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Capítulo 16 — Dança com o diabo

A faísca queimou diante dos meus olhos.
O mundo girou, transformando as imagens ao meu redor em algum borrão sem sentido, maluco, vertiginoso. Haviam árvores, um céu cor de cinza, luzes verdes e vermelhas muito próximas uma da outra, uma imensidão de selva de pedra logo acima de meus olhos. E neve… Com certeza estava nevando loucamente àquela manhã. Eu sabia disso. Eu me lembrava.
Não lembrava?
Me lembrava do casaco sobrepondo outro ao descer do elevador. De chegar ao carro na frente do prédio. De dirigir até a Broadway. De receber uma mensagem de para que eu o encontrasse no Toby’s… Ou era no Starbucks?
Isso não fazia sentido. Eu nunca ia ao Starbucks. gostava de lá, mas eu sempre reiterava o quanto era desagradável desfrutar de um café superestimado. Não havia cabimento eu ir ao Starbucks…
E por que estou pensando tanto no Starbucks?
Tinha que me concentrar.
Dirigi para a Broadway. estava me esperando em alguma cafeteria. Eu via a cena claramente agora. O café mocha gelado — gelado, céus, no meio de toda aquela neve — estava apoiado ao lado de seu cotovelo enquanto ele deslizava aqueles dedos longos sobre o teclado, terminando algum trabalho atrasado, apostei. Não me lembro de confirmar esse fato ou não.
Eu tinha algo para fazer também. Qualquer uma das rotineiras tarefas acadêmicas que estava acostumado a fazer, mas não tinha conseguido completá-la na noite anterior. Por que não tinha conseguido?
Ao abrir meu computador e ver a tela em branco, me lembrei do bendito artigo pendente que havia prometido ao professor Dalton sobre algo relacionado ao meu novo futuro estágio almejado no Presbyterian, ao lado do doutor Gregory. Era sobre… Sobre o que era mesmo?
O tratamento cirúrgico das patologias tumorais, incluindo a quimiot…
O tratamento cirúrgico de patologias tumorais, como…
O tratamento cir…
Fechei a tela do notebook, bufando. Apoiei os cotovelos sobre a mesa de madeira, encarando a logo da marca do aparelho dançar na minha frente, me sentindo um completo inútil por não conseguir o foco necessário para ao menos começar a escrever o artigo.
Respirei fundo, fechando os olhos com força. Senti pensamentos querendo me tomar, querendo arrombar a porta na qual eu os havia prendido, mas o que era? Alguma coisa definitivamente estava querendo me dominar, trazer de volta alguma catástrofe qualquer que eu havia experimentado nos últimos dias, mas o que era… Céus, eu não me lembrava…
Alguma coisa estava ruindo dentro de mim e parecia uma tarefa difícil demais fingir que estava tudo bem. Me remexi na cadeira, ainda encarando a tela do computador, mas de alguma forma não estava conseguindo disfarçar. Sabia que tinha algo de estranho no meu rosto, algo que mostrava nitidamente o quando eu lutava contra… Contra o quê?
— Ei, cara, você tá legal? — perguntou do outro lado da mesa, enquanto fazia um barulho terrível comendo batatas de um pacote. — A sua cara parece melhor do que na semana passada, mas ainda parece que você tirou um B na prova. O que tá pegando?
Revirei os olhos em uma maneira de disfarçar o quanto eu havia esquecido, por alguns momentos, que ele estava ali.
— Tá tudo bem — respondi, a voz saindo mais como um sussurro. Olhei brevemente de soslaio para os lados, averiguando o ambiente da cafeteria na Broadway pela terceira vez, tentando me convencer de que a ação era decorrente da pura rotina de inspeção a qual eu fazia questão de realizar, principalmente em lugares que eu nunca havia estado.
Era isso, apenas por isso?
Um nervosismo latente parecia arrepiar até meu último fio de cabelo. Aquela não era uma inspeção comum, eu procurava um fantasma específico. Um conhecido, se é que eu podia chamá-lo assim. Um fantasma com um nome, rosto e uma incômoda sede de sangue.
Espera.
Nome?
Tentei reconectar meu raciocínio sobre qualquer assunto sobre oncologia cirúrgica e voltar a digitar qualquer frase que eu estivesse planejando, mas nada veio. As outras coisas, coisas triviais da vida banal de um estudante ou de pessoas normais, pareciam não estar ganhando espaço para entrar em minha cabeça, e eu estava cansado de tentar abarrotá-las no meio das outras lembranças e dos questionamentos acerca de alguma coisa… Algum acontecimento… O que havia acontecido?
Tentei juntar os fragmentos. Meu subconsciente gritava para mim, implorava para que eu simplesmente pensasse. E que aquilo tinha um propósito, precisava ter um. Por um momento, tive a certeza de que, seja lá o que estivesse acontecendo — ou o que diabos aconteceu —, eu finalmente estava percebendo que não estava no controle de absolutamente nada.
Se é que já estive algum dia.
— O que acha de visitarmos a Jane antes do Natal? — perguntou, agora focado na sua tela à frente, digitando rapidamente. — Ainda não vi nenhuma divulgação de alguma festa que preste no Fórum e não quero ir para a Califórnia ouvir minha tia-avó Nancy contar das consultas veterinárias de cada um dos onze gatos sem lembranças satisfatórias para me consolarem.
— A tia Nancy não tem onze gatos — disse enquanto digitava as primeiras palavras que surgiam no breve silêncio que se seguiu em minha mente à medida que eu abria a boca. Não me lembro de nenhuma delas. — Ela tem dezesseis. — levantou os olhos arregalados por cima da tela. — Você sempre se esquece das cores repetidas.
Ele fez uma careta de frustração e surpresa, pegando em seu celular e voando com os dedos pela tela, com certeza publicando aquela velha descoberta em alguma rede social.
Suspirei e olhei para o relógio na tela. Ainda era o começo da manhã e eu sei que — por qual motivo mesmo? — deveria estar indisposto, mal-humorado, exausto de todas as formas possíveis. Era assim que eu normalmente me encontrava ultimamente. Depois do meu encontro com ele… Ele… Ah, que se dane. Começou bem antes disso. Mais especificamente depois da última conversa com minha avó no último corredor da Butler.
Vó…
Mas não. Eu me sentia ligado, como se o sangue fervesse por toda a extensão do meu corpo e nem parecia estar fazendo mais tanto frio naquela cidade que já estava se afogando em neve. E isso não fazia sentido, visto que eu mal havia dormido.
Por quê?
Eu sentia a lembrança emanando pelo meu corpo naquele exato momento, mas eu não a alcançava. Sabia que, anteriormente, dentro do evento anterior que não conseguia me lembrar, eu havia sido tomado por um desespero tão grande que mal conseguia respirar. Que não conseguia encarar nada, nem uma parede sequer, sem ativar todos os meus sentidos de alerta à espera de que alguma coisa fosse acontecer.
Céus, por que eu estava desse jeito?
Ouvi o celular vibrando no meu bolso, que ignorei por um momento. Tentei voltar a pensar no artigo, na conversa que teria com minha mãe logo depois que ela soubesse do estágio e ela certamente me lembraria de não perder o avião e comentaria sobre o que cozinharia naquele dia, e talvez — eu esperava que não, mas com ela não dava para ter certeza — ela comentaria, aos bocados, sobre a filha de algum cliente ou grande amigo do papai, ou até de alguma nova vizinha que estaria pensando em chamar para o jantar e que eu provavelmente gostaria dela. Só comentando, diria ela no final.
Ah, a porra do Natal.
Ele vibrou mais uma vez e eu respirei fundo, dando-me por vencido pelas forças externas que não me deixariam tentar ser um cara normal hoje.
— Alô — atendi sem olhar o número do visor e me arrependi na mesma hora.
— Onde você está? — A voz de me fez olhar automaticamente para , que ainda encarava os códigos na tela azul, absorto demais para prestar atenção em meu maxilar trincado. — ?
— Por quê? — Perguntei, olhando rapidamente para os lados.
— Sabe aquelas cabines empoeiradas que são nada mais do que lixo que a Columbia insiste em manter no segundo andar da Butler? — Me detive em apenas murmurar em resposta. — Ao meio-dia. Maverick vai estar esperando.
Ele desligou e eu prontamente guardei o celular, minha cabeça latejando de repente. Minha mente voltou ao dia anterior. Eu sabia que havia me encontrado com ele, que havíamos conversado, mas… Sobre o que era mesmo?
Voltei à tela do computador, mas tudo não passava de uma massa branca e desfocada, à medida que eu parecia me tocar do conteúdo que seria aquela conversa — meu deus, o que era? E queria dizer que eu estava preparado, mas não estava, não mais.
! — Ouvi a voz de , que tinha a tela agora abaixada e arrumava a mochila. Percebi que eu fiquei em um estranho estado de transe por mais tempo do que pensei. — Estou dizendo que estou atrasado para minha aula, vai me dar uma carona?
— Vou, vou… — respondi, distraído, enquanto também começava a guardar as minhas coisas, tateando os bolsos em busca da minha carteira.
— Eu já paguei. — Ele revirou os olhos e eu assenti, começando a caminhar para fora, torcendo para que ele não percebesse tanto minha agitação, mas isso não parecia mais ser algo que eu pudesse evitar. — Você está bem mesmo, cara? Quer que eu dirija?
— Não precisa.
Saímos para a neve e o vento gelado soprando a tal velocidade que parecia cortar o meu rosto. Sentia como se literalmente o cortasse, abrindo um rasgo mediano na bochecha...
Abri a porta do motorista, sacudindo o casaco de leve para me livrar dos resquícios dos flocos incômodos.
— Quem era no telefone? — Ele perguntou, enquanto colocava o cinto de segurança. Engoli em seco, olhando para frente, concentrando minhas mãos em qualquer botão do painel à procura do som mais alto que eu pudesse achar.
Ah. não conhecia . Digo, ele conhecia o alter ego dele, Ash. Apesar de que os dois não eram tão diferentes um do outro, pela minha singela opinião.
E ele não fazia a menor ideia de que eu estava familiarizado com os dois. Mais do que imaginei.
— Ninguém importante.
— Ah, claro, como se você se desse o trabalho de atender pessoas não importantes. Vai continuar fingindo que não te conheço? — Ele levantou as sobrancelhas e quase tive que morder a língua para não gritar que não, talvez você não me conhecesse tanto assim, como eu não conhecia tanto as pessoas que achava que conhecia, como eu também poderia ser uma pessoa totalmente diferente ao seu ver, mas consegui me conter. Meu deus, eu estava uma pilha de nervos. Por que eu estava daquele jeito? — Com a Jane você mostraria um certo calor humano e sua mãe te mataria se ficasse menos de vinte minutos com ela ao telefone, então quem mais poderia te deixar assim?
Abri o porta-luvas, me xingando internamente por não ter renovado o estoque de cigarros do carro. Não que eles fossem servir para alguma coisa naquela hora, não com . Mas eu precisava pensar, precisava de silêncio. As perguntas dele pareciam estar elevando meu pico de estresse e voltei a sentir os pensamentos querendo me invadir novamente, tentando achar alguma brecha que os daria liberdade dentro de minha mente.
Eu sentia que precisava impedi-los. Só não sabia por quê.
— Era a ?
Ergui os olhos automaticamente, me sentindo um idiota por demonstrar tanto o quanto o nome dela me afetava de certa forma. Mas, desta vez, tinha algo de estranho no ar. Como se não houvesse apenas interesse ou curiosidade salpicado em meus olhos ao ouvir o seu nome, mas mais alguma coisa…
Alguma coisa mais forte.
O impulso durou poucos segundos. Soltei uma risada nervosa, irônica, girando a chave na ignição.
— Você está viajando.
— Acha que eu esqueci aquela história maluca de beijo? E ainda mais com , céus! — Ele inclinou a cabeça para cima, como algum trovador idiota da idade média ao recitar um poema brega de indignação — Você anda tendo aventuras secretas bem agitadas, se envolvendo com garotas comprometidas e tudo mais. Ainda não me decidi se acho isso irado ou simplesmente loucura. Por que não fazia essas coisas quando estávamos no colegial?
— Não vou te responder. — Curvei na Riverside Dr, sentindo o peito ficar quente. Agora a voz dele estava me irritando, como se cutucasse algo dentro do meu peito que doía, ardia. Tentei reparar em um cara vestido com a pior roupa de papai Noel de todo o país em frente a uma loja de departamentos, balançando um sino dourado preguiçosamente enquanto era açoitado pelo vento e pela neve.
— Ela teve alguma coisa a ver com todo o seu mau humor da semana passada, não teve? Vocês tiveram uma conversa sincera e ela decidiu continuar com aquela cópia de Biff Tannen, não foi? Já era de se esperar, você não deveria ficar tão chateado, . — Ele suspirou, colando os olhos no celular de novo. — Pensa só, se ela se envolve com outro cara quando se sente indecisa dessa maneira, ou por alguma insegurança qualquer, digo, ela pode fazer isso com você também…
Trinquei os dentes, agora direcionando minha mente para qualquer ponto interessante do trânsito, qualquer cidadão que caminhava em direção ao trabalho, qualquer coisa que me dispersasse das palavras de e não me permitisse gritar que, na verdade, o babaca era eu e nem se lembrava que eu a havia beijado. Eu.
— Existem pelo menos centenas de garotas naquele campus prontíssimas para topar qualquer coisa com você, inclusive qualquer interesse meloso que você possa estar tendo no momento. Não entendo como você pode ter pensado que se envolver com a era a solução pra isso, vocês nem se conhecem direito, digo, você não sabe absolutamente nada sobre ela...
— Dá pra calar essa boca? — Interrompi, o sangue pulsando em meus ouvidos, indicando uma súbita vontade de gritar. A queimação no peito pareceu ter atingido um limiar que eu não me recordava de estar tão baixo. Eu queria socá-lo pela primeira vez na vida. E não sabia por quê.
me encarou com a expressão estupefata pela grosseria inesperada e me arrependi no mesmo momento. Não podia deixar que meus problemas extracurriculares afetassem meu temperamento, como nunca deixei. Ser um cara pavio curto e estressado a maior parte do tempo só serviria para atrair mais atenção para mim mesmo, e eu com certeza não precisava disso.
— Foi mal, eu só... Eu só não quero falar sobre isso agora e muito menos ouvir suas suposições sobre o que eu sinto ou deveria sentir, ou de qual caminho eu deveria tomar ou sobre a porra do que eu deveria fazer... Pelo menos não você, já basta minha... — Suspirei, me detendo ao notar que quase iria soltar sobre minha avó e aquilo não faria sentido algum para .
Porque era simplesmente inimaginável que minha doce avó Ivy, que morava em um enorme sítio no interior da Califórnia, que havia me ensinado a genealogia de minha nova família e a brincar na terra escura enquanto fazíamos buracos nas mesmas para plantar sementes de frutas variadas e me presenteava com centenas de dólares escondido de meus pais fazer algo que me deixasse no mínimo incomodado.
Ele balançou a cabeça, não insistindo mais no assunto até que eu estacionasse em frente ao portão principal de Morningside Heights, onde a aglomeração de pessoas começava a se espalhar com o horário do primeiro tempo.
Ele destravou o cinto de segurança, olhando em minha direção.
— Você precisa de um cigarro, não é? — Ele perguntou e apenas suspirei. Ele pegou um maço pela metade do bolso da frente da mochila e jogou em meu colo. — Vou ligar para Jane para marcarmos uma noite de descarrego para você. Garanto que você está precisando de uma boa diversão. Até mais tarde.
Ele saiu do carro antes que eu me queixasse, caminhando rápido para dentro do prédio. Me contentei em apenas bufar e acender o cigarro, jogando o resto no banco do carona enquanto dava a partida e seguia em frente.
Uma nova vertigem bagunçou as imagens da lembrança. A ponta do cigarro ainda queimava, consumindo o tabaco mais rápido à medida que traguei a fumaça como se pudesse sugá-lo todo de uma vez só. A nicotina atravessou meu corpo, mas eu não me senti muito melhor… Ou senti? E aquele cigarro, aquela ponta ardendo em fogo vivo... Não me lembro de tê-lo jogado fora...
Eu terminei de tragá-lo?
Não é isso. Tinha outra coisa. Eu estava dirigindo.
O trânsito estava fluindo na 116 Street Station. Na esquina da encruzilhada em frente aos portões de ferro, um homem corpulento, trajado de pelo menos três casacos, passou correndo pela rua fora da faixa de pedestres, carregando um enorme pinheiro de Natal, que se arrastava pelo chão molhado, ajeitando-a bruscamente na caçamba de uma picape. As árvores e todo o verde em cima das divisórias de asfalto que separavam as duas vias da 3030 Broadway agora não passavam de galhos secos e nus, expostos ao vento gelado e ruidoso da estação. A uma hora daquelas, era no mínimo inesperado que eu não estivesse cercado de carros à minha volta, tendo consciência do tráfego quase caótico que se estabelecia nos primeiros horários executivos da cidade.
Mas não nessa manhã. Eu via agora, e via claramente na hora. Eu via na lembrança, e também achava estranho o fato de estar praticamente deslizando sobre a pista, sem parar a cada minuto pelo mini engarrafamento.
O Ford à minha frente foi parando gradativamente. Olhei para cima, encarando o sinal vermelho da W 120th Street. Senti um zumbido baixo ecoar em meus ouvidos. Luzes vermelhas… E verdes…
Um bolo estranho se formou em meu estômago.
Mas eu parecia bem. O eu de dentro do carro, encaixado por trás do Ford vizinho, espalhando fumaça por todo o estofado do Jeep, ainda preocupado, ainda estranhamente ansioso, mas normal. Não havia nada de estranho no ar, eu não conseguia encontrar o motivo da pequena pontada de angústia que havia sentido há pouco.
Tranquilamente, virei a cabeça para a esquerda. Se o trânsito era quase inexistente na pista, não se podia dizer o mesmo das calçadas. As lojas eram um grande escândalo de luzes e tapeçarias vermelhas que escorriam pelo teto, pelo chão e o resto era usado para a confecção das roupas de papai Noel e demais duendes. Uma delas não havia encontrado um homem com nanismo que quisesse se submeter ao emprego temporário em tempo do pico de vendas, então agora bajulavam uma criança chorona com orelhas pontudas falsas enquanto ela se recusava a gritar para os clientes do lado de fora. A cena era engraçada e de repente eu quis rir, quis rir de verdade, e o faria, mas…
Eu não ri. Em vez disso, meu rosto ficou sério de um momento a outro. A cena do garotinho agora era rica em detalhes em minha memória e eu me lembrava de achá-la cômica, mas eu não… O que era?
No prédio de vidro espelhado do Northwest Corner Building, com a barraquinha do Joe Coffee Company logo à frente funcionando a todo vapor, um par de botas de repente me chamou a atenção.
Elas eram prateadas, lotadas de glitter e lantejoulas, brilhando em tons de verde e vermelho vivo. Estavam paradas no meio da multidão de pernas que iam e vinham na calçada. Juntei as sobrancelhas e ergui o olhar. Não era uma vestimenta tão atípica em New York, ainda mais na época em que corais e apresentações teatrais ferveriam no Central Park. Mas continuei olhando, eu lembro, havia outra coisa…
Percebi que as pernas da garota que a usava estavam completamente nuas e franzi o cenho de forma atenuante quando notei que, na verdade, ela nem estava usando calças. O termômetro já começava a indicar temperaturas abaixo de zero e a neve não parava de cair, mas a garota usava apenas uma pequena tanga brilhante e uma faixa para cobrir os seios.
Descolei as costas do banco do carro, sentindo o corpo inteiro ficar rijo. O bolo no estômago se formou de novo, desta vez acompanhado de uma estranha sensação ruim, muito ruim.
Ela estava parada no meio da massa de pessoas, fazendo movimentos estranhos com a cintura e os braços, como uma dança específica que me foi estranhamente familiar. Onde eu já havia visto tal coisa antes? Cocei os olhos para me certificar de que, por via das dúvidas, eu não havia ficado maluco de vez. Aquilo não era nenhuma boneca inflável estranha, usada para atrair quaisquer clientes para o Natal. Os cabelos loiros estavam estranhamente jogados sobre seu rosto e tudo parecia tão desfocado a princípio, tão estranho, tão fora do nor…
O motor do Ford roncou à minha frente, seguindo para a luz verde e curvando em qualquer uma das ruas da W 120th St. Pisei o acelerador automaticamente, lembrando-me de que ainda estava no meio da rua e que o motorista de trás deveria estar com as mãos por cima da buzina. Engatei com o carro e segui em frente devagar, mas de repente olhei para o lado mais uma vez. Precisava me certificar de que tinha visto mesmo aquilo, de que alguma coisa muito errada e muito séria estava acontecendo ali e ninguém parecia...
Uma onda violenta de frio se deslocou por todo o meu corpo. (Coloque pra tocar “What Really Happened” de Chris Bacon).
Em câmera lenta, tudo pareceu acontecer em minutos arrastados de puro terror.
O cabelo da garota semi nua no meio da calçada voou de modo feroz pelo vento repentino e ela virou o rosto em minha direção, com o carro ainda em movimento. Um choque paralisante endureceu minhas pernas e braços ao notar o mesmo sorriso e os olhos de Jane, que acenou para mim do outro lado, como em todas as vezes que fizera na vida.
A intensidade da vertigem ficou mais forte, fazendo com que as imagens ficassem mais nebulosas, indistintas. Não, eu não podia sair agora, não podia acordar agora, se é que estava dormindo, se é que aquilo era real, não importava, eu tinha que continuar!
Ela esticou os braços para a frente, torcendo o dedo indicador da mão direita para me chamar em um sorriso ladino e jovial, como distribuía em cima do palco. O mesmo sorriso, idêntico, até os olhos, tudo… Jane...
Senti a garganta fechar. Olhei para os lados, procurando quaisquer dedos apontados em sua direção, qualquer sirene de alguma ambulância ou até mesmo da polícia que com certeza receberia uma denúncia de atentado ao pudor por ter uma garota completamente desvairada posando na calçada daquela maneira, como em um protesto político qualquer, mas nada veio, absolutamente nada, minha boca ficou seca ao notar que ninguém parecia estar vendo aquilo, ninguém está vendo
Ninguém...
Um baque surdo e violento no meu para-choque, seguido por um impacto brutal no para-brisa, me fez voltar à realidade pelo abalo. Foi tão forte e repentino que pareceu deixar toda a minha mente na cena anterior, fazendo as próximas parecerem um enorme borrão. O cigarro escapou de meus lábios e voou de encontro ao lado contrário, passando bem diante de meus olhos… A faísca…
Minhas mãos agarraram o volante à medida que senti o mundo girar ao meu redor.
O mundo girar… O mundo girou… Transformou as imagens em borrão…
O barulho dos pneus cantando no asfalto encheu meus ouvidos, ao passo que fechei os olhos com força ao sentir um corte atravessar minha bochecha esquerda. Como se o vento ruidoso do lado de fora cortasse meu rosto…
De repente, gritos — ao longe, pareciam vir de quilômetros de distância — encheram o ambiente, até o carro finalmente parar em um solavanco, me jogando para frente e senti a testa bater em algo duro e disforme, sentindo imediatamente o sangue quente descer pela lateral do rosto.
O sangue. Com a cabeça inclinada na vertical sobre o painel, o mundo continuava girando. Os prédios, não havia tantos prédios assim por aqui, eles pareciam duplicar, triplicar, assim como as árvores, as luzes do semáforo piscando… Verde e vermelho…
Tudo ficava cada vez mais escuro. As pálpebras, minha nossa, elas queriam fechar imediatamente, pareciam implorar por algum descanso merecido depois do que haviam visto, do que achavam que tinham visto, porque aquela… Não, aquela não era…
Precisava acordar. Precisava me levantar e dar um jeito de contornar essa bagunça, mas a escuridão, ela estava aqui. E não pude mais controlar o impulso de acompanhá-la — malditas pálpebras —, simplesmente segui em frente com ela.
Então eu deveria acordar em breve. Digo… Esse era o motivo do porquê eu estava inconsciente, tentando me lembrar do motivo de ter vindo parar aqui.
Não era?
Fechei os olhos, encontrei a escuridão, mas ela não me levou. Muito pelo contrário. Ela estava ali, ao meu lado, e de repente me senti mais consciente do que nunca. Como se eu estivesse adentrando em outra lembrança, a memória de uma memória, vasculhando a cabeça do eu semi-inconsciente que sangrava dentro do carro.
A memória…

Antes de acordar, ela veio de forma gradativa.
As árvores.
Estava subindo bastante em árvores ultimamente.
Eu havia subido em uma delas no dia anterior… Uma árvore peculiar de um jardim, uma sacada grande com detalhes quase semelhantes a alguma estrutura greco-romana.
.
A casa dela. O quarto dela.
De repente, fui engolfado por uma surra de informações, todas ao mesmo tempo, triturando meu cérebro como se caísse direto em um vórtice mortal.
Ah, céus...
Tinha certeza de que tinha parado de respirar.
A fotografia.
Tudo veio como um jato e subitamente era como se eu me transportasse para aquele dia novamente, com o mesmo desespero que agora eu entendia ter me acompanhado durante toda aquela manhã.
Lembrando agora, não tenho ideia de como havia chegado em casa. Não sabia em quais ruas e avenidas havia passado, se havia respeitado todos os sinais de trânsito, se tinha combustível suficiente no carro. Não sabia nem para onde estava indo, à princípio. A bagunça em minha mente atrapalhava minha visão e todo meu senso cognitivo. Meu peito pesava, compactuado com o nó em minha garganta, que me sufocava.
Nunca havia me sentido tão transtornado em toda a minha vida. Talvez uma vez, quando minha avó apareceu no quarto compartilhado que eu dormia no Melbourne, dizendo algo sobre sermos família e que eu tinha uma missão a cumprir com meu dom.
Deixando toda a baboseira de dom de lado, a notícia de que eu tive uma família me acertou em cheio. Fugi na mesma hora, não por medo dela, mas por medo da verdade. Desde que me entendi por gente, havia decidido não saber sobre diabos de origem nenhuma. Minha avó ajudava nisso como ninguém — ela jamais respondera as poucas perguntas que fiz sobre o assunto. Aquilo só reforçou como eu deveria apenas seguir em frente, e parar de tentar construir o meu passado.
Mesmo que ele soubesse de algo… Ou me fazia pensar que sabia… Meu deus, era algo que definitivamente eu não queria me deixar levar.
Entretanto, naquele momento, eu estava cego e nada tinha a ver comigo. Lembro-me de rolar os olhos pelo quarto dela após me livrar do disco, banhado pela luz fraca de um único abajur, procurando enxergar algo nas sombras, desesperado. Eu nada vi. Mesmo que a linha fina de vento, tão fina que demorei a perceber sua presença, dançava no espaço, como um pedaço de gelo acariciando ora a minha nuca, ora os joelhos, os braços, fazendo uma brincadeira comigo.
Havia algo ali.
Escondido sob os meus olhos, e, quase, também escondido pela minha percepção. Estava ali o tempo todo. E, ao percebê-lo, senti um desespero opressivo, urgente.
repetia palavras incoerentes. Eu estava ansioso para ver algo, mesmo não sabendo como lidaria com tal coisa. A presença sufocante que senti no bar, ou em Woodlawn, ou até mesmo a que acabara de sentir com a voz macabra da vitrola, aquela sensação característica e sombria que anunciava que ele estava por perto, não estava mais presente.
Era outra coisa, algo diferente... Nem dava para saber se era ele. Era apenas um resquício, uma lembrança, algo capaz de enterrar a presença anterior. Não me passava nada de mal. Ainda assim, eu não o via.
Existia, portanto, um espírito que eu não pudesse ver?
Permiti que eu me acalmasse, sem deixar de inspecionar o quarto. Se havia algo ali, não parecia querer machucá-la, não parecia nem querer alguma coisa. Na verdade, eu nem sabia dizer o que parecia. Eu só tinha uma certeza repentina de que eu poderia ir embora e deixá-la sozinha, ao menos por essa noite.
Mas no carro os pensamentos invadiram-me de novo. Por quê? Como? Quando?
O irmão de era o fantasma maligno com os olhos assassinos e perversos, que a olhava pelas costas, pronto para atacar. Em nada se parecia com o rapaz feliz com o sorriso simpático da foto. Eu não queria acreditar em como tudo aquilo parecia loucura.
Saber da verdade não me deixou mais tranquilo. Eu queria saber a identidade do fantasma, queria muito. Só assim eu poderia conhecê-lo, compreendê-lo para que retornasse suas memórias e sua pendência e dar o fora daqui. Mas eu não conseguia esconder minha curiosidade: por quê? Por que ele? Por que ela?
Lembrei-me das palavras de Margot em Woodlawn e do estado deplorável que havia ficado ao ouvir as acusações sobre a morte de seu irmão. Depois, a voz de minha avó fez questão de reforçar a questão em minha cabeça: não era aleatório. Era destino. Como poderia ser culpada pela morte do irmão se em seus olhos eu só conseguia ler dor e saudade?
Não consegui pregar os olhos naquela noite. Todas as células do meu corpo me diziam para não ir atrás daquilo. Que já estava bom o suficiente tudo que eu sabia sobre . E que ela era uma pessoa boa, inteligente, esperta, justa. Que ela não faria nada para merecer a retaliação de um espírito maligno. Que tudo aquilo não tinha cabimento.
Mas minha maldita consciência ressoava, gritava. Dizia que eu precisava. Que eu não poderia conviver com aquela dúvida. Novamente um inferno de dualidade tomou conta dos meus pensamentos, um cabo de guerra entre me envolver ou não, mais do que já estava envolvido.
No fundo, eu sabia o que escolheria no final. Mesmo lembrando do livro do padre Jeffords, conhecendo o fim que o filho de Mark levou, que estava à luz da ignorância, muito diferente de mim. Eu sabia o que aconteceria. E, mesmo assim, não conseguia compartilhar da mesma estima pela minha própria vida como Jane ou minha vó. Pensando bem, eu nunca havia parado para pensar na morte — na minha morte. Eu me sentia indiferente a ela, talvez por saber que, diferente do que os outros pensavam, nem sempre tudo acabava nela. Morrer para mim era simples — ou ao menos era. Meu único objetivo era partir de uma vez sem deixar assuntos inacabados para perturbar quem quer que fosse quando chegasse a hora.
Mas ao imaginar a morte tão iminente e ameaçadora bem à minha frente, ela não parecia tão simples assim. A morte era muito mais complexa do que simplesmente um cessar de batimentos cardíacos. E era perigosa. Eu não entendia como isso me fazia querer correr mais rápido, estar à frente dela, impedi-la, como se esta fosse uma bicicleta em movimento, ou uma pessoa qualquer.
Apesar de me avisar dos perigos, ele estava me chamando, me desafiando para saber até onde eu ia. Era uma dança com o diabo, a qual eu estava dizendo sim.

Não sei por quanto tempo demorei naquela posição, nem a estimativa do quanto havia ficado afundado na inconsciência, na memória. Meu peito queimava, o sangue correndo em plena velocidade pelo meu corpo. Eu estava paralisado, a garganta tão fechada que mal conseguia emitir uma respiração decente. Minhas mãos voltaram a tremer, ainda agarradas ao volante.
Então era por isso que eu estava nervoso, tomado pelo incômodo desesperado de encontrá-lo. Eu descobri… Tinha descoberto sua identidade. Mas eu não podia me concentrar nisso naquele momento, eu tinha de voltar, tinha que conseguir limpar aquela bagunça, porque Jane, ela estava...
Uma enorme sombra estacou por cima de minha cabeça e eu levantei meus olhos devagar, ainda arregalados, ainda em alerta. Pude ouvir as vozes, todas muito perto de mim. Elas diziam palavras inaudíveis, lentas, como se eu estivesse embaixo d’água. Pareciam gritar, mas eu não os escutava. Por que estavam gritando tanto mesmo?
Inclinei a cabeça para trás, causando uma fisgada dolorosa no local do impacto, e olhei para a frente.
(Coloque para tocar “Shivers” de Nox Arcana).
A visão turva pela batida era um empecilho, mas eu sabia o que estava vendo. Era nítido a cada segundo que corria. O para-brisa estava arruinado por um enorme trincado bem no centro, com as demais rachaduras espalhando-se pelo vidro ao redor, soltando vários pequenos pedacinhos de caco transparente no banco, em meu colo, alguns remanescentes se pendurando em seu lugar de origem, negando-se a saírem.
As vozes ao meu redor aumentavam, assim como algumas buzinas e rostos estranhos pairando em torno do carro, mas eu estava estático. Percebi, com horror, que havia algo no vidro. Um líquido denso vermelho vivo, se alastrando por toda a extensão à minha frente, pingando dos cacos tombados, manchando o restante que havia explodido para dentro do Jeep, uma quantidade absurda de sangue, muito sangue
Não. Por Deus, não…
Apavorado, abri a porta de imediato, saindo aos tropeços para o lado de fora com um zumbido agudo nos ouvidos que me impedia de virar os olhos para reparar no que estava acontecendo ao redor, não importava, nada mais importava, só o que contava era a batida frenética do meu coração e a primeira reza da minha vida, a primeira de toda uma vida, para que o pior não tivesse acontecido, tudo menos aquilo, Deus, tudo
Minhas pernas pesaram e viraram chumbo quando cheguei à frente do para-choque.
Um horror inimaginável tomou cada célula do meu corpo e me senti mole de repente, juntando toda a força de minha mente para me manter de pé ao notar o que havia mais à frente, meu deus, não…
O corpo estava caído no chão de bruços, com a perna esquerda curvada de forma desigual, torta, vazada para fora e o braço direito arqueado ao contrário, como se fosse um boneco qualquer de alguma loja barata do Brooklyn. Sua cabeça estava enterrada em uma enorme poça de sangue, que crescia e se esparramava pelo asfalto, juntando-se com a neve do meio fio.
Minhas mãos tremiam e pude sentir todos os pensamentos lógicos se esvaindo de mim. Pela primeira vez, olhei ao redor, rolando os olhos rapidamente pela recente multidão que havia se reunido em um semicírculo em volta da cena, com os olhos arregalados e balbuciando palavras ininteligíveis enquanto apontavam para mim.
Senti a língua ficar dormente, a pele ficando mais fria, a cor deixando meu rosto enquanto forçava meus pés a se mexerem, minha boca a dizer alguma coisa, a gritar qualquer tipo de ajuda, a gritar para que não, que ele não estivesse morto, por favor, que ele não esteja morto, e que eu precisava fazer alguma coisa, qualquer coisa, se mexa, VOCÊ PRECISA SE MEXER!
Um grunhido baixo e rouco veio da poça de sangue, acordando-me finalmente do torpor medonho e me fazendo correr e flexionar os joelhos no chão gelado, colocando os dois dedos na lateral de seu pescoço, mesmo sabendo que era a última coisa que eu deveria fazer.
— Uma ambulância! — Consegui gritar, a voz tão rouca e seca que me preocupou se alguém realmente me ouviria. — Chamem uma ambulância! Agora!
De repente, eu parecia são e focado no momento presente. Ele estava vivo, ao menos ainda, mas estava vivo, e ficaria vivo, tinha de ficar vivo! A adrenalina pulsava em meus ouvidos e minhas mãos não paravam de tremer, mas eu faria o que pudesse e o que não pudesse.. Tirei o casaco, lembrando-me cegamente dos primeiros socorros em caso de acidente, ignorando totalmente a parte de não o tocar, procurando algum sinal de hemorragia, pegando em seus ombros para desafogá-lo do próprio sangue, cobrindo-o para não ficar mais gelado do que estava, e a ambulância, onde estava a maldita ambulância, por que ninguém estava ajudando, pelo amor de deus…
Por que ninguém estava fazendo nada?
Bufei e puxei seus ombros para o outro lado, virando-o de barriga para cima. Ele não emitiu som algum pelo movimento no braço quebrado e a metade de seu rosto estava arruinada em sangue, que escorria em gotas grossas de um ferimento em carne viva do topo da cabeça. Puxei sua perna da melhor forma possível para que ele não sofresse tanto ao subir na maca, procurei sinais de hemorragia em todos os pontos do torso em completo desespero e me preparei para eu mesmo pegar o maldito celular e chamar a porra de uma ambulância enquanto via que a multidão não o faria, mas onde estava meu celular? Onde eu o havia colocado…
Minha respiração era sôfrega e pesada. Com as mãos balançando daquele jeito, era capaz de deixar o celular cair vinte vezes antes de conseguir discar qualquer número. Tateei os bolsos em pura agonia, olhando mais uma vez para um dos lados, constatando a mesma visão de antes: ninguém mexia um músculo, a não ser para observarem e cochicharem, como se eu fosse o ator principal de algum teatro de quinta categoria da maldita Broadway, fazendo algum show para malditos cidadão nova-yorkinos, porra de nova-yorkinos, porra de cidade!
Quando finalmente alcancei o celular, consegui mantê-lo quase estático enquanto digitava os três números da emergência e cada toque parecia um soco nos meus ouvidos, eu só precisava ouvir uma voz, precisava que alguém atendesse. Deus, só uma pessoa atender…
O terceiro toque chegou ao fim e levei as mãos ao cabelo de pura frustração. Olhei para o possível paciente no chão, tentando marcar sua altura, cor, ferimentos, o rosto, a roupa preta que escondia a maior parte do sangue que corria no asfalto.
Espera.
Roupa preta… Mas…
Havia uma jaqueta. E suas calças eram de jeans claros… Ele usava botas de neve verdes e não pretas...
Ele não…
O grunhido surgiu de novo de sua garganta. Ele remexeu lentamente o pescoço até virar a cabeça para cima e abrir os olhos.
Os olhos…
A voz do outro lado da linha finalmente apareceu, mas eu não estava mais escutando. Não escutava mais coisa alguma. Senti o aparelho deslizar de minhas mãos.
A sensação foi de que haviam furtado meu cérebro e o jogado direto em um liquidificador, porque não podia ser, aqueles olhos...
Olhos esses completamente negros, brilhando sob a metade do rosto banhada em sangue.
Um sorriso grande e macabro cintilou o rosto imóvel no chão e uma gargalhada grotesca escapou de seus lábios, atravessando meu corpo em lascas de gelo, como se me nocauteassem a cada intervalo de respiração.
Isso não podia estar acontecendo.
O que ele estava...
Em um ímpeto, virei a cabeça para olhar a cena, pela primeira vez, em total noção de lucidez. Para vê-la de verdade. Minha respiração saía pesada e eu devia estar congelando, a fumaça branca e espessa dificultando os detalhes da visão panorâmica, mas nada se comparava ao pânico que me tomou ao me tocar do que realmente estava acontecendo.
O Jeep se encontrava parado no meio da encruzilhada, com a porta do motorista aberta, exatamente como eu a havia deixado. Ele estava curvado de forma invasiva e louca, como se, em algum impulso de loucura, eu tivesse saído com ele de cima da calçada na lateral e me esquecesse de virá-lo para a frente, como uma enorme barragem atrapalhando todo o trânsito. E esse trânsito estava tão nervoso quanto curioso, com dezenas de pares de olhos me encarando ainda ajoelhado no chão.
As marcas dos pneus se estendiam pelo menos por uns seis metros até o meio da pista. Elas curvavam e giravam quase em torno de si, como se o carro literalmente tivesse rodopiado até onde estava no momento. A recente lembrança do impacto seguido pela explosão do vidro retornou à minha mente, prendendo minha garganta novamente, a respiração escapando em silvo até que eu direcionasse meus olhos para o local do choque. E o que vi ali serviu para confirmar todas as hipóteses horrendas que eu nem sabia que perpetuavam minha mente até aquele instante.
Porque não havia absolutamente nada no vidro. O para-brisa estava intacto, assim como o para-choque, sem nenhum mísero resquício de colisão ou sangue, principalmente o sangue, todo aquele sangue que me fez paralisar de medo.
Estava limpo, nada.
E então as vozes ao redor começaram a ganhar forma e força. Uma mulher parada ao lado do carro me encarava com as sobrancelhas juntas, com a expressão em um misto de incredulidade e desprezo, como se olha para uma inspeção de tráfego que só serve para atrasar os compromissos dos demais. Uma outra garota tinha o dedo apontado para mim enquanto falava abertamente com a colega ao lado que nunca havia presenciado tal ato de esquisitice antes. Um cara tinha o celular apontado para a cena, em plenas risadas enquanto dizia algo como “Cara, você é totalmente pirado”.
Mas outra risada me fez virar a cabeça devagar, de volta para — agora eu sabia — o responsável por tudo aquilo. Ele começou a se sentar tranquilamente, colocando os ossos quebrados do braço e da perna no lugar como se realmente não fosse real, como se tudo não passasse de uma pegadinha, ainda rindo tanto que seus ombros subiam e desciam pela intensidade. Seus olhos me encararam mais uma vez enquanto ele passava a língua podre na metade dos lábios encharcados de sangue, os dentes lascados voltando a aparecer, assim como todo o círculo em volta dos olhos e a palidez fantasmagórica de como realmente era.
— E então, , onde estávamos mesmo? Ah é, você ia chamar a ambulância! — Ele riu outra vez e uma raiva sem igual, a mesma que foi crescendo aos poucos em meu peito e salpicava meus olhos naquela noite em Woodlawn, começou a subir, a preencher todo o medo e horror que eu havia sentido até então, como uma xícara de café amargo que não demoraria a transbordar. — Acho que você vai precisar de uma ambulância daqui a pouco, rapaz.
Encarei seu rosto, agora com o sorriso diminuindo e a feição obscura voltando à tona, enquanto eu me controlava para não abrir a boca ou o atacava sem mais nem menos, guiado por todo o ódio que se apoderava de mim. Era difícil, tão difícil que eu mal conseguia respirar. Tinha que me controlar e lembrar que eu estava sendo observado e que era tarde demais para agir normalmente, mas eu poderia não piorar a situação, eu poderia me levantar e entrar no carro de novo antes que a polícia chegasse, ou pior, que alguém realmente pensasse que eu era mesmo pirado, não apenas um jovem imprudente, e me forçassem a ir para uma certa instituição de paredes brancas onde a última moda era muito utilizada por Hannibal Lecter, mas não podia, em hipótese alguma, cair no seu jogo, não aqui, não agora.
O sangue ainda estava em minhas mãos, assim como o contraste do tom vermelho na neve, que, aos poucos, parecia escurecer até ficar quase preto, como a ilusão imposta por ele se esvaía à medida que ele retornava à aparência normal. A aparência da morte em sua mais horrorosa essência. Ele passou as costas das mãos em seus lábios, limpando o sangue da bochecha, afastando os fios do cabelo para cima. Senti um latejar agudo em minha testa, me deixando um tanto aliviado ao notar que, pelo menos, aquele sangue era de verdade.
Soltei o peito em um suspiro forte, começando a me levantar, travando todas as vontades impossíveis guiadas pela raiva que eu poderia realizar naquele momento, como simplesmente socá-lo até que eu mesmo morresse. Uma comoção geral perpassou o rosto dos presentes, olhando para mim agora não apenas com a expressão de confusão de um cara insensato que havia derrapado com o carro na pista da encruzilhada e ter simplesmente achado que atropelara uma pessoa imaginária, com o semblante estampando pânico e terror ao se ajoelhar para a neve. Não, agora elas realmente pensavam que eu poderia beirar a um perfeito maníaco, com os olhos fixos e duros como uma estátua, o maxilar trincado de ódio, ignorando tudo ao seu redor enquanto caminhava de volta para o carro torto no asfalto.
— Você já vai? — A voz dele surgiu por trás de mim, mais fria do que o vento gelado que soprava e invadia meu suéter. Não me virei, não poderia, ele não me faria perder o controle na frente de todas essas pessoas, eu não… — Está preocupado com a plateia, rapaz? Não se preocupe, posso disponibilizar mais privacidade para nós, se preferir.
Coloquei as mãos na porta do carro, mas travei no mesmo lugar.
E percebi que não fui apenas eu.
O vento gelado não existia mais. Os flocos de neve pararam no meio do caminho antes de tocarem o chão. No meio da multidão, uma criança, agarrada às mãos de uma mulher, apontava o pequeno dedo em minha direção, congelada em seu lugar. Assim como tudo ao meu redor.
Isso não estava acontecendo...
— Agora vejamos, se sente mais confortável?
Trinquei os dentes, soltando um rugido louco do fundo da garganta quando girei o corpo para encará-lo, agora também de pé, com os braços atrás das costas, gracioso como uma pena.
— Seu maluco desgraçado...
— Gostou da minha performance de mais cedo com a garota Sullivan como modelo? Confesso que é mais difícil do que pensei, mas foi extremamente proveitoso invadir suas lembranças até aquele fatídico dia em que a viu se apossar das economias de velhos decrépitos naquele clube caído e imundo. Fantástico seu desempenho posterior em se entregar a você também, meu jovem, mesmo que tenha feito isso com vários outros antes. — Ele gargalhou, levando uma mão ao peito, mantendo os olhos fixos em mim. Tentei me mover, mas, como esperado, a redoma havia me prendido novamente, amarrando meus pés no mesmo lugar. — Mas não é sobre nada disso que me vi obrigado a perder meu tempo novamente com você.
Em um segundo, ele estava na minha frente, exalando toda a energia pesada e escura que transbordava de si, e, por um momento louco, quando abriu um sorriso fraco, chegou a se parecer com o cara da fotografia acima da vitrola.
— Eu sei o que você fez ontem. Sei o que sentiu ontem… O que está sentindo agora também, pode apostar que sei. — Sua voz saiu em um sibilo e senti ainda mais frio do que antes. — Acha que suas descobertas mudam alguma coisa, meu caro jovem quase-morto ? Acha que ainda pode salvar o dia com suas artimanhas de criança mimada e desobediente? Aguentaria ficar no looping infinito de perdas de pessoas importantes que estou disposto a realizar por causa de uma garota que nunca poderá ter?
Em um impulso totalmente desorientado, ultrapassei as linhas impostas por ele que limitava meus movimentos e peguei no colarinho da veste negra, aproximando seu rosto, sentindo a raiva sufocada começar a querer transbordar. As pessoas — o tempo, o tempo! — congelado não se importariam, nem quaisquer motivos frívolos que atravessassem minha mente naquele momento, eu só via e sentia raiva, a mais pura cólera pelo seu sorriso envaidecido e arrogante.
— Você… Quem você pensa que é? — Consegui proferir as palavras, apesar de ainda sentir a língua dormente, a voz saindo engasgada. — Idiota insano… Como pode estar fazendo tudo isso… Por que, é isso que preciso saber, por que está fazendo isso? Ela é sua… AH!
O som dos ossos se quebrando retumbou em meus ouvidos mais do que o urro de dor que escapou, arrombando minha garganta. Meus joelhos cederam até baterem no asfalto, a dor na mão direita penetrando todos os pontos do meu corpo. Mordi o lábio inferior para abafar mais um grito, mesmo que ninguém fosse escutar, mesmo que as pessoas congeladas não fossem reagir. Fechei os olhos com força, ainda sentindo a imensidão espessa e sufocante, a raiva agora misturando-se com a dor e os demais sentimentos enquanto vi que ele se abaixava ao meu lado, com um riso inocente e elegante preso na garganta.
— Achei que tinha deixado bem claro para não tentar suas gracinhas comigo, . Elas me divertem, preciso admitir, mas é um pouco perigoso, você não acha? E se eu estivesse em um dia ruim?
Ele suspirou, como se estivesse dando uma paciente lição a uma criança que foi pega em flagrante e passou um dos dedos na ferida aberta de minha testa, pressionando o machucado gradativamente à medida que falava:
— Espero que, a partir de agora, esteja muito bem claro e estabelecido que você ultrapassou todos os limites da minha calma e posso dizer também, da minha confiança. — Um grito profundo e sem controle escapou de mim. — Vejamos bem que você não apenas negligencia sua própria vida, como também das pessoas contempladas por seus sentimentos, sim, eu vejo isso, e se me permite arriscar uma deturpação empírica, seria trágico se não fosse tão cômico. — Ele gargalhou e um gemido atenuante pela dor de seu aperto me fez desabar no chão, sentindo os olhos ficarem quentes com a dor desesperada da mão quebrada e da ferida agora em carne viva. — Você é um garoto singular, . Será uma grande perda para o mundo, acredite, nunca subestimei suas habilidades, elas poderiam ser treinadas e potencializadas se você soubesse de toda a verdade, claro, e eu admito que considerei a possibilidade de contar-lhe tudo algum dia depois de finalizar os meus planos, mas você realmente está sendo um incômodo maior do que eu esperava, portanto acho que está na hora de me livrar de você de uma vez por todas.
Ele falava, mas suas palavras chegavam pela metade em meus ouvidos. Pontos brancos e pretos começavam a piscar à minha frente e eu sabia que não faltava muito para que eu finalmente perdesse a consciência decorrente da dor excruciante que se propagava por todo meu corpo. Avistei seu dedo descer mais uma vez sobre meu rosto em direção a mais uma sessão de tortura sobre minha ferida, quando, em um movimento rápido, tão rápido que só registrei depois, peguei em seu pulso com a mão boa, focando seu rosto em minha perspectiva, tão forte quanto eu poderia, convergindo todas as emoções espalhadas para a força em meus dedos.
… — falei seu nome em meu tom de voz mais firme possível e vi seu sorriso sumir, a feição se contorcendo em um choque misturado com desdém, como se eu o tivesse esbofeteado no rosto. — Sugiro que pense melhor, ...
Alguma coisa grotesca surgiu em seu rosto e seus olhos se arregalaram como nunca antes vi. O pavor do nome tomou seu semblante e ele tentou imediatamente se soltar de meu aperto, mas, por incrível que pareça, eu o havia prendido. Em um momento de desespero, sua outra mão foi parar em meu pescoço, em um movimento desordenado, muito diferente dos passos previamente calculados que demonstrava, pressionando-o até que o ar fosse completamente vetado de meus pulmões e minha mente começasse a embaralhar, levando-me para bem longe dali.
Não vi que horas eu havia soltado seu pulso. Não lembro qual o momento exato que eu apaguei. Sei que tudo à minha frente se transformou em um imenso borrão escuro e convidativo, pois nele eu poderia finalmente me livrar de todo aquele caos. Os olhos negros me encaravam do fundo da névoa, mas uma voz, uma outra voz distante, muito distante, gritou de algum lugar, de alguma parte do vazio, e os olhos negros olharam na direção da voz. Ela vinha por detrás de mim e parecia raivosa, ao menos pareceu deixar ainda mais afetado. Ele abriu a boca e parecia trocar palavras com quem quer que fosse, mas a dor era tanta, Deus, estava doendo tanto! Eu não conseguia focar em mais nada, só em estender minhas mãos para a escuridão, que me levaria para longe de toda aquela angústia…
Um barulho repetitivo no ar. Tic-tac, tic-tac, tic-tac.
A escuridão tomava nova forma.
E então fui puxado de volta para a realidade.


