se jogou ao seu lado na cama. Os corpos suados e ofegantes inebriados pelo momento que compartilharam, as respirações pesadas acolhendo o cheiro de sexo que tomava todo o cômodo.
fechou os olhos e agarrou o lábio inferior com os dentes. Sentiu vontade de rir, mas se conteve para não parecer uma virgem que estivera desesperada para se livrar do peso da virgindade.
— Você vai me achar muito pervertido se eu disser que já quero repetir? — a voz de maculou o silêncio de repente, baixa e levemente rouca.
soltou o lábio inferior e sorriu de lado, os olhos permaneceram fechados.
— Não.


Capítulo 8

não soube o que fazer quando sua respiração normalizou.
Não, não houve uma segunda rodada e o quarto acabou por mergulhar em um silêncio incômodo, ao menos para ela. ainda estava deitado ao seu lado e de rabo de olho podia ver que estava perdido em divagações.
Esperou por algum tempo que ele falasse algo, mas, como nada veio, tomou impulso para sair da cama. Estava na metade do caminho quando sentiu uma mão envolvendo seu pulso. Olhou para trás e tinha as sobrancelhas arqueadas.
— O que está fazendo?
piscou em dúvida sobre como responder a pergunta.
— Indo pegar meu vestido? — perguntou de volta, apontando para a porta do quarto com incerteza. sorriu fechado e balançou a cabeça negativamente.
— Agora não — pediu, calmo, examinando de modo espontâneo as nuances do corpo feminino. — Nós podemos só... ficar aqui um pouco?
Talvez fosse a mudança de clima, como o ar de repente se tornara denso e realista, mas sentia-se exposta, queria esconder suas partes íntimas do olhar de e estava se segurando para não correr para fora do quarto em busca do seu vestido esquecido no estúdio. Fez que sim com a cabeça, porém; e permitiu que a ajudasse a ajustar o corpo na cama, suas costas apoiadas na cabeceira de madeira.
Ele a surpreendeu quando deitou sobre seu corpo, encaixando-se entre suas pernas abertas e apoiando o queixo no vale dos seus seios. Os olhos negros cravados em cada mudança nas feições da mocinha e nos lábios um pequeno sorriso misterioso.
estava tensa, as mãos coçando para tocar no corpo de , a pele ansiando para receber os toques dele. Se submeteu aos seus impulsos em dado momento, protagonista da atenção do rapaz, e deixou que as mãos repousassem na nuca dele, as unhas arrastando no princípio dos cabelos ralos. sorriu preguiçoso em aprovação.
— Eu serei demitido? — a pergunta veio tão repentinamente que não custou a concluir que eram sobre aquilo os pensamentos que ele vinha tendo.
Sentiu medo de que ele estivesse arrependido e seus lábios tremeram quando tentou sorrir.
— Por que a pergunta?
— Não sei — ele teria dado de ombros se não tivesse tão relaxado sobre o corpo miúdo da garota. — Você não acha que as coisas ficariam um tanto quanto estranhas?
pensou um pouco e encolheu um dos ombros.
— Não — era mentira.
desconfiou.
— Então tudo bem para você nos tratarmos profissionalmente depois do que aconteceu?
suspirou pesadamente.
— Não — resmungou, vencida, e o segurança riu, o torso vibrando contra ela. — Mas eu não vou demitir você, que coisa absurda.
— Ótimo, porque eu detesto procurar emprego — fez uma careta, brincalhão, e desejou beijar o nariz franzido. Contentou-se em sorrir fraco.
— Mas você não gostaria de se concentrar na fotografia? — perguntou para se livrar dos pensamentos inapropriados. Como se àquela altura ainda pudesse assegurar a adequação daquela relação. — Digo, eu já vi que tem talento.
— Eu agradeço, mas, acredite, o que viu naquelas fotos não é suficiente para o mercado.
— Claro que é, aquelas fotos são incríveis! — sorriu sem humor e percebeu que talvez aquela fosse a grande frustração da sua vida. A fotografia. — Por que não seguiu carreira?
— Desde a faculdade meus trabalhos sempre foram considerados razoáveis, bons, mas pouco inovadores — ele explicou com uma tranquilidade que não condizia com o significado de suas palavras. — E de fotógrafos regulares o mercado está cheio. Sou só mais um.
— Acho que nunca ouvi tantos absurdos — balançou a cabeça, indignada. — Você já se ouviu falando sobre fotografia? Nunca escutei alguém falar de forma tão entendida e sensível sobre o assunto. E olha que eu convivo com um monte de fotógrafos arrogantes. — jogou as sobrancelhas para cima para dar ênfase na última parte.
— Entender muito de algo não significa saber como fazer esse algo — rebateu, como se tivesse aquele discurso na ponta da língua. — Teoria e prática nem sempre se complementam e compreender as nuances da fotografia não faz de mim um exímio fotógrafo.
chamou, mesmo que ele já olhasse para ela. Seus polegares subiram para as laterais do rosto do rapaz e ela tentou parecer confiante ao falar: — Você é louco por desacreditar no trabalho incrível que eu vi dentro daquele estúdio. Eu não sei quem te disse que você não era bom, mas essa pessoa é completamente insana. Não acredite em tudo que ouve, estou falando por experiência própria. As pessoas tendem a diminuir o que invejam.
estava sorrindo, os olhos brilhando para com uma admiração crescente. Abaixou o rosto e riu abafado contra a pele dela, antes de depositar um beijo carinhoso no espaço entre os pequenos seios.
