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Última atualização: 31/08/2017

Capítulo I



O estalar rítmico das pancadas era captado por seus ouvidos e transmitidos a mente em forma de dor. Os gritos guturais do namorado não a amedrontavam mais, simplesmente não surtiam efeito. Seu corpo era gradativamente tomado pelo torpor, e os hematomas vermelhos afloravam-se majestosos sobre sua pele. Ela ergueu os olhos quando sentiu um tênue filete de sangue rasgar o canto de sua boca, e estremeceu ao se deparar com o olhar perverso do homem que lhe batia. Era ali o fim da linha, sem direito a luz no fim do túnel ou ao precipício sob seus pés. O beco sem saída era Thomas, os grilhões em seu calcanhar.
Podia se questionar sobre quem saberia do trágico caminho pelo qual seguia, mas ela sabia, conteve os impulsos de culpar-se, pois ela sabia. Tanto sabia que chegara até ali, aturdida, a mercê. Era um fato, as piores coisas da vida vinham de graça.
De súbito, o punho de seu agressor arrancou seus devaneios, repentinamente deformando sua face ao clamar por atenção. As mãos de Thomas contornaram seu pescoço em um toque áspero, o olhar recaindo na postura da mulher trêmula, acanhada, de pálpebras contraídas; em dor. Na medida em que o ar esgotava em seus pulmões, os movimentos do corpo cediam, a consciência largava-se ao vento. A vida, um passado distante, dançava em seus olhos, migrava de gargalhadas a lágrimas em uma brincadeira de criança extenuando-a. Estava cansada, engolia choros e palavras, continha impulsos e emoções, contentava-se à espera de uma salvação que não viria por tampouco existir, recusando admitir para si mesma que nenhum pó de pirlimpimpim lhe traria liberdade, que a tempestade não se tornaria uma chuva de doces ao estouro de um balão. Havia se arrastado por tempo demais, e o medo, as desculpas para não agir estavam escassas, ou nem mesmo estavam. Traçava ruínas a procura das migalhas de si, mas nada havia ali, por vezes a sombra da mulher que um dia foi; não se encontrava, não se reconhecia, deformava-se. As rosas daquele jardim haviam murchado.
Sentiu o corpo desmontar-se ao chão, e ali, anestesiada em um instante de horror, mirou o rosto de Thomas a procura dos sinais que havia negligenciado. Faziam meses, mas pareciam décadas; com algum esforço podia ouvir o sibilar das vozes a dizer que tudo não passava de um romance; Thomas era apenas um romântico apaixonado. gostaria de acreditar que hoje o reconheceria, e fugiria, mas os sinais em sua face, hoje escancarados, antes não eram assim tão claros; ofuscados da a entender por acaso, mascarados, expressões inexpressivas, um punhado de antônimos, hipérbatos e paradoxos. E o homem sorria, tão contraditoriamente sorria. Via-a tão inquebrável como qualquer coisa frágil, um brinquedinho inerte, insosso, irracionalmente sedutor; sua por completo, em carne e alma, pura, destroçada tal que incapaz de sobreviver longe do seu abraço; carente e deixada às traças por todos, mas não por ele. Ele a protegia de si, do mundo, ou pelo menos assim o dizia, justificava, tentava, tentava fazer entender, como tentava; mas ela sabia, sabia que não havia de quem se proteger senão dele: Thomas; uma porcaria de nome e sobrenome sem valor, em realidade, um idiota.
Dobrou os nós do dedo em ânsia e sob os lábios rachados murmurou seu hino. rezaria se soubesse; era preciso nada mais do que trinta segundos de coragem, nada mais que a adrenalina percorrendo seu corpo. 30 segundos de coragem. Mecanicamente, apoiou os cotovelos na parede e impulsionou com dificuldade o corpo enfraquecido; travava consigo uma luta; condicionada pela dor. Amargurava-se, mas era tarde demais para lamentações, o homem a contemplava com curiosidade, e dali soube que não havia retorno. Thomas tocou seu rosto como prestes a acariciá-la, quase gracioso, surpreso pela nova cena à crônica ultrapassada que encenavam todos os dias; ela era óbvia e de fato uma personagem em estrutura de carbonos. havia saltado de um livro direto a seus braços, mas ao contrário do que fantasiava ela não pensava muito para se elaborar; o mantra ecoava em sua mente, e isso era tudo que sempre precisava; impulso. Acertou Thomas com um chute entre as pernas, vislumbrando com louvor a face que se contraia em indignação. Fez menção a mover-se, correr, livrar-se; e fora rápida, mas não o bastante. Thomas a agarrou pelos calcanhares e puxou-a contra si, os braços envolvendo o mármore estático de sua pele, curvando-a a sua malevolência. Ergueu-se soberbo desferindo chutes contra a oval forma assumida pela mulher que se protegia com as mãos, mergulhada entre os joelhos que se partiam. Suspendeu-a pelos cabelos examinando-a com interesse; o escárnio estampado em seu rosto. Achava-a notável, às vezes tão bela e contida em seu papel, solicita as suas obrigações, mas por vezes demente: selvagem como seus antropófagos ancestrais, incivilizada pelas deficiências de seu sexo; uma espécime curiosa de alguém que beirava a estupidez. E era tão bonita, mesmo assim, mesmo naquele estado, os lábios contorcidos em um traço, manchados de sangue, banhados por lágrimas; em visível conflito, lutando para acreditar que sabia o que estava fazendo. >