***


A sra. Vanderbilt levantou os olhos novamente por cima da prancheta, escorregando a caneta em mais uma linha no papel. Ela traçava a reta de uma extremidade a outra, cerrava os pequenos olhos detrás dos óculos meia luz e então repetia todo o processo. Algumas vezes, murmurava alguma coisa aqui e ali. O tique-taque do relógio redondo na parede acima parecia tão forte quanto um soco em meus ouvidos, apertando meu peito de ansiedade em sua inspeção arrastada, tentando não gritar para que ela acabasse logo com aquilo, com tudo aquilo, para que eu finalmente fizesse o que precisava fazer.
Ela se voltou para o estrado da cama, recolocando as informações detalhadas até demais de meu estado em seu espaço retangular de origem e puxou as cortinas do leito.
— Sra. Vander…
— Mais uma hora, senhor , estou pedindo muito? — Ela disse em um tom ríspido nada característico. — Se pensa que é no mínimo possível eu liberá-lo antes disso, esqueça essa ilusão.
— Mas eu estou bem! A senhora não vê? — Levantei as sobrancelhas, tentando apontar para mim mesmo com o dedo que escapava do gesso da mão direita.
Ela cerrou os olhos enquanto se aproximava novamente da maca, cruzando os braços para apertar os dedos longos vestidos de luvas descartáveis em suas mãos.
— Somente um garoto como você, que já esteve aqui mais vezes nos últimos dois anos do que qualquer outro aluno, pode achar que ferimentos como esses não são nada! — Ela grunhiu, as bochechas ficando levemente vermelhas. — Vamos lá, me diga, o que você usou?
— O que…
— Prefere que eu descubra por um exame toxicológico aprovado e assinado pelo próprio reitor? Achei que você só curtisse cigarros, garoto, mas eles não fazem alguém ter espasmos ao volante e quase causar um acidente em massa numa encruzilhada às vésperas do Natal!
— Sra. Vanderbilt, não é isso…
— Descartei os problemas neurológicos porque sei que fez todos os exames quando ficou internado da última vez, adivinhe só, em coma! E seu exame de sangue não mostrou uma gota sequer de álcool, apesar disso ser um tanto questionável. Só sobrou essa possibilidade, que espero sinceramente ser um equívoco da minha imaginação… — O ponteiro do relógio se inclinou novamente para o sentido horário, me fazendo prender a respiração novamente. — … Aulas de boxe, um absurdo! Aquele hematoma em suas costas não poderia ser causado por isso…
Trinquei os dentes, eliminando todas as consequências que poderiam advir de uma atuação bem feita de um colapso nervoso que faria com que a senhora de meia idade à minha frente se afastasse o bastante para que eu saísse o mais rápido que pudesse, para qualquer lugar onde eu pudesse pegar um telefone, qualquer telefone, visto que o meu devia estar empacotado em qualquer plástico hospitalar ou até mesmo perdido dentro do carro graças à colisão imaginária de mais cedo, não importava, eu precisava conseguir fazer uma ligação urgentemente…
O barulho do trilho da cortina interrompeu o monólogo da sra. Vanderbilt ao notar que uma terceira pessoa havia se juntado a nós. Alguém que, por pouco — estremeci bruscamente com a ideia —, não estaria dividindo a enfermaria comigo naquele momento.
— Puta que pariu, ! — disse em voz alta, rolando os olhos pelo meu rosto. — Finalmente te achei! Já estava quase no Presbyterian por causa de uma instrução da mais incompetente dos espectadores da confu… — Ele notou os olhos pequenos e raivosos da sra. Vanderbilt o encararem, a pele se repuxando em seu maxilar, contendo uma irritação quase palpável por ser interrompida daquela maneira. — Ah… E aí. — Ele coçou atrás da cabeça, constrangido.
— Acha prudente receber visitas agora, ? — Ela rosnou, sem desviar os olhos de . — Devo me preparar para afugentar mais dez pessoas, sem contar aquele pessoal intrometido do jornal?
— Não! Isso é um exagero, sra. Vanderbilt. Garanto que ninguém mais virá aqui — falei antes que ganhasse fôlego o suficiente para soltar qualquer frase. — Vou cumprir sua hora, prometo. Agora, a senhora não tinha que preparar minha receita de remédios?
Ela olhou de esguelha para mim e , que levantou as sobrancelhas em uma provocação nítida à mulher, como se a desafiasse a expulsá-lo.
— Deveria descansar mais um pouco antes de sair. Sem perturbações — ela murmurou, ajeitou os óculos para cima do nariz e virou-se para sair do entorno do leito, sumindo por algum ponto da sala que não pude ver, pois a visão do couro azul da cortina surgiu em minha frente quando nos separou — apenas visualmente — do restante do cômodo.
— Tá legal, que porra foi essa? — Ele falou rápido, como se tudo fosse uma palavra só, e cruzou os braços enquanto se colocava à minha frente. — Ultimamente eu não posso sair um minuto sequer do seu lado que você decide viver perigosamente e se foder inteiro até bater ponto no hospital. Olha isso, até decidiu quebrar alguns ossos desta vez! Francamente, ...
— Não temos tempo pra isso agora! Preciso que você ligue pra Jane imediatamente! — Falei, me levantando rápido da maca, o que causou uma dor incômoda no meu braço.
— Pra Jane? Por quê?
— Não posso explicar agora, mas sério, preciso que você ligue pra ela e pergunte se ela está bem, onde ela está e quando vai estar aqui porque, sim, estou te dando a permissão de me carregar para fazermos qualquer merda que queira antes do Natal! Pode até lotar a porra do meu apartamento com gente desconhecida e cerveja vagabunda, mas agora ligue pra Jane!
As sobrancelhas dele se curvaram e seu rosto ficou imóvel, sem reação. Ele devia estar se perguntando se eu não estava maluco nem nada do tipo, mesmo que a lista de evidências que levavam à essa conclusão fosse extensa e ele tivesse conhecimento de todos os tópicos. Mas, pelo olhar que me lançou desta vez, havia algo diferente. Havia algo diferente em mim. Uma urgência nova e desesperada.
Porque cada pelo do meu corpo se eriçava e meus sentidos eram pegos em total estado de alerta quando pensava na cena anterior a todo o caos silencioso que havia acabado de passar. A imagem de Jane no frio, com aqueles olhos e sorriso idênticos, assim como o movimento de seu corpo, todos muito bem forjados e copiados por ele, como se a tivesse como objeto de estudo por anos. Mais um aviso, uma ameaça concreta e direta, mostrando-me o quão fundo havia chegado à situação, dadas todas as teimosias e meu impulso insistente em salvar a vida de . Agora ele iria ampliar o cerco, focar nos meus amigos, na minha família, e não podia controlar o aperto em meu peito a cada vez que pensei nisso.
Percebi que eu o havia subestimado. Por incrível que pareça, mesmo com seu aviso velado e tão sólido como uma pedra de gelo, eu havia cometido o pior erro de todos: duvidar.
não se mexeu. Em vez disso, ele se aproximou de mim, estudando-me por alguns segundos, olhando o curativo da testa, o corte na bochecha e então o braço apoiado na tipoia. Foi incômodo, irritante até. Por que ele não fazia logo o que eu pedi?
— Cara, o que está acontecendo? — Ele perguntou, em voz baixa, e seu rosto ficou tão sério por um instante que não parecia ser ele. — De verdade. O que é toda essa urgência para falar com a Jane?
Bufei, revirando os olhos. Nada de novo e convincente se passava em minha cabeça para desviá-lo do assunto.
— Olha só, eu mesmo ligaria para Jane, mas o Calvin Candie ali deve ter feito o possível para vetar qualquer chance que me livre de apodrecer nesse lugar até que ela decida, então será que você pode me fazer esse favor sem perguntas, que tal? E eu digo agora, !
Seus olhos me encararam imóveis, como se ainda absorvessem não apenas minhas palavras, mas o tom que as acompanhava. Um tom que eu raramente usava, mas que carregava uma mensagem forte o suficiente para se fazer entender e não ter de ser repetida.
Ele engoliu em seco, voltando à realidade, pegando o telefone do bolso de trás.
O tic-tac do relógio ficou mais alto. O ponteiro andou mais um pouco e já eram onze da manhã. Tinha de estar bem longe daqui ao meio-dia, mais especificamente me encontrando com um cara que eu não fazia a mínima ideia de quem ou como era — não que fosse minha primeira vez. O barulho de repente ficou mais alto, misturando-se com impactos constantes no piso liso e cinza da enfermaria. Olhei com urgência para , que digitava os números bem na minha frente.
— Vai agora. Faz isso lá fora.
— Mas o que…
— Preciso realmente sair daqui em uma hora, e não quero dar motivos para que ela estenda esse tempo. — Tentei adicionar o máximo de impaciência e cinética à minha voz, à medida que os passos iam ficando mais perto. — Ela está voltando, vá agora! Mais tarde eu te encontro.
Ele estreitou os olhos mais uma vez, me encarando em total desconfiança. Trinquei o maxilar, com uma ansiedade repentina, torcendo para não ser capaz de chutá-lo daqui se não fosse embora mais rápido. Não queria, não deveria envolvê-lo em absolutamente nada do que tinha acontecido e do que eu pensava que fosse acontecer, mas eu não tinha outra escolha. Jane, eu precisava saber de Jane…
Os passos finalmente chegaram no momento exato em que abriria a cortina. Por um momento, parei de respirar. Mais do que tudo, desejei que fosse a sra. Vanderbilt inclinando a cabeça para ralhar comigo por estar de pé e finalmente expulsando da ala, tudo isso seria melhor…
Seria melhor do que ter de encarar .
! Você está…
Ela travou ao abrir a cortina e se deparar com meu estado. Eu sabia que estava melhor, mil vezes melhor, do que quando saí arrastado por seus braços para esse mesmo lugar depois daquela fatídica noite na Gibbons, pelo menos o meu nariz não parecia mais uma maçã podre nem nada do tipo. Mas o jeito que ela me olhou, que encarou cada ferimento, foi como se meu carro tivesse sido cercado e esmagado por dois caminhões de mudança.
— Meu deus…
— O que está fazendo aqui? — Consegui perguntar quando achei minha voz e ela saiu baixa, quase como um sussurro. De repente comecei a me preocupar em como havia ficado sabendo de tudo e como eu a contaria o que tinha acontecido, se é que contaria, eu não podia contar, nem ao menos havia pensado em alguma coisa, ouso dizer que mal sabia o que tinha acontecido, caramba!
Por que ela estava aqui?! Será que ela não sabia que minhas habilidades de mentir pioravam drasticamente quando ela estava por perto?
— É… Acho que vou nessa… — Olhei em súbito para o lado, descrente por um momento que havia esquecido de novo da presença de por alguns instantes. Ele olhava de mim para e percebi que o transe estranho estava acontecendo de novo, instalando a tensão esquisita no ar que eu soube existir pela expressão de .
Consegui acenar levemente para ele enquanto fazia o mesmo, parecendo ter a mesma constatação tardia que eu. a encarou por um instante mais longo e então se retirou, dando uma última olhada para trás enquanto colocava o celular na orelha. Acompanhei suas costas até dobrarem porta afora, ignorando a queimação no meu peito, ganhando tempo até ter de me virar e encarar a garota ao meu lado.
— Mas o que foi que aconteceu com você… — ela começou, com a voz carregada de nítida preocupação.
— Como soube que eu estava aqui? — Virei para ela, assumindo a expressão confusa, porém firme. — Se bem que não importa. Você precisa ir, se a sra. Vanderbilt pegar mais uma visita por aqui, ela não…
(Coloque para tocar “Not Your Fault” de Brian Tyler, Breton Vivian).
As mãos dela voaram para o meu rosto, a ponta dos dedos frias como gelo. Paralisei no mesmo lugar, sentindo o sangue pulsando com força no meu peito, fazendo meu coração dar pancadas tão fortes na parede do tórax que por um segundo me preocupei se ela fosse ouvir. E àquela altura, esse devaneio não pareceu tão impossível, ela estava perto demais, tão perto que eu sentia sua respiração pesada.
Ela olhou para o curativo na testa por um instante e contornou a ferida na bochecha com os dedos flutuantes pela linha deformada, que antes jorrava sangue pelo meu rosto. Ela juntava as sobrancelhas, depois desfazia o vinco ao notar a gravidade — ou seu conceito de gravidade — do machucado e estudava meu rosto como se estivesse procurando por mais lesões que não estivessem tão expostas.
Eu não conseguia dizer nada. Sabia perfeitamente que tinha de mandá-la embora, que tinha de seguir as malditas regras para conseguir sair dali sem grandes conflitos e com a garantia de que Vanderbilt não fizesse uma ligação para a Califórnia, e sabia — ah, como sabia — que a visita de era mil vezes mais prejudicial do que a de , porque, oras, a sra. Vanderbilt não fazia ideia de que nos conhecíamos, nem de que tínhamos uma coisa… seja lá o que fosse. Não importava, ela só sabia de um fato: era uma notável funcionária do Citizen. E isso a faria criar hipóteses sobre matérias precoces e entrevistas com o garoto maluco acidentado antes mesmo que qualquer um de nós dois desse alguma explicação.
Ainda assim, eu continuava ali, observando enquanto ela me acariciava com o olhar preocupado e os lábios tremendo levemente, absorto demais para me lembrar de mandá-la embora. Era uma visão nova, contagiante, até mesmo confusa, mas me fazia querer — por um momento maluco — fingir uma pontada de dor em algum outro lugar só para que ela continuasse com o que estava fazendo.
— Tá doendo? — Perguntou ela, me fazendo acordar no momento perfeito, pois as fagulhas de lembranças do muro e aquele maldito beijo começavam a retornar à minha cabeça.
— Sim… Digo, não. — Balancei a cabeça, automaticamente dando um passo para trás. — Está tudo bem, não foi nada, vai passar...
— Como assim nada? Disseram que você quase capotou com o carro, e só não aconteceu porque não nevou durante à noite e a pista estava quase normal. E também… — Ela parou, repuxando os lábios, pensando em suas próximas palavras. Suas bochechas tomaram um leve tom de vermelho e ri da ironia da situação.
— Também disseram que eu saí desgovernado do carro achando que matei alguém, não é? — Ri mais uma vez e ela continuou imóvel, mesmo que não parecesse surpresa. — Se você veio aqui tirar essa história a limpo, ou perguntar qual droga andei usando, creio que…
— Não quero saber de nada disso — ela me interrompeu, revirando os olhos por um momento. — Eu só… Cheguei no Citizen essa manhã e estava uma balbúrdia sobre o quase acidente da 120th St. Não disseram seu nome, mas havia vídeos, muitos deles, e primeiro eu vi seu carro e depois soube que era você e daí… — ela bufou, mordendo o lábio inferior em uma estranha agitação atípica. — Por que continua fazendo isso? Será que você pode parar de quase morrer depois de… Depois de…
Ela bufou, virando para o lado enquanto escondia o rosto de mim. Pisquei os olhos, confuso com aquele comportamento, tentando filtrar as palavras que saíam de sua boca, mas as duas coisas pareciam intensas demais.
… Foi só um acidente…
— Tem certeza de que foi só isso? — Ela voltou-se para mim de novo, agora com o olhar mais firme. — Não vou cair nesse papo de opióides, bebedeira ou qualquer distúrbio mental que com certeza devem estar teorizando por aí. O que realmente aconteceu, ? — Ela deu um passo à frente, erguendo os olhos em minha direção, já totalmente recuperada e sua reação anterior. — Teve algo a ver com nossa conversa de ontem?
Abri a boca, pronto para negar não apenas isso, mas todas as perguntas que ela certamente faria, mas me peguei chocado comigo mesmo ao ver que não consegui. Eu deveria dizer não, não importava o cunho da pergunta que ela lançaria, mas de repente senti que não iria adiantar. Não enquanto eu olhasse para ela, não enquanto ela me encarasse daquela forma que com certeza sugaria todas as mentiras que minha boca dissesse, mas a verdade não escaparia dos meus olhos. Assim como senti ao olhá-la até poucos minutos atrás, assim como — não, não quero pensar nisso — vinha sentindo há um tempo.
— Não. — Desviei os olhos ao mesmo tempo em que respondi. A resposta saiu firme, clara e regrada. Não importava se ela acreditaria ou não. A compreensão do que estava acontecendo aqui, do que eu achava que estava acontecendo, me pegou como um soco no estômago.
A maldita compreensão de que essa garota estava causando coisas em mim, coisas que eu não entendia, que eu não conseguia controlar. E isso não podia acontecer.
— Olha, você realmente não precisa se preocupar tanto, essa não é a primeira vez que você me vê desse jeito. — Tentei sorrir e os ombros dela pareceram relaxar um pouco. — Então, em primeira mão para o Citizen, eu garanto que o acidente aconteceu por acaso. Devo estar sob algum tipo de estresse, praguejado demais a neve, sabe como é, chamam de karma?
Ela deixou escapar uma risada curta, balançando a cabeça em desistência.
— Você é um idiota — disse enquanto colocava uma mecha atrás da orelha. — Mas vou acreditar que está bem. Eu estava… Acho...
— Você o quê? — As palavras saíram atropeladas, apressadas. O relógio corria. Vanderbilt voltaria a qualquer momento. No entanto…
— Eu fiquei preocupada. — Sua voz saiu quase em um sussurro e ela baixou os olhos imediatamente. Alguma coisa queimou em meu rosto, ardendo o corte. — Quer dizer, ontem você saiu da minha casa daquele jeito estranho e não falou mais nada e daí hoje você quase morre por uma distração ou seja lá o que for, me faz pensar se eu disse alguma coisa ontem, ou agi, como daquela vez…
— Pelo amor de Deus, … — Suspirei, a voz abafada pela mão que atravessou meu rosto. — Você… Está falando sério? — Ela não respondeu. Seus olhos fixaram-se nos meus, tremendo, inseguros. A vermelhidão em sua bochecha continuava ali. — Ah, você está falando sério. — Ri com todo o sarcasmo. — É engraçado, tenho que admitir.
— O que é engraçado? — Sua voz falhou, como se estivesse se preparando para uma resposta ruim.
— É engraçado você pensar que me incomoda de alguma forma.
Eu ainda sorria pela constatação do fato irônico que era a maneira como ela se sentia diante de tudo que havia acontecido comigo há algumas horas atrás, mas se antes eu achava que suas bochechas vermelhas eram pela temperatura negativa do lado de fora, agora a cor havia se espalhado por todo seu rosto e seus olhos fugiram do alcance dos meus, indo parar na parede, no chão ou para suas mãos.
E, assim como naquela madrugada chuvosa sob as luzes fluorescentes do Brooklyn, me praguejei e questionei por que meu filtro de palavras sempre entrava em total desordem quando estava por perto. A ambiguidade, maldita ambiguidade…
— Ah…
— Eu…
Os dois falaram ao mesmo tempo. Senti a queimação no meu rosto mais uma vez. Isso estava passando dos limites.
— É bom saber disso — ela continuou, limpando a garganta e ajeitando a postura. — E você volta para casa ainda hoje?
— Se Vanderbilt não inventar uma concussão para mim, com certeza. — Dei de ombros e ela voltou a sorrir, mais abertamente dessa vez.
— E você… Não sei… Gostaria de conversar? — Os ombros dela se levantaram com a pergunta, encarando-me de forma insegura, porém tomando aqueles antigos vinte segundos de coragem que tomou na porta do meu apartamento. — Quer dizer, sobre o que aconteceu, o que te deixou desse jeito ou simplesmente continuar nossa conversa de ontem. Tem um café legal perto de Long Island sem jogatina e hambúrguer duvidosos, talvez nós…
Ela travou, desviando os olhos mais uma vez, com certeza se dando conta do rumo da conversa. Mas não pareceu querer voltar atrás no convite.
A resposta óbvia estava na ponta da língua, assim como da última vez, e ela quase havia conseguido abertura para sair, quase. Porque fui invadido, novamente, por aqueles pensamentos, desta vez acompanhados dos novos acontecimentos, que gritavam na minha cabeça segurando placas de “PARE” em cada canto dela.
Deus do céu, por que era tão difícil? Por que precisava daquilo tudo? Ela só havia me chamado para tomar um café, então por que parecia que eu caminharia direto para uma rota perigosa e sem volta caso dissesse sim?
E eu queria dizer sim. Xinguei a mim mesmo por constatar que, na verdade, queria falar não apenas sobre ontem, mas sobre hoje, e toda essa loucura que havia acabado de passar que estava atormentando minha mente a cada minuto que se arrastava e eu sentia que poderia enlouquecer se não colocasse para fora. E eram tantas coisas, tantas perguntas, tantos sentimentos desordenados que dançavam rebeldes dentro de mim que eu só queria falar. De repente me preocupei se havia esquecido de disfarçar, de esconder esse sentimento em algum momento para que ela sugerisse isso, mas eu sabia que não. Não importava o quanto eu estivesse assustado com a situação, tinha plena certeza de que ninguém perceberia, ninguém podia perceber…
Ela, acima de todas as outras, não deveria.
Era a coisa estranha de novo. Essa maluquice de conseguir me ler, de não conseguir mentir na frente dela, da minha língua perder o controle e falar mais do que devia ou minhas expressões ganharem vida própria, era toda essa insanidade, essa garota…
Céus, o que raios estava acontecendo?
Era óbvio que eu não podia dizer sim!
Limpei a garganta antes de responder:
— Seria legal investir em um x-burguer com selo da vigilância sanitária, mas tenho um compromisso importante mais tarde — respondi, aliviado por encontrar uma resposta que, bem, não fosse uma mentira descabida como eu normalmente faria.
— Compromisso? Não me diga que…
! — A voz surgiu de lugar nenhum, acompanhada por passos rápidos fazendo um barulho de deslize irritante no piso, correndo em nossa direção. Ah, merda. — , você não vai acreditar… — abriu a cortina novamente, interrompendo sua frase. — Ah… Ainda está aqui?
— Oi — cumprimentou em tom gentil. continuou no mesmo lugar.
Bufei, de repente me livrando da bolha sinistra que me fazia perder a noção da realidade quando se aproximava e me toquei da urgência e correria de , começando a teorizar sobre o resultado do meu pedido.
, o que foi? — Perguntei ansioso, me levantando novamente da cama. — Você viu a Vander…
— Jane… Falei com sua namorada. Ela está bem — ele respondeu na frente, dando uma rápida olhada para . Juntei as sobrancelhas e olhei bem direto para seu rosto, que só agora percebi que estava sério demais. — Ela está num voo do Iowa e vai pousar em New Jersey, então faça as contas. Ela deve estar aqui à noite. Ah, ela disse que adorou a surpresa que mandou pra ela de Natal!
Não precisei olhar para saber como devia estar a cara de . Se ainda entendia minhas mensagens decodificadas pelo olhar, ele estava ignorando completamente todas as variações da frase “que porra você está fazendo?” que eu estava gritando.
Revirei os olhos. Não adiantaria.
, esse é o Newman, um amigo meu — murmurei, sem olhar pra ela, sabendo que me incomodaria terrivelmente com o que visse. — É aluno da computação e às vezes um porco sem educação, mas deve ser o excesso de jogos online. — Trinquei os dentes, olhando suas sobrancelhas se erguerem em defensiva. murmurou um “muito prazer” ainda com o sorriso simpático, não que isso tenha causado alguma coisa nele. — , essa é , trabalha no Citizen, deve saber.
— Ah, sei! A namorada do filho do reitor — ele me interrompeu, cruzando os braços. — Veio aqui buscar material pro seu próximo post no Fórum?
— Ah, não. — Ela balançou os braços, negando com a cabeça. — Eu soube do acidente e vim verificar como ele estava…
— Então são amigos? Que estranho, ele nunca me disse nada disso. — Ele riu, colocando as mãos no bolso, me encarando como se pedisse uma resposta. A única que ele teria seria um chute no traseiro até a Califórnia se não parasse com o que estava fazendo.
corou e baixou os olhos, constrangida. Suspirei, esperando que eu não tivesse ficado do mesmo jeito. Amigos, que adjetivo mais inesperado e estranho…
— Jane não deve demorar a chegar. Vai encontrá-la depois daqui, não é? — Ele continuou e pareceu prestar mais atenção à conversa.
Ah, droga. Isso não estava acontecendo.
Olhei pra ela, mesmo sabendo que não ia adiantar. Não era nada daquilo! Não era por isso que eu não tinha aceitado seu convite, será que dava pra ela ler meus olhos nesse momento? Que eu realmente tinha um compromisso dali a pouco, mas não tinha a ver com Jane, que estava sendo um completo idiota de propósito, mas se dissesse isso teria de dizer o motivo verdadeiro do compromisso e como eu diria a ela que, na verdade, estava indo encontrar um cara que me ajudaria a invadir a privacidade dela? Era loucura, eu não podia.
Quando me era necessário que ela se aprofundasse nessa interpretação sobre mim, seu rosto dizia outra coisa. Dizia que ela havia entendido tudo errado e agora parecia… triste? Decepcionada?
— Eu… Acho que já vou — ela murmurou, virando-se pra mim em seguida.

— É muito bom que você esteja bem. Se precisar de alguma coisa… — Ela parou, engolindo em seco e retomando a frase. — Bom, espero que você se recupere logo. Eu vou indo. Foi um prazer te conhecer, .
— Igualmente, senhorita. — Ele deu um sorriso forçado e quase teatral. Um pico de raiva me tomou, mas não pareceu ter notado. Sorriu da mesma forma gentil do começo e se retirou, me deixando pra trás com um nó na garganta.
O corpo de sacudiu com o meu aperto em sua gola com a mão boa, pegando-o de surpresa pela força exercida.
— Mas que porra você pensa que está fazendo? — Trinquei os dentes mais uma vez, porque sentia que se abrisse mais a boca iria gritar desnecessariamente.
— Ei, calma aí,
— Qual é o seu problema? Por que agiu feito um filho da puta sem mais nem menos?
— Tá maluco? Eu não falei nada além da verdade, você que está agindo feito um imbecil permitindo que sua cabeça fique confusa por causa de...
— Se não parar de dizer coisas que não sabe, vou ficar irritado com você, irritado de verdade!
— Por que será que não sei, ? Talvez seja porque desde que conheceu ela, você não me conta mais absolutamente nada? — Ele arfou, me dando um leve empurrão para se livrar de minhas mãos. — E daí você se quebra inteiro várias vezes, se coloca na mira do e sei lá de mais quem, a troco de quê? O que é isso, tá tão apaixonado por ela assim?
— Para de falar besteira…
— Tem certeza de que é besteira? — Ele cerrou os dentes, me encarando de forma dura e firme. Ele já havia olhado assim pra mim alguma vez na vida? — É besteira o jeito como você ficou no Ferris naquele dia quando ela apareceu com o ? Fora sua mais nova mania de ficar distraído enquanto vasculha o campus inteiro em busca dela. Acha que eu sou tão idiota assim? — Levantei as sobrancelhas e ele riu de nervosismo. — Talvez eu seja, mas se não quer reconhecer isso, talvez esse posto passe pra você, não acha?
, você não entende. — Revirei os olhos, pensando rápido em alguma forma para encerrar aquele assunto. — O que tem entre mim e , é… Não é nada disso que você está pensando, posso garantir. Não temos um relacionamento.
— Óbvio que não, ela deixa isso bem claro ainda namorando aquele clichê de valentão do ensino médio. E, sinceramente, vocês se beijarem ou darem uns amassos ao som de 34+35 é o de menos, não importa, mas será que dá pra me atualizar sobre o que você está pretendendo com isso tudo? Eu sei que você pode se cuidar sozinho, sei mais do que ninguém, mas também sei que desta vez você tá me escondendo alguma coisa… Algo mais sério. — Ele engoliu em seco, passando uma mão pelo cabelo. — E sei que tem alguma coisa a ver com a e sinto que essa sua aproximação com ela não é uma coisa boa, será que dá pra me entender? Tudo bem que nem eu estou me entendendo e não acredito nessas besteiras de superstições e pressentimentos ruins, mas não consigo evitar de sentir, tá legal?
Ele bufou e olhou para o lado, como se não acreditasse que acabara de dizer a palavra “pressentimento”.
Encarar aquele estado perturbado dele não fez eu me sentir melhor. Um giro na minha cabeça me fez perceber que não dava mais para fugir, que eu não estava mais conseguindo disfarçar todo o caos que eu vinha enfrentando calado. Calado, porque julguei ser certo esconder toda a situação de minha vó e Jane, principalmente de Jane, e percebo agora como isso foi loucura. Eu não era tão de ferro como pensava, eu não estava sabendo onde guardar tantas coisas e isso me assustava mais do que , mais do que todas as revelações que havia me dito.
Me senti aliviado porque iria vê-la. Eu iria contar tudo, tinha que contar, mesmo que ela com certeza fosse tentar me impedir.
Sabendo disso, me recompus, tentando salvar o que dava de todo meu comportamento atípico para . Ele era despreocupado e iria esquecer, seja lá o que estivesse teorizando, eu só precisava voltar ao normal.
Mas antes disso...
— Precisava dizer que Jane é minha namorada? Você mais do que ninguém sabe que isso não é verdade.
Ele voltou a me olhar como se estivesse encarando um cara maluco qualquer. Não julguei, no momento eu me sentia realmente daquele jeito.
Tudo entre você e a Jane é de verdade, . Não precisa de um rótulo pra isso, é exatamente por esse motivo que você nunca se importou se alguém usasse qualquer um deles pra descrever o que vocês têm. Por que está se importando com isso agora? Você nunca deu a mínima pra isso!
Grunhi, sem conseguir responder. Minha língua esperneou dentro de minha boca, exasperada para responder alguma coisa, qualquer coisa, gritar que ele era um completo idiota e que não importava se eu não dava mínima, ainda assim ele não podia ter falado aquilo na frente dela, ele não entendia isso? Aquele era o problema!
Ele entendia, eu sabia. E por entender, exatamente por entender, ele tinha feito isso.
— Tá legal, já chega. — Suspirei, voltando a me sentar. — Era verdade? Jane está realmente vindo?
— Talvez eu tenha exagerado um pouco no dia. — Ele deu um sorriso amarelo, dando um passo pra trás ao meu olhar de nervoso. — Calma, ela realmente estava no voo, mas não vai pousar em New Jersey ainda. Disse que tem negócios em Ohio, mas vai tentar chegar antes do Natal.
— Você… — bufei, sentindo a raiva querer voltar a aparecer, mas detive-a onde estava. — Ótimo, vemos como é confiável seu serviço de mensageiro. Não precisava ter inventado o lance do presente surpresa também, foi desnecessário.
— O quê? Eu não inventei isso, .
Olhei pra ele imediatamente, confuso. De repente, a mesma sensação, o mesmo aperto da lembrança voltou como um peso gelado em meu peito.
— Do que tá falando?
— Jane até disse que já ia te ligar assim que pousasse. Ela gostou das flores que mandou pra ela, tinha até cartão e tudo, o auge da breguice.
— O que… o que disse? — Levantei novamente, me aproximando dele. — Que flores? Que cartão?
— Ei, não sei, ela disse que tinha um ramo daquelas flores esquisitas, como é o nome delas… Juro que já as vi em algum lugar, são brancas e compridas, Jane disse que nunca as viu… Espera um pouco. — Ele pegou o celular, abrindo qualquer aba aleatória até achar o que procurava. — Ah! Planta-cadáver (Monotropa uniflora), esse é o nome delas! Que presente mais estranho vindo de você, tenho que pontuar. Diz que elas florescem por uma semana e depois morrem e ficam pretas, o que você tinha na cabeça? Eu não...
Senti minha boca ficando seca novamente. Ele falava, mas eu também não estava mais escutando. A constatação do que estava acontecendo me atingiu como uma onda.
Aquelas flores não haviam vindo de mim.


Capítulo 17 — Concepção de Setembro

— Pela última vez, — Jane bufou pela terceira vez do outro lado da linha, e tenho certeza de que eu já teria levado um belo empurrão se estivesse do seu lado — Eu ‘tô bem! Muito bem, aliás, principalmente depois de receber o seu presente, que por sinal me deixou muito curiosa. Desde quando começamos a trocar lembrancinhas de casais comuns? Devo te comprar um relógio caro ou algo assim?
Ignorei o embrulhar do meu estômago ao pensar nas flores brancas paradas em algum canto do seu quarto de hotel e me contentei em apenas limpar a garganta.
— Quando você chega? — Eu sabia que estava estranho, e que ela deveria estar juntando as sobrancelhas nesse exato momento, se perguntando por que meu tom de voz estava tão… Como posso dizer, tenso? Como se eu tivesse uma faca no pescoço ou qualquer coisa parecida.
Ela sabia onde eu estava, com quem eu estava, e por isso não me faria perguntas difíceis demais.
Sua resposta demorou a vir, chegando em um tom mais baixo:
— Vou direto pra sua casa em dois dias. Devo me preocupar com o conteúdo da conversa?
Olhei rapidamente para do meu lado, que dirigia a menos de 50km/h em uma pista lisa e sem interferência nenhuma, como se estivesse transportando alguém que quebrou todos os ossos do corpo e não apenas a mão direita.
— Prefiro não adiantar nada — Respondi, olhando para fora da janela de novo — Conseguiu manter a nova chave extra que eu te dei ou vou ter que te encontrar batendo papo com o porteiro de novo?
— Ei, a filha dele não o deixa ver o neto, tá bom? Isso pode ser muito doloroso para alguém que frequenta o AA — Senti os olhos dela se revirando enquanto segurava uma risada. Típico — Fiz mais três cópias extras, senhor semi-organizado. O café da manhã vai estar na mesa assim que você acordar.
— Tudo bem — Suspirei, apoiando o cotovelo do braço bom na janela — Vou te esperar em dois dias. Agora preciso desligar.
— Ouvi o eco de sua voz quando afastei um pouco o celular. Apenas murmurei em resposta e ela ficou em silêncio por um minuto inteiro — É muito grave?
Encostei a cabeça no banco. A música eletrônica de , embora baixa, não ajudava que eu me concentrasse nas próximas palavras, mesmo que eu não fosse e nem quisesse exatamente mentir. Eu realmente tinha algo sério a tratar com Jane, e ela estava ciente disso a partir do momento em que disquei seu número, mas não adiantaria muito deixá-la preocupada e ansiosa tão antes da hora.
— Vamos usar o termo hermético, por enquanto. Com você aqui, essa palavra não existe, lembra?
Ouvi sua risadinha do outro lado. Ela tinha aceitado a resposta.
— Nem essa e nem qualquer outro termo formal que te deixe ainda mais sexy, babe. — Suspirou — Fica tranquilo. Vamos resolver, não importa o que seja.
Murmurei uma despedida breve e desliguei novamente o celular. terminava de curvar na esquina do prédio na West End Avenue, cantarolando seja lá o que fosse, acompanhando as batidas frenéticas do aparelho de som. Eu conseguia pensar apenas na única ligação perdida de que eu teria de retornar, de preferência depois de despachar o mais rápido que eu conseguisse.

Infelizmente, não consegui me livrar do seu serviço de babá.
Para todos os efeitos, eu parecia ter sofrido um grave acidente que me deixaria sequelas por um breve período de tempo. Pelo menos era essa a fábula que Vanderbilt parece ter saído contando por aí. Pra não dizer que esse tinha sido o grande motivo pra me manter preso naquela enfermaria até o final da tarde.
havia se ocupado durante todo o dia em resolver burocracias referentes ao meu carro, que devia estar parado em qualquer guincho da cidade, trazê-lo de volta e me levar pra casa.
Juro que tentei mandá-lo embora de todas as formas que conhecia, mas ele parecia decidido a cuidar de mim como se eu fosse um inválido.
— E você precisa tomar esse remédio a cada 3 horas, esse outro a cada 6, e esse um por dia... ou será esse? Por dia que eles dizem é a qualquer hora? E se for na hora do outro remédio? Essa Vanderbilt não facilita mesmo as coisas...
E era nessa situação que eu me encontrava.
Não me atrevi a ligar meu celular em nenhum momento desde que cheguei em casa. Eu não poderia retornar nenhuma das ligações enquanto estivesse por perto. Alguma hora ele se cansaria e se jogaria no sofá, e pegaria no sono depois de alguns minutos. Eu só não sabia especificar quando seria isso.
Às nove, isso ainda parecia um pouco longe de acontecer. Tomei um banho, sentindo o cheiro da pizza na cozinha logo quando saí do box. As caixas espalhadas pela ilha foram a confirmação de que ele não pretendia ir embora tão cedo.
— Ah, você ‘tá aí — Disse ele quando entrei no cômodo — Infelizmente, a tradição da pizza com cerveja vai ser quebrada pelo famoso desentupidor de pia que é a coca cola. Pode colocar a culpa nos seus duzentos antibióticos.
Revirei os olhos, caminhando para o sofá enquanto sentia de novo aquela dor incômoda no braço.
— Você perdeu a consciência por alguns momentos no banho? Levou quase 1 hora — Ele resmungou enquanto vinha atrás de mim, trazendo duas caixas de pizza com ele.
— Claro que não — Respondi, com uma risada um tanto engasgada e nervosa — Acho que só perdi a noção do tempo.
Ele concordou com a cabeça, se jogando no outro sofá enquanto abria o telefone em algum aplicativo que sugaria seus olhos e sua atenção em um espaço recorde de tempo. Olhei para a frente, para a TV desligada, o tapete, as paredes, cada canto visível que preencheria minha mente. Não sabia se ajudaria em alguma coisa. Eu só precisava me certificar de que o tempo continuava correndo.
Depois que me vi sozinho no leito mal iluminado, comecei a me sentir um pouco anestesiado. Mesmo com o desespero ainda pulsando na cabeça sobre Jane e a visita inesperada de — e todo o discurso que tive que submetê-la, todas as mentiras que contei à uma garota que só estava preocupada comigo —, eu me sentia estranho. Como se tudo tivesse acontecido há uma semana, e não há algumas horas.
Quero acreditar que meu cérebro tenha fritado depois de chacoalhar tanto com a sucessão de choques e decidido simplesmente entrar em colapso. O ontem e o hoje foram a própria definição de excesso de informação. Então, quando finalmente parei — como agora, ou como quando me vi livre das inspeções de Vanderbilt —, eu parecia estar assistindo as cenas novamente, como um filme. Voltando em algumas partes, pausando e acelerando outras. Uma onda de arrepios me tomava a cada recapitulação. Porque não parecia real, a situação toda parecia estar distante demais.
Ao forçar meu cérebro a se lembrar de tudo, novas cenas entravam na roda. Cenas finais, para ser mais exato. Eu sabia o que havia acontecido, o que tinha visto, mas estava tão apavorado com a ideia de Jane estar morta que não me atentei aos detalhes quando recobrei a consciência.
Uma segunda presença. Uma que não estava congelada no tempo, uma outra pessoa, eu tinha certeza disso. Mesmo que estivesse tão delirante pela dor. Ela conversou com e, mais do que isso, salvou a minha vida. Pela reação dele, não foi uma conversa muito amigável.
Quem diabos era tal pessoa?!
Olhei para , agora mordendo um grande pedaço de pizza, ainda sem desgrudar os olhos do celular. Tranquilo e despreocupado — como sempre —, totalmente alheio ao turbilhão de pensamentos que me perturbavam.
— Chamei. Ele murmurou em resposta — O que andam falando sobre mim? — Ele baixou o celular até a altura do queixo, franzindo a testa pela minha pergunta — Digo, sobre o acidente.
— Que tipo de pergunta é essa? — Respondeu, ainda mastigando — Por que quer saber disso?
— Ouvi dizer que tinham vídeos, fotos ou sei lá — Dei de ombros — Você tem aí? Posso ver?
Ele ajustou a postura contra o sofá, parecendo cauteloso na próxima resposta.
, eu acho melhor…
— Eu quero ver. Por favor.
Levou um tempo até que ele se levantasse do sofá e sentasse ao meu lado, ainda um tanto resignado. Me encarou mais uma vez enquanto buscava o que eu pedi na imensidão de material que guardava no celular, e continuei estático, demonstrando que não mudaria de opinião.
Finalmente, ele bufou em derrota e inclinou a tela na horizontal, entregando o telefone na minha mão enquanto as imagens começavam a acontecer na minha frente.
Elas me mostraram o que eu já sabia. O carro girando loucamente pela pista, o intervalo que passei perdido na inconsciência que duraram menos de cinco minutos e minha saída desesperada até a frente do para-choque. Toda a esquisitice que sabia que tinha feito, nenhuma novidade. Apesar de que eu tinha que concordar com o telefone sem fio, eu realmente parecia um lunático. Do tipo bem Norman Bates, doido de pedra.
Mas não era isso que eu esperava confirmar assistindo o filme sinistro que me tinha como personagem principal.
Eu esperava ver a segunda aparição.
Mas ao final do vídeo, especificamente na hora em que eu levantava e começava a voltar para o carro, a hora que eu me lembrava nitidamente ser a que os flocos de neve pararam de cair, a transmissão simplesmente parou em uma explosão de curto circuito. Como uma falha grave de sinal, acompanhado de um chiado irritante característico de televisores com defeito. Não havia mais nada.
Olhei pra de novo.
— Todos os vídeos estão assim — Respondeu ele, pegando o celular de volta — Eles filmaram de vários ângulos, mas o conteúdo para ao mesmo tempo. Acho que o frio danificou alguma torre de telefone, vai saber. — Ele deu de ombros, mas desviou os olhos na hora. Como se duvidasse de suas próprias palavras.
Franzi o rosto, frustrado. Não que esperasse sucesso na tentativa de enxergar um ser sobrenatural através de uma gravação, mas tinha que descartar a possibilidade. Sabia perfeitamente que outro mistério na minha cola não me faria nada bem. Todo esse lance de perseguição e ameaças de morte iminente estava começando a me tirar a paciência e me fazer esquecer que tenho uma vida normal para lidar — para fingir —, e que para isso era necessário um mínimo de concentração da minha parte.
Era mais fácil falar.
Como eu poderia me concentrar em qualquer outra coisa sabendo que: a) estava sendo seguida e observada pelo seu irmão falecido que, por motivos nada claros, tinha se tornado um espírito do mais maligno com habilidades assustadoras das quais jamais previ; b) ainda estava disposta a ir atrás do culpado pela morte de Margot e, mesmo que isso soe como qualquer maravilha heróica, só eu sabia dos perigos que tinham nessa missão insana porque era exatamente o que ele queria; c) não se lembrava do conflito com Margot naquela noite em Woodlawn, que incluiu um beijo nada planejado que foi simplesmente apagado da sua mente por outro fantasma com habilidades incríveis que eu também não tinha conhecimento, vulgo minha avó — e talvez eu não tivesse que me concentrar mesmo nisso; d) O ex namorado traficante de Margot era a única pessoa na face da terra, além de Jane, que sabia sobre mim e meu serviço à comunidade de impedir que ela matasse pessoas — incluindo ele mesmo. Ah, e talvez ele tenha me oferecido uma mãozinha para acelerar o processo; e) Lembram que o irmão de é um fantasma maligno com sede de vingança? Pois bem, ele parece conhecer o meu pai. O biológico, no caso. E parece saber bem mais do que isso. Esse com certeza era o tipo de coisa que eu mais afogava nas profundezas do meu inconsciente; e f) .
Por fim, concluímos que a minha vida estava beirando ao caos nuclear.
— Esses foram os últimos que sobraram, dei um jeito de derrubar a maioria, sei que Meredith usa o YouTube às vezes… — Continuou , percebendo meu silêncio.
— Você não vai perguntar nada?
— Perguntar o que?
— Não quer saber o que foi isso? — Inclinei a cabeça para o celular — Ou que tipo de coisa muito errada está acontecendo comigo pra agir dessa forma?
— Não acho que você queira realmente me contar. — Deu de ombros, voltando para o outro sofá — E eu não dou bola pra todas as histórias mirabolantes que falam sobre você, achei que soubesse disso. Não lembra da escola? — ele levantou as sobrancelhas, como se as lembranças fossem auto explicativas — Acho que tô mais aliviado por te ver vivo e quase inteiro. Não vou ter que passar por uma conversa difícil com a sua mãe, ela me enterraria junto com você. Em compensação, nenhuma gata do lado leste sabe que eu sou seu amigo, então ainda tenho chance com elas.
Revirei os olhos.
— Idiota.
Idiota e ignorante. De propósito. Ele sabia que eu estava escondendo alguma coisa, tinha me dito isso com todas as letras há algumas horas atrás em alto e bom som, mas será que ele fingia tão bem assim? Eu não era o único a mentir bem nessa sala?
— Mas vai me contar alguma hora, não vai? — Perguntou ele depois de um tempo — Sobre o que aconteceu hoje. E sobre outras coisas também.
Levei quase um minuto para concordar com a cabeça, mesmo não sabendo se algum dia seria capaz de fazer tal coisa.