— Você é maravilhosa, garota — olhou para e avançou devagar em busca dos seus lábios. Ela o recebeu com ansiedade, tocando os lábios nos dele com uma saudade sem nexo.
Não houve língua, apenas lábios sorridentes se reconhecendo, se acariciando em uma dança silenciosa.
— Eu quero ver as minhas fotos — quebrou o beijo para sussurrar, mordeu o lábio inferior em timidez.
assentiu. Estalou um último beijo nos lábios pequenos da garota e pulou para fora da cama. Resgatou a cueca jogada no chão e a vestiu calmamente.
decidiu que também devia vestir ao menos a calcinha e levantou para buscá-la pelo quarto. foi mais rápido ao pegar a peça lilás que estava perto de uma escrivaninha de madeira e olhou para a modelo com um sorriso esperto, guardando a renda no interior da mão.
— Nem pensar — balançou o indicador no ar de um lado para o outro fazendo uma negação e arregalou os olhos azuis. — Pode ficar me esperando desse jeitinho aí.
apertou as coxas. Fitava sem saber o que fazer e seu rosto já começava a esquentar. Ele fingiu não perceber o seu desconcerto e, depois de deixar para ela uma piscada divertida, sumiu pela porta do quarto.
mordeu o lábio, nervosa, mas segurava uma risada descrente. Voltou para a cama e encostou as costas novamente na cabeceira. Puxou um lençol e cobriu pelo menos das pernas à cintura. Ficaria nua, mas não tão exposta.
Quando voltou com a câmera nas mãos, fez uma careta reprovadora para o lençol, mas não reclamou. Pulou na cama e afastou o tecido de algodão para se colocar embaixo junto com , que estava abismada demais para apresentar objeções. Mais uma vez deu um jeito de se encaixar entre as pernas da garota, dessa vez com as costas apoiadas nela e a cabeça deitada entre o vale dos seus seios.
desistiu de tentar raciocinar ou entender, estava adorando aquela espontaneidade de e se aproveitaria dela. Empurrou as mãos pelo peitoral do garoto e as juntou formando uma espécie de abraço frouxo.
estava ligando a câmera e virou o rosto com um sorriso. sorriu de volta, mesmo com vergonha, e gargalhou quando ele agradeceu o gesto carinhoso com um beijo nada casto na base do seu pescoço.
A câmera estava ligada e acessou a galeria, abrindo a primeira foto de .
— Você é linda — disse ele de imediato.
sorriu tímida. A foto estava realmente muito bonita, mas, naquele caso, era mais culpa da pessoa por trás da câmera do que da pessoa que estava na frente dela. havia pegado-a em um momento espontâneo, onde gargalhava, provavelmente de algo que ele havia comentado propositalmente, a cabeça jogada para trás como poucas risadas permitiam.
não sentiu vergonha do seu corpo exposto e poderia chutar que estava, à sua maneira, tão sensual quanto a ex-namorada dele.
passou para a próxima foto e nesta mordia o lábio inferior com um sorrisinho, a cabeça baixa e os cílios espessos e longos cobrindo os olhos. A forma como captou a luz que entrava através da janela do estúdio a tornou cúmplice do ensaio, porque o jogo de luz e sombra que formavam na pele alva da garota era de tirar o fôlego.
— Sabe — começou, vago, inclinando a cabeça levemente para o lado enquanto estudava o próprio trabalho. — vou te devolver a calcinha apenas para que eu possa te comer enquanto usa ela.
Cada fibra e músculo do corpo de enrijeceu em baixo do rapaz, o olhar dela caindo para a lateral do rosto dele com uma rapidez assombrosa.
não falava palavras sujas. Apesar da aparência ameaçadora e imponente, era educado e polido. nunca imaginou uma sentença daquela saindo da boca do rapaz e o mais estranho foi a forma como cada região sensível do seu corpo respondeu à cada palavra que tão espontaneamente a formou. Estava arrepiada da cabeça aos pés e um formigamento característico se concentrou no interior das suas pernas.
, provavelmente estranhando seu silêncio crescente, virou o rosto para buscá-la com os olhos. Os lábios crispados em uma linha fina e o olhar questionador.
— Foi inadequado? — encolheu os ombros e os lábios se partiram para responder, mas emendou: — Claro que foi, seu idiota! Desculpe, , você sabe, é um mania essa de falar...
não pensou antes de chocar a boca contra a dele e calar aquela verdadeira matraca. A versão polida, cheia de gentilezas e adequações estava de volta. Mas gostou de conhecer o lado mais sórdido de e não queria que ele fosse embora tão rápido apenas porque acreditou que ela ficara incomodada. Pela primeira vez alguém não se preocupada em tratá-la como uma porcelana cara.
O segurança estava piscando sem entender quando separou seus lábios minimamente, um sorriso escondido no canto da boca.
— Shiu — soprou contra os lábios dele, o rosto pegando fogo. — Eu gostei.
não precisou de mais do que dois segundos para processar as palavras da garota e lentamente desenhou um sorriso malicioso no rosto. Enfiou uma mão pela nuca de , embreando os dedos pelas mexas de cabelo e agarrando algumas delas.