— Tom? — O sussurro choroso escapou por seus lábios — Eu, eu s-sinto muito Tom. Não d-devia ter questionado voc...— Engoliu o sangue — T-enho medo Tom, por favor, n-não me machuca, eu faço. Ju-juro m-mesmo Tom, eu faço.

— Medo? — Riu incrédulo.
estremeceu. Havia algo naquela risada. Algo, um detalhe extremamente asqueroso que fazia com que se contorcesse ao som daquela voz, daquela entonação. A fala era de quem personificava o diabo, as palavras escolhidas a dedo para apavorar e amplificá-lo, enaltecê-lo; a cada pausa lhe diminuía, a cada significado que não compreendia. Era uma maldita presa.
— Te fiz uma pergunta — O homem brandiu ríspido.
No piscar dos olhos, os dedos de Thomas revelaram o ás oculto em sua manga, e antes que sequer pudesse esboçar uma reação, seu corpo trêmulo e enfermo contorceu-se nos braços do homem. O grito escapou involuntário de seus lábios e as bochechas rapidamente se preencheram de um tom avermelhado. Os músculos se contraíram, e uma dor excruciante envolveu-os, rasgando-os, um por um, infinitas vezes em cinco segundos jamais antes tão longos. Repentinamente, a mulher tornou-se lânguida, e assim, por um triz um cadáver, desabou sobre os músculos de seu carrasco com um único murmúrio dúbio escapando de seus lábios.
— N-na-da, n-ada Tommy.
— Tommy? — Um riso trespassou seu semblante — Acha que sou mesmo assim tão estúpido? — Puxou-lhe para junto de si — A boneca é você ... — Ele brincou rumorejando em seu ouvido. Os dedos ásperos caindo na cintura da mulher, dançando acima de seu ventre. — Linda… E ainda sim não mais que uma piranha ardilosa. Não passa de uma vadia, ... Não é? A minha vadia, a minha puta, a minha mulher — Thomas cuspiu empurrando-a em direção ao quarto. — Você não precisar me dar o que é meu .
As mãos arrancaram-lhe brutas a camiseta e eufóricas apertaram seus seios; sem menção a carinho, sem migalhas do tal amor de verdade. Thomas suspirou em um relance, um sorriso maldoso ao canto da boca.
— Eu pego de qualquer jeito.
Havia luxúria. Dominação. Possessão. Havia pânico. gemeu agoniada, caída em círculos mais uma vez. E então, em súbita revelação compreendeu, ela, a presa exposta na sala de estar; havia se tornado exatamente aquilo que Thomas ansiava: submissa, e não havia volta, enfiava-se compulsiva em uma prisão na triste ilusão que se resguardava. Daquele dia em diante caminhava para a morte guiada por um homem que a cada segundo perdia maior controle de si e não podia mais.
— T-Thomas? — Titubeou, interrompendo os toques que a violentavam.
Os orbes do homem queimaram sua pele, o olhar confuso escaneando suas expressões, mas não se importou, sorriu um sorriso para o qual não existe tradução; leve. focalizou a única coisa que importava, não hesitou. O baque fez com que o homem se retraísse, e como se o tempo congelasse contemplou a garrafa a se espatifar em milhares de pedacinhos; o líquido escorrendo-lhe a pele em um ato dramático. Um tênue sorriso escapava dos olhos da mulher, era livre? Não sabia, mas gostava da sensação. O corpo de Thomas pendia mole na lateral da cama, por infortúnio ainda vivo; com sorte, ainda que esta nunca repousasse sobre seus ombros, não lhe procuraria novamente.
Quis não procurar por nada, nem um ínfimo dólar, não respirar por sequer mais um segundo o ar putrefato de sua cela, correr o mais rápido que podia tão longe quanto possível, quebrar para sempre as correntes que atavam seus pulsos, mas ao fitar o inconsciente a sua frente soube que seria burrice. Não tinha para onde ir, não sabia onde queria chegar, mas não importasse aonde, sem dinheiro não iria muito longe; se seria caçada, não seria uma presa fácil, levaria tudo que pudesse: o salário, as armas, as economias; só não deixaria, porém nada de si, nenhuma pista. Precisava de tempo, certeza de que o homem não teria condições de encontrá-la tão facilmente, ou pelo menos não tão cedo. Com ironia em seus atos, a mulher o algemou a cama e sem mais delongas buscou por seus pertences. Fez uma pequena mala, algumas mudas de roupa, alguns medicamentos e produtos de higiene, uma única foto e a lágrima inerente a ela, o fantasma daquela gargalhada ecoando em sua mente.
Saiu pela casa como um furacão, pegando notas espalhadas, a carteira de Thomas e uma blusa qualquer para cobrir-se. Por último, foi à cozinha, onde em um esconderijo péssimo o homem mantinha os papéis amarelados que atestavam sua existência, seu único elo com o mundo real, um lugar curioso, visto que era o que mais frequentava; concluiu que o homem de fato nunca a conhecera. Deus! Será que Thomas sequer um dia ouviu a mulher falar com paixão sobre seu futuro, passado ou presente? tinha como palpite que não. Não importava. O badalar do relógio fez com que se desequilibrasse; e da cadeira despencou de encontro ao chão frio. O ponteiro era claro, hora de ir. Já em pé, a porta de seu inferno pessoal olhou pela última vez a foto antiga entortada na parede. e Thomas pareciam felizes, um casal tão provável quanto o retorno do sol após a gélida indesejada das gentes. Ela achava que estava construindo uma vida, uma família, e ali estava; hoje, Maio de 2016, cidade natal de Thomas McQuire, um lugar que não poderia ser corretamente nomeado; as coisas afinal mudavam. Não teve dúvidas do destino que tomava, nas mãos apenas uma singela bagagem; a cidade de sua infância lhe acolheria melhor. Levou a foto consigo e correu.
Correu em seus sonhos, despertos por uma pitada de esperança. Disparou pela rua, por que sua sanidade literalmente dependia daquilo.
Correu.