***


O silêncio era ensurdecedor às duas da manhã. O único barulho que atravessava o cômodo de forma violenta eram os roncos intercalados de .
Saí do quarto com o máximo de cautela. Terminei de colocar a jaqueta jeans escura por cima do suéter, e coloquei os tênis com cuidado enquanto seguia para a porta em total alerta. babava no travesseiro e tinha o corpo torto e largado no sofá. Se meus cálculos estavam certos — e eu esperava que estivessem, tinham de estar — eu teria umas boas quatro horas lá fora sem que ele começasse a ter os espasmos bizarros que o fariam levantar para ir ao banheiro. E, agindo irritantemente como uma perfeita enfermeira, ele entraria no meu quarto pra ver se eu não estava febril ou coisa parecida. E se não me visse na cama, acredito que nenhuma história que eu inventasse seria plausível o suficiente.
Abri a porta com cuidado, olhando para trás a todo momento, percebendo cada movimento ínfimo dos seus músculos. Além de um ronco pesado e uma movimentação rápida dos braços, ele parecia totalmente imerso em algum universo paralelo que incluísse skins de League of Legends.
A corrente de vento no corredor já me preparava para a temperatura negativa que eu sentiria do lado de fora. De repente não pareceu que eu estava com as roupas certas — a quantidade certa. Peguei o celular com pressa enquanto descia pelas escadas rapidamente, sabendo que não teria garantias com o que pretendia fazer. Mas tinha que tentar, mesmo que a hora fosse propícia apenas para uma série de condutas degeneradas que com certeza passaram pela mente do sr. Cooper da portaria assim que me viu atravessar a entrada. Mas não podia explicá-lo que, se eu ficasse mais um minuto em um maldito repouso, tinha certeza absoluta que enlouqueceria.
A voz de surgiu após o quinto toque, quando eu acabava de pôr os pés para fora do prédio e começava uma caminhada rápida até o fluxo de trânsito mais próximo onde eu pudesse pegar um táxi.
— A celebridade do momento. — O tom sarcástico demonstrou que ele estava muito bem acordado — Achei que estava morto em uma vala.
— Posso ter chegado bem perto — murmurei, e ele ficou em silêncio — Onde você está?
— Esqueça.
— Por que?!
— Achei que estava morto em uma vala.
Trinquei os dentes, parando no meio-feio enquanto rolava os olhos pela rua em busca de um carro amarelo.
— Acho que entende o motivo de eu ter atrasado.
Ele bufou, sussurrando algo ao redor que não pude entender.
— Lembra daquele lugar onde conversamos pela primeira vez?
— O covil para onde seus subalternos me sequestraram?
— Você deve entender melhor de covis do que eu — Ele riu, destilando ironia. — Vou te esperar lá. Não uso duas vezes o mesmo lugar, mas creio que a situação é um pouco crítica para minha sistematização. Vou fazer umas ligações e você pode entrar direto.
— Ok, eu…
— Não se atrase.
E desligou.
Olhei pro telefone e revirei os olhos, me perguntando por que raios era com ele que eu dividia um segredo tão importante.
Mais dez passos e finalmente um táxi estacionou ao meu lado. Estava tão frio, com o vapor saindo de minhas narinas em uma nuvem espessa e meu nariz congelando tanto quanto meus dedos, que o ar quente de dentro do veículo me atingiu como um soco pelo choque térmico. Desejei desesperadamente que aquilo não piorasse a minha maldita situação debilitada.
Não demorou muito para que ele estacionasse em frente aos portões de Morningside Heights. Um arrepio ultrapassou minha espinha ao visualizar aquela reta da 116 Street Station, e logo mais à frente a encruzilhada da W 120th Street, intacta, movimentada — mesmo àquela hora —, normal. Como se não tivesse sido palco de uma loucura sobrenatural há menos de 24 horas atrás.
Passei o capuz pela cabeça, lembrando-me repentinamente da primeira vez que me arrisquei a invadir a universidade. Em nenhum momento a ideia de entrar pela porta da frente me passou pela cabeça. Afinal, meu conceito de invadir não levava em conta toda aquela audácia.
Porém, por incrível que pareça, parecia estar falando a verdade quanto ao conteúdo de suas ligações misteriosas. O homem na guarita tinha uma expressão carrancuda e medonha, e o barulho do clique do portão de ferro me fez olhar automaticamente para as duas extremidades de suas pontas, mostrando as câmeras de segurança que poderiam me ferrar em zilhões de maneiras diferentes. Ele acompanhou meu olhar e deu um sorriso estranho de canto, inclinando a cabeça para o lado enquanto pegava um jornal debaixo do painel e desaparecia por trás dele.
Queria dizer que tinha tempo para questionar, até mesmo admirar toda aquela influência estranha vinda de e que eu não sabia ainda se era bom ou ruim estar envolvido em tudo isso, mas eu não tinha esse tempo sobrando. Apressei o passo para dentro, ouvindo os mesmos portões se fechando às minhas costas logo assim que passei o corpo por ele, cerrando os olhos pelo vento gelado que me acertava como um chicote no rosto. Maldito frio polar da madrugada.
Atravessei o estacionamento e parei na minha vaga habitual por trás da pilastra, tentando me lembrar da direção em que fui arrastado pelos dois energúmenos há algumas semanas atrás. Não foi difícil visualizar a porta dupla do galpão escuro e fechado, aparentemente abandonado à mercê da futura reforma, proveniente das verbas de famílias ricas e políticos influentes que de vez em quando se preocupavam com a educação do país.
Eu não fazia ideia de como entraria. Tudo estava lacrado e escuro como breu, um silêncio cortante que me fazia ouvir até o vento em meus ouvidos. Tateei os bolsos em busca do celular para avisá-lo que não era por ver fantasmas que eu podia atravessar paredes quando um clique alto soou do outro lado da porta e uma mão me puxou rapidamente para dentro, da mesma forma como havia sido na Gibbons naquela fatídica noite.
O jeito anfitrião de Ash realmente era peculiar.
Eu não fazia ideia da reforma particular que ele havia feito naquelas paredes, mas do lado de dentro estava tão bem iluminado que quase tive de proteger os olhos. A mesma mesa riscada se encontrava no centro, assim como as muletas de apoiadas ao lado de sua cadeira. Olhei para o lado e me deparei com os mesmos dois rostos desagradáveis que já haviam me arrastado até seu chefe agora mais vezes do que eu gostaria.
— Deus do céu, , você tá um lixo — Ouvi a voz de enquanto eu levantava a sobrancelha para o loiro alto que segurava meu antebraço esquerdo. O outro deve ter procurado meu direito, mas encontrou-o apoiado a uma tipoia — Soltem-no, não veem que ele não consegue machucar uma barata nesse estado?
Os dois deram passos bruscos para trás, assumindo posições de soldados preguiçosos enquanto ancoravam as costas na parede úmida.
— Acho que eu ainda teria vantagem sobre um manco como você — Apontei para as muletas e ele sorriu, me encarando de cima abaixo.
— Babaca desgraçado — Murmurou ele, inclinando as costas para trás. — Disseram que você parou o trânsito hoje. Achei que seu plano fosse ficar invisível.
— Queria que essas coisas dependessem só de mim — Dei um sorriso sarcástico, puxando a cadeira à sua frente e me acomodando. — E então, conseguiu o que eu pedi? Cadê ele?
Ele me encarou fixamente antes de transferir o olhar para algum ponto atrás de mim.
— Então ele é o cara? — Uma voz nova e feminina surgiu por trás de minhas costas, e segui o som até encontrar uma garota apoiada no outro canto do galpão, entre as prateleiras industriais desgastadas enquanto retirava earpods dos ouvidos. Ela era morena, alta e com tranças até a cintura. Também tinha cílios enormes e um olhar bastante persuasivo. Ela riu de forma seca ao me encarar. — Não sabia que você andava com CDFs agora, Ash.
— Ele salvou minha vida, queria que eu o ignorasse? — levantou uma das sobrancelhas. — Esta é Maverick. Acho que você teve sorte de estar na mira da morte por hoje. Ela não costuma dar segundas chances.
— Sua gratidão é irresistível — Ela sorriu sem mostrar os dentes e caminhou até a mesa, sentando-se com as pernas cruzadas por cima dela. — E então, você é o famoso . Não imaginei que fosse tão bonitinho.
— E não imaginei que você fosse uma garota — Dei de ombros, olhando rapidamente para .
— Tudo bem, gosto da expressão de surpresa quando descobrem — Ela inclinou o corpo para algo semelhante a uma bolsa pousada ao lado da cadeira de Ash, puxando um notebook fino e fios bagunçados enquanto os conectava nas entradas. — E então, o que posso fazer por você?
Olhei para , com os olhos confusos por um momento. Percebi que só o ato de mencionar o que eu realmente estava fazendo ali, principalmente na frente de uma pessoa desconhecida, já liberava uma torrente de culpa dentro de mim. Mesmo que fosse ridículo, mesmo que eu não tivesse de estar me preocupando com essas coisas agora.
— A filha de Morgana respondeu, virando-se para a garota. — Lembra dela?
Um sorriso lascivo pareceu iluminar os olhos maquiados dela, como se lembrasse de algo divertido e engraçado.
— Ah, claro. A pequena , como posso esquecer? — Ela voou com os dedos pelo teclado, digitando algo que não pude ver. — Até que ponto gostaria de saber de sua vida perfeita e patética?
Não achava que ter um fantasma maluco querendo te matar fosse ter uma vida perfeita, mas considerando que ela não sabia disso, preferi ignorar essa parte.
— Não sei direito… — Comecei a falar.
— Imaginei que não — Ela interrompeu, sorrindo pra mim por cima da tela. Suspirou antes de continuar: — Bem, como posso dizer? Ela consegue agir como uma perfeita princesa irritante quando quer, mas não posso culpá-la tanto com a mãe e histórias tristes que tem.
Empinei meus ouvidos, arrastando a cadeira mais para a frente quase que automaticamente.
— Sabe alguma coisa desse sobrenome, ?
— Só… Coisas da internet — Respondi, hesitante. A situação não parecia ter uma resposta certa — E a casa dela já pode dizer bastante coisa.
— Então já esteve dentro da mansão da família Addams? — Ela riu, sem tirar os olhos do que lia. Abri a boca para responder que não era nada daquilo que ela pudesse estar imaginando, mas vi as sobrancelhas levantadas de e percebi que nada sairia além de palavras cortadas. — Espertinho, gostei. Mas sim, a família comandava Wall Street melhor do que Jordan Belfort, de forma mais limpa e menos caótica, é claro. Talvez por isso não se interessaram em escrever um livro sobre eles. Ninguém quer ler sobre pessoas que recebem bênçãos a cada segundo, é chato — Ela suspirou, virando a tela pra mim, mostrando uma foto de estúdio de uma família de quatro, com o adulto e o garoto vestindo ternos escuros e caros e a mulher e a garotinha com vestidos de seda e laços enormes na cintura. Os reconheci imediatamente. — A nossa família do momento. George , o pai, CEO, detentor de um poder aquisitivo imenso, principalmente nos anos 90, controlando uma das maiores corretoras da Bolsa de todo o país. Fazia quase um milhão de dólares por dia, tá bom pra você? — Ela mostrou um sorriso de canto. — É tão absurdo que você chega a se questionar se ele não sangrou em alguma encruzilhada para conseguir tamanha prosperidade, não é mesmo?
Me remexi na cadeira. soltou uma risada alta.
— Morgana , a mãe, socialite e aspirante a primeira-dama dos Estados Unidos. Na verdade, é só uma perua maluca e classuda que se viu tendo de trabalhar pela primeira vez na vida depois que o marido morreu. Ou foi pego pelos cães do inferno, nunca vamos saber — Ela deu de ombros. — Atualmente, se senta atrás de uma grande mesa em Wall Street e administra uma corporativa bastante rentável até, apesar de não chegar nem na esquina do que o marido ganhava. Mas com a balbúrdia do fim da corretora, foi o máximo que ela conseguiu fazer para manter o padrão de vida. Ao menos ela tem casa própria e uma herança bem gorda do falecido.
— Você a conhece? — Perguntei repentinamente.
Ela mordeu o lábio inferior enquanto pensava em suas próximas palavras.
— Digamos que ela é uma perfeita alusão à bruxa má do Oeste, e possui um estoque de feitiços excelentes para atrair pessoas influentes e pescar seu grande amor: o dinheiro. Tenho plena certeza de que um câncer terminal não a assustaria tanto quanto a ideia de ficar pobre — Ela sorriu de forma irônica, voltando-se à tela. — Agora podemos falar das crianças?
Ela apertou uma tecla e de repente várias fotos aleatórias foram jogadas em minha direção. Fotos de , diversas delas. Estava sempre rodeado de várias pessoas, com em algumas das fotos; havia imagens dele em várias paisagens ao redor do mundo, com capacete de proteção e roupas características de várias das práticas esportivas mais perigosas e insanas que eu conhecia, como pular de pára-quedas, rapel, bungee jump, entre outras.
— Ninguém pode dizer que esse aí não viveu — Comentou , e só agora percebi que ele havia acendido um cigarro.
— Ah, pode apostar que sim, a vida dele daria um ótimo documentário da Discovery Channel. Mesmo que agora esteja mortinho da silva.
— Como ele morreu? — Perguntei.
Maverick digitou mais um pouco e uma compilação de imagens de fotografias de jornais, sites e blogs informativos piscavam na tela com frases gigantes em negrito “Herdeiro da Investimentos morre tragicamente em acidente de carro” e uma foto logo abaixo de um Mustang de luxo completamente destruído. Olhei a data rapidamente nos anúncios. Sete anos atrás.
— Ele bateu o carro numa árvore perto da ponte do Queensboro, há sete anos agora. E… estava junto com ele.
Olhei pra ela imediatamente, arfando. A informação pareceu me pegar como um tapa.
— O-o que?
— É, pouca gente sabe disso. Morgana conseguiu abafar a maior parte do conteúdo, e os que estão disponíveis hoje não passam de uma breve menção ao nome dele. Mas consegui vários vídeos de reportagens da época, alguns um tanto perturbadores. Não me leve a mal, você claramente é ateu e tudo mais, mas juro que questionaria sua lucidez depois de ver o estado em que ela ficou. O carro ficou completamente arrebentado e ela só quebrou uma perna, além de alguns arranhões. Parecia impossível que ela fosse sair dessa, mas ela tá aí, sem nenhuma sequela.
Olhei pra foto de novo, sentindo a boca ficar seca. Maverick não estava brincando, o carro realmente estava arruinado, transformado em uma grande lataria. Era inconcebível que alguém conseguisse sair vivo dali.
— Ele só tinha 21 anos — falou baixo, encarando as fotos do carro amassado com concentração quase empática.
— Nem me fala — Maverick suspirou. — Era mais novo do que a gente agora, e já tinha feito mais coisas do que eu pensei em fazer. Nas férias de verão ele se metia em embarcações, ia até o Haiti ser voluntário na construção de casas populares e escolas, doava uma boa parte do seu dinheiro para todas as instituições beneficentes locais que podem existir, e tinha toda essa merda de esporte radical. E ainda era um gato… Deus realmente tem seus favoritos? — Ela soltou uma risada, que não retribuí. Estava muito ocupado tentando encaixar aquela imagem de no espírito que estava por aí. — Bom, uma coisa é certa: ele não tinha lá muito jeito de ficar sentado atrás de um escritório em Wall Street como o fabuloso Georgie.
Ela tinha razão. parecia ser um cara notável à seu modo, mas ele realmente se dava bem com todas as pessoas? Era um filho amável com os pais? Será que foi submetido a uma pressão tão grande por um futuro que nem sequer queria?
Outra coisa me chamou a atenção naquele exato momento.
— Como George morreu? — Perguntei, lembrando-me da outra fotografia, e de como havia herdado aqueles olhos.
— Ah, ele morreu bem antes. Complicação de uma cirurgia no fígado, é só o que eu achei. tinha oito anos, uns doze. Desde então, os negócios foram contemplados pela incompetência mascarada de Morgana. Não é engraçado? Claro que é, é hilário ver uma mulher rica bajular outros ricos pra ver se mantêm o número de zeros na conta. É capaz até de usar a pobrezinha da filha pra isso.
trincou os dentes com força, cruzando as sobrancelhas em direção à Maverick, tornando sua expressão mais séria de repente.
— Você sabe que fica absurdamente sexy com essa cara de quem tá me repreendendo, mas não posso evitar de falar a verdade.
— Essa verdade é uma especulação, querida respondeu com ênfase, a voz arrastada como se demonstrasse tédio pela repetição do assunto.
— Do que estão falando? — Perguntei, ansioso por não entender do que se tratava aquela troca de olhares. Maverick virou a cabeça rapidamente para mim. — Como assim usar a filha?
— Oh querido, acredita mesmo que existe algum amor naquele relacionamento fajuto da princesa e do macho narcisista que transa com ela? — Ela disse com a voz teatralmente doce. Ouvi um estalar de língua de . — Não me entenda mal, Ash, gosto do , você sabe disso. Só não gosto da energia pesada e autoritária de quem acha que pode me dar ordens. Deixo essa tolerância nas suas mãos — Ela sorriu para ele, virando-se para mim novamente. — Mas pelo visto Morgana não se importaria em empurrar a filha para um maníaco qualquer se isso a garantisse laços fortes e garantias a longo prazo com uma família abastada. E acredite, os certamente cumprem bem esse papel.
— O que você quer dizer? Que o namoro de é por pura conveniência? — Perguntei, dobrando os dedos com certa força por cima do tampo da mesa. Eu estava vidrado no rosto dela, como se a desafiasse a mentir ou brincar sobre o assunto.
— Não estamos falando de um contrato e nem nada disso — Ela balançou a cabeça. murmurou um “Maverick” mais uma vez, mas ela apenas o ignorou. — Claro que eles transam e dão uns amassos quentes como qualquer namoro de verdade. E pode parecer nitidamente louco por ela, mas há algo por debaixo dos panos, e esse algo inclui conversas secretas de Morgana com o todo-poderoso Patrick em jantares executivos trimestrais, posso pagar pra ver.
— Especulações — repetiu, brincando com os dedos por cima da mesa — E exageros.
Ela revirou os olhos até as órbitas, bufando.
— Não acredite em tudo que vê, — Ela inclinou a cabeça para mais perto do meu rosto, falando em um sussurro: — Se tiver interesse em tirar a calcinha da , eu te dou todo o apoio.
— Limites, Maverick — falou, rindo de forma leve enquanto puxava um dos dedos dela, afastando-a de mim. Agradeci internamente por isso, porque assim talvez ela não reparasse nos pontos quentes que tomaram meu rosto naquele momento, e o quanto isso era ridículo.
— Você sempre diz isso — Ela grunhiu. — Mesmo depois de me fazer preparar um dossiê sobre um cara morto. É bizarro.
Olhei para a tela do computador novamente, deixando que as informações passassem pra minha cabeça e eu obtivesse o máximo que pudesse. não era absolutamente nada ao cara exalando vida bem à minha frente. Perguntei à Maverick se existia algo a mais sobre ele, qualquer coisa, uma que talvez estivesse escondida, alguma coisa digna de reviravolta que me faria ao menos compreender porque um cara como esse mergulharia em um ódio profundo contra a própria irmã para querer matá-la.
Ela me deu a negação esperada. E de repente entendi que, em um mundo onde vivos e mortos facilmente coexistem, os olhos humanos eram incapazes de captar toda a verdade. Quanto mais computadores.
E de repente, a pergunta que aguardava na ponta da minha língua finalmente surgiu.
— O que é a cicatriz? — Olhei pra Maverick. — Ela tem uma cicatriz… Um corte grande, bem no meio do abdômen...
Maverick e se entreolharam, ela arregalando os olhos por um instante.
— Então quer dizer que você já tirou a calcinha dela?! — Ela perguntou, com uma palminha de excitação.
— Quê?! Não…
— Espera, você viu a cicatriz? — inclinou o corpo para a frente, apoiando os cotovelos na mesa. — Como isso aconteceu? Aquele papo na biblioteca era sobre isso?
Concordei com a cabeça.
— Juro que não foi intencional — Suspirei, relembrando o episódio no hospital. — Mas algo me dizia que era importante e... Por que estão me olhando com essa cara?
limpou a garganta, se ajeitando na cadeira e desviando os olhos. Maverick apenas levantou as sobrancelhas, encolhendo-se por um momento.
— Você deve ser tipo a segunda pessoa na face da terra que já viu essa cicatriz, tirando a família e os médicos — respondeu, jogando a bituca do cigarro terminado no chão. — já comentou sobre ela. Acho que ele não sabia bem o que dizer, e talvez tenha vomitado alguns comentários nada agradáveis de um namorado, mas tenho certeza que isso não importa agora.
— Ah, mas é claro — Maverick riu de nervoso, jogando as pernas para fora da mesa. — Ele deve mandá-la usar uma blusa ou qualquer outra coisa enquanto come ela em cima de uma mesa. Assim fica mais fácil cumprir as exigências do pai de namorar com a formosa , que foi vendida como um tesouro perfeito, mas que se mostrou como uma propaganda enganosa com aquela cicatriz. Ele deve ter se sentido enganado.
— O que você tá dizendo? — Trinquei os dentes, de repente sentindo o peito quente por um sentimento maluco de raiva. Não dela, só talvez, bem talvez, por imaginar as coisas que ela dizia.
— Maverick… — suspirou novamente, como se repreendesse uma criança de cinco anos pela quadragésima vez.
— Tudo bem, tudo bem — Ela levantou as mãos em rendição. — Tirando toda a parte das teorias de conspiração sobre como o soberano garoto se sente, a cicatriz da é um fato e um imenso estigma. Ela fez uma cirurgia aos oito anos de idade, resultado de um diagnóstico atrasado de colangite esclerosante primária, o que já é raro por si só. O resto você pode adivinhar, doutor — Ela suspirou, de repente assumindo o semblante empático por meio instante. — Os ductos biliares já estavam nas últimas e a progressão para cirrose hepática não estava tão lenta. Ela não iria aguentar nenhum outro tipo de tratamento com drogas, e também não havia tempo. O único tratamento definitivo era o transplante.
Senti um arrepio violento na base da nuca. Os olhos de Maverick focaram-se em algum ponto da tela enquanto ouviu de forma preguiçosa, já tendo um breve conhecimento do que ela falava.
De repente, minha mente pareceu encontrar uma brecha para vagar para uma imagem de criança, só uma criança, sofrendo com fadiga e icterícia, dores que ela talvez não soubesse identificar naquela época, um caos acontecendo bem diante de seus olhos com pessoas correndo para salvar sua vida enquanto ela não entendia porquê.
Ela não entendia que estava morrendo.
Subitamente, quando uma dessas lâmpadas invisíveis se acendem acima de sua cabeça e você finalmente chega ao ponto de partida do que realmente quer dizer, uma pergunta pareceu desesperada para sair. Para que eu a soltasse, rápido, antes que eu a esquecesse, antes que eu saísse daquele antro sem nada, que eu não iria me arrepender se a deixasse sair…
— Deve ter sido difícil encontrar um doador — Falei, deixando que a força estranha guiasse minha língua para descobrir o que quer que fosse.
— A pontuação dela no MELD estava altíssima, favorável, era a primeira da lista, mas nada disso importa quando não se tem tempo. E isso ela definitivamente não tinha…
— Então quem foi o doador?
— Ora essa, quem você acha? — ela riu e ergueu os olhos — O pai dela, claro. Nosso querido Georgie de Wall Street.
A lâmpada em minha cabeça se transformou em uma voz sem rosto, que repetiu na mesma intensidade obscura, como se me teletransportasse para o momento novamente:
"Me matou igual fez com seu irmão, com seu pai, com mais quem, ? Quem será o próximo da sua lista? Amiga..."
Minha cabeça latejou.
Os imunossupressores. A cicatriz no lugar exato do fígado. A elastografia — meu Deus, como não pensei nisso na hora? Estava tão óbvio! —, a recusa em dirigir, a preocupação com a comida. A complicação da cirurgia que matou seu pai, que a deixou viva por mais alguns anos, até finalmente perder seu irmão. Em um acidente em que ela estava, que presenciou, assim como a morte anterior.
Passei as mãos nos cabelos, completamente absorto por alguns segundos enquanto constatava em quanta desgraça havia rondado a vida de . No quanto ela havia aguentado por todo esse tempo, no quê exatamente aguentava agora, e tentei ignorar a vontade arrebatadora que me tomou pra saber de tudo, absolutamente tudo que a incomodava, a deixava infeliz e simplesmente fazer qualquer coisa para que desaparecessem. Será que um sentimento tão grande e tão forte como a culpa é capaz de atrair todo o tipo de infortúnio para si? De repente nunca quis tanto vê-la, e por mais que não fosse capaz de abrir o jogo sobre nada disso em momento algum, eu sentia algo forte e quente dentro de mim que certamente me fariam levantar e correr até certo quintal e subir em algumas árvores de novo.
Balancei a cabeça, expulsando os pensamentos banais que chegavam sem o meu controle. Olhei para , que parecia estranhamente reflexivo com a informação, como se tivesse escutado algo novo.
— Essa é a parte do estigma, rapazes — Maverick falou novamente depois de um tempo. — Essa deve ter sido a informação mais confidencial que consegui sobre isso, mas culpem o algoritmo incompetente do Presbyterian. As fichas médicas dos pacientes estão praticamente expostas. Mas, para todos os efeitos, absolutamente ninguém sabe sobre essa informação. É sério, ninguém. Culpem a velha bruxa por isso — Ela deu de ombros. — Seria uma vergonha social se descobrissem que seu marido morreu por algo tão estúpido como doar praticamente metade do fígado pra filha querida.
Olhei pra ela, um tanto estupefato.
— Ah, não me olhe assim, Morgana sabe bem como abafar escândalos e qualquer coisa que ela ache no mínimo vergonhoso para uma boa reputação. Posso te dar uma lista, se quiser — Ela sorriu. — Mas há coisas que realmente só ficarão em especulações. Como a forma com que essa rainha vermelha deve ter tratado a princesa depois de perder o marido por causa dela. Talvez por isso pense que tenha que compensar de alguma forma atendendo os desejos malucos da mãe dela, como namorar um cara como .
revirou os olhos novamente.
Os pensamentos sobre namoro de conveniência e as possíveis palavras de sobre pareciam agitar alguma coisa dentro de mim, alguma coisa desconhecida que me fazia ter vontade de perguntá-lo cara a cara até que me dissesse o que ousava pensar sobre ela, mesmo sabendo da situação, ou grande parte dela. E tinha a leve impressão de que não seria capaz de ouvir sua resposta até o fim porque meu punho fechado em sua boca não aguentariam esperar. Mas rejeitei novamente, olhando para a frente, para a tela de novo, reparando em algo que não havia notado antes.
— Quem é esse? — Perguntei, apontando para um cara que estava presente em grande parte das fotos junto com . Era o mesmo cara que estava com e o irmão na foto da prateleira.
Um sorriso cintilou os lábios de Maverick.
— É o . Um belo gato, não é mesmo? — Suspirou. — A família dele é uma das mais poderosas do nordeste do país, quase no mesmo patamar da . Ele era o melhor amigo do , do tipo crescer juntos e todas essas coisas. As famílias são bem unidas, ou pelo menos eram.
— Como assim eram?
— Ah, você sabe, quando essas merdas acontecem nada fica do mesmo jeito. O bateu as botas muito cedo, foi um baque pra todo mundo. Depois de um tempo, a família transferiu a sede da empresa pro Canadá e o foi cursar a graduação em Oxford. Eles não foram mais vistos juntos.
Lembrei-me do tom levemente amargo de e da mulher ao falarem sobre , e sua aparente volta. Como se fosse algo a ser temido de alguma forma, em um sentido indefinido da coisa.
— Sabe alguma coisa sobre uma possível volta dele?
— Isso é alguma informação confidencial?! — Maverick arregalou os olhos, digitando com avidez. — Eu tô totalmente por fora disso, não acredito. Mas vou adorar ver essa cena, pode acreditar — Ela riu, mordendo o lábio inferior.
Juntei as sobrancelhas, confuso. Ela focou os olhos em mim.
— Talvez exista outro motivo obscuro que explique o afastamento dos com os , e te garanto que esses dois estão no centro disso.
— O quê…
bufou forte, empurrando a cadeira para trás enquanto apoiava-se na muleta, colocando-se de pé de forma mais rápida que da última vez.
— Dá uma pausa nas suas fábulas, Maverick — Ele murmurou, seguindo para um dos cantos da prateleira. — Vou buscar o seu maldito pagamento.
Ela sorriu animada enquanto descia da mesa e remexia na bolsa por onde saíam os fios, tirando de lá um pequeno pen-drive e erguendo-o em minha direção.
— Aqui, acho melhor você ficar com isso. É todo material que eu consegui. Algumas coisas são melhor analisadas com calma do que ouvidas da boca de alguém.
— Obrigado — Dei um sorriso de canto, guardando o pequeno objeto no bolso — Ajudou bastante. Aposto que não vai me dizer seu nome, não é?
— Por enquanto não, doutor. Espero que não se ofenda — Dei de ombros, demonstrando claramente que poderia viver sem isso. — Mas… Posso perguntar se é verdade?
— O que?
— Você e a . Tem alguma coisa acontecendo entre vocês?
— Não — Respondi rápido demais. — Não… Definitivamente não.
— Então você quer que alguma coisa aconteça?
— Também não — Bufei, colocando mãos desajeitadas nos bolsos enquanto ignorava o embrulho no estômago. — Não tem nada demais, somos apenas… Amigos.
Amigos, pff. Eu tinha enlouquecido?
Mas que outro nome eu daria para Maverick finalmente parar de me lançar aquele olhar desconfiado de um detetive na sala de interrogatório quando escuta do acusado: “Não fui eu”?
A diferença é que ela parecia estar se divertindo.
— Mas já beijou ela, certo?
São nesses momentos que se cospe a bebida quando o susto do flagrante é tão repentino que traz tudo à tona, da maneira mais literal da coisa. Eu não estava bebendo nada, mas posso garantir que fiquei com cara de tacho por tempo suficiente para confirmar tudo.
Ela arregalou os olhos e começou a rir. Eu realmente tinha enlouquecido.
— Deus do céu, isso é demais! — Ela bateu palminhas. — Fico aliviada que você tenha se encaixado na hipótese A.
— O que? Espera… Você acabou de jogar um verde? — Não pude disfarçar a indignação na minha voz.
— Não necessariamente, sendo que te fiz uma pergunta antes. Mas consegui fazê-lo pensar que já sabia, não é? É um dos meus talentos, , não fica chateado — Ela mordeu o lábio inferior, me encarando fixamente como se pudesse arrancar mais segredos. — Mas ou era isso ou você era um stalker pervertido mirando na . Fico feliz que a opção vencedora é a óbvia!
— Pois é, mas não é nada disso que você es…
— Fica frio, . Cruzei a linha te perguntando isso porque não aguentei a curiosidade, mas normalmente não quero e nem preciso saber porquê meus clientes fazem o que fazem, ou querem o que querem. E os segredos daquele ali são muito bem guardados por mim, e já que ele tem uma dívida a honrar com você, posso incluí-lo no pacote.
Olhei automaticamente para a direção de , me perguntando de repente se ele estava falando sério sobre o lance da dívida.
Quando voltei a ela, vi seus olhos brilhando de uma certa excitação que me lembro de topar nos olhos de Jane quando conseguimos mostrar o caminho de casa para certos fantasmas barulhentos.
— Tudo bem, tanto faz. Mas ainda não muda o fato de que não tem nada entre a gente.
— Então é verdade mesmo! — Ela arfou, cruzando os braços e se afastando para a mesa logo atrás. Revirei os olhos. — Juro que nunca mais vou assistir a pegação desnecessária daqueles dois do mesmo jeito. Saber que existe um melhor pretendente para muda tudo.
— Acho melhor não contar com isso…
— Posso torcer então? — Ela inclinou a cabeça para o lado. — Assim como torci de cara que ela deve ter ido ao seu encontro logo depois do seu espetáculo de mais cedo. Ash me disse para não comentar nada, mas não consigo me controlar — Ela deu de ombros. — Ele também pediu para que eu derrubasse todos os vídeos que haviam publicado, mas alguém chegou primeiro do que eu. Um amigo seu, suponho? — Ergueu uma sobrancelha. — Ash é muito cauteloso com os negócios. Ele não me pediria pra fazer nada muito grandioso que pudesse chamar a atenção, então saquei na hora que estava rolando alguma coisa bem grande por trás.
Mordi o lábio inferior, me preparando mentalmente para a desculpa pronta e argumentar contra qualquer uma de suas perguntas sobre o acesso de loucura público que eu demonstrei. Mesmo que, talvez, tenha descoberto que não era mais tão bom assim em refutar pessoas que falavam com tamanha firmeza e confiança, sem os lábios trêmulos ou a dúvida pairando em suas cabeças, torcendo para que eu dissesse não às suas perguntas.
— Acho que tenho bons amigos, sim — Falei devagar, levantando-me finalmente, olhando as horas no relógio de pulso e averiguando que não poderia me demorar muito ao lembrar do cara dormindo no meu sofá.
— Oh sim, e ele é bom, muito bom mesmo. Espero conhecê-lo um dia — Ela deu uma piscadinha discreta em minha direção, e juntei as sobrancelhas no mesmo minuto, olhando pro lado e começando a me questionar onde estava .
— Vocês dois não estão… — Apontei dela para onde eu achava que ele tinha entrado. Ela demorou um minuto para entender do que eu falava e soltou uma gargalhada logo em seguida.
— O quê? Eu e Ash? Definitivamente não — Ela ainda ria enquanto começava a juntar os cabos e fechar a tela do notebook. — Não me interesso por homens que amam outras mulheres, você me entende? Mesmo que a dele já esteja morta — Ela se virou novamente pra mim. — Isso inclui você também, bonitinho.
Revirei os olhos pela quadragésima vez só naquele dia.
— Já disse que não...
— Claro que não é — Ela puxou o zíper, e começamos a ouvir os passos lentos de retornando. — Mas se quer saber, ser amigo de pode ter suas vantagens. Que tal verificar o que o grande Georgie prometeu ao trocar a alma numa estrada vazia e melancólica? Posso tentar qualquer dia desses, não me importo de morrer em dez anos, o aquecimento global não me deixa muito esperançosa mesmo.
— Já acabou com o papo de pactos demoníacos? — reapareceu, trazendo consigo uma grande bolsa preta e jogando-a em cima da mesa. — Todo o combinado. Usei meus contatos do Alabama pra isso, então não diga mais que não sou bom pra você.
Ela deu um salto até ele, dando um beijo demorado em seu rosto e abrindo o zíper do pagamento logo em seguida, remexendo em apetrechos que não reconheci e se perdendo dentro daquele mundo particular.
— Venha comigo — sussurrou em minhas costas, seguindo então na direção de um espaço dos fundos. — Consegue se distrair com seus brinquedos por alguns minutos, querida?
— Mas é lógico — Ela respondeu, ainda dissecando os conteúdos da bolsa, sem olhar para nenhum outro lado.
Segui as costas de até o que parecia ser o lado mais carente de iluminação do lugar. Uma porta mediana vermelha estava localizada ao lado de uma pequena báscula, deixando entrar uma luz forte da lua, muito cheia àquela noite. abriu a porta sem dificuldades, saindo para um lado de fora repleto de entulho e galhos secos, alguns afogados em grandes tufos de neve. Pilastras de madeira desgastada sustentavam uma pequena sacada do segundo andar, nos protegendo dos finos resquícios de neblina e da maior incidência do frio.
— Quer um cigarro? — Ele perguntou, colocando um de seus cigarros negros entre os lábios, oferecendo um outro pra mim. — Fecha a porta.
Fiz o que ele disse, agarrando sua cortesia sem pestanejar.
— Agora já pode me contar porque não se misturou aos seus amigos do outro lado.
Bufei, aceitando seu isqueiro enquanto olhava pra cima. A luz estava realmente forte, me concedendo uma boa vista para tudo ao redor. Eu não conhecia aquela parte da universidade, ou pelo menos não a reconhecia de imediato. Mas algo me diz que a curva do pequeno relevo íngreme mais à frente me levaria direto ao portão de grades pelo qual pulei com uma vez.
— Eu não sei — Foi a única resposta que me veio à mente. E não poderia ter sido mais sincera.
— Você diz muito isso — Ele murmurou, soltando a fumaça característica da nicotina misturada com o frio negativo. — Será que realmente não sabe das coisas?
Encarei imóvel o horizonte à frente, o nada em especial. Queria dizer que nunca havia sido tão verdadeiro em toda a minha vida, e que isso era algo a se considerar, visto que Jane vivia repetindo que eu poderia beirar à alguma sociopatia pela falta de reações fisiológicas ao mentir. E eu realmente era bom em mentir, mas esse comportamento parecia tão ultrapassado ultimamente, como se pertencesse a um que tinha a vida sob controle, que tinha as situações bem claras à frente e que lidava com coisas conhecidas e normais, ou pelo menos tão normais quanto fossem possíveis para um garoto que via coisas demais.
Eu não parecia mais ser esse cara, assim como tudo à minha volta.
— Você ficaria surpreso pela quantidade de coisas que não sei — Respondi, baixando os olhos. — Mas parece que sofri uma bela retaliação. Ou o começo de uma.
— Margot?
— Quem me dera. Ela não tem todo aquele poder.
— Então foi o outro? — Ele estreitou os olhos. — Espera aí, ele foi atrás de você?
Respirei fundo, decidindo algo de imediato.
— Também. Mas falei com Margot, de qualquer forma.
Vi seu rosto virar abruptamente para o lado, antes de alojar o cigarro na boca. Esconder emoções poderiam fazer parte da rotina de um Ash misterioso e estranho, mas parecia disposto a deixar isso de lado.
— Quando? — Perguntou, ansioso.
— Há algumas noites. No cemitério de Woodlawn.
— Que porra ela estava fazendo em Woodlawn? E como assim algumas noites? Foi antes do nosso papo na Butler?
— Sim — Suspirei. — Foi depois da nossa primeira reunião inesperada.
— Seu… — Ele trincou os dentes, virando o rosto para outro ponto do ambiente, respirando pesado a ponto de se controlar. — Por que não me contou antes?
— Porque fui justamente confirmar o seu discurso. Achou mesmo que confiaria em você logo de cara? — Levantei uma sobrancelha, tentando parecer o mais óbvio possível. — Tudo que me disse naquele dia foi um tanto surpreendente, e se tenho o trunfo de perguntar direto à fonte, preferia fazer isso. Mesmo que quase tenha perdido meu pescoço. — Diminuí o tom de voz na última frase.
— O que aconteceu? — Ele pareceu apressado de novo. — Como ela estava?
— Péssima. Deteriorando, pra ser mais exato. O ódio pode ser um sentimento bem forte entre os mortos — Ele baixou os olhos e pude jurar que estava tentando imaginar o estado dela. — Mas não é culpa dela.
Ele me encarou novamente.
— Você encontrou com ele por lá também?
— Acho que o mais certo a dizer é que ele me encontrou. Apareceu por lá enquanto eu tentava obter umas respostas de Margot.
— Ele a machucou?
Pisquei os olhos algumas vezes antes de responder:
— Acho que você já sabe a resposta.
Ele girou a cabeça para o lado contrário, remexendo no piso amadeirado e mofado sob seus pés, que era invadido pela neve nas aberturas estreitas e aleatórias de suas juntas. Certamente ele deveria estar sentindo o peso da impotência, e odiei perceber que já havia sentido a mesma coisa, que andava sentindo bastante até.
— E conseguiu algumas? — Perguntou ele, por fim.
Os olhos abaixo do boné preto pareciam afundados e cansados. Notei que jamais havia pensado no lado dele; no lado de uma pessoa que espera a morte iminente a qualquer momento, e nem sequer poderia vê-la ou ouvi-la. Como se recebesse um diagnóstico de câncer terminal, mas não obtivesse uma estimativa do seu tempo de vida restante. Quantas vezes ele deve ter se deitado na cama, se vendo incapaz de fechar os olhos e baixar a guarda pois poderia nunca mais acordar?
— Não posso dizer que não consegui — Respondi, sabendo que não existia saída daquela situação a não ser fornecendo toda a minha sinceridade. — Mas… Talvez elas façam mais sentido pra você do que pra mim.
— O que ela disse?
— Além dos xingamentos habituais sobre você e de ameaçar me matar duas vezes, ela disse algo sobre uma briga entre você e . E algo sobre você sumir por três dias.
Ele fechou os olhos com força, jogando o cigarro pela metade no chão, pisando sobre ele com brutalidade.
— Claro que disse — Respirou fundo. — Foi bem antes de toda essa merda acontecer.
— É, e pelo visto você realmente estava certo; Margot e Naomi não estavam nem perto de serem grandes amigas. Não que isso diga muita coisa, mas não custa verificar — Estreitei os olhos. — Então acho que você finalmente pode me contar algumas coisas da sua versão.
Ele me encarou com o canto dos olhos, sendo envolto pela fumaça pesada de sua respiração. Parecia estar tentando se lembrar do ocorrido, mas algo me dizia que ele só estava tentando pensar na melhor forma de contar.
e eu sempre brigamos — Ele começou, baixando os olhos em direção aos pés ainda remexendo nos restos das cinzas e do gelo derretido. — Quer dizer, é mais fácil dizer que ele sempre briga. Na maioria das vezes eu só escuto e falo quando necessário. Como se eu fosse o maldito conselheiro do Rei Louco ou só mais um de seus subordinados. Não que isso me incomode, entende? É o preço a se pagar por firmar um pacto com um demônio importante, mesmo que eu fique tentado a quebrá-lo por diversas vezes. Principalmente quando esse demônio ameaça abrir a boca nos menores obstáculos e não tem muita paciência para resolvê-los.
— Filho da puta imbecil — Sussurrei olhando em frente, tendo consciência da raiva acumulada espumando no peito ainda pelas informações anteriores.
— É, eu concordo — Ele deu uma risada seca. — Mas ganhei uma boa grana depois de ele me descobrir e me forçar a isso, podemos dizer assim. Entrei nesse negócio de forma calculada, mas não posso comparar minha experiência de hoje com a do de 19 anos, que estava começando a se tornar o Ash. E que se safou de várias merdas por causa dos contatos do sócio. E ele exigiu menos da metade dos lucros, então não pude dizer não. Ele ajudou a expandir a minha distribuição de uma forma que eu jamais faria sozinho, ou pelo menos, não em tão pouco tempo.
— Tocante — Respondi com desdém. — Mas por que ele se arriscaria desse jeito? Não é como se ele precisasse da grana.
estalou a língua.
— Vocês, garotos ricos… — Ele bufou, mantendo o tom cômico. — Ele não precisa da grana, mas ele a quer. Ele se arrisca porque pode se arriscar, porque sabe que nunca vai ser pego, não importa se acordarmos com o FBI batendo em nossa porta. Porque tem gigantes por trás dele que apagariam o seu nome de qualquer registro na velocidade da luz. Sinceramente, nunca estive interessado em saber profundamente porque tenho certeza do ninho de cobras peçonhentas perigosas que vou cair. Sou ambicioso, mas me acomodo rápido, entende? Quando não vejo vantagens, não vejo sentido em me envolver — Deu de ombros. — Portanto, não é uma questão de grana. não dá a mínima pra isso. É uma questão de poder, controle.
“Esse poder nos impulsionou de várias formas e, como eu disse, ele só queria a parte dele. Pelo menos foi assim que começou. Eu sabia que ele era um louco sádico e gostava de ser tratado como o chefe de tudo, mas na maioria das vezes, era apenas isso. Como se todo o esquema servisse apenas para alimentar sua necessidade de atenção. Dando o que ele queria, eu tive paz por um bom tempo. Suas exigências giravam em torno de melhor controle de caixa, mudança de pontos de entrega e coisas triviais de como se deve gerir um negócio ilícito e não ser pego. Ele não é o rei do sigilo, mas exigia isso de mim. Porque faz todo o sentido, ele não precisa dessa besteira de agir como se escondesse alguma coisa. Mas um cara que não tem onde cair morto, sim. E cumpri, religiosamente, todas as suas requisições porque todas elas giravam em torno do trabalho e não via porque não ceder a fim de ver o progresso, mesmo que visse tudo isso como seu playground particular. Mas daí eu conheci a Margot.”
A expressão divertida se esvaiu no ar. pegou o maço nas mãos e olhou para os últimos cigarros enfileirados no papelão, sem pegar nenhum deles.
— Agora que lembro disso, fico pensando se não sou mesmo um desgraçado dissimulado — Uma risada irônica escapou de seus lábios. — Porque realmente não pretendia sair com Margot Abbott. Muito menos sentir qualquer coisa por ela. Mas acho que ninguém nunca pretende essas coisas, não é? Chega a ser hilário, como alguma piadinha sem graça do universo ou de quem quer que esteja observando a gente.
“Eu a vi pela primeira vez em alguma biblioteca pública do Queens, que juro ter forçado a me esquecer por puro hábito. Geralmente mando alguém para realizar alguma entrega específica, como era aquele caso, mas por algum motivo decidi ir. É estranho como não me lembro de coisas significativas como essa; a grande causa que me fez sair da minha zona de conforto e ir encarar um cliente cara a cara em um lugar público, mas posso te jurar com todas as minhas forças que não me lembro. E jamais tentei fazê-lo de novo porque olhar pra ela sentada ali, embaixo daquela janela enquanto lia um livro de economia, me fez esquecer grande parte dos meus compromissos pelo resto do dia.”
Dei um pigarro, apoiando um dos ombros na pilastra precária, ignorando mais uma vez o sentimento de: “Ei, cara, pode parecer estranho, mas acho que entendo totalmente o que você sentiu.”
— Por acaso já ouviu mais sobre minha reputação além dos narcóticos? — continuou ele, sem esperar resposta — Digo, sobre as festas, mulheres e esse tipo de coisa. Nunca me interessei sobre a proporção dos boatos, ainda mais porque são uma ótima divulgação, seja qual fosse o assunto. Mas, por incrível que pareça, Margot não tinha conhecimento de nenhum deles. Absolutamente nenhum. Mesmo que eu já tenha vendido um estoque gordo pra sua colega de quarto, Naomi.”
“Ela era um poço de inocência e, pela minha experiência, isso deveria me repelir e não me atrair. Garotas retraídas nunca fizeram o meu tipo, mas de repente eu fiquei fascinado por ela. E queria poder dizer que isso veio com o tempo, que no primeiro momento eu apenas a achei bonita de uma forma diferente, mas não. A constatação veio na hora em que a vi. E talvez eu tenha fodido tudo não dando meia volta e saído pela porta da frente, ou por ter aceitado pegar o livro na prateleira alta que ela não conseguia alcançar. Sabe, quando alguém sai da sua vida de repente, você se pega frustrado relembrando esses mínimos detalhes, as ínfimas coisas que, se fossem evitadas, não te colocariam na merda que está.”
Um pequeno arrepio atravessou minha nuca, no mesmo momento em que a última faísca do Malboro se apagou.
— Eu bem que tentei controlar as coisas no começo, entende? Ela estava usando uma camiseta da Columbia, então não foi tão difícil assim começar algo quando ela estava bem debaixo do meu nariz. Mas eu não ligava ou trocava mensagens, por mais que quisesse. Também não disse meu nome e me mantive distante, por motivos que eu sinceramente não sei explicar. Talvez eu não entendesse o que estava acontecendo dentro de mim, o que eram todos aqueles sentimentos que ultrapassavam um simples desejo carnal. E, exatamente por não entender, preferia me manter longe para avaliar melhor o processo. Sou um cientista também, não se esqueça disso. — Ele expôs um sorriso em linha fina, voltando a expressão séria logo em seguida.
“Só que, por mais vezes que consigo contar, eu me via criando situações para que pudesse vê-la. Encontros simples e cotidianos com nada mais do que diálogos, ou pelo menos para ouvi-la falar. Cara, como eu gostava de ouvi-la falar. Sobre suas preocupações, família, amigos, planos… Era louco como eu me interessava por tudo que a envolvia. Mesmo que ela me devolvesse as mesmas perguntas e eu as desviasse, sendo excessivamente fechado e misterioso diante de uma garota que estava igualmente interessada em mim. Mas ela poderia desistir caso soubesse de tudo. E esses encontros foram ficando tão frequentes que não demorou muito a nos verem juntos e, principalmente, que ela soubesse.”
“Aconteceu duas semanas antes de ela morrer. Fui acompanhá-la até a porta do dormitório e Naomi nos viu. Não reconheci ela de imediato, mas ela não me era estranha. Fiquei sabendo depois das várias cartelas que ela tinha comprado. Na mesma noite ela abriu o jogo com Margot, inclusive sobre meu nome e as drogas, e recebi uma visita em uma festa de fraternidade já no dia seguinte, com Margot me pegando em um perfeito flagrante junto com Dylan.”
— Parece que Margot se lembrava bem desse papo revelador com Naomi. — Falei, lembrando-me das palavras odiosas de Margot ao se referir à sua colega de quarto. Se o que me disse é verdade, pode-se pensar que Naomi Bailey não era tão boazinha assim.
trincou o maxilar, encarando a noite como se estivesse assistindo todo o seu relato em um longa metragem.
— Como eu te disse: estranha. Pensando agora, posso até chamá-la de maluca. As coisas que ela disse à Margot, com tanta confiança desprezível, fariam qualquer um pensar que ela me conhecesse bem. Como se tivéssemos uma história ou algo do tipo. Como ela pode ter dito que Margot não era boa o suficiente pra mim? — Ele balançou a cabeça, pasmo. — Isso me incomodou por algum tempo, principalmente depois do que aconteceu. Mas a única coisa que eu podia fazer era torcer para que ela nunca mais aparecesse na minha frente. Nunca achei que atrairia esse tipo de pessoa, não com todo meu esforço em ser o mais discreto possível; pessoas que se sentem próximas o bastante para acharem que te conhecem e fazer suposições sobre a sua vida. É uma merda.
— Você e Naomi já…
— Não! — Respondeu imediatamente. — De jeito nenhum! Não sei se sabe, , mas só curto encher meu pulmão de nicotina. Não sou adepto ao restante das coisas que bagunçam o cérebro e apagam sua memória, então eu me lembro perfeitamente de todas as garotas, e Naomi não está inclusa nem na esquina de um possível interesse. E não sei que tipo de abertura ela viu pra agir dessa forma, ainda mais para aparecer com Margot no dia seguinte.
“Queria dizer que ela havia gritado poucas e boas e simplesmente sumido, mas não chegou nem perto disso. Ela não me perguntou absolutamente nada. Me viu claramente ganhando uma bolada de um estudante qualquer e disse que estava tudo bem. Que considerava o Ash com quem estava convivendo até então. E que queria se divertir com ele, com aquele Ash, porque sabia que não teria tantas outras oportunidades. Ela sempre foi inteligente, focada e presa em um mundo de futuro. Por várias vezes me disse que não tinha tido muitas experiências pra contar. E estava ali, só dizendo para termos isso, sem olhar pra nada mais ao seu redor. Tem ideia de como essa mulher me deixou louco?”
“Eu já estava viciado nela de um jeito tão novo que passei a rejeitar todas as outras, e não queria, em hipótese alguma, ter de explicar o que estava acontecendo. Nem pra ela, nem pra ninguém. Não queria arrastá-la pra esse meu mundo, por mais que ela já soubesse dele, e também não queria descarregar nada pessoal nos seus ouvidos. Talvez tenha sido meio injusto, ela descobrir tamanhos detalhes sobre mim só depois de morrer — ele deu uma risada forçada — Mas eu achei que estava fazendo o melhor, juro que achei. Talvez tenha sido um erro não pensar no futuro naquela ocasião.”
“Tudo estava indo bem, pelo menos na bolha que havíamos criado e expulsado os problemas. Até o dia em que a conheceu.”
Ele cruzou os braços, e seu tom de voz pareceu mais abafado. Eu já começava a prever o desprezo que mais uma artimanha de me causaria.
— Não aconteceu de imediato. No início, ele realmente parecia aprová-la, ou simplesmente não ligava, o que era mais provável. Como eu disse, ele não se importa realmente com a minha vida pessoal, se ela não tivesse qualquer interferência no serviço. Com quem eu dormia ou passava o tempo, não fazia diferença. Por algumas vezes, me vi dividindo um jantar com ele e , e Margot parecia gostar da socialização. As duas realmente tinham o que conversar, pareciam ter muitos interesses em comum. Talvez poderiam ter se tornado grandes amigas se não acontecesse o que aconteceu.”
“Eu não sei se foi o jeito desengonçado dela ou as roupas fora do padrão que o irritaram tanto. tem dessas às vezes: gostar da perfeição. Mas então, um dia, fui intimado a simplesmente terminar com ela. Foi estranho, devo admitir, de longe o comportamento mais bizarro que já vi partindo dele. Eu não pretendia apresentá-la a ele, não quando não tinha total certeza do rumo que aquilo tomaria, mas acabou acontecendo. E nada indicava que ele surtaria ou algo parecido. Foi a primeira vez que o vi mandar em mim, até mesmo me ameaçar. “Essa garota vai nos trazer problemas”, ele disse e repetiu mais de uma vez, ignorando todas as minhas dúvidas sobre da onde raios ele tinha tirado aquilo. Até hoje, aliás. Mesmo que não fizesse sentido, que ainda não faz.”
“Acredito que foi dessa grande briga que Margot deve ter comentado. A discussão calorosa onde ameaçou me entregar e desabar com todo o esquema, planejando agir como a primeira testemunha no banco do tribunal. Infeliz miserável — ele trincou os dentes, apertando os nós dos dedos — Ele me deixou louco de ódio nesse dia. Agindo como um perfeito maluco desesperado, com pressa para se livrar de Margot. Depois de muito tempo, me vi sem rumo e sem uma solução concreta, mas mesmo assim disquei o número dela e pedi para encontrá-la na entrada do portão. E então, depois de umas belas palavras burras em forma de gritos, terminei com ela ali mesmo.”
— Puta merda… — Falei depois de alguns minutos, soltando uma respiração pesada. Não consigo imaginar a expressão confusa de Margot ao encarar as costas de Ash enquanto ele simplesmente ia embora.
— Como eu disse: desgraçado dissimulado — Ele riu, de forma mais leve desta vez, finalmente pegando um novo Malboro e o acendendo entre os lábios, dando uma forte tragada antes de voltar a falar — Se Margot não me matar, pelo menos isso vai.
Ele estendeu o pacote pra mim. Neguei com a cabeça.
— Onde esteve durante os três dias? — perguntei.
— O que você acha? Revendo a droga da minha vida inteira — ele passou uma mão pela cabeça, encarando a neve logo mais à frente — Não adianta levar os fatos em consideração quando colocam uma faca no seu pescoço, entende? Nunca me senti tão baixo e tão desprezível depois daquilo, mas não tive muita escolha. pode ser um tremendo filho da puta, o maior que já existiu, mas não é muito inteligente ignorar suas ameaças, ainda mais no estado em que estava.
“Durante esse tempo, posso imaginar todo tipo de coisas que Margot deve ter pensado. E que com certeza foi contar à , que bem tentou falar comigo, mas é claro que a impediu. Você precisa entender: assim como Margot, também não sabe de metade de todo o esquema em que eu divido com , e sei que ele não reagiria bem caso ela tentasse saber demais. Ele pode ser um perfeito porco quando se trata de gentilezas, a não ser quando está na presença do próprio pai. E pensar que eu poderia me foder de formas inimagináveis atrás de alguma prisão de segurança máxima no interior de algum estado americano enquanto ele continuaria a dar suas festas, indo à formatura e ganhando ainda mais dinheiro com o emprego pronto que seu pai deve arranjá-lo no governo, me deixava louco. Consegue sentir o quanto eu queria matá-lo? O quanto eu estava literalmente puto por ter permitido que as coisas chegassem nesse ponto?”
“Mas eu não podia aceitar o controle dele sobre a minha vida, não. Não dessa forma escancarada, invasiva, de um jeito que ele havia prometido que jamais faria. Era o maior golpe sujo que eu poderia sofrer. Foi então que, ao menos, eu poderia usar uma habilidade que ele não tinha: a discrição. E receberia o mesmo de Margot. Então liguei pra ela e tentei consertar tudo.”
— Essa é a parte que ficou sabendo na Gibbons… — falei, lembrando do ocorrido na mesma hora em que soltou uma risada.
— Ah, foi sim, por sua causa, ! — ele balançou a cabeça — Mas não importa. Não durou muito mais tempo depois de ela decidir me dar uma nova chance. Alguns dias depois ela estava afogada no próprio vômito.
Virei o rosto, observando o semblante totalmente atormentado de . Não podia me intitular como o ser humano mais empático do mundo, mas senti um nó na garganta ao imaginar todo o choque e tristeza genuína que ele deve ter sentido ao perder sua garota literalmente de um dia para o outro.
— Eu sinto muito.
Ele ergueu os olhos para cima, me encarando fixamente antes de erguer o canto da boca em um mero sorriso.
— Ninguém nunca me disse isso — Ele limpou a garganta — Debaixo da vista de , ninguém jamais diria mesmo. Não sabia que ouvir isso poderia ser… Reconfortante — ele inspirou devagar — De qualquer forma, eu o deixaria bem nervoso se demonstrasse qualquer tipo de mágoa ou luto, não importa o quão injusta era a situação. Mesmo que eu tivesse certeza que ela nunca faria isso consigo mesma.
— Você pensou em fazer alguma coisa? — perguntei — Em tentar descobrir o que aconteceu com ela?
Ele sorriu mais uma vez, mas desta vez parecia haver ainda mais tristeza do que antes.
— Sou acomodado, se lembra? — ele desviou os olhos, levantando os ombros — E me descobri um covarde também, ao pensar em ter de entrar nessa sozinho. Bom, pelo menos até você chegar. Acho que dois é realmente melhor do que um.
Sem perceber, comecei a rir. Nada muito alto e nem duradouro, mas a frase de repente se tornou um ponto hilariante quando pensei sobre ela. Quando notei que ali estava eu, certo que jamais compartilharia do meu segredo e — pior ainda — coisas sobre ele com outra pessoa que não fosse Jane; assim como também carregava a filosofia de quanto menos gente ao redor melhor, pra poupar a minha criatividade de desculpas esfarrapadas pelas situações com os mortos, e entre outras coisas, simplesmente fazendo tudo isso e mais um pouco. E concordando com o que ele havia acabado de falar. Era tão literal que eu não tinha escolha a não ser achar engraçado.
O fato de que também tinha esperanças de ser um cara solitário a vida toda e acabou tomando a mesma rasteira que eu, tornou tudo ainda mais divertido.
— Acho que precisaremos de bem mais do que dois pra seguirmos em frente com isso — Falei depois do surto com as risadas, deixando um intervalo de silêncio ao retornar para o ponto principal.
— Ela disse mais alguma coisa?
Pensei sobre o acidente que ela de fato havia falado, e de como aquilo não se encaixava em nenhum ponto da história, ainda mais depois de ouvir o lado de . Se ele não soubesse, eu poderia considerar aquelas palavras como um devaneio de suas lembranças bagunçadas?
— Talvez… Ela tenha dito algo sobre um acidente.
— Que acidente?
— Eu não sei. Ela literalmente disse acidente e repetiu algumas palavras confusas, e alguns números… Enfim, confusos. — Franzi os lábios ao tentar me lembrar deles, mas não tive sucesso. Concluí que não deveriam ser tão importantes assim.
— As informações que te arrumei hoje ajudaram em alguma coisa? — Ele perguntou depois de notar que não havia mais nada a acrescentar.
— Pode-se dizer que sim. E mais um grande não sei — ele soltou uma risada seca — Mas me mostrou claramente quem estamos enfrentando. Ou pelo menos uma parte disso tudo.
— Tá falando sobre o outro? O fantasma maluco atrás da ? — concordei com a cabeça — Ele tem alguma coisa a ver com o assassinato da Margot? Por isso ‘tá controlando ela dessa forma?
— Parece que não. Sei que pode parecer estranho, mas ele a está usando pra chegar na , para que ela continue com a investigação e assim ele poder pegá-la. Margot não é nada mais que um bode expiatório.
Bufei, aquecendo as mãos nos bolsos do jeans. A inércia em que me mantive enquanto escutava a história de não me deixou perceber o quanto estava congelando ali fora, e o quanto eu parecia sentir ainda mais frio toda vez que pensava em e em todo o rebuliço da situação.
Situação essa que eu não podia mais guardar pra mim.
— Tá me dizendo que essa investigação é inútil? — Ele se virou pra mim, com um olhar que me desafiava a respondê-lo. Senti o conflito de interesses que girava em torno de /Margot/ e percebi que havia caído em uma rede mais embolada do que pensei.
— Não é. — Minha voz saiu firme e confiante — Margot merece saber quem a matou.
— Então pode me dizer porquê tem tanta importância nessa história a ponto de usarem Margot de isca? — Ele arqueou as sobrancelhas — Aconteceu mais alguma coisa na sua noitada no cemitério?
Não sei, apenas conheci o irmão morto dela. Seria uma boa resposta, bem curta e grossa, mas tinha a impressão de que me atacaria com sua muleta se eu soltasse mais um “não sei”.
De qualquer forma, eu precisava contar. Ele já me olhava impaciente, sabendo que eu escondia informações na manga, coisas importantes. Mesmo que eu parava pra pensar na melhor forma de contar e nada saía porque percebia que nada estava muito claro. Como quando você vai apresentar um trabalho de escola sem estudar e fica parecendo uma porta falante. Era exatamente o que estava acontecendo: eu não tinha total certeza de quais eram as verdadeiras intenções de , muito menos as futuras. Quando concluísse seu plano, no caso. Caso conseguisse.
Mesmo assim, apertei o botão do foda-se. Eu não podia ser tão contraditório ao me tocar, horas antes, de que não podia fazer nada daquilo sozinho e recusar toda a ajuda que pudesse logo depois. Porque deixar no escuro, lhe fornecendo apenas parte das informações que eu tinha não iam valer de nada.
Quando vi, eu já estava despejando tudo, desde a noite em Woodlawn, com todas as informações picadas e estranhas de Margot, ocultando — é claro — toda a conversa bizarra e frustrante que tive com logo depois, quando ele fez questão de destruir a minha mente com o passado. Não, definitivamente não precisava saber disso. Nem eu precisava.
Vi o momento exato em que a bituca do Malboro escorregou de seus dedos e sua pele ficou mais pálida do que o normal.
— O irmão… Jesus Cristo, ! Como o irmão da chegou nessa história?
— Você vai fazer aquela cara de bosta se eu disser que não sei?
— Mas… Puta merda! — ele tirou o boné, claramente chocado — E ele… Eu imaginei que você tinha visto algum defunto hoje mais cedo, e devia estar um completo lixo pra não prestar atenção no trânsito, mas não imaginei que seria isso, não imaginei nada disso.
— Ah, pode crer, eu muito menos. Minhas manhãs costumam ser bem mais tranquilas.
Ele arfou, ainda com os olhos baixos e arregalados, se aproximando de mim logo em seguida.
— Você acha que a fez alguma coisa com ele? — ele falou baixo, e parecia assustado. Queria dizer que se ele estava daquele jeito apenas pelo modo como o descrevi, ele teria um belo ataque cardíaco se pudesse vê-lo cara a cara — Quer dizer, eu já li algo sobre espíritos vingativos e seus rancores com suas vítimas, eles são…
— Por favor, não estamos em uma série de TV — revirei os olhos, estalando a língua — Fantasmas vingativos não atormentam suas vítimas derrubando quadros ou puxando seus pés de madrugada. Os mortos nem vagam assim por aí, se quer saber. Acha que uma casa é mal assombrada por que tem tiras de madeira na janela e pintura desbotada? Ah, pois adivinhe só, a maioria delas não possui nada além de ratos. Aposto que sua irmã deve saber disso — Abri os braços, dizendo o óbvio — Mas o irmão da ultrapassa tudo que eu já vi. Ele é assustador e extremamente perigoso. Não é do tipo que vai embora depois de algumas horas de conversa, ou que tenha alguma pendência para resolver por aqui. Não, ele só tem um alvo e um objetivo e não ‘tá nem um pouco paciente com quem tenta interferir no caminho. Apesar de tudo, eu segui mesmo assim, mesmo sem saber como lidar com isso, não ainda. Exatamente por isso eu preciso que você entenda o quanto isso tudo é perigoso, e completamente imprevisível. Eu literalmente não faço ideia dos seus próximos passos e da próxima vez que ele me encontrar, provavelmente vou ser o mais novo estudante morto da Columbia.
permaneceu imóvel, a cabeça abaixada enquanto batia os dedos na aba do boné, claramente pensando em tudo que acabei de dizer. Eu não queria acreditar que ele estava confuso de algum jeito. Não poderia estar, não é? Eu deixei bem claro que o resultado mais provável daquela empreitada era a morte certa.
Ele repuxou os lábios, abrindo e fechando a boca várias vezes antes de responder:
— Por que?
Pisquei os olhos, tentando entender se a pergunta era direcionada a mim ou mais um de seus devaneios.
— ‘Tô seriamente curioso: você é a porra de um herói ou tem mais nessa história que te interessa além de ?
Era incrível como eu escutava o nome dela e já abria a boca desesperadamente para negar qualquer que fosse a hipótese que poderiam ter sobre nós; sobre eu estar apaixonado e vice-versa, mesmo que a firmeza na minha voz andava bem abalada ultimamente. Mas essa não foi a pergunta. E percebi, depois de alguns minutos, que a resposta poderia ser sim.
Havia mais do que apenas . Não que ela não importasse, na verdade, ela importava mais do que eu gostaria (e que nunca soubesse disso), mas quando eu pensava em e em todas as suas palavras, eu não pensava apenas no rosto dela. Eu pensava nas perguntas. Um tsunami delas, todas implorando pra serem saciadas, meu subconsciente participando de toda essa confusão enquanto gritava escandalosamente: me dá um passado, poxa vida! Eu só quero uma identidade, um nome, é pedir muito saber se meus pais de verdade estão em uma vala ou jantando na Inglaterra com novas famílias? Vai, , pergunta pra ele, você sabe que precisamos saber…
Então talvez meu silêncio reflexivo tenha sido a resposta que ele precisava.
— Se te serve de consolo, minha cabeça também está na guilhotina — ele sorriu, suavizando a expressão dura de antes — E pelo visto somos um trio com passagens compradas pra morte. Não acha que tem o direito de saber que seu querido irmãozinho é nosso maquinista?
Ri sarcástico, sentindo o nariz doer por uns instantes pelo frio intenso.
— Você acha que é simples assim? “Olá, , bom dia, sabe o , seu irmão? Andei conversando com ele ultimamente e ele parece chateado com algo que você fez, inclusive pretende resolver pessoalmente. Toma cuidado por onde anda, viu? Ele tá uma fera. Ah, falando nisso, eu vejo gente morta, sabia?”
— Bom, você a faria rir pelo menos. Aposto que gosta do sorriso dela.
— Idiota.
Ele riu alto, colocando uma das mãos no bolso, mantendo o riso até que se esvaísse em uma linha fina de som, e o silêncio se instaurasse de novo. Não era nada constrangedor ou pesado. Nele, algo entre eu e parecia ser reforçado.
— Ei, — disse depois de um tempo, e apenas murmurei em resposta — Você já parou pra pensar que os atributos normais de um fantasma não se aplicam ao porque… Bem, ele pode não ser um fantasma?
Olhei pra ele, confuso.
— Já pensou que ele pode ser como um anjo da morte? Alguém que também levou uma rasteira do destino e agora não tem controle sobre sua própria alma?
Eu quis rir. Quis gargalhar e repetir pra parar definitivamente de virar as noites assistindo alguma série sobrenatural da Warner, ou que me poupasse de suas ideias malucas. E até consegui emitir um sorriso desajeitado, uma risada que saiu tão seca que arranhou minha garganta.
Aquilo beirava ao ridículo.
— Vou apenas dizer que não sei — respondi.
Ele suspirou.
— Você devia se chamar Jon Snow.