— Então a princesa gosta de palavras sujas? — indagou, brincando com o seu nome, os olhos faiscando.
— Pelo visto, sim — encolheu os ombros, embaraçada.
— Ótimo — disse em uma risada. Arrumou a postura e voltou a ficar de costas para , a cabeça apoiada no colo dela. — Porque essas fotos trazem à tona o pedreiro que há em mim.
gargalhou, apertando mais contra si.
— Você é muito tarado!
— O quê? Você fica nua do nada na minha frente e eu que sou o tarado da história?
— Bom — ela riu mais e mexeu os ombros. — Sim.
beliscou sua perna e lhe arrancou uma ruído de reclamação. Ele já estava passando para a próxima foto na câmera, uma onde estava rodopiando, as mãos para cima e um dos pés erguidos.
— Vamos conversar sobre isso depois, mocinha — ele avisou, um pouco mais vago, estava perdido na observação de uma congelada. Era fácil perceber como ele era um amante nato da fotografia. — Veja, você tem talento, sim — apontou para a câmera, atraindo o olhar dela para lá. — Não se trata apenas de um rostinho bonito. Somente alguém com talento é capaz de passar o que você me passa nessa foto. Essa paz, essa alegria. É tão espontâneo que beira o infantil, mas não de um jeito ruim, nem de longe. É maravilhoso. E não é algo nato, é algo que precisa ser aperfeiçoado. Você vem fazendo isso, aperfeiçoando com o tempo. Tenho certeza de que se pegar uma das suas primeiras fotos e comparar com as últimas vai encontrar uma enorme diferença entre elas. Na sua postura, nas forma de se expressar com o rosto... Tudo vai ser diferente e, claro, melhor.
estava mais do que lisonjeada, estava agradecida por cada palavra. Inconscientemente ou não, estava colocando sua autoestima lá em cima, lhe oferecendo uma recarga de autoconfiança. Fazendo com que passasse a olhar para a profissional que era com melhores olhos. Afinal, se fosse capaz de fazer tudo aquilo que ele falara, se fosse sobre talento e não apenas por uma questão estética, podia se orgulhar de si mesma.
— Como virou segurança? — questionou de uma hora para a outra, ainda não conseguia entender porque não estava ganhando o mundo com o seu trabalho.
— Eu precisava ganhar dinheiro de alguma forma, o que eu consigo com as fotos é muito pouco para me manter razoavelmente bem — explicou de maneira confortável, como se aquilo realmente não o incomodasse. — Um amigo me indicou para Christine e, bom, agora estou aqui depois transar com a garota que eu devia proteger.
riu e massageou o peitoral, arrastando os dedos pelas linhas negras das tatuagens. Seus cabelos soltos derrubavam mexas na frente do rosto e puxou uma delas para enrolar nos dedos.
— Bom, segundo Christine, você tem que estar sempre com os olhos grudados em mim.
— Os olhos, querida — fitou com um sorriso lateral. — Não todo o resto do meu corpo.
— Imagine se ela soubesse — a mocinha pensou alto, rindo apenas com a possibilidade de Christine aparecer na porta do quarto de naquele momento. Ela ficaria lívida, enxotaria os dois para fora da cama e puxaria os cabelos enquanto xingava até a última geração da família de .
— Seria bem aí que eu receberia minha merecida demissão. E você?
— Hum? — piscou para voltar a focalizar o rosto dele.
— Como terminou na frente das câmeras?
— Ah, por causa da minha mãe, na verdade — encolheu os ombros, pegando a mexa de cabelo com a qual ele brincava para empurrar para trás da orelha. — Ela é uma modelo frustrada — riu, lembrando da mulher. — Acaba projetando o sonho dela em mim, sabe?
— Então você não gosta e faz por causa dela?
— Não exatamente — franziu o nariz. — Eu acho que gosto, às vezes.
— Acha? — colocou a câmera de lado e se livrou dos lençóis para ficar frente a frente com . Segurou o rosto dela com as mãos e a garota mordeu o lábio inferior, esperando que ele falasse o que obviamente pretendia. — você não pode fazer para o resto da vida algo que sequer sabe se gosta. Não pode arriscar se prender a algo que não te faz bem. Ter dúvida é normal, mas cada vez que você fala sobre seu trabalho eu apenas sinto te sinto frustrada e isso é muito errado.
— Em nenhuma profissão tudo são flores, .
— Não, não são. Mas quando se ama o que faz, os problemas não são suficientes para tirar o tesão. Você pode se estressar e xingar algumas vezes, mas, no final do dia, você ainda vai sentir orgulho por fazer o que faz.
— Meu Deus — resmungou. — Você é um livro de autoajuda ambulante.
riu, os polegares fazendo carinho na pele suavemente avermelhada das bochechas da garota.
— Eu estou falando sério — disse, apesar. — Você não pode passar o resta da vida fazendo algo que não te dá prazer de forma alguma.
balançou a cabeça e molhou os lábios com a língua.