Capítulo II



Vazia e silenciosa; descreveria a cidade exatamente assim se alguém a perguntasse. As casas rústicas erguiam-se sob a luz da lua em traços estranhos, algumas dando a impressão de estarem ali por séculos, muito antes que a palavra “ciência” sequer fosse pensada, cobertas de musgos e folhas que cresciam em seus muros; talvez acrescentasse “assustadora” a descrição. Vez ou outra uma construção recente surgia, mas ali pareciam ser poucas. Ao longe, exatamente na direção contrária a que seguia erguia-se a muralha do que lhe lembrava ser um castelo, com direito a masmorras e clichês da idade média, não parecia em nada com sua querida Londres. Os grandes blocos de pedra, na atualidade, quem sabe, deveriam abrigar uma família tradicional qualquer, ou até mesmo um museu ou sede da prefeitura, o que honestamente não tinha afinco em descobrir; bastava-lhe saber, com glórias a um Deus em quem desacreditava, que se o fosse, com certeza não seria a família de Thomas.
Os McQuire haviam sido sua sirene de alerta, um espécime de luz vermelha berrante, como um despertador do qual Thomas arrependia-se amargamente. Ao conhecê-los afinal, teve certeza sobre sua decisão, deixaria Thomas o quão rápido fosse possível. O casal era em carne e osso tudo o que qualquer ser humano razoável repudiaria. Na idade média seriam camponeses ignorantes e desinformados, daqueles que ergueriam suas lanças e foices a qualquer um que não se curvasse as leis de Deus ou aos padrões do cidadão de bem, constantemente alterados por opiniões alheias. Ainda se lembrava da primeira frase que o patriarca da família lhe dirigiu em nojo e aversão: “Quanto é que meu filho te pagou?”, e voltou-se a Thomas: “É assim que deixa a mulher tua se vestir? Quantos chifres é que tua cabeça sustenta?”, o homem obrigando-a a trocar de roupa logo em seguida. Com a mulher não foi também exatamente uma conquista. A esposa do orgulhoso McQuire, uma velha senhora de feições duras e intimidadores, era seu próprio lema: bela, recatada e do lar, cujos maiores orgulhos eram as crias e a não existência de qualquer grão de poeira em sua casa. O jantar era servido às 19h30min em ponto, e coitada da curvada senhora se derramasse uma gota do molho ao servir o marido, o único capaz de superá-la em suas crenças doentias. Perguntou a se esta estudava, e comemorou ao vê-la negar, afirmando que o curso havia sido concluído e que trabalhava como assistente de cozinha em um típico restaurante italiano e confeitaria. Emburrada, a velha praguejou contra os malditos fascistas italianos, sugerindo em tom imperativo que a jovem largasse os empregos o quanto antes, afinal não era função de uma mulher digna, ainda mais da futura esposa e senhora de seu filho, o primogênito e caçula.
Detestava-os com o mais profundo desprezo. Cúmplices dos desequilíbrios mentais do filho, eles acompanhavam a relação doentia de perto. Via-os com freqüência vagando pela casa, a senhora McQuire averiguando as atividades da nora, uma vez que era dever de servi-los e a mulher os garantia com afinco. Cozinhava, limpava a casa, lavava, passava. Não raramente o casal perdia tardes a vigiá-la, sabiam das surras e dos castigos e empenhavam-se em garanti-los.