***


estava no mesmo lugar.
Atravessei a sala com passos inaudíveis, acostumando meus olhos à escuridão até bater a porta do quarto atrás de mim, quando finalmente larguei os tênis no carpete e tirei o casaco pesado.
Deslizei rapidamente para debaixo dos cobertores, aliviado pelo aquecedor tê-los mantido quente e apaguei o abajur da mesinha de cabeceira, mergulhando o quarto no breu.
Pela fresta da cortina meio aberta, vi o céu se tornar azul escuro, quase preto, trazendo a aurora que iniciaria um novo dia. O sono e o cansaço me tomaram de tal forma que não aguentei olhar por muito tempo. Se dormisse agora, poderia facilmente acordar só no Natal. Mas se somasse minhas horas de sono desde a semana passada, eu precisava dormir pelo menos um dia inteiro pra repor todo o estoque desfalcado.
Talvez já estivesse acontecendo e eu estava tão bêbado de sono que não percebi. Ou estava acontecendo exatamente por eu não estar muito lúcido na hora.
Não fazia ideia de que horas eram, nem mais a cor exata do céu. Eu sentia pontadas agudas de dor na mão engessada, mas eram sensações distantes, muito abafadas pelo meu cansaço. Eu logo voltaria a dormir e não me lembraria mais dela, podendo muito bem resolver o desconforto quando acordasse. Abri um pouco os olhos, vendo apenas o vulto da arara de casacos ao lado do banheiro. De costas para a janela. Deitar de costas para a janela significava que eu só podia estar soterrando o meu braço machucado no descontrole do meu corpo durante o sono. Fechei os olhos lentamente enquanto virava o corpo para o outro lado, como se ele não fosse meu, como se os movimentos fossem fruto da minha imaginação. Me acomodei novamente na nova posição e me preparei para ser levado pela exaustão de novo.
Só que um estranho zumbido começou a ecoar nos meus ouvidos, também distantes, tudo parecia a quilômetros de distância. E uma fenda pequena do ambiente apareceu enquanto eu abria um pouco os olhos, enxergando nada além de um borrão. A janela à minha frente permanecia do mesmo jeito, a cortina semi aberta voava de forma violenta, como se fosse puxava para o lado de dentro. O vento estava assim tão forte do lado de fora? Por que eu não o sentia?
E desde quando a janela estava aberta? Eu havia ligado o aquecedor.
Ah, que se dane. Eu precisava dormir, e não estava disposto a me importar com alguns dólares a mais na conta de energia.
Fechei os olhos novamente. Que o mundo fosse invadido por extraterrestres, mas que eles me deixassem dormir.
O zumbido de novo. Abri novamente a fresta dos olhos, vendo não apenas o borrão, mas tudo à minha frente em câmera lenta. O vento continuava a balançar a cortina, mas de uma forma mais simplória, como se mãos invisíveis estivessem estendendo um lençol. Fechei-os mais uma vez e tentei abri-los por completo. Uma ondulação nos cobertores ao meu lado me fez ajeitar a cabeça para cima. Mover qualquer músculo estava sendo literalmente estranho, eu parecia um fantoche. Mais especificamente, um fantoche dopado.
Mas fantoches sonham? Besteira, é claro que seres inanimados não sonham, mas eu só poderia estar em um. Isso porque, quando terminei de mover a cabeça como uma ameba para cima e finalmente pude abrir os olhos direito, ainda cerrando-os contra a ardência do cansaço extremo, vi uma pessoa deitada ao meu lado.
E ela olhava diretamente pra mim, com os olhos arregalados demais para uma presença amigável.
Eu gritaria de susto se não fosse a fraqueza dos meus músculos. Acho que cruzei as sobrancelhas, ou acho que tentei me afastar quando notei o corpo virado em minha direção, mas, a repentina luz forte da lua que entrou pelo ponto descoberto da janela pairou logo à frente de seu rosto, e eu fechei os olhos novamente. Meu deus, aquilo não era um esgotamento normal, eu mal conseguia manter os olhos abertos.
— É você — Ouvi minha voz dizer, mais um som estranho que estava vindo de algum ponto da minha cabeça — Há quanto tempo, vó.
Ela não se mexeu um centímetro. Eu não precisava abrir os olhos pra saber que ela estava parecendo terrivelmente assustadora só por estar daquele jeito.
— Como você está? — perguntou ela, mas não parecia ser ela. A voz parecia seca e cansada, tão cansada quanto eu estava naquele momento — O seu braço… Olha o que ele fez com o seu braço…
Ela fungou, e tentei abrir os olhos novamente. Eu parecia estar usando um óculos de pelo menos quinze graus de miopia, porque tudo à minha frente não passava de um esboço. Eu sabia que estava ali pois via sua silhueta e ouvia sua voz, mas eu não conseguia enxergá-la como fazia normalmente. Que estado maluco era aquele?
Senti seu toque em meu gesso, e seus dedos passeando em cima dos meus. É, ela estava ali, eu não estava louco.
— Como você… — me preparei para perguntar como ela sabia daquilo, mas desisti ao sentir a fisgada na cabeça e fechar os olhos de novo. O zumbido aumentou três oitavas por meio segundo antes de diminuir de novo — Por onde andou?
— Não importa — ela fungou de novo, desta vez com a voz embargada. Ela estava chorando? — Eu só precisava saber que você estava bem. E também te pedir desculpas.
— Desculpas? Pelo que? — falei novamente, mal conseguindo completar a frase — Vó, estou muito cansado agora, acho melhor conversarmos depois…
— Eu não tenho muito tempo, — sua voz saiu com mais firmeza, me obrigando a abrir os olhos apesar da dor — Você precisa me ouvir.
Tentei me sentar, mas era inútil. Tive certeza de repente de que aquilo ali não era a realidade porcaria nenhuma. Que eu estava afundado em alguma névoa estranha que restringia meus movimentos. Mas meu deus, como ela queria conversar em um lugar desses? Eu mal captava direito suas palavras.
— Vó, se for sobre aquele dia na biblioteca, não precisa…
— Eu menti pra você, — ela disse novamente, e a silhueta de seus dedos apertaram o travesseiro logo abaixo — Meu deus, como posso dizer apenas isso? A verdade é que sempre menti. E ocultei, o que não sei se é melhor ou pior. E sou tão covarde, tão desonesta que não tenho coragem de te contar, nem mesmo nos meus últimos momentos. Mas você vai acabar descobrindo, com certeza vai, nunca subestimei sua inteligência. Exatamente por isso joguei sujo por tanto tempo.
— Do que está falando? — minha voz estava totalmente grogue, por mais que eu tentasse mantê-la estável. Se minha vó queria me confundir àquela altura de inconsciência, ela estava querendo brincar com a minha cara — É sério, vó, eu não…
— Eu sinto muito, — ela parecia prestes a cair no choro de verdade. Pegou em minhas mãos em um movimento desesperado, apertando-as contra as suas — Sinto muito, sinto tanto. Eu não podia… Eu não aguentava. Você se parece tanto com ele, mesmo nos primeiros meses de vida. Parecia exatamente de quando eu dei à luz, tão pequeno e tão inocente. Você sempre foi inocente, meu querido, sempre saiba disso. Nada, absolutamente nada é culpa sua.
— Para… — senti os dentes trincarem, o zumbido aumentar. Não, eu precisava sair desse sonho, ou do que quer que fosse isso, precisava dormir de vez ou acordar, mas não aquilo! De jeito nenhum aquilo!
Eu senti ondas de um pesadelo se formando.
— E eu fiz o que pude pra te proteger. Durante todo esse tempo, eu pensei que estava fazendo meu melhor, mesmo errando várias vezes. Mesmo pensando que excluindo memórias fosse a melhor coisa pra que você vivesse uma vida mais perto do normal, uma em que você não sofresse tanto. Meredith e Ryan fizeram esse trabalho como ninguém, e não me arrependo de tê-los escolhido para cuidarem de você. Você cresceu tão forte, esperto e corajoso. Tão como seu pai que, diversas vezes, parecia que eu estava olhando pra ele. Olhando pro meu menino… Como não percebi antes que você jamais seria capaz de ficar parado enquanto outra pessoa inocente sofria consequências tão brutais? Eu sabia, no fundo era óbvio, eu só não aceitei de imediato… Porque sabia o que se tornaria, e eu não podia passar por isso de novo — Ela soluçou alto, tão alto que eu pediria para fazer silêncio pra não acordar o cara no meu sofá se eu não soubesse que ele não era capaz de escutá-la — Eu… Eu não mereço sua confiança, muito menos a sua estima. Dediquei minha morte a consertar meus erros de vida, mas não foram o bastante, e sei que jamais serão. Nunca fui uma boa filha, muito menos uma boa mãe, e cometi o maior pecado de todos ao não cuidar bem do meu filho, no momento em que ele mais precisou. Nem imagino o quanto ele sofreu, o quanto ele aguentou… — Ela balançou a cabeça, ou eu acho que era isso — Por isso você tinha que viver, . E garanti isso até aqui, até agora. Mas… creio que não vou avançar muito mais.
Tentei puxar minhas mãos, mas ela as segurava em aperto de aço. Bufei, começando a me irritar com aquela condição cega, um desespero urgente começando a nascer no peito. Eu tinha que acordar, aquilo tinha de sumir…
— Não faz isso… — comecei a falar novamente, lutando para manter os olhos abertos até que parassem com a palhaçada e me mostrassem ela nitidamente, até que ela se materializasse como sempre — Eu não consigo te ver… Cadê você…
— Eu não tenho mais forças — Ela disse novamente, ainda em meio aos soluços — Nunca tive muitas, mas elas foram se enfraquecendo com o passar dos anos. Nada que eu já não esperasse. Talvez, depois que eu desaparecer, todas as memórias que eu arranquei retornem pra você. E isso inclui a garota — Ela suspirou, tentando controlar as lágrimas — Você talvez tenha de explicar algumas coisas, mas isso não importa agora. Eu devia tê-lo ajudado em vez de tentar afastá-lo. Sinto muito, muito. Vocês dois não tem culpa de nada. Eu sou a maior culpada por não te contar, e por tentar adiar o inevitável. Por favor, espero que me perdoe. Mesmo que eu desapareça sem deixar nenhum legado, estou feliz por ter sido rápida o bastante pra te salvar dele da última vez… Não sei se sou capaz de fazer isso de novo — Ela soluçou forte mais uma vez, soltando uma tosse estranha e violenta. Pedi mais uma vez que parasse. Pedi desesperadamente por isso! Eu não podia ouvir essas coisas naquele estado, não podia ter revelações de nenhum tipo daqueles, pelo amor de deus, eram coisas demais, eram enigmas demais, ela precisava parar!
— Era você… — murmurei novamente, lutando contra o torpor — No acidente…
— Não consegui segurá-lo por muito tempo. E tenho certeza que ele virá atrás de mim na primeira oportunidade — Ela me interrompeu, limpando a voz — Presta atenção, . Independente do que acontecer comigo, você precisa sobreviver, entendeu? Sei que há muito tempo você não precisa da minha ajuda, e espero que tudo que eu tenha ensinado venha a calhar agora. Você só precisa saber a hora certa de correr, me entendeu? Diga que entendeu.
— Eu… — apertei sua mão com mais força, como se desse jeito eu pudesse vê-la melhor — O que está acontecendo? Por favor, me acorda, eu não consigo…
— Você não conseguiria me ver mesmo que estivesse acordado, querido — Ela fungou, e senti uma lágrima nas costas das mãos — Me escuta. Estou usando minhas últimas reservas para que você não se esqueça disso. Sei que tem um voo marcado para a Califórnia na véspera de natal, e você deve passar essa data com a sua família. Na primeira oportunidade, antes do ano novo, preciso que dirija até o Melbourne e peça à Dundy o brinquedo do seu primeiro natal. Você não entende agora, mas ela vai, eu te garanto. É importante que você saiba, que você finalmente abra seus olhos e aja conforme seus instintos. Eu não podia ir te deixando perdido do jeito que está. Peço perdão por isso também, por tudo.
— Não… — agarrei suas mãos, puxando-as pra mais perto. Não sabia se deu resultado. Ela parecia estar sumindo cada vez mais — O que está fazendo, vó? Pra onde está indo… Volta aqui…
Senti seu braço sofrer espasmos e ficar mais leve, seguido de mais uma tosse cruel. Mesmo que eu ainda sentisse sua pele, ela parecia estar perdendo consistência. Tudo ficava cada vez mais estranho, e eu não gostava do rombo em minha cabeça que ela estava causando.
— Eu sou sua avó, . De verdade. E me arrependo amargamente por não ter deixado claro desde o início o quanto você teve pais maravilhosos, que te amaram da forma mais pura e genuína que um coração pode aguentar. E você cresceu forte e bondoso, mesmo que orgulhoso demais para demonstrar isso aos outros, porém tendo total disposição em se arriscar por aqueles que você realmente ama. Sei o quanto você deve ter aguentado sozinho, o quanto está agora, todas as dúvidas e medo de sua origem, o medo de se entregar demais, mas saiba que as pessoas também podem fazê-lo mais forte. E que nunca vou deixar de dizer o quanto sua habilidade é um dom necessário, que te torna virtuoso e importante, mesmo que não acredite em nada disso. Você é mais especial do que pensa, querido — Ela respirou fundo, e eu já não conseguia mais ver a cor de seu cabelo — Se lembra quando nos vimos pela primeira vez? Quando eu disse que seu nome era lindo e perguntei quem o havia dado a você. Você logo respondeu que foi a Dundy, sem nem hesitar. Disse que gostava dele, que o fazia se sentir parte do mundo, mesmo que não houvesse um sobrenome. E Meredith se alegrou com essas respostas, mesmo podendo ir ao primeiro cartório e lhe dar um nome de sua escolha para representar um recomeço, mas ela levou em consideração seus olhinhos brilhantes ao repetir que já tinha um nome. Mesmo que você não fizesse ideia do quanto ele era realmente importante — Ela tremeu mais uma vez, e eu não via mais pernas por cima do cobertor — Seu nome… É notável porque foi dado por seus pais. Gravado em uma pequena pulseirinha barata que fiz Dundy escondê-la imediatamente e pensar que tivera algo a ver com tudo isso. Antigamente, eu era capaz de fazer tal coisa. E tive de fazer, tinha que afastar qualquer menção aos seus pais que pudesse. Talvez essa fosse a única herança que foram capazes de deixar com você. Um nome. Só um nome… — Ela tossiu uma vez — Mas é o seu nome. Um nome dado antes mesmo do seu nascimento, talvez muito antes disso, quando os olhos deles se cruzaram pela primeira vez. Posso apostar a eternidade que o destino começou a agir ali, e sua concepção foi marcada para algum dia de setembro de algum calendário. E você foi esperado, e amado, muito amado. Tanto amor só poderia resultar em um bom coração e o homem destemido que você se tornou. Seus pais com certeza estão muito felizes… — sua imagem tremeluziu, e senti a mão se afastar — Acho que preciso…
— Não! — Tudo começava a ficar escuro de novo. Senti os lábios tremerem, um nó pesado na garganta, uma vontade de gritar. Senti o nariz queimar, a boca ficar seca, um desespero que não aguentaria por muito mais tempo — Não, não vai embora! Por favor, não vá embora… Por favor — Ouvi o meu próprio soluço, os olhos se arregalando na força, mas eu não via nada. Só a escuridão.
— Você vai ficar bem, eu sei que vai. Proteja as pessoas que você ama… Da retaliação injusta que você enxergou primeiro do que eu.
— NÃO! Não vai embora agora… POR FAVOR! Vó, por favor, não vá embora... VÓ!
— Eu… amo…
— NÃO! Onde você está? Me dá a sua mão, se segur… Não, não, não, segura a minha mão! NÃO VÁ! Vó, por favor, não vai...
— … Você…
— Anda logo, segura a minha mão, me acorda desse sonho! Vó, segure a minha mão! Não tem… — Um pigarro escapou de minha garganta, e eu sentia o peito descer e subir como se estivesse correndo. Como se não estivesse mais deitado, mas sim vagando sem rumo naquela escuridão, desesperado e atônito, preso na agonia — Não tem mais graça… — Funguei, arregalando os olhos de forma catatônica para forçá-los a se manterem abertos. Eu não ouvia mais nada, não sentia mais sua presença, não sentia absolutamente nada. Só o calor fugindo do meu corpo, dando lugar um sentimento horrível de desesperança que não me lembro de ter sentido.

— Por favor, eu preciso de você, por favor! Não posso fazer isso sozinho, não posso enfrentá-lo, por favor…
… Acorda…
— Não vai, eu te imploro, vamos resolver juntos! Por favor, onde está você?! ONDE VOCÊ ESTÁ? NÃO ME DEIXA SOZINHO, NÃO SOLTA A MINHA MÃO, VÓ, POR FAVOR… por favor...
!
Senti um chacoalhar da cabeça, abrindo os olhos em um solavanco, desta vez de verdade. Encarei um ambiente iluminado e o rosto de acima do meu. Seus olhos estavam arregalados e mais assustados do que já vi em toda minha vida.
Eu arfava, como se tivesse corrido uma maratona. Empurrei seu peito para tirar sua cara da minha panorâmica, sentando-me com pressa enquanto parecia estar prestes a ter um choque anafilático. Não conseguia respirar, não conseguia pensar em nada. Sentia a camisa grudando nas costas e o suor descendo pela testa, como um verdadeiro ataque de pânico. Eu não via nada, absolutamente nada à minha frente.
… Meu deus, , o que aconteceu? Fala comigo, por favor…
Senti seu toque em meus ombros, que repeli de imediato com um tapa inesperado. Ele se afastou, ainda com o semblante em choque, e eu não sabia o que fazer. Eu parecia um gato assustado, tremendo da cabeça aos pés enquanto ainda parecia estar vivendo a sensação mais perturbadora de toda a minha vida, acompanhada de um zumbido ainda insistente no fundo de minha mente.
Queria gritar, correr, entrar em contato com o SAC responsável do mundo dos mortos para que me explicassem o que diabos havia acabado de acontecer e pra onde caralhos haviam levado a minha avó, mas não adiantaria muito se eu continuasse parado e tremendo como estava.
Olhei pra mais uma vez, o bastante para que eu finalmente me esforçasse para começar a me acalmar. Ele estava pálido e com medo de se aproximar, não que eu o culpasse disso. Deveria ser claramente a primeira vez que ele me pegava num estado tão fora do normal, mesmo com todas as outras esquisitices da lista.
— Eu… — Comecei, a voz tão seca que tive de engolir várias vezes para voltar a falar — Acho que tive um pesadelo. Foi mal.
continuou parado, e só então percebi o quanto ele apertava os jeans largos na área da coxa para esconder o nervosismo. Será que gritei tão alto como pensei?
— Puta que pariu, … — Ele suspirou pesadamente, afrouxando o aperto — Eu te gritei tantas vezes e tentei te acordar, mas devo ter levado pelo menos cinco golpes enquanto você se debatia feito um maluco nessa cama. E estava gritando pela sua avó, o que aconteceu? Recebeu uma ligação tarde da noite da sua mãe ontem? Sua avó está bem? Ela parecia estar quando me deu 50 dólares no verão passado…
Trinquei o maxilar, começando a me levantar de fato. As cortinas retinham grande parte da luz, e as janelas estavam perfeitamente fechadas. As provas vivas de que tudo não passara de um pesadelo tenebroso.
— Que horas são? — Perguntei, caminhando para o banheiro. Foi um sonho. Eu estava exausto. Um pesadelo do mais terrível, mas não passava disso.
— Três horas — ele respondeu, vindo atrás de mim — Ei, cara, espera aí, você não pode levantar assim. Ouviu que eu disse que você parecia um garoto possuído, igual naquele filme, Invocação do Mal? Acho que isso pode ser aquela coisa estranha, terror noturno, eu acho. Você não tem dormido muito bem mesmo…
— Virei para ele no meio do caminho, respirando fundo para que a resposta viesse curta e rápida — Sei que posso ter te deixado preocupado, mas não foi nada demais. Todo mundo tem uns pesadelos de vez em quando. Vou tomar um banho, não quer me preparar um sanduíche? — Ergui uma sobrancelha, enquanto ele me avaliava (novamente) como se eu tivesse um diagnóstico de dupla personalidade.
— Eu posso…
— Ótimo, você é demais! Não tinha um trabalho pra entregar hoje? — entrei e apoiei as mãos na porta, pronto para fechá-la.
— Não vou te deixar sozinho…
— Acho que preciso ficar um pouco sozinho, se não se importa.
Ele tentou argumentar mais uma vez, mas logo ouvi sua respiração derrotada e uma despedida curta enquanto ele se virava para sair e eu rapidamente fechava a porta. Ancorei as costas na mesma, olhando para cima imediatamente enquanto minha cabeça girava, como se meu cérebro fosse despencar a qualquer minuto.
Sozinho, caminhei para o espelho, olhando a pele pálida e doente, os círculos embaixo dos olhos e as gotículas de sangue que escapavam do curativo na lateral da cabeça. Uma ânsia começou a me tomar à medida que as vozes do pesadelo se repetiam, e os tremores voltavam com toda a força quando eu me lembrava da sensação horrenda de sentir as mãos de minha avó desaparecerem sobre as minhas.
Liguei o chuveiro e arranquei a camisa suada. Abri a torneira da pia a fim de lavar o rosto com a água mais gelada que pudesse sair dali, um gelo que me acordaria na marra, que tiraria todas aquelas ideias malucas da minha cabeça, que me fariam voltar à realidade.
Foi quando baixei os olhos e olhei o gesso. E para algo que não estava ali antes.
Um traço fino e delicado desenhava elegantemente a inicial do meu nome, logo ao lado de um número 9 fechado em um quadrado perfeito. Era pequeno, quase imperceptível. Estava localizado logo na região da palma de minha mão, onde ela havia tocado antes de ir. Foi como se minha mente apagasse e o chão virasse geleia aos meus pés. Senti um frio absurdo, um frio fantasmagórico, enlouquecedor.
Meus joelhos cederam e a verdade me atingiu como uma bomba. Não, não, não! Foi um sonho, só um sonho! Um pesadelo do mais cruel e desumano, mas não a verdade. Não a realidade, não o maldito “é assim que é”, não, não! Eu não iria aceitar, eu não saberia como…
Olhei para o desenho de novo, como se ele me encarasse aos risos. A inicial não poderia ser minha e o número 9 não poderia significar setembro porque se fosse, indicaria que tudo aquilo não foi um sonho porcaria nenhuma. Significaria que tudo foi real, e por Deus, eu não podia aceitar tal coisa, não podia pensar no pesadelo…
Senti o peito apertar de novo, o terror se instaurar ao meu redor misturado com a raiva. De repente, me vi sem saída. Pressionado a aceitar a única opção viável à minha frente. Meu nariz ardeu em chamas enquanto eu sabia o que estava vindo, e por mais que me assustasse, não conseguia segurar. Enterrei o rosto entre os joelhos, abafando o som dos meus soluços, dos gemidos insanos que vinham da garganta, as lágrimas pesadas e quentes jorrando pelo meu rosto. A dor sem igual aumentava a cada confirmação que eu estava tendo naquele momento, uma após a outra. Eu mal conseguia respirar.
A dor insana que ressuscitava um sentimento tão adormecido que pensei que jamais sentiria. Ele se mostrou tão realista quanto um soco no estômago; a confirmação de não ter sido um erro. De ouvir, pela primeira vez, o quanto eu me parecia com eles. De ouvir que eles estavam orgulhosos de mim.
Afinal, eu tive pais. E eles me amaram, me deram um nome. Esse nome significava que eles me amavam, certo? E que não me largaram no topo da escadaria de um orfanato. Fui parar lá porque os pais — que me amaram — estavam mortos. Meus pais estavam mortos.
E de repente eu sabia disso. Tinha certeza. Como um conhecimento escondido, esquecido.
Meu deus, como aquilo doía! Por mais que sempre esperasse esse dia, que já tivesse pensado na possibilidade, não imaginei que doeria tanto. Que o sentimento me asfixiasse, torcendo meu peito como uma peça molhada. E estava doendo, doendo tanto. Se derramava dentro de mim de forma tão intensa e avassaladora, me fazendo querer bater a cabeça várias e várias vezes na parede. Era a maior loucura que eu já havia sentido, não tinha como descrever.
O discurso macabro de minha avó dançou em minha mente, cada palavra cravada como tatuagem em minhas lembranças. Tive a impressão de que jamais me esqueceria delas, por mais que tentasse, por mais que pedisse por isso. Fechei os olhos, quentes como o inferno, jorrando lágrimas como ondas enquanto tentei chamá-la mais uma vez. E outra, e mais outra. Caí para o lado em derrota, juntando os joelhos na barriga, lembrando-me com horror de sua voz fraca e urgente, sumindo bem à minha frente, sem ao menos poder vê-la… ela tinha sumido! Soltei uma risada bizarra, saindo em um gorgolejo de soluços e fungadas, pensando seriamente que eu ainda deveria estar em outra dimensão paralela por pensar daquela forma. Não é que ela pudesse morrer duas vezes. Não, ela não tinha morrido.
Mas tinha desaparecido. Sumido, evaporado no ar como os grãos de areia da costa de Carmel. E um aperto na laringe me dizia que nunca mais a veria de novo. Nunca mais escutaria seus conselhos e sofreria interferências desagradáveis.
Foi então que tudo começou a desabar.
E de repente, me senti mais sozinho do que jamais estive.