— Pare de falar palavras como prazer e tesão, por favor — repousou as mãos nos ombros do rapaz e sorriu de leve para ele. Estava claramente tentando fugir do assunto, mas esperava que ele não percebesse.
tento ficar sério, mas seus lábios espremeram sem conseguir segurar a risada. Ele deixou a cabeça cair para trás e a sacolejou em negação.
— E eu sou o pervertido, hum? Você vê malícia onde não tem e está fugindo do assunto.
— E existe algo em você que não seja malicioso? — inclinou o rosto levemente para o lado, tentando seduzir e encerrar o assunto. Apertou os ombros dele e ergueu-se apoiada nos joelhos para sentar no colo dele.
sorriu abertamente, o nariz levemente franzido, aprovando suas intenções.
— Espertinha — murmurou quando puxou seu rosto para um beijo suave, fazendo-a rir contra os lábios dele.
— Você não quer? — brincou, mas já podia sentir a ponta da excitação de pressionando sua barriga.
— Só se eu fosse louco! — jogou a mocinha de costas na cama e colocou-se sobre ela, as mãos apoiadas ao lado do seu rosto.
— Fale algo sujo pra mim — ria, as mãos seguindo cheias de terceiras intenções para o pescoço de .
— Algo sujo? — uma ruguinha surgiu na testa do rapaz, assim como nas laterais do seu sorriso.
— Sim — corou. —, diga o que quer fazer comigo.
— Hum — ele resmungou em uma risada baixa. — Certo — maneou a cabeça em positivo, o corpo começando a se inclinar sobre . Sorriu de lado. — Mas, me diga, eu cito os detalhes?
mordeu o lábio inferior, prendendo um sorrisinho ali, e arrastou a ponta do nariz no dele, antes de responder:
— Até os mais sórdidos.


Capítulo 9

Quando pensava que não podia ficar mais atraente, o garoto a arrastava para a sala e encaixava um vinil em uma vitrola.
Os primeiros acordes de Wonderwall espalharam-se nostalgicamente pela apartamento e não conseguiu segurar a risada. , até então de costas para ela, olhou por sobre o ombro em busca de uma explicação. Usava apenas a maldita cueca branca que marcava com louvor o bumbum proeminente e deixava a mercê do despudor de as costas de músculos marcados.
Para a mocinha, tudo naquele homem era um convite para o sexo. Naquele momento mesmo, enquanto ele esperava uma explicação da sua parte, suas mãos formigavam para tocar nos músculos rijos daquelas costas e apertar o par escondido pelo algodão branco.
— Wonderwall — explicou, enfim, piscando algumas vezes para sair do transe.
— Muito clichê? — uniu as sobrancelhas grossas, preocupado.
— Sim — ela encolheu os ombros dentro da camisa que roubou do rapaz, enquanto se esforçava para que seus olhos permanecessem na altura dos dele. — Mas eu sempre gostei deles. Digo, dos clichês.
— Ótimo. Quer saber o que eu penso sobre eles? — ele girou nos calcanhares e guiou os pés até , resgatando-a pela cintura. Inebriada pelo cheiro do rapaz, a garota arqueou uma das sobrancelhas para continuasse: — Que são nada menos que clássicos subestimados.
— Hum... Então nós somos um clássico subestimado? — sorriu, a cabeça caindo levemente para o lado enquanto descansava as mãos nos ombros largos do rapaz.
— Está dizendo que nós somos um clichê? — devolveu a pergunta, em dúvida. — A garota perfeita, de grife, e o artista frustrado que vive em um apartamento de 60 metros quadrados? Desculpe, acho que não entendi.
riu e balançou a cabeça em negação.
— Você não está muito atualizados sobre os clichês, hum? A mocinha não fica mais com o cara perfeito que coleciona Ferraris — aquele era Marlo, pensou. — Ela fica com o cara quebrado, o garoto problema. O famigerado badboy.
sorriu abertamente, a língua molhando os lábios enquanto desviava o olhar para o lado, pensativo.
— Eu não sou quebrado, mas vejo algo de promissor nessa nova perspectiva — disse quando voltou a olhar para a mocinha, os olhos faiscando em uma mensagem silenciosa. — Então garotas como você agora ficam com caras como eu?
— É uma possibilidade — brincou, escondendo um sorriso lisonjeado.
— E caras como Marlo Lowell, onde ficam nos novos clichês?
petrificou, desconcertada e pega completamente de surpresa pela falta de filtro de .
Caras como Marlo geralmente ganhavam o posto de vilões nos romances contemporâneos, mas aquele não era o caso. Seu noivo tinha seus defeitos, mas nunca diria que se apaixonou por algo que idealizou. Apaixonou-se por Marlo verdadeiramente. Houve as borboletas no estômago, as mãos trêmulas e o vocabulário reduzido à gaguejares. Só que... Não havia mais, e queria entender o que aquilo significava.
— Eu não sei — a resposta foi para si mesma, mas cabia bem à pergunta de .
Ele assentiu, também preso nos próprios pensamentos.
— Quer comer algo? — perguntou instantes depois com o intuito de afastar o noivo de do protagonismo daquele diálogo.
Ela fez que sim com a cabeça.
— Algo doce, por favor — pediu de forma vaga e deixou que se afastasse para a cozinha que se dividia da sala por um bancada de mármore.