Em súbito, o controle esvaia-se pelas mãos de , cuja respiração descompassava-se comprimindo o peito; as pernas amoleciam e aos poucos a sensação de náusea tomava-a, o medo velava sobre si como quando os via, a ciência de algo ruim a espera. Os pais desequilibravam Thomas, atacavam-no de forma feroz, instigando-o a provar seu valor, de forma qual nem álcool o pudesse trazer a realidade nestes dias. À casualidade, o romper da buzina estridente trouxe à rodovia que atravessava desatenta, mal se dando conta e ali estando. No horizonte, as luzes da aurora davam o primeiro sinal de aparecimento, enquanto as estrelas aos poucos iam se apagando. O azul celeste acalmou-a e por fim atravessou a rodovia rumo a algo novo.
Sentada a beira da estrada contemplou o nascimento do dia.
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O odor fétido da cabine não o incomodava, o suor pregado em sua pele manchada de graxa tampouco; gostava de estar assim, no que ele apelidava carinhosamente de seu “estado natural”, com a sujeira e testosterona transpirando aos poros. A janela aberta era um infortúnio, não que ele soubesse o significado da palavra, pois podia facilmente classificar o mundo em coisas inúteis e seus gostos. A primavera era uma dessas coisas inúteis, infectando o ar com seu pólen e colorindo a podridão do mundo. Odiava as chuvas da época igualmente, e as conversas afeminadas de crianças sobre fadas, como se elas de fato saíssem voando pelos jardins, nascidas dos dentes de leão. Jesus! Como se sentia grato por não fazer parte daquilo, dois meses sem ver os filhos era para si uma benção. Nada de gritaria, nada de choros ou histórias de dormir, sem questionamentos ou curiosidades; podia ver seu pornô tranquilo na sala sem lidar com uma criança babona e uma ex-esposa furiosa na manhã seguinte. Estava muito bem, obrigada. Conforme dissera perante o juíz, de forma alguma fazia questão de ter a guarda de três melequentos, se contentava em pagar a pensão da gorda com quem fodia, não que ela o cobrasse de qualquer forma.
Brock bateu a mão no volante em satisfação, finalmente havia algo que prestasse na porcaria da rádio; achava que depois de horas dirigindo merecia ao menos isso, não tinha paciência para as músicas da moda, cheias de batidas artificiais e letras melosas, gostava dos bons e velhos rock, de épocas em que ainda moleque se drogava na casa da mãe com os amigos. Maldita a velha que o colocara para fora, ela que chupasse seu pau com aquela história de ser um bom homem como o pai, que não passava de um corno; não que isso importasse mais. Na casa de seus quase 50 anos, Brock Stone não dava importância pra muita coisa, consigo levava apenas o caminhão e uma bela garrafa de rum, eterna companheira, vez ou outra se enrolava também com uma droga qualquer, mas nada além de uma diversão momentânea. Vivia pra isso. Dirigia, fazia entregas, bebia, fodia e ganhava uma grana, qualquer coisa além era uma baita perda de tempo em sua opinião; não que tivesse muitas, pensar não era exatamente algo que fazia.

— Droga! — O homem praguejou.