Capítulo 18 — Maldito Duke Ellington

A baía de Upper Bay não era tão bonita quanto a costa de Carmel.
O sopro gelado da maresia agora vinha acompanhado de um punhado de gelo. As ondas não faziam barulhos significativos pela falta de pedras e a poluição da terra firme tirava grande parte do prazer do turismo. Mas essas coisas eram o de menos. Eu não pretendia tirar nenhuma foto nova de família.
Só queria encarar a estátua da liberdade ao longe, desafiando-a a me dizer com todas as letras onde eu tinha errado.
O vento forte mal mantinha meu cigarro aceso. Não olhei as horas, mas considerando que a maré já quase alcançava o gramado da ilha da Liberdade, eu já estava afundado na madrugada. Outra vez. Mais uma delas onde eu esperava respostas do escuro.
Um foco de luz iluminou o perfil do meu rosto, desvencilhando-se logo em seguida. Ouvi passos apressados em minhas costas, mesmo que eu não pretendesse me mexer.
— Ei, garoto! — A voz grave foi ficando mais alta à medida que ele se aproximava. Virei a metade do rosto e ele apertou os olhos para enxergar melhor através dos óculos — O que está fazendo aqui? Qual é o seu problema? Vai morrer congelado se ficar aqui.
Soltei uma gargalhada, tossindo logo em seguida. Balancei uma das latas verdes ao meu lado, procurando uma que ainda tivesse um resquício de cerveja que eu possa ter me esquecido.
Morrer — murmurei, desistindo da minha busca — Eu vou morrer, senhor. Não quero, mas vou. A morte está um pouco perdida por aí agora, mas daqui a pouco deve aparecer para me dar um olá.
O velho arregalou os olhos, aturdido por um momento enquanto encarava minha posição: pernas jogadas para o precipício, bem acima da imensidão negra do mar e da morte certa. Bêbado e maluco.
— Olha, garoto... Acho que as coisas não precisam ser assim...
Franzi o cenho, ativando as engrenagens lentas do meu cérebro por causa do álcool, tentando captar sua atitude. Quando entendi, mais uma gargalhada avassaladora escapou de minha garganta, saindo com tanta vontade que arqueei as costas para trás.
— Não, não é isso — balancei as mãos no ar, como se o afastasse — Eu não sou um suicida, apesar de muita gente achar que sim, principalmente depois de uns lances recentes. Não, não sou, John, pode guardar esse telefone — eu não fazia ideia se seu nome era John — Apesar da vida ser um porre, a morte é uma baita filha da puta. Não quero encontrá-la tão cedo.
Ele olhou para os lados novamente, agora se perguntando se eu não precisava de médicos especiais.
Revirei os olhos e constatei que talvez fosse hora de ir. Dei uma última tragada no cigarro e joguei-o para o lado, apoiando-me em um dos braços para levantar, não enxergando muito bem quando minha mão foi de encontro a uma das garrafas vazias do parapeito, que logo tombou para o lado e caiu de encontro ao mar. Uma das minhas pernas quase foi junto, ou era o que pareceu, porque senti um forte puxão no meu ombro e os olhos de John me encarando agora com certa urgência.
— Você precisa ter cuidado! — ele grunhiu, me puxando para cima com uma força digna de vigias noturnas — Olha só pra você, está congelando! Sabe o seu nome e onde mora, pelo menos? Você precisa ir para casa...
— John... — chamei, a voz saindo mais embargada do que me lembrava — Você já perdeu alguém?
— O que?
— Perguntei se já perdeu alguém. Um parente, uma namorada, um grande amigo, coisas desse tipo.
Ele abriu a boca para responder, mas não teve muita vontade de fazê-lo depois. Imaginou que não valeria a pena e eu não me importava realmente com suas respostas.
— Vem cá, vou te ajudar a pegar um táxi. Você não pode ficar aqui — ele passou umas mãos em minha costas, conduzindo-me para fora da brisa.
— Eu perdi alguém — suspirei — Quer dizer, acho que perdi. Você já achou que perdeu alguém, John? E quando tentou confirmar, viu que não era possível? É uma sensação ruim, John, péssima. Parece que vai te matar — sacudi o corpo em mais uma risada. Ele apertou a mão em minhas costas — Mas desta vez foi um caso especial. Eu não sinto que perdi apenas uma, mas três pessoas. De uma vez só. Como em um acidente de avião violento, que cai no meio do mar. Você sente o luto, mas ele dói um milhão de vezes mais porque sabe que nunca vai poder se despedir direito. Porque os corpos desapareceram ou viraram comida de tubarão..
John desacelerou os passos, me avaliando pelo canto do olho. Ele engoliu em seco.
— Isso não diz muita coisa, na verdade — continuei — Eu nem os conheci, sabe? Então não preciso ficar triste desse jeito. Você concorda comigo, não é? Ainda mais porque eu só vejo a outra parte da população mundial que coexiste desde sei lá quando com a gente por causa deles também, e não sei se devo agradecer por isso. Você agradeceria, John? — virei o rosto para ele — Agradeceria se fosse perturbado por gente morta o tempo inteiro?
Ele freou os sapatos por um segundo, fazendo minha cabeça girar pela parada brusca. Suas pálpebras tremiam de leve; ele parecia um pouco incomodado, mas também parecia assustado. Eu não sabia dizer com toda certeza.
— Você tem alguém para te buscar?
— Prefiro dizer que não — respondi devagar. Ergui o braço direito, agora solto sem a tipoia, o gesso escondido sob o casaco — E acho que não consigo dirigir ainda.
Ele repuxou os lábios, tateando os próprios bolsos.
— Qual é o seu nome?
. Você gostou? Foi o nome que eles me deram.
— Você tem parentes, ? Alguém que possa ligar e avisar onde está?
— Nessa maldita cidade, que odeio a cada dia que passa, não tenho nenhum parente. A última que me restou parece ter sido abduzida por forças estranhas do além que eu não tinha conhecimento e já cansei de me sentir burro e fraco o suficiente por não ter impedido isso. Ela já estava morta, sabe, John? Eles podiam tê-la deixado em paz enquanto cuidava de mim, ou só ficava de olho em mim daquele jeito dela, não importa. Precisavam ter feito o que fizeram? Fazê-la desaparecer? Não acha que foi demais?
Ele respirou fundo e recomeçou a me empurrar direto para a avenida, onde o movimento era lento e eu não via carros amarelos.
— Vou chamar um táxi para você. Consegue se lembrar da onde mora? — perguntou em tom urgente, como se implorasse para que eu não fosse nenhum delinquente fugitivo de algum centro de reformatório.
— Mas, John...
— Meu nome é Matt.
— Matt! Bonito nome. Seus pais também que escolheram?
— Anda logo, garoto, antes que eu tenha de buscar você no banco de dados.
Levantei as mãos em sinal de rendição, cerrando os olhos enquanto repetia a localização da West End Avenue. Ele franziu as sobrancelhas, como se esperasse o endereço certo.
Bufei e procurei o molho de chaves no bolso da frente do jeans, erguendo-o na frente dele.
— Eu moro mesmo lá — balancei o coletivo de metais — Minha mãe insistiu, ela não confia nos dormitórios da faculdade. Mas foi bom no fim das contas; se eu encontrasse algum fantasma em um quarto compartilhado, isso me traria sérios problemas.
Ele piscou os olhos algumas vezes antes de puxar um objeto quadrado e preto, parecido com uma rádio patrulha e repetir algumas palavras nele, que não entendi. Em seguida, ele me encarou por um tempo antes de pegar no meu braço com um pouco mais de força e me puxar até o outro lado do pavilhão, onde parecia ser o estacionamento.
— Entra aí, garoto — ele apontou para um antigo Mustang 1987, e não sei como fui capaz de reconhecê-lo — Não posso te deixar ser preso antes do natal.
Ri baixo enquanto abria a porta do carona de forma desengonçada, me afundando no banco e encostando a cabeça na janela. Ele não demorou a entrar e ligar o motor, repetindo o endereço a fim de que eu concordasse. Apenas balancei a cabeça, vendo a cidade começar a se movimentar e tentando lutar contra uma possível vertigem.
— Quantos anos você tem? — perguntou ele de repente.
— Vinte e três — respondi, sem me mover.
— Você terminou com a sua namorada?
Mais uma risada que escapulia, desta vez uma tão seca e engasgada que tossi mais uma vez.
— É esse tipo de problema que leva as pessoas a encherem a cara por aqui?
— Terminou ou não? — ele grunhiu, tentando se manter paciente.
— Não, John. Não tem como coisas sem início chegarem ao fim.
— Então é um amor platônico?
— Platão não tem nada a ver com essa merda — murmurei — Amor também não.
Olhei para as luzes atravessando meus olhos do lado de fora. Toda a sucata de prédios e bancos de praça, as placas azuis que indicavam ruas que eu nunca entrei. Eu odiava tudo. Cada detalhe.
Ouvi uma pequena risadinha disfarçada ao lado.
— Se gosta dela, melhor ligar logo, rapaz. Se ela for bonita, alguém vai roubá-la de você.
— Ela é linda sim — sussurrei, captando as luzes vermelhas de uma placa neon — E inteligente, forte, determinada, misteriosa, teimosa, atraente. Esconde tanta coisa dentro de si que fez com que eu me identificasse, como uma conexão estranha. E agora não consigo parar de pensar nela... — suspirei — Mas não posso gostar dela, John. Não desse jeito. Mesmo que já seja tarde demais.
— Pobre rapaz — ele guiou o carro em um cruzamento, e as grades do Central já começavam a se tornar visíveis — Ela tem uma família difícil?
— Digamos que o irmão dela não gosta muito de mim.
— Entendo. Meu cunhado também não ia muito com a minha cara no início, sabe? Mas fui criando oportunidades para que ele me conhecesse melhor e hoje jogamos pôker todas as quintas. Pode ser o que falta pra você.
— Ele já me conhece bem, John — ajeitei as costas no banco — E se trombar com ele de novo, vou fazer um tour a sete palmos do chão.
John riu com vontade, enquanto permaneci impassível. Não iria reforçar a veracidade da frase.
Minha cabeça girou quando o carro finalmente parou. A rua deserta estava absurdamente silenciosa; um silêncio incômodo, que me trazia vozes à mente de vez em quando. Ele parecia estar olhando para fora antes de perguntar:
— É aqui mesmo?
Olhei para a fachada em cinza do prédio ao lado, reconhecendo as portas de vidro da entrada e o balcão redondo onde o sr. Cooper lia o jornal.
— Lar, doce lar — sorri, enquanto ele ainda me olhava desconfiado. Puxei as chaves do bolso novamente, mostrando o chaveiro redondo que carregava o nome do edifício — Eu não estou invadindo. Eu juro.
Ele olhou do prédio para mim antes de suspirar e dar de ombros.
— Vê se pára de fumar, garoto. Não estamos mais nos anos 60, essa porcaria vai te matar.
— Espero que sim, John — lancei-lhe um sorriso e abri a porta. Antes de seguir para dentro, abaixei o tronco até sua janela do motorista — Ah, só mais uma coisa, John. Você é um cara legal, então caso morra inesperadamente com arrependimentos, pode me procurar. Talvez leve algum tempo, mas lembre-se que precisa visualizar essa mesma rua para conseguir se locomover, ok? Vou ter prazer em te ajudá-lo. Tenha uma boa noite, John.

***


Afundei o rosto no volante.
Eu não sabia se deveria fazer isso.
Só atendi aquele telefonema porque ela não parecia disposta a desistir. E ficar sob a inspeção de parecia pior do que sair e enfrentar.
Por fim, saí para o tempo gelado do fim da tarde, decidindo que seria um bom ouvinte e não falaria mais do que o necessário. Tinha preparado histórias — não muito convincentes e até muito fantasiosas, mas ainda eram histórias. Não seria parte do "quem cala, consente" porque eu jamais iria consentir. Se ela começasse a falar sobre qualquer memória comigo - recentemente recuperada - que incluísse Woodlawn, eu soltaria a resposta pronta na ponta da língua.
O Citizen parecia dezenas de vezes maior ao fim da tarde, sem a correria barulhenta dos estudantes e dos telefones. O céu estava em um tom roxo de ferida, e os postes já estavam acesos quando passei pela entrada, seguindo pelo corredor até a porta no final, que estava fechada. Observei a janela retangular de vidro ao lado da porta, batendo o dedo na mesma, fazendo erguer a cabeça da montanha de pastas dispostas sobre uma das mesas.
Ela correu e destrancou a porta.
— Nós podemos estar aqui? — perguntei ao constatar o ambiente totalmente vazio, e parcialmente iluminado por apenas uma luminária na mesa das pastas.
— Teoricamente não — respondeu enquanto empilhava algumas folhas destacadas e presas por grampos — Mas quando o Prof. Miller tranca aquela porta, dificilmente ele volta atrás.
— Ah… — virei-me pra ela, que ainda se mantinha concentrada em outro ponto — E então, o que queria conversar?
Eu sabia que ela havia me ouvido, mas ainda assim continuou organizando folhas por pelo menos um minuto. Seu rosto sério entregava que ela estava formulando as frases, e isso não me pareceu nada bom.
Ela não se lembra. Por favor, diga que ela não se lembra.
Por fim, ela se desinteressou dos papéis e virou pra mim, suspirando.
— Falei com a Naomi.
— Você o que?! — arregalei os olhos, a voz aumentando uma oitava a mais — , como… Não combinamos que isso teria de ser devagar?
— Fica tranquilo, Gandhi, eu fui discreta. Bem, pelo menos é o que pareceu… no início. — ela levantou os ombros sugestivamente, me fazendo trincar os dentes.
, o que você fez?
— Não fiz nada! Eu já vi ela em algumas festas, procurei tratá-la como se não fôssemos desconhecidas, mas ela estava, sei lá… estranha.
— Se você foi sugestivamente acusatória, ela não poderia se sentir de outra forma — bufei.
— Não, você não tá entendendo, , eu consigo ser casual mesmo falando sobre leis trabalhistas, tá bom? O assunto que envolve Margot e a polícia foi como um belo bom dia, e não houve muita coisa além disso. Eu literalmente fui apenas... normal. — ela deu de ombros, convicta.
Não era difícil acreditar em , visto que ela não tinha motivos pra mentir pra mim. Pelo menos não sobre aquilo.
— Tá legal. — falei, tomando a liberdade de puxar uma das cadeiras e me sentar — Começa do começo.
— Antes de mais nada — ela disse, sentando na cadeira à minha frente, puxando-a pra perto até que nossos joelhos encostassem — Eu devo te dizer que nada foi planejado, ela literalmente estava na minha frente no Starbucks. Achei uma boa oportunidade pra dizer um oi. Eu teria te contado antes, mas isso foi bem na manhã do seu acidente.
Acenei com a cabeça ao mesmo tempo em que uma lembrança me invadiu. No meio de toda aquela viagem maluca de regressão, onde eu estava inconsciente e refazia meus passos até parar na encruzilhada macabra em que havia me colocado, eu pensei no Starbucks. Sabia que era estranho e sabia que tal coisa não partiria de mim de forma tão simples, mas lá estava eu pensando em tal coisa. E agora, a situação parecia revestir-se estranhamente de sinal, e o aperto no estômago me tomou de novo.
Ah, não. Essa merda de novo não.
Devo ter deixado alguma coisa escapar, porque ela se calou por um momento e franziu o cenho.
— Está tudo bem? — perguntou, me avaliando.
— E onde entra a parte do estranha nisso? — ignorei sua pergunta com firmeza, demonstrando que eu não deveria ser o assunto da conversa. Ela entendeu rapidamente o recado.
— Aí que tá! Ela pareceu surpresa com meu cumprimento, mas até aí tudo bem, já que nunca nos falamos de verdade. E vendo que a fila não iria andar tão rápido assim, aproveitei pra perguntá-la sobre as aulas, o clima, o Natal, qualquer coisa que fosse.
— Essa é sua melhor forma de se aproximar de alguém? Encurralando ela com perguntas? — levantei a sobrancelha.
Ela revirou os olhos.
— Só me escuta. Ela parecia estar respondendo bem, mesmo que estivesse achando estranho. Era esquiva em algumas perguntas, mas eu não esperava que ela me dissesse tudo da própria vida mesmo. Foi então que perguntei como ela estava depois do suicídio. — Ela respirou fundo — Ela ficou mais séria, mas me respondeu normalmente, que estava levando. Não havia nada de suspeito. Mas então eu me toquei de uma coisa…
— O que?
— Você não acha estranho, nem um pouco bizarro, que Naomi não pediu transferência de quarto do dormitório depois da morte de Margot? Digo, uma garota morreu na cama ao lado da sua, é o que as pessoas esperam que você faça.
— Como sabe que ela não pediu?
Eu sei que ela não pediu, perguntei à Penny logo depois da cafeteria. E tudo bem que ela parece durona à la Perdita Durango, mas você não a viu naquele dia. Ela parecia lamentável e não parava de chorar, estava em choque. Parecia literalmente o tipo de pessoa que nunca mais pisaria naquele quarto.
Queria dizer que havia começado a colocar a cabeça pra funcionar, mas aquilo não dizia nada pra mim. Pelo menos não por enquanto.
— Isso não é muita coisa pra nós, . — Respondi depois de um tempo — Quer dizer, precisamos de mais do que uma garota que fingiu estar traumatizada com a morte da colega de quarto e dorme ao lado da cama que…
— É isso! — Ela me interrompeu, arfando levemente — Se ela fingiu, então definitivamente tá escondendo alguma coisa. O comportamento dela naquele dia não deixava espaço pra nenhuma suspeita, mas se ela de repente parece outra pessoa diante do ocorrido, ela pode saber de alguma coisa.
— Ou ter feito alguma coisa. — Reiterei.
— Não vamos nos adiantar.
— Precisamos nos adiantar por algum lugar se quisermos acabar com isso rápido. Estamos ficando sem tempo — falei ríspido, xingando internamente por não segurar a língua. Ela me encarou em silêncio novamente, aproximando-se um pouco mais de mim.
— Você tá legal?
— Você já perguntou isso.
— E você não respondeu. Vai esperar que eu insista?
Droga. Eu não tinha empilhado um estoque de mentiras sobre minha cara de bosta. Esperava que ela fosse se lembrar dos eventos malucos no cemitério e me esperar naquela sala com a ambulância de um sanatório, mas não aquilo. Aquilo parecia pior, eu preferia uma lobotomia ao invés de uma conversa normal que pudesse abrir espaço pra que ela notasse meu estado anormal.
Com isso, apenas respirei fundo antes de responder:
— Só alguns problemas. Coisas que ainda não entendi, não são nada demais.
Ela me encarou, estática e desconfiada. Não sabia dizer como era a aparência de uma pessoa enlutada, mas de repente pareceu que ela sabia. Que entendia também. Talvez conseguisse enxergar todo o inferno interior que me acompanhava.
Quis baixar o olhar e terminar a conversa, sair daquela sala e voltar a me concentrar nos demais afazeres que realmente importavam agora. Tinha aceitado que perdia todas as estribeiras quando estava com , mas pensar em abrir a boca e contá-la com todas as letras que havia perdido alguém já era demais. O que eu diria?
Como se explica a perda de alguém que já estava morto?
Senti o rosto ficar quente quando ela colocou as mãos sobre as minhas. Pude visualizar minha mente se teleportando para uma certa madrugada chuvosa e gelada no Brooklyn, quando os Beatles tocaram ao redor e eu fui hipnotizado por aquele mesmo olhar que ela me lançava. Como se eles falassem o que ela queria dizer, mas não considerava necessário dizê-lo em voz alta. E eu sabia, e senti. A empatia e o calor de seus dedos me atingiram com sucesso, junto com a certeza de que se não fosse embora logo, ela com certeza ouviria meu coração pulando como um louco no peito.
— Ser misterioso é uma característica nata sua. Mas não precisa ser assim o tempo todo — ela sussurrou — Se por acaso sentir que não é tão feito de ferro quanto precisa ser, pode conversar comigo. Sou ótima em ser perfeita.
Dei um sorriso involuntário, soando como aparente sarcasmo enquanto jogava pra fora toda a ansiedade que me tomava o peito pra dizer sim. Aquele dilema de novo, que exibia um leque de prós e contras pra caso eu decidisse aceitar e seguir o que não seria um problema para qualquer pessoa normal.
Mas eu não era normal e, de alguma forma, ela também não. A junção dos dois sujeitos resultaria em desastre.
Mesmo sabendo disso, apoiei os cotovelos nos joelhos, puxando sua mão para mais perto e trazendo seu corpo junto.
— Acha que você é um livro aberto, ? — perguntei, ainda destilando o que eu chamava de tentativa de mudar o assunto — ‘Tô pra dizer que com certeza esconde segredos absurdos por aí.
Ela tremeu os lábios por um instante, surpreendida pela atitude que veio do completo nada, mas tão logo se recuperou com um sorriso divertido.
— Todo mundo esconde segredos absurdos, . Faz parte do direito inerente de todos os seres humanos — ela cerrou os olhos — Mas segredos revelados sem provas são fofocas. Não faço parte dessa galera. Gosto de fatos comprovados.
— E está procurando algum deles em mim agora?
— Acho que estou procurando desde que te conheci.
Ela riu, não percebendo na hora, e fiquei sério. Porque notei a dimensão do quanto eu estava fodido.
Quanto mais tempo eu passava com ela, mais difícil era manter tudo escondido, e por tudo quero dizer tudo mesmo. Meu segredo, minhas mentiras, meus pensamentos, sentimentos… Ela parecia estar arrombando a porta da minha vida, que sempre se manteve muito bem trancada, e daí me senti confuso de novo. Me perguntando de repente quando aquilo tinha começado. Quando eu tinha dado permissão pra me sentir dessa forma.
Porque ela não era mais uma garota comum e isso me apavorava como a morte.
— Isso é uma péssima ideia — murmurei, ainda sério, soltando minha mão da sua como se pegasse fogo — Também posso ser perfeito em não deixar que você se aproxime muito.
— Considerando seus acessos de loucura recentes, tenho certeza que seu rótulo passa bem longe da palavra perfeito.
Permaneci com a expressão fechada antes de soltar uma risada, a qual ela acompanhou. Não devia achar cômico um fato tão real e assustador quanto ser perseguido por um espírito maligno, mas não pude me conter. Esperava que pudesse rir quando toda essa merda passasse e eu me sentasse na primeira cadeira de um pub e contasse tudo à Jane enquanto gargalhava até a barriga doer. Fazer isso antes com foi no mínimo inesperado.
— Você precisa tomar cuidado, — ela disse, ao fim das risadas — Não dá pra fingir o tempo todo. Parece que você está começando a desaprender o princípio de sorrir e acenar mesmo quando tudo à sua volta está uma bagunça.
Não, isso só acontece com você, e me enlouquece como o inferno.
Fiquei em silêncio pela falta de respostas curtas e convincentes para aquela observação. Se ela dizia, eu acreditava. Porque foi uma burrice incalculável me deixar à mercê de uma garota igualmente observadora, e igualmente curiosa. Apesar de também captar os desfalques na sua atuação, ela fingia melhor do que eu. Talvez porque não fizesse ideia do espectro sombrio que a rodeava, e de como seus motivos estavam envoltos em segredos. Segredos que eu precisava saber, mas não conseguia perguntar. Não sabia se conseguiria fazê-lo sem arrastar ela pra dentro disso tudo.
E, de forma alguma, queria que ela experimentasse esse tipo de coisa.
— … Mas somos amigos, não é?
Ergui o olhar, percebendo que vaguei em meus pensamentos por alguns segundos que cobriram sua fala anterior. O que eu ouvi me atingiu tão de perto que cheguei para trás imediatamente enquanto via aquele sorriso do mais encantador e cômico em seus lábios, decidindo de vez que, caso precisasse conversar com alguém, poderia muito bem dirigir até New Jersey ou trocar uma ideia com uma garrafa de Heineken. Seria mais apropriado e me deixaria menos culpado.
— Você fez seu dever de casa. Agora tá na hora do meu — falei assim que me afastei.
— O que você vai fazer? — Perguntou, apreensiva.
— Prefiro que você não saiba.
— Tá brincando comigo? — trincou os dentes — Você não invadiu meu quarto tarde da noite pra me deixar de fora.
— Eu só não quero que você se meta em problemas.
— Eu me meto em problemas desde que te conheci, , e mesmo assim aceitei participar disso. Então ou você me leva ou você me leva.
Ela disse firme e tranquila. Parecia ter certeza de que eu não teria coragem de dizer não a ela. E eu realmente queria dizer não. Definitivamente, não queria que ela estivesse por perto enquanto eu lidava com possíveis alvos de Margot. Não queria nem admitir o arrepio que passeou pela minha espinha ao saber de seu encontro com Naomi na cafeteria, e eu nem podia explicar que isso era perigoso porque Margot poderia simplesmente aparecer a qualquer momento.
E ela não podia presenciar mais uma cena daquelas.
Entretanto, acabei não respondendo ao seu ultimato. Não porque não quis, mas a porta do escritório abrindo bruscamente me fez prestar mais atenção e levantar-me rapidamente com o susto.
Uma garota de cachos loiros soltos embaixo de um chapéu preto, com roupas igualmente da mesma cor se aproximou de nós no escuro, apertando os olhos para enxergar.
? — Ela disse, afastando uma mecha roxa para trás. Havia uma maquiagem preta forte em seus olhos — O que ainda tá fazendo aqui? Achei que iria embora depois de organizar sua mesa.
— Eu vou… Eu estava… — respondeu, ou pelo menos tentou. A garota olhava de mim para , e sorrateiramente para a mesa, que permanecia desarrumada — Penny, esse é…
. — Penny completou, com um olhar confuso porém um sorriso fraco — Conheço você, doutor. Sua fama o precede, é bem mais gato pessoalmente. — Ela deixou que o sorriso se abrisse — Sou Penny Wentworth.
— Muito prazer em te conhecer. — Respondi, com um sorriso travado — Então, acho que vou…
— Já vai? Eu ainda nem perguntei que encontro inusitado é esse. — Ela olhou para , esperando uma resposta — Quando você ia me dizer que era próxima do número um?
— Não somos próximos! — As duas vozes saíram juntas, levando a um constrangimento momentâneo.
— Ele só veio deixar, digo, pegar uma coisa aqui. Ele já está de saída. — respondeu rápido, olhando rapidamente para a mesa e mapeando o espaço em busca de alguma coisa — Que eu não consegui encontrar.
— Ah, é, é. Posso pegar em uma outra oportunidade. — Respondi, começando a caminhar para a saída — Então… Eu já vou.
— Ei, ! — Penny gritou, fazendo-me virar de novo — Tá livre no próximo fim de semana? — Não respondi — Vai ter uma festa na casa nova da Sandy. Aquecimento pro Natal, deve ter comentado. Você com certeza vai ser bem presenteado…
Fingi apenas que não pesquei o tom malicioso de suas palavras e voltei novamente para a saída.
— Tenho certeza que vou estar ocupado, então… Até mais.
, espera. — Dessa vez falou, e estava quase na minha frente quando me virei de novo — Sobre o que você ia levar… — Seus olhos foram de um lado a outro, escolhendo as palavras cuidadosamente pela presença de Penny — Não se esqueça de vir buscá-la, ok?
Pisquei os olhos, exercitando minha indiferença. Mas eu não conseguia fingir diante daquele jogo de palavras. E nem diante daqueles olhos.
Relutante, respondi:
— Tudo bem, eu vou buscá-la.


***


Eu saberia caso ele aparecesse.
Era nisso que me agarrava a cada segundo. Apesar de agir segundo seu próprio tempo, algo me dizia que ele não apareceria. Ela estaria comigo e isso não significava que estaria segura, mas tampouco estaria sozinha. Tive a impressão de que não teria problema, pelo menos não por hoje.
E não queria relacionar a minha falta de problemas com o desaparecimento de minha avó.
Decidi não ligar para e escutar uma resposta que eu já sabia. Ele diria para fazer exatamente o que estava fazendo agora. E sem garantias de resultados, eu evitaria conversas longas e desnecessárias. Esperava que ele pudesse entender.
Assim, abri o celular, encarando o nome dela na tela, movendo os dedos em um vou-não-vou constante que me fazia trincar os dentes. A lembrança nebulosa da cidade passando pelos meus olhos enquanto escutava a mim mesmo externando sentimentos a um completo estranho me atingiu de repente, me desafiando a responder: “por que você quer fazer isso?”.
A resposta estava no meu coração e não me importava mais de saber disso. Não que eu fosse fazer algo a respeito, mas depois da represália contra minha avó, tinha decidido que pelo menos pararia de mentir pra mim mesmo.
Eu saberia. E sentiria o peso negro em volta de mim, a sensação sufocante e sombria, mas ela estaria junto. E mesmo que não existisse nada ritualístico ou objetos de invocação dos mortos além de mim mesmo, ainda existia o fator de risco chamado Margot. Se ela ainda estivesse por lá.
Prestes a discar o número, o bip de mensagens apitou três vezes seguidas. Olhei para o nome de Jane e fui tomado por uma sensação de culpa. Em tempos normais, ela já saberia de tudo. Tenho certeza de que largaria tudo que estivesse fazendo para me ajudar também, como sempre fez, e essa situação poderia sumir em pelo menos dois piscares de olhos. Mas tudo isso viria com uma condição, e eu não saberia explicar a ela porquê não estava disposto a aceitá-la.
Tentei pensar no último conselho de minha avó, focando em não ir muito além daquelas palavras: “saiba que as pessoas também podem fazê-lo mais forte”. Pra um cara que passou a vida inteira procurando afastar o máximo de pessoas possíveis, aquilo não queria dizer muita coisa. Era como uma das leituras mediúnicas fraudadas em que se metia quando era viva. A comunicação com os fantasmas não significava um conhecimento do futuro. Os mortos não olhavam para a frente, eles eram o próprio passado.
Ignorei as mensagens e disquei o número de , decidindo que poderia me dar ao luxo de aproveitar minha passageira falta de problemas. Se não desse em nada, pelo menos eu estaria com ela, e me senti motivado a ir em frente, mesmo sem saber o que encontraria.
Se minha avó estivesse certa, o caminho ladeado pelos meus instintos eram o que colocariam fim àquilo tudo. Por mais suicidas e inconclusivos que pudessem ser.


***


A silhueta de apareceu no escuro, correndo sorrateiramente entre os pinheiros de seu jardim abarrotado de pisca-piscas, enquanto a mesma atravessava o muro gradeado, com um rápido olhar para algum ponto acima. Em seguida, cruzou a rua em direção ao meu carro. Sua cabeça girava tanto para os lados que duvidei que ela fosse me ver. Seu cachecol esvoaçava no vento gelado e, por precaução, eu já havia aumentado o aquecedor.
— Graças a Deus. — Ela meteu as mãos em todas as aberturas quentes assim que bateu a porta do carona.
— Os nova-yorkinos finalmente começaram a sentir frio? — Dei uma risada irônica.
— Eu estou sentindo a temperatura do painel. Você parece mais estar no inverno russo. — Ela levantou a sobrancelha e gesticulou para o meu grosso casaco esportivo que eu havia metido no banco de trás, por precaução.
— O inverno não é bem minha estação favorita.
— Eu bem que imaginei, Califórnia. — Ela riu e tirou seu cachecol e casaco, colocando-os também no banco de trás, ficando com apenas um suéter de três cores.
Ela me encarou ao perceber que eu a olhava com a sobrancelha levantada.
— O que? Eu juro que só sei disso porque eu preciso olhar os dados básicos de todos que eu publico no Fórum. — Ela gesticulou, falando rápido — Quer dizer, não é lá grande coisa saber da onde você veio. Muita gente vem de São Francisco.
— Claro... — Dei de ombros ao vê-la querendo se explicar mais uma vez, controlando o riso — Café com leite? — puxei um copo de papel ao lado da marcha que havia comprado no caminho pra cá. Ela me lançou seu típico olhar de desaprovação — É leite de amêndoas.
— Ah. — Ela pegou o café, aquecendo as mãos em suas laterais antes de bebê-lo.
— Tá legal, quer revisar algo antes de sairmos?
— Bem lembrado. — Ela largou o café ao lado da marcha e puxou uma pequena prancheta da bolsa quadrada, o que me fez querer questionar, mas não o fiz — A Naomi vai entrar no trabalho à meia noite, e o horário que ela cumpre depende das gorjetas e do movimento, o que não ajuda muito. Mas fiz uma pesquisa sobre esse Rocket Riders e é o principal ponto de encontro dos moto clubes, e coincidentemente eles vão fazer uma trilha amanhã no Slide Mountain. Alguma arrecadação beneficente, não procurei saber. O que importa é que eles não devem demorar as horas habituais hoje que, acredite, são muitas. Pelos meus cálculos, ela deve estar liberada lá pelas duas ou três da manhã, assim como foi liberada no dia da morte de Margot. Daí podemos descobrir pra onde ela vai.
Assenti, claramente sem nada a dizer já que havia feito tudo.
— Ok, então vamos. — Coloquei meu cinto e bebi um gole farto de café. Ela fez o mesmo.

O Rocket Riders era um pub sujo e mal encarado do Brooklyn. Eu queria poder estar exagerando, mas a estrutura de tijolos vermelhos gastos, a lama que se formava na entrada misturada com a neve que se acumulava e sujava o pneu das motos mais sinistras que eu já havia visto, e todo o pessoal que as acompanhava não me deixavam mentir. Não era um lugar que eu viria por conta própria.
Estacionei o carro em uma das vagas na lateral da estrutura, que não estavam ocupadas por motos. Era quase que totalmente carente de iluminação, com apenas as luzes vermelhas e amareladas do pub iluminando o lugar, e uma parte florestal atrás. Eu não queria pensar como era fácil sofrer um assalto ali sem que ninguém percebesse.
A posição era milimetricamente calculada: dali nós tínhamos a visão perfeita da porta da frente e dos fundos, e uma das poucas janelas concediam uma visão de dentro, com muitas cabeças indo de lá e cá e a pesada fumaça de charutos.
— Você se camuflaria bem nesse lugar — ela comentou enquanto desatava o cinto de segurança. Encarei-a confuso e ela inclinou a cabeça para o meu braço, que ainda estava coberto com o gesso que escondia grande parte das tatuagens.
Revirei os olhos.
— Você precisa se despir de alguns estereótipos, .
— Não leva a mal, eu ‘tô fazendo um elogio. Devíamos ter pensado em te colocar em uma jaqueta de couro e atrair Naomi usando seus próprios atributos de bad boy. Como não pensei nisso na minha pesquisa… — ela murmurou em completa zombaria, digitando algo rápido no telefone enquanto eu me ajeitava no banco. Constatar que ela estava feliz e empolgada por eu não ter dado para trás em levá-la no meu plano maluco fez as coisas valerem a pena — Falando nisso, como está seu braço?
— Em um chato processo de cura — respondi, dando de ombros — Nada que eu já não tenha me acostumado.
— Deu pra notar — ela riu e olhou para a frente — Ela está chegando. — sussurrou , prontamente ajeitando as costas no banco.
Naomi cruzou a entrada do pub, cumprimentando alguns grandalhões cheios de tatuagens e cabelos compridos. Seu uniforme consistia em uma meia calça com botas até os joelhos, e um vestido típico de garçonete, que por baixo do sobretudo vi que a cor era igualmente preto. As tatuagens do braço ficaram expostas, e, quando deu um sorriso para outra mulher de cabelos roxos do local, pude ver seu piercing na língua e na sobrancelha.
— Ela fica bonita nessa roupa. — murmurou .
Quis dizer que ela parecia bonita e assustadoramente sexy, mas me calei. Senti que atrairia seu olhar de desaprovação de novo.
A música parecia mais alta do que realmente estava. Eu me perguntava como as pessoas lá dentro estavam conseguindo se entender com Psychosocial tocando tão alto em seus ouvidos. Na verdade, eles pareciam ter apenas largado o disco All Hope is Gone em algum aparelho e deixaram-no tocando no aleatório, até que tudo se repetisse e, claro, ninguém iria notar.
Cantarolei algumas notas de Dead Memories quando esta tocou pela segunda vez, e agradeci por não ter de estar de tocaia ao som de músicas ruins.
— Esse tipo de música te agrada? — disse depois de um tempo, quando a música acabou. Ela tinha um sorriso de canto — Mais uma vez me surpreendendo, senhor .
— Vamos começar esse papo de novo?
— Bom, não temos muito a fazer a não ser começar um papo. — Ela deu de ombros — Não que você precise responder, eu não estava...
— Eu gosto de Dead Memories. — Interrompi, virando-me levemente no banco para ficar de frente para ela — Digamos que no lugar dos seus discos de jazz, eu vou ter Ozzy Osbourne, Metallica, Iron Maiden, Slipknot. Não aqui, claro. No meu quarto, na Califórnia. — Frisei a última palavra, novamente segurando o riso. Ela entendeu a indireta e revirou os olhos — Mas, respondendo a sua pergunta, sim, me agrada. Acho que, de uma forma meio louca, os gritos e os instrumentos me acalmam. Os discos foram mais um costume que eu peguei da minha mãe, não é algo tão simbólico assim pra mim. Mas quando estou em casa gosto de ouvi-los.
O estilo me agradava por motivos mais profundos do que esse: com uma música daquele gênero em um volume considerável, não se escutava nada ao redor. Nada.
— A coleção da sua mãe deve ser ótima. — ela disse, sugestiva. Não era uma pergunta, ela se lembrava de quando a contei. Ela só não queria que fosse estranho o fato de se lembrar.
— Pois é, Duke Ellington que o diga. — Ela deu uma risada — Às vezes eu penso que se fosse vivo, bastaria que ele desse um oi que ela abandonaria eu e meu pai na mesma hora. E ele diz que morreria se isso acontecesse, então eu culparia Duke Ellington por me deixar órfão pela segunda vez. Essa piada é a sensação de todos os domingos, e minha m... O que foi?
O sorriso dela havia sumido, dando lugar a uma expressão confusa, porém que logo se recuperou imediatamente. Não demorou para que eu entendesse tudo e, ao contrário do que esperei, comecei a rir.
— Achei que tinha pesquisado tudo sobre mim, .
— Eu n-não sabia. — Ela gaguejou, gesticulando novamente, assim como fazia quando estava nervosa. Ela não tinha o olhar de pena que eu havia recebido durante toda a vida; parecia apenas chocada e um tanto curiosa com a informação — Quer dizer, eu sabia da empresa dos seus pais, eles são bem famosos na costa oeste. Eu vi as fotos e não achei semelhança, mas oras, isso não é motivo para se pensar em tal coisa, e em nenhum site dizia que o único filho dos era adotado, e... Meu deus. A sua mãe é tão linda, e o seu avô foi condecorado na segunda guerra pelo próprio Roosevelt! Eu vi um vídeo do seu pai no tribunal, ele se formou com citações honorárias em Harvard, e a sua mãe tem um ótimo currículo de filantropia e...
Ela respirou, parecendo assustada com seu próprio monólogo.
Então se deteve, arregalando um pouco os olhos.
— Desculpa, eu não... Eu não quis ver tanta coisa assim, é só que depois da confusão no John Jay, eu não sabia...
— Não sabia se podia confiar em mim. — Completei, balançando a cabeça — Não se preocupe com isso. Nada do que você disse está escondido em algum lugar que não possam buscar pela internet.
— Mesmo assim, eu não… — ela disse em voz baixa, se atrapalhando em seu raciocínio — Não quis dizer isso como se fosse algo ruim.
— Não seria ruim nem mesmo se quisesse dizer — olhei pra ela com firmeza e, acredito eu, gentileza o suficiente para que demonstrasse o quanto estava tranquilo. Ela pareceu relaxar um pouco mais — No meu caso, eu não poderia ter pedido pais melhores do que eles. Então, todo o lance de uma vida antes da adoção já foi superado por mim há muito tempo — desviei os olhos, esperando que o bolo recente na garganta não fosse por tentar forçar mais uma verdade goela abaixo — Sou muito grato por tudo que eles fizeram por mim. Eu não fui um adolescente muito fácil.
Olhei para , que tinha um brilho estranho nos olhos. Ela parecia... Admirada? Eu não soube dizer.
Mas ela tão logo corou e desviou o olhar, rindo de nervoso.
— Até parece, aposto que era o mesmo aluno modelo que é hoje.
— A questão não é a escola ou as notas, mas todas as brigas, polícia...
— Polícia?! — Ela arfou, descolando as costas do banco chocada — Você foi preso?
Não soube o que responder de imediato. Não porque não sabia o que responder, mas porque estava preso no momento em que eu havia soltado a língua de novo, um pouco demais de novo.
— Detido. — corrigi — É um pouco diferente de ser preso, mas deixou minha mãe em pânico do mesmo jeito.
— Não sei porque estou surpresa, considerando tudo que nós… — ela parou e limpou a garganta — Teve algo a ver com a sua habilidade com grampos?
— Pode ter certeza que sim.
A risada de ainda mostrava incredulidade, e eu apenas observei, sufocando a minha própria e deixando escapar apenas um sorriso. Incrédulo estava eu pelo rumo daquela conversa, e chocado com a extrema facilidade em falar da minha própria vida de repente. Parecia que, à medida que a conhecia, me sentia mais confortável, mais ligado a ela. Mesmo que ela não soubesse disso.
— Quase fui detida uma vez também. — contou ela, o brilho divertido nos olhos ainda presente.
Virei a cabeça automaticamente. Maverick não havia me deixado por dentro disso.
— Ora, ora, . — Não escondi o olhar de surpresa — Descobriu quem roubou sua borracha no fundamental e foi se vingar?
— Engraçado, , muito engraçado. — ela estreitou os olhos — Mas não... roubei bebidas de uma loja de conveniência quando tinha 16 anos.
— Uau. — coloquei as mãos no bolso do casaco — Então existe um histórico alcoólatra de escondido em algum lugar por aí?
— Na verdade, não. Aquela foi a primeira vez que bebi. — ela levantou os ombros — E a última. — lancei-lhe um olhar confuso e ela suspirou — Ponche na Gibbons. Não servem apenas álcool nas festas.
— Ahm… e por que foi a última? A delegacia a assustou tanto assim?
— Eu não quis realmente fazer aquilo, eu só... me deixei levar pelo momento, pelas pessoas, por tudo que estava acontecendo.
— Fala do seu irmão?
Saiu antes que eu me tocasse. A pergunta fez com que ela erguesse os olhos para mim e enrijeceu o corpo no banco. Quis imediatamente me desculpar e mudar o assunto, também porque lembrar dele fazia-me sentir um arrepio por toda a extensão da espinha.
Porém, ela respondeu antes que eu dissesse algo:
— Acho que é mais complicado do que isso. — Seu tom de voz saiu mais baixo que o normal, mas permaneceu firme — Eu tinha acabado de perder o , que me fez lembrar da morte de papai, e de como eu não saberia o que faria sem ele… — Ela deu uma risada fraca, olhando para frente — Foi aí que achei que talvez fazer uma loucura de adolescente ao menos uma vez na vida não me mataria. Mas, de fato, quase matou.
Olhei pra ela, confuso com a última frase.
Ela mordeu o lábio, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha.
Deixei meu olhos recaírem em seu abdôme, tão automático e tão rápido que posso considerar um movimento perfeitamente sutil. Ela não pareceu perceber, mas a cicatriz havia contado tudo que deveria.
— Não é que eu possa beber tanto... — ela balançou a cabeça, esticando o cotovelo sobre a marca no corpo — Fui parar no hospital. — Ela deu de ombros, olhando pra mim de novo e dando mais um sorriso, dessa vez mais convincente, como se ela se recordasse de um episódio engraçado. Mas algo naquele sorriso escondia mais alguma coisa, mais segredos — Foi um pouco humilhante na época, já que todos os meus amigos já tinham certa tolerância ao álcool e dado check-list em alguma idiotice de adolescente. Só restava eu pro primeiro porre, primeiro beijo, primeira vez… — Ela suspirou — Que cara é essa? Estou te impressionando?
— Acho que já passamos dessa fase. — Arqueei as sobrancelhas — Mas não vou negar que estou um pouco surpreso com a sua antiga falta de vida social. Não vai me dizer que você e estavam juntos…
— Não, de jeito nenhum. Eu nem o conhecia naquela época. Quer dizer, não dessa forma. — Ela balançou levemente a cabeça — Havia uma sucessão interminável de garotas que só sabiam comentar sobre as festas, os caras e suas experiências e eu nunca conseguia me encaixar, por mais que estivesse junto com elas o tempo todo. Era frustrante, mas ao mesmo tempo eu não conseguia fazer nada para mudar isso.
— E por que não? Você parece bem sociável pra mim.
— Não é esse o caso. era como o rei da escola. Ele era o cara mais popular do colegial, junto com , e mesmo já tendo se formado quando eu cheguei ao ensino médio, as pessoas ainda pareciam esperar algo de mim, algo dele. E por mais que ninguém pudesse reclamar da minha boa educação, eu não conseguia acompanhar a energia das outras garotas porque não sentia ⅓ da confiança que elas sentiam. Nunca consegui ser muito desinibida ou ter algum atributo que atraísse os caras que não fosse um amplo conhecimento por obras de Truman Capote e interesse em debates da economia do século XXI.
Ela mantinha um sorriso em linha dura, como se quisesse achar graça daquilo mas no fundo soubesse que era um erro.
— Isso não é nenhum defeito. — Murmurei em voz baixa.
— Bem, talvez não seja… — Ela encostou a cabeça no banco, olhando para o nada, refletindo — Mas da onde eu venho, as garotas não poderiam ser menos do que perfeitas. E por mais que elogios baratos sobre aparência externa possam parecer tão fúteis, toda vez que eu os escutava, sentia que estava no caminho certo. Parecia o mínimo que eu podia fazer: ser perfeita. Depois de tudo.
O tom de sua voz era tão melancólico e nostálgico que por um momento me perguntei se ela se lembrava que eu estava ali. Ou se realmente havia decidido que, de fato, éramos amigos, mesmo depois de minhas atitudes de mais cedo. Entretanto, não consegui dizer nada para tirá-la de tais devaneios. Apenas encarei seu rosto, ainda perdido, e só conseguia pensar no quanto ela era linda — não apenas em sua inquestionável beleza externa, mas uma beleza que talvez ela nem sabia que tinha. Ou simplesmente a escondia, porque não era o que as pessoas queriam ver. E era forte, de alguma maneira. Eu fazia alguma ideia vaga sobre os males das pressões sociais, mas do que eu sabia realmente? Desde pequeno, quando a experiência de flashs e etiquetas à mesa não deram certo para mim, eu havia tratado logo de achar um jeito de fugir de tudo aquilo. E meus pais, sempre compreensivos e solícitos, não discutiram. Exibir seu único filho e talentos nunca foi uma prioridade dos . E por isso eu os admirava tanto.
A lembrança das informações de Maverick sobre os vieram à toda. De repente, a ideia de uma mãe louca e fria, que culpava a própria filha pela perda dos outros dois integrantes da família pareceu muito real pra mim. Como frases curtas e grossas no jantar solitário da grande casa, ou como o mais puro afastamento voluntário. A decisão firme de não ceder o seu amor a uma criança que sofria pois acreditava que estava sofrendo muito mais.
Liza não precisava dizer o quanto era cansativo todo aquele esforço; estava estampado em seu rosto. Ver aquilo me fez querer questioná-la sobre tantas coisas. Me fez querer induzi-la a continuar falando, sobre qualquer coisa. Ou, simplesmente tomado pela sensação repentina de empatia, puxá-la para um abraço. Não queria deixar tão claro que sabia como seu pai e irmão haviam morrido, nem perguntar por que raios ela se sentia tão contida a vida toda, como a culpa deveria consumi-la por estar no mesmo carro com no acidente, nem queria perguntar coisas que ela não sabia que eu sabia. Queria apenas que ela soubesse, de alguma forma, que não precisava usar máscara ou armadura alguma quando estivesse comigo.
Mesmo que eu, hipócrita, usasse várias.
— Estou te enchendo, não é? — ela disse de repente, fazendo-me levar um susto pelo tempo que fiquei encarando seu rosto — Desculpa, também não sou muito boa em distrair as pessoas.
— Como quer ganhar o Pulitzer sem saber distrair as pessoas? — brinquei, olhando pra frente e tentando me recompor.
— Considerando que quase perdi uma parte da chance quando me atrasei pra apresentação do meu artigo porque estava lotada de macarrão e suco de laranja, vou apenas dizer que não sou boa em distrair você.
Ela realmente não tinha ideia.
— Espera, aquele dia… — comecei e ela riu, e acompanhei imediatamente ao me lembrar do fatídico dia no John Jay que não exibia, naquela época, nenhum potencial de ser o ponto de partida em virar minha vida de cabeça pra baixo. E talvez isso o tornasse até cômico — Você ficou bem nervosa, foi assustador.
— Me irritou bastante, mas me senti culpada depois. Pensei em me desculpar quando descobri seu nome, mas você começou a aparecer em todo lugar que eu estava e pareceu um pouco estranho. Sou um pouco egocêntrica, caso ainda não tenha percebido.
Ela usou um tom divertido e confiante, claramente confortável ao falar de si mesma. Perfeita, uma ova. Aquela era a verdadeira , que acolhia a si mesma e seus defeitos sem peso algum nos ombros.
Senti um formigamento no estômago, e pela primeira vez desejei que parasse o tempo lá fora.
— Achou que eu estava te seguindo? — perguntei.
— Achei que deveria ficar longe de você — respondeu, incisiva — Você cheira a problema, . E mesmo ignorando isso, ainda não descartei a possibilidade de ser verdade.
Me encolhi ligeiramente no banco. Tive vontade de pegar um cigarro no porta-luvas, mas apertei os dedos no volante, não me controlando em me atentar no quanto Deus e os astros riam da minha cara. Problema era um eufemismo para o que eu realmente era, e se ela ainda estava ali sabendo disso, talvez fosse tão inconsequente quanto eu.
E algo me dizia, com toda a franqueza, de que ela pensava a mesma coisa sobre si mesma. Mesmo que fosse raso comparado com o que eu sabia.
Eu não sei qual dos dois era pior.
— Ela está saindo. — Ela disse de repente, erguendo o corpo para frente, tirando-me do meu momento embasbacado.
Olhei para a entrada e Naomi deixava o pub, vestindo o mesmo sobretudo da chegada. O crachá e o avental do uniforme não foram retirados, o que deixava claro que poderia estar apenas fazendo um intervalo. Ela puxou um maço de cigarros do bolso antes de continuar pela rua estreita e escura ao lado do estacionamento, olhando sutilmente para os lados.
— Vamos. — já abria a porta e não me deu tempo de dizê-la para ir com calma.
Não posso dizer que seguir pessoas estava na minha lista de especialidades. Isso não era possível com fantasmas. Mas pelo visto, tinha mais essa habilidade escondida.
O chão de terra do estacionamento estava ligeiramente lamacento. Ao ver Naomi se tornar apenas um ponto desfocado à frente, cruzamos o restante do terreno até o asfalto, sentindo o vento gelado socar os meus braços com violência. Olhei para trás, procurando indícios de olhos curiosos que notaram duas pessoas brotarem repentinamente no estacionamento silencioso, mas ninguém parecia interessado no que não envolvia Marlboros e Slash.
andava devagar. A rua ficava cada vez mais escura à medida que avançávamos, graças aos prédios desfigurados e lotados de pichações, com janelas quebradas que pareciam olhos ao nos observar. Engoli em seco, olhando para os lados automaticamente. Um grande estresse mental poderia levar as pessoas a verem coisas em um lugar como esse, mas no meu caso seria a pura realidade.
Naomi andava sem pressa há uma distância considerável, a fumaça do cigarro pairando acima de sua cabeça. Haviam alguns carros e postes sem iluminação ladeando as calçadas falhas, e era entre eles que eu e andávamos sorrateiramente, sem fazer barulho.
Naomi não foi tão longe. parou abruptamente, puxando-me para o canto escuro atrás de uma van enferrujada, abaixando-se na altura do pneu. Olhei para ela em total confusão, e ela apontou rapidamente para a frente, onde Naomi havia parado ao lado de um carro preto.
Não era apenas um carro. Naomi se debruçou sobre a janela do motorista, entrando pelo menos até o pescoço para dentro do Audi. Eu não queria ter de pesquisar o histórico de máfias de NY para saber o que um carro desses estava fazendo em uma rua daquela.
— Não consigo ver quem é — ela sussurrou com cautela, algumas partes de sua voz sendo cortadas. Puxei seu braço até o meu lado, inclinando a cabeça e tentando dizer com firmeza para que ela ficasse onde estava e me deixasse assumir a vigília. Ela revirou os olhos, mas aceitou.
O frio machucava minhas articulações. Com um joelho apoiado no chão, inclinei o corpo o suficiente para deixar em vista apenas os meus olhos, concentrados em todo e qualquer detalhe da cena que pudesse captar.
O papo — ou o que quer que estivesse rolando dentro do veículo — não demorou muito. Naomi esticou-se para fora com um sorriso divertido no rosto, ao mesmo tempo em que o clique da porta anunciava que finalmente veríamos a tal pessoa escondida sob os vidros fumê.
Mas quem saiu de lá não foi exatamente o que eu esperava, e fui tomado por um choque repentino. Ele ria enquanto pegava na cintura dela e a pressionava no carro, não se importando nem um pouco de apertar seus seios no meio da rua. Meus dentes trincaram e um desprezo sem tamanho tomou conta de mim.
provavelmente percebeu que eu havia visto algo significativo, pois esticou o corpo para olhar para o mesmo lado, e um desespero me tomou. Segurei seu braço e tentei dizer para que ela não fizesse isso, mas era tarde demais, ela já apoiava as mãos no farol traseiro da van e olhava boquiaberta enquanto o cara agora beijava o pescoço de Naomi.
Porque aquele não era um cara qualquer.
Era o maldito filho da puta .