Embalada por Oasis, a modelo abraçou-se e passou a arrastar os pés pelo assoalho de madeira, andando pela sala enquanto buscava compreensão para tudo que sentiu nas últimas horas. Sua profissão, seu noivo, . O que acabara de fazer com ele e o que aquilo significava; tudo servia para empurrar a sua mente ao completo caos.
Mas não adiantaria tentar entender todas as suas questões de uma só vez. Precisava de cautela e organização. Como seu trabalho era sua prioridade desde que alcançou a maioridade, decidiu que seria ideal começar por ele.
Gostava do que fazia? Na maior parte do tempo, não. Mas salvaria algumas excessões. O ensaio para certamente se encaixaria nessas excessões. Ainda sentia-se anestesiada pela forma como o rapaz a fotografou, pela energia que ele o tempo todo lhe transmitiu, e pelo resultado, como a garota nas fotos se parecia muito mais com do que a que estampava inúmeras capas de revistas de alta moda por aí.
conseguiu pegar sua essência em cada captura. Encontrou a verdadeira abaixo de todas as camadas. Aquilo a deixava mais do que abismada, mas encantada e embasbacada. não se sentia confortável nos estúdios das grandes editoras, com toda aquela cacofonia de vozes ao seu redor e as falsas bajulações. Não se sentia parte daquilo, muito menos importante para aquelas pessoas. Era exatamente como se não passasse de uma casca vazia que eles usariam por algumas horas, enquanto lhes fosse conveniente, e depois jogariam fora.
Com não. Com o rapaz, não sentiu-se apenas importante, mas, por alguns minutos, foi como se fosse o centro do mundo. Do mundo de . Sentiu-se a garota dos olhos dele, das lentes dele. Ele a encontrou antes de todos, quando nem Marlo foi capaz, ele a olhou de dentro pra fora, e isso, sim, fazia surgirem borboletas batedoras de asas no estômago da mocinha.
Havia uma ruga de preocupação em sua testa e ela contradizia em muito o pequeno sorriso que a lembrança de trouxe aos seus lábios. No fundo, já suspeitava do que se tratava aquilo, mas era cedo demais para que tivesse reunido forças para admitir.
Suspirou pesadamente.
Lá estava ela pensando no rapaz enquanto devia estar refletindo sobre o que faria com seu trabalho dali para frente.
— Chocolate quente, serve? — a voz rouca invadiu sua audição e quebrou sua linha de raciocínio assim como o cheiro de chocolate que adentrou suas narinas.
Antes que se virasse, espalmou a mão nas suas costas, por cima da camisa, e a guiou para o sofá. Mas sentou antes de , apenas para fazê-la sentar no seu colo em seguida. A modelo arrumou-se de forma a ficar de lado no colo do rapaz e sorriu fechado quando uma xícara fumegante foi entregue nas suas mãos.
Enquanto sua mente estava um verdadeiro caos, , além de parecer alheio à isso, se mostrava tranquilo, tratando-a como uma mulher solteira qualquer com quem fez sexo e pretendia continuar a trocar uns beijos. não sabia dizer se era ela que se preocupada de mais ou se que não havia percebido todas as problemáticas que envolvia aquela situação que eles imprudentemente criaram.
A consciência de lhe enchia de alertas, pedindo-a para se afastar do segurança. Mas seu corpo só queria saber de se enroscar naqueles braços fortes e sentir mais daquele cheiro de lavanda misturado com suor pós-sexo.
Estava novamente presa em diálogos internos quando sentiu uma pressão leve no centro da testa. estava pressionando o indicador bem ali e olhava para com um sorriso discreto, a outra mão subindo e descendo por suas costas, por dentro da camisa.
— O que a preocupa?
— Meu trabalho — molhou os lábios com a língua para soltar a meia verdade. Não poderia simplesmente dizer que não sabia o que fazer sobre ele e sobre o que acontecia com os dois.
— Bom, sobre isso, acredito que deve se perguntar se gosta do faz.
suspirou pesadamente e encarou o líquido marrom escuro fumaçando dentro da xícara.
— Não é tão simples — respondeu com a voz baixa. O silêncio de indicou que ele esperava mais. — Eu não sei... Quero dizer, eu não sei se eu gosto do que eu faço. Na maior parte do tempo quero fugir dali, mas... Outras vezes... Eu não sei — franziu as sobrancelhas e os lábios, então olhou para em busca de ajuda.
— Tudo bem — ele assentiu, apertando o interior da sua coxa em um carinho inocente. — Me diga, então, algo mais simples. Gosta de ser fotografada, de estar na frente das câmeras?
— Sim e não — ela encolheu os ombros, frustrada com sua confusão e com vergonha de . Ele continuou com os carinhos em suas costas e pernas, incentivando-a. — Odeio estar em ensaios como o de hoje mais cedo, mas... Gostei muito de posar para você. Muito.
— Sabe dizer qual a diferença entre os dois casos? — pediu ele.
— Eu me senti viva. Com você — fez questão de frisar, mesmo que sua confusão deixasse sua voz vaga e perdida. — Senti que podia ser eu. Porque eu era importante. Isso nunca aconteceu antes.
— Bom... Isso quer dizer que você gosta de ser fotografada, mas não em qualquer circunstancia. Acho que isso meio que nos dá uma resposta.