O sol das nove horas vinha direto em seu rosto e o bloqueador quebrado não ajudava muito. Não era horrível a porcaria da primavera com sua bola amarela gigante? Tudo parecia tirar-lhe o prazer da vida. Não gostava das manhãs, não gostava do sol, não gostava do azul do céu ou das flores que cresciam estonteantes a beira da estrada. Tinha tesão e queria foder, mas o bordel mais próximo ficava a horas dali. Dirigia entediado; uma mão no pau e outra no volante; considerava por via das dúvidas entrar na pequena cidade a leste, procurar por uma adolescente matando aula e interessada em alguns trocados, mas a figura insistente – e curiosa – acenando a frente capturou sua atenção. Mexia os braços vigorosamente, os cabelos caindo-lhe sobre o rosto banhado em suor. Brock apertou os olhos na tentativa falha de ver melhor e o fracasso fez com que esquecesse o retorno da cidade a quilômetros atrás, deixando-lhe não mais do que a chance de lucrar algo naquela carona. Aproximou-se da mulher e freou o caminhão em um movimento brusco; tinha agora uma boa visão. Curvas e seios, cabelo longo e pele pálida. Era magra, quase como um esqueleto, e o que via de seu corpo revelava roxos e machucados floridos, nada que o incomodasse afinal de contas. Preferia vadias carnudas é verdade, mas não tendo que pagar, qualquer coisa era peixe, além do mais se no mínimo gostosa como aquela. A garota pareceu suspirar em alívio, mal ciente do que se prestara.
entrou no caminhão com um sorriso no rosto. Precisava de água. Brock escancarou a boca exibindo dentes quebrados e podres. Precisava de sexo, gratuito de preferência.

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O tic-tac do relógio era tortura. As veias pulsavam no ritmar dos ponteiros, contraiam-se no tic e relaxavam ao soar do tac, a cabeça latejava e os sentidos eram um misto de confusão; o corpo estava mole e a consciência levemente distante. Thomas abriu os olhos, as paredes da casa mesclando-se ao seu piscar. Percebeu que todo corpo gemia em dor e que algo pegajoso cobria-lhe o rosto, constatou gosto acobreado.
Ferro. Deduziu.
Ferro? Questionou.
Achava que no sangue havia ferro. Não havia?
A mente silenciou-se. Talvez em trabalho para que recobrasse a lucidez. Quando o fez Thomas espantou-se.
. O grito em sua consciência fez com que estremecesse.
A maldita e ousada .
McQuire fez menção de levantar-se, mas frustrado foi puxado contra a cama, só então notando os pulsos atados. Gritou por novamente; a face adquirindo tom avermelhado, as lágrimas divertindo-se em suas bochechas. Não posso perdê-la e já a perdi. não voltaria. nunca voltaria. Ninguém em sã consciência voltaria, ele sabia. Ele não mais a veria; seu corpo esculpido em curvas, os olhos profundos como oceano em tempestades castanhas, sua nudez angelical. Não tocaria em sua pele, colorindo-a em tons avermelhados e esverdeados. Não teria o sabor de sob seus lábios, o tempero de seu desespero ao deitar-se a seu lado. Perdera a única coisa que possuía. Era um fraco.
Cego pelo ódio, Thomas urrou. Os braços estendidos forçavam-se em impaciência, as algemas queimando o traçado de seus pulsos. A pontada na cabeça o calou, quietou. Com a boca seca, buscou por conforto ao redor dos lábios, ganhando somente o gosto acobreado junto ao ardor da bebida seca em sua pele. O tic-tac do relógio arrancou-o melancólico para o planejar da vingança e ali agarrou-se com os dedos escorregadios. O roncar da barriga combinou-se ao estalar do meio dia. Thomas gritou, a garganta como megafone. Gritou em socorro. Gritou por ódio. Gritou por misericórdia. Gritou por vingança. Gritou por . Em seu deleitar a doce também gritaria. Ninguém a ouviria, porém.