Capítulo 19 — Fogo e verdade no brilho carmesim

Eu tinha duas opções.
Eu poderia arrastar para o mais longe possível dali e afastá-la daquela cena desprezível, a qual ainda presenciávamos. Eu duvidava muito que ela fosse lutar contra. Estava imóvel, sem expressão alguma, como se o choque inicial tivesse dado lugar a um outro tipo de sentimento que eu não estava obtendo sucesso em interpretar.
Ou eu simplesmente poderia mandar um belo foda-se pra minha sensatez e seguir o impulso que queimava meu sangue, uma raiva que me fazia trincar os dentes e murmurar algo como:
— Eu vou matar esse cara.
Nem percebi quando comecei a me mover em direção a ele, com os punhos em prontidão. Eu realmente pretendia dá-lo uma surra igual ou pior do que na Gibbons. E, tendo apenas ele como adversário, eu tinha quase certeza de que estava em vantagem, mesmo com um braço a menos.
Eu estava com tanta raiva que mal senti quando agarrou meu antebraço.
— Para. Vamos voltar.
— Quê?! — Seu tom de voz era tão vazio que quase a perguntei se ela havia enxergado direito o que estava acontecendo — , ele não pode…
— Por favor, . Vamos embora.
Ela se levantou e começou a fazer o caminho de volta ao carro. Fiquei estático por um minuto antes de ir atrás dela, olhando para trás pela última vez.
Ela entrou no Jeep sem dizer uma palavra. Não mostrou o menor indício de que queria chorar. O rosto parecia esculpido em mármore, a feição dura e imóvel. Apenas apertou o cinto de segurança e olhou para frente, ereta, como um robô.
… — Tentei de novo.
— Você pode me levar para casa, por favor?
Ela não estava sendo autoritária ou rude. Na verdade, era apenas um pedido comum, em um tom quase simpático. Mas eu sabia o que havia por trás dele, e não saía da minha mente a imagem de desabando no travesseiro para chorar quando eu a deixasse na porta de sua casa.
E era por isso que eu não queria levá-la ainda. Porque, caralho, eu não queria vê-la chorar. Mesmo que eu não fosse ver de fato. Não que isso fizesse algum sentido. Enfim.
… — Ela murmurou mais uma vez, respirando fundo ao perceber que eu ainda não ligava a chave na ignição.
Balancei a cabeça e arranquei com o carro, não conseguindo pensar em outros argumentos para que ela ao menos dissesse alguma coisa, qualquer coisa.
E permaneci nessa inércia até vê-la abrindo a porta no fim da noite e afastando-se para a entrada, ainda sem dizer uma palavra, me deixando para trás com a maior cara de idiota que não soube ao menos o que fazer. E ainda não sabia.


***


Fechei a porta com um estrondo.
Sozinho, tive de me deter várias vezes para não dar meia volta e dirigir de volta ao pub, mesmo que eu não fizesse ideia se poderia encontrá-lo de novo. Uma vontade incontrolável de deixar que meus punhos falassem por mim soavam como murmúrios pesados em meus ouvidos. Eu tentava, mas não conseguia encaixar a situação anterior em lugar nenhum da minha cabeça. Jamais imaginei ver o que havia acabado de ver. e Naomi…
Lembrar da cena me fez ranger os dentes e tentar afastar a fúria que massacrava meu cérebro. O olhar frio de dizia mais coisas do que sua boca foi capaz de fazer; não importava se ela dissesse que estava bem, eu sabia que não estava. Também não importava se ela o amava ou coisa parecida, eu seria capaz de matá-lo da mesma forma.
A raiva me fez discar os números no celular sem vê-los realmente. Tudo dentro de mim borbulhava de tal forma que eu me via incapaz de esperar qualquer resposta para outro dia. A primeira tentativa acabou em caixa postal, mas não hesitei em ligar de novo. Seria capaz de sair novamente e bater em cada porta daquela enorme cidade se ele não me atendesse.
Por fim, o grunhido sonolento e confuso soou baixo do outro lado da linha.
— Alô…
— Espero que acorde agora mesmo, , antes que eu saia daqui e faça isso pessoalmente — não controlei o tom alto da voz, e comecei a andar em círculos pelo piso liso.
? — ele pareceu mais acordado, limpando a garganta — Qual é a porra do seu problema…
— Vou te fazer uma pergunta e quero que me responda sinceramente, seu babaca. E se me disser que sabia de toda essa merda, eu juro que só vamos conversar de novo quando você estiver morto!
— Do que você está falando? — Ele rangeu os dentes, e pude ouvir os pés batendo no chão — O que aconteceu?
— Você sabia de e Naomi?
— O que?
— O filho da puta miserável do seu parceiro se atracando com Naomi Bailey no meio da rua! Isso te surpreende? Você já sabia disso?!
O silêncio se alastrou do outro lado da linha. Meu sangue ferveu como um vulcão, os dedos ainda em recuperação apertando a base do gesso.
— Ah, não… — ele murmurou, e de repente soltei uma risada exasperada, nervosa, pesada. Percebi que esperava que ele dissesse que não, que eu estava louco e que era algo tão inimaginável que precisaria ver para crer.
Esperava que ele não me cedesse qualquer frustração por ter confiado em sua palavra.
— Vai se foder, — apertei o celular com força, a voz saindo firme e reta, como se quisesse que ele me escutasse nitidamente em um efeito presencial — Vai se foder.
, espera…
— Você sabia de tudo, não é? Sabia que ele estava com Naomi, que ele estava traindo a , queria usar a garota pra se vingar do seu sócio, é isso, seu merda? Queria que ela se desse mal pra que levasse junto e assim governar seu reinado sem aquele infeliz no seu pé? Era isso que você queria?
— Cala a boca…
— Achei que a gente tava junto nessa, que qualquer informação fosse importante e ocultar uma coisa dessas não seria opção. O que você estava pensando?!
— Caralho! — ele gritou, interrompendo minha próxima enxurrada de palavras — Dá pra calar a porra da boca e me deixar explicar?
Bufei, encostando uma das mãos no vidro da janela retangular. O brilho dos prédios logo à frente pareciam mais distantes do que realmente eram, e a rua estava mais ofuscada pela neblina noturna do inverno. Focar em elementos do presente ajuda a acalmar a mente, sempre dizia minha avó. Portanto, apenas grunhi em resposta para , sabendo que se abrisse a boca de novo, a paciência recém instalada iria pro lixo.
Ele respirou fundo. O barulho vinha acompanhado de sons constantes no chão. Ele parecia concentrar os pés em movimentos circulares, assim como eu.
— Primeiro de tudo — começou ele, agora com a voz abafada, revestida da calma e do tédio corriqueiro que sempre tinham —, como você ficou sabendo disso?
Eu não havia contado a ele. Não havia contado nem que pretendia fazer tal coisa. Não sabia como revelar que, sinceramente, esperava que observar Naomi não fosse dar em nada, mas queria uma companhia específica para aquilo. Mesmo que isso soasse tão ridículo como soa em minha cabeça agora.
— Fui com até o pub onde Naomi trabalha — respondi, por fim — Eu pretendia segui-la quando saísse.
estalou a língua, certamente se segurando para não externar reclamações sobre meus planos patéticos e amadores. No entanto, ele apenas murmurou um pedido para que eu continuasse:
— Ela pareceu ter um intervalo ou coisa parecida bem antes do horário final do expediente. Saiu na Greenpoint e depois em um beco sujo e escuro como na Bedford e foi em direção a um carro. Um Audi.
Ouvi o palavrão sair raivoso de sua garganta. Foi o xingamento mais verdadeiro que escutei dele até então; uma demonstração genuína do quanto ele estava puto.
— O que ele pensa que está fazendo… — falou, ou melhor, pensou alto.
— Fala logo, !
Mais um minuto de silêncio. Encarei a luz dançante de um farol logo adiante quando ele se pronunciou novamente.
— Bem… — ele coçou a garganta de novo, agora mais cauteloso do que antes — Não posso dizer que ele sempre foi fiel a e nem nada disso.
Fechei os olhos com força, sabendo que chutaria qualquer coisa que se mexesse naquele momento. O mesmo ódio fervente invadiu meu peito, mas lutei contra o ardor o máximo possível.
— Eu sabia, tá legal? Droga… — ele continuou, e senti sua voz trêmula — Eu tenho um quarto na Gibbons, como você mesmo se lembra, mas ele não era realmente meu. O , ele… Ele aparecia de vez em quando com uma garota aqui e outra lá, e sinceramente, eu não dava a mínima pra isso, ele também deixou bem claro que nada daquilo dizia respeito a mim ou aos negócios, então eu não tinha porque me importar, eu não… Ah, que merda, — ele bufou, e os barulhos no assoalho pareceram enfim cessar — Eu sabia que ele pegava outras garotas, mas não sabia de Naomi, eu juro. Eu jamais imaginei isso. Estou falando muito sério.
Abri os olhos de novo e percebi meu maxilar trincado. A tensão atravessava toda a minha espinha e o dilema de acreditar nele ou não ganhou forma outra vez em minha cabeça.
— A viu tudo? — ele perguntou em voz baixa, e respondi com o silêncio. Ele estalou a língua, recomeçando os passos arrastados — Que merda… Cara, que merda.
— Uma grande merda — respondi, agora com a voz quase totalmente limpa do ruído de ódio que a vestia desde que completei a ligação — Por que diabos não me contou isso antes?
— As puladas de cerca do não tinham nada a ver com nosso caso. Bom, pelo menos até agora… — ele sibilou em um sopro — E, depois de um tempo, imaginei que não traria nenhum benefício você pulando em cima dele até que os dois se matassem.
— Ah, então sabe que eu o mataria? — ri com o sarcasmo, apesar de não ter gostado de estar tão previsível e transparente daquele jeito.
— Claro, considerando o fato de que você é apaixonado pela namorada dele.
Abri a boca para responder, mas nada saiu. Pude visualizar minha imagem estupefata pelo vidro da janela, o flagrante me tirando toda e qualquer reação.
— Eu não… — comecei, mas cansei logo em seguida. Estava cansado de negar — Isso não importa, . Isso muda tudo, absolutamente tudo que vimos até então. Se e Naomi estão juntos de alguma forma, a equação é outra.
— Espera aí, vamos com calma — ele disse devagar, como se refletisse ao mesmo tempo — Sei que você se sente tentado a pensar o pior por causa da , mas eles podem estar só transando às escondidas. Talvez acabaram de se conhecer, talvez…
— Vê se acorda, — interrompi-o, balançando a cabeça — Naomi é nossa maior suspeita sobre Margot e não dá pra excluir o comportamento estranho de que você mesmo relatou. Não precisa reunir tantos neurônios pra saber que tem alguma coisa muito estranha nisso. Aconteceu e está acontecendo bem debaixo dos nossos narizes, será que dá pra pensar um pouco?
Uma longa pausa fez arder todas as possibilidades que deveriam estar passando pela cabeça dele agora e, não menos importante, pela minha também. Um alvoroço de recapitulações faziam piruetas diante dos meus olhos, como se me mostrassem que eu estivera olhando para o lado errado esse tempo todo. Ou que zombassem por eu estar totalmente na superfície.
E, mais uma vez, senti que nada mais estava certo. Nada estava em ordem, e coisas nocivas e assustadoras também poderiam estar acontecendo na vida real, longe da influência mortal de fantasmas assassinos.
— Ele não faria isso — o sussurro dele pareceu distante, como se, de novo, não estivesse falando comigo — Não faz sentido.
— Não dá pra confiar se ele realmente faria ou não...
— Por que, ? — ele aumentou a voz, me assustando por um momento — Me diz, por quê?! Por que faria alguma coisa com Margot? Não tem lógica, ele é um desgraçado mais covarde do que você imagina. Não existe coragem em alguém que sempre se safa, que nunca faz o trabalho sujo.
Suspirei, ainda olhando o meu reflexo semi nítido na janela.
— Você não disse que ele gosta de controle? — pontuei — Pois então veremos quem é que está sendo controlado.


***


A porra do natal.
Eram tantas luzes que New York poderia ser vista e identificada pelo satélite mais distante no espaço. O Rockefeller Center andava abarrotado, as vozes dos coros no Central Park enchiam meus ouvidos e a neve não parava de cair.
E ainda faltavam três dias.
Meu apartamento deveria ser o único sem decorações vermelhas na West End Avenue. havia tentado jogar para cima de mim as luzes e uma pequena árvore que, diz ele, estavam distribuindo na frente da Macy’s. Ele jamais admitiria que havia comprado. E mesmo com minha insistente negação, ainda assim lá estava a caixa de papelão aos pés do sofá, com um lacre que eu não pretendia abrir.
Não é que eu odiasse o aniversário de Jesus, ou o papai noel, ou toda a maldita energia comercial e passageira que infestava New York nessa época junto com as mensagens de amor e esperança.
É só que era apenas… Um dia estranho.
E, neste ano em questão, parecia mil vezes pior.
Eu era como um boneco de plástico dentro do globo de neve que vendiam nas lojas de segunda mão. Nessa época, minha única reação era ficar parado enquanto observava o sorriso de todo mundo e os pratos caprichados em que minha mãe extrapola toda vez. Se a neve era um símbolo da data, eu só a via depois que me lembrassem de tal coisa. Como se tivessem que me chacoalhar para isso acontecer, igualzinho ao boneco. Até isso, o natal era só mais um dia insólito.
Eu sentia algo diferente. Nada muito animador, na verdade. Parecia inibir todos os outros sentimentos tão felizes quanto os outros. E por mais que eu tentasse identificar o que era, eu não conseguia.
E isso me preocupava. Fazia-me questionar o passado. Como se aquele sentimento tivesse um motivo para existir, e um porquê eu não deveria me lembrar dele.
E isso já tinha um significado por si só. Porque, neste ano, eu parecia com medo de me lembrar.
Também havia a saudade de algo inexplicável, que eu também não sabia o que era. Como se eu sentisse falta de coisas que eu nem ao menos vivi, como ter minha vó viva. E com ela, talvez, uma família. Uma que, até pouco tempo atrás, eu não fazia ideia se cheguei a ter. E odiei esse sentimento mais do que tudo. Fazia eu me sentir o cara mais ingrato do mundo.
Agora que sabia, tudo isso parecia ter um significado oculto. E ele estava esperando para ser descoberto em alguma caixa velha guardada no sótão do Melbourne.
Entretanto, de uma forma bizarra, esses devaneios estavam presentes somente nessa época do ano. Mesmo que, neste ano em questão, eu estava ocupado com mais preocupações do que em qual dos acidentes natalinos me renderia um fantasma no meu pé ou qual a cor da meia que eu ganharia da minha tia-avó Mary.
Como o fato de que eu não via fazia quase dois dias, e não fazia ideia dos próximos passos de . E sua insistência em não responder meus recados não me deixavam nada tranquilo.
A verdade era que toda aquela última situação com havia me deixado confuso e pensativo, isso quando eu não estava ocupado demais sentindo raiva dele. Perguntei-me várias vezes porque não havia ignorado o pedido de e dado ouvidos a minha revolta, mesmo que eu não pudesse imaginar as consequências disso. Mas vê-la ficar do jeito que ficou e agora simplesmente desaparecer e me evitar, fizeram-me tomar as medidas que eu não imaginei ter de tomá-las tão cedo.
Não que estas também tenham dado certo de imediato.
Com a véspera de natal se aproximando e o inverno devidamente instalado, o campus inteiro havia virado uma imensa distribuição de convites para festas. As opções variaram entre festa do chá, Hanukkah, rave eletrônica, festa à fantasia e os demais clichês regados a cerveja. Era só escolher uma delas e aparecer.
Quem colecionava os panfletos era , para quem eu já estava cansado de rejeitar os convites, mesmo que ele ameaçasse colocar Jane na história.
Ela era outra que havia decidido desaparecer e não atender o celular após as várias mensagens que havia me deixado da última vez, dizendo que se atrasaria. Eu esperava sinceramente que fosse algum problema de sinal ou sua habitual negligência com os eletrônicos — e não que ela estivesse com problemas.
— Mas você pelo menos vai à festa da Sandy, não é? — perguntou quando empurrei a porta de vidro do Toby’s e saí para a temperatura negativa do lado de fora, que felizmente não veio junto com neve.
— Que festa? — Juntei as sobrancelhas enquanto aquecia as mãos no copo quente de café. O gesso havia ido embora no dia anterior pelas minhas próprias mãos e substituído por uma faixa grande gaze que pegava até o pulso.
— Tá brincando comigo? Todo mundo vai nessa festa. E ela me disse que te convidou. — Olhei para ele, ainda mais confuso — Qual é, , a Sandy! Uma das amigas da do jornal. Sei que Penny deu um jeito de te convidar.
— Ah. — Murmurei, lembrando-me da garota loira com maquiagem pesada que eu brevemente conheci.
— Você sabe que a vai, não sabe? — disse enquanto abríamos a porta do meu carro.
Olhei para ele indiferente enquanto afivelava o cinto, fazendo-o revirar os olhos.
— É sério isso? — Ele riu sarcástico — Acha que eu não percebi você todo distraído ainda procurando por ela toda vez que a gente pisa em Morningside Heights? Ou só essa sua checagem interminável no telefone já entrega tudo. Não faz essa cara de bosta de quem não liga pro que eu tô falando.
— Eu não ligo pro que você está falando. — Liguei a chave, e o som logo em seguida.
— Você sabe que ela e o terminaram, não sabe?
Queria dizer que me contentei em olhá-lo de esguelha, ainda indiferente, mas aquela informação me fez virar a cabeça totalmente.
— O que você disse?
— Uma informação mais do que suficiente: e não são mais o casal 20 desse lugar. Agora pode soltar o sorriso sacana que sei que está guardando.
Mas eu não sorri. Na verdade, não fui capaz de me mexer. Me senti uma besta quadrada por não ter me tocado de que essa possibilidade de término poderia existir, mas com tudo que havia escutado naquela noite com Maverick, imaginei que não iria desistir do papel. Se é que houvesse um papel. Sua reação perante a traição daquele boçal havia sido fria demais, como se não fosse uma surpresa.
ainda me encarava, esperando alguma reação. Se isso o faria parar de tentar me afastar de , eu deveria realmente sorrir.
Pisei no acelerador, tentando sugar a música para dentro da minha cabeça e não me fazer ter pensamentos a mil. Eu definitivamente precisava falar com ela. Nem que eu tivesse de escalar aquela árvore de novo.
— Ei, ei, você quer sofrer outro acidente?! — colocou a mão na marcha, puxando-a para a segunda — Ou pior: quer estragar meu rosto antes da festa? Estamos em uma avenida, pelo amor de deus!
— Desculpa — murmurei, diminuindo a velocidade, ainda olhando para a frente. Eu virava os olhos para todos os lados como um louco, como se fosse capaz de vê-la de repente — Como você ficou sabendo disso?
— Tá brincando? — ele riu em ironia — Todo mundo… Ah, esquece! As pessoas comentam bastante coisa supérflua como essa na caixinha do Fórum, como se fosse um grande evento da Columbia. Parece que rolou ontem.
— Ontem?! — trinquei os dentes, agora sim virando praticamente o tronco inteiro pra ele — E você só está me contando isso agora?!
— E-eu… — ele arregalou os olhos pelo meu tom — Eu achei melhor esperar pra ver se era pra valer, podia ser uma mera fofoca, entendeu? E se você soubesse antes e não fosse sério? Você poderia…
— Porra, — resmunguei e voltei a olhar pra frente — Poderia o que?! Ir atrás dela? — bufei — E como sabe que agora é pra valer?
— Porque a Sandy confirmou. Eles terminaram de vez, disse que ouviu da própria .
— Ótimo… — apertei os dedos no volante sem perceber. A música agora era um ruído confuso de bateria e gritos de Tom Araya. Nada muito concreto e importante para que eu prestasse atenção no momento. Tudo que eu conseguia pensar era no meu próximo passo, e se ele não envolvesse , eu juro que viraria New York de cabeça pra baixo.
Eu não sabia como a minha expressão estava, mas para ela deveria estar um tanto assustadora.
Pudera, eu deveria ser prudente e parar o carro para organizar meus pensamentos. Vários cenários malucos surgiam na minha frente agora, e pensar em chorando — de novo —, ou ouvindo palavras escrotas de ou até mesmo sendo tocada por ele daquela forma violenta que já presenciei uma vez me cediam uma queimação no peito e ainda mais vontade de vê-la. Não tinha nada a ver com o fim do relacionamento em si. Eu só queria saber como ela estava.
Parei o carro em um sinal vermelho e desabei as costas no banco, ainda com os músculos retesados. Uma pilha de nervos não era bem a palavra do que eu sentia, estava mais pra ansiedade absurda.
— Ei, — chamou , e apenas murmurei em resposta — Você vai mesmo atrás dela?
Ponderei sua pergunta por um instante e virei o rosto para responder:
— A que horas é essa festa?


***


Uma garrafa voou acima da minha cabeça.
O barulho do vidro se espatifando foi soterrado pelo som grave nas alturas que vinha de cada canto da casa. Eu sentia as vibrações das batidas em cada parte do meu corpo, como se fosse uma presença física — ou como se eu já estivesse chapado.
Os demais convites distribuídos mais cedo pareciam ter sido completamente ignorados em sua grande maioria, porque algo me dizia que todo o corpo discente na Columbia estava nessa festa. Os ombros e esbarrões inevitáveis ladearam todo o caminho até que eu e , logo à minha frente, conseguíssemos chegar em um corredor menos abarrotado, mesmo que ele cheirasse a vômito. Talvez isso explicasse tudo.
— Aquilo ali é uma jacuzzi? — ele perguntou, aparentemente para ninguém em particular, pois seus olhos foram sugados para a interação de cores do lado de fora.
A casa era realmente espetacular. Eu não fazia ideia de quem era Sandy e muito menos na possível profissão de seus pais que os possibilitaram ter uma casa daquelas, mas fiquei tentado a chutar que ela poderia facilmente ser parente do presidente da República. A visão que tínhamos para as paredes de vidro era de um amontoado de pessoas com roupas de banho, sem se preocuparem com o frio gélido do inverno porque estavam ocupados demais se aquecendo na piscina quente e, como pontuou, na bela jacuzzi há alguns metros dela.
E eu ainda não havia visto .
Em mais alguns passos, se tornou possível chegar à imensidão da maior cozinha que eu já havia visto na vida. Aaron Hall, um dos veteranos que me lembrava brevemente de alguma aula que fez comigo porque estava atrasado demais em seu próprio ano, me reconheceu de imediato, me dando um aperto de mão de ferro assim que se afastou para pegar as bebidas. Ele estava completamente bêbado e não parava de repetir o quanto estava surpreso em me ver ali.
Não podia dizer que eu não sentia o mesmo.
Eu não frequentava festa alguma desde que havia chegado em New York, e Aaron pareceu saber bem disso, inclusive da minha breve e última aparição na Gibbons. Não satisfeito em ter conhecimento desse fato, ele fez questão de gritar aos quatro ventos que " está mesmo aqui, brilhantes do departamento, acham que estou mentindo?" e me pegar de surpresa ao mostrar que não estava sozinho. Em um segundo, senti olhos curiosos sobre mim, mesmo que estivessem realmente só curiosos, porque o álcool já não os permitia ter outro tipo de reações.
Finalmente, avistei novamente voltando aos tropeços até mim, carregando duas garrafas de cerveja. Me livrei dos braços de um Aaron tagarela que agarrava o couro da minha jaqueta enquanto movia os lábios em alguma desculpa esfarrapada e andava até , pegando em seu antebraço e puxando-o para o outro lado da casa, ou para qualquer lado que eu pudesse me concentrar.
— O que aconteceu? — Ele perguntou aos gritos, tentando vencer a música eletrônica ensandecida que torturava meus ouvidos. Parei do lado de fora, notando que saímos por uma porta de vidro lateral que levava exatamente a um caminho estreito de pedras que conduzia ao jardim dos fundos, onde estava a piscina. Eu não sabia que precisava tanto de ar fresco até sair para a noite lá fora, mesmo que esse ar estivesse marcando -4.
já bebericava a cerveja com animação, olhando por toda a nossa volta enquanto algumas cabeças iam sumindo por entre as árvores. Se aquele corredor estava cheirando daquele jeito, eu não queria imaginar o resto.
— Você tem certeza que ela vem? — perguntei, pegando a outra garrafa de sua mão. Eu não olhava realmente pra ele; meus olhos pertenciam ao todo, buscando. Ele revirou os olhos, tendo a expectativa frustrada de que eu realmente poderia me divertir naquela noite.
— Eu já disse que sim! As melhores amigas dela estão aqui, como ela não viria? — ele deu de ombros — Enquanto isso, você pode fingir que veio pela diversão e vasculhar sua gata andando por aí? Preciso de você em destaque para atrair uma gata pra mim — ele apontou para a confusão de vozes logo à frente, começando a caminhar.
— Acho que você não deveria contar com isso — balancei a cabeça, pegando meu cigarro de praxe enquanto andava ao seu lado — Esqueceu que eu sou um pouco pirado?
Ele deu de ombros.
— Isso não importa, tem gente que acha isso atraente.
Revirei os olhos e ouvi sua risada enquanto ele passava um braço pelos meus ombros e me puxava para a multidão.
Tudo era brilhante demais. Daquele lado, eu parecia ligeiramente deslocado. Com minhas roupas inteiramente pretas, meu casaco de couro e botas, eu era como James Dean em uma pool party. Era uma imagem distante, uma peça errada. A vastidão de biquínis e nados borboleta me fizeram olhar com mais atenção de novo, mas senti que não precisava. Algo me dizia que jamais usaria um biquíni em público, muito menos naquela festa.
Mas eu não conseguia encontrá-la de jeito nenhum. A esperança de que ela me atendesse já havia ido pro ralo há muito, mesmo que a voz eletrônica insistisse para que deixasse mais recados. E mesmo com a vontade insana de vê-la, eu ainda não sabia o que diria quando isso acontecesse. Eu não conseguia nem pensar nas palavras.
estava ficando animado. A cerveja era boa e talvez isso tenha ajudado na passagem quase rápida do tempo, que me levou a notar a uma hora e meia depois de ela ter se instalado. Meus pés vagaram pelos arredores do lado de fora, assim como a extensão da enorme sala oval e a região dos banheiros. Eu não me atreveria a pensar que ela estava em algum dos quartos no segundo andar, chorando e se lamentando com as amigas ou, — não, pelo amor de deus não, tudo menos isso — conversando com . Pude sentir a raiva espumando dentro de mim, tendo certeza absoluta de que não controlaria minha língua se visse tal coisa.
Também não estava disposto a controlar meus pés, pelo visto. Curvei em um segundo corredor, me preparando para pisar no segundo degrau da enorme escada larga e majestosa quando ouvi uma voz familiar:
?
Virei na mesma hora, dando de cara com uma Maverick de biquíni e shorts, o corpo molhado pós mergulho e usando um all star. Um grande dragão tomava quase toda a sua coxa esquerda, e as tranças estavam presas para cima da cabeça. Brincos enormes e redondos estavam em evidência em suas orelhas e uma toalha estava repousada em seus ombros. Juntei as sobrancelhas por um momento como se perguntasse o que ela fazia aqui, e não podia dizer que ela não havia entendido.
— Eu que te pergunto, — ela riu, se aproximando de mim — Achei que tinha ouvido errado, mas você está realmente aqui. Procurando alguma coisa?
Olhei para os lados novamente, colocando uma das mãos no bolso.
— Não me diga que também está aqui — falei, trincando os dentes automaticamente ao me lembrar dele. A vontade de socá-lo ainda não havia passado e, pela forma como ela sorriu, ela estava ciente.
— Está tirando uma folga hoje. Pelo visto, queria paz e sossego.
— Com certeza, ele precisa muito de paz e sossego — grunhi — Mas e você? Está trabalhando ou...
— Tô sempre trabalhando, . Mas também gosto de me divertir e me lembrar que a vida é curta. Esse insight finalmente chegou até você? Ou devo perguntar de novo o que você está procurando? — ela levantou uma sobrancelha — Ou melhor: quem.
Engoli em seco, dando uma última olhada para o topo das escadas.
— Você viu a ?
— Mas é claro — Ela riu, batendo uma pequena palma de excitação — A mais nova solteira do pedaço, . Seria um evento histórico se ela aparecesse por aqui com uma roupa de matar e subisse em cima daquela mesa como Kat Stratford foi capaz de fazer em 1999. Ainda mais depois de ver toda a baderna que deve estar fazendo com outras garotas bem aqui agora...
— Mas o que...
— Mas não! Eu não a vi, — ela deu um sorriso fraco, como se também estivesse decepcionada pelo fato — E devo dizer que isso me surpreende bastante, mas não é condenável. Terminar um relacionamento longo pode ser doloroso, mesmo que seja com um idiota como .
— É exatamente por isso que eu preciso encontrá-la. Será que você...
— Ei, ! Consegui alguns cigarros com aquele ca... — A voz de surgiu por trás de minhas costas e parou instantaneamente — Sarah?
Olhei pra ele, me lembrando vagamente de tê-lo deixado em algum ponto de algum corredor enquanto ele lutava com alguma bolsa térmica em busca de mais cerveja. Com as horas avançando, a cabeça dele ia girando mais e as risadas ficavam mais altas, mesmo que tivesse bebido particularmente menos do que eu. Portanto, naquele momento, eu poderia pensar que ele estava tendo algum tipo de distorção de perspectiva por causa do álcool e ter chamado Maverick de Sarah, mas o olhar arregalado dela em resposta mostrou uma situação inesperada.
— Newman? — ela arfou, com uma surpresa reprovatória — Não acredito...
— O que você está fazendo com ela? — ele se virou pra mim, arqueando os braços para apontar pra ela.
Maverick riu em ironia.
— Veja como fala, calouro. Aqui não é seu parque de diversões de circuitos fajutos que não respondem ao seu 0 e 1 com amnésia severa de matemática discreta.
— Eu já disse que lógica binária não é a minha praia, sua...
— Ei, ei! O que está havendo aqui? — levantei os braços, podendo ver o fogo cintilando nos olhos de e de Maverick... Ou Sarah? — Vocês se conhecem?
— Então não falou de mim, Newman? Pelo visto, feri seu orgulho mais do que imaginei — ela virou o rosto pra mim, sem perder a irritação no olhar — Não vai me dizer que esse é o seu amigo que chegou na minha frente pra limpar sua barra?
— Como assim? Do que você está... — parou, se tocando do que ela dizia — Espera aí, tá falando dos vídeos do acidente dele? Você é a que estava dificultando o firewall maldito com seus trezentos cavalos de troia feitos de massinha? Que porra de história é essa? — ele se virou pra mim novamente — , por que ela estava tentando tirar os seus vídeos? Sabe com o tipo de gente que ela anda? Do tipo que estariam rindo com toda aquela coisa, do tipo Ash e seus capangas, você tem noção disso?! Por que vocês...
Maverick soltou uma gargalhada alta. Por um momento, fechei os olhos com força. Merda, merda, mil vezes merda! A falta de noção de não saber o que estava acontecendo não foi maior do que a noção do que estava prestes a acontecer. Eu precisava sair dali, e com certeza precisava levar junto antes que...
— Você é hilário, Newman — Maverick riu novamente, como uma piada que nunca acabava — É sério que você não contou pra ele, ? Agora entendi porque pediu minha ajuda e a de Ash em vez da dele.
Eu não soube dizer exatamente o que se passou nos olhos de . Mesmo com todas as luzes coloridas e a música alta, eu vi claramente seu rosto paralisar. Um desespero começou a tomar meu peito e me virei pra Maverick com irritação, torcendo para que ela percebesse minha exigência de seu silêncio nos sibilos que meus dentes faziam em sua direção.
— Me contar o que? — o ouvi dizer, mesmo que sua voz parecesse vir do fundo de um poço — Do que ela está falando, ? Que raio de ajuda é essa que você não me pediu?
Não respondi. Mal conseguia abrir a boca.
Meu deus do céu, não era hora pra eu me sentir um completo filho da puta e ter uma crise de consciência do quanto eu estava sendo um péssimo amigo. Não aqui, não agora.
Mas ele me olhava de um jeito tão penoso que tive vontade de sair correndo dali e esquecer de todo o meu objetivo da noite. Porque aquele olhar cravou em mim e expôs mais coisas do que eu gostaria, expôs praticamente todas as minhas mentiras, pelo menos as novas mentiras, que se fossem reveladas levariam às antigas, e em hipótese alguma isso poderia acontecer.
— Me responde, ! — ele aumentou o tom de voz, se aproximando de mim.
Eu não queria perder . Mas de repente senti que as coisas estavam em um patamar tão diferente dos anteriores que esse conceito havia se estendido para todos ao meu redor. E isso significava que ele não aceitaria mais mentiras esfarrapadas.
, escuta... — comecei, sem saber absolutamente de nada que viria depois, sentindo o coração bater mais rápido do que o normal. Mas não precisei me preocupar por muito mais tempo com isso.
— Ora, ora! — vi a sombra de outra pessoa tomar o rosto de , bem à minha frente, aproximando-se por minhas costas a um degrau acima — Maverick, querida.
Ela o encarou com uma risada forçada, não se detendo em demonstrar desgosto. O tom seco e agudo da voz já me adiantava seu dono, e uma raiva automática se preparava para inundar todo o meu corpo à medida que fui virando o rosto para encará-lo.
passava os braços pela cintura de uma garota alta de cabelos louros, que usava um vestido apertado e ligeiramente torto.
Ele estampava um sorriso cafajeste enquanto exibia a camisa de botões aberta e bebericava um drink das mãos dela, que parecia absurdamente realizada com o que quer que tenha acontecido há minutos atrás. A cena me enojou de tal forma que senti os punhos se fechando, assim como a garganta, e nunca precisei tanto controlar as emoções como naquele momento. Eu sentia que o socaria até quebrar minha outra mão.
baixou os olhos até mim, me avaliando de cima a baixo.
— Você está na minha frente... — ele cerrou os olhos, parando para se lembrar — .
— Você está certo — respondi, olhando fixamente pra ele — Eu estou BEM na sua frente.
Ele sustentou o olhar, soltando o quadril da garota.
— Não preciso usar do meu cinismo e fingir que não me lembro de você — ele sorriu — Como foi sua recuperação daquele nariz quebrado? Se bem que, com todas as notícias suas que vieram depois, acredito que ele não tenha sido nada.
— É verdade, você não dá nem pro cheiro, — grunhi, não vendo meus passos se aproximarem sem minha permissão.
, não... — ouvi a voz de atrás de mim, mas ignorei.
Cheguei perto daquele rosto estúpido que merecia uma verdadeira surra e murmurei:
— Os mortos costumam se alimentar de gente fraca e patética como você, . É melhor tomar cuidado com quem anda irritando por aí.
A reação da garota veio primeiro do que a dele. Ela arregalou os olhos em um terror que passou em segundos, e de repente me perguntei o teor de minha feição ao dizer as palavras. O sorriso desapareceu lentamente de seu rosto, dando lugar a uma carranca raivosa, como a de um cão observando uma presa.
Feito isso, foi a minha vez de lhe lançar um sorriso singelo de canto, satisfeito. Mesmo que não fosse o bastante.
— Seu doente de merda! — ele disse entre dentes, pegando em meu colarinho com toda a força bruta que eu havia esquecido — Acha que tem algum culhão pra me ameaçar? Por acaso sabe quem eu sou?
— Você não é nada, cretino...
— Chega, ! — saí de perto dele pelo puxão repentino e a voz de Maverick logo atrás de mim — Vamos sair daqui.
— Isso ainda não acabou, — ouvi a voz dele enquanto me afastava — Não tenho medo de malucos como você!
Virei-me novamente enquanto lançava o dedo do meio por cima dos ombros vizinhos, destilando um sorriso desafiador antes de perdê-lo de vista. Mas a última faísca de seu olhar havia ficado visível no último segundo. E eu estava disposto a esperar uma retaliação.
— Você tá ficando maluco? — grunhiu, me empurrando pra frente até que meus pés se equilibrassem em algum lugar com grama baixa e molhada do lado de fora novamente. Eu sabia que ele estava com raiva, mas nem o escutava direito, tamanho o ódio que sentia ao me lembrar daqueles dois lá dentro — Se resolver arrumar uma briga com nessa festa, não serão apenas dois contra um, vão ser pelo menos 40, entendeu? Vai quebrar muito mais do que só o nariz!
— O Newman tá certo — Maverick disse, olhando para ainda com um resquício de desgosto — Você não é nada confiável quando está com raiva, parece um adolescente destrambelhado.
— Ele não costuma ficar com tanta raiva assim... — murmurou enquanto eu ainda colocava as ideias no lugar. Suspirei, olhando em volta novamente, de repente sentindo o peito apertar de novo ao pensar que poderia ver a mesma cena que eu vi. E se ela visse...
— Onde ela está? — pensei alto, tentando me lembrar novamente dos lugares onde não havia estado. Algo dentro de mim me dizia que ela não estava ali, mas eu não queria dar ouvidos a essa voz porque se ela não estivesse ali, significava que eu não sabia onde estava, e isso era pior do que qualquer outra coisa.
e Maverick se entreolharam, os dois em uma comunicação silenciosa e apressada, como se discutissem o que fariam comigo e minha busca por uma garota de coração partido.
— Olha, , que tal nós...
Não ouvi terminar. O ringtone alto do meu celular começou como um toque distante até que a vibração em meu bolso me fizesse tomá-lo com rapidez. Os números na tela não eram reconhecíveis, mas fizeram meu coração parar de bater por alguns instantes.
— Alô? — arfei, me afastando da maior incidência de barulho, atentando meus ouvidos ao máximo.
...
Primeiro senti o alívio. Ele foi o bastante pra me deixar lúcido por alguns segundos, até que eu me tocasse da outra urgência do momento.
— Onde você está?
Ouvi uma risada e ainda mais barulho do outro lado. Não eram os mesmos que o da casa de Sandy. Ela estava em outro lugar.
... — chamei mais uma vez, tentando não parecer tão ansioso — Me responde, onde você está?
— Eu não sei... Eu acho — ela riu mais uma vez, de forma extremamente alegre — Oh meu deus, é mesmo o ? Não acredito que acertei o número de primeira. Deve ser por ter ficado encarando os números sem parar nos últimos dias, mas não conte isso pra ele.
Bufei novamente, ignorando o formigamento no estômago, me controlando pra não gritar.
, de quem é esse telefone?
Um silêncio. Um vácuo que não me trouxe nada de bom.
— Boa pergunta... — ela murmurou, baixo demais. A música ao meu redor não me deixava escutar com clareza, e somada ao som alto e totalmente contrário da linha dela, a comunicação ficava cada vez mais difícil — Acho que é de algum cara que encontrei...
— Estou indo te buscar! — rugi, mandando minha paciência pro inferno. Comecei a caminhar sem rumo para a direção que me lembrava estar a porta da frente, não prestando atenção se estava me seguindo ou não — Tô falando muito sério: onde-você-está?
— Não precisa ficar tão nervoso — ela riu novamente, e algo me dizia que não estava muito diferente das pessoas bêbadas dessa casa, o que se tornava uma preocupação a mais; ela não podia beber — Aqui tem umas músicas que você gosta. Os gritos, a bateria... Tudo aqui é você... — a voz baixou ainda mais, e apressei o passo. Tentei me concentrar nos sons de fundo por um instante para captar alguma coisa. O barulho estridente de uma guitarra atravessou meus tímpanos e senti que tinha uma direção.
— Não sai daí — falei o mais alto que pude, o mais firme que consegui para que ela entendesse e ficasse.
Não esperei que ela respondesse. Quanto mais rápido eu chegasse, mais rápido poderia convencê-la e tirá-la seja lá onde fosse. Olhei para trás instintivamente e, como esperei, vi correndo em meus encalço, surpreendentemente acompanhado por Maverick, que agora vestia um suéter e se livrou da toalha nos ombros.
, o que... — ele começou a dizer.
— Tem alguma banda de rock se apresentando hoje? — o interrompi com pressa, e ele me encarou confuso.
— O que?
— Pensa, os milhões de cartazes que você me mostrou! Algum deles dizia algo sobre um show de rock em algum lugar?
abriu e fechou a boca, sem responder, o que me deixou ainda mais possesso com o nervosismo. Eu sabia que ele descartaria os convites que não tivessem nada a ver com ele, tanto do celular quanto da memória. Era inútil perguntar a ele, mas eu não sabia mais o que fazer.
— Tá falando da banda de punk judeu que está infestando algum pub nojento pra comemorar o Hanukkah? — Maverick disse um pouco antes que eu surtasse de vez e saísse buscando em cada garagem de New York — Eles devem estar tocando em algum porão no Bronx.
Algum não é o suficiente, Maverick — respondi, e senti os olhos de vagando entre eu e ela ao mesmo tempo. Ele não deveria conhecer aquele nome, e não seria agora que nenhum de nós explicaria.
Ela desviou os olhos e puxou o celular dos shorts, zapeando a tela por alguns instantes até virá-lo para mim, mostrando um banner marrom com dizeres em negrito “FESTA SECRETA NA CURVA DO BODEN! O PUNK MODERNO DO FESTIVAL DAS LUZES TE AGUARDA! APRESENTANDO: HEROES OF KISLEV!” e somente isso.
Li os dizeres duas vezes e olhei-a sem entender.
— Curva do Boden? — perguntou, igualmente confuso.
Maverick olhou para os dois, guardando o celular.
— Vocês precisam urgentemente sair mais — ela suspirou — Vamos nessa, cavalheiros. Direto para o Bronx.