— E posso saber qual seria essa resposta?
balançou a cabeça negativamente.
— Não direi, terá que descobrir por si mesma.
! — reclamou como uma garotinha mimada.
— Calma — ele riu baixinho, beliscando-a no quadril. — Mas eu posso te ajudar nesse empreitada. — a garota apenas arqueou as sobrancelhas, esperando que ele finalmente esclarecesse sua mente com uma porção de palavras sábias. — Vamos por partes, hum? É bem simples. Você disse que gosta de ser fotografada vezes sim, vezes não. Disse que gostou de posar para mim, mas que não se sente confortável nos estúdios onde costuma fazer ensaios. Isso nos mostra que o problema não é exatamente a fotografia, mas...
— O lugar — cortou , empolgada por começar a entender aonde queria chegar.
franziu o cenho e torceu os lábios, pensativo.
— Bom, mais ou menos. Não sei se o lugar seria especificamente a resposta...
— Mas o propósito! — mais um corte afoito e pulou do colo do garoto, largando a xícara na mesinha de centro e percorrendo o assoalho de madeira freneticamente. Era a sua epifania. Riu e escondeu a boca com as mãos, histérica. estava num misto de confusão e divertimento, as mãos que antes rodeavam a garota abertas no ar. — Sim, é isso! Meu Deus, como eu fui tão cega por todo esse tempo? Eu gosto, sim, de ser fotografada. Mas não como um bibelô de grandes grifes, não como um acessório para a alta costura. Muito menos como um expositor de qualquer estilista superestimado! — gargalhou, dando pulinhos no lugar e girando em 360 graus.
— A minha camisa e esses pulinhos, ... — comentou em meio ao grande momento da garota, a escaneava de modo faminto. Sorriu de lado e a olhou nos olhos em seguida. — Eu não sei se te acho mais gostosa ou adorável.
gargalhou, mesmo que tivesse corrido de volta para o colo de para disfarçar a vergonha que esquentou seu rosto. Colocou um cabelo atrás da orelha e encostou a testa na dele, um sorriso tímido se abrindo nos lábios antes da confissão:
— Eu quero outra perspectiva. Quero ser fotografada de dentro pra fora, se é que isso faz sentido. — riu de si mesma, mas assentiu, como se dissesse que, sim, fazia sentido. — Quero me ver de verdade nas fotos. Quero que vejam em mim o que você viu e quero me sentir como você fez com que eu me sentisse. Que tirem de mim o que você conseguiu tirar. , eu quero me redescobrir através das lentes das câmeras. Que me fotografem como você fotografou.
sorriu de lado e deixou que as mãos investigassem a barriga de por dentro da camisa, os dedos pressionando tudo parte dele que encontravam.
— Bom... Talvez isso não seja possível. Porque esse fotógrafo teria que te ver como eu te vejo, com o mesmo encanto, o mesmo fascínio — explicou como se fizesse um comentário banal e desejou esconder o rosto na curva do pescoço dele, mas se controlou para não parecer uma garotinha envergonhada. Apenas torceu para que seu rosto não estivesse tão vermelho quanto ela imaginava.
Fez um carinho no maxilar do rapaz e encolheu os ombros, marota.
— Está duvidando do meu poder de sedução, ? — estreitou os olhos, mesmo sabendo que nem de longe pareceria ameaçadora.
— Por favor, não me chame assim! — arregalou os olhos, como se realmente desaprovasse seu nome composto. riu e se ajeitou no seu colo. — E não, eu não seria burro de duvidar do seu charme. Afinal, sou a prova viva de que existe algo de irresistível em você. Mas, bom, justamente dado o meu estado, fica o questionamento: outro homem seria tão inconsequente a esse ponto?
— Você é muito exagerado! — ria quando apontou o indicador no rosto de . — E galante. Aposto que assim que conquista todas as mulheres!
— Com o conteúdo? — fez uma careta. — Não seja tola! Não preciso me dar ao trabalho. Elas vêm até mim por causa desse corpinho gostoso — sorriu vaidoso e apertou mais o corpo feminino contra o dele como que para provar o que falava. A boca de já começava a doer pelas risadas incessantes. — O conteúdo é só o cheque-mate.
— Só? — uma sobrancelha saltou em meio à diversão. — Ele é o responsável por eu ainda não ter pego minhas coisas e ido embora.
— Quer dizer que você é desse tipo, ? Usa e vai embora?— questionou ele, como se duvidasse. mordeu o lábio inferior e em dois segundos balançou a cabeça em negação. — Foi o que imaginei.
A modelo suspirou e abaixou os olhos quando riu sozinha.
Estava ridiculamente confortável ali, dentro daqueles braços tatuados, olhando naquele par de pequenas avelãs enegrecidas que a fitavam com visível admiração. passava para a mocinha um misto de segurança e liberdade em que ela cada vez mais se apegava. Uma confiança que naquele momento sentia em cada fibra do seu corpo, passeando pela sua corrente sanguínea e infectando seu cérebro com o vislumbre de uma nova perspectiva de vida.
Aquele rapaz que mal conhecia fazia com que se descobrisse, que almejasse a busca pelo famigerado mais.