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O vento açoitava sua face fazendo com que os cabelos flutuassem ao seu redor. A sensação a lembrava de pequenas pontadinhas, por vezes um pouco mais intensas; a seu ver a singela picada valia à pena, pois ao menos aliviava o cheiro fedorento do homem a seu lado. Apesar de desagradável a viagem ganhava de lavagem, pois afinal as horas na rodovia haviam sido agonizantes, e não mentia ao dizer que considerou se jogar em frente aos carros que inúmeras vezes a ignoraram; era invisível. Desidratada e jogada as traças condenava-se por não ter comido, roia-se. De alguma forma, entretanto escondia de si mesma o sofrimento que se esgueirava por sua alma, não obstante não houvesse canto de si, físico ou psicológico, que não se encontrasse em dor. A cada segundo desprendia-se de seu organismo. esvaia-se. Não que Brock, como se apresentou o homem, notasse. Em uma piscada a estrada, em outra espiando a mulher.
Quando o caminhão parou a sua frente, não considerou. Fingiu não ver a pintura desgastada e pichada, revelando o descaso de quem quer que a possuísse; tampou os ouvidos para os ruídos estranhos saídos do escapamento; torceu o nariz para o cheiro de diesel vazando, mas principalmente para o podre odor que a cabine exalava. Definitivamente o automóvel não estava em bom estado e ela também não, portanto deu de ombros, deixando-se levar pelo ato imprudente. O importante era fugir de Thomas. E acredite, repetiu essa mesma frase por no mínimo 90 vezes em menos de um minuto.
Ao abrir a porta da cabine, que observou pender consideravelmente para o lado, seu nervo óptico entrou em combustão, o rosto retorcendo-se em uma careta engraçada. Se as janelas eram os olhos da alma, então aquele caminhão era o reflexo de seu motorista.
Thomas. Sabendo estar em encrenca pensou em Thomas. Feche a porta, . Quando for propício você pode correr. Você consegue correr. E entrou. Pulou sobre o banco, lançando ao homem uma careta forçada em sorriso. Arrependeu-se em seguida, é verdade. A tentativa de soar menos aterrorizada lhe rendera um show de horrores em retribuição. Lembrete número um . Não sorria. Não foi com pouco esforço que manteve a boca contraída nas horas seguintes. Os adjetivos ao homem rodavam em sua boca, a língua mordiscada em uma tentativa de autocontenção. Sujo, nojento, feio, fumante, fedido, alcoólatra, peludo, grosso, enrugado. Ele foi o primeiro a se pronunciar.

— Ora, ora — Pigarreou contente — O que temos aqui?

— Dois seres humanos, um caminhão e uma estrada — Respondeu ríspida em descrença. Iria mesmo passar por aquilo? Clichês de estrada com falsos galanteadores? Iria. Obrigou-se.

— Poxa, gatinha, não precisa ficar com raiva. É só charme — O homem respondeu na medida em que a mão fechava lentamente os botões da calça, onde a milésimos de segundos acariciava seu pênis — Vai me dizer que não gostou do que viu, ein?

não respondeu. Encarou o homem com sua melhor cara de tacho, a mão vasculhando alguns dos bolsos de sua mochila.

— O charme, seu pênis e a conversa eu dispenso — Retrucou — Vou pagar pela carona, se isso te responde alguma coisa.

Lançou algumas notas sobre o painel da cabine, e em um relance contou pouco mais de 150 libras. O homem bufou amargo, claramente insatisfeito com a resposta da companhia. Queria uma puta, não uma vadia chata.
— Que seja, garota — Resmungou — Brock Stone ao dispor da vadia — Fez menção a uma reverência, observando-a com asteísmo. Não obteve respostas. — Pra onde vai à mocinha?

— No momento, pra onde quer que ‘cê esteja indo. Tem água? ‘Tô morta de sede.

— Não podemos deixar a mocinha assim, han? — Ele disse tirando de algum lugar uma garrafa. analisou a embalagem — ‘Ta fechada garota, não vou te dopar... ainda — Riu consigo mesmo.

Mais uma vez presenteou-o com o silêncio e desde então a conversa morrera; nas últimas horas, duas talvez, a mulher se concentrou em analisar a armadilha em que se metera. A seu ver Brock parecia uma toupeira, ou pelo menos como um parente muito próximo do animalzinho carrancudo, não havia qualquer resquício de pele seu que não fosse coberto por pelos grossos e graxa misturada a um suor quase condensado. As feições do homem também não eram agradáveis. Era carrancudo, de nariz largo, olhos esbugalhados e boca minúscula. Tinha também um bigode falho e os poucos fios que lhe restavam na cabeça eram brancos, aquela lustrosa como uma grande bola de boliche. Se tivesse filhos, imaginou que as crianças seriam horríveis. Do rádio uma música agradável brotava, e pela cara de desagrado de Brock era recente. Ela mesma nada sabia sobre música, estava perdida no tempo. As poucas melodias que vagueavam seu interior eram de épocas distantes, de Zeppelin as extravagâncias de Elvis, das críticas de System à rebeldia do Metallica, estas mais recentes, e aquelas clássicas. Perguntou-se como estaria o mundo da música, da última vez que acompanhara havia sons legais do universo pop, ao qual em desencontros cedia. Surpreendeu-se ao reconhecer acordes amigáveis, e só então se deu conta de quanta saudades sentia das músicas de sua adolescência. Os riffs de Coma e a voz estridente de Axl Rose preenchiam-lhe as veias. Esqueceu-se de Brock, ou pelo menos o fez por alguns minutos, pois infelizmente o deleite não durou pra sempre.