***


Eu sabia que estava no lugar certo antes de Maverick me dizer. Percebi que ganhei experiência suficiente com tia Guida.
Estacionei o carro na borda da calçada, que imediatamente recebeu o cartaz do show secreto de Hanukkah golpeado contra o pára-brisa, vítima do vento ruidoso que soprava lá fora. Pelo som alto e abafado da bateria misturado com gritos ao longe, a parte do secreto não estava indo de acordo com os planos.
A barulheira em questão vinha de algum lugar na esquina mais à frente. xingou ao sair do carro e notar que não era lá muito inteligente vagar pelas ruas naquele frio sem estar amassado por uma multidão de pessoas, mas Maverick parecia bem, mesmo com seus shorts e o suéter fino. Ela encarou as ruas semi vazias e percebi que devia estar seguindo o som, assim como eu. Ainda não conseguia vincular a imagem de em um show underground, mas esse era o menor dos problemas. Eu só precisava que ela tivesse feito o que pedi.
A próxima curva levava a uma rua estreita e, agora posso dizer, deserta. Os únicos atributos que não a tornavam uma vala esquecida eram os poucos carros estacionados em zigue-zague, desconectados. O barulho ficou mais alto à medida que íamos mais à frente, mas eu ainda não via nenhuma luz. Até um show de punk precisava de alguma luz.
— Ali — Maverick passou para o meu lado, esticando o dedo para um prédio baixo e de pintura lascada, exibindo uma placa de tecido fino e desbotado com os dizeres “Boden’s Bakery”. Uma foto engraçada de um homem com um enorme bigode sorria para a rua enquanto segurava um pão de baguete cristalizado.
Olhei confuso por alguns segundos até entender para onde realmente ela estava apontando. Um breu em formato de beco puído se estendia logo ao lado do estabelecimento, onde a rua sem saída era tomada por latas de lixo violadas por cães e um cheiro forte de muitas coisas. Uma porta média e enferrujada indicava os fundos da padaria, da onde vinha uma luz mínima que escapava para a rua, amarelada como uma vela. Ao me aproximar do ponto luminoso, um barulho longínquo atingiu meus ouvidos e minhas narinas foram tomadas pelo cheiro de cigarro, cerveja e algo ainda mais forte que não estava disposto a adivinhar. A porta estava meio aberta e, por trás dela, sentado em algum tipo de banco velho e desgastado de um carro, estava um homem alto e magro, coberto de tatuagens e fumando algo que, pelo cheiro, não era um Lucky Strike.
Ele virou o rosto imediatamente assim que chegamos à frente. Em uma olhada rápida, vi que existia outra escada logo depois da porta, e que a passagem estava sendo obstruída pelo cidadão de olhos baixos.
— O que posso fazer por vocês? — perguntou ele, e sua voz era tão arrastada que agora tive certeza absoluta do que ele estava fumando.
Olhei para automaticamente, vendo sua expressão impassível e sem o humor de sempre. Ele me encarou na mesma hora e apenas deu de ombros, me concedendo a decisão, como fazia quase todas as vezes. Não precisei olhar para Maverick e perguntar a mesma coisa; ela tinha o olhar cravado para além do homem, para a entrada.
— É dinheiro ou charada? — perguntei com confiança, metendo as mãos nos bolsos automaticamente e torcendo para ter notas suficientes. Senti o olhar de sobre mim, claramente repreensivo. Às vezes, ele me achava sem noção quando se tratava de dinheiro.
O homem me encarou imóvel por um minuto antes de soltar uma gargalhada. Maverick andou até o meu lado, agora nós três formando uma linha reta.
— Poderia ser um quilo de alimentos não perecíveis, e então, o que você faria? — ele riu com o sarcasmo, começando a se levantar.
Ele encarou os três, um a um, soltando a fumaça pesada da erva antes de voltar a falar.
— São estudantes? — os três concordaram — Vocês não parecem muito animados para participar dessa confusão, muito menos parecem judeus. Não tem lugar melhor pra irem?
— Ele está animado — estendeu a mão para mim, desatando uma risada engasgada e nervosa quando virei a cabeça pra ele — Digo, todos nós estamos, mas esse cara aqui, rapaz… Ele está doido pra beber e bater a cabeça fazendo aquele sinalzinho com os dedos, sabe? Aquele sinal do diabo… — ele riu novamente e tive de me controlar pra não chutar sua bunda ali mesmo — Não vê o estilo dele? É totalmente rock’n roll…
— Vai nos deixar entrar ou não? — Maverick interrompeu, e nunca quis tanto agradecer a alguém. O homem nos encarou desconfiado mais uma vez enquanto me olhava como se dissesse “eu tentei”.
Ele levou o tempo de uma tragada até terminar de vasculhar nossos rostos. Se ele de repente arrancasse um distintivo dos bolsos da calça preta e se revelasse como um policial disfarçado à postos na caçada contra os menores de idade que se embriagavam na véspera de natal, eu não ficaria surpreso.
— Não vão causar confusão, não é? — perguntou, cauteloso. Novamente, as cabeças o responderam — Não quero problemas por aqui, ainda mais nessa época do ano. Também não garanto que vão encontrar bebida boa, muito menos bom cigarro — ele olhou diretamente pra mim na última frase. Sustentei o olhar, impassível, não entendendo de imediato.
deixou sair mais uma risada, desta vez espontânea.
— Ele não se importa com essas coisas — disse ele — As roupas só enganam, garanto que ele aceita um Derby sem pestanejar.
Olhei pra ele em dúvida, mas não questionei. O cara coçou a garganta e deu um passo à frente.
— Dez dólares de cada e nem pensem em chamar uma ambulância caso dê alguma merda. Muito menos a polícia — ele falou baixo e não me controlei em revirar os olhos.
Puxei três notas.
— Agora chega pro lado.
Ele pegou o dinheiro com brilho nos olhos e de repente senti que fui assaltado, mas não importava. Ele prontamente se afastou da entrada e comecei a ir em frente.
— É a última porta, garoto. A banda é um lixo, mas se está procurando uma boa onda, veio ao lugar certo.
Não respondi e continuei descendo as escadas de pedra, sendo engolido pela escuridão a cada passo que dava. Ouvi os passos de e Maverick bem atrás de mim, mas não por muito tempo. Um acorde extremamente alto arranhou meus ouvidos, e finalmente vi a última porta meio aberta, da onde escapava luzes brancas e roxas, o que não consegui relacionar.
Antes que eu encostasse nela, a porta foi escancarada em minha direção e quase fui atingido pelo metal no rosto. Uma dupla de garotas saíram gritando aos tropeços, ancorando-se uma na outra até que um barulho grotesco de vômito acontecesse bem ao nosso lado, e olhei automaticamente para os pés.
— Meu deus… — murmurou Maverick, com voz anasalada.
Argh — foi a vez de colocar as mãos na boca.
— Vamos logo! — Senti o empurrão em minhas costas até que Maverick nos passasse pela porta.
Eu não sabia dizer se aquele era exatamente o que chamavam de punk moderno.
O frio não existia mais. O lugar não estava exatamente lotado, mas as paredes de pedra do subsolo pareciam ter feito um bom trabalho em reter cada centímetro quente de vários sóis. A grande maioria massiva de pessoas vestiam preto e preto-porém-couro, mas pude avistar alguns vestidos brilhantes e as luzes que não conseguia enxergar lá de fora estavam mais fortes do lado de dentro. Uma spotlight imensa brilhava no centro do porão, e algumas lâmpadas confeccionadas com garrafas de cerveja rodeavam as pilastras grossas espalhadas pelo lugar. O cheiro forte de álcool dominava o lugar, e duvido muito que a produção tivesse se preocupado em organizar efeitos de gelo seco. A fumaça dos outros já fazia grande parte do trabalho.
— Sinistro — murmurou, ou pelo menos seu grito foi muito abafado pelo som. Ele encarava o lugar inteiro em panorâmica, observando por mais alguns longos minutos uma garota vestindo uma saia curta e chapéu de papai noel. Atrás dela, visualizei um balcão feito de tijolos, com um armário recheado de caixas de papelão e placas de venda de garagem. Algo me dizia que eu não encontraria carrinhos de segunda mão ou roupas usadas dentro delas.
O vocalista berrava algum cover de Sex Pistols como se fosse o Mick Jagger, e a plateia vibrava sem grande interesse em conhecer a música ou não. Enfiei as mãos nos bolsos, pegando o celular por um momento. Já passava da meia noite e não havia me ligado de novo. Uma ansiedade começou a tomar meu peito outra vez.
Virei-me para Maverick e , que ainda olhava o local com certa estranheza.
— Vou procurá-la pela esquerda, vocês dois podem verificar no bar — olhei para trás — Bem, eu acho que aquilo é um bar.
— Tem certeza que ela tá aqui, ? — fez uma careta — O lugar não concorda em nada com .
— Ela tem que estar — disse hesitante, mais para mim mesmo. Se ela não estivesse aqui, eu começaria a ficar seriamente desesperado — Prometo que não vamos demorar, só preciso encontrar…
— Não vamos mesmo demorar — interrompeu Maverick, inclinando a cabeça para trás de meus ombros com um sorriso sacana no rosto.
Juntei as sobrancelhas e segui seu olhar. Uma massa de pessoas no centro do porão gritou ensandecida entre si, gritos não necessariamente direcionados ao palco. Um ponto de brilho atravessou meus olhos e sumiu, apareceu novamente e depois foi soterrado pelos casacos pretos de novo. Apertei o olhar até ver um cabelo conhecido se movendo no ar, acima do brilho de um vestido curto que servia como um globo espelhado de uma boate qualquer.
Trinquei o maxilar na mesma hora.
— Acho que vou pegar uma bebida — Maverick colocou uma das mãos no meu ombro — Não quero ser a única a não me divertir.
Com uma risada, ela se retirou e passou para o meu lado, olhando a cena com os olhos arregalados. Ele se virou para dizer alguma coisa mas, assim como eu, também não sabia o que falar. Olhei para ele e fiz um gesto para que acompanhasse Maverick em seja lá o que quisesse fazer e andei a passos largos para o centro, me embrenhando na multidão avassaladora que se comprimia cada vez mais perto do palco.
Eu não sabia como ela estava conseguindo dançar ao som de I Wanna Be Sedated, mas ninguém parecia muito interessado nisso. Duas garotas dançavam ao seu lado, e aqueles movimentos com a cintura nada casavam com a agressão na bateria, mas ela parecia sorrir e sorrir muito. Gritei seu nome uma vez, sem sucesso nenhum. Um cara alto e careca mexia o corpo como um espantalho atrás dela, mirando especialmente em seu rosto e dando passos certeiros para a frente. Eu ainda a enxergava por uma fresta de corpos que impediam que eu seguisse adiante, o que me deixava ainda mais irritado. Perdi as contas de quantos ombros esbarrei e quantas bebidas devo ter acidentalmente derrubado sem me desculpar, mas eu só conseguia focar à frente. Ela estava bem na minha frente.
jogou a cabeça para trás e se preparava para receber uma dose de alguma bebida vermelha engarrafada que um dos outros caras se preparava para virar em sua boca quando finalmente cheguei na borda do círculo. Algumas gotas conseguiram atingir sua língua antes que eu, em um movimento só, puxasse seus ombros para perto de mim, fazendo o resto do líquido se derramar no chão até que o sujeito se desse conta do sumiço.
— Ei, o que tá fazendo? — ele gritou, me encarando com raiva. Eu não sabia se era pela bebida derrubada ou se eu acabei com seus planos de embebedar uma garota.
riu grogue em meus braços, erguendo a cabeça para cima e parecendo radiante ao me ver.
, você veio mesmo — ela passou os braços em volta do meu pescoço, descansando a cabeça no meu peito como se eu fosse claramente algum tipo de alucinação. Nunca havia notado nossa diferença de altura, mas também não me lembro de ficar tão perto dela por tanto tempo pra perceber.
— Você está bem? — perguntei alto. Ela apenas assentiu forte com a cabeça, como uma criança — Vou te levar pra casa — procurei falar em um tom que ela entendesse, perto de seu ouvido, começando a conduzi-la para fora da multidão, mas senti seus pés travarem no chão.
— Não, eu não quero ir pra casa! — ela se afastou de meus braços, me olhando com aversão — Não quero…
, não…
— Eu te chamei pra me divertir, , não pra me buscar. Faz um esforço, vai…
— Prometo te oferecer outra diversão longe daqui, agora...
— Oh idiota, não vê que ela não quer ir? — o careca de casaco de couro disse, a voz alta e grossa como a de um monstro. Encarei seu sorriso meia boca e triunfante, tentando conter a raiva que se apossou de mim ao imaginar o que ele pretendia com ela, o que todos eles pretendiam.
Lembrei do aviso claro do velho chapado da entrada sobre polícias e ambulâncias, mas quando percebi eu já havia dado um passo à frente.
— Acredito que ela também não queira ficar no meio de neandertais fodidos como você que deveriam andar por aí usando uma focinheira — arranhei as palavras sem piscar, percebendo que havia me aproximado demais. Brigas em pubs aleatórios nunca foram a minha, ainda mais quando não envolviam um fantasma sentado no palco, mas naquele dia eu não parecia disposto a segurar meu gênio detestável. E poderia atribuir a culpa fácil ao outro idiota master que havia encontrado na festa anterior. Uma mão no meu ombro puxou meu corpo para mais perto, desta vez do cara que havia tido a bebida em mãos esparramada pelo chão.
— Amigo, você está fazendo errado… — ele também tinha um olhar brilhando em raiva, e percebi que o ar circulou mais ao redor, fruto do afastamento das pessoas ao notarem o clima estranho — Não sabe o significado de ordem de chegada?
— E você não sabe o significado de cadeia, seu babaca do caralho? É pra onde você e seus gorilas iriam se continuassem o que pretendiam fazer com ela nesse exato momento.
Então era isso, eu faria exatamente tudo que não pretendia fazer quando saí de casa hoje.
Lembrei do ferimento já quase totalmente cicatrizado na testa e no braço sem o gesso e quis rir. Já comecei a pensar nas desculpas bem trabalhadas que teria de dar pra família inteira ao chegar com o olho roxo pra ceia de natal, mas nem isso me fez deixar de sustentar aquele olhar agressivo e nojento dos dois caras e, pra minha preocupação, de mais alguns que estavam atrás dele.
Por sorte — ou não —, senti o corpo de passar à minha frente, tirando as mãos do cara do meu ombro, que já teria a marca de seus dedos, não fosse a jaqueta.
— Rapazes… — ela levantou as mãos em rendição, olhando para os dois da frente, claramente enxergando mais do que isso. Sua voz estava mais firme, mas percebi o esforço que colocava para formar as frases — Vão querer bater em um cara sozinho e desarmado como naqueles filmes do Tarantino? Que coisa feia. Não sabem que ele acabou de sofrer um acidente?
— Ele parece procurar bastante por acidentes — o careca respondeu, torcendo o punho. Inconscientemente, fiz a mesma coisa — Melhor dar licença do caminho, princesa…
Ele esticou os dedos para tocar no rosto de e, em um impulso do meu cérebro, afastei sua mão em um tapa violento. Não deu tempo de pensar muito no que eu tinha feito. Ele me olhou chocado por alguns instantes até que torcesse a feição em fúria assassina, vindo pra cima de mim.
— Ei, ei! — meteu as mãos no peito largo do homem, e só naquela hora percebi que as outras garotas fizeram o mesmo, olhando um tanto chocadas para a expressão furiosa da montanha de músculos — Qual é!? Vocês não respeitam a pista de dança!? — ela revirou os olhos e senti suas mãos nas minhas — Vamos dançar, .
Deixei que ela me conduzisse pela multidão, ainda com o rosto virado e travado no cara que ficava para trás, que também tentou dar um passo à frente, sendo impedido logo em seguida. Algo naquele sorriso tosco e a língua que passou pelos lábios enquanto encarava as costas dela fez meu sangue ferver como o inferno, e agradeci internamente por ela ter adquirido alguma força para me conduzir para longe dali.
Era impossível achar um lugar vazio, mas o longe parecia realmente longe demais daquele círculo detestável. Ela parecia se mover sem rumo e, agora mais longe do pessoal, puxei sua mão e o corpo juntos para que se virasse para me olhar.
Ela pareceu assustada por um segundo, ainda mais porque a puxei pra bem perto. Abriu um sorriso devasso, que foi inteligente em me fazer perder as palavras por um tempo. A luz branca e amarelada misturada com a fumaça atravessava seu rosto em um brilho intimista, inevitável de se olhar. Eu a observaria daquele jeito por horas a fio, e sinto que não me cansaria.
— O que está fazendo aqui? — perguntei quando achei minha voz, e percebi que toda a agitação dela, que esteve presente em todos os momentos até que eu chegasse aqui, havia sumido. A mesma agitação agora se encontrava dentro do meu peito, e ela nos meus braços não ajudava em nada.
— Conhecer novos ares — respondeu, simplesmente. Um berro do vocalista a fez olhar para o palco — O seu tipo de lugar, pelo visto.
— Quem está com você? — perguntei rápido, olhando para os lados como se fosse enxergar alguém brotando do nada que também estivesse procurando por ela. juntou as sobrancelhas, confusa, e percebi que talvez não tenha escutado nada — Esquece, eu acho que você realmente deveria…
— Não! — ela se afastou de novo, com a voz manhosa — Eu quero curtir a festa, pelo menos essa festa, a única festa que não teria ninguém…
— Quer parar de agir como criança e se tocar da onde você decidiu curtir uma festa? O que eles te deram pra beber? Você sabe que não pode…
Travei, passando a mão pelo cabelo, torcendo pra ter passado despercebido. Ela me encarou sem mostrar nada, como se imaginasse que eu soubesse, mesmo que eu nunca tenha dito. Devia achar que eu sabia desde o flagrante no hospital.
— Não pude fazer muitas coisas por muito tempo, — ela respirou fundo, diminuindo o sorriso até que ele quase desaparecesse — Por um mísero dia, me deixa fazer o que eu quero! — ela se esquivou levemente e voltou a andar, mas puxei seu pulso novamente.
— Eu só não quero que você vá parar no hospital de novo, dá pra entender isso?
Argh, você é um saco… — ela levantou os braços para afastar o cabelo dos ombros e um homem de ombros largos, tão largos quanto o outro, esbarrou em seus cotovelos, derramando o copo de plástico cheio de uma cerveja misturada com alguma outra coisa nos ombros e no colo de . Em um passo rápido, puxei-a para o meu lado, enquanto ela fungava em choque com a bebida gelada em sua pele.
— Aí, presta mais atenção! — ele gritou enquanto seguia em frente, e fiquei grato por isso. Pela minha experiência, um cara que perde a bebida em um lugar desses é comparável a alguém que teve o carro estraçalhado.
— Droga… — ela murmurou enquanto passava a mão molhada pelo vestido brilhante. Ameacei tirar a jaqueta no mesmo momento, mas ela me parou — Não precisa, vou ao banheiro.
Ela já estava se mexendo antes que eu dissesse alguma coisa. Bufei enquanto seguia suas costas, que costuravam a multidão como se já conhecesse o caminho. Ela não parecia sentir os ombros trombando contra os dela e um novo potencial de receber outra enxurrada de bebida, ou ainda, parecia não se importar com isso. Comecei a pensar que ela pudesse estar seriamente nervosa ou chateada, e nada tinha a ver com os grandalhões que acabamos de deixar lá atrás.
Tinha a ver com o cara irritante que a seguia nesse exato momento.
Tive certeza disso quando dobramos em um espaço estreito e sem fim, onde uma fila mediana se estendia até uma pequena porta baixa e com tantas pichações sobrepostas que era impossível adivinhar sua cor original. A fumaça ali era pesada, e a espera para entrar havia se transformado em um motivo para casais adiantarem o que poderiam fazer no banco de trás de um carro. parou por um instante, encostando-se do outro lado da parede, fechando os olhos por um segundo. Eu podia visualizar sua cabeça girando e a tontura característica que devia estar sentindo.
Me aproximei dela, apoiando-me em um dos cotovelos na parede ao lado de seu rosto.
— Quanto você bebeu? — perguntei, calmo. Não precisei aumentar tanto o tom nesta parte do térreo; as paredes grossas de cimento detinham grande parte do barulho.
— Não importa — ela murmurou, ainda de olhos fechados. Sua feição serena de repente me irritou.
— Você sabe que importa! Se não queria que eu viesse, por que discou os números? — falei de forma furiosa, os dentes se juntando enquanto eu tentava não falar alto demais. Mas o silêncio dela, assim como suas atitudes esquivas, não me deixavam exatamente disposto a ser legal — Sabia perfeitamente que eu ficaria desse jeito, mas me ligou mesmo assim. Por que não fez esse esforço para atender as minhas ligações esse tempo todo?
Ela abriu os olhos, me encarando de canto, repuxando os lábios como se segurasse a resposta. Na verdade, ela já havia me dado uma. E pensar que o comportamento dela naquela noite estava sendo direcionado daquela maneira atípica por causa de um cara que não merecia nada além de uma boa surra me enchia de frustração. E ódio, principalmente isso.
— Eu não… — ela bufou, desencostando-se da parede — Eu não quero falar sobre isso.
Porra.
Umedeci os lábios, acenando com a cabeça sem olhá-la. Se olhasse, eu insistiria. Eu gritaria. Mas não deveria ceder à minha chuva de emoções hoje, pelo menos não perto dela.
— Vou pegar uma água pra você… — disse e virei para andar rapidamente até o balcão que vi mais cedo, certo de que alguns minutos longe dela seriam o suficiente para que eu voltasse a ficar racional.
— Será que dá pra você parar com isso? — ela falou em minhas costas, exasperada. Virei novamente e a encontrei com o mesmo olhar raivoso, beirando à indignação — Dá pra parar de fazer isso? — ela balançou uma palma no ar, apontando dela para mim — É tão… Tão…
Não entendi nada. Um barulho alto e agudo de ferrugem surgiu mais à frente, onde a porta do banheiro estava finalmente se abrindo, porém ninguém entrou de imediato. Me perguntei qual era o nível crônico que essa galera se encontrava para não notarem um banheiro desocupado, vendo que a fila estava mais do que cheia.
pareceu ter se atentado à mesma coisa que eu e, sem nem me dar tempo de pensar, começou a caminhar a passos largos para a porta aberta, ultrapassando todas as demais pessoas para trás, que não começaram a gritar.
Xinguei baixo, indo atrás dela de imediato. A gritaria se iniciou assim que a alcancei, mas parecia ser tarde demais para tentar convencê-la a não furar uma fila daquelas em um lugar daqueles. Ela já estava lá dentro e entrei em uma pisada só, fechando a porta atrás de mim como um raio, trancando-a e bufando ao ver o golpe posterior, que fez a porta velha estremecer e me fazer desconfiar da capacidade da tranca.
— Você não tinha que me seguir até aqui — ela disse em tom seco enquanto caminhava até a pia suja e o espelho desfalcado. Uma forte luz vermelha soterrava o pequeno ponto de luz amarelada acima do espelho, concedendo uma visão grotesca às várias pichações e adesivos de caveira, junto com o cheiro forte de álcool e de outras coisas que prefiro não nomear. não parecia se importar com nada disso, e duvido muito que já estivesse em um lugar daqueles na vida.
O jeito como ela abriu a torneira e começou a lavar as mãos de forma descontraída, porém fria, me rendeu mais uma série de irritação.
— É, eu realmente não deveria te seguir por aí — disse entre dentes, passando a mão pelo cabelo de novo. Foi como se me tocasse pela primeira vez onde eu havia ido parar naquela noite maluca, e onde eu me encontrava naquele exato momento: preso com em um banheiro imundo de porão, banhados por uma luz vermelha bizarra e me irritando pelo fato de ter feito tudo isso sem nem piscar.
Porque, ao que parecia, eu estava preocupado como um louco pelo seu estado e não conseguia tirar da cabeça todas as coisas que deveria ter sentido quando estava sozinha, mas ela ao menos conversava comigo. Ah, oras, qual era o meu problema? Caralho.
Ela virou a cabeça como um jato, e mandei pro inferno toda a tentativa de disfarce do meu ressentimento. Eu estava com raiva, estava preocupado, e odiava seu silêncio mais do que tudo naquele dia, e não me importei se ela percebesse isso ou não.
— Também não sei porque te chamei — ela respondeu, rude, procurando algum papel toalha em que pudesse secar as mãos.
— Ah, jura? Percebeu que não sou uma boa companhia agora? Depois de dois dias?
— Está contando os dias agora?
— Por que não me atendeu? — perguntei novamente, deixando a manivela de palavras liberada para que saíssem sem o menor filtro.
Ela me encarou com o olhar duro, impenetrável. Eu não fazia ideia do que ela estava pensando.
— Por que deveria te atender, ?
— Porque estávamos juntos. Eu vi tudo, assim como você. Não consigo entender porque, de todas as pessoas, você decidiu não falar comigo.
— Então estava preocupado? — ela ergueu uma sobrancelha, querendo soltar uma risada, mas algo a impediu — Achei que seu negócio fosse escalar sacadas ao invés de pegar um telefone.
— Eu poderia escalar — dei um passo à frente, sentindo o peito arder. Ela estava sendo intratável de novo — Poderia até mesmo bater na sua porta da frente, ou sentar do seu lado na sua cama. Era isso que você queria?
O corpo dela ficou rijo. Seus olhos pareciam diferentes demais de quando os encontrei mais cedo. Ela parecia olhar para algo que não queria olhar.
Talvez ela não estivesse tão bêbada assim.
Um golpe leve, porém surpreendente, atingiu meu abdômen. Uma bola de papel marrom rolou pelo chão sórdido enquanto dava um passo para trás. Agora ela parecia com raiva, frustrada.
— Não quero nada disso — ela sussurrou furiosamente, desviando os olhos dos meus, caminhando até a porta novamente.
Segurei a curva de seu cotovelo, virando-a pra mim em um movimento só. Ela arfou, sendo pega de surpresa no primeiro segundo, assumindo uma expressão insegura logo depois. Eu fervi de raiva de novo. O que diabos ela estava fazendo e por que estava me dando meias palavras? Eu não aguentava mais porra de meias palavras e frases inacabadas e joguinhos sem sentido!
— Então me diz o que você quer! — rugi, me aproximando de seu rosto sem perceber, querendo desesperadamente que ela escutasse, e escutasse de verdade — E diga a verdade.
— Quero que você vá embora…
— Porra, … — resmunguei — Amigos, foi o que você disse! Então você pode me dizer...
— Tem certeza, ? — ela se soltou em um solavanco, me empurrando com o máximo de força que conseguiu, que não era muita. Sua respiração estava pesada e ela hesitava, ativando as palavras sem refletir sobre elas — Quer saber a droga da verdade? Ela é vergonhosa e garanto que vai se arrepender de ouvir. É uma verdade tão ridícula e insana que se alojou na minha cabeça e não sai por nada nesse mundo. Os sonhos, meu deus… — ela levou as mãos ao cabelo, como se tentasse organizar os pensamentos sem sucesso. Seus pés se moveram em um semicírculo, e ela com certeza estava mordendo a língua pra não falar demais.
Trinquei os dentes novamente, ouvindo mais batidas violentas na porta. A fúria de fora parecia me atingir, fazendo meu peito continuar queimando pelo final de seu discurso.
— Do que diabos está falando? — perguntei novamente, dando mais um passo à frente. Ela parecia lutar contra a minha aproximação, mas não conseguia me sentir disposto a uma trégua — Fala logo,
— Você! — ela gritou com raiva, porém com os ombros baixos — Eu não quando aconteceu, mas você… De repente eu estava sonhando com você. Um sonho maluco, sem sentido algum, porque é impossível, não tem como… Não tem como nós… — ela travou, olhando para mim com os lábios trêmulos, despejando a verdade naquele olhar.
Toda a raiva se dissipou por sobre meus ombros. Ela não disse, mas eu vi. Pude ver as imagens como um filme na minha cabeça, um filme que jamais esqueci. Minha corrida até Woodlawn. Minha luta contra Margot, sua voz na cabeça de , suas acusações dolorosas que a machucaram também fisicamente. A fuga, o beijo. A conversa posterior, a conversa maldita onde desmenti absolutamente tudo e a tratei com a maior indiferença que conhecia.
Esse dia. A situação específica que corria em seus olhos ali, na minha frente. Sonhar era o jeito menos doentio que ela poderia me dizer que não fosse lembrar. Lembrar de algo que ela não havia vivido, não podia ter vivido, não podia ter esquecido algo como aquilo. De repente entendi toda a sua raiva, e não consegui manter a minha de pé.
… — disse quando achei minha voz, sem saber o que falar a seguir. Um branco infindável havia pousado em minha mente, e não havia nada, absolutamente nada. Por mais que eu achasse que estava pronto para aquele momento, percebi que não estava. Que nunca mais iria estar pronto pra mentir daquele jeito — Olha…
— É. — ela soltou uma risada seca, desconcertada — Não queria a verdade, ? Pois aí está. Acho que estou maluca e não paro de pensar em você. Não consigo ler um maldito livro, ouvir qualquer maldita música ou tomar a droga de um banho sem parar de lembrar daquele sonho bizarro e real, tão real quanto você está na minha frente agora. Era isso que queria ouvir?
Eu parecia ter milímetros de altura. havia crescido com suas palavras e elas me encolhiam a um nível covarde da discussão, tão covarde quanto a conversa do carro naquele dia. Quando ela havia despejado mais verdades, verdades dolorosas, ou desejosas, eu não sabia como classificar. Verdades que eram um gatilho para as minhas próprias, e isso me causava mais medo do que pensei.
Eu estava desarmado. Eu sabia que deveria estar fazendo um milhão de perguntas em meu olhar, mesmo que minha boca não pudesse proferir palavra alguma. E as principais delas se embolaram na ponta da língua, variações da frase: o que exatamente você se lembra?
Para o meu azar inesperado, ela pareceu ter sucesso em interpretar todo o meu caos interior.
— E é exatamente por isso — ela se aproximou de mim, vários passos à frente — que você não deveria escalar a minha sacada.
Engoli em seco. Agora eu sentia sua respiração em meu nariz e sabia que estava fodido. Meu coração martelava como um louco, os golpes sendo sentidos em minha garganta, acumulando um suor estranho na palma de minhas mãos. Ela encarou meus lábios com interesse bruto, curioso, como se quisesse confirmar as mesmas sensações que tivera durante a lembrança disfarçada de sonho.
Não conseguia me mexer. O olhar dela me paralisava e eu não conseguia proferir uma única frase. Mesmo sabendo que não, aquilo não, definitivamente não devia acontecer. Não naquele momento.
Mas por que não deveria…
— O que aconteceu nesse sonho? — perguntei, buscando alternativas para que ela falasse e não se aproximasse mais. Minha voz era focada em não despencar com sua presença, em não ceder àquilo tudo.
Mas porra, seria muito mais fácil se ela parasse de me olhar desse jeito.
— Não consegue adivinhar? — seu tom de voz era baixo e grave e eu juro que estava difícil. Tentei raciocinar, ter esperanças de que suas lembranças voltariam de forma gradativa e, pelo visto, aleatórias. Se ela tivesse visto exatamente tudo que aconteceu naquela noite, não estaria agindo como se só se lembrasse de uma coisa. E logo dessa coisa, pelo amor de deus!
— Não faz isso… — minha voz saiu em um sussurro sôfrego, contido. Eu nem sei como conseguir dizer tal coisa. — Não podemos fazer isso…
— Não estamos fazendo nada — ela respondeu, em uma voz igualmente baixa e abafada, ruidosa, fazendo cócegas em meus ouvidos. O barulho alto do rock do lado de fora havia sumido. Existia uma nova redoma ali, naquele lugar inusitado, que me prendia àquela garota e aos olhos penetrantes que tanto insisti em fugir.
Senti nossos narizes se encostando e uma mão tímida dela ir para cima do meu ombro. Ah, deus, eu não sabia mais o que fazer…
… — trinquei o maxilar, fechando os olhos com força. Meus pés estavam cravados no chão e fiquei com raiva, mais uma vez a raiva.
— O que...
— Prometi que nunca mais ia te beijar.
Ela inclinou a cabeça para o lado, tentando se lembrar do momento exato em que fiz isso. Não funcionou como um teste, mas de repente me mostrou o quanto exatamente ela se lembrava. Suas memórias não voltaram em uma sequência cronológica, e muito menos progressiva, e talvez eu ainda pudesse ter esperanças de conseguir inventar alguma coisa antes que ela chegasse nessa parte.
Mas o que eu estava dizendo? Eu não conseguia pensar em absolutamente nada além daqueles lábios agora. Muito menos se sua mente ainda estava nebulosa ou não.
— Não é hora de dizer coisas sem sentido agora, .
Seus lábios roçaram nos meus e foi o fim de tudo.
Ataquei sua boca com força, estrangulando os avisos da lógica, puxando-a para tão perto de mim que refuta qualquer lei da física sobre dois corpos. Ela tomou meu cabelo entre seus dedos, e senti meu corpo inteiro arder em chamas. Não conseguia me lembrar do dia de hoje, como havia ido parar ali, desconfio que me esqueci por meio segundo até mesmo onde estava. A sensação de tê-la tão perto explodiu minha mente de uma forma violenta, e foi como se eu nunca tivesse dúvidas, como se estivesse brincando de gato e rato com todos os sentimentos entulhados em meu coração e finalmente tivesse dado um basta e tudo isso. Era ela. De repente eu sabia, e era simples, mais simples do que imaginei.
Não vi quando meus pés se mexeram, nem quando exatamente as costas dela bateram na parede, nem me interessava. Um fogo de outro mundo dominou toda minha cabeça e de repente pareceu uma ideia ridícula que estivesse nevando lá fora, quando tinha tanto calor infestando aquele lugar, aquela onda maluca de frio e quente que dominava meu estômago, o desejo irradiando por cada célula do meu corpo e piorando tudo ao sentir a mesma sensação vinda dela. Tudo era uma tremenda loucura, eu não sabia descrever.
De repente eu queria mais, e aquilo parecia pouco demais. Eu não era louco, mas não estava no juízo perfeito, tinha certeza. Transportei os beijos para o queixo delicado logo abaixo, o pescoço que já havia sido alvo dos meus pensamentos insanos e secretos e senti seu corpo se contorcer em meus braços. Minha imaginação navegou em águas tão distantes que tive certeza que precisava parar. Seus lábios voltaram aos meus, mais violentos, mais ansiosos. Eu poderia morar ali, poderia beijá-la pelo resto da noite, mas tinha de convocar a fagulha de consciência novamente, precisava voltar à maldita realidade que era minha maior inimiga no momento. Mas precisava me mexer, precisava disso como nunca.
Agarrei seu queixo em uma das mãos, mordendo seu lábio inferior com desejo velado, com vontade esmagadora. Uma massa negra e disforme de sanidade me fez afastá-la com dor, com sofrimento. Nunca pensei que eu desejasse tanto sua boca, que desejasse ela por inteiro.
Encostei minha testa na sua e tive que recuperar o fôlego, baixando os olhos para que ela não visse a cara de maluco que eu com certeza deveria estar fazendo. Maluco, completamente doido por ela. A luz vermelha tornava sua boca e seus olhos ainda mais pecaminosos. Pareciam gritar que eu não deveria chegar perto, ignorando totalmente minha indiferença ao inferno.
— Não tem gosto de cigarro — ela disse com a voz entre cortada, levando um dedo ao meu lábio inferior. Uma risadinha escapou de sua garganta — Sempre me perguntei qual gosto teria…
Trinquei os dentes novamente, fechando a mão em punho na parede. Caralho! O que ela estava fazendo? O que nós estávamos fazendo?
… — ela murmurou de novo, falando por cima de meus lábios, e senti que era capaz de nunca mais ir embora — Então já fizemos isso antes?
Um soco brutal, mais violento do que o outro, veio da porta de metal decadente. O som foi o estopim para que eu me afastasse de vez dela, misturado com suas palavras confusas. Era a realidade me atingindo com uma pancada. Ela me olhou surpresa, um tanto chocada pela distância de vários passos que agora nos afastavam, mas me toquei do quanto eu era doido. Do que tinha acabado de acontecer. E, por mais que a sensação prazerosa e louca ainda estivesse queimando dentro de mim, agora eu me via tentando sufocá-la de uma vez por todas.
— Temos que sair daqui — falei rápido, encarando a porta, torcendo para que rolasse apenas alguns gritos indignados e não golpes indignados.
— Mas…
— Podemos conversar depois. Aqui não é o lugar certo pra isso — disse sem olhar para ela, e sem esperar sua resposta. Abri a porta em um rompante, dando de cara com uma mulher loira e tatuada que me olhava com fúria venenosa. Ao reparar em meu cabelo claramente bagunçado e a jaqueta escapando nos ombros, pareceu ter ficado com mais raiva ainda.
— Malditos coelhos do caralho! Não podiam trepar em outro lugar?! — ela berrou e eu encarei . Rapidamente, ela pegou em minha mão e nós dois seguimos pelo lado contrário da fila, ignorando as outras palavras pronunciadas e não compreendidas pelas outras pessoas atrás.
Ela entrelaçou os dedos nos meus e guiou o caminho. Senti minhas mãos queimarem por um instante, e que aquilo não seja por todo o delírio que aconteceu há poucos segundos. O vento do lado de fora começava, aos poucos, a clarear a minha mente, e eu precisava urgentemente voltar a focar no que havia ido fazer ali.
Andei pela direção que me lembrava ser o bar. Precisava achar e Maverick e sair daqui o quanto antes. Constatei que precisava urgentemente de ar fresco, e que ele clareasse a minha mente e me fizesse retroceder imediatamente. Puxei para as minhas costas enquanto tomava à frente, curvando através dos corpos agitados até finalmente visualizar as caixas de papelão na prateleira, onde o barman agora começava uma tentativa de formar uma fileira de shots que pegavam fogo.
Parei no meio do caminho ao notar que havia freado os pés de repente. Olhei pra ela, confuso. Ela olhou para mim com uma expressão hesitante, e aproximou-se há muitos centímetros.
— Para onde estamos indo? — ela perguntou, e graças à Should I Stay or Should I Go estar soando como uma balada, fui capaz de ouvi-la sem problemas.
— Vou te levar pra casa — respondi de imediato, e esperava não ter dado brecha para que ela protestasse — Só precisamos achar o…
— Não quero ir pra casa — ela me interrompeu, e o cansaço de mais uma série de argumentos já começava a tomar conta de mim, mas então ela continuou: — Pra minha casa.
Seu tom de voz saiu mais baixo na última frase, mas ela estava perto demais para que eu não ouvisse, e como eu queria não ter ouvido aquilo! Serviu apenas para que qualquer resposta minha desaparecesse. Ela pressionou nossas mãos ainda juntas, fitando meus olhos com certeza absoluta do que dizia, e com outra coisa que eu não me atrevia a imaginar naquela hora. Porra…
O formigamento no meu peito voltou com força total. Minha mente virou uma grande geleia e tudo que eu conseguia pensar era em tirá-la dali agora mesmo, colocá-la no meu carro e dirigir até a West End Avenue e deixar que o mundo ao nosso redor se explodisse, que a tentação me conduzisse e que eu fingisse por uma noite inteira que tudo aquilo não teria consequências.
O sim estava na ponta da minha língua, mas ele também estava no reforço que dei ao aperto de suas mãos. Ela levantou o canto dos lábios em um sorriso de canto, consentido, o sorriso que quebrou minha estrutura por completo. Senti que ela me queria tanto quanto eu, e que estava com mais certeza do que estava fazendo do que eu, mesmo que eu não quisesse acreditar nisso. Aquilo me deixava maluco e patético. O maldito dilema começou a se formar como uma parede na minha cabeça e, por mais que tudo que eu quisesse naquele momento fosse levar essa mulher pra minha cama, também sabia que eu não podia. Não hoje, não agora. Não depois de todas as meias palavras, das lembranças cabulosas e disformes que poderiam resultar em desastre para ambos os lados, não quando eu não entendia realmente o que ela estava sentindo.
Abri a boca para tentar forçar o não, ou algum adiamento daquela conversa convidativa, quando meu ombro foi atingido por uma massa de dedos que o seguraram com tanta força que tive que soltar a mão dela.
, finalmente te achei! — a voz de era tão embolada quanto seus pés. Os olhos dele estavam pequenos e a gargalhada escapou de sua garganta ligeiramente solta. Ele estava completamente bêbado.
— Caralho, — peguei em seus ombros, virando-o para meu rosto — Ei, olha pra mim. O que você bebeu? Cadê a Maverick?
— Maverick? — ele juntou as sobrancelhas e me encarou com estranhamento — Quem é Maverick, ? Não está na hora de me falar sobre essas pessoas que só você conhece, viu… Ei, essa é a ? — ele tratou de se desvencilhar de minhas mãos, olhando para — Como sempre, uma gata. Se o meu amigo aqui me permitir dizer, é claro…
Ele riu novamente e revirei os olhos. acompanhou , agradecendo logo em seguida.
— Mas é sério, eu nunca, jamais, jamais… Imaginei ver você aqui — ele continuou, piscando os olhos devagar — Nós estávamos na festa da Sandy e te procurou por todos os lados, debaixo de cada tábua do piso, ele até mesmo quase brigou com…
! — falei entre dentes, olhando-o com fúria para que ele calasse a porra da boca — Cadê a Sarah?
Fiquei aliviado por ter me lembrado do nome dela no último minuto, e também estava aliviado por ter chegado bem na hora antes que eu cometesse uma loucura, mas ele estava além de chapado. O que havia acontecido enquanto eu sumi?
— Sarah, aquela filha da...
— Estou bem aqui!
A voz dela surgiu de alguma direção amontoada que não captei e de repente Maverick estava se juntando à nós, segurando um copo vermelho com um líquido verde e as mangas do suéter puxadas até os cotovelos.
— Ah, então achou ela — disse sorridente, encarando à minha frente — Belo vestido, .
sorriu e agradeceu, olhando para mim no momento seguinte, mas eu não podia lhe ceder explicações no momento. se ancorava em mim novamente, inconsequentemente sequelado.
, essa é Mav… Sarah — falei, percebendo o olhar desgostoso de Maverick ao me ver pronunciando seu nome — É uma amiga do .
— Me xingar ofenderia menos.
— O que aconteceu com ele? — perguntei à ela, que encarou como quem olha para uma faixa de pedestres.
— Nós bebemos — respondeu, simplesmente.
— O que você deu pra ele? — cerrei os dentes.
— Eu não dei nada. Só achamos que seria falta de educação recusar as bebidas personalizadas de uma galera naquele canto ali — ela apontou para a direção contrária ao bar, onde um grupo de cabeças impossibilitaram minha visão para enxergar o que estava no meio deles, mas uma fumaça suspeita que serpenteava acima de seus ombros já me diziam tudo.
Estalei a língua, tentando manter de pé.
— Ah! A erva deles é horrível, mas seu amigo parece ter gostado.
Bufei, olhando o sorriso bobo de novamente. Bêbado e chapado, era tudo que eu precisava.
— Que ótimo — tateei os bolsos quando o rosto de recaiu sobre meus ombros mais uma vez, e eu sabia que teria que tirá-lo dali — Essa é uma forma de vingança? Devo pensar duas vezes antes de deixar vocês dois ficarem sozinhos de novo?
Ela me encarou irritada, como se eu tivesse insinuado algo que a desagradava. Tive vontade de perguntar, finalmente, por que ela havia decidido nos acompanhar naquela noite até aquele show insano que igualmente não parecia combinar com ela. Mas isso teria que ser feito em outra ocasião.
Olhei para de novo, que encarava meu amigo debilitado com certo tom de preocupação. Mesmo tendo o conhecido em um momento estranho e desagradável, ela acompanhava seus movimentos como se estivesse pronta a direcionar sua boca para longe de mim assim que ele ameaçasse jogar tudo pra fora.
— Tenho que levá-lo pra casa — falei com ela, que assentiu imediatamente. A encarei por mais alguns segundos, como se deixasse a mensagem subliminar no ar: não vou esquecer. E não ia mesmo — Vamos lá, seu idiota — murmurei enquanto passava um braço dele sobre meu ombro, ao mesmo tempo em que ele soltava palavras desconexas sobre alguma tentativa de dança durante a música que não conhecia e Sarah tinha visto tudo.
Fui surpreendido pelo outro braço de ser segurado e orientado por do outro lado. Ele não sabia onde pisava e agradeci internamente pela ajuda. Sarah resmungou em suas costas o quanto ele não era digno da tolerância do departamento e que bebia como uma freira, o que acarretou uma nova discussão entre os dois até que atravessássemos a porta de metal, e não quero nem comentar sobre a dificuldade de subi-lo pelas escadas, mesmo que não estivesse mais se segurando e agora ria abertamente com os argumentos de e de como ele agora a usava de conselheira para a próxima enxurrada de justificativas contra Maverick.
Quando chegamos ao carro, deixei que ele se sentasse no meio fio enquanto procurava as chaves nos bolsos. Ele afundou a cabeça entre as pernas e finalmente começou a sentir o mal estar chegando, e um pensamento do pior acontecer com meu carro em movimento me fez sentir uma ânsia antecipada. Vi se abaixando logo à frente dele, falando em voz baixa como sairia na frente de metade da Columbia se conseguisse aguentar firme e chegar em casa sem causar nenhum estrago. A alegação o fez rir, e os observei por alguns segundos antes de abrir a porta de trás.
Inclinei a cabeça para , que entendeu o recado. Prontamente, ela trocou algumas palavras baixas com , que deu risadinhas e se levantou de bom grado, jogando-se no banco de trás enquanto balbuciava como eu era um ótimo amigo. Revirei os olhos e fechei a porta, abrindo a do carona desta vez, olhando pra .
Ela me encarou confusa, e com um leve tom de surpresa.
— Já disse pra não descontar na boa educação que ganhei dos meus pais — eu disse e sorrimos ao mesmo tempo com a lembrança. Uma pontada aguda de fascínio me tomou, e agradeci quando ela entrou rapidamente.
Fechei a porta dela e indiquei a outra para Maverick. Ela pareceu pensar bem na proposta mas, por fim, abriu a porta de trás e se sentou ao lado de um curvado com as bochechas pressionadas à janela, os olhos fechados como se dormisse.
Entrei a tempo de ver colocando o cinto e dei a partida, saindo sem dificuldades da rua ainda mais vazia do que antes.
Maverick não demorou muito a descer. Na verdade, ela apenas pediu que eu parasse o carro em um cruzamento perto do Brooklyn e agradeceu pela aventura da noite, olhando para com um pouco mais de insistência e em seguida retirando o sorriso ao ver . Esperei para ver alguma coisa, mas ela sumiu por uma esquina barulhenta com o tráfego e apenas segui adiante, em direção ao Queens.
Um silêncio morto tomou o carro quando havia finalmente parado de grunhir palavras sem sentido e pareceu ter dormido de vez. A noite antes da véspera parecia bastante movimentada e não foi difícil topar com um trânsito na Cross Bay Boulevard. Inúmeros papais noel faziam piruetas no sinal vermelho, que mudou para verde pelo menos três vezes enquanto não saímos do lugar.
E daí comecei a pensar. Não foi a escolha certa. As lembranças tomaram minha mente com força e não me atrevi a olhar para o lado. Movi os dedos para o aparelho de som, deixando que qualquer voz invadisse o ambiente e esvaísse as da minha cabeça, só não esperava que essa voz fosse ser a de Paul McCartney quando Something começou a tocar.
Virei a cabeça ao mesmo tempo que ela. Sustentei aquele olhar emblemático porque já era tarde demais para fingir que eu também não lembrei. Assim como senti a mesma coisa daquela noite, quando percebi pela primeira vez que aqueles olhos iriam mexer comigo de alguma forma.
Fiquei aliviado ao notar que ela riu primeiro. O brilho vermelho do semáforo atingia as pedras brilhantes de seu vestido, espalhando a cor carmesim por todo o painel.
— Você está bem? — perguntei, deixando que toda a tensão sumisse de minha voz. Parecia uma pergunta pronta; algo que eu precisava dizer, antes que a noite acabasse e o amanhã chegasse e me dissesse que tudo não tinha passado de um sonho.
Ela assentiu enquanto respondia:
— Estou bem — ela mordeu o lábio inferior — Melhor do que esperava.
Ela ampliou o sentido da minha pergunta e percebi que, de novo, eu estava fodido e nunca mais iria conseguir ficar perto dessa mulher sem que deixasse evidente minha cara de paspalho. Avaliando-a agora sem a interferência de punk rock soando pesado ou minha raiva infantil gritando em meus ouvidos, eu via claramente que o término com não era realmente o motivo de suas escolhas de diversão naquela noite. Ele não importava tanto assim, e me senti um idiota por ficar bem com isso. Afoguei todas as expectativas que tentaram tomar conta da minha cabeça e tratei logo de voltar à vida real — uma em que elas deveriam ser cortadas pela raiz.
Voltei a olhar para a frente, batucando os dedos de uma mão no volante, tentando preencher a mente com a placa do carro vizinho e não com aquela boca do meu lado.
— Você a conhece? — ela perguntou de repente, se ajeitando no banco.
— Hum? — murmurei.
— Sarah Morgan.
Olhei para ela de novo, por um momento estranhando o nome completamente.
— Ah — falei. — Como eu disse, ela é amiga do .
— Faz tempo que não a vejo — ela continuou, encostando a cabeça no banco — Lembro de cruzar com ela na empresa da minha mãe. Parece que fazia um bom trabalho...
— Ela trabalhou pra sua mãe? — interrompi.
— Mais ou menos. Era mais como um serviço prestado de freelancer. Ela ainda era estudante do ensino médio. Minha mãe costumava se gabar de sua nova aquisição na área de tecnologia, mas depois de um tempo não queria nem vê-la pintada de ouro.
— O que aconteceu?
— Não faço ideia. Não é algo que ela faz questão de me informar, de qualquer maneira — deu um sorriso fraco — Mas algo a deixou nervosa a ponto de fazer o que fez…
A voz dela falhou, e esperei o resto com ansiedade disfarçada. levantou os olhos e pareceu ter notado que deixou muitas coisas escaparem.
Sufocou uma risada, aprumando a postura.
— Achei que tinha visto alguém parecida com ela ano passado, mas pensei que estava louca. Afinal, ela estava com Ash…
Engoli em seco e voltei a olhar para a frente. O carro vizinho havia se mexido alguns bons centímetros, o que demonstrava que o trânsito iria começar a melhorar.
— Você a chamou de Maverick? — ela perguntou em voz baixa, porém sem hesitar.
— Chamei? — respondi.
Ela me olhou por um tempo até se convencer e olhar para a frente. O trânsito andou mais um pouco e quis falar um palavrão. Gostaria de adiantar a mente de e saber exatamente o que se passaria por ela caso soubesse da minha ligação com , mas não conseguia imaginar. Se Maverick era um nome muito recorrente da boca de Ash, não precisava ser um gênio para juntar os pauzinhos. E se eu conhecesse aquele nome, era porque alguma coisa muito estranha estava acontecendo — ou estava começando.
Quando o carro começou a andar de vez, dei uma olhada discreta para o rosto dela. Ele parecia tranquilo e cansado, sem resquício de desconfiança da pergunta anterior, não uma que eu conseguisse ver. Esperava sinceramente que não pensasse muito naquilo, igualmente como não pensasse muito nessa noite inteira, apesar de eu não ser muito sincero sobre isso. Era como se tivesse existido um tipo de relação entre nós antes da Curva do Boden e um outro tipo após a Curva do Boden, e eu precisaria lidar com isso. Sentia a necessidade e um dever de conversar sobre o que aconteceu, nem que fosse para uma ocasião depois do ano novo. E suas últimas palavras pra mim lá dentro antes de sermos interrompidos por me provavam a mesma coisa.
— A árvore — ouvi o grunhido de novamente, misturado com uma respiração alta como um ronco — , a árvore de natal…
Revirei os olhos enquanto ouvia uma risadinha de . Segui pelo restante da rua por mais cinco minutos antes de virar na alameda escura e característica em frente à mansão exuberante e iluminada, como um paraíso perdido bem longe da rua dos milionários de New York.
Olhei para enquanto ela se desfazia do cinto. Ela retribuiu o olhar com confiança, enquanto o meu só exibia o contrário. O que eu deveria fazer agora? Eu só sabia sentir o coração bater forte como se tivesse saído de um baile escolar adolescente.
Meu deus, eu realmente não era bom nessas coisas…
— Então… — comecei.
— Obrigada pela carona — ela sorriu, colocando uma das mãos na porta. Olhou para agora completamente deitado no banco de trás e voltou para mim. Eu também queria beijá-la, mas aquele realmente não era o momento certo — Nos falamos depois.
Eu não sabia do que realmente queria falar depois, mas assenti mesmo assim.
— Boa noite, .
Uma troca de olhares lançou uma mensagem mútua no ar, e em seguida ela abriu a porta e andou até a entrada. Uma que serviu para os dois em diferentes sentidos, um tão doloroso e excitante quanto o outro.
Não vou esquecer.