Ela queria ser a mudança que aconteceria na própria vida e tudo isso porque um cara de quem pouco sabia sobre havia lhe aberto os olhos para uma realidade alternativa. Uma realidade onde não precisava ser aprovada por ninguém, onde o que desejava era mais importante e onde não devia nada a qualquer um. Era o momento onde finalmente percebia que podia e devia tomar as rédeas da própria vida.
Sorriu com seus pensamentos e ergueu o olhar para , que apenas a desenhava com os olhos em silêncio. Um plano corria na sua mente e a modelo precisaria de uma ajudinha para o executar. Sorte sua ter uma boa memória e o número de um dos jornalistas das celebridades mais conceituados na cabeça.
Envolveu o pescoço de com os braços e uniu seus lábios aos dele quando finalmente disse:
— Preciso do seu telefone.


Capítulo 10

só percebeu que estava nervosa quando vislumbrou a figura de Leonidas Connery do outro lado do parque.
O homem caminhava com a confiança que apenas um conhecedor dos segredos mais sórdidos das celebridades britânicas podia vangloriar, os cabelos louros penteados de forma linear e um sobretudo elegante de cor escura cobrindo quase completamente o terno de corte moderno.
Estava postada sob a sombra de uma árvore na companhia silenciosa de , a confiança recém adquirida indo por água abaixo conforme o jornalista se aproximava. Reavaliou as consequências que sua decisão poderia acarretar, não apenas para a sua vida, mas para todas as pessoas que de alguma forma dependiam do seu trabalho.
Ainda no apartamento de elas pareceram pequenas diante da sua vontade de se livrar das amarras da sua profissão, mas ali, quando estava prestes a se desfazer de vez destas amarras, sentiu os primeiros indícios da hesitação.
Sentiu uma mão apertar seu ombro e olhou para o lado, encontrando com um olhar inquieto.
— Está bem? — questionou o rapaz, na testa algumas ruguinhas reafirmando a preocupação que via na orbes negras. Ele estava de volta ao terno de corte reto e a mocinha não sabia em qual versão ele era mais atraente, com o terno ou sem o terno. — Parece um pouco pálida. Quer desistir?
— Não! — apressou-se a responder, balançando a cabeça freneticamente. Estava decidida, mesmo hesitante, e nada a faria voltar atrás. — Eu preciso fazer isso.
— Não, você não precisa fazer nada que te deixe desconfortável. — explicou e com dois passos se colocou na frente da mocinha, recolhendo as pequenas mãos frias para o calor do interior das suas. — Não tome uma decisão se não estiver certa sobre ela. O calor do momento pode nos confundir sobre o que realmente queremos.
— a voz saiu firme ao pronunciar o nome do rapaz. —, eu sei o que eu quero. Eu só... Eu só estou com medo. E não posso mais deixar que o medo me impeça de fazer minhas próprias escolhas e retomar as rédeas da minha vida, entende?
suspirou, mas parecia se segurar para não soltar um sorriso. suspeitou que o brilho que via nos olhos castanho-escuro fosse algo semelhante à orgulho.
— Tenho receio de que minhas abobrinhas tenham influenciando sua decisão — confessou ele. — E penso que tem que fazer isso porque quer, porque finalmente compreendeu o que almeja.
soltou uma risada curta, a forma como olhava para se parecia com a maneira como um adulto olhava para uma criança quando ela se comportava com a certeza precipitada de que sabia muito da vida.
Estava ansiosa, mas descobria à cada instante que sempre conseguiria fazer com que esquecesse do mundo a sua volta.
— Essa mania de colocar a influência de vocês sobre nossas escolhas em um patamar mais alto de onde ela de fato está é realmente algo intrínseco de todo homem — apertou os olhos em uma alfinetada. — No final das contas você não é assim tão diferente dos outros da sua espécie, hum?
escolheu os ombros, como se aceitasse sua culpa, e com uma risada um tanto quanto constrangida puxou a modelo para dentro dos seus braços. não apresentou qualquer objeção ao permitir que seu corpo encontrasse conforto no abraço do segurança, mesmo que, dadas as circunstâncias, aquela demonstração de afeto pública não fosse aconselhada. Um detalhe que lembrou apenas ao escutar um forte pigarreio.
Abriu os olhos e por sobre o ombro de visualizou a figura de cabelos dourados e olhos verdes, que já parecia bastante curiosa sobre a cena que se desenrolava na sua frente.
, então, se afastou de com uma pressa suspeita e arrumou os cabelos com as mãos trêmulas, sem saber como encarar a terceira presença.
estava com o cenho franzido, sem entender a mudança brusca na forma como a garota recebia seus carinhos, e buscou explicação no semblante da menor. Mas já desviava do seu corpo para oferecer os devidos cumprimentos ao recém-chegado.
— Leonidas Connery — a mocinha pronunciou em um misto de receio e carisma, enquanto apertava a mão do jornalista que era quase tão alto quanto , mas bem mais magro. — Obrigada por aceitar me encontrar.
— Não agradeça ainda, querida — gesticulou ele com toda sua pruma. — Vim com a esperança de que tivesse algo de relevância pública a me oferecer, mas não prometo que não darei o fora daqui caso me frustre.
— Bom, espero que não seja o caso, então — sorriu cordial. — Podemos sentar? — sugeriu e apontou para o banco vazio logo ao lado.
Leonidas foi o primeiro a sentar e rapidamente resgatou um gravador de dentro da bolsa que carregava à tiracolo. olhou para apreensiva, que lhe incentivou com um erguer de lábios discreto, antes de acompanhar o jornalista e sentar no banco.
— O rapaz fará parte da entrevista? — Leonidas investigou com um interesse particular.
partiu os lábios sem saber o que responder, mas, antes mesmo que tivesse a chance, escondeu as mãos atrás do corpo esguio e balançou levemente a cabeça em negação.
— Acredito que a senhorita não precisará dos meus serviços por hora — olhou diretamente nos olhos da garota, que precisou piscar algumas vezes para se acostumar com a volta da postura profissional do rapaz.
entendeu o recado. Estavam acompanhados de um bom observador, sedento por um tabloide, e precisavam agir com máxima discrição.
— Não, não precisarei — a modelo assentiu, enfim, com um sorriso formal e um manear suave. — Agradeço se puder me esperar no carro.
concordou e deu meia volta para seguir em direção à Mercedes estacionada do outro lado do parque. sentiu-se insegura com o afastamento do rapaz, o seguiu com os olhos até que sua figura se transformasse em um pequeno borrão, então respirou fundo.
— Podemos? — indagou, finalmente preparada para encarar Lionel Connery. Torcia para que ele se interessasse por sua história e pudesse ajudá-la publicando sua carta pública.
Poderia ter escrito o relato e publicado através das suas redes sociais, mas certamente o maior noticiário sobre famosos da web teria mais alcance que um post no Facebook.
O público do homem era muito maior que o grupo de fãs que seguia e acompanhava o trabalho da modelo. atraia um grupo específico, pessoas interessadas no seu trabalho e meninas que se inspiravam em suas fotos, enquanto Connery, por causa das mais quentes notícias sobre celebridades que levava à público, atraia a atenção de diversas pessoas em todas as partes do mundo.
O homem era uma potência do entretenimento mundial. E queria que suas palavras alcançassem o maior número de pessoas que fosse possível. O que tornava Connery perfeito para a tarefa.
— Por um segundo pensei que estava aqui para me dizer que desmanchou o noivado e tem um novo affair — Connery alfinetou, claramente se referindo ao abraço que presenciara há pouco. — Algo que certamente poderia ser dito através de uma ligação. Pouparia meu tempo, ao menos.
— O senhor ? — questionou esganiçada e abanou o ar com a mão, como se debochasse da possibilidade, mesmo que seus músculos estivesse contraídos pela tensão. Quando diziam que olhos de Leonidas Connery eram de águias, não o superestimavam. — Por favor, estamos falando do meu segurança, Leonidas!
— Não me culpe. Vocês pareciam bem íntimos quando cheguei — explicou, malicioso e atento à cada reação que provocava na mocinha. se remexeu com desconforto sobre o banco de madeira e sorriu amarelo. — Então seu noivado com Marlo Lowell continua firme e forte, eu presumo.
é um amigo. Passo mais tempo com ele do que com alguns familiares até, é previsível que tenhamos informalizado um pouco da relação profissional. Acredito que isso facilite as coisas para os dois lados.
Falar aquilo em voz alta fazia perceber que levara tempo demais para notar o homem que esteve literalmente ao seu lado nos últimos meses. Se tivesse prestado atenção mais cedo, talvez hoje o rapaz fosse mais do que apenas o seu segurança, mas um amigo, assim como dizia à Leonidas.
Pelo menos tinha percebido isso há tempo de conhecer melhor as facetas daquele que até então via apenas como um cara de terno e grava e poucos assuntos.
É curioso como as pessoas nos parecem vazias até que tenhamos a chance de conhecê-las verdadeiramente.
sorriu sozinha com a reflexão, mas ainda havia uma pergunta pairando no ar. Sobre algo que ainda preenchia a mente da garota com pontos de interrogação.
— E sobre Marlo, bom... — mexeu os ombros, sem saber como explicar algo que, mesmo depois de tantos esclarecimentos, não fazia ideia de como se sentia sobre. Marlo ainda era sua incógnita. — Estamos bem, é isso que posso dizer por hora.
— Hum... — uma sobrancelha erguida e um sorrisinho sugestivo. — Sinto cheiro de problemas no paraíso? Ou melhor, no conto de fada do século XXI?
— Leonidas, eu... Eu te chamei aqui por um motivo. E não foi para falar sobre o meu noivado ou sobre o meu noivo.
O olhar de Leonidas se iluminou em surpresa a falta de rodeios de , a princesinha do Reino Unido tinha suas garras afinal de contas. Balançou a cabeça a cabeça como se aprovasse essa nova versão da modelo.
— Tudo bem, tudo bem — estava rindo consigo mesmo quando ergueu as mãos no ar. — Não está mais aqui quem falou. Pois, então, me diga, ... Qual é a sua história?
sorriu.
Era tudo que esperava ouvir.
Seus lábios tremiam de medo, mas suas mãos estavam fechadas em punho com toda a confiança recém descoberta. Estava pronta para gritar para todo mundo ouvir. Pronta para ser livre.
finalmente poderia ser apenas...
.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.
Para saber quando essa linda fic vai atualizar, acompanhe aqui.


comments powered by Disqus