— Bom gosto, docinho — Ele comentou atento aos sutis movimentos da garota — Gosto disso, tu rebola assim quando fode? Tua bunda requebra com a música, gostosa?

enrijeceu no banco. Droga! Praguejou baixinho.

— Vai mesmo tentar me levar pra cama com esse papo furado? — Foi dura — Se enxerga, Brock.

— Pode ser no banco mesmo gracinha — Ele alfinetou. Não se renderia tão fácil; a mulher tentava-o com sua resistência — Qual o nome da estressadinha?

— Deixa de ser imbecil. Não é como se eu tivesse quatorze anos, meu amor. Acha que eu ‘tô tão desesperada assim? — Ela respondeu sarcástica, sentindo a doçura em um lugar distante. — Pra você eu não sou ninguém, vamos continuar assim. Silêncio, huh?

Brock desistiu vendo-a a apoiar a cabeça no batente da porta. No final das contas não precisava saber seu nome, a teria de qualquer forma e era suficiente. Não precisava que a mulher caísse de amores por si, afinal o desprezo em seu olhar era visível. Para ele estava até tudo bem. Aquilo não era uma vida de quem tinha amigos ou parceiras de cama por boa vontade, até gostava de ser o crápula, pois cedo ou tarde estaria em suas mãos. A fama não vinha de graça, Brock Stone era um maldito cafetão da estrada.
Senão pela música quase inaudível o veículo imergiu em silêncio absoluto. estava imersa em si, buscando por um autocontrole escasso que lhe fugia. Na hora que se passou pegou-se alisando suas feridas. Contornava os roxos, balançando com a cabeça em negação quando as memórias ameaçavam buscá-la. Traçava as cicatrizes a procura de um caminho. Nada passava por sua cabeça, afastava a tudo com músicas resgatadas as forças de seu subconsciente, e quando conveniente refugiava-se no rádio. O homem, por sua vez, manteve-se ocupado em fantasias pornográficas, a garota sem nome habitando seus pensamentos pervertidos. Escutou o estômago da menina roncar, riu sozinho e ela bufou. A pouco mais de 10 quilômetros faria sua primeira e única parada até Londres. Iria satisfazer a si e quem sabe também saciasse sua fome.

xXx


!
Ouviu ao longe. Ouvi-o.
!
O dono da voz se aproximava. Era ele.
!
Havia a encontrado, não havia?
!
Mais uma vez gritou, distanciou-se. Tão rápido quando chegara se ia.
!
O sussurro de soou como um alerta a parada brusca. Não. Respondeu a si mesma. não está aqui.
Com o choque estampado em sua face, soltou a respiração, que sem perceber prendia; os dedos chocando-se em sua cintura por instinto. Passou as mãos pelo rosto, condenando-se; havia adormecido em um caminhão com Brock, um cara, cujas intenções sequer se aproximavam de algo decente, alguém que particularmente a alertara para não dormir. Em desespero arrastou as mãos pelo próprio corpo, checando se as roupas ainda estavam ali. Um alívio repentino curvou seus lábios, e a garota abriu os olhos temendo os raios dourados que lhe acertariam como flechas. Deparou-se com Brock a encarando curioso, algo em suas sobrancelhas coladas indicavam que mal havia notado seu pequeno cochilo. Foi repentino, afinal de contas. Piscara e de repente estava ali, tão perto e tão longe de em um universo enegrecido e sem fim. Rolou os olhos em tédio desviando a atenção do homem de si, e só então reparou que haviam parado. Os gritos de eram mesmo um alerta; sua sirene.
Ao sol do meio dia a placa de neon piscava insistente em cores florescentes. O contorno das luzes denunciavam os traços de um corpo feminino, que em uma brincadeira astuta davam vida ao nome do estabelecimento, Neverland era como o chamavam. Na beira da estrada, o prédio azulado era a porta da cidade, erguia-se em três ou quatro andares e suas portas guardavam segredos sujos de seres humanos corrompidos. Brock só podia estar brincando. Ouviu o clássico creck do freio de mão e jogou a mochilas sob seus ombros, estava prestes a abrir a porta quando a mão do caminhoneiro posou em sua coxa, prendendo-a. Pigarreou.

— Hmm... Onde a mocinha pensa que ‘ta indo? — O homem indagou apertando-a com mais força — Eu mando nessa porra, docinho, você fica quieta e me obedece.