Capítulo 20 — Descontrole fulminante

Jurei que estava sonhando.
Talvez tenha sido. Não era impossível. O lugar fantasioso era tomado pela luz vermelha, que se alastrava por todos os cantos da minha mente. Dessa luz partiam olhos brilhantes e acesos de desejo, assim como lábios igualmente rubros e parados enquanto eu me afastava após possuí-los. Passei um dedo por eles e senti a pele sobre a minha quente e viva como nunca, apesar de uma voz distante e espectral gritar que eu insistia em tocar na morte.
Senti meu coração acelerar mesmo durante o sono. Abri meus olhos devagar enquanto encarava a janela fechada. Um tipo estranho e diferente de leveza tomava meu corpo por completo, e levei as mãos aos lábios em certa descrença do que realmente haviam feito.
Uma lembrança disfarçada de sonho.
Percebi que, de alguma forma, pensei que esqueceria. Mesmo que tivesse insistido — tanto para ela quanto para mim — que não aconteceria, imaginei por um minuto sensato e realista de que o destino realmente existisse e fosse dar um jeito de acabar com tudo aquilo. Que eu voltaria à escala zero depois de finalmente dar chance ao sim entalado em minha garganta e minha vida rebobinaria à rotina usual: estudar, ajudar os mortos e não me meter com mocinhas em perigo por aí.
Além de nada disso ter acontecido, eu ainda sentia um calor solitário em algum canto quando me lembrei. Repassei a memória incontáveis vezes antes de me levantar, como se checasse que ela não iria mesmo embora. Quando levantasse, eu teria que lidar com isso, e a realidade parecia um bolo de possibilidades e incertezas tão grande que queria adiar quanto tempo fosse necessário com a única certeza que eu tinha no momento: aquele sonho era real.
Não me lembro a hora exata em que finalmente saí para a sala, coçando os olhos pela luz forte que entrava pela janela e caminhando devagar pela moleza do descanso pesado. Não me lembrava de ter uma noite de sono tão proveitosa e imperturbável como aquela. Eu podia ligeiramente declará-la como a melhor noite de sono que tive em semanas, e nem foram tantas horas assim. O sol ainda não estava à pino e não havia me deitado antes das 4 da manhã.
ainda estava desmaiado como uma mula no sofá, com os pés descalços e amarrotando minhas roupas emprestadas. Andei até a cozinha e liguei a máquina de café. Procurei aspirinas na gaveta e bufei novamente ao tentar pensar no que Maverick realmente havia dado ao meu amigo. Se ele se esquecesse de tudo, seria melhor. Talvez fosse um plano dela para apagar de sua mente o questionamento perigoso que havia me feito na primeira festa sobre Ash, mesmo que eu não acreditasse em suas verdadeiras intenções. Sarah Morgan — como desta vez eu sabia — de repente parecia fugir de qualquer lógica previsível que meu cérebro criava, e isso não era nada reconfortante. A última coisa que eu precisava era tentar adivinhar as intenções de mais uma pessoa.
Olhei para o calendário personalizado com a foto de família na Itália que minha mãe havia feito questão de fazer. Ainda estava com a página de novembro presa em cola, e andei até a parede, arrancando a folha de dias passados e amassando-a de uma só vez. A última página do último mês veio à tona e encarei-a com certo torpor.
Os dias passados eram o verdadeiro sonho. Parecia que tudo tinha acontecido, e ao mesmo tempo nada tinha acontecido. Os números dentro de cada círculo individual passaram pela minha mente enquanto eu tentava me lembrar do que exatamente estavam recheados, mas só ganhei um amontoado de recordações dispersas e soltas, como uma visão em flash, rápida e violenta. A sensação desconfortável de não notar o tempo passar não me parecia com nada que eu já tenha sentido. Só servia para me deixar ainda mais preocupado — como se o tempo estivesse contra mim, e me abandonaria na hora que eu mais precisasse.
Me preparei para arrancar a última folha quando reparei no círculo grosso em tinta vermelha bem em cima do número 24. As palavras escritas na caligrafia delicada de Meredith eram imediatamente reconhecíveis: não se esqueça de voltar pra casa. Serviu como um bom e sutil lembrete de ter que pegar um táxi para o aeroporto amanhã. Mas abaixo dela, a mesma frase se repetiu. Desta vez não era uma caligrafia muito familiar, mas ao mesmo tempo senti como se fosse. Como se eu sempre soubesse a quem pertencera. Ela lutava com o espaço circular e se encolhia a cada última letra, mas a mensagem era clara: não se esqueça de voltar para casa. E a mensagem final — a casa na qual se referia, que não seria o casarão com um grande jardim da família e sim, talvez, um prédio com a fachada baixa e debandada, abrigando muitas crianças e adolescentes abandonados à própria sorte — gelou meu coração ao desvendar o outro bom lembrete.
Havia uma pessoa a menos para desejar um feliz natal naquele ano.
E aquelas palavras me traziam a estranha sensação de que ela sempre soube disso.
Um toque alto e invasivo soou do meu quarto, me fazendo balançar a cabeça e jogar a bola de papel que marcava o início dos meus problemas em algum canto da cozinha. murmurou e resmungou na sua língua de sono enquanto eu atravessava a sala e pegava o celular escandaloso em cima da mesa de cabeceira, travando no mesmo lugar ao ver o nome no visor.
Respirei fundo e me sentei, mas levantei de novo. Comecei uma caminhada em semi círculos, pensando em tantas coisas ao mesmo tempo que não conseguia escolher uma.
Eu sabia que teria de lidar com isso, só não imaginava que fosse ser tão cedo.
Por fim, apertei o botão verde, colando o celular nos ouvidos e não conseguindo proferir um alô.
? — A voz de tinha um tom de sobressalto; como se já tivesse desistido de completar a chamada desde que discou o número, mas também não tinha sido capaz de desligar.
— Sou eu — falei, pensando de repente que ela poderia ter esquecido. Minha avó não estava mais aqui para fazer isso, mas seu metabolismo fraco contra o álcool pode ter feito o serviço. Se lembrasse, ela me ligaria do mesmo jeito? — Tá tudo bem?
Ouvi uma risadinha seca do outro lado, como se ela esperasse essa pergunta e ela realmente veio.
— Eu estou bem. Acordei há pouco tempo. Você dormiu bem?
— Sim — respondi, apertando os dedos no braço que segurava o telefone — Dormi muito bem.
— Ahm... e o ? — perguntou depois de um tempo, como se procurasse o que dizer — Ele está bem? Teve ressaca?
— Não dá pra ter certeza, ele ainda tá meio apagado — olhei na direção da sala — Mas já vi versões piores.
Ela riu por uns instantes e ficou em silêncio. Imitei sua atitude, tentando conter toda a perturbação da minha mente que insistia em tentar vasculhar o que ela sabia. Ela poderia se lembrar de ter me visto ontem, poderia se lembrar de que a tinha levado pra casa, mas não precisava necessariamente se lembrar do banheiro e nem de toda aquela loucura. Não dava pra saber. Suspirei e fechei os olhos com força, sentindo raiva do silêncio que parecia insuportável e sufocante — ele prendia todas as frases prontas na garganta.
, me desculpa — ela disse finalmente, com a voz repentinamente fraca e tão diferente de que parei de andar — Me desculpa por ontem.
Enfiei os dedos no cabelo, atordoado com a declaração. Uma confusão vinda de todas as direções estacionava na minha cabeça.
— Por que está...
— Eu não devia ter feito aquilo — ela interrompeu, acelerando a voz em uma tentativa clara de chegar logo ao ponto antes que desistisse — Não devia ter te beijado.
— Ah.
Me sentei novamente, olhando para a sala automaticamente como se meu coração fosse ser capaz de acordar . Eu não sabia como responder. Não sabia lidar com o fato de ela se lembrar.
Uma risada seca escapou de minha garganta antes que eu me desse conta.
— Não é como se você tivesse feito sozinha — respondi.
Ela ficou em silêncio por mais um minuto, e pude ouvir o barulho de seu corpo no lençol.
— Mas eu te liguei, e fiz tudo aquilo porque estava chateada, e não estava pensando direito, eu só... — suspirou — Não devia ter metido você nisso. Não quero descarregar minhas emoções em um cara legal como você.
Assenti com a cabeça devagar, mesmo que ela não fosse ver. Arqueei as costas e apoiei os cotovelos nos joelhos, olhando para um ponto fixo e aleatório do quarto, sem vê-lo realmente. Um sentimento estranho e ruim tomou meu peito — sensações dolorosamente novas. Tinha me preparado para que ela se lembrasse e também para que não se lembrasse, mas não estava preparado para o que fosse sentir com isso. Algo parecido com um primórdio de rejeição. Me senti extremamente idiota no mesmo minuto por sentir tal coisa. Como se eu fosse a pessoa que estivesse esperando algo depois de ontem.
Senti como se ela tivesse se apressado para me ligar assim que acordasse e se recordasse de tudo apenas para desfazer os maus entendidos.
? — ela perguntou quando fiquei em silêncio. Respirei fundo, mesmo sentindo os ossos da mandíbula trincados para conter tudo que eu queria dizer.
— Não tem problema, — respondi, por fim — Eu quis te ajudar. Acho que isso significa que aceito seu termo de amigos — a palavra saiu amarga da minha boca, não que ela percebesse, e não que eu soubesse porque. Me sentia um tanto baqueado, magoado, frustrado, e também não sabia explicar porquê.
— Fico feliz em saber disso. Gosto de ser sua amiga.
Ri. Talvez tenha saído em um tom explicitamente falso, mas não conseguia ser mais convincente do que isso. A atitude não explicava tudo que eu sentia de verdade. Na verdade, amigos era um bom rótulo. Tê-la como amiga era melhor do que nunca mais vê-la.
— Também gosto de ter você por perto.
Eu já estava subitamente cansado daquela conversa. Cansado de coisas escondidas e não ditas.
E cansado de vozes ao telefone.
Essas coisas juntas me prepararam para dizer uma despedida, mas ela falou na frente, rápida e direta:
— Já tomou café?
Pisquei os olhos e olhei para o cômodo de fora, sentindo o cheiro do café impregnar as paredes à medida que a máquina fazia seu trabalho.
— Eu não…
— Eu pago — disse , rápida e direta novamente.
Os minutos se arrastaram até que eu tomasse uma decisão. Não que ela tenha me dado qualquer abertura para isso — não que eu realmente me importasse. Para ser franco, não existia decisão. Eu não tinha mais escolha quando o assunto era .
Murmurei uma concordância e perguntei onde a encontraria.
— O Little Collins fica há alguns metros do Central Park e tem um macaron sensacional — ela respondeu, e concordei novamente em voz baixa. Já começava a me levantar da cama — Ah! O gosta de pretzel?
Fechei um punho na testa, encarando o corpo jogado de qualquer jeito no sofá e pensando em formas animadoras de acordá-lo e dizer que iríamos tomar um café com .
— O gosta de qualquer coisa.
— Perfeito. Te vejo em meia hora?
— Claro. Meia hora.
Ela disse uma despedida calorosa e, aos meus ouvidos errôneos e tendenciosos, ansiosa. Mas eu não confiaria muito nessa última parte. Andei até a cozinha, desligando a máquina de café e pensando no que estava fazendo. Aquilo também me deixava cansado. Estava cansado de pensar, refletir, não agir. Mesmo que alguma coisa escondida e barulhenta me dissesse que a noite de ontem voltaria mais cedo ou mais tarde, por alguma direção, não importava por quanto tempo eu adiasse.
Olhei uma última vez para a bola de papel amassada, uma alusão aos dias passados e engolidos pela passagem avulsa de tempo e me preparei para acordar .


O Little Collins parecia um grande microondas.
As luzes amareladas no ambiente pequeno era aconchegante, mesmo que não combinasse tanto com as paredes de cimento queimado. Lá dentro era tão quente que me permiti tirar a jaqueta escura de cima, me sentindo perfeitamente bem com o suéter azul marinho que foi presente de alguma amiga da minha mãe. também tinha feito a mesma coisa, apesar de ela demonstrar sua maior tolerância ao frio com mais aptidão do que eu: sem o sobretudo neutro, ela usava apenas uma blusa de mangas longas, porém finas, um jeans largos e tênis converse vermelho. Seu rosto não tinha um traço sequer de maquiagem e os cabelos estavam com mechas presas atrás da cabeça. Ela estava mais natural do que eu jamais havia visto antes.
— O que você acha de caramel macchiato? — ela perguntou, com os olhos grudados no cardápio abaixo do nariz. Não parecia ter perguntado para ninguém em especial, mas vi ela erguer o olhar quando fiquei em silêncio — Prefere outra coisa?
Talvez eu tenha olhado demais.
— É o que você quer? — perguntei.
— Acho que sim. Mas é o que eu sempre peço — ela passou uma página.
— Então experimenta uma coisa nova — apoiei os antebraços na mesa, esticando o tronco para olhar o cardápio de cabeça para baixo — Esse aqui tem um nome legal.
Ela juntou as sobrancelhas e olhou para mim.
— Isso é chocolate quente.
— Chocolate quente com mel. Não precisa desdenhar quando as pessoas tentam fugir do original — dei de ombros, fazendo-a rir. Um dos cotovelos se apoiou na mesa perto de mim, e abri um sorriso automático. Natural e feliz. Ela parecia feliz.
Alguém limpou a garganta.
— Quero um café gelado.
Cheguei para trás em um jato, parando de sorrir — o que era meio impossível, diria mais que diminuí o sorriso. olhou de mim para com vontade de estreitar os olhos, mas eles já estavam tão derrotados que se tornou apenas uma encarada normal. Não era preciso ser um gênio para saber que eu não estava mais nem tentando disfarçar alguma coisa.
olhou para o lado ao mesmo tempo em que um homem alto e esguio se aproximou com um bloco. Ela repetiu os pedidos gentilmente enquanto olhava dela para mim e em seguida para o homem de pé, apoiando o queixo nas mãos e lutando contra a ressaca que devia estar corroendo seu cérebro.
Quando o homem se afastou, se virou para .
— Você precisa de mais um comprimido?
Ele piscou uma vez e balançou a cabeça que não. não precisava falar para que eu soubesse o que ele estava pensando: lapsos da noite de ontem, emboladas como um espaguete, mostrando risadas e piadinhas compartilhadas com . Um fato tão inimaginável que ele certamente pensou que estava louco até que eu estacionasse o carro e entrássemos para sentar na mesma mesa que ela, que tinha uma solução para as dores de em forma de uma pílula amarela de 50mg. Ele parecia estar tendo dificuldades em agir normalmente.
Os pedidos não demoraram a chegar. O meu era igual ao dela.
— Quando você vai? — ela perguntou depois de um gole. Pensei por um momento antes de entender sua pergunta.
— Ah. Amanhã. — respondi, inclinando a cabeça para o lado — Nós vamos, na verdade.
— Viva a Califórnia — murmurou , dando duas goladas consecutivas e ferozes no café gelado. Não sabia se ele estava louco para ficar sóbrio ou para voltar a apagar de vez.
Ela riu com o tom dele e mexeu em seu café-com-chocolate com um canudo metálico.
— E voltam a tempo da festa beneficente?
desviou os olhos da bebida, olhou para nós dois por um breve momento e, assim que levantou as sobrancelhas em um sinal de que se lembrava, voltou a se concentrar no café pela metade. Não era uma atitude consternada; era a mais pura indiferença. Ele não iria nem se eu lhe oferecesse o melhor processador do mercado.
Nisso éramos iguais, mas não tínhamos famílias iguais. Eu não me via capaz de fugir daquilo a partir do momento em que meus pais tomassem conhecimento de tal coisa.
— Acredito que fugir não é uma opção — respondi por mim, já que já havia claramente demonstrado a sua sem palavras — Você vai, pelo visto.
Ela deu um singelo sorriso de canto.
— Também não acho que eu tenha alguma opção.
Olhei pra ela. A troca foi sincera e cheia de uma compreensão mútua. Quis passar minha mão sobre a mesa e pegar em seus dedos, mas seria um gesto idiota.
— Posso destruir os cabos de energia, caso vocês queiram — disse , ainda olhando para o final do café. Sua voz saiu descontraída, ainda que contida, como se estivesse vendo se era seguro começar a se tornar simpático.
olhou para ele e riu novamente, e aquela reação serviu para deixar menos tenso, se deixando sorrir de volta.
— O bufê poderia receber uma troca de pedidos de última hora e os convidados terão apenas camarão com sardinha pra se servirem — demandou , em tom divertido — Patrick com certeza teria um problema sério de digestão, a banda não receberia o roteiro, a chave da adega seria perdida e espumantes nunca são a melhor opção em um baile de gala.
Ela gargalhou com o cenário em sua cabeça, e a acompanhou, reiterando quão hilário seria cabos cortados que inundariam o salão com o vento gélido de janeiro, e um buraco imenso nas janelas que permitiriam a nevasca lá fora de participar da festa seria um belo bônus.
Nós três estávamos rindo.
começou a contar da nossa fuga não planejada de algum evento de orientação nas últimas semanas do ensino médio, onde nosso tempo seria nada mais do que arrastado por palestras de representantes da Ivy League, tecendo as maravilhas e sucesso garantidos aos jovens que se dispusessem a pagar mais de 50 mil dólares por ano por um pedaço de papel. Claro, o dinheiro fluiria com mais propósito se fizessem aquilo que amavam. repetiu exatamente essa mesma frase com o mesmo desdém da época, que o fez sussurrar para mim na poltrona ao lado: Vamos dar o fora dessa merda. Eu não discuti. A versão de que desprezava leis civis e acadêmicas era estranhamente contagiosa; me fazia querer segui-lo. Nisso também éramos iguais.
Esse mesmo ânimo parecia estar atingindo naquele exato momento. Ela ria e parecia interessada em saber mais de suas histórias, que na verdade eram nossas. Por um breve momento, posso ter me tocado de que estava fazendo algo que eu queria fazer, mas não tinha coragem suficiente para começar: falar de mim mesmo. Deixar que me conhecesse. Trazer ela para mais perto. Mesmo que fosse de uma forma tão superficial.
era a melhor pessoa para falar de mim que não fosse eu mesmo.
Não sei quanto tempo se passou até o primeiro apito de notificação aparecer. Ninguém deu atenção. A história de sobre nosso primeiro contato com a pior erva de São Francisco em uma festa clandestina de alguma garota da escola que aproveitou a segunda lua de mel dos pais pareceu ser bem mais interessante. Reiterei que eu havia comparecido por livre e espontânea pressão, e que se tivesse ficado em casa terminando meu projeto de ciências provavelmente não compraria tantos cigarros no futuro, mas não pareceu ser uma explicação muito convincente.
O apito soou mais duas vezes.
contou que as fraternidades da NYU aceitavam menores de idade na sua época de ensino médio, mas ela infelizmente não tinha histórias memoráveis para contar.
Mais três vezes.
Soltei uma risada quando ela relembrou as duas quedas consecutivas que nos envolveram na Columbia, há pouco mais de um mês. Não acreditei que estava rindo disso. foi pego de surpresa pela história da água da segunda vez, que eu nunca havia contado, mas que pareceu um milhão de vezes mais hilário pela risada dele. A animação compartilhada preencheu minha mente e notei que, talvez, eu poderia ser um cara normal. Por dentro. Eu também era um cara comum por dentro. Um cara que podia se sentar com o melhor amigo e com a garota que estava afim para tomar um café e compartilhar histórias engraçadas enquanto estreitava laços comuns, porque no final todos eram amigos.
Era fácil se esquecer da morte à espreita, fantasmas furiosos e perdas dolorosas.
Até o telefone vibrar em espasmos violentos.
De início, pensei que fosse o meu. Eu poderia facilmente ignorar mensagens ou ligações recebidas, mas o som parecia estar por toda a mesa. agarrou o dele, vendo as barras de notificação piscarem na tela e também tirou o dela da bolsa verde escorada na cadeira, fazendo igualmente o mesmo barulho irritante.
Juntei as sobrancelhas, me sentindo obrigado a puxar o meu. O aparelho vibrava entre meus dedos.
Olhei para . A cor fugiu de seu rosto, e uma expressão de seriedade mórbida havia tomado conta de sua fisionomia. Seus olhos estavam grudados na tela do celular. Abri a boca para perguntar, mas ouvi um rangido baixo de ao meu lado e me deparei com a mesma reação de austeridade. Ele abriu a boca e vi seus dentes trincarem.
Abri o celular.
O aplicativo do Fórum fervia em menções. Os comentários chegavam a todo vapor, e tive que subir a tela para saber do que falavam. A foto era trêmula, sem qualidade, porém indiscutível.
Minha jaqueta de couro parecia brilhante sob as luzes esverdeadas das garrafas de Heineken decoradas na parede, e o vestido de era o próprio vórtice colorido no meio de toda a roupa preta. Nossas mãos estavam juntas enquanto eu caminhava na frente, logo depois de sairmos do banheiro, a imagem tirada em movimento mostrando nossos corpos mais juntos do que eu havia percebido.
A foto era chocante, mas não era o motivo da palidez. Não era o motivo dos olhos estáticos de . O motivo se encontrava na legenda logo abaixo dela, uma única palavra que pareceu tão irreal que fechei e abri os olhos novamente para lê-las de novo.
“Vadia.”
Meu sangue ferveu.
Olhei para , que ainda tinha a atenção vidrada, o maxilar trincado enquanto seus olhos se mexiam rápidos demais pelos comentários. Rolei a tela para os lados, descobrindo que a foto havia sido repostada várias vezes, com dezenas de declarações diferentes, uma mais odiosa do que a outra. A velocidade da coisa era uma loucura, ou eu estava lento demais para acompanhar.
Puxei o telefone da mão dela em um único movimento. Ela não se mexeu. Olhei para .
— Desgraçados de merda — ele disse com os dentes batendo entre si. Ele encarou como se pedisse desculpas.
— Quem fez isso? — perguntei para ninguém em especial, bloqueando a tela do telefone, me sentindo incapaz de mergulhar naquele redemoinho de novo.
— Eu sei quem foi — sussurrou de seu lado da mesa, baixando os olhos para o tampo, sem expressão significativa. Ela parecia sentir raiva, mas eu não tinha certeza. Estava mais para uma decepção esmagadora, misturada com constrangimento.
Quando ela olhou para mim, eu também sabia quem era o culpado.
E fazia tempo que eu não quis tanto socar alguém vivo antes. Neste caso, uma vida completamente desnecessária.

— Maldito algoritmo — grunhiu enquanto erguia uma das mãos para não ter o rosto esmagado pela porta de vidro do Little Collins.
saiu na frente, agitada, buscando um pouco de ar puro. Ela não pediu o celular de volta e eu estava irredutível quanto a devolvê-la tão cedo. A cara que fazia ao não desviar os olhos do celular não melhorava nunca. A raiva não me deixava olhar também e avaliar a situação. Eu só pensava em alguma forma de tranquilizá-la e, assim, me acalmar também.
Eu não sabia fazer isso. No momento, eu me identificava mais com o tipo que batia na porta do imbecil e deixava que meus punhos falassem.
— O que você consegue descobrir? — perguntei para , sentindo uma necessidade angustiante de saber de alguma coisa, qualquer coisa. Informação. Coisas que poderia fazer agora que não envolvessem triturar os dentes de .
— Agora nada — ele respondeu rápido, e não havia nada mais sincero do que aquilo — Não consigo saber agora de quem veio a primeira publicação, a coisa ‘tá crescendo a cada minuto, já foram tipo mais de duas mil postagens. Esse pessoal não tá brincando em serviço.
— Droga… — puxei meu celular, digitando uma mensagem qualquer para que me ligasse. Não me importei de fazer isso na frente de . Não estava me importando com coisa alguma — Por que eles não… ?
As costas dela haviam sumido. levantou os olhos do celular para olhar. Estávamos quase perto do Jeep estacionado do outro lado da rua, há pelo menos dez metros do Little Collins, e não estava mais indo na frente. A rua não era muito movimentada, mas as calçadas eram largas e retas e ela não andaria tão rápido até sumir pela esquina mais próxima. Não existia uma esquina mais próxima visível. Existia apenas uma bifurcação ao lado de um restaurante de macarrão, uma ruela sem saída que se encontrava com uma perfumaria, um lugar cheio de fumaça e lixo bem nos confins do bairro.
Comecei a andar. A fumaça vinda do prédio industrial cheirava a massa barata, que se misturava ao odor da perfumaria com as latas de lixo dispostas em fileira entre os dois estabelecimentos, e me enfiei no beco ao meio deles. Um coro de risadas se tornou forte, vindo do fim da rua estreita e delimitada por um muro de grades envolvidas com voltas e voltas de fios de arame. Foi onde encontrei parada enquanto assistia a cena odiosa que era o seu nome exposto em tinta de spray na parede de tijolos gastos ao lado do muro. A mensagem era a mesma da publicação, seguido de outros tantos sinônimos.
Apoiado no capô de um Volvo preto e reluzente, tinha os ombros jogados para baixo enquanto lançava um sorriso diabólico para , que fechava os dedos em punho, trêmulos. Ele estava acompanhado de pelo menos mais três pessoas, que repetiam as gargalhadas como um eco do próprio .
Uma matilha de coiotes assassinos e perversos. Eu vi toda a merda antes de acontecer.
E não iria fugir dela.
— Trouxe esse fracassado junto com você? — ele soltou uma risada nasalada, desferindo um tapa descontraído no capô enquanto endireitou o corpo. As palavras eram claramente direcionadas a mim, mas não se virou para verificar — Esperava mais de você, meu bem. É assim que anda sua vida sem mim? Cafeterias baratas com lunáticos e um estilo terrível de beleza natural?
Uma explosão de risadas partiu do bando. Apertei os olhos para um deles, que me encarava fixamente como se esperasse uma atitude. Ele segurava um tubo de tinta spray. Desviei o olhar e os ombros de se retesaram ao receber a avaliação de , com olhares de cima a baixo.
Dei um passo à frente. Senti meu cotovelo ser puxado para trás.
— Espera — sussurrou . Ele cutucava alguma coisa no celular.
— Qual é o seu problema? — falou, a voz estremecida pelo esforço de encontrar as palavras. A presença dele a abalava de um jeito perceptível — Eu te disse desde o começo, ele não tem nada a ver com isso! Nossos problemas…
— Nossos problemas envolvem famílias inteiras, já se esqueceu, meu bem? — ele arqueou uma sobrancelha, desencostando-se do carro — E eles seriam apenas nossos se você não tivesse tomado decisões tão imprudentes, por motivos ridículos.
— Como você tem coragem de chamar sua maldita traição de motivo ridículo? — ela apertou os dentes enquanto gesticulava com os braços.
— Minha traição? — a risada de expeliu o mais puro veneno. Suas mãos foram aos bolsos do casaco enquanto ele começou a se aproximar de — O que você diz das suas fugas e encontrinhos secretos com aquele almofadinha bem ali? Casa da Penny? Erros de cálculo? Acha mesmo que eu sou tão idiota, cacete?
Engoli em seco. Agora ele olhava para mim. Uma constatação brutal de como estava confiante ao dizer aquelas acusações me adiantou coisas ruins. Possibilidades terríveis, péssimas.
não pareceu se importar com a queixa.
— Sim, você é um idiota — ela grunhiu, agora estando mais perto dele. Um dos outros caras grudados ao Volvo franziu o cenho em irritação — Um miserável que não merece que eu me explique. Nunca mais vou ceder nenhuma satisfação pra você, . Assim ficamos quites.
O sorriso dele diminuiu, permanecendo no rosto em uma luta para manter a pose. Murmúrios vieram do trio tenebroso logo atrás, o que serviu para que focasse no rosto de com raiva, mas também com mágoa.
— O que você poderia estar fazendo escondida com esse aí?
— Nenhuma das coisas que sua mente podre deve estar pensando — respondeu de imediato, mas sua postura rígida ainda denunciava seu nervosismo — E acho melhor parar com sua babaquice de tirar conclusões a partir dos seus pivetes. Você me odeia por ter terminado tudo? Ótimo. Não me importo. Mas não envolva mais ninguém nisso, incluindo a Columbia inteira.
— Então vai me dizer que a foto é falsa? — ele levantou os ombros, franzindo o cenho. Sua voz tomou um tom repentinamente sério e acentuado — Você não esteve naquele ninho de ratos ontem?
— Não preciso…
— Você não esteve no ninho de ratos e não beijou esse imbecil?
Ela soltou uma risada de incredulidade.
— Sim, eu o beijei. Mas você já sabia, não é? De alguma forma, você sempre sabe — ela desviou os olhos para os outros três logo atrás. pareceu contrair o corpo inteiro. Seus olhos faiscaram de fúria — Então tudo isso não passa de mais um espetáculo impulsivo seu, porque eu estava em uma festa com outro cara. Babaca machista. Sempre se pode esperar o pior de você, .
Daquele ângulo, a fitava com tanta ira que meus nervos entraram em estado de alerta. Tinha minha própria maneira de resolver as coisas caso algo acontecesse, e ela não envolvia diálogos pacíficos. Vi os mesmos olhos de cólera girarem para mim novamente, junto com os outros ao fundo, o qual retribuí com impetuosidade. Eu não podia perder a cabeça. Não ali, não agora, não quando estava claramente procurando por isso.
Ele se voltou para ela, os lábios contraídos em um desgosto explícito.
Sempre é uma palavra muito forte, meu bem. Esqueceu que estamos juntos há muito tempo?
— Não estamos mais juntos.
— Pode fazer birra o quanto quiser, mas quem decide isso sou eu. Ou os outros soberanos — um sorriso debochado cintilou por seus lábios. Vi baixar os olhos e trocar o peso de uma perna para outra.
— Estou cansada disso — ela murmurou tão baixo que dei um passo à frente. O sussurro era furioso. Os olhos ao longe me seguiram — Você não decide seu próprio futuro e pode estar bem com isso, mas eu não. Então não venha tentar decidir o meu.
Uma sombra escureceu os olhos de , que trincou o maxilar em um gesto declarado de desagrado. O significado oculto das palavras haviam acertado-lhe em cheio.
— Você continua a mesma garotinha barulhenta e sem graça de antes — disse ele, com agressividade — Seu futuro é comigo, . Estamos no mesmo barco. Já se esqueceu, senhorita quase-falida?
Ela levantou a cabeça de imediato, fechando as mãos em punho ao lado do corpo. abriu um sorriso venenoso.
— Pode fugir o quanto quiser, mas a realidade é uma só. Você vai percebê-la em algum momento e eu, como um bom rapaz, vou estar pronto pra te aceitar de volta, dessa vez com conselhos mais firmes sobre como você deve se portar. Começando por ficar bem longe de malucos alienados que a fazem mentir para mim.
Mais uma vez o olhar direcionado. Senti o sangue começar a esquentar de forma gradativa. Parecia ser a hora de interferir, de fazer alguma coisa. Até mesmo parecia tenso do meu lado, olhando insistentemente de para os outros caras.
Desde que curvei na pequena rua, parecia emanar apenas uma frustração raivosa, que se misturava com o rancor. Mas agora, olhando para como suas mãos abriam e fechavam e sua boca ficou entreaberta pelo impacto daquele sorriso monstruoso, eu sabia que ela havia alcançado o ódio.
— Nunca! — sibilou ela furiosamente, apertando o indicador no peito de — Nunca mais quero ter nada a ver com você e sua corja agressiva e patética. Nunca mais quero me sentir diminuída e amedrontada pela sua obsessão, de me sentir vigiada e controlada. Nem por você, nem por ninguém, não me importa a droga dos nossos pais! Vou me portar do jeito que eu quiser e ficar perto de quem eu bem entender. Pode publicar o que quiser no seu show de horrores — ela cuspiu as palavras com raiva, desmanchando o sorriso do rosto dele — Não me importo com mais nada disso. Nunca mais vou deixar você encostar um dedo em mim.
soltou os braços, como se se livrasse de um peso. Sua respiração saía entre cortada, e seus passos se arrastavam para trás, amedrontada com as próprias palavras, porém sem retirá-las em momento algum. não se mexeu nem um centímetro.
Seu rosto indicava claramente um adendo das últimas palavras de . Aquilo era mais do que ódio, era desprezo, petulância. Ele encarou os amigos por meio segundo, que também se encontravam igualmente calados. A ideia de discutir na frente deles pareceu idiota de repente.
— Pois bem, — ele se aproximou novamente dela, desta vez rápido, o que me fez sentir o braço de mais uma vez, pois eu já tinha deixado meu corpo agir primeiro — Quer seguir sua vida deplorável do jeito que quiser? Tudo bem. Você parece já estar mexendo os pauzinhos se envolvendo com mais um herdeiro de boa família, o que mostra que você é mais parecida com sua mãe do que pensa: desesperada pelo dinheiro e boa vida, mesmo que nada disso tenha sido suficiente para salvar seu pai e seu irmãozinho da desgraça que você mesmo trouxe…
O tapa veio do nada. A palma dela queimou sobre o lado direito dele. Um rugido escapou das vozes ao fundo, surpreendentemente sutis. movimentou os lábios, levando os dedos até o queixo, sério como uma pedra. Era agora.
Soltei meu braço de , caminhando com total lucidez até . Segurei na curva de seu cotovelo, sentindo seu corpo inteiro tremendo.
, já deu. Vamos. — falei apenas para ela, em voz baixa, tentando ignorar o olhar de sobre mim, tentando buscar uma forma de tirá-la dali.
Ela suspirou e fungou uma vez. Reconheci imediatamente o choro sufocado. Lentamente, girou os tornozelos e se virou pra mim pela primeira vez, desviando os olhos dos meus logo em seguida, começando a caminhar para a entrada da rua.
— Há! Acho que ela ficou zangada — a voz desconhecida veio do cara com o tubo de tinta spray, que agora se aproximava para frente junto com o bando — Que tal deixar eles se resolverem sozinhos, doutor? Acho melhor parar de agir como se tivesse alguma coisa a ver com isso.
Não escutei. fez menção de parar de andar, mas pousei as mãos em suas costas e a encorajei a continuar. Meu sangue fervia, minha paciência estava no limite e a conta mental dos metros que faltavam para chegar ao Jeep era a única coisa que eu enxergava agora.
— Isso, pode levar, ! — desta vez foi que gritou às minhas costas. Minha ótima percepção me fez sentir que ele estava se aproximando — Quer ficar com ela? Tudo bem! É só resto mesmo, ela e essa marca horrenda vão de brinde.
diminuiu os passos, mas não parou. A menção a cicatriz a atingiu como uma farpa insolente; a raiva se acendeu mais uma vez. Olhei para trás, ainda em movimento, vendo abrir um sorriso cínico e um olhar dissimulado demais para uma pessoa sã. Ele se aproximava cada vez mais.
Só mais um pouco…
— E quer saber mais, ? Você sempre foi um tremendo pé no saco antes mesmo dessa porra toda de se meter nas minhas coisas, você e sua bela família de merda que meu pai tanto insiste em bajular. Grande bosta! — ele arranhou e encarei um ponto fixo no nada. Aqui não, aqui não — Mas isso foi até eu saber que nem parte da família você faz! Isso explica porque você é um maníaco doente de merda, sua mãe de verdade deve ter te expelido em algum beco sujo antes de uma overdose de heroína, sem fazer ideia de qual dos caras que chupou antes pode ser seu pai, não é…
Não ouvi o que ele disse em seguida. Não ouvi mais nada. Não vi quando aconteceu.
Quando percebi, eu sentia a dor aguda nos mesmos dedos ainda em recuperação quando esmurrei seu nariz com toda a força. Ele cambaleou para trás a vários passos, gemendo enquanto segurava a região. Barulhos desconexos de palavrões vieram de trás, mas eu não prestava atenção. Meu corpo inteiro tremia, passando e repassando suas palavras como se me cortassem com uma faca. Eu sacudia em ódio; um coquetel molotov em chamas pronto para explodir.
Essa era a merda que, agora eu sabia, era inevitável.
Ele avançou para mim como um touro raivoso, passando um dos braços ao meu redor enquanto me empurrava com fúria até minhas costas baterem no capô do Volvo. Senti o soco quase ao mesmo tempo, forte e perverso como na Gibbons. Minha cabeça girou de lá a cá, e não consegui me esquivar do segundo punho que atingiu o outro lado do meu rosto. Eu tampouco conseguia entender os barulhos ao redor. Tudo que eu ouvia eram os grunhidos de ódio de e os meus próprios, enquanto mantinha os braços atravessados em seu peito para que ele não se aproximasse demais.
Levantei a cabeça, sentindo algo úmido entre os meus dedos que encostava em sua camisa. O sangue vivo cintilava em seu rosto ao redor do nariz, e a ponte curvada levemente para o lado indicava o resultado da força genuína de todo o ódio que depositei naquele soco. De repente, soltei uma risada. Ela destilava sarcasmo e deboche, e não me importei com a incitação clara de provocação que isso causaria nele. O próximo soco veio rápido, e, desta vez, senti o líquido quente escapar do meu lábio. Meus olhos ardiam em chamas; eu seria capaz de tudo para queimá-lo apenas com eles.
Urros de euforia surgiram ao meu lado, e não me virei para saber que se tratava dos amigos de , que claramente serviam como plateia de todo o show. Puxei uma perna com dificuldade até atingir seu abdômen com brutalidade, forçando-o a se afastar há pelo menos dois passos de mim. Eu arfava, endireitando-me no capô enquanto apoiava uma das mãos na superfície, sentindo o sangue nos dentes, mas sabendo que estava bem melhor do que o seu nariz.
A imagem de foi substituída pela panorâmica de na minha frente, e senti meu corpo sacudir ao ter as mãos dele agarradas nos meus ombros, os olhos arregalados de espanto e repreensão.
— Você é doido?! — ele trincou os dentes furiosamente, puxando meu rosto para encará-lo. Pude ver correndo em nossa direção pelo canto do olho — Para com essa merda agora! Vamos voltar…
O corpo dele foi empurrado com força para o lado. A tensão se instalou imediatamente. ainda me encarava com olhos assassinos à frente, que sustentei com a mesma ferocidade.
— O que é isso? Mais um que insiste em se meter onde não é chamado? — o cara da tinta spray murmurou para , que encolheu os ombros de imediato. Ele desviou os olhos, tentando se aproximar novamente de mim, mas mais um empurrão violento o levou bruscamente ao chão do outro lado, causado pelo cara da tinta que agora se aproximava dele com o mesmo olhar animal de .
— Filho da puta… — murmurei, pegando em seu casaco automaticamente, mas descobri ser a pior estratégia.
Foi aí que o caos começou.
Em um segundo, tive o corpo impulsionado para o lado em um tranco violento e senti o asfalto gelado no rosto. “Peguem ele”, foi a voz de que disse isso quando ele se colocou por cima de mim e se preparou para descer o punho mais uma vez no meu rosto. Ouvi mais gritos, desta vez de em alguma parte da rua, mas eu não captava a latitude exata. Uma confusão de pés e palavrões, grunhidos e socos invadiram tudo ao redor, e desviei de mais um golpe de , inclinando a cabeça para o lado ao ver o pulso se aproximando. Um segundo bastou para que eu tivesse uma visão rápida do que acontecia às suas costas, e os pés de se balançando enquanto dois dos capangas de faziam o trabalho sujo fez nascer algo dentro de mim que eu não sabia ser possível.
Alguma coisa de outro mundo, algo que certamente não era meu. Um ódio do mais profundo e sincero, que alterava todas as configurações do meu sistema nervoso e que era responsável pela força da adrenalina quase sobrenatural que a ciência ainda tentava explicar.
Foi esse pico de loucura que me fez erguer o corpo de em um solavanco, tirando-o de cima do meu e afastando-me para frente. Seus braços lutaram, a boca espumando de ódio pelo esforço, mas eu não via mais nada. Eu precisava ajudar , e não iria perder tempo com o ser desprezível que era , mas suas mãos eram rápidas e fortes. Ele passou um dos braços pela minha cabeça, trazendo meu corpo de volta e prendendo-a em seu peito enquanto tentava me atingir com os joelhos. Aquilo me deixava ainda mais puto, tudo dentro de mim fervilhava em puro ódio. Fechei os dedos em suas costelas, atacando-o pelo menos três vezes até que senti o corpo ser jogado para o lado novamente e desaparecer do chão, levantando-se em um jato. Fiz o mesmo quase que instantaneamente, não pretendendo dar alguma brecha para que ele se aproveitasse da guarda baixa.
Alguma coisa doía e queimava na lateral do meu corpo, e minha respiração saía pesada como uma bigorna. A emoção não me deixava sentir a dor excruciante dos dedos agora, mas ela viria logo mais cedo se eu mantivesse o pulso parado. Tudo em mim exalava raiva e repugnância. “Parem com isso agora!” vi gritar em desespero enquanto eu corria para o outro lado, decidindo que não iria me importar mais com o bom senso. Puxei o casaco do garoto da tinta com uma força que não era minha, jogando-o do outro lado até atingir as lixeiras enfileiradas do fim do beco, causando um estrondo que trouxe os olhos ao redor para mim. Não importava, não importava. O ódio ardia em chamas, desejei que todos eles sofressem a pior desgraça possível. Caminhei até ele antes que se levantasse, e o soco foi brutal e violento. Seu pescoço girou até o amontoado fétido e grotesco, o que me deu gás para dar mais um. E depois outro, e então outro, cego pela raiva, a sanidade evaporada em uma missão de fazê-lo sofrer.
, não!
O próximo golpe parou no ar, e um empurrão me fez erguer os ombros e dar passos para trás e virar meu rosto na direção das mãos que me seguravam. arfava, os olhos assustados, me encarando como se não me reconhecesse de fato.
— Não faz isso! Não vale a pena…
— Cai fora, ! Esse bastardo vai morrer hoje! — gritou, puxando o braço dela de forma ríspida e andando até mim com rapidez, não me dando tempo de focar em sua aproximação. Em um segundo, eu senti mais um soco atravessado no queixo, que fez meus pés balançarem e eu dar passos trôpegos para trás até quase encostar no corpo que havia jogado ali. “, não!”, ouvi a voz dela; “Não machuca ele!”, “!”.
Um estalo seco soou alto. Um tapa; mão sobre pele. Ouvi o gemido contido da garganta de e parei por meio segundo antes da minha mente se apagar.
Seu pescoço era o ponto que estava mais perto de mim. Foi nele que agarrei com uma única mão, descendo a sola dos pés em um de seus joelhos que o fez gemer e cambalear até bater com as costas no capô do Volvo, que já indicava sinais de não aguentar o impacto contínuo por muito tempo. Ouvi ainda mais rangidos enquanto seguia em frente, e vi de pé de relance. ergueu os braços mais uma vez na frente do rosto para se defender, mas não me importei. Desci a palma da mão e apertei-a contra seu nariz quebrado, ouvindo seu urro de dor com satisfação. Não deixei seus braços trabalharem novamente, ou mesmo suas pernas, golpeando seu rosto com o punho fechado em toda sua extensão. Uma, duas, três vezes… Eu não estava mais contando. Sua fisionomia havia se transformado em um símbolo desprezível de todo o mal existente em minha concepção, todas as coisas horrendas que rondavam em minha mente materializadas em uma única pessoa viva. Sangue pintava meus dedos à medida que eles encontravam suas bochechas, testa, nariz e tudo que pudessem alcançar. A imagem dele encostando em na minha frente, de seus amigos se metendo com , de todas as palavras que dissera sobre meus pais, de todo o controle que exercia sobre , faziam minha raiva se alastrar por todos os cantos. Raiva, ódio, era tudo que eu sentia, tanta raiva…
Eu não pensava em mais nada. Absolutamente nada. Meus ouvidos foram vedados como se eu estivesse embaixo d’água, e os gritos de eram ignorados com sucesso, assim como os de , ambos que berravam em desespero para que eu parasse, mas algo poderoso crescia dentro de mim e eu não sabia como pará-lo. Outras imagens foram tomando conta da minha mente à medida que eu me deixava levar por aquele sentimento, e de repente não eram mais sobre . Eram sobre o acidente de , sobre Margot tentando me matar e aos demais ao redor, sobre dirigindo um verdadeiro show de horrores de caos direto de um camarote macabro, sobre o desaparecimento de minha avó e todo o vazio que ainda me causava, sobre como minha vida havia virado de cabeça para baixo em uma questão de semanas, como tudo parecia partir de uma única pessoa…
E então estava acontecendo. Um zumbido surgiu segundos antes da aparição, mas ignorei o barulho, assim como todos os que surgiam ao redor. O rosto de estava banhado em sangue, mas um braço se ergueu firme até segurar meu pulso que descia mais uma vez, antes que o atingisse. O aperto foi forte e esmagador. O rosto à minha frente, antes curvado e soltando sangue e dentes pelo capô do carro, agora erguia-se novamente para mim com uma feição nova e familiar.
Estremeci por inteiro. O sorriso dele veio como todos os outros de antes, mas agora tinha uma aparência assustadoramente diabólica; os dentes estavam vermelhos de sangue. Os olhos negros brilhavam de excitação.
— Bata, ! — ele grasnou, a voz emitindo morte e angústia por todo o meu corpo. Não consegui me mexer. Não ouvia nem meus próprios batimentos. Eu estava na redoma — Bata, isso, mais! Fique com raiva! O seu ódio, como é delicioso… — ele passou uma língua nos lábios e tentei me soltar, mas não tive nenhum sucesso — Continue batendo nesse pobre rapaz até que ele não consiga mais respirar! Por favor! Ah, por favor!
Meus lábios tremeram. Meu corpo inteiro ficou rijo. Tudo que tentei adivinhar da situação não incluía a aparição repentina de . Não me preparei para sentir a mesma aura sinistra e sombria que já me parecia familiar, e nem encarar seus olhos demoníacos tão cedo, não quando ele…
— Você… — grunhi, ainda tentando me libertar, tentando me lembrar de como fiz isso antes, mas nada vinha. Minha mente estava vazia e, ao mesmo tempo, cheia demais, conturbada demais. Eu não conseguia raciocinar — Como você está aqui? Cadê a minha…
— Aqui? Aqui onde? — ele ergueu as sobrancelhas em desafio, rindo mais uma vez. Tudo se tornou um borrão. A imagem dele tremulou à minha frente; ora , ora . Duas pessoas em uma. Meus olhos não conseguiam acompanhar; ele estava mexendo com a minha percepção — Eu não estou aqui, . Eu estou no seu ódio. Seu lindo e belo ódio. A emoção tão imunda e maravilhosa que fará com que você alcance seu maior potencial. Um dos sentimentos mais fortes e poderosos que você guarda dentro de si. Seus próprios fantasmas…
— Cala a boca!
— … Desconte isso nesse rapaz! Vamos! Desconte em todos eles depois, cada uma das pessoas aqui que já te fizeram mal, com certeza, vários deles devem ter feito…
— Cala a boca! — desferi mais um soco brutal, atingindo seu rosto em descontrole. Tudo em mim estava ardendo. A constatação veio como uma bomba, e explodiu de uma única vez: era ele. A fonte de tudo, a origem de todo o meu ódio, o princípio da mais absoluta ira sobre-humana que se apossava de mim. Embaixo de meus punhos, atingi seu rosto várias vezes, junto com as costelas, tórax, esterno; cego, desorientado, lembrando de tudo e mais um pouco. A vaga ideia de estar cedendo às suas provocações parecia pequena e insignificante. Eu precisava que ele sentisse, que sofresse, que se desmanchasse. Eu precisava de vingança.
O que estava havendo comigo?
Minha garganta foi apanhada pela sua mão fria e podre. A sensação era familiar, o sentimento de certeza da morte. Seus olhos eram a mais pura crueldade encarnada, disfarçada pelo tremeluzir da imagem que mudava de um estranho e grogue a um com o rosto sangrento em negro e a língua pútrida que passava pelos lábios. Ele aproximou seu rosto de mim, sussurrando com o hálito de carne em decomposição:
— Ela quase acabou comigo — disse entre os dentes, agora sério como uma escultura. Os olhos eram esbugalhados de forma doentia — Mas acabei com ela primeiro. E vou voltar, . O escarcéu logo logo vai começar.
Uma risada bizarra por entre a boca e senti todos os meus órgãos gelarem e me paralisarem. Covarde. Eu estava cansado de sentir aquele tipo de impotência. Em um frenesi de asco, agarrei a mão em meu pescoço e segurei em seu pulso, afastando-o o suficiente para torcê-lo em uma atitude impensada e totalmente fora de mim. Senti cada célula do meu corpo voltar à ativa, meus dedos rangendo entre si enquanto usava a força bruta até ouvir o estalar do osso se partindo.
— Vou mandar você e a sua balbúrdia de volta pro inferno, maldito!
Ele gargalhou alto, olhando o pulso torcido sob minhas mãos com gritos escandalosos, que ganhavam mais força a cada segundo que passava. Foi então que, de repente, tudo à minha volta ganhou cor e forma, e fui imerso em uma explosão de sons, realces e a vivacidade da realidade.
, CHEGA! — ouvi a voz de em aflição, o grito de se embolando ao gritar a mesma coisa, sons de sirenes invadindo meus ouvidos em uníssono.
— O QUE VOCÊ FEZ? MERDA, O QUE VOCÊ FEZ? — urrou do mesmo canto, mas minha mente estava emaranhada em um furacão intenso. Eu não entendia, não conseguia assimilar. Parecia que eu não estivera ali nos últimos segundos e perdido alguma coisa. Inesperadamente, minha raiva havia se esvaído completamente pelo ar. “Acabou, moleques! Todo mundo encosta agora!”, uma voz grave anunciou por trás de mim e, antes que eu me virasse, tive os braços selados atrás das costas com ferocidade. Tentei me soltar, mas foi pior ainda. Senti mais um puxão e um objeto frio e metálico envolver meus pulsos, enquanto tinha o tronco jogado no capô do Volvo. Vi meu próprio sangue deslizando pelo plano. O reflexo do homem de uniforme escuro da farda apareceu no parabrisa. O sorriso de cintilava por trás de seus ombros.
— Já chega! Todos vocês vão se acalmar na delegacia! — gritou o policial, rangendo os dentes para um outro colega que fazia o mesmo com um que se agitava e ainda tentava atacar o outro cara. Quando ouvi um grito estridente e doentio, olhei para a frente na direção do som e me deparei com um desesperado quando um outro policial puxou os seus pulsos para entrarem nas algemas.
Foi quando eu realmente vi de verdade.
O motivo da agonia de . Os gritos exasperados de .
estava com o rosto completamente destruído. Um olho não abria mais. Seu nariz estava arruinado, assim como todo o plasma que se alastrava pelo cenho. Havia sangue na gola da camisa e respingos na calça. Eu não tinha ideia de como ele estava acordado, mas sua moleza e movimentos cambaleantes indicavam o porquê ele havia sido levado a abrir os olhos.
Uma bola inchada demarcava onde o osso havia sido quebrado. Ele gemia e urrava enquanto o policial tentava levá-lo de outra forma à viatura aberta. Seus olhos estavam desfocados e seu corpo se movia exclusivamente pela dor. Prendi a respiração, sentindo a confirmação de tudo me tomar repentinamente. O ódio, todo o ódio, me fez quebrar o pulso de . Era o pulso de . Mas, no final, não era.
Mais um jogo. Mais uma ilusão. Eu estava completamente fodido.
Ainda assim, ao ver aniquilado e lembrar-me de suas palavras, não consegui esconder meu sorriso perverso que faiscou pelo reflexo do para-brisa.
E então, me deixei ser levado para as luzes vermelhas e azuis.


Continua...

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Nota da autora: Sem nota.



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