Brock ergueu-se sobre o banco pendendo seu corpo em direção a . Os dedos ásperos roçaram sua pele traçando-lhe o contorno do rosto, murmurando as palavras como se falando com uma criança. Enojada a garota bufou, o cuspe escorrendo pelas bochechas do homem, indignado. Rindo ele limpou-se em um gesto rápido; aos poucos a raiva lhe tomava, contrariado com a petulância da mulher. Encarando-a, Brock ergueu seu queixo, girando sua cabeça com brutalidade.

— ‘Cê tá vendo, princesinha? Vê esses fodidos, esse lugar? — Ele perguntou dominando seus movimentos — Um assobio é tudo que eu preciso, eles te seguram e em cima do balcão eu te fodo — Brock segurou-lhe pelos cabelos, extasiado pela mulher, agora quase entregue. Com os lábios no lóbulo da garota ele continuou — Nada é de graça, vagabunda! — Recitou um trecho de música — Eu te dou carona e você me abre as pernas, é assim que funciona, e você é chata pra caralho, garota... Me tirou do sério, é verdade, mas não eles...Olha pra esses merdas, vadia. Eles tão acostumados com vagabundas irritantes como você — Os lábios de Brock roçaram seu pescoço e as mãos destinaram-se a sua intimidade em uma ameaça — Você pode ser boazinha comigo, menina, ou você pode ir com eles, mas seja como for eu vou te tomar pra mim. Do jeito que eu quiser, pelo tempo que eu quiser. Seu direito é ficar caladinha, entendeu?

não o respondeu. Estática observou a mão pesada deslizar por sua perna em uma brincadeira, aproximando-se, em um jogo cruel, de sua intimidade. A proximidade arrancou de seus lábios um soluço choroso, e o homem regurgitou de prazer mordendo seu pescoço com ardor. Em urgência apertou seus seios ainda cobertos, admirando cada canto do corpo marcado e imóvel em suas mãos. Por segundos questionou-se se acariciava um cadáver, mas concluiu que não se importava. Quando o homem fez menção, porém a lhe tirar a blusa, acordou. Não havia trocado seis por meia dúzia.

— Tire suas mãos nojentas de mim, Brock — Ela grunhiu

— O que foi amorzinho? Você não gosta disso? — Perguntou sarcástico ao acariciar a intimidade da mulher, que se assustou — Não me diz que você é virgem! — Ele riu debochado.

— Acho que quem não entendeu foi você, Brock — Disse, empurrando-o para longe de si — Você é surdo, ou quer que eu repita? — perguntou jogando as notas sobre o balcão ao homem — Não sou sua mãe, querido, muito menos seu cachorrinho. Você não vai estalar os dedos e me dizer o que fazer. — Ela disse, lutando contra os braços do homem que voaram contra si. Sem forças a mão do homem chocou-se em sua face e gemeu em agonia, não permitindo que dessa vez isso a parasse. Pela última vez encarou as feições do homem e sem pestanejar prensou a arma em suas mãos na jugular deste. A corrente elétrica percorreu-o e a inconsciência em um piscar o recrutou — Au revoir, otário!

sorriu, guardando a arma de choque de volta em sua cintura; era um dos brinquedinhos favoritos de Thomas, e agora seu fiel protetor. Sem se dar o trabalho de checar as pulsações de Brock, a mulher ajeitou a mochila em seus ombros, descendo da cabine em seguida. No exterior, entretanto ninguém lhe deu atenção. Passou reto pela multidão de automóveis procurando por abastecimento, tinha os all stars surrados arrastando-se pelo chão coberto de cascalho. Vagueou seus olhares pelo local e um pouco a frente os escritos em uma placa fez com que se animasse, Londres estava a 100 km dali, uma pequena cidade em suas margens. Com a mente distante deixou o bordel para trás, rumo a qualquer espelunca onde pudesse comer e obter informações.
Com alguns minutos de caminhada um mercadinho sorriu para sua pessoa faminta, e com a saciedade veio o alívio, os ombros um pouco mais leves. Sentou-se no ponto de ônibus a espera da tranqüilidade, e finalmente permitiu os horrores de sua vida caíssem sobre si. Encolhida e abraçada em seu corpo, chorou em solidão. Não pensou, não tentou erguer-se, destruiu as muralhas que em poucas horas construiu ao seu redor. A chuva de maio levou consigo no passar das horas, muitas de suas lágrimas, e embora as ruas se esvaziassem, ali ficou. Quem sabe a chuva carregasse todas suas impurezas. Quem sabe a chuva lhe purifica-se um pouco, levasse para longe o nojo que sentia de si.
Ao romper da tarde o ônibus chegou, e levou para além do horizonte uma alma enferma, mas não a única. Protegendo-se com os braços, adormeceu sozinha em seu abraço.

Continua...



Nota da autora: Sem nota.